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CONTRATOS INTELIGENTES (SMART CONTRACTS)

16.04.2018
SUMÁRIO

1. CONTRATAÇÃO ELECTRÓNICA
- TIPOS DE CONTRATAÇÃO ELECTRÓNICA: INTERPESSOAL, INTERACTIVO E INTERSISTÉMICO.

2. OS CONTRATOS INTELIGENTES EM PARTICULAR


- DISTINÇÃO ENTRE SMART CONTRACT E BLOCKCHAIN.

3. TIPOS DE BLOCKCHAIN: PÚBLICAS, PRIVADAS E HÍBRIDAS.

4. CARACTERIZAÇÃO JURÍDICA DA BLOCKCHAIN E DOS SMART CONTRACTS À LUZ DO DIREITO PORTUGUÊS.

5. CONCLUSÕES, DÚVIDAS E DESAFIOS DA BLOCKCHAIN E DOS SMART CONTRACTS.


CONTRATAÇÃO ELECTRÓNICA

.O que se entende por contratação electrónica?

Definição clássica (usual): modo de contratar em que as declarações de vontade são emitidas electronicamente, através de
uma rede de telecomunicações.

Definição redutora e que não abrange toda a realidade dos contratos electrónicos actuais: não parece incluir a contratação por
intercâmbio electrónico de dados (IED) nem os smart contracts;

Definição mais abrangente: “aquela contratação que se forma mediante manifestações de vontade que se concretizam em
transmissões de dados ou informação através de meios electrónicos” (1)

(1) Francisco Carneiro Pacheco Andrade, “A celebração de contratos por EDI – Intercâmbio Electrónico de Dados”, in Estudos em Comemoração do 10º Aniversário da Licenciatura em Direito da
Universidade do Minho págs. 297- 322.
CONTRATAÇÃO ELECTRÓNICA

Atentando ás diferentes características da contratação electrónica, conseguimos distinguir 3 tipos de contratos electrónicos:

1. Contratos electrónicos interpessoais (art. 30.º da Lei do Comercio Electrónico, “LCE” (2));
2. Contratos electrónicos interactivos (art. 27.º a 29.º da LCE);
3. Contratos eletronicos intersistemicos (art. 33.º da LCE).

Categorização utilizada na doutrina brasileira (3) mas que se encontra espelhada, implicitamente, na LCE.

(2) Decreto-lei n. 7/2004, de 7 de janeiro – Comercio Eletronico no mercado interno e tratamento de dados pessoais.. Comumente designada por Lei do Comercio Eletronico.
(3) Erica Brandini Barbagalo, “Contratos Eletrônicos”, Editora Saraiva, 2001, págs. 48 e segs., que enfatiza as “características que diferenciam os contratos de acordo com o modo de utilização”.
CONTRATOS ELECTRÓNICOS INTERPESSOAIS

Contratos electrónicos interpessoais (art. 30.º da LCE) : contratos celebrados electronicamente mas cuja utilização do
elemento tecnológico tem como única finalidade colocar em contacto duas pessoas.
Dividem-se em duas subcategorias:
Contratos electrónicos interpessoais simultâneos: Contratos electrónicos interpessoais não
celebrados on-line, em tempo real ou em que as partes simultâneos: a declaração da vontade de
se encontram ligadas à rede, simultaneamente. A contratar é recebida pela outra parte em momento
declaração da vontade de contratar é recebida pela outra distinto daquele em que é declarada. A recepção
no mesmo momento em que é declarada, sem da declaração implica uma interacção com a
necessidade de uma outra interacção com a aplicação ou aplicação ou sistema (exemplo: e-mail). [Contratos
sistema (exemplo: chats, videoconferência). entre ausentes(4)].
Equiparados aos contratos celebrados por telefone, uma A mensagem não é recebida instantaneamente.
vez que a declaração e a recepção são feitas
simultaneamente, com resposta imediata [contratos entre
presentes].

(4) Neste sentido ver Ac. Tribunal da Relacao do Porto, Proc. 0827382, de 22 de Set. 2009.
CONTRATOS ELECTRÓNICOS INTERACTIVOS

Contratos electrónicos interactivos (art. 27.º a 29.º da LCE): contratos que resultam da utilização, por uma pessoa, de um
sistema aplicativo (software) disponibilizado por outra pessoa.

Uma pessoa interage com um sistema destinado ao processamento electrónico de informação. Quem disponibiliza o sistema
pode não ter conhecimento imediato da celebração do contrato mas ao disponibilizar (produtos, serviços, etc.) esta a
apresentar uma oferta ao publico (se prestar a informação necessária e esta for clara e precisa e, como tal, possa ser
considerada uma proposta contratual).

Exemplo: contratos celebrados através de páginas na internet / “lojas on-line”.


CONTRATOS ELECTRÓNICOS INTERSISTÉMICOS CONTRATOS INTELIGENTES

Contratos electrónicos intersistémicos (art. 33.º da LCE) – Contratação sem intervenção humana
Contratos caracterizados pela utilização dos sistemas computacionais das partes, interligados entre si. Actuam
autonomamente na troca de dados, sem necessidade de intervenção humana (pelo menos para a sua execução).

Dividem-se em duas subcategorias:

Contratos inteligentes lato sensu Contratos inteligentes stricto sensu


(Contratação electrónica intersistémica automatizada) (Contratação electrónica intersistémica inteligente)
Os sistemas informáticos executam as instruções Contratação efectuada através da intervenção e
previamente programadas pelos programadores (partes), interacção de sistemas informáticos capazes de actuar
de forma autónoma e sem necessidade de intervenção autonomamente, de raciocinar, de aprender com a
humana para esta execução. experiência, de auto-modificar as suas próprias
Exemplo: Contratação através de Intercâmbio Electrónico instruções e de tomar decisões (5).
de Dados (IED) - mais utilizado para gerir encomendas, Máquina <> Máquina
faturas -, Blockchains (bitcoin, ethereum, ripple, etc) Inteligência artificial

(5) Tom Allen / Robin Widdison, ”Can Computers Make contracts?”, ”Harvard Journal of Law and Technology”, volume 9, Nr 1, Winter 1996, in
http://jolt.law.harvard.edu/articles/pdf/v09/09HarvJLTech025.pdf.
CONTRATOS INTELIGENTES SMART CONTRACTS

A primeira definição de contrato inteligente surge em 1994: “protocolo computorizado de transacção que executa os termos de
um contrato”.

E o seu autor identifica como objectivo dos smart contracts:


- Satisfazer os requisitos normais de um contrato (termos de pagamento, obrigações, confidencialidade);
- Minimizar a necessidade de intermediários na realização de transacções;
- Evitar fraude e reduzir as perdas associadas;
- Reduzir custos transaccionais (litigio, custos de transacção, etc);
- Excluir arbitrariedade e subjectividade na execução dos contratos.
CONTRATOS INTELIGENTES SMART CONTRACTS

Os smart contracts, são, portanto, protocolos auto-executáveis desenhados para permitir a troca de contrapartidas (digitais) e /
ou objectos (não digitais), uma vez verificadas as condições estabelecidas.

Partes Condições Contrato


acordam traduzidas em executa-se
condições código e sem
do negócio introduzidas intervenção
na blockchain humana

Exemplo simples: dois amigos apostam num determinado resultado de um jogo de futebol. O smart contract
automaticamente transferirá moeda virtual para o apostador ganhador, assim que o sistema verifica, autonomamente, o
resultado do jogo num website fidedigno, pré-programado e verificado na Blockchain. Os amigos apostadores não podem
intervir, de forma alguma, na execução do contrato.
CONTRATOS INTELIGENTES SMART CONTRACTS

Característica, também, dos smart contracts é necessitarem de uma infra-estrutura digital (de pagamento, por exemplo).

A evolução e a generalização do uso de smart contracts levará, provavelmente, a uma redução significativa da necessidade de
advogados (tais como hoje os conhecemos / “smart lawyers”), intermediários, bancos, etc.

Os smart contracts tornam, por exemplo, as contas escrow, dispensáveis.


SMART CONTRACTS & BLOCKCHAIN

A tecnologia Blockchain consiste num registo imutável de transacções descentralizadas e distribuídas, i.e., todas as
transacções realizadas através da Blockchain são registadas perpetuamente (por estarem criptografadas não é possível
apagá-las) e por serem “distribuídas”, ou seja, partilhadas entre todos os utilizadores, todos estes utilizadores são informados,
em tempo real, do que acontece na blockchain (processo partilhado de validação da informação).
Os smart contracts ainda que tenham surgido bastante antes da tecnologia blockchain podem hoje, pela sua natureza, ser
armazenados e executados através dessa tecnologia.
Perceberemos como funciona a blockchain de uma forma simples:

https://www.youtube.com/watch?v=r43LhSUUGTQ
TIPOS DE BLOCKCHAINS

As blockchains podem ser qualificadas em 3 tipos, de acordo com a forma como podem ser acedidas:

a) Blockchain Pública
Acessível a qualquer utilizador, em qualquer parte do mundo. Exemplos: Bitcoin e Ethereum.

b) Blockchain Privada
Não esta aberta ao público (a informação não é pública) e só é possível aceder à plataforma por convite. Exemplos:
Hyperledger e Ripple (um protocolo para facilitar transferências internacionais de dinheiro).

c) Blockchain Hibrida
O acesso à plataforma também só é possível por convite mas a informação disponibilizada é pública, logo, acessível a
qualquer utilizador, em qualquer parte do mundo. Exemplos: BigchainDB e Evernym (implementa uma identidade digital
soberana).
BLOCKCHAINS PUBLICAS

São a mesma coisa?


É certo que a bitcoin e a ethereum são ambas blockchains públicas e tem por base a mesma tecnologia, a blockchain. Mas são
duas aplicações distintas da blockchain (como, por ex., o e-mail é uma das possíveis utilizações da internet).

Bitcoin: antes de mais, uma moeda virtual (cripto- Ethereum: é uma plataforma de “open software”, em
moeda). Enquanto plataforma de blockchain, oferece que os utilizadores podem criar todas as aplicações
aos utilizadores um sistema de pagamento peer-to- que quiserem (não está limitada a transferências de
peer que permite pagamentos em bitcoins. Não bitcoin, como a Bitcoin), sem necessidade de criar uma
necessita de um código diferenciado para as diferentes blockchain totalmente nova e através de smart
transacções possíveis de bitcoin. contracts.
Blockchain utilizada para rastrear a propriedade da
bitcoin.
BLOCKCHAINS PRIVADAS

Protocolo de pagamento que permite realizar transacções financeiras globais seguras,


instantâneas, sem necessidade de intermediários (pagamento de taxas bancárias) e sem
limites. Criado com foco no sector bancário e os seus clientes são entidades comerciais e
instituições financeiras.
A Ripple permite realizar transferências internacionais entre instituições bancárias em
tempo real.

Ex: A, tem uma conta bancária no Rio de Janeiro, e quer transferir fundos para B, que tem
a sua conta bancaria em Tóquio. Ambos os bancos utilizam a Ripple como sistema de
pagamentos internacionais. Ao pretender efectuar a transferência e através da utilização da
aplicação (blockchain), os bancos são capazes de validar a informação dos seus clientes
(informação essa encriptada) em segundos, apresentar os custos finais da transacção de
forma imediata e precisa e colocar os fundos disponíveis na conta bancária da contraparte
em menos de 10 segundos.
BLOCKCHAIN HIBRIDA

Protocolo de identidade digital. Cria uma identidade digital inalterável, através da


verificação na blockchain de “keys” (não dados pessoais). Intenção é a de eliminar
barreiras com inúmeros logins diferentes, roubo de identidade online, fraude, etc, por
ser possível validar na blockchain diferentes chaves de validação.
SMART CONTRACTS – PARA QUE PODEM SER UTILIZADOS?

Conhecendo as características dos smart contracts podemos afirmar que, de facto, são infindáveis as suas aplicações.

A sua utilidade no sector bancário e financeiro já é inegável mas não haverá outros sectores onde queremos garantir
objectividade e cumprimento imediato e integral da lei?

Exemplo: utilizar a blockchain para desburocratizar os serviços públicos (“simplex na blockchain”).


Segurança Social: não seria útil criar smart contracts cujos “triggers” para que existissem transferências de apoios e
prestações sociais fossem desemprego, invalidez, reforma, licenças de parentalidade, etc?

Ideias?
CARACTERIZAÇÃO JURIDICA DA BLOCKCHAIN E DOS SMART CONTRACTS
CONTRATOS INTELIGENTES SMART CONTRACTS

Com vimos a LCE e, nomeadamente, com o art. 33.º, o legislador português foi mais longe que o legislador comunitário.
Note-se que, na Directiva n.º 2000/31/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 8 de Junho de 2000 (relativa a certos
aspectos legais dos serviços de sociedade de informação, em especial comercio electrónico, no mercado interno), nada se diz
sobre contratos sem intervenção humana.
Mas regulará o art. 33.º da LCE os smart contracts na sua globalidade?
“1. À contratação celebrada exclusivamente por meio de computadores, sem intervenção humana, é aplicável o regime
comum, salvo quando este pressupuser uma actuação.”
2. São aplicáveis as disposições sobre erro:
a) Na formação da vontade, se houver erro na programação;
b) Na declaração, se houver defeito de funcionamento da maquina;
c) Na transmissão, se a mensagem chegar deformada ao seu destino.
3. A outra parte não pode opor-se a impugnação por erro sempre que lhe fosse exigível que dele se apercebesse,
nomeadamente pelo uso de dispositivos de detecção de erros de introdução.”
CONTRATOS INTELIGENTES SMART CONTRACTS

O legislador português parece pressupor que haverá sempre uma actuação humana no próprio artigo cuja epigrafe se refere a
contratação sem intervenção humana - na programação - dai que refira “erro na programação” na al. a) do n.º 2 do art 33.º.
Parece ter pensado apenas nos contratos inteligentes lato sensu (contratação electrónica intersistémica automatizada) e não
nos contratos inteligentes stricto sensu (contratação electrónica intersistémica inteligente).

Na contratação electrónica intersistémica automatizada, em que as maquinas exteriorizam a vontade das partes, podemos
admitir que sempre que se permita a interconexão dos sistemas, haverá uma declaração tácita (um comportamento
concludente do declarante) ou sempre que haja a introdução de um comando numa aplicação, haverá uma declaração
expressa.
Ora, como já vimos, nos contratos inteligentes stricto sensu não há intervenção humana. Estamos perante contratos formados
por maquinas, em linguagem maquina (código), incompreensível pelos seres humanos, cujos seres humanos que possam
estar indirectamente envolvidos podem não ter consciência do número de transacções efectuadas, do conteúdo dessas
transacções, do momento ou lugar em que o contrato se tem por concluído ou em que os seus efeitos se produzem – Desafio
para o futuro.
BLOCKCHAIN SMART CONTRACTS

Conclusões, dúvidas e desafios:


• claramente, o legislador - comunitário e nacional - não previu a existência da Blockchain;
• caberá o conceito de Blockchain em alguma das definições apresentadas na LCE? Conseguimos classificar a Blockchain
como um prestador de serviços em rede?
• Por exemplo, na blockchain Bitcoin a quem é imputável o erro na programação (se o erro for para além dos dados inseridos
pelas partes na blockchain)? A blockchain não tem personalidade jurídica.
• Como se faz a prova do erro na programação?
• Haverá necessidade de obrigar a que seja disponibilizado o código programado as partes intervenientes num smart
contract?
• Seguiremos o exemplo americano (Arizona, Califórnia, etc) de prever a blockchain e os smart contracts especificamente na
LCE?
• Será que a programação dos smart contracts não têm limitações? (Dolo, negligência, etc).
Claudiarcorreia@gmail.com

16.04.2018