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HISTORIOGRAFIA E TEMPORALIDADES

Historiografia e Temporalidades

Pensar a historiografia é revisitar a cultura histórica, como lembrou José Jobson de Andrade Arruda,
é “atravessar vários momentos de cristalização da instauração de linhas mestras interpretativas hege-
mônicas e hegemonizantes”.

O que implica em adentrar a construção do conhecimento histórico enquanto produção humana que
reflete o tempo.

Como ressaltou José D’Assunção Barros, a história refere-se “sempre a certos processos da vida hu-
mana em uma diacronia, isto é, no decurso de uma passagem pelo tempo ou que se relacionam de
outras maneiras, mas sempre muito intensamente, com uma ideia de temporalidade”.

Tal como estabeleceu a linguística, também na história os termos sucessivos se substituem uns aos
outros ao longo do tempo, tornando a historicidade uma sucessão de fatos, estudados através da sin-
cronia, o entendimento das estruturas.

Entretanto, a narrativa da história estabeleceu, há séculos, escolhas que denotam posicionamentos


interpretativos de análise do homem como ser histórico, circunscrito há um tempo e uma forma con-
textualizada de encarar a passagem do tempo.

Refletindo a própria essência do debate em torno da observação das mudanças e permanências,


uma análise incorporada pela historiografia, quer como mero aspecto metodológico ou como objeto
central de estudo.

Esta abordagem, por sua vez, remete ao próprio conceito de tempo adotado como escolha teórica,
interferindo diretamente na forma como a história será interpretada e vinculada ao debate historiográ-
fico. Uma questão complexa, já que o tempo se desdobra e volta-se novamente para dentro de si
mesmo.

Isto porque a própria definição de tempo é variável, filosoficamente contentável por ser uma conven-
ção determinada pela sociedade, cultura, economia e também historicamente composta.

Uma invenção que, no entanto, possui embasamento na percepção das transformações que se pro-
cessam em volta daquele que observa.

Neste sentido, a temporalidade, como produção humana, é uma ferramenta da história, mais visível
como referência expressa em calendários e cronologias, demarcando os anos e séculos, situando
acontecimentos, ajudando a organizar as narrativas históricas para facilitar o entendimento da passa-
gem do homem pelo tempo.

Entretanto, dependendo da escola ou corrente historiográfica, para além desta conceituação de


senso comum, a percepção das temporalidades interfere diretamente na concepção de história.

Na abordagem e escolha dos fatos que o historiador julga relevantes para incorporar ao conheci-
mento de sua competência, modificando o entendimento do passado e, porque não dizer, do próprio
presente.

Portanto, assim como, contemporaneamente, nenhum historiador pode furtar-se de conhecer a histo-
riografia, categorizada por Guy Bourdé e Hervé Martin como o exame dos discursos de diferentes his-
toriadores e a análise de seus conceitos e métodos; a compreensão das temporalidades, incorpora-
das às narrativas históricas, é essencial para entender o que os historiadores entendem por história.

O grande problema é que cada Escola ou corrente teórica possui noções de tempo implícitas, autoin-
fluenciando-se mutuamente.

Sendo inviável realizar um trabalho mais aprofundado neste momento, porém, é factível abordar uma
amostragem que possibilite notar a grande importância deste componente no âmbito da teoria da his-
tória.

Permitindo traçar uma linha mestra que conduza até o atual interesse da historiografia pela aborda-
gem conceitual das temporalidades.

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O Tempo na História

Na história, o tempo aparece sob as mais diferentes formas, é uma consequência, uma variável que
integra a definição de realidade, embora não reflita um conceito absoluto.

Já a temporalidade, entendida como percepção da passagem do tempo, demonstra uma dimensão


que reconfigura os fatos.

No entender de Paul Ricoeur, o tempo é um processo social intuitivo que progride com o amadureci-
mento psicológico do sujeito que supõe sua especificidade.

Remetendo a uma constante reconfiguração da definição de tempo.

Este conceito, aplicado ao conhecimento histórico, suscita um duplo questionamento: primeiro sobre
a natureza do que se entende como tempo e depois como isto se articula com as temporalidades.

Em linhas gerais, o tempo pode ser entendido como físico, social ou histórico.

Uma visão objetiva, vinculada com as ciências biológicas e a psicologia, defende a idéia de que a re-
alidade do tempo é apenas uma percepção sensorial, não sendo, portanto, uma criação intelectual do
homem.

Por outro ângulo, para as ciências sociais, além do tempo existencial percebido, existe também um
“tempo do relógio”, este sim uma convenção humana.

Sendo uma invenção sociológica, o tempo é uma instituição que se constrói conforme a natureza da
sociedade, assumindo funções precisas para organizar a coexistência entre as pessoas e a divisão
de tarefas.

Analisado pelo viés filosófico, na antiguidade, o tempo foi concebido por Platão como um aconteci-
mento anterior a um posterior, mera consequência com limites apenas vagamente definidos.

Um conceito que trazia implícito tanto o tempo físico como o social, à medida que utilizado como base
para medir as épocas do ano, o momento de semear e colher, as épocas da paz, das guerras e dos
heróis.

Para Aristóteles, a idéia de tempo só pode existir se admitido antes o conceito de movimento, altera-
ções de estado, transformações perceptíveis, as quais podem ser aplicadas também ao aspecto fí-
sico e social, já que constitui uma referência para homem balizar suas opiniões.

Concepções que se tornariam preponderantes no mundo Ocidental até o século XVI, quando o tempo
assumiu uma magnitude uniforme e homogênea, convertendo-se em pura unidade de medida para o
entendimento do mundo físico, sendo deixado de lado seu viés social.

Isaac Newton reforçou esta idéia no século XVII, quando, em 1686, publicou Princípios Matemáticos
da Filosofia Natural.

Na obra, ele distinguiu “o tempo absoluto, “verdadeiro e matemático, por si próprio e por sua própria
natureza, [fluindo] de maneira uniforme sem relação [com] qualquer coisa externa”; do “tempo rela-
tivo, aparentemente comum (...), uma medida sensível e externa da duração do movimento (...), co-
mumente usada ao invés do tempo verdadeiro[,] tal como uma hora, um dia, um mês, um ano”.

O que, simultaneamente, inaugurou uma noção de linearidade do tempo, sempre em constante fluxo,
com começo, meio e fim; medido pela observação das mudanças, ou seja, através da sucessão de
fatos, cujas consequências chegam até tudo que pertence ao mundo natural.

No final do século XIX, Henri Bérgson prosseguiu na mesma linha de raciocínio, definindo o tempo
como uma espécie de mudança que se encontra em tudo aquilo que passa, em oposição à eterni-
dade, retomando o conceito grego, remetendo ao deus Cronos, aquele que conduz as coisas à matu-
ridade.

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Esta sucessão de fatos como medida, originou, na historiografia, a temporalidade linear, a crença que
a narrativa histórica precisa ter um início e um final, a qual se tornaria predominante no Ocidente, em
oposição ao tempo cíclico, mais comumente adotado no Oriente e na Mesoamerica precolombiana.

Dentro desta concepção cíclica, não há um início para a história, mas vários, com fatos que se suce-
dem e repetem constantemente, assim como o sol nasce a cada dia no horizonte depois de ter se
posto no final da tarde do dia anterior.

Este conceito de ciclo seria parcialmente incorporado no tratamento das temporalidades pela história
econômica, no início do século XX, onde, mesclado a tradição de tempo linear, iria compor explica-
ções que defendem o conceito de “forças que interagem entre diferentes elementos que compõem
[um] sistema”, repetindo dinâmicas com alternâncias de produtos cultivados ou negociados também
no centro dos acontecimentos sociais, políticos e culturais, tal como o ciclo do pau-brasil, da pimenta,
do açúcar ou do café.

Na historiografia portuguesa, foi João Lúcio de Azevedo, em seu Épocas de Portugal Económico, pu-
blicado em 1928, o primeiro a pensar em ciclos econômicos, sucessivamente.

Uma abordagem, posteriormente, em 1953, criticada por Vitorino Magalhães Godinho, para quem “a
idéia de ciclos dominados cada um por um produto não [deixaria] de falsear um pouco a realidade,
dando dela uma imagem demasiado esquemática, demasiado simplista”.

Destarte, a partir da tradição inaugurada por Azevedo, as explicações da história, através do conceito
de tempo cíclico, influenciaram fortemente a historiografia brasileira na década de 1950, representada
por obras de teóricos como Celso Furtado.

Continuando presente implicitamente ainda hoje, tendo sido, anteriormente, incorporada em clássicos
da historiografia.

Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) de Fernando Novais ou A Bahia e a
Carreira da Índia e O sistema colonial de José Roberto do Amaral Lapa.

O Tempo Histórico e as Temporalidades

Ao lado do tempo físico e social, como consequência do cruzamento de conceitos, o tempo histórico
nasceu em decorrência da percepção das mudanças.

A consciência de que o ser está inserido no tempo, mudando e amadurecendo constantemente, tor-
nou a história indissociável do tempo.

O próprio conceito de história está inserido no conceito de tempo, sendo interdependentes e expli-
cando-se mutuamente, conduzindo implicitamente a historiografia a refletir sobre a temporalidade
desde seus primórdios, embora a atenção direta sobre a questão tenha se tornado mais abundante
somente a partir do século XX.

Entretanto, uma das primeiras reflexões explicitas sobre o tempo histórico foi realizada na Idade Mé-
dia por Breda, um monge inglês que escreveu, no ano 703, a obra Temporibus (traduzida para o in-
glês como On time).

Onde processou um estudo sobre o computus, as datas e o calendário, discutindo a presença de sua
influência nas cronologias, as famosas coletâneas de fatos narrados pelos historiadores do período.

Até este momento, dentro do âmbito da linearidade, o tempo histórico assumia como fato constatável
àquilo que era imutável, a verdade estabelecida e aceita como tal, incorporada às cronologias que da-
vam conta da ascensão e queda dos grandes impérios, da vida dos príncipes, reis e santos.

A atenção de Breda sobre a questão não mudou imediatamente a percepção temporal, mas levou os
historiadores a começarem a refletir sobre a relação entre a historicidade e temporalidades, passando
a notar que, mais que as permanências, sendo a história pura mudança, seria necessário dar atenção
também aos mecanismos de transição.

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Gradualmente, o tempo histórico passou a ser mensurado por diversos procedimentos, invertendo a
lógica da história como produto do tempo para o tempo como criação da história, uma convenção hu-
mana variável. As temporalidades, inseridas na análise dos fatos históricos, tornaram-se provisórias,
em conformidade com o contexto vivido no presente.

A modernidade inaugurou as filosofias da história, fazendo com que, no século XVIII, quando Kant
escreveu a Crítica da razão pura, defendesse a idéia de que não podemos conhecer a essência dos
fenômenos, à medida que conhecemos através da experiência, tendo apenas sensações acerca da
realidade; sendo possível, portanto, conhecer apenas representações dos fenômenos fornecidas pe-
los sentidos.

Para Kant, o mundo conhecido não é tal como ele é, mas sim uma representação, ou seja, o mundo é
tal como parece em um tempo e espaço especifico e único.

Assim, ao questionar a realidade, Kant terminou por estabelecer uma crítica ao conceito de historici-
dade humana, colocando em dúvida a própria capacidade de conhecer da história; reduzida, mais
tarde, com a Crítica da razão prática, quando procurou dar conta das questões metafísicas, a uma
obra da providência.

Posição diametralmente oposta a de Hegel, para quem o conhecimento de qualquer fenômeno seria
sempre histórico, circunscrito em um tempo e espaço, possível de ser conhecido apenas através da
história, de onde derivaria, posteriormente, o historicismo marxista, sustentado pela idéia hegeliana
de progresso e revolução, desenvolvimento e evolução.

Na realidade, foi o iluminismo oitocentista que inaugurou a visão progressista da história, a idéia de
que os fatos históricos deveriam ser selecionados como relevantes em função da perspectiva evoluci-
onista, tomando como base as mudanças ao longo do tempo sempre como qualitativas.

Um conceito que conduziu a fixação de uma miopia etnocentrista, antagonicamente inspirada por
pensadores ilustrados, como Turgot e Condorcet, os quais iniciaram uma tradição Ocidental de aná-
lise da história da humanidade classificada em estágios culturais, fixados entre sociedades primitivas
e as civilizações complexas, como se existissem degraus pelos quais os povos devessem escalar
para atingir a modernidade.

A visão etnocêntrica iluminista reduziu toda a espécie humana a parâmetros únicos que deveriam
servir obrigatoriamente de referência, tendo a Europa e sua história como modelo a ser adotado, o
que originou também o eurocentrismo.

Ainda no século XVIII, o conceito de evolução ganhou contornos naturalistas com o francês Lamark,
popularizando-se no século XIX com Charles Darwin e sua teoria da evolução das espécies através
da seleção natural, o que terminou transposto para positivismo histórico e a escola metódica, os quais
também adotaram a temporalidade linear evolucionista em suas narrativas.

O positivismo de Comte procurou encontrar, no estudo da história, leis que regulassem o desenvolvi-
mento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando uma hierarquia para justifi-
car o colonialismo cultural.

Enquanto a escola metódica, encabeçado por Leopold Von Ranke, supervalorizou o Estado Nacional,
defendendo a idéia de objetividade do conhecimento histórico, acrescentando a xenofobia nas narrati-
vas históricas.

O século XIX deu início também, a partir dos estudos sociológicos e antropológicos, duas ciências en-
tão nascentes, a trabalhos que debateram o tempo como construção mitológica e simbólica da regu-
lação temporal, potencializando uma visão crítica do tempo histórico.

Na primeira metade do século XX, consolidando está nova tendência, o pensamento de Martin Heide-
gger influenciou os historiadores a repensarem a questão das temporalidades.

Em alguns textos, Heidegger defendeu a tese de que não haveria temporalidade absoluta, sendo que
a percepção do tempo histórico se faria a partir do futuro, portanto, fenômeno inerente puramente ao
presente.

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Igualmente, a temporalidade como categoria de vida, concebida por Wilhem Dilthey, também se faria
presente na historiografia do século XX.

Para ele, as pessoas seriam por natureza seres temporais, uma vez que experimentam o tempo com
base nas conexões entre passado, presente e futuro.

Para Dilthey, os sujeitos respondem ao presente relacionando-o com experiências passadas e anteci-
pando o futuro, compreendendo como vivem em função do tempo, através da autoreflexão, produ-
zindo o material que os historiadores chamam de fontes.

As idéias Heidegger e Dilthey seriam incorporados aos debates em torno das temporalidades, fomen-
tando estudos entre os historiadores da Escola de Annales, quando a influência da percepção da pas-
sagem do tempo ganhou um vulto ainda maior, inserida nas discussões metodológicas, na investiga-
ção sobre a natureza da história e na crítica ao anacronismo.

Temporalidades Historiográficas

Embora a representação do tempo, presente na historiografia, seja quase sempre linear, como lem-
brou Jose D´Assunção Barros, “os historiadores mais tradicionais nos seus modos de escrever a his-
tória esquecem-se de que, ao elaborar o seu texto, eles mesmos são os ‘senhores do tempo’ - isto é,
do seu ‘tempo narrativo’ - e de que não precisam se prender à linearidade cronológica e à fixidez pro-
gressiva ao ocuparem o lugar de narradores de uma história ou ao se converterem naqueles que des-
crevem um processo histórico”.

Uma idéia hoje mais aceita e debatida do que em um passado recente, mas que começou a ser dis-
cutida com maior veemência apenas quando a historiografia incorporou a questão ao criar novas for-
mas de narrativa para a história.

Uma observação ressaltada por José Carlos Reis, quando desenvolveu a hipótese de que “o conheci-
mento histórico só se renova, uma ‘nova história’ só aparece quando realiza uma mudança significa-
tiva na representação do tempo histórico”.

Um destes momentos, talvez o mais significativo, foi justamente o surgimento da Escola de Annales,
a qual representou uma renovação na prática historiográfica.

Foi graças esta corrente teórica que as problemáticas metodológicas e teóricas se tornaram dominan-
tes no século XX, remetendo, a reboque, a discussão sobre as temporalidades historiográficas.

Foi na década de 1930 que Marc Bloch chamou atenção para o problema do condicionamento do his-
toriador com relação ao tempo, ressaltando que não deveria ser considerado um anacronismo pensar
a história através do presente.

Até aquele momento isto era negado por aqueles que achavam que a história era apenas um relato
do passado.

Bloch desfez de uma vez por todo este equívoco, afirmando que o tempo é uma categoria básica
para o historiador. Ao descrever a história como ciência dos homens no tempo, ele dizia que aquele
que constrói narrativas sobre o passado, na verdade tenta entender questões do presente, pois não
pode escapar de conceitos que são inerentes a sua própria época.

Em Introdução à História, o historiador defendeu a tese de que “seria grave erro julgar que a ordem
adotada pelos historiadores nas suas investigações tenha necessariamente de modelar-se pela dos
acontecimentos”, sugerindo um método de investigação histórica que recuasse ao passado a partir do
presente, o que ele chamou de “método regressivo”.

No entanto, é interessante notar que, apesar da maneira inovadora de pensar, Bloch permaneceu
preso a uma temporalidade linear.

Como historiador, as suas narrativas mantiveram a tradicional estrutura utilizada anteriormente pelos
seus pares, a despeito das inovações advindas com Annales.

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Pouco depois das reflexões de Bloch, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel
revolucionou de fato a abordagem do tempo pelos historiadores, com a publicação de O Mediterrâneo
e o mundo mediterrânico na época de Felipe II em 1949.

Na obra, ele demonstrou como era possível decompor o tempo da história em planos desdobrados: o
tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.

No tempo individual estaria fixada a história não do homem como coletividade, mas do homem como
individuo, com variações rápidas e dinâmicas, permitindo ao historiador observar os acontecimentos.

Exatamente o tipo de abordagem em que estaria concetrada a maior parte da historiografia, sendo o
tempo da curta duração, de tudo que muda com muita rapidez, por isto, mais facilmente percebido.

O tempo social seria o plano pelo qual se pode observar a história social dos grupos e agrupamentos,
pertencendo a uma história lentamente ritmada, circunscrita ao crescimento demográfico e da econo-
mia, elementos pertencentes a longa duração.

Seria, portanto, o tempo das estruturas que mudam com muita lentidão, fazendo quem a vivencia não
se dar conta destas mudanças, neste sentido, assemelhando-se mais ao que, depois, convencionou-
se chamar de média duração.

O tempo geográfico representaria uma história quase imóvel, que observa o relacionamento do ho-
mem com o meio que o rodeia.

Uma História Que Passa Lentamente e Sofre Poucas Transformações

As regiões montanhosas e a população que lá habita, fornecem um bom exemplo desta temporali-
dade, mostrando o quanto, nesta dimensão, os costumes, ligados aos aspectos geográficos, pouco
mudam, já que o ambiente que os rodeia também não muda, o que Braudel chamou de longuissima
duração.

Para ele, os historiadores concentravam sua atenção apenas nos processos da curta duração, dei-
xando de lado as outras temporalidades, oferecendo apenas um vislumbre da história, sem conseguir
chegar a nenhuma elucidação.

Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário realizar macroaborda-
gens, penetrando as três temporalidades. Somente assim seria possível tornar a escrita da história
uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.

Esta concepção braudeliana da temporalidade histórica tornou-se de fato um farol para gerações de
historiadores, extrapolando as fronteiras da França para adquirir um significado mundial, sendo incor-
porada pela academia como um procedimento metodológico básico, influenciando toda a historiogra-
fia a partir de então.

Embora Ernest Labrousse e Pierre Vilar, como seguidores de Braudel, tenham dado continuidade às
reflexões braudelianas sobre o tempo nos meios universitários, na década de 1960, Jacques Le Goff
mudou parcialmente o foco da discussão, retomando a questão pelo ângulo anterior.

Quando tentou definir o trabalho do historiador e da memória, na mesma obra dedicou um largo es-
paço à discussão da natureza do tempo.

Ao estudar os calendários como sistemas de medida baseados nos astros, Le Goff concluiu que o
tempo pode ser encarado como um objeto de manipulação do poder, já que o Estado os utiliza como
meio para organizar a sociedade.

Para ele, estudando a história das civilizações, podemos notar que aqueles que detêm o conheci-
mento do calendário, controlam a vida social e econômica.

Esta reflexão conduziu ao retorno do questionamento sobre a natureza da história como construção
operada pelos historiadores, uma vez que, contemporaneamente, são eles que detêm as temporali-
dades historiográficas.

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Como ressaltou Edward Hallett Carr, os fatos não são averiguações da verdade, da mesma forma
que as impressões dos sentidos não falam por si mesmas; os fatos só adquirem sentido quando o
historiador recorre a eles e determina sua temporalidade.

Precisamente, os historiadores selecionam, interpretam e apresentam os fatos, conferindo-lhes sen-


tido no tempo, determinando como analisá-los, encaixando-os em uma temporalidade.

Entretanto, ao fazê-lo, operam conforme seus próprios interesses e experiências, traduzindo a von-
tade de sua época e o conceito de tempo em que estão inseridos, criando temporalidades historiográ-
ficas especificas e que não refletem de modo algum a realidade concreta, antes, aproximasse mais
de um anacronismo.

Uma discussão que têm se tornado cada vez mais pertinente no âmbito da historiografia.

O Historiadores e o Tempo

O historiador, não sendo um indivíduo isento de influencias as mais diversas, fruto de seu próprio
tempo, necessita de técnicas que permitam tentar alcançar a objetividade cientifica na leitura e inter-
pretação das fontes.

Poderíamos listar uma infinidade de técnicas utilizadas para ler os dados contidos nos documentos,
algumas emprestadas por outras ciências, outras surgidas no seio da análise histórica, contudo, Jean
Chesneaux sintetizou as mais usuais na sua obra clássica Devemos fazer tábua rasa do passado, a
despeito de confundi-las por vezes com métodos e empregar técnica e método dentro da mesma
acepção.

Segundo ele, toda análise histórica, obviamente a partir do século XIX, é tecnicista, busca uma abor-
dagem profissional, sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista.

Dentro da amplitude deste pressuposto, é habitual observar que os historiadores, independente da


corrente teórica ou orientação metodológica, em geral, utilizam a técnica de análise baseada na dia-
cronia-sincronia, assim como a periodização e, por vezes, a quantificação.

Através da diacronia-sincronia, todo fenômeno histórico, expresso através da língua, é analisado si-
multaneamente em uma série vertical e horizontal; sua extensão na dimensão do tempo, a diacronia,
permite observar as conexões, antecedentes e consequências; já sua relação com outras referências
do conjunto que é contemporâneo, a sincronia, permite visualizar as implicações entre fatos aparente-
mente desconexos, mas que encontram relação, por vezes, diretas.

Assim, a diacronia possibilitaria perceber, por exemplo, o ideal cruzadistico de combate aos infiéis,
circunscrito ao século XII, na península ibérica expresso pela reconquista aos mouros, como uma das
causas que conduziram aos descobrimentos portugueses no século XVI, possibilitando ainda visuali-
zar a colonização, o povoamento europeu, do Brasil, no século XVII, como um de seus desdobramen-
tos.

A sincronia, centrada também nos descobrimentos portugueses, por sua vez, permitiria notar que
problemas internos na Espanha, ainda envolvida na guerra de reconquista no século XV, permitiram a
primazia dos mares aos lusitanos.

Um refinamento da diacronia, a periodização é uma extensão da técnica, organizando as articulações


em etapas, períodos que visam facilitar o estudo do fenômeno, criando compartimentos fechados en-
volta de momentos que parecem centrais dentro de cada etapa da história.

Uma técnica que foi reforçada pela prática pedagógica, especializando o conhecimento histórico, ser-
vindo de exemplo os estudos focados no renascimento ou na Idade Moderna.

Menos usual do que as técnicas qualitativas da diacronia-sincronia e da periodização, a quantifica-


ção; surgida, como ressaltou Jacques Le Goff, na década de 1960, a partir do estimulo da revolução
tecnológica representada pela invenção do computador; passou a permitir estabelecer relações com-
plexas, usando a estatística para chegar a conclusões palpáveis.

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Quantificando o número de navios que circularam na rota do Brasil e da Índia, por exemplo, ao longo
do século XVI e XVII, poderíamos vislumbrar o momento da viragem do centro econômico e social do
Império português, provando, através da quantificação dos naufrágios, o peso deste componente no
declínio do poderio lusitano no Oriente.

Entretanto, como lembrou Gramsci, cabe ressaltar que a história não pode ser reduzida a um cálculo
matemático, ou ainda que a estatística mostra o caminho ao cego, mas não restitui a visão.

O que não invalida a técnica da quantificação e nem tampouco seus desdobramentos a história de-
mográfica e a história serial, linhas de pesquisa que já foram tidas como concepções teóricas ou me-
todológicas, mas que na realidade constituem aprofundamentos da técnica.

A constante referência ao tempo, dentro da ótica capitalista, quer seja pela falta dele ou pela impres-
são de sua passagem cada vez mais veloz, tendo a vida cotidiana das pessoas como base; tornou a
reflexão sobre sua natureza um componente obrigatório na historiografia.

A história, enquanto uma discussão sobre a passagem de acontecimentos relacionados a espaço e


tempo, neste sentido, inaugurou uma consciência temporal que tem penetrado na sociedade, pas-
sando a fazer parte da cultura.

Acontece que a percepção de tempo, incorporada e debatida na historiografia, é fruto, simultanea-


mente, da própria época vivida, do presente, como também do passado, de sua evolução ao longo
dos séculos, compondo uma relação dialética e anacrônica.

O que altera continuamente nossa percepção do tempo tomado isoladamente, da temporalidade da


história, da historicidade dos fatos do passado que chegaram até nós, do que vivemos hoje e daquilo
que o futuro pode nos reservar.

É por isto que, em termos teóricos, a discussão em torno da historiografia e das temporalidades é um
assunto essencial, não só para os historiadores, como para a sociedade como um todo.

Embora só possamos afirmar que esta questão só foi abordada superficialmente até o presente mo-
mento, restando à teoria da história fomentar novos debates e o aprofundamento dos estudos sobre a
construção temporal das narrativas históricas.

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TEMPO HISTÓRICO E CRONOLÓGICO

Tempo Histórico

Assim como podemos contar o tempo através do tempo cronológico, usando relógios ou calendários,
temos ainda outros tipos de tempo: o tempo geológico, que se refere às mudanças ocorridas na
crosta terrestre, e o tempo histórico que está relacionado às mudanças nas sociedades humanas.

O tempo histórico tem como agentes os grupos humanos, os quais provocam as mudanças sociais,
ao mesmo tempo em que são modificados por elas.

O tempo histórico revela e esclarece o processo pelo qual passou ou passa a realidade em estudo.
Nos anos 60, por exemplo, em quase todo o Ocidente, a juventude viveu um período agitado, com
mudanças, movimentos políticos e contestação aos governos. O rock, os hippies, os jovens revolucio-
nários e , no Brasil, o Tropicalismo (Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, entre outros) e a Jovem
Guarda (Roberto Carlos, Erasmo Carlos, entre tantos outros), foram experiências sociais e musicais
que deram à década de 60 uma história peculiar e diferente dos anos 50 e dos anos 70.

Isto é o tempo histórico: traçamos um limite de tempo para estudar os seus acontecimentos caracte-
rísticos, levando em conta que, naquele momento escolhido, muitos seres humanos viveram, sonha-
ram, trabalharam e agiram sobre a natureza e sobre as outras pessoas, de um jeito específico.

A história não é prisioneira do tempo cronológico. Às vezes, o historiador é obrigado a ir e voltar no


tempo. Ele volta para compreender as origens de uma determinada situação estudada e segue adi-
ante ao explicar os seus resultados.

A Contagem do Tempo Histórico

O modo de medir e dividir o tempo varia de acordo com a crença, a cultura e os costumes de cada
povo. Os cristãos, por exemplo, datam a história da humanidade a partir do nascimento de Jesus
Cristo. Esse tipo de calendário é utilizado por quase todos os povos do mundo, incluindo o Brasil.

O ponto de partida de cada povo ao escrever ou contar a sua história é o acontecimento que é consi-
derado o mais importante.

O ano de 2008, em nosso calendário, por exemplo, representa a soma dos anos que se passaram
desde o nascimento de Jesus e não todo o tempo que transcorreu desde que o ser humano apareceu
na Terra, há cerca de quatro milhões de anos.

Como podemos perceber, o nascimento de Jesus Cristo é o principal marco em nossa forma de regis-
trar o tempo. Todos os anos e séculos antes do nascimento de Jesus são escritos com as letras a.C.
e, dessa maneira, então 127 a.C., por exemplo, é igual a 127 anos antes do nascimento de Cristo.

Os anos e séculos que vieram após o nascimento de Jesus Cristo não são escritos com as letras
d.C., bastando apenas escrever, por exemplo, no ano 127.

O uso do calendário facilita a vida das pessoas. Muitas vezes, contar um determinado acontecimento
exige o uso de medidas de tempo tais como século, ano, mês, dia e até mesmo a hora em que o fato
ocorreu. Algumas medidas de tempo muito utilizadas são:

- Milênio: período de 1.000 anos;

- Século: período de 100 anos;

- Década: período de 10 anos;

- Quinquênio: período de 5 anos; ´

- Triênio: período de 3 anos;

- Biênio: período de 2 anos (por isso, falamos em bienal).

Entendendo as convenções para contagem de tempo

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TEMPO HISTÓRICO E CRONOLÓGICO

Para identificar um século a partir de uma data qualquer, podemos utilizar operações matemáticas
simples. Observe.

Se o ano terminar em dois zeros, o século corresponderá ao(s) primeiro(s) algarismo(s) à esquerda
desses zeros. Veja os exemplos:

ano 800: século VIII


ano 1700: século XVII
ano 2000: século XX

Se o ano não terminar em dois zeros, desconsidere a unidade e a dezena, se houver, e adicione 1 ao
restante do número, Veja:

ano 5: 0+1= 1 século I


ano 80: 0+1= 1 século I
ano 324 3+1=4 século IV
ano 1830 18+1=19 século XIX
ano 1998 19+1=20 século XX
ano 2001 20+1=21 século XXI

O que possibilitou ao homem (ou à humanidade como um todo) produzir cultura e escrever narrativas
(mitológicas, poéticas, etc.) e, em especial, a narrativa histórica? Para que essa questão seja minima-
mente respondida, é necessário que saibamos o que vem a ser o tempo histórico, haja vista que qual-
quer pessoa que estude ou tenha interesse em história e em cultura precisa ter uma noção básica
desse conceito.

O tempo histórico diferencia-se do tempo natural, isto é, do tempo que é constitutivo da natureza fí-
sica e biológica. Sendo assim, o estudo de disciplinas como geologia, astronomia ou história natural
nos dá um panorama daquilo que vem a ser a “história” do Universo, do planeta Terra e das formas
de vida que se desenvolveram nesse mesmo planeta; temas esses que permeiam a noção
de tempo natural.

Já o tempo histórico é aquele que é percebido e absorvido pelos seres humanos, que faz parte do de-
senvolvimento humano e suas esferas de organização, isto é, a economia, a política, a sociedade e a
cultura.

Alguns filósofos e muitos teóricos da História postulam que a forma como o homem encara o tempo é
a mais dolorosa se comparada com a de qualquer outro animal. Isso porque o homem tem consciên-
cia da própria morte. O homem sabe que vai morrer e foi a consciência desse fato que o levou a erigir
as grandes civilizações.

Os primeiros símbolos pré-históricos e todos os ritos e mitos das culturas primitivas deram o tom
dessa forma de encarar a passagem do tempo, que tudo leva e tudo corrói. É frequente o uso da me-
táfora do rio; mitos que retratam um rio caudaloso que destrói tudo.

Na origem da filosofia, inclusive, o grego Heráclito valeu-se dessa metáfora para explicitar a intuição
por ele desenvolvida acerca do tempo: “um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”.
Isso quer dizer que “o homem não será o mesmo e o rio também não. Tudo passa.”

A intuição da mudança, bem como das coisas permanentes (leis morais, princípios políticos, etc.), é
uma das principais características do tempo histórico. É essa forma de intuir o tempo que levou o ho-
mem a desenvolver a consciência histórica e à necessidade de deixar registrados acontecimentos,
para que não “se perdessem no tempo”, para que não “caíssem no esquecimento”, como diria aquele
que é considerado o “pai da história”, o grego Heródoto.

Tempo Cronológico e Tempo Histórico

O tempo é uma questão fundamental para a nossa existência. Inicialmente, os primeiros homens a
habitar a terra determinaram a contagem desse item por meio da constante observação dos fenôme-
nos naturais. Dessa forma, as primeiras referências de contagem do tempo estipulavam que o dia e

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TEMPO HISTÓRICO E CRONOLÓGICO

a noite, as fases da lua, a posição de outros astros, a variação das marés ou o crescimento das co-
lheitas pudessem metrificar “o quanto de tempo” se passou. Na verdade, os critérios para essa opera-
ção são diversos.

Consciência da Finitude

Não sendo apenas baseada em uma percepção da realidade material, a forma com a qual o homem
conta o tempo também pode ser visivelmente influenciada pela maneira com que a vida é compreen-
dida. Em algumas civilizações, a ideia de que houve um início em que o mundo e o tempo se conce-
beram juntamente vem seguida pela terrível expectativa de que, algum dia, esses dois itens alcancem
seu fim. Já outros povos entendem que o início e o fim dos tempos se repetem por meio de uma com-
preensão cíclica da existência.

Definição de Tempo Histórico

Apesar de ser um referencial de suma importância para que o homem se situe, a contagem do tempo
não é o principal foco de interesse da História. Em outras palavras, isso quer dizer que os historiado-
res não têm interesse pelo tempo cronológico, contado nos calendários, pois sua passagem não de-
termina as mudanças e acontecimentos (os tais fatos históricos) que tanto chamam a atenção desse
tipo de estudioso. Dessa maneira, se esse não é o tipo de tempo trabalhado pela História, que tempo
tal ciência utiliza?

O tempo empregado pelos historiadores é o chamado “tempo histórico”, que possui uma importante
diferença do tempo cronológico. Enquanto os calendários trabalham com constantes e medidas exa-
tas e proporcionais de tempo, a organização feita pela ciência histórica leva em consideração
os eventos de curta e longa duração. Dessa forma, o historiador se utiliza das formas de se organizar
a sociedade para dizer que um determinado tempo se diferencia do outro.

Seguindo essa lógica de pensamento, o tempo histórico pode considerar que a Idade Médiadure pra-
ticamente um milênio, enquanto a Idade Moderna se estenda por apenas quatro séculos. O referen-
cial empregado pelo historiador trabalha com as modificações que as sociedades promovem na sua
organização, no desenvolvimento das relações políticas, no comportamento das práticas econômicas
e em outras ações e gestos que marcam a história de um povo.

Além disso, o historiador pode ainda admitir que a passagem de certo período histórico para outro
ainda seja marcado por permanências que apontam certos hábitos do passado, no presente de uma
sociedade. Com isso, podemos ver que a História não admite uma compreensão rígida do tempo, em
que a Idade Moderna, por exemplo, seja radicalmente diferente da Idade Média. Nessa ciência, as
mudanças nunca conseguem varrer definitivamente as marcas oferecidas pelo passado.

Importância das Duas Formas de Tempo

Mesmo parecendo que tempo histórico e tempo cronológico sejam cercados por várias diferenças, o
historiador utiliza a cronologia do tempo para organizar as narrativas que constrói. Ao mesmo tempo,
se o tempo cronológico pode ser organizado por referenciais variados, o tempo histórico também
pode variar de acordo com a sociedade e os critérios que sejam relevantes para o estudioso do pas-
sado. Sendo assim, ambos têm grande importância para que o homem organize sua existência.

Tempo Cronológico

O tempo cronológico como nós estabelecemos para o uso no nosso dia a dia não é considerado pela
natureza. Ela tem o que chamamos de tempo natural? Que é bem diferente daquele que considera-
mos no nosso dia a dia. Nós adotamos o século, o ano, o mês, a hora, etc., para marcar os nossos
compromissos, coisa que a natureza despreza.

Ela usa uma etapa (período) de tempo para marcar a duração de cada um dos infinitos eventos que
ela comanda, mas, sem nenhum rigorismo para a sua grandeza, embora muitas vezes ela o apre-
sente perfeitamente síncrono com o nosso tempo, como é o caso das durações dos períodos (nas
etapas) de decaimentos de isótopos radioativos e de muitos outros átomos. Por que a natureza pro-
cede desta forma? Ela considera o tempo com inteira liberdade; isto é, ela sabe que a duração para a
ocorrência de um fenômeno pode variar de um lugar para o outro e das circunstancias ambientais.

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TEMPO HISTÓRICO E CRONOLÓGICO

Isto significa que ela não fixa um tempo para cada um dos fenômenos que ela comanda. Ela, a natu-
reza, estabelece um tempo médio (que nós atrevidamente medimos) para que uma determinada
coisa aconteça, mas ela é absolutamente liberal para não exigir uma duração exata para ele, su-
pondo que os seus comandados farão o possível para cumpri-lo, mas sem a exigência de sua crono-
logia.

Consideramos como sábio e divino tal procedimento e tal conceito está na boca do povo quando ele
diz que a pressa é inimiga da perfeição` mas, nós corrigiremos o dito, dizendo: Quando ocorre algo
`inesperado` na `programação` da ocorrência de um fenômeno, ela corrige as variáveis ou parâme-
tros relativos a ele para que o `inesperado` não volte a acontecer. Tal procedimento faz com que as
transformações caminhem sempre para o alvo da perfeição, de onde podemos tirar uma serie enorme
de conclusões:

a) A natureza é perfeccionista fazendo com que os erros de agora não se repitam no futuro.

b) Daqui tiramos que as nossas intervenções na natureza carecem de maiores cuidados, se não para
tumultuar` as suas leis, pelo menos para não atrasar o seu desenvolvimento.

c) A natureza espera que as condições ideais se realizem para que ela faça a evolução de um sis-
tema. Isso nós vemos amiúde em muitos fenômenos naturais; tome-se como exemplo a produção de
clorofila de uma planta que espera pelas condições ideais que estão em função do grau de umidade,
do teor de óxido de carbono, da temperatura do ambiente e de outros índices para o desenvolvimento
do fenômeno. Poderemos deduzir em breve o que a humanidade está fazendo para acelerar a degra-
dação do nosso meio ambiente para nos levar mais cedo para o fim de nossa na Terra.

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História e Origem do Calendário

A História e Origem do Calendário tem início com a necessidade de organizar o tempo, de registrar
a evolução, bem como de comemorar em datas fixas.

Os especialistas acreditam que ele teve origem com os sumérios - povo da Mesopotâmia - em 2700
a.C.. Era composto por 12 meses lunares com 29 ou 30 dias, num total de 354 no ano.

Desta forma, não coincidia com o calendário solar, composto por 365 dias.

Calendário Solar

O ciclo solar trazia mais dificuldades de observação, visto que as lunações são mais curtas, por isso o
calendário com base solar foi mais difícil de ser estudado.

Ele foi criado pelos egípcios e tinha 365 dias dividido em 12 meses com 30 dias e mais 5 dias acres-
cidos no final do ano. Não havia ano bissexto e os meses eram divididos em três estações: Inunda-
ção, Inverno e Verão.

Calendário Chinês

O calendário chinês é lunissolar, ou seja, ele considera tanto o ciclo solar como o ciclo lunar. É for-
mado por ciclos de 12 anos, que têm início em Fevereiro - mês, portanto, que marca a entrada do
novo ano chinês.

Ao contrário do calendário ocidental que atribui um signo a cada mês, os animais do horóscopo chi-
nês não estão relacionados aos meses do ano, mas sim aos anos.

Os animais são respetivamente os seguintes e se repetem a cada cinco anos: rato, boi, tigre, coelho,
dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e porco.

Calendário Cristão ou Gregoriano

Esse é o calendário usado atualmente no Brasil e em grande parte do mundo.

Foi criado em Roma no século VI por um monge chamado Dionísio. A contagem dos anos deveria ser
iniciada por um acontecimento de grande valor, de modo que, como cristão, Dionísio considerou que
o ano 1 deveria ser o ano do nascimento de Jesus Cristo.

Esse calendário se tornou oficial no ano 1582 pelo papa Gregório XIII; por esse motivo também é co-
nhecido como calendário gregoriano.

Calendário Maia

Remonta a 550 a.C e é composto por dois calendários - o Haab, que é o calendário civil - e o Tzolkin,
que é o calendário sagrado.

Enquanto o Haab conta com 365 dias divididos entre 18 meses com 20 dias cada um, num total de
360 (5 dias não pertencem a mês algum), o Tzolkin conta com 260 dias divididos em três grupos de
meses com 20 dias, em que cada dia é contado de 1 a 13.

Calendário Islâmico

Esse é lunar e recebe também o nome de hegírico pelo fato de a fuga de Maomé para Medina ser de-
nominada Hégira (Hégira é o primeiro ano da era muçulmana). É composto por 12 meses de 29 ou 30
dias, num total de 354 no ano.

Calendários antigos

Os mais primitivos calendários do velho Continente, de que a História nos proporciona uma informa-
ção concreta, são o hebreu e o egípcio. Ambos tinham um ano civil de 360 dias: curto para represen-
tar o ciclo das estações, mas grande para corresponder ao chamado "ano lunar" , que se define como
um período de tempo igual a 12 lunações completas existentes no ano trópico, ainda desconhecido.

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Ignora-se como os hebreus dividiam o ano, mas depreende-se que já utilizavam a semana, visto que
seguiam o mesmo princípio para contar os anos, agrupando-os em septanas ou semanas de "sete
anos". Pelo contrário, os egípcios dividiam o ano em 12 meses de 30 dias e cada mês em três déca-
das. Os egípcios também dividiam o ano em três estações, de acordo com as suas actividades agrí-
colas dependentes das cheias do Nilo: a estação das inundações; a estação das sementeiras e a es-
tação das colheitas.

Não satisfeitos com o ano de 360 dias, estes povos procuraram aperfeiçoar o seu calendário, embora
seguindo caminhos diferentes. Os hebreus voltaram-se para o sistema luni-solar, ajustando os meses
com o movimento sinódico da Lua e coordenando o ano com o ciclo das estações. Por sua vez, os
egípcios abandonaram por completo o sistema lunar para seguir unicamente o ciclo das estações, tal
como as observavam no Egipto, visto desconhecerem ainda a duração do ano trópico.

Depois de muitas reformas, por volta do ano 5000 a. C., os egípcios estabeleceram um ano civil inva-
riável de 365 dias, conservando a tradicional divisão em 12 meses de 30 dias e 5 dias adicionais no
fim de cada ano.

O atraso aproximado de 6 horas por ano em relação ao ano trópico motivou que, lentamente, as esta-
ções egípcias se fossem atrasando, originando uma rotação destas por todos os meses do ano. Por
esse motivo, os egípcios começaram uma cuidadosa observação no ano 2783 a. C., comprovando
que em 1323, também a. C., as estações voltavam a coincidir nas mesmas datas do calendário. A
este período de 1461 anos egípcios e que corresponde a 1460 anos julianos, deu-se o nome de perí-
odo sotíaco, de Sothis ou Sirius, em cujo nascimento helíaco se basearam as observações.

Apesar desta comprovação, os egípcios não fizeram qualquer correcção no seu ano vago e um se-
gundo período sotíaco seria iniciado em 1323 a. C. Porém, no ano 238 a. C., houve uma tentativa
para reformar o calendário egípcio por forma a pô-lo de acordo com o ciclo das estações mas sem
êxito, devido à oposição de determinadas classes sacerdotais. Só no ano 25 a. C. foi adoptada a re-
forma juliana, introduzindo, de 4 em 4 anos, 6 dias adicionais em vez de 5.

Os gregos estabeleceram um ano lunar de 354 dias, que dividiram em 12 meses de 30 e 29 dias, al-
ternadamente. Por conseguinte, tinha menos 11 dias e 6 horas do que a ano trópico, sendo necessá-
rio fazer intercalações para estabelecer a devida correspondência. Estas intercalações tinham o
nome de dietérida, ¾ ciclo de dois anos ¾ ; trietérida, ¾ ciclo de três anos ¾ , etc. Os meses, como
no calendário egípcio, eram dedicados aos deuses e neles se celebravam festas, não só em honra do
deus correspondente, mas também muitas outras dedicados aos astros, às estações, etc.

No primitivo calendário romano, o ano tinha 304 dias distribuídos por 10 meses. Os 4 primeiros ti-
nham nomes próprios dedicados aos deuses da mitologia romana e provinham de tempos mais remo-
tos, em que, provavelmente, se aplicaram às 4 estações; os 6 restantes eram designados por núme-
ros ordinais, indicativos da ordem que ocupavam no calendário, segundo o esquema:

1.º Martius 31 dias, dedicado a Marte

2.º Aprilis 30 dias, dedicado a Apolo

3.º Maius (maior) 31 dias, dedicado a Júpiter

4.º Junius 30 dias, dedicado a Juno

5.º Quintilis 31 dias (n.º ordinal)

6.º Sextilis 30 dias

7.º September 30 dias

8.º October 31 dias

9.º November 30 dias

10.º December 30 dias

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Como se depreende, tratava-se dum calendário sem qualquer base astronómica, pois os períodos
nele definidos não tinham qualquer relação com os movimentos do Sol ou da Lua. Por isso, no tempo
de Rómulo já foram introduzidas algumas intercalações por forma a harmonizar o calendário vigente
com os citados períodos astronómicos.

O calendário de Rómulo foi reformulado por Numa Pompílio, o qual, seguindo o exemplo dos gregos,
estabeleceu o ano de 12 meses, mas introduzindo em primeiro lugar o mês de Januarius, dedicado a
Jano, e em último lugar o mês de Februarius, dedicado a Februa, ao qual os romanos ofereciam sa-
crifícios para expiar as suas faltas de todo o ano. Este foi o motivo por que o mês de Februarius foi
colocado no fim. Mas Numa modificou também a duração dos meses, deixando o calendário do se-
guinte modo:

1.º Januarius 29 dias

2.º Martius 31 dias

3.º Aprilis 29 dias

4.º Maius 31 dias

5.º Junius 29 dias

6.º Quintilis 31 dias

7.º Sextilis 29 dias

8.º September 29 dias

9.º October 31 dias

10.º November 29 dias

11.º December 29 dias

12.º Februarius 27 dias

TOTAL 354 dias

Consequentemente, o ano tinha 354 dias (ano lunar dos gregos). Mas esta estranha distribuição dos
dias pelos meses era devida à superstição dos romanos que tomavam por nefastos os números pa-
res. Pela mesma razão, consideraram nefasto o ano de 354 dias e aumentaram-no para 355 dias,
atribuindo o dia excedente a Februarius, que passou a ter 28 dias.

Entretanto, os romanos sentiram também a necessidade de coordenar o seu ano lunar com o ciclo
das estações e seguindo, de certo modo, o exemplo dos gregos, estabeleceram um rudimentar sis-
tema luni-solar, introduzindo no seu calendário, de dois em dois anos, um novo mês: Mercedo-
nius, assim chamado por estas intercalações serem feitas na época em que os senhores outorgavam
as suas mercês aos escravos (uma espécie de gratificações voluntárias pelos serviços prestados).

O Mercedonius, cuja duração alternava de 22 ou 23 dias, intercalava-se entre 23 e 24 de Februarius,


que se interrompia, completando-se depois da mesma. O ano assim formado tinha, em média, 366,25
dias, portanto mais um dia do que o ciclo das estações. Foram estabelecidas várias normas para
atender a esse aspecto que na prática não resultaram, pois, as intercalações passaram a ser feitas
de acordo com interesses particulares ou políticos: os pontífices alongavam ou encurtavam o ano
conforme os seus amigos estavam ou não no poder. A desordem atingiu tal ponto que o começo do
ano já estava adiantado de três meses em relação ao ciclo das estações.

Calendário Juliano

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Foi esta desordem que Júlio César encontrou ao chegar ao poder. Decidido a acabar com os abusos
dos pontífices, chamou a Roma o astrónomo grego Sosígenes, da escola de Alexandria, para que
examinasse a situação e o aconselhasse nas medidas que deveriam ser adoptadas.

Estudado o problema, Sosígenes observou que o calendário romano estava adiantado de 67 dias em
relação ao ano natural ou ciclo das estações, para desfazer essa diferença, Júlio César ordenou que
naquele ano (708 de Roma, ou 46 a.C.), além do Mercedonius de 23 dias que correspondia intercalar
naquele ano, fossem adicionados mais dois meses, um de 33 dias, outro de 34 dias, entre os meses
de November e December.

Resultou assim um ano civil de 445 dias, o maior de todos os tempos, único na história do calendário
e conhecido pelo nome de Ano da confusão, pois, devido à grande extensão dos domínios de Roma
e à lentidão dos meios de comunicação de então, nalgumas regiões a ordem foi recebida com tal
atraso que já havia começado um novo ano.

Foi então abolido o calendário lunar dos decênviros e adoptou-se o calendário solar, conhecido
por Juliano, de Júlio César, que começou a vigorar no ano 709 de Roma (45 a.C.), mediante um sis-
tema que devia desenrolar-se por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto
de 366 dias, a fim de compensar as quase seis horas que havia de diferença para o ano trópico. Su-
primiu-se o Mercedonius e Februarius passou a ser o segundo mês do ano.

Consequentemente, os restantes meses atrasaram uma posição, além da que já haviam atrasado na
primeira reforma de Numa, com a consequente falta de sentido dos meses com designação ordinal. O
valor médio do ano passou a ser de 365,25 dias e o equinócio da primavera deveria ocorrer por volta
de 25 de Março.

Era a seguinte a ordenação e duração dos meses no primitivo calendário juliano:

1.º Januarius 31 dias

2.º Februarius 29 ou 30 dias

3.º Martius 31dias

4.º Aprilis 30 dias

5.º Maius 31 dias

6.º Junius 30 dias

7.º Quintilis 31 dias

8.º Sextilis 30 dias

9.º September 31 dias

10.º October 30 dias

11.º November 31 dias

12.º December 30 dias

Como se pode observar, a distribuição dos dias do ano fez-se alternando os meses de 30 e 31 dias,
consoante fosse par ou ímpar a sua ordem no calendário nos anos bissextos, ficando Februarius com
29 dias nos anos comuns. Assim, por disposição de Júlio César, os romanos tiveram de abolir a sua
prevenção contra os meses de dias pares, que sempre haviam considerado nefastos ou de mau
agoiro.

Evolução do Calendário Juliano

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Durante o consulado de Marco António, reconhecendo-se a importância da reforma introduzida no ca-


lendário romano por Júlio César, foi decidido prestar-lhe justa homenagem, perpetuando o seu nome
no calendário, de maneira que o sétimo mês, Quintilis, passou a chamar-se Julius.

Também no ano 730 de Roma, o Senado romano decretou que o oitavo mês, Sextilis, passasse a
chamar-se Augustus, porque durante este mês começou o imperador César Augusto o seu primeiro
consulado e pôs fim à guerra civil que desolava o povo romano.

E para que o mês dedicado a César Augusto não tivesse menos dias do que o dedicado a Júlio Cé-
sar, o mês de Augustus passou a ter 31 dias. Este dia saiu do mês de Februarius, que ficou com 28
dias nos anos comuns e 29 nos bissextos.

Também para que não houvesse tantos meses seguidos com 31 dias, reduziram-se para 30 dias os
meses de September e November, passando a ter 31 dias os de October e December. Assim se che-
gou à distribuição sem lógica alguma dos dias pelos meses, que ainda hoje perdura e que transcreve-
mos a seguir com os nomes actuais em língua portuguesa:

1.º Janeiro 31 dias

2.º Fevereiro 28 ou 29 dias

3.º Março 31 dias

4.º Abril 30 dias

5.º Maio 31 dias

6.º Junho 30 dias

7.º Julho 31 dias

8.º Agosto 31 dias

9.º Setembro 30 dias

10.º Outubro 31 dias

11.º Novembro 30 dias

12.º Dezembro 31 dias

De princípio, o calendário juliano conservou as letras nundinais para determinar a data dos mercados
públicos, a divisão dos meses pelas calendas, nonas e idus e a nomenclatura ordinal dos dias. O dia
excedente de Februarius, nos anos bissextos, era intercalado ¾ como o fora anteriormente o mês
Mercedonius ¾ entre os dias 23 e 24.

Quando Februarius passou a ter 28 dias nos anos comuns, o seu 23.º dia era o 6.º antes das calen-
das de Março. Portanto, o dia seguinte, que era intercalado de 4 em 4 anos, passou a designar-se
por bissextocalendas (ou bissextus dies ante calendas Martii). Daí o nome de dia bissexto e, por ar-
rastamento, de ano bissexto que hoje se dá aos anos em que o mês de Fevereiro tem 29 dias.

Mas o ciclo de 4 anos de Sosígenes começou por ser mal aplicado, pois em vez de se contarem 3
anos comuns e um bissexto, como, de facto, recomendava aquele astrónomo, os pontífices romanos
falsearam a contagem ¾ ou a interpretaram mal, ainda que isso não pareça muito provável dada a
sua simplicidade ¾ e intercalaram um ano bissexto de 3 em 3 anos. Assim, durante os primeiros 36
anos de vigência do calendário juliano foram intercalados 12 bissextos em vez de 9.

Para remediar este erro, e como 12 bissextos correspondiam a 48 anos, César Augusto suspendeu
as intercalações durante 12 anos, começando então a ser feita de 4 em 4 anos, como era correcto.
Em geral, a cronologia não refere este facto e admite-se que o calendário juliano seguiu correcta-
mente desde o princípio.

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Por aquela época tiveram lugar na Terra Santa os mistérios da Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de
Jesus Cristo, o advento do cristianismo e a difusão desta doutrina. Tal ocorrência acabaria por ter
bastante influência na evolução do calendário juliano: a fixação das regras para a determinação da
data da Páscoa e a adopção oficial da semana no calendário romano.

Os cristãos da Ásia Menor celebravam a Páscoa cristã no dia 14 da primeira Lua que começasse em
Março, qualquer que fosse o dia da semana em que ocorresse essa data. Pelo contrário, os cristãos
do Ocidente celebravam-na no domingo seguinte a esse dia. Esta discrepância entre os cristãos do
Oriente e do Ocidente na comemoração de tão importante acontecimento, deu origem a sérias polé-
micas entre os altos dignatários das duas Igrejas.

A questão foi resolvida no concílio de Niceia (ano 325 da nossa era): Jesus Cristo ressuscitou num
domingo, 16 Nissan do calendário judeu, coincidente com o plenilúnio do começo da primavera. O
concílio decidiu manter estes três símbolos e acordou que a Páscoa passaria a ser celebrada univer-
salmente, no domingo seguinte ao plenilúnio que tivesse lugar no equinócio da primavera ou imedia-
tamente a seguir.

Os cristãos, que, entretanto, iam ganhando posições em toda a parte, precisavam da semana he-
braica para o seu culto, visto que tinham de guardar o preceito do descanso ao sétimo dia e, assim, a
semana acabou por ser adoptada no calendário romano, abolindo-se, pouco a pouco, as letras nundi-
nais e o uso das calendas, nonas e idus.

Convém salientar que o ano de 365,25 dias do calendário juliano é cerca de 11 m 14 s mais longo do
que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo dos anos representa um dia em 128 anos
e cerca de três dias em 400 anos. Assim, o equinócio da primavera que no tempo de Sosígenes ocor-
ria por volta de 25 de Março, ao realizar-se o concílio de Niceia, quase quatro séculos depois, teve
lugar a 21 de Março.

Problemas Com o Calendário Juliano

Este deslocamento do equinócio no calendário, que não foi tomado em consideração pelos padres
conciliares de Niceia, continuou a produzir-se à razão de um dia em cada 128 anos, causando várias
preocupações à Igreja durante toda a Idade Média, visto que esse atraso poderia dar origem a novas
discrepâncias sobre a data da Páscoa.

O problema foi tratado nos concílios de Constança (1414) e Basileia (1436 e 1439), mas não foi pos-
sível chegar a qualquer acordo. Em 1474, o Papa Sixto IV encarregou Juan Muller de estudar o meio
de reformar o calendário, mas este sábio alemão, conhecido pelo nome de Regiomontano, morreu
dois anos depois sem ter apresentado as conclusões do seu trabalho. No concílio de S. João de La-
trão (1511 a 1515) foi novamente abordado o problema e no de Trento (1545 a 1563) chegou a ser
discutido um projecto de reforma que não pôde ser concretizado, apesar dos esforços do Papa Pio
IV, dada a escassa preparação científica de então para reconhecer as vantagens.

Foi necessária a autoridade de um Papa com a cultura e a tenacidade de Gregório XIII para conse-
guir impor a reforma. Entretanto, o equinócio da primavera ocorria já por volta de 11 de Março. De-
pois de várias consultas a instituições científicas, em 1576 foi criada uma comissão encarregada de
estudar o problema e as várias propostas existentes para o resolver. Nesta comissão, constituída pe-
los melhores astrónomos e matemáticos da época, teve papel preponderante o célebre padre jesu-
íta Clavius, que estudara matemática em Coimbra com Pedro Nunes.

Foi preferido o projecto de reforma apresentado pelo astrónomo Luís Lílio e comunicado em 1577 e
1578 a numerosos príncipes, bispos e universidades para darem a sua opinião. Só depois de analisa-
das pela comissão toda essas respostas, se resolveu adoptar finalmente o projecto de Lílio e em 24
de fevereiro de 1582 Gregório XIII expediu a bula Inter Gravíssimas, que estabelecia os pontos es-
senciais do novo calendário.

Calendário Gregoriano

A reforma gregoriana tinha por finalidade fazer regressar o equinócio da primavera a 21 de Março e
desfazer o erro de 10 dias já existente. Para isso, a bula mandava que o dia imediato à quinta-feira 4
de Outubro fosse designado por sexta-feira 15 de Outubro. Como se vê, embora houvesse um salto
nos dias, manteve-se intacto o ciclo semanal.

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Para evitar, no futuro, a repetição da diferença foi estabelecido que os anos seculares só seriam bis-
sextos se fossem divisíveis por 400. Suprimir-se-iam, assim, 3 dias em cada 400 anos, razão pela
qual o ano 1600 foi bissexto, mas não o foram os anos 1700, 1800 e 1900, que teriam sido segundo
a regra juliana, por serem divisíveis por 4.

A duração do ano gregoriano é, em média, de 365d 05h 49 m 12 s, isto é, tem atualmente mais 27s
do que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo do tempo representará um dia em cada
3000 anos.

É evidente que não valia a pena aos astrónomos de Gregório XIII atender a tão pequena e longínqua
diferença, nem na atualidade ela tem ainda qualquer importância. Talvez lá para o ano 5000 da nossa
era, se ainda continuarmos com o mesmo calendário, seja necessário ter isso em consideração.

Portugal, Espanha e Itália foram os únicos países que aceitaram de imediato a reforma do calendário.
Em França e nos Estados católicos dos Países Baixos a supressão dos 10 dias fez-se ainda em
1582, durante o mês de dezembro (9 para 20 em França, 14 para 25 nos Países Baixos). Os Estados
católicos da Alemanha e da Suíça acolheram a reforma em 1584; a Polónia, após alguma resistência,
em 1586 e a Hungria em 1587. A repugnância foi grande mesmo nos países católicos, pois isso signi-
ficava sacrificar 10 dias e romper aparentemente com a continuidade do tempo. Estas reacções mos-
tram que o calendário toca o coração das pessoas e que convém tratar a questão com prudência.

Nos países protestantes a recusa foi mais longa. O erudito francês Joseph Scaliger, pelas suas críti-
cas, contribuiu para organizar a resistência. "Os protestantes, dizia Kepler, preferem antes estar em
desacordo com o Sol do que de acordo com o Papa".

Os protestantes dos Países Baixos, da Alemanha e da Suíça só por volta de 1700 aceitaram o novo
calendário. Mas nalgumas aldeias suíças foi preciso recorrer à força para obrigar o povo a fazê-lo. A
Inglaterra e a Suécia só o fizeram em 1752; foi preciso então sacrificar 11 dias, visto que tinham con-
siderado 1700 como bissexto.

O problema na Inglaterra agravou-se mais porque também nesse ano fora decidido que o início do
ano seria transferido para o dia 1 de Janeiro (até então o ano começava a 25 de Março). Deste modo,
em Inglaterra haviam-se suprimido quase três meses no início do ano e em Setembro, com a adop-
ção do calendário gregoriano, eram suprimidos mais 11 dias. Era demais para um povo fiel às tradi-
ções.

Os russos, gregos, turcos e, duma maneira geral, os povos de religião ortodoxa, conservaram o ca-
lendário juliano até ao princípio deste século. Como tinham considerado bissextos os anos de 1700,
1800 e 1900, a diferença era já de 13 dias. A URSS adoptou o calendário gregoriano em 1918, a Gré-
cia em 1923 e a Turquia em 1926.

Em conclusão, actualmente o calendário gregoriano pode ser considerado de uso universal. Mesmo
aqueles povos que, por motivos religiosos, culturais ou outros, continuam agarrados aos seus calen-
dários tradicionais, utilizam o calendário gregoriano nas suas relações internacionais.

A seguir à implantação da reforma gregoriana, os cristãos suprimiram o descanso ao sábado, transfe-


rindo-o para o domingo em comemoração perpétua da Ressurreição de Cristo. Assim se quebrou a
unidade de descanso no sétimo dia, estabelecido por Moisés há mais de 5700 anos. Seguindo o
exemplo dos cristãos, também os muçulmanos renunciaram ao preceito mosaico de descanso ao sá-
bado e transferiram-no para sexta-feira, em cujo dia da semana, dez séculos antes, o Alcorão foi re-
velado a Maomé e se deu a fuga deste de Meca para Medina (15 de Julho do ano 622 da era cristã).

Defeitos do Calendário Gregoriano

O calendário gregoriano apresenta alguns defeitos, tanto sob o ponto de vista astronómico (estrutura
interna), como no seu aspecto prático (estrutura externa). Por isso, vários investigadores pertencen-
tes a várias igrejas ou organismos internacionais e mesmo privados se têm ocupado activamente da
reforma do calendário.

Sob o ponto de vista astronómico, o seu principal defeito é ser ligeiramente mais longo do que o ano
trópico, o que se traduz por uma diferença de um dia em cerca de 3000 anos. Porém, esta pequena
diferença não tem qualquer inconveniente imediato e uma reforma do calendário destinada a corrigi-la

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traria sérios problemas, porque iria criar uma descontinuidade com as consequentes complicações
cronológicas.

O mesmo não acontece sob o ponto de vista prático, em que, de facto, se justifica uma modificação.
Com efeito, o número de dias de cada mês é muito irregular (28 a 31 dias). O mesmo acontece com a
semana, adoptada quase universalmente como unidade laboral de tempo, que não se encontra inte-
grada nos meses e muitas vezes repartida por dois meses diferentes.

Estas duas anomalias têm sérios inconvenientes numa distribuição racional do trabalho e dos salá-
rios, que são maiores do que à primeira vista se pode pensar. Até a própria economia doméstica se
recente, visto que um salário mensal fixo tem de ser distribuído por um número diferente de dias.

Mais grave ainda é a mobilidade da data da Páscoa, que oscila entre 22 de Março e 25 de Abril, com
as consequentes perturbações da duração dos trimestres escolares e de numerosas outras activida-
des (judiciais, económicas, turísticas, etc.) particularmente nos países cristãos em que as festas da
Semana Santa têm uma grande importância.

Há ainda um outro ponto que julgo ser de interesse salientar. Diz respeito ao tratamento desigual que
foi dado à Lua e ao Sol. Com efeito, os padres do concílio de Niceia e o Papa Gregório XIII ligaram o
calendário ao Sol verdadeiro, mas tomaram para Lua pascal uma Lua média que, por vezes, se
afasta bastante da Lua astronómica. Por esse motivo, podem dar-se desvios de uma semana ou
mesmo de um mês na data da Páscoa.

Dada a importância do ciclo semanal no relacionamento entre os diferentes calendários e, inclusive,


na resolução de algumas dúvidas, julgamos de interesse dizer mais alguma coisa sobra o assunto.
No quadro junto estão indicados os respectivos nomes em latim e a sua correspondência com as lín-
guas latinas. Só o português é que se afasta um pouco da tradição.

¾ Domingo: dia do Senhor. Dedicado ao Sol. O astro-rei era tudo para o homem primitivo: espantava
as trevas, aquecia os corpos, amadurecia as colheitas. Enfim, o Sol era Deus; daí a designação de
Dia do Senhor entre os latinos.

¾ Segunda-feira: dia da Lua. Depois do Sol e sempre no céu, a Lua era a impressão mais forte rece-
bida pelo homem. Influía nas marés, no plantio, no corte das madeiras, talvez mesmo no nascimento
das crianças. Daí a atribuir-lhe um dia da semana.

¾ Terça-feira: dia de Marte. Na escala dos poderes que governavam os céus, as trevas e os seres
humanos, Marte pontificava. Era o senhor da guerra e, portanto, dos destinos das nações e dos po-
vos. A sua influência era tão grande que, inclusive, no calendário romano lhe foi destinado um mês
(Março).

¾ Quarta-feira: dia de Mercúrio. Era o deus do comércio, dos viajantes e dos ... ladrões! Mensageiro
e arauto de Júpiter, protegia os comerciantes e os seus negócios; dada a importância que estas cria-
turas tiveram em todos os tempos e em todos os lugares, alcançaram para o seu deus a consagração
de um dia da semana.

¾ Quinta-feira: dia de Júpiter. Honraria conferida ao pai dos deuses pagãos, comandante dos ventos
e das tempestades. Daí a ideia de lhe atribuir um dia da semana, talvez para aplacar a sua fúria.

¾ Sexta-feira: dia de Vénus. Nascida da espuma do mar para distribuir belezas pelo mundo, Vénus
representava para os pagãos os ideais da formosura, da harmonia e do amor. Daí a razão de mere-
cer a homenagem de um dia da semana.

¾ Sábado: dia de Saturno. Saturno, deus especialmente querido dos Romanos, foi despojado, pelo
uso e pelo tempo, da homenagem consistente em dar nome a um dia da semana. Em Roma eram ce-
lebrados grandes festejos em sua honra ¾ as Saturnais ¾ realizadas em Dezembro e que se prolon-
gavam por vários dias.

Mas a homenagem a Saturno, correspondente a um dia da semana, perdeu-se nas línguas latinas,
em que se deu preferência ao termo hebraico Shabbath, que significa repouso, indicado na velha lei
judaica como sendo o dia dedicado ao descanso e às orações. Mas a língua inglesa permaneceu fiei
ao velho Saturno, chamando ainda ao seu sábado Saturday.

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Quadro comparativo dos nomes dos dias da semana

Latim Italiano Francês Espanhol Português

Dies Dominica Domenica Dimanche Domingo Domingo


(Dia do Senhor)

Lunae dies Lunedi Lundi Lunes Segunda-feira


(Dia da Lua)

Martis dies Martedi Mardi Martes Terça-feira


(Dia de Marte)

Mercurii dies Mercoledi Mercredi Miércoles Quarta-feira


(Dia de Mercúrio)

Jovis dies Giovedi Jeudi Jueves Quinta-feira


(Dia de Júpiter)

Veneris dies Venerdi Vendredi Viernes Sexta-feira


(Dia de Vénus)

Saturni dies Sabbato Samedi Sábado Sábado


(Dia de Saturno)

As Eras

Ao longo desta exposição referimo-nos várias vezes à era de Roma e à era cristã. Talvez seja vanta-
joso dizer mais alguma coisa sobre o assunto. Os romanos datavam os seus anos a partir da funda-
ção de Roma, "ab urbe condita" que, de acordo com a opinião de Varrão, remonta a 753 antes da era
cristã.

Mas os romanos contavam a sua era a partir de 21 de Abril. Assim, o ano 1 da era cristã corresponde
cerca de 4 meses ao ano 753 de Roma e o resto ao ano 754. Por comodidade, recua-se muitas ve-
zes de alguns meses a era de Roma e faz-se coincidir o ano 1 da nossa era com o ano 754 de Roma.

Só alguns séculos após o nascimento de Cristo é que se pôs a questão de ligar este acontecimento a
uma origem de contagem do tempo. A proposta foi apresentada pelo monge cita Dionísío o Exí-
guo por volta do ano 532 da nossa era. Imediatamente adoptada pela Igreja, ela foi-se generalizando
a todos os países católicos. Em Portugal utilizou-se a era de César ou hispânica até ao ano 1422.
Esta era havia sido introduzida na Península Ibérica no século V para recordar a conquista da penín-
sula por Caio Júlio César Augusto no ano 38 a. C. (ano 716 de Roma). Por determinação de D. João
I, foi abolida a era de César e o ano 1460 desta era passou a ser o ano 1422 da era cristã.

Dionísio o Exíguo supunha, de acordo com as suas investigações, que Jesus Cristo tinha vindo ao
mundo em 25 de dezembro (VIII das calendas de Janeiro) do ano 753 de Roma e fixara nessa data o
início da era cristã. Mas os cronologistas introduziram um atraso de sete dias, de maneira que o início
da era cristã foi transferido para o dia 1 de Janeiro do ano 754 de Roma.

Atualmente parece provado que os cálculos não estavam correctos e que Cristo deveria ter nascido 5
a 7 anos antes da data em que se celebra o seu nascimento. Com efeito, essa data é posterior ao
édito do recenseamento do mundo romano (ano 747 de Roma ou mais cedo) e anterior à morte de
Herodes (ano 750 de Roma).

Para alguns cronologistas, é sugerida a data de 747 de Roma, porque nesse ano Júpiter e Saturno
estiveram em conjunção na constelação dos Peixes em Setembro e em Novembro e eles vêem neste
fenómeno a "estrela de Belém". Mas, para não perturbar a cronologia já estabelecida, foi mantida a
data inicialmente proposta, embora tivesse deixado de corresponder ao significado inicial.

É importante notar que na era cristã os anos são referidos a uma escala sem zero, isto é, a contagem
inicia-se no ano 1 depois de Cristo, designando-se o ano anterior como ano 1 antes de Cristo. Por

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conseguinte, qualquer acontecimento ocorrido durante o primeiro ano da era cristã, embora seja ape-
nas de um dia ou de um mês, conta-se como tendo ocorrido no ano 1 depois de Cristo. Por esta ra-
zão, o primeiro século, ou intervalo de 100 anos, da era cristã, terminou no dia 31 de Dezembro do
ano 100 d. C., quando haviam decorrido os primeiros 100 anos após o início da era. O século II co-
meçou no dia 1 de Janeiro do ano 101 d. C. e assim sucessivamente. Consequentemente, o século
XX começou no dia 1 de Janeiro do ano 1901 e terminará no dia 31 de Dezembro do ano 2000.

Esta forma pouco lógica de numerar os anos do calendário é particularmente inconveniente quando
se trata de determinar intervalos de tempo que começam antes da origem da era cristã e terminam
depois. Assim, por exemplo, o intervalo entre os anos 50 a.C. e 50 d.C. não é de 100 anos, mas ape-
nas de 99. Em geral, estes intervalos de tempo obtêm-se diminuindo um ano, o que é necessário ter
em conta ao investigar acontecimentos históricos ou fenómenos astronómicos da Antiguidade data-
dos segundo a era cristã.

Este inconveniente é facilmente resolvido com a introdução dos números negativos, como aliás o fa-
zem os astrónomos. Assim, o ano 1 a.C. corresponde ao ano 0, o ano 2 a.C. ao ano -1 e assim su-
cessivamente. As datas depois de Cristo exprimem-se da mesma maneira. Esquematizamos na figura
junta a relação entre as duas contagens.

Era cristã 3 a.C. 2 a.C. 1 a.C. 1 d.C. 2 d.C.

Cômputo astronómico -2 -1 0 +1 +2

Para evitar estas dificuldades cronológicas do calendário, o erudito francês Joseph Scaliger propôs
em 1582, no mesmo ano da reforma gregoriana do calendário, contar ininterruptamente os dias cor-
respondentes a um período que fosse múltiplo dos períodos lunares e solares normalmente utilizados
no calendário e suficientemente extenso para abarcar acontecimentos históricos desde a mais remota
Antiguidade.

Obteve assim um período de 7980 anos julianos, a que deu o nome de período juliano. Tomando
como unidade prática o dia solar médio, começou a contar os dias numa sucessão contínua a partir
do meio-dia do dia 1 de Janeiro do ano 4713 a.C. A escolha desta data, que à primeira vista pode pa-
recer arbitrária, foi também determinada em função dos períodos utilizados.

Convém esclarecer que até 1925 o tempo solar médio era contado em astronomia a partir do meio-
dia, para que as observações noturnas caíssem sempre dentro do mesmo dia e não a partir da meia-
noite, como é usual no tempo civil.

O dia solar médio era então chamado dia astronómico. A partir de 1925, por acordo internacional, os
dias solares médios passaram a contar-se com início à meia-noite tanto em astronomia como na vida
civil e a designação de dia astronómico caiu em desuso. Mas os dias do período juliano, que começa-
ram a contar-se de meio-dia a meio-dia segundo o uso astronómico da época, continuam a contar-se
da mesma maneira, por razões óbvias de continuidade da escala.

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FONTES HISTORICAS

As Fontes Históricas

O trabalho do historiador com as fontes sofreu grandes mudanças ao longo do tempo. Quando obser-
vamos a organização do tempo e das informações históricas em um livro didático, mal pensamos so-
bre todo o processo que envolveu a fabricação daquele material disponível para estudo.

O passado, enquanto objeto de estudo, não está devidamente organizado e analisado em todas as
suas dimensões. Para que seja possível conhecê-lo, o historiador tem que sair em busca dos vestí-
gios que possam fornecer informações e respostas ao seu exercício de investigação.

Sob tal aspecto, notamos que o historiador deve estar à procura constante e regular de fontes que
viabilizem o seu contato com as experiências que já se consumaram ao longo do tempo. Fora desse
tipo de ação, a pesquisa histórica fica sujeita à produção de suposições e julgamentos que fogem ao
compromisso do historiador em conferir voz ao tempo que ele observa e pesquisa. Sendo assim, as
fontes históricas aparecem como elementos de suma importância em tal caminhada.

Ao contrário do que possa parecer, o reconhecimento e uso de uma determinada fonte histórica não é
naturalmente realizado por aqueles que se colocam em busca do passado. Dependendo dos interes-
ses e influências que marcam a trajetória do historiador, notamos que as fontes históricas podem ser
empregadas ou não em seu trabalho. Desse modo, entendemos que nenhum historiador terá a capa-
cidade ou disposição de esgotar o uso de todas as possíveis fontes relacionadas a um determinado
evento ou tema.

Durante muito tempo, os historiadores acreditavam que o passado não poderia ser reconhecido para
fora das fontes escritas oficiais. Tal critério, que perdurou até o século XIX, chegou a determinar que
o tempo em que a escrita não fora dominada pelo homem ou as sociedades que não dominavam tal
técnica não poderiam ter o seu passado escrito. Sendo assim, o trabalho de vários historiadores es-
teve preso aos documentos ou fontes escritas.

No século passado, a ação de outros historiadores e o desenvolvimento de novas formas de estudo


foi gradativamente revelando que o conjunto de fontes a serem trabalhadas pelo historiador pode
muito bem extrapolar o mundo letrado. A partir de então, fontes de natureza, visual, oral e sonora fo-
ram incorporadas ao conjunto de compreensão do passado. Com isso, observamos que determina-
dos temas históricos tiveram a sua discussão renovada e ampliada para outros patamares.

Logicamente, não podemos deixar de frisar que o uso de diferentes fontes empreendeu o reconheci-
mento de novos desafios ao ofício do historiador. Em contrapartida, ofereceu ao historiador e ao pú-
blico interessado uma oportunidade de renovar e determinar o crescimento da produção técnica, cien-
tífica e didática sobre o assunto. De fato, o século XX foi marcado por um volume de publicações de
temas históricos nunca antes observados em qualquer outro tempo.

Hoje em dia, os termos “documento histórico” e “fonte histórica” são sinônimos. Até relativamente
pouco tempo atrás, os historiadores acreditavam que a História-Ciência deveria apenas narrar os fa-
tos e privilegiar acontecimentos políticos, militares e econômicos importantes para o país. Essa foi a
forma de pensamento historiográfico típica do século 19. Esses historiadores, chamados de positi-
vistas, utilizavam quase que apenas documentos oficiais, emitidos pelo governo, considerados os
únicos documentos “verdadeiros” e “corretos”, ou seja, os únicos documentos históricos. Os histori-
adores de hoje já não acreditam nisso. Na verdade, hoje nós entendemos que quase tudo produzido
pelo ser humano pode ser tornar uma fonte histórica, desde que ela possa ser utilizada para melhorar
nossa compreensão sobre o passado.

Quais São Os Tipos de Fontes Históricas?

Nem todas as fontes históricas são iguais e, à medida em que novas fontes vão sendo exploradas,
precisamos organizá-las de alguma maneira. Essa classificação das fontes históricas serve para nos

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FONTES HISTORICAS

ajudar a pensar em como lidar com cada uma delas. Um quadro não pode ser estudado da mesma
maneira que uma carta, certo? Então cada tipo de fonte histórica tem métodos diferentes para ser
analisada.

Fontes Escritas – documentos escritos à mão ou digitados, no papel ou digitalizados. Exemplo: car-
tas, diários pessoais, certidão de nascimento, relatos de viagem.

Fontes orais – falas pessoais arquivadas em áudio. Exemplo: entrevista com uma pessoa que viveu
um determinado momento histórico, um discurso transmitido pelo rádio.

Fontes iconográficas ou imagéticas – documentos puramente visuais, em que o texto, se existir, é


muito menos importante do que a imagem. Exemplo: quadros, desenhos, charges, caricaturas, foto-
grafias.

Fontes audiovisuais – são as que se apresentam em vídeo. Exemplo: entrevistas, depoimentos, fil-
magens da época.

Fontes materiais – são objetos de outras épocas, que nos ajudam a entender os hábitos do pas-
sado. Exemplo: objetos de uso pessoal, ferramentas, objetos de decoração. Os objetos por si só po-
dem se transformar numa aula de História, como já falamos nesse artigo.

A classificação das fontes históricas pode ser muito mais extensa, dependendo do autor. Essa divisão
que apresentamos aqui é apenas uma abordagem inicial, que pode ser utilizada para introduzir os
alunos ao tema.

Como Trabalhar Com as Fontes Históricas?

É muito importante que as crianças conheçam variadas fontes históricas para perceber que o livro-
texto/livro-didático é resultado de uma pesquisa. E pesquisar significa fazer recortes, escolher privile-
giar algumas coisas em detrimento de outras, selecionar fontes de onde tirar a informação. Tão im-
portante quanto saber história é saber como fazer História. E aqui cabe diferenciarmos a ideia
de história, que se refere ao passado de forma geral, e História, que é um campo do conhecimento
com métodos próprios, que busca entender a ação humana ao longo do tempo e sua relação com o
momento que vivemos hoje.

Para isso, os historiadores se apoiam na análise das fontes históricas dentro do contexto em que elas
foram produzidas, buscando identificar a intencionalidade de seus autores, aquilo que é dito e, princi-
palmente o que é deixado de fora dessa fonte. Muito importante: um bom trabalho historiográfico se
apoia em múltiplas fontes, inclusive contraditórias entre si.

É um trabalho bastante complexo, que pode e deve ser progressivamente apresentado aos alunos ao
longo dos anos de escola.

Embora nossos alunos das Séries Iniciais (ainda) não precisem aprender a fazer essa análise de uma
forma tão elaborada, você pode fazer uma atividade simples para eles terem uma ideia de como fun-
ciona o trabalho com as fontes históricas.

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PRÉ-HISTÓRICA

Pré-História

O termo pré-história talvez seja um dos mais injustiçados de todo o conhecimento histórico. A expres-
são em si transmite a ideia de que pré-história é tudo aquilo que tenha vindo, supostamente, antes da
História. Ou seja, antes dos primeiros registros escritos. A disciplina histórica, etnocêntrica e exclu-
dente, especialmente a parir do século XIX, definiu que a História deveria ser produzida com base em
documentos oficiais, ou da burocracia geral do estado. Neste sentido as populações que não domina-
vam a escrita ficaram subalternizadas e foram por muito tempo consideradas irracionais ou pouco de-
senvolvidas.

Desta forma como dar conta então de grupos e sociedades ágrafas e sem domínio da cultura escrita?
Embora agrafes, não ficam de fora da História e tem seu lugar reservado nos estudos históricos. O
acesso ao passado se dá pelo trabalho de arqueólogos, antropólogos, biólogos e paleontólogos em
conjunto.

O primeiro fóssil foi encontrado no século XIX, quando houve a definição de campos científicos
como Antropologia, História, Arqueologia. Neste mesmo século criaram-se as primeiras instituições
voltadas para o estudo da cultura material do passado remoto.

Os estudos biológicos, arqueológicos e antropológicos definem que o gênero homo pode ser encon-
trado há 2,5 milhões de anos. O Homo habilis é o primeiro do gênero a ser definido e foi encontrado
na parte oriental do continente africano. Foi o Homo habilis que iniciou a atividade de lascar pedras
para a confecção de ferramentas e utensílios e marcou o início do que chamamos de Idade da Pedra,
e, dentro deste recorte, do Paleolítico. Já o Homo erectus foi responsável pelo domínio do fogo e sua
aparição data de aproximadamente 2 milhões de anos.

Estes foram os primeiros a migrar para longe, e chegaram em locais fora do continente africano, ca-
minhando em direção ao Norte, há aproximadamente 1 milhão de anos. Por fim os Homo sapiens da-
tam de 500 mil anos e foram encontrados na Etiópia com datação de 160 mil anos. Já o Homo sapi-
ens sapienstem sua existência há 50 mil anos. Outras espécies foram registradas, porém não sobre-
viveram, como é o caso do Homo sapiens neanderthalensis, ou o homem de Neandertal.

Os grupos humanos pré-históricos deixaram rastros de sua existência, seja por meio da cultura mate-
rial, seja pela expressão artística. A arte rupestre foi uma das formas de expressar o cotidiano por
meio de pinturas e gravuras, deixadas na pedra, em paredes de abrigos e cavernas. Inicialmente as
figuras representavam apenas animais e paulatinamente foram dominando a técnica e produzindo
imagens mais complexas, chegando a representar também figuras humanas em atividades de rituais
e de caça. Representavam o cotidiano dos grupos humanos. Outra técnica pré-histórica é o desenvol-
vimento da cerâmica.

A transformação da argila em utensílio foi importante para esses grupos humanos pois a confecção
de potes para conservação de alimentos foi crucial para o aumento demográfico. Além disso, neste
tipo de materiais o cozimento de alimentos era possível e as carnes não eram mais consumidas
cruas, diminuindo o índice de mortalidade.

A pré-história foi, portanto, um período rico em atividade humana, diverso em diferentes experiências
e que é caracterizado pelo desenvolvimento e sobrevivência do gênero Homo, sua difusão pelo globo
e pelo domínio de tecnologias, como o fogo, técnicas de manuseio de materiais, como a pedra las-
cada e a pedra polida, e expressões artísticas como a arte rupestre.

Homem pré-histórico

Geralmente, em uma tentativa de definição precária, tendemos a chamar nossos antepassados do


período em questão de “homens pré-históricos”. Mas há uma denominação mais apropriada para
isso: hominídeos. Os hominídeos pertencem a uma família taxonômica classificada pela Biologia e
intitulada hominidae. Nós, humanos, estamos dentro dessa “família”, assim como os chimpanzés. To-
davia, não somos da espécie dos chimpanzés e, muito menos, os hominídeos que nos precederam.

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PRÉ-HISTÓRICA

Os hominídeos conseguiram, aos longos de milhões de anos, desenvolver ferramentas e utensílios


domésticos complexos. Conseguiram dominar o fogo, que passou a ser utilizado tanto para o aqueci-
mento quanto para cozinhar alimentos, e conseguiram ainda o mais extraordinário: desenvolver siste-
mas simbólicos, como urnas e câmaras funerárias, esculturas e pinturas rupestres.

Esses hominídeos podem ser divididos em ordem cronológica. Os mais antigos pertencem ao
grupo Ardipithecus ramidus, cujo aparecimento comprovado pela arqueologia varia de 5 e 4 milhões
de anos. Há também outro exemplo, oAustralopithecus afarensis, cujo aparecimento na Terra varia
entre 3,9 e 3 milhões de anos. Por outro lado, houve, mais tarde, o surgimento do gê-
nero Homo. Houve, por exemplo, o Homo habilis, que viveu entre 2,4 e 1,5 milhão de anos. O Ho-
mem erectus, entre 1,8 milhão e 300 mil de anos. Depois, o Homo neanderthalensis, entre 230 e 30
mil anos. Nós, humanos, pertencemos ao grupo Homo sapiens, que apareceu, provavelmente, há
cerca de 120 mil anos.

Paleolítico e Neolítico

O período Paleolítico é o mais longo, indo de 3 milhões a.C. até 10.000 a.C. Ele é caraterizado pelo
nomadismo e pelo uso ainda precário de utensílios. Foi nesse período que apareceram os hominí-
deos expostos acima. No Neolítico, segunda e mais importante fase da pré-história, ocorreu a revolu-
ção da “pedra polida”, o que possibilitou o sedentarismo e as primeiras formas de agricultura sistemá-
tica. Foi dentro da “revolução neolítica” que nasceu o Homo sapiens e, por consequência, as primei-
ras civilizações, caracterizadas pela fundição de metais, como o cobre e o ferro.

Neolítico

No período Neolítico, novas modificações climáticas alteraram a vegetação. Aumentaram as dificulda-


des para caçar e se instalaram nas margens dos rios, o que contribuiu para o desenvolvimento da
agricultura, com o plantio de trigo, cevada e aveia.

Aprenderam a domesticar alguns animais e a criar gado. Surgiram os primeiros aglomerados popula-
cionais, com finalidade principalmente defensiva.

Seus objetos tornaram-se mais bem-acabados, pois a pedra, depois de lascada, era esfregada no
chão ou na areia até tornar-se polida.

Desenvolveram a arte da cerâmica, fabricando grandes potes para guardar o excedente da produção
agrícola.

Desenvolveram as técnicas de fiação e tecelagem para a confecção de tecidos de lã e linho, em


substituição aos trajes confeccionados com peles de animais.

Apareceram os primeiros trabalhos em metais pouco duros, como o cobre e o ouro. Começaram as
viagens por terra e por mar.

A organização social, denominada comunidade primitiva, baseava-se nos laços de sangue, idioma e
costumes.

A fase final do Neolítico caracterizou-se pela desintegração do sistema de comunidade primitiva e


pela origem das sociedades organizadas em Estados e divididas em diferentes camadas sociais.

Idade dos Metais

O desenvolvimento de técnicas de fundição de metais possibilitou o abandono progressivo dos instru-


mentos de pedra.

O primeiro metal a ser fundido foi o cobre, posteriormente o estanho. Da fusão desses dois metais,
surgiu o bronze, mais duro e resistente, com o qual fabricavam espadas, lanças etc. Por volta de
3000 a.C. produzia-se bronze no Egito e na Mesopotâmia.

A metalúrgica do ferro é posterior. Tem início por volta de 1500 a.C., na Ásia Menor. Por ser um miné-
rio mais difícil de ser trabalhado difundiu-se lentamente.

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PRÉ-HISTÓRICA

Em razão da sua superioridade para a fabricação de armamentos, o ferro contribuiu para a suprema-
cia dos povos que souberam utilizá-lo com essa finalidade.

Pré-história Brasileira

A pré-história brasileira ou período pré-cabralino é a referência para a história do Brasil antes do des-
cobrimento, em 1500, pelo navegador português Pedro Álvares Cabral. Embora englobe todo o perí-
odo que antecede 1500, os pesquisadores têm estudado como ocorreu a ocupação do território antes
do descobrimento e como viviam os povos ancestrais.

A presença humana no território hoje ocupado pelo Brasil data de 12 mil anos, conforme evidências
arqueológicas. As primeiras descobertas para a reconstrução da pré-história brasileira começaram há
cerca de um século na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Ainda em Minas Gerais, foram cole-
tados registros arqueológicos em Santana do Riacho e o mesmo ocorreu em Caatinga de Moura, na
Bahia.

A chegada do homem à região correspondente ao atual território brasileiro ainda é alvo de estudos.
Os arqueólogos sabem, contudo, que ao menos três diferentes rotas migratórias contribuíram para o
deslocamento na América pré-colombiana (antes da chegada de Cristóvão Colombo, em 1492).

A corrente mais aceita, difundida e estudada é a da passagem pelo Estreito de Bering em diferentes
períodos, fazendo com que o homem chegasse ao Alasca e, de lá, partisse ao restante do continente.
A migração por esse caminho teria ocorrido em quatro etapas.

Há, ainda, a teoria da uma leva migratória partindo da Europa para o sudeste dos Estados Unidos,
com partida direta da Europa. Essa seria a mais antiga de todas. A terceira rota de deslocamento se-
ria a do pacífico e, dessa maneira, o homem teria chegado à Patagônia e à região que hoje corres-
ponde ao Brasil.

Sítios Arqueológicos Brasileiros

No Boqueirão da Pedra Furada, um grupo de arqueólogos notificou a presença de facas, machados e


fogueiras com aproximadamente 48 mil anos. Na região da Lagoa Santa, em Minas Gerais, foi encon-
trado o fóssil Luzia, de 11,5 mil anos.

Primeiros Habitantes do Brasil

Os arqueólogos dividem os habitantes em três grupos: caçadores-coletores, povos agricultores e po-


vos do litoral.

Caçadores-coletores

Viviam em quase todo o território nacional entre 50 mil e 2,5 mil anos. Ocupavam do Sul ao Nordeste.
Habitavam cavernas e a floresta. Usavam arcos e flechas, boleadeiras e bumerangues feitos em pe-
dra.

Alimentos: alimentavam-se de carne de caça de pequenos animais, peixes, moluscos e frutos.


No Nordeste, a arte rupestre foi deixada como herança. Retratavam o cotidiano, a guerra, a dança e a
caça.
No Sudeste são denominados de tradição Humaitá. No Sul de Umbu.

Povos do Litoral:

Ocupavam a costa brasileira dede o Espírito Santo até o Rio Grande do Sul há 6 mil anos. Alimenta-
vam-se, basicamente, de frutos do mar, mas também eram coletores.

Povos Agricultores

Viviam de 3,5 mil a 1,5 mil anos atrás. Habitavam cabanas ou casas subterrâneas. Eram conhecedo-
res da técnica da cerâmica. No Rio Grande do Sul eram chamados de Itararés e no Sudeste e Nor-
deste de Tupi-Guaranis.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

Antiguidade Oriental

Antiguidade Oriental é o termo utilizado para se referir à Idade Antiga dos povos localizados no norte
da África e no Oriente Médio.

Antiguidade Oriental é o termo dado ao período da Idade Antiga referente aos povos considerados
pelos historiadores europeus como habitantes do espaço geográfico a leste da Europa. A Antiguidade
Oriental é assim definida para se diferenciar da chamada Antiguidade Clássica, referente à história da
Grécia e de Roma.

A Antiguidade Oriental, dessa forma, refere-se à história dos povos que habitaram o Oriente Médio e
o Norte da África, sendo eles principalmente os Mesopotâmicos, os Egípcios, os Persas, os Fenícios
e os Hebreus.

Apesar da diversidade cultural desses povos, havia alguns pontos comuns em suas formas de organi-
zação social. Eram fundadas em Estados altamente centralizados, controlados por uma teocracia po-
liteísta, utilizando-se da produção agrícola realizada às margens de grandes rios. Havia nesses povos
uma rígida estratificação social, sendo muito pequena a mobilidade social.

A maior parte das populações era formada por camponeses ou por grupos sociais que trabalhavam
em regime de servidão coletiva, principalmente na construção de grandes obras públicas, como edifi-
cações oficiais (templos, palácios, pirâmides etc.), cidades e aquedutos.

Apesar dessas características comuns, havia exceções que escaparam a essa generalização. Os fe-
nícios, por exemplo, não se organizavam em torno de Estados centralizados, mas sim em cidades-
estado com autonomia política. Além disso, dedicavam-se muito mais ao comércio pelo mar Mediter-
râneo que à produção agrícola. Os hebreus, por sua vez, não eram politeístas, e sim monoteístas,
uma diferença importante na configuração dos povos do Oriente Médio.

Os historiadores marxistas cunharam o termo Modo de Produção Asiático para poder definir a organi-
zação dos povos desse período e local. Em virtude da generalização do termo, Antiguidade Oriental e
Modo de Produção Asiático são apresentados em conjunto, buscando, dessa forma, definir como
ponto de partida a forma de produção material de vida desses povos para poder explicar o processo
histórico no qual eles estavam inseridos.

Antiguidade ou Idade Antiga é o período da história contado a partir do desenvolvimento da escrita,


mais ou menos 4000 anos a.C., até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 da era Cristã.

Esse período da história está dividido em:

- Antiguidade Oriental: incluindo a civilização egípcia, a civilização mesopotâmica, como também os


hebreus, fenícios e persas.

- Antiguidade Clássica ou Ocidental: que envolve os gregos e os romanos.

- Com exceção da Mesopotâmia, as demais civilizações se desenvolveram nas margens do mar Me-
diterrâneo.

Antiguidade Oriental

O Egito, berço de uma civilização milenar, foi palco de importantes realizações humanas que surgi-
ram por volta de 4000 a.C.

A Pedra da Roseta permitiu a decodificação da escrita hieroglífica, o que possibilitou o aprofunda-


mento na história do Egito Antigo e da Civilização Egípcia.

A Mesopotâmia foi o centro de uma série de lutas e conquistas. Os povos que a dominaram formaram
uma importante civilização do mundo antigo, a Civilização Mesopotâmica.

Os hebreus, chefiados por Abraão, estabeleceram-se na Palestina, por volta de 2000 a.C.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

Viveram nessa região por três séculos, até que um terrível seco os obrigou a emigrar para o Egito,
onde permaneceram por quatro séculos. A Bíblia é uma das fontes da história dos Hebreus.

Os fenícios ocuparam o litoral da Síria, no norte da Palestina. A grande contribuição cultural dos fení-
cios foi a invenção do alfabeto fonético simplificado, composto de 22 letras, que incorporado pelos
gregos e romanos, serviu de base para o alfabeto atual.

Os Persas se organizaram por volta de 2000 a.C., no litoral do Golfo Pérsico, na Ásia.

Organizada em várias tribos, unificadas pelo rei Ciro, excelentes guerreiros formaram o vasto Império
Persa.

Antiguidade Clássica ou Ocidental

A Grécia formou-se no sul da península Balcânica entre os mares Mediterrâneo, Egeu e Jônico.

O povo grego resultou da miscigenação entre os aqueus, jônios, eólicos e dóricos, que se instalaram
na região, por volta de 2000 a.C. e 1200 a.C.

A Civilização Grega tem grande importância por sua influência na formação cultural e política do Oci-
dente.

A Grécia pode ser estudada em duas partes: das origens ao período arcaico (civilização cretense e
micênica, o Período Homérico e as cidades de Esparta e Atenas) e o período clássico (o Império de
Alexandre Magno e a Cultura Helenística).

Roma, localizada na península itálica, centro do Mediterrâneo europeu, recebeu influência de diver-
sos povos que habitavam a região.

A Roma Antiga pode ser estudada observando diversos períodos: Monarquia Romana, República Ro-
mana.

Alto Império Romano, Baixo Império Romano e as Invasões Bárbaras, que propiciaram a queda do
Império Romano, estabeleceram o fim da Antiguidade ou Idade Antiga.

Mesopotâmia e Egito

Mesopotâmia

A região da Mesopotâmia ficava entre os rios Tigre e Eufrates, onde, atualmente, encontra-se o Ira-
que. Os rios foram fatores importantes para o surgimento da agricultura na região, que colaborou
para o processo civilizatório. Além da agricultura, as obras hidráulicas (como criação de canais) leva-
vam água até locais onde os rios não chegavam.

Não tinha separação entre poder político e religioso. A sociedade era dividida em classes sociais. A
nobreza ocupava os principais cargos do Estado e tinham terras. Os camponeses pagavam dois im-
postos: tinham que dar parte da produção (alimentos e artesanato) e trabalhar gratuitamente para o
Estado (construindo canais, muralhas, estradas, templos, etc.). As mulheres ficavam encarregadas
pelo trabalho doméstico. O número de escravos era relativamente pequeno.

A região foi povoada pelos sumérios, babilônios, assírios, caldeus, etc.

Por volta de 3500 a.C, os sumérios ocuparam a parte sul. Existiam polis (ou cidade-Estado), e a prin-
cipal era Ur (surgiu em meados de 2000 a.C.). A necessidade de guardar registros (atos do rei, leis, o
resultado da cobrança de impostos, etc.) que estimulou a invenção da escrita, por volta de 3100 a.C.
A escrita foi inventada para que o Estado tivesse maior poder.

A cidade-Estado babilônica era rica e forte, encontrava-se numa região onde os rios Tigre e Eufrates
ficavam bem próximos. Era um local de comércio, e o Estado cobrava impostos sobre os comercian-
tes. O rei Hamurabi venceu inúmeras guerras contra os sumérios. Esse rei é bastante conhecido
pelo o seu código. O Código de Hamurabi (1750 a.C.) era um conjunto de leis estabelecidas para to-
dos os habitantes da Babilônia. Seu princípio era o do “olho por olho, dente por dente”. Esse código é

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

conhecido pelo rigor, mas por nossos padrões atuais de justiça continha ideias sensatas, como o pa-
gamento de indenizações.

Em 910 a.C., os assírios formaram um império. Eram temidos por causa da sua violência contra os
prisioneiros de guerra. Aterrorizar as pessoas era um modo de garantir que elas pagassem os tri-
butos ao Estado assírio. Esse povo criou bibliotecas e a escrita cuneiforme, que é fonte de estudos
até hoje.

Os caldeus, povo dominado pelos assírios, revoltaram-se e dominaram a Mesopotâmia. Criaram os


Jardins Suspensos da Babilônia. A morte no rei caldeu Nabucodonosor foi a única coisa que faltava
para que os persas, chefiado pelo rei Ciro, dominassem a região.

Egito

O Egito surgiu no meio do deserto há mais de 5 mil anos. A famosa frase dita por Heródoto sintetiza
como foi possível uma civilização surgir em um lugar inabitável: “O Egito é uma dádiva do Nilo”. Com
as cheias regulares do rio Nilo, a terra das margens se tornou fértil, possibilitando a prática da agricul-
tura. Além do Nilo, o próprio deserto funcionou como uma defesa contra-ataques inimigos.

Os reis eram chamados faraós, que eram donos de terras e controlavam o comércio. Os faraós ti-
nham amplos poderes e eram considerados filhos de deuses. Os templos religiosos eram administra-
dos por funcionários do Estado. Os principais cargos do Estado eram dados para os nobres. Os cam-
poneses e artesãos eram responsáveis pela maior parte do trabalho. Um cargo importante era o de
escriba.

Escribas eram das poucas pessoas que sabiam ler e escrever. Era um cargo importante para a socie-
dade da época. Cuidavam da contabilidade real e registravam os feitos dos faraós.

A grande maioria da população morava em aldeias. O povo tinha que pagar tributos (alimentos, arte-
sanato e trabalho gratuito) e ainda podiam ser maltratados pelos coletores de impostos. Alguns histo-
riadores chamam corveia real essa obrigação de pagar impostos com trabalho para o Estado.

Os escravos que existiam eram provenientes de guerras. Na sociedade egípcia houve inúmeras re-
voltas sociais envolvendo trabalhadores livres e escravos.

A História do Egito Antigo Pode Ser Dividida Em Três Períodos:

Antigo Império (3100 a.C. a 2040 a.C.) – nesse período ocorreram as construções das grandes pirâ-
mides. Os faraós não tinham controle entre todos os nobres, o que enfraquecia o poder.

Médio Império (2040 a.C. a 1640 a.C.) – os faraós restauraram o poder. Esse período se encerrou
quando os egípcios foram invadidos pelos hicsos, que tinham arma de bronze (as armas egípcias
eram de madeira, cobre e bronze rudimentar). Os hicsos absorveram a cultura egípcia.

Novo Império (1550 a.C. a 1070 a.C.) – os hicsos foram expulsos do Egito, e com isso, os egípcios
tinham adquirido carruagens de guerras e armas d bronze. O costume de levantar pirâmides tinha
sido abandonado. Mas os egípcios continuavam a fazer monumentos espetaculares como as escultu-
ras gigantescas da família do faraó no Vale dos Reis.

A religião era muito importante para a sociedade. O Egito era politeísta, ou seja, existia a crença em
muitos deuses. O mais antigo e venerado era Rá, o deus Sol. Além disso, a atividade de embalsamar
os cadáveres era um ato de garantir a vida após a morte. Embalsamar evitava que os corpos entras-
sem em decomposição. Enrolando em panos, formavam-se as múmias, que eram guardadas em sar-
cófagos. Os persas dominaram o Egito no final do Novo Império.

As Pirâmides

Para os egípcios, a morte seria uma viagem em rumo ao reino das divindades. Essa jornada deveria
ser cuidadosamente planejada para que o morto, principalmente se tivesse posses, conseguisse reu-
nir todas as melhores condições possíveis para viver na eternidade.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

As pirâmides egípcias foram construídas para servir como túmulos de faraós e de nobres. Os egíp-
cios acreditavam que o espírito de uma pessoa permaneceria vivo pós-morte se seu corpo fosse bem
conservado. Por essa razão, os egípcios criaram técnicas extraordinariamente desenvolvidas de em-
balsamamento.

Portanto, os egípcios conservavam os corpos mumificando-os e os enterravam nos túmulos dentro


das pirâmides. Os cadáveres eram enterrados com roupas, joias, comida, tecidos finos, alguns escra-
vos e tudo mais que os mortos supostamente precisariam na vida após a morte. Mas nem todos os
egípcios eram mumificados, pois o processo de mumificação era caro e complicado. A maioria das
pessoas que não pertenciam à nobreza era enterrada após falecer. Os hieróglifos pintados nas pare-
des dos túmulos contavam com detalhes a história da vida do falecido.

Das quase setenta pirâmides que sobreviveram até os nossos dias, a maior é de Queóps, em se-
guida de Quéfrem e Miquerinos. A pirâmide de Queóps foi construída em 2600 a.C. e tem uma base
de 52 quilômetros quadrados, em um quadrado perfeito. Queóps é um exemplo da avançada enge-
nharia egípcia. Pequenas câmaras foram feitas dentro da pirâmide. Essas câmaras permanecem in-
tactas, apesar do enorme peso das pedras acima, devido a uma técnica precisa de engenharia. Nos
dias de hoje, qualquer pessoa visitando Giza pode ver as pirâmides.

As Artes Plásticas

A pintura egípcia, embora desconhecesse a noção de perspectiva, buscou, com talento e beleza, re-
presentar deuses, faraós e o esplendor da nobreza. O tamanho da figura numa pintura egípcia indi-
cava a sua importância social. Faraós eram pintados como gigantes entre escravos; servos eram re-
tratados como se fossem anões.

As pinturas e hieróglifos contavam histórias detalhadamente, representadas por quilômetros de dese-


nhos.

As estátuas egípcias eram feitas de granito ou diorito, materiais resistentes, pois eram feitas com o
objetivo de durar para sempre.

A arquitetura, como já vimos ao estudar as pirâmides, expressava o poder do Estado Faraônico atra-
vés de formas grandiosas. Outros exemplos são os templos de Luxor e Carnac.

Roma e Grécia Antiga

As civilizações clássicas que compõem a Antiguidade Ocidental – Roma e Grécia – formaram a base
de nossa civilização, ou seja, as sociedades ocidentais modernas. Em muitos campos, elas se con-
fundem e, por isso, se tornaram conhecidas como cultura greco-latina.

Se da Grécia Antiga adotamos os conceitos políticos como monarquia, tirania, democracia, hegemo-
nia e conceitos filosóficos como antropocentrismo, idealismo e racionalismo, da Roma Antiga adota-
mos o conceito de cidadania e justiça, a língua latina e suas derivações e o cristianismo.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

Roma Antiga

A cidade de Roma, situada entre colinas e em local estratégico para a comunicação, foi o berço da
civilização romana. Com o tempo, os romanos iniciaram sua expansão por todo o Mediterrâneo, que
chamaram de mare nostrum (“mar nosso’’).

As Origens de Roma

Por volta do II milênio a.C., a península Itálica, situada no sul da Europa e avançando pelo mar Medi-
terrâneo, começou a ser habitada por diferentes povos, dentre eles os latinos.

Esses povos ocuparam uma planície próxima ao rio Tibre, onde fundaram aldeias e à qual deram o
nome de Lácio. Aos poucos, eles foram se agrupando em volta de seu povoado mais impor-
tante, Roma, que se tornou uma das maiores cidades da Antiguidade.

A civilização romana desenvolveu-se em torno do mar Mediterrâneo. Os romanos dominaram territó-


rios situados nos três continentes banhados por esse mar – Europa, Ásia e África -, construindo um
poderoso império.

A divisão da história romana

A civilização romana se estendeu desde a fundação da cidade, em 753 a.C, até o fim do Império Ro-
mano do Ocidente, em 476 d.C.

A história política da Roma Antiga divide-se em três fases:

Monarquia Romana: período que durou até 509 a.C., quando ocorreu a expulsão dos etruscos;

República Romana: até o ano 27 a.C;

Império Romano: que terminou em 476 d.C.

Sociedade Romana

Os descendentes dos primeiros habitantes da península itálica eram os senhores das terras e ficaram
conhecidos como patrícios.

Populações latinas também se dirigiram para aquele sítio e foram bem recebidas pelos antigos habi-
tantes, que precisavam de mais braços naquele local. Estes foram nomeados clientes e podiam se
misturar às famílias mais tradicionais por meio do casamento.

Por último, chegaram outros grupos não tão bem recebidos, mas que poderiam ficar para trabalhar
nas terras dos patrícios, sem, contudo, terem terras próprias para seu sustento. Estes eram os ple-
beus.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

Ainda existiam homens na condição de escravos, obtidos em campanhas militares dos latinos contra
outras populações. Aqueles que eram capturados tornavam-se escravos em Roma. Contudo, a maior
parte do trabalho, na monarquia, não era escravo, pois era desempenhado pelos homens livres e po-
bres, os plebeus.

O Direito Romano

A legislação romana e seu sistema judiciário eram complexos. Para se ter uma ideia dessa complexi-
dade, podemos assinalar a divisão do Direito romano em três divisões.

Jus naturale: afirmava os direitos naturais do homem que deveriam ser observados pelo Estado,

Jus civile: assinalava a existência dos direitos de cidadania, ou seja, os direitos constituídos no seio
da sociedade humana em suas variadas relações, aí se encontrava a vida política.

Jus gentium: correspondia ao reconhecimento das especificidades dos povos abrigados pelo império
romano, garantindo as tradições e as comemorações que marcavam identidades no interior da uni-
dade romana.

O latim

Sem dúvida alguma, a língua romana foi uma peça importante de seu imperialismo. Povos submeti-
dos deveriam, para participar da vida política, aprender a língua romana. Assim, o latim foi elemento
de romanização do Império.

Adiante, com as invasões bárbaras, o latim permaneceu como referência de língua sagrada, adotado
pela Igreja Católica, e também misturado às línguas germânicas dos grupos invasores.

O resultado foi a formação de línguas chamadas de neolatinas faladas até hoje, como o português, o
espanhol, o francês e o italiano moderno.

Literatura

A literatura romana foi muito desenvolvida, com a produção de textos poéticos e em prosa, mas os
discursos políticos são os mais impressionantes desse universo literário.

Tito Lívio, Ovídio, Virgílio, Horácio, Cícero, Sêneca, o imperador Marco Aurélio são alguns dos nomes
importantes do mundo intelectual romano. História, poesia, sátiras, filosofia e política foram campos
de grande produção literária.

Religião

No campo religioso, antes da adoção do monoteísmo cristão, os romanos eram politeístas e seus
deuses foram tomados dos gregos, latinizando-se os nomes. Além desses deuses, havia os proteto-
res domésticos e o culto aos ancestrais.

Arquitetura

Na arquitetura, a influência grega também esteve presente. Entretanto, o espírito prático dos romanos
destacou-se na construção de estradas, esgotos, aquedutos, estádios, colunas e arcos do triunfo.

Grécia Antiga

A sociedade grega se fixou na península Balcânica, região que apresenta um relevo montanhoso, o
que favoreceu a formação de comunidades independentes umas das outras nos aspectos político,
militar e econômico.

Em comum havia a língua, a religião, os usos e costumes. A cultura grega foi o elemento de união e
de identificação do antigo povo grego.

A confraternização geral entre os gregos era realizada nas festividades religiosas, que também envol-
viam competições esportivas e literárias.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

A Grécia foi também o berço da democracia, já que as medidas administrativas eram discutidas e
aprovadas pelo conjunto de cidadãos.

Origem

Os primeiros habitantes da Grécia foram os pelágios, ou pelasgos, que ocupavam o litoral e estavam
organizados em comunidades. Eles acabaram assimilados por povos indo-europeus que invadiram a
península Balcânica a partir de 2000 a.C, episódio que originou a formação do povo grego.

A divisão da história grega

Tradicionalmente, a história política da Grécia Antiga é dividida em cinco períodos, conforme pode-
mos ver abaixo:

Período Pré-Homérico: Do século XX ao século XII a.C. – Civilização creto-micênica

Período Homérico: Do século XII ao século VIII a.C. – Sistema gentílico

Período Arcaico: Do século VIII ao século V a.C. – Surgimento das Cidades-Estado como Esparta e
Atenas.

Período Clássico: Do século V ao século IV a. C. – Guerras de hegemonia

Período Helenístico: Do século IV ao século III a. C. – Domínio macedônico e intensos contatos com
o Oriente

Sociedade Grega

A sociedade grega estava dividida em cidadãos e não-cidadãos.

Os cidadãos, entre os quais havia pessoas muito ricas e outras mais humildes, desfrutavam de todos
os direitos políticos, participavam da vida pública e eram obrigados a pagar impostos. Em Atenas,
elevavam-se à categoria de cidadãos apenas os homens adultos filhos de país atenienses. Em outras
cidades, como Esparta, por exemplo, existia uma nobreza que tinha autoridade social e política.

A maioria da população da Grécia Antiga, entretanto, era de não-cidadãos, que não gozavam de di-
reitos políticos, a exemplo das mulheres, dos escravos e dos estrangeiros (metecos). Contudo, a situ-
ação variava:

Os estrangeiros, considerados livres, dedicavam-se principalmente ao comércio e ao artesanato. Pa-


gavam impostos e faziam parte do exército, mas não possuíam terras nem casas.

Os escravos eram propriedade de uma família, constituindo importante força de trabalho no serviço
doméstico e na agricultura. Por vezes eram prisioneiros de guerra ou filhos de escravos.

Os homens livres, cidadãos ou não, podiam se tomar soldados.

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ANTIGUIDADE ORIENTAL

Religião

Os gregos eram politeístas e adeptos do antropomorfismo, isto é, seus deuses eram representados
sob a forma humana em sua absoluta perfeição. De acordo com a mitologia, os deuses possuíam to-
das as qualidades e defeitos dos mortais e, por serem deuses, essas virtudes e defeitos eram tam-
bém em proporções divinas. Os deuses eram guerreiros violentos e vingativos, sujeitos ao ciúme, à
inveja, à soberba, ao amor e ao ódio.

A trindade máxima era composta por Zeus, senhor da Terra e do céu, Poseidon, senhor dos mares e
dos ventos, e Hades, senhor do mundo inferior e dos mortos.

O Monte Olimpo era considerado a morada dos deuses sob a presidência de Zeus, o deus mais im-
portante, o deus dos deuses.

Arquitetura

O estilo arquitetônico grego, pela sua harmonia, composição simétrica e elegância, tem servido de
modelo e de inspiração, atravessando tempo e distâncias.

O estilo jônico apresenta a coluna canelada, e o capitel levemente trabalhado.

O estilo coríntio apresenta o capitel mais ornamentado.

O estilo dórico se caracterizou por apresentar colunas simples e sóbrias com capitel liso.

Escultura

Os gregos alcançaram a perfeição, demonstrando grande conhecimento da anatomia humana e ani-


mal.

As esculturas também eram utilizadas para adornar os templos. Fídias, amigo de Péricles, foi o escul-
tor mais famoso, responsável pelas obras da Acrópole ateniense.

Pintura

Foi muito utilizada para decorar cerâmicas e retratava cenas religiosas, desportivas, militares e cotidi-
anas.

Teatro

Os teatros eram auditórios ao ar livre e o público se sentava em bancos de pedra. Os gregos eram
incentivados a frequentar o teatro, considerado parte essencial de sua educação.

Os Gregos Criaram Dois Gêneros: A Tragédia e a Comédia.

A tragédia era tida como a expressão mais nobre do teatro e significava “canto do bode”. Ela esmiu-
çava a natureza do mal, das contradições humanas, enfatizava as paixões humanas, mostrando o ho-
mem como joguete nas mãos dos deuses. Personagens divinos e humanos faziam parte das peças,
mostrando suas preferências e suas contradições.

A comédia satirizava a política e os costumes da época. As peças eram encenadas por atores que
utilizavam máscaras que identificavam o personagem como velho ou moço, homem ou mulher, feliz
ou triste. Diferentes máscaras permitiam ao ator interpretar vários papéis na peça.

Filosofia

No início, os mitos explicavam a origem do mundo e a realidade à sua volta, portanto tudo era conse-
quência da vontade e do capricho dos deuses.

Com o tempo, os gregos passaram a buscar explicações racionais para esses acontecimentos na
tentativa de compreender e explicar as coisas ao seu redor, nascendo, assim, a filosofia, isto é, o
“amor ao saber”. O apogeu da filosofia grega deu-se com Sócrates, Platão e Aristóteles.

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A IDADE MÉDIA

Europa medieval – História, mapa e feudalismo

A Europa Medieval se deu em um período onde a agricultura não se desenvolveu tanto quanto nas
épocas anteriores. Foi o momento das espadas e cavaleiros ascenderem. Contudo não se pode es-
quecer que também foi o período em que a Igreja Católica ditou as regras, com um poder de domi-
nação maior que os reis.

Mapa da Europa Medieval

O Surgimento e Formação

Depois que o Império Romano foi ruralizado e a sua estrutura formada com base no sistema de Colo-
nato, o continente europeu se viu entrando em um momento de grande influência do clero e dos se-
nhores feudais, que eram os herdeiros dos patrícios romanos. A sociedade feudal continha uma mis-
cigenação entre os povos romanos e germânicos.

Na política, os chefes da dinastia Merovíngia criaram um campo político de alianças e conquistas mili-
tares, possibilitando que Pepino, o Breve pudesse se tornar rei dos Francos e se aliar à Igreja Cató-
lica, criando os Estados Papais. Com o término dessa dinastia, Carlos Magno subiu ao trono no perí-
odo da Alta Idade Média (século V ao século XI). Na dinastia Carolíngia, as conquistas militares e po-
líticas foram muito boas em relação à suserania e a vassalagem. Foi então que a Igreja começou a
comandar as ações da população mais fortemente, ditando regras à sociedade em vários campos,
como na cultura, no lazer, na política e, ainda por cima, na administração dos feudos.

Feudalismo

O conjunto de práticas econômicas, sociais e políticas que vigoravam na Idade Média era o Feuda-
lismo. A economia, pode-se dizer que era agrária e de subsistência, utilizando de ferramentas rudi-
mentares. O comércio era feito por trocas, afinal o dinheiro era escasso e havia muita dificuldade para
ter equivalência monetária, algo que prejudicava os comerciantes de fecharem negócios. Já no
campo da política, os reis haviam perdido o posto de poder máximo para os senhores feudais, que
cuidavam dos feudos. Por esse motivo, pode se afirmar que o poder político na Idade Média era des-
centralizado.

A Sociedade da Europa Medieval

Pode-se dividir a sociedade da Europa Medieval em: clero, nobreza e demais povos. Conheça as ca-
racterísticas de cada um:

Clero: A camada mais alta, formada pelos religiosos. Eram muito influentes sobre a sociedade, di-
tando as regras e produzindo o conhecimento geral na Idade Média.

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Nobres: Pessoas que tinham títulos importantes, como Duques, Viscondes, Marqueses e Barões. Es-
tes, geralmente, possuíam as terras dos feudos.

Demais povos: Trabalhadores rurais, andarilhos, alfaiates, comerciantes, oficiais mecânicos, ferreiros,
ourives e servos compunham essa classe, que era a maior. Um servo era designado a ser servo para
toda a sua vida, eram submetidos a trabalhar incansavelmente para os seus senhores e não podiam
fazer nada para mudar essa condição, que era semelhante a escravatura.

Da Geopolítica Clássica à Geopolítica Pós-Moderna: Entre a Ruptura e a Continuidade

1. A Geopolítica como disciplina académico-científica e saber prático tem múltiplas histórias relevan-
tes, simultaneamente paralelas e concorrenciais, estando longe de ser um campo do conhecimento
unitário, ao contrário do que a palavra usada no singular sugere.

Face a esta multiplicidade de abordagens propomo-nos, como primeiro objetivo deste artigo, passar
em revista os traços fundamentais da (s) histórias Geopolítica (s) alemã e britânica da primeira me-
tade do século XX, pelo seu maior impacto sobre este campo do conhecimento.

Como segundo objectivo propomo-nos analisar em que medida a Geopolítica da primeira metade do
século XX (a Geopolítica clássica), que neste artigo designamos também por primeira vaga da Geo-
política, foi de facto morta ou continua a influênciar, de uma maneira directa ou indirecta, o pensa-
mento ocidental sobre as Relações Internacionais no mundo do século XXI. E, como terceiro e último
objectivo, vamos ainda tentar avaliar até que ponto o interesse acrescido que, a partir dos anos 70 do
século XX, surgiu relativamente a este campo do conhecimento e gerou aquilo que designamos por
segunda vaga da Geopolítica (nome sob o qual agrupamos uma pluralidade de abordagens, entre as
quais a pós-moderna), radica nas virtudes descritivas, explicativas, analíticas ou mesmo críticas da
Geopolítica, ou, pelo contrário, se estamos, apenas, perante mais um fenómeno de moda alimentado
artificialmente a partir dos meios académicos, políticos e jornalísticos.

2. Um primeiro aspecto relevante na análise da Geopolítica clássica é o da origem da própria palavra


Geopolítica. Embora haja divergências[1] quanto ao momento exacto em que esta foi utilizada pela
primeira vez, é consensual, no âmbito dos estudos académicos desta disciplina, que o neologismo foi
originalmente cunhado, no crepúsculo do século XIX, pelo sueco Rudolf Johan Kjellén, professor das
Universidades de Gotemburgo e Uppsala.

Independentemente das incertezas quanto à data da sua primeira utilização é fácil constatar que o
neologismo Geopolítica foi um produto directo do contexto histórico-político vivido por Kjellén, na tran-
sição do século XIX para o século XX. Nessa época, a Suécia estava profundamente dividida pelo de-
bate em torno da dissolução da união de Estados Súecia-Noruega, que datava de 1814, facto que
acabou por ocorrer em 1905.

O professor de Uppsala foi um forte opositor da independência da Noruega, tendo, para o efeito, redi-
gindo diversos manuscritos (entre os quais aquele em terá utilizado pela primeira vez a palavra Geo-
política, intitulado Inledning till Sveriges Geografi) e efectuado virulentas intervenções políticas contra
essa dissolução.

A receptividade ao discurso imperialista/conservador/autoritário e ao neologismo de Kjellén foi bas-


tante significativa, não só na Suécia, como entre o público de língua alemã (Alemanha e Áustria). Por
isso, as ideias de Kjellén rapidamente se tornaram populares no espaço cultural germânico, onde o
neologismo foi introduzido, tal como os seus trabalhos, pelo geógrafo austríaco Robert Sieger nos pri-
meiros anos do século XX. (Korinman, 1990: 349, nota 79).

Esta rápida germanização da Geopolítica deveu-se também ao facto do sueco Kjellén ter uma pro-
funda admiração pela Alemanha imperial e constituir, juntamente com o britânico Houston Stewart
Chamberlain e o francês Joseph-Arthur, conde de Gobineau, um famosíssimo trio não alemão super
germanófilo (Weigert, 1942: 275).

A explicação do significado do neologismo e do objecto deste novo saber foi feita por Kjellén na sua
obra mais importante, Staten som Lifsform (O Estado como forma de vida, 1916) redigida original-

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A IDADE MÉDIA

mente em sueco, mas rapidamente traduzida para alemão (Der Staat als Lebensform, com a 1ª edi-
ção em 1917). Nesta obra, a Geopolítica foi apresentada como a ciência do Estado enquanto orga-
nismo geográfico tal como este se manifesta no espaço sendo o Estado entendido como país, como
território, ou de uma maneira mais significativa como império.

Esta nova ciência tinha por objecto constante o Estado unificado e pretendia contribuir para o estudo
da sua natureza profunda, enquanto que a Geografia Política observava o planeta como habitat das
comunidades humanas em geral. (Korinman, 1990: 152).

Assim, para Kjellén, a Geopolítica não era um neologismo inócuo de agradável ressonância erudita,
como afirmavam os seus críticos e detractores. Tratava-se, antes, de um neologismo que designava
uma verdadeira ciência autónoma, com um objecto novo, diferente da Politische Geographie(Geogra-
fia Política, 1897), criada pelo mais importante geógrafo germânico da segunda metade do século XIX
– Friedrich Ratzel[2] – detentor da cátedra de Geografia (1886) na prestigiada Universidade de Leip-
zig e um dos mais influentes geógrafos da Europa novecentista

3. Com ligação mais ou menos directa à prestigiada tradição novecentista alemã de estudos geográfi-
cos e à tradição histórica-nacionalista de Leopold von Ranke e Heinrich von Treitschke, surgiu na Ale-
manha, na segunda década do século XX, aquilo que ficou conhecido como a Escola alemã da Geo-
política ou Escola de Munique. A sua principal publicação divulgadora foi a Zeitschrift für Geopoli-
tik[3] (Revista de Geopolítica), fundada em 1924 e destinada preferencialmente a geógrafos profissio-
nais, mas visando também a divulgação dos seus conteúdos junto de não especialistas, diplomatas,
homens políticos, jornalistas e industriais.

A personalidade central da Zeitschrift für Geopolitik foi Karl Haushofer, que reunia as características
de um militar e de um académico: para além dos conhecimentos de estratégia militar inerentes à sua
formação de alta patente e ao exercício de docência na academia militar, era detentor de significati-
vas credenciais académicas.

Os seus trabalhos académicos, livros e artigos publicados, tornaram-se rapidamente populares na


Alemanha e tiveram mesmo algum reconhecimento internacional fora do mundo germânico. Note-se
que para o seu sucesso contribuiu muito a sua experiência no exercício de cargos militares e o vasto
conhecimento prático das imensas regiões da Ásia e do Pacífico, especialmente do Japão, onde de-
sempenhou funções como adido militar (1908-1910).

Para a compreensão dos trabalhos de Haushofer e da Zeitschrift für Geopolitik é importante notar que
estes se desenvolveram num período político, económico e social extremente conturbado da história
da Alemanha da primeira metade do século XX, em que era grande a difusão entre a população de
um sentimento de decadência.

A este facto temos de juntar a humilhação sofrida pela derrota militar na I Guerra Mundial e a incapa-
cidade do regime democrático instituído pela República de Weimar (1918-1933) – que sucedeu à re-
núncia do Kaiser Wilhelm II e ao fim da Alemanha imperial do II reich (1871-1918) – em resolver os
problemas sociais e territoriais.

E temos de adicionar também a subversão do regime democrático de Weimar e a sua deposição pelo
partido nazi de Adolf Hitler, com a fundação do III Reich (1933-1945), estreitamente associada ao de-
sencadear dos trágicos acontecimentos da II Guerra Mundial.

É ainda importante notar que os trabalhos de Haushofer surgiram no contexto de um grande de-
bate[4] que, nos anos 1924-1925, estalou entre a comunidade de geógrafos alemães e que opôs os
defensores da Geografia Política clássica, na linha de Ratzel, aos defensores de uma nova Geopolí-
tica. Karl Haushofer foi um dos principais protagonistas desse debate.

Num artigo que ficou famoso nos anais desta polémica, precisamente intitulado Politische Erdkunde
und Geopolitik (Geografia Política e Geopolítica, 1925), começou por sustentar a necessidade de di-
fundir o conhecimento geopolítico, como saber estratégico, entre a elite dirigente alemã (políticos, di-
plomatas e militares) e a população em geral. E, para isso, era necessário romper com a tradição ge-
ográfica anterior, pois, a disciplina tinha-se constituído de uma maneira errada, sobre o dualismo Ge-
ografia Física/Geografia Humana, sendo o trabalho de Ratzel, embora indiscutívelmente importante,

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A IDADE MÉDIA

já ultrapassado. Então, traçou uma distinção entre a Geografia Política, que estuda a distribuição do
poder estatal à superfície dos continentes e as condições (solo, configuração, clima e recursos) nas
quais este se exerce, e a Geopolítica que tem por objecto a actividade política num espaço natural.
(Korinman, 1990: 155).

Para além desta tomada de posição no debate que opôs geógrafos a geopolíticos podem-se encon-
trar, no âmbito dos vastíssimos trabalhos de Haushofer na Zeitschrift für Geopolitik, várias ideias e
teses geopolíticas importantes, algumas das quais vamos analisar mais de perto, pela sua relevância,
quer para a compreensão do seu pensamento, quer pelas suas implicações políticas na Alemanha do
período entre as duas guerras mundiais.

A primeira foi formulada em Grenzen in iher Geographischen und Politischen Bedeutung (As Frontei-
ras e o seu Significado Geográfico e Político, 1927), onde exortou os seus compatriotas a aprofunda-
rem o conhecimento sobre as fronteiras nacionais, defendendo que estas são factos biogeográficos, e
que por isso não se podem compreender, nem justificar, apenas por critérios jurídicos.

Num outro trabalho intitulado Geopolitik der Pan-Ideen (Geopolítica das Ideias Continentalistas,
1931), foi desenvolvido aquilo que ficou conhecido como tese das Pan-regiões.

Nesta tese geopolítica foram identificadas quatro grandes regiões mundiais: a Euro-África (abran-
gendo toda a Europa, o Médio-Oriente e todo o continente africano); a Pan-Rússia (abrangendo a ge-
neralidade da ex-União Soviética, o sub-continente indiano e o leste do Irão); a Área de Co-prosperi-
dade da grande Ásia (abrangendo toda a área bordejante da Índa e sudeste asiático, o Japão, as Fili-
pinas, a Indonésia, a Austrália e generalidade das ilhas do Pacífico); e a Pan-América (onde se inse-
ria todo o território desde o Alaska à Patagónia e algumas ilhas próximas do Atlântico e do Pacífico).

Estreitamente ligada com a tese das Pan-regiões encontra-se a ideia dos Estados-directores (i. e. de
um directório de potências), que consistia na liderança de cada uma dessas áreas por um Estado
forte, dinâmico, com grande população e recursos, dotado de altos padrões económicos e industriais,
bem como de uma posição geográfica que lhe permitisse exercer um efectivo domínio sobre os res-
tantes. Os Estados melhor posicionados para exercer essa liderança seriam, segundo Haushofer, a
Alemanha (Euro-África), a Rússia (Pan-Rússia), o Japão (Área de Co-prosperidade da grande Ásia) e
os EUA (Pan-América).

5. Se é associado à história da geopolítica sueca-alemã que encontramos a origem do conceito e os


mais significativos esforços de teorização (e justificação) de uma disciplina nova é, por sua vez, no
âmbito da Geopolitics (i. e. da geopolítica britânica) que encontramos o que habitualmente é conside-
rado principal texto fundador da disciplina: The Geographical Pivot of History, tema da conferência
proferida pelo Honourable Sir Halford John Mackinder, em Londres, na Sociedade Real de Geografia,
a 21 de Janeiro de 1904. O seu autor foi um notável geógrafo e académico da sua época, professor
de Geografia em Oxford (1987-1905), director do Colégio Universitário de Reading (1892-1903), di-
rector da London School of Economics and Political Sciences (1903-1908) e um explorador famoso
do continente africano, sendo o primeiro europeu a escalar o monte Quénia até ao seu cume (1899).

Embora The Geographical Pivot of History de Mackinder seja generalizadamente considerado o texto
fundador do discurso geopolítico moderno, não deixa de ser curioso notar no mesmo a ausência total
da palavra Geopolítica.

Essa ausência pode-se também constatar em todos os outros trabalhos importantes do geógrafo bri-
tânico. Tudo indica que essa ausência foi deliberada, e que não se deve propriamente a um desco-
nhecimento dos trabalhos de Kjellén e dos seus seguidores alemães, mas a uma premeditada atitude
patriótica (compreensível se atendermos às suas posições políticas anteriormente expostas), de rejei-
cção do neologismo devido à sua conotação germânica.

Voltando à análise do texto fundador de Mackinder, verifica-se que este passou em revista, de uma
maneira sintética e abrangente, a história universal, através de uma grelha de leitura geográfica, sus-
tentando que foi nas imensas planícies asiáticas que ocorreram os acontecimentos decisivos da his-
tória universal, e que esta zona do mundo teve, milenarmente, uma influência decisiva no rumo dos
acontecimentos mundiais. Face a esta constatação histórico-geográfica propôs um conceito analítico
original – a área pivot (1904) – cuja designação foi posteriormente alterada para Heartland (1919),

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através da adopção da metáfora do coração da terra, situado no continente Euro-Asiático, e coinci-


dindo, grosso modo, com a ex-URSS, também já utilizada por outro geógrafo britânico, James
Fairgrieve, em Geography & World Power (1915).

O trabalho de 1904 de Mackinder pode ser essencialmente interpretado como uma reacção britânica
à influência das teses do almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan sobre a apologia do poder
marítimo (que este considerava serem falaciosas para os britânicos), a mais famosa das quais formu-
lada em The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890). O grande impacto dos traba-
lhos de Mahan sobre os seus contemporâneos pode facilmente constatar-se na rival Alemanha onde,
por exemplo, o Kaiser Wilhelm II determinou que os livros Mahan fossem leitura obrigatória pelos ofi-
ciais da sua marinha imperial…

Por sua vez, em Democratic Ideals and Reality (1919) Mackinder fez notar que, apesar da importân-
cia dos ideais democráticos, não se podia subestimar o impacto do pensamento estratégico de gran-
des organizadores, como Napoleão Bonaparte e Otto von Bismarck.

Recorrendo a uma metáfora cheia de simbolismo lembrou aos dirigentes dos Estados vencedores da
I Guerra Mundial que, conforme um general romano instruíra um escravo para segredar-lhe ao ouvido
que era mortal (de modo a que nos momentos de triunfo militar não perdesse a noção da realidade),
também estes deveriam ter alguém a lembrar-lhes repetidamente: who rules East Europe commands
the Heartland; who rules the Heartland commands the World-Island; who rules the World-island com-
mands the World (quem controlar a Europa de Leste domina o Heartland; quem controlar o Hear-
tland dominará a Ilha-Mundial; quem controlar a Ilha-Mundial dominará o mundo). (Mackinder, 1919
[1942]: 150].

De facto, Mackinder, com a publicação de Democratic Ideals and Reality, pretendeu intervir nesse de-
bate, chamando à atenção dos principais dirigentes políticos da aliança militar vencedora – Lloyd Ge-
orge (Reino Unido), Woodrow Wilson (EUA) e Georges Clemenceau (França) – para a necessidade
premente de organizar a Europa de Leste, mantendo-a fora do controlo de uma única potência terres-
tre, por força das específicas características penínsulares da Europa Ocidental.

Assim, aquilo que designou como um cordão de buffer-states (Estados-tampão), deveria separar a
Alemanha da Rússia, evitando que uma só potência dominasse o Heartland. (Mackinder, 1919 [1942]:
158).

Assinalável é o facto de este trabalho do geográfo britânico ser não só um marco importante do pen-
samento realista-político, em defesa da tradicional balance of powers (balança de poderes), como
constituir uma interessante antecipação de muitos dos argumentos usados nos virulentos ataques a
que foi sujeito o idealismo consubstanciado na Sociedade das Nações (instituída precisamente em
1919), ao longo da segunda metade dos anos 30

6.Não é possível compreender as imagens profundamente negativas e diabolizadas (criadas sobre-


tudo no mundo anglo-saxónico e especialmente nos EUA), em torno da Geopolitik e de Karl Hausho-
fer, se não se tiver em conta o enorme impacto (e apreensão) gerado junto do público norte-ameri-
cano, pelos sucessos da wermacht (o exército da Alemanha nazi) na II Guerra Mundial, durante a
sua blitzkrieg (guerra relâmpago) que levou à conquista de quase toda a Europa, nos anos 1939-
1941.

Nem é possível compreender também essas imagens, senão tivermos em consideração o envolvi-
mento directo dos EUA nesse conflito, a partir do ataque do Japão à base naval de Pearl Harbour,
nas ilhas do Hawai, no Oceano Pacífico, a 8 de Dezembro de 1941.

No processo de descredibilização e diabolização da Geopolitik o ano de 1942 foi particularmente im-


portante tendo sido, durante o mesmo, publicados diversos trabalhos influentes, todos da autoria de
emigrantes europeus da Mittel Europa (Europa Central), que se radicaram nos EUA. Entre esses tra-
balhos destacam-se os de Hans Weigert[6] intitulado Generals and Geographers: The Twilight of Ge-
opolitics (Generais e Geógrafos: O Crepúsculo da Geopolítica) e o de Robert Strausz-Hupé, Geopoli-
tics: The struggle for Space and Power (Geopolítica: A luta pelo Espaço e pelo Poder), que vamos
analisar sinteticamente e apenas nos seus traços essenciais.

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A IDADE MÉDIA

Paralelamente ao processo de descredibilização e de satanização que se desenvolvia nos media-


norte-americanos e na literatura do tipo middle-brow, a Geopolitik foi simultaneamente objecto de um
processo de descredibilização mais profundo, especificamente a um nível académico-científico.
Nesse processo, destacou-se o mais célebre e influente geógrafo norte-americano da primeira me-
tade do século XX, Isaiah Bowman, director da American Geographical Society (1915-1935), conse-
lheiro-chefe para as questões territoriais do presidente Woodrow Wilson, na Conferência de paz de
Versalhes (1919), membro fundador e presidente (1931-1934) do Council on Foreign Relations que
esteve na origem da fundação da revista norte-americana, Foreign Affairs (1922), presidente da Uni-
versidade John Hopkins (1935-1945) e conselheiro do departamento de Estado para as questões ter-
ritoriais durante a II Guerra Mundial.

Isaiah Bowman começou a ser conhecido do grande público, pela organização de expedições patroci-
nadas pela American Geographical Society e posterior publicação dos seus relatos, sendo a mais im-
portante aos Andes, ao Sul do Perú, em 1915 (numa semelhança notória com o percurso de Mackin-
der).

Mas foi sobretudo o trabalho intitulado The New World: Problems in Political Geography (O Novo
Mundo: Problemas de Geografia Política, 1921), onde descreveu e analisou os impérios, os Estados
e as colónias do mundo, na sequência dos arranjos territoriais saídos da I Guerra Mundial, que lhe
deu maior notoriedade.

Por sua vez, com os desenvolvimentos da II Guerra Mundial e a crescente atenção prestada pe-
los media à Geopolítica aumentou a notoriedade de Bowman. No discurso público norte-americano
era referido correntemente como o nosso geopolítico; e, simultaneamente, gerou-se nos media uma
tendência espontânea de o qualificar como o Haushofer americano o que, por razões patrióticas e
académicas compreensíveis, irritou o geógrafo.

E, por reacção a esta ligação perigosa, Isaiah Bowman publicou um influente artigo na Geograghical
Revue, em Outubro de 1942, intituladoGeography versus Geopolitics, onde afirmava que a Geopolí-
tica representa uma visão distorcida das relações históricas, políticas e geográficas do mundo e das
suas partes… os seus argumentos tal como são desenvolvidos na Alemanha servem apenas para
sustentar o caso da agressão alemã (Isaiah Bowman citado por Ó Tuathail, 1996: 154).

Este esforço de demarcação de Isaiah Bowman face à Geopolítica (i.e. à Geopolitik) foi secundado
em publicações sobre Política Internacional dirigidas a públicos selectivos, como a Foreign Af-
fairs,através da contraposição de teses geopolíticas boas, onde se evitava o uso da palavra proscrita.
Nesse mesmo ano de 1942 surgiram ainda dois importantes trabalhos da autoria de um norte-ameri-
cano de origem holandesa, Nicholas John Spykman, ex-jornalista (1913-1920) e professor de Rela-
ções Internacionais na Universidade de Yale desde 1928, (onde foi também director do Instituto de
Relações Internacionais.

O primeiro, intitulado The America´s Strategy in World Politics. The United States and the Balance of
Power (A Estratégia Americana na Política Mundial. Os Estados Unidos e Balança de Poder, 1942).
Para além de ter recebido comentários elogiosos de Isaiah Bowman, foi qualificado pelo seu editor,
a Harcourt, Brace and Company, como a primeira análise geopolítica abrangente da posição dos Es-
tados Unidos no mundo feita pela maior autoridade norte-americana em geopolítica (apresentação de
Spykman na capa da edição de 1942).

Quanto ao segundo, The Geography of the Peace (A Geografia da Paz, 1944), redigido em 1943 mas
publicado postumamente, marcou decisivamente a política externa dos EUA no pós-II Guerra Mun-
dial, com o conceito de rimland (uma zona entre os poderes marítimo e terrestre, que abrangia parte
da Europa Ocidental, o Médio Oriente, a Turquia, o Irão, a Índia, o Paquistão, a China, a Coreia, o Ja-
pão, o Sudoeste Asiático e a costa do pacífico da Rússia) uma área geoestratégica determinante para
a segurança dos EUA no mundo.

É neste contexto politicamente tumultuoso e de separação de águas entre uma geopolítica boa e uma
geopolítica má que tem de ser entendida a afirmação do professor da Universidade de Chicago, Hans
J. Morgenthau, de que a Geopolítica é uma pseudociência (1948 [1997]: 178).

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O que Morgenthau, tal como Bowman, quis de facto qualificar como uma pseudociência não foi geo-
política (entendida como o saber geopolítico em geral), mas, apenas, uma determinada visão geopolí-
tica particular, a da Geopolitik (i.e. a geopolítica alemã-nazi).

Certamente que nem Bowman, nem Morgenthau, pretendiam incluir nas suas críticas os trabalhos ge-
opolíticos do britânico Mackinder (que sempre evitou usar a palavra Geopolítica…) nem os do seu
compatriota Spykman que, aliás, se inserem perfeitamente na sua visão realista e anglo-saxónica das
Relações Internacionais.

Mas, o esforço empreendido pelos meios académico-científicos norte-americanos de separação de


águas, entre uma Geopolítica boa (não designada por geopolítica…) e uma Geopolítica má não foi
em vão: o uso da palavra Geopolítica foi praticamente banido durante três décadas, encerrando-se,
assim, aquilo que parafraseando um conhecido título de Alvin Toffler, podemos designar como a pri-
meira vaga da Geopolítica.

7. Foi só a partir dos anos 70 do século XX que ocorreu a (re) entrada em força da palavra Geopolí-
tica no léxico académico-político e dos mass media, que está na génese da segunda vaga. Essa (re)
entrada resultou essencialmente da conjugação de duas circunstâncias: um maior distancimento tem-
poral face à II Guerra Mundial e à Alemanha nazi e o aparecimento de conflitos que não encaixavam
na lógica dominante da confrontação ideológica (por exemplo, o conflito entre o Vientame e o Cambo-
dja, no final anos 70, ocorrido entre dois Estados que perfilhavam uma similar ideologia socialista-co-
munista).

Mas, se este interesse pelo saber geopolítico clássico retirou, progressivamente, a palavra Geopolí-
tica do ostracismo, o facto é que também acabou por transformá-la numa palavra de moda, o que
acarreta múltiplas dificuldades e ambiguidades. A este propósito, e tal como já fizera notar com al-
guma ironia Robert Harkavy, atente-se na seguinte apreciação crítica que Daniel Deudney (1997: 93)
faz sobre a utilização indiscriminada da palavra:

Few words in the study of world politics are widely used and vaguely defined as the term geopolitics.
As Robert Harkavy has observed, the term geopolitics has come to be used in such a variety of con-
texts that it is no longer clear just what it means… It has come to mean almost everything, and there-
fore, perhaps almost nothing.

Como todas as palavras de moda (veja-se por exemplo o caso da globalização) tende a ser usado de
uma maneira livre e indiscriminada, o que não só dá origem a confusões conceptuais, como lhe pode
retirar alcance analítico, no âmbito dos estudos académico-científicos da disciplina. Voltaremos a este
aspecto na parte final do nosso artigo. Para já, vamos deter-nos na análise aprofundada das circuns-
tâncias e vias pelas quais a palavra e o saber geopolítico foi (re) introduzido.

No âmbito processo de (re) introdução académica da plavra Geopolítica, o geógrafo francês Yves La-
coste, e a revista de Geografia e Geopolítica Hérodote (1976), ocupam normalmente um lugar de
destaque.

Um primeiro passo na direcção da Geopolítica foi dado por Yves Lacoste, professor de Geografia na
célebre Universidade experimental de Vincennes (actual Paris VIII), com a publicação do muito aplau-
dido La Géographie ça sert d´abord à faire la guerre (A Geografia, isso serve para fazer a guerra,
1976), um trabalho escrito com a intenção de provocar uma ruptura com a tradição geográfica fran-
cesa, essencialmente herdeira da Geografia descritiva de Paul Vidal de la Blanche. Um segundo
passo mais explícito foi dado com a incorporação da própria palavra Geopolítica, no subtítulo do Hé-
rodote, que passou também a designar-se como Revue de Géographie et Géopolitique (1983). Um
terceiro passo foi a edição de um trabalho colectivo de fundo de análise geopolítica: o Dictionnaire de
Géopolitique (1993).

Paralelamente aos trabalhos de Yves Lacoste e do Hérodote podem também destacar-se os de Mi-
chel Korinman sobre a Geopolitik, entre os quais de destaca o intitulado Quand l´Allemagne pensait le
monde. Grandeur et décadence d´une Géopolitique (Quando a Alemanha pensava o mundo. Grandio-
sidade e decadência de uma Geopolítica,1990); o do general francês Pierre-Marie Gallois, o principal
teorizador da força nuclear francesa criada nos anos 60 por decisão do general de Gaulle, intitu-
lado Géopolitique: les voies de la puissance (Geopolítica: as vias da potência, 1990); o de um outro

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importante geógrafo francês, o professor da Sorbonne (Paris I), Paul Claval, com Géopolitique et Gé-
ostratégie (Geopolítica e Geoestratégia,1994); o de François Thual, director-adjunto do Institut de Re-
lations Internationales et Stratégiques (IRIS), intitulado Méthodes de la Géopolitique. Apprendre à dé-
chiffrer la realité (Métodos de Geopolítica: Aprender a decifrar a realidade, 1996); e o investigador
do Institut International d’Études Stratégiques (IIES) e da Universidade de Paris II, Alexandre Del
Valle, sugestivamente intitulado Guerres contre l ´Europe (Guerras contra a Europa, 2000).

O sucesso das publicações francesas e em especial da revista Hérodote, estimulou o aparecimento


de outras publicações sobre geopolítica em diversos países europeus.

O caso mais evidente é o de Itália, onde no início dos anos 90, surgiu a Limes – Rivista Italiana di Ge-
opolitica (1993), uma publicação que arrancou com o apoio e colaboração de alguns elementos da
equipa redactorial[9] do Hérodote.

Paralelamente aos esforços europeus, especialmente franceses, de recuperação da Geopolítica, sur-


giram nos EUA movimentos que convergiram no processo de (re) entrada em força da palavra Geo-
política no léxico académico-político e dos mass media. Neste contexto, destaca-se a publicação, na
década de 70, do importante trabalho do estratega anglo-americano Colin S. Gray, intitulado The Ge-
opolitics of Nuclear Era. Heartlands, Rimlands and the Technological Revolution(1977), seguido de
um outro, já em meados dos anos 80, intitulado Maritime Strategy, Geopolitics and the Defence of the
West (1986).

Mas foi uma personalidade emblemática do mundo académico e político norte-americano – o ex-se-
cretário de Estado da administração Nixon, Henry Kissinger – quem deu o impulso mais importante
na (re) introdução da Geopolítica, ao utilizar a palavra, durante os anos 70, nas suas análises sobre
diversos conflitos internacionais, associando-a às virtudes do realismo político, do qual é um dos de-
fensores mais famosos.

Com o final da Guerra Fria e o desaparecimento da União Soviética (1989-1991), assistiu-se à multi-
plicação de trabalhos e artigos de análise geopolítica, nos EUA. Também aí surgiu um dicionário,
o Dictionary of Geopolitics, editado por John Ó Loughlin (1994), bem como importantes trabalhos de
teorização.

Entre estes destacam-se o de Samuel P. Huntington The Clash of Civilizations. Remaking of World
Order (O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, 1993-1996); o do ex-conselheiro
do presidente norte-americano James Carter, Zbigniew Brezinski, intitulado The Grand Chessbo-
ard (O Grande Jogo, 1997).

É importante notar que a segunda vaga da Geopolítica não surgiu apenas pela mãos da corrente rea-
lista norte-americana das Relações Internacionais, a qual, aliás, nunca deixou propriamente
cair[10] as análises da geopolítica clássica (como comprovam, por exemplo, os trabalhos do geó-
grafo/geopolítico Saul B.

Cohen, nomeadamente através do célebre Geography and Politics in a World Divided Geografia e Po-
lítica num Mundo Dividido, 1963) apenas se limitando, conforme já assinalámos, a banir a palavra e a
repudiar as teses germânicas. Na América do Norte, outras vias marcaram o regresso da disciplina,
sobretudo nas abordagens de cariz mais académico.

Este é o caso da chamada Critical Geopolitics (Geopolítica Crítica), protagonizada, entre outros, pelo
irlandês Gearóid Ó Tuathail, professor de Geografia na Virginia Tech dos EUA, pelo canadiano Simon
Dolby e também pelo britânico Paul Routledge, juntamente com os quais editou uma interessante
compilação dos principais textos de geopolítica intitulada The Geopolitics Reader (O Leitor da Geopo-
lítica, 1998).

Esta corrente filia-se num movimento académico que ganhou força durante os anos 80 e 90 no âm-
bito das Ciências Sociais e Humanas e que por simplificação podemos designar por pós-modernismo.
Tem o que é provavelmente o seu trabalho mais emblemático em Critical Geopolitics: The Politics of
Writing Global Space (Geopolítica Crítica: A Política de Escrever o Espaço Global1996), do já referido
Gearóid Ó Tuathail. Outros contributos relevantes para esta abordagem, embora mais na perspectiva

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A IDADE MÉDIA

da chamada Economia Política Internacional (EPI), podem ser encontrados no trabalho de John Ag-
new e Stuart Corbridge intitulado, Mastering Space: Hegemony, Territory and International Political
Economy (Dominando o Espaço: Hegemonia, Território e Economia Política Internacional, 1995).

7. Face ao aumento do interesse pela Geopolítica que está na origem de uma segunda vaga de livros
e artigos académicos e de referências e análises nos mass media, uma questão que inevitavelmente
se coloca é a de saber até que ponto os desenvolvimentos ocorridos nas últimas décadas do século
XX surgiram em ruptura ou em continuidade, com a tradição da Geopolítica clássica da primeira me-
tade do século.

A resposta a esta questão não é fácil, dada a multiplicidade de abordagens que marcam este campo
do conhecimento. Por isso, e sem pretendermos ser exaustivos, vamos passar previamente em re-
vista alguns dos principais desenvolvimentos da disciplina, para depois delinear uma resposta consis-
tente.

Em primeiro lugar, parece-nos bastante evidente que a Geopolítica clássica procurou afirmar-se como
uma nova ciência através de um processo que podemos designar como imitatio scientiae[12](i.e. pro-
curou constituir-se como ciência por cânones positivistas, mais ou menos próximos do modelo das
chamadas Ciências Naturais).

Este facto pode detectar-se na sua preocupação de captar a realidade geográfico-política tal como
ela é (i. e. na sua preocupação de uma objectividade realista), na separação das análises geográfico-
polítcas e das questões éticas por elas levantadas, e no seu esforço de estabelecer leis e efectuar
previsões, entre outros aspectos.

Sintomaticamente, este esforço de aproximação ao modelo das Ciências Naturais ressalta, de al-
guma maneira, da já referida citação de Democratic Ideals and Reality, de Halford Mackinder: quem
controlar a Europa de Leste domina o Heartland; quem controlar o Heartland dominará a Ilha-Mundial;
quem controlar a Ilha-Mundial dominará o mundo, que é a mais famosa de toda a Geopolítica, e que,
talvez por isso mesmo, foi quase elevada ao estatuto de lei científica em muitos dos textos que a refe-
rem simplificadamente (ou simplisticamente…).

Este tipo de construções científicas é hoje normalmente merecedor de um certo distanciamento, em


graus bastante variáveis (menor nas análises realistas ou neo-realistas das Relações Internacionais e
bastante mais elevado nas chamadas abordagens pós-positivistae) e também por razões substancial-
mente diferentes.

Por exemplo, para François Thual (1996: 8) a Geopolítica clássica, com a sua característica oposição
mar/terra e o seu determinismo geográfico revela uma atitude intelectual e uma forma de conheci-
mento que pode ser qualificada como espécie de Geografia metafísica. Já para Gearóid Ó Tuathail
(1996b: 5) a Geopolítica clássica deve mercer uma atitude de cepticismo e descrença generalizado,
sendo considerada uma narrativa no sentido que Jean-François Lyotard deu ao termo (1979), (qualifi-
cação que, aliás, serve também para as Ciências Naturais, no pós-modernismo mais radical):

Geopolitics can be thought of as a regime of power/knowledge which produced international politics as


an objective global spatial drama, a ceaselless global struggle between pre-determinated geograph-
ical entities, and a vision of territorial states dominating global space […] Its essentialist reading of in-
ternational politics reveal the hubris of Western scientific myths about timeless essences and deter-
mining universal causation. Its naturalization of an idealized version of the European state system,
projecting this upon the world, and representing global politics as balance-of-power politics, reveal the
operation of an ethnocentric grand narrative wherein history has realized itself as European concep-
tions alone. In sum, modern geopolitics is a condensation of Western epistemological and ontological
hubris, an imagination of the world from an imperial point of view.

Assim, podemos afirmar que a segunda vaga da Geopolítica é, em geral, menos ambiciosa nas suas
pretensões científicas, abandonando, em graus variáveis, os processos de imitatio scientiae, e mais
cuidadosa com a sua fundamentação epistemológica. Estas características podem também encon-
trar-se em François Thual (1996: 10), quando este em Méthodes de la Géopolitique, começou por jus-
tificar a pertinência da Geopolítica por referência à fenomenologia de Edmund Husserl, sustentando

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A IDADE MÉDIA

que, diferentemente dos fenómenos físicos, os fenómenos políticos são caracterizados pela intencio-
nalidade. E que dessa especificidade resulta a necessidade de elaboração de um método que per-
mita a interpretação dos factos da política internacional. Esta metodologia, que assenta no conceito
de representação oriundo da Psicologia Social, foi originalmente proposta por Yves Lacoste no Héro-
dote e é explicada por este autor nas considerações teóricas efectuados no preâmbulo do Diction-
naire de Géopolitique (1993 [1995]: 29):

[La] Géopolitique, en tant que démarche scientifique, a pour objet l étude des rivalités territoriales de
puvoirs et leurs répercussions dans l´opinion, et puisque c´est par l´intermédiaire d´un certain nombre
de répresentations que l ón peut comprendre l ínterêt stratégique ou la valeur symbolique de ces ter-
ritoires qui sont enjeux ou espaces de rivalités ou d’affrontements […].

Deste modo, e uma vez que a principal tarefa da Geopolítica é descobrir essa intencionalidade, esta
deve recorrer a uma perspectiva pluridisciplinar, baseada essencialmente nos ensinamentos da Histó-
ria e da Psicologia Social e em menor grau da Psicanálise.

Nesta abordagem geopolítica os chamados conflitos de identidade surgem como uma das temáticas
centrais, cuja análise consiste em traçar as diferentes representações que os povos ou colectividades
fazem de si próprios e dos outros, sobre o martírio e o sofrimento, ou sobre a sobrevivência heróica,
baseada em mitos e contra-mitos, que transcendem interesses económicos e geopolíticos e estão na
origem de muitos conflitos violentos mais ou menos insolúveis.

Uma das formas mais complexas dos conflitos de identidade é aquela que François Thual designa
por conflito de anterioridade, que incide sobre um território ou parcela de um território, que é conside-
rado inalienável e um imperativo à perpetuação de uma determinada colectividade ou nação – é caso
da oposição servo-albanesa no Kosovo; é o caso do diferendo entre Hungria e a Roménia sobre a
Transilvânia; e é ainda caso da rivalidade entre arménios e azeris sobre o Alto-Karabakh.

A análise de François Thual sugere que a segunda vaga da Geopolítica tem uma temática preferen-
cial nas questões culturais-civilizacionais e de identidade colectiva. De facto, no pós-Guerra Fria, os
trabalhos com mais impacto académico e mediático incidiram sobre esta temática. É nomeadamente
o caso do já referido trabalho do professor de Harvard, Samuel P. Huntington O Choque das Civiliza-
ções… (1996); é ainda o caso do também já referido trabalho do investigador da Universidade de Pa-
ris II, Alexandre del Valle, Guerras contra a Europa (2000).

O aspecto mais interessante destes trabalhos é que estes foram significativamente influenciados pela
Geopolítica clássica, nas suas diferentes versões, sendo duas variantes do mesmo raciocínio de tipo
realista-geopolítico (e geoestratégico), agora enriquecido com argumentos de tipo cultural-civilizacio-
nal. No caso de Samuel P. Huntington é fácil verificar que este faz, implicitamente, a apologia da po-
tência marítima na tradição anglo-americana de Mackinder/Spykman e das talassocracias, como po-
tências do bem, para a defesa do Ocidente (entendido como Europa católica/protestante + EUA/Ca-
nadá/Austrália/Nova Zelândia = Ocidente).

Nesta construção os EUA são um dos pilares do conceito de nós, o Ocidente; a Europa ortodoxa, in-
cluindo a Rússia são o outro; e os Turco-muçulmanos são também o outro. Todas as civilizações não
ocidentais são potenciais inimigos, sendo particularmente perigosa uma coligação sino-islamita contra
o Ocidente.

Por sua vez, Alexandre del Valle faz uma certa apologia das potências terrestres ou epirocracias, na
versão francesa, (agora apresentadas como potências do bem…), recuperando a ideia da aliança
franco-russa do final século XIX (quando a França se sentiu cercada pela Alemanha após a sua unifi-
cação de 1871), para a defesa da Europa. Esta é entendida como a Europa Católica/Protestante/Or-
todoxa incluindo a Rússia = Grande Europa ou Europa das Pátrias da tradição gaulista.

Nesta construção os EUA são o outro do qual é preciso desconfiança e distanciamento; e os Turco-
muçulmanos são não só o outro como o principal inimigo que quer conquistar a Europa pela ji-
had (guerra santa), baseados na crença muçulmana de que Alá lhes prometeu a Europa como Das ul
Harb (terra dos crentes). Mas a contra-teoria[ de Alexandre del Valle é mais do que uma reacção à
tese geopolítica-civilizacional defendida por Samuel P. Huntington, em grande parte baseada na Geo-

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A IDADE MÉDIA

política clássica de tipo anglo-saxónico. Ela é sobretudo uma rejeição francesa do pensamento geo-
político norte-americano, na versão apresentada por Zbigniew Brezinski em The Grand Chessbo-
ard (1997), no qual foi analisada a complexa teia de interesses geopolíticos dos EUA e a sua rede de
alianças geoestratégicas, especialmente na Ásia central pós-soviética.

E essa análise não foi particularmente abonatória para os europeus, que aparecem retratados com
um estatuto de menoridade político-militar e designados pejorativamente como vassalos.

Nem todas as correntes que atualmente marcam, ou, pelo menos, influenciam a disciplina, partilham
da opinião que a Geopolítica (re) entrou em força no pós-Guerra Fria. É o caso do conhecido estra-
tega militar norte-americano, Edward N. Luttwak, que, num artigo intitulado From Geopolitics to Geoe-
conomics (Da Geopolítica à Geoeconomia, 1990), publicado na revista norte-americana The National
Interest, defendeu que o final da Guerra Fria deu origem à Geoeconomia descrita como uma nova
versão da antiga rivalidade entre os Estados, que surgiu em substituição da Geopolítica.

Para Luttwak, a Geoeconomia é o principal factor explicativo das relações internacionais do pós-
Guerra Fria, entre o mundo capitalista desenvolvido, devido à perda de importância do tradicional po-
der militar e da diplomacia clássica. A excepção continuam a ser as zonas conflituais da periferia sub-
desenvolvida, onde a diplomacia e a guerra continuam a ser tão relevantes quanto o foram no pas-
sado. (Luttwak, 1988: 160-170).

Para caracterizar a emergente Geoeconomia, Luttwak estabeleceu ainda vários paralelismos, com
a power politics, a Geopolítica e a Estratégia militar: o capital para investimento na indústria proporci-
onado ou orientado pelo Estado é o equivalente ao poder de fogo; o desenvolvimento de produtos
subsidiados pelo Estado é o equivalente às inovações no armamento; e a penetração nos mercados
sustentada pelo Estado substitui as bases e guarnições militares em solo estrangeiro, bem como a
influência diplomático. (idem: 171).

Por sua vez, o arsenal geoeconómico está também dotado de uma grande diversidade de armas, al-
gumas velhas outras novas. Por exemplo, as tarifas podem ser simples impostos cobrados sem outro
fim em mente que não seja obter rendimentos; da mesma maneira os limites impostos pelas quotas e
a pura e simples proibição às importações poderão visar apenas a resolução de uma escassez aguda
de moeda.

Mas, quando o objetivo dessas barreiras comerciais é proteger essa indústria e permitir o seu cresci-
mento passamos uma vez mais para a geoeconomia – o equivalente à defesa das fronteiras na
guerra e da política mundial tradicional.

Apesar de os acordos do GATT/OMC proibirem a imposição arbitrária de tarifas, quotas ou limitações


às importações é frequente ver Estados recorrerem a barreiras comerciais dissimuladas, o que é o
equivalente geoeconômico da emboscada, essa poderosíssima táctica de guerra. Neste contexto
competitivo, é um método muito comum estabelecer deliberadamente regulamentos de saúde e de
segurança, ou exigências de etiquetagem, empacotamento ou reciclagem, a fim de excluir produtos
estrangeiros. (ibidem: 172).

Mas não é só a abordagem realista e neo-mercantilista de Edward Luttwak que contesta a importân-
cia da Geopolítica no mundo actual, ou pelo menos no mundo capitalista avançado. Uma outra cor-
rente de tipo pós-modernista/pós-estruturalista, embora por razões substancialmente diferentes, con-
sidera também que esta tem vindo a perder a sua importância, desde os anos 80 do século XX.

Essa corrente tem a sua origem nas ideias sobre a velocidade do arquitecto e historiador militar fran-
cês, Paul Virilio, que é um dos pós-modernistas que mais influência exerce em certos sectores acadé-
micos da Geopolítica e Relações Internacionais norte-americanas. Essa influência resulta da difusão
da ideia que a Cronopolítica, um conceito cunhado pelo próprio Virilio, está a substituir a tradicional
geopolítica, pela perda de importância do espaço material resultante da revolução provocada pela mi-
croelectrónica e pelas tecnologias de informação. Nesta concepção, a ubiquidade, um privilégio dos
deuses, está a transformar-se numa possibilidade humana, pela primazia que o tempo adquiriu sobre
o espaço.

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A IDADE MÉDIA

A teorização da Cronopolítica foi aplicada às Relações Internacionais pelo professor de Ciência Polí-
tica da Universidade norte-americana de Massachusetts, em Amherst, James Der Derian, em diver-
sos trabalhos desenvolvidos na última década, entre os quais se destaca Antidiplomacy: Spies, Ter-
ror, Speed and War (Anti-Diplomacia: Espiões, Terror, Velocidade e Guerra, 1992).

No centro desta abordagem anti-ciência, que ataca os cânones positivistas-realistas tradicionais, está
a velocidade, a variável fundamental da Cronopolítica. A reflexão sobre a velocidade/aceleração abriu
um novo campo de abordagem que Virilio designou por dromologia.

Este campo tem essencialmente por objecto o estudo crítico das consequências da velocidade/acele-
ração nos diferentes aspectos da vida humana, provocados pelos progressos científicos nos campos
da microelectrónica e das novas tecnologias de comunicação e informação e que levaram Paul Virilio
a afirmar, na esteira de Jean Braudillard, que as distinções entre imagens visuais e mentais estão a
esbater-se, e que o virtual está a destruir o real. (Der Derian, 1998: 7).

A crítica ao chamado lado negro do Iluminismo, à racionalidade científica separada das questões éti-
cas pelo positivismo, e também à Geopolítica enquanto saber positivista e discurso de poder com a
ambição de dar conselhos ao princípe, é feita por Paul Virilio e James Der Derian, com base num
conjunto de trabalhos que podem ser considerados precursores do actual pós-modernismo/pós-estru-
turalismo.

É o caso da chamada Escola de Frankfurt fundada nos anos 20-30 do século XX; e é também o caso
de Michel Foucault e das suas arqueologias-genealogias, e, especialmente, dos seus trabalhos sobre
o poder disciplinar e as técnicas de controlo derivadas do panoptismo (um sistema de vigilância prisi-
onal proposto originalmente por Jeremy Bentham, num trabalho sobre a organização das prisões bri-
tânicas efetuado no início do século XIX).

Por tudo o que anteriormente foi dito, falar em renascimento da Geopolítica, nos anos 70, não deixa
de ser equívoco. E é equivoco porque sugere que a Geopolítica esteve morta, num período algo ne-
buloso para a maioria das análises, grosso modo situado entre os anos 1945-1975, facto que não cor-
responde exatamente à realidade.

Como vimos, o que efectivamente ocorreu após a II Guerra Mundial foi uma condenação ao ostra-
cismo da palavra, pela sua conotação com a Alemanha nazi e de uma determinada forma de pensa-
mento geopolítico (a Geopolitik), pelas suas alegadas ligações ao poder nazi.

Quanto à Geopolitics anglo-americana, não só não desapareceu como até floresceu nos EUA do pós
II Guerra Mundial, num contexto de confrontação ideológica/política/militar com a ex-União Soviética.
Neste sentido, é mais exacto afirmar o que o ocorreu nas últimas décadas do século XX não foi pro-
priamente um renascimento, mas mais um aumento interesse de pela Geopolítica, que não se cir-
cunscreveu aos meios académicos e políticos, mas foi também projectado para o grande público pe-
los mass media.

Todavia, é importante notar que o facto a Geopolítica nunca ter estado propriamente morta não signi-
fica que não se possa falar numa segunda vaga, como movimento com algumas características pró-
prias e originais, face à Geopolítica clássica anglo-germânica, da primeira metade do século XX.

O que de facto se pode constatar numa análise mais aprofundada é que há, simultaneamente, um
misto de continuidades e descontinuidades face ao passado. Se, por um lado, as ideias centrais da
Geopolítica clássica, excetuada a versão Haushofer/Zeitschrift für Geopolitik, continuam a existir e a
influenciar muitos dos trabalhos atuais, por outro lado, também surgiram novas abordagens em rup-
tura ou descontinuidade com a Geopolítica clássica e que rejeitam, em graus variáveis, essa herança.

O caso mais evidente desse esforço de ruptura é o das abordagens pós-modernistas/pós estruturalis-
tas de Paul Virilio e James der Derian e o da chamada Geopolítica crítica protagonizada, entre outros,
por Gearóid Ó Thuatail, que se demarcam dos trabalhos da Geopolítica clássica e dos seus continua-
dores actuais como, por exemplo, Colin S. Gray, Samuel P. Huntington ou Zibigniew Brezinski, os
quais são (des) qualificados como narrativas, discursos de poder e instrumentos de dominação. Além
do mais, esta abordagem recusa a tradicional postura de dar conselhos ao príncipe, que marca o

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A IDADE MÉDIA

pensamento ocidental sobre a Política, desde a publicação de O Príncipe (1513), de Nicolau Maquia-
vel, no Renascimento, assumindo, em alternativa, um novo papel de consciência crítica e transforma-
dora da realidade social.

Por último, a interrogação que inevitavelmente se coloca é a de saber até que ponto este interesse
acrescido pela Geopolítica radica nas virtudes descritivas, explicativas, analíticas ou críticas deste
campo do conhecimento, face aos acontecimentos do mundo real, especialmente no pós-Guerra Fria,
ou, pelo contrário, estamos apenas perante mais um fenómeno de moda, alimentado artificialmente
nos meios académicos, políticos e jornalísticos.

Também aqui nos parece que a resposta é marcada pela ambivalência, pela simples razão que todos
estes aspectos explicam o interesse acrescido pela Geopolítica. Se, por um lado, o saber geopolítico
tem provas dadas na descrição/interpretação/análise dos fenómenos geográfico-políticos com rele-
vância internacional, por outro, a verdade é também que o aumento de interesse pelo Geopolítica, ve-
rificado nas últimas décadas do século XX, foi, muitas vezes, feito à custa de um alargamento bas-
tante discutível do seu objeto de estudo (por exemplo, através da sua expansão para os fenómenos
geográfico-políticos com mera relevância interna) e acompanhado de um uso tendencialmente livre
do conceito.

Ora, pelo menos de um ponto de vista académico-científico, este fenómeno deve ser encarado com
bastante precaução. Isto porque uma utilização proteiforme do conceito Geopolítica significa, inevita-
velmente, ausência de rigor e utilidade técnico-científica. Mas também porque um alargamento indis-
criminado do seu objeto de estudo pode acarretar como consequência a perda de coerência da pró-
pria Geopolítica, enquanto disciplina académica.

Por isso, não é demais (re)lembrar o já referido comentário de Robert Harkavy: the term geopolitics
has come to be used in such a variety of contexts that it is no longer clear just what it means… It has
come to mean almost everything, and therefore, perhaps almost nothing.

A Expansão do Cristianismo – do particularismo judaico ao universalismo cristão

O Império Romano foi o cenário da primeira pregação do evangelho. Como unificara política e econo-
micamente a bacia do Mediterrâneo, a circulação dos homens, das mercadorias e das doutrinas não

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A IDADE MÉDIA

encontrava obstáculo. O cristianismo ultrapassou rapidamente os limites da terra de Israel e atingiu o


conjunto da bacia mediterrânea.

A Comunidade Primitiva

Nos primeiros tempos da evangelização, a mensagem cristã difundiu-se entre os judeus da Palestina,
de cultura hebraica, e os da diáspora, de cultura helenística. ( Atos 5:42-46 ) A vida da comunidade
cristã de Jerusalém, além da continuidade da prática religiosa judaica e das reuniões em comum,
com a fração do pão, caracterizava-se pela partilha dos bens, embora sua doação não fosse obrigató-
ria.

Uma perseguição violenta atingiu o grupo dos helenistas de Jerusalém: alguns se dispersaram pela
Judéia e Samaria, enquanto outros chegaram à Fenícia, a Chipre e Antioquia, pregando aos judeus e
também aos pagãos (Atos 11,20); Paulo tornou-se perseguidor deles. O grupo dos doze se dispersou
quando Herodes Agripa fez perecer a Tiago, em 42.

Em 66 as perturbações políticas degeneraram em revolta. Parece que antes disso a pequena comuni-
dade cristã refugiara-se em Pela, na Decápole. A importância da diáspora judaica para a fé cristã re-
side no fato de que a sinagoga foi o ponto de partida da primeira evangelização. O cristianismo en-
controu um terreno propicio nas comunidades de simpatizantes da lei mosaica, das quais surgiram as
primeiras igrejas paulinas.

Na sinagoga, após a leitura da Escritura, os irmãos de passagem eram convidados a dirigir a palavra
aos demais. Paulo aproveitava tais momentos para anunciar a chegada do Messias; sua pregação,
que atingia mais os tementes a Deus, provocou a hostilidade dos judeus; tais acontecimentos con-
venceram-no de que devia ir aos pagãos.

O judaísmo e o zelo missionário de Paulo abriram o caminho para o cristianismo, de modo que du-
rante muitos anos as autoridades romanas não fizeram distinção entre um e outro. Para os pagãos a
terra de Israel não era uma região muito importante, e muitas vezes consideraram-na como simples
prolongamento da Síria-Fenícia. Apresentar sua história obrigava a interrogar-se sobre a origem de
uma religião muito diferente dos numerosos cultos do mundo romano.

Características e Fatores da Expansão do Cristianismo

As comunidades cristãs primitivas eram compostas de crentes provindos de todos os extratos sociais,
desde os pescadores que conviveram com Jesus até as pessoas pertencentes aos círculos senatori-
ais. A maior parte dos cristãos pertencia às classes inferiores; no entanto, as circunstâncias de cada
comunidade e a rápida abertura ao mundo da cultura letrada impedem falar do cristianismo primitivo
como um movimento social revolucionário, e menos ainda como uma religião de escravos.

Nas primeiras décadas após seu surgimento e até fins do século I, o cristianismo expandiu-se pela
Palestina, Síria, Ásia Menor, Chipre, Grécia, Roma, e possivelmente também pelo Egito e pela Ilíria,
Dalmácia, Gália e Espanha. Os responsáveis principais por essa expansão foram os missionários iti-
nerantes.

Até fins do século II: Mesopotâmia, Egito, Itália meridional, Gália, Espanha, Germânia e norte da
África.

Até o século IV: Armênia, Pérsia, norte da Índia, Etiópia, baixa Áustria e Itália setentrional.
Somente em fins do primeiro milênio é que se pode dizer que toda a Europa estava cristianizada.

Do ano 30, que constitui a data mais provável da paixão de Jesus, ao 313, com o edito de Milão, que
assinala o fim das perseguições aos cristãos e o início da aliança entre Igreja e Império, o cristia-
nismo difundiu-se através de uma ação capilar e pessoal, graças às iniciativas da organização ecle-
sial e aos contatos espontâneos e influxos dos convertidos; estabeleceu-se principalmente nas gran-
des cidades, contando com a adesão de pessoas de condição humilde (artesãos, comerciantes e es-
cravos) e elevada (nobres e membros da família imperial).

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A IDADE MÉDIA

De perseguida, a Igreja passou a ser tolerada, preferida, e, em fins do século IV, Igreja única e perse-
guidora do paganismo. Dos séculos IV ao VII, apoiada pelo aparato estatal romano e pelas leis dos
reinos germânicos, potenciou sua presença desde o centro, Roma, até a periferia: foram séculos de
evangelização e expansionismo proselitista, marcados especialmente pelas conversões em massa.

Transição do Feudalismo para o Capitalismo

A chamada transição do feudalismo para o capitalismo (ou do sistema econômico feudal para o
sistema econômico capitalista) começou no período da Baixa Idade Média, especificamente a partir
do século XIV. Entretanto, a expressão “transição” supõe um processo de continuidade progressiva,
como se não houvesse, nesse período, processos complexos de avanço e retrocesso econômico
tanto no campo quanto na cidade medieval.

Esse tema da “passagem” ou “transição” da economia feudal para a capitalista foi (e ainda é) objeto
de discussão entre várias correntes historiográficas. Dentro do campo marxista, autores como – além
do próprio Marx – Maurice Dobb, Paul Sweezy e Ellen M. Wood estão entre os que mais debateram
essa questão. Além dessa corrente, outros autores como Henri Pirenne, Max Weber, Ludwing Von
Mises, Vilfredo Pareto, entre outros, também deixaram importantes contribuições a esse debate.

Mas o fato é que o sistema feudal entrou em profunda crise no século XIV em razão de fatores como
a ascensão da burguesia nas cidades medievais, que passaram a ter uma intensa movimentação co-
mercial nesse período; a crise no campo, as revoltas camponesas, a Peste Negra, entre outros. Essa
crise forçou tanto os senhores feudais quanto os burgueses que estavam em ascensão a traçarem
estratégias de desenvolvimento de suas estruturas econômicas.

Não se pode dizer, portanto, que as forças do capitalismo estavam em latência apenas nos comerci-
antes das cidades. Estavam elas também no campo, nos feudos, haja vista que o desenvolvimento
comercial acabou favorecendo, em alguns casos, os senhores feudais. Não há uma causalidade di-
reta que implique a passagem do feudalismo para o capitalismo centrada no renascimento comercial
e urbano.

O declínio do feudalismo e a origem do capitalismo foram, em grande parte, dois fenômenos históri-
cos independentes, apesar de se desenrolarem simultaneamente. Foi do campo que nasceram as ba-
ses materiais para a indústria, sobretudo no caso inglês, e, ao mesmo tempo, a experiência do co-
mércio nas cidades criou a sofisticada relação de troca monetária, que foi a base do crédito e do sis-
tema financeiro que se desenvolveu a posteriori.

A Revolução Inglesa do século XVII foi decisiva para o fomento das condições de aparecimento da
industrialização. Com a indústria, o sistema capitalista passou a ser imperativo e complexo, gerando
a divisão acentuada do trabalho nas cidades e o aumento do grande fluxo da massa de operários.

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A IDADE MÉDIA

Toda a complexa rede industrial e comercial, a nível mundial, que vemos hoje, atrelada ao também
complexo sistema financeiro – bancos, bolsas de valores etc. – é fruto desse processo de ascensão
do sistema capitalista, que começou no século XIV.

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FEUDALISMO

Feudalismo

O feudalismo é um modo de produção ou a maneira como as pessoas produziam os bens necessá-


rios para sua sobrevivência. Durante a Idade Média, este foi um sistema de organização social que
estabelecia como as pessoas se relacionavam entre si e o lugar que cada uma delas ocupava na so-
ciedade.

Surgimento do Feudalismo

O feudalismo teve suas origens no final do século 3, se consolidou no século 8, teve seu principal de-
senvolvimento no século 10 e chegou a sobreviver até o final da Idade Média (século 15). Pode-se
afirmar que era o sistema típico da era medieval e que com ela se iniciou, a partir da queda do Impé-
rio Romano do Ocidente (473) e com ela se encerrou, no final da Idade Média, quando houve a
queda do Império Romano do Oriente (1543).

Entre as principais causas do surgimento deste sistema feudal está a decadência do Império Romano
(falta de escravos e prestígio, declínio militar) já no século 3 d.C., na grave crise econômica no Impé-
rio Romano. Ocorreram invasões germânicas (bárbaros) que fizeram os grandes senhores romanos
abandonarem as cidades para morar no campo, em suas propriedades rurais. Esses poderosos se-
nhores romanos criaram ali as vilas romanas, centros rurais que deram origem aos feudos e ao sis-
tema feudal na Idade Média.

Nestas vilas romanas, pessoas menos ricas buscaram trabalho e a proteção dos grandes senhores
romanos e fizeram com eles um tratado de colonato, ou seja, os mais pobres poderiam usar as terras,
mas seriam obrigados a entregar parte da produção destas terras aos senhores proprietários. Isso fez
com que o antigo sistema escravista de produção fosse substituído por esse novo sistema servil de
produção, no qual o trabalhador rural se tornava servo do grande proprietário.

A base do sistema feudal era a relação servil de produção. Com base nisto foram organizados os feu-
dos, que respeitavam duas tradições: o comitatus e o colonatus. O comitatus (que vem da palavra co-
mites, “companheiro”) era de origem romana e unia senhores de terra pelos laços de vassalagem,
quando prometiam fidelidade e honra uns aos outros. No colonatus, ou colonato, o proprietário das
terras concedia trabalho e proteção aos seus colonos, em troca de parte de toda a produção desses
colonos.

Um senhor feudal dominava uma propriedade de terra (feudo), que compreendia uma ou mais al-
deias, as terras que seus vassalos (camponeses) cultivavam, a floresta e as pastagens comuns, a
terra que pertencia à Igreja paroquial e a casa senhorial – que ficava na melhor parte cultivável.

As origens desse sistema feudal, de “feudo”, palavra germânica que significa o direito que alguém
possui sobre um bem ou sobre uma propriedade. Feudo, portanto, era uma unidade de produção
onde a maior parte das relações sociais passava a acontecer, porque os senhores feudais (susera-
nos) eram poderosos e cediam a outros nobres (que se tornavam seus vassalos) as terras em troca
de serviços e obrigações.

Suserania e Vassalagem

Os senhores feudais possuíam terras e exploravam suas riquezas cobrando impostos e taxas desses
nobres em seus territórios. Era um tratado de suserania e de vassalagem entre eles. Esses vassalos
podiam ceder parte das terras recebidas para outros nobres menos poderosos que eles e passavam
a ser os suseranos destes segundos vassalos, enquanto permaneciam como vassalos daquele pri-
meiro suserano. Um vassalo recebia parte da terra e tinha que jurar fidelidade ao seu suserano, num
ritual de poder e de honra, quando o vassalo se ajoelhava diante de seu suserano e prometia fideli-
dade e lealdade.

No sistema feudal quem concedia terras era suserano e quem as recebia era vassalo em relações
baseadas em obrigações mútuas e juramentos de fidelidade. O rei concedia terras aos grandes se-
nhores e esses, por sua vez, concediam partes dessas terras aos senhores menos poderosos - os

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FEUDALISMO

chamados cavaleiros – que passavam a lutar por eles. Um suserano se obrigava a dar proteção mili-
tar e jurídica aos vassalos. Um vassalo investido na posse de um feudo, se obrigava a prestar auxílio
militar.

Sociedade Feudal

Em uma sociedade feudal havia estamentos ou camadas estanques, não havia mobilidade social e
não se podia passar de uma camada social para outra. Havia a camada daqueles que lutavam (No-
breza), a camada dos que rezavam (Clero) e a camada dos que trabalhavam (camponeses e servos).
Com diferentes componentes: os servos – que trabalhavam nos feudos, não podiam ser vendidos
como escravos, nem tinham a liberdade de deixarem a terra onde nasceram; os vilões – homens li-
vres que viviam nas vilas e povoados e deviam obrigações aos suseranos, mas que podiam deixar o
feudo quando desejassem; os nobres e o clero, que participavam da camada dominante dos senho-
res feudais, tinham a posse legal da terra, o poder político, militar e jurídico. No alto clero estavam o
papa, os arcebispos e bispos e na alta nobreza estavam os duques, marqueses e condes. No baixo
clero estavam os padres e monges e na baixa nobreza os viscondes, barões e cavaleiros.

Esses feudos eram isolados uns dos outros e necessitavam da proteção de seus senhores. Nasce-
ram sob o medo das invasões bárbaras sofridas e que ocasionaram o final do próprio Império Ro-
mano Ocidental. Os povos que formavam os novos feudos eram as antigas conquistas dos romanos
e passaram a se organizar em reinos, condados e povoados isolados para se protegerem de invaso-
res estrangeiros. Esse isolamento também os obrigava a produzirem o necessário para a sua sobrevi-
vência e consumo próprio.

Os senhores mais ricos submetiam os mais pobres aos trabalhos no campo e, em troca, lhes davam
a proteção contra esses ataques dos estrangeiros. Tinham as armas e soldados para protegerem as
populações mais pobres e delas exigiam lealdade. Com esse tratado de suserania e vassalagem fo-
ram dominando muitas partes do Império Romano extinto. A dependência fez com que os campone-
ses passassem a entregar aos seus suseranos também os produtos que cultivavam, suas terras e
seus serviços, e se tornavam servos destes seus protetores.

A servidão dos vassalos era uma forma de escravidão mais branda. Os servos não eram vendidos,
mas eram obrigados a entregarem esses produtos aos senhores durante toda a sua vida. Não se tor-
navam proprietários das terras que cultivavam e elas eram emprestadas para que nelas trabalhas-
sem. Essa servidão passava dos pais para os filhos, perpetuando essa relação de dependência e
proteção por gerações.

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FEUDALISMO

Nobreza

Integrando a nobreza estavam os senhores feudais que eram os responsáveis por administrar todo o
feudo. Eles tinham o poder de aplicar leis, cobrar impostos, administrar a justiça do local, declarar
guerras entre os feudos, etc.

Clero

O clero era formado pela Igreja Católica e representava a parcela mais importante e poderosa do re-
gime feudal. A sua principal missão era a de garantir o equilíbrio espiritual do feudo. Ao contrário dos
vassalos, os membros do clero estavam livres de pagar impostos.

Servos

Consistia na maior parte das pessoas, ou seja, os camponeses que trabalhavam nos feudos para ga-
rantir a subsistência dos locais. Eram obrigados a pagar inúmeros impostos e tributos.

Como funcionava a economia feudal?

As atividades comerciais eram praticamente inexistentes durante o Feudalismo, sendo a agricultura


de subsistência e autossuficiente a principal fonte econômica dos feudos. Não existia a troca monetá-
ria (dinheiro).

O escambo (troca de mercadorias) também era adotado entre diferentes feudos, para que pudessem
obter produtos que precisavam, mas que não haviam produzido, por exemplo.

Os servos trocavam a sua mão-de-obra por um local para habitarem na propriedade do senhor feu-
dal, sendo que este deveria garantir a proteção dessas pessoas. Os vassalos também produziam os
seus próprios alimentos.

Como era política durante o feudalismo?

Toda a política estava centralizada nas mãos dos senhores feudais. Os reis lhe concediam muitos pri-
vilégios e eram eles quem tinham a última palavra a dar dentro de seus respectivos feudos.

A Vida Nos Feudos

Cada feudo consistia em uma unidade de produção do sistema feudal, onde o servo plantava, colhia,
fazia vinho, azeite, farinha, pão, criava gado, fabricava queijo, manteiga, caçava, pescava e traba-
lhava numa rudimentar indústria artesanal.

No feudo se produzia apenas o necessário para o consumo da comunidade, onde o trabalho servil
envolvia uma série de obrigações, entre elas:

os servos trabalhavam como rendeiros, pagando ao senhor com mercadorias ou prestações de servi-
ços pelo uso da terra;

cada família trabalhava gratuitamente durante alguns dias nas terras do senhor;

cada servo pagava taxas pelo uso do moinho, do forno etc.

Aos senhores feudais cabia a responsabilidade de formar exércitos particulares e construir castelos
fortificados, onde dentro e em torno dos quais se desenvolvia a comunidade feudal, protegida por
eles.

Origem do Feudalismo

O feudalismo começou a se formar no século V, com a decadência do Império Romano e as invasões


dos povos bárbaros, obrigando os nobres romanos a se afastarem das cidades levando consigo os
camponeses.

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FEUDALISMO

O processo de feudalização da economia e da sociedade levou vários séculos para se completar. A


presença e a violência dos invasores e a insegurança social propiciaram o isolamento dos feudos em
diferentes regiões.

Como os reis não tinham condições econômicas e militares para proteger as populações dessas
áreas, a responsabilidade passou a ser dos grandes proprietários de terra.

Em troca de proteção, a grande maioria da população, que passou a viver em aldeias em torno dos
castelos, sujeitou-se ao trabalho agrícola, numa relação de servidão com o dono da terra e do cas-
telo.

Crise do Feudalismo

De forma gradual, o sistema feudal começou a entrar em declínio, principalmente devido a algumas
mudanças na estrutura da sociedade, como o aumento das cidades e o reavivamento das relações
comerciais.

Com a criação de trabalhos assalariados, emergia na sociedade uma nova classe: a burguesia. Com
ela começava a se desenvolver um novo regime que ficaria conhecido como capitalismo.

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CULTURA MEDIEVAL

Cultura Medieval

A Cultura Medieval é um conjunto de manifestações filosóficas, literárias, religiosas, científicas, que


mistura fatores das culturas greco-romanas e germânicas, numa síntese permeada por aspectos cris-
tãos.

Vale destacar que a Igreja Católica teve uma preponderância marcante durante todo o período medi-
eval (século IV ao XV), sobretudo quando os francos e as tribos germânicas aderiram ao Cristia-
nismo.

De tal maneira, ela detinha cerca de um terço das terras cultiváveis, o que lhe garantia um considerá-
vel poder econômico.

Além disso, a educação ficava a cargo da Igreja, donde todos os saberes eram impregnados de religi-
osidade, o que acabou motivando os renascentistas a denominar esse período histórico como “Idade
das Trevas”.

O período que compreende a Idade Média abarca aproximadamente um milênio de história e começa
durante os séculos IV e V.

Seu marco inicial é a desestruturação do Império Romano do Ocidente. A Idade Média permaneceu
até os séculos XIV e XV, com a crise do feudalismo e ascensão dos estados nacionais. Contudo, foi
entre os séculos XI e XIII que a “cultura medieval” atingiu seu apogeu.

A partir do século X, na Europa Ocidental tem início uma reestruturação econômica, social, política e
cultural que irá culminar no Renascimento Cultural e Urbano perpetrado pela burguesia.

Além disso, as peregrinações, feiras e o movimento copista dos Monastérios contribuíram para a difu-
são cultural durante toda a Idade Média.

Principais Características

Segue abaixo algumas das principais características do período medieval, nos campos da educação,
artes e ciências.

Educação Medieval e Escolástica

De partida, vale destacar que somente uma minoria da população medieval sabia ler e escrever,
posto que, via de regra, somente os filhos da nobreza estudavam.

De toda forma, na maior parte do período medieval, o latim foi à língua oficial, especialmente no que
tange à escrita. Sua versão oral suportava uma forma menos culta.

Outro destaque que deve ser feito é para a Instituição Escolar que se desenvolveu a partir do século
XII: a Escolástica, um método pelo qual se pretendia descobrir a verdade por meio da dialética.

Esta forma de ensino se desenvolveu nos Monastérios e nas Escolas das Catedrais, principais cen-
tros de estudo e depositário da produção intelectual, até a criação das Universidades, as quais ainda
estavam muito ligadas à Igreja durante todo século XII.

Por conseguinte, nestes centros de saber, valorizava-se muito os autores da Antiguidade Clássica,
como Aristóteles e Platão, as quais se dedicaram Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho, os prin-
cipais teólogos do período medieval.

Arquitetura Medieval

Na arquitetura medieval destacaram-se os estilos Romântico (Alta Idade Média), caracterizado pela
austeridade e solidez e o estilo Gótico, marcado pela leveza e formas esguias.

A arquitetura medieval ficou muito conhecida pela construção de castelos, mas foram nas Igrejas e
Catedrais que a arquitetura religiosa floresceu.

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CULTURA MEDIEVAL

Nesses espaços sacros, eram necessárias a retratação de cenas religiosas e moralizadoras para ca-
tequizar a população.

Música Medieval

A música também recebeu grande influência da Igreja, haja vista o canto sacro, especialmente o gre-
goriano de Gregório Magno (Papa Gregório I), composto por vozes masculinas em formato de coral.

Contudo, enquanto o monge italiano Guido d'Arezzo cria a pauta de quatro linhas e escala musical,
os trovadores e menestréis difundiam a música popular.

Os principais estilos musicais da época foram a música modal, a música polifônica, a arsantiqua e
a ars nova, bem como as variações da música profana.

Por sua vez, os instrumentos musicais mais usados foram a Cítara, o Alaúde, a Harpa, as Flauta e os
Tambores.

Literatura Medieval

A literatura medieval foi marcada pelo uso do latim na maioria dos textos, os quais repercutiam os te-
mas religiosos e existenciais da moral cristã.

Contudo, as manifestações vernáculas em forma lírica e narrativa do século XII, romperam com essa
tradição e marcaram o abandono do latim clássico.

Tem-se o surgimento da poesia trovadoresca, como nas canções de gesta, escárnio, de amor, de
amizade, que marcaram o pensamento medieval até o aparecimento do Quinhentismo, em meados
de 1418.

Culinária Medieval

A culinária medieval é muito rica e se destaca pelo uso de especiarias como noz-moscada, canela,
gengibre, cravo em pó, açafrão, utilizado na produção de molhos para carnes vermelhas, de aves e
de peixes.

Apesar desta variedade, os alimentos mais consumidos eram os pães e cereais, bem como ensopa-
dos e caldos de batatas, pois a carne era um alimento muito valioso.

Ciência Medieval

Quanto aos aspectos científicos medievais, merecem destaque a Alquimia, de influência notadamente
árabe, bem como a medicina, influenciada por médicos gregos e orientais.

A produção cultural na Idade Média

A partir dos séculos IV e V, o Império Romano do ocidente começou a se desestruturar. Crise econô-
mica, dificuldades em manter as fronteiras e a invasão de povos inimigos, sobretudo de origem ger-
mânica, eram alguns dos problemas enfrentados pelos romanos.

Esse cenário contribuiu para uma transformação radical na vida cultural dos povos europeus. Com o
tempo, os costumes romanos e germânicos se misturaram, dando origem ao mundo feudal. Nele, os
mosteiros e as abadias tornaram-se um dos principais centros de produção cultural.

Na Idade Média, assim como na Antiguidade, eram poucas as pessoas que sabiam ler e escrever. A
maior parte da leitura era feita em voz alta para um grupo de ouvintes, como nas missas. Por isso, os
textos eram todos preparados para serem lidos em público, com imagens fortes e teatralizadas.

As pessoas mais instruídas pertenciam a Igreja, que controlava grande parte das atividades artísticas,
literárias e intelectuais da época.

O controle da leitura e da escrita era uma de a Igreja manter seu poder e de impedir que as pessoas
pensassem diferentemente de seus dogmas.

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CULTURA MEDIEVAL

A Produção Literária

A maior parte da literatura foi escrita em latim e tratava de temas religiosos. O principal objetivo dessa
produção era comprovar a existência de Deus e da alma.

Nessa época, o universo era compreendido dentro de uma hierarquia de seres. No topo desta hierar-
quia estava Deus, seguido pelos arcanjos, anjos, chegando até os seres humanos, os animais, os ve-
getais e os minerais.

A concepção de um universo hierarquizado foi importante para justificar a ordem social existente, na
qual os reis deviam obediência à Igreja, os servos aos senhores feudais, etc.

As ideias dos filósofos gregos Platão e Aristóteles foram as que mais influenciaram o pensamento
medieval. À obra dos gregos soma-se a de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, que, consi-
deravam a vida na terra como um momento passageiro, por isso era preciso preocupar-se com a eter-
nidade. Ensinado nas universidades, que surgiram a partir do século XII, esse conjunto de ideias ficou
conhecido como Escolástica.

Por volta do século XII, começaria a surgir uma literatura não mais voltada apenas para a compreen-
são do universo cristão. Ela não seria mais escrita exclusivamente em latim, mas também na língua
própria de cada região.

Por exemplo, poemas narrando feitos heroicos sobre batalhas de Carlos Magno foram escritos no idi-
oma falado no Norte de seu império.

NA península Itálica, no final do século XIII e início do século XIV, destacou-se o poeta Dante Alighieri
(linkar para Dante), considerado o fundador da literatura italiana.

O conhecimento na Idade Média

Na Idade Média, a maior parte dos estudos estava ligada à teologia, Os clérigos, os principais estudi-
osos, não tinham praticamente nenhum interesse pelo conhecimento da natureza. “Discutir a natu-
reza e a posição da Terra”, disse Santo Agostinho, “não nos auxilia em nossa esperança de vida fu-
tura.” Interessava conhecer o mundo de Deus, já que a vida na terra era apenas um momento passa-
geiro.

A vida intelectual concentrava-se nos mosteiros e o estudo do universo cristão permaneceu mais im-
portante do que o estudo das ciências naturais.

As artes

A arte medieval também era essencialmente religiosa. No campo das artes, destaca-se a arquitetura,
com a construção de templos, igrejas, mosteiros e palácios.

Na arquitetura da Idade Média, predominaram dois estilos: o românico e o gótico.

As construções em estilo românico (séculos X, XI e XII) caracterizam-se pelos arcos redondos, pare-
des baixas e grossas, grandes colunas, janelas pequenas e interior pouco iluminado.

As construções em estilo gótico (final do século XII ao século XV) caracterizam-se pelos arcos em
formato ogival, janelas maiores e mais numerosas, paredes altas e interior iluminado.

As janelas eram ornamentadas com belíssimos vitrais. Estes eram formados por pequenas placas de
vidro colorido, unidas por chumbo, formando desenhos e mosaicos.

Na pintura, destacam-se as miniaturas ou iluminuras, feitas para ilustrar os manuscritos e os murais.


Os murais eram pinturas feitas nas paredes, geralmente retratando figuras religiosas.

Na escultura, utilizava-se o metal, o marfim e a pedra. Um grande número de imagens decorava o in-
terior dos templos.

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CULTURA MEDIEVAL

A maior parte das obras de arte da idade Média não tem autoria definida. Isso porque, de acordo com
o alto clero medieval, o verdadeiro autor era Deus, que, por meio dos seres humanos, expressava
suas ideias e vontades.

Dante Alighieri

Natural de Florença, Dante Alighieri (1265 -1321) escreveu em latim e também no dialeto de sua re-
gião, o toscano. Sua obra mais importante é a Divina comédia, um longo poema épico que relata a
sua viagem pelo inferno, purgatório e paraíso.

Embora o tema central seja religioso, o texto da Divina comédia já mostra sinais de mudanças. Em
sua viagem épica, Dante é guiado por Virgílio, poeta da Antiguidade latina, e escreve o poema no es-
tilo que caracterizou a literatura greco-romana.

No decorrer do texto, Dante demonstra grande preocupação com a condição humana e com aquilo
que teria levado as personagens a ocuparem o inferno, o purgatório e o paraíso. Por isso, Dante re-
presenta o espírito inovador, preso ainda às tradições religiosas, mas anunciando novos tempos.

Literatura

A literatura, até o século XII, procurava enaltecer a figura do cavaleiro defensor dos pobres, da jus-
tiça, do amor e, evidentemente, da cristandade.

Dentre as características desse personagem destaca-se a extrema lealdade dedicada ao seu senhor,
à honra e à coragem. Essas manifestações literárias conhecidas como poemas épicos podem ser
exemplificadas pela Canção de Rolando (França) e El Cid (Espanha).

Vale destacar que esses poemas foram escritos nas línguas nacionais, e isso é considerado revoluci-
onário para a época, uma vez que desde o início da Idade Média a língua tida como oficial em toda a
Europa Ocidental era o chamado latim culto, pois era utilizado nas celebrações religiosas, nas obras
literárias e nos documentos oficiais. As línguas faladas pelos diversos povos europeus eram tidas
como latim vulgar, uma mistura do latim com as línguas dos povos bárbaros.

No século XII, um novo estilo literário surgiu na Europa: o Trovadorismo, as chamadas poesias líricas,
marcadas pela exaltação da figura feminina pelos cavaleiros.

Já no século XIII, alguns autores marcariam o advento de novos tempos para a cultura medieval, pois
inaugurariam um movimento artístico-cultural que buscaria nas obras da Antiguidade Clássica greco-
romana a inspiração para seus textos. Destaque para Dante Alighieri (1265-1321) com A divina co-
média, Francisco Petrarca (1304-1374) com De África, e Giovani Boccaccio (1313-1375) com Deca-
meron.

Essas obras retrataram o amor terreno e a crítica social, moral e religiosa da época, marcando, as-
sim, o início de uma nova era no plano da cultura: o humanismo. Esses autores e suas respectivas
obras são considerados precursores (iniciadores) do Renascimento.

Filosofia

Na filosofia, o pensamento da Baixa Idade Média foi marcado pela Escolástica, cuja maior expressão
foi São Tomás de Aquino (1225-1274).

A filosofia tomista, como ficou conhecida, também se concentrou na busca de conciliar o pensamento
racionalista com as propostas vinculadas à Igreja.

Inspirado na obra filosófica de Aristóteles, Tomás de Aquino, que era membro da Igreja Católica, sus-
tentava que a razão era a chave para a busca de todo o conhecimento, inclusive para se provar a
existência de Deus.

Por intermédio desse filósofo/teólogo, podemos perceber uma maior preocupação com a figura hu-
mana, ainda que a fé estivesse acima de todas as verdades. Sua obra mais importante foi a Suma
Teológica, na qual tratou de diversos assuntos, como economia, política e religião.

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CULTURA MEDIEVAL

Ciência

Quanto à ciência, que pouco se desenvolveu na Europa da Alta Idade Média em função dos impedi-
mentos da Igreja Católica sobre as experimentações, deve-se destacar a importância de Roger Ba-
con (1214 a 1294), conhecido como o “Doutor Admirável”.

Bacon introduziu nos estudos científicos a observação e o experimento como forma de afirmação dos
seus trabalhos, o que inspirou cientistas posteriores a ele.

Vale ressaltar que Roger Bacon também era um religioso e suas inovações estavam em concordân-
cia com as mudanças ocorridas na Baixa Idade Média, o que não o livrou das perseguições da Igreja
Católica.

Da mesma forma, Guilherme de Ockham, religioso franciscano, defendeu o conhecimento racional


por meio da experiência e foi perseguido pela Igreja. Ele defendia a subordinação do clero ao Estado,
participando, ativamente, das discussões em torno do Cisma do Oriente.

Educação

A educação europeia durante a Idade Média esteve vinculada à vida prática dos homens. Os jovens
educavam-se convivendo com os adultos nos locais de trabalho, oficinas, mosteiros etc. Os filhos de
nobres, quando atingiam certa idade, participavam das caçadas nos bosques, preparando-se para as
atividades belicosas. O analfabetismo era predominante em quase toda a sociedade europeia do me-
dievo, até mesmo entre os nobres. A escrita era quase um privilégio do clero católico.

Porém, com o Renascimento Urbano e Renascimento Comercial começaram a surgir as escolas e,


depois, as universidades, como as de Paris (fundada em 1215 e cuja organização serviu de modelo
para outras), Palermo, Bolonha, Oxford, Montpellier e Salamanca. As universidades surgiram a partir
de associações de estudantes e mestres, parecidas com as corporações profissionais, e buscavam
promover estudos, independentemente daqueles realizados por religiosos, quase sempre comprome-
tidos com os princípios da Igreja, ou com a autoridade de um monarca.

Como não poderia deixar de ser, a cultura medieval acompanhou as mudanças nos setores econômi-
cos, sociais e políticos do período. Podemos afirmar que o Renascimento Cultural e Científico ocor-
rido na passagem da Idade Média para a Idade Moderna foi uma continuação dessas transformações
que vinham se processando desde o século XII.

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RENASCIMENTO COMERCIAL EUROPEU

Renascimento Comercial Europeu

O renascimento comercial da Idade Média ocorreu por causa da ampliação das rotas comerciais e do
estabelecimento de feiras anuais, que atraíam inúmeros comerciantes interessados na venda e troca
de produtos. Uma consequência desse fenômeno foi o retorno da utilização da moeda.

O renascimento comercial está diretamente ligado ao renascimento urbano. Atribui-se o renascimento


do comércio ao crescimento populacional e ao aumento da produção agrícola, que proporcionou um
excedente que pôde ser comercializado.

O desenvolvimento das cidades a partir do século XI gerou uma necessidade de mercadorias, que só
era suprida a partir do comércio. Com essa demanda, começaram a se estabelecer comerciantes em
determinadas cidades europeias. Além disso, muitos mercadores passaram a sedentarizar-se, pois,
as rotas comerciais terrestres na Europa eram muito precárias e inseguras. Apesar desse processo
de sedentarização, o comércio europeu dependia, principalmente, das rotas marítimas, que eram
consideradas mais baratas que as rotas terrestres.

Comércio Mediterrâneo e Nórdico

Com o crescimento das rotas marítimas, foram estabelecidos dois grandes eixos comerciais na Eu-
ropa: o eixo do mediterrâneo, dominado pelas cidades italianas de Veneza e Gênova, e o eixo nór-
dico, conhecido como LigaHanseática.

Atribui-se o impulso de Veneza e Gênova ao fato de a produção agrícola de ambas ter sido pequena.
Assim, no século XI, essas cidades apoiaram o início das Cruzadas, com o interesse de obter merca-
dorias de luxo existentes no mercado oriental, que havia sido fechado desde a conquista muçulmana.
Também ficaram conhecidas por incentivar a Quarta Cruzada, com o objetivo de expandirem seus
negócios para as terras do Império Bizantino.

A Liga Hanseática dominou o mercado no norte europeu. Era formada por um grupo de cidades ger-
mânicas que se aliaram e conseguiram exercer o controle sobre o mercado em regiões que iam do
leste europeu até a Islândia. Sobre a rota hanseática, Hilário Franco Júnior afirma que:

Os dois eixos de comércio tinham como ponto de encontro as feiras realizadas em Champagne, re-
gião da atual França. Essas feiras desenvolveram-se a partir do final do século XII em “Lagny, em
Bar-sur-Aube, em Provins e em Troyes” (pequenas vilas e cidades que ficavam na região de Cham-
pagne) e eram realizadas uma vez por ano, em ciclos que duravam alguns meses. Atribui-se o desen-
volvimento das feiras à postura dos condes da região, que eram mais liberais e, muitas vezes, isenta-
vam os comerciantes das cobranças de pedágios – um dos entraves para o comércio itinerante ter-
restre.

O desenvolvimento comercial fez com que a moeda passasse novamente a ser utilizada. Esse im-
pulso iniciou-se a partir de Gênova, que passou a cunhar moedas a partir de 1252, seguida pela
França, em 1266, e Florença, em 1284. Entretanto, a grande quantidade de moedas existentes na
Europa dificultou a maior circulação do dinheiro.

A partir do final do século XIII, principalmente, os comerciantes de maior sucesso estabeleceram ca-
sas comerciais, passando a exercer um controle muito grande sobre parte do fluxo comercial e, mui-
tas vezes, sobre as cidades nas quais estavam instalados. Um exemplo são os comerciantes da ci-
dade alemã de Colônia, que conseguiram estabelecer uma casa comercial à beira do rio Tâmisa, em
Londres, em 1130|3|.

Esse impulso resultou no desenvolvimento de uma nova classe social: a burguesia. À medida que en-
riquecia, o poder da burguesia, vindo de suas fortunas, passou a se confundir com o poder da no-
breza, sobretudo nas cidades.

O fim do sistema feudal e o surgimento do sistema capitalista foram fundamentais para consolidar a
expansão do comércio.

Entretanto, foi a partir das Cruzadas (entre os séculos XI e XIII), expedições militares de caráter eco-
nômico, político e religioso, que as relações comerciais foram fortalecidas com o Oriente.

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RENASCIMENTO COMERCIAL EUROPEU

Além disso, a abertura do Mar Mediterrâneo foi essencial para o aumento das rotas comerciais entre
os países, levando ao fim do período da Idade Média e o início da Idade Moderna.

O Renascimento, aliado ao cientificismo e ao humanismo vigentes, consagraram novas formas de ver


o mundo.

Assim, o antropocentrismo, ou seja, o homem como centro do mundo, foi substituído pelo teocen-
trismo medieval, onde Deus estava no centro do Universo, e a vida das pessoas giravam em torno da
religião.

Para tanto, a “Idade das Trevas” (cunhada por alguns humanistas para indicar o período sombrio e
estático da Idade Média), perdurou durante muito tempo na Europa, do século V ao século XV, e es-
tava baseado numa sociedade monárquica onde o rei era o senhor mais soberano, seguido da no-
breza e do clero.

Os servos, eram os últimos da estrutura hierárquica medieval, e que decerto não possuíam poder
e/ou as mesmas possibilidades que os estamentos acima (nobreza e clero).

Apoiados à crise do regime feudal, os humanistas italianos alegavam que o período anterior do Medi-
evo esteve marcado por um grande retrocesso humano, em relação às produções clássicas.

Para tanto, a ideia central desses intelectuais, artistas e pensadores humanistas eram sobretudo, a
valorização do homem, na medida em que expressavam e disseminavam essa nova visão de mundo,
a qual emergia aliada às transformações sociais, políticas e econômicas da Europa.

De tal modo, além da crise do sistema feudal, as grandes navegações ultramarinas do século XVI,
donde Portugal foi um dos pioneiros, altera e expande a mentalidade dos homens, aliados ao cientifi-
cismo da Teoria Heliocêntrica (Sol no centro do mundo), proposta pelo matemático e astrônomo Nico-
lau Copérnico, em detrimento do Geocentrismo aceito pela Igreja, donde a terra era o centro do Uni-
verso.

Essa nova forma de ver o mundo, alterou significativamente a mentalidade dos homens, questio-
nando os velhos valores num impasse desenvolvido entre a fé a razão.

Além desses fatores essenciais para a transformação da sociedade medieval, o aparecimento de


uma nova classe social, denominada burguesia, consolidam o novo sistema social, econômico e polí-
tico.

Nesse ínterim, os burgueses que viviam nas pequenas cidades medievais amuralhadas denominadas
“burgos”, começaram a desenvolver o comércio interno, impulsionadas pelas feiras livres, locais de
compra e venda de produtos diversos.

Note que o sistema feudal já não conseguiu suprir as necessidades de todos os seus habitantes, de
forma que uns fugiam e outros eram expulsos pelos senhores de terra.

Com efeito, esse grupo de marginalizados seguiam para as cidades (burgos) em busca de melhor
qualidade de vida, sendo que aqueles que se dedicaram ao comércio ambulante, foram aos poucos
constituindo a nova classe social que, mais tarde, substituirá o sistema anterior, detendo os meios de
produção e o acúmulo de capital: a burguesia.

Assim sendo, as feiras-livres (donde se destacam a feira de Champagne, na França, e a de Flandres,


na Bélgica) foram essenciais para o desenvolvimento de atividades manufatureiras, aumento da cir-
culação de mercadorias, o retorno das transações financeiras, o reaparecimento da moeda e forma-
ção de associações de controle de produção e comércio (Ligas Hanseáticas, Guildas Medie-
vais e Corporações de Ofício).

Ainda que as cidades italianas de Veneza, Florença e Gênova se destacaram com a abertura do Mar
Mediterrâneo, no século XV e XVI, posto que utilizaram o mar como rota marítima de comércio, so-
bretudo de especiarias vindas do Oriente, a expansão ultramarina tornou o mar uma nova rota comer-
cial, substituindo, dessa maneira, o eixo comercial do Mediterrâneo para o Oceano Atlântico, com a
descobertas das terras no novo mundo.

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MONARQUIAS CENTRALIZADAS

A Formação das Monarquias Centralizadas Europeias

Sobre o processo de centralização do poder e da consolidação do Absolutismo na Europa, queremos


destacar dois POSTS. Este, onde destacamos o início de formação dos Estados Nacionais na Baixa
Idade Média, e outro, com destaque à consolidação do Absolutismo na Europa, Idade Moderna.

França, Inglaterra, Portugal, Espanha. Hoje, é difícil imaginar a Europa sem esses países. Mas eles
só começaram a se consolidar a partir da Baixa Idade Média, paralelamente ao desenvolvimento do
comércio e das cidades.

Durante a Idade Moderna, com o apoio financeiro da burguesia, os monarcas, que tiveram seus po-
deres bastante reduzidos, agora conseguem sua consolidação.

Os reis começaram a concentrar grandes poderes, a partir do século XI, em parte por causa do apoio
e do dinheiro recebido dos burgueses. Ao longo do processo de centralização do poder, a aproxima-
ção entre o rei e a burguesia poria fim à fragmentação política. Entretanto, isso não significou a exclu-
são da nobreza feudal do poder. Ela se manteve ligada ao rei usufruindo de sua política e de privilé-
gios.

Além dos reis, ganharam importância nesse processo os burgueses, que se tornaram mais tarde o
grupo social de maior poder político e, sobretudo, econômico.

A Formação das Monarquias

O processo de formação de monarquias com poder centralizado consolida-se entre os séculos XIV e
XVI. Ao final de alguns séculos, esse processo deu origem a muitos dos países atuais da Europa,
como França, Portugal e Espanha. Entretanto, ele não ocorreu ao mesmo tempo e da mesma ma-
neira em todos os lugares do continente. Em regiões como a península Itálica e o norte da Europa
nem chegou a se consolidar.

Quase sempre estiveram envolvidos nesse processo de centralização do poder os mesmos grupos
sociais: os reis, a burguesia e os nobres feudais. Cada um desses grupos era movido por interesses
próprios. Muitas vezes, esses interesses eram convergentes; outras vezes, radicalmente opostos.

Para a burguesia, novo grupo social que se formava, a descentralização política do feudalismo era
inconveniente. Isso porque submetia os burgueses aos impostos e taxas cobrados pelos senhores e
dificultava a atividade comercial pela ausência de uma moeda comum e de pesos e medidas padroni-
zados.

Essas circunstâncias acabaram aproximando os burgueses dos reis, interessados em concentrar o


poder em suas mãos. Nessa aliança, a burguesia contribuía com dinheiro e o rei, com medidas admi-
nistrativas que favoreciam o comércio. O dinheiro da burguesia facilitava aos reis a organização de
um exército para impor sua autoridade à nobreza feudal.

Essa mesma nobreza feudal, por sua vez, encontrava-se enfraquecida pelos gastos com as Cruzadas
e tinha necessidade de um apoio forte, até mesmo para se defender das revoltas camponesas, que
se intensificavam. Desse modo procurou apoio nos reis, apesar de muitas vezes se sentir prejudicada
com a política da realeza em favor da burguesia, que colocava fim a vários dos privilégios feudais. Di-
vidido entre a burguesia e a nobreza feudal, o rei serviu de uma espécie de mediador entre os inte-
resses dos dois grupos.

Ao final de um longo tempo, esse processo acabou possibilitando a formação de um poder centrali-
zado e a consolidação de uma unidade territorial. Com isso, formaram-se em diversas regiões da Eu-
ropa monarquias com poder centralizado, nas quais os reis detinham grande parte do poder.

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MONARQUIAS CENTRALIZADAS

Assim, a monarquia centralizada foi a forma de governo sob a qual se organizou a Europa entre o fim
da Idade Média e o início da Idade Moderna.

A seguir, estudaremos o processo de formação de algumas monarquias europeias desse período.

A Monarquia Francesa

Em 843, o Império Carolíngio foi dividido em três reinos, que, por sua vez, já estavam subdivididos
em feudos governados por duques, marqueses e condes. Os reis eram suseranos, que dependiam
dos nobres locais para a obtenção de soldados e rendimentos.

Em 987, com a subida ao trono de Hugo Capeto, um desses reinos, o da França, passou a ser gover-
nado pela dinastia dos capetíngios.

Um seu descendente, Filipe Augusto é considerado o primeiro rei a iniciar o processo de consolida-
ção da Monarquia francesa. Em seu reinado (1180 – 1223), as cidades começaram a ser libertadas
do domínio dos senhores feudais, o que favoreceu a consolidação da burguesia. Apoiado por ela, Fi-
lipe impôs sua autoridade aos nobres. Durante seu governo, Paris passou a ser a capital do Reino da
França.

O processo de consolidação da Monarquia na França foi impulsionado por Luís IX (1226 – 1270). Ele
criou uma moeda única, cuja aceitação se tornou obrigatória em todo o território do reino. Contribuiu,
assim, para o comércio, facilitando a circulação das mercadorias.

Durante o reinado de Filipe IV (1285 – 1314), mais conhecido como Filipe, o Belo, os mercadores e
banqueiros estrangeiros chegaram a ser expulsos da França para evitar a saída de dinheiro, o que
fortaleceu ainda mais a burguesia francesa e o próprio rei.

Seu governo entrou em conflito com a Igreja, porque queria cobrar impostos do clero. Com a morte
do papa Bonifácio VIII, foi escolhido para substituí-lo o francês Clemente V. Em 1309, Filipe, o Belo,
pressionou-o para que transferisse o papado de Roma para a cidade francesa de Avignon (sudeste
da França). Assim, a Igreja ficou sob o controle do rei francês. A sede da Igreja só voltaria para Roma
em 1377.

O Grande Cisma do Ocidente, Cisma Papal ou simplesmente Grande Cisma foi uma crise religiosa
que ocorreu na Igreja Católica de 1378 a 1417.

Entre 1309 e 1377, a residência do papado foi alterada de Roma para Avignon, na França, pois o
Papa Clemente V foi levado (sem possibilidade de debate) pelo rei francês para residir em Avignon.
Em 1378, o Papa Gregório XIvoltaria para Roma, onde faleceria. A população italiana desejava que o
papado fosse restabelecido em Roma.

Foi então eleito o Urbano VI, de origem italiana. No entanto, ele demonstrou ser um papa muito auto-
ritário, de modo que uma quantidade considerável do Colégio dos Cardeais, anularia a sua votação e
foi realizado um novo conclave, sendo eleito Clemente VII, que passou a residir em Avignon.

Iniciara-se assim o Cisma, em que o Papa residia em Roma e o Antipapa residia em Avignon, recla-
mando ambos para si o poder sobre a Igreja Católica. Posteriormente, surgiria outro Antipapa em
Pisa.

A cisma terminou no Concílio de Constança em 1417, quando o papado foi estabelecido definitiva-
mente em Roma…

A Monarquia francesa consolidou-se nos séculos XIV e XV, durante a Guerra dos Cem Anos contra a
Inglaterra. Aliás, esse conflito seria importante também para a Inglaterra consolidar seu poder central,
como veremos logo adiante.

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MONARQUIAS CENTRALIZADAS

A Monarquia inglesa

Nas Ilhas Britânicas, em meados do século XI, havia quatro reinos: Escócia, País de Gales e Irlanda,
formados pelos celtas, e Inglaterra, formada por povos anglo-saxões.

Em 1066, o duque Guilherme, da Normandia (região do norte da França), invadiu e conquistou a In-
glaterra.

Guilherme, o Conquistador, como ficou conhecido, era vassalo do rei francês. Ele dividiu a Inglaterra
em condados, para os quais nomeou um funcionário a fim de representá-lo. Esse funcionário (xerife)
tinha autoridade sobre todos os habitantes, fossem eles senhores ou camponeses. Com isso, Gui-
lherme acabou fortalecendo seu poder.

Em 1154, um nobre francês, Henrique Plantageneta, parente de Guilherme, herdou a Coroa do Reino
da Inglaterra, passando a chamar-se Henrique II (1154 – 1189). Nesse período ocorreu de fato a cen-
tralização do poder na Inglaterra.

Henrique II foi sucedido por seu filho, Ricardo Coração de Leão (1189 – 1199). Dos dez anos de seu
governo, Ricardo ausentou-se da Inglaterra por nove anos, liderando a Terceira Cruzada e lutando no
continente europeu para manter seus domínios na França. Essa longa ausência causou o enfraqueci-
mento da autoridade real e o fortalecimento dos senhores feudais.

No reinado de João Sem-Terra (1199 – 1216), irmão de Ricardo, o enfraquecimento da autoridade


real foi ainda maior. Após ser derrotado em conflitos com a França e com o papado, João Sem-Terra
foi obrigado, pela nobreza inglesa, a assinar um documento chamado Magna Carta (1215).

Por esse documento, a autoridade do rei da Inglaterra ficava bastante limitada. Ele não podia, por
exemplo, aumentar os impostos sem prévia autorização dos nobres. A Magna Carta estabelecia que
o rei só podia criar impostos depois de ouvir o Grande Conselho, formado por bispos, condes e ba-
rões.

Henrique III (1216 – 1272), filho e sucessor de João Sem-Terra, além da oposição da nobreza, en-
frentou forte oposição popular. Um nobre, Simon de Montfort, liderou uma revolta da aristocracia e,
para conseguir a adesão popular, convocou um Grande Parlamento em 1265, do qual participavam,
além da nobreza e do clero, representantes da burguesia.

No reinado de Eduardo I (1272 – 1307), oficializou-se a existência do Parlamento. Durante os reina-


dos de Eduardo II e de Eduardo III, o poder do Parlamento continuou a se fortalecer. Em 1350, o Par-
lamento foi dividido em duas câmaras: a Câmara dos Lordes, formada pelo clero e pelos nobres, e a
Câmara dos Comuns, formada pelos cavaleiros e pelos burgueses.

Como podemos ver, na Inglaterra o rei teve seu poder restringido pela Magna Carta e pelo Parla-
mento. Mas isso não significou ameaça à unidade territorial ou um poder central enfraquecido, muito
pelo contrário. Comandada pelo rei, conforme os limites impostos pelo Parlamento, a Inglaterra se
tornaria um dos países mais poderosos da Europa, a partir do século XVI. Até hoje, a Inglaterra é
uma monarquia parlamentarista.

A Guerra dos Cem anos

Guilherme, o Conquistador, ao dominar a Inglaterra, acabou ligando-a aos franceses, já que ele era
vassalo do rei da França.

No início do século XIV, o rei Eduardo III da Inglaterra manifestou a intenção de ocupar o trono fran-
cês, do qual se julgava herdeiro. Ao mesmo tempo, desejava dominar a região de Flandres (atuais
Bélgica e Holanda), grande produtora de tecidos.

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MONARQUIAS CENTRALIZADAS

Essas ambições acabaram provocando um conflito entre a Inglaterra e a França: a Guerra dos Cem
Anos. Ela tem esse nome porque, com pequenas interrupções, prolongou-se por mais de um século:
de 1337 a 1453. O início do conflito é marcado pela invasão do território francês pelos exércitos da
Inglaterra.

Os ingleses venceram as batalhas iniciais, apoderando-se de grande parte do território francês. Mas
essas vitórias intensificaram a união e a resistência da população francesa. O principal símbolo dessa
união foi Joana d’Arc, uma jovem camponesa que obteve vitórias contra os exércitos ingleses, reani-
mando os franceses.

Assustados com a jovem camponesa, os ingleses conseguiram aprisioná-la. Julgada por heresia, foi
condenada à morte numa fogueira. Mas isso não impediu que os franceses retomassem os territórios
perdidos e expulsassem os ingleses.

Na imagem, a heroína francesa que foi canonizada como Joana d’Árc, morta em 30 de maio de 1431

O desfecho da Guerra dos Cem Anos contribuiu para estabelecer os limites territoriais tanto da
França vitoriosa quanto da Inglaterra derrotada, além de ter suscitado nos dois lados a formação de
um importante sentimento nacional.

A Monarquia Portuguesa

Portugal foi um dos primeiros países da Europa a consolidar um governo forte, centralizado na pes-
soa do rei. A formação da Monarquia portuguesa iniciou-se nas lutas dos cristãos pela expulsão dos
árabes islâmicos que, desde o século VIII, ocupavam a península Ibérica. Essas lutas ficaram conhe-
cidas como guerras de Reconquista.

Durante o domínio árabe, os reinos cristãos ficaram restritos ao norte da península – como Navarra.
A partir do século XI, pouco a pouco eles conseguiram ampliar seu território. Foram fundados,então,
vários reinos, entre os quais Aragão, Leão, Castela. Com isso, os árabes começaram a recuar em di-
reção ao litoral sul.

Durante as guerras de Reconquista, destacou-se o nobre francês Henrique de Borgonha. Como re-
compensa, ele recebeu do rei de Leão e Castela, Afonso VI, a mão de sua filha e terras que constituí-
ram o condado Portucalense.

O filho e herdeiro de Henrique de Borgonha, Afonso Henriques, proclamou-se então rei de Portugal
em 1139, rompendo os laços com Leão e Castela. Tinha início, assim, a dinastia de Borgonha.
Afonso Henriques, o conquistador, estendeu seus domínios para o sul, até o rio Tejo, e fez de Lisboa
sua capital.

Em 1383, com a morte do ultimo rei (sem herdeiros diretos) da dinastia de Borgonha, D. Fernando, o
Formoso, a Coroa portuguesa ficou ameaçada de ser anexada pelo soberano de Castela, parente do
rei morto. A burguesia, por sua vez, temia ver seus interesses comerciais prejudicados pelos nobres
castelhanos.

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MONARQUIAS CENTRALIZADAS

Para evitar a perda da independência, os portugueses aclamaram D. João, meio-irmão do rei morto,
novo rei. João, mestre da cidade de Avis, venceu a disputa e assumiu o trono em 1385. O apoio fi-
nanceiro da burguesia foi decisivo nessa vitória. Assim, durante toda a dinastia de Avis, os reis favo-
receram e apoiaram as atividades burguesas.

A Monarquia Espanhola

A formação da Monarquia espanhola também esteve ligada às guerras de Reconquista da península


Ibérica. Vimos que durante esse processo, diversos reinos foram constituídos. Em 1469, o casamento
de Fernando (herdeiro do trono de Aragão) com Isabel (irmã do rei de Leão e Castela) uniu três rei-
nos. Era o primeiro passo para a formação da Espanha.

Em 1492, os exércitos de Fernando e Isabel apoderaram-se de Granada e expulsaram os árabes da


península Ibérica, consolidando a monarquia.

No século XVI, com Carlos I, a Monarquia de Castela, atual Espanha, fortaleceu-se ainda mais.

As Rebeliões Camponesas

Além das guerras internas e externas e dos interesses da burguesia, outro movimento contribuiu para
o fortalecimento do poder dos reis: as revoltas camponesas.

Essas revoltas eram consequências da fome, da miséria e da superexploração dos camponeses. As-
sustados com as rebeliões, os senhores feudais aceitavam a autoridade do rei, que, fortalecido, podia
organizar exércitos para reprimir os numerosos movimentos de contestação.

Na França, as principais rebeliões ganharam o nome de jacqueries. Isso em virtude da expressão


“Jacques Bonhomme”, designação desdenhosa usada pelos nobres para referir-se a qualquer cam-
ponês (algo como Zé Ninguém). Na Inglaterra, os rebeldes foram liderados por um camponês artesão
chamado Wat Tyler e por um padre de nome John Ball.

Os camponeses na França e na Inglaterra lutavam por melhores condições de vida. Não suportando
mais as pesadas taxas exigidas pelos nobres, eles invadiram os castelos e saqueavam os depósitos
de alimento.

As revoltas não duraram muito tempo, pois foram reprimidas com violência pelos exércitos ligados ao
rei. Mesmo assim, contribuíram para mostrar a insatisfação e a capacidade de luta dos camponeses.

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IDADE MODERNA

Idade Moderna

A Idade Moderna é uma época da História que tem início em 1453 (tomada de Constantinopla pelos
turcos otomanos), indo até 1789 (início da Revolução Francesa).

Principais características no mundo ocidental:

- Foi um período de transição do Feudalismo para o Capitalismo.

- Fortalecimento das monarquias nacionais europeias.

- Prevalência de um regime político caracterizado, principalmente, pela centralização do poder nas


mãos do monarca (rei).

- Período de descobrimentos marítimos feitos pelos europeus (principalmente Portugal e Espanha) e


colonização e exploração das terras descobertas (principalmente na América e África).

- Comércio marítimo como principal fator de desenvolvimento econômico das nações.

- Fortalecimento da burguesia comercial europeia.

- Surgimento de movimentos de contestação ao poder da Igreja Católica (Reforma Religiosa) e forma-


ção de novas igrejas (luterana, calvinista e anglicana).

- Desenvolvimento das artes plásticas e da cultura sob uma nova perspectiva (humanismo), principal-
mente com o Renascimento Cultural.

- Amplo desenvolvimento científico (Astronomia, Engenharia, Matemática, Anatomia, Biologia, etc.) no


contexto do Renascimento Científico.

- Acúmulo de riquezas na Europa, fruto da exploração das colônias na América.

- Início da Revolução Industrial no final da Idade Moderna.

- Contestação, principalmente com o Iluminismo, do regime Absolutista e crise deste sistema de go-
verno no final da Idade Moderna (segunda metade do século XVIII).

Cronologia da Idade Moderna:

- 1453: Tomada de Constantinopla pelo império Turco-Otomano.

- 1455 a 1485: Guerra das Duas Rosas na Inglaterra.

- 1479: formação da monarquia nacional espanhola.

- 1492: Descobrimento da América com Cristóvão Colombo. Chegada dos espanhóis ao contimente
americano.

- 1498: Chegada da esquadra de Vasco da Gama às Índias.

- 1500: Chegada dos portugueses ao Brasil, liderados por Pedro Álvares Cabral (Descobrimento do
Brasil).

- 1508: Michelangelo começa a pintar o teto da Capela Sistina. A obra é uma das mais representati-
vas do Renascimento Cultural.

- 1517: início da Reforma Protestante com Martinho Lutero na Alemanha.

- 1532: início da colonização espanhola na América, após a destruição do Império Inca, comandada
pelos conquistadores espanhóis Francisco Pizarro e Diego de Almagro.

- 1534: fundação da Companhia de Jesus, organização jesuítica da Igreja Católica, como resposta à
Reforma Protestante. Esta organização atuou no Brasil, principalmente, na catequização dos índios.

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IDADE MODERNA

- 1542: Restabelecimento da Inquisição, que atuou, principalmente, na Itália, Portugal e Espanha.

- 1554: fundação da cidade de São Paulo.

- 1618 a 1648: Guerra dos Trinta Anos.

- 1642 a 1660: Revolução Puritana (guerra civil) na Inglaterra.

- 1688 a 1689: fim do regime absolutista na Inglaterra com a Revolução Gloriosa.

- 1756 a 1763: Guerra dos Sete Anos - conflito militar entre diversos reinos europeus, cuja principal
causa foi a disputa pelo domínio colonial.

- 1765: aperfeiçoamento do motor a vapor pelo escocês James Watt (marco inicial da Revolução In-
dustrial).

- 1776: Declaração da Independência dos Estados Unidos.

- 1789: início da Revolução Francesa, que derrubou a monarquia e terminou com o absolutismo na
França.

Ao pensar em modernidade, muitas pessoas logo imaginam que estamos fazendo referência aos
acontecimentos, instituições e formas de agir presente no Mundo Contemporâneo.

De fato, esse termo se transformou em palavra fácil para muitos daqueles que tentam definir em uma
única palavra o mundo que vivemos. Contudo, não podemos pensar que esse contexto mais dinâ-
mico e mutante surgiu do nada, que não possua uma historicidade.

Entre os séculos XVI e XVIII, um volume extraordinário de transformações estabeleceu uma nova per-
cepção de mundo, que ainda pulsa em nossos tempos.

Encurtar distâncias, desvendar a natureza, lançar em mares nunca antes navegados foram apenas
uma das poucas realizações que definem esse período histórico. De fato, as percepções do tempo e
do espaço, antes tão extensas e progressivas, ganharam uma sensação mais intensa e volátil.

O processo de formação das monarquias nacionais pode ser um dos mais interessantes exemplos
que nos revela tal feição.

Nesse curto espaço de quase quatro séculos, os reis europeus assistiram a consumação de seu po-
der hegemônico, bem como experimentaram as várias revoluções liberais defensoras da divisão do
poder político e da ampliação dos meios de intervenção política. Tronos e parlamentos fizeram uma
curiosa ciranda em apenas um piscar de olhos.

Além disso, se hoje tanto se fala em tecnologia e globalização, não podemos refutar a ligação intrín-
seca entre esses dois fenômenos e a Idade Moderna.

O advento das Grandes Navegações, além de contribuir para o acúmulo de capitais na Europa, tam-
bém foi importante para que a dinâmica de um comércio de natureza intercontinental viesse a aconte-
cer. Com isso, as ações econômicas tomadas em um lugar passariam a repercutir em outras parcelas
do planeta.

No século XVIII, o espírito investigativo dos cientistas e filósofos iluministas catapultou a busca pelo
conhecimento em patamares nunca antes observados. Não por acaso, o desenvolvimento de novas
máquinas e instrumentos desenvolveram em território britânico o advento da Revolução Industrial. Em
pouco tempo, a mentalidade econômica de empresários, consumidores, operários e patrões fixaram
mudanças que são sentidas até nos dias de hoje.

Em um primeiro olhar, a Idade Moderna pode parecer um tanto confusa por conta da fluidez dos vá-
rios fatos históricos que se afixam e, logo em seguida, se reconfiguram. Apesar disso, dialogando
com eventos mais específicos, é possível balizar as medidas que fazem essa ponte entre os tempos
contemporâneo e moderno. Basta contar com um pouco do tempo... Aquele mesmo que parece ser
tão volátil nesse instigante período histórico.

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IDADE MODERNA

Antigo Regime

"Antigo regime" é o termo que designa o modo de governo do Estado e da sociedade francesa du-
rante a Era Moderna. Embora existam vários outros exemplos de reinos que podem ilustrar o conceito
de monarquia do período, como a Espanha e a Inglaterra, a expressão em si costuma identificar pre-
dominantemente o modo de ser do Estado francês durante o período da dinastia Bourbon antes da
eclosão da Revolução Francesa.

No Antigo Regime, o princípio monárquico, ou seja, a pessoa e a instituição real é sagrado, como
visto pela cerimônia indispensável de coroação de um novo monarca. Ao rei francês, inclusive, são
atribuídos poderes curativos por meio de um simples toque. Este caráter religioso da figura do mo-
narca significava que o Estado francês tinha como objetivo alcançar a uniformidade religiosa entre os
súditos.

A essência sagrada da monarquia como um todo se inscreve, porém, em um sistema maior de simbo-
lismos, onde a justiça e a dignidade reais eram imortais, não dependendo das figuras dos monarcas.
Daí vem a teoria dos dois corpos do rei: um era humano e mortal, e outro era a própria instituição mo-
nárquica, que era perpétua e passava sucessivamente a cada rei após o falecimento de seu prede-
cessor. Esta transmissão era familiar, derivando-se da chamada mística do sangue.

Além de ter sido escolhido por Deus para liderar, o rei tinha um importante laço com seus súditos,
numa dinâmica frequentemente comparada no início da Idade Moderna com a de um casamento; no
caso, o dote trazido pela população em geral seria o próprio domínio a ser exercido pelo soberano
sobre eles.

Contudo, os súditos ainda poderiam ser representados nas decisões governamentais por meio da ins-
tituição nacional chamada de Estados Gerais. Nela, as três ordens dos reinos clero, nobreza e povo –
eram convocados pelo monarca para debaterem importantes questões do reino. Embora apenas se
reunissem por ordem do soberano, os Estados Gerais eram um meio importante de garantir a legitimi-
dade real.

Fundamental para a manutenção do Antigo Regime era também a corte. Ainda no século XVII, o
rei Luís XIV veiculou uma série de benefícios aos grandes nobres à sua residência permanente no
Palácio de Versalhes, possibilitando assim seu controle ao erigir um complexo sistema hierárquico de
corte que estimulava a competição da nobreza pelo favor real.

Luís XIV da França, o Rei Sol. Pintura de Hyacinthe Rigaud (1701).

Do ponto de vista econômico, o Estado se sustentava graças à exploração do terceiro Estado, o único
que pagava impostos. Embora as finanças do reino estivessem em crise há várias décadas, seria
com o apoio francês às 13 Colônias na Guerra de Independência Americana (1775-83) que desequili-
brou definitivamente a economia. Colheitas ruins agravariam a situação, expondo a sociedade extre-

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IDADE MODERNA

mamente desigual gerada pelo Antigo Regime e os privilégios dos dois primeiros estamentos. Cha-
mando os Estados Gerais pela primeira vez em quase duzentos anos, o rei Luís XVI viu-se sem legiti-
midade suficiente para forçar uma solução, o que iniciou uma crise política. Poucas semanas depois,
ocorreria a queda da Bastilha, tradicionalmente considerada o marco inicial da Revolução Francesa e
do processo que levaria ao fim do Antigo Regime.

Antigo regime é a denominação do sistema político e social da França anterior à Revolução Francesa.
O termo foi aplicado depois da revolução como marca da transição política.

No antigo regime, a sociedade francesa era constituída por uma rígida hierarquia composta por clas-
ses sociais. No degrau mais alto estava o rei que governava sob o aspecto da teoria do direito divino.
Ou seja, acreditava estar obedecendo a lei de Deus. Abaixo dele, todos eram súditos.

Características

 Sociedade estamental

 Rei governando sob a teoria do direito divino centralizando as decisões do executivo, legislativo e
judiciário

 Clero e nobreza livres de impostos

 Elevados impostos sobre a maioria da população

 Pobreza extrema vivida pela maioria da população

 Influência direta da Igreja Católica sobre o governo

 Direito senhorial dos nobres sobre os camponeses

O último rei a governar a França antes da revolução foi Luís XVI (1754 - 1793), da dinastia Bourbon,
que morreu na guilhotina. Abaixo do rei estavam o primeiro estado, o segundo estado e o terceiro es-
tado. Essa estrutura social é também chamada de estamentos ou organização estamental.

Primeiro Estado

O primeiro estado era representado pelo clero. A França era um país católico e ao núcleo da igreja
cabia o comando da manutenção dos registros, a educação, as obras de caridade e, claro, a vida reli-
giosa dos franceses.

A Igreja também exercia forte influência sobre o governo porque muitas figuras representadas do alto
clero eram conselheiros do rei. A tarefa cabia a cardeais, bispos e arcebispos que tinham grande po-
der político.

A Igreja era isenta de impostos e possuía elevada riqueza, sendo proprietária de terras e administra-
dora dos negócios definidos pela forma de poder francês.

Segundo Estado

O segundo estado era constituído pela nobreza, pessoas com títulos hereditários e que ocupavam o
topo do governo. Alguns nobres haviam recebido os títulos na época das cruzadas. Também eram
nobres os comerciantes plebeus que só chegavam a essa condição por compraram títulos de no-
breza.

Os nobres eram proprietários de terras muito ricos e viviam exaltando luxo. Assim como o clero, não
pagavam impostos e exerciam forte influência no governo francês.

Terceiro Estado

Na base da sociedade francesa estava as pessoas comuns, o terceiro estado, que correspondia a
95% da população. Nessa classe estavam os burgueses, ricos comerciantes e profissionais liberais.
Muitos tentavam comprar o título de nobreza, mas nem sempre havia êxito.

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IDADE MODERNA

Sobre o terceiro estado recaía pesada tributação. Além dos burgueses, nessa camada também esta-
vam os camponeses e empregados dos nobres que enfrentavam dificuldades para manter condições
mínimas de sobrevivência, como alimentação e vestuário.

Iluminismo

O iluminismo foi um movimento intelectual francês que teve lugar entre os séculos 17 e 18 e questio-
nava o modelo econômico, social e político da Idade Média, que ficou classificada como "Idade das
Trevas".

Apoiado em uma nova visão a respeito de Deus, da razão, da natureza da humanidade, o iluminismo
teve significativa influência sobre o pensamento revolucionário e apontava, entre outras filosofias, que
os objetivos da humanidade são o conhecimento, a liberdade e a felicidade.

Crise no Antigo Regime

A partir de 1787, a velha organização política e social francesa começa a sucumbir tendo como base,
também, as ideias iluministas. Também contribuíram a crise financeira a que a França mergulhou
após o prejuízo com a colheita de trigo, destruída parcialmente por tempestades em 1788 e pela seca
no ano seguinte.

O fracasso no campo não impediu o aumento da cobrança de impostos ao terceiro estado, que passa
a exigir melhores condições sociais e políticas e a reforma do governo. O rei convocou os estados ge-
rais, mas tanto o primeiro, como o segundo estado não aceitavam abdicar os privilégios e integrar o
regime de recolhimento de tributos.

O desenho da revolução ocorria com a organização da burguesia, que conseguiu a instituição da mo-
narquia constitucional. As mudanças só foram consolidadas após Revolução Francesa, em 1789.

Revolução Francesa

A revolução estabeleceu o fim do antigo regime marcada por uma sucessão de eventos que a conso-
lidou. A burguesia estava ressentida da exclusão do poder e rejeitava os últimos vestígios do anacrô-
nico feudalismo; o governo francês estava à beira da falência; o aumento da população elevou pro-
porcionalmente o descontentamento com a falta de alimentos e o excesso de impostos; as ideias ilu-
ministas previam uma nova ordem; a teoria do direito divino deixou de ser aceita.

Antigo Regime Europeu

O absolutismo e o mercantilismo eram as bases do antigo regime europeu e tiveram a formação a


partir do Estado moderno na Europa nos últimos séculos da Idade Média. Nesse regime, o absolu-
tismo era caracterizado pela concentração da autoridade política sobre o rei com o apoio da teoria do
direito divino.

O mercantilismo, por sua vez, pela intervenção direta do Estado na economia. O antigo regime euro-
peu é derrubado com o fim do feudalismo e o aumento do poder real pela formação do Estado Mo-
derno tendo como base a aliança entre a burguesia e a nobreza.

O início

Na época em que os portugueses chegaram ao Brasil estima-se que existiam cerca de 5 milhões de
índios no território brasileiro, e 100 milhões em todo o continente Sul americano. Os índios brasileiros
eram divididos por tribos diferentes, de acordo com a língua que cada um praticava. Exemplos dessas
tribos são: tupi-guarani (que se encontravam na região litorânea), macro-jê ou tapuias (habitavam a
região do Planalto Central), Aruaques e Caraíbas (que viviam na região da Amazônia).

A chegada e o contato direto com os portugueses fez com que a cultura indígena fosse cada vez
mais se perdendo com o tempo. Em 2010, estudos feitos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatísticas) apontavam que 896.917 mil índios viviam no Brasil, em reservas indígenas preserva-
das pelo Governo Federal. São em média 200 etnias indígenas e 170 línguas diferentes, no entanto,
a vida dos índios já não é mais como era antes da chegada dos portugueses.

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A cultura Indígena

A cultura raiz foi se perdendo ao ser ter contato com o povo branco. Isso aconteceu devido ao choque
de cultura ser tão forte estre esses dois povos. Os índios viviam uma vida bastante simples, sem
quase nenhuma tecnologia. Tudo que precisavam para sobreviver tiravam da natureza, inclusive suas
vestimentas. Não existe classe social dentro de uma tribo, todos devem receber o mesmo tratamento
não havendo diferenciação.

Os homens adultos eram responsáveis pelo trabalho pesado, como a caça, pesca, derrubada de ár-
vores para o cultivo de plantas e guerras. As mulheres pela comida, cuidado com as crianças, co-
lheita e plantio.

Os curumins (como são chamadas as crianças indígenas) tinham um crescimento na base artesanal,
tudo que aprendiam era na base da prática, como exemplo, os pais levavam seus filhos nas caçadas
e o mesmo ia aprendendo como se fazer. Quando completavam 13 a 14 anos eles passavam por
uma cerimônia para entrarem na fase adulta.

Os índios cultivavam alimentos como o milho, a batata-doce, feijão, a abóbora, entre outros, mas ti-
nha na mandioca seu principal alimento. Domesticava animais pequenos como porco espinhos, ara-
ras, pequenos lagartos, capivara e outros. Os objetos utilizados pela população indígena eram todos
retirados da natureza, e trabalhados de forma manuais para atender a determinas necessidades.
Exemplos são as canoas, arco-flechas, ocas, potes de barro e muitos outros. Lembrando que os ín-
dios até hoje respeitam muito a natureza e dela só retiravam o que realmente precisava para sobrevi-
ver e nada a mais.

O Pajé e o Cacique

Duas figuras são bastante importantes dentro de uma tribo, o Pajé e o Cacique. O Pajé era uma es-
pécie de curandeiro e sacerdote da tribo, conhecedor nato de vários tipos de plantas, as utilizava para
gerar a cura de várias enfermidades e também era responsável pelo contato com os deuses. Já o ca-
cique, era tido como o líder da tribo e sua função era organizar e orientar os índios para que os mes-
mos pudessem ter uma vida melhor.

É de conhecimento dos historiadores que no Brasil existiram tribos canibais (que comiam carne hu-
mana). Rituais eram feitos com a crença de que se comecem a carne do corpo do inimigo, isso lhe
passariam a força, sabedoria e valentia que ele possuía.

Revoltas do Período Colonial Brasileiro

As Revoltas do Período Colonial Brasileiro se dividiram entre interesses nativistas e interesses sepa-
ratistas.

O Brasil foi colonizado por Portugal a partir de 1500, mas a efetiva exploração do território não come-
çou no mesmo ano. Inicialmente, os portugueses apenas extraíam das terras brasileiras o pau-brasil
que era trocado com os indígenas.

Na falta de metais preciosos, que demoraram ser encontrados, esse tipo de relação de troca, cha-
mada escambo, permaneceu por algumas décadas. A postura dos portugueses em relação ao Brasil
só se alterou quando a ameaça de perder a nova terra e seus benefícios para outras nacionalidades
aumentou.

Com o desenvolvimento da exploração do Brasil em sentido colonial, ou seja, tudo que era produzido
em território brasileiro iria para Portugal, a metrópole e detentora dos lucros finais. Esse tipo de rela-
ção estava inserido na lógica do Mercantilismo que marcava as ligações de produção e lucro entre
colônias e suas respectivas metrópoles.

O modelo que possui essas características é chamado de Pacto Colonial, mas as recentes pesquisas
de historiadores estão demonstrando novas abrangências sobre a rigidez desse tipo de relação co-
mercial. Ao que parece, o Pacto Colonial não era tão rígido como se disse por muitos anos, a colônia
tinha certa autonomia para negociar seus produtos e apresentar seus interesses.

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De toda forma, é certo que o tipo de relação entre metrópole e colônia envolveu a prática da explora-
ção. O objetivo das metrópoles era auferir o máximo de lucros possíveis com a produção das colô-
nias. No Brasil, antes do ouro ser encontrado e causar grande alvoroço, a cana-de-açúcar era o prin-
cipal produto produzido, na região Nordeste.

A exploração excessiva que era feita pela metrópole portuguesa teve seus reflexos de descontenta-
mento a partir do final do século XVII. Neste, ocorreu apenas um movimento de revolta, mas foi ao
longo do século XVIII que os casos se multiplicaram.

Entre todos esses movimentos, podem-se distinguir duas orientações nas revoltas: a de tipo nati-
vista e a de tipo separatista. As revoltas que se encaixam no primeiro modelo são caracterizadas por
conflitos ocorridos entre os colonos ou defesa de interesses de membros da elite colonial. Somente
as revoltas de tipo separatista que pregavam uma independência em relação a Portugal.

Entre as revoltas nativistas mais importantes estão: Revolta de Beckman, Guerra dos Emboa-
bas, Guerra dos Mascates e a Revolta de Filipe dos Santos.

São revoltas separatistas: Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana.

A Revolta dos Beckman ocorreu no ano de 1684 sob liderança dos irmãos Manuel e Tomas Beck-
man. O evento que se passou no Maranhão reivindicava melhorias na administração colonial, o que
foi visto com maus olhos pelos portugueses que reprimiram os revoltosos violentamente. Foi a única
revolta do século XVII.

A Guerra dos Emboabas foi um conflito que ocorreu entre 1708 e 1709. O confronto em Minas Ge-
rais aconteceu porque os bandeirantes paulistas queriam ter exclusividade na exploração do ouro re-
cém descoberto no Brasil, mas levas e mais levas de portugueses chegavam à colônia para investir
na exploração. A tensão culminou em conflito entre as partes.

A Guerra dos Mascates aconteceu logo em seguida, entre 1710 e 1711. O confronto em Pernam-
buco envolveu senhores de engenho de Olinda e comerciantes portugueses de Recife. A elevação de
Recife à categoria de vila desagradou a aristocracia rural de Olinda, gerando um conflito. O embate
chegou ao fim com a intervenção de Portugal e equiparação entre Recife e Olinda.

A Revolta de Filipe dos Santos aconteceu em 1720. O líder Filipe dos Santos Freire representou a in-
satisfação dos donos de minas de ouro em Vila Rica com a cobrança do quinto e a instalação das Ca-
sas de Fundição. A Coroa Portuguesa condenou Filipe dos Santos à morte e encerrou o movimento
violentamente.

A Inconfidência Mineira, já com caráter de revolta separatista, aconteceu em 1789. A revolta dos mi-
neiros contra a exploração dos portugueses pretendia tornar Minas Gerais independente de Portugal,
mas o movimento foi descoberto antes de ser deflagrado e acabou sendo punido com rigidez pela
metrópole. Tiradentes foi morto e esquartejado em praça pública para servir de exemplo aos demais
do que aconteceria aos descontentes com Portugal.

A Conjuração Baiana, também separatista, ocorreu em 1798. O movimento ocorrido na Bahia preten-
dia separar o Brasil de Portugal e acabar com o trabalho escravo. Foi severamente punida pela Coroa
Portuguesa.

Ainda hoje, muitos historiadores pensam sobre como o Brasil conseguiu dar fim a dominação colonial
exercida pelos portugueses. O interesse pelo assunto promove uma discussão complexa que interliga
as transformações intelectuais e políticas que tomaram conta do continente europeu e o comporta-
mento das ideias que sustentaram a luta pelo fim da ingerência lusitana. Por fim, tivemos que alcan-
çar nossa autonomia graças ao interesse de sujeitos diretamente ligados ao poder metropolitano.

No século XVIII, podemos observar que algumas revoltas foram fruto da incompatibilidade de interes-
ses existente entre os colonos e os portugueses. Algumas vezes, a situação de conflito não motivou
uma ruptura radical com a ordem vigente, mas apenas a manifestação por simples reformas que se
adequassem melhor aos interesses locais. Usualmente, os livros de História costumam definir essas
primeiras revoltas como sendo de caráter nativista.

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Outras rebeliões desenvolvidas no mesmo século XVIII tomaram outra feição. As chamadas rebeliões
separatistas pensavam um novo meio de se organizar a vida no espaço colonial a partir do banimento
definitivo da autoridade lusitana. Em geral, seus integrantes eram membros da elite que se influencia-
ram pelas manifestações liberais que engendraram a Independência das Treze Colônias, na América
no Norte, e a Revolução Francesa de 1789.

Mesmo preconizando os ideais iluministas e liberais, as revoltas acontecidas no Brasil eram cercadas
por uma série de limites. O mais visível deles se manifestava na conservação da ordem escravocrata
e a limitação do poder político aos membros da elite econômica local. Além disso, ao contrário do que
apregoavam muitos historiadores, essas revoltas nem mesmo tinham a intenção de formar uma na-
ção soberana ou atingir amplas parcelas do território colonial.

Entre os principais eventos que marcam a deflagração das revoltas nativistas, destacamos a Revolta
dos Beckman (1684, Maranhão); a Guerra dos Emboabas (1707, Minas Gerais); a Guerra dos Masca-
tes (1710, Pernambuco); e a Revolta de Filipe dos Santos (1720, Minas Gerais). As únicas revoltas
separatistas foram a Inconfidência Mineira, ocorrida em 1789, na região de Vila Rica, e a Conjuração
Baiana, deflagrada em 1798, na cidade de Salvador.

O Império ultramarino português foi um dos primeiros a atuar em escala global. Com o objetivo de
conquistar novos territórios e expandir os domínios de Portugal, sua história compreende o período
que tem início no ano de 1415, com a Conquista de Ceuta e termina 1999, quando ocorre a entrega
de Macau.

Alguns historiadores afirmam que o fim de suas atividades se deu quando, em 2002, concederam
ao Timor-Leste a soberania. Também conhecido como Império Colonial Português ou Ultramar Portu-
guês, é considerado o mais antigo dos impérios de colonização da Europa moderna e se espalhou
por um grande número de localidades que atualmente pertencem a mais de 50 nações no mundo.

A história do Império ultramarino português remete ao ano de 1419, quando navegadores de Portugal
iniciaram um processo de exploração ao redor da costa africana. Fazendo uso de descobertas moder-
nas para a época, como a cartografia e as caravelas (desenvolvidas junto à Escola de Sagres), as
embarcações portuguesas procuravam uma rota que chegasse ao comércio oriental, que era lucrativo
e rico em especiarias.

Um dos principais nomes desta época foi Bartolomeu Dias, conhecido por chegar ao oceano Índico a
partir do Atlântico, dobrando o Cabo da Boa Esperança. Outro navegante renomado foi Vasco da
Gama, explorador que chegou à Índia. Fora estes, e não menos importante, Pedro Álvares Cabral, ao
navegar pela área da costa atlântica da América do Sul, descobriu um território em 1500, que mais
tarde seria chamado de Brasil.

Com estas primeiras conquistas, a economia do país desenvolveu-se e o investimento nas descober-
tas foi redobrado pela coroa. No ano de 1571, a quantidade de territórios desbravados pelos portu-
gueses chegava a ligar a nação lusitana ao Japão. No período entre 1580 e 1640, Portugal alia-se à
Espanha, mas os dois países continuam com administrações independentes. Desta forma, a nação
portuguesa torna-se alvo de três grandes rivais da Espanha: França, Holanda e Grã-Bretanha. Neste
momento, Portugal demonstra-se incapaz de defender seu império ultramarino e as terras conquista-
das e, aos poucos, vai declinando.

No século XVII, o monopólio de Portugal no Oceano Índico chega ao fim, pois vários territórios no su-
deste asiático e na Índia Portuguesa foram perdidos para a Holanda. Em 1822, o Brasil, que era a
área de dominação portuguesa mais importante, torna-se um país independente. Desta forma, res-
tava ao Império ultramarino português somente algumas colônias localizadas no litoral da África. Para
proteger estes territórios, após a Segunda Guerra Mundial, o governo português do ditador Sala-
zar entra em uma guerra contra as forças anticolonialistas africanas, que terminou com o reconheci-
mento da independência de tais países.

Antigo Regime

O que foi

O Antigo Regime pode ser definido como um sistema de governo que vigorou na Europa, principal-
mente, entre os séculos XVI e XVIII.

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IDADE MODERNA

A principais características do Antigo Regime foram:

- Absolutismo: forma de governo totalmente concentrada na figura do rei. Este exercia seu poder sem
utilizar os métodos democráticos, impondo sua própria vontade na elaboração e aplicação das leis.
Grande parte dos recursos arrecadados com impostos era utilizado para manter os gastos e o luxo da
corte.

- Mercantilismo: o estado tinha como objetivos a obtenção de metais precisos (para fabricação de mo-
edas), manutenção da balança comercial favorável, protecionismo alfandegário, acúmulo de riquezas
nas mãos dos reis e ênfase no comércio marítimo.

Você sabia?

A Revolução Francesa (1789), foi o fato histórico que deu início ao fim do Antigo Regime na Europa,
pois tirou do poder a monarquia absolutista.

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

A Expansão Marítima Europeia

Importantíssima no período de transição da Idade Média para a Idade Moderna, a expansão marítima
europeia durou entre os séculos XV e XVII, aumentou consideravelmente os impérios comerciais do
continente e ajudou a transformar a Inglaterra na maior potência mundial a expansão marítima é o fim
da Primeira Guerra Mundial.

Claro que esta é uma definição deveras apressada e muito superficial. Diria até mesmo um tanto
quanto leviana! Mas antes de começar a explicar a expansão, vamos falar um pouco de como estava o
continente europeu antes da expansão:

A Europa Pré-Expansão Marítima

Devido à expansão árabe iniciada nos séculos VII e VIII e a posterior conquista da Península Ibérica, a
divisão do Império Romano   e a consequente continuidade do Império Romano do Oriente e o fracasso
da parte Ocidental , a região central da Europa estava fechada.

Já falamos aqui no HZ sobre a formação do feudalismo, a conquista da Península Ibérica, e lá no final


do nós vamos colocar links para estes dois posts e outros que ajudarão a ampliar o assunto, ok? Volte-
mos ao texto…

Este cenário de poucas relações comerciais, que gerou uma considerável retração econômica, durou
até meados do século XI, quando as Cruzadas ajudaram, de alguma forma, no início do renascimento
comercial europeu.

As campanhas militares voltadas para a reconquista de lugares sagrados do cristianismo ajudavam a


abrir rotas comerciais, e algumas cidades começam a se destacar neste aspecto, mesmo que interna-
mente, ali na região do Mediterrâneo. Mais que isso, os europeus voltaram a ter contato com os produ-
tos do oriente, principalmente seda, joias, perfumes e diversas especiarias (canela, pimenta, cravo,
noz-moscada etc.…).

E este contato, claro, cria uma demanda pelos produtos, o que gera um aumento do comércio e a ne-
cessidade de abertura de novas rotas comerciais.

Entre os séculos XII e XIII as cidades de Gênova e Veneza marcadas no mapa acima, na região da
atual Itália, comandaram a navegação do Mediterrâneo e construíram verdadeiros impérios apoiados
em entrepostos comerciais.

Na época, a Península Itálica estava dividida em diversos reinos e ducados, além dos Estados Pontifí-
cios   sob administração do Papa   por isso não havia uma unidade, um “país” como é a Itália hoje em
dia. As duas cidades citadas eram autônomas, e disputavam o comércio marítimo, guardadas as devi-
das proporções, como dois países contemporâneos.

Mas nem só os comerciantes destas duas cidades prosperavam. Em grande parte da Europa outros
reinos tinham seus comerciantes que revendiam os produtos trazidos pelos mercadores italianos atra-
vés do Mediterrâneo, burgueses que estavam em ascensão econômica, pagavam impostos aos sobe-
ranos e cobravam soluções para a quebra do monopólio comercial das duas cidades italianas.

Além destes motivos econômicos, nós podemos citar mais alguns fatores que influenciaram na expan-
são marítima europeia:

Criação dos Estados e centralização política:

Um dos primeiros reinos a incentivar a expansão marítima foi a Espanha, logo após o término das
Guerras de Reconquista da Península Ibérica e da posterior unificação dos reinos espanhóis.

Esta guerra expulsou os árabes da península, e após a queda do reino mouro de Granada, em 1492   o
último a resistir aos espanhóis  o rei Fernando II, apoiado pela Igreja Católica, patrocinou a viagem do
genovês Cristóvão Colombo. Sua missão era descobrir novas terras e, consequentemente, novos mer-
cados. O resultado da viagem de Colombo nós sabemos muito bem qual foi, não é?

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

Mas antes dos espanhóis, os portugueses já estavam bem adiantados em relação às navegações, por
um segundo fator:

Avanços Técnicos da Arte Náutica

Os portugueses já tinham um reino unificado desde o séc XIII e tinham, por assim dizer, uma relativa
paz em seu território. A fundação da lendária Escola de Sagres, em meados do séc. XIV pelo infante
D. Henrique, fortaleceu o desenvolvimento das chamadas “ciências marítimas”.

Junte-se a este fator o desenvolvimento da cartografia e da astronomia, o uso da bússola e de outros


instrumentos náuticos como o astrolábio e a sextante, além da construção de embarcações maiores e
mais resistentes   as naus e as caravelas, preparados para navegar grandes distâncias, e temos um
cenário favorável aos navegadores portugueses, que fizeram diversos contatos comerciais na costa
ocidental da África.

Não é exagero quando você ouve, ou já ouviu alguém dizer que “Portugal tem uma estreita relação
com o mar, e que esta relação favoreceu os descobrimentos portugueses”. A geografia do país favo-
rece a navegação, e Portugal com o tempo conseguiu montar uma extensa rede de entrepostos co-
merciais ao longo das costas brasileira, africana e asiática.

Interesse Expansionista de Outras Nações da Europa

Com as notícias da descoberta da América, nem só Portugal e Espanha olhavam para o mar com de-
sejos de novos mercados e consequente aumento de comércio. Ingleses, franceses e holandeses tam-
bém começaram a financiar viagens com o objetivo de descobrir novas rotas comerciais ou estabele-
cer entrepostos. Mas portugueses e espanhóis já haviam assinado o Tratado de Tordesilhas em 1494,
tratado este que praticamente “dividia” o mundo entre os dois reinos.

Óbvio que os monarcas franceses, ingleses e holandeses contestaram o tratado. A frase mais famosa
desta discussão é do rei Francisco I, da França, que disse:

“Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me afastou da partilha do mundo”

Desta forma, os três reinos passaram a financiar as viagens de uma forma meio clandestina, sem a
aprovação dos reinos de Portugal e Espanha, o que acarretava em episódios como o da França Antár-
tica, em que franceses chegaram a manter um território na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ou
na Recife “Holandesa”.

Um Novo Mundo Além-Mar

Quando nós falamos em ampliação do comércio marítimo e em colonização do novo mundo no início
da expansão europeia nós não falamos em conquista de mercados consumidores externos. Ainda não.

Portanto, é fundamental separar as coisas: no início, os europeus buscavam mercadorias além-mar


para comercializá-las na Europa.

Como foi destacado acima, as rotas comerciais terrestres estavam fechadas e o Mediterrâneo era
meio que monopolizado por navegantes de Gênova e Veneza. Então, para chegar à Ásia, onde eram
produzidas dezenas de especiarias consumidas na Europa, a solução era contornar a África pelo mar.
Ou dar a volta no mundo até alcançar as Índias, como Cristóvão Colombo morreu acreditando ter reali-
zado tal façanha.

Mas ao chegar na América, Colombo descobriu em nome do rei espanhol um vasto mundo ainda inex-
plorado e cheio de riquezas. Os espanhóis logo encontraram metais preciosos entre os povos da Amé-
rica Central e, mais tarde, prata na América do Sul.

Os portugueses inicialmente levaram grande parte do pau-brasil existente em nossas terras, e a partir
da década de 1530   mais especificamente a partir de 1534, com a implantação das capitanias hereditá-
rias  expedições trouxeram os primeiros portugueses que iniciaram a colonização e a exploração do
solo, plantando cana-de-açúcar, nosso primeiro produto agrícola exportado em larga escala para a Eu-
ropa.

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

Mais tarde foi encontrado ouro na região das Minas Gerais. A mão-de-obra utilizada nestes serviços
era escrava, trazida da África, já que durante as tentativas de circunavegação do continente africano
até as Índias os portugueses estabeleceram alguns entrepostos no litoral daquele continente.

E como também já foi citado, franceses, holandeses e ingleses também desenvolvem sua navegação,
começando a rivalizar com os ibéricos. O território que mais sofreu invasão e posterior colonização foi
a parte espanhola do Tratado de Tordesilhas. Territórios onde hoje estão Canadá, EUA, Haiti, Suri-
name, Ilhas Cayman   entre outras pequenas ilhas caribenhas e as Guianas, por exemplo, foram coloni-
zados por franceses, holandeses e ingleses.

Povoamento e exploração

Antigamente nós escutávamos em sala de aula que algumas colônias sofreram exploração, por isso o
atraso no desenvolvimento, enquanto outras foram poupadas da sangria pois serviram como colônia
de povoamento.

É errado pensar desta forma, pois todas as colônias da América sofreram  em graus diferentes, lógico 
povoamento e exploração.

Os ingleses, por exemplo, foram mandados à América do Norte porque na Inglaterra não havia espaço
para plantar. O país vivia a época dos cercamentos (*), e a famosa frase de Thomas More faz sentido
quando seu personagem Rafael Hitlodeu diz que

“Os carneiros (…) tornaram-se, segundo me contam, tão vorazes, tão ferozes que devoram até mesmo
os homens, que devastam e despovoam os campos, as fazendas e as aldeias.”

Uma vez estabelecidos em território americano, todos os colonizadores sofreram com medidas implan-
tadas pelas metrópoles, como o monopólio comercial. Em resumo, as metrópoles tinham que manter a
balança comercial favorável. E para isso, até regiões que hoje são extremamente desenvolvidas, como
é o caso dos EUA, sofreram exploração.

E a Europa nesta época registrou grandes índices de desenvolvimento econômico. Quase todo o metal
precioso retirado daqui ia para as cortes europeias. O ouro português e a prata espanhola financiavam
produtos finos produzidos por franceses e produtos do dia-a-dia, mais comuns, produzidos por ingle-
ses.

Os manufaturados produzidos na Europa eram vendidos na América, pois em muitos lugares   inclusive
no Brasil era proibido montar indústrias. Tudo isso transportado em sua maioria por holandeses, que se
especializaram no transporte marítimo.

A Inglaterra, com o passar do tempo, se transformou na maior potência econômica e marítima do pla-
neta, com colônias e entrepostos espalhados no mundo todo, além dos portos “amigos”   portugueses
em sua maioria   também espalhados pelos cinco continentes.

Demorou muito tempo para que as colônias conquistassem suas independências políticas, e mesmo
assim algumas ainda dependiam, em parte, das antigas metrópoles. Dependência econômica? Alguns
países não a conseguiram até hoje, mais de 500 anos após Colombo desembarcar em Cuba no dia 27
de outubro de 1492.

Mas isso é assunto para um próximo texto. Ou melhor, para vários próximos textos, já que o assunto
das independências é vastíssimo.

Expansão Ultramarina

As primeiras grandes navegações permitiram a superação das barreiras comerciais da Idade Média,
o desenvolvimento da economia mercantil e o fortalecimento da burguesia.

A necessidade do europeu lançar-se ao mar resultou de uma série de fatores sociais, políticos,
econômicos e tecnológicos.

A Europa saía da crise do século XIV e as monarquias nacionais eram levadas a novos desafios que
resultariam na expansão para outros territórios.

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

Veja no mapa abaixo as rotas empreendias em direção ao Ocidente pelos navegadores e o ano das
viagens:

A Europa atravessava um momento de crise, pois comprava mais que vendia. No continente europeu,
a oferta era de madeira, pedras, cobre, ferro, estanho, chumbo, lã, linho, frutas, trigo, peixe, carne.

Os países do Oriente, por sua vez, dispunham de açúcar, ouro, cânfora, sândalo, porcelanas, pedras
preciosas, cravo, canela, pimenta, noz-moscada, gengibre, unguentos, óleos aromáticos, drogas me-
dicinais e perfumes.

Cabia aos árabes o transporte dos produtos até a Europa em caravanas realizadas por rotas terres-
tres. O destino eram as cidades italianas de Gênova e Veneza que serviam como intermediárias para
a venda das mercadorias ao restante do continente.

Outra rota disponível era pelo Mar Mediterrâneo monopolizada por Veneza. Por isso, era necessário
encontrar um caminho alternativo, mais rápido, seguro e, principalmente, econômico.

Paralela à necessidade de uma nova passagem, era preciso solucionar a crise dos metais na Europa,
onde as minas já davam sinais de esgotamento.

Uma reorganização social e política também impulsionava à busca de mais rotas. Eram as alianças
entre reis e burguesia que formaram as monarquias nacionais.

O capital burguês financiaria a infraestrutura cara e necessária para o feito ao mar. Afinal, era preciso
navios, armas, navegadores e mantimentos.

Os burgueses pagavam e recebiam em troca a participação nos lucros das viagens. Este foi um modo
de fortalecer os Estados nacionais e submeter à sociedade a um governo centralizado.

No campo da tecnologia foi necessário o aperfeiçoamento da cartografia, da astronomia e da enge-


nharia náutica.

Os portugueses tomaram a dianteira deste processo através da chamada da Escola de Sagres. Ainda
que não fosse uma instituição do modo que conhecemos hoje, serviu para reunir navegadores e estu-
diosos so patrocínio do Infante Dom Henrique (1394-1460).

Portugal

A expansão marítima portuguesa começou através das conquistas na costa da África e se expandi-
ram para os arquipélagos próximos. Experientes pescadores, eles utilizaram pequenos barcos, o bari-
nel, para explorar o entorno.

Mais tarde, desenvolveriam e construiriam as caravelas e naus a fim de poderem ir mais longe com
mais segurança

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

A precisão náutica foi favorecida pela bússola e o astrolábio, vindos da China. A bússola já era utili-
zada pelos muçulmanos no século XII e tem como finalidade apontar para o norte (ou para o sul). Por
sua vez, o astrolábio é utilizado para calcular as distâncias tomando como medida a posição dos cor-
pos celestes.

No mapa a seguir é possível ver as rotas empreendidas pelos portugueses:

Com tecnologia desenvolvida e a necessidade econômica de explorar o Oceano, os portugueses


ainda somaram a vontade de levar a fé católica para outros povos.

As condições políticas eram bastante favoráveis. Portugal foi a primeira nação a criar um Estado-naci-
onal associado aos interesses mercantis através da Revolução de Avis.

Em paz, enquanto outras nações guerreavam, houve uma coordenação central para as estimular e
organizar as incursões marítimas. Estas seriam essenciais para suprir a falta de mão de obra, de pro-
dutos agrícolas e metais preciosos.

O primeiro sucesso português nos mares foi a Conquista de Ceuta, em 1415. Sob o pretexto de con-
quista religiosa contra os muçulmanos, os portugueses dominaram o porto que era o destino de vá-
rias expedições comerciais árabes.

Assim, Portugal estabeleceu-se na África, mas não foi possível interceptar as caravanas carregadas
de escravos, ouro, pimenta, marfim, que paravam em Ceuta. Os árabes procuraram outras rotas e os
portugueses foram obrigados a procurar novos caminhos para obter as mercadorias que tanto aspira-
vam.

Na tentativa de chegar à Índia, os navegadores portugueses foram contornando a África e se estabe-


lecendo na costa deste continente. Criaram feitorias, fortes, portos e pontos para negociação com os
nativos.

A essas incursões deu-se o nome de périplo africano e tinham o objetivo de obter lucro através do co-
mércio. Não havia o interesse em colonizar ou organizar a produção de algum produto nos locais ex-
plorados.

Em 1431, os navegadores portugueses chegavam às ilhas dos Açores, e mais tarde, ocupariam a
Madeira e Cabo Verde. O Cabo do Bojador foi atingido em 1434, numa expedição comandada por Gil
Eanes. O comércio de escravos africanos já era uma realidade em 1460, com retirada de pessoas do
Senegal até Serra Leoa.

Foi em 1488 que os portugueses chegaram ao Cabo da Boa Esperança sob o comando de Bartolo-
meu Dias (1450-1500). Esse feito constitui entre as importantes marcas das conquistas marítimas de
Portugal, pois desta maneira se encontrou uma rota para o Oceano Índico em alternativa ao Mar Me-
diterrâneo.

Entre 1498, o navegador Vasco da Gama (1469-1524) conseguiu chegar a Calicute, nas Índias, e aí
estabelecer negociações com os chefes locais.

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EXPANSÃO MARÍTIMA EUROPEIA

Dentro deste contexto, a esquadra de Pedro Álvares Cabral (1467-1520), se afasta da costa da África
a fim de confirmar se havia terras por ali. Desta maneira, chega nas terras onde seria o Brasil, em
1500.

Espanha

A Espanha unificou grande parte do seu território com a queda de Granada, em 1492, com a derrota
do último reino árabe. A primeira incursão espanhola ao mar resultou na descoberta da América, pelo
navegador italiano Cristóvão Colombo (1452-1516).

Apoiado pelos reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, Colombo partiu em agosto de 1492 com
as caravelas Nina e Pinta e com a nau Santa Maria rumo a oeste, chegando à América em outubro
do mesmo ano.

Dois anos depois, o Papa Alexandre VI aprovou o Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras des-
cobertas e por descobrir entre espanhóis e portugueses.

França

Através de uma crítica ao Tratado de Tordesilhas feita pelo rei Francisco I, os franceses se lançaram
em busca de territórios ultramarinos. A França saía da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), das lutas
do rei Luís XI (1461-1483) contra os senhores feudais.

A partir de 1520, os franceses passaram a fazer expedições, chegando ao Rio de Janeiro e Mara-
nhão, de onde foram expulsos. Na América do Norte, chegaram à região hoje ocupada pelo Canadá e
o estado da Louisiana, nos Estados Unidos.

No Caribe, se estabeleceram no Haiti e na América do Sul, na Guiana.

Inglaterra

Os ingleses, que também estavam envolvidos na Guerra dos Cem Anos, Guerra das Duas Ro-
sas (1455-1485) e conflitos com senhores feudais, também queriam buscar uma nova rota para as
Índias passando pela América do Norte.

Assim, ocuparam o que hoje seria os Estados Unidos e o Canadá. Igualmente, ocuparam ilhas no Ca-
ribe como a Jamaica e Bahamas. Na América do Sul, se estabeleceram na atual Guiana.

Os métodos empregados pelo país eram bastante agressivos e incluía o estímulo à pirataria contra a
Espanha, com a anuência rainha Elizabeth I (1558-1603).

Os ingleses dominaram o tráfico de escravos para a América Espanhola e também ocuparam várias
ilhas no Pacífico, colonizando as atuais Austrália e Nova Zelândia.

Holanda

A Holanda se lançou na conquista por novos territórios a fim de melhorar o próspero comércio que
dominavam. Conseguiram ocupar vários territórios na América estabelecendo-se no atual Suriname e
em ilhas no Caribe, como Curaçao.

Na América do Norte, chegaram a fundar a cidade de Nova Amsterdã, mas foram expulsos pelos in-
gleses que a rebatizaram de Nova Iorque.

Igualmente, tentaram arrebatar o nordeste do Brasil durante a União Ibérica, mas foram repelidos pe-
los espanhóis e portugueses. No Pacífico, ocuparam o arquipélago da Indonésia e ali permaneceriam
por três séculos e meio.

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MERCANTILISMO

Mercantilismo

O Mercantilismo foi o conjunto de ideias e práticas econômicas, adotadas e desenvolvidas na Europa


durante a fase do capitalismo comercial.

Origem do Mercantilismo

O mercantilismo começou a surgir na Baixa Idade Média (X a XV), época em que teve início o pro-
cesso de formação das monarquias nacionais.

Porém, foi somente na Idade Moderna (XV a XVIII) que ele se firmou como política econômica nacio-
nal e atingiu o seu desenvolvimento.

Ao passo que as monarquias europeias foram se firmando como Estados modernos, os reis recebiam
o apoio da burguesia comercial, que buscava a expansão do comércio para fora das fronteiras do
país.

Além disso, o Estado lhe concedia o monopólio das atividades mercantis e defendia o comércio naci-
onal e colonial da interferência de grupos estrangeiros.

Principais Características do Mercantilismo

Embora as práticas e ideias não tenham sido aplicados de maneira homogênea, o mercantilismo
apresentou alguns elementos comuns nas diferentes nações europeias:

Controle estatal da economia – os reis com o apoio da burguesia mercantil foram assumindo o con-
trole da economia nacional, visando fortalecer ainda mais o poder central e obter os recursos neces-
sários para expandir o comércio. Dessa forma o controle estatal da economia tornou-se a base do
mercantilismo;

Balança comercial favorável – consistia na ideia de que a riqueza de uma nação estava associada a
sua capacidade de exportar mais do que importar.

Para que as exportações superassem sempre as importações (superávit), era necessário que o Es-
tado se ocupasse com o aumento da produção e com a busca de mercados externos para a venda
dos seus produtos;

Monopólio – controladores da economia, os governos interessados numa rápida acumulação de capi-


tal, estabeleceram monopólio sobre as atividades mercantis e manufatureiras, tanto na metrópole
como nas colônias.

Donos do monopólio, o Estado o transferia para a burguesia metropolitana por pagamento em di-
nheiro.

A burguesia favorecida pela concessão exclusiva comprava pelo preço mais baixo o que os colonos
produziam e vendiam pelo preço mais alto tudo o que os colonos necessitavam. Dessa forma, a eco-
nomia colonial funcionava como um complemento da economia da metrópole;

Protecionismo – era realizado através de barreiras alfandegárias, com o aumento das tarifas, que ele-
vava os preços dos produtos importados, e também através da proibição de se exportar matérias-pri-
mas que favorecessem o crescimento industrial do país concorrente;

Ideal metalista – os mercantilistas defendiam a ideia de que a riqueza de um país era medida pela
quantidade de ouro e prata que possuíssem. Na prática essa ideia provou não ser verdadeira.

Tipos de Mercantilismos

A Espanha adotou o mercantilismo metalista e enriqueceu com o ouro e a prata, explorados no conti-
nente americano, mas como não desenvolveu o comércio, a agricultura e a indústria, passou a impor-
tar produtos pagos com ouro e prata.

Como as importações superavam as exportações (déficit), a economia espanhola no século XVII, en-
trou numa crise que durou um longo período.

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MERCANTILISMO

Na França o mercantilismo estava voltado para o desenvolvimento de manufaturas de luxo para aten-
der ao mercado espanhol e procurou expandir suas companhias de comércio, bem como a constru-
ção naval.

Essa política econômica ficou conhecida como mercantilismo industrial ou colbertismo, referência ao
ministro Colbert, quem mais a incentivou.

Portugal foi o país que demonstrou maior flexibilidade na aplicação do mercantilismo. No século XVI,
com a descoberta do caminho marítimo para as Índias, pois em prática o mercantilismo comercial,
comprando e revendendo mercadorias do Oriente.

Com a exploração das terras americanas, se tornou o pioneiro do mercantilismo de plantagem, base-
ado na produção destinada ao mercado internacional.

No século XVIII, com o ouro de Minas Gerais, praticou o mercantilismo metalista. Com a crise do
ouro, surgiu o mercantilismo industrial, com a produção de artigos destinados ao abastecimento do
mercado colonial.

Características do Mercantilismo

Vigente durante o Absolutismo Monárquico, sistema de governo centrado exclusivamente na figura do


rei / rainha. Assim, o Estado controlava totalmente a economia;

Acúmulo máximo de metais preciosos, prática que ficou conhecida como Metalismo ou Bulionismo;

Estado exporta mais do que importa, tática aplicada para fortalecer a indústria nacional. Esta prática
ficou conhecida como Colbertismo (em referência ao ministro das finanças francês Jean-Baptiste Col-
bert, que impulsionou a ideia) ou Balança Comercial Favorável;

Acúmulo de capitais oriundos do comércio marítimo pelos países europeus, graças as grandes nave-
gações.

Graças a este sistema, os países podiam comprar barato e vender caro, através dos Pactos Coloni-
ais;

Incentivo e desenvolvimento de indústrias locais, principalmente nos países mais ricos, dificultando a
necessidade de importar produtos de outros Estados e evitando a saída de moedas;

Não significa, no entanto, que todas essas características eram seguidas em todos os países. Cada
Estado dava preferência para um tipo de mercantilismo, seja ele o Metalista (como o adotado pela
Espanha, por exemplo), ou o Colbertismo (que era mais comum na França).

Um dos países que mais mostrou versatilidade na aplicação do Mercantilismo foi Portugal que, de
acordo com a situação econômica, criava um novo método de exploração que pudesse garantir a pro-
teção da riqueza do Estado.

Porém, pode-se afirmar que a ideia do protecionismo e do metalismo foram comuns e estiveram pre-
sentes em praticamente todos os tipos de mercantilismo.

Absolutismo e Mercantilismo

Como dito, o Mercantilismo foi o principal sistema econômico durante o Absolutismo monárquico eu-
ropeu, entre os séculos XV e XIII.

O regime absolutista, como o próprio nome sugere, concentrava o poder absoluto do Estado nas
mãos de apenas uma pessoa: um rei ou uma rainha, geralmente.

Durante este período, a realeza mostrou-se aliada da alta burguesa, incentivando a exploração marí-
tima e a ampliação do comércio por parte desta.

Assim, o Mercantismo representava sinônimo de aumento de poder, pois quanto maior a expansão
territorial, maior seriam os impostos cobrados pela Coroa.

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MERCANTILISMO

Colonização do Brasil

A colonização portuguesa no Brasil se efetivou a partir da exploração, povoamento, extermínio e con-


quista dos povos indígenas (povoadores) e das novas terras.

Sempre que ouvimos falar da colonização portuguesa na América, lembramos logo da colonização do
Brasil. Será que o Brasil foi realmente descoberto pelos portugueses? Ou o processo de colonização
portuguesa foi uma conquista?

A colonização portuguesa no Brasil teve como principais características: civilizar, exterminar, explorar,
povoar, conquistar e dominar. Sabemos que os termos civilizar, explorar, exterminar, conquistar e do-
minar estão diretamente ligados às relações de poder de uma determinada civilização sobre outra, ou
seja, os portugueses submetendo ao domínio e conquista os indígenas. Já os termos explorar, po-
voar remete-se à exploração e povoamento do novo território (América).

A partir de então, já sabemos de uma coisa, que o Brasil não foi descoberto pelos portugueses, pois
afirmando isto, estaremos negligenciando a história dos indígenas (povoadores) que viviam há muito
tempo neste território antes da chegada dos europeus.

Portanto, o processo de colonização portuguesa no Brasil teve um caráter semelhante a outras colo-
nizações europeias, como, por exemplo, a espanhola: a conquista e o extermínio dos indígenas.
Sendo assim, ressaltamos que o Brasil foi conquistado e não descoberto.

A Coroa portuguesa, quando empreendeu o financiamento das navegações marítimas portuguesas


no século XV, tinha como principal objetivo a expansão comercial e a busca de produtos para comer-
cializar na Europa (obtenção do lucro), mas não podemos negligenciar outros motivos não menos im-
portantes como a expansão do cristianismo (Catolicismo), o caráter aventureiro das navegações, a
tentativa de superar os perigos do mar (perigos reais e imaginários) e a expansão territorial portu-
guesa (territórios além-mar).

No ano de 1500, os primeiros portugueses chegaram ao chamado “Novo Mundo” (América), e com
eles o navegador Pedro Álvares Cabral desembarcou no litoral do novo território. Logo, os primeiros
europeus tomaram posse das terras e tiveram os primeiros contatos com os indígenas denominados
pelos portugueses de “selvagens”.

Alguns historiadores chamaram o primeiro contato entre portugueses e indígenas de “encontro de cul-
turas”, mas percebemos com o início do processo de colonização portuguesa um “desencontro de
culturas”, começando então o extermínio dos indígenas tanto por meio dos conflitos entre os portu-
gueses quanto pelas doenças trazidas pelos europeus, como a gripe e a sífilis.

Entre 1500 a 1530, os portugueses efetivaram poucos empreendimentos no novo território conquis-
tado, algumas expedições chegaram, como a de 1501, chefiada por Gaspar de Lemos e a expedição
de Gonçalo Coelho de 1503, as principais realizações dessas expedições foram: nomear algumas lo-
calidades no litoral, confirmar a existência do pau-brasil e construir algumas feitorias.

Em 1516, Dom Manuel I, rei de Portugal, enviou navios ao novo território para efetivar o povoamento
e a exploração, instalaram-se em Porto Seguro, mas rapidamente foram expulsos pelos indígenas.

Até o ano de 1530, a ocupação portuguesa ainda era bastante tímida, somente no ano de 1531, o
monarca português Dom João III enviou Martin Afonso de Souza ao Brasil nomeado capitão-mor da
esquadra e das terras coloniais, visando efetivar a exploração mineral e vegetal da região e a distri-
buição das sesmarias (lotes de terras).

No litoral do atual estado de São Paulo, Martin Afonso de Souza fundou no ano de 1532 os primeiros
povoados do Brasil, as Vilas de São Vicente e Piratininga (atual cidade de São Paulo). No litoral pau-
lista, o capitão-mor logo desenvolveu o plantio da cana-de-açúcar; os portugueses tiveram o contato
com a cultura da cana-de-açúcar no período das cruzadas na Idade Média.

As primeiras experiências portuguesas de plantio e cultivo da cana-de-açúcar e o processamento do


açúcar nos engenhos aconteceram primeiramente na Ilha da Madeira (situada no Oceano Atlântico, a
978 km a sudoeste de Lisboa, próximo ao litoral africano). Em razão da grande procura e do alto valor

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MERCANTILISMO

agregado a este produto na Europa, os portugueses levaram a cultura da cana-de-açúcar para o Bra-
sil (em virtude da grande quantidade de terras, da fácil adaptação ao clima brasileiro e das novas téc-
nicas de cultivo), desenvolvendo os primeiros engenhos no litoral paulista e no litoral do Nordeste
(atual estado de Pernambuco), a produção do açúcar se tornou um negócio rentável.

Para desenvolver a produção do açúcar, os portugueses utilizaram nos engenhos a mão de obra es-
crava, os primeiros a serem escravizados foram os indígenas, posteriormente foi utilizada a mão de
obra escrava africana, o tráfico negreiro neste período se tornou um atrativo empreendimento junta-
mente com os engenhos de açúcar.

Colonização na América Portuguesa: a chegada

Dia 9 de março de 1500 partiu de Lisboa uma expedição, com cerca de 1500 homens, navegadores
experientes, cosmógrafos, frades franciscanos e funcionários reais com destino às Índias. O comando
da empreitada estava nas mãos do fidalgo português Pedro Álvares Cabral.

Em 22 de abril, os portugueses pisaram pela primeira vez em terras brasileiras, na região do atual es-
tado da Bahia. Ao desembarcarem, os portugueses encontraram-se com os nativos. O primeiro con-
tato foi amistoso. Foi rezada ali uma missa e depois o comandante mandou uma mensagem ao rei de
Portugal relatando o ocorrido.

Os habitantes da Terra de Vera Cruz

O rei D. Manuel recebeu uma carta de Pero Vaz de Caminha com notícias da Ilha de Vera Cruz
(como eram chamados os territórios portugueses na América). A “Carta de Caminha” é um dos docu-
mentos mais conhecidos da história brasileira, já que é considerado o primeiro registro oficial sobre o
Brasil.

Nas 27 páginas manuscritas, Pero Vaz descreve os que os portugueses encontraram aqui: a natu-
reza exuberante, a abundância de águas, pessoas amistosas, mas que “não tinham nenhuma crença,
não lavravam, nem criavam animais”.

Esse último trecho descreve o ponto de vista que um português tinha dos indígenas que aqui encon-
trou. Pela lógica cristã europeia, se eles não tinham crença era preciso cristianizá-los e se não prati-
cavam agricultura, pecuária ou trocas comerciais nos moldes mercantilistas, podiam ter suas terras
dominadas.

O termo “índio” empregado pelos portugueses era genérico e servia para se referir a todas as popula-
ções que habitam o território das Américas.

Só no Brasil havia mais de 1000 grupos indígenas, entre eles estavam guaranis, tupinambás, os poti-
guaras, os caetés, chavantes e aimorés. Populações diferentes entre si, tanto linguística quanto cultu-
ralmente. Alguns viam de caças, outros de pescas ou coletas dependendo das regiões que habita-
vam.

As Capitanias Hereditárias

O primeiro projeto político e econômico da Coroa Portuguesa para colonização de suas terras na
América foi o Sistema de Capitanias Hereditárias.

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MERCANTILISMO

Os territórios pertencentes a Portugal, segundo o Tratado de Tordesilhas, foi dividida em 15 lotes


destinados a 12 donatários (nome daqueles que recebiam as terras).

Os donatários eram, em geral, pequenos membros da nobreza ou funcionários da coroa. O rei doava
as capitanias por meio da Carta de Doação, editada junto com o Foral. Dessa forma era permitido aos
capitães doar lotes de terras (as sesmarias) para serem exploradas e cultivadas, desde que o benefi-
ciado professasse a religião católica.

Cada donatário era responsável por sua jurisdição e cabia a ele recolher os impostos que seriam re-
passados à coroa.

O sistema de Capitanias Hereditárias, no entanto, fracassou. Com exceção de São Vicente, Porto Se-
guro, Ilhéus e Pernambuco que prosperaram, todas as demais sucumbiram.

Com isso, passou a existir, em conjunto com as capitanias que sobreviveram, o Governo-Geral, que
de certa forma, dava início a centralização do poder na colônia.

Renascimento Cultural

O Renascimento Cultural foi um movimento que teve seu início na Itália no século XIV e se estendeu
por toda a Europa até o século XVI.

Os artistas, escritores e pensadores renascentistas expressavam em suas obras os valores, ideais e


nova visão do mundo, de uma sociedade que emergia da crise do período medieval.

Na Idade Média, grande parte da produção intelectual e artística estava ligada à Igreja. Já na Idade
Moderna, a arte e o saber voltaram-se para o mundo concreto, para a humanidade e a sua capaci-
dade de transformar o mundo.

Origem do Renascimento

O Renascimento teve sua origem na península Itálica, que era o centro do comércio mediterrâneo.
Com a economia dinâmica e rica, os excedentes eram investidos em produção cultural.

A burguesia oriunda das camadas marginais da sociedade medieval, tornaram-se mecenas, inves-
tindo em palácios, catedrais, esculturas e pinturas, buscando aproximar seu estilo de vida ao da no-
breza.

A Itália, favorecida pelo grande número de obras da Antiguidade, inspirou os artistas do Renasci-
mento. A literatura e o pensamento da Antiguidade greco-romana serviram de referência para os es-
critores renascentistas e contribuíram para a formação de seus valores e ideais.

Os renascentistas rejeitavam os valores feudais a ponto de considerar o período medieval como a


"Idade das Trevas", e por isso a época obscura seria abolida por um "renascimento cultural". Assim,
opunham-se ao teocentrismo, ao misticismo, ao geocentrismo e ao coletivismo.

O traço marcante do Renascimento era o racionalismo. Baseado na convicção de que tudo se podia
explicar pela razão e pela observação da natureza, tentava compreender o universo de forma calcu-
lada e matemática.

O elemento central foi o humanismo, no sentido de valorizar o ser humano, considerado a obra mais
perfeita de Cristo.

Daí surge o antropocentrismo renascentista, ou seja, a ideia do homem como centro das preocupa-
ções intelectuais e artísticas.

Outras características do movimento renascentista foram o naturalismo, o hedonismo e o neoplato-


nismo.

O naturalismo pregava a volta à natureza.

O hedonismo defendia o prazer individual como o único bem possível.

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MERCANTILISMO

O neoplatonismo defendia uma elevação espiritual, uma aproximação com Deus através de uma inte-
riorização em detrimento de qualquer busca material.

Renascimento Artístico

A arte do renascimento expressou as preocupações surgidas em sua época, com o desenvolvimento


comercial e urbano. A dignidade, a racionalidade e a individualidade do homem eram seus principais
temas.

Um grande precursor do Renascimento literário na Itália foi Dante Alighieri (1265-1321), autor da "A
Divina Comédia". Apesar de criticar a Igreja, sua obra ainda apresenta forte influência medieval.

A consolidação do Renascimento na Itália ocorreu basicamente no século XIV, período conhecido


com Trecentro, ou seja, nos anos 1300.

As primeiras manifestações da nova arte surgiram comGiotto di Bondoni(1266-1337). Suas obras re-
presentavam figuras humanas com grande naturalismo, inclusive Cristo e os Santos.

Na literatura generalizou-se a utilização do dialeto toscano, que seria matriz da língua italiana con-
temporânea. Mas foi Francesco Petrarca (1304-1374) o "pai do humanismo e da literatura italiana".

Foi ele o autor de "África" e "Odes a Laura", ainda expressando uma forte inspiração greco-romana e
uma religiosidade medieval.

Outro grande nome do Trecentro foi Bocaccio e sua obra Decameron, com seus contos satíricos que
criticavam o ascetismo medieval.

O Quattrocento (1400), segundo período do renascimento italiano, surge em Florença com o pintor
Masaccio (1401-1429), um mestre da perspectiva.

Outro destaque foi Sandro Botticelli (1445-1510), que acreditava que a arte era mesmo tempo uma
representação espiritual, religiosa e simbólica.

Destacou-se também o arquiteto Felippo Brunelleschi, autor da cúpula da catedral de Santa Maria del
Fiore, o escultor Donatello e os pintores Paolo Uccello, Andrea Mantegna e Fra Angelico.

No terceiro período, o Cinquecento (1500), Roma passou a ser o principal centro da arte renascen-
tista. Foi construída a basílica de São Pedro, no Vaticano, projeto do arquiteto Donato Bramante.

Na literatura, sistematizou-se o uso da língua italiana através de Francesco Guiciardini, Torquato


Tasso, Ariosto e principalmente com Nicolau Maquiavel, com sua obra "O Príncipe".

Na pintura despontaram:

Leonardo da Vinci (1452-1519), com a "Mona Lisa" e a "A Santa Ceia";

Rafael Sanzio (1483-1520) conhecido como o "pintor das madonas";

Ticiano, o mestre da cor, que imprimiu sua marca na escola de Veneza;

Michelangelo, escultor e pintor conhecido como "o gigante do Renascimento", responsável pelos mo-
numentais afrescos da Capela Sistina. São também dele as esculturas de "Davi", "Moisés" e a "Pi-
etá".

Renascimento Literário

O Renascimento deu origem a grandes gênios da literatura, entre eles:

Dante Alighieri: escritor italiano autor do grande poema "Divina Comédia".

Maquiavel: autor de "O Príncipe", obra precursora da ciência política onde o autor dá conselhos aos
governadores da época.

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MERCANTILISMO

Shakespeare: considerado um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Abordou em sua obra
os conflitos humanos nas mais diversas dimensões: pessoais, sociais, políticas. Escreveu comédias e
tragédias, como "Romeu e Julieta", "Macbeth", "A Megera Domada", "Otelo" e várias outras.

Miguel de Cervantes: autor espanhol da obra "Dom Quixote", uma crítica contundente da cavalaria
medieval.

Luís de Camões: teve destaque na literatura renascentista em Portugal, sendo autor do grande po-
ema épico "Os Lusíadas".

Renascimento Científico

O Renascimento foi marcado por importantes descobertas científicas, notadamente nos campos da
astronomia, da física, da medicina, da matemática e da geografia.

O polonês Nicolau Copérnico, que negou a teoria geocêntrica defendida pela Igreja, ao afirmar que "a
terra não é o centro do universo, mas simplesmente um planeta que gira em torno do Sol".

Galileu Galilei descobriu os anéis de Saturno, as manchas solares, os satélites de Júpiter. Perseguido
e ameaçado pela Igreja, Galileu foi obrigado a negar publicamente suas ideias e descobertas.

Na medicina os conhecimentos avançaram com trabalhos e experiências sobre circulação sanguínea,


métodos de cauterização e princípios gerais de anatomia.

Os Valores

O movimento renascentista envolveu uma nova sociedade e, portanto, novas relações sociais em seu
cotidiano. A vida urbana passou a implicar um novo comportamento, pois o trabalho, a diversão, o
tipo de moradia, os encontros nas ruas, implicavam por si só um novo comportamento dos homens.
Isso significa que o Renascimento não foi um movimento de alguns artistas, mas uma nova concep-
ção de vida adotada por uma parcela da sociedade, e que será exaltada e difundida nas obras de
arte.

Apesar de recuperar os valores da cultura clássica, o Renascimento não foi uma cópia, pois utilizava-
se dos mesmos conceitos, porém aplicados de uma nova maneira à uma nova realidade. Assim como
os gregos, os homens "modernos" valorizaram o antropocentrismo: "O homem é a medida de todas
as coisas"; o entendimento do mundo passava a ser feito a partir da importância do ser humano, o
trabalho, as guerras, as transformações, os amores, as contradições humanas tornaram-se objetos
de preocupação, compreendidos como produto da ação do homem.

Uma outra característica marcante foi o racionalismo, isto é, a convicção de que tudo pode ser expli-
cado pela razão do homem e pela ciência, a recusa em acreditar em qualquer coisa que não tenha
sido provada; dessa maneira o experimentalismo, a ciência, conheceram grande desenvolvimento. O
individualismo também foi um dos valores renascentistas e refletiu a emergência da burguesia e de
novas relações de trabalho.

A idéia de que cada um é responsável pela condução de sua vida, a possibilidade de fazer opções e
de manifestar-se sobre diversos assuntos acentuaram gradualmente o individualismo. É importante
percebermos que essa característica não implica o isolamento do homem, que continua a viver em
sociedade, em relação direta com outros homens, mas na possibilidade que cada um tem de tomar
decisões.

Foi acentuada a importância do estudo da natureza; o naturalismo aguçou o espírito de observação


do homem. O hedonismo representou o "culto ao prazer", ou seja, a idéia de que o homem pode pro-
duzir o belo, pode gerar uma obra apenas pelo prazer que isso possa lhe proporcionar, rompendo
com o pragmatismo.

O Universalismo foi uma das principais características do Renascimento e considera que o homem
deve desenvolver todas as áreas do saber; podemos dizer que Leonardo da Vinci é o principal mo-
delo de "homem universal", matemático, físico, pintor e escultor, estudou inclusive aspectos da biolo-
gia humana.

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MERCANTILISMO

O Berço do Renascimento

Esse é uma expressão muito utilizada, apesar de a Itália ainda não existir como nação. A região itali-
ana estava dividida e as cidades possuíam soberania. Na verdade, o Renascimento desenvolveu-se
em algumas cidades italianas, principalmente aqueles ligadas ao comércio.

Desde o século XIII, com a reabertura do Mediterrâneo, o comércio de várias cidades italianas com o
oriente intensificou-se, possibilitando importantes transformações, como a formação de uma camada
burguesa enriquecida e que necessitava de reconhecimento social.

O comércio comandado pela burguesia foi responsável pelo desenvolvimento urbano, e nesse sen-
tido, responsável por um novo modelo de vida, com novas relações sociais onde os homens encon-
tram-se mais próximos uns dos outros.

Dessa forma podemos dizer que a nova mentalidade da população urbana representa a essência
dessas mudanças e possibilitará a Produção Renascentista.

Podemos considerar ainda como fatores que promoveram o renascimento italiano, a existência de di-
versas obras clássicas na região, assim como a influência dos "sábios bizantinos", homens oriundos
principalmente de Constantinopla, conhecedores da língua grega e muitas vezes de obras clássicas.
A Produção Renascentista

É necessário fazer uma diferenciação entre a cultura renascentista; aquela caracterizada por um novo
comportamento do homem da cidade, a partir de novas concepções de vida e de mundo, da Produ-
ção Renascentista, que representa as obras de artistas e intelectuais, que retrataram essa nova visão
de mundo e são fundamentais para sua difusão e desenvolvimento.

Essa diferenciação é importante para que não julguemos o Renascimento como um movimento de
"alguns grandes homens", mas como um movimento que representa uma nova sociedade, urbana ca-
racterizada pelos novos valores burguesas e ainda associada à valores cristãos.

O mecenato, prática comum na Roma antiga, foi fundamental para o desenvolvimento da produção
intelectual e artística do renascimento. O Mecenas era considerado como "protetor", homem rico, era
na prática quem dava as condições materiais para a produção das novas obras e nesse sentido pode
ser considerado como o patrocinador, o financiador.

O investimento do mecenas era recuperado com o prestígio social obtido, fato que contribuía com a
divulgação das atividades de sua empresa ou instituição que representava. A maioria dos mecenas
italianos eram elementos da burguesia, homens enriquecidos com o comércio e toda a produção vin-
culada à esse patrocínio foi considerada como Renascimento Civil.

Encontramos também o Papa e elementos da nobreza praticando o mecenato, sendo que o Papa Jú-
lio II foi o principal exemplo do que denominou-se Renascimento Cortesão.

A Expansão do Renascimento

No decorrer do século XVI a cultura renascentista expandiu-se para outros países da Europa Ociden-
tal e para que isso ocorresse contribuíram as guerras e invasões vividas pela Itália. As ocupações
francesa e espanhola determinaram um conhecimento melhor sobre as obras renascentistas e a ex-
pansão em direção a outros países, cada um adaptando-o segundo suas peculiaridades, numa época
de formação do absolutismo e de início do movimento de Reforma Religiosa.

O século XVI foi marcado pelas grandes navegações, num primeiro momento vinculadas ao comércio
oriental e posteriormente à exploração da América. As navegações pelo Atlântico reforçaram o capita-
lismo de Portugal, Espanha e Holanda e em segundo plano da Inglaterra e França. Nesses "países
atlânticos" desenvolveu-se então a burguesia e a mentalidade renascentista.

Esse movimento de difusão do Renascimento coincidiu com a decadência do Renascimento Italiano,


motivado pela crise econômica das cidades, provocada pela perda do monopólio sobre o comércio de
especiarias.

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MERCANTILISMO

A mudança do eixo econômico do Mediterrâneo para o Atlântico determinou a decadência italiana e


ao mesmo tempo impulsionou o desenvolvimento dos demais países, promovendo reflexos na produ-
ção cultural.

Outro fator fundamental para a crise do Renascimento italiano foi a Reforma Religiosa e principal-
mente a Contrarreforma. Toda a polêmica que se desenvolveu pelo embate religioso fez com que a
religião voltasse a ocupar o principal espaço da vida humana; além disso, a Igreja Católica desenvol-
veu um grande movimento de repressão, apoiado na publicação do INDEX e na retomada da Inquisi-
ção que atingiu todo indivíduo que de alguma forma de opusesse a Igreja. Como o movimento protes-
tante não existiu na Itália, a repressão recaiu sobre os intelectuais e artistas do renascimento.

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ABSOLUTISMO

Absolutismo

O Absolutismo foi o sistema político e administrativo dos países europeus, durante o período conhe-
cido como Antigo Regime (séculos XVI ao XVIII). Em suma, o soberano centralizava todos os pode-
res do estado em suas mãos e os utilizava a revelia de toda sociedade.

De partida, podemos localizar a formação do absolutismo durante a constituição e fortalecimento das


monarquias nacionais, quando a Idade Média tem seu fim (séculos XIV e XV) diante da centralização
política em ascensão.

Para todos os efeitos, os monarcas obtiveram o apoio da nobreza e da burguesia mediante a padroni-
zação das políticas fiscais e monetárias, ao mesmo tempo em que protegeria as propriedades das
revoltas camponesas que ameaçavam a nobreza e o clero.

Os reis detinham o monopólio da violência para reprimir qualquer pessoa ou movimento social que
contrariasse a vontade da realeza.

Os principais reinos absolutistas foram Espanha, França e Inglaterra: na Espanha, a unificação polí-
tica ocorrera em 1469 por meio do casamento do rei Fernando de Aragão e a rainha Isabel de Cas-
tela.

Na França, durante a dinastia Valois (século XVI), consolidou-se o poder absolutista, o qual atinge
seu ápice com o rei Luís XIV, o "Rei Sol" (1643 e 1715).

Já na Inglaterra, o absolutismo de Henrique VIII (1509), também foi apoiado pela burguesia, a qual
consentiu no fortalecimento dos poderes monárquicos em detrimento do poder parlamentar.

Todavia, com a difusão dos valores iluministas bem como pela Revolução Francesa, os valores que
sustentavam o período conhecido como o “Antigo Regime” ruíram derrubando todo aquele sistema.

Teorias do Absolutismo

O principal teórico do absolutismo fora Nicolau Maquiavel (1469-1527), defensor do Estado e dos so-
beranos, os quais deveriam lançar mãos de todos os meios para garantir a o sucesso e a continui-
dade do seu poder.

Outro a favorecer o regime em seus estudos foi Jean Bodin (1530-1596), onde associava o Estado à
própria célula familiar, donde o poder real seria ilimitado, tal qual ao chefe de família.

Thomas Hobbes (1588-1679), descreve que, para fugir da guerra e do estado de barbárie, os homens
uniram-se num contrato social e atribuíram poderes a um soberano para protegê-los.

Houveram também aqueles que, como Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), defenderam o absolu-
tismo a partir, do "direito divino dos reis".

Economia Durante o Absolutismo

O mesmo processo de centralização administrativa e financeira que extinguiu os exércitos mercená-


rios, estabeleceu uma burocracia civil capaz de auxiliar o Estado na implementação de padrões mo-
netários e fiscais para regulamentar e permitir a ampliação das atividades comerciais, ao mesmo
tempo em que viabilizaria uma situação mais segura para os deslocamentos comerciais.

Outro ponto a se notar é que os negociantes, ao financiar a centralização da monarquia, obtiveram


participações consideráveis nos negócios do Estado.

Enquanto regime, podemos dizer que prevaleceu por todo período o Mercantilismo, que por sua vez
esta pautado no Metalismo, Industrialização, Protecionismo Alfandegário, Pacto Colonial e Balança
Comercial Favorável.

À medida que o Estado Nacional foi consolidando suas fronteiras e demandas e com o surgimento de
uma forte classe mercantil, houve a necessidade de um representante que defendesse seus interes-

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ABSOLUTISMO

ses e, assim, o poder passou a ser concentrado na figura do monarca. Diferentemente do que acon-
tecia durante a Idade Média em que o poder do real não era unânime e, por isso, era necessário o
auxílio dos nobres para composição do exército, por exemplo, no Absolutismo, o monarca controlava
todo o poder na tomada de decisões da nação.

Assim, eram determinadas pelo rei a organização das leis, a criação dos impostos, a delimitação e
implantação da justiça etc. Surgiu ainda, nesse período, a burocracia, toda uma estrutura de governo
que era responsável pela execução do trabalho administrativo da nação, de forma a auxiliar o rei na
administração do Estado recém-criado.

Com a delimitação das fronteiras nacionais, o Absolutismo contribuiu para a diminuição das diferen-
ças culturas locais, ou seja, houve uma padronização. Assim, uma só moeda foi implantada e um só
idioma foi escolhido para toda a nação. Com o fortalecimento do comércio, foi criada uma série de im-
postos para a sua regulação, além de impostos alfandegários para a defesa da economia interna.

A partir desses impostos, o rei pôde montar um exército permanente que ficava a seu serviço na de-
fesa interna, em casos de rebeliões, e na defesa externa, em casos de conflitos. Além disso, do ponto
de vista religioso, o poder real foi visto como uma escolha direta de Deus, portanto, indiscutível.

O Absolutismo não possuía, entretanto, características homogêneas e apresentava também suas par-
ticularidades em diferentes locais. Dessa forma, destacaram-se três modelos desse sistema político:
o francês, o inglês e o espanhol. O rei francês Luís XIV foi o melhor exemplo de aplicação do poder
Absolutismo.

Defesa do Poder Real

À medida que o poder real era fortalecido, uma série de teóricos escreveram sobre a justificativa do
poder absoluto. Entre eles, destacaram-se Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, Jacques Bossuet.

Nicolau Maquiavel, em seu O Princípe, justificou o uso da violência para manter o controle sobre a
população, pois defendia a ideia de que “os fins justificariam os meios” e afirmava que mais valia para
o rei ser temido que amado.

Em O Leviatã, Thomas Hobbes argumentou que o poder real era necessário para colocar a ordem no
mundo. Esse teórico defendeu a teoria de que, antes do poder absoluto do rei, a Europa vivia em um
estado de caos no qual a violência predominava, pois, segundo Hobbes, o homem era mau por natu-
reza, logo, somente o poder absoluto do rei seria capaz de colocar tudo em ordem. Jacques Bossuet,
em seu A política retirada da escritura sagrada, justificou que o poder do rei procedia de Deus, sendo
assim, contestar o poder real seria o mesmo que contestar ao próprio Deus.

Fim do Absolutismo

O Absolutismo deixou de existir como forma de governo por volta do século XIX, uma vez que já era
contestado pelos ideais iluministas. A Revolução Francesa e as mudanças que surgiram a partir dela
contribuíram para o fim dessa forma de governo em toda a Europa. Tais mudanças buscavam a des-
centralização do poder, ou seja, o oposto do que era defendido até então, como também questiona-
vam a teoria da vontade divina do poder real, pois o Iluminismo defendia a racionalização do pensa-
mento humano.

Crise do Sistema Colonial

A Crise do Sistema Colonial decorreu, em grande medida, da expansão do pensamento ilustradopelo


Ocidente. Pode-se dizer que os conflitos que modificaram radicalmente as relações entre as Améri-
cas e suas metrópoles europeias decorreram da própria crise da Modernidade no despontar da Revo-
lução Francesa.

Conceitos como liberdade, igualdade e fraternidade encontraram, na América, um ambiente propício


ao desenvolvimento de modelos políticos críticos ao embaraçoso sistema colonial. É bem verdade
que os processos de independência, como no caso do Brasil, não romperam de forma radical com os

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ABSOLUTISMO

modelos econômicos vigentes. O sistema escravocrata financiado pelas elites latifundiárias e mono-
cultoras, apesar do frágil diálogo com a ideia de civilização, amplamente defendida no despontar dos
séculos XVIII e XIX, estabeleciam as bases para uma autonomia político-econômica mascarada pelos
discursos de independência social.

A evidencia do fortalecimento de sociedades coloniais, através do surgimento de elites locais, levou


metrópoles como Inglaterra, Espanha e Portugal a implementarem estratégias políticas, fiscais e eco-
nômicas compulsórias, na tentativa de resistir ao emergente processo de independências das colô-
nias americanas.

Estados Unidos x Inglaterra

Nas Colônias do Norte, a Inglaterra estabelecia uma política colonial restritiva, impondo medidas de
controle comercial às Treze Colônias impulsionando a luta pela independência. Apesar da vitória
na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) ter expandido os domínios ingleses, o custo da guerra teria
sido alto demais para seus cofres, o que levou à criação de leis tributárias que aumentaram de modo
significativo os impostos sobre as Treze Colônias. Reações posteriores levaram a Inglaterra a sus-
pender algumas destas leis e diminuir taxas sobre a exportação do açúcar.

O ato que ficou conhecido como Festa do Chá de Boston (1773), onde carregamentos de chá trazi-
dos pela Companhia das Índias Orientais foram jogados ao mar pelos colonos, evidenciava o des-
gaste entre a Inglaterra e suas colônias.

Respondendo ao evento ocorrido em Boston, o Parlamento Inglês aprovou, em 1774, as Leis Intolerá-
veis que impunham novas sanções às Treze Colônias. Os colonos reagiram mais uma vez promo-
vendo os Congressos Continentais da Filadélfia, dos quais resultaram a Declaração da Independên-
cia de 1776. Em 1783, a Inglaterra reconheceu a Independência dos Estados Unidos. Em 1787, foi
aprovada a Constituição dos Estados Unidos, na qual a liberdade e direitos dos cidadãos foi garan-
tida, mas a escravidão ainda mantida.

América Espanhola x Espanha

Na América espanhola, com exceção do México, onde o movimento teve caráter fortemente popular,
os processos de independência foram liderados pela elite criolla. O objetivo era consolidar o poder
político e econômico da elite local. Os criollos não desejavam o rompimento com a ordem social vi-
gente em seus territórios.

Entendiam que a exploração compulsória do trabalho indígena e negro deveria ser mantida, já que
constituíam a base da economia. No âmbito intelectual, os criollos defendiam princípios liberais, base-
ados na Independência dos Estados Unidos e na Revolução Francesa.

A Coroa espanhola tentava a todo custo evitar que os ideais revolucionários chegassem às suas colô-
nias, mas os princípios liberais circulavam pelas universidades na América.

Em 1808, com a derrubada da Coroa espanhola por Napoleão Bonaparte, os movimentos de inde-
pendência na América cresceram. As elites criollas aumentavam seus poderes à medida que não re-
conheciam a autoridade do Império Napoleônico sobre seus territórios. As colônias espanholas pas-
saram a se rebelar quase que simultaneamente.

Os movimentos começaram nas cidades e se espalharam pelos campos proclamando as indepen-


dências na Argentina (1816), Chile (1818), Grã-Colômbia (atuais Colômbia, Venezuela, Equador e
Panamá), Peru (1821), México (1823, após a criação de uma monarquia católica, em 1821) e Bolívia
(1825). Todas foram antecedidas pela Revolução Haitiana, onde escravos negros influenciados pelas
ideias de liberdade e igualdade da Revolução Francesa criaram, em 1804, a República do Haiti.

Brasil x Portugal

Na América portuguesa, as medidas adotadas no Período Pombalino aumentaram ainda mais a crise
econômica e política. O fracasso do Marquês de Pombal em articular o Absolutismo Ilustrado com as
bases mercantilistas acirrou ainda mais os ânimos coloniais na medida que crescia a arrecadação de

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ABSOLUTISMO

impostos. Movimentos de caráter emancipacionista indicavam um caminho sem volta para a indepen-
dência. Apesar dos mártires deixados pelas trilhas sangrentas das ciladas armadas pelo Estado Por-
tuguês, as resistências se tornaram uma constante, passando a fortalecer os ideais de um Estado In-
dependente.

Juntaram-se a essas instabilidades, o Terremoto de Lisboa (1755), a crise do comércio açucareiro e a


queda na produção aurífera, além de crises sociais decorrentes de políticas administrativas imple-
mentadas no Estado do Grão-Pará e Maranhão, as quais resultaram na expulsão dos jesuítas e na
tentativa de criação de uma economia agrícola em larga escala com a utilização da mão de obra indí-
gena regulamentada pelo Diretório dos Índios.

Apesar da disseminação das ideias francesas e norte-americanas, as reformas sociais foram contro-
ladas pelas elites. Após a queda de Pombal, conjurações de caráter emancipacionistas, mesmo em
perspectivas locais, passaram a ocorrer em diferentes regiões.

Nas Minas Gerais, em 1789, uma crise econômica, resultante da escassez de ouro, aumentava as
pressões da Coroa portuguesa pela cobrança do Quinto (100 arrobas anuais – valor equivalente à
1.468,9kg de ouro) através da execução da Derrama (cobrança compulsória dos Quintos em atraso –
Invasão de cidades, vilas, fazendas e casas a procura de ouro para alcançar o valor do Quinto).

Como resposta, a elite local pretendeu tomar o poder e instituir uma república através do fracassado
evento denominado de Conjuração Mineira. A Conjuração Baiana, iniciada com as elites, em 1798,
tomou projeções de caráter social, a partir do ingresso de mulatos, ex-escravos, homens brancos po-
bres, alfaiates, pedreiros, soldados e bordadores que passaram a defender a proclamação de uma
república na Bahia, o fim da escravidão e das diferenças baseadas na cor da pele. Por estas razões,
a conjuração acabou perdendo seu apoio maçônico e sucumbindo naquele mesmo ano.

Com a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808, transformações de caráter econô-
mico iniciaram o processo de independência econômica das colônias portuguesas. A Abertura dos
Portos dava fim ao exclusivo colonial (principal aspecto que une uma colônia a sua metrópole), permi-
tindo que as nações aliadas a Portugal (naquele momento, a Inglaterra) pudessem desenvolver rela-
ções comerciais com o Brasil e o Estado do Grão-Pará e Maranhão, anulando suas dependências
econômicas unilaterais.

A instalação de manufaturas, fundação do Banco do Brasil (1808), a invasão da Guiana Francesa


(1808), elevação do Brasil à categoria de Reino Unido à Portugal e Algarves (1815), a Insurreição
Pernambucana (1817) e a ocupação da Banda Oriental do Uruguai, após a Guerra contra Arti-
gas (1816-1820), alteraram o lugar das colônias portuguesas no cenário intercontinental.

Enfim, a Revolução do Porto (1820), decorrente de uma crise política em Portugal, concorreu para o
enfraquecimento das relações com o Brasil e a consequente Proclamação da Independência, em
1822. Portanto, a Crise do Sistema Colonial deve ser pensado como evento de longa duração.

As Metrópoles Europeias

Nos séculos XVI e XVII, o regime político dominante na Europa era o absolutismo ou Estado absolu-
tista, governo exercido por monarcas que tinham poderes ilimitados.

Com suas práticas mercantilistas fundamentadas no protecionismo e no monopólio, o Estado absolu-


tista forneceu ao capital comercial os mercados de que este necessitava para sua consolidação social
e econômica e a ascensão da burguesia.

O fortalecimento da burguesia, no entanto, significou um conflito cada vez maior com as práticas in-
tervencionistas que caracterizavam o absolutismo, pois estas limitavam a livre-concorrência e impe-
diam o pleno desenvolvimento do capitalismo.

No século XVIII, a situação finalmente chegou a um impasse. Até esse período, as pessoas tinham
poder se tivessem títulos de nobreza, e não apenas dinheiro. Esse passou a ser o desafio da burgue-
sia: deter não só o dinheiro, mas também o poder político.

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ABSOLUTISMO

A partir do século XVIII, as metrópoles europeias e as colônias americanas atravessaram portanto


uma verdadeira era de revoluções burguesas, como a Revolução Francesa e a Revolução Industrial,
sendo que esta última representou a consolidação da supremacia da burguesia e do capitalismo.

Na imagem ao lado, homenagem atual à Revolução Francesa (14 de julho de 1789), aludindo aos co-
nes da bandeira adotada pela França desde essa época e ao lema da revolução: o branco simboliza
a igualdade, o azul, a liberdade, e o vermelho, a fraternidade.

Com a transformação do mundo do trabalho e das relações sociais, fundamentada na produção in-
dustrial e no trabalho assalariado daí decorrentes, a produtividade cresceu: obtinham-se mais merca-
dorias em menos tempo de trabalho. Com isso, a Inglaterra, primeiro país a se industrializar, e, poste-
riormente, outros países europeus passaram a disputar mercados consumidores para suas manufatu-
ras e mercados fornecedores de matérias-primas para suas indústrias, conflitando com os limites
mercantilistas e propondo uma nova visão econômica, política e social: o liberalismo.

Essas ideias contribuíram para uma nova orientação das práticas coloniais na América, auxiliando os
movimentos que lutavam contra o pacto colonial.

As Colônias Americanas

Por definição, a função histórica das colônias no sistema colonial era complementar a economia das
metrópoles, subordinando-se completamente às necessidades e aos interesses destas. Isso signifi-
cava que a colônia deveria produzir excedentes comercializáveis nas metrópoles europeias, além de
consumir as manufaturas elaboradas na metrópole.

A comercialização desses excedentes na Europa fortalecia política e economicamente o Estado ab-


solutista. Em contrapartida, enriquecia progressivamente as respectivas burguesias mercantis, as
quais, com o tempo, passaram a questionar as limitações impostas pelo regime.

A circulação de mercadorias praticada ao longo da Idade Moderna propiciou a acumulação de capital,


indispensável ao desenvolvimento do sistema capitalista. O capital acumulado na atividade comercial
permitiu o processo de industrialização e a consolidação de relações capitalistas na Europa.

Até então, os Estados absolutistas e as respectivas burguesias mercantis haviam transferido o ônus
da colonização e a produção de gêneros tropicais, como o açúcar, para o produtor colonial, preocu-
pando-se apenas com a comercialização do produto.

Apesar disso, durante os séculos XVI e XVII houve uma relativa harmonia entre os interesses das eli-
tes coloniais (as aristocracias rurais) e das burguesias dos Estados absolutistas da Europa. Mesmo
com a política monopolista europeia e a exploração colonial, as colônias se desenvolveram.

Quanto mais se desenvolviam as colônias, porém, mais se aprofundavam as medidas restritivas mer-
cantilistas e a exploração exercida pelas metrópoles europeias. Com isso, o pacto colonial tonou-se
insuportável para as populações coloniais e as elites nativas americanas.

A Declaração de Independência dos EUA Inspirou Revoluções

A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, fundamentada no espírito liberal-


iluminista do século XVIII, serviu de referência histórica para a elaboração da Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão durante a Revolução Francesa (1789) e de inspiração para os movimentos
emancipacionistas das outras colônias americanas.

A crise portuguesa e o processo de independência do Brasil

Embora tenha acompanhado o processo europeu em linhas gerais, Portugal apresentou algumas par-
ticularidades nos séculos XVII e XVIII.

A partir da União Ibérica – o período do domínio espanhol (1580-1640) -, da luta contra a presença
holandesa no território colonial e, sobretudo, do declínio da produção do açúcar, decorrente da expul-
são dos holandeses em 1654 e da concorrência de outras zonas fornecedoras, Portugal mergulhou
em uma profunda crise econômico-financeira.

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ABSOLUTISMO

O Tratado de Methuen, acordo comercial firmado entre os governos de Portugal e da Inglaterra, foi
um exemplo notório da crise e da dependência econômica que o outrora poderoso país ibérico iria es-
tabelecer com o governo e o capital ingleses.

Em 1703, as partes assinaram o tratado, o qual determinava que a Inglaterra poderia vender seus te-
cidos com isenção de impostos alfandegários em Portugal, o mesmo acontecendo com o país luso ao
vender seu vinho para os ingleses. Por isso, tal arranjo também ficou conhecido como Tratado dos
Panos e Vinhos.

Para a maioria dos historiadores, a consequência mais nefasta para Portugal foi o déficit na balança
comercial com a Inglaterra, que levou grande parte do ouro produzido no Brasil para os ingleses ao
longo do século XVIII. O ouro brasileiro ajudou a financiar, assim, a Revolução Industrial em curso na
Inglaterra daquele período.

Portugal controlou mais as colônias quando houve movimentos de emancipação. Até o século XIX,
não havia projeto unificado de Brasil, as províncias pensavam regionalmente quando o assunto era
independência.
Além disso, a palavra independência não tinha o mesmo significado para todos. Boa parte da elite co-
lonial não se enxergava como brasileira, mas como portuguesa, por isso havia interesses “portugue-
ses” conflitantes.

O processo de independência do Brasil foi inevitável só após a volta de dom João a Portugal: as eli-
tes coloniais, agora em reino unido, não queriam perder o status nem os privilégios econômicos.

E os portugueses em Portugal queriam a permanência de seus privilégios, agora com um governo


mais liberal, submetido a uma Constituição. Mais uma vez, o rei se viu sem saída; desagradaria uma
das partes “portuguesas” do reino.

A permanência de dom Pedro no Brasil configurava um acordo com uma nova elite, que em parte de-
fendia a união a Portugal. Poucos queriam uma separação efetiva.

Assim, o acordo de dom Pedro com as elites coloniais garantiria uma independência sem revolução
(em 7 de setembro de 1822) e, estranhamente, de uma colônia ainda comandada por membros da
metrópole.

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O ILUMINISMO E A REVOLUÇÃO FRANCESA

Iluminismo

O Iluminismo foi um movimento cultural, filosófico, político e social que colocava a razão como a me-
lhor forma para conquistar emancipação, liberdade e autonomia. Esses ideais e seus pensadores se
concentravam na capital francesa. Esse movimento era contrário ao absolutismo presente em toda a
Europa.

Eles apoiavam a liberdade religiosa e a educação para todos. Foram responsáveis pela criação das
enciclopédias, um livro contendo todo tipo de conhecimento existente.

Num processo em que a maioria da população buscava forças para se virar contra a forma de go-
verno, o Iluminismo veio como uma luz na mente dos revolucionários.

Pensadores Iluministas

John Locke (1632-1704): para John o homem, com o passar do tempo, adquiria conhecimento por
meio do empirismo.

Montesquieu (1689-1755): o poder deve ser divido em: Legislativo, Executivo e Judiciário.

Voltaire (1694-1778): acreditava na liberdade de pensamento e era bastante crítico quando se tra-
tava de intolerância religiosa.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): o estado democrático deve garantir igualdade a todos.

Écrasez l'Infâme (Esmagai a infame): Referia-se a Igreja Católica que era chamada de infame e es-
creveu a “Cartas Inglesas”.

Diderot (1713-1784): Criou uma enciclopédia com os pensamentos e conhecimentos da época.

Como o Iluminismo questionava e criticava o regime absolutista na qual a França vivia, foi usado
como inspiração para lutar por novas formas de governo, economia e sociedade. A monarquia era
tida como impedimento para o desenvolvimento do comércio e da burguesia.

Fases do Iluminismo

Os iluministas acreditavam que o crescimento crítico era importante para melhorar a educação e a
situação social de uma sociedade. No início do século XVIII, essa linha de pensamento tinha muita
influência das questões da razão e natureza.

Na primeira fase houve a busca na compreensão dos fenômenos físicos. Na metade do século 18, os
pensadores se afastaram desses ideais e começaram a se basear em teorias sociais.

Iluminismo no Brasil

As teorias iluministas chegaram no Brasil no século XVIII e foram trazidas ao país através dos filhos
abastados que iam estudar nas universidades europeias.

Eles voltavam com os pensamentos que eram disseminados nesses países. O exemplo mais impor-
tante da influência do movimento em nosso país, foi a Inconfidência Mineira ocorrida em 1789. Eles
exigiam a independência do Brasil, a instauração da República, liberdade econômica, religiosa e de
pensamento.

História da Revolução Francesa

Ideais da Revolução Francesa

A Revolução foi influenciada pelos ideais do movimento conhecido por Iluminismo. O lema “Liber-
dade, Igualdade, Fraternidade” foi adotado como marcha inicial da revolução. O movimento defendia
o pensamento racional diante a visão teocêntrica que dominava a Europa.

Para os filósofos, o pensamento era a única luz capaz de iluminar as trevas (período em que a socie-
dade se encontrava), daí o nome de Iluminismo.

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O ILUMINISMO E A REVOLUÇÃO FRANCESA

Para que o ser humano pudesse evoluir intelectualmente, era necessário colocar a razãofrente as
crenças religiosas e o misticismo. As respostas para os questionamentos do homem, que eram base-
adas na fé, deveriam ser abandonadas e uma nova busca deveria ser realizada para que as respos-
tas tivessem um embasamento lógico e real.

Os filósofos acreditavam que o homem nascia bom, porém era corrompido pela sociedade que não
tinha princípios, nem moral. Para eles, se o homem fizesse parte de uma sociedade justa, onde pu-
desse desfrutar de direitos e liberdade iguais a todos, o bem-estar geral e a felicidade poderiam ser
tornar realidade.

Devido a esses pensamentos, os iluministas eram contra o absolutismo, privilégio a poucos (como os
concedidos a nobreza e ao clero), mercantilismo e a qualquer prática imposta obrigatoriamente. Para
eles, todos os cidadãos deveriam ter como direito igualdade jurídica e tributária.

Para os burgueses essa filosofia era interessante, pois mesmo sendo uma classe que detinha poder
econômico, eles não podiam atuar em campo político, tendo uma participação limitada. E outro ponto
era o governo interferir na economia. Com o fim do Antigo Regime, a burguesia pode atuar livremente
na área econômica e pode ver o clero e a nobreza perder todos os privilégios que tinham.

Essa nova forma de pensar desencadeou processos vastos de produção de conhecimento. Na polí-
tica, novos ideais foram responsáveis pela criação de instituições que tinham como base o pensa-
mento racional. Para que o movimento surtisse efeito, era necessário um grande acontecimento que
exercesse impacto sobre toda a sociedade. Nesse mesmo período, a França passava por uma crise,
na qual o clero e a nobreza viviam as custas do resto da sociedade, que era a burguesia e os campo-
neses.

Revoluções

Francesa

O Iluminismo e suas ideias tiveram bastante influência no mundo todo (vide a independência dos Es-
tados Unidos, por exemplo) e acabaram tendo sua “participação” em uma das maiores Revoluções da
história: a Revolução Francesa. Este é o nome dado para o movimento que promoveu uma série de
acontecimentos entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro de 1799, que mudaram totalmente o qua-
dro político e social da França.

Fatores que Levaram à Revolução

No ano de 1789, a população da França era a maior do mundo e estava dividida em 3 estados: O 1º
estado era o clero (alto e baixo clero), o 2º estado era a nobreza (cortesão, provincial ou de Toga) e o
3º estado era o povo (camponeses, grande burguesia, média burguesia, pequena burguesia, sans-

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O ILUMINISMO E A REVOLUÇÃO FRANCESA

culottes). Diante de sua posição social, o clero e a nobreza possuíam vários privilégios (como por
exemplo: não pagarem impostos), isso começou a incomodar o 3º estado, que arcava com as despe-
sas dos primeiros estados sozinhos.

Influenciados pelos ideais iluministas, o 3º estado começou a se revoltar e lutar pela igualdade de to-
dos perante a lei. Queriam combater o absolutismo monárquico e os privilégios da nobreza e do clero.

A economia francesa estava num período de crise: a agricultura estava enfrentando dificuldades
como secas e inundações, a indústria têxtil enfrentava concorrência com os tecidos ingleses e o co-
mércio foi prejudicado por tudo isso, gerando fome, miséria, desempregados e marginalização.

A Revolução Francesa

Em 14 de julho de 1789, o povo foi às ruas e o primeiro alvo dos revolucionários foi a Bastilha, desen-
cadeando assim A Queda da Bastilha, que marcou o início do processo revolucionário. Grande parte
da nobreza deixava a França, mas a família real foi capturada enquanto tentava fugir do país (foram
presos e até o rei Luís XVI e sua esposa foram guilhotinados em 1793). Os bens da Igreja foram con-
fiscados durante a revolução, afetando o clero.

A Assembleia Constituinte cancelou todos os direitos feudais que ainda existiam e promulgou a De-
claração dos Direitos do Homem e do Cidadão, este documento trazia alguns avanços sociais, mas
ainda não era o suficiente: os franceses dividiram-se em: Girondinos (representando a alta burguesia)
e Jacobinos (representando a baixa burguesia).

As ideias contrárias dos Girondinos e Jacobinos levaram os Jacobinos, radicais, a assumirem o poder
e organização das guardas nacionais, recebendo ordens de matar qualquer oposicionista do novo go-
verno. Mas em 1795, os Girondinos conseguem assumir o poder e começam a instalar o governo bur-
guês no país, com uma nova constituição aprovada. Após um golpe, Napoleão Bonaparte é colocado
no poder, instaurando uma ditadura.

As Consequências

A Revolução Francesa foi um marco importante na história da civilização – não só europeia. Com ela,
veio o fim do arcaico sistema absolutista e os privilégios da nobreza. O povo conseguiu conquistar
seu espaço, ganhando mais autonomia e seus direitos sociais começaram a ser respeitados. Além
disso, a burguesia garantiu seu domínio social, foi a partir da revolução que surgiram as bases de
uma sociedade burguesa e capitalista. Por fim, a revolução influenciou tantas outras ao redor do
mundo, seu lema (“Liberdade, Igualdade e Fraternidade”) inspirou a independência de alguns países
na América Espanhola e até o movimento de Inconfidência Mineira no Brasil.

Idade Contemporânea

Idade Contemporânea é uma divisão cronológica da História, compreendendo o período entre o iní-
cio da Revolução Francesa, com a queda da Bastilha em 14 julho de 1789, até os dias atuais. A
Idade Contemporânea representa principalmente o período de consolidação do capitalismo como
o modo de produção e sua expansão por todo o globo terrestre entre os séculos XVIII e XXI.

Essa é mais uma das divisões cronológicas da História baseadas nos acontecimentos ocorridos em
solo europeu. Nesse sentido, podemos até perguntar: Por que a Revolução Francesa é mais impor-
tante que a Independência dos EUA, já que muitos traços eram comuns a ambos os acontecimentos?

O principal motivo é mesmo o fato de terem sido os historiadores europeus a realizarem a divisão cro-
nológica do que eles consideravam a História da Humanidade. Porém, a Revolução Francesa repre-
sentou transformações profundas na sociedade europeia da época e teve consequências em outros
continentes, como a influência nos processos de independência das colônias da América espanhola,
portuguesa e francesa.

Com os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a burguesia francesa e outros setores popula-
res da sociedade conseguiram derrubar o poder político da aristocracia proprietária de terras, que ha-
via consolidado seu poder durante a Idade Média. A conquista do poder político era a coroação de
um fortalecimento econômico da burguesia que havia sido iniciado a partir de finais da Idade Média,

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O ILUMINISMO E A REVOLUÇÃO FRANCESA

com novas formas de produção nas cidades e no campo, além da abertura comercial no Mediterrâ-
neo e das novas rotas marítimas no Atlântico e Pacífico.

O regime político burguês, baseado na separação dos poderes entre o Executivo, o Legislativo e o
Judiciário, expandiu-se a partir da França durante a Idade Contemporânea, alcançando quase todos
os locais do planeta. A ação de Napoleão Bonaparte foi importante para essa expansão, como foi
também para mostrar a força de reação que detinha ainda a aristocracia, que conseguiu deter seu po-
derio.

Mas o desenvolvimento do capitalismo não foi detido pela aristocracia. Os séculos XIX e XX foram o
período áureo do capitalismo com os imensos avanços tecnológicos. Imensas cidades foram construí-
das, a população cresceu exponencialmente, distâncias foram encurtadas, a ponto de o ser humano
poder chegar ao espaço sideral e a pisar na lua.

Por outro lado, apesar de todas as riquezas e avanços, a Idade Contemporânea foi marcada pela ma-
nutenção da miséria de grande parte da população, mesmo com a criação de imensas riquezas. Essa
contradição gerou ainda uma série de movimentos de contestação do capitalismo liberal.

As principais consequências foram as lutas sociais das classes sociais exploradas, notadamente os
trabalhadores assalariados, contra a exploração capitalista.

Exemplo marcante de tentativa de superação da exploração foram as revoluções, sendo a mais co-
nhecida a Revolução Russa de 1917. Entretanto, os desenvolvimentos subsequentes da revolução
representaram a reprodução da exploração, mesmo que sob o manto ideológico do socialismo.

Essa forma de organização social, de propriedade estatal e domínio político e social nas mãos de um
Partido Comunista, foi implantada em metade do território mundial.

O século XX foi então marcado por essa divisão entre um capitalismo de base privada e uma organi-
zação social controlada pelo Estado. Houve ainda outros regimes que marcaram a Idade Contempo-
rânea, principalmente os chamados totalitários, representados pelo fascismo e pelo nazismo.

Outra característica nefasta da Idade Contemporânea foram as guerras. Inúmeras delas ocorreram.
As maiores e mais mortíferas foram as chamadas guerras mundiais, a Primeira Guerra Mundial, que
ocorreu entre 1914 e 1918, e a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, resultando na morte
de mais de uma centena de milhões de pessoas. A ciência utilizada para fins militares resultou ainda
na criação da mais letal das armas já criadas, a bomba nuclear.

Porém, a ciência possibilitou melhorias nas condições de higiene e na saúde da população, proporci-
onando o aumento da expectativa de vida na maior parte dos locais do planeta. A apresentação su-
cinta das principais características da Idade Contemporânea mostra os inúmeros aspectos contraditó-
rios de nossa sociedade.

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

A Independência dos Estados Unidos

Antes da Independência, os EUA eram formados por treze colônias controladas pela metrópole: a In-
glaterra. Dentro do contexto histórico do século XVIII, os ingleses usavam estas colônias para obter
lucros e recursos minerais e vegetais não disponíveis na Europa. Era também muito grande a explo-
ração metropolitana, com relação aos impostos e taxas cobrados dos colonos norte-americanos.

Colonização dos Estados Unidos

Para entendermos melhor o processo de independência norte-americano é importante conhecermos


um pouco sobre a colonização deste território. Os ingleses começaram a colonizar a região no século
XVII. A colônia recebeu dois tipos de colonização com diferenças acentuadas:

Colônias do Norte: região colonizada por protestantes europeus, principalmente ingleses, que fugiam
das perseguições religiosas. Chegaram na América do Norte com o objetivo de transformar a região
num próspero lugar para a habitação de suas famílias. Também chamada de Nova Inglaterra, a re-
gião sofreu uma colonização de povoamento com as seguintes características: mão-de-obra livre,
economia baseada no comércio, pequenas propriedades e produção para o consumo do mercado in-
terno.

Colônias do Sul: colônias como a Virginia, Carolina do Norte e do Sul e Geórgia sofreram uma coloni-
zação de exploração. Eram exploradas pela Inglaterra e tinham que seguir o Pacto Colonial. Eram ba-
seadas no latifúndio, mão-de-obra escrava, produção para a exportação para a metrópole e monocul-
tura.

Guerra dos Sete Anos

Esta guerra ocorreu entre a Inglaterra e a França entre os anos de 1756 e 1763. Foi uma guerra pela
posse de territórios na América do Norte e a Inglaterra saiu vencedora. Mesmo assim, a metrópole
resolveu cobrar os prejuízos das batalhas dos colonos que habitavam, principalmente, as colônias do
Norte. Com o aumento das taxas e impostos metropolitanos, os colonos fizeram protestos e manifes-
tações contra a Inglaterra.

Metrópole Aumenta Taxas e Impostos

A Inglaterra resolveu aumentar vários impostos e taxas, além de criar novas leis que tiravam a liber-
dade dos norte-americanos.

Dentre estas leis podemos citar: Lei do Chá (deu o monopólio do comércio de chá para uma compa-
nhia comercial inglesa), Lei do Selo (todo produto que circulava na colônia deveria ter um selo ven-
dido pelos ingleses), Lei do Açúcar (os colonos só podiam comprar açúcar vindo das Antilhas Ingle-
sas).

Estas taxas e impostos geraram muita revolta nas colônias. Um dos acontecimentos de protesto mais
conhecidos foi a Festa do Chá de Boston (The Boston Tea Party). Vários colonos invadiram, a noite,
um navio inglês carregado de chá e, vestidos de índios, jogaram todo carregamento no mar. Este pro-
testo gerou uma forte reação da metrópole, que exigiu dos habitantes os prejuízos, além de colocar
soldados ingleses cercando a cidade.

Primeiro Congresso da Filadélfia

Os colonos do Norte resolveram promover, no ano de 1774, um congresso para tomarem medidas
diante de tudo que estava acontecendo. Este congresso não tinha caráter separatista, pois pretendia
apenas retomar a situação anterior. Queriam o fim das medidas restritivas impostas pela metrópole e
maior participação na vida política da colônia.

Porém, o rei inglês George III não aceitou as propostas do congresso, muito pelo contrário, adotou
mais medidas controladoras e restritivas como, por exemplo, as Leis Intoleráveis.

Uma destas leis, conhecida como Lei do Aquartelamento, dizia que todo colono norte-americano era
obrigado a fornecer moradia, alimento e transporte para os soldados ingleses. As Leis Intoleráveis ge-
raram muita revolta na colônia, influenciando diretamente no processo de independência.

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

Segundo Congresso da Filadélfia

Em 1776, os colonos se reuniram no segundo congresso com o objetivo maior de conquistar a inde-
pendência. Durante o congresso, Thomas Jefferson redigiu a Declaração de Independência dos Esta-
dos Unidos da América. Porém, a Inglaterra não aceitou a independência de suas colônias e declarou
guerra. A Guerra de Independência, que ocorreu entre 1776 e 1783, foi vencida pelos Estados Unidos
com o apoio da França e da Espanha.

Constituição dos Estados Unidos

Em 1787, ficou pronta a Constituição dos Estados Unidos com fortes características iluministas. Ga-
rantia a propriedade privada (interesse da burguesia), manteve a escravidão, optou pelo sistema de
república federativa e defendia os direitos e garantias individuais do cidadão.

Thomas Jefferson: redigiu a Declaração de Independência em 1776

Declaração da Independência, por John Trumbull, 1817–1818.

Guerra Civil Americana

O que foi a Guerra Civil Americana?

A Guerra Civil Americana, ou Guerra de Secessão, foi um conflito armado travado entre os estados
do Sul e do Norte dos Estados Unidos. O conflito começou em 12 de abril de 1861 e só teve fim em
22 de junho de 1865. A guerra aconteceu após o clima de tensão gerado pelas eleições de 1860, que

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

elegeram o presidente Abraham Lincoln – representante do Norte. Mas por que havia essa tensão en-
tre as duas regiões do país?

Polarização: Norte vs. Sul

Com a Independência das Treze Colônias, em 1776, as colônias converteram-se em estados inde-
pendentes, mas unidos em uma Federação, com representação política republicana e presidencia-
lista.

Os estados na região Norte concentraram-se no desenvolvimento da indústria e, para tanto, necessi-


tavam de mão de obra livre e assalariada que operasse o trabalho dentro das fábricas. A formação do
operariado e da burguesia industrial no Norte produziu também uma forma específica de se encarar a
atividade política e os direitos civis.

Os estados do Sul, ao contrário, tiveram um desenvolvimento agrário baseado na grande propriedade


e no modelo da plantation, isto é, grandes propriedades rurais que praticavam a monocultura (cultivo
de uma ou poucas espécies de planta para o mercado) do algodão. O modelo da plantation valia-se
da mão de obra escrava negra, já que, além de não ter o custo do trabalho assalariado, o tráfico tran-
satlântico de escravos também gerava bastante lucro.

Apesar de os dois modelos seguirem caminhos opostos, eles se complementavam ao menos em um


ponto: as indústrias têxteis (que fabricavam tecido) do Norte necessitavam do algodão do Sul, que,
por sua vez, voltava para o Sul na forma de produto, como roupas.

Apesar de tal complementaridade econômica, incomodava às lideranças do Norte (que possuíam


uma perspectiva política voltada para as liberdades individuais, para o direito à pequena propriedade
etc.) a existência do regime escravista nos estados do Sul. Não era compreensível que um país, uma
República Federativa, fosse unido politicamente por duas perspectivas completamente antagônicas.

Os estados do Sul, por sua vez, também não viam com bons olhos o modelo nortista, que a cada ano
se impunha como o mais eficaz (a população do Norte era bem superior e mais desenvolvida que a
do Sul). Os sulistas, ainda no ano das eleições (1860), já falavam em secessão, isto é, em separa-
ção entre as duas regiões e na criação de outro país, os Estados Confederados da América, em opo-
sição ao Norte.

Em dezembro de 1860, os sulistas conceberam uma nova Constituição e oficializaram os Estados


Confederados, elegendo como presidente Jefferson Davis, do Mississippi, e como capital a cidade
de Montgomery, no Alabama.

Desenvolvimento do Conflito

Com a secessão e a formação dos Estados Confederados, o conflito tornou-se inevitável. Lincoln,
como presidente da União, isto é, dos Estados Unidos como um todo, não reconheceu a independên-
cia dos estados sulistas e optou pela reincorporação deles. O exército da União era mais numeroso e
organizado, mas o Sul contava com militares experientes que saíram da União e tornaram-se fiéis
aos Confederados. Foi o caso do general Robert E. Lee, veterano na guerra contra o México.

O general Lee foi o principal comandantes dos sulistas na Guerra Civil. Ele possuía um conhecimento
estratégico que poucos tinham àquela altura e que dava vantagem ao Sul. Entretanto, Lincoln tinha a
seu favor a tecnologia. Duas armas tecnológicas foram decisivas para o Norte: o telégrafo e a loco-
motiva a vapor.

Por meio do telégrafo, Lincoln e seus generais podiam integrar, em questão de minutos, as informa-
ções dispersas sobre a movimentação das tropas sulistas. Se isso fosse feito por mensageiros a ca-
valo, o tempo seria de sete dias. As locomotivas a vapor, em vez de transportarem mercadorias, ser-
viram para transportar soldados, armas e munição do Norte para o Sul. Em questão de horas, os
exércitos da União eram abastecidos no Norte, fato que demoraria semanas se fosse feito a pé.

O confronto em campo aberto era terrível. A Guerra Civil Americana, ao lado da Guerra do Paraguai,
foi uma das mais sangrentas guerras já travadas no continente americano. Tantos os soldados do Sul

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

quanto os do Norte usavam em seus rifles as balas minié, um tipo de bala capaz de estraçalhar facil-
mente braços e pernas e esmigalhar os ossos do corpo humano. O rifle, por sua vez, tinha que ser
recarregado após cada disparo.

O recarregamento era feito manualmente, colocando-se pólvora no cano e depois a bala, que era pi-
lada com uma vareta. Em uma única batalha morriam de 10 a 30 mil homens, como diz o historiador
Leandro Karnal:

As batalhas tornaram-se verdadeiros palcos de horror. Numa delas, os nortistas, com cerca de 30 mil
homens a mais que os sulistas, obrigaram o general Lee a se refugir na Virgínia e cerca de 12 mil ho-
mens morreram em cada um dos lados dos conflitos. Em outra, os confederados lançaram-se com
mais de 150 mil homens contra as trincheiras da União próximas a Gettysbury, na Pensilvânia. Os
confederados acabaram dizimados pelas tropas federais e cerca de mil soldados sulistas morreram
nesse conflito.

Uma das estratégias mais importantes elaboradas por Lincoln para vencer a guerra foi a aprovação
da chamadaLei de Terras, em 1862, também conhecida como Homestead Act. Essa lei autorizava
novos colonos a ocuparem as terras do Oeste americano, ainda pouco povoado, e a adotarem o mo-
delo da pequena propriedade – contrário ao do latifúndio sulista. O objetivo de Lincoln era manter o
território ainda não ocupado fiel à União. Os sulistas, que já haviam começado a expandir suas plan-
tations para o Oeste, tiveram que frear o processo.

Fim do Conflito

Em 1864, as forças do Sul já não conseguiam mais se manter coesas. A situação era desfavorável
para os sulistas, e o seu presidente, Jefferson Davis, foi preso pelos soldados da União quando ten-
tava fugir. O general Lee, por sua vez, rendeu-se em 19 de abril de 1865 ao general Ulysses Grant,
pondo fim à guerra. Os efeitos da guerra civil até hoje são os mais devastadores da história dos Esta-
dos Unidos, mais do que a Segunda Guerra Mundial e do que a Guerra do Vietnã, como diz, nova-
mente, Karnal:

Para uma comparação breve: morreram mais de 600 mil norte-americanos na Guerra Civil; já na fa-
mosa Guerra do Vietnã, o número de baixas oficiais foi de 58 mil mortos. O conflito também serviu
criar o mito de Lincoln como grande estadista defensor da liberdade, forjar certo sentimento de identi-
dade nacional baseada na superioridade do ''mundo'' do Norte, abrir caminho para o surgimento de
determinadas leis comuns e definir a trilha histórica de um país unificado a partir das armas.

Doutrina Monroe

James Monroe instituiu um princípio diversamente interpretado ao longo da história dos EUA

Tempos antes das tensões políticas que culminaram em uma guerra civil, os Estados Unidos viveram
um momento de importantes definições. Entre elas, dá-se fundamental destaque à posição política do
governo norte-americano em relação às demais nações do mundo. Foi quando, em 1823, o presi-
dente James Monroe realizou um discurso oficial ao senado estadunidense que ficou conhecido como
definidor das ações dos EUA frente os países latino-americanos e as antigas metrópoles coloniais.

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

A chamada Doutrina Monroe, sob seu aspecto formal, pretendia postar a posição dos EUA enquanto
liderança continental capaz de garantir a soberania das nações latino-americanas frente às potências
européias.

Entre outros princípios, essa doutrina defendia que nenhuma nação americana poderia ser recoloni-
zada. Além disso, pautava a autonomia econômica dessas mesmas nações, assinalando que a Eu-
ropa não poderia interferir nos negócios estabelecidos pelas nações da América.

Entretanto, esse princípio de autonomia e soberania política continental era contrário à necessidade
que alguns líderes viam em ampliar as áreas de influência econômica dos EUA.

Dessa forma, a postura de liderança acabou sendo reinterpretada como um meio pelo qual os Esta-
dos Unidos poderiam apoiar as nações latino-americanas com o claro interesse de fixar seus interes-
ses econômicos.

Um dos primeiros episódios que indicaram essa prática política aconteceu quando os EUA declara-
ram guerra à Espanha alegando ser contrários à colonização de Cuba e Porto Rico.

Em fevereiro de 1898, uma embarcação norte-americana explodiu no porto de Havana, capital de


Cuba.

A imprensa dos EUA logo se mobilizou em torno de uma campanha que atribuiu o fato às autoridades
espanholas. Valendo-se de tais suspeitas, os EUA enviaram tropas militares para uma guerra que se
deflagrou entre 1899 e 1901.

Além de garantir a independência de Cuba, a vitória estadunidense sobre os espanhóis ainda rendeu
a conquista sobre as Filipinas, a ilha de Guam, e da região de porto Rico.

A recém-independente nação cubana ainda teve que aceitar a incisão de um artigo em sua constitui-
ção conhecido como Emenda Platt. Nela, os EUA teriam o direito de preservar uma base militar na
região de Guantânamo e o direito de intervir nos assuntos políticos cubanos.

Ao longo do século XX, o nada coerente princípio de autonomia da Doutrina Monroe fora manchado
com mais uma ação imperiosa dos EUA. Em 1903, os EUA ajudaram militarmente o Panamá a con-
quistar sua independência em relação à Colômbia.

Em troca, barganharam o direito de construir um canal que ligaria os oceanos Atlântico e Pacífico. O
canal, que renderia grandes quantias por sua importância econômica e geográfica, ficou durante dé-
cadas sendo exclusivamente administrado pelos EUA.

Dessa maneira, o discurso de James Monroe (onde defendia a “América para os americanos”) pare-
cia reafirmar uma perspectiva que olhava positivamente para a ação dos EUA. Ao longo do século
XX, o intervencionismo ganhou novas interpretações como o Corolário Roosevelt ou o princípio de
guerra preventiva, defendido por George W. Bush.

O que foi a Crise de 1929?

O que foi a Crise de 1929? Ela resultou da expansão de crédito na década de 1920. Entre suas con-
sequências, estão o desemprego e a fome de parte da população americana.

Fila de desempregados em uma das ruas de Nova York, EUA

O que foi a Crise de 1929?

Ocorrida entre a Primeira e a Segunda Guerra mundiais, a Crise de 1929 foi um dos acontecimentos
mais impactantes da História Contemporânea.

Essa crise ocorreu nos meses de setembro e outubro de 1929, nos Estados Unidos, quando o valor
das ações da Bolsa de Valores de Nova York (à qual a economia mundial estava integrada à época)
despencou bruscamente, provocando a sua “quebra” (crash). A quebra da Bolsa de Nova York de-
sencadeou, por sua vez, a Grande Depressão Americana, que durou até meados dos anos 1930.

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

O Que Ocasionou a Crise?

A Crise de 1929 foi uma consequência da grande expansão de crédito por meio de oferta monetária
(emissão de dinheiro e títulos) levada a cabo pelo Federal Reserve System (espécie de Banco Cen-
tral dos EUA) desde os primeiros anos da década de 1920. No ano de 1929, essa expansão precisou
ser freada pelo Governo, já que o ajuste de contas precisava ser feito.

O Governo, então, parou de expandir a oferta monetária e começou a operar uma política de restrição
de empréstimos. Temendo a desvalorização da moeda, muitas pessoas e empresas retiraram suas
reservas dos bancos, dando início a um processo de recessão.

Quinta e Terça “Negras”

A solução mais saudável para esse problema seria o Governo controlar a recessão, permitindo a li-
berdade de preços e salários, até que o mercado se adequasse à nova situação. No entanto, ao con-
trário disso, o Governo passou a exercer arrochado controle sobre os preços e os salários, além de
promover aumento de impostos.

Isso agravou a recessão e, em 24 de outubro de 1929, houve a chamada “quinta-feira negra”, carac-
terizada pela queda vertical das ações por falta de compradores. Alguns dias depois, em 29 de outu-
bro, ocorreu a “terça-feira negra”, quando vários e vários lotes de títulos foram colocados à venda na
Bolsa de Nova York, em um último gesto desesperado, sem atrair, entretanto, compradores. Ações
de bancos e empresas ficaram completamente desvalorizadas, o que provocou a falência deles e o
consequente desemprego de cerca de 12 milhões de americanos.

Explicação para a crise a partir do “boom” de oferta de crédito

Falamos acima que o que provocou a “Crise de 1929” foi a expansão (ou o boom) de crédito, feita
pelo Federal Reserve System, durante os anos 1920. Pois bem, para explicar melhor a relação entre
esse tipo de ação financeira e o colapso da economia, destacamos um trecho da obra A grande de-
pressão americana, do economista Murray Rothbard.

O boom [...] é na verdade um período de investimento ruinosamente equivocado. É o momento em


que os erros são cometidos, por causa da interferência do crédito bancário no livre mercado. A “crise”
chega quando os consumidores vêm restabelecer as proporções que desejam. A depressão é na ver-
dade o processo por meio do qual a economia se ajusta após os desperdícios e equívocos
do boom, e restabelece o serviço eficiente dos desejos do consumidor.

Continua Rothbard:

[…] a expansão de crédito bancário principia o ciclo econômico em as suas fases: o boom inflacioná-
rio, marcado pela expansão da oferta de dinheiro e por mal investimentos; a crise, que chega quando
a expansão do crédito termina e os mal investimentos tornam-se evidentes; e a recuperação depres-
siva, o processo necessário de ajuste por meio do qual a economia retoma as maneiras mais eficien-
tes de satisfazer os desejos dos consumidores.

Essa necessidade de retorno à “normalidade” dos ciclos econômicos é o que provoca as crises, se-
gundo Rothbard. A Crise de 1929 foi tão catastrófica porque o Governo americano não respeitou o
momento de reajustar a economia, dando vazão à dinâmica própria do livre mercado, mas, ao contrá-
rio, interferiu ainda mais nessa dinâmica.

O New Deal

A Crise de 1929 colocou em xeque a viabilidade das medidas econômicas liberais, que apontava o
mercado capitalista como o instrumento ideal para se alcançar o equilíbrio econômico e social, sem a
intervenção maciça do Estado.

A resposta à crise foi encontrada nos Estados Unidos e depois nos demais países do capitalismo oci-
dental na ampliação da intervenção do Estado, com o planejamento econômico. Nos EUA, essas me-
didas foram implantadas no governo do presidente democrata Franklin Delano Roosevelt (1933-1945)
e receberam o nome de New Deal (Novo Acordo).

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A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

O New Deal foi influenciado pela teoria econômica de John Maynard Keynes, economista britânico
que apontava a necessidade da mediação econômica do Estado para garantir o bem-estar da popula-
ção, ação que o liberalismo seria incapaz de realizar.

A estratégia de planejamento econômico estatal aproximava o New Deal dos planos quinquenais ado-
tados na URSS, que intensificaram a industrialização soviética em um período de profunda crise eco-
nômica do capitalismo ocidental.

Para enfrentar a crise econômica e social nos EUA, Roosevelt utilizou os trabalhos de um grupo de
renomados economistas inspirados em Keynes para elaborar o New Deal, cujo principal objetivo era
criar condições para a diminuição do desemprego, através da articulação de investimentos estatais e
privados. As principais medidas foram:

- Desvalorização do dólar para tornar as exportações mais competitivas;

- Empréstimos aos bancos para evitar falências no sistema financeiro;

- Criação do sistema de seguridade social, com destaque para o seguro desemprego e a Lei de Se-
guridade de 1935;

- Direito de organização sindical;

- Estímulo à produção agrícola;

- Construção de uma grande quantidade de obras públicas, com destaque às hidrelétricas e rodovias.

O estimulo à contratação de trabalhadores, buscando uma situação de pleno emprego da população


economicamente ativa e as ações de seguridade social estimulariam o consumo da população, aque-
cendo a produção industrial, agrícola e de serviços em todos os níveis.

Além disso, a intermediação dos sindicatos nas negociações das reivindicações tentava evitar violen-
tos conflitos, garantindo a ordem social. Essa perspectiva de atuação econômica via o capitalismo
como um modo de produção integrado, no qual o aumento do consumo, principalmente dos trabalha-
dores, estimularia um desenvolvimento em cadeia de todos os setores econômicos.

As medidas alcançaram êxito, revigorando novamente o capitalismo norte-americano, ao ponto de


estudos afirmarem que dez anos após a implantação do New Deal, os EUA se aproximaram dos pa-
tamares econômicos em que se encontravam em 1929.

O New Deal influenciou as políticas econômicas na Europa ocidental, no que ficou conhecido
como Welfare State, políticas de bem-estar social que proporcionaram o boom econômico do pós-
guerra.

O Estado garantia uma distribuição menos desigual de renda e criava infraestruturas necessárias a
uma vida digna para a maioria da população, investindo em saúde, educação e transporte.

Somente na década de 1970, com as graves crises que assolaram o mundo capitalista, que as medi-
das keynesianas, como o New Deal, foram sendo substituídas e dando lugar a novas políticas de ori-
entação liberal. Começava a época do neoliberalismo econômico.

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

Independência de Brasil

A Independência do Brasil, ocorrida em 7 de setembro de 1822, é um dos acontecimentos mais im-


portantes da história do Brasil, haja vista que foi nesse momento que houve uma clara ruptura com
as Cortes Portuguesas. Para entendermos bem como se desenrolou o processo de Independência, é
necessário que saibamos um pouco do contexto em que tanto Portugal quanto o Brasil estavam inse-
ridos nas primeiras décadas do século XIX.

Sabemos que, em 1808, o Brasil havia sido alçado à condição de Reino Unido, junto
a Portugal e Algarves – em decorrência da fuga da Família Real Portuguesa de sua terra, que ocor-
reu em razão da ofensiva das tropas de Napoleão Bonaparte. Como o Brasil tornou-se a sede desse
Reino Unido, muitas transformações de toda ordem (política, cultural, econômica e social) ocorreram
por aqui nesse período.

A atuação política de brasileiros, desde os mais radicais até os mais moderados, passou a ter amplo
destaque durante a presença do príncipe regente D. João VI e de sua família aqui. Os problemas
tiveram início quando, após a queda do Império Napoleônico, em 1815, uma onda de reconfiguração
política deslanchou-se por toda a Europa, atingido também Portugal.

Em 1820, houve a Revolução Liberal do Porto e, antes disso, a Conspiração de Lisboa, em 1817. A
Revolução do Porto teve grande apoio de todas as camadas da população portuguesa, que passaram
a exigir a convocação das Cortes para a elaboração de uma nova constituição para o Reino de Por-
tugal.

Os membros da revolução também exigiram a volta da Família Real Portuguesa, que teve de sair do
Brasil, deixando Dom Pedro, filho de Dom João VI, como príncipe regente no país. O ano de 1821 foi
permeado por intensas discussões nas Cortes de Lisboa.

O Brasil, na condição de membro do Reino Unido, também enviou para as Cortes os seus represen-
tantes, entre eles, o famoso Antônio Carlos de Andrada, irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva,
um dos “arquitetos” do Império do Brasil.

Nas discussões das Cortes Gerais Portuguesas, os embates entre brasileiros e lusitanos tornaram-se
inevitáveis, sobretudo pelo fato de alguns portugueses desejarem a volta do Brasil à condição de
colônia de Portugal. Com a resistência dos brasileiros a essa perspectiva, restava aos portugueses
exercer maior pressão.

Uma das manobras foram as tentativas de obrigar o príncipe Dom Pedro a regressar a Portugal, dei-
xando então os brasileiros sem representante legítimo em seu solo. O episódio mais emblemático
que ilustra essa situação e que se tornou uma espécie de “prólogo da Independência” foi a decisão
de Dom Pedro, no dia 9 de janeiro de 1822, em optar por ficar no Brasil. Esse dia ficou conhecido
como Dia do Fico.

A independência do Brasil, enquanto processo histórico, desenhou-se muito tempo antes do príncipe
regente Dom Pedro I proclamar o fim dos nossos laços coloniais às margens do rio Ipiranga. De fato,
para entendermos como o Brasil se tornou uma nação independente, devemos perceber como as
transformações políticas, econômicas e sociais inauguradas com a chegada da família da Corte Lusi-
tana ao país abriram espaço para a possibilidade da independência.

A chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil foi episódio de grande importância para que possa-
mos iniciar as justificativas da nossa independência. Ao pisar em solo brasileiro, Dom João VI tratou
de cumprir os acordos firmados com a Inglaterra, que se comprometera em defender Portugal das
tropas de Napoleão e escoltar a Corte Portuguesa ao litoral brasileiro. Por isso, mesmo antes de che-
gar à capital da colônia, o rei português realizou a abertura dos portos brasileiros às demais nações
do mundo.

Do ponto de vista econômico, essa medida pode ser vista como um primeiro “grito de independência”,
onde a colônia brasileira não mais estaria atrelada ao monopólio comercial imposto pelo antigo pacto
colonial. Com tal medida, os grandes produtores agrícolas e comerciantes nacionais puderam avolu-
mar os seus negócios e viver um tempo de prosperidade material nunca antes experimentado em
toda história colonial. A liberdade já era sentida no bolso de nossas elites.

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

Para fora do campo da economia, podemos salientar como a reforma urbanística feita por Dom João
VI promoveu um embelezamento do Rio de Janeiro até então nunca antes vivida na capital da colô-
nia, que deixou de ser uma simples zona de exploração para ser elevada à categoria de Reino Unido
de Portugal e Algarves. Se a medida prestigiou os novos súditos tupiniquins, logo despertou a insatis-
fação dos portugueses que foram deixados à mercê da administração de Lorde Protetor do exército
inglês.

Essas medidas, tomadas até o ano de 1815, alimentaram um movimento de mudanças por parte das
elites lusitanas, que se viam abandonadas por sua antiga autoridade política. Foi nesse contexto que
uma revolução constitucionalista tomou conta dos quadros políticos portugueses em agosto de 1820.
A Revolução Liberal do Porto tinha como objetivo reestruturar a soberania política portuguesa por
meio de uma reforma liberal que limitaria os poderes do rei e reconduziria o Brasil à condição de co-
lônia.

Os revolucionários lusitanos formaram uma espécie de Assembleia Nacional que ganhou o nome de
“Cortes”. Nas Cortes, as principais figuras políticas lusitanas exigiam que o rei Dom João VI retornas-
se à terra natal para que legitimasse as transformações políticas em andamento. Temendo perder
sua autoridade real, D. João saiu do Brasil em 1821 e nomeou seu filho, Dom Pedro I, como príncipe
regente do Brasil.

A medida ainda foi acompanhada pelo rombo dos cofres brasileiros, o que deixou a nação em péssi-
mas condições financeiras. Em meio às conturbações políticas que se viam contrárias às intenções
políticas dos lusitanos, Dom Pedro I tratou de tomar medidas em favor da população tupiniquim. Entre
suas primeiras medidas, o príncipe regente baixou os impostos e equiparou as autoridades militares
nacionais às lusitanas. Naturalmente, tais ações desagradaram bastante as Cortes de Portugal.

Mediante as claras intenções de Dom Pedro, as Cortes exigiram que o príncipe retornasse para Por-
tugal e entregasse o Brasil ao controle de uma junta administrativa formada pelas Cortes. A ameaça
vinda de Portugal despertou a elite econômica brasileira para o risco que as benesses econômicas
conquistadas ao longo do período joanino corriam. Dessa maneira, grandes fazendeiros e comercian-
tes passaram a defender a ascensão política de Dom Pedro I à líder da independência brasileira.

No final de 1821, quando as pressões das Cortes atingiram sua força máxima, os defensores da in-
dependência organizaram um grande abaixo-assinado requerendo a permanência e Dom Pedro no
Brasil. A demonstração de apoio dada foi retribuída quando, em 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro I
reafirmou sua permanência no conhecido Dia do Fico. A partir desse ato público, o príncipe regente
assinalou qual era seu posicionamento político.

Logo em seguida, Dom Pedro I incorporou figuras políticas pró-independência aos quadros adminis-
trativos de seu governo.

Entre eles estavam José Bonifácio, grande conselheiro político de Dom Pedro e defensor de um pro-
cesso de independência conservador guiado pelas mãos de um regime monárquico. Além disso, Dom
Pedro I firmou uma resolução onde dizia que nenhuma ordem vinda de Portugal poderia ser adotada
sem sua autorização prévia.

Essa última medida de Dom Pedro I tornou sua relação política com as Cortes praticamente insusten-
tável. Em setembro de 1822, a assembleia lusitana enviou um novo documento para o Brasil exigindo
o retorno do príncipe para Portugal sob a ameaça de invasão militar, caso a exigência não fosse ime-
diatamente cumprida. Ao tomar conhecimento do documento, Dom Pedro I (que estava em viagem)
declarou a independência do país no dia 7 de setembro de 1822, às margens do rio Ipiranga.

Primeiro Reinado

O Primeiro Reinado corresponde ao período, de 7 de setembro de 1822 a 7 de abril de 1831, em que


o Brasil foi governado por D. Pedro I, primeiro imperador do Brasil.

Esse período, que teve início com a declaração da Independência do Brasil, foi marcado pelo descon-
tentamento e consequentes revoltas regionais, resposta da população que não aceitava o governo de
D. Pedro I e a independência do Brasil.

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

Principais acontecimentos

A primeira constituição do Brasil foi elaborada em 1823, mas como ela limitava os poderes do impe-
rador, D. Pedro I mandou fazer uma nova constituição, a qual foi outorgada em 1824. Nesta, o centra-
lizador e autoritário imperador detinha os poderes legislativo, executivo e judiciário nas suas mãos.

Em 1824, declara guerra ao governo a Confederação do Equador, movimento formado por algumas
províncias do Nordeste, que estavam descontentes com a instabilidade política do país. O objetivo
era alcançar a autonomia, se separando do Brasil, mas as províncias fracassaram nessa tentativa.

A Guerra da Cisplatina, em 1825, é outro acontecimento que marcou esse período e consolidou o
desagrado ao imperador. Nesta guerra, o Uruguai se torna independente do Brasil.

Para além de ter sido vencido, aumenta a precariedade de grande parte da população brasileira de-
corrente da perda do território, dos gastos financeiros com o conflito, bem como do elevado número
de mortos.

Economia do Primeiro Reinado: crise

O Brasil comercializava produtos cujo preço e exportação estavam a cair, tais como algodão, açúcar
e tabaco.

A comercialização do café, por usa vez, começava a se expandir. Contudo, o desenvolvimento do


“ouro preto” como era chamado, não foi suficiente para evitar a crise econômica dessa época.

Os gastos com os conflitos, especialmente com a Guerra da Cisplatina, são tão elevados que, em
conjunto com outros fatores, tal como a dificuldade em cobrar os impostos, propiciam a crise financei-
ra.

Fim do Primeiro Reinado: Abdicação de D. Pedro I

Todos os acontecimentos do período consolidaram o descontentamento da população com o governo


do imperador. Para além dos acima citados, o receio de que o assassinato de um jornalista Líbero
Badaró, crítico do governo, teria sido ordenado pelo império, trouxe ainda mais revolta ao povo.

O episódio conhecido como a Noite das Garrafadas, demonstra claramente o desafeto a D. Pedro I,
que nessa ocasião teve garrafas e cacos de vidro lançada o sobre si, num ato de protesto.

Vencido pelos protestos em consequência da sua perda de popularidade, D. Pedro I abdica do trono
em favor do seu herdeiro – D. Pedro II, que na altura não podia governar pois se tratava de uma cri-
ança com apenas 5 anos de idade. A solução era formar uma Regência até que D. Pedro II atingisse
a maioridade. O período que intermeia o Primeiro e o Segundo Reinado – governo de D. Pedro II, é
chamado Período Regencial.

Período Regencial

O Período Regencial (1831 – 1840) caracteriza um período de grande conturbação no Brasil e inter-
meia o Primeiro Reinado, governado por D. Pedro I e o Segundo Reinado, governado por seu filho, D.
Pedro II.

Características

Na sequência de vários problemas enfrentados pelo império de D. Pedro I e, no momento em que o


imperador perde a sua popularidade, decide adjudicar ao trono. Nessa altura, porém, o seu herdeiro –
D. Pedro II não podia governar pois se tratava de uma criança com apenas 5 anos de idade. A solu-
ção era formar uma Regência até que D. Pedro II atingisse a maioridade.

As Regências

O Período Regencial pode ser dividido em:

 Regência Trina Provisória (Abril a Julho de 1831)

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

 Regência Trina Permanente (1831 a 1834)

 Regência Una do Padre Feijó (1835 – 1837)

 Regência Una de Araújo Lima (1837 – 1840)

Grupos políticos do Período Regencial

Nessa altura, havia três grupos políticos a defender cada qual uma posição diferenciada de governo:

 Liberais moderados (também conhecidos como ximangos) – Esses defendiam o centralismo políti-
co, a monarquia;

 Liberais exaltados (também conhecidos como farroupilhas) – Defendiam a revisão da política e fim
da monarquia;

 Restauradores (também conhecidos como caramurus) – Eram contrários à reforma política e eram a
favor do regresso de D. Pedo I.

Revoltas do Período Regencial

A consequência dessa disputa de poder é a instabilidade política. Somada à essa questão, as condi-
ções precárias de grande parte da população dão origem a uma série conflitos:

 Cabanagem, na Província do Grão-Pará (1835 – 1840);

 Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul
(1835 – 1845);

 Revolta dos Malês, Província da Bahia (1835);

 Sabinada, na Província da Bahia (1837 – 1838);

 Balaiada, na Província do Maranhão (1838 – 1841).

Com o objetivo de acabar com toda esse descontentamento, desordem e agitação, o Partido Liberal
propicia uma situação que sinaliza o fim do Período Regencial, o Golpe da Maioridade, declarando D.
Pedro II maior de idade aos 14 anos. Um ano depois, D. Pedro começa a governar o Brasil e tem
início o Segundo Reinado.

Segundo Reinado

O Segundo Reinado corresponde ao período, de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889, em


que o Brasil foi governado pelo império de D. Pedro II.

D. Pedro II se torna imperador com 15 anos de idade, um ano após ter sido declarado maior de idade,
com 14 anos. A antecipação da sua maioridade é conhecida como o golpe da maioridade.

Esta foi a forma encontrada pelo Partido Liberal para acabar com o governo regencial, que era prova-
velmente o causador das rebeliões que se passavam no Brasil na sequência da abdicação de D. Pe-
dro I.

Foi um período caracterizado por crises e revoltas, das quais citamos:

 Guerra contra Aguirre, Guerra contra Oribe e Rosas, Guerra do Paraguai

 Questão Christie, Questão Militar, Questão Religiosa

 Revoltas Liberais, Revolta dos Muckers, Revolução Praieira, Revolta dos Quebra-Quilos, Ronco da
Abelha

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

Economia: ciclo do café

Nessa época, as excelentes condições de plantio no Vale do Paraíba alavancaram a exportação do


café.

O Brasil começou a exportar mais do que a importar e a procura era tão grande que havia necessida-
de de aumentar a mão-de-obra. Esse fato propiciou a utilização do trabalho escravo, escolha que
mais rápido e facilmente dava resposta à demanda.

Por conta da situação econômica e do agrupamento da população em decorrência do crescimento da


exportação de café, formaram-se muitas cidades e surgiram ferrovias. Os portos de Santos e Rio de
Janeiro prosperam.

Passados alguns anos, o solo desgastou e a exportação reduziu devido à crise internacional de 1929.
Chega ao fim o ciclo do café (o ouro preto), que compreendeu os anos de 1800 a 1930.

Política: parlamentarismo às avessas

Nessa época, também surgem os primeiros partidos políticos. São eles: o Partido Liberal, cujos mem-
bros eram conhecidos como os “luzia” e o Partido Conservador, cujos membros eram conhecidos
como os “saquarema”.

Os primeiros eram democráticos e revolucionários, enquanto os segundos eram autoritários e defen-


diam o absolutismo.

Por causa da abdicação do seu pai, D. Pedro II sentiu a necessidade de mudar forma de governo.
Seguindo, assim, ao sistema que tem origem na Inglaterra, em 1847 é implantado o parlamentarismo
no Brasil. Ficou conhecido como parlamentarismo às avessas dado que os representantes eram es-
colhidos pelo imperador e não pelo povo, tal como na Inglaterra e no restante da Europa.

Abolicionismo

Essa época é muito importante para os escravos. Foi nesse período que surgiram diversas lei contra
a escravatura, levando, finalmente, à abolição dessa prática em 1888:

 Lei Eusébio de Queirós (1850);

 Lei do Ventre Livre (1871);

 Lei dos Sexagenários (1887);

 Em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que determina o fim da escravidão.

Proclamação da República

Ao longo do seu governo, D. Pedro II se contrapôs com a igreja, com os militares e com a elite.

Alguns episódios direcionaram os acontecimentos para um golpe militar. São exemplos a exigência
de que a igreja não acatasse as ordens papais (sem antes ter sido aprovada pelo imperador), a des-
valorização dos militares e o fim da escravatura.

A República é proclamada no dia 15 de novembro de 1889 por Marechal Deodoro da Fonseca, o qual
foi, provisoriamente, o primeiro presidente do Brasil.

Proclamação da República

O processo histórico em que se desenvolveu o fim do regime monárquico brasileiro e a ascensão da


ordem republicana no Brasil perpassa por uma série de transformações em que visualizamos a che-
gada dos militares ao poder. De fato, a proposta de um regime republicano já vivia uma longa história
manifestada em diferentes revoltas. Entre tantas tentativas de transformação, a Revolução Farroupi-
lha (1835-1845) foi a última a levantar-se contra a monarquia.

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INDEPENDÊNCIA DE BRASIL

Podemos destacar a importância do processo de industrialização e o crescimento da cafeicultura


enquanto fatores de mudança sócio-econômica.

As classes médias urbanas e os cafeicultores do Oeste paulista buscavam ampliar sua participação
política através de uma nova forma de governo. Ao mesmo tempo, os militares que saíram vitoriosos
da Guerra do Paraguai se aproximaram do pensamento positivista, defensor de um governo republi-
cano centralizado.

Além dessa demanda por transformação política, devemos também destacar como a campanha abo-
licionista começou a divulgar uma forte propaganda contra o regime monárquico.

Vários entusiastas da causa abolicionista relacionavam os entraves do desenvolvimento nacional às


desigualdades de um tipo de relação de trabalho legitimado pelas mãos de Dom Pedro II. Dessa for-
ma, o fim da monarquia era uma opção viável para muitos daqueles que combatiam a mão de obra
escrava.

Até aqui podemos ver que os mais proeminentes intelectuais e mais importantes membros da elite
agroexportadora nacional não mais apoiavam a monarquia. Essa perda de sustentação política pode
ser ainda explicada com as consequências de duas leis que merecem destaque.

Em 1850, a lei Eusébio de Queiroz proibiu a tráfico de escravos, encarecendo o uso desse tipo de
força de trabalho. Naquele mesmo ano, a Lei de Terras preservava a economia nas mãos dos gran-
des proprietários de terra.

O conjunto dessas transformações ganhou maior força a partir de 1870. Naquele ano, os republica-
nos se organizaram em um partido e publicaram suas ideias no Manifesto Republicano. Naquela altu-
ra, os militares se mobilizaram contra os poderes amplos do imperador e, pouco depois, a Igreja se
voltou contra a monarquia depois de ter suas medidas contra a presença de maçons na Igreja anula-
das pelos poderes concedidos ao rei.

No ano de 1888, a abolição da escravidão promovida pelas mãos da princesa Isabel deu o último
suspiro à Monarquia Brasileira.

O latifúndio e a sociedade escravista que justificavam a presença de um imperador enérgico e autori-


tário, não faziam mais sentido às novas feições da sociedade brasileira do século XIX. Os clubes
republicanos já se espalhavam em todo o país e naquela mesma época diversos boatos davam conta
sobre a intenção de Dom Pedro II em reconfigurar os quadros da Guarda Nacional.

A ameaça de deposição e mudança dentro do exército serviu de motivação suficiente para que o
Marechal Deodoro da Fonseca agrupasse as tropas do Rio de Janeiro e invadisse o Ministério da
Guerra. Segundo alguns relatos, os militares pretendiam inicialmente exigir somente a mudança do
Ministro da Guerra. No entanto, a ameaça militar foi suficiente para dissolver o gabinete imperial e
proclamar a República.

O golpe militar promovido em 15 de novembro de 1889 foi reafirmado com a proclamação civil de
integrantes do Partido Republicano, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Ao contrário do
que aparentou, a proclamação foi consequência de um governo que não mais possuía base de sus-
tentação política e não contou com intensa participação popular. Conforme salientado pelo ministro
Aristides Lobo, a proclamação ocorreu às vistas de um povo que assistiu tudo de forma bestializada.

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PRIMEIRO REINADO

Primeiro Reinado

O Primeiro Reinado foi a fase inicial do período monárquico do Brasil após a independência. Esse pe-
ríodo se inicia com a declaração da independência por Dom Pedro I e se finda em 1831, com a abdi-
cação do imperador.

Quando Dom Pedro I declarou a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, movido por in-
tensa pressão das elites portuguesas e brasileiras, o exército português, ainda fiel à lógica colonial,
resistiu o quanto pôde, procurando resguardar os privilégios dados aos lusitanos em terras brasilei-
ras.

A vitória das forças leais ao Imperador Pedro I contra essa resistência dão ao monarca um aumento
considerável de prestígio e poder.

Uma das primeiras iniciativas do imperador brasileiro foi criar e promulgar uma nova Constituição
para o país para, ao mesmo tempo, aumentar e consolidar seu poder político e frear iniciativas revolu-
cionárias que já estavam acontecendo no Brasil.

A Assembléia Constituinte formada em 1823 foi a primeira tentativa, invalidada pela falta de acordo e
pela incompatibilidade entre os deputados e a vontade do Imperador. Numa nova tentativa, a Consti-
tuição é promulgada em 1824, a primeira do Brasil independente.

Essa Constituição, entre outras medidas, dava ao Imperador o poder de dissolver a Câmara e os con-
selhos provinciais, manobrando por tanto o legislativo, além de eliminar cargos quando necessário,
instituir ministros e senadores com poderes vitalícios e indicar presidentes de comarcas. Essas medi-
das deixavam a maior parte do poder de decisão nas mãos do imperador e evidenciavam um caráter
despótico e autoritário de um governo que prometeu ser liberal.

Essa guinada autoritária do governo gerou novas revoltas e insuflou antigas, dando mais instabilidade
ainda ao país recém independente. Uma dessas revoltas foi a Confederação do Equador. Liderados
por Frei Caneca, os pernambucanos revoltosos contra o governo foram reprimidos pelos militares,
não sem antes mostrar sua insatisfação com os rumos do país.

Em 1825 o Brasil foi derrotado na guerra da Cisplatina, que transformou essa antiga parte da colônia
no independente Uruguai em 1828. Essa guerra causa danos ao país, tanto políticos quanto econômi-
cos. Com problemas com importações, baixa arrecadação de impostos, dificuldade na cobrança dos
mesmos por causa da extensão do território e a produção agrícola em baixa, causada por uma crise
internacional, a economia brasileira tem uma queda acentuada.

Quando, em 1826, Dom João VI morre, surge um grande embate quanto a sucessão do trono portu-
guês. Diante de reivindicações de brasileiros e portugueses, Dom Pedro abdica em favor da filha, D.
Maria da Glória. No entanto, seu irmão, D. Miguel, dá um golpe de Estado e usurpa o poder da irmã.

O Imperador brasileiro então envia tropas brasileiras para solucionar o embate e restituir o poder à
filha. Esse fato, irrita os brasileiros, uma vez que o Imperador está novamente priorizando os assun-
tos de Portugal em detrimento do Brasil. Essa “reaproximação’ entre Portugal e Brasil incomoda e
gera temor de uma nova época de dependência. Com isso, o Imperador perde popularidade.

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PRIMEIRO REINADO

A tudo isso se soma o assassinato de Líbero Badaró, jornalista conhecido e desafeto do imperador.
Naturalmente, as suspeitas pelo atentado sofrido pelo jornalista recaem no governante luso-brasileiro.
Esse episódio faz a aprovação do Imperador cair ainda mais junto da população. Um momento deli-
cado acontece quando o Imperador, em viagem a Minas Gerais, é hostilizado pelos mineiros por
conta desse assassinato. Portugueses no Rio de Janeiro imediatamente respondem aos mineiros, se
mobilizando em favor do imperador. As ruas do Rio de Janeiro testemunham momentos e atos de de-
sordem e agitação pública.

Nesse momento, duas das mais importantes categorias de sustentação do regime também retiram
seu apoio. A Nobreza e o Exército abandonam o Imperador e tornam a situação política insustentável.
D Pedro I não encontra solução. Abdica em favor do filho, Pedro de Alcântara, então com 5 anos em
7 de abril de 1831.

Principais Acontecimentos

A primeira constituição do Brasil foi elaborada em 1823, mas como ela limitava os poderes do impera-
dor, D. Pedro I mandou fazer uma nova constituição, a qual foi outorgada em 1824. Nesta, o centrali-
zador e autoritário imperador detinha os poderes legislativo, executivo e judiciário nas suas mãos.

Em 1824, declara guerra ao governo a Confederação do Equador, movimento formado por algumas
províncias do Nordeste, que estavam descontentes com a instabilidade política do país. O objetivo
era alcançar a autonomia, se separando do Brasil, mas as províncias fracassaram nessa tentativa.

A Guerra da Cisplatina, em 1825, é outro acontecimento que marcou esse período e consolidou o de-
sagrado ao imperador. Nesta guerra, o Uruguai se torna independente do Brasil.

Para além de ter sido vencido, aumenta a precariedade de grande parte da população brasileira de-
corrente da perda do território, dos gastos financeiros com o conflito, bem como do elevado número
de mortos.

Economia do Primeiro Reinado: crise

O Brasil comercializava produtos cujo preço e exportação estavam a cair, tais como algodão, açúcar
e tabaco.

A comercialização do café, por usa vez, começava a se expandir. Contudo, o desenvolvimento do


“ouro preto” como era chamado, não foi suficiente para evitar a crise econômica dessa época.

Os gastos com os conflitos, especialmente com a Guerra da Cisplatina, são tão elevados que, em
conjunto com outros fatores, tal como a dificuldade em cobrar os impostos, propiciam a crise finan-
ceira.

Fim do Primeiro Reinado: Abdicação de D. Pedro I

Todos os acontecimentos do período consolidaram o descontentamento da população com o governo


do imperador. Para além dos acima citados, o receio de que o assassinato de um jornalista Líbero
Badaró, crítico do governo, teria sido ordenado pelo império, trouxe ainda mais revolta ao povo.

O episódio conhecido como a Noite das Garrafadas, demonstra claramente o desafeto a D. Pedro I,
que nessa ocasião teve garrafas e cacos de vidro lançada o sobre si, num ato de protesto.

Vencido pelos protestos em consequência da sua perda de popularidade, D. Pedro I abdica do trono
em favor do seu herdeiro – D. Pedro II, que na altura não podia governar pois se tratava de uma cri-
ança com apenas 5 anos de idade. A solução era formar uma Regência até que D. Pedro II atingisse
a maioridade. O período que intermeia o Primeiro e o Segundo Reinado – governo de D. Pedro II, é
chamado Período Regencial.

Renúncia de D. Pedro I

As posturas autoritárias de D. Pedro I geraram forte insatisfação, principalmente entre as elites do


Nordeste. Essa insatisfação foi intensificada nessa região com a influência de Cipriano Barata e Joa-

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PRIMEIRO REINADO

quim do Amor Divino, também conhecido como frei Caneca. Eles veiculavam suas críticas ao impera-
dor em jornais que circulavam em Pernambuco, chamados Sentinela da Liberdade (Cipriano Barata)
e Tífis Pernambucano (frei Caneca).

Além do autoritarismo do imperador, os altos impostos e os impactos ideológicos que a Revolução


Pernambucana de 1817 ainda geravam nessa região levaram a província de Pernambuco a uma
nova rebelião: a Confederação do Equador. Essa revolta iniciou-se em 2 de julho de 1824 e foi lide-
rada por frei Caneca e Manoel de Carvalho Paes deAndrade.

A Confederação do Equador, assim como a Revolução Pernambucana, possuía caráter separatista e


defendia o republicanismo. Essa revolta espalhou-se por outras regiões do Nordeste brasileiro, como
as províncias da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte. Em setembro de 1824, as tropas impe-
riais já haviam retomado Recife e controlado essa revolta. Os envolvidos foram duramente reprimi-
dos, e frei Caneca, por exemplo, foi executado.

Além da Confederação do Equador, outra revolta eclodiu na Cisplatina, província ao sul que havia
sido integrada por D. João VI ao invadir a região e derrotar José Artigas na década de 1810. A revolta
na Cisplatina declarava a separação dessa região do Brasil e sua anexação às Províncias Unidas do
Rio da Prata (atual Argentina). Isso deu início, em 1825, a um conflito conhecido como Guerra da Cis-
platina.

A Guerra da Cisplatina foi, portanto, um conflito travado entre o Império brasileiro contra o governo de
Buenos Aires pelo controle da Cisplatina. Essa guerra estendeu-se de maneira desgastante durante
três anos e, por mediação da Inglaterra, um acordo de paz foi assinado em 1828 entre os dois gover-
nos. Ambos os países abriram mão da Banda Oriental, e foi concedida a independência para a região
sob o nome de República Oriental do Uruguai.

Esse acordo foi visto como uma derrota, pois o Brasil não conseguiu retomar o controle sobre a Cis-
platina. Além disso, o envolvimento do Brasil nessa guerra prejudicou enormemente a economia, e a
soma dos fatores (autoritarismo político, derrota na guerra e crise econômica) resultou no enfraqueci-
mento da posição de D. Pedro I.

D. Pedro I procurou reforçar sua posição alinhando-se cada vez mais ao lado do “Partido Português”,
isto é, portugueses que haviam sido contrários à independência e que agora defendiam a manuten-
ção de D. Pedro I no poder. Isso agravou o quadro de insatisfação política, e os desentendimentos
entre o “Partido Português” e o “Partido Brasileiro” intensificaram-se, o que levou D. Pedro I a abdicar
do trono do Brasil em 7 de abril de 1831 em favor de seu filho, Pedro de Alcântara.

A abdicação de D. Pedro I ao trono brasileiro em favor de seu filho deu início a um período da história
brasileira conhecido como Período Regencial, no qual Pedro de Alcântara tinha apenas cinco anos e,
portanto, não tinha idade legal para assumir o trono brasileiro.

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SEGUNDO REINADO

As Regências e o Segundo Império no Brasil

A abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho, o menor D. Pedro de Alcân-
tara, causou e foi causada por forte pressão, principalmente dos insatisfeitos, muitos das classes do-
minantes – grandes proprietários dos latifúndios, portanto, donos de terra e escravos; aí deu-se a
crise. Eles davam como razão o fato de que as Regências não podiam dissolver o Legislativo.

No Brasil das Regências, os liberais eram uma das forças políticas e sociais que combateram os ex-
cessos de autoridade do Primeiro Reinado, opondo-se à Constituição de 1824. Os moderados torna-
ram-se muito importantes nesse período; de entre eles saíram membros da elite dirigente, reunidos
em torno da Sociedade Defensora da Liberdade e da Independência Nacional, composta por grandes
proprietários de escravos de São Paulo e Minas Gerais que controlavam o abastecimento da Corte.
Coesos, dirigiam o Império com hegemonia política no Rio de Janeiro.

Ocorreram então lutas políticas entre os moderados e os exaltados. Os liberais moderados estavam
no poder, eram centralistas e queriam o modelo unitarista de governo do Sudeste; embora fossem
adeptos de relativa autonomia política para as províncias, defendiam a monarquia centralizada e bus-
cavam o equilíbrio entre Legislativo e Executivo.

Do outro lado estavam os exaltados: fora do poder, federalistas, sempre do Nordeste, ou seja, fora do
eixo das decisões econômicas. Heterogêneos, suas bases sociais, tanto no setor exportador quanto
no não-exportador, localizavam-se fora do eixo Rio/São Paulo/Minas Gerais.

Aceitavam a monarquia descentralizada e possuíam interesses diversificados no Império. Comparti-


lhavam objetivos como a eliminação do Poder Moderador, do senado vitalício e do Conselho de Es-
tado e a concessão de maior poder para as províncias. Queriam uma república federalista, com di-
reito de voto e fim da escravidão. Sua base era maior no setor urbano, com pequenos e médios co-
merciantes, funcionários públicos, profissionais liberais.

Também na oposição estavam os Caramurus, os chamados restauradores, que desejavam uma mo-
narquia centralista, nos moldes da Carta de 1824. Almejavam o retorno de D. Pedro I, sonho que per-
durou até 1834 (pela razão mais óbvia: o falecimento do primeiro imperador).

Reunidos em torno da Sociedade Conservadora, eram um grupo político mais coeso, com número
reduzido de adeptos, com base na burocracia e nos comerciantes, nos grandes negócios de exporta-
ção e de importação – inclusive o tráfico africano; detinham privilégios no comércio de cabotagem
que abastecia as cidades da costa. Contavam com a simpatia de alguns cafeicultores do Vale do Pa-
raíba.

A Regência estava, assim, marcada pelo agravamento de manifestações e revoltas, caracterizadas


por ampla diversidade social e política. Quarteladas lusófobas, confrontos entre facções locais ou re-
gionais da classe senhorial, rebeliões com envolvimento de pobres, libertos e escravos – inclusive os
que estavam em quilombos.

A ênfase no viés descentralizador das reformas reduziu erroneamente os embates à simples disputa
centralização X descentralização, que fazia o mundo do governo. A liberdade e a propriedade eram
atributos da cidadania ativa no Império.

Aconteceram no período várias movimentações nas províncias, especialmente motivadas pelos libe-
rais exaltados. No Rio de Janeiro, ocorreram vários choques de rua contra os chamados restaurado-
res ou Caramurus. A imprensa dos moderados era representada pelos periódicos Aurora Fluminense,
de orientação de Evaristo da Veiga; e O sete de abril, de Bernardo Pereira de Vasconcelos.

Na Regência Trina Provisória de 17 de junho de 1831, tivemos a lei que promoveu a privação dos re-
gentes a importantes atribuições do Poder Moderador, como dissolver a Câmara dos Deputados, con-
ceder títulos nobiliárquicos, suspender as garantias constitucionais e negociar tratados com governos
estrangeiros.

Contudo, apesar de manter a monarquia centralizada, a lei pressupunha um Legislativo forte, assegu-
rando à Câmara dos Deputados o controle sobre o Poder Executivo. Foi criada a Guarda Nacional

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SEGUNDO REINADO

(em agosto de 1831), mantida a ordem dos cidadãos ativos e a introdução do critério eletivo para a
escolha de oficiais de baixa patente. No mesmo sentido, foi promulgado o Código de Processo Crimi-
nal de 1832, ampliadas as atribuições do cargo de juiz de paz e dos magistrados locais eleitos, asse-
gurando o controle jurídico-policial ao âmbito local.

Com o propósito de compatibilizar os poderes central e local, foi assegurada a unidade da ordem,
com medidas que atendiam às demandas de autonomia, o que representava interesse o local ou regi-
onal.

Fora dos espaços institucionalizados da política, a oposição ameaçava usando a imprensa, os pas-
quins e os panfletos, os movimentos de rua e outros. As dificuldades multiplicaram-se, com o cresci-
mento das divisões no interior do grupo moderado.

O golpe de Estado parlamentar de junho de 1832 foi o resultado das práticas por moderados, sob a
liderança de Diogo Feijó, ministro da Justiça, que pretendia transformar a Câmara em assembleia
constituinte, para aprovar uma nova constituição. Eram sinais da primeira cisão.

Pelas pressões dos liberais exaltados e das divisões moderadas, ocorreu a reforma do texto constitu-
cional, pelo Ato de 1834, que criou também o Município Neutro, dando novo status à cidade do Rio
Janeiro; esse Ato transformou os conselhos gerais das províncias em assembleias provinciais, mas
não feriu a centralização política.

Os presidentes de províncias foram nomeados e mantidos pelos moderados. No Senado Vitalício,


majoritário na Câmara, os liberais moderados tiveram que ceder às constantes pressões dos deputa-
dos e senadores exaltados ou restauradores.

A Regência passou a ser una e eletiva, de 4 anos, com o fim do Conselho de Estado. Iniciou-se então
o embate entre Vasconcelos, do Partido Regressista, e o regente Feijó, do Partido Progressista, o
que levou a uma divisão entre os moderados.

Em 1835, ocorreram as eleições para o cargo de regente uno. Holanda Cavalcanti obteve 2.251 vo-
tos; foi derrotado por Feijó, que teve 2.826 e tomou posse em 12 de outubro. Antes de concluir o
mandato, começou a crise, que eclodiu na Guerra dos Cabanos, no Grão-Pará; na Farroupilha, no
Rio Grande do Sul e Santa Catarina, entre 1835 a 1845; na Revolta dos Malês, em Salvador, em
1835; na Sabinada, em Salvador, entre 1837 e 1838, determinando a divisão dos liberais em progres-
sistas e regressistas.

Em novembro de 1837, Feijó renunciou ao poder; com a subida de Araújo Lima, em abril do ano se-
guinte, foram vitoriosos os defensores do restabelecimento da organização do Império nos moldes da
Carta de 1824. Estava inaugurado o regresso.

Os exaltados alinharam-se aos progressistas, futuros integrantes do Partido Liberal, antigos restaura-
dores, e consolidavam-se as bases sociais do Partido Conservador e a denominada Vitória Saqua-
rema, designação dada ao grupo de conservadores fluminenses, de setores da burocracia, de gran-
des negociantes, de importadores, exportadores e detentores de privilégios e de cafeicultores escra-
vistas do Vale do Paraíba. Araújo Lima venceu a Cabanagem e a Farroupilha; lutou contra a Sabi-
nada na Bahia e a Balaiada, no Maranhão.

Em 1840, D. Pedro II assumiu o Poder (Moderador), pela Lei Interpretativa do Ato Adicional de 12 de
maio daquele ano; essa lei anulava várias atribuições das assembleias, restringindo a autonomia das
províncias onde se notava a presença clara de federalismo, com o propósito de aplacar o insistente
localismo do poder provincial; ou seja, venceu o projeto centralizador.

Para isso, entrou também a Guarda Nacional (embrião da polícia), criada em 1831 graças ao poder
dos moderados (Feijó), com o propósito de manter a ordem interna. A construção do Estado foi, por-
tanto, consolidada em 1840, vencendo os outros projetos políticos que havia e reprimindo as revoltas
herdadas.

O período regencial representou um verdadeiro hiato em tudo, pois, em primeiro lugar, representava
uma experiência positiva, que interrompeu o autoritarismo centralizador do Primeiro Reinado e seria

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SEGUNDO REINADO

recuperada pelo movimento republicano dos anos 1870. Em segundo lugar, representava uma experi-
ência anárquica, pois era um obstáculo ao andamento natural da revolução, iniciada com a emancipa-
ção política de 1822, que seria resgatada com a vitória do regresso. Assim, esse período deve ser
visto como parte do complicado processo de construção do Brasil.

Da Maioridade de Pedro II Em Diante

Com a decretação da maioridade de Pedro II, veio a consolidação da Monarquia e o fim da experiên-
cia republicana (de eleições), que foi o período regencial. Em 24 de julho de 1840 surgiu um ministé-
rio de liberais. O Barão de Caxias pacificou o Maranhão. Aconteceram as chamadas Eleições do Ca-
cete, por pressão do governo. Em 1841, um ministério conservador assumiu o poder. Em 1842 deu-
se a Revolta dos Liberais, em São Paulo e Minas, lideradas por Diogo Feijó e Teófilo Otoni.

Já era de se verificar o grau de complexidade político-ideológica que o país vivenciava: o liberalismo


em crise, a antítese dele (o socialismo) ganhando espaço no mundo; tudo isso se chocando com
nosso modelo socioeconômico conservador, unitário e escravista; estávamos definitivamente na “con-
tramão da História”. Em 1847 houve a criação do cargo de presidente do Conselho de Ministros, do
gabinete. Foi a estruturação do regime parlamentar no Brasil.

De 1848 a 1850 ocorreu a Revolta Praieira, contra os conservadores que voltavam ao poder. Os per-
nambucanos, nativistas, ficaram contra os comerciantes portugueses, mas sua revolta foi sufocada. O
conturbado e esgotado modelo político apelou para o bipartidarismo com liberais e conservadores,
estes ex-regressistas. Segundo os trabalhos que falam da evolução do Direito Político brasileiro, esse
regime não constava na Carta de 1824. De 1840 a 1889, praticou-se internamente o liberalismo eco-
nômico e o liberalismo político, mas, contraditoriamente, o parlamentarismo expôs um Executivo forte,
com o dever de garantir a maioria na Câmara dos Deputados.

Nos tempos do Segundo Reinado, é fundamental destacar a figura de Irineu Evangelista de Souza,
Barão e depois Visconde de Mauá. Foi ele que tomou a iniciativa de tentar industrializar o Brasil entre
1846 e 1875, com experiências que foram abortadas para continuar a velha economia latifundiária,
escravista e monocultora.

Em 1844, surgiram as tarifas Alves Branco, todas de caráter protecionista e de fiscalização; a Lei 581,
de 4 de agosto de 1850, que extinguiu o tráfico de africanos, era sinal das pressões inglesas do Bill
Aberdeen; Mauá começa a vislumbrar nesse momento capital disponível para suas intenções, deslo-
cado das transações do latifúndio e do latifundiário com o comércio de africanos escravizados; era a
possibilidade de convertê-los para alimentar as forças produtivas do Brasil.

Foram feitos os Estaleiros da Ponta da Areia, a Companhia de Rebocadores a Vapor para o Rio
Grande do Sul; foi organizado o segundo Banco do Brasil, em 1851; criou-se a Companhia de Nave-
gação a Vapor do Amazonas, em 1852; surgiu o Banco Mauá e Cia.; foi construída a primeira estrada
de ferro brasileira, que se chamou Mauá, até Raiz da Serra, em 1854; nesse mesmo ano foi inaugu-
rada a iluminação a gás de um trecho do Canal do Mangue; o Brasil ligou-se à Europa pelo cabo sub-
marino que veiculava o telégrafo.

De fato, foram expressivas as conquistas no campo tecnológico, considerando que vivíamos a rebo-
que de interesses que queriam nos manter em condição de inferioridade e que enfrentávamos imen-
sas dificuldades socioculturais e econômicas para nos compararmos aos países mais desenvolvidos
da época.

Entretanto, é importante registrar também que pouco mudava, pois, o país continuava escravista, au-
toritário e segregacionista ao extremo, enquanto o mundo à sua volta fervia em mudanças significati-
vas no aspecto político-econômico. Nós estávamos insistentemente parados, ou quase; talvez hou-
vesse uma sensação de estarmos praticamente estagnados, aos olhares do mundo dito desenvol-
vido; em que pesem as várias e louváveis tentativas, infelizmente não caminhávamos.

Talvez para não dizer certamente as mudanças afetassem nosso modo de vida profundamente, e o
que menos se desejava era que o status quo sofresse alterações, já que se espelhava no mundo de-
senvolvido.

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SEGUNDO REINADO

Nosso país insistia em uma convivência teimosa, na manutenção de uma velha mesmice, que era
fruto também de conjunções primordialmente internas, que reagiam para manter uma cansada e ve-
lha mimese malfeita, porque já extemporânea, caso queiramos comparar com o movimento global e
seus reflexos na dança da nova relação localismo global vs. globalismo local (Cortezão, 2006) que se
anunciava: ensaiava seus tímidos primeiros passos também por aqui.

No Brasil, como em toda a América Latina, poderia ser notado o latejar de manifestações significati-
vas, que permitiam perceber que havia certa consonância – ou talvez ressonância – aqui no conti-
nente, na qual os ares do movimento liberal, seguido de sua múltipla revolução socioeconômica, com
tonalidades variadas, se reverberavam, pululavam sempre. Eram maneiras novas de gerenciar o ca-
pital; havia chegado a hora da mudança. Mas a vagarosidade era de causar espanto.

Revolução Industrial

A Revolução Industrial foi um processo de grandes transformações econômico-sociais que começou


na Inglaterra no século XVIII.

A Revolução Industrial se espalhou por grande parte do hemisfério norte durante todo o século XIX e
início do século XX.

O processo histórico que levou à substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana
pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução In-
dustrial.

O advento da produção em larga escala mecanizada deu início às transformações dos países da Eu-
ropa e da América do Norte.

Estas nações se transformaram em predominantemente industriais, com suas populações cada vez
mais concentradas nas cidades.

Trabalhadores na Fábrica

Causas da Revolução Industrial

A expansão do comércio internacional dos séculos XVI e XVII trouxe um extraordinário aumento da
riqueza, permitindo a acumulação de capital capaz de financiar o progresso técnico e o alto custo da
instalação nas indústrias.

A burguesia europeia, fortalecida com o desenvolvimento dos seus negócios, passou a investir na
elaboração de projetos para aperfeiçoamento das técnicas de produção e na criação de máquinas
para a indústria.

Logo, verificou-se que maior produtividade e maiores lucros para os empresários poderiam ser obti-
dos acrescentando-se o emprego de máquinas em larga escala.

Consequências da Revolução Industrial

O longo caminho de descobertas e invenções foi uma forma de distanciar os países entre si, no que
diz respeito ao poder econômico e político.

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SEGUNDO REINADO

Afinal, nem todos se industrializaram, permanecendo na condição de fornecedores de matérias pri-


mas e produtos agrícolas para os países industrializados.

Fases da Revolução Industrial

Foi na Inglaterra que tudo começou e por isso a Revolução Industrial Inglesa foi pioneira na Europa e
no mundo.

A Inglaterra, possuía capital, estabilidade política e equipamentos necessários para tomar a dianteira
do avanço da Indústria.

Também tinha colônias na África e na Ásia que garantiam fornecimento de matéria-prima com mão
de obra barata.

Primeira Revolução Industrial

A Primeira Revolução Industrial que ocorreu em meados do século XVIII e do século XIX teve como
principal característica o surgimento da mecanização que operou significativas transformações em
quase todos os setores da vida humana.

Na estrutura socieconômica, fez-se a separação definitiva entre o capital, representado pelos donos
dos meios de produção, e o trabalho, representado pelos assalariados. Isto eliminou a antiga organi-
zação corporativa da produção utilizada pelos artesãos.

Devido à baixa remuneração, condições de trabalho e de vida sub-humanas, os operários se organi-


zam. Desta forma, os trabalhadores associaram-se em organizações trabalhistas como as trade uni-
ons (sindicatos) fomentando ideias diante do quadro social da nova ordem industrial.

Protesto organizado pelo Sindicato de Trabalhadores Municipais

A Revolução Industrial estabeleceu a definitiva supremacia burguesa na ordem econômica, ao


mesmo tempo que acelerou o êxodo rural, o crescimento urbano e a formação da classe operária.

Era o início de uma nova época, onde a política, a ideologia e a cultura gravitavam em dois polos: a
burguesia industrial e financeira e o proletariado.

A mecanização se estendeu do setor têxtil para a metalurgia, para os transportes, para a agricultura e
para os outros setores da economia.

As fábricas empregavam grande número de trabalhadores. Todas essas inovações influenciaram a


aceleração do contato entre culturas e a própria reorganização do espaço e do capitalismo.

Nessa fase o Estado passou a participar cada vez mais da economia, regulando crises econômicas e
o mercado e criando uma infra-estrutura em setores que exigiam muitos investimentos.

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SEGUNDO REINADO

Segunda Revolução Industrial

A partir do final do século XIX, período conhecido como a fase da livre concorrência fica para trás e o
capitalismo se tornava cada vez menos competitivo e mais monopolista. Empresas ou países mono-
polizavam o comércio. Era a fase do capitalismo financeiro ou monopolista, marcada pela Segunda
Revolução Industrial.

Desde então se estabeleciam as bases do progresso tecnológico e científico, visando a invenção e o


constante aperfeiçoamento dos produtos e técnicas, para melhor desempenho industrial.

Abriam-se as condições para o imperialismo colonialista e a luta de classes, formando as bases do


mundo contemporâneo.

Terceira Revolução Industrial

O ponto culminante do desenvolvimento industrial, em termos de tecnologia, teve início em 1950 (me-
ados do século XX) com o desenvolvimento da eletrônica. Esta permitiu o desenvolvimento da infor-
mática e a automação das indústrias.

Essa fase de novas descobertas caracterizou a Terceira Revolução Industrial ou revolução científica
e tecnológica.

Revolução Industrial no Brasil

Enquanto na Europa acontecia a Revolução Industrial, o Brasil, ainda colônia portuguesa, estava
longe do processo de industrialização.

A industrialização no Brasil só começou verdadeiramente em 1930, cem anos após a Revolução In-
dustrial Inglesa.

Durante o governo de Getúlio Vargas, a centralização do poder no Estado Novo criou condições para
que se iniciasse o trabalho de coordenação e planejamento econômico, com enfase na industrializa-
ção por substituição de importações.

A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, trouxe uma desaceleração para a industrialização no
Brasil, uma vez que interrompeu as importações de máquinas e equipamentos.

Mesmo assim, o Brasil através de acordos com os Estados Unidos, consegue fundar a Companhia
Siderúrgica Nacional (1941) e a Usiminas (1942).

Após o conflito, o Estado retornaria suas atividades de investidor e impulsionaria a criação de indús-
trias como a Petrobras (1953).

Revoluções Burguesas

São chamados de Revoluções Burguesas os processos históricos protagonizados pela classe bur-
guesa, ligada ao comércio e às finanças, e que foram fundamentais para que várias sociedades euro-
peias superassem o sistema absolutista.

Ao abandonar o feudalismo, os países europeus passavam a se estruturar como estados nacionais,


governados por uma monarquia absolutista que detinha o controle sobre todas as suas fronteiras.

No século XVII, porém, este sistema de monarquia centralizadora começava a entrar em colapso, es-
pecialmente a partir do desenvolvimento de uma nova classe, a burguesia, responsável pelas trocas
monetárias. Os burgueses logo entraram em choque com o sistema absolutista e os seus maiores be-
neficiados, a nobreza em torno do soberano.

São consideradas revoluções burguesas as revoluções inglesas do século XVII (Puritana e Gloriosa)
e a Revolução Francesa de 1789.

As revoluções inglesas são uma série de mudanças experimentadas pela Inglaterra, onde está passa
de monarquia absolutista para república sob o governo de Oliver Cromwell, e finalmente se torna mo-
narquia constitucional, praticamente a mesma forma de governo atualmente em vigor no país.

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SEGUNDO REINADO

A Revolução Francesa, mais famosa, aconteceu quase um século depois, e foi bem mais drástica.
O absolutismo francês estava mais fortemente instalado dentro da sociedade e das instituições.
Prova disso é o rei francês Luís XIV, frequentemente retratado como símbolo perfeito e acabado de
monarca absolutista.

Certamente, isso gerou um clima maior de revanchismo entre os mais humildes, que, no momento em
que derrubaram um regime tão opressor, realizaram uma mudança completa e mais profunda na or-
ganização do estado.

Apesar de estarem separadas por um período de tempo considerável, ambos movimentos guardam
várias características em comum:

Tanto França como a Inglaterra tinham um governo absolutista, onde o rei tinha todo o poder concen-
trado em suas mãos.

Em ambas ocasiões, porém, seus monarcas experimentavam uma séria crise e o enfraquecimento de
sua condição. O exército estava em crise, assim como as instituições que davam suporte ao mo-
narca. Isso gerava rendimentos financeiros pouco expressivos, o que levou a aumento dos impostos
e consequente descontentamento de uma população já bem empobrecida.

As escolhas religiosas e a vida luxuosa dos reis provocaram crises econômicas e levantes populares,
que levavam ao questionamento fundamental, ou seja, a quem o governo deveria servir, se ao rei ou
à nação. É assim que boa parte da população resolve pegar em armas para dar fim à dominação das
monarquias voltadas para a satisfação de seus desejos particulares.

O pensamento racional era defendido como um eficiente instrumento para a resolução dos problemas
humanos. A felicidade humana dependia do quanto a razão fosse utilizada pelas instituições.

Liberalismo Econômico

A teoria do liberalismo econômico surgiu no contexto do fim do mercantilismo, período em que era ne-
cessário estabelecer novos paradigmas, já que o capitalismo estava se firmando cada vez mais. A
ideia central do liberalismo econômico é a defesa da emancipação da economia de qualquer dogma
externo a ela mesma, ou seja, a eliminação de interferências provenientes de qualquer meio na eco-
nomia.

Tal teoria surgiu no final do século XVIII, tendo em François Quesnay um dos seus principais teóricos.
Quesnay afirmava que a verdadeira atividade produtiva estava inserida na agricultura. Outro pensa-
dor que contribuiu para o desenvolvimento da teoria do liberalismo econômico foi Vincent de Gour-
nay, o qual dizia que as atividades comerciais e industriais deveriam usufruir de liberdade, para assim
se desenvolverem e alcançarem a acumulação de capitais.

No entanto, o principal teórico e pai da teoria do liberalismo econômico foi Adam Smith. O economista
escocês confrontou as ideias de Quesnay e Gournay, afirmando em seu livro “A Riqueza das Nações”
as principais ideias do liberalismo econômico: a prosperidade econômica e a acumulação de riquezas
não são concebidas através da atividade rural e nem comercial, mas sim através do trabalho livre,
sem nenhum agente regulador ou interventor.

Para Smith, não eram necessárias intervenções na economia, visto que o próprio mercado dispunha
de mecanismos próprios de regulação da mesma: a chamada “mão invisível”, que seria responsável
por trazer benefícios para toda a sociedade, além de promover a evolução generalizada. Os liberalis-
tas defendem a livre concorrência e a lei da oferta e da procura. Estes teóricos foram os primeiros a
tratar a economia como ciência.

Recebe o nome de liberalismo econômico a ideologia de que estado não deve intervir nas relações
econômicas que existem entre indivíduos, classes ou nações. O liberalismo defende o livre uso, da
parte de cada indivíduo ou membro de uma sociedade, de sua propriedade, sendo partidário da livre-
empresa, em oposição ao socialismo e ao dirigismo.

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SEGUNDO REINADO

Após a revolução burguesa ocorrida na Inglaterra entre 1640 e 1660, surge uma nova realidade na
qual a organização social é baseada na propriedade.

Esta nova ordem inspira uma ideologia que a justifique, ressaltando suas diferenças em relação à or-
dem anterior, a servidão. O nome utilizado para se referir a este conjunto de ideias deriva dos pilares
constitutivos da ordem capitalista, propriedade e liberdade. É exatamente esse último conceito que dá
nome ao novo ideário. A partir daí o liberalismo torna-se a ideologia da sociedade capitalista, ou bur-
guesa.

A proposta da nascente teoria é que todos podem alcançar o mais alto nível de prosperidade de
acordo com seu potencial, aplicando seus valores, atividades e conhecimentos, com o maior grau de
liberdade possível, em uma sociedade que reduza ao mínimo os inevitáveis conflitos sociais. Outros
dois aspectos vitais que dão forma à doutrina liberal são a tolerância e a confiança na força da razão.

A doutrina liberal defende ainda que os governos não costumam representar os interesses de toda a
sociedade, e que se concentram em favorecer seus eleitores ou determinados grupos de pressão. Os
liberais tradicionalmente desconfiam das intenções da classe política e não têm muitas ilusões a res-
peito da eficiência dos governos.

O liberal tradicional sempre se coloca na posição de crítico permanente das funções dos servidores
públicos, vendo com grande ceticismo a função do governo de redistribuidor da renda, eliminador de
injustiças ou “motor da economia”.

Um dos mais conhecidos entusiastas da doutrina liberal foi Adam Smith, que enaltecia as liberdades
individuais, mas não desqualificava o Estado como representante do bem comum, como ocorreria
posteriormente.

Para Smith, as ações individuais, influenciadas pelo interesse próprio seriam guiadas infalivelmente
por uma 'mão invisível' no sentido da realização do bem comum.

O liberalismo clássico, como descrito aqui, prevaleceu nas ações governamentais dos países mais
desenvolvidos durante todo o século XIX, estendendo-se até o início do século. Era a doutrina prefe-
rida de todos os importantes economistas até a grande quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929. A
partir daí o liberalismo ficou em segundo plano, ofuscado pela social-democracia, para renascer no
ocaso desta no final do século como neo-liberalismo.

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

Liberalismo x Socialismo

Entre os séculos XVIII e XIX, as diversas transformações que marcaram a Europa e o continente
americano, possibilitaram o surgimento de novas concepções preocupadas em dar sentido ou teorizar
a rápida ascensão do sistema capitalista. Para tanto, vários pensadores se debruçaram na árdua ta-
refa de negar, reformar ou legitimar as novas relações de ordem social, econômica e política que ga-
nhavam fôlego em um mundo que passava a ter uma nova roupagem.

Uma das mais marcantes transformações trazidas pelo capitalismo foi, sem dúvida alguma, a sua im-
pressionante capacidade de racionalizar o gasto dos recursos e gerar riquezas. Após a deflagração
da Revolução Industrial, as possibilidades de se aperfeiçoar a exploração da mão-de-obra, da tecno-
logia e dos recursos naturais parecia ter alcançado patamares inimagináveis. Contudo, as transforma-
ções desse novo período histórico não se resumiam somente à implicações de caráter positivo.

Mesmo com o desenvolvimento de tais potencialidades e a criação de governos que prometiam colo-
car os homens em posição equivalente, a nova ordem consagrada pela burguesia tinha seus proble-
mas.

Em linhas gerais, a ordem capitalista e os governos liberais ainda conviviam com as desigualdades
que promoviam a distinção dos indivíduos em classes sociais. Foi nesse contexto que surgiram duas
grandes linhas interpretativas dessa nova realidade: o liberalismo e o socialismo.

A corrente liberal defendia os vários pressupostos que compunham essa nova realidade oferecida
pelo capitalismo. Aprovavam o direito à propriedade privada, amplas liberdades no desenvolvimento
das atividades comerciais e a igualdade dos indivíduos mediante a lei.

Além disso, elogiavam a prosperidade do homem de negócios ao verem que sua riqueza beneficiava
a sociedade como um todo. Dessa forma, ao acreditavam que a riqueza seria uma benesse acessível
a todos que trabalhassem.

Com relação à miséria e as desigualdades, a doutrina liberal acredita que a pobreza do homem tem
origem em seu fracasso pessoal. Para que pudesse superar essa situação de penúria, o pobre deve-
ria ter uma postura colaborativa para com seus patrões tendo o cuidado em preservar os seus bens e
dar o máximo de sua força de trabalho na produção de mais riquezas. Concomitantemente, lhe seria
exigida paciência e fé enquanto virtudes que o ajudariam na superação de sua condição.

Partindo para a interpretação socialista, temos um outro tipo de compreensão que nega os argumen-
tos liberais que tentavam naturalizar as desigualdades.

O pensamento socialista, inspirado por pressupostos lançados pelo Rousseau, tenta enxergar esses
problemas como conseqüência das relações sociais estabelecidas entre os homens. Seguindo tal li-
nha, os socialistas passariam a realizar uma crítica ao comportamento assumido pelos homens em
sociedade que estabelecia tais diferenciações.

Dessa forma, os argumentos que justificavam as desigualdades por meio do fracasso pessoal per-
dem terreno para o questionamento profundo de toda a lógica que formava a sociedade capitalista.
Antes de apontar o progresso do capital como um benefício, os socialistas realizam uma investigação
que vai detectar na oposição entre as classes sociais a força que opera grande parte dessas relações
e problemas da sociedade.

Tendo suas bases lançadas, liberalismo e socialismo vão compor duas matrizes interpretativas distin-
tas e, algumas vezes, opostas. Contudo, esses pressupostos serão posteriormente reinterpretados
em um processo de compreensão da sociedade que, até hoje, apresenta novas possibilidades. Por
isso, novos intelectuais se debruçam na mesma importante tarefa de se compreender, criticar e apon-
tar alternativas para nossos moldes de desenvolvimento.

O Liberalismo

Economistas do século XIX dedicaram muito tempo analisando a Revolução Industrial, buscando ma-
neiras de corrigir os problemas sociais e econômicos causados por ela.

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

Alguns pensadores afirmavam que o governo não deveria interferir nos negócios, e baseavam seus
pontos de vista na teoria do laissez-faire - que em francês significa "deixai fazer". Essa teoria foi ela-
borada por um filósofo e economista escocês chamado Adam Smith, considerado o pai da Economia.

Adam Smith

Smith acreditava que a sociedade viveria melhor sob um sistema de iniciativa privada. Em seu livro "A
Riqueza das Nações" (1776), Smith propôs os princípios de uma economia laissez-faire. Ele escreveu
que os empreendedores deveriam ter liberdade de administrar seus negócios da maneira que lhes
fosse gerar mais lucros. Ele também teorizou que "o que é bom para o empreendedor é bom para to-
dos", já que mais lucros levam à expansão dos negócios, que cria mais empregos e bens de produ-
ção. De acordo com Smith, a livre concorrência possibilita às pessoas a oportunidade de trabalhar na-
quilo que fazem melhor, e o governo não deveria se envolver nos negócios, deveria apenas manter a
paz e a ordem.

Outro famoso economista da época foi o inglês Thomas Malthus. Ele escreveu "Um Ensaio Sobre o
Princípio da População" (1798), no qual afirmou que a população sempre cresce mais rápido do que
seu suprimento alimentício, e como resultado, a humanidade acabaria sofrendo fome.

Malthus acreditava que haveria mais trabalhadores que empregos disponíveis, e assim, a sociedade
enfrentaria o desemprego, baixos salários e uma pobreza sem fim. Malthus era contra a ajuda social
aos pobres, argumentando que isso apenas incentivava a constituição de grandes famílias, aumen-
tando ainda mais a população. Malthus concluiu dizendo que diminuir a taxa de natalidade seria a
única maneira de lutar contra a pobreza.

Thomas Malthus

Outro economista inglês, David Ricardo, também previu futuros cenários econômicos pessimistas. Em
um livro que publicou em 1817, Ricardo escreveu sobre a "lei de ferro dos salários". Essa teoria dizia
que os trabalhadores nunca receberiam muito mais que o mínimo necessário para sobreviver. Ri-
cardo atribuía isso ao crescimento populacional, que constantemente aumentava a força de trabalho,
e sempre manteria os salários baixos.

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

David Ricardo

Alguns pensadores achavam a ideia do laissez-faire inaceitável. Eles acreditavam que o problema cri-
ado pela Revolução Industrial somente poderia ser resolvido pelo governo. No início do século XIX,
esses pensadores exigiam o estabelecimento de leis que melhorassem as condições de trabalho.
Também queriam expandir os direitos de voto e dar melhores oportunidades educacionais aos po-
bres.

O Socialismo

Muitos pensadores se preocupavam com o fato de que poucas pessoas haviam enriquecido com a
industrialização, enquanto a maioria permanecia pobre. Outros consideravam que a riqueza deveria
ser distribuída de forma mais igualitária. Sob o sistema capitalista, os meios de produção como as fá-
bricas, minas e ferrovias são propriedade privada. Os reformistas sustentavam o socialismo, onde os
meios de produção seriam de propriedade pública e operados para o bem de toda a população.

Alguns socialistas sonhavam com a criação da utopia, ou seja, uma sociedade ideal. Acreditavam que
seria possível se todas as propriedades de uma comunidade pertencessem de forma igualitária a
toda população.

O mais influente pensador socialista foi Karl Marx (1818-1883). Marx trabalhava como editor de um
jornal, na Prússia, até que autoridades do governo, enfurecidas com seus textos, forçaram-no a sair
do país. Ele, então, foi viver na Inglaterra.

Karl Marx

Marx não acreditava que os problemas criados pela industrialização pudessem ser resolvidos sim-
plesmente reformando-se a sociedade capitalista. Achava que os que desejavam criar uma comuni-
dade utópica eram apenas sonhadores mal orientados.

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

Marx insistia que o capitalismo deveria ser substituído por um sistema econômico e social diferente.
Em seus escritos em colaboração com o amigo Friedrich Engels, Marx chamava esse sistema de co-
munismo. Ele descrevia o comunismo como uma forma de socialismo completa, na qual toda proprie-
dade e todos os meios de produção pertenceriam ao povo. Todos os bens e serviços seriam igual-
mente compartilhados.

Marx declarava que suas teorias eram baseadas em análises científicas da História. Afirmou que a
História segue leis científicas, assim como a natureza. Marx também destacou que a primeira preocu-
pação do povo sempre foi conseguir alimento e posses e, portanto, as forças econômicas moldavam
a História.

De acordo com Marx, durante toda a História existiram duas classes sociais: os que "possuem" e os
que "nada possuem". Os que "possuem" controlam a produção de bens, retendo assim a maior parte
das riquezas. Os que "nada possuem" realizam o trabalho, mas não são recompensados por isso.

Marx declarava que a exploração dos que "nada possuem" pelos que "possuem", sempre causou
uma luta de classes. Na Grécia e Roma antigas, a luta ocorria entre o mestre e o escravo, e na Eu-
ropa medieval, entre os senhores feudais e os servos. Na moderna sociedade industrial, afirmava
Marx, o poder econômico permanecia nas mãos da burguesia - a classe média capitalista que pos-
suía as fábricas, minas, bancos e empresas. Estes capitalistas dominavam e exploravam o proletari-
ado - os trabalhadores assalariados.

Marx também declarou que a classe social com poder econômico também controlava o governo em
benefício próprio. Segundo Marx, em uma sociedade capitalista, os legisladores estabelecem leis
para ajudar os próprios capitalistas a aumentarem seus lucros, enquanto a polícia protegia suas pro-
priedades.

Uma Revolução da Classe Operária

Marx afirmava que os empresários no sistema capitalista não se importavam com seus empregados
como seres humanos, e os exploravam na busca de lucros. O centro da doutrina de Marx era a
crença de que o sistema capitalista desapareceria. Marx declarou que lojistas e donos de pequenos
negócios seriam arruinados pela competição de poderosos capitalistas. Eles seriam forçados a se tor-
narem trabalhadores comuns, e desta forma, a classe operária aumentaria. Em breve, haveria ape-
nas poucos ricos e a massa de proletariado. O resultado seria uma grande convulsão social, onde os
trabalhadores desesperados tomariam o controle do governo e dos meios de produção, destruindo o
sistema capitalista e a classe governante. Isto criaria a "Ditadura do Proletariado" - uma sociedade
controlada pela classe trabalhadora. Marx acreditava que uma revolução violenta seria necessária, e
seu "Manifesto Comunista", tendo Friedrich Engels como coautor, foi publicado em 1848, incenti-
vando a revolução da classe operária.

Friedrich Engels

Marx alegava que com a destruição do capitalismo, as lutas de classes acabariam e surgiria uma so-
ciedade sem classes. Todo o povo partilharia de forma justa da riqueza na nova sociedade. Com o

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

fim da exploração do ser humano, não haveria mais a necessidade de um estado, e este, eventual-
mente, desapareceria.

O Fracasso das Previsões de Marx

Marx obteve muito apoio com suas teorias. Eruditos, contudo, apontam alguns erros básicos em sua
filosofia da História. Primeiramente, Marx acreditava que apenas as forças econômicas determinavam
o curso da História, desta forma ignorando as forças políticas, religiosas e filosóficas que também afe-
tam os acontecimentos históricos.

Marx também não conseguiu prever os enormes ganhos que os trabalhadores obtiveram: salários
mais altos, redução da jornada e melhores condições de trabalho. Além disso, ele se enganou ao
pensar que a classe média seria rebaixada à classe baixa. Ocorreu exatamente o contrário: a maioria
dos países industrializados desenvolveu uma classe média ainda maior.

Marx afirmou que os governos existem apenas para manter os "opressores capitalistas" no poder.
Nos países industrializados democráticos, porém, o estado beneficia os trabalhadores, e não só os
capitalistas. Os benefícios e a assistência aos mais velhos e desempregados, e as leis de salário mí-
nimo, são exemplos deste apoio.

Marx esperava que os trabalhadores de todas as nações se unissem a ele contra os "opressores ca-
pitalistas", o que não aconteceu. A maioria das guerras do século XX não ocorreu entre classes, mas
sim, entre nações.

Marx também previu que a classe operária iria se rebelar nas nações industrializadas. Estas revolu-
ções nunca ocorreram. Contudo, foi nas grandes nações agrícolas, tais como a Rússia, China e
Cuba, que as revoluções comunistas aconteceram. Nestes países, os comunistas fracassaram ao
criar o tipo de sociedade socialista que Marx havia previsto. Ao invés de se enfraquecer e acabar de-
saparecendo, como previu Marx, o estado apenas tornou-se mais forte e dominante nestes países.

Imperialismo

Imperialismo é a prática através da qual, nações poderosas procuram ampliar e manter controle ou
influência sobre povos ou nações mais pobres. Algumas vezes o imperialismo é associado somente
com a expansão econômica dos países capitalistas; outras vezes é usado para designar a expansão
européia após 1870. Embora Imperialismo signifique o mesmo que Colonialismo e os dois termos se-
jam usados da mesma forma, devemos fazer a distinção entre um e outro

Ações imperialistas na África e na Ásia

- África
Na metade do século XIX a presença colonial européia na África estava limitada aos colonos holan-
deses e britânicos na África do Sul e aos militares britânicos e franceses na África do Norte.

A descoberta de diamantes na África do Sul e abertura do Canal de Suez, ambos em 1869, desperta-
ram a atenção da Europa sobre a importância econômica e estratégica do continente. Os países eu-
ropeus rapidamente começaram a disputar os territórios.

Em algumas áreas os europeus usaram forças militares para conquistar os territórios, em outras, os
líderes africanos e os europeus entraram em entendimento à respeito do controle em conjunto sobre
os territórios. Esses acordos foram decisivos para que os europeus pudessem manter tudo sob con-
trole.

Grã-Bretanha, França, Portugal e Bélgica controlavam a maior parte do território africano, a Alema-
nha também possuía lá, muitas terras mas, as perdeu depois da I Guerra Mundial.

Os estilos variavam, mas, os poderosos colonizadores fizeram poucos esforços para desenvolver
suas colônias. Elas eram apenas locais de onde tiravam matérias-primas e para onde vendiam
os produtos manufaturados.

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

Talvez o pior legado do Colonialismo tenha sido a divisão da África em mais de 50 Estados cujas
fronteiras foram demarcadas sem dar a menor importância aonde as pessoas viviam e como organi-
zavam sua própria divisão política.

As fronteiras atuais, em geral, dividem uma única comunidade étnica em duas ou mais nações. Por
exemplo: embora a maioria dos Somalis vivam na Somália, eles constituem uma significativa minoria
no Kênia e na Etiópia e muitos deles gostariam de ser cidadãos da Somália.

Outro legado ruim do Colonialismo foi o seu efeito na vida econômica dos povos africanos. O sistema
colonial destruiu o padrão econômico que lá existia. O colonialismo também ligou a África economica-
mente às grandes potências e os benefícios desse sistema sempre vão para os países poderosos e
nunca de volta para África.

A história da exploração econômica teve um papel importante na forma como certos governos africa-
nos independentes, se preocuparam em desenvolver suas próprias economias. Alguns países como
a Costa do Marfim, criaram uma base econômica orientada para a exportação dentro das regras colo-
niais. Outros, como a Tânzania, procuraram redirecionar sua economia para a produção de grãos e
de bens necessários para o seu povo.

O terceiro mal causado pelo colonialismo foi a introdução das idéias européias de superioridade racial
e cultural, dando pouco ou nenhum valor às manifestações culturais dos povos africanos. Aos poucos
os africanos estão recuperando o orgulho por sua cor, raça e cultura.

Ásia

O período da conquista européia na Ásia começa por volta de 1500 e continua até a metade do sé-
culo 20. Alguns historiadores acreditam que esse período ainda não terminou.

O interesse europeu pela Ásia começou com a curiosidade e se tornou o desejo de explorar as rique-
zas deste continente. Para isso, os europeus tiveram que conquistar e colonizar essas terras, isso
aconteceu nos séculos 19 e 20. Na época da I Guerra Mundial, a maior parte da Ásia estava sob con-
trole europeu.

Três ou quatro séculos de contato e controle europeu trouxeram boas e más conseqüências para
Ásia. As contribuições européias foram, novas idéias e técnicas para agricultura, indústria e comércio,
saúde e educação e administração política.

Poucas culturas asiáticas estavam aptas para se adaptar a essas novas regras e idéias, mas aquelas
que, como o Japão, conseguiram, tiraram muito proveito após sua independência.

Dentre os problemas do Colonialismo, a exploração das riquezas, que os europeus levavam para as
metrópoles, a divisão da Ásia sem levar em conta suas culturas, povos e regiões físicas. Houve tam-
bém os problemas políticos e sociais causados pelas minorias estrangeiras, como a cultura francesa
na Indochina, que se chocava com a cultura existente nesse país.

Até Hoje Existem Problemas Desse Tipo Nas Nações Asiáticas

O darwinismo social se caracterizou como outra teoria que legitimou o discurso ideológico europeu
para dominar outros continentes.

O darwinismo social compactuava com a ideia de que a teoria da evolução das espécies (Darwin) po-
deria ser aplicada à sociedade. Tal teoria difundia o propósito de que na luta pela vida somente as
nações e as raças mais fortes e capazes sobreviveriam.

A partir de então, os europeus difundiram a ideia de que o imperialismo, ou neocolonialismo, seria


uma missão civilizatória de uma raça superior branca europeia que levaria a civilização (tecnologia,
formas de governo, religião cristã, ciência) para outros lugares.

Segundo o discurso ideológico dessas teorias raciais, o europeu era o modelo ideal/ padrão de socie-
dade, no qual as outras sociedades deveriam se espelhar. Para a África e a Ásia conseguirem evoluir

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LIBERALISMO E SOCIALISMO

suas sociedades para a etapa civilizatória, seria imprescindível ter o contato com a civilização euro-
peia.

Hoje sabemos que o evolucionismo social e o darwinismo social não possuem nenhum embasamento
ou legitimidade científica, mas no contexto histórico do século XIX foram ativamente utilizados para
legitimar o imperialismo, ou seja, a submissão, o domínio e a exploração de continentes inteiros.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Vários problemas atingiam as principais nações européias no início do século XX. O século anterior
havia deixado feridas difíceis de curar. Alguns países estavam extremamente descontentes com a
partilha da Ásia e da África, ocorrida no final do século XIX. Alemanha e Itália, por exemplo, haviam
ficado de fora no processo neocolonial. Enquanto isso, França e Inglaterra podiam explorar diversas
colônias, ricas em matérias-primas e com um grande mercado consumidor. A insatisfação da Itália e da
Alemanha, neste contexto, pode ser considerada uma das causas da Grande Guerra.

Vale lembrar também que no início do século XX havia uma forte concorrência comercial entre os
países europeus, principalmente na disputa pelos mercados consumidores. Esta concorrência gerou
vários conflitos de interesses entre as nações. Ao mesmo tempo, os países estavam empenhados
numa rápida corrida armamentista, já como uma maneira de se protegerem, ou atacarem, no futuro
próximo. Esta corrida bélica gerava um clima de apreensão e medo entre os países, onde um tentava
se armar mais do que o outro.

Existia também, entre duas nações poderosas da época, uma rivalidade muito grande. A França havia
perdido, no final do século XIX, a região da Alsácia-Lorena para a Alemanha, durante a Guerra Franco
Prussiana. O revanchismo francês estava no ar, e os franceses esperando uma oportunidade para
retomar a rica região perdida.

O pan-germanismo e o pan-eslavismo também influenciou e aumentou o estado de alerta na Europa.


Havia uma forte vontade nacionalista dos germânicos em unir, em apenas uma nação, todos os países
de origem germânica. O mesmo acontecia com os países eslavos.

O início da Grande Guerra

O estopim deste conflito foi o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe do império austro-
húngaro, durante sua visita a Saravejo (Bósnia-Herzegovina). As investigações levaram ao criminoso,
um jovem integrante de um grupo Sérvio chamado mão-negra, contrário a influência da Áustria-Hungria
na região dos Balcãs. O império austro-húngaro não aceitou as medidas tomadas pela Sérvia com
relação ao crime e, no dia 28 de julho de 1914, declarou guerra à Servia.

Política de Alianças

Os países europeus começaram a fazer alianças políticas e militares desde o final do século XIX.
Durante o conflito mundial estas alianças permaneceram. De um lado havia a Tríplice Aliança formada
em 1882 por Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha ( a Itália passou para a outra aliança em
1915). Do outro lado a Tríplice Entente, formada em 1907, com a participação de França, Rússia e
Reino Unido.

O Brasil também participou, enviando para os campos de batalha enfermeiros e medicamentos para
ajudar os países da Tríplice Entente.

Desenvolvimento

As batalhas desenvolveram-se principalmente em trincheiras. Os soldados ficavam, muitas vezes,


centenas de dias entrincheirados, lutando pela conquista de pequenos pedaços de território. A fome e
as doenças também eram os inimigos destes guerreiros. Nos combates também houve a utilização de
novas tecnologias bélicas como, por exemplo, tanques de guerra e aviões. Enquanto os homens
lutavam nas trincheiras, as mulheres trabalhavam nas indústrias bélicas como empregadas.

Fim do conflito

Em 1917 ocorreu um fato histórico de extrema importância : a entrada dos Estados Unidos no conflito.
Os EUA entraram ao lado da Tríplice Entente, pois havia acordos comerciais a defender,
principalmente com Inglaterra e França. Este fato marcou a vitória da Entente, forçando os países da
Aliança a assinarem a rendição. Os derrotados tiveram ainda que assinar o Tratado de Versalhes que
impunha a estes países fortes restrições e punições. A Alemanha teve seu exército reduzido, sua
indústria bélica controlada, perdeu a região do corredor polonês, teve que devolver à França a região

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

da Alsácia Lorena, além de ter que pagar os prejuízos da guerra dos países vencedores. O Tratado de
Versalhes teve repercussões na Alemanha, influenciando o início da Segunda Guerra Mundial.

A guerra gerou aproximadamente 10 milhões de mortos, o triplo de feridos, arrasou campos agrícolas,
destruiu indústrias, além de gerar grandes prejuízos econômicos.

O final do século XIX e a 1ª década do século XX na Europa, foram marcados por um clima de
confiança e otimismo. Os homens da época tinham a sensação de que a Europa teria o domínio
definitivo sobre todos os continentes. Porém, por trás dessa aparência de tranqüilidade estavam
presentes graves problemas econômicos.

Soldados franceses atacam alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Foto de 1917.

O mundo encontrava-se dividido e submisso às grandes potências européias e aos Estados Unidos.
Não existiam mais territórios sem dono e as grandes potências brigavam entre si na tentativa de
expandir suas áreas de dominação econômica e política.

A Revolução Industrial trouxe transformações importantes para a economia capitalista: surgiram as


máquinas elétricas e os motores a combustão.

As indústrias mais importantes extraiam petróleo, fabricavam aço, máquinas e navios.

A competição capitalista estimulou o crescimento de algumas empresas; porém, levou ao fracasso


muitas outras. Empresas mais fracas foram compradas ou faliram, enquanto que as grandes ficaram
maiores ainda.

Os chamados monopólios (grandes empresas) passaram a controlar os grandes setores da economia.


Tais empresas queriam crescer e enriquecer cada vez mais. Desejavam matérias-primas (minério,
algodão, cacau), mão-de-obra barata (para trabalhar nas minas com salários reduzidos e lucros para
os patrões) e mercados consumidores.

Para conseguir tudo isso as empresas (monopólios) precisavam investir capital em outros lugares do
mundo e criar impérios econômicos (principalmente em países de economia mais frágil) e tudo isso
com a ajuda de seus respectivos governos.

Economistas alemães e ingleses do início do século XX chamaram essa nova fase do capitalismo
mundial de Imperialismo.

Esse choque de imperialismos acabou deflagrando a Primeira Grande Guerra.

O Imperialismo estava ligado a dois fenômenos:

1. Investimento de capital no estrangeiro

2. Domínio econômico de um país sobre o outro

Os países imperialistas colonizaram vastas regiões na África e na Ásia e justificaram as suas ações
baseadas no racismo (“raça branca merece dominar as demais”), etnocentrismo (“brancos civilizados

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

levam progresso aos povos primitivos”), darwinismo (“nações mais fortes sobrevivem e mais fracas,
não”).

No começo do século XX, a indústria alemã estava ultrapassando a inglesa. Tanto alemães quanto
ingleses não queriam competir no mercado e para acabar de vez com a concorrência, seus governos
decidiram que uma guerra seria muito bem-vinda.

Porém, era preciso convencer o povo de que não havia outra saída. Para tal “serviço de
convencimento”, a imprensa foi fundamental, e cada país usava os jornais para tentar destruir
moralmente o outro.

Em 1871, a Alemanha se tornou um país unificado, essa unificação se completou depois que os
alemães derrotaram a França na Guerra Franco-Prussiana. Como conseqüência, a França foi obrigada
a entregar a região de Alsácia-Lorena, fato que levou os franceses a quererem vingança.

A Europa estava a um passo da guerra e os países disputavam novas colônias. A situação se agravou
ainda mais quando o arquiduque Francisco Ferdinando (herdeiro do trono austríaco) visitou Sarajevo. A
população de Sarajevo odiava os austríacos e o filho do imperador austríaco resolveu desfilar de carro
aberto pela cidade.

Francisco Ferdinando foi assassinado e esse fato é considerado a causa imediata da Primeira Guerra.

Porém, vários outros fatores também contribuíram para o advento da guerra.

• A construção da estrada de ferro Berlin-Bagdá: sua construção colocaria à disposição da Alemanha


os lençóis petrolíferos do Golfo Pérsico e os mercados orientais, além de ameaçar as rotas de
comunicação entre a Inglaterra e seu Império.

• Pan-Eslavismo Russo (união de todos os povos eslavos sob a proteção da Rússia): o Pan-
Eslavismo servia de justificativa para os interesses imperialistas da Rússia de dominar regiões
da Europa Oriental habitadas por outros povos eslavos (poloneses, ucranianos, tchecos, eslovacos,
sérvios, búlgaros, croatas...)

• Nacionalismo da Sérvia

• Conflitos originários da decadência do Império Turco

• A Alemanha e a Itália eram imperialistas, queriam e precisavam de colônias, para isso precisariam
tomar as colônias de outros países, já que não havia mais quase locais para serem dominados

• Crises no Marrocos: alemães, ingleses e franceses disputavam essa área

• Primeira e segunda Guerra Balcânica

Das rivalidades entre essas várias potências, surgiram dois sistemas de alianças. O que unia esses
dois blocos era a existência de inimigos comuns:

• Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia)

• Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro – Húngaro e Itália)

A primeira guerra dividiu-se em 3 fases:

1. Guerra de movimento: momentos iniciais do conflito. O jogo de Alianças e as hostilidades


arrastaram vários países para o conflito

2. Guerra de Trincheiras: consistia na construção de trincheiras pelos alemães em solo francês.


Nesse momento foram introduzidas novas armas como as metralhadoras e os tanques.

3. Ofensivas

Em 1915, Japão e Itália entraram na guerra, porém, o primeiro se retirou do conflito após tomar os
territórios alemães na China e algumas colônias.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Em 1916, houve duas grandes batalhas envolvendo Franceses, Ingleses e Alemães:

Batalha de Somme (1 milhão de 100 mil mortos) e a Batalha de Verdun (600 mil mortos).

Os EUA vendiam alimentos, combustível, produtos industriais e máquinas para a França e a Inglaterra.
Tudo pelo sistema de crediário (“compre agora e pague depois da guerra”).

Com o passar do tempo, a situação ficava pior (destruição, fome, miséria e matanças) e os EUA
começaram a temer que a França e a Inglaterra não pagassem pelas mercadorias compradas dos
americanos (os dois países deviam aos americanos quase 2 bilhões de dólares).

Com essa mentalidade, os americanos começaram a fazer uma forte campanha a favor da entrada do
país na guerra.

Em março de 1917, os alemães afundaram alguns navios americanos que iam comerciar com a
Inglaterra e no dia 6 de abril o Congresso americano votava favoravelmente a declaração de guerra à
Alemanha.

Em 1917, várias propostas de paz foram lançadas por países e entidades neutras. O presidente dos
EUA (Woodrow Wilson), em 1918, levou essas idéias ao Congresso no chamado “Programa dos 14
Pontos”.

Em março do 1918 (após a revolução socialista) o governo russo assinava a paz com a Alemanha e se
retirava da guerra. Bulgária, o Império Turco e o Império Austro- Húngaro também seguiam o exemplo
russo e se retiraram do conflito.

Enquanto os países se retiravam aos poucos do conflito, o povo alemão se rebelava contra a guerra.

Em 1918, a Alemanha foi transformada em República e o novo governo aceitou o armistício dando por
encerrado o conflito.

Em 1919, iniciou-se a Conferência de Paris (no Palácio de Versalhes), onde seriam tomadas as
decisões diplomáticas do pós-guerra. Os 27 países “vencedores” participaram da conferência.

O Tratado de Versalhes colocou de lado o “Programa dos 14 Pontos” e os “vencedores” impuseram


duras penalidades à Alemanha:

• A Alemanha perdeu suas colônias

• Ficou proibida de ter forças armadas

• Foi considerada culpada pela guerra

• Teve que pagar uma indenização aos “vencedores”

Com tudo isso, a Alemanha perdeu muito dinheiro e mergulhou na maior crise econômica de sua
história.

Na Alemanha, não havia mais imperador, agora o país era uma república democrática e esse período
foi chamado de “República de Weimar” que durou até 1933, quando os nazistas tomaram o poder
impondo um regime ditatorial.

Até então, essa foi a pior guerra que o mundo conhecera, foram 9 milhões de mortos e além deles, 6
milhões de soldados voltaram mutilados.

Além dessas, a guerra também trouxe outras sérias consequências.

• Famílias destruídas e crianças órfãs

• Os EUA tornaram-se o país mais rico do mundo

• O império Austro-Húngaro se fragmentou

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

• Surgimento de alguns países (Iugoslávia) e desaparecimento de outros

• O império turco após 200 anos de decadência se dividiu

• Em 1919, foi criada a Liga das Nações (sediada na Suíça); porém, pouco tempo depois ela
fracassou

• O desemprego aumentou na Europa

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi o resultado dos atritos permanentes provocados pelo
imperialismo das grandes potências europeias.

Resumo

A Grande Guerra, como era denominada antes de acontecer a Segunda Guerra Mundial, foi um conflito
em escala global. Começou na Europa e envolveu os território coloniais.

Dois blocos enfrentaram-se: a Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, Áustria e Itália, e a Tríplice
Entente formada pela França, Inglaterra e Rússia.

A contenda envolveu 17 países dos cinco continentes como: Alemanha, Brasil, Áustria-Hungria,
Estados Unidos, França, Império Britânico, Império Turco-Otomano, Itália, Japão, Luxemburgo, Países
Baixos, Portugal, Reino da Romênia, Reino da Sérvia, Rússia, Austrália e China.

A guerra deixou 10 milhões de soldados mortos e outros 21 milhões ficaram feridos. Também 13
milhões de civis perderam a vida.

Leia Tríplice Aliança e Tríplice Entente.

Em rosa, países da Entente; em amarelo, a Tríplice Aliança e em verde, países neutros

Causas da Primeira Guerra Mundial

Vários fatores desencadearam a Primeira Guerra Mundial.

Desde o final do século XIX o mundo vivia em tensão. O extraordinário crescimento industrial
possibilitou a Corrida Armamentista, ou seja: a produção de armas numa quantidade jamais imaginada.

O expansionismo do Império Alemão e sua transformação na maior potência industrial da Europa


fizeram brotar uma enorme desconfiança entre a Alemanha e França, Inglaterra e Rússia.

Antecedentes

Acrescentamos as antigas rivalidades entre França e Alemanha, Rússia e Alemanha, e Reino Unido e
Alemanha. Também os desentendimentos quanto às questões de limite nas colônias gerados
pela Conferência de Berlim (1880).

O antigermanismo francês se desenvolveu como consequência da Guerra Franco-Prussiana. A


derrotada França foi obrigada a entregar aos alemães as regiões de Alsácia e Lorena, esta rica em
minério de ferro.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A rivalidade russo-germânica foi causada pela pretensão alemã de construir uma estrada de ferro
ligando Berlim a Bagdá. Além de passar por regiões ricas em petróleo onde os russos pretendiam
aumentar sua influência.

O antigermanismo inglês se explica pela concorrência industrial alemã. Às vésperas da guerra os


produtos alemães concorriam em mercados que eram dominados pela Inglaterra.

Todas essas questões tornaram o conflito inevitável a medida que acirravam os choques de interesse
econômico e político entre as potências industrializadas.

Estopim

A rede de alianças era uma bomba armada pronta para explodir.

Em 1908, a Áustria anunciou a anexação da Bósnia-Herzegovina, contrariando os interesses sérvios e


russos.

A fim de mostrar uma boa relação entre os novos súditos, o herdeiro do trono Austríaco, Francisco
Ferdinando, fez uma visita à região junto com sua esposa.

No dia 28 de junho de 1914, um estudante bósnio assassinou o herdeiro do trono austríaco Francisco
Ferdinando e sua esposa, em Sarajevo, capital da Bósnia.

Esse duplo assassinato foi o pretexto para a explosão da Primeira Guerra Mundial que durou até 11 de
novembro de 1918.

Leia mais em Causas da Primeira Guerra Mundial

Ilustração do assassinato de Francisco Ferdinando e sua esposa

Fases da Primeira Guerra Mundial

No começo do conflito, as forças se equilibravam, em número de soldados, diferentes eram os


equipamentos e os recursos.

A Tríplice Entente não tinha canhão de longo alcance, mas dominava os mares, graças ao poderio
inglês.

Os tanques de guerra, os encouraçados, os submarinos, os obuses de grosso calibre e a aviação,


entre outras inovações tecnológicas da época, constituíram artefatos bélicos de grande poder de
destruição.

Com artilharia pesada e 78 divisões, os alemães passaram pela Bélgica, violando a neutralidade deste
país. Venceram os franceses na fronteira e rumaram para Paris.

O governo francês transferiu-se para Bordeaux e na Batalha de Marne, conteve os alemães, que
recuaram.

Depois, franceses e alemães firmaram posições cavando trincheira ao longo de toda a frente ocidental.
Protegidos por arame farpado, os exércitos se enterravam em trincheira, onde a lama, o frio, os ratos e

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o tifo mataram tanto quanto as metralhadoras e canhões. Este momento é chamado de Guerra de
Trincheiras.

Em 1917, os Estados Unidos, que se mantivera fora da guerra, apesar de emprestar capitais e vender
armas aos países da Entente, principalmente à Inglaterra, entra no conflito.

Declarou guerra à Alemanha, por temer seu poderio imperialista e industrial.

Nesse mesmo ano a Rússia, saiu do conflito, por conta da Revolução de 1917, que derrubou o czar e
implantou o regime socialista.

Consequências

Embora a Alemanha continuasse sofrendo sucessivas derrotas, seus aliados tivessem se rendido, o
governo alemão continuava na guerra. Esfomeado e cansado, o povo alemão se revoltou e os
soldados e operários forçaram o kaiser (imperador) a abdicar.

Formou-se um governo provisório e foi proclamada a República de Weimar. No dia 11 de novembro de


1918, o novo governo assinou a rendição alemã. A Primeira Guerra chegava ao fim, mas a paz geral só
foi firmada em 1919, com a assinatura do Tratado de Versalhes.

As reações aos efeitos do tratado estão entre as principais consequências da Primeira Guerra Mundial.

Sendo assim, em 1939, pouco mais de 20 anos depois, provocaram a Segunda Guerra Mundial.

A Grande Guerra deixou profundas consequências para todo o mundo. Podemos destacar:

• redesenhou o mapa político da Europa e do Oriente Médio;

• marcou a queda do capitalismo liberal;

• motivou a criação da Liga das Nações;

• permitiu a ascensão econômica e política dos Estados Unidos.

Brasil na Primeira Guerra Mundial

Em abril de 1917, os alemães afundaram no canal da Mancha o navio mercante brasileiro Paraná. Em
represália, o Brasil rompe relações com os agressores.

Em outubro, outro navio brasileiro, o Macau, é atacado. No final de 1917, desembarca na Europa uma
equipe médica e soldados para auxiliar a Entente.

Um dos principais historiadores da Primeira Guerra Mundial é o letão Modris Eksteins. No seu livro “A
Sagração da Primavera: A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna”, Eksteins diz:

“Em agosto de 1914 a maioria dos alemães considerava em termos espirituais o conflito armado em
que estava entrando. A guerra era sobretudo uma ideia, e não uma conspiração com o objetivo de
aumentar o território alemão. Para aqueles que refletiam sobre a questão, tal aumento estava fadado a
ser uma consequência da vitória, uma necessidade estratégica e um acessório da afirmação alemã,
mas o território não constituía o motivo da guerra. Até setembro o governo e os militares não tinham
objetivos bélicos concretos, apenas uma estratégia e uma visão, a da expansão alemã num sentido
mais existencial que físico.” [1]

Nesse trecho, Eksteins fornece um dado pouco explorado quando o assunto é a Primeira Guerra
Mundial: a visão que os alemães tinham de si próprios, a visão sobre o “destino” a ser cumprido na
Europa com o II Reich, comandado por Guilherme II. Esse dado é importante para se compreender a
ambiência do nacionalismo alemão (ideologia que encabeçou o pangermanismo) e sua relação com a
modernização tecnológica do II Reich, haja vista que a máquina de guerra do Império Alemão provocou
um verdadeiro escândalo durante a “Grande Guerra”.

A “vontade de guerra” dos alemães transformou-se em ações após o incidente em Sarajevo,


considerado tradicionalmente o estopim da guerra: o assassinato de Francisco

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Ferdinando, arquiduque e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, aliado da Alemanha. O


arquiduque foi morto no dia 28 de junho de 1914 por um terrorista sérvio (Gravilo Princip) ligado ao
grupo ultranacionalista “Mão Negra”. Para compreendermos bem o motivo de a morte de Francisco
Ferdinando estar no epicentro do desenrolar da Primeira Guerra, é necessário saber que ele era a
principal figura que negociava os interesses germânicos na região dos Bálcãs. Com o seu assassinato
(pelas mãos de um eslavo), as tensões entre os dois principais projetos nacionalistas para a região
acabaram aumentando vertiginosamente. Havia um projeto de orientação pan-eslavista para os Bálcãs
que visava à criação da “Grande Sérvia” e era encabeçado pelo Império Russo. As disputas
nacionalistas da região dos Bálcãs eram travadas entre pangermanistas e pan-eslavistas Essa
ambiência desencadeou o conflito que logo assumiu proporções monstruosas.

Essas tensões remontavam à formação das alianças político-militares, conhecidas


como Tríplice Aliança e Tríplice Entente. Essa última foi formada em 1904, recebendo o nome formal
de Entente Cordiale, e abarcava França, Inglaterra e Rússia. O Império Russo, após a derrota para
os japoneses na Guerra Russo-Nipônica (1904-1905), estreitou suas relações com
a França, buscando apoio militar e econômico para precaver-se de eventuais conflitos em outras
regiões de interesse, sobretudo nos Bálcãs (apesar de já haver acordos desse gênero entre os dois
países desde 1883, como o chamado Entendimento Franco-Russo). A Inglaterra aliou-se à França
porque temia o desenvolvimento bélico do Império Alemão e lutava para impor limites às pretensões de
Guilherme II.

Já à Tríplice Aliança associaram-se a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, que, desde a época de


Bismarck, estabeleceram um pacto referente às ações de dominação da região dos Bálcãs almejadas
pela dinastia dos Habsburgo. A essas duas nações juntou-se a Itália, que queria lançar represálias à
França em virtude da invasão da Tunísia, no noroeste da África, em 1881. Essa região era cobiçada
pelos italianos, o que aumentava ainda mais a tensão entre as duas alianças. Quando a guerra
estourou, em 1914, os exércitos que se mobilizaram estavam associados principalmente a essas seis
nações.

A iniciativa da guerra partiu da Alemanha, que executou o Plano von Schilieffen, isto é, um plano de
guerra elaborado pelo general alemão que deu nome a esse plano. A estratégia consistia em atacar
pelo Leste e defender-se pelo Oeste. A princípio, a guerra assumiu o caráter de “movimento”, isto é, o
deslocamento de tropas e os ataques rápidos e fulminantes (isso abrangeu os dois primeiros anos da
guerra). A partir de 1916, a guerra assumiu o caráter de “posição”, ou seja, buscava-se preservar as
regiões ocupadas por meio do estabelecimento de posições estratégicas. Para tanto, a forma de
combate adequada era a das trincheiras.

A Primeira Guerra Mundial foi reconhecida como a guerra das trincheiras em virtude das extensas
batalhas que foram travadas desse modo. O horror vivido nas trincheiras trouxe uma conotação
apocalíptica para aqueles que o viveram, como vários escritores que participaram da guerra, tais
como Ernst Jünger, J. R.R. Tolkien e Erique Maria Remarque. Os soldados entrincheirados sofriam,
impotentes, bombardeios e lançamento de gases venenosos, como a iperita (gás mostarda). Além
disso, a umidade e o frio acabavam trazendo várias doenças, como o pé-de-trincheira, que provocava o
apodrecimento dos pés, entre outros danos.

As principais batalhas da Primeira Guerra ocorreram em Ypres (na Bélgica) e em Verdun, Somme e
Merne (na França), sem contar aquelas do fronte Ocidental, como a de Dardanelos, no Estreito de
Istambul para o Mar Negro.

A guerra teve o seu fim em 1918, com a derrota da Alemanha, a ruína do Império Russo e a ascensão
dos Estados Unidos como potência econômica e militar. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha
vultosas medidas de reparação pelos danos causados pela guerra.

Causas

O século XIX foi marcado por inúmeras rivalidades entre as potências européias. Em pleno processo
de industrialização, países como a França, a Inglaterra e a Bélgica necessitavam de regiões onde
pudessem investir seus capitais excedentes e, por isso, disputavam pela posse de colônias em
territórios africanos e asiáticos (Imperialismo).

A Confederação Germânica e os Estados Italianos, depois de uma série de conflitos (principalmente


contra a França), conseguiram concluir seus processos de unificação, e logo esses novos países,

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Alemanha e Itália, partiram para a conquista imperialista, ameaçando o domínio inglês e francês.
Ao mesmo tempo, o Império Russo buscava expansão territorial e comercial e por isso rivalizava com
dois grandes impérios da época, ambos aliados dos alemães: o Império Turco e o Império Austro-
Húngaro.

Esta situação acirrou as disputas nacionalistas, o que levou a uma corrida armamentista (a chamada
“Paz Armada”) e a formação de 2 blocos de países inimigos, que prometiam se ajudar em caso de uma
guerra (Política de Alianças):

Tríplice Entente
• França
• Inglaterra
• Império Russo

Tríplice Aliança
• Império Alemão
• Império Turco
• Império Austro-Húngaro

Estopim da guerra: a questão balcânica


No inicio do século XX, a península Balcânica estava dividida entre o Império Turco e o Império Austro-
Húngaro. Porém com a decadência do Império Turco, surgiram países independentes.
O Império Russo logo se aliou a esses novos países e, dentre eles, estava a Sérvia, que tinha projetos
expansionistas. Em nome do nacionalismo eslavo, os sérvios pretendiam anexar a Bósnia-
Herzegovina, uma região que pertencia ao Império Austro-Húngaro.
Em junho de 1914, num cenário de agitações políticas, o arquiduque austríaco, Francisco Ferdinando,
foi assassinado em Sarajevo (capital da Bósnia), por um grupo terrorista nacionalista sérvio.
Por esse episódio, a Áustria declarou guerra à Sérvia. Os russos declararam seu apoio aos sérvios e
começaram a deslocar suas tropas. O Império Alemão, que desejava uma grande guerra a fim
enfraquecer as potências industriais aliadas dos russos, declarou seu apoio a Áustria.
Assim a Política de Alianças foi posta em ação e se iniciou a Primeira Guerra.

Guerra
Depois de algumas semanas sem nenhum combate, os alemães iniciaram seus ataques à Bélgica, e
chegaram a ocupar o norte da França (final de 1914).
Devido a igualdade de forças (humanas, tecnológicas e bélicas) as batalhas na frente ocidental se
intensificaram, sem que nenhum dos dois lados obtivesse vitórias significativas (Guerra de Trincheira).
Enquanto isso, na frente oriental a Tríplice Aliança marchava em direção à Rússia, aniquilando seus
inimigos.
Os europeus imaginaram que a guerra duraria pouco tempo e investiram tudo que puderam para obter
a vitória rapidamente. Entretanto, a guerra se prolongava, castigando não só os soldados, mas também
as populações civis, que necessitavam produzir mais e cortar gastos, vivendo em estado de penúria
(Guerra Total).
Em 1917, motins e greves estouraram por várias regiões da Europa. A situação foi particularmente
difícil na Rússia, que acabou por sair da guerra (ver Revolução Russa).
Também em 1917, os EUA entraram na guerra do lado da Tríplice Entente, piorando a situação dos
alemães.
Apesar do Império Alemão ainda não ter sofrido uma derrota significativa, seus recursos estavam se
esgotando. Em novembro de 1918, um golpe militar proclamou a República Alemã (República de
Weimar), e o novo governo assinou um armistício, pondo fim aos combates.

Tratados de Paz
O presidente dos EUA propôs um acordo conhecido como “Os 14 Pontos de Wilson”, que pretendia a
“paz sem vencidos, nem vencedores”, o que não foi aceito pela França.

Tratado de Versalhes
A Alemanha foi culpada pela guerra e sofreu duras punições: teve que pagar uma pesada indenização,
perdeu 1/7 de seu território, perdeu suas colônias, seu exército foi reduzido a 100 mil homens e foi
proibida a fabricação e utilização de armamento pesado por suas tropas.

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Tratado de Saint-Germand
O Império Austro – Húngaro foi desmembrado em Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Reino
dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (futura Iugoslávia).

Consequências da guerra
– Guerra total e mundial
– 12 milhões de mortos e 20 milhões de mutilados
– Fortalecimento dos nacionalismos na Europa
– Crise econômica (uma estimativa: a Europa perdeu 8 anos de crescimento e 10 milhões de dólares
por hora, em 1918)
– Avanço tecnológico
– Japão: potência oriental
– EUA: centro econômico mundial
– Difusão dos ideais socialistas
– Revolução Russa

(PUC-RJ 2007) “Até aqui, era um fato elementar (…) que a Europa dominava o mundo com toda a
superioridade de sua grande e antiga civilização. Sua influência e seu prestígio irradiavam, desde
séculos, até as extremidades da terra (…) Quando se pensa nas conseqüências da Grande Guerra
(1914 – 1918), que agora finda, pode-se perguntar se a estrela da Europa não perdeu seu brilho, e se o
conflito do qual ela tanto padeceu não iniciou para ela uma crise vital que anunciava a
decadência.” (Texto adaptado de A. Demangeon. “O declínio da Europa”, pp. 13-14)

Para os que viveram a Primeira Grande Guerra (1914 – 1918), tal conflito veio a representar o fim de
uma época. Para alguns, iniciavam-se tempos sombrios e de decadência; para outros, era o alvorecer
de mudanças há muito projetadas.
Identifique um acontecimento que expresse a idéia central do texto acima transcrito, explicando-o.

Os países beligerantes sofreram uma profunda crise econômica e financeira nos anos
posteriores à Grande Guerra, levando ao desmoronamento de toda influência que tinham sobre
o mundo.

(FGV 2007) O contexto europeu do final do século XIX e início do XX relaciona-se à eclosão da
Primeira Guerra Mundial porque:

a) a Primeira Revolução Industrial desencadeou uma disputa, entre os países europeus, por fontes de
carvão e ferro e por consumidores dos excedentes europeus.
b) a unificação da Itália rompeu o equilíbrio europeu, pois fez emergir uma nova potência industrial,
rival da Grã-Bretanha e do Império Austríaco.
c) o revanchismo alemão, devido à derrota na Guerra Franco-Prussiana, fez a Alemanha desenvolver
uma política militarista e expansionista
d) a difusão do socialismo, principalmente nos Bálcãs, acirrou os movimentos emancipacionistas na
área, então sob domínio do Império Turco.
e) a corrida imperialista, com o estabelecimento de colônias e áreas de influência na África e na
Ásia, aumentou as rivalidades entre os países europeus.

As alternativas erradas contradizem as principais causas da I Guerra, que foram: a Segunda Revolução
Industrial, a formação do Império Alemão, a vitória dos alemães na Guerra Franco-Prussiana e o
nacionalismo eslavo defendido pelos sérvios com apoio dos russos.
Outro fator fundamental para acirrar as rivalidades européias no pré-guerra foi a disputa por colônias
entre as potências européias (“corrida imperialista”)

Eram 3h30 de 26 de agosto de 1914, em Rozelieures, na região de Lorena, fronteira com a Alemanha,
quando Joseph Caillat, soldado do 54.º batalhão de artilharia do exército da França, escreveu: “Nós
marchamos para a frente, os alemães recuaram. Atravessamos o terreno em que combatemos ontem,
crivado de obuses, um triste cenário a observar. Há mortos a cada passo e mal podemos passar por
eles sem passar sobre eles, alguns deitados, outros de joelhos, outros sentados e outros que estavam
comendo. Os feridos são muitos e, quando vemos que estão quase mortos, nós acabamos o
sofrimento a tiros de revólveres”.

Quando Caillat escreveu aquela que seria uma de suas primeiras cartas do front a seus familiares, a
Europa estava em guerra havia exatos 32 dias – e acreditava-se que não por muito mais

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tempo. Correspondências como a desse soldado de 2.ª classe que morreria de pneumonia em 1º de
julho de 1917 começavam então a trazer à luz para a sociedade a gravidade do conflito, que em seus
quatro anos, três meses e 14 dias mobilizaria mais de 60 milhões de combatentes e deixaria quase 9
milhões de civis e militares mortos, além de 20 milhões de feridos, em um dos piores momentos da
história da humanidade.

É consenso entre historiadores que a 1.ª Guerra Mundial mudou a geopolítica e as sociedades que
dela participaram para sempre, alterando de forma radical o mapa-múndi – uma transformação que
ainda reverbera em nossos dias. Os 1.567 dias de carnificina marcaram a queda da era dos grandes
impérios – alemão, austro-húngaro, russo, turco –, resultaram em um genocídio – na Armênia – e em
uma revolução – na Rússia –, devastaram cidades, regiões e países e abalaram por décadas a Europa,
abrindo as portas, após o Tratado de Versalhes, para a emergência de Adolf Hitler e do nazismo,
para a 2.ª Guerra Mundial, para o holocausto e para o mundo tal como o conhecemos hoje. "O tratado
de paz de fato impôs condições muito duras à Alemanha, que foram vividas de forma realmente
humilhante pelos alemães", disse Karine McGrath, diretora dos Arquivos do Palácio de Versalhes.

O Estado esteve em locais emblemáticos do conflito, como a célebre Ponte Latina, em Sarajevo, e os
campos de batalha de Ypres, na Bélgica, e Verdun, na França, percorreu centenas de quilômetros em
fronts, visitou ruínas e sítios de guerra, mergulhou em arquivos públicos e particulares, pesquisou
documentos, fotos e imagens, entrevistou descendentes de soldados e vítimas, ouviu historiadores e
militares na França, nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil.Foram sete meses de pesquisa,
além de consultas a quase duas dezenas de publicações inglesas, francesas, italianas, alemãs,
espanholas, americanas e brasileiras mantidas no Acervo Estado. Tudo em um esforço para
compreender por que a Grande Guerra é ainda hoje, 100 anos mais tarde, uma ferida em cicatrização.

EM SARAJEVO, ATENTADO É COMBUSTÍVEL DA DISCÓRDIA

Em 28 de junho de 1914, Gavrilo Princip atacou e abateu a tiros o herdeiro do trono da Áustria-Hungria,
Francisco Ferdinando, no evento que precipitou a 1.ª Guerra Mundial. Cem anos depois, o jovem
nacionalista sérvio ainda divide a Bósnia: herói ou terrorista?

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
SARAJEVO, BÓSNIA

Não havia representantes do governo da Sérvia nem das mais importantes autoridades da comunidade
sérvia da Bósnia-Herzegovina na noite de gala de 28 de junho de 2014 no Vijecnica, a reconstruída
biblioteca nacional do país. Naquela noite, um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena, da Áustria,
realizado no prédio-símbolo de Sarajevo lembrava os 100 anos do atentado que matou o herdeiro do
trono da Áustria-Hungria, Francisco Ferdinando.

Do lado de fora, algumas dezenas de militantes carregavam faixas de protesto e cobriam seus rostos
com uma máscara: a do jovem nacionalista sérvio Gavrilo Princip.

Para os que estavam no interior do edifício de linhas neo-islâmicas devastado pelo fogo no cerco à
cidade, em 1992, e agora reconstruído, Princip foi um assassino. Para aqueles que protestavam no
lado externo, ele foi um herói. Em síntese, assim se divide a Bósnia-Herzegovina sobre o evento
político usado como pretexto pelo Império Austro-Húngaro, com apoio do Império Alemão, para lançar
a 1.ª Guerra Mundial. Um século após o célebre atentado de Sarajevo, a memória do assassinato de
Francisco Ferdinando e de sua mulher, Sofia, é alvo de paixões e de discórdia política.

Gavrilo preso pouco depois dos disparos. Crédito: Acervo Estado.

A controvérsia em torno do papel do jovem tuberculoso Gavrilo Princip no ataque faz parte de um
pedaço da história mais viva do que o próprio conflito de 1914-1918 no imaginário dos Bálcãs. Recém-
saída de mais uma guerra sanguinária, a península ainda sofre as consequências da implosão da
Iugoslávia e da 3.ª Guerra dos Bálcãs, entre 1991 e 2001, e com a profunda divisão dos povos da
região. O resultado é que sérvios, de um lado, e bósnios e croatas, de outro, têm visões opostas
também sobre o ataque cometido por nacionalistas do movimento Mlada Bosna, Jovem Bósnia, em
1914.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A organização defendia a ideia da Grande Sérvia e a criação da Iugoslávia e se opunha à ocupação da


Bósnia-Herzegovina pela Áustria-Hungria, que invadiu o território em 1878 e o anexou em 1908. A
iniciativa de Viena de absorver parte da Península Balcânica contrariava as disposições do Tratado de
Berlim, que reconhecia a posse da região pelo Império Otomano, e serviu para acirrar o nacionalismo
sérvio dentro e fora das fronteiras da Bósnia, estimulado pelo apoio do Império Russo e de seu czar,
Nicolau II.

Casado com uma checa, Sofia, Ferdinando era considerado um sucessor progressista do imperador
Francisco-José, então com 84 anos. Nos meios políticos de Viena, imaginava-se que o arquiduque,
uma vez no trono, poderia ampliar a autonomia, a liberdade e os direitos dos eslavos do império, mais
numerosos do que os austríacos e os húngaros. Esse suposto perfil reformador – que jamais se
confirmaria, em função do assassinato – causava desconfiança na corte e na elite do próprio império,
ciosas de manter o status, mas sobretudo entre os movimentos nacionalistas da Sérvia, que almejavam
comandar a grande unificação dos “eslavos do Sul” em um país unido – a “Eslávia do Sul”, ou
Iugoslávia.

Foi nesse contexto que movimentos como Jovem Bósnia e Mão Negra, um grupo secreto suspeito de
ter ligações com o exército e o governo da Sérvia, conspiraram para o assassinato do arquiduque a
tiros de revólver, pelas mãos de Princip, após um primeiro atentado a bomba fracassado no mesmo
dia, ambos nas imediações de Vijecnica, que Ferdinando havia visitado instantes antes.

Cem anos depois, a memória do crime que segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm marcou o
início do “breve século 20” ainda paira sobre Sarajevo. “Estamos em uma profunda crise econômica e a
maioria da população de Sarajevo não está interessada na 1.ª Guerra Mundial”, explica a historiadora
Vera Katz, pesquisadora do Instituto de História da Universidade de Sarajevo. “Mas entre acadêmicos
estamos muito divididos. Temos três divisões claras: sérvios, bósnios e croatas. Isso faz com que
tenhamos diferentes interpretações sobre o papel de Gavrilo Princip na 1.ª Guerra Mundial. Entre
historiadores sérvios, ele continua a ser um herói nacional.”

A controvérsia nos meios acadêmicos é tão forte que pesquisadores sérvios boicotaram uma
conferência internacional que reuniu entre 18 e 21 de junho historiadores do mundo todo em torno do
tema A Grande Guerra: Abordagens Regionais e Contextos Globais. Uma conferência em separado
será realizada em setembro, em Belgrado, na Sérvia. Para intelectuais como Miljan Maksimovic,
historiador bósnio de origem sérvia, as elites políticas bósnias e europeias tentam revisar a história,
apagando os traços do povo sérvio na cultura local e impondo o fardo da culpa pela Grande Guerra à
Sérvia. “O absurdo é que bósnios muçulmanos também impuseram grande resistência às tropas
invasoras austro-húngaras em 1878, mas dizem o contrário hoje”, afirmou Maksimovic à agência russa
Ria Novosti. “O fato é que essas iniciativas não contribuem à reconciliação global, mas aprofundam a
divisão.”

Um dos grandes pontos de insatisfação da população de Sarajevo Leste e da República Srpska


(República Sérvia da Bósnia, uma das duas que compõem a Bósnia-Herzegovina), onde se concentra
a população sérvia, é que uma versão da história sobre o atentado de Sarajevo e sobre Gavrilo Princip,
um “herói nacional”, está preponderando para o mundo. Para eles, austro-húngaros eram os invasores
a serem combatidos.

O que se vê hoje na Bósnia-Herzegovina, porém, é uma revisão desse papel e uma tentativa de apagar
da memória o culto a Princip. Em Sarajevo, a passagem sobre o Rio Miljacka em frente à qual
Francisco Ferdinando foi assassinado, que durante a existência da Iugoslávia de Alexandre I e de Tito
se chamou Ponte Gavrilo Princip, voltou a ser denominada Ponte Latina. Uma placa com os dizeres
“Que a paz reine sobre a Terra” hoje esconde a anterior, que descrevia o jovem como “um combatente
da liberdade” e o atentado como “um protesto popular contra a tirania”. As ruas em homenagem ao
herói/terrorista e ao movimento Jovem Bósnia foram rebatizadas.

No centro histórico, onde a maioria é de bósnios e croatas, há um projeto de construção de uma


estátua em memória do arquiduque. Na mesma região, existe um albergue chamado Franz Ferdinand.
“Os proprietários queriam usar o nome famoso para atrair turistas de outros países”, explica Sedad
Cholak, funcionário do hostel. “Eu diria que aqui é 50%-50%. Muitos pensam que ele foi uma boa
pessoa e muitos pensam que Gavrilo Princip era uma boa pessoa, porque ele o matou. Eu não sei…
Ele era um líder, a Bósnia fazia parte da Áustria-Hungria. Eu creio que ele era um bom homem.”

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Em um país no qual cada parede traz as marcas da mais recente guerra fratricida e onde todos os
espíritos ainda estão impregnados pelo horror do conflito dos anos 1990, essa “virada da memória” em
favor do arquiduque descontenta e indigna a população sérvia da Bósnia, que vê nas iniciativas a
glorificação do opressor. Por isso, há reações em curso em Istocno, periferia de Sarajevo Leste, em
Visegrad, na fronteira com a Sérvia, e em Belgrado, na Sérvia, onde monumentos à memória de
Princip estão em fase de projeto, já em construção ou inaugurados. “O ponto de início foi a retirada do
monumento a Gravilo Princip da praça na qual ele estava em Sarajevo, o que quer dizer que não há
intenção de se fazer uma boa representação sobre o início da 1.ª Guerra Mundial”, argumenta Ljubisa
Cosic, prefeito de Sarajevo Leste.

Quem também não gosta de todas as homenagens a Francisco Ferdinando é Gavrilo Princip. Não se
trata, claro, do herói/terrorista, mas de seu sobrinho-neto, que o Estado localizou em Sarajevo
Leste. Empresário do ramo hoteleiro e proprietário de um posto de combustíveis, Bato, ou Caçula,
como é chamado pelos íntimos, vive com discrição e não gosta de falar com jornalistas. Até pouco
tempo atrás, portava com orgulho o nome do tio-avô, fuzilado em 1941 a mando do líder nazi-fascista
Ante Pavelic, o “Führer croata”. Também participava com a família, a cada dia 28 de julho, de uma
reunião em uma igreja ortodoxa do centro de Sarajevo, de onde partiam para visitar o túmulo de seu
antepassado ilustre, que a escola iugoslava lhe ensinou ser um herói.

Hoje, aos 62 anos, entretanto, Bato começa a se esconder, e não apenas de jornalistas – o empresário
não quis gravar entrevista para a reportagem. Gavrilo Princip, o sobrinho-neto, lembra que a casa e o
vilarejo onde seu antepassado nasceu foram destruídos várias vezes ao longo do século e o risco
existe. Mas, sobretudo, foge da dimensão internacional que a polêmica sobre Gavrilo Princip, o
herói/terrorista, ganhou nos Bálcãs 100 anos depois do assassinato de Francisco Ferdinando.

1914: QUANDO HORROR SE ALASTROU

Na cabeça de líderes políticos e diplomatas, a 1.ª Guerra Mundial seria um conflito sangrento, mas
rápido. Cem anos depois, fortes, bunkers, crateras, armamentos, campos de batalha, cemitérios,
ossários e monumentos comprovam: foi uma guerra total.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
PARIS E VERDUN (FRANÇA) E YPRES (BÉLGICA)

Em um extrato de uma mensagem escrita às vésperas da eclosão da 1.ª Guerra Mundial, o imperador
da Rússia, Nicolau II, rogou a seu primo e amigo, o imperador da Alemanha, Guilherme II:

Uma guerra vergonhosa foi declarada contra uma nação fraca; eu compartilho inteiramente a imensa
indignação na Rússia. Muito em breve não poderei mais resistir à pressão e serei forçado a tomar
medidas que conduzirão à guerra. Para prevenir a infelicidade de uma guerra europeia, eu te peço, em
nome de nossa velha amizade, que faça todo o possível para impedir que teu aliado vá longe demais”.

À correspondência, o kaiser responderia horas depois: “Não posso considerar a marcha à frente da
Áustria-Hungria como uma ‘guerra vergonhosa’. (…) A declaração do gabinete austríaco me fortifica na
opinião de que a Áustria-Hungria não visa a nenhuma aquisição territorial em detrimento da Sérvia.
Creio logo que é possível à Rússia perseverar, frente à guerra austro-sérvia, em seu papel de
espectadora, sem empurrar a Europa à guerra mais horrível que ela jamais viveu”.

O rei George V (dir.) e o kaiser Guilherme II (esq.). Crédito: Acervo Estado.

Membros da mesma família – ambos eram também primos do monarca britânico George V –, além de
velhos companheiros prestes a se tornarem inimigos, Nicolau II e Guilherme II compartilhavam em
junho de 1914 erros e acertos quanto à interpretação do conflito iminente. Líderes de potências
econômicas e políticas concorrentes, ambos sabiam que na realidade não se trataria só de um
desentendimento “austro-sérvio” e o início dos combates entre seus dois impérios também era uma
questão de horas. Documentos diplomáticos e de arquivos governamentais mostram que ambos
projetavam embates sanguinários, mas não acreditavam que um conflito longo estava por começar
nem que os campos de batalha se espalhariam pelo mundo.

Entretanto, em um intervalo de apenas 99 dias a partir de 28 de julho, quando a Áustria-Hungria abriu


as hostilidades contra a Sérvia, no marco da 1.ª Guerra Mundial, meio mundo seria tragado por uma

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sucessão de 19 declarações oficiais de guerra envolvendo dez países. Após a atitude de Viena, o caos
político se espalharia: a Alemanha declararia guerra contra a Rússia em 1.º de agosto e à França dois
dias depois; o Reino Unido se lançaria contra a Alemanha em 4 de agosto e contra a Áustria-Hungria
nove dias mais tarde; entre as duas datas, a Áustria-Hungria declararia a Rússia inimiga em 5 de
agosto. Em 23 de agosto, o Japão se uniria à Entente opondo-se à Alemanha, colocando a Ásia no
mapa da guerra. Enfim, em 5 de novembro de 1914, França e Reino Unido declarariam guerra aos
otomanos, empurrando a fronteira do conflito ao Oriente Médio.

Como a escalada da crise diplomática de 1914, a zona de guerra se alastraria pelo continente como
fogo em uma carreira de pólvora até 1917, com a entrada de Estados Unidos e latino-americanos,
inclusive o Brasil.

Tratava-se, então, de uma “guerra total”, industrial e globalizada. “É uma guerra que vai perdurar e vai
se industrializar, em que todos os progressos técnicos, todos os recursos dos Estados-Nação potentes
serão mobilizados”, diz Joseph Zimet, historiador e diretor-geral da Missão do Centenário. “É uma
guerra de sociedade, toda mobilizada a seu serviço. As fábricas, as mulheres, toda a economia vai
alimentar o conflito. A guerra não se ganha só nas trincheiras, ou por combates de artilharia, mas pela
mobilização econômica, social e mental na retaguarda.”

O general Ludendorff. Crédito: Acervo Estado.

Nesse conflito global, frentes de batalha se espalharam pela Europa, mas também pelos Bálcãs, pela
África, por Oriente Médio, Ásia, Oceania e Atlântico Norte. Seriam ao todo 19 grandes fronts e dez
batalhas em mares e oceanos até o fim da guerra. No segundo maior foco de tensão, no Leste
Europeu, ofensivas como a de Tannenberg, em agosto de 1914, não apenas contêm o ímpeto do
Império Russo e desestabilizam ainda mais o czarismo, como dão à Alemanha um símbolo de triunfo,
sob o comando dos generais Paul von Hindenburg e Erich Ludenforff. A caminho da derrota e da
revolução bolchevique, russos comemoram vitórias como a do cerco de Przemysl, que deixou 115 mil
pessoas mortas ou feridas entre 24 de setembro de 1914 e 22 de março de 1915.

Entre tantos embates, porém, nenhum foi mais mortífero do que a frente ocidental, em que soldados de
França, Bélgica e Reino Unido, e mais tarde de Estados Unidos, Canadá e Austrália, entre outros,
defenderam Paris de uma invasão. A devastação material e humana explica por que as linhas de front
se transformaram em museus a céu aberto da guerra 1914-1918. Fortes, bunkers, crateras, campos de
batalha, armamentos, cemitérios, ossários, monumentos aos mortos e até florestas são cicatrizes do
conflito muito visíveis ainda hoje na França e na Bélgica.

O general Hindenburg. Crédito: Acervo Estado.

Nesse front, ocorreu a Batalha de Marne, em 1914, decisiva para assegurar o fracasso da estratégia
inicial de ataque alemã, o Plano Schlieffen, e a vitória dos aliados no final do conflito. Nela, 2 milhões
de homens, entre franceses, britânicos e alemães, estiveram em trincheiras e ofensivas em Ourcq,
Deux Morins, Marais de Saint-Gond, Vitry e Revigny, comandados por generais que se tornariam
heróis nacionais da França, a exemplo de Joseph Joffre, Joseph Gallieni e Ferdinand Foch. Em sete
dias de combates entre 5 e 12 de setembro de 1914, mais de 100 mil franceses, 7 mil britânicos e 80
mil alemães morreram ou desapareceram e 250 mil outros soldados ficaram feridos.

No mesmo front ocidental, sucederam-se as Batalhas de Verdun e Somme, em 1916, que deixaram
306 mil e 442 mil mortos ou desaparecidos, respectivamente, além das de Chemin des Dames, em
1917, com mais 100 mil mortos, e a 2.ª Batalha de Marne, em 1918, que matou 280 mil soldados.

A alta mortalidade se dava por uma conjunção de fatores, entre os quais a chamada “guerra de
posições”. Essa estratégia, que duraria os quatro anos no front ocidental, explica Michael Bourlet,
doutor em História, escritor e pesquisador das escolas militares de Saint-Cyr Coëtquidan, na França,
era a forma encontrada pelos países invadidos de frear o avanço dos inimigos, custasse o que
custasse. “Em 1914, os estados-maiores fundamentavam suas estratégias em uma guerra de
movimento, rápida, que chegaria ao término de uma grande batalha decisiva”, conta Bourlet. “Ambos
os lados se dão conta, ao final da Batalha de Marne, em setembro de 1914, que a guerra será muito
mais longa. E então os lados se deparam com uma guerra de posições.”

A estratégia visa levar o inimigo à exaustão e à derrota, mas o resultado é a paralisia do conflito. A
alternativa, então, foi intensificar a partir de 1915 o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas para

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infligir baixas em massa aos inimigos e tentar sair do impasse. Os bombardeios foram intensificados e
todos os meios industriais passaram a ser empregados para matar. Assim nasceram a guerra química,
o uso de tanques e os bombardeios aéreos.

Essas novas tecnologias obrigaram generais e comandantes a testar métodos em pleno conflito ,
enviando centenas de soldados para missões impossíveis e letais, como a conquista de trincheiras
bem guarnecidas e bem armadas ou de morros e colinas, pontos privilegiados para a visibilidade da
artilharia. No exército britânico, um jargão se criou entre as tropas para descrever a situação:“Leões
comandados por asnos”.

Essas batalhas, que figuram no rol das mais violentas da história da humanidade, tinham em comum
um elemento de base: o sofrimento humano descomunal. Um dos diagnósticos mais frequentes entre
soldados era a sensação de perda da condição humana. Em 10 de julho de 1916, um ano e meio antes
de sua morte no campo de batalha, o sargento francês Marc Boasson escreveu:

“Eu mudei terrivelmente. Não queria lhe contar nada da horrível fadiga que a guerra engendrou em
mim, mas você me força. Eu me sinto esmagado, diminuído, (…) estou pobre e nu por causa das
emoções desmesuradas, das experiências desproporcionais à resistência humana. Algo está dando
errado, uma perda generalizada. Eu sou um homem esmagado”.

À sua noiva, o soldado Henri Fauconnier diria em carta datada de 17 fevereiro de 1917: “É assustador
depender tanto do meio em que estamos. Mady, não é com um ser humano que você se casará”,
advertiu.“Às vezes eu sou um monstro, às vezes uma planta, às vezes um mineral. Nunca um ser
humano.”

NAS TRINCHEIRAS, MORTE, MISÉRIA E MEMÓRIA

Em uma guerra marcada pela multiplicação do poderio de fogo e pelas perdas em massa, fossas
insalubres colocaram inimigos frente a frente durante quatro anos, simbolizando o horror do conflito.
Hoje, elas dão voz à tragédia.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
MASSIGES E VERDUN, FRANÇA

A 2.ª ofensiva de Champagne programada pelo general francês Joseph Joffre para obrigar o exército
alemão a recuar na região de Marne estava em seus últimos preparativos quando o subtenente Arthur
Charles Leguay, de 37 anos, recrutado em Le Mans e matriculado sob o número 1.657 no 2.º Batalhão
de Caçadores a Pé, desembarcou na estação de trem de Vitry-le-François em 15 de setembro de 1915.
Onze dias depois, de sua trincheira, sob a luz de velas, ele escreveu à sua mulher, Madeleine: “Parece
que seremos encarregados de perseguir o exército alemão e que receberemos ordem de não parar até
a margem do Reno. Quer dizer que queremos o sucesso completo”, disse o poilu (membro da
infantaria francesa), completando em tom otimista: “No momento em que escrevo, as baterias de
artilharia pesada bombardeiam o terreno para deslocar as tropas inimigas. Todos estão sorridentes”.

A placa de identificação de Leguay. Crédito: Arquivo pessoal.

O ataque ao qual Leguay se referia teve início às 4h45 de 30 de setembro de 1915. Seu objetivo era
tomar o vilarejo de Ripont e posições alemãs próximas às colinas de Main de Massiges, em
Champagne. Ao seu término, o balanço da operação do lado francês indicava 797 baixas, 159 mortos –
incluindo 17 oficiais – e 683 feridos. Além deles, havia 182 desaparecidos, entre os quais o subtenente.
A Madeleine, um de seus colegas de tropa escreveu: “Não posso dizer que ele esteja morto, mas o
viram cair ferido”. Como cerca de 700 mil combatentes jamais foram encontrados na 1.ª Guerra
Mundial, Leguay poderia ter sido condenado a jamais ser localizado. Em meio ao conflito, corpos
desapareciam por completo, desintegrados por granadas de obus ou soterrados por explosões nos
arredores. Mas sua sina foi diferente. Sua ossada acabaria encontrada por acidente em 16 de maio de
2012, 97 anos mais tarde, junto à sua trincheira, onde também estavam sua placa de identificação, os
estilhaços de obuses que o mataram e seu capacete, perfurado.

Seus restos mortais e pertences testemunham o horror da guerra nas trincheiras e nas “no man’s
lands” (“terras de ninguém” entre as posições inimigas) da Europa, onde 56% dos soldados acabavam

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mortos ou feridos, além de tantos outros doentes físicos ou mentais em razão das condições do
conflito.

O ataque francês em Massiges em 1915. Crédito: Acervo Estado.

Enterrar os cadáveres na 1.ª Guerra Mundial não raro não era possível em um conflito marcado por
trincheiras inimigas separadas em geral por 100 ou 200 metros, mas que poderiam estar frente a
frente, distantes 20 metros, como ocorreu em Vimy, na França. “Às vezes, entre uma trincheira alemã e
uma francesa, era possível ouvir as vozes, ouvir o ruído dos talheres durante as refeições, ouvir o
soldado inimigo limpar sua arma. Havia toda uma vida que acontecia nas trincheiras”, conta Alexis
Guilbert, militar de elite francês e estudioso da 1.ª Guerra Mundial. Essa vida, que também podia se
passar nos quilômetros de galerias subterrâneas da região de Aisnes utilizadas pelos soldados,
resumia-se a esperar o momento fatal do ataque. “Os assaltos eram extremamente letais. Quando uma
seção completa saía da trincheira, alemães e franceses alinhavam suas metralhadoras e logo não
havia mais nada. Regimentos inteiros desapareciam por nada.”

Cavalo pasta em uma antiga terra de ninguém conquistada pelos franceses em 1916. Crédito: Acervo
Estado.

Dessa forma, um em cada dez combatentes morreu na 1.ª Guerra Mundial, grande parte das vezes
abandonado em condições degradantes, sem oferecer às famílias condições para um sepultamento
digno. No campo de batalha, não raro a única opção era cavar covas rasas e provisórias ou abandonar
os cadáveres à espera de um bombardeio que também desse fim aos agonizantes, com frequência
deixados à própria sorte entre as trincheiras inimigas. Não bastasse a expectativa sombria de cada
soldado, os excrementos, ratos, infestações de insetos, barro, umidade, chuva e frio glacial se uniam
ao pesadelo, provocando epidemias como disenteria, cólera ou tifo, doenças de pele, gangrenas nos
pés e infecções das mais variadas, em uma época na qual a medicina ainda não contava com
antibióticos. Ao martírio físico, somava-se uma tortura psicológica: o risco que cada militar corria de se
tornar um “gueule cassé”, ou “cara quebrada” – o deformado. Para diagnosticar esse terror, os médicos
da Grande Guerra chegaram a criar um diagnóstico: a “obusite”, hoje reconhecida como uma
manifestação de estresse pós-traumático.

Assim eram a vida e a morte nas trincheiras e em campos de batalha de regiões como a belga Ypres
ou as francesas Somme e Verdun, segundo os testemunhos dos próprios soldados, deixados em
milhões de cartas trocadas entre os fronts de guerra e as famílias dos envolvidos. “Nem nos
surpreendemos mais com as condições de vida artificiais, quase injustificáveis, que não se
assemelham a nada de nossa vida e de nossos pensamentos de outrora”, escreveu em 1918 o tenente
André Pézard, mais tarde autor de Nous Autres à Vauquois, obra na qual descreve a ofensiva que
devastou a cidade de Vauquois, na França. Sob quatro horas de bombardeios, ele anotou: “Em meio a
uma desordem incurável, esperamos impotentes, sem imaginar nada, sem esperança de nada, o fim
de algo que nos pediram para suportar. Nós existimos, apenas isso. Não somos humanos”.

Além de cartas, imagens e fotografias – os primeiros registros modernos de um conflito armado de


grande amplitude – descrevem a inutilidade dos assaltos contra as trincheiras inimigas e o absurdo de
bombardeios, que chegavam a matar 90% dos homens.

Veterano mutilado durante a guerra. Crédito: Acervo Estado.

Durante décadas, em todos os fronts da Europa, esforços materiais foram empreendidos para apagar
os vestígios dessas trincheiras, verdadeiras cicatrizes do conflito. Hoje, entretanto, um movimento
inverso está em curso. Em diferentes pontos do continente, galerias utilizadas por aliados ou pelos
impérios centrais são preservadas ou mesmo reabertas, em uma forma de recriar a memória do
conflito. Trincheiras intactas ou reconstituídas podem ser encontradas em antigos campos de batalha
emblemáticos, como as trincheiras de Yorkshire, na Bélgica, ou de Chemin des Dames e Verdun, na
França. Entre as duas frentes francesas, por exemplo, situa-se Massiges, um grupo de colinas que
formava a fortaleza natural no vale do Rio Aisne. Essa região, estratégica para a artilharia de ambos os
lados, dava ao exército que a dominasse uma visão panorâmica sobre cerca de 30 quilômetros de
campos de batalha em diferentes direções. Perdê-la significaria para os franceses a provável conquista
de Paris pelos alemães. Para defendê-la ou conquistá-la, 4 mil homens morreram por dia só entre
agosto e setembro de 1914, no início do conflito. Sepultados em fossas coletivas ou em túmulos
isolados, grande parte dos soldados, como Leguay, jamais foi identificada. Antes abandonada, a área

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da colina foi adquirida por cinco moradores do vilarejo de 50 habitantes, que reconstituíram as galerias
de Massiges, transformando-as em um dos mais bem conservados sítios da guerra do país.

O poilu Dadure (segundo da dir. para esq.). Crédito: Arquivo pessoal.

O resultado do trabalho é que dezenas de soldados desconhecidos, franceses e alemães, vêm sendo
encontrados. Entre eles está o poilu Albert Dadure, morto em 7 de fevereiro de 1915, aos 21 anos, e
localizado 97 anos depois, graças ao trabalho do arqueólogo Yves Desfossés e do antropólogo Michel
Signoli, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França. “Fazer esse trabalho me fez
entender que não podemos compreender essa guerra com os nossos conceitos de hoje em dia. Eram
sistemas de pensamento diferentes”, entende Pierre Labate, ex-militar do programa de armas
nucleares da França e hoje prefeito de Massiges e um dos proprietários da área da colina. “Quando
vemos a amplitude do sacrifício… Isso seria inadmissível hoje.”

Para Jean-Pierre Mainsant, outro dos cinco proprietários da área, a reconstituição das trincheiras é
uma homenagem às famílias do vilarejo, que ainda hoje vivem “mergulhadas na guerra”, mas também
aos parentes de vítimas, identificadas ou não, que caíram nas colinas de Massiges, longe de suas
casas. “Nós sempre fomos banhados na guerra de 1914. Nasci aqui, nascemos aqui. Sempre
convivemos com famílias que vinham em peregrinação”, recorda-se. Além de um estímulo à memória,
diz Mainsant, desenterrar o campo de batalha é uma forma de quebrar o silêncio que perdurou por
décadas na vida dos sobreviventes do conflito, a exemplo de seu avô, ao lado de quem trabalhou por
50 anos como agricultor sem jamais ouvir uma palavra sobre as batalhas. “Os que viveram à guerra de
1914”, diz ele, “não falavam do assunto porque tinham vivido coisas tão inacreditáveis que não
ousavam contar porque sabiam que não acreditaríamos.”

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

O poder de fogo industrial mudou de vez os campos de batalha com seus aviões, canhões e
metralhadoras. Nos mares, o submarino pôs em risco os grandes encouraçados.

Roberto Godoy

A carruagem escura que circulava por Londres acompanhada por um pequeno comboio de três ou
quatro outras, quase sempre à noite, era um segredo aberto no fim do século 19. A cidade mais
importante do mundo sabia: a bordo, viajava a rainha Vitória. Ia quase sempre a igrejas anglicanas, ao
teatro ou a hospitais beneficentes. Também saía para cumprir funções de monarca. Vitória adotara
uma vida discreta desde a morte do marido, Albert, em 1861, e também depois da perda do filho Alfred,
em 1889. Todavia, a rainha era uma guerreira.

Avião inglês

O Sopwith Camel era um avião de caça britânico. Ele voava a 185 km/h e podia ser armado com duas
metralhadoras Vickers montadas em cima do painel de instrumentos

Interessada na história militar, acompanhou intensamente o conflito contra Zanzibar e a rebelião dos
Bôeres, na África do Sul. Naquele dia do outono de 1900, V itória estava sendo levada para conhecer
uma arma secreta.

O estaleiro Vickers, de Barron-in-Furness, no litoral norte do país, havia levado para um dique da
marinha real, no Tâmisa, o primeiro protótipo do que, muito tempo depois, viria a ser o Classe B.
Segundo o historiador naval irlandês J. H. Ryan, “a nave deveria provocar grande impressão: toda de
metal, tinha a proa esguia, uma torre pequena e suportes para um torpedo e uma mina de contato”.
Vitória tinha 90 anos. Ouviu a exposição dos engenheiros, andou ao redor do navio e sentenciou: “Que
honra pode haver em atacar sem que seu inimigo possa vê-lo e enfrentá-lo?”.

Ryan diz em seu livro, Victoria in War, ainda em elaboração, que os recursos para o projeto foram
reduzidos dramaticamente pelo governo. A rainha morreria no ano seguinte. O Classe B só viria a
navegar anos mais tarde, pouco antes do começo da Grande Guerra. Os alemães e seus submarinos
desenvolvidos ao longo de uma década devastariam os mares com as ações combinadas do pequeno
U-3 e do grande U-139.

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Fokker DR.I

Esse triplano desenvolvia até 185 km/h e levava duas metralhadoras. Tornou-se símbolo da aviação
alemã na guerra

Barão Vermelho

Piloto de caça alemão, Manfred von Richthofen abateu 80 pilotos inimigos durante a guerra e acabou
morto em 21 de abril de 1918.
Ele voava no triplano Fokker Dr.I

A visão mesclada das referências morais do romantismo, que terminava, e do início da era da
tecnologia como referência de desenvolvimento talvez tenha sido a peculiaridade militar da 1.ª Guerra
Mundial. A tropa britânica marchava para o combate vestindo grossas fardas de lã escocesa, camisa
de tricoline e usando gravata. Nos pés, as botinas de couro reforçado deixavam vazar para dentro os
pregos do solado depois de alguns dias de uso. Nas pernas, polainas de algodão.

Avião Aviatik

O caça aviatik tinha um motor Mercedes e foi aprimorado durante a guerra. Usado para
reconhecimento aéreo, ganhou duas metralhadoras para enfrentar os aviões inimigos

O soldado, todavia, poderia estar armado com um fuzil Lewis, de 7.7 mm. Desenhado nos Estados
Unidos, o Lewis foi provavelmente a primeira metralhadora leve da história. Atirava em rajadas usando
um carregador rotativo. Tinha poder de fogo inédito. Os mais modernos rifles de combate da época
eram semiautomáticos, acionados por ferrolho – um pequeno avanço em relação aos modelos de tiro
singular.

O conflito de 1914 a 1918 é o primeiro da história no qual a engenharia de armamentos e a tecnologia


militar tiveram emprego intensivo e extensivo. Se o advento do avião como vetor de ataque era
previsível desde os experimentos bem-sucedidos do brasileiro Santos Dumont – por meio da agilidade
de seu melhor projeto, o Demoiselle, de 1907, e dos dirigíveis usados como estação de observação –,
o advento do supercanhão francês Creusot, de 134 toneladas, deslocado sobre trilhos, surpreendeu:
as granadas de até 700 quilos que disparava atingiam os alvos a distâncias de 16 quilômetros com erro
estimado em apenas poucos metros.

Avião francês

O Spad era um caça francês que podia atingir a velocidade de 192 km/h. Carregava uma metralhadora
calibre .30

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A chegada do tanque mudou o campo de batalha. A proposta de um foco móvel de fogo pesado,
blindado, dotado de metralhadoras mais um ou dois canhões e capaz de avançar em terreno irregular
alterava doutrinas, consolidava a tese da guerra de movimento e, mais adiante, tornaria obsoleto o
conceito da cavalaria. O nome –tank, em inglês – aparecia pintado nas grandes caixas de madeira nos
quais eram embalados antes de serem transportados por trem, como se fossem grandes tanques de
armazenamento de líquidos.

O inventário da inovação técnica nos arsenais da Grande Guerra é imenso, diversificado, bem-
sucedido e supera os limites dos tópicos populares. O sincronizador entre a hélice dos primeiros aviões
de combate e as metralhadoras de bordo, cujos tiros deveriam passar entre as pás, fez do inventor, o
holandês Antony Fokker, um homem rico. Os pilotos dos aviões só se comunicavam com o pessoal de
terra por meio de bandeiras e luzes coloridas a curta distância. Especialistas americanos
desenvolveram um sistema de radiotelégrafos capaz de orientar todo o tráfego aéreo em um raio de
200 quilômetros – as primeiras torres de controle. Em 1913, pesquisadores das marinhas americana e
inglesa apresentaram um Vant – veículo aéreo não tripulado. Espécie tosca de drone, era lançado a
partir de uma rampa metálica e podia percorrer 90 km em uma só direção levemente ajustada por uma
bússola elétrica.

Na frente de batalha, a engenharia militar dedicou-se à construção de trincheiras que, além de algum
tipo de saneamento, servissem também à instalação de cabos para comunicações e redes de energia.
O benefício reduziu o índice de mortes por doenças decorrentes do ambiente insalubre das primeiras
valas e inaugurou a integração de serviços de campanha. A eficiência da luta noturna cresceu com
a munição traçadora que emite um pulso luminoso, indicando sua trajetória.

No oceano, imponência. O primeiro porta-aviões construído para servir de vetor de aeronaves


embarcadas, o britânico HMS Furious, entrou em ação em agosto de 1917. Num longo convés de voo
de respeitáveis 200 metros, abrigava 50 biplanos, armados com bombas de 50 quilos e um torpedo. As
frotas navais passaram a operar em novembro de 1916 dois sistemas decisivos: o hidrofone, que
aumentaria enormemente a capacidade da luta antissubmarina e, na mesma linha, as cargas de
profundidade – bombas subaquáticas detonadas por sensores que mediam uma combinação de
distância vertical e pressão da água.

Canhão 75 mm

Esse canhão francês foi tão importante que muitos creditam a ele o fato de a França não ter sido posta
fora de combate em 1914 pela Alemanha

Minenwerfer (morteiro)

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Os morteiros foram uma das armas mais comuns das trincheiras. Aqui, um modelo alemão de calibre
170 mm

Bertha

Canhão alemão que disparava projéteis de calibre 420 mm que atingiam alvos a até 12,5 quilômetros
de distância. Era fabricado pela Krupp

Tanque Renault RT17

Com seu canhão de calibre 37 mm, esse tanque leve francês foi o mais bem-sucedido modelo de
tanque utilizado na guerra, equipando franceses e americanos

Encouraçado

A era dos modernos encouraçados foi inaugurada pelo HMS Dreadnought.


Aqui o encouraçado Queen Elizabeth com seus oito canhões de 15 polegadas

Submarino U-139

Sua tripulação de 62 homens dispunha de 24 torpedos e dois canhões de superfície. Submerso viajava
a 7,6 nós (14 Km/h)

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NO FRONT DE YPRES, O MUNDO CONHECE A GUERRA QUÍMICA

Uso de gases mortais, como o mostarda, começou no fim da tarde de 22 de abril de 1915, nos campos
de guerra da Bélgica. Quase cem anos depois, vestígios ainda contaminam o solo e a água. Granadas
de projéteis químicos seguem sendo localizadas.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
YPRES (BÉLGICA) E VERDUN (FRANÇA)

O front das tropas francesas da 45.ª e da 87.ª divisões em Langemark-Poelkapelle, na Bélgica, vivia
um intervalo sem combates por volta das 17 horas de 22 de abril de 1915. A tarde de sol primaveril e
temperaturas acima do normal da véspera havia dado lugar à de um céu cinzento, cortado por um
avião da força aérea francesa que fazia o trabalho mais importante: castigar com bombardeios as
posições da Alemanha na região. A grande questão do dia não era sobreviver, mas reorganizar as
trincheiras, caóticas, e prepará-las para a continuidade dos combates na “saliência de Ypres” – o
ponto mais feroz da ofensiva alemã em território belga.

A calma só foi quebrada por uma brisa que soprava de leste e por uma fumaça estranha, esverdeada,
opaca e espessa proveniente das trincheiras alemãs, que ia do solo a 10 metros de altura e se dirigia
às posições francesas. “A nuvem avançava em nossa direção, empurrada pelo vento. Começamos a
nos retirar, perseguidos pela fumaça”, relatou em seus registros militares o tenente Jules-Henri
Guntzberger. Nesse momento de pânico crescente, Guntzberger viu seus homens caírem um a um.
Alguns se levantavam, retomavam a marcha de recuo e caíam de novo, cada vez mais desesperados
para chegar à segunda linha de trincheiras.“Uma vez lá, os soldados desabavam e não paravam de
tossir e vomitar.”

A 2.ª Batalha de Ypres, de Richard Jack. Crédito: Reprodução.

O desespero e a incompreensão tomaram conta das hostes francesas. Às 17h20, na sede de comando
de Elverdinghe, o coronel Henri Mordacq recebeu um telefonema do front. O relato era assustador:
uma nuvem tóxica estava sufocando soldados e oficiais, que partiam em retirada, abandonando o front.
Correndo em direção à posição atingida, Mordacq cruzou com combatentes que se diziam
envenenados. “Por todo lado, havia pessoas fugindo, correndo como loucas, sem direção, gritando por
água, cuspindo sangue, alguns atirando-se ao chão e fazendo esforços desesperados para respirar”,
descreveu o coronel, em seus registros. Estima-se que 5 mil soldados franceses morreram sem que
nenhum disparo de arma de fogo tivesse sido feito, a maior parte asfixiados e afogados nas secreções
dos próprios brônquios. Outros 15 mil foram intoxicados, com diferentes graus de sequelas,
envenenados e sofrendo hemorragias internas e externas e destruição dos tecidos pulmonares. Eles
haviam sido as vítimas do primeiro ataque de grande amplitude de uma nova tecnologia criada para a
1.ª Guerra Mundial: as armas químicas.

Indignados com o ataque, França e Grã-Bretanha denunciaram a covardia da guerra empreendida


pelas forças armadas da Alemanha, que violava as convenções de Haia de 1899 e 1907 proibindo o
uso de gases asfixiantes ou tóxicos em artefatos bélicos. Berlim argumentou que a França fora o
primeiro país a usar armas químicas – granadas de lacrimogêneo, empregadas desde agosto de 1914
– e justificou a decisão de continuar a utilizá-las alegando que os textos da convenção se referiam a
armas e explosivos, mas não a contêineres com gases, como os usados em Ypres. O resultado foi o
pior possível: os diferentes lados em conflito imaginaram poder derrotar assim o inimigo entrincheirado,
tirando a guerra que já se estendia por nove meses do impasse.

A partir de então, os exércitos em luta se lançaram a uma corrida às armas de destruição em massa,
com o objetivo de aumentar o poder devastador dos gases – o que o químico francês Victor Grignard,
prêmio Nobel de Química de 1912, conseguiu ainda em 1915, com a introdução do fosgênio, mais letal,
incolor e mais difícil de detectar. Um total de 36,6 mil toneladas do produto foi empregado na guerra, a
metade por alemães.

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Bunker na região de Ypres. Crédito: Mastrangelo Reino.

Aos poucos, o arsenal químico se banalizou. Desprotegidos contra os gases, 56 mil russos morreram
em ataques alemães no front leste do conflito. Mas as tropas da Entente (aliança militar entre França,
Rússia e Inglaterra) também não se furtaram a usá-las, em especial as francesas, mas também
americanos e britânicos, que em setembro do mesmo ano foram vítimas de seu próprio estoque de
cloro na batalha de Loos.

Com a consciência do risco, tentou-se proteger os soldados. Uma das estratégias iniciais era urinar
sobre lenços, usados sobre as vias respiratórias, enquanto na retaguarda iniciava-se a confecção
das primeiras máscaras antigás, rudimentares. O resultado está registrado em algumas das mais
assustadoras imagens da Grande Guerra: a de combatentes cobertos com máscaras de pano, cujas
formas terrificantes se tornaram um dos símbolos da loucura destrutiva na Europa no início do século
20.

Meses depois do ataque de Ypres, no final de 1915, os exércitos de Alemanha, França e Reino Unido
distribuíram máscaras mais eficazes a seus combatentes: a Gummimaske, a M2 e a Large box
respirator representaram um avanço importante na proteção dos soldados. Graças a elas, o impacto
das mortes causadas pelas armas químicas foi marginal em meio ao cataclismo da 1.ª Guerra Mundial.
Dados do estado-maior do Reino Unido indicam que, após a tomada de medidas de redução do
impacto do gás, apenas 3% dos soldados atingidos morriam, outros 2% se tornavam inválidos e a
maioria, em torno de 70%, tinha condições de retornar aos combates em até seis semanas.

Mas o impacto psicológico das armas de destruição em massa foi destruidor entre militares e também
entre civis. Anos depois do fim da guerra, pais de família que haviam sobrevivido aos conflitos
padeciam de sequelas, que encurtavam suas vidas, às vezes por casos severos de asma, em outros
por incidência de câncer de esôfago.

Ainda hoje a lembrança desses soldados mortos, imortalizados no quadro Gassed, do pintor americano
John Singer Sargent, em 1918, é reverenciada por seus familiares, como uma forma de tributo por seu
sacrifício. “Meu bisavô morreu quatro anos depois de ter sido intoxicado pelo gás”, conta Charles Saint
Vanne, prefeito de Ornes, uma das cidades que desapareceram após o conflito, mas que seguem
existindo em termos legais. “Os alemães haviam utilizado gás em um dos combates e ele foi uma
vítima tardia, sofrendo de sequelas anos após a guerra. Zelar pela memória do conflito e de pessoas
como ele é um dever de memória que tenho em relação aos meus ancestrais.”

Terras agrícolas também foram inutilizadas por substâncias usadas na guerra química. Em Verdun, na
França, em meio à floresta plantada sobre os campos de batalha, há zonas de acesso proibido em
que a vegetação não cresce, porque o solo ainda está contaminado. O local foi apelidado pela guarda
florestal de “Praça do Gás”. Ali, após o armistício, 200 mil granadas de obus não detonadas no conflito
foram inutilizadas. Em 2004, um estudo da Universidade Johannes-Gutenberg, de Mainz, da
Alemanha, e do Escritório Nacional de Florestas, da França, indicou a presença intensiva de metais
pesados como cobre, chumbo e zinco, que se somam a arsênico e perclorato de amônia, dois
componentes dos sistemas de detonação das granadas. A concentração varia de mil a 10 mil vezes a
do meio ambiente e só três vegetais resistentes conseguem sobreviver – o que explica a ausência de
árvores no entorno, fechado ao público desde 2012.

O quadro Gassed. Crédito: Reprodução.

Segundo organizações ambientalistas europeias, a Praça do Gás da França é apenas um dos múltiplos
sítios de terras e lençóis freáticos contaminados por armas químicas na Europa. Há dois anos,

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populações de 500 cidades e vilarejos do norte da França foram advertidas a não consumir água em
razão da elevada presença de perclorato de amônia. Os locais correspondiam a fronts da 1.ª Guerra
Mundial.

Consciente do problema, desde o final da guerra, em 1918, o governo francês proibiu o cultivo em
regiões que foram contaminadas, criando as “zonas vermelhas”. Nelas, estão os trechos com maior
probabilidade de presença de granadas que jamais explodiram na guerra – cerca de 15% do total – e
ainda não foram encontradas. Desse universo, 2% correspondem a armas químicas que continuam
expostas à natureza, em especial gás mostarda, fosgênio e difosgênio. Um campo militar na cidade de
Suippes, em Marne, na França, serve de depósito para 200 toneladas de granadas que ainda precisam
ser destruídas, em uma usina que entrará em operação em 2016.

Graças à mobilização internacional, em 1925 foi assinado o Protocolo de Genebra, proibindo a


utilização de gás em artefatos bélicos, assim como a produção e a estocagem de armas químicas –
ameaça que no entanto ainda não acabou.

Ypres, cidade devastada pelos combates, tornou-se um dos pontos de memória mais importantes
sobre o horror da destruição em massa. Prova disso foram as cerimônias realizadas na cidade em 26
de junho pelos 28 chefes de Estado e de governo da União Europeia, reunidos em cúpula na cidade. “A
principal mensagem que fica dessa guerra”, diz o historiador Dominiek Dendooven, pesquisador do
Flanders Fields Museum, o maior da cidade,“é a importância das decisões tomadas pelos dirigentes
europeus em 1914, o sentido de responsabilidade política que deveria ter prevalecido e teria permitido
evitar essa guerra”.

NAS CIDADES-MÁRTIRES, UM CONFLITO SEM FIM

Ypres, Verdun e Reims ressurgem das cinzas, que ainda marcam a vida de seus habitantes.
Douaumont, Louvement, Craonne e Vauquois não tiveram a mesma sorte: são os vilarejos fantasmas
da 1.ª Guerra Mundial.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
YPRES (BÉLGICA) E VERDUN E REIMS (FRANÇA)

Todos os dias, às 20h, não importa o que aconteça, soldados do corpo de bombeiros de Ypres, na
Bélgica, fecham a Avenida Frenchlann no trecho sob o Memorial de Mennenpoort, a Porte de Menin.
Então os sinos soam: trata-se do “Last Post”, momento no qual os 35 mil habitantes da cidade,
queiram ou não, recordam-se dos 54.896 soldados da Grã-Bretanha e de outros países da comunidade
de nações britânicas mortos em batalha. Seus nomes estão gravados ali, assim como uma
homenagem aos 34.984 outros cujas identidades jamais foram conhecidas.

Eles representam as centenas de milhares de combatentes que tombaram nos campos da região de
Flandres na tentativa de conter o avanço das tropas da Alemanha no front oeste e a ameaça de
ocupação da França na 1.ª Guerra Mundial. A cerimônia é repetida desde 2 de julho de 1928 e só foi
interrompida pelo domínio da Alemanha nazista durante a 2.ª Guerra Mundial, voltando a ser realizada
na noite da liberação da cidade por tropas da Polônia.

A atmosfera à noite pode ser pesada na cidade, mas essa foi a homenagem decidida por seus
moradores no momento em que seus sobreviventes optaram por reconstruí-la das cinzas. Como Reims
e Verdun, na França, e Przemysl, na Polônia, Ypres é uma das centenas de cidades-mártires da 1.ª
Guerra Mundial na Europa. Ao longo do conflito, pequenos e grandes centros urbanos europeus foram
riscados do mapa, mas não da memória. Alguns foram reconstruídos e hoje são prova da tenacidade
de seus povos em apagar os traços da guerra.

Esse é o caso de Ypres. Quando projetou o monumento, o arquiteto britânico Reginald Blomfield
escolheu uma das portas pelas quais os soldados que defendiam a cidade partiam para o front de
Menin, onde enfrentavam as tropas alemãs. Como as demais portas, o local foi muito castigado pelos
bombardeios inimigos. Mas toda a cidade sofreu: em apenas três semanas na 2.ª Batalha de Ypres, em
1917, mais de 4 milhões de obuses foram lançados na região – o suficiente para arrasar as paisagens
urbana e rural de Flandres.

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“Britânicos como Winston Churchill, por exemplo, queriam que as ruínas fossem mantidas como
estavam, como um memorial para a história da 1.ª Guerra Mundial. Mas as pessoas que viviam aqui
queriam retomar suas vidas. Então houve uma grande decisão a ser tomada”, explica o historiador
Pieter Trogh, pesquisador do Museu de Flanders Fields, de Ypres. “Decidiram reconstruir da mesma
exata forma que a cidade tinha antes da guerra. O que você vê hoje é de alguma forma um símbolo
maior de ressurreição. Duas guerras mundiais afetaram a região, mas eles quiseram dizer: você pode
destruir nossa cidade, ou você quis destruí-la, mas isso não será o fim. Nós vamos retomar nossas
vidas e transformá-las em um símbolo contra a guerra.”

O prédio da prefeitura de Reims, que foi destruído durante a guerra. Crédito: Mastrangelo
Reino/Estadão.

Em Ypres, a decisão da primeira geração de habitantes pós-conflito foi de esquecê-lo, ou ao menos


superá-lo, como em Reims, na França. Hoje, a capital da região da Champagne tem 180 mil habitantes
e uma vida acadêmica, cultural e econômica pujante. Mas não foi sempre assim no século 20. Dominar
a cidade fora um dos objetivos do exército alemão na busca da conquista de Paris. Foram 1.051 dias
de bombardeios sem que as tropas inimigas tenham colocado os pés no perímetro urbano, como
acontecera em Lille. O custo patrimonial da defesa de Reims, entretanto, foi colossal. O símbolo da
destruição, na memória dos habitantes, é a catedral da cidade, onde antigamente eram coroados os
reis da França. Hoje, a própria igreja é símbolo da reconstrução de uma cidade pulsante.

“Quando a Grande Guerra acabou, em novembro de 1918, das 14 mil casas da Reims pré-guerra, não
havia mais de 60 habitáveis. A catedral estava gravemente deteriorada”, lembrou em conferência o
historiador Jean-Jacques Becker, presidente e decano do Centro de Pesquisa Histórica da Grande
Guerra, de Perrone, na França. “Reims foi um caso singular. Foi a única cidade da França com mais de
100 mil habitantes – 113 mil no último censo antes da guerra – destruída dessa forma pela guerra.”

Já em Verdun, outra das cidades-mártires da Europa, epicentro da guerra entre 21 de fevereiro e 9 de


dezembro de 1916, a reconstrução não foi a prioridade, mas sim a memória. Nos campos de batalha
da região, nada menos do que 714.231 pessoas morreram – dos quais 362 mil franceses e 337 mil
alemães –, em um saldo trágico de 70 mil mortos por mês de combate. Pela região, passaram nada
menos do que 70% dos poilus, os soldados da França, o que tornou a batalha um verdadeiro emblema
da resistência ao inimigo. Além disso, fez com que todo o país tivesse a noção precisa da tragédia em
curso nos vilarejos da região, varridos do mapa pela força destruidora da artilharia.

O Forte de Douaumont. Crédito: Mastrangelo Reino/ Estadão.

Foram os casos de Douaumont e Louvement, vilarejos rurais situados no que ficou conhecido como os
campos de batalha de Verdun. Para lembrar suas vítimas, o governo da França considera-os desde
outubro de 1919 como existentes, mas com zero habitante. São os vilarejos-fantasmas da guerra, ou
as “cidades mortas pela França”.

Situado nas imediações do Forte de Douaumont, ponto estratégico pelo qual dezenas de milhares de
soldados perderam a vida, Douaumont, próximo da fronteira com a Alemanha, hoje é um campo verde
com uma sucessão infinita de crateras abertas pela chuva de obuses. Sobre a vegetação, restam
ruínas de construções e pequenos marcos que indicam onde existiam casas e viviam seus moradores,
pessoas simples como Jean-Baptiste Dupuis, Onésime Paquin ou Jules Hildebrand, pedreiros, ou
Jean-Nicolas Dabit, fabricante de sabão.

A poucos quilômetros de distância, Louvement tem ainda mais restos de sua vida de 100 anos atrás.
Entre o mar de crateras, há trechos de paredes inteiras desabadas durante as explosões, cacos de

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telhas, resquícios de fundações e encanamentos abertos. Sobre os entulhos, a natureza se reconstitui,


cobrindo o cimento e a pedra com limo. No lugar de todos esses vilarejos-fantasmas, balançam hoje
árvores de 20, 25 metros de altura. Elas foram plantadas pelo Escritório Nacional de Florestas (ONF)
em 13,4 mil hectares de terras onde um dia viveram 6.953 proprietários e suas famílias, evacuadas
durante a passagem do furacão de chumbo da Grande Guerra.

A terra de ninguém diante de Craonne e o Planalto Califórnia que a domina. Crédito:Acervo Estado.

Embora sejam mais frequentes nos campos de Verdun, vilarejos-fantasmas se espalham por grande
parte do Norte e Nordeste da França. Suas existências estão indicadas por placas ou pequenos
monumentos, como o obelisco que indica “Aqui existiu Ailles”, única reminiscência do vilarejo
desaparecido entre 1914 e 1918. Charles Saint Vanne é prefeito de uma dessas vilas extintas, a de
Ornes. “Nosso vilarejo foi inteiramente destruído durante a guerra, em 1916, no mês de fevereiro”,
conta. “Os habitantes foram evacuados, obedecendo à ordem de abandonar o local. Quatro casas
foram reconstruídas após a guerra, mas o que resta em geral são as ruínas.”

Outros poucos vilarejos tiveram a chance de reviver. É o caso de Vauquois, em Verdun, destruído por
se localizar em um morro, excelente ponto de observação militar na época, ou ainda de Craonne, no
Chemin des Dames (Ouça a Chanson de Craonne), dizimada por ter tido o azar de existir em frente
ao Planalto de Califórnia, justo entre as trincheiras alemãs e francesas. Ambas voltaram à vida,
reconstruídas a algumas dezenas de metros das vilas originais, mas vivem sob a perpétua memória da
devastação provocada pela guerra. “Nos espíritos das pessoas daqui”, explica Virginie Keiser, diretora
da Citadela de Verdun, “de alguma forma a guerra ainda está acontecendo”.

A GUERRA DE VERSÕES CONTINUA

Os Sonâmbulos, livro lançado pelo historiador australiano Christopher Clark, relança o debate sobre as
responsabilidades pelo início da 1.ª Guerra Mundial. Para ele, a Sérvia e sua ambição nacionalista
estão no centro da explicação – e não a Alemanha

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
CORRESPONDENTE/PARIS

Às 10h43 de 31 de julho de 1914, o embaixador da França em São Petersburgo, Maurice Paléologue,


enviou um telegrama ao Conselho de Ministros da França. Em um texto seco e sucinto, o diplomata
informou que o imperador da Rússia, Nicolau II, havia ordenado a mobilização das tropas de seu país,
em resposta à declaração de guerra da Áustria-Hungria à Sérvia, sua aliada, três dias antes. “A Rússia
mobilizou suas tropas”, escreveu.

Por razões desconhecidas, a correspondência só chegaria ao Conselho de Ministros em Paris quase


dez horas mais tarde, após outro despacho, dessa vez vindo de Viena, que informava sobre a
mobilização das tropas da Áustria-Hungria contra a Rússia – uma reação ao primeiro ato hostil de São
Petersburgo. Ao tomar conhecimento da iniciativa bélica dos austríacos, o governo francês não hesitou
em afirmar em sua propaganda: a mobilização do exército da Áustria-Hungria comprovava a
responsabilidade do país pelo início da guerra contra a Rússia e, por extensão, contra seus aliados do
Ocidente.

A verdade, no entanto, era a inversa. A troca de telegramas, a ordem em que foram divulgados em
Paris e o fato de que o texto foi falsificado a seguir – com o acréscimo da frase “A Rússia mobilizou
suas tropas em decorrência de informações sobre as mobilizações austríaca e alemã” – são um dos
tantos vestígios documentais do esforço de cada um dos países envolvidos em manipular a verdade e
culpar o outro pelo início da 1.ª Guerra Mundial, mesmo antes de os combates eclodirem. Essa
obsessão pela responsabilidade da guerra, decisiva nas negociações de paz e na redação do Tratado
de Versalhes, em 1919, é ainda hoje uma veia aberta na Europa. Cem anos mais tarde, historiadores
continuam a debater: afinal, de quem é a culpa pela tragédia?

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A controvérsia no mundo acadêmico em torno do artigo 231 do Tratado de Versalhes, que


responsabilizava a Alemanha, já alimentou mais de 25 mil livros e artigos, mas jamais foi de fato
encerrada nesses 100 anos. Mais grave: por muito tempo, ela envenenou as relações internacionais,
em especial na Europa. Em 2013, essa ferida aberta ganhou uma nova interpretação pela publicação
do livro Os Sonâmbulos – Verão 1914: Como a Europa marchou para a guerra (The Sleepwalkers), de
autoria do historiador australiano radicado na Grã-Bretanha Christopher Clark, professor da
Universidade de Cambridge. Para o especialista em Prússia e Alemanha, a culpa do conflito foi, antes
de mais nada, de “sonâmbulos” – uma metáfora para os líderes políticos e diplomatas incapazes de
parar as engrenagens de uma guerra que se anunciava sanguinária desde o início do século.

A polêmica reaberta por Christopher Clark, entretanto, não está na responsabilização do mundo
político, quase um consenso entre historiadores, mas no fato de que sua obra recoloca a Sérvia, a
instabilidade dos Bálcãs e o atentado de Sarajevo de 28 de junho de 1914 no epicentro dos
acontecimentos. Ao longo do século que passou, acadêmicos que se debruçaram sobre a questão
viram no atentado em si, cometido pelo jovem nacionalista sérvio Gavrilo Princip contra o arquiduque
Francisco Ferdinando, apenas um fraco pretexto na decisão da Áustria-Hungria de declarar a guerra e
esmagar as ambições regionais da Sérvia.

Baseado em um trabalho de pesquisa em fontes primárias em arquivos de Paris, Londres, Viena,


Berlim, Moscou, Belgrado e Haia, Clark chega à conclusão de que o fanatismo nacionalista sérvio,
somado à ofensiva de potências europeias, como a Itália, contra territórios sob domínio do Império
Otomano, tiveram papel crucial na eclosão do conflito. Por extensão, ao apontar o dedo sobre a Sérvia,
o historiador lança luzes sobre o papel dos aliados desse país, Rússia e França à frente, minimizando
a importância das ambições imperialistas da Áustria-Hungria e da Alemanha.“Clark reverte essa
perspectiva e diz: 'A Sérvia organiza uma política de potência, sai vitoriosa das guerras balcânicas de
1912 e 1913 e tem um projeto político de reunificar todos os eslavos do sul, que existem entre os
austro-húngaros'", explica o historiador francês Joseph Zimet, diretor da Missão do Centenário da 1.ª
Guerra Mundial. “O grande problema é que a Bósnia-Herzegovina, povoada de 55% de sérvios, é
anexada pela Áustria-Hungria. Christopher Clark afirma que foi a Sérvia queprovocou a 1.ª Guerra
Mundial. (Para uma visão diferente sobre as causas da guerra, leia e ouça ao lado a entrevista para o
'Estado' do historiador inglês Max Hastings, autor de Catástrofe: 1914 - A Europa vai à guerra).

"Os alemães foram os responsáveis", diz Max Hastings em entrevista

Por que, passados 100 anos, ainda se fala tanto da 1.ª Guerra Mundial? O que fez dela algo tão
importante?

No passado, em especial na Europa e nos Estados Unidos, vimos muito mais interesse na 2.ª Guerra
do que na 1.ª. O povo britânico sempre teve uma ideia de que essas duas guerras pertenciam a duas
diferentes ordens de moral. A 2.ª tinha sido uma guerra “boa”, porque combatemos Hitler. A 1.ª tinha
sido “má”, primeiro porque morreram muito mais ingleses do que na seguinte. E também porque as
pessoas achavam muito mais difícil de entender por que motivo, afinal, estávamos lutando. Isso é meio
enganador, pois, afinal, (na 1.ª) ninguém viu do lado alemão nenhum demônio comparável ao
holocausto – e consideremos que as pessoas só chegaram a entender o holocausto depois de 1945. E
desde 1945 foi por causa do holocausto que ninguém no mundo se atrevia a sugerir que fosse errado
combater Hitler – ele era percebido como o demônio.

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Mas havia muitas outras situações em jogo.

Acredito, como expliquei no meu livro sobre a 1.ª Guerra, Catástrofe: 1914 - A Europa vai à guerra, que
a nossa visão é por demais simplista. Deveríamos reconhecer que foi tão necessário lutar contra a
Alemanha em 1914 como foi necessário em 1939. Não estou, com isso, sugerindo que o kaiser
Guilherme II e a Alemanha fossem demoníacos, comparados aos nazistas, mas porque a Alemanha
estava a caminho de dominar a Europa. A Grã-Bretanha e a França defendiam a liberdade e a
democracia e, portanto, era necessário enfrentá-la. E a maioria dos historiadores que eu respeito
acredita que, se a Alemanha tivesse vencido a 1.ª Guerra, e se, portanto, coubesse ao kaiser
Guilherme ditar a paz em Versalhes, então quaisquer que tenham sido os erros daquele tratado em
1919, os alemães teriam imposto um tratado muito pior, bem mais brutal. E que traria terríveis
consequências à Europa. Há outra coisa a destacar: não discordo de ninguém quanto ao meu enorme
respeito pela Alemanha de hoje. Essa Alemanha moderna é uma grande democracia, sem inclinações
militaristas. Mas acho que precisamos reconhecer que ainda temos o mesmo problema – da Europa,
em relação à Alemanha – que tínhamos em 1871 (quando da Guerra Franco-Prussiana).

E que problema é esse?

É descobrir como o resto da Europa poderá conviver com um Estado que é incomparavelmente mais
forte e eficaz que todos os demais, sem que o resto do continente se torne parte de um império
germânico. Embora o problema seja, em nossos dias, expresso de uma forma diferente, é ainda um
gigantesco desafio para a Europa moderna. Não estou acusando os alemães de nada nem sugerindo
que eles estejam se comportando de maneira errada – não estão. Mas é um grave problema que a
Alemanha seja mais forte que todo mundo no continente. É difícil para todo mundo conviver com essa
realidade.

Nenhum outro momento da 1.ª Guerra se compara a seu início, em que cruentas batalhas foram
travadas em larga escala. Como explicar esse começo assim tão fulminante e tão diferente de outras
guerras?

É que a maior parte da guerra, do Natal de 1914 em diante, afundou no impasse. Os exércitos, no front
ocidental, praticamente não se moviam, um lado olhava o outro na trincheira logo ali adiante, ambos
separados por um mar de lama. Mas antes disso, ainda em 1914, tinha sido completamente diferente,
com vastos movimentos de campanha, grandes companhias avançando centenas de quilômetros. O
exército francês, em especial, mergulhou nos combates parecendo as tropas de Napoleão, travando
batalhas ainda napoleônicas... Não eram batalhas do século 20. E a possibilidade de a guerra de 1914
ser ganha rapidamente... logicamente, isso só poderia ocorrer se um dos lados entrasse em colapso. A
França entrou em colapso em 1945, mas não em 1914. Enfim, havia essa crença de que um lado ou
outro poderia chegar à vitória rapidamente. Quem sabe isso poderia ter ocorrido, refiro-me a um
possível colapso francês, se a Grã-Bretanha não tivesse entrado na guerra.

Ao analisar a guerra o senhor tem dado muita importância, no entanto, a fatores não militares.

Essa é outra lição, que me parece uma incrível ironia de 1914: é que eles (alemães) não entenderam,
na época, que os fatores econômicos são uma força mais poderosa em assuntos mundiais do que
soldados – digo em termos gerais. Essa é a maior das ironias, a meu ver: se a Alemanha não tivesse
ido à guerra, nada poderia impedi-la de dominar inteiramente a Europa em questão de mais 20 anos,
por meios inteiramente pacíficos, econômicos e industriais. Tudo porque a Alemanha daquele período
e os generais do kaiser só contavam a força em número de soldados. Não foram capazes de entender
o triunfo que a Alemanha estava conquistando por métodos absolutamente pacíficos.

Como analisa a entrada dos Estados Unidos na guerra? Eles alteraram o equilíbrio de forças,
apressaram o final dos combates e levaram ao Tratado de Versalhes – que abriu caminho para a 2.ª
Guerra.

A contribuição americana não foi tão importante militarmente, mas econômica e moralmente. Poderiam
ter tido importância militar, e muita, se a guerra se prolongasse. O que pesou de fato foi o dinheiro
americano. De 1915 em diante, os aliados foram financiados em larga escala. Sem os créditos de
Washington, é difícil imaginar como França e Inglaterra levariam as coisas adiante em 1915.

(...) Os americanos cometeram um enorme erro em 1918. Foi insistir, como defendeu (o presidente)
Woodrow Wilson, que a Alemanha deveria assinar um armistício, em vez de uma rendição

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incondicional. Com isso, deram o pretexto para que, mais tarde, os alemães dissessem que nunca
foram derrotados, que não tinham perdido a guerra, que o que houve foi uma traição dos políticos em
Berlim, que enfim eles traíram a Alemanha ao parar de lutar. É um argumento que me parece
procedente, o de que foi um equívoco permitir aos alemães a ilusão de que não tinham sido
derrotados.

Foi um final bem diferente do que em 1945.

Sim, e é interessante observar esse contraste. Lembro aqui um ótimo jornalista australiano, Alan
Moorehead, que escreveu em 1945: “Não encontrei na Alemanha de 1945 nenhum sentimento de
culpa, mas uma tremenda consciência da derrota”. Foi muito diferente de 1918. Nesse ano, a
Alemanha não chegou a ser ocupada pelos aliados. E não havia nenhum grande senso de derrota,
mas sim de traição. E você só vai adiante, com os alemães, se eles tivessem entendido que foram
batidos. Era (em 1918) uma Alemanha praticamente intocada e, do outro lado, uma França devastada.
Daí muitos alemães, naquele momento, não entenderem que tinham perdido.

O historiador Michael Howard lhe disse, numa entrevista, que a guerra entre Alemanha e Grã-Bretanha
seria inevitável, independentemente de os britânicos entrarem ou não na guerra na Europa. O que isso
significa?

Há duas grandes polêmicas sobre 1914. A primeira é sobre quem recai a responsabilidade pela guerra
no continente europeu, tema a respeito do qual os historiadores discutem intensamente, ainda hoje. Eu
acredito, pessoalmente, que a responsabilidade maior é dos alemães, por motivos que já expliquei no
meu livro Catástrofe – 1914: A Europa vai à guerra. A Alemanha, a meu ver, era a única força que
poderia parar as coisas, simplesmente dizendo à Áustria, em julho de 1914, que suspendesse a
invasão da Sérvia. Se Berlim tivesse mandado um telegrama a Viena dizendo “Pare”, não teria havido
guerra. Não quero dizer que não houvesse um conflito continental, mas não seria aquele iniciado em
julho de 1914.

Essa é a famosa teoria do “cheque em branco”, a garantia de que a Áustria podia resolver os
problemas com os sérvios, que a Alemanha seguraria os russos.

Sim. Mas muitos historiadores destacam um segundo debate, sobre se os britânicos deveriam ou não
entrar no conflito. Bem, há um ou dois historiadores na Grã-Bretanha, Niall Ferguson e John Charmley,
praticamente esses dois, que entendem que os britânicos deveriam manter-se neutros. Todos os
historiadores que eu respeito – Michael Howard, Margaret MacMillan, Hew Strachan – argumentam
que, numa guerra continental sem a Grã-Bretanha, a Alemanha venceria. E, em seguida, seria loucura
imaginar que os alemães ficariam quietinhos em seu mundinho europeu, vendo a Grã-Bretanha
controlando o mundo financeiro, as rotas marítimas mundiais, o seu imenso império em outros
continentes. Seria preciso ter uma visão notavelmente generosa das intenções dos alemães para
sustentar que deveríamos ter permanecido neutros.

Explicar a 1.ª Guerra Mundial vem sendo uma tarefa hercúlea de historiadores ao longo de décadas.
Mas esse esforço resultou em alguns consensos: o início do século 20 era um tempo de corrida
armamentista e militarismo exacerbado, de nacionalismos, imperialismos, disputas territoriais e jogos
perigosos de alianças e inimizades internacionais entre novas e velhas potências econômicas e
industriais. Guerras eram vistas não como tragédias a serem evitadas a todo custo, mas como um
instrumento político legítimo de coerção a ser empregado sempre que necessário para reordenar o
equilíbrio de poder no continente. Esse cenário geopolítico tenso aproximava algumas e opunha outras
superpotências da época – França, Alemanha, Áustria-Hungria, Itália, Grã-Bretanha e Rússia. Em uma
era marcada pelo colonialismo, o jogo de forças não se limitava à Europa, mas se estendia às colônias
e aos protetorados espalhados pela África, pelo Oriente Médio e pela Ásia. Daí à guerra mundial
bastou uma fagulha.

Nesse cenário, os movimentos nacionalistas da Sérvia exerceram de fato um papel desestabilizador,


como admitiram as obras do jornalista Luige Albertini e de historiadores como Pierre Renouvin, Fritz
Fischer, Annika Monbauer, John Röhl, Stefan Schimidt, Jean-Jacques Becker, Gerd Krumeich ou Jay
Winter, especialistas em 1.ª Guerra Mundial. Desse movimento extremista, participavam grupos como
Mão Negra – apoiador do Jovem Bósnia, ao qual Princip pertencia –, alguns dos quais com forte
presença no interior do Estado sérvio. Para a historiadora bósnia Vera Katz, pesquisadora do Instituto
de História da Universidade de Sarajevo, o atentado não passou de uma gota d’água.“As grandes

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potências, como Grã-Bretanha, Alemanha, Rússia, França, estavam preparadas para a guerra. Havia
tantas crises no mundo, como no Marrocos, no Japão e na Rússia, questões sobre o Império Otomano,
conflitos entre Rússia e otomanos… Creio que foi apenas uma faísca para o começo.”

Prova de que a região dos Bálcãs – um cruzamento entre ortodoxos, católicos e muçulmanos e entre o
Ocidente e o Oriente em plena Europa – era um barril de pólvora haviam sido a crise na Bósnia de
1908 e as guerras balcânicas entre Sérvia, Grécia, Montenegro e Bulgária contra o Império Otomano,
em 1912, e entre a Bulgária e seus ex-aliados, em 1913. Ao final desses conflitos, escreve Clark, o
equilíbrio geopolítico da região estava alterado, mas a Rússia desprezou as preocupações da Áustria-
Hungria com a situação na península. “Para a Áustria-Hungria, as guerras dos Bálcãs modificam
radicalmente a situação. Sobretudo revelam que Viena está isolada e as chancelarias estrangeiras não
compreendem nada da interpretação que os austríacos fazem dos eventos.”

Segundo Clark, a aliança entre Rússia e França se aprofundou também em torno dos Bálcãs em 1912,
pelas mãos do então chefe de governo francês Raymond Poincaré, que se solidarizou com o imperador
russo Nicolau II ao afirmar que “toda conquista territorial efetuada pela Áustria-Hungria romperia o
equilíbrio europeu e afetaria interesses vitais da França”. O aumento da sinergia militar entre russos e
franceses ajuda a explicar por que em 37 dias a Europa partiu de um assassinato político de
importância limitada – o de Francisco Ferdinando – a uma guerra generalizada que tomaria conta do
continente.

O problema da obra de Clark, segundo seus críticos, é sobrevalorizar a importância da Sérvia e do


atentado e minimizar a determinação da Alemanha para que a guerra acontecesse. Essa
“determinação” se tornou uma convicção da maior parte dos especialistas no assunto em 1961, quando
o historiador alemão Fritz Fischer lançou Os Objetivos de Guerra da Alemanha Imperial 1914-1918,
livro em que diz haver uma filiação direta entre a guerra franco-prussiana em 1870, a 1.ª Guerra
Mundial e a 2.ª Guerra Mundial, causada por uma elite industrial conservadora da Prússia com militares
e meios políticos, todos com o intuito de afirmar a superpotência alemã contra seus adversários na
Europa e empreender uma política imperialista agressiva na Europa do Leste, na África e no Oriente
Médio.

O argumento das Teses de Fischer se baseou em documentos de Defesa e diplomacia da Alemanha


que mostram a existência de planos de guerra, como o Plano Schlieffen, existente desde 1905, o
Conselho de Guerra de 1912, quando se cogitou o início das hostilidades por medo do rearmamento da
Rússia, ou ainda o Programa de Setembro, de 1914, no qual o governo do chanceler Theobald von
Bethemann Hollweg fez projetos de anexação e de domínio de territórios da Europa e da África – a
Mitteleuropa e a Mittelafrika –, atendendo às reivindicações dos diferentes grupos de interesse da
sociedade alemã.“Fischer comete a meu ver um grave erro: ele estabelece essa espécie de fio que iria
de Bismarck a Hitler, com Guilherme II no meio. Seria um fio lógico que levaria a Hitler. Ao afirmar isso,
Fischer diz algo que eu considero completamente falso” diz o historiador Frédéric Manfrin, diretor de
História da Biblioteca Nacional da França (BnF) e comissário da exposição Été 1914, em cartaz em
Paris.“Já Clark tem um gosto claro pela Prússia, sobre a qual ele fez seus estudos. Ele vai longe
demais na tese da inocência alemã e o papel que dá à Sérvia é bem discutível.”

A opinião de Manfrin reverbera a de outro historiador, o alemão Gerd Krumeich, professor emérito da
Universidade Henrich-Heine, de Düsseldorf, autor de um livro em que reflete sobre as
responsabilidades da guerra, Fogo na pólvora – Quem detonou a guerra de 1914?. Krumeich relembra
uma das teses do historiador francês Pierre Renouvin, de 1932, segundo o qual não há
“responsabilidade unilateral” pela guerra, mas reafirmou, em recente entrevista ao jornal Le Monde:

Os dois campos encheram pouco a pouco o barril de pólvora durante os anos precedentes, mas é
incontestável que foram os alemães que colocaram o fogo”.

Em meio à polêmica centenária, uma constatação de Clark parece bem aceita por todos: “Não há arma
do crime nessa história, ou na verdade há uma para cada personagem principal”, escreve ele. “Visto
por esse ângulo, a detonação da guerra não foi um crime, mas uma tragédia.”

BRASILEIROS NA GUERRA

Quando o governo declarou guerra à Alemanha, em 26 de outubro de 1917, brasileiros já lutavam e


morriam nos fronts da Europa. Barbárie do conflito marcou declínio da influência cultural e política do
Velho Mundo sobre a América Latina, diz pesquisador

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
PARIS E VINCENNES (FRANÇA)

"Em 20 de agosto de 1917, combateu com coragem admirável e tomou sozinho uma trincheira,
obrigando dez inimigos a entregar as armas. Ferido por três estilhaços de obus, recusou-se
formalmente a ser evacuado", registram documentos da Legião Estrangeira da França a respeito do
tenente Gustave Gelas. Os relatórios continuam: "Suboficial de elite, voluntário alistado para a Grande
Guerra. De uma bravura à beira da temeridade, distinguiu-se em cada caso no qual participou por sua
coragem e suas realizações." Gelas seria um entre milhões de bravos soldados da 1.ª Guerra Mundial
se não tivesse recebido a medalha da Legião de Honra, que distingue os méritos civis e militares
eminentes na França. Ele também seria só mais um entre os agraciados pela distinção não fosse uma
particularidade: o bravo soldado Gelas era brasileiro.

Em 26 de outubro de 1917, o então presidente do Brasil, Venceslau Brás, assinou o decreto de


declaração de guerra à Tríplice Aliança, em uma cerimônia ao lado do ex-presidente Nilo Peçanha e de
Delfim Moreira, que também viria a assumir a chefia de Estado. Mas, muito antes da formalidade
histórica, esse outro Brasil já estava mergulhado na 1.ª Guerra Mundial. Desde o início do conflito,
brasileiros de diferentes origens se engajaram e partiram para os fronts da Europa. Eles são parte de
uma narrativa quase esquecida: a de soldados brasileiros que doaram suas vidas por pátrias
estrangeiras entre 1914 e 1918.

Seus traços deixados em solo europeu mostram que a 1.ª Guerra Mundial foi para os brasileiros muito
mais do que a participação restrita do Exército e da Marinha nos combates.

É provável que soldados brasileiros tenham vestido uniformes da Alemanha, da Áustria-Hungria e até
do Império Otomano, já que há registros da passagem de sul-americanos pelos três exércitos e
colônias de imigrantes dos três países no Brasil, uma fonte de alistamentos. Mas em nenhum dos
casos eles teriam sido tão numerosos quanto os que lutaram – e morreram – pela França e pela
Tríplice Entente.

O encouraçado São Paulo. Crédito: DPHDM.

Por meio do trabalho de especialistas, documentos de museus e arquivos públicos e papéis militares
guardados no Castelo de Vincennes, na periferia de Paris, é possível resgatar informações
surpreendentes sobre parte dos 81 brasileiros engajados para lutar ao lado da Legião Estrangeira em
solo francês.

O Estado teve acesso a documentos de combatentes como os oficiais Gustavo Gelas e Luciano
Antonio Vital de Mello Vieira. Também encontrou dados dos aviadores Lauro de Araújo, Hector Varady,
Eugenio da Silva, Virginius Lamare Brito, Olavo de Araújo, Manuel Augusto Pereira de Vasconcelos e
Fábio Sá Earp, treinados pela RAF, a força aérea real britânica, e alistados em combate pela França.
Eles representam um universo ínfimo entre os homens de todas as nacionalidades que estiveram na
guerra, mas ilustram a participação do Brasil que vai além da missão preparatória do Exército enviada
à França e comandada pelo general Napoleão Felipe Aché.

Do total de brasileiros em hostes da Legião Estrangeira, 15 morreram em operações nas mais ferozes
frentes de batalha da Grande Guerra. Outros sobreviveram e fizeram carreira na Europa. É o caso do
tenente Gelas, nome mencionado em algumas listas de grandes heróis da legião, merecedor de três
pastas repletas de documentos no dossiê 5ye.142.647 dos arquivos militares de Vincennes. Nascido
em 1890 em São Paulo, Gustavo era dentista e se alistou de forma voluntária como simples legionário,
a patente mais baixa da corporação, até ser promovido a tenente do 1.º Batalhão do 3.º Regimento
Estrangeiro em 23 de julho de 1922, um mês e oito dias após ser morto em combate em Meknès, no
Marrocos. Em 18 de setembro de 1918, sua participação na 1.ª Guerra Mundial lhe valeu a Legião de
Honra da França, um mérito raro entre brasileiros.

"Oficial de uma bravura excepcional. Conduziu brilhantemente seu pelotão ao ataque em 2 de


setembro de 1918, destruindo muitas metralhadoras, explodindo um importante depósito de munições
e contribuindo para repelir vários contra-ataques", diz a nota oficial do exército francês que justifica a
medalha. E completa: "Tomou em pleno combate o comando de ondas de assalto de um batalhão
privado de chefe, o reorganizou sob fogo violento e o manteve na posição conquistada. Infligiu ao
inimigo perdas muito elevadas e ajudou a progressão de unidades avançadas".

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Além dele, outro brasileiro chegou ao posto de oficial na 1.ª Guerra Mundial: o piloto Luciano Antonio
Pital de Mello Vieira, tenente da divisão Salmson da Legião Estrangeira. Voluntário registrado em 30 de
maio de 1917, ele teve vida breve no conflito. Faleceu em 31 de janeiro de 1918, na queda de seu
avião, aos 21 anos de idade. Em seu dossiê, 5ye162.330, estão suas notas de serviço, também
elogiosas, além de registros de saúde e do atestado de óbito.

Guerra mostrou ao exército a necessidade de mordenizar o país, diz historiador

A Primeira Guerra Mundial mudou o mundo e o Brasil, diz o historiador norte-americano Frank
McCann, autor de “Soldados da Pátria - História do Exército brasileiro 1889-1937" (Companhia das
Letras, 2007). Ele conta que, quando o confronto começou, o Exército Brasileiro tentava se reformar. O
País ainda estava sob o impacto da Guerra do Contestado, que mostrara a necessidade das
instituições militares por reorganização, rearmamento e treinamento e a impossibilidade do País de
enfrentar uma guerra moderna. Encerrado o conflito, o País e suas Forças Armadas sofreram
influências do confronto nas décadas seguintes, com o tenentismo e a Revolução de 1930. “(Com a
guerra) Os pontos fracos do modelo brasileiro se tornaram flagrantemente aparentes. E o nível de
impaciência com os velhos métodos e respostas borbulhava em todo o ano de 1920 e explodiu em
1930”, explica.

P: Por que o Brasil entrou tão tardiamente na guerra?

R: O Brasil manteve-se neutro até 1917, pela mesma razão dos Estados Unidos: não tinha nenhuma
razão para entrar na guerra até que os submarinos alemães atacaram navios brasileiros ao largo da
costa da França. A 1 de Fevereiro, depois de um debate interno na Alemanha e do fracasso de
movimentos da Alemanha pela paz, os líderes militares alemães decidiram retomar a guerra submarina
irrestrita. Eles acreditavam que os ataques de submarinos a todo o transporte, neutro e beligerante,
prejudicaria a vontade britânica de continuar a guerra. Eles estabeleceram que os EUA seriam
autorizados a enviar um navio por semana para a Grã-Bretanha. No entanto, em 03 de fevereiro de
1917, (um submarino alemão) afundou (depois de dar aviso) o navio da Marinha dos EUA
“Housatonic”. No mesmo dia os EUA romperam relações com a Alemanha e armaram seus navios
mercantes. Em 6 de abril o Congresso dos EUA aprovou a resolução para a guerra. No dia anterior em
5 de abril um navio alemão atacou o navio mercante brasileiro, o “Paraná “,na costa da França,
causando três mortes. E em 20 de maio um submarino alemão torpedeou o “Tijuca”, também ao largo
da França. O Brasil reconheceu que um estado de guerra existia com a Alemanha e o Império Austro-
Húngaro em 1 de Junho de 1917. Assim, ficou fora da guerra, até que foi provocado por ataques de
submarinos.

P: Como o senhor descreveria a participação brasileira na Primeira Guerra?

R: Foi muito pequena. O Exército enviou um hospital militar completo com os médicos para a França,
para cuidar dos feridos. A Marinha do Brasil envolveu-se em patrulhamento em conjunto com a
Marinha americana, e oficiais brasileiros serviram a bordo navios de guerra norte-americanos. Lembre-
se que naquela época o exército brasileiro tinha acabado de terminar um conflito longo e difícil no
Contestado, e não estava em condições de enviar tropas para a Europa. Quando a guerra estourou, o
Exército tentava reformar-se. Entre 1906 e 1912, três contingentes, totalizando trinta e dois oficiais,
passou dois anos treinando em regimentos alemães. Sua tarefa ao voltar foi atuar como instrutores nas
escolas do Exército para criar o moderno Exército Brasileiro. Eram os chamados Jovens Turcos. Em
1916 Serviço Militar Obrigatório entrou em vigor. O Exército estava sendo reformado e, na verdade,
estava sendo construído. Alberto Torres e Olavo Bilac estavam debatendo o papel do exército na
sociedade. A elite brasileira não estava muito interessada em aumentar a força do governo nacional. A
experiência no Contestado tinha mostrado ao Exército a necessidade de reorganização, rearmamento
e treinamento. Precisava de soldados que a lei 1916 foi muito lenta para fornecer. Na verdade,
centenas e centenas simplesmente se esconderam e não se apresentaram para o treinamento. E para
piorar a situação, em 1915 uma rebelião envolvendo sargentos do Exército, a Brigada da Polícia do Rio
e do Corpo de Bombeiros resultou em 256 sargentos presos, expulsos do serviço e removidos para o
exílio interno. Como resultado, o Exército estava seriamente limitado e sofria de tensão interna e
suspeitas.

P: Quais foram os impactos Da Primeira Guerra na organização e modernização das Forças Armadas
brasileiras?

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

R: A resposta anterior dá uma ideia dos impactos. Alguns oficiais que haviam treinado na Alemanha
queriam entrar na guerra, mas o Ministro da Guerra, General José Caetano de Farias, não quis ouvi-
los. Ele sabia que o Exército não estava em condições de ir à guerra. Assim, os Jovens Turcos foram
frustrados e tiveram de dedicar suas energias e entusiasmo na organização do Exército e treinando
oficiais subalternos e os recrutas previstos na legislação do Serviço Militar Obrigatório. Algumas de
suas frustrações fariam a bolha (que estourou) no movimento tenentista nos anos 1920.

P: O surgimento do tenentismo teve alguma ligação com a participacão brasileira na Primeira Guerra?

R: Certamente sim. Primeiro, houve a frustração de perder a grande guerra de sua geração. Então, no
fim da guerra, muito do que tinham aprendido na Alemanha foi desacreditado, ou, pelo menos,
desafiado, pela ideia de que o francês tinha sido vitorioso e assim suas ideias deveriam ser melhores.
Claro, isso ignorou as ideias americanas, britânicas, russas e seus papéis na guerra. O governo decidiu
empregar uma Missão Militar Francesa, que esteve no Brasil 1920-1939, que causou o aumento da
frustração no Exército. Os Jovens Turcos pensavam que sabiam o suficiente como organizar o Exército
a partir de uma mistura de ideias brasileiras e europeias. Assim, ao longo dos anos 1920, houve um
debate interno no Exército que parecia colocar as ideias francesas contra as alemãs. Na realidade, os
Jovens Turcos estavam se movendo em direção a um modelo brasileiro, mas não foram capazes de
implementá-lo totalmente. É significativo que o oficial de fundação da Academia Militar das Agulhas
Negras, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, tivesse sido autorizado a servir como um oficial no
exército francês. Ele foi ferido em combate e, sem dúvida, suas experiências na linha de frente deram-
lhe muitas ideias sobre como preparar os oficiais subalternos para uma carreira militar. Ele fez da
AMAN uma escola militar verdadeiramente profissional.

P: Houve algum tipo de consequência política e de modernização do Brasil devido a Primeira Guerra?

R: A guerra mostrou o quão terrivelmente atrasado o Brasil estava. Líderes militares brasileiros ficaram
espantados com a rápida mobilização dos Estados Unidos e a formação de tantos milhões de soldados
e sua entrada decisiva na guerra na França. Eles podiam ver que o Brasil tinha de se industrializar para
se tornar uma sociedade moderna.

P: A República Velha brasileira começou a morrer na Primeira Guerra?

R: O mundo inteiro foi mudado pela guerra. A Revolução Russa não teria acontecido quando
aconteceu sem a grande mobilização que houve lá. As monarquias da Europa quase todos entraram
em colapso, à exceção de algumas. Provavelmente (sem a guerra) não teria havido a pandemia
mundial da gripe que matou milhões de pessoas, incluindo milhares no Brasil. Os pontos fracos do
modelo brasileiro se tornaram flagrantemente aparentes. E o nível de impaciência com os velhos
métodos e respostas borbulhava em todo o ano de 1920 e explodiu em 1930. O terrível derramamento
de sangue era um importante ponto de viragem na história do mundo. Tudo mudou. E, claro, a paz
falha deu origem à pior guerra de 1939-1945.

Wilson Tosta/RIO

Segundo dados do exército francês, a maior parte do elenco "franco-brasileiro" retornou ao país de
seus antepassados para lutar pela nação e por seus valores. São nomes como o do cabo Georges
Maximilien Carpentier, nascido no Rio de Janeiro e morto em Marne em outubro de 1915, ou o do
sargento Joseph Gérard Crouzet, carioca morto em Verdun em julho de 1916. "Eles não tinham
obrigação de se alistar, mas alguns fizeram a escolha", explica o comandante Michel Bourlet, doutor
em História, pesquisador das escolas militares de Saint-Cyr Coëtquidan, especialista na participação
latino-americana no conflito.

De acordo com Bourlet, há ainda dois outros perfis: "Um primeiro dos brasileiros que viajaram do Brasil
para se alistar e outro de brasileiros que viviam na França, trabalhavam, estudavam e decidiram se
engajar para combater na Grande Guerra". É provável que nessa última categoria estivesse o carioca
Luiz França Oliveira, soldado de 2.ª classe recrutado em Nice em 1915 e desaparecido na Batalha de
Somme, em 4 de julho de 1916. Ou ainda Candido Ferreira Bastos, também soldado de 2.ª classe,
alistado em Bayonne e desaparecido em Neuville-Saint-Vaast, no extremo norte do país.

O que as bases de dados da França não parecem revelar com fartura são os indícios da passagem da
missão preparatória brasileira, que teve as participações do tenente José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque e do major Tertuliano Potyguara, este último ferido na batalha do Canal Saint-Quentin,

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próximo ao Chemin des Dames. Potyguara foi membro do estado-maior vinculado ao 6.º Grupo do
Batalhão de Caçadores Alpinos antes de passar ao grupo de oficiais do Brasil enviado para o front em
Saint-Quentin, em 2 de outubro de 1918, onde acabou ferido e atendido no Hospital Franco-Brasileiro.

Sobre o tema, o Estado localizou no Estabelecimento de Comunicação e de Produção Audiovisual da


Defesa (Ecpad), da França,fotografias que mostram os militares da missão em vilarejos e cidades
destruídas, em postos de observação e em rotas logísticas em Douchy, Fluquières e Etreillers, na
região de Aisne, muito atingida pelo front.

A mesma instituição guarda ainda fotografias e filmes históricos do Hospital Franco-Brasileiro em Paris,
registradas em julho de 1918 – cinco meses antes do fim do conflito. A instituição se situava na Rue de
la Pompe, na capital francesa. As imagens mostram a equipe médica, liderada por um certo "doutor Rio
Branco", ao lado de assistentes e pacientes feridos. Há ainda fotos de salas de operações,
enfermarias, radiografias e quartos especiais reservados aos oficiais. Além de auxiliar no atendimento
aos feridos em combates, a equipe brasileira socorreu vítimas da epidemia de gripe espanhola que
também dizimava a Europa, em paralelo à guerra.

Pelo menos outras duas missões médicas brasileiras sob o comando de Nabuco Gouveia, mas
subordinadas ao general Aché, estiveram no país, em agosto e setembro de 1918. Além de médicos,
enfermeiros e farmacêuticos, administradores e soldados participaram da expedição, que teria fim em
fevereiro de 1919, quatro meses antes da assinatura do Tratado de Versalhes.

Para o historiador Olivier Compagnon, pesquisador do Instituto de Altos Estudos da América Latina da
Universidade Sorbonne Nouvelle, de Paris, a passagem de latino-americanos pelo conflito na Europa
vai muito além dos atos de heroísmo de seus soldados ou das missões oficiais. Ela também teria sido
determinante para o rompimento de parte dos laços de admiração e exemplaridade que a Europa
exercia sobre o Brasil e outros países da região.

Em seu livro Adieu à l'Europe (Adeus à Europa, na tradução literal), recém-lançado na França,
Compagnon afirma que o desastre humano e humanitário representado pela 1.ª Guerra Mundial levou
a América Latina a uma "nova emancipação". O novo mundo viu a Europa, até então um farol de
cultura e modernidade, afundar na barbárie" , disse o historiador em entrevista ao jornal Libération,
delimitando o período como o início da ascensão cultural dos Estados Unidos sobre os países latinos.
"As narrativas e as imagens de trincheiras mostraram uma Europa mergulhada na guerra total. Ela não
poderia mais ser considerada o coração do mundo civilizado."

NAS PÁGINAS DO 'ESTADO', UMA VISÃO GLOBAL

Os boletins semanais de Julio Mesquita sobre a guerra iam muito além dos telegramas recebidos pelo
jornalista. Eles interpretavam o avanço do conflito e a política dos governos envolvidos.

José Maria Mayrink

Dois dias após a invasão da Bélgica pelo exército da Alemanha, o jornalista Julio Mesquita publicou,
em 6 de agosto de 1914, o primeiro da série de artigos que escreveria nos quatro anos seguintes sobre
a 1.ª Guerra Mundial. Com base nos telegramas sucintos e contraditórios recebidos na semana
anterior, o jornalista analisava, sempre às segundas-feiras, o desdobramento do conflito em seu
jornal, O Estado de S. Paulo, dando aos leitores uma visão global, clara e personificada da até então
maior catástrofe da humanidade.

A primeira impressão de Julio Mesquita foi de que a luta seria breve. Tanto assim que, três meses
depois, ele já se assustava com sua prolongada duração. Iniciado pelo Império Austro-Húngaro, que
declarou guerra à Sérvia em 28 de julho, um mês após o assassinato do arquiduque Francisco
Ferdinando e de sua mulher, a duquesa de Hohenberg, por um estudante bósnio em Sarajevo, o
conflito só terminaria em novembro de 1918. Mobilizou 65 milhões de homens, dos quais 9 milhões
foram mortos e 21 milhões ficaram mutilados.

O jornalista Julio Mesquita. Crédito: Acervo Estado.

Julio Mesquita sabia das limitações da informação. Para suprir a deficiência dos despachos do
telégrafo, de conteúdo parcial e censurado, recorreu a outras fontes, como relatos de jornais europeus,
correspondências de amigos e, mais adiante, testemunhos de combatentes, muitos deles filhos de

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

imigrantes que se alistaram para lutar nas trincheiras. O Estado manifestava simpatia pelos aliados –
franceses, ingleses e italianos –, mas isso não significava antipatia pelas potências da Europa central
lideradas por Alemanha e Áustria. Como o jornal foi acusado de ser partidário, Julio Mesquita deixou
clara sua posição:

O Estado não nega as suas simpatias pelos aliados, mas já disse, e repete, que a essas simpatias não
corresponde nenhuma antipatia pelos súditos do kaiser, cujas excelentes qualidades de raça e de
educação intelectual, comercial e industrial não tem cessado de enaltecer.O Estado simpatiza com os
aliados, não porque antipatize com os alemães, mas porque diverge visceralmente da política
autoritária e militarista que desviou a Alemanha da sua luminosa missão e produziu esta guerra odiosa.
Contra esta política, sim, temos toda a má vontade, onde quer que ela se implante ou firme, na
Alemanha ou em outro qualquer país, inclusive o nosso”.

As batalhas ainda estavam começando quando Julio Mesquita previu, em 21 de setembro de 1914, a
dimensão da catástrofe que evoluía para a Guerra Mundial. Escreveu:

Sete dias e sete noites de luta encarniçada, sete dias e sete noites de sangue, sete dias e sete noites
de morte, sete dias e sete noites de extermínio entre milhões de homens das nações mais civilizadas
do mundo! Que incomparável tema para os Homeros e para os Shakespeares do futuro, se o futuro, no
caminho em que vamos, tiver forças para os produzir! Quem vencerá?”

Resposta imprevisível, admitia o jornalista, embora ele apostasse na derrota da Alemanha e seus
aliados. Sua maior preocupação, desde aqueles primeiros meses, era a extensão da tragédia.
Comparou com as guerras do passado o quadro do conflito no século 20. Com novas tecnologias, à
luta nas trincheiras se somavam as recentes invenções, como submarinos, aviões e zepelins. Julio
Mesquita citou um trecho do Padre Antônio Vieira, atual depois de três séculos, para descrever o horror
da guerra:

É a guerra aquele monstro... É a guerra aquela tempestade terrestre que os campos, as casas, as
vilas, os castelos, as cidades e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a
guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades... O pai não tem seguro o filho, o rico
não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o
eclesiástico não tem segura a cela e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro...”

Os boletins semanais de Julio Mesquita foram publicados em 2002 pelo seu bisneto Ruy Mesquita
Filho no livro A Guerra, obra em quatro volumes lançados pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela
Editora Terceiro Nome. Cada volume reúne os artigos correspondentes a um ano de guerra, de 1914 a
1918. Participaram da edição Mary Lou Paris, Fernando Portela, José Alfredo Vidigal Pontes e
Napoleão Saboia. O jornalista Gilles Lapouge escreveu a introdução. A consultoria militar foi de
Fortunato Pastore.

Jornal enfrenta a censura pela primeira vez

A guerra trouxe ao País o estado de sítio e ao Estado, uma mordaça que durou de 24 de novembro de
1917 a 28 de fevereiro de 1918. A direção do jornal resistiu à ação da censura policial, controlada pelo
governador de São Paulo, Altino Arantes, deixando em branco o espaço de artigos inteiros ou trechos
amputados pelo gabinete de polícia. Ao todo, a ação autoritária golpeou 22 vezes o jornal. Os cortes
mais extensos ocorreram na edição vespertina, o chamado Estadinho. Ao todo, a faca dos censores
atingiu oito de suas edições. No Estado, os trechos afetados foram menores, mas a ação mutilou 14
de suas edições no período. A escalada autoritária começou em 17 de novembro, quando o presidente
Venceslau Brás decretou estado de sítio no Distrito Federal (então no Rio), em São Paulo e nos três
Estados da Região Sul do País. Em 23 de novembro, o jornal publicou uma nota escrita à mão pelo
presidente para o jornal. Nele, Brás pedia aos brasileiros que se unissem para enfrentar os perigos da
guerra contra a Alemanha, aumentando a produção agrícola contra a fome, e que ficasse alerta contra
espionagem inimiga “que é multiforme”.

Logo no dia seguinte, um sábado, a edição do Estadinho, foi alvo da tesoura dos censores. Na coluna
Tópicos, um trecho inteiro foi publicado em branco. Era o primeiro sinal de resistência. O segundo
ataque da censura contra o jornal aconteceu no dia 1.º de dezembro, quando os policiais responsáveis
pelo setor cortaram dois trechos do artigo O Estado de Sítio, assinado pelo jornalista Mário Pinto
Serva, no Estadinho. Mais uma vez, a direção do jornal decidiu publicar os espaços em branco. O
artigo cobrava que a atividade dos agentes da polícia contra a imprensa fosse controlada. “É preciso

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

que o governo federal declare quais as garantias constitucionais que ficam suspensas e quais
permanecem vigentes.”

Serva, que trabalharia no jornal até o fim da década de 1950, tornou-se a maior vítima da ação dos
censores. O alvo de seus artigos era o estado de sítio e a forma como este, em vez de contribuir para
trazer apoio ao governo, estava alienando parte da nação com “sua série de medidas desnecessárias,
violentas e inconstitucionais”. No dia 4 de dezembro, os leitores ficaram sem o trecho final de seu artigo
sobre a inconstitucionalidade do estado de sítio.

A censura se agravou no dia 13 de dezembro, quando metade do artigo A Censura à Imprensa foi
vetado. O espaço em branco na página 3 do Estadinho mostrou o significado da ação policial. O jornal
manteve sua luta. A reação policial veio em 2 de janeiro de 1918, quando o artigo Sítio Ditatorial foi
proibido na íntegra. O censor Alarico Silveira justificou sua decisão: “O artigo não podia sair em
consequência do estado de sítio”.

O jornal publicou então apenas o título e um enorme espaço em branco em sua página 3. E Serva
decidiu pedir habeas corpus para publicar seus artigos. A censura continuou durante o mês de janeiro,
quando a Justiça paulista se negou a derrubar a censura. O jornal recorreu ao Supremo Tribunal
Federal em 19 de janeiro.

Um mês depois, metade da página 3 da edição vespertina foi publicada em branco. Era o espaço
reservado para mais um artigo censurado. A edição do Estado de 23 de fevereiro trouxe a palavra
censura escrita no meio de uma coluna em branco do noticiário político. Altino Arantes, do Partido
Republicano Paulista (PRP), estava no meio de seu mandato – ele seria substituído, em 1920, por
Washington Luís, que seria o último presidente da República Velha. Em 28 de fevereiro, a censura ao
jornal foi suspensa. No dia seguinte, Serva publicou o artigo vetado: A Censura Paulista. “Ao povo
brasileiro só resta uma última defesa legal – recorrer ao Poder Judiciário Federal, que tem competência
para desconhecer os efeitos de quaisquer atos do Executivo ou Legislativo infringentes dos textos
constitucionais”. Nos dias seguintes, o jornal publicou os trechos e os artigos suprimidos pela censura.
Chegava ao fim a primeira mordaça imposta ao jornal.

Marcelo Godoy

Serva, que trabalharia no jornal até o fim da década de 1950, tornou-se a maior vítima da ação dos
censores. O alvo de seus artigos era o estado de sítio e a forma como este, em vez de contribuir para
trazer apoio ao governo, estava alienando parte da nação, com “sua série de medidas desnecessárias,
violentas e inconstitucionais”. No dia 4 dezembro, os leitores ficaram sem o trecho final de seu artigo
sobre a inconstitucionalidade do estado de sítio. Sítio Ditatorial. A censura se agravou no dia 13 de
dezembro, quando metade do artigo A Censura à Imprensa foi vetado. O espaço em branco na página
3 do Estadinhomostrou o significado da ação policial. O jornal manteve sua luta. A reação policial veio
em 2 de janeiro de 1918, quando o artigo Sítio Ditatorial foi proibido na íntegra. O censor Alarico
Silveira justificou sua decisão: “O artigo não podia sair em consequência do estado de sítio”. O jornal
publicou então apenas o título e um enorme espaço em branco em sua página 3. E Serva decidiu pedir
habeas corpus para publicar seus artigos. A censura continuou durante o mês de janeiro, quando a
Justiça paulista se negou a derrubar a censura. O jornal recorreu ao Supremo Tribunal Federal em 19
de janeiro.

Um mês depois, metade da página 3 da edição vespertina foi publicada em branco. Era o espaço
reservado para mais um artigo censurado. A edição do Estado de 23 de fevereiro trouxe a palavra
censura escrita no meio de uma coluna em branco do noticiário político. Altino Arantes, do Partido
Republicano Paulista (PRP), estava no meio de seu mandato – ele seria substituído, em 1920, por
Washington Luís, que seria o último presidente da República Velha. Em 28 de fevereiro, a censura ao
jornal foi suspensa. No dia seguinte, Serva publicou o artigo vetado: A Censura Paulista. “Ao povo
brasileiro só resta uma última defesa legal – recorrer ao Poder Judiciário Federal, que tem competência
para desconhecer os efeitos de quaisquer atos do Executivo ou Legislativo infringentes dos textos
constitucionais”. Nos dias seguintes, o jornal publicou os trechos e os artigos suprimidos pela censura.
Chegava ao fim a primeira mordaça imposta ao jornal.

'Estado' era lido nos campos de batalha

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O jornal O Estado de S. Paulo tinha uma sucursal em Roma quando a guerra estourou em 1914. Seu
diretor, Ancona López, era uma fonte direta de informações para Julio Mesquita sobre o conflito, ao
mesmo tempo em que cuidava da parte comercial coletando anúncios de clientes na Itália.

“Uma difusão em O Estado de S. Paulo é a melhor garantia para a eficácia da publicidade das Casas
Italianas”, escreveu ao pé de um comunicado sobre a mudança de endereço, da Via Sistina 42 para a
Praça Veneza 88. No cabeçalho, apresentou o Estado como “jornal diário de grande formato, edições
de 16 - 24 - 32 páginas” , detentor do Prêmio da Exposição Internacional de Turim em 1911.

Com um escritório em Roma, o Estado conseguiu chegar aos combatentes aliados. Fotografias
enviadas da frente de batalha mostram soldados lendo os jornais na trincheira. Eram principalmente
ítalo-brasileiros, filhos de imigrantes italianos de São Paulo que foram convocados para a guerra.

Em outra fotografia, fornecida pelo colecionador particular Jorge Calixto Santos Filho e reproduzida na
edição de 19 de novembro de 2002, aparece o Cabo Siron com um exemplar do Estado nas mãos,
numa trincheira de Argonne, perto de Verdun, fronteira com Alemanha. Siron era francês e continuou
vivendo na França depois que sua mãe se separou do marido e mudou para o Brasil. / J.M.M

Ruy Mesquita Filho entusiasmou-se com o trabalho do bisavô ao ler A Guerra, que amigos de Julio
Mesquita publicaram em 1920, à revelia dele. Julio Mesquita não gostou e mandou interromper o
projeto, que previa o lançamento de mais dois ou três volumes. Julio Mesquita não assinava os
boletins, que apareciam sempre ao pé dos telegramas enviados pelas agências de notícias e pelos
serviços de informação dos países em guerra. O jornal divulgava tudo, cabendo a seu proprietário e
diretor, com suas crônicas, “ajudar os leitores do jornal a pôr um pouco de ordem nas suas reflexões e
corrigir as demasias, ora otimistas, ora pessimistas, das suas primeiras impressões”, como observaram
os editores do primeiro volume.

Os boletins foram escritos “às carreiras”, quase sem interrupção, apesar das constantes viagens de
Julio Mesquita a Campinas e à sua fazenda em Louveira. Quando estava fora de São Paulo, o trem
levava o malote com os telegramas pela manhã e voltava nas tardes de domingo com os artigos ou
crônicas para a edição de segunda-feira. Saíam também nas páginas do Estadinho, vespertino que
circulou de 1915 a 1921. “O Estadinho tinha espaço para abrir mais fotos da guerra que outros
jornais”, disse Ruy Mesquita Filho.

“Deixou-se de publicar os comentários que habitualmente saem nesta seção, por se achar enfermo o
seu autor, Dr. Julio Mesquita”, avisou o jornal, referindo-se ao período de 25 de fevereiro a 1.º de abril
de 1918. Na semana seguinte, em 8 abril, o jornalista retomou os artigos, com uma advertência inicial
aos leitores: “Talvez ainda não nos seja possível recomeçar, com a habitual pontualidade, a publicação
semanal destes boletins”, escreveu ele, acrescentando que “as últimas notícias, por sua importância
excepcional, pedem alguns comentários, que não adiamos”.

Também não houve comentários nas segundas-feiras de 24 de julho a 4 de setembro de 1916. Ao


retomar os boletins no dia 11 de setembro, Julio Mesquita justificou sua ausência: “Interrompeu-se há
algumas semanas a publicação destes comentários, mas os nossos leitores pouco perderam com a
interrupção”. Além de a agência de notícias Havas (atual France Presse) ter melhorado a qualidade de
seus despachos, conforme observou o jornalista, “os acontecimentos destes últimos dois meses, sem
dúvida importantíssimos, são dos que por si mesmos se comentam, tão depressa se forma, no espírito
de quem deles toma conhecimento, uma ideia exata de sua significação”.

Os boletins de Julio Mesquita iam muito além dos telegramas, pois, baseados neles e em informações
paralelas, interpretavam o avanço da guerra, analisavam a política dos governos envolvidos e
arriscavam prognósticos do que deveria acontecer, a curto e a longo prazos. O Estado diferenciava-se
dos jornais europeus pela capacidade de dar uma visão global do conflito mundial, enquanto os
jornalistas europeus se voltavam, cada um, para seus próprios países. Gilles Lapouge, correspondente
em Paris, cujo pai lutou nas trincheiras, reconheceu e admirou essa qualidade, o “olhar distante” do
jornal, ao ler em 2002 o primeiro volume de A Guerra, publicado pelos amigos de Julio Mesquita em
1920.

Trechos dos artigos de Julio Mesquita

Ferem-se aqui e ali, todos os dias, cinco, dez, vinte combates encarniçados. A verdade, porém, é que
se está travando, naquele trecho da Europa, há algumas semanas, uma só intérmina batalha, cuja

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linha monstruosa se estende desde a Rússia até a França, com curvas mais ou menos suaves, ou
mais ou menos violentas, pela Áustria, pela Sérvia, pela Prússia e pela Bélgica. A Alemanha (para que
falar da Áustria?), no seu formidável ímpeto inicial, avançou. Mas hoje, onde não recua, também não
avança, o que será fatalmente a sua ruína, se algum acontecimento imprevisto não vier ampará-la na
queda iminente. E nesta queda muito provável, nada haverá que possa causar espanto ou simples
surpresa, porque é natural que homens não sejam capazes de realizar o que é sobre-humano.”

28 de setembro de 1914

Qual dos dois adversários alcançará primeiro o seu objetivo? Não sabemos e é muito provável que
ninguém o saiba. Por enquanto, o que se nos afigura mais acertado é aguardar os acontecimentos com
a pequena dose de paciência e de calma que é compatível com a situação tão cheia de sombrias
apreensões, não só para eles, os que lá ao longe matam e morrem, como para nós, os que, por este
vasto mundo de Deus, assistimos aterrados àquela hedionda carnificina.”

5 de outubro de 1914

Há seis meses que a guerra dura, e, dado um rápido balanço destes sinistros e lutuosos 180 dias de
ruínas e sangue, o que se verifica é que não nos faltava razão quando afirmávamos, logo no princípio
das hostilidades, que a Alemanha e a Áustria haviam de ser vencidas, porque, para vencer os Aliados,
seriam necessárias duas Alemanhas.”

1.º de fevereiro de 1915

Abusos não justificam abusos, e é de antiga e contínua observação neste mundo irremediavelmente
imperfeito, que violência puxa violência e que só é odiosa a primeira. A segunda até o feio nome perde,
porque se chama represália.”

22 de fevereiro de 1915

“Varsóvia caiu em poder dos alemães. Nunca pusemos em dúvida que caísse. O fato era previsto.
Somos os primeiros a recomendar aos nossos leitores que não depositem demasiada confiança no
poder muito limitado da nossa previsão, mas previmos a queda de Varsóvia, com alguma segurança há
bastante tempo...”

9 de agosto de 1915

“Cuida-se na Alemanha da organização de um ministério da alimentação pública, com poderes


ditatoriais. Soldados alemães esfomeados, cambaleantes, abeiram-se das fronteiras dos neutros
pedindo-lhes por esmola um pedaço de carne que a pátria exausta já lhes não fornece. Outros
desertam para comer.”

22 de maio de 1916

“Diríamos que, nesta guerra de tantas e tamanhas surpresas, a maior foi a que nos acaba de vir da
Rússia, se, de há muito, nesta e noutras seções de O Estado não estivéssemos insistentemente
pedindo aos nossos leitores que se não se espantassem com o que lhes dissesse o telégrafo de
Petrogrado (...). Em geografia política, a sede da Rússia é a Europa. Não existe, porém, na Ásia
remota e ainda misteriosa, nação alguma com tão alta e impenetrável muralha à volta do seu governo,
da sua administração, da sua sociedade, da sua língua, da sua gente...”

19 de março de 1917

'A Guerra' Traz os Boletins de todo o confronto

O trabalho de pesquisa fotográfica para o livro A Guerra fez Mary Lou Paris, da Editora Terceiro Nome,
trabalhar por meses em sua casa procurando uma linguagem que contasse a história dos boletins de
guerra escritos por Julio Mesquita. A obra A Guerra ficaria pronta em 2002 e se transformaria em um
grande sucesso editorial. Em quatro volumes, ela reuniu os boletins semanais publicados durante a
conflagração de 1914-1918 no Estado. “Foi preciso encontrar uma narrativa visual para essa obra”,
contou Mary Lou.

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Esse trabalhou revelou imagens insólitas, como as dos pombos-correio usados pelos militares. Outra
preocupação da edição foi mostrar a guerra como um conflito mundial, fugindo da visão eurocêntrica
que muitos na época tinham do conflito. Para Mary Lou, o contato com os textos de Julio Mesquita
trouxe uma grande surpresa: a capacidade de análise do jornalista.

“Ele tinha uma sensibilidade surpreendente. Recebia publicações de vários países e, por isso, reunia
informações das mais variadas nações em guerra”, disse Mary Lou. Com isso, Julio Mesquita tinha à
sua disposição o que era publicado em cada país beligerante. “Ele misturava em seus textos as
versões diferentes de cada país sobre os acontecimentos, criando dessa forma uma nova narrativa
sobre a guerra”, contou Mary Lou. A pesquisa das imagens para a obra reuniu material do Acervo do
Estado e de quatro outras publicações da época mantidas no arquivo do jornal. O primeiro volume trata
do início da guerra até a entrada da Itália no conflito, em 1915. O segundo volume dos boletins
semanais reúne os textos desde a entrada da Itália na conflagração até a ofensiva anglo-francesa no
Vale do Rio Somme, em 1916. O terceiro volume parte desse momento e se encerra no ataque alemão
à Riga, na Rússia, em 1917. Por fim, o último volume se inicia na queda de Riga e segue até o fim da
luta.

Com apresentação de Ruy Mesquita Filho e artigos de Gilles Lapouge, Fortunato Pastore, Jorge
Caldeira e João Alfredo Vidigal Pontes, os quatro volumes do livro A Guerra podem ser encomendados
no site da editora.

O diretor do Estado não errou em nenhuma previsão. “Não há esforço humano capaz de impedir que
desta vez se corrijam as fronteiras dos diversos países da Europa, de acordo com o princípio das
nacionalidades, pelo qual outrora a França tanto se bateu, que parecia abandonada para sempre
depois das vitórias alemãs de 1870/71”, alertou Julio de Mesquita em 17 de janeiro de 1915, cinco
meses após o começo da guerra. Ele acreditava na vitória dos aliados, mas temia, ou previa, que o
inimigo não se entregaria definitivamente. “A Alemanha, se sucumbir, sucumbe numa longa explosão
de incrível vitalidade, que faz estremecer o universo em seus alicerces”, escreveu, prevendo em
seguida que a Alemanha “cai para ressurgir”. A reação dos militares alemães ao Tratado de Versalhes,
que restabeleceu a paz em julho de 1919, oito mês após a assinatura do armistício para encerrar os
combates, favoreceu a ascensão do nazismo de Adolf Hitler e levou à 2.ª Guerra Mundial (1939-1945).

Em seu último boletim, publicado em 14 de outubro de 1918, Julio Mesquita adiantou-se mais uma vez
na previsão do que estava para acontecer, enquanto os países em guerra ainda buscavam caminhos
para a paz. Seu comentário de despedida:

Esta seção do nosso jornal já não tem razão de ser. Comentavam-se aqui, semanalmente, os fatos da
guerra. Ora, a guerra, a bem dizer, acabou. Armistício não é paz e nem ao armistício ainda chegamos.
É mais provável, porém, que as nações aliadas dos Estados Unidos o não neguem, e que os generais,
que comandam exércitos em luta, o não embaracem. Além disso, em tais condições a Alemanha o
pediu, que não há receio de que, por sua iniciativa, o fogo devastador se reacenda. O indomável
orgulho alemão quer que o mundo acredite que o império deve a sua derrota à deserção da Bulgária,
da Áustria e da Turquia. Não é exato. O colosso ajoelha-se porque não pode conservar-se de pé...”

Na avaliação de Fortunato Pastore, consultor militar que analisou o conflito no livro A Guerra, em 2002,
“os editoriais que Julio Mesquita escreveu durante a 1.ª Guerra Mundial revelam-se uma verdadeira
aula de política internacional e de estratégia militar no início do século 20”.

Julio Mesquita e 1914

A guerra explodiu em 3 de agosto de 1914. As batalhas, a carnificina, estavam longe. Mas Julio
Mesquita fez questão de que os brasileiros acompanhassem de perto a tragédia. A informação era
rara, muitas vezes censurada ou mentirosa. Pouco importava. Julio Mesquita era jornalista e
semanalmente publicava em O Estado de São Paulo um longo relato da guerra. Esses artigos foram
reunidos em 2000 pela editora Terceiro Nome e O Estado de São Paulo. Li os quatro enormes
volumes. Magníficos.

As histórias da Grande Guerra, há cem anos, são inúmeras. Os grandes sábios e poetas edificaram um
monumento para contar o horror de 1914-1918. Julio Mesquita, em seu Brasil longíquo, desprovido das
fontes de informação, não podia concorrer com testemunhas europeias do drama, como Barbusse ou
Genevoix, Ernst Junger ou Erich Maria Remarque. Entretanto, seus artigos são tão belos quanto os
daqueles autores do drama. Às vezes mais profundos. E mais modernos. Qual era sua receita? O

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distanciamento e o uso sutil que fez dele. Seus artigos ilustram uma frase do filósofo francês Jean-
Jacques Rousseau: “Quando queremos estudar os homens, é preciso olhar de perto. Mas para estudar
o homem é preciso aprender a observar de longe”.

Nós, franceses, ou os alemães, estávamos próximos do massacre. Nós só conhecíamos batalhas


como as do Marne, do Chemin des Dames, do Somme, de Verdun. A guerra era um duelo entre duas
nações vizinhas, França e Alemanha. Essa guerra era nossa, de franceses e alemães. Era o nosso
tesouro, nossa memória comum, nosso inferno e nossa abominável glória compartilhada. Os artigos de
Julio Mesquita fazem explodir essa imagem entorpecida. Certamente ele concentrou sua atenção em
Verdun ou em Somme, mas trouxe para a frente do palco todos os atores invisíveis que, nos jornais
franceses ou alemães, ficavam na sombra dos bastidores.

Com Julio Mesquita não são Berlim e Paris que combatem ferozmente: é o mundo inteiro que dança e
morre na fogueira. Pensamos na grande pintura clássica. Em torno do tema principal, no fundo do
quadro, vemos personagens secundários que se agitam, camponeses, um cachorro, uma carroça, que
entram no quadro e mudam seu sentido. Assim trabalhava Julio Mesquita. Enquanto o mundo tinha os
olhos fixos no Marne ou no Somme, ele fazia sair à noite as tropas russas que lá na Prússia Oriental
derrotaram os soldados do alemão Hindenburg. Mais além, introduz no seu quadro os soldados
britânicos cavando trincheiras nos Dardanelos, no Império Otomano. Nos relatos franceses da época, a
guerra é um “assunto provincial”. Nas narrativas de Julio Mesquita, ela é “global”.

A guerra de 1914 foi uma guerra profética. Anunciava, como um pregador do Antigo Testamento, os
contornos do mundo no futuro, primeiramente a 2.ª Guerra Mundial, que incendiou o planeta inteiro e
foi a réplica distorcida daquela de 1914, em seguida o mundo de 2014, arrebatado pela globalização.

Global é a guerra descrita por Julio Mesquita e também global é a atenção que ele prestou ao que
ocorria longe das batalhas: as fábricas que produziam os obuses, os quartéis onde os generais geriam
a morte, nas estações de telégrafo que colocavam em comunicação todos os compartimentos da
guerra, nos ministérios onde eram tramadas alianças, rupturas, traições. Nos hospitais onde eram
cortados braços e pernas, nos portos aonde chegavam as provisões para os milhões de soldados. O
milagre é que essa ampliação prodigiosa da “distância focal”, nos relatos de Julio Mesquita, é
reproduzida numa narração clara, fácil de ler, ordenada. Precisamos abordar também o estilo. Erudito,
às vezes repleto de referências à literatura antiga. A frase é ágil, elegante, sensível, abrasadora ou
indignada, mas sempre sem as “grandiloquências” degradantes que desfiguram a maioria das
narrativas sobre a Grande Guerra.

Para começar, ele estava numa posição de desvantagem, acompanhando o drama a partir de um
observatório a dez mil quilômetros do local. Julio Mesquita fez da dificuldade uma força, da fraqueza
uma superioridade. Seu texto é magnífico. E nos faz ver, sentir, sofrer, tocar nessa guerra do outro lado
do mundo. Não é bombástico. E em cem anos não adquiriu nem uma ruga sequer. Foi escrito esta
manhã. É um “clássico”.

O PRIMEIRO TIRO

Fronteiras da Europa em 1914

Na noite de 28 para 29 de julho de 1914, as águas do Danúbio foram sacudidas em Belgrado por
estilhaços de granadas de artilharia. Eram austro-húngaras e haviam sido lançadas horas depois de
Viena declarar guerra ao pequeno reino sérvio. Os generais que planejaram a ação pensavam ter
começado o que seria a terceira guerra balcânica. De fato, o chefe do estado-maior austríaco, Conrad
von Hötzendorf, confiante no apoio alemão, acreditava poder acertar as contas com a Sérvia em três
meses, confinando o conflito ao Sudeste europeu, assim como acontecera nas duas disputas
anteriores que haviam envolvido, em 1912 e em 1913, a Bulgária, a Romênia, o Império Otomano, a
Grécia, Montenegro e a mesma Sérvia.

Mas a presença de um dos grande poderes europeus nesse cenário e o sistema de alianças que ligava
as potências do continente mudariam tudo dessa vez. A Rússia decretou a mobilização geral de seu
exército no dia 30 para proteger a Sérvia, sua aliada. Em 1.º de agosto, a Alemanha, que apoiava os
austríacos, declarou guerra à Rússia. A França, aliada dos russos, decidiu reunir seus soldados no
mesmo dia. No dia 3, a Alemanha declarou guerra à França e deu um ultimato à Bélgica: dar livre
passagem aos alemães. O governo belga negou o pedido - o rei Alberto I decidiu resistir. O país

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acabou invadido no dia 4. A violação de sua neutralidade fez a Grã-Bretanha declarar guerra à
Alemanha.

Os austríacos que lançaram as bombas em Belgrado naquela noite de verão terminariam o ano de
1914 com 957 mil baixas em suas forças, entre mortos, desaparecidos e prisioneiros. Foram repelidos
pelos russos na Galícia (atual Polônia) e, depois de tomar Belgrado em 2 de dezembro, expulsos da
cidade pelos sérvios no dia 13. Seus exércitos deixaram para trás um rastro de 4 mil civis assassinados
na Sérvia - os soldados seguiram as ordens de generais que consideravam, "em um país habitado por
uma população inspirada por um ódio fanático, toda bondade de coração fora de questão". O conflito
balcânico que imaginavam começar se transformara rapidamente em europeu e, pouco tempo depois,
envolveria o planeta: a 1.ª Guerra Mundial.

Raymond Poincaré e a União Sagrada

Republicano moderado, ele nasceu em Bar-le-Duc, de onde sairia durante a guerra a Via Sacra,
estrada que ligava a França a Verdun e sua frente de batalha. Foi eleito presidente da França em 1913,
depois de desrespeitar um pacto entre os partidos republicanos. Nas semanas que antecederam a
deflagração, Poincaré viajou à Rússia, onde incentivou a intransigência de seu aliado, garantindo o
apoio francês em caso de guerra com as potências centrais. Foi acusado de querer a guerra para
retomar da Alemanha a Alsácia e a Lorena, perdidas na guerra franco-prussiana de 1870. Em sua
biografia sobre o político, John Keiger mostra que os papéis privados de Poincaré demonstram que o
francês não era um defensor da guerra e era menos antialemão do que se supunha. Sua mensagem
ao parlamento francês deu o tom de como o mundo político de seu país reagiu à guerra: "A França
será heroicamente defendida por seus filhos; nada deterá, diante do inimigo, a União Sagrada à qual
hoje estão fraternalmente unidos na mesma indignação contra o agressor e na mesma fé patriótica". /
M.G.

ARTILHARIA PESADA

O capitão alemão Harry Kessler tinha 46 anos no começo da guerra. Em suas memórias, ele conta que
estava perto de Liège, na Bélgica, em 12 de agosto de 1914 quando encontrou um grupo de artilheiros
austríacos recém-chegados de Trieste. O porto no Adriático pertencia então ao Império Austro-
Húngaro. Os recém-chegados cruzaram a Áustria e a Alemanha para trazer em segredo quatro
canhões Skoda que disparavam projéteis gigantes de calibre 305 mm. Não eram as únicas peças de
artilharia pesada a chegar naquele dia. Havia outras quatro peças de calibre 420 mm fabricadas pela
indústria alemã Krupp. Eram os gigantes Bertha.

Alberto I, rei da Bélgica

O rei que rejeitou o ultimato alemão para permitir que o vizinho atacasse a França por meio de seu
território subiu ao trono em 23 de dezembro de 1909. A resposta do kaiser Guilherme II ocorreu em 4
de agosto, quando suas tropas violaram a neutralidade belga. O rei dos belgas assumiu o comando de
seu pequeno exército e resistiu ao invasor durante quatro anos instalado atrás do Rio Yser, na região
de Flandres, a única de seu país que os alemães não conseguiram ocupar durante a guerra. Sua
família tinha ligações com a nobreza alemã - ele mesmo ostentava os títulos de duque de Saxe e
príncipe de Saxe-Cobourg-Gotha e sua mãe era a princesa Marie de Hohenzollern-Sigmaringen-, o que
aumentou ainda mais a surpresa na Europa causada por sua resistência ao invasor. O Exército belga
lutou ainda na África (Togo e Namíbia), mas se manteve fora das grandes ofensivas aliadas até pouco
antes do fim da guerra. / M.G.

Todo esse poderio de fogo tinha um objetivo: pôr de joelhos os fortes de Liège, que desde o dia 5 se
recusavam a se render aos alemães. No dia 15, estava tudo acabado. O peso das bombas dos
canhões venceu a resistência belga. O general Gérard Leman foi achado inconsciente entre as ruínas
e aprisionado. Sobre a cena que se seguiu, o historiador inglês John Keegan escreveu: “Da maca, na
qual seus captores o colocaram, ele disse ao general alemão Otto von Emmich: ‘Peço-lhe que dê seu
testemunho de que você me encontrou inconsciente’.”

A invasão da Bélgica começara em 4 de agosto. Ao mesmo tempo, o exército francês atacava na


Alsácia e na Lorena. Com seus casacos azuis e calças vermelhas, os homens marcharam em direção
às posições alemãs em colunas cerradas com bandeiras e fanfarras. Parecia uma cena napoleônica. A
guerra, no entanto, mudara. Milhares foram ceifados pelas metralhadoras e pela artilharia inimiga. Em

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um único dia – 22 de agosto –, os franceses sofreram 22 mil baixas, mais do que qualquer outra nação
em um único dia durante a guerra.

A ofensiva francesa foi um fracasso. Enquanto isso, os alemães aterrorizavam a Bélgica. Nas primeiras
semanas da guerra, 5. 146 civis belgas e franceses foram mortos em 129 represálias contra a
população civil ditadas pela paranoia alemã contra a ação de franco-atiradores. Em Louvain, o invasor
ateou fogo à biblioteca da universidade, queimando 300 mil volumes, executou habitantes e deportou
1,5 mil deles para a Alemanha. Massacres e pilhagens ocorreram em dezenas de cidades, como em
Dinant, onde 647 civis foram fuzilados diante de mulheres e crianças. Vencida a resistência belga, os
alemães caminharam para Paris. Queriam envolver o exército francês e acabar com a guerra em
menos de 40 dias. Marchavam triunfante. Nada parecia detê-los. / M.G.

A GUERRA NO LESTE

A frente Galícia

Em janeiro de 1914, o czar Nicolau II se encontrou com Théophile Delcassé, o embaixador francês em
São Petersburgo. Conversaram sobre um possível conflito na Europa: “Não vamos deixá-los pisar em
nossos pés e, dessa vez, não será como na guerra no Oriente: a nação nos apoiará”, disse o czar.
Nicolau II pensava no perigo de uma nova revolução, como a que ocorrera na Rússia em 1905, depois
da derrota do país na Guerra Russo-Japonesa.

Os exércitos de Nicolau II se dividiram em agosto de 1914. Dois deles se dirigiram à Alemanha,


invadindo a região da Prússia Oriental. Em Gumbinnen, no dia 20, eles bateram os alemães, que se
retiraram em meio a colunas de refugiados. O governo de Berlim pensava que o czar precisaria de 40
dias para mobilizar seus homens. Surpresos com a rapidez russa, decidiu trazer da França dois corpos
de exército, enfraquecendo as forças que invadiam aquele país. “Sem Gumbinnen, jamais teria havido
a vitória do Marne”, escreveu o historiador francês Marc Ferro. A derrota no Marne impediu a vitória
alemã em 1914.

Na Prússia, Gumbinnen provocou a mudança do comando alemão no Oriente. Os generais Paul von
Hindenburg e Erich Ludendorff assumiram a situação e manobraram suas forças de tal forma que
conseguiram cercar o 2.º Exército russo em Tannenberg. Foi a maior vitória alemã da guerra. Seguiu-
se depois o impasse, com os exércitos imóveis entrincheirados um diante do outro durante o inverno.

Mais ao sul, na região da Galícia (atual Polônia), austríacos e russos mobilizaram milhões de homens
desde a fronteira da Romênia até a Alemanha. A sorte da guerra na região mudaria rapidamente, mas
o ano terminaria com um desastres austríacos. Eles perderam a fortaleza de Lemberg e 150 mil de
seus homens estavam cercados em outra fortaleza, a de Przemyls (no sul da atual Polônia). O começo
da guerra significou para os russos a perda de 1 milhão de soldados e de outro 1,26 milhão para os
austro-húngaros. A incapacidade bélica do exército de Viena fez os alemães terem certeza de que
estavam “acorrentados a um cadáver”: a monarquia austríaca dos Habsburgos. / M.G.

Enquanto isso no Brasil...

O começo da guerra de 1914 viu a posse na Presidência do Brasil do mineiro Venceslau Brás. Ele
havia ocupado a Vice-Presidência durante o governo de Hermes da Fonseca (1910 a 1914) e derrotara
o republicano-liberal Ruy Barbosa. O País vivia no sul a Guerra do Contestado, uma rebelião de
caboclos contra os governos estadual e federal em torno da posse de terras em Santa Catarina, que só
acabaria em 1916. Em São Paulo, as famílias da elite cafeeira eram grandes, como a do futuro
presidente Washington Luís, fotografada pela revista Careta.

O futebol era já o esporte mais popular do País – o Flamengo se sagrara campeão carioca pela
primeira vez em 1914. Já os paulistas tiveram dois campeões naquele ano – o Corinthians e o São
Bento –, pois duas ligas distintas organizaram campeonatos no Estado. A publicidade anunciava novas
facilidades da vida moderna: "A senhora está satisfeita com seu marido?" Assim, com essa pergunta,
começava o texto do anúncio da Société Anonyme du Gaz do Rio de Janeiro para convencer que “o
bom marido” era aquele que comprava um fogão a gás para sua mulher. O anúncio ocupava uma
página da revista Careta e estava pouco antes da reportagem sobre as façanhas dos aviadores da
Escola Brasileira de Aviação, em Deodoro.

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Naquele ano, as "pessoas de bem" da então capital federal frequentavam o elegante salão do
Copacabana Club durante o carnaval. Em 28 de junho, quando o jovem Gavrilo Princip matou o
arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, o crime que prendia a atenção do mundo era outro: o
assassinato de Gaston Calmette, diretor do jornal francês Le Figaro. O jornalista foi baleado por
Henriette Caillaux, segunda mulher do ministro das finanças francês, Joseph Caillaux. O motivo do
crime foi o fato de Calmette ter publicado cartas privadas do ministro.

O Estado publicava no dia 1.º de agosto a manchete: A guerra austro-sérvia. No dia seguinte, adotaria
como manchete a palavra que marcou sua primeira página pelos próximos quatro anos: A
Conflagração. A guerra definitivamente entrava no cotidiano dos brasileiros. / M.G.

BATALHA DO MARNE

A Invasão da França

O jovem Yves Congar tinha dez anos e vivia em sua Sedan, na França, perto da fronteira da
Alemanha, quando escreveu em 29 de julho de 1914: “Eu consigo pensar sobre a guerra. Gostaria de
ser soldado e lutar”. Congar se tornaria um dos mais influentes teólogos da Igreja no século 20.
Dominicano, foi consultor do Concílio Vaticano 2.º e se tornaria cardeal em 1994, um ano antes de sua
morte.

Depois da Bélgica, os alemães invadiram a França. Sedan foi uma das cidades ocupadas e saqueadas
pelo invasor – o pai de Congar foi tomado como refém pelos alemães como prevenção à resistência da
população. Os exércitos alemães se dirigiam à região de Paris, um setor defendido apenas pelos 100
mil homens da Força Expedicionária Britânica e pelo 5.º Exército francês. Contra eles, marchavam três
exércitos alemães.

Os aliados foram batidos em Moons, Le Cateau, Maubege e retiravam-se em direção a Paris. Os


alemães atingiram a região do Rio Marne. Não sabiam que o marechal francês Joseph Joffre ordenara
a disposição de uma nova tropa, o 6.º Exército, para defender a capital francesa. Soldados foram
transferidos de trem da fronteira com a Alemanha a tempo de salvar a França. O contra-ataque
começou no dia 5. Sobre essa situação, escreveu o general francês Ferdinand Foch: “Minha direita
está ruindo, minha esquerda está recuando. Excelente. Ataco com meu centro”.

Às 9h02 de 9 de setembro, o 2.º exército alemão recebeu uma das mais dramáticas ordens da guerra:
retirar. Uma brecha entre ele e o 1.º exército alemão se havia aberto e colocava em risco toda a frente.
O mais impressionante da decisão foi ela ter sido tomada por delegação. De fato, foi o tenente-coronel
Richard Hentsch quem a determinou como enviado do chefe de estado-maior alemão, general Helmuth
von Moltke, para avaliar a situação. Para o historiador inglês Max Hastings, a derrota alemã no Marne
foi a “virada, o momento decisivo da 1.ª Guerra Mundial”. / M.G.

A QUEDA DE PRZEMYLS

O grande cerco de Przemyls começou em 17 de setembro de 1914. A cidade-fortaleza mantida pelo


Império Austro-Húngaro na Galícia (atual Polônia) contava com uma guarnição de cerca de 150 mil
homens. Era a chave das defesas do império dos Habsburgos diante dos Montes Cárpatos e acabou
envolvida pela maré russa que tomou a região depois que o exército de Viena foi derrotado perto de
Tarnopol, obrigando os alemães a correr em ajuda de seus aliados.

No fim de 1914, o avanço alemão em direção a Varsóvia havia obrigado os russos a levantar o cerco à
cidade. Era 9 de outubro. E foi por pouco tempo. Com o fracasso da ação alemã, os austríacos
também tiveram de se retirar em 26 de outubro, deixando mais uma vez a cidade-fortaleza sitiada. Ali
perto, no Rio Vístula, o filósofo Ludwig Wittgenstein acompanhou o drama da retirada.

Wittgenstein deixara Cambridge e se alistara no exército austro-húngaro. Foi designado para um barco-
patrulha. A guerra o decepcionou rapidamente. A começar pelos colegas da tripulação. O filósofo
descobriu que “compartilhar uma grande causa (a guerra) não enobrece a humanidade”. “Os russos
estão em nosso encalço”, escreveu no diário. “Trinta horas sem dormir”, anotou. Ele e seus colegas se
retiraram para Cracóvia.

Przemyls passou todo o inverno cercada. Trinta mil civis compartilhariam o destino dos militares. No
começo de 1915, a falta de comida levou ao abate de 13 mil cavalos do exército – na época, o

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transporte militar era largamente dependente da força animal. Em 23 de janeiro, os austríacos


lançaram uma ofensiva para tentar libertar a cidade. Ela fracassou assim como a tentativa seguinte, em
27 de fevereiro. Em 22 de março, a guarnição austríaca se rendeu. Cento e dezenove mil soldados
tornaram-se prisioneiros russos.

Os russos ficariam ali poucos meses. Em maio, os alemães e austríacos começaram uma grande
ofensiva. Em julho, Przemyls foi reconquistada. Em agosto, os russos se retiravam de Varsóvia e do
restante da Polônia.

A frente oriental

Pedro I, rei da Sérvia (1844-1921)

Quando o bombardeio austro-húngaro atingiu Belgrado em 28 de julho, fazia um mês que Pedro I havia
passado o governo de seu país ao filho, o futuro Alexandre I, que se tornou regente em razão da saúde
debilitada do pai. Pedro havia saído vencedor em duas guerras balcânicas - a primeira contra o Império
Otomano e a segunda contra a Bulgária. Colocado no poder pelos ultra-nacionalistas, pretendia criar a
Grande Sérvia, enfrentando a Áustria-Hungria. A Sérvia se tornara uma monarquia constitucional. Em
1914, um nacionalista sérvio - com o auxílio de oficiais do serviço de informações do país - matou em
Sarajevo o arqueduque austro-húngaro Francisco Ferdinando. O episódio levou o vizinho poderoso a
declarar guerra ao reino de Pedro I, que resistiu durante o primeiro ano até que em 1915 foi invadido
por forças austro-húngaras, búlgaras e alemãs. O exército sérvio e Pedro se retiraram pelas
montanhas em direção a Corfu, onde foram resgatados. Em dezembro de 1918, Pedro se tornou o
primeiro monarca da recém-criada Iugoslávia, que englobava a antiga Sérvia e três áreas do antigo
Império Austro-Húngaro: a Eslovênia, a Croácia e a Bósnia-Herzegovina. Morreu em 1921. / M.G.

O CAMINHO PARA LOOS

A frente ocidental

O escritor e poeta inglês Robert Graves contou em suas memórias (Goodbye to At All; leia a resenha
do jornal inglês The Guardian) como sobreviveu nas trincheiras da frente ocidental desde que se
alistara em 1914. “Eu me mantive de pé e vivo bebendo cerca de uma garrafa de uísque por dia.”
Graves foi um dos soldados que participaram da grande ofensiva aliada no Artois, na França, entre
setembro e outubro de 1915.

O velho exército imperial inglês de antes da guerra havia sido consumido no fim de 1914 na 1.º Batalha
de Ypres, no sul da Bélgica. Reconstituído com os voluntários que chegaram aos quartéis cantando It’s
a Long Way to Tipperary, música-símbolo dos homens de uniforme cáqui, o exército inglês teve de
cavar trincheiras a exemplo dos outros combatentes da frente ocidental para sobreviver. Do outro lado
do arame farpado da terra de ninguém (espaço entre as trincheiras inimigas), os alemães cavaram
mais fundo.

No começo do ano, uma primeira ofensiva inglesa fracassara em Neuve-Chapelle. Em maio, os


ingleses atacaram novamente. O alvo era a Crista de Aubers, no Artois. Ao mesmo tempo, os
franceses tentaram conquistar outra área elevada na mesma região, a de Vimy. Os ataques só
acrescentaram mais algumas dezenas de milhares de nomes às listas dos mortos nos campos de
honra publicadas pela imprensa inglesa.

Chegava o dia 25 de setembro. Os ingleses usaram seus engenheiros para colocar minas embaixo da
linha de trincheiras alemãs. Iam explodi-las no momento em que o avanço de seus soldados
começasse. Durante quatro dias, a artilharia martelara as defesas alemãs. Por fim, abriu centenas de
cilindros com o gás cloro, mas o vento contrário fez com que o veneno fosse parar nas linhas inglesas.

Quando deixaram as trincheiras no dia 25, os ingleses pensavam que haveria pouca resistência.
Avançaram de peito aberto em direção aos alemães, que saíram de seus abrigos profundos cavados
nas trincheiras e assumiram os postos em suas metralhadoras a tempo de provocar um massacre. Dos
15 mil britânicos que se lançaram ao ataque, 8 mil foram mortos ou feridos no primeiro dia. A batalha
durou até 14 de outubro. Custou 60 mil baixas aos ingleses e 30 mil aos alemães.

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JIHAD

O prédio em estilo barroco, ao lado do Bósforo, abrigava a embaixada alemã em Constantinopla. Seu
titular era o barão Conrad von Wangenhein, um amigo do kaiser Guilherme II, com excelentes relações
com o governo dos jovens turcos, o grupo político que se rebelara contra o sultão Abdul Hamid II em
1908 – ele acabou exilado e substituído pelo irmão, Maomé V, em 1909. Em agosto de 1914, o alemão
recebeu em seu gabinete o embaixador americano, Henry Morgenthau, e fez uma revelação: o Império
Otomano entraria na guerra do lado da Alemanha, mas o que importava mesmo era “o mundo
muçulmano”. Mais do que ganhar um aliado, os alemães contavam em transformar a conflagração em
uma jihad, uma guerra santa que sublevasse o Islã contra os russos, ingleses e franceses.

As previsões do embaixador começaram a se cumprir em 29 de outubro de 1914. Navios turcos


bombardearam quatro portos russos no Mar Negro. Em 2 de novembro, a Rússia declarou guerra à
Turquia e foi seguida no dia 5 pela Grã-Bretanha e pela França. No dia 14, o xeque Ul-Islam, em nome
do sultão Maomé V, decretou a jihad. Havia 270 milhões de muçulmanos no mundo em 1914, dos
quais 140 milhões viviam sob o mando franco-russo-britânico. Contra esses países, o sultão esperava
lançar o “fogo do inferno”.

Mas os jovens turcos tinham outros planos. Mobilizaram suas melhores tropas para invadir o Cáucaso,
na Rússia, em vez de lançá-las em direção à Índia – a joia da coroa britânica – ou o Canal de Suez, no
Egito, então protetorado britânico. Sem botas e casacos de inverno, o exército turco enfrentou - 31°C e
congelou na Batalha de Sarikamish. O desastre levou à perda de 75 mil homens.

A derrota provocou pânico. Os armênios – cristãos que viviam na região – foram transformados em
bode expiatório. O governo turco decidiu deportá-los, provocando a maior crise humanitária da guerra.
É impossível calcular quantos armênios morreram. As estimativas vão de 1,3 milhão a 2,1 milhões. O
chamado pela guerra santa fracassou. Nenhum movimento de resistência muçulmano nasceu do
decreto de jihad turco.

Por fim, em 25 de abril, franceses, ingleses, australianos e neozelandeses desembarcaram na


Península de Gallipoli, no Estreito dos Dardanelos. Ficaram lá até 1916 e o ataque – concebido por
Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado inglês para levar à derrota da Turquia –
transformou-se em mais um dos desastres militares da guerra. Cento e dez mil turcos e aliados
morreram na campanha. Outros 200 mil ficaram feridos.

FRATELLI D'ITALIA

A frente italiana

Quem dá mais? Essa é a pergunta que pode definir a política em relação à guerra do primeiro-ministro
italiano Antonio Salandra. Ele mesmo a chamava em 1915 de “sacro egoísmo”, ao indagar qual dos
dois lados da guerra poderia assegurar mais ganhos territoriais à Itália em troca de seu apoio. A
entrada da Itália na guerra está intimamente ligada ao chamado irredentismo, movimento que buscava
unir debaixo do governo de Roma todas as regiões habitadas por italianos. Como a maioria delas
estava sob domínio austro-húngaro, não era difícil prever qual lado receberia seu apoio. E assim foi: a
Itália, que antes da guerra era aliada da Alemanha e do Império Habsburgo, as chamadas potências
centrais, declarou guerra à Áustria-Hungria em 23 de maio.

Milhares de italianos e filhos de italianos ao redor do mundo se mobilizaram para lutar pelo país. De
São Paulo partiu em 1915 o jovem Amerigo Rottelini. Nascido em 1894, ele era filho do jornalista
Vitaliano Rottellini, dono do jornal Fanfulla, editado em italiano na cidade. Amerigo se tornou tenente do
exército real italiano e morreu em 24 de agosto de 1917, quando conduzia um assalto com seus
soldados. Em São Paulo, o comendador Ermelino Matarazzo fundou o Comitatto Pro Patria, para reunir
doações em dinheiro, alimentos e roupas para os soldados italianos e seus familiares – esforço que lhe
valeu o reconhecimento do governo italiano.

Quatro quintos da fronteira italiana com os austríacos eram constituídos de montanhas de até 3 mil
metros de altitude cobertas de gelo e neve no inverno. Explosões ali podiam facilmente provocar
avalanches. E os italianos atacaram nos Alpes da região do Trentino e no Vale do Rio Isonzo, perto do
Mar Adriático. Só nas quatro batalhas do Isonzo, em 1915, 54 mil italianos morreram e pouco terreno
foi conquistado. Um novo impasse com os exércitos imobilizados em trincheiras surgia na Europa.

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O MUNDO EM GUERRA

Gás

Civis russos vítimas do gás alemão. Crédito: Acervo Estado

Os alemães inventaram a guerra química. Em 1914, o gás foi usado em Neuve Chapelle, em outubro
de 1914. A quantidade era pouca e passou despercebida pelos ingleses. Em janeiro de 1915, nova
ação alemã. Dessa vez, na frente oriental. Em Bolimov, testaram um gás lacrimejante contra os russos,
mas a maior parte congelou. Foi só em abril de 1915 que seu exército esperou o vento soprar em
direção aos franceses e liberou gás cloro de seis mil cilindros abertos em suas trincheiras. Quase seis
mil soldados morreram. Durante a guerra, ingleses, franceses e alemães usaram 130 toneladas de
gases venenosos. Depois do cloro, outros agentes, como gás mostarda e o fosgênio, foram utilizados.
A arma que se tornou um dos símbolos da guerra seria banida delas por meio de tratado internacional
em 1925. / M.G.

Às 9h15 de 25 de setembro, o bombardeio das linhas alemãs cessou. Dois milhões de obuses haviam
sido lançados pela artilharia francesa em três dias. Foi quando os homens do 23.º Regimento de
Infantaria Colonial se lançaram ao ataque. No fim do dia, mil deles estavam mortos, mas a posição
alemã em Massiges, na Champagne, no norte da França, estava conquistada. Os regimentos coloniais
eram constituídos principalmente por soldados da metrópole enviados às colônias. Eles foram
mobilizados para a guerra assim como as unidades de tirailleurs (atiradores), formadas pelos povos
das colônias.

Quase um milhão de marroquinos, zuavos, spahis, senegaleses, marroquinos vietnamitas e malgaxes


foram enviados para a luta na Europa. Os ingleses mobilizaram 1,3 milhão de tropas do Canadá, da
Austrália, da Nova Zelândia e da África do Sul, que lutaram na Europa. Outro 1 milhão de africanos e
hindus entraram no exército inglês. Eles combateram os otomanos na Mesopotâmia, no Sinai, na
Palestina e enfrentaram os alemães na China e na Tanzânia, nos Camarões e na Namíbia, as três
principais colônias alemãs na África.

No Oriente Médio, a revolta árabe – com a ajuda do oficial inglês T.E. Lawrence, o Lawrence da
Arábia interpretado por Peter O’Toole no filme dirigido por David Lean – e a promessa inglesa de
terra e liberdade para árabes e judeus começariam a desenhar a crise que toma conta da região até
hoje. Os ingleses contaram com os japoneses na ação contra as colônias alemãs na China e no
Pacífico. Em 7 de novembro, os 5 mil alemães da guarnição de Tsingtao se renderam aos 60 mil
japoneses e 2 mil britânicos que os cercaram. A tomada de Tsingtao marcou o início do expansionismo
japonês na China,política que levaria o país a atacar Pearl Harbor em 1941. Os japoneses
completariam sua ação na Grande Guerra tomando para si as Ilhas Marina, Carolinas, Marshall e
Gilbert.

Em 7 de junho de 1915, o jornalista Julio Mesquita escreveu no Estado:

Não se contentou o império do Mikado com o rico prato de gordas e saborosas concessões e
magníficos privilégios que a Alemanha lhe preparou, a Inglaterra lhe ofereceu, e ele aceitou por conta
de maior quantia. O Japão quer mais e tenta reduzir a pobre China, hoje mais desamparada que
nunca, a uma quase completa vassalagem, resolvendo assim, quase sem esforço, (...) o amplo e
complicado problema da dilatação do seu domínio e da sua supremacia no Extremo Oriente.”

Na África, os alemães foram derrotados na Namíbia e em Camarões em campanhas nas quais os dois
lados mobilizaram grandes contingentes de tropas nativas. Do outro lado da África, o general alemão
Paul von Lettow-Vorbeck lutou contra ingleses, sul-africanos, portugueses, moçambicanos, congoleses
e hindus. No começo, tinha 3 mil askaris (soldados negros) e 200 oficiais alemães. Depois, aumentou
seu exército para 20 mil homens – seus inimigos eram 300 mil. Lettow-Vorbeck se rendeu em 25 de
novembro de 1918, depois de o armistício ter sido assinado na Europa.

1916

O ANO DE VERDUN

A Batalha de Verdun

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Quem não viu esses campos de morte jamais terá a menor ideia deles. Em Verdun, os mortos não
contavam. Nem se enterravam. Da lama inescapável à sede infinda, o ambiente tornava improvável
que a vida de um soldado durasse mais de 15 dias na frente de batalha.

“Quando a gente chega, os obuses chovem em toda parte e a cada passo. Apesar de tudo, é
necessário avançar. A gente deve se contorcer para não passar sobre um morto coberto no fundo da
trincheira. Mais longe, vários feridos recebem curativos, outros são levados em macas para retaguarda.
Uns gritam, outros gemem. Vê-se os que não têm mais pernas; outros estão sem a cabeça e
permanecem várias semanas no chão”, escreveu em uma carta um soldado da 65.ª Divisão de
Infantaria francesa, em julho de 1916. A luta ali só terminaria em dezembro.

Para a França, 1916 é o ano de Verdun, o ano da batalha que o estado-maior alemão planejou para
sangrá-la até o fim. O plano era atacar a histórica fortaleza e forçar o inimigo a contra-atacar até
esgotar suas forças. O assalto alemão começou em 21 de fevereiro. Um conjunto de 1,2 mil canhões
disparou em uma frente de 20 quilômetros de extensão. O avanço inicial alemão foi avassalador. O
Forte de Douaumont, o coração do sistema defensivo de Verdun, caiu às 3h30 do dia 25.

A cidade só não caiu por causa da determinação francesa. O general Philippe Pétain assumiu o
comando. A estrada que ligava Verdun a Bar-le-Duc se transformou na Via Sacra. O tráfego ali não
parava, dia e noite. O que parecia ser a véspera da vitória alemã se transformou em mais uma batalha
de atrito, um moedor de carne e de materiais. E assim foi até que os franceses contra-atacaram. No dia
21 de outubro, os marroquinos e a infantaria colonial retomaram Douaumont. Na noite de 2 para 3 de
novembro, foi a vez da reconquista do Forte de Vaux. Em 15 de dezembro, a última ofensiva francesa
assegurou mais cinco fortificações e fez 11,3 mil prisioneiros. As baixas alemãs chegaram a 337 mil –
dos quais 143 mil mortos –, enquanto as francesas atingiram 377,2 mil – 162,4 mil mortos.

O MASSACRE DO SOMME

Um general que participara de sessões espíritas na qual conversara com o espírito de Napoleão e
pensava poder se comunicar com Deus era o homem que os ingleses encontraram para comandar seu
exército em 1916. Assim era Douglas Haig, conta o historiador inglês John Keegan. No dia 1.º de julho
de 1916, ele lançou seus homens no vale do Rio Somme contra as defesas alemãs – alguns dos
abrigos inimigos tinham mais de dez metros de profundidade e eram impenetráveis para qualquer
projétil de artilharia britânica.

Pior do que as defesas alemãs foi a inépcia do comando. Em alguns setores, nem mesmo o arame
farpado que separava os ingleses dos alemães foi destruído e isso significava a morte para qualquer
soldado que tentasse atacar o oponente. Dos 100 mil ingleses que subiram o topo de suas trincheiras
para avançar contra o inimigo, 19.240 morreram e outros 38.230 ficaram feridos ou desaparecidos no
primeiro dia da ofensiva.

Os ingleses insistiram nos ataques nos meses seguintes. E lançaram mão de uma grande inovação na
história das guerras. Em Flers, no dia 15 de setembro, eles levaram 32 Mark I para a frente de batalha.
Eram monstrengos que se deslocavam lentamente e carregavam dois canhões de 57 mm e quatro
metralhadoras. Eles surpreenderam os alemães, mas ainda levaria algum tempo até que esse invento
se tornasse decisivo nos campos de batalha.

Depois disso, a chuva se encarregou de deixar o terreno do Somme intransitável. Até que em 18 de
novembro as operações na região foram suspensas. Um balanço de perdas é difícil de se fazer. Hew
Strachan, outro notável historiador inglês da 1.ª Guerra, calcula em 650 mil as baixas alemãs –
incluindo aí feridos leves – e 614 mil dos aliados, das quais 420 mil foram britânicas. Tudo isso para a
conquista de poucos quilômetros de terra e pelo sonho de abrir uma brecha na linha inimiga e, assim,
pôr um fim à guerra. / M.G.

GUILLAUME APOLLINAIRE

O poeta Guilhaume Apollinaire foi um dos escritores que combateram na 1.ª Guerra Mundial. Engajou-
se na artilharia e foi ferido gravemente em combate. Calligrammes, sua principal obra, tem como
subtítulo "poemas da paz e da guerra" (Apollinaire, Oeuvres poétiques, Gallimard, Bibliothèque de la
Pléiade). As imagens da guerra e de suas misérias estão presentes em diversos poemas de
Apollinaire, como neste, Cota 146, o terceiro dos Poèmes à Madeleine.

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COTA 146¹

Planos Desolação inferno de moscas Fusão de verde


branco e vermelho
Salvas de 50 bombas nas trincheiras tal qual
de quatro nos debatemos para expulsar a po-
eira do tapete
Crateras góticas como as catedrais
Rumor de moscas violentas
Cartas lacradas em uma caixa de charutos de Oran²
A entrega d'água vem com suas vasilhas
Os feridos vão sozinhos pelos inumeráveis caminhos
secos
Ramificações de Decauville
Lá se joga esconde-esconde
Se faz a cabra-cega
Que sonhos
Madeleine o que não é do amor não tem remédio
Tuas fotos no meu peito
E as moscas metálicas são pequenos astros talvez
A cavaleiro a cavaleiro a cavaleiro a cavaleiro
Ó plano onde em toda cratera vegetam os homens
Ó plano onde as trilhas vão como os traços sobre
a ponta dos dedos nas pedras monumentais de Gravinis
Madeleine teu nome é uma rosa incerta
rosa dos ventos ou da roseira
Os vaqueiros vão às fontes a 7 km daqui
Perthes Hurlus Beauséjour nomes pálidos e tua Cidade sobre
Tourbe³
Cemitérios de soldados cruzes onde chora o quepe
Sombra de carne putrefata as árvores assim raras
são mortos pregados na cruz
Ouvi chorar o obus que passa em tua testa

1. Cota é a designação militar de uma elevação em um terreno. Os artilheiros, como era o caso de
Apollinaire, usavam referências na paisagem para calibrar o tiro de seus canhões

2. A caixa pode ser de charutos, mas também craniana, ou seja de cabeça. As cartas estariam
lacradas na cabeça. Nesse sentido, Oran, na Argélia, seria uma referência às tropas colonias vindas da
África para combater na França.

3. Cidades do Vale do Rio Marne, onde se travaram combates na 1.ª Guerra. O Tourbe é um rio da
região do Marne. Apollinaire foi ferido na cabeça durante os combates.

COTE 146

Plaines Désolation enfer des mouches Fusées le vert


le blanc le rouge
Salves de 50 bombes dans les tranchées comme quand
à quatre on fait claquer pour en faire sortir la pous-
sière un grand tapis
Trous semblables à des cathédrales gothiques
Rumeur des mouches violentes
Lettres enfermées dans une boîte de cigares venue d'Oran
La corvée d'eau revient avec ses fûts
Et les blessés reviennent seuls par l'innombrable boyau
aride
Embranchement du Decauville
Là-bas on joue à cache-cache
Nous jouons à colin-maillard
Beaux rêves

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Madeleine ce qui n'est pas à l'amour est autant de perdu


Vos fotos sur mon coeur
Et les mouches métalliques petits astres d'abord
A cheval à cheval à cheval à cheval
O plaine partout des trous où végètent des hommes
O plaine où vont les boyaux comme les traces sur le
bout des doigts aux monumentales pierres de Gravinis
Madeleine votre nom comme une rose incertaine
rose des vents ou du rosier
Les conducteurs s'en vont à l'abreuvoir à 7 km d'ici
Perthes Hurlus Beauséjous noms pâles et toi Ville sur
Tourbe
Cimitières de soldats croix où le képi pleure
L'ombre est de chairs putréfiées les arbres si rares sont
des morts restées debout
Ouïs pleurer l'obus qui passe sur sa tête.

O GENERAL E O MONGE

A Ofensiva
Brussilov

1.º de junho a 29 de setembro

Gregory Rasputin era um monge que acreditava que podia resolver problemas das mulheres com
casamentos conturbados mantendo com elas relações sexuais. Suas crenças e escândalos pareciam
pôr em risco a segurança do próprio estado russo ainda mais quando sua influência sobre a czarina
Alexandra o permitia fazer e desfazer ministros. A mulher de Nicolau II acreditava que Deus enviara o
monge, pois só ele parecia cessar os sofrimentos do herdeiro do trono, seu filho Alexei, que era
hemofílico.

Rasputin era contra a guerra e tentou fazê-la parar ou limitar seus efeitos, mesmo durante as batalhas
vitoriosas. O místico se tornara um estorvo para nobres e militares, entre eles Aleksei Brussilov, o mais
competente entre os generais russos da 1.ª Guerra. Em 4 de julho de 1916, apoiado por quase 2 mil
canhões, ele lançou a ofensiva que levaria seu nome na região da Galícia (atual Polônia). Tinha 200
mil homens para lutar contra 150 mil austro-húngaros. Em pouco tempo, Brussilov abriu um brecha nas
defesas inimigas e fez mais de 100 mil prisioneiros. Alemães e austríacos tiveram de trazer tropas da
França e da Itália para detê-lo, mas suas vitórias continuaram em agosto e setembro. Os combates
haviam provocado quase 2 milhões de baixas nos dois lados quando o monge aconselhou a czarina a
pedir a Nicolau II que acabasse com a ofensiva, o que foi feito.

A decisão fez de Brussilov um conspirador. Ele se juntou ao grupo de civis e militares que pretendiam
prender a czarina, depor o czar e entregar o poder ao seu primo, o grão-duque Nicolau Nicolaievitch.
Depois da Revolução de Fevereiro, que deporia a monarquia em 1917, Brussilov comandou os
exércitos russos até agosto, quando foi substituído após o fracasso da ofensiva lançada pelo governo
provisório de Alexander Kerensky. No fim de sua vida, Brussilov viveria aposentado em Moscou e
apoiaria o esforço de guerra soviético em 1920 no conflito com os poloneses. Morreu em 1924. / M.G.

Francisco José, o imperador da Áustria-Hungria

Em 1917, o império dos Habsburgos era uma entidade doente. Um espectro o rondava desde que
Francisco José I subiu ao trono aos 18 anos: a revolução. Era 1848. As revoltas na Boêmia, em Viena
e na Hungria levaram à abdicação de Fernando 1º em favor de seu sobrinho. O homem que se formara
à sombra do conde de Metternich e do general Joseph Radetzky (homenageado pelo compositor
Johann Strauss com a marcha que leva seu nome) esmagou as rebeliões, mas teve depois de ceder.
Primeiro, por meio do acordo com os húngaros, criando o dualismo da monarquia.

Depois, assistiu ao longo declínio militar do império, derrotado nas guerras de reunificação da Itália (por
franceses e piemonteses, na Batalha de Solferino, em 1959) e da Alemanha (pela Prússia, na Batalha
de Sadowa, em 1866). Teve de aceitar o voto universal no império em 1907, ao mesmo tempo em que
anexava a Bósnia-Herzegovina. Quando a guerra começou, sua autoridade estava esgarçada. A morte

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do sobrinho e herdeiro, Francisco Ferdinando, em um atentado cometido por nacionalistas sérvios em


Sarajevo, foi usada pelos falcões de sua corte para levar o império à guerra em 28 de julho contra a
Sérvia, decisão que arrastou a Europa e depois o mundo para a conflagração. Morreu em 1916. Com o
fim da guerra e a derrota no conflito, o império se desfez. / M.G.

BLOQUEIO

Winston Churchill dizia que havia um único homem na Inglaterra que podia perder a guerra em uma
única tarde. Esse homem era John Jellicoe. Desde 1588, nenhum almirante britânico havia tido sob seu
comando toda a esquadra do país. E, se ela fosse derrotada pela frota de alto-mar alemã, o reino
ficaria indefeso. Para o escritor Max Hastings, Churchill exagerava. Mesmo que Jellicoe sofresse
pesadas baixas, faltaria aos alemães meios de impor um bloqueio ao Reino Unido, única forma de
esmagar a Grã-Bretanha.

A guerra no mar começara em agosto. No Pacífico, o almirante alemão Maximilian von Spee levou seu
esquadrão da China ao Chile, onde afundou na Batalha de Coronel, em 1.º de novembro, os
cruzadores britânicos mandados para interceptá-lo. Foi a pior derrota inglesa nos mares durante a
guerra. Para enfrentar Spee, os britânicos mandaram dois cruzadores de batalha e cinco cruzadores
leves. O encontro ocorreu em dezembro diante de Port Stanley, nas Ilhas Malvinas. Três navios
alemães foram afundados pelos ingleses e 2,2 mil marinheiros morreram. Pouco antes, os alemães
haviam perdido seu cruzador Emden nas Ilhas Coco.

Depois disso, só em duas oportunidades durante o conflito a guerra no mar envolveria os


encouraçados das grandes frotas. A primeira foi em Dogger Bank, quando os alemães perderam a
maior oportunidade estratégica durante a guerra de enfrentar com todas as suas forças uma parte
reduzida da esquadra inglesa. A segunda vez foi em Jutlândia, a grande batalha naval da guerra.
Jutlândia foi um desses momentos em que o dito de Churchill poderia ter se transformado em verdade.
As duas grandes esquadras se enfrentaram no Mar do Norte entre os dias 31 de maio e 1.º de junho.
Vinte e cinco navios foram a pique, matando 8,5 mil marinheiros. Depois disso, a frota alemã não mais
deixou seus portos.

A guerra no mar continuaria até 1918. Mas a Alemanha apostaria unicamente em seus submarinos
para dobrar a Grã-Bretanha e acabar com o bloqueio inglês, que a partir de 1917 começou a sufocar a
economia alemã. O uso indiscriminado da guerra submarina atingiria navios de países neutros, como
os Estados Unidos e o Brasil, que declararia guerra à Alemanha em outubro de 1917. Tudo isso por
nada, pois, no fim, os submarinos se mostrariam incapazes de atingir decisivamente a Inglaterra e os
seus aliados. / M.G.

A GUERRA NO CÉU

O capitão americano Eddie Rickenbacker decolou em seu avião para abater balões inimigos.
Amanhecia e não havia previsão de que aviões inimigos estivessem no ar até que um caça alemão
apareceu diante do avião Spad do capitão. Eles sobrevoavam a região entre o Rio Meuse e a Floresta
da Argonne. O caça alemão começou a atirar e Rickenbacker respondeu. Ambos foram atingidos. O
inimigo caiu entre as trincheiras americana e alemã, tornando-se um dos 26 aparelhos abatidos pelo
piloto americano na guerra.

Com o motor avariado, o capitão pousou em um campo em Verdun. Foi quando os mecânicos
examinaram a aeronave. Havia 27 perfurações em seu avião. Uma delas entrara pelo lado direito do
para-brisa. Quando era criança em Omaha, no Nebraska, no Meio-Oeste americano, o capitão
Rickenbacker sofreu um pequeno acidente. Uma cinza quente caiu em seu olho direito, deixando um
ponto negro em sua pupila. O problema não impediu que ele se tornasse uma dos principais ases da
aviação na 1.ª Guerra Mundial. Mas Rickenbacker sempre teve medo de que o pequeno ponto negro o
impedisse de ver a aproximação de um avião inimigo. Por isso, ele mirava com o olho esquerdo, o que
o fazia se inclinar para esse lado no cockpit de seu avião. Foi o que o salvou naquele dia. A bala
passou a uma polegada de sua cabeça.

Poucos dos maiores ases da guerra sobreviveram ao conflito. O alemão Manfred Richthofen, o Barão
Vermelho, morreu em 21 de abril de 1918 depois de derrubar 80 inimigos. O major inglês Edward
Mannock morreu no dia 16 de julho de 1918 após abater 73 inimigos. O italiano Francesco Barraca fora
abatido dias antes, em 19 de junho, depois de colecionar 34 vitórias contra os inimigos. Em 11 de

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setembro de 1917, foi a vez de o capitão francês Georges Guynemer ser morto. Ele havia vencido 53
combates e sobrevivido a sete pousos de emergência após ser atingido por inimigos.

A 1.ª Guerra Mundial viu o avião se transformar em uma arma letal. Além dos combates entre pilotos,
eles também foram usados para metralhar e bombardear tropas e cidades. Era o começo de uma era
que tornaria o domínio dos céus uma das condições para a vitória na guerra moderna. / M.G.

1917

REVOLUÇÃO

Marcelo Godoy

Um exilado russo que vivia na Suíça escreveu em setembro de 1914: “A transformação da atual guerra
imperialista em guerra civil é a única palavra de ordem proletária justa”. Nos anos que se seguiram, o
grupo clandestino que ele – Vladimir Ilitch Lenin – comandava se tornaria a mais poderosa força
política de seu país. Sob a promessa de paz, pão e terra para o povo, os bolcheviques acabaram com
o conflito com a Alemanha. Retiraram o império do czar da conflagração mundial, mas o país
mergulharia até 1921 em uma guerra civil tão mortífera quanto a primeira.

No começo de 1917, dois anos e meio de guerra, com suas doenças, mortes, destruição e fome,
haviam colocado a Rússia novamente à beira da revolução, como em 1905, quando o país perdera o
conflito para o Japão. Em janeiro, um agente secreto da polícia do czar escreveu: “Crianças estão
emaciando. A revolução – se isso ocorrer – será espontânea, semelhante a um motim contra a fome.”
Em 22 de janeiro, sua previsão se cumpriu. Cento e cinquenta mil trabalhadores marcharam por
Petrogrado e dezenas de milhares fizeram o mesmo em outros cidades russas. Alguns carregavam
cartazes: “Abaixo a guerra” e “Abaixo a autocracia”. Em 8 de março (calendário ocidental), mulheres da
indústria têxtil entraram em greve. Em dois dias, 200 mil trabalhadores estavam parados.

Nas ruas, o embaixador francês, Maurice Paléologue, os ouvia cantar a Marselhesa. Fora da cidade, o
czar ordenou que a guarnição de Petrogrado restabelecesse a ordem. Mas, no dia 11, os soldados
começaram a se amotinar. Na tarde seguinte, mais de 20 mil deles estavam nas ruas. Impedido de
voltar a Petrogrado, o czar parou no quartel do general Nicolai Ruszkiy. Ele e o chefe do estado-maior,
general Mikhail Alekseyev, aconselharam-no a abdicar. Entre a lealdade ao soberano ou à nação,
disseram, o exército escolheria a segunda. E assim foi. Nicolau II renunciou em favor de seu irmão
mais novo, Miguel, que por sua vez renunciou um dia depois e convocou a eleição de uma Assembleia
Constituinte. Um governo provisório sob o comando do príncipe Georg Lvov assumiu o poder.
Acabavam assim três séculos de domínio dos Romanov.

UM PLANO INFALÍVEL

A frente ocidental

Janeiro a maio de 1917

Os aliados tinham tudo planejado. Os ingleses atacariam da direção norte, no Artois, para o oeste
enquanto os franceses avançariam do sul, no Chemin des Dames, em direção ao norte. O movimento
criaria duas grandes pinças para cercar os alemães na região do Rio Somme, que formava uma
saliência na frente de combate. Mas, dias antes de os ataques começarem, o inimigo se retirou da área
que deveria ser envolvida pelo avanço aliado, deixando a ala esquerda da ofensiva francesa na região
do Rio Aisne sem oposição.

“A conclusão lógica era adiar toda a operação”, escreveu o historiador inglês Hew Strachan. Mas os
aliados decidiram o contrário. E um dos motivos para isso foi salvar a Rússia. “Não esqueçam que o
exército francês está fazendo preparativos para uma grande ofensiva, e o exército russo tem o dever
de honrar a sua parte nisso”, escreveu o embaixador francês em Petrogrado, Maurice Paléologue, ao
governo provisório daquele país em 13 de março.

A retirada alemã diminuíra a frente de combate que seu exército devia cuidar. Durante meses, seus
homens haviam escavado uma grande fortificação, conhecida como Linha Hindenburg, e ali se
abrigaram à espera dos aliados. Mesmo assim, os ingleses atacaram na região de Arras em uma frente
de 24 quilômetros onde o inimigo ainda se mantinha firme. Eles reuniram 2,7 milhões de projéteis de

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artilharia com espoletas rápidas, que explodiam quando a bomba tocava no solo, aumentando seu
impacto e cortando facilmente o arame farpado.

Durante todo o inverno, tropas canadenses foram treinadas para se acostumar com o terreno que
deveriam conquistar. Os soldados avançaram logo atrás do fogo da artilharia, que fazia uma barragem
logo adiante. Por volta das 13 horas de 9 de abril, eles haviam avançado 3,5 quilômetros e capturado
as colinas conhecidas como Vimy Ridge. Os alemães trouxeram reforços. Em pouco tempo, barraram o
avanço aliado. Mais um plano para resolver o impasse da guerra de trincheiras começava a atolar. /
M.G.

OS MOTINS DO EXÉRCITO FRANCÊS

A abdicação do czar na Rússia coincidiu com uma série de crises governamentais na França. O
comandante do Exército, Joseph Joffre, havia sido afastado depois de ser considerado culpado pelo
fracasso da estratégia em 1916. Seu sucessor como comandante-em-chefe, o general Robert Nivelle,
tinha certeza de ter a fórmula para romper as linhas alemãs e ganhar a guerra. Isso significava mais
ofensiva.

Para azar dos soldados franceses, seu general escolheu atacar o Chemin des Dames, a região que
abrigava as mais fortes defesas alemãs em toda a frente ocidental. Três exércitos se lançaram em
direção à catástrofe em 16 de abril. As bombas da artilharia francesa caíram em trincheiras alemãs
vazias – de sua posição mais alta, os inimigos puderam antever toda a preparação de Nivelle e se
retirar.

O massacre foi quase completo. Quando o fogo dos canhões cessou, a infantaria francesa foi
surpreendida pelas metralhadoras alemãs colocadas em pontos estratégicos. Em uma semana, os
hospitais que esperavam 10 mil feridos estavam lidando com 96 mil. Uma divisão senegalesa, cujos
soldados já sofriam com o congelamento, perdeu 60% de seu efetivo. Os soldados começaram a
desobedecer. Cerca de 40 mil deles, concentrados entre as cidades de Soissons e Reims, recusaram-
se a voltar para a linha de frente.

Era uma espécie de greve contra o comando incompetente e as péssimas condições de vida nas
trincheiras. Eles queriam também mais licenças para visitar suas famílias. Os soldados ainda estavam
dispostos a defender a França, mas dentro de suas condições. Diante do desastre militar e da crise no
exército, o governo resolveu nomear o general Phillipe Pétain chefe do estado-maior em 29 de abril.
Era o começo da queda de Nivelle.

No começo de maio, soldados que se dirigiam a Chateau Thierry contavam a Internacional e gritavam
“abaixo a guerra e “longa vida à revolução”. Em 8 de maio, Pétain substituiu Nivelle como comandante-
em-chefe do Exército. No dia seguinte, a ofensiva no Chemin des Dames foi suspensa - a França
registrava 187 mil mortos ou feridos.

Os motins foram reprimidos com vigor moderado: dos 629 soldados condenados à morte entre maio e
outubro, só 43 foram executados. Pétain aumentou as licenças e atendeu a outras reivindicações dos
soldados. O mais importante, porém, é que a partir dali o exército francês adotou a defesa como sua
estratégia de guerra./ M.G.

A MORTE NOS FLANDRES

'Tempestades de Aço'

O escritor alemão Ernest Jünger lutou na Primeira Guerra durante quatro anos. Foi ferido diversas
vezes e fez de suas notas durante a guerra seu mais famoso livro: Tempestades de Aço
(Stahlgewittern). Eis um trecho sobre Passchendaele:

Defrontamo-nos em todo lugar com traços da morte. Parecia que não podíamos encontrar alma viva
nesse deserto. Aqui, atrás de uma cerca arruinada, um grupo jaz – os cadáveres ainda recobertos pela
terra que chovera sobre eles após o estouro do obus. Ali, dois mensageiros estão estendidos na borda
de uma cratera de onde ainda sobe a fumaça de gás da explosão. Em outro lugar, numerosos corpos
dispersos em um pequeno espaço: um destacamento de intendentes tombados em meio à chuva de
fogo, ou uma seção desgarrada de reforços que ali encontrou a sua morte. Fizemos nossa entrada;
abraçamos com um olhar os segredos desses cantos mortais e voltamos a desaparecer na fumaça.”

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Tradução da edição francesa (Orages d’Acier): Marcelo Godoy

Durante um ano, engenheiros ingleses cavaram a 25 metros de profundidade galerias em direção à


Crista de Messines, na Bélgica. Vinte e quatro túneis foram abertos. Debaixo dos profundos abrigos
das trincheiras do inimigo, os britânicos depositaram 500 mil quilos de explosivos. Com a exaustão de
franceses e russos, Londres foi obrigada a fazer sua ofensiva sozinha. A escolha da marinha e do
exército foi atacar nos Flandres, no sul da Bélgica, a fim de avançar até as cidades costeiras de Ostend
e Zeebrugge, acabando com as bases que os alemães criaram para seus submarinos naquele país.

Eram 3h10 de 7 de junho quando 19 detonações das gigantescas minas criaram “rosas com pétalas
carmim ou enormes cogumelos de fogo e terra, que subiram para o céu”, escreveu o historiador John
Terraine em The Road to Passchendaele. Dez mil soldados alemães foram soterrados pelas explosões
que, de tão fortes, chegaram a ser ouvidas no sul da Inglaterra. O bombardeio que se seguiu foi
terrível. Dois mil canhões causaram outras 15 mil baixas no inimigo. Por volta da meia-noite, toda a
região leste da crista estava nas mãos dos britânicos. Era o começo da campanha de Passchendaele,
a pequena cidade belga que se transformaria em sinônimo de perdas inúteis e da futilidade da guerra.

Para o general William Robertson, chefe do estado-maior imperial, os ingleses estavam voltando aos
seus velhos princípios. “Em vez de planejar romper a frente inimiga, nosso objetivo é dobrar o exército
inimigo, o que significa lhe infringir perdas mais pesadas do que as que sofreremos.” Com a crista em
suas mãos, britânicos, canadenses e australianos avançaram em direção ao Planalto Gheluvelt. Mas,
no fim de agosto, pouco avanço havia sido feito. Mesmo assim, a ofensiva seguiu adiante.

A chuva era contínua. A lama era tanta que só se conseguia caminhar por cima de passarelas de
madeira. Mulas afundavam até afogar em buracos abertos por explosões que estavam cheios de lama
e água. Era impossível para a equipe de um canhão atirar com rapidez e precisão – cada vez que os
tiros eram feitos, a bateria afundava no solo.

Em novembro, quando a ofensiva foi suspensa, os ingleses contavam 275 mil baixas – 70 mil delas
eram mortos. Ao todo, os aliados perderam cerca de 500 mil homens. Mais do que os 380 mil de seus
inimigos. O plano de Robertson fracassara. / M.G.

OS YANKEES – E OS DÓLARES – ESTÃO CHEGANDO

Em 28 de novembro de 1916, o Federal Reserve americano publicou uma advertência contra a compra
de títulos de tesouros estrangeiros. A Grã-Bretanha gastava então US$ 250 milhões por mês nos
Estados Unidos – metade para si e a outra para seus aliados. Entre outubro de 1916 e abril de 1917,
França e Inglaterra gastaram US$ 1,5 bilhão nos EUA – seis quintos desse total saíram das venda de
títulos públicos em Nova York. O investidor médio americano estava totalmente dependente da vitória
dos aliados da Entente – aliança militar que reunia Grã-Bretanha, França e Rússia. Uma semana
depois da advertência do Fed, US$ 1 bilhão haviam evaporado no mercado de ações.

George V e o nome de sua família

A guerra já estava no fim de seu terceiro ano quando George V tomou uma decisão: mudou o nome da
família real inglesa de Saxe-Coburg-Gotha para Windsor. O nome anterior era por demais germânico
em uma época em que os britânicos se preparavam para mais uma controversa ofensiva no continente
– em Passchendaele, na Bélgica –, preparada pelo general Douglas Haig. George V, rei da Grã-
Bretanha e da Irlanda e imperador das Índias, era um monarca popular, o que não impediu em 1916 o
levante nacionalista da Páscoa de incendiar uma das partes do império: a Irlanda. O fuzilamento de
vários líderes rebeldes não deteve o plano de Eamon de Valera de obter a independência do país na
década seguinte. Foi em seu reinado que a Índia começou a dar os primeiros passos rumo à
independência. Morreu em 1936, antes que a crise colonial após a 2.ª Guerra Mundial abrisse caminho
para o fim dos grandes impérios coloniais. / M.G.

Alheia a isso, a elite militar alemã não queria mais saber dos argumentos do chanceler Bethmman
Hollweg. Exigia que a guerra submarina fosse feita sem restrições. Queria torpedear qualquer navio
que se dirigisse à Grã-Bretanha, fosse de país neutro ou não. Afundar tudo o que se aproximasse das
ilhas inimigas era a única saída possível contra o bloqueio naval que os ingleses impunham à
economia de Berlim. Os comandantes da marinha e do exército colocaram o kaiser Guilherme II contra
parede. Obtiveram o sinal verde em 8 de janeiro de 1917 e, em 1.º fevereiro, o país soltou as rédeas
dos submarinos.

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Dois dias depois, os Estados Unidos decidiram romper relações diplomáticas com a Alemanha. No dia
17 de fevereiro, o embaixador americano na Grã-Bretanha foi informado pelo governo de Londres
sobre uma das maiores descobertas feitas durante a guerra pela espionagem britânica. Os ingleses
haviam decifrado os códigos alemães e conseguiam interceptar suas comunicações. Em reação à
decisão americana, o chanceler alemão, Arthur Zimmermann, teve outra de suas grandes ideias.

Ele se lembrou da rivalidade entre mexicanos e americanos - em 1916, os Estados Unidos mandaram
uma expedição ao México para lutar contra os rebeldes liderados por Pancho Villa. Decidiu, por meio
do embaixador alemão em Washington, incentivá-los a invadir o Texas e entrar na guerra ao lado da
Alemanha.

Um dia antes, o tesouro inglês tinha em sua conta um rombo de US$ 358 milhões nos EUA e gastava
US$ 75 milhões por semana. O telegrama de Zimmermann foi publicado pelo presidente americano
Woodrow Wilson. Em 2 de abril, ele discursou para a nação. Os Estados Unidos entravam na guerra. A
economia dos aliados e muitos especuladores americanos foram salvos da bancarrota. / M.G.

1918

ADEUS ÀS ARMAS

Marcelo Godoy

João XXIII em uniforme militar (sentado, segundo da esquerda para direita). Crédito: Acervo Estadão

São João XXIII

Angelo Giuseppe Roncalli, o futuro São João XXIII, fez o serviço militar em 1902 e era sargento quando
foi convocado para a guerra. A lei italiana não isentava padres e seminaristas: como os outros
cidadãos, eles eram obrigados a combater na linha de frente. Era essa a expectativa de Roncalli, como
ele escreveu em 23 de maio de 1915 em Il Giornale dell’Anima, diário no qual registrou as reflexões
espirituais e os principais acontecimentos de sua vida, da adolescência à véspera da morte.

“Amanhã vou partir para o serviço militar na área da saúde. Para onde me mandarão? Talvez para o
front inimigo? Voltarei para Bérgamo ou o Senhor me destinou minha última hora no campo de guerra?
Nada sei. Só desejo uma coisa: a vontade de Deus em tudo e sempre e a sua glória no sacrifício
completo do meu ser. Assim, e só assim, penso me manter à altura de minha vocação e mostrar meu
verdadeiro amor pela pátria e pelas almas de meus irmãos”, escreveu no diário.

O futuro santo não foi para o front. Por indicação de um ex-aluno, acabou designado para um hospital
militar de Bérgamo, aonde chegavam centenas de soldados feridos na luta contra os austríacos no
norte da Itália. Partiu de volta à cidade onde trabalhava como professor de seminário no dia seguinte à
sua designação para servir no hospital militar. “Por volta do meio-dia, acompanhando 25 homens como
se fosse um general no comando do exército da Itália, eu partia da estação de Milão para Bérgamo,
onde me incorporei à enfermaria presidiária e imediatamente o capitão Volpi anunciou que eu fora
destinado ao hospital militar do seminário.”

Roncalli considerava a guerra um mal terrível, mas tratava com amor e dedicação os ex-combatentes
que chegavam feridos da linha de frente, assim como se comovia com o sofrimento de suas famílias. O
amor da pátria, para ele, vinha em primeiro lugar. Desejava a paz, mas achava que, “se a pátria chama
e impõe sacrifícios, esta é a voz de Deus”. Cumpria seu dever ao lado de soldados que, conforme
observou, “encolhem os ombros, riem, dizem besteiras ou amaldiçoam” quando se fala de pátria.

“Os homens que nos governaram e nos governam não merecem os nossos sacrifícios, ma a pátria hoje
em perigo os merece”, escreveu em 20 de dezembro de 1917 a seu irmão Giuseppe, soldado no front.
Desde o ano anterior, padre Angelo Roncalli era capelão militar e tinha o posto de tenente. Dava
assistência espiritual aos feridos, administrando os sacramentos e conversando com cada um,
inclusive os não católicos. Além dos combatentes, chegavam também ao hospital centenas de
prisioneiros italianos repatriados pelas forças austro-alemãs, por serem portadores de moléstias
graves.

O tenente-capelão Roncalli deu baixa no dia 10 de dezembro de 1918, após a assinatura do armistício,
com a derrota de Alemanha, Áustria e seus aliados. Destinou então à Casa do Estudante, que fundou

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em Bérgamo, os soldos recebidos por quase quatro anos de engajamento no Exército. Até depois de
ter sido eleito papa, São João XXIII falava com carinho dos soldados e da disciplina da vida na
caserna, apesar de seu horror à guerra. /JOSÉ MARIA MAYRINK

A 11.ª Batalha do Rio Isonzo em agosto causou 166 mil baixas para os italianos. Desde que a guerra
começara, seu comandante, o general Luigi Cadorna, planejava atingir o Porto de Trieste, no Adriático.
Sob domínio austro-húngaro, a maioria da população tinha origem italiana. Dois anos depois, os
homens de Cadorna haviam avançado apenas um terço do caminho – só em 10 de agosto de 1916,
eles haviam capturado a cidade de Gorizia.

Ao mesmo tempo em que avançavam palmo a palmo, o número de deserções crescia – passara de
2.137 em abril de 1917 para 5.471 em agosto. Duas brigadas se amotinaram. Até o implacável
Cadorna – 750 soldados italianos foram fuzilados durante a guerra, o maior número entre todos os
exércitos em conflito – reconhecia que seus homens precisavam de repouso.

Faltou combinar com os alemães e os austríacos. No dia 24 de outubro, depois de um breve


bombardeio, eles avançaram na região do Alto Isonzo. "Quanto mais longe penetrávamos em terreno
hostil, menos preparadas estavam as guarnições para a nossa chegada e mais fácil era a luta",
escreveu o então tenente Erwin Rommel, que mais tarde seria o mais famoso marechal alemão da 2.ª
Guerra Mundial. Em pouco tempo, seguiu-se uma enorme debandada italiana. Ernest Hemingway a
retratou no livro Adeus às Armas.

Soldados atiraram em oficiais que tentavam impedi-los de fugir ou se render. Em semanas, o exército
italiano perdeu quase 700 mil homens, dos quais 40 mil foram mortos e 280 mil capturados pelo
inimigo. As deserções atingiram 350 mil. Greves gigantescas estouraram em Milão e em Turim. Uma
demonstração antiguerra na primeira cidade foi reprimida à bala, deixando 41 mortos e 200 feridos. Foi
preciso reforço inglês e francês para impedir a derrota total. Cadorna foi destituído e substituído por
Armando Diaz. Mais folgas, melhores rações, tratamento menos severo e, principalmente, o fim das
ofensivas pacificaram o exército que aguentou em junho de 1918 a ofensiva austríaca no Rio Piave.

Após o fracasso inimigo, os italianos decidiram que era chegada a hora de atacar novamente. Em 24
de outubro, iniciaram a ofensiva do Monte Grappa ao Adriático. No dia 27, eles atravessaram o Piave e
os soldados austríacos se recusaram a contra-atacar. No dia seguinte, a Checoslováquia se declarou
independente do Império Habsburgo. No dia 29, os croatas e sérvios decidiram se separar de Viena e
foram seguidos no dia 31 pelos húngaros. O exército imperial, que perdera mais de 500 mil homens,
deixara de existir. No dia 3, os italianos desembarcaram em Triste e no mesmo dia um armistício foi
assinado. A guerra chegava ao fim nessa parte da Europa. / M.G.

A Ofensiva Caporetto

26 de outubro a 12 de novembro de 1917

O FLAGELO

O cruzador Rio Grande do Sul. Crédito: DPHDM

Os primeiros doentes surgiram no cruzador Bahia. Eram 70 na manhã de 6 de setembro. A última


epidemia castatrófica da história, a gripe espanhola, encontrou a frota brasileira em Dacar, no Senegal.
"Os doentes caíam ardendo de febre, cobertos de suor emplastrado com moinho de carvão, sem ter
nem sequer quem os auxiliasse a tomar banho e mudar de roupa, pois os poucos válidos que lhes
poderiam assistir nisso diminuíam de hora em hora, de minuto em minuto. Essa situação era ainda
agravada pela falta de toldo diante do sol da Dacar", escreveu o capitão-tenente Orlando Marcondes
Machado.

A Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) era a maior contribuição do Brasil ao esforço de
guerra dos aliados. O País entrara no conflito mundial em 3 de novembro de 1917, depois de romper
em 11 de abril relações diplomáticas com a Alemanha. O motivo foi o torpedeamento do navio
brasileiro Paraná, na costa francesa, efetuado por um submarino alemão. Três tripulantes da
embarcação, que levava 94 mil sacas de café, morreram. O café era então o maior produto de
exportação do País.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O governo brasileiro decidiu enviar dois cruzadores, quatro contratorpedeiros, um rebocador e um


tender de sua esquadra para patrulhar a costa africana entre Dacar, no Senegal, e o Estreito de
Gibraltar, no Mediterrâneo. Depois do Bahia, a gripe se espalhou pelos demais navios. A doença
chegou ao cruzador Rio Grande do Sul no dia 7 e, na manhã seguinte, já havia derrubado 160
marinheiros. Entre 10 e 20 de setembro, 95% da tripulação estava doente.

A gripe matou 20 milhões de pessoas ao redor do mundo – tanto quanto a guerra em quatro anos. Dos
2 mil marinheiros brasileiros, 156 morreram. No Brasil, a doença matou o presidente eleito, Rodrigues
Alves. Para a publicação inglesa The Sphere, "Influenza ou La Gripe podia se tornar entre os ingleses
mais mortal do que uma ocupação inimiga ou mais implacável e destrutiva do que os hunos". A frota
brasileira, que fora paralisada pela doença, só conseguiu chegar à Europa em 10 de novembro, um dia
antes do armistício que pôs fim à guerra. /M.G.

O sobrevivente

O Laurindo Pitta. Crédito: Fabio Motta

O último remanescente da Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG), formada pela Marinha do
Brasil para combater na 1.ª Guerra Mundial, ainda navega. O Laurindo Pitta, rebocador construído na
Inglaterra em 1910, foi usado em tarefas de apoio. Desde 1990, faz passeios pela Baía de Guanabara.
Com 104 anos, o Laurindo Pitta, um barco com 514 toneladas de deslocamento e 39 metros de
comprimento, ganhou há anos motores mais modernos, a óleo diesel. Recebeu equipamentos de
salvatagem (botes salva-vidas) e de combate a incêndio, além de radar. O resto é conservado (ou foi
reconstruído) como na época da guerra.

“Na década de 90, o Laurindo Pitta estava morto. Foi decidido transformá-lo em navio-museu”, relata o
diretor de Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, vice-almirante reformado Armando de
Senna Bittencourt.

Além do Laurindo Pitta, a DNOG foi formada pelos cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, pelos
contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina e pelo navio auxiliar Belmonte.
Iniciou viagem em 7 de maio de 1918. Em 25 de novembro, foi atacada e reagiu com cargas de
profundidade e tiros de canhão. A Inglaterra atribuiu aos brasileiros o afundamento de um submarino
alemão. Teria sido o único feito pela frota do Brasil no conflito. / WILSON TOSTA

A ÚLTIMA OFENSIVA

A frente ocidental

21 de março a 4 de junho de 1918

O jovem tenente Ernst Jünger saltou na primeira trincheira. Virando-se de costas depois de invadi-la,
ele se deparou com um oficial inglês, que trazia a túnica desabotoada, de onde pendia a gravata por
meio da qual ele o agarrou e o jogou em um parapeito de sacos de areia. Atrás dele, a cabeça grisalha
de um major surgiu e gritou: "Abata esse cachorro". Tenente das Sturmtruppen, as tropas de assalto
alemãs, Jünger conta em seu livro Tempestades de Aço o que se seguiu. "Alguém pensaria estar em
meio a um naufrágio", escreveu. Os ingleses fugiam por todo lado. "Eu apertava como em um sonho o
gatilho de meu revólver, mas fazia tempo que eu não tinha mais balas no tambor. Um homem ao meu
lado jogava granadas entre os fugitivos."

Os alemães voltaram a atacar na frente ocidental em 21 de março de 1918. Desde 1916, não faziam
isso. A saída da guerra da Rússia e da Romênia permitiu a Berlim transferir tropas para a França e
lançar um grande ataque antes que a presença do exército americano na Europa mudasse
definitivamente a balança de forças da guerra. Era, portanto, a última chance de vitória de Berlim.

Naquela manhã, Jünger conta que o combate foi liquidado em um minuto. "Os ingleses saltaram fora
de suas trincheiras e batalhões inteiros fugiram pelos campos." Transformaram-se em alvo fácil para o
inimigo e em pouco tempo os campos se coalharam de corpos. Os soldados alemães haviam
avançado após cinco horas de bombardeio, muito pouco para os padrões da guerra. A neblina permitiu
que as Sturmtruppen se aproximassem das metralhadoras inglesas sem ser notadas. Das 38.512
baixas inglesas no primeiro dia da ofensiva alemã, 21 mil eram de soldados feitos prisioneiros. Os

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ataques alemães produziram um avanço que não se via desde 1914 – foram 64 quilômetros em
direção ao Rio Somme.

O primeiro ataque, batizado como Michael, terminou em 5 de abril. Quatro dias depois, o general Erich
Ludendorff lançou o segundo, chamado Georgette. Dessa vez, o alvo era a área dos Flandres, na
Bélgica. Apenas 19 quilômetros foram conquistados. O próximo ataque alemão foi a Operação Blücher,
lançada em 21 de maio no Chemin des Dames. Os alemães chegaram a ficar a 90 quilômetros de
Paris, que bombardearam com sua artilharia. Mas foram detidos por americanos e senegaleses em
Chateau Thierry. Juntos os dois lados perderam aproximadamente 800 mil homens. Pressionado pela
fome e pela debacle de seus aliados, a Alemanha de Guilherme II não aguentaria muito tempo mais. /
M.G.

A ERA DA REVOLUÇÃO MUNDIAL

Após a queda dos Romanov, uma questão atormentava os aliados: por quanto tempo a Rússia
permaneceria na guerra. Seu exército se desfazia com milhares de deserções. A pregação
revolucionária seduzira parte da tropa com a perspectiva da paz imediata. Foi então que o desastroso
ministro do exterior alemão, Artur Zimmermann, resolveu ter mais uma ideia. Ele convenceu o kaiser
Guilherme II a permitir que Lenin deixasse a Suíça, onde estava exilado, e atravessasse a Alemanha
em um trem lacrado em direção à Rússia. Sua aposta era que a ajuda ao revolucionário marxista
contribuiria para a retirada dos russos da guerra.

A Revolução de Fevereiro colocara no poder uma série de governos provisórios liderados primeiro
pelos moderados do partido Kadete e, depois, pelo trabalhista Alexander Kerensky. Até que em 7 de
novembro (25 de outubro pelo calendário russo) chegou a vez dos bolcheviques. Sob a liderança de
Leon Trotsky, organizador do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, e orientados por Lenin, os
bolcheviques se sublevaram. Tomaram a Fortaleza de Pedro e Paulo e o Palácio de Inverno,
derrubando o último governo Kerenky.

A aposta de Zimmermann parecia correta. Em pouco tempo, os bolcheviques retiraram a Rússia da


guerra por meio do Tratado de Brest-Litovsky. A chegada ao poder dos marxistas em Moscou se
voltaria, no entanto, como um bumerangue contra as potências centrais. Berlim seria convulsionada no
fim da guerra por uma revolução que derrubaria o kaiser e inauguraria a República de Weimar, sob o
comando do social-democrata Friedrich Ebert. A Áustria-Hungria seria dilacerada por movimentos
nacionalistas e Viena assistiria a uma revolta comunista, logo sufocada. Em 21 de março de 1919, o
poder na Hungria cairia nas mãos dos comunistas liderados por Bela Kun. Durante 133 dias, uma
República Soviética comandou o país até que tropas romenas o invadiram e depuseram o governo.
Estava aberta a era da revolução mundial.

Em março de 1918, o ex-exilado russo escreveu: “Esta violência constituirá um período histórico-
universal, toda uma era de guerras com o caráter mais diverso – guerras imperialistas, guerras civis
dentro de países, entrelaçamento de uma e outras, guerras nacionais, de libertação das nacionalidades
[…]. Esta época – de gigantescas bancarrotas, de violentas soluções bélicas em massa, de crise –
começou”. Por 74 anos, o regime que Lenin inaugurara com a ajuda do conservador alemão
Zimmermann se manteria na Rússia e difundiria o espectro da revolução pelo mundo. /M.G.

A GUERRA QUE DUROU 31 ANOS

A frente ocidental

18 de julho a 3 de outubro de 1918

Europa atual

A vitória aliada começou no Bosque de Belleau, no Marne. Os franceses recuavam diante do ataque
alemão e cruzaram com os recém-chegados marines. “É melhor vocês recuarem”, disse um oficial
francês ao capitão Lloyd Willlians. “Recuar? Raios, nós acabamos de chegar”. O contra-ataque dos
fuzileiros navais americanos entrou para a história da corporação. Era 4 de junho de 1918. Os
americanos começavam a chegar em grande número à frente de combate na Europa.

Pouco mais de um mês depois, o general Charles Mangin, conhecido como Açougueiro, lançou seu
exército – o 10.º francês – adiante em Villers-Cotterets. O bombardeio começou às 4h35. A infantaria

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

avançou atrás da barragem da artilharia acompanhada por centenas de tanques leves Renault FT17.
Armados com um canhão de calibre 37 mm e com uma metralhadora, os tanques levavam uma
guarnição de dois homens e transpunham rampas de até 45° de inclinação e valas de até 1,8 metro de
largura. A uma velocidade de 7 quilômetros por hora, eles ajudaram a levar franceses e americanos de
volta até Soissoons, no Vale do Aisne.

Os aliados começaram a expulsar o exército de Berlim da França. Exaustos, os alemães viram o total
de seus homens cair de 5,1 milhões para 4,2 milhões depois da ofensiva da primavera. Eles haviam
produzido pouquíssimos tanques – o gigante A7V. Dependiam principalmente dos veículos ingleses e
franceses capturados. Seus inimigos reuniram perto de Amiens 530 tanques ingleses e 70 franceses
para atacar no dia 8 de agosto ao lado de soldados canadenses e australianos. O sucesso foi
gigantesco. Em quatro dias, os alemães tiveram de recuar até a região que ocupavam no começo do
ano. “Foi o dia negro do exército alemão”, disse o general Erich Ludendorff.

Depois disso, uma sucessão de ofensivas aliadas levou os alemães a procurar a paz em outubro.
Derrotado, o exército germânico recuou para suas fronteiras. No dia 26 de outubro, Ludendorff, que
rejeitava a negociação de paz, foi forçado a renunciar. A revolução batia às portas de Berlim. O kaiser
foi obrigado a renunciar. O armistício entre os alemães e os aliados foi assinado em um vagão
ferroviário em 11 de novembro, em Compiègne, na França.

Guilherme II, o último imperador alemão

Em 31 de março de 1905, o kaiser desembarcou em Tânger e declarou seu apoio ao sultão do


Marrocos contra a ação francesa – em acordo com a Inglaterra – de expandir as áreas sob seu controle
no norte da África. As duas potências coloniais queriam pôr fim à rivalidade entre elas e decidiram
dividir as áreas de influência de cada uma na África, o que deixou a França livre para expandir seu
império do Oeste da Argélia para o Marrocos. O rei da Prússia e imperador da Alemanha tinha poucos
interesses no Magreb. O homem que chegara ao trono em 15 de junho de 1888 apoiava o caminho
novo da política internacional alemã, definida pelo chanceler Bernard von Bülow: a Weltpolitik (política
mundial), que representava um triplo desafio à hegemonia britânica com seus planos de expansão
comercial, marítima e colonial. Sua decisão de dar apoio incondicional à Áustria-Hungria contra a
Sérvia é considerada uma das causas diretas da guerra. Reagiu à mobilização do exército russo
declarando guerra à Rússia e invadiu a Bélgica, violando a neutralidade do país para atacar a França –
aliada russa –, o que fez a Inglaterra entrar no conflito. Deixou a condução da guerra aos seus
generais, e a derrota deles o fez abdicar. Era 9 de novembro, e a Alemanha mergulhara em uma
agitação social que parecia levá-la à revolução. Dois dias depois, o armistício entre os beligerantes pôs
fim à guerra. Deposto, Guilherme IIviveria recluso no seu exílio na Holanda. Dali, viu Hitler chegar ao
poder e iniciar a guerra em 1939. Morreu em 1941, uma semana antes de a Alemanha invadir a União
Soviética. / M.G.

Mais de 600 cemitérios da 1.ª Guerra existem hoje na França, que os tornou sepulturas perpétuas e
contratou mais de mil jardineiros para fazer sua manutenção. Os britânicos perderam quase 1 milhão
de soldados na guerra. Os franceses tiveram 1,7 milhão de mortos, os austro-húngaros 1,5 milhão de
militares, os alemães 2 milhões, os russos 1,7 milhão, os italianos 460 mil e também se contam aos
milhares as mortes de turcos, de americanos e de outras nações envolvidas na conflagração.

E de quem foi a culpa por essa catástrofe? “Se quisermos apontar o dedo desde o século 21, nós
podemos acusar esses que levaram a Europa em direção à guerra de duas coisas. Primeiro, pela falta
de imaginação em não perceber o quão destrutivo um conflito assim poderia ser e segundo por falta de
coragem para resistir àqueles que diziam não haver outra opção se não a guerra. Sempre há o que
escolher”, escreveu a historiadora canadense Margaret Macmillan em The war that ended peace - The
road to 1914 (há uma edição portuguesa: A guerra que acabou com a paz).

A guerra iniciara aquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamou de “era do massacre”, aberta
por um conflito travado em “torno de metas ilimitadas”. Ela ia abrir, na opinião dele, uma única era de
conflito que só terminaria em 1945, na 2.ª Guerra. “Retrospectivamente, os 31 anos desde o
assassinato do arquiduque austríaco em Sarajevo até a rendição incondicional do Japão devem
parecer uma era de devastação comparável à Guerra dos 30 Anos no século 17 na história alemã”,
escreveu Hobsbawn.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A 1.ª Guerra não resolveria nada, não acabaria com as guerras ou garantiria a autodeterminação dos
povos. Mas, ao acabar com impérios, semear revolução e guerras e reordenar os Bálcãs e o Oriente
Médio, ela lançaria as sementes de conflitos que sacodem o mundo até hoje. “Em resumo”, escreveu
Strachan, “ela não mudou apenas a Europa, mas o mundo no século 20; ela certamente não foi uma
guerra sem significado ou objetivos.” /M.G

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O FASCISMO E O NAZISMO

O Fascismo e o Nazismo

O Nazismo na Alemanha

Regime político de caráter autoritário que se desenvolve na Alemanha durante as sucessivas crises da
República de Weimar (1919-1933).

O Nazismo baseia-se na doutrina do nacional-socialismo, formulada por Adolf Hitler (1889-1945), que
orienta o programa do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). A essência
da ideologia nazista encontra-se no livro de Hitler, Minha Luta(Mein Kampf). Nacionalista, defende
o racismo e a superioridade da raça ariana; nega as instituições da democracia liberal e a revolução
socialista; apóia o campesinato e o totalitarismo; e luta pelo expansionismo alemão.

Ao final da 1ª Guerra Mundial, além de perder territórios para França, Polônia, Dinamarca e Bélgica, os
alemães são obrigados pelo Tratado de Versalhes a pagar pesadas indenizações aos países
vencedores. Essa penalidade faz crescer a dívida externa e compromete os investimentos internos,
gerando falências, inflação e desemprego em massa. As tentativas frustradas de revolução socialista
(1919, 1921 e 1923) e as sucessivas quedas de gabinetes de orientação social-democrata criam
condições favoráveis ao surgimento e à expansão do nazismo no país.

Utilizando-se de espetáculos de massa (comícios e desfiles) e dos meios de comunicação (jornais,


revistas, rádio e cinema), o partido nazista consegue mobilizar a população por meio do apelo à ordem
e ao revanchismo. Em 1933, Hitler chega ao poder pela via eleitoral, sendo nomeado primeiro-ministro
com o apoio de nacionalistas, católicos e setores independentes. Com a morte do presidente
Hindenburg (1934), Hitler torna-se chefe de governo (chanceler) e chefe de Estado (presidente).
Interpreta o papel de führer, o guia do povo alemão, criando o 3º Reich (Terceiro Império).

Hitler (líder nazista) passando em revista as tropas.

Com poderes excepcionais, Hitler suprime todos os partidos políticos, exceto o nazista; dissolve os
sindicatos; cassa o direito de greve; fecha os jornais de oposição e estabelece a censura à imprensa ;
e, apoiando-se em organizações paramilitares, SA (guarda do Exército), SS (guarda especial) e
Gestapo (polícia política), implanta o terror com a perseguição aos judeus, dos sindicatos e dos
políticos comunistas, socialistas e de outros partidos.

O intervencionismo e a planificação econômica adotados por Hitler eliminam, no entanto, o


desemprego e provocam o rápido desenvolvimento industrial, estimulando a indústria bélica e a
edificação de obras públicas, além de impedir a retirada do capital estrangeiro do país. Esse
crescimento deve-se em grande parte ao apoio dos grandes grupos alemães, como Krupp, Siemens e
Bayer, a Adolf Hitler.

Desrespeitando o Tratado de Versalhes, Hitler reinstitui o serviço militar obrigatório (1935), remilitariza
o país e envia tanques e aviões para amparar as forças conservadoras do general Franco na
Espanha, em 1936. Nesse mesmo ano, cria o Serviço para a Solução do Problema Judeu, sob a
supervisão das SS, que se dedica ao extermínio sistemático dos judeus por meio da deportação para
guetos ou campos de concentração. Anexa a Áustria (operação chamada, em alemão, de Anschluss) e
a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia (1938). Ao invadir a Polônia, em 1939, dá início à 2ª Guerra
Mundial (1939-1945).

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O FASCISMO E O NAZISMO

Terminado o conflito, instala-se na cidade alemã de Nuremberg um Tribunal Internacional para julgar
os crimes de guerra cometidos pelos nazistas. Realizam-se 13 julgamentos entre 1945 e 1947. Juízes
norte-americanos, britânicos, franceses e soviéticos, que representam as nações vitoriosas, condenam
à morte 25 alemães, 20 à prisão perpétua e 97 a penas curtas de prisão. Absolvem 35 indiciados. Dos
21 principais líderes nazistas capturados, dez são executados por enforcamento em 16 de outubro de
1946. O marechal Hermann Goering suicida-se com veneno em sua cela, pouco antes do cumprimento
da pena.

O Fascismo na Itália

Regime político de caráter autoritário que surge na Europa no período entreguerras (1919-1939).
Originalmente é empregado para denominar o regime político implantado pelo italiano Benito Mussolini
, no período de 1919 a 1943.

Suas principais características são o totalitarismo, que subordina os interesses do indivíduo ao Estado;
o nacionalismo, que tem a nação como forma suprema de desenvolvimento; e o corporativismo, em
que os sindicatos patronais e trabalhistas são os mediadores das relações entre o capital e o trabalho.

Camisas pretas – O fascismo nasce oficialmente em 1919, quando Mussolini funda, em Milão, o
movimento intitulado Fascio de Combatimento, cujos integrantes, os camisas pretas (camicie nere),
opõem-se à classe liberal.

Em 1922, as milícias fascistas desfilam na Marcha sobre Roma, e Mussolini é convocado para chefiar o
governo em uma Itália que atravessa profunda crise econômica, agravada por greves e manifestações
de trabalhadores urbanos e rurais.

Em 1929 há um endurecimento do regime, que significa cerceamento à liberdade civil e política, derrota
dos movimentos de esquerda, limitações ao direito dos empresários de administrar sua força de
trabalho e unipartidarismo. A política adotada, entretanto, é eficiente na modernização da economia
industrial italiana e na diminuição do desemprego.

Outras formas – Regimes semelhantes surgem em outros países. Na Alemanha (1933-1945), com
Hitler , nasce o nazismo ; na Espanha (1939-1975), com o general Francisco Franco , surge
o franquismo, e em Portugal (1929-1974), com o então primeiro-ministro António de Oliveira Salazar,
desenvolve-se o salazarismo. No Brasil, o fascismo acompanha o Estado Novo (1937-1945).

A ascensão do Fascismo e do Nazismo aconteceu no período entreguerras, ou seja, um tempo de


crises e de descrédito na Europa, entre 1919 e 1939. A Primeira Guerra Mundial acabou com as
crenças em prosperidade no mundo ocidental, especialmente no continente europeu.

O século XIX foi marcado pela euforia com o progresso, as descobertas científicas, o avanço
da Revolução Industrial e a hegemonia europeia no mundo por meio do colonialismo e do imperialismo.
No final no século XIX, com a Conferência de Berlim, as potências europeias partilharam entre si o
continente africano com a intenção de explorar suas matérias primas para a indústria em expansão.
Além disso, lutaram pelo fim do tráfico atlântico na evidente intenção de fomentar novos mercados
consumidores e vivenciaram assim um período de enriquecimento e expansão econômica, e o
otimismo fazia parte da realidade das nações europeias.

Durante o período posterior à Primeira Guerra Mundial o poder econômico europeu foi diminuindo,
enquanto novas potências cresciam. Os Estados Unidos da América mantiveram sua economia forte, e
na Ásia o Japão se industrializou e se tornou imperialista. Portanto, o centro do mundo – como
acreditavam os europeus – não era mais o Velho Continente.

As crises – sociais, políticas e econômicas – estavam presentes em uma Europa já em descrédito, que
aos poucos via o número de conflitos sociais crescerem. Desta forma, vários foram os movimentos de
esquerda que surgiram neste cenário, onde os sindicatos exerceram importante papel.

Desta forma a euforia e o otimismo tão presentes no século XIX abriram espaço para o pessimismo e
para o descrédito espalhados por toda a Europa. Isso começou a fazer parte das propostas e ideias
para a saída da crise e um nacionalismo agressivo surgido como solução foi uma dessas propostas
que acabou ganhando força, especialmente na Alemanha e na Itália. Violência e ditadura passaram a

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O FASCISMO E O NAZISMO

significar solução. A justificativa do uso da força e da instauração de governos ditatoriais foi usada
diversas vezes na história como argumento para conter momentos de crise e desordem.

A Alemanha, derrotada na Primeira Guerra Mundial, viu nas ideias nazistas de Adolf Hitler uma solução
para sua recuperação. Já a Itália, mesmo vitoriosa na Primeira Guerra, viu em Benito Mussolini o líder
que através do fascismo salvaria a Itália da crise.

Hitler e Mussolini conseguiram formar grupos de extrema direita compostos por ex-militares,
estudantes e profissionais liberais, para quem as ideias nacionalistas e racistas fizeram sentido, pois
atribuíam ao outro a culpa pela crise.

Os líderes alemão e italiano acabavam com comícios e qualquer tipo de manifestação socialista
através de organizações paramilitares que combatiam – com o aval do Estado – o que chamavam de
perigo vermelho.

Pode-se perceber que a construção do medo do comunismo, do socialismo e de ideias de esquerda


estiveram presentes em vários processos históricos ao redor do mundo. A falta de informação leva,
inclusive, pessoas a acreditarem até hoje que o Partido Nazista, por carregar o nome de Partido
Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, estava ligado às ideias socialistas. É sabido que
o socialismo e o comunismo foram grandes inimigos dos regimes totalitários e a utilização dos termos
socialista e trabalhadores foi uma estratégia para conquistar os trabalhadores afastando-os do que
consideravam perigoso: as ideias de esquerda que se alastravam no mundo.

Com as crises aumentando e o Estado não conseguindo resolvê-las, o Fascismo e o Nazismo


avançavam, conquistando um número cada vez maior de adeptos.

O mundo conheceu dois regimes autoritários que foram sinônimo de violência: o Fascismo, da Itália;
e o Nazismo, da Alemanha. Estes regimes políticos se consolidaram em um período histórico de
entre-guerras, quando os valores liberais estavam mais fracos e a crise econômica ameaçava a
classe média.

Esse contexto fez surgir movimentos políticos e representantes com propostas nacionalistas,
agressivas e irracionais. Itália e Alemanha são os principais exemplos de nações que viveram
regimes ditatoriais neste período. Estas nações tinham, na época, uma sociedade que era bastante
sensível a temas antiliberais, nacionalistas e até racistas.

O líder do Fascismo na Itália foi Mussolini, e o líder do Nazismo na Alemanha foi Hitler. Ambos
foram responsáveis por organizações paramilitares violentas e intolerantes.

Os grupos fascistas e nazistas tiveram uma expressiva filiação partidária, o que demonstra que os
grupos sociais se identificavam com os ideais promovidos por esses regimes. Confira algumas
informações importantes sobre estes dois modelos de governos autoritários!

O Nazismo na Alemanha

O Nazismo foi o regime político autoritário que se estabeleceu na Alemanha durante a crise da
República de Weimar. Com um fundamento nacional-socialista, formulado por Adolf Hitler, o
Nazismo defendia o nacionalismo, o racismo e a plena superioridade da raça branca ariana.

A ideologia nazista foi exposta no livro Mein Kampf (Minha Luta), escrito por Hitler. O regime
defendia o totalitarismo e o expansionismo alemão, e foi bem -aceito pela maioria da sociedade, que
acreditava que o Nazismo faria com que os alemães se recuperassem após as derrotas da 1ª Guerra
Mundial, as dívidas, a inflação e o desemprego em massa.

O cenário político e econômico da Alemanha beneficiaram o crescimento do Nazismo. Com


comícios, desfiles e o uso dos meios de comunicação, o partido nazista se estabeleceu e mobilizou a
sociedade alemã.

Hitler chegou ao poder no ano de 1933. No ano seguinte, ele se tornou chanceler e chefe de Estado
da Alemanha. Suas principais medidas foram: acabar com os partidos políticos, dissolver os
sindicatos, proibir greves, fechar jornais e perseguir os judeus. O governo foi marcado pelo triste e
trágico extermínio sistemático de judeus.

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O FASCISMO E O NAZISMO

O nazismo foi mantido até o ano de 1945, quando um Tribunal Internacional se instalou em
Nuremberg para julgar os crimes de guerra cometidos por nazistas. Como resultado, 25 alemães
foram condenados à morte, sendo que dez líderes nazistas acabaram enforcados em 16 de outubro
de 1946.

O Fascismo na Itália

O Fascismo foi o regime político autoritário da Itália. Ele surgiu no período entre -guerras e foi criado
e comandado por Benito Mussolini, entre os anos de 1919 e 1943.

O regime foi marcado por totalitarismo, nacionalismo, corporativismo e por vários crimes. O primeiro
passo para a criação e fortalecimento do Fascismo aconteceu em 1919, quando Mussolini lançou o
movimento Fascio de Combatimento, formado pelos camisas pretas.

Mussolini assumiu a Itália quando o país sofria com uma crise econômica, greves e manifestações. O
regime autoritário foi duro e promoveu o total cerceamento às liberdades civil e política.

Essa ideologia nacionalista, antidemocrática, discriminatória e antissocialista, liderada por Benito


Mussolini, só perdeu forças após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O presente trabalho insere-se no âmbito da disciplina de história. A temática que escolhi foi o
Nazismo e o Fascismo. Com este trabalho pretendo conhecer um pouco mais sobre estes dois
partidos de estrema direita, totalitaristas (Nazismo na Alemanha e Fascismo na Itália).

Ao longo deste trabalho estudo, Hitler e o Nazismo, o fracasso na primeira tentativa de tomada do
poder, a crise económica e a tomada do poder. Sobre o Fascismo estudo, a ascensão de Mussolini e
o governo de Mussolini.

O Nazismo

A partir do final da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha mergulhou em uma crise económica
agravada ainda mais pelas enormes indemnizações impostas pelo Tratado de Versalhes e pela
ocupação do vale do Ruhr por França e Bélgica. O marco alemão desaba e consegue se estabilizar
somente em Novembro de 1923, quando sua cotação atinge 4,6 biliões de marcos para US$ 1. A
hiper inflação tem efeito devastador sobre a economia, desorganizando a produção e o comércio.
Em 1931, há 4 milhões de desempregados, quase 30 mil falências e a produção cai em todos os
sectores.

No plano político, a situação também era grave, pois vários golpes de direita e esquerda se
sucederam, todos fracassados.

A crise económica mundial de 1929 permitiu a ascensão ao poder do líder do partido Nazista, Adolf
Hitler.

Hitler e o Nazismo

Hitler nasceu na Áustria e pretendia ser pintor. Mas, por duas vezes, foi reprovado nos exames para
ingresso na Academia de Viena. Após a morte dos pais, vivia como um mendigo, pernoitando em
albergues e tentando viver dos cartões postais que pintava.

Quando começou a guerra, incorporou-se em um regimento alemão. Participou com bravura, foi
ferido duas vezes e condecorado com a Cruz de Ferro. Mas a derrota o abalou profundamente.

Ele era extremamente nacionalista. Opunha-se aos judeus, num anti-semitismo cujas origens são
difíceis de serem explicadas. Via nos judeus um factor de corrupção do povo alemão. Cristo e Marx,
dois judeus, pregavam a igualdade entre os homens e a resignação, ideias que Hitler considerava
nocivas ao povo alemão. Daí, surgiu sua doutrina racista, segundo a qual os homens eram desiguais
por natureza. A raça superior era a dos arianos (germânicos), altos e alourados. Na Alemanha, eles
existiam em estado puro, sendo, pois, a raça sob a humilhação do Tratado de Versalhes. O povo
alemão deveria agrupar-se em um único estado: A Grande Alemanha, que reuniria todas as
populações germânicas.

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O FASCISMO E O NAZISMO

Desprezava os povos latinos e principalmente os eslavos, os quais julgava que deveriam ser
reduzidos à escravidão, dominados pelos germânicos. A pureza da raça ariana deveria ser
defendida através da impiedosa perseguição aos judeus.

A partir dessas ideias de Hitler, surgiu o Nazismo, um regime totalitário e militarista que se baseava
numa mística heróica de regeneração nacional. Apoia-se no campesinato e não tem a estrutura
corporativista do fascismo.

O fracasso na primeira tentativa de tomada do poder

Após a organização do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazista), Hitler


percorreu a Alemanha para divulgá-lo e conseguir mais adeptos. As reuniões do partido eram feitas
com alguns rituais, como numerosas paradas, ataques violentos aos socialistas, além dos uniformes.

Foi fundado também um jornal partidário. Vários adeptos foram recrutados entre desempregados.
Alguns intelectuais também se filiaram.

Com a crise de 1923, Hitler organizou uma manifestação militar para tomar o poder. Numa
concentração em Munique, avisou que uma revolução nacional começara; mas o povo não o seguiu.
Após um conflito com a polícia, Hitler foi preso e o Partido Nazista começou um declínio contínuo,
até que, em 1929, havia menos de 120.000 membros.

A crise económica e a tomada do poder

Após as dificuldades económicas dos primeiros anos pós-guerra, até 1924 a economia alemã havia
recuperado seu equilíbrio, graças aos investimentos vindos do estrangeiro (principalmente dos
Estados Unidos). De 1930 em diante, porém, os capitalistas estrangeiros começaram a retirar seus
empréstimos. A inflação recomeçou e a crise económica também. A produção do país entrou em
declínio.

A miséria da população permitiu a ascensão política do Partido Nazista, bem como do partido
Comunista. Nas eleições de 1930, essa tendência se manifestou claramente. Os nazistas elegeram
107 deputados e os comunistas 77, em detrimento dos partidos liberais.

Em 1932, terminava o período presidencial de Hindenburg; ele candidatou-se novamente, tendo


Hitler como adversário. Foram necessárias duas eleições para decidir o pleito. Hitler perdeu, mas
obtivera um considerável número de votos.

O cargo de primeiro-ministro foi confiado a von Papen. Sua grande dificuldade era o progresso dos
nazistas. Estes aumentaram o número de deputados no Parlamento nas eleições seguintes.
Hindenburg recebeu poderes excepcionais e chamou Hitler para a vice-chancelaria, mas o chefe
nazista não aceitou.

O Reichstag (Assembleia Nacional) foi dissolvido e novas eleições realizadas. Os nazistas perderam
várias cadeiras, mas o problema continuou, pois não era possível governar sem os nazistas ou
contra eles.

Hindenburg substituiu von Papen por um general de tendências socialistas, esperando ganhar mais
apoio popular. Mas o próprio von Papen convenceu o presidente a chamar Hitler para o poder,
esperando assim poder controlá-lo melhor. No dia 30 de Janeiro de 1933, Hitler assumiu a
chancelaria, com von Papen como vice-chanceler.

Da chegada ao poder até o estabelecimento da ditadura foi um passo rápido. Hitler formou um
governo de coalizão direitista, incluindo os nazistas, nacionalistas, independentes e católicos. Em 27
de fevereiro promoveu o incêndio do Reichstag, atribuindo-o aos comunistas, como pretexto para
decretar o fechamento da imprensa, a suspensão das actividades dos partidos de esquerda e o
estado de emergência. Em 5 de Março do mesmo ano conseguiu a vitória nas eleições para o
Reichstag com ampla maioria dos votos, usando todos os meios lícitos e ilícitos para chegar a este
resultado.

O novo Reichstag eleito deu a Hitler plenos poderes. As cores da República foram substituídas por
uma bandeira vermelha com a