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♯8 primer semestre 2016 : ISSN 2313-9242

Rodrigo Bastos
UFSC, Brasil

A arte do urbanismo conveniente: O


decoro na implantação de novas
povoações em Minas Gerais na primeira
metade do século XVIII

A arte do urbanismo conveniente: O decoro na implantação de novas povoações em minas gerais na primeira metade do século XVIII / Rodrigo Bastos
♯8 primer semestre 2016

alijados da história, substituídos por categorias


estéticas românticas e modernas. São conceitos
antigos como o decoro, a decência, a
comodidade, a conveniência, o asseio, a
A arte do urbanismo maravilha, a elegância, a correspondência, a
ordem, a formosura, o engenho etc.,
conveniente: O decoro na substituídos ou obliterados por categorias como
implantação de novas a genialidade, a originalidade, a evolução dos
estilos, o progresso e a autonomia das artes, o
povoações em Minas Gerais sublime e o pitoresco, a forma e a função de
arquiteturas e espaços urbanos. Nada disto
na primeira metade do século corresponde ao que se fabricou naquele tempo,
XVIII1 anterior à Revolução industrial, ao Idealismo
alemão, ao Materialismo histórico e ao
Positivismo. Assim, recuperados à luz dos
Rodrigo Bastos tratados de arte e de arquitetura, de
UFSC, Brasil documentos primários e vocabulários de época,
e considerando-se a forma mentis do período,
caracterizada por práticas artísticas miméticas,
Antigo regime e Sociedade de corte, aqueles
conceitos antigos iluminam compreensões
bastante interessantes à história do processo de
O estudo da formação de povoações na capitania formação dessas cidades; compreensões em
de Minas Gerais está ainda distante de muitos aspectos transformadoras, podendo
apresentar consenso; tampouco de indicar mesmo nos levar a rever e a questionar mitos
esgotamento, se é que a história o admite. historiográficos consolidados há décadas.
Apesar de vários estudiosos terem contribuído
sensivelmente para o seu conhecimento, muitos
aspectos do fascinante processo de implantação
e crescimento de povoações em Minas Gerais no
século XVIII continuam a estimular novos
estudos; quando não chegam mesmo a impô-
los, diante da inelutável renovação
historiográfica e da inquietação inerente à
pesquisa científica.

Um desses aspectos mais estimulantes é,


indubitavelmente, a reconstituição histórica
dessas cidades a partir também da
reconstituição histórica de conceitos, preceitos e
doutrinas do tempo em que foram construídas. 1. Vista de Ouro Preto e Pico do Itacolomy, a partir do
Com essa arqueologia conceitual, evita-se uma Arraial de Nossa Senhora do Pilar, acervo do autor.
série de anacronismos que podem comprometer
a história dessas povoações mais com o tempo As “novas povoações” mineiras setecentistas –
de quem escreve sobre elas, com suas vilas e uma única “cidade” assim elevada:
ideologias, categorias e dilemas, do que com os Mariana (antiga Vila de Nossa Senhora do
pressupostos e condicionamentos materiais que Carmo) – são protagonistas de um dos
efetivamente caracterizavam a fábrica da processos mais significativos da história urbana;
arquitetura e da cidade no longínquo século tanto pelo que representaram política e
XVIII. economicamente para Portugal quanto pela
qualidade artística, arquitetônica e urbana de
Uma quantidade inumerável de conceitos que que ainda são remanescências vivas. Articuladas
operavam naquele tempo teve seus sentidos em uma rede urbana de concentração e
bastante transformados nos últimos duzentos proporções inéditas na colônia até então,
anos, e muitos deles foram praticamente constituíram uma empresa povoadora singular
que caracterizou etapa fundamental do

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estabelecimento urbano do território hoje também o caráter e as circunstâncias do lugar.


brasileiro. Assim, também decorosamente, o arquiteto e o
engenheiro deveriam escolher os melhores e
Para além desta constatação relevante, há outra, mais adequados sítios para implantação de
de ordem metodológica, que vigora a edifícios e povoações; eleger as melhores plantas
importância histórica dessas cidades para muito e materiais para fabricá-los, costumes
além do reconhecimento do patrimônio artístico construtivos e ornamentos, a fim de fazer com
e arquitetônico de que são exemplares, e que que edifícios e povoações tanto representassem
praticamente impõe uma revisão geral de sua dignamente seu caráter e importância, com
historiografia. Para a intelectualidade beleza e deleite, como também proporcionassem
modernista, essas povoações mineiras os proveitos e comodidades necessárias à sua
constituíram o lugar mágico, espontâneo e boa utilização.
propício, onde teria aflorado teluricamente, pela
primeira vez, uma arte original e genuinamente A consideração do decoro – ou da
nacional – o chamado “barroco mineiro” –, uma “conveniência” – foi decisiva, dentre outros
conjunção única capaz de legitimar, entre outros aspectos, para a efetivação de uma política de
postulados, o argumento de uma suposta povoamento, aumento e conservação das
genialidade nacional mestiça. conquistas com a qual se procurou conciliar
prudentemente as conveniências
Na contramão dessa construção ideológica – metropolitanas e as conveniências coloniais,
justificada pelo ufanismo da primeira metade do políticas, humanas e edificadas; em um
século XX, em que era forjada uma ideia de território cuja permanência dos povos e das
nação –, procuramos nos atentar para a povoações desde o final do século XVII foi
estrutura interna do pensamento material que problemática e, justamente a partir do século
informava as práticas artísticas e políticas XVIII, se tornou imprescindível. Constituindo
daquele período. Assim, e objetivando um preceito fundamental tanto aos regimes
compreender a fábrica arquitetônica e ético-políticos quanto aos regimes artístico-
urbanística a luz daqueles conceitos coevos, construtivos, o decoro proporcionou uma chave
nossas pesquisas apresentaram evidências de bastante interessante à compreensão de vários
que o decoro – doutrina fundamental ao aspectos relativos à formação dessas novas
pensamento e às práticas artísticas desde a povoações.
antiguidade até pelo menos o século XIX –
constituiu um dos preceitos mais importantes Reconhecer a consideração do decoro na
nos processos de implantação de novas efetivação desses processos povoadores nos
povoações em Minas Gerais durante o século conduziu inevitavelmente a questionar a
XVIII. configuração e o desenvolvimento ditos
“espontâneos” por Sylvio de Vasconcellos desde
O decoro sempre constituiu uma orientação de 1959 para a generalidade das povoações
adequação e conveniência, de meios e fins. mineiras.2 A pesquisa nos conduziu também ao
Rezava que qualquer ação ou produção humana questionamento das noções, igualmente
procurasse efetivar a conjunção entre beleza e problemáticas, de que essas povoações seriam
utilidade, aparência e caráter, motivação e “irregulares” e “desordenadas”, devido à
finalidades. Assim, o rei, em qualquer de suas conformação predominantemente orgânica de
ações, deveria considerar o que fosse mais seus traçados urbanos, acomodados à topografia
conveniente ao reino e aos súditos, conforme as geralmente acidentada. Essas críticas figuravam
circunstâncias e finalidades da política. Assim, o já nas impressões dos viajantes do século XIX,
ator, ao desempenhar uma personagem, deveria consagrando-se na historiografia
se revestir do que fosse adequado ao papel, principalmente após a contribuição de Sérgio
procurando usar as máscaras, maquiagem, Buarque de Holanda, com o importante Raízes
gestos e adornos capazes de revelar seu caráter e do Brasil. Além de questionar a
suas emoções. Assim, o orador, ao desempenhar “espontaneidade” aplicada a essas povoações,
um discurso, deveria inventar astuciosamente foi possível declarar literalmente a “ordem” e a
os argumentos, usar do ritmo, dos acentos de “regularidade” delas, considerando-se os
voz e de artifícios persuasivos para conduzir, conceitos de ordem e regularidade exatamente
convencer e comover a sua audiência, conforme

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contemporâneos ao estabelecimento dessas considerada por estudiosos característica da


povoações.3 política de conquista e povoamento português –
parece não ter sido, pois, resultado apenas da
Uma noção mais abrangente de “regularidade” “praxis” que se desenvolvia nos contextos
era literalmente declarada naqueles primeiros conquistados ou do “pragmatismo” da empreita
anos do século XVIII, num dos mais completos colonizadora. Certamente dependente desses,
vocabulários portugueses, dedicado em 1712 ao com efeito, mas há que se cogitar estimulada
rei de Portugal D. João V por Raphael Bluteau,4 internamente pela consideração de um preceito
e também por um dos mais importantes – o decoro – que orientava justamente essa
tratadistas portugueses de arquitetura e disposição para a adaptação, visando múltiplos
engenharia militar, Manoel de Azevedo Fortes, âmbitos de conveniência.
em seu tratado O engenheiro portuguez
(1728/1729). Estamos falando da “regularidade” No tratado Exame Militar (ca. 1700) do padre
como “observância” aos preceitos e “regras da jesuíta Luiz Gonzaga – conforme Beatriz
arte” – no âmbito em questão, das “artes” do Bueno,8 o primeiro tratadista português a
povoamento, do arruamento e da edificação, estender os princípios vitruvianos (Ordem,
inseparáveis naquele momento das “artes” da Disposição, Eurithmia, Symmetria, Decoro e
ética e da política. Dentre as “regras” Distribuição) à arquitetura militar –, o decoro
competentes a essas “artes”, e precipuamente, o foi definido como uma “propriedade” das partes
decoro, desenvolvido nos tratados de da edificação ou da povoação “por ordem” (de
arquitetura e engenharia militar (Vitrúvio adequação) a diversos fatores, como o sítio de
principalmente, traduzido em Portugal por implantação, tradições construtivas e a
Pedro Nunes em 1541, mas também Alberti e finalidade da obra:
outros, franceses e holandeses)5 com os quais os
portugueses ministravam aulas de arquitetura e Aparência, Decoro, e Fermosura da planta, ou
engenharia militar desde o século XVI e se praça, [...] he a propriede [propriedade] das
preparavam para a fábrica construtiva a ser partes da praça por ordem ao sitio, q se tem
empreendida na metrópole e nas colônias. escolhido, por ordem ao costume com q se
dispoem, e per ordem a natureza do com q se
Recuperando essa noção coeva de
faz. Sirva de exemplo huma praça q se manda
“regularidade”, bem como a própria fazer, o engenheiro, busca este sitio ou lugar
consideração do decoro, ressaltamos a da fortificaçaõ a onde possa ser conveniente.
necessidade de se compreender esses processos Busca este sitio mais apto pª o fim que se
povoadores através de preceitos coevos a esses pertende [pretende], dispoem as partes da
mesmos processos e regimes retóricos de praça segundo hum costume, ou methodo de
produção artístico-construtiva, característicos fortificar, e segundo este vay dando a cada
dos séculos XVII e XVIII luso-brasileiros. huma das partes [...] e a planta q representa
tudo isto se diz decorosa.9
Constituindo uma “regra” – ou preceito
“regular” – de adequação e conveniência de Coordenado pelos governadores da capitania, o
meios e fins, o decoro contribuiu para processo de ereção das primeiras vilas em Minas
consolidar uma disposição colonizadora Gerais foi uma necessidade política, quando se
portuguesa tendente à transformação dos procurou eleger os sítios “mais convenientes”
contextos “em detrimento da ruptura”.6 A tanto à coroa quanto aos povos. Apesar da
consideração do decoro representou uma primeira vila (Nossa Senhora do Carmo) ter sido
espécie de regularidade anterior, primordial, criada em 08 de abril de 1711, em 10 de
orientada à conveniência e à adequação aos novembro de 1710, portanto cinco meses antes,
contextos e circunstâncias humanas, físicas e o governador da Capitania de São Paulo e das
políticas, aos sítios e suas construções Minas do Ouro, Antonio de Albuquerque Coelho
preexistentes – os arraiais sobre os quais se de Carvalho, realizou uma Junta Geral
fundaram novas povoações mineiras. A tão destinada a tratar, entre outros assuntos,
problemática regularidade geométrica dessas justamente da criação de vilas naqueles sítios
povoações esteve condicionada ou mesmo expressamente considerados os “mais
subordinada a uma regularidade primordial de convenientes”.10 Participaram da Junta
adequação, acomodação e conveniência. Uma representantes de várias hierarquias, prelados,
dita “adaptabilidade às conjunturas”7 – procuradores da fazenda real, capitães, guardas-

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mores e representantes dos próprios moradores povos e das povoações. A partir de então – de
onde – entre 1711 e 1718 – seriam fundadas as forma expressiva na documentação coeva –
ditas “novas povoações”: “Rio das Velhas, Caeté, essas novas povoações foram condicionadas a se
Sabará, Ouro Preto, e Ribeiraõ de N. Srª do aumentarem e a se conservarem sob
Carmo, e do Rio das Mortes, [...]”.11 requisições de conveniência, dignidade e
decência urbanas coerentes não apenas com
Embora os atributos dos sítios mineradores suas novas condições hierárquicas, mas
ocupados por arraiais não fossem os mais sobretudo com os objetivos da política teológica
recomendáveis à implantação de povoações – e fiscal da coroa portuguesa.
como orientavam os tratados e a experiência
urbanística lusitana –, a prudente consideração Mas isso não aconteceu apenas com Vila Rica. A
às conveniências dos moradores e ereção de uma vila, naquele tempo, determinava
circunstâncias locais atuou diretamente sobre as a instalação de uma câmara municipal que, a
eleições dos sítios para ereção de vilas, tornando partir de então, através principalmente da
aceitáveis até mesmo algumas incomodidades. atuação dos vereadores – não por acaso
Anterior à absoluta qualidade mais apropriada definidos no princípio do século XVIII como os
dos sítios, operou uma satisfação relativa às “zeladores das conveniências do povo”14 –,
“conveniências dos povos”. O caso de Vila Rica concentrava outros três processos povoadores
(Ouro Preto) é expressivo. Conquanto o fundamentais, os quais assim classificamos, em
governador Antonio de Albuquerque, que exame atento da documentação primária
possuía experiência militar e construtiva, preservada:
advertisse no termo de ereção de 08 de julho de
1711 que “não achava o sítio muito
1°) Adequação das estruturas construídas
acomodado”,12 concordou em criar a vila, como
preexistentes: concessão de aforamentos sobre
“uniformemente todos convieram”, na união dos
propriedades já estabelecidas pelos moradores;
arraiais concentrados nas matrizes de Nossa
licenças para “retificação”, reforma e
Senhora do Pilar e Nossa Senhora da Conceição
reconstrução de casas mais seguras e decentes,
de Antônio Dias. A ordem de Sua Majestade
com materiais mais dignos e resistentes;
determinava o arraial de Pilar, mas acabou o
alargamento, realinhamento e “endireitamento”
governador estendendo a eleição do sítio à
de “praças”, “ruas” e “calçadas”;
conjunção dos dois arraiais, como declara o
documento, pois no Arraial de Antônio Dias
estava “o sítio de maiores conveniências que os
2°) “Aumento” da povoação (expansão física e
povos tinham achado para o comércio”.13 “acrescentamento” de dignidade): abertura de
Ademais, com essa conjunção de arraiais,
novos arruamentos e logradouros; concessão de
evidenciou-se aquele que se tornaria o lugar
novos aforamentos para construção de novas
mais conveniente para a concentração de
casas; implantação de novos edifícios públicos,
edifícios oficiais. Sobre o cume então
câmara e cadeia, pontes e chafarizes; ereção de
desocupado do Morro de Santa Quitéria, que
capelas e igrejas, consolidação de largos e
dividia geograficamente os dois arraiais, e
praças;
doravante passou a uni-los, através da futura
Praça Tiradentes, foram implantados o Palácio
dos governadores e a Casa de Câmara e Cadeia. 3°) “Conservação” da povoação: “reformas”,
Uma escolha prudente e decorosa do “reparos”, “consertos” e “correições” urbanas
governador, que acabou determinando aspectos parcelares (ou seja, nas diversas “partes” da
urbanos que permitiram Vila Rica se tornar uma povoação) que visavam manter a integridade de
das povoações mais singulares do universo luso- sua estrutura física e a “correção” de seu
brasileiro; e talvez não fosse tanto assim, se a aspecto; a “comodidade”, a “decência” aparente,
ordem do rei tivesse sido estritamente a “limpeza” e o “asseio” da povoação.
obedecida.

Com a eleição de sítios os mais convenientes Esses processos ocorriam simultaneamente e


para as novas fundações, foi possível estabelecer eram complementares. Enquanto novos
uma concentração administrativa e estimular arruamentos eram abertos, outros passavam por
uma permanente e necessária acomodação dos realinhamentos; enquanto novos aforamentos

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eram concedidos, outros moradores adquiriam ambiente público como também a dignidade de
licenças para reformarem seus ranchos em sua aparência. O “conserto” e a “conservação”
casas, doravante cobertas “de telha”. A das partes urbanas representavam a integridade
expansão física e a conservação da povoação da povoação e de toda a república – por
representavam o vigor de sua permanência; extensão hierárquica, do reino português.
tanto a eleição do sítio quanto a conservação
permanente das partes urbanas poderiam
implicar aumento de dignidade à povoação. Auto de Correyção Geral […] em 16 de Novr.°
de 1745

No livro, desenvolvemos vários exemplos desses Acordaraõ [...] que Francisco Gomez de
processos – auxiliados pela pesquisa de várias Oliveira encanasse as agoas Sujas, que vem a
fontes documentais primárias inéditas –, Sahir a Rua por hum cano que passa pelas
principalmente em Vila Rica e Vila do Carmo cazas do Supplicante, o qual cano traz agoas
(Mariana), ressaltando neles as orientações e fetidas, e de toda Serventia da Casa do dito
repercussões concernentes à conveniência e ao Gomez [...] para que no termo de quinze dias
pacasse as agoas, por baycho da Rua
decoro, exorbitantes aqui por suas extensões.
Comsumindo-a por cano, de Sorte, que naõ
São aberturas e realinhamento de praças, appareçaõ mais pelo prejuizo que podem
abertura, reforma e conservação de ruas, eleição Cauzar naõ Sô aos vezinhos, mas tambem
de sítios para construção de edifícios públicos e aquem passa, ejuntamente porque as Ruas
templos, obras para ornato e comodidade publicas devem estar muy Limpas, eaceadas,
pública, como os chafarizes, pontes e estradas, e [...]
muitos outros. Escolhemos ilustrar, aqui, essas
diligências construtivas, com um só Termo de Acordaraõ que Martins Levantasse parede de
Correição, assinado pela câmara municipal de pedra no Seo quintal, para o que foi
Vila Rica em 16 de novembro de 1745 – dia notisciado, por naõ Ser conveniente as
gravatas que tem nelle Servindolhe de
evidentemente dedicado às conveniências
parede, [...]
edificadas da povoação. Como se poderá
observar, o âmbito dessas “correições” urbanas Acordaraõ no fundo do Padre Faria que Joaõ
(à guisa de se preservar tanto a correção do Martins Sequeyra, consertasse, eaLimpasse o
aspecto quanto a finalidade competente das beco athe a ponte [...]
partes urbanas) era bastante variado,
abrangendo desde detalhes das edificações até Acordaraõ no alto da Caza da Camara que o
grandes extensões de arruamentos. “Acordou- Cappitaõ Lourenço Dias Rosa Lancasse fora as
se”, por exemplo, exigir dos proprietários o agoas Sujas que saem para a Rua nova hum
“conserto” de muros e paredes de casas que se cano que vem das Suas cazas, por cauzarem
muyto prejuizo a Republica as ditas agoas
apresentassem “inconvenientes” e em condições
[...]
de “ruína” (em casos de adiantada corrupção,
solicitava-se mesmo a demolição, para que não Acordaraõ no Ouro preto junto aCalçada do
se corrompesse o decoro e a decência da Batalhinha que fosse notificado Domingos
povoação); que se conservassem “limpas” e Francisco do Couto, para no termo de vinte
“asseadas” as ruas defrontes das casas, equatro oras consertar oparedaõ que estâ
“encanando” “águas sujas” que causassem aRuinado da parte da Rua [...]
prejuízo, atente-se, não apenas aos “vizinhos”,
mas a toda a “República”; que ajustassem o Acordaraõ que fossem notificados os
nível e consertassem suas “calçadas”; que Procuradores de Antonio da Silva Porto para
consertarem as cazas quepertençem ao dito,
chegassem as “testadas” das casas até as
ou botallas abaicho no termo de quinze dias,
“balizas” “medidas” e “determinadas” nas [...]
próprias “correições”, com as quais, fica
evidente, pretendia-se alinhar ou realinhar Acordaraõ em mandar botar abaicho os
continuamente os arruamentos. Se não se esteyos que Seachaõ defronte do Cappitaõ
tornassem retilíneos os alinhamentos, pelo Gregorio deMatos Lobo, por naõ apparecer
menos contínuos. “Corrigindo” as partes dono, nem pagar foros, eSerem precizos para
prejudicadas da povoação, procurava-se guardar a fonte que nadita paragem Se hadefazer, por
não apenas a utilidade e a comodidade do Servir deutilidade aobem Commum de toda a
Republica, eque eu Escrivaõ Fizesse

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declaraçaõ a margem do Livro do Tombo de constituído um costume para o senado das


como tornaraõ para o Senado os ditos chaõs câmaras. É possível encontrá-las desde as
[...] eque Sefizesse penhora nos esteyos para primeiras vereações da câmara de Vila Rica,
pagamento dos foros vencidos constantes no decorrer dos setecentos.
Examinando-se os termos de vereação e ainda
Acordaraõ em auto de correyçaõ geral no
Xafariz de Saõ Josê, que Antonio Pereyra as resoluções que tocavam aos governadores e
Latoeiro Recolhesse os esteyos para dentro, seus oficiais, inclusos militares, encontramos
por ficar a Rua mays Larga, e com melhor várias disposições preocupadas com o adequado
aria, por donde Sefes mediçaõ e Semetteraõ aumento e a conservação das povoações e
ballizas para melhor averiguaçaõ algumas inclusive com os caminhos e estradas
que lhes davam acesso.
Acordaraõ nomes no auto de correyçaõ geral,
que os moradores do largo do Caquende para Outros “agentes” participavam também
diante athê oalto de Cabeças todos Sahissem diretamente desses processos povoadores:
com as Suas testadas a Rua e alçando-as athê
administradores locais e metropolitanos,
continuarem com acalçada nova [...]
ouvidores de comarca, corregedores e
Acordaraõ [...] que Joaõ Martins da costa superintendentes, procuradores dos moradores,
Recolhesse o esteio para onde arruadores do conselho (da câmara), juízes
Selhedeterminou, eque juntamente calçasse ordinários e de ofícios, engenheiros e oficiais
toda aSua testada [...] militares, o governador da capitania e até o
bispo, no caso específico da cidade de Mariana,
E nesta forma houveraõ acorreyçaõ por que atuou em nome do decoro da nova Catedral;
acabada de que mandaraõ, digo acordaraõ porventura o próprio rei D. João V – aluno do
mais em auto de correiçaõ geral na Rua do padre tratadista Luiz Gonzaga – e seus
Rozario que vem da ponte de Saõ Josê [in
conselhos, decisivo na reforma e aumento da
loco] que querendo alguas pessoas fazer
cazas na dita Rua Searuassem conforme cidade de Mariana antes e após 1745, bem como
amedição e balizas que Sedeterminoû no nas resoluções concernentes ao local de
mesmo auto de correyçaõ [...].15 implantação, “utilidade” e “aparência” da
residência dos governadores.17
Se os prejuízos e ruínas afetavam a povoação
como um todo, igualmente o “bem comum” e as Subsidiando os processos povoadores e seus
“utilidades” compreendiam-se também providas “agentes”, identificamos procedimentos
“a toda a República”. Foi essa compreensão – de estruturais habituais e preceitos operadores
uma conveniência predominantemente pública extremamente competentes ao decoro e à
– que justificou a penhora de edificações conveniência dos edifícios e das povoações,
abandonadas e o confisco de elementos como já ilustrou o termo de correição
construtivos para o acerto de “foros vencidos”, supracitado. Dentre os procedimentos
ainda porque úteis e “precisos” a obras públicas. estruturais: “vistorias”, “correições”, redação
Bastante interessantes também as correições dos “apontamentos” e “condições” das obras
que visaram o alinhamento de “calçadas”, (verdadeiros projetos discursivos), “medições” e
“testadas” de casas e, por conseguinte, de “louvações” das obras; dentre os preceitos
arruamentos, para os quais “medidas” e operadores, a própria “conveniência”,
“balizas” eram “determinadas” nas próprias “decência”, “proporção”, “comodidade”,
“correições”, estando certamente presente o “elegância”, “fermosura”, “capacidade”,
“arruador do conselho”. Quinze dias depois “necessidade”, “competência” de “ornatos”, o
dessas correições urbanas parcelares, e visando aspecto “vistoso”, “adequação” etc.
declaradamente resultar em melhor aparência
de toda a povoação, o bem comum e melhor O decoro, ou a conveniência, constituía uma
comodidade, outra correição terminava orientação prudencial, considerado desde a
colocando “em praça” “a conservação de todas eleição dos sítios, mas também um fim a ser
as calçadas, e algumas ratificadas, e feitas de alcançado. A documentação primária
novo”.16 setecentista referente à fábrica construtiva e ao
povoamento em Minas Gerais evidencia o
A matéria das resoluções e o modo como foram interesse da coroa portuguesa e seus agentes
acordadas essas correições indicam terem pela “fundação”, “aumento” e “conservação” de

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povoações convenientes, dignas e cômodas aos divorciadas de realidade”.20 Tenhamos em


seus habitantes, compreendidas como consideração, entretanto, que essas admiráveis
representações da regulação metropolitana e do qualidades possam ter advindo não de
“corpo místico” do reino, temperadas pelo espontaneidades, mas da contribuição
delicado pacto de sujeição colonial sustentado deliberada de preceitos que primavam
em Minas.18 justamente pela flexibilidade e acomodação aos
contextos e circunstâncias; virtudes assim
Se considerarmos que a fábrica artístico- mesmo consideradas naqueles tempos: virtudes
construtiva na primeira metade do século XVIII de decoro, conveniência e adequação.
era entendida como a fábrica do “necessário” –
ao lado da “conveniência”, um dos termos mais
recorrentes na documentação coeva –
repensaríamos a designação “espontânea”
consagrada por Sylvio de Vasconcellos também
às novas povoações mineiras. O “necessário” era
– segundo Bluteau e seu Vocabulário
exatamente coevo à fundação dessas povoações N0tas
– o “Não espontaneo [...]. O que he mister, o
que convem”.19
1 O texto apresenta algumas reflexões do livro homônimo

publicado recentemente pela editora da Universidade


A congruência entre os princípios concernentes Federal de Santa Catarina (UFSC), situação que tornou
à doutrina do decoro e as indicações oportuna a publicação deste artigo. Cf. Rodrigo Almeida
documentais recolhidas e interpretadas nos Bastos, A arte do urbanismo conveniente: o decoro na
exige essa reflexão. Leva-nos, ainda, a tratá-las implantação de novas povoações em Minas Gerais na
primeira metade do século XVIII, Florianópolis, EDUFSC,
não como povoações espontâneas, mas como
2014. O livro resulta da dissertação de mestrado em
povoações convenientes, resultantes do que arquitetura e urbanismo, defendida em 2003, pela
poderíamos chamar de Urbanismo conveniente. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob a
E a “conveniência”, aqui, desenvolvida nos orientação do professor Carlos Antônio Leite Brandão, que
tratados e nas matérias dos documentos, quer prefaciou o livro. Participaram da banca avaliadora os
professores Mário Henrique Simão D’Agostino (FAU-USP)
abranger tanto os aspectos internos à fábrica e João Adolfo Hansen (FFCHL-USP). Apresentamo-lo no
construtiva: proporções, partes, capacidades, II Colóquio Luso-brasileiro de Historia da arte, Rio de
competência e decência de ornatos, aspectos Janeiro, 2003.
técnico-construtivos e artísticos, consideração 2 Sylvio de Vasconcellos, Arquitetura no Brasil, pintura
aos sítios e acomodação “por ordem” às mineira e outros temas, Belo Horizonte, EAUFMG, 1959,
preexistências construídas, quanto também os pp. 1-6. Importantes estudiosos do urbanismo e da cidade
aspectos externos referentes à satisfação da colonial luso-brasileira, como Paulo Santos (Formação de
cidades no Brasil colonial) e Roberta Delson (Novas vilas
finalidade ética dos edifícios e povoações, seu para o Brasil-colônia), condescenderam ao diagnóstico
caráter, sua destinação, sua proveitosa sugerido por Sylvio, contribuindo para consolidar a
adequação aos objetivos da política compreensão das povoações mineiras sob as alcunhas da
metropolitana e ao modo de vida colonial que se “espontaneidade” e da “irregularidade”.
estabelecia. 3 Cf. Rodrigo Almeida Bastos, “Regularidade e ordem das

povoações mineiras”, Revista do IEB (Revista do Instituto


Quando, em 1959, Sylvio de Vasconcellos de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo), n.
44, São Paulo, fev 2007, pp. 27-54.
ressaltou qualidades das povoações mineiras
que, segundo ele, teriam advindo de uma dita 4 Raphael Bluteau, Vocabulario portuguez, e latino, aulico,

“configuração espontânea”, valorizou aspectos anatomico, architectonico..., Coimbra, Collegio das Artes
da Companhia de Jesus, 1712. 10 v.
que nos interessam: “uma maior adaptação às
5 Cf. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, Desenho e
condições do terreno”, “arranjos plásticos, que
desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500-1822)
funcionam como cenários, em perfeita
[Tese (Doutorado)], São Paulo, FAUUSP, 2001.
harmonia com a paisagem circundante”, o
6 Walter Rossa, “A cidade portuguesa”, in Paulo Pereira
povoado se desenvolvendo em conveniência –
(Org.), História da arte portuguesa, Lisboa, Círculo de
“O povoado cresce como lhe convém” –, Leitores, 1995. v. 3, p. 272.
participando da vida de seus habitantes, como
7 Walter Rossa, “No primeiro dos elementos. Dados para
uma entidade também viva e livre das
uma leitura sintética do Urbanismo e da Urbanística
contenções determinadas por regras fixas [...] portugueses da Idade Moderna”, Revista Oceanos. A

A arte do urbanismo conveniente: O decoro na implantação de novas povoações em minas gerais na primeira metade do século XVIII / Rodrigo Bastos
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♯8 primer semestre 2016

construção do Brasil urbano, n. 41, Lisboa, jan./mar.


2000, p. 16.
8 Cf. Rodrigo Almeida Bastos, op. cit., p. 407.
9 Luiz Gonzaga. Exame Militar, apud Rodrigo Almeida
Bastos, op. cit., p. 410.
10 APM (Arquivo Público Mineiro) SC (Seção Colonial) 06,
f. 9-9v.
11 Ibídem.
12 APM SC 06, f. 20-21.
13 Ibídem.
14 Bluteau Raphael, Vereadôr, op.cit., v. 8, p. 437.
15APM CMOP (Câmara Municipal de Ouro Preto) 52, fot.
12-16. (grifo nosso)
16 APM CMOP 52, fot. 21.
17REGIM.T° ou Instrucção que trouxe o Governador
Martinho de Mendonça de Pina e de Proença. Revista do
Archivo Público Mineiro, ano 3, Ouro Preto, 1898. p. 87.
18Cf. João Adolfo Hansen, “Artes seiscentistas e teologia
política”, in Percival Tirapeli (Org.), Arte sacra colonial:
barroco memória viva, São Paulo, UNESP, 2001, pp. 180-
189.
19Bluteau Raphael, Necessario, op. cit., v. 5, p. 695, (grifo
nosso).
20 Sylvio de Vasconcellos, op. cit., p. 5-6.

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artículo?

Bastos, Rodrigo; “A arte do urbanismo


conveniente: O decoro na implantação de novas
povoações em minas gerais na primeira metade
do século XVIII”. En caiana. Revista de
Historia del Arte y Cultura Visual del Centro
Argentino de Investigadores de Arte (CAIA). No
8 | 1er. semestre 2016. pp 97-104.

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http://caiana.caia.org.ar/template/caiana.php?pag
=articles/article_2.php&obj=232&vol=8

Recibido: 6 de febrero de 2016


Aceptado: 18 de mayo de 2016

A arte do urbanismo conveniente: O decoro na implantação de novas povoações em minas gerais na primeira metade do século XVIII / Rodrigo Bastos
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