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REDES DE PRODUÇÃO GLOBAIS E A ANÁLISE DO

artigo
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO1

Jeffrey Henderson
Peter Dicken
Martin Hess
Neil Coe
Henry Wai-Chung Yeung

Resumo Abstract
Este artigo descreve um modelo para a This article outlines a framework for the
análise da integração econômica e sua re- analysis of economic integration and its
lação com as assimetrias do desenvolvi- relation to the asymmetries of economic
mento econômico e social. Consciente- and social development. Consciously
mente rompendo com formas estado-cên- breaking with state-centric forms of social
tricas de ciência social, defende uma agen- science, it argues for a research agenda
da de pesquisa que seja mais adequada às that is more adequate to the exigencies
exigências e consequências da globaliza- and consequences of globalization than
ção do que tradicionalmente tem sido o has traditionally been the case in ‘devel-
caso nos ‘estudos sobre o desenvolvimen- opment studies’. Drawing on earlier at-
to’. Baseando-se em tentativas anteriores tempts to analyse the cross-border activi-
de analisar as atividades transfronteiriças ties of firms, their spatial configurations
das firmas, suas configurações espaciais e and developmental consequences, the ar-
consequências para o desenvolvimento, ticle moves beyond these by proposing the
este artigo vai além destas ao propor o framework of the ‘global production net-
modelo da ‘rede de produção global’ (RPG). work’ (GPN). It explores the conceptual el-
Ele explora os elementos conceituais en- ements involved in this framework in
volvidos neste modelo com algum porme- some detail and then turns to sketch a
nor e depois passa a esboçar um exemplo stylized example of a GPN. The article
estilizado de uma RPG. O artigo termina concludes with a brief indication of the
com uma breve indicação dos benefícios benefits that could be delivered by re-
que poderiam ser obtidos pela pesquisa in- search informed by GPN analysis.
formada pela análise da RPG.

Palavras-chave
Globalização. Desenvolvimento econômico. Keywords
Redes de negócios. Instituições. Enraiza- Globalization. Economic development. Bu-
mento2. siness networks. Institutions. Embedded-
ness.

143
1 Introdução cia dos movimentos trabalhistas, de gênero
e de outros movimentos sociais, bem como
A análise do desenvolvimento econô- de agências internacionais como o FMI e o
mico tem sido perturbada por uma série de Banco Mundial, no que concerne ao desen-
disjunções analíticas que resultaram em tra- volvimento tenha figurado em análises ra-
balhos seja aos níveis macro ou meso de dicais, o espaço analítico dado a outros ato-
abstração ou; onde as investigações empí- res do desenvolvimento além destes, tem si-
ricas examinaram processos ao nível micro, do limitado.
o quadro analítico mais amplo tem estado Em lugar algum esta relativa ausência
frequentemente ausente, meramente im- é mais óbvia do que com respeito à firma.
plícito, ou na melhor das hipóteses, pouco Embora haja uma longa história de traba-
desenvolvido. Embora haja notáveis exce- lhos sobre investimento estrangeiro e de-
ções a esta regra geral (por exemplo, AR- senvolvimento (resumida, por exemplo, em
MSTRONG; MCGEE, 1985) por trás dela jaz JENKINS, 1987; DICKEN, 1998), esta ten-
pouco mais de meio século de conhecimen- deu a lidar em grande medida com o pa-
to em economia do desenvolvimento (in- pel das corporações transnacionais (CTNs) e
dependentemente da sua vertente paradig- baseou-se principalmente em dados secun-
mática) e em economia política e sociolo- dários para erigir seus fundamentos empí-
gia do desenvolvimento.3 Ademais, desde ricos. Uma pequena parte dela examinou a
os primórdios das abordagens ‘dependen- dinâmica organizacional das subsidiárias
tistas’ acerca do desenvolvimento na déca- das CTNs à medida que surgiam, evoluíam
da de 1940, passando pelos debates sobre e geravam impactos sobre economias espe-
os respectivos papéis de Estados e mercados cíficas e, uma parte menor ainda tratou das
no ‘milagre’ do leste asiático e seu recente firmas domésticas, sejam elas associadas ou
desfecho, o Estado tem sido frequentemente não a companhias estrangeiras.5
concebido como o agente central no desen- Há, naturalmente, uma quantidade con-
volvimento, seja a avaliação do seu papel siderável de pesquisas sobre firmas que vem
positiva ou negativa.4 Embora a importân- sendo conduzida por sociólogos do trabalho

1. Traduzido por Rodrigo Santos, Doutor em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, traduzido do
original ‘Global production networks and the analysis of economic development’. In: Review of Interna-
tional Political Economy, v. 9, n. 3, p. 436-464, 2002.
2. Os termos enraizamento, incrustação, imersão, imbricação e encaixe são utilizados pela literatura so-
ciológica para traduzir o original embeddedness.
3. Para os fins deste artigo, o nosso engajamento intelectual é em grande medida com as contribuições à
economia política do desenvolvimento, estejam eles sob disfarces ‘sociológicos’, ‘geográficos’, ‘econômi-
cos’, ou ‘da ciência política’.
4. Temos em mente aqui os argumentos da suposta panacéia do ‘livre’ mercado como ferramenta de de-
senvolvimento, por um lado, passando pela ênfase em iniciativas estatais industriais, de outro, bem como
aqueles que vêem a relação Estado-mercado como simbiótica para fins de desenvolvimento. Em todos es-
ses casos, no entanto, o peso analítico tende a ser colocado sobre a natureza e aplicação da política eco-
nômica estatal ( ver EVANS, 1992).
5. As poucas monografias notáveis aqui (como GEREFFI, 1983; HENDERSON, 1989; DONER, 1991;
SKLAIR, 1993) apenas servem para sublinhar a regra geral.

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e das organizações e por especialistas em ocorridas na organização de atividades eco-
estudos de gestão. No entanto, esta tem es- nômicas que tendem cada vez mais a atra-
tado, em grande medida, confinada às em- vessar as fronteiras do Estado, ainda que es-
presas em economias desenvolvidas e nas tejam desigualmente contidas dentro delas.
antigas sociedades socialistas de Estado da De fato, Castells argumentou que o mun-
Europa Central e Oriental, e, onde foi reali- do está sendo transformado de um ‘espaço
zada por especialistas em gestão, se mante- de lugares’ em um ‘espaço de fluxos’ (CAS-
ve alheia à ciência social atual e, portanto, TELLS, 2000a; 2000b). Mais precisamen-
tem falhado amplamente em influenciar (ou te, talvez, o mundo é agora constituído tan-
ser influenciada por) narrativas mais ge- to por um espaço de lugares quanto por um
rais. Onde trabalhos dessa natureza foram espaço de fluxos e, portanto, a natureza da
conduzidos no mundo em desenvolvimen- relação dialética entre esses espaços e das
to, estes foram realizados em grande parte consequências dessa relação tornou-se uma
por pesquisadores feministas e tenderam a questão fundamental.
se envolver mais com questões ligadas ao A fim de entender a dinâmica do desen-
gênero do que com as questões mais amplas volvimento em um determinado local, te-
de organização industrial e desenvolvimen- mos então, de compreender como lugares
to econômico (ver, por exemplo, HEYZER, estão sendo transformados por fluxos de
1986; MITTER; ROWBOTHAM, 1995). capital, trabalho, conhecimento, poder, etc.,
Uma disjunção analítica adicional – e, e como, ao mesmo tempo, lugares (ou mais
dadas as circunstâncias contemporâneas, especificamente seus tecidos institucionais
talvez fatal – é que a pesquisa sobre o de- e sociais) estão transformando aqueles flu-
senvolvimento econômico (como aconte- xos à medida que se localizam em domínios
ce com a maior parte das ciências sociais) específicos ao lugar. A globalização (por-
tem sido estado-cêntrica em seus pressu- que é a abreviação para as nossas preocupa-
postos e análises.6 Ainda que a teoria do sis- ções) solapou a validade das formas de ci-
tema-mundo tenha proporcionado um qua- ência social tradicionais, centradas no Es-
dro analítico que promete superar essas li- tado, e com isso, as agendas que até agora
mitações, ela é uma estrutura que, contudo, têm orientado a vasta maioria das pesquisas
tem de agir como um guia significativo pa- sobre desenvolvimento econômico e social.
ra o trabalho empírico sobre os problemas A investigação apropriada ao estudo da glo-
contemporâneos do desenvolvimento. Nes- balização e de suas consequências demanda
te contexto, o Estado nacional continua a dos cientistas sociais a elaboração de qua-
ser a unidade convencional de análise pa- dros analíticos e de programas de pesquisa
ra a maior parte dos estudos sobre a econo- que, simultaneamente, ponham em primeiro
mia mundial. No entanto, a atenção exclu- plano a dinâmica do desenvolvimento de-
siva a este nível de agregação está se tor- sigual em níveis transnacional, nacional e
nando menos útil em função das mudanças subnacional. Tais investigações nos obri-

6. Nós não queremos negar a pertinência de algumas contribuições estado-cêntricas para a análise da glo-
balização e de seus problemas e como estes poderiam ser resolvidos. Alguns trabalhos sobre a crise do leste
asiático, (por exemplo, CHANG, 1998; HENDERSON, 1999; WEISS, 1999), são casos em questão.

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gam a focalizar os fluxos e lugares e suas 2 Reflexões críticas sobre
conexões dialéticas à medida que essas sur- abordagens relacionadas
gem e são percebidas, igualmente nos países
desenvolvidos e em desenvolvimento. Além Nos últimos 20 anos ou mais, uma infi-
disso, se o objeto de nossos esforços são as nidade de estudos têm surgido fazendo uso
possibilidades para o desenvolvimento eco- de uma variante ou outra do conceito de ca-
nômico e a prosperidade, então devíamos deias ou redes.7 O resultado é um conside-
reconhecer que, de modo a falar com auto- rável grau de confusão no uso e significa-
ridade sobre estas questões, precisamos es- do das terminologias empregadas (STUR-
tudar o que as firmas fazem, onde o fazem, GEON, 2001). Embora as abordagens muitas
porque o fazem, porque são autorizadas a vezes se sobreponham umas às outras, elas
fazê-lo, e como organizam este fazer atra- derivam de diferentes campos intelectuais e,
vés de diferentes escalas geográficas. portanto, trazem consigo um tipo diferente
Neste artigo nós delineamos um qua- de ‘bagagem’ intelectual. Uma diferença en-
dro analítico que, acreditamos, nos ajuda tre estas abordagens está entre aquelas que
a compreender alguns destes processos de resultam da literatura de gestão empresarial
forma mais eficaz. O modelo que propomos e aquelas que evoluíram dentro de um qua-
é o da “rede de produção global” (RPG). Em- dro econômico-desenvolvimentista. Uma
bora a RPG não esteja desenvolvida como segunda diferença está entre aquelas que
uma estrutura totalizante capaz de apreen- utilizam a metáfora de ‘cadeia’ e aquelas
der as complexidades incontáveis da globa- que adotam uma perspectiva de ‘rede’ (em-
lização econômica, acreditamos que é capaz bora a distinção não esteja sempre clara).
de proporcionar um melhor poder de análi-
se acerca da mutável distribuição interna- 2.1 Conceitos de Cadeia
cional da produção e consumo – e a viabi-
lidade de diferentes estratégias de desenvol- A cadeia de valor ou cadeia de adição de
vimento às quais se relaciona – do que foi valor é um conceito de longa data estabe-
possível previamente. lecido na economia industrial e na litera-
Começamos com algumas breves refle- tura de estudos de negócios. Tem sido usa-
xões críticas sobre os precursores mais rele- do de forma mais proeminente por Michael
vantes ao nosso trabalho. Em seguida, deli- Porter (1985, 1990) e tem obtido aceitação
neamos os elementos conceituais da RPG e, muito ampla na comunidade gerencial. Co-
ao fazê-lo, realçamos as razões de sua su- mo em todos os usos da metáfora da cadeia,
perioridade analítica sobre modelos concor- seu valor reside em sua ênfase na estrutu-
rentes. Em penúltimo lugar, nós apresenta- ras sequenciais e interligadas das atividades
mos um exemplo estilizado de uma RPG e econômicas, com cada elo ou elemento na
concluímos com um breve comentário sobre cadeia adicionando valor ao processo (valor
os benefícios que a pesquisa de RPGs pode- sendo definido em termos da remuneração
ria produzir. da firma). Para os nossos propósitos, a con-

7. Ver, por exemplo, Gereffi (1995, 1999a); Gereffi e Korzeniewicz (1994); Sklair (1995) e o IDS Bulletin
(32/3, 2001), que se concentra totalmente nas cadeias globais de valor.

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ceituação de Porter tem uma utilidade limi- âmbitos de atividade são limitados por res-
tada porque é delimitada pela firma ou rede trições tecnológicas. Daí que o espectro de
inter-firma e não presta atenção a questões agentes em redes de produção, seu papel em
de poder corporativo, aos contextos institu- modelar essas redes e, portanto, de influen-
cionais de – e influências sobre – atividades ciar o desenvolvimento em diferentes esca-
baseadas na firma, ou aos arranjos territo- las, é apenas parcialmente tratado.
riais (e suas profundas assimetrias econômi- De longe a mais útil das conceituações de
cas e sociais), nas quais as cadeias estão en- cadeia acerca das atividades econômicas é a
raizadas. Como conseqüência, ela tem pou- cadeia global de commodity (CGC) de Gary
ca relevância para o estudo do desenvolvi- Gereffi. As características do modelo da CGC
mento econômico. têm sido amplamente descritas tanto nos pró-
De maior importância é o conceito de fi- prios escritos de Gereffi (ver, por exemplo,
lière, que é definido como um sistema de GEREFFI; KORZENIEWICZ, 1994; GEREFFI,
agentes que produzem e distribuem bens e 1995, 1999a) quanto em apreciações de ou-
serviços para a satisfação de uma deman- tros (ver, por exemplo, DICKEN et al., 2001;
da final. Desenvolvido na década de 1970 CZABAN; HENDERSON, 1998; WHITLEY,
por economistas franceses a fim de alcan- 1996) de modo que não há necessidade de
çar uma compreensão mais estruturada de recuperá-las aqui. É importante, no entanto,
processos econômicos dentro de sistemas de compreender a linhagem intelectual do con-
produção e distribuição (LENZ, 1997, p. 21), ceito de CGC de Gereffi e em que medida ele
o conceito deriva de uma tradição predomi- pode satisfazer as nossas necessidades.
nantemente empírica, cujos principais ob- O trabalho de Gereffi está situado na (am-
jetivos são mapear fluxos de mercadorias e plamente definida) tradição analítica da de-
identificar os agentes e atividades dentro do pendência. Concentrando-se na dinâmica da
filière (RAIKES et al, 2000, p. 404). Ao fazê- organização global de produção, contudo,
-lo, relações hierárquicas entre agentes po- possui uma afinidade especial com os traba-
dem ser identificadas, permitindo uma aná- lhos no final dos anos 1970 e na década de
lise detalhada da dinâmica da integração e 1980 sobre a emergência de uma ‘nova divi-
desintegração econômicas. são internacional do trabalho’ e suas conse-
É difícil identificar um núcleo teóri- qüências econômicas e sócio-espaciais (FRÖ-
co distinto para a abordagem do filière. Na BEL et al., 1980; HENDERSON; CASTELLS,
verdade, há uma pluralidade de teorias im- 1987; HENDERSON, 1989). Tal como aconte-
plícitas nas análises de filière recentes, par- ce com o trabalho de Fröbel e seus colegas,
ticularmente as da regulação e a da teoria a contribuição de Gereffi consistiu em uma
das convenções.8 Embora a abordagem do tentativa explícita de operacionalizar algu-
filière focalize agentes dentro do sistema, mas das categorias dos sistemas-mundo para
bem como a dependência e a distribuição de o estudo empírico das transações transfron-
poder, ela concentra-se principalmente em teiriças baseadas na firma e sua relação com
dois tipos de agente – grandes firmas e ins- o desenvolvimento (GEREFFI, 1995). Diferen-
tituições estatais (nacionais) – e como seus temente do trabalho daqueles, no entanto,

8. Sobre o primeiro ver, por exemplo, a coletânea de Jessop (2001) com alguns contribuições seminais.
Sobre o último ver Storper e Salais (1997, particularmente o capítulo 10).

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rompeu com as categorias espaciais estáticas renciais à entrada em mercados de produ-
(e agora empiricamente redundantes) da tipo- tos diversos (DICKEN et al, 2001), é claro
logia núcleo / semiperiferia / periferia e, co- que a distinção pretende referir-se a reali-
mo tal, tornou-se mais capaz de apreender a dades empíricas específicas, setorial e orga-
realidade das ‘novas’ formas de organização nizacionalmente. Não é, então, uma cons-
industrial que se tornaram objeto de atenção trução típico-ideal.
acadêmica nas décadas de 1980 e 1990. Em segundo lugar, muitos dos trabalhos
Para Gereffi et al (1994, p.2), as cadeias da tradição da CGC tem se preocupado com
globais de commodities consistem de: cadeias contemporâneas. Dificilmente qual-
[...] conjuntos de redes interorganizacionais quer um deles procura re-construir a histó-
agrupados em torno de uma mercadoria ou ria da natureza e das implicações das ca-
produto, ligando residências, empresas e Es- deias. Esta é uma omissão importante, por-
tados uns aos outros dentro da economia- que as relações sociais incorporadas nas ca-
-mundo. Estas redes são situacionalmen- deias em um dado momento impõem uma
te específicas, construídas socialmente e in- dependência de trajetória10 e condicionam
tegradas localmente, ressaltando o enraiza- os cursos futuros de desenvolvimento da
mento social da organização econômica. cadeia. Por exemplo, os contextos institu-
cionais e arranjos sociais do período socia-
Com exceção dos sindicatos e outras or- lista de Estado persistem e circunscrevem de
ganizações não governamentais, esta defi- formas importantes o potencial para o de-
nição incorpora a maioria dos elementos re- senvolvimento econômico e político nas
levantes para a organização da firma e de economias ‘de transição’ da Europa Oriental
redes inter-firma e sua relação com as pos- (STARK, 1992; HAUSNER et al, 1995; CZA-
sibilidades de desenvolvimento econômico BAN; HENDERSON, 1998).
e social. No entanto, apenas alguns destes Em terceiro lugar, houve poucas tentati-
elementos foram seguidos empírica ou ana- vas de compreender a importância da pro-
liticamente por Gereffi, seus colaboradores, priedade da firma (doméstica ou estrangei-
ou outras pessoas que têm trabalhado nes- ra, e neste último caso, por nacionalidade)
ta vertente.9 Em particular, o foco tem se li- para o desenvolvimento econômico e social
mitado esmagadoramente à questão da es- em sociedades específicas. Embora este ‘si-
fera de governança da CGC e, dentro dela, a lêncio’ possa ser um produto da preocupa-
uma distinção bimodal entre CGCs dirigidas ção primária do projeto da CGC com as ca-
por produtores e compradores. Esta distin- deias dirigidas por compradores, há clara-
ção, entretanto, é grosseira e conduz a al- mente uma necessidade de reconhecer que
guns problemas. a ‘nacionalidade’ da propriedade da firma
Primeiramente, embora a lógica pa- pode ser um elemento-chave no progresso
ra essa distinção resida nas barreiras dife- econômico e social.11

9. Dificilmente algum trabalho tem sido feito, por exemplo, sobre as famílias, os Estados e a reprodução
da força de trabalho dentro da perspectiva das CGCs.
10. Path-dependency no original.

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A quarta questão problemática para o Como uma teoria emergente do desen-
modelo da CGC é o fato de que cadeias de volvimento, no entanto, a perspectiva da
commodity ligam não somente firmas em CGC tem muito a recomendá-la. Não me-
diferentes locais, mas também os contex- nos importante, ela ajudou a gerar impor-
tos sociais e institucionais específicos ao tantes trabalhos empíricos sobre calçados,
nível nacional (por vezes subnacional), fo- vestuário, eletrônicos, horticultura, turismo
ra dos quais todas as firmas surgem, e den- e autopeças, por exemplo, e forneceu a ló-
tro dos quais – ainda que em graus diferen- gica analítica para o que poderiam tornar-
tes – continuam enraizadas. A implicação -se novas iniciativas políticas da Organiza-
do modelo da CGC parece ser que firmas são ção Internacional do Trabalho (OIT)12. Ela
principalmente reflexos do modo como da- leva adiante a tarefa de transcender as limi-
das cadeias de commodity são organizadas tações de formas de análise estado-cêntri-
e dos requisitos estruturais que isto impõe cas e, ao fazê-lo, destaca as restrições sobre
sobre o seu funcionamento em qualquer lo- o desenvolvimento da firma – e, portanto,
cal. Neste esquema de coisas as firmas pa- econômicas e sociais – que surgem a par-
recem ter pouca autonomia para desenvol- tir da estrutura de poder corporativo enrai-
ver estratégias relativamente independen- zado nas redes intra e inter-firma que cir-
tes (embora isto pareça crucial para as pers- cundam o globo. Ajudando a mostrar que as
pectivas do desenvolvimento sustentável). capacidades de gerar valor são assimetrica-
Além disso, parece haver pouco espaço para mente distribuídas em função da estrutura
compreender de onde vêm as diferenças na- das CGCs, a perspectiva aponta para a exis-
cionais e locais na organização do mercado tência de novas formas de ‘desenvolvimen-
de trabalho, das condições de trabalho, etc. to dependente’, bem como para as possíveis
Em nossa opinião estas questões não podem formas de transcender essas limitações.
ser efetivamente teorizadas a menos que se-
ja entendido que redes inter-firma ligam so- 2.2 Conceitos de rede
ciedades que exibem variação social e ins-
titucional significativa, incorporam diferen- Uma cadeia mapeia a sequência vertical de
tes regimes de proteção social e têm diferen- eventos que levam à produção, consumo e
tes capacidades para a gestão econômica es- conservação de bens e serviços – reconhecen-
tatal: em suma, representam diferentes va- do que várias cadeias de valor frequentemen-
riedades de capitalismo (BOYER; DRACHE, te compartilham atores econômicos comuns e
1996; WHITLEY, 1999; COATES, 2000). são dinâmicas de modo que são reutilizadas e

11. Ver, por exemplo, o trabalho sobre o mercado ‘reservado’ brasileiro para computadores de uso pesso-
al (EVANS, 1986; SCHMITZ; HEWITT, 1992).
12. Ver, por exemplo, os ensaios reunidos em Gereffi e Korzeniewicz (1994) e a edição especial do IDS
Bulletin (32/3, 2001). Ver também Clancy (1998); Dolan e Humphrey (2000); Bonacich e Appelbaum
(2000) e Kaplinsky (2000), entre outros. O instituto de pesquisa da OIT, o Instituto Internacional de Estu-
dos do Trabalho, patrocinou um programa sobre ‘cadeias globais de commodity’ na década de 1990. A
contínua atenção da mídia às condições de trabalho exploradoras evidentes nas empresas fornecedoras in-
tegradas em cadeias como as da Nike e da Gap, por exemplo, sublinha a utilidade do modelo da CGC pa-
ra agências como a OIT.

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reconfiguradas de forma contínua – enquan- cações importantes para a conceituação de
to uma rede destaca a natureza e extensão ‘global’ e de ‘globalização’.13
das relações inter-firma que ligam conjuntos Outro aspecto importante da TAR é a re-
de firmas dentro de agrupamentos econômi- jeição de dualismos artificiais como as tra-
cos maiores. (STURGEON, 2001, p. 10) dicionais dicotomias global-local e estru-
tura-agência. Finalmente, a TAR conceitua
Uma fraqueza expressiva da abordagem redes como coletividades híbridas de agen-
da ‘cadeia’ é sua conceituação dos processos tes humanos e não-humanos e, portanto,
de produção e distribuição como sendo es- permite levar em consideração importan-
sencialmente verticais e lineares. Na verda- tes elementos tecnológicos que subjazem e
de, esses processos são mais bem conceitua- influenciam as atividades econômicas. No
dos como sendo estruturas em rede altamen- entanto, enquanto a TAR oferece uma me-
te complexas em que existem conexões in- todologia interessante, que já foi adotada
tricadas – horizontais, diagonais, bem como para o estudo da globalização e das redes
verticais – formando gelosias multidimen- de produção (ver, por exemplo, WHATMO-
sionais e multicamadas de atividade econô- RE; THORNE, 1997), sua contribuição pa-
mica. Por essa razão, uma abordagem expli- ra a análise do desenvolvimento econô-
citamente relacional e centrada na rede pro- mico é limitada pelo fato de que carece de
mete oferecer uma melhor compreensão dos uma apreciação das condições estruturais e
sistemas de produção. das relações de poder que, inevitavelmente,
Tal abordagem é a teoria ator-rede formam as redes de produção (DICKEN et
(TAR), que enfatiza o caráter relacional de al, 2001, p. 107).
ambos objetos e agência em redes hetero- Uma contribuição com uma afinida-
gêneas (‘materialidade relacional’), indi- de direta com o nosso trabalho é a versão
cando que entidades em redes são formadas da rede de produção global de Dieter Ernst.
por, e só podem ser compreendidas atra- Desenvolvida contemporaneamente, mas
vés de suas relações e conectividade com de modo independente de nosso trabalho,14
outras entidades (LAW, 1999, p. 4). Para o Ernst concebe a RPG como um tipo parti-
estudo das redes de produção globais, is- cular de inovação organizacional, nomea-
to significa que espaço e distância não po- damente aquele que “combina a dispersão
dem ser vistos em termos absolutos e eucli- concentrada da cadeia de valor através da
dianos, mas como ‘campos espaciais’ e es- firma e das fronteiras nacionais, com um
copos relacionais de influência, poder e co- processo paralelo de integração de cama-
nectividade (HARVEY, 1969; MURDOCH, das hierárquicas dos participantes da rede
1998). Dentre outras coisas, isto tem impli- (ERNST; KIM, 2001, p. 1)

13. Especificamente implica a rejeição do termo ‘global’ como uma construção geográfica simplista (ver a
nossa discussão posterior). Da mesma forma, a ‘globalização’ econômica se refere à extensão de atividades
econômicas funcionalmente integradas (e, portanto, socialmente relacionais) além das fronteiras nacionais
(ver DICKEN, 1998, p. 5). A implicação disso para a conceituação das RPGs é que elas passam a ser vistas co-
mo tipologias dinâmicas que potencialmente mudam de forma e aplicação ao longo do tempo.

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A lógica fundamental para as firmas es- mento da dispersão das unidades de produ-
tabelecerem RPGs desta natureza é, supos- ção, a pesquisa tem negligenciado frequen-
tamente, acessar fornecedores flexíveis e temente a ampla gama de funções de ser-
especializados em locais de baixo custo. A viço (do design ao marketing e além) que
RPG é vista como substituta da multinacio- são cruciais para a viabilidade das RPGs.
nal como a forma mais eficaz de organiza- Em terceiro lugar, Ernst observa uma pre-
ção industrial, uma mudança que emergiu ocupação com P&D formal e transferên-
em resposta a três processos constitutivos cias de tecnologia, o que pode impedir uma
da globalização, ou seja, a ascendência de apreciação da importância da difusão de
políticas de liberalização, a aceitação rápi- formas menos codificadas de conhecimen-
da de tecnologias de informação e comuni- to. Na verdade, grande parte da investiga-
cação, bem como o aparecimento da com- ção de Ernst sob a bandeira da RPG tem se
petição ‘global’. preocupado com o potencial para diferen-
A evidência empírica utilizada para ilus- tes formas de conhecimento (que ele de mo-
trar esta suposta mudança de larga escala na do variado cunha como ‘encerebrada’15, ‘en-
organização industrial é anedótica e quase raizada’, ‘enculturada’16), a serem difundi-
exclusivamente retirada das indústrias ele- das a partir de RPGs em localidades em paí-
trônica e de tecnologia da informação. Por ses em desenvolvimento e, assim, estimular
conseguinte, ao invés de ter desenvolvido o aperfeiçoamento17 da indústria local (ver,
uma categoria explicativa de relevância ge- por exemplo, ERNST, 2000).
ral, Ernst tendeu a destacar apenas uma for-
ma particular de organização industrial; e 3 Redes de produção globais
uma forma que parece ter sido extraída de
uma variação setorialmente restrita. O tra- O conceito da rede de produção global
balho de Ernst é particularmente útil, no en- (RPG) desenvolvido no restante deste artigo
tanto, à medida que destaca uma série de baseia-se em muitos aspectos nos trabalhos
problemas-chave que têm dificultado a pes- descritos na seção anterior. Em particular, ele
quisa prévia nesta área. se baseia no trabalho de Gereffi e de seus co-
Primeiro, ele critica a tendência a con- laboradores, mas leva a sério as críticas que
centrar-se estritamente no papel da firma têm sido formuladas contra ele. Concomitan-
‘líder’ dentro de RPGs em detrimento da re- temente, o modelo tem por objetivo propor-
de de fornecedores que estão há mais de cionar uma conceituação aplicável de mo-
uma camada distantes da firma ‘líder’. Em do mais geral da RPG do que a de Ernst. An-
segundo lugar, ele observa que, no mapea- tes de elaborarmos a natureza da RPG, no en-

14. Embora ele já houvesse trabalhado com a noção de ‘rede de produção internacional’, Ernst usou o ter-
mo ‘rede de produção global’ primeiramente em um trabalho apresentado em conferência em 1999 ( ver
ERNST, 1999). Nossa primeira tentativa de elaborar um modelo da RPG apareceu em uma proposta de pes-
quisa do mesmo ano (ver DICKEN; HENDERSON, 1999).
15. Embrained no original.
16. Encultured no original.
17. Upgrading no original. Optou-se por não utilizar o termo modernização pelas conotações socioeconô-
micas conceituais e ideológicas que evoca.

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 151


tanto, é preciso explicar nossas preferências tos semi-acabados, design, produção, servi-
pelos termos ‘produção’, em detrimento de ços de marketing e financeiros são organi-
‘commodity’, e de ‘rede’, em vez de ‘cadeia’. zados de forma vertical, horizontal e diago-
Precisamos também indicar a nossa própria nal em configurações complexas e dinâmi-
compreensão de ‘global’. cas. Adicionalmente, a metáfora da cadeia –
No uso contemporâneo a expressão consistente com o discurso da mercadoria –
‘commodity’ conota geralmente produtos parece ter dificuldades em incorporar a de-
padronizados e, com isso, a fixidez de sua vida atenção às questões da reprodução, etc.
produção no tempo e no espaço. Enquanto Além disso, a metáfora da cadeia vai contra
esta continua a ser a realidade de algumas a possibilidade de conceber as firmas indivi-
formas de produtos e de atividades produti- duais incorporadas em um sistema de pro-
vas (parte da agricultura, parte da indústria dução como tendo espaço para a ação au-
pesada e da extração mineral, por exem- tônoma dentro desse sistema, apesar do fato
plo), é evidente que não captura adequada- de que tal autonomia é fundamental para as
mente as formas pós-fordistas de atividade possibilidades de aperfeiçoamento industrial
que caracterizam muitas das indústrias que e, portanto, desenvolvimento econômico
o modelo da CGC, por exemplo, foi conce- sustentado. Como consequência destas difi-
bido para analisar. Mais importante, talvez, culdades, consideramos o discurso de redes
nossa preferência por um discurso de ‘pro- mais abrangente, empiricamente adequado
dução’ põe ênfase sobre os processos sociais e, portanto, analiticamente mais fértil.
envolvidos na produção de bens e serviços A adoção de um discurso de rede também
e na reprodução de conhecimento, capital e oferece outros benefícios potenciais. Em par-
força de trabalho. Não obstante a descons- ticular, contanto que a ‘produção’ seja ex-
trução definitiva e a interrogação de Marx pressa amplamente para incluir mercados in-
sobre a mercadoria (na parte I do primeiro termediários e finais e que a dinâmica de po-
volume de O Capital), o discurso das merca- der e conhecimento entre os atores e as ins-
dorias foi capturado pela economia ortodo- tituições sejam compreendidos de modo não-
xa, independentemente do paradigma. Co- -determinístico e multidirecional, então o
mo consequência, ela se transmutou em um modelo da RPG permite uma complexidade
léxico reificado e despojado de seu conteú- e variação geográficas muito maiores nas re-
do social. Há uma necessidade, portanto, de lações produtor-consumidor do que a abor-
reorientar a atenção para as circunstâncias dagem da CGC, por exemplo, tem alcançado.
sociais sob as quais as mercadorias são pro- Especificamente, este modelo deve facilitar a
duzidas e consumidas e, assim, evitar o pe- nossa capacidade de revelar como certos sa-
rigo constante de deslizar para uma percep- beres fundamentais ‘circulam’ entre produ-
ção das mercadorias como blocos de cons- tores, consumidores e intermediários, ao in-
trução desumanizados envolvidos na pro- vés de mover-se de forma unidirecional – um
dução de outras mercadorias. insight crucial da crescente literatura sobre
A metáfora da cadeia dá a impressão de ‘culturas de commodity’ (por exemplo, COOK;
um processo de atividades essencialmente CRANG, 1996; JACKSON, 1999). Além disso,
linear que conduz, finalmente, a uma mer- esta abordagem deve também permitir geo-
cadoria pronta, em detrimento de um pro- grafias sociais mais complexas a serem reve-
cesso no qual os fluxos de materiais, produ- ladas, no sentido de que os agentes em uma

152 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


variedade de locais podem se combinar para truturas que obscurecem fronteiras organi-
influenciar o processo de produção.18 zacionais tradicionais – por meio do desen-
Finalmente, embora agora esteja na mo- volvimento de diversas formas de relações
da denominar como ‘global’ fenômenos e de equidade e não-equidade –, mas também
práticas que, até recentemente, teriam mais integram economias nacionais (ou partes
chances de ser chamados de ‘internacio- dessas economias) de formas que possuem
nais’ ou ‘transnacionais’, nossa adoção do implicações colossais para seu bem-estar.
primeiro termo é impulsionada por nossas Ao mesmo tempo, a natureza e a articula-
preocupações com a precisão analítica. Es- ção precisas das redes de produção centra-
pecificamente, os termos ‘internacional’ e das na firma são profundamente influen-
‘transnacional’ derivam de discursos essen- ciadas pelos contextos sociopolíticos den-
cialmente centrados no Estado. Assim, em- tro dos quais elas estão enraizadas. O pro-
bora incorporem noções de atividade trans- cesso é especialmente complexo porque en-
fronteiriça de muitos tipos, eles não expres- quanto os últimos são essencialmente espe-
sam adequadamente o modo pelo qual pro- cíficos ao território (principalmente, embo-
cessos não específicos a lugares penetram ra não exclusivamente, ao nível do Estado-
e transformam, por sua vez, processos es- -nação), as redes de produção em si não o
pecíficos a lugares, e vice-versa. Não aju- são. Elas ‘atravessam’ as fronteiras estatais
dam, portanto, a libertar as sensibilidades de formas altamente diferenciadas, influen-
imaginativas necessárias à compreensão da ciadas em parte, por barreiras regulatórias e
dialética das relações global-local que ago- não-regulatórias e por condições sociocul-
ra são uma pré-condição para a análise da turais locais, para criar estruturas que são
globalização econômica e de suas consequ- ‘descontinuamente territoriais’.20
ências assimétricas. O modelo da RPG reconhece explicita-
A rede de produção global tal como pro- mente que:
posta aqui, é um quadro conceitual que é - firmas, governos e outros atores econô-
capaz de apreender as dimensões social e micos de diferentes sociedades às vezes têm
econômica globais, regionais e locais dos prioridades diferentes vis-à-vis à lucrativida-
processos envolvidos em muitas (embora de de, ao crescimento, ao desenvolvimento eco-
modo algum todas as) formas da globaliza- nômico, etc. (como foi claramente demons-
ção econômica.19 Redes de produção – o ne- trado, por exemplo, nos comentários em tor-
xo de funções e operações interligadas atra- no da crise da Ásia Oriental, por exemplo,
vés das quais bens e serviços são produzi- Chang, 1998 e Henderson, 1999), e conse-
dos, distribuídos e consumidos – tornaram- quentemente, as implicações da rede de pro-
-se tanto organizacionalmente mais com- dução para a firma e para o desenvolvimen-
plexas quanto cada vez mais globais em sua to econômico em cada local não podem ser
extensão geográfica. Essas redes não apenas ‘mensuradas’ a partir da lógica de organiza-
integram firmas (e partes de firmas) em es- ção da rede e da distribuição de poder cor-

18. Ver, por exemplo, o estudo de Hughes (2000) do comércio de flores de corte.
19. É improvável que seja de particular ajuda, por exemplo, para a análise de algumas formas de capital
financeiro, tais como empréstimos bancários e de investimento de portfólio.
20. Para uma discussão da política regional e de redes de produção, consulte Cabus e Hess (2000).

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 153


porativo dentro dela. A perspectiva da RPG, determinado produto, e como estas estão
em outras palavras, atribui um grau de auto- organizadas em níveis global e regional;
nomia relativa às firmas nacionais, governos - a distribuição do poder corporativo no in-
e outros atores econômicos (por exemplo, os terior dessas redes, e alterações nas mesmas;
sindicatos, se for o caso), cujas ações têm po- - a importância do trabalho e dos pro-
tencialmente implicações significativas para cessos de criação e transferência de valor;
os resultados econômicos e sociais das redes - as instituições – em particular, agên-
nos locais em que se incorporam; cias governamentais, mas também, em al-
- estruturas insumo-produto dentro das guns casos, sindicatos, associações patro-
redes têm uma importância central, até por- nais e ONGs – que influenciam a estratégia
que são estas que constituem os lugares on- da firma nos locais específicos integrados
de o valor é gerado e onde as enormes va- na cadeia de produção; e
riações nas condições de trabalho que exis- - as implicações de todos estes fatores no
tem ao redor do mundo são produzidas. que tange ao aperfeiçoamento tecnológico,
Consequentemente quaisquer trabalhos so- à adição e captura de valor, à prosperidade
bre redes intra e inter-firma devem prestar econômica, etc., para as diferentes firmas e
atenção significativa a estas estruturas e a sociedades integradas nas cadeias.
suas consequências; Mais especificamente os componentes do
- um entendimento da ‘territorialidade’ modelo da RPG podem ser desagregados –
das redes de produção – a saber, como se para fins de elaboração – por referência à fi-
constituem e são re-constituídas por arran- gura 1. Enquanto elaboramos esses compo-
jos econômicos, sociais e políticos dos luga- nentes abaixo, vale à pena referir-se aqui à
res nos quais se localizam – é fundamental nossa concepção de ‘tecnologia’ no esquema.
para uma análise das perspectivas de desen- Enquanto algumas contribuições reconhe-
volvimento ao nível local; cem o papel central da mudança tecnológi-
- a distinção entre redes ‘dirigidas por ca e das tecnologias de informação e comuni-
produtores’ e ‘dirigidas por compradores’ é cação (TIC) na formação e transformação das
mais fluida do que o trabalho de Gereffi le- redes globais, nós rejeitamos ‘tecnologia’ co-
va em conta, com combinações de ambas mo uma categoria separada. Em vez disso, as
nas mesmas áreas de produto e, de fato, em TICs são mais propriamente apreendidas co-
alguns casos no mesmo setor (por exemplo, mo um elemento inerente das RPGs, subja-
autopeças e eletroeletrônicos), e; centes ao desenvolvimento e à manutenção
- em alguns setores (produtos farma- das conexões da rede. A tecnologia, como
cêuticos e alguns eletrônicos, por exemplo) uma das forças motrizes da globalização, in-
alianças tecnológicas e acordos de licencia- fluencia os processos de criação de valor em
mento são as formas de associação inter-fir- diferentes locais, igualmente transformando
ma que podem ter implicações significativas os meios pelos quais o poder é exercido. Além
para o desenvolvimento. Consequentemen- disso, ela afeta as possibilidades dos agentes
te, eles exigem a atenção por si próprios. de enraizar-se em, e de desenraizar-se de re-
Metodologicamente, então, a perspecti- des e territórios específicos.
va da RPG dirige a atenção para: Uma visão semelhante é tomada da no-
- as redes de firmas envolvidas em P&D, ção de espacialidade. Configurações espa-
design, produção e comercialização de um ciais específicas são características ineren-

154 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


tes a todas as redes; cada RPG pode ser ma- va a outra importante faceta da espacialida-
peada ao ‘posicionar’ seus agentes e esboçar de; a saber, o caráter limitado das atividades
suas conexões mútuas. Pela mesma razão, de rede, por exemplo, dentro do espaço políti-
toda forma de enraizamento tem sempre um co do Estado nacional (ou em contextos fede-
caráter espacial intrínseco. rais, subnacional).
Há, no entanto, outros aspectos da espa- Enquanto os agentes empresariais são ca-
cialidade a serem considerados. Em primeiro pazes de transcender as fronteiras políticas ou
lugar, há a questão de escalaridade. Todas as outras (culturais, por exemplo) entre os terri-
RPGs têm de ser consideradas como multies- tórios, a maioria das instituições não econô-
calares, estendendo-se dos planos local e re- micas são limitadas – e, portanto, restritas –
gional aos níveis nacional e global, e retor- por seus contextos espaciais em diferentes es-
nando novamente.21 Tais redes multiescala- calas geográficas. Isto, naturalmente, tem di-
res são construídas e transformadas ao longo versas implicações para o desenvolvimento,
do tempo por uma multiplicidade de agentes especialmente em termos da distribuição do
com influência e poder assimétricos. Isso le- poder e da criação e captura de valor.

Figura 1
Um modelo para a análise da RPG

Categorias Valor Poder Enraizamento


- Criação - Corporativo - Territorial
- Ampliação - Coletivo - Em rede
- Captura - Institucional

Dimensões Valor Estruturas


Firmas Redes (Empresariais/
- Propriedade Políticas)
- “Arquitetura” - “Arquitetura”
- Config. de Poder
Instituições Configuração - Governança
- Governamental Coordenação
- Semi-governamental Setores
- Não governamental - Tecnologias
- Produtos/Mercados

Desenvolvimento

21. Em outras obras, um continuum de escalas (ver Swyngedouw, 1997; Dicken e Malmberg, 2001).

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 155


3.1 Categorias Conceituais nos principais mercados (‘rendas de marca’).
Em certos setores e circunstâncias (e) rendas
Há três elementos principais sobre os adicionais podem advir para algumas firmas
quais a arquitetura do modelo da RPG se er- como consequência das carências de produ-
gue. O primeiro deles é: to criadas por políticas comerciais protecio-
- Valor: por ‘valor’ queremos nos referir nistas (‘rendas de política comercial’), em-
tanto às noções marxianas de mais-valia e a bora esta seja outra questão que conecta as
outras mais ortodoxas associadas com ren- questões de criação de valor aos contextos
da econômica. Assim, estamos interessados institucionais (nacional e internacional, nes-
nos seguintes temas. te caso) dentro dos quais as firmas operam.
- A criação inicial de valor dentro de ca- - As circunstâncias nas quais o valor po-
da uma das firmas incorporadas a uma da- de ser ampliado. As questões aqui envolvi-
da RPG. As questões significativas aqui in- das incluem: (a) a natureza e a extensão das
cluem as condições sob as quais a força de transferências de tecnologia tanto de den-
trabalho é convertida em trabalho real atra- tro quanto de fora de dada rede de produ-
vés do processo de trabalho; e as possibili- ção; (b) a extensão em que as firmas líderes
dades para a geração de diversas formas de e outras empresas principais dentro da rede
renda. Na primeira, os temas do emprego, colaboram com fornecedores e subcontrata-
qualificação, condições de trabalho e tecno- das para melhorar a qualidade e a sofistica-
logia de produção são importantes, bem co- ção tecnológica dos seus produtos; (c) como
mo as circunstâncias nas quais são reprodu- consequência, ou demandas por habilidades
zidos (conectando, portanto, estas questões em determinados processos de trabalho au-
a temais sociais e institucionais mais am- mentam com o tempo; (d) ou firmas locais
plos). Na última (ver KAPLINSKY, 1998; GE- podem começar a criar rendas organizacio-
REFFI, 1999b) as questões consistem em se nais, relacionais e de marca próprias. Em to-
uma firma determinada pode gerar rendas a dos esses casos, as influências institucionais
partir de (a) um acesso assimétrico a tecno- nacionais às quais as firmas estão sujeitas
logias-chave de produto e processo (‘rendas (agências governamentais, sindicatos, asso-
tecnológicas’); (b) de qualificações organiza- ciações patronais, por exemplo) podem ser
cionais e gerenciais, como técnicas de pro- decisivas para as possibilidades de amplia-
dução ‘just-in-time’ e ‘controle de qualida- ção de valor.23
de total’, etc. (‘rendas organizacionais’); (c) - As possibilidades que existem para o
relações inter-firma variadas que podem en- valor ser capturado. Uma coisa é o valor ser
volver a gestão dos vínculos de produção criado e ampliado em determinados locais,
com outras firmas, o desenvolvimento de mas pode ser outra bem diferente que ele seja
alianças estratégicas, ou a gestão das rela- capturado para o benefício desses locais. Os
ções com os clusters de pequenas e médias temas pertinentes aqui, em parte, envolvem
empresas (‘rendas relacionais’); ou (d) do es- (a) questões de política governamental, mas
tabelecimento de proeminência de marca22 também envolvem (b) questões de proprieda-

22. Brand-name prominence no original.


23. Há uma crescente literatura que aborda tais preocupações em relação às diferentes ‘qualidades’ do in-
vestimento externo direto. Veja, por exemplo, Turok (1993, AMIN et al, 1994; YOUNG et al, 1994).

156 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


de da firma e (c) da natureza da governança vas para a ampliação e captura de valor e,
corporativa em determinados contextos na- portanto, para as perspectivas de desenvol-
cionais. No primeiro caso, a natureza dos di- vimento e prosperidade.26 Há três formas de
reitos de propriedade e, portanto, as leis que poder que são significativas aqui.
regem as estruturas de propriedade e a repa- - Poder corporativo. Aqui temos em men-
triação de lucros podem ser importantes, en- te a extensão na qual a firma líder na RPG
quanto na segunda a extensão em que as fir- possui capacidade de influenciar decisões e
mas são de propriedade estrangeira total, de alocações de recursos – vis-à-vis a outras
propriedade inteiramente doméstica, ou en- firmas na rede – decisiva e consistentemen-
volvem capital partilhado como em arranjos te em seus próprios interesses. Nossa adoção
do tipo joint-venture, continua a ser determi- de um discurso de rede implica a rejeição
nante, como uma longa tradição na econo- de uma concepção de poder de soma zero,
mia política do desenvolvimento tem argu- de modo que as firmas raramente, ou nun-
mentado, e a experiência recente na Grã-Bre- ca, têm um monopólio do poder corporati-
tanha, por exemplo, tem sublinhado.24 No ter- vo. Ao invés, enquanto o poder é com frequ-
ceiro caso, a extensão na qual a governança ência assimetricamente distribuído em redes
corporativa se baseia nos princípios das par- de produção, firmas menores às vezes (e por
tes interessadas, em vez de no domínio dos motivos contingentes) têm autonomia sufi-
acionistas (e exigida pelo estatuto legal) pode ciente para desenvolver e exercitar suas pró-
ter consequências importantes para determi- prias estratégias para aperfeiçoar suas ope-
nar se o valor gerado em um determinado lo- rações, etc. Além disso, pelo menos em prin-
cal é mantido lá e realmente usado para o be- cípio, firmas menores incorporadas às redes
nefício do bem público.25 O problema da cap- têm a possibilidade de se combinar com ou-
tura de valor, então, ressalta a importância da tras empresas de pequeno porte para melho-
variedade nacional do capitalismo – e, por- rar a sua situação coletiva dentro da RPG
tanto, de questões de expectativas, direitos e (como quando clusters de PMEs constituídos
obrigações – para as questões do desenvolvi- como distritos industriais são incorporados
mento econômico e social. a RPGs).27
- Poder: a fonte de poder dentro das RPGs - Poder institucional. Nossa referência
e as formas nas quais é exercido são decisi- aqui é o exercício do poder: (a) pelos Estados

24. Temos em mente o contínuo des-investimento em subsidiárias britânicas (com efeitos em cadeia para os
fornecedores locais) por empresas estrangeiras. Desde 1998, estes incluíram, no mínimo: Siemens, Samsung,
LG e Motorola (na eletrônica), BMW, Ford e General Motors (em automóveis) e Corus (siderurgia).
25. A Alemanha, de um lado, e a Grã-Bretanha e os EUA, de outro, constituem pólos opostos neste senti-
do. Neste último caso, os acionistas têm poder supremo sobre a disposição de lucros e ativos, enquanto no
primeiro os proprietários são obrigados a considerar os interesses de outras partes interessadas e da força
de trabalho em particular (LANE, 1989). Com efeito, na Alemanha, os titulares de propriedade têm a obri-
gação constitucional de exercer os seus direitos no interesse do bem público (HUTTON, 2001).
26. Apesar de não teorizada em termos de poder, a discussão de Humphrey e Schmidt (2001) sobre as es-
truturas de governança de ‘cadeias de valor’ é um importante complemento, neste momento, ao nosso tra-
balho.
27. Castells desenvolve idéias semelhantes a essas no que diz respeito ao exercício das políticas econômi-
ca e externa por parte dos Estados nacionais absorvidos em ‘Estados rede’ (da qual a União Européia é o
protótipo). Ver Castells (2000b, cap. 5) e também Carnoy e Castells (2001).

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 157


nacional e locais (neste último caso, quando tamente e causa impactos sobre as empresas,
o Estado nacional é constituído como um go- forças de trabalho e comunidades através das
verno federal), (b) por agências interestadu- políticas econômicas e sociais que os gover-
ais internacionais que vão desde a cada vez nos nacionais são obrigados a implementar.
mais integrada União Européia de um lado, O poder das agências da ONU é de menor im-
até confederações mais frouxas como a ASE- portância do que qualquer dos outros à me-
AN ou a NAFTA, por outro lado, (c) pelas ins- dida que sua influência sobre as firmas é não
tituições de ‘Bretton Woods’ (Fundo Monetá- apenas indireta, mas também apenas mo-
rio Internacional, Banco Mundial) e a Orga- ral e consultiva. A importância das agências
nização Mundial do Comércio; (d) pelas di- de classificação de crédito é potencialmen-
versas agências das Nações Unidas (especial- te considerável, tanto diretamente para mui-
mente a OIT); e (e) pelas agências de classifi- tas empresas líderes e, indiretamente, através
cação de crédito (Moodys, Standard and Po- de suas avaliações de risco de crédito dos go-
or, etc.), que exercem uma forma única de vernos nacionais. No entanto, ainda sabemos
poder institucional privado. A capacidade de pouco sobre as formas em que a sua influên-
exercer poder para influenciar o investimen- cia é exercida (contudo, ver SASSEN, 1999).
to e outras decisões de firmas líderes e ou- - Poder coletivo. Por esta forma de poder
tras empresas integradas à RPG é inevitavel- compreendemos as ações de agentes cole-
mente assimétrica e varia tanto dentro quan- tivos que procuram influenciar companhias
to entre estas cinco categorias. Assim, no que em localidades específicas das RPGs, seus
diz respeito aos Estados nacionais, alguns de- respectivos governos e, por vezes, agências
les na Ásia Oriental (em especial a Coréia do internacionais (mais recentemente, o FMI
Sul e Taiwan, mas, mais recentemente, a Chi- e a OMC, em particular). Exemplos de tais
na) vêm sendo percebidos nas últimas déca- agentes coletivos incluem sindicatos, asso-
das, como estando entre os mais capazes de ciações patronais e organizações que pro-
influenciar empresas privadas com vistas à movem determinados interesses econômi-
industrialização e ao desenvolvimento (den- cos (por exemplo, as de pequenas empre-
tre uma literatura enorme ver WADE, 1990; sas), ONGs preocupadas com os direitos hu-
HENDERSON, 1993), enquanto Estados tão manos, questões ambientais, etc. Estes or-
díspares quanto os da Grã-Bretanha e Indo- ganismos podem ser nacionais ou locais, ou
nésia tem sido muito menos capazes de fa- podem ser organizados internacionalmente,
zê-lo.28 O poder das agências interestaduais é como alguns sindicatos (por exemplo, o In-
potencialmente considerável – principalmen- ternational Metal Workers) ou organizações
te no caso da UE – embora permaneça pouco de direitos humanos (como a Anistia Inter-
desenvolvido em qualquer outro lugar. O po- nacional). Na maioria dos casos em que es-
der das instituições de Bretton Woods, embo- sas agências estão engajadas, elas tentam
ra possa ser considerável, é exercido indire- exercer poder de contraposição, seja direta-

28. Este obviamente não é o lugar para explicar tais discrepâncias, exceto para marcar que as respostas
parecem estar em uma combinação de vontade política (ou sua ausência) e de diferentes capacidades ins-
titucionais para a governança econômica. Para os casos britânico e indonésio ver Hutton (1995) e Hill
(1996), respectivamente. Para mais descrições gerais e teóricas da relação entre as capacidades do Estado
e o desenvolvimento econômico ver Evans (1995) e Evans e Rauch (1999).

158 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


mente sobre firmas ou grupos particulares As empresas locais que emergiram de
dentro de determinadas redes, ou indireta- contextos sociais e institucionais evoluem
mente, sobre os governos nacionais ou as ao longo do tempo sobre as bases de trajetó-
agências internacionais. rias que são, em parte, um reflexo destes con-
- Enraizamento: RPGs não apenas co- textos. Como muitos estudiosos têm aponta-
nectam funcional e territorialmente as fir- do que diz respeito às sociedades previamen-
mas, mas também conectam aspectos dos te socialistas de Estado da Europa Oriental,
arranjos sociais e espaciais nos quais aque- estes percursos são ‘dependentes de trajetó-
las firmas estão enraizadas e que influen- ria’ e, portanto, em certa medida, historica-
ciam suas estratégias e os valores, priorida- mente restritos (por exemplo, STARK, 1992;
des e expectativas dos gestores, trabalha- HAUSNER et al., 1995; CZABAN; HENDER-
dores e comunidades afins. As formas nas SON, 1998). Embora seja importante reco-
quais os diferentes agentes estabelecem e nhecer que tais restrições não são imutáveis
desempenham suas conexões com os outros e que sua influência pode estar diminuindo –
e as especificidades dos processos de enrai- e não devido à globalização – também é im-
zamento e desenraizamento se baseiam, em portante reconhecer que algumas firmas lí-
certa medida, na ‘herança’ e na origem des- deres, ao investir no exterior, podem levar a
ses agentes. Empresas – sejam elas multi- ‘bagagem’ institucional de suas bases domés-
nacionais ou pequenas empresas locais – ticas com elas. Mas outras podem também
surgem dos, e continuam a ser influencia- tender a operar no, ou próximas do mínimo
das pelos, tecidos institucionais e contex- denominador comum que as políticas domés-
tos sociais e culturais de variedades parti- ticas e estruturas jurídicas permitirão.29
culares de capitalismo (ou, no caso da Eu- Entre as diferentes dimensões e aspectos
ropa Oriental, China, etc. antes da década de do enraizamento,30 há duas formas conexas
1980, variedades específicas de socialismo de enraizamento de firma e de rede que são
de Estado) em seus países de origem. Embo- de interesse aqui. A primeira forma, territo-
ra a natureza dos sistemas educacional, de rial, lida com a ‘ancoragem’ das diversas fir-
formação profissional e trabalhista e as fon- mas da RPG em lugares diferentes (do Esta-
tes e organização do financiamento sejam do-nação ao nível local), que afeta as pers-
importantes, a natureza da política de Es- pectivas para o desenvolvimento desses lo-
tado e do quadro legal constituem priorida- cais. A segunda forma, enraizamento de re-
des e estratégias de especial relevância para de, refere-se à estrutura de rede, ao grau de
o desenvolvimento da firma (cf. ZYSMAN, conectividade dentro de uma RPG, à estabi-
1983; HUTTON, 1995; WHITLEY, 1999). lidade das relações de seus agentes e à im-

29. As empresas japonesas, por exemplo, nunca ofereceram contratos de ‘emprego permanente’ aos fun-
cionários de suas filiais estrangeiras. Da mesma forma, as empresas alemães, embora determinadas pelas
legislações nacional e da UE a consultar amplamente os funcionários antes de instituir programas de de-
missão, nunca fizeram o mesmo em países onde tais leis não se aplicam. Desinvestimentos recentes na
Grã-Bretanha pela Siemens e pela BMW são casos em questão.
30. Como Oinas (1997), Markusen (1999) e Pike et al. (2000), entre outros, apontaram, a noção de embe-
ddedness continua bastante vaga e portanto, necessita de aperfeiçoamento conceitual. No entanto, sua im-
portância para a compreensão da organização econômica é amplamente reconhecida, mesmo por vozes
críticas (ver, por exemplo, Sayer, 2000).

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 159


portância da rede para os participantes. Am- mação de novos nós em redes globais, ou o
bas as formas, naturalmente, são o resultado que Hein (2000) descreve como ‘novas ilhas
de processos essencialmente sociais e espa- de uma economia-arquipélago’. Mas os efei-
ciais de ‘enraizamento’. tos positivos do enraizamento em um deter-
- Enraizamento territorial. RPGs não se li- minado lugar não podem ser tidos como cer-
mitam a localizar-se em lugares particulares. tos ao longo do tempo. Por exemplo, uma vez
Eles podem enraizar-se ali, no sentido de que que uma firma líder corte seus laços dentro
eles absorvem e, em alguns casos, são cons- de uma região (por exemplo, via desinvesti-
trangidos, pelas atividades econômicas e di- mento ou fechamento da instalação), um pro-
nâmicas sociais que já existem nesses locais. cesso de desenraizamento ocorre (PIKE et al.,
Um exemplo aqui é a maneira pela qual as 2000, p. 60), potencialmente minando a base
RPGs de firmas líderes específicas podem ti- anterior de crescimento econômico e captu-
rar proveito dos clusters de pequenas e mé- ra de valor. Do ponto de vista do desenvolvi-
dias empresas (com suas redes sociais e mer- mento, então, o modo de enraizamento terri-
cados de trabalho locais decididamente im- torial ou o grau de comprometimento de uma
portantes) que antecedem o estabelecimento firma da RPG a uma localidade particular, é
de operações de subcontratação ou de subsi- um fator importante para a criação, amplia-
diárias daquelas firmas. Além disso, a locali- ção e captura de valor.
zação de firmas líderes em lugares específicos - Enraizamento de rede. RPGs são carac-
pode gerar uma nova rede local ou regional terizadas não apenas por seu enraizamen-
de relações sociais e econômicas, envolven- to territorial, mas também pelas conexões
do as firmas já existentes, bem como atrain- entre membros da rede, independentemen-
do novas empresas. O enraizamento torna- te do seu país de origem ou da ancoragem
-se, então, um elemento-chave no crescimen- local em lugares específicos. É, sobretudo,
to econômico regional e na captura de opor- a ‘arquitetura’, durabilidade e estabilidade
tunidades globais (HARRISON, 1992; AMIN; destas relações, tanto formais como infor-
THRIFT, 1994).31 As vantagens obtidas em mais, que determina o enraizamento de rede
termos de criação de valor, etc., podem resul- individual dos agentes (enraizamento ator-
tar em ‘bloqueio’32 espacial para aquelas fir- -rede), bem como a estrutura e a evolução
mas com implicações em cadeia para outras da RPG como um todo. Enquanto o primei-
partes da RPG dessa firma (ver GRABHER, ro se refere às relações do indivíduo ou da
1993; SCOTT, 1998). Da mesma forma, polí- firma com outros atores, este último consis-
ticas governamentais nacionais e locais (pro- te não apenas dos agentes econômicos33 en-
gramas de formação profissional, incenti- volvidos na produção de um determinado
vos fiscais, etc.) podem funcionar para enrai- bem ou serviço, mas também leva em con-
zar partes específicas da RPG em determina- ta as redes institucionais mais amplas, in-
das cidades ou regiões, a fim de apoiar a for- cluindo agentes não econômicos (por exem-

31. Há também um lado negativo. A natureza das redes locais e relações socioeconômicas em determina-
das circunstâncias pode gerar uma incapacidade de captar oportunidades globais e levar à recessão eco-
nômica regional (OINAS, 1997, p. 26). Enraizamento forte, portanto, não é necessariamente uma qualida-
de ‘boa’ ou positiva das redes ou de seus agentes.
32. Lock-in no original.

160 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


plo, organizações governamentais e não- lações de trabalho, a natureza de suas rela-
-governamentais). O enraizamento de rede ções com fornecedores, etc. Como consequ-
pode ser considerado como o produto de um ência seria de se esperar que, embora possa
processo de construção de confiança entre haver semelhanças entre as formas nas quais
os agentes da rede, o que é importante para firmas no mesmo setor operam (geram valor,
relacionamentos bem sucedidos e estáveis. exercem seu poder sobre fornecedores, etc.),
Mesmo dentro de redes intra-firma, onde as haverá ainda importantes diferenças específi-
relações são estruturadas pela integração e cas da firma, sendo não menos relevantes as
controle de propriedade, a confiança entre que concernem aos locais onde firmas líde-
as diferentes unidades da firma e as diferen- res decidem investir ou estabelecer conexões
tes partes interessadas34 envolvidas poderá com fornecedores e subcontratadas. Estas di-
ser um fator crucial, como no caso de joint ferenças podem resultar da natureza do regi-
ventures (YEUNG, 1998). me de propriedade (arranjos de capital36, e/ou
‘nacionalidade’), capricho gerencial ou po-
3.2 Dimensões conceituais dem derivar de valores incorporados na evo-
lução da firma.37 Independentemente da fon-
As categorias esboçadas acima são te dessas diferenças, é provável que tenham
‘energizadas’ e ‘nutridas’ através de uma implicações para as formas nas quais suas
variedade de dimensões conceituais. Estas RPGs são construídas (caso sejam firmas lí-
constituem as estruturas através das quais o deres) ou para as formas nas quais participam
valor é criado, o poder é exercido e as ins- (procuram desenvolver e exercer autonomia,
tituições enraízam, etc., produzindo efeitos por exemplo) na RPG de outra firma (caso se-
concretos em termos de iniciativas particu- jam fornecedores e subcontratados).
lares e políticas. Há quatro grandes catego-
rias que são de importância.35 3.2.2 Setores

3.2.1 Firmas Enquanto RPGs têm características que


são específicas da firma, firmas que ope-
Uma firma claramente não é o mesmo que ram no mesmo setor estão inclinadas a criar
outra. As empresas, mesmo dentro do mes- RPGs que têm algum grau de similaridade.
mo setor, diferem em termos de suas priorida- As razões para isso são que as tecnologias
des estratégicas, suas atitudes acerca das re- similares, produtos e restrições de merca-

33. Business agents no original.


34. Stakeholders no original.
35. Este parágrafo foi bastante modificado, considerando as dificuldades de entendimento do original:
“The categories sketched above are ‘energized’ and ‘live’ through a number of conceptual dimensions.
These constitute the frameworks through which value is created, power exercised or institutional embed-
dedness etc. given concrete effect in terms of particular initiatives and policies. There are four broad di-
mensions that are of significance” (pg. 453).
36. Equity arrangements no original.
37. Exemplos na Grã-Bretanha incluem a postura ética de empresas como o Co-operative Bank e a Bo-
dy Shop.

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 161


do são suscetíveis de conduzir a formas se- neiras pelas quais o poder é mobilizado e exer-
melhantes de criar vantagem competitiva e, cido são suscetíveis de variação em razão de
portanto, arquiteturas de RPG muito seme- uma combinação de motivos específicos à fir-
lhantes. Assim, para nossos propósitos, um ma e ao setor, é razoável esperar que a arqui-
setor precisa ser definido por outros crité- tetura da governança provavelmente, apresen-
rios que não a mera classificação estatística. te considerável variação. Como consequência,
Além de ser uma estrutura única de concor- é provável que haja variação significativa, por
rência e tecnologia, firmas no mesmo setor exemplo, na extensão em que firmas secundá-
econômico normalmente compartilham uma rias em uma determinada rede são capazes de
‘linguagem’ comum e uma estrutura parti- exercer certo grau de autonomia que lhes per-
cular de comunicação específica àquele sec- mitiria mover-se em direção a atividades de
tor (Hess, 1998). Um setor inclui não ape- maior valor agregado39 com suas implicações
nas uma gama de empresas, dos produtores mais positivas para o desenvolvimento econô-
líderes do setor a fornecedores de diferen- mico. Até que se realizem mais pesquisas sen-
tes elementos, incluindo funções de serviço, síveis a essas variações, é prematuro avançar
mas a sua estrutura de governança é mui- para uma concepção fechada de estruturas de
tas vezes complementada por organizações governança de rede.
feitas sob medida38, tais como grupos indus-
triais de pressão (por exemplo, associações 3.2.4 Instituições
patronais e laborais), instituições de forma-
ção profissional ou outros. Estas particula- Em princípio, os arranjos institucionais
ridades setoriais criam ambientes regulató- causam impactos tanto local quanto global-
rios específicos ao setor, onde determinadas mente sobre as RPGs.40 Eles podem ser de
questões são abordadas por políticas gover- grande importância na geração de valor lo-
namentais em diferentes escalas. Exemplos calmente, em sua ampliação e na sua captu-
destes incluem o acordo multifibras supra- ra. Além disso, eles podem ser de maior im-
nacional para o setor têxtil e de vestuário e portância no estabelecimento de normas (in-
políticas ‘setoriais’ nacionais para fomentar cluindo o tom moral) para as relações de tra-
a inovação e competitividade (como é o caso balho, condições de trabalho e níveis sala-
das políticas industriais automobilística e de riais. Eles são, em outras palavras, centrais
eletrônicos de alguns países asiáticos). para a questão de saber se RPGs podem pro-
duzir desenvolvimento social e econômi-
3.2.3 Redes co sustentado nos locais que incorporam. É
importante reconhecer, naturalmente, que as
É dentro das várias redes que questões es- consequências que as instituições têm para as
pecíficas de governança surgem. Como as ma- RPGs e suas operações e implicações locais e

38. Purpose-built organizations no original.


39. Value-added no original.
40. Da perspectiva da teoria ator-rede, RPGs seriam instituições por si mesmas. No entanto, esta não é a po-
sição adotada aqui. Ao contrário, as instituições são percebidas como formações sociais e políticas – sejam
elas subnacionais, nacionais ou internacionais – com histórias associadas, valores e práticas culturais que
têm consequências para o modo como RPGs se formam e se desenvolvem ao longo tempo.

162 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


internacionais, podem ser positivas ou nega- te poderia ser o caso de uma firma líder com
tivas. No último caso, o tecido institucional atividades fortes de P&D, design, marketing
da Rússia pós-socialista, por exemplo, pare- e outros serviços retidos em seu país de ori-
ce ser um caso em questão, para todo tipo de gem, enquanto dispersa seus processos de
redes criminosas (ver Castells, 2000b: capítu- produção de baixo valor agregado para ou-
los 1 e 3), como são algumas das decisões de tros países. Em contraste, a Região C é um
política recente do FMI (em relação à crise do local de criação de valor, mas é incapaz de
leste asiático, por exemplo) e da OMC. capturar grande parte dele como resulta-
do, por exemplo, da propriedade externa de
3.3 Categorias e dimensões da RPG: muitos dos fornecedores de primeira e se-
um exemplo estilizado gunda camadas lá presentes e das transfe-
rências de lucros às respectivas sedes corpo-
Como uma indicação de como as RPGs po- rativas fora da região.
dem ser visualizadas e analisadas, nós desen- Dois exemplos de baixa criação de va-
volvemos a seguir uma técnica de mapeamen- lor são as Regiões B e D. A última demons-
to que nos permite destacar e comparar os seus tra pouca ou nenhuma capacidade de cap-
principais elementos e ligações. Nós a aplica- turar qualquer valor que esteja sendo criado
mos a um exemplo estilizado41, a fim de su- dentro da região, como muitas vezes tem si-
blinhar a potencial importância do modelo da do o caso de circunstâncias puramente do ti-
RPG para a análise das conexões inter-organi- po ‘planta filial’42. Nem o baixo valor agrega-
zacionais e sua relação com o desenvolvimen- do em termos de produtos ou tecnologia, nem
to econômico nas regiões, Estados e localida- o fortalecimento de competências (valor sob
des afetadas pela RPG em questão. a forma de conhecimento) são incomuns nes-
Na Figura 2, esboçamos uma RPG ope- te tipo de situação. As implicações positivas
rando em quatro ‘regiões’ e composta de di- para o desenvolvimento de serem integradas
ferentes tipos de firmas e envolvendo orga- em uma RPG, sob tais circunstâncias, portan-
nizações de escopos variados, da influência to, são bastante limitadas. Na região B, por
local ao poder global. Em cada uma das re- outro lado, embora não seja criado muito va-
giões, sejam elas arenas geográficas (como lor, a maior parte dele é capturada na região.
a Europa Oriental), blocos econômicos (tais Neste caso, a capacidade de capturar valor
como a União Européia), Estados-nação ou é reforçada pelas instituições não econômi-
territórios subnacionais, o valor é criado e cas43, apresentadas na Figura 1. Essa capaci-
capturado, mas em graus diferentes. A Re- dade, naturalmente, é fortemente relaciona-
gião A, por exemplo, demonstra altos graus da às questões do poder e de sua distribuição.
de geração e de captura de valor, sem con- O poder exercido dentro da RPG po-
ter muito dos fluxos materiais da rede. Es- de ser apresentado como fluxos não ma-

41. Esse exemplo é generalizado e, portanto, de modo algum abrangente; RPGs reais, naturalmente, têm
muito mais vínculos e agentes do que poderiam ser esboçados aqui. Por exemplo, devido a restrições grá-
ficas, os fluxos de rede intra-firma da empresa líder não são mostrados na Figura 2.
42. Branch plant no original.
43. Non-firm institutions no original.

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 163


Figura 2
Mapeamento de redes de produção globais – um exemplo estilizado

Ex.: FMI Firma Central, Setor Diverso

Região A Ex.: P&D Conjunto para


Sistemas Específicos

Ex.: Sindicato

Firma Central
Ex.: Prefeitura

Região C
Ex.: Legislação de
Transferência de Lucro Ex.: Grupo Ambiental Nacional Ex.: OEM

Ex.: MF Nacional
Região D
Região B

Legenda

Instituições: Influência/ global Tipo: estatal


Alcance
nacional semi-estatal

local/regional não estatal

Firmas: Produtor Final/ Membro da rede Distribuidor/ Cor:


Montador (firma central) de 1a Camada Varejista
Subsidiária/ Setor x
Membro da rede
Planta Filial
de 2a Camada Setor y
OEM

Relações/Fluxos:
Relação Dominada
Poder/informação Input/Output
Imaterial: (Direção, Intensidade) Material: (Quantidade/Importância)
Relação Mútua
Criação de Valor
Espaço/Lugar:
baixa alta
baixa
Captura de Valor
alta

164 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


teriais entre diferentes agentes (firmas, as- do, são comparativamente fortes, indicando
sim como outras organizações). O proces- um alto grau de enraizamento de rede.
so de geração e captura de valor na Região Em suma, a técnica de mapeamento da
B, por exemplo, é fortemente determinado RPG demonstrada aqui fornece a possibili-
pelo poder de instituições globais (FMI, por dade de visualizar os agentes econômicos
exemplo) e agências governamentais na- e sociais, bem como destacar as dimensões
cionais, aqui representadas pelo Ministério estrutural e espacial das redes, setores, e das
da Fazenda (MF) influenciando as transfe- ligações entre eles. Ela nos permite visua-
rências de lucros de subsidiárias de proprie- lizar as implicações da RPG para o desen-
dade estrangeira. Um caso real em questão volvimento em lugares diferentes dentro do
seria a RPG de montadoras automotivas es- alcance territorial da RPG, e os principais
trangeiras na China, onde o poder do go- agentes responsáveis por essas implicações.
verno é usado para influenciar a localiza- O que não pode ser mostrada, claro, é a evo-
ção da produção e, por conseguinte, o pro- lução da RPG ao longo do tempo (depen-
cesso de geração e captura de valor, in- dência de trajetória) e as pré-condições es-
cluindo os aspectos de emprego, competên- truturais que a conformam (tais como dife-
cias e transferência de tecnologia. rentes capitalismos nacionais ou modos na-
O poder corporativo de algumas firmas cionais de regulação). Todavia, o que temos
sobre seu ambiente regional, por outro la- aqui é um modelo transcendente de esca-
do, é exemplificado pela firma líder afetan- las44 das redes de produção globais que pro-
do a administração local da Região A, como porciona um sentido de suas prováveis im-
mostrado na Figura 2, enquanto o poder co- plicações para o desenvolvimento econômi-
letivo é exercido pelo sindicato. Há muitos co e social.
exemplos onde uma companhia ou um gru-
po de firmas são capazes de moldar o am- 4 Conclusão
biente institucional e regional em seu favor,
especialmente nos níveis local e nacional, Neste artigo, foi delineado um quadro
como em regiões economicamente fracas e conceitual para o mapeamento e análise de
ansiosas para atrair ou reter o investimen- certos aspectos da globalização econômica
to externo. – aqueles relacionados à produção e ao con-
O enraizamento territorial da rede em sumo – e suas consequências em termos de
questão não é imediatamente dedutível, mas desenvolvimento. Ao fazê-lo, temos em pri-
pode ser representado pela densidade e in- meiro plano as formas pelas quais as em-
tensidade das conexões locais/regionais, ou presas se organizam e controlam suas ope-
nacionais, entre os diferentes agentes. Fir- rações globais, as maneiras pelas quais elas
mas e organizações na Região D, por exem- são (ou podem ser) influenciadas por Esta-
plo, têm poucas relações, e bastante fracas, dos, sindicatos, ONGs e outras instituições
umas com as outras. Lá, então, o enraiza- em determinados locais e as implicações
mento territorial é limitado. Ligações com que as combinações resultantes de agentes e
outros agentes fora da região, por outro la- processos podem ter para o aperfeiçoamen-

44. Scale-transcending no original.

Redes de produção globais e a análise do desenvolvimento econômico 165


to industrial, maior valor agregado, etc. e, Nota sobre OS autorES
finalmente, para as perspectivas de redução
Jeffrey Henderson é PhD pela University of
da pobreza e/ou de prosperidade generali- Warwick, Reino Unido, Professor de Desen-
zada nesses locais. volvimento Internacional e Diretor do Centre
O modelo que propusemos – da rede de for East Asian Studies (CEAS), University of
produção global – é uma tentativa explícita Bristol, Reino Unido.
de romper com conceituações estado-cen-
Peter Dicken é PhD pela Uppsala University,
tradas de um lado, e de estender significa-
Suécia, e Professor Emérito de Geografia da
tivamente a utilidade analítica e política de School of Environment and Development
formulações congêneres, de outro. A prova (SED), University of Manchester, Reino Unido.
do sucesso, no entanto, vai depender de se o
Neil Coe é PhD pela University of Durham,
modelo da RPG estimula pesquisas que pro-
Reino Unido, e Professor de Geografia Econô-
piciem análises que sejam tanto empírica
mica da School of Environment and Develop-
quanto teoricamente mais ricas que as atu- ment (SED), University of Manchester.
ais. Mais importante, porém, ela vai depen-
der de se o modelo ajuda a produzir pesqui- Martin Hess é PhD pela University of Munich,
Alemanha, e Professor de Geografia Humana
sas que contribuam de forma mais eficaz à
da School of Environment and Development
tarefa de melhorar a condição humana na
(SED), University of Manchester.
era da turbulência econômica e geopolítica
na qual vivemos. Henry Wai-Chung Yeung é Phd pela Universi-
ty of Manchester, Reino Unido, e Professor de
Geografia Econômica da National University
Agradecimentos
of Singapore.

Este artigo baseia-se no trabalho reali-


zado sob os auspícios do projeto do Econo-
mic and Social Research Council, Making
the Connections: Global Production Ne-
tworks in Europe and East Asia (Grant R #
000 238535). Estamos gratos ao ESRC por
seu apoio e a Dieter Ernst, John Humphrey,
Alisdair Rogers, a três revisores anônimos e
aos participantes na Conferência Anual da
Associação de Estudos Globais (Manchester,
julho de 2001) por seus comentários sobre
uma versão anterior.

166 R. Pós Ci. Soc. v.8, n.15, jan./jun. 2011


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