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Pró-Reitoria

Aqui vaide
ser aGraduação
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Curso de Letras
Trabalho de Conclusão de Curso

PIX(O)AÇÃO – OUTROS
PIX(O)AÇÃO SENTIDOS
– OUTROS SENTIDOS NA/DA ESCRITA
NA/DA ESCRITA URBANA
URBANA

Autora: Priscilla Matos Teles


Orientadora: Profa. Dra. Mariza Vieira da Silva

Autor: Priscilla Matos Teles


Orientador: Dra. Mariza Vieira da Silva

Brasília

2013

Brasília – DF
2013
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PRISCILLA MATOS TELES

PIX(O)AÇÃO – OUTROS SENTIDOS NA/DA ESCRITA URBANA

Monografia apresentada ao curso de graduação


em Letras da Universidade Católica de Brasília,
como requisito parcial para obtenção do Título de
Licenciado em Letras Português.

Orientadora: Profa. Dra. Mariza Vieira da Silva

Brasília
2013

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Monografia de autoria de Priscilla Matos Teles, intitulada “PIX(O)AÇÃO – OUTROS
SENTIDOS NA/DA ESCRITA URBANA”, apresentada como requisito parcial para a
obtenção de grau de Licenciado em Letras da Universidade Católica de Brasília, em 19 de
junho de 2013, definida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:

________________________________________

Profa. Dra. Mariza Vieira da Silva


Orientadora
Curso de Letras - UCB

_______________________________________

Prof. Dr. Maurício Lemos Izolan


Curso de Letras – UCB

_______________________________________

Profa. MSc. Fabiola Gomide Baquero Carvalho


Curso de Psicologia – UCB

Brasília
2013

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AGRADECIMENTOS

À professora Mariza, que, ao acolher-me no projeto de pesquisa, conduzir-me nos estudos da


Análise de Discurso, e orientar-me neste trabalho final, ajudou-me a descobrir e ultrapassar
meus limites. Nosso encontro, um divisor no Curso de Letras, proporcionou-me uma
caminhada “cabulosa”, e a escrita de um trabalho que sem sua presença não teria se tornado
realidade.

Aos meus amores incondicionais, Alfredo e Tomaz, marido e filho, parceiros que
acompanharam meus passos e partilharam cada alegria que o Curso de Letras me trouxe,
sobretudo este trabalho final. Sem o apoio que me deram, essa caminhada não teria sido
desfrutada com o mesmo prazer que sinto ao escrever este agradecimento.

Aos meus pais queridos, Neila e Guilherme, por terem me ensinado, não apenas com palavras,
que as melhores coisas da vida são conquistadas com esforço, verdade e honestidade.

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Pixar é humano

Se beber não dirija, volte pixando, a rua tem vida e


tem algo que ela que tá falando...

Pra uns uma crença, pra outros uma ofensa, mas pixar é
humano, vagabundo, não se esqueça...

Vo lançando os códigos só no psicológico, lógico, esse


é o meu gesto simbólico...

Deus cria, rota mata, quadro negro é a cidade utiliza


o giz é o spray, intelectualidade...

O professor é a rua então se conforma aprendemos a


escrever dessa forma: LETRAS EMBARAÇADAS CONTRA
QUALQUER NORMA...

Rapper Grilo 13

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RESUMO

TELES, Matos Priscilla. PIX(O)AÇÃO – OUTROS SENTIDOS NA/DA ESCRITA


URBANA. 2013. 74p. Monografia Letras – UCB, Brasília-DF, 2013.

Este trabalho busca compreender o funcionamento da produção de sentidos da prática urbana


da pixação. Pauta-se, teórica e metodologicamente pela Análise de Discurso, sobretudo pelos
estudos de Michel Pêcheux e Eni Orlandi. A leitura discursiva de nosso objeto de estudo – o
pixo – , conduz-nos a trabalhar suas condições de produção e seu funcionamento, tomando a
inscrição do sujeito (pixador) na história. Nosso referencial teórico leva-nos, pois, a pensar
nos efeitos de sentidos da cidade e da língua no sujeito-pixador, e as relações desses efeitos
com seus processos identitários e de autoria. Nesse sentido, torna-se fundamental trazer para a
análise, os efeitos produzidos pela cidade de Brasília. Tanto os produzidos por sua
singularidade, que rompe com o imaginário de cidade – especialmente se pensarmos em suas
divisões e barreiras simbólicas e (in)visíveis –, quanto os produzidos pelo que caracteriza a
cidade moderna: as diversas escritas, que fazem do corpo da cidade, o seu suporte. Neste
trabalho, consideramos que tais escritas transitam entre o permitido – portanto, controlado – e
o proibido, nosso objeto de estudo, o pixo, significado como vandalismo, tendo sua
materialidade e historicidade apagadas. Nossa leitura e escrita, na perspectiva discursiva,
guiam-se, pois, pelo deslocamento de nossa posição de leitor, de morador, de não-pixador,
para uma posição – relativizada – de sujeito analista. Esse deslocamento, possibilita-nos
perceber os mecanismos de produção do sentido único – pixação como vandalismo – que
atravessam essa posição-sujeito. Possibilita, ainda, pensar na relação que o sujeito-pixador
desenvolve com a língua, com a letra. Essa relação que se estabelece entre língua e sujeito,
representa, para nós, a questão fundamental. Concluímos que é uma relação outra. É outra
língua, outra letra, é uma não-forma, que se estrutura pela subversão. A sua criação, sua letra
– que não pode ser lida pelos não-pixadores –, é, para ele, instrumento de convívio social, de
autoria e de construção de sua identidade. Para essa posição-sujeito, a letra criada é a
ferramenta que o insere no grupo – o pertencimento –, tão caro na fase da adolescência e
juventude, período em que vivem a pixação com mais intensidade. Aquela letra que está
rabiscada no muro, não é sujeira, é uma letra simbólica, que representa um sujeito que, ao
escrever na cidade, inscreve-se e marca seu lugar como sujeito no seu grupo e na sociedade.

Palavras-chave: Pixação. Sujeito. Escrita urbana.

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ABSTRACT

This paper seeks to understand how the production of meaning of the urban practice of
graffiting works. The present work is based, theoretically and methodologically, on Discourse
Analysis, primarily on the studies of Michel Pêcheux and Eni Orlandi. The discursive reading
of our object of study – the graffiti itself -, leads us to work on its condition of production and
on its mode of functioning, taking into consideration the entry of the subject (scribbler) in
history. Our theoretical reference of study leads us, therefore, to think of the effects of
meanings of the city and of language on the subject-scribbler, and also of the relations
between these effects and the authorship and identity’s processes. In that sense, it is crucial
that we bring the effects caused by the city of Brasilia to the analysis – the ones produced by
its singularity, that breaks with the city’s imaginary – especially if we think about its divisions
and its symbolic and (in)visible barriers -,as much as the ones made by what distinguishes the
modern city: the several types of writing, that turn the body of the city into its body of support.
On this paper, we consider that such types of writing migrate from the permissible – hence
controlled – to the forbidden, our object of study, the graffiti, meant as vandalism, having its
materiality and historicity obliterated. Our reading and writing, under the discursive
perspective, are guided by the change in our reader point of view, the one of the non-
scribbler, to another stand – seen in the context of its relativity – the one of the analyst. This
drift allows us to see the mechanisms of the production of the sole meaning – graffiti as
vandalism – that permeates this subject-position. It can still allow us to think of how the
subject-scribbler develops a connection to the language, to the handwriting. The relationship
established between the language and the subject represents, to us, the fundamental question.
We came to the conclusion that this is another kind of relationship. It is another language,
another handwriting, it is a non-form that is structured on subversion. Its creation, its
handwriting – that cannot be read by non-scribblers –, is, for the scribbler, na instrument of
social coexistence, of authorship and construction of identity. For this subject-position, the
handwriting created is the tool that places him in the group – the belonging –, which is so
important in teenage and youth years, period when the graffiti is lived more intensely. The
letter scribbled on a wall is not dirt; it is a symbolic word representing a person that, upon
writing on the city, registers himself and marks his place as an subject in his group and in
society.

Keywords: Graffiti. Subject. Urban writing.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................10

CAPÍTULO 1 – Linguagem, juventude e cidade......................................................................14

CAPÍTULO 2 – Análise de discurso e seu dispositivo teórico-metodológico.........................19

CAPÍTULO 3 – A escrita como tecnologia: sujeito e linguagem.............................................26

CAPÍTULO 4 – Brasília: a escrita na/da cidade.......................................................................30

4.1 Escrita com suporte.................................................................................................32


4.1.1 Permitida...................................................................................................34
4.1.2 Não permitida (mas tolerada)...................................................................35

4.2 Escrita sem suporte..................................................................................................42


4.2.1 Permitida (se autorizada)..........................................................................43
4.2.2 Não permitida (mas tolerada)...................................................................46
4.2.3 Proibida.....................................................................................................48

CONCLUSÃO .........................................................................................................................70

REFERÊNCIAS........................................................................................................................72

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INTRODUÇÃO

Este Trabalho de Conclusão de Curso busca apresentar uma (outra?) leitura acerca da
pixação, que, materializada pela letra na cidade, é considerada, muitas vezes, pela sociedade e
pelo Estado, como uma das marcas mais características de vandalismo da juventude. Temos,
pois, como objetivo, compreender os processos de individualização do sujeito-pixador e de
construção de sentidos para essa posição de sujeito. Isso significa também pensar como se
constroem os processos identitários do sujeito-pixador.
Ele integra o projeto de pesquisa “Linguagem e juventude: espaços de trabalho do
simbólico e do político”, coordenado pela Dra. Mariza Vieira da Silva, que busca “produzir
conhecimento sobre os processos de individualização e de identificação do sujeito jovem
escolarizado através da linguagem no espaço urbano de Brasília.” (2011).
A partir do título já procuramos produzir certos deslocamentos de sentidos para a
pixação, bem como para o sujeito pixador, buscando atravessar os efeitos de transparência da
linguagem, fundamental neste trabalho, refletindo sobre a própria grafia da palavra. A grafia
com ch, de acordo com a nomenclatura culta, ou seja, como se apresenta nos dicionários e em
grande parte da produção científica relativa ao tema, é aqui, neste trabalho, substituída pela
grafia com x. Nossa escolha firmou-se pela própria teoria, em que o discurso é “efeito de
sentidos entre locutores” e em que não há separação entre forma e conteúdo. Deslocamo-nos,
portanto, do lugar da norma culta para um lugar mais próximo a esse sujeito-pixador, que ao
escolher grafar-se com x, conforme blogs, sites e entrevistas, propõe outro olhar (e sentido),
também possível, acerca de si mesmo, da linguagem, da escrita e da cidade que o envolve.
Ainda a propósito do título, com a forma pix(o)ação buscamos mostrar as duas faces
que se depreendem do termo: o pixo e o ato de pixar. A primeira, o pixo: a letra, a escrita, a
criação, as escolhas do espaço-tempo que o pixo envolve, o processo individual (às vezes,
coletivo), o que é considerado arte entre eles. A segunda, o ato: em que se materializam a
letra e o pixo, o trabalho aí envolvido e suas condições de produção; momento onde as
relações sociais acontecem, onde se manifesta e se desenvolve a identidade grupal do sujeito-
pixador. Assim, a palavra pix(o)ação, nos traz as duas faces – pixo + ação/ato de pixar – da
pixação que consideramos importante ressaltar.
Trilhando os caminhos da letra, da cidade, da juventude e chegando à escrita urbana,
com o apoio teórico e metodológico da Análise de Discurso, situaremos nossa leitura,

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portanto, de forma a atravessar a obviedade e transparência que cercam o tema. Uma leitura
que requer deslocamentos de sujeito-leitor para o de sujeito-analista, de olhares e sentidos.
Nossa outra leitura, o que Orlandi (2004) chama também de “escuta”, pretende perceber
sentidos e seus mecanismos de produção apagados, proibidos, e, ao mesmo tempo, possíveis.
Para isso, trabalharemos a materialidade da língua, ou seja, nossa leitura considerará a língua
fazendo sentido porque inscrita na história, a língua em sua estrutura e funcionamento
linguístico-discursivo.
Embora nosso interesse pelo espaço urbano, suas formas, suas falas e suas escritas,
tenha sido uma constante ao longo da vida, a observação pormenorizada, sistemática da
cidade para os fins desta pesquisa, iniciou-se em agosto de 2011, com as disciplinas História
das Ideias Linguísticas no Brasil, e, na sequência, Análise de Discurso. Nesse processo, o
acesso à bibliografia das disciplinas (Auroux (1992, 1998), Orlandi (2005, 2007, 2012),
Pêcheux (2008), Silva (2003, 2011)), e as leituras e encontros relativos ao projeto de pesquisa,
permitiram um frequente movimento de ida e retorno da rua à teoria. Esse movimento tornou
possível a identificação de escritas outras que não apenas o mais comumente tematizado: a
pixação e a propaganda.
Com olhos atentos, diferentes formas de escrita e de intervenção (e/ou apropriação)
no/do espaço foram sendo percebidas no emaranhado de dizeres que compõem a cidade, e não
somente o muro (esse é apenas um dos membros do corpo citadino), mas a cidade inteira, com
todas as suas faces servindo de suporte. É ela a tela, o pano de fundo e de frente, que envolve
o sujeito. “No território urbano, o corpo dos sujeitos e o corpo da cidade formam um, estando
o corpo do sujeito atado ao corpo da cidade, de tal modo que o destino de um não se separa do
destino do outro” (ORLANDI, 2004, p. 11). Esta relação de corpos (cidade, sujeito, letra e
língua) atados, unidos, é o que possibilita suas transmutações, sua busca, seu significar (-se).
Assim, de modo a compreender a escrita na/da cidade, nosso estudo foi, passo a passo,
constituindo um corpus, capaz de nos dar uma compreensão desses sentidos e posições de
sujeito que acontecem na cidade. Inicialmente, fomos fotografando as escritas,
indiscriminadamente, conforme as íamos percebendo para chegar em um recorte mais
específico, a pixação: objeto de estudo deste trabalho. Nesse processo, fomos tomando
contato com a cidade e percebendo coisas antes não vistas, mas que iam nos ajudando a
compreender a teoria e a descobrir outras questões para trabalharmos as condições de
produção do [pixo] + [ação/ato de pixar] e sua relação com o sujeito e com a história.

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Consideramos, pois, nessa leitura, o sujeito – e suas posições –, seu lugar social, o contexto
histórico, os processos metafóricos e as evidências, que estabilizam e naturalizam os sentidos.
Na construção de nosso corpus, incorporamos às fotografias, a fala dos pixadores
sobre o pixo, que encontramos em blogs na internet e no livro “Gangues, Gênero e
Juventudes: donas de rocha e sujeitos cabulosos” (2010). Esta publicação, da Secretaria de
Direitos Humanos e da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do
Adolescente, constitui-se de extenso trabalho de pesquisa sobre as gangues brasilienses e foi
de grande valia neste trabalho. Cabe ressaltar que as imagens aqui trabalhadas foram feitas no
Plano Piloto (Asas Norte e Sul, Cruzeiro, Lago Sul e Parkway) e em algumas Cidades
Satélites (Taguatinga, Águas Claras, Areal, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, SIA e Guará1
e 2). As principais vias percorridas foram a EPNB, EPTG, Pistão Sul, EPIA, EPCT, EPGU,
Eixos Sul e Norte, EPDB, L2 Sul, L4 Sul e W3 Sul, de grande tráfego na cidade de Brasília, e
ligação entre Plano Piloto e Cidades Satélites.
Não conformando-nos com as evidências e com o lugar do já-dito, buscamos, então,
nos movimentarmos em direção a outras possibilidades de sentido e nos propusemos a deixar-
nos conduzir pelos efeitos que esse movimento proporcionava. Um movimento que passa pelo
já formulado; pelo sujeito que pixa; pelos efeitos de sentidos; pelos efeitos-sujeito. Como nos
diz Orlandi (2012, p. 26, grifo do autor), não se trata de buscar uma “chave”, ou “a verdade
oculta por trás do texto”, mas sim, de “escutar outros sentidos”, compreendendo como se
formam (sentidos) através de um objeto simbólico.
Com esse olhar específico, algumas questões se desenvolveram e estabelecemos com
elas relação de guia, e que foram nos norteando pelo percurso já feito. Como se constroem os
processos identitários do sujeito-pixador? Tomando a construção de identidade como um
processo, como a prática da pixação sustenta essa posição-sujeito? Acerca do processo de
construção de sentidos do e para o pixador, nos interrogamos, também, no que concerne aos
sentidos já estabilizados que atravessam essa posição-sujeito.
Este TCC divide-se em 4 Capítulos. No primeiro, “Linguagem, juventude e cidade”,
traçamos um panorama inicial da pesquisa, introduzindo temas que avançaremos na análise
posterior. Nesse momento está presente o sujeito jovem, seu espaço na cidade (de Brasília), e
como esse espaço significa em sua constituição. Pensamos, também, nos aspectos
representativos para essa juventude, seus desejos, necessidades, suas relações, sua letra.

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No segundo Capítulo, situamo-nos no campo teórico que sustenta esta pesquisa –
Análise de Discurso –, fundamentados, principalmente, pelos estudos de Michel Pêcheux e de
Eni Orlandi. Apresentamos nossa leitura dessa construção teórica, trabalhando as noções da
não-transparência da linguagem; dos sentidos – como uma construção, pensados em relação
à; de sujeito – como uma posição e de sua constituição através de interpelação, pela
ideologia, tomada aqui não como ocultação, mas como efeito de evidência; e a resistência do
sujeito, rompendo o círculo homogêneo dos universos logicamente estabilizados.
Em seguida, no Capítulo 3, buscamos os efeitos das tecnologias de escrita na
constituição do sujeito-urbano-pixador, traçando seu caminho em direção aos muros,
iniciados na Escola, e que passa pelo grupo – a gangue – e pela constituição da sua letra.
Em “Brasília: a escrita na/da cidade”, quarto Capítulo, pensando a simbiose sujeito-
cidade, buscamos atravessar os sentidos transparentes que circulam no corpo citadino e no
sujeito urbano que ali vive. Identificamos e categorizamos os diferentes tipos de escrita que
encontramos, trabalhando seus efeitos de evidência e sua opacidade. O pixo, nesse momento,
se destaca na babel de dizeres que compõem a cidade de Brasília, com suas singularidades, e
é, então, trabalhado discursivamente como instrumento de construção de identidade.
Podemos, ao final, como conclusão provisória, dizer que a leitura discursiva da cidade
permite perceber os efeitos que suas divisões e barreiras produzem no sujeito, que por sua
vez, produz gestos, como a pixação. Essa prática fundamentada pela língua, mostra-nos a
relação outra que o sujeito-pixador com ela estabelece. Uma relação de subversão. Ao
subverter a língua, a forma, e criar a sua não-forma, ele firma-se como autor e constrói sua
identidade. Sua letra não é rabisco, nem sujeira, nem desenho, é sua criação, representa-o nos
muros, possibilita suas relações sociais.
Perceber, contudo, esses outros sentidos, requer deslocar-se do discurso sobre o
pixador, do sentido já estabilizado, único, ideologicamente construído sobre essa posição-
sujeito, cujas significações remetem a vandalismo, sujeira, delinquência.

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CAPÍTULO 1

LINGUAGEM, JUVENTUDE E CIDADE

De Babel a Brasília, como surgiu e se transformou a cidade? O próprio


espaço urbano se encarrega de contar parte de sua história. A arquitetura, esta
natureza fabricada, na perenidade de seus materiais tem esse dom de durar,
permanecer, legar ao tempo os vestígios de sua existência. Por isso, além de
continente das experiências humanas, a cidade é também um registro, uma
escrita, a materialização de sua própria história (ROLNIK, 2009, p. 9, grifo
nosso).

A cidade tem assim seu corpo significativo. E tem nele suas formas. O rap, a
poesia urbana, a música, os grafitos, as pichações, inscrições, outdoors,
painéis, rodas de conversa, vendedores de coisa alguma, são formas do
discurso urbano. É a cidade produzindo sentidos. (ORLANDI, 2004, p. 31).

As citações acima trazem a cidade como uma (sua) escritura, a cidade contando de si,
ao longo da (sua) história. E nos fazem pensar em dois movimentos: um de estagnação, outro
de transformação. O primeiro, por seu caráter de perenidade (dos materiais), de solidez (das
construções); o segundo, por ser a transformação algo característico da cidade – lugar
dinâmico, de movimentação. Orlandi (Idem, Ibidem, p. 11) aponta ainda que nas sociedades
capitalistas “nada pode ser pensado sem a cidade como pano de fundo”, e Rolnik (Idem,
Ibidem, p. 13), que “a cidade é antes de mais nada um imã” (que atrai pessoas).
Considerando a cidade lugar de significação, queremos compreender o sujeito jovem
pelos movimentos que produz e reproduz. Os caminhos que ele percorre, os sentidos que
constrói, como se dá o processo de sua constituição como sujeito, de sua identidade, de sua
individualização, num espaço que tende à homogeneização – “heterogeneidade mas
padronização.” (ORLANDI, 2004, p. 12).
Nesse processo, a linguagem, a letra, a escrita, com seu lugar de destaque, têm papel
fundamental. Para Silva (2011, p. 37), “ser jovem é estar em um tempo significante próprio de
uma história pessoal e coletiva; uma forma de relação social marcada por uma apropriação
específica da linguagem em sua relação com o mundo”. “E a relação social é, desde o início,
linguagem.” (MAINGUENEAU, 1989 apud SILVA, 2011, p. 27). É pela linguagem que o
sujeito (se) diz, é por ela que se põe no mundo. E pensando em nosso recorte, a pixação,
observamos pelas entrevistas coordenadas por Abramovay no livro “Gangues, Gênero e
Juventudes: donas de rocha e sujeitos cabulosos” (2010) e pelas pesquisas na internet, que é a
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Escola o lugar de contato com as primeiras letras. No entanto, esta despreza o que a letra traz
consigo: a língua, a cultura, a história e o próprio sujeito. E impõe uma língua que não é a do
aluno, uma letra (em) que ele não (se) reconhece, não criando condições para o deslocamento
de sentidos e de posições-sujeito.
Fecham-se, dessa forma, os olhos a toda uma juventude que está (se) (ins) escrevendo
nos muros. De acordo com Orlandi (2004, p. 111, grifo do autor), é “o sinal gráfico que o põe
em contato, antes de tudo, consigo mesmo (a forma da grafia, sua assinatura etc), e com os
seus (as alianças) [...].” A pixação vem, para esse jovem, carregada de significação: “M1 –
Oh, véio, primeiro fama, proteção, consideração, adrenalina (Grupo Focal, misto).”
(ABRAMOVAY, 2010, p. 119). Gostos, anseios caros à juventude, pobre ou rica: a
adrenalina, os esportes radicais, o desafio ao perigo, a busca por emoção:

H1- Eu falar para vocês não adianta, vocês nunca vão ter noção, não vão
saber o que é, tá entendendo? Vocês nunca sentiram. Tipo, você está em cima
de um prédio pichando, sentindo o cheiro da tinta, olhando para baixo, vendo
que pode cair. E outra coisa que corre. Aí dizem: “vai lá idiota”. Então é
idiota quem sobe uma montanha gigante de gelo para chegar lá em cima e
descer?
Ent - Então pichação é esporte radical?
H1- Quase, só não é legalizado. (Entrevista, homem) (Idem, Ibidem, p. 118).

As cidades possuem divisões simbólicas, espaciais, e, em Brasília, essas divisões são


significativas, determinadas de forma peculiar, própria – Plano Piloto e Cidades Satélites:
“espaços partidos e nem sempre partilhados” (SILVA, 2011, p. 38). Com sua singularidade de
cidade planejada, projetada, idealizada, Brasília rompe com o imaginário tradicional,
existente, das cidades. Silva, no artigo “Mas agora chegou nossa vez” (2011), o primeiro texto
que nos pôs em contato com a cidade de Brasília e o sujeito jovem que ali vive, toma como
espaço-temporal o final dos anos 70 e início dos anos 80, época do surgimento do rock
brasiliense-nacional. Analisa as condições materiais para tal surgimento, como o processo de
apropriação do rock internacional pelo jovem brasiliense na construção de uma autoria e
identidade. A autora aponta, ainda, um segundo momento (espaço-tempo):

O da expansão das Cidades Satélites, motivada por uma migração contínua,


tornando Brasília um território urbano inteiriço em que as relações sociais –
relações de linguagem – se tornam mais próximas, frequentes, intensas,
conflitivas, considerando mudanças de natureza econômica, social e política
nacional e internacional que repercutem na sede do poder do Estado de forma
própria (Idem, Ibidem, p. 42).

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É neste momento, de crescimento populacional não programado, desordenado, final da
década de 80 e início de 90, que detectamos como o início das primeiras intervenções escritas
sob a forma de pixo no espaço urbano de Brasília: a união de sujeitos-jovens em grupos,
turmas, gangues, famílias – pela letra – para (se ins) escreverem na cidade, na história. “O
gesto do pichador, do grafiteiro, tira-o da série e o projeta em um grupo que ele inicia com a
Letra.” (ORLANDI, 2004, p. 113). Um grupo que significa para (com) ele. Entretanto, a
cidade contemporânea, capitalista, a formação social e o Estado, silenciam este fora da série,
pois seu gesto vem como o que Orlandi (Ibidem, p. 63) chama de “palavras, frases
desorganizadas”. “As falas desorganizadas significam lugares onde os sentidos faltam,
incidência de novos processos de significação que perturbam ao mesmo tempo a ordem do
discurso e a organização do social.”
Um olhar estrangeiro (não apenas internacional, mas um olhar de quem a vê pela
primeira vez) sobre Brasília fala do quão diferente ela é. “[...] É uma cidade muito estranha, o
tipo de cidade que você encontraria mais no espaço do que em qualquer outro lugar, como
uma colônia espacial [...].” (SILVA, 2003, p. 38). Não há outra cidade moderna-sede-do-
poder-planejada-sonhada-tombada-patrimônio-da-humanidade. Brasília é outra coisa. É única.
Branca, luminosa, pura (?), de uma luz excessiva. E o gesto – pixação – daquele sujeito que
mora nos arredores (as Satélites), mas que pode (?) andar por seus pilotis, esse gesto – a
pixação – desregula, macula essa pureza. Aparece com mais força, tem destaque. Muita
brancura, muito espaço, muita ordem - muita escrita.

Eu caí em cheio na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam foi


a rodoviária à noitinha. (...) É um ponto forçado, em que toda essa população
que mora fora, entra em contato com a cidade. Então eu senti esse
movimento, essa vida intensa dos verdadeiros brasilienses, essa massa que
vive fora e converge para a rodoviária. Ali é a casa deles, é o lugar onde eles
se sentem à vontade. (...) Isto tudo é muito diferente do que eu tinha
imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio
cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros
verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. (...) Eles
estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que
não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. (LUCIO COSTA apud
AFONSO, 2008, pp. 60-61).

Afonso (2008), em dissertação de Mestrado, traz as palavras acima, de Lúcio Costa,


que nos ajudam a compreender os novos sentidos para Brasília, por quem a projetou. O ideal e
o real da cidade em um movimento contraditório: Brasília, não construída para, mas por eles,
e, qual uma bastilha, por eles é tomada. Seu lugar de destino, as Satélites, é, por esses sujeitos,

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experimentado como um lugar precário, com poucas ou nulas opções de lazer, sem segurança,
saúde, escolas que os acolham de fato.
M1 – Tipo assim, a gente não tem policiamento, a gente não tem segurança.
Dentro de casa às vezes a mãe fica enchendo o saco e a gente vai para nossa
galera que é tipo nossa família; não tem lazer, não tem porque as quadras
daqui são tudo umas bostas. Você não pode confiar em ninguém, não tem
saúde, não tem nada [...] (Grupo focal, misto) (ABRAMOVAY, 2010, p.
237).

H1- Próximos [do Plano Piloto], é ponte, novo museu, biblioteca, um bocado
de coisa bonito. Agora pra nós é polícia, polícia. Aqui na Ceilândia, da última
vez que o Roriz deu aquelas viaturas, aquelas X-Terra, foi dividida 10 pra
uma [Cidade Satélite] não sei quantos pra outras, pra Ceilândia veio 40
viaturas. Pra que isso? (Idem, Ibidem, p. 231).

Cadê as oportunidades, cadê as coisas culturais para encher a cabeça dos


jovens? (Idem, Ibidem, p. 287).

Kinot gap ceilandia norte aqui não tem cheiro de flor, só polvora
Aqui não é novela, não tem amor na tela
Trecho gdf sobradinho
Break eterror sobradinho. Anônimo (FLOGÃO, 2011, grifos nossos)

É o Plano Piloto – lugar dos monumentos, da rodoviária –, que se configura como


espaço de visibilidade para o pixador. Espaço de desejo:

Eles cataram logo os monumentos, rebocaram o Memorial JK – foram dos


primeiros pivetes a rebocar o Memorial JK, cataram embaixo, cataram a
cúpula, cataram a Catedral – rebocaram tudo. (ABRAMOVAY, 2010, p.
123, grifos nossos).

Orlandi (2004) aponta a necessidade de vínculo social (pixador-sociedade) que toma


esses sujeitos. Eles habitam a cidade, transitam por ela, mas deparam-se com muros, às vezes
simbólicos, invisíveis, que os limitam, os impedem, barram sua entrada. Como qualquer
habitante - ou turista -, o pixador sabe quais são os lugares, os espaços (monumentos)
importantes de sua cidade. Na fala acima, ele nomeia corretamente “Memorial JK”, mas seu
partilhar significa diferente. Ele talvez não visite aquele espaço no horário de funcionamento.
Visitar, viver, partilhar daquele espaço, pode significar pixar aquele espaço, deixar sua marca
naquele monumento. Também não deixamos nossa marca (nossa assinatura) no livro de
visitas, dentro do museu, do monumento? A barreira simbólica, que limita o espaço do
pixador, faz com que sua marca (sua assinatura) seja deixada do lado de fora.
Lembramos, então, o que a autora fala sobre esse gesto ser tomado como “hostilidade
social”, quando reflete sobre o comentário negativo (construído a partir do discurso de

17
pixação como sujeira e vandalismo, já cristalizado no imaginário) de Arnaldo Jabor acerca da
pixação na estátua de Drummond no Rio de Janeiro:
Ao contrário do que foi dito, pode ter sido apenas mais um gesto de poeta,
inscrevendo-se na poesia brasileira. Aquela poesia que vai além da separação
entre o popular e o erudito, como bem sabia C. Drummond de Andrade. Pode
não ter sido uma agressão, pode ter sido uma homenagem. Os sentidos são
assim mesmo: não ficam parados no lugar para que a gente os atinja. Movem-
se como nos movemos também na história e na sociedade. (ORLANDI, 2004,
p. 111).

Essa diferente forma de presença, de uso, esse sentido que desliza de “visitar” para
“pixar”, vemos também nos termos usados pelo pixador para contar a história: “catar”,
“rebocar”.
Catar v.t.d. 1. Buscar, procurar. 2. Recolher um a um, procurando entre
outras coisas. 3. Buscar piolhos, pulgas, etc., em (corpo ou parte do corpo),
matando-os. 4. Escolher, selecionar: catar feijão. [C.:1] ca.ta.dor (ô) adj. sm.
Rebocar1 v.t.d. Revestir de reboco. [C.: 1A (ó)]
Rebocar2 v.t.d. Puxar (embarcação ou veículo) com corda, cabo ou corrente
presos a outro veículo ou embarcação. [C.: 1A (ó)]
Reboco (ô) sm. Argamassa de cal ou cimento e areia, que se aplica a uma
parede emboçada, a fim de prepará-la para o revestimento (FERREIRA,
2009).

Segundo Pêcheux (1997, p. 96), “é possível considerar sinonímias contextuais entre


dois grupos de termos ou expressões que produzem o mesmo efeito de sentido em relação a
um contexto dado”. A esse fenômeno semântico, ele chama de “efeito metafórico”. Podemos,
assim, estabelecer as relações semânticas, ou, de acordo com o filósofo, “pontos de
ancoragem semântica” entre os termos “visitar-pixar”, e entre “catar-rebocar-pixar”. Essas
relações se estabelecem em função do contexto, não são universais, não funcionam em
qualquer contexto e entre quaisquer sujeitos. É pela metáfora, portanto, que “visitar” e “catar-
rebocar” deslizam o sentido para “pixar”. E é, por esse efeito metafórico – lugar onde o
sujeito se significa – que o pixador se constitui, e constitui seus sentidos.

18
CAPÍTULO 2

ANÁLISE DE DISCURSO E SEU DISPOSITIVO TEÓRICO-


METODOLÓGICO

A Análise de Discurso, campo teórico desenvolvido por Michel Pêcheux, na França,


na década de 60, trabalhando com a leitura e a interpretação de textos, propõe uma reflexão
sobre o funcionamento da linguagem, considerando que língua, sentidos e sujeitos não são
transparentes. Partindo deste pressuposto – da não-transparência –, o analista do discurso
busca não o porquê, mas o como são produzidos sentidos, sujeitos, conhecimento. Dessa
forma, somos levados a um movimento primordial que nos remove e nos afasta do lugar que
considera o conteúdo, o texto, o que foi dito, por si só, e volta-se ao efeito do que foi dito na
relação com o não-dito e com o já-dito (história).
Tendo como objeto de estudo o discurso, e definindo-o como “efeito de sentidos entre
interlocutores” (PÊCHEUX, 1990), podemos dizer que o objetivo do analista é descrever o
funcionamento do objeto simbólico pixo, explicando como ele produz sentidos. Ao analista,
falando de uma posição relativizada (não neutra), cabe atravessar o efeito de transparência da
linguagem, de literalidade do sentido e da onipotência do sujeito, deslocando-se da posição de
mero leitor, para trabalhar no jogo entre descrição e interpretação. Ele deve “explicitar os
gestos de interpretação que se ligam aos processos de identificação dos sujeitos, suas filiações
de sentidos: descrever a relação do sujeito com sua memória.” (ORLANDI, 2012, p. 60). É
sua função, portanto, a partir deste lugar de análise, compreender, explicitar o processo de
produção de sentidos de seu objeto de estudo, em nosso caso, a [pixo-ação].
Para a Análise de Discurso, é fundamental o fato de que o discurso – e seus efeitos de
sentidos – não possa ser compreendido independente de suas condições de produção, a saber:
os interlocutores, a situação imediata e o contexto histórico mais amplo. Não se trata de mera
correlação entre língua e contexto, mas de um processo constitutivo: “os sentidos não estão só
nas palavras, no texto, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são
produzidos.” (ORLANDI, 2012, p. 30), pois, “para que haja sentido [...] é preciso que a língua
[...] se inscreva na história.” (Idem, Ibidem, p. 47). Assim, importa analisar as condições de
produção do [pixo e da pixação] na cidade de Brasília em uma conjuntura dada.

19
Funcionam, nas condições de produção de um discurso, certos mecanismos que
constituem sentidos e posições de sujeito, como: as relações de forças, as relações de sentidos,
e a antecipação. Tais mecanismos funcionam em meio à formações imaginárias,
representações que determinam, a partir delas, o que dizer, como dizer, como agir, pensar, etc.
Pêcheux (1997, p. 83) no primeiro modelo de AD em 1969, conceitua as formações
imaginárias. Segundo o autor, “o que funciona nos processos discursivos é uma série de
formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a
imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.” (Idem, Ibidem, p. 82,
grifo do autor). Que imagens formam-se sobre um sujeito em determinada posição? E que
imagens formam-se sobre como falar, agir com ele? Que imagens formamos sobre um
estudante, um professor, um pixador?
Assim, funcionam nas formações imaginárias a imagem que fazemos de determinada
posição-sujeito, o imaginário que se constrói histórica e inconscientemente sobre o sujeito-
pixador. O imaginário que forma a imagem do policial, do professor, do assistente social, do
segurança, sujeitos que se relacionam com o pixador. Esse mecanismo de construções
imaginárias tem, portanto, duas faces: a imagem que se tem de si, e a imagem que o outro
constrói sobre ele.
As relações de forças nos apontam para o poder (de) dizer. Poder como possibilidade
(poder dizer porque determinado lugar permite) e como força (determinado dizer tem mais
valor – mais força – se é dito por alguém em determinada posição). São, portanto, as relações
de forças, importante mecanismo na produção e cristalização de sentidos (sobre a pixação),na
construção das formações imaginárias, sobretudo em uma sociedade de classes, hierarquizada,
onde o dizer do policial, do segurança, do morador/dono do muro se sobrepõem ao dizer do
pixador, mas não de forma fixa.
Pêcheux (1997, p. 77) nos diz que
O processo discursivo não tem, de direito, início: o discurso se conjuga
sempre sobre um discursivo prévio, ao qual ele atribui o papel de matéria-
prima, e o orador sabe que quando evoca tal acontecimento, que já foi objeto
de discurso, ressuscita no espírito dos ouvintes o discurso no qual este
acontecimento era alegado, com as “deformações” que a situação presente
introduz e da qual pode tirar partido (grifo do autor).

O sentido, portanto, não se inicia com o dizer. O dizer remete a determinados sentidos,
por relações, de acordo com as condições de produção nas quais é produzido.

20
Junto às relações de forças e às relações de sentidos, funciona o mecanismo da
antecipação, que “implica que o orador experimente de certa maneira o lugar de ouvinte a
partir de seu próprio lugar de orador.” (Idem, Ibidem, p. 77). O sujeito (pixador) portanto, se
antecipa, e regula seu dizer baseado no que imagina que o outro, em sua posição (policial,
segurança, dono do muro) vai pensar, assim como o sujeito-policial, segurança, dono do muro
o faz. Lembremo-nos dos sentidos de “vândalos” comumente atribuídos aos pixadores.

Tem uns meninos que preferem pichar com mulheres. A menina vai, coloca
um vestido, coloca um salto, dá a mão para o menino e vai, picha Brasília
todinha, e ninguém vai nem parar: ‘ah, é um casal, estão voltando de algum
lugar’. As latas vão na bolsa da menina. E quando vão meninos sozinhos, eles
estão sempre com a mão no bolso, segurando a lata. É, já pensa: ‘aquele
menino está aprontando’. Com uma blusona de frio, isso e aquilo. O menino
pode estar o mais arrumado que for, se estiver com uma mulher, eles vão ter
um pensamento diferente. (Entrevista em grupo, feminino) (ABRAMOVAY,
2010, p. 127).

Ent – Essa coisa, pra poder pichar, pra poder ir sair na rua, e se tiver de salto?
Por exemplo, se tiver de salto, não atrapalha?
M1 – Eu picho de salto. Sabe por quê? Porque a coisa mais difícil que tem é
uma polícia parar uma mulher de salto na rua, ele não vai achar que ela está
fazendo besteira. Tá de salto, tá arrumadinha, tá com uma bolsa... Eu posso
colocar quarenta latas dentro da minha bolsa, eu estou passando ali... Aí, eu
estou subindo o pistão, de madrugada, a polícia vai passar, vai olhar, vai
mexer comigo e vai embora. Aí, eles foram embora, eu tiro a lata de dentro
da minha bolsa, boto meu nome, coloco de novo e vou embora. (Grupo focal,
feminino) (Idem, Ibidem, p. 130).

Faz parte ainda das condições de produção do discurso, a situação imediata. Trata-se
do aqui e o agora do pixo. O lugar que o sujeito está pixando: Plano Piloto ou Cidade Satélite.
Considerando as disputas de território pelas gangues, este é um elemento especialmente
significante. O muro (de quem é?), a altura (prédio, muro, viaduto), a vigilância, a cor do
spray, o tamanho do rolo, a visibilidade do espaço, o tempo disponível, são todos fatores que
conferem um ou outro sentido àquela escrita, que possibilitam o trabalho com uma ou outra
forma de letra.
(...) O que conta em Brasília: a letra, quem tem a letra mais doida. Por
exemplo: se o muro é esparra, passa muito carro, eu tenho que colocar rápido,
eu coloco um apelido, que a letra sai bem legível, quase escrito, está
entendendo? Uma coisa bem simples, qualquer um consegue ler isso aqui. Só
que se tiver muito tempo para eu fazer, estiver tranquilo, você vai lá e
desenha a letra todinha, fica uma letra de estilo diferente, está entendendo?
(Idem, Ibidem, 2010, p. 125-126).

21
A Análise de Discurso desloca algumas noções, entre elas, a de indivíduo para a de
sujeito. Não estamos, pois, interessados no indivíduo empírico, que é fonte e origem de seu
dizer. Quando falamos de sujeito, falamos, assim, de uma posição de fala, de um indivíduo
que se submete à língua para se tornar falante, para se subjetivar: um assujeitamento
necessário. São posições, como vimos, que resultam de um trabalho das formações
imaginárias, enquanto projeção de lugares representados na estrutura social.
Pêcheux (1990, p. 16, grifo do autor), trabalhará a noção de sujeito através da
interpelação, que ele chama de “teatro teórico”, a “interpelação do indivíduo em sujeito” pela
ideologia. De acordo com Orlandi (2012, p. 47), “não há discurso sem sujeito. E não há
sujeito sem ideologia. Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados”. O
assujeitamento à língua para que produza o dizer e signifique, funciona

de tal modo que cada um seja conduzido, sem se dar conta, e tendo a
impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o seu lugar em uma
ou outra das duas classes sociais antagonistas do modo de produção (ou
naquela categoria, camada ou fração de classe ligada a uma delas).
(PÊCHEUX, 1990, p. 166, grifos do autor).

O indivíduo, interpelado em sujeito pela ideologia, resulta na forma sujeito da


modernidade, o sujeito de direito, que assujeita-se à Letra, às Leis, ao Estado. Pêcheux (Idem,
p. 17, grifo do autor) afirma que “levar até as últimas consequências a interpelação ideológica
como ritual supõe o reconhecimento de que não há ritual sem falha, desmaio ou rachadura”.
Pensamos o sujeito-pixador constituído, individualizado, nesta falha, de onde ele emerge
como resistência:
As resistências: não entender ou entender errado; não “escutar” as ordens;
não repetir as litanias ou repeti-las de modo errôneo, falar quando se exige
silêncio; falar sua língua como uma língua estrangeira que se domina mal;
mudar, desviar o sentido das palavras e das frases; tomar os enunciados ao pé
da letra; deslocar as regras na sintaxe e desestruturar o léxico jogando com as
palavras... (PÊCHEUX, 1990, p. 166, grifo do autor).

Para Orlandi (2005, p. 105-107), há dois momentos teóricos para a compreensão da


noção de sujeito: o primeiro seria o da interpelação de que já falamos. Uma vez interpelado
em sujeito, pela ideologia, sob a forma sujeito da modernidade, incidirão os processos de
subjetivação sobre esse já sujeito em relação ao Estado. Esse sujeito-jovem, individualizado
pela letra, não escolarizado, resiste, rompendo a cobertura de homogeneidade e transparência
que o recobre, e aparece, construindo sua identidade como pixador.

22
Outro conceito deslocado é o de Ideologia, que não é o conteúdo “x”, mas o
mecanismo de produzir “x”, enquanto um sentido evidente, natural, transparente. Sentido este
que tem determinada direção. Dessa forma, temos, assim construída, a impressão do sentido
literal da pixação como sujeira, vandalismo. É, pois, com o apagamento da materialidade do
pixo, da relação pixo-sujeito-pixador-língua-história, que se estabelece, pela ideologia, as
relações de sentido entre pixação e sujeira.
Esse apagamento produz duas evidências: a do sentido e a do sujeito. Evidência de um
sentido pré-existente, literal, único, e evidência de um sujeito uno, sem contradições. Apaga
sua relação com a história e sua filiação à determinada formação discursiva, e não outra, que
constituiria um novo sentido.
A formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica
dada – ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-
histórica dada – determina o que pode e deve ser dito. (ORLANDI, 2012, p.
43).

Sujeito e sentidos constituem-se ao mesmo tempo e podem ser outros, mas não
quaisquer outros, pois há a história. “Todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-
se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para
um outro.” (PÊCHEUX, 2008, p. 53). Daí falamos em resistência do sujeito, em falha do
ritual. Estamos, pois, falando de determinação e não de determinismo.
Há, para essa possibilidade de constituírem-se outros sentidos, segundo Pêcheux
(2008, p. 30-31), uma multiplicidade de “técnicas” que se articulam visando seu
impedimento. Trata-se, diz o autor, de produzir efeito de homogeneidade – de sujeitos e
sentidos –, em um espaço que é, fundamentalmente, heterogêneo: os chama “universos
logicamente estabilizados”. Nesses espaços, recobertos por uma artificial ordem lógica, o
pixador é tomado como um sujeito à parte, não recoberto pelo efeito de homogeneidade. É
tomado como um corpo estranho no corpo social. Consequentemente, seu gesto – a pixação –,
é interpretado, e significado como vandalismo.
O contexto histórico mais amplo é outro importante elemento das condições de
produção a serem consideradas em uma análise. É a memória – discursiva – ou interdiscurso.
Orlandi (2012, p. 31), seguindo Pêcheux (1975), irá dizer que o interdiscurso é

definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. [...]
o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do
pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada
da palavra.

23
O que ouvimos e lemos sobre pixação, que remete, por exemplo, às significações de
vandalismo e sujeira, é estruturado pela memória discursiva. Sentidos que são construídos
historicamente pelo dicionário, pela Ciência, pela Mídia, pela Escola, instrumentos de
controle social, silenciando outros sentidos. Esses sentidos que se cristalizam historicamente
como verdadeiros, filiam o pixo a uma rede de já-ditos (já significado) e que nos remete à
noção de sujeito que “pensa que sabe o que diz, mas [que] não tem acesso ou controle sobre o
modo pelo qual os sentidos se constituem nele.” (ORLANDI, 2012, p. 32, grifo nosso). Nossa
proposta é deixar outros sentidos se configurarem, trabalhando, percebendo os mecanismos de
sua constituição.
Daí a necessidade de um método como o da análise de discurso para ir além
desses efeitos de sentido e confrontar-se com o lugar em que esses sentidos se
constituem, fazem sentido, lugar em que o simbólico e o político se articulam
na produção desses efeitos. (IDEM, 2004, p. 29).

Para este trabalho, pensando o pixador como uma posição em que o sujeito se
individualiza de certo modo em sua relação com o Estado, é necessário pensar em outro
conceitos caro à Análise de Discurso: a autoria.
O inacabamento e a incompletude do discurso, do sentido e do sujeito (Orlandi, 2005,
2012), a dispersão, têm seu ponto de controle (de unidade imaginária) na função-autor. “O
sujeito precisa passar da multiplicidade de representações possíveis para a organização dessa
dispersão num todo coerente, apresentando-se como autor, responsável pela unidade e
coerência no que diz (ORLANDI, 2012, p. 76). A função-autor – uma posição do sujeito no
discurso – portanto, leva o sujeito à ilusão de unidade, de coerência, de centralidade,
necessidades do sujeito pragmático em um mundo semanticamente normal.
Foucault (2010, p. 8-9) assinala a existência de processos de controle da produção do
discurso, através de procedimentos de seleção, organização e redistribuição “que têm por
função conjurar seus poderes e perigos”. Esse movimento do sujeito, que implica, segundo
Orlandi (2012, p. 76), na inserção do sujeito na cultura, é segundo a autora, “a função mais
afetada pelo contato com o social e com as coerções”. Implica em assujeitamento.
É nesse movimento, portanto, que o sujeito-pixador constrói sua autoria, subvertendo
ass regras da língua e do Estado, se dizendo no seu texto – o pixo –, imaginariamente uno e
sem dispersão. O pixador, ao entrar no imaginário de unidade e coerência produz, então, um
movimento no modo de se conceber a autoria: o da transgressão das regras (da Letra, das
Leis, do Estado) a que deveria submeter-se. Escreve com uma letra ilegível para os não-

24
pixadores, em um espaço na/da cidade, infringindo as leis em vigor. Seu texto, para a
exterioridade, não possui início, meio e fim, produz efeito de incoerência, de incompletude.
Sua letra estabelece o não-padrão, permanece, ainda, no espaço da incompletude, não é
mesmo lida pelos não-pixadores, produzindo, portanto, outros sentidos. O que para ele tem
efeito de unidade, produz efeito de dispersão, e é nesse espaço contraditório que constrói sua
identidade.

25
CAPÍTULO 3

A ESCRITA COMO TECNOLOGIA: SUJEITO E LINGUAGEM

Antes da escrita era apenas o homem e sua voz. Dias (2009, p. 11), retomando
Vandendorpe (1999) assinala que “a relação com a linguagem, durante muito tempo, passou
pela orelha e que essa é a nossa primeira via de acesso à linguagem”. Na transição oralidade-
escrita, as tecnologias – papiro, códex, imprensa –, tiveram papel determinante e mudaram a
relação do homem com a língua, com o conhecimento, consigo mesmo.
As tecnologias de escrita – sobretudo a imprensa, que funda um novo tipo de homem,
o homem moderno – mudam, como dissemos, sua relação com o conhecimento. Tais
mudanças são determinantes na constituição desse novo homem, em sua vida em sociedade e
na relação com o conhecimento sobre si e o mundo. A linguagem, então objetivada, instaura,
imaginariamente, o “reino da fidelidade à letra.” (AUROUX, 1998, p. 71).
Condição essencial para que haja a escrita, os suportes, além de serem seu espaço
material, remetem, ainda, à questão da exterioridade, ou seja, fixam a língua, o texto – e o
sujeito. A escrita coloca o Outro (a alteridade) e o outro (o sujeito) no texto. Desde seu
aparecimento a questão está colocada na relação com o Outro, diz Auroux (1998), seja via
listas de palavras, decifração de textos antigos ou transcrição de outra língua; o intuito é
decifrar – e significar o desconhecido. Segundo o autor (Ibidem, p. 23, grifo do autor), “a
escrita, fixando a linguagem, objetiva a alteridade e a coloca diante do sujeito como um
problema a resolver”.
O outro vem também como força produtora do texto. Não se trata mais do sujeito e do
(seu) escrito. Não se escreve para si. O outro está presente nos textos, regulando o conteúdo,
as palavras, as escolhas, pelo mecanismo da antecipação, ou seja, o sujeito se antecipa
“segundo o efeito que pensa produzir em seu ouvinte”. (ORLANDI, 2012, p. 39).
Neste nosso estudo, o pixador, ao escrever (-se) no muro-cidade-suporte, objetiva
também a alteridade, o Outro – Estado, sociedade – e o outro de seu cotidiano, inimigos e/ou
aliados. A cidade, com seus muros, esquinas, fachadas, espaços, placas, portões, espaços
quaisquer que sejam, transformaram-se, no mundo moderno, em lugar de escrita. A cidade
configura-se, hoje, em superfície material, suporte para a escrita. Nessa cidade-suporte, em

26
que dizeres transbordam, “gritam” (Banksy, 2012) a todo momento, o pixador individualiza-
se através dessa profusão, de ditos, de escritos. Entretanto, ele transgride, com um gesto
também de repetição, de profusão: com a sua própria escrita, com seu modo de possuir a
cidade. Sua escrita outra, que subverte mesmo a língua, a letra, é seu instrumento, sua
tecnologia.
Para Orlandi (Idem, p. 105), identidade não é algo imanente ao indivíduo, advém de
processos – processos de identificação do sujeito –, que se constroem com movimentos na
história. Para esse jovem despertencido, relegado pelo Estado e pela sociedade, a pixação se
configura em um caminho para o pertencimento a um grupo, à práticas sociais, a uma língua,
a uma identidade.
Pensamos que há, na prática da pixação, a incorporação, pelo sujeito-pixador, do gesto
primeiro da relação homem-linguagem: a coletividade. O pixador, em seu gesto de uso da
língua, o faz de forma coletiva. Sua relação é em grupo: a gangue. Tanto no ato, no momento
de pixar, quanto nas relações que ele desenvolve com a escrita, pelo pixo. A pixação,
atividade quase sempre grupal, é, para ele, uma forma de relação social.

Uma coisa que faço sempre questão de lembrar é que sem marca, sem
pichação, nós não somos nada. Não adianta fazer nada se o nome da gangue
não está pelos muros todos. Então é isso: quer botar a gangue pra cima?
Espalha picha, manda os novinhos saírem marcando (Entrevista, homem,
líder) (ABRAMOVAY, 2010, p. 115).

Eu mesmo sempre fui de divulgar porque como eu fui fundador e líder, então
quanto mais minha galera tiver no ibope mais vão lembrar de mim por ter
fundado e ser líder (Idem, Ibidem, p. 80-81).

Ele escreve em grupo, pelo grupo. Assina seu nome e o do grupo. Nesse movimento,
ele (re) constrói sua identidade, possui a cidade, domina uma língua.
Entretanto, esse processo de construção de identidade, viabilizado pela letra, é
apagado e significado por um imaginário de vandalismo, de violência, de marginalidade. Esse
já-significado em uma memória discursiva, que controla/define/conceitua/limita o sujeito-
pixador, torna tarefa difícil, quase proibida, atribuir-lhe outros sentidos, ver seus processos
outros de socialização, sua constituição como autor, a construção de uma identidade. “A
evidência do sentido, que, na realidade é um efeito ideológico, não nos deixa perceber seu
caráter material, a historicidade de sua construção.” (ORLANDI, 2012, p. 45). Esse é o
trabalho da ideologia em uma sociedade dividida em classes, em que, controlando o sentido,

27
controla-se o sujeito: produz sentidos como evidentes, apagando outros caminhos possíveis de
interpretação do mundo, da sociedade, de si mesmo.
A aparência, a forma da letra, e o efeito enigmático produzido na relação que o sujeito-
pixador desenvolve com a letra, se metaforizam. O pixador não usa a letra, o alfabeto padrão,
ele inventa, através de um trabalho de caligrafia – arte – o seu próprio alfabeto, cria sua
própria forma, que não é a letra de fôrma, de imprensa.

Em seus processos de individualização dos sujeitos pelas instituições,


praticados pelo Estado, a escola tem um lugar central, mantenedor da escrita
e de sua tradição. Enquanto tal, o sujeito individualizado pela escola tem a
marca de sua legitimidade – a escolarização – enquanto pratica a letra que se
liga à imprensa. [...] Ao pichar o muro, ao inscrever sua letra, ele instala um
espaço da escrita em lugar não previsto, em formas não mantidas
institucionalmente. Mas tão reais quanto as que estão nos livros ou nos
cadernos. (ORLANDI, 2004, p. 117-118).

Há, em nossa sociedade, o que se pode chamar de indicação de uso de letras, tipos,
fontes, formas: regras para cada uso da língua escrita. Em contextos burocráticos, de
preenchimento de formulários, fichas, fazemos a seguinte pergunta: “– Letra normal (cursiva)
ou de fôrma (imprensa)”? Há, às vezes, a orientação explícita: “Preencher com letra de
fôrma”, sem outra(s) possibilidade(s). Mas o pixador, ao criar sua letra, enigmática para
muitos, rompe com a forma padrão. Funde-se, torna-se ela. Aquela letra, seu artefato, seu
instrumento de existência como sujeito-pixador, torna-se sua marca, representa-o nos muros.
A questão da não-legibilidade, nesse contexto, é condição material daquela letra e
motivo de orgulho entre os pares. Confere-lhes status (de quem sabe trabalhar, criar (com) a
letra), torna-se objeto de partilha, de desejo e cobiça.

[...] O Y tinha uma letra que era diferente de todas de Brasília, só que esse X
começou a copiar a letra do Y, até então é normal, só que ele tava imitando
muito descaradamente, aí o Y pegou, riscou o nome do X e escreveu a fama é
sua mas a letra é minha.[...] (Entrevista, masculino) (ABRAMOVAY, 2010,
p. 143).

Tem uns moleques que já nascem fazendo essas letras aqui, e eles vão
inventando e vai saindo mais doida ainda. Se você faz a letra de um tipo, ele
vai e redesenha, ele faz umas coisas melhores e sai muito mais doido... Aí ele
é reconhecido por isso. (Entrevista em grupo, masculino) (Idem, Ibidem, p.
126, grifo nosso).

A letra (a palavra, o texto) é um objeto simbólico, forma de relação social, e, para o


pixador, essa relação é marcada pela escolha, pela criação. A letra é dele, é própria dele e de
28
nenhum outro. Ele a inventa, escolhe sua forma, seu desenho. Cria, ele próprio, seu símbolo,
trilhando nesse processo, um caminho que segue à margem da escrita convencional. A letra
por ele criada é também simbólica. Representa, substitui o pixador, convertendo-se em objeto
de partilha, disputa e/ou admiração. Verificamos, na pesquisa, que há pixadores que têm
trabalhadas apenas as letras que compõem seu nome/pixo, e há, também, aqueles que
desenvolvem, em longo processo (artístico?), um alfabeto completo. Essa tecnologia
desenvolvida - alfabeto completo -, também chamada de “folhinhas”, converte-se em objeto
de extremo valor para esses sujeitos, e adquire, entre eles, um valor muito próximo do que é
considerado obra de arte para a sociedade.
No contexto das tecnologias de linguagem, o spray, ou o jet, representa uma mudança
para aquele que antes tinha à disposição tinta e rolo. A “cultura do jet” como é chamado em
alguns sites e blogs o movimento, a prática da pixação, mostra no nome essa mudança. Nova
tecnologia, novos sentidos, novos sujeitos. Mudam as condições de trabalho com a letra no
pixo. Ganha-se mobilidade, discrição, rapidez, abrem-se outras possibilidades de escrita.
Formas, letras, antes impensáveis com rolo, tornam-se possíveis com o spray; escaladas
segurando apenas uma lata para escondê-la mais facilmente. Se pensarmos como Auroux
(1998, p. 74), que a escrita é uma tecnologia, temos aí uma mexida nessa tecnologia.
Além dos aspectos materiais, há o simbólico: o spray é valorizado como instrumento
de escrita. Não deve ser vendido para menores de 18 anos, portanto, é preciso burlar a lei para
comprá-lo, e aquele que consegue é valorizado, ou pela esperteza (de ter conseguido) ou por
aparentar ser maior de 18 anos. É também cobrado como “pedágio” para a entrada na gangue.
“Hoje em dia, em 2008, você entra com duas latas de spray e um amigo. Antes, tinha que
passar por um corredor polonês e dar cinco latas de spray.” (Entrevista, homem, líder local)
(ABRAMOVAY, 2010, p. 104). E utilizado como objeto de troca principalmente pelas
meninas pixadoras, que dão spray para os meninos marcarem também seus nomes (seus
pixos), em função da maior facilidade que eles teriam em termos de rapidez, escaladas, e de
utilizarem letras mais trabalhadas. As meninas são consideradas, por elas mesmas, como
possuidoras de uma “letra feia” e sem a mesma agilidade que têm os meninos. (Idem, Ibidem,
p. 128). Quando pixam, costumam usar a letra F, após seu pixo, para diferenciar da pixação
dos meninos.

29
CAPÍTULO 4

BRASÍLIA: A ESCRITA NA/DA CIDADE

Pensando a cidade como um corpo vivo significante em que habitam outros corpos
vivos, também significantes, e pensando que esses corpos que nela coabitam são sujeitos de
linguagem, temos um encontro de linguagens, línguas, escritas, culturas diversas. Esse
encontro plural numa cidade do mundo moderno – cidade de escrita – oferece ao observador
múltiplos elementos significantes. Este jogo de atribuição de sentidos nos interessa: é com ele
que olhamos a cidade, considerando, como já dissemos, que estes corpos – cidade e sujeito –
são atados; a cidade se configurando, portanto, em uma extensão do sujeito. Assim, observar
os movimentos na/da cidade é perceber os movimentos no/do sujeito.
Orlandi (2004, p. 106, grifo do autor) afirma que “não se pode pensar a linguagem
como se ela estivesse separada do seu meio material, das suas condições, da conjuntura em
que ela aparece.” Esses aspectos que compõem os sentidos da linguagem nos fazem olhar a
cidade buscando percebê-los, explicitá-los, compreendê-los. É dessa forma que buscamos
compreender os sentidos, discursivamente.
Contudo, é fácil perder-se nesse emaranhado de dizeres, nessa teia em que cidade e
sujeito se dizem. Nosso olhar no início deste trabalho, via apenas uma cidade em que a escrita
se fazia presente de modo forte, uma escrita envolta pelo imaginário citadino: muita pixação
(os sujeitos), muita publicidade (a ordem econômica), muitas placas de trânsito (a ordem
administrativa). Esse sentido transparente, de acordo com Orlandi (2012, p. 42, grifo do
autor), “não brota do nada”, é um sentido que se instaura ideologicamente, que nos leva a ter
uma determinada imagem do que seja uma cidade.
Sendo a forma-sujeito da modernidade o sujeito-de-direito, subordinado às leis,
individualizado pelo Estado, podemos perceber esse sujeito também nos espaços da cidade.
Espaços de leis, espaços de ideologia, espaços simbólicos. Para perceber esses espaços e os
sentidos que aí se configuram, é necessário atravessá-los em sua opacidade, ressignificá-los.
Este foi o nosso trabalho, que teve início com a observação desses espaços e a
montagem de um arquivo de imagens. Em movimento constante pela cidade, fotografando,
fomos percebendo certas regularidades nas escritas e nos espaços. Trabalhando tais
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regularidades, nas suas semelhanças e diferenças, passamos à categorização dessas escritas,
sabendo não ser esta tarefa simples, pois categorizar já é classificar, atribuir sentido.
Delimitamos, primeiramente, dois grupos: um que utiliza suporte, ou seja, placa, faixa,
cartaz; outro, que não utiliza suporte, se inscreve diretamente na cidade, no muro, no viaduto,
no portão. Esses grupos, contudo, desmembram-se, de acordo com características que
possuem, sentidos que constroem, e contexto em que se inscrevem. Identificamos, assim,
diferentes tipos de escrita em cada um deles:

1. Escrita com suporte


. permitida
. não permitida (mas tolerada)
2. Escrita sem suporte
. permitida (se autorizada)
. não permitida (mas tolerada)
. proibida

A categorização não é uma tarefa fácil, como dissemos, porque esses grupos por
vezes confundem-se, gerando uma inversão de lugares, onde o não permitido aparece como
permitido (ou tolerado) provisoriamente, (como no período eleitoral, ou na colocação de
cartaz de animal perdido); ou de forma permanente (com a colocação ininterrupta dos cartazes
de serviços, de temas religiosos ou de eventos).
Na verdade, esse trabalho de categorização levou-nos a pensar no funcionamento do
discurso jurídico-administrativo, na questão dos direitos e deveres – desiguais – do cidadão
em nosso país, colocando, pois, em questão, o sujeito e as instituições. Por que não sendo
permitida é tolerada? Por que uma vez permitida ainda precisa ser autorizada? Mas essas são
questões para outro trabalho.
Mesmo assim, a propósito da categorização, lembremos Pêcheux (1990), como a nossa
tentativa de sujeitos pragmáticos de dar uma ordem no real – da cidade –, necessitamos
recobrir logicamente, homogeneizar o efeito de aparente desordem que, no caso, o pixo
produz. Essa necessidade de engavetamento, de agrupamento por semelhança, essa
“necessidade equívoca”, de ordenar as “coisas a saber” do nosso cotidiano, que desafiam e
ameaçam o sujeito (pragmático), acentua-se em um espaço como o da cidade, com suas
diferenças, com sua heterogeneidade constitutiva, enquanto espaço que reúne posições de
sujeito distintas, conflitivas, contraditórias.

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4.1 – ESCRITA COM SUPORTE

Uma das primeiras e mais antigas tecnologias produzidas pelo sujeito para
conhecer-se a si mesmo é, portanto, o gesto de escrever. Por essa razão, é a
partir da compreensão da historicidade da escrita, ou seja, do trajeto dos
sentidos que a escrita como tecnologia foi produzindo quando da utilização
de diferentes ferramentas e suportes, que podemos compreender que as
diferentes formas de relação social estão ligadas a uma tecnologia e que a
forma do conhecimento tem a ver com essa tecnologia. (DIAS, 2009, p. 10).

A relação que a autora faz entre o gesto de escrever, os suportes e as relações sociais,
nos ajudou a pensar a categorização dos diferentes suportes e nos efeitos de sentidos que eles
constituem. Neste trabalho, podemos pensar o suporte como apoio, instrumento para a escrita,
algo, como nos diz o dicionário, “que suporta algo, aquilo em que se firma ou se assenta.”
(FERREIRA, 2009). E na cidade identificamos diversos suportes, em diferentes tamanhos,
formas e materiais: placas, faixas, cartazes, em tecido, lona, papel, suportes eletrônicos,
digitais, suspensos, pendurados, presos ao chão, móveis.
Os suportes, mesmo antes de “assentarem” uma escrita, significam. Sua forma, o
contexto, a localização, a visibilidade, fazem parte das condições de produção e constituem –
juntamente com a escrita – sentidos.
Nunes (1993, p. 15) também nos conduz nesta reflexão, ao trabalhar o outdoor e sua
materialidade. O autor os pensa como “suporte material do texto”, que “funcionam como
paisagens inscritas no corpo da cidade, compondo portais, janelas, muros, telas suspensas”
(p.15), lugar de exposição do simbólico, apontando, também, as mudanças em como este (o
simbólico) está presente nas cidades. Ele retoma as mudanças históricas que as cidades
sofreram, especialmente as transformações (na cidade e no sujeito) da cidade medieval à
cidade burguesa: “Como mostra Sennet (1997), o homem de negócios, o burguês,
individualista, separa-se da caridade cristã e apossa-se do espaço urbano para exercer
atividades de compra e venda.” (Idem, Ibidem, p. 14).
As condições de produção de cada suporte, como dissemos, significam. Ainda que
raras, em comparação às Satélites, uma placa fincada na grama no Plano Piloto diz diferente
de uma na Cidade Satélite. Assim como seu tamanho, seu material. A diferença também se
percebe entre um suporte eletrônico e um outdoor. Este, estático, aquele, em movimento.
Assim como uma faixa colorida tem um efeito diferente de um cartaz em preto e branco
colado em um poste.

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Nessa categoria de “escritas com suporte”, identificamos dois movimentos, no interior
do funcionamento discursivo. Um que remete à administração, à lei que rege a sociedade, ao
que se considera necessário à manutenção da ordem urbana, ao permitido; outro, em direção
ao que embora seja não permitido, é aceito com tolerância por essa mesma administração e lei
que o proíbe.
Trata-se no caso das leis No 3.035 e No 3.036, que dispõem sobre o Plano Diretor de
Publicidade das Regiões Administrativas - RA do Distrito Federal, sendo RA, a nova
nomenclatura oficial de Cidade Satélite, ainda não incorporada pela população. A lei No
3.035 rege as regiões do Plano Piloto, Cruzeiro, Candangolândia, Lago Sul e Lago Norte. A
lei No 3.036 rege as demais regiões.

Art. 4º Constituem objetivos do Plano Diretor de Publicidade:


I – manter a estética da paisagem urbana por meio do ordenamento da
publicidade;
II – ordenar os meios de publicidade no espaço urbano considerando as
particularidades de cada Região Administrativa;
III – estabelecer parâmetros para instalação de meios de propaganda
objetivando evitar os abusos e a sobreposição dos mesmos;
IV – normatizar a utilização de meios de publicidade em área pública, de
forma a evitar prejuízos quanto à circulação de veículos e pedestres;
V – preservar a visibilidade do horizonte, característica fundamental na
concepção da cidade. (DISTRITO FEDERAL, 2002, pp. 1-2, grifo nosso).

Os cinco parágrafos acima são os mesmos nas duas leis. Contudo, a No 3.035, que
rege a Região Administrativa do Plano Piloto, possui um parágrafo específico, em virtude do
tombamento dessa área:
II – ordenar os meios de propaganda no espaço urbano de forma que não
comprometam as quatro escalas objeto de tombamento de Brasília como
Patrimônio Cultural da Humanidade. (IDEM, 2002, p. 1).

As duas leis trazem o mesmo texto no que se refere às proibições. Especificamos, a


seguir, apenas os parágrafos que, segundo nossa pesquisa, foram, de certa forma, violados.

Art. 59. Fica proibido afixar o meio de propaganda:


III - em canteiros centrais;
IV - na forma de cavaletes, em área pública,
V - em árvores ou arbustos;
VII - em monumentos públicos, esculturas, fontes ou mastros;
VIII - em interseções ou rótulas de vias urbanas e rodovias, exceto quando se
tratar de sinalização de trânsito;
IX - em linhas e postes de transmissão ou em qualquer equipamento ou
objeto de sinalização;

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XII - em trevos, passagens de nível, viadutos, pontes, passarelas, túneis,
muretas ou grades de proteção das rodovias ou ferrovias e metrovias;
XIII - em alambrados, cercas ou muros de áreas, logradouros ou edifícios
públicos, salvo quando a Lei o permitir;

Art. 60. Fica proibida a instalação de faixas em área pública:


I - nos locais mencionados nos artigos 58 e 59 [acima];
II - nas faixas de domínio do Sistema Rodoviário do Distrito Federal;
(DISTRITO FEDERAL, 2002, pp. 19-20, grifo nosso).

4.1.1 Permitida

A escrita permitida aparece como o que está dentro da lei (o jurídico-administrativo de


uma cidade): o Código de Trânsito Brasileiro, que determina sobre as placas de sinalização; o
Plano Diretor de Publicidade, que determina sobre os espaços/meios de propaganda. Temos,
assim, uma escrita de acordo com a lei, permitida e controlada oficialmente.

Núcleo Bandeirante: outdoor e placa de sinalização

Nessa discussão sobre as escritas permitidas na cidade, cabe um exemplo de fora de


Brasília, que acreditamos relacionar-se com nossas escritas. Em março deste ano, o programa
“Mundo S/A” do canal de TV a cabo Globonews, teve como tema o empreendedorismo nas
favelas (agora, comunidades) do Rio de Janeiro. Mostrou vários casos de negócios inovadores
que nasceram ali, e que, com a pacificação e a abertura das comunidades, tornaram-se casos
de sucesso, se desenvolveram, e viraram notícia.
O SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, agência do
Governo que apoia o microempreendedor, desde de 2012 voltou-se àquelas comunidades,

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tendo como principal desafio “a busca pela integração produtiva com o restante da cidade”
(SEBRAE/RJ). Aquele era um espaço de informalidade, ao qual o Governo do Estado não
tinha nem mesmo acesso, não recolhia impostos, e os números daquele comércio não
figuravam nas pesquisas econômicas. Era uma terra sem lei, mas de comércio livre. Com a
pacificação, o Estado pôde, enfim, tomar seu espaço nos negócios que ali prosperam. Entram
a lei, a polícia, e o controle sobre o comércio.
Mas o que queremos mostrar é a contradição que se cria num espaço que começa a se
formalizar. O programa entremeia os casos de sucesso e as falas da Coordenadora das
Comunidades pacificadas – Carla Teixeira, que diz:
Por exemplo, uma senhora que faz coxinha pra vender, a gente não
ensina ela a cozinhar, mas a gente ensina ela a comprar na
quantidade certa pra não desperdiçar, como formar o preço, como
fazer um cartãozinho ou colar um anúncio no poste, então toda a
capacitação do SEBRAE é na gestão do negócio (MUNDO S/A,
2013, grifos nossos).

Por que, lá, na favela/comunidade, pode colar anúncio no poste? Porque se for para a
eficaz “gestão do negócio” é permitido, ou por que aquele é um lugar em que a lei pode, deve
(?) ser burlada? Ou é efeito do desenvolvimento econômico controlado?

4.1.2 Não permitida (mas tolerada)

Há, porém, uma escrita oficialmente fora da lei, ou, como estamos nomeando aqui,
não permitida. Apesar disso, é, contudo, tolerada pela sociedade (e também, por vezes, pelos
olhos oficiais, como se funcionasse aí, a tolerância por meio de vista grossa), e,
aparentemente, não produz o efeito de repulsa, de sujeira, de vandalismo, causado pela
pixação – não permitida e não tolerada.
Nessa categoria, referimo-nos, à profusão de cartazes referentes a todo o tipo de
evento, colados em pontos de ônibus, postes e muros; às placas de vende-se/aluga-se/precisa-
se/procura-se, oferece-se (de imóveis, empregos, a animais); às faixas, cavaletes, cartazes
(extras) de promoção de lojas comerciais, que eventualmente invadem o espaço público; à
apropriação do espaço público para homenagem póstuma; à propaganda religiosa.

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Cartazes de eventos:

À esquerda, construção de apoio, no Guará 2; à direita, ponto de ônibus no Parkway

Os cartazes estão, pois, por toda a cidade, colados em postes, pontos de ônibus, muros,
monumentos, em pedaços livres da cidade. Eles (como os outdoors) fazem parte já da
paisagem urbana, não nos deixam esquecer o show tal, lembram-nos de comprar o ingresso,
de convidar alguém, e, mais ainda, funcionam como um “grande calendário” dos eventos
urbanos de/para todas as tribos (Nunes, 1993).
Em nossa observação percebemos, em final de março/2012, os cartazes de divulgação
do show de “Racionais MC’s”, com data para 14 de abril. Este cartaz específico chamou-nos
atenção por dois motivos: abrangência e impacto visual. A imagem do grupo destacava-se
sobre fundo preto e letras brancas, causando efeito imediato de diferença e destaque dentre os
demais cartazes, geralmente coloridos. Visualizamos os referidos cartazes nas regiões do
Plano Piloto, Núcleo Bandeirante, Park Way (quadras próximas ao Guará), Guará 1 e 2,
Taguatinga e Águas Claras.
A partir do quinto dia de exibição dos cartazes relativos a esse show, nas regiões do
Guará 1, 2 e redondezas (trechos do Park Way e Núcleo Bandeirante), foram colados por
cima desses, cartazes de divulgação da “Via Sacra” que seria encenada no Guará 2, na semana
seguinte. Três dias depois, nova colagem, com cartaz divulgando show em bar local. Na
sequência, a divulgação de encontro “Pentecostes”, e, fechando o período de duas semanas,
um curso, lembrava o início das aulas para uma turma de concurseiros, compondo assim,
parte do calendário de eventos da cidade.

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Cartazes: Rap, show local, Pentecostes

Construções de apoio no Guará 2

Podemos, assim, voltar aos cartazes, percebendo esses dois discursos heterogêneos: o
cartaz do rap (Racionais MC´s), o cartaz da “Via Sacra”. O terceiro da sequência – turma de
concurseiros, aponta, também para a heterogeneidade. O concurso público remete à
estabilidade financeira, ao emprego/futuro garantido, ao estilo de vida da classe média.
Definitivamente, não é o lugar do rap. Temos, portanto, discursos heterogêneos mesmo pela
sua existência, pela formação discursiva a que se filiam. Contudo, na cidade, têm efeito de
homogeneidade, enquanto objetos consumíveis no imediatismo do cotidiano citadino.
Essa é também a cidade do consumo, em que a tudo se dá visibilidade, produzindo,
assim, efeito de necessidade (de atualização, de comprar, de possuir, de ter) a qualquer custo,
ao qual, o sujeito se submete livremente: efeito da interpelação pela ideologia. Livre em suas
escolhas, mas que deve submeter-se, em sua liberdade imaginária, ao consumo, às opções
com as quais dá de encontro diariamente, e que surgem em seu caminho com a transparência
da necessidade.
Apontam, ainda, para o efeito de circularidade, para o funcionamento constante,
ininterrupto, da ideologia da comunicação, do consenso, do consumo, do direcionamento e
controle dos sentidos. As imagens anteriores, referentes ao rap e ao catolicismo, foram
fotografadas em 2012. Neste ano, 2013, no mesmo período, o rap e a religião continuaram
funcionando, juntos. Cartazes divulgando o show do grupo foram, mais uma vez, colocados
por toda a cidade. E, novamente, por cima desses, foram colocados os cartazes de divulgação
da “Via Sacra” (apenas na região do Guará 1 e 2, visto que é uma apresentação local).
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Ao lado dos cartazes de eventos, localizamos os anúncios de prestação de serviços.
Relacionamos os mais encontrados: os de “lava sofá”, “marceneiro”, “lava piso pós-obra”, os
de adivinhação e de plano de saúde. De acordo com a lei, como mostramos, essas formas de
escrita e apropriação do espaço público não poderiam estar ali, mas são toleradas por parte da
sociedade e do poder público. Que efeitos produzem os cartazes de eventos e serviços? Nos
levam a pensar que tal fato se daria pelo efeito de utilidade que eles teriam: de lavar sofá,
lavar piso pós-obra, adivinhar o futuro, empréstimo financeiro e contratar plano de saúde.
Algumas questões formam-se para nós. Uma delas, relaciona-se com o fato de que
poderíamos considerar alguns deles como um subserviço, um serviço de baixo valor social, ou
ainda, um serviço onde não haja espaço ainda definido, controlado, direcionado, para
veiculação. “Lavar piso pós obra” – onde oferecer/divulgar esse serviço? Pensando no cartaz
de plano de saúde, poderíamos pensar que aí não se enquadraria, mas, por outro lado, observa-
se que raramente menciona-se o plano, a empresa, mas dá-se destaque ao preço barato; nos de
adivinhação, tomamos a reflexão de Silva (2013), sobre serem (?) a marca de um “religioso
brasileiro”. Esse serviço religioso: ler a mão, adivinhar o futuro, trazer de volta amores,
empregos etc., estão sempre no texto desses cartazes. Tem, também, a característica do
sincretismo, ele serve a sujeitos de distintas religiões.
Essas escritas, com seu efeito de utilidade, apresentam também outra face, que as
colocam na estrutura da forma-sujeito da modernidade: a face do consumo, do comércio, do
negócio, marcando a posição do sujeito capitalista: um sujeito determinado pela exterioridade.
Um ponto importante que gostaríamos de retomar, diz respeito à quantidade dos
anúncios e cartazes. Na pesquisa, temos observado que eles se espalham em profusão.
Enquanto nos postes são colados em média, dois, três anúncios, nos pontos de ônibus essa
quantidade, em média, dobra, podendo ainda aumentar:

Ponto de ônibus em Taguatinga Sul

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À esquerda e ao centro, poste e obelisco em Taguatinga; à direita, construção de apoio no Guará 2

Sempre em grande quantidade, como um desejo (há a tentativa) de preencher todo o


caminho, todos os postes. Este é um fenômeno que observamos por espaços bastante distintos
– Plano Piloto, Satélites e as vias de ligação –, onde fotografamos trechos com sequências
incontáveis de postes com o mesmo anúncio, como podemos ver nas próximas imagens.

Mureta em canteiro central no Núcleo Bandeirante

Canteiro central no Riacho Fundo

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Outra face da relação espaço-sujeito mostra-se na capacidade de adaptação, necessária
nessa babel de dizeres que falam de tudo, de várias formas, utilizando diversas técnicas e
tendo a cidade como suporte. O anúncio “marceneiro” traduz essa necessidade:

Poste na Asa Norte

Na nossa escrita – horizontal – ele se destaca, não só pela verticalidade da sua forma e
pela divisão dos números de telefone, mas justamente porque está aí um gesto, diferente, que
movimenta, inverte o natural, o já existente.
Identificamos, ainda, outra escrita não permitida, mas que o poder público tolera e a
sociedade aceita. Estas, sem o efeito de utilidade das anteriores, trazem-nos a questão da
solidariedade: os cartazes de “procura-se” (animais e pessoas perdidas) e as homenagens
póstumas (como a cruz e a bicicleta indicando lugar de atropelamento/morte).

À esquerda, bicicleta em canteiro central na Asa Sul; ao centro, cruz em canteiro central no Núcleo Bandeirante; à
direita, ponto de ônibus no Guará 2.

Ao lado dessas intervenções que tocam explicitamente na questão da solidariedade,


encontramos outras, referentes ao discurso religioso, sem – repetimos – produzirem o efeito

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de utilidade a que nos referimos anteriormente. Não oferecem serviço. Não há apelo
comercial.

Placas religiosas em postes e árvores; a primeira, em Águas Claras, as demais, no Guará

Temos observado que estes espaços de religiosidade e solidariedade, parecem


configurar-se como lugares que, ao mesmo tempo que passam por permitidos, enquanto
proibidos pelo poder público, tornam-se, paradoxalmente, espaços proibidos de serem tocados
pelo cidadão. A grama é cortada e a cruz e a bicicleta continuam no mesmo lugar; a lâmpada
do poste é trocada, a árvore é podada, e a(s) placa(s) continua(m) no(s) mesmo(s) lugar(es).
Para Mariani (2001), “solidariedade” aponta para dois caminhos: um primeiro, mais
usual, demonstra adesão a uma causa; um segundo, menos visível, marca a relação entre
“solidariedade” e “responsabilidade”. Este segundo caminho, abre-se também em dois:
“solidariedade” no discurso jurídico e no campo da moral constitutiva de uma nação. “Assim
é que solidário, na primeira acepção, é um “vínculo jurídico” [...]. Tal estado ou vínculo supõe
uma dependência e responsabilidade mútuas. Por outro lado, trata-se também de um laço
moral que une as pessoas em sociedade”. (Idem, Ibidem, p. 44).
Este laço moral – construído pela ideologia – presentes no discurso da solidariedade e
da religiosidade, que une, também submete, impõe. No mesmo texto, Mariani, ainda sobre os
sentidos de “solidariedade”, fala de “uma memória discursiva que entrecruza aspectos
jurídicos e cristãos no processo de construção nacional [...].” (Idem, Ibidem, p. 50). O que nos
remete, portanto, ao processo formador/mantenedor da forma-sujeito atual – o sujeito-de-
direito, em uma sociedade capitalista e cristã, considerando como força produtora de sentidos,
a religião e suas instituições – as igrejas, notadamente, Católica e Evangélicas.

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4. 2 – ESCRITA SEM SUPORTE

Já houve quem questionasse: “O que pensará o homem do futuro ao


deparar com os graffiti do século XX? O metrô de Nova York não se
tornará uma Lascaux (sítio arqueológico formado por grutas repletas de
pinturas e desenhos)? Cheio de signos herméticos, nomes e números que
deixarão os historiadores a se debater em decifrações? (GITAHY, 1999, p.
12, grifo nosso).

Quando pensamos as regularidades das escritas em Brasília e nas Cidades-Satélites,


em nossa pesquisa, a questão do suporte tornou-se fundamental. Seus diferentes tipos e usos,
vimos, funcionam junto com o dizer, ajudam a compor o sentido da escrita. Sua forma produz
um ou outro efeito. A cidade, entretanto, torna-se, para algumas escritas, ela mesma o
suporte. Inscritas diretamente no corpo da cidade, essas são as escritas hoje consideradas
como sujeira, vandalismo, crime. É letra (pixo) na pele (muro).
O suporte (placa, faixa, cavalete, cartaz, outdoor), mesmo quando ilegal, produz efeito
de organização, de adequação ao espaço. Ele não toca diretamente a cidade. Pode ser mais
facilmente recolhido, arrancado, substituído. O que não acontece com a pixação, com o
grafite. Não podem ser recolhidos, arrancados. Seu movimento de retirada passa pelo mesmo
lugar da colocação, será feito via direta: é preciso pintar, às vezes raspar a pele/muro, ou seja,
intervir diretamente no corpo da cidade mais uma vez.
Pensamos essa diferença como estruturante em nosso trabalho. Mas há outras
questões. Mesmo as não permitidas, mas toleradas, funcionam dentro da ordem econômica:
vendem, trocam, alugam, oferecem serviços, informações, suprem e criam necessidades
existentes na vida em uma sociedade capitalista moderna como a nossa. Essas são escritas
com autoria reconhecida, mesmo que não explicitadas, com finalidade, que significam dentro
do mundo semanticamente normatizado e normalizado. Têm supostamente utilidade e não
requerem interpretação. Seus sentidos já estão prontos, significados imaginariamente, e
acredita-se que nós, “sujeitos pragmáticos”, “simples particulares”, sabemos o que fazer com
elas.
A escrita do pixo, funciona de forma diferente. É um objeto simbólico que tem sua
materialidade e historicidade negadas, apagadas, e significa, para os não praticantes, em sua
transparência, apenas como sujeira, vandalismo, coisa de delinquente.

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4.2.1 – Permitida (se autorizada)

Neste tópico, trataremos do grafite, que, utilizando também desenho, cores e outros
recursos como 3D e movimento, afasta-se do pixo, que tem apenas na letra sua forma de
construção. Apesar dessa diferença, há, também pelo nome – grafiteiro –, espaços e sentidos
em que ambos, grafiteiro e pixador, se encontram. Portanto, não trataremos aqui das origens
ou das especificidades dessa expressão, mas sim, de elementos do grafite que significam no
contexto da pixação.
Grafite e pixação, tinham, no Brasil, até 2011, juridicamente, o mesmo sentido: crime,
com pena de detenção de 3 meses a 1 ano, e multa. Naquele ano, no Governo de Dilma
Rousseff, houve um rompimento nessa rede que filiava os sentidos de um e outro, colocando-
os, assim, em lugares opostos e, como veremos, estendendo, como efeito, essa oposição aos
sujeitos praticantes.
Trazemos, a seguir, o artigo da Lei que trata dessas redefinições:

Art. 65 - Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento


urbano: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.

§ 1o Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do


seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 (seis) meses a 1
(um) ano de detenção e multa.

§ 2o Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de


valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística,
desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou
arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do
órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas
editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e
conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.” (BRASIL, LEI No
12.408, 2011, grifos nossos).

De acordo com a lei, portanto, pixação continua sendo crime, dano ao patrimônio
(com o agravante do tombamento na região do Plano Piloto), e o grafite, arte, desde que o
dono do espaço autorize o desenho. No caso do Distrito Federal, a implementação, a partir de
1999, do Projeto “Picasso Não Pichava”, também ajudou a construir tal oposição. Este Projeto
tem como objetivo geral:
Diminuir a criminalidade entre jovens envolvidos com gangues e
delinquência juvenil no Distrito Federal ou em situação de risco social de
tornarem-se criminosos, a partir de uma releitura artística de seu potencial

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a fim de resgatar, recuperar e redirecionar positivamente esses jovens na
sociedade por meio da inserção ocupacional. (grifos nossos).

O redirecionamento, buscado por meios de suas culturas – dança, música, esporte –,


trabalha de modo a vincular o sujeito-pixador e sua cultura ao que poderíamos chamar de
sentidos positivos, artísticos do grafite, opondo-o à pixação, significada com sentidos
negativos e não artísticos. Há, nesse discurso do Estado, da polícia, da escola, um vínculo
entre pixação-delinquência, pixação-violência, que não trabalha o gesto de interpretação aí
presente e objetiva a mera oposição.
São as relações de força funcionando – o Estado e o sujeito, o grafite e a pixação, o
legal e o ilegal – desenhando novas relações de sentido. Movimento de controle – ideológico
– dos sentidos, de “volta à série”. Silenciamento. “Se o grafite se reconhece porque se coloca
como arte – pois a arte não precisa ser imediatamente legível – a pichação, com seus
“estranhos” sinais gráficos, é indistinta, é “sujeira”.” (ORLANDI, 2004, p. 110, grifos do
autor).
O estabelecimento de uma lei, a implementação de um projeto social, ambos
trabalham a/na transparência, na superfície dos enunciados dos dois gestos, ambos distintos,
opostos. E seu trabalho (da lei, do projeto social) funciona pela oposição. O que pensamos,
entretanto, é que essa oposição evidencia uma contradição aí presente, em que se articulam o
simbólico e o político. Pensamos ser, tal oposição, produzida, pois, para se trabalhar a
conversão entre fora da lei–dentro da lei, crime–arte, pixador–grafiteiro. Esse mecanismo
ideológico que estamos chamando de conversão, pode ser visto no grafite abaixo:

Grafite em muro no Guará 2

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Vemos uma imagem da natureza, produzindo efeito de paz e tranquilidade, e um
trecho bíblico em que se lê: “Entrega o teu Caminho ao Senhor, Confia nele, e ele tudo fará”.
A presença do religioso no grafite funciona também para produzir a conversão, pois, há, no
discurso religioso, a ideia da conversão. O grafiteiro (ex pixador convertido), então, assina seu
grafite:

Detalhe da imagem anterior

Grafiteiro é utilizado para designar quem faz o grafite. Entretanto, o pixador de


Brasília utiliza o mesmo termo, com certa frequência, para dar nome às gangues (de
pixadores) locais: “GSN – Grafiteiros Sanguinários Noturnos”; “AG – Anjos Grafiteiros”;
“GDF – Grafiteiros do Distrito Federal”; “GSJ – Grafiteiros Sem Janta”.

[Pichador] pra mim é o melhor significado... sempre fui a favor de tirar essa
sina das gangs terem no nome a palavra GRAFITEIROS, sendo q não somos
isso... PICHADORES soa mais a nossa cara [...]. (BONOS, 2011, grifos
nossos).

Efeito, portanto, dos deslizamentos de sentido entre grafiteiro-pixador, do trabalho de


formações discursivas heterogêneas. O pixador parece negar o grafite, mas usa o nome
“grafiteiro” para nomear a gangue. E quer ser chamado “pixador”, termo que traz, para ele,
uma carga semântica que o representa mais do que “grafiteiro”. O uso do termo “grafiteiro”,
pelo pixador, para nomear uma gangue de pixadores, parece trazer o aspecto artístico, de
legalidade, que o nome “grafiteiro” carrega. Contraditoriamente, parece, também, imprimir o
seu (do pixador) sentido de ilegalidade, de não-arte, ao grafite. Isso significa, ainda, que não
há lugar – posição de sujeito – neutro, que não esteja afetado pela ideologia, pelos sentidos
estabilizados, pelo interdiscurso (memória do dizer).

45
4.2.2 – Não permitida (mas tolerada)

Outra modalidade de escrita que utiliza diretamente a cidade como suporte é aquela
que traz dizeres de protesto, de reivindicação. Trata-se, contudo, de protestos legíveis para as
pessoas escolarizadas, e as estamos considerando pixação-protesto/reivindicação.
À pixação-protesto/reivindicação, apontamos como principal característica, a
legibilidade. Sendo legível, é uma escrita que significa imediatamente e seu efeito de
permitido, revela outro, de utilidade, como a necessidade de uma ciclovia nas imagens a
seguir:

Passarelas no SIA – Setor de Indústria e Abastecimento

Ou uma razão explícita, como a pixação-protesto “GREVE GERAL NA


EDUCAÇÃO!”, feita nos primeiros meses de 2012.

Viaduto em Vicente Pires

É legível para os escolarizados, significa-se algo com ela: o contexto, a greve dos
professores; retoma-se sentindos, veicula seu dizer a um grupo reconhecido, evoca-se também
o reconhecimento do direito de greve. Existe, portanto, para o governo (que negocia as
reivindicações daqueles grevistas), para a população escolarizada (que faz - ou não - uso da
educação pública), uma leitura possível: o protesto do grupo de professores. Observamos,

46
também, o funcionamento do interdiscurso pela relação entre essa pixação-
protesto/reivindicação e o período da ditadura no Brasil, onde pixava-se, com escrita legível
“abaixo a ditadura”.
Gostaria de chamar a atenção para o fato de que, nos anos 60, quando
saíamos para pichar muros com “Abaixo a Ditadura”, o fazíamos em um
gesto explicitamente político e o que é mais significativo: escrevíamos com
letras padrão, legíveis para os alfabetizados. Era crucial que o que estava
escrito fosse imediatamente legível. Escrever hoje pichações, que
apresentam, como parte do seu modo de significar, o fato de que não são
inteligíveis à primeira vista e para qualquer um, rivalizando, por assim dizer,
com a alfabetização, é muito significativo. (ORLANDI, 2004, p. 111).

No contexto histórico/político da década de 1960, com a ditadura em vigor no País,


esse gesto tinha um efeito político, de protesto contra o cerceamento dos direitos dos cidadãos
brasileiros pela ditadura militar. Ignorar, portanto, a historicidade, o contexto de um objeto
simbólico, ou considerá-lo em si mesmo não permite perceber como funcionam os sentidos
que ele produz em diferentes momentos da história. No decorrer da observação, vimos
necessidade de apontar outra característica à pixação-protesto/reivindicação, ligada ao efeito
de legitimidade (ou não) que ela produz. Consideramos, pois, que o efeito de legitimidade se
produz pelo objeto em questão: um direito legítimo (de greve), uma utilidade pública
(ciclovia), ou pelo grupo que protesta.
Deparamo-nos, ainda, na cidade, com escritas que protestam, sem, contudo,
produzirem o mesmo efeito de legitimidade, como “O CORPO É MEU, A CIDADE É
NOSSA!”, “MEU ÚTERO, MINHA ESCOLHA”, “LEGALIZE”, “COMPARTILHE A
RUA!”. Essas escritas têm o fundo de protesto e reivindicação, porém, a lei brasileira e a
sociedade – a maior parte dela – não as legitimam. São reivindicações (descriminalização da
maconha, direito ao aborto, livre uso das ruas) que não gozam de prestígio na sociedade, e
podemos mesmo percebê-las como temas tabus (Foucault, 2010). Têm um efeito de sentido
marginal, que remetem à outra formação discursiva, diferente daquelas legitimadas.

Pontos de ônibus na Asa Norte


47
Placas de sinalização na Asa Norte

A não legitimidade se produz, no caso brasileiro, em relação ao sistema jurídico,


religioso e/ou administrativo. País majoritariamente católico, seguem, os fieis, em grande
parte, a regra da Igreja que proíbe o aborto; o sistema jurídico – que também proíbe o aborto –
e considera a maconha como droga, sem descriminalizar seu uso.
Aqui, pensamos nas reflexões de Orlandi (2004, p. 50) acerca da sobredeterminação
do discurso do urbano sobre a cidade. O apagamento do discurso da cidade, leva, segundo a
autora, ao apagamento também do social. “O urbano, visto dessa forma, hierarquiza as
distinções, sendo o lugar do cálculo, da planificação.” Trabalhando o imaginário de ordem na
cidade, do planejamento, da organização, o que é distinção, diferença, é apagado, silenciado.
E uma frase como “A cidade é nossa” diz contra esse discurso do urbano, contra o imaginário
da ordem, põe em cena o discurso da cidade, do povo heterogêneo que nela vive.

4.2.3 - Escrita proibida (o pixo)

A pixação-assinatura (individual e/ou grupal) é o que consideramos o nome, o pixo, o


rabisco indecifrável, o vandalismo, aquele escrito que não significa para a maioria da
sociedade e para o Estado, ou, que significa de uma única forma, que causa um único efeito:
sujeira, vandalismo, crime.
Nosso objetivo principal, nesta pesquisa, é mostrar os diferentes outros efeitos de
sentidos possíveis que a pixação (assinatura) produz. Como o sujeito-pixador se significa, se
individualiza, que relações se estabelecem entre eles (grupos de pixadores, rivais ou aliados) e
a sociedade. Consideramos, pois, essa pixação como a inscrição de um nome, de um sujeito
48
e/ou de um grupo, e com isso constrói sua identidade e se relaciona com seus pares e com a
sociedade; que coloca-se e identifica-se a partir de um lugar fundamentado pela (sua) letra,
pelo (seu) nome, criados, trabalhados, e pelos sentidos aí produzidos.
Característica comum às escritas que usam a letra padrão e significam para a maioria é
que elas falam com quem com elas se depara, sejam escolarizados ou não. Elas comunicam,
mas, da perspectiva discursiva, podemos dizer que elas comunicam e não comunicam.
Transmitem, imaginariamente, de modo unívoco, apenas uma mensagem: vote...; use...;
compre...; ligue...; aqui jaz...; ore/reze...; venha...; pare; siga; à direita; entre...; você!
Pensamos, assim, que sabemos o que fazer com esses dizeres, pois todos parecem encontrar
lugar no universo das significações. E mesmo se não fizermos o que eles nos dizem, mesmo
que não compremos, que não usemos..., estabelece-se, imaginariamente, um diálogo, um
entendimento, uma suposta escolha por parte dos sujeitos envolvidos.
E com a pixação, esse diálogo imaginário se rompe e cai no sem-sentido. O pixo,
aquele escrito na parede, não faz parte de um “universo logicamente estabilizado” (Pêcheux,
2008), habitado pelo sujeito citadino. Mesmo imaginariamente, não se explica, não mostra
seu motivo. Ele não comunica para a maioria, no sentido de trazer uma mensagem entendida
como mera troca informações entre as pessoas. Ficamos desorientados, perdidos no universo
– agora – de (in)significações, do qual a saída mais rápida é utilizar o já utilizado, repetir o já
dito. Podemos ilustrar essa desorientação com a “fala do desejo”, segundo Foucault (1996, p.
7):
[...] gostaria que fosse ao meu redor como uma transparência calma,
profunda, indefinidamente aberta, em que os outros respondessem à minha
expectativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria
senão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz.

A pixação tem um caráter singular: seu suporte é a própria cidade, como já dissemos
inúmeras vezes. As outras escritas citadinas necessitam de suporte (plástico, papel, lona,
madeira, etc.) para estar na cidade-suporte. O pixo não. Ele é colocado, é escrito, direto no
corpo da cidade. Pensamos ser este um ponto de importância no efeito de choque, de ultraje e
estranheza que a pixação causa. Esse gesto, que descarta a tecnologia do suporte e que não
comunica para a maioria, “desestrutura a rede, afeta o automatismo [...] aparece apenas como
ruído [...].” (ORLANDI, 2005, p. 212).
Cabe ressaltar que a base teórica que norteia esta pesquisa, a Análise de Discurso, não
se interessa pelo quê significa o pixo, mas como ele significa. Nosso objetivo, portanto, não é

49
o de decifrar, nem de descrever o porquê da pixação. Interessa-nos, sim, trabalhar com os
sentidos que o pixo produz, e com as relações que esse sujeito-pixador estabelece com a
linguagem e a cidade, e como através delas ele se insere no mundo, se relaciona com a
sociedade e se individualiza, construindo uma (sua) identidade.
Nesse contexto mais amplo da escrita na cidade, nesse burburinho de vozes, fizemos
um recorte, enquadrando nosso olhar, voltando-nos para a pixação. Em seguida, posto que
formam um emaranhado de “letras em meio a letras, em meio a letras...” (ORLANDI, 2004,
p. 121), novo recorte foi feito, é quando passaremos a trabalhar com um pixo/sujeito
específico. Nos dois recortes (pixação em geral, e pixo específico), estaremos sempre entre a
linguagem (pixo - letra), o sujeito-pixador e as relações de identidade (pessoais e sociais) aí
construídas.
O espaço em branco, livre, disponível (ou não) é básico para a pixação, e Brasília – o
Plano Piloto –, com seu caráter singular de cidade planejada e tombada, tem particularidades
que não se encontram, por exemplo, em São Paulo. Ponto de entrada da pixação-assinatura (o
tag) no Brasil, a cidade de São Paulo compõe um imaginário sobre a pixação, com seus
edifícios abandonados, ou, se não abandonados, fáceis de invadir e subir até o topo. A altura
ali é fundamental. Aliados à altura, estão as marquises, os enfeites e as curvas de uma
arquitetura que dão ao pixador onde se segurar, apoiando a subida do pixador-escalador.
Brasília não oferece isso. Com exceção da área central do Plano Piloto e de Águas
Claras (Cidade Satélite onde é permitida a construção de espigões), os prédios não são altos
como em São Paulo e poucas são as construções abandonadas. As linhas retas (fruto da
modernidade) da cidade também não convidam um pixador-escalador a aventurar-se. É outro
espaço que se apresenta, outras condições de produção, outras relações.
Na proposta de Lucio Costa, além da altura mais baixa dos prédios, haveria outra
particularidade: o não fechamento da área dos prédios. Esse espaço, em outras cidades é
fechado, cercado, murado, e, em geral, faz as vezes de espaço (privado) de convivência dos
moradores, playground, garagem, etc.
Em Brasília, no Plano Piloto, os prédios têm esse espaço, chamado de pilotis, aberto.
Sem cerca, muro, ou outra barreira física que bloqueie a passagem. Os pilotis livres, contudo,
têm um efeito paradoxal. Por um lado, trazem efeito de liberdade, onde, sendo livre a
passagem, seria fácil transitar - e pixar. Contudo, o que acontece, de fato, é o inverso. Nos
prédios localizados ao longo dos treze quilômetros do Eixo Rodoviário (e Eixos W e L) há um

50
número irrisório de pixações. São quase inexistentes. Pensamos ser justamente a forma –
pilotis, não muros – que, com seu espaço disponível para escrita reduzido, não proporcionaria
a visibilidade à pixação.
Não sendo os prédios, portanto, uma opção à escrita, o pixador volta-se às beiradas de
viadutos, às placas de trânsito, ao meio fio, e principalmente, às passagens subterrâneas, aos
pontos de ônibus, e às chamadas tesourinhas, um dos símbolos brasilienses, que liga os Eixos
às quadras comerciais e residenciais.
Temos, portanto, a arquitetura, a forma do espaço, fazendo um outro sentido no gesto
do pixador. Percebemos esse mesmo outro sentido em outra área nobre, a EPDB – Estrada
Parque Dom Bosco, no Lago Sul. Nossa observação foi mais intensa no trecho entre o balão
do aeroporto: rotatória que liga o Eixo Rodoviário-Aeroporto-Lago Sul-Parkway e a Ponte
Juscelino Kubitschek. Nesse percurso, onde predominam casas de alto padrão em grandes
lotes, muros formam uma sequência sem fim: um convite (óbvio? transparente?) à pixação.
Porém, como os pilotis das Asas Norte e Sul, esses muros livres não se tornam espaço para
escrita.

Portão no Lago Sul

Muro no Lago Sul

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Percebe-se que é um espaço – muro, cerca, portão – não apenas bem cuidado, mas um
espaço em que se harmonizam construção e vegetação, com cercas vivas, desenhadas,
aparadas, ladeando os muros. Há pixação ali, entretanto, em pouca quantidade. O que
permite-nos pensar esse sujeito-pixador dotado de certo olhar sensível ao belo, ao harmônico
(SILVA, 2012).
O espaço (e sua forma) e o suporte interferem não apenas no gesto, na pixação, mas
ativamente na letra. “O fator humano e as condições em que são executadas as pixações
influenciam no resultado final, portanto, acabam sendo orgânicas, como extensão do corpo do
interventor [...].” (LASSALA, 2010, p. 83). Altera-se o desenho da letra de acordo com o
suporte. A usual forma reta ou arredondada da base dos pixos, adquire formato triangular
quando escritos em viadutos, que requerem equilíbrio. De cabeça para baixo, a base (parte
inferior) da letra fica mais longe, e é difícil, com o rolo, mantê-la reta, portanto, ele - o
pixador - muda, triangula a base, facilitando seu movimento de escrita, como na imagem a
seguir, da gangue GSL – Grafiteiros Sem Lei.

Viaduto na Asa Sul

A pixação em Brasília é uma prática ligada diretamente à união de grupos de jovens


em torno de gangues. Nesta pesquisa, observando a escrita da pixação, fomos percebendo,
pela frequência e quantidade na cidade, a existência de algumas gangues principais, como as:

. LUA – Legião Unida pela Arte


. ET – Esquadrão Terrorista
. GDF – Grafiteiros do Distrito Federal
. AG – Anjos Grafiteiros
. GSJ – Grafiteiros Sem Janta
. GSN – Grafiteiros Sanguinários Noturnos
. GSL – Grafiteiros Sem Lei

52
Guiamo-nos pela assinatura da gangue, sempre junto aos pixos. A quase absoluta
maioria do texto da pixação constitui-se de dois, três ou mais pixos (o nome, a assinatura do
pixador), e, ao final, a “sigla”, o nome da gangue, em letras menores, ou maiores que os
pixos. Essa diferença de tamanho da letra, às vezes mesmo da fonte, produz o efeito de
destaque, e deixa, geralmente legível, o nome da gangue, em oposição ao do pixo (nome do
pixador).
Como a gangue é representada por “siglas” de três ou quatro letras, o significado não é
expresso de imediato, o que levou-nos a buscar na internet. Tarefa fácil: há blogs de pixadores
e redes de relacionamento que servem de apresentação a esse universo, com o discurso “do”
próprio sujeito-pixador, entrevistas, vídeos, fotos. Há, também, material com o discurso
“sobre” o pixador: reportagens e programas (jornalísticos, policiais) que constituem a outra
rede de sentidos acerca dessa prática, a que toma a pixação como vandalismo, rabisco, sujeira,
impedindo outros sentidos.
Posteriormente, nossa observação foi corroborada pelo estudo de Abramovay (2010, p.
25), que atingiu outras Cidades Satélites, e, trazia, além das que observamos como principais,
as gangues:
. ENF – Escaladores Noturnos
. GAP – Grafiteiros da Arte Proibida
. ECK – Escaladores da Caligrafia Kriminosa
. OLS – Organização Legião Satânica
. SDM – Só De Menor
. GNT – Grafiteiros Noturnos Traficantes
. SLK – Seguidores da Lei do Krime

Os nomes das gangues, dos pixos, e as diferenças entres os nomes/pixos das décadas
de 80 e 90 e os atuais, nos despertaram interesse. Pudemos levantar, via internet, alguns pixos
daquela época inicial da pixação: FENIX, PEIXE, LELO, MASCOTE, GIGOLO, WARLOK,
ARENA, CARCAÇA. Percebemos diferenças entre esses nomes e os atuais, como: RAKY,
SLAK, TURKO, RELP, STRYK, FIST, SPEETO. Contudo, a limitação de espaço nos leva a
escolhas, e, embora essas diferenças que percebemos e os nomes das gangues sejam um
interessante campo a ser trabalhado discursivamente, optamos, neste trabalho, por outras
caminhos.
Como dissemos, a pixação em Brasília funciona em torno de gangues. É através dessas
gangues, famílias, que os jovens se agrupam e se organizam para pixar, brigar, se divertir, se

53
drogar, traficar, roubar. Nem todos os integrantes praticam todas essas ações, mas o par
pixação-guerra é, entre eles, unanimidade. A guerra entre as gangues LUA e GDF e entre
GSL e GSN são, atualmente, as mais intensas, mas há também as alianças, como entre as
gangues LUA e AG, que gerou o neologismo “LUAG”, utilizado como assinatura quando os
membros das duas gangues saem, juntos, para pixar, como nas imagens a seguir:

Portão no Guará 2

Muro no Guará 2

Algumas atitudes tomadas por esses sujeitos, servem como motivo para as guerras.
Mudar de gangue, riscar o nome ou gangue de outro, praticar violência, ameaçar ou roubar
algo de outro, frequentar a quebrada, reduto de outra gangue, sair ou namorar com membro do
grupo rival são algumas delas.
Percebemos as guerras como constitutivas mesmo das gangues. As gangues não
existiriam sem as guerras. Os motivos que enumeramos, colhidos durante a pesquisa,
poderíamos chamá-los de secundários, superficiais. Haverá guerra mesmo sem eles.

Olha, toda guerra de pichação aqui em Brasília começou por causa de um


pisão no pé, que foi quando o fulano, que está preso até hoje, matou o
sicrano, que foi o primeiro líder da gangue tal. Isso foi em 94. Depois disso
vai vindo as guerras, vai vindo as guerras aí tem uma gangue que é assim: os
cara pegam tudo unido, desmontam e vão fazer outra gangue.. Disso, um aqui
pegou uma jaqueta emprestada de um cara da tal gangues não quis devolver
aí, o cara fala: e aí, não vai devolver minha jaqueta não? e o cara fala que não
vai devolver, e o outro então é guerra. Aí o cara foi e matou o outro por causa
de uma jaqueta. E hoje tem uma frota de gente da gangues deles morrendo
porque tá achando que é uma coisa muito doida, mal sabendo que é por causa
de uma jaqueta, por causa de um pisão no pé que começou. E assim que é a
união. Ele chega hoje e já tá unido, já tá no sangue, não sabe o que aconteceu,
não sabe da verdadeira escola. (Grupo focal, masculino) (ABRAMOVAY,
2010, p. 141).

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Temos, portanto, segundo esse membro, as guerras existentes desde sempre, como
condição de produção e existência das gangues, da pixação. E os membros mais jovens, da
chamada terceira geração, a geração atual, tomando as guerras como uma luta sua, pessoal,
como se iniciassem, eles, tais contendas, a partir daqueles motivos que enumeramos
anteriormente. A fala a seguir, de um membro líder, ou seja, da primeira geração, revela essa
necessidade de guerra como escolha de lados:
Teve uma hora que nós fundamos com a intenção de ser aquela galera
boazinha: “vamos ser neutros, não vamos ter guerra com ninguém”. Essa foi
a nossa intenção, só que chegou um tempo que não dava. A gente andava
com o GDF, pichava com o GDF tanto quanto pichava com GSL, só que se
você saía comum, levantava a inveja do outro, entendeu? Se você saía com o
outro provocava a inveja do outro, acabou que um dia tivemos que acabar
com isso porque já estava começando a ter desacertos e nossa galera já estava
meio abalada no meio da gangueragem por causa dessa história de tentar ser
neutro. (Entrevista, homem, líder AG) (ABRAMOVAY, 2010, p. 76).

Silva (2013) irá dizer-nos que essa luta entre gangues expõe as relações de forças, que
revelam a hierarquia, o poder, a autoridade do dizer, não apenas da sociedade e do Estado em
relação ao sujeito-pixador, mas dentro mesmo das relações que esses sujeitos desenvolvem
entre si. Funcionam, pois, as relações de forças, sobretudo, para “deslocar a oposição
dominador x dominado como algo estanque.” Relações que se estabelecem mesmo no âmbito
de uma única gangue, entre os membros mais antigos x mais novos, entre pixadores homens x
mulheres, pixadores que praticam crime x não praticam, escaladores x não escaladores, por
exemplo.
As alianças e as guerras entre gangues, funcionam também, considerando fatores
linguísticos, letra, risco. Na linguagem deles, “pelo traço”. A letra merece pois, que se lute por
ela.
No início, quando riscavam, riscaram o muro todinho. Deixaram só o meu
nome lá no final, zerado, limpinho. Isso quer dizer o quê? É uma forma de
respeito, está ligado? Aí o quê que neguinho da galera dele vai e fala: - está
pagando pau? O cara anda junto, tá achando que se ele te encontrar junto com
os cara, ele não vai te fechar também não? Aí eles começaram a riscar todo
mundo, aí o quê que aconteceu? Automaticamente minha gangue inteirinha
entrou em guerra com eles, pelo fato deles ter me riscado, minha gangue
automaticamente entrou em guerra com eles. (Entrevista em grupo, mista).

H1 - É diferente tu riscar o nome, ali você risca o nome do cara, você tipo
assume a tua guerra com o cara, entendeu? E outra coisa que aconteceu
também: os caras não tinham aquela coisa de botar o nome, eles se
escondiam atrás do risco. Eles te riscavam e botavam só a galera, tu não
sabia quem era o safadinho que te riscava, tu nunca sabia, você nunca
encontrava, ou seja, a guerra era de todo mundo.

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H2 - Se eu não gosto do fulano, eu risco o nome do fulano e pronto, então
sabe que o negócio é eu e ele...
H1 – Agora, se eu risco o nome do fulano e ponho o nome da minha
gangue, quer dizer que está sendo a gangue todinha contra o fulano. A
gangue do fulano, a gente não vai deixar ele só, eles vêm e riscam o nome da
gangue e botam o nome da gangue, eu vou e risco o nome dessa gangue,
pronto, começou a guerra das duas gangues por causa de um risco na parede.
(Entrevista em grupo, homens) (ABRAMOVAY, 2010, p. 142, grifos
nossos).

Vemos, portanto, os sentidos do traço para esses sujeitos. Seu pixo (seu nome, sua
identidade) na cidade-suporte, é ele, representa-o nesse espaço discursivo da pixação. E sua
identidade grupal – a gangue, ao se constituir, ou seja, ao filiar-se a ela, apaga as demais
gangues. Unir-se a um grupo significa se opor ao (s) outro (s) – guerra. Riscar o nome do
outro (o pixo), portanto, significa estar em guerra com esse outro, de duas formas: com o
outro – sujeito, e/ou com o outro – grupo (gangue).
Dessa forma, é o traço que distingue se a guerra será individual ou coletiva. Se o
pixador que riscou põe apenas seu nome, a guerra será com ele, se põe o nome da gangue, a
guerra será com toda a gangue. Como se vê, há toda uma relação social entre gangues a
explorar, que fugiria, contudo, aos limites desse trabalho.
Na imagem abaixo, há dois nomes/pixos e duas gangues. Apenas um pixo foi riscado e
não há a assinatura de quem riscou. Como dissemos, ao não riscar também a gangue, a ofensa
dirige-se apenas ao integrante riscado.

Portão em Taguatinga Sul

Na imagem a seguir, há vários pixos e gangues. Foram riscados apenas três pixos e
uma gangue:

Muro no Guará 2
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A seguir, temos o exemplo de pixos e gangues riscados. Nesse caso, há a assinatura
“MCC”, que indica a gangue que riscou.

Muro no Guará 2

A própria forma do traço produz, para nós, importante efeito de sentido. À diferença
de outras formas de riscar, como quando não se quer deixar legível o que se escreveu, e faz-se
então vários riscos, em curva, zigue-zague, o sujeito-pixador deixa o nome do outro visível.
Riscar significa guerra, e o outro deve poder ver seu nome riscado para que a guerra se
estabeleça.
Em Brasília, diferindo uma vez mais de São Paulo, onde a forma da letra daquele
grupo é denominada tag-reto, há a predominância de uma letra mais arredondada,
“embolada”, como alguns pixadores a chamam, quase sempre indecifrável, como na imagem
abaixo.

Muro no Guará 2

Apesar dessa predominância, diferentes estilos de letra chamam atenção, como nas
imagens a seguir, propiciando um verdadeiro espetáculo em termos de caligrafia como arte.

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Essa grafia tão diversa, chama atenção não só pela diferença de letra que existe entre
pixos diferentes, mas também pelas diferenças em um mesmo pixo. Trabalhamos essa
diferença em um pixo específico, o RAKY. Essa foi nossa escolha porque durante a pesquisa
foi um dos pixos que mais se destacou, pela quantidade, pela variedade. Como parte das ruas
que percorremos – eram percursos quase diários –, pudemos observar pixos (dele) sempre
novos – sinal e efeito de (sua) atividade, de sua presença na cidade.

58
O RAKY é um dos cerca de quinhentos integrantes da gangue LUA. Segundo
comentários de internautas em blogs e redes de relacionamento, é considerado por muitos
como o maior pixador da atualidade. Iniciaremos, pois, com ele, a análise de nosso segundo
recorte, em que trabalharemos este pixo específico.
Nessa etapa, pensar nos desenhos e formas das letras – e dos pixos – torna-se
fundamental. Que diferentes efeitos, diferentes tipos de letra produzem? Como o pixador faz
funcionar essa relação? Quais as relações de sentido entre a escrita do pixo e a escrita padrão
que utilizamos, sujeitos não pixadores? Essas questões, desenvolvidas posteriormente, quando
voltamo-nos a este recorte, levaram-nos a aspectos fascinantes de sua escrita, que revela-se
numa escrita como arte – a caligrafia, segundo Bringhurst (2006, p. 17), “a dança da mão viva
e falante sobre um palco minúsculo”. Levaram-nos a pensá-la como uma escrita caligráfica
urbana.
O texto desta monografia, como a produção científica em nossa sociedade, deve ser
escrito nas fontes Arial ou Times New Roman. Trata-se de uma convenção, estabelecida e
seguida pelos sujeitos nesse contexto. Em outros contextos, como o da propaganda, a
demanda é por tipos/fontes diferentes. A letra é pensada em função da mensagem, do produto,
do público-alvo, do suporte. Em determinados formulários, nos dizem “preencher com letra
de forma”, ou ainda “preencher de próprio punho”. Em outras palavras, para cada relação
social que faz uso da forma escrita da língua, há um tipo, uma forma, uma fonte diferente, que
faz parte das condições de produção daquela relação, e cada uma produz um efeito diferente.
Esta característica de adequação da forma remonta à Idade Média, época em que,
consoante Bringhurst (2006, p. 135),
um escriba europeu bem-treinado podia conhecer oito ou dez estilos de
escrita diferentes. Cada estilo era definido precisamente como um tipo,
guardado na memória como uma fonte, e cada um tinha seu uso. Escrituras
sagradas, documentos legais, romanças, cartas pessoais e de negócios
requeriam diferentes escritas, e formas particulares evocavam linguagens e
regiões específicas.

Podemos dizer que essa multiplicidade de tipos faz parte também da escrita da
pixação, que mostraremos com a análise das diferentes fontes – e efeitos – do pixo RAKY.
As quatro imagens a seguir, representam o que estamos considerando ser sua letra
standard.

59
Em sentido horário, a partir do alto, à esquerda: muro no Núcleo Bandeirante; muro no Guará 2; portão no Guará 2;
muro no Guará 1

Essa fonte, a mais básica e frequente, com a versão do “I” no lugar do “Y”, seria o que
é para nós uma fonte como a Times ou a Arial. Atribuímos, pois, - pixadores ou não - sentidos
semelhantes, do padrão ao mais elaborado, a partir de uma tecnologia – uma fonte tipográfica.
Dessa forma, notamos que o pixador permite-se, também, dizer-se pela “fonte” que
escreve. Mais formal e básico (como o exemplo acima), mais engraçado, descolado,
aristocrático, estiloso, enigmático, etc. : efeitos de sentido na letra e no sujeito.
Note-se que a Times, criada, segundo Lupton (2009, p. 55), para um jornal londrino,
tornou-se “a fonte-padrão de muitos sites, porque se pode esperar que muitos usuários a
possuam em seus computadores”. Sendo uma das fontes-padrão do Windows, sistema
operacional mais utilizado nos computadores, o efeito que essa letra produz, mais básico,
padrão, acessível, abrange grande número de leitores. Esse efeito funciona também no
contexto da pixação. O RAKY, ao escrever nessa forma, deixa legível seu pixo, tornando a
leitura acessível também aos não-pixadores.
A sequência abaixo, em rolo e tinta, produz efeito bastante próximo à letra de forma,
ou de imprensa. Permite, como a anterior, a imediata leitura do nome.

Muro no Parkway Viaduto em Taguatinga

A primeira foto traz o “I” no lugar do “Y” – efeito de experimentação, tentativa – e


nos remete, também, à influência dos sujeitos-pixadores, do trabalho coletivo para produzir
60
uma inovação na técnica, na tecnologia. Eles trocam ideias, sugestões, experimentam,
provocam mudanças.
[...] escolhi o nome SPETO para manda, mais depois meus chegados
começaram a me chamar de SPETOO (spetoô) e falaram para eu mandar
assim, mais eu falei não, vou mandar assim, mais a pronuncia vai ser
SPETOO (spetu) (SPETOO, 2011).

Na primeira, o nome foi escrito em muro (no nível do chão), e o traço é firme, reto,
com poucas falhas, principalmente na primeira. Na segunda imagem - em viaduto - o nome
aparece tremido, a parte inferior das letras com menos tinta, ao passo que a parte de cima das
mesmas, mais forte. Resultam das condições de produção do pixo, mostra-nos o movimento
do pixador, de cabeça para baixo, no viaduto. O rolo, com mais tinta, toca primeiro o espaço
do topo da letra, e quando chega o espaço que seria sua base, já está com menos tinta e mais
tremido pela distância.
Em muitos casos, a questão do equilíbrio se caracteriza por meio de letras
tremidas, tortas, respingos de tinta, que configuram o ato de subir, descer ou
agachar. [...] o excesso de tinta e até o comprimento das letras, escritas na
medida da extensão do braço dos pixadores ou da extensão de um material
complementar, como um cabo, alteram o resultado final, atuando como
“efeitos” imprevisíveis (LASSALA, 2010, p. 83, grifo do autor).

Essa letra também aparece em negrito, um recurso utilizado que, como efeito, confere
destaque aos sujeitos-escritores-digitais. O efeito dessa ferramenta, disponível nos editores de
texto, é produzido, no contexto da pixação, pelo rolo, mais grosso que o jato do spray ou jet.
O efeito negrito é especialmente necessário em viadutos, onde o pixo fica distante do chão. A
diferença que esse efeito produz pode ser vista na imagem abaixo. À esquerda do viaduto,
escrito com rolo, os pixos SATO, MULATO CAFUNÉ se destacam. À direita, com jato, o
traço dos pixos NYLTEK, LYRO é fraco, fino, não sobressai.

Viaduto na Candangolândia
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Abaixo, a grafia RAKY apresenta-se mais descuidada, com pouca atenção dada aos
detalhes e à própria forma da letra. Mesmo o jato, percebe-se mais fraco, e fala das condições
de produção desse pixo – a pressa do momento –, pois é preciso – ao mesmo tempo – apertar
o pino do spray e escrever. O “A” em forma de estrela é um recurso por eles utilizado com
certa frequência.

Muro no Guará 2

A seguir, o mesmo traço simples da imagem anterior, fazendo as vezes de uma letra
cursiva, um estilo manuscrito, segundo Lupton (2009, p. 15), mais casual. O jato, como no
anterior, também falha.

Muro na Zona Central do Plano Piloto

Abaixo, à direita, vemos o “R” e o “K” diferentes. Com a barra horizontal bem
marcada, indo e voltando, um movimento duplo que não aparece nas anteriores. O “A” vem
com a barra horizontal também marcada, em forma de onda, enquanto que nas anteriores, era
um traço simples, com as pontas para baixo e produz um deslizamento que passaríamos a ver
mais marcadamente a seguir, também no “Y”.

Muro no Guará 2 Muro no Núcleo Bandeirante

Nas três imagens a seguir, uma mudança no “A”, agora, com o topo pontiagudo, o que
confere novos efeitos. O pixador, nesta fonte, elabora todas as letras. Percebe-se de forma
clara no “A”, principalmente nas duas últimas imagens. Nessas, aparece a mudança tanto do

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topo, pontiagudo, mas também no meio, com a barra horizontal em curvas (não mais reta,
nem em ondas), espiralada. O “Y” dessas três imagens é finalizado também com curvas, que
vamos perceber na linha de base das quatro letras.

“A” com barra horizontal em forma de onda e topo pontiagudo. A finalização do “Y”
segue a das demais letras, em forma curvada:

Muro no Núcleo Bandeirante

“A” com barra horizontal em forma de espiral, topo pontiagudo, e “Y” finalizado ora
em espiral, ora em onda:

Portão no Lago Sul Muro no Guará 2

Se nas anteriores, ele trabalhava apenas o lado direito da letra, agora ele trabalha,
curva as duas pontas, os dois lados. Produz o efeito de uma caudal, “letra que se refestela em
volteios de grande luxúria.” (BRINGHURST 2006, p. 354). Interessante notar que esses
pixos, mais elaborados, quase sempre são maiores, têm cerca de um metro e, mesmo assim, as
pontas não se tocam, apesar das condições do momento.
As fontes elaboradas são extremamente valorizadas por esses sujeitos. Requerem
tempo no momento da pixação, habilidade e criatividade para desenvolvê-las. Esta letra
coloca o pixador em destaque, sua posição, na gangue, se eleva. Nas relações de força – e
poder – da gangue, ele se torna mais forte. É a letra lhe confere força. As imagens a seguir são
exemplo de fontes elaboradas por outros pixadores.

63
Muro no Guará 2

Muro no Guará 2

Essas maiúsculas monumentais, com extensores longos, delicados, ornamentados,


assemelham-se à “letra maneirista”, com seus sutis exageros, amplamente utilizada no século
XVI (Bringhurst, 2006). Parecem, ainda, essas fontes mais elaboradas da pixação,
assemelhar-se a logogramas, “forma tipográfica específica ligada a uma certa palavra.” (Idem,
Ibidem, p. 360). Essa letra, com mais intensidade, é a que produz o efeito de enigma para os
não pixadores. Segundo Bringhurst (2006, p. 59), “logotipos e logogramas aproximam a
tipografia dos hieroglifos, que tendem a ser mais olhados que lidos.” Assim, só um iniciado
conseguirá ler o que a legenda descreve. Veja os pixos abaixo:

FIST GDF GDF

Os deslizes, as “mexidas” (Auroux, 1992, Dias, 2009) na língua que o sujeito-pixador


dá, são frequentes. Ao trilhar um caminho à margem da norma, da forma, da tipografia (da
mídia, da imprensa, da escola), ele o faz com criatividade, liberdade, criando sempre letras,
formas novas, produzindo efeitos diferentes. Nas imagens a seguir, os pixos SLAK e STRYK
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partilham um único “S”, inicial de ambos. Subverte, também, ao utilizar o algarismo romano
“X”, que representa, no arábico, o número dez, como o zero de 2013.

Muro no Guará 2

Na imagem a seguir, vemos o mesmo funcionamento da anterior. A letra partilhada, o


“F” da gangue GDF, é usado também para a frase que a segue, “FODA-SE Á POLÍCIA”.

Portão no Guará 2

O texto da pixação, como dissemos antes, estrutura-se, quase sempre, por três, quatro
ou mais pixos, seguidos do nome da gangue, às vezes, do ano corrente. Esse texto tem alguns
funcionamentos que o tornam distinto do texto da não-pixação, quer dizer, do texto que, na
atualidade, os sujeitos não-pixadores estão habituados a ler/escrever. Em outras palavras, ele
se diferencia da escrita horizontal, que faz uso de letras maiúsculas e minúsculas e que separa
as palavras por espaços em branco. Nossa pontuação, em que a vírgula e o ponto final, são os
mais utilizados, é, por esses sujeitos, também subvertida. Vejamos.
Um pixo é formado normalmente por quatro ou cinco letras, que estarão quase sempre
grafadas em sua forma maiúscula. A pixação, como dissemos, é uma prática coletiva: em
geral, três ou quatro pixadores se reúnem nas “saídas” para pixar. Seus pixos, dependendo do
espaço disponível, são escritos tanto na vertical como na horizontal. A forma vertical, com
sua pauta imaginária, conduz a leitura, separando os pixos. Ainda que o sujeito comum não
leia, é possível identificar, como por exemplo, nas imagens a seguir, quatro formas – três
pixos e a gangue.

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Pixação com alinhamento vertical:

À esquerda, quiosque no Guará 1; à direita, portão no Parkway

Por outro lado, a escrita horizontal, quando adotada, torna o texto da pixação um
continuum indecifrável. As imagens a seguir são exemplos desse efeito. Para o sujeito comum
parecem rabiscos. Uma sequência de rabiscos. Contudo, e aí está um momento em que o
sujeito-pixador subverte a língua, há uma ordem nessa estrutura. Trata-se de um texto com
início, fim, pontuado, ordenado. O “simples particular” (Pêcheux) talvez não note, mas os
nomes (pixos) separam-se, pelo que nos parece ser, uma singular pontuação, como poderemos
observar nas imagens que se seguem:

Pixos separados por travessão ondulado:

Muro no Lago Sul:

Pixos separados por travessão:

Muro no Guará 2

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Pixos separados pelo sinal aritmético “x”:

Muro no Guará 2

Pixos separados por ponto médio:

Muro no Guará 1

Pixos separados por ponto vazado:

Muro no Areal

Faz parte dessa singularidade, não apenas o símbolo utilizado, mas o lugar que ele
ocupa no texto, entre as palavras. Enquanto marcamos a separação com espaços ou vírgulas
na linha de base do texto, o pixador marca essa separação no meio das letras. Esse uso
remonta à “tradição das inscrições”, de acordo com Bringhurst (2006, p. 87).
As primeiras inscrições alfabéticas não possuíam nenhuma mobília não
alfabética. À medida que a escrita se difundiu pela Grécia e pela região da
Itália, esses espaços apareceram e um sinal suplementar foi adicionado: um
ponto centralizado, para marcar frases ou abreviações.

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Defendemos que a autoria do sujeito-pixador é construída por processos que não
estabelecem, para os não-pixadores, a mesma unidade, coerência e organização (imaginárias).
Para ele, pixador, a unidade, organização, coerência, se estabelecem em um espaço distinto,
contraditório. Ali, um sujeito constrói sua autoria e identidade, mesmo que negadas, não
reconhecidas, mas que o remete à exterioridade, em um movimento que vai da dispersão à
unidade, ao todo coerente. Ao assumir seu papel de autor, ele se diz no seu texto, e reconhece-
se como tal.
Na verdade, eu não estou sendo o X [apelido da gangue] aqui, porque se eu
estivesse vestido de gangueiro seria outra pessoa, mais enérgica, e não uma
pessoa que fica se abrindo, rindo, brincando, nem conheço vocês e já vai
brincando, ia ser outra pessoa diferente. (ABRAMOVAY, 2010, p. 257).

A identidade – pixador –, embora não reconhecida, e significada como “sem-sentido”


(Orlandi) pelos não-pixadores – efeito político e ideológico – é reconhecida pelos sujeitos
pixadores e partilhada pela gangue, em um movimento que constrói, assim, sua identidade
individual e grupal.
Jovens excluídos seja por seu lugar na hierarquia social, seja por morarem na periferia
– em uma Satélite – seja por partilharem uma cultura que não é a dominante, desprovidos do
que é considerado o básico, como por exemplo, a saúde, a educação, o trabalho, têm,
especialmente na Escola, a sedimentação dessa falta do Estado. Expostos à violência, sem
apoio e atendimento às suas necessidades materiais, buscam uma forma outra de
sobrevivência.
Quando você é aquele lerdinho que todo mundo quer bater, é mais fácil dar
uma lata de spray e pedir para a galera proteger (Idem, Ibidem, 2010, p. 102).

Pode ser a menina mais fulerinha, todo mundo quer bater nela, mas se ela
chegar assim e falar ‘eu sou da gangue tal’, eu quero ver quem vai me bater,
ninguém mais vai mexer com ela. (Idem, Ibidem, p. 253).

Quando eu entrei na escola nova, aí eu entrei e já e fechei a cara para todo


mundo. Aí no outro dia veio uma colega e me disse: ‘olha, aqueles ali
disseram que vão te bater’. Aí eu entrei na sala, virei e disse: quero ver quem
é que vai tirar onda comigo, eu sou é da gangue X. Aí no outro dia, você
precisa de ver o tanto de menina pagando pau para mim! Ah, você é da
gangue? Você conhece não sei quem? Quando eu entrei no Colégio não tinha
ninguém que eu conhecia. Ah, você é da gangue?. Eu já ouvi falar de você!
Você é a fulana, me adiciona [no MSN, Orkut], não sei o que! É tudo desse
jeito! (Entrevista em grupo, feminina) (Idem, Ibidem, p. 253).

M2 – Teve uma menina lá, pra você ter noção de como a gente bota moral
naquela escola. Chegou na gente e falou assim: se eu der 50 conto pra
vocês...
M1 – ...se eu der dinheiro pra vocês...

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M2 - ...se eu der dinheiro pra vocês, vocês me protegem; se alguém vier me
bater, vocês me defendem?
M1 – Eu falei, pode crer 50 conto.
M2 – 50 conto, 25 pra mim, 25 pra ela. No outro dia ela levou R$ 50,00 pra
gente. (Grupo focal, misto) (ABRAMOVAY, 2010, p. 253-254).

Construir identidade e tornar-se autor. A possibilidade de um sentido outro que move


nosso olhar, é pautada pelo movimento dos sentidos, da história, do sujeito. Os sentidos,
como vimos, não são únicos, nem tomados em si, mas estão sempre em relação à. A pixação
se movimenta, se modifica, desliza para outras direções e sentidos, para outras relações de
força, de poder. Para esses sujeitos pixadores de Brasília, os sentidos da pixação também
mudaram ao longo dos cerca de vinte anos de existência das principais gangues. Eles relatam
a diferença em três gerações:
A gangueragem de hoje em dia não é nem sombra da de antigamente, isso é
com certeza, antigamente era muito mais doido. Porque o negócio era de
homem mesmo, não era de moleque. Neguinho já perdeu a noção do que é
gangueragem. Antigamente o negócio era certo. A gangueragem era a mesma
coisa que crime. (Grupo focal, masculino) (ABRAMOVAY, 2010, p. 82)

Deixa eu falar. Colocar uma coisa nessas três gerações – a primeira geração
foi a da porrada, encontrava aquele monte de galera e rolava todo mundo na
porrada; a segunda geração é a nossa, foi da bala, quando se encontrava era
tiro mesmo; e a terceira agora é da internet – desse jeito está dividido.
Antigamente podia juntar 60 moleque de um lado, 80 do outro, se balançasse
todo mundo de cabeça pra baixo, não saía um revólver, não saía uma faca.
(Entrevista, homem, líder) (Idem, Ibidem,, 2010, p. 82-83).

Se eu pudesse escolher, eu queria ter participado da primeira. Eu gostei da


minha (segunda geração) também, que a minha também foi o meio termo aí
nessa história, mas pra mim a primeira. Porque era menos pichador, tinha
mais espaço em Brasília pra pichar e não tinha tanta guerra, e não tinha tanta
sem-vergonhice igual tem hoje em dia, e não tinha internet. (Entrevista,
homem, líder) (Idem, Ibidem, p. 83).

H1- As ideia mudou, porque a ideia das gangue da antiga, era a gangue
mesmo, entendeu? A LUA, nós somos uma gangue aqui, nós tamo aqui pra
matar e pra morrer pela sigla, vamos arrebentar a galera toda aí, vamos botar
os nomes na cidade, vamos, os polícia vão ficar doido com nós, e o jornal
vim querer fazer entrevista, e vamo que vamo. (Grupo focal masculino,
líderes) (Idem, Ibidem, p. 84-85).

A pixação tem, portanto, significados diferentes dentro de seu próprio contexto.


Sentidos diferentes para os diferentes sujeitos que a praticam. O pixo pode significar proteção,
vínculo um grupo (pertença), instrumento de construção de identidade/autoria, farra, diversão,
adrenalina, voz, protesto de um significativo número de jovens que estão se constituindo
como sujeitos nesse universo negado, não reconhecido.
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CONCLUSÃO

Nossa pesquisa buscou trabalhar o funcionamento da produção de sentidos na prática


da pixação. Nesse sentido, descrevendo e interpretando, propusemo-nos a compreender tais
processos, principalmente, no que concerne às questões de autoria e construção de identidade
do sujeito-pixador. Buscamos, também, trabalhar a construção – ideológica – do sentido
único, já estabilizado, que atravessa essa posição-sujeito, significando-o como vândalo, e seu
escrito, como mero rabisco, sujeira.
Trabalhando a discursividade na produção do sentido do pixo, ou seja, fazendo
funcionar nesse processo a inscrição do sujeito na história, e considerando as condições de
produção do nosso objeto de estudo, passamos a trabalhar a relação sujeito-língua-história.
Refletir sobre a cidade e a escrita que nela se faz tornou-se fundamental, visto que
nosso objeto de estudo trata-se de um fenômeno tipicamente urbano. Pensamos, assim, as
divisões e barreiras (in)visíveis e simbólicas que existem na cidade, e produzem sentidos para
o sujeito que nela vive. Essas divisões e barreiras funcionam no sujeito, que produz gestos de
interpretação – como a pixação –, que têm sua materialidade e historicidade apagadas.
Gesto – a pixação – que funciona pela língua. Nesse funcionamento, é forte a relação
outra que o sujeito-pixador com ela estabelece. Trata-se, vimos, de uma relação baseada na
não-forma, na não-norma. À margem, portanto, da língua oficial, nacional, o sujeito subverte
sua forma, e cria outras, em processo que remonta aos antigos calígrafos, e, ao mesmo tempo,
às variadas fontes tipográficas das tecnologias digitais.
Esta leitura, contudo, só tornou-se possível pelo deslocamento ao qual nos
propusemos, o de sujeito-leitor para o de sujeito-analista. Pudemos, com este deslocamento,
sustentados por um dispositivo teórico, perceber os movimentos do sujeito-pixador na cidade
e na história. Movimentos, relações, que têm como um lugar fundamental, a Escola, como
espaço institucional de contato do sujeito com a letra. Esta, como vimos, não consegue
acompanhar e perceber os sentidos das novas linguagens e culturas juvenis – sobretudo as que
fogem ao padrão – como por exemplo o rap, a pixação, a língua, a atividade gangueira, e tem,
assim, perdido esse jovem, deixado ele se evadir.
Junto com a Escola, o Estado mostra-se igualmente falho. Em vez de trabalhar as
questões sociais no sujeito pelo que ele traz – a letra, a língua – , coíbe, apaga, não permite a
diferença. Defendemos, nesse trabalho, que a letra do pixador, não é um desenho, é (sua)

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letra, é (sua) língua, é (sua) ferramenta de convívio social. E o Estado, na tentativa de anular a
sua letra – sua língua, sua identidade, e o próprio sujeito – através da conversão letra-
desenho-ilustração, trabalha, ainda, dentro do imaginário que liga a letra, o gesto do sujeito à
sujeira.
Finalizar este trabalho torna-se tarefa difícil, pois, à medida que fomos fazendo
recortes, enquadrando o olhar, fomos obrigados, pelo espaço-tempo próprio de um Trabalho
de Conclusão de Curso, a deixar para trás importantes aspectos, como a escolha dos nomes
das gangues; as diferenças entre os nomes dos pixos da primeira geração e da geração atual; o
uso da letra legível na pixação, por gangues de jovens da classe média; as frases que o pixador
eventualmente escreve; são, todos esses, lugares de significação para esse sujeito. Isso,
contudo, abriram perspectivas para outros trabalhos e aguçaram nossos sentidos para o
trabalho de pesquisa.
É importante ressaltar essa relação teoria-pratica-teoria sempre presente, pois as
percepções acerca das principais gangues, dos pixadores mais ativos, dos pixos mais
frequentes, das alianças, foi uma percepção nossa, na rua, corroborada, posteriormente, pelas
pesquisas na internet, pelas leituras, pelas descrições e análises. Queremos, com esta ressalva,
dizer que a observação atenta da cidade, sustentada por um campo teórico que trabalha o
aspecto polissêmico do objeto de estudo, revela outros significados, interrompe o processo –
ideológico – de produção do sentido único, permitindo ao observador perceber, tanto os
mecanismos que sustentam a construção do sentido único, quanto os que funcionam na
produção de novos sentidos.
Como dissemos no início, a cidade é uma extensão do sujeito: sujeitos heterogêneos.
Essa heterogeneidade constitutiva da cidade não precisa ser significada como perturbadora da
ordem. A cidade fala, escreve sua história, uma história que pode ser percebida – e contada –
de outra(s) forma(s).

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REFERÊNCIAS

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