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Resumo Global da Matéria de História A para o exame de 2017 (10º, 11º)

10º Ano

Módulo 1
1.
1.1 A democracia antiga
1.1.1 Um mundo de cidades-estado
A Pólis
Definição: Termo pelo qual os Gregos designavam as pequenas comunidades independentes em que viviam. A
palavra podia também ser usada, num sentido mais restrito, para designar o conjunto de cidadãos ou a cidade
propriamente dita.

Embora tivessem plena consciência da sua cultura comum, os Gregos nunca formaram uma unidade política. O
mundo helénico era constituído por uma multiplicidade de pólis, minúsculas comunidades independentes
organizadas em torno de um núcleo urbano. Cada pólis (ou cidade-estado) ocupava, naturalmente, um território
próprio.

A população era maioritariamente formada por escravos e estrangeiros (muitas vezes provenientes de outras regiões
da Grécia), aos quais não era reconhecido o estatuto de cidadão. Por isso, o corpo cívico (conjunto de cidadãos) era
muito reduzido, mas, mesmo assim, essencial à vida da polis. Aos cidadãos, e só a eles, cabia o governo, a organização
das cerimónias religiosas e a feitura das leis, às quais os Gregos devotavam um enorme respeito,

O território, o corpo cívico e um conjunto de leis próprias eram, pois, imprescindíveis à existência da polis.
Considerava-se ainda que a cidade devia bastar-se a si própria também no aspecto económico, pois, só assim, seria
verdadeiramente independente. Pequena mas capaz de funcionar em autarcia, isto é, de ser auto-suficiente, a pólis era
olhada pelos Gregos como a forma de organização ideal, aquela que melhor proporcionava o desenvolvimento das
qualidades políticas, morais e intelectuais dos cidadãos.

A organização do espaço cívico


A insegurança dos primeiros séculos da História grega privilegiou a criação de praças-fortes, em locais altos, de fácil
defesa. Em caso de perigo, os camponeses poder-se-iam acolher nas suas muralhas. Foi em torno deste local alto, a
acrópole, que nasceram as primeiras cidades. Com o passar do tempo, a acrópole tornou-se sobretudo um local de
culto. Nela se erguiam os principais templos da cidade e para ela se encaminhavam tanto as grandes procissões como
aqueles que, individualmente, pretendiam honrar os deuses com as suas oferendas.

A vida quotidiana das cidades helénicas desenrolava-se sobretudo, na parte mais baixa da cidade, onde se situava a
agora ou praça pública.

Ágora: Praça pública das cidades gregas localizada na sua parte mais baixa. Era o centro político, económico e social
da cidade, partilhando ainda com a acrópole funções religiosas. Era rodeada por de edifícios públicos importantes.

1.1.2 A democracia Ateniense


Democracia antiga: Identifica-se com a democracia das cidades gregas, que tiveram Atenas como paradigma. A
democracia antiga distingue-se da actual sobretudo pelo seu carácter directo e por limitar a participação política a um
conjunto muito restrito de cidadãos.

As três etapas para a democracia ateniense:


Oligarquia: Divisão da sociedade grega pela riqueza e acesso aos cargos mais altos em função desta. Mais ricos
governavam e tinham mais poder apesar da Assembleia (Eclésia) ser de acesso a todos os cidadãos.

Tirania: Eclésia, Bulé e o Helieu sob governação de um tirano.

Democracia: Período de reformas de Clístenes o qual organizou o corpo cívico em 10 tribos de um décimo do
território urbano (asty) do interior (mesogeia) e do litoral (parália). Escolha de 500 indivíduos para a Bulé e
instituição da lei do ostracismo.

Os direitos dos cidadãos: isonomia, isocracia e isegoria


Isonomia: Igualdade perante a lei. A nenhum cidadão eram concedidos privilégios baseados na riqueza ou no
prestígio da sua família. As leis valiam para todos e todos, sem excepção, lhe deviam obediência.

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Isocracia: Igualdade de acesso aos cargos políticos. Todo o cidadão ateniense tinha o direito (e o dever) de participar
no governo da pólis. As decisões, normalmente tomadas em conjunto, respeitavam a vontade da maioria, pois todos
tinham igual direito de voto.

Isegoria: Igual direito ao uso da palavra. Nas assembleias, nos tribunais ou no exercício das magistraturas, todos
podiam defender, livremente, as suas opiniões. A liberdade de palavra só era limitada pelo interesse do Estado, o que
deixava uma larga margem de expressão.

O estabelecimento destes princípios igualitários ficou ligado à figura de Clístenes e às reformas que empreendeu em
508 a.C. Considerado o fundador da democracia ateniense, estabeleceu uma nova divisão administrativa do território,
que fraccionou em 10 tribos, subdivididas, por sua vez, em 10 demos (100 demos ao todo). Destas circunscrições
eram sorteados, todos os anos, os cidadãos que deveriam prestar serviço nos diferentes órgãos políticos da cidade.
Daí a designação de democracia, palavra grega que significa, literalmente, poder do demos ou poder do povo.

Mais tarde, Péricles completou estas reformas com a criação das mistoforias, espécie de pagamento feito pelo estado
aos que exerciam funções públicas. Foram as mistoforias que tornaram viável o sistema de democracia directa, pois
permitiram aos cidadãos mais pobres dedicar uma parte do seu tempo à participação na vida política, deliberando na
Eclésia ou julgando nos tribunais.

O exercício dos poderes


Um pequeno conjunto de instituições bastava à pólis ateniense para assegurar o exercício dos poderes do Estado.
Assembleias (Poder Legislativo):
- A Eclésia ou Assembleia Popular: servia de base a toda a estrutura governativa. Reunia três a quatro vezes por mês,
ao ar livre, na colina da Pnyx, e nela deviam participar todos os cidadãos. Competia à Assembleia discutir e votar as
leis, decidir a paz e da guerra, apreciar a actuação dos magistrados ou deliberar qualquer outro assunto que,
directamente, respeitasse ao governo da cidade. O voto exercia-se de braço no ar mas os cidadãos podiam também
exigir que ele fosse secreto (decisão por maioria).

- A Bulé ou Conselho dos 500: partilhava com a Eclésia o poder legislativo, cuja organização lhe competia, uma vez
que elaborava as propostas de lei, os prouboulema, sobre os quais a Assembleia do Povo devia deliberar. No intervalo
das sessões da Eclésia, a Bulé era chamada a resolver os assuntos correntes, cabendo-lhe o poder de decisão. Como o
nome indica, formavam este Conselho 500 membros, sorteados anualmente, à razão de 50 por tribo. Ninguém podia
ser membro da Bulé mais do que duas vezes na vida (para dar lugar a todos os cidadãos). Os buleutas trabalhavam
numa espécie de sistemas rotativo – as Pritanias – em que alternavam no poder os 50 buleutas de cada tribo.

Magistrados (Poder executivo):


- Os Arcontes: Tirados à sorte, um por tribo, eram magistrados prestigiados, embora os seus poderes se limitassem
quase só ao desempenho de funções religiosas e judiciais. Competia-lhes a organização das grandes cerimónias
funerárias e religiosas e a presidência dos tribunais. Era entre os antigos arcontes que se recrutavam, vitaliciamente, os
membros do Areópago, o que conferia ao arcontado muito do seu prestígio.

- Os Estrategos: Comandavam a marinha e o exército e eram eleitos com base na sua competência. A conjuntura de
guerra vivida no século V a.C. contribuiu para que os estrategos se tornassem os verdadeiros chefes de Atenas,
controlando a sua política externa e financeira. Alguns estrategos, dotados de grande espírito de liderança e de hábeis
poderes oratórios, alcançaram enorme prestígio (ex. Péricles),

Tribunais (Poder Judicial):


- O Areópago: Tribunal formado por antigos arcontes, que exerciam o cargo vitaliciamente. Outrora o mais
importante tribunal de Atenas, no século V a.C., as suas funções encontravam-se bastantes limitadas, competindo-lhe
o julgamento de crimes de homicídio e de desrespeito aos deuses da cidade.

- O Helieu ou Tribunal Popular: Constituído por 6000 juízes com mais de 30 anos, sorteados anualmente à razão
de 600 por tribo, a quem incumbia o julgamento da maior parte dos delitos. Funcionava por secções e a instrução
dos processos competia aos arcontes e a outros magistrados. Finalizados os discursos da acusação e do réu, os juízes
pronunciavam-se pela absolvição ou pela condenação.

Uma democracia directa e a importância da oratória


A democracia antiga era uma democracia directa, isto é, os cidadãos ocupavam-se eles próprios, sem intermediários
políticos e sem partidos, do governo da pólis. Para tal exercício era necessário um domínio geral da retórica, que
permitia convencer e brilhar na política.

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1.1.3 Os limites da democracia antiga
A reduzida proporção do corpo cívico
A participação democrática estava reduzida a um número muito pequeno de cidadãos. Este conceito de cidadão era
atribuído aos indivíduos do sexo masculino atenienses, filhos de pais atenienses, que tivesse o serviço militar
obrigatório cumprido. Era-lhes concedido o direito à governação da cidade e outros privilégios.

Os excluídos
As Mulheres: As mulheres atenienses dedicavam-se aos trabalhos domésticos e à educação das crianças. Eram tutela
através do casamento, do pai ou do marido e não lhes era concedido o direito de possuir casa nem bens. As mulheres
mais abastadas viviam no gineceu acompanhadas sempre de escravas.

Os Metecos: Em grego, “aquele que vive com”. Designava os estrangeiros, principalmente os oriundos do mundo
grego, que residiam na pólis. Em Atenas, estava-lhes vedada a aquisição de terras e a participação na vida política. A
sua condição perpetuava-se para os filhos e eram obrigados a pagar um imposto, o metécio, e à prestação do serviço
militar. Desempenhavam um papel económico relevante assegurando a produção artesanal e as trocas comerciais.

Os Escravos: Indivíduos considerados propriedade de outrem, sem personalidade civil nem direito a possuir família e
bens, podendo os amos dispor destes livremente.

1.2 Uma cultura aberta à cidade


1.2.1 As grandes manifestações cívico-religiosas
O culto cívico
Os Gregos eram unidos por um forte sentimento cultural: a mesma línguas, os mesmos deuses e as mesmas tradições,
considerando-se a si próprios Helenos e aos estrangeiros fora da Grécia bárbaros. As manifestações religiosas ligadas
às tradições tinham um carácter tanto público como privado manifestando a sujeição do Homem aos deuses e aos
seus desígnios e a grandeza da alma humana. A organização destas festividades cabia aos cidadãos, sendo encarado
como um dever cívico. As mais prestigiadas eram as Panateneias em honra à deusa Atena e as Dionisíacas em honra
ao deus Dionísio, estando nesta última festividade a origem do teatro (Tragédia e Comédia).

Os jogos
Os jogos gregos tinham um carácter marcadamente religioso e eram uma forma de devoção, de culto e de homenagem
aos Deuses. Entre os mais importantes destacam-se os em honra a Zeus e os jogos Olímpicos.

1.2.2 A educação para o exercício público do poder


A educação era um aspecto fundamental na preparação dos cidadãos para a vida política. Até aos 7 anos a educação
era transmitida pela mãe no gineceu. A partir desta idade apenas os rapazes iam à escola, onde aprendiam com um
gramático, a leitura, a escrita e a aritmética. A educação era completada com a música, a preparação física, a
matemática e a filosofia que a partir dos 15 anos era leccionada em ginásios, praticada em palestras. Era completada,
por fim, com o exercício da vida cívica através da participação nas assembleias, do exercício das magistraturas ou de
discussões na agora. A educação era assim, um instrumento de preparação para a dominação da retórica e do bom
argumentar.

1.2.3 A arquitectura e a escultura, expressão do culto público e da procura da harmonia


A arquitectura grega é essencialmente uma arquitectura religiosa. Construía-se a partir do sistema trílito, isto é, dois
suportes verticais (as colunas) unidos por uma laje horizontal (arquitrave). Esta base construtiva, extremamente
racional, dava aos tempos uma grande simplicidade e permitia a decoração do frontão com inúmeras esculturas. A
vontade de construir obras perfeitas levou à criação de ordens arquitectónicas. Destacam-se as três seguintes:

- A ordem dórica: É mais robusta e sóbria. A coluna não tem base, o fuste tem caneluras de aresta viva e termina num
capitel com moldura simples. A arquitrave é lisa e no friso alternam tríglifos e métopas.
- A ordem jónica: É mais elegante e leve. A coluna tem base, as estrias do fuste são arredondadas e o capitel
desenvolve-se em graciosas volutas. A arquitrave divide-se em três faixas ligeiramente salientes e o friso recebe uma
decoração contínua.
- A ordem coríntia: Muito semelhante à ordem jónica, a ordem coríntia distingue-se pelo capitel profusamente
decorado com folhas de acanto. Foi utilizada sobretudo no período helenístico e durante o período romano.

As plantas dos monumentos eram bastante simples: normalmente rectangulares, apresentavam uma antecâmara
(pronaos), uma sala onde era colocada a estátua da divindade (naos ou cella) e uma para as oferendas (opistódomo).
Os edifícios eram concebidos para serem vistos do exterior e a correcções ópticas (entasis) conferiram-lhes uma
perfeita simetria.

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A Escultura:
Idealismo escultórico:
- Obedece a regras fixas: os cânones (defendidos por Polícleto);
- Escultores revelam domínio técnico perfeito do trabalho da pedra e do bronze;
- Evidenciam o conhecimento apurado da anatomia do corpo humano. Obras de grande realismo, embora não haja
preocupação de fazer retratos fiéis (beleza ideal);
- Produzem notáveis estátuas que dão relevo aos frisos, frontões e estelas;
- Gregos procuram, sempre a grandeza nas proporções e não nas dimensões;
- Busca incessante pela beleza ideal e a perfeição, com expressões serena e contemplativas. Diz-se por isso que a
escultura grega é idealista.

2.
2.1 Roma, cidade ordenadora de um império urbano
2.1.1 A cidade que se fez império
Império: Estado constituído por vários territórios, um dos quais exerce o domínio político e a exploração económica
sobre os outros. Na civilização romana também se chama império ao período em que o magistrado supremo, todo-
poderoso, é o imperador.

Roma nasceu de uma pequena povoação que aos poucos se foi desenvolvendo. Após a expulsão dos Etruscos
implantou-se uma república e alargou-se as fronteiras, conquistando terras e formando um dos maiores impérios de
sempre, rodeado pelo mar mediterrâneo ao qual os Romanos davam o nome de maré nostrum.

Um mundo de cidades
O império romano era um mundo de cidades com instituições governativas próprias. A organização das terras
conquistadas era feita com a criação de centros urbanos ou a sua reorganização. Roma era a mais importante cidade
do império, a urbe por excelência.

Urbe: Termo usado na Antiga Roma para designar uma cidade ou recinto urbano, geralmente rodeado de muralhas,
que se diferenciava do seu território ou distrito rural. Posteriormente, designava apenas Roma, a cidade por
excelência.

Das magistraturas republicanas ao poder do imperador


A partir da governação do primeiro imperador romano, Octávio, os poderes das velhas instituições públicas (Senado,
Comícios e Magistraturas) foram reforçados mas também centrados no imperador.

Senado Magistraturas Comícios Imperador


- Assembleia - Altos cargos do Estado, - Assembleias periódicas - Controla as
permanentemente atribuídos por eleição. de carácter popular Magistraturas;
composta pelos cidadãos Duração do mandato: 1 representativas do Povo - Modifica a composição
mais prestigiados; ano. Romano; do Senado, excluindo dele
os elementos que lhe
Funções: Magistrados: Funções: desagradarem;
- Valida as leis aprovadas * Ordinários: - Eleição dos magistrados; - Nomeação dos altos
pelos Comícios; - 2 cônsules: Chefia do - Aprovação das leis. funcionários do Estado,
- Controla o Tesouro; Governo e do exército; dos governadores das
- Administra as províncias; - 2 pretores: Aplicação da - Elegem as Magistraturas. Províncias e dos generais
- Decide da política Justiça; do exército.
externa (entre outras). - 4 edis: Fiscalização dos
mercados; conservação dos
- Controla as edifícios e ruas;
Magistraturas. organização dos jogos;
- 8 questores: Gestão das
finanças;
- 10 tribunos da plebe
(eleitos pelos plebeus):
Defesa dos direitos dos
plebeus;
- 2 censores (eleitos de 5
em 5 anos entre os ex-
cônsules, por um período
máximo de 18 meses):

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Actualização do
recenseamento dos
cidadãos e da sua fortuna;
policiamento dos
costumes.

* Extraordinário:
- Ditador (designado
pelos cônsules, por um
período máximo de 6
meses): Condução de uma
guerra difícil; Restauração
da ordem (as suas decisões
sobrepõem-se às de todos
os magistrados).

- Propõem as leis aos


Comícios.

2.1.2 A unidade do mundo imperial


O culto a Roma e ao Imperador
Quando, em 27 a.C., Octávio recebeu do Senado o título de Augusto, passou a ser considerado mais do que um
homem: tornou-se objecto de culto e de veneração, um deus entre os deuses. Na verdade, a grande inovação da sua
política religiosa foi a criação de um culto imperial que era, simultaneamente, individual, municipal e provincial. O
culto ao imperador da cidade e dos romanos, predestinada a dominar o mundo, estendeu-se por todo o império onde
se ergueram altares em sua honra.

O culto a Augusto assumiu-se como um factor unificador. Na verdade, possibilitava a união de todos os povos do
império em torno do imperador e permitia ultrapassar as diferenças regionais. Adorava-se Augusto, o poder de Roma
e o Império afirmava-se como um todo. Materializava-se deste modo, a unidade entre o Imperador, o Império
romano e Roma que proporcionavam prosperidade.

A codificação do Direito
O direito romano desde o início da formação de Roma, ainda no período da monarquia, era consuetudinário, isto é,
baseado na tradição oral, assentando nos costumes (mores maiorum). Esta característica fazia com que fosse
praticado de forma arbitrária, em desfavor dos plebeus, grupo social mais desfavorecido. Por isso, a plebe revoltou-se
e conseguiu obter a formação de uma comissão, de dez patrícios, encarregue de criar uma lei escrita que evitasse
abusos. Este conjunto de leis ficou conhecido como a lei das Doze Tábuas, que nunca foi formalmente suspensa. A
lei escrita tornou-se uma prática por todos os romanos. Era no fórum que se tratavam a maior parte dos casos,
geralmente num edifício que, para além das funções sociais, tinha também funções de tribunal, designado de basílica.

Novas situações exigiram novas leis, promulgadas e consequência da actividade dos magistrados encarregados da
justiça (os pretores), do trabalho dos jurisconsultos (espécie de advogados que eram chamados a dar parecer sobre os
casos de resolução mais complexa), de decisões do Senado (Senatus Consultus) ou do próprio imperador (decretos
imperiais). A pedido do imperador Justiniano foi feita uma compilação de todas estas leis a que se deu o novo de
Corpus Juris Civilis ou Código de Justiniano. Deste modo, a imensa obra legislativa dos Romanos actuou como um
importante factor de pacificação e união dos povos do Império.

A progressiva extensão da cidadania


A plena cidadania romana (civitas) implicava um conjunto de direitos e deveres civis e políticos que incluíam:
- Direito de contrair matrimónio;
- Direito de proceder a actos jurídicos;
- Direito de possuir terras e de transaccionar;
- Direito de votar;
- Direito de ser eleito para as magistraturas.
- Dever de servir no exército;
- Pagamento de determinados impostos ao Estado.

Até ao século I a.C., a cidadania plena (Direito Romano) estava reservada aos naturais da cidade de Roma e a quem
se destacasse pelo valor. A Itália, primeira região conquistada, usufruía do Direito Latino mas estavam impedidos de
aceder às altas magistraturas.

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Em 49 a.C., em Itália, todos os homens livres foram equiparados a cidadãos romanos, enquanto no resto do Império
a maioria das cidades não tinha sequer a honra do direito latino.

Em 212, o Imperador Caracala concedeu a plena cidadania romana a todos os habitantes livres do Império.

2.2 A afirmação imperial de uma cultura urbana pragmática


2.2.1 A cultura romana: pragmatismo e influência helénica
As realizações romanas e as suas conquistas reforçaram o Pragmatismo. Ao pragmatismo entende-se como um
sentido prático, uma atitude que privilegia a utilidade e a eficiência como critérios de actuação. É uma das
características mais salientes da cultura romana e das que mais distinguem do espírito grego. Foi o sentido prático
dos romanos que viabilizou o seu êxito militar e a manutenção do seu imenso império. O Direito é justamente
considerado como o expoente máximo do pragmatismo romano. O espírito aberto do pragmatismo romano permitiu
a recepção de várias influências de outros povos entre a mais marcante, a influência grega. Reconheceram a sua
originalidade, o seu brilhantismo e imitaram-lhe a arte, a literatura, a filosofia e até a religião (em parte).

2.2.2 A padronização do urbanismo


A civilização Romana foi, sobretudo, urbana. Roma assumiu-se como a “cabeça do império”, no qual as cidades,
quer a Ocidente quer a Oriente, não só desempenhavam um papel de destaque como se desenvolveram de modo
significativo. De facto, em termos geográficos, o modelo urbano da cidade prosperou, sob domínio romano, na
Europa, no norte de África e na Ásia Menor.

Roma era, nesta época, a maior cidade (urbe) do mundo (urbe et orbi) e nela chegaram a habitar cerca de um milhão
de pessoas. O papel de destaque atribuído à cidade justificava.se pelo facto de ser entendido como o centro político,
religioso, económico, e social do espaço geográfico, diverso e vasto do império Romano.

Os Romanos eram caracterizados por um grande urbanismo e gosto pela monumentalidade. Tinham forte
preocupação com a organização do espaço urbano, traçando plantas urbanas e vias de circulação, construindo
sistemas de esgotos e de abastecimento de águas e formulando construções domésticas e públicas.

O traçado das novas cidades está muitas vezes associado a acampamentos militares. Era traçado em retículo, segundo
dois eixos – cardo e decumano – e na intersecção desses eixos encontrava-se normalmente o fórum, centro político,
religioso e económico.

Os Romanos eram também grandes engenheiros de obras públicas e construíram edifícios de enorme carácter prático
e utilitário:

1- Lazer: Sendo o Império Romano um mundo de cidades, estas cumpriam a função de agradar ao cidadão.
a) Anfiteatro: planta circular ou elíptica, composto por uma arena central, rodeado por arquibancadas, sem cobertura.
Locais de duelo entre gladiadores e de lutar entre feras e homens, podendo também ser inundados para simular
batalhas navais.

b) Teatro: Local onde se representavam peças teatrais (tragédias, comédias e farsas). Possuíam uma cávea semicircular
que unia com a cena, por isso, a orquestra era semicircular. Eram também utilizados como locais de reunião política
dos cidadãos.

c) Termas: complexas obras arquitectónicas que incluíam um edifício principal com piscinas, saunas e vários anexos
como ginásios, palestras, bibliotecas, lojas, hipódromos, teatros e espaços ao ar livre. Locais onde se podia tomar
banho, receber massagens, fazer depilação, praticar desporto, ler e conviver socialmente.

2. Comemoração: As construções comemorativas, caracterizadas pela imponência, tinham uma intenção


propagandística, servindo a função de exaltação do poder imperial, através de monumentos como:

e) Coluna: celebrava o sucesso de uma conquista.

f) Arco do Triunfo: monumento comemorativo de uma vitória militar.

g) Pórtico monumental: estrutura sustentada por colunas.

h) Ara Pacis: o altar da Paz é um exemplo marcante da exaltação, em relevo, dos benefícios da pax (paz) romana
instituída por Octávio.

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3. Serviço à cidade/edifícios do senado
i) Cúria: Local de reunião do senado.

j) Basílica: Serviam para albergar o tribunal público e sala de reuniões e outras repartições públicos (termas,
mercados, bolsas de mercadores e palácios imperiais).

k) Templos: a religião politeísta exigia que estivessem implantados por todo o império, seguindo o modelo
arquitectónico aproximado aos templos gregos.

l) Aqueduto: transporte e abastecimento de água dos reservatórios naturais às cidades (fontanários e casas).

m) Domus e insulae: as casas de habitações mais ricas tinham, normalmente, um pátio com impulvium, um peristilo
com jardim interior e mosaicos – eram as domus. As insulae, onde morava a maior parte da população, eram prédios
com altura (geralmente 6 andares) de fracos materiais construtivos e, como tal, sujeitos a ruínas e a incêndios.

n) Pontes: faziam parte do sistema viário romano; existem ainda nos nossos dias, belos exemplares desta arquitectura
utilitária.

o) Estradas: a preocupação dos Romanos em pavimentar as vias de comunicação facilitou o trânsito de legionários,
mercadorias e todo o tipo de pessoas que, chegando a Roma, enriqueceram com o seu contributo cultural.

p) Esgotos, latrinas e fontes públicas: evidenciam o avanço civilizacional romano.

q) Bibliotecas: públicas ou privadas, satisfaziam a sede da cultura dos Romanos. A Biblioteca mais famosa do mundo
antigo foi a de Alexandra, infelizmente destruída por um incêndio. Nela recitavam-se autores consagrados e liam-se
os textos em volume de pergaminho que se desenrolavam à medida da recitação.

r) Mercados Públicos: habitualmente ruidosos e apinhados, serviam a função de abastecimentos de víveres à cidade.

2.2.3 A fixação de modelos artísticos


A Arquitectura
A arte romana ligava-se ao quotidiano, tinha um sentido prático e utilitário. Apesar da influência grega, assumiu uma
originalidade pragmática, o que lhe conferiu uma individualidade. Revela monumentalidade e destacou-se pelo:
- Uso de materiais como o tijolo, o mármore e argamassas que permitiam a ligação das estruturas;
- Uso do mármore largamente empregue dando beleza e imponência;
- Uso do mosaico como elemento decorativo, divulgado por todo o império;

Aprofundou novos elementos como:


- O arco de volta perfeita;
- A abóbada de berço;
- A cúpula;
- A sobreposição da ordem compósita (jónica + coríntia);
- O uso do podium e da escadaria;
- O uso da planta circular;
- A utilização de novos materiais de construção.

A Escultura
No domínio da escultura, a influência grega também se faz sentir no domínio romano. A presença de artistas gregos
em Roma foi uma realidade, vista:
- Na emigração de artistas gregos para Roma em busca de trabalho;
- Na aquisição de estátuas-gregas;
- De encomendas de cópias sucessivas, através das quais podemos conhecer o que eram os originais gregos destruídos
ou perdidos.

A escultura revelou a sua individualidade e originalidade através do retrato que se caracteriza pelo realismo das
figuras e pelos pormenores como a expressão de rosto, os penteados típicos da época e os traços fisionómicos. A
representação do imperador tinha um carácter mais idealizado, misto de divindade e humanidade enquanto os dos
heróis guerreiros uma personificação e enaltecimento deles mesmos. Os arcos de triunfo e as colunas honoríficas
eram obras que tinham fins comemorativos e propagandísticos, destinados a enaltecer o império e os seus feitos.

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2.2.4 A apologia do império na épica e na historiografia
A poesia e história
A época de Augusto correspondeu a um período de grande esplendor cultural que se manifestou tanto na arte como
na literatura, através das quais se podia enaltecer o Império e o povo. Na verdade, Augusto procurou reformar o
mundo romano mediante a promoção dos valores tradicionais. O período de paz e boas condições económicas de
que o império usufruiu foram certamente decisivos para o desenvolvimento da vida intelectual nesta época. Inúmeros
foram os historiadores que ao longo do tempo dedicaram as suas vidas a criar obras que enalteciam o passado
histórico dos romanos.

2.2.5 A formação de uma rede escolar urbana uniformizada e a difusão da rede escolar
No império romano existia uma rede de escolas distribuída e implementada pelo Estado. Estes viam as escolas como
um importante instrumento de unificação cultural das populações. Roma incentivava as cidades a criar as suas escolas
e a conceder privilégios e regalias aos professores. A administração central responsabilizava-se pelo pagamento de
alguns professores. A Educação, oferecida a tanto rapazes e raparigas, dispunha de diversas etapas:
- Dos 7 aos 12 anos, praticava-se a leitura, a escrita, o cálculo, a aprendizagem de princípios cívicos e decorava-se
trechos poéticos de modo a adquirirem valores e atitudes;
- Dos 12 aos 15 anos, aprendia-se línguas, literatura, história, geografia, matemática, astronomia e música.
- A partir dos 17 e só para rapazes ou elites, aprendia-se a retórica e direito para proporcionar bases para a carreira
pública.

2.3 A integração de uma região periférica no universo imperial: a romanização da Península Ibérica
Romanização: processo de transmissão da cultura romana aos diversos povos do império e integração plena das
províncias no espaço civilizacional. Foi um processo lento que, embora de forma desigual, atingiu o espaço político
romano. Culminou com o Edito de Caracala que concede cidadania romana aos homens livres do Império.

2.3.1 A conquista
A conquista da Península Ibérica iniciou-se em 218 a.C. e só culminou em 19 a.C. Foi um processo difícil e
atribulado devido à persistência dos povos do norte e centro da Hispânia, entre eles os Lusitanos, os Calaicos, os
Ástures e os Cântabros. A península era atractiva devido principalmente à existência de metais e ao desejo dos
romanos de expandir o seu território para o mundo desconhecido.

2.3.2 Os veículos de romanização


O exército e a imigração/ A acção das autoridades provinciais/ A língua, a religião e o Direito/ Uma densa rede de
cidades

Aculturação: Processo de adaptação de um grupo ou povo a uma cultura diferente da sua, Os grupos minoritários ou
os povos que se encontram sob dominação externa têm tendência para absorver a cultura dominante. Considera-se
que este processo é tanto mais fácil e profundo quanto maior for o desnível civilizacional entre os dois grupos. Assim
se entende que, no caso romano, as regiões do Ocidente tenham sido mais profundamente romanizadas do que as do
Oriente, onde o brilhantismo da cultura helénica bloqueou, em parte, o processo de romanização.

Município: Cidade dotada de ampla autonomia administrativa, que se rege por instituições semelhantes às da cidade
de Roma. Aos municípios pode ser atribuído o Direito Latino (que equivale à cidadania incompleta) ou o Direito
Romano (a plena cidadania), o que, em ambos os casos, corresponde a um estatuto elevado. Por isso se considera que
a proliferação deste tipo de cidades favoreceu o processo de romanização.

A expansão da cultura romana deu-se, na Hispânia, mais rapidamente no Sul do que Norte devido à resistência dos
povos autóctones. Apesar disso, o processo de romanização foi bem aceite devido a diversos factores:
- À medida de que o exército chegava, estes foram-se instalando e criando contacto com os povos locais, trazendo a
cultura romana e partilhando-a, tendo a participação de hispânicos no exército o mesmo sentido assim como a
chegada de imigrantes italianos;
- A acção das autoridades provinciais foi um factor que permitiu uma pacificação geral visto que mostravam uma
atitude de tolerância e respeito pelos nativos. Estas promoveram a construção de obras públicas e atraiam os filhos
dos chefes indígenas a terem uma educação tipicamente romana;
- A língua comum, o latim, difundiu-se e permitiu o melhor entendimento entre conquistados e conquistadores. Já a
religião oficial não foi sobreposta sobre as divindades locais, permitindo às populações manter as suas práticas
religiosas, apesar de ser introduzido o culto ao imperador. O Direito e o respeito pelas suas leis era uma forma de
manter a ordem e a segurança;
- A densa rede de estradas permitiu a fácil ligação entre os diversos municípios e colónias, que com governos e órgãos
de decisão própria, eram autênticas cidades romanas. O seu desenvolvimento (de cidades preexistentes) e a criação de
novas cidades urbanas atraíram as populações mais rurais.

8
O desenvolvimento económico e a rede viária
Com a chegada dos Romanos, houve profundas alterações a nível económico no território português. Antes,
predominava uma economia pobre, sustentada pela pastorícia, onde o comércio era raro e a moeda praticamente não
circulava. A agricultura passou a ser intensiva, virada para a exportação. Produzia-se principalmente os cereais, o
vinho e o azeite de alta qualidade. Manteve-se uma criação pecuária abundante, com excelentes bovinos, suínos e boa
qualidade de lã. Desenvolveram-se indústrias, de extracção mineira, as forjas, olarias, tecnologias e conserveiras e o
famoso garum (conservas de peixe). Cresceram as feiras, multiplicaram-se os mercados. A moeda circulava
abundantemente. Tudo isto não era conseguido se não existisse a excelente rede de estradas de Roma, que formaram
um só espaço económico e partilhavam o dinamismo de todo o Império, um pasço económico vasto, articulado e
coeso.

3.
3.1 O império universal romano-cristão
3.1.1. O cristianismo e 3.1.2 O Império romano-cristão e 3.1.3 A Igreja e a transmissão do legado político-cultural
clássico
É na Palestina, em pleno Império Romano, que nasce o Cristianismo, religião monoteísta que marcará
profundamente o mundo ocidental. Progressivamente, a nova religião espalha-se pelo Império e suscita o repúdio das
autoridades romanas que vêem nela uma doutrina perigosa, capaz de abalar a estrutura social romana, o culto dos
deuses tradicionais e mesmo a autoridade do Imperador. Todavia, apesar das perseguições que lhe são movidas, o
cristianismo triunfa: em 313, com o Edito de Milão, o recém-convertido Imperador Constantino concede-lhe inteira
liberdade de culto; em 380, com o Edito de Tessalónica, Teodósio declara-o a única religião do Império, proibindo
que se honrem os antigos deuses pagãos. O Império Romano tornou-se um império cristão.

Factor de mudança, a Igreja surgiu também como um veículo transmissor do legado clássico:
- A retórica serviu os bispos, ministros da palavra de Deus, nas suas pregações;
- Os métodos e conceitos da Filosofia antiga foram utilizados pelos teólogos para fundamentar a nova fé;
- O Direito Romano esteve na base do Direito Canónico que regula, no interior da Igreja, as questões administrativas
e disciplinares;
- A liturgia foi enriquecida pela incorporação de aspectos do cerimonial imperial;
- A arquitectura religiosa tomou como modelo as construções romanas, quer públicas quer privadas: as basílicas
cristãs reúnem elementos inspirados nos palácios imperiais, nas termas, nas basílicas romanas e em outros edifícios
religiosos anteriores;
- Os frescos, mosaicos, estátuas e relevos cristãos inspiraram-se nos modelos romanos, atribuindo, frequentemente,
um novo significado a imagens antigas.

A Igreja, preservando o legado político da Antiguidade e bem organizada, tornou-se o pilar do Ocidente dos séculos
seguintes.

3.2 Prenúncios de uma nova geografia política


3.2.1 O Império em crise/ A divisão definitiva do Império 3.2.2 Os bárbaros no Império/ As grandes Invasões
3.2.3 O fim do Mundo Antigo
Os séculos IV e V que marcam o triunfo do Cristianismo são também aqueles em que se desmorona o poder
romano. Uma grave crise interna abala a autoridade do imperador e a organização do exército, que se mostra fraco
perante os povos bárbaros que, do exterior, o ameaçam. Internamente, sofreu uma rápida sucessão de imperadores
que eram submetidos aos caprichos dos exércitos. Diocleciano inicialmente adoptou o sistema da Tetrarquia
Imperial, repartindo a defesa e administração do Império por 4 líderes que habitavam em cidades junto das
fronteiras. Já Teodósio dividiu o Império em Ocidente e Oriente, o primeiro com capital em Roma e o segundo em
Constantinopla.

Porém, todas as soluções se revelam infrutíferas face ao ímpeto dos invasores, que, numa avalanche, percorrem e
devastam o espaço romano. O império do Ocidente cai definitivamente em 476 e a Europa sofre um fraccionamento.
A queda do império do Ocidente significou o fim da Época Clássica e o inicio da Idade Média. A Igreja torna-se o
centro das decisões, visto que foi a única instituição que se manteve organizada no meio de toda esta revolução.

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11º Ano

Módulo 4
1. A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento
1.1 Economia e população
O sistema económico que vigorou no continente europeu até ao fim do século XVIII era genericamente designado
por economia pré-industrial.

Economia Pré-Industrial: Sistema económico que se caracteriza essencialmente pela base agrícola e pela debilidade
tecnológica. O volume da produção encontra-se, por isso, estritamente ligado ao número de homens, estando a
expansão demográfica limitada pela insuficiência dos recursos alimentares, Assim, as fases de crescimento e de
recessão económica coincidem, em geral, com os fluxos e refluxos populacionais.

A economia pré-industrial caracterizava-se essencialmente por uma larga base agrícola e uma evolução tecnológica
lenta. Era uma economia agrária e rural (de subsistência) onde a agricultura ocupada cerca de 75% da mão-de-obra
disponível. Era pouco produtiva (rendimentos eram insuficientes), com atrasos económicos nos instrumentos e nos
métodos de cultivo (utensílios rudimentares, sem fertilizantes químicos, sem meios de combater as pragas),
sujeitando-se às variações climáticas e à fertilidade natural dos solos. Era marcada por desequilíbrios entre a oferta e a
procura.

1.2 Evolução demográfica


1.2.1 O modelo demográfico antigo: características
Esta fraqueza tecnológica da economia pré-industrial limitava o volume de produção de alimentos e claro o número
de pessoas que poderia alimentar. O Modelo Demográfico Antigo vai-se caracterizar por flutuações demográficas,
devido principalmente:
- À maior ou menor disponibilidade de recursos alimentares;
- Ao preço dos cereais, principal fonte de comida;
- Às alterações climáticas que afectavam as colheitas;
- Às epidemias;
- Ao estado de guerra;
- Às condições de higiene e de saúde pública;
- Às condições materiais da vida das populações.

Se em época de paz e prosperidade a população aumentava de mais (alta taxa de natalidade), o equilíbrio entre os
recursos alimentares e contingente demográfico rompia-se Bastava um ciclo de más colheitas para que a fome
agravasse, devastador, arrastando com ela todo um cortejo de doenças mortíferas, elevando a mortalidade de forma
súbita e intensa (alta taxa de mortalidade e mortalidade infantil maus cuidados pré-natais e pós-natais). Esta elevada
mortalidade que caracteriza este regime vai trazer consigo uma esperança média de vida baixa (entre os 30 e 33 anos
de idade), com uma população jovem e uma taxa populacional baixa.

1.2.2 O século XVII e Balanço Demográfico


Um exemplo de uma crise demográfica foi a do século XVII. Anos sucessivos de más colheitas devido às más
condições climáticas (invernos rigorosos, verões húmidos e frescos) geravam fomes devastadoras, que arrastavam
consigo terríveis epidemias. À fome e à peste juntaram-se os efeitos nefastos das guerras, entre a mais devastadora a
dos trinta anos (1618-1648) na Alemanha que ceifou 2/3 da população em certas regiões. Encontrávamos neste
século a junção da trilogia negra: fome, peste e guerra. Todavia, a população da Europa estagnou apenas e em alguns
sítios onde as condições se mantiveram prósperas houve um crescimento ligeiro.

1.2.3 O século XVIII


No século XVIII assistiu-se à inversão da estagnação e da regressão demográfica devido à diminuição da frequência e
intensidade das crises demográficas e aos factores agravantes (pestes, fomes e guerras) terem sido menos frequentes.

Os factores que contribuíram para a redução das taxas de mortalidade, indicador central da nova demografia foram
os seguintes:
- As melhorias climáticas e boas colheitas;
- A introdução de novos alimentos, como o milho e batata, contribuíram para colmatar as ausências do trigo e a sua
carestia;
- Os legumes e a fruta permitiram uma alimentação mais diversificada e equilibrada;
- As melhorias das condições materiais nas habitações tornaram-nas menos frias e com melhores condições de
higiene;

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- A promoção das medidas de saúde pública para combater epidemias, por parte dos Estados e governos mais
centralizados;
- O aparecimento da ratazana contribuiu para eliminar o rato negro responsável pela difusão da peste;
- A utilização do quinino para debelar as febres e a descoberta, em 1789, da vacina contra a varíola, por Edward
Jenner (embora os efeitos da utilização fossem mais significativos a partir do século XIX);
- A assistência durante o parto, por médicos e parteiras, permitiu melhorar as condições de nascimento a partir da
segunda metade do século XVIII;
- A alteração dos cuidados com as crianças melhorou as condições de vida na infância e diminuiu, progressivamente,
a mortalidade infantil.

2. A Europa dos Estados absolutos e a Europa dos parlamentos


2.1 Estratificação social e poder político nas sociedades do Antigo Regime
2.1.1 Uma sociedade de ordens assente no privilégio
Antigo Regime: Época da História europeia compreendida entre o Renascimento e as grandes revoluções liberais que
corresponde, a grosso modo, à Idade Moderna. Socialmente, o Antigo Regime caracteriza-se por uma estrutura
fortemente hierarquizada, politicamente corresponde às monarquias absolutas e economicamente ao desenvolvimento
do capitalismo comercial.

Ordem/Estado: Corresponde a uma categoria social definida quer pelo nascimento quer pelas funções sociais que os
indivíduos desempenham. Confere aos seus membros determinadas honras, direitos e deveres. A cada ordem
corresponde um estatuto jurídico próprio e os seus elementos distinguem-se, de imediato, pelo traje e pela forma de
tratamento.

Estratificação social: Divisão da sociedade em grupos hierarquicamente organizados, consoante o seu prestígio, poder
ou riqueza.

As três ordens da sociedade do Antigo Regime


Clero Nobreza Terceiro Estado (Ou Povo)
Cerca de 90 a 97% da
população:

Cerca de 1,5 a 6% da Burguesia:


Cerca de 1 a 4% da população: - Financeiros e mercadores;
população, considerado o - Nobreza da Corte (vive - Profissões liberais
mais digno pois estava mais junto do rei); (homens de letras);
próximo de Deus: - Nobreza de Toga - Lavradores;
Divisão
- Alto Clero (Bispos, (administração); - Funcionários
cardeais, abades); - Nobre de Espada (defesa administrativos.
- Baixo Clero (padres, militar);
monges). - Nobreza Provincial Povo:
(Pequena nobreza rural). - Camponeses;
- Pescadores;
- Trabalhadores braçais;
- Vagabundos e mendigos.
- Comércio, administração
- Religião, administração - Administração pública, pública, notários, tabeliães,
Actividades/Funções pública, ensino e assistência defesa militar, agricultura, médicos, indústria artesanal,
aos pobres e doentes. comércio e indústria. agricultura, criação de gado
e outros trabalhos braçais.
- Recebem rendas do rei;
- Posse de propriedades com privilégios (senhorios);
- Recebem impostos dos camponeses;
- Não pagam a maior parte dos impostos;
- Uso de títulos e vestuário próprio;
Privilégios
- Justiça Própria/ Foro
próprio (direito canónico); - Direito de porte de armas;
- Direito de asilo; - Isenções jurídicas (penas
- Isenção militar; justificadas).
- Recebem a dízima.
- Apoiar o monarca na administração do reino; - Trabalhar/produzir;
Obrigações
- Obedecer, sem crítica, ao rei. pagamento de impostos aos

11
senhores das terras;
pagamento da dízima ao
clero e ao rei; prestação de
serviços; cumprimento do
serviço militar quando
requisitado pelo rei ou
pelos senhores das terras.
Excepção:
- A alta burguesia, à qual o rei se alia na sua luta pela centralização do poder, é frequentemente concedida a
mobilidade social.

A diversidade de comportamentos e de valores. A mobilidade social


Na sociedade hierarquizada do Antigo Regime, todos os comportamentos estavam rigidamente estipulados para cada
uma das ordens sociais. Assim, o estatuto jurídico, o vestuário, a alimentação, as profissões, as amizades, os gastos, os
divertimentos, as formas de tratamento devem reflectir a pertença a cada uma das ordens: por exemplo, apenas o
nobre usava a espada e apenas o membro do clero usava a tonsura (corte de cabelo típico). Esta preocupação em
tornar visível a diferenciação social exprimira os principais valores defendidos na sociedade de ordens: a defesa dos
privilégios pelas ordens sociais mais elevadas, a primazia do nascimento como critério de distinção e a fraquíssima
mobilidade social.

Mobilidade social: Transição dos indivíduos de um para outro estrato social, quer em sentido ascendente quer em
sentido descendente. Numa sociedade de ordens, esta mobilidade é sempre reduzida, uma vez que o critério de
diferenciação social assenta no nascimento. Porém no Antigo Regime, o desenvolvimento do capitalismo comercial
conduziu à ascensão da burguesia, que viu reforçadas tanto a sua valia económica como a sua dignidade social.

Factores de mobilidade social descendente da nobreza rural e do baixo clero:


- Degradação da situação da pequena nobreza e baixo clero devido aos seus baixos recursos económicos;
- Desenvolvimento de uma economia monetária que levou ao empobrecimento da nobreza rural que vivia dos
rendimentos agrícolas;
- Endividamento da nobreza rural que se vê obrigada a vender as suas terras à alta nobreza e burguesia;
- Confiança nos sinais exteriores de superioridade e em privilégios antigos que foram caindo em desuso.

Factores de mobilidade social ascendente da burguesia:


- Expansão geográfica e comercial que estimulou o desenvolvimento de uma economia monetária e comercial;
- Enriquecimento com o comércio colonial;
- Afirmação do Estado Moderno, Absoluto e Burocratizado que privilegiou o recrutamento da burguesia;
- Aquisição de terras à nobreza;
- Compra de cargos públicos;
- Obtenção de cargos, títulos e doações dos reis;
- Obtenção de títulos através do casamento com a nobreza;
- Grandes habilitações literárias.

2.1.2 O absolutismo régio


Monarquia absoluta: Sistema de governo que se afirmou na Europa, no decurso do Antigo Regime. Concentra no
soberano, que se considera mandato por Deus, a totalidade dos poderes do Estado.

Os fundamentos do poder real


O poder real assenta em quatros características fundamentais:
- É sagrado, porque provém de Deus que o conferiu aos reis para que estes o exerçam em seu nome. Daqui decorre
que atentar contra o rei é um sacrilégio e que se deve “obedecer ao príncipe por princípio de religião”. Mas esta
origem divina do poder real se a torna incontestável também lhe impõe limites, pois os reis devem honrar o poder
que Deus lhes deu, usando-o para o bem público;

- É paternal, pois, sendo a autoridade paterna a mais natural e a primeira que os homens conhecem, “fizeram-se os
reis pelo modelo dos pais”. Por isso, o rei deve satisfazer as necessidades do seu povo, proteger os fracos e governar
brandamente, cultivando a imagem de “pai do povo”;

- É absoluto, uma vez que o príncipe deve tomar as suas decisões com total liberdade. Por isso, “o príncipe não deve
prestar contas a ninguém do que ordena”. Mas poder arbitrário e poder absoluto são coisas muito diferentes. O rei
assegura, com o seu poder supremo, o respeito pelas leis e pelas normas da justiça, de forma a evitar a anarquia que
retira aos homens os seus direitos e instala a lei do mais forte.

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- Está submetido à razão, isto é, à sabedoria, visto que Deus dotou os reis de capacidades que lhes permitem decidir
bem e fazer o povo feliz. Escolhidos por Deus, os monarcas possuem certas qualidades intrínsecas: bondade, firmeza,
forças de carácter, prudência, capacidade de previsão, São elas que asseguram o bom governo.

A encenação do poder: a corte régia


Na monarquia absoluta, o rei utilizava a vida em corte para mais facilmente controlar a Nobreza e o Clero. O grupo
que rodeava o rei (sociedade de corte) estava constantemente sujeito à vigilância deste. Os palácios eram centros da
vida da corte e eram locais de ostentação do poder e, ao mesmo tempo, de controlo das ordens privilegiadas.

Não foi o Absolutismo que inventou a corte mas foi ele que a transformou no espelho do poder. Tal como Luís
XIV é um exemplo de paradigma de um rei absoluto, Versalhes é o exemplo do paradigma de uma corte real. Quem
pretendia um cargo ou uma mercê só podia obtê-los no palácio. O luxo da corte arruinara a nobreza que rivalizava no
traje, nas cabeleiras, na ostentação, assim se esquecendo de que a sua influência política se esvaíra nas mãos do
soberano.

Nobres, conselheiros, “privados do rei”, funcionários que viviam na corte e para a corte, seguiam as normas impostas
por uma hierarquia rígida e de uma etiqueta minuciosa. Esta sociedade da corte servia de modelo aos que aspiravam à
grandeza, pois representava o cume do poder e da influência.

Todos os actos quotidianos do rei eram ritualizados, “encenados” de modo a endeusar a sua pessoa e a submeter as
ordens sociais. Cada gesto tinha um significado social ou político, pelo que, através da etiqueta, o rei controlava a
sociedade. Um sorriso, um olhar reprovador assumiam um significado político, funcionando como recompensa ou
punição de determinada pessoa.

2.1.3 Sociedade e poder em Portugal


A preponderância da nobreza fundiária e mercantilizada
A restauração da independência nacional, em 1640, por iniciativa da nobreza, concedeu a esta ordem de grandes
proprietários de terras um papel social importante, reforçado pelos cargos na governação da monarquia, na
administração ultramarina e no comércio ultramarino. Deste modo, as principais características da sociedade de
ordens em Portugal são, por um lado, a preponderância política da nobreza de sangue, e por outro lado, o
afastamento da burguesia das esferas do poder. A debilidade da burguesia portuguesa, deveu-se, em grande parte, à
centralização das actividades mercantis nas mãos da Coroa e da Nobreza (completavam os rendimentos da
administração do reino com dádivas reais e com o comércio).

Em Portugal, a nobreza mercantilizada (dedicada ao comércio), dá origem à figura do “cavaleiro-mercador”, o qual


investe os lucros do comércio em terras e bens de luxo. Deste fenómeno decorrem duas consequências: a difícil
afirmação da burguesia portuguesa e o atraso económico de Portugal face a vários países da Europa.

A criação do aparelho burocrático do Estado absoluto


Os reinados da Dinastia de Bragança corresponderam à afirmação progressiva do absolutismo régio:

D. João IV:
- Convocação das Cortes em 1641;
- Reactivação e reestruturação do aparelho burocrático central do Estado;
- Reorganização do Conselho do Estado com a criação de 3 secretarias em áreas fundamentais com a defesa (criação
do Conselho de Guerra), as finanças (reforma do Conselho da Fazenda) e a Justiça (reestruturação do Desembargo
do Paço);
- Governo partilhado entre secretarias e Conselhos dos Nobres;

D. Pedro II:
- Desvalorização do papel das Cortes (apenas as reuniu para decisões com direitos hereditários da Corte);
- Manutenção das instituições criadas anteriormente;
- Declínio dos Conselhos;

D. João V:
- Não convoca as cortes;
- Diminuição do poder dos Conselhos;
- Redefinição das funções dos secretários, aos quais recorria frequentemente;
- Reforço da autoridade e centralidade do rei.

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O absolutismo Joanino
O fenómeno a que se chamou a “encenação do poder” estava, também, presente na monarquia portuguesa, em
particular no reinado de D. João V. Tal como Luís XIV, D. João V realçava a figura régia através da magnificência
(luxo) permitida pelo ouro e diamantes do Brasil, da autoridade e da etiqueta, de que se salientaram os seguintes
aspectos:
- Subordinação das ordens sociais (manifestada na recusa em reunir cortes e no controlo pessoal sobre a
administração pública);
- Envio de embaixadas ao estrangeiro (com engrandecimento das representações diplomáticas);
- Distribuição de moedas de ouro pela população;
- Política de grandes construções (Convento de Mafra, Aqueduto de águas livres);
- Política externa (o rei procurou a neutralidade face aos conflitos europeus, salvaguardando os interesses do nosso
império e do nosso comércio);
- Grande protocolo da corte (luxo e etiqueta minuciosa);
- Reforma das secretarias existentes e a redefinição das suas funções.
- Grande política cultural com o desenvolvimento das letras, das ciências e das artes com a criação da Real Academia
Portuguesa da História e a protecção de diversos artistas e músicos, expresso nas grandes obras barrocas.

2.2 A Europa dos Parlamentos: a sociedade e poder político


2.2.1 A afirmação da política da burguesia nas Províncias Unidas / A burguesia nas estruturas do Poder / A
jurisprudência ao serviço dos interesses económicas: Grotius e a legitimação da liberdade dos mares
Depois de uma longa guerra contra a soberania espanhola, a região dos Países Baixos do Norte tornou-se num
pequeno Estado independente. O novo Estado tomou a forma de uma república altamente descentralizada e
conduzida pela burguesia de negócios, sobretudo pela holandesa, a província mais rica da União. Eram os burgueses
que assumiam as magistraturas nas cidades e eram também eles que desempenhavam funções ao mais alto nível, como
as de deputado aos Estados Gerais, o Parlamento da República com sede em Haia. Aos nobres ficaram reservadas,
quase unicamente, as funções militares.

Influenciada pela moral protestante mas também pela consciência do seu valor e dos seus interesses, a burguesia
holandesa cultivou uma mentalidade própria que valorizava a vida sóbria, o sucesso dos negócios e o bom
desempenho dos cargos públicos. Foi desta “república de mercadores” que partiu, pela mão de Hugo Grócio, a
contestação do exclusivo ibério de navegação e comércio transoceânico, expresso no seu texto publicado em 1608, “A
Liberdade dos Mares (Mare Liberum)”. Grotius argumentava que os mares eram inesgotáveis e essenciais à vida, pelo
que constituíam propriedade comum de toda a Humanidade.

2.2.2 A recusa do Absolutismo na sociedade inglesa


A primeira revolução e instauração da república/ A restauração da monarquia. A Revolução gloriosa/ Locke e a
justificação do parlamentarismo
Entre 1603, data da morte da rainha Isabel I, e 1688-1869, data da Revolução gloriosa, a Inglaterra viveu um
período politicamente conturbado, oscilando entre o absolutismo e o parlamentarismo. Jaime I sucedeu a Isabel I,
pondo fim à dinastia dos Tudor, iniciando a dos Stuart; era um rei autoritário, adepto do Catolicismo, o que
impossibilitou que dispusesse do apoio das elites, sobretudo das representadas no Parlamento.

O fortalecimento do poder régio acentuou-se com a subida ao trono em 1625 de Carlos I: era católico e ampliou a
cisão entre o rei e o Parlamento, ao tomar medidas consideradas ilegais. A governação de Carlos I deu origem a
protestos por parte do Parlamento: em 1628, o Parlamento apresentou ao rei a “Petição dos direitos”, que
recomendava que os direitos dos súbditos fossem respeitados.

Carlos I não respeitou a “Petição”, nem a cumpriu, pois governou de forma absoluta, no período que ficou
conhecido como a “tirania dos onze anos”, entre 1629 e 1640. O descontentamento face ao Rei Carlos I aumentou,
o que originou uma guerra civil entre 1642-1649.

O que se estipulava na “Petição dos Direitos”?


- A proibição de levantamento de impostos sem o consentimento do clero, da nobreza e do povo;
- A proibição do rei de exigir dinheiro emprestado;
- A proibição de prender ou retirar bens e liberdades a um homem excepto quando decidido por um tribunal.

A guerra civil: Abolição da monarquia e proclamação da República.


- A guerra civil apôs os defensores do rei (os realistas) aos apoiantes do Parlamento, os parlamentaristas, também
conhecidos por “cabeças redondas.
- Os opositores do rei eram liderados por Oliver Cromwell e derrotaram as tropas realistas. O rei foi executado;

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- Cromwell e os seus partidários proclamaram a república. Este tornou-se Lorde Protetor da República, pela nova
constituição aprovada em 1653 e assumiu o poder executivo, enquanto o Parlamento se assumiu como o órgão
supremo legislativo. Cromwell acabou por governar de forma ditatorial e o descontentamento generalizou-se. Em
1660, Carlos II ocupou o trono e assegurou a restauração da monarquia.

A Restauração da monarquia em Inglaterra: Carlos II


- As primeiras medidas de Carlos II foram compensar as vítimas da guerra civil; promulgar o habeos corpus em
1679, mediante a qual ninguém podia ser preso sem culpa formada; abolir a censura e garantir a liberdade de petição;
- Devolveu ao Parlamento o seu poder e restabeleceu a câmara dos Lordes;
- Carlos II morreu e subiu ao trono o seu irmão Jaime II, católico e também defensor do absolutismo o que suscitou
uma outra crise com o Parlamento e como os seus súbditos;
- Alguns membros do Parlamento solicitaram, em 1688, a intervenção de Guilherme de Orange e Nassau, Stathouse
da Holanda, protestante e casado com Maria, a filha mais velha do rei Jaime II;
- Face a esta situação Jaime II refugiou-se em França.

A declaração de direitos e a consagração da monarquia parlamentar em Inglaterra


- Os reis Guilherme III e Maria II assinaram a “Declaração dos Direitos” e aceitaram a partilha da soberania com o
Parlamento;
- Os reis ficaram obrigados a convocar o Parlamento e ficaram submetidos ao direito comum; não podiam suspender
leis; recrutar exército em tempo de paz ou levantar impostos sem o consentimento parlamentar;
- Ficou consagrada uma monarquia parlamentar.

John Locke e a Justificação do Parlamentarismo


- Influenciou os sistemas políticos modernos: ao nível dos direitos e liberdade individuais e na afirmação do
parlamentarismo;
- Defendeu a ideia de que o poder político assenta num contrato entre o soberano e a nação;
-Os súbditos tinham legitimidade para depor o monarca, caso não cumprisse o contrato o poder estava nas mãos do
povo.

3.
3.1 Reforço das economias nacionais e tentativas de controlo do comércio
3.1.1 O tempo do grande comércio oceânico
Capitalismo comercial: Sistema económico que se afirmou nos séculos XVI a XVIII e se caracteriza pela procura do
maior lucro, pelo espírito de concorrência e pelo papel determinante do comércio como motor do desenvolvimento.

Comércio Triangular: Circuito do comércio atlântico que ligava os continentes europeu, africano e americano. Este
comércio, que prosperou sobretudo nos séculos XVII e XVIII, era suportado pelas necessidades de mão-de-obra das
colónias americanas que dependiam dos contingentes negros para as suas plantações e explorações mineiras.

Tráfico Negreiro: Intenso comércio de escravos negros que canalizou para a América grande número de africanos, na
sua maioria comprados ou aprisionados nas costas da Guiné, de Angola e de Moçambique.

3.1.2 Reforço das economias nacionais: O Mercantilismo


Mercantilismo: Teoria económica enunciada nos séculos XVI, XVII e XVIII, que defende uma forte intervenção do
Estado na economia. O objectivo dessa intervenção era o aumento da riqueza nacional, identificada com a quantidade
de metais preciosos acumulados pelo país. São características do Mercantilismo as medidas de tipo proteccionista e
monopolista.

Proteccionismo: Política económica que impede a livre iniciativa e a livre circulação de mercadorias. O
proteccionismo traduz-se, geralmente, quer por um aumento dos direitos alfandegários sobre as importações quer
pela concessão de exclusivos e privilégios industriais. O objectivo destas medidas é permitir o desenvolvimento das
produções internas que, desta forma, se tornam mais competitivas.

Segundo o Mercantilismo, a riqueza do Estado contava-se pela quantidade de metais precisos que se conseguia
acumular nos cofres do Estado. Canalizar dinheiro para dentro do reino, através de um saldo positivo da balança
comercial tornou-se o foco das práticas mercantilistas, aumentando o volume da produção interna e diminuindo as
mercadorias importadas.

Na lógica mercantilista, competia ao Estado implementar medidas que fomentassem e salvaguardassem os produtos e
as áreas do comércio nacional da concorrência estrangeira, numa espécie de proteccionismo económico. Delas
destacaram-se:

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- O fomento da produção industrial, promovendo a auto-suficiência do país e a exportação de produtos
manufacturados;
- A revisão das tarifas alfandegárias, penalizando os produtos estrangeiros com impostos e taxas e aliviando os
nacionais, aumento as exportações;
- O incremento e reorganização do comércio externo, proporcionando mercados de abastecimento de matérias-
primas e de colocação dos produtos manufacturados.

O Mercantilismo em França
Manufactura: Grandes unidades transformadoras típicas dos séculos XVII e XVIII que recorriam já à divisão do
trabalho e ao uso de tecnologia própria mas não de maquinaria.

Companhia Monopolista: Associação económica, geralmente de cariz comercial, com direitos exclusivos sobre
determinado produto ou área do comércio. Nos séculos XVII e XVIII organizaram-se numerosas companhias
monopolistas, na sua maior parte destinadas ao comércio colonial. AS mais poderosas foram as Companhias das
Índias Orientais, às quais os estados (Holanda, Inglaterra e França) conferiram poderes de conquista, administração e
defesa do Oriente.

Colbert fomentou as manufacturas nacionais através da concessão de incentivos económicos e privilégios; protegeu as
produções francesas aplicando pesados direitos de entrada aos produtos importados e facilitando as exportações,
introduzindo novas indústrias com importação de técnicas e mão-de-obra estrangeira; aumentou o poder do Estado
de regulamentar minuciosamente a actividade industrial; reforçou o comércio oceânico com a criação de companhias
monopolistas, às quais foi concedido o exclusivo comercial de determinadas áreas geográficas, bem como poderes
para aí representarem o Estado, conquistando terras, administrando os territórios e negociando tratados.

O sistema mercantil em Inglaterra


O mercantilismo inglês foi implementado por Cromwell, que valorizou a marinha e sector comercial. Como
aconteceu em França, o proteccionismo adoptado foi uma resposta ao poderio Holandês, que apresentava forte
concorrência nas áreas dos transportes marítimos e do comércio externo).

Este proteccionismo foi marcado, principalmente, pelos Actos de Navegação, destinados a banir os Holandeses das
áreas de comércio britânico. Por determinação, todas as mercadorias estrangeiras que entrassem em Inglaterra seriam
obrigatoriamente transportadas em embarcações inglesas ou do país de origem. Reservou-se de forma igual à marinha
britânica, a navegação de cabotagem e o transporte para Inglaterra das mercadorias coloniais.

O sector comercial foi ainda reforçado com a criação de grandes companhias de comércio, onde se destacou a
Companhia das Índias Orientais.

3.1.3 O equilíbrio europeu e a disputa das áreas coloniais


Exclusivo Colonial: Forma de exploração económica que reserva para a metrópole os recursos e o mercado das
colónias. Trata-se de uma medida proteccionista cujo objectivo é garantir a obtenção de matérias-primas e produtos
exóticos a baixo preço, bem como escoar as produções manufactureiras do país dominador.

O equilíbrio europeu no decurso dos séculos XVII e XVIII foi particularmente frágil e palco de numerosas guerras.
O proteccionismo económico, as motivações económicas e o grande desenvolvimento e importância levada a cabo
pelo comércio levou a que os soberanos reparassem na importância que o domínio comercial tinha, traduzido num
domínio militar. O entrave à circulação de mercadorias no circuito europeu, fruto das medidas proteccionistas, levou
para que os olhares se voltassem para as colónias. Aí os países adoptaram sistemas de exclusivo colonial, onde o
Estado dominador regulava as produções e os preços sem ter em conta a concorrência dos outros países.

Após um longo período de conflitos entre as três principais potências (Holanda, Inglaterra e França), a Inglaterra
prosperou e tornou-se na maior potência colonial e marítima da Europa, com aquisição de terras em todos os
continentes, fruto do Tratado de Paris da vitória na guerra dos Setes anos (1756-1763).

3.2 A hegemonia económica britânica


3.2.1 Condições do sucesso inglês
Os progressos agrícolas
O sector agrícola viu crescer a sua produtividade, aumentando substancialmente os recursos alimentares do país. Esta
abundância não só permitiu a canalização da mão-de-obra para outros sectores económicos, como impulsionou um
intenso crescimento demográfico, facto de vitalidade e riqueza económica.

16
Tal desenvolvimento, que serviu de resposta ao problema do esgotamento dos solos deveu-se a uma série de factores:
- Supressão do pousio, com o sistema de rotação quadrienal de culturas (Afolhamento quadrienal: trigo, nabos, trevo
e cevada);
- Mudanças na estrutura da propriedade, com o processo de vedações (enclousers);
- Inovações técnicas no cultivo, na selecção de sementes e no apuramento das raças dos animais.

O crescimento demográfico e a urbanização


O crescimento demográfico, da segunda metade do século XVIII, atingiu especialmente a Inglaterra, sendo
simultaneamente um resultado e um factor do desenvolvimento económico. Tal deveu-se a um conjunto de factores:
- A abundância e a criação de postos de trabalhos fazem aumentar a taxa de nupcialidade e o número de nascimentos
(alta taxa de natalidade);
- A progressiva diminuição da mortalidade que permitiu o crescimento irreversível da população e o positivo
crescimento natural;
- A forte migração e êxodo rural para os grandes centros urbanos dinamizam as cidades e aumentam a concentração e
densidade populacional (Londres era a maior cidade da Europa no final do século XVIII).

A criação de um mercado nacional


Mercado Nacional: Capacidade aquisitiva da procura interna que no caso de Inglaterra foi favorecida por:
- Revolução demográfica, que trouxe um crescente número de consumidores aliado a um crescimento urbano;
- Abolição dos entraves à circulação dos produtos (inexistência de alfândegas internas que encarecessem as
mercadorias);
- Incremento e melhoramento dos transportes;
- Desenvolvimento das vias de circulação, ampliando a rede de estradas.

O alargamento do mercado externo


Durante o século XVIII, a Inglaterra tornou-se a maior potência económica do mundo, fruto de um alargamento
constante do mercado externo. Este alargamento deveu-se principalmente:
- Ao alargamento dos mercados externos, com inscrição no comércio triangular, nos vários mercados transoceânicos
como a Ásia-Europa, e nos circuitos de trocas locais (country-trade);
- Aproveitamento dos produtos das colónias assim como o controlo das suas produções (açúcar, pimenta, açafrão,
índigo, seda e algodão), exploradas pelos muitos escravos que vinham de África em troca de quinquilharias;
- Criação de monopólios como a Companhia das Índias Orientais, onde 85 a 90% das transacções externas estavam
nas mãos dos ingleses que manipulavam os preços a seu favor.
- Qualidade e baixo preço dos produtos manufacturados, que muitos países da Europa compravam incluindo a
França.

O sistema financeiro
A superioridade inglesa assentava, também, num sistema financeiro avançado, facilitador do desenvolvimento
económico:
- Criação da bolsa de valores londrina, onde se cotaram as primeiras acções da Companhia das Índias Orientais. A
actividade bolsista permitiu canalizar as poupanças particulares para o financiamento de empresas alargando assim o
mercado de capitais;
- Criação do Banco de Inglaterra que permitiu a emissão de notas e a sua rápida e abundante circulação, fornecendo
os meios necessários ao incremento dos pequenos negócios;
- Criação de dezenas de pequenas instituições, os country-banks, que realizavam numa escala mais reduzida o mesmo
tipo de operações que o Banco de Inglaterra desde depósitos a transferências de conta para conta.
- Acumulação de metais preciosos nos bancos (estabilidade da moeda- libra esterlina);

Uma nova mentalidade


A mentalidade empreendedora, espírito de iniciativa e uma política e prática governativa centralizada, que incentivava
o lucro e os negócios, foram condições favoráveis ao desenvolvimento do comércio e do arranque industrial,
complementada com uma burguesia activa e empreendedora e a influência dos land lords virados para o lucro e o
investimento.

3.2.2 O arranque industrial


A indústria têxtil
O sucesso das primeiras indústrias têxteis deveu-se principalmente:
- Ao aumento da procura, interna e externa;
- À abundância de matéria-prima proporcionada pelas colónias;
- À invenção da lançadeira volante por John Kay, que permitiu tecer panos de qualquer dimensão e duplicar a
produção;

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- À invenção da spinning-jenny por James Hargreaves, que permitia fiar o algodão e a lã em maior quantidade e com
maior rapidez;
- À invenção da water-frame de Richard Harkwright;
- À invenção do tear mecânica por Edmund Carteright;
- À invenção da mule-jenn por Samuel Crompton.

Metalurgia
O sector metalúrgico viu a sua expansão e desenvolvimento graças a Abraham Darby, que resolveu o problema do
combustível necessário a este sector, utilizando na fusão do ferro, o coque em vez do carvão vegetal. Este tipo de
carvão, muito abundante na Inglaterra, permitiu a redução do abate maciço de árvores que colocava grandes entraves
à expansão da indústria. Completado com outras técnicas, o fero mais barato e resistente começou a substituir outros
materiais. Ainda no século XVIII foi inaugurada a primeira ponte metálica, a ponte de Coalbrookdale.

A força do vapor
A máquina a vapor de James Watt constituiu o primeiro motor artificial da História. Com ela foi possível mover
teares, martelos, locomotivas e todo o tipo de maquinismo que anteriormente, dependiam do trabalho humano ou
das forças da natureza. A manufactura cedera lugar à maquinofactura, cerne da Revolução Industrial.

Um tempo de mudança
Revolução Industrial: É um conjunto de transformações técnicas e económicas que se iniciaram na Inglaterra na
segunda metade do século XVIII e se alargaram a quase todos os países da Europa e da América do Norte no
decorrer do século XIX. Considera-se, geralmente, que foi a invenção da máquina a vapor e a sua subsequente
aplicação aos transportes e à indústria que provocaram a rápida mudança nos modos de produção (da manufactura
passou-se à maquinofactura). A Grã-Bretanha tomou a dianteira da Europa, guiando-a em direcção a uma época
nova: a do capitalismo industrial.

3.3 Portugal- dificuldades e crescimento económico


3.3.1 Da crise comercial de finais do século XVII à apropriação do ouro brasileiro pelo mercado britânico
Os finais do século XVII em Portugal foram marcados por uma dificuldade do sistema produtivo e uma
concorrência internacional ao comércio colonial português. Assistiu-se, entre 1670-1692, a uma crise comercial
devido principalmente:
- À política económica de Colbert (Portugueses começaram a comprar produtos manufacturados aos franceses,
aumentando as nossas importações);
- Os Holandeses, franceses e ingleses passaram a produzir nas suas próprias colónias e países as produções de açúcar e
tabaco que eram exclusivas anteriormente aos portugueses, provocando a diminuição das compras feitas em Lisboa;
- O preço dos produtos coloniais portugueses baixa devido ao excesso de oferta e à pouca procura;
- Recai também as vendas de Sal aos mercadores holandeses;
Portugal privasse então dos meios necessários ao pagamento das suas importações

O surto manufactureiro
D. Luís de Meneses, desde que assumiu o cargo em 1675, procurou equilibrar a balança comercial do reino
substituindo as importações por artigos de fabrico nacional. Neste sentido procedeu:
- À contratação de artífices;
- À concessão de subsídios e privilégios às manufacturas;
- À criação das manufacturas do vidro, têxtil e fundição de ferro;
- À criação das leis pragmáticas (“controlo do luxo”);
- À desvalorização da moeda;
- À criação de companhias monopolistas.

A inversão da conjuntura e a descoberta do ouro brasileiro


Bandeirante: Indivíduo participante numa bandeira, termo pelo qual ficaram conhecidas as expedições armadas que
percorriam o interior do Brasil em busca de ouro e escravos. As bandeiras prolongaram.se do século XVI ao século
XVIII, tendo como centro São Paulo, pelo que os bandeirantes são também conhecidos como “paulistas” ou “gentes
de São Paulo”. A acção dos bandeirantes foi também de maior importância para o conhecimento do território e para
a fixação das fronteiras do Brasil.

No final do século XVII, encontraram-se as primeiras jazidas no interior do Brasil, na região das Minas. Os
bandeiras organizaram bandeiras, com o objectivo de:
- Encontrar novas riquezas no interior brasileiro;
- Encontrar novas fontes de rendimento que permitissem fazer frente à crise com que o reino se debatia;
- Explorar o interior do Brasil e delimitar as fronteiras do território brasileiro (para além do tratado de Tordesilhas).

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A descoberta do ouro veio dar novo fôlego à economia portuguesa e permitiu um período de relativa prosperidade:
- Aumentou a moeda em circulação (serviu para cunhar moedas de ouro);
- Tornou possível pagar novamente as importações, o que contribuiu para negligenciar as políticas de fomento da
produção interna (industrialização);
- Não diminuiu o défice comercial, que passou a ser pago com o outro brasileiro.

Os países europeus dinamizaram as relações comerciais com Portugal com o intuito de captar o ouro que chegava ao
reino. Portugal tornou-se um mero ponto de passagem de metal precioso. A Inglaterra acabou por ser o destino
preferencial do ouro do Brasil.

As relações económicas entre Portugal e Inglaterra foram marcadas pela assinatura, em 1703, do Tratado de
Methuen, que consagrava a admissão, sem restrições, dos tecidos de lã ingleses, no mercado português, e a entrada
dos vinhos portugueses em Inglaterra. Portugal abandonava as restrições às importações, anulava as leis
anti.sumptuárias (pragmáticas) e minimizava o surto manufactureiro. O défice da balança comercial portuguesa
agravou-se: importava-se mais do que se exportava, sendo pago com o ouro brasileiro.

A supremacia económica de Inglaterra acentuou-se:


- Resultou numa maior asfixia e estagnação da produção nacional;
- Possibilitou a apropriação do ouro brasileiro pela Inglaterra;
- Criou uma balança comercial deficitária;

3.3.2 A política económica e social pombalina/ A prosperidade comercial dos finais do século XVIII
Em 1750, a conjuntura económica era adversa:
- Excessiva dependência da economia nacional face à Inglaterra;
- Elevado défice da balança comercial;
- Diminuição do fluxo de ouro e de diamantes;
- Dificuldades de colocação dos produtos coloniais no mercado internacional;
- Produção manufactureira reduzida e de fraca qualidade, asfixiada pela concorrência inglesa;
- Comércio colonial sujeito à concorrência e aos interesses estrangeiros;
- Agricultura atrasada e pouco produtiva;
- Perda de qualidade, baixa de preço e recuo das exportações de vinho.

D. José ascendeu ao trono e procedeu a reformas económicas com o objectivo de:


- Diminuir as importações e reduzir a dependência face aos ingleses;
- Desenvolver a produção manufactureira;
- Retirar o controlo do comércio nacional aos estrangeiros;
- Aumentar a produção agrícola;
- Dotar o comércio colonial de uma maior rentabilidade;
- Equilibrar a balança comercial, no sentido de promover a criação de riqueza.

Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal), optou pela aplicação de medidas mercantilistas

1) Criou companhias comerciais monopolistas na metrópole, apoiadas pelo Estado com vista a nacionalização e
reestruturação do comércio: Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto Douro e Companhia Geral das Reais
Pescas do Algarve. Para o comércio ultramarino: Companhia da Ásia, Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão,
Companhia Geral do Pernambuco e Paraíba.

2) O sucesso das companhias comerciais monopolistas dependeu da criação, em 1735, da Junta de Comércio:
- Regulava o comércio do ultramar;
- Garantiu e supervisionava a actividade mercantil;
- Fiscalizava o contrabando;
- Melhorou a organização do comércio;
- Possibilitou o aumento da produção e das exportações;
-, Publicou medidas facilitadores da circulação no reino.

3) No domínio da indústria:
- Fomentou o desenvolvimento de manufacturas;
- Criou novas fábricas, com o apoio estatal;
- Concedeu privilégios e subsídios a privados;
- Recorreu a mão-de-obra estrangeira especializada;
- Reformou as corporações que resistiam à inovação.

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5) A nível social, a política Pombalina:
- Valorizou a alta burguesia, considerada a base social do desenvolvimento económico;
- Defendeu os interesses dos grandes comerciantes, concedendo-lhes privilégios;
- Declarou o comércio actividade nobre;
- Conferiu à alta burguesia um estatuto social elevado;
- Promoveu a criação de uma nova nobreza;
- Consolidou a situação da alta burguesia, no domínio do comércio e nas profissões liberais;
- Aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

As políticas económicas do Marquês de Pombal produziram efeitos positivos, mesmo apara além do seu afastamento
do governo:
- O saldo da balança comercial melhorou;
- 1780: Pela primeira vez, em cerca de um século, Portugal vendeu à Inglaterra mais do que comprou;
- O saldo positivo teve tendência a manter-se de forma irregular, até ao início do século XIX.

A curva tendencialmente positiva da balança comercial foi consequência:


- Do fomento manufactureiro;
- Do aumento da produção agrícola com a introdução de novos produtos (milho, arroz, batata);
- Do incremento da indústria do sal e das pescas;
- Do exclusivo colonial que protegeu o comércio português;
- De uma conjuntura externa que fragilizou as principais economias europeias (Guerra de Independência Americana,
Revolução Francesa).

A prosperidade comercial de finais do século XVIII assentou:


- No Brasil, que manteve acrescida importância na economia portuguesa, não devido ao ouro ou diamantes, mas aos
produtos agrícolas e matérias-primas;
- No comércio com África, nomeadamente Angola, base do tráfico de escravos que aumentou a partir de 1790.

4.
4.1 O método experimental e o progresso do conhecimento do Homem e da Natureza
4.1.1 A revolução científica
A partir do século XVII, um pequeno grupo de eruditos, com uma mentalidade crítica e desejo de aprender herdada
do Renascimento, provocou uma forte “revolução científica na Europa. Partilhavam entre si três ideias fundamentais:
- Só a observação directa conduz ao conhecimento da natureza;
- Esse conhecimento pode aumentar constantemente;
- O progresso científico contribui para melhor o destino.

A descoberta de novas terras permitiu o aumento do conhecimento sobre novas espécies de fauna e flora, que
desenvolveram o interesse pelo mundo natural e realizações humanas. Assistiu-se à criação de “gabinetes de
curiosidades” e associações que acumulavam colecções de objectos e livros raros, maquinismo, plantas e animais,
discutindo teorias e partilhando novidades.

Os “experimentalistas” procuraram desenvolver um método capaz de os guiar nas suas pesquisas, evitando o erro e as
conclusões apressadas. Foi então que o filósofo inglês Francis Bacon expôs as etapas do método indutivo (ou
experimental):
- Observar factos precisos;
- Formular hipóteses explicativas;
- Provocar a repetição dos factos através de experiências;
- Determinar a lei e as relações que se estabelecem entre os factos.

A matemática surgiu como linguagem de expressão das leis e de todos os fenómenos quantificáveis, dando sentido ao
conceito de “ciências exactas”. René Descartes e a sua obra “Discurso do Método” foi um dos pilares ao pensamento
racionalista

4.1.2 O conhecimento do Homem


As investigações de William Harvey, com as descobertas sobre a circulação sanguínea e o advento da era experimental
deram um impulso decisivo à ciência médica, que progrediu notavelmente. O corpo humano passou a ser olhado
como uma “máquina”, no qual todas as “peças” se interligam de forma harmoniosa e cujo funcionamento pode ser
desvendado.

20
4.1.3 Os segredos do Universo
As observações de Galileu Galilei foram fundamentais:
- Basearam-se na experiência;
- Abriram um novo caminho no conhecimento matemático e científico;
- Puseram em causa o saber tradicional e académico assente no conhecimento livresco;
- Comprovaram a Teoria Coperniciana, defendendo o Heliocentrismo;
- Construiu o primeiro telescópio;
- Descreveu o movimento dos corpo na Terra.
- Aperfeiçoou a luneta astronómica que permitiu fazer observações que comprovaram a teoria de Copérnico; observar
a lua desconhecida, descobrindo crateras e comprovando o relevo da superfície lunar; descobrir manchas solares.

4.1.4 O mundo da ciência


Nas primeiras décadas do século XVIII, as ciências exactas tornaram-se autónomas e o seu interesse público e
colectivo aumentou. As academias de carácter científico espalharam-se pelas capitais europeias, divulgando boletins
periódicos que permitiam a rápida difusão dos conhecimentos, bem como laboratórios modernos para as
experimentações. As inúmeras invenções como o telescópio de Galileu, o barómetro de Torricelli, o termómetro
aperfeiçoado por Fahrenheit e o relógio de pêndulo de Huygens permitiram um maior rigor às investigações e
desencadearam novas e importantes descobertas. No fim do século XVIII, o público tinha-se apaixonado pela ciência
e o mundo natural separou-se com nitidez do sobrenatural, estando as razões de fé excluídas como explicações
credíveis dos factos da Natureza.

4.2 A filosofia das Luzes


4.2.1 A apologia da Razão e do Progresso
Iluminismo: Corrente filosófica que se desenvolveu na Europa do século XVIII e que se caracterizou pela crítica à
autoridade política e religiosa, pela afirmação da liberdade e pela confiança na Razão e no progresso da ciência, como
meios de atingir a felicidade humana.

4.2.2 O direito natural e o valor do indivíduo/ 4.2.3 A defesa do contrato social e da separação dos poderes/ 4.2.4
Humanitarismo e tolerância
Em suma, os filósofos das luzes defendiam:
- A descrença nos valores tradicionais que potenciam a diferenciação social;
- A Razão é a “luz” que esclarece o espírito humano, permitindo uma evolução dos saberes;
- Crença no valor da Razão Humana como motor de progresso da Humanidade;
- Valorização do indivíduo como parte integrante do progresso da Humanidade;
- Defesa do direito natural: defesa dos mais desfavorecidos tendo em conta a valorização do indivíduo;
- Defesa dos direitos naturais do Homem: direito à liberdade, à igualdade, a um julgamento justo, à posse de bens e à
liberdade de consciência;
- Defesa do Contracto Social entre o povo e os governantes e da Soberania Popular (o povo detém todo o poder e
pode destituir o governo e o governante quase este se torne tirano ou ditatorial);
- Defesa da separação dos poderes (legislativo, executivo e judicial);
- Denúncia dos actos de escravatura e servidão, da tortura, da execução aviltante e dolorosa e dos trabalhos forçados,
desenvolvendo a fraternidade humana (Humanitarismo);
- Defesa da tolerância religiosa, da separação da Igreja e do Estado e da aceitação de outros cultos espirituais.

4.2.5 A difusão do pensamento das luzes


Os principais nomes dos defensores dos ideais do Iluminismo foram:
- John Locke (Defensor dos direitos naturais do Homem através do Contrato Social);
- Jean-Jacques Rosseau (Desenvolveu o Contrato Social reforçando a ideia de que o pacto tem por finalidade o
estabelecimento de leis justas);
- Montesquieu (Defensor da separação dos poderes numa monarquia constitucional);
- Cesare Beccaria (Defensor da eliminação da tortura e da pena de morte);
- Frederico II da Prússia e Catarina II da Rússia (Defensores dos Filósofos Iluministas);
- Voltaire (Defensor do Deísmo).

Os principais meios de difusão do Iluminismo foram:


- Salões aristocráticos, clubes privados, cafés populares, academias, a imprensa, lojas maçónicas (sociedades que
lutavam pela transformação da sociedade mediante o exercício da liberdade política), livros e mais marcadamente a
Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios.

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4.3 Portugal- o projecto pombalino de inspiração iluminista
4.3.1 A reforma pombalina das instituições e o reforço da autoridade do Estado
A Reforma das Instituições
Após subir ao poder, o primeiro-ministro Carvalho e Melo tinha como principal objectivo racionalizar o aparelho do
Estado para que empreendeu um vasto conjunto de reformas. Em primeiro lugar pretendia pôr ordem nas finanças
do reino, onde para tal foi criado, em 1761, o Erário Régio, instituição moderna que permitiu a gestão completa e
corrente das contas públicas. Paralelamente, Pombal empenha-se na reforma do sistema judicial, implementado uma
abundante legislação que uniformizava o país para efeitos judiciais e anulava os privilégios da nobreza e do clero.

A submissão das forças sociais


O regime do monarca e do primeiro-ministro ficou marcado por atitude de obediência, repressão e submissão das
diversas classes sociais. No Povo, após um motim popular contra a Companhia das Vinhas do Alto Douro, seguiu-se
uma série de castigos com execuções e condenações a penas várias. Na nobreza, um lamentável atentado contra D.
José I fez disparar uma repressão sem paralelo dirigida com as principais casas nobres do país, com o episódio que
chocou a Europa e o país da execução dos Távoras. A nível do Clero, Marquês de Pombal procurou controlar o
Tribunal do Santo Ofício e institui um organismo de censura estatal a Real Mesa Censória. Por fim, expulsou todos
os jesuítas de Portugal em 1759.

4.3.2 O reordenamento urbano/ 4.3.3 A reforma do ensino


Com vista à modernização do ensino e à restruturação e construção de Lisboa após o terramoto de 1755, Marquês
de Pombal adoptou as seguintes medidas:
- Planificou o novo mapa da cidade, com um traçado completamente novo, de uma geometria rigorosa, fruto do mais
puro racionalismo iluminista, utilizando um engenhoso sistema de construção anti-sísmica, conhecido por “gaiola”;
- Criação do Real Colégio dos Nobres, destinado aos jovens de estirpe nobre, com o objectivo de os preparar para o
desempenho de altos cargos do Estado;
- Reestruturação do ensino em geral, dando atenção à universidade e à sua reforma com a Junta da Previdência
Literária (1768) por critérios racionalistas e experimentais; à criação de postos de “metres de ler e escrever” à criação
de aulas de retórica, filosofia, gramática grega e literatura latina.

Módulo 6
1. As transformações económicas na Europa e no Mundo
1.1 A expansão da Revolução Industrial
1.1.1 A ligação ciência-técnica; novos inventos e novas formas de energia
Progressos cumulativos: Série crescente de progressos que resultam da estreita ligação entre a ciência e a técnica. As
descobertas da ciência dão origem a novas máquinas e produtos que, por sua vez, suscitam novas investigações
científicas. A ciência e a técnica estimulam-se, pois mutuamente e progridem em constante interacção.

Em meados do século XIX, os progressos técnicos ganharam um carácter mais científico. Exigiam sólidos
conhecimentos teóricos e a concorrência cada vez maior entre as várias empresas do mesmo ramo obrigava a uma
actualização permanente de tecnologias de fabrico. Neste contexto, os institutos e as universidades assumiam um
papel cada vez mais fundamental, formando engenheiros, investigadores e cientistas que eram responsáveis pelos
progressos na química, na mecânica e na física. Estes progressos cumulativos vão permitir avanço industrial, que
aliados ao desenvolvimento científico e técnico, permitiram o aparecimento de novas indústrias e produtos, tornando
possível uma produção mais eficaz, aumentado os lucros, expandindo o mercado e desenvolvendo a indústria.

Inovações na indústria química e na siderurgia/ novas formas de energia/ A aceleração dos transportes
A expansão da revolução industrial transformou os métodos de produção e os padrões de consumo, dando origem a
novos inventos e produtos. A Siderurgia e a Indústria Química foram os sectores que mais marcaram este século. A
partir da criação de H. Bessemer, a indústria siderúrgica prosperou, transformando mais rapidamente o fero em aço,
alargando-se nas áreas da indústria pesada (bens de equipamento, cascos de navios, pontes, construções, peças de
artilharia) como na produção de bens de consumo. A Indústria Química viu-se aliada a inovações como os corantes
artificiais (Anilina e Alizarina) que permitiram obter produtos inovadores a baixo preço como insecticidas,
medicamentos, fertilizantes e tecidos sintéticos. Novas fontes de energia surgiram como o Petróleo e a Electricidade,
que eram utilizados tanto nas fábricas de produção como nos transporte e uso público. O desenvolvimento da
indústria exigia a rápida deslocação de materiais de construção e produtos o que levou ao desenvolvimento dos
transportes. A Locomotiva permitiu a deslocação rápida e a baixo custo de mercadorias e pessoas, assim como o
Barco a Vapor que permitiu a ligação mais rápida entre Continentes. No final do século viu-se a aparição dos
primeiros automóveis e aeronaves, que utilizavam as novas fontes de energia. As comunicações alargaram-se com o
aparecimento da electricidade e surgiu o Telégrafo, o Telefone, o gravador de som, a rádio e o cinema. Pequenos
inventos como peças intermutáveis, a prensa hidráulica e o compressor pneumático facilitaram o desenvolvimento

22
industrial. Já a máquina a costura, a máquina de escrever o gramofone e a bicicleta melhoraram o quotidiano e
criaram novas profissões.

1.1.2 Concentração Industrial e bancária


Capitalismo Industrial: Tipo de capitalismo que se desenvolveu na segunda metade do século XIX e que se
caracteriza por um investimento maciço na indústria. O capitalismo industrial assenta numa clara divisão entre os
detentores do capital (edifícios, fábricas, maquinaria, matéria-prima, etc.) e o trabalho, representado pela mão-de-
obra assalariada.

A concentração Industrial
O desenvolvimento industrial implicou a necessidade de capitais que permitissem desenvolver a tecnologia, novos
materiais, construir fábricas, instalar máquinas e modernizar empresas. Estes capitais obtinham-se através de
empréstimos bancários e da associação de duas ou mais empresas. Estas associações tinham como objectivo garantir
lucros elevados, assegurar posições de mercado dominantes e evitar a concorrência. Esta dinâmica capitalista deu
origem a dois tipos de concentração: as verticais e as horizontais. A Concentração Vertical caracterizava.se pela
integração de todas as fases de produção na mesma empresa. Foi utilizada sobretudo na indústria metalúrgica e deu
origem a grandes monopólios. Já a Concentração Horizontal caracterizava-se pela associação de empresas para
eliminar a concorrência e controlar áreas de negócios com vista a dominar o mercado, originando a formação de
Carteis na Europa. A combinação destes dois tipos de concentração deu origem a gigantescas multinacionais que
expandiram os seus negócios por todo o mundo.

A concentração bancária
Os bancos desempenharam um papel primordial no crescimento económico do século XIX. Era a sua actividade que
permitia a movimentação das enormes somas envolvidas no comércio internacional e tornava possível, graças ao
crédito, a fundação, ampliação e modernização das indústrias. Assistiu-se então:
- Ao forte crescimento dos bancos mais poderosos e à falência dos pequenos bancos;
- À constituição de grupos económicos (concentração bancária), que financiam empresas (participação directamente
no desenvolvimento industrial) e controlam outros sectores da economia;
- Condução à afirmação do capitalismo financeiro.

1.1.3 A racionalização do trabalho


Estandardização: Uniformização dos artigos de forma a permitir o fabrico em série e a produção em massa. Por sua
vez, o trabalho de produção é divido numa série de pequenas tarefas, também elas estandardizadas.

O aumento da concorrência colocou aos empresários duas questões fundamentais: produzir com qualidade e a baixo
preço. Tornava-se necessário rentabilizar todos os recursos materiais e humanos. É neste contexto que surge um
método rigoroso de trabalho nomeado de Taylorismo (de F.W. Taylor). Assentava na divisão máxima do trabalho,
seccionando-o em pequenas tarefas elementares e encadeadas. Cada operário faria apenas uma tarefa, chegando as
peças até si por tapetes rolantes. Era cronometorizada, e completava-se com a do operário seguinte. Desta forma
permitia o baixo custo e tempo de produção, um ritmo de trabalho mais rápido, aumentado o luco da empresa. Este
método, apesar do aumento do lucro, trazia consequências negativas como a perda de criatividade (que resultava
numa produção maciça de objectos iguais, perfeitamente estandardizados) e problemas de saúde (cansaço, stress,
tiques), fazendo destes apenas máquinas humanas autónomas. Para compensar o trabalho duro e incentivar os
operários, os empresários aumentavam os salários e diminuíam os horários de trabalho, aumentando o seu nível de
vida (Fordismo).

1.2 A geografia da industrialização


1.2.1 A hegemonia inglesa
A Inglaterra foi a potência hegemónica até cerca de 1880:
- Beneficiou das dificuldades dos seus concorrentes;
- A exposição Universal de 1851 revelou a superioridade inglesa;
- Grande dinamização dos caminhos-de-ferro;
- Supremacia da construção naval;
- Prática do livre-cambismo favoreceu a colocação dos produtos ingleses no mercado externo (especialmente os
têxteis).

Todavia, a fragilidade da hegemonia inglesa esbate-se no fim do século:


- Dificuldade em modernizar as máquinas;
- Atraso nos sectores químico e eléctrico;
- Resistência às invasões (despesa militar).

23
1.2.2. A afirmação de novas potências
A Alemanha
- Arranque industrial beneficiou da criação do Zollverein em 1934;
- Forte crescimento populacional;
- Baixos salários;
- Desenvolvimento industrial assente na indústria pesada;
- Disponibilidade de recursos materiais (carvão e ferro);
- Afirmação da indústria química;
- Desenvolvimento industrial beneficiou da concentração industrial.

A França
- Processo de industrialização a partir de 1830-1840;
- Industrialização feita a par do desenvolvimento dos caminhos de fero;
- Indústria têxtil foi o sector de arranque;
- Siderurgia desenvolveu-se tardiamente devido à falta de recursos;
- Domínio da produção de alumínio até 1890;
- Desenvolvimento da indústria automóvel;
- Artigos de luxo foram a base da indústria francesa.

Os Estados Unidos da América


Factores que beneficiaram a Industrialização:
- Progresso dos caminhos-de-ferro;
- Criação de matérias-primas;
- Abundância de matérias-primas;
- Desenvolvimento de novas tecnologias;
- Forte crescimento populacional;
- Generalização de um ensino primário gratuito nos Estados do Norte.

- Arranque da Industrialização a partir de 1860;


- O liberalismo económico favoreceu a industrialização;
- Impulso inicial da indústria algodoeira;
- Desenvolvimento da indústria siderúrgica a partir de 1870-1880;
- Desenvolvimento da indústria automóvel;
- Desenvolvimento da indústria eléctrica.

Os Estados Unidos passam a liderar a produção industrial. Afirmam-se como primeira potência mundial no início do
século XX.

Japão
Factores que favoreceram o arranque industrial:
- Promovido pelo Imperador Mutsu-Hito;
- Correspondeu à época de abertura ao exterior e ao fim da servidão;
- Forte crescimento demográfico;
- Mão-de-obra barata e disciplinada/ Contratação de uma mão-de-obra estrangeira;
- Alfabetização generalizada da população;
- Incentivo do Estado à modernização/ Facilidade de adaptação ao novo modelo produtivo;
- Existência de capitais e facilidade de concessão de empréstimos;
- Desenvolvimento da siderurgia;
- Desenvolvimento da construção naval;
- Desenvolvimento da indústria de algodão.

1.2.3 A permanência de formas de economia tradicional


A industrialização não se generalizou em termos mundiais:
- As regiões da Europa do Sul, do Norte e Oriental não conheceram um ritmo de industrialização ao da Europa
Central;
- O crescimento demográfico, a formação de um sólido mercado externo, as estruturas sociais, a mentalidade
empreendedora, a disponibilidade financeira, o apoio governamental, as inovações técnicas e as características
geográficas determinam o arranque industrial ou a permanência de formas de economia tradicional.

24
1.3 A agudização das diferenças
1.3.1 A confiança nos mecanismos auto-reguladores do mercado: o livre-cambismo
Livre-cambismo: Sistema que liberaliza as trocas internacionais. No sistema livre-cambista, o Estado deve abster-se
de interferir nas correntes do comércio, pelo que os direitos alfandegários, a fixação de contingentes (de importação
ou exportação) e as proibições de entrada ou saída devem ser abolidas ou, pelo menos, reduzir-se ao mínimo.

O mercado livre determinava os preços e as condições de troca. O mercado era regulado sem intervenção do Estado
ficando apenas submetido às decisões individuais dos que compravam e vendiam, num mercado que se auto-regulava.
O mercado, sujeito a esse jogo de oferta e de procura, oscilava entre fases de expansão e de crise que, para os
defensores do liberalismo, serviam como mecanismo naturais auto-reguladores do mercado.

1.3.2 As debilidades do livre-cambismo; as crises cíclicas


Crise cíclica: Estado periódico de agudo mal-estar e de mau funcionamento da economia. Enquanto nas economias
pré-industriais as crises eram, sobretudo, de penúria e de escassez alimentar, nas economias industriais as crises são
provocadas por fenómenos de superprodução. As crises do capitalismo caracterizam-se pela rápida descida dos
preços, da produção e dos rendimentos. Ocasionam numerosas falências, a subida do desemprego e a queda das
cotações bolsistas.

As crises do capitalismo eram crises cíclicas que resultavam do liberalismo económico e do excesso de produção
(superprodução), provocando desequilíbrios entre a oferta e a procura. Eram dividas em duas fases:

1ª fase:
- Aumento da oferta e da procura;
- Aumento dos preços e dos salários;
- Alta do valor das acções na bolsa;
- Aumento do crédito.

2ª Fase:
- Abrandamento da economia;
- Baixa da produção e do consumo;
- Acumulação de stocks;
- Baixa de salários e de preços;
- Falência de empresas;
- Aumento do desemprego;
- Baixo do valor das acções na bolsa.

1.3.3 O mercado internacional e a divisão do trabalho


A estrutura do comércio mundial refle a divisão internacional do trabalho, que a Revolução industrial agudizou. Os
quatro grandes países industrializadores (Inglaterra, França, Alemanha e EUA) tornaram-se as “fábricas do mundo”,
responsáveis por mais de 70% da produção industrial. Fornecem, dentro da Europa, os países mais atrasados, aos
quais adquirem produtos agrícolas e matérias-primas. Estava já consolidado este sistema de trocas desigual, que
perpetua a diferença ente os países desenvolvidos e o mundo atrasado e pobre que lhes fornecem os produtos
primários.

2.
2.1 A explosão populacional; a expansão urbana e o novo urbanismo:; migrações internas e emigração
2.1.1 A explosão populacional
Explosão demográfica: Aceleração do crescimento da população mundial que, no século XIX, quase duplicou os seus
Efectivos. O fenómeno, particularmente forte na Europa, foi possibilitado pela descida drástica e irreversível da
mortalidade; pela antecipação da idade do casamento; pela elevação da esperança de vida. Quanto à natalidade,
manteve-se alta até cerca de 1870, altura em que se inicia o seu, também irreversível, declínio.

No século XIX registou.se um crescimento da população mundial de cerca de 80%. Entre 1870 e 1913, assistiu-se
ao aumento da população mundial. No final do século XIX, ¼ da população mundial era de origem europeia:
- A Europa via a sua população mais do que duplicar, contribuindo para o crescimento efectivo de outros continentes
também:;
- O crescimento demográfico europeu foi consequência da redução da mortalidade, especialmente da mortalidade
infantil, e do aumento da esperança média de vida, o que provou uma explosão demográfica na Europa.

25
Na Europa esse crescimento acelerado é evidenciado nos indicadores da mortalidade e natalidade:
- A mortalidade diminui, sobretudo nos países mais industrializados;
- A natalidade permaneceu elevada;
- A esperança média de vida aumentou.

No início do século XX, a Europa era o continente mais densamente povoado. O seu crescimento demográfico teve
diversas consequências:
- No plano económico (necessidade de mais subsistências, de mais recursos, aumento da mão-de-obra e mais
consumo);
- Na vida social (mais dificuldades, baixos salários, deslocação das populações).

O seu crescimento demográfico ficou a dever-se a vários factores:


- Progressos na medicina (combate às doenças infecciosas; melhorias nos cuidados materno-infantis);
- Progressos na higiene (uso de vestuário de algodão, o uso de sabão; as redes de saneamento; a melhoria no
abastecimento de água e de condições materiais da habitações);
- Progressos na alimentação (alimentos em maior quantidade e mais variados; progressos nos transportes que
possibilitaram o abastecimento das populações; melhoria na conservação dos alimentos).

2.1.2 A expansão urbana


Os motivos/ Os problemas/ O Novo Urbanismo
A população urbana conheceu um impulso decisivo no século XIX e a sua concentração nas cidades foi devido
principalmente:
- Ao desenvolvimento da industrialização, acompanhado de um forte crescimento populacional;
- À possibilidade de fluxos migratórios, facilitado pelo desenvolvimento dos transportes;
- Aos fenómenos migratórios, do campo para a cidade (êxodo rural) entre países (imigração);
- À melhoria das condições económicas e o desenvolvimento técnico;
- À procura de oportunidades de empego, de melhores salários e melhores condições de vida.

O crescimento das cidades entre 1850 e 1914 foi notório:


- Esta expansão urbana foi marcante nas capitais dos países industrializados;
- A percentagem de população urbana, no cômputo geral da população de cada país, aumentou.

Novos desafios se colocaram às cidades e às autoridades governamentais e citadinas:


- Planear e organizar as cidades, de acordo com novos modelos;
- Solucionar problemas específicos: alojamento, abastecimento, limpeza, iluminação, espaços de circulação e de
tráfego:; equipamentos próprios de vivência em espaço urbano; delinquência, miséria, promiscuidade e prostituição.

A cidade do século XX apresentava fortes contrastes sociais, presente no novo modelo do Urbanismo:
- A classe burguesa residia em bairros luxuosos e em habitações elegantes no centro da cidade; o centro estava
reservado para os negócios, para as finanças e a banca; para o comércio e as funções administrativas;
- Os bairros operários, situados na periferia, tinham más condições de habitualidade e higiene onde a miséria, o
desemprego, a criminalidade e a prostituição eram também realidades que faziam parte do quotidiano urbano;
- Nos Estados Unidos da América, a cidade do século XIX começa a elevar-se em altura, com a construção de
arranha-céus.

2.1.3 Migrações internas e emigração


Migrações Internas
Vastas correntes migratórias atravessaram o século XIX, com especial incidência no período que decorre entre 1850
e 1914. Algumas dessas correntes processaram-se no interior do mesmo país, sendo, pois, designadas de migrações
internas. Cabem nesta categoria:
- As deslocações sazonais de trabalhadores entre zonas rurais com um calendário agrícola desfasado;
- Os fluxos migratórios dos campos para as cidades, isto é, o êxodo rural.

Emigração/ Os Motivos / A emigração portuguesa


No século XIX e inícios do século XX assistiu-se a uma forte vaga de emigração de várias contentes para os países
mais desenvolvidos. Entre os motivos de emigração encontrámos as crises económicas cíclicas, o desenvolvimento d e
novos países como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil e a Austrália, que necessitavam de mão-de-obra para a
exploração dos seus novos recursos e as novas indústrias; a tardia industrialização dos países da Europa do Sul e
Oriental; o desenvolvimento de vias férreas e as melhorias técnicas nos transportes, sobretudo no comboio e no barco
a vapor. Juntam-se os motivos políticos, fruto de movimentos revolucionários fracassados e de tensões partidárias e
os motivos religiosos, fruto de perseguições e massacres a determinados grupos. Em Portugal, a emigração partiu

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essencialmente do Norte, fruto das más condições de vida que eram dadas no meio rural, sendo os emigrantes na
maioria agricultores.

2.2 Unidade e diversidade da sociedade oitocentista


2.2.1 Uma sociedade de classes
Sociedade de Classes: Tipo de sociedade que se generaliza no mundo ocidental desde o século XIX. Caracteriza-a a
unidade do corpo social, na medida em que os indivíduos, nascidos livres e iguais em direitos, dispõem do mesmo
estatuto jurídico. A diversidade social baseia-se, essencialmente, no estatuto económico, gerador de diferentes classes
sociais.

2.2.2 A condição burguesa: heterogeneidade de situações; valores e comportamentos


A alta burguesia empresarial e financeira/ A formação de uma consciência de classe burguesa/ Proliferação do
terciário e incremento das classes médias/ O conservadorismo das classes médias

Consciência de classe: Percepção explícita de pertença a uma classe social específica, por parte de indivíduos ou
grupos. Implica a solidariedade para com os elementos da mesma classe e o distanciamento relativamente a outras
classes sociais. A consciência de classe pode assumir uma expressão política, na medida em que a força o Estado a
actuar de acordo com os seus interesses.

A sociedade do Antigo Regime foi substituída, no século XIX e XX, por uma sociedade de classes, que se dividia em
dois grandes grupos: a burguesia e o proletariado. A importância de cada uma dependia da sua profissão: do que se
fazia e do que possuía. Nesta sociedade, a burguesia ocupava lugar de destaque. A burguesia dividia-se em alta, média
e baixa- A alta burguesia industrial e financeira liderava a economia e influenciava o poder político mas também
ditava as modas impondo ao resto da população um certo modelo de vida, os seus valores, e, até mesmo, as suas
formas de diversão. A burguesia defendia princípios como o direito à propriedade, a ideia de família, a valorização do
trabalho e da poupança, mas também o gosto pelo bem-estar e pela ostentação. Procurava imitar a velha aristocracia
mas apresentava a riqueza como fruto do trabalho, da iniciativa e do esforço pessoais, nada devendo ao privilégio de
um nascimento em berço de ouro. Apontavam o êxito individual e da mobilidade social, nos verdadeiros self-made
men. Entre os dois últimos estratos, situava-se uma numerosa classe média, composta por pequenos e médios
empresários e profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e jornalistas. Nos estratos
mais baixos da nova sociedade estava o proletariado, composto pela grande massa de operários que enchia as cidades.

Ao proclamar-se a igualdade dos homens perante a lei, já não fazia sentido os títulos de nobreza, os brasões e os
demais privilégios judiciais ou fiscais, derivados do nascimento e perpetuados em diferentes estatutos jurídicos. As
distinções entre os homens radicam no poder económico, na situação profissional, no grau de instrução e cultura, nas
opções políticas, nos valores e comportamento. A mobilidade ascensional na nova sociedade era aberta e fluida,
fazendo com que ser de uma família pobre não bloqueava a ascensão e ser de uma família rica não garantia o usufruto
de uma vida de luxo.

O crescimento das classes médias deveu-se, principalmente, à proliferação do terciário e dos serviços. Aliado à
necessidade de distribuir a riqueza produzida fez-se crescer os empregos comerciais (patrões grossistas ou retalhistas,
transportadores, empregos de loja ou de armazéns, vendedores). As profissões liberais (advogados, médicos,
farmacêuticos, engenheiros, notários, intelectuais, artistas) mantinham um estatuto de privilégio devido ao seu
conhecimento científico e importante na nova moderna sociedade. O desenvolvimento de novas profissões como os
funcionários de escritório e o alargamento do ensino gratuito viu crescer o número de efectivos da classe média que
se situava entre a alta burguesia e o proletariado.

As classes médias eram socialmente conservadoras. Encaravam com desconfiança o operário, cujos hábitos de
contestação lhes repugnavam. Defendiam os ideais de sentido da ordem, de estatuto e das convenções, o respeito pela
hierarquia, o gosto pela poupança, que lhes conferia algum luxo. Aspiravam a respeitabilidade e a decência e davam
grande importância ao seio familiar. Tinham gosto pelo trabalho, pelo estudo, pela responsabilidade e pelo mérito.
Viviam o culto das aparências.

2.2.3 A condição operária: salários e modos de vida; associativismo e sindicalismo; as propostas socialistas de
transformação revolucionária da sociedade
Condições de trabalho/ Condições de vida
Proletariado: Segundo a terminologia marxista, significa a classe operária que, sem meios de produção (a não ser os
seus filhos, a sua prole), vende a sua força de trabalho (manual) em troca de um salário. O termo proletário remonta
à Roma antiga, abrangendo os cidadãos de inferior categoria, isentos de impostos, cuja única função social era a de
gerar filhos.

27
Condições de trabalho: Constituindo uma espécie de mão-de-obra não qualificada, o proletariado enfrentava
condições miseráveis e desumanas de trabalho. O ambiente era inóspito com frio glacial no inverno e calor sufocante
no verão, má iluminação, falta de arejamento, barulho ensurdecedor, riscos de acidente constantes com máquinas e
até mesmo desabamentos nas minas, ausência de vestuário próprio, falta de redes sanitárias e cantinas assim como
horários de refeições praticamente não existentes e um horário de trabalho de 12 a 16 horas. Não possuíam feriados,
férias e até mesmo descanso dominical. Os salários nos tempos de expansão subiam mas em tempos de crise baixavam
e criavam miséria e desemprego. As mulheres e as crianças eram exploradas e desde os 4-5 anos as crianças
enfrentavam duros trabalhos que comprometiam o seu crescimento. Se por um lado esta classe social enfrentava
elevada precaridade, por outro os empresários encontravam grande lucro para os salários baixos.

Condições de vida: Ao trabalho esgotante e nos limites da resistência humana, acrescentava-se para os operários, uma
vida nas condições mais indignas e degradantes. Caves húmidas ou sótãos abafados, alugados a preços especulativos e
frequentemente sobrelotados, eram as suas habitações. Nelas tudo faltava: a luz, a higiene, a salubridade. Por sua vez,
a alimentação mostrava-se insuficiente e desequilibrada. Esgotados pelo trabalho, quase sem horas de sono, mal
alojados e subnutridos, os operários constituíam um terreno favorável à propagação de doenças. O alcoolismo, a
prostituição, a delinquência e a criminalidade completavam o quadro de miséria e da sordidez nos bairros operários
do século XIX.

O movimento operário: associativismo e sindicalismo


Movimento Operário: Conjunto de acções levadas a cabo pelos trabalhadores assalariados, para a concretização das
suas reivindicações. Na óptica marxista, é a expressão da luta de classes. Procuravam a melhoria das condições
económicas e sociais (aumento do selário, diminuição do horário de trabalho, assistência na doença, velhice,
desemprego) mas também a obtenção de direitos políticos.

Associativismo: Traduziu-se na criação de associações de socorros mútuos, também denominadas mutualidades ou


sociedades fraternas. Através de quotizações simbólicas dos filiados, acudiam aos necessitados, na doença, na morte,
na velhice, no desemprego ou durante as greves. Para as multidões de desenraizados que queram os operários, não há
muito saídos do campo e privados de solidariedade aldeã, as associações de socorro sempre proporcionaram um
mínimo de conforto e de calor humano.

Sindicalismo: Consistiu na criação de associações de trabalhadores para defesa dos seus interesses profissionais. Os
operários contribuíam com as necessárias quotas e os sindicatos propunham-se a lutar pela melhoria dos salários e
das condições de trabalho, recorrendo, se necessário, à greve, como forma de pressionar a entidade patronal.

Objectivos das lutas grevistas:


- Reivindicação do dia de trabalho de 8 horas;
- Melhoria dos salários;
- Direito a descanso semanal;
- Indemnização do patronato em caso de acidente.

As propostas socialistas de transformação revolucionária da sociedade


Socialismo: Teoria, doutrina ou prática social que defende a supressão das diferenças entre as classes sociais,
mediante a aproximação pública dos meios de produção e a sua distribuição mais equitativa.

Objectivos das propostas socialistas:


- Denúncia dos excessos da exploração capitalista;
- Eliminação da miséria operária;
- Procura de uma sociedade mais juta e igualitária.

Socialismo Utópico
Distinguiu-se pelas suas propostas de reforma económica e social, que passavam pela recusa da violência, pela criação
de cooperativas de produção e de consumo e pela entrega dos assuntos do Estado a uma elite de homens esclarecidos
que governariam de molde a proporcionarem uma maior justiça social. P. J. Proudhon chegou mesmo a defender a
abolição da propriedade privada e a abolição do próprio Estado que considerava desnecessário. Preconizava uma
autêntica revolução na economia, através da criação de associações mútuas, onde todos trabalhariam, pondo em
comum os frutos do trabalho. Originar-se-ia, em consequência, uma sociedade igualitária de pequenos produtores,
capazes de assegurarem a melhoria das condições sociais sem luta de classes ou intervenção do Estado.

28
Marxismo
A perspectiva marxista concebe a História como uma sucessão de modos de produção (esclavagismo, feudalismo,
capitalismo), sucessão essa devido à luta de classes. A luta de classes entre proletários e burgueses, devido ao modo de
produção capitalista que beneficiava os burgueses, conduziria à destruição do capitalismo, à implantação da ditadura
do proletariado e à construção do comunismo – a verdadeira sociedade socialista, sem classes, sem propriedade
privada e se Estado.

Internacionais Operárias
Organismo onde estão representadas associações de vários países, tendo em vista a coordenação das suas actividades.
A I Internacional mantinha secções locais nos países industrializados e apoiou numerosas greves em toda a Europa.
Apoiou também a insurreição dos operários da capital francesa, conhecido por Comuna de Paris. Apesar de os apelos
de Marx surtirem efeito e os partidos de classes operária irromperem, houve teses que se opuseram ao marxismo
como os proudhonianos e os anarquistas (rejeitavam as instituições que ameaçavam a liberdade do indivíduo e
defendiam o associativismo responsável e a repartição equitativa dos bens. Para o derrube do capitalismo, preconizava
a greve geral e o recurso aos atentados terroristas, afastando-se do pacifismo proudhoniano). Estes desentendimentos
levaram à dissolução da I Internacional. Já a II Internacional viu-se também ameaçada pelo revisionismo alemão
(propôs uma evolução pacífica, gradual e reformista do capitalismo para o socialismo por um clima de entendimento
e colaboração ente os partidos da burguesia) e mais uma vez levou à sua dissolução em 1914.

3.
3.1 As Transformações políticas
3.1.1 A evolução democrática do sistema representativo; os excluídos da democracia representativa
Da Monarquia à República/ O sufrágio Universal
A segunda metade do século XIX assistiu a uma evolução democrática para um Demoliberalismo. Consistia num
sistema político em vigência no mundo ocidental em que se conferia um grande valor à representação da Nação
alargando o sufrágio e reforçando o poder dos Parlamentos. Neste período assistiu-se à diminuição do poder do
monarca e uma aproximação à República, o regime mais democrático e livre considerado pela população. O sufrágio
universal foi instituído, acabando com as restrições financeiras ao exercício da cidadania. A idade de voto fixou-se
num modo geral nos 21 anos mas as mulheres e os negros, bem como os analfabetos, eram afastados do poder de
voto. As classes médias e o proletariado, entravam no exercício da política.

3.1.2 As aspirações da liberdade nos Estados autoritários


Autarcia
Nos impérios europeus autoritários alemão, austro-húngaro e russo, os soberanos governavam de forma autocrática,
quase sem conhecerem limites à sua autoridade e personificando a lei. Apesar da publicação de constituições e da
concessão do sufrágio universal, os imperadores continuavam senhores dos destinos dos governos que demitiam
quando entendiam. Anulavam as leis dos parlamentos, substituindo-as pelos decretos imperiais e socorriam-se da
polícia secreta para controlarem a oposição política.

Conservadorismo
Rigidez e conservadorismo dominavam as sociedades imperiais. As velhas nobrezas mantinham uma forte
implantação nos cargos governativos e no exército, bloqueando a aplicação do princípio democrático da igualdade de
oportunidades. Quanto às Igrejas gozavam de elevada protecção dos Estados, que as acumulavam de privilégios e não
reconheciam a liberdade religiosa.

Submissão das Nacionalidades


Aos múltiplos povos do império não eram reconhecidos direitos, violando a aplicação do princípio liberal das
nacionalidades, segundo cada povo tem a sua Nação e cada Nação um respectivo Estado. Estas submissões levaram a
grandes tensões políticas e sociais.

3.1.3 Os movimentos de unificação nacional


A unificação Italiana/ A unificação alemã
Em nome dos princípios das nacionalidades (os povos unidos por laços étnicos, linguísticos, históricos e culturais,
constituem nações autónomas), sucederam na Itália e na Alemanha movimentos de unificação que levaram à
formação de dois novos Estados Europeus (1861/1867), manifestando pelo nacionalismo. A Itália viu-se unificada
graças aos esforços de Vítor Manuel II, Cavour e sobre as políticas de Giusepe Mazzini. Já a Alemanha viu-se
apoiada por Otto von Bismarck.

29
3.2 Os afrontamentos imperialistas: o domínio da Europa sobre o Mundo
3.2.1 Imperialismo e Colonialismo
Imperialismo: Domínio que um Estado exerce sobre outros países, a título militar, político, económico e social.

Colonialismo: Domínio exercido sobre territórios não independentes (as colónias). É a forma de imperialismo mais
completa, já que associa todas as facetas (militar, política, económica e cultural). As velhas potências colonizadoras
como Portugal, a Grã-Bretanha e a França viram-se aliadas a novos países como a Bélgica, a Alemanha, a Itália, a
Rússia, o Japão e os EUA, dominando grande parte dos territórios da África e da Ásia.

Objectivos do Imperialismo:
- Motivações económicas: as colónias ofereceram as matérias-primas indispensáveis que os estados europeus viram
desaparecer no proteccionismo do final do século XIX. Eram também fonte de escoamento da produção industrial;
- Pressão demográfica: constituíam alívios para a movimentação profissional;
- Nacionalismo exacerbado: procuravam mostrar a superioridade da potência colonizadora em questão.

3.2.2 Rivalidades Imperialistas


Profundas tensões acompanharam de perto o fenómeno imperialista. Rivalidades económicas e políticas originaram
acesas disputas territoriais. Nos Balcãs, em Marrocos, no Sudeste africano, no Extremo Oriente, as rivalidades
imperialistas e os nacionalismos fomentavam crises e punham em causa a segurança mundial. Vivia-se um clima de
“paz armada” patente na formação de alianças militares como a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente, que conjugadas
com a corrida aos armamentos, abriram o caminho para a Iª Guerra Mundial.

4.
4.1 A Regeneração entre o livre-cambismo e o proteccionismo (1851-1880)
4.1.1 Uma nova etapa política
Regeneração: Período da vida política portuguesa que decorreu entre 1851 e o fim do século XIX. Teve como
objectivo o estabelecimento da concórdia social e política (das diferentes facções do Liberalismo), bem como o
desenvolvimento económico do país. Para o efeito, procedeu-se à revisão da Carta Constitucional (alargou-se o
sufrágio), assegurou-se o rotativismo partidário e promoveu-se uma série de reformas económicas.

4.1.2 O desenvolvimento de infra-estruturas: transportes e meios de comunicação


Os Resultados
A Regeneração dedicou uma atenção especial ao desenvolvimento dos transportes e meios de comunicação. A política
fontista, do fontismo de António Maria Fontes Pereira de Melo, ministro do Ministério das Obras Públicas,
Comércio e Indústria, teve como principais feitos a construção de estradas que uniram Portugal de Norte a Sul, a
construção de vias ferroviárias, a construção de pontes, a construção de portos marítimos, a instalação do telégrafo e
do telefone, as reformas nos correios e a implantação do automóvel e do carro eléctrico. Estas medidas permitiram a
criação do mercado nacional único, fomentando as actividades económicas da agricultura e da indústria, unindo todas
as regiões de Portugal, progredindo no seu desenvolvimento.

4.1.3 A dinamização da actividade produtiva


Sob o signo do livre-cambismo
A política económica da Regeneração apresentou uma orientação livre-cambista. Em 1852, publicou.se uma nova
pauta alfandegária, que visava uma maior liberalização do comércio. Decretou a descida das taxas alfandegárias sobre
as importações, beneficiando a indústria nacional. Houve também a participação em exposições
internacionais/universais que proporcionavam a actualização científica e tecnológica, e os contactos internacionais
permitiam que as trocas comerciais se incrementassem.

A exploração capitalista dos campos (Agricultura)


Beneficiada coma a abertura aos mercados externos, a agricultura vai assistir a grandes transformações:
- Libertação da terra dos vínculos de carácter feudal;
- Extinção definitiva dos morgadios;
- Abolição dos baldios e dos pastos comuns bem como os arroteamentos que permitiram aumentar a superfície
cultivada;
- Redução do pousio e aproveitamento mais intensivo da terra;
- Difusão das máquinas agrícolas;
- Crescente utilização de adubos químicos.

Apesar destes progressos, Portugal mantinha-se aquém da produção europeia. Alida à falta de poder de compra da
maioria dos agricultores, a inovação tecnológica não prosperou. O sector mantinha-se virado para o mercado externo,
o que gerava situações menos satisfatórias para a economia nacional.

30
Industrialização
Progressos:
- Criação do ensino industrial;
- Diversificação dos ramos industriais (para além do têxtil, metalúrgico, cerâmico e do vidro prosperaram os do
tabaco, do papel, da moagem, dos fósforos, da indústria corticeira e das conservas de peixe);
- Cresceu o número de unidades industriais e de operários;
- Registou-se um crescente aperfeiçoamento tecnológico com a importação de máquinas e do registo de patentes;
- Expansão de sociedades anónimas, revelando uma razoável dinâmica capitalista.

Bloqueios:
- Fraca competitividade internacional;
- Take-off industrial atrasado que condicionou nas condições para aguentar a forte concorrência das potências
europeias;
- Mercado interno nunca se mostrou suficientemente estimulante (falta de poder de compra ou opção pela produção
estrangeira);
- Inexistência ou precariedade de certas matérias-primas e a deficiente preparação dos recursos humanos;
- Falta de investimento industrial por parte dos capitalistas.

4.1.4 A necessidade de capitais e os mecanismos de dependência


As obras públicas, resultado da política de desenvolvimento da Regeneração, trouxeram graves problemas a Portugal.
Por começar estas obras eram construídas através do investimento estrangeiro, caindo na sua dependência. O défice
das finanças públicas não parava de crescer e os sucessivos aumentos dos impostos não conseguiam a situação de
equilíbrio. Para pagar a dívida, recorria-se a empréstimos estrangeiros que entravam num ciclo vicioso pois para os
pagar recorriam-se a outros empréstimos estrangeiros, elevando o défice orçamental cada vez mais crónico.

4.2 Entre a depressão e a expansão (1880-1914)


4.2.1 A crise financeira de 1880-1892
Entre 1880 e 1982, Portugal viveu uma crise financeira gravíssima resultante da política de livre-câmbio do período
da Regeneração, decretando bancarrota em Janeiro de 1892. Entre os factores que a explicam encontramos:
- A diminuição das exportações agrícolas;
- A importação de artigos industriais;
- Aumento dos encargos coma dívida pública devido aos sucessivos empréstimos no país e no exterior;
- Falência dos londrinos Baring & Brothers, que cobriam o défice das finanças públicas com empréstimos;
- Diminuição das remessas de dinheiro dos nossos emigrantes devido à crise económica no Brasil.

4.3 As transformações do regime político na viragem do século


4.3.1 Os problemas da sociedade portuguesa e a contestação da monarquia
A crescente massa urbana aliada aos progressos da instrução e a proliferação dos jornais contribuíram para a
formação da opinião pública, força poderosa que os governos passaram a ter em conta e que desempenhou nas
últimas décadas da monarquia um papel primordial.

A crise político-social e a emergência das ideias republicanas


O rotativismo partidário português, fruto da Regeneração, parecia não dar resposta à crise financeira. As rivalidades
ente os dois partidos originaram duras críticas ao Governo e o rei era visto na opinião pública como o culpado dos
males que afligiam o país. A debilidade económica fazia-se sentir e dos campos, saíam milhares de emigrantes. O
operariado miserável, pobremente alojado e alimentado, era analfabeto e as classes médias olhavam com dificuldade
os baixos salários face ao seu estatuto que lhes dava uma vida digna. Com excepção da alta burguesia ligada ao poder
político, estas classes sociais viviam um descontentamento geral e eram receptivos face aos projectos de mudança. O
Partido Republicano viu nesta situação uma oportunidade de se afirmar. Efectuou diversas críticas violentas ao rei e
aos seus governos e emancipava um patriotismo português forte, que originou a sua crescente adesão.

A questão colonial e o Ultimato Britânico


Um dos assuntos que mais interessava à opinião pública era a questão das colónias. Em 1881, a Sociedade de
Geografia de Lisboa elaborou um projecto que visava a ligação de Angola com Moçambique, ficando conhecido por
“Mapa Cor-de-Rosa”. Face a estas pretensões africanas, Portugal recebeu um Ultimatum britânico, pois a Grã-
Bretanha pretendia ligar numa faixa contínua o seu território do Cabo ao Cairo. Ameaçando o corte diplomático,
Portugal aceitou as exigências britânicas e abandonou o projecto, dando origem a diversas contestações face ao
Governo que deram origem à primeira tentativa de derrube da monarquia no Porto a 31 de Janeiro de 1891, que
acabou por fracassar.

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Do reforço do poder à implantação da república
A revolução fracassada do Proto fez ver que o estado político do país estava muito débil e que era necessário um
poder forte e seguro capaz de dar volta à situação. Assistiu-se a um contorno do republicanismo e a um clima
propício ao reforço do poder real. D. Carlos dispôs-se então a realizar diversas reformas à muito esperadas e em
1906, nomeia o chefe de Governo João Franco. Franco viu-se nos braços de uma sistemática obstrução do
Parlamento, agitado por escândalos financeiros e pela agressividade dos partidos da oposição. Desta forma, D. Carlos
dissolveu o Parlamento e João Franco governou em ditadura. A repressão abateu-se de tal forma que levou ao
assassinato do rei e do príncipe herdeiro a 1 de Fevereiro de 1908. Apesar do sucessor, D. Manuel, tentar governar
num clima de transigência e compromisso, a revolta republicana prosperou e a 5 de Outubro de 1910 foi proclamada
a primeira república portuguesa.

4.3.2 A primeira República


21 de Agosto de 1911: Aprovação da Constituição Política da República Portuguesa.
24 de Agosto de 1911: Eleição de Manuel de Arriaga como primeiro presidente da República Portuguesa.

O sistema parlamentar
O poder legislativo pertencia ao Congresso da República, composto por duas câmaras- a dos Deputados e o Senado-
ambas eleitas por sufrágio directo e universal, com restrições (Eleitores: todos os portugueses com mais de 21 anos,
com a condição de saberem ler e escrever ou de serem chefes de família). O predomínio do poder legislativo
expressava-se nas vastas competências do Congresso a quem cabia a legislação geral, assim como muitas matérias que
dependia o exercício regular do Governo e da Administração Pública. Já o presidente, eleito de 4 em 4 anos,
promulgava de forma automática, as leis aprovadas. Pelo contrário, era ao Parlamento que cabia o controla das acções
do Governo e do Presidente, o que contribuiu para uma enorme instabilidade governativa. Palco de encarniçadas
lutas políticas, o Congresso obstruía de forma quase sistemática, a acção dos governos que, constantemente
substituídos, não dispunham de tempo nem de autoridade para concretizarem as suas tarefas.

A concretização do Ideário Republicano


Principais medidas implementas legislativamente:
- Com vista à pretendida igualdade social, foram abolidos os privilégios de nascimento, títulos nobiliárquicos e até as
ordens honoríficas;
- Dando cumprimento ao laicismo e anticlericalismo, promulgou-se a Lei da Separação do Estado e das Igrejas
(1911): o casamento foi definido como um contracto puramente civil, susceptível de ser dissolvido pelo divórcio e
foi implementado o Registo Civil obrigatório. Nacionalizaram-se os bens da Igreja, expulsara-se as ordens religiosas e
laicizou-se todo o ensino;
- No plano da justiça social, foi reconhecendo o direito à greve, regulamentou-se o horário de trabalho e institui-se o
descanso obrigatório aos domingos para todos os assalariados. Em 1916, surgiu o Ministério do trabalho e
Previdência Social, tendo-se investido nas áreas da Habitação Social, da saúde e da assistência;
- A nível do ensino público, foi reiterada a obrigatoriedade e gratuitidade do ensino primário, reforçando-se os meios
da sua efectivação coma criação de escolas e um programa de formação de professores e renovou-se o ensino técnico
e universitário.

5.
5.1 A confiança no progresso científico
Positivismo: Corrente filosófica e científica sistematizada, no século XIX, por Augusto Comte. O Positivismo, como
corrente de pensamento, exclui toda a teorização metafísica, confinando-se ao positivo conhecimento dos factos
através do método científico.

Segundo Comte, a Humanidade e os diversos ramos do conhecimento passaram sucessivamente por três estados:
- O teológico, em que os fenómenos são explicados pela intervenção das forças sobrenaturais;
- O metafísico, em que se aceita a existência de entidades abstractas, não observáveis, como causa dos fenómenos:
- O estado positivo (ou científico), que se alicerça no estudo das leis naturais e invariáveis que regem os fenómenos.

Cientismo: Crença no poder absoluto da ciência em todos os aspectos da vida. O cientismo parte de um estrito
racionalismo que considera explicáveis todos os fenómenos, não pondo, por isso, limites às possibilidades do
conhecimento humano. Segundo esta corrente do pensamento, a ciência constituiria a chave do progresso e da
felicidade humana.

5.1.1 O avanço das ciências exactas e a emergência das ciências sociais


Palco de extraordinárias descobertas, o século XIX não se limitou a acrescentar o volume dos conhecimentos, mas
revolucionou também as suas bases:
- Na Química, Mendeleiev elaborou a primeira tabela periódica;

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- Na Física, os britânicos Joule e Maxwell formularam com a precisão a teoria cinético-molecular, onde todos os
corpos são formados por partículas dotadas de movimento, cuca intensidade varia pela acção de factores externos por
como, por exemplo, a temperatura. O casal Curie e Henri Becquerel publicaram sobre a radiactividade, demonstrando
que para além de se moverem, os elementos podiam transformar-se uns aos outros.
- Na biologia, Charles Darwin publicou a “Origem das Espécies”, uma hipótese da evolução das espécies animais e
vegetais e Mendel desvendaria o complexo mecanismo que preside à transmissão dos caracteres hereditários;
- Na microbiologia e na medicina, os estudos de Louis Pasteur e de Robert Koch, deram melhores conhecimentos
sobre as causas da propagação de doenças;
- A Sociologia nasceu e Émile Durkheim lançou os seus fundamentos na obra “As Regras do Método Sociológico”;
- Na economia política, Marx tentou tornar “científico” o socialismo utópico;
- A Geografia deixou de ser puramente descritiva, debruçando-se sobre a relação entre homens e o espaço;
- A História desenvolveu as regras para a selecção e a crítica das suas fontes, na esperança de, desse modo, reconstituir
o passado com toda a exactidão.

5.1.2 A progressiva generalização do ensino público


O cientismo e a sua fé inabalável no alcance do conhecimento impulsionaram a instrução e o seu desenvolvimento,
sendo a segunda metade do século XIX a época da alfabetização:
- O ensino primário tornou-se gratuito e obrigatório;
- O pagamento dos professores deixou de estar a cargo das autarquias e instituições de benemerência e transitou para
o poder central;
- Construção de redes de escolas;
- Laicização da escola pública;
- Impulsionamento dos ensinos secundários e superiores, que formavam profissionais nas áreas da engenharia e
empregos liberais, com renovação dos seus currículos e métodos pedagógicos;
- Desenvolvimento, na Alemanha e nos EUA, do moderno conceito de docência universitária que colocava o
professor como orientador do trabalho e dos seus alunos formando uma equipa de investigação.

5.2 O interesse pela realidade social na literatura e nas artes- as novas correntes estéticas na viragem do século
5.2.1 O Realismo
Realismo: Movimento cultural que se segue e se opõe ao Romantismo. Cronologicamente, o Realismo afirma-se
cerca de 1850 e prolonga-se, sob várias formas, até à viragem do século. Influenciado pela corrente positivista, o
Realismo rejeita toda a subjectividade, opondo à beleza, ao refinamento, à elevação moral o simples culto dos factos.
Estendendo-se, embora, a vários domínios, este movimento foi particularmente expressivo na pintura e na literatura.

Na pintura, o Realismo manifestou-se na simples reprodução, desapaixonada e neutra do que a vista oferece ao
pintor, passando, depois aos temas do quotidiano. Destaca a França como impulsionadora deste movimento
destacando-se Honoré Daumier, Édouard Manet e Gustave Coubert. Na literatura, o Realismo centrou-se no
retracto objectivo da realidade social em detrimento da exaltação dos sentimentos individuais que tinha marcado o
Romantismo. Foi esta realidade palpável, clara e cruamente exposta, que chocou a sociedade burguesa da época, tão
ligada às aparências.

5.2.2 O Impressionismo
Impressionismo: Corrente pictórica que se esboça na década de 60 e persiste, pelas mãos de pintores como Claude
Monet, até ao início do século XX. Os impressionistas procuram captar a realidade visível tal como, de imediato, a
percebemos, transfigurada pelas diferentes intensidades de luz. Caracteriza-se por uma técnica pictórica rápida, de
contornos diluídos, que privilegia as cores fortes e claras. Rejeita a pintura de atelier, a aplicação tradicional das cores,
o esboço prévio e os contornos definidos.

5.2.3 O simbolismo
Simbolismo: Corrente artística da segunda metade do século XIX que atingiu a sua expressão mais forte cerca de
1880-1890. O Simbolismo toma como tema o mundo dos pensamentos e dos sonhos, o sobrenatural e o invisível,
adquirindo um carácter hermético e isotérico. Revela um desprezo pelo mundo industrial (evasão do quotidiano) e
rejeita o “culto dos factos”, a simples reprodução da realidade visível.

5.2.4 Uma “Arte Nova”


Arte Nova: Estilo que marca, na Europa, a viragem do século (1890-1914) e se afirma pela oposição aos estilos
antigos que continuavam a inspirar a arte académica. Embora se desdobre em múltiplas vertentes nacionais, a Arte
Nova define-se pela preocupação decorativa, pelo predomínio da linha ondulada, pelo recurso aos motivos florais e
femininos e pela predominância de cores claras. Rejeita a separação entre artes maiores (arquitectura, escultura,
pintura) e artes menores (artes decorativas em geral).
5.3 Portugal: o dinamismo cultural do último terço do século

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5.3.1 O impulso da geração de 70
A inquietação e os anseios de modernidade que se sentiam na Europa vai masterizar-se em Portugal, num grupo de
estudantes de Coimbra, que incluía Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós. Conhecendo-os como a
Geração de 70, este grupo de jovens abraçava entusiasticamente a fé cientista no progresso, bem como a crença no
papel da literatura como meio de transformação social. Insurgia-se contra a “escola literária de Coimbra” e o
conservadorismo dos intelectuais portugueses, contrapondo-lhes a “novidade” europeia. Elaboraram uma série de
Conferências Democráticas onde discutiam abertamente a política, a sociedade, o ensino, a literatura e a religião.
Condenados pelo regime de ofenderem “claramente as leis do reino e o Código Fundamental da Monarquia” o ciclo
das conferências não chegou a completar-se. Os membros da Geração de 70 sentiram-se então derrotados pelo
imobilismo nacional, tendo, todavia, deixado um legado que alimentou a efervescência ideológica que marcou o fim
da monarquia e abriu o caminho a novas correntes literárias e artísticas.

5.3.2 O primado da pintura naturalista


Em Portugal, fruto dos jovens estudantes bolseiros que estudavam em França e de lá traziam as novas correntes
artísticas, o Naturalismo ganhou destaque e tornou-se a “arte oficial” que, sendo moderno, não chocava nem
desencadeava polémicas no seio da sociedade conservadorismo da época, predominando uma inexistência de
percursos marcantes pela inovação e originalidade.

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