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Raphael Gomes de Almeida – Noturno – Termo 1

A importância de estudar História da Filosofia em tópicos do Renascimento na


graduação de filosofia garante uma perspectiva etiológica da civilização ocidental e da
Ciência nos pródromos de sua configuração moderna. A investigação das artes do
renascimento demonstra a gradual transformação da inteligência acerca do cosmo em
relação ao desenvolvimento de novas formas de relacionar as artes de análise do
mundo a favor de uma precisão mais cirurgica na descrição dos fenômenos naturais e
suas reverberações no ambiente intelectual da época.

É necessária uma especial atenção às questões de Método quando


debruçamo-nos sobre fontes de considerável distanciamento no tempo e no espaço. A
perspectiva crítica em relação aos termos utilizados para classificar a atuação dos
homens no Renascimento tensiona a limitação de anacronismos, ainda que impossível
de serem totalmente evitados devido aos cinco séculos que nos separam da maioria
das fontes, e a aproximação do entendimento do mundo particular, do recorte temporal
que procuramos estudar.

Termos como arte, razão, ciência e filosofia são escrutinados para que
assimilemos seu conteúdo conceitual pertinente já que incorrem em míriades de
sentidos diversos e tenhamos a dimensão de um mundo mais antigo do que moderno
em que efervescia a retomada da filosofia antiga e pretendia-se a sua superação em
direção a acepção das verdades do universo sensível.

Léxicos como suporte de estudo procuram articular questões mais específicas


e inserir a compreensão do leitor no ​zeitgeist do tempo estudado, nas articulações de
questões próprias ao pensamento do período de modo a percebermos que o
pensamento fomentado em uma época não existe em um vácuo metafísico de pureza
transcendental.

Tomemos como exemplo a Arte, entendida de forma diversa pelos


contemporâneos ao Renascimento à nossa sensibilidade atual. Antes do renascimento
haviam as palavras techné, do grego e ars, do latim. Ambos termos eram aplicados
para atividades humanas diversas que hoje convencionamos chamar de artesanato,
manufatura ou ciências. A característica essencial da techné são as regras (técnicas)
para a operação a ser realizada, consequência da aplicação de princípios racionais e
ação deliberada, elemento que a eleva da rotina e a diferencia das faculdades
instintivas ou da sorte.

Aristóteles definia a techné pelo seu propósito prático, o conjunto de regras


aplicadas em atividades que os gregos usavam para dar ordem ao mundo em sua
volta. Conscientemente buscavam ordem, clareza, equilíbrio, harmonia no resultado de
seu trabalho e o agente da atividade era reconhecido pela sua destreza e maestria na
aplicação das regras. Um escultor ou pintor, servo de interesses utilitários e replicador
de padrões técnicos não estava na mesma categoria que o poeta pois este agia sob o
que era entendido como “inspiração divina”.

Tal percepção perdurou no renascimento, mas houve uma importante mudança


em seu status de prestígio e na elevação do artista como indivíduo influente nas
relações sócio-políticas do mundo urbano em que estavam inseridos. Os mestres
artesãos da arquitetura, escultura, da pintura, envolvidos com o estudo das artes
mecânicas pleiteavam seu espaço nas artes liberais, classificadas da antiguidade
tardia (aritmética, geometria, astronomia, música, gramática, retórica e dialética). Leon
Battisti Alberti em seus tratados pontuava que o escultor ou pintor para a maestria de
seus fins dominava conhecimentos de sobre aspectos científicos elevados como
aritmética, óptica, perspectiva, anatomia).

O artista passava a figurar em espaço de destaque na empresa do


Renascimento da civilização proposto pelos homens politicamente influentes de seu
tempo e eram requisitados para que suas obras, cheias de primor técnico,
expressassem não subjetividade individual como percebemos na modernidade, mas
feitos de importância pública, de estabelecimento de um emergente e poderoso mundo
de ​civiltà​..