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CURSO DE BACHARELADO EM ARQUITETURA E URBANISMO

ALMIR JOSÉ VIANA NETO

“...VOLTAR ÀS ORIGENS”:
ESTUDO PRELIMINAR DE DESENHO URBANO PARA A
COMUNIDADE DE BEIRA DO TAÍ
– 4º DISTRITO DE CAMPOS DOS GOYTACAZES

Campos dos Goytacazes/RJ


2016
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ALMIR JOSÉ VIANA NETO

“...VOLTAR ÀS ORIGENS”:
ESTUDO PRELIMINAR DE DESENHO URBANO PARA A COMUNIDADE
DE BEIRA DO TAÍ – 4º DISTRITO DE CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ

Trabalho Final de Graduação apresentado ao


Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Fluminense de Campos — campus
Campos centro, como requisito parcial para a
conclusão do Curso de Bacharelado em
Arquitetura e Urbanismo.

Professora Orientadora: Simone da Hora Macedo


Professora Coorientadora: Silvana Castro

Campos dos Goytacazes/RJ


2016
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 - Desenho Urbano: conceituação tradicional ..................................................... 12

Figura 2 - Interação dos entendimentos de Desenho Urbano........................................... 13

Figura 3 - Museu Histórico de Ningbo - Wang Shu .......................................................... 28

Figura 4 - Habitação Villa Verde - Elemental .................................................................. 30

Figura 5 - Mapa de Localização ........................................................................................ 31

Figura 6 - Projeto de Drenagem da margem direita do Paraíba e Detalhe ..................... 32

Figura 7 - Lagoas da Baixada antes e depois do projeto de drenagem ............................ 33

Figura 8 - Lagoa do Taí Grande atualmente .................................................................... 33

Figura 9 - Mapa de Relação com Usina Barcelos ............................................................. 34

Figura 10 - Relação de proximidade com entorno e principais acessos ........................... 36

Figura 11 - Esquema de percurso do transporte público até a comunidade ................... 37

Figura 12 - Perspectiva geral com destaque de vias principais da comunidade .............. 39

Figura 13 - Perspectiva aérea da comunidade com identificação de vias ........................ 40

Figura 14 - Perfis das vias principais de circulação.......................................................... 40

Figura 15 - Registros fotográficos calçadas Vias Principais ............................................. 42

Figura 16 - Entrada da "Estradinha" ............................................................................... 45

Figura 17 - Aceiros e Vias primitivas de Circulação ........................................................ 45

Figura 18 - Representação da comunidade a partir do trevo central .............................. 46

Figura 19 - Trevo central como única representação da comunidade ............................. 47

Figura 20 – Vias ancoradas no papel e o desejo de uma quadra ...................................... 47

Figura 21 - Mapa de Caminhos com vias identificadas por ranque em hierarquia de


utilização ............................................................................................................................ 48

Figura 22 - Arborização junto às residências representada como limite ......................... 49

Figura 23 - Vazios e canal representados como limites .................................................... 49

Figura 24- Mapa Figura fundo .......................................................................................... 50


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Figura 25 - Relação de vazios com ligação com a comunidade ........................................ 51

Figura 26 - Vazios limitantes ao canal............................................................................... 51

Figura 27 - Construção típica da comunidade .................................................................. 52

Figura 28 – Residência eclética da comunidade................................................................ 52

Figura 29 - Capela com características modernistas da comunidade .............................. 53

Figura 30 - Esquema de gabaritos ..................................................................................... 53

Figura 31 - Residência muro simples ................................................................................ 54

Figura 32 - Residência muro cobogó ................................................................................. 54

Figura 33 - Residência cerca simples................................................................................. 54

Figura 34 - Uso do Solo ...................................................................................................... 55

Figura 35 - Representação em planta da comunidade por mapa mental elaborado ....... 56

Figura 36 - Representação em vista da comunidade por mapa mental elaborado .......... 56

Figura 37 - Mapa de marcos e pontos nodais.................................................................... 57

Figura 38 - Levantamento de árvores ............................................................................... 58

Figura 39 – Levantamento de equipamentos .................................................................... 59

Figura 40 - Esquema raios iluminação .............................................................................. 60

Figura 41 - Detalhe de muro da comunidade. Informalidade e autoconstrução ............. 61

Figura 42 - Visão serial de fora pra dentro ....................................................................... 62

Figura 43 - Visão serial de dentro pra fora ....................................................................... 64

Figura 44 - Terreno Av. Manuel Machado Moço ............................................................. 67

Figura 45 - Terreno Av. Júlio de Souza Rangel ............................................................... 67

Figura 46 - População numa tarde na comunidade .......................................................... 67

Figura 47 - Gráfico populacional de vínculo com a comunidade ..................................... 68

Figura 48 - Proporção população permanente ................................................................. 69

Figura 49 - Infográfico mulheres x homens ...................................................................... 69

Figura 50 - Faixa Etária..................................................................................................... 70


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Figura 51 - A Praça dos Nossos Sonhos - Lukas Fúster ................................................... 71

Figura 52 - - Capela de Despedida Zgornji Tuhinj – Tria Studio .................................... 72

Figura 53 - Planta Capela da Despedida Zgornji Tuhinj - Tria Studio ........................... 72

Figura 54 - Captura de tela do site da prefeitura de São Paulo com divulgação do


projeto Centro Aberto – Prefeitura de São Paulo/SP 2015 .............................................. 73

Figura 55 - Jardim Banco Safra – Burle Marx ................................................................. 74

Figura 56 - Capela do Palácio da Alvorada – Oscar Niemeyer ........................................ 75

Figura 57 - Atual fachada da Capela Santo Amaro / comunidade de Beira do Taí – autor
desconhecido ...................................................................................................................... 76

Figura 58 – Casa Sustentável - Rafael Loschiavo ............................................................. 77


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 7
1 CONCEITOS E PERSPECTIVAS DO DESENHO URBANO .................................... 12
1.1 A escolha da modalidade ................................................ Erro! Indicador não definido.
1.2 Conceituando Desenho Urbano ................................................................................ 12
1.2.1 Desenho Urbano – Processo Social que dá forma ao espaço urbano...................... 13
1.2.2 Desenho Urbano – Disciplina de Estudo ............................................................... 14
1.2.3 Desenho Urbano – Modalidade de Intervenção ..................................................... 16
1.3 Implementação do Desenho Urbano ........................................................................ 17
1.4 Perspectivas do Desenho Urbano ............................................................................. 19
1.4.1 Desenho Urbano no Planejamento Municipal ....................................................... 19
1.4.2 Visão acadêmica de Desenho Urbano ................................................................... 20
2 IMPORTÂNCIA DO LOCAL E DA VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE LOCAL
PARA A ELABORAÇÃO DE PROJETOS NA CONTEMPORANEIDADE –
REGIONALISMO CRÍTICO ........................................................................................... 23
2.1 Crítica à visão moderna de cidade ........................................................................... 23
2.1.1 Regionalismo Crítico em contrapartida da perda de identidade local ..................... 23
2.2 Valorização da importância e identidade local nos projetos contemporâneos ....... 26
3 CARACTERIZAÇÃO E DIAGNÓSTICO .................................................................... 31
3.1 Origem e desenvolvimento da comunidade ............................................................. 31
3.2 Entorno da comunidade e influência local ............................................................... 36
3.3 Localidade de Beira do Taí – Estrutura Físico Ambiental...................................... 38
3.3.1 Vias e Limites ...................................................................................................... 39
3.3.2 Vazios Urbanos .................................................................................................... 50
3.3.3 Tipologia e características das construções ........................................................... 52
3.3.4 Uso do solo .......................................................................................................... 55
3.3.5 Marcos e Pontos Nodais ....................................................................................... 55
3.3.6 Composição Paisagística ...................................................................................... 58
3.3.7 Percepção Visual – Visão Serial ........................................................................... 61
3.4 Comunidade de Beira do Taí – Perfil populacional ................................................ 67
3.4.1 Perfil população permanente ................................................................................ 69
7 REFERENCIAIS PROJETUAIS ................................................................................... 71
6

7.1 Referenciais Tipológicos ........................................................................................... 71


7.1.1 Praça dos Nossos Sonhos ..................................................................................... 71
7.2 Referenciais Funcionais ............................................................................................ 71
7.2.1 Capela de Despedida Zgornji Tuhinj .................................................................... 71
7.2.2 “Centro Aberto” ................................................................................................... 72
7.3 Referenciais Plásticos-Formais ................................................................................ 73
7.3.1 Jardim da cobertura do Banco Safra ..................................................................... 74
7.3.2 Capela do Palácio da Alvorada e Capela Católica de Beira do Taí ........................ 74
7.4 Referenciais Tecnológicos......................................................................................... 76
7.4.1 Materiais convencionais e Autoconstrução ........................................................... 76
7.4.2 Tecnologias Sustentáveis ...................................................................................... 77
DESCRITIVO PROPOSTAS PROJETUAIS .................................................................. 78
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 80
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INTRODUÇÃO

Este projeto é fruto do desejo de, antes de mais nada, voltar, como autor, às minhas
origens, reconhecendo nela a minha base fundamental de educação cultural, ética e moral, e
com isso poder contribuir profissionalmente para amenizar as carências e anseios de melhoria
da comunidade. Em consequência, o trabalho se articula também na consideração profissional
em que me insiro com a conclusão de meu bacharelado, no qual, tendo entrado com
aspirações à realização de grandes projetos arquitetônicos, saio buscando entender e propagar
o papel profissional do arquiteto e urbanista na resolução dos problemas e desafios sociais que
a sociedade contemporânea enfrenta com um olhar especial para meu entorno.
Tal oportunidade se deve ao fato de ter ocorrido, ao longo dos anos de bacharelado
cursado, uma grande transformação em meu próprio pensamento profissional que, com o
decorrer dos anos, passei a compreender melhor a função social da arquitetura bem como seu
poder de valorização e reconhecimento da identidade cultural de um lugar, de um povo.
Tal transformação, ocorrida como um “processo de germinação” ao longo do curso,
encontrou, em várias disciplinas estudadas, muitos autores relembrados neste trabalho. Dentre
estes, Wang Shu e Antoni Gaudí podem ser citados como exemplos, sendo eles o início e o
fim, respectivamente, dos referenciais que fecham tal “processo”.
Wang Shu, conhecido desde a disciplina de Projeto de Arquitetura II, foi o primeiro a
despertar em meu olhar acadêmico e profissional as ideias de valorização local, arquitetura
“amadora” e menor enaltecimento da figura do arquiteto. Antoni Gaudí, ao qual fui
apresentado nas aulas de História da Arquitetura, é autor da máxima com a qual batizei e sob
a qual idealizei este trabalho, embora encontrada já nas fases de pesquisa: “Originalidade
consiste em voltar às origens”.
Assim, entendo hoje que as motivações que me levaram a idealizar estas propostas, foram
sendo construídas, mesmo que inconscientemente, ao longo dos cinco anos de bacharelado,
fiel a um desejo inicial de se usar a volumetria apresentada na disciplina de Plástica I - uma
capela - no meu Trabalho Final de Graduação (TFG). Tal desejo tinha por intuito concluir a
faculdade com aquele mesmo estudo que considero ser a primeira volumetria arquitetônica
pensada por mim, fechando assim um ciclo.
Com isso, na ânsia de ser original, pensei então em propor uma tipologia ainda não
projetada nos TFG’s do curso: um cemitério, do qual a capela de Plástica I seria elemento
central. Seria ótimo, mas não dessa vez! Ou ao menos, não com o cemitério: um colega de
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turma mais avançada iniciou antes de mim seus estudos para proposta da mesma tipologia e
com isso toda minha objetivada originalidade foi dada por mim mesmo como sepultada.
Logo, já tendo iniciada a disciplina de Fundamentos Trabalho Final de Graduação e sem
nenhuma perspectiva de ressureição da originalidade tão querida para este trabalho, surge em
minha comunidade de origem uma maior inclinação à possibilidade de construção de uma
capela mortuária, ha tempos solicitada pelos moradores. Foi então que o fúnebre ligou as
situações e mais uma vez me levou a encontrar um tema para este trabalho. De um cemitério
com formas esculturais a menores intervenções em minha comunidade, segundo suas próprias
necessidades para programa; assumindo formas simples de composição harmônica com as
construções locais e fazendo uma releitura da mesma igreja de volumetria antes idealizada.

O espaço urbano, organismo resultante de um processo que lhe confere forma e


dinamicidade, pode ser, além de vivenciado e transformado espontânea e individualmente,
estudado, experimentado e reestruturado a partir da adoção de práticas e instrumentos para
uma modalidade intervenção. A tal processo e a essa modalidade, podemos chamar de
Desenho Urbano. Assim também, pode ser chamado o campo de estudo que analisa o mesmo
processo e com isso embasa tais intervenções.
Uma modalidade onde o planejamento e a locação de equipamentos urbanos, a
edificação arquitetônica e a composição paisagística pudessem ser pensados de forma
conjunta e harmônica como fruto de um trabalho único e conciso: essa foi a necessidade
inicial que levou à definição da modalidade de Desenho Urbano para este TFG.
Tal definição foi feita após proposta inicial da combinação dos termos “urbanístico”,
“arquitetônico” e “paisagístico” para o estudo preliminar proposto, e só teve sua modalidade
redefinida após pesquisas iniciais. Nestas, pode ser observada o quanto a modalidade de
Desenho Urbano tem ainda pouca utilização e disparidade de entendimento dentre as
faculdades de Arquitetura e Urbanismo no país, além de conceituação frágil e de sofrer com a
“indefinição de instrumentos mais adequados para sua implantação”, como aponta Renato
Saboya (2010, s/p).
Tais propostas, adotadas a partir da busca do respeito e valorização da identidade local
com programa elaborado de forma participativa, são destinadas à comunidade de Beira do
Taí, uma comunidade interiorana, de poucos habitantes, localizada no 4º distrito do município
de Campos dos Goytacazes, à noroeste do estado do Rio de Janeiro, da qual, como
explicitado, sou originário.
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É pertinente definir que todo o texto é escrito sob a ótica do autor em diálogo
constante com o leitor, sendo estes, considerados a priori, os estudantes e profissionais da
área de Arquitetura e Urbanismo. Assim, o uso da primeira pessoa na construção textual, tanto
no singular quanto no plural, lhe é aplicado, conforme definições de Veiga-Neto1 em seu texto
“Anotações sobre a escrita” em publicação de 2014. Esta estruturação busca, além das
definições teóricas defendidas por Veiga-Neto para o uso da língua na escrita, uma clara
intenção de aproximação do autor com o leitor, além de deixar evidente sua intrínseca relação
com o objeto de estudo proposto.
Em suma, justifico o estudo preliminar elaborado no fato de que, com ele, uma
pequena comunidade do interior ganha propostas de intervenções que buscam levar a ela
espaços de valorização e identidade locais para vivência social, religiosidade, saúde básica,
prática de atividades físicas e todos os equipamentos urbanos identificados no programa
elaborado de forma participativa. A tal justificativa, soma-se a preocupação de se desenvolver
um trabalho onde se busca abordar o conceito de Desenho Urbano, fruto da preocupação com
o resultado do recente concurso URBAN 212 e as definições para elaboração de projetos de
valorização local - sob a ótica do Regionalismo Crítico, com reflexões que se desdobram
sobre o papel do profissional arquiteto na contemporaneidade.
É evidente que a ligação afetiva autor–local do projeto é a primeira instância desta
justificativa (e deste trabalho como um todo), mas acredito que ligações de grande dedicação
e preocupação devam ser essenciais para boas resoluções projetuais em qualquer que seja a
situação e problemática que encaramos.
Assim, esse trabalho tem como objetivo principal a elaboração de um estudo
preliminar de Desenho Urbano para a comunidade de Beira do Taí, buscando atender às
necessidades coletivas da comunidade. Em corroboração a este, são objetivos específicos:
abordar e discutir o conceito de Desenho Urbano; defender a importância do local e da

1
Alfredo Veiga-Neto expõe em suas Anotações sobre a escrita que “num certo afã de copiar a pretensa
neutralidade das Ciências Naturais” é bastante comum nas produções das Ciências Humanas não ficar claro
quem é o autor do texto usando-se muitas vezes de artifícios aplicáveis em três casos: plural majestático,
comum aos políticos preocupados em incluir o maior número de pessoas em sua fala e/ou mostrar sua falsa
modéstia; indeterminação do sujeito, na qual não se revela quem encontrou os resultados, quem pensa ou
quem estima, por exemplo; e uso de 3ª pessoa do singular, que traz uma dualidade ao mesmo autor, único
personagem, causando complicação e estranheza para quem lê. Em contrapartida a estes, Veiga-Neto defende
que “a questão não é fazer de conta que o não uso da 1ª pessoa do singular garante a isenção do pesquisador,
mas é assumir que tal isenção é uma ficção(...)”, pois “em termos mais amplos, é como se aquele que pensa,
fala e escreve não estivesse sempre imerso no (...) mundo sobre o qual ele pensa, fala e escreve”.

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Em sua primeira edição no final de 2015, o concurso URBAN 21 é um concurso nacional de urbanismo
realizado pela revista PROJETO com o patrocínio exclusivo da Alphaville Urbanismo S/A.
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identidade local na elaboração de projetos; investigar junto à população local seus anseios e
necessidades quanto a equipamentos urbanos, espaços públicos, etc.
Num primeiro momento este trabalho apresenta sua fundamentação teórica embasada
pelas conceituações de Desenho Urbano e reflexões sobre a importância da identidade local e
da valorização da identidade local nos projetos contemporâneos, sobretudo sobre a ótica da
corrente pós modernista Regionalismo Crítico.
Um diagnóstico da comunidade à qual se destina o estudo preliminar proposto,
também foi elaborado, a fim de se identificar suas características como: localidade, enquanto
estrutura físico-espacial no qual os preceitos de Lynch3 e de percepção visual segundo Gordon
Cullen4 foram também utilizados; comunidade, enquanto espaço de convivências de diversos
indivíduos onde sexo, faixa etária e vínculo com a comunidade foram levantados e
registrados.
Com o intuito de se pensar e propor um estudo preliminar projetual participativo, toda
a fase de definição de programa foi elaborada e feita de forma totalmente integrada com a
comunidade com aplicação de diferentes instrumentos de pesquisa (entrevistas, questionários,
mapas mentais e “desenho” dos desejos) a fim de se buscar compreender as necessidades e
para elas propor ideias e alternativas que possam atender homens, mulheres, crianças, jovens
adultos, idosos, trabalhadores, estudantes, etc. E em reforço à ideia de participação, materiais,
formas e métodos construtivos propostos, também favorecerem a prática da autoconstrução a
fim de se buscar a maior aplicabilidade possível das propostas aqui apresentadas.
Como forma de traçar também um perfil histórico-social da comunidade, foram
elaboradas pesquisas para identificação das origens, formação e desenvolvimento da
comunidade de Beira do Taí, bem como da sua relação com o entorno e de sua influência
local. Além disso, em conclusão à metodologia adotada para este trabalho, leis e normas
vigentes, pertinentes ao local e propostas de intervenção, foram consultadas a fim de se
garantir a conformidade do estudo preliminar com a legislação em vigor.
No decorrer de todo texto, sobretudo ao se encerrar cada tema apresentado de
fundamentação teórica, são apresentados parágrafos de reflexão que buscam fazer ligação do
assunto tratado à sua contribuição para o estudo preliminar proposto.
O trabalho é composto, portanto, de cinco capítulos. No primeiro, o conceito e
aplicação de Desenho Urbano é tratado, sendo a base fundamental da parte teórica deste TFG.

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Os preceitos de imaginabilidade do espaço como caminhos, limites, pontos nodais, marcos referenciais e
bairro foram utilizados concatenados às informações da localidade enquanto estrutura físico ambiental como
mapa de vias, vazios, uso do solo, tipologia e disposição das construções, composição paisagística, etc.
4
Levantamento e breve análise do espaço a partir do método de visão serial
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Em sequência e em complementariedade a este, o segundo capítulo aborda a valorização local


e da identidade local nos projetos de arquitetura atuais, sob a ótica do Regionalismo Crítico,
refletindo sobre a atual valorização dos trabalhos de arquitetura contemporâneo com olhar
especial sobre o prêmio Pritzker de Arquitetura.
Depois, em terceiro capítulo, é apresentada a metodologia geral adotada para
levantamento e determinações deste trabalho, seguido, da caracterização da comunidade. O
quarto capítulo do trabalho apresenta os referenciais projetuais do estudo preliminar, e por
fim, no quinto e último capítulo, são apresentadas a relação de propostas projetuais, cujo
caderno em apêndice é parte complementar.
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1 CONCEITOS E PERSPECTIVAS DO DESENHO URBANO

1.1 Conceituando Desenho Urbano

Conforme ilustrado por Alexandre Hepner em seu Ensaio Crítico para o 10º Prêmio
Jovens Arquitetos, ocorrido em 2011, a conceituação tradicional de Desenho Urbano (DU)
está na intercessão entre a Arquitetura e o Urbanismo (Figura 01). Possuindo assim caráter
multidisciplinar que enfatiza a realidade físico-ambiental da cidade, constituído de sua forma
urbana. Assim, ele ainda aponta que o Desenho Urbano é tradicionalmente considerado como:
processo social através do qual a cidade adquire sua forma; estudo sobre a forma urbana, sua
produção e transformações; modalidade de intervenção sobre o espaço urbano, por meio de
projetos ou de políticas públicas (HEPNER, 2011).

Figura 1 - Desenho Urbano: conceituação tradicional

Fonte: Hepner, 2011


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Portanto, podemos observar que Desenho Urbano pode ser entendido como um
processo social, uma disciplina de estudo, ou uma modalidade de intervenção, entendimentos
intrinsecamente ligados entre si que se subdividem para uma melhor análise e conceituação
(Figura 2).

Figura 2 - Interação dos entendimentos de Desenho Urbano

DESENHO URBANO
DESENHO URBANO
MODALIDADE DE
DISCIPLINA DE ESTUDO
INTERVENÇÃO

DESENHO URBANO
PROCESSO SOCIAL

Fonte: Arquivo pessoal, 2016.

1.1.1 Desenho Urbano – Processo Social que dá forma ao espaço urbano

Segundo Hepner (2011), entendendo Desenho Urbano como processo social, podemos
afirmar que todo espaço urbano é possuidor de uma forma, logo, é resultante de um processo
de Desenho Urbano que lhe conferiu tal forma. Este processo pode ser originário de uma ação
consciente, exemplo das cidades e bairros planejados como Brasília e a Barra da Tijuca/RJ, ou
inconsciente como a cidade de São Paulo e a favela da Rocinha/RJ. Em seu trabalho com
enfoque na Marginal do Rio Pinheiros, Hepner sugere ainda que a área seria fruto de “Um
processo ‘híbrido’ entre o desenho urbano consciente e inconsciente, resultante das interações
entre o capital e a ideologia na produção do espaço urbano” (HEPNER, 2011, p.24).
Ainda segundo Hepner (2011), o tipo da ação, se consciente ou inconsciente, que
garantirá ao desenho urbano sua forma, está diretamente associada ao tempo e ao contexto em
que o processo é submetido. Quando este é fruto de uma ação ou elaboração de intenção
coletiva e legitimada que dá as diretrizes para possíveis intervenções ele é consciente e,
conforme podemos observar nos exemplos citados a seguir, quase nunca passível de grandes
14

transformações: Brasília, cidades jardins, parques temáticos, etc. Por outro lado, quando o
processo é fruto do acúmulo das diversificadas ações e edificações que se sobrepõem ao longo
do tempo, sempre atendendo às necessidades do contexto imediato em que são geradas,
tendem a se caracterizar como um processo fruto de ação inconsciente, o que acontece com a
maioria das cidades e bairros brasileiros.
A universalização das formas, materiais e composições, bem como a falta de uma
escala humana adequada à vivência cotidiana do indivíduo são também um ponto importante
a se observar nos exemplos de ação consciente citados anteriormente. Dentre estes, o principal
– a cidade de Brasília, pode ser apontada como o grande exemplo de processo de ação
consciente que deu forma ao Desenho Urbano de uma cidade, mas cujo resultado não foi o
mais adequado para a escala de vivência humana.
Em contrapartida, espaços criados a partir de ações inconscientes e acumulativas dos
diversos indivíduos e tempos podem também ser observados como desfavoráveis à escala
humana – como a cidade de São Paulo, ou ainda, desprovidas de condições urbanas básicas
para a qualidade de vida do indivíduo – como a favela da Rocinha; em citação de exemplos já
referenciados acima.
Assim sendo, parece necessário a adoção de instrumentos para intervenção onde os
espaços “conscientemente pensados” dentro dos moldes de universalização ou escala
monumental, possam encontrar a “inconsciência” da valorização individual, ou ainda, a
consequência das “ações inconscientes” que geraram espaços em escala não humana ou de
urbanização carente, possam encontrar a “conscientização” de espaços ordenados que
valorizem o coletivo e a escala das relações.

1.1.2 Desenho Urbano – Disciplina de Estudo

Em Desenho Urbano (DU) como disciplina de estudo está o entendimento mais antigo
para o termo e de principais referenciais teóricos para abordagem do mesmo. Segundo
Vicente Del Rio (1990) Desenho Urbano é um campo do conhecimento, que teria surgido na
década de 1960 nos países anglo-saxônicos, como solução à necessidade de se criar uma
ponte entre os cursos de Arquitetura e Planejamento Urbano, que nestes países são cursos
independentes, distintos entre si.
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Sendo assim, surge o curso de Urban Design que a partir de 1980 passa a ser
considerado e divulgado pela comunidade acadêmica brasileira como um campo do
conhecimento traduzido para Desenho Urbano.
Além deste, o professor Dr. Eduardo Nobre, em sua apresentação “Desenho Urbano: por
uma definição” para a disciplina de Desenho Urbano: da teoria ao projeto da FAUUSP em 2011,
recorda a denominação de Jonathan Barnett (apud NOBRE,2011, p.10) para o “processo de
desenhar as cidades, sem desenhar os seus edifícios”. Tal definição, compreendida como um
processo para o “meio-termo” entre a Arquitetura e o Urbanismo, surgiu nos E.U.A. como uma
forma de preencher o vazio que existia entre os urbanistas, preocupados com a distribuição de
recursos por meio do parcelamento e uso do solo, e os arquitetos, que projetavam os edifícios e
por eles tinham responsabilidade fiscal, mas se viam sempre limitados ao terreno onde estavam
construindo.
Em conceituação para o entendimento de Desenho Urbano como uma disciplina de
estudo é importante ressaltar a visãode Hamid Shirvani (apud NOBRE, 2011, p.12) que define
DU como um campo multidisciplinar, que engloba o planejamento urbano, o paisagismo, a
arquitetura, engenharia de transportes, psicologia ambiental, desenvolvimento imobiliário,
direito urbanístico, etc., cujos elementos essenciais serão tratados mais à frente.
Já sob referência mais aprofundada, em seu livro “Introdução ao Desenho Urbano no
processo de planejamento”, Vicente Del Rio (1990) aponta como uma das características
básicas do Desenho Urbano a interdisciplinaridade. Embasado posteriormente sobre outros
teóricos: Cutler&Cutler (1983, p.81), que corrobora com a ideia central do item 1.2.1 deste
trabalho dizendo que “Desenho Urbano é a disciplina que lida com o processo de dar forma e
função a conjuntos de estruturas, bairros inteiros ou à cidade em geral” (CUTLER&CUTLER,
apud DEL RIO, 1990, p.53); Goodey (1979, s/p), geógrafo que destaca características básicas
do campo de atuação do Desenho Urbano; e por conclusão Kevin Lynch (1981), que se
utilizava da expressão “City Design”, para se referenciar a Desenho Urbano, e em sua última
obra afirma que Desenho Urbano “(...) se preocupa com objetos, atividades humanas,
instituições de gerenciamento e processos de transformação” (LYNCH, apud DEL RIO, 1990,
p.54); Del Rio finaliza a sua definição de Desenho Urbano como “campo disciplinar que trata
a dimensão físico-ambiental da cidade, enquanto conjunto de sistemas físico-espaciais e
sistemas de atividades que interagem com a população através de suas vivências, percepções e
ações cotidianas” (DEL RIO, 1990, p.54).
Assim, temos na evolução conceitual da disciplina de Desenho Urbano diversas
formas de abordagem para o tema, por diversos teóricos diferentes, entendido inicialmente
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como processo e por fim um estudo, disciplina propriamente dita. Porém, dentre estas, está
em conceituação mais atual, também apresentada por Hepner (2011):

Desenho Urbano é o estudo de como cidades alcançaram sua forma física e


os processos que tomam parte para renová-la. Desenho Urbano não é
meramente a arte de projetar cidades, mas o conhecimento de como as
cidades crescem e mudam. É o estudo de como as civilizações escolhem se
representar em forma espacial, e os processos através dos quais surgem
formas urbanas específicas. (CUTHBERT, apud HEPNER, 2011, p.34).

É no entendimento de “Disciplina de estudo”, portando, que o Desenho Urbano


encontra toda sua conceituação, sendo este entendimento base para a análise do “Desenho
Urbano como processo” e embasamento para as decisões e métodos adotados para o
“Desenho Urbano como modalidade de intervenção”.

1.1.3 Desenho Urbano – Modalidade de Intervenção

Olhando para a disciplina de Desenho Urbano de uma forma pragmática, podemos


encará-la como uma modalidade prática de intervenção. Retomando Alexandre Hepner em
seu Ensaio Crítico para o 10º Prêmio Jovens Arquitetos, na publicação “Public Places, Urban
spaces: the Dimensions of Urban Design”, Carmona expõe que “o Desenho Urbano deve ser
assumido como um meio pelo qual se produzem lugares melhores do que seriam
ordinariamente produzidos” (CARMONA, apud HEPNER, 2011, p. 31), reforçando a ideia
apresentada anteriormente de cada vez mais ocorrer hibridez no processo de Desenho Urbano
como formação do espaço e aponta ainda que esta disciplina transpõe “da teoria à prática”
(grifo do autor) (CARMONA, apud HEPNER, 2011, p. 31).
O autor Renato Saboya (2010) aponta em publicação do site “Urbanidades” que
segundo o livro “Urban Design: a typology of procedures and products” (LANG, apud
SABOYA, 2010, s/p) podemos classificar quatro tipos de Desenho Urbano:

 Desenho Urbano “total”


Onde uma única equipe controla todo o projeto e é considerado por Saboya uma
tipologia rara no Brasil.
 Desenho Urbano all of a piece
17

Onde uma equipe elabora um plano generalizado que norteia as intervenções


individuais de diversas outras equipes para frações de uma área global.
 Desenho Urbano piece-by-piece
Onde não há uma equipe projetual centralizadora, mas sim um controle pelo emprego
de zoneamentos, incentivos e penalidades. Neste caso, as decisões projetuais são
individuais tomadas por inúmeras pessoas ou equipes.
 Desenho Urbano plug-in
Ligado ao conceito de “acupuntura urbana”, onde intervenções pontuais são
consideradas promotoras de benefícios para todo o entorno.

Conforme apresentado inicialmente, será no entendimento de Desenho Urbano como


“Modalidade de Intervenção” que este trabalho se discorrerá em fase projetual. Assim sendo,
a tipologia de classificação que mais lhe é aplicável é o modelo plug in. Esta foi escolhida
devido a seu conceito que remete ao método de acupuntura urbana onde um conjunto de ações
e intervenções pontuais podem mudar positivamente o entorno de forma gradual e
progressiva, sarando os problemas de forma eficaz sem os transtornos das grandes
intervenções.
Tal conceito colabora para solucionar problemas urbanísticos causados, muitas das
vezes, pelo descuido na condução da tipologia piece-by-piece de Desenho Urbano que em
rápida reflexão, considero ser o mais usual nas nossas cidades. Este, pode ser considerado o
modelo que maior inspira cuidados, porém é o menos “trabalhado” em sua implementação,
sem haver, entre outros problemas, ações que “favoreçam a permeabilidade entre o público e
o privado”, conforme apontado por Saboya (2010, s/p).

1.3 Implementação do Desenho Urbano

Como exposto no início deste capítulo, além de uma carente definição, o conceito de
Desenho Urbano também sofre com a indefinição de instrumentos adequados para sua
implementação. Del Rio (1990) frisa que “ele deve vir sob forma de políticas, planos, projetos
e programas”.
Mais à frente faremos uma breve reflexão sobre a implementação do Desenho Urbano
como políticas e planos num cenário geral, sobretudo dentro das estruturas governamentais e
acadêmicas.
18

Aqui, com enfoque especial a aplicação prática de Desenho Urbano neste trabalho,
podemos observar que Del Rio (1990) expõe que tais projetos “podem ser orientados para
uma área ou território específico, (...) ou ainda, para uma temática específica como ‘áreas
verdes’, ‘sinalização’, ‘arborização e mobiliário’ ou, ainda, temas mais particulares como
‘relações nova edificação com contexto existente’, ‘localização de entradas/saídas de
garagens’, etc.” (DEL RIO, 1990, p. 107).
Neste sentido, retomamos Hamid Shirvani (1985) que, propondo a categorização de
elementos essenciais de composição do Desenho Urbano, facilita, segundo Del Rio (1990), a
implementação setorial dos programas, sugerindo as categorias de sua atuação e dando
margem para definição de critérios de qualidade setoriais. São estes:

1 – Uso do Solo
2 – Configuração Espacial
3 – Circulação Viária e Estacionamentos
4 – Espaços Livres
5 – Percursos de Pedestres
6 – Atividades de Apoio
7 – Mobiliário Urbano

Reflitamos então, sobre os instrumentos utilizados para composição do Desenho


Urbano em nossa cidade: Plano Diretores, Lei de Parcelamento e Uso do Solo, Código de
Obras, Lei de Zoneamento, entre outros. Todos tratam de determinações físico-espaciais, mas
carecem de abrangência para se atender a todos os elementos apontados acima. Mapas de
configuração e definição viária são propensos ao controle e determinação do tráfego de
veículos, mas não dão parâmetros e prioridade ao fluxo de pedestres. Assim, podemos
considerar que há uma grande limitação na amplitude e aplicação dos instrumentos
atualmente definidos para elaboração do Desenho Urbano na nossa cidade. Em olhar mais
amplo, tal limitação parece ganhar caráter nacional, quando em seu texto Del Rio (1990)
expõe que:

[...] são raros os casos em que se atinge mais do que um vestígio de


organização físico-ambiental coerente, pelas dificuldades inerentes nestes
instrumentos generalistas e pouco flexíveis, de tradição estática e mais
próprios ao funcionamento da cidade como um todo racional. Exceções
podem ser encontradas e, sem dúvida, deveriam ser a regra, como os
19

modelos desenvolvidos pelo Instituto de Administração Municipal (IBAM)


para cidades em Roraima [...] (DEL RIO, 1990, p.54).

Neste sentido o trabalho se organizará em fase projetual a partir dos elementos


abordados por Shirvani (1985), buscando aplicá-los na comunidade de Beira do Taí em
concordância às leis aplicáveis.

1.4 Perspectivas do Desenho Urbano

Compreendidas as atuais definições de Desenho Urbano, visto que ele é uma


disciplina do campo do saber voltada a estudar um processo ao qual a designação Desenho
Urbano também é aplicada, podemos observar por fim que este também é uma manifestação
política, na qual toda comunidade é chamada a participar de diversas maneiras e em diversos
momentos.
Esta ideia é defendida por Del Rio que ainda aponta duas áreas básicas e fundamentais
para a implantação do Desenho Urbano: dentro da estrutura administrativa governamental,
principalmente ao nível municipal, e na área acadêmica, “onde se expressa com maior
intensidade a educação do cidadão para lidar com a dimensão físico-ambiental das cidades.”
(DEL RIO, 1990, p. 118).

1.4.1 Desenho Urbano no Planejamento Municipal

Desde seu surgimento o Desenho Urbano esteve intrinsecamente ligado às questões de


planejamento urbano das cidades que, em reação aos problemas urbanísticos dos anos 60
(questão que será refletida com maior ênfase no próximo capítulo), necessitavam de políticas
intervencionistas menos destrutivas para a forma urbana já existente, com sua estrutura física
e população residente. Assim, o conceito de Desenho Urbano criado como disciplina no
campo do saber encontra seu real motivo de surgimento: fazer a interface entre o
planejamento urbano e a arquitetura, a fim de solucionar os problemas surgidos com a
conceituação modernista de cidade.
Segundo Nobre (2011), a partir de então, políticas de reconstrução modernistas
estabelecidas pelo CIAM, Concílio Internacional de Arquitetura Moderna, típicas do pós-
guerra, foram dando lugar às práticas de intervenção de Desenho Urbano que, com o passar
20

do tempo, se tornaram cada vez mais mecanismos de atração do capital. Tal fato, fruto da
necessidade dos governos locais e iniciativas privadas de transformar as cidades num
“produto a ser vendido”, as transformou em interessantes locais de estímulo ao crescimento
econômico e à criação de empregos. Nessas, “os principais beneficiários [...] foram os
proprietários, comerciantes, empreendedores imobiliários e do ramo do turismo”, como
aponta o professor Dr. Eduardo Nobre, o que levou à “atração de uma população abastada
para o consumo desse espaço [...]” resultando num “ [...] processo de valorização imobiliária e
elitização, que ficou conhecido pelo termo inglês gentrification (gentrificação).” (NOBRE,
2011, p.17)
Assim, o Desenho Urbano encontra na contemporaneidade problemas sociais iguais ou
piores aos que o fizeram surgir e só a aplicação de boas políticas públicas pensadas e
planejadas com/para a sociedade como um todo, são capazes de minimizar estes problemas e
ao menos seguir um caminho na busca de uma “cidade de todos”.
Neste âmbito, a implementação de leis como o Estatuto da Cidade5 é um grande passo
de política urbana que se esbarra, porém, na efetivação das ações por parte dos governos
municipais.
Vale ressaltar que os poucos instrumentos de implementação de Desenho Urbano das
nossas leis municipais e políticas públicas não satisfazem às necessidades que temos com
relação à vivência nas cidades. Determinação de zonas, usos, vias e afastamentos, não são
suficientes para se garantir o ordenamento adequado da configuração espacial da cidade;
cobrança de taxas ou políticas de outorga não garantirão por si só o adequado uso dos lotes e
o melhor aproveitamento de recursos. Para efetivação destes, são necessários políticas e
acompanhamentos mais cuidadosos, voltados para o cidadão. Políticas e ações sociais que
garantam ao indivíduo a segurança, qualidade de vida e reconhecimento de pertencimento ao
local onde vive. Nessas questões estão muitos dos atuais desafios do envolvimento de
Desenho Urbano com as políticas de planejamentos municipais da atualidade.

1.4.2 Visão acadêmica de Desenho Urbano

Tendo considerado as diferenças do campo disciplinar de Desenho Urbano, seu


surgimento, definições, conceituações e evolução, dos objetivos que o fizeram surgir como

5
Lei de N° 10.257, de 10 de julho de 2001 que “estabelece normas de ordem pública e interesse social que
regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos,
bem como do equilíbrio ambiental.” (BRASIL, 2001)
21

um processo de manifestação sobretudo política e como se desenvolveu até a


contemporaneidade, consideremos agora, que o seu entendimento e ensino nas diversas
universidades de Arquitetura e Urbanismo no país é diversificado e tal constatação causa
preocupação.
Em recente concurso nacional, cujo resultado é um dos motivadores da abordagem do
tema neste TFG, os organizadores divulgaram que: “Na avaliação dos jurados, a
heterogeneidade na maneira como o tema é tratado em diferentes instituições não é positiva.
Delinear esse cenário foi contribuição acessória da competição” (URBAN 21 - 1ª Edição.
2015).
Nesta competição, os grupos concorrentes tinham o desafio de elaborar, para uma área
existente - de no máximo 25 hectares, localizada num município brasileiro - de no mínimo
300 mil habitantes, uma proposta na modalidade de Desenho Urbano. Como resultado do
concurso, a matéria intitulada como “Revelações do Urbanismo”, da qual o trecho acima faz
parte, revela a preocupação dos jurados com a disparidade do ensino da disciplina no país.
Nas principais considerações dos jurados a lacuna que há no ensino de Urbanismo em
todo país e a baixa qualidade dos projetos enviados por instituições do Nordeste são os
principais pontos de preocupação sobre os quais a sociedade acadêmica deve se debruçar.
Por outro lado, o alto número de inscritos foi apontado como um ponto de surpresa
positiva do concurso, junto à preocupação não rodoviarista de mobilidade urbana e da
consolidação da consciência de recuperação ambiental por parte dos participantes. “Os
estudantes estão buscando entender melhor o urbano”, apontou a jurada Elisabete França, que
defende a ideia da lacuna no ensino, exposta na avaliação do concurso.
É válido acreditar que iniciativas como a promoção e participação em concursos deste
cunho estimularão o conhecimento e a prática de Desenho Urbano no país. A participação de
nossa instituição no concurso trouxe novamente a integração entre as disciplinas, fazendo do
Urbano a disciplina integradora, embora ainda não haja na grade curricular, até o momento,
uma disciplina de projeto integrado sob a ótica do Desenho Urbano.
Em amostragem comparativa, embora reduzida, a partir da análise superficial das
demais equipes participantes do concurso, podemos observar que o entendimento do tema
com relação a outras universidades de Arquitetura e Urbanismo do município também é
divergente, onde trabalhos de produtos distintos e díspares foram apresentados.
Este trabalho se propõe, portanto, a discorrer sobre o conceito de Desenho Urbano e
sua faceta de integração entre os campos do saber, Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, se
propondo a servir de reflexão básica a divergir com o “vazio” entre a Arquitetura e o
22

Urbanismo que fez com que o conceito surgisse na década de 60. Além disso, busca abordar
critérios para sua aplicação nas intervenções urbanas do nosso cotidiano, com intuito de se
projetar coletivamente uma cidade de maior qualidade de vida.
23

2 IMPORTÂNCIA DO LOCAL E DA VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE LOCAL


PARA A ELABORAÇÃO DE PROJETOS NA CONTEMPORANEIDADE –
REGIONALISMO CRÍTICO

2.1 Crítica à visão moderna de cidade

Como visto no capítulo anterior, foi em reação aos problemas trazidos com a visão
moderna de cidade que nasceu o conceito de Desenho Urbano, abordado até então neste
trabalho. Tal disciplina surge como forma de trazer novos preceitos para elaboração de
projetos pós-guerra num mesmo contexto que Jane Jacobs publica seu livro “The Death and
Life of Great American Cities” (1961).
Moradora e ativista do SoHo, bairro de Manhathan na cidade de Nova York, sua
preocupação com os impactos que o planejamento urbano baseado no rodoviarismo e a
especulação imobiliária traziam para a cidade a levaram a estabelecer parâmetros
considerados importantes e atuais até os dias de hoje. Sua atenção para a destruição da
diversidade urbana, que as práticas modernistas ocasionavam, a fizeram apontar que esta
ocasionaria a “morte” da cidade, pois era a diversidade de usos e vivência social que trazia
segurança para as ruas, otimização dos espaços e presença de atividades econômicas
diversificadas para as cidades.
Junto aos problemas tratados por Jacobs: alta valorização do rodoviarismo, propensão
à especulação imobiliária e divisão da cidade em áreas funcionais com consequente destruição
da diversidade urbana; está um outro conceito modernista criticado aqui: o de universalização
das construções. Este, não tratado em nenhum momento quando observamos o conceito de
Desenho Urbano, terá enfoque principal neste capítulo e será abordado fundamentalmente a
partir do conceito pós-moderno de “Regionalismo Crítico”.

2.1.1 O Regionalismo Crítico

Uma tipologia universal de alta adensamento populacional e gabarito elevado, este é o


Estilo Internacional, altamente propugnado pelos CIAM’s; produtos, materiais, metodologias
e técnicas universalizados e massificados por um processo de “homogeneização do ambiente
construído”, estimulados pelo ainda atual fenômeno da globalização: é em contrapartida às
24

apresentações anteriores que o conceito de Regionalismo Crítico é aqui abordado como uma
busca de se embasar teoricamente as decisões projetuais deste trabalho, em que o local onde
está inserido e suas condicionantes deverão ser o principal norteador das formas, materiais,
tecnologias, partido, do estudo preliminar proposto.
Difundido por Kenneth Frampton em texto da década de 80, mas inicialmente usado
pelo arquiteto Alexander Tzonis e pela historiadora Liane Lefaivre, “em oposição a um
regionalismo consolidado como estilo e ‘como resposta aos novos problemas criados pela
globalização contemporânea’”, conforme apontado por Claudia Peterlini em sua resenha de
2010 sobre o livro "Perspectivas para um Regionalismo Crítico" de Frampton (1983), o termo
Regionalismo Crítico vem ao encontro do problema da “perda de região”, logo, perda da
identidade local com a propagação das ideias modernistas e de globalização.
Em "Perspectivas para um Regionalismo Crítico" o autor parte da constatação de que
"nem toda cultura pode suportar e absorver o choque da civilização moderna" (FRAMPTON,
apud PETERLINI, 2010, p.01) chegando assim ao paradoxo de como conseguir se modernizar
sem perder as suas origens, sem perder sua razão de ser. Assim, ele defende a ideia de
“fertilização recíproca e reinterpretação” (FRAMPTON apud PETERLINI, 2010, p.02) com
embasamento nas ideias do filósofo francês Paul Ricoeur que defende que o
“desenvolvimento da cultura regional somente é possível quando uma cultura é ‘capaz de
recriar uma tradição de raízes locais e ao mesmo tempo apropriar-se das influências
estrangeiras, seja no plano da cultura seja no da civilização’” (FRAMPTON, apud
PETERLINI, 2010, p.02).
Para Frampton, o arquiteto suíço Mario Botta é emblemático neste contexto. Sua obra
“harmoniza-se surpreendentemente com o lugar no qual se insere pelo fato do arquiteto
muitas vezes se utilizar de formas e até mesmo tipos que remetem à tradição local ou (...) à
antiga tradição que não mais está ali, mas é a verdadeira essência do lugar” (PETERLINI,
2010, p.03).
A defesa de Frampton baseia-se no conceito de um regionalismo onde uma sociedade
reconhece o mundo globalizado e se reconhece a si mesma, sendo capaz de absorver as
influências, adaptando-as à sua própria cultura enraizada. Além disso, a resenhista Claudia
Peterlini (2010, 0.03) recorda que “Frampton acentua em grande parte de seu ensaio a
importância que o lugar deve exercer na arquitetura. O arquiteto deve buscar perceber em
cada lugar sua especificidade e sua obra deve emitir, liberar, a essência do terreno no qual se
encontra”. Neste ínterim, “as obras do português Álvaro Siza e do mexicano Luis Barragán
25

são citadas como grandes exemplos do compromisso da arquitetura com lugar no qual se
insere”. Para Álvaro Siza, Frampton escreve:

[…] Siza parece ter conseguido alicerçar seus edifícios na conformação de


uma determinada topografia e na refinada especificidade do contexto local.
[…] Igualmente importante é a extraordinária sensibilidade de Siza aos
materiais locais, ao trabalho artesanal e sobretudo, à sutil luminosidade da
região – a sensibilidade a um tipo de filtragem e penetração da luz
(FRAMPTON, apud PETERLINI, 2010, p.03).

E completa sobre a arquitetura do mexicano e a importância da materialidade da


arquitetura:

[...] Barragán sempre se preocupou em fazer uma arquitetura sensual e


mundana; uma arquitetura feita de espaços fechados, marcos, fontes, curso
d'água, cores saturadas; uma arquitetura assentada na rocha vulcânica e na
vegetação exuberante; uma arquitetura que remete apenas indiretamente à
estância colonial mexicana (FRAMPTON, apud PETERLINI, 2010, p.03).

Em ambas as citações, é possível observar a paixão do autor pela forma com que os
projetistas trataram de sutilezas dos seus projetos, tais como: materiais, filtragem da luz, solo
e vegetação do entorno; sutilezas porém que traduzem o sentimento de exclusividade local e o
quanto as obras são estritamente de valorização regional.
Seguindo este viés, Frampton cita outro arquiteto que, segundo ele, formulou em sua
obra teórica com mais clareza que qualquer outro profissional de sua geração, preceitos muito
próximos da ideia do regionalismo crítico: Tadao Ando, arquiteto japonês que “considera a
essência de sua cultura na forma sutil como trabalha as relações espaciais internas, os
materiais, e a importância dada à luz para a apreensão do todo significativo de sua obra.’”
(FRAMPTON, apud PETERLINI, 2010, p.04).
Porém, tendo tido como ponto de partida a crítica ao Estilo Internacional e já tendo
sido vencidos este e outros paradigmas do modernismo, por que Regionalismo Crítico deve
ser considerado ainda hoje? “Porque Regionalismo Crítico Hoje?” é o título do texto de
Tzonis e Lefaivre onde a ideia de antinomia é usada para a definição de Regionalismo Crítico,
apontando a dualidade do conceito que prega a conservação das características locais, mas
também a abertura das mesmas para as influências externas, a fim de não se perder e ficar à
26

mercê do desenvolvimento arquitetônico local e fechado. Tais considerações de cunho


filosófico e aprofundamento teórico não deverão ser tratados aqui, mas é válido destacar que:

O Regionalismo Crítico define-se como "um regionalismo que se examina a


si mesmo, se questiona e se julga, que não enfrenta somente o mundo, mas
também a si mesmo" – o regionalismo só é crítico porque crítico de si
próprio (PETERLINI, 2010, p.05)

Todavia, voltando à indagação inicial do parágrafo anterior: se foi como crítica ao


Estilo Internacional e às práticas modernistas totalizantes, que surgiu o Regionalismo Crítico,
e tendo já como vencidos tais preceitos na sociedade atual, por que ainda hoje “Regionalismo
Crítico”? Proponho aqui, então, uma reflexão sobre a forma com que encaramos a arquitetura
contemporânea e sua aplicação em uso discriminado de tecnologias e materiais construtivos
que chegam até nós por meio da globalização. Será mesmo que não cometemos os mesmos
erros da busca da universalização que cometeram nossos predecessores modernistas?
Considero válido recordar aqui o uso indiscriminado de esquadrias de vidro e alumínio
em nossos fechamentos, o uso do vidro quase sempre verde ou espelhado em nossas fachadas,
a necessidade do emprego de formas mirabolantes e aleatórias não condizentes com a
realidade do entorno onde se inserem, a quase que abolição do uso de telhados aparentes em
nossas construções para que sejam consideradas contemporâneas, dentre outros preceitos
projetuais que muitas vezes seguimos para se admitir a contemporaneidade de nossos
projetos. Será mesmo que estamos analisando criticamente as decisões projetuais que nos
levam a estas definições e observando se são compatíveis com o local onde se inserem?
O conceito de Regionalismo Crítico é adotado portando, para respaldar as decisões
projetuais que buscam aproveitar e valorizar as habilidades artesanais e de mão de obra local;
os materiais e modo de viver da comunidade; as condicionantes físicas das áreas de
intervenção e a memória dos futuros usuários.

2.2 Valorização da importância e identidade local nos projetos contemporâneos

Vimos anteriormente toda abordagem sobre o termo “Regionalismo Crítico” em crítica


a preceitos modernistas e sua perpetuação em contrapartidas e decisões projetuais
influenciadas pelo processo de globalização.
27

É certo que, como defende Arcipreste (apud MACEDO, 2016), “ainda hoje persistem
no imaginário social e na prática do arquiteto valores ligados à racionalidade e a artisticidade
das produções, destacando a primazia da autoria, centrada no papel do projetista como criador
de espaços e formas”, onde a figura do autor é tida como “dominador, articulador, modelador,
senhor do espaço este último, objeto mudo de manipulações formais, como derivação da
fragmentação cartesiana entre sujeito e objeto”. Todavia, é percebido que, com o avançar do
tempo, posicionamentos de arquitetos que divergem dessa imagem figurativa vêm ganhando
admiração e respeito no meio profissional como um todo.
Tal pensamento surge a partir da análise do vencedor do último Pritzker6, o arquiteto Comentado [WU1]: não se esqueça de deixar claro que
prêmio é esse, mesmo que seja em rodapé (na primeira vez
chileno Alejandro Aravena, cujo trabalho se destaca por forte preocupação social e excelente que o citar)

diálogo entre as propostas projetuais e o entorno onde estão inseridas.


É fato que não só neste ano, mas já há algum tempo, há uma transformação na
valorização dos nomes laureados pelo maior prêmio da arquitetura mundial: Tadao Ando e
Wang Shu são outros exemplos de nomes cujas premiações valorizam não só a persona do
arquiteto, mas também a concepção de se evidenciar com a arquitetura características locais
ou dela fazer um mecanismo para melhoria de vida das pessoas.
Tadao Ando, ganhador do prêmio em 95, cujos méritos foram expostos no capítulo
anterior, pode ser considerado um dos precursores dessa corrente de valorização do regional,
de identidade própria e local. Além dele, Wang Shu laureado em 2012, teve como membro
participante da comissão julgadora que premiou seu trabalho a arquiteta Zaha Hadid (Prêmio
Pritzker 2004) que apontou seu trabalho como destaque, dizendo: “o trabalho de Wang Shu se
destaca pela combinação de força escultural com sensibilidade contextual. Seu transformador
uso de materiais e motivos tradicionais é extremamente original e estimulante”.
O histórico profissional de Wang Shu também nos mostra uma fundamentação
importante da personalidade do arquiteto. Tendo trabalhado por anos como operário no ramo
da construção, seu objetivo era adquirir conhecimento do processo construtivo a fim de
aperfeiçoar sua capacidade como projetista. Além disso, o título de seu escritório: “Amateur
Architecture Studio” ou “Escritório Amador de Arquitetura”, em tradução livre, nos revela o
âmago do profissional laureado de buscar tão somente fazer um trabalho “amador”. Termo
este para ele muito mais voltado ao sentido “amante”, “aquele que ama” da palavra, do que de
qualidade da construção proposta, pois como defende: a “arquitetura profissional” tende a

6
Prêmio internacional entendido como o Nobel da Arquitetura
28

pensar muito no edifício e pouco na residência, no sentido de lar, que pode haver em qualquer
tipologia de construção.
Na figura 3, observamos o Museu Histórico Ningbo, projeto de Wang Shu, onde
materiais provenientes das antigas construções que ocupavam o local foram reutilizados na
construção e revestimento do edifício atual. Em texto, de Alejandro Ravena, à época também
membro da comissão julgadora de Wang Shu, é apontado que “essa técnica não só tem
sentido em termos de sustentabilidade, como também introduz uma certa “história” na
construção, ao dar às fachadas uma espécie de “overdose de tempo” sem ter que esperar o
envelhecimento” e que o autor do projeto “disse que estava recuperando uma tradição que
estava desaparecendo, que consistia em usar matérias sobrantes de desastres naturais como
terremotos ou tufões, colocando tijolos, telhas ou pedras, capa sobre capa para reparar uma
rachadura ou cobrir um buraco” (RAVENA apud FERNANDES, 2012, s/p).

Figura 3 - Museu Histórico de Ningbo - Wang Shu

Fonte: Archdaily, 2015

Por fim e mais atualmente, a divulgação do laureado para o Pritzker 2016 nos revela
que a valorização da volta às origens não está apenas no âmbito da originalidade plástica e
consciência ambiental, mas sobretudo na preocupação com os dilemas sociais para os quais os
profissionais arquitetos podem e devem contribuir.
29

Sendo contemplado com o prêmio o arquiteto chileno Alejandro Ravena, suas obras e
preocupação de cunho social o levaram ao topo máximo do reconhecimento da arquitetura
mundial: "Seu trabalho dá oportunidade econômica aos menos privilegiados, alivia os efeitos
de desastres naturais, reduz o consumo de energia e proporciona espaços públicos agradáveis"
(PRITZKER, 2016, s/p). E ainda: "Aravena mostra como a arquitetura pode melhorar a vida
das pessoas" (PRITZKER, 2016).
Em matéria intitulada “’Puxadinhos’ rendem o Pritzker ao arquiteto Alejandro
Ravena” o repórter Marcelo Moura expõe as frases descritas no parágrafo acima em
reportagem publicada no site da revista Época que ainda lembra uma entrevista do arquiteto
premiado à mesma revista no ano de 2014 defendendo a “incrível energia e capacidade de
construir sua própria moradia” das favelas e dizendo que "a arquitetura tem que canalizar essa
energia, ao invés de resistir" (RAVENA, apud MOURA, 2014, s/p).
Fato é que a extrema criatividade do arquiteto e sua equipe em dar solução ao déficit
financeiro para se construir nas áreas centrais, onde projeta conjuntos residenciais de cunho
social, faz parecer ser passível de solução qualquer um dos problemas sociais que
enfrentamos em nosso cotidiano profissional: um projeto de conjunto de casas com o mínimo
possível para se viver, mas deixando previsão estrutural para ampliações por parte dos
moradores. Uma solução inovadora e eficaz que garante a viabilidade da proposta e a relação
de pertencimento com a residência construída por parte do morador (Figura 04).
Essa solução de criatividade sem precedentes é indicada como principal força motora
que levou o prêmio pela primeira vez a um arquiteto chileno e pela quarta vez a um
representante latino americano, sendo seus predecessores: (1980) Luis Barragán - mexicano,
já visto neste trabalho em citações de Frampton e sua evocação à materialidade da arquitetura;
(1988) Oscar Niemeyer - brasileiro, ícone da arquitetura nacional que, mesmo em suas obras
modernistas, muitas vezes assumia a união com elementos e outras artes que evidenciavam
certa caracterização local; (2006) Paulo Mendes da Rocha - brasileiro, que em sua linguagem
modernista, sempre fez uso de materiais simples.

Alejandro Aravena sintetiza o renascimento de um arquiteto mais


socialmente engajado [...] Ele tem profundo conhecimento tanto de
arquitetura como da sociedade civil, algo que se reflete em seus escritos, seu
ativismo e seu projetos. O papel do arquiteto está agora sendo desafiado a
servir a necessidades sociais e humanitárias maiores, e Alejandro Aravena
tem respondido a este desafio de modo claro, generoso e pleno. (JURI
PRITZKER, apud EQUIPE EDITORIAL ARCHDAILY, 2016, s/p).
30

Tal solução é evidenciada abaixo, onde as residências entregues ao término da fase


inicial de obras (parte superior da figura 4) são ampliadas e personalizadas pelos moradores
que a completam conforme seus desejos e necessidades (parte inferior da figura 4).

Figura 4 - Habitação Villa Verde - Elemental

Desta 2016
Fonte: Época, forma, paradigmas de estrelato para grandes obras de proporções faraônicas e
soluções complexas dividem cada vez mais espaço com a valorização e reconhecimento de
soluções simples, criativas e resolutivas no campo de trabalho onde devemos e precisamos
encontrar maior área para frutificação de nossos projetos e propostas contemporâneas: os
problemas e carências da sociedade que nos circunda.
31

3 CARACTERIZAÇÃO E DIAGNÓSTICO

3.1 Origem e desenvolvimento da comunidade

A comunidade a qual se destina este trabalho se localiza no 4º Distrito de Campos dos


Goytacazes/RJ, do qual São Sebastião é a sede, fazendo divisa com o 5º Distrito de São João
da Barra/RJ, sede Pipeiras (Figura 5), e marca em seu nome as origens de sua localização:
Beira do Taí.

Figura 5 - Mapa de Localização

CAMPOS DOS
GOYTACAZES
Beira do Taí Pipeiras
5º Distrito
SÃO JOÃO DA BARRA
São Sebastião
4º Distrito

Fonte: Arquivo pessoal. 2016. Elaborado a partir do Google Maps

Uma comunidade interiorana que se desenvolveu às margens das águas. A origem da


comunidade tem relação intrínseca, porém quase esquecida, com as águas do Taí, inicialmente
lagoa e atualmente canal. Desde às obras de drenagem da margem direita do Paraíba do Sul,
32

ocorridas até o ano de 1977, aos descartes irregulares de rejeitos da Usina Barcelos a ação do
homem foi reduzindo e subutilizando aquela que antes era pequena apenas em nome, Lagoa
do Taí Pequeno, e agora tem sua utilidade e uso minimizados, Canal São Bento, ao qual
comumente se é chamado “rio Taí”.
Na figura 6, podemos observar a imagem do Projeto da Comissão de Saneamento da
Baixa Fluminense, do ano de 1939, elaborado e executado pelo Departamento Nacional de
Obras e Saneamento (DNOS). No destaque, foram realçados o traçado do Rio Paraíba do Sul,
o contorno da Lagoa do Taí Grande, ainda existente, Lagoa Taí Pequeno e o traçado projetado
sobre essa mesma lagoa para o atual canal.

Figura 6 - Projeto de Drenagem da margem direita do Paraíba e Detalhe

Comunidade
de Beira do Taí

Rio Paraíba do Sul

Traçado do canal

Lagoa Taí Pequeno

Lagoa Taí Grande


Fonte: Acervo DNOS, apud Arthur Soffiati (2015, p.14)

Tal intervenção, apontada em entrevista pelo professor Alceí Viana, licenciado em


Geografia pela UNIVERSO – 2010 e pós-graduado em educação do campo pelo IFF - 2014,
33

em citação a Soffiati (2007), teve como objetivo a drenagem de toda a margem direita do Rio
Paraíba do Sul, onde terras férteis imergiram não só da Lagoa Taí Pequeno, como de várias
outros lagoas e áreas alagadas, atendendo aos objetivos econômicos da época. A figura 7
mostra o antes e o depois da execução do projeto de drenagem, embora não represente a
Lagoa Taí Grande, remanescente das antigas lagoas da baixada que resiste até os dias atuais
como observado em imagem de satélite (Figura 8).

Figura 7 - Lagoas da Baixada antes e depois do projeto de drenagem

Fonte: Adaptado de Alcance a Geografia

Figura 8 - Lagoa do Taí Grande atualmente

BE IRA DO TAÍ

Fonte: Google earth


34

Tais terras propiciaram à agricultura, sobretudo o plantio da cana de açúcar, que foi a
base econômica de desenvolvimento da comunidade de Beira do Taí. As áreas não
construídas dividem-se basicamente em plantações de canaviais, que foram perdendo espaço e
hegemonia ao longo do tempo, e pastos para criação de gado de corte e leiteiro, fonte de
economia secundária da comunidade que ganhou maior espaço após o fechamento da Usina
Barcelos no ano de 2008.
Tal usina, localizada na BR 356 Campos-São João da Barra, é a mais próxima da
comunidade tendo sido o principal fomento para as plantações de cana de açúcar e uma das
principais responsáveis pelo desenvolvimento inicial da região (Figura 9). Além disso, é
também responsável pela atual eutrofização das águas do canal, cuja superfície é quase
totalmente recoberta por plantas aquáticas que se aproveitam do excesso de nutrientes da água
para se desenvolver e proliferar.

Figura 9 - Mapa de Relação com Usina Barcelos

BR 356

Usina
Barcelos
BR 356
CAMPOS DOS
N GOYTACAZES

Beira do Taí

2.500 5.000
0 10.000

Canal
São Bento

Fonte: Arquivo pessoal. 2016. Elaborado a partir do Google Maps


35

Tal fenômeno ocorre devido aos descartes de rejeitos de limpeza dos silos da usina
lançados direto nas águas do Paraíba do Sul, cujo Canal São Bento é afluente imediatamente
após à usina. “Os rejeitos com alto teor de material orgânico e, por consequência,
considerável quantidade de fertilizantes deixam a água enriquecida de nutrientes
(entronizada), aumentando a proliferação e desenvolvimento das macrofitas”, como aponta
PESTANA (2016)7 em relato oral. Como resultado deste fenômeno, o canal tornou-se
inviável à navegação na maioria de seu curso e de difícil uso para pesca e outras atividades de
lazer.
Junto a estes, agricultura da cana-de-açúcar e criação de gados para corte e leite,
podemos citar como outra atividade da comunidade a agricultura de subsistência. Há tempos
mais expressiva, vem perdendo força ao longo dos anos assim como a fabricação de alimentos
manufaturados e quitutes, como queijos, doces e salgados. Soma-se a tais atividades, a
fabricação de tijolos cerâmicos e a comercialização de produtos básicos para o dia a dia e de
serviços, materiais para construção civil, móveis e eletrodomésticos.
Além das atividades econômicas que movem a comunidade, a mesma sempre foi um
pequeno polo de educação básica e fundamental: possui dois centros educacionais, uma
creche-escola e uma escola fundamental do 1º ao 5º ano, ambas públicas. Estas, além de
receber crianças e professores de vários lugares distintos, levam à comunidade condições
diferenciadas de transporte público ao se comparar com as comunidades vizinhas.
No que tange a sua infraestrutura, a comunidade passou a contar a partir da penúltima
década, com asfalto em suas vias centrais e principais acessos, sendo este hoje o principal
motivo de insatisfação da comunidade para com o poder público devido à precariedade atual
do mesmo. Além de asfalto, a partir do mesmo período, a comunidade passou a contar com
água encanada e melhoria da iluminação pública, esta última, também apontada como
insatisfatória.
Atualmente, a comunidade tem uma população majoritariamente adulta, maioria
feminina e de oscilação interessante entre população permanente integral, permanente parcial
e população flutuante, como veremos mais adiante. Conta também com duas igrejas, Católica
e Batista, que foram crescendo e tornando-se referência local com o avançar do tempo,
trazendo à comunidade contribuições para seu desenvolvimento e marcando em seus
moradores um traço bastante forte de religiosidade.

7 O Biólogo Inácio Pestana é mestre (2011) e doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela UENF.
36

3.2 Entorno da comunidade e influência local

Como citado, a comunidade de Beira do Taí fica localizada no 4º Distrito de Campos


dos Goytacazes, sendo seus vizinhos imediatos: comunidade de Pipeiras, 5º Distrito de São
João da Barra, comunidade de Monte Negro e comunidade da Balança do Jair, ambas também
pertencentes ao 4º Distrito de Campos. Seus principais acessos se dão pela estrada Campos-
Farol, RJ 216, desviando na altura de Goitacazes, ou pela BR 356, na altura de Martins Laje,
Barcelos ou Caetá, (Figura 10).

Figura 10 - Relação de proximidade com entorno e principais acessos

Fonte: Arquivo pessoal. 2016. Elaborado a partir do Google Maps

Em média, a distância da comunidade para o centro da cidade de Campos é de


aproximadamente 30 Km e a mesma possui maior vínculo e proximidade com as praias do
litoral sanjoanense do que com a praia campista, Farol de São Tomé. Tais praias são os
principais destinos de veraneio de parte da comunidade que se muda ou passa finais de
semana no litoral durante esta estação do ano.
37

O percurso entre o centro de Campos e a comunidade oscila entre 45 minutos e 1 hora


e 15 minutos, a depender do meio de locomoção: carro particular ou transporte público,
respectivamente; e horário de circulação da linha: podendo chegar a quase 2 horas em
horários de picos e dias úteis da semana para o transporte público. Tal oscilação se dá devido
a linha Terminal Rodoviário Roberto Silveira X Beira do Taí ser uma linha que percorre
quase toda a Av. 28 de Março, principal da cidade, passando pela comunidade de Goitacazes
e, visitando, em alguns horários, boa parte do 4º Distrito de Campos, até chegar ao seu ponto
final (Figura 11). Tal percurso é feito cotidianamente por trabalhadores e estudantes que saem
ou vêm à comunidade para realizar suas atividades, além de outros moradores que vão ao
centro da cidade à procura de maior variedade de produtos e serviços, pagamentos de contas e
atividades de lazer.

Figura 11 - Esquema de percurso do transporte público até a comunidade

Terminal Rodoviário “Beira Valão”


Roberto Siqueira Av. José Alves de Azevedo

Av. 28 de março Pq. Tropical Donana Goitacazes


Pq. Imperial Nova Goitacazes

São Sebastião Poço Gordo Veiga


Pq. Poço Gordo

Barra Baltazar Espinho Olhos d’Agua Cupim


do Jacaré Balança Usina Taí
do Jair

BEIRA DO TAÍ

Fonte: Arquivo pessoal. 2016. Elaborado a partir do Google Maps

Todas as comunidades do entorno se equiparam à comunidade de Beira do Taí em


infraestrutura, número populacional e pouca variedade de atividades e serviços, havendo certa
disputa para a primazia e atendimento abrangente na instalação de equipamentos, estruturas e
38

construções de apoio, como: unidades de ensino, posto de saúde, percurso das linhas de
ônibus, etc. Estas ocorrem, principalmente para as comunidades da Balança do Jair e Espinho,
historicamente mais ligadas à comunidade de Beira do Taí.
Como abordado anteriormente, é na comunidade de Beira do Taí que se encontram,
para as proximidades, as duas instituições públicas de ensino básico e fundamental. Além
dessas, atraem uma quantidade significativa de visitantes para a comunidade: a
disponibilidade de emprego (nas mercearias, na cerâmica, e também em serviços públicos
como motorista para ambulância, zelador para banheiro público, bombeiro para torre de água,
etc.) e serviços (como barbeiro, manicure, quituteiras, entre outros).
Além destes, as igrejas exercem também bastante influência local movimentando a
comunidade e seu entorno. A capela católica, dedicada ao santo padroeiro da baixada
campista, Santo Amaro, movimenta anualmente festa em honra ao mesmo que, além de
acolher número considerável de fiéis originários da comunidade em regresso para os festejos,
recebe esporadicamente visitantes em caminhada rumo à Santo Amaro, comunidade
localizada na estrada Campos-Farol. Assim como esta, a igreja Batista movimenta
semanalmente expressivo número de fiéis que vão à Beira do Taí toda manhã de domingo
para suas práticas religiosas.

3.3 Localidade de Beira do Taí – Estrutura Físico Ambiental

Com o objetivo de se compreender a estrutura físico ambiental da comunidade


analisando sua infraestrutura básica, elementos de composição e imaginabilidade foram
elaboradas as informações gráficas que seguem: mapas, esquemas e fotografias. Estas,
corroborarão para a definição conceitual das propostas projetuais que veremos mais adiante.
Tais informações seguem os princípios básicos de análise do espaço aprendidos
durante o curso de Arquitetura e Urbanismo, buscando fazer a eles um link com os princípios
de imaginabilidade do espaço, elaborados por Kevin Lynch em seu livro “A imagem da
cidade”. Assim sendo, os mapas aqui apresentados são tanto resultado de minha observação e
análise, como morador e estudioso, cujo objeto neste trabalho é a própria comunidade de
Beira do Taí, quanto fruto em síntese das conclusões e resultado dos mapas mentais
elaborados por outros moradores, que será apresentado mais adiante. Comentado [WU2]: o que será apresentado
39

Portanto, as informações gráficas que seguem, buscam alinhar a análise pré-projetual


do ambiente e do entorno com a percepção e vivência dos mesmos por parte dos seus atuais
usuários.

3.3.1 Vias e Limites

A configuração viária da comunidade é simples e extremamente inteligível. Sua


estrutura se dá a partir de um trevo central, do qual se estende toda a comunidade. Em
distribuição de adensamento e dimensão distintos, estende-se majoritariamente a via sudoeste,
depois a de sentido noroeste e, por fim, a via no eixo sudeste (Figura 12).
Todas essas três vias são consideradas pela população como “Rua Principal”,
possuindo ramificações habitadas apenas a via noroeste, cuja ramificação é conhecida como
“Estradinha” e a via sudoeste, cuja ramificação é chamada de “Estrada dos Machadinhos”.
Vale ressaltar que algumas das vias possuem nome oficial, não utilizados ou mesmo
reconhecidos pelos serviços de correspondência e população. Assim sendo, são oficialmente
denominadas: Av. Júlio de Souza Rangel a via noroeste; Travessa Antônio Azeredo Sobrinho,
sua ramificação; e Avenida Manuel Machado Moço a via sudoeste. São ainda parte da RJ 196
o eixo de vias sudeste (não batizada) e noroeste (Av. Júlio de Souza Rangel), conforme
demonstra a figura 13.

Figura 12 - Perspectiva geral com destaque de vias principais da comunidade

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


40

Figura 13 - Perspectiva aérea da comunidade com identificação de vias

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

As vias principais tem perfil simples, com asfalto em condições medianas na maioria Comentado [WU3]: têm

de sua extensão, caixa de rolamento de aproximadamente 7,5m e divisão em duas faixas de


sentidos opostos, atuando como vias de circulação. São equipadas com redutores de
velocidade em alguns pontos próximos a área central da comunidade (Figura 14) e contam
com espaços de calçada que variam de 2,35m à 4,50m. Estes, interligados diretamente ao
asfalto da caixa de rolamento ou divididos por paralelepípedos caiados conforme perfis
apresentados na figura 15 e registros fotográficos de figura 16.

Figura 14 - Perfis das vias principais de circulação

PONTO DE INDICAÇÃO
DO PERFIL
Levantamento in loco com vista a partir do centro da comunidade
41

/ PERFIL A PERFIL B

1,5 2,45 7,5 2,0 2,5 3,5 7,5 3,0

A.1 A.2 B.1 B.2

PERFIL C PERFIL D

1,0 2,0 7,5 2,0 1,5 1,95 1,2 7,0 2,5 1,0

C.1 C.2 D.1 D.2

PERFIL E PERFIL F

2,45 1,4 7,5 2,2 1,5 1,75 7,0 1,9 1,8


0,95
E.1 E.2 F.1 F.2
42

PERFIL G PERFIL H

1,75 7,0 4,0 2,5 4,0 7,5 2,5


0,65 0,85
G.1 G.2 H.1 H.2

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Figura 15 - Registros fotográficos calçadas Vias Principais

A.1 A.2

B.1 B.2
43

C.1 C.2

D.1 D.2

E.1 E.2

F.1 F.2
44

G.1 G.2

H.1 H.2

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Como podemos observar nos registros fotográficos acima o estado de conservação das
vias em alguns pontos é precário, há inúmeros obstáculos nos espaços de calçadas e estas
mesmas não contam com infraestrutura básica de regularização.
Além de trechos danificados do asfalto para circulação dos veículos, que podem ser
observados em partes das imagens H.1 e H.2 e são encontrados em vários pontos da
comunidade, principalmente nos trechos de acesso, os espaços das calçadas não contam com
pavimentação, sendo geralmente recobertos por vegetação gramínea e forrações ralas,
possuem desnível irregular (E.1), estão obstruídos por lama (imagem G.2), vegetação mais
altas e entulhos ou com tampões de fossas sépticas como vistos nas imagens B2 e D2.
Ramificadas as vias principais observa-se outras duas tipologias: as vias habitadas e as
vias não habitadas. As vias habitadas, conforme citadas anteriormente conhecidas como
“Estradinha” (Figura 16) e “Estrada dos Machadinhos”, atuam como vias locais, têm caixa de
rolamento com menos de 5,00m e são pavimentadas com paralelepípedos, possuindo espaço
de calçadas reduzidos.
45

Figura 16 - Entrada da "Estradinha"

PONTO DE
IDENTIFICAÇÃO DA
FOTOGRAFIA

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

As vias não habitadas, possuem duas tipologias: as chamadas “aceiros” e as vias


primitivas de circulação (Figura 17). Os aceiros são acessos exclusivos a pastos ou plantações
particulares, atuando assim como vias locais de pouca extensão, com caixa de rolamento
menor que 3m, sem pavimentação ou espaço para calçadas. As vias primitivas de circulação
são vias também não pavimentadas, porém mais largas, de acesso a antigas áreas de moradia
onde atualmente se encontram propriedades com plantações e pastos para criação de gado.
Estas últimas, diferentes dos aceiros, não possuem interrupção de percurso: embora não
representado na imagem que segue, conectam-se com outras vias.

Figura 17 - Aceiros e Vias primitivas de Circulação

ACEIROS
VIAS PRIMITIVAS DE CIRCULAÇÃO
Fonte: Arquivo pessoal. 2016.
46

Referencialmente, são as vias o que mais definem a imagem da comunidade para os


moradores que participaram da elaboração de mapas mentais. A estruturação da comunidade a
partir do trevo central é unânime para aqueles que a representaram em planta.
Na imagem abaixo (Figura 18) podemos observar como a moradora representou a
comunidade traçando como base para seu desenho as três vias principais da comunidade a
partir do trevo formado por elas.

Figura 18 - Representação da comunidade a partir do trevo central

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Fonte: Monique Crispim. 2016.

Em outra representação (Figura 19) o mesmo trevo é apresentado, a partir de ângulo


de visualização diferente, mas agora quase que totalmente isolado do resto da comunidade,
dando-lhe total destaque junto aos elementos de seu entorno que o identificam: árvore, escola,
terreno vazio.
Vale ressaltar que para a imagem desenhada a solicitação foi: “represente a
comunidade de Beira do Taí”, logo, para este morador, a imagem da comunidade pode ser
definida pura e simplesmente por seu trevo central, identificado pelas vias e os elementos de
importância que o compõe.
47

Figura 19 - Trevo central como única representação da comunidade

Fonte: Israel Rangel. 2016.

Por fim, numa terceira representação que aborda o mesmo critério, a criança estrutura
seu desenho também a partir do encontro das três vias (Figura 20).

Figura 20 – Vias ancoradas no papel e o desejo de uma quadra

Fonte: Autor não identificado. 2016.


48

Assim, o limite do papel é usado para ancorar a representação da via de eixo sudeste-
noroeste, que compõe a RJ 196, deixando o centro da extensão longitudinal do papel para
representação da via sudoeste, a Av. Manoel Machado Moço onde também reside e representa
um desejo: a quadra.
Além disso, percebe-se para o uso das vias uma hierarquização conforme a densidade
de habitação (do centro pra fora, radial e gradativamente) com consequente uso dos percursos
por diferentes meios de locomoção e para determinadas funções, conforme representação em
figura 21.

Figura 21 - Mapa de Caminhos com vias identificadas por ranque em hierarquia de utilização

N 5 – Estrada dos Machadinhos


2 - Av. Júlio
de Souza Rangel

MEIOS DE LOCOMOÇÃO MAJORITÁRIOS


NOS CAMINHOS:

3 - Estradinha A pé ou bicicleta
Travessa Antônio
Bicicleta ou outros veículos
Azeredo Sobrinho
Outros veículos

4 - RJ 196

Caminho usado para caminhadas


1 - Av. Manoel Caminho percorrido pelo ônibus
Machado Moço
Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Nesta, podemos observar que cotidianamente as vias sudoeste e noroeste são mais
utilizadas pela população local para suas atividades básicas de ida ao mercado, às escolas ou
visita a um parente e/ou amigo, percurso prioritariamente feito a pé. Este mesmo trecho é o
majoritariamente percorrido pela linha de ônibus, sendo uma prática mais recente o acesso do
mesmo à comunidade pela via sudeste. Essa mesma via de uso frequente por visitantes que
vão à comunidade para compras nas mercearias locais, também é utilizada por moradores na
complementação de percurso na prática de caminhadas.
49

Além dos caminhos, limites podem facilmente ser observados nos mapas mentais
elaborados. Destes, os vazios que afastam as residências da área central, que serão mais bem
analisados nos itens a seguir, os vazios e vegetação que aproximam as residências das vias
(Figura 22), afastando-as do canal, e o próprio canal, que divide os municípios de Campos e
São João da Barra, delimitando também a comunidade (Figura 23), são evidentemente
registros visuais do sentido de limite para a população da comunidade.

Figura 22 - Arborização junto às residências representada como limite

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Figura 23 - Vazios e canal representados como limites

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


50

3.3.2 Vazios Urbanos

Os vazios são predominantes na comunidade. Por tratar-se de uma comunidade


conceitualmente rural, a maioria das residências contam, além de sua estrutura construída,
com uma ampla área de cultivo de plantações ou criação de animais, resultando numa
extravagante predominância do fundo sobre a figura, conforme mapa que segue (Figura 24).

Figura 24- Mapa Figura fundo

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Todavia, é interessante analisar como estes vazios se relacionam com a percepção da


população no sentido de proximidade. Como falado, os vazios que gradativamente afastam as
residências da área central vão aos poucos gerando nos moradores um sentido de
distanciamento da comunidade, até a interrupção de pertencimento e real divisão política do
bairro. Como demonstrado (Figura 25), quanto mais próximo do centro da comunidade e
menor afastamento por vazios, zona 1 e 2, maior o sentido de vínculo e proximidade; sendo
esse sentido diminuído a cada afastamento abrupto por grande área de vazio, zona 3, rarefeito
com grandes vazios circundantes, zona 4, e interrompido após grande afastamento e área sem
construções, zona 5.
51

Figura 25 - Relação de vazios com ligação com a comunidade

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Além destes, os vazios que margeiam o canal são claramente um limite de acesso ao
mesmo, para o qual, apenas a via sudeste faz ligação. Estes, são resultado da própria origem
de construção do canal: obter maior número de terras agricultáveis para a plantação de cana-
de-açúcar, e são hoje de domínio privado cujas faixas vão das vias de circulação, extremidade
na qual se encontram as construções de moradia, à margem do corpo d’água (Figura 26).

Figura 26 - Vazios limitantes ao canal

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


52

3.3.3 Tipologia e características das construções

As construções da comunidade Figura 27 - Construção típica da comunidade


possuem características simples (Figura 27),
tipicamente interioranas na maioria das vezes,
contando com poucos exemplares de
construção contemporânea, um exemplar de
arquitetura eclética (Figura 28) e uma capela
de características modernistas (Figura 29).
Na imagem ao lado podemos observar
uma residência da comunidade de tipologia
simples e tradicional, águas de telhados
desencontradas sem cumeeira única, varanda
frontal com telhado para frente e lateral
arrematado com espigão. Nesta propriedade
um longo terreno frontal antecipa a construção
com cerca de bambu simples após a cancela
de entrada. Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Figura 28 – Residência eclética da comunidade

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


53

Figura 29 - Capela com características modernistas da comunidade

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Em geral, as construções são de um pavimento, contando com poucas unidades que


possuem pavimento superior (Figura 30); de telhado cerâmico aparente, telhas francesas para
as construções mais antigas e coloniais para as mais recentes; esquadrias de madeira e vidro,
geralmente madeira trabalhada em almofadas, venezianas e recortes para detalhes em
vidraçaria quase sempre colorida; pintura de alvenaria com cores neutras ou de matiz de
intensidade baixa, e destaques nas esquadrias com o uso de marrom, mogno, verniz ou azul.

Figura 30 - Esquema de gabaritos

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


54

As residências possuem muros de elemento único ou singelos detalhes (Figura 31),


muros com o emprego de cobogós (Figura 32) ou cercas rurais de divisão (Figura 33).
Figura 31 - Residência muro simples

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


Figura 32 - Residência muro cobogó

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


Figura 33 - Residência cerca simples

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


55

3.3.4 Uso do solo

O uso do solo na comunidade é diversificado, sendo prioritariamente residencial com


lotes de edificações comerciais, de uso misto residencial-comercial e institucionais, não
havendo espaços públicos equipados ou áreas de lazer estruturadas à disposição dos
moradores. As áreas institucionais demarcadas correspondem a: A – Campo de futebol; B –
Escola, banheiro público e marquise para ônibus; C – Capela católica; D – Creche-escola; E –
Capela batista (Figura 35).

Figura 34 - Uso do Solo

E D
Canal
C São Bento

Residencial
Comercial
N
A Residencial-comercial
Institucional
Em desuso

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Em maioria, as construções comerciais são aglutinadas às residências dos


proprietários, sendo os usos divididos por pavimentos ou estando a construção comercial
fronteiriça à via de circulação, conforme indicações do mapa. Estes comércios fornecem
desde produtos básicos para o dia a dia, a materiais para construção civil, móveis e
eletrodomésticos; serviços como barbearia, manicure e quituteiras, e venda de horticultura e
manufaturados. Além destes, a comunidade conta com algumas residências em fase de
construção e considerável número de imóveis desocupados.

3.3.5 Marcos e Pontos Nodais

Podem ser observados com evidência marcos referenciais nos mapas mentais
elaborados. Árvores e construções são claramente estruturas marcantes para os moradores na
representatividade do local. Seja nas representações em planta (Figura 36), ou nas
56

representações em vistas (Figura 37), a capela Santo Amaro, as escolas locais, sobretudo a de
ensino fundamental, e as mercearias são elementos estruturais na imagem da comunidade.

Figura 35 - Representação em planta da comunidade por mapa mental elaborado

Fonte: Claudia Fernanda Freitas. 2016.

Figura 36 - Representação em vista da comunidade por mapa mental elaborado

Fonte: Alcenira Viana Neto. 2016.

Além destes, é interessante observar como as árvores são importantes referências para
todos aqueles que participaram da elaboração dos mapas. Em todos os desenhos as vegetações
57

locais são representadas, configurando especial ponto de referência e representação as árvores


localizadas em frente ao terreno público vazio e a árvore localizada no trevo central, principal
ponto nodal da comunidade.
Sem dúvidas, o entroncamento central do qual radia as três vias é o principal ponto
nodal da comunidade. Junto a ele, podemos observar apenas um segundo ponto nodal,
também referenciado nos mapas mentais: a área de conexão da Av. Júlio de Souza Rangel, a
via noroeste, com a Travessa Antônio Azeredo Sobrinho. Neste ponto, onde se encontram a
creche escola e uma mercearia, há grande concentração de pessoas durante o dia a dia,
configurando um segundo ponto referencial para o espaço principal de representação da
comunidade.
Abaixo (Figura 37), paralelo entre o mapa mental apresentado na figura 36 –
rotacionado para uma melhor visualização comparativa, elaborado por uma criança da
comunidade, e o mapa de identificação de marcos e pontos nodais.

Figura 37 - Mapa de marcos e pontos nodais


N
Marcos Ponto nodal
7
1 Árvores terreno público vazios
2 Mercearia e bazar
6 3 Escola
4 Árvore trevo central
5 Capela católica
4 6 Mercearia e bazar
5
7 Creche escola

3
2
1
7 4

6
5 3
2
Fonte: Arquivo pessoal. 2016. 1

O espaço que contorna os pontos nodais e marcos, é também o “núcleo forte (...)
cercado por um gradiente temático que vai desaparecendo aos poucos” (LYNCH, 1960, p. 28)
marcando a identidade da comunidade e definindo-a, dentro dos princípios de Lynch, em um
58

bairro único. Assim, a este núcleo e ao seu entorno imediato deverá ser voltada a atenção
focal das análises que seguem para determinação das intervenções propostas neste estudo
preliminar, realizado na modalidade de Desenho Urbano tipo plug-in.

3.3.6 Composição Paisagística

Como já apontado, as árvores possuem espaço de destaque na configuração


paisagística da comunidade. De portes variados, frutíferas - como pés de cacau, carambola,
nozes ou acerola, ou ornamentais - como Flamboyant e Pau-brasil, elas são pontos de
importância e marcos referenciais das vias, sofrendo atualmente com as podas irregulares para
passagem da rede aere de energia ou a incidência de ervas daninhas. Para este levantamento
foram consideradas todas aquelas locadas nos passeios públicos, sendo classificadas por seu
porte (Figura 38).
Figura 38 - Levantamento de árvores

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


A comunidade conta com poucos equipamentos urbanos de composição paisagística:
dois telefones públicos; apenas um local com placas, já degradadas, de identificação das vias;
um abrigo para ônibus, com diversos pontos informais de parada distribuídos pela
59

comunidade; lixeira, instalada pelos moradores para minimizar o acúmulo de lixo no terreno
em desuso; e diversos locais com a instalação de bancos improvisados nos passeios pelos
moradores, como representado no detalhe abaixo num ponto em que, além do banco
construído a partir da amontoação de blocos e tijolos, a pavimentação da calçada também é
adaptada a partir da utilização dos mesmos elementos (Figura 39).

Figura 39 – Mobiliário Urbano

X
T

X
X T

X
X

X
X X
N
X
25 50
0

T Telefone Público
Placa de Identificação
Abrigo para ponto de ônibus
Ponto de ônibus informal
Lixeira
X Bancos improvisados
Postes de energia elétrica

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


60

Como também podemos observar na imagem anterior (Figura 39) a distribuição de


postes de energia elétrica é feita sempre por apenas um lado do passeio. Os postes, são
distribuídos em afastamento médio de 45m de distância entre eles e aqueles que são dotadas
de lâmpadas para iluminação têm com raio de lumínico eficiente de aproximadamente 30m
(Figura 40). Esses, se localizam, em maioria, junto ao rumo do muro das casas, sobrepondo-se
muitas vezes às árvores de grande porte, impossibilitando seu livre crescimento por
necessidade de poda como representado também no detalhe da figura 40.

Figura 40 - Esquema raios iluminação

25 50
0

Poste s/ iluminação

Poste iluminação R=15

Poste iluminação R=30

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


61

Em geral, as condições das construções da comunidade são de boa aparência. As


casas, mesmo quando antigas, não apresentam condições de abandono e falta de manutenção e
seus telhados, empretecidos pelo tempo, são testemunhas da história da comunidade. Como
vistos no item “3.3.3 Tipologia e características das construções” seus entornos são
trabalhados com diversas formas de fechamento em muro ou cercas, dificilmente encobrindo
toda a construção e interferindo na integração entre os espaços, contato visual e isolamento
das vias. Na imagem a seguir, figura 41, podemos observar um dos muros da comunidade que
revela, além da relação com tradicionais elementos decorativos (cobogós) e integração dos
espaços privados e públicos, uma aptidão intrínseca para arquitetura informal e
autoconstrução.

Figura 41 - Detalhe de muro da comunidade. Informalidade e autoconstrução

FOTOGRAFIAS DAS CASAS

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

3.3.7 Percepção Visual – Visão Serial


62

Atentando-se à importância dos aspectos visuais da paisagem urbana para um


diagnóstico e elaboração de projeto numa área de intervenção, recorro aqui ao método de
análise visual em visão serial de Gordon Cullen (1993), para analisar a área a ser trabalhada
com as propostas de intervenção deste TFG. Abaixo os mapas de identificação dos pontos de
fotografia registradas num fim de tarde na comunidade, onde a visão serial foi levantada de
fora para dentro (Figura 42) e de dentro para fora (Figura 43) no intuito de se observar dos
dois sentidos os aspectos visuais da paisagem local.

Figura 42 - Visão serial de fora pra dentro


63

A.3 A.4

A.5 A.6

B.4 B.3

B.2 B.1
64

C.2 C.1

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

Figura 43 - Visão serial de dentro pra fora


65

C.3 B.1

B.2 B.3

B.4 B.5

B.6 A.1
66

Fonte: Arquivo pessoal. 2016.


67

Nas fotografias em sequência, podemos observar a comunidade: suas árvores que


marcam o plano horizontal superior da paisagem; suas vias radiais a partir do ponto nodal
central que atua como ponto de fuga das perspectivas “de fora pra dentro”; e o forte contraste
do cheio para o vazio, formado pelos terrenos localizados na Av. Júlio de Souza Rangel, a via
noroeste, ao lado da Capela Santo Amaro (Figura 44) e na Avenida Manuel Machado Moço, a
via sudoeste (Figura 45).

Figura 45 - Terreno Figura 44 - Terreno


Av. Júlio de Souza Rangel Av. Manuel Machado Moço

Fonte: Arquivo pessoal. 2016. Fonte: Arquivo pessoal. 2016.

3.4 Comunidade de Beira do Taí – Perfil populacional

Uma comunidade de população Figura 46 - População numa tarde na comunidade


majoritariamente adulta (42%) e idosa
(22%), maioria feminina (67%), em plena
atividade, sobretudo as interioranas de
trabalhos com a terra, animais, produção
ou comércio, ou na cidade, a trabalho e
estudo, esse é o panorama geral do perfil
populacional de Beira do Taí (Figura 46). Comentado [WU4]: Distanciar mais o texto da figura (está
muito colado)
Tais dados, foram elaborados
Não usaria o termo “a rigor”
através de levantamento rua a rua no qual
a trabalho (sem crase)
casas, estabelecimentos comerciais e de
ensino foram consultados a fim de se
definir um perfil e número total daqueles Fonte: Arquivo pessoal. 2016.
68

que vivenciam a comunidade no seu dia a dia, morando, trabalhando ou estudando.


Para determinação do vínculo de cada usuário em relação à comunidade foram
adotados os seguintes parâmetros:

1) População permanente

a) Integral – Para moradores que residem unicamente na comunidade;

b) Parcial – Para moradores que têm sua residência na comunidade em


complementariedade a uma outra fora da mesma em tempo majoritário (por razões de
estudo ou trabalho, por exemplo).

2) População flutuante

Aqui considerados trabalhadores e estudantes que estão cotidianamente na


comunidade para desempenhar suas atividades, mas não são dela moradores.

Determinados assim, temos uma comunidade de 329 moradores, que ocupam 120, das
144 casas construídas na localidade, cuja população flutuante tem representatividade em
número quase igual àqueles que nela residem: 56% e 44%, respectivamente, em porcentagem
para o total populacional.
Assim, temos em proporção 0,8 usuário flutuante para cada usuário permanente, sendo
estes últimos 211 estudantes, crianças cursando ensino básico e fundamental não moradores
da comunidade, e 52 trabalhadores, homens e mulheres não moradores da comunidade, mas
que lá exercem suas atividades profissionais (Figura 47).

Figura 47 - Gráfico populacional de vínculo com a comunidade

Fonte: Arquivo pessoal. 2016


69

Com isso, a comunidade tem uma oscilação interessante entre população flutuante e
população permanente, logo um número diferenciado de usuários nos dias úteis da semana e
dias de fim de semana. Para estes últimos, outro perfil toma destaque na movimentação da
comunidade: os visitantes. Numerosos devido às famílias que lá residem e que são visitadas, à
prática religiosa, principalmente da Igreja Batista, aos botecos e ao campo de futebol.

3.4.1 Perfil população permanente

Como já mencionado, existem na comunidade dois perfis de população permanente:


moradores integrais e moradores parciais. Nestes últimos, 23 dos 329 moradores da
comunidade (Figura 48), encontram-se aqueles que têm casa na comunidade, mas na maioria
das vezes só a utilizam aos finais de semana, por passarem o restante do tempo na sede do
município ou na capital do estado, a estudo ou a trabalho.

Figura 48 - Proporção população permanente

Fonte: Arquivo pessoal. 2016

Da população de moradores total, a Figura 49 - Infográfico mulheres x homens

maioria é feminina (Figura 49), sendo a


faixa etária mais numerosa a de adultos, Mulheres
aqui considerados aqueles entre 31 e 59 67%
anos de idade, seguidos por idosos, de
idade igual ou acima dos 60 anos de idade,
depois de crianças até 11 anos, de jovens, 33%
dos 19 aos 30 anos de idade, e por fim, Homens
adolescentes de 12 a 18 anos de idade,
como mostra o gráfico (Figura 50). Fonte: Arquivo pessoal. 2016
70

Figura 50 - Faixa Etária

0 a 11 anos
12 a 18 anos
19 a 30 anos
31 a 59 anos
> 60 anos

Fonte: Arquivo pessoal. 2016

Nesses moradores, encontra-se uma aptidão específica sobretudo para o contato com a
terra e a vida interiorana, sendo apenas mais comum nos jovens e adolescentes a aspiração de
coisas próprias da vida citadina. Sendo considerados o sossego do local a coisa mais citada
para vantagens de se residir na comunidade, porém ser a pacatez e afastamento do centro o
maior incômodo. A comunidade é prioritariamente formada por uma população de instrução
escolar até o ensino fundamental e de famílias economicamente de classes média, média
baixa, e baixa.
71

7 REFERENCIAIS PROJETUAIS

7.1 Referencial Tipológico

7.1.1 Praça dos Nossos Sonhos

Esta é uma praça paraguaia construída pelos moradores locais com material reciclado
doado por empresas da região e em terreno cedido por poder público local. Situada no bairro
de Remansito, nos arredores de Assunção, capital do país, a “Praça dos Nossos Sonhos”
(Figura 51) se apresenta não somente como um referencial tipológico, por ser um espaço
aberto, horizontalizado, mas também como um projeto motivacional para efetivação da
proposta de intervenção fruto deste TFG.

Figura 51 - A Praça dos Nossos Sonhos - Lukas Fúster

Fonte: Archdaily, 2015.

7.2 Referenciais Funcionais

7.2.1 Capela de Despedida Zgornji Tuhinj

A atual necessidade da construção de uma capela mortuária foi a motivação inicial da


qual surgiu o desejo de proposta deste estudo preliminar de Desenho Urbano para a
comunidade de Beira do Taí e validada pela pesquisa feita junto à comunidade. Como
72

proposta arquitetônica, a capela mortuária tem como referencial funcional a “Capela da


Despedida” (Figura 52) construída em um cemitério da Eslovênia.

Figura 52 - - Capela de Despedida Zgornji Tuhinj – Tria Studio

Fonte: Archdaily, 2014.

Sua configuração espacial é composta por um vão central aberto, mas seus segmentos
laterais são fechados, de acesso lateral e planta simples (Figura 53) - tal como se propôs a
planta da capela mortuária na comunidade, ocupada apenas nas cerimônias fúnebres.

Figura 53 - Planta Capela da Despedida Zgornji Tuhinj - Tria Studio

Fonte: Archdaily, 2014.

7.2.2 “Centro Aberto”

Entendendo a proposta deste trabalho como um conjunto de intervenções na


modalidade de Desenho Urbano para uma pequena comunidade do interior do munícipio, as
ideias do projeto “Centro Aberto” da prefeitura de São Paulo (Figura 54) são também um
73

referencial funcional para o estudo preliminar proposto. Dadas as suas devidas proporções e
ambientação, buscando sobretudo fazer uma adequada interpretação das necessidades da
pequena população que na localidade reside e por consequência, dos equipamentos e usos que
são propostos, este projeto buscou implementar o mesmo princípio do Centro Aberto
aplicando a máxima de se “transformar as estruturas preexistentes através da renovação de
suas formas de uso”.
Assim, o projeto elaborado para o centro da grande metrópole brasileira foi
reinterpretado e usado como base para o desenvolvimento desta proposta. A escolha deste
referencial vem ao encontro do principal referencial teórico que sustenta as decisões
projetuais tomadas: GEHL, Jan. Cidade Para as Pessoas. São Paulo. Perspectiva. 2013. Em
geral, a escala humana é o ponto central das duas referências e foi o ponto de partida e
objetivo final para todos os espaços propostos. Considero assim, que esta também foi a base
referencial para a tipologia das intervenções.
Obviamente que ambas as referências tratam principalmente dos principais desafios do
projeto de intervenção urbana para grandes aglomerados de estrutura citadina, todavia, trazer
essas ideias aplicando dentro de um novo contexto para pequeno aglomerado de zona
interiorana foi o grande desafio de reinterpretação na proposta deste TFG.

Figura 54 - Captura de tela do site da prefeitura de São Paulo com divulgação do


projeto Centro Aberto – Prefeitura de São Paulo/SP 2015

7.3
Refe
renc
iais
Plást
icos-
For
mais

Como referenciais
Fonte: Prefeitura plásticos, traços e formas dos grandes mestres nacionais deverão
de São Paulo/SP
ser reinterpretados dentro de um contexto local. Assim, obras de Burle Marx e Oscar
Niemeyer foram a inspiração inicial para construções e áreas cujas tecnologias construtivas e
formas dialoguem com o entorno onde foram locadas.
74

7.3.1 Jardim da cobertura do Banco Safra

Como referência para o traçado, cores e texturas das praças e espaços públicos o
Jardim da cobertura do Ministério de Educação e Saúde (Figura 55), assim como outros
projetos de Burle Marx, como a Praça dos Cristais e a Praça Euclides da Cunha foram a
inspiração. Nestes, busquei também o conceito de utilização de plantas locais e nativas para a
composição de um paisagismo de identidade próxima à comunidade local.

Figura 55 - Jardim Ministério de Educação e Saúde – Burle Marx

Fonte: Archdaily, 2016.

7.3.2 Capela do Palácio da Alvorada e Capela Católica de Beira do Taí

A Capela do Palácio da Alvorada (Figura 56) é o principal referencial plástico formal


para a capela mortuária. Esta última tem plástica que evoluiu de um estudo anterior elaborado
no início deste Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo para a Disciplina de Plástica I, como
veremos mais adiante. Agora em nova leitura, unirá o estudo inicial, cuja referência plástica
volumétrica foi inicialmente a capela projetada pelo Niemeyer às novas interpretações e
necessidades construtivas da proposta projetual atual.
75

Figura 56 - Capela do Palácio da Alvorada – Oscar Niemeyer

Fonte: Planalto, 2015.

No intuito de contextualizar a plástica referenciada com o local de inserção da nova


edificação, a atual capela católica da comunidade (Figura 57) foi também referência plástica,
onde as linhas simples e curvas da obra de Brasília buscaram respeitar o gabarito e criar
unidade com a volumetria da construção religiosa já existente, intensionando assim o diálogo
proposto das formas dos grandes mestres, com o contexto social e arquitetônico de
implementação, proposta fundamental deste projeto.
Tal diálogo é favorecido pela volumetria da capela católica da comunidade, devido a
sua fachada curva e nave retilínea, composição similar às propostas para a nova construção
religiosa que deverá ser alocada ao lado da existente.
76

Figura 57 - Atual fachada da Capela Santo Amaro / comunidade de Beira do Taí – autor
desconhecido

Fonte: Arquivo pessoal. 2016

7.4 Referenciais Tecnológicos

7.4.1 Materiais convencionais e Autoconstrução

Para tecnologia empregada nas construções e equipamentos propostos, foi pensado o


emprego de materiais e métodos construtivos convencionais como estruturas de concreto
armado e madeira, este último, material também utilizado para vedações, junto de alvenaria
de blocos cerâmicos, esquadrias e acabamentos. Tal decisão se embasa na apropriação dos
materiais locais - fundamental para o conceito de Regionalismo Crítico, na facilidade de
execução, manuseio e manutenção - que contribuem para prática de autoconstrução e no
sentimento de pertencimento para as intervenções propostas - já que são esses os materiais
mais encontrados nas tipologias existentes na comunidade. A exemplo, a capela referenciada
acima (Figura 57) é toda construída em alvenaria cerâmica, concreto armado e casca de
concreto.
77

7.4.2 Tecnologias Sustentáveis de construção

Junto a estes, conceitos contemporâneos de sustentabilidade, reaproveitamento e


reciclagem deverão ser adotados. O princípio de autoconstrução e reciclagem de materiais da
Praça dos Nossos Sonhos – Lukas Fúster (Figura 58), deverá também foi utilizado nas
intervenções propostas. O reaproveitamento da água de chuva e das águas cinzas foi adotado
para todos os espaços criados e o emprego de coberturas verdes foi a principal tecnologia de
fechamento das construções. Assim, buscou-se levar às intervenções elementos simples de
tecnologia verde a fim de gerar na comunidade maior consciência para as ações sustentáveis,
algo não muito distante de uma comunidade interiorana.
Para estes, uma residência em São Paulo do arquiteto Rafael Loschiavo (Figura 58) foi Comentado [WU5]: foi

a referência formal. Nesta, princípios ecoeficientes como compostagem, iluminação e


ventilação natural, emprego de materiais naturais e vegetação local, reboco de terra e filtro de
folhas são utilizados para compor uma construção de “apuro estético” e “ambientes com
conforto e estilo” (ECOEFICIENTES, 2015, s/p.).

Figura 58 – Casa Sustentável - Rafael Loschiavo

Fonte: Ecoeficientes, 2015.


78

DESCRITIVO PROPOSTAS PROJETUAIS

Organizado a partir de elementos básicos do Desenho Urbano segundo Shirvani

1 - “Tudo junto e misturado”


Usos do Solo

Mix de usos nas propostas projetuais

2 - “...Mas era feita, com muito esmero”


Configuração espacial do construído

Propostas de intervenções compatíveis à configuração espacial atual. Compatibilidade direta


de gabarito.

3 - “De carro, moto ou bicicleta... Eu quero ir, vir e ter onde parar”
Circulação viária e lugares de estacionar

Exposição de propostas projetuais que contemplam a viabilidade dos fluxos e lugares para
estacionar

VAGAS DE ESTACIONAR SOMBREADAS

4 - “Você praça, acho graça...”


Espaços Públicos

Exposição de propostas projetuais que contemplam a criação de espaços públicos

PROPOSTA PRAÇA DONA ALDA E SR FERNANDO

PROPOSTA PRAÇA BEIRA DO TAÍ

5 - “Se essa rua, se essa rua fosse minha...”


Circulação de Pedestres

Exposição de propostas projetuais que favorecem a circulação de pedestres

INTERVENÇÃO E PADRONIZAÇÃO DAS CALÇADAS

6 - “Eu queria ter na vida simplesmente...”


Atividades de Apoio
79

Exposição de propostas projetuais para atividades de apoio junto aos espaços públicos

CAPELA MORTUÁRIA PRAÇA DONA ALDA E SR FERNANDO

CANTINA PRAÇA DONA ALDA E SR FERNANDO

PALCO PR. NÉRIO PRAÇA BEIRA DO TAÍ

HORTA COMUNITÁRIA DONA MORENA PRAÇA BEIRA DO TAÍ

QUIOSQUES PRAÇA BEIRA DO TAÍ

7 - “Sombra, água fresca, iluminação, e o que mais tiver aí, por favor”
Mobiliário Urbano

Exposição de propostas projetuais complementares e detalhes de mobiliário urbano

PLACA DE HORÁRIO PARA ABRIGO DE ÔNIBUS PRAÇA ARGEMIRO


VIANA

IDENTIFICAÇÃO DE VIAS E ESPAÇOS (ESPAÇO DE HOMENAGEM E


MEMÓRIA)

MARCAÇÃO DE DISTÂNCIAS VIAS DA COMUNIDADE (ESTÍMULO À


CAMINHADA)

ARBORIZAÇÃO DAS PRAÇAS

BANCOS DAS PRAÇAS E CALÇADAS

ILUMINAÇÃO DAS PRAÇAS E VIAS

INSTALAÇÃO DE LIXEIRAS NAS PRAÇAS E VIAS


80

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