Você está na página 1de 12

“Da criação à edição: as etapas editoriais da Revista Trinque”

Giulia Ocaña da SILVEIRA1


Jean Silveira ROSSI2
Kátia Leonor Alves Silva da SILVA3
Liliane Dutra BRIGNOL4
Sandra Dalcul DEPEXE5

RESUMO

A revista Trinque foi um projeto editorial criado e desenvolvido por acadêmicos do 4º


semestre do curso de Comunicação Social – Produção Editorial da Universidade Federal
de Santa Maria (UFSM), através das disciplinas de Produção Editorial para Revistas e
Planejamento e Produção Gráfica no ano de 2016. Tem por objetivos a difusão da cultura
e moda alternativa de maneira a representar públicos de todos os gêneros, idades, cores e
tamanhos. Desse modo, a Trinque vem com a missão de dar visibilidade às minorias
dentro do cenário alternativo, assim como informar seus leitores de maneira desconstruída
e didática sobre esse universo “à margem”. O produto piloto foi produzido na versão
impressa. Assim, este artigo-relatório demonstra como se deram os processos editoriais e
simbólicos para sua criação, edição e resultado final.

PALAVRAS-CHAVE: produção editorial; revista; cultura alternativa.


1 INTRODUÇÃO
O projeto surgiu pela união de ideias semelhantes de acadêmicos do 4º semestre do curso
de Comunicação Social – Produção Editorial da UFSM no ano de 2016 sobre a
importância de representar minorias em uma publicação.
A revista tem como temáticas principais a moda e a cultura alternativa, estando a primeira
muito entrelaçada com a última, pois a moda revela ao mundo a individualidade do ser,
enquanto a cultura alternativa ou contracultura é vivida pelas minorias, muitas vezes vista
como estranha, seja por ignorância ou por preconceito. Por conseguinte, estilos que fogem
do “normal” agem como cultura de resistência contra os padrões impostos pela cultura
hegemônica.
Hegemonia cultural é um conceito criado por Antonio Gramsci (2001) para relatar o tipo
de soberania ideológica de uma classe social sobre outra, através do controle de vários
sistemas, dentre eles os meios de comunicação.
Carlos Alberto Pereira em seu livro “O que é contracultura” (1983) explica de que
maneira esse movimento alternativo, criado e vivido pelas minorias sociais, pode ser
descrito como uma crítica anárquica:

1
Acadêmica do 5º semestre do curso de Comunicação Social – Produção Editorial da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM) email: giuliaocana@gmail.com
2
Aluno líder do grupo e acadêmico do 5º semestre do curso de Comunicação Social – Produção Editorial
da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) email: jeanrossi109@gmail.com
3
Acadêmica do 5º semestre do curso de Comunicação Social – Produção Editorial da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM) email: katialeonoralves@gmail.com
4
Orientadora do trabalho: professora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM) email: lilianebrignol@gmail.com
5
Orientadora do trabalho: professora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM) email: sandradpx@gmail.com
“De outro lado, o mesmo termo (contracultura) pode também se referir a [...]
um certo modo de contestação, de enfrentamento diante da ordem vigente, de
caráter profundamente radical e bastante estranho às forças mais tradicionais
de oposição a esta mesma ordem dominante. Um tipo de crítica anárquica –
esta parece ser a palavra-chave – que, de certa maneira, rompe com as regras
do jogo em termos de modo de se fazer oposição a uma determinada situação.
[...] Uma contracultura, entendida assim, reaparece de tempos em tempos, em
diferentes épocas e situações, e costuma ter um papel fortemente revigorador
da crítica social." (Pereira, 1983, p.20).

Sendo assim, a ideia de demonstrar e problematizar tais assuntos em um produto editorial


serve como um ato em favor do público alternativo para que ele se sinta incluído na mídia
e possa conhecer as várias vertentes pelas quais a sua cultura perpassa.
2 OBJETIVO
O objetivo deste artigo é demonstrar as etapas editoriais que envolveram a publicação da
revista, assim como os ideais simbólicos que guiaram a criação da Trinque.
A equipe também deseja que a Trinque possa representar livremente o estilo dos adeptos
da cultura alternativa e suas diversas faces, de maneira a incluir públicos de todos os
gêneros, idades, cores e tamanhos. Além da cultura e moda, exploradas pela publicação
sob vários olhares, a revista tem a missão de abordar assuntos sobre mídias alternativas,
problemáticas e conteúdo geral.
Nessa lógica, através de um projeto gráfico ousado, pretende-se quebrar os padrões
estéticos da produção e edição de revistas.
Portanto, o grupo almeja a criação de um produto editorial feito na medida para que esses
potenciais leitores tenham uma revista focada inteiramente na diversidade de estilos
alternativos existentes. Afinal, a Trinque objetiva críticas sociais aos estereótipos e à
glamourização da moda, ambos reproduzidos pela cultura hegemônica atual.
3 JUSTIFICATIVA
De acordo com Scalzo (2003, p. 11-12), revista “é um veículo de comunicação, um
produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de
jornalismo e entretenimento”. Nesse contexto, a Trinque explora as diversas
características de seu meio, moldando-se em um produto comunicacional e identitário
dentro do nicho em que está inserida.
Para tanto, a equipe, formada por pessoas que não se encaixam nos padrões da sociedade,
após análise e percepção da carência de materiais com tais temáticas, percebeu a pouca
ou até mesmo falta de representação de um público “alternativo” no mercado editorial
brasileiro.
Nesse sentido, a proposta da revista Trinque surgiu da necessidade em representar os
públicos consumidores da cultura e da moda alternativa.
Atualmente não há uma publicação que dê a devida visibilidade aos diversos tipos de
estilos alternativos, e esse público cada vez mais requer o devido respeito e tratamento
por parte dos veículos midiáticos. Em complemento, o fenômeno que a Trinque pretende
atingir foi trazido por Ali (2009), ao explorar a relação mútua entre editor e leitor,
afirmando que ambos são unidos por um fio invisível de ideias através das quais é possível
construir identificações e transmitir sensações de pertencimento, ou seja, o leitor necessita
da revista tanto quanto a revista precisa do leitor. Esse foi um dos principais motivos que
levou a equipe a produzir algo inovador.
Essa construção de identidade com e do leitor se encontra no projeto editorial, através do
uso de uma linguagem moderna e didática, abordando os conteúdos de maneira jovem,
desconstruída e com foco na aprendizagem desse leitor. No projeto gráfico, isso é
perceptível pela inovação em sua diagramação, que foge dos padrões vistos nas revistas
tradicionais, através, por exemplo, da quebra de colunas retas para apresentação do texto.

Tal relação do projeto gráfico com o público-alvo é reforçada por Frederico de Mello B.
Tavares em “Revista e identidade editorial: mutações e construções de si e de um mesmo”
(2013):
“O projeto gráfico é constituído pelo formato da revista, especialmente
relacionado ao seu suporte, além de seu espaço gráfico, que se estrutura e serve
de base para a diagramação e articulação dos diferentes elementos
informativos ali presentes. A composição é condicionada pelos interesses e
necessidades do público-alvo a que se dirige; pelos critérios de edição e por
valores específicos do campo jornalístico (apelo estético e compromisso
informativo, muitas vezes atravessados e subordinados à proposta comercial);
pelo conteúdo publicado, cujo tratamento gráfico é revisto a cada edição; por
princípios de legibilidade, ritmo, harmonia e coerência visual” (TAVARES,
2013, p. 209).

Assim, uma revista desconstruída sobre moda e cultura é aquilo que tanto as minorias
quanto o mercado necessita, principalmente em uma época onde se defende e reforça o
empoderamento e a ideia de que as pessoas devem abraçar sua individualidade,
independentemente dos preconceitos reproduzidos pelo senso comum.

4 MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS


A Revista Trinque começou a ser construída em outubro de 2016 configurada como
projeto e produto a serem avaliados para as disciplinas de Produção Editorial para
Revistas e Produção e Planejamento Gráfico, ministradas respectivamente pelas
professoras do departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de
Santa Maria, Liliane Brignol e Sandra Depexe.
Para disciplina de Produção Editorial para Revistas, o necessário foi conceber a ideia de
uma revista desde o conceito por trás do título, apresentação, público-alvo, missão
editorial, periodicidade, objetivos, linguagem, seções e número de páginas até o
planejamento de mercado caso o produto fosse comercializado: cenário editorial em que
a revista seria introduzida, seus pontos fortes e fracos, além de seu orçamento, tiragem e
distribuição.
Já na disciplina de Planejamento e Produção Gráfica, o grupo teve a oportunidade de
aplicar tais conceitos anteriores através do projeto gráfico da Trinque, o que corresponde
ao seu formato, tamanho, mancha gráfica, grid, diagramação, paleta de cores e de tipos,
estrutura dos recursos visuais, cuidados para impressão, bem como o planejamento das
diretrizes técnicas da revista.
Desde o princípio do projeto, a equipe foi orientada a produzir uma revista no formato
impresso a fim de que aplicasse seus conhecimentos teóricos em um produto editorial
tangível e que, como futuros editores, os acadêmicos pudessem experimentar a prática da
produção editorial de revistas.
Logo depois da consolidação da ideia, surgiram dúvidas quanto à categorização da
revista: seria especializada ou segmentada? Conforme Helena Jacob no livro
Webjornalismo, de Magaly Prado (2010), a segmentação de revistas “pretende atingir os
interesses e necessidades de seu público-alvo, moldando-se ao que o leitor deseja, edição
por edição”. A equipe concordou que a Trinque era segmentada. Todavia, ao pesquisar o
conceito de especialização abordado por Scalzo (2004) o grupo entrou em debate, pois
revistas especializadas tratam de um tema com muita profundidade, o que também
caracteriza a Trinque. Sendo assim, chegou-se à conclusão de que a revista era
segmentada e especializada, afinal uma não exclui a outra. Muito pelo contrário, esse foi
mais um diferencial da publicação.
Para produção da revista, foram utilizados dois softwares da empresa Adobe: Photoshop
e InDesign. O primeiro foi usado principalmente para edição e/ou criação das imagens e
elementos gráficos presentes ao longo da revista, enquanto o segundo programa foi usado
para diagramação e fechamento do arquivo que foi posteriormente enviado para
impressão na Imprensa Universitária da UFSM.
Quanto à edição e criação de conteúdo e imagens, a equipe dividiu-se por temáticas de
interesse pessoal, mas nunca esquecendo um dos aspectos mais cruciais de uma revista:
a missão editorial. Nessa temática, Ali afirma que:
A missão é chamada, entre outras coisas, de objetivo ou filosofia editorial. Há
quem chame de nada. Com qualquer nome ou nome nenhum, uma coisa é certa:
se você não sabe dizer o que é a sua revista numa frase concisa ou num
parágrafo curto, você não sabe o que é a sua revista. (ALI, 2009, p. 47).

Seguindo esse conceito aliado ao projeto, a missão da Trinque é ser a revista que
representa as minorias dentro do cenário alternativo.
É importante salientar que o conteúdo da revista poderia ser fictício, visto que o foco da
das avaliações era aplicar os conhecimentos na prática. Ainda assim, o grupo decidiu pela
mescla de assuntos e fotos retiradas da Internet com seu estilo próprio de escrita, passando
por adaptação e criação do texto ao propósito da Trinque. Após isso, as matérias e demais
conteúdos exclusivos passaram pela etapa da revisão, a fim de que não categorizasse
plágio, antes de sua diagramação.
No entanto, dificuldades estiveram presentes desde o início do projeto. Um dos grandes
desafios encontrados foi a escolha de temas pertinentes a uma edição piloto, pois sabe-se
que, no mercado editorial, muitas publicações não “sobrevivem” após essa fase inicial
por conta de inúmeros equívocos, principalmente nos discursos utilizados para introduzir
e captar a atenção dos leitores nesse primeiro contato. Dessa maneira, analisando o perfil
ambíguo da Trinque, sendo especializada e segmentada, fator que poderia dificultar sua
aceitação, optou-se por trazer um conteúdo explicativo e introdutório sobre as questões
em volta dos ideais da Trinque, principalmente os conceitos de moda e cultura alternativa,
presentes na matéria de capa para edição piloto.
Após a delimitação das pautas, o grupo dividiu-se por temáticas e funções de maior
interesse, o que acabou acumulando trabalho para a maioria dos integrantes. Sendo assim,
o trabalho configurou-se coletivamente, porque grande parte da equipe produziu e editou
conjuntamente e de forma democrática. Todas as escolhas quanto às questões visuais e
conceituais foram decididas às vezes pessoalmente, às vezes através de aplicativos de
comunicação. No expediente da Trinque é possível perceber tal distribuição de tarefas:
Imagem 01 – Parte do expediente. Fonte: elaborado pelos autores.

Ainda assim, outro grande impasse, dessa vez da área gráfica, foi a maneira como
seriam dispostos os elementos textuais e imagéticos ao longo das páginas, a fim de atender
ao desejo de algo inovador mas sem a perda da identidade do meio revista. Segundo
Zapaterra (2014), a “padronização gráfica é necessária para organizar e dar consistência
à identidade do periódico a cada edição”. Nessa perspectiva, utilizar a técnica do grid
modular foi de grande ajuda, pois a partir dos módulos criados foi possível diagramar o
texto em múltiplas formas geométricas, assim como aproveitar essa dinamicidade e
liberdade para organização dos elementos gráficos padrões de cada seção:

Imagem 02 – Grid modular utilizado para diagramação da revista. Fonte: elaborado pelos
autores.

Mesmo com as adversidades pelo caminho, a revista foi moldando-se de acordo


com a criatividade da equipe e as orientações das professoras, fato determinante para o
sucesso da mesma em seu resultado final, sendo legitimada como produto editorial
sustentado por bases simbólicas e gráficas consistentes.
DESCRIÇÃO DO PRODUTO OU PROCESSO
“Trinque” surgiu depois de muita pesquisa por termos semelhantes à “moda” e “cultura”.
Finalmente, ao visualizar a palavra numa frase conhecida popularmente, a equipe
formulou a identidade e semiótica por trás do nome. “Trinque” é uma alusão às duas
vertentes da revista: moda e cultura, remetendo à expressão “ficar nos trinques”, ou seja,
estar elegante, na moda e relaciona-se com um trinco de fechadura, visto que os editores
pretendem destravar padrões culturais e abrir portas para dar visibilidade às minorias
alternativas.
Sobre as diretrizes técnicas da Trinque, pode-se afirmar que ela é uma revista no formato
retrato com tamanho fechado 19x26cm e aberto 38x26cm.

A capa da Trinque tem uma estrutura básica, apresentaria sempre uma imagem de acordo
com a temática da edição, tendo elementos visuais fixos e flexíveis:

Imagem 03 – 1) Título; 2) Indicação do número da edição; 3) Código de barras, edição, mês/ano


e preço. O subtítulo, mesmo existindo em todas edições, não seguiria um padrão visual fixo
como os outros elementos presentes na capa. Fonte: elaborado pelos autores.

A edição piloto da revista divide-se em seis seções fixas pelas suas 24 páginas, de acordo
com o planejamento efetuado pelos editores a fim de que o leitor tenha uma boa
experiência com o estilo da linguagem e com os padrões visuais diferenciados, neste
primeiro contato.

Devido ao tema diversificado, foram associadas todas as cores à revista,


tanto os tons vivos quanto os mais pastéis, justamente por se tratar de moda alternativa e
fuga dos padrões visuais. No caso da primeira edição, optou-se principalmente
pelo azul, esmeralda, verde, rosa e roxo, sempre cuidando o padrão de cor CMYK para
impressão.
A primeira seção é a mais tradicional da edição, porém de extrema importância: o
editorial. Sobre esse termo, Felipe Boff em “A revista e seu jornalismo” (2013), explica:

O editorial só é possível em decorrência de uma linha editorial, ainda que mal


traçada ou instável. É (ou deveria ser) o espaço da manifestação explícita das
opiniões que guiam o jornal – o que também pode valer para a revista de
informação. É uma espécie de terra natal do jornalismo opinativo, seu porto
seguro, em que o gênero pode até ser contestado, mas nunca renegado. (BOFF,
2013, p. 191).
Sendo assim, o editorial da Trinque construiu-se apoiado nos pilares conceituais e
políticos da revista, sem deixar de introduzir o leitor à cultura e moda alternativa através
de um layout mais leve e agradável e convidativo ao público:

Imagem 04 - Editorial. Fonte: elaborado pelos autores.

Na seção seguinte, chamada “Vestuário”, são exploradas tendências em roupas e


acessórios da moda alternativa. Na edição piloto, foi realizada uma entrevista exclusiva
sobre moda alternativa no universo Drag Queen com a drag santa-mariense, Aurora
Wachowski:

Imagem 05 – seção “Vestuário”. Fonte: elaborado pelos autores.


Na seção “Cultura”, o leitor é provocado a refletir e conscientizar-se acerca de
estereótipos enraizados na sociedade no que tange à produção cultural, ideológica e
social desses grupos desfavorecidos. Para a edição piloto, foi produzida uma matéria
sobre moda alternativa no universo Plus Size:

Imagem 06 – seção “Cultura”. Fonte: elaborado pelos autores.

A próxima seção, “Capa”, aborda com maior profundidade a matéria presente na capa,
sendo essa a temática principal da edição. Na edição piloto, a seção “capa” introduziu o
conceito de moda e cultura alternativa, para que o público se familiarize com os ideais
que movem o editorial da Trinque:

Imagem 07 – seção “Capa”. Fonte: elaborado pelos autores.


O espaço “Na mídia” é uma seção onde o leitor fica atualizado sobre as mídias
alternativas. São apresentadas redes sociais, sites, blogs, canais, pages e demais
produtos midiáticos relevantes à cultura alternativa que estejam relacionados com as
seções anteriores, como um apêndice de informações:

Imagem 08 – seção “Na Mídia”. Fonte: elaborado pelos autores.

Por fim, o leitor chegará na seção “Você na Trinque”, o local de contato direto entre
revista e consumidor. Nele, são divulgadas as opiniões dos leitores sobre edições
anteriores, desde elogios até críticas construtivas, assim como sugestões para as
próximas edições. Na edição piloto foram expostas as expectativas de prováveis leitores
da revista:

Imagem 10 – seção “Você na Trinque”. Fonte: elaborado pelos autores.

As cores vibrantes do “Você na Trinque” representam a agitação do leitor por ter


um espaço só para ele, poder entrar em contato com os editores, por isso foram
escolhidas cores vivas. O preto do fundo da seção serve para sinalizar ao leitor que as
matérias acabaram e que este novo espaço é um local exclusivo dele.
Sobre a tipografia utilizada na revista, o destaque maior é primeiramente da fonte
Unfoldingtrag-textured (logotipo da revista presente não só na capa, como também no
editorial/expediente e no ícone para um aplicativo fictício). Essa tipografia serifada foi
adotada pelo seu visual chamativo e design diferenciado. Enquanto isso, o corpo do texto
em Hoftype Impara-Light, uma fonte sem serifa, serve para contrastar com as demais
tipografias serifadas, transmitindo um design jovem, equilibrado e clean para os pequenos
blocos textuais ao longo das matérias.
Optou-se por utilizar formas geométricas, tanto nas caixas textuais quanto nas
molduras de imagens para atribuir movimento e dinamicidade à leitura, sempre cuidando
o “respiro literário”, principalmente quando havia fotos ou ilustrações muito próximas ao
texto. O visual limpo também contribuiu para a melhor otimização e valorização dos
elementos gráficos padrão, como paginação no centro inferior, nome das seções nos
cantos superior esquerdo das páginas pares (acompanhado de triângulos) e inferior direito
das ímpares. Na imagem a seguir, pode-se perceber a organização dos elementos gráficos
e recursos para melhor leitura e aprendizagem ao longo das páginas da revista:

Imagem 09 – 1) Indica a seção em que o leitor está. Optou-se por fazer os lados diferentes (na
esquerda há triângulos envolvendo a palavra e na direita não), com vistas a um visual
equilibrado; 2) É a paginação padrão da revista; 3) Box explicativo; 4) “Olho” da matéria.
Fonte: elaborado pelos autores.

Nesse recorte, também pode-se visualizar a mancha gráfica com imagens “sangradas” ou
ultrapassando a marca de dobra em páginas duplas, não seguindo um padrão, exceto pelos
textos que foram diagramados dentro do grid modular, mas de modo dinâmico e fora do
comum.
Utilizaram-se boxes explicativos nas seções “Vestuário”, “Cultura” e “Capa”, pois
desejou-se apresentar uma revista com um teor didático e
linguagem diferenciada. Além disso, foram usados “olhos” nas páginas para citações
consideradas fundamentais nas seções “Capa” e “Cultura”.
Antes do processo de edição iniciar, foi proposto aos acadêmicos planejar ações para
inserção da Trinque no mercado, ou seja, pensar em vários pormenores, como as diretrizes
técnicas para impressão da revista se fosse comercializada, seus pontos fracos e fortes,
rotinas para implantação e manutenção, equipe, tempo de produção, recursos humanos,
tiragem, plataformas de divulgação, assinaturas, próximas edições e demais trâmites
editoriais. Todavia, optou-se por não explanar tais conteúdos neste artigo afinal são
propostas fictícias. Ainda assim, o grupo acredita que para o sucesso de uma revista é
crucial pensar e desenvolver todas as possíveis atividades que permeiam o mercado e o
contato com o público.

Finalmente, observando o resultado final, depois de todo o processo de concepção


editorial, preparação de texto, criação do projeto gráfico, revisão, tratamento de imagens,
diagramação, fechamento do arquivo e impressão, a sensação de dever cumprido foi
imensa. Ver leitores em potencial folheando a revista impressa confirma a importância da
experimentação durante a academia, afinal esse é o principal meio de aplicar os
conhecimentos teóricos na prática da produção editorial e de legitimar o papel ímpar do
editor na sociedade.
CONSIDERAÇÕES
Por mais “novidades” que as revistas tradicionais de moda busquem trazer, ainda existe
uma grande falha em representar a moda e a cultura alternativa. Pensando nisso, a ideia
fundamental da Trinque foi corrigir essa falha e dar voz a essa cultura geralmente vista
como uma tendência a ser esquecida em prol da cultura hegemônica atual.
Nesse processo para fazer uma representação correta – também considerando o fator
identitário da equipe vs. o público-alvo – houve, em cada etapa, a vigilância em planejar,
executar e demonstrar de forma clara tal universo.
O principal fator que trouxe essa identidade à revista, ao mesmo tempo legitimando a
Trinque como revista inovadora no mercado editorial, foi a união entre os conceitos
simbólicos e o projeto gráfico, pois neste último cada detalhe foi criado e revisado para
captar visualmente aquilo trazido pela missão editorial.
Apontam-se duas estratégias para perceber esse diferencial, sendo a primeira através da
diagramação, fator de distinção perante outras publicações, e a segunda abrangeu o
cuidado com a linha editorial e conteúdo que, mesmo sendo em grande parte fictício, foi
pensado para que a temática do alternativo não acabasse sendo reproduzida
superficialmente como na maioria dos veículos comunicativos.
O projeto, em seu todo, contribuiu bastante para a equipe, não somente pelos desafios
encontrados e superados, mas pela experiência na prática da edição. Cada etapa proposta
pelas orientadoras e cada solução criada pelo grupo foram cruciais para a aprendizagem
na arte de editar revistas, principalmente ao contemplar e folhear a versão impressa.
Portanto, este artigo cumpriu com o dever de evidenciar todos os processos editoriais
pelos quais a revista Trinque passou, desde sua concepção na mente dos editores,
passando pelas etapas de edição e, por fim, chegando até aquele que é seu objetivo
primordial e sua razão de existir: o leitor.
REFERÊNCIAS
ALI, Fátima. A arte de editar revistas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.
BOFF, Felipe. Muito além do editorial: a revista e suas opiniões. In: TAVARES,
Frederico; SCHWAAB, Reges (orgs.). A revista e o seu jornalismo. Porto Alegre:
Penso, 2013. p. 191.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere – Volume 1. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001.
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é contracultura. São Paulo: Brasiliense,
1983.
PRADO, Magaly. Webjornalismo. Rio de Janeiro: LTC/GEN, 2010.
SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. 2ª edição. São Paulo: Contexto, 2004.
TAVARES, Frederico de Mello. Revista e identidade editorial: mutações e construções
de si e de um mesmo. In: TAVARES, Frederico; SCHWAAB, Reges. (orgs.) A revista e
seu jornalismo. Porto Alegre: Penso, 2013. p. 76-91.
ZAPPATERRA, Yolanda. Design editorial. São Paulo: Gustavo Gili, 2014.