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UNIPLENA EDUCACIONAL

PROGRAMA ESPECIAL DE FORMAÇÃO DE DOCENTES


POLO: BELO HORIZONTE, MG – TURMA 124

EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS

Jessica Caroline dos Reis (Fisica)


Priscila Vilarino Braga (Fisica)
Olavo Rimoli Filho (Quimica)
Victor Henrique Amorim Queiroz (Educação Fisica)

Belo Horizonte (MG)

2019
EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS (UNIPLENA-FORMAÇÃO DE DOCENTES-TURMA 124-2018/2019-BELO HORIZONTE-MG

ÍNDICE

I - INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 02

II – EDUCAÇÃO ................................................................................................................. 04

III – LEGISLAÇÃO ............................................................................................................... 08

V - DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO .................................................................... 11

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 15

VII- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 17

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EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS (UNIPLENA-FORMAÇÃO DE DOCENTES-TURMA 124-2018/2019-BELO HORIZONTE-MG

EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS


“Feliz aquele cujo conhecimento é livre de ilusões e superstições”
Siddartha Gautama (Buda)

I - INTRODUÇÃO

A questão dos Direitos Humanos evoluiu significativamente desde seus primórdios, muito
embora ainda atualmente muito precisemos caminhar para que todos os seres humanos, na sua
diversidade cultural, social, política e econômica, tenham seus direitos (e claro suas obrigações) de
acordo com uma visão satisfatória em termos de Humanidade.
Em 1948 na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu Artigo 3º consta:
" Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal."
Também a Declaração destaca em seu Artigo 2º o seguinte:
"1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política
ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do
país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente sobe tutela, sem
governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania."
Partindo-se destes princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, temos que todos
são iguais enquanto seres humanos, a par das diferenças soberanas das nações e suas regiões que compõe
as etnias e espaços geográficos.
No artigo 26 desta Declaração temos a questão da Educação, entendendo-se esta como um direito
legítimo e inalienável de cada cidadão do planeta, não importando as diferenças entre os povos. Assim
é apresentado este direito:
" 1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita,1 pelo menos nos graus
elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional
será acessível a todos, bem como a instrução superior, está baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do
fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução
promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos,
e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos."
Claramente a Declaração estabelece as bases para uma Educação2 Universal de cada ser humano,
válidas para todos os povos. Cabe destacar que a Declaração de Direitos Humanos não trata tão somente
da Educação, mas dos direitos dos seres humanos em sua totalidade.
No Brasil, a Constituição Federativa estabelece em seu Capítulo III, Secção I Da Educação:
" Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada
com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - liberdade de condições para o acesso e permanência na escola;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e
privadas de ensino;
IV -gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira,
com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas;
VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
VII- garantia de padrão de qualidade3;

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Negrito dos autores
2
Educação: " Chama-se Educação o processo mediante o qual se afeta uma pessoa estimulando-a para que desenvolva suas capacidades cognitivas e físicas
para poder se integrar plenamente na sociedade que a rodeia" (https//queconceito.com.br/educacao)
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VIII- piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos
termos da lei federal."
Pode-se observar que a Constituição Brasileira de 1988 reafirma a questão da Educação no país
de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, indo mais além em termos de
processos e objetivos.
O processo educacional acontece na sociedade, sociedade esta que está em constante mudança e
evolução. Vivemos novos tempos. DRUCKER (1999) em seu livro “Sociedade Pós-Capitalista”
argumenta que esta nova sociedade é a sociedade do conhecimento4, derivada de um processo
histórico/econômico/social e cultural da sociedade planetária cada vez mais globalizada.
Esta nova sociedade demanda um profissional do conhecimento (Knowledge Worker) e conduz
a Educação a novos tempos, onde o formato organizacional não é mais aquele tradicional militarizado
(altamente hierarquizado e controlador), mas um formato onde o trabalhador precisa ter elevada
capacitação e uma produtividade derivada do conhecimento e não mais do uso da força física
(Manpower). Adicione-se a este formato a criatividade, trabalho em equipe, busca de resultados efetivos
e satisfação pessoal. No dizer de Peter Drucker, se antes era “militar”, o modelo da nova era pós-
capitalista se aproxima de uma orquestra sinfônica, onde cada membro da organização, um capacitado
especialista, perfeito conhecedor de seu instrumento e a partitura, toca, sem nenhuma intermediação
hierárquica, para o próprio maestro. Decorre disto, uma mudança na estrutura ocupacional da sociedade
pós-capitalista, onde aqueles que trabalham com rotinas, com pouca qualificação, “operários
tradicionais”5, tendem a perder cada vez mais importância, seja como parcela da população
economicamente ativa, seja em termos de renda.
REICHERT (s/data) analisando o papel da Educação para a cidadania numa sociedade pós-
capitalista, comenta que nesta nova era o foco já é e será na valorização da pessoa, investimento no
social e no meio ambiente. As novas tecnologias têm concorrido e favorecido os indivíduos na busca de
seus direitos pessoais e culturais. Neste contexto atual, e quiçá, para o futuro, a educação tem papel
fundamental no preparo e formação dos cidadãos.
Dado a transição que a sociedade mundial, e particularmente a nacional, as dificuldades se fazem
presentes, e em geral, são justificadas pelas inovações tecnológicas que atingem todos segmentos sociais.
As tecnologias de informática e de comunicação6 propiciam uma evolução rápida (e cada vez mais
rápida) e profunda nas relações sociais que caracteriza a fase pós-industrial e pós-capitalista.
Comenta REICHERT (s/data) que apesar da maior presença do recurso informático7 e, a mais
tempo do recurso de TV e Vídeo, nas escolas e nas famílias, mesmo aquelas em regiões mais
interiorizadas geograficamente no Brasil, a educação continua:
“alienante8 em nossos dias, tanto pela família quanto pela escola, associando-se a esse fenômeno a
própria filosofia de vida fácil, da busca do prazer, do momento, manifesta da sociedade e favorecida
pelas tecnologias e mídias.”9
O autor considera que os impactos prós ou contra ao desenvolvimento dos jovens e na sua
formação ainda não é totalmente conhecido, mas a nova10 Educação deve:
“[...] não mais poder se voltar apenas para o trabalhar, mas para inventar, gerir e produzir com
conhecimento11. Aplicar o conhecimento em conhecimento.”
Recentemente o governo atual tomou uma medida, curiosamente, de restringir verbas para as
formações universitárias de Filosofia e Sociologia, a exemplo de governos militares de épocas passadas,

4
Esta sociedade do conhecimento altera tanto o mundo das organizações como o da sociedade global, incluindo a política e especialmente o estado.
5
As aspas são destaques dos autores
6
Tecnologias que evoluem concomitantemente e são utilizadas conjuntamente, a exemplo da internet.
7
Microcomputadores/Periféricos/Softwares/Internet/ Pads/ Smartphones etc...
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Negrito dos autores
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denotando inclusive uma miopia estatal quando divulga-se nos meios de comunicação que o ministro da
Educação, Abraham Weintrab12 quer “descentralizar” investimento no ensino das duas áreas para “focar
em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. Ainda
a notícia diz que para o atual presidente, os estudos de humanas não “respeitariam o dinheiro do
contribuinte” e a educação dever servir para ensinar “leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício
que gere renda para a pessoa”. Lamentavelmente, percebe-se a falta de alcance em termos do papel da
Educação e suas implicações.13
Vale a pena lembrar uma frase de Paulo Freire: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes
dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber
as injustiças sociais de maneira crítica”.
Este embate na mídia digital demonstra como a ação governamental pode não levar à Educação
na direção da modernidade e do respeito às diferenças, bem como, o direito (como diz a DUDH14 e a
Constituição do Brasil de 1988) à uma educação de acordo com o desenvolvimento intelectual e na
direção de uma nova realidade mundial.
Tendo em vista a condição de direitos humanos global e nacional, bem como uma perspectiva de
uma Educação moderna (voltaremos ao assunto no próximo tópico), e a sociedade modernizada como
referencial para desenvolvimento do tema sobre Educação e Direitos Humanos, organizamos a
contextualização, a organização e o desenvolvimento/discussão sobre o assunto em 03 (tres) tópicos:
Educação, Legislação Brasileira, Análise e Conclusão.

II - EDUCAÇÃO

“O que somos é consequência do que pensamos”


Siddatha Gautama (Buda)

Etimologicamente educar vem do Latim e significa "criar (uma criança); cuidar, instruir, ensinar'.
A palavra educação deriva também do Latim EDUCARE que literalmente significa "guiar para fora",
compreendendo tanto para fora de si mesmo como para o mundo exterior.15
FREIRE (1985) analisando a distinção entre Extensão e Comunicação frisa que a Educação não
pode ser neutra. Comenta o seguinte:
“Quem fala de neutralidade são precisamente os que temem perder o direito de usar sua ineutralidade
em seu favor.
O educador, num processo de conscientização (ou não) como homem, tem o direito a suas opções. O
que não tem é direito de impô-las.
... a “educação como prática da liberdade” não é a transferência ou a transmissão do saber nem da
cultura; não é a extensão de conhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos
educandos; não é a “perpetuação dos valores de uma cultura dada”; não é o “esforço de adaptação do
educando a seu meio”.
Se tenta fazê-lo estará prescrevendo suas opções aos demais; ao prescreve-las, estará manipulando; ao
manipular, estará “coisificando” e ao coisificar, estabelecerá uma relação de “domesticação” que pode,
inclusive, ser disfarçada sob roupagens em tudo aparentemente inofensivas.”
Paulo Freire apresenta as seguintes indagações sobre o processo libertador e posicionamento do
Educador em pé de igualdade com o Educando:

12
O ministro Abraham Weintrab procura justificar a medida baseado no contexto histórico, cultural, econômico, social e educacional do Japão, que apesar
de ter uma boa avaliação nos organismos internacionais de avaliação educacional, não se adequada a nossa realidade neste momento.
13
Fonte consultada: Mídia eletrônica de notícias – Revista Forum – Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/bolsonaro-decreta-fim-das-
faculdades-de-filosofia-e-sociologia-objetivo-e-focar-em-areas-que-gerem-retorno-imediato/ Acesso em: 26 Abr. 2019.
14
DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos
15
https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-educacao/
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“Como é possível pôr o educador e o educando num mesmo nível de busca de conhecimento, se o
primeiro já sabe? Como admitir no educando uma atitude cognoscente16, se seu papel é o de quem
aprende do educador?”
Respondendo aos questionamentos, Freire (1985) comenta que estas indagações “partem dos que
se julgam possuidores do saber frente a educandos considerados como ignorantes absolutos. De quem,
por equívoco, erro ou ideologia, vê na educação dialógica e comunicativa uma ameaça.” E vai além com
relação ao Educador inserido em uma Educação gnosiológica:
“... sua aula não é uma aula, no sentido tradicional, mas um encontro em que se busca o conhecimento,
e não em que este é transmitido.
... em qualquer ocasião em que um educando lhe faz uma pergunta, ele re-faz, na explicação,
todo o esforço cognoscitivo anteriormente realizado.
Re-fazer este esforço não significa, contudo, repeti-lo tal qual, mas faze-lo de novo, numa situação nova,
em que novos ângulos, antes não aclarados, se lhe podem apresentar claramente; ou lhe abrem caminhos
novos de acesso ao objeto.”
Freire é taxativo quanto ao comportamento de Educadores que não se encaminham nesta direção,
“porque simplesmente memorizam suas lições, necessariamente rejeitam a educação como uma situação
gnosiológica, e assim não podem querer o diálogo comunicativo. Estes educadores adotam uma postura
de transferência de conhecimentos, onde os alunos se comportam passivamente, e isto impede o
desenvolvimento de uma postura ativa e coparticipante dos educandos.”
Esta concepção da Educação, para o autor, é uma concepção anti-história educacional. Sistemas
educacionais que seguem esta abordagem não desenvolvem um ambiente escolar onde o discente não é
estimulado à criatividade, e tem caráter assistencialista e não libertador. Freire considera que este foco
assistencialista gera nos educandos um comportamento acrítico e ingênuo. Comparando a concepção
assistencialista e a libertadora, Paulo Freire diz:
“Enquanto a primeira é rígida, dogmática e autoritária, a segunda é móvel e crítica...”
... O fato de que o assistencialismo, em qualquer de suas formas, contenha este impedimento, não
significa, na verdade, que os assistidos não possam, mais cedo ou mais tarde, emergir da própria
condição de assistidos na qual se encontram, para afirmar-se, na ação, como seres da decisão.”
Pode-se perceber claramente a posição de Freire, base para uma pedagogia libertadora, da
tolerância, do oprimido, da esperança, da autonomia que descortina um mundo vibrante e real para os
jovens em formação, e também, abrindo as portas para a diversidade e ampliação da visão dos
educandos. Para ele, a Educação “para ser verdadeiramente humanista, tem que ser libertadora”. Uma
das preocupações básicas da Educação Libertadora deve ser “o aprofundamento da tomada de
consciência que se opera nos homens enquanto agem, enquanto trabalham”.
ECCO & NOGARE (2015) analisando a Educação em Paulo Freire com foco no processo de
humanização comentam que a educação formal pode ser vista basicamente por dois vieses: uma
"Educação Bancária" e outra a "Educação Libertadora". De acordo com os autores o primeiro viés o
educar, " oprime, aliena, desumaniza os seres humanos", e no segundo o educar " conscientiza, leva a
autonomia e humanização dos seres humanos". Ainda, os autores, associam a abordagem "Bancária" ao
vocábulo "EDUCARE"17 e a abordagem "Libertadora" ao vocábulo "EDUCERE"18.
Na época de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), a educação da criança estava voltada para um
formato intelectualizado levando a um ensino voltado à realidade adulta. Ele considerava a criança como
um ser de características próprias, e não como um adulto em termos de suas características e seus
pensamentos. PAIVA (2007) contextualiza o projeto educacional rousseauniano no plano da dimensão
humana. Tendo como fonte básica a obra Emílio ou da educação de Rousseau, sumariza:
”... o plano político e pedagógico de Rousseau busca englobar o desenvolvimento dos talentos naturais
como próprios da natureza humana.[...] o projeto de humanização presente na obra de Rousseau é de

16
Cognoscente é um adjetivo que qualifica a pessoa que busca ou toma o conhecimento sobre algo, também utilizado para se referir ao indivíduo que tem
a capacidade de conhecer e assimilar o saber.
17
Educare: significa criar, nutir, orientar, ensinar, treinar, conduzir o indvíduo de um ponto onde ele se encontra para outro que se deseja alcançar. (ação
do docente sobre o discente)
18
Educere: significa extrair, fazer nascer, tirar de, provocar a atualização de algo latente, promover o surgimento de dentro para fora, das potencialidades
que o indivíduo possui. (neste processo educacional, cabe mais ao educando do que ao educador)
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caráter político e, portanto, contribui para que o processo educacional e os modos de inserção e
participação do homem no meio social sejam repensados em nossos dias. No entanto, a ação política
bem como a pedagógica devem ser empreendidas no sentido de se redimensionar as potencialidades
naturais do homem de maneira que a natureza humana não seja degenerada, ignorada ou até mesmo
coisificada. Construir sentidos para a existência humana e pensar a melhor maneira de participação no
meio social devem, nesse sentido, ser a principal preocupação de todo e qualquer projeto político-
educacional."
Levando-se em consideração as perspectivas de Rousseau (que data do Século XVIII), bem como
de Paulo Freire, podemos observar a preocupação com uma educação que leve o ser humano a
"libertação", ou ao seu mais pleno desenvolvimento. Conjuntamente com a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, temos uma direção que não está posta, mas sim um processo dinâmico e evolutivo,
decorrente inclusive das particularidades culturais, sociais, regionais, econômicas, familiares e de cada
indivíduo.
SOUZA (2002) destaca o papel pioneiro de ROUSSEAU, discorrendo o seguinte:
"...derrubou concepções vigentes que pregavam ser a educação o processo pelo qual a criança adquire
seus conhecimentos, atitudes, hábitos armazenados pela civilização, sem transformações."
Conclue a professora que na medida da contraposição de homem x cidadão na perspectiva dos
princípios de ROUSSEAU19, o homem civilizado não seria nem o homem natural (formado por uma
educação no seio familiar), nem o cidadão (formado por uma educação assistida pelo Estado), mas uma
mistura destas duas categorias de ser humano (homem natural ou homem cidadão)
ECCO & NOGARO (2015) resumem a concepção de Paulo Freire da Educação:
" [...] A riqueza da concepção freireana de educação está contida na afirmação de que os humanos
educam-se em comunhão mediados por determinado objeto do conhecimento, particularmente, a
realidade vivida.[...] a concepção de educar que, em síntese, é também, promover, nos sujeitos, a
capacidade de interpretação dos diferentes contextos em que estão inseridos, bem como, qualificá-los e
instrumentalizá-los para a ação.[...] Logo, o ato de educar não está para o treinamento e nem a ele se
reduz. O ato de educar está para a formação, para a promoção, dos educandos, seu verdadeiro sentido e
significado... E por ser a educação uma prática construtora do humano, no homem e na mulher, educar
para Freire é humanizar e constitui-se num que fazer social-político-antropológico-ético."
O desafio de uma "Educação Libertadora" está presente dentro da sala de aula, dentro da Escola,
quer seja pública (federal, estadual, municipal) ou privada, de tal sorte que pressiona todos os
participantes do processo educacional nas diferentes instâncias e papéis. Particularmente os profissionais
envolvidos diretamente com o EDUCERE x EDUCARE, passam por processos, ao mesmo tempo
estimulantes e desmotivadores. Dado que a formação dos profissionais nem sempre acompanha a
evolução do "educar", a reciclagem é essencial para que os mesmos possam atender a este desafio.
Processos, técnicas e métodos mais adequados ao fazer o EDUCERE devem ser incorporados no
cotidiano dos professores. Sem dúvida, cabe ao aparato público ou privado, propiciar os meios e os
recursos para tal fim.
Muito embora existam diferentes estilos profissionais entre os docentes, o direcionamento e a
motivação devem ser comuns a todos. Grande parte do desafio depende da compreensão e
disponibilidade dos professores para tal intento.
Sobretudo, é um direito inalienável de cada indivíduo à uma educação formadora e integradora
de cada pessoa, sem discriminações ou desrespeito a sua identidade cultural e pessoal.
BRANDÃO (2007) conceituando a Educação argumenta sobre a esperança que se deve ter nela:
"[...] porque a educação sobrevive aos sistemas e, se em um ela serve à reprodução da desigualdade e à
difusão de ideias que legitimam a opressão, em outro pode servir à criação da igualdade entre os homens
e à pregação da liberdade. [...] porque a educação existe de mais modos do que se pensa e, aqui mesmo,
alguns deles podem servir ao trabalho de construir um outro tipo de mundo."
"Reiventar a educação", BRANDÃO destaca, sendo esta a expressão de Paulo Freire e
companheiros do Instituto de Desenvolvimento e Ação Cultural. Conclue que:

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Rousseau foi integrante do movimento intelectual do século XVIII chamado de Iluminismo
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"[...] Esta é a esperança que se pode ter na educação. Desesperar da ilusão de que todos os seus avanços
e melhoras dependem apenas de seu desenvolvimento tecnológico. Acreditar que o ato humano de
educar existe tanto no trabalho pedagógico que ensina na escola quanto no ato político que luta na rua
por um outro tipo de escola, para um outro tipo de mundo. E é bem possível que até mesmo neste "outro
mundo", um reino de liberdade e igualdade buscado pelo educador, a educação continue sendo
movimento e ordem, sistema e contestação20. O saber que existe solto e a tentativa escolar de prendê-
lo num tempo e num lugar. A necessidade de preservar na consciência dos "imaturos" o que os "mais
velhos" consagraram e, ao mesmo tempo, o direito de sacudir e questionar tudo o que está consagrado,
em nome do que vem pelo caminho."
Uma questão decorrente de uma educação libertadora de extrema importância é a qualidade21 do
ensino. Entendendo-se esta qualidade tanto nos aspectos da estrutura física como do aparato político-
legal, demais meios físicos imprescindíveis a uma educação de qualidade, mas sobretudo da formação e
remuneração dos docentes e processos inerentes a um patamar de mais qualidade.
Nosso país, lamentavelmente, encontra-se nas avaliações dos organismos internacionais de
qualidade na Educação em uma baixa posição. Recentemente, via matéria jornalística, foi divulgado o
resultado de um estudo feito pela consultora britânica Economist Intelligence Unit, onde o Brasil aparece
na 39ª posição, ou seja, no penúltimo lugar do ranking. Embora as posições positivas e negativas desta
classificação tenham sido comentadas, o que se considera relevante é que:
”Ao analisar os sistemas educacionais bem-sucedidos, o estudo concluiu que investimentos são
importantes, mas não tanto quanto manter uma verdadeira "cultura" nacional de aprendizado, que
valoriza professores, escolas e a educação como um todo. O relatório destaca ainda a importância de
empregar professores de alta qualidade, a necessidade de encontrar maneiras de recrutá-los e o
pagamento de bons salários.”22
O país no topo do ranking foi a Finlândia localizado na Europa, mais particularmente, na
Escandinávia. Este país que ao final da 2ª Guerra Mundial era um país pobre e desestruturado, detém a
primazia em termos de qualidade da Educação na atualidade.
De acordo com matéria jornalística veiculada em meio digital23 sobre os pilares da mudança na
formação de professores que revolucionou a educação da Finlândia, a conselheira -sênior para a
educação docente e para educação inclusiva da Universidade da Finlândia, Minna Makihonko, destacou
que a revolução educacional finlandesa se iniciou nos anos 70 tendo com foco a qualificação e a
valorização da carreira dos professores. Em palestra em São Paulo na Fundação FHC em março último
apresentou os 5 pilares da mudança educacional na Finlândia, ressaltando que nenhum modelo
educacional pode ser copiado de um país para outro, sobretudo em países tão diferentes quanto a
Finlândia e o Brasil em termos populacionais, e que a experiência finlandesa deve ser aproveitada para
nortear as mudanças. Os pilares foram:
“ 1. Preparar docentes para um mundo em mutação;
2. Fundamento científico;
3. Conhecimento aprofundado;
4. O professor não está sozinho, e
5. Ética e papel social.
A conselheira Makihonko, em debate em SP, disse:
“Não sabemos para que tipo de mundo estamos treinando os professores. Por isso, é importante treiná-
los para não apenas dar informações, mas ter a capacidade de encontrar, selecionar e analisar
conhecimento.”
IDOETA (2019) comenta na matéria jornalística referida, que a Finlândia adaptou suas salas de
aula para o ensino baseado em projetos, onde os alunos em vez de terem um ensino dividido por áreas

20
Negrito dos autores
21
O conceito de qualidade está associado à qualidade percebida pelo cliente quer seja de um produto ou de um serviço. No caso do ambiente escolar o
cliente é o alunado, portanto a qualidade deve ser resultado da interação aluno-professor e professor-aluno.
22
Brasil fica em penúltimo lugar em ranking global de qualidade de educação. Associação Brasileira de Educação/RJ. 2019 (http://www.abe1924.org.br/56-
home/257-brasil-fica-em-penultimo-lugar-em-ranking-global-de-qualidade-de-educacao)
23
IDOETA (2019)
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estáticas, como matemáticas, línguas, etc., aprendem com base em grandes projetos multidisciplinares,
com grande autonomia.
A qualidade educacional da Finlândia decorre de:
“O sucesso do sistema educacional da Finlândia tem sido objeto de estudo em todo o mundo desde que
o país, que já foi um dos mais pobres da Europa, passou a despontar em rankings internacionais de
educação, virou referência por conseguir promover ensino de qualidade de forma igualitária em toda a
sua rede e, em consequência, viu seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita se tornar um dos mais altos
do mundo. Na semana passada, a Finlândia foi apontada como o país com o maior índice de felicidade
do mundo, pelo World Happiness Report.” (IDOETA, 2019)
A educadora brasileira Beatriz Cardoso, que também participou do debate com Minna
Mäkihonko, opinou que a Finlândia é o país com quem o Brasil mais tem a aprender em educação, por
ter criado um modelo baseado não na competitividade individual, mas sim na igualdade de acesso. Mas
também destacou que o Brasil tem desafios ainda maiores que a Finlândia teve nos anos 1970, por sua
dimensão continental, problemas históricos de iletramento e analfabetismo e dificuldades na capacitação
de qualidade aos professores.
Mäkihonko destacou que a Finlândia também "teve muitos desafios e cometeu erros" durante sua
reforma educacional e sugeriu que profissionais brasileiros da educação que queiram promover
mudanças busquem formar um ambiente propício, engajem um grupo de professores e apenas "comecem
com algo menor e busquem formas de multiplicá-lo".
A busca por uma qualidade de ensino é um grande desafio para a Educação no Brasil. Não só
porque, a exemplo da Finlândia, o processo em si é complexo e demanda tempo, mas porque em nosso
país a dimensão continental e a diversidade de contextos e circunstâncias decorrente desta condição,
bem como, a diversidade social, econômica e cultural, além da cristalização existente no meio do
professorado e também na própria estrutura familiar brasileira, temos obstáculos consideráveis. Mas não
se justifica, o que é comum no contexto escolar, uma postura pouco favorável à uma direção de maior
qualidade. Quase sempre, o professado argumenta que o problema é a falta de recursos (o que não deixa
de ser verdadeiro) e o alunado não tem interesse. Entretanto não é mais possível (se for considerado que
nosso país tem uma classificação baixa perante outras nações em termos qualitativos) continuarmos na
posição de resistência às mudanças necessárias e fundamentais para uma Educação de Qualidade, que
acredita-se, seja o anseio de todos os envolvidos direta ou indiretamente com a formação de cidadãos
conscientes, e que estejam aparelhados aos dilemas da “Sociedade Pós-Capitalista”.

III – LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

“*Aquilo que o homem faz, o homem pode desfazer e refazer num contínuo perpétuo.”
Zygmunt Bauman,2007

A legislação brasileira com relação à Educação nas fronteiras do país tem como base a
Constituição Federativa do Brasil de 1988, e a Lei de Diretrizes e Bases, lei 9.394 de 1996.
A Constituição de 1988, além do apresentado anteriormente na introdução, estabelece no
Capitulo III, Secção I, da Educação:
“Art.208. O dever do Estado com a Educação será efeituado mediante a garantia:
I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17(dezessete) anos de idade, assegurada
inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva universalização do ensino médio gratuito;
III -atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede
regular de ensino;
IV -educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5(cinco) anos de idade;
V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade
de cada um;
VI –oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;

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VII-atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas


suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.
§1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.
§2º O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa
responsabilidade da autoridade competente.
§3º Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e
zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola.”
Os artigos 210, 211 estabelecem aspectos de organização nas instâncias Federal, Estadual e
Municipal, enquanto os artigos 212 e 213 da Constituição, tratam da questão da quantidade e distribuição
de recursos para a transferência, manutenção e desenvolvimento do ensino e sua origem, bem como que
os recursos públicos deverão ser destinados às escolas públicas, podendo também ser dirigidos às escolas
que o Artigo 213 apresenta nos seus tópicos I e II.
O último artigo da Constituição referente à Educação, define que a mesma será estabelecida em
termos de um Plano Nacional de Educação, de duração decenal:
“... com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir
diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e
desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas
dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a:
I - erradicação do analfabetismo;
II - universalização do atendimento escolar;
III - melhoria da qualidade do ensino;
IV - formação para o trabalho;
V - promoção humanística, científica e tecnológica do País.
VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do
produto interno bruto.
Na Constituição do Brasil podemos verificar um alinhamento com à DUDH, e como já
mencionado anteriormente detalha questões de caráter, até certo ponto regulatório, o que em outras
constituições pelo mundo, a exemplo da Norte Americana, onde tanto na Constituição dos Estados
Unidos da América de 1787, e as emendas à ela (num total de 27 até o presente)24, não encontra-se
menção direta à Educação. Devemos considerar, nos parece, que à época da elaboração das mesma e o
tom que foi dado desde seus primórdios, que esta Constituição não trata de regulamentação direta em
termos de Educação ou de outros temas que a nossa Constituição trata. Observa-se, que, no escopo das
leis desta Nação, optou-se por uma Constituição de caráter mais genérico, mas que sobretudo garanta
aos seus cidadãos seus direitos, mas que traz consigo também suas obrigações. As relações federativas
também são explicitadas, de tal forma, onde os estados norte-americanos detêm substancial autonomia,
mas são coordenados a nível federal.
Não cabe entrarmos na regulamentação referente à Educação norte-americana. Tão somente a
consideração feita, busca, provocar uma ponderação até que ponto um excesso de legislação, em
diferentes níveis, pode ancorar todo o processo educacional que leve à, como já apresentado, uma
“Educação Libertadora”, ou moderna, como queiramos nos expressar.25
Neste sentido, no caso do Brasil, temos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Esta
regulamentação ocorreu em 1996, à época da presidência de Fernando Henrique Cardoso, ministro da
Educação, Paulo Renato Souza.26 Esta regulamentação, bem extensa, apresenta em seu Título 2 – Dos
Princípios e fins da Educação Nacional, o seguinte:
“Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de
solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

24
Constituição dos Estados Unidos da América (1787) (com suas emendas). Disponível em: http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-
anteriores-à-criação-da-Sociedade-das-Nações-até-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html Acesso em: 15 Abr. 2019.
25
Vale lembrar que os Estados Unidos da América, na avaliação feita pela consultora britânica Economist Intelligence Unit, estava na 17ª posição. Afora a
Finlândia (como já citado), as 4 seguintes posições são ocupadas por 4 países asiáticos: Coreia do Sul, Hong Kong, Japão e Cingapura. Os países europeus,
começam a figurar na classificação a partir da 6ª e 7ª posições, Inglaterra e Holanda, respectivamente. Alemanha e a França, ocuparam respectivamente às
15ª e 25ª posições.
26
Lei nº 9.394 de 10 de dezembro de 1996
9
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I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;


I - - liberdade de apreender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas;
IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
VII – valorização do profissional da educação escolar;
VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX – garantia de padrão de qualidade;
X – valorização da experiência extraescolar;
XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais;
XII – consideração com a diversidade étnico-racial, e
XII – garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida.”
Os princípios apresentados nestes artigos da LDB, claramente, denotam um enfoque de acordo
com a DUDH, sendo um marco regulamentar em termos da Educação no Brasil. Além da valorização
da vida, igualdade, liberdade e pluralismo, reforça princípios em uma perspectiva abrangente e que
possibilita um processo educacional não só alinhavado com os direitos humanos, mas também, com uma
“Educação Libertadora”.
A LDB trouxe um significativo norteamento para a implementação, manutenção e um processo
contínuo e evolutivo da Educação no Brasil. Sem dúvida, como não poderia deixar de ser, a
regulamentação foi e é permanentemente renovada, como pode ser observado pela constante e contínua
modificação desta regulamentação por novas legislações. A LBD foi modificada pela Lei nº 13.435/2017
para atender o assim chamado “Novo Ensino Médio”. Notório é, a preocupação da LDB com um avanço
moderno e com preocupação com os princípios da DUDH, supra citados, como pode ser observado no
Título II desta Lei.
Mais recentemente passamos por um novo processo com relação ao aperfeiçoamento legal em
termos do processo educacional.
Lançado em 2017, no mandato presidencial de Michel Temer, o Novo Ensino Médio trouxe no
cenário educacional brasileiro, novas questões e direcionamento. Em termos de aparato legal normativo,
envolve a LDB, a Lei 13.415/2017 que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para
implementação das mudanças previstas, considerando as Diretrizes Nacionais para o Ensino Médio, o
Plano Nacional de Educação27 e demais regulamentações e normas para o Ensino Médio.
O Novo Ensino Médio tem como propostas fundamentais: a) direitos iguais de aprendizagem para
todos; b) escolha pelos estudantes em quais conhecimentos desejam se aprofundar, e c) maior carga
horária o que permitiria maior tempo de aprendizagem para os estudantes, possibilitando maior
qualidade do ensino para os mesmos.28
Embora a possibilidade do Novo Ensino Médio seja, considerando a perspectiva da Educação para
os novos tempos atuais, um caminho com potencial para uma melhor qualidade da aprendizagem, a sua
implementação não é tão simples como descrita pelo MEC. Diversas questões econômicas, sociais,
culturais, geográficas, infraestrutura tanto física como de recursos humanos e demais recursos
associados ao universo da aprendizagem, estão presentes, elevando significativamente a complexidade
deste processo. Isto não significa que não se deve fazer nada, deixar tudo como está. Muito pelo
contrário, o tamanho do desafio deve estimular a todos envolvidos nesta direção, na procura e aplicação
de técnicas, métodos e recursos pedagógicos para alcançar tal intento.

27
“Sancionado como lei em 2014, o PNE determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional dos próximos dez anos (até 2024). Entre os
objetivos estão a “renovação do Ensino Médio, com abordagens interdisciplinares e currículos flexíveis”, a “ampliação da oferta da educação em tempo
integral e apoio ao desenvolvimento do protagonismo juvenil.)”

28 Vide site https://novoensinomedio.mec.gov.br


10
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Junto à proposta desta abordagem do Ensino Médio, o MEC (Ministério da Educação) desenvolveu
e preparou uma Base Nacional Comum Curricular29 para este nível educacional, e também para o Ensino
Fundamental II, base esta que tem caráter normativo, estabelecendo “um conjunto orgânico e
progressivo de aprendizagens essenciais30 que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas
e modalidades da Educação Básica,...”31
BITTENCOURT (2017) analisando as modificações existentes no texto da BNCC, desde a
primeira versão até a final, comenta que:
“Já na versão final, bastante diferente da segunda, nota-se a afirmação das competências,
acompanhada por uma mudança significativa de linguagem, dos objetivos de aprendizagem para as
habilidades, numa perspectiva curricular bastante pragmática, na qual tudo que é estudado (os objetos
de conhecimento) deve ser apresentado como resultado por meio de uma ação (as habilidades).[...] ao
menos nos contextos aqui analisados, podemos afirmar que, apesar da aparente colaboração que de fato
permeou a definição da segunda versão em relação à primeira, o resultado final é um documento
curricular descritivo, que afirma os propósitos educativos do contexto de influência.... Finalizamos esta
análise afirmando que o contexto da prática, que constitui um outro lugar de interpretação e
reposicionamento das políticas públicas, certamente possibilitará a expressão de outras forças,
interesses e valores. Portanto, mesmo com a aprovação da Base, eventualmente até mesmo os princípios
e propósitos da Educação para Cidadania Global serão reconfigurados.”
Analisando o processo de desenvolvimento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC),
BITTENCOURT (2017) apresenta questões de caráter desafiador. Tem-se que a normatização da BNCC
não potencializa necessariamente uma Educação moderna, sendo antes de tudo, apesar de
fundamentação pedagógica quando descreve o Ensino Médio no contexto da Educação Básica, uma
norma de caráter complexo e, como já comentado anteriormente, passível de implementação a ser
ajustada às diferentes realidades educacionais em nosso país. Parafraseando a autora, a aprovação da
BNCC provocará reconfiguração na própria base e no processo educacional como um todo.
O site do MEC referente ao Novo Ensino Médio apresenta um discurso tocando em pontos
relevantes e denota-se a busca de uma Educação ajustada aos novos tempos. (como foi inicialmente
colocado no vídeo). A perspectiva é de que a partir de 2019 seja implementado o BNCC no nível médio
da escola regular e dada continuidade para a implementação no ensino fundamental.
Entretanto, cabe o questionamento presente no ar: até que ponto a práxis da Base penetrará nas
diferentes condições escolares ao longo de todo o país. Como já mencionado, por Jane Bittencourt, os
princípios e propósitos para a Educação para a Cidadania Global passarão por processo dinâmico de
reconfiguração ao longo da implementação da BNCC.
Mais uma vez, temos a nível de legislação para a Educação no Brasil, o encaminhamento para uma
direção que se enquadra nos direitos humanos, onde como estabelecido na DUDH (Artigo 26, item 7):
garantia de uma educação de qualidade. Ressalva-se que não basta esta conjunção entre a legislação e
os direitos humanos. Como apresentado anteriormente, urge uma nova mentalidade em todos que estão
inseridos no processo educacional brasileiro.

IV – DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO


“Não podemos resolver nossos problemas com a mesma mentalidade de quando os criamos,”
Albert Einstein

O “casamento” dos direitos humanos e a educação, dentro de uma legislação moderna, flexível,
dinâmica e arcabouço para realizar a tão desejada Educação Libertadora, depende de questões já

29
A parte da BNCC para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental foi aprovada em 2017 e está em fase de implementação em todo o país. Já a parte
do Ensino Médio foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação e homologada pelo MEC em dezembro de 2018. (vide site indicado na nota de rodapé
31)
30
Negrito da Base Nacional Comum Curricular-Educação é a Base.
31
P.7 BNCC/MEC 2018
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mencionadas e, particularmente da junção dos aspectos filosóficos com os aspectos sociais e culturais
dos seres humanos.
VARGAS LLOSA (2013) em sua reflexão final, diz:(p.104 e 105)
“A ideia do progresso é enganosa. Evidentemente, só um cego ou um fanático poderiam negar que tenha
alcançado desenvolvimento sem precedentes na história uma época em que os seres humanos podem
viajar até as estrelas, comunicar-se instantaneamente vencendo todas as distâncias, graças à internet,
clonar animais e humanos, fabricar armas capazes de fazer o planeta evaporar e degradar com suas
invenções industriais o ar que respiramos, a água que bebemos e a terra que nos alimenta.
[...] Fazia muito tempo que o mundo não sofria as crises e os descalabros financeiros que nos últimos
anos arruinaram tantas empresas, pessoas e países. No passado, a cultura foi muitas vezes o melhor
meio de chamar a atenção para semelhantes problemas, uma consciência que impedia as pessoas cultas
de darem as costas à realidade nua e crua de seu tempo. Agora, ao contrário, é um mecanismo que
permite ignorar os assuntos problemáticos, que nos distrai do que é sério, submergindo-nos num
momentâneo “paraíso artificial”, pouco menos que o sucedâneo de dar um dois num baseado ou um
teco na cocaína, ou seja, umas feriazinhas de irrealidade.
[...] O pior é que esse fenômeno provavelmente não tem conserto, porque já faz parte de uma maneira
de nossa época ser, viver, fantasiar e crer, e aquilo de que sinto saudade talvez seja pó e cinza sem
reconstituição possível.
[...] Neste presente há inúmeras coisas melhores que as vividas por nossos ancestrais: menos ditaduras,
mais democracias, uma liberdade que atinge mais países e pessoas do que nunca antes, prosperidade e
educação que chegam a mais gente que antes e oportunidades para a grande número de seres humanos,
como jamais houve antes, salvo para ínfimas minorias.”
As ponderações de VARGAS LLOSA na sua obra são bem pé-no-chão, de um realismo nu e cru,
mas é necessário este tipo de puxão-de-orelha, para sacudir o imobilismo e comodismo de muitas pessoas
hoje em dia. Mas o autor, no final das considerações sobre a sociedade do espetáculo32, apresenta uma
posição otimista no enfrentamento do caminhar dos seres humanos. Ele frisa: (p.116)
“Trata-se de aceitar o desafio que este fim de milênio nos lança, do que não poderão se excluir as
mulheres e os homens dedicados ao fazer cultural: vamos sobreviver? A queda do simbólico Muro de
Berlim não tornou inútil a pergunta. Reformulou-a, acrescentando incógnitas.
Mais particularmente com relação à Educação, FADEL et alii (2015) fazem uma análise e
reflexão sobre o papel que a escola deve ter no século 21, bem como, a necessidade de enxerga-la em
termos de 04(quatro) dimensões33. O prefacio da obra à edição brasileira é feito por DINIZ, Ana Maria
& SENNA, Viviane, Instituto Península e Instituto Ayrton Senna, respectivamente. Ponderam elas o que
segue:
“A oferta extraordinária de informação resultante dos avanços tecnológicos fez com que o principal
desafio do cérebro humano deixasse de ser o de armazenar a maior quantidade possível de
conhecimentos e passasse a ser o de conectar os aprendizados para a resolução de problemas de forma
integrada às várias dimensões do ser humano, com suas aspirações, suas emoções, suas relações com as
outras pessoas e com o ambiente.
Com isso, a escola assume um novo papel que não o de ensinar conteúdos estanques e organizados em
disciplinas que não dialogam entre si. A escola do século 21 deve priorizar e estimular ligações sociais
e experimentações, permitindo que todos os indivíduos se engajem com o aprendizado e encontrem suas
paixões e papéis mais amplos na sociedade e no mundo. Mais do que ensinar, deve apoiar os alunos na
construção de uma bússola confiável e no desenvolvimento de habilidades para que eles possam
identificar caminhos possíveis, promissores e aprazíveis neste mundo incerto e imprevisível, em
profunda e constante transformação.”
FADEL et alli (2015) destacam que a Educação (referindo-se à escolarização formal) representa:
“... uma parte fundamental do desenvolvimento de cada cidadão de cada país do mundo. Ela deve
preparar os estudantes para que prosperem no mundo, e pode ser uma ferramenta poderosa34 para o
progresso social. Se bem planejada, a educação pode contribuir para a formação de indivíduos mais
capacitados e mais felizes e sociedades mais pacíficas e sustentáveis, com maior progresso econômico
e mais equidade compostas de pessoas realizadas em todas as dimensões do seu bem estar.”

32
O capítulo é chamado de “Dinossauros em tempos difíceis”.
33
As dimensões consideradas são: a dimensão do conhecimento, a dimensão das habilidades, a dimensão do caráter e a dimensã do meta-aprendizado.
34
Negrito dos autores
12
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Paradoxalmente, a promessa da educação formal de preparar as nossas crianças para o futuro não
tem sido alcançada35. Os autores, supracitados, apresentam como razão desta situação o processo
contínuo, veloz e profundo de mudança nos tempos atuais. Comentam que:
“... o mundo para o qual a educação foi planejada não existe mais, e mesmo que fosse feita uma reforma
no sistema de educação para se adaptar ao mundo atual, esse sistema já estaria parcialmente
desatualizado quando os estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental chegassem ao fim do ensino
médio ... Temos que reformular o currículo escolar com este inevitável estado de mudança em mente e
formar os estudantes para que sejam adaptáveis e versáteis.”
A questão da sustentabilidade (muito valorizada e base para a evolução nos novos tempos) é
extremamente inquietante e motivadora ao mesmo tempo. Mundialmente, embora a espécie humana
continue a onerar significativamente o planeta (em termos de seus recursos), a conscientização de que
se faz necessário novos processos produtivos e comportamentais dos indivíduos (dentro de seu
arcabouço cultural) tem crescido consideravelmente gerando potencialmente e responsavelmente36,
perspectivas de manutenção da vida dos habitantes do planeta.
Neste sentido FADEL e colaboradores, destacam em termos da Sustentabilidade:
“Como estamos todos em uma rede globalmente interconectada e interdependente de sistemas de
suporte à vida, ... a explosão populacional traz grande consequências. Nossas sociedades estão presas
em uma rede de padrões de consumo e competição, e estamos rapidamente acabando com os recursos
que temos para sobreviver ... Dependendo do estilo de vida do país e do grau de consumo, o solo
necessário para compensar o uso dos recursos pode ser traduzido no número de planetas “Terra” que
necessitaríamos para manter toda a humanidade, caso cada pessoa do planeta consumisse os recursos
como fazem as pessoas de um determinado país.37”
A questão ambiental, preocupante e determinante do futuro da humanidade, conduz à
questionamentos em todos os campos do saber e a conscientização de que se continuarmos no modelo
predominante em termos de predação dos recursos naturais do nosso planeta, a perspectiva de tempos
sombrios se avizinha.
Podemos pensar que a Educação não deveria englobar esta questão nos currículos. Os conteúdos
de Biologia (Ciências), Geografia, Química já estariam contemplando esta questão. Ao nosso ver, se não
ocorrer um trabalho continuado desde os anos iniciais do Ensino Regular e outros, que não seja
meramente um conteúdo apresentado de forma limitada à tópicos dentro de disciplinas tratadas de
maneira estanque, e não de maneira aberta e constante com os estudantes, decerto não teremos sucesso
na formação desejada em termos antropológicos, filosóficos, educacionais, econômicos, sociais,
políticos e culturais.
Se formos pensar em termos de direitos humanos, que tem como bandeira o artigo 3º da DUDH,
a falta de uma visão de 360 graus em termos de futuros cidadãos planetários, não contempla os direitos
humanos, aos quais a Educação é uma “ferramenta poderosa” na concepção de FADEL e colaboradores,
e que perpassa toda formação para um mundo pessoal e social dos educandos.
Outra questão, também de importância capital para a formação qualitativa dos estudantes, é a
utilização da tecnologia, não só como ferramenta para a aprendizagem, mas ela transformará a Educação
em si mesa. Ainda citando FADEL et alii, que analisaram o impacto da tecnologia na sociedade, temos:
“... Nossos sistemas educacionais precisam se concentrar nos objetivos universalmente positivos da
construção de competências pessoais, habilidades e sabedoria de todos38 os alunos. Todos os estudantes

35
Objetivos de realização das pessoas nos aspectos pessoais (altos níveis de engajamento cívico e social, saúde e bem estar, empregos de boa qualidade,
enfim satisfação pessoal e equilíbrio emocional)
36
Herdarás o solo sagrado e a fertilidade, será transmitida de geração em geração. Protegerás teus campos contra a erosão, e tuas florestas contra a
desolação, e impedirás que tuas fontes sequem e que teus campos sejam devastados pelo fogo, para que teus descendentes tenham abundância para
sempre. Se falhares ou alguém depois de ti, na eterna vigilância de tuas terras, teus campos abundantes se transformarão em solo estéril e pedregoso
ou em grotões áridos, teus descendentes serão cada vez menos numerosos. Viverão miseravelmente e serão eliminados da face da Terra. Considerado
como o 11º mandamento, escrito por Walter Clay Lowdermilk em 1939 em Jerusalem, por ocasião de seu trabalho na Palestina.
37
Os autores se referem á vários países. No caso dos Estados Unidos da América apresentam dado de 4,3 planetas Terra
38
Negrito dos autores.-
13
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precisam apreender a considerar as implicações mais amplas de suas ações, agir de forma consciente,
além de refletir e adaptar-se as mudanças do mundo.”
Esses mesmos autores, na sua conclusão, discutindo sobre o como39 (relacionando a educação, a
evidência e a ação) colocam o seguinte:
“... com base nas seções sobre habilidades, caráter e meta-aprendizado, é difícil acreditar, que, por
exemplo, coragem pode ser desenvolvida somente na sala de aula, ou que comunicação pode ser
desenvolvida ao escutar passivamente uma palestra. O alerta se implementado corretamente
mencionado neste material se baseia nas práticas que se encaixam no conteúdo e nos objetivos da
educação. As práticas para definir os estudantes no século XXI incluem atividades de aprendizagem
para construir conhecimento, apreender habilidades, desenvolver qualidades do caráter e aplicar
estratégias de meta-aprendizado40. Essas atividades geralmente vão além da palestra didática, mas
ocorrem em aprendizagem baseada em projetos (PBL), aprendizado de investigação, debate,
formulação, desempenho, agilidade, coleguismo, contemplação e brincadeira. Obviamente, o uso
apropriado da tecnologia na sala de aula também é importante.”
Concluem os autores:
“... E o mais importante, temos cada vez mais evidências de um número crescente de escolas e redes de
escolas indicando que a adoção desses novos objetivos de aprendizagem, das novas práticas no currículo
e dos novos métodos de avaliação, realmente faz uma grande diferença positiva na vida dos estudantes.
... Podemos fazer melhor do que o sistema atual; devemos sintetizar e apreender com todo o
conhecimento que adquirimos e então dar um salto bem avaliado para inovar.
... Quando alguém constrói algo significativamente novo, não é apenas uma questão de reunir evidências
do passado de uma forma previsível. É necessário um salto, ou vários – novas ideias de outras
perspectivas. Geralmente, isso é resultado de muita observação, de experiências, iterações e muitos
flashes misteriosos de criatividade. Mas, não importa de onde venha, não é totalmente baseado em
evidências.
... Achamos que não há um desafio maior ou jornada mais interessante do que ajudar a reformular os
objetivos educacionais e as experiências de aprendizado que prepararão os estudantes para o futuro,
capacitando-os a construir um futuro melhor para todos nós.”
A complexidade dos processos da Educação não deve impedir que se busquem caminhos mais
alinhados a um futuro de esperança, alegria e sobretudo de satisfação pessoal e social. Os direitos
humanos se refletem nas práticas utilizadas na formação educacional dos futuros cidadãos em todas as
facetas da composição de um individuo equilibrado e vivendo de maneira mais harmônica possível.
Decerto, como já foi colocado anteriormente, para que tenhamos algo em termos do que foi
apresentado, não só neste capítulo, teremos que nos reinventar continuadamente. Condições adequadas
para um enfoque desta natureza são “sine qua non” para seguir nesta(s) direção(ções), o que remete a
qualidade do profissional que trabalha na educação e toda estrutura e remuneração condizente com uma
Educação Libertadora.
Daniel (2002) analisando a Educação em um mundo pós-moderno conceitua a pós-modernidade
como uma negação de todos os três elementos de um processo descritivo de uma narrativa, dizendo que
o pós-moderno:
“... não acredita em uma narrativa geral, duvida da possibilidade de ordem e nega a existência
de um conhecimento objetivo.41
... o chamado hacker de computador é um símbolo apropriado do pós-modernismo.
Comenta, ainda, o autor, que os pós-modernistas atribuem pouca importância ao conhecimento,
porque alegam que ele não pode ser legitimado. O conhecimento não é objetivo, mas é algo que cada
um de nós constrói com os jogos da nossa linguagem. Construtivismo e desconstrução são termos-chave
do vocabulário pós-moderno.
O autor, na época, situando a Educação na pós-modernidade, já fazia as seguintes considerações:

39
Negrito dos autores
40
A meta-aprendizagem da educação é considerada pelos autores como uma “meta-camada” onde os estudantes pratiquem a reflexão, aprendam com seu
aprendizado, internalizem uma mentalidade de crescimento que os estimule a se empenhar e aprendam como adaptar seu aprendizado e comportamento com
base em seus objetivos. Consideram que o mais acertado em termos de preparação dos estudantes para um mundo em constante mudança é dar a eles as
ferramentas para que sejam versáteis, reflexivos, autodirecionados e autoconfiantes. .p138
41
O autor considera difícil descrever o pós-modernismo pois não é possível ordená-lo.
14
EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS (UNIPLENA-FORMAÇÃO DE DOCENTES-TURMA 124-2018/2019-BELO HORIZONTE-MG

“Na Educação, encontramos alunos e educadores cujas atitudes são uma mistura do pré-moderno com
o moderno e o pós-moderno. Mas não pode ser uma desculpa para a inação, por dois motivos.
Em primeiro lugar, como educadores, temos um dever intelectual de enfrentar as assertivas pós-
modernas que atingem os fundamentos do nosso trabalho. Em segundo lugar, muitos dos nossos alunos
passam boa parte da sua vida dentro da cultura eletrônica que contém uma dose importante de atitudes
pós-modernas. Uma de nossas tarefas é ajudar os estudantes a interpretar o seu ambiente.
... Podemos começar aceitando os aspectos do pós-modernismo, que são positivos, dentro dos nossos
próprios termos de referência. Embora neguem que haja qualquer coisa universal, os pós-modernistas
promovem certos valores que consideramos universais, mas que muitas vezes negligenciamos.
Um deles é o respeito pela diversidade.... Uma outra lição do pós-modernismo é a sua apreciação do
igual valor de todos os seres humanos.... Outras visões pós-modernistas são: a tolerância e o respeito
pela liberdade alheia. Deveríamos celebrar a diversidade, a igualdade e a liberdade dos outros. No
entanto, se acreditamos nos direitos humanos, porque somos todos iguais perante Deus (não importando
nossa opção de Fé)42 não deveríamos tolerar a ideia de que uma cultura em particular possa definir os
direitos humanos do seu povo, em nome da diferença.
Finalmente, do lado positivo, poderíamos revisitar certas outras qualidades que os pós-modernistas
valorizam, como a criatividade, a emoção e a intuição.”
Levando-se em consideração ao que foi exposto anteriormente, se desejarmos realmente e nos
direcionarmos em termos concretos e coerentes com o contexto atual da humanidade e os direitos
universais humanos, a Educação tem um papel relevante e chave para que esses direitos sejam
plenamente vivenciados e respeitados.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS (de modo a conquistarmos um futuro melhor, sem


discriminações, e que garanta oportunidades iguais a todos)
“A mente é tudo. O que você pensa você se torna. Somos moldados por nossos pensamentos. Nós nos tornamos aquilo que
pensamos. Quando a mente é pura, a alegria segue como uma sombra que nunca vai embora. Não habite no passado, não
sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente.”
Siddartha Gautama (Buda).

Redundante é falarmos na interrelação entre os Direitos Humanos e a Educação, tendo em vista


ao que já foi colocado anteriormente. Entretanto, destacamos mais dois aspectos no plano antropológico
de nossa existência.
ASSIS & AVANCI (2004) efetuaram uma pesquisa muito interessante relacionada a autoestima
desde a infância até a adolescência, o que, sem dúvida, tem influência direta e profunda na aprendizagem
dos estudantes.
Prefaciando a obra, Maria Tereza Maldonado, psicóloga e escritora, diz:
“A construção de uma boa autoestima surge como alicerce de força de vida. Está profundamente
associada à resiliência, sou seja, à combinação entre flexibilidade e força para enfrentar os obstáculos,
à criatividade para encontrar saídas, à visão otimista, à esperança, à fé e ao cultivo da alegria pelas
coisas simples. Com isso, amplia-se a capacidade amorosa, permitindo a celebração da vida e a
possibilidade de sonhar. Acreditar em si mesmo, em sua força, em suas possibilidades de ser bem-
sucedido, é ingrediente básico da autoestima, que influencia o grau de autodeterminação.
... O grande valor dado ao afeto nos relacionamentos preenche os requisitos básicos para que os
adolescentes atuem como “construtores da paz”. Convém lembrar que a atual definição holística da paz
significa cuidar bem de si mesmo, dos outros e do ambiente. Vale ressaltar que muitos estudiosos sobre
a questão da violência e da resolução de conflitos enfatizam que, na maior parte do tempo, no cotidiano
de todos os povos, os momentos de convivência pacífica sempre predominaram sobre os momentos de
conflito destrutivo, desde a mais remota antiguidade até os dias de hoje. Os atributos que predominam
no autoconceito dos adolescentes pesquisado podem inspirar os adultos que não conseguiram manter
dentro de si essa alegria de viver e a crença na força do amor, resgatando, em seu interior, sentimentos
tão essências à boa qualidade da vida de todos nós.”
Mais uma vez, sob o viés, agora psicológico, vemos que nós educadores ou futuros educadores,
temos também muito a apreender com nossos pupilos, o que remete as colocações de Paulo Freire

42
Obsersavação dos autores e não de John Daniel
15
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(também anteriormente destacadas), e não importando formações, épocas, contextos, culturas, no fim, a
Educação tem que estar imbricada com os estudantes, razão de sua existência.
Corroborando com o que até agora foi exposto, apresentamos para finalizar algumas das
excelentes observações e considerações de Daniel Goleman, psicólogo consagrado pelo seu excelente
trabalho, não só voltado para a Educação, mas que foi absorvido rapidamente por ela:
“A expressão inteligência emocional, ou sua abreviação QE, se tornou onipresente ,... se espalhou pelos
cantos mais distantes do mundo ...
Mais gratificante para mim foi a maneira como o conceito foi ardentemente abraçado pelos educadores,
na forma de programas de “aprendizado social e emocional...
Nos idos de 1995, havia apenas um punhado desses programas ensinando habilidades de inteligência
emocional a crianças.
Agora, uma década depois, dezenas de milhares de escolas em todo o mundo oferecem SEL43 às
crianças. Hoje em dia, nos Estados Unidos, o SEL é requisito curricular em vários distritos, e até mesmo
em estados inteiros, exigindo que os alunos, da mesma forma que precisam alcançar um determinado
nível de competência em matemática e linguagem, dominem essas fundamentais aptidões para a vida.
Em alguns estados norte-americanos e outros países44, o SEL, se tornou o guarda-chuva organizador
sob o qual se juntam programas de educação do caráter, de prevenção à violência, agressão contra
colegas e drogas e de disciplina escolar. O objetivo não é apenas reduzir a incidência desses problemas
entre alunos, mas também melhorar o ambiente escolar e, em última instância, o desempenho acadêmico
dos estudantes.”
GOLDMAN(2011) apresenta dados de uma meta-análise de 668 estudos avaliativos de
programas de SEL para crianças desde a pré-escola até o ensino médio, apresentando dados de grandes
benefícios no desempenho acadêmico, conforme demonstraram os resultados de teste de desempenho e
média de notas. O autor, diz que nas escolas que adotaram os programas SEL:
“... mais de 50% das crianças tiveram progresso nas suas pontuações de desempenho e mais de 38%
melhoraram suas médias ...
... ocorrências de mau comportamento caíram em média 28%, as suspensões, 44% e outros atos
disciplinares, 27% ...
... a percentagem de presença aumentou, enquanto 63% dos alunos demonstraram um comportamento
significativamente mais positivo.”
Goldman conclui que em ciências sociais, os resultados são extraordinários para qualquer
programa que se proponha a promover mudanças comportamentais.
“O SEL cumpriu sua promessa.”, diz Goldman a respeito do papel do aprendizado social e
emocional.
Finalizando a reflexão sobre a Educação e Os Direitos Humanos, ou poderia ser os Direitos
Humanos e a Educação, podemos e devemos reavaliar o papel dos educadores nesta relação tão cara e
indispensável a um futuro melhor, sem discriminações, e que garanta oportunidades iguais a todos.

43
SEL – Social and emotional learning
44
Goldman relaciona (p.19) os seguintes países onde o SEL foi adotado (Cingapura, Malásia, Hong Kong, Japão, Coréia, Reino Unido (mais 12 países
europeus), Austrália, Nova Zelândia, países da América Latina e África). Pode ser coincidência, mas os países melhores classificados na pesquisa de
qualidade da educação adotaram o SEL.
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VI - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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