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Breves considerações sobre Alla prima de Rosana Piccolo

Quando um autor lança uma antologia de sua lavra, estabelece-se, no conjunto de


sua produção, uma espécie de pausa, de momento em suspenso pelo qual o escritor tem a
oportunidade de debruçar sobre sua escrita, estabelecendo uma espécie de reflexão crítica
de si mesmo. No próprio ofício da escolha dos poemas, há uma diretriz, a demarcação de
um gosto, de um olhar, que acaba por aflorar aquilo que lhe é mais pertinente e
importante. Uma antologia, assim, redimensiona o passado e lança um novo olhar,
maduro, para o que ainda virá. É a oportunidade de se acentuar ou até mesmo modificar
os rumos até então explorados.
Uma antologia, portanto, é o instante de condensação, de concentração, em que
um recorte definido irrompe, estabelecendo, aos olhos do leitor, a própria leitura que o
escritor faz da sua obra. Portanto, aqui não temos apenas um livro de Rosana Piccolo,
temos sobretudo um livro dos livros da autora, o que nos faz entrar, ainda com maior
interesse, nesse universo já previamente estruturado e construído para nós. Aqui iremos,
assim, travar contato com a textualidade que mais intimamente define Rosana enquanto
poeta, seu húmus essencial, sua matriz, seu chão poético.
Nesse percurso, novamente nos deparamos com a essencialidade dos problemas
que são inerentes a sua obra e, dentre todos eles, o dilema maior que é, digamos, o da
própria linguagem. A voz poética de Rosana é uma voz rebelde, inquieta, reflexiva e
crítica. Ela parece não se acomodar ao próprio corpo da linguagem, à fluidez pacífica da
fala corrente. Ela deseja saltar, obliterar, tencionar ao máximo a escritura, levando-nos a
permanentes choques sintáticos, a atritos lexicais, a curtos-circuitos vocabulares capazes
de deixar o leitor em permanente estado de assombro.
Nesse sentido, o sujeito poético parece não caber no íntimo da escrita, ele se sente
contrito nesse espaço que lhe é insuficiente. Daí o insano trabalho de alargar, de inflamar
a fluidez discursiva, estabelecendo, assim, uma linguagem em disjunção, uma poesia de
inquietude, em que o sujeito bombardeia a própria estrutura linguística na tentativa insana
de expressar o impossível, o não visível, o que está para além do senso comum.
Por sua vez, é importante salientar os parentescos poéticos de Rosana. A autora se
filia a uma tradição que, no Brasil, de certa maneira, passou ao largo e não encontrou,
como na França, em Portugal e até mesmo em países da América Latina como o México,
o mesmo corpus programático. Refiro-me ao surrealismo e suas importantes conquistas
no ato libertador da criação vocabular. Nesse sentido, apesar de não ter sido
sistematizado, podemos dizer que tivemos um surrealismo difuso, porém vigoroso,
expresso por talentos individuais, o que nos possibilitou uma fecunda experiência, em
nossas letras, das potências irracionais da palavra e nos abriu voos poéticos de grande
valor artístico. De Jorge de Lima, Murilo Mendes, aos mais recentes, como Rodrigo de
Haro e Cláudio Willer, o surrealismo encontrou, no Brasil, expressão criativa ímpar, de
grande fecundidade, o que nos possibilitou obras de caráter poético incontestável. Mas de
todas as vozes dessa vertente criadora da escrita, a poesia de Rosana, com certeza, irmana-
se à escritura assombrosa de Roberto Piva, verdadeiro irmão de alma da autora, com quem
ela, longe de apenas garatujar nas influências superficiais, estabelece uma espécie de
diálogo silencioso, crítico, o que lhe possibilita a invenção de uma arte também de cunho
explosivo, pautada pelo ritmo da grande metrópole do país, São Paulo. Todavia,
diferentemente de Piva, Rosana institui em sua escritura um certo intimismo tipicamente
feminino, o que torna sua expressão verbal mais arraigada ao pathos de um eu em
efervescência. Evidentemente, essa maior expressividade subjetiva vem justamente da
força da mulher enquanto criadora. Dessa feita, claro está que Rosana estabelece uma
conjunção com Piva, mas por outro lado impõe uma palavra criadora autêntica, porque
sabe dizer a que veio para além das influências. Tem voz própria e madura. Por
conseguinte, não quis, aqui, ao usar o termo feminino, demarcar gênero. Como sabemos,
poesia não tem sexo. Mas há modulações, flutuações sensitivas da palavra que expressam,
pelo menos ao meu ver, certo influxo feminino ou masculino na escrita. Com toda a
certeza, Jung muito nos esclareceu a respeito ao formular sua teoria da anima e do animus.
A complexidade dessa questão em Rosana, portanto, não estanca por aqui. Vai além.
Apesar de ela manter sua anima acesa e viva pela palavra, há também, paradoxalmente,
em sua poesia, um arroubo provindo das fontes do animus. Rosana é delicada e vigorosa
como uma orquídea selvagem, para usar uma metáfora que, ao meu ver, consegue definir
com exatidão tal questão em sua obra e também em sua personalidade. Nela está intacta
a delicadeza feminina, como também a rudeza masculina da palavra.
Dessa forma, apesar de se abrir às forças do inconsciente, de permitir o irromper
do onirismo em seu pendor abrasivo, há também na autora uma contracorrente crítica,
racional, que acaba imprimindo ao jorro criativo uma espécie de austeridade da
linguagem, de invenção controlada, o que nos permite uma escritura, ainda de fatura
surrealizante, mas já expressa em outro patamar, numa vertente que acaba desembocando
no seu avesso, ou seja, numa linguagem elaborada pelo vigor do pensamento reflexivo.
Assim, o assombro, marca consubstancial da poesia de Rosana, parece aflorar nos
momentos certeiros, numa espécie de condensação da linguagem, que acaba desvelando
o absurdo do que existe de maneira sempre crítica. Há na poeta um inconformismo ante
a deformação de nossa era, ante as mazelas de nosso tempo de indigência, ante a
impessoalidade e violência do egoísmo que nos marginaliza e nos transforma em objetos.
Essa fúria crítica se estende, assim, para o mundo e para a linguagem. Essa, por sua vez,
mimetiza o fluxo vertiginoso do real, a maquinaria fria da cidade de São Paulo, sempre
apta a triturar os homens em uma existência amorfa e sem sentido. Para tanto, a escritora
se pauta muitas vezes em uma linguagem ao mesmo tempo sublime e prosaica, em que o
banal se contamina ainda por uma espécie de vestígio mágico, quase sempre revelador de
um mistério assombroso que ainda perfaz o mundo. Herdeira de Baudelaire e de Novalis,
a escritora assim se contamina pelo prosaico para, no fundo, revelar o grande nada, o
grande absurdo metafísico do existente, o que não deixa de ainda ter o caráter do
tremendum sacro terrífico: “tarde feita de siglas/ letras engolidas vivas/ onde o arquiteto
divino?”.
Assim, o espaço da cidade irrompe como solo onde o naufrágio existencial é o
único destino possível ao homem:

Ítaca
e voltamos para casa

céu abarrotado
de cetáceos debulha
a chuva da semana útil

mar de guelras ardentes


cardume de ruas e avenidas brutas

a tarde exige naufrágio

aço é o rochedo
sereias cantam na poça d’água

Aqui, assim, há uma intensificação do processo metafórico, que se coagula em


imagens surpreendentes, para justamente desvelar o caos metropolitano, o que faz da
metáfora hipérbole: “mar de guelras”, “cardume de ruas”. A cidade é sempre um excesso
que deve ser expresso também por uma linguagem que se excede para além de uma
sintaxe plausível. Daí que o grotesco se faz naturalidade, muitas vezes iluminado, mas
não redimido, por uma certa luz sublime, expressa por signos ainda líricos. É o que se
observa em Redenção, pela antítese entre o cadáver e a asa da borboleta:

Redenção

cadáver no rio
à margem vagão refrigerado
comprime sardinhas
e acordes de Beethoven

sudário de espuma
na goma negra da água
galhos, bonecas quebradas

a ratazana rodeia a omoplata


trinta e dois dentes

nos olhos, cavernas aquosas


⎼ algo se move

creio que a asa duma borboleta

Poesia de contundente pesquisa linguística, de permanente e incansável meditação


sobre a palavra e o real, a obra de Rosana, assim, com essa antologia, Alla prima, desvela
pelo já escrito o que de inovador se faz sempre inaugural em sua escritura. Lê-se sempre
pela primeira vez o que se faz pela linguagem mágica da verdadeira poesia. Eis, aqui,
uma possível leitura desse título. Pela primeira vez o que se faz sempre antigo tem o dom
de ser sempre jovem. E sempre jovem é a linguagem da poesia que, quebrando as
correntes do banal, faz insurgir a força da arte, redentora e aterradora.

Alexandre Bonafim, escritor, professor de literatura da Universidade Estadual


de Goiás