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Comentários do Antigo Testamento — Os livros de Naum, Habacuque e Sofonias ©
2011, Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em inglês com o título The New
Internacional Commentary on the O ld Testament, The Books o f Nahum. Habakkuk,
and Zephaniah, em 1990 por Wm. B. Eerdmans Publishung Co., 255 Jefferson Ave.
S.E., Grand Rapids, Michigan 49503. Todos os direitos reservados.
1* edição 2011 - 3.000 exemplares

Conselho Editorial Produção Editorial


Ageu Cirilo de Magalhães Jr. Tradução
Cláudio Marra (Presidente) Neuza Batista da Silva
Fabiano de Almeida Oliveira Revisão
Francisco Solano Portela Neto Wendell Lessa Vilela Xavier
Heber Carlos de Campos Jr. Wilton Vidal de Lima
Mauro Fernando Meister Sebastiana Gomes de Paula
Tarcizio José de Freitas Carvalho
Editoração
Valdeci da Silva Santos
Eline Alves Martins Pereira
Capa
Magno Paganelli

R6491C Robertson, O. Palmer


Comentários do Antigo Testamento - Naum, Habacuque e Sofonias /
O. Palmer Robertson; traduzido por Neuza Batista da Silva . _ São Paulo:
Cultura Cristã, 2011
432 p.
Tradução The books of Nahum, Habakkuk and Zephariah
ISBN 978-85-7622-079-4

1. Estudo Bíblico 2. Exegese 3. Comentário I. Título


CDD 220.07


6DITORA CULTURR CRISTA
Rua Miguel Teles Júnior, 394 - CEP 01540-040 - São Paulo - SP
Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - São Paulo - SP
Fone (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255 - 0800-0141963
www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Para minha amada
“O coração de seu m arido confia nela.’
Provérbios 31.11
SUMARIO

Prefácio do au to r........................................................................................ 9
Abreviaturas...............................................................................................11

INTRODUÇÃO
I. Panorama histórico-redentor................................................................... 13
II. Perspectiva teológica............................................................................... 32
III. Forma das profecias................................................................................ 42
IV. Data e autoria............................................................................................47
V. Unidade e autenticidade...........................................................................58
VI. Texto..........................................................................................................61
VII. C ânon........................................................................................................63
VIII. Análise dos conteúdos............................................................................. 64
IX. Bibliografia selecionada....................................................................... 67

O LIVRO DE NAUM
Sobrescrito (1 .1 ).......................................................................................77
I. Anúncio público do juizo sobre Nínive (1.2-14)................................79
II. Descrição dramática do juízo sobre Nínive (2.1-14
[Eng. 1.15-2.13])..................................................................................... 107
III. O Juízo infalível sobre Nínive (3.1-19)............................................. 130

O LIVRO DE HABACUQUE
Sobrescrito (1.1)...................................................................................... 175
I. O diálogo de protesto (1.2-17)...............................................................176
II. A resolução da sabedoria (2.1-20)........................................................211
III. Um salmo de submissão (3.1-19).........................................................269

O LIVRO DE SOFONIAS
Sobrescrito (1 .1 ).....................................................................................317
I. Juízo pactuai cósmico vem com o grande dia do Siínhor (1.2-18)... 324
8 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

II. O chamado ao arrependimento ecoa antes da chegada do grande


dia do S enhor (2.1-15)..........................................................................360
III. Deus reconstitui seu povo com a chegada do grande dia (3.1-20).... 392
PREFACIO DO AUTOR

O escopo do Novo Comentário Internacional do Antigo Testamento


desafia o comentarista a combinar o desvelo de um exegeta com a con­
sideração de um pastor. Este escopo se destina a fornecer um recurso a
pastores e professores da Palavra sob uma forma útil e prática.
O primeiro beneficiário de tal procedimento naturalmente é o pró­
prio autor. Foi um enomie privilégio estar enredado com os escritos
desses profetas do século 7« a.C. em termos de seu significado para os
dias atuais.
O elo estreitamente tecido entre a profecia e a história se toma par­
ticularmente evidente mediante o estudo desses três livros. Sua brevida­
de exige um contexto. A medida que o lugar dessas mensagens na histó­
ria é explorado, toma-se mais e mais evidente que a história bíblica em
si incorpora a profecia. A profecia bíblica nasce não apenas das cir­
cunstâncias concretas da história; a própria história bíblica funciona
como profecia. Os acontecimentos que vieram sobre Judá e seus vizi­
nhos falavam por antecipação das circunstâncias mundialmente estre-
mecedoras que estavam por vir.
Esta perspectiva sobre os eventos da história de Judá fornece o elo
necessário para ver as implicações atuais da mensagem desses antigos
videntes. Pois, se juízos divinos sucessivos sobre as nações pagãs têm
uma dimensão profética, então os povos e nações de hoje devem ficar
atentos (Na 1.2). Se Deus prometeu que seu próprio povo “viverá” a
despeito da derrocada das nações poderosas, então aqueles que conti­
nuam a confiar no Senhor podem continuar tendo esperança a despeito
das calamidades (Hc 2.4). Se Deus Já prometeu que se manifestaria na
forma de “herói vitorioso” que salva por causa de seu amor resoluto,
então cada geração sucessiva deve centralizar sua esperança na vinda
do Senhor em seu grande Dia (Sf 3.17).
10 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Que o Senhor das Escrituras se agrade em abençoar estes comentá­


rios de uma porção relativamente negligenciada de sua Palavra, com
um novo derramamento de seu Espírito. Possam todos os pregadores e
professores, comprometidos com o Cristo das Escrituras, encontrar uma
razão renovada para fazerem sua contribuição, na direção do cumpri­
mento da profecia, de que “a terra se encherá do conhecimento da gló­
ria do S e n h o r como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14).

O. Palmer Robertson
Washington, D.C.
l®de maio de 1986
ABREVIATURAS

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Bib Biblica
BibOr Biblica et orientalia
BKAT Biblischer Kommentar: Altes Testament
B.sac Bibliotheca Sacra
BZAW Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft
CBQ Catholic Biblical Quarterly
CBQMS Catholic Biblical Quarterly Monograph Series
DOTT D. W. Thomas, org.. Documents from Old Testament Times,
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EvQ Evangelical Quarterly
ExpTim Expository Times
Fest. Festschrift
GKC E. Kautzsch e A. E. Cowley, Gesenius'Hebrew Grammar, 2’
ed. Oxford: Clarendon, 1910.
HAT Handbuch zum Alten Testament
HUCA Hebrew Union College Annual
ICC International Critical Commentary
IDB (S) G. A. Buttrick, et. al., orgs.. Interpreter’s Dictionary o f the
Bible. 4 vols. Nashville: Abingdon, 1962. Supplementary Vo­
lume. Org. K. Crim, et. al. 1976.
12 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

lEJ Israel Exploration Journal


JBL Journal of Biblical Literature
JETS Journal o f the Evangelical Theological Society
JNES Journal o f Near Eastern Studies
JSS Journal o f Semitic Studies
JTS Journal o f Theological Studies
KAT Kommentary zum Alten Testament
KB L. Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Li-
hros. Leiden: Brill, 1958.
Lit. literalmente
LXX Septuaginta
Ms(s). manuscrito(s)
MT Texto Massorétieo
NASB New American Standard Bible
NICNT New International Commentary on the New Testament
NICOT New International Commentary on the Old Testament
NIV New International Version
OTL Old Testament Library
OTS Oudtestamentische Studiën
RevQ Revue de Qumran
SBL Society of Biblical Literature
T.B. Babylonian Talmud
TE>NT G. Kittel e Friedrich, orgs.. Theological Dictionary o f the New
Testament. 10 vols. Trad, e org. G. W. Bromiley. Grand Rapi­
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VTSup Supplements to Vetus Testamentum
WTJ Westminster Theological Journal
ZAW Zeitschrift fiir die alttestamentliche Wissenschaft
ZPEB M. Tenney, et. al., orgs., Zondervan Pictorial Encyclopedia o f
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INTRODUÇÃO

1. PANORAMA HISTORICO-REDENTOR
Se Moisés e Josué propiciaram o curso para Israel no decurso de sua
posse da terra, então os escritos dos profetas forneceram o rumo para
Israel quando de sua perda da terra. Uma apreciação da riqueza do
significado bíblico-teológico da imagem da terra nas Escrituras pode
realçar esse aspecto do ministério dos escritos dos profetas, inclusive
Naum, Habacuque e Sofonias.
Abraão recebeu a promessa da terra não porque não possuísse ne­
nhuma, mas porque essa dádiva de Deus comunicava a esperança da
restauração do paraíso. Ele perambulou pela terra durante toda sua vida,
esperando tomar posse da promessa até o dia de sua morte. Quando a
terra foi finalmente reivindicada, ela foi descrita em termos idílicos:
era a terra “que mana leite e mel” (Êx 3.8,17; etc.). Como um paraíso
restaurado, a possessão da terra significava a consumação dos propósi­
tos redentores de Deus.
Assim sendo, por essa perspectiva, o que poderia significar para o
povo de Deus o desterro da terra? Eles haviam se tornado o “Não-
Meu-Povo” (ver Os 1.9). Não mais possuíam o símbolo das bênçãos da
redenção. O que poderia ser mais drástico? Quem poderia traduzir tal
experiência? Esta tarefa foi dada aos profetas escritores de Israel. Na
qualidade de intérpretes inspirados por Deus da fragmentação das na­
ções, eles ofereciam a estrutura para uma fé que poderia fornecer a
chave para a vida em meio a circunstâncias desastrosas.
De muitas formas, o exílio de Israel, deixando sua terra, foi um
evento redentor muito mais complexo do que o chamado de Abraão.
Os propósitos da redenção divina se concentraram originalmente em
um único indivíduo. Mas agora a nação inteira, manifestando uma
14 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

resposta diversificada aos desafios da fé, toma-se o centro dos atos reden­
tores de juízo e salvação. Enquanto Deus executava seus propósitos, for­
ças mundiais poderosas, conduzindo tropas, cruzavam os continentes em
busca da execução de seus projetos ambiciosos. Eles também tinham um
papel a desempenhar no desenrolar do drama da redenção.
A batalha da vida pela fé, originalmente demonstrada por um único
patriarca errante, havia assumido proporções internacionais. Em vez
de reivindicar a promessa da terra em oposição a outros povos locali­
zados, o povo de Deus tinha agora de exercitar a fé em face de uma
disputa internacional pelo poder, que visava o controle da faixa de ter­
ra palestina, a qual ligava os três continentes.
E admirável ver como a fé triunfa (ou como a descrença redunda
em fracasso) numa cena que envolve toda a sorte de intrigas na política
internacional. Principalmente quando a disputa chega a um clímax,
como ocorre no século 7®a.C., a fé dos reis de Judá nas promessas da
aliança de Deus determina o curso de indivíduos e nações mais do que
todos os recursos dos monarcas mais poderosos em suas épocas de
maior grandeza.
A fé ocupa 0 centro de todo este drama cósmico; e são os profetas
de Israel que interpretam e aplicam as exigências da fé à sua própria
geração. Os ministérios de Naum, Habacuque e Sofonias se encaixam
bem neste esquema dos propósitos redentores de Deus. Seus ministérios
focalizam a nação de Judá, visto que Deus lhe deu o papel central como
seu servo escolhido. Judá, porém, é sempre o emissário a trazer a men­
sagem da redenção e Juízo às nações que fornecem a base para a con­
centração de Deus nesta minúscula nação entre os gigantes do globo.
Ao abordar a história do mundo do século 7®a.C., da perspectiva
histórico-redentora, podem-se observar épocas-chave cristalizando o
papel da redenção no cenário internacional.

A. OS TRIUNFOS DA FE NOS DIAS DE EZEQUIAS (715-687 a.C.)


Um confronto direto dos principais atores começa no século 7®
a.C. Senaqueribe da Assíria (705-681) chega aos portões de Jerusalém
em 701. Ezequias de Judá havia tomado fortes medidas de fé ao repudiar
INTRODUÇÃO 15

a dominação assíria e preparar para a retaliação que certamente viria


(2Rs 18; 2Cr 32; Is 36,37). Uma dessas medidas de fé foi a construção
do túnel de Ezequias, até hoje “com justiça reconhecido como um dos
grandes feitos da Antiguidade”.' Começando pelas duas extremidades,
os trabalhadores perfuraram a rocha sólida numa extensão total de 546
metros; a inclinação do túnel chegou a meros 2,19 metros enquanto
avançava em sua rota sinuosa. Embora petrificados diante da aterrado­
ra visão das tropas assírias, quando estas chegaram, os israelitas po­
diam pelo menos rir entre si dos insultos dos emissários de Senaqueribe,
de que eles morreriam de sede se persistissem em resisti-lo (ver 2Cr
32.11).
Mas esta manifestação de fé na supremacia do único Deus verda­
deiro por Ezequias dificilmente se compara com a obra que o Senhor
mesmo iria realizar em resposta à fé de seu servo. O exército assírio,
acampado fora de Jerusalém, foi destruído numa noite, e Senaqueribe
foi forçado a retomar à Assíria (Is 37.36-38; 2Rs 19.35-37; 2Cr 32.20-
21). Não só os registros bíblicos, mas também os anais assírios atestam
a obra de Deus, apesar dos esforços de Senaqueribe em esconder essa
calamidade. Tal como preservado no Instituto Prisma Oriental, o mo­
narca se gaba:

Em minha terceira campanha marchei contra Hatti [Siro-Palesti-


na]. Luli, o rei de Sidom, a quem a fascinação da inspiração de
terror em minha dominação havia aterrorizado, fugiu para o alto-
mar e soçobrou...
... Sidqa, entretanto, rei de Asquelom, que não se curvou diante de
meu jugo, deportei para a Assíria. Enviei seus deuses domésticos,
ele próprio, sua esposa, seus filhos, seus irmãos, todos os descen­
dentes masculinos de sua família...
... Na escaramuça da batalha, pessoalmente capturei vivos os con­
dutores de carros egípcios com sua princesa e (também) os condu­
tores de carros do rei da Etiópia...

I. C. F. Pfeiffer, org.. The Biblical Word: A Dictionary o f Biblical Archaeolog}' (Grand


Rapid.s; Baker, 1966), p. 530.
16 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Quanto a Ezequias, o judaíta, que não se submeteu a meu jugo,


armei um cerco em volta de 46 cidades fortes... Eu o fiz prisioneiro
em Jerusalém, bem como sua residência real, como a um pássaro
engaiolado... O próprio Ezequias, aterrorizado pelo esplendor de
meu senhorio... A fim de entregar o tributo e praticar obediência
como escravo, ele enviou seu mensageiro (pessoal).-

Um exame do registro de Senaqueribe revela muitos pontos dignos


de nota:
(1) Senaqueribe deportou o rei de Asquelom - que havia resistido à
autoridade assíria - com sua família, e em seu lugar colocou um subs­
tituto leal.
(2) Senaqueribe não faz qualquer alegação específica a Ezequias, e
a história mostra que Ezequias continuou em seu trono, o contrário do
costume nonnal de ação de Senaqueribe.
(3) O registro bíblico inclui uma referência ao assalto de Tiraca
(ou Taarca), rei etíope do Egito, contra Senaqueribe (2Rs 19.9). Esta
nota corresponde à própria referência de Senaqueribe à intrusão do
Egito durante essa campanha, e fornece mais uma indicação da manei­
ra como o Senhor ordena os movimentos das nações para servirem a
seus propósitos redentores.^
(4) A vivida descrição de Ezequias, sendo feito prisioneiro em sua
própria cidade real de Jerusalém, “como a um pássaro engaiolado”, só
ressalta que a cidade não foi tomada, mas apenas sitiada.
(5) Um alto relevo na parede do palácio de Senaqueribe, na Assí­
ria, mostra o rei sentado num trono portátil do lado de fora de Laquis.
Tal como observado por D. J. Wiseman, “a preeminência dada pelas
esculturas de Senaqueribe deste evento ressalta seu fracasso em captu­
rar Jerusalém, a despeito da ênfase dada ao cerco da capital de Judá em
seus registros escritos”.''

2. ANET, p. 287,288.
3. Estudos mais recentes eonfirmam que Tiraca tinha idade suficiente para comandar o
exercito egipeio na Palestina em 701 a.C. Conferir B. Oded, em Israelite and Judaean
History, org. J. H. Hayes e J. M. Miller, OTL (Filadélfia: Westminster, 1977), p. 448.
4. D.’J. Wiseman. in DOTT. p. 69.
INTRODUÇÃO 17

(6) A última humilhação de Senaqueribe, tal como registrada nas


Escrituras, corresponde basicamente aos registros da Assíria e Babilô­
nia. Segundo as Escrituras, o altivo rei sofreu a humilhação em dose
dupla ao ser assassinado por seus próprios filhos - na casa de seus
próprios deuses (2Rs 19.36-37). Correspondentemente, no cilindro de
Assurbanipal, neto de Senaqueribe, se lê: “Como uma oferenda póstu­
ma, nesta ocasião, eu esmaguei o resto do povo vivo com as mesmas
figuras das deidades protetoras entre as quais eles haviam esmagado
Senaqueribe, meu próprio avô. Sua carne retalhada eu a dei aos cães,
porcos, chacais, pássaros e urubus, aos pássaros do céu, e aos peixes
das profundezas”.’ Nenhuma menção se faz de Senaqueribe sendo as­
sassinado na casa de seus deuses. Mas a menção das “figuras das deida­
des protetoras” se refere aos colossais touros alados com cabeça humana
que guardavam as entradas principais dos palácios e templos assírios e
combinam bem com o testemunho bíblico. Uma breve nota na crônica
babilónica fornece maiores confirmações: “No mês de Tebitu, no dia 20,
seu filho assassinou Senaqueribe, rei da Assíria, durante uma rebelião”.*
Portanto, no meio das marchas de um poderoso tirano, as intercep-
tações de um segundo império mundial, e as intrigas mortais de uma
família real, o Deus de Israel se mostrava fiel às promessas feitas a
Davi e a seus filhos. A fé de Ezequias nos propósitos soberanos de
Deus era mais forte do que exércitos humanos. Os propósitos de Deus
em providenciar um caminho de redenção do pecado se mostraram
mais fortes do que os resolutos empenhos de seres humanos.

B. OS DIAS SOMBRIOS DA APOSTASIA SOB MANASSES


(687-642 a.C.) E AMOM (642-640 a.C.)
O rei Manassés deve ser responsabilizado pessoalmente pela intro­
dução das abominações da prostituição sacra e sacrifícios humanos no
culto de Israel (2Rs 21 .6-9; 2Cr 33.6-9), independente de que pressões
lhe possam ter sido impostas por terceiros. Por causa dessas profana­
ções, ele selou o destino de Israel a despeito dos arrependimentos sub­
sequentes.
5. DOTT, p. 72.
6. ANET, p. 302.
18 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

A despeito de sua perversidade, Manassés sobreviveu ao domínio de


três monarcas assírios: Senaqueribe (705-681), Esar-Hadom (681-669)
e Assurbanipal (669-627), mas não de maneira gratuita. Os registros de
Esar-Hadom reportam à submissão de Manassés: “Eu convoquei os reis
do território Hatti [Siro-Palestina] e (da região) do outro lado do rio (Eu-
frates) (a saber): Ba’lu, rei de Tiro, Manassés {Me-na-si-i), rei de Judá
(la-ú-dí) ... a todos esses eu enviei e fiz que transportassem, sob grande
dificuldade, para Nínive, a cidade (onde eu exerço) meu reinado, material
de construção para meu palácio: grandes troncos, longas vigas, (e) finas
tábuas... produtos das montanhas do Líbano (Lab-na-na), que cresceram
por muito tempo e se tomaram madeira forte e comprida”.^
Durante esse tempo, a detemiinação da Assíria em subjugar o Egito
alcançou seu ponto máximo. Como consequência, um agressivo pode­
rio assírio militar e político se fez sentir na Palestina em todo esse perío­
do. Portanto, não surpreende ver Manassés catalogado junto com os
que foram forçados por Assurbanipal a ajudá-lo em suas incursões no
interior do Egito: “Em minha primeira campanha, marchei contra o Egito
(Magan) e Etiópia... Durante minha marcha (contra o Egito), 22 reis do
litoral, das ilhas e do continente... Manassés (Mi-in-si-e), rei de Judá
{la-ii-di)... servos que me pertencem, trouxeram grande quantidade de
presentes... para mim e beijaram meus pés. Eu obriguei a esses reis a me
acompanharem por terra - bem como por mar - junto a suas forças
armadas e seus navios”.* Não se indica que as tropas de Israel foram
obrigadas a acompanhar o rei por todo o percurso de 644 km até o Nilo,
a Tebas. O monumento assírio prossegue seu relato contando como Tiraca
“ouviu em Mênfis sobre a derrota de seu exército”; então “deixou Mên-
fis e fugiu, a salvar sua vida, para a cidade de Ni’ (Tebas)”. Assurbani­
pal observa: “A esta cidade (também) conquistei e deixei meu exército
repousar (ali) ... Voltei com muitos prisioneiros e muitos despojos a
salvo para Nínive”. O conto desta incrível conquista era bem conhecido
dos habitantes de Judá, como visto na profecia de Naum. Ele ousada­
mente pergunta aos assírios se sua situação de defesa era melhor que
aquela de Nô (o N i’ da inscrição de Assurbanipal - Na 3.8-10).

l.A N E T ,p . 291.
8. A.MET, p. 294.
INTRODUÇÃO 19

É bastante curioso o fato de a presença assíria em Israel alcançar


seu auge no tempo em que o monarca de Israel mostrava pequena ou
nenhuma fé no único Deus vivo e verdadeiro. De uma perspectiva pu­
ramente secular, a Assíria teria de invadir e subjugar o Egito, caso
quisesse continuar mantendo o controle da região Siro-Palestina. Por
mais impossível que a tarefa parecesse, o esforço tinha de ser feito. De
outra maneira, a aspiração assíria de dominar o mundo teria de ser
abandonada. Mas dificilmente alguém pode desprezar o fato de que o
tempo do expansionismo assírio corresponde aos dias sombrios da apos­
tasia prevalecente sob o reinado de Manassés. O Deus de todas as na­
ções não permitiria que o povo que se chamava pelo seu nome o negas­
se impunemente.
Outro capítulo na vida de Manassés é relatado pelo escritor de Crô­
nicas. Segundo esse relato, Manassés foi levado para Babilônia, pelo
capitão do exército do rei da Assíria, onde arrependeu-se, humilhou-se
e orou ao Senhor, e foi levado de volta a Jerusalém. Ao regressar, ele
instituiu alguns projetos de construção e deu início a numerosas refor­
mas religiosas (2Cr 33.11 -20).
Conquanto nenhum testemunho direto extrabíblico confirme esse
registro distintivo de Crônicas, algumas considerações circunstanciais
apoiam o relato. Agitações espalhadas em todo o império assírio foram
geradas por uma revolta em 652, liderada por Shamash-shum-ukin, ir­
mão mais velho de Assurbanipal e regente da Babilônia.’ Talvez Ma­
nassés fosse suficientemente ousado em revoltar-se enquanto a atenção
da Assíria estava posta na porção oriental, particularmente à luz da
força crescente de Psamético I (ou Psamtik; 663-609), filho deNeco, a
quem os assírios haviam tratado com misericórdia.'“ Uma excursão
subsequente de Assurbanipal ao ocidente pode ter sido a ocasião da
humilhação de Manassés, seu exílio temporário e retorno final para a
Palestina." Aparentemente, entre a subjugação de seu irmão em 648 e
a humilhação de Elão mais para o leste em 639, Assurbanipal organi­
zou um assalto ao oeste a fim de subjugar aqueles que se revoltaram

9. J. Bright. A History o f Israel. 3 ' cdiçào (Filadélfia; Westminster, 1981), p. 313.


10. /í,V £r,p.295.
11. Bright. Hislor}’ o f Israel, p. 14.
20 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

juntamente com os árabes.*- Embora Judá não seja especificamente


mencionado, os textos assírios mencionam a conquista de Edom, Amom
e Moabe.'^ Quanto ao rei rebelde da Arábia, Assurbanipal declara triun­
fante: “Coloquei um pelourinho (em volta) de seu (pescoço) junto a
um urso (e) a um cão, e o obriguei a montar guarda no portão de
Ninive”.*'*
E possível que Manassés tenha estado ali também. Se o exílio de
Manassés aconteceu depois de Assurbanipal haver sufocado a revolta
de seu irmão em 648, o rei judaíta estaria com mais de sessenta anos de
idade naquela época, não tendo conhecido outra forma de viver senão
a do trono, desde que tinha 12 anos de idade (2Cr 33.1). O choque de
uma repentina e completa humilhação poderia ter causado a piedade
que caracterizou provavelmente os últimos cinco anos de seu reinado
de cinquenta e cinco anos.
Justamente tal circunstância histórica é que fornece um contexto
apropriado para a profecia de Naum. Com o retorno do leste e o triun­
fo sobre a capital elamita de Susã em 639, o império assírio não pode­
ria estar mais forte. Do Egito ao Elão, ele dominava todas as nações
do mundo. Ainda assim, Naum não hesita em declarar sua destruição.
A reforma de Manassés. embora tenha sido pequena em comparação
com os longos anos que passou assentando um alicerce para uma apos­
tasia duradoura, pode explicar por que Naum diz tão pouco ou nada
sobre a culpa do povo de Deus. Quanto mais longe da morte de Assur­
banipal, em 627, se data Naum, menos impacto se sente de um elemen-
to-chave para sua profecia:

Assim diz o S enhor:


Por mais seguros que estejam
e por mais numerosos que sejam,
ainda assim serão exterminados e passarão;
eu te afligi, mas não te afligirei mais. (Na 1.12)

12. G Roux. A ndem íniq (Baltimore; Penguin, reimpr. 1976), p. 302,303.


\ 3. A NE T, p. 298.
14. fhid.
INTRODUÇÃO 21

Ao introduzir esta análise sobre a condição de Nínive em seus pró­


prios dias, Naum emprega o costumeiro e solene “Assim diz o S e ­
n h o r ” pela primeira e única vez. Ele põe a ênfase no fato de que, a

despeito de toda a aparência de força da Assíria, Deus certamente dava


garantias de sua queda. Somente a fé na soberania da redenção divina
poderia gerar a crença nessa mensagem a respeito da queda de Nínive
sob tais circunstâncias. Mas se a mão de Deus podia ser vista coorde­
nando a hora de maior força do instrumento de castigo divino com a
depravação mais profunda de seu povo, então a fé podia também crer
na destruição iminente de seus inimigos, mesmo quando pareciam es­
tar no apogeu de sua força.
Manassés foi sucedido por seu filho, Amom, que reinou apenas
dois anos antes de ser assassinado pelos servos de sua casa (2Rs 21.19-
23; 2Cr 33.20-24). A raridade desse tipo de violência contra o trono do
reino do sul comprova a graça de Deus em honrar a promessa feita à
linhagem de Davi. Enquanto dez dinastias diferentes se consumiram
umas às outras em aproximadamente 200 anos de história do reino do
norte, somente uma dinastia, a de Davi, reinou em Judá por quase 350
anos.
As Escrituras não discutem sobre a razão do assassinato de Amom.
Talvez um partido anti-assírio, instigado pelo Egito, tenha removido
Amom quando detectaram seu retomo às políticas iniciais de Manassés.'*
De qualquer modo, o “povo da terra” imediatamente tomou controle da
situação, executou os assassinos de Amom e colocou em seu lugar seu
próprio filho, Josias, de 8 anos de idade (2Rs 21.24; 2Cr 33.25). Esse
“povo da terra” poderia ter sido “uma classe social e política privilegi­
ada ou uma instituição aristocrática de donos de terras que era ativa no
nível legal e militar e que exercia influência política”.'® De qualquer
modo, eles pareciam nutrir uma lealdade para com as provisões relati­
vas à sucessão ao trono como se encontra na aliança davídica. Sua ação
rápida preservou o trono de Davi intato, a despeito da possibilidade de
intrigas internacionais.

15. B. Oded em Israelite and Judean History-, p. 456.


16. Ibid., p. 457. Ver sua discussão para referências bibliográficas.
22 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

C. REFORMA SOB JOSIAS (640-609 a.C.)


Josias começou sua carreira pública aos 8 anos de idade com o
trauma de saber que seu pai de apenas 24 anos de idade havia sido
assassinado, que os assassinos haviam sido executados e que ele seria o
rei. Sem dúvida, a trama da conspiração gerou muito alvoroço e confu­
são nos corredores do palácio real naqueles dias.
Nada se sabe dos primeiros anos do reinado de Josias. Mas, ainda
muito jovem, ele teria ficado muito impressionado com o conhecimento
da fidelidade da aliança de Deus ao longo dos séculos. Ele era um filho
de Davi, um descendente direto daquele escolhido de Deus para reinar
naquele exato lugar, trezentos anos antes. Nem os faraós do Egito, ou os
monarcas da Assiria, poderiam gabar-se de um Deus tão fiel e tão pode­
roso assim. Ao completar 16 anos de idade, Josias “começou a buscar o
Deus de Davi, seu pai” (2Cr 34.3). Nessa passagem particular do cro­
nista, o autor exílico emprega uma de suas palavras-chave para descre­
ver a experiência religiosa inicial do Jovem rei: ele começou “a buscar”
o Senhor (2Cr 34.3; conferir a sentença programática de 2Cr 7.14).
Seguindo esta sua inclinação inicial, Josias, aos 20 anos de idade, co­
meçou a purificar Judá e Jerusalém das imagens pagãs que Manassés
havia introduzido (2Cr 34.3-7). Ele estendeu suas reformas até o terri­
tório dominado pela Assíria, do reino do norte, de Israel, inclusive as
cidades localizadas nos territórios de Manassés, Efraim, Simeão e até
mesmo Naftali (2Cr 34.6). A época exata do início da purificação feita
por Josias é importante por três razões:
(1) Esta purificação inicial ocorre no décimo segundo ano de seu
reinado, que seria 628 a.C. A importância desta data consiste em que
ela aparentemente situa-se antes da morte de Assurbanipal, que já foi
confirmada como tendo ocorrido no ano 627 a.C.’’ Ainda vivia o pode­
roso tirano que havia intimado Manassés a ajudá-lo a invadir o Egito.
Mesmo assim, Josias ousou movimentar-se na parte norte da Palestina e
exercer sua prerrogativa como personagem do rei messiânico de Israel.
Para um jovem de apenas 20 anos de idade, este ato só poderia ser
inspirado por ingenuidade ou por sólida fé na justiça da causa do Senhor.

17. J. Bright, Jeremiah, AB (Garden City, NY: Doubleday, 1965), p. xxxvi.


INTRODUÇÃO 23

(2) Esta purificação inicial de Josias precedeu o chamado e minis­


tério de Jeremias e, evidentemente, também Sofonias. Ainda que jo ­
vem e sem o respaldo profético, Josias demonstrou coragem, fé e força
de vontade ao derrubar uma tradição religiosa, social e política que
havia regulado a vida inteira de sua população durante os últimos ses­
senta anos.
(3) Esta purificação inicial precedeu a descoberta do “Livro da Lei”
no templo em seis ou sete anos. Mesmo sem esta justificativa de autori­
dade para suas ações, o rei introduziu seu programa radical de reforma.
Com a morte de Assurbanipal em 627, esta era chegou ao fim. Pe­
los cem anos anteriores, o poder da Assíria havia dominado a vida do
povo da Palestina. Depois de um breve interlúdio sob Ashur-etil-ilani
(627-623), seu irmão, de pouca força de vontade, Sin-shar-ishkun (623-
612), presidiu a rápida queda do reino. Por pouco mais de dez anos de
sua ascensão ao trono, Níni ve, a Grande, havia caído. Mal morreu Assur­
banipal e a Babilônia já asseverava sua independência sob a liderança de
Nabopolassar (626-605), o primeiro rei do império neo-babilônico. Uma
Média reavivada sob Ciaxares (625-585) emergiu para se tomar mais do
que meramente um espinho incômodo na ilharga da Assíria.
A vantagem imediata do desenvolvimento de novas ameaças polí­
ticas do leste era que o oeste podia agir relativamente independente do
medo de represália imediata por parte da Assíria. Conquanto este novo
alívio não deva ser visto como um fator primário para o movimento de
reforma de Josias, ele forneceu um clima mais favorável para as inten­
ções do rei. Se a fraqueza da fé de Manassés tiver correspondido ao
tempo da força assíria sob Assurbanipal, a força da fé de Josias corres­
pondeu ao tempo de fraqueza sem precedentes da Assíria.
Foi nesse contexto que o “Livro da Lei” que fora “dado por inter­
médio de Moisés” foi descoberto em 622 (2Rs 22.8; 2Cr 34.14-15).
Nessa altura, a reforma de Josias tomou um impulso importante. O
livro de Reis enfatiza a destruição dos centros de falsa adoração e a
extensão da reforma até o território de Betei, no reino do norte (2Rs
23). O livro de Crônicas presta especial atenção à celebração cultuai
da Páscoa, observando o papel preeminente dos sacerdotes, levitas e
cantores (2Cr 35).
24 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

O poderoso ministério profético de Sofonias parece ter surgido jus­


tamente nessa ocasião.'® Josias fez um compromisso público de insti­
tuir um modo de vida para seu reino baseado no padrão estabelecido
no “Livro da Aliança”, Ele recebeu todo o apoio de que precisava no
ministério do profeta Sofonias. Com uma linguagem saturada das for­
mulações pactuais do livro de Deuteronômio, Sofonias apresenta uma
figura do juízo pactuai sem rival em qualquer outro lugar das Escritu­
ras, por causa de sua severa descrição dos terrores da consumação imi­
nente. Ao mesmo tempo, sua penetração no amor de Deus alcança di­
mensões que ultrapassam a imaginação. Mesmo no contexto da devas­
tação iminente por causa do pecado, o amor redentor de Deus por seu
povo prevaleceria.
As Escrituras fornecem pouca informação sobre o cenário interna­
cional entre o tempo da reforma de Josias em 622 e sua morte em 609.
Mas o seguinte esboço dos eventos pode ser reconstruído a partir de
vários documentos extrabíblicos:
( 1) Uma série de ataques e contra-ataques marca a relação dos as­
sírios e babilônios durante esse periodo.'’ Enquanto isso, Psamético 1
do Egito (663-609) aliou-se à Assíria já em processo de enfraqueci­
mento, talvez sentindo que a posição emergente da Babilônia lhes era
uma ameaça maior que seu conquistador anterior.-®
(2) Ciaxares, rei dos medos, tomou Assur, a antiga capital da Assí­
ria, em 614. Este evento confirmou ainda mais o caráter enfraquecido
do império assírio.
(3) Os medos e os babilônios reuniram forças e invadiram Nínive
em 612. A cidade caiu depois de um cerco de três meses, com o rei
assírio Sin-shar-ishkun aparentemente perecendo nas chamas. Um rela­
to da queda se encontra na Crônica Babilónica: “O rei de Acádia [Babi­
lônia] convocou seu exército e o rei [Ciaxarjes... marchou em direção
ao rei de Acádia... eles marcharam (rio acima) no aterro do Tigre e...
[montaram acampamento] contra Nínive... eles fizeram um grande ata­
que contra a cidade... [Eles fizeram] a cidade em monturos de ruínas...
18. Ver mais abaixo a seção sobre a data e autoria de Sofonias.
19. Roux, A ndem Iraq, p. 340.
20. Bright, History’ o f Israel, p. 316.
INTRODUÇÃO 25

Ciaxares e seu exército regressaram a seu país... Ashuruballit... sentou-


se em Harã, sobre o trono, para tomar-se o rei da Assíria”.^' A luz deste
relato, fica evidente que os babilônios assumiram a supremacia sobre
esta área do Tigre enquanto os medos regressavam ao oriente. Ao mes­
mo tempo, um remanescente de vassalos assírios leais estabeleceu um
novo rei e capital em Harã, aproximadamente a 242 km a oeste de
Nínive.
(4) Dois anos mais tarde, em 610, a Babilônia derrotou o remanes­
cente das forças assírias uma vez mais em Harã, embora a resistência
assíria não fosse totalmente eliminada. Faraó Neco II (609-594) conti­
nuou a política de seu pai Psamético e decidiu fornecer auxílio às tro­
pas restantes da Assíria. Se Harã fosse reconquistada, então talvez a
Assíria pudesse continuar como um Estado-tampão entre o Egito e a
Babilônia.^^
Foi nesse ponto que o rei Josias deu sua tacada fatal. Talvez visse a
marcha das forças egípcias em seu território como uma afronta à sua
soberania em expansão. Talvez sentisse que era absolutamente necessá­
rio resistir a qualquer fortalecimento da mão de uma Assíria que havia
oprimido sua nação por tanto tempo. Seja qual for o caso, Josias inter­
ceptou estrategicamente o exército egípcio no passo de Megido em 609.
Neco tentou dissuadi-lo. Segundo o cronista, as palavras de Neco foram
“da parte de Deus” a Josias, mas ele não fez caso (2Cr 35.21-22). Ten­
do sido fatalmente ferido, Josias recuou para Jerusalém, onde morreu.
Apropriadamente, todo o Judá e Jerusalém prantearam Josias se­
gundo a lamentação composta por Jeremias (2Cr 35.24-25). Sua morte
tão estranha marcou o fim de uma era. Era o último fio de esperança
para Judá. A lamentação por Josias se tornou uma tradição em Israel
(2Cr 35.25), e foi lembrada vividamente quase cem anos depois, no
tempo da restauração de Israel (cf. Zc 12.10-11). Este ato de lamenta­
ção sobre o último dos reis-messias fiéis de Israel eventualmente foi
tratado profeticamente nas Escrituras. Ele se tornou uma figura da la-

2\.ANET,x>. 304,305.
22. O testemunho dos monumentos coincide com a afirmação nas Escrituras em 2 Reis
23.29, entendendo que o versiculo deveria ser traduzido assim: “Faraó Neco, rei do Egito,
subiu a [ ‘af]o rei da Assiria", em vez de “canira o rei da Assíria” da AV.
26 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

mentaçào final de Israel enquanto lamentavam os sofrimentos de seu


rei verdadeiramente messiânico (Jo 19.37; cf. Ap 1.7).

D. DESTRUIÇÃO DOS FILHOS E DO NETO DE JOSIAS


(609-587 a.C.)
Após a morte de Josias, o fim chegou velozmente. Numa sucessão
rápida, três dos filhos de Josias e um de seus netos reinaram sobre
Jenisalém até o colapso fatal do reinado dos babilônios em 587. Parece
que as Escrituras não explicam explicitamente a razão por que as re­
formas do bom rei Josias não alcançaram sua própria família. Mas uma
análise da evidência concernente às circunstâncias de sua casa pode
fornecer alguma compreensão do problema.
Josias começou a reinar quando tinha apenas 8 anos de idade, e
continuou no trono até completar 39 (2Rs 22.1). Visto que seu segundo
filho mais velho, Jeoacaz (com sua mulher Hamutal), tinha 23 quando
sucedeu Josias no trono (2Rs 23.31), Josias devia ter 16 quando Jeoa­
caz nasceu. Mas então as Escrituras observam que quando seu filho
mais velho, Jeoaquim (com outra esposa chamada Zebida), sucedeu seu
irmão três meses mais tarde, ele tinha 25 anos (2Rs 23.36). Então o
primeiro filho de Josias nasceu quando ele tinha 14 anos, significando
que aos 13 ele já estava casado. Em suma, Josias subiu ao trono quando
tinha 8 anos de idade, e teria se casado pelo menos aos 13, para estar em
situação de poligamia aos 15, e foi pai pelo menos de dois filhos com
duas esposas diferentes quando tinha 16 anos.
Ao que parece, o “povo da terra” teria se encarregado dos casamen­
tos de Josias em idade bem jovem graças ao zelo para manter a linha­
gem de Davi. Depois do assassinato de Amom, pai de Josias, eles teriam
ficado extremamente ansiosos em garantir um sucessor davídico por
intermédio do jovem rei. Possivelmente, Hamutal, mãe de Jeoacaz, fos­
se a primeira esposa de Josias e seu casamento fosse arranjado até mes­
mo antes de completar 13 anos. Quando esse casamento falhou em pro­
duzir um filho, Josias, então com 13 anos, tomou outra esposa, Zebida,
mãe de Jeoaquim. Essa possível sequência dos eventos explicaria por
que Jeoacaz, nascido dois anos depois de Jeoaquim, foi o primeiro dos
filhos a subir ao trono. Seja como for, uma cena doméstica envolvendo
INTRODUÇÃO 27

um jovem de 16 anos com duas esposas e dois filhos talvez explique por
que os dois filhos de Josias não foram afetados pelas reformas do pai.
Embora o “povo da terra” houvesse agido rapidamente no estabe­
lecimento de Jeoacaz como rei, logo após a morte de Josias (2Cr 36.1),
seu controle da situação se destinava a ter vida curta. O Egito prosse­
guiu em sua marcha rumo a Harã com o intuito de tentar, uma vez mais,
em cooperação com os remanescentes do exército assírio, repelir os
avanços de Nabopolassar da Babilônia. A Crônica Babilônica registra o
confronto nas margens do rio Eufrates, ao norte da Palestina: “No [dé­
cimo sétimo ano (de Nabopolassar, que seria 609 a.C.)]... Ashur-uballit,
rei da Assíria, um grande exército egípcio... cruzou o rio e marchou
contra a cidade de Harã para conquistá-la... eles destruíram a guarnição
que o rei de Babilônia deixara estacionada ali... e ele sitiou a cidade de
Harã... mas embora não a tenha tomado, eles se retiraram”.^^
Regressando de seu frustrante fracasso em ganhar uma vitória deci­
siva sobre a Babilônia, Neco fez uma pausa em Ribla, ao norte de Da­
masco, para lamber suas feridas. Evidentemente, num esforço para
consolidar seu controle sobre a Síria e a Palestina, ele convocou Jeoacaz,
o depôs e designou seu irmão mais velho, Eliaquim, como seu sucessor,
mudando seu nome para Jeoaquim. Jeoacaz foi levado em cadeias para
0 Egito, onde morreu, em cumprimento da profecia de Jeremias (c f Jr
22.10-11).
Não se sabe por que Neco favoreceu a Eliaquim em detrimento de
Jeoacaz. De um lado, poderia ser simplesmente que ele tivesse a inten­
ção de asseverar seu desejo de designar um homem que lhe fosse deve­
dor. Do outro lado, a escolha de Jeoacaz pelo “povo da terra” poderia
representar suas expectativas de que ele seguiría as mesmas tendências
antiegípcias de seu pai Josias. Seja qual for o caso, o povo de Israel
exercera sua vontade, pela última vez, determinando quem haveria de
reinar sobre eles.
Jeoaquim, bem cedo, manifestou um caráter que era particularmente
odioso a Jeremias (cf Jr 22.13-23). Enquanto o Senhor requeria Justi­
ça e retidão, Jeoaquim insistiu habitar em um luxuoso palácio de ce-

23. DOTT, p. 77.


28 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

dro, excedendo muitíssimo a habitação de seu piedoso pai Josias. E,


visto que ele mesmo não podia financiar tal luxo, Jeoaquim forçara os
cidadãos a trabalhar para satisfazer sua extravagância, sem pagamen­
to. Josias, que era mais justo, contentara-se simplesmente com comida e
bebida, sentindo que a manutenção da justiça entre o povo era muito
mais importante que estruturas palacianas. Então Jeremias denunciou o
rei, anunciando que Jeoaquim seria humilhado em sua morte, em con­
traste com as honras prestadas a seu pai. O profeta prometeu ao rei que
ele seria sepultado como se “sepulta um jumento” (Jr 22.19).
Essa circunstância histórica, que prevaleceu entre 609 e 605, se
encaixa bem na mensagem da profecia de Habacuque. O profeta come­
ça com uma reclamação severa por causa da violência que permeava o
povo de Deus. Ele estava particularmente preocupado porque a Torá
parecia impotente, o que significa que ele estava falando de violência
entre o próprio povo de Deus (Hc 1.4). Com o exemplo de um rei como
Jeoaquim vivendo perante o povo, não surpreenderia que fizessem o
mesmo. A volta de Jeoaquim às idolatrias de Manassés teria fornecido
amplo endosso teológico ao desrespeito pela Torá de Yahweh. O Senhor
responde por intermédio de seu profeta Habacuque, indicando que ele
iria tratar a situação de uma maneira que o povo não acreditaria nem se
lhes fosse dito ( 1.5). Ele iria suscitar os babilônios, um povo impetuoso,
que marcharia pela largura da terra, arrebatando territórios alheios das
mãos de seus donos ( 1.6).
Ao analisar a evidência interna de Habacuque, que pode auxiliar no
posicionamento do livro na história da redenção, é preciso comparar
muitos fatores. O juízo sobre Judá cairia bastante cedo para ser visto
pelos contemporâneos de Habacuque, visto que a palavra do Senhor diz
que este juízo seria “em vossos dias” ( 1.5). E evidente que os babilônios
de fato se fizeram presentes, o bastante para serem designados como
“nação amarga e impetuosa, que marcha pela largura da terra” ( 1.6).
Ao tempo em que Jeoaquim ocupou o trono, Nabopolassar já havia
marchado até Harã e efetuado uma investida contra as forças coligadas
da Assíria e Egito. Contudo, antes da batalha de Carquemis em 605, a
dominação babilónica sobre a Sírio-Palestina ainda não fora claramen­
te estabelecida. E foi, por fim, Neco do Egito quem nomeou Jeoaquim
INTRODUÇÃO 29

como seu rei marionete. Dentro de dez anos, porém, Nabucodosor (ou
Nabucodonosor), sucessor de Nabonidus, estaria levando cativos de
Judá (em 597); e dentro de vinte anos a incrível devastação da cidade
de Davi seria de fato concretizada (587).
Nesse momento de maior crise de Israel, o profeta Habacuque de­
clara essencialmente uma única mensagem: a pessoa de fé “... viverá”
(Hc 2.4). Mesmo quando Judá se destinava a experimentar o último dos
juízos de Deus, uma pessoa pecaminosa pode ser “Justificada pela fé”, e
dessa maneira ser aceita por Deus, a despeito de sua transgressão, bem
como da nação, da lei pactuai. Mesmo quando os impérios do mundo
estão desabando por todos os lados, a pessoa de fé “viverá”. Ela sobre­
viverá e receberá as bênçãos pactuais; basta simplesmente continuar
crendo, independentemente de quão sombrios sejam os eventos da histó­
ria. Esta é uma mensagem que permanece sem levar em conta as épo­
cas. Se sob tais circunstâncias as promessas pactuais de Deus permane­
cem verdadeiras para os que creem, a obra redentora de Deus jamais
falhará.
Embora o exército babilónico, comandado pelo idoso Nabopolassar
(626-605), sustentasse sua posição em Harã contra a investida combi­
nada assírio-egípcia em 609, ele não foi capaz de atravessar o Eufrates
para o oeste e tomar a estratégica cidade de Carquemis. Mas em 605, o
panorama mudou drasticamente. Como príncipe da coroa e filho mais
velho de Nabopolassar, Nabucodonosor fez seu movimento decisivo.
Ele cruzou o Eufrates e investiu contra Carquemis. A Crônica Babilóni­
ca registra o dramático momento:

No vigésimo primeiro ano [de Nabopolassar, que seria 605] o rei da


Babilônia permaneceu em seu próprio país enquanto o príncipe da
coroa, Nabucodonosor, seu filho mais velho, ocupou pessoalmente
0 comando de suas tropas e marchou contra Carquemis, situada na
margem do rio Eufrates. Ele cruzou o rio (para ir) contra o exército
egípcio que estava localizado em Carquemis... eles se enfrentaram
e o exército egípcio fugiu dele. Ele os derrotou (os esmagou) eli­
minando-os totalmente. Quanto ao remanescente do exército egíp­
cio que escapara da derrota (tão veloz), que nenhuma arma os toca­
30 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

ra, 0 exército babilónico adiantou-se e os derrotou no distrito de


Hamate, de tal modo que nem um só homem [escapou], fugindo
para sua própria terra. Naquela época, Nabucodonosor conquistou
toda a terra de Hatti,-'*

Uma vez vencida a resistência egípcia, não houve mais quem pu­
desse deter Babilónia. O autor de Reis reflete a totalidade da derrota
do Egito: “O rei do Egito nunca mais saiu de sua terra; porque o rei da
Babilónia tomou tudo quanto era dele, desde o ribeiro do Egito até o rio
Eufrates” (2Rs 24.7).
Após uns poucos anos de subserviência à Babilónia, Jeoaquim se
uniu numa revolta contra Nabucodonosor. Em dezembro de 598, o rei
da Babilónia começou sua marcha de volta à Palestina. Tendo chegado,
ele cercou Jerusalém e, em março de 597, tomou a cidade e capturou o
rei. Esse rei seria Joaquim, um rapaz de 18 anos de idade, visto que seu
pai Jeoaquim morrera enquanto Nabucodonosor empreendia sua marcha.
Joaquim está incluso entre os reis condenados por Jeremias (Jr 22).
O profeta diz que Joaquim e sua mãe seriam entregues a Nabucodonosor
e arremessados numa terra estranha para nunca mais voltar (v. 26-27).
Este jovem rei é descrito como uma “coisa quebrada” que, por não ter
filhos, nenhum de seus descendentes se sentaria no trono de Davi (v.
28-30).
Esse neto de Josias, na verdade, representa o ponto mais remoto da
sucessão genealógica na linhagem de Davi. Embora Zedequias, um ter­
ceiro filho de Josias, tenha substituído Joaquim, seu sobrinho, questões
sérias foram suscitadas por seus contemporâneos sobre a validade de
sua sucessão.*’Textos sobre a Babilónia continuam a mencionar o exi­
lado rei Joaquim como “rei de Judá”, e havia grandes esperanças de
Joaquim ser libertado, a despeito de a profecia de Jeremias dizer o
contrário (Jr 28.4). Embora a destruição de Jerusalém tenha ocorrido
dez anos mais tarde, em 587, num sentido real a sucessão na linhagem
de Davi terminou com a deportação de Joaquim, neto de Josias.

24. DOTT, p. 78.79.


25. Bright, fíixtory o f Israel, p. 328.
INTRODUÇÃO 31

Esta perspectiva na continuação da importância de Joaquim, a des­


peito de seu exílio, torna ainda mais importante a reviravolta dos negó­
cios na Babilônia. No trigésimo-sétimo (!) ano de seu exílio, quando
Joaquim estaria com 55 anos de idade, o novo rei da Babilônia o liber­
tou da prisão e lhe deu um lugar de honra, o qual manteve até o dia de
sua morte, Joaquim recebeu uma pensão vitalícia, e pelo resto de sua
vida comeu à mesa do rei (2Rs 25.27-30). Algo mais que mero simbo­
lismo messiânico reside nesta observação de conclusão a respeito da
monarquia em Israel. Após essa plena justificativa para o exílio do povo
pactuai de Deus, o escritor de Reis certamente tinha razão de registrar a
virada da sorte desse filho da linhagem davídica.
À luz de uma nova aliança, o significado desses eventos se toma
evidente. O fato de Joaquim (Jeconias/Conias, Jr 22.24; 24.1; ver Mt
1.11) aparecer na genealogia de Jesus Cristo pode causar surpresa à luz
da profecia de Jeremias:

“Assim diz o S e n h o r : Registrai este como se não tivera filhos; ho­


mem que não prosperará em seus dias, e nenhum de seus filhos
prosperará, para assentar-se no trono de Davi e ainda reinar em
Judá” (Jr 22.30).

Talvez uma solução para esse problema seja encontrada no fato de


que nenhum descendente imediato de Joaquim se sentou no trono de
Judá. Na realidade, exceto para o tio de Joaquim, Zedequias, o trono de
Davi permaneceu vazio ao longo dos seiscentos anos seguintes, quase
duas vezes o tempo em que a sucessão davídica se mantivera. O verda­
deiro trono de Davi, localizado à direita de Deus, não encontrou ocu­
pante digno até o aparecimento do grandioso Filho do grande Davi.
Este Filho de Davi era quem Jeremias também esperava. Após as
condenações de Jeoacaz (Salum - Jr 22.10-12), Jeoaquim (v. 13-23), e
Joaquim (Jeconias/Conias; v. 24-30), Jeremias declara em sua profecia
seguinte que se deve nutrir boas expectativas a respeito do divino mes­
sias que certamente havería de vir:

Eis que vêm dias, diz o S e n h o r , quando levantarei a Davi um Re­


novo justo; e ele reinará e agirá sabiamente, e executará o juízo e a
32 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

justiça na terra. Em seus dias Judá será salvo,


E Israel habitará seguro;
E por seu nome será chamado:
O S e n h o r , Justiça Nossa (Jr 23.5-6).

O século 7« a.C. foi na verdade um tempo de estampidos e estron­


dos das marchas das nações. Mas, aos olhos da fé, guiados pelas pala­
vras dos profetas de Deus no Antigo Testamento, pode-se obter uma
visão mais clara a respeito dos propósitos redentores de Deus à medida
que eles se realizavam na história. A mensagem desses profetas conti­
nua falando com clareza reveladora ainda hoje.

II. PERSPECTIVA TEOLÓGICA


Em razão de Naum, Habacuque e Sofonias ministrarem essencial­
mente aos mesmos recipientes e atuarem no espaço de trinta anos um do
outro, pode ser útil discutir sua perspectiva teológica como um todo.
Diferenças individuais são claras. Muitos temas sobrepostos, porém,
são comuns aos três e podem ser melhor entendidos à luz do testemunho
conjunto.

A. MESSIANISMO NO SÉCULO 7» a.C.


PROFETAS
O que é mais distintivo no messianismo de Naum, Habacuque e
Sofonias é a ausência de um traço virtualmente messiânico.' A expecta­
tiva de um rei ungido que seria o salvador de Israel é desenvolvida ex­
plicitamente nas profecias de Oseias (3.4-5), no século 8®a.C., Isaías
(7.10-14; 9.6-7; 11.1-10) e Miqueias (5.2-4). Como é possível, pois,
que esta expectativa tenha desaparecido totalmente do cenário cem
anos mais tarde?
Datar posteriormente todo o messianismo dos profetas do século
8«, lançando-o ao cenário pós-exílico, é uma solução muito fácil, pois
isso falha em tratar de maneira adequada as evidências contundentes

I. Embora Jeremias também houvesse ministrado parcialmcntc no século 7 ' a.C., sua men­
sagem messiânica parece ter ocorrido depois do final desse século. Cf. Jeremias p. 22,23.
INTRODUÇÃO 33

dos textos dos profetas sob a única forma em que elas existem. Isso
também ignora as considerações de contexto que ligam essas profecias
à história do século 8«.
A desilusão com a experiência histórica de realeza em Israel pare­
ce propiciar uma resolução realista desse problema. Os três profetas
ministraram depois que as depravações de Manassés selaram o destino
do futuro da nação. Nenhum arrependimento poderia remover a marca
das abominações que foram praticadas em Israel por mais de cinquenta
anos (cf 2Rs 21.10-15; 22.14-20).
Acreditava-se que Jerusalém fosse inviolável. A promessa de
aliança com Davi afirmava que o lugar da habitação do nome de Deus
permaneceria para sempre (IRs 11.13,36; 14.21; 15.4; 2Rs 19.34;
20.6; 21.7). O colapso do cerco de Senaqueribe fora dos portões de
Jerusalém em 701 e sua dupla humilhação com a sua morte sob as
mãos de seus filhos na casa de seus deuses provaram isso. Samaria
poderia cair; Jerusalém, jamais.
Jeremias também teria de contender com essa crença profunda-
mente radicada na inviolabilidade da cidade de Davi. “Templo do S e ­
n h o r , templo do S e n h o r , templo do S e n h o r é este” (Jr 7.4), tomaria-se

um refrão popular mágico da crença de que se poderia proteger a cida­


de de qualquer ameaça. Os profetas do século 7°, porém, conheciam
muito bem a negação da promessa de Deus que Jazia no fundamento de
tal perspectiva. Sofonias declarou em termos convictos que os juízos
expiatórios de Deus passariam por Jerusalém de portão em portão, de
bairro em bairro, até que todo recanto e fenda fossem escmtinados
com as luzes perscmtadoras da administração da justiça imparcial de
Deus (Sf 1.9-12). Todo o corpo de Habacuque tremia descontrolada­
mente ante a visão da devastação do povo de Deus (Hc 3.16-17). A
resposta de Deus à sua indagação sobre a violência em Judá começou
com a convocação: “maravilhai-vos e desvanecei” diante de uma obra
que ninguém creria mesmo se lhes contasse (Hc 1.5-6). Os ferozes
babilônios passariam por toda Judá como um vento selvagem e nada
deixariam de pé (Hc 1.10-11).
Se era possível que a cidade de Davi fosse devastada, o que dizer
da linhagem de Davi? Seria possível que esta segunda cláusula da ali­
34 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

ança davídica também sofresse violência tão inclemente? Não só era


possível; era garantido. Mesmo os “filhos dos reis” não eram imunes
às sanções finais impostas aos violadores da aliança (Sf 1.8). Eles tam­
bém iriam transformar-se nos sacrifícios da terrível refeição pactuai
que daria expressão final à ira de Deus.
Onde, pois, neste contexto, se encontraria a esperança de um
messias davídico? A desilusão dos profetas do século 7« com a linha­
gem real prometida os impediu de encontrar qualquer esperança nos
descendentes de Davi. Contudo, eles não lamentaram como aqueles
que não tinham esperança. Tinham plena confiança de que os propósi­
tos redentores de Deus se cumpririam (cf Na 1.14; Hc 2.4; 3.18-19; Sf
3.9-20).
De certa maneira, pode-se dizer que esses profetas do século 7« cons­
tituíam uma regressão aos tempos de Samuel. Eles reconheciam plena­
mente que Israel precisava de um rei, um messias, um salvador. Quem,
a não ser unicamente Deus, poderia fornecer um sacrifício propiciatório
suficiente para remover a mancha escura e profunda do pecado de Israel?
Quem, a não ser unicamente Deus, tinha plena força de repelir os pode­
rosos inimigos de seu povo? Quem, a não ser unicamente Deus, tinha a
sabedoria essencial para governar um povo como Israel?
Então, esses profetas do tempo da deterioração se volveram ao es­
quema original dos fatos. O próprio Senhor é quem realiza a vingança
sobre seus inimigos (Na 1.2). E o próprio Senhor que vem em esplen­
dor, com raios flamejantes saindo de suas mãos, se movendo com rapi­
dez do Sinai para conquistar a terra (Hc 3.3-7). E o próprio Senhor que
“está no meio de ti” (Sf 3.15), aquele que é “poderoso para te salvar”
(Sf 3.17). Aquelas mesmas funções que anteriormente foram designa­
das como pertencentes ao rebento da linhagem de Davi agora se rever­
tem à pessoa de Deus, o próprio Senhor.
Essa reorientação dos profetas do século 7» não deve ser vista como
falta de fé de sua parte. Esses três homens corajosos estavam absoluta­
mente certos ao perceber que somente Deus poderia cumprir o papel
designado ao messias de Israel. Eles interpretaram corretamente os si­
nais de sua época. Foi o próprio Deus da aliança que levou a linhagem
davídica ao extermínio no contexto das fomiulações da velha aliança.
INTRODUÇÃO 35

Somente os falsos profetas continuaram recordando as velhas expecta­


tivas sem compreender a realidade do que Deus estava fazendo em
seus dias (Jr 28.1-4).
Tampouco se deve entender a perspectiva de Naum, Habacuque e
Sofonias como sendo a elaboração completa da palavra pactuai de Deus,
impossível de ser posteriormente modificada. A característica de toda
a revelação da velha aliança é sua forma limitada e condicional que
forçosamente não podia expressar tudo de uma só vez. Então, de modo
algum, surpreende encontrar o messianismo uniformemente em todos
os profetas depois que esses três proclamaram a esperança messiânica
em termos categóricos. Para Jeremias, a vinda do Messias seria o soer-
guimento para “Davi um Renovo justo” que, como “rei que é”, reinaria
e seria conhecido como “ S k n h o r , Justiça Nossa” (Jr 23.5-6). Para Eze-
quiel, ele é “um só pastor”, o “servo Davi” de Deus que os apascenta­
ria (Ez 34.23). Para Ageu, era o descendente de Davi, Zorobabel, a
quem Deus iria tratar como seu próprio “anel de selar” (Ag 2.23). Para
Zacarias, ele era o sacerdote coroado rei, cujo nome seria “Renovo”
(Zc 6.11-13); a vinda do rei montando um jumento com seu domínio se
estendendo “de mar a mar e desde o Eufrates até as extremidades da
terra” (Zc 9.9-10). Em Malaquias, ele é o Senhor, o mensageiro da
aliança, que purificaria os filhos de Levi (Ml 3.1-3).
Nas últimas horas antes do exílio, porém, é como se o Senhor
interrompesse o movimento na direção do messias para declarar com
clareza que somente ele podería ser o Rei de Israel. Ninguém, a não
ser o Senhor, podería ser o salvador, aquele que libertaria seu povo
de seus pecados. Por meio da ênfase exclusiva desses três profetas do
século 7«, posta no papel indiscutível de Deus como salvador surgido
pelo vácuo da ausência de uma opção davídica viável, uma realidade
mais sólida da história apontava para a necessidade de um messias
divino. Nenhuma outra solução seria adequada ao dilema percebido
por Samuel logo no início da monarquia de Israel. Israel precisava de
um rei; mas somente Deus deveria ser o Rei de Israel. A ideia de cha­
mar um indivíduo específico de “filho” de Deus em vez de toda uma
corporação geral (2Sm 7.14; SI 2.7) aponta para a mesma direção, pois
um “filho” é igual a seu pai. A direção explícita do ocupante do trono
36 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

de Davi como “Deus” ecoa o mesmo tema (SI 45.6), da mesma manei­
ra que o nome dado à criança nascida da virgem: “Emanuel” (Is 7.14) e
“Deus Forte” (Is 9.6 [Eng. 6]).
Portanto, é bem possível que Naum, Habacuque e Soibnias não
possuíssem a visão completa do caminho e de alguém que iria redimir
seu povo, Israel. Mas a singularidade de seu ministério, mesmo na au­
sência do “messianismo”, como comumente se entende, forneceu uma
contribuição vital à revelação em andamento do Deus-Homem que se­
ria 0 Salvador e Rei, sim, o Senhor Jesus, o Cristo.

B. A CENTRALIDADE DE DEUS
O papel questionável do messianismo nesses três profetas deixa ampla
margem ao assunto que na verdade é absolutamente central na mensa­
gem de cada um deles. Simplesmente posto, sua mensagem é teocêntri-
ca. O próprio Deus ocupa por inteiro seus pensamentos e fornece o
arcabouço pelo qual percebam toda a realidade. Naum começa com a
apresentação dos atributos centrais de Deus da fonua como se relacio­
navam com as circunstâncias de seu tempo. Yahweh é um Deus zeloso,
que torna vingança (Na 1.2). E ele mesmo que se movimenta para tomar
de assalto a fortaleza de Nínive, pois ela era contra eles (Na 2.14 [Eng.
13]; 3.5). Deus é quem suscita os babilônios como seu instrumento de
castigo, mesmo que seja contra seu amado Judá (Hc 1.6). Contudo, no
final 0 profeta reconhece que sua única possessão de real valor na vida
é a realidade de Deus (Hc 3.17-19). O dia do Juízo, evidentemente, é o
Dia do Senhor, o Dia em que ele impõe sua singular soberania como o
Senhor da aliança (Sf 1.7,14). Ele próprio, pessoalmente, assume o pa­
pel de Salvador, de Guerreiro, de Rei que exulta em seu amor pessoal
por seu povo (S f3 .15-17).
Portanto, para os profetas do século 7® não havia outro a não ser
unicamente Deus. Talvez o conhecimento antecipado da perda de tudo
durante o tempo de sua vida fosse fator principal nesse desenvolvi­
mento de uma centralização saturada de Deus. Contudo, é evidente que
eles não estavam confusos com a ideia de uma visão beatífica de Deus,
que o visualizava no abstrato, separado da criação que ele fizera. Eles
eram homens demasiadamente pactuais para ignorarem ou minimiza­
INTRODUÇÃO 37

rem a realidade do mundo material. É o Deus do mundo e das promes­


sas de sua palavra que, sozinho, é central no prisma de sua vida.
À luz dessa centralidade do próprio Deus, Naum, Habacuque e
Sofonias desenvolvem certa ênfase que traz a lume a realidade da dei­
dade no tempo em que viveram. Podem-se observar quatro temas em
particular; a justiça divina, o Juízo divino, a aliança divina e a salvação
divina.

/. A justiça divina
Um aspecto da justiça de Deus fica claro à medida que as mensa­
gens desses três profetas são consideradas em conjunto. A justiça de
Deus é maravilhosamente imparcial. Ele jamais inocenta o culpado
independente de quem seja. Ele vê Nínive e todas as atrocidades que
ela cometeu (Na 1; 3). Vê também todas as nações vizinhas de Judá -
para o oeste, leste, sul e para o norte (Sf 2). Todos esses povos terão de
prestar contas, tanto como povo quanto como indivíduos, de suas vio­
lações da lei de Deus.
Mas o Senhor também vê Judá. Quando Habacuque dá vazão à sua
queixa sobre o pecado de Judá, Deus anuncia a terrível realidade do
juízo que sobreviría a seu próprio povo. Eles se sujeitariam às brutali­
dades do instrumento babilónico da mesma maneira que as outras na­
ções ímpias (Hc 1). Deus é justo para com Judá, e então pronuncia uma
ameaça contra sua rebelião (Sf 3).
A hora da instituição da justiça divina pode permanecer um misté­
rio a desafiar a sabedoria humana. Mas a mensagem é clara. Eventual­
mente, ele trará a juízo toda obra, seja boa ou má. Essa mensagem é
dolorosamente necessária nos dias de hoje. Quantos povos na terra se
consideram, de alguma maneira, como que favorecidos pelo Senhor,
pelo menos isentos das situações extremas de seus juízos que porventu­
ra venham a “outros” povos. O sofrimento duradouro de Deus, longe
de produzir arrependimento, os leva à presunção. Pecadores impeni­
tentes, cuidado!

2. O juízo divino
A mensagem que pode ser questionada, porém não ignorada, é que
38 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

a natureza do juízo de Deus é de retribuição, e nem sempre de restaura­


ção. Ou seja. Deus, algumas vezes, pode trazer juízo como uma forma
de castigar os seres humanos com o fim de conduzi-los a si. Mas, no
final, seu juízo tem um caráter de retidão que não tem outra finalidade
senão expressar a realidade de que uma pessoa ou uma nação deve so­
frer sob a mão de Deus exatamente como merece. Se por brutalidade,
imoralidade e incredulidade ela causou desequilíbrios na ordem como
Deus, 0 Criador, planejou, tal pessoa não pode esperar nada menos que
ira e maldição da parte do Todo-Poderoso.
A dimensão restauradora da justiça divina está implícita no livro
de Naum. Judá poderá celebrar suas festas e manter seus votos só por­
que o perverso nunca mais passará por ela (Na 1.15). A sentença impli­
ca que a Assíria fora uma vara do castigo do Senhor sobre seu povo
(Hc 2.4; 3.16-19). Visto que sua mensagem se destinava aos tempos
futuros, deve-se presumir que muitos outros também deveriam “viver
pela fé”, a despeito do desmoronamento de seu mundo à sua volta. O
“porventura” de Sofonias (Sf 2.3) pode parecer um tênue fiapo de es­
perança para aqueles que buscam o Senhor em face de sua ira ardente,
mas era real e fornecia encorajamento a qualquer pecador que verda­
deiramente se sentisse movido (pelo Espírito de Deus) a buscar o Se­
nhor. Muito mais explícito, em temios de sinal de esperança, e portan­
to encorajador, é o anúncio ousado desse profeta: “O S e n h o r afastou
as sentenças que eram contra ti... ele se deleitará em ti com alegria” (Sf
3.15-17). Nem mesmo nas revelações gloriosas da nova aliança se po­
dem encontrar palavras de mais pleno conforto.
Contudo, é preciso manter o equilíbrio. Os juízos de punição, dos
quais é possível recuperação, não durarão para sempre. O tempo do
fim deve chegar, e chegará para todas as nações e povos em cada
geração. Com o ministério de Jonas no século 8«, Nínive se arrepen­
deu e foi restaurada pelo favor de Deus, para grande desapontamento
do próprio profeta. Cem anos mais tarde, porém, a iniquidade dos
ninivitas se tomou saturada e Naum não lhes ofereceu nenhuma mensa­
gem de esperança. Como maltrataram outros, assim Deus os haveria
também de maltratar.
O mesmo se pode dizer da mensagem de Habacuque para a Babilô-
INTRODUÇÃO 39

nia (Hc 2.5-20). A lei de equidade do “olho por olho e dente por dente”
alcançaria sua expressão em escala nacional. O saqueador deveria ser
saqueado; o cínico, envergonhado; e o adorador de ídolos, deixado
impotente.
O significado do “Dia do Senhor” em Sofonias se relaciona de
perto com esse mesmo princípio. Da mesma maneira que o Dia do
Senhor imporia sua aliança em ambas as expressões, criacional e re­
dentora. um pagamento justo por todas as obras feitas no corpo deveria
se efetuar. Envolvida nesta expressão divina de máxima retidão deve
estar uma destruição final do perverso. Não se acha nesta imagem ne­
nhum indício de restauração (Sf 1.2-18).
Nenhuma mensagem poderia ser mais repulsiva à mente moderna
do que a ideia de Justiça retribuitiva. Mas esta verdade encontra plena
exposição nas mensagens dos profetas do século 7®. Os eventos históri­
cos que vieram sobre Judá, Assíria, Egito e Babilônia atestam a veraci­
dade de suas declarações. Ela não encontra nenhuma contradição nas
Escrituras da nova aliança, mas reforça o arrependimento (2Ts 1.6-10;
2Co5.10).

3. A aliança divina
Das mais de duzentas vezes que o termo aliança aparece no Antigo
Testamento, nem uma dessas ocorrências se encontra nas profecias de
Naum, Habacuque ou Sofonias. Contudo, não se pode supor que o con­
ceito de aliança houvesse caído em descrédito só porque ela desempe­
nhava um papel crítico na profecia de seu contemporâneo. Jeremias.
Essa ausência do termo pode comparar-se à estranha falta da palavra
aliança no Novo Testamento, fenômeno que não tem recebido explica­
ção adequada.
Pode ser que a fragmentação das nações e a dispersão de Israel
expliquem o uso minimizado do termo aliança neste ponto da história
da redenção. E claro que o papel de Israel como nação pactuai de Deus
ainda não havia terminado no século 7®. Mas algo muito drástico estava
acontecendo com sua dispersão entre as outras nações do mundo. Os
perímetros do “reino de sacerdotes” de Deus teriam de ser traçados ao
longo de linhas diferentes. O problema se demonstra vividamente numa
40 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

pequena nota que consta no livro de Ester. Quando o segundo decreto


do rei foi enviado a todas as 127 províncias espalhadas por três conti­
nentes, as Escrituras afirmam que “muitos dos povos da terra se fize­
ram judeus” (Et 8.17)! E agora, como se pode definir “nação pactuai”?
Pelo menos ao longo dos últimos mil e quinhentos anos, a começar
pelo tempo de Abraão, a ideia de “aliança” esteve associada particular­
mente a Israel. Mesmo pelo prisma de uma nova aliança, uma das bên­
çãos distintivas dos judeus era que as alianças lhes pertenciam (Rm
9.4). Então é possível que o declínio no uso desse termo, nesses profetas
do século 7s, tenha algo a ver com o uso do termo em sua relação espe­
cífica com a nação de Israel. Uma vez que a ideia de uma nova aliança
foi formulada em Jeremias e Ezequiel, o termo foi completamente reavi­
vado como uma ferramenta inestimável para ligar a velha aliança com a
nova.
Olhando por outra perspectiva, a ausência do termo aliança, nes­
ses profetas, não deve ser superenfatizada, pois o conceito de “alian­
ça” certamente está presente. Particularmente em Sofonias, o quadro
completo para a compreensão do desenvolvimento de sua ideia de “o
Dia do Senhor” se relaciona com sua abordagem dos aspectos das ali­
anças sucessivas. Ele começa com Noé e observa a destruição dos pei­
xes, pássaros, bestas e homem (Sf 1.1,3; c f Gn 6.20). Embora Sofoni­
as acrescente “peixe” à sua lista e reverta a ordem das coisas mencio­
nadas, a alusão é inconfundível. Em seguida, ele fala de um sacrifício
preparado com convidados consagrados, no qual o juízo final é expres­
so no devorar da carne dos amaldiçoados (cf Sf 1.7). Esta linguagem
ecoa a figura de uma consagração pactuai que começa em Gênesis 15 e
percorre todo o Antigo Testamento. Finalmente, ele descreve a chega­
da do terrível Dia do Senhor em termos extraídos diretamente do relato
da manifestação teofânica do Sinai (Sf 1.15). Por esse prisma, parece
que Sofonias entendia o Dia do Senhor em termos pactuais. Pois, nesse
dia da manifestação da soberania do Senhor, ele aplicaria a todos os
transgressores a sentença prevista pela aliança.
Outros aspectos da ideia da aliança podem subentender-se no fato
de 0 Senhor trazer juízo sobre uma nação ímpia como a Assíria. As
nações estrangeiras também eram compelidas a quitar suas obrigações
INTRODUÇÃO 41

nacionais de modo a refletir seu elo criador. O fracasso significava a


ativação da maldição. No livro de Habacuque, a imputação da justiça
pela fé meramente combina a formulação pactuai de Gênesis 15.6. A
“vida” que Habacuque promete nada mais representa que as mais ricas
bênçãos da aliança.
Portanto, esses três profetas do século 7®não se posicionam como
estranhos fora do curso principal do pensamento pactuai do Antigo Tes­
tamento. Em vez disso, eles aparecem como profetas do Senhor, força­
dos a expandir o conceito da realidade pactuai além das restrições dita­
das pelas circunstâncias prévias.

4. A salvação divina
Juízo e salvação são intimamente associados na teologia desses pro­
fetas. Salvação para o povo de Deus surge diretamente em associação
com o juízo sobre os inimigos de Deus. As “boas-novas” (Na 1.15) de
Naum só podem ser publicadas em Judá porque Nínive foi destruída. A
solene alegria de Habacuque emerge como uma fruta madura a partir de
sua contemplação de uma série de juízos que deveriam cair primeiro
sobre o próprio povo de Deus e depois sobre as nações ímpias. Ele deve
“em silêncio” “esperar o dia da angústia”, mas ainda assim deve exultar
no Deus de sua salvação (Hc 3.16-19). Sofonias também deve “espe­
rar” enquanto a indignação do Senhor é derramada, porque depois ele
vai purificar seu povo (Sf 3.8-9). Sua salvação vem por meio do juízo.
A salvação divina por fim. incluiria tanto gentios quanto judeus.
Principalmente Sofonias ressalta esse ponto (Sf 3.9-10). Mas a univer­
salidade da salvação está também implícita na ênfase que Habacuque
põe na fé, e somente na fé, como o critério que determina quem iria
sobreviver no “decorrer dos anos” (Hc 2.2-4; 3.2). Entre o juízo execu­
tado sobre o povo de Israel e o juízo executado sobre as nações ímpias,
os justificados mediante a fé deveriam viver pela fé. Ecoando a mensa­
gem original de Abraão, o “pai das nações”, esta palavra de aceitação,
somente pela fé, tem implicações internacionais.
O amor de Deus por um povo pecador funciona como o fator-cha­
ve na atividade salvífica de Deus. Alternando entre a contemplação
feliz dos objetos de seu amor e os gritos de alegria pelo prazer que
42 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

trazem, o Senhor de amor permanece no meio de seu povo até o salvar


totalmente (Sf 3.17). Esta salvação deveria envolver a reunião de seu
próprio povo e a restauração de sua sorte de modo a lembrar o paraíso
(S f3.19-20; Na 2.1 [Eng. 1.15]). Embora Habacuque coloque a bênção
prometida sobre uma terra frutífera numa forma negativa (Hc 3.17),
seus comentários mostram o quadro da realidade com que ele está li­
dando. Colocada ao lado da mensagem de seu contemporâneo Sofoni-
as (cf. Sf 3.20), ela se toma uma mensagem de esperança.
Em suma, a mensagem salvífíca desses profetas que devem teste­
munhar a fragmentação das nações se centraliza na posse do próprio
Deus. Desde que tudo mais lhes fora tirado, eles deveríam olhar so­
mente para ele. Todas as outras bênçãos podem ser removidas, porém
ainda irão possuir a bênção final. Todas as outras coisas têm significa­
do só na medida em que possuem o próprio Deus e são possuídas por
ele.

III. FORMA DAS PROFECIAS


Até a recente emergência da crítica canônica, o estudo da fornia da
profecia se concentrava nas formas dentro do material profético que
poderia repousar por trás do texto finalizado. Mas agora se obteve um
equilíbrio muito maior. Direciona-se também atenção à palavra profé­
tica conforme a forma sob a qual ela aparece.'
Na verdade, algumas vezes se toma possível detectar uma forma
pré-literária subjacente a um oráculo profético em particular, e dessa
maneira conseguir compreensão de sua mensagem, bem como de sua
função, na comunidade do povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, há
alguma coisa saudável sobre o compromisso mais recente de tratar seria-
1. Conferir a exploração completa do tema em B. S. Childs. Iniroduclion to lhe Old Testa­
ment as Scripture (Filadélfia; Fortress, 1979). Childs é algumas vezes surpreendente em
suas conclusões com base na crítica canônica. Ele diz que a má interpretação criada pelo
método histórico-crítico “emana da suposição de que cada passagem profética deve ser inter­
pretada a partir de um ambiente histórico específico”. Ele então sugere que o processo canô­
nico “tem ignorado as diferenças históricas e organizado o material em termos teológicos”
(p. 460). Mas, SC a característica principal da teologia de Israel é sua orientação histórica,
como então c possível que as diferenças históricas sejam ignoradas e uma verdadeira repre­
sentação da teologia seja alcançada ao mesmo tempo?
INTRODUÇÃO 43

mente o texto das Escrituras tal como ele se apresenta ao leitor atual.
Sua forma finalizada fala diretamente à mensagem que está sendo trans­
mitida.
Nas profecias de Naum, Habacuque e Sofonias, numerosas carac­
terísticas, tipos e formas emergem, as quais determinam a forma do
material. Em muitos casos, a forma é característica do próprio autor e
realça significativamente a comunicação de sua mensagem.
A guisa de introdução, alguns se farão comentários concernentes
ao estilo, estruturas e paralelismos poéticos. Reservar-se-ão análises
mais completas para o corpo do comentário.

A. ESTILOS
Comentários tais como “impetuoso”, “claro” ou “desajeitado”, com
referência ao estilo de um autor, são frequentemente de natureza muito
subjetiva. Contudo, é possível haver um lugar útil para alguma refle­
xão no impacto literário dessas profecias.
O livro de Naum corre o risco de ser monótono por causa da singu­
laridade do propósito e tema do autor. Ele é persistente em dizer sempre
a mesma coisa: Nínive cairá. Mas a variedade de métodos que ele em­
prega em dizer esta mesma coisa é bastante marcante e empresta grande
força à sua mensagem. Ele repete a frase “o S kn ho r é vingador” três
vezes no começo de sua primeira profecia (Na 1.2). Os adjetivos “va­
cuidade, desolação, ruína” combinam características de ressonância bem
como de sinonímia no texto original (Na 2.10). Não se pode ignorar a
ironia encontrada em seu discurso em relação à cidade amaldiçoada,
chamando-a “bela e encantadora meretriz” (Na 3.4). Talvez o mais im­
pressionante seja sua combinação de sensações de visão e som que sur­
gem num clima de crescente tensão à medida que retrata o avanço do
ataque sobre Nínive:

Eis o estalo
de açoites
e 0 estrondo das rodas
o galope de cavalos e carros
que vão saltando
44 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

OS cavaleiros
que esporeiam
a espada
flamejante
0 relampejar
da lança (Na 3.2-3).

Por meio do seu vivido emprego de imagens, o profeta transfere


sua visão diretamente para a imaginação do leitor.
Habacuque também desenvolveu seu estilo individual característi­
co. Um subproduto da audácia desse seu discurso a Deus é a franqueza
de seu vocabulário em questionar o Todo-Poderoso (Hc 1.2-3,12,17).
Uma explicação mais completa de seu uso de assonância, aliteração,
sentido duplo e, possivelmente, até mesmo uma rima se encontra nas
observações introdutórias de Habacuque 2.6-20, e é notável sua cola­
gem de imagens anteriores retratando teofanias mais antigas, bem como
sua vivida pintura da aproximação de Deus vindo do Sinai rumo à Pa­
lestina. A descrição dos raios sendo projetados do punho fechado de
Deus e o tremor dos nervos do profeta ilustram a vivacidade de sua
linguagem.
Sofonias mostra a habilidade característica de fazer jogo de pala­
vras. Ele chama a atenção para aqueles que juram pelo Senhor enquan­
to juram por Milcom (Sf 1.5). Recorre ao uso da situação geográfica de
Jerusalém descrevendo como “Lugar de Pilar” (1.11). Entremeia várias
palavras, cada qual aparentemente usando o radical para “restolho” a
fim de descrever a prontidão da nação em deixar-se consumir pelo fogo
da ira de Deus (2.1).
O estilo de Sofonias é expresso em parte por sua extensa depen­
dência da fraseologia do livro de Deuteronômio (Sf 1.13-18; 3.17-20).
É notável sua habilidade em incorporar esse material em seu trabalho
sem perder seu fluxo distintivo de argumento. E bastante eficaz o amon­
toado de imagens emprestadas, particularmente quando descrevem a
vinda do Dia do Senhor:
INTRODUÇÃO 45

Um dia
de adversidade e indignação;
Um dia
de destruição e desolação;
Um dia
de escuridão e densa escuridão;
Um dia
de nuvens e densas nuvens;
Um dia
de toque de trombeta e grito de batalha (Sf 1.15-16).

Variedade e criatividade marcam o estilo de cada um desses três


profetas. Cada um desenvolve seu próprio estilo de abordagem quanto
ao uso da linguagem na comunicação de sua mensagem.

B. ESTRUTURAS
Dos três profetas, Habacuque talvez seja o mais distinto em termos
de variedade e singularidade das estruturas que emprega. Na primeira
seção do livro, sua mensagem é considerada um “diálogo de protesto”.
Sob essa fonna, o profeta dialoga com o próprio Deus a respeito da
perplexidade dos problemas com os quais se vê forçado a lutar. Mais
semelhante na forma ao Cântico dos Cânticos do que ao livro de Jó, os
oradores altemantes de Habacuque de maneira alguma se apresentam
no texto propriamente dito. Contudo, podem ser facilmente determina­
dos pelo contexto. Esta construção, característica de Habacuque, en­
volve o leitor no avanço progressivo do profeta mediante a maturação
de sua fé.
Os cinco “ais” de Habacuque 2 empregam uma forma comum dos
outros profetas em Israel, mas a inclusão de um salmo completo, pre­
parado para a celebração congregacional de Habacuque 3, é uma estru­
tura distintiva nesse livro. À medida que o salmo avança para seu des­
fecho, ele se move numa cadência regular. Cinco estrofes seguidas
empregam o paralelismo comum a-b-h-a da estrutura poética hebraica.
Muitas discussões têm se ocupado com a possibilidade de um poe­
ma acróstico em Naum 1. A busca de uma estrutura alfabética aparen­
46 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

temente começou com certo pastor, Frohnmeyer de Württemberg, Ale­


manha, cuja sugestão apareceu como nota de rodapé num comentário
dos Salmos, por Franz Delitzsch, em 1867. Antes da virada do século,
Gunkel, e depois Bickell, expandiram a fonna de acróstico de Naum 1
com vistas a incluir o capítulo inteiro. Wellhausen respondeu insistin­
do que 0 acróstico podia estender-se somente dos versículos 2 ao 8. O
capítulo mostra evidência de alguns remanescentes de estrutura acrós­
tica, porém não o suficiente para ser conclusivo. O assunto é discutido
mais plenamente no comentário correspondente.- Uma proposta mais
radical concernente à forma de Naum sugere que o livro seja uma litur­
gia profética composta para celebração do culto em Israel depois da
queda de Nínive.^Essa liturgia tem sido vista por alguns como uma
representação cúltica da luta com a Assíria, tendo como tela de fundo a
luta primitiva entre os adversários cósmicos no festival de Ano-Novo
babilónico.'' Mas a evidência derivada da profecia de Naum “empresta
pouco apoio à teoria de que ele fosse um funcionário cúltico”.’
Mais óbvia é a estrutura construída em Naum sobre uma série de
perguntas retóricas encontradas no terceiro capítulo (v. 7-8,19). Por
meio do emprego desse mecanismo, o profeta envolveu ativamente
seus leitores nas respostas à sua mensagem.

2. Para um breve esboço da história da discussão, ver Maier, p. 21. Para uma análise
completa das possibilidades, ver o anigo mais antigo de G. B. Gray. “The Alphabetic Poem
in Naum”, The Expositor 8 ( 1898) p. 207-220. Uma avaliação razoável pode ser encontra­
da em O. T. Allis, "Nahum. Nineveh. Elkosh”, EvQ 27 (1955), 67-80. Allis dá espaço à
possibilidade de material acróstico, mas considera os elementos de assonância e aliteração
como sendo muito mais significativos. Um tratamento mais recente à luz da teoria atual da
métrica hebraica se encontra em D. L. Christensen, “The Acrostic of Nahum Reconsidered”.
Z 4)T 87(I975), p. 17-30.
3 . VerP. IIaupt,“Thc Book of Nahum”, ,/SZ. 26 (1907), p. 1-53.
4. Ver A. Haidar, Studies in the Book o f Nahum (Uppsala: Almqvist and Wiksell, 1947).
5. R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), p.
929. Cf. R. H. Pfeiffer, Intmduction to the Old Testament, ed. rev. (Nova York: Harper and
Brothers, 1948), p. 600, que diz que a proposta sobre a liturgia profética não deve ser
levada muito a sério. J. A. Soggin, Introduction to the Old Testament, ed. rev. Trad, de John
Bowden, OTL (Filadélfia: Westminster, 1980). p. 276, comentários que, “dado o estado
atual das fontes", não há evidência suficiente para apoiar a ideia de uma base numa luta
mitológica. Cf. Childs. Introduction, p, 441.
INTRODUÇÃO 47

Sofonias segue um equilíbrio mais tradicional dos oráculos profé­


ticos. Ele começa com um oráculo de juízo contra Judá (cap. 1). De­
pois entrega uma série de oráculos contra as nações (cap. 2). Final­
mente, proclama a esperança quanto ao futuro com um oráculo de sal­
vação (cap. 3).

C. PARALELISMO POÉTICO
Cada um desses três livros está saturado de grande variedade de
paralelismo poético. No comentário abaixo, essas construções têm sido
geralmente marcadas na tradução por paralelo endentado de vários
membros e pela marcação dessas linhas com as mesmas letras do alfa­
beto. Lfma olhada nas várias porções da tradução mostrará quão acura­
do este elemento permeia a forma desses profetas do século 7«.

IV. DATA E AUTORIA


Já nesta introdução, os ministérios de Naum, Habacuque e Sofoni­
as se acham presentes no contexto da história da redenção do século 7®
a.C. Contudo, comentários mais específicos com respeito à datação des­
sas profecias podem ser úteis. Além disso, deve-se fazer algum esforço
para resgatar qualquer informação possível sobre a vida, a personalida­
de e a dinâmica que fez o homem por trás da mensagem.
Aqui se apresenta um esboço da história dos eventos significativos
relacionados com a vida e ministério desses três homens;

701 a.C. A fé de Ezequias repele o ataque de Senaqueribe da


Assíria.
687 a.C. Manassés começa seu “reinado de declínio” de meio
século.
648 a.C. Assurbanipal da Assíria subjuga seu irmão ao oriente
de Babilônia, enquanto Manassés (aparentemente) jun­
ta-se a uma revolta no ocidente.
645 a.C. Assurbanipal subjuga os rebeldes no ocidente. Ma­
nassés é exilado, se arrepende e volta.
48 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

M in is t é r io d e N a u m que declara a queda de Nínive mesmo quando a


Assíria ainda está com toda a força
642 a.C. Final do meio século de reinado de Manassés, durante
o qual Judá não tinha ainda ido além do ponto de re­
tomo.
640 a.C. Assassinato de Amom e estabelecimento de Josias, de
8 anos de idade, como rei.
632 a.C. Josias, na idade de 16 anos, começa a buscar o Senhor.
628 a.C. O primeiro movimento de reforma pública de Josias.
627 a.C. Assassinato de Assurbanipal, o último grande monar­
ca assírio.
622 a.C. Descoberta do Livro da Lei de Moisés e o começo de
sua reforma radical.

M in is t é r io de S o f o n ia s que forneceu o apoio profético necessário à


reforma de Josias
612 a.C. Queda da Assíria, capital de Nínive, ante as forças co­
ligadas dos medos e dos babilônios; os assírios recua­
ram e se reagruparam em Harã.
609 a.C. Morte trágica de Josias e declínio moral imediato de
Jeoacaz e Jeoaquim.

M in is t é r io de H a b a c u q u e que denunciou o pecado de Judá, anunciou o


seu julgamento ainda a ocorrer em seus dias, por meio de uma Babilô­
nia emergente, e prometeu juízo recíproco sobre a Babilônia por causa
de seus excessos
605 a.C. Dominação babilónica na Síria-Palestina estabelecida
em Carquemis por sua derrota para as forças coligadas
egípcio-assírias.
597 a.C. Jeoaquim, neto de Josias, exilado porNabucodonosor.
587 a.C. Destruição da cidade de Davi.
539 a.C. Ciro da Pérsia destrói Babilônia; começa o regresso
de Israel.

Meio século de silêncio profético corresponde ao declínio apóstata


INTRODUÇÃO 49

de Manassés, até onde diz respeito à produção de material canônico.


Esse vácuo, essa fome da palavra de Deus, pode ser vista como sendo
o juízo do Senhor sobre Judá por seu consentimento na depravação de
Manassés. É possível que os servos de Deus, os profetas, fossem silen­
ciados e reprimidos durante esse tempo, por resistência oficial à pala­
vra do Senhor.

A. NAUM
É bem provável que Naum tenha sido o homem a quebrar esse
silêncio. Geralmente, concorda-se que a data de sua profecia esteja
entre a queda de Tebas, no Egito, a cerca de 664 a.C., e a queda de
Nínive, em 612.' Esta firme conclusão se baseia na alusão de Naum à
queda de Nô-Amom, que é Tebas (Na 3.8), e sua previsão da queda de
Nínive, que é o assunto central de sua profecia.
Uma data precisa entre esses parênteses é mais difícil de localizar.
Mas o tempo deve combinar pelo menos os dois aspectos seguintes:
(1) Assurbanipal provavelmente ainda estaria reinando, visto que Naum
caracteriza Nínive como estando “cheia de força” (Na 1.12). Seu rei­
nado terminou em 627. (2) Judá poderia estar num período de reforma,
já que Naum diz muito pouco como denúncia de seus pecados. Esta
circunstância se encaixaria nos últimos anos de Manassés, durante os
quais ele se empenhou muito em prol da reforma (650-642 a.C.), ou o
tempo das refomias de Josias (628-609 a.C.).
1. o. Eissfeldt, The Old Testament, An Introduction, trad. P. R. Ackroyd (Nova York:
Harper & Row, 1965), p. 415, diz: “De qualquer modo. parece claro que estamos tratando
de uma ameaça genuína pertencente ao período anterior à catástrofe, e não de um retrospec­
to triunfante sobre os eventos já no passado”. A. Weiser. The Old Testament: Its Formation
and Development, trad. Dorothea M. Barton (Nova York: Association Press, 1961), p. 258,
concorda. Cf. Harrison, Intmduction, p. 928. Childs, Introduction, p. 443, relativiza todo o
assunto, observando que, seja qual for a teoria proposta do f)ós-exílio. a função canônica
final é dirigida a Ninive antes de sua queda. R. H. Pfeiffer, Introduction, p. 594, está parti­
cularmente preocupado com o poema alfabético do primeiro capítulo. Ele conclui que em
300 a.C. um redator forneceu esta introdução de um poema do qual vagamente se lembrava:
“E claro que ele não copiou o .salmo alfabético de um manuscrito, mas o escreveu, como
melhor pôde, de memória”. Esse redator hesitante não só teria esquecido a segunda parte do
poema, mas também "ignorava o arranjo alfabético das linhas”. A explicação imaginativa
de Pfeiffer da razão por que o poema supostamente alfabético não aparece como um poema
alfabético não convence.
50 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Esta combinação de circunstâncias aponta para o tempo da refor­


ma de Manassés no final de sua vida (650-642 a.C.), ou para os pri­
meiros anos da reforma de Josias (628-622 a.C.). É mais difícil imagi­
nar em termos dos dias da reforma posterior a Josias, visto que naquele
tempo (622) a diminuição da força dos assírios se tornara óbvia. Os
últimos dias de Manassés parecem ser o tempo mais provável para a
profecia de Naum. embora essa data não seja afirmada com certeza.
Nada se sabe sobre a pessoa de Naum, exceto que ele teria sido um
profeta muito ousado para pronunciar essa denúncia tão rigorosa con­
tra os assírios, enquanto ainda estavam com força total. Seu nome sig­
nifica “consolador”, mas não existem evidências que liguem o signifi­
cado de seu nome a seu caráter. O título do livro declara que ele era um
“elcosita”, que geralmente se considera como sendo a vila onde ele
vivia. A ausência de identificação positiva da cidade natal de Naum
“só revela a perplexidade da tradição em face da ignorância histórica
dos fatos”.^
Ao longo dos séculos, têm-se proposto localizações específicas para
a Elcos de Naum na Assíria, Galileia e Judeia. Al-Qush, uma pequena
vila a cerca de 40km ao norte do antigo local de Nínive, possui um
lugar que foi designado como sendo a tumba de Naum; mas, evidente­
mente, isso só depois do século 16.^ No século 5, Jerônimo, em seu
prólogo do profeta Naum, situou a vila “Helkessei” (Elcosh) na Gali­
leia, mas não forneceu informação adequada para localização mais
precisa. “Cafarnaum”, que poderia significar “vila de Naum”, tem
uma relação tradicional com o profeta que data do século 14, mas qual­
quer relação de “Cafarnaum” com “Elcos” permanece vaga.“*A locali­
zação Judaica é indicada por alguns pais da igreja, inclusive Pseudo-
Epifânio.’ Mas a tradição é tão vaga e inconsistente que não merece
grande valor.

2. Weiser, Inlmduction. p. 256.


3. Maier, p. 2 1.
4. /h id . p. 25.
5. Weiser, Introduclion, p. 256. A referência em Pseudo-Epitãnio se encontra em De Vitis
Prophetarum 17. A cidade, aparentemente, localiza-se pró.ximo à moderna Beit Jibrin, cerca
de 40km a sudoeste de Jerusalém.
INTRODUÇÃO 51

Afinal, deve-se reconhecer que pouco ou quase nada se sabe da


pessoa de Naum. Em comum com os outros dois profetas de seu tem­
po, ele aparece apenas como uma “voz”.

B. SOFONIAS
Dos três livros em consideração, somente Sofonias data sua profe­
cia por meio da ligação de seu ministério com os tempos dos reis de
Judá. Afirmando a evidência em termos negativos, nada mais convin­
cente opõe a localização do ministério de Sofonias nos dias de Josias,
como indicado pelo título.
Um fator que tem alguma importância é o oráculo contra a Assíria
em 2.13-15. Uma vez que essas palavras teriam pouco significado se a
Assíria já tivesse caído, elas teriam sido pronunciadas antes do colapso
em 612 a.C.‘
É possível datar o ministério de Sofonias mais precisamente dentro
do reinado de Josias? Será que se pode precisar se ele profetizou antes ou
depois da refonna radical instituída em consequência da descoberta do
Livro da Lei em 622 a.C.? A opinião mais recente favorece uma data
anterior à descoberta do Livro da Lei.^ Esta conclusão tem por ampla
base as condições de corrupção presumidas em 1.4-6,8-9; 3.1 -4.
Entretanto, tem-se defendido, em trabalhos mais antigos, uma data
posterior à descoberta do Livro da Lei, e não se pode descartar facil­
mente o argumento.* De fato, seria ingênuo pensar que as tradições
corruptas incrustadas no estilo de vida de Israel por mais de cinquenta
anos no reinado de Manassés pudessem ser eliminadas da noite para o
dia. Mais provavelmente, uma argumentação prolongada teria se desen­
volvido a partir do Livro da Lei. Em tal circunstância, o ministério de
um profeta como Sofonias poderia ter sido uma ajuda valiosa ao jovem
rei Josias.

6. A. Kapcirud. The Message o f íhe Prophet Zephaniah (0%\o\ Universiletsforlaget, 1975),


p. 42.
7. W. Rudolph, p. 255; S. R. Driver, /l/i Inimduction to the Literature o f the Old Testament.
edição (1913), p. 103; J. M. P. Smith, p. 168,169; E. J. Young. An Introduction to the Old
Testament (Grand Rapids: Eerdmans. I960), p. 290.
8. Cf. discussão de C. F. Keil. 2:118-20,125.
52 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

O fator mais convincente que aponta para um período imediata­


mente posterior à descoberta do Livro da Lei é o paralelismo com o
livro de Deuteronômio. Esse material é tão extenso e tão semelhante
que virtualmente requer que Sofonias tivesse acesso ao “Livro da Lei”
como base para a maior parte de sua profecia.’
Uma perspectiva alternativa, de que Sofonias poderia ter partici­
pado do desenvolvimento de um sistema pseudomosaico para auxiliar
as reformas de Josias, vai longe demais. Pois se Sofonias tivesse profe­
tizado antes de 622, em terminologia idêntica à linguagem do livro da
lei de Deuteronômio, então se descobriria a “fraude piedosa” desmas­
carando a falsificação de Deuteronômio no nome de Moisés.
Não convencem as sugestões de uma datação posterior ao tempo
de Josias.*® A exclusão completa das profecias de esperança antes da
realidade do juízo é meramente uma conclusão subjetiva que não des­
fruta do favor geral que ela teve em alguns anos anteriores.
Sabemos tão pouco da pessoa de Sofonias como sabemos de seu
contemporâneo Naum. Três outros personagens bíblicos levam seu nome.
Mas nenhuma de suas circunstâncias corresponde àquelas que podem
ser deduzidas de Sofonias neste livro."
Característico de Sofonias entre todos os livros proféticos do Anti­
go Testamento é a tentativa de traçar sua genealogia ao longo de quatro
gerações. E bastante real a possibilidade de “Ezequias” da quarta gera­
ção ser 0 bom rei que precedeu Josias por cerca de cinquenta anos. Se
esse for o caso, então Sofonias seria um descendente real. Esta posição
pode acrescentar alguma força autoritativa real como apoio adicional
ao jovem rei em sua tentativa de liderar uma reforma radical.

9. Para maiores detalhes de comparação, ver o comentário abaixo em Sofonias I. I.


10. J. P, Hyatt, “The Date Background o f Zephaniah”, JNES 7 (1948) 25, argumenta em
prol de uma idade nos dias de Jeoaquim (609-598 a.C.). Bright, History o f Israel, p. 320 n.
29, julga tal argumento como sendo infundado. L. P. Smith e E. R. Lacheman, “The Authorship
o f the Book of Zephaniah", JNES 9 (1950) 142, argumentam que o livro é pseudoepigráfico
e deveria ser lido contra uma tela de fundo das circunstâncias de 200 a.C. Mas a descoberta
de um fragmento de um comentário de Sofonias em Qumran (4QpZeph) constitui veemente
argumento contra tal suposição.
11. C f 1 Crônicas 6.36-38; Jeremias 21.1; Zacarias 6.10.
INTRODUÇÃO 53

Mas, como no caso de Naum, esse homem Sofonias também só


aparece como uma “voz”. Sua palavra ousada procedente do Senhor
não tem qualquer outra autoridade além da força inerente na própria
verdade.

C. HABACUQUE
A data precisa da profecia de Habacuque se apoia na interpretação
dada na progressão do argumento do livro. A queixa que abre o livro
encontra solução em seu final. O diálogo entre Deus e o profeta preser­
va unicamente uma série de queixas perturbadas de um servo do Se­
nhor. As respostas amáveis do Senhor conduzem Habacuque a uma
extensão mais plena de sua fé. Mas, qual era precisamente a circuns­
tância histórica em que o profeta labuta?
Um ponto de partida seguro para o contexto histórico da matura­
ção de sua fé é fornecido pela referência ao “Kasdim” no primeiro
capítulo (Hc 1.6). Esse termo ocorre cerca de 70 vezes nas Escrituras,
sempre em referência aos “caldeus” (babilônios). Embora a palavra
tenha sido interpretada nesse versículo em referência aos persas, gre­
gos e selêucidas, a um poder demoníaco mitológico e a uma nação con­
quistadora não identificada, o significado normal é c l a r o . O “Kas­
dim” são os neobabilônios cujo império começou com a ascensão de
Nabopolassar em 626 a.C. Como G Fohrer oportunamente observa:
“Esta interpretação deve ser mantida, mesmo quando claramente algu­
mas vezes... ela tenha parecido demasiado simplista e tenha sido
negada”.'^
A referência a Deus suscitando esta nação impetuosa (Hc 1.6) indi­
ca que na ocasião da profecia os babilônios não haviam ainda chegado
ao zénite do poder. Então a mensagem de Habacuque deve ser colocada
antes do final do século 7», pois naquele tempo o império neobabilônio
dominava o mundo.
O tempo preciso no processo de ascensão da Babilônia a que Ha-

12. G. Fohrer, Introdiiclion to the Old Testament, trad. D. Green (Nashville; Abingdon,
1968), p. 454,455.
13. Ihid.
54 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

bacuque se refere depende do contexto previsto nesse diálogo com o


Todo-Poderoso. Mais particularmente, a questão se volta para a identi­
ficação dos “perversos” que oprimiam os “justos” (Hc 1.4). Deve-se
entender “per\'ersos” como sendo os habitantes ímpios entre os cida­
dãos do próprio Judá? ou devem ser tidos como sendo os assírios que
eram os principais rivais da Babilônia?
Considerando o contexto em que Habacuque faz sua primeira quei­
xa, parece mais apropriado considerar os “perversos” que oprimem os
“justos” como sendo cidadãos corruptos do próprio Judá. E a Torá que
eles ignoram, e é a justiça que é pervertida. Isso pressupõe opressão
interna mediante o sistema legal do dia. A observância da Torá e a jus­
tiça na comunidade perversa seriam mais do que se poderia esperar.
O apelo da segunda queixa de Habacuque (1.12-17) caracteriza
consistentemente o argumento daqueles que interpretam o “perverso”
da primeira queixa como sendo os opressores assírios.'“*Afirma-se que
o personagem descrito nesses versículos exercia sua brutalidade numa
escala internacional. Esses perversos consideram os homens “como os
peixes do mar” (1.14) e matam “sem piedade os povos” (1.17). Visto
que os “perversos” em Judá do século 7» nunca expandiram seus domí­
nios para além de suas fronteiras, argumenta-se que eles dificilmente
poderíam encaixar-se nesta descrição.
Não se pode negar que o opressor de Habacuque 1.12-17 exercia
sua brutalidade sobre o domínio das nações, e por isso não poderia ser
descrito como o Judá do século 7®. Deve-se, contudo, perguntar: onde
estaria Habacuque no processo de seu diálogo com o Todo-Poderoso?
Ele não teria avançado além do ponto em que começa sua disputa?
O profeta iniciara sua queixa citando o mau uso da Torá e da justi­
ça (1.4). O Senhor respondera anunciando que ele estava suscitando os
babilônios para tratarem do problema. Pelo menos vinte diferentes ca­
racterizações, apontando para a eficácia desse instrumento de juízo,
passaram vividamente diante dos olhos do profeta (1.5-11).
Ora, como Habacuque reage a essa revelação que acabara de rece-

14. F.issleldt, ImroJuction, p. 420; Fohrcr, Introciiiction, p. 455; Weiser, Inlmdiiction, p.


263.
INTRODUÇÃO 55

ber? Porventura responde com ceticismo? Porventura duvida que o


Todo-Poderoso faça pelas mãos dos babilônios precisamente o que,
em sua revelação, pretendia fazer? Ele ainda estava relutante face o
problema que apresentara em sua primeira queixa? Parece improvável.
Mais provavelmente o profeta havia granjeado para si um novo proble­
ma. Deus nomeara os babilônios para que julgassem e corrigissem os
“perversos” contra quem o profeta se queixara. Habacuque indica que
aceita esse fato (v. 12). Mas, permitiria Deus que os babilônios devo­
rassem “aquele que é mais justo do que eles?” (v. 13). Se aqueles que
devoravam os justos fossem iguais aos assírios com quem ele estava
preocupado em sua primeira queixa, então Habacuque ainda está pre­
cisamente no mesmo lugar onde estava antes de sua primeira queixa. A
revelação do Senhor a respeito da destruição do opressor de sua pri­
meira queixa (1.5-11) caiu em ouvidos surdos, e então Habacuque ain­
da estaria formulando a mesma pergunta com que havia começado.
Mas se o opressor de 1.4 se refere antes aos perversos de Judá, então
o anúncio do Senhor em 1.5-11 responde à primeira queixa do profeta.
Deus levantaria os caldeus para tratarem desse problema. Os babilônios
assolariam os perversos em Judá.
Mas essa revelação tem o efeito de criar outro problema. Como o
Senhor castigaria seu povo com um instrumento mais perverso que ele?
(1.13). A resposta seguinte do Senhor explica que os babilônios por sua
vez receberiam o juízo de suas próprias mãos (2.6-20).
Como essas duas alternativas em identificar o “perverso” como sendo
a Assíria ou os maus em Judá afetariam a questão da data do livro de
Habacuque? Primeiramente, elas fornecem perspectivas diferentes so­
bre o progresso do nível da ameaça que os babilônios haviam atingido
neste ponto da história. Por outro lado, se a Assíria é o inimigo do
Senhor em 1.2-4, que será julgado pelos babilônios, então, evidente­
mente, a profecia de Habacuque viria antes da queda da capital da As­
síria para os babilônios em 612. Uma data entre a emergência da Babi­
lônia como uma potência mundial disputadora em 626 e a queda de
Nínive em 612 se encaixaria nas circunstâncias.

15. Weiscr. Inimehiclion, p. 263.


56 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Por outro lado, se os perversos em Judá são os inimigos do Senhor


de 1.2-4, então a datação dessa profecia poderia ser um pouco depois
da queda de Nínive em 612. A partir do quadro apresentado na profecia
de Habacuque, parece que o império babilônico já começara a fazer
sentir sua força entre as nações. Esta circunstância só teria se desen­
volvido após a aparição dos primeiros monarcas babilônicos, come­
çando com Nabopolassar em 626. Ao mesmo tempo, a queixa original
de Habacuque a respeito da injustiça dominante em Judá pareceria agora
bastante apropriada durante o tempo em que as reformas sociais de
Josias estavam em processo (628-609).
Por essas razões, pareceria mais apropriado datar a profecia de
Habacuque após o período do reinado de Josias que terminou em 609.
Os primeiros anos de Joaquim, durante os quais ele liderou uma volta às
práticas corruptas dos dias de Manassés, encaixariam-se nas circuns­
tâncias da sucessão de queixas de Habacuque. A caracterização de “in­
crível”, na revelação do Senhor (Hc 1.5), parece situar esta profecia
antes do claro estabelecimento da dominação babilônica sobre a Siro-
Palestina na batalha de Carquemis em 605.
O resultado final desta análise estabelece a profecia de Habacuque
nos dias do reinado de Jeoaquim, provavelmente nos anos 608 e 605.
Esse ponto de vista, em sua essência, tem sido adotado por nume­
rosos estudiosos.'* Ele parece satisfazer todos os vários aspectos que
precisam ser considerados.
Talvez a proposta alternativa mais radical relativa à datação de
Habacuque comece pelo texto de emenda de 1.6, de modo que se leia
kitiim (kittim ou cipriotas) em vez de kasdím (caldeus).'’ Por esta cons­
trução, 0 livro data de 330 a.C., e os “kittim” são interpretados como

16. fohrtx. Introduclion, p. 455, cita Rothstcin (1896), Humbert (1941) e Nielsen (1953)
como os que conservam este ponto de vista. Conferir C. von Orelli, p. 241; Young,
Imroduclion. p. 287,288 (que cita o tempo de Jeoaquim como uma das duas opções viá­
veis); G L. Archer, A Surx’ey o f Old Testament Introduction (Chicago: Moody, 1964), p.
344; e Bright, History o f Israel, p. 333, que coloca Habacuque '‘provavelmente... no reinado
de Jeoaquim quando os babilônios atacaram”.
17. Uma posição mais radical é aquela de O. Happel, Das Buch des Propheten Hahackuk
(Würzburg, 1900), que data Habacuque no tempo de Antioco Epifãneo, a.C. 170d.C. O rolo
de Habacuque encontrado em Qumran {IQpHab) toma esta sugestão inviável.
INTRODUÇÃO 57

sendo os gregos sob a liderança de Alexandre, durante sua campanha


na Ásia.'* Contudo, é “bastante arbitrário” emendar o texto de kaédhn
(babilônios) para kiítím (gregos), visto que nenhuma evidência externa
apoia tal modificação.” Bastante interessante é o comentário de Haba-
cuque encontrado em Qumran. o qual interpreta este versículo como se
referindo a kittim, evidentemente aplicando o termo aos romanos de
seus dias; porém conservam o termo kaádím como é representado no
texto das Escrituras. O fato de os escribas de Qumran se sentirem com­
pelidos a manter kaádím enquanto interpretavam seu significado como
kittim parece indicar que não tinham nenhuma tradição textual para
apoiar a redação como kittim.
Como no caso de Naum e Sofonias, nada de concreto se conhece
da vida do profeta Habacuque. Seu livro indica que ele era um profeta
cujo coração intercedia peto povo de Deus. Sua introdução “até quan­
do?” revela que, por algum tempo, ele se pusera a rogar ao Senhor em
favor dessa crise (Hc 1.2).
Não convence a sugestão de que Habacuque era um membro do
coro do templo,-® ou um profeta cultuai, com base no diálogo do capí­
tulo 1 e a assinatura a seu salmo no capítulo 3.-' Lendas o têm colocado
na cova dos leões com Daniel, mas tal suposição não tem base nos
fatos.^^
Pela terceira vez, as Escrituras salientam que cada um desses pro­
fetas do século 7° funciona apenas como uma “voz”. Num tempo em
que nações poderosas se digladiam, a resposta divina vem sob a forma
de palavras de homens desconhecidos dentre as nações do mundo. Mais
poderoso que o exército humano é a palavra profética de Deus.

18. Conferir C. C. Torrey, “Alexander the Great in the Old Testament Prophecies”, em
"'Von Alien Testamenf', Fest. K. Marti, org. K. Budde, BZAW 41 (Berlim: Tdpelmann,
1925), p. 281-286.
19. Fohrer, Introduction, p. 454.
20. T. Laetsch, p. 313.
21. Rudolph, p. 194, conclui que a ideia de que Habacuque teria sido um profeta cúltico é
imaginária.
22. Ver o acréscimo apócrifo a Daniel, chamado Bel e o Dragão, vs. 33ss. Confrontar,
porém. Harrison, Introduction, p. 931.
58 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

V. UNIDADE E AUTENTICIDADE
Caso se desse ao testemunho objetivo da evidência do manuscrito
existente um lugar mais pleno na avaliação da unidade e autenticidade
dessas três profecias, pouca dúvida restaria quanto à genuinidade do
material. Até onde tenho ciência, os livros estão intatos em vários ma­
nuscritos disponíveis, com uma única exceção da omissão do salmo de
Habacuque no comentário de Qumran (1 QpHab). Esse testemunho de­
veria receber o devido reconhecimento como um ponto de partida para a
discussão a respeito da unidade e autenticidade.
Com relação à ausência do salmo de Habacuque no rolo de Qumran,
deve-se observar que esse capítulo se encontra na LXX, um documento
aproximadamente contemporâneo. E possível que o documento de
Qumran nunca fosse concluído, particularmente à luz de alguma evi­
dência significativa de que os últimos três versículos do segundo capí­
tulo foram completados por uma segunda mão.‘ Ao mesmo tempo, a
omissão pode simplesmente representar um processo de seleção que
aparece em outros lugares nos rolos de Qumran.
Prossegue a tendência dos estudiosos em dar importância mais sig­
nificativa aos Juízos subjetivos sobre autenticidade, embora um au­
mento de conscientização dos problemas do subjetivismo tenha se de­
senvolvido mais tarde. Primariamente, esses Juízos são baseados em
considerações estilísticas, forma-crítica, e conteúdo-orientado.
Com respeito ao estilo, A. Weiser observa que “não é possível du­
vidar” da autenticidade de Naum 2 e 3. Em razão da sua “emoção cons­
trangedora” e de “uma agitação caleidoscópica muito impressionante”,
esse material deve ser de Naum.^ Ele, porém, considera Naum 1 como
mais duvidoso em sua autenticidade, “visto que não exibe a mesma
profundidade de sentimento como a denúncia de Nínive”.^ Não é claro

1. Cf. W. H. Brownlee, TheM idmsh Pesher o f Hahakkuk, SBL Monograph 24 (Missoula.


MT: Scholar Press. 1979), p. 219. Brownlee indica que esta “mão p>osterior” corrigira cui­
dadosamente todo o manuscrito, o que ele considera uma indicação de que o trabalho fora
completado. Contudo, é possível que houvesse muitas razões para esse segundo escriba não
ir além do final do capitulo 2.
2. Weiser, Introduction, p. 30.
3. Ibid.
INTRODUÇÃO 59

precisamente como Weiser publicou que o verdadeiro Naum era um


homem consistentemente marcado por “agitação caleidoscópica”.
De um modo semelhante, S. R. Driver questiona a genuinidade de
Sofonias3.14-17 por causa de um “tom animado” que ressalta em con­
traste com a “composição melancólica e comedida” de Sofonias 3.11-
13.'* Uma vez mais, não é claro como se pode determinar que um profeta
que viveu 2.500 anos atrás, e acerca do qual pouco ou nada se sabe,
tinha a capacidade de possuir só um estado de humor, mesmo enquanto
reage a uma variedade de circunstâncias.
Algo mais objetivo é o argumento a respeito da autenticidade baseada
nas considerações da crítica da forma. Seguindo esta linha, têm-se sus­
citado questões sérias a respeito da genuinidade do “poema alfabético”
de Naum 1 e o salmo completo de Habacuque 3.
Pode-se encontrar uma exploração mais completa dessas questões
no próprio comentário. Com respeito ao possível acróstico de Naum 1,
porém, o primeiro fator que deveria observar-se é a coerência e varieda­
de do paralelismo poético presentes nos versículos em consideração.
Encontram-se inclusos em 1.2-9 estruturas paralelas conforme o padrão:

a-b-b-a,
a-b-a-b,
a-b-c-c-b-a,
a-b-c-b-c
e
a-b-b-b.

Seria bem notável se um autor posterior houvesse conseguido in­


corporar o fragmento de um poema alfabético, fragmentar sua ordem
original e estabelecer uma estrutura poética nova - tudo isso enquanto
mantinha um fragmento de literatura coerente e forte.
Com respeito à genuinidade de Habacuque 3, a substância do ma­
terial fornece forte evidência para sua ligação com os primeiros dois
capítulos. Um salmo para ser celebrado no culto é uma extensão apro­
priada para intimar toda a terra a manter solene silêncio no templo do
4. Driver, Introduction, p. 342.
60 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Senhor (Hc 2.20). O terceiro capítulo começa com a observação de


haver o profeta “ouvido” as “declarações” do Senhor, o que correspon­
de perfeitamente ao seu “vigiarei” para “ver” o que o Senhor iria res-
ponder-lhe (Hc 2.1 ). A resolução final do capítulo 3, na qual o profeta
declara sua aceitação do programa do Senhor para os tempos vindou­
ros, fornece uma resolução apropriada à contenda entre Deus e o pro­
feta que compôs o corpo dos capítulos anteriores. Para um tratamento
mais detalhado desta relação interior, ver o comentário abaixo.
Mesmo nesta área do critério acerca da autenticidade com base na
análise da forma, o subjetivismo ainda aparece como um fator prepon­
derante. O. Eissfeldt observa que o matiz de “acróstico” em Naum 1
combina com o restante do livro. Mas, evidentemente, baseando sua
análise na presença da forma acróstica característica, ele conclui ser
possível que o capítulo foi um poema inserido posteriormente.^ Contu­
do, quem pode dizer que o próprio Naum não poderia ter usado uma
forma acróstica num lugar e uma estrutura com base no paralelismo em
outro? Pode bem ser verdade que uma estrutura poética tenha mais chance
de circular independentemente de um contexto fixo. Mas é preciso ter
em mente que cerca de 75% do material desses três profetas são poéti­
cos em estilo. Então a maior parte do material teria de ser considerada
secundária?
Conclusões a respeito da autenticidade também são frequentemen­
te baseadas na análise da propriedade do conteúdo da mensagem pro­
fética. A esse respeito, a genuinidade de Sofonias 3.14-20 é mais fre­
quentemente negada por causa da elevada expressão de esperança, a
qual pressupõe que não poderia pertencer ao profeta pré-exílico. Uma
vez mais prevalece o subjetivismo.
Felizmente, o pêndulo está voltando à posição que permite que
uma mensagem de esperança seja apropriada aos profetas pré-exílicos.
Com relação a esta seção de Sofonias, Kapelrud declara: “Encontram-
se também palavras de promessa e esperança, e não temos o direito de
apagá-las do texto por causa de seu conteúdo”.* Ele então faz objeções

5. Eissieldt, Inimduction, p. 416.


6. Kapelrud. Message o f lhe Prophet Zephaniah, p. 37.
INTRODUÇÃO 61

às notas textuais de uma edição recente da Biblia Hebraica, observan­


do que “opiniões sobre esta questão não deveriam ser encontradas no
instrumento do texto”.’
Em suma, os materiais dos livros de t4aum, Habacuque e Sofonias
se apresentam como palavras autênticas dos profetas do século 7®, e
devem ser tratados como tais a menos que novas evidências apontem
para outra direção. No estágio atual, não há evidências que forneçam
base adequada para se negar a integridade desse material.

VI. T EXT O
Característico desses três profetas é a preservação de porções de
comentários de Qumran em cada um desses livros. Embora o material
seja extremamente fragmentado no caso de Sofonias, os manuscritos
são significativos ao atestarem a importância dessas breves obras para
uma comunidade que vivia 100 anos antes de Cristo.'
A existência desses manuscritos de Qumran suscita a indagação
sobre sua relação com o TM, a LXX e os textos de Qumran, entre si.
E demasiado cedo para pronunciar Juízos concernentes ao valor relati­
vo da teoria das famílias dos textos “locais” para o Antigo Testamento
em comparação com a teoria dos textos múltiplos relacionados mais
diretamente com os agrupamentos sociorreligiosos.’ Mas podem-se
notar as seguintes observações gerais:
O mais completo dos manuscritos de Qumran, nesses três profetas,
é 0 comentário de Habacuque (1 QpHab). As diferenças principais entre
o TM e 1QpHab têm sido enumeradas em cerca de cinquenta. Irregu­
larmente, um terço dessas diferenças tem a ver com artigos e conjunções.

7. Ihid. p. 40.
1. Para uma apresentação desses textos e uma comparação com a duplicata massorética,
ver M. P. Horgan, Pesharim: Qumran Inlerprelalions o f Biblical Books. CBQMS 8 (Wa­
shington; Catholic Biblical Association, 1979). Horgan cataloga a bibliografia relevante e
inclui uma discussão da importância do pesharim de Qumran.
2. Cf. as variações das teorias como apresentado por F. M. Cross e S. Talmon em sua obra
editada em conjunto, Qumran and the History o f the Biblical Text (Cambridge: Harvard
University Press, 1975).
62 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Ao avaliar uma comparação dessas redações, Millar Burrows ob­


serva que, com apenas algumas poucas exceções de menor importân­
cia, as versões antigas, incluindo a LXX, apoiam o TM sobre as reda­
ções de Qumran.^ William Brownlee, outro autor que fez extensas
comparações entre o TM e IQpHab, conclui que, embora não julgue o
TM como sendo sempre correto, ele sugere que em todos os casos de
dúvida o critério mais seguro seria seguir a redação massorética/
Brownlee também observa que alteração deliberada pode ter toma­
do parte na formação de algumas das diferenças em IQpHab, ainda que
numerosos textos divergentes pudessem estar disponíveis, dos quais a
“redação mais vantajosa para o propósito em mão” poderia ser escolhi­
da.’ Conquanto as diferenças de IQpHab possam estabelecer a anti­
guidade das redações opcionais, outras além daquelas apresentadas no
TM, elas mais frequentemente “substanciam a antiguidade das reda­
ções” dos massoretas.*
Desde a virada do século, têm sido conhecidos os problemas espe­
ciais associados ao uso da LXX como fonte para a reconstrução do
texto hebraico do Antigo Testamento.’ Deve-se enfrentar a dificuldade
de trabalhar no labirinto de textos gregos para determinar o melhor
texto que por\'entura seja comparado com a tradição massorética. Além
disso, deve-se reconhecer plenamente o subjetivismo e a incerteza as­
sociados a qualquer texto retroversivo derivado da tradução de um ma­
nuscrito grego para o hebraico.* Embora algumas redações da LXX

3. Millar Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova York: Viking, 1955), p. 3 18. Ele cila K.
Ellinger, que “após urn exame muito cuidadoso das diferenças conclui que o comentário tem
muito pouco valor para restaurar um texto mais preciso”.
4. W. H. Brownlee, The Text o f Hahakkuk in: the Ancient Commentary from Qtimran,
JBL Monograph II (Filadélfia: SBL, 1959), p, 113-117,118.
5. /hid., p. 117,118. Cf. S. Talmon, “Aspects o f the Textual Transmission o f the Bible in
the Light of Qumran Manuscripts”, Textus 4 (1964), p. 130-132.
6. Brownlee, Text, p. 118.
7. Cf. F. M. Cross, The Ancient Uhrary o f Qumran and Modern Biblical Studies, ed. rev.
(reimpr. Grand Rapids: Baker, 1980), p. 173ss. E. Wiirthwein, The Text o f the Old Testament:
An Introduction to the Bihlia Hebraica, trad. E. Rhodes (Grand Rapids: Eerdmans, 1979),
p. 63,64, observa que atualmente é geralmente reconhecido que a LXX não foi uma "tradu­
ção rigorosamente acurada".
8. C f M. IL Goshen-Gottstein, “Theory and Practice of Textual Criticism. The Text-
Critical Use o f the Septuagint”, Textus 3 ( 1963), p. 132.
INTRODUÇÃO 63

apoiem o texto de Qumran em justaposição com o MT, este fato por si


só não significa automaticamente que a redação da LXX deva ser con­
siderada como o melhor texto.’ Em geral, o texto desses três livros
proféticos é bem preservado na tradição massorética.

VII. CÂNON
Esses três livros proféticos começam com a alegação de origem
divina que concorda com o estabelecimento do ofício profético em
Israel como sendo o meio contínuo, pelo qual o Senhor comunicava
sua verdade a seu povo (cf Dt 18.15-22). O livro de Naum é descrito
como sendo uma “visão” (Na 1.1). O oráculo de Habacuque é uma
“sentença revelada” a ele (Hc 1.1). A mensagem de Sofonias é a “pala­
vra do S e n h o r ” que lhe “veio” (Sf 1.1). Em cada caso, essas designa­
ções apontam para a receptividade dos profetas em termos da origem
de sua mensagem.' Em vez de alegar autoria das palavras, os profetas
enfatizam que as palavras que declaram vêm do Senhor.
Esses homens de Deus também falaram de acordo com o critério
da verdade que haviam estabelecido pelos documentos pactuais prévi­
os selados pelo juízo do Senhor. Ao declarar juízos sobre os violadores
pactuais entre todas as nações, sem discriminação, eles apoiaram a rea­
lidade de um único e verdadeiro Deus do universo como manifesto em
Israel. Ao oferecer esperança de salvação pela fé na obra soberana do
Deus de Israel, sua mensagem se confomiava com a declaração bíblica
de esperança para as pessoas de todas as nações. Esses profetas se apre­
sentam como havendo enunciado sua mensagem antes que ocorressem
os eventos que descreviam, e a história tem se revelado consistente,
confirmando, e não contradizendo, suas palavras. O lugar permanente
dessas profecias na história da redenção se determina por meio de alu­
são, bem como por meio de citações específicas do núcleo de sua men­
sagem na autoridade das Escrituras da nova aliança.

9. Cf. a análise de J. Weingreen. Introduction to the Critical Study o f the Text o f the
Hebrew Bible (Oxford: Oxford University Press. 1982), p. 30.
1. C f B. B. Warfield. "The Biblical Idea o f Revelation", in The Inspiration and Authority
o f the Bible (Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1967), p. 87-91.
64 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

Esses três livros sempre tiveram seu lugar entre os doze Profetas
Menores, tanto no cânon judaico quanto no cristão. Seu papel de por­
tadores da palavra autoritativa de Deus entre as nações é firmado soli­
damente. O trabalho do Espírito de Deus nos corações dos crentes con­
firma a origem divina de sua mensagem.

VIII. ANÁLISE DOS CONTEÚDOS

NAUM
Sobrescrito (1.1)
I. Anúncio público do juízo sobre Nínive (1.2-14)
A. O terror apavorante do Juízo divino (1.2-6)
1. Sua pessoa como J uiz (1.2-3)
2. Sua ação como Juiz (1.4-5)
3. Sua postura perante ele como Juiz (1.6)
B. O alvo específico do Juízo divino (1.7-11)
1. Juízo num contexto do cuidado de Deus pelos seus (1.7)
2. Juízo direcionado especificamente contra a Assíria do século 7»
a.C. (1.8-11)
C. O caráter iminente do Juízo divino (1.12-14)
1. Juízo imediato a despeito da força da Assíria (1.12a)
2. Juízo imediato como alívio para o sofrimento de Judá
(1.12b-13)
3. Juízo imediato como o Senhor decretou (1.14)
II. Descrição dramática do juízo sobre Nínive (2.1-14 |Eng. 1.15-
2.131)
Introdução; o anúncio da realização do Juízo significa boas novas
para Judá (2.1 [Eng. 1.15])
A. A cidade é tomada (2.2-8 [Eng. 2.1 -7])
1. Anúncio do cerco iminente (2.2-3 [Eng. 2.1-2])
2. Aproximação dos atacantes (2.4-5 [Eng. 3-4])
3. Resistência dos habitantes (2.6 [Eng. 5])
4. Entrada permitida (2.7 [Eng. 6])
INTRODUÇÃO 65

5. A cidade cai (2.8 [Eng. 7])


B. A cidade é saqueada (2.9-11 [Eng. 8-10])
C. A cidade é humilhada (2.12-14 [Eng. 11-13])
1. Uma cançào de escárnio para a cidade (2.12 [Eng. 11])
2. A brutalidade da cidade (2.13 [Eng. 12])
3. O Senhor fala contra a cidade (2.14 [Eng. 13])
III. O juízo indubitável sobre Ninive (3.1-19)
A. Indubitável por causa de seu pecado (3.1-7)
1. Os pecados da cidade (3.1,4)
2. O ataque à cidade (3.2-3)
3. O Senhor contra a cidade (3.5-7)
B. Tão indubitável quanto Nô-Amom (Tebas) (3.8-13)
1. Tebas devastada a despeito de suas muitas vantagens
(3.8-10)
2. Nínive pode esperar o mesmo destino (3.11-13)
C. Indubitável apesar de seu poder (3.14-19)
1. A completa futilidade dos recursos humanos (3.14-18)
2. A tragédia final do pecado persistente (3.19)

HABACUQUE
Sobrescrito (1.1)
I. O diálogo de protesto (1.2-17)
A. O profeta se queixa das orações não respondidas para alívio da
injustiça (1.2-4)
B. O Senhor revela seu terrível instrumento de retribuição (1.5-11)
1. Preparação para a revelação do instrumento de retribuição di­
vina (1.5)
2. Identificação do instrumento específico para a retribuição di­
vina (1.6a)
3. Caracterização do instrumento do juízo divino (1.6b-ll )
C. O profeta desafia o programa punitivo do Senhor (1.12-17)
1. Confiança em Deus (1.12)
2. Questionando a Deus (1.13-17)
66 COMENTÁRIO DO ANTIGO TESTAMENTO

a. Fonte do problema (1.13)


b. Intensificação do problema (1.14-17)
II. A resolução da sabedoria (2.1-20)
A. O profeta vigia diligentemente pela censura à sua queixa (2.1)
B. O Senhor revela amavelmente seu propósito para as eras (2.2-20)
1. O justo pela fé e o resolutamente soberbo (2.2-5)
a. Instruções que indicam o significado desta visão (2.2)
b. Afirmação sobre o caráter da visão (2.3)
c. Revelação da essência dessa visão (2.4-5)
2. O ridículo do arrogante (2.6-20)
Introdução (2.6a)
a. Ai! saqueado o saqueador (2.6b-8)
b. Ai! desmantelado o fortificado (2.9-11 )
c. Ai! desmoralizado o civilizado (2.12-14)
d. Ai! difamado o cínico (2.15-17)
e. Ai! impotente o idólatra (2.18-20)
III . Um salmo de submissão (3.1-19)
Sobrescrito (3.1)
A. O profeta ora pelo sustento da vida do crente (3.2)
B. O profeta vê Deus, o Salvador, vindo com toda sua glória (3.3-
15)
1. A glória do Senhor e sua vinda (3.3-7)
2. Diálogo com o Senhor em sua vinda (3.8-15)
C. O profeta resolve sua luta pela confiança triunfante (3.16-19b)
1. Uma resposta de espantoso terror (3.16)
2. Um reconhecimento de perda iminente (3.17)
3. Uma resolução de confiança jubilosa (3.18-19b)
Conclusão (3.19c)

SOFONIAS
Sobrescrito (l.I)
I. O juízo pactuai cósmico vem com o grande Dia do S enhor
( 1.2- 18)
INTRODUÇÃO 67

A. Criação revertida ( 1.2-3)


B. Povo da aliança lançado fora (1.4-7)
C. Paralisação de toda atividade (1.8-14a)
D. Os terrores da teofania ( 1.14b-18)
Sumário
II. O chamado ao arrependim ento ecoa antes da chegada do gran­
de Dia de Deus (2.1-15)
A. Busca agora, pois pode ser que sejas poupado (2.1-3)
B. Busca agora, considera a devastação das nações (2.4-15)
1. Para o Ocidente: Filístia (2.4-7)
2. Para o Oriente: Moabe e Amom (2.8-11 )
3. Para o Sul: Cuxe (2.12)
4. Para o Norte: Assíria (2.13-15)
Conclusão
III. Deus reconstitui seu povo com a chegada do grande Dia (3.1-20)
A. Deus finalmente julgará os rebeldes (3.1-8)
B. Deus por fim purificará seu remanescente (3.9-13)
C. Deus então se regozijará com seu povo (3.14-20)

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o LIVRO DE N AUM
SO BRESC RITO (1.1)

1 Sentença contra Nínive.


Livro da visão
de Nauni, o elcosita.

Dos quinze livros proféticos canônicos, onze começam com uma indi­
cação explícita de que sua mensagem é “a Palavra do S e n h o r ” . Naum
é um dos outros quatro que fazem a mesma alegação indiretamente
se referindo à “visão” que lhe fora dada ou falando das palavras que
“viu”. Contudo, Naum é singular ante o fato de que a totalidade de
seu livro se caracteriza como uma visão revelada por Deus. Esse
material profético não se apresenta como o produto do devaneio de
um religioso extático, cuja mente rodopia com frenesis irracionais. Sua
visão poderia ser expressa como um trecho literário objetivo e racio­
nal, como um tema unificado incorporando estruturas poéticas bem
elaboradas.
O significado da raiz do termo traduzido por sentença (m aésã’),
bem como a vasta maioria dos contextos nos quais ele ocorre, favorece
um reconhecimento do “peso” associado a esta mensagem.' Toda pes­
soa, que na vida real já teve de pregar a mensagem solene da destrui-

I. Para um tratamento do termo favorecendo o significado de “peso”, ver P. A. H. de Boer,


“An Inquiry into the Meaning o f the Term mosáS”’, in OTS 5 (1948), p. 197-214. De Boer
observa que o termo é frequentemente traduzido por “pronunciamento, oráculo” em vista
da frase nãáã’ qôl, “levantar alguém sua voz”. Mas, ao examinar as mais de 60 vezes que
a palavra mosáS’ ocorre no Antigo Testamento, ele defende um caso bastante convincente a
favor do significado “peso”. Explorando as versões mais antigas, também conclui; “A exegese
mais antiga nâo apoia a distinção de duas palavras hebraicas m aéés’ com um sentido dife­
rente” (p. 209). Para um tratamento recente que favorece o significado “oráculo”, ver os
comentários de K. J. Cathcart. Nahum in the Light o f Nortwest Semitic, BibOr 26 (Roma:
Pontifical Biblical Institute, 1973), p. 36,37. Comentários adicionais sobre este termo po­
dem ser encontrados em Habacuque 1.1.
78 NAUM 1.1

ção divina dos perversos, não terá nenhum problema em concordar


com Naum que esta mensagem é de fato um fardo para se carregar.
Quem é este profeta Naum? Seu nome significa “consolador”, e de
certo modo sua mensagem consola por meio do anúncio da destruição
do perseguidor mais temido de Judá. Mas se sabe muito pouco sobre ele
para concluir-se que seu nome se propunha a refletir sua mensagem.
O que é um elcosila? É improvável que o termo denote a ascendên­
cia de Naum, visto que o padrão normal de comunicar a origem de um
profeta o descreve como o “filho de” alguém. Mais provavelmente o
ternio se refira ao lugar de origem de Naum. Outros exemplos bíblicos
semelhantes são “Miqueias, o morastita” e “Jeremias, o anatotita” (cf.
Mq 1.1; Jr 29.27). Como se observa na introdução, a tradição mais
antiga, como registrada por Jerônimo no século 4» a.C., identifica Elcos
como sendo uma pequena vila na Galileia, a qual lhe fora mostrada por
um guia.^
Poder-se-ia objetar que essa “pequena vila na Galileia” estaria in­
cluída no reino do norte, que fora levado para o cativeiro muito tempo
antes dos dias de Naum. Não obstante, as Escrituras deixam bem claro
que Deus continuou a manter seu povo no território do reino do norte,
como visto no incidente da reforma nos dias de Josias (cf. 2Rs 23.15-
20). Além do mais, a alusão do profeta à devastação especificamente
de Basã, Carmelo e Líbano, apoia uma localização para a origem do
profeta na Palestina setentrional (ver Na 1.4).
Ainda que não se possa afirmar com certeza, existe algo de perti­
nente na ideia de que Naum, o profeta da condenação da Assíria, tives­
se suas origens no reino do norte. Muito embora Deus houvesse trazi­
do a Assíria como seu instrumento para castigar a nação de Israel, o
opressor brutal havia extrapolado os limites da decência em sua cruel­
dade. Agora um profeta, representando o remanescente sobrevivente
do norte, era chamado especificamente para anunciar a inevitabilidade
dos atos de Justiça da retribuição divina.

2. The Principal Worh o f Si. Jerome, traduzido por W. H. Fremantle, in A Select Library o f
Nicene ami Posl-Nicene Faters o f the Christian Church, 2’ .série (Nova York; Charles
Scribner’s Sons, 1912), 6:501. Cf. Maier, p. 24.
NAUM 1.2-14 79

É bastante surpreendente observar que um livro inteiro da Bíblia


tenha se devotado à destruição de uma única cidade ímpia. E bem ver­
dade que a mensagem completa de Jonas também se preocupa integral­
mente com 0 juízo divino sobre esta mesma cidade de Nínive. Mas a
diferença de abordagem entre Naum e Jonas só faz realçar o caráter
marcante da profecia de Naum. Enquanto o relutante Jonas é literal­
mente obrigado por Deus a anunciar uma mensagem que conduza à
extraordinária manifestação da misericórdia divina para com a cida­
de perversa, Naum pinta exclusivamente com tons escuros a inevita­
bilidade do juízo. Cada um de seus três capítulos oferece este tema
ímpar da inevitabilidade do terrível juízo de Deus. Mesmo a mais
leve mensagem de esperança dirigida a Judá como um ponto de res­
tauração da segurança (Na 2.1), dificilmente pode dispersar o negrume
da nuvem de negativismo que empresta a subestrutura para esta pala­
vra profética.
Na verdade, a singularidade dessa mensagem de Naum deve ser
avaliada por seu matiz de incerteza. O livro trata inquestionavelmente
da “sentença contra Nínive”. Contudo, esta nota ininterrupta de juízo
pode hoje proporcionar um ministério que é em extremo necessário àque­
les que depositam sua confiança no Deus verdadeiro. Um reconheci­
mento da realidade da vingança divina fornece a sobriedade que deve
sempre caracterizar as relações entre os seres humanos e as nações.

I. ANUNCIO PUBLICO DO JU IZO SOBRE NÍNIVE


(1.2^14)
Considera-se como mais provável que Naum tenha profetizado nos
últimos dias de Manassés (aprox. 687-Ó42 a.C.), como proposto na
introdução acima. Se isso for certo, então sua proclamação pública de
total devastação de Nínive não teria sido uma mensagem muito popu­
lar. Aliás, ela estava longe de ser politicamente correta, mesmo nos
dias da reforma de Manassés. O território do norte de Israel era gover­
nado por mandatários assírios, e o reino do sul de Judá mantinha uma
aliança com eles em decorrência da política sincretista de Manassés.
Mas este ousado profeta do Senhor fundamenta sua causa contra Níni­
ve na certeza da natureza imutável de Deus. Por ser quem ele é, Nínive
80 NAUM 1.2-14

deveria experimentar o punho de aço de sua ira. Inclusive, essa cidade


opressora cairia em breve.
A forma poética desse capítulo tem gerado amplas discussões. Para
começo, o debate se revolve em torno da possibilidade de um acróstico
alfabético aposto nesses versículos. Pelo menos uma Bíblia hebraica
chegou a ponto de ampliar letras mestras nos versículos no empenho
de mostrar a evolução do poema por meio do alfabeto hebraico.' Mas o
poema, na forma como se encontra atualmente, não compõe um acrósti­
co completo; nem todas as letras do alfabeto hebraico estão posicionadas
na sequência correta. A Bíblia hebraica que amplia a suposta sequência
alfabética evidentemente exibe lacunas e elementos fora de ordem.
Se for proposto que um poema acróstico mais antigo foi desarranja­
do e inserido no texto de Naum, então se deve fornecer uma explicação
plausível para a coerência, bem como o paralelismo poético que se ma­
nifesta na forma atual do material. As estruturas atuais simplesmen­
te não dão a impressão de uma composição adulterada. Mesmo que um
profissional de adaptação de material literário fosse tão capaz, dificil­
mente teria sucesso em disfarçar os traços de sua pena com a criação
de um produto final tão excelente.
As identificações das várias palavras que supostamente seguem
uma ordem alfabética, como proposto pela Bíblia de Kittel, só são con­
vincentes até certo ponto. O heíh não inicia uma palavra que começa
uma frase; o daleth aparece apenas como uma consequência de emen­
da conjetural; o waw é simplesmente a conjunção “e”; o zay/d começa
a segunda palavra de um construto hebraico; e o yod segue um wan’
conectivo. Quando cinco, dentre onze casos propostos de sucessão al­
fabética, manifestam uma irregularidade, certa dose de autodomínio,
em se fazerem asseverações a respeito da presença de um poema acrós­
tico, parece bastante aconselhável. Teorias a respeito de possíveis cor­
rupções de um original acróstico têm de transpor um grande obstáculo,
particularmente em vista das sólidas estruturas de paralelismo encon­
tradas no texto em sua fonna atual.

I. Ver a 3* edição da Bihlia Hebraica de R. Kittel (Stuttgart: Württembergische Bibelanstalt.


1937). Na BHS o acróstico é indicado por letras em parênteses precedendo os versículos.
NAUM 1.2-3 81

Os outros elementos poéticos de paralelismo e aliteração são mui­


to mais impressionantes. Mediante o amplo uso de recursos poéticos,
Naum intensificou sua capacidade de comunicação e conduziu o povo
a um fabuloso confronto com o Deus de Israel.
Os versículos iniciais exibem uma variedade de tipos de paralelis­
mo, inclusive os seguintes:

a-b-b-a (vs. 2,6)


a-b-a-b (vs. 2-5)
a-b-c-c-b-a ( V .6 )
a-b-b-b ( V .3 )

Além disso, o particípio “um que toma vingança” (nôqêm), ocorre


três vezes na frase inicial do profeta, juntamente com o triplo uso do
nome pactuai de Deus (v. 2). Especialmente eficaz é o uso da forma
verbal idêntica no início e no final de cada estrofe (“está abatido” - v . 4).-

A. O TERROR APAVORANTE DO JUÍZO DIVINO (1.2-6)

1. Sua pessoa como Juiz (1.2-3)

2 a O S enhor é Deus zeloso


b e um que toma vingança é o Senhor;
b um que toma vingança é o S enhor
a e cheio de ira. ‘
a Aquele que toma vingança é o S enhor
b contra seus adversários
a e reserva indignação (ira)~
2. Para uma discussão compleía dos artifícios poéticos empregados por Naum. ver O. T.
AIlis, “Nahum, Nineveh, Eskosh”, EvQ 27 (1955), p. 67-80.
1. Cathcart. Naum, p. 39,40, cita o quiasma que apoia a repetição de “um que toma vin­
gança é Yahwch”, e cita o paralelo ugaritico: “Possa Ba‘al arrancar / possa Ba‘al arrancar
as penas das asas das águias”.
2. Parênteses são usados nas seções de tradução deste comentário para indicar palavras ou
frases não especificamente representadas no TM, Algumas vezes, as palavras acrescentadas
podem ser implícitas pela estrutura de linguagem hebraica. Outras vezes são necessárias
para comunicar em inglês o intento do texto original. Embora a teoria da tradução moderna
considere este uso de parêntese desnecessário, ele foi empregado como recurso para permitir
ao leitor uma oportunidade maior de interagir com o texto das Escrituras,
82 NAUM 1.2

b para seus inimigos.


3 a o S enhor -
b é tardio em irar-se,
b mas grande em poder
b e jamais inocenta o culpado;
o S enhor -
a tem seu caminho
b na tormenta e na tempestade,
a e as nuvens
b são o pó de seus pés.

2 .0 impacto da estrutura poética de Naum é sentido imediatamen­


te quando o profeta inicia com uma figura da pessoa de Deus como
Juiz. Ele é um Deus ciumento, que toma vingança contra seus adver­
sários e reserva indignação para seus inimigos.
Geralmente ciumento transmite uma imagem negativa. O homem
ciumento toma miserável a vida de seus queridos. Mas o ciúme de
Deus deve ser visto por um ângulo diferente. Ele é ciumento ou zeloso
da manutenção de sua honra. O distanciamento da sincera submissão a
Deus só pode trazer o caos ao mundo. Uma vez que a pessoa cria outro
deus em sua mente, a desordem moral vem em seguida. Se a cobiça
idolatra a criação material, então uma luta interminável para apoderar-
se de algo mais resulta nos horrores da guerra (cf. Tg 4.1-3). Se o inte­
lecto vier a ser um deus para os seres humanos, as consequências serão
terríveis, não importa quão nobre pareça ser a ideia de uma pessoa,
pois deifiear um reino platônico de idéias conduz a uma negligência
desequilibrada das realidades materiais. Adotar uma distinção kantia-
na entre um reino científico dos fenômenos e um reino espiritual da
intuição propicia a ilusão de que ela fornece a chave para a coexistência
de ciência e religião à pessoa moderna. Mas, no final, a separação entre
a intuição e o fenômeno resultará naturalmente numa ética de “impera­
tivo categórico”, no qual o “dever” inerente de uma pessoa se toma o
teste para o que é moralmente correto. Mas, como prova a história,
aquele “dever” pode promover a aniquilação de uma raça, bem como
do amor ao próximo.
NAUM 1.2 83

Somente a devota adoração ao Deus vivo e verdadeiro pode ga­


rantir um equilíbrio harmonioso no mundo, de modo que todos os
aspectos da criação recebam seu devido respeito. O “ciúme” de Deus
evidentemente tem em vista o melhor interesse de sua criação. Da mes­
ma maneira que uma ave-mãe aterroriza com seus gritos qualquer feli­
no que porventura se aproxime de seu ninho, também o Senhor zelosa­
mente paira sobre os seus para desviar qualquer rival da sua soberania
e centralidade.
Porções do versículo 2 quase certamente representam uma citação
de mais de uma seção anterior do Antigo Testamento. Quando o Se­
nhor iniciou as provisões para a aliança com Israel, ele declarou: “por­
que eu sou o S enhor, teu Deus zeloso” (Ex 20.5). Quando reinstituía a
aliança após o episódio com o bezerro de ouro, o Senhor insistiu: “não
adorarás outro deus; pois o nome do Senhor é zeloso; sim, Deus zeloso
é ele” (Ex 34.14). A própria essência divina se associa a seu “ciúme”.
Por ser o único e verdadeiro Deus, seu zelo em manter seu papel ímpar
flui de sua própria natureza.
Contrário ao espírito latitudinário moderno, a tolerância para com a
manutenção de uma multiplicidade de deuses não é aprovada nas Escri­
turas.^ A consequência de faltar com o respeito para com a singularida­
de de Deus é claramente demonstrada na experiência nacional de Israel.
Em razão de provocarem seu ciúme com outros deuses, quando vieram
a sentir-se saciados com a prosperidade material. Deus deixou de derra­
mar sobre eles suas bênçãos. Mas por meio do ato simultâneo de lançar
juízo sobre Israel enquanto fazia prosperar os gentios, Deus graciosa­
mente intentava conduzir Israel à sua experiência pessoal com o “ciú­
me” (cf. Dt 32.16-21, especialmente v. 21).
Esta interação entre o ciúme de Deus e sua reação em provocar
ciúmes em Israel encontra sua expressão final na explicação que Paulo
dá dos caminhos de Deus na era da nova aliança. Paulo exalta seu
ministério entre a comunidade não judaica. Muito embora fosse o de-

3. Rudoph, p. 155, mostra que não se pode considerar a idéia do Senhor como um Deus
zeloso, vingativo e irado, como uma ideia religiosa primitiva, visto que todas essas qualida­
des são atribuídas a Deus no Novo Testamento: zelo em 2 Coríntios 11.2; vingança em
Romanos 12.19; Hebreus 10.30; e ira em Romanos 1.18.
84 NAUM 1.2

sejo de seu coração e sua oração que Israel fosse salvo (Rm 10.1), ele
se gloriou nos frutos abundantes de sua pregação entre as nações ímpi­
as. Por quê? Porventura para magoar a nação rebelde? Não! O apóstolo
dos não-judeus almejava que, por meio de seu ministério entre os gen­
tios, ele pudesse provocar ciúmes, “ incitar à em ulação” seus
compatriotas segundo a carne (Rm 11.13-14).
O ciúme de Deus consome, mas ele também redime. Justamente
por ser ciumento é que ele se importa e muito em redimir os seres
humanos de seu estado de desobediência. Visto que a idolatria, a cobi­
ça e a brutalidade insultam sua honra. Deus destruirá os perversos - e
também salvará seu povo rebelde.
Esse duplo efeito do ciúme de Deus explica a combinação dos atri­
butos contrastantes de Deus, tais como retratados em muitas passagens
que falam de seu ciúme. Ele é ciumento, cheio de ira, e de modo algum
inocenta o culpado; contudo, simultaneamente, ele é bom, longânimo,
misericordioso e gracioso, tardio em irar-se, rico em bondade e perdoa-
dor da iniquidade, da transgressão e do pecado (Êx 34.6,14; Na 1.2-3).
Esta combinação de elementos fornece um quadro para a compreensão
de doutrinas abrangentes como o amor de Deus em providenciar expi­
ação para o pecado, a soberania de Deus em operar a salvação e a inevi­
tabilidade da condenação dos pecadores. Se Deus “não inocenta o cul­
pado”, então todos os seres humanos estão condenados, a menos que se
ofereça uma expiação real e eficaz pelo pecado. Se todos estão debaixo
da ira de Deus, a salvação de alguns deve ter suas raízes originalmente
na vontade e no amor espontâneos de Deus. Se não foi feita uma expia­
ção eficaz por todos, então a ira de Deus deve ser derramada sobre aque­
les pelos quais não se fez nenhuma propiciação.
Esta dualidade do ciúme de Deus em consumir o pecador em ira e
propiciar misericórdia para ele fornece a explicação definitiva da ra­
zão por que o ministério de Jonas em Nínive teve uma consequência
tão radicalmente diferente do ministério de Naum na mesma cidade.
Em um dos casos Deus manifestou sua graça propiciatória; no outro,
ele manifestou sua ira. Embora a Nínive do século 8« tenha se arre­
pendido e sido salva, cem anos mais tarde a mesma cidade não póde
arrepender-se.
NAUM 1.2 85

Mas essa passagem enfatiza outro aspecto da veracidade de Deus,


mais que seu ciúme. A mensagem desses versículos é que três vezes
lemos ser Deus o que toma vingança. Se “ciúme'’’ ou “zelo" caracteriza
a atitude de Deus em relação a seus rivais, então vingança descreve a
ação que emerge desse ciúme. Pode-se definir esta vingança da parte de
Deus como a medida de uma recompensa justa. Ela, porém, inclui mais.
O Deus onipotente, onisciente, perfeito em justiça não só devolve ao
pecador uma retribuição justa por todo o mal que ele fez; também resti­
tui esse pagamento num contexto de justa indignação, de desagrado e
ira. O pecador culpado rogará que uma avalanche de rochas o cubra,
não propriamente como uma maneira de escapar à dor infligida a seu
corpo em decorrência de seu pecado, mas por causa do terrível senso de
rejeição e repúdio fluindo da presença perante a qual ele tem de perma­
necer.
A diferença entre o “ciúme” de Deus e sua “vingança” se percebe
observando que “zelo” pelo Senhor é refletido de maneira apropriada na
criatura, enquanto “vingança” é uma ação reservada essencialmente para
o próprio Deus. As Escrituras enfatizam repetidas vezes a proibição ao
homem de tomar vingança em suas próprias mãos. O povo de Deus não
deve exercer vingança; em vez disso, ele deve amar seu próximo como a
si próprio (Lv 19.18). Afirma-se explicitamente que a vingança perten­
ce ao Senhor (Dt 32.35; SI 94.1). Ao sofrer os contínuos maus-tratos da
parte de Saul, Davi declara: “Julgue o S kn h o r entre mim e ti e vingue-
me o S e n h o r a teu respeito; porém minha mão não será contra ti” (1 Sm
24.12). Davi não nega os males que sofria nas mãos de Saul. Mas recu­
sa fazer qualquer coisa que porventura pareça uma justa recompensa.
Somente Deus pode julgar com justiça e punir com justa medida.
Aliás, que Deus retribuirá ao perverso por cada um de seus feitos
perversos se vê na ênfase sobre o “dia da vingança” que Deus estabele­
ceu (Is 61.1 -2; 63.4; Jr 46.10). A demora na administração da justiça da
parte de Deus não deve ser interpretada de modo errôneo, nunca como
indicativo de indulgente tranquilidade da parte do Todo-Poderoso. Com
a plenitude da força de sua justa indignação, ele consumirá o perverso
da face da terra.
Como soberano sobre a ira e aquele que reser\>a (a ira) para seus
86 NAUM 1.2-3

inimigos. Deus demonstra um controle calculado em sua dispensação


da vingança. Ele nunca age movido por paixões, nunca excede o deco­
ro, nunca compromete suas metas finais por causa de uma reação rea­
cionária às provocações do momento. Seus justos Juízos não podem
ser questionados, e, em última análise, podem suportar o escrutínio mais
rigoroso, porque sempre permanecem sujeitos às suas serenas perfei­
ções como Deus.
Pela perspectiva da nova aliança, o “domínio” que Deus exerce de
sua justa ira é visto mais claramente na tolerância do Pai e do Filho na
hora da crucificação de Cristo. A despeito do horrendo crime cometido
contra o Filho de Deus, a despeito dos maus-tratos infligidos pelos
pecadores depravados, o Pai controla sua vingança e, em vez de exer­
cê-la, ele lança seu juízo vicário sobre seu Filho. O Filho poderia ter
convocado legiões de anjos para consumirem seus opressores. Mas,
em vez disso, ele clama: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34).
Não obstante, o dia da vingança do Senhor virá com certeza. Na­
quele dia ele consumirá o perverso com o sopro de sua boca. A destrui­
ção final da cidade opressiva de Nínive demonstra na história a reali­
dade do compromisso de Deus em julgar.
3. Este versículo dá continuidade à descrição da natureza de Deus
como aquele que traz juízo sobre seus inimigos.'*
Quando Naum descreve o S en h o r como tardio em irar-se e aquele
que jamais inocenta o culpado, é quase certo que queira ecoar uma
passagem que exerceu reiterada significação na história de Israel. De­
pois do juízo divino exercido contra a apostasia de Israel por causa do
bezerro de ouro. Deus mandou Moisés duplicar as tábuas originais de
pedra. O Senhor, em sua misericórdia, restabeleceria sua aliança com
Israel.
Neste contexto de Deus manifestando sua natureza perante Moi­
sés, o nome pactuai de Deus é repetido duas vezes, precisamente como
4. A estrutura poética deste versículo pode ser discutível. “ S knhor” pode pertencer ao
começo e ao final de uma única frase, mas parece mais provável que duas frases compostas
estão incluídas no versículo, com " S knhor” começando cada uma das sentenças. Ver o trata­
mento de GKC, § 143a. Uma discussão mais completa desta forma de construção hebraica
pode ser encontrada na exposição de llabacuque 2.4.
NAUM 1.3 87

em Naum. O Senhor prossegue declarando-se como aquele que é “lon-


gânimo... não inocenta o culpado” (Êx 34.6,7). O vocabulário é preci­
samente aquele encontrado em Naum 1.3, e é reiterado uma vez mais
em Números 14.18. Na passagem de Números, Moisés pleiteia: “como
tens falado”, evidentemente se referindo à natureza de Deus tal como
lhe fora revelada após o incidente com o bezerro de ouro.
Mas, no caso do apelo que Naum faz ao mesmo texto de Êxodo,
omissões cruciais de frases particulares contam a história. Deus é tar­
dio em irar-se explicaria a longa demora em trazer juízo sobre Nínive.
Naum, porém, nada menciona sobre ser este mesmo Deus “compassi­
vo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que
guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a trans­
gressão e 0 pecado” como se afirma tanto em Êxodo 34 quanto em
Números 14, pois Naum deseja enfatizar a realidade do juízo que ema­
naria da natureza de Deus. O Senhor pode ser perdoador e misericor­
dioso, mas Nínive havia ultrapassado o ponto sem volta, e a única coi­
sa a fazer era esperar pelo juízo que não falharia em manifestar-se.
Entre suas citações de frases de Êxodo 34, Naum introduz um pen­
samento novo. Yahweh é grande em poder, um conceito que certamente
põe a ênfase em alguma coisa além da prontidão do Senhor em perdoar.
Esta frase em outro lugar se refere ao infinito poder sobrenatural de
Deus, que sozinho foi suficiente para trazer o universo à existência e
para redimir Israel (Dt 4.37; Jr 27.5; 32.17; 2Rs 17.36; etc.). É esse
poder que agora deveria concentrar-se na destruição da capital nacio­
nal do poderoso império assírio. Humanamente falando, parecia im­
possível que alguma força pudesse pôr um fim ao império assírio em
contínua expansão. Mas Deus, o Criador, o Redentor de Israel, ele ti­
nha o poder sobrenatural essencial para efetuar tal destruição.
Pois Deus /crwí/15 inocenta o culpado. Esta frase não cria nenhum
problema especial para a compreensão do contexto do pronunciamen­
to de Naum sobre a iminente destruição de Nínive. A forma infinitiva
seguida pela negativa indica uma negação completa.* Mas no contexto
original em Êxodo 34 a afirmação de que Deus “ainda que não inocen-

5. Rudolpli p. 151 n. 3.
88 NAUM 1.3

ta o culpado” é contrabalançada pela afirmação anterior de que Deus é


“clemente e longânimo”. A apreciação mais plena das palavras de
Naum só emerge quando são confrontadas neste eontexto bíblico mais
abrangente.
Comparando-se os contextos de Êxodo e Naum, alguém compre­
ende que a afirmação de que Deus jamais inocenta o culpado não pode
ser tomada de forma abstrata. É deveras um absoluto de realidade que
se aeha radicado na natureza imutável de Deus. Mas essa realidade
funciona num contexto em que a absolvição da culpa é uma possibili­
dade real no contexto da aliança. Enquanto uma pessoa, cidade ou na­
ção continuar carregando a carga de sua própria culpa, ela não pode ser
declarada livre e isenta da aplicabilidade do eastigo. Mas se a culpa for
transferida para um terceiro, por meio da substituição, segundo as pro­
visões da aliança, então o Senhor pode manifestar seu perdão.*
O problema de Nínive era sua total separação da graça pactuai;
carregavam sua própria culpa. Com a pregação de Jonas, a cidade se
arrependeu, clamou pelo nome do Senhor e foi poupada. Mas aquela
profunda tristeza pelo pecado foi substituída por uma afirmativa arro­
gante de que eles mesmos eram Deus (cf Sf 2.15). Inevitavelmente, tal
arrogância resultou em sua própria condenação. Sua culpa permane­
ceu; e assim sendo o juízo era inevitável.
O profeta não para meramente na afirmação desses vários aspectos
da natureza de Deus. Ele prossegue apresentando Deus em movimen­
to, Deus em ação. Deus aplicando as realidades inerentes de sua natu­
reza às situações humanas do dia-a-dia.
As imagens de tormenta, tempestade e nuvens são perfeitas para a
descrição do profeta em sua tentativa de transmitir esta dimensão da
realidade de Deus (v. 3b). Essas imagens são realmente adequadas,
visto que representam a atividade de Deus num reino entre os céus e a
terra. A medida que ele desce de sua imponente altura eeleste, o pri-

6. Calvino, p. 423, com sua profundidade costumeira, diz que a absolvição só vem depois
do juízo, “pois os fiéis antecipam seu Juízo mediante o arrependimento; e eles perscrutam
seus corações, para que ele possa limpá-los. Pois o que é arrepiendimento senão condenação,
que por sua vez acaba por ser o meio de salvação?... [Deus] não absolve a ninguém mais
senão o condenado”.
NAUM 1.3 89

meiro e tremendo movimento da presença de Deus ocorre no vento e


nas nuvens. Estes intennediários naturais entre o imortal e o mortal
rodopiam ruidosamente acima das cabeças das pessoas que de outra
maneira permaneceriam imersas em suas preocupações saturadas de
pecado.
A tormenta ou temporal (sMpô) e a tempestade (é^'ãrâ) parecem
totalmente arbitrárias em seus ziguezagues, batendo aqui e então ali,
sem ritmo ou razão. Mas Deus lhes está ordenando. Sem confusão,
seguem o caminho da ordenação divina (cf. Am 4.7-8; Mt 10.29-30).
Uma pessoa que visita a Palestina com frequência descreve um
incidente que demonstra a rapidez, a devastação e a fúria de uma tem­
pestade naquela parte do mundo:

Esta planície de Ijom ultimamente se tornou famosa por uma tem­


pestade surpreendente... Alguns amigos meus... iam descendo o
morro... quando um deles chamou os outros para que vissem umas
colunas enormes de nevoeiro que estavam sobre o pântano de Hu-
leh. Elas vinham sobre eles com muita rapidez, e logo os envolveu
com uma fúria terrível... As pessoas que tentaram chegar a Kiam
morreram no chapadão, embora esse não tenha mais que 3 quilôme­
tros de extensão, e até podiam avistar suas casas. Dessa forma mor­
reram dez homens em poucos minutos, de puro frio vindo desse
vento incrível. Não houve neve, nem geada nem muita chuva; mas o
vento era absolutamente terrível, revirando e carregando tudo à sua
frente. Esses ventos gélidos sugam todo o calor animal com uma
rapidez fabulosa. Esses homens foram não só congelados e mortos,
quase instantaneamente, como também 85 cabeças de gado perece­
ram antes que pudessem ser conduzidas à vila.’

A descrição desse vento quente de inverno parece fantástica demais


para ser verdade. Mas assim também deve ter parecido a mensagem do
profeta anunciando as devastações da capital assíria tão bem funda­
mentada. Não obstante, o tempo e a experiência por fim estabelecem o
poder de Deus tanto na natureza quanto na história.

7. W. M. Thomson. The Land and lhe Book (Hartford, 1910), p. 200,201.


90 NAUM 1.4-5

Quando o profeta emprega as imagens de nuvens como sendo o pó


dos pés de Deus, ele pinta um quadro de movimentos vigorosos em
ação. Não nuvens brancas, algodoadas e festivas, mas nuvens de tem­
pestade, agourentas, representando o movimento do Todo-Poderoso.
Deus avança pela imensidão dos céus, desencadeando a comoção dos
relâmpagos e trovões enquanto seus atributos de santidade e justiça se
põem em ação (cf SI 29.3-9).
Quando o Novo Testamento descreve Cristo subindo nas nuvens e
prometendo seu regresso do mesmo modo (At 1.9,11), este quadro do
profeta alcança seu nível de maior consecução. Todo olho será atraído
para ele de maneira inevitável, enquanto vem em sua glória, trazendo
juízo destrutivo sobre seus inimigos e bênçãos sobre seu povo.

2. Sua ação como Juiz (1.4-5)

4 a Ele repreende o mar,


b e o faz secar,'
a e todos os rios
b ele torna áridos.'^
a Basã e o Carmelo
b desfalecem
a e a flor do Líbano
b murcha.
5 a Os montes
b tremem perante ele,
a e os outeiros
b se derretem.
a A terra se ergue
b diante dele,
a o mundo
b e todos os seus habitantes.

1. Keil, p. 10, observa: “o y sem vogal da terceira pessoa” é “fundido em um com o primei­
ro som radical”. Entào a palavra parece com wayyatpSêhü em vez de way^yaè5sshú. Cf.
GKC, § 68w, 70 a.C.
2. Cathcart. Nahum, p. 49, observa muitos casos em material ugaritico no qual "mar” e
“rio” são colocados em paralelo.
NAUM 1.4 91

Este grande Deus descrito por Naum não é apenas uma ideia abs­
trata, um conceito nebuloso. Ele é uma pessoa viva cuja natureza defi­
ne o significado de pessoalidade. Ele interage poderosamente com o
mundo que criou, de modo que os atributos que Naum tão vividamente
delineou têm seu efeito denunciador em cada elemento da criação. O
mar, os rios, as terras férteis, as montanhas, as colinas, a terra, o mundo
e todos os seus habitantes - esses segmentos diversos - sentem o efeito
do ciúme, da vingança, da ira, da fúria, do poder e da justiça.
4. Justamente como um mestre repreende um aprendiz lento, tam­
bém 0 Senhor repreende o mar. e o fa z secar. Naum lembra a grande
repreensão do mar por ocasião do Êxodo, que culminou no juízo sobre
0 exército de Faraó (cf Êx 14.21; 15.1,8; SI 106.9; 2Sm 22.16). Que a
orgulhosa Assíria se inteirasse bem das consequências fatais de uma
nação tentar obstruir as vias do plano redentor do Senhor. Deus fez
isso uma vez e o faria de novo.
O Senhor não só “repreende o mar”, mas também seca todos os
rios. Visto que a antiga cidade de Nínive dependia de suas barragens
naturais de água como elemento básico de defesa, essas palavras real­
çavam 0 estado desesperador da cidade, pois sua tênue barragem de
água não poderia deter o Todo-Poderoso quando se pusesse em ação,
porque, afinal de contas, os rios de Nínive se tornaram o instrumento
de sua destruição.
Em vez de mencionar especificamente o Egito como objeto do juízo
divino, no passado, o profeta lembra as devastações mais recentes na
própria Palestina - devastações bem lembradas pela Assíria, visto que
ela fora o agente imortalizante. Ba.sã, Carmelo e Líbano aparecem jun­
tos em outros lugares no Antigo Testamento para descrever a expansão
dos territórios de Israel do norte, particularmente em termos de sua fer­
tilidade (Dt 1.4-7; 2Rs 19.23; Is 33.1; 35.2; Jr 50.18-19). Esses locais
são os mais férteis, arborizados e irrigados da Palestina. Basã se esten­
de por toda a Transjordânia, do Monte Hennom, ao norte, no ribeiro de
Jaboque, ao sul, inclusive todo o território de Gileade. Toda a região se
tomou um símbolo de fertilidade e o gado de Basã era proverbial por
sua gordura (Ez 39.18; Am 4.1; Mq 7.14).
Na extremidade ocidental de Israel ficava o Cannelo, uma monta­
92 NAUM 1.4-5

nha fértil que se projetava Mediterrâneo adentro (cf. Is 33.9; 35.2; Jr


50.19). Nos dias de Elias, o Carmelo passou por uma grande seca como
forma de juízo pelo baalismo que poluira a terra (IRs 18.19-20,42),
mas Naum prevê uma circunstância muito mais severa, pois o mais
preeminente do Libano teria de ser seus cedros mais famosos do
Líbano. A declaração de Naum de que esses monumentos de raízes
profundas murchariam indica o período que ele imagina que duraria a
seca.^
No apogeu de seu poder, a Assíria ameaçara o Líbano. Senaqueribe
dissera que iria derrubar “seus altos cedros e seus ciprestes escolhi­
dos” (2Rs 19.23). Ora, se o Senhor iria trazer severo juízo às áreas
naturalmente abençoadas de sua própria terra, que razões tinha Nínive
para esperar que de alguma maneira seria poupada da devastação do
Senhor? O juízo podia começar com a casa de Deus. Mas, sem sombra
de dúvida, o juízo sobreviría àqueles fora da casa do Senhor. Pela graça
de Deus, Israel podia esperar a promessa de que um dia tomaria a expe­
rimentar a fertilidade de Basã, Carmelo e Líbano (Is 33.9-10; 35.2; Jr
50.18-19). Mas Naum não acena à Assíria com promessa desse tipo.
5. O terror do Senhor em juízo não pode se restringir a uma única
área do mundo. Segundo esses versículos, até mesmo os fundamentos
do mundo são conturbados por sua ira. Os montes, os outeiros, a terra
e o mundo tremem, derretem-se e se contorcem perante ele. As imagens
de um monte se “derretendo” são particulannente impressionantes. Vis­
to que os elementos do universo são constantemente mantidos juntos
pelo supremo poder de Deus, a retirada desse poder sustentador poderia
significar a desintegração de alicerces de granitos, vales férteis e picos
cobertos de relva.
Na perspectiva da nova aliança, Pedro fala em termos climáticos e
cataclísmicos da destruição da terra como hoje é constituída. Os céus
passarão com grande estrondo e a “terra” se “derreterá” com o calor
abrasador. Mas, de acordo com sua promessa, visualizamos novos céus e
nova terra, nos quais habita a justiça (2Pe 3.10-13).

3. O grau em que o comércio especializado se desenvolveu é visto na referência feita aos


remos feitos de carvalhos de Basã usados nos navios de Tiro (Ez 27.6).
N AUM 1.6 93

3. Sua posição perante ele como Juiz (1.6)

6 a Diante de sua indignação,


h quem permanecerá?
b E quem se levantará
a diante do furor de sua ira?
a Sua fúria
h se derrama
c como fogo;
c e as rochas
b são quebradas
a diante dele.
Uma pergunta retórica que demanda resposta agora atrai o ouvinte
diretamente para a via da palavra profética. A reformulação imediata
da mesma pergunta chama a atenção dos desatentos.
Quem poderá suportar sua indignação? Quem se levantará perante
o furor de sua ira? Qbviamente, ninguém. Nem mesmo Israel fora ca­
paz de suportá-lo quando ele determinou gravar sua iniquidade. Ironi­
camente, anteriormente a Assíria fora identificada como sendo o cetro
da ira do Senhor (Is 10.5). Mas ainda assim o profeta Isaías deixara
claro que depois que o Senhor houvesse terminado com Jerusalém, ele
iria punir o coração arrogante do rei da Assíria (Is 10.12).
Como se tencionasse mostrar o círculo completo da ira do Senhor
à medida que ela operasse entre as nações, outras profecias identifi­
cam a Babilônia como sendo a nação que iria trazer juízo sobre a Assí­
ria (Is 13.5), enquanto observa que fmalmente a própria Babilônia tam­
bém seria objeto de sua indignação (Jr 50.25). Mais uma vez suscita-se
a indagação: quem suportará? Quem subsistirá? Israel? Judá? Assíria?
Babilônia? Não. Nenhuma delas. Cada nação por sua vez sofrerá os
juízos devastadores do Senhor. Nenhuma delas tem força suficiente
para resistir à obra de seu poder, enquanto as marés da história soer­
guem e despencam, exibindo sua ira.
A última porção desse versículo deixa patente que o profeta não
está falando meramente de um modesto castigo dos perversos. O Se­
nhor não irá simplesmente dar um tapa na mão travessa da Assíria.
94 NAUM 1.7-11

Como fogo que consome totalmente, sua cólera se derrama. Esse fogo
não chamusca simplesmente a came; ele a consome totalmente.
Além do mais, as rochas são por ele demolidas. Nada se consegue
ao tentar refazer uma rocha estilhaçada. Nunca mais ela terá a solidez
da matéria que outrora lhe era inerente à natureza. Portanto, qual é sua
posição diante da ira do Todo-Poderoso? Como responder à pergunta
retórica do profeta? Poderá alguém, ou sua nação, suportar? As per­
guntas de Naum demandam auto-exame apropriado.

B. O ALVO ESPECIFICO DO JUIZO DIVINO (1.7-11)


Após introduzir o assunto de Deus como Juiz, o profeta agora pas­
sa à identificação do alvo específico do juízo divino, que é a cidade de
Nínive. Ao focalizar sua mira nesta cidade específica como sendo o
alvo da ira divina, o profeta põe a severidade da ira divina em contraste
com a brandura com que ele trata seu próprio povo.

I. Juízo num contexto do cuidado de Deus pelos seus (1.7)

1 o Senhor é bom,
é refúgio^ no dia da adversidade
e conhece os que nele se refugiam.
A mensagem de Naum até este ponto aparece simplesmente em
termos negativos. Quase nada se discutiu além de juízo. Mas agora se
toma claro que aqueles que se voltam para o Senhor nada têm a temer.
Ele é bom, e seu povo desfrutará de salvação abundante. Inclusive o
juízo de Nínive deve ser visto pelo prisma do intento de Deus em mos­
trar misericórdia a seu povo. Ele responde à sua súplica por alivio da
opressão enviando juízo sobre seus inimigos.
Na verdade, deve-se reconhecer que o povo de Deus, seus escolhi­
dos que encontram nele misericórdia, não pode ser identificado mera­
mente como “Israel” segundo a came. De fato, precisamente o contex­
to histórico da declaração de Naum sobre a bondade de Deus para com
1. Cathcart, Nahum, p. 55, segue Dahood ao tratar o prefixo l em l^m ã'ôz como tendo uma
força comparativamente igual a min. Neste caso, o significado seria; “Melhor é o S knhor do
que um refúgio”. Mas a construção não é muito comum.
NAUM 1.7 95

aqueles que ele conhece indica que não se pode aplicar uma definição
meramente étnica simplista de “Israel”. Anteriormente, quando Deus
tratou dos habitantes de Nínive por meio do ministério do profeta Jonas,
indicou que ele podia ser tão misericordioso para com os ninivitas ímpi­
os quanto havia sido para com seu próprio povo. O fato de a Nínive dos
dias de Naum ser visualizada como alvo para a devastação não poderia
apagar a realidade da misericórdia anterior demonstrada aos habitantes
de Nínive em resposta à sua fé e arrependimento. Pois Israel também
iria sofrer as violências das devastações pela mesma Babilônia que iria
trazer juízo sobre a Assíria. O Senhor é bom - mas somente para com
aqueles que nele se refugiam. Esta frase pressupõe não mera fé e confi­
ança no Senhor. Ela reconhece um perigo iminente do qual a pessoa que
confia deve buscar escape. A fonte última deste perigo é o próprio Se­
nhor na medida em que manifesta seus justos juízos. Mas o pecador
arrependido busca ajuda exclusivamente nele, em mais ninguém.
Segundo o profeta. Deus conhece aqueles que nele buscam refú­
gio. Esse “conhecimento” do Senhor deve ser entendido no pleno sen­
tido bíblico de “amor” com o mais intenso cuidado. Quando o profeta
Amós declara que Deus “conheceu” Israel dentre as demais nações da
terra, ele não poderia estar dizendo que Deus possuía informação cog­
nitiva sobre uma única nação do mundo (cf. Am 3.2). Em vez disso, ele
quer dizer que somente este povo tem sido alvo do amor especial de
Deus.
O Senhor conhece os que nele se refugiam, significando que os
ama, cuida deles, trata com carinho seu bem-estar. Este conceito se
encaixa muito bem neste contexto, visto que ele fornece um quadro
apropriado para a compreensão do juízo iminente de Deus que iria
devastar a terra. Por amor de seu povo, como um passo na direção da
plena realização de sua salvação. Deus julgaria Nínive e os assírios.
“Bondade” em Deus é mais frequentemente associada à fidelidade
pactuai (hesed\ c f 2Cr 5.13; 7.3; Ed 3.11; SI 106.1; 136.1; etc.). Parti­
cularmente em associação com a glória de Deus manifestada em sua
habitação entre seu povo, declara-se que ele é bom. Aqueles que bus­
cam refúgio no templo de Deus vão descobrir exatamente quão bom e
misericordioso ele é.
96 NAUM 1.8-11

2. Juízo direcionado especiftcameníe contra a Assíria do século 7®


a.C. (1.8-11)

8 Mas, com inundação transbordante,


acabará de uma vez
com o lugar desta cidade;
e seus inimigos
ele perseguirá nas trevas. '
9 Que pensais vós contra o Senhor?
Ele fará um completo extermínio;
a adversidade não se erguerá segunda vez.
10 Porque, como espinhos entrelaçados,
e como (com) bebidas são embriagados,^
assim serão consumidos
como restolho totalmente seco.
11 De ti
saiu
aquele que maquina
o mal contra o Senhor,
aquele que maquina
impiedosamente.
Esta seção é particularmente complexa por causa das várias altera­
ções entre sujeitos e objetos. Mas intercâmbio tão rápido não é inco-
mum na literatura profética. O versículo 8 diz que o Senhor acabará de
vez com o lugar dessa cidade, ou seja, de Nínive. O versículo 9 pergun­
ta 0 que pensais vós (masculino, plural) contra o Senhor? Evidente­
mente, arrancando uma resposta de fé do povo de Judá. O versículo 10
anuncia que eles serão inteiramente consumidos, fazendo referência
ao juízo que deverá cair sobre os habitantes de Nínive. O versículo 11

1. o maqqeph argumenta contra tomar “trevas” como o sujeito, como aparece na LXX e
alguns intérpretes favorecem.
2. BDB, p. 685, conclui que este versiculo “provavelmente foi corrompido... e [o] sentido
obscurecido”, e sugere que ambas essas palavras em particular deveriam ser apagadas como
ditográficas. Mas em hebraico o versículo apresenta um exemplo excelente de aliteração, que
dificilmente poderia ser devido à corrupção.
NAUM 1.8 97

volta ao pronome feminino singular como no versículo 8, indicando


que da cidade de Ninive (feminino, singular) saíra alguém que maqui­
na 0 mal contra o S e n h o r . A referência a este último e misterioso per­
sonagem receberá consideração especial posteriormente.
8. Em tempos anteriores, o profeta Isaias usara as imagens de uma
inundação transbordante para descrever o ataque da Assíria contra Is­
rael. O rei da Assíria viria como um rio transbordando sobre suas ri­
banceiras, chegando até o pescoço, com suas “alas” estendidas, co­
brindo a largura da terra (Is 8.7,8). Mas no presente caso a Assíria é que
iria experimentar a submersão na maré do dilúvio dos invasores. Fará
completo extermínio de seu lugar sugere não apenas que a própria ci­
dade seria destruída, mas que seu lugar se tomaria desabitado e deserto.
Um pouco depois da profecia de Naum, esta total devastação se toma a
experiência literal de Ninive. Os lugares das cidades como Jemsalém,
Damasco e Hebrom foram ocupados continuamente desde os tempos
patriarcais até hoje. Mesmo depois de uns trezentos anos após a queda
da cidade colossal de Ninive, quem ali passava mal podia suspeitar que
a área algum dia fora habitada.^
Não só 0 local, mas também o povo deveria experimentar os horro­
res do Juízo divino. Pois seus inimigos ele perseguirá nas trevas. Da
mesma maneira que o local da cidade deveria desaparecer, também seus
habitantes virariam fumaça nas bmmas do esquecimento.
Trevas, nas Escrituras, simbolizam angústia, terror, pranto, perple­
xidade e pavor.^ Uma combinação de todas essas experiências deveria
ser o usufruto final de Ninive por todos os anos em que oprimira e
brutalizara as demais nações. O Egito se sentara paralisado enquanto
sofria a praga das trevas; a Assíria, porém, teria a maldição adicional
de ser perseguida nas trevas. Seu terror seria intensificado à medida
que tropeçassem em direção a uma escuridão impenetrável.

3. W. H. Green, editor de Nahum's Prophecy Concerning Ninewh Explained and lllustraied


from Assyrian Monuments por Otto Strauss, fiihlical Repertory [1^55), p. 127, observa que
Xenofonte eomandou a retirada dos gregos sobre o local de Ninive a menos de 300 anos após
a profecia de Naum. e parece não haver suspeitado de que esta grande cidade alguma vez
existira ali.
4. BOB. p. 365.
98 NAUM 1.8-9

Para pessoas modernas poderia ser difícil imaginar esses terrores,


a menos que sejam vítimas dos horrores da guerra moderna. Mas, mes­
mo essas agonias terrenas dificilmente se comparam às trevas exterio­
res do inferno eterno onde os vermes não morrem e o fogo nunca se
apaga. A consciência culpada excitada pelos poderes convincentes da
palavra de Deus pode realizar uma obra muito mais eficiente do que
argumentação racional com o fím de convencer o pecador da realidade
desse juízo inevitável por vir.
9. A frase Ele fará completo extermínio é repetida aqui, mas com a
ênfase adicional de que é ele (hú’) - o S e n h o r -q u e aniquilaria Nínive.
A frase repetida vem em resposta a uma pergunta: Que pensais vós [mas­
culino, plural] sobre o Senhor? O verbo empregado {hãSat) poderia
significar ou “pensar” ou “maquinar”. A decisão entre estas duas opções
depende da identificação do masculino plural vós e se a força da prepo­
sição (’el) deva ser tomada como “sobre” ou “contra”. Se vós se refere
aos habitantes de Israel, então a força da pergunta será: “O que vós,
israelitas, pensais sobre o S e n h o r ? Porventura ele vai levantar-se contra
seus inimigos?”. Mas se vós se refere aos habitantes de Nínive, então a
força da pergunta será: “O que vós, ninivitas, (inutilmente) tramais con­
tra Yahweh? Porventura credes que podereis resistir ao seu poder?”.
O significado de uma frase semelhante a essa, que ocorre dois ver­
sículos depois, é claro, mas contém dois outros fatores presentes. E
usado o mesmo verbo (haSab), porém uma preposição diferente ('al)
liga a ação ao S e n h o r . Além disso, o versículo 11 especifícamente afir­
ma que “o mal” é o objeto do “pensamento” contra o S e n h o r .
Quando se compara essa sentença do versículo 11 com a pergunta
do versículo 9, as diferenças inclinam a decisão na direção da identifi­
cação do VÓ5 do versículo 9 com os habitantes de Israel. Embora uma
grande variedade de sujeitos, objetos e pronomes apareça no contexto,
mantém-se certa consistência. Nos versículos 8 e 11, a cidade de Nínive
é representada por um pronome singular feminino. No versículo 10, os
habitantes de Nínive são representados por “eles”, o pronome da tercei­
ra pessoa do plural. Este mesmo povo poderia ser representado por
uma segunda pessoa plural, “vós”, no versículo imediatamente anteri­
or (v. 9). Mas a referência aos habitantes de Israel parece mais apropri-
NAUM 1.9 99

ada, particularmente à luz da segurança oferecida àqueles que “se refu­


giam” em Yahweh conforme descrito no versículo 7.
Outro fator tem a ver com a mudança de preposições entre os ver­
sículos 9 e 11. “Que pensais vós concernente ao {’el) Senhor?” ( v. 9),
confrontado com “aquele que maquina o mal contra o ('a/) S enhor”
(v. 11). Enquanto a preposição no versículo 9 pode significar “contra”
(cf Gn 4.8; 22.12; Êx 14.5; Nm 32.14; etc.), seu significado mais pre­
dominante é “sobre, concernente a”. Em sentido oposto, conquanto a
preposição do versículo 11 possa significar “sobre, concernente a”, é
frequentemente usada “em sentido hostil... mui frequentemente, após
todos os tipos de verbo expressando ou implicando ataque”.^
Em consequência, a pergunta retórica do versículo 9 tem a inten­
ção de provocar fé em um populacho israelita oprimido. “Que pensais
vós sobre o S e n h o r ? Estais seguros de que Deus consumirá totalmente
a Assíria, vosso opressor.” Israel precisava ouvir esse tipo de palavra a
fim de evocar sua confiança. O S e n h o r , em quem confiavam, lhes da­
ria 0 alívio de seu opressor.
Para reforçar a finalidade da libertação prometida pela palavra pro­
fética do Senhor, Naum acrescenta: A adversidade não se erguerá se­
gunda vez (v. 9c). Uma vez sendo esse livramento concretizado, os
assírios estariam acabados. De fato, uma grande mensagem de espe­
rança! Todo mundo está familiarizado - familiarizado até demais! -
com aqueles livramentos que duram tão pouco tempo. Mas o profeta
promete o fim deste incessante turbilhão de problemas.
Mas, naturalmente, há os babilônios. Os assírios podem ser varri­
dos da face da terra, porém demônios sete vezes piores emergem sob a
forma dos opressores babilônios. Esse tipo de problema em entender as
promessas proféticas necessita de uma libertação final que quebrará as
cadeias dos modelos didáticos do AT. A palavra de Deus é verdadeira, e
tudo o que ela diz se concretizará. Em última análise, porém, essa con­
cretização só chega por ocasião da substituição da velha aliança pela
realidade da nova aliança. Portanto, no livro do Apocalipse, Babilônia
aparece como uma figura da grande força satânica final que se opõe a

5. BDB, p. 757.
100 NAUM 1.10-11

Deus e a seu povo. Esse inimigo, juntamente com o próprio Satanás,


será destruído completa e irrevogavelmente. Todas as lágrimas serão
enxugadas dos olhos do povo de Deus, e nunca mais conhecerão a opres­
são (cf. Ap 17,18).
10.0 Juízo divino deverá chegar de maneira correspondente à obs­
tinação do pecador. A frase como espinhos entrelaçados, figuradamen-
te descreve a resistência da cabeça e coração duros, característicos dos
assírios em relação à autoridade do Deus vivo, único e verdadeiro.
Eles transformaram suas vontades numa obstinação tão inflexível que
todas as aproximações, até mesmo de Deus, encontravam resistência
espinhosa: e como (com) bebidas são embriagados retrata o estupor
mortal em que haviam se afundado por vontade própria.
Essa obstinação é contrabalançada pelo fogo consumidor da ira de
Deus; serão inteiramente consumidos como restolho seco. Nada quei­
ma mais rápido e com maior intensidade do que palha seca. Quanto
mais intrincado é o espinheiro mais espontaneamente ele se queima.
Se os assírios abandonam o autocontrole ante a bebedice, então perde­
ram todo 0 controle de si próprios e devem converter-se em vapores de
fumaça.
11. Esta rebelião obstinada contra a vontade de Deus da parte da
cidade de Nínive produziu um líder, um príncipe que converteu a resis­
tência passiva em oposição ativa. O singular feminino traduzido por ti
se refere à cidade de Nínive, da mesma maneira que “esta cidade” no
versículo 8 da mesma seção. O ventre da perversidade, que é Nínive,
produziu uma monstruosidade repugnante, um filho de “Belial”, como
expressa literalmente o texto (aqui traduzido por aquele que maquina
impiedosamente).
E difícil determinar a origem exata deste tenno b^liya'al. Poderia
ter se originado pela conjunção de duas palavras: b^lt, “sem”, eya'al,
significando “preço” ou “valor”. Um filho de Belial seria o “alguém
indigno”. O contexto nas Escrituras, para o uso do termo, aponta con­
sistentemente para uma pessoa que é depravada, desprezível. Uns pou­
cos exemplos podem servir para realçar seu significado e fornecer um
arcabouço para a compreensão do uso do termo por Naum.
O código Jurídico de Deuteronômio prevê uma situação em que
NAUM 1.11 101

“filhos de Belial” poderiam desviar os habitantes de uma cidade, indu­


zindo-os a adorar outro deus (Dt 13.14 [Eng. 13]). Faz-se o uso da
mesma frase no livro de Juízes para descrever os homens malignos que
exigiam a oportunidade de abusar sexualmente dos hóspedes que per­
noitavam no vizinho, provavelmente com a intenção de colocar a nar­
rativa em termos das provisões da lei deuteronômica sobre os filhos de
Belial (cf Jz 19.22; 20.13). Outros exemplos válidos da perversidade
dos “filhos de Belial” podem ser vistos nos filhos de Eli, que se em­
panturravam com as partes mais gordas dos sacrifícios e fomicavam
com as mulheres que serviam no tabernáculo (1 Sm 2 .12ss.); em Nabal,
o insensato rico que recusou ajuda a Davi (ISm 25.3); em Seba, o
rebelde arrogante que instigou uma revolta contra Davi (2Sm 20.1);
nos dois homens malignos que Jezabel pagou para testemunhar falsa­
mente contra Nabote (1 Rs 21.10,13); e naqueles que resistiram à auto­
ridade de Salomão quando ele era ainda jovem e indeciso (2Cr 13.7).
Encontra-se no Saltério o clímax de uma designação profética de um
homem a quem adere uma “coisa de Belial”. O salmista descreve um
amigo íntimo em quem ele confiava, que o havia traído levantando seu
calcanhar contra ele (SI 41.8-9; c f Mt 26.23).
Naum é o único dos profetas a usar o termo bH iyaal, e ele o em­
prega duas vezes (1.11; 2.1 [Eng. 1.15]). Este “conselheiro de Belial”,
evidentemente, é o rei, o líder do povo perverso. Ele conspira contra o
próprio Senhor, e não apenas contra sua nação. Em termos de um indi­
víduo específico, Naum poderia estar se referindo a Senaqueribe, que
é descrito em outro texto, nas Escrituras, como aquele que se pôs não
meramente contra Israel, mas “contra o Senhor” (2Rs 18.32b-35). Mas,
embora Senaqueribe, no tempo de sua invasão à Palestina, em 701 a.C.,
se encaixe bem no perfil desse “conselheiro de Belial” que saiu de
Nínive, a frase é melhor entendida como tendo uma aplicação mais
ampla. Não só Senaqueribe, mas todos aqueles reis perversos e líderes
dos inimigos do povo de Deus, que vieram da Assíria, exibem as carac­
terísticas daquela figura brutal descrita por Naum.
Inicialmente, o tenno b^liya'al tinha uma aplicação ampla, para
designar homens geralmente possuidores de um conjunto de caracterís­
ticas malignas. Subsequentemente, o termo se restringiu tanto que pas-
102 NAUM 1.11-14

sou a designar o próprio Satanás, o arquiinimigo de Deus. É usado com


este sentido no Testamento dos Doze Patriarcas, na Ascensão de Isaías,
no Livro dos Jubileus e nos Oráculos Sibilinos.^Esta aplicação intertes-
tamentária do termo ajuda a explicar sua única aparição no Novo Tes­
tamento, encontrada em 2 Coríntios 6.15. Como o termo entre um total
de cinco contrastes, Paulo coloca “Cristo” e “Belial” um contra o outro.
Justiça e perversidade não têm nada em comum; luz e trevas não podem
associar-se; o crente com o incrédulo não podem comungar; o templo de
Deus e o templo dos ídolos não têm nenhum acordo entre si: e Cristo e
Belial representam governos de dois reinos diametralmente opostos. O
contraste de Paulo representa o clímax do conflito representado em Naum.
Uma figura agourenta se encontra por trás do soberano de Nínive, inci-
tando-o em suas determinações perversas. Mas alguém se posiciona
contra ele, a contraparte divina à sua posição de poder. É “o Cristo”, o
rei ungido que governa em prol do Senhor ao longo dos tempos. Essas
duas pessoas e os reinos que representam permanecem em conflito uma
contra a outra até que sua peleja seja finalmente resolvida.
Portanto, o juízo dirigido especificamente contra a Assíria do sé­
culo 7®representa um momento crítico no programa divino para a per­
severança na redenção de seu povo. O Senhor demonstra, por meio da
destruição da Assíria, que a mais poderosa das nações não pode ter
sucesso em sua oposição aos propósitos do Senhor.

C. O CARÁTER IMINENTE DO JUÍZO DIVINO (1.12-14)


Um tema associado repetidas vezes ao juízo divino sobre os per­
versos, nas Escrituras, tem a ver com a iminência desse juízo. Para os
perversos é inútil crer que de alguma maneira poderão tomar-se fortifi­
cados contra as devastações iminentes. Quando todos dizem; “paz e
segurança”, então sobre eles vem destruição repentina. Naum ressalta
este princípio na presente seção.

6. Maier, p. 200.
NAUM 1.12a 103

I. Juízo imediato a despeito da força da Assíria (L I 2a)

12a Assim diz Yahweh:


Ainda que sejam completos
e também numerosos,
contudo serão exterminados
e passarão.

Pela primeira e única vez, Naum emprega o costumeiro Assim diz


Yahweh que introduz uma “palavra de Yahweh”. A intenção da frase
neste contexto não é remover toda dúvida de que esta é na verdade uma
palavra de Deus em contraste com os prévios pronunciamentos de Deus
por Naum. Em vez disso, Naum deseja enfatizar a infalibilidade da
queda de Nínive e todas as aparências em contrário.
A iminência é sublinhada pelo fato de que o Juízo deveria v\x Ainda
que sejam completos e também numerosos os assírios. Deus não iria
esperar até que o inimigo se degenerasse a um estado de fraqueza antes
de dar início à calamidade. Ainda que não fossem fracos, cheios de
arrogante autoconfiança. Deus os fará cair ao chão.
Israel conhecia muito bem os maciços recursos humanos de que o
império assírio dispunha. Conforme 2 Reis 19.35, as baixas que Sena-
queribe sofreu totalizaram 185.000 depois de um único encontro com o
Senhor fora dos portões de Jemsalém. Nínive era conhecida como a grande
cidade que demandava “três dias para percorrê-la” (Jn 3.3). Contudo seu
populacho seria segado, exterminado como muitas folhas de capim. As­
sim que a operação da sega começasse, milhares de folhas de capim desa­
pareceriam num instante.
A brusca mudança de ''‘serão exterminados" para "passarão" cau­
sa dificuldades. Seria o rei da Assíria que passaria? ou será que a forma
singular “é usada com ênfase especial, sendo o numeroso exército açam­
barcado pela unidade de um só homem?”.' O mais provável é que seja
ele Deus, aquele que passaria sobre. Da mesmíssima maneira como
ele passou sobre a terra do Egito, também agora, uma vez mais, passa­
ria na figura de seu anjo da morte para abater a Assíria. A frase seguin-

1. Keil, p. 15.
104 NAUM 1.12Ò-13

te apoia esta inteqjrelação por sua declaração da graça de Deus para


com seu povo. Embora os afligira, “eu te afligi”, no pretérito (como
fizera no Egito), ele não o faria novamente.

2. Juízo imediato como alívio para os sofrimentos de Judá


(1.12b-13)

12b Ainda cjue eu tenha te afligido,


jamais te afligirei outra vez.
13 E agora
a quebrarei
b seu Jugo,
b e teus laços
a rebentarei.

Deus jamais é insensível ante os sofrimentos de seu povo, embora


possam pensar que ele os tenha esquecido. A fé do salmista permitiu-
lhe reconhecer que lhe fora bom ser afligido, porque antes de ser afli­
gido ele “andava errado” (SI 119.67-71). Até mesmo a duração do tem­
po em que o povo de Deus permanece sob juízo é determinada pelos
bons propósitos de Deus para com eles. Mas na hora certa o Senhor
livra seu povo. Deus aflige e Deus liberta da aflição.
12b. A afirmação categórica de Naum de que Deus disse "jamais te
afligirei de novo" depara com um desafio nos fatos da história, pois
embora a Assíria fosse posta fora do caminho de uma vez por todas, a
Babilônia e sua perseguição contra Judá vieram logo em seguida.
Poder-se-ia pressupor que Naum se referisse somente à aflição pela
mão dos assírios. Mas a mensagem de conforto que Naum insinua é
bem mais que isso. Possivelmente, o profeta via Nínive como uma re­
presentação típica do inimigo mortal de Israel e sua destruição como
um ato final simbólico do juízo divino. Não importa quem seja de fato o
inimigo mortal do povo de Deus nas gerações futuras; pode-se ter cer­
teza, por meio da experiência de Nínive, que Deus o destruirá e livrará
seu povo. Deus continua essencialmente interessado por seu povo em
todas as suas aflições. Quando chegar a hora certa para seu livramento,
ele os libertará de toda opressão.
NAUM 1.13-14 105

13. E agora reforça a iminência do juízo divino sobre Nínive. Por­


que no misterioso conselho de Deus, por fim o tempo chega para que
seu povo seja libertado da aflição; então o juízo contra seus opressores
há de ocorrer naquele exato momento. Esse agora não significava ne­
cessariamente juízo naquele preciso instante em que Naum pronuncia­
va as palavras. Mais amplamente nas circunstâncias gerais do dia, po­
rém, o juízo era iminente.
Quebrarei seu jugo e teus laços rebentarei pressupõe libertação da
dominação estrangeira. Em vez de ser privado da liberdade de usufruir
do fruto de suas próprias mãos e terras, Judá participaria de todos os
benefícios da graça de Deus. O grande peso de labutar longas horas
sob carga excessiva cederia lugar à gloriosa liberdade dos filhos de
Deus, cada pessoa vivendo em liberdade para seguir suas próprias ati­
vidades, para a glória de Deus.

3. Juízo imediato como o Senhor decretou (1.14)

14 O S e n h o r deu ordem concernente a ti:


Ninguém será propagado
portando novamente teu nome.
Da casa de teus deuses'
e.xterminarei as imagens esculpidas e fundidas;
abrirei teu sepulcro;
porque não tens nenhuma importância.

O indicador decisivo da iminência do juízo divino sobre a Assíria


se encontra no estabelecimento do decreto divino. Deus deu a ordem.
Uma vez emitido o decreto, este não podia ser revogado. A Assíria
podia parecer inabalável, mas a publicação do decreto divino sela seu
destino.
O objeto singular no masculino (ti) desse triplo juízo poderia pare­
cer referir-se ao próprio rei da Assíria. Assurbanipal (669-627 a.C.), o
último grande rei da Assíria, torce para que o filho que o segue honre e

I. Riidolph. p. 159 n. 14, pode estar certo ao propor que a referência ao lugar de culto
deveria estar no plural: “da casa de teus deuses". Ele sugere que a pluralizaçâo ocorre por
causa da construção da frase. Cf. GKC. § I24r.
106 NAUM 1.14

preserve seu nome nas inscrições dos edifícios que esculpira, como
seu próprio memorial.^ Mas o decreto divino declara que ninguém irá
sobreviver para manter seu nome. Ninguém será propagado, evidente­
mente indicando que seus descendentes iriam perecer.
Assurbanipal admoesta, nessa mesma inscrição, que todo aquele
que se atrevesse a remover seu nome deveria ser julgado por Ashur, Sin,
Shamash, Adad, Bei, Nabu, Ishtar de Nínive, a rainha de Kidmuri, Ishtar
de Arbela, Urta, Nergal e Nusku.^ Essas divindades mais importantes
da Assíria certamente deveriam ser suficientes para garantir a perpetui­
dade do nome do rei da Assíria. Mas o único e verdadeiro Deus vivo,
Yahweh de Israel, determinara algo contrário. O nome do rei assírio não
seria propagado. Seus descendentes não continuariam sua tradição.
Além do mais, as imagens esculpidas e fundidas da Assíria seriam
exterminadas. Da mesma maneira que o ídolo Dagom caiu sobre seu
rosto em humilhação perante a arca do Senhor (1 Sm 5.2-4), também os
deuses poderosos da Assíria seriam reduzidos a nada.
Como um golpe final sobre o ego régio. Deus declarou ao rei da
Assíria: abrirei leu sepulcro. O fim de sua ilustre carreira deveria exi­
bir a vaidade de seu poder. Como humilhação final de uma cabeça
coroada, seu inimigo o sepultaria.“' Assim seria com todos os que se
pusessem contra o Senhor e seu povo.
Por que esses golpes sucessivos deveriam cair sobre o rei da Assí­
ria? Contrário à ênfase moderna sobre a auto-estima, esta Escritura
declara que o rei da Assíria não significava nada, que ele era sem va­
lor. Em vez de ser digno de restauração, ele era vazio, oco, fútil. Sua
inutilidade perante Deus assegurou o livramento prometido a Judá, o
qual deve ser realizado por sua destruição.
Agora, pois, o profeta Naum põe sua vida na linha. De duas pers­
pectivas diferentes, ele se expusera à ameaça de morte.

2. D. D. Luckenbill, Ancient Records o f Assyria and Babylonia (Nova York: Greenwood


I927),2.323. n. 838.
3. Ibid. n. 839.
4. Cf. Rudolph, p. 162.
NAUM 2.1-14 107

Os poderosos não ficariam satisfeitos com esta mensagem de de­


vastação da Assíria e de seus reis. Um monarca geralmente não fica
contente quando um subordinado anuncia uma maldição de morte so­
bre ele. Oficiais subordinados, num reino de marionetes, geralmente
ficam mais que felizes em granjear as boas graças de seu senhor, pro­
cedendo à eliminação de qualquer fonte de crítica que porventura sur­
ja. Não há dúvida que Naum poderia esperar o pior.
Além disso, Naum se expusera à possibilidade de morte nas mãos
de seu próprio povo, ao aventurar-se em anunciar essa profecia tão
ousada, pois a lei de Moisés previa que o profeta cujas palavras não se
cumprissem, ao prever o futuro, deveria morrer (Dt 18.20-22). Agora,
porém, o anúncio público fora longe demais. A palavra de Deus, que
possui poder em si mesma de executar o que decreta, agora foi liberada
sobre o mundo. Muito embora falada pelos lábios trêmulos de um ho­
mem mortal, essas palavras sacodem os fundamentos inabaláveis dos
impérios.
Visto que Deus permanece o mesmo, as palavras de Naum conti­
nuam a ter significado para todos os indivíduos, poderes e nações que
porventura oprimam o povo de Deus e vivam em perversidade. Deus, de
modo 2í\g\im, jamais inocenta o culpado (Na 1.3). Por meio da destrui­
ção do perverso, ele proverá livramento para seu povo.

II. DESCRIÇÃO DRAMATICA DO JUIZO


SOBRE NÍNIVE (2.M 4 [E n g . 1.15^2.13])
Naum fora chamado por Deus para insurgir-se contra as potências
vigentes. Ele, porém, não se limitou a apresentar seu anúncio profético
de qualquer maneira. Ele recorreu a todo o potencial de sua fértil imagi­
nação a fim de comunicar que o poderoso opressor, no momento pairan­
do sobre suas vítimas amedrontadas, seria reduzido a pó.
Para dar vida à sua mensagem, o profeta arremessa seu leitor ao
coração da batalha entre Nínive e seus agressores vaticinados. O leitor
sente o terrível impacto do primeiro sinal de alerta. Estremece ante o
estrépito dos carros de guerra que se aproximam. Sente pânico e urgên­
cia de fugir dos guerreiros que rompem as últimas defesas da cidade.
108 NAUM 2.1

Contempla com olhos pesarosos os vitoriosos suados e alegres se ati­


rando aos despojos.
Esse juízo divino constitui a realidade em carne e osso. Muito pior
que a dor, o pânico e a confusão gerados por um bando de soldados
saqueadores serão os castigos infligidos pela fúria da ira divina. Terrí­
vel de se ver será a execução divina da vingança pactuai.
Naum presta um nobre serviço a toda a humanidade por meio de
sua eletrizante descrição do derramamento da ira divina sobre a cidade
de Nínive. Mediante essa encenação física muitíssimo concreta do even­
to, ele se aproxima ao máximo daquela descrição consumada do juízo
divino reservado exclusivamente para os lábios do nosso Senhor (Mt
13.40-42,48-49). Um mundo tão acostumado a satisfazer os desejos da
carne deveria prestar atenção a esses avisos tão vividos antes que fosse
tarde demais!
O capítulo se encontra naturalmente em três seções seguindo o avan­
ço do cerco e pilhagem da cidade. O primeiro versículo do capítulo
situa esta vivida descrição da conquista no contexto da redenção do
próprio povo de Deus.

INTRODUÇÁO: O ANUNCIO DO JUÍZO CONSUMADO


SIGNIFICA JUBILOSAS NOVAS PARA JUDÁ (2.1 [ENG. 1.15])

2.1(1.15) Eis sobre os montes


os pés
do que traz boas-novas,
do que anuncia a paz!
Celebra tuas festas,
ó Judá!
Cumpre teus votos,
Porque nunca mais Bel ial
passará por ti;
ele está totalmente exterminado.

Olha! Toma nota! Eis que surge mensageiro que traz a palavra de
salvação e livramento! Tu o vês sobre o cume dos montes próximos?
Ele correu uma longa distância a fim de trazer-te as boas-novas!
NAUM 2.1 109

Mais provavelmente, os montes que fornecem a plataforma eleva­


da a esse arauto das boas-novas são as montanhas de Judá, porque é de
Judá que se espera a reação à celebração. Esse mensageiro testemunhou
a queda de Nínive e se apressa a anunciar a alegre notícia. O opressor
de Judá nunca mais o atormentará.
É possível que a ênfase sobre os pés do mensageiro seja uma alu­
são à pressa com que ele traz a mensagem. A proclamação pública de
paz deve ser tomada em termos de implicações completas do hebraico
Sãlôm. A implicação dessa paz consiste na saúde e abundância de bên­
çãos na totalidade da vida.
Essa primeira frase do versículo é essencialmente uma citação na
íntegra de Isaías 52.7, com a única diferença que Isaías começa dizen­
do: ""que formosos são os pés...”, em vez de ""eis os pés...”. Talvez a
imagem criada por Naum de um mensageiro saindo às pressas do meio
de uma batalha sangrenta o tenha impedido de fazer alusão à “beleza”
desses pés.'
Afinal de contas, seria correto alegrar-se com a devastação do ini­
migo? Seria a derrota esmagadora de Nínive, Juntamente com toda sua
grandeza, motivo suficiente para celebração entre o povo de Deus?
Uma cegueira sentimentalista ante as realidades da história tropeça
nesse tipo de questionamento acadêmico. Veja-se, porém, um trecho
dos anais de Assurbanipal II, datado do século 9®a.C. Observem-se os
itens de realização (mostrando alguma imaginação), os quais esse mo­
narca de Nínive sentiu serem dignos de serem gravados em pedra:

Eu construí uma coluna sobre a porta de sua cidade, esfolei todos


os principais homens que haviam se revoltado e cobri a coluna
com suas peles; forrei a coluna com algumas e outras espetei em
estacas sobre a coluna, e ainda outras fixei em estacas ao redor da
coluna; esfolei muitos dentro de minha própria terra e espalhei suas
peles sobre os muros; e cortei os membros dos altos oficiais, dos
altos oficiais reais que haviam se rebelado (linhas 89ss.).

1. Surpreendentemente, Rudolph. p. 163, nega que Naum tenha dependido de Isaías ou


vice-versa. Contudo, a fraseologia é tão notavelmente semelhante que é difícil imaginar os
dois profetas chegando independentemente à mesma forma de expressão.
no NAUM 2.1

Muitos dos cativos dentre eles queimei na fogueira, e a muitos cap­


turei vivos. De alguns cortei as mãos e dedos, e de outros cortei os
narizes e orelhas... e os olhos de muitos dos homens arranquei. Eu
fiz um monturo dos vivos, e de outros amarrei as cabeças nas vi­
nhas ao redor da cidade. Os rapazes e as moças queimei na fogueira
(linhas llóss.).-

Esses tipos de atrocidade internacionais foram cometidos pelos reis


da Assíria ao longo dos séculos. Deus respondera com maravilhosa graça
ao comissionar Jonas para pregar nessa grande cidade. Por algum tempo,
o arrependimento caracterizara sua reação ao anúncio de juízo. Mas Já no
tempo de Naum se tomaram uma vez mais de coração empedernido con­
tra os apelos de Deus e do homem. Não surpreende que o povo de Deus
fosse convocado por uma visão enviada de Deus para festejarem a derro­
ta desse inimigo recalcitrante da humanidade, bem como de Deus.
Especificamente, pela citação dessas mesmas palavras, o crente da
nova aliança é também convocado a participar dessa celebração da sal­
vação (Rm 10.14-15). E verdade que Paulo cita Jsaías: “Quão formo­
sos são os pés...”, em vez de Naum: “Eis sobre os montes os pés...”.
Mas a essência da citação é a mesma, um profeta dá expressão ao lado
positivo do livramento, e o outro ao lado negativo. Esse equilíbrio de
perspectivas é vital para uma avaliação correta do ministério dos pro­
fetas, visto que a salvação do povo de Deus é anunciada regularmente
em associação com a destruição dos inimigos de Deus.
Um exame mais acurado do uso que o Novo Testamento faz deste
anúncio que conclama à celebração deixa claro que a intenção de Paulo
é enfatizar o significado de Deus enviar um mensageiro a difundir esta
palavra: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como
crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem
pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito:
Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.14-
15). O povo de Deus não recebe o encargo de efetuar sua própria liber­
tação. Em vez disso, eles são informados de que devem crer no que
lhes é declarado como um ato de Deus a seu favor.

2. Como citado em Roux. Ancient Iraq, p. 263.264.


NAUM 2.1 111

Se Israel confiasse na mão da graça divina para libertá-los do cas­


tigo da servidão, que eles mereciam, poderiam esperar continuar a des­
frutar a liberdade dada pelo Senhor. Sua libertação dramática e repen­
tina das mãos da Assíria, em cumprimento desta profecia graciosa, devia
convencer o povo de que somente a mão de Deus é que provocaria sua
libertação.
Como essa mensagem de Naum é gloriosa! Libertação das mãos
do opressor viria ao povo de Deus por meio da soberana intervenção,
ainda que o pecado de seu povo os conduzisse a esse estado calamito­
so. Quão gloriosa seria a chegada do livramento!
Em virtude das mais amplas estruturas histórico-redentoras da Es­
critura, esse livramento da opressão da Assíria pode ser entendido como
uma representação microcósmica do livramento de toda opressão que
vem como consequência do pecado, de Satanás e da morte. Num con­
texto veterotestamentário, essa opressão encontra sua manifestação mais
plena nos impérios que se levantam em oposição ao reino de Deus. A
visão de Daniel dos sucessivos impérios que por fim desabariam em
virtude da força da “pedra cortada, sem auxílio de mãos” (Dn 2.45),
começa com Babilônia. A Assíria, porém, que historicamente era o pre­
decessor imediato de Babilônia, se enquadra no mesmo padrão redentor-
histórico.
Tem-se desenvolvido alguma discussão sobre o tema de como a
mensagem de Naum se relaciona com o contexto da nova aliança. Essa
discussão, naturalmente, gravita em tomo desses versículos em parti­
cular, com sua referência a os pés do que anuncia boas-novas. A luta de
Martinho Lutero com esta questão é refletida em sua interpretação desta
passagem de Naum em relação a Cristo: “não há nenhuma outra passa­
gem neste profeta que podemos tomar em relação a Cristo senão esta”.^
Mais detalhado em seu tratamento do lugar da mensagem de Naum
em relação ao evangelho da nova aliança é William Henry Green, um
dos teólogos mais antigos de Princeton. Green observa a relação entre
Naum 2.1 (Eng. 1.15) e Isaías 52.7, em que a libertação do cativeiro

3. Luther's Works. ed. Hilton C. Oswald (St. Louis: Concordia. 1975), 18:295. Cf. mais
comentários em Maier, p. 219 n. 2.
112 NAUM 2.1

babilónico é ligada mais imediatamente à obra redentora de Deus em


prol de Israel. Ele chama a atenção para a metodologia distintiva dos
escritores das Escrituras, “por meio dos quais os termos e expressões
basicamente descritivos da queda de um poder hostil se aplicam de for­
ma permutável àqueles outros”."*Ele conclui que Naum aplicou as pala­
vras precisas de Isaías sobre a libertação das mãos de Babilônia à der­
rota da Assíria como um modo para “chamar a atenção para a relação
que realmente subsiste entre os dois eventos, como sendo em essência
realmente única”.’ Green observa que Paulo repete esta mesma lingua­
gem em Romanos 10.17, e assim sugere “uma unidade inata entre a
mensagem que anunciava a queda daqueles grandes poderes persegui­
dores e 0 levantar daquele Reino que irá finalmente suplantá-los”.*
Esta perspectiva mais ampla da mensagem de Naum em relação
aos propósitos divinos histórico-redentores em vigor fornece um arca­
bouço muito mais amplo para uma transferência de valores dessas pa­
lavras para o contexto do Novo Testamento. Como sumariado por Green,
“Assim as predições de Naum têm um significado para todos os tem­
pos futuros, enquanto perdurar sequer uma partícula em que sobreviva
0 espírito de Nínive - qualquer um que tenha herdado a criminalidade
e hostilidade contra o povo de Deus. O destino de Nínive se juntará em
substância, se não em forma, a todos os seus sucessores. Enquanto o
último adversário de Deus e da salvação humana não for fmalmente
vencido, ela em sua plena essência não se cumprirá”.^
O anúncio glorioso da queda de Nínive e a consequente libertação
de Judá levam o profeta a convocar o povo de Deus a celebrar e consa­
grar. A admoestação é dirigida especificamente a Judá como aquela
porção do povo de Deus que estava vivendo debaixo do Jugo da opres­
são assíria. Individualmente, e como nação, eles devem observar um
padrão de celebração.

4. Green. publicação de Nahum s Prophecy Concerning Nineveh Explained and lllusiraled


from Assyrian Momimenis por Olto Strauss, Biblical Repenorv 11 ( 1955), p. 131.
5. ihid
6. Ibid., p. 132.
7. Ibid.
NAUM 2.1 113

Mas esta explosão de comemoração nacional não deve ser entendi­


da de fonna secularizada. São as festas e os votos ordenados por ins­
trução divina que fornecem um arcabouço estruturado para a vida triun­
fante a longo prazo. Não era para o povo de Deus celebrar como se
celebra um festival de solstício de inverno “Feliz Ano-Novo!”, com
muita fantasia e barulho e, em última instância, sem sentido. Em vez
disso, eles deveriam corresponder à redenção por meio de uma renova­
da consagração ao Senhor. Essa celebração não seria acompanhada de
ressacas ou lamentos sóbrios.
Talvez certo elemento de dever esteja envolvido nas convocações
para as celebrações. E uma obrigação do povo de Deus prestar um ser­
viço completo de ações de graças pelo livramento de suas misérias.
Em termos concretos, as três festas anuais de Israel e as correspon­
dentes de sua nova aliança podem ser consideradas como veículos na­
turais pelos quais o povo de Deus pode dar vazão à sua contínua alegria
pela salvação. A refeição da Páscoa, que encontra sua correspondente
na celebração da Santa Ceia do Senhor, lembra o anjo da morte que
“passou sobre” em virtude do sangue substitutivo do Cordeiro. Todo o
poder do último inimigo foi destruído. A festa do Pentecoste, que corres­
ponde à realidade do derramamento do Espírito Santo na nova aliança,
celebra a novidade e a plenitude da vida outorgada graciosamente aos
redimidos. O fruto do Espírito na experiência diária de uma pessoa for­
nece motivo contínuo de celebração.
A festa da colheita, das Tendas, lembra a abundância de provisões
que Deus faz a seu povo, mesmo enquanto continuam sua jornada pe­
regrina. Uma colheita abundante num contexto de habitação em tendas
humildes combina imagens que definem os lados contrastantes da rea­
lidade presente. Se eles aceitarem esses dois fatos da vida redentora, o
povo de Deus, pela fé, deve estar apto a celebrar continuamente a bon­
dade do Senhor a despeito de numerosos empecilhos.
Sob a perspectiva da velha aliança, votos podem envolver os com­
promissos pactuais da nação ou votos voluntários derivados de bên­
çãos pessoais, obrigação ou necessidade. Mas uma vez que um voto
tenha sido feito, ele deve ser cumprido. Jacó fez um voto de pagar o
dízimo ao Senhor (Gn 28.22) e Jefté fez um voto de consagrar sua filha
114 NAUM 2.1-8

ao serviço do Senhor (Jz 11.30-31). Uma vez que tais compromissos


foram feitos, seria pecado voltar atrás. Mas, por causa de uma consci­
entização contínua da libertação de tais opressões maciças, como aque­
las infligidas pelos assírios, o cumprimento desses compromissos de­
veria tornar-se um modo jubiloso de vida em vez de algum fardo pesa­
do de se carregar.
A razão final para uma celebração que pode ser mantida ao longo
dos anos está contida na última frase do versículo. Nunca mais Belial
passará por suas terras, porque ele é totalmente exterminado. O instru­
mento de tirania de Satanás assentado no trono da Assíria nunca mais
será visto outra vez. Sua derrocada é absolutamente permanente.
Nenhum livramento pode ter muito motivo de celebração se ele
não tiver este elemento de pennanência. Se Judá ainda esperasse que o
ditador da Assíria fosse voltar no ano seguinte, “no tempo em que os
reis costumam sair para a guerra” (2Sm 11.1), sua celebração dificil­
mente poderia ser muito animadora. Mas, por causa da permanência
desse livramento, eles podiam regoziJar-se sem restrições.
O evangelho cristão fornece o quadro mais completo possível para
celebração de vitória. A morte perdeu seu aguilhão. O crente morreu
para o pecado. A perda de toda possessão material não passa de tempo­
rária, e logo será substituída pela permanência dos novos céus e nova
terra. As celebrações, por meio do cumprimento dos votos de uma vida
cristã, estão sempre em vigor.

A. A CIDADE E TOMADA (2.2-8 [ENG. 1-7])


O profeta prossegue com sua mensagem contínua da destruição de
Nínive. Agora, porém, ele passa a uma descrição detalhada do cerco da
cidade. Se o leitor sentir-se tentado a questionar o valor edificador de
tal descrição imaginativa da destruição de uma cidade antiga, João Cal-
vino fornece a resposta: “este acúmulo de palavras de modo algum foi
em vão; pois era necessário confirmar, por meio de muitas palavras, a
fé dos israelitas e dos Judeus com respeito ao tempo próximo à destrui­
ção da cidade de Nínive, que de outra forma seria incrível”.'

I . Calvino, p. 463,464.
NAUM 2.2-3 115

Deve-se lembrar que este relato detalhado do cerco e da queda de


Nínive foi escrito apenas algumas décadas antes do evento propria­
mente dito. O arranjo e o estilo da composição eram Justamente o tipo
de material que poderia ter funcionado bem para elevar a fé de um
povo oprimido.

/. O anúncio do cerco iminente (2.2-3 [Eng. 1,2])


2(1) Aquele que espalha subiu contra ti.
Guarda a fortaleza!
Vigia o caminho!
Fortalece os lombos!
Reúne todas as tuas forças!
3 (2) Porque o S e n h o r restaurou a eminência de Jacó,
como a (antiga) eminência de Israel;
porque saqueadores (uma vez) os saquearam;
evacuadores evacuados;
e destruíram cada um de seus tenros brotos.
2 (1). Ao longo de muitas décadas passadas os assírios foram os
grandes dispersadores dos povos e nações. Agora, de repente, ficavam
face a face com um adversário que tinha a intenção de acabar com eles
da mesma maneira como deram cabo de outros. Estas palavras, aquele
que espalha, poderiam referir-se ao próprio Deus, tendo Nínive como
adversária. Mas é mais provável que a referência seja ao soberano iras­
cível que iria equiparar-se aos reis assírios em sua brutalidade.
Os quatro imperativos em disparada sucessão {Guarda! Vigia! For­
talece! Reúne!) desafiam os ninivitas a se porem em alerta e a lançar
mão de todos seus recursos em sua defesa. O método de Satanás pode
ser destruir ferindo o calcanhar. Mas a semente da mulher, levantada
por Deus, golpeia mortalmente sua cabeça.
A razão para esta devastação divinamente engendrada se encontra
na devastação anterior de Israel pela Assíria. Nínive saqueara ou des­
truira todo o remanescente da glória de Israel.' Ela não deixou nada.
I. A palavra hebraica que significa '‘esvaziar" (büqaq) pode refletir pwr meio de sua pro­
núncia o significado do termo. A enunciaçâo do substantivo relacionado (baqbuq, “cantil”)
se aproxima do som de gorgolejo que uma garrafa faz quando esvaziada. Cf. BDB, p. 132.
116 NAUM 2.3-5

nem sequer um broto novo, uma vara, que pudesse dar sinal de um
possível retomo da glória do povo de Deus. Então Nínive iria experi­
mentar um destino semelhante. Retribuição divina, restituição em per­
feita equidade sobreviria aos brutais habitantes de Nínive.
3 (2). No caso de seu próprio povo, o Senhor faz o impossível. A
eminência que uma vez pertenceu a Israel em tempo da mais elevada
glória deveria voltar ao seu apogeu. O contraste entre a eminência
ou glória de Jacó e a de Israel não é um contraste entre a majestade
relativa dos reinos do sul e do norte. Em vez disso, o contraste é entre o
tempo da glória de Israel sob a monarquia unida e o tempo da humilha­
ção da nação quando ela enfrentava os Juízos divinos deixando intacta
apenas Judá. Naum prevê um dia em que o mesmo tipo de transforma­
ção ocorrida com o patriarca Jacó caracterizará a nação como um todo.
O desvio, 0 lado jacobita do povo, os levou à sua devastação. Mas
deveriam experimentar plenitude de restauração, e se deleitariam em
ver novamente o soerguimento do reino em toda sua glória.

2. Aproximação dos assaltantes (2.4-5 [Eng. 3-4])

4 (3) a Os escudos de seus homens poderosos


b (são) vermelhos;
a os homens de força
b (se) vestem de escarlata,
a Cintilante com metal
b (é) o carro
c em seu dia de prontidão;
a e vibram
b as lanças de cipreste.
5 (4) a Nas ruas
b os carros passam furiosamente;
b e se arremessam
a nos lugares amplos.
a Sua aparência'

I. O sufixo feminino plural “delas” é particularmente problemático, visto que ele quase
certamente se refere ao(s) “carro(s)", um termo que em outros lugares é masculino (como
NAUM 2.4 117

b é como tochas;
h como relâmpago
a passam velozes.
“Domínio total do terreno” pode ser uma frase que capta o impacto
desta descrição da aproximação dos assaltantes de Nínive. Eles não
chegam perto da cidade como uma massa desorganizada incapaz de
coordenação. Ao contrário, demonstram plena utilização das mais
modernas e mais sofisticadas estratégias de guerra.
4 (3). A referência a escudos vermelhos pode ser interpretada de
várias formas. Eles podiam parecer avermelhados por causa do sangue
das vítimas nos conflitos passados ou pelo reflexo do sol num escudo
de cobre, ou pelo uso de uma tintura decorativa. Mas o contexto do
assalto determinado por um adversário mais poderoso pressupõe que
essa vermelhidão era proveniente do sangue da resistência empreendi­
da por Nínive. O fato de que o exército assaltante ainda não invadira
de fato a cidade, não impedia escaramuças preliminares à medida que
os territórios próximos da cidade entravam em disputa. De qualquer
maneira, esses escudos avermelhados serviam como terríveis presságios
da sentença em via de ser executada sobre os habitantes de Nínive.
Um vennelho mais brilhante, uma escarlata flamejante caracteriza
os uniformes do invasor. Cintila o metaP possivelmente se refira a uma
cobertura de metal, que fazia o carro quase impenetrável. Esses veícu­
los fabulosos são conduzidos por soldados portando lanças de cipreste,
cujo comprimento, resistência e flexibilidade as tomavam quase im­
possível de repelir-se.
Em seu dia de prontidão é uma referência ao dia de Deus. Sua
longanimidade para com a brutalidade dos ninivitas chegara ao fim.
Agora ele prepara seus instrumentos de vingança, de modo que eles
estariam armados até os dentes. Nada poderia deter seu ataque.
na frase seguinte: “eles [masculino plural] correm como relâmpago” ). Possivelmente, o sufi­
xo pode ser tomado como se fosse neutro, e pode referir-se aos carros e a tudo mais neles
(Keil, p. 21). .Viaier. p. 245, observa que “carros” é coletivo, e que muitos coletivos sâo
considerados como abstratos e. portanto, femininos.
2. Literalmente, “fulgura como metal”. A frase pode referir-se à placa metálica decorativa
ou protetora ao reluzir à luz do sol. Para as numerosas outras propostas relativas a esta frase,
em sua maioria envolvendo emendas textuais, ver Maier, p. 240.
118 NAUM 2.5-6

5 (4). Mas para onde esses veículos de devastação estão correndo


como o refulgir do relâmpago? A derrubada dos muros ainda não ocor­
rera, então eles não estão defendendo a parte interna da cidade. O mais
provável é que as imagens tenham a intenção de representar o passo
intermediário de aproximação da força atacante. Sendo temidos a dis­
tância, quando os ricos uniformes brilhantes se avizinhavam, eles ago­
ra podiam ser observados de mais perto. Haviam se apossado imedia­
tamente de todo terreno fora dos muros da cidade. Estradas dos subúr­
bios e cruzamentos de intersecções a caminho dos vários portões da
cidade estão agora totalmente sob ocupação. A última resistência re­
cuou para a segurança detrás dos muros da cidade e a amedrontadora
carruagem do inimigo se apressa, tomando toda via de escape possível.
Da mesma maneira, todos os inimigos de Deus podem ser conside­
rados como que encerrados à espera do julgamento do grande Dia.
Nenhum escape da espada da vingança pactuai é possível.

3. Resistência dos habitantes (2.6 [Eng. 5]J

6 (5) Ele lembra


seus nobres!
Eles tropeçam
em sua fuga
apressam-se
para chegar a seu muro,
mas a cobertura (do cerco)
está preparada.

Até este ponto, a descrição se concentra na aproximação do adver­


sário. Agora, porém, apresenta-se a imagem dos ninivitas em pânico,
em um rápido clarão. O rei da cidade (aquele que se lembra de seus
nobres) chama por seus bravos defensores, dando-lhes ordem de defen-
der-se do inimigo.' Com um duplo traço de ironia, Naum descreve esse
poderoso monarca que assiste incrédulo o avanço do ataque sobre sua

1. Rudolph. p. 167,168, observa que o sujeito do versículo 6 não pode ser o agressor dos
versículos 4-5, visto que a imagem do versículo 6 é de uma tropa que chega tarde demais.
Ele conclui que o sujeito do versículo 6 é o rei da Assíria.
NAUM 2.6-7 119

cidade e repentinamente recorda que conta com esses excelentes no­


bres soldados para defendê-lo.^
Mas os defensores não estão à altura de enfrentar o desafio. Eles
tropeçam em seu caminho para chegar ao lugar de defesa, o muro da
cidade. Então descobrem que é demasiado tarde para repelir aqueles
que estão levantando o armamento do cerco. O cerco já está feito, e já
começam as incessantes pancadas nas paredes.
Como poderá esse povo proteger-se contra o Todo-Poderoso, quan­
do ele se ergue contra eles? Mesmo seus juízos temporais são irresistí­
veis. Uma flecha atirada no calor da batalha encontra seu alvo quando
a providência divina marca o ponto (ver 1Rs 22.34). Quanto mais cer­
teiro não é o fato de Deus haver marcado o Dia no qual o povo será
julgado por Jesus Cristo, aquele que ressurgiu dos mortos? Ninguém
poderá escapar do divino escrutínio associado a esse Dia.

4. A entrada é conquistada (2.7 [Eng. 6])

7 (6) a As comportas dos rios


b se abrem,
a e o templo
b é derretido.

A expressão as comportas dos rios se abrem tem sido interpretada


de várias maneiras. Poderia referir-se ao acesso facilmente conquistado
através das defesas da cidade que naturalmente seriam mais difíceis de
atacar. Se esta interpretação for correta, então aqueles portões específi­
cos, que davam acesso ao fosso em certas partes da cidade, de alguma
maneira se tornariam a mesmíssima rota através da qual este exército
invasor iria derrubar o muro. O ponto de maior fortaleza se tomaria o
lugar de maior fraqueza.
E mais provável que as comportas dos rios se refiram às compor­
tas que teriam primeiramente sido fechadas pelos invasores e depois
abertas para inundar o muro da cidade, quebrando-o. Esta interpreta­
ção corresponde essencialmente ao testemunho de Diodoms Siculus,

2. Ihid.
120 NAUM 2.7-8

antigo historiador grego, que indica que durante a queda de Nínive


uma série de pesadas chuvas inundou o rio Eufrates (tomado erronea­
mente como o Tigre), inundou partes da cidade e derrubou o muro por
uma extensão de cerca de três quilômetros (vinte estádios).'
Esta análise associada aos eventos da queda de Nínive também
coincide com a sentença seguinte, de que o templo é derretido. Muito
embora esta expressão aparentemente possa ser tomada em sentido fi­
gurado, em razão da impossibilidade da inundação da área do palácio
de Nínive, a linguagem seria uma alusão apropriada a um episódio de
inundação.
A concentração de Naum na queda do templo ou palácio é perti­
nente. Aqueles brutais monarcas assírios que haviam dominado tantas
vidas humanas por centenas de anos não mais teriam palácio para resi­
dir na face da terra.

5. A cidade cai (2.8 [Eng. 7])

8 (7) Está estabelecido!


Ela está despida!
Ela é levada!
E suas servas —
gemem como a voz de pombas,
batendo em seus peitos.

Não poucas versões e comentaristas propõem que a primeira frase


desse versículo deva ser tomada como uma referência ao nome de
“Huzzab”, uma rainha de Nínive.'“ Mas o contexto de modo algum faz
a menção de uma rainha assíria de outra forma desconhecida.
A primeira palavra da frase do versículo (hussab) é uma forma de
perfeito passivo de uma raiz que significa “fixar”, “estabelecer” ou

1. Diodorus Siculus, Bibtiolheca Histórica. 2.26. Cf. Cathcan, Nahum, p. 96; Laetsch p.
298.299.
Ia. Rudolph, p. 168, chamou as primeiras palavras deste versículo “eine crux interpretum
erster Klasse”. Maier, p. 259-261, lista doze opções diferentes para o entendimento do
primeiro termo. A solução mais simples é tomar a palavra como se derivando da raiz wsb.
Maier discorda da tradução da RV, “está decretado”; contudo cita Deuteronômio 32.8 e
Salmo 74.17, nos quais as mesmas palavras parecem claramente significar: “ fixar, decretar”.
NAUM 2.8-n 121

“determinar”. A destruição de Nínive está determinada pelo Todo-Po-


deroso, e assim se pode anunciar com o gosto imaginativo exibido por
este profeta designado. Assim é, e assim será sempre em relação a to­
dos os inimigos de Deus.
Agora despida e levada para o exílio por uma política internacio­
nal pela qual um dia a Assíria se fez famosa, nada é deixado da grande
atividade da outrora grande cidade. Nada. ou seja, exceto os gemidos
de um pequeno grupo de servas. Como uma expressão da mais profun­
da agonia e emoção sincera, elas batem em seus peitos no desespero
ante sua habitação outrora gloriosa.
Assim, este grande conglomerado de corrupção chega a seu fim
determinado. O povo de Deus sofrerá muito nas mãos do reino da
Assíria em razão de seus próprios pecados. Mas, finalmente, o mensa­
geiro do Senhor é enviado para proclamar as boas-novas. A destruição
da cidade perversa é tão certa que o profeta pode usar todos os poderes
de sua imaginação descritiva a fim de descrever a certeza da queda da
cidade.

B. A CIDADE E SAQUEADA (2.9-11 [ENG. 8-10])

9 (8) Ninive (tem sido) como um açude de águas


desde seus dias (antigos).
Contudo estão fugindo.
Parai! Parai!
mas ninguém nem mesmo otha para trás.
10(9)« Saqueai
b a prata,
a saqueai
b o oum!
Pois não há fim
em seus ricos tesouros
com todo vaso desejável
11 {\Q) Destruição, devastação, dizimação!
a E o coração
b se derrete;
122 NAUM 2.9

a 05 joelhos
h vacilam,
b Convulsão
em todos os lombos
a e todos os rostos
b e em rosto de todos
a se concentra a palidez.

O profeta continua sua vivida descrição da destruição iminente de


Nínive. Os sitiadores foram vistos de muito longe. Avançaram até o
muro onde os habitantes aterrados se aglomeraram numa resistência
digna de dó. O muro foi quebrado e a cidade, tomada.
Agora a cena se move em direção aos confins da própria cidade.
Todo habitante, com os olhos esbugalhados de pavor, com os rostos
cinzentos de ansiedade, fogem para salvar suas vidas. Os atacantes
mergulham no ouro e na prata de seus despojos. A mais rica de todas as
cidades do mundo é rapidamente deixada vazia, deserta e desolada,
com toda sua grandeza dizimada.
9 (8). A comparação de Nínive com um açude de águas pode ser
interpretada de muitas maneiras.' A imagem poderia pressupor um açu­
de imponente, um açude vazando ou um açude transbordando. A frase
incomum, desde seus dias (antigos), pressupõe uma recordação da an­
tiga glória da cidade.
Uma emenda proposta para essa frase, com base numa suposta di-
tografia, resulta numa sentença bastante sem sentido: “Nínive é um açude
de suas águas”.^ O pressuposto de que o pronome “ela” ou “dela” { h t j
deva ser lido como um substantivo raro, significando “lamentação”
{hi), como em Ezequiel 2.10, parece ser uma busca acirrada por signi­
ficado.^

1. Para uma discussão do problema associado com este versiculo, ver Carl E. Armerding,
“Nahum”, The Expositor's Bible Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1985), 7:477-
78. A despeito de sua objeção à obscuridade do TM, esta parece ser a melhor alternativa.
2. Cf. Maier, p. 265. Rudolph, p. 169, propõem a emenda mimmenná, (um açude) “do
qual” vaza água.
3. Contra Maier, p. 266.
NAUM 2.9-10 123

A imagem de um açude antigo e imponente combina bem com a


circunstância da cidade de Nínive. Ao longo dos tempos, ela fizera ple­
no uso de seu ambiente natural, o que toma seu desaparecimento da
face da terra ainda mais notável.
Agora que o muro é derrubado, os habitantes entram em pânico.
Aqueles que haviam cuidado de perseguir pessoas por mero prazer, de
repente descobrem o terror de ser o próprio perseguido. Parai! Espe­
rai! Alguém lhes grita. Eles, porém, não se atrevem a perder sequer
uma fração de segundo em olhar por sobre seus ombros.
A debandada é geral. A justiça prevalece. Aqueles que haviam en­
riquecido aterrorizando os outros, agora se encontram empobrecidos e
aterrorizados.
10 (9). Os reis da Assíria se gabavam reiteradamente em seus anais
dos tesouros maciços recolhidos por eles durante o assalto a outras
nações. Por duzentos anos, desde o tempo de Assurbanipal II (884-824
a.C.) até 0 tempo de Senaqueribe (705-681 a.C.), os inventários grava­
dos em pedras relatando os tesouros tomados de todas as outras nações
continuam infmitamente. Não só por meio de despojos confiscados no
tempo em que uma nova nação era conquistada, mas por meio dos tri­
butos anuais, a riqueza de Nínive cresceu além de toda e qualquer pro­
porção calculável.'' Entalhados em pedra, os anais dos soberanos da
Assíria mencionam:

Carros equipados para homens e cavalos;


Numerosos talentos de prata, ouro, chumbo, cobre e ferro;
Vestimentas de cores vivas de todo tipo de tecidos;
Terrinas douradas, canecas douradas, cálices dourados, cântaros
dourados;
Camelos, bois, elefantes, macacos, bugios;
Divãs de marfim incrustados e adornados com Joias;
Pele de elefantes, cordeiros, pássaros, cavalos, mulas, gados, car­
neiros, camelos.

4. Ver Maier, p. 267-270, para uma amostra da lista de despojos dos vários reis da Assiria.
124 NAUM 2.11

A menção de todo vaso desejável antecipa a referência profética


subsequente ao dia em que o “desejo de todas as nações” fluir para o
próprio Senhor (Ag 2.7). Os tesouros do mundo podem mudar das mãos
de um conquistador para outro conquistador. Mas por fim eles fluirão
para as mãos exclusivamente dele. Toda a glória de toda a riqueza de
todas as nações lhe será consagrada.
11 (10). Na linguagem original, é evidente o Jogo com as palavras,
e efetivamente fornece a ideia do ritmo de devastação executada pela
invasão. As duas primeiras palavras são formas substantivadas de búq
ou bãqaq, significando “esvaziar”. A terceira palavra constitui um subs­
tantivo formado do particípio Pual de bãlaq, significando “destruir”.
Cada palavra sucessiva é ligeiramente mais longa do que a anterior, de
modo a criar um ritmo crescente que reforça a mensagem. Os primei­
ros dois termos ocorrem somente no Antigo Testamento, e o terceiro, em
outro lugar, só aparece em Isaías 24.1, em que é relacionado outra vez
com o verbo bãqaq.
A reação humana a toda essa devastação é previsível. No espírito e
no corpo, o terror dos eventos paralisa os ninivitas. O coração se der­
rete, os joelhos vacilam, e os lombos convidsionam. Calvino resume
bem o efeito da pulverização das defesas assírias: “Não há nos homens
nenhuma coragem, exceto quando Deus lhes supre com vigor. Tão logo
ele retira seu Espírito, aqueles que antes eram os mais valentes, seu
coração desmaia; e aqueles que resfolegavam grande ferocidade, tor­
nam-se fracos e frágeis”.^
A última frase desse versículo é especialmente difícil. Obviamente,
a intenção é descrever o efeito do terror nas faces dos ninivitas. O cora­
ção, osjoelhos e os lombos, todos têm sido descritos em termos familia­
res, segundo as experiências comuns da humanidade. Corações se
derretendo, joelhos batendo um no outro, lombos em convulsão.
E as faces... bem, elas têm acumulado algo. Mas, o que elas têm
acumuladol A frase ocorre de maneira virtualmente idêntica em Joel
2.6, e o contexto é semelhante. Mas o significado permanece obscuro. O
significado dos radicais (pV) se relaciona com a ideia de “beleza” e

5. Calvino, p. 471.
NAUM 2.11-14 125

“glória”. Mas, obviamente, as faces, neste contexto, não se tomam ra­


diantes de “glória”. Provavelmente a ideia consiste em que as faces se
tomam “empalidecidas”, transparentemente descoradas pelo medo. Sua
ausência de cor apresenta uma imagem de irradiação de palidez. Esse
olhar pálido não faz parte dos matizes de um rosto humano natural, mas
os adquiriu ou os desenvolveu em decorrência de assistir o ambiente de
devastação em sua volta.*
De qualquer modo, a figura pulsa com a realidade da situação. O
terror reina de todos os lados. Eles, que por gerações criaram um modo
de vida para causar medo nos corações dos outros, agora conhecem,
pela primeira vez, os horrores do juízo divino.

C. A CIDADE É HUMILHADA (2.12-14 [ENG. 11-13])

I. Uma canção de escárnio à cidade (2.12 [Eng. II])

12(11) Onde (está) agora


a o covil
b dos leões
a e aquilo que era o lugar do repasto
h dos leõezinhos?
a Aquele lugar onde
b passeavam o leão, a leoa -
b o filhote do leão,
c sem que ninguém os espantasse?

Tendo completado essa descrição vivida do cerco e da queda de


Nínive, 0 profeta agora zomba da força ilusória da cidade (v. 12 [Eng.
11]), relembra a voracidade brutal com que ela selara seu destino (v. 13
[Eng. 12]) e deixa o Senhor mesmo falar a palavra final de sua conde­
nação (v. 14 [Eng. 13]). Todo este material é apresentado sob a ima­
gem de um covil de leões ferozes.
O covil dos leões obviamente é a imagem unificadora do versículo.

6. A sugestão de que a frase significa “amontoa negrura”, baseada na referência a um pote


ipSrúr) que foi “enegrecido", e.xtrapola um tanto a imaginação. Cf. Laetsch. p. 305; Maier.
p. 275,276.
126 NAUM 2.12

Os pronomes {hû e ’“Ser), bem como o advérbio (Sãm), todos apon­


tam de novo para o covil dos leões. Nínive, uma vez fora o santuário
inviolável de reis conquistadores, de rainhas orgulhosas e de descen­
dência da nobreza.
Mas as honras associadas com a nobreza pregressa não mais exis­
tiam. O ferrão da canção de zombaria não pode ser evitado. Onde está
agora esse lugar outrora grande, esse santuário dos reis? Seu lugar já
não mais existe.
Extremamente apropriada é a imagem de um covil de leões para a
realeza de Nínive. A realeza frequentemente encomendava altos rele­
vos entalhados em pedra sempre com muitos leões. Os reis de Nínive
frequentemente se apresentavam em seus anais em termos que refleti­
am o comportamento do leão.' Além disso, o cruel destroçar de seus
inimigos retratava muito bem os ataques esmagadores conseguidos por
leões.
O profeta emprega uma variedade de termos para os diferentes ti­
pos de leão: o leão macho adulto o leão asiático ou, possivel­
mente, a leoa {lãhí’), o leão Jovem bastante crescido para buscar sua
própria presa (k^pír) e o filhote do leão (gär ’aryëh).^ Toda a espécie
manifesta o mesmo tipo de força brutal enquanto devora sua presa.
Reis, rainhas e príncipes de Nínive manifestam esses atributos bestiais.
Mesmo uma besta feroz aprecia seu momento de calma e seguran­
ça. Ela também gosta de relaxar-se em sua cova, vaguear sem precisar
preocupar-se com perigos. Mas agora seu covil foi evacuado e o leão
não tem nenhum lugar onde possa relaxar-se com segurança. A frase
específica, sem que ninguém os espantasse, é frequentemente usada
para sumariar as bênçãos pactuais que Deus fez com seu povo (“não
haverá quem os espante” - cf. Lv 26.6; Dt 28.26; Mq 4.4). Deus, o
único que pode trazer juízos sobre os pecados, tem a capacidade de
restaurar a paz entre homem e fera.

1. Ambos, Adadnirari 11 e Assurbanipal. declaram: “Eu sou bravo como o leâo”. Scnaqucribe
disse; “Como um leào eu enraiveci”. Para o texto, ver D. D. LuckenbilI, Ancient Records o f
Assyria and Babylonia (fio\iíYoTk: Greenwood, 1927), 1.110,n»358; 1.140. n° 438; 2.126,
n» 253.
2. Observe a discussão em TOOT, 1.374-77; cf. BOB, p. 71-158-498-522.
NAUM 2.13 127

Mas tal bênção nunca mais poderá ser possuída por Nínive de novo.
O escárnio. Oh, onde agora... indica o fim de uma era.

2. A brutalidade da cidade (2.13 [Eng. 12])

\ 3{ \ 2 ) OI e ã o
a estava rasgando bastante
b para seus filhotes,
a e estava estrangidando
b para suas leoas.
Assim ele enchia
a dé fragmentas
b suas covas,
b e seus covis
a de saques.

Dois elementos do comportamento do leão ressaltam nesse versícu­


lo: a brutalidade de suas maneiras predatórias e seu instinto de alimen­
tar seu clã. Sem a preocupação pelos sentimentos de suas vítimas, o
leão esfola e retalha a carne de sua presa sem importar-se se ela está
viva ou morta. Absolutamente indiferente aos gemidos de agonia de
sua vítima, o predador enterra vezes sem conta sua sangrenta bocarra
na carne quente e firme. Tendo satisfeito suas necessidades imediatas,
a besta arrasta a carcaça para seu covil onde toda sua prole sedenta por
sangue se ajunta no festim.
A sensibilidade humana recua diante da visão de tal brutalidade
entre as bestas da floresta. Mas o que se pode dizer quando o mesmo
tipo de comportamento caracteriza o homem criado à imagem de Deus?
Como é possível que um ser humano, criado para refletir a compaixão
do Criador, se afunde em tais níveis de bestialidade? Não obstante,
esta não é meramente uma dramática figura de linguagem empregada
pelo profeta em sua descrição dos monarcas assírios, como leões fa­
mintos por presas em emboscadas. Os próprios reis de Nínive escolhiam
imortalizar seus maiores feitos em termos adequados, só para que fos­
sem aplicados às bestas selvagens da terra: “Eles erguiam seus cadáve­
res em postes, rasgavam suas peles e as afixavam nos muros das cida­
des... Eu deixei os cães, porcos, lobos, urubus, pássaros dos céus e os
128 NAUM 2.13-14

peixes de água doce devorar seus membros esquartejados... Eu assassi­


nei as pessoas que viviam nas cidades e que não haviam reconhecido
meu domínio. Eu decepei suas cabeças e cortei seus lábios... Perfurei
seu queixo com minha adaga afiada (?), passei uma corda através de
sua bochecha e dos lados de sua face (?) e prendi uma corrente de cão
nele e o deixei de guarda no portão oriental de Nínive”.'
Essas amostras de brutalidade, retiradas dos anais de apenas um
dos reis de Nínive, poderíam ser facilmente multiplicadas. Tortura e
desumanidade da pior espécie eram as principais características da vida
real. Ao longo de duzentos anos saquearam os vários povos do antigo
Oriente Próximo da mesma maneira que os leões espreitam diariamente
por suas presas.
Nínive, porém, tem um adversário que não pode ser tão facilmente
manipulado. Um mais poderoso que todos os reis da terra se posicio­
nou contra essa comunidade ímpia. Ele iria arremessar esse tirano ao
lugar mais inferior da terra.

i. O Senhor fala contra a cidade (2.14 [Eng. 13])

14(13) Eis que eu estou contra ti!


é o pronunciamento do S e n h o r dos Exércitos,
a Assim eu queimarei
h na fumaça
c teus carros.
a Assim a espada devorará
c teus leõezinhos.
a Eliminarei
b da terra
c tua presa;
e nunca mais se ouvirá outra vez
a voz de teus mensageiros.

O próprio Deus se posiciona contra o tirano. Todo o peso de sua


antipatia divina tem de ser sentido: Eis que estou contra ti. Até este

I. Seleções dos anais de Assurbanipal, como citado por Maier, p. 282. Cf. ANET, p.
295,298.300.
NAUM 2.14 129

ponto, o profeta tem se servido de porta-voz do Senhor. Mas agora o


próprio Senhor dá um passo à frente a fim de reforçar sua própria de­
terminação. A palavra do Senhor veio como a voz de um agressor aju­
ramentado.
O desfecho desta confrontação entre o S e n h o r dos Exércitos e o rei
de Nínive já fora determinado pela simples alusão ao fato de que o
S e n h o r está no comando dos exércitos celestiais. Um único represen­
tante de seus poderosos servos podia destruir totalmente todos os exér­
citos e carros que o rei da Assíria porventura reunisse. Mas o Todo-
Poderoso se sente tão horrorizado com as atrocidades cometidas pelos
reis de Nínive, que declara que ele mesmo guerrearia contra eles.
A combinação de imagens que fala de carros queimando, leõezi-
nhos sendo devorados e a presa arrancada da terra é plenamente apro­
priada. Os leõezinhos representam os príncipes dos exércitos militan­
tes da Assíria e combinam com as imagens detalhadas dos versículos
anteriores. A destruição dos carros da Assíria representa o desapareci­
mento desses instrumentos de opressão por meio dos quais haviam
atormentado as nações.
O silenciar da voz dos mensageiros de Nínive ecoa a frase de aber­
tura do capítulo. Os mensageiros da paz declaram sobre os montes as
palavras de destruição do opressor de Judá (Na 2.1 -2 [Eng. 1.15-2.1]).
Esses portadores de boas-novas substituíram totalmente os emissários
da Assíria que atormentavam Israel com suas palavras arrogantes de
desafio.
Lembre-se de como Rabsaqué, enviado por Senaqueribe, zombava
de .lerusalém nos dias de Ezequias (c f 2Rs 18.17ss.)? Nunca mais es­
ses mensageiros haveriam de pronunciar suas palavras opressivas e de
vanglória. Em vez disso, os belos pés dos mensageiros enviados por
Deus declarariam a paz, prosperidade e segurança ao povo do Senhor.
Todas essas bênçãos deveriam vir juntamente com a destruição dos
inimigos de Deus.
A declaração final nas Escrituras, anunciando o juízo consumado
sobre Babilônia, pode igualmente aplicar-se a Nínive e a todos os po­
deres opressivos que ela representa:
130 NAUM 3.1-19

Dai-lhe em retribuição como também ela retribuiu, pagai-lhe em


dobro segundo suas obras e, no cálice em que ela misturou bebi­
das, misturai dobrado para ela. O quanto a si mesma se glorificou e
viveu em luxúria, dai-lhe em igual medida tormento e pranto, por­
que diz consigo mesma: “Estou sentada como rainha. Viúva, não
sou. Pranto nunca hei de ver!” Por isso, em um só dia, sobrevirão
seus flagelos: morte, pranto e fome; e será consumida no fogo,
porque poderoso é o Senhor Deus que a julgou (Ap 18.6-8).

III. O j u íz o in f a l ív e l s o b r e NINIVE (3.M9)


Em sua palavra final, o profeta Naum enfatiza a certeza do Juízo
que ele pronunciou. Uma pergunta retórica reforça a certeza de que
isso estava por vir em cada uma das seções principais do capítulo:

“De onde buscarei consoladores para ti?” (v. 7)


“És tu melhor que Nô-Amom?” (v. 8)
“Sobre quem tua contínua maldade não passou?” (v. 19)

Ao adotar essa forma distintiva, o profeta exige que os próprios nini-


vitas interajam com a certeza de seu juízo iminente. Antes de asseverar
mais uma vez a inevitabilidade do destino de Nínive, a palavra de Deus
agora demanda que respondam às suas circunstâncias ameaçadoras.
A certeza do juízo de Nínive é estabelecida em três bases: em razão
de seus pecados (3.1-7); justamente como Nô-Amom (3.8-13); a des­
peito de sua força (3.14-19).

A. INDUBITÁVEL EM RAZÃO DE SEUS PECADOS (3. U7)


Semelhante ao capítulo anterior, esta seção contém uma descrição
imaginativa e vivida do ataque a Nínive (v. 2-3). Mas, indo além do
capítulo 2, ela também repete os pecados da cidade - pecados que se­
lam a certeza dessa destruição iminente (v. 1,4). A determinação ex­
pressa do Senhor em trazer a vingança sobre a cidade situa o assunto
do destino de Nínive além dos meros prognósticos humanos (v. 5-7).
Considerem-se primeiramente, nesta seção, os pecados da cidade
(v. 1,4); em seguida, o ataque à cidade (v. 2-3).
NAUM 3.1,4 131

I. Os pecados da cidade (3.1,4)

1 Ah! cidade sanguinária!


a ioda ela
b (vive) uma mentira;
b a extorsão
a é continua!
A fraude nunca será eliminada.

4 Por causa dos atos reiterados


das prostituições da meretriz -
“Mestra em bruxarias ” -
a que barganha
b as nações
c com suas prostituições,
b as familias
c com suas bruxarias.

Derramamento de sangue, mentiras, extorsão e fraude constituem a


primeira lista de especificações contra a cidade de Nínive. Em cada caso
desses pecados, enfatiza-se a persistência reiterada na violação. Não sig­
nifica meramente que a cidade houvesse ocasionalmente cometido um
deslize e alguns abusos. Ao contrário disso, os vapores venenosos ema­
nando de todo coração poluem toda a atmosfera da comunidade.
1. A exclamação Ah! (hôy) não comunica precisamente uma maldi­
ção, uma desdita. Aliás, ela dá vazão à agonia, à dor ao assistir o come­
timento de afronta. Dói ver pessoas sendo esmagadas lentamente por
um sistema que suga o último suspiro dos indefesos.
A cidade sanguinária (lit. “cidade de sangues”) com toda proprie­
dade descreve o estilo de vida de uma comunidade metropolitana de­
vota à glória humana em lugar da glória de Deus. E. B. Pusey recorda
oportunamente o contraste encontrado na Cidade de Deus de Agosti­
nho: “Dois tipos de amor fazem dois tipos de cidade: o amor terreno do
ego pende para o desprezo de Deus; o amor celeste de Deus pende para
0 desprezo do ego. Um gloria-se em si mesmo; o outro, no Senhor”.'
1. Pusey, 2.148.
132 NAUM 3.1

A primeira menção de uma cidade na Bíblia informa que Caim lhe


deu o nome de seu filho (Gn 4.17). Este ato, aparentemente simples, na
verdade representa uma consagração do trabalho de suas mãos ao ho­
mem, e não a Deus; uma dedicação dos mais elevados esforços cultu­
rais e públicos do homem ao ego pecaminoso e centralizado em si
mesmo. Outras civilizações primitivas nas Escrituras incluem a cidade
de Nínive, edificada por Ninrode (Gn 10.11-12), e a cidade de Babel
(11.4). A intenção declarada dos engenheiros de Babel era resistir, com
todas as suas forças, à vontade de Deus, de que o homem deveria espa­
lhar-se pela face da terra (1.28; cf. 11.14).
A luz da rebelião associada às primeiras cidades do homem, a bên­
ção de Israel, em termos de sua herança das cidades que eles próprios
não haviam construído, assume ainda maior significação. O terrível
produto da maquinação do homem é, além do mais, redimível. Por fim,
Jerusalém, a cidade santa, se destaca em contraste com cidade sangui­
nária de uma humanidade depravada.
A forma plural (“cidade de sangues”) pressupõe a violência múlti­
pla associada ao derramamento de sangue inocente. “A voz do sangue”
de Abel clamava por vingança (Gn 4.10). Ezequiel fala das “cidades de
sangues” de seus dias (Ez 22.3).
Aliás, sanguinária era a antiga cidade de Nínive. Um dos relevos
entalhados encontrados no palácio de Assurbanipal retrata uma cena
do rei e da rainha celebrando a vitória sobre os elamitas. Retratada
próximo à mesa do banquete aparece uma árvore frutífera com a cabe­
ça do rei de Elam, cortada e pendurada num dos galhos.^ De fato, san­
guinária! Que todas as gerações se lembrem da atmosfera de banquete
criada por esse espetáculo exibido próximo à mesa dos assírios. Escul­
pida em pedra com suas próprias mãos, e assim representando como
eles mesmos escolheram fossem lembrados - que assim seja!

2. Laetsch. p. 307.308. Para uma seleção do registro auto-esculpido das brutalidades


assírias, ver Maier, p. 291,292. Atividades perversas, tais como arrancar os olhos, deccpar
nari^es e remover a pele gradualmente do corpo de um homem vivo, eram muito comuns.
“Com seu sangue eu lingi a montanha como lã vermelha” representa a arrogância desta
ímpia e sanguinária monarquia.
NAUM 3.1 133

Essa mentalidade sanguinária se denuncia por uma interminável


mentira, extorsão e fraude. Nenhum pecado pode existir sozinho. O
ninho de víboras no coração do pecador é sempre chamado “legião”.
Visto que Satanás é o pai da mentira, seus filhos não podem fazer
outra coisa senão mentir. Nínive, porém, levou a questão da mentira ao
limite extremo. Toda ela (vive) a mentira. Toda vez que um cidadão
abre a boca, sob seu argumento mais convincente e franco jaz uma
intenção oculta, torcida, uma ambiguidade deliberada. A fim de lison­
jear, ocultar, desviar da intenção real, o cidadão da Assíria dissimula,
equivoca, mascara o verdadeiro propósito de seu coração por meio de
sua cuidadosa forma de pronunciar as palavras. Por sua maneira com­
binada de apontar com o pé, piscar o olho, ele e seu cúmplice secreto
ludibriam até mesmo o mais prudente.
O termo usado para mentira {kahaS) se deriva de uma raiz que
também pode significar “falha” ou “inclinar”.^ O fato de que o produto
da oliveira “mente” (Hc 3.17) pressupõe que a expectativa criada pela
folhagem abundante é tristemente frustrada quando se procura pelo fru­
to. Assim também a cidade de Nínive promete prosperidade e toda a
vantagem àqueles que negociarem com ela. Mas, cuidado! “Toda ela é
uma mertZ/ra”, Justamente como o texto literalmente expressa.
A frase lembra as doces palavras de Rabsaqué, emissário de Sena-
queribe, quando insiste em falar hebraico perante a população em vez
de negociar honrosamente com os representantes do rei Ezequias. Ele
usa todos os truques a fim de voltar o povo contra Ezequias: “Não deis
ouvidos a Ezequias; porque assim diz o rei da Assíria: Fazei as pazes
comigo e vinde para mim; e comei, cada um, de sua própria vide e de
sua própria figueira, e bebei, cada um, da água de sua própria cister­
na, até que eu venha e vos leve para uma terra como a vossa, terra de
cereal e de vinho, terra de pão e de vinhas, terra de oliveiras e de mel,
para que vivais e não morrais. Não deis ouvidos a Ezequias, porque ele
vos engana, dizendo: ‘O S e n h o r nos livrará’” (2Rs 18:31-32).

3. BDB, p. 471.
134 NAUM 3.4

Acaz, de Judá, teve a mesma experiência quando pediu a Tiglate-


Pileser III, da Assíria, que o ajudasse a resistir à coligação siro-efrai-
mita. Segundo o cronista, “veio a ele Tiglate-Pileser, rei da Assíria;
porém o pôs em aperto, em vez de fortalecê-lo” (2Cr 28.20).
Extorsão e fraude são também um sério defeito dos assírios. Am­
bos os termos pressupõem a posse forçada de uma pessoa ou posses­
sões (pereq e ferep). Justamente como uma besta selvagem estraçalha
sua presa, também os assírios devoravam sua vítima indefesa.
4. O profeta se torna veemente e insultuoso em sua linguagem.
Nínive é a prostituta das prostitutas, a “bela e encantadora meretriz”.
Fazendo uso do venenoso dardo da sátira, Naum zomba dessa encan­
tadora meretriz que na verdade é uma infernal senhora de bruxarias.
Nenhum diplomata moderno se dirigiria a uma entidade política rival
como “prostituta das prostitutas”. O leitor moderno poderia sentir-se
inclinado a considerar essa maneira grosseira de falar como uma inte­
ressante curiosidade de uma cultura menos sofisticada dos tempos de
outrora.
No entanto, por trás dessas palavras abruptas existe muito mais do
que mera grosseria cultural. Justamente como Calvino oportunamente
se expressa: “é necessário que aqueles que são tão auto-indulgentes e
delicados sejam grosseiramente manipulados”.'* Pessoas investidas de
autoridade, tais como ministros ou outros dignitários, tendem a disfar­
çar tanto o comportamento mais grosseiro, com um ar de perplexidade,
que qualquer um poderia atrever-se a questionar sua moralidade.
Por meio de linguagem grosseira e insultuosa, o Espírito Santo,
pelos lábios do profeta, desfaz essas falsidades e expõe a nudez da
degradação moral dos recessos mais recônditos do coração. “Olhem
para a alma dessa meretriz”, diz Naum. Vestida com ornamentos de
amor, essa prostituta satisfaz sua luxúria por meio de manipulação,
depois limpa sua boca e diz: “Eu não fiz nada de mau”.
O que torna Nínive, bem como outras de sua estirpe, tão letal é que
em sua aparência exterior ela se parece com uma dama bela e encanta­
dora {tôhat hên, lit., “cheia de graça”). Justamente como Bate-Seba se
4. Calvino. p. 483,484.
NAUM 3.4 135

banhando pareceu “excepcionalmente formosa aos olhos” (2Sm 11.2;


tôkat m a r’eh m ^ ’ôd), assim Davi prontamente jogou por terra tudo
quanto de valor existe em termos de posição e potencial a serviço de
Deus, da mesma maneira que os admiradores de Nínive sentiam-se en­
cantados com a beleza simétrica e encanto sem fim pelo tesouro da loja
de prazeres da cidade.
Mas a cidade era realmente como uma bela esposa enfeitada com
todos os presentes extravagantes outorgados por seu marido, enquanto
os usava com o fim de seduzir outros à reiterada prática de atos degra­
dantes de imoralidade. Por trás de todo o encanto externo, ela não passa
de uma senhora de bruxarias, lançando um feitiço sobre cada uma de
suas vítimas sucessivas. Ela usa seus encantos físicos para seduzir suas
vítimas e em seguida as destruir.-^ Ao apelar para o coração pecador
para que mantenha relações íntimas e sem limites, ela encoraja o ho­
mem concupiscente a jogar fora qualquer restrição. Então o pecador é
bem depressa absorvido por seus próprios desejos, veemente por praze­
res sensuais. Como Esaú, ele vende sua alma por um prato de lentilhas
que estimula os sentidos.
Embora Babilônia, e não Nínive, seja o objeto da exposição final
que a Bíblia faz do coração sensual humano, a descrição de sua des­
truição se enquadra tão bem como na condenação de Naum: “E sobre
ela choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém
compra sua mercadoria; mercadoria de ouro, de prata, de pedras pre­
ciosas, de pérolas, de linho finíssimo, de púrpura, de seda, de escarla­
ta; e toda espécie de madeira odorífera, todo gênero de objeto de mar­
fim, toda qualidade de móvel de madeira preciosíssima, de bronze, de
ferro e de mármore; e canela de cheiro, especiarias, incenso, unguento,
bálsamo, vinho, azeite, flor de farinha, trigo, gado e ovelhas; e de cava­
los, de carros, de escravos e até almas humanas” (Ap 18.11-13).
São essas as coisas que o povo adora no lugar de Deus. Eles glori­
ficam os prazeres sensuais do momento e vendem sua alma pelo prazer
da sensação de um instante. Nínive conhece essa fraqueza da carne
5. É algo divertido descobrir no meio da análise de um comentário de um estudioso alemão
sobre as seduções de Nínive uma referência parentética a “das was man heute sexy heisst”
(Rudolph, p. 177; ênfase acrescentada).
136 NAUM 3.4

humana e organiza uma máquina maciça a tlm de capitalizar a tendên­


cia humana para a queda. Mas “qualquer, porém, que fizer tropeçar a
um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe
pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho e fosse afogado na
profundeza do mar” (Mt 18.6; Mc 9.42).
Por trás de toda sua aparência perfumada, a channosa Nínive na
realidade é uma mestra em bruxarias, que vendia as nações e as fam í­
lias. A cidade é uma profissional em bruxarias. Ela é uma mestra de
magia negra. Melhor do que fazer o que é certo e deixar o futuro nas
mãos de Deus, toda essa comunidade se empenha em determinar o
curso do futuro para que ele se reverta em seu próprio beneficio. Em­
pregando todos os meios - até mesmo valendo-se do comércio de ma­
gia -, os habitantes de Nínive negam a soberania de Deus sobre os
negócios dos homens.
A arqueologia recente descobriu literalmente milhares de tabuletas
de Nínive comprovando sua intensa concentração em bruxaria.* O uso
das artes mágicas era realmente um modo de vida. Demônios e espíri­
tos malignos atormentavam suas vítimas como resultado dos encantos
malignos.
Em geral, pensa-se que somente as pessoas ignorantes saem em
busca das práticas da bruxaria. Mas é provável que os mais supersti­
ciosos sejam justamente os denominados eruditos. Extraindo erronea­
mente confiança de suas próprias teorias e hipóteses, eles de alguma
maneira se convencem de que podem controlar o futuro. Cientistas, po­
líticos e economistas se propõem a determinar e a declarar o futuro.
Eles exortam a que tenham fé em suas predições, ainda que já tenham
demonstrado estar errados vezes sem conta.
As vítimas desses atos de prostituição e bruxaria são as nações e
asfainilias. Não apenas um indivíduo isolado, aqui e acolá, mas popu­
lações inteiras por atacado. A unidade social mais básica ordenada por
Deus - a família - é dizimada. Ninguém permanece na família para
fornecer uma forma de libertação, visto que a unidade por inteiro é
destruída. Filhos, bem como pais e mães, são vendidos à escravidão.

6. Maicr. p. 302.303.
NAUM 3.2-3 137

É por causa dos pecados da cidade que a devastação de Nínive é


inevitável. A iniquidade do povo é total. Por cerca de duzentos anos
eles atormentaram todos os seus vizinhos, tanto de perto quanto de
longe. Neste contexto, não surpreende que o profeta inclua uma vivida
descrição do próprio ataque que em breve seria arremessado contra a
cidade.

2. O ataque à cidade (3.2-3)

2 a O estalo
h dos açoites
a e o estrondo
h das rodas;'
a cavalos
b galopando-
a e carros
h tremulando;^
3 a cavaleiros
b esporeando,
c com o flameja/'*
d da espada
c e o cintilar^
d da lança;
a incontáveis
b acidentes,
a amontoados
b de carcaças,
a inji/idáveis
b cadáveres;

1. LiteralmeiUe, “voz” (qôl) dos açoites e “voz” (qôl) dos carros.


2. O termo traduzido por “galope” (dõtíêr) só ocorre aqui e em Juízes 5.22. Ele significa
“correr, arremeter-se”, ou, no caso dos cavalos, “galopar, arremeter-se” .
3. O termo usado para descrever o movimento dos carros aproximando-se (m^raqqêdâ)
pressupõe movimento de dança, salto, ou pulo.
4. O termo “flamejante” (lahak) descreve a lâmina de uma espada sendo brandida no ar
com a rapidez de uma chama saltando.
5. O termo “cintilar” (b^raq) pressupõe a rapidez do lampejo de um relâmpago.
138 NAUM 3.2

a de modo que tropeçam


b sobre seus cadáveres.

Pode-se ver o progresso da cena nessa vivida descrição do ataque.


Primeiro só se ouve o seco estalar do chicote e o distante estrondo das
rodas dos carros. Depois à visão soma-se o som, à medida que aparece
o galope dos cavalos e carros que vão saltando. Finalmente, a forma do
cavaleiro que esporeia, empunhando sua espada flamejante e a lança
cintilante entra em cena.
2. A linguagem cortada desperta a imaginação do leitor de modo
que o som e a imagem se juntam atingindo o momento eletrizante do
assalto contra a cidade. A “visão quase fotográfica” num “estilo stacca­
to”'’ é reforçada, em sua vividez, pela linguagem onomatopéica “shhoot,
shhoot” (hebraico Sôf) do estalar do chicote. O estrondo distante das
rodas dos carros de guerra teria sido um som aterrorizante à população
correndo a pé. O pânico contagioso das massas teria se instalado rapi­
damente em toda a Ninive. Essas pessoas frequentemente se gabavam
do terror que inspiravam no coração dos outros. Até então eles mesmos
não haviam experimentado o sentimento de terror.
Mas essa vividez de linguagem —qual era o propósito do profeta?
Seria, porventura, captar o “momento existencial” de terror experimen­
tado no cerco da cidade? Não. Por meio da vivificação da imaginação
de seus leitores, o profeta tem em mente incitar a certeza de fé e a espe­
rança dos israelitas oprimidos. Justamente como Calvino o expressa:
“Todas essas coisas se destinavam a convencer profundamente os israe­
litas de que Ninive, embora estivesse abarrotada de riqueza e poder,
mesmo assim se aproximava de sua mina, pois seus inimigos iriam pre­
valecer contra ela”.’
Quando a palavra de Deus vem com tal precisão de detalhes sobre
a destmição dos inimigos de seu povo, então o Espirito Santo pode
usar esta descrição para reanimar a fé da maior parte de seu povo de­
sencorajado. Quando Satanás e seus emissários são bem-sucedidos su­
cessivamente em promover o engano, falsidade e mentira, quando eles
6. Maier, p. 295.
7. Calvino, p. 482.
NAUM 3.2-3 139

têm sucesso ein desacreditar o justo, quando eles, repetidas vezes, em­
punham a espada do poder e apoio popular para devastar os crentes,
então até mesmo os mais fortes na fé começam a fraquejar e a duvidar
que Deus algum dia irá defender a causa da verdade e da justiça.
Mas os santos duvidosos só necessitam voltar sua imaginação vivi­
ficada para as descrições de Naum e apropriadamente aplicá-las a suas
próprias lutas contra as forças de Satanás. Com o estalo de açoites e o
estrondo das rodas: o galopear de cavalos e carros que vão saltando,
0 vingador de Deus chegará logo e surgirá repentinamente. O inimigo
contemporâneo da verdade e da justiça não resistirá mais que a antiga
Nínive resistiu.
Coragem! Ergam seus olhos cansados! Pois hoje sua redenção está
mais perto.
3. Somente quem já pisou um ensanguentado campo de batalha
uns poucos dias depois de um conflito, de fato pode imaginar o horror
repulsivo dos cadáveres mutilados, inchados e em decomposição. Sem
detalhes excessivos, Naum ressalta a extensão da devastação divina: a
multidão dos traspassados, massa de cadáveres, mortos sem fim, gen­
te que tropeça sobre os mortos. Pusey fala dos “vastos campos de car­
nificina”.* Tanto quanto a vista possa alcançar, os corpos permanecem
imóveis e com a face para baixo. Alarme nenhum soa mais; reina a
calmaria da morte.
Por meio do uso de três termos diferentes para os corpos mortos, o
profeta força o leitor a uma compreensão mais plena da cena. A palavra
traduzida por traspassados (hãlãl) se refere a uma pessoa fatalmente
traspassada ou ferida. A palavra traduzida por cadáver (peger) descreve
alguém que entrou em colapso por exaustão. A palavra traduzida por
mortos (g^wiyâ) se deriva da raiz que se refere às costas de uma pessoa
(gaw) provavelmente sendo vista como um corpo de rosto para baixo.
Se essas Escrituras do Antigo Testamento parecem excessivamen­
te sangrentas, é preciso ter em mente o contexto dessa palavra de juízo.
Jonas foi comissionado décadas antes a levar a mensagem de salvação a
Nínive a despeito de sua prévia história de interminável crueldade.

8. Pusey, p. 140.
140 NAUM 3.5-7

Mas agora o povo havia voltado a seus caminhos perversos. Deus aler­
tara os assírios ao devastar o exército de Senaqueribe diante do portão
de Jerusalém, quando 185.000 homens caíram mortos numa só noite.
O povo levantou-se na manhã seguinte e contemplou a vastidão dos
corpos mortos (2Rs 19.35).
Isaías concluiu sua profecia com um espantoso lembrete da des­
truição divina dos perversos, a qual antecipa tanto as palavras de Naum
quanto as palavras de Jesus: “Eles sairão e verão os cadáveres dos
homens que prevaricaram contra mim; porque seu verme nunca morre­
rá, nem seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda carne” (Is
66.24; c f Mc 9.47-48). Embora o sentimentalismo humano queira ne­
gar isso, a palavra de Deus é consistente em seu quadro da destruição
do perverso. Parte da grande obra sacerdotal do Messias vencedor será
esmagar reis no dia de sua ira, enchendo os campos de batalha com
corpos mortos (SI 110.5-6).

3. O Senhor contra a cidade (3.5-7)

5 Nota bem!
Eu estou contra ti,
declara o S e n h o r dos Exércitos,
a levantarei
b tuas saias
c diante de tua face;
a e deixarei
b que as nações
c contemplem tua nudez,
b e os reinos,
c tuas vergonhas.
6 Escreverei em ti
coisas detestáveis;
zombarei de ti como um tolo
e te exibirei
como um espetáculo.'

I. Ronald J. Williams. H eb rew Syntax: A n O utline, 2* ed. (Toronto: University o f Toronto


NAUM 3.5 141

7 E assim será!
Todos quantos te virem
fiigirão de ti
e dirão:
Nínive
está destruída;
quem lamentará
por ela?
Onde acharei consoladores
para ela?

Agora um oráculo do S e n h o r muda a perspectiva deste anúncio a


respeito da inexorabilidade do juízo de Nínive. Deus declara que ele
pessoalmente irá trazer devastação sobre Nínive. Sete vezes nesses três
versículos o Senhor fala na primeira pessoa declarando que ele mesmo
irá exercer juízo contra a cidade.
5. Nota bem!, literalmente é “olha para mim!” Eu, Yahweh - o
Criador de tudo - eu estou contra ti. Eu não enviarei um anjo para
devastar-te; eu mesmo, pessoalmente, virei trazer juízo contra ti. Aquele
que se volta contra o Senhor dos mundos terminará envergonhado pe­
rante o mundo inteiro. Deus o usará como exemplo perante seu univer­
so inteiro. Ezequiel, o profeta do exílio de Israel, frequentemente usa
esta frase: “eu sou contra vós”. Segundo Ezequiel, as consequências
dessa oposição direta do Senhor são terrivelmente chocantes:

os falsos profetas não deviam ser inscritos nos registros da casa de


Israel (13.8-9)
não passará pé de homem ou de animal, por todo o Egito (29.10-
11)
ambos os braços de Faraó serão quebrados e sua espada cairá de
suas mãos (30.22)
Press. 1976). § 261, trata o de k^rS’í como um Kaph veritalis: “Eu farei de vós um
verdadeiro alvo de ridicularização” . Cf. GKC, § 118x. Em todos os aspectos, Nínive deve­
ria ser como um alvo de ridicularização. Nenhum canto que porventura forneça a mais leve
semelhança de autodignidade permaneceria. Rudolph, p. 175, apoia o sentido de “espetácu­
lo” para esta palavra, a despeito de algum apoio contextuai para o significado tardio do
hebraico “lama” como promovido por Rashi.
142 NAUM 3.5

Deus responsabilizará os pastores infiéis e removerá as ovelhas de


suas mãos (34.10)
Deus converterá o monte Seir num ermo desolado e suas cidades em
deserto (35.3-4)
Deus porá anzóis nos queixos de Gogue (38.3-4)
Deus enviará aves de rapina e bestas a devorar seu inimigo (39.1,4)

As consequências de Deus se posicionar contra certo povo de fato


são espantosas. “Quem poderá subsistir quando ele aparecer” (Ml 3.2,
AV)? Neste caso de Deus contra Nínive, as consequências da oposição
divina são notavelmente diferentes dos tipos de consequências descri­
tas nas várias passagens em Ezequiel. Em vez de devastações calami­
tosas causadas por exército e animais selvagens, o Senhor declara de
cinco maneiras diferentes sua determinação de fazer uma exposição
pública de toda a depravação grosseira dessa cidade pecadora.
Primeiro, Deus irá levantar as abas das saias de Nínive sobre seu
próprio rosto (v. 5). Como uma prostituta a oferecer-se, Nínive exibiu
suas saias de cigana provocando de maneira sedutora com suas roupas
íntimas. Floridas, esvoaçantes, saias coloridas vibrando com movimen­
to e vivacidade. Mas o uso indecente de toda essa provocação é exata­
mente como faz a esposa “com vestes de prostituta” “cujos pés não
param em casa” (Pv 7.10-11). Ela agarra agressivamente sua próxima
vítima. beiJa-a impudentemente, excita seus sentidos fazendo uma viva
descrição de sua cama perfumada coberta com colchas coloridas e sus­
surra que seu marido saiu para uma longa viagem, de modo que pode­
rão embriagar-se com o amor até de manhã (Pv 7.11 -19).
Deus, porém, irá expor a prostituta pelo que realmente ela é. Seu
Jogo terminou. Perante os olhos do público, mas também sobre teu
rosto, para que ela não tenha como esconder toda sua desgraça, sua
conduta impudica será exposta.-

2. D. R. Hillers, Trealy-Curses and the Old Testament Prophets, BibOr 16 (Roma: Pontifical
Biblical Institute. 1964), p. 59, observa o paralelo aparente no curso de um texto tratado,
mas reconhece que sua redação e tradução do texto “só podem ser consideradas como uma
conjuntura plausivel”.
NAUM 3.6a-c 143

Segundo, Deus deixará as nações e os reinos verem a nudez e a


vergonha de Nínive. Da mesma maneira que os exércitos brutais de
Nínive marcharam ao longo das fronteiras de numerosas nações, tam­
bém agora a vergonha de seu nome atingirá a escala universal. Todos os
fatos sujos de seu disfarce serão plenamente conhecidos. Do mesmo
modo que um político ou homem de negócios flagrado em um ato crimi­
noso, cujo nome e rosto são expostos na primeira página de cada jornal
da nação, também o verdadeiro caráter de Nínive será visível a todos.
Da mesma maneira que o nome do homem se tomou símbolo de ignomí­
nia na frase “Seu nome é Mudd”, também Nínive será para sempre
lembrada como a cidade envergonhada pelo Senhor.
6a. Terceiro, Deus lançará imundícias sobre Nínive. Marcada ex-
temamente com as impurezas internas do coração! Deus porá um fim
àquelas falsidades fingidas dos ninivitas hipócritas. Manchados e res­
pingados de imundície externa eles não mais poderão fingir piedade.
Aquelas abominações declaradas como “impuras” (Lv 7.21; 11.1 Os.)
deverão publicamente lambuzar as saias da prostituta.
O termo usado pela LXX para imundícias (grego bdelygmón\ he­
braico Siqqusim) é também usado para descrever o “abominável da
desolação” no templo de Deus que marca a consumação da profanação
dos tempos (Mt 24.15). Mas quando o Senhor finalmente fizer com
que as coisas fiquem corretas, aquelas abominações que poderiam ter
sido de alta estima entre os homens (Lc 16.15) deverão ser repudiadas
em qualquer esquina na cidade de Deus (Ap 21.27). Babilônia, o ar­
quétipo de Nínive, a mãe das prostitutas, deverá beber da putrefação
de suas próprias abominações no cálice de ouro, transbordante de abo­
minações, que ela segura em sua mão (Ap 17.4-5).
6b. Quarto, Deus zombará de Nínive como louca. Sempre chega o
momento quando uma pessoa assume defmitivamente seus caminhos
preferidos de insensatez e impiedade. Nesse ponto. Deus os tratará
precisamente conforme merece seu caráter confirmado. Então chegou
o tempo de Deus zombar de Nínive como louca. Ele os tratará com
desprezo estimando em nada seu valor. O insensato terá uma resposta
de acordo com sua insensatez (cf Pv 26.4-5).
6c. Quinto, Deus apresentará Nínive como um espetáculo. Os reis
144 NAUM 3.6c,7

da Assíria frequentemente satisfaziam seu prazer mórbido expondo seus


cativos ao ridículo. Assurbanipal se gaba numa de suas inscrições: “Eu
0 lancei dentro de um canil com chacais e cachorros. Eu o amarrei e o
fiz montar guarda no portão de Nínive”.^ Esse tratamento tão desumano
de uma pessoa por outra merece a mesma punição. Então o Senhor
declara que, da mesma maneira que Nínive abusou de seus cativos,
expondo-os ao ridículo público, também ele fará de Nínive um espetá­
culo de ignominia, para que as nações jamais o esqueçam. Todo o mun­
do virá e verá o espetáculo de Nínive. Vergonha e desgraça internacio­
nais substituirão a pompa e o orgulho.
Todas as cinco ações descritas são atribuidas ao próprio Senhor,
não a algum servo escolhido. Por meio de seu envolvimento imediato, o
Senhor humilhará Nínive perante todas as nações da terra e para todo o
sempre.
7. As consequências dessa exposição pública e humilhante são des­
critas no último versículo desta seção. O espectro de Nínive devastada
impressiona tanto as demais nações que elas ofegam com horror, põem
suas mãos sobre a boca e se voltam para fugir. O auto-retrato de Mi-
guelangelo no inferno, como pintado no teto da Sistina, capta a expres­
são facial de terror paralisante que o espetáculo de Nínive teria inspirado.
Embora todas as nações fiquem paralisadas ante a visão, não po­
dem encontrar em seu meio alguém que lamente a calamidade de Níni­
ve. “Quem terá compaixão dela?”, dizem as nações quando confabulam
entre si.
Há algo na pessoa que sofreu violência que clama por justiça. Não
é algo frequente naqueles que habitam em serena segurança, mas co­
mum naqueles que têm sido desnudados e humilhados; nesses é que
surge o senso da necessidade de que alguém intervenha para expor o
culpado e derrubar o arrogante opressor de sua posição de poder.
A Escritura assevera que se deve fazer justiça mesmo do prisma da
nova aliança. “A vingança me pertence, eu darei o troco, diz o Senhor”
(Rm 12.19; cf. Dt 32.35-36; Hb 10.30). De fato, na cruz Cristo clamou:
“Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34). Mas não se deve esquecer que foi na
3. Citado em Maier, p. 310. Cf. A N E T , p. 298-300.
NAUM 3.7-13 145

cruz que Cristo vocalizou este brado. É só no contexto de seu próprio


sacrifício propiciatório pelo pecado que ele assume que um fundamen­
to foi posto por Deus para o perdão. Como Filho de Deus, sem pecado,
foi o único que pôde fazer esse sacrifício; e à parte da fé em seu sangue
não há perdão de pecado.
No caso de Nínive, todas as nações haviam sofrido em virtude de
sua incessante brutalidade. Os corpos espancados e esmagados, as al­
mas de pessoas de todas as nações, olhavam para os horrores do fim de
Nínive; mas eles não conseguiam achar em si próprios lágrimas para
chorar. A política de opressão da cidade fora tão universal que nin­
guém conseguia lamentar por ela.
Nem mesmo o próprio Senhor (o eu da última frase do v. 7) sabe
onde encontrar consoladores para a cidade perversa. Nínive deverá
esvair-se sozinha em seu doloroso estado de devastação.
Assim será em todos os tempos. A praga da escuridão por ocasião
do Êxodo deixou cada egípcio sozinho, com medo de mover-se de seu
assento (Êx 10.23). No dia em que todos olharem para aquele a quem
traspassaram, toda família haverá de chorar sozinha (Zc 12.10-14). Parte
do julgamento para o inferno será o total isolamento das pessoas, cada
uma em seu canto, nas trevas que as separam de todos os possíveis
consoladores.
E assim, o Julgamento de Nínive é seguro em decorrência de seu
pecado. A opressão infindável que impingiram sobre outros sela seu
destino. Todas as nações concordam que seu juízo era um débito de
longa data.

B. TÂO INDUBITÁVEL QUANTO NO-AMOM (TEBAS) (3.8-13)


Agora 0 profeta oferece uma segunda base para a certeza do juízo
iminente sobre Nínive. Que a cidade considere o que aconteceu com seu
principal rival, a metrópole de Nô-Amom (Tebas, capital do Egito).
Não propriamente que Naum estivesse tentando convencer os ha­
bitantes da Assíria do juízo iminente de Deus, vindo em sua direção,
para que se arrependessem. Em vez disso, esse processo volumoso con­
tra a cidade pecaminosa se destina a ativar a fé dos crentes verdadeiros
146 NAUM 3.8-10

a respeito da infalibilidade do juízo iminente de Deus, o qual os liber­


taria dos anos de opressão.
Nesta nova seção, o profeta antes de tudo indicou que Tebas (Nô-
Amom) fora devastada a despeito de suas muitas vantagens naturais
(3.8-13).

/. Tebas devastada a despeito de suas muitas vantagens (3.8-10)

8 Es tu melhor'
que Nô-Amom,
que habitava
no meio dos rios,
(com) o mar a cercando;
a cujo baluarte
b (era) o mar;
b desde o mar,
a (era) seu muro?
9 Cuxe,
sua força,
- e Egito;
eram a sua força,
e não havia fim...
Pute e Líbia,
eram seus auxiliares.
10 a Mesmo ela (terminou),
b no exílio;
a ela fo i
b para o cativeiro,
a Inclusive seus filhos Jovens
b foram feitos em pedaços
c na esquina de todas as ruas.
a Sobre seus homens nobres

1. A palavra para “Tu és melhor” combina elementos de um Qal (t l f f g) e um de origem


Hiphil (tê(ibi). Cf. GKC, § 70c. Rudolph, p. 181, conclui em favor de Hiphil, visto que o
contexto não está falando de uma qualidade moral desenvolvida (“fazer o bem” - Qal) mas
de estado estipulado (“haver sido feito o bem” - Hiphil).
NAUM 3.8-10 147

b lançaram sortes,
a e todos os seus grandes homens
b foram presos com grilhões.

Tendo encerrado a seção anterior com uma pergunta dirigida à pró­


pria Nínive, 0 profeta então começa esta seção de maneira idêntica. Em
ambos os casos, a resposta que a pergunta tenciona suscitar é bastante
óbvia. Onde é possível encontrar consoladores para Nínive? Em lugar
nenhum. Seria Nínive melhor que a devastada Tebas? De maneira alguma.
Embora seja bastante claro que Naum espera uma resposta negati­
va à sua pergunta a respeito da superioridade de Nínive e Tebas, o
ponto de comparação é imediatamente claro. Desejaria ele dizer que
Nínive não era melhor que Tebas em relação às virtudes religiosas ou
morais? ou teria ele a intenção de sugerir que Nínive não era melhor que
Tebas em relação ao seu destino que por fim sobreviría às duas cidades?
O assunto dos dois versículos seguintes parece bastante claro para
indicar que a comparação tem a ver com numerosas vantagens geográ­
ficas naturais as quais relacionam Tebas com Nínive. A parede de água
que circundava Tebas fornecia uma proteção durante todo o ano, difí­
cil a qualquer invasor vencer (v. 8). O círculo social das nações aparen­
tadas que cercavam a cidade capital de Tebas acrescentava dificulda­
des políticas e militares a qualquer inimigo potencial (v. 9).
Esta compreensão da comparação tem enfrentado vigorosa resis­
tência, principalmente com base no fato de que Nínive realmente ven­
cera previamente Tebas, ainda na memória dos contemporâneos de
Naum. Como então se podería esperar que os ninivitas dos dias de
Naum fossem prontamente concordar que Tebas estava mais bem situada
do que eles?^
Ainda que essa objeção tenha seu mérito, sua própria base fornece
um contraponto mais forte. A milícia de Nínive vira a força de Tebas
em primeira mão. A decisão de Naum em comparar a capital da Assíria
com a capital do Egito parece ter por base o conhecimento pessoal que
Nínive tinha das vantagens naturais de Tebas. Mesmo que Tebas hou­
vesse caído nas mãos dos poderes superiores de Nínive, os invasores
2. Conferir Rudolph. p. 184.
148 NAUM 3.8-10

assírios não poderiam deixar de sentir-se impressionados pelos fomii-


dáveis baluartes que rodeavam a capital de seu rival egípcio. Um exér­
cito invasor do norte teria de marchar seiscentos e quarenta quilômetros
abaixo do delta do Nilo. À direita e à esquerda, tiveram de expor seu
flanco ao ataque de retaliação das nações aparentadas e amigas de Te-
bas. Tendo fmalmente chegado diante da cidade maciça, de quarenta e
quatro quilômetros de circunferência, o resplendor inflamado de um
muro horizontal de água os cegava de todos os lados que olhavam. Cir­
cundados por rios, córregos, canais e lagos fonnados pelo Nilo, à medi­
da que distribuía sobre o delta ampliado, qualquer invasor teria se ma­
ravilhado com a vista que ofuscava seus olhos. Um campo de estátuas
maciças, memoriais, templos e grandes muros, .sem igual em todo o
mundo, aparecia diante de seus olhos. Em ambos os lados do Nilo, ob­
servavam estruturas feitas de pedra, cujo peso era de quase 300 to­
neladas, estátuas colossais de até 900 toneladas cada peça. Se tivessem
sido bem informados, teriam conhecimento do “vale dos reis e rai­
nhas” escavado, além das muitas esculturas nos penhascos ocidentais.
Enfrentaram o antigo locai do deus sol, Amom, conhecido pelos
gregos como Dióspoli, cidade do principal deus do Egito. Por pelo
menos mil anos, os faraós haviam governado esta parte do mundo com
a bênção plena dessa deidade suprema. Conhecidas hoje com o nome
de ruínas de Luxor e Karnak, a cidade foi identificada como sendo a
cidade de cem portões.^ O local não era importante no 3« milênio a.C.;
mas, começando cerca de 2.000 a.C., a 11« e 12» dinastias restauraram
a unidade e prosperidade do Egito a partir desse centro de Tebas. A
poderosa 18®dinastia expulsou os soberanos hicsos mais ou menos em
1550 e restaurou Tebas como a capital onde permaneceu até a 20« di­
nastia (1085 a.C.).‘'
Será que esses audaciosos invasores do remoto Oriente realmente
seriam capazes de derrubar a capital do Egito? Mesmo que tivessem
sucesso, teriam de ficar impressionados com as vantagens naturais dessa
famosa metrópole do mundo, essa primeira geração de grandes cida­
des-monumentos da humanidade.
3. Cf. Uomer. Iliad 9.381.
4 . C f K . A. Kitchen, “Tebas”em ZPEB. 5.714.
NAUM 3.8 149

8. Poderia Nínive realmente gabar-se de ser melhor que Nô-Amom


no que diz respeito à sua situação? Embora o Eufrates estivesse ali, ele
não proporcionava a defesa natural que o Nilo dava a Tebas.’ Quanto a
vizinhos aliados, de que poderia Nínive gabar-se em comparação com
Cuxe, Egito, Pute e Líbia? Nenhum vizinho amava e apoiava Nínive em
razão de parentesco como eram essas nações em relação a Tebas. Muito
embora Nínive tivesse eventualmente prevalecido contra Tebas, não se
pode deixar de crer que alguma nação jovem, energética, um dia mar­
charia até seus portões da mesma maneira que marcharam contra Te­
bas. Mas então Nínive não poderia ser capaz de gabar-se dos tipos de
fortificação natural tão óbvios em Tebas.
Não era esta uma conclusão inevitável? Um dia Nínive cairia, do
mesmo modo que Tebas caiu. Nada poderia resistir à inevitável marcha
do tempo enquanto uma grande e ambiciosa nação substituía a outra.
A identificação que Naum faz de Nô-Amom com a egípcia Tebas,
confomie se presume até este ponto, encontra base nos textos egípcios
que mencionam Tebas simplesmente como niw t, “a Cidade”, ou niw t
’ím n, “a cidade de Amom”.*Jeremias 46.25, bem como Ezequiel 30.14-
16, se referem à cidade como Amom de Nô. A AV traz “Nô populosa”,
com base na interpretação medieval Judia de “Amom” à luz do tenno
hebraico hãm ôn, que significa “multidão”.^ Identificações anteriores
de “Nô-Amom” com Alexandria não são bem fundamentadas.®
Tebas é apropriadamente caracterizada como a que estava entre o
Nilo e seus canais, cercada de águas, tendo o mar por baluarte e ainda
o mar por muralha. A referência seria aos canais entre os quais o Nilo
dividia Tebas. Em outros lugares, o Nilo e outros grandes rios são de­
signados como um “mar” (sobre o Nilo, c f Is 18.2; 19.5; Jó 41.23
[Eng. 31]; sobre o Eufrates, c f Is 27.1; Jr 5 1.36). Tem-se indicado que,
quando o Nilo transborda, ele atinge três ou mais quilômetros em Te­
bas. O resultado é que as várias cidades ficam parecidas com as ilhas

5. Cf. a descrição de D. J. Wiseman em “Nínive”, The llliistraleJBible Dictionary. 3 vols.


org. J. D. Douglas et al. (Leicester; IntcrVarsily, 1980). 2.1089-91.
6. T. O. Lambdin, "Tebas”, em IDB. 4.615; c f BDB, p. 609.
7. S. R. Driver, 2.39 n.2.
8. C f Calvino, p. 490.
150 NAUM 3.8-9

do Egeu.’ Este ambiente único da cidade proporcionava um muro natu­


ral de defesa. Como consequência, a água circundante servia de baluarte
e de muralha a proteger a população (v. 8c).
A multidão de bênçãos proporcionadas pelo Nilo se tomou fonte
de contenda entre o Deus vivo e os egípcios. Seu orgulho os levou a
alegar: “o rio é meu; eu o fiz” (cf. Êx 29.2-3,9-10). Ao vangloriar-se
tão arrogantemente, esqueciam-se do que Deus fizera ao rio no tempo
do êxodo de Israel.
A Assíria se tomara culpada do mesmo tipo de insensatez. Eles se
gabavam de que haviam secado rios de lugares cercados, simplesmente
pisando sobre a terra (2Rs 19.24; Is 37.25-27). Então esqueciam que
Deus era o único que determinava que deveriam assolar as cidades
fortificadas. De todos os povos, especialmente eles não deveriam es­
quecer que o baluarte e a muralha de água que circundavam Nô-Amom
só poderiam protegê-los até o dia em que Deus assim o ordenasse.
9. Além das defesas da localidade de Tebas, havia o apoio que se
poderia esperar das nações guerreiras que flanqueavam a cidade. Cuxe,
Egito e Pute, todas representam nações com relações naturais com Te­
bas (cf Gn 10.6). Cuxe era a nação localizada ao sul do vale do Nilo.
Anteriormente, Cuxe se dispusera a opor-se a Senaqueribe da Assíria
durante uma de suas excursões na Palestina (2Rs 19.9). Então os assí­
rios conheceram o poderoso punho desse inimigo. A nação de Pute ge­
ralmente está inclusa nas listas com as outras nações africanas (Jr 46.9;
Ez 30.5), e evidentemente se refere a uma parte da Líbia. A Líbia cons­
titui os líbios da África do Norte, localizada a oeste do Egito (c f 2Cr
12.3; 16.8).
Seja como for, Tebas era rodeada por aliados e parentes que esta­
riam dispostos a intervir se algum dia a capital do Egito fosse ameaça­
da. Essas forças são descritas em relação com Tebas como sendo sua
força (v. 9a) e seu socorro (i.e. de Tebas) (v. 9c). A alteração entre os
pronomes da segunda e terceira pessoas é típica dos oráculos dos pro­
fetas hebreus.'®

9. Pusey, p. 155 n. 9.
10. Com re.speito à súbita mudança de pessoas, M. Dahood, Psalms, 3 vols., AB (Garden
NAUM 3.9-10 151

De fato, é extremamente tentador contar com força e socorro em


termos de apoio que possa recrutar-se de outras fontes humanas. Uma
vez que se tenha feito uma aliança, tal nação pode dar um suspiro de
alívio uma vez que aquelas forças de fato abraçaram sua causa. Dessa
perspectiva humana, Tebas estava certamente numa posição favorável.
Seus aliados estavam posicionados de maneira estratégica e em gran­
des números. A frase incompleta e não há fim... (v. 9b) evidentemente
se refere às tropas numerosas à disposição de Tebas.
Naturalmente, da perspectiva divina, tais medidas de força relativa
eram de pequena importância. Para os que não têm poder ('os/nâ). Deus
aumenta a força {kõah - Is 40.29). Isaías alertara especificamente para
a futilidade de se recorrer ao Egito, como também fizera Jeremias (Is
31.1; Jr 37.7).
Mas, ao comparar esses recursos na arena das nações, Tebas obvia­
mente tinha todas as vantagens sobre Nínive. O exército que se atreves­
se a marchar por seiscentos e quarenta quilômetros, pelo interior da
África, e passasse por entre os aliados belicosos de Tebas, arriscaria
expor-se a terríveis possibilidades de retaliação.
10. Todavia, mesmo ela (terminou) no exílio. A despeito de sua
grande força, suas fortificações naturais e o apoio da maioria, Tebas
caiu. Contudo, foi muito mais que isso. Ela não só experimentou a
derrota. A ocupação por tropas estrangeiras não seria suficientemente
ruim. O mais espantoso, porém, foi o exílio e o cativeiro que o Egito
experimentou. Do mesmo modo que os exércitos da Assíria haviam
marchado pela extensão do Crescente Fértil, e depois mais seiscentos e
quarenta quilômetros no interior da África, também agora a população
de Tebas deverá percorrer aqueles mesmos passos, vergando os pesos
e as humilhações de uma nação derrotada.
Quantas gerações não poderiam ser traçadas entre os habitantes de
Tebas! Durante os últimos mil e quatrocentos anos, a cidade e seus
habitantes haviam permanecido intatos. Mas agora foram arrancados e
City, Nova York: Doubleday, 1965), 1.35, obser\'a que essa prática "é análoga à mudança
inesperada da segunda para a terceira pessoa algumas vezes encontrada nos cursos Northwest
Semitic”. Cf. S. Gevirtz, “West-Semitic curses and the problem o f the origins o f Hebrew
law”, VT \ \ (1961) 147 n. 4; Cathcart, Nahum, p. 132.
152 NAUM 3.10

levados para uma terra estranha. Derrotados, humilhados, cativos e


arrastados para longe, dificilmente pareciam o povo orgulhoso e anti­
go que havia dominado o mundo.
O profeta especifica tanto o moço quanto o velho como tendo sido
devastados pela ruína de Tebas. Em cada caso, a consequência da der­
rota era de fato trágica.
Primeiro, ele descreve o destino que sobreveio às gerações futuras.
Seus filhos jovens foram despedaçados nas esquinas de todas as mas.
Quem poderia imaginar tamanha brutalidade? Contudo, em Tebas, este
terrível tratamento infligido às crianças {'ôlêl) se tomou lugar-comum em
cada esquina de rua. Esse conquistador desumano detemiinou um curso
de genocídio como uma maneira de assegurar a submissão perpétua de
um inimigo que só fora vencido a grande custo.
De modo semelhante, os anciãos e cidadãos honrados da população
de Tebas foram tratados como cidadãos comuns das classes inferiores.
Nenhum esforço se fez para determinar alguma habilidade pessoal em
particular de um indivíduo em relação ao outro. A chance de lançar
sorte determinou o destino dos cidadãos mais valiosos de Tebas. Como
o mais talentoso “zeks” do First Cicie de Aleksander Solzhenitsyn fo­
ram separados das famílias, encarcerados sem haver cometido qual­
quer crime e absorvida toda sua habilidade sem a devida remuneração,
também esses povos antigos de Tebas foram forçados a conviver com
maus tratos perpétuos em consequência de serem vendidos como escravos.
Em paralelismo sinonímico com os homens nobres de Tebas estão
postos os homens grandes e\\xQforam presos com grilhões. Agora o pro­
feta indica que todos os homens preeminentes da cidade sofreram o mes­
mo destino. Se sua grandeza provinha de sua hereditariedade, riquezas,
habilidades ou sabedoria, igualmente se sujeitaram à escravidão.
Dessa fonria, o destino de Tebas foi lembrado com vivacidade. Visto
que a própria Assíria fora vencedora, seria difícil negar a verdade des­
se terrível quadro que o profeta apresentava. Com firme determinação,
Assurbanipal (668-627 a.C.) empunhara o estandarte de seu pai Esar-
Hadom (680-669 a.C.) e marchara rumo ao sul do Egito. No caminho,
ele forçou o recrutamento de 22 reis em seu apoio, inclusive Manassés
de Judá (687-642 a.C.): “Eu, [Assurbanipal]... tomei a estrada mais
NAUM 3.11-13 153

curta para o Egito e Núbia. Durante minha marcha, 22 reis... [inclusi­


ve] Manassés, rei de Judá,... me trouxeram grandes presentes e beija­
ram meus pés. Eu obriguei esses reis a me acompanharem por toda
terra - bem como pela rota marítima com suas forças armadas e seus
navios”." Dois mil quilômetros a pé, desde sua casa, Assurbanipal as­
solou Tebas. A cidade mais poderosa das cidades caíra em suas mãos, e
Nínive podia esperar o mesmo.

2. Ninive pode esperar o mesmo destino (3.11-13)

11 Também tu (Ninive),
(cambalearás como) ébrio;
e tu te
esconderás,
sim, tu
procurarás esconder-te do inimigo.
12 Todas as tuas fortalezas
(são como) figueiras com figos temporãos ;
se são sacudidos,
então caem na boca de quem os come.
\3E ia!
Teu povo
são mulheres em teu meio!
Para teus inimigos,
os portões de tua terra
estarão abertos de par em par;
o fogo devorará
teus ferrolhos.

Qual o objetivo de toda essa conversa sobre a queda de Tebas (Nô-


Amon)? A questão é que Nínive podia esperar o mesmo. Tão certo
como Tebas caíra, também Nínive haveria de cair. Com os mesmos
tipos de circunstâncias terríveis que acompanharam a devastação de
Tebas, Nínive também deveria ser devastada. A justiça retribuitiva de
Deus deveria garantir que todos esses horrores que Nínive infligira a

ll.A N E T .p. 294.


154 NAUM 3.11-13

outros lhe seriam também infligidos. Visto que os próprios guerreiros


de Tebas haviam sido os mesmos a arruinar Tebas, eles deveriam co­
nhecer em primeira mão essas coisas a que o profeta se referia.
A “volta da roda” do começo do versículo 11 se faz mais evidente
no texto original das Escrituras. O mesmo tipo de convicção profética
que começa no versículo 10 também começa e termina o versículo 11:

versículo 10 (de Tebas): “todavia, ela {gam-hV) foi levada para o


exílio”
versículo 11 (de Nínive): “também tu {gam-'at) serás embriagada”
“também tu (gam-^at) procurarás refúgio”.

Tal como foi o destino de Tebas, assim também seria o destino de


Nínive.
O profeta então usa cinco imagens diferentes com o fim de realçar
a desolação da cidade que, por injustiça e brutalidade, tomara-se inimi­
ga de Deus. Nínive é descrita como uma nação que se tomou:

como um bêbado cambaleante;


como um fugitivo em pânico;
como uma figueira que foi sacudida;
como uma mulher frágil;
como uma cidade cujos portões são abertos de par em par.

Considere-se a ousadia do profeta. Ele se atreve a dirigir-se a um


senhor intemacionalmente famoso com a franqueza e a força dessas
figuras. Ele ridiculariza a cada uma das pessoas da Assíria.
11. Primeiro, Nínive será embriagada. Vacilante e impotente sob
os golpes da ira divina, a cidade não terá esperança de defender-se dos
ataques de seus inimigos. Como consequência, ela procurará refugio
como um bêbado que caiu debaixo da mesa. De certo modo, o destino
de Tebas não foi tão mim quanto será o de Nínive. Pelo menos as mi­
nas de Tebas ainda permanecem como testemunhas de sua grandeza
num passado remoto. Mas, ao longo de séculos, o mesmo local de Ní­
nive jazia “oculto” em obscuridade.
Segundo, Nínive fugiria como um refugiado em pânico (v. 1Ib).
NAUM 3.11-12 155

Como um brigão em retirada, esse bruto de uma nação deverá enco­


lher-se e abaixar enquanto busca um buraco para se esconder. Na reali­
dade, a desintegração do império assírio mostra a nação se curvando e
se encolhendo enquanto um golpe após outro destruía seu remanescen­
te em declínio. Primeiro, a antiga capital de Assur caiu em 614 a.C.
Depois, as forças combinadas dos medos e dos babilônios atacaram
Nínive em 612 a.C. A cidade entrou em colapso e foi queimada depois
de um cerco de três meses. Batendo em retirada na direção ocidental,
um remanescente de assírios leais estabeleceu um novo rei e capital
em Harã, a cerca de quatrocentos quilômetros rumo a oeste. Dois anos
mais tarde, em 610 a.C., o remanescente das forças assírias foi nova­
mente vencido pela Babilônia. Embora uma força combinada de egíp­
cios e assírios houvesse mantido alguma presença na área por algum
tempo, a batalha decisiva de Carquemis, em 605 a.C., eliminou os últi­
mos vestígios da presença assíria no Crescente Fértil. Justamente como
Naum profetizara, buscaram refúgio como um fugitivo em retirada.
Com a diferença que não encontraram nenhum.
12. Terceiro, as fortificações mais resistentes de Nínive são com­
paradas a uma figueira com figos maduros. A mais leve sacudidela
manda a fruta diretamente para a boca de um comedor voraz. As for­
talezas, os lugares mais fortificados da cidade, não mais serão efeti­
vos em defender contra os ataques do que uma fruta madura demais
que espera ser colhida. Segundo Naum, esta caracterização se aplica
a todas as fortificações de Nínive. Nenhuma fortificação efetiva per­
maneceria.
Esta imagem de fruta despencando possui tal vividez que foi colhi­
da naturalmente pelo livro do Apocalipse para descrever os cataclis­
mos associados com o fim da presente era. O apóstolo João vê o dia em
que as estrelas do céu cairão sobre a terra “como a figueira quando
abalada por vento forte” (Ap 6.13). Da mesma maneira que Naum,
João descreve os reis da terra, grandes homens, ricos e fortes, a escon­
der-se nas cavernas e montanhas, suplicando que as rochas caiam so­
bre eles para que possam esconder-se da ira do Cordeiro (Ap 6.15-17).
A prontidão para o juízo que preparou Nínive nos dias de Naum togo
caracterizará toda a terra. O mesmo Cordeiro de Deus, que mostrou
156 NAUM 3.13

compaixão pelos pecadores ao expor-se à ira consumidora de Deus,


por fim aparecerá ardendo em ira para trazer juízos sobre todos os que
0 negam.
13. Quarto, os habitantes de Nínive são comparados a uma mulher
frágil. Embora o movimento feminino moderno queira negar esse fato,
em termos gerais as mulheres são fisicamente mais frágeis que os ho­
mens. Particulannente, em se tratando de combate corpo a corpo, os
homens mantêm posição predominante.'
O profeta também poderia estar se referindo ao medo que uma pes­
soa tem do combate. João Calvino disse: "... os corações dos homens
estão de tal maneira nas mãos de Deus que ele derrete qualquer coragem
que porventura exista neles sempre que ele o queira”.- Algumas vezes
Deus mantém os homens com corações corajosos a fim de que corram
em direção à sua própria ruína. Mas, em qualquer caso, quando a hora
chega para o juízo divino, toma-se impossível escapar-se do mesmo.
Quinto, Nínive será como uma cidade cercada, cujos portões foram
abertos de par em par (v. 13b). Tal como os insensatos cananeus que
correram para sua cidade, deixando para trás os portões abertos (Js
8.17), também os portões de Nínive seriam abertos de par em par para
dar a seus inimigos livre acesso à sua cidade. Pleno acesso à assolação
pelas forças estrangeiras caracterizaria toda a nação. Pois o que será
aberto não serão só os portões da cidade, mas o portão do país (v. 13).
Os últimos remanescentes da defesa em tennos áe ferrolhos pesados,
que trancam os portões, serão consumidos pe\o fogo.
Talvez Nínive também teria se gabado da vitória anterior, quando
Tebas caiu perante seus ataques ferrenhos. Haviam experimentado um
prazer mórbido, ao verem esmagadas publicamente as crianças egípcias,
aqueles supostos filhos de Amom. Mas, por terem semeado ventos,
haverão de colher tempestades. Visto que Tebas caiu, eles também de­
vem esperar a queda.

1. D. R. Hillere, Treary-Cursex and the Old Testament Pmphels. BibOr 16(Roma: Pontificai
Biblical Institute, 1964). p. 66,67, cf. esta frase com Ashumirari treaty: “Que suas nações
se tornem mulheres”. Ele nota também o juramento dos soldados hititas: “Que troquem suas
tropas por mulheres”.
2. Calvino, p. 496.
NAUM 3.14-19 157

É uma guinada de inspiração divina. A voz profética informa ao


pecador que seu triunfo confirma seu destino. Suas vitórias seriam vis­
tas como os arautos de sua própria derrota final.
Onde, pois, ficará o pecador? Em lugar algum - exceto com Níni-
ve. Esperando a destruição final e inevitável assinada pelo Todo-Pode-
roso. Suplicando às rochas que o cobra.

C. INDUBITÁVEL A DESPEITO DE SEU PODER (3.14-19)


O mais provável é que este personagem, tão pouco conhecido, cha­
mado Naum, tenha profetizado exatamente por ocasião do apogeu de
Nínive, quando Assurbanipal estava no apogeu de sua glória (669-627
a.C.). Ao entrar em Tebas pela segunda vez, depois de uma breve re­
volta dos egípcios, os assírios levaram embora “grandes despojos além
da conta”.' Tiro fora sufocada do outro lado do continente e forçada a
render-se. Para o leste, a Babilônia foi subjugada e Susã, a capital do
Elam, foi pilhada em 639. E assim Roux, com muita propriedade, es­
creveu; “Nunca antes o império assírio pareceu tão forte, e seu poder
tão invencível”.^
Nesse ínterim, a palavra do Senhor chega a Naum. Neste panora­
ma, Deus revela que a destruição dos perversos é certa a despeito de
todo seu poder.

l. A cabal futilidade dos recursos humanos (3.14-18)

14 Aguas para o cerco


tira para ti mesma,
a fortifica
h tuas fortificações,
a Imerge-te
b no barro
a e pisa
b a massa:
a mantém firme

1. Roux. Ancient Iraq, p. 300, aparenlemente citando inscrições assírias.


2. th id , p. 304.
158 NAUM 3.14-19

a forma para os tijolos.


15 Justamente nesse momento,
a o fogo
b te devorará,
a a espada
b te exterminará.
Consumir-te-á
como o gafanhoto novo.
a Multiplica-te
b como o gafanhoto novo,
a multiplica-te
b como o gafanhoto velho;
16 Fizeste teus negociantes mais numerosos
que as estrelas do céu;
(mas) o gafanhoto novo
invade
e sai voando.
17 a Teus coroados
b são como os gafanhotos velhos;
a e teus capitães,
b como as hordas de devoradores
que se acampam nas sebes nos dias de frio;
o sol nasce,
e vão embora,
e seu lugar é desconhecido.
Onde estão?
18 a Teus pastores
b dormitam,
ó rei da Assíria;
a teus nobres
b se deitam;
a teu povo
b se dispersa pelos montes,
b e não há quem os ajunte.
NAUM3.14-15a 159

Nesta seção, o profeta admoesta os assírios a que contemplassem a


futilidade de todo o esforço humano para evitar o juízo inevitável e
iminente de Deus. Preparativos de nada adiantariam (vs. 14-15a); quan­
tidades não resolveríam (vs. 15b-16); funcionalismo de nada serviria
(vs. 17-18).
14-15a. Preparativos de nada adiantariam. Nessas circunstâncias,
era como se Deus estivesse zombando da resistência dos assírios, fazen­
do ecoar o encontro entre ele mesmo e as forças da Assíria que havia
ocorrido um século antes. Naquela ocasião, o representante de Sena-
queribe ofereceu a Judá cavalos para sua própria defesa, se porventura
pudessem conseguir os cavaleiros para montá-los (cf. 2Rs 18.23). Ora,
como o profeta de Deus, em sua imaginação, se aproxima de cada por­
tão de Nínive, ele emite os comandos que pudessem ser emitidos de
dentro dos muros de uma cidade que se reforça para o cerco iminente.
Em uma rápida sucessão, cinco ordens são disparadas para ativar o
programa de preparação:
(1) Aguas para o cerco tira para ti mesma. Agua, naturalmente,
simbolizava refrigério, alegria, vida e paz (cf. Is 12.3; 32.2; SI 23.2; Zc
14.8). Mas, águas para o cerco fere uma nota de agouro. Ela fala de
racionamento, de privação oriunda de uma temerosa luta pelos ele­
mentos mais básicos da vida. Só muitos preparativos e austera autodis-
ciplina poderiam prover alguma esperança de sobrevivência.
O Senhor, porém, não tem a mínima intenção de ao menos acenar
aos ninivitas com algum resquício de esperança. Em vez disso, ele zom­
ba deles, ao instar que lançassem mão de todos os recursos, desde os
mais extremos que pudessem engendrar para evitar as calamidades
iminentes. Todos seus esforços iriam provar ser absolutamente futeis.
Sua diligência, sua disciplina e abnegação seriam inúteis. Calvino apre­
endeu 0 exato sabor desta admoestação: “Sua frugalidade, empenho e
precaução não só resultarão em nada, como também se converterão em
sua ruína; pois o Senhor amaldiçoa a arrogância dos homens, quando
confiam em seus próprios recursos”.'

1. Calvino, p. 499.
160 NAUM 3.14-15a

Senaqiieribe anteriormente se gabara de que, antes de haver feito


as melhorias em Nínive, seus campos estavam em ruína por falta de
água. O povo haveria de volver seus olhos para os céus em busca de
sinais de chuva. Mas ele havia construído um sistema de aqueduto e
escavado dezoito canais com o fim de trazer água para a cidade e mi­
norar o problema.- Contudo, no dia do juízo divino, esse elaborado
sistema seria inútil. Com métodos facílimos, o adversário cortaria es­
sas fontes deixando a cidade desesperada por água.
(2) Fortifica tuas fortificações. Nínive Já possuía fortificações que
lhe imprimiram um senso de segurança ao longo de cem anos. Mas
agora sua capacidade haveria de ser aumentada. Cada fonte de energia,
por pequena que fosse, tinha de ser aplicada nesta frenética atividade
de prontidão e autodefesa. Quem sabe aqueles esforços extras de últi­
ma hora pudessem fazer diferença!
(3) Imerge-te no barro (lit. “vai [ou ‘vem’; heb. 6õ ’í ] para o bar­
ro”). O sentido literal da frase pressupõe total absorção num projeto ou
circunstância. A alma de José “veio [heb. 6 ã ’â] para” ferros (SI 105.18),
significando que sua vida fora absorvida nessa nova condição de pri­
são. “Bem avançado” em dias, idoso, velho, significava que a vida de
uma pessoa se caracterizava pela circunstância daquele ponto em dian­
te (Gn 24.1; Js 13.1; 23.1). Se uma cidade “entrava” em estado de sítio
(2Rs 24.10), então todas as atividades da comunidade tinham de ser
ajustadas para atender a essa nova realidade. Na linguagem moderna,
quando se diz que uma pessoa está “na” arte ou “nos” computadores,
significa que ela está totalmente absorvida naquela área particular de
interesse.
A admoestação de Naum a Nínive é: “entra no barro”. Imerge-te
nesse empreendimento específico. Imerge-te no barro até o pescoço.
Faze um esforço sobre-humano no preparo de tuas defesas. E ainda
assim nada te será de qualquer valia.
Por meio dessa zombaria, Naum não está dizendo que todo esforço
humano seria inútil. Sua mensagem é muito mais específica. Ele está
dizendo que todo esforço humano para escapar ao juízo iminente de

2. Luckenbill. Ancient Records. 2.149, n. 332.


NAUM 3.14-15a 161

Deus é fútil. As pessoas com frequência nutrem uma impressão errô­


nea, pensando que em suas vidas só labutam com as forças ou circunstân­
cias naturais. Então concluem que um pouco mais de esforço poderá
possibilitá-las a fugir da calamidade que ora as ameaça.
Mas o pecador está enganado. Ele falha em reconhecer o Deus
vivo. Embora ele seja Espírito, e invisível às percepções humanas, é
com ele que temos de nos haver. Não é sem razão que são fúteis todos
os esforços humanos de defesa contra o Todo-Poderoso. Que os ninivi-
tas se lancem no soerguimento de fortificações até os mais altos céus.
Fora das bênçãos de Deus, essas fortificações de nada servirão.
(4) Episa a massa. Amassar barro com os pés requer grande esfor­
ço. Independentemente se a própria pessoa realiza o trabalho ou se
supervisiona o trabalho escravo para sua execução, o esforço de mistu­
rar a argamassa para fazer-se os tijolos sob o sol escaldante do antigo
Oriente Próximo é extenuante.
Todavia, o trabalho duro tinha de ser feito. Se a Assíria no século
passado atomientara brutalmente muitas nações com rituais de cruel­
dade, tais como esfolar pessoas vivas, como é que poderia esperar algo
melhor para si mesma? Portanto, eles têm de lançar fora a letargia in­
dulgente e se mexerem a fim de executar o penoso trabalho envolvido
em sua defesa. Tal como se semeia, assim se colhe; e as aflições im­
postas sobre os outros, agora chegavam para eles.
(5) Toma a forma para os ladrilhos. Visto que os assírios aparente­
mente usavam tijolos tanto cozidos quanto crus,^ o termo associado à
fabricação de tijolos (malbên) poderia referir-se tanto à olaria quanto
à fomria de moldar o barro in natiira. Esta admoestação particular, “se­
gura com firmeza” ou “reforça” o instrumento, combina com uma re­
ferência à forma do tijolo que deve ser segurada com firmeza para
forçar sua forma à espessa mistura de barro mole. Esta admoestação
soa bem mais adequada quando se pensa nas longas horas do dia ocu­
padas na exaustiva tarefa requerida para se produzir tijolos com o fim
de reforçar, alargar ou elevar a altura do muro de Nínive. A fadiga
muscular se faria sentir muitas horas antes do fim da labuta diária.

3. Cf. Keil, p. 37.


162 NAUM 3.14-17

As cinco admoestações de ironia endereçadas aos assírios soam


como uma chamada às cadeias de auto-escravidão. As tarefas cansati­
vas, necessárias para erigirem-se defesas militares grosseiras, teriam
assumido ares de medidas desesperadoras fadadas ao fracasso. Nor­
malmente, tal trabalho era entregue somente a escravos, mas agora
todos os cidadãos ninivitas se submeteriam a esses rigores.
A “vaidade das vaidades” que caracteriza todos os esforços huma­
nos sem fé no único e verdadeiro Deus vivo é reforçada no versículo
15. O enfático “ali”, que começa o versículo (traduzido Justamente
nesse ponto), aponta para as mais recentes defesas construídas justa­
mente no local onde elas deveriam ser niveladas. Precisamente onde o
homem, em sua revolta contra Deus, envida grandes esforços, aí é onde
ele fica sujeito aos golpes divinos mais severos.
Contudo, não são meramente essas frágeis defesas tão recentemente
construídas que iriam ser consumidas. A cidade toda é o objeto de cada
um desses três verbos como indicados pelos pronomes no feminino
singular. O fogo consumiria, a espada exterminaria, o gafanhoto devo­
raria a cidade por inteiro.
15b-17. Não é fácil determinar a identidade dos vários tipos de ga­
fanhoto mencionados nesses versículos. No livro de Joel, mencíonam-se
quatro tipos diferentes de “gafanhoto”, ou enxames de pragas. Na AV
eles são designados como “gafanhoto cortador” (gãzãm), “gafanhoto
migrador” {’arbeh), “gafanhoto devorador” (yeleq) e “gafanhoto des-
tniidor” (hãsil) (cf J1 1.4). E muito difícil determinar se esses termos se
referem a diferentes tipos de gafanhoto ou a diferentes fases de seu
desenvolvimento. Mas a variedade da terminologia indica maior fa­
miliaridade deste fenômeno no Oriente Próximo do que nas culturas
ocidentais.
O devoramento de uma área metropolitana inteira por uma criatura
tão pequena, como é o gafanhoto, realça a futilidade da grandeza dos
planos humanos. A criatura mais obscura, e aparentemente indefesa,
que Deus criou pode pôr de joelhos os adversários mais poderosos de
Deus.
15b-16. Números de nada adiantariam. A cena dos enxames de ga­
fanhotos se complica nos versículos 15b-17. As imagens de hordas
NAUM3.15b-16 163

inumeráveis de gafanhotos são usadas para descrever tanto os habitan­


tes de Nínive como o inimigo que a devoraria. Isto é tudo o que se pode
entender. Não se sabe, porém, quais as seções dos versículos aplicam as
imagens dos gafanhotos à própria Nínive e quais aplicam as mesmas
imagens aos inimigos de Nínive.
A reação natural da máquina militar seria auto-suficiente diante de
uma ameaça da parte das hordas; “Bem, vamos nos multiplicar de for­
ma que nos tomaremos tão numerosos quanto vocês”. Então o profeta
propõe: “Vão em frente, multipliquem-se como um enxame de gafanho­
to. Isso de nada adiantará” (v. 15b). A combinação de uma forma mas­
culina e feminina para te multiplicas {hitkabhêd, hitkabh^dí) indica o
grau mais elevado possível, ou a totalidade da nação em todos seus
aspectos.'*
16. Já os assírios haviam feito seus negociantes mais numerosos
que as estrelas do céu. Seu desejo insaciável por mais e mais despertou
neles o desejo de dominar o comércio do mundo. Localizada justamente
onde o Leste se encontrava com o Oeste, Nínive estava idealmente
situada para multiplicar sua riqueza. Como Maier indica: “Sob Assur-
banipal, pela primeira vez em 800 anos, a Ásia ocidental foi dominada
por um único líder político. Com o vasto território do império sob um
governo central, o comércio floresceu por toda essa área como nunca
antes”.’
Mas, embora o número dos negociantes de Nínive fosse como as
estrelas do céu (literalmente, “astronômico”), isso de nada lhes adian­
taria. A nacionalização da paixão de Esaú por satisfação do apetite
sensual só poderia significar a perda de um direito de nascimento e
bênçãos da nação inteira. Adorar e servir a criatura mais do que o Cria­
dor significava, neste caso, não meramente que Deus os havia “entre­
gue” (Rm 1.25-26), mas que ele iria multiplicar seus inimigos para que
fossem mais numerosos que eles próprios. Como a última parte do
versículo 16 o indica, pela mera força dos números áo gafanhoto devo­
rador invade e sai voando, nada deixando, nem mesmo para identifi­
car 0 que haviam comido. Nem uma folha da vegetação, nem um fiapo
4 . Cr.GKC, § IlOk.
5. Maier, p. 348.
164 NAUM 3.16-18

de roupa, nem uma iguaria alimentícia seria deixada. Aos olhos do


Deus dos Exércitos, a multiplicação feita pelos homens nada significa.
Nos dias em que o “crescimento da igreja” se tomou uma moda
passageira, a profecia de Naum tem diretamente alguma coisa a dizer.
O Senhor não se impressiona com números. O pecado de Davi, de fazer
o censo das tropas, atraiu pragas sobre toda a nação de Israel (2Sm
24.1,10ss.). “Estas ovelhas, que fizeram?” foi um lamento do coração
do pastor que chegara demasiado tarde (2Sm 24.17).
A ação do devorador que invade e sai voando enfatiza a total eficá­
cia da destruição feita pelos gafanhotos e a condição de desolação que
se instalará quando os instrumentos do Juízo divino tiverem tenninado
a obra. Quando o meio ambiente restar desnudo e exposto, nada restará
do longo trabalho dos negociantes de Nínive.
17-18. A eficiência da máquina de guerra dos assírios indica que
ela deverá ser conduzida por boa liderança. Certamente que os assírios
teriam respeitado seus oficiais. O profeta Naum fornece um quadro
diferente. Seus líderes podem ser numerosíssimos, mas são ineptos,
ineficientes e essencialmente preocupados com seus próprios interesses.
O primeiro termo para um oficial, no versículo 17 (minn^zãr),
poderia referir-se a uma pessoa coroada, aludindo ao diadema usado
por um rei ou oficial; ou poderia referir-se a uma pessoa “separada” ou
“consagrada”, também denotando alguém na função de liderança; ou o
termo podia ser entendido como uma forma hebraizada de título nativo
assírio, como parece ser mais claramente o caso do termo seguinte
{(ipsãr, do assírio dupsarru), aqui traduzido por capitães. Em qual­
quer caso, a referência é àquelas pessoas nas funções de liderança ou
autoridade dentro do império assírio.
Visto que o número do populacho assírio era tão grande, a lideran­
ça era também virtualmente inumerável. São como os gafanhotos ve­
lhos {’arbeh) e as hordas de gafanhotos (gôt gõ^ãy). A repetição da
mesma palavra, nesta última frase, tem sido interpretada por alguns
como um sinal de um erro de copista. Mas a construção pode ser mais
bem entendida como expressando uma ideia de superlativo.® Seus líde­

6. Cf.GKC.5 133i.
NAUM 3.17-18 165

res são tantos em número que se comparam não apenas a gafanhotos,


mas a hordas de gafanhotos.
Mas esta multiplicidade de liderança não lhes seria de nenhuma
ajuda. O profeta apela para o fenômeno comum no Oriente Próximo.
Amontoados em massas, os gafanhotos cobrem as folhas e ramos ao
longo de uma cerca viva num dia nublado e frio. Mas no momento que
o sol aquece suas carapaças de sangue frio, eles se vão e não se conhe­
ce o lugar onde esíãol Não deixam nem traços de sua presença anterior.
Da mesma maneira ocorre com a liderança humana. Agora decaí­
dos de sua posição real de dominação sobre toda a terra, mesmo os
líderes entre os humanos não têm mais realeza do que as criaturas mais
inferiores, enxameadas sobre a terra. Congelados, imóveis - talvez co­
vardes e indecisos - , Nínive futilmente deposita sua esperança nos re­
cursos humanos.
O termo usado por Naum para descrever a partida da horda de ga­
fanhotos (nódad), em outro lugar é usado para descrever a fuga dos
componentes de guerra (Is 33.3), homens de batalha (Is 21.15), os líde­
res e reis de exércitos (Is 22.3; SI 68.13 [Eng. 12]). Portanto os prínci­
pes e chefes da Assíria desaparecem no calor da batalha. Eles não dei­
xam rastros de sua existência. Consequentemente, seus seguidores ex­
perimentam a impiedosa mutilação feita por seus inimigos.
Onde estão eles? pergunta Naum, com uma alfinetada satírica. Quan­
do a batalha realmente começa a enfurecer, onde estão aqueles prínci­
pes orgulhosos da Assíria? Não estão em nenhum lugar que possam ser
achados.
18. Numa expressão culminante sobre liderança ninivita, o profeta
se dirige ao próprio rei. Foi por causa desse movimento ousado que
alguns chegaram à conclusão de que a mensagem de Naum não teria
sido dirigida a seus contemporâneos, mas meramente escrita e desen­
volvida de forma secreta. Tal sugestão pelo menos exibe a consciência
do radicalismo do que o profeta está fazendo. Embora suas palavras
sejam consideradas como molduras diplomáticas, elas não são menos
cortantes em sua franqueza.
Ó rei da Assíria, ele diz. Presta atenção no que digo! Minha voz
166 NAUM 3.18

pode ser a voz de um cidadão desconhecido pelo menos em sua condi­


ção de vassalo. Minhas palavras, porém, são verdadeiras, e por isso de
maior importância do que todas as missivas seladas pelos dignitários do
Estado.
Qual é a mensagem do profeta ao poderoso rei da Assíria?
Primeiro, ele declara o destino dos líderes do rei.- teus pastores
dormem... teus nobres dormitam. A referência poderia ser a “dormir” o
sono da morte (cf SI 13.4 [Eng. 3]; 76.6 [Eng. 5]; Jó 3.13; 14.12; Jr
51.39,57; Dn 12.2). Mas o contexto imediatamente anterior, que des­
creve os líderes que se vão como uma horda de gafanhotos, pressupõe
que Naum critica a indolência, a negligência, o relaxamento da lide­
rança assíria. O paralelismo de dormem com dormitam apoia esta con­
clusão, visto que o último termo raramente é usado para morte, parti­
cularmente sem especificar que uma pessoa dormita na “morte” ou “no
túmulo”, como em Isaías 26.19.
O rei da Assíria poderia estar alheio ao que estava ocorrendo em
seu reino, mas ele logo aprendería os efeitos da negligência e dissipação
da parte de sua liderança. Já teu povo se dispersa pelos montes, e não
há quem o ajunte (v. 18b), disse o profeta. Um contingente de subordi­
nados inteligentes podia manter o rei no escuro sobre o que de fato
ocorria em seu império, mas a verdade logo viría à tona. O resultado
inevitável da negligência dos líderes seria o colapso do reino.
O termo pastor {rô’eh) indica um papel de responsabilidade em cui­
dar daqueles que necessitam de diretriz para suas vidas. Nobre ( ’adcHr)
caracteriza vários objetos, inclusive navios, árvores e a água do mar
(cf Is 33.21; Ez 17.23; Ex 15.10). Apalavra expressa a majestosa ex­
pansão de um objeto imponente. Mas a liderança assíria não tem sido
nem majestosa nem atenciosa. Como consequência, os cidadãos de todo
esse vasto império foram forçados a fugir para as montanhas.
A imagem de um povo disseminado e espalhado como ovelhas sem
pastor é encontrada repetidas vezes nas Escrituras. Moisés orou por um
sucessor para si próprio, “que saia adiante deles e que entre adiante
deles e que os faça sair e que os faça entrar para que a congregação do
S e n h o r não seja como ovelhas que não têm pastor” (Nm 27.17). O
profeta Miqueias, ao predizer a morte de Acabe, também viu “todo o
NAUM 3.18 167

Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não têm pastor” (IRs
22.17). Disperso pelos montes, o remanescente do que uma vez fora
uma grande nação se escondia em cavernas sem esperança de restaura­
ção dissociado de uma liderança atenciosa.
Naturalmente, o próprio rei da Assíria sofreria o peso da respon­
sabilidade por essa dissolução de seu povo. Ele foi o primeiro a dar o
exemplo de um monarca cruel que demandava tudo quanto há para
satisfazer seus próprios intentos egoístas. Portanto, não surpreende
que seus subordinados, seus designados, manifestassem o mesmo com­
portamento voraz. Por meio do uso da forma masculina do pronome,
no versículo 18, em contraste com os pronomes femininos, nos versícu­
los anteriores, Naum indica que esses nobres negligentes são os servos
do rei.
Da mesma maneira que seus contemporâneos, Habacuque e Sofo-
nias, Naum apresenta pouco ou quase nada em termos de expectação
messiânica explícita. Ele não fala da vinda de um rei-pastor que daria
esperança àqueles desolados em contraste com os atos insensíveis do
rei da Assíria, mas seu contemporâneo Jeremias o faz (Jr 23.4-6). O
profeta Ezequiel também proclama sua expectativa da restauração de
um pastor davídico que iria contrastar com os reis egoístas de Israel
(cf Ez 34.22-24).
Situando-se em contraste histórico com o rei insensível da Assíria
encontra-se o Filho de Davi como apresentado nas boas-novas de Ma­
teus. Observando o estado das multidões, Jesus se sentiu movido de
compaixão “porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não
têm pastor” (Mt 9.36, NASB). Ele então ordenou a seus discípulos que
orassem ao Senhor da seara, que mandasse trabalhadores para fazer a
obra {ergátas) (Mt 9.38). Em seu reino, ele não tinha lugar para pregui­
çosos, indolentes, vadios e fanfarrões. Jesus então agiu de modo deci­
sivo. Ele comissionou os doze e lhes ordenou: “procurai as ovelhas
perdidas da casa de Israel”, anunciando que o rehw dos céus já chegou
(Mt 10.1,6-7).
O povo do rei da Assíria fora espalhado pelos montes, e nenhum de
seus designados se dispunha a reuni-los. O próprio rei tinha ainda me­
nos propensão a buscá-los. Que grande contraste com o Rei dos reis e
168 NAUM 3.19

Senhor dos senhores que, como o Bom Pastor, deu sua vida por suas
ovelhas (Jo 10.11).

2. A tragédia fina! do pecado persistente (3.19)

19 Não pode haver redução


para tua ferida;
tua praga
é fatal.
Todos os que ouvem tua história
baterão palmas sobre ti;'
porque sobre quem
tua crueldade não fo i infligida
continuamente?

Tendo declarado a completa futilidade de todos os recursos huma­


nos que Nínive poderia convocar em sua defesa, o profeta então chega
à sua última palavra. Pela terceira vez neste capítulo, ele dirige uma
pergunta retórica aos próprios assírios, agora forçando-os a reconhecer
as trágicas proporções de seu colapso como um império.
A pessoa a quem esta inquirição final é dirigida é diferente dos
dois casos anteriores. Em ambos os casos, a pergunta fora dirigida na
fonna feminina singular (vs. 7-8). Mas agora a pergunta evidentemen­
te foi feita na forma masculina singular (v. 19). Os pronomes femini­
nos singulares nos dois primeiros casos quase certamente se referiam à
cidade de Nínive. O masculino singular do versículo 19 parece referir-
se ao rei de Nínive, seguindo, como faz, as palavras especificamente
dirigidas a ele no versículo 18.
Então aferida e a praga descrevem a derrubada do poderoso monar­
ca, 0 rei da Assíria. Historicamente, o rei no trono da Assíria, nos dias de
Naum, era provavelmente Assurbanipal, um dos mais cruéis e mais des­
póticos dos soberanos assírios. Mas a referência de Naum poderia ser no
sentido mais geral, referindo-se à sucessão dos regentes de Nínive.

1. A AV traz “todos os que ouvirem o rumor sobre ti”; bruit era um tenno comum no século
16, cujo significado é “relato”, emprestado do francês bruit, significando "barulho”. Cf.
Driver, p. 46.
NAUM 3.19 169

Por que nào poderia haver redução de sua ferida? Porque, embora
as rodas da justiça de Deus se movam devagar, elas se movem perfeita­
mente. Chegaria o tempo em que a longanimidade de Deus também
chegaria ao fim. Então ele traria célere vingança sobre seus inimigos.
Uma mensagem assim se aplica a todo e qualquer opressor. Em certo
ponto, o tempo chega quando o Senhor põe um basta. Por algum tem­
po, ele poderá deixar o tirano viver na luxúria proporcionada pelo san­
gue dos mártires. Mas um ajuste completo se requererá sem condição
de escape.
Talvez a dimensão mais trágica do fim do rei da Assíria seja a ob­
servação que Naum faz de que todos se regozijariam com sua morte.
Todos os que ouvirem tua história baterão palmas sobre ti. A resposta
seria a mesma em todo o universo. Sem jornais, televisão, rádio ou
satélite, a notícia se espalharia da noite para o dia. Quando cai um
monarca opressor, como Assurbanipal, as reverberações são ouvidas
nos confins da terra.
Um aplauso vigoroso, jubiloso, público explodiria espontaneamente
quando o rei de Nínive morresse. Da mesma maneira que os aliados
saudaram a queda da Alemanha nazista, e a morte aparente de Adolf
Hitler, também todas as nações receberiam com grande alegria as noti­
cias da morte do rei da Assíria. Do mesmo modo que o infame rei Jeoa-
quim de Judá teve o sepultamento de um jumento (.Ir 22.19), também o
monarca assírio teria um fim infame.
A razão para essa resposta entre as nações era nitidamente evidente.
O profeta formula sua pergunta final em termos inevitáveis: sobre quem
tua crueldade não fo i infligida continuamente? Ao poderoso monarca,
ele pergunta: “e o que esperavas?”. Pessoa alguma, tampouco alguma
nação foi poupada de sua brutalidade. Três continentes haviam camba­
leado por décadas debaixo dos extremos irracionais de tua violência.
Por acaso aqueles cujos olhos arrancaste poderiam derramar lágrimas
por tua morte? Aqueles cujas orelhas e narizes foram decepados, por­
ventura lamentariam agora? Poderiam as línguas que arrancaste recitar
poemas para ouvires?
Com essas últimas palavras, o profeta ressalta os horrores do mo­
narca assírio: continuamente (tãmíd). Continuamente, e sem cessar, o
170 NAUM 3.19

rei causara devastação entre as nações. Em vez de abrandar os gemidos


e suspiros das multidões, o tirano atormentara de modo inclemente a
seus vassalos.
Em contraste radical, o Deus de Israel havia demonstrado sua paci­
ência e longanimidade continuameníe. Os pães da proposição no ta­
bernáculo se destinavam a representar sua beneficência coníinuamen-
te (“perpetuamente” Ex 25.30). A nuvem da glória de Deus cobria Israel
continuamente (“de contínuo” Nm 9.16). “Os olhos do Senhor” obser­
vavam a terra continuamente (Dt 11.12).
Poderia Naum falar tais palavras na cara do rei de Nínive e ter
sobrevivido? Tem-se sugerido que a referência peculiar ao Livro da
visão de Naum, no título, indica que ele o escreveu, porém não procla­
mou suas palavras.^ Seguramente, a liberdade e a vida de Naum estariam
ameaçadas caso pronunciasse tal mensagem. Dezenas de milhares fo­
ram brutalmente maltratados pelo rei da Assíria sem outra razão senão
porque pertenciam à multidão dos povos conquistados. Iria ele tolerar a
condenação franca das palavras de Naum? Provavelmente, não. E pro­
vável que Naum não sobrevivesse para ver o cumprimento de sua pala­
vra da parte do Senhor. Talvez ele estivesse catalogado juntamente com
aqueles de quem o mundo não era digno.
Mas, de qualquer maneira, o padrão dos pregadores proféticos da
palavra de Deus não sugere que Naum tivesse distribuído sua mensagem
de forma anônima e em silêncio movido pelo medo das consequências
da proclamação pública. Uma grande parte do livro se dirige diretamen­
te aos habitantes de Nínive e a seu rei. Segundo o padrão da história dos
profetas de Israel, uma proclamação da verdade na esquina de uma rua é
o máximo que se espera, independentemente das consequências.
Não se pode esquecer que Jonas também fora encarregado, cem
anos atrás, de levar uma palavra de juízo especificamente dirigida a
Nínive. No caso de Jonas, ele fora encarregado de proclamar sua men­
sagem nas praças públicas da própria cidade de Nínive.
Mais um ponto de comparação entre Jonas e Naum é digno de nota.
Apenas dois dos sessenta e seis livros da Bíblia terminam com uma
2. Rudolph, p. 188.
NAUM 3.19 171

pergunta: Jonas e Naum. Ambos os livros se encontram entre os Profe­


tas Menores; ambos são da mesma extensão; ambos terminam com
uma indagação.^
A pergunta de Naum proclama justiça. Por que, sobre quem tua
crueldade não fo i infligida continuamente? Explica por que a vingan­
ça divina por fim deveria recair sobre a cidade impenitente. A pergunta
de Jonas proclama misericórdia. “Não hei eu de ter compaixão da gran­
de cidade de Nínive...?” (Jn 4.11, NASB) explica por que a longanimi­
dade de Deus significa salvação, mesmo para aqueles que cometeram
grandes perversidades.
T. F. Glasson sugere que o final de Jonas “talvez seja consciente­
mente destinado a refutar a implicação da pergunta final de Naum”.'*
Com base nesta hipótese, conclui-se que Jonas deveria ter escrito de­
pois de Naum. Mas uma conclusão acerca da datação destes dois livros
baseada neste tipo de análise teológica anula toda a mensagem do livro
de Naum e ignora o testemunho uniforme das Escrituras de que chegará
0 tempo em que a oferta de misericórdia será substituída pelo juízo
divino. A realidade da retribuição ao perverso não ocorre de repente no
final da profecia de Naum, na forma de pergunta retórica. Em vez dis­
so, todo o teor da profecia garante que a resposta correta seria dada à
pergunta de Naum.
Quão gloriosa é a sabedoria de Deus ao tratar com os pecadores!
No século 8« a.C., Jonas foi incumbido de proclamar a mensagem que
iria resultar na salvação da cidade de Nínive, inclusive seu rei, apesar
de seu grande pecado. Cerca de cem anos após Jonas, a mensagem de
Naum, nos meados do século 7«, fornece um arcabouço da integridade
da oferta divina de misericórdia. Os impenitentes finalmente serão jul­
gados. A destruição total da cidade de Nínive, em 612, confirma a va­
lidade das palavras de Naum. Ele era realmente um profeta de Deus,
segundo os critérios estabelecidos por Moisés (c f Dt 18.21-22).

3. Cf. T. F. Glasson: “The Final Question - in Nahum and Jonah”, ExpTim 81 (1969,70),
p. 54,55.
4. Ibid
172 NAUM 3.19

A veracidade de sua profecia significa que, em princípio, cada rei­


no do mundo, sucessivamente - seu rei, seus oficiais, seus cidadãos -
deve prestar atenção. Pois a mensagem de Nínive se aplica “a todos os
reinos do mundo que se levantam contra Deus, desde a destruição de
Assur, e que ainda continuará até o fim do mundo”.*

5. Keil. p. 48.
o LIVRO DE H A BA C U Q U E
SO BRESC RITO (1.1)

I. A sentença que Habacuque, o profeta, viu.

A profecia de Habacuque possui uma dimensão muito incômoda do


princípio ao fim. O livro começa com um lamento queixoso: “Até quan­
do...?”. E termina com a resolução do profeta de suportar o severo e
inevitável juízo divino. Esta mensagem é, com justiça, denominada a
sentença de Habacuque.'
Somente o dom do Espírito inspirador de profecia poderia tomar
possível a uma pessoa dar a conhecer com fidelidade a plena destrui­
ção de seu próprio povo e terra. Aquele solene ofício e vocação perten­
ciam a Habacuque. Ainda que sua vocação para o ofício não esteja
registrada, ele é designado como o profeta. Assim sendo, ele falou como
o porta-voz designado por Deus.
Várias conjeturas e mitos têm-se proposto para compor a biblio­
grafia desse servo do Senhor.^ Mas, nem as Escrituras nem outras fon-

1. É bastante claro que o termo maéáã’ pode ser aplicado litcralmente como “carga”
(fardo, peso) que tem de ser carregada (cf. Ex 23.5; 2Rs 5.17; 8.9). Não é claro se o termo
também pode ser aplicado no sentido simplesmente de “pronunciamento”, apesar da opi­
nião de alguns intérpretes antigos e da maioria dos modernos. O termo introduz uma men­
sagem de Juízo ou condenação em quase todos os casos em que ele precede a um discurso
profético. Particularmente, no caso da mensagem de Habacuque, parece ser apropriado
traduzir o termo como “sentença”, em vez de “pronunciamento”. Para mais discussões e
referências à literatura relevante, ver o comentário sobre Naum I. I .
2. Jerônimo e Lutero traçam a raiz do nome do profeta a um termo que significa “abra­
çar”. Mais recentemente, ele tem se relacionado com um nome acadiano de uma planta.
Habacuque é mencionado no acréscimo grego ao livro de Daniel, como aquele que apare­
ceu a Daniel na cova dos leões (Bel e o Dragão, 33-39). Com base na referência dc Habacuque
3.19 para o “meu negiolh", tem-se concluído que Habacuque era de descendência levitica,
e que participava do culto no templo em Jerusalém. Mas esta sugestão presume que somen­
te levitas podiam compor poemas ou fazer uso de instrumentos musicais. Para comentários
sobre es.sas várias conjeturas a respeito de Habacuque, ver Rudolph. p. 199.
176 HABACUQUE 1.1-17

tes extrabíblicas fornecem informações substanciais a respeito da vida


de Habacuque. Da mesma maneira que Elias, bem como João Batista, o
profeta por excelência da Nova Aliança, Habacuque aparece meramente
como uma *‘voz” e nada mais. Ele deve ser ouvido porque é o portador
da mensagem de Deus, não por causa do que ele era pessoalmente.
O fato de que Habacuque “viu” sua mensagem provavelmente en­
fatiza mais o caráter revelacional da visão do que o modo pelo qual ela
foi comunicada. A mensagem viera diretamente do próprio Deus, e não
do subconsciente do profeta.
A mensagem de Habacuque é distintiva, tanto em estilo quanto em
conteúdo. Além do paralelismo que se pode esperar num livro profético,
a mensagem de Habacuque introduz estilos importantes. O mais notável
é o diálogo do capítulo 1. Mas os cinco ais do capítulo 2, bem como o
salmo completo do capítulo 3, oportuno para uso em celebração, tam­
bém são dignos de nota.
A despeito desta diversidade de formas, a mensagem do profeta tem
uma unidade ímpar. O tema subjacente do livro pode ser resumido como
segue: iima fé sólida confia humildemente, porém persislenfemenle,
nos designios de Deus a fim de estabelecer a justiça na terra.
De modo notável, dá-se ao leitor o privilégio de testemunhar o pro­
gresso singular do próprio profeta se submetendo a um novo conceito
dos propósitos do Senhor entre Israel e as nações. A ideia de cresci­
mento ou maturação da fé é essencial para se apreciar o caráter desta
profecia. Confiança nos propósitos do Senhor, a despeito de percep­
ções confusas do que precisamente ele está formulando, repousa no
centro do pensamento de Habacuque. Num crescendo, as intenções do
Senhor vão ocupando posição no primeiro plano enquanto o profeta se
digladia com as revelações progressivas.

I. O DIALOGO DE PR O T EST O (1.2-17)


A forma de diálogo direto com Deus é distintiva em si mesma,
como um modo de revelação profética. Mas a observação cuidadosa
dos particulares dessa forma como se encontra em Habacuque revela
outros elementos dignos de nota.
HABACUQUE 1.2-17 177

O profeta fala como um indivíduo que se dirige a Deus, mas o


Senhor responde a uma pluralidade de pessoas em vez de exclusiva­
mente ao profeta. Essa divergência de recipientes do discurso é apro­
priada segundo a perspectiva de ambos: Deus e o profeta. Habacuque
sofre com o senso de solidão como consequência da desavença criada
pela violência que o povo de Deus tem sofrido nas mãos uns dos ou­
tros. Ele se dirige a Deus como uma voz isolada, embora fale em bene­
ficio de outros em sua posição como mediador profético. Então o Se­
nhor responde, não como a ignorar a agonia do profeta, mas o incluin­
do entre os demais espalhados por todo o Israel, que permanecem fir­
mes na fé, a despeito de sua perplexidade.
Até mesmo o modo empregado pelo profeta em registrar a resposta
divina merece comentários. É evidente que uma mudança de oradores
ocorre em 1.5. Em resposta a um indivíduo isolado que se dirige a
Deus (“Até quando, ó S e n h o r , eu clamarei por socorro?”, v. 2), o Se­
nhor em pessoa se dirige a todo seu povo (“Olhai [vós] entre as nações
e vede”, v. 5). Todavia, o profeta não emprega nenhuma das fórmulas-
padrão de introduzir um oráculo divino; por isso o leitor é deixado à
mercê de seus próprios meios para determinar quem parece ser o ora­
dor num dado momento do diálogo. Somente ao chegar em 2.2 é que o
orador é especificamente identificado.
Esse estilo literário particular realça a dramaticidade do diálogo.
A natureza crítica da situação demanda exatidão de abordagem, e o
livro de Habacuque enuncia a palavra de Deus numa forma que se amolda
à situação. Em vez de falar primeiramente ao profeta como um indiví­
duo, Deus fala diretamente ao seu povo.

A. O PORTA-VOZ PROFÉTICO SE OUEIXA


CONTRA AS ORAÇÕES NÁO RESPONDIDAS
POR ALÍVIO DA INJUSTIÇA (1.2-4)

2 a Até quando, ó Senhor, clamarei por socorro?


b Mas não! Tu não escutarás,
a Eu clamo a ti: Violência!
h Mas não! Tu não salvarás.
178 HABACUQUE 1.2-4

3 a Por que me fazes assistir


b a tribulação?
b No sofrimento
a tu me forças encarar.
A pilhagem e a violência me confrontam;
há intrigas, e a contenda se suscita.
4 Por esta causa,
a a lei
b se afrouxa:
a a justiça
b não é executada como se deve.
Porque o perverso cerca o justo;
por isso a justiça se manifesta pervertida

2-3. Duas expressões introduzem a queixa do profeta: Até quando?


e Por quê?. A primeira implica que o profeta já gastara tempo em peti­
ção a Deus em decorrência de sua profunda preocupação com as cir­
cunstâncias prevalecentes em seu tempo. Vezes sem conta ele se vol­
vera com seu coração partido a fim de orar a respeito da terrível situa­
ção. Finalmente, ele chegara a ponto de manifestar seu espanto ante o
silêncio de Deus. Ele não consegue entender como o Todo-Poderoso
podia permitir a situação perdurar ainda por mais tempo.
2. E provável que o profeta granjeasse algum consolo, caso se lem­
brasse que 0 próprio Senhor foi o primeiro a clamar “Até quando?”.
Muito tempo antes de Habacuque começar sua luta com o problema da
prevalência do mal, da opressão e da injustiça, o Justo já havia pergun­
tado “Até quando?”. A graça de Deus já havia perguntado “Até quan­
do?” assim que Israel desconsiderou a bondade envolvida em outorgar
uma dupla porção de maná no dia antes do sábado (Êx 16.28). Quando
o povo demonstrou sua incredulidade em aceitar o relato dos espias
céticos, o Senhor perguntou: “Até quando?” (Nm 14.11). Não há dúvi­
da de que o Senhor era solidário às agonias de seu profeta. Embora sua
própria longanimidade explique sua demora em estabelecer a justiça,
não obstante agoniza com seu povo em sua dor.
Essa perspectiva pode fornecer um contexto apropriado para res­
HABACUQUE 1.2 179

ponder à indagação se o profeta permanecia dentro dos limites da pro­


priedade formulando essas perguntas. Visto que a oração é dada espe-
cificamente como o veículo por meio do qual todos os fardos do povo
de Deus podem ser depositados perante o Senhor, orações expressando
perplexidade são aceitáveis, contanto que sejam oferecidas num con­
texto de confiança. Enquanto o mistério da iniquidade estiver em ope­
ração, o povo de Deus deverá ansiar fervorosamente por alívio de sua
dor. Até mesmo os santos em perfeição são representados como ansi­
ando pela justa retribuição que deve cair sobre o perverso, chorando
em alta voz: “Até quando?” (Ap 6.10). Se a deficiência da fé de seus
discípulos em realizar milagres leva o Mediador da Nova Aliança a
formular a pergunta: “Até quando?”, ele deveria ter paciência, não de­
veria ficar perplexo ao encontrar um profeta da Velha Aliança, inda­
gando: “até quando” o Senhor iria tolerar as injustiças grosseiras de
seus contemporâneos (cf Mt 17.17)?
O teor da queixa do profeta gira em torno de uma oração não res­
pondida. Ele tem clamado por alívio da injustiça; e não tem recebido
resposta. Uma revisão da história pregressa em parte explica as perple­
xidades desta circunstância. No tempo da insistência de Israel em esta­
belecer a monarquia, o Senhor os alertou por meio de seu servo: “Cla­
mareis por causa de vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor
não vos responderá naquele dia” (ISm 8.18). A consumada conse­
quência de rejeitarem a Deus como seu rei é que a ímpia monarquia os
levaria a um estado de opressão. Então o Senhor não iria ouvir seu cla­
mor por alívio. O profeta clama, porém o Senhor não ouve. A perversida­
de atraída por Manassés e seus predecessores havia selado o destino de
Israel. Entregues a si mesmos, eles sofrem abusos intermináveis.
Frequentemente, as referências relativas ao povo de Deus claman­
do em agonia são equilibradas pela afirmação de que Deus ouvira seu
clamor (Êx 2.23; Jz 3.9; SI 22.6,25 [Eng. 5,24]; 30.3 [Eng. 2]; 72.12;
Jn 2.3 [Eng. 2]; Is 58.9). Mas, também aparecem indícios de que o
pecado do povo de Deus pode levar o Senhor a não responder pronta­
mente com livramento quando clamam. No período dos Juízes, o Se­
nhor forçou 0 povo a recordar seu pecado antes que pelo menos ele
desse algum sinal do livramento (Jz 6.7). O salmista dá a entender que
180 HABACUQUE 1.2

um período prolongado de oração precedeu seu próprio livramento (SI


22.7 [Eng. 6]). Particularmente Jó, como um personagem sábio, admi­
ra-se da falta de resposta da parte de Deus ao seu clamor. Sua lingua­
gem é notavelmente paralela àquela encontrada em Habacuque:

Jó 19.7 ’es'aq hãm ãs


w^lõ’ ’ê'ãneh
Eis que clamo: “Violência!”
e tu não respondes.
Habacuque 1.2 ’ez'aq ’êleykã hãm ãs
w^lõ’ tôsia
Eu clamo a ti: “Violência!”
e tu não me ouves.

Na realidade, somente a sabedoria de Deus pode responder a essa


indagação reconhecidamente perplexiva da oração por livramento que
pennanece sem atenção e sem resposta.
Inconscientemente, o profeta poderia ter pressentido um aspecto de
maior alcance na resposta à sua própria indagação, como se vê na for­
ma dessa pergunta. Quando denuncia sua angústia causada pela vio­
lência (hãmãs) na terra, ele ecoa a descrição das circunstâncias preva­
lecentes nos dias do dilúvio. Naquele tempo a terra estava também
“cheia de violência” (cf. Gn 6.11,13). Mas agora a situação prevale­
cente é ímpar no sentido em que aqueles que se põem à parte a fim de
compor o povo de Deus são os próprios instigadores de violência entre
si.' Por essa razão, o juízo terá de começar pela casa de Deus. Visto
que violaram as estipulações da aliança, eles terão de sofrer as maldi­
ções previstas na aliança sancionada centenas de anos atrás: “serás
oprimido e roubado todos os teus dias, e ninguém haverá que te salve”
(Dt 28.29).

1. Os propagadores de violência não podem ser os caldeus, pois estes serão os instrumentos
do juízo de Deus (v. 6). Não podem ser os assírios, pois estes não podem ser convincente­
mente caracterizados como sendo “mais justos” que os caldeus (v. 13). O abuso da Torá
aponta para o próprio povo de Deus como sendo aquele que oprime a seu próximo.
HABACUQUE 1.2-4 181

Uma complicação adicional nesse caso é vista no fato de que Haba-


cuque se põe entre os inocentes e não entre os propagadores de violên­
cia. Como um mediador profético, sua petição é oferecida em favor de
todo o remanescente fiel. Então, por que essa oração não é respondida?
É nesse contexto que o profeta registra seu protesto ante o Senhor.
Em vista da intenção divina em manter um povo separado para si, como
negaria ele providenciar livramento em circunstâncias tão desespera-
doras?
3. Os pontos específicos da queixa de Habacuque são citados com
mais clareza em três pares; tribulação e sofrimento,pilhagem e violên­
cia, intriga e contenda? Anteriormente, Balaão ponderara sobre a bên­
ção do povo de Deus observando que ele não conseguia encontrar “tri­
bulação” {’ãwen) e “sofrimento” (ã m ã l) em Israel (Nm 23.21). Mas
agora a nação inteira era assolada por essas aflições. Tanto o pecado
quanto suas consequências prevalecem em todo o país.
4. Nesta situação, a posse da lei não estava sendo de valia alguma
para Israel. A lei de Deus se afrouxa. Sua sensibilidade à causa do
direito tem sido sufocada. A melhor lei do mundo de nada aproveita se
seus estatutos não são mantidos. O perverso é mais numeroso do que o
justo, o cerca e impõe sua própria vontade sobre o povo. Ajustiça não
é exercida, ela é pervertida. A pior coisa que uma pessoa Justa poderia
fazer seria apelar para o tribunal da terra a fim de Julgar sua causa. Pois
com toda certeza a decisão seria contra tal pessoa.^

2. A compreensão precisa desses termos neste contexto é dificil. ’Swen e 'BmSl podem
descrever as consequências decorrentes do pecado (problemas, dores, trabalhos, tristezas,
como em Gn 3.S. 18; SI 7.15 [Eng. 14]; 10.14; Jr 20.18), ou o pecado que traz essas circunstân­
cias (iniquidades, perversidade: malícia, mal, como em Jó 34.36; Is 1.13; SI 7.17 [Eng. 16]).
Sõd pode descrever “devastação” em geral ou “pilhagem” como uma maneira em particular
em que esta devastação ocorre, rí^ pode comunicar a ideia geral de “contenda” ou pode
indicar mais especificamente um “processo” como uma maneira formal de instigar litígio.
3 .0 comentário de Habacuque nos Rolos do Mar Morto ( IQpHab) interpreta “o justo” (na
forma singular) como se referindo a móne/i ha^sedeq.“o mestre da justiça”. W. H. Brownlee,
The Midrash PesherofHabakkuk, SBL Monograph 24 (Missoula: Scholars Press, 1979), p.
46, eonjetura que a porção que falta no comentário deste versículo interpretado como “o
perverso” (também na forma singular) se refere ao mau .sacerdote. Desta maneira, o rolo
teria introduzido, nesse ponto inicial, os dois antagonistas principais. Brownlee considera
essa análise como sendo apropriada, visto que “o texto em si indica um homem justo per.se-
182 HABACUQUE 1.5-11

Então o profeta apresenta sua queixa. E ela é de fato procedente. Ele


não consegue encontrar justiça entre o próprio povo de Deus. Em vez
disso, uma perversão brutal da lei de Deus impera sobre a terra. O povo
justo do Senhor sofre abusos intermináveis. As orações dos devotos
ficam sem resposta. Como o Senhor explicaria essa terrível circunstân­
cia e a ausência de resposta ao clamor do profeta mediador?

B. O SENHOR REVELA SEU TERRÍVEL INSTRUMENTO


DE RETRIBUIÇÃO (1.5-11)
Nesse momento entra em cena a resposta divina. O Senhor ouvira
pacientemente a queixa do profeta. Visto ser a resposta divina dada a
uma pluralidade de pessoas, pode-se presumir que Habacuque era vis­
to como o porta-voz de um grupo de pessoas em vez de simplesmente
dele apenas.
A resposta do Senhor às queixas do profeta é surpreendente. É in­
teressante observar que de modo algum o Senhor questiona a análise
de Habacuque com respeito às circunstâncias reinantes na nação. O
Senhor concorda com a acusação profética contra o comportamento do
povo pactuai. A violência impera. Litígio, contenda, pilhagem e perver­
são da justiça permeiam a nação.
A anuência do Senhor a todos esses relatos teria desarmado o profe­
ta, até certo ponto. Ele não podia mais objetar que o Senhor não via a
corrupção da terra. E possível que Habacuque não tenha ficado plena­
mente desarmado ainda. Mas o processo havia começado.
A total ausência de repreensão ao queixoso também deve ser avaliada
do ponto de vista de seu efeito abrandado. A agonia do profeta encontra
a plena simpatia da parte do Senhor a respeito do sofrimento dos justos.
Embora nutrindo também maior preocupação, o Senhor conhece e sim­
patiza por aqueles que estão rodeados pelos perversos.

guido. que é o objeto da injustiça procedente do homem perverso”.


Conquanto IQpHab seja intrigante pela visão que fornece da situação histórica da comu­
nidade de Qumran, não parece provável que Habacuque tivesse a intenção de se referir a um
sofredor justo, singular, que é a vitima de um único adversário. Em vez disso, a hermenêutica
da comunidade do Mar Morto reforçou sua circunstância histórica nas palavras de
Habacuque.
HABACUQUE 1.5 183

O caráter formidável da revelação do Senhor se relaciona com a


grandeza da resposta divina que paira sobre o horizonte da história.
Quando esta iminente realidade é avaliada, toma-se óbvio que o Senhor
percebe o problema ainda mais profundamente do que o profeta o faz. E
assim, sua solução para o problema parece esmagadora.
Como uma preparação para manifestar sua resolução a esta injusti­
ça, o Senhor adverte usando palavras pressagiosas sobre as coisas es­
pantosas que 0 profeta e o povo veriam (v. 5). Então ele identifica
especificamente o instrumento que preparara para executar o Juízo (v.
6a). Finalmente, ele caracteriza com uns vinte detalhes a força iminen­
te da retribuição (vs. 6b-11 ).

/. Preparação para a revelação do instrumento da retribuição


divina (1.5)

5 Olhai entre as nações


e vede!
Ficai atônitos!
Maravilhai-vos!
Porque eu' estou fazendo uma obra em vossos dias;
não crereis
mesmo que fosse contada.

Deus não é nenhum alarmista. Mesmo assim ele reúne nada menos
que quatro palavras de alerta para despertar os recipientes desta men­
sagem: Olhai! Vede! Ficai atônitos! Maravilhai-vos! O profeta havia
apresentado um problema perplexivo. A resposta divina é de natureza
tão esmagadora, que até mesmo esse tipo de alarme não é excessivo
em preparar o povo para sua recepção.

1. GKC, § I I6s, expressa incerteza acerca da possibilidade de um pronome da primeira


pessoa servir de sujeito subentendido de um particípio em hebraico. Em vista desta conside­
ração, Rudolph. p. 203 n. 5 (c) sugere um passivo indicativo (Pa‘ul em vez de Po‘el; um
trabalho “está sendo feito”). Brownlee, Midrash, p. 54, favorece “ele está trabalhando”.
Contudo, o sujeito subentendido da primeira pessoa não é excluído por GK.C. A LXX traduz
egõ ergázomai: e o versículo seguinte de Habacuque indica que Deus é de fato o sujeito
(“Pois eis que [eu] suscito os caldeus” - e.xegeirõ).
184 HABACUQUE 1.5

O anúncio do juízo iminente que lhes sobreviria recebe vigor extra


no fato de que ele ocorre sem introdução. Nenhuma fórmula do tipo “o
Senhor respondeu, dizendo...” ocorre. Contudo, é óbvio que ocorreu
mudança de orador, e que Deus agora se dirige ao povo e a seu profeta.
O chamado para se pôr de prontidão, no versículo 5, está no plural; e
no versículo 6 o orador declara que está suscitando uma nação estran­
geira para Julgar Israel. Uma ação de tal supremacia só poderia ser
realizada pessoalmente pelo Todo-Poderoso.
Quais são as pessoas alcançadas por essas admoestações? Estaria o
Senhor se dirigindo à nação israelita como um todo? Estaria ele procu­
rando alertar o remanescente fiel a quem Habacuque serve de porta-
voz? Ou essas terríveis palavras de juízo são dirigidas mais diretamente
aos perversos dentre a nação que deverão receber em si mesmos o im­
pacto da terrível obra de devastação divina? A resposta a essa questão
depende muito da tradução adotada do texto original do oráculo.
E preciso levar em conta duas opções textuais:
(I) “Olhai entre as nações” (r^’âbo.ggôyim), (2) “Olhai, vós que
agis traiçoeiramente” {r^’ü èõg^dí/n). A primeira possibilidade é apoiada
pelo TM e alguns manuscritos gregos, enquanto que a segunda versão é
apoiada pela LXX, pela IQpHab e pelo texto do NT (At 13.41). É
difícil fazer uma escolha entre essas duas opções. Deve-se reconhecer o
pleno peso dos textos hebraicos sobreviventes, como representados na
tradição massorética. Ao mesmo tempo, deve-se avaliar o testemunho
conjunto da LXX, 1QpHab e o NT.
Ao avaliar a evidência que apoia outra tradução, em vez da que é
apresentada no texto hebraico sobrevivente de Habacuque, deve-se ob­
servar muitos fatores.“ Com referência à versão da LXX, deve-se pri­
meiramente reconhecer que o termo grego escolhido na verdade sig­
nifica “vós desprezadores” ou “vós levianos” (kataphroríêtaí), que não
é exatamente o mesmo que “vós que agis traiçoeiramente” (bõg^dim).
Não surpreende, pois, descobrir que, de mais ou menos 50 vezes em
que 0 termo hebraico bãgad é encontrado no TM, os tradutores da
2. Deve-se ressaltar, a esta altura, que a versão baggôyim é a única apresentação existente
do texto em hebraico. 1QpHab traz bwgdym em seus comentários interpretativos, mas o
texto em si não tem este ponto.
HABACUQUE 1.5 185

LXX escolheram o uso de kataphronéo somente umas cinco vezes, ou


seja, 10% do total.
Entretanto, visto que o mesmo particípio plural bõg^dim em Ha-
bacuque 1.13 é traduzido pela LXX por kataphronéo, e o particípio
singular bôgêd em 2.5 é traduzido na LXX por kataphronêtês, a mai­
or possibilidade é que a LXX apoia também uma versão de bãgad em
Habacuque 1.5.
Uma segunda consideração desfruta de algum peso na avaliação
do testemunho da LXX. As palavras “e perecem” (kai aphanisthête)
são introduzidas pelos tradutores da LXX, aparentemente com base no
texto hebraico. A introdução dessas palavras pode indicar que os tradu­
tores gregos sentiram que havia algo de incompleto no pensamento da
passagem quando traduziram sem tal adição. Se o TM for seguido, a
admoestação de “Olhai entre as nações” é completada mui naturalmen­
te pela referência no versículo seguinte àquela “nação” em particular
(os caldeus), a qual o Senhor iria suscitar. Mas se a LXX for seguida,
nada nos versículos seguintes completa de modo satisfatório o pensa­
mento iniciado ao dirigir-se aos “escarnecedores” a que “Olhai... Vede”.
Qual lhes seria a consequência, especificamente, quando Deus susci­
tasse os caldeus? Embora seja possível concluir que a implicação era
que “pereceriam”, a LXX sentiu a necessidade de preencher o pensa­
mento acrescentando este comentário. Este fator oferece algum apoio
em favor da engenhosidade do TM, pois ele tem a vantagem de apre­
sentar um pensamento completo no contexto.
É preciso fazer também alguns comentários a respeito da evidên­
cia fornecida pelo IQpHab. Este documento em particular é bastante
significativo graças ao fato de que cerca de 80% do texto dos dois
primeiros capítulos de Habacuque foram preser\'ados a partir do século
2® a.C. Esta apresentação do texto é inserida entre comentários inter-
pretativos.
Entretanto, o texto da porção crucial desse versículo em Habacuque
não foi preservado. Somente com base na conjetura dos seguintes co­
mentários interpretativos é que uma versão pode ser reconstruída. Vis­
to que se faz uma referência a bõg^dim no comentário interpretativo
que segue ao espaço em que o texto de Habacuque 1.5 existira anterior­
186 HABACUQUE 1.5

mente, pode-se fazer uma interpretação plausível ao presumir-se que o


texto traria o mesmo conteúdo.
O assunto, porém, não pode ser encerrado com total segurança.
Pois é bastante claro que em seu zelo para contemporizar a mensagem
de Habacuque, os escribas de Qumran, em suas interpretações, afasta­
ram-se radicalmente do texto da profecia. No versículo seguinte, a re­
presentação que fazem do texto bíblico claramente traz kaédim , iden­
tificando os “caldeus” como sendo a nação que se levantaria, em com­
pleto acordo com o TM. Mas, em seu comentário, os escribas escreve­
ram kittím, evidentemente referindo-se, de uma maneira velada, aos
romanos contemporâneos.
Em oposição ao texto massorético, “Olhai entre as nações”, tem-se
argumentado que não se faz nenhuma referência às “nações” nos versí­
culos subsequentes de Habacuque.^ Mas esse argumento se baseia numa
premissa falsa. Pois é exatamente o versículo seguinte que faz referên­
cia aos caldeus como sendo “a nação” (Hc 1.6). Certamente a identifi­
cação de uma única “nação” como o instrumento de juízo divino é
apropriado como um desenvolvimento da admoestação para “Olhai entre
as nações”.
Um problema de certa importância emerge com o contexto de
Habacuque se for adotada a versão apoiada pela LXX e 1QpHab. Se os
recipientes da mensagem forem identificados como sendo os “traido­
res” (bog^dim), então o profeta Habacuque fica excluído do rol da­
queles a quem a mensagem divina é dirigida. Ele apresentara a questão
em favor do remanescente de Israel. Mas a resposta de Deus não se
dirigia a ele especificamente, pois ele não seria incluído dentre os “trai­
dores” a quem o vocativo se referia.
Quando se pesam todas essas variadas considerações, o TM parece
ser afinal o preferível.'* O profeta está embasbacado com a violência

3. Brownlee, Midrash, p. 54.


4. O NT só pode ser considerado como uma testemunha do texto do AT em termos secun­
dários. Uma citação da LXX pelo NT não envolve endosso intencional do texto grego como
representando a testemunha mais fiel. Para maiores comentários sobre este assunto, ver O.
Palmer Robertson, “Genesis 15.6: New Covenant Expositions o f an Old Covenant Text”,
WTJ 40/2 (1980), p. 279,280.
HABACUQUE 1.5 187

sofrida pelo povo de Judá. Deus, porém, lhe diz que olhasse para o
cenário internacional.
O profeta deve alargar sua visão dos propósitos divinos. Ele deve
avaliar os intentos do Senhor entre as nações ímpias bem como entre
Israel.’
Então a admoestação do Senhor para olhai, ficai atônitos e maravi-
Ihai-vos é dirigida à nação pactuai. Todo seu povo deveria sentir-se
perplexo ante o juízo terrível e iminente, pois nada menos que toda a
nação iria ser atingida por esse juízo. Ordena-se ao povo pactuai de
Deus que assista a tempestade levantando-se, que a observe atenta­
mente à medida que avança e se aproxima, e que se espante ante a
força com que ela fmalmente se choca com o próprio Israel.
Não apenas o caráter quádruplo da admoestação, mas também a
combinação característica das palavras ressalta a intensidade com que
Judá haveria de maravilhar-se com a revelação ora a caminho.* O sal­
mista de Israel ensinara à nação de Israel como dramatizar os livra­
mentos de Jerusalém efetuados pelo Senhor em sua adoração:

Quando os reis uniram forças,


quando eles avançaram juntos,
bastou-lhes vê-lo e se espantaram,
tomaram-se de assombro [hêmmã rã”ú kên tãmãhu]
e fugiram apressados (SI 48.5,6 [Eng. 4 ,5]).

Mas agora a palavra do Senhor reverte plenamente esse fenômeno.


Israel é que terá de olhar entre as nações com o intuito de ver e assom-
brar-se (r^’ü...t^mãhú). Pois um juízo terrível sobrevirá ao próprio
povo pactuai. Porventura Israel não fora alertado? A nação não ouvira
regularmente as leituras da lei do Senhor que castigaria Israel com

5. Outros que apoiam o TM em detrimento da LXX incluem-se M. Burrows, The Dead


Sea Scrolls (Nova York: Viking, 1955), p. 265; G Vermes, Dead Sea Scrolls in English
(Baltimore: Penguin, 1963), p. 276; L. K. Silberman, “Unriddling the Riddles. A Study in
the Structure and Language of the Habakkuk Pesher", RevQ 3/2 (1961), p. 335,336.
6. As formas hittamm^lui l^mãhii combinam um imperativo Hithpael e Qal da mesma raiz
para realçar o espanto com que sua visão do juízo iminente de Deus deveria ser saudado.
Note a combinação semelhante das formas com a mesma raiz em Isaías 29.9.
188 HABACUQUE 1.5

“loucura, com cegueira e com perturbação de espírito” {b^timhôn lebab


- D t 28.28, AV)?
O evento particular por meio do qual Israel seria admoestado afinal
tinha de ser visto não como um exemplo de brutalidade humana, mas
como a maravilhosa obra de Deus. O próprio Senhor afirma sua iniciati­
va em trazer os caldeus como seu instrumento de juízo, quando diz; “re­
alizo... obra tal... eis que suscito um instrumento de juízo terrível”.
Parte do caráter maravilhoso dessa obra de Deus é que ela seria
realizada durante a vida dos ouvintes dessa profecia. Este evento ocor­
rerá em vossos dias, diz a palavra do Senhor.
A rapidez na execução do juízo é característico da atividade do
Senhor ao longo dos tempos. Embora extremamente paciente e tolerante
para com os pecadores rebeldes, o Senhor não é lento uma vez que
determinou que a iniquidade do povo havia enchido a medida e que a
hora do juízo chegou.
Esta mesma rapidez em executar um decreto de retribuição também
caracteriza a atividade de Deus sob as provisões da Nova Aliança. To­
dos os sinais antecipando a consumação do juízo tinham de ser cumpri­
dos na própria geração de Jesus (Mt 24.34). Contudo, a rapidez de sua
aparição assegura que o povo permanecería despreparado até mesmo
no dia de sua vinda (Mt 24.36-44). Incrível! A maravilha que Deus vai
anunciar ao povo simplesmente extrapola a credibilidade. O mistério
dos caminhos de Deus deverá permear este feito particular de tal modo
que 0 povo não será capaz de aceitar sua realidade.
Aparentemente, essas palavras têm a intenção de descrever o incrí­
vel caráter desse evento, ainda quando ele se compararia aos eventos da
salvação de Deus no passado. Os israelitas costumeiramente recorda­
vam as obras maravilhosas dos atos anteriores à salvação divina (Jz
6.13; SI 44.2 [Eng. l];75.2[Eng. 1]; 78.3). Mas, mesmo que este even­
to que ora está sendo profetizado fosse apresentado como um ato do
poder de Deus, ele não seria crido.’ O chamado de Ur dos caldeus, os
poderosos feitos associados ao êxodo e à conquista poderíam ser acei-

7. A LXX interpretou eorretamente os tempos verbais imperfeitos hebraicos pelo uso dos
subjuntivos gregos (pisteúsête ... ekdiêgètaí).
HABACUQUE 1.5 189

tos como verdadeiros. Mas um juízo com tal devastação como ora se
descreve não poderia ser crido.
O que precisamente torna essa obra divina tão incrível? Muitas
facetas poderiam ser observadas, inclusive a rapidez da ascensão ao
poder do instrumento do juízo divino, a intensidade do juízo futuro e o
fato de que o próprio Deus estará envolvido nesta ação.* O mais incrí­
vel, porém, é o fato de que o próprio povo de Deus podia ser lançado
fora, nas mãos dos gentios mais perversos do que eles. Mistério tão
profundo encobre este aspecto do desígnio de Deus, a ponto de não
poder ser penetrado pela mente humana. O profeta Habacuque havia
orado desejando algum tipo de purgação do elemento perverso da na­
ção. Mas a resposta divina fala de uma devastação tão completa, que
espanto ainda maior invadiria a mente piedosa do profeta.
É mais instrutivo observar que esta mesma sentença a respeito do
incrível caráter do juízo iminente de Deus foi empregada por Paulo
para alertar os judeus que se mostravam empedernidos contra sua pro­
clamação e os atos salvíficos de Deus contidos na morte e ressurreição
de Jesus, o Messias (ver At 13.3ss.). Longe de estar simplesmente to­
mando emprestado de Habacuque uma forma de expressão, Paulo cap­
ta a emoção da mensagem do profeta e aplica sua espantosa visão aos
caminhos de Deus com seu povo de seu próprio tempo.
Se o princípio de citação contextual tiver validade, a aplicação de
Paulo, das palavras de Habacuque, nessa altura implica muitas coisas.
Primeiro, ela implica uma unidade da mensagem do livro de Habacuque.
Estruturalmente, o livro manifesta de forma clara essa unidade. Mas a
citação de Paulo implica ainda que a mensagem do capítulo 1 sobre o
juízo iminente contra Israel só pode ser entendida adequadamente quan­
do é vista como apoio da mensagem a respeito da justificação pela fé
encontrada no capítulo 2. Por meio da devastação daqueles que pensa­
vam ser justificados por meio de suas obras, lança-se o fundamento
para a mensagem da justificação pela fé somente.
Segundo, a citação de Paulo indica que no coração da justificação
fica 0 perdão dos pecados. Habacuque certamente estabelece esse fato.

8. Rudolph. p. 207.
190 HABACUQUE 1.5

pois no contexto total de sua profecia, ninguém pode permanecerjusto


em seus feitos. Somente a fé nas promessas de Deus pode abrir o cami­
nho para o perdão que é essencial para ser justo perante Deus a qual­
quer um e a todos os transgressores.
Terceiro, a aplicação direta das palavras de Habacuque, por Paulo,
a seus contemporâneos revela seu conceito da história da redenção.
Paulo não está apelando para um truísmo moralista quando alerta seus
ouvintes sobre a possibilidade de que o que o profeta disse pode sobre-
vir-lhes.® Em vez disso, ele está vendo a experiência do Juízo contra
Israel como antecipação do Juízo que sobreviria no contexto da procla­
mação escatológica do evangelho. Este terrível potencial de Deus vol­
ver-se contra os Judeus encontra seu cumprimento no sábado seguinte.
Os Judeus da cidade rejeitam a proclamação de Paulo, e este indica que
então os deixaria e iria para os gentios (At 13.44-46).
Esta análise da confiabilidade da citação de Paulo combina preci­
samente com os propósitos de Deus na história da redenção como de­
senvolvida por Paulo em passagens tais como Romanos 11 e Efésios 2.
Por meio do Juízo contra Israel, o caminho da salvação é aberto aos
gentios.
Quarto, a forma de citação em si indica que os apóstolos não se
preocuparam com o estabelecimento preciso do texto original de uma
passagem do Antigo Testamento antes de “citá-la”. Esta citação de
Habacuque inclui a frase adicional “e perecerá” {tai aphanisthête)
que não tem representação em nenhum texto hebraico em existência.
Sua origem pode ser melhor explicada como uma elaboração das im­
plicações do texto resultante da versão “vós, traidores”.'®Aqueles que
traíram o Senhor da aliança não se “maravilhariam” meramente com o
que está para vir; eles “perecerão” mediante o que está para vir.

9. A evidência manuscrita apoia mais fortemente a versào “vede que não venha” cm vez
de “vede que não venha sobre vós". Mas seria forçar o contexto pressupor que Paulo tinha
a intenção de dizer que nenhum cumprimento da profecia já havia ocorrido.
10. A inclusão das palavras “e perecerão”, na eitação do NT, indica a razão da presença de
"vós, traidores”, em vez de “entre as nações”, no NT, e não pode fornecer a palavra conclu­
siva sobre a questão concernente à versão original do texto hebraico.
HABACUQUE 1.6a 191

Em sua citação, Paulo foi veraz para com o tema central de Haba-
cuque, até mesmo a ponto de indicar uma consciência da unidade te­
mática do livro. Ele introduziu a profecia no arcabouço de seu signifi­
cado escatológico. A queixa contra “violência” praticada por innão
contra irmão (Hc 1.2) agora encontra sua evidência mais forte na en­
trega de Jesus a Pilatos, para ser executado, ainda que não se achasse
nenhuma razão plausível para tal ação (At 13.28). Deus, porém, ao
levantá-lo da morte, indica a singularidade de Jesus Cristo no progra­
ma da redenção em andamento.

2. Identificação do instnimento específico para a retribuição divina


(1.6a)
6a Pois eis que suscito os caldeus.'

O termo traduzido por caldeus (kaédim) é usado regularmente no


Antigo Testamento para o império neobabilônico fundado por Nabo-
polassar (626-605 a.C.) e alcançou seu poder máximo sob Nabuco-
donosor (605-562).^ Eles eram especialmente a preocupação central na
profecia de Jeremias, visto que constituíam eventualmente a nação que
levou Israel ao cativeiro.^ É bastante notável observar como foi rápida a
ascensão desta nação ao poder, a extensão de seu domínio, e igualmente
rápido 0 declínio de sua preeminência. Este incidente internacional res­
salta bem a preeminência da mão divina em soerguer e também em
derrubar. Quem haveria de acreditar que uma entidade virtualmente não-
existente poderia conquistar a velha capital da Assíria em 614, Nínive
em 612, Harã em 610 e a rota de Faraó Neco em Carquemis, em 605?
Eles se tomaram os dominadores do mundo sobre a Babilônia, Assíria,

1. A substituição feita por Bcmhard Duhm de kaédim por k ittim e a aplicação do termo ao
tempo de Alexandre, o Grande, são fortemente contestadas por Rudolph, p. 206. Ele consi­
dera tal interpretação como sendo contraditória a todos os métodos exegéticos saudáveis.
Interessante é que a IQpHab traz kaédim . em apoio ao MT, porém interpreta o termo
como referência a Kittim, aparentemente os gregos ou os romanos mais contemporâneos.
Esta interpretação concorda com sua intenção de denunciar o judaísmo contemporâneo por
sua aliança com os romanos.
2. Cf. 2 Reis 24.2; 25.4-5,10.13,26; Isaías 13.19; 43.14; 48.14.20; Ezequiel 23.14,23; 2
Crônicas 36.17.
3. Jeremias 21.4,9; 22.25; 32.4-5,24-25,28-29,43; 35.11; 37.9-10; 39.5.
192 HABACUQUE 1,6a-11

Síria, Palestina e Egito, sendo que vinte anos antes ninguém nem mes­
mo sabia que existissem. No entanto, sua energia se dissipou quase tão
rapidamente que foram facilmente vencidos por Ciro, rei da Pérsia, em
539, na hora certa de cumprir a profecia de Jeremias a respeito da volta
de Israel dentro de setenta anos (Jr 29.10). Os caminhos do Senhor entre
as nações de fato são assombrosos. “Não por seus instintos, mas pelo
impulso secreto de Deus”, as nações se levantam e caem.“*
E realmente notável observar a clareza do anúncio a respeito do
instrumento designado para o juízo divino. O controle do Senhor sobre
as nações é tão imenso que ele ordena sua ascensão e sua queda de
acordo com seus próprios planos e propósitos. Ele pode decidir disper­
sar seu povo entre os ímpios como uma maneira de escolher para si um
povo dentre todas as nações. Contudo, essa dispersão ocorrerá em per­
feita coordenação com o tempo em que seu próprio povo está pronto
para receber o Juízo por causa de sua persistente rebelião ao longo dos
séculos.

J. Caracterização cio instrumento do julgamento de Deus (1.6b-II)


Depois de preparar o povo para a revelação deste incrível instru­
mento de juízo e identificar o instrumento mais especifícamente, o
Senhor caracteriza a nação que deverá julgar seu povo. Cerca de vinte
características são enumeradas, várias delas apresentadas em pares.

6b Essa nação amarga e impetuosa,


que cobre a latgura da terra
para tomar posse de territórios
que não lhe pertencem por direito.
1 Ela é pavorosa e terrível,
de si mesma fará sair sua (própria) justiça e honra.
8 Seus cavalos
a são mais ligeiros
h que leopardos,
a e são mais perspicazes
b que os lobos ao anoitecer.

4. Joâo Calvino. p. 27.


HABACUQUE 1.6b-11 193

Seus cavaleiros
galopam (furiosameníe);
sim, seus cavaleiros
a virão
b de longe;
a voarão
b como abutre que se precipita a devorar.
9 Cada um deles virá
para violência;
a aparência de seus rostos
é de seguir em frente.
E reunirão como a areia
os cativos.
10 Assim ele'
escarnecerá dos reis;
e os soberanos
são objeto de seu riso.
Ele
rirá
de cada fortificação;
porque amontoará pó,
e o levará.
11 Então,
seu espírito muda
e ele fica furioso
e peca.
Esta
sua força
é seu deus.

1.0 pronome masculino “ele” (hü' ) é usado neste versículo para se referir à nação em vez
do mais comum uso de “ela”, tiú' também aparece no versículo 7, mas o pronome inglês
neutro “it” parece se encai,\ar melhor no contexto.
194 HABACUQUE 1.6b

6b. Amarga e impetuosa. Não apenas uns indivíduos isolados, mas


essa nação inteira pode ser caracterizada como irritadiça e amarga.
Como uma ursa cujos filhotes foram roubados, essa nação poderosa
ataca irracionalmente em todas as direções (ver 2Sm 17.8). Por causa
de sua amargura com respeito à vida, seus habitantes agem com cruel­
dade irracional e de maneira aleatória. A nação também age precipita­
damente. Visto que não queriam gastar tempo avaliando os fatos, todos
os povos que conquistavam sofriam grandes injustiças.
Cobre a latgura da terra. Um exército assustador e incerto avança
vagarosa e cuidadosamente; justamente em razão desse procedimento
ele propicia oportunidade a que muitos escapem das misérias que po­
deria infiigir. Mas esse povo orgulhoso, confiante da vitória, não hesita
em expor seus flancos ao inimigo. Sequer uma parte do mundo escapa
à sua tirania. Muitos líderes modernos, tais como Napoleão e Hitler,
destruíram seus exércitos estabelecendo uma tropa muito limitada em
um território grande demais. Mas essa nação reuniu tanta força que ela
nada teme.
E interessante que Apocalipse 20.9 ecoa precisamente a versão LXX
dessa frase. Satanás sai para enganar as nações. Suas tropas são nume­
rosas como a areia das praias. Sua vastidão é um arremedo da promes­
sa de uma semente inumerável feita a Abraão. Esse exército fabuloso
marcha “pela superfície da terra”. Seu alvo é o acampamento do povo
de Deus, a cidade que ele ama (Ap 20.9). Mas, segundo a experiência
do profeta de Deus, Elias, fogo desce do céu e devora esse exército
apocalíptico.
Habacuque, em sua visão, não havia ainda chegado ao ponto da
destruição das forças de Satanás. O exército que ele confronta ainda
possui a força e a ousadia de apoderar-se do mundo.
Tomar posse das habitações que não lhe pertencem por direito.
Este característico do instrumento do juízo divino contra seu povo soa
estranhamente familiar com a promessa feita a Israel durante a conquis­
ta da terra. Eles possuiriam os poços que não haviam cavado, as vinhas
que não haviam plantado, casas e cidades que não haviam construído
(Dt 6.10,11). Seria possível que esses babilônios agora passariam a
fazer parte da função que uma vez o povo de Deus exercera? Será que
HABACUQUE 1.6b-7 195

a posse da terra sagrada significaria que iriam herdar as promessas?


Uma palavra subsequente do Senhor a seu profeta indicará que o juízo
também virá sobre os babilônios (Hc 2.6-20). Mas agora a palavra de
profecia se concentra na função da nação gentílica como executora do
juízo divino.
Agora, pois, o que recebe a atenção é o deslocamento de Israel.
Num sentido bem real, Israel está sendo colocado na função que uma
vez foi exercida pelos cananeus antes deles. Justamente como aquele
povo que uma vez foi expulso de suas concessões porque sua iniquida­
de havia enchido as medidas, assim agora Israel será expulso de suas
possessões porque sua iniquidade está completa. O lugar de conforto,
de recreação, de prazer, de relaxamento, segurança e refrigério, seria
tirado deles.
O comportamento voraz dos caldeus serve desta maneira aos pro­
pósitos do Senhor. Ele fará uso da ira do homem para seu louvor. Seus
métodos opressivos serão um juízo apropriado contra o opressor.
7. Ele épavoroso e terrível. O tennopavoroso ( ’ãyõm) ocorre como
adjetivo somente aqui e em Cântico dos Cânticos 6.4,10, em que se
refere ao caráter “formidável” de “um exército com bandeiras”. Mas,
como substantivo ('emé), ele aparece frequentemente descrevendo o
terror instilado pelos dentes expostos de um crocodilo (Jó 41.6 [Eng.
14]), 0 resfolegar de um cavalo (Jó 39.20), ou a presença de Deus (Gn
15.12; Ex 15.16; Dt 32.25). Então esse inimigo que se aproxima rapi­
damente não virá com gentileza cumular juízo sobre Israel.
O segundo termo (nôrã’) pode ser traduzido por “impressionante”,
“medonho”, “terrível” ou “espantoso”. De qualquer modo, ele descre­
ve uma resposta ao pavor medonho que pode inspirar um deserto cheio
de serpentes abrasadoras, escorpiões e sequidão (Dt 1.19; 8.15), uma
nação hostil (Sf 2.11), os poderosos feitos de Yahweh (Êx 34.10; cf.
15.11), ou a confrontação direta com o próprio Senhor (Gn 28.17). Mas
agora o recuo do pavor será promovido pelo exército invasor. Os ater­
rorizados serão os da comunidade pactuai.
De si mesmo virá sua (própria) justiça e honra. “Autônomo” resu­
me esta característica do instrumento com que Deus haveria de empre­
gar no juízo. De fato, paradoxal é esta circunstância. O Deus Todo-
196 HABACUQUE 1.7-8

Poderoso, que é zeloso no sentido em que somente ele deve ser reco­
nhecido como Deus, suscitará uma nação cuja política declarada se
fundamenta na premissa que é totalmente autodeterminante. Essa na­
ção não buscará em Deus um critério de justiça; ela determinará seu
próprio padrão de verdade. Até mesmo sua própria honra (lit., “seu
soerguimento”) será de acordo com seu próprio critério. Não concede­
rá a Deus nenhuma glória por suas realizações. Seu interesse estará
radicado unicamente em seu próprio nome. Da mesma maneira que o
Übermensch de Nietzsche, o Super-Homem de G. B. Shaw, o Prometeu
de Goethe e o Invicto de W. W. Henley, esse grande memorial do ego
declarará ousadamente sua isenção de débito para com qualquer outro,
senão para consigo próprio.^
Está claro, porém, que foi Deus quem suscitou essa nação para
seus próprios propósitos. Tão-somente ele é a fonte do poder. A des­
peito de toda sua vontade por autodeterminação, o Rei dos reis delimi­
tará as atividades dessa nação.
8. Seus cavalos são mais velozes que leopardos, mais perspicazes
que lobos ao anoitecer. Não há dúvida de que os israelitas se sentiríam
consolados por viverem tão distantes desse inimigo ameaçador. Certa­
mente que os assírios serviríam de parachoque, e aprenderam como
sobreviver com eles por meio do pagamento ocasional de tributo. Além
disso, o Egito por certo haveria de proteger seus interesses adquiridos
no reino da Palestina contra quaisquer incursões que a Babilônia por­
ventura intentasse.
Mas esse instrumento de juízo divino iria diminuir as grandes dis­
tâncias, reduzindo-as a nada em resultado da velocidade de seus cava­
los. A fuga desse vingador seria fútil; pois, com a agilidade de leopar­
dos no encalço de suas presas, essa nação caldeia agiria com impeto
contra Israel.
Um apetite animalesco por poder e despojos assaltaria a nação no
atocaiar de sua presa. Tal como o apetite voraz incita os lobos ao anoite­
cer, aguçando seus sentidos com o embrenhar da noite, também essa
nação bárbara caçaria todo fugitivo que evadisse a seu poder de destruição.

2. Cf. Laetsch, p. 322.


HABACUQUE 1.8-9 197

Seus cavaleiros galopam (Juriosamente); sim, seus cavaleiros virão


de longe. O cavalo e o carro de antigamente seriam equivalentes aos
tanques, submarinos e jatos de hoje. No ataque, eles superariam a qual­
quer obstáculo que surgisse em seu caminho. Ainda que a distância fosse
grande, a nação babilônica chegaria à Palestina com um contingente com­
pleto e tropas montadas. Arma nenhuma serviria contra eles.
Voarão como abutre que se precipita a devorar. Justamente como
as maldições pactuais declaram, Deus traria uma nação dos confins da
terra, “como o voo impetuoso da águia” (Dt 28.49).^ Com toda a velo­
cidade própria de uma ave de rapina, esse instrumento se precipitaria
sobre a nação violadora da aliança bem antes que ela pudesse encon­
trar abrigo. Como um abutre, seu corpo opressor agarrará e rasgará a
carne de suas vítimas indefesas. Segundo as maldições pactuais, nin­
guém haveria de enterrar as carcaças (cf. Gn 15.11; Jr 34.20). Esta
mesma maldição encontra eco na descrição do Juízo final que o Senhor
trará sobre todos os seus adversários (cf Ap 19.17-18). Assombroso de
fato é o propósito divino de retribuição.
9. Cada um deles virá para violência. O padrão divino de justiça
tem consequências terríveis. Habacuque havia se queixado contra sua
própria comunidade porque a violência caracterizava suas relações re­
cíprocas (1.2b). E assim, agora como uma recompensa justa, esses pe­
cadores deverão experimentar violência nas mãos de um invasor brutal.
A aparência de seu rosto é seguir adiante. Esta frase em particular
é a mais difícil nessa lista de caracteristicas do instrumento de juízo
sendo suscitado pelo Senhor. O significado preciso das três palavras
hebraicas é duvidoso, e uma variedade de significados se toma possí­
vel ao combiná-las de maneira diferente.
O termo traduzido por reunião (m ^gam m at) é um particípio Piei
na combinação com a palavra seguinte. Ele só ocorre aqui no Antigo
Testamento, o que torna a determinação de seu significado bastante
dificil.'* Visto, porém, que as outras duas palavras, nessa frase, são mais
3. Outras referências a esta mesma figura de juízo podem ser encontradas em Jeremias
4.13; 48.40; 49.22; [.amentações 4.19; Oseias 8.1.
4. Sua autenticidade é atestada por lOpHab. A LXX traduz anthestêkótas, por “resistin­
do”, o que não propicia nenhuma ajuda.
198 HABACUQUE 1.9

comuns, pode ser melhor retardar a interpretação do primeiro termo


até que os outros elementos da expressão sejam explorados.
O segundo \Qvmo, p^nêhem (lit. “seus rostos”), provavelmente se
refira às fileiras de frente das tropas caldaicas em avanço. Este signifi­
cado é apoiado por uma passagem paralela em Joel 2.20, na qual a
“vanguarda” {pãnãyw) de uma tropa é contrastada com a “retaguarda”
(sõpô).
A “vanguarda” dessa tropa é dirigida para frente ou “na direção
leste” {qãdimâ)? Uma direção leste para as fileiras de vanguarda desta
horda em avanço somente poderia ser concebível neste contexto se
assumisse que o exército tivesse atingido a costa do Mediterrâneo e
agora se virava para a direção leste para assaltar Jerusalém. Esta rota
seria o caminho normal para um exército que invade a Palestina.
Entretanto, o progresso do pensamento da passagem não havia che­
gado a este ponto. “Reis” e “príncipes” ainda precisam ser subjugados
(v. 10). Portanto, o significado mais plausível para esta palavra é adiante.
A fileira de vanguarda das tropas segue adiante.
A nuança precisa a ser dada ao movimento para frente das fileiras
que avançam depende finalmente da palavra difícil que permanece no
início desta sentença: m ^gam m at. Ela poderia significar “impetuosi­
dade”, assim a “impetuosidade da fileira de sua vanguarda se move
para frente”.* Mas a referência mais provável é à reunião ou “coleção”
de sua fileira da vanguarda.’ Irresistível, inevitável e ininterrupta, esta
horda de guerreiros se move para frente em direção à terra do povo
pactuai de Deus. Determinados, eles avançam, e com certeza um dia
chegarão trazendo pleno juízo e devastação.
E ajuntarão como areia os cativos. Abraão recebera a promessa de
que sua semente seria como a areia das praias marítimas. Mas seria
5. A versão qãdim , omitindo o h final, é apoiada pela IQpHab e toma possivel uma
referência ao "vento oriental". Cf. as versões que a apoiam como a de Simaco, Teodociâo e
a Vulgata. Rashi interpreta: “A emanação de suas faces é como o Vento Oriental, o mais
forte dos ventos". C f Brownlee, MUtrash, p. 70.
6. BÜB, p. 169,170, questiona uma derivação possível d e ^ a m S ’, “engolir".
7. Pro\ avelmente derivado dc^õm am , “se tomar abundante”. Confira-se BDB, p. 169,170.
Para outras possibilidades, ver Brownlee, MiJrash, p. 69. que prefere “os murmúrios de
suas faces são como o vento oriental".
HABACUQUE 1.9-11 199

preciso que sua multiplicação terminasse em tão trágica condição? Se­


ria necessário que fossem reunidos em montões e levados cativos?
Segundo as leis pactuais de Deus, os transgressores haveriam de
terminar nessas condições. Pois, de acordo com o código legislativo
deuteronômico, Israel iria gerar filhos e filhas, porém seriam levados
cativos, caso a nação caísse em pecado (cf. Dt 28.41). Uma vez mais, a
palavra profética concretiza na história as estipulações originais da
aliança.
Esse instrumento designado para juízo teria pouca ou nenhuma sim­
patia pelo sofrimento humano. Um vasto número de almas não signifi­
ca mais do que os grãos inumeráveis da areia ao longo de uma praia.
10. Então ele escarnece dos reis; os soberanos são objetos de seu
riso. Anteriomiente, Israel sempre pôde contar com nações paracho-
ques para absorver o golpe letal dos invasores. Mas esse adversário
zomba dos personagens mais poderosos da terra. Como então pode o
remanescente de Judá esperar resistir com sucesso a invasão desse
inimigo?
Ele rirá de cada fortificação, porque amontoará pó, e o tomará.
Quando Israel estava por tomar posse da terra da promissão, espias
foram enviados para detenninar se os habitantes viviam em tendas ou
em fortificações (Nm 13.19). Os resultados de tal avaliação teriam um
efeito muito definido no avanço deles sobre a terra. Pois uma cidade
fortificada não apenas representava um obstáculo maior a ser vencido
por um invasor. Ela representava também uma ameaça positiva, pois
habitantes armados de uma cidade bem suprida e bem fortificada cau­
sariam devastação sobre o invasor enquanto se expunham eles mesmos
a pequeno perigo. Um exército deve avaliar cuidadosamente o custo de
penetrar em território de uma cidade fortificada.
Mas essa nação invasora zombaria da resistência implícita em to­
das essas fortificações. Ela não temeria o risco que poderia significar
para seus homens o ato de sitiar uma cidade. Com pequeno esforço ela
quebraria toda oposição e tomaria para si a posse dos despojos da cidade.
11. Então, seu espírito muda, e se torna furioso e peca. Uma mu­
dança de direção demasiado abrupta no Iluxo da argumentação estaria
200 HABACUQUE 1.11-17

envolvida em apoio à ideia de que essas palavras indicam uma inter­


venção da parte de Deus que entra em juízo com a Babilônia, uma vez
que ela ultrapassara os limites da propriedade, ao trazer Juízo sobre
Israel (“ela ultrapassa”).* Em vez disso, o versículo contrasta a zomba­
ria moderada das fortificações (v. 10b) com a atenção seriamente letal,
quando seu espirito, ele se torna furioso e peca ao infligir brutal tor­
mento a suas vítimas.
Esta sua força é seu deus. Por mais incrivel que possa parecer, este
instrumento do Todo-Poderoso nojulgamento de seu próprio povo agora
se exalta ao nível da deidade. Mas esta percepção da auto-imagem ba­
bilónica fornece um arcabouço para a compreensão de sua brutalidade
em seu tratamento de Israel. Tendo deificado sua própria força bruta,
eles se consideram como sendo incapazes de cometer erro no uso des­
sa força.
Então 0 Senhor caracteriza para seu profeta este instrumento pelo
qual ele estabelecerá alguma semelhança de Justiça na terra. Os per­
versos em Israel não escaparão de maneira alguma do Juízo. Na realida­
de, eles serão devastados pela fabulosa ferramenta suscitada pelo Todo-
Poderoso.

C. O PORTA-VOZ PROFÉTICO DESAFIA O PROGRAMA


DIVINO DE PUNIÇÀO (1.12-17)
Essa porção das Escrituras não representa a primeira vez em que a
fé de uma pessoa enfrenta maior desafio, mesmo quando lhe é conce­
dida a mais profunda compreensão dos planos e propósitos de Deus.
Habacuque perguntara: “Até quando?”. E o Senhor prontamente res­
pondera: “De forma repentina, e bem depressa”. Habacuque pergunta­
ra: Por que “a Justiça nunca se manifesta?”. E o Senhor respondera:
“Minha Justiça imparcial trará uma espantosa vingança, inclusive so­
bre meu próprio povo”.
Embora as respostas do Senhor tratassem precisamente dos assun­
tos suscitados pelo profeta, elas acabaram por perturbá-lo mais inten­
samente que suas perguntas originais. De fato, Habacuque se toma

8. Calvino, p. 35.
HABACUQUE 1.12 201

excessivamente ousado. Aliás, ele chega a desafiar o Senhor no tocan­


te à sua intenção de punir a perversidade de Judá. Embora se aproxime
cautelosamente, expressando confiança na natureza e propósito de Deus
(v. 12), ele termina questionando a Deus e seu programa (v. 13-17).

/. Confiança em Deus (1.12)

12 Não és tu desde a eternidade,


ó Senhor, meu Deus, meu Santo?
Não morreremos.
a Ó Senhor,
b para a justiça
c o puseste:
a e tu, ó Rocha,
b para repreensão
c o estabeleceste.

Esta intensa avaliação dos propósitos de Deus pelo profeta não


deve ser tomada como uma manifestação de fé frágil.' Tanto a natureza
quanto o propósito de Deus emanam das expressões de confiança do
profeta. O que atormenta o profeta não é uma fé frágil, mas uma fé
perplexa. Se o conquistador caldeu for designado por Deus para tratar
Israel com a mesma brutalidade com que tem demonstrado em relação
às outras nações, então o que acontecerá ao papel distinto de Israel
como povo da aliança de Deus? A aniquilação total das tribos do norte
estava ainda muito fresca na mente da população pensante de Judá. Se
Jerusalém sofresse o mesmo destino de Samaria, o que então restaria
do papel especial de Israel?
O profeta corrobora sua confiança lembrando ao Senhor do caráter
eterno de sua própria natureza; Não és tu desde a eternidade? Intencio-
nalmente, ou, ao contrário, o profeta faz ecoar as palavras de segurança
expressas pelo profeta Isaías à fé bnixuleante do rei Ezequias quando
antes Senaqueribe da Assíria ameaçara Jerusalém (2Rs 19.25; Is 37.26).
Deus era desde a eternidade e desde a eternidade estabelecera seu pro-

I. Contra Laetsch, p. 325, que apoia Lutero em sua análise do questionamento de Mabacuque
como indicativo de fraqueza na fé.
202 HABACUQUE 1.12

pósito. A história fornecia um arcabouço sobre o qual o Senhor Todo-


Poderoso concretizaria todos os seus eternos intentos.
Visto que a eleição de Israel fora feita na eternidade da própria
natureza de Deus, como seria possível que ele agora fale em tons de
esmagador aniquilamento? Justiça corretiva, na verdade, era o que o
profeta desejava para Israel. Devastação total, porém, nas mãos dos
caldeus parecia forte demais.
A seriedade do problema enfrentado por Habacuque pode ser visto
no uso anterior que o profeta Miqueias faz de linguagem semelhante
para expressar sua antecipação do futuro de Israel. Um “monarca” se
levantaria de Belém de Judá. Suas “origens” são “desde os dias da
eternidade” {miqqedem), estendendo-se até os tempos mais antigos
{mtmê 'ôlãm, Mq 5.1 [Eng. 2]). Se esses propósitos salvíficos de Deus,
“desde os dias da eternidade”, fixavam-se no regente davídico que pro­
cederia de Belém, como, pois, todo o reino se sujeitaria à desolação de
uma deportação como aquela que fora experimentada recentemente
pelo reino do norte?
iWão morreremos, declara a fé profética.^ Ligando-se à eternidade
de Deus que ele acabara justamente de desenvolver, o mediador profé­
tico une o povo da aliança a si próprio. Yahweh é o seu Deus. Portanto,
é impossível que cheguem a perecer. Em vez de servir de instrumento
de aniquilamento, o inimigo que está sendo suscitado por Deus contra
Israel servirá de instrumento divino para juízo e para repreensão. In­
serida num paralelismo poético, a afirmação do profeta ressalta a natu­
reza de Deus como uma Rocha que administra justiça. O profeta está

2. Laetsch, p. 323, toma a frase como uma pergunta e sugere que o profeta se sentia ator­
mentado por sérias dúvidas, túicontra-se nas notas da Massora o antigo reconhecimento do
problema criado pela abrupta mudança para a primeira pessoa do plural (“não morrere­
mos”). Segundo Kcil, p. 64. esta frase contém uma das dezoito tiqqune sopherim (correções
escribais) da Massora. Em vez de depor a favor de variações textuais, essas notas propõem
explicar que o autor original teve a intenção de escrever. Neste caso, a suposição é que o
autor original lería tido a intenção de escrever “nem tu morrerás [isto é, Deus]”, deste modo
elaborando sobre sua asserção: “tu és desde a eternidade” . Visto, porém, que esta sentença
não teria mantido as linhas apropriadas de decoro em dirigir-se a Deus desta maneira, o autor
escreveu em seu lugar: “[nós] não morreremos”. Esta nota dos rabinos tem algum valor
como um item de curiosidade, mas não fornece uma solução adequada para o problema
e.xegético.
HABACUQUE 1.12-17 203

confiante de que o Deus de toda a terra fará o que é certo. Sua certeza
se deriva da antiga revelação da natureza de Deus em sua aliança.
Ecos das provisões pactuais adicionais se encontram na afirmação
de que Deus estabeleceu os caldeus como seu instrumento para repre­
ensão (l^hôkiah). Esse mesmo termo é empregado para descrever a
ação de Deus em prometer aos descendentes desobedientes de Davi,
por ocasião do estabelecimento da aliança eterna, que iria “castigá-
los” {hõkahtiw) com varas de homens (2Sm 7.14). Israel se acostuma­
ra a ver Deus disciplinando as nações em seu favor (SI 105.14) e enten­
dia sua função como sendo a fonte da qual a repreensão divina iria
avançar contra as nações (Is 2.2-4). Tinham, porém, a tendência de
esquecer que inclusive nas provisões da aliança davídica havia uma
cláusula condicional prometendo castigo mais severo aos descenden­
tes davídicos que se atrevessem a violar a Torá.
E assim o profeta expressa sua confiança em Deus. Sua imutável na­
tureza e seu eterno propósito encontram reflexo fiel nos eventos da histó­
ria que ora se descortinavam ante seus olhos. Mas ele tinha ainda que
prosseguir, com toda a honestidade, formulando suas perguntas a Deus.

2. Questionando a Deus (1.13-17)


Havendo fundamentado sua confiança na natureza e propósito de
Deus, 0 profeta agora prossegue em seu questionamento a Deus. Pri­
meiro ele trata da fonte do problema (v. 13). Em seguida aponta para
dois fatores que intensificam o problema (vs. 14-17).
a. A fonte do problema (1.13)

13 a (Tu tens) olhos tão puros


b que não podem ver o mal;
b e a contemplação da perversidade
a não é possível a ti.
Por que
a contemplas
b os que agem traiçoeiramente,
a e te manténs em silêncio
b enquanto os perversos devoram os mais justos que eles?
204 HABACUQUE 1.13

O questionamento que Habacuque faz a Deus nào se deriva da de­


claração do Senhor em trazer punição sobre Israel. Pois ele próprio
havia iniciado o diálogo com o Todo-Poderoso, estimulado pela neces­
sidade de intervenção judicial a fim de corrigir as injustiças cometidas
pelo próprio povo de Deus. Em vez disso, a preocupação do profeta se
centraliza no problema (de seu ponto de vista) de Deus estar planejan­
do usar os caldeus depravados para executar juízo sobre seu próprio
povo eleito. Ele também expressa um pavor constemador diante do
prospecto que Israel tem de enfrentar.
Muitos dos padrões cerimoniais da lei de Israel inculcavam o con­
ceito da pureza de Deus. Somente o ouro mais puro podia ser usado em
seu santo tabemáculo (Êx 25.1 Iss.). Os sacerdotes tinham de estar ves­
tidos com vestimentas puras, caso tivessem que se aproximar do santo
Deus de Israel (Êx 25.2ss.). Qual seria, pois, o valor desses instrutivos
rituais se o próprio Santo Senhor iria tolerar a imoralidade das imora­
lidades? Como poderia ele favorecer os caldeus depravados contra o
bem-estar de seu próprio povo amado?
Habacuque se tranquiliza ante esse problema, reafirmando primei­
ramente o que ele bem sabe ser verdadeiro a despeito de suas percep­
ções pessoais. Seu Deus é "tão pum de olhos, que não podes ver o
m ar. Obviamente, Deus, em certo sentido, “vê” o mal. Sua onisciên-
cia se estende a todos os assuntos concernentes à sua criação. Ele,
porém, nunca olha com o intuito de desculpar ou de tolerar o mal.
Como órgão de percepção, o olho representa o órgão do sentido que
mais frequentemente entra em contato com um objeto. Muito antes
que as mãos toquem, os olhos veem. É impossível para Deus até mes­
mo um mero relance na direção da iniquidade, enquanto ainda perma­
nece a distância. Sua santidade não pode tolerar a iniquidade.
Particularmente, quando o pecado é cometido contra seu próprio
povo, o Senhor é incitado à ação decisiva. Habacuque possivelmente
reflete a profecia mais antiga de Balaão sobre a impossibilidade de
amaldiçoar Israel. Balaão declara:
Não viu
iniquidade
em Jacó,
HABACUQUE 1.13 205

nem contemplou
desventura
em Israel (Nm 23.21).'
Deus não perpetuaria nenhum mal contra seu próprio povo. Ele
não é capaz de mirar a perversidade, porque esta se contrapõe à sua
própria essência. Esta realidade pura que emana da própria natureza de
Deus apenas aumenta a perplexidade que o profeta queixoso teria sen­
tido - por quê? A tolerância divina para com o perverso e traiçoeiro
surpreende o profeta ainda mais, porquanto o objeto de seu abuso é
mais justo do que eles.
Uma explicação simples da perplexidade do profeta não deve ser
dada com excessiva rapidez. Habacuque não era algum peso leve na
luta pelas coisas profundas de Deus. Ele não faz perguntas infantis
sobre o juízo do mundo futuro. Não basta sugerir que a pergunta de
Habacuque podia ser respondida prontamente, apelando-se para a múl­
tipla culpa de Israel resultante do mau uso de sua posição favorável
diante do Senhor. Sua perplexidade constitui uma das mais básicas
questões que devem ser formuladas se Deus for de fato efetuar a reden­
ção entre uma humanidade caída. Encontrando seu precursor na cons­
tante indagação dos salmistas de Israel (SI 22.3 [Eng. 2]; 44.25-26 [Eng.
24-25]; 74.1,11), essa questão alcança o clímax da perplexidade no
“por quê?” de Cristo na cruz (Mt 27.46). Como é possível que os favo­
recidos de Deus sofram tais devastações?
Castigos? Sim, eles devem ser recebidos com uma humildade só­
bria. O próprio profeta Habacuque pedira ao Deus Todo-Poderoso um
tratamento assim para seus contemporâneos. Mas, e uma destruição
que pressupõe devastação total? Como é possível? Uma deportação que
reverte totalmente as diretrizes das misericórdias eletivas de Deus? Por
certo que de alguma maneira Israel teria sido mais justo do que aqueles
caldeus que nunca foram chamados para fora de Ur.^

1. A po.ssibilidade de uma alusão à profecia de Balaâo por Habacuque seria possivel ainda
que a combinação dos termos em Números ('ãmãl, ’Swen) se refira a “infortúnio”, c a de
Habacuque {rS', 'ãmãl) se referira ao “mal moral”. Km qualquer um dos casos, a proteção
de Deus a seu povo seria o assunto à mão.
2. Laetsch, p. 325, está certamente correto quando afirma que o profeta poderia estar pen-
206 HABACUQUE 1.13-17

O problema do profeta é intensificado pelo tratamento do Senhor a


Israel, o qual parecia contradizer aqueles princípios que ele próprio
estabelecera para seu próprio povo. Deus nào podia contemplar o mal
(w^habbít ’el-ã m ã l lõ ’ tükãl, v. 13a); contudo, ele faz seu profeta
contemplar o mal (w^'âmâl tabbíf, v. 3). O Senhor havia declarado ser
errado uma testemunha guardar silêncio quando um assunto fosse tra­
zido a público (Lv 5.1); contudo, o próprio Senhor permanece em si­
lêncio enquanto o perverso devora os que são mais justos que ele (Hc
1.13b).
As imagens descritivas do perverso “devorando” o justo retratam
um total aniquilamento. No passado Deus agira a favor de Israel, “de­
vorando” o perverso. A terra havia devorado o Egito no Mar Vennelho
(Êx 15.12)eDotãeAbirãem sua rebelião (Nm 16.30,32,34; SI 106.17).
Mas agora o próprio povo de Deus enfrenta o prospecte de ser “devo­
rado” pelos inimigos, um prospecte medonho que de fato veio a con­
cretizar-se no exílio (Jr 51.34; Lm 2.2,5,16).
Então a perplexidade de Habacuque se deriva da aparente injustiça
do juízo que o Senhor lhe havia mostrado e da total devastação que,
vinda da força dos caldeus, o obriga a prever.
b. Intensificação do problema (1.14-17)

14 Pois fizeste o homem


como os peixes do mar,
como um enxame que não tem um governo sobre si.
15 A cada um deles,
a com um anzol,
h ele leva para fora.
b Ele arrastará a cada um
a com sua rede;
b e ajuntará a cada um

sando em “um pequeno remanescente, como eram os justos pela fé no Redentor prometido”,
e observa que “eles devem sofrer Juntos com a massa de judeus incrédulos”. Contudo, esta
perspectiva não responde à pergunta por inteiro. Deve-se ob.servar que essa visão representa
uma parte da resposta divina (Hc 2.4), e portanto não é provável que forneça a perspectiva da
qual o profeta faz sua pergunta.
HABACUQUE 1.14-17 207

a com sua rede de arrasto.


Portanto, ele se regozijará e se sentirá exultante.
16 Por isso,
a ele sacrificará
h à sua rede,
a e queimará incenso
h à sua rede de arrasto.
Porque com elas
a ele engordou
h sua porção;
b e sua comida
a é suculenta.
17 Sucederá, porventura,
que ele esvaziará sua rede,
matando as nações perpetuamente?
Ele nunca demonstrará piedade.

Agora o porta-voz profético desafia o programa do Senhor de cas­


tigo com maior intensidade. Ele repete perante o Senhor a maneira
infame com que os caldeus haviam tratado o povo no passado. Além
disso, ele aponta diretamente para o próprio Deus como a fonte última
dessas atrocidades intencionais.
14, Habacuque começa essas observações dirigindo-se a Deus: Fi­
zeste o homem como os peixes do mar. Esta afirmação provavelmente
representa a acusação mais penetrante contra o Todo-Poderoso. Ao re­
conhecer a soberania de Deus entre as nações, ele concluiría que o
próprio Deus afinal está por trás dessa injúria maciça à humanidade.
Ao afirmar que Deus fez o homem como os peixes do mar, ele
aparentemente está prevendo o efeito da agressão dos caldeus sobre os
vários segmentos do gênero humano postos sob sua opressão. Sua preo­
cupação se estende para além das calamidades que ameaçam o próprio
Israel, a fim de incluir todo o gênero humano como sendo feito à ima­
gem do Todo-Poderoso, com a responsabilidade de “dominai sobre os
peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja
pela terra” {r^dü bidgat hayyãm...üb^kol-hayyâ hãrõmeset 'al-
208 HABACUQUE 1.14-15

h ã ’ãres, Gn 1.28; cf. SI 8.9 [Eng. 8]). Contrário à ordem criacional na


qual 0 homem deveria exercer domínio sobre a totalidade do mundo,
ele é agora rebaixado, tratado como uma massa amorfa dos animais do
oceano, sem governo para protegê-lo ou guiá-lo. Nos dias de esplendor
de Israel, o rei Salomão exibira sua posição de autoridade sobre os
“peixes do mar... e sobre todo animal que rasteja pela terra” {w^'al-
hãremes w^’al-haddãgím ) ao captar a essência de sua significação
em seus muitos provérbios (1 Rs 5.13 [Eng. 4.33]). A que profundidade
de degradação Israel ora se afundara a ponto de ser tratado com o des­
respeito que alguém pode exibir em relação a essas criaturas rastejantes!
Nenhuma interrupção da “desumanidade do homem para com o
homem” tem ocorrido desde o tempo do profeta. Opressores famintos
de poder devastando populações inteiras, tratando-os como se fossem
menos que o pó da terra, em vez de vice-regentes do próprio Deus. Em
tal contexto, a esperança representada no homem por excelência brilha
numa luz mais gloriosa. Embora ainda não vejamos todas as coisas
sujeitas à humanidade, contudo vemos Jesus, feito por um pouco me­
nor que os anjos, que sofreu a morte, sendo agora coroado com glória
e honra (SI 8.6 [Eng. 5]; c f Hb 2.7).
O envolvimento direto de Deus neste evento de desumanização
não só cria uma profunda preocupação no profeta (v. 14); a profundi­
dade da perversidade dos babilônios também intensifica seu problema.
Brutalidade (v. 15), sensualidade (v. 16) e ausência de piedade (v. 17)
combinam para agitar as profundezas da queixa do profeta.
15. O que poderia compendiar mais dramaticamente a crueldade
dos caldeus do que as testemunhas históricas de seus próprios monu­
mentos?' Não apenas figurativamente, mas literalmente eles continua­
ram a tradição assíria de enfiar um gancho no lábio inferior, mais sensí­
vel, de seus cativos e amarrá-los numa fila única. Com tal método dia­
bólico, eles os forçavam à docilidade. Pelo menos os caldeus se mostra­
vam imparciais em sua crueldade. Cada um de seus cativos era contem­
plado com um gancho, segundo o profeta Habacuque.
Lançando mão de uma segunda figura relacionada, o profeta realça

1. Cf. as fontes citadas em Rudolph, p. 2 11.


HABACUQUE 1.15-16 209

sua descrição da brutalidade dos babilônios. Se não levados por um


gancho, seus cativos anônimos são arrastados numa rede.^ Uma vez
mais as inscrições de Babilônia reforçam a sobriedade da descrição do
profeta. Em um relevo, as principais deidades babilónicas, Ningirsu,
Shamash, Enlil e Marduque, arrastam uma rede na qual seus inimigos
capturados se contorcem.^
Talvez o elemento mais repulsivo de todo o quadro seja a satisfa­
ção maligna dos caldeus. Eles. prazerosamente, infligem essas brutali­
dades às suas vítimas.
Como é possível? pergunta o profeta. Porventura este procedimen­
to é realmente o modo justo de tratar o Senhor a seu povo? E de fato
necessário que o ferrão da cruel zombaria seja acrescentado aos horro­
res de um juízo opressivo?
16. Perplexidade adicional a toda essa questão é introduzida pela
sensualidade do instrumento que Deus escolhera para punir seu pró­
prio povo. O que é mais prazeroso ao coração dos babilônios é o prê­
mio das agressões vorazes como se vê em suas práticas cultuais. Eles
cultuam seus instrumentos de tortura e crueldade humanas, porque es­
ses instrumentos lhes têm propiciado uma imensidão de prazeres tem­
porais. Em suas imaginações distorcidas, de alguma maneira encontra­
ram um modo de justificar seus feitos brutais, e assim podem comemo­
rá-los mediante sacrifícios em seus momentos solenes de culto.
Talvez Habacuque, por meio dessa vívida descrição, tivesse a inten­
ção de provocar ciúmes no Deus de Israel. Como é possível que ele
tolere tais perversidades? E sobejamente claro que os caldeus estão cul­
tuando a criatura em lugar do Criador. Com certeza a ira de Deus deve­
ria estar contra eles. Ele instruiu seu povo cuidadosamente para depen­
der dele como sua porção acima de todas as possessões materiais (cf.
Nm 18.20; Dt 10.9; SI 16.5; 73.26). Mas esses bárbaros fazem de seus
prazeres sensuais seu deus.

2. O termo usado para descrever uma rede de arrasto (y^gõrehú) tem um significado
onomatopeico. E usado para descrever o ruminar de um animal (Lv 11.7). o serrar de uma
serra (1 Rs 7.9) e o ruído de um redemoinho (Jr 30.23).
3. Cf. Laetsch. p. 326.
210 HABACUQUE 1.17

17.0 problema de Habacuque ante o abuso sofrido por seu povo é


intensificado não só pela brutalidade e sensualidade do instrumento
divino de juízo. A atitude implacável do opressor também lhe causa
tremor. Porventura esse invasor continuará a esvaziar sua rede para
sempre? Ele vira sua rede para baixo e derrama os seres humanos mu­
tilados que ele capturou, em seguida, sem interrupção, prossegue na
busca de mais vítimas. Esta determinação de executar infindáveis atro­
cidades estaria destinada a continuar sem interrupção, para sempre?
Ele nunca demonstra piedade na matança das nações. As dimensões
dessa brutalidade dificilmente podem ser avaliadas. O profeta prevê um
holocausto que não pode ser compreendido. As vítimas desse opressor
não são meramente indivíduos. Nações inteiras caem presas de suas
brutalidades.'* Tal carnificina, por atacado, tem sua fonte no próprio
Satanás. Se Caim, “que era do Maligno”, matou seu irmão (IJo 3.12),
certamente a matança impiedosa praticada pelos babilônios seria ins­
pirada pelo arquiinimigo do Senhor.
Como, pois, esse processo pode continuar indefinidamente? Deverá
ele passar por sobre o próprio povo de Deus e prosseguir pisando uma
fila infindável de vítimas? Por acaso a compaixão de Deus ainda reina?
A ausência de misericórdia da parte do inimigo evidentemente revela
que ele opera ao arrepio da natureza do Senhor. Seria o caso de se
permitir que a atividade do inimigo continue perpetuamente?
Então o profeta Habacuque questiona a Deus e sua intenção revela­
da para a solução do problema que ele mesmo levantou. Não há dúvida
de que Israel de alguma maneira precisava de castigo. Seu exercício
pessoal da brutalidade merece uma reprimenda da parte do Senhor. Ha­
bacuque, porém, não podia entender a extensão da opressão que o Se­
nhor ora lhe revela. Seu coração e mente estavam feridos por prospec-
tos muito assombrosos. Ele se atrevia a questionar o Todo-Poderoso -
e em seguida esperar uma resposta.

4. Esta descrição da vítima do opressor como incluindo uma multidão de nações pressupõe
que cie não era meramente um opressor interno que o profeta estava descrevendo; mas tam­
bém não exclui a possibilidade de que os primeiros opressores mencionados por Habacuque.
em seu diálogo com o Senhor (1.2-4), vieram de Judá mesmo. Ver Introdução, § IV. C.
HABACUQUE 2.1-20 211

O povo de Deus é compelido, repetidas vezes, a digladiar-se com a


profundidade do sofrimento que sobrevém aos que pertencem a Deus.
Se fosse possível à mente humana limitada compreender pelo menos
uma fração da realidade dos sofrimentos do Filho de Deus, ela por
certo oscilaria atônita de profunda admiração. Pois tanto a profundidade
da justiça de Deus quanto a profundidade de seu amor são incompreen­
síveis. Em defesa do povo de Deus, ao longo dos tempos, o profeta se
digladia com as profundidades e riquezas da sabedoria de Deus, pois
seus caminhos são insondáveis, além de todo o entendimento. Não obs­
tante, a verdade se tem feito conhecer ao povo de Deus. Portanto, é
sempre oportuno buscar essa revelação em toda sua profundidade.
Enquanto a couraça da fé controlar as atividades do povo de Deus, eles
podem juntar-se a Habacuque em seus esforços em perscrutar as pro­
fundidades dos mistérios do Todo-Poderoso.

II. A RESOLUÇÃO DA SABEDORIA (2.D20)


Usando a fomia de expressão com a máxima ousadia, Habacuque
questionou as intenções do Senhor de como elas lhe foram reveladas.
Como é possível que o Todo-Poderoso trate os seres humanos como se
fossem peixes do mar (Hc 1.14)? Esta brutalidade do opressor e inva­
sor duraria para sempre? Continuaria ele a esvaziar sua rede, destruin­
do nações sem misericórdia (Hc 1.17)?
O “diálogo de protesto” iniciado no capítulo 1 encontraria alguma
solução. E preciso dar uma resposta digna a um desafio tão ousado à
integridade de Deus. Então o capítulo 2 de Habacuque fornece a solu­
ção da sabedoria divina. O profeta se assegura da repreensão que por
certo virá (2.1). Mas o Senhor responde gentilmente, desvendando seu
propósito para as eras futuras (2.2-20).

A. O PROFETA VIGIA DILIGENTEMENTE PELA


CENSURA À SUA ESTULTÍCIA (2.1)

1 a Em minha torre de vigia


b eu me porei,
b e me situarei
212 HABACUQUE 2.1

a em (minha) torre sitiada.


E vigiarei para ver
o que
ele me dirá,
e o que
eu responderei
à minha censura.

Habacuque tem plena consciência da audácia de suas recentes ob­


servações. Ele desafiou a propriedade do propósito do próprio Senhor.
E compreensível, pois, que ele se prepare para receber uma reprimen­
da direta do Senhor.
O profeta está certo na posição que assume com respeito a seu
próprio papel na solução desse assunto complexo. Ele não tentará con­
ciliar em sua própria mente a contradição aparente entre a eleição divi­
na de Israel, como objeto do amor especial de Deus, e a devastação de
Israel nas mãos dos caldeus vorazes, como ordenado pelo próprio Se­
nhor. Ele não recorrerá aos recursos de sabedoria humana. Em vez
disso, ele esperará por uma resposta que só pode vir do Senhor. Haba­
cuque sabe que, conforme a natureza do ofício profético em Israel,
somente a revelação divina poderá responder à sua perplexidade.
Tanto a humildade quanto a esperança do profeta têm fornecido
diretriz apropriada à igreja ao longo dos tempos. Os caminhos de Deus
são mais altos do que os caminhos do homem. Unicamente por meio de
revelação é que se pode compreender as perplexidades genuínas prove­
nientes do modo de Deus lidar com os seres humanos.
Em minha torre de vigia me porei. Três exemplos anteriores de
profetas que “se colocaram na torre de vigia” como fez Habacuque
com o fim de receber a revelação de Deus foram: Moisés se pôs na
brecha da rocha e “vigiou” a fim de ver a glória de Deus passar diante
dele (Ex 33.21-23). Balaão se afastou a fim de “vigiar” pela revelação
que Deus poderia lhe trazer (Nm 23.3). Elias recebeu a ordem de ir para
as montanhas e “vigiar” pela revelação de Deus que viria (1 Rs 19.11).
De modo semelhante, Habacuque se posicionou numa torre de vigia a
fim de “vigiar” pela revelação que viria de Deus. Embora fosse uma
HABACUQUE 2.1 213

figura solitária, ele representava o povo de Deus como o mediador


profético nesta conjuntura crítica de sua história.
Vigiarei para ver o que ele me dirá. Habacuque, pessoalmente, se
encontra totalmente envolvido em todo esse procedimento; ele, porém,
aguarda uma mensagem acerca de todo o povo de Deus. As respostas
do Senhor ressaltam o fato de que não é só por meio do profeta que este
intercâmbio avança.
O papel profético de ser “vigia” velando pela palavra de Deus foi
descrito em dias anteriores, quando o Senhor ordenou a Isaías pôr um
“atalaia” em seu posto (Is 21.6). Esse atalaia profético ficou em sua
“torre de vigia” dia após dia, permanecendo em seu posto noites a fio
(Is 21.8). Finalmente, a revelação divina chegou.
O “vigia” que espera pela palavra de Deus permanece em nítido
contraste com aqueles que recorrem às suas imaginações. A alternativa
egoísta e humanista em vez de dependência passiva da palavra divina
merece a repreensão expressa por Calvino: “Todos... aqueles que se
entregam a seus próprios conselhos merecem ser esquecidos por Deus e
ser deixados por ele para que sejam arremessados daqui para ali, de
cima para baixo e de baixo para cima, por Satanás; pois a única segu­
rança do fiel que não falha é a aquiescência na palavra de Deus”.'
E o que responderá à minha censura. Embora Habacuque eviden­
temente aceite a postura de profeta vigiando à espera da palavra de
Deus, ele introduz uma perspectiva distintiva a respeito de suas próprias
expectativas. Ele vigiará, porém simultaneamente ficará preparando uma
resposta à repreensão que espera do Senhor. Habacuque se atrevera a
questionar a revelação anterior do Senhor, a qual fora em resposta à sua
queixa. Ele não entendia como o Senhor podia tolerar a destruição de
seu próprio povo pelas mãos de bárbaros cruéis. Agora ele espera pela
resposta do Senhor à sua censura posterior, pois dificilmente poderia
esperar outra coisa senão repreensão. Muito embora fosse submisso à
revelação divina, a qual com certeza viria. assim mesmo ele presumiu
que seria chamado a responder a esta nova palavra do Senhor com uma
argumentação adicional.

1. João Calvino, p. 62.


214 HABACUQUE 2.1

Algumas versões trazem uma tradução diferente que ameniza um


pouco a audácia implícita nas palavras de Habacuque.^ De fato é difícil
imaginar o profeta de antemão se preparando para responder a uma
reprimenda da parte do Todo-Poderoso. Contudo, a radicalidade do pro­
blema com o qual Habacuque se debate, bem como a natureza do inter­
câmbio com o Todo-Poderoso até este ponto, naturalmente levam com
razão a essa explicação.
Em seu diálogo contínuo com Deus, em termos de repreensão e
resposta, Habacuque adota um padrão que reflete um procedimento
reconhecido na busca de sabedoria em Israel. Ao buscar compreender
os caminhos de Deus em relação a ele, Jó anseia “defender” (hôkêah)
sua causa diante de Deus (Jó 13.3). Ele suplica a seus amigos que escu­
tassem sua “defesa” {tôkahti) e os “argumentos” (ribôt) de seus lábios
(v. 6). Ele anseia encontrar Deus para que possa encher sua boca com
argumentos (tôkãhôt) (23.4). Por meio desta maneira ousada de entrar
em disputa com Deus, os sábios de Israel esperam receber esclareci­
mento divino para suas perplexidades.
Semelhantemente, no livro de Provérbios, o Senhor aparece como
aquele que instrui pela correção. A sabedoria ensinará a pessoa a aten­
tar para a repreensão do Todo-Poderoso (Pv 1.23). Grande calamidade
recairá sobre os néscios que não ouvem sua repreensão (1.25,30). O
papel da repreensão divina a comunicar sabedoria é um tema que apare­
ce em numerosos outros provérbios (cf. 6.23; 10.17; 12.1; 13.18; 15.5;
10,31-32; 27.5; 29.1,15).
De acordo com essa tradição, Habacuque se prepara para a repre­
ensão do Senhor. Ele se atreveu a quebrar o silêncio, ocultando a rela­
ção de seu povo com seu Deus. Agora, tendo iniciado este diálogo, ele
se prepararia para responder à repreensão que certamente chegaria.

2. A RSV traz “minha queixa” e a NIV traz "esta queixa” . Calvino, página 62. interpreta
esta frase como se referindo às “censuras” que porventura viessem de Satanás ou do ego,
nâo de Deus.
HABACUQUE 2.2-20 215

B. O SENHOR GENTILMENTE REVELA SEU


PROPÓSITO PARA AS ERAS (2.2-20)
Surpreendentemente, a resposta do Senhor ao desafio do profeta
chega sob a forma de uma visão de esperança que o profeta deve escre­
ver para as gerações futuras. Deus não esbraveja com o profeta por
causa de suas acusações, ao contrário das expectativas de Habacuque.
Primeiro, ele lhe transmite uma visão que contrasta o Justo pela fé com
o soberbo resoluto (2.2-5). Ele então oferece cinco máximas prover­
biais que ridicularizam o soberbo (2.6-20).

I. O Justificado pela fé e o resolutamente soberbo (2.2-5)


A condescendência graciosa do Senhor é vista na significação, ca­
ráter e substância desta visão.
a. Instruções indicando a significação desta visão (2.2)

2 E o Senhor me respondeu e disse:


a Escreve
b a visão
a e deixa-a bem nítida
b sobre tábuas,
c para que a leia até quem passa correndo.

A resposta do Senhor veio sob a forma de uma visão. Este fato


retira imediatamente essa palavra da esfera de uma resposta pessoal
dirigida só ao profeta. Embora seja concebível que o Senhor tenha agra­
ciado seu profeta com uma mensagem pessoal pelo uso de uma visão, o
padrão típico de revelação profética do Antigo Testamento pressupõe
que Deus comunica a visão a seu profeta na qualidade de mediador de
uma mensagem divina.
As instruções específicas: escreve a visão, deixa-a bem nítida .so­
bre tábuas ressalta sua significação não só para o momento crucial em
que Habacuque vivia, mas também para as gerações vindouras. O con­
texto pressupõe uma alusão intencional à gravação das “dez palavras”
originais do livro da aliança (Êx 31.18; 32.15-16; Dt 9.10). Original­
mente, Israel também fora instruído a “gravar” nas pedras caiadas to­
das as palavras da lei e a escrever “bem distintamente” {ba’ër hêfêt)
216 HABACUQUE 2.2-5

essa inscrição (Dt 27.8). Agora Habacuque é instruído a fazer bem ní­
tida [bâ'ër] sobre tábuas a visão que lhe fora dada. Refletindo o pa­
drão há muito estabelecido de gravar uma cópia nova da lei pactuai
como um passo essencial na renovação da aliança, as instruções de
Habacuque incluíam gravar sua visão sobre tábuas.'
Isaías fora instruído a escrever sua revelação num “rolo” e numa
"tábua”, enquanto Jeremias recebeu a ordem de escrever num “livro” (Is
8.1 ; 30.8; Jr 30.2). Habacuque, porém, deve escrever sobre tábuas. O
uso do artigo bem eomo a pluralização das tábuas são distintivos. A “vi­
são” de Habacuque, aparentemente contida nos versículos 4 e 5 desse
capítulo, não parece, por sua extensão, justificar a necessidade de expres­
sar tábuas no plural, nem parece haver alguma razão no contexto imediato
para especificar as tábuas nas quais Habacuque devia escrever.
Esses aspectos, aparentemente, têm a intenção de recordar “as tá­
buas” da aliança feitas no Sinai (Êx 24.12; 31.18; 32.15; 34.1,28; Dt
9.9-11 ; 10.2,4; 2Cr 5.10). Esta visão ora revelada a Habacuque se com­
para em significação ao original da lei dada a Moisés. Talvez com justa
razão foi que a tradição judaica declarou que as 613 leis do Pentateuco
foram reduzidas a uma por Habacuque.’
Como se não bastassem esses fatores, o significado dessa visão en­
contra maior ênfase na razão dada para sua inscrição nítida. Habacuque
devia escrevê-la com clareza sobre as tábuas para c/ue a leia até quem
pa.ssa correndo. Em vez de significar um painel com um letreiro tão
grande que uma pessoa que passasse correndo pudesse 1er, o contexto
de uma visão profética gravada sobre tábuas para os tempos futuros
pressupõe a “corrida” de um mensageiro a “proclamar” a visão.-’
Os profetas são frequentemente apresentados nas Escrituras como
que “correndo” com seu anúncio. Num paralelismo poético claro, o
1. Cf. Deuteronômio 1.1; 27.2-3; Js 8.32; 24.25-26. G. E. Mendenhall, Law and Covenant
in l.srael and the Ancient Near East (Piltsburgo: Biblical Colloquium, 1955), p. 41, observa
que era uma prática costumeira "lavrar uma Nova Aliança” com o herdeiro do trono vassalo
incluindo um prólogo histórico e as estipulações até o momento.
2. H. L. Starck e P. Billerbeck, KommentarzuniNeuen Testament aus TalmudundMidrash,
5 vols. (Munique: Beck”sche, 1926-1961). 1.907; 3.542,43.
3. C f John Marshall Holt, “So He May Run Who Reads 83 (1964) 298-302; W. H.
Brownlee, "The Placarded Revelation o f Habakkuk”,./5 f 82 (1963)319-325.
HABACUQUE 2.2-5 217

Senhor, por meio de Jeremias, protesta contra a atividade dos falsos


profetas:

Não mandei esses profetas;


todavia eles foram correndo;
não lhes falei;
contudo profetizaram (Jr 23.21).
Nesse pronunciamento de Jeremias, é bastante claro que “correr”
(com uma mensagem) é equivalente a “profetizar”. De modo seme­
lhante, Geazi deveria “correr” por Eliseu (2Rs 4.26) e Zacarias ouve o
Senhor ordenar a seu mensageiro que “corra” para entregar sua mensa­
gem (Zc 2.4).
Embora fosse correto interpretar a tarefa desse mensageiro corre­
dor como sendo a “leitura” (qr’) da visão, é mais provável que o texto
esteja indicando que ele tem a responsabilidade de proclamar a mensa­
gem (qôrê’ bô). O termo empregado regularmente significa “procla­
mar” tanto quanto “ler”. Mas, particularmente notável em comparação
com esse texto em Habacuque, é a “proclamação” {qr’) do nome do
Senhor associada à entrega das duas tábuas a Moisés (Ex 34.4-5). O
Senhor passou diante de Moisés e “proclamou” (wayyiqrã’) seu nome
(Êx 34.6).
Habacuque deve gravar sua visão tão nitidamente que a pudesse
ler até quem passasse correndo. A permanência da gravação da visão
pressupõe que o portador dessa mensagem não seria um único indiví­
duo. Em vez disso, muitos ao longo dos tempos deverão correr com o
fim de declarar essa palavra divina.
Uma vez Abraão, o primeiro pai do povo de Deus, teve de ser deso­
brigado de esperar uma solução demasiado repentina à sua aflição pela
falta de filhos a despeito das promessas de Deus. Sua experiência o
forçou a olhar pela fé para além das circunstâncias de seu tempo para
um futuro distante. Agora Habacuque luta com uma tensão idêntica.
Como poderá Deus cumprir suas promessas feitas a seu povo quando
ele está para devastá-lo? A resposta divina à sua perplexidade seria
gravada sobre tábuas, e muitos mensageiros nos tempos futuros deve­
rão correr com a mensagem que resolve este problema. Justamente a
218 HABACUQUE 2.3

demora que Habacuque deve aceitar fornece um indicador adicional


de significação mais ampla da visão. Ela não se destina meramente à
geração de seu tempo. Ela aponta para os tempos vindouros.
b. Afirmação concernente ao caráter da visão (2.3)
3 Porque a visão
(é) ainda para o tempo designado
e se apressa para o fim;
ela não pode mentir.
Se tardar,
espera por ela,
porque certamente virá,
não tardará.

Essa visão não só tem um significado que a toma comparável à


revelação que Moisés recebeu no monte Sinai. Essa visão é também
digna de nota por seu caráter básico: é escatológica e é infalível. Sua
realização aguarda eventos que ainda estão no futuro, os quais ajudam
o profeta a entender por que a visão precisa ser escrita.
Abraão tinha de crer ainda que sua esposa já houvesse passado da
idade de ter filhos, porque nada é demasiadamente difícil para Deus. O
mensageiro que apareceu ao patriarca deixou bem claro que o cumpri­
mento da promessa relativa ao nascimento da semente há muito aguar­
dada seria “neste mesmo tempo” (Gn 18.14). Não de acordo com o
tempo ansiosamente concebido pelo homem, mas era de acordo com o
decreto divino e imutável que a promessa se cumpriría. Como se ob­
serva previamente, o problema de Habacuque era essencialmente o
mesmo de Abraão. Como podería Deus ser fiel à sua promessa se seu
povo fosse exterminado?
Então Habacuque teve de enfrentar em seus dias a dura realidade
da devastação do povo de Deus por meio do exílio. Contudo, ele devia
crer que nada era demasiadamente difícil para Deus. Pois sua visão
seria cumprida no tempo determinado (cf Dn 10.14; 11.27,35).
Essa visão anela ou “palpita” (püah) pelo fim. Embora este termo
em certas ocasiões significasse simplesmente “falar”, o contexto près-
HABACUQUE 2.3 219

supõe sua significação mais vívida. “A verdadeira profecia é inspirada


... por um impulso de cumprir-se.”' Não só o profeta, mas o próprio
Deus como autor dessa visão anela por ver a reivindicação de sua pró­
pria palavra de profecia.
O tempo determinado e o alvo ao qual essa visão anela era o fim.
Somente no “fim” a esperança de Habacuque seria satisfeita. O que sig­
nificaria esta referência ao fiim? Parece improvável que a palavra sim­
plesmente signifique “mais tarde” ou “depois das circunstâncias que ora
perduram”, ou, ainda, “depois que o juízo previsto vier”. O fim, conse­
quentemente, refere-se a um ponto final (cf Gn 4.3; 8.6; 41.1; Êx 12.41;
Ez 35.5). Neste caso, não se fornece nenhuma estrutura que possa ajudar
na definição do “fim” preciso em vista. Contudo, a referência ao tempo
determinado de cumprimento que viria depois que muitos mensageiros
corressem com a mensagem da visão pressupõe que este //w se refere ao
estágio final da obra de Deus com o propósito de redimir seu povo.
No tempo de Daniel, o “tempo determinado” e o “fim” evidente­
mente possuem significados escatológicos (cf Dn 8.17,19; 11.35,40;
12.9). Mas, mesmo por ocasião da visão de Habacuque, o fim era bas­
tante apropriado, particularmente em vista do evento cataclísmico do
exílio que a nação encarava. No contexto do exílio iminente, é corre­
tíssimo enxergar significado escatológico na referência de Habacuque.
Depois das devastações do Juízo pelas mãos dos babilônios, o “fim”
parecia iminente.
Então a questão suscitada por Habacuque merece uma resposta com
dimensões escatológicas. Sua perplexidade e suas sondagens foram bem
direcionadas. A devastação iminente do próprio povo de Deus nas mãos
dos caldeus era uma questão da mais solene importância. A solução
final deste problema só ocorreria no escaton.
Essa visão que ora é dada a Habacuque tinha não só um caráter esca­
tológico. Pela própria natureza do caso, ela era certa e verdadeira, a des­
peito de todas as aparências em contrário. Essa visão era para o tempo
determinado; ela se apressa para o fim; e ela não falhará. A assevera­
ção divina de que essa visão não falhará implica que as aparências

1. Hitzig, como citado em Keil. p. 71.


220 HABACUQUE 2.3

iriam contradizer a mensagem contida na visão. Da mesma maneira


que a experiência visível de Abraão contradizia a promessa divina com
respeito a uma semente, também a experiência de Habacuque iria con­
tradizer a mensagem que lhe era dada. Até mesmo Deus pode parecer
mentiroso. Deus, porém, não pode mentir. Tal como foi asseverado tão
incisivamente num contexto profético anterior, “Deus não é homem para
que minta” (Nm 23.19).
O profeta é admoestado: se tardar, espera-o. O cumprimento da vi­
são quase certamente se delongaria, contudo a delonga é posta num con­
texto condicional. Se o cumprimento da visão tardar, deves esperar por
ele. Esta maneira de descrever o prospecte futuro sempre força o profeta
a esperar esperançosamente, e enfatiza a iminência da ação divina para
cumprir sua palavra. A qualquer momento o Senhor pode dar início àque­
les eventos que trarão o cumprimento escatológico dessa promessa.
A certeza do cumprimento dessa visão, a despeito de todas as apa­
rências em contrário, encontra reforço nas frases finais deste versícu­
lo: porque, certamente, virá, e não tardará. Por meio da combinação
de formas verbais comunicando infinidade e finidade construídas so­
bre a mesma raiz, a linguagem hebraica efetivamente realça a certeza
de um evento antecipado.^ A visão dada a Habacuque se cumprirá.
Não tardará. A afirmação ousada de que essa visão não tardará pare­
ce contradizer a oração de abertura dessa sentença, que afirma a possibi­
lidade de a visão vir a tardar. A solução desta dificuldade, apelando-se
para as nuanças distintivas do significado entre as duas palavras he­
braicas para tardar e demorar, vacila pela falta de evidência clara de
que existe uma distinção adequada entre as duas palavras. O mais pro­
vável é a linha de solução proposta por João Calvino, que sugere que,
pelo prisma humano, a visão pode parecer tardia em seu cumprimento
por causa do longo período envolvido em sua concretização. Mas, pelo
prisma de Deus, a infalibilidade de seu cumprimento, precisamente de
acordo com o plano divino, não pode ser questionada.^
A princípio parece que a tradução da LXX desse versículo modifi-
2. Cf. GKC, § 113n. Em inglês, este efeito do infinitivo absoluto é alcançado frequente­
mente pelo advérbio correspondente: “Certamente morrerás”.
3. Calvino, p. 65.
HABACUQUE 2.3 221

cou a força da profecia de Habacuque, pela focalização da visão na


vinda de uma pessoa. Se uma referência à “visão” fosse proposta por
tradutores gregos, seria preciso o uso do pronome feminino correspon­
dente {auten). Mas, em vez da tradução, “se (a visão) tardar, espera por
ela” (literalmente “ela”), a LXX traz “Se ele tardar, espera por ele [autón]".
O texto hebraico certamente poderia ser lido exatamente como en­
contrado na LXX. Pode-se encontrar mais apoio para esta versão na de­
pendência de Habacuque 2.3-4 e de Gênesis 15.6. A fé que Abraão tinha
em Deus apontava um foco muito específico naquele contexto antigo.
Ele creu em Deus com relação à promessa de uma semente (Gn 15.4-5),
e assim sua fé foi ratificada como correta. Esta bênção de uma semente
só encontra seu significado completo em tennos de uma salvação para o
povo de Deus realizada por um único herói salvador (cf Gn 3.15).
Então a personificação da esperança da salvação pelos tradutores
da LXX não deve ser vista como uma perversão estranha das palavras
de Habacuque, mesmo quando o texto hebraico não pareça especificar
tão incisivamente uma referência a uma “pessoa” que concretizará o
cumprimento da profecia. Esta personificação da expectativa profética
de Habacuque encontra apoio na interpretação messiânica subsequen­
te dada a esses mesmos versículos por vários rabinos na tradição judaica."
Presumivelmente, seguindo a tradição da LXX, o escritor de He­
breus sublinha esta perspectiva messiânica explícita, traduzindo a fra­
se seguinte em Habacuque com o artigo definido. Pela fé, o justo deve
esperar por “aquele que vem” {ho erchómenos, Hb 10.37). Muito pro­
vavelmente, o escritor de Hebreus recorreu a esta passagem porque ela
enfatiza a necessidade de paciência na reflexão sobre a essência das
promessas de Deus. Deus disse a Habacuque que, se a visão tardasse,
ele deveria esperar com paciência. Agora, no contexto da Nova Alian­
ça, a mesma admoestação se aplica àqueles que sofrem, não vendo a
promessa de Deus concretizada imediatamente neles. Eles também pre­
cisam ter paciência (Hb 10.36).* Ao visualizar a profecia de Habacu-

4. T. B. Sanhedrin 97b. Cf. a discussão de C. Spicq, L 'Epitre m a Héhreia, Eludes Bibliques


(Paris: Gabalda. 1952), 2.332.
5. O escritor de Hebreus emprega uma frase de Isaías 26.20 que enfatiza o tempo curto
antes de o Senhor voltar para julgar, com o fim de introduzir a citação de Habacuque:
222 HABACUQUE 2.4-5

que desta perspectiva pessoal, o escritor aos Hebreus não introduziu


um elemento estranho à profecia, mesmo quando ele tome pessoal o
que originalmente foi expresso de modo impessoal.
c. Revelação da substância dessa visão (2.4-5)

4 Eis
a o soberbo!
b Sua alma não é reta nele;
a mas o justificado —
b por sua sólida confiança, viverá.
5 Entretanto,
o vinho o engana —
o homem poderoso que se vangloria
e não descansará,
que
multiplica
como o Sheol
sua alma;
e ele (é)
como a morte,
e não ficará satisfeito,
a Assim ele ajunta
b para si mesmo
c todas as nações,
a e coleta
b para si mesmo
c todos os povos.

Embora o assunto tenha sido debatido, parece ser bastante claro


que a “visão” prometida nos versículos anteriores agora está sendo
relatada.' Os cinco “ais” que finalizam o capítulo podem ser considera-

“ainda dentro de pouco tempo”, aquele que está vindo, chegará (Hb 10.37). A ênfase maior
na vinda do próprio Senhor, na tradução que a LXX faz de Habacuque 2.3, tinha captado a
dimensão pessoal que o escritor de Hebreus desejava enfatizar. O povo enfrentaria o Senhor
pessoalmente. E a ele que devem esperar.
I.W . Rudolph, p.216.
HABACUQUE 2.4a-4b 223

dos como uma expansão de um aspecto da visão de Habacuque, ainda


que não constituam a substância da visão propriamente dita.
Três elementos se destacam nesses versículos: (1) o soberbo não
pode ser reto (v. 4a); (2) o justificado (pela fé) deve viver por meio de
sua confiança imperturbável (v. 4b); (3) mas o arrogante continua em
seus caminhos vangloriosos (v. 4c-5).
4a. O soberbo não pode ser reto. Eis! O termo introduz a substân­
cia de uma visão propriamente dita. Ao considerar a circunstância a
respeito da qual ele está tão impressionado - até mesmo a ponto de
desafiar a Deus Habacuque deve observar com cuidado a análise de
Deus sobre o soberbo. Descritivo de sua própria essência é o termo
empregado para designá-los. Eles são “emproados”, “inchados” ou
mesmo “intumescidos” (upp^lâ).^
Esta condição de auto-exaltação e estima pessoal traz algumas con­
sequências. Tal indivíduo não pode ser reto em si mesmo. O orgulho de
sua própria pessoa o condena. Esta posição de orgulho e autoconfiança
também exclui do soberbo a possibilidade de encontrar uma justiça
fora de si mesmo. Pois ele presume definir-se como a fonte de sua
própria bondade. A consequência de tal auto-exaltação é vista concre­
tamente em outro ponto no caso de Israel “agindo presunçosamente”
('p /-N m 14.44; c f Dt 1.43). Eles foram derrotados sem misericórdia
por seus inimigos, porque presumiram que em si próprios havia recur­
sos suficientes para a vitória.
Então, por meio dessas palavras da Escritura de Habacuque, fica
claro que o soberbo não pode ser reto. Consequentemente, eles tam­
pouco podem viver. Terão de enfrentar condenação e juízo. Para
Habacuque, poderia parecer que os caldeus impetuosos e orgulhosos
continuariam a prosperar. Contudo, o fato de que sua alma não era reta
neles, deveria ser um indicador suficiente de seu juízo final.
4b. Mas o justificado - por sua sólida confiança viverá. Agora
apresenta-se o aspecto complementar da visão de Habacuque. O cará­
ter divisório desta revelação é realçado pela significação que deve ser
reconhecida em cada palavra na sentença.
2. O termo é usado em outro texto nas Escrituras para se referir a um nódulo ou a um
tumor. Cf. 1 Samuel 5.6.9,12.
224 HABACUQUE 2.4b

Mas o justificado {w^saddiq). O conceito de justiça (hebraico


s^dãqá) no Antigo Testamento revela um sabor característico em ra­
zão de que ele é ligado de fonna inseparável à ideia de uma sentença
judicial. John Skinner resumiu esta perspectiva ao observar que, no
Antigo Testamento, o elemento judicial predomina em todos os luga­
res: “O que se pretende dizer é que questões de certo e errado eram
habitualmente consideradas de um ponto de vista legal como assuntos
que deviam ser decididos por um juiz, e que esse ponto de vista é enfa­
tizado nas palavras derivadas de sdq. Isto, de fato, é característico da
concepção hebraica de justiça em todos os seus aspectos: seja uma
qualidade moral ou um slaíus religioso, está sujeito a ser considerado
como sendo em si mesmo contestável e incompleto até que seja confir­
mado pelo que for equivalente a uma sentença judicial”.^
Considerando o elo legal que repousa sobre a base da relação de
aliança de Israel com Deus, como poderia ser de outro modo? A nação
está profundamente cônscia do fato de que este é um povo pactuai, obri­
gado por um juramento solene com consequências de vida e morte
centradas na lei solenemente ditada pelo Senhor da aliança. Tudo de­
pendia da decisão legal do Deus da aliança. Era o dever do juiz terreno
garantir que sua versão correspondesse à decisão já feita pelo Senhor
do céu e da terra.
Portanto, no contexto do Antigo Testamento, a justiça deveria ser
considerada antes de tudo como um temio religioso mais que ético,
que “toma sua origem da esfera forense e faz de sua habitação a lei de
Deus”.'* O contexto legal da ideia aparece repetidas vezes nas Escritu­
ras. Deus solenemente fez “pronunciamentos de juízo” sobre os que
“justificam o perverso” e que em troca de suborno “ao justo negam
justiça” (Is 5.23). No primeiro caso, não é possível que o juiz suborna­
do de fato afete o caráter moral de suas vítimas quando “justifica o
perverso”. Nem é possível que ele corrompa o justo quando nega “ao
justo justiça”. Em ambos os casos, o que se afeta é a situação legal do

3. J. Skinner, “Righteousness in OT", A DicUonary o f The Bible, org. James Hastings


(Nova York: Charles Scribner”s Sons, 1902), 4.273.
4. Cf. L. Morris, The Apostolic Preaching o f the Cross (Grand Rapids: Eerdmans, 1956),
p. 235.
HABACUQUE 2.4b 225

indivíduo. Conquanto o juiz deva confirmar o juízo de Deus, ele per­


verteu a justiça.
A mesma situação é evidente no arcabouço judicial do intercâmbio
entre Deus e Jó. O personagem patriarcal encaminhou bem sua causa e
está confiante de que será declarado justo (Jó 13.18). Afinal, o Senhor
responde à insistência de Jó de que uma decisão judicial divina fosse
dada à sua causa: “acaso anularás tu, de fato, meu juízo? Ou me conde­
narás, para te justificares?” (Jó 40.8). Jó não é apresentado como que
tentando corromper a moralidade pessoal de Deus. O arcabouço intei­
ro do intercâmbio gira em tomo de uma situação judicial contrastante.
Em outros pontos nas Escrituras, Deus alerta contra acusar falsa­
mente o inocente e o “justo” (num contexto judicial), pois ele não jus­
tificará 0 ímpio (Ex 23.7). Jeú isenta o povo da culpa associada à morte
dos filhos de Acabe pelos oficiais de Samaria, anunciando: “Vós estais
sem culpa” (2Rs 10.9). Isaías proclama que é “a herança” do povo de
Deus refutar toda língua acusadora (Is 54.17), significando que ele será
capaz de passar ileso pelo escnitínio do juízo público. Como se disse
bem: “A justiça de Deus, ou seu reino judicial, significa que, com fide­
lidade pactuai para com seu povo, ele os justifica e salva”.^
Em Habacuque 2.4b, o termo para ojustificado ou “o justo”, saddíq,
contrasta com a referência da alma do soberbo, que não é reta (yãS^râ),
na frase imediatamente precedente. A alma do soberbo não é moral­
mente reta {yãS^râ) nele; mas aquele que é legalmente justo (saddíq)
viverá.
Mas então suscita-se a pergunta: “Como pode uma pessoa ser de­
clarada justa?”. Existe de fato um ser humano que possa ser submetido
ao escrutínio do trono do juízo divino e encontrar-se absolutamente
inocente? A frase que segue imediatamente (por sua sólida confiança)
pode ser interpretada como que explicando diretamente o caminho para
a justificação. Mas, gramaticalmente, esta frase se liga mais natural­
mente com a frase ele viverá, como indicado pelos acentos massoréti-
cos. Em vez de afirmar explicitamente que o justificado-pela-fé vive­
rá, a frase assevera que o justificado viverá-pela-fé.
5. Gottlob Schrenk, “rf/feê, díkaios, d ikaiosm è. etc.” em TDNT, 2 .195. Acrescentou-se
ênla.se.
226 HABACUQUE 2.4b

Essa análise é confirmada pelo padrão comum da sentença com­


posta em hebraico.^Nesta estrutura, o sujeito aparece primeiro, prece­
dendo uma oração verbal (em contraste com o padrão normal em he­
braico). O sujeito é então seguido por uma oração independente que
frequentemente inclui um sufixo retrospectivo (ou seja, uma referên­
cia retroativa ao substantivo inicial). Exemplos desta estrutura são co­
muns; “Ó Senhor - na tempestade (está) teu caminho” (Na 1.3); “O
Deus - perfeito (é) teu caminho” (SI 18.32 [Eng. 31); “Meu filho Si-
quém - sua alma enamora sua filha” (Gn 34.8); “E eu [quanto a mim]
- esta (é) minha aliança com eles” (Is 59.21 ). Seguindo este padrão, o
texto disponível traz: “mas o justificado - por sua sólida confiança
viverá” (Hc 2.4). Por causa desta estrutura, por sua sólida confiança
deve ser tomada na construção com viverá, em vez de mas o justifica­
do. A frase explica o modo pelo qual a dádiva da vida continua a ser
recebida, e não o modo pelo qual o pecador é declarado justo.
O texto da LXX não se conforma completamente a essa construção
da sentença, embora siga a estrutura principal. Ele traz: “o justo por
minha fé [ou seja, de Deus] (ou fidelidade) viverá”. Esta representação
quebra o padrão do sufixo retrospectivo comumente encontrado na sen­
tença hebraica composta, embora de outra forma, seguindo a estrutura
básica das palavras.
O paralelismo das duas orações em Habacuque 2.4 oferece apoio
adicional a essa versão do texto hebraico. A construção do versículo
pode ser representada da seguinte forma:

a O soberbo -
b não reto (é) sua alma
c nele;
a Mas o justo -
c pela sua fé
b viverá.

A primeira metade desse versículo segue o mesmo padrão da sen­


tença composta em hebraico. Primeiro vem o sujeito (“o soberbo”).

6. Ver a discussão e ilustrações da estrutura da sentença composta em GKC, § 140d, 143.


HABACUQUE 2.4b 227

seguido por uma oração independente incluindo um sufixo pronome


que retrocede ao sujeito inicial (“.vwa alma não é reta nele”). O parale­
lismo da construção entre estas duas porções do versículo apoia a rela­
ção de por sua sólida confiança viverá, e não com o justificado.
A ênfase resultante dessa estrutura é digna de nota. O justificado
recebe uma ênfase que não se poderia realizar na estrutura de sentença
simples do verbo seguido pelo sujeito. Por sua sólida confiança é tam­
bém enfatizado em virtude da inversão da ordem que se espera das
palavras no predicado, e é mais realçado pela variação da ordem dos
elementos em contraste com a ordem da primeira metade do versículo.
Enquanto o paralelismo é mantido, a inversão da ordem das palavras
enfatiza por sua sólida confiança.
A mensagem de que uma pessoa “viverá por fé” sublinha o fato de
que a vida é um dom, recebido graciosamente das mãos de Deus. Posto
em aguda contradição com o “soberbo” que não é “reto” em si mesmo
e que, portanto, deve morrer, aquele que confia na graça de Deus para
sua existência a cada momento viverá. Ele sobreviverá às devastações
do juízo de Deus.
Subentendendo que por sua sólida confiança relaciona-se gramati­
calmente com ele viverá, e não com o justificado, pode parecer que
deixa em aberto a questão como uma pessoa se torna justa. Mas a ênfa­
se resultante só corrobora o fato de que a fonte da verdadeira justiça
sempre permanece fora da pessoa. Se vida contínua é um dom recebido
pela fé, então a justiça, que é a base da vida, teria a mesma fonte.
Esta percepção da forma do direito judicial do pecador é realçada,
pelo que tudo indica, por ser um eco deliberado de Gênesis 15.6. Ter­
mos relacionados com os conceitos fundamentais de fé e posição de
direito legal (he’^m in, ’^rnânâ-, s^dãqà, saddtq) ocorrem em ambas
as passagens. No contexto de Habacuque, um teste de fé semelhante
àquele experimentado por Abraão em virtude do não-cumprimento das
promessas divinas se faz evidente. Por tais circunstâncias, é essencial
um julgamento divino confirmando a existência de umajustiça que as­
segura o cumprimento das promessas de Deus.
Os judicialmente justos de Habacuque 2.4b, portanto, são aqueles
precisamente justificados como o foi Abraão. Ele creu em Deus e isso
228 HABACUQUE 2.4b

lhe foi imputado porjustiça.'Os justificados de Habacuque 2.4b, portan­


to, são os “justificados por fé”. Embora a frase por sua sólida confiança
se relacione com o dom da vida, e não com o caminho para ajustificação,
0 eco de Gênesis 15.6 em Habacuque 2.4 indica que a justificação pela fé,
para Habacuque, é da mesma maneira que o foi para Abraão.
Com essa perspectiva em mente é possível olhar mais de perto para
a próxima palavra crucial de Habacuque: por sua sólida confiança
(be’^mûnâtô). Já foi indicado que esta frase descreve o modo pelo
qual a pessoa continuará a viver, e não o modo pelo qual ela é justifica­
da. O posicionamento da frase antes do verbo que a modifica enfatiza
a importância desta ideia.
Como, pois, pode uma pessoa experimentar vida? Por seus “atos de
fidelidade”? Para não deixar dúvidas, “fidelidade” é o significado origi­
nal do termo. Seria este o significado do termo usado por Habacuque?
Particularmente, como o conceito se aplica a Deus, sua “fidelidade” é
uma virtude constantemente louvada nas Escrituras. Ele é caracteriza­
do como “Deus é fidelidade” (Dt 32.4). Todas suas obras são feitas em
constância ou fidelidade (SI 33.4). Ele tem estabelecido sua fidelidade
reiteradamente (SI 89.2-3,6,9,25,34,50 [Eng. 1-2,5,8,24,33,49]). Sua
fidelidade garante o padrão de suas obras e fornece a base da confiança.
Agora, pois, deve-se concluir que, uma vez que o pecador tenha
sido justificado pela fé, a vida vem por meio das obras? Tal sugestão
contradiría diretamente o ponto que acaba de ser estabelecido por Ha­
bacuque. Pois da mesma forma que o homem soberbo pela própria na­
tureza do argumento não pode ser reto em si mesmo (Hc 2.4a), também
0 pecador que reivindica vida perante Deus em virtude de suas obras
constantes deve ser orgulhoso.
O significado básico do termo ’^m únâ é “firmeza”, e Habacuque
promove a “firmeza” como sendo o caminho para se receber o dom da
vida. Mas, pela própria natureza de seu argumento, não pode ser por
obras (sólidas). O princípio da vida constante do pecador é idêntico ao
princípio da justiça do pecador. Firmeza na fé é o caminho para se
7. Cf. o tratamento mais completo do conceito da justiça imputada da maneira eomo ela se
manifesta em Gênesis 15.6, em O. Palmer Robertson, “Genesis 15.6: New Covenant
Expositions of an Old Covenant Text”, IVTJ 42 ( 1980) 265,266.
HABACUQUE 2.4b 229

receber o dom da vida. Somente a permanência na confiança pode as­


segurar a posse contínua do dom da vida.
Embora a finneza nas obras seja inevitavelmente relacionada com
0 termo usado por Habacuque, o arcabouço em que a asseveração do
profeta deve ser entendida, como foi indicado, encontra-se na afirmação
de Abraão “ele creu no Senhor” e “isso lhe foi imputado para justiça”
(15.6). A notável semelhança do pronome feminino (“isso lhe foi impu­
tado”) de que não há nenhuma referência explícita na passagem de Gê­
nesis deve ser considerada com cautela.
O que se deve entender pelo “isso” dessa frase? O pronome femini­
no singular retrocede ao verbo “ele creu” (he’^m in), e, portanto, pre­
sumivelmente, seria uma alusão ao substantivo correspondente - “cren­
ça” C^mãnâ!). Precisamente esta palavra descreve o modo de vida
em Habacuque 2.4: “O justo \\\Q xkbe’^m ünãtô". O substantivo aqui,
da mesma maneira que o verbo correspondente em Gênesis 15.6, afir­
ma que a sólida confiança é o caminho para se receber o gracioso
dom da vida.
Por mais estranho que possa parecer, a linguagem hebraica não é
rica em substantivos que possam ser considerados equivalentes ao nosso
termo fé. Na verdade, ’^m ünâ seria o termo candidato mais natural se
“fé” fosse a ideia que Habacuque tentava comunicar. Ao que parece, os
exegetas foram apressados demais em identificar o significado deste
termo ( ’^m ânâ) exclusivamente com “fidelidade”.* Mas, uma consi­
deração cuidadosa dos contextos do Antigo Testamento, nos quais o
termo ocorre, indica que “confiança” ou “fé” pode explicar muito bem
0 uso do termo em diversos lugares.
Numerosas passagens contrastam a forma de “falsidade” com a
forma de ’^m ünâ num contexto judicial. Nesta circunstância, aquele
que “confia” falará a verdade, desta maneira indicando sua fé em que
Deus defenderá sua causa. Em contraste, a pessoa falsa conta com sua

8. Em seu artigo criterioso sobre a fé, B. B. Warfield provavelmente esteja certo em ver
Habacuque 2.4 como a única passagem do Antigo Testamento na qual o contexto demanda
que o substantivo hebraico seja traduzido por “fé”. Outras passagens, porém, certamente
parecem ter esta possibilidade. C f B. B. Warfield, “Faith” in Biblical and Theological
Studies (Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1952). p. 431.
230 HABACUQUE 2.4b

própria engenhosidade e fraude a fim de sustentar seus interesses. En­


tão o Salmo 119.29-30 podería ser traduzido assim:

O caminho de falsidade
desvia de mim...
O caminho da confiança sólida
escolhi;
em teus justos Juízos
depositei meu coração.

Provérbios 12.17 oferece contraste semelhante:

Aquele que fala (em) sólida confiança


fará conhecida a justiça;
mas a testemunha falsa
manifestará mentiras.’

Outras passagens em que “fé” e “confiança” podem ser a tradução


apropriada de ’^m ünâ incluem Provérbios 28.20; Salmo 31.24 (Eng.
23); 37.3. Com respeito a esta última passagem, Alfred Jepsen caracte­
riza ’^m ânâ “como aquela atitude interior que é o pré-requisito para
uma vida genuína”.'®É suficiente dizer que, em muitos casos no Antigo
Testamento, o aspecto principal do termo ’^m ãnâ parece residir nesta
atitude interior de confiança. Habacuque 2.4 é distintivo, mas talvez
não único nesta utilização do termo.
João Calvino descreve habilmente a graça que Habacuque reco­
menda. É “aquela fé que nos desnuda de toda arrogância e nos conduz
nus e carentes a Deus, para que busquemos a salvação somente nele, a
qual de outra forma nos seria inatingível”." Ele observa que o ensino

9. Pode-se enconiTar contrastes semelhantes em Provérbios 12.22; 14.5.


10. Alfred Jepsen, “ ’Sman, etc.” em TDOT, 1.318. Jepsen também afirma que ’^m ünà em
contraste com ’^m et “parece enfatizar a atitude interior de uma pessoa e a conduta que ela
produz” (p. 317). Em outro ponto, ele define ’^m ünà como “um modo de agir que deriva da
estabilidade interior” (p. 317). O tratamento de Jepsen da essência do uso bíblico do termo
como significando “consciência” afasta a força central do termo para longe demais, ou
seja, uma qualidade moral abstrata que é estranha aos contextos bíblicos. “Firmeza” com
relação a Yahwch se situa no âmago do conceito.
11. Calvino, p. 74.
HABACUQUE 2.4b 231

romanista concorda que os pecadores são justificados pela fé, porém


não tolera a ideia de que sejam justificados somente pela fé.
Mas, “firmeza” na fé é uma graça que produz boas obras, e não
deve ser confundida com as obras que ela produz. No contexto de
Habacuque, quando considerado à luz de Gênesis 15.6, a “sólida confi­
ança” em Deus é o caminho por meio do qual o dom da vida deve ser
recebido. Este modo contrasta com toda e qualquer arrogância e
orgulho.'^
Essa versão distintiva dessa frase pela LXX poderia ter emanado de
um senso de tensão entre a justiça pela fé e vida pelas obras fiéis da
parte do pecador. Em vez de traduzir por “o justo por sua fé viverá”, a
LXX traz: “o justo por minha fidelidade (isto é, de Deus) viverá”. En­
tretanto, é também possível que “por (a) fé de mim”, na LXX, na reali­
dade signifique “pela fé em mim”. Uma expressão paralela pode ser
encontrada numa passagem tal como Marcos 11.22: “Se vós tiverdes
(a) fé de Deus [pistin theoú)...", claramente significando “Se vós tiver­
des fé em Deus...”.'^
O tratamento que o NT dá ao texto corresponde apropriadamente à
mensagem central de Habacuque. Particularmente Paulo exibe uma
magnífica compreensão da mensagem do profeta quando adota essa
frase singular como uma base para construir toda a Carta aos Roma­
nos. Não meramente como uma nota-chave tangida para introduzir seu
tratado, mas como um tema bem equilibrado que estrutura a totalidade
de sua mensagem, esse versículo de Habacuque permeia toda sua
epístola.

12. C. von Orelli, p. 248, está bastante correto em sua observação do termo firmeza como
aparece aqui. E “coerente com o contraste, uma atitude leal a Deus, e como tal, segundo
Gênesis 25.6 (o substantivo aqui corresponde a o h ’m yn ali), deve ser visto eomo confiança
humilde, portanto/ j/í / i.v, fé, fidelidade e confiança”. Entretanto, ele viola cada ponto que
estabeleceu quando segue asseverando que a fé salva da morte “porque é o elemento funda­
mental na justiça”.
13. A explicação mais simples para a versão LXX pode ser “baseada na bem conhecida
confusão na ortografia escribal hebraica entre y e w” (P. J. M. Southwell, “A Note on
Habakkuk ii.4” JTS 19 [ 1968] 615). Conquanto seja possivel que a LXX represente a reda­
ção original do texto, a função do pronome retrospectivo na sentença composta hebraica
como discutido acima, bem eomo o paralelismo com a primeira metade do versículo, apoia
a precisão do TM.
232 HABACUQUE 2.4b

Ao abordar esse tema em Romanos, Paulo declara que a justiça de


Deus se revelou de fé para fé (Rm 1.17). A fé funciona como a origem
da justiça na justificação, e como o arcabouço para a continuação da
justiça na santificação. O apóstolo então desenvolve esta dupla função
da fé como originalmente apresentada em Habacuque 2.4, discutindo a
fé que recebe o dom da justificação em Romanos 1-5 e a fé que recebe
o dom da santificação em Romanos 6-8. Assim Paulo oferece um evan­
gelho bem equilibrado no desenvolvimento de seu tema, de que “o justi­
ficado (pela fé) viverá por sua sólida confiança”.
Quando Paulo primeiramente introduz sua citação de Habacuque,
ele vincula “fé” à “justificação” e não à “vida” do pecador. Mas, como
se poderia explicar que, enquanto Habacuque aparentemente relaciona
a fraseologia “pela fé” com o modo de vida, Paulo, em vez disso, não
tem nenhum escrúpulo em relacionar “pela fé” com o caminho para a
justiça? Estaria ele exercendo certa liberdade para com o texto inspira­
do que vai além de sua intenção original?
Se a exegese anterior de Habacuque 2.4b for correta, esse proble­
ma é mais imaginativo do que real. O “justo” de Habacuque não é
outro senão o “justificado”, e de acordo com o paralelo com Abraão,
sua justificação é “pela fé” da mesma maneira que era a de Abraão.
Embora Paulo omita totalmente esse pronome de sua citação, ele inter­
preta a “fé” de Habacuque como uma referência à confiança exercida
pelo pecador, em contraste com quaisquer obras que porventura ele
faça (cf Rm 3.22,25-28,31; 4.3,5,9,11-14,16-20,24; 5.1-2). Embora a
“fidelidade” de Deus obviamente seja essencial à salvação do pecador,
em todas essas passagens Paulo está discutindo a “fé” de Habacuque
como a confiança em Deus que é requerida dos pecadores para a salva­
ção. Enquanto Paulo avança em Romanos 6-8, ele enfatiza continua­
mente a posse do dom da “vida” como fora mencionado em Habacu­
que 2.4 (Rm 6.4-5,8,10-11,13,22-23; 7.4,6; 8.2,6,10-11,13). “Ressur­
reição” e 0 “Espírito”, nesses capítulos, relacionam-se diretamente com
essa “vida” prometida por Habacuque àquele que crê. Assim Paulo
está simplesmente enfatizando o coração e núcleo da mensagem de Ha­
bacuque. Esta grande mensagem de justificação e vida pela fé somente é
de natureza escatológica e deve ser genuína até o fim dos tempos.
HABACUQUE 2.4b 233

O escritor de Hebreus cita Habacuque 2.4 em 10.37-38, porém para


um propósito diferente. Sua preocupação era enfatizar a importância da
perseverança na fé. Ele almeja levar seus leitores a reivindicarem o dom
da vida pela fé, a despeito dos inúmeros obstáculos. O posicionamento
de “meu” em Hebreus corresponde à sua localização em muitos manus­
critos da LXX (“meu Justo” - ho dè díkaiòs mou, em vez de “por minha
fé” - ekpisíeõs mou). Como uma consequência, o escritor de Hebreus
evita a impressão errônea de que ele interpreta Habacuque como que
afirmando simplesmente que é pela fidelidade de Deus que ojusto vive­
rá. Embora tal afirmação seja por si só verdadeira, ela não constituía a
exata verdade de que os crentes sofredores do século 1®necessitavam
neste momento. Em vez disso, eles precisavam lembrar que Deus tem
seus justos, e que eles realmente viverão pela fé!
A galeria dos heróis da fé em Hebreus 11, que segue imediatamen­
te essa citação de Habacuque, não faz da fé propriamente dita uma
obra, portanto anulando o âmago da mensagem de Habacuque. Em vez
disso, é ""pela fé” que todas essas obras têm sido realizadas ao longo
dos tempos.
Então dois autores diferentes do Novo Testamento citam as Escri­
turas do Antigo Testamento com uma ênfase diferente com o fim de
expressar pontos significativamente diferentes. Contudo, cada autor
permanece verdadeiro em relação à essência das Escrituras do Antigo
Testamento como registrada por Habacuque. Paulo enfatiza que uma
pessoa que foi justificada viverá pela fé. Como já se observou, Paulo
também desenvolve a ideia da vida pela fé em Romanos 6-8.
A localização do canal para a vida na sólida confiança de uma pes­
soa ocorre repetidas vezes no Antigo Testamento. Israel é admoestado
a ouvir atentamente a voz do Senhor e a depender dele: “disto depende
tua vida” (Dt 30.20). Tão somente pela união com Deus, a fonte da
vida, é que Israel pode ter esperança de viver. Tão somente por meio de
uma sólida confiança, que a obediência inevitavelmente produz, é pos­
sível ser mantida esta relação com Deus que gera vida.
O problema que Habacuque enfrentava consistia na perspectiva da
devastação de Israel, significando o fim da vida da própria nação de
Deus. A frustração do profeta em não entender a mensagem divina de
234 HABACUQUE 2.4b-5

juízo é expressa em sua interjeição espontânea: “não morreremos!”


(Hc 1.12). Contudo, a revelação que Deus lhe comunica aparentava
que na verdade Israel morrería. Mas o Senhor exibe esta visão do
escaton: “... viverá!” (Hc 2.4). O justificado (pela fé) viverá por sua
sólida confiança.
Em sentido bem real, o problema enfrentado por Habacuque era
idêntico ao problema de Paulo mais tarde confrontado em Romanos
11. Havia Deus lançado fora seu povo? A devastação sobre Israel era
óbvia para os cristãos do século 1=. As bênçãos mais ricas da Antiga
Aliança de Deus agora se tornaram possessão de todas as nações,
enquanto Israel fora “cortado” fora pelas palavras do próprio Cristo.
O reino fora tomado deles e dado a outra nação que estava dando o
fruto certo (Mt 21.23). Paulo responde a este quadro confuso pelo
mesmo prisma como visto em Habacuque. Pois à medida que Israel
abandonasse sua incredulidade, ele seria enxertado (Rm 11.23). Ainda
hoje um remanescente crente permanece segundo a eleição da graça
(Rm 11.5).
Então o justificado pela fé continua a viver pela fé. A despeito dos
justos juízos de Deus, um remanescente sobreviverá. Por meio de sóli­
da confiança, e ao longo das horas mais escuras, eles viverão.
5. Todavia, o perverso continua em seus caminhos vorazes. As per­
guntas complexas de Habacuque sobre a destruição iminente de Israel
suscitaram a visão escatológica de Deus, o qual estabeleceu que o so­
berbo não pode ser reto e o justificado (pela fé) viverá por sua sólida
confiança.
Esses pontos de reafirmação ofereceram algum conforto ao perple­
xo profeta. Entretanto, eles pareciam ser contraditados diretamente pe­
las circunstâncias iminentes que ele encarava. O terceiro ponto que
aparece na visão do Senhor a Habacuque confirma a realidade desta
tensão com a qual o profeta deve viver. O perverso continuará em seu
caminho brutal, em prosperidade aparente, a despeito da verdadeira
obra de salvação divina no justo pela fé e sua declaração da certeza da
destruição final do perverso.
Esse versículo começa com o contrastante Entretanto. Por causa
dos poderes enganosos do vinho, aquele que é orgulhoso é insensível ao
HABACUQUE 2.5 235

seu verdadeiro estado. Ele vive numa condição ilusória intensificada


pelo vinho.
A “escrita na parede”, para o reino babilónico, pode ser lembrada;
ela veio em meio à festa de Belsazar. O livro de Daniel intencional­
mente observa que enquanto o rei estava bebendo vinho ordenou que
fossem trazidos os utensílios de ouro e prata que Nabucodonosor trou­
xera do templo de Jerusalém. Enquanto ele, seus nobres, esposas e con­
cubinas bebiam e louvavam a seus deuses de ouro e prata, apareceu
aquela mão a escrever uma sentença de juízo na parede (Dn 5.1 ss.). Em
meio à sua orgulhosa celebração, manifestava-se o decreto divino de
destruição.
Não se deve supor que a visão de Habacuque esteja selecionando
0 pecado da embriaguez como a principal transgressão. Tampouco se
deve ver a introdução desse pecado específico como não apropriado.
Bebida forte por si só não engendra o orgulho que é tão detestável a
Deus. Porém serve como um agente por meio do qual o orgulho huma­
no latente aflora à superfície com toda sua hediondez. Bebida forte
evoca expressões de inflada auto-estima, inerentes na mente e coração
pecadores.
Consequentemente, a pessoa arrogante se vangloria e não descan­
sa. Nada pode satisfazê-la. Sua paixão por posses se expande como o
apetite insaciável do sheol, o túmulo que avança ao longo dos tempos a
devorar a todos. Como o próprio Habacuque já observara em sua quei­
xa, o único contentamento dos babilônios é abocanhar todas as nações
para si (Hc 1.15-17).
Então a resposta do Senhor à queixa de Habacuque oferece espe­
rança, porém não vem dissociada também de sombria perspectiva do
futuro. Aqueles que têm crido continuarão a viver por sua fé. Mas os
perversos terão também seu dia, devorando nações por sua brutalidade.
Essa visão é verdadeiramente escatológica em seu significado. Ela
caracteriza de modo apropriado a presente era, até o tempo da consu­
mação final. “Os justificados (pela fé) viverão pela sua sólida confian­
ça” presume a essência do evangelho cristão enquanto o orgulho do
incrédulo explica sua infindável brutalidade contra o povo do Senhor.
236 HABACUQUE 2.6-20

2. O ridículo do arrogante (2.6-20)


Havendo desvendado a essência da solução do problema de Haba-
cuque, 0 Senhor então passa a aprimorar o destino certo do arrogante,
que se põe em contraste com o humilde que crê. Não recebendo nada
mais (e nada menos) senão o que merecem, os vangloriosos caldeus
vêm a ser temas de sábios ditos articulados com o intuito de humilhá-
los. Uma série de cinco expressões de escárnio expressam ajusta re­
compensa que certamente virá.

Introdução: um provérbio ou máxima - enigmas contra ele (2.6a)

6a Todos eles não


manterão contra ele
um provérbio e uma máxima -
enigmas contra ele?'

O próprio Israel fora avisado que se não observasse os mandamen­


tos de Deus seria motivo de escárnio entre todas as nações da terra (Dt
28.37; IRs 9.7). Agora o Senhor declara que virá o dia quando todas
aquelas nações às quais os caldeus têm oprimido haverão de zombar de
seu vencedor.
Nada fere mais permanentemente do que se tomar o objeto obscu­
ro de zombaria. O caráter enigmático da zombaria estabelece a perma­
nência da ferida.
Pode parecer rebaixar a dignidade de Deus o ato de envergonhar o
soberbo perante o mundo vigilante. Mas uma parte de sua realidade
como o Deus da história inclui sua pública defesa do Justo e a pública
humilhação do perverso. Sua glória perante toda sua criação é magni­
ficada pelo estabelecimento da honra do humilde e da desgraça do arro­
gante. Neste caso, a vergonha dos babilônios haveria de ser tão grande

I. Três termos separados descrevem a zombaria que haverá de sobrevir aos babilônios.
mSSãl é usado frequentemente nas Escrituras e pode referir-se a um dito proverbial, um
discurso figurativo, ou uma máxima de motejo. m^lt^á se deriva da raiz /fj, significando
escárnio, caçoada ou zombaria. hí4ôt expressa a conotação de uma charada ou um dito
ardiloso. O terceiro termo, na forma plural, descreve o efeito às vezes enigmático das duas
primeiras palavras.
HABACUQUE 2.6b-8 237

quanto suas conquistas. Todos eles, todas aquelas nações vencidas pela
Babilônia deveriam juntar-se na zombaria. Até mesmo a menor das
nações repetiria esses provérbios sem medo de represália.
a. Ai do saqueador saqueado (2.6b-8)

6b E ele dirá:
Ai
daquele que multiplica
aquilo que não é seu -
Oh até quando (será assim)?
e se fa z glorioso
por meio de penhores -
1 não será de repente?
Teus credores
formarão uma revolta
e teus perturbadores
despertarão;
Tu serás
despojado por eles.
8 Visto como despojaste
muitas nações,
todo o restante dos povos
te despojarão
por causa das feridas sangrentas dos homens
e da violência feita à terra,
e à cidade e a todos os seus moradores.

Este pronunciamento particular de juízo combina vários artifícios


para construir um provérbio que será lembrado, um dito que será susci­
tado e perseguirá os babilônios em sua arrogância nos tempos vindou­
ros. Na realidade, o número de artifícios empregados nesses versículos
é bem notável. A maioria deles se perdeu no processo de tradução. Mas
os seguintes podem ser particulannente notados:
(1) Assonância e aliteração. Ai daquele que multiplica o que não é
seu (v. 6b). As últimas palavras dessa frase são pronunciadas da mesma
238 HABACUQUE 2.6b-8

maneira em hebraico. Como “cesta” e “sexta” em português, o mesmo


som comunica um significado diferente.
Por causa das feridas sangrentas dos homens (v.8b) é m idd^m ê
’ãdãm em hebraico. Conquanto este artifício não pareça particular­
mente notável ao leitor de língua portuguesa, o papel principal deste
tipo de assonância em hebraico realça seu significado. A semelhança do
som acentua a notabilidade da frase.
(2) Sentido duplo das palavras. Um princípio hermenêutico simples
assevera que uma palavra individual só pode ter um sentido em dado
contexto. Contudo, um abandono deliberado desta regra na comunica­
ção humana tem o efeito de intensificar o impacto numa palavra parti­
cular.
Teus credores (nõS^keykã) regularmente significa “morder”. A raiz
é usada de modo apropriado para indicar um credor; pois, falando em
termos figurativos, isso é exatamente o que ele faz. Ele morde um
pedaço dos bens da pessoa a quem ele empresta dinheiro. Então os
mordedores/credores da Babilônia se erguerão contra ela de repente.
O sentido duplo da palavra sublinha o juízo que sobreviria à nação
opressora.'
Outro caso possível de duplo sentido nesse primeiro provérbio se
encontra na palavra traduzida por “penhores” (ahtU, v. 6b). Todavia, é
possível também ver o termo simultaneamente como uma palavra com­
posta que significa “monturo de lama”. Os babilônios se tomaram gran­
des, acumulando sobre si penhores!monturos de lama?

1. Pode-se encontrar mais discussões sobre este termo na nota 4.


2. O termo 'abttt, um hapax legomenon, mais provavelmente é uma forma intensificada
de 'õèof, "penhorar”, criada pela duplicação do terceiro radical (cf. Rudolph, p. 219; GKC,
§ 84b. m). Entretanto, o termo também poderia derivar-se dc duas palavras: 'b, significando
“nuvem” ou “massa”; c (yt, significando “barro” ou “lama”. A última possibilidade encon­
tra apoio em alguns manuscritos hebraicos que dividem a palavra, bem como na Siriaca e
Vulgata. Parece ter sido conhecido por IQpHab, que se refere a “todo tipo de impureza
profanadora” (8.13).
Muito provavelmente esta escolha de palavras por parte de Habacuque represente um
caso de duplo sentido, de modo que os bens ganhos de maneira desonesta, pelos caldeus,
seriam vistos como riqueza derivada de penhores opressivos, e de outra perspectiva como um
“monte de barro” que os caldeus amontoaram sobre si mesmos. As observações feitas por
Calvino são particularmente apropriadas em termos da aplicação desta mensagem. Ele ob-
HABACUQUE 2.6b-8 239

(3) Apelo para a verdade proverbial. Toda civilização e linguagem


inevitavelmente desenvolvem seus tesouros ocultos de sabedoria para
a vida. A medida que Habacuque fere os caldeus com seus ferrões
verbais, ele empluma seus dardos com verdades proverbiais a fim de
garantir que atinjam seus alvos. Ao descrever a futilidade da Babilônia
acumular o que amealhou desonestamente, Habacuque ecoa uma ver­
dade proverbial conhecida:
“O que aumenta seus bens com juros (b^neõek) e ganância ajunta-
os para aquele que se compadece do pobre” (Pv 28.8).
“O que oprime ao pobre para enriquecer a si ou o que dá ao rico
certamente empobrecerá” (Pv 22.16).
“Os bens que facilmente se ganham, esses diminuem, mas o que
ajunta à força do trabalho terá aumento" (Pv 13.11).
O juízo que tão de repente {peta') sobrevirá aos babilônios tam­
bém encontra seu reforço nos provérbios de Israel:
“Pelo que sua destruição virá repentinamente [ao perverso]; subi­
tamente será quebrantado, sem que haja cura” (Pv 6.15).
“O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz será
quebrantado de repente sem que haja cura” (Pv 29.1).
(4) Retribuição como um tema realçado pela fraseologia e conteú­
do. Por mais duro que o princípio “olho por olho” pareça ser no con­
texto moderno, ele representa a lei da justiça na qual o opressor obsti­
nado recebe da mão de Deus o que merece. Então Habacuque enfatiza,
mediante a forma e a substância, a certeza da recompensa na justa
medida do perverso: Visto como despojaste a muitas nações, todos os
mais povos te despojarão a ti (ki ’attâ Sallôíã gôyim rabbtm
y^sãllübõ, kol-yeter 'ammim).
(5) Rima de frases. Geralmente se nega que a rima de palavras
exerça algum papel na literatura hebraica. Contudo, deve-se reconhe-
serva que toda a riqueza desle mundo não passa de mero monturo de barro (p. 95). Quanto
mais o avarento amontoa, maior jaz o peso sobre seus ombros. Quase que invariavelmente, a
pessoa sovina transforma sua riqueza em peso para ela mesma carregar. À medida que se
toma mais velha, ela fica receosa de perder o que amealhou e sua sovinice a impede de gastar
o que possui.
240 HABACUQUE 2.6b-8

cer que o uso da rima como um artificio para reforçar uma afirmação
certamente era um artificio possível que podia ser empregado. Que a
rima ocorre nos atuais provérbios proféticos, não se pode negar. Nada
menos que três casos são bastante evidentes:

yãqâmü nõs^keykã
w^yiqsú m^za '^'eyhã (v. 7)
ki ’attâ Sallôtã
gôyim rabbim
y^Sãllükã
kol-yeter ’ammim (v. 8a)
qiryâ
w^kol-yõS^bê (v. 8c)

De certo modo é bem mais difícil determinar se a rima dessas pala­


vras foi intencional. Neste caso, a presença de três exemplos juntos em
uma extensão tão curta com a intenção expressa de compor um provér­
bio que não fosse esquecido pressupõe que essas rimas não eram aci­
dentais. Embora o assunto não fosse explorado nos estudos de artifí­
cios poéticos hebraicos muito extensivamente, deve-se notar a presen­
ça de tipos semelhantes de rimas aparentes em outros provérbios bíbli­
cos (cf Pv 11.2,7,10; 13.3; 18.17; 22.10).
De qualquer modo, essa primeira máxima judiciosa sobre Babilô­
nia está repleta de exemplos de artifícios literários que se mostraram
efetivos na construção de um dito proverbial. Será de fato dificil ao
opressor escapar dessas frases uma vez que elas foram penduradas em
seus pescoços.
6b. O contraste entre todos eles (v. 6) e ele, que pronuncia a máxi­
ma proverbial, tem sido avaliado de modo variável.^ Mais provavel-
3. A LXX traduz kai eroúsin, “e eles dirão”. Os tradutores da Vulgata, o impessoal hebraico;
etdicetur, “e será dito”. Calvino, p. 91, simplesmente observa a mudança cm número, dizen­
do que ele não obscurece o sentido. Keil, p. 77, não comenta este ponto em particular, mas
observa que "todos eles” poderia referir-se somente aos crentes entre todas as nações. Outros
tem identificado o “ele” que fala como sendo “o justo” de Habacuque 2.4, ou como o próprio
Deus. Rudolph. p. 219, diz que o sujeito é indefinido. Ele caracteriza as formas plurais em
IQpHab e na LXX como correções óbvias.
HABACUQUE 2.6b 241

mente a mudança representa a alteração comum em hebraico entre um


grupo corporativamente considerado e um indivíduo do grupo que fala
por todos.
0/1; (hebraico hôy) que separa as cinco máximas proverbiais nesta
seção (v. 60,9,12,15,19) é uma palavra onomatopéica que não “amal­
diçoa” precisamente, embora seja usada frequentemente para introdu­
zir uma sentença de juízo. Em vez disso, ela dá ideia mais ampla incor­
porada numa interjeição exclamativa “Ah-ah!” ou simplesmente “Ah!”.
No presente contexto, ela assume um pouco do tom de zombaria ineren­
te nas palavras desses insultos. O paralelo mais próximo deste comboio
de cinco sentenças consecutivas de Habacuque, introduzidas por essa
palavra, é encontrado em Isaías 5, em que o termo ocorre seis vezes em
sucessão.
Justiça poética ou reciprocidade é o ponto principal dessa primeira
máxima. E fato que o babilônio acumulou o que não lhe pertencia por
justiça (v. 6b)? Ele se converterá em despojo para seus destruidores
despertos (v. 7b). Ele se vangloriou dos bens tomados por penhores (à
revelia) (v. 6b)?^ Então aqueles que se tornaram seus credores haverão
de devolver na mesma moeda, sem misericórdia (v. 7).^ Ele despojou a
muitas nações, marchando com seus exércitos e deixando uma trilha
de saques e carbonização atrás de si (v. 8)7 Então aqueles sobreviven­
tes espalhados de muitas nações se erguerão um dia para devastar to­
das as possessões babilónicas (v. 8).
Se esta forte ênfase sobre o juízo recíproco parece distintamente
“veterotestamentária” em orientação, duas passagens neotestamentári-

4. A ideia de um penhor à revelia pode provir de uma nação vencidada desrespeitando as


estipulações do tratado de suserania imposto pelo vencedor babilônio.
5 .0 termo nõS^teykã, “teus credores”, pode a principio parecer lazer mais sentido se tradu­
zido como “teus devedores”. Pois parece mais apropriado considerar as nações conquistadas
por Babilônia como seus devedores e não seus credores. Considerações posteriores, porém,
levam na direção oposta, e apoiam o significado mais natural da palavra. O profeta agora
está falando do ponto em que a justiça finalmente será cobrada dos babilônios. Naquele
tempo não serão as nações oprimidas que devorarão a Babilônia, mas a Babilônia é que
será sua devedora. Por meio de brutalidade opressiva, ela tem roubado as nações de sua
riqueza pessoal. Mas o dia chegará em que essas nações oprimidas estarão na posição de
exigir da Babilônia a repatriação por todo o dano que ela lhes causou. Naquele dia. as
nações indefesas da terra se tomarão os credores exigentes de uma Babilônia humilhada.
242 HABACUQUE 2.6b-8

as podem servir para indicar a continuação da validade dessa mensa­


gem. O próprio Cristo culmina sua parábola do credor incompassivo
que confina seu conservo numa prisão perpétua até que saldasse a
divida de apenas uma pequena quantia, com uma lição sobre recipro­
cidade. Esse homem será sentenciado ao inferno até quitar o último
centavo de sua dívida de milhões (Mt 18.21 -35). Segundo Paulo, Deus
é justo e retribui com punição em dobro (íhlipsin) aqueles que atribu­
lam os cristãos crentes {toís thlíbousin) (2Ts 1.6). O Deus de toda a
terra fará o que é reto, e parte de sua retidão será expressa na Justa
punição de quem oprime os outros.
Inseridas no tratamento da natureza recíproca do juízo divino estão
as questões concernentes à hora certa daquele juízo. Particularmente
para Habacuque, esta questão tinha relevância: até quando {seria) a
justiça se manifestaria em toda sua retidão autoconvincente (v. 6b)? O
profeta começara sua queixa em vista da crueldade desenfreada entre
seus próprios conterrâneos. Ele então expressou assombro ante a inva­
são babilónica. Mas, quantos anos transcorreriam até que a opressão
cessasse de vez? Quando seria que os pratos da balança cessariam de
pender para um lado em detrimento do outro?
7. A resposta desse pronunciamento divino é subitamentel Esta res­
posta não deveria ser entendida como uma gentil evasão à pergunta
direta do profeta por meio de resposta em termos de “como” e “quan­
do”. Pois a resposta do juízo divino em termos de “rapidez” fornece
mais informação que a pergunta requeria. Ela revela de modo equilibra­
do tanto o desejo de Deus em ser misericordioso para com o pecador
empedernido como sua determinação em estabelecer a justiça na terra.
Por algum período considerável. Deus mostrará sua longanimidade para
com aqueles que cometeram reiterados atos de crueldade. Tais pessoas,
porém, nunca devem presumir que as misericórdias de Deus continua­
rão por mais tempo que o momento presente. A retribuição divina é
certeira e poderá chegar sem aviso prévio.
8. A razão final para esta vinda do juízo divino é a violência cruel
feita à criação toda. Elementos humanos e não-humanos do mundo são
da alçada do Todo-Poderoso. Os homens e suas terras, a cidade e seus
moradores têm sofrido violência indescritível. Em virtude dessas ra­
HABACUQUE 2.8-11 243

zões combinadas, os orgulhosos vencedores deverão sofrer retribuição


apropriada.
A mensagem de juízo recíproco deve imprimir sobriedade à visão
sentimental das civilizações modernas. Se cada pessoa, ao cobrar juros
excessivos dos devedores, considerasse que nas dispensações de Deus
ela deverá receber precisamente o mesmo tratamento que inflige, tal
pessoa poderia ser levada ao arrependimento. Se os políticos e coman­
dantes das forças militares, acostumados a agir de modo brutal e impie­
doso, entendessem que eles e seu povo um dia haverão de receber o
mesmo tratamento das mãos daqueles que oprimem, um lamento genu­
íno a Deus, por misericórdia, num contexto de arrependimento, poderia
tomar-se mais frequente. Conquanto os moinhos de Deus moam vaga­
rosamente, eles moem excessivamente finos.
Esse provérbio divino, expresso em sua forma memorável, deixa
bem claro que o Todo-Poderoso está excessivamente preocupado com
os assuntos “não-religiosos” da desumanidade do homem para com o
homem. Não apenas em alguma eternidade distante, nebulosa, mas na
vida presente, a mão da justiça divina deverá retribuir ao povo confor­
me suas obras. Embora o equilíbrio final dos pratos da balança da jus­
tiça espere a eternidade, este exato momento mostrará uma equidade
maior do que a princípio parecia.
b. Ai do fortificado desmantelado (2.9-11)

9 Ai
daquele que cobiça perversamente^
para sua casa,
para pôr no alto
seu ninho,
a fim de livrar-se das mãos do mal!

1. A função gramatical do termo "mal” (rü ') aqui é difícil. Keil, p. 100, o toma como
adjetival: “uma cobiça maligna”. Rudolph, p. 220, o vê como um substantivo: “para a des­
graça de sua casa”, exigindo que ele interprete esta frase como uma antecipação parentética
das consequências da cobiça que só são explicadas nos versículos seguintes. A tradução
acima, sendo mais “dinâmica” do que literal em natureza, tem traduzido o sentido como
advérbio, ainda que a sintaxe, estritamente falando, favoreça a função adjetival.
244 HABACUQUE 2.9-11

10 Tu atraíste opróbrio sobre tua própria casa


ao eliminares- muitos povos,
e pecando contra tua própria alma?
11 a Porque a pedra
b da parede
c clamará,
a e a trave
b do madeiramento?
c lhe responderá.

Essa segunda máxima proverbial contém alguns dos mesmos artifí­


cios para assegurar seu caráter memorável, como se encontra no pri­
meiro insulto. A aliteração é criada pela repetição na fonna nominal e
verbal da mesma raiz (bõsêa’ besa', v. 9). O jogo intencional dentro do
múltiplo signifícado de uma só palavra se toma evidente no uso do ter­
mo casa, que pode denotar “dinastia” ou “habitação”. Embora seja
reconhecido que o fenômeno pode ser incidental, ocorre uma vez mais
0 propósito do autor de rimar as palavras finais nas frases:
bõsêa' besa' rã'
l^hêtô
lãsüm bammãrôm
qinnô
2. O "destruindo” tu a muitos povos, no versículo 10, é uma construção infinitiva
na forma do verbo qS^ã. A versão de 1QpHab 9.14 é outro assunto; ele traz q^^Gwôt, embo­
ra/resAer em 10.2 traga O texto e sua interpretação indicam os “confins” ou extre­
midades do lugar de punição do “sacerdote perverso”. Segundo Brownlee, Midrash, p. 159,
a palavra q^fãwôi seria “o substantivo plural absoluto singular feminino teorético qè^tU.''
que significa limite sem fronteiras. 1OpHab combina esta palavra com uma modificação de
h õ fi’ (“pecadores”) para kúfê (“ligações”), para apoiar sua interpretação de que a frase
indica um “confinamento” do perverso no inferno. Rudolph, p. 220, observa que, segundo as
versões, seria indicado como um verbo finito qa?i}ôt3 de qG^a^. O significado não é afetado
materialmente por essas variações.
3. “Penhorando sua própria vida” (NIV) é uma tradução possível, particularmente à luz de
Provérbios 20.2. Mas. “pecando contra sua própria alma” capta meibor a ideia de retribui­
ção do cobiçoso a longo prazo. No tempo certo ele verá a plena dissolução de sua pessoa.
4. O termo kãpis é um hapax legomenon. O significado da palavra não é plenamente claro.
A melhor possibilidade parece ser uma referência á coluna central que sustenta as paredes de
um edifício presas umas nas outras, como endossado por Jerónimo, por algumas das versões
gregas e pela palavra aramaíca kpt, “ligar". Para referências, ver Rudolph. p. 220.
HABACUQUE 2.9 245

As consequências da cobiça por uma casa são declaradas numa


forma que parece ecoar os provérbios anteriores do pensamento sapi-
encial de Israel:
O que é ávido por lucro desonesto transtorna sua casa [bõsêa' besa'],
mas o que odeia o suborno, esse viverá (Pv 15.27).
Estes se emboscam contra seu próprio sangue,
e sua própria vida espreitam.
Tal é a sorte de todo ganancioso;
e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui [hõsêa'
besa'] (Pv 1.18-19).
Por meio do uso desses vários modos de expressão, o profeta for­
mulou sua segunda máxima contra os babilônios, igualmente memorá­
vel, como formulou a primeira.
9. A casa sobre a qual os caldeus são citados se refere principal­
mente à sua dinastia, embora ela possa aplicar-se também à linhagem
familiar dos cidadãos comuns.
Ele deseja alojar seus descendentes fora do alcance de seus inimi­
gos, reais ou imaginários. Ele confia que de alguma maneira a riqueza
acumulada irá garantir que serão inatacáveis.
O vício da cobiça naturalmente se associa a uma preocupação da
pessoa por sua casa e posteridade. Do mesmo modo que um pássaro
garante segurança a seus filhotes, construindo seu ninho (v. 9) no cume
de um penhasco, também a pessoa cobiçosa, possivelmente o rei da
Babilônia, luta por meios lícitos e ilícitos a fim de estabelecer sua dinas­
tia como inacessível (para a mesma imagem, c f Nm 24.21; Ob 4; Jr
49.16).
Em conformidade com uma de suas inscrições, Nabucodonosor dis­
se que um dos principais propósitos de seu reforço das paredes de Ba­
bilônia era construir um nome duradouro para seu reinado. Ele tam­
bém reza a seu deus Marduk: “Que ele conceda como bênção vida para
muitas gerações, uma posteridade abundante, um trono sólido e um
longo reinado”.^
5. Cf. Laetsch. p. 336, para referências.
246 HABACUQUE 2.10-14

Mas as consequências da avareza são justamente o oposto do que o


ganancioso deseja. Seus esquemas só garantem opróbrio sobre sua casa.
Da mesma maneira que o pecado da cobiça de Acã levou à desgraça e
condenação toda sua família (Js 7.24-26), também o pecado de acumu­
lar riqueza ilícita inevitavelmente destruirá todo o clã.
10. O avarento só consegue atrair opróbrio sobre sua própria casa.
Pode-se ver um desenrolar dramático de circunstâncias trágicas na vida
de Aitofel, conselheiro de Davi (2Sm 15-17). Este, cujo conselho era como
um oráculo de Deus, deixou Davi para aconselhar Absalão, aparente­
mente por lucro pessoal. Quando Aitofel soube que seu conselho seria
desprezado, ele foi para sua cidade natal, pôs em ordem sua casa e se
enforcou. Deste modo, ele atraiu opróbrio sobre toda sua família (2Sm
17.23).
De modo semelhante, o rei da Babilônia trouxe opróbrio sobre si
mesmo e sobre sua própria casa. O rei pouco entendia que, pelos me­
andros da cobiça, estava pecando contra sua própria alma. Ele havia
pensado que estava assegurando a preservação de sua casa. Mas ironi­
camente só estava assentando uma base para a destruição juntamente
dela e dele.
11. As últimas frases do provérbio voltam à imagem da “casa” e sua
destruição. O processo agonizante de autodestruição continua enquanto
um elemento da estrutura geme em agonia só para ser respondido por
outro. A pedra clamará da parede e a trave lhe responderá do madeira­
mento. A dinastia do rei desaba a despeito de todos os esforços para
garantir o trono por meio do acúmulo de riqueza ilimitada.
c. Ai do civilizado desmoralizado (2.12-14)

\2Ai
a daquele que edifica
b uma cidade
c com sangue derramado'
a e estabelece
b uma vila

I. O hebraico literalmente lê: "sangues” .


HABACUQUE 2.12-14 247

c com violência!
13 Eis que não vem do Senhor dos Exércitos
a que labutem
b as nações -
c por amor ao fogo;
b e os povos,
c por amor à vaidade
a se tornem cansados?
14 Pois a terra se encherá
do conhecimento da glória do Senhor,
como as águas cobrem o mar.
Este terço na série das máximas proverbiais, pronunciadas contra a
Babilônia, também contém artifícios distintos com o fím de assegurar
que a posteridade se lembrasse desta denúncia de juízo contra o opres­
sor. Preeminente nesses versículos é o emprego do paralelismo hebrai­
co. Embora essa forma de expressão esteja presente nos dois primeiros
provérbios, é particularmente digno de nota neste ponto.
O primeiro caso de paralelismo nesse provérbio é estruturado no
padrão a-b-c, a-b-c:

a Ele edifica (particípio Qal)


b uma cidade
c com [6^] sangue(s);
a ele fundamenta (particípio Qal]
b uma vila
c com [6^] violência!

Pode-se observar que as considerações tanto gramaticais quanto


léxicais contribuem para o impacto do paralelismo.
O segundo caso varia de estrutura seguindo o padrão a-b-c, b-c-a:

a Eles labutarão (imperfeito Qal)


b as nações
c por amor do [b^dfi] fogo
b os povos
248 HABACUQUE 2.12-14

c por amor da [b^4ê] vaidade


a se tornarão cansados (imperfeito Qal)

Novamente ambos os paralelos gramaticais e léxicais aumentam a


eficácia da estrutura poética.
Especialmente digno de nota, na presente seção, é a introdução de
um artifício com o fim de levar esse provérbio denunciador a ser lem­
brado. Habacuque agora cita ditos mais antigos que os seus, incorpo­
rando-os em seu pronunciamento, e dessa maneira contemporizando
sua mensagem.
O caso principal de uma citação de um dito anterior é a referência
à terra se enchendo do conhecimento da glória de Deus como as águas
cobrem o mar (Hc 2.14). Esta afirmação em Habacuque fornece toda a
evidência de uma fusão de duas fontes antigas distintas. O palavreado
preciso pode ser comparado assim:

Nm 14.21 será cheia \yim m ãtê’] toda a terra


Is 11.9 se encherá [mã/^’á] aterra
H c 2 .14 será cheia [íimmõ/ê'] aterra

Nm 14.21 (com) a glória do Senhor


Is 11.9 (com) 0 conhecimento do S enhor
Hc 2.14 (com) o conhecimento da glória do Senhor

Nm 14.21 (não há referência à água cobrindo o mar)


Is 11.9 como as águas cobrem o mar
Hc 2.14 como as águas cobrem o mar

Cada um desses três casos descreve a difusão do conhecimento de


Deus até os limites universais. Isaías introduziu a comparação das águas
cobrindo o mar. Habacuque parece intencionalmente combinar a refe­
rência à terra se enchendo da glória de Deus e a universalidade do co­
nhecimento de Deus. No que concerne à precisão da fraseologia, Haba­
cuque mantém sua independência em quase todos os pontos. Mas o
efeito líquido desta fusão de fontes mais antigas, aparentemente bem
conhecidas dos contemporâneos de Habacuque, certamente toma este
pronunciamento condenatório mais memorável.
HABACUQUE 2.12-14 249

É possível vermos um tipo semelhante de alusão na referência ao


rei da Babilônia construindo uma cidade por meio de sangue derrama­
do e de violência (Hc 2.12), mesmo quando uma citação precisa das
palavras não esteja envolvida. Pois provavelmente a máxima proverbi­
al mais antiga das Escrituras tenha a ver com Ninrode, fundador da
Babilônia mais antiga. Graças à sua destreza como o “caçador mais
poderoso da terra”, desenvolveu-se um dito antigo: “Como Ninrode,
poderoso caçador diante de Yahweh” (Gn 10.9-10). Na primeira vez
que é citado nas Escrituras, Ninrode aparece como poderoso constru­
tor de cidades, podendo a descrição de Ninrode como “valente caça­
dor” referir-se a caçadas, à opressão do povo que foi trazido sob seu
domínio e escravizado a suas ambições.^ Deve-se ter em mente que
Habacuque Já havia feito alusão ao problema moral surgido em sua
mente pelo prospecto dos babilônios arrastando gente com suas redes
de arrasto, uma prática ilustrada pelas inscrições contemporâneas dos
babilônios (Hc 1.14-17).
Nada no palavreado preciso desses versículos indica uma citação
específica de um provérbio anterior com respeito ao primeiro rei da
Babilônia. Contudo, o conceito de violência excessiva infligida pelo
rei babilônio de então, com o propósito de construir uma cidade como
descrita em 2.12, poderia ter a intenção de lembrar a seus leitores este
caso primordial de brutalidade com a finalidade de estabelecer uma
civilização.
Essa máxima proverbial de Habacuque, aparentemente, é por sua
vez citada por outro profeta em Israel. Em uma de suas mais extensas
denúncias de Babilônia, Jeremias cita a palavra de Habacuque;

a assim trabalharam
b os povos
c em vão,
b e os povos
c por causa do fogo;
a e elas se afadigaram (Jr 51.58).

2. Os comentários geralmente entendem esta frase como se referindo literalmente a uma


caçada de animais como uma demonstração de bravura de um soberano.
250 HABACUQUE 2.12-13

Embora Jeremias tenha conservado sua independência mediante


diversas modificações de expressão, ele parece citar Habacuque.^
Habacuque alcançou êxito em pronunciar uma máxima proverbial
sobre a poderosa Babilônia. Suas palavras aparentemente perecíveis
provaram sobreviver aos recursos poderosos deste que uma vez fora um
grande império.
12. Uma cidade representa a fruição final dos esforços humanos em
“subjugar a terra”. Esta responsabilidade foi originalmente dada ao
homem como a única criatura criada à imagem de Deus (c f Gn 1.26).
A cidade se solidifica para a integridade singular da inteligência e ha­
bilidade de muitas pessoas distintas. Segundo os propósitos de Deus
na criação e redenção, a população de uma cidade deve trabalhar con­
juntamente para formar uma cultura e uma comunidade que realize
todas as suas funções para a glória de Deus.
O começo da história das cidades nas Escrituras indica que dificil­
mente havia alguma semelhança entre a intenção divina para a civili­
zação humana e o desenvolvimento concreto da cidade. Caim cons­
truiu a primeira cidade e a dedicou à glória de seu próprio filho (Gn
4.17). Ninrode foi um construtor de impérios, aparentemente com base
em sua força e bravura na escravização de outros (Gn 10.8-12). A arro­
gância humana levou ao fiasco de Babel (Gn 11.4). As obscenidades
praticadas nos vales voluptuosos de Canaã atraíram o fogo consumidor
do juízo divino sobre Sodoma (Gn 13.10; 19.24-25). O tesouro das
cidades do Egito veio a transformar-se em ocasião para a escravização
do próprio povo de Deus (Êx 1.11).
Deus, porém, pronunciou uma máxima memorável. Ele falou de
um modo inesquecível contra todo aquele que edifica a cidade com
sangue e a fundamenta com iniquidade.
13. O esforço maciço não fará bem algum ao opressor. Trabalho e
cansaço em erigir uma cidade inteira para defender seus interesses re­
sultariam inúteis. Embora autojustificações sem fim sejam oferecidas

3. Jeremias reverte a ordem de Habacuque, “fogo” e “vaidade”, e traz w ^yig'ü em vez de


u fiy i^ 'ü . Ele também acrescenta a ligação waw antes do último verbo, o que tem o efeito de
tomar a última linha numa cláusula independente.
HABACUQUE 2.13-14 251

em termos de vantagens culturais e defensivas aos habitantes da comu­


nidade, o projeto inteiro terminaria em vexame.
O fim, segundo Habacuque, seria fogo e vaidade. Embora se dirija
direta e especificamente à Babilônia, esse texto inclui as nações e povos
de todas as gerações. Fogo do Senhor consumiu a luxúria das cidades
das planícies (Gn 19.14). Deus foi à frente de Israel como um fogo
consumidor destruindo todos os seus inimigos (Dt 9.3). Mesmo a nação
que tinha o privilégio de chamar-se pelo nome de Deus, por sua vez,
teve suas cidades queimadas por persistir na desobediência (Is 1.7; Am
2.5). Então o Senhor virá no juízo final com fogo, destruindo completa­
mente todos seus inimigos (Is 66.15; c f 2Pe 3.10).
Toda cultura humana, por sua vez, orgulha-se de suas realizações
granjeadas por disciplina, devoção e trabalho duro. Mas no final das
contas o núcleo podre da violência feita contra outros seres humanos -
ironicamente, com a finalidade de alcançar objetivos humanísticos -
será exposto e as metrópoles corrompidas serão totalmente destruídas.
14. A segurança baseada na vaidade, a ausência de sentido dos ca­
minhos opressivos dos povos, que aparentemente constroem comuni­
dades estáveis, repousam na palavra imutável de Deus que Habacuque
cita nesse momento. Sua consumição pelo fogo do juízo divino não é
garantida simplesmente pela ascensão e queda de muitas civilizações
anteriores. Em vez disso, é o juramento do próprio S e n h o r de que a
terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor que garante a
vaidade e a futilidade de todos os esforços em contrário. Beleza nas
canções, nas danças, na literatura, na arquitetura - tudo para a glória
de Deus - encherá a terra como as águas cobrem o mar.
Essa declaração maravilhosa a princípio parece tão pouco relacio-
nável com o fogo consumidor do juízo divino, que tem sido considera­
da como não sendo genuína entre os pronunciamentos originais de
Habacuque.“*Contudo, seu contexto prévio, tanto em Números quanto
em Isaías, contém elementos tão importantes que repercutem na depra­
vação humana, que devem receber atenção como um meio de prepara­
ção para a infalível glória de Deus. O Senhor jurou a Moisés que a terra

4. Cf. Rudolph. p. 223.


252 HABACUQUE 2.14

se encheria de sua glória, porque aqueles que o tentaram no deserto “já


dez vezes” não entrariam na terra da promissão (Nm 14.21-23). Isaías
profetiza que a terra se encherá do conhecimento de Deus quando o
descendente de Jessé tiver matado o perverso com o sopro de seus lábios
(Is 11.4,9).
O diálogo de Habacuque começou com a perplexidade sobre a pros­
peridade do perverso entre o povo de Deus. Uma confusão se aprofun­
dou quando Deus indicou que uma nação mais perversa que Israel iria
servir de seu instrumento de punição escolhido para o castigo. A des­
peito de todo o tumulto reinante, o justo viveria pela fé.
Deveria, porém, o perverso continuar contradizendo as leis expres­
sas de Deus sem jamais receber algum tipo de correção final? Como é
possível dizer que a glória de Deus enche a terra enquanto tais práticas
prosseguem?
Somente quando os problemas do perverso forem resolvidos é que
a glória de Deus encherá a terra. Somente quando as justas recompen­
sas de juízo contra o perverso forem segundo seus merecimentos é que o
verdadeiro conhecimento da santidade de Deus refulgirá com todo seu
esplendor. As imagens de águas cobrem o mar para representar esta
difusão universal do conhecimento da glória de Deus inspira otimismo.
Aos mais remotos confins do globo será levada a proclamação, a expla­
nação da glória de Deus.
É distintiva de Habacuque esta combinação de conhecimento qgló­
ria cobrindo a terra. O homem, na totalidade de suas capacidades racio­
nais, é distintivo por sua capacidade de apreciar a criação divina.
Em todos os outros lugares nas Escrituras da Antiga Aliança, o
transbordamento da glória de Deus é associado particularmente com
o tabernáculo ou o templo como o lugar da habitação de Deus na terra
(Êx 40.34-35; 1Rs 8.10-11; Ez 10.3; cf. Ag2.7). Mas agora os esplen­
dores que emanam da presença de Deus encherão sua criação à
plenitude.
Obviamente, não se pode dizer que essa grande expectativa pro­
fética encontrou seu cumprimento por ocasião da destruição da Babi­
lônia em 539 a.C. A retidão de Deus certamente se manifestou naque­
HABACUQUE 2.14-17 253

la ocasião. Os povos, ao longo dos tempos, têm sido lembrados da


dramática “escritura na parede” que declarou o fim desse regime ex­
tremamente opressivo (Dn 5). Mas a palavra de Habacuque aguarda
algo mais.
Paulo, o apóstolo da Nova Aliança, capta algo dessa visão em sua
descrição do novo templo de Deus, constituído por uma comunhão
universal, na qual a glória de Deus se manifesta por intermédio de sua
criação. Ele ora por aqueles que se unem ao Messias “a fim de poderdes
compreender, com todos os santos, qual é a largura e o comprimento e a
altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo
entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”
(Ef 3:18-19, NIV). Enquanto o anúncio de Habacuque, de que o Justo
viverá pela fé, transita pelas nações, a terra se encherá do conhecimen­
to da glória de Deus como as águas cobrem o mar.
As palavras de Habacuque devem aguardar a consumação de seu
cumprimento final. Contudo, os eventos contemporâneos com os even­
tos do tempo de Habacuque não devem ser desconsiderados. A destrui­
ção de Babilônia trouxe grande alívio ao mundo perturbado da mesma
maneira que o contínuo exercício do Justo juízo de Deus trabalha para
trazer sua glória à plenitude.
d. Ai do impudente difamado (2.15-17)

\5Ai
daquele que fa z seu vizinho beber,
misturando à bebida o seu furor,
ainda' fazendo (o) ébrio
para que lhe contemples a nudez.
16 Tu estás saciado
de opróbrio em vez de glória:
fazes alguém beber!
Expõe-te como incircunciso.
O cálice da destra de Yahweh
girará em torno de ti.

’ap funciona como partícula de intensificação. Cf. GKC, § 153.


254 HABACUQUE 2.15-17

e ignomínia pútrida (será) toda a tua glória.


17 Porque a violência feita ao Líbano
te esmagará.
e a destruição aos animais ferozes
(pela qual) tu os terrificaste;^
por causa do sangue derramado aos homens
e da violência feita
à terra,
à c idade
e a todos os seus habitantes.

Agora a infâmia dos pecados de Babilônia assoma à superfície.


Bebedice, intimidações, rudeza e perversão caracterizam seu rei.
É algo difícil de escolher entre o entendimento desta descrição de
um intimidador rude como que representando um comportamento pes­
soal ou como descrevendo as brutalidades de uma nação no processo
de conquistas.^ Pode-se descrever o comportamento do rei de Babilô­
nia e sua corte como uma tela de fundo para descrever as atrocidades
maiores associadas ao tratamento dado pelos babilônios às nações que
invadiam.

2. y^híían tem sido explicada de várias maneiras. Como a forma se encontra agora no
TM, cia pode ser considerada como uma forma Itiphil modificada, derivada de htt, “aterro­
rizar”, com um sufixo feminino plural se referindo aos animais aterrorizados. O indicador
seria modificado pela adição do sufixo, levando à leitura dey^hîfën cm vez deyãhêt. Como
Keil sugere, o t longo tomaria o lugar do primeiro t da letra dobrada, c o a curto final
substituiría o e longo da última sílaba por causa da pausa (athnach). Entretanto, várias
outras versões anteriores (LXX, Siríaca, Targum) substituem um kB. final por um n, forman­
do ouy^hifebâ. “vos aterrorizareis (estilhaçareis)”, como observado por Rudolph,
p. 222. A LXX traz “desmaiareis” (ptoêsei se). IQpUab trazyaJjUeh, que como Brownlee
(Midrash, p. 197) observa, tem sido emendado por alguns para 1er y^hittekà. Brownlee
(Midrash, p. 196) traduz “arrebatareis”.
E verdade que o sufixo “vos” se encaixaria melhor no paralelismo do versículo (vos
esmagareis/vos aterrorizareis). Contudo, o intercâmbio frequente de sufixos em hebraico
apoia o “eles” menos elegante.
3. Calvino, p. 110, III, tem algumas coisas um tanto ásperas a dizer sobre qualquer
pessoa que entende esta passagem como que apresentando o rei de Babilônia com uma
participação obrigatória nos vícios do deboche. Tais intérpretes estão “inventando o que é
fabuloso”, concluindo “isto ou aquilo sem qualquer discriminação ou pudor” . Ele diz que a
passagem deve ser interpretada como uma metáfora.
HABACUQUE 2.15 255

O valentão que constrange os outros à devassidão exibe orgulho,


crueldade e brutalidade. Anteriormente, o próprio Israel tentara silenciar
0 testemunho profético do nazireu, forçando-o a beber, contrariando
seu voto de vida inteira de abstinência (Am 2.12). O rei Davi abusara
do poder de seu oficio forçando Urias a beber (2Sm 11.13). Agora o rei
da Babilônia usa sua autoridade para humilhar os que estão à sua volta.''
Mas esse bruto depravado não tem como objetivo final simples­
mente zombar de seus companheiros. Ele manifesta um ódio profundo,
um rancor psicótico por seu companheiro. Mistura seu furor irracional
ao vinho que ele serve.
15. A frase traduzida por misturando à bebida seu furor pode ser
entendida de muitas maneiras. A palavra traduzida por misturando
{mfsappêah) pode significar “juntar, unir” (ISm 2.36; Is 14.1); ou,
numa forma de substantivo, um “derramamento” (Jó 14.19; c f o simi­
lar Sãpak)- O termo traduzido por seu furor {h“m ã^kã ) pode ser to­
mado pelo menos de três maneiras principais. Ele poderia significar
“ira, furor”, que chega a ocorrer oitenta vezes nas Escrituras (cf 2Rs
22.13; Dt 9.19), ou poderia significar “peçonha” (como em Dt 32.24;
SI 58.5 [Eng. 4]). Mas, se as consoantes forem lidas como hmt em vez
de hmh, ele poderia significar “pele”, “odre” (c f Gn 21.14-15,19).
Intérpretes e tradutores têm oferecido várias alternativas e combina­
ções ao explicar essa frase.^ As vantagens de traduzir por “juntar” ou
“misturar em seu furor” são que ele preenche a imagem do bruto ran­
coroso do texto e fornece uma transição fácil para a descrição expandida
da conquista descrita no versículo seguinte.
Parte da depravação inerente no pecado é sua insistência em envol­
ver os outros em seu desregramento. O rei babilônio não se satisfaz em
se embriagar; ele só pode descansar contente quando tiver forçado sua

4. Calvíno, p. 113, entende a referência à bebedice como uma figura expandida de uma
nação bêbada de avareza: “pois não existe intoxicação que estultifica os homens mais do
que aquele apetite voraz que os faz devorar tanto terras quanto mares”. As naçêcs babilónicas,
por causa de sua cobiça, inspiram as outras nações à mesma atitude.
5. A sugestão de BDB, p. 706, de que o texto deveria ser emendado para “da taça de seu
furor” (missap h ‘’rn5t^kS), supondo que um copista erroneamente escreveu o h duas vezes,
não é necessariamente compatível com outras opções viáveis.
256 HABACUQUE 2.15

degradação a outros. Ele se compraz no divertimento depravado quan­


do vê outros se entregando aos mesmos pecados (cf. Rm 1.32). Ele tem
necessidade de acrescentar mais gente a seu reino de trevas com a con­
sequência de excluir mais e mais gente do reino de Deus (cf. 1Co 6.10).
Pois nenhum beberrão pode ter qualquer parte no reino de Deus (cf
1Co 6.10). Em vez de ungir com um espírito de santidade, ele satura o
povo com os “espíritos” mediante os quais se tomam embriagados com
vinho (cf Ef 5.18). Em vez de encorajar o povo a suJeitar-se uns aos
outros como fmto de um espírito submisso a Deus, ele nutre aquela
arrogância detemiinada que faz que os outros estejam sempre rastejan­
do a seus pés.
E quase um princípio universal que o pecado da embriaguez esteja
associado à impureza sexual e à degradação do corpo. As filhas de Ló
0 embebedaram para que pudessem cometer o ato ignominioso de in­
cesto (Gn 19.32-35). Noé se embriagou e isso o levou a expor sua
nudez perante seu filho (Gn 9.21).
O caso de Noé é particularmente significativo para o presente con­
texto de Habacuque. O filho de Noé, Cam, “vendo a nudez do pai”
{wayyar’...’êt 'erwat ’ãbiw). Esta frase idêntica em outro lugar des­
creve o pecado em que um homem “toma” sua irmã e vê “sua nudez”
{rã’â 'et- erwãtãh - Lv 20.17). No contexto imediato de Levítico, a
um homem se proíbe “descobrir a nudez” (gillâ ’et-erw ãtãh) de uma
mulher menstruada (v. 18). Conquanto as duas frases nestes dois versí­
culos não sejam idênticas, o contexto pressupõe que em cada caso a
frase serve como um circunlóquio para um pecado sexual mais grave do
que simplesmente ver uma pessoa nua. No primeiro caso, um homem
“toma” sua meia irmã e “observa” sua nudez, pressupondo que ele teve
relações sexuais com ela. Esta visão forneceria também uma base mais
lógica para a severidade da maldição de Noé, como uma consequência
de haver Cam “visto” a nudez do pai.
Então os babilônios embriagaram seu companheiro com a intenção
de ver sua nudez (l^ma'an habbit 'al-m^'ôrêhem). Mas seu interesse
não reside simplesmente na humilhação de seu próximo, ao constrangê-
lo a um ato de exposição indecorosa. Seu coração é bem mais deprava­
do do que isto. Mui provavelmente a referência é ao ato sexual. Em sua
HABACUQUE 2.16 257

perversidade, o babilônio é pior que o maldito Cam, que pelo menos


não foi culpado de induzir seu pai à embriaguez.
16. Não causa estranheza que o profeta exclame: Serás saciado
de opróhrio em vez de glória! As ações dos babilônios por si só trazem
opróbrio sobre si mesmos. Eles ficam saturados de ignomínia em de­
corrência de sua perversidade.
Na descrição do juízo final que deve sobrevir à Babilônia, o caráter
retribuitivo da punição se torna muito claro. Da mesma maneira que os
babilônios tratavam os outros, assim também Deus os haveria de tratar.
Se haviam embriagado a outros, eles mesmos seriam embriagados. Se
haviam trazido opróbrio e desonra a outros pela atividade sexual depra­
vada, Deus os envergonharia diante de todas as nações.
Fizeste alguém beber, diz o Senhor. Obrigaste a outros. Agora o
Senhor te obrigará.
Em vez de \q x Expõe-te como incircunciso (hê'ãrêl), como no TM,
IQpHab 9.9 traz: “tu cambaleias!” (hêraêl). Mas depois, curiosamen­
te, em seu próprio comentário desta frase, o documento fala do sacerdo­
te perverso que não “circuncidou o prepúcio de seu coração” (1 QpHab
11.13).* Essa referência interpretativa à circuncisão apoia o TM mais
do que o próprio texto do pergaminho. A LXX (em alguns manuscritos)
parece apoiar o texto de Habacuque em 1QpHab mais do que seu co­
mentário: “Treme, ó coração!” (kardía saleúthêti). Essas interpreta­
ções podem representar antigos esforços de suavizar o que poderia ser
considerado como uma admoestaçâo rude. Mas se a frase tiver a inten­
ção de representar uma punição recíproca pelo pecado de “ver a nu­
dez” dos outros, a demanda de Deus, que os babilônios exibam sua
incircuncisão, é bastante apropriada.
Esta atribuição de significado ao caráter incircunciso de um rei
ímpio pressupõe a propriedade do reinado universal do Deus de Israel.
Ignomínia só se relaciona com incircuncisão porque ela representa a
falta de submissão ao Deus de toda a terra.
Deve-se dar atenção especial ao cálice da mão direita de Yahweh,
do qual os babilônios iriam beber. Numa frase notável, o profeta Ha-
6. Brownlee, M kirash, p. 190.
258 HABACUQUE 2.16

bacuque descreve o cálice do Senhor girando em tomo das nações da


terra. Babilônia tem sido o instrumento de distribuição do vinho conde-
natório do Senhor entre as nações. Subsequentemente, Jeremias falou
dos babilônios como um “cálice de ouro” na mão do Senhor (Jr 51.7).’
Numa passagem particularmente vivida. Jeremias diz que a pró­
pria Jerusalém haveria de beber do cálice do furor da mão de Deus.
Mas todas as outras nações teriam de participar de sua borra (Jr 25.15-
29). Se a própria cidade chamada pelo nome de Deus iria provar deste
fel, quanto mais as outras nações que também mereciam seu juízo não
haveriam de ser submetidas a esta punição de seu pecado?
O argumento de Jeremias é semelhante à mensagem dada pelo li­
vro de Habacuque. Os babilônios podem ser o instrumento na mão de
Deus, o cálice do furor do Senhor derramado sobre Jerusalém. Mas seu
trabalho nessa qualidade de modo algum indicava que escapariam ao
juízo de Deus.
Quando Cristo, sob a Nova Aliança, fala do cálice que o Pai lhe
dera, ele ecoa esta figura assombrosa (Mt 20.22; 26.42). A ira do Pai
contra o pecado vergonhoso do gênero humano encontra manifestação
consumada no derramamento do juízo de Deus sobre seu próprio Fi­
lho. Por mais repulsiva que pareça a “ira” de Deus às sofisticações da
mente moderna, ela é uma realidade bíblica que acha espantosa ex­
pressão quando o Filho de Deus sofreu no lugar do pecador, bebendo
do cálice do fliror de Deus.
Este uso reiterado nas Escrituras da imagem do cálice do furor na
mão de Deus pode auxiliar a interpretação da frase difícil, previamente
discutida no versículo 15, misturando seu furor à bebida (mfsappêah
h^mãfkã.), pode referir-se ao furor pessoal que o babilônio acrescen­
tou ao vinho da ira de Deus do qual suas vítimas devem beber.
O derramamento da ira no cálice acha expressão consumada no
livro do Apocalipse, em que “Babilônia” emerge como um símbolo
7. É compreensível que João Calvino tenha insistido que esta seção inteira seja interpretada
como uma figura de linguagem. O “cálice” do qual os babilônios fizeram as outras nações
beber representa o Juízo infligido pela mão punitiva de Deus. Em outros locais nas Escritu­
ras. o juízo divino sobre as nações é descrito em termos de um cálice que devem beber (SI
75.9 [Eng. 8]; Is 51.17,22; Jr 49.12; Ez 23.30-35).
HABACUQUE 2.16 259

que engloba a perversidade entre as nações. Babilônia fez todas as


nações beberem do vinho enlouquecedor de seus adultérios (Ap 14.8).
Mas, agora, qualquer um que tenha participado dessas perversões deve
beber o vinho do furor de Deus que foi derramado no cálice de sua ira
(Ap 17.4).
Ainda de outro ponto de vista, a degustação do cálice de amargura
pode não esperar, necessariamente, pela destruição final do perverso.
Visto que um substituto justo sorveu a borra do cálice de amargura,
este se converteu no cálice da bênção que é oferecido sinceramente aos
participantes da comunhão da Nova Aliança, ainda que o participante
indigno possa beber condenação para si próprio (ICo 11.29).
Assim, Babilônia obrigou as nações a beberem do cálice da fúria
de Yahweh. Babilônia foi feita o instrumento dos justos juízos de Deus
na terra. Inclusive o povo de Deus bebeu desse cálice amargo das mãos
dos babilônios. Mas agora é a vez dos babilônios. Eles foram simples­
mente o instrumento de juízo do Senhor. No final, a própria mão direi­
ta do Senhor administrará esse cálice.
A consequência desse juízo divino será a pútrida ignomínia que
substituirá tua glória (v. 16c). O termo traduzido por ignomínia
(qiqãlôn) ocorre somente aqui no Antigo Testamento, e evidentemente é
uma palavra composta elaborada por Habacuque a fim de intensificar o
conceito de desgraça a ser experimentada pelos caldeus.® Ela pode ser
considerada como um recurso proverbial semelhante ao termo que pode
ser visto como uma palavra composta em 2.6 {'ahtit). A primeira síla­
ba desta palavra {qí) pode ser uma abreviação de q í \ significando “cus­
pir, vomitar” (Lv 18.28; 20.22; Jr 25.27; a forma substantiva designa
“vômito”, como em Is 19.4; 28.8; Jr 48.26). A última porção da palavra
(qãlôti) reforça a ocorrência desta palavra na primeira metade deste
mesmo versículo, e significa “vergonha, desgraça” (cf. Pv 11.2; 12.16;
etc.).
Portanto, os caldeus jazem bêbados e despidos, imersos em seus
próprios vômitos. “Ignomínia” cobre sua glória. Todos esses aspectos

8. Cf. Keil. p. 88. De qualquer modo, a palavra parece ter lido o significado de “vergonha,
desgraça”. C f BDB, p. 887; KB, p. 838.
260 HABACUQUE 2.16-17

de seu reino, que foram uma vez a fonte de orgulho e bravata, agora
estão cobertos do repulsivo vômito de bêbados.
Esta inversão de glória por vergonha {qãlôn em vez de kãbôd) en­
contra expressão proverbial em outros lugares na literatura sapiencial do
Antigo Testamento (ver Pv 3.35). Mais uma vez, Habacuque poderia
estar apelando para os truísmos estabelecidos na literatura sapiencial de
Israel como um meio de tomar memorável sua máxima sobre Babilônia.
17. Babilônia deve sofrer a humilhação devastadora em decorrên­
cia da violência feita ao Líbano. Por que o Líbano? Por que não pela
violência feita a Jerusalém? Mui provavelmente, o oráculo do Senhor
especifica o Líbano em decorrência de sua beleza proverbial, que con­
trasta tão drasticamente com sua aparência após a destruição efetuada
pelos invasores babilônios. Ao fazer seu último pedido em prol do pri­
vilégio de entrar na terra da promissão, Moisés especificara o Líbano
como aquela “boa terra” que ele tanto almejara ver (Dt 3.25). Tão pro­
verbial por sua majestade eram os cedros do Líbano que Salomão deu-
lhes lugar especial em seus provérbios sapienciais ( IRs 4.33).
O rei da Assíria alcançara notoriedade aos olhos do próprio Senhor
por sua bravata de vir com a multidão de seus carros e cortar os altos
cedros e os ciprestes escolhidos do Líbano (2Rs 19.23). Pois essas
árvores gigantes eram as árvores plantadas pelo próprio Deus (SI
104.16). Os cedros do Líbano eram considerados como as mais majes­
tosas de todas as plantas que Deus plantara na terra, da mesma maneira
que as séquoias e o pau-brasil seriam na América hoje.
A devastação de animais ferozes (pela qual) os terrificaste - tam­
bém é citada como uma causa para a total destruição feita aos caldeus.
A justiça nas tradições sapienciais de Israel estava associada direta­
mente à atitude de uma pessoa para com esses animais. Uma pessoa
justa nutria verdadeira preocupação pelo bem-estar dos animais em
contraste com os perversos, cuja misericórdia provara ser cruel (Pv
12. 10).
A virada gentil da última frase do livro de Jonas imortalizou para
sempre as compaixões do Senhor por toda sua criação. Não deveria
Jonas ter compaixão de Nínive, uma cidade com gente numerosa “e
também muitos animais” (Jn 4.11)? Deus observa quando suas meno­
HABACUQUE 2.17 261

res criaturas são aterrorizadas pelas brutalidades dos seres humanos in­
sensíveis. Ele ouve os gemidos de toda a criação e garante que todo o
universo criado se unirá na redenção final do ser humano (Rm 8.19-21).
Mas os babilônios brutais, em seu apetite por conquistas, tinham
praticado violência contra as plantas e os animais, para não mencionar
aquela contra a terra, contra a cidade e contra todos os seus morado­
res. Por esta razão, sua violência se voltaria contra suas próprias cabe­
ças. A violência feita ao Líbano iria “assombrá-los”. O termo emprega­
do literalmente indica que sua própria violência os “cobriria” {küsã).
Porventura o profeta estaria imaginando um desses cedros altíssi­
mos caindo sobre as cabeças dos que haviam planejado cortá-los? De­
veriam os opressores da floresta ser esmagados sob os troncos dessas
árvores tão imensas? Possivelmente, Habacuque tencionara projetar
precisamente esta imagem. Seja como for, este quarto provérbio de
Habacuque é memorável por sua forma de expressão. Ele ecoa os pro­
vérbios antigos de Israel. Ele faz uso de jogo de palavras e cria outra
composição de palavras para realçar a vividez da expressão.
O mais impressionante, porém, é que esse provérbio particular im­
prime a ideia de reciprocidade no juízo:

Se os babilônios obrigam outros a beberem ... eles serão


embebedados
Se os babilônios praticam a perversão sexual... eles serão expostos
Se os babilônios promovem sua própria glória... eles serão enver­
gonhados
Se os babilônios vivem de violência desmedida... eles serão mor­
tos por justa violência.

Este conceito de execução de justiça recíproca não apela para a


humanidade. Mas é o método de Deus. Desta maneira ele se mostra
imparcial e justo como Juiz. Assim, ele finalmente se estabelece como
justo e também justificador do ímpio que crê. Pois Jesus Cristo bebeu o
cálice do fiiror de Deus até a última gota, e então se tomou o Salvador
de todos os que renunciam a seu orgulho próprio e à violência, só espe­
rando dele salvação.
262 HABACUQUE 2.17-20

Habacuque evidentemente teve sucesso em estabelecer uma máxi­


ma sobre os babilônios, uma que iria prevalecer, como ficou provado
pela citação feita por Jeremias em sua denúncia contra o ímpio. Embora
os babilônios sejam o “cálice de ouro” na mão do Senhor, este no fim
fará a Babilônia beber também (Jr 51.7,39,57). Não passou muito tem­
po e os caminhos do Senhor se manifestaram a esta poderosa nação.
Enquanto o rei da Babilônia bebia com seus companheiros nos cálices
de ouro de suas conquistas, a escrita de Deus que selou seu destino
apareceu na parede (Dn 5.1-31).
e. Ai do idólatra impotente (2.18-20)

18 Como pode um ido!o esculpido ter proveito ?


Pois seu desenhista o esculpiu (para si);
e a imagem fundida,
mestra de mentiras.
Pois aquele que desenha seu (próprio) desígnio confia nele,
fazendo ídolos mudos?
19/ 1/
a daquele que diz à árvore:
b Acorda!
b Desperta!
a E à pedra muda:
a Ele
b ensinará?'
a Eis que ele
b está coberto
c com ouro e prata,
b e não há nenhum espírito
c nele.
20 O Senhor, porém,
está em seu santo templo;
I. Rudolph. p. 222, argumenta que a frase "pode o ídolo ensinar?” deveria ser eliminada
como secundária, porque ela atropela a frase. Embora seja verdade que a frase tende a
sobressair, sua semelhança em forma e ênfase com a frase seguinte pressupdc que seu papel
distintivo é intencional (“O ídolo ensinará; observe que ele está coberto de..."). Keil, p. 91,
sugere que a frase comunica “espanto a tal engano".
HABACUQUE 2.18-20 263

cale-se diante dele


toda a terra.

Essa quinta e última máxima proverbial contra os babilônios assu­


me uma forma distintiva. Ela começa com a denúncia antes de recitar o
costumeiro ai! que ele introduziu nos quatro ditos anteriores.
Por que essa alteração de forma? Pode-se presumir que essa quebra
de padrão indica a não-genuinidade do versículo 18? Rudolph rejeita esta
sugestão e propõe que Habacuque poderia ter a intenção de estabelecer
que suas condenações ao rei de Babilônia até este ponto eram totalmente
Justificadas em vista de suas deficiências religiosas.^ Nabucodonosor
poderia ter sido uma pessoa muito religiosa. Em ocasião futura ele po­
deria até mesmo vir a ser chamado “servo” de Deus (Jr 25.9; 27.6;
43.10). Contudo, toda a piedade pagã seria vista como sendo totalmente
inútil, visto que ela honra a invencionice humana, que nunca pode ser
substituída por falhas morais.
Esta explicação de alteração na forma da máxima final contra a
Babilônia tem alguma credibilidade. Todavia, Habacuque não oferece
nenhuma indicação de que ele tivesse necessidade de antever crítica de
suas condenações. Inclusive, parece bastante improvável que os israeli­
tas viessem a reclamar das condenações contra o destruidor de sua
própria nação. O mais provável é que Habacuque altera a ordem do
oráculo simplesmente como um recurso literário para fornecer varie­
dade e clímax em sua expressão. Ele certamente se mostrou capaz de
empregar numerosos recursos literários para emprestar peso à sua ar­
gumentação.
Além do mais, a idolatria dos babilônios poderia ser vista como
fonte de todas as atrocidades mencionadas previamente. E visto que
sua orientação religiosa era errada, seus padrões morais tinham de ser
pervertidos. Como criadores de deuses que não falam, eles tinham de
inventar seus próprios padrões de sua maneira de viver. Nesta luz é
bastante compreensível que a condenação da idolatria fosse reservada
para o fim e esta mensagem fosse enfatizada pelo desvio da forma esta­
belecida f leviamente da máxima proverbial.
2. Rudolph. p. 229.
264 HABACUQUE 2.18

Habacuque também faz uso de paralelismo poético e aliteração para


enfatizar seu argumento. O versículo final conclui de vez e apropriada­
mente esta seção, enquanto simultaneamente serve de transição signifi­
cativa à oração final de Habacuque, no capítulo 3.
Por agora, quatro máximas solenes pendem como maus augúrios
dos pescoços dos babilônios. Cada um recebeu ameaça de juízo severo.
O saqueador será saqueado (v. 6-8), o fortificado será exposto (v. 9-
11), 0 civilizado será desmoralizado (v. 12-14) e o impudente será difa­
mado (v. 15-17).
Ora, nesta última máxima os babilônios recebem a mensagem de
absoluta certeza sobre os Justos propósitos de Deus. Deus nenhum,
nem poderes nos céus ou na terra podem resistir à realidade do Deus
vivo, único e verdadeiro.
18. Os rivais pagãos do Deus que fala a Habacuque aparecem sob a
forma de ídolos mudos. Eles são impressionantes; sim, maravilhosos
em sua aparência externa. Mas que aproveita o ídolo, visto que seu
artífice o esculpiu? Sua própria origem, bem como sua constituição,
testificam de sua inutilidade. A descrição que Deus faz deles zomba de
sua existência. Dificilmente merecem a atenção que se lhes dá pelo
Jogo de palavras do trio que celebra sua impotência. O ídolo é:

uma escultura de seu escultor (p^sãlô yõs^rô)


um desenho de seu desenhista {m assêtâ ümôreh)
uma nulidade muda {’^lílim ’ill^mim).

Cada uma dessas frases exibe o disparate inerente em toda e qual­


quer pessoa que sai em busca de ajuda que vai além de seus próprios
recursos, em algo que ele próprio projetou. O ídolo esculpido (pesei)
se refere a qualquer coisa modelada ou esculpida por um instrumento
que pode ser de madeira ou pedra. A imagem fundida (massêkâ) des­
creve a imagem de metal modelada de materiais fundidos tais como
prata ou ouro.^ Israel foi categoricamente proibido de fazer tais formas,
de qualquer coisa criada ou imaginada (Êx 20.4). Na renovação da alian­
ça, a nação reunida teve de pronunciar sua própria maldição sobre qual-

3.C f. KB, p. 770; BDB, p. 651.


HABACUQUE 2.18 265

quer pessoa que fizesse um ídolo de escultura ou imagem fundida, pois


tal objeto seria uma abominação ao Senhor (Dt 27.15).
Não só a fabricação de ídolo garante a maldição de Deus. Ele tam­
bém tem o efeito de enganar até o próprio artífice. Embora a imagem não
pudesse falar, ela comunicava uma falsidade transmitida por sua aparên­
cia de que ela possuía poderes de um ser sobrenatural. E, desta maneira,
encorajava a seus espectadores a colocarem sua confiança em sua for­
ma impressionante, a fazer pedidos a essa imagem por ajuda em tempos
de necessidades ou a atribuir prosperidade inesperada à intervenção es­
pecial do objeto feito por homens.
Mas, o pior é o absurdo de todo o esquema! A pessoa confia numa
coisa muda, imóvel, que ela própria fabricou. Como pode ser tão estú­
pida a ponto de esperar que tal escultura, essa forma fundida, interve­
nha a seu favor? O ídolo parece ter algum poder místico de hipnotizar,
uma habilidade maléfica de fazer crível uma mentira óbvia. Com razão
foi ela designada mestra de mentiras.
As pessoas modernas, em suas sofisticações, podem pretender con-
siderar-se como que isentas de idolatria ridícula. Que pessoa bem-edu­
cada, respeitável, seria enganada a ponto de esperar que poderes espe­
ciais emanem da forma de um ídolo antiquado? Contudo, a Nova Ali­
ança das Escrituras deixa bem claro que a cobiça é idolatria (Ef 5.5).
Sempre que os desejos de uma pessoa contemplem a criatura em vez
do Criador, ela é culpada do mesmo tipo de insensatez. Um desejo
insaciável por coisas não possuídas honestamente presume que as coi­
sas podem satisfazer melhor que o próprio Criador. Sempre que uma
pessoa deposita suas prioridades em coisas feitas, e não naquele que é
0 Criador das coisas, ela se faz culpada de idolatria.
Nulidades mudas. A pungência da zombaria de Habacuque foi até
certo ponto captada na tradução que descreve o ídolo como um “boneco
estúpido”." A primeira palavra da frase parece e soa parecida
com 0 termo hebraico para Deus C^lõhim), e é amiúde usada nas Es­
crituras em lugar de nulidade C^lilim) dos deuses das nações contra a
realidade da deidade de Israel (cf. Lv 19.4; 26.1; Is 2.8,18,20; 10.10; SI
31.7 [Eng. 6]; 96.5; 97.7). Somente Habacuque, porém, posiciona este
4. Brownlcc. Midrash, p. 2 11
266 HABACUQUE 2.18-19

termo para nulidade ou “inutilidade” juntamente com a palavra seme­


lhante que significa “ter língua presa, ser mudo” O que po­
deria ser mais inútil do que idolos mudos? Contudo, essa é a essência
do ídolo ímpio.
A inutilidade do ídolo, em razão, particularmente, de sua inabili­
dade de falar, pode ser contrastada com o Deus de Israel que fala.
Esses deuses não podem ver, ouvir, comer ou cheirar (Dt 4.28; Is
44.9-10), mas o Senhor Deus de Israel é distinto como o Deus que
declarou o fim e o começo (Is 41.21-29; 42.9; 43.8-13). Visto ser o
Deus vivo, ele pode fazer ambas as coisas: falar e fazer. Por esta razão,
cada palavra que ele pronuncia continua a ter proveito em todos os
tempos, em contraste com a inutilidade dos ídolos (cf 2Tm 3.16). Seu
povo ouvirá cada palavra de seu Deus às suas costas, dizendo: “este é o
caminho, andai por ele” (Is 30.21-22).
Além de aviltar a glória de Deus, a criação de deuses imaginários
tem o efeito inevitável de degradar o comportamento humano em ou­
tras áreas, como o demonstrou claramente a experiência de Israel com
o bezerro de ouro (cf Ex 32.4,8). Não surpreende, pois, que os do­
cumentos da Nova Aliança indiquem que nenhum idólatra herdará o
reino de Deus ( ICo 6.9-10; Ef 5.5; Ap 21.8; 22.15).
19. Esta máxima proverbial continua motejando daqueles que olham
para o ídolo em busca de alívio ou ajuda, invocando-o em tempos de
dificuldades. Quanta estultícia existe naquele que tenta animar uma
árvore ou acordar uma pedra!
Talvez uma árvore simbolizasse a fonte da vida para seu adorador,
visto que numerosas bênçãos se derivam desse espécime maior de vida
vegetal. A árvore fornece fruto e sombra, madeira para construção e
lenha para o fogo. Possivelmente, a pedra simbolizasse estabilidade a
uma criatura que sempre suporta mudança. Por mais que a fortuna va­
riasse, a expressão esculpida na face de uma pedra permanecia sempre
a mesma. Contudo, em resposta a um grito por socorro da parte de seus
devotos, a árvore e a pedra permaneciam sempre silenciosas, como
que zombando de qualquer pessoa que procurasse por ajuda. Os sacer­
dotes de Baal muito tempo atrás viram que era impossível despertar seu
deus adormecido ( 1Rs 18.26-28).
HABACUQUE 2.19-20 267

Porventura se deve esperar que o deus de pedra realmente ensine?


Por acaso ele poderá instruir o povo como é preciso para garantir-lhe
prosperidade? A pedra muda permanece em contraste absoluto com o
Deus da revelação manifestado nas Escrituras. Deus deixou claro a
Moisés que na qualidade de quem fez a boca do homem, ele também
podia fazer até o mudo falar (Ex 4.12). Devido ao fato de que o povo
não aguentava ouvir a voz de Deus, ele providenciou instrumentos de
revelação a fim de ensinar ao povo o caminho que deviam andar (cf
Êx 24.12; Lv 10.11; ISm 12.23; SI 27.11).
Ao contrário disso, os deuses dos ímpios são cobertos de ouro e de
prata, não têm em si o mais leve fôlego. O brilho do ídolo não pode
esconder sua falta de vida.^ Suas coberturas espetaculares podiam pare­
cer uma tênue ilusão de vida. Mas as próprias coberturas atestam seu
estado mortuário. Como enfatiza a forma de expressão escolhida por
Habacuque, não há o mínimo fôlego de vida no ídolo (w^kol-rüah ’ên
b^qirbô).
Não obstante, mais desejado que ouro com sua fascinação são os
preceitos do Senhor (SI 19.10). Seus mandamentos são melhores que
os infindos tesouros de riqueza material (SI 119.72,127).
Portanto, assim fica estabelecido: os deuses dos babilônios não po­
dem oferecer nenhuma ajuda.
20. O Senhor, porém, está em seu ,santo templo. Embora uma con­
junção especificamente adversativa esteja faltando, este último versí­
culo contrasta a vitalidade do único Deus verdadeiro com o entorpeci­
mento e silêncio dos ídolos. O templo, desde a época de sua dedicação
por Salomão, foi estabelecido como a fonte da qual emanariam a ins­
trução divina e o auxílio. Mesmo se Deus tivesse de castigar um povo
desobediente, o templo consagrado permaneceria como o lugar onde
Deus ouviria, perdoaria e ensinaria a seu povo o caminho a seguir (1 Rs
8.36).
Segundo a visão de Isaías, o monte da Casa de Yahweh seria esta­
belecido no cume das montanhas, e de lá ele ensinaria seus caminhos a
muitos povos. A lei iria sair de Sião e de seu templo (Is 2.3-4). Signi-

5. Rudolpli, p. 229.
268 HABACUQUE 2.20

ficativamente para o contexto de Habacuque 2, a visão de Isaías des­


creve um dia em que Deus irá julgar de Sião muitas nações, e irá repre­
ender muitos povos (hôkiah’, conferir Hc 2 .1). Da mesma maneira que
seus deuses, as nações da terra iriam permanecer em silêncio perante
Yahweh.
O templo permanecia no meio de Israel como um lugar de sua pre­
sença e sua soberania entre seu povo. O termo para templo (hêkal), nas
Escrituras, raramente descreve o palácio de um rei terreno. Mas ele
aparece em uma sucessão de narrativas como sendo o lugar de onde
Deus governaria em Israel, incluindo o tabemáculo em Siló (1 Sm 1.9;
3.3), 0 templo de Salomão (1 Rs 6.1 -2; etc.), o templo de Ezequiel (Ez
41.1,4,15); e o templo construído depois da restauração do exílio (Zc
8.9; Ag 2.15,18). De uma perspectiva da Nova Aliança, o conceito equi­
valente se aplica ao corpo de Jesus Cristo (Jo 2.19), o corpo do cristão
individual (1 Co 3.16-17) e à comunidade da igreja cristã (Ef 2.21).
A essência da ideia do templo do Senhor pode ser vista na declara­
ção do livro do Apocalipse com respeito à ausência de templo nos no­
vos céus e nova terra. O Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro
serão o Templo da Nova Jerusalém (Ap 21.22). A presença de Deus e
de Cristo deverá permear totalmente a última cidade e, por essa razão,
não haverá necessidade de um edifício de templo.
E apropriado, pois, que se ordene a toda a terra: cale-se diante
dele (Hc 2.20b). Esta mesma ordem aparece tanto em Sofonias como
em Zacarias num contexto de juízo pendente (Sf 1.7; Zc 2.17 [Eng.
13]). Ambos os casos podem oferecer mais apoio à importância da
profecia de Habacuque.
Habacuque começara seu diálogo com grande esforço para enten­
der os caminhos misteriosos de um Deus santo com um povo pecador.
Agora ele permanece na presença do santo templo do Senhor, mudo
em reverente admiração. Talvez ele não tenha entendido plenamente
todas as implicações da resposta divina à sua pergunta. Contudo, ele
permanece seguro da permanente soberania de seu Deus, de sua justiça
em condenar todos os violadores de sua santa lei e de sua misericórdia
infinita em garantir vida a todos os que confiam nele e nas provisões
que ele prometeu ao pecador.
HABACUQUE 3.1-19 269

III. UM SALMO DE SUBMISSÃO (3.M9)


Nesse momento, o dilema de Habacuque finalmente chega a uma
solução. Como ocorre com Irequência quando seres humanos finitos se
aventuram a dialogar com o Deus infinito, a solução para o problema de
Habacuque não vem da maneira como ele esperaria. Em vez de Deus
anunciar um castigo modesto e controlado ao Israel desobediente,
Habacuque ouviu, alarmado, a notícia de extrema devastação. Em vez
de uma dura repreensão por sua audácia pessoal em queixar-se, Haba­
cuque recebera uma palavra de conforto, ânimo e segurança.
Então o profeta se viu forçado a reajustar radicalmente o que pode­
ría esperar do Senhor. Não significa que o Deus pactuai o haja declara­
do caprichoso ou inconsistente. Mas o profeta deve alterar sua visão
dos caminhos de Deus com a raça humana.
Alguns comentaristas têm insistido que Habacuque 3 não podería
ter sido uma parte original dessa profecia.' Em nenhum outro lugar as
palavras de um profeta israelita tomaram a forma de um poema com­
posto para celebração no contexto do culto comunitário. Mais particu­
larmente, a ideia de que a figueira não florescería e não haveria gado
nos currais (v. 17) parece apontar para as calamidades associadas com
a seca mais do que com o caos criado por um exército invasor.
Essas várias pressuposições são suficientes para causar uma pausa
e um cuidadoso exame das questões que são suscitadas. Mas as razões
sugeridas dificilmente são suficientes para deslocar Habacuque 3 de
sua presente posição no livro. Já se foi o tempo em que se presumia que
o profeta se posicionava categoricamente contra o sacerdote e nada ti­
nha a ver com o templo e o sacrifício. O profeta em Israel não atuava
plenamente dissociado do culto no templo. E possível que nenhum outro
exemplo de material profético em existência se compare a esse salmo
de Habacuque, dotado como é das formalidades de ordem litúrgica.
Contudo, com todas as suas denúncias dos procedimentos fúteis dos
sacerdotes, e dos sacrifícios em Israel, os profetas também participa­
vam do culto comunitário.

. Ver a discussão na seção V da Inírodução.


270 HABACUQUE 3.1-19

Com respeito à ausência de uma referência a esse capítulo em


IQpHab, deve-se observar de imediato que esse capítulo se encontra
na LXX, que pode ser considerada um documento aproximadamente
paralelo. É possível que o manuscrito de Qumran nunca fosse concluído,
particularmente à luz de alguma evidência significativa de que os últi­
mos três versículos do capítulo 2 foram completados por uma segunda
mão.^ Possivelmente, a omissão representa o resultado de uma seleção
de materiais pela comunidade de Qumran a ser comentada. Neste caso, a
forma distintiva de Habacuque 3 poderia explicar sua omissão.^
O testemunho objetivo de vários manuscritos hebraicos não pode
ser ignorado. Habacuque 3 sempre apareceu no restante do livro.
Mas a substância do material do capítulo 3 fornece a evidência
mais forte para sua ligação com os primeiros dois capítulos do livro. O
capítulo 2 encerra com a proclamação de que o Senhor está em seu
santo templo, convocando todo o povo a manter silêncio perante ele
(2.20). Este anúncio prepara naturalmente para a celebração do tercei­
ro capítulo de Habacuque no contexto do culto celebrado por Israel.“*
As expressões usadas por Habacuque no início do capítulo 3, “tendo
ouvido" as “declarações” do S e n h o r , ecoam precisamente a postura
assumida pelo profeta depois de seu intercâmbio prévio, no qual ele se
pôs a esperar e ver o que o Senhor lhe diria (2.2).* A ênfase posta na
vinda do Senhor para salvar seu povo e para destruir seus inimigos
(3.3-15) se amolda naturalmente com a ênfase nestes mesmos elemen­
tos da visitação do Senhor conforme descrita nos capítulos 1 e 2. A
aceitação final pelo profeta do plano determinado pelo Senhor (3.17-
19) fornece a resolução necessária da questão entre Deus e Habacuque
encontrada nos capítulos anteriores. O profeta conclui usando a pri­
meira pessoa de acordo com a forma da porção anterior do livro. Em
suma, a substância do capítulo 3 naturalmente arredonda os temas in­
troduzidos nos capítulos 1 e 2.
2. Brownlee, Midrwih Pesher o f Hahakkiik, p. 2 18.
3. Ihid.
4. Weiser, The Old TesUtmem: its Formation and Development, trad, por Dorothea M.
Barton (Nova York: Association Press. 1961). p. 260.
5. Cf. Rudolph, p. 240. que diz que a relação de Habacuque 3 com os capitulos I e 2 é
inconfundível.
HABACUQUE 3.1-19 271

A forma desse poema é caracterizada pela variedade de padrões de


paralelismo em expressão. Digno de nota é o estabelecimento de uma
regularidade de cadência no ponto alto do clímax da conciliação do
profeta com a revelação divina a respeito do curso do futuro (v. 17-19).
Nada menos que cinco estrofes nesses três versículos seguem o padrão
a-h-h-a formado pela inversão da ordem do sujeito e do verbo.
Deve-se observar a inclusão de um sobrescrito e um pós-escrito
Juntamente com o uso triplo do termo selá (v. 3,9,13).* Essas anotações
indicam que o poema fora designado para o uso no culto de Israel.
Tal incorporação de um pronunciamento profético dentro de uma
celebração regular de culto pela comunidade de Israel realça o fato de
que o profeta, embora esteja dialogando com o Senhor na primeira
pessoa do singular, na verdade era o porta-voz de toda a comunidade.
Seu papel reflete a função do profeta em Israel como um mediador
pactuai.
A apresentação desse poema na forma apropriada para uma cele­
bração contínua no culto comunitário de Israel também fornece um
indicador antigo da significação dessa palavra de Habacuque. Como indi­
cado anteriormente, a mensagem de que “o Justificado (pela fé) vive­
rá por sua sólida confiança” (2.4) era uma palavra profética apropri­
ada tão importante quanto os Dez Mandamentos. Merecia ser grava­
da “em tábuas” e possuir consequências escatológicas. Ao apresentar
sua mensagem numa forma acabada para repetição no culto comunitá­
rio, Habacuque preparou o caminho para as gerações seguintes toma­
rem posse deste mesmo estilo de vida pela fé a despeito das calamida­
des teníveis.
O tema em forma de arco desse capítulo pode ser visto como uma
elaboração poética de 2.4. A despeito das calamidades cataclísmicas e
Juízos que deveriam vir pela mão do próprio Deus, “o Justificado (pela
fé) viverá por sua sólida confiança”. Este tema que pemieia o livro
agora encontra elaboração em termos da necessidade da intervenção

6. H.-J. Kraus, Psalms t-59, trad, por Hilton C. Oswald (Mineápolis: Augsburg, 1988), p.
27-29, indica que se pode presumir com segurança o significado litúrgico do termo selá,
embora seu significado preciso permaneça incerto.
272 HABACUQUE 3.1

de Deus para que a fé seja vitoriosa, k fé triunfa na vida pela interven­


ção do poder de Deus - poderia servir de tema para este capitulo.

SOBRESCRITO (3.1)

/ Oração do profeta Hahacuque. Sobre shigionoth.

É impossível determinar com certeza a fonte desse sobrescrito, ou


outras notas relacionadas com a celebração desse salmo no contexto do
culto público de Israel. E possível que essas instruções foram introduzi­
das pelo próprio Habacuque, ou por algum outro dignitário responsável
por conduzir o culto da congregação. De qualquer modo, as anotações
sugerem que esse capítulo circulou independentemente dos outros dois
capítulos, mesmo quando aparentemente pertencia à forma original do
livro propriamente dito.
O termo uma oração é encontrado nos títulos de cinco Salmos
(17,86,90,102 e 142). A centralidade do templo nas orações do povo de
Deus é realçada na oração dedicatória de Salomão. Ele suplica a Deus
que ouça e responda quando os inimigos de Israel os vencessem, e eles
se voltassem para “esta casa” a fim de orar (IRs 8.33). Habacuque
estava antevendo exatamente esse tipo de situação. Tendo reconhecido
que 0 Senhor está em seu santo templo (Hc 2.20), ele então oferece sua
oração em direção àquele templo na esperança de o Senhor o ouvir e
lhe responder.
Essa oração indica que o profeta agora não tem nenhuma outra
causa a apresentar. Ele advogou sua causa, concluiu seu diálogo com o
Todo-Poderoso. Agora lidera o povo de Deus à aceitação das ordens
Justas e misericordiosas que o Senhor lhe revelara. Ele reflete a sabe­
doria cuja origem estava na confrontação com a vontade de Deus.
Especificamente, diz-se que essa oração foi oferecida pelo profeta
Habacuque. O profeta em Israel agia como um mediador pactuai. Como
tal, ele tinha a responsabilidade de oferecer intercessão em favor do
povo (cf Gn 20.7; Êx 32.11-14; Is 63.15; Jr 14.7-9). Na situação críti­
ca em que Habacuque se encontrava, só a graça interventora e preser­
vadora do Senhor poderia sustentar o profeta e o povo.
E difícil determinar o significado preciso de shigionoth. Alguns
HABACUQUE 3.2 273

dos primeiros tradutores gregos (Áquila e Símaco) aparentemente en­


tenderam que o termo se referia a erros cometidos na ignorância (epi
agnoêmatõn). No título do Salmo 7, porém, o termo aparece como
uma instrução musical. Possivelmente, ele poderia referir-se a um tipo
de execução que refletiría o incitamento que deveria acompanhar a cele­
bração de um salmo com tópico perturbador.'

A. O PROFETA ORA PELO SUSTENTO


DA VIDA DO CRENTE (3.2)

2 a Ó S enhor,
h tenho ouvido
c tuas declarações;
b tenho temido,
a ó Yahweh,
c tua obra.
a Em (o) meio
b de (os) anos
c o fazes viver;-
a em (o) meio
b de (os) anos
c (o) fazes entender;
a em (o tempo de) tremor,
c lembra-te da misericórdia.

Nesse momento, o profeta começa seu cântico, um cântico que deve


ser repetido pela congregação de Israel ao longo dos anos sombrios, os
quais logo começaria a experimentar. A canção vem como uma respos­
ta à revelação dada ao profeta com respeito aos dias vindouros.
Ao adotar essa forma para sua palavra de aceitação com respeito
ao prospecto distante, o profeta ecoa uma tradição tão antiga quanto
Moisés. Como o Senhor previa a infidelidade de Israel depois que en-

1. Keil, p. 93; cf. BDB. p. 993.


2. Keil, p. 94, identifica o pronome de “faze-a/o viver” com a “obra” de Habacuque 1.5.
Mas tudo indica ser muitíssimo incomum imaginar Habacuque orar para que essa terrível
“obra” de juízo “viva”.
274 HABACUQUE 3.2

trassem na terra, ele instruiu Moisés a escrever um cântico e a pô-lo na


boca dos israelitas como um veículo que visava instmir as gerações
futuras (Dt 31.19). Este cântico não seria esquecido pelas crianças do
futuro ( Dt 31.21 ). E então, enquanto Habacuque visualiza os corredo­
res do tempo que jazem adiante, ele também compõe um cântico. Ele
ouviu as declarações do Senhor,^ e o temor invadiu seu coração.
Vários casos no livro de Deuteronômio indicam a naturalidade com
que “ouvir e temer” podem ser vistos como uma reação esperada (Dt
13.12; 17.13; 19.20; 21.21). Porventura Habacuque se sentia culpado
de sentir-se trêmulo em razão da revelação que recebera? Claro que
não. Se medo é uma reação natural por ocasião de uma tragédia pes­
soal, quanto mais compreensível é que o profeta reaja com profundo
senso de alarme e medo enquanto é informado de que a nação favore­
cida do Senhor sofreria total destruição! Mesmo quando é assegurado
de que o justo viverá pela fé, ele não pôde sentir outra coisa senão
pavor ante o juízo iminente. Como matéria de fato, a reação negativa
do profeta ao ouvir sobre a atividade do Senhor indica que ele aceita
como genuína a mensagem que havia recebido. Neste caso, medo é um
importante componente da fé do profeta.
Muitos tradutores e intérpretes consideram a referência lua obra
em uma relação gramatical direta com a segunda metade do versículo."'
Mas 0 paralelismo poético da seção, bem como o pronome ligado ao
verbo na segunda seção do versículo (“faze-o viver”), pressupõe que
tua obra deve ser tomada em conjunto com a primeira metade do ver­
sículo. O profeta ouviu as declarações acerca do Senhor, e temeu sua
obra. Conforme esta construção, é bastante natural ver a referência a
obra (pô’al) do Senhor como se referindo ao anúncio dado previamente

3. As “declarações” poderíam se referir às palavras comunicadas pelo Senhor a Habacuque.


Mas o uso mais comum do termo se refere a um relato sobre alguém (cf. Gn 29.13; Êx 23.1;
Nm 14.15; Dt 2.25; Is 66.19).
4. Seguem algumas amostras de traduções das versões: AV e NASB: “Oh. Senhor, reaviva
tua obra no decorrer dos anos”; NIV: “Renova-as (i.e., tuas obras, plural] em nossos dias”.
Nenhuma dessas versões realmente traduz o pronome anexado ao verbo ("faze-o viver”),
embora traduzam o pronome anexado ao substantivo (tua obra). A LXX favorece a divisão
do versículo como fiz, embora acrescente suas próprias características no processo de
tradução.
HABACUQUE 3.2 275

por Habacuque: “realizo, em vossos dias, obra \põ'al põ'êl\ tal, que
não crereis, quando vos for contada” (Hc 1.5). Nesse momento, o pro­
feta entendeu exatamente a grandeza da obra que o Senhor iria reali­
zar, e ele temeu.
Na segunda metade do versículo, o profeta formalmente faz sua
petição, uma petição que deveria ser repetida muitas vezes pela comu­
nidade de Israel quando celebrassem esse salmo de Habacuque. Não há
dúvida de que o fervor desta repetição se intensificaria à medida que o
dia da chegada dos babilônios se aproximava com o fim de tomar a
terra da Palestina, e inclusive a própria Jerusalém.
O profeta expressa sua petição em (o) meio (de) os anos. Ele repete
esta frase peculiar duas vezes, a qual ocorre somente aqui em todo o
Antigo Testamento; e em seguida a confronta com a segunda expres­
são (em fo tempo de] tremor, lembra-te da misericórdia).
Estudiosos têm oferecido várias explicações a esta frase em (o)
meio de (os) os anos. E pouco provável que ela se refira ao intervalo de
separação entre o Antigo e o Novo Testamentos. A sugestão de Calvino,
de que ela alude ao ponto médio da história entre Abraão e Cristo, é
mais plausível, visto que esta visão teria maior significado para Haba­
cuque como um profeta da Antiga Aliança.
A versão singular da LXX, “entre as duas bestas”, tem fornecido
inspiração a numerosas cenas de natividade.^ Este quadro foi preenchi­
do por Orígenes, que concluiu com base em Isaías 1.3 que os dois
animais devem ser um boi e um burro.®
O mais provável é que o meio de (os) anos se refira ao tempo entre
os dois atos de juizo revelados a Habacuque no processo de seu diálo­
go anterior. No tempo entre o juízo expiatório que sobreviria à própria
casa de Deus e o Juízo consumidor que vingaria os eleitos de Deus -

5. Conquanto esta tradução não pareça bem relacionada com a tradução costumeira para o
inglês, o hebraico, nesta tradução, na verdade não seria muito diferente do TM. Rudolph, p.
233, sugeriu que a tradução “(entre) as duas bestas” pressupõe a tradução S^nê(m) hayytm
em vez do massorético sõním tmyyêhú.
6. Rudolph, p. 242. Outras explicações baseadas na LXX, que lêem (en m ési dio zõõn),
incluem Cristo entre dois ladrões. Cristo entre a morte e a ressurreição e Cristo entre dois
aeons.
276 HABACUQUE 3.2

naquele período crucial antes da destruição dos inimigos de Deus


que o Senhor dê garantias de que preservará a vida.
A oração de Habacuque, a que o Senhor /ãze-o viver, representa
uma reflexão deliberada sobre a visão escatológica que ele recebera
previamente. O soberbo não prevalecerá, mas o justo - ele viverá\ (Hc
2.4). Em outras palavras, Habacuque fornece um exemplo excelente
de quem está pleiteando as promessas. Tendo recebido a palavra de
garantia de que o Justificado (pela fé) viverá por sua sólida confiança,
0 profeta agora faz desta promessa o ponto central de sua petição. Des­
ta maneira ele encoraja Israel a continuar suplicando pela vida ao longo
dos anos trevosos que viriam com o Juízo.
Numa escala mais ampla, o padrão da oração de Habacuque forne­
ce um arcabouço para a compreensão da era atual. De acordo com
Pedro, o Juízo deve começar pela casa de Deus (IPe 4.17). Esta era
atual representa o tempo em que Deus continua a purificar seu próprio
povo por meio de muitos Juízos punitivos. Nessas circunstâncias, o crente
deve pleitear a promessa de que o Senhor preservará a vida de seu povo
a despeito das calamidades temporais. Entre o tempo do castigo de Deus
sobre seu próprio povo e a vinda do Juízo final sobre seus inimigos, a
súplica deve subir ao Senhor para manter sua palavra e sustentar a vida
do crente. Faze-o viver, suplica o profeta. Conquanto o pronome o
anexado ao verbo seja tomado como uma referência mais abstratamen­
te a Israel como aquele a quem Deus preservaria a vida, a ligação com
a máxima monumental anterior de Habacuque 2.4 sugere que é o Justo
pela fé a quem o Senhor preservará em vida. Faze-o, aquele que crê,
viver.
O profeta também ora, faze(-o) entender. Posto em construção pa­
ralela com faze-o viver, este verbo tem o mesmo objeto, embora esteja
implícito pelo contexto. Por meio desta petição, o profeta pede ao Se­
nhor que faça conhecido ao crente o programa e plano que ele desig­
nou. Do mesmo modo que Habacuque agonizara no processo de enten­
der os misteriosos caminhos de Deus, e finalmente encerrara seu caso,
à luz da revelação que lhe fora fornecida, também intercede em favor
de outros, para que o Senhor lhes dê a compreensão necessária, para
que sobrevivam em meio à calamidade.
HABACUQUE 3.2-15 277

Finalmente, o profeta roga: em (o tempo de) tremor, lembra-te da


misericórdia. O temio traduzido por tremor {wgez) não significa es­
sencialmente “ira”, como é costumeiramente traduzido (“Na ira, lem­
bra-te de misericórdia” —AV, NASB, NIV). Em vez disso, a palavra
indica um estado de agitação, excitação ou perturbação. O termo na
forma do verbo “tremer” é preeminente em todo o poema, ocorrendo
nada menos que quatro vezes (v. 2,7,16). Neste versículo, posto em
paralelo com a frase em (o) meio de (os) anos, caracteriza o tempo em
que esta oração de Habacuque deveria funcionar. É um tempo de per­
turbação e agitação, um tempo em que os fundamentos devem ser sacu­
didos. O próprio povo de Deus iria para o exílio. Tremor deveria carac­
terizar inclusive as instituições humanas mais estáveis.
Em tal circunstância, o profeta ora para que o Senhor se lembre de
ser misericordioso. Pois nada, a não ser a misericórdia imerecida de Deus.
poderá garantir o sustento do povo sob esses estresses.
E assim as petições do profeta têm três objetivos: que o Senhor
preserve a vida, que o Senhor proveja entendimento e que o Senhor se
lembre da misericórdia. Somente a iniciativa da graça divina se prova­
rá suficiente sob circunstâncias calamitosas que o crente há de enfrentar.

B. O PROFETA VISUALIZA DEUS, O SALVADOR, VINDO EM


TODA SUA GLÓRIA (3.3-15)
Tendo oferecido sua petição, o profeta agora volta seus olhos para
o passado e para o futuro, donde ele vê o Senhor vindo em toda sua
glória. Ele visualiza a salvação vindo no meio de fenômeno cataclísmi­
co associado com teofanias.
Mas, por que é que salvação seria seu tema? O juízo de Deus sobre
Judá (1.5-11) e sobre a Babilônia (2.6-20) fora a mensagem que inspi­
rara a reverência original na mente do profeta.
E verdade que o juízo fora central no diálogo de Habacuque com o
Todo-Poderoso. Mas toda a tese havia sido a salvação para o próprio
povo de Deus no contexto de juízo. O justo viverá, ele sobreviverá ao
desabamento de impérios e ao povo à sua volta.
Porventura Habacuque está falando sobre o passado ou o futuro à
278 HABACUQUE 3.3-15

medida que descreve a vinda de Deus em toda sua glória? Sem dúvida,
ele utilizou numerosas manifestações da glória de Deus no passado, na
história de Israel. Agora, porém, ele repete o passado para lembrar o
modo como Deus agira previamente ou estaria predizendo o que iria
suceder no futuro, empregando uma linguagem descritiva do passado?
Vários exegetas têm se diligenciado muitíssimo em resolver essa
questão. Keil observa a forma imperfeita do verbo inicial da seção
{Eloá vem [ou virá] de Temã, v. 3), porém conclui que a perspectiva
fliturística deste verbo “não descreve o que é futuro, como sendo abso­
lutamente futuro, mas algo que se descortina progressivamente do pre­
sente para adiante, que devemos expressar pelo uso do tempo futuro”.'
Rudolph tenta distinguir entre as referências do passado e futuro com
base na experiência da visão do profeta propriamente dita, o que já
havia ocorrido, em contraste com a realidade do evento que ainda está
no futuro.^ Mas esses tipos de distinção forçam o texto a ir além do
razoável. O mesmo tipo de avaliação também pode aplicar-se ao esfor­
ço de identificar precisamente, em cada ponto, o livramento histórico e
específico a que o profeta se refere.
Uma colagem, uma coleção de muitas imagens para dar a impres­
são tanto de esperança passada quanto futura é o instrumento do profe­
ta. O cântico de Moisés, de Débora, de Davi se funde com o fim de
fornecer um arcabouço para a antecipação do futuro. Por meio de tal
método, Habacuque não anula a história da realidade da vinda de Deus
para salvação. Em vez disso, ele pinta a realidade do ponto de vista da
manifestação futura de Deus mediante a recordação de muitos exem­
plos concretos de sua intervenção na história passada. Ele não coloca a
vinda de Deus no âmbito do infinito, porém força seus leitores a aprecia­
rem a magnificência e iminência de sua aparição novamente.
Terá o profeta fugido do âmbito da oração para volver-se a esta
descrição da vinda de Deus em toda sua glória? Não, pois a realidade
da vinda de Deus no passado e no futuro fornece a base para a fé que
garante vida àquele que ora e espera. Em vez de deixar sua petição
meramente pronunciada, o profeta fornece um arcabouço de fé que o
1. Keil. p. 97,98.
2. Rudolph. p. 241.
HABACUQUE 3.3-7 279

susterá, bem como aqueles suplicantes que se lhe reunirão ao longo


dos tempos. O Senhor vem e o Senhor está vindo. Portanto, todo o que
espera pacientemente por ele viverá.
A parte central da oração pode ser dividida em duas seções: (1) a
glória do Senhor em sua vinda (v. 3-7); (2) o diálogo com o Senhor em
sua vinda (v. 8-15). Esta divisão segue a distinção natural no texto, no
qual o profeta primeiro se refere a Deus na terceira pessoa e depois se
dirige ao Senhor na segunda pessoa.

/. A glória do Senhor em sua vinda (3.3-7)

3 a Eloá
h de Temã
c vem,
a e o Santo
b do Monte Parã.
Selá.'
a Seu esplendor
b cobre
c (os) céus,
a eseu louvor
b enche
c a terra.^
4 a E seu fulgor
b é como a luz;
a chifres
b (procedem) de sua mão.
A li
(está) o esconderijo de seu poder.^

1. O setá que ocorre três vezes neste poema de Habacuque aparece somente aqui e nos
Salmos. A função precisa do termo é ainda obscura. Mas ele indica que o poema de Habacuque
foi incorporado no culto em Israel.
2. O paralelismo corresponde ao hebraico, mas a ordem das palavras foi mudada para
conformar com o modo de expressão em inglês.
3 .0 versículo literalmente diz: “E seu brilho como luz será; chifres de sua mão (são) para
ele; e ali (está o) esconderijo de sua força”.
280 HABACUQUE 3.3-7

5 a Adiante dele
b vai
c a praga:
c e uma pestilência ardente
h segue adiante
a em seus pés.
6 a Ele se ergue
b e mede*
c (a) terra.
a Ele olha
b e assusta
c (as) nações,
a Elas são dispersas —
b os montes eternos;
a eles se encurvam -
b as colinas eternas.
(Mas) suas saidas (são) eternas.
1 a Em agitação^
b vejo
c as tendas de Cttsã;
c as cortinas da tenda da terra de Midiã
a estão tremendo.^

De maneira muitíssimo dramática, o profeta descreve o próprio


processo da vinda do Senhor em toda sua glória, e os efeitos incríveis
que essa vinda exerce sobre a natureza e as nações. Enquanto o Se­
nhor, em toda sua glória, chega mais e mais perto, os efeitos de sua
presença se tomam mais e mais dramáticos.

4. Keil, p. 101, rejeita o conceito de Deus “medir” com seu olho. Ele sugere, em vez disso,
que o verbo m Sdad ou m ú d seria uma forma variante de m ût, indicando que Deus põe a
terra em movimento cilíndrico.
5. O termo traduzido por “aflição” ("Bwen) mais frequentemente significa “iniquidade” .
Mas em passagens como Provérbios 12.21 (“nenhum agravo virá ao justo”) evidentemente
não pode significar “pecado”. No contexto de Habacuque 3.7, “aflição” é a melhor opção.
6. A ordem das duas últimas linhas foi invertida para dar melhor expressão na língua
inglesa.
HABACUQUE 3.3-7 281

3a. É notável o ponto de onde Deus começa sua aproximação. Não


é dos céus, mas de locais muito concretos da terra. Ele vem de Temã e
de Parã para exibir sua glória.
O poema começa com uma referência a Deus como Eloá, usando
uma forma poética antiga do nome de Deus.’ Mas quando o profeta
começa a dialogar com Deus, em vez de observá-lo em sua vinda, ele
se lhe dirige como Yahweh (v. 8), o Deus da aliança. Ao alcançar a
resolução final das pelejas de sua fé, o profeta fala de Yahweh Acionai
(v. 19), expressando sua submissão ao senhorio deste grande Deus que
homologou sua fidelidade pactuai.
A surpreendente revelação sobre esse Deus é que ele realmente vem
iyãhô’). Pelo uso desta expressão, Habacuque reflete a substância da
visão anterior que lhe fora dada em resposta à sua queixa. Foi-lhe dito
que, a despeito das calamidades esmagadoras, ele deve aguardar o tem­
po determinado da revelação, porque certamente virá (èõ’ yãhõ’, Hc
2.3c). Mas esta expectativa da “vinda” de Yahweh retrocede aos tempos
das antigas palavras de Moisés quando refletiu as glórias da manifesta­
ção de Deus no Sinai. Moisés começou sua profecia a respeito das
tribos de Israel observando que:

O S e n h o r veio do Sinai (m issinay bã’)...


Ele resplandece desde o monte Parã (Dt 33.2).

A ênfase sobre a vinda do próprio Deus como a fonte de esperança


para o povo do Senhor encontra apropriadamente sua expressão con­
sumada nas Escrituras da Nova Aliança. Os crentes sofredores são en­
corajados a reter bem sua profissão de fé, visto que “aquele que vem
virá e não tardará” (Hb 10.37). Ao longo de todas as eras, somente a
esperança da vinda do Senhor pode dar certeza genuína a seu povo.
Segundo Habacuque, o Senhor vem de Temã e cio Monte Parã. Por
meio dessas designações, o profeta retrocede aos passos mediante os
quais Deus guiou Israel á posse da terra. Os dois locais designam apro­
ximadamente os limites da jornada de Israel no deserto. Temã é

7. Eloá ocorre 4 1 vezes no livro de Jó e 16 vezes no restante do Antigo Testamento, incluin­


do uma vez em Habacuque 1.11.
282 HABACUQUE 3.3-7

geralmente associada com Edom (cf. Ob 9; Am 1.12), ainda que tam­


bém possa referir-se ao “sul” em termos mais gerais (Js 12.3; Is 43.6;
Zc 9.14). Parã designa a área do deserto, na região do Sinai e do Egito
(cf. Gn 21.21; 1Rs 11.18; Dt 33.2), ainda que também possa referir-se
a Cades (Nm 13.26) ou ao território próximo da fronteira setentrional
de Judá (ISm 25.5). Seja como for, Habacuque descreve Deus em
movimento do Sinai até Edom a caminho para a posse da terra para seu
povo. Habacuque lembra a experiência passada de Israel como um meio
de prevenir a intervenção do Senhor no futuro.
Mas agora, nos dias de Habacuque, o próprio Israel de repente se
toma um obstáculo no caminho do movimento divino para dar salva­
ção a seu povo. Visto que Israel tem agido de um modo persistente­
mente perverso, eles devem ser removidos do caminho ao longo do qual
Deus realiza propósitos redentores.
Justamente como diz Habacuque, o Deus de Israel é o Santo. E este
Santo que vem do monte Parã. Essencial a seu caráter é sua recusa de
ser um respeitador de pessoas que toleram o mal. Numa grande expres­
são de fé, Habacuque previamente se dirigira ao Senhor como “meu
Santo”, aquele que lhe assegurou que o povo de Deus não morreria a
despeito da prevalecência da injustiça na terra (Hc 1.12). Com o Santo,
ele manteria a justiça com perfeita imparcialidade.
No Sinai, Israel ouvira que tinham de ser santos, porque o Senhor
era santo (Lv 11.44-45; 19.2). Visto que ele os separara de todos os
outros povos da terra, eles deviam ser santos (Lv 20.26). Na época
depois da renovação da aliança, Josué disse a Israel que não podiam
servir ao Senhor, porquanto este é um Deus santo e se voltaria e os
consumiria caso o abandonassem (Js 24.18-20).
Agora Habacuque vê a justiça e a santidade de Deus em ação. Com
imparcialidade, ele atingirá primeiro os perversos em Israel e depois
os babilônios ímpios. E assim ele será estabelecido como o Santo que
Vem.
Quão impressionantes teriam sido as novas palavras pactuais de
Pedro quando declarou à sua geração israelita: “Vós, porém, negastes
o Santo e o Justo” (At 3.14). Ao rejeitar Jesus Cristo como “Aquele
HABACUQUE 3.3b-4 283

que Vem” {ho erchómenos - Mt 11.3), Israel selou seu destino para
uma destruição ainda mais espantosa que as devastações realizadas
pelos babilônios.
O restante desta seção (v. 3b-7) desenvolve a extensão (v. 3b), a
intensidade (v. 4) e os efeitos da glória de Deus (v. 5-7) durante sua
vinda para prover salvação para seu povo.
3b. Quando o profeta antevê a vinda do Senhor em glória, ele pri­
meiro visualiza de longe a magnitude daquela glória. A majestade de
Deus cobre os céus acima, e seu esplendor permeia a terra.® O profeta
não se refere à glória de Deus que naturalmente é refletida na criação
(cf SI 19.2 [Eng. 1]). Em vez disso, ele fala da glória particular irradi­
ando das teofanias de Deus enquanto liberta seu povo. Sua glória se
manifesta particularmente naqueles pontos cruciais da história, quan­
do Deus intervém para salvar seu povo. Os espectadores desse livra­
mento testemunham quando a glória de Deus permeia todo o universo
criado.
Essas manifestações passadas, numa escala limitada, podem ser
consideradas como antecipações da grande epifania fmal da glória de
Deus, quando o Filho do Homem vier nas nuvens, acompanhado pela
luz do relâmpago faiscando do oriente ao ocidente (Mt 24.27). Então,
todo olho 0 verá, e a visão de Habacuque receberá seu cumprimento
fmal.
4. De longe, o profeta viu a glória de Deus enchendo toda a terra.
Agora 0 Todo-Poderoso chega mais perto; ele pode ver aqueles pontos
de concentração nos quais a essência da glória de Deus se situa.
Em vista das limitações da experiência e linguagem humanas, a
indescritível glória de Deus só pode ser retratada em termos de valor
relativo. Somente num sentido relativo é que o finito pode compreender
o infinito.

8. A passagem diz litcralmenie: “Seu louvor enche a terra”. Nesse caso, não significam
litcralmente atividades de louvor que enchem a terra. Ao contrário, a palavra louvor aponta
para os atributos de Deus que sâo dignos do louvor espontâneo de toda sua criação. Cf. Ex
15.11, que fala de Deus como “terrivel” em (atributos dignos de) louvores.
284 HABACUQUE 3.4

O elemento mais puro, mais brilhante do universo criado é a pró­


pria luz. Então 0 profeta declara que Deus, em sua vinda, é como a
essência da luz. Anteriormente Davi usara esta mesma imagem a fim
de representar a vinda de Deus em resplendor e luz para destruir todos
os seus inimigos (2Sm 22.13). Assim como os raios do sol penetram
toda a terra com seu brilho, também Deus, em sua vinda, irradia uma
glória como a da luz mais pura.
“Deus é luz”, dizem as Escrituras da Nova Aliança (IJo 1.5), e
assim esta mesma tradição continua a comunicar as perfeições da gló­
ria divina. Com uma metáfora idêntica, as Escrituras da Nova Aliança
exaltam a glória de Deus, descrevendo-o como aquele “que habita em
luz inacessível” (1 Tm 6.16).
Contudo, esse Deus glorioso se achega ao homem. À medida que ele
se aproxima, a concentração de sua glória é vista nos chifres ou “raios”
que (procedem) de sua mão. O chifre naturalmente simboliza a concen­
tração de poder, literalmente em termos do chifre do animal de carga, ou
figurativamente em termos de um raio de luz emitido de sua fonte.
A alusão de Habacuque às tradições passadas de Israel é bastante
clara. Ele retrata a glória da vinda de Deus em termos da glória passada
associada à teofania do Sinai. Da mesma maneira, quando Moisés des­
ceu do monte, sua face “brilhava”, que é o único lugar nas Escrituras
em que este termo particular é usado para descrever o brilho dos raios
de luz (cf Ex 34.29-30,35). A relação da imagem usada por Habacu­
que com a manifestação da glória de Deus no Sinai é vista mais ainda
por meio de comparação detalhada com Deuteronômio 33.2;

a O S enhor
b do Sinai
c veio (6 s’)
c e alvoreceu
b de Seir
a sobre eles.
Ele resplandece
do Monte Parã;
e ele veio (’ã^á)
HABACUQUE 3.4 285

com as miríades de seus santos.


De sua mão direita (procedeu)
uma lei ardente
para eles.

A frase traduzida por “lei ardente” que procedeu da mão direita de


Deus é de significado incerto.’ Mas os paralelos com Habacuque são
claros na vinda de Deus desde o Sinai e Seir, seu “esplendor”, sua
manifestação de santidade. Neste contexto, a referência a alguma coi­
sa, seja qual for, proveniente da “mão (direita)” (yãmin em Deutero-
nômio;yõc( em Habacuque) do S e n h o r acrescenta um ponto adicional
de comparação.'®
De qualquer modo, a concentração de poder e luz na mão de Deus
no momento de sua chegada enfatiza sua prontidão a pôr-se em ação
em prol de seu povo. Ele não aparece simplesmente como um espectro
brilhante a inspirar terror entre todos os que testemunham sua apari­
ção. Ele vem como uma pessoa ativa, poderosa e maravilhosa, que
labuta para estabelecer sua supremacia entre as nações.
Pelo uso de uma imagem notável, o poeta estendeu a imaginação
humana ao descrever os efeitos do poder e da glória de Deus. Ali (está)
o esconderijo de seu poder! ele exclama. Raios de glória inatingíveis
que brilham de sua mão; qual, pois, não será a natureza deste poder e
glória ocultos em seu punho fechado!
A exclamação, ali!, aparece frequentemente na poesia hebraica para
designar um ponto vividamente captado pela imaginação (cf. SI 14.5;
36.13 [Eng. 12]; 48.7 [Eng. 6]; 66.6; Os 6.7; Sf 1.14). Ali, em sua mão,
o ponto do qual saem aqueles raios gloriosos - ali reside o poder ilimi­
tado do Todo-Poderoso."
Esse poder, essa glória, estariam ocultos, por causa das limitações
dos seres humanos finitos. Da mesma maneira que ninguém pode olhar
9. A frase hebraica é obscura. BDB. p. 206, identifica o termo dãt, como uma palavra
usada “apenas no período persa”.
10. Esta luz que brilha da mão do S enhor poderia ser a luz de relâmpagos. Ou a referência
podería ser aos raios de luz que brilham pelo céu quando o sol nasce.
11. A frase hebraica poderia também ser traduzida por “onde fica o esconderijo de seu
poder”, como na NIV. Mas a tradução mais dramática se encaixa melhor no contexto.
286 HABACUQUE 3.5

diretamente para o brilho do sol, só observando cuidadosamente o bri­


lho de sua glória, também a glória e o poder de Deus estariam velados.
Pois ele habita em luz inacessível (ITm 6.16).
5. Havendo descrito algo da glória de Deus em sua essência en­
quanto vem libertar seu povo, o profeta agora descreve os efeitos que
acompanham a manifestação da glória de Deus. E significativo o fato
de que esta fonte irradiadora de luz está se movendo. A medida que
Deus vem como luz personificada, ele traz a força penetrante e destru­
tiva do juízo divino. Mesmo antes de Deus chegar, a terra é assustada
por praga.
Referências a praga no AT se enfeixam principalmente em tomo
dos eventos do êxodo e da profecia de Jeremias. No último caso, o
profeta anuncia a destruição de Judá por causa de sua persistência no
pecado (cf. Jr 14.11-12; 21.6,9; 24.10; 27.8,13). Ao declarar este flage­
lo futuro sobre a terra, o profeta apenas ecoa as maldições pactuais
como ameaçadas outrora (Lv 26.25; Dt 28.21-22). A vingança pactuai
vem sob a forma de praga que devora os inimigos de Deus Juntamente
com todas suas possessões.
Então Habacuque, ao decidir expressar-se em termos das antigas
maldições pactuais, fornece evidência de que ele se reconciliou com a
justiça de Deus que devastava seu próprio povo, como lhe fora revela­
do pela resposta inicial de Deus à sua queixa (Hc 1.5-11). Esta aceita­
ção dos justos desígnios de Deus encontra expressão mais completa
nos versículos finais do poema (3.17-19).
A teofania em seu avanço deixa um traço de destruição após si.
Se as pragas o precedem, a pestilência abrasadora marca a vereda
que ele seguiu. O termo “pestilência abrasadora” (reSep) tem um sig­
nificado básico de “queimar”,'^ e pode pressupor a figura de faíscas
evolando enquanto os pés do Senhor pisam a terra. De qualquer modo,
a vinda do Senhor é uma visão aterradora de se ver. Quanto mais
perto ele chega mais amedrontador parecem ser as consequências de
sua aproximação.

12. Rudolph, p. 234, observa este signiricado básico, mas opta pela tradução de “pesti­
lência”.
HABACUQUE 3.6 287

6. Agora o Senhor realmente chega. As manifestações de sua che­


gada foram vistas a distância em termos de irradiação de sua glória
enchendo a terra. Mas agora o Todo-Poderoso chega e se toma eviden­
te que ele não é simplesmente um fenômeno para ser observado.
Como um grande colosso que se eleva acima dos cumes dos mon­
tes, o Senhor Deus mede a terra, reivindicando o direito de domínio
inerente em si mesmo como Criador. Com um relanceio de olhos, ele
manifesta sua soberania em repartir territórios (cf SI 60.8 [Eng. 6]).
Seu olhar assusta (as) nações. Do mesmo modo que o gafanhoto
pula repentinamente com suas pernas desproporcionais, também as
nações inteiras pulam assustadas quando de repente se tomam cônscias
de que o Senhor chegou (cf o uso do mesmo termo em Lv 11.21 ). Judá,
Babilônia e os sucessores de Babilônia permanecerão para sempre su­
jeitos à vontade do Senhor.
Ao realçar o significado cósmico da vinda do Senhor, Habacuque
descreve o efeito de sua chegada nas massas mais fundamentais da
criação. Primeiro, os montes eternos surgem do abismo de águas, que
ainda servem de estabilizadores do mundo (cf Gn 1.9). Desde o alvo­
recer da criação, eles permaneceram resolutos englobando a terra até
hoje. Eles dizem às profundezas do oceano: vocês podem ir até este
ponto; mas não além dele (ver SI 104.9). A vista do Senhor, porém,
essas estruturas maciças são esmigalhadas como se atingidas por uma
marreta gigante; elas se mostram frágeis como argila. Os outeiros eter­
nos rastejam no pó, achatados perante a majestade do Senhor.
Em contraste com a temporalidade comprovada das estruturas fun­
damentais da presente criação se põe a estabilidade eterna do Senhor.
O profeta deliberadamente coloca o eterno em mútuo contraste: os
outeiros eternos {'ôlãm) se curvam, mas (até mesmo) as saídas do Se­
nhor são eternas {'ôlãm). Os movimentos do Senhor assumem um ca­
ráter imutável em virtude da permanência de seu efeito.
Em outros lugares, o salmista fala das “procissões” {hHíkôt, lite­
ralmente, “saídas”) de “meu Deus, meu Rei”, ao descrever as ações do
Senhor enquanto procede ao esmagamento de todos os seus inimigos (SI
68.25 [Eng. 24]). Seu padrão de atividade tem sido consistente ao longo
dos tempos. Sem parcialidade, ele aparece no tempo certo para estabe­
288 HABACUQUE 3.6-7

lecer justiça em toda a terra. Ele vê, mede, vem e aplica sua vontade
soberana.
As imagens empregadas por Habacuque atingem um clímax de re­
alização na perspectiva da Nova Aliança. Não só os outeiros se curvam
perante sua glória; os elementos mais essenciais do universo se dissol­
vem em calor abrasador (2Pe 3.10). O Senhor mesmo descerá no glorioso
esplendor das nuvens e todo olho o verá (Ap 1.7). A imparcialidade de
seus juízos se manifestará por toda a eternidade.
7. Agora o profeta se toma mais específico em sua descrição dos
efeitos da chegada de Deus. Primeiro ele falara do abatimento dos montes
à sua aparição e a reação das nações aterrorizadas, em geral (v. 6). Ele
antevê o efeito concreto nas nacionalidades, em particular, as quais
Israel confrontara no passado.
Basicamente, existem duas possibilidades com respeito à identifi­
cação de Cusã e Midiã. A referência poderia ser a duas tribos nômades
associadas de um modo geral à península do Sinai e à automanifesta-
ção de Deus naquele ambiente. Ou a alusão poderia ser a dois opresso­
res anteriores de Israel depois de seu estabelecimento na terra de Canaã.
Pode-se entender Cusã como uma forma expandida do nome
“Cuxe”, semelhante à expansão de “Ló” para “Lotâ”, em Gênesis 36.20.
Consequentemente, “Cusã” poderia referir-se à terra da Etiópia. Esta
interpretação é endossada pela tradução de Cusã como Aithio/mn (Eti­
ópia) pela LXX.
Por outro lado, “Cuxe/Cusã” poderia referir-se a uma tribo beduí-
na da península do Sinai que teria sido vizinha de “Midiã”, menciona­
da em Êxodo 3.1. A este respeito, pode-se observar que a esposa midi-
anita de Moisés (Êx 2.21; 18.2) é aparentemente chamada de uma cu-
xita em Números 12.1.'^
O problema maior com esta segunda identificação de Cuxe com
Midiã é que ela viola o avanço da descrição da vinda de Deus do Sinai
para a Palestina. A questão toda dos versículos anteriores tem sido a
insistência de traçar o progresso da teofania à medida que sua glória se

13. Esta visão é apoiada por Rudolph, p. 244; Keil, p. 102; Laetsch, p. 346.
HABACUQUE 3.7 289

move rumo aos picos do Sinai. Agora Deus fmalmente chegou e come­
çou sua obra espantosa de realizar o juízo sobre as nações.
Embora o termo Ciisã não apareça fora de Habacuque 3.7, ele apa­
rece em uma frase composta “Cusã-Risataim” em Juizes 3.8-11. Na­
quele contexto, Cusã surge como o primeiro opressor de Israel enviado
por Deus para castigá-los por causa de seu pecado. Por esta razão, a
referência é bastante apropriada. O problema que Habacuque tinha de
enfrentar era o prospecto de uma invasão punitiva por uma potência
estrangeira. Agora, pois, enquanto antevê esse futuro sombrio, ele pode
sentir-se encorajado ante o fato de que, no final, o Senhor veio dar a
seu povo libertação da opressão. Além do mais, pode-se observar que
esta nação em Juizes é identificada como vindo de Aram-Naharaim,
isto é, “Arã dos dois rios”. Esta identificação tem algum sentido, por­
que logo no versículo seguinte Habacuque faz a pergunta retórica: “é
contra os rios. S e n h o r , que estás irado? E contra os ribeiros tua ira...
?”. A colocação da questão deste modo preciso podería ter a intenção
de trazer à memória o antigo conflito do Senhor com “Cusã... dos dois
rios”.
A referência às cortinas da tenda da terra de Midiã poderia ter a
intenção de ecoar um aspecto distinto da confrontação do Senhor com
os opressores invasores midianitas nos dias dos juizes. Como se pode
bem lembrar, Gideão ouviu um midianita falando ao outro sobre seu
sonho no qual um pão de cevada rondava contra o arraial dos midiani­
tas, e deu de encontro com a tenda do comandante, e ele caiu (Jz 7.13).
O “tremular” das cortinas das tendas desses invasores opressores res­
salta a transitoriedade da dor que porventura inflijam ao povo de Deus,
seja ela qual for. Eles podem estar aqui hoje, mas amanhã terão desa­
parecido.
Este confronto em particular com Midiã se tornou o arcabouço dos
pronunciamentos proféticos antes de Habacuque (cf. Is 9.3 [Eng. 4];
10.26; 60.6). Este fato acrescenta mais apoio à ideia de que era esta
Midiã em particular que mais provavelmente se encaixava na profecia
de Habacuque.
A colocação que o profeta faz dos castigos antecipados contra Israel
em termos de sua experiência passada com Cusã-Risataim e com Mi-
290 HABACUQUE 3.8-15

diã indica que Habacuque finalmente aceitara o fato de que um juízo


punitivo mais severo deveria sobrevir a Israel por causa de sua persis­
tência no pecado. Mas ele nunca perdeu a esperança de que o remanes­
cente sobrevivería, pois ele tinha recebido o sinal de que “o justificado
(pela fé) viverá por sua sólida confiança”. Não importa quão temíveis
seriam os terrores infligidos pelos invasores babilônios. Habacuque fora
levado a um ponto de esperança que não podia ser abalada. As estruturas
de todos os reinos opressivos iriam tremer sob a aflição. Mas ele possuía
cidadania num reino que jamais será abalado (cf. Hb 10.29-30).

2. Diálogo com o Senhor em sua vinda (3.8-15)

8 Acaso é contra os rios,


que o Senhor se enfurece?
Em relação aos rios
(é) tua ira?
Em relação ao mar
(é) tua ira?
que cavalgas
em teus cavalos,
teus carros de salvação?
9 Tu distendes plenamente teu arco;
as varas da batalha são usadas por juramento.
Selá.
Com rios
Tu fendes a terra.
10 Os montes
te veem —
eles fogem.
Tempestade de águas
transborda.
O abismo
faze ouvir a sua voz;
ele ergue suas mãos para o alto.
11 Sol, lua
param em suas sublimes moradas;
HABACUQUE 3.8-15 291

à luz de tuas flechas


eles fulgem,
ao brilho de tua lança lampejante.
12 a Em indignação,
b tu marchas pela terra;
a em ira,
b tu trilhas as nações.
13 Tu sais
para (a) salvação de teu povo,
para salvação com teu ungido.
Tu esmagas
(o) chefe da casa (de) o perverso,
pondo a descoberto' (desde) o Jundamento
até o pescoço.
Selá.
14 Tu feres com tuas (próprias) varas
o chefe de tuas multidões.~
Eles se enfurecem
com o intuito de me dispersar.
Seu regozijo (é)
como os que devoram o pobre em secreto.
15 Tu pisoteias
o mar
com teus cavalos
(entre) os vagalhões de muitas águas.

8. A transição entre a vinda de Deus e a presença de Deus de


fato transparece pelo discurso do profeta dirigido a Deus inicial­
mente na terceira pessoa, e logo na frase seguinte na segunda pes­
soa; acaso é contra os rios que Yahweh se enfurece? Em relação aos

1. 'õrôt é uma forma rara de infinitivo absoluto Piei de 'Brá. Cf. GKC, § 75n.
2 .0 caráter descrito como de horda do inimigo em Habacuque é representado pelo termo
p^rBzBw. Embora alguns dos tradutores antigos tenham traduzido o termo como “guerrei­
ros” ou “dinastias” (Vulgata e LXX), o uso dos termos relacionados aponta para as multi­
dões que viviam em tendas nas planícies abertas, em distinção do número mais restrito que
vivia cm cidades muradas (Dt 3.5; Jz 5.7,11; ISm 6.18; cf. Ez .11).
292 HABACUQUE 3.8

rios é tua ira? Ele continua dirigindo-se a Deus como “tu” até o final
desta seção (v. 15).
Por que o profeta prevê as manifestações da glória de Deus por
meio de seu efeito sobre os rios e o marl Estaria ele tentando descrever
a recorrência da antiga peleja de Deus com o abismo caótico?^ A ausên­
cia de referência a rios nas seções das Escrituras que supostamente fa­
zem alusão a este conflito original argumenta contra a conclusão de que
0 profeta estaria pensando nesta direção. Em vez disso, a concentração
no tema da salvação do povo de Deus indica que a intervenção divina
não pende na direção de batalhas mitológicas com o caos, mas com
inimigos reais enfrentados por seu povo.
A referência aos rios e ao w ar constrói uma montagem de livramen­
tos passados para descrever a ação de Deus no futuro. Um rio frequen­
temente serve como uma fronteira territorial. Portanto, ferir os rios pres­
supõe movimentos na direção da posse mais plena das promessas de
Deus. O Senhor atingira o Mar Vermelho, o rio Jordão e o rio de Kishon.
Em cada caso, ele fizera seu povo chegar mais perto da plena posse das
promessas relativas à terra.
É possível que o rio Eufrates fosse visto como o objeto futuro da ira
de Deus. Enquanto os babilônios vinham para amontoar juízo sobre o
povo de Deus, eles deviam esperar uma retaliação fantástica da parte
daquele mesmo que ferira rios e mar no passado.
O conglomerado de palavras empregadas para descrever a ira de
Deus corrobora a solenidade desta hora. Mais de 170 vezes, o furor
( ’ap) de Deus é mencionado no AT. Sua ira {'ehrâ) cumula vingança
sobre seus inimigos. O S e n h o r se enfurece (hãrâ) algumas vezes por
causa de pecados simples, como queixas ou ciúmes (Nm 11.1,10; 12.9).
A manifestação consumada da ira de Deus deve ocorrer nos fins do
tempo, quando os mensageiros angélicos de Deus derramarem uma vez
mais as taças da ira de Deus sobre o “mar” e os “rios” (Ap 16.3-4). As
fontes de água deverão converter-se em sangue (16.4), e o rio Eufrates
deverá secar (16.12). No contexto do Apocalipse, os juízos antecipados
de Deus são descritos em imagens que lembram a ira de Deus como
3. Cf. Rudolph, p. 244.
HABACUQUE 3.8 293

manifesta contra o Egito e a Babilônia. Ele manifestará sua ira contra o


wfl/- (Egito) e os rios (possivelmente incluindo a Babilônia) converten­
do as águas em sangue (Egito) e secando o Eufrates (Babilônia). De
qualquer modo, o livro do Apocalipse descreve as mesmas interven­
ções judiciosas encontradas nas previsões proféticas de Habacuque.
Os atos redentores de Deus do passado fornecem a base para uma ex­
pectativa com respeito ao futuro.
Notável é o fato de que Habacuque agora funde as imagens de
Juízo e salvação em sua antecipação do futuro. Embora seja o próprio
Israel o principal objeto do juízo iminente de Deus, o profeta recon­
quistou seu equilíbrio e entendeu que mesmo neste evento terrível o
Senhor estaria prosseguindo com seus propósitos de redenção. Deus
cavalga seus cavalos e seus carros para salvação.
Que cavalgas teus cavalos, teus carros de salvação. Esta imagem
dramática de Deus cavalgando como um guerreiro poderoso e carros
para a conquista do inimigo aparece regularmente nas tradições de Is­
rael. Suas raízes podem ser remontadas a alguma imagem de Baal ca­
valgando as nuvens nos materiais ugaríticos.'* Embora seja possível al-

4. Vários esforços foram feitos para relacionar este material a uma tela dc fundo mitológi­
ca. J. L. Crenshaw, “Treading on the Heights o f the Earth", CBQ 34 (1972) 50,52, assevera
que a tela de fundo ugaritica é pronunciada em pelo menos um ponto, mas ele crê que a
linguagem mitológica é apenas metafórica. W, A. Irwin, “The Psalm os Habakkuk”,2/V£'5 I
(1942)30, conclui que o texto atual de Habacuque 3 é caracterizado por “imbecilidade abso­
luta, e todas as traduções que o seguem não saem dela”. No “The Mythological Background
o f Habakkuk 3”. JNES 15(1956) 48-49, ele argumenta contra a visão de que o mito cananeu
serve como fundamento primário para este capítulo, e postula que em vez disso é o mito
babilónico de Enuma Elish que explica o capítulo.
Em resposta à crítica de W. F. Albright, de que suas “emendas drásticas e interpretações
forçadas produzem um texto que não corresponde a nenhum dialeto hebraico conhecido, ou
forma literária, e que suas inovações podem ser descartadas com segurança” (JBL 6111942]
121), Irwin expressou sua frustração porque não conseguiu nenhuma “ lista dc detalhes”, e
observa que ”o máximo que conseguiu dele foi que isto não era nada do que ele pudesse ter
dito” (p. 47). Uma amostra das mudanças sugeridas por Irwin no texto pode ser vista em sua
proposta de que a frase “banquetcar-sc no pobre” de 3.14 deve ser invertida para que ela
indique que o pobre (judeu) é para banquetear-se em Tiamat, o monstro mitológico morto
(Irwin, “The Psalm o f Habakkuk”, p. 32).
Uma defesa impressiva do MT se encontra em J. H. Eaton, "Origin and Meaning of Habakkuk
3”, ZAW 76 ( 1964) 144-171. No tocante à base mitológica do poema, tais alusões podem ser
reconhecidas como sendo baseadas numa hipótese possível, porém não comprovada. Nada
294 HABACUQUE 3.8

giima ligação com a imagem extrabiblica, a impregnação deste concei­


to em todas as várias literaturas do AT pressupõe que no tempo de
Habacuque os conceitos por trás das imagens tinham sua própria fun­
ção distinta na estrutura da teologia de Israel.
Particularmente, no período da monarquia de Israel, a aparição de
Deus sobre cavalos e carros já havia se tomado uma figura caracterís­
tica. Depois de longos anos de confrontações frustrantes com os reis
de Israel, os carros e cavalos de fogo divinamente enviados carregaram
Elias para os céus (2Rs 6.14,17). Parte da preparação de Davi para o
lugar de habitação de Deus no meio de Israel incluía uma coleção de
ouro “para o carro dos querubins que havia de estender as asas” (ICr
28.18, NASH). Os agentes na intervenção de Deus se posicionavam
prontos com veiculos capazes dos mais velozes e eficazes meios de
transporte.
Nos Salmos e Profetas, Deus também é descrito como tendo a seu
dispor cavalos e carros para impor sua vontade soberana (SI 18.11 [Eng.
10]; 68.18 [Eng. 17]; Is 66.15; Jr4.13; Ez 1.15ss.; Zc 6.2-3,6). Essas
figuras ecoam a antiga bênção de Moisés (Dt 33.26) e se estenderam
naturalmente para descrever a equipagem do rei messiânico que era
esperado como aquele que “cavalga prosperamente” em majestade em
favor da verdade, da humildade e da justiça (SI 45.5 [Eng. 4]).
À medida que Habacuque encara as devastações de um exército
estrangeiro, ele descreve a maior ira e o maior poder encontrados nos
próprios carros e cavalos de salvação do S e n h o r . Nenhuma nação seria
capaz de resistir quando ele viesse executar a salvação de seu povo.
Foi de fato um grande passo de fé que permitiu a Habacuque afir­
mar uma expectativa de salvação em vista da revelação que ele havia
recebido. As maiores calamidades imagináveis devem sobrevir ao pró­
prio povo do Senhor sob a fonna de invasão babilónica. Contudo, ago­
ra a fé lhe ensina que os propósitos da salvação divina avançaram exa­
tamente através dos meandros dessas circunstâncias.

na linguagem do capítulo requer que se encontre uma fonte fora das tradições bíblicas de
Israel, e parece muito mais natural identificar o arcabouço de referência em ternios dos gran­
des atos de salvação do Êxodo, como obser\'ado por R. K. Harrison, Intmduction, p. 936.
HABACUQUE 3.8-9a 295

De modo semelhante, Jesus Cristo alertou para o aumento de tribu­


lação que iria afligir seu próprio povo na medida em que os fins dos
tempos se aproximassem. Mesmo nessas circunstâncias, porém, eles
devem ser encorajados a esperar sua aparição nas nuvens, com relâm­
pagos, com o acompanhamento de exércitos militantes dos céus (Mt
24.30).
9a. Este versículo aparentemente inocente tem se sujeitado a um
infindável número de contorções interpretativas. Mais de cem diferen­
tes explicações têm sido oferecidas.
Tu distendes plenamente teu arco. A conjunção enfática de um subs­
tantivo e um verbo relacionado para descrever o distender seu arco
dramatizam esta ação pelo Guerreiro divino se posicionando para o ata­
que contra seus inimigos. O posicionamento do substantivo ('eryâ)
antes do verbo (tê'ôr) fortalece o pensamento. Algumas vezes o Se­
nhor revela seu poder de maneira modesta (cf 2Sm 22.36; SI 113.6-7;
Is 57.15). Mas agora sua ira é provocada, e ele age com a força total de
seus poderes destrutivos. Do mesmo modo que Davi viu o anjo com a
espada desembainhada, também Habacuque antevê o Todo-Poderoso
pronto para colher a vingança sobre seus inimigos.
No lamento dc Jeremias sobre a destruição de Jerusalém, o profeta
personaliza o ataque do Senhor contra seu próprio povo. Deus entesou
seu arco e mirou seu próprio povo como o alvo de sua seta (Lm 2.4). Mas
agora os inimigos do Senhor é que são os objetos de seu ataque. Seu
arsenal de armas deve focalizar-se neles (cf SI 7.13-14 [Eng. 12-13]).
A dificuldade em tomo da frase seguinte é que cada uma das três
palavras hebraicas (S^tu'ôt m aftôt ’õmer) pode ter mais de um signi­
ficado, e a relação gramatical precisa entre uma e outra não é clara.’
Mais plausível é a interpretação oferecida por Delitzsch, “maciçamen­
te argumentada” e corroborada por outros.*

5. S^huôi poderia ser “juramentos”, “aquelesjurados”, ou com uma modificação de ponta


“lanças”. ma((ô( poderia ser “tribos” (que são usados), “varas”, “lanças” (que são
usadas), ou, n a is especificamente, “bastões (de castigo)” (que são usados), ’õm er poderia
ser “uma pal vra”, "um decreto”, ou “um discurso”.
6. J. H. Eat n, “Origin and Meaning o f Ilabakkuk 3”, Z4fE76 (1964), p. 151. Ver também
Laetsch, p. 348.
296 HABACUQUE 3.9a-10

Varas de batalha (ou lança, bordão) ião usadas por juramento capta
o sabor do contexto e combina com o significado básico das palavras.
Deus recrutou armas e as empenhou sob juramento para a destruição de
seus inimigos. A recorrência da forma plural de varas (maííõyu;) justa­
mente cinco versículos depois, num contexto que requer que uma arma
de conflito seja vista, apoia este entendimento.
No juramento da aliança como registrado em Deuteronômio 32.40-
43 ,0 Senhor jurou levantando sua mão aos céus que sua espada e setas
consumiriam seus inimigos, vingando o sangue de seus servos e pa­
gando com vingança a seus adversários, enquanto usa de misericórdia
para com sua terra e seu povo. Habacuque agora discerne que chegou a
hora daquele juramento cumprir-se.
9b-10. Nesse momento se toma óbvio que esse guerreiro que luta
pela justiça não é um personagem comum. Suas armas de guerra incluem
os elementos primitivos da criação. É bem pouco provável que algum
inimigo terreno possa resistir a seus ataques.
Com rios tu fendes a terra sugere um súbito e terrível aguaceiro.
Mas o que está sendo descrito não é uma tempestade comum. Pois as
águas cósmicas das profundezas emitem seu estrondo gorgolejante. Uma
tempestade de águas transborda, de modo que até os montes... fogem.
A referência a profundezas {i^hôm) reflete as águas que original­
mente cobriam inteiramente a terra (Gn 1.2). Portanto, não surpreende
que até os montes busquem escapar do dilúvio iminente. Não apenas
na criação, mas na enchente das profundezas {tfhôm) as águas subi­
ram até cobrir a terra (Gn 7.11). Em seu ataque aos inimigos, o Senhor
empregaria os elementos mais básicos de sua criação. A menção que se
faz de que os abismos erguem bem alto suas mãos busca traçar a ima­
gem das ondas que estendem suas cristas espumantes na direção dos
céus, subindo cada vez mais alto para envolver o máximo do mundo
dentro de seus domínios.
A montagem de imagens do passado, que são empregadas neste
momento pelo profeta com o fim de antecipar o ato de juízos divinos
futuros, também inclui o triunfo de Deus sobre Faraó no Mar Verme­
lho. Porquanto ali os abismos {t^hõmõt) os cobriram (Êx 15.5). As
HABACUQUE 3.9b-11 297

águas se separaram como um monte e as profundezas (t^homot) foram


congeladas no coração do mar (v. 8).
Embora calamidade e juízo sejam com toda a certeza o tema cen­
tral do poema de Habacuque, ele também colocou esses juízos no arca­
bouço do programa progressivo da redenção divina, a fim de redimir
seu povo para si. Sim, mesmo Israel pode ser devastado pela imparcia­
lidade dos justos juízos de Deus. Mas, o fato de que os babilônios por
sua vez também sofreriam devastação indica que Deus tem propósitos
de continuar sua obra no mundo. E se for verdade que “o justificado
viverá por sua sólida confiança”, então a razão para esperança contí­
nua ao longo de todas essas calamidades tem um fundamento sólido
sobre o qual construir.
11. Uma manifestação adicional da resposta da natureza ao juízo
divino é vista no dramático sol, lua pairam em suas sublimes moradas.
A despeito das objeções de alguns, parece mais provável que esta frase
tenha a intenção de refletir o “longo dia” de Josué, durante o qual o sol
e a lua pararam {'ãmad), permitindo assim que Josué terminasse seu
trabalho de juízo sobre os inimigos de Deus.’ Esta alusão acrescenta
mais imagens em termos de Deus trazer toda a natureza em subserviên­
cia a seus propósitos redentores.
Nesta fabulosa ordem dos fenômenos espetaculares da natureza, o
profeta não deixa o leitor ignorar que é o próprio Senhor, em pessoa,
que está por trás dos eventos. As montanhas ie veem, inspirando seu
recuo servil (v. 10). Tuas flechas e tua lança refulgente levam os pode­
rosos governantes do dia e da noite primeiro a pararem e depois a fugi­
rem aterrorizados (v. 11).
Esta linguagem descritiva encontra seu paralelo mais aproximado
no Salmo 77.17-21 (Eng. 16-20), como observado por muitos comen­
taristas. De acordo com o salmista, as águas e os abismos viram e tre­
meram. As nuvens derramaram águas e as setas do Senhor relampeja-

7. O termo z^bulâ indica um “lugar elevado de habitação” para o Sol e a Lua. Keil, p. 108
rejeita a ideia de que a frase poderia referir-se ao longo dia de Josué, visto concluir que este
termo não pode referir-se ao estado de paralisação no céu. Mas a frase precedente especifica­
mente descreve “sol” e “lua” como “permanecendo em suas moradas”.
298 HABACUQUE 3.11-12

ram aqui e acolá.* Digno de nota, à luz deste paralelismo, é o final do


salmo refletindo sobre o fato de que os caminhos do Senhor eram no
mar, e Deus guiou o povo como um rebanho pelas mãos de Moisés e
Arão (v. 21 [Eng. 20]). Esta conclusão sublinha o fato de que essas
descrições dos eventos cataclísmicos se relacionam primariamente com
a obra divina de redenção. Por meio dessas atividades, o Senhor prosse­
gue com seu plano de libertar seu povo.
12. Nesse momento, a resposta finalmente começa a emergir em
resposta à questão anterior. Seria a ira de Deus contra os rios e o mar
(v. 8)? Porventura uma ira irracional contra sua própria criação explica
a perturbação entre montanhas e abismos. Sol e Lua? Não, é em respos­
ta à perversidade das nações que o Senhor derrama sua indignação.
Como um juízo sobre o perverso, ele vem com toda sua maravilhosa
glória e marchas pela terra.
A vivida imagem de Deus marchando pela terra implica que o Se­
nhor tem o que pode ser chamado presença. Três, na verdade quatro,
coisas são majestosas em sua marcha: o leão, o galo, o bode e o rei
contra quem não há rebelião (Pv 30.29-31). Obviamente, este provér­
bio, refletindo a realidade, se aplica à marcha do Rei dos reis.
As nações têm tentado derrubar o cetro do reinado de Deus. Mas
todos seus esforços são em vão. Pois quando o Senhor age, imediata­
mente se comprova que a terra mal aguenta sua presença, tremendo
sob 0 peso de suas pisadas. Notem-se outros exemplos da terra se aba­
lando sob a marcha de Yahweh em Juizes 5.4; Salmo 68.9 (Eng. 8).
Em ira tu trilhas as nações. O trilhar {dûs) as nações pelo Senhor
se aproxima ainda mais do ponto específico de sua manifestação teofa-
nica. Essas imagens de Deus calcando as populações das nações por
suas iniquidades encontram sua expressão histórica no caso do trata­
mento que Gideão deu aos príncipes de Zeba e Salmuna por seu fracas­
so em ajudar seus homens quando perseguiam os midianitas. Em cum­
primento de sua palavra, ele volta e “trilha” {dûs) sua carne com espi­
nhos do deserto (Jz 8.16). Dignas de nota, como paralelo profético a

8. As “setas” aparentemente se referem ao relâmpago. Cf. 2 Samuel 22.1; Salmo 77.19


(Kng. 18); Zacarias 9.14.
HABACUQUE 3.12-13a 299

essa declaração de Habacuque, são as palavras de Miqueias um século


mais tarde:
Levanta-te e debulha, ó filha de Sião,
Pois farei de ferro teus chifres;
e de bronze tuas unhas
e esmiuçarás a muitos povos (Mq 4.13).
13a. A alternância de tempos verbais neste contexto não diferencia
as atividades passadas de Deus com intervenções que podem ser espe­
radas no futuro. Ao contrário, o profeta usa esse artifício gramatical
para sugerir que os caminhos da ação de Deus no passado podem ser
entendidos como indicativos do que ele irá operar no futuro. E por esta
razão que os verbos, tanto na forma perfeita quanto imperfeita, em
hebraico, foram traduzidos pelo tempo presente, em português.
Esse versículo lembra ao leitor, uma vez mais, que o panorama ge­
ral desse poema é em termos da vinda de Deus para seu povo, manifes­
tando sua glória na criação enquanto vem, e sempre com o objetivo
último de trazer a salvação. O versículo repete: para salvação, para
salvação. Deus não destróí o perverso simplesmente por fazê-lo. Ele o
destrói por amor de seu povo. Deus tem um povo especial e o salva de
seus inimigos.
A introdução súbita de uma referência a teu ungido, neste profeta
do século 7®, deve ser reconhecida por sua qualidade distintiva. Contrá­
rio ao que muitos presumem, o AT usa em apenas uns poucos casos o
termo messias para referir-se a um futuro libertador.’ Na verdade, o
termo aparece somente em outro texto entre todos os escritos profé­
ticos.'“
Portanto, não surpreende a descoberta de que o ungido de Habacuque
3.13 foi interpretado como um plural, referindo-se a Israel corporati­
vamente como o povo de Deus." Esta interpretação é apoiada pelo
9 .0 caso mais claro é o Salmo 2.2. 1 Samuel 2.10 é outra possibilidade. Isaías 61.1 usa a
forma verbal dc “ungir” ao referir-se ao Servo do Senhor. São escassos outros usos do termo
messias no AT se referindo a um indivíduo futuro.
10. Isaías 45.1 designa Ciro como “messias”.
11. Alguns manuscritos da LXX trazem “para salvar seu Cristo”. Mas outros têm um
plural: “seus cristos”.
300 HABACUQUE 3.13a

paralelismo do versículo. Deus age em favor da salvação de seu povo,


da salvação de seu(s) ungido(s). Entretanto, vários fatores argúem contra
esta modificação de teu ungido. O texto hebraico está no singular e não
no plural, e a interpretação deve começar por esta perspectiva. Em ne­
nhum lugar no AT o povo de Deus é chamado ungido do Senhor. Além
disso, deve-se dar alguma atenção à introdução da palavra hebraica ‘et
(“com”) nesta segunda linha do paralelismo. Embora o termo seja to­
mado como sinal de objeto direto, esta interpretação não explica por
que ele é introduzido na segunda linha e não aparece na primeira.
Uma explicação preferível é que o termo significa “com” e está
apresentando o “ungido” de Deus como que tendo uma relação dife­
rente para a salvação daquela do povo. A salvação divina é para o povo
de Deus, mas é concretizada com seu ungido.
Mas, quem é esse ungido que deve servir como agente por meio de
quem o Senhor realiza sua salvação? Possivelmente o profeta poderia
estar antecipando a aparição de um “Davi” ideal do futuro. Visto que
os descendentes contemporâneos de Davi dificilmente estavam à altu­
ra de ser um libertador de Deus, o profeta teria sido forçado a basear
suas esperanças num futuro, num ungido mais perfeito.'^
Contudo, é possível aceitar outra interpretação como possibilida­
de. A única outra passagem nos profetas que usa o ternio messias se
refere a Ciro como servo de Deus quando devasta os babilônios (Is
45.1). Deus irá “abater as nações ante sua face” para destituir reis.
Naturalmente, a identificação do “ungido” de Habacuque com Ciro
geraria problemas insolúveis na mente de qualquer um que já houvesse
se comprometido com uma visão que requer que a referência de Isaías
a Ciro devia vir depois de o rei da Pérsia haver aparecido no cenário da
história.'^ Mas dada a ausência de um único uso do substantivo messias
nos livros proféticos em referência ao Davi''' ideal, e operando com o
testemunho externo das evidências textuais do conjunto das Escrituras

12. Rudolph, p. 245.


13. Deve-se também notar que o entendimento da menção que Isaías faz de Ciro, como se
originando depois que ele aparece no cenário da história, contradiz o tema central desses
capítulos de Isaías, que se centralizam na ideia de desafio para a profecia.
14. Claus Westermann assevera que no AT o termo messias nunca é usado, exceto em
HABACUQUE3.13a-13b 301

da maneira como se encontra no presente, pareceria bastante plausível


que Habacuque estivesse ecoando esta referência profética anterior a
um “ungido”. Além do mais, as circunstâncias dessa referência em
Habacuque combinam bem de perto com o papel que Ciro desempe­
nhou na história redentora. Habacuque foi levado a reconhecer que de­
pois de Deus haver julgado seu próprio povo pela mão dos babilônios,
ele iria então suscitar outro poder que iria executar justo juízo sobre os
babilônios por sua excessiva crueldade. Habacuque finalmente chega a
uma conclusão satisfatória de seu estado mental perturbado no hino do
capítulo 3 depois de receber a garantia de que o justificado pela fé con­
tinuaria a viver através de todos esses tempos calamitosos nos quais
Deus estaria operando seus caminhos justos.
Por causa do papel vital que o monarca Ciro estaria operando na
consecução final desses eventos, não surpreenderia que Habacuque cha­
masse a atenção para seu papel na obra de Deus. A possibilidade de tal
referência teria de pressupor a existência anterior da profecia de Ciro
em Isaías. Mas, se as dificuldades da pressuposição comumente associa­
das com tal pré-nomeação puderem ser postas de lado, esta interpreta­
ção combina muito bem com o contexto de Habacuque 3.
Ao mesmo tempo, a identificação do messias de Habacuque 3.13
com Ciro não exclui inerentemente uma referência à realização desta
“salvação” em termos da vinda do rei libertador messiânico final do
povo de Deus. Isaías já havia entrelaçado com sua apresentação de
Ciro como o servo libertador (Is 44.24-45.7) um desenvolvimento do
tema do Servo Sofredor (Is 42.1-4; 49.1-6). Esses dois libertadores e
seus livramentos são intencionalmente dispostos de modo que um deve
ser entendido em relação ao outro. Enquanto um servo ungido restaura
o povo num sentido político-geográfico limitado, o outro servo ungido
restaura o povo no âmbito redentor mais pleno.
13b. Agora se toma evidente que o profeta não está falando mera­
mente em termos hipotéticos. Muito embora sua linguagem seja satu­
rada de recordações e livramentos do passado, ele olha para uma ação

relação a um monarca reinante {Isaiah 40-66, OTL, trad. D. M. G. Stalker [Filadélfia;


Westminster, 1969], p. 159). Mas ele minimizou o uso numa passagem como Salmo 2.
302 HABACUQUE 3.13b

específica no futuro. Deus esm agará o chefe (literalmente “cabeça”)


da fam ília (literalmente “casa”) do perverso (rãSã').
Desnudando (desde) o fundamento até o pescoço. Esta porçào do
versículo tem se sujeitado a uma grande variedade de interpretações.
Qual é esse fundamento que é desnudado? Qual o significado de desnu­
dar um fundamento até o (ou para baixo do) pescoço? A perplexidade
ante esta imagem força um reexame da referência ao chefe da família.
A imagem de esmagar “o cabeça de uma casa (ou família)” pode ser
interpretada por sua ligação com a figura de desnudar um fundamento.
Nesta construção, cabeça da casa se refere mais naturalmente a seu
telhado, em contraste com o fundamento da casa.'*
Entretanto, o uso bíblico da frase “o cabeça da casa” aponta para
outra direção. A frase ocorre mais frequentemente em relação ao chefe
de uma família (Êx 6.14; Nm 7.2; 17; 18; Js 22.14; ICr 5.24; 7.7,9).
Mais apoio para esta interpretação se encontra no próprio versículo
seguinte de Habacuque 3, o qual usa o mesmo termo (rõ ’S) para refe­
rir-se ao chefe ou líder do perverso.
Portanto, o profeta tem em mente a família do perverso que tem
um chefe estabelecido com o propósito de liderar sua família em opo­
sição ao povo de Deus e aos propósitos redentores do Senhor. Esse
chefe é o principal objeto da ofensiva do Senhor. Deus esmaga esse
líder principal com as lanças do perverso (v. 14) da mesma maneira
que a estrela de Jacó se destinava a ferir as têmporas de Moabe (Nm
24.17) e Jael rachou a cabeça de Sísera (Jz 5.26) e o Messias esmagará
a cabeça de muitos (SI 110.5-6).
Das aproximadamente 250 vezes em que o adjetivo perverso {rãSã')
ocorre no AT, ele parece sempre modificar pessoas em vez de coisas.
Não é o líder da “terra da perversidade” (NIV) que o Senhor esmagará,
mas o líder da casa do per\'erso ou “povo perverso”.'*
Pondo-se em contraste com o ungido que prossegue na realização

15. Ver Rudolph, p. 246; Keil, p. 110.


16. O singular pode referir-se tanto a um só individuo quanto a um grupo de pessoas que
podem ser caracterizadas como “perversas”, como em Habacuque 1.13; cf. Gênesis 18.23.
A NIV aparentemente traz reSa' como "perversidade” em contraste com o TM rãsW.
HABACUQUE3.13b-14 303

da salvação de seu povo (v. 13a) está esse chefe dos perversos que opri­
me 0 povo de Deus (v. 13b). Como se dá em muitos casos nas Escrituras,
o singular herói ungido ganha a vitória sobre o singular chefe dos per­
versos, e assim realiza a vitória em prol de todo o povo de Deus.
Essa vitória é descrita em termos de um desnudando (desde) ofu n ­
damento até o pescoço. O fundamento parece referir-se às pernas que
mantêm o corpo; e o pescoço, a porção do corpo que sustenta a cabeça.
O desnudando ou expondo o fundamento pressupõe a eliminação por
baixo de toda a força de sustentação. A extensão desse ataque até o
pescoço indica a totalidade da destruição.'^
14. A ironia de todo o processo de destruição desse inimigo é ampliada
pela notificação da autodestruição: com suas (próprias) varas, o inimi­
go se autodestrói. Com essa maneira distintiva de operação, o Senhor
garante que o inimigo de seu povo sofreria as mais severas humilhações
- eles se destroem a si próprios com suas próprias armas.
Com frequência, o povo de Deus se encontra severamente pertur­
bado em virtude de que ele não vê nenhum poder visível tão forte quanto
o de seus inimigos. Mas o profeta Habacuque encoraja os fiéis a assu­
mirem uma perspectiva inusitada. Eles devem olhar para a força do
inimigo como sendo Justamente a fonte de sua própria proteção. Quan­
to mais forte o inimigo, mais certa é sua autodestruição. Pois Deus
soberanamente suscita poderes e os derruba; ele volta a força do inimi­
go contra si próprio. Hamã se enforca em sua própria forca (Et 7.10).
Os adversários de Daniel perecem na mesmíssima cova de leões onde
o jogaram (Dn 6.25 [Eng. 24]). Aquele que cava uma cova para fazer
cair nela o justo, nela mesma ele próprio cairá (SI 7.6 [Eng. 5]). Abi-
meleque e Siquém, rebeldes conspiradores nos dias dos juízes, foram
amaldiçoados com a maldição da autodestruição (Jz 9.19-20). Enfren­
tando uma coligação poderosa de nações inimigas, Judá sob o reinado
de Josafá foi instruído a pennanecer imóvel e ver a salvação do Senhor
(2Cr 20.17). Quando o povo de Deus olha para o deserto, então o vê

17. Keil. p. 110. trata a referência ao “fundamento”, "pescoço” e “cabeça” como uma ex­
pansão da figura de uma “casa”. Desta perspectiva, a “cabeça” se refere ao espigão de um
telhado. Conquanto esta abordagem dos versículos seja possível, falta-lhe o apoio do uso
dessas imagens em outros lugares nas Escrituras.
304 HABACUQUE 3.14

coberto de cadáveres de seus inimigos, pois o Senhor os incitara uns


contra os outros (2Cr 20.24). A característica do último grande conflito
final será a guerra na qual cada um dos inimigos do Senhor comerá a
came de seus próprios braços (Is 9.19 [Eng. 20]; cf. Ez 38.21; Zc 14.13).
Em vez de ficar aterrorizado ante a força de seus inimigos, o povo de
Deus deve descansar confiantemente na certeza de que a força do po­
der inimigo só pode exibir sua capacidade de autodestruição.
Posto como um contraponto poético da destruição que o Senhor
anna contra seus inimigos está a descrição da ferocidade do ataque
estrangeiro. Eles arquitetam em como dispersar-me', eles exultam como
aquele que devora o pobre às ocultas (v. 14b).
Mas, quem é o m e que sofre o impacto desse assalto tempestuoso?
Estaria o profeta prevendo ele próprio como um objeto distinto da ira
do inimigo? Até este ponto, o próprio profeta tem desempenhado um
papel preeminente em todo esse poema. Foi ele próprio que pessoalmen­
te ouviu o relato do Senhor (v. 2). Ele mesmo viu a visão das cortinas
tremulantes da tenda de Cusã (v. 7). Ele oferece sua resposta pessoal a
esta visão teoíanica na forma da primeira pessoa (v. 16-19). Unica­
mente duas vezes ele fala do “povo” de Deus em sentido corporativo,
nesse capítulo (v. 13,16).
Nessa luz, parece mais apropriado considerar o me do v. 14 como
se referindo expressamente ao próprio profeta. Ele não é apanhado no
extasiante momento desta gloriosa visão da vinda do Senhor, de tal
modo que ele se exclua do terrível interlúdio no qual o povo de Deus é
atacado pelo inimigo. Não! Ele sente que também deverá sofrer o im­
pacto da ferocidade do inimigo. Talvez como o mensageiro da Justiça e
juízo, ele se vê como o objeto especial de sua ira, da mesma maneira
que todos os profetas de todas as gerações. Como o ponto crucial do
homem na confrontação da verdade e do erro, ele sabe que não pode
isentar-se de sua fúria. Da mesma maneira que o turbilhão do vento no
deserto, o inimigo se atira sobre o profeta, arrancando-o de seu ancora­
douro, espalhando seus pertences e ameaçando sua precária amarra na
própria vida.
A crueldade do inimigo é vista em sua satisfação maligna e na ale­
gria que sente ante a destruição do justo. Que tipo de alma selvagem
HABACUQUE 3.15-19b 305

poderia satisfazer-se na destruição do desvalido? Como sucede a um


animal selvagem que espreita e depois arrasta e devora sua presa em
secreto, também esse desapiedado opressor ataca suas vítimas.
15. Mas a fé recém-nascida do profeta o encoraja a recordar a grande
salvação providenciada pelo Senhor, no passado, das mãos do opres­
sor. Desdenhando da força do inimigo, o Senhor trilha os mares com
seus cavalos, levantando como uma nuvem de poeira o vagalhão de
muitas águas. Numa evidente alusão ao livramento dos israelitas no
Mar Vermelho, o profeta lembra a si e a seus contemporâneos da força
salvíflca da vinda do Senhor. Como um humilde pregador observou, a
única maneira de cruzar um atoleiro é procurar “os lugares firmes”.'®O
grande livramento de Deus no Mar Vermelho fornece nitidamente um
daqueles pontos firmes para os quais a fé madura do povo de Deus pode
volver-se de novo.
Então 0 profeta descreveu Deus, o Salvador, vindo em toda sua
glória (v. 3-15). A fé que dá vida deve olhar para a gloriosa chegada do
grande Deus e nosso Salvador. Ele virá e devastará a todos os seus
inimigos. Mas, nesse ínterim, o Juízo deve começar pela casa de Deus.

C. O PROFETA RESOLVE SUA LUTA PELA CONFIANÇA


TRIUNFANTE (3.16-19b)
Tendo ouvido a resposta do Senhor à sua queixa (2.2-20), e tendo
tido a visão do Senhor chegando mais e mais perto em sua vinda para
intervir e destruir o perverso e salvar o justo (3.3-15), o profeta agora
registra suas reações a esse intercâmbio fabuloso (3.16-19b). Sua rea­
ção inclui três elementos: (1) uma resposta de reverente espanto (v.
16); (2) um reconhecimento de perda iminente (v. 17); e (3) uma reso­
lução de jubilosa confiança (v. 18-19b).

I. Uma resposta de reverente espanto (3.16)


16a Eu ouvi
b e meu ventre
c se comoveu.

18. D. Martyn LIoyd-Jones, From Fear Io Failli ( Londres: InterVarsity, 1953), p. 27.
306 HABACUQUE 3.16

a A voz
b meus lábios
c tremeram.
Podridão penetrou meus ossos,
e debaixo de mim tremi,
porque devo esperar tranquilamente
pelo dia da adversidade,
pela subida do povo
que nos invadirá.

O esquema de diálogo que percorre todo o livro prevalece até seu


final. A observação do profeta de que ouviu (Sãma'ti) a resposta do
Senhor à sua queixa ecoa o reconhecimento da abertura do capítulo -
“tenho ouvido” {Sãma'ti §im'°kã).
Dessa vez, porém, o profeta está mudo. Ele se acha totalmente inca­
paz de responder. Por meio de uma refutação paciente, nunca se desvi­
ando de seu ponto, o Senhor fez calar seu servo, pondo-o numa posi­
ção de reconhecimento passivo ante a retidão de seus caminhos. Ante­
riormente, Habacuque se preparara para a “resposta que eu terei à mi­
nha queixa” (Hc 2.1). Agora, porém, ele está sem voz.
A expressão do profeta com respeito ao efeito do discurso do Se­
nhor sobre si não deve ser tomada como um mero artificio literário
dramático. Ele descreve, ao contrário, uma experiência física real que
sofrerá quando o peso total do significado de sua visão lhe sobreveio.
Seu plexo solar se contorceu. Seus tênues esforços para manter um
diálogo com o Todo-Poderoso resultaram num incontrolável tremor
dos lábios. A sensação que teve é que seus ossos sofreram repentino
apodrecimento. Suas pernas tremiam debaixo de si.'
Em vez de desprezar o profeta por excesso de emocionalismo, o
leitor deveria honrá-lo por sua sensibilidade ante o significado da men­
sagem que recebera. Quanto mais piedosa é a pessoa, maior é o temor
que sente pelo Senhor.

1. o tremor “debaixo” do profeta poderia referir-se a tremores de terra. Mas, neste contex­
to, a descrição dos efeitos somáticos, em razão da mensagem do Senhor, é mais provavel­
mente ao tremor das pernas “debaixo” dele.
HABACUQUE 3.16 307

Quatro vezes nesse único capítulo aparece a referência a uma rea­


ção de tremor à manifestação da verdade e glória de Deus (v. 2,7,16).
Mesmo durante o êxodo, as nações “ouviram” e “estremeceram” ante
os relatos dos poderosos feitos de Deus (Êx 15.14), então agora as no­
vas do juízo inspiram tremor semelhante. O dia dojuízo divino sobre as
nações transjordânicas inspirou tremor entre os povos da terra (Dt 2.25).
Agora, porém, dolorosamente, o próprio povo de Deus deve tremer di­
ante dojuízo que chega para eles próprios.
Particularmente, deve-se notar a voz que é a razão do espanto do
profeta. Sua resposta à voz de Deus lembra o poema de Israel sobre a
voz:

... a voz do Senhor sobre as águas...


A voz do Senhor é poderosa:
a voz do Senhor é cheia de majestade.
A voz do Senhor quebra os cedros;
a voz do Senhor despede chamas de fogo.
A voz do Senhor faz tremer o deserto...
A voz do Senhor faz dar cria às corças e desnuda os bosques...
(SI 29.3-5,7-9, NASB)

Usando as imagens de uma tempestade feroz que varre através da


Palestina, o salmista captou algo da majestade da revelação que vem
do Senhor.
Mas, qual precisamente é o foco de sua visão que levou o profeta a
esse ponto de extrema convulsão? Não predissera o Senhor juízo sobre
os inimigos de Israel e a justificação do justo?
A última porção do versículo 16 explica diretamente a razão de o
profeta sentir-se tão perturbado. E por causa ( ’°Ser) da terrível devasta­
ção que o próprio povo de Deus sofreria antes da plena posse das pro­
messas que o profeta treme da cabeça aos dedos dos pés.
Alguns problemas de interpretação aparecem por causa do uso pou­
co comum do verbo esperar ou descansar (n ü a h ) neste contexto. Es­
taria o profeta dizendo que ele estava aborrecido só porque tinha de
esperar em silên cio l Em razão dessa aparente tensão, alguns comenta­
308 HABACUQUE 3.16-17

ristas têm sugerido uma emenda textual, que seria “eu gemo” em vez
de “eu espero” (’ê ’ãnah em vez do massorético ’ãnüah).- Entretanto,
este problema pode ser mais imaginário que real. O profeta está abor­
recido porque nada pode deter a tragédia inevitável de Israel ser inva­
dido pelas forças punitivas babilónicas. Ele deve esperar em silêncio
pelo dia da adversidade, pelo ataque dos exércitos inimigos.
O corpo perturbado de Habacuque estremece ao ponderar que vi­
veria em constante sobressalto por causa do iminente juízo de Deus.
Embora o livramento seja garantido, ele só virá após o juízo.^
Tempos depois, quando o remanescente fiel de Israel ficou reduzi­
do a um único indivíduo, uma circunstância semelhante aconteceu. So­
zinho no Getsèmani, perscrutando interiormente o terrível abismo do
inferno, o próprio Senhor Jesus suava gotas de sangue (Lc 22.44). Mes­
mo tendo certeza de que o Senhor não deixaria sua alma no inferno (SI
16.10; c f SI 42.6,12 [Eng. 5,11]; 43.5), contudo a realidade das ago­
nias que tinha de suportar antes de seu livramento o esmagava. Sua
alma estava excessivamente perturbada {perilypós estin hê psychê
mou, Mt 26.38), e seu corpo reagiu com fantásticos sinais de com­
paixão.

2. Um reconhecimento de perda iminente (3.17)


17 Ainda que
a a figueira
h não floresça,
h e não haja fruto
a nas videiras;
a falhe
b o produto da oliveira;
b e os campos

2. W. H. Ward, p. 28: “Para o inadequado 'nwh [massorético] poder-se-ia arriscar uma


conjetura: ‘e'Snah, significando Eu gemo em vista do dia do sofrimento, porém nada me­
lhor ocorre”. Cf. BDB, p. 628. G. A. Smith, The Book o f the Twelve Prophets, Expositor’s
Bible (Garden City, NI: Doubleday, Doran, & Co., 1929), 2.156, deixa a frase sem traduzir.
3. l^'am y^gúdennú, “pois o povo (que) nos invadirá” prevê o assalto do exército dos
babilônios contra Judá.
HABACUQUE 3.17 309

a não produzam mantimento;


a seja arrebatado do aprisco'
h o rebanho;
b e nenhum gado
a (haja) nos currais j

A palavra que introduz este versículo (ãí) pode ser considerada ape­
nas como 0 estabelecimento de uma possibilidade hipotética; “Se a fi­
gueira não florescer...”. Mas o contexto demanda mais. A passagem
descreve uma série de fatos que transpirarão. Estas coisas temíveis
acontecerão.
Mas elas não devem ocorrer como uma consequência de seca ou
praga de gafanhotos. Em vez disso, a devastação da guerra deixará a
terra desolada. A voracidade insensível do exército invasor consumirá
tudo o que for de valor na face da terra. A quebra das estruturas básicas
da família e das ordens sociais culminará numa terra improdutiva.
A recitação do profeta dos itens que serão negados aos habitantes
da terra é organizada sob a forma de três estrofes poéticas de quatro
linhas cada uma (ver a tradução acima). O intercâmbio de a-b-b-a do
sujeito e do verbo é talvez o mais típico do paralelismo poético hebraico.
Dentro dessa estrutura fonnal, pode-se observar uma tríade dupla
de objetos, movendo-se dos itens opcionais para os essenciais para a
sobrevivência humana. A figueira, o fruto e a oliveira representam os
produtos mais excelentes da terra como vistos nas passagens de Joel
1.7; Oseias 2.12; Miqueias 4.4; 6.15; Deuteronômio 6.11; 8.8. O grão
dos campos, as ovelhas e o gado compreendem as necessidades de pão,
leite e carne. A ausência desses itens significa que não haveria bolos de
figo, vinho, óleo de unção para a jovem queimada do sol. Não haveria
cereais, vegetais, leite, carne de carneiro, lã - nenhuma dessas necessi­
dades ou prazeres estariam disponíveis ao profeta e seu povo.
No contraste mais nítido com o espírito de queixa e descrença ma-

1. m itlã, "aprisco” é aparentemente uma variante de mi^lã'. Cf. BDB, p. 476.


2. O termo para “estábulo” (r^pStim) ocorre somente aqui no VT, e seu significado é
incerto. Mas provavelmente esteja relacionado com o hebraico pós-bíblico repet, “abrigo
de gado”.
310 HABACUQUE 3.17-19b

nifestado por Israel no deserto, Habacuque abertamente reconhece a


perda iminente desses luxos, bem como as necessidades da vida; mas,
mesmo assim, ele crê. Toda a ordem existente no presente mundo pas­
sará, mas a graça de Deus para seu povo durará para sempre.
Talvez parte da explicação da disposição do profeta em aceitar esse
severo castigo das mãos do Senhor advenha dos avisos explícitos da
antiga legislação mosaica. Se Israel não ouvisse com atenção os manda­
mentos do Senhor, mas, ao contrário, desprezasse todas as suas disci­
plinas, então ele os puniría sete vezes mais por seu pecado e a terra não
daria seu fruto (Lv 26.18,20; c f Dt 11.17). Mas a fé do profeta envolve
opções mais amplas do que sofrimento pelo pecado. Pois ele, juntamen­
te com o remanescente que perseverar em fé, também suportarão todas
as privações. Sua entrega de todas estas coisas nas mãos do Senhor
antecipa aquele fiel que mais tarde declarará: “perdi todas as coisas”
(Fp 3.8).

3. Uma resolução de confiança jovial (3.18-19b)

18 Todavia,
a no Senhor
h eu exultarei;
b eu me regozijarei
a no Deus de minha salvação.
19 O Senhor meu Deus (é) minha força,
a Porque ele firmará meus pés
b como (os pés) da corça;
b e em meus lugares altos
a ele me fará andar.

Finalmente aparece uma resolução do conflito que começou o li­


vro. O profeta agora entende, por meio da revelação divina, a Justiça
dos caminhos de Deus com os homens e o juízo inevitável que deve
sobrevir ao remanescente fiel de Judá. Mesmo o próprio profeta deverá
sofrer privação de todas as coisas necessárias que sustentam a vida.
Contudo ele viverá! Ele se regozijará! Ele subirá aos picos mais
altos da terra!
HABACUQUE 3.18-19b 311

Seria a ressurreição da fé que vem à expressão nessas palavras


finais do profeta? Estaria ele falando de uma expectativa de vida de­
pois que 0 último inimigo fez tudo quanto quis de pior? Certamente
sua fé não está longe deste ponto. A despeito de todas as tragédias
previstas, ele de fato pode regozijar-se em sua confiança de que o vigor
da vida será seu. Pois “o Justificado (pela fé) viverá por sua sólida
confiança” (ver a exposição de 2.4).
Note bem que é na pessoa do próprio Senhor que o profeta se rego­
zija. Ele agora aprendeu que pode privar-se de todos os bens materiais,
confortos e bênçãos - contudo ele pode regozijar-se porque sua fé está
no Senhor.
18. Ele chama o Senhor Deus de minha salvação. Por meio de tal
designação, o profeta expressa sua confiança de que o Senhor por tlm
efetuará seu livramento. De uma perspectiva do AT, esta salvação não
pode ser percebida como uma realidade meramente espiritual em con­
traste com sua perda de todas as posses materiais. Ao contrário, a sal­
vação deve incluir todas as bênçãos materiais que a vida pode oferecer,
juntamente com a integridade de uma alma unida a Deus.
A transição de um profeta queixoso para um profeta jubiloso certa­
mente deve ser vista como obra da graça soberana de Deus. Nada mais
pode explicar como uma pessoa pode estar feliz e contente quando
enfrenta as calamidades que Habacuque haveria de experimentar. Que
o Senhor mesmo continue a fornecer a graça da vida ao povo desta
geração, pela fé que justifica.
19a,b.A única forma pela qual o profeta poderia fazer tal assevera­
ção é porque ele podia afirmar: O S en h o r é ""meu Deus e minha força”.
Como ao contrário ele poderia antegozar o triunfo final e viver na mera
esperança da vitória além da devastação?
Como uma corça, ele subirá com um andar altaneiro até o topo das
montanhas. O profeta ecoa as palavras do salmo de triunfo de Davi,
quando o Senhor o livrou de todos os seus inimigos: “Ele deu a meus pés
a ligeireza das corças e me firmou em minhas alturas” (SI 18.33). Com
andar seguro, incansável, cheio de energia o povo do Senhor pode es­
perar subir às alturas da vitória a despeito de seus muitos reveses. As
alturas da terra, os lugares de conquista e domínio, deverão ser a pos­
312 HABACUQUE 3.19a-c

sessão final do povo de Deus. Como um porta-voz do povo de Deus


nesse cântico para ser celebrado ao longo das eras futuras, o profeta
demonstra a magnificência de uma fé vitoriosa. Mesmo o revés mais
horrendo não pode romper a confiança na vitória final.
Então, perante nossos próprios olhos, a mensagem de Habacuque
2.4 encontra cumprimento. Habacuque vive - pela fé. Ele continua con­
fiante em Deus a despeito do caos total e calamidade absoluta do exílio.
Como consequência, ele vive.
Ao longo dos tempos, todos os que põem sua confiança no Profeta
por excelência viverão. Eles podem cair no sono da morte - mas não
“morrerão” no sentido definitivo. O aguilhão da morte foi removido
pelo poder do ressurreto. Jubilosos, viveremos pela fé nele.

PÓS-ESCRITO (3.19c)

Ao mestre de canto em meus instrumentos de cordas.

É impossível determinar se essa nota final se originou com o pró­


prio Habacuque ou representa uma adição por um editor posterior. De
qualquer modo, a tradição parece muito antiga, de que esse salmo de
submissão se destina a ser celebrado na congregação por todas as gera­
ções. Não teria sido meramente uma resolução pessoal de fé tomada
pelo profeta somente. Intencionalmente, expresso na primeira pessoa,
ele efetivamenle atrai cada participante à experiência de entregar-se a
Deus de uma maneira que corresponda à sua própria provação pessoal.
Uma dimensão muito comum da tragédia é que ela tende a deixar uma
pessoa sozinha com uma dor que ele mesmo deve aprender a suportar.
Ao mestre do canto é a tradução mais comum de lam nassêah, o
primeiro temio obscuro. A palavra ocorre cinquenta e cinco vezes nos
Salmos como um sobrescrito, mas somente aqui como uma anotação
no final de uma composição poética. A raiz da palavra (nsh) pode sig­
nificar “preeminente” ou “tolerante”.
A LXX normalmente traduz “até o fim” {eis tó télos). Mas não é
claro se a intenção dos tradutores gregos era fornecer alguma instrução
ao regente do coral (executar este salmo “até o fim”, não importa o que
isso signifique), ou para oferecer um comentário sobre o caráter ou
HABACUQUE 3.19c 313

conteúdo do salmo (“um salmo sobre o fim!” isto é, de natureza esca-


tológica). Neste caso particular, a LXX traz: “que eu vença em seu
cântico” {tou nikêsai en tê õdê autoú). Mas o uso do segundo termo,
também como uma anotação musical de classe (“em meu instrumento
de cordas”), argumenta contra esta tradução.
A referência final a meus instrumentos de cordas ou “minhas can­
ções” {bin^ginôtãy) encontra paralelo numa passagem distinta refletin­
do 0 mesmo tipo de triunfo em cântico. Em Isaías 38.18-20, o rei Ezequias
celebrou o acréscimo de sua vida além da sentença anterior de morte.
“Tangendo os instrumentos [n^ginôtay] de cordas, nós o louvaremos
todos os dias de nossa vida, na Casa do S e n h o r ” ( I s 38.20). Pois “os
vivos, somente os vivos, esses te louvam como hoje eu o faço” (v. 19).
De modo semelhante, a mensagem de Habacuque é para toda a
vida - a vida de fé a despeito de muitas calamidades. Parte integrante
de tal vida é o entoo de cânticos louvando o redentor e sustentador da
vida.
Assim, um livro que começou com queixas terminou com regozi­
jo. A fé triunfa em vida a despeito das muitas calamidades. Cânticos
noturnos antecipam a feliz chegada da eterna aurora quando o fiel de­
verá receber sua justificação final.
o LIVRO DE SO FO N IAS
SO BRESC RITO (1.1)

1 Palavra do S e n h o r que veio a Sofonias,


filho de Cusi,
filho de Gedalias,
filho de Amarias,
filho de Ezequias,
nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Jitdá.

O texto se auto-apresenta como a Palavra do Deus da aliança de Israel


e não meramente como a palavra do profeta Sofonias. Por meio dessa
frase introdutória, o profeta se põe no fluxo daqueles servos de Deus,
de Moisés a Jesus Cristo, que foram mediadores proféticos da aliança.
Inspirados por Deus, a ponto de suas palavras serem idênticas às pala­
vras de Deus, esses instrumentos da revelação divina mediaram um con­
fronto com Deus, terrível demais para o próprio povo suportar (c f Dt
18.15-17).
Conforme se explica o papel dos profetas de Israel em Deuteronô-
mio, suas palavras se destinavam a substituir a terrível presença pes­
soal de Deus. Fazer mau uso de um pronunciamento profético era abu­
sar da própria presença pessoal de Deus.
Da maneira como a frase Palavra do S e n h o r se apresenta, ela en­
feixa todo o livro em análise em sua presente forma literária. E conce­
bível que a frase tenha introduzido originalmente uma unidade menor
das palavras de Sofonias. Mas nenhum manuscrito em existência for­
nece apoio objetivo a essa possibilidade hipotética.
O sobrescrito alega que esse documento é imbuído da autoridade
divina investida nos documentos pactuais originais, que eram essenciais
à manutenção da relação pactuai estabelecida no Sinai.' Da mesma
1. Cf. M. G Kline. The Structure o f Biblical Authority (OrmA Rapids: Eerdmans, 1972).
318 SOFONIAS 1.1

maneira que o Senhor ditou a Moisés os termos para a vida pactuai,


também agora ele inspira seu porta-voz profético a registrar contra seu
próprio povo suas violações pactuais, bem como as consequências ame-
drontadoras de tal transgressão. Visto que essas consequências deveriam
estender-se às muitas décadas vindouras, o profeta tinha de registrar
sua declaração para que as gerações futuras pudessem comprovar a
veracidade ou falsidade de suas palavras (c f Dt 18.22).- Jeremias, o
contemporâneo de Sofonias, recebeu a ordem de registrar todos os seus
pronunciamentos proféticos que compreendiam um período de vinte e
dois anos e a fazê-lo novamente depois que o arrogante rei Joaquim
mutilou e queimou seus escritos (c f Jr 36.1-2,23,27,28). De modo se­
melhante, Sofonias foi instruído a preservar seus pronunciamentos às
gerações futuras para que elas pudessem ver a palavra de juízo e bênção
de Deus concretamente se cumprindo.
Sofonias significa “aquele a quem Yahweh oculta” ou “o escondido
de Yahweh”. Não se pode encontrar correlação convincente entre o nome
do profeta e a mensagem de seu livro. Em certa ocasião, o livro menciona
a possibilidade de que o povo de Deus poderia vir a ser “escondido” dos
terrores de sua ira (2.3). Usa-se, porém, outra raiz hebraica, diferente
daquela encontrada no nome de Sofonias {str em vez de spn). Embora
outros “sofonias” sejam mencionados nas Escrituras, não se pode iden­
tificar nenhum outro com este profeta.^
Sofonias é designado como filho de Cusi. Pode-se tirar uma varie­
dade de conclusões com base neste nome distinto do pai de Sofonias."*
p. 27-39. Kline mostra o papel importante dos documentos pactuais originais como teste­
munhos escritos quanto ao caráter comprometedor do pacto.
2. Note-se a importante contribuição de G von Rad. Old Testament Theology, 2 vols., trad,
por D. M. G Stalker (Nova York: Harper & Row, 1962-1965), 2.40,45, ao mostrara impor­
tância dos profetas como escritores.
3. Conforme 1 Crônicas 6.21 (Eng. 36), certo “Sofonias” aparece na linhagem sacerdotal.
Note-se também o sacerdote chamado "Sofonias” mencionado como contemporâneo de
Jeremias em 2 Reis 25.18; Jeremias 21.1; 29.24-25,29; 37.3; 52.24. Em Zacarias 6.10.14
aparece a menção de “Josias, filho de Sofonias”, que veio de Babilônia. Não há como deter­
minar alguma relação positiva entre o profeta mencionado em Zacarias 1.1 em qualquer um
desses casos.
4. Ver a discussão de Rudolph, p. 259. A. Bentzen, Introduction to lhe Old Testament.
2.153, que força bem a evidência em sua sugestão de que Sofonias poderia ser um escravo
negro no serviço do templo.
SOFONIAS 1.1 319

Mas elas entram na esfera das especulações que não contam com fun­
damento adequado para um fato que não pode ser substanciado.
O sobrescrito traça a linhagem de Sofonias através de Gedalias e
Amarias até o tetravô do profeta, Ezeqiiias. O registro de genealogia
tão extensa é ímpar entre os livros proféticos. Oito dos profetas não
têm histórico familiar registrado, o que é apropriado à função distinti­
va do profeta como uma “voz” (cf Is 40.3; Jo 1.23). Seis dos profetas
tém apenas os nomes de seus pais registrados, e Sofonias é identifica­
do pela referência de seu pai e avô.
Mas, por que a linhagem de Sofonias teria sido traçada por quatro
gerações? Deve haver alguma razão para esta extensão de detalhe de
ancestralidade. Como J. M. P. Smith sugeriu, “quando só um dentre
dezesseis livros proféticos exibe uma variação tão marcante, a proba­
bilidade parece estar no fato de que a variação foi deliberada, e não
apenas acidental”.’
Pode-se sugerir que essa genealogia de quatro gerações teria a in­
tenção de isentar Sofonias do estigma e sanções associados a uma an­
cestralidade cusita. Pois os egípcios (às vezes equivalentes a “cusita”
nas Escrituras) foram excluídos da congregação de Israel até a terceira
geração (Dt 23.7-8). O problema óbvio com esta sugestão é o posicio­
namento de Cusi na genealogia de Sofonias. Ele não se posiciona na
terceira ou quarta geração, mas na primeira posição em relação ao
profeta.
O mais provável é a sugestão de que esta definição da genealogia
até a quarta geração tinha a intenção de focalizar o último nome; Eze-
quias. Mui provavelmente, a genealogia de Sofonias teve a intenção de
indicar suas origens régias. O bom rei Ezequias fora o mais recente dos
monarcas de Judá a manifestar fidelidade pactuai, essencial ao bem-
estar da nação. Esta relação do profeta com a monarquia de Israel lhe
teria granjeado franco acesso ao pátio real, bem como lhe dera certa
posição pela qual pudesse emprestar peso adicional às reformas radi­
cais promovidas pelo jovem rei Josias.

5 .J. M.P. Smith. p. 167.


320 SOFONIAS 1.1

Foi nos dias de Josias, filho de Arnom. rei de Judá, que a palavra
do Senhor veio a Sofonias. Josias foi o último bom rei de Israel, cujo
reinado datou de mais ou menos 640 a 609 a.C. Sua reforma radical
das práticas religiosas e sociais de Judá é descrita em 2 Reis 22,23 e
2 Crônicas 34,35.
Seria possivel determinar com mais precisão em que época do rei­
nado de Josias Sofonias profetizou? Teria Sofonias profetizado antes
da descoberta do Livro da Lei no templo, mais ou menos em 622 a.C.?
Porventura ele teria contribuído com os empreendimentos iniciais na
direção da reforma mencionada em Crônicas durante o 12®ano do rei­
nado de Josias (cf. 2Cr 34.3ss.)?* Ou teria sido depois da descoberta do
Livro da Lei que Sofonias profetizou revelando algo das limitações das
reformas de Josias?
Os apelos feitos às referências de Sofonias à determinação divina de
acabar com o resto de Baal (1.4) não são conclusivos na solução deste
problema. Embora a remoção de um “resto” pudesse implicar que hou­
ve alguma purgação prévia, a frase pode simplesmente significar que
Deus removería o culto de Baal completamente.
O fato de Sofonias prever uma purificação daqueles que se inclina­
vam nos telhados de suas casas e adoravam o exército do céu (1.5)
apoia 0 posicionamento da profecia de Sofonias antes da reforma total
de Josias, que veio em consequência de sua descoberta do Livro da
Lei. Esta consideração particular levou muitos comentaristas a concluí­
rem que o material de Sofonias teria data anterior a 622 a.C.
Entretanto, uma consideração especial aponta em outra direção. A
medida que o material de Sofonias é cuidadosamente estudado, é bas­
tante notável a riqueza de fraseologia que ocorre em paralelo nas ex­
pressões do Livro da Lei de Deuteronômio. Esses paralelos não se rela­
cionam meramente a palavras isoladas, mas a expressões maiores de
pensamento. Algumas frases particulares incluem as seguintes:

6. As distinções entre o registro da reforma de Josias em Reis e em Crônicas não devem


ser exageradas. Alguns tipos de reforma quase certamente teriam precedido à descoberta do
Livro da l.ei se um processo de purificação do templo já tivesse começado. E então era de se
esperar que mais reformas seguiríam à leitura do livro.
SOFONIAS 1.1 321

1. “Por isso, serão saqueados seus bens e assoladas suas casas; e


edificarão casas, mas não habitarão nelas” (Sf 1.13)
“Edificarás casa, porém não morarás nela” (Dt 28.30)
2. “Plantarão vinhas, porém não lhes beberão o vinho” (Sf 1.13)
“Plantarás vinha, porém não a desfrutarás” (Dt 28.39)
3. “Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia” (Sf 1.15)
“Na angústia e no aperto com que teus inimigos te apertarão”
(Dt 28.53,55,57)
4. “Um dia de trevas e negrume, dia de nuvens e densas trevas” (Sf
1.15)
“O monte... e havia trevas e nuvens e escuridão” (Dt 4.11)
5. “Eles andarão como cegos” (Sf 1.17)
“Apalparás... como o cego apalpa” (Dt 28.29)
6. “Pelo fogo de seu zelo a terra será consumida” (Sf 1.18)
“A zelos me provocaram... um fogo se acendeu em meu furor...
consumirá a terra e suas messes” (Dt 32.21-22)
7. “O Senhor é justo... ele não comete iniquidade” (Sf 3.5)
“Deus... não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4)
8. “Regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3.17)
“Assim como o Senhor se alegrava... em fazer-vos o bem... o
Senhor se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir” (Dt 28.63)
“O Senhor tomará a exultar em ti para te fazer bem” (Dt 30.9)
9. “E farei deles um louvor e um nome” (Sf 3.19)
“Farei de vós um nome e um louvor entre todos os povos da
terra” (Sf 3.20)
“Para, assim, te exaltar em louvor, renome e glória sobre todas
as nações” (Dt 26.19).
Outras comparações entre Sofonias e Deuteronômio merecem aten­
ção. Note a ameaça de Deus de trazer “angústia” sobre Israel (Sf 1.17;
c f Dt 28.29); a concentração na inspiração do “temor” de Deus em
Israel, frequentemente pela manifestação de seus juízos justos (Sf 3.7;
322 SOFONIAS 1.1

cf. Dt 4.10-11,13; 5.29; 6.2,13; 13.11; 14.23; 17.13,19; 19.20;21.21;


31.9-13); a descrição dos exilados como “minha dispersão” (Sf 3.10;
cf. Dt 4.27; 28.64; 30.3); a concentração distintiva no “amor” de Deus
por Israel (Sf 3.17; c f Dt 4.37; 7.8,13; 10.14-15; 23.6 [Eng. 5]); e a
representação de Deus como Rei, o Senhor, um Poderoso Herói (Sf
3.17; c f Dt 10.17).
Que implicações tem esse material na questão de data da profecia
de Sofonias? Sugeriram-se duas opções possíveis.
Primeiro, poderia-se concluir que Sofonias profetizou antes da des­
coberta do Livro da Lei e que seus materiais afetaram a produção do
livro de Deuteronômio. Esta análise de evidência apoiaria a teoria críti­
ca de que Deuteronômio teria sido o produto literário de um grupo pro­
fético que funcionava nos dias de Josias, e que as origens mosaicas do
livro de Deuteronômio teriam sido inventadas no tempo de sua “desco­
berta” com o fim de estabelecer a autoridade do documento no contexto
do Israel do século 7®.
Entretanto, chegar a essa conclusão com base no paralelismo de
frases encontradas em Sofonias e Deuteronômio cria mais problemas
do que resolve. Pois se Sofonias, em suas profecias, houvesse profeti­
zado de modo muito diferente da fraseologia encontrada no livro de
Deuteronômio, então se criariam suspeitas graves com respeito às ori­
gens “mosaicas” de Deuteronômio nas mentes dos contemporâneos de
Sofonias. Como se poderia explicar que Sofonias, sem ter acesso ao
livro de Deuteronômio, pudesse ter profetizado tão extensamente, usan­
do a mesma fraseologia? Se Deuteronômio fosse apresentado como um
produto de Sofonias e seus contemporâneos, tal problema não existiría.
Mas se Deuteronômio fosse um produto de Moisés, o legislador, Sofo­
nias não iria querer antecipar a fraseologia desse documento antes de
sua aparição pública.
Uma segunda e bem mais plausível explicação para os paralelos de
fraseologia encontrados entre Sofonias e Deuteronômio pode encon-
trar-se na suposição de que Sofonias teria profetizado depois da desco­
berta do Livro da Aliança em 622 a.C., o qual promoveu a reforma de
Josias. Em consequência da revelação da verdadeira situação de Israel
perante o Deus da aliança, Sofonias teria se dirigido a seus contempo-
SOFONIAS 1.1 323

râneos. Por esta ótica, Sofonias aparece como um auxiliar profético


com 0 fim de fazer avançar a reforma instituída por Josias. Tal perspec­
tiva oferece um quadro muito mais realista do progresso da reforma sob
0 jovem rei.
Não se deve supor que um povo comprometido com o culto de
deuses idólatras fosse desistir tão facilmente de suas práticas. O retor­
no de Judá a seus hábitos antigos, dentro de um breve período de três
meses do reinado do sucessor de Josias, comprova definitivamente esse
fato (cf 2Rs 23.32-33).
A descrição das reformas de Josias no livro de Reis aparece como
um ataque repentino. Mas, mesmo se suas políticas principais fossem
instituídas num período relativamente curto, ele ainda assim precisaria
de forte apoio confirmatório de uma palavra contemporânea do Senhor
para fazer suas políticas pelo menos remotamente aceitáveis ao públi­
co. Mui provavelmente, essa palavra de apoio veio do profeta Sofonias.
Incorporando em sua mensagem as mesmas frases do Livro da Aliança
recém-descoberto, ele se dirigiu ao povo como o porta-voz de Deus,
contemporâneo, aplicando a antiga palavra de Deus à situação atual.
Dessa maneira, pode-se propor que Sofonias profetizou nos dias de
Josias, e, mais especificamente, nos dias imediatamente após a desco­
berta do Livro da Aliança, mais ou menos em 622 a.C.
O sobrescrito identifica mais especificamente Josias como filho de
Amom, rei de Judá. Ambas as frases sublinham a perigosa situação sob a
qual Sofonias profetizou. Pois Amom fora assassinado, numa ação de
intriga política, por seus próprios oficiais (2Rs 21.23). A despeito de muitas
situações de risco que foram enfrentadas pelo reino meridional de Judá,
este fora poupado de conspirações autodestrutivas desse gênero, exceto
em casos bem raros.
A estabilidade fora mantida nesta situação perigosa mediante a inter­
venção do “povo da terra” que executou os assassinos de Amom e estabe­
leceu o menino Josias de 8 anos de idade no trono, como um sucessor
davídico (2Rs 21.24). Mas a ocorrência de assassinato de um monarca
davídico revela algo do explosivo caráter da situação política.
O fato de Josias ser apresentado como rei de Judá também atesta o
324 SOFONIAS 1.2-18

caráter ameaçador reinante nos dias em que Sofonias profetizou. O cis­


ma ocorreu não só de modo que os descendentes de Davi não mais rei­
nassem sobre todo o reino; o reino do norte já não mais existia.
A descoberta do Livro da Lei coincidiu com o centenário do cati­
veiro do Reino do Norte. Judá havia sobrevivido. Mas a redescoberta
do Livro da Lei os teria forçado a se indagar se podiam esperar conti­
nuar sobrevivendo.
É um sinal da persistência da graça de Deus em redimir para si um
povo, e observar que Amom, Josias e o filho de Josias, Joaquim, são
mencionados na genealogia de Jesus Cristo, o último sucessor ao trono
de Davi (Mt 1.10-11). A despeito de muitos perigos e muitas falhas da
parte do povo de Deus, os propósitos divinos não podiam ser frustrados.

I. JU ÍZO FACTUAL CÓSMICO VEM COM O


GRANDE DIA DE Y A H W EH (1.2-18)
O “Grande Dia do S e n h o r ” pode ser visto como o tema que unifica
a totalidade do livro de Sofonias. Certamente, no primeiro capítulo, o
Grande Dia do Senhor enfeixa toda a mensagem do profeta. A destrui­
ção do cosmos, o Juízo sobre o próprio povo de Deus, a festa sacrificial
do S e n h o r e os terrores de uma teofania finalizadora se relacionam
com 0 “Dia”.

A. CRIAÇÃO REVERTIDA (1.2-3)

2 Varrerei completamente'
tudo da face da terra,
diz o S e n h o r .

1. A frase hebraica 'ãsüp "lísêp já foi explicada de muitas maneiras. É bem certo que ela
tencione empregar a expressão hebraica comum de intensificação pela junção de um infinitivo
absoluto com uma forma finita do verbo. Embora essas formas conjuntivas normalmente se
derivem da mesma raiz. existem casos em que se empregam raízes diferentes. (Ver GKC, §
113w n. 3, ainda que suscitem-se dúvidas sobre os três exemplos dados.) ’ãsSp seria en­
tendido como um infinitivo absoluto Qal de 'ãsap - “ajuntar (para remoção)"; e ’ãsip
como o imperfeito Hiphil da primeira pessoa singular d esú p , "varrer”. Neste caso, o autor
teria intensificado a força de sua expressão através da assonância destas duas formas
particulares.
SOFONIAS 1.2-3 325

3 Varrerei
homem e animal;
varrerei
as aves do céu,
e os peixes do mar -
e as pedras de tropeço com os perversos.
Particularmeníe o homem, exterminarei da face da terra,
diz o S e n h o r .

2. As palavras de abertura da profecia de Sofonias são impressio­


nantes. Com o som monótono de um vigoroso timbale, o profeta sur­
preende seus ouvintes obrigando-os a reconhecerem a solenidade do
momento. Todas as coisas da face da terra serão totalmente varridas.
Por meio do uso de numerosos artifícios poéticos, Sofonias intensi­
fica o impacto de sua mensagem. Pela repetição de fraseologia, pelo
paralelismo de trechos, pela alusão a revelações de outrora, o profeta
confronta seu auditório com a natureza crucial da calamidade iminente.
Particulannente distintivo é o eco das antigas provisões pactuais de Deus
a Noé, sendo que esse fato, por sua vez, refletiu a ordenação divina da
criação. A Noé Deus dissera: “farei desaparecer da face da terra” o
homem, o animal, os répteis e as aves do céu (Gn 6.7).
3. A ordem em que esses itens são catalogados para destruição é
precisamente o inverso da ordem em que aparecem na narrativa da cria­
ção.^ Primeiro o homem, depois os animais, pássaros e peixes são de-

Esta explica^-ão da frase de abertura da profecia de Sofonias é a mais satisfatória. Têm-se


proposto, porém, outras possibilidades. GKC, § 72aa, propõe a versào de "õsêp como uma
forma Hiphil imperfeita do primeiro singular comum de "Ssap, em vez do "ösSp massorético.
Essa análise é endossada por J. M. P. Smith, p. 191. Cf. também T. H. Robinson e F. Horst.
Die Zw ölf Kleinen Propheten: Hoseabis Micah, HAT, 3* edição (Tübingen: Mohr, 1964), p.
190. Entretanto, ’äsap näo segue o padrão vocálico dos verbos pe-aleph.
Uma terceira opção é proposta por A. S. Kapelrud, The Message o f the Prophet Zephaniah
(Oslo: Universitetsforlaget, 1975), p. 21. Ele sugere a versão ’Ssöp ’e söp, “Eu os destrui­
rei totalmente”, presumindo que a versão massorética tenha se originado de um erro escribal.
L. Sabottka, Zephanja: Versuch einer Neuübersetzung mit philologischen Kommentar, BibOr
25 (Roma: Pontifical Biblical Institute, 1972), p. 6,7, propõe um jogo de palavras com duas
raizes homofõnicasy.vp, “acrescentar”, e 'sp, "reunir” (para remoção), significando “Eu var­
rerei de novo”.
2. C f M. DeRoche, “Sofonias 1.2-3: T h e 'Sw eeping'of Creation”, F r3 0 (l9 7 9 ), p. 106.
326 SOFONIAS 1.3

signados como objetos do juízo consumidor de Deus. Originalmente,


Deus criou os peixes, os pássaros, os animais e o homem.
Como é possível, porém, que Deus viesse a violar as provisões do
solene elo pactuai que fez com Noé? Porventura Deus não dissera que
não mais haveria de destruir toda a carne da face da terra (Gn 8.21)?
E provável que na mente de Sofonias a solução poderia estar no
conceito que ele tinha desse grande dia de destruição, como sendo o dia
final. A promessa de Deus só era válida “enquanto durar a terra” (Gn
8.22). Agora, porém, aqueles dias deveriam chegar ao fim. Deixaria de
existir até mesmo refugio para os peixes do mar.
A referência à destruição das pedras de tropeço com os perversos
combina uma vez mais a ideia de juízo sobre o universo criado com o
juízo sobre a humanidade em sua perversidade. Têm-se feito vários
esforços para emendar o termo pedras de tropeço (hammatSêlôt),^ mas
a palavra propriamente dita faz bom sentido no contexto. Animais, pás­
saros e peixes, representantes de toda a criação, se tomaram para a
humanidade um motivo de tropeço. Em razão da sua perversidade, a
humanidade desvirtuou as coisas boas da criação em decorrência do
pecado. A referência do profeta pode ser a ídolos fabricados segundo a
forma das coisas criadas, ou a vários outros modos nos quais a criação
teria se tornado um motivo de tropeço. Pode-se ver um exemplo do
primeiro no rei Acaz, que sacrificou aos deuses de Damasco na esperan­
ça de que viriam ajudá-lo: “porém eles foram sua mina [l^haksilô], e a
de todo 0 Israel” (2Cr 28.23).
Conquanto o homem e os animais sejam caracterizados como “pe­
dras de tropeço”, somente o homem pode ser perverso. Unicamente
ele tem a responsabilidade de viver de acordo com a lei moral de Deus.
Então a mensagem do juízo universal se concentra na devastação da
humanidade. Particularmente a humanidade, em sua perversidade, deve
ser destmída pela calamidade universal iminente.
Bastante notável é a aparição desta impressionante combinação de

3. Para as emendas sugeridas, ver Rudolph, p. 261,262.0 equivalente grego de “pedra de


tropeço” ocorre no papiro de Washington, da LXX, mas está faltando nos outros manuscri­
tos gregos.
SOFONIAS 1.3-7 327

pedras de tropeço com os perversos no Novo Testamento (Mt 13.41).


Jesus interpreta para seus discípulos uma parábola do juízo universal
que se encaixa bem no contexto da profecia de Sofonias. No fim dos
tempos. Deus enviará seus anjos que “ajuntarão [syilégõ; cf. ’ãsõp de
Sofonias] de seu reino tudo o que causa escândalo e os que praticam a
iniquidade [pánta tá skándala kaí toús poioúntas fên anomian]".
Por meio desta aparente alusão a Sofonias, Jesus transfere o juízo
cósmico vindouro, descrito pelo profeta, da devastação associada ao
juízo da Antiga Aliança de Israel para as devastações associadas a sua
vinda final. Desse modo, Jesus indicou que a sanção final da ameaça
profética de Sofonias está ainda pendente. O juízo cósmico que reverte­
rá a criação é ainda futuro.“*

B. O POVO DA ALIANÇA EXCLUÍDO (1.4^7)

4 Mais especificamente, estenderei minha mão


contra Judá
e contra todos os habitantes de Jerusalém;
e exterminarei deste exato lugar
o remanescente de Baal,
o nome dos Chemarim com seus sacerdotes;
5 os que adoram o exército do céu sobre (seus) eirados;
os que adoram
jurando pelo Senhor
enquanto Juram por seu "Rei
6 os que recuam em seguir ao Senhor,
que não o buscam
nem perguntam
por ele.
1 Cala-te
diante de Yahweh, o Senhor;

4. o reconhecimento de que o Evangelho de Mateus provavelmente tem a intenção de


fazer referência a Sofonias encontra-se em D. Hill, The Gospel o f Matthew, New Century
Bible Commentary (reimpr. Grand Rapids: Eerdmans, 1981), p. 236. C f A. H. McNeile,
The Gospel o f Matthew (Lonátes: Macmillan, 1938), p. 201.
328 SOFONIAS1.4

porque o Dia cio Senhor está perto.


Porque o Senhorjá preparou um sacrifício
e já santificou seus convidados.

4. Após anunciar o caráter cósmico da devastação iminente vinda


de Deus, o profeta indica um objeto de juízo mais específico. Não só o
mundo em geral, mas aqueles que têm sido identificados como o povo
de Deus, em particular, experimentarão o juízo consumidor do Onipo­
tente.
A metodologia de Sofonias, de mover-se da periferia para um nú­
cleo interno, na descrição do objeto de juízo divino, encontra estreita
comparação com a técnica de Amós (cf Am 1.6-2.16). Num oráculo
elaboradamente estruturado, esse antigo profeta de Israel começou com
uma palavra de juízo contra cada um dos vizinhos de Israel que teriam
sido aplaudidos por seus contemporâneos. Mas, como clímax de sua
palavra de juízo, ele denunciou o próprio povo de Deus residente em
Israel.
O fato mais surpreendente é que a tribo privilegiada de Jiidá, e a
supostamente inviolável cidade ác Jerusalém, vieram a ser objetos dos
juízos consumidores de Deus. O cetro jamais se apartaria de Judá (Gn
49.10). Deus jurara que manteria para sempre uma lâmpada em Jerusa­
lém por amor de seu servo Davi (IRs 11.13,36; cf. 15.4; 2Rs 8.19;
19.34; 20.6). Para um judaíta, não se podia imaginar que de alguma
maneira o lugar da entronização de Deus na terra pudesse cair. Contu­
do, Sofonias é inequívoco em sua declaração; Jerusalém será devastada.
Duas palavras gráficas descrevem o juízo iminente sobre o próprio
povo pactuai de Deus. Estenderei minha mão [vi^nãtiti yãdí] contra
eles, e os exterminarei [w^hitrati; lit. “os excluirei”].
A “mão estendida” simboliza uma pessoa entrando em ação com
toda a força a seu dispor. No caso de Deus, ele “estende sua mão”
quando intervém dramaticamente empregando meios “além do comum”.'
Particularmente, nas pragas do Egito, Deus “estendeu sua mão” para
efetuar intervenções miraculosas de juízo (cf Êx 7.5; 15.12; note tam-

. Calvino. p. 191.
SOFONIAS 1.4 329

bém Moisés e Arão “estendendo” suas mãos como meio de inaugurar


as várias pragas em Êxodo 7.19; 8.1-2,12-13 [Eng. 5-6,16-17]; 9.22;
10.12,21-22; 14.16,21,26-27). De uma maneira inspiradora. Deus li­
bertou Israel “com mão poderosa e com braço estendido” (cf. Dt 4.34;
5.15; 7.19; 9.29; 11.2; 26.8). Mas agora este mesmo poder deveria ope­
rar contra Israel, em virtude de uma nova relação adversa.
É preciso ponderar bem o caráter assombroso desse pronunciamento
profético. Quem porventura não tem o potencial de desviar-se com
Israel em seu pecado? Já que sabiam ser favorecidos pelo Senhor, en­
tão julgavam estar isentos de sua justa indignação. Mas a mão do juízo
divino pode dirigir-se tanto contra os que foram chamados por seu nome,
como também contra os que não o conheceram na plenitude da verdade.
A LXX traduz essa frase como ektenõ íên cheira mou, “eu estenderei
minha mão”. O mesmo conceito aparece no NT quando Cristo faz um
milagre de cura estendendo sua mão (Mt 8.3; Mc 1.41; Lc 5.13). Em
outros lugares, Jesus interpreta suas intervenções sobrenaturais como sendo
o “dedo de Deus” manifestando a chegada de seu reino na terra (Lc
11.20). Sua interpretação desses eventos pressupõe que o ato de “esten­
der” sua mão tinha em vista não só um simples contato físico, mas
também um meio de simbolizar uma ligação direta com aquelas antigas
ocasiões nas quais Deus estendia sua mão de forma salvífica. O caráter
gracioso dessas intervenções da Nova Aliança exibe a extensão da mi­
sericórdia de Deus em relação àqueles que não eram merecedores nos
dias de Jesus, porém não anula o cumprimento final do tema do juízo
envolvido neste simbolismo como profetizado por Sofonias.
Cinco objetos da atividade extemiinadora de Deus em Judá e Jeru­
salém são indicados pelo uso que o profeta fez do objeto direto em
hebraico (’et). Cada uma dessas práticas listadas denuncia várias cor­
rupções na adoração em Israel. Posteriormente, o profeta denunciaria
os pecados do povo uns contra os outros, tais como fraude e violência.
Mas ele começa de maneira apropriada com uma concentração exclusi­
va nos pecados cometidos diretamente contra Deus nas práticas do cul­
to pelo povo.
Com demasiada frequência, uma ampla tolerância para com o cul­
to é promovida mesmo no meio daqueles que geralmente professam fé
330 SOFONIAS 1.4

no Deus das Escrituras, muito embora ações imorais, tais como violên­
cia e fraude, sejam totalmente condenadas. Mas este verdadeiro profe­
ta de Deus percebeu a mentira embebida nesta abordagem moralista da
religião. Somente quando o manancial de devoção a Deus é purificado
pela verdade é que ações concretas do homem se conformam com a lei
de Deus com respeito a amar a seu próximo.
Os dois primeiros itens a serem exterminados seriam o remanes­
cente de Baal e o nome dos chemarim com seus sacerdotes. Um grande
número de comentaristas tem interpretado a referência à destruição do
remanescente de Baal como indicativo de que a reforma de Josias já
havia feito certo progresso.^ Já uma parte significativa do culto a Baal
teria sido removida pelas reformas anteriores de Josias. Agora, porém,
Sofonias profetiza que o baalismo que ainda restava seria removido.
Paralelo à remoção do remanescente de Baal ocorre a obliteração
do nome dos sacerdotes heréticos. Portanto, este juízo iminente do
Senhor seria tão cabal que até mesmo o nome dos falsos sacerdotes
será esquecido.
Em ambas as expressões, a ênfase recai sobre a eliminação até da
mínima associação com Baal e seu culto em Israel. Se pudermos ou
não deduzir que a eliminação do baalismo já havia começado, a des­
truição do remanescente de Baal enfatiza a plenitude do juízo consu­
midor de Deus.^
Pois, como poderia ser diferente? Ou o S e n h o r é Deus, ou Deus é
Baal. Um dos dois tem de funcionar como Senhor sobre o povo e sua
terra. Ou a história prossegue num padrão meramente cíclico, segundo
as ordens da natureza mal concebida, ou a história recebe sua direção
de Deus, o Criador que se move em direção ao consumado alvo da
redenção de acordo como os soberanos propósitos de Deus, o Reden­
tor. O Deus que criou em salubridade e redime em integridade não
pode ser associado a um deus que fertiliza a terra por intermédio de
prostituição sacra e que demanda que sua porção seja o sacrifício in­
fantil.

2. Cf. dentre outros Keil, p. 128.


3. Cf. S. R. Driver, p. 112; Rudolph, p. 262.
50F0NIAS 1.4 331

Os chemarim (RSV “sacerdotes idólatras”) são agrupados com os


sacerdotes de Baal como elementos envolvidos na purificação de Judá
por Josias em 2 Reis 23.5,8.0 significado preciso de chemarim é incer-
to.“*Há falta de evidências adequadas para estabelecer a teoria de que o
termo se refere a “sacerdotes idólatras” contra outra classificação de
sacerdotes (não idólatras?). Nem é claro se chemarim era um termo que
descrevia um sacerdotalismo nào-levítico em Israel,^ visto que o termo
normal para “sacerdotes” é usado também para funcionários não-levíti-
cos destruídos por Josias em Betei (cf IRs 13.33-34).
Deus estabeleceu um sacerdotalismo para mediar a unidade com
seu povo. A própria existência do sacerdotalismo implicava fraqueza na
humanidade e a necessidade da compreensão compassiva em manter a
via de acesso do pecador para Deus. Mas, sob as corrupções do baalis-
mo, o sacerdotalismo aparentemente oferecia crianças indefesas como
sacrifícios. Em vez de contribuir para a remoção do pecado, o sacerdo­
talismo instigava depravação da pior espécie.
Por ocasião do estabelecimento do altar rival em Betei, um profeta
anônimo declarou que um homem chamado “Josias” iria profanar esse
mesmo altar sacrificando nele os sacerdotes oficiantes e queimando os
ossos dos mortos em sua superfície (IRs 13.1-2). Sofonias, por sua
vez, prediz a total destruição dos sacerdotes que seguissem essa práti­
ca corrupta, e talvez tenha visto com seus próprios olhos o cumprimen­
to parcial de sua profecia. Pois seu contemporâneo, rei Josias, foi jus­
tamente aquele que sacrificou os sacerdotes e queimou os ossos dos
mortos no altar de Betei (2Rs 23.20).
Mas a preocupação principal de Sofonias era com os sacerdotes
corruptos ora entrincheirados na própria Jerusalém. Ele declara que a
purgação divina iria remover também o sacerdotalismo falso deste lugar.
Jerusalém era o centro do culto de Judá porque Deus havia estabe­
lecido seu lugar de habitação no meio daquela cidade de um modo
singular. Por esta razão, sua pureza tinha de ser mantida. O juízo do

4. Cf. a discussão de KB. p. 442.


5. Keil em C. F. Keil e F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, vol. 3:1 e II Kings,
etc., trad. James Martin (reimpr. Grand Rapids: Eerdmans, 1950). p. 483.
332 SOFONIAS 1.4-5

exílio fora o efeito de acabar de vez com “a inclinação para a idola­


tria”'’ de Israel. Mas a purgação final de todo o remanescente do culto
falso espera pela plena transformação do cosmos associada à primeira
palavra de Sofonias com respeito ao juízo iminente (v. 2-3).
Após tratar do oficialismo corrupto do culto de Judá (v. 4b), o pro­
feta declara o extermínio inevitável de todos aqueles que participavam
das práticas litúrgicas impróprias (v. 5-6). O fato de o povo haver indu­
zido a estas práticas não os exime do Juízo de Deus.
5 .0 primeiro grupo denunciado é os que adoram o exército do céu
sobre (seus) eirados. Uma forma dessa superstição foi encontrada em
seus devotos em quase todas as mais antigas culturas, e se manifesta
atualmente naqueles que acreditam nos horóscopos modernos.
Pode-se encontrar o esquema de referência de Sofonias em duas
passagens do Livro da Lei descoberto por Josias. Segundo Deuteronô-
mio 4.19, Israel é alertado especificamente sobre o “culto” (hiStahPwitã)
celebrado ao sol, à lua e às estrelas, “todo o exército do céu” {kõl s^hõ,’
haSSãmayim). Pois o S enhor demonstrara sua inquestionável sobera­
nia sobre esses grandes fenômenos dividindo-os entre todos os povos
da terra. Deuteronômio 17.3-7 prescreve a pena de morte a qualquer
homem ou mulher que fosse encontrado adorando (wayyistahü) o sol,
a lua ou as estrelas. Jeremias, subsequentemente, indicou que particu­
larmente as mulheres em Israel sucumbiam à tentação de cultuar o exér­
cito do céu. Mesmo após a devastação de Israel, aqueles que viviam no
Egito insistiam em oferecer seus sacrifícios ao exército do céu (Jr 44.19).
Culto em (seus) eirados pressupõe, em parte, a ideia de um culto
individualizado de controle doméstico.’ A síntese do abuso do princí­
pio de que todo o Israel era um “reino de sacerdotes” (Êx 19.6) poderia

6. Jonathan Edwards, The History o f Redemption (reimpr. Evansville, in; Sovereign Grace
Publishers, n.d.), p. 132.
7, Práticas particulares de culto realizadas nos “eirados" podiam ser exercidas embora
alguma evidência esteja disponível nos textos cunéiformes de Ras Shamra descrevendo
“um ritual para ser usado ao fazer oferendas nos eirados a deidades astrais e luminares
celestiais” (R, K. Harrison, Jerem iah and Lam entations. Tyndale Old Testament
Commentaries [Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1973], p. 112). Este grau de regula­
mentação não excluía uma prática noturna individualizada nas circunstâncias privadas ga­
rantidas pelo culto “nos eirados”.
SOFONIAS 1.5 333

ser encontrada nessas práticas. Sobre os telhados das casas particula­


res, cada pessoa cultuava a forma que mais lhe agradava. A legislação
deuteronômica tinha a intenção de opor-se exatamente a essa tendên­
cia tão depravada em suas exigências de que tal prática em Israel atrai­
ría a atenção da comunidade pela boca de duas ou três testemunhas (Dt
17.4-7). A Lei e os Profetas combinavam para condenar a ideia de que
o culto que uma pessoa celebrava pudesse ser deixado aos ditames de
sua própria consciência.
A frase seguinte do profeta se concentra no aspecto sincretista do
culto a Baal em Israel. Sofonias garante devastação total para os que
adoram com juramento ao S e n h o r enquanto juram por seu "Rei ”. A
distinção sutil entre jurar pelo S e n h o r enquanto se Jura por outro ao
qual chamam “Rei” nem sempre aparece nas traduções.* Mas ele mani­
festa justamente 0 sincretismo pernicioso que infestava o culto em Israel.
O que podería ser mais satânico do que uma religião que professava o
nome do Deus verdadeiro, enquanto ao mesmo tempo professava devo­
ção à principal rival? Por meio deste método, uma pessoa podia praticar
as orgulhosas imaginações de seu próprio coração sem qualquer pertur­
bação. O “Rei”, que é posto em parceria com o S e n h o r , neste versícu­
lo, evidentemente trata-se de Baal, considerado como monarca divino
por seus devotos.^
A própria natureza do culto envolve uma pessoa numa postura de
fazer juramento. A não ser que uma pessoa aja meramente como espec­
tadora, ela poderá evitar solene comprometimento de sua lealdade ao
Deus que ela professa, o que em essência envolve um juramento.
Mais uma vez, a denúncia de Sofonias ecoa a legislação deutero­
nômica. A ordem explícita que Israel recebera era que temesse ao S e ­
n h o r e jurasse “por seu nome” (biSmô - Dt 6.13; 10.20). Contudo, a

nação agora estava tentando reter o melhor dos dois mundos antitéti-

8. A LXX nâo faz distinção ao traduzir I e h por kaiá. A NIV também não distingue as
preposições em sua versão.
9. Kapeirud, Message ofthe Prophet Zephaniah, p. 3; Rudolph, p. 265,266. E possível a
proposta de que o matküm da TM, "seu ‘Rei’”, deveria ser lida como “ Milcom” (uma
dcidade cananeia), e poderia ser efetuada sem modificação de consoante. Mas o contexto
não sugere que este seria o lugar para introduzir uma referência à principal dcidade amonita.
334 SOFONIAS 1.5-7

COS, invocando tanto o nome do S e n h o r como o nome de Baal. Assim,


os seres humanos exibem todos os recursos de sua depravada engenho-
sidade (cf. Mt 23.16-22).
Podem-se ver as contradições autodestnitivas implícitas no sincre-
tismo na exposição subsequente de Sofonias acerca da atitude de seus
contemporâneos. Embora jurassem fidelidade ao S e n h o r , simultanea­
mente assumiam que “Yahweh não faz bem nem mal” (v. 12). Até mes­
mo o mais devoto adorador de Deus, num esquema sincretista, no final
negará todo poder ao Deus verdadeiro. Pois ninguém pode servir a dois
senhores.
6. Em sua última especificação das causas do Juízo exterminador de
Deus, 0 profeta se volta dos pecados de “comissão” para os pecados
igualmente hediondos de “omissão”. Devastação sobrevirá aos que não
seguem o S e n h o r , nem o consultam.
E difícil obter uma distinção entre as palavras usadas para buscar
(bqS) e inquirir (drS). O segundo termo pode conter mais a ideia de
buscar orientação numa situação de perplexidade. Mas ambas as pala­
vras se referem essencialmente a uma concentração de devoção volta­
da para seu Deus. A combinação dos termos sublinha o fato de que
culto prestado ao Deus verdadeiro requer esforço consciente e orienta­
do. Esta intensidade na devoção não pode ser considerada como uma
opção reservada para uma minoria piedosa. O fracasso em buscar ao
Senhor é um pecado que deve trazer Juízo de extermínio.
O profeta especifica ainda mais que as pessoas recuam de seguir
ao Senhor. Esta mesma condenação, citada no NT para estabelecer o
Juízo universal de Deus sobre a humanidade inteira (Rm 3.9), conduz
ao mesmo silêncio terrível perante o S e n h o r como ordenado por Sofo­
nias. Toda boca se fecha (Rm 3.19; c f Sf 1.7).
7. Cala-te diante de Yahweh, o Senhor. Desiste de teus vãos protes­
tos. Tua insinceridade sincretista só intensifica a razão para condena­
ção. Uma resposta transparente à verdade só multiplica as causas de
condenação.
Pode-se encontrar algum sinal de esperança e graça nesta triste situa­
ção no relato da reforma de Josias, pois o Jovem rei se volve com o fim
SOFONIAS 1.7 335

de “consultar” o Senhor quando exortado pelo Livro da Lei (2Rs


22.13,18). Josias fez exatamente o que a nação pecadora falhara em fazer.
A graça soberanamente vitoriosa de Deus acha sua expressão última
na declaração de que ele seria achado mesmo por aqueles que “não o
buscavam” (Is 65.1 ). Esta prioridade da graça descobre realizações pro­
gramáticas e históricas nas consequências do juízo experimentado por
Israel sob a Antiga Aliança, tal como está sendo antevista por Sofonias.
Ele também predisse a aurora de um dia que Jaz além da devastação
quando os gentios, aqueles povos ímpios que não buscavam ao S e n h o r ,
seriam encontrados por ele (Sf 2.11 ; 3.9; c f Rm 10.20).
Finalmente, era por causa da vinda do Dia do S en h o r que os recipi­
entes da mensagem do profeta deveriam permanecer em reverente silên­
cio. Esse apelo solene ao silêncio da parte do profeta implica a iminência
do próprio Senhor. Permanecer em silêncio perante sua grandiosa ma­
jestade nesse grande dia inspira a mais humilde e reverente conduta.'®
Tem-se reconhecido, em geral, o significado dos materiais em Sofonias
para o tema do “Dia do S e n h o r ” ." Este tema singular permeia todo o
livro e constitui o principal motivo organizacional.
As evidências em Sofonias indicam que as pesquisas sobre o con­
ceito do Dia do S e n h o r não podem limitar-se àquelas passagens nas
quais aparece o uso explícito dessa frase. Num contexto claramente
unificado pelo tema do Dia por vir, Sofonias não fala apenas do “Dia
do S e n h o r ” . Ele usa também como equivalentes frases tais como “no
dia do sacrifício do S e n h o r ” (1.8), “naquele dia” (v. 9-10); “naquele
tempo” (v. 12); “o grande dia do S e n h o r ” ( v . 14). Não é necessário
concluir que, toda vez que uma dessas frases aparece em outros luga-

10. Observe a aparição do termo em Ageu 2.20; Zacarias 2.17 (Eng. 13 ); Neemias 8.11. A
sugestão de Rudolph, p. 266, de que o uso do termo implica uma convocação litúrgica é uma
possibilidade. Mas é questionável se este arcabouço é adequado para explicar as origens do
“ Dia do S enhor".
11. Observe o comentário de Gerhard von Rad, “The Origin o f the Concept the Day of
Yahweh”, JSS 4 (1959), p. 102, de que o material em Sofonias “certamente pertence ao
material mais importante a nosso dispor com respeito ao conceito do Dia do S enhor” . Uma
vez mais, em seu tratamento de yám em TDNT, 2.945, ele observa; “ Lado a lado com a
descrição poderosa do Dia do S enhor em Isaias. Sofonias contém a proclamação mais
completa desse dia de juízo”.
336 SOFONIAS 1.7

res nas Escrituras, ela deva referir-se ao Dia do S e n h o r . Mas a termi­


nologia de Sofonias argúi com bastante veemência contra uma meto­
dologia que limitaria demais a pesquisa apontando para as passagens
em que a frase aparece precisamente como “Dia do S e n h o r ” .'^
Particularmente, com referência à questão da origem do conceito
do Dia do S e n h o r , Sofonias tem muito a contribuir. Uma variedade de
sugestões tem sido proposta com respeito á origem do Dia do S en h o r
nas Escrituras. Mas nenhuma das opções assimila adequadamente to­
dos os vários dados nas Escrituras com respeito à origem do Dia.'^

12. Existe alguma inconsistência entre o “anterior” e o “posterior” de von Rad neste
assunto. Em seu artigo de 1935 sobre o termo hebraico t’ô/w em TDNT, 2.946, von Rad
observa que Jeremias nunca fala do “Dia do S pniior ” usando esta frase específica, mas
frequentemente se refere a “aqueles dias” e “aquele tempo” , explicando que “em Jeremias
este parece ter essencialmente o mesmo significado úeyôniyhw h em outros profetas”. Ele
também emprega outras passagens para elucidar o conceito daquele Dia que nâo usa a frase
exata, tais como Zacarias I2.lss.; 13.lss.; 14.8; Malaquias 3.2. Mas em seu artigo posteri­
or, de 1959, ele insiste que nâo se deve tentar fazer investigações que vâo além da evidência
material que menciona expressamente o Dia do S enhor, embora reconheça que conceitos
mais amplos fossem associados com o Dia (“The Origin o f lhe Concept o f the Day of
Yahweh”,y S 5 4 [1959] 97).
Von Rad elimina algumas passagens-chave no começo deste artigo posterior, “porque elas
nâo fornecem ao intérprete uma base exegética segura” (p. 97). Ele observa que uma base
ampla de passagens existe nos profetas, mas, por causa de um número de ideias totalmentc
heterogêneas, o "único método correto” é estreitar a esfera das investigações (ibid). Em
vista de sua eliminação inicial do arcabouço maior do conceito, a fonte dessas ideias hete­
rogêneas é obscura.
13. Para discussão e interação com as várias teorias que têm sido propostas, ver L. Cerny,
The Day o f Yahweh and Some Relevant Pmhiems (Praga: University o f Karlova, 1948);
Kapelnid, Message o f the Prophet Zephaniah. Descontentamento com o tratamento dado
por von Rad é expresso por M. Weiss, "The Origin o f the ‘Day o f the Lord' Reconsidered”,
HUCA 37 (1966) 40; Cemy, Day o f Yahweh. p. 59; Kapelnid, Message, p. 82.
Limitações também surgem nas várias outras sugestões com respeito à origem do Dia. Ou
falta apoio adequado nas propostas dentro do texto da Escrituras, ou elas não são bastante
abrangentes para açambarcar as dimensões amplas dos dados, ou elas são tão amplas que
lhes falta adequado significado sintetizador.
Cemy, Day o f Yahweh. p. 45, critica severamente a ligação que Mowinckel faz com o Dia
do S enhor a um festival babilónico akhu. As sugestões referentes às origens litúrgicas do
Dia tal como encontradas em G W. Ahlstrõm, Joe! and the Temple Cnit o f Jemsalem. VTSup
21 (Lcinden: Brill. 1971), p. 63, não tratam adequadamente da dimensão histórica do Dia
profético. Observe o comentário de von Rad, TDNT. 2:944, de que o conceito do Dia do
Senhor desenvolveu “em notável alienação do mundo doscultos”. A ideiaem Cemy. Day o f
Yahweh. p. 79, de “um dia fatídico decretado pelo Senhor” é um conceito simplesmente
SOFONIAS 1.7 337

No contexto dessa discussão, Sofonias poderia ter alguma coisa


diferente a oferecer. O consenso geral de que o Dia do S e n h o r envolve
uma teofania, na qual Deus manifesta seu poder, pode servir como
ponto de partida para a compreensão do Dia. Mas, como essa teofania
pode ser definida com mais precisão?
O primeiro capítulo da profecia de Sofonias apresenta em sequên­
cia três imagens relacionadas. A primeira descreve a reversão da ordem
do cosmos conforme corrobora a aliança com Noé (v. 2-3). A segunda
descreve uma festa sacrificial ligada à maldições simbolizadas no pro­
cedimento de “fazer a aliança” manifesto no tempo do estabelecimen­
to da aliança abraâmica (v. 7-8; c f Gn 15). A terceira apresenta uma
imagem assustadora da aparição de Deus em meio a trevas, espessas
trevas, nuvens e trombeta refletindo a teofania associada ao estabeleci­
mento da aliança mosaica (Sf 1.15-16). Estas duas últimas imagens
serão posteriomiente exploradas de maneira mais detalhada. Mas, nes­
se meio-tempo, pode-se observar que o Dia do S e n h o r , em Sofonias 1,
é associado ao estabelecimento das alianças sucessivas com Noé, Abraão
e Moisés.
Portanto, o Dia do S e n h o r pode ser visto como sendo o Dia de sua
Aliança. Nesse dia ele estabelece seu senhorio soberano sobre os ho­
mens. Para instituir sua aliança, ou para sancionar as provisões da alian­
ça, 0 Senhor manifesta seu senhorio naquele Dia. Nenhum outro dia
pode ser descrito tão adequadamente como pertencente a ele mais do
que o Dia do estabelecimento da aliança e sua sanção.
Esta perspectiva pactuai sobre o Dia do S e n h o r pode ajudar a rela­
cionar a vinda do Dia com a vinda do reino. Segundo L. Cerny, “Esse
dia porá um ponto final a toda a história precedente, do mundo todo, e
desse dia em diante começa no mundo novo o Reino do Senhor nunca
antes experimentado”.'“ O senhorio de Deus sobre o mundo encontra
amplo demais para ser útil. A sugestão de Weiss. HUCA 37 (1966), p. 46, de que o Dia se
relaciona essenciaimente com a ação de Deus sem tratar especificamente com a questão dc
tempo contradiz a ênfase sobre a iminência do Dia. A ideia de Kapelrud de uma “grande
festa anuaf’ na qual Deus determina o destino da humanidade não possui raizes adequadas
em evidências bíblicas (Message, p. 86).
14. Cemy, Day o/Yaliweh. p. 84, observa que von Rad, TDNT. 2.944, indica que seria
muito natural que o reinado do Senhor e o Dia do Senhor fossem inter-relacionados.
338 SOFONIAS 1.7

sua estrutura significativa na vinda do grande Dia quando ele aplicará


as provisões de sua aliança.
Uma perspectiva pactuai sobre o Dia do S e n h o r pode também aju­
dar na integração de outros conceitos nas Escrituras associados à vinda
do Dia. Como um suserano vencedor, o Senhor sai à guerra para subju­
gar todos os seus inimigos debaixo de seus pés, e para prendê-los a si
em lealdade pactuai. Como o Grande Rei e Criador de todos, o Senhor
possui o poder de subverter o cosmos. O juízo sobre os inimigos de
Deus alcança o clímax no Dia do S e n h o r como consequência das mal­
dições juradas na aliança.'^
Neste contexto da apresentação do Dia do S e n h o r , em conexão
com a inauguração e sanção, Sofonias declara que o Senhor preparou
um sacrifício e santificou seus convidados (Sf 1.7). Ambas as ações
estão intimamente associadas com o estabelecimento de uma aliança
nas tradições de Israel.
Em um texto de reconhecida antiguidade, Abraão partiu ao meio os
animais e dispôs as metades de forma oposta às outras em preparação
para “a passagem pelo meio” de uma teofania (Gn 15.9-18). A ação
simbolizava um penhor auto-imprecatório às maldições pactuais. A ten­
tativa das aves de rapina de devorarem as carcaças exibe vividamente
os horrores finais da maldição pactuai.
Jeremias, contemporâneo de Sofonias, indica a continuidade da
significação do simbolismo patriarcal em sua alusão explícita ao anti­
go procedimento de fazer aliança precisamente no tempo em que Deus
estava trazendo devastação pactuai sobre Jerusalém por meio de seu
“servo” Nabucodonosor (Jr 34.18-20). Em muitas outras passagens.
Jeremias se refere à maldição pactuai associada ao devorar das carca­
ças por pássaros de rapina (cf. Jr 7.33; 16.4; 19.7).'* Particularmente

15. Observe D. R. Hillers, Treaty-Curses and the Old Testament Prophets, BibOr 16
(Roma: Pontifical Biblical Institute, 1964), p. 531, que conclui que no caso de Isaias34, “o
profeta pronuncia maldição sobre uma nação em termos que ocorrem como uma maldição
num tratado”.
16. Para uma exposição mais completa sobre o significado deste conceito de maldição
pactuai como um fator unificador nas Escrituras, ver meu The Christ o f the Covenants
(Grand Rapids: Baker, 1980), p. 124-142.
SOFONIAS 1.7 339

ao descrever a destruição do exército de Faraó Neco em Carquemis,


Jeremias emprega a linguagem do sacrifício, ao descrever “aquele Dia”:

Porque esse Dia


é para o S e n h o r dos Exércitos,
um Dia de vingança,
para a vingança de seus adversários;
a espada devorará e se fartará,
extinguirá sua sede com seu sangue.
Porque um sacrifício
é (feito) para o S e n h o r dos Exércitos
na terra do Norte,
junto ao rio Eufrates (Jr 46.10).

Essas imagens de sacrifício pactuai relacionadas com a sanção das


maldições pactuais fornecem a perspectiva pela qual o profeta Sofonias
vê o Juízo iminente de Deus sobre Judá. Pelo fato de que foram ligados
a um juramento pactuai auto-imprecatório, devem experimentar de­
vastação naquele Dia em que o Senhor da aliança executar sua sobe­
rania.
Outras passagens dos profetas desenvolvem as imagens de um sa­
crifício oferecido pelo Senhor na descrição de seus juízos sobre as
nações. Duas passagens podem ser resumidas como segue:

No Dia da vingança do S e n h o r , sua espada se banhará no sangue de


Edom. Pois o S e n h o r oferece um sacrifício em Bozra e executará
uma grande matança em Edom (Is 34.5-8).
Toda espécie de aves e animais selvagens deve reunir-se. Pois o
S e n h o r lhes está preparando um grande sacrifício. Eles comerão a
carne e beberão o sangue dos homens poderosos de Israel (Ez 39.17-
20).

Fazendo uma alusão a esta antiga montagem de imagens proféti­


cas, o livro da Nova Aliança do Apocalipse descreve a devastação final
dos inimigos de Deus. Naquele dia, todas as aves, que voam pelo céu,
devem ser convocadas para “a grande ceia de Deus”, quando poderão
340 SOFONIAS 1.7

comer a carne dos reis e dos homens poderosos (Ap 19.17-18). Naque­
le último Dia, as predições proféticas do juízo pactuai concretizarão
seu cumprimento final.
O sacrifício que o Senhor preparou em Sofonias 1.7 seriam Judá e
Jerusalém. Pois eles já foram especificados como objetos do juízo di­
vino (vs. 4-6). Este pronunciamento notável não deveria apanhar o povo
de surpresa, pois haviam se comprometido mediante juramento auto-
imprecatório da aliança.
O Senhor também santificou [hiqdiê] os convidados em prepara­
ção para a festa do grande Dia do S e n h o r . Esses convidados podem
muito bem ser as aves e animais selvagens do campo que comem à
mesa da condenação pactuai, ou podem ser as nações ímpias que ser­
vem de instrumentos divinos para julgar Israel. Em cada caso, a santi­
ficação desses convidados questionáveis ao banquete seria essencial
para manter a santidade de Deus em sua função de anfitrião.
Essa purificação dos convidados pode ser comparada à santifica­
ção de Israel por três dias em preparação para o encontro pactuai no
Sinai (Êx 19.10). O elo pactuai estabelecido no Sinai foi consumado
quando representantes do povo “comeram e beberam” na presença de
Deus (Êx 24.11; c f 1Sm 16.5). Uma relação adicional com a santifica­
ção dos convidados numa refeição pactuai pode ser vista na consagra­
ção (hiqdaSti) ao Senhor de todo primogênito de Israel por ocasião da
Páscoa. Eles só poderiam participar da refeição pactuai na Páscoa, por­
quanto os levitas foram “oferecidos” (hênaptã) em lugar do primogê­
nito que havia sido santificado (hiqdaSti) ao Senhor (Nm 8.15-17).
A mensagem do Senhor dada por intermédio de Sofonias não é
meramente descritiva. É declarativa. Pois o profeta declara taxativa­
mente que o Dia do S e n h o r está perto. Este anúncio significa que o Dia
é tanto inevitável quanto iminente.
Em lugar algum nesse oráculo o profeta sugere um curso de ação
que porventura desvie a fúria do Dia do S e n h o r . Tampouco nos seguin­
tes oráculos, convocando ao arrependimento, ele sugere que o juízo da­
quele Dia possa ser cancelado. Somente, “quem sabe”, o remanescente
piedoso poderá “esconder-se” quando aquele Dia chegar (Sf 2.3b).
SOFONIAS 1.7 341

A iminência do Dia indica que ele poderia chegar a qualquer mo­


mento. O tempo expirara para Judá. Agora só lhes restava preparar-se
para a devastação.'^
A finalidade da subversão cósmica, associada à vinda do Dia do
S enhor, em seu sentido mais pleno, nunca figurou no contexto dos
eventos associados com a Antiga Aliança. Não surpreende, pois, en­
contrar no NT tantas passagens que pressupõem uma chegada do Dia
do S e n h o r nos eventos comuns dos tempos neotestamentários, bem
como passagens que apontam para a chegada futura do grande Dia.
Quando João Batista convoca ao arrependimento em vista da imi­
nência da chegada do juízo divino, sua mensagem é paralela ao anún­
cio de Sofonias quanto à proximidade do Dia do S e n h o r (Mt 3.1-12;
Lc 3.1-18). A pregação de João sublinha a chegada do Reino de Deus
em associação com o fogo purificador do Juízo de Deus. Não se deve
supor que a chegada do Reino seja idêntica à chegada do Dia. Mas a
inter-relação desses dois complexos de idéias pressupõe que o Dia do
S e n h o r serve para inaugurar o reino. Somente quando o juízo divino
purificador varrer a terra é que virá o reino.
Quando Cristo deliberadamente faz um paralelo do ato de rasgar
sua própria carne como um sacrifício pactuai com a morte substitutiva
do cordeiro Pascal, ele interpreta sua própria morte nos termos familia­
res da maldição pactuai (cf Mt 26.26-29; Lc 22.14-22). Cai sobre ele o
fogo da ira de Deus, aquela ira que é sumariada no derramamento das
maldições pactuais no Dia do S e n h o r . Comer sua carne e beber seu
sangue, pela fé, introduz o participante na festa sacrificial do Senhor,
oferecida somente aos convidados consagrados.
O derramamento do Espírito, acompanhado de sinais sobrenaturais
de um vento que desce dos céus, marca a chegada dos “últimos dias”, do
“grande e glorioso dia do Senhor” (At 2.17-18,20).'* Ora, o reino inau-

17. Von Rad, JSS 4 (1959), p. 108, especula que o grito concernente à iminência do Dia do
S enhor poderia ser “o velho chamado estereotipado com que as tropas eram convocadas para
assumir o campo na guerra santa, ou um grito para que saíssem à batalha com o Senhor". Sua
proposta é desprovida de evidência adequada. Cf. Weiss, HUCA 37 (1966), p. 36.
18. Os sinais mencionados em Atos 2.20, que iriam preceder a vinda do “grande e
glorioso Dia do Senhor", incluem os itens listados que começam no versículo 17 e vào até
342 SOFONIAS 1.7

gurado pela chegada do Dia se cumpriu porque o Senhor, o Rei, che­


gou. Havendo subido a seu trono de glória, ele derramou seu Espírito
sobre todos os seus súditos.
Em certo sentido, o Dia do S e n h o r j á veio. Mas, distinto do Dia é o
característico de finalidade. Em certo sentido, o Dia veio em associa­
ção com certos eventos em tomo do advento de Jesus Cristo. Mas, em
outro sentido, o Dia ainda virá. E, como Sofonias profetizou, ele está
perto.
As Escrituras da Antiga Aliança manifestam uma variedade de fra­
ses pelas quais se pode designar a vinda do Dia do S e n h o r . Sofonias
fala em termos de “o Dia”, “aquele Dia”, “o grande Dia” e “o Dia do
derramamento da ira do S e n h o r ” (1.7-10; 14-15,18). De modo seme­
lhante, as Escrituras da Nova Aliança empregam uma variedade de fra­
ses ao referir-se essencialmente ao mesmo fenômeno. Pode-se designar
0 Dia do Senhor como sendo “o dia do juízo” (Mt 10.15; 11.22,24;
12.36; Jo 12.48; 2Pe 3.7), o “último dia” (Jo 6.39-40,44,54; 11.24;
12.48), 0 “Dia do Senhor” (At 2.20; ICo 5.5; 2Co 1.14; ITs 5.2; 2Ts
2.2; 2Pe 3.10), 0 “Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1.8), “o dia”
ou “aquele dia” (Mt 7.22; Lc 10.12; 21.34; ICo 3.13; ITs 5.4; Hb
10.25), o “Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6), o “Dia de Cristo” (Fp 1.10;
2.16), 0 “Dia de Deus” (2Pe 3.12), o “dia eterno” (2Pe 3.18), o “grande
Dia” (Jd 6), o “grande Dia de sua ira” (Ap 6.17) e o “grande Dia do
Deus Todo-Poderoso” (Ap 16.14).
Todas essas passagens merecem cuidadosa consideração quando se
tenta determinar assuntos relacionados com a consumação do Dia do
S e n h o r confomie profetizado por Sofonias. E suficiente dizer que o

juízo cósmico, associado a uma teofania dramática, pode agora ser


entendido em termos da gloriosa volta de Jesus Cristo. No dia certo,
ele consumará todas as coisas.
0 versículo 21. Pedro, especificamente, declara que têm ocorrido “prodígios e sinais” a
começar pelo ministério dc Jesus (v. 22). A "vinda” do “ Dia”, portanto, não aguarda a
chegada de um dia associado com “prodígios” e “sinais”. Alguns podem crer que seja ne­
cessário haver uma conversão literal da lua em sangue antes da chegada do Dia. Contudo, o
cumprimento de outros sinais em ligação com a vinda de Cristo em seu nascimento, minis­
tério, morte, ressurreição, ascensão e derramamento do Espírito sugeriria fortemente que
pelo menos a primeira fase da chegada do dia já se realizou.
SOFONIAS 1.8-14a 343

C. DEVASTAÇÃO DE TUDO O QUE ESTÁ ENVOLVIDO (1.8-14a)

8 No dia do sacrifício do Senhor,


a infligirei castigo
b sobre os líderes,
b e sobre os fltlhos' do rei,
b e sobre todos os que vestem trajos estrangeiros.
9 a Naquele dia infligirei castigo
b sobre todos quantos saltam o limiar,
b os que enchem a casa de seus senhores de violência e engano.
10 Naquele dia, declara o Senhor, haverá:
a uma voz de súplica
b desde o portão do peixe;
a um uivo
b desde o segundo quarteirão;
a um tumulto ensurdecedor,
b desde os outeiros.
11 Uivai, vós, moradores do Lugar do Pilão,
a porque completamente devastado
b está todo o povo de Canaã;
a totalmente exterminados
b todos os negociantes em prata.
12 Naquele tempo:
esquadrinharei a Jerusalém
com candeias;
a infligirei castigo sobre os homens
b que se firmam em seus quadris,
b e dizem em seu coração;
o Senhor não fará bem, nem fará mal.
13 a Sua riqueza será
b dissipada;
a suas casas,
b pilhadas.
l. A LXX traduz “filhos” por “casa”. Cf. Rudolph, p. 267, conclui que o termo se refere a
todos os membros domésticos do rei, e nào dos filhos do rei reinante.
344 SOFONIAS 1.8-14a

a Edificarão casas,
b e nunca viverão nelas,
a plantarão vinhas,
b e nunca beberão seu vinho.
14a Perto
está o grande Dia do Senhor!
Perto
e vindo com grande rapidez.^

Esta seção continua se expandindo sobre o tema do Dia do S en h o r


e as devastadoras consequências do juízo associado à chegada daquele
dia. O uso explícito da frase o Dia do Senhor põe este material entre
parênteses (v. 7,14), e três frases diferentes substituem o “Dia do S e ­
n h o r ” nos versículos intermediários: “no dia do sacrifício do S e n h o r ”

(v. 8), “naquele dia” (v. 9-10) e “naquele tempo” (v. 12) - todos intro­
duzem o tema permeante do Dia do S e n h o r .
Esses versículos contraem o objetivo do juízo de maneira ainda
mais específica do que fizera antes nas seções prévias. Originalmente,
o escopo do juízo divino fora indicado como que incluindo a totalidade
do cosmos (v. 2-3). Então Judá e Jerusalém foram especificados (v. 4-
6). Agora se designam os judeus em particular (v. 8-9,11), bem como
distritos específicos dentro da cidade alvejada de Jerusalém (v. 10-11).
A seção também oferece um catálogo mais preciso das consequências
do juízo iminente, que pode ser descrito de modo geral como desespe­
ro, devastação e frustração (v. 11,13).
Um uso extenso de paralelismo poético marca esta seção, como já
foi indicado pela disposição da tradução acima. Este recurso literário
aumenta a efetividade da mensagem envolvida.
8. A abertura deste versículo ilustra a alternância abrupta bastante
comum em Sofonias, entre a primeira e a terceira pessoa. “Naquele dia
do sacrifício do Senhor [terceira pessoa se referindo ao S e n h o r ],

2 .0 termo m ahêr provavelmente represente uma abreviação do participio Piei ni^makSr


(cf. Rudolph, p. 263; GKC, § 52s). Mas ele pode ser também um adjetivo, modificando
“dia”, que teria se desenvolvido da utilização adverbial do infinitivo absoluto (c f Keil, p.
135. Von Orelli, p. 266).
SOFONIAS 1.8 345

infligirei castigo [agora o S e n h o r fala na primeira pessoa].” Este tipo


de variação ocorre reiteradamente em todo o livro, e deve ser conside­
rado como um recurso literário característico para vivificar o envolvi­
mento pessoal do Senhor. As mudanças são frequentes e óbvias demais
para serem consideradas como resultado de edição posterior.^
Por meio da utilização da preposição hebraica 'al (“em, sobre”)
quatro vezes, o profeta indica os objetos específicos da mão punitiva do
Senhor (v. 8-9). As duas primeiras categorias de personagens escolhi­
das para juízo se relacionam com a liderança de Israel. Os oficiais e os
filhos do rei seriam punidos pelo próprio Deus (v. 8).
Mas, pelo fato de que em português os termos príncipe qfilho do
rei são virtualmente equivalentes, é melhor traduzir o primeiro termo
{éãr) por lideres, a fim de distinguir os indivíduos dos “filhos do rei”,
que são mencionados a seguir. O primeiro em dignidade, honra, ofício e
liderança deve ser o primeiro a ser julgado.
Mas, o que acontece com o rei? Por que ele não se enquadra como
objeto da ira divina? Se o ministério profético de Sofonias fosse fun­
damentado no Livro da Lei, recentemente descoberto por Josias, a res­
posta não seria difícil de descobrir. Visto que o rei estava manifestando
o tipo de caráter recomendável, apropriado a um soberano que serve
como vice-regente do Senhor, ele não receberia o mesmo tipo de trata­
mento atribuído ao desobediente. É preciso lembrar que Sofonias não
trata de possíveis categorias de castigos. Ele anuncia o inevitável. O
juízo sobre os filhos do rei é inevitável.
Surge uma complicação quando se reconhece que no tempo da desco­
berta do Livro da Lei os dois filhos mais velhos de Josias estariam com 10
e 12 anos de idade (2Rs 23.31,36). Este fato, juntamente com outras
considerações, tem levado alguns comentaristas a concluírem que a frase
filhos do rei se referia à corte real em suas dimensões mais amplas, e não
aos filhos do rei, especificamente.
Mas, a despeito de todos os problemas envolvidos em relacionar a
^xâSQ filhos do rei diretamente com Jeoacaz e Jeoaquim, a natureza

3. Riidolph. p. 264, conclui que a mudança de oradores indica uma origem secundária de
materiais.
346 SOFONIAS 1.8

específica da fraseologia, bem como os desenvolvimentos subsequen­


tes na história de Judá, apontam precisamente para outra direção. A
explicação mais convincente para a omissão da referência ao “rei” como
objeto de juízo é que a pessoa de Josias foi excluída intencionalmente.
Esta especificidade também pressupõe especificidade com respeito aos
filhos que o profeta tinha em mente. Singular aos padrões de sucessão
na história de Judá é o fato de que nada menos que três dos filhos de
Josias reinaram em seu lugar.
Os dois primeiros filhos de Josias tinham mães diferentes, porém o
mesmo pai, o que fornece algum esclarecimento sobre a circunstância
em que Sofonias percebia o rumo que os filhos eventualmente iriam
tomar. Se o próprio profeta fosse, ele mesmo, de linhagem real, sendo
chamado filho de “Ezequias” {1.1), ele podería ter conhecimento espe­
cial da situação que imperava no palácio.
A terceira categoria de personalidades condenadas é: todos os que
vestem trajos estrangeiros. A sugestão de Keil de que esta frase conde­
na os desejosos de usar os estilos dos povos estrangeiros por causa de
considerações políticas não parece adequar-se ao contexto. Mais pro­
vavelmente é a possibilidade de a frase referir-se aos que se vestiam
distintivamente como os sacerdotes dos deuses estrangeiros. Deve-se
dar algum peso significativo ao incidente do expurgo dos sacerdotes
de Baal feito por Jeú. A fim de efetuar um completo aniquilamento
desses sacerdotes estrangeiros, Jeú instruiu ao “roupeiro” que trouxes­
se vestes (l^büS) para todos os servidores de Baal (2Rs 10.22; c f lõb^Sim
em Sf 1.8). Na vasta multidão que se reuniu para o sacrifício, a identi­
ficação dos sacerdotes de Baal, para que houvesse separação dos sacer­
dotes do Senhor, poderia ter servido de base para a diferenciação de
roupa (10.23). Encontra-se também na passagem uma referência ao “rou­
peiro” que descreve a situação contemporânea de Josias (22.14), duran­
te 0 tempo do ministério de Sofonias.
Deve-se observar também que Salomão trouxe muitas “mulheres
estrangeiras” (nãSim nokriyôt) para Jerusalém e lhes permitiu cons­
truir seus centros de culto no monte das abominações, do outro lado do
vale fronteiro à área do templo (1 Rs 11.1,7-8; cf. malbâs nokri em Sf
1.8). Muito possivelmente, cada um desses centros estrangeiros de culto
SOFONIAS 1.8 347

possuía seus próprios sacerdotes com suas vestes distintivas. Nas dé­
cadas que se seguiram, os habitantes de Jerusalém teriam se acostuma­
do a ver as vestes sacerdotais distintivas dos vários deuses estrangeiros
andando por suas ruas. E bem possível que Sofonias tenha se dirigido
a esse tipo de corrupção.
Pode-se encontrar algum paralelismo fraseológico significativo nes­
sa descrição em comparação com a versão LXX dessa frase, bem como
uma passagem no Evangelho de Mateus. No contexto do Evangelho de
Mateus, Cristo cita diversos textos do AT que pronunciam juízo sobre
Israel. Primeiro, ele aplica a imagem da vinha improdutiva de Isaías 5
(Mt 21.33). Segundo, ele relaciona a rejeição da “principal pedra angu­
lar” pela liderança de Israel no Salmo 118 com a resposta da nação ao
seu ministério (Mt 21.42). Então Jesus conta a parábola das bodas que
0 rei preparou para seu filho. Numa seção exclusiva de Mateus (Mt
22.11-13), um dos convidados aparece sem roupa adequada. Esse con­
vidado audacioso deve ser lançado nas trevas exteriores onde haverá
choro e ranger de dentes.
As expressões paralelas são:

Sofonias condena aqueles que “vestem trajos estrangeiros” (ende-


dyménous endymata allótrid).
Em Mateus, o rei ordena que seus serventes lancem fora aquele
“que não trazia veste nupcial” {ouk endedyménon éndyma
gámou).
Naturalmente, este paralelismo de expressão poderia ser totalmen-
te acidental. Uma passagem fala de vestes sacerdotais, e a outra de
vestes nupciais. Mas o contexto de Mateus pressupõe a possibilidade
de uma alusão intencional à profecia de Sofonias. Em ambos os con­
textos, o tema principal é o Juízo sobre Israel. Esta parábola de Jesus,
em particular, entra no arcabouço do evangelho cuja intenção é descre­
ver a rejeição de Israel em termos do cumprimento de predições do AT.
Particularmente, se todos os que vestem trajos estrangeiros em Sofonias
se referem aos devotos de deuses estrangeiros que trabalhavam nas
assembléias de Israel, um paralelismo com a parábola de Jesus se torna
bastante semelhante.
348 SOFONIAS 1.8-9

É possível explicar a diferença em contexto com base no fato de


Jesus descrever uma situação em que o senhorio que Deus exerce sobre
seu reino já foi demonstrado pela reunião dos convidados para a festa
nupcial, enquanto Sofonias ainda esperava a intervenção Judicial imi­
nente de Deus. Como consequência, Mateus vê os candidatos ao reino
como uma minoria estrita, enquanto Sofonias tinha de digladiar-se numa
situação em que aqueles que vestem trajos estrangeiros eram ainda a
maioria.
9. O objeto final do castigo de Deus, introduzido pela preposição
sobre (al), nesta série, é descrito como todos aqueles que saltam o
átrio.“*
Essa frase é mais bem entendida pela referência às práticas supers­
ticiosas dos fílisteus em pular por sobre o limiar de seu templo. Segun­
do 0 escritor de Samuel, esse costume era praticado pelos sacerdotes
de Dagom até “ao dia de hoje” (1 Sm 5.5).
A ironia de tal prática supersticiosa se encontra na frase seguinte.
Enquanto saltavam prudentemente por sobre o limiar de seu templo, os
judeus enchem a casa de seus senhores de violência e fraude. Eles
observam minuciosamente as leis pagãs tão absurdas, porém saltam
displicentemente por sobre as ordenanças básicas de Deus em suas
próprias casas.
Uma vez a terra ficou cheia de violência (hãmãs), o que causara
sua destruição nos dias de Noé (Gn 6.11,13). Agora o próprio templo de
Deus estava cheio de violência e fraude, o que causaria sua destruição.

4. A ideia de que a frase significa saltar .sobre o átrio em vez de por sobre o átrio é
gramaticalmente possível (ver J. G Frazer, Fotk-tore in the Old Teslarneni [Nova York:
Macmillan, 1927], p. 313 n. 2). Mas será que isso implicaria uma contradiçSo ostensiva das
práticas sacras dos vizinhos fílisteus de Israel? Um Israel com inclinações sincretistas difi­
cilmente se manifestaria dcliberadamente dessa maneira. A compreensão alternativa da fra­
se que significa “saltar sobre” no sentido de “ fazer violência sobre”, referindo-se a roubos
em casas, também é possível (c f Keil, p. 132). Mas o texto indica que é na “casa de seus
senhores”, e não nas casas particulares, que essa violência é praticada, como se vê pela
ausência de uma conjunção adicional que separaria a última porção do versículo do primei­
ro. Visto que parece mais estranho falar de invasão violenta de casas públicas de culto, esta
interpretação deveria ser rejeitada.
SOFONIAS 1.9-11 349

Jeremias, contemporâneo de Sofonias, também reclamara contra o


povo por este fazer da casa que portava o nome de Deus “um covil de
salteadores” (Jr 7.11). Eles tinham a audácia de clamar por segurança
contra si próprios enquanto cantavam: “Templo do S e n h o r , templo do
S e n h o r , templo do S e n h o r é este”. Mas o tempo todo eles oprimiam o
estrangeiro, o órfão, a viúva, derramando sangue inocente no santo
lugar de Deus (7.4,6). Jesus encontrou as mesmas práticas de violência
e fraude na casa de Deus em seus dias (Mt 21.13). Ele exerceu a prer­
rogativa divina de juízo, ao purificar o templo.
10-11. Os dois versículos seguintes evitam especificar as classes
de pessoas destinadas ao juízo a fim de indicar as consequências dos
juízos sobre os vários setores da cidade de Jerusalém. Grito, uivo,
lamento, ruína e destruição seriam o resultado da aplicação do castigo
divino.
10. A súplica e o uivo ecoando das áreas do portão do peixe e da
cidade baixa de Jerusalém dão a expressão de total desespero de um
povo que perdera toda a esperança na vida. O juízo de Deus tinha entra­
do nos próprios bairros de sua cidade. O portão do peixe aparentemente
se refere a uma entrada ao norte da cidade de Jerusalém que normal­
mente seria o primeiro lugar a ser atacado por um exército invasor.^ A
cidade baixa é mencionada em 2 Reis 22.14 e na passagem paralela em
2 Crônicas 34.22, e possivelmente em Neemias 11.9. Poderia referir-se
à parte mais nova da cidade adicionada por Manassés quando estendeu
0 muro da cidade para o norte.* Desconhece-se, porém, a localização
dessa seção da cidade.
O tumulto ensurdecedor nos outeiros poderia referir-se à descrição
da ação de quebrar os ídolos localizados nas colinas em volta de Jeru­
salém. Jeremias faz alusão às “orgias das montanhas” [hãmôn hãrím),
“os outeiros não passam de ilusão” {laSSeqer migg^bã'ôí) (Jr 3.23).
Toda essa atividade ruidosa posta em contraste com o “Senhor nosso
Deus”, como confiança de Israel, teria sido um fenômeno audível aos
habitantes de Jerusalém. Sofonias, porém, agora anuncia que essa ati-

5. Rudolph, p. 268.
6. cr. Smith, p. 199.
350 SOFONIAS 1.11-12

vidade seria substituída por um “tumulto ensurdecedor”. Numa grande


calamidade dissonante, todos os ídolos seriam destruídos.
Têm-se apresentado várias sugestões com respeito ao lugar rui­
11.

doso (maèíêS).^ A mudança gramatical nas expressões deste versículo,


do indicativo para um comparativo, em confronto com o tratamento
prévio dos bairros de Jerusalém, pressupõe que maktêê deveria receber
um tratamento diferente. Possivelmente, o termo se refere a toda a cida­
de em vez de apenas a um bairro em particular. Envolta por montanhas
mais altas, a própria Jerusalém pode ser comparada a um pilão. Deus,
em seu juízo, esmagaria toda a cidade como se estivesse inserida num
almofariz.
Súplicas, uivos, lamentos no Dia do S e n h o r . Total e absoluto de­
sespero destroçaria os corações de todos os habitantes de Jerusalém.
Esse Dia viria logo.
O restante desse versículo estende a descrição do efeito do juízo
sobre Jerusalém. O Dia deveria trazer devastação a todos os mercado­
res e homens de negócios da cidade. Indústria, iniciativa e empreendi­
mentos privados terminariam em frustração e ruína pessoais. A refe­
rência ao povo de Canaã deve ser interpretada à luz da frase com a
qual ela é posta em paralelo: os negociantes em prata. Por causa de sua
reputação como mercadores, o nome do povo cananeu se tomou equi­
valente a “mercador”.* A destruição de todos os negociantes em prata
significava que a cidade, como centro de cultura, comércio, luxúria,
beleza e arte, chegaria ao fim. Se alguma vida fosse deixada na cidade,
ela consistiria apenas no rastejar das mais míseras das existências.
Assim sendo, o profeta especificou as lideranças políticas, religio­
sas e comerciais como objetos do juízo iminente do Dia do S e n h o r .
Nenhum desses empregos nobres deveria escapar à devastação.
12. Sofonias indica ainda mais que uma busca completa seria feita
em toda a cidade. Ninguém escaparia ao olho perscrutador de Deus.
Esse cuidado em caçar todo e qualquer habitante pode ser comparado

7. Cf. Driver, p. 117.0 termo significa literalmente “pilão”.


8. Observe o paralelismo encontrado em Isaías 23.8; Oseias 12.8 (Eng. 7). C f Driver p.
117; Rudolph, p. 263.
SOFONIAS 1.12-14a 351

com a busca para juízo descrita em Amós 9.2-4. Nem o profundo abis­
mo, nem o céu, nem o cume do Carmelo, nem o fundo do mar poderá
esconder os objetos do juízo perscrutador de Deus.
Particularmente, aquele que não se envolve, o indiferente e o céti­
co são selecionados para a condenação. Os homens que se firmam em
seus quadris deverão receber punição do Senhor. Os espiritualmente
céticos que se convenceram de que Deus não faz bem nem ma! podem
ser comparados à escória (Simrêhem) que engrossam {haqqõp^fm)
na inutilidade, como se lê a frase literalmente. Embora em seu coração
sussurrem esses insultos contra Deus, eles não p