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Aula 01 Política e Cultura no Brasil.

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POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL – HISTÓRIA E PERSPECTIVAS
AULA 01

Desde o início da década de 90, comecei a reparar que algumas coisas


muito estranhas estavam acontecendo no Brasil. E a medida que fui investigando
essas coisas percebi que já estavam acontecendo muito antes, desde de pelo menos
a década de 60.

Durante o período militar, nós observamos que enquanto a esquerda se refazia da


pancada recebida e se articulava numa nova estratégia de acordo com os cânones do
Antonio Gramsci, o governo militar não sabia de absolutamente nada, não prestou
atenção ao que estava acontecendo durante 20 anos permaneceu impávido colosso,
achando que estava por cima da carne seca, até que finalmente viu que estava
pisando em terreno minado e foi uma debandada de tudo que é general querendo ir
para casa o mais rápido possível.
Na fase seguinte houve aquele fenômeno que documentei no livro “O imbecil coletivo”,
a total destruição da alta cultura no Brasil. Na época ela ainda subsistia mas todos os
melhores representantes eram nonagenários, então era de se prever que a coisa ia
terminar em breve como de fato terminou. Se você comparasse a lista de grandes
escritores que o Brasil tinha nas décadas de 60 e 70 e o que veio depois, é um
negócio devastador, um fenômeno como nunca se viu no mundo.

Mais adiante começou esse crescimento extraordinário do banditismo, da violência


assassina, chegando a 70 mil mortes por ano, sem que houvesse um único debate a
respeito na grande mídia. O fenômeno da total destruição da educação brasileira onde
os nossos alunos no ensino secundário sistematicamente tiravam os últimos lugares
nos testes internacionais, e também não havia nenhum debate na mídia, e assim por
diante.

Várias coisas esquisitas que mostravam um hiato, um abismo entre o que estava se
passando e o reflexo disso na consciência nacional, a consciência nacional parecia
completamente morta, o corpo do país estava sofrendo e a sua mente não estava
reparando em absolutamente nada.

E toda essa lista de fenômenos são coisas inéditas. O fenômeno também do Foro de
São Paulo, que estava se formando, e é a maior organização política que já existiu na
América Latina, e estava conquistando um país atrás do outro, e ao mesmo tempo, a
mídia ou fazia que não via ou negava taxativamente que a coisa sequer existisse. E só
passou a admitir a existência do órgão quando o próprio Lula fez dois discursos
reconhecendo todo o papel o trabalho desenvolvido pelo Foro de São Paulo,
declarando inclusive que fomos nós que colocamos o companheiro Chaves na
presidência , e coisas desse tipo.

Daí aos poucos começaram a tomar alguma consciência, até que finalmente veio o
vídeo do terceiro congresso do partido, onde o PT reconhecia o Foro de São

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Paulo como comando estratégico da esquerda da América Latina, ai não deu
para esconder mais, mas mesmo assim ainda vieram tentativas de minimizar.

Então, a coisa está muito grave, porque quando você um sujeito que
está desempregado, doente, a mulher dele fugiu, o cachorro morreu, ele perdeu
a casa, o carro quebrou, e ele está aparentemente normal e tranquilo, é por que ele tá
maluco. Então é claro que o país estava maluco, e alguma coisa precisava ser feita.
Bem, já desde antes dos anos 90 eu me preocupava com esse problema da
ciência política. O que eu notava era que todos os grandes representantes da
filosofia política quanto da ciência política na modernidade, todos eles,
Maquiavel, Hobbes, Montequieu, Rousseau, Kant, Hegel, Marx, até o próprio Nietsche,
todos eles raciocinavam sempre com base numa ideia de sociedade ideal a
ser alcançada no futuro, e a partir desse modelo da sociedade ideal,
então diagnosticavam o que está se fazendo por contraste com aquela
sociedade totalmente imaginária. É claro que isso introduzia uma distorção completa
no quadro. Por que se você não consegue nem mesmo obter uma visão
clara, estruturada e detalhada da sociedade existente, cujos dados estão na sua
frente, fisicamente visíveis, como é que você vai conceber uma sociedade que só
existe na sua mente? Claro, que a imagem de uma sociedade futura é um
negócio esquemático, resumido, sumário. Karl Marx não chegou a escrever 30
linhas como seria o comunismo. E todos esses então acreditavam nessa
imagem sumária de uma sociedade futura tomando-a como régua de medida para
aferir o que estava acontecendo na sociedade presente. Então isso é uma inversão.
Ao invés de você tentar sondar o desconhecido pelo conhecido, você estava fazendo o
contrário: estava sondando o conhecido pelo desconhecido!

É claro que isso nunca poderia dar certo. E isso era uma coisa tão disseminada entre
os pensadores políticos que eu cheguei a conclusão que todo esse negócio está
viciado, desde o começo, e quando surge a ideia mais detalhada de ciência política
nos séculos XIX e XX, ela não se cura desse vício, ela apenas acrescenta a este vício
o uso de alguns procedimentos cognitivos das ciências naturais: estatística, etc. Não
adianta nada, porque você está pegando uma fantasia e medindo uma fantasia.

Um livro publicado nos EUA há alguns anos atrás testando a ciência política onde se
perguntava aos cientistas políticos mais destacados, mais de uma centena deles,
previsões sobre os desenvolvimentos possíveis da situação nos próximos anos, e 98%
deles erraram da maneira mais escandalosa. Então é a mesma coisa que perguntar :
para que serve esta ciência? Para absolutamente nada! É um cabide de emprego, um
monte de picareta, tagarela. Isto quando ela própria não serve de instrumento para
enganar a população. Bom, temos que concertar essa coisa.

Então, algumas decisões cognitivas era preciso tomar.

A primeira decisão era declarar taxativamente: eu não sei como é a sociedade melhor
no futuro. Eu não sei, Maquiavel não sabia, Kant também não sabia, mas

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eu estou declarando: eu não sei como a sociedade deve ser e muito menos como ela
será daqui a cinquenta, cem ou duzentos anos.
Segunda decisão: eu não sei para onde a história está indo. Eu fiquei muito contente
quando eu li no Eric Voeglin a observação de que não podemos saber o sentido da
história porque não sabemos onde ela vai terminar. É evidente que você pode
perceber por exemplo o sentido de uma peça de teatro, de um romance, porque tem
um fim. E como não sabemos qual a data do fim do mundo, não podemos saber qual o
sentido da história. Esta me parece uma observação bastante óbvia.

Então eu não sei qual a sociedade melhor, eu não sei como ela será, se vier e quando
vier, e eu não sei qual é o sentido da história.

Dito isso, o que podemos fazer, como podemos adquirir um ponto de vista vantajoso
que nos permita compreender o que está acontecendo. Esse era o grande problema
da ciência política. Você tentar obter grandes generalizações, criar leis da história,
fazer esses grandes painéis que esses filósofos e cientistas políticos fazem, tudo isso
é inútil se você não investigar primeiro qual é o ponto de vista que eu devo adotar, por
onde eu devo olhar essa coisa para poder enxerga-la melhor. Qualquer desenhista
sabe disso, ele não pode desenhar a partir de qualquer distância e qualquer posição,
que ele tem que encontrar um ponto de vista vantajoso que torne o objeto mais visível
e mais facilmente representável.

Então, na época, desde muito jovem, eu tinha lido um bocado de Jean Paul
Sartre, como todo mundo da minha geração foi muito influenciado pelo cidadão,
e quando eu comecei a me colocar esse problema, eu me lembrei de um treco que eu
tinha lido do Sartre, e falei, bom, vamos tomar isso como ponto de partida para nossa
investigação. Dizia o Sartre, ele teve um problema muito serio com seu padrasto
quando era pequeno, e ele sentia que o padrasto havia roubado a mãe dele, e como o
padrasto era um sujeito típico da burguesia, ele pegou um ódio da burguesia,
entendida a burguesia não só no sentido econômico. O Sartre não via a burguesia só
como classe econômica, mas como uma categoria ontológica, era um modo de ser,
baseada na falsa consciência, na exploração dos coitadinhos, e no sistema moral
fundado em inibições, hipocrisias, etc. Ele foi criando ódio a essa criatura, e por ele
sentir esse ódio ele naturalmente se sentia excluído da sociedade ordenada e
confortável que o burguês havia criado. Então ele se chamava a si mesmo de o
bastardo, embora ele não fosse um bastardo fisiologicamente. Então ele adquire esse
papel do sujeito que é rejeitado, que está fora do sistema, da sociedade, e a partir
disso ele começa a se identificar com todos os excluídos e bastardos: negros,
homossexuais, criminosos, drogados, prostitutas, maoístas, todo mundo que não
estava muito confortável na sociedade começa a ser para JP Sartre um bastardo.
Então existe uma espécie de comunidade internacional dos bastardos.

Eu falei, olha, ele não deixa de ter razão quando diz que quando você é colocado fora
da sociedade você obtém um ponto de vista privilegiado, você consegue ver que
aqueles que estão dentro não enxergam. Nesse ponto ele tem razão. Porém,

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se nós nos integramos na comunidade internacional dos bastardos,
estamos integrados não na sociedade presente, mas na sociedade futura e no
conjunto de esforços e no oceano de pessoas e organizações que estão envolvidas
na produção dessa sociedade. Você está integrado de algum modo. Mais
ainda, quando nós vemos que a sociedade presente , a sociedade burguesa, trata
essas pessoas e esses grupos com especial carinho paternal, faz um monte de leis
para protege-los, persegue quem fala mal deles, e tem toda uma gama de artistas
e intelectuais todos eles bastardos, que ocupam os melhores lugares, ganham todos
os prêmios nobel, ocupam todas as cátedras, etc. Pera ai ! O bastardo
esta duplamente integrado. Ele está integrado na comunidade internacional
dos bastardos, e também na sociedade burguesa da qual ele desfruta de uma
maneira privilegiada, como o próprio Sartre, que ganhou muito dinheiro e sempre
viveu como um grão burguês.

Então, ele tem razão ao dizer que o bastardo, o rejeitado enxerga as coisas melhor.
Mas ele não é um bastardo. Ele está brincando, ele está fingindo. E os outros todos
também. Nós sabemos das imensas vantagens que o sujeito desfruta por ele
pertencer ou representar um desses grupos supostamente excluídos.

Eu me lembro que uns anos atrás eu fiz na Unesco, em Paris, a conferencia “Os mais
excluídos dos excluídos”. Eu falava, bom, para dizer que o sujeito é excluído, ele tem
que não ter voz nenhuma, não ter chance. E eu descobri que o mais excluído dos
excluídos eram os mortos. Morto não fala. Então você pode inventar a respeito deles o
que você quiser, você pode mentir o quanto você quiser, e isto evidentemente causa
uma distorção da perspectiva histórica.

Logo em seguida aparece um historiador brilhante, que escreve algo


exatamente sobre isso, o resgate das vozes do passado, deixar os caras falarem , por
exemplo, todos nós sabemos o que pensamos a respeito de Platão. Mas o que Platão
diria sobre nós? Essa pergunta está excluída. Mas é claro que você tem como
articular as duas perspectivas – a visão do presente com a visão do passado, a visão
que o passado teria do presente. Você está fora do senso real das
proporções. Era portanto primeiro necessário integrar na comunidade dos bastardos
todos os falecidos, todo o passado.

Então eu comecei a fazer uma série de exercícios nesse sentido. O que Santo Tomas
de Aquino diria do que ele está vendo aqui? O que Aristóteles ou Platão diriam? E eu
vi que era preciso um exercício mental para me colocar do ponto de vista de uma outra
época vencendo o que eu chamei de preconceito cronocêntrico. As pessoas falam
muito de preconceito etnocêntrico, todo mundo quer ver tudo do ponto de vista desde
a Europa. Hoje isso já não é assim, o ponto de vista do mundo islâmico nos sabemos
que predomina, que é o mais válido, e o ponto de vista europeu é apenas um
preconceito.
Vencer o preconceito etnocêntrico é fácil, porque todo mundo tá falando que é preciso
vencê-lo, e além disso a imensidão de material de Ásia e da África que vem sendo
publicados já eliminou o preconceito etnocêntrico. Mas e o preconceito cronocêntrico?
Nós continuamos vendo tudo apenas do ponto de

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vista da nossa época, como se ela fosse uma coisa privilegiada, como se ela fosse a
culminação, o ponto mais elevado da evolução histórica, o que evidentemente não é
assim, nós podemos dizer que sob vários aspectos muitas civilizações antigas foram
superiores a nós, e há coisas delas que ainda estão acima da nossa compreensão.
Você veja tudo aquilo que o antropólogo polonês observou sobre o templo de Luxor, é
absolutamente incompreensível do ponto de vista da ciência atual. Os caras tinham
uma ciência que nós não entendemos.

Então porque não julgar a historia do ponto de vista deles, imaginariamente? Isto já
começou me dando uma amostra do que poderia ser um ponto de vista privilegiado.

Então o ponto de vista privilegiado teria que absorver o maior número possível de
perspectivas. E integrá-las num centro de consciência. Ou seja, se eu estudasse a
filosofia escolástica, eu não a estudaria do ponto de vista de um acadêmico do século
XX, mas eu tentaria ver como o escolástico se via a si mesmo. E como ele veria essa
possibilidade de desenvolvimento que de fato aconteceu. Eu sou por exemplo, Duns
Scott e tenho uma visão do que os caras escreveram de mim no século XX. Eu fiz
esse exercício muitas vezes. Praticamente tudo que eu estudo, que eu leio, eu faço
isso, eu mudo de época.

Aí foi que eu escrevi aquele ensaio que saiu no ‘Futuro do Pensamento Brasileiro’ que
resumia a conferencia o Mais Excluído dos Excluídos, mostrando que, se você não é
capaz de se julgar a partir dos valores e esquemas de uma outra época, você não vai
entender sua época jamais. E eu me lembrava que eu tinha lido no Benedito Croche
um parágrafo brilhante onde ele disse: se eu não possuo em mim nada da devoção
cristã, ou do espírito revolucionário de 1789, ou do espírito dos Founding Fathers, eu
não vou entender nem a civilização medieval, nem a revolução francesa, nem a guerra
civil americana. Então eu tenho que incorporar essas visões na minha própria, de
modo que elas se tornem instrumento da minha visão das coisas.

Nesse sentido, eu podia lembrar o famoso verso do Terencio: nada que é humano me
é estranho. Ou seja, eu tentei levar isso a sério. Isso ainda não é um
método, evidentemente, mas é o começo do método.

Colocados esses problemas, eu voltei ao tema do bastardo, do excluído, do ponto de


vista do excluído. Karl Marx dizia que só o proletariado pode ter uma visão objetiva da
história, porque ele é a última classe, porque ele vem depois de todas as outras. A
visão de todas as outras estava nublada, deformada pelos seus interesses de classe,
ao passo que os interesses do proletariado coincidem com os interesses da
humanidade inteira, então ele pode ter uma visão objetiva. Claro que esse é um
conceito totalmente idealizado. O proletariado não tem nada disso, e se só o
proletariado pode ter uma visão integral da história, como é que o primeiro que
apresentou a visão integral da história , Marx, não era um proletário? Já começa com
esse problema.

Mas o que é o excluído realmente? Dai por coincidência alguém tocou para
mim aquela musiquinha.... É um menino falando , nós vamos no zoológico, vamos nos

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esconder e gritar, o leão escapou, pra ver o efeito que faz. Daí vem um
menino pequeno e fala, eu também vou, e os outros respondem: tu não. Por que
não? Porque não. Várias vezes isso acontece. Tudo que eles querem fazer, o
pequeno quer entrar e eles dizem que não, porque não. Até que chega o dia em que
nós vamos nos reunir para ir no seu enterro. Dai ele diz, eu vou, não, tu não, mas
por que , por que não! Esse é o excluído total, esse não tem chance mesmo.

Existe alguém assim? Para que nós possamos adotar o seu ponto de vista? Existe.
Nosso Senhor Jesus Cristo. Na cruz, foi abandonado por todo mundo. Era a solidão
total. Mas ele era só a vítima da crucificação? Não, Ele é o Logos, a razão divina, o
fundamento de toda ordem, só Ele conhece a ordem inteira. Então eu vi que a ideia do
Sartre e semelhantes era uma caricatura remota desta ideia. Aquele que está no
centro e tem perspectiva total, é ao mesmo tempo o que está mais por fora e mais
excluído. Bom, essa é a pista, evidentemente.

Quer dizer que quando você adota o ponto de vista do excluído, ao mesmo
tempo você não pode entrar em uma outra comunidade de excluídos. Você tem
que continuar excluído sozinho. Em segundo lugar, se você não entra numa
outra comunidade você não está contra nenhuma outra comunidade. Você não está
na oposição a isto ou aquilo, assim como NS Jesus Cristo não se definiu
como oposição ao mundo, ao contrário, pendurado na cruz Ele orava para que Deus
pai perdoasse os seus carrascos.

Então, o Evangelho nesse sentido te dava o modelo da ciência . Me lembrei também


do Evangelho de Mateus que diz João Batista na cadeia que manda perguntar a Jesus
se é você o messias ou temos que esperar algum outro? E Jesus responde vocês vão
lá e digam a João Batista o que vocês viram e ouviram, o leproso ser curado, o cego
enxergando, o paralítico andando, vão lá e contem para ele. O que é isso? É um
critério de verificação científica. Por que se você diz que um milagre aconteceu, onde
é que ele tem que ter acontecido? Num campo não miraculoso, que é no campo da
igreja terrestre. Então você não vai vir com critério miraculoso para confirmar o
milagre. O critério tem que ser materialista na verdade.
Esse conjunto de coisas, a busca do ponto de vista privilegiado, a assimilação
da exclusão, para você adotar verdadeiramente o ponto de vista daquele que
Sartre chamava de bastardo, você tem que concordar que você pode ficar sabendo
de coisas que ninguém mais vai saber, e que portanto ninguém vai concordar e
todo mundo vai achar que você está maluco.

Então eu coloquei isso para mim faz muito tempo. E se acontecer isso? Se acontecer,
aconteceu, eu quero saber o que está acontecendo ainda que ninguém acredite em
mim. Eu já tinha um emprego regular na mídia, não tinha maiores ambições, bom
então eu vou descobrir as coisas, escrever, e se ninguém acreditar, dane-se. Isto tudo
foi o começo da história. Foi a partir daí que comecei a colocar as perguntas
fundamentais que poderiam criar um método da ciência política. Nós teríamos que
dividir o campo em dois. Um se chama filosofia política, o outro se chama ciência
política.

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Que é filosofia política? É o estudo dos métodos e critérios, e o estudo do ponto de
vista privilegiado, que nós temos que alcançar para compreender os fenômenos dessa
área que nós estamos estudando. O que é a ciência política – é a aplicação desses
critérios e conceitos a descrição de processos históricos e políticos reais, de
preferencia aqueles que estão acontecendo na sua frente. Posso estudar os de outra
épocas também , tá certo, mas você tem esse privilégio de ser testemunha direta de
tudo isso que está acontecendo, e isso ajuda.

Por onde vamos começar? Existe uma documentação, uma coleção de fatos,
que precisamos ter acesso, e esses fatos estão registrados em documentos
e testemunhos. Na maior parte deles documentos escritos ou documentos gravados.
Isso é a linguagem humana, é através da linguagem humana que você toma
conhecimento do que acontece, e grande parte da ação política consiste em falar ou
escrever.

Grande parte da ação política se dá através da linguagem. E portanto o material


a disposição do cientista político consiste de documentos escritos ou gravados.
O primeiro problema que nós tínhamos é como é que nós vamos entender
esse material. Como vamos coletar, como vamos olhar, e como vamos compreende-
lo. Daí me ocorreu a famosa distinção criada por Aristóteles. O começo de
toda ciência, diz ele, é o repertório das opiniões admitidas. São as opiniões
correntes dos agentes políticos e dos seus intérpretes. Toda a documentação
daí decorrente. E dizia ele, no campo específico da política, nós temos que levar
em conta em primeiro lugar, a diferença entre o discurso dos agentes e seu
próprio discurso, isto é, você que está observando e tentando compreender.
Esse discurso se distingue pelo seu objetivo. O discurso do agente político visa
a produzir uma ação ou uma situação. E o discurso do cientista visa
apenas compreender o que está acontecendo. É claro que esses elementos
se interpenetram. Por exemplo, o discurso do agente político pode incorporar parcelas
enormes do discurso científico para legitimar a ação que ele pretende empreender. Do
mesmo modo, o próprio cientista político ele pode pretender que a observação que ele
está fazendo dos fatos interfira nos próprios fatos. Mas de qualquer modo há uma
diferença que é baseada eminentemente na famosa teoria das funções da linguagem,
que é a função denominativa, dizer o que as coisas são, a função expressiva, que é
você expressar os seus estados interiores, e a função apelativa, que é agir sobre a
cabeça ou a alma do ouvinte. No caso do discurso politico, a função apelativa
predomina sempre. No caso do discurso do cientista, é a função denominativa que
predomina. Então mesmo que o discurso do agente incorpore elementos do discurso
teórico do cientista, e mesmo que o discurso do cientista pretenda ter algum efeito, a
modalidade de discurso sempre permanecerá distinta.

Então, é claro que para começar um estudo da ciência política seria necessário em
principio abdicar de qualquer consequência. Se você não está fazendo nem questão
de ser compreendido, quanto mais de desencadear efeitos, mudar o mundo, etc. Isso
quer dizer que se o que eu estou falando for compreendido e desencadear efeitos
benéficos, muito bem, se não acontecer nada disso, a sua função científica foi
cumprida.

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Dito isso, o passo seguinte era entender o que é o agente político. Isto
colocava diretamente o problema da ação e do poder. O que é a ação humana? É
a intervenção deliberada em um estado de coisas. Dada uma situação, você intervém
para transformar em uma outra situação. Isso não quer dizer que o que se busca seja
sempre a mudança e a novidade. Você pode interferir para impedir que um estado de
coisas mude, isso também é agir. Por exemplo, tem um golpe de estado, então
alguém se mobiliza para impedir que aquilo acontecesse. Então, essa é uma ação
reacionária por assim dizer, ela reage a um estado de coisas para que ele não mude.
Também isso é ação.

Note bem que tudo isso é um estudo teórico e apriorístico, um estudo


puramente filosófico, eu não estou fazendo ciência política. Estou fazendo apenas
filosofia da política para tornar possível uma ciência política mais tarde, que é o que
eu prometi fazer nessa aula – dar os conceitos, métodos, e critérios da ciência política,
depois mais tarde eu vou entrar no caso específico do Brasil, e mostrar como que eu
apliquei isso e como foi possível em muitas situações descrevê-las corretamente e
prever o seu desenvolvimento com grande margem de acerto. Na verdade não lembro
de ter errado nunca, as vezes não acertei na mesma hora, o que eu previ aconteceu
mas demorou um pouco mais, mas sempre aconteceu. Bom, é claro que estou na
pista certa, a ciência política é exatamente isso, é isso que tem que fazer, e se os
outros não fazem é porque não sabem ou não querem.
O problema do agente, vamos colocar duas questões – quem age politicamente? A
ação política ela só se denomina política quando ela alcança uma sociedade inteira.
Claro que existe política local. Se você falar numa escala municipal, então a ação
política na escala municipal será a que alcance o município inteiro.

Quem é capaz desse tipo de ação? Daí me ocorreu o problema que eu chamei de
o pensamento metonímico. O pensamento metonímico consiste em você confundir o
agente com um dos seus aspectos, ou um de seus instrumentos, ou um de
seus estilos, etc. Por exemplo, quando se diz, em 1789 a burguesia tomou o poder,
isso é claramente uma metonímia, isso não é uma realidade. O que você quer
dizer, que duas ou três pessoas, que talvez não fossem nem burgueses elas
mesmas, tomaram o governo e tomaram algumas medidas que foram favoráveis a
essa classe burguesa, mas não que a burguesia tenha tomado o poder. Uma
classe social pode tomar o poder? Bom, para você agir politicamente você tem
que combinar as coisas, você não age a esmo, não é tudo fruto do acaso. Então,
como é que você reuniria uma classe social inteira para ela examinar, traçar
planos, deliberar e agir. Isso é impossível. O número de pessoas que participa de
uma conspiração, de um golpe de estado, é ínfimo, em relação a sociedade
inteirinha, em relação a sua classe social. Mais ainda, quantos burgueses havia na
liderança da revolução francesa, a resposta é nenhum, pra não dizer que não tinha
nenhum tinha o ? Lequer? , era o único. Se você perguntar quantos proletários havia
no primeiro comitê central da URSS? Nenhum. Então é claro que isso é
um pensamento metonímico. Algumas pessoas ou grupo determinado, derruba
o governo, toma o poder, e você alegando que eles representam uma classe, a
qual não foi consultada a respeito, e a qual pode inclusive se incluir entre as vítimas do
novo governo. Eu vi que esse tipo de pensamento metonímico era um vício

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geral da modernidade praticamente inteira. O modo de você dizer, sei lá, a Argentina
declarou guerra ao Paraguai. Quando você vai ver morreu mais gente na frente interna
lutando contra o serviço militar do que no campo de batalha. É claro que não foi a
Argentina que declarou guerra. Foi uma fração mínima que estava no poder que
declarou guerra contra a vontade maciça da população. No Brasil , o contrário, houve
um entusiasmo bélico fabuloso, todo mundo queria ir para a guerra do Paraguai,
exceto os ricos, evidentemente, daí surgiram os famosos voluntários da pátria –
neguinho rico contratava quarenta escravos para ir no lugar dele , e ele virava um dos
voluntários da pátria. Mas em geral a população apoiou maciçamente o governo
brasileiro na Guerra do Paraguai.

Mas nos dois casos você usa a mesma expressão: O Brasil declarou guerra
ao Paraguai, a Argentina declarou guerra ao Paraguai. Na própria seleção
das palavras você está começando a se enganar, se impedindo de ver qual foi a
ação verdadeira, e qual foi o agente verdadeiro. Essa distinção era fundamental.
Aí surge a pergunta – ampliando um pouco mais a questão: quem é capaz de
ação histórica? Que é ação histórica? É a ação cujos efeitos se prolongam para além
da duração da vida do seu agente. Como por exemplo, o código de
Napoleão Bonaparte, que continuou em vigor; o Império de Carlos Magno, que
durou depois da morte dele. São ações que tem consequências de longo prazo,
de grande profundidade, vastidão. Quem é capaz desse tipo de ação? Se
você perguntar - um país pode ser um agente histórico, o Brasil pode ser um
agente histórico? De jeito nenhum. A ação subentende a unidade do agente. Se você
tem 15 pessoas agindo sem ter combinado nada, você não tem uma ação, você
tem apenas uma confusão. Se combinaram e no dia seguinte esqueceram ou
traíram, também não agiram. Então, só é possível falar de um agente histórico
quando existe uma unidade na ação ao longo do tempo. E isto só é possível quando
o grupo que está empreendendo a ação consegue se reproduzir ao longo
das gerações, consegue formar pessoas que estão devotadas aos mesmos
objetivos, com a mesma intensidade, com o mesmo comprometimento profundo dos
sues fundadores. Isso restringe enormemente o número de agentes históricos, e
nós estamos contando histórias que não existem. Quando nós falamos por
exemplo história do Brasil, o Brasil não é um agente para você contar a história dele
como se fosse a biografia de uma pessoa. História do Brasil quer dizer um monte
de acontecimentos inconexos que aconteceram mais ou menos dentro do
mesmo território – e o território muda, incorpora um pedaço, perde outro.

Então, história do Brasil é uma expressão metonímica. Você quer dizer história do que
vários grupos de pessoas fizeram dentro do Brasil. Ou alegando estar agindo em
nome do Brasil, nós não sabemos também se estavam. Por exemplo, quando o Barão
do Rio Branco foi lá fazer a famosa disputa de fronteiras, bom ele estava fazendo em
nome do que ele achava que era o interesse nacional, mas a maioria da população
sabia? Não sabiam absolutamente nada. Quer dizer, o cara que está lá no RS está
pouco se lixando para a fronteira lá do AC! Daí volta o Barão e todo mundo diz – ele
fez uma grande vitória para o Brasil, etc. É relativo, um país não tem esta unidade de
consciência capaz de se reproduzir de geração em geração de maneira eficiente de
modo a preservar a linha de ação.

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Mas tem algumas entidades que tem. Por exemplo, a Igreja Católica. A Igreja Católica
tem mais ou menos os mesmos rituais, os mesmos mandamentos, as mesmas leis
canônicas desde que ela foi fundada até hoje. Então isso quer dizer, que de modo
geral , estatisticamente, a maior parte dos camaradas que são formados dentro da
Igreja Católica refletem uma linha de ação histórica que vem desde a fundação da
Igreja. Do mesmo modo entidades esotéricas como a maçonaria, por exemplo. Todos
os maçons passam pelos mesmos rituais, tem os mesmos valores, etc, então é
possível que exerçam uma ação contínua. Uma organização como o partido comunista
que é a organização política mais velha que existe no mundo, que tem uma existência
contínua, há um século e meio, passando de geração em geração, a mesma
formação. Formação quer dizer doutrinação? Não, é uma coisa muito maior que isso.
É passar toda uma cultura, sentimentos, símbolos, reações, etc. Existe um monte de
livros sobre o que os americanos chamaram de ‘Fraldas Vermelhas’, que são os filhos
dos comunistas. E você vê que de geração em geração aquilo vai passando e
impregnando profundamente de modo que o nego mesmo que ele deixe de ser
comunista mais tarde ele continua com a mesma estrutura de personalidade, e ele vai
continuar servindo ao mesmo critério. Existem entidades que tem capacidade de
ação histórica. Se você perguntasse – as forças armadas são agente histórico? De
jeito nenhum . Elas não tem unidade suficiente. Elas são um órgão ou instrumento
do estado. Elas não são causa sui, elas não decidem o seu próprio curso,
como a igreja católica decide, ou a maçonaria decide, ou o partido comunista
decide. Existe um elemento estranho que as envolve e determina. Em certos
momentos pode haver uma unidade entre um grupo de oficiais que age então de
maneira convergente, como ocorreu em 64, mas a unidade é desse grupo que é o
agente, e as forças armadas não são o agente. Essa distinção é realmente
fundamental para você poder descrever o que está havendo – é preciso distinguir as
vozes dos ecos!

Só com essas explicações você já vê que vícios de linguagem acumulados no debate


político criam uma confusão dos demônios. Usando essa linguagem amplamente
metonímica você nunca vai conseguir uma descrição apropriada do que está
acontecendo. Isso foi uma das técnicas que eu apliquei no diagnóstico da situação
real. Quem está efetivamente agindo? Quem tem uma linha de ação por trás de
milhares de ações que as ecoam? Isso aqui é básico.

Eu vou mostrar para vocês na próximas aulas como a gente aplica isso a descrição de
situações reais, e como podemos do mesmo modo fazer uma descrição da situação
atual e chegar a alguns prognósticos.

Então, para ser o agente é preciso ter unidade. A unidade máxima que vamos ter é a
de uma personalidade, de uma consciência única que está pensando tudo. Então é
possível que um indivíduo seja uma agente histórico se ele conseguir ter uma unidade
e persistência de propósitos ao longo de toda sua vida pública, de tal modo a deixar
marcas que se prolonguem para além da duração de sua vida, como fez Napoleão
Bonaparte. No caso de Napoleão, isso se torna maximamente claro porque nós
sabemos pelo estudo das batalhas que o exército de Napoleão só funcionava onde o
próprio estava presente, ou seja, ele tinha grandes generais, mas não adiantava
delegar o comando para esses generais, ele tinha

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que ir lá pessoalmente. Só ele tinha a concepção estratégica integral na cabeça,
os outros não tinha, tinha só partes. Para que a estratégia global funcionasse,
era preciso ter aquela cabeça. Em outros casos os indivíduos não tem essa
unidade, mas os grupos que eles formam os agregam de tal maneira, como acontece
no caso do partido comunista, que esta entidade apesar das deficiências, falhas
e distrações de seus membros, continua agindo coerentemente e convergentemente
ao longo do tempo. Isto aí nos permite fazer uma distinção em um livro escrito por
fulano – princípio número 1: distinguir na sociedade o que é resultado de um acúmulo
fortuito de causas, e o que é resultado de um plano e de uma deliberação. Ora,
confundir essas duas coisas é um dos preceitos fundamentais dos comentários
políticos hoje. Ou seja você discernir intenções por baixo de similaridades e
convergências. Por exemplo, todo esse pessoal que escreve sobre os Iluminati. Os
caras que estão ai podem ter algo que ver com os Iluninati, mas não tem mais a
mínima evidência da continuidade dessa organização ao longo do tempo. Então
podem aparecer 500 organizações diferentes que como você uma similaridade entre o
que eles estão fazendo e os iluminati poderiam fazer, você diz que são os Iluminati.
Ou seja, você está conferindo uma unidade substantiva a uma convergência de
aparências. Outra forma de pensamento metonímico é o organicismo. É uma teoria
inventada por um pensador alemão conservador no começo do século XIX , chamado
?, onde ele propunha considerar a sociedade como se fosse um organismo, um corpo
animal vivo. Bom, claro, euristicamente como maneira de estimular sua imaginação
isso pode até funcionar, pois faz ver ligações que normalmente
passariam despercebidas. Porém, uma sociedade ou um país pode ter uma unidade
orgânica que nem um corpo de um animal ? É claro que não. Seria preciso que
os indivíduos que o compõem não fossem unidades, mas apenas partes.
Muitos indivíduos na sociedade humana não são de fato individualidades, mas
partes, entram num processo que as transcende, que elas não compreendem, mas
ao qual elas colaboram passivamente por assim dizer. Mas tem outros indivíduos que
são eles a matriz do que está acontecendo, por exemplo Napoleão, Mussolini, Hitler,
etc. O organicismo falha na medida em que ele não reconhece o verdadeiro padrão de
unidade, ele pega a presença de todos os fatores como se fosse uma pertinência
orgânica. É claro que isto aí não é uma metonímia, é uma metáfora, mas como
metáfora, ela não é um conceito descritivo associado. A metáfora é um tipo de
pensamento analógico, que tende a uma unidade lógica a ser alcançada. O analógico
é uma síntese de semelhanças e diferenças, tudo misturado, e que só entra no terreno
lógico quando você desmisturar, o que tem a ver, e o que não tem a ver. Então a
metáfora serve para despertar intuições, percepções, ideias, etc, mas ela não é uma
descrição da realidade. Ela serve subjetivamente, para ajudar você.

Por exemplo, você não pode fazer sexo com um comprimido de viagra. É
um componente que você usa para facilitar o seu desempenho. Mas não é com
ele que você está transando. Então, a metáfora é como o viagra, ela faz
você funcionar mais rápido, mas não quer dizer que a visão que você está tendo
da realidade seja a mais adequada.

O próprio Marx entra um pouco no organicismo sem saber, porque ele vê a sociedade
como uma unidade conflitiva marcada sempre pela luta de classes. O

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que é a luta de classes? É também uma metáfora. Que existem as classes
sociais, nós sabemos. Mas onde termina uma e começa outra? Fulano chegou a
conclusão que não há critério econômico suficiente para distinguir as duas classes,
você teria que levar em conta elementos culturais, subjetivos, etc. Ou seja,
existem proletários honorários e burgueses honorários, que não são proletários
nem burgueses. Então, a própria distinção entre as classes já é um problema. E
você descrever a convivência delas como uma luta é também agora uma metonímia
de fato, pois quando não está havendo conflito de classe algum, você pode dizer
que há um conflito de classe latente. Durante 300 anos não houve nenhum
conflito, daí aparece o conflito e você diz: o conflito já estava latente nesses 300
anos! Você está portanto confundindo o potencial com o atual. Erros desse tipo
são praticamente 90% da história das ideias políticas: metáforas, metonímias, etc, etc.
Quase sempre construídas em decorrência daquela tomada de posição prévia de uma
sociedade ideal que você nunca viu ou da qual você só vê a semente. Por exemplo
quando John Locke criador da teoria da democracia moderna, alguns elementos dessa
democracia já existiam na Inglaterra, mas nem todos. Aquilo que estava ali em
semente ele já via como produto acabado, e em função desse produto acabado
julgava o que estava acontecendo no tempo dele , e assim por diante.

Se, para ser um agente é preciso ter uma unidade, então o que define, o
que determina o curso da ação tomado por um indivíduo ou um grupo? É o que
ele tem na consciência.

Então surge a noção que eu acho fundamental do horizonte de consciência. Onde o


neguinho não enxerga ele não age, ou se agir age as tontas, não sabe o que
está fazendo. Então, se a ação é uma transformação deliberada do estado de
coisas, ela pressupõe uma deliberação, e portanto um conhecimento da situação. E
este conhecimento deve ter os seus limites, isto é, ter um ponto a partir do qual
o sujeito não enxerga mais. Por exemplo um exercício que eu fiz sobre o horizonte da
consciência foi o livro que escrevi sobre Maquiavel. Tem uma série de coisas que ele
sabe, mas tem outras tantas coisas que são essenciais que ele não
sabe absolutamente. No caso de Maquiavel, o horizonte da consciência é
bastante estreito. O que explica que o teórico da tomada do poder e o teórico da
política estivesse sempre do lado perdedor. Se entendesse realmente sua teoria,
ela saberia escolher o lado vencedor. É um fracassado que vira o teórico do
sucesso. E nem fez sucesso nem mesmo com isso, porque terminou a vida muito
mal. Então você vê que no julgamento das situações reais, Maquiavel
falhava miseravelmente. E ele compensava esta sua incapacidade de diagnóstico
com uma espécie de pessimismo que simula o realismo. Quando você não sabe o
que está acontecendo então você aposta no pior. Isso dá a impressão que você
é realista. Mas, olha, se você apostar no melhor ou no pior, como diz
George Bernanos, o otimista e o pessimista são apenas o gordo e o magro da
filosofia. Não há diferença entre eles – se você apostou no melhor ou no pior, é
uma preferencia subjetiva sua, não é uma coisa da realidade. Então, veja que ali
no Maquiavel, que foi tido de forma monstruosamente errada como fundador
do realismo na ciência política, faltava totalmente o realismo, e abundava
o pessimismo. A aposta no pior.

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Então, esse tipo de exploração do horizonte de consciência ele pode ser resolvido na
medida em que você conhecendo historicamente a ação que o sujeito desempenhou,
e conhecendo os elementos da situação em torno, você vê quais os pontos
fundamentais que ele ignorou.
O horizonte de consciência é definido pelo mapa da ignorância. Não se trata de uma
ignorância fortuita. Todo mundo ignora alguma coisa, naturalmente. Mas como já me
ensinava meu professor Stanislau existe uma diferença entre a desciência e a
ignorância.

Desciência é você ignorar alguma coisa. Ignorância é você ignorar alguma coisa que
você deveria saber. Por exemplo, um motorista de ônibus sabe dirigir o ônibus mas o
passageiro não precisa saber dirigir o ônibus – isso é desciência : eu não sei dirigir
essa porcaria, mas o outro está dirigindo por mim. Então, o mapa da ignorância não é
o mapa da desciência, que seria infinito. Mas dentro da minha esfera de ação, para
desempenhar a coisa que estou querendo desempenhar eu precisava saber. E se eu
não sei, então se trata de ignorância autêntica. Então, o mapa da ignorância delimita o
horizonte de consciência.

Particularmente, quando você vê assim, se o indivíduo está estudando uma situação


com vistas a agir nela, ou obter um conhecimento, existem certas perguntas
fundamentais que ele precisa fazer. Sobretudo aquelas perguntas que surgem da
experiência direta que ele tem da realidade. Eu agora mesmo dei o exemplo de Marx
que os proletários seriam os únicos portadores da visão integral e objetiva da história.
Se eu sou Marx, sei que só os proletários podem ter essa visão objetiva da realidade,
e ao mesmo tempo eu estou tendo essa visão objetiva, antes deles, eu tenho que
explicar isso! Eu tenho que fazer essa pergunta: como foi possível que eu, não sendo
um proletário, sequer tendo visto jamais um proletário, tenha chegado a compreender
aquilo que estou dizendo que somente um proletário pode compreender. Essa
pergunta é essencial, e ele não a faz. Por que foi desonesto? Não sei. Não estamos
aqui fazendo um julgamento moral, estamos fazendo um julgamento cognitivo.

Então você vê um ponto cego em um aspecto essencial da questão. A teoria


da ideologia de classes exigia que Marx colocasse esse problema. Não sei como
ele poderia resolver, mas pelo menos colocar o problema. Se ele não coloca é
porque ele não viu. Do mesmo modo, você pode aplicar isso a várias situações
políticas concretas, por exemplo, eu mesmo citei e depois nesse curso vou explicar
um pouco mais – quando Raimundo Faoro, que foi sem dúvida um dos
grandes cientistas sociais do Brasil, talvez o maior depois de Gilberto Freire – ele
apostou na fundação do PT. Por que ele tinha descoberto que a luta de classes no
Brasil não é entre proletários e burgueses, mas entre o povo de um modo geral e
os donos do estado, que ele chamava de estamento burocrático. O estado no Brasil
é propriedade particular de certos grupos, não é um organismo impessoal, anônimo,
científico como é o estado em outros lugares. Então é preciso destruir o estamento
burocrático. E ele acreditava que o PT podia fazer isso. Por que ele acreditava? Por
que ele não estudou a estratégia comunista, não sabia nada a esse respeito. Uai, mas
o pessoal do Pt estudava! É só ver o que eles estudavam e liam , e é claro, eles são
herdeiros e continuadores do movimento comunista. Então se eu não conheço a
estratégia comunista eu não posso saber o que eles

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vão fazer, não posso apostar ingenuamente que eles vão destruir o
estamento burocrático, como de fato não apenas não o destruíram mas se
transformaram nele. Era previsível? Era. Contanto que o cientista tivesse feito a
pergunta decisiva: quem são esses caras nos quais estou apostando? Por que ele não
fez esse pergunta? Primeiro ele nunca teve interesse nisso, você vai ver que nos livros
dele quase nunca menciona isso, estratégia comunista, nada que ele tenha lido, nada
nada. Em segundo lugar porque ele estava naquele momento da destruição da
ditadura militar, e formulava tudo no esquema de mocinhos e bandidos, e os bandidos
são os agentes da ditadura e os mocinhos os que querem destruí-la. Como tem gente
que hoje ainda vê assim – o PT inteiro. Os 90% da população brasileira são os
golpistas, os outros, a fração mínima que os apoia representa o povo.

A chamada luta contra a ditadura formou mentalidades inteiras, de personalidades


inteirinhas montadas a partir disso, nós vamos estudar isso nas próximas aulas. E
evidentemente elas vão tentar repetir os mesmos esquemas cognitivos para tentar
obter um visão do que está acontecendo.

Essa noção do horizonte de consciência é básica. Você pode fazer o horizonte


de consciência de um indivíduo ou de um grupo inteiro. Para ver do grupo inteiro, tem
que ver as discussões internas desse grupo, o que eles estão discutindo, e quais as
perguntas que eles não estão fazendo. Perguntas essenciais que não estão fazendo.

Eu acho incrível que o pessoal do PT não pergunte – se é um golpe, como é possível


o povo inteiro estar contra nós. Se nós somos o povo e eles são a elite, como é que as
quinze famílias mais ricas do Brasil estão do nosso lado ao invés de estar do lado dos
golpistas, bem como os banqueiros? Eles não fazem essas perguntas.

Estão entendendo a noção do horizonte de consciência? Para você delinear


o horizonte de consciência do individuo você não precisa saber tudo que ele
sabe, basta saber o que ele ignora dos pontos que são essenciais para o
conhecimento dele. Então o horizonte de consciência delimita as possibilidades do
verdadeiro sucesso político. O que é o verdadeiro sucesso político?

Santo Tomas de Aquino dizia que uma ação é boa quando ela é boa no seu propósito,
nos seus meios de execução, no curso da sua execução e no seu resultado. Se você
teve uma boa ideia e conseguiu usar os meios apropriados e obter o resultado
exatamente como você queria, bom, então, você é um sucesso.
Claro que todo sucesso humano é parcial porque você só pode ver na verdade até o
primeiro capítulo do sucesso. Por exemplo, se os comunistas dizem para você nós
vamos criar uma sociedade assim e assim e assado. Pois bem, você vai criar já, de
imediato? Não, primeiro nós temos que tomar o poder. Isso quer dizer que a maior
parte da sua vida será dedicada a tomar o poder, e só sobrará um tempinho mínimo
para você construir a tal da sua sociedade. Simplesmente não vai dar tempo. Você
toma o poder, e antes de construir a sociedade nós temos que acabar de destruir o
inimigo de classe. E isso pode levar 50, 70 , 100 anos,

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então não vai acabar. Então quer dizer que o objetivo proclamado pode ficar para as
calêndulas gregas. O essencial é o primeiro capítulo do seu sucesso, supondo-se que
você consiga realiza-lo da melhor maneira possível, como Lenin conseguiu. Lenin
chefiando uma fração mínima conseguiu articular as coisas de tal maneira que um
governo que parecia ser indestrutível caiu com a maior facilidade. Essa é então uma
ação bem sucedida até esse ponto. E a construção do socialismo? Bom, isso é outro
problema. Lenin morreu e nada mais disse nem lhe foi perguntado.

Tudo isto coloca um problema que geralmente é ignorado em todos os cursos


de filosofia e ciência política do mundo, não só do Brasil, que é o seguinte: quem pode
estudar isso? Que tipo de qualidades cognitivas, morais e psicológicas você precisa
para conseguir estudar isso? O problema das qualidades psicológicas requeridas para
estudar qualquer coisa são em geral ignorados. A não ser em domínios muito restritos,
como por exemplo, se você vai estudar física, bom, alguma coisa de matemática você
tem que saber, tem que ter algum jeito para a coisa. Você tem que ter aquela
disposição para a pesquisa experimental , confrontação de resultados, etc. Sua
personalidade tem que estar mais ou menos modelada pelos hábitos da ética
científica. Sabe que precisa, mas isto é tudo muito simples. E por que é simples?
Porque a coleta dos dados nas ciências físicas é feita por meios físicos. Todos os
dados das ciências naturais, da física, os fatos da biologia, são fatos que você pega
pelos cinco sentidos, ou diretamente ou através de aparelhos, mas é através dos cinco
sentidos. Isto quer dizer, isto aqui é fundamental: o dado que você apreende em
biologia, em geologia, em geografia, etc, qualquer ciência da natureza, ele é
totalmente heterogêneo em relação aos atos cognitivos que você pratica para
conhecer.

Para o sujeito praticar por exemplo a biologia, ele não precisa saber como o cérebro
dele está funcionando na hora que ele enxerga um camarão ou um elefante. Os
procedimentos cognitivos são uma coisa, os dados são outra coisa. Os dados nos são
impostos pela natureza externa, e por assim dizer, a psicologia do conhecimento é
indiferente em qualquer uma dessas ciências. Mas quando você entra nas ciências
humanas, e nas ciências políticas em particular, todos os dados que você tem a sua
disposição foram produzidos pelos mesmos meios cognitivos que você esta
estudando: a linguagem , a significação, atos de vontade, decisão, seleção, etc, tudo
isto. Portanto os dados são da mesma natureza dos seus processos mentais. Essa
diferença é absolutamente fundamental. Porque se você não é capaz de repetir os
atos cognitivos que produziram tal ou qual ação política você não é capaz de entendê-
los jamais.

O que significa que você precisa de uma identificação temporária com o agente. O que
te salva é que você não está estudando um agente só. Você não vai ficar o tempo todo
estudando só Napoleão Bonaparte, você não vai virar Napoleão Bonaparte, mas até
para entender Napoleão Bonaparte você tem que entender os outros agentes: príncipe
Meternich, gen Wellington, e assim por diante. Como você se identifica com vários
agentes, você não se identifica com nenhum deles no fim das contas. Você assume
tudo aquilo como possibilidades de ação humana, sabendo que você poderia estar
naquele papel, e que em princípio você não é melhor ou pior do que aquela pessoa,
apenas mais um. Essa abertura

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inicial a multidão dos dados e esta identificação com o agente são elementos centrais
sem os quais você não pode estudar ciência política.

O que significa que se você já está entrando na ciência política com um determinado
ideal pronto, um ideal de sociedade pronto, você não vai se identificar com quem
representa o seu oposto. Se eu desejo, por exemplo, uma sociedade igualitária, eu já
terei nojo de quem quer uma sociedade hierárquica, não poderei me identificar com
ele. Se eu sou a favor da democracia capitalista, eu não posso me identificar com
Lenin. E se eu não posso me identificar com Lenin, eu não posso captar também seu
horizonte de consciência, ou seja, com os limites do que ele pensou. Você vai
raciocinando como ele, você vai seguindo o fluxo interior dele, mas chega um ponto
onde tem algo que você sabe e ele não sabe. Opa, aqui ele não enxergou. Mapear o
horizonte de consciência exige essa dupla operação simultânea, essa identificação
com o agente, e ter informações que ele não tem, mas que você sabe que na situação
dele eram imprescindíveis. Quantas pessoas são capazes de exercer esse trabalho?
Pouquíssimas! Porque isto aí requer em primeiro lugar imaginação. A maior parte
dessas operações que você vai fazer só se dão na sua imaginação. Elas não estão
ocorrendo na sua frente. Ou elas ocorreram em outras épocas ou ocorreram em outro
lugar no espaço que não é aquele onde você está. Então se você não tem
amplitude imaginária suficiente para entender essa multidão de processos cognitivos
e decisórios humanos você não pode exercer a ciência politica. Então é por isso que
eu insisto com meus alunos que eles tenham uma longa formação literária e artística
antes de entrar em qualquer coisa. Por é isto que vai ampliar sua imaginação. Nesse
sentido que dizia Aristóteles que a poesia é mais verdadeira que a história. Porque ela
mostra o que poderia ter sido. Tem muitas situações humanas que você nunca vai ver
na realidade, mas que você pode imaginar pela figura de ficção. É esse repertório de
figuras possíveis da vida humana, figuras possíveis do conhecimento humano, que
você precisa ter para poder assimilar esses vários papeis desempenhados pelos
vários agentes ao longo dos anos. Sobretudo, existe um elemento moral que é o
seguinte: você não se identifica com o sujeito se você não tive alguma compaixão por
ele. Sentir junto, sentir a mesma coisa. Mesmo quando você está estudando as ações
de sujeitos que você considera monstruosos, como Hitler ou Lenin, mas em algo eles
tem que coincidir comigo, em algo tem que ser possível eu ser igual a eles, se não eu
não os entenderia de maneira alguma. Claro que existe um ponto limite
dessa compreensão. Esse ponto é dado pelo fator de psicopatologia. Quer dizer que é
a ausência de sentimentos morais. Quando você chega ao limite da psicopatologia o
individuo começa realmente a praticar ações com as quais você realmente não pode
se identificar, não há compreensão intima daquilo, existe compreensão externa tipo
científica. Eu posso compreender os atos do maníaco do parque ou de Stalin, ou de
Castro, pelos conceitos da psicopatologia, mas não é uma compreensão intima, por
identificação. Ao contrário. Justamente porque eu tenho os sentimentos morais eu
posso compreender o que é a ausência deles, mas não compreender por identificação
, ou seja eu não posso suprimir os meus próprios sentimentos morais só para eu
entender a mente de um psicopata. Isso seria a mesma coisa que arrancar seu
cérebro para estudar a fisiologia cerebral. Não dá para fazer. Quando você alcança
esse limite, você vê que entrou em um terreno que a rigor é incompreensível, ele é
descritível, explicável

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cientificamente, mas pela psicopatologia. Você vai precisar pedir auxilio para
a psicopatologia para você poder entender esse aspecto das coisas. Mas em
quase totalidade das suas ações o psicopata não difere em suas
ações. Só naquelas onde entra o problema do sentimento moral. Mesmo no caso dos
psicopatas mais monstruosos e disformes, você vai ter que tentar exercer esta
compreensão , e pra você exercer essa compreensão você precisa se colocar no
ponto de vista do excluído total, ou seja, eu não tenho um grupo com o qual eu me
identifico, e por isso mesmo eu posso me identificar com qualquer um, eu estou livre, o
que é a mesma coisa que dizer – todo mundo me rejeitou, eu estou lá no alto da cruz,
e não estou com raiva de ninguém. Então esta ai a importância fundamental da figura
de Nosso Senhor Jesus Cristo para todo este campo de estudos. É claro que nós não
chegaremos a amplitude de consciência de Nosso Senhor Jesus Cristo, nunca
seremos o logos, nunca saberemos como Ele criou o universo, porque ele criou os
seres humanos, etc, mas numa escala humana nossa compreensão pode se estender
indefinidamente.

Só que você ser colocado fora de um determinado grupo, de uma


determinada sociedade, pode ser uma coisa tão aterrorizante que imediatamente você
busca um grupo compensatório, com o qual você se identifique, que é exatamente o
que acontece com Sartre e outros. Este erro tem que ser evitado de qualquer maneira.
A mais absoluta solidão cognitiva é necessária para essas coisas, mas essa solidão
ao mesmo tempo te abre para todo a humanidade através da compreensão e da
compaixão. Então você não está sozinho porque você está com todo mundo.
Justamente na medida em que você foi posto para fora, você pode compreender quem
está dentro e quem está fora do mesmo modo.

Em seguida, a partir da ideia da ação surge o que: a teoria do poder. Poder


é capacidade concreta de ação , não abstrata. Porque abstratamente eu posso
ser Papa amanhã , mas concretamente o que eu dentro da minha situação posso fazer
nos momentos seguintes, qual é a minha liberdade, a faixa da minha liberdade de
ação. Então, do mesmo modo que é possível delimitar o horizonte de consciência, é
possível delimitar o raio de ação possível de um indivíduo ou grupo. E isso é da mais
alta importância porque ai você vai descobrir uma coisa fundamental: o que este
indivíduo ou grupo não pode fazer de jeito nenhum, o que é impossível de fazer. E ai
você usa o método do Sherlock Holmes, você elimina o impossível , e do que sobrar,
alguma coisa será verdadeira. Por exemplo, quando eu disse que na primeira eleição
do Lula, todo mundo acreditando que o Lula seria derrotado, eu disse, é impossível
que ele não vença a eleição, materialmente impossível. Por que eu tinha analisado o
horizonte de consciência e as possibilidades de ação das várias forças concorrentes, e
falei só uma tem força, só uma ação contínua e sobretudo só uma tem uma estratégia.
Os outros tem apenas táticas eleitorais limitadas aqui e ali. A diferença de poder aqui
era avassaladora. Então poderia haver um milagre, mas excluído o milagre, e ele deve
ser sempre excluído porque ele não está ao alcance da nossa ciência.

O conceito fundamental em qualquer ciência é o conceito de necessidade –


nec cedere , uma coisa que não cede, não quebra. A necessidade significa
apenas impossibilidade do oposto. Quando uma ciência busca formular uma lei,
uma regularidade ou constância, ela está querendo dizer que o contrário é impossível.

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Existe evidentemente a impossibilidade absoluta e a impossibilidade relativa
ou estatística, com a qual a ciência em geral se contente hoje em dia. Abaixo
da impossibilidade absoluta você tem graus de possibilidade, que são
demarcados justamente na teoria dos quatro discursos de Aristóteles – você tem
o absolutamente certo, ou necessário, ou impossibilidade do contrário; você tem
o provável, que é a certeza razoável estatística, quantificada; o verossímil, o
que parece verdadeiro, o que desperta nas pessoas um sentimento de que
é verdadeiro; e por baixo disso o meramente possível. Então o que é analisar
uma situação política: é aplicar todos estes conceitos: o conceito do agente,
da unidade do agente, do horizonte de consciência, da disponibilidade dos meios
de ação, e tentar chegar a um desenlace certo, necessário, provável, verossímil,
ou meramente possível. Classificar os dados de acordo com os graus de credibilidade
do discurso de Aristóteles. Feito isso, está encerrado o assunto.

A filosofia política é o estudo dos métodos e critérios necessários para o conhecimento


desse setor específico da ação humana. A politica é um modo de ação. A ação é a
mudança deliberada de um estado de coisas. E esta ação se torna política quando ela
alcança toda uma sociedade – alcança em principio, pode não alcançar
imediatamente. Na hora que o sujeito por exemplo, assina o decreto, a ação dele está
limitada aquele papel que ele está rabiscando. Mas no dia seguinte aquilo é publicado
no Diário oficial, os agentes do estado passam a exigir aquilo das pessoas, e aquilo se
alastra para a sociedade inteira. Então, esse modo de alastramento das ações
também é importante. Quanto tempo leva para isso entrar em ação. Por exemplo, o
pessoal diz assim: na idade média, a Igreja dominava toda a Europa. Dominava como,
meu filho? O papa baixava um decreto até o decreto chegar no último padre, levava 10
anos, o emissário em geral era assaltado e morto no meio do caminho. Quer dizer, a
rigor o papa não mandava era nada, ele era reconhecido oficialmente como se
mandasse, mas o poder efetivo era muito limitado. Isso é uma norma para você
estudar a Idade Média. Os poderes locais eram muito mais fortes que qualquer poder
central. Quem nomeava os bispos, era o papa? Não, era o duque, o conde , o sujeito
que mandava na cidade que nomeava o bispo, e pronto. Para o papa conseguir
a autoridade de nomear os bispos foi só depois da Renascença. Em geral o
pessoal tem uma visão invertida – a autoridade do poder do Papa cresceu
enormemente depois da Renascença, e antes era bem menor, é o contrário do que o
pessoal em geral pensa. Tudo isso porque – pensamento metonímico! Do fato de que
a civilização inteira era católica, você acredita que o Papa mandava em todo mundo.
Uai, e para o Papa mandar em você basta você ser católico? Não, é preciso de que
algum modo as ordens dele cheguem até você. E alguém o obrigue a cumprir, e ele
não tinha esses meios.

Se você pegar a patrística grega e latina, ali tem um monte de autores heréticos que
estão incorporados no patrimônio da igreja! O nego era herético ele nem sabia que
era. Só quando começou a inquisição, ai eles começaram a mandar os caras
averiguar o que fulano estava falando lá no fim do mundo, e mesmo assim quantos
hereges foram entrevistados pela inquisição? Um numero ínfimo! Os outros
continuavam propagando heresias sem nem saber, nunca foram entrevistados,
investigados, ou coisa nenhuma. Então, isso quer dizer que a própria unificação
doutrinal da Igreja foi um processo longo, demoradíssimo,

Aula 02 Política e Cultura no Brasil.docx


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POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL – HISTÓRIA E PERSPECTIVAS
AULA 02

Gostaria de abordar alguns temas que não abordei na aula passada.

O primeiro desses itens que eu acho que é excessivamente desprezado pela ciência
política em geral é o tema da diferença de poder. De todas as espécies animais, a
espécie humana é aquela em que a diferença de poder é a mais ampla, a mais
destacada e a mais invencível, a mais impossível de eliminar. Se você pegar em
quaisquer espécies animais, você vai notar que há sempre uma diferença entre os
mais fortes e os mais fracos. Porém, a diferença de poder não é tanto assim. Se você
pegar por exemplo um leão. Os leões vivem em famílias que agregam um certo
número de fêmeas e filhotes. Se você pegar o leão mais forte e mais rico ele tem o
que? Um grupo ali de umas 15 a 20 fêmeas, não vai passar disso aí, e mais alguns
filhotes, não vai passar disso aí. Você não vai ver um leão que tenha um milhão de
fêmeas , e outro que só tem uma ou nenhuma – isso aí não existe. A diferença entre o
mais poderoso e o menos poderoso é muito menos destacada. Qualquer espécie
animal. Você vê num confronto, numa luta, a diferença de poder entre membros da
mesma espécie não é grande – dois ursos, dois elefantes, dois camelos, a coisa não é
tão diferente. Agora o ser humano a diferença é tão grande, mas tão grande, que
desde o início dos tempos você uma tendência de dar ao chefe, ao governante, o
estatuto divino. Júlio César se considerava seriamente um descendente carnal da
deusa Vênus. E todos os césares tinham estatuto divino.

Isso não mudou com os tempos. Na Idade Média veio a famosa teoria dos dois corpos
do rei, tão brilhantemente exposta pelo prof ‘Kantavoch’ – traduzido para o Brasil, “os
dois corpos do rei”. É uma teoria de que o rei tinha dois corpos: um era seu corpo
físico, o outro seu corpo cívico o qual era imortal, não morria, tinha portanto um
estatuto divino.
A ideia do direito divino dos reis surge um pouco mais tarde, já por volta
da Renascença. Até então os reis adquiriam o seu direito divino por uma delegação da
Igreja. O sujeito era ungido pela Igreja, então era cercado a partir desse momento de
um direito divino. Daí veio a teoria de que os reis tinham o direito divino por natureza,
quer dizer, eles já nascem com o direito divino. Então, você veja que ao invés de a
passagem do tempo atenuar a diferença entre o divino e o humano , aumentou.
Quando chega no caso de Napoleão Bonaparte que se coroa a si mesmo, passando
por cima do Papa! Opa, a distância aumentou um pouco mais!

Essa tendência a divinização das pessoas poderosas e importantes ela não diminui de
maneira alguma. Se você ver as figuras das grandes socialites, os bilionários, estrelas
de cinema, etc, a atmosfera de glamour e adoração que existe em torno deles não
parece diminuir de maneira alguma.

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Porém a isso acrescenta-se um fator ainda mais decisivo que é o dos meios de ação.
Os meios de ação disponíveis para que um ser humano exerça seu poder sobre outro,
eles se multiplicam, aumentam e se aprimoram como tempo. E isso não pode deixado
de ser levado em conta.

Se você pensar assim – na idade Média que armas uma pessoa comum,
um camponês ou um morador da cidade poderia manobrar? Bom ele
poderia manobrar um porrete, um machado, uma espada, uma adaga, uma lança. E
que instrumentos o senhor das terras poderia manipular? Exatamente os
mesmos. Então a única diferença que havia era da quantidade de armas, da
quantidade de subordinados que podiam empregar essas armas. Ainda em Roma, a
cidadania plena só era atribuída ao individuo que tivesse terras e os meios para
mantê-la – isto é, ele precisaria ter a quantidade de guardas armados para poder
ser considerado um cidadão de pleno direito, em condições de votar, de exercer
sua cidadania, etc, os outros tinham um estatuto menor. Mas em princípio, as
armas eram as mesmas. Com que mataram César? Com punhais, que qualquer
pessoa poderia ter.

Ao longo do tempo, quando já começam as armas de fogo, no início elas são de um


uso muito privilegiado, eram armas muito complicadas, levava-se quase que um
minuto para carrega-la e elas só adquiriam um valor efetivo se você tivesse muita
gente utilizando aquilo. Por exemplo, numa disputa de um atirador contra dois, os dois
atiradores com certeza venceriam, porque dado o primeiro tiro, nego precisaria
primeiro carregar aquele negócio de pólvora, botar ali uma espécie de uma rolha com
um tampão, e depois enviar ali uma bolinha, depois socar a bolinha até o fundo, e
depois ajeitar mais um pouquinho de pólvora no cano, e um negócio que levava quase
um minuto. Calcula-se que a velocidade máxima de carregamento dessas armas na
Guerra Civil Americana mais tarde era no máximo de dois ou três tiros por minuto.
Então se tivesse dois de um lado e um do outro, os dois venceriam inevitavelmente.

O número de combatentes era um fator decisivo. No instante em que se cria


os cartuchos de papelão, e depois as balas com invólucro de metal, essa
vantagem diminui e portanto o número de combatentes tem que ser maior ainda para
criar uma diferença. Quer dizer, um para dois, na época da arma que carregava
pela boca era um negócio decisivo. Quando vem as balas de metal, essa diferença
já não conta tanto e é preciso multiplicar o número de combatentes. E basta isso para
explicar porque a guerra civil americana foi a maior guerra que tinha havido na história
até então. Por que todo mundo já não usava mais a arma de carregar pela boca, todo
mundo tinha armas com balas de metal, e isso provocou já uma grande mudança em
que a grande preocupação era a velocidade dos tiros.

A primeira “arma de repetição” que aparece é o revólver de tambor. Mas ele ainda era
carregada da mesma maneira que antigamente, cada buraquinho do tambor era
preenchido de pólvora, se socava ali uma bolinha. Daí apareceu um sujeito engenhoso
que inventou os tambores removíveis. Se vocês assistiram o filme ‘Josey Wales’ com
Clint Eastwood, vocês viram como funcionava esse negócio. A história se passa logo
no fim da guerra civil, e as armas mais populares eram essas, não eram as de bala de
metal, eram as de carregar a

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pólvora e a bolinha. Quando o sujeito dá 6 tiros, ele troca o tambor, ele já traz tudo
carregado de casa.

A partir da hora que inventam as balas de metal, o problema passa a ser a velocidade.
Então, naturalmente se adaptam os revolveres de tambor as balas. Mas como se
sabe as armas de mão não são de longo alcance, então como adaptar isso para as
armas de longo alcance, os rifles e as espingardas?

O governo do Norte, Lincoln, lança uma concorrência pública para quem inventar essa
arma, e estará garantida a venda de sei lá, 20 mil, trinta mil , e ai aparecem duas
armas históricas. O rifle Henry, que é tipo com um magazine tubular, tem um cano
aqui e outro embaixo e nesse cano as balas em fileira. E o Henry dava doze tiros.
Então aparece o Spencer, onde o magazine não era tubular, mas ficava no cabo, um
tio meu tinha uma dessas. Esses rifles ainda são fabricados hoje

Isso quer dizer que com esse rifle de repetição, um soldado poderia ser tão eficiente
quanto 10, e isso multiplica o poder de ação de cada um e as tropas já não precisam
ser constituídas por tantas pessoas, e isso começa a fazer diferença.
Mais tarde aparece a tal da metralhadora Gatling com dez canos, iam girando, e isso
começa a fazer uma diferença brutal, pois o sujeito com uma dessas atrás de uma
carroça ele dava conta de uma tribo inteira e quem mais quisesse perseguí-lo. E a
medida que as armas se aprimoram, a diferença de potencial entre os vários
combatentes vai aumentado. Já na primeira guerra você já teve uma montanha de
armas automáticas que começam a aparecer, e com calibres cada vez maiores, e
balas cada vez mais aperfeiçoadas. Quando eles inventaram as armas de repetição
havia um problema, os projeteis eram todos de chumbo, e o chumbo aquecia e o
chumbo derretia. O outro problema é nas armas tubulares, uma atrás da outra ,
quando você dispara tem o perigo da ponta de uma bala disparar a bala seguinte e a
coisa estoura na sua mão. E esses problemas foram sendo resolvidos e as armas
ficando cada vez mais perfeitas.

Além das armas existem outros meios de ação que aumentam a diferença de potencial
como o telégrafo, você poder passar instruções quase que de forma simultânea a
exércitos que estão colocados a distância, isso faz uma diferença brutal. Se um tem
que mandar um mensageiro a cavalo e outro pode passar um telegrama, e o
telegrama chega na mesma hora, é claro que o controle estratégico do campo se torna
muito maior.

Quando surge mais adiante o rádio com a possibilidade de dar voz de comando
a massas de milhões de pessoas simultaneamente, então é claro que o
poder aumentou, e os primeiros beneficiários disso foram os grandes ditadores no
sec XX – Mussolini, Stalin, Mao Tse Tung, etc, etc. Se não fosse o radio, o fenômeno
do totalitarismo simplesmente não existiria, porque a ideia do totalitarismo é o controle
total sobre a sociedade, e o controle total pressupõe evidentemente a simultaneidade.
Se você dá uma ordem e a ordem leva 5 a 6 meses para chegar no fim do país,
acabou, você não será obedecido simplesmente. E hoje em dia você ainda tem
televisão, internet, etc.

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Tudo isto aumentou de tal maneira a simultaneidade que hoje você tem possibilidades
como essa que se realizou na Espanha – quando fizeram um atentando na estação de
ferro, explodiram um trem em mataram 200 pessoas, 24 horas depois você teve uma
manifestação popular monstro não contra os terroristas mas contra o governo, ou seja,
manifestação organizada pelos mesmos adeptos dos terroristas. Como foi possível
isso? Internet.

Também os meios de obter informação foram se ampliando e multiplicando ao ponto


que um dos lados pode saber tudo sobre o outro que não sabe anda sobre ele.
Também a própria profissão de agente, analista de inteligência foi se aperfeiçoando, e
o pessoal as vezes não tem ideia de como são os serviços de inteligência dos outros
países. Por exemplo se você pegar durante a guerra, o melhor serviço de inteligência
era o da Inglaterra. Quem eram os analistas de inteligência? Eram os maiores gênios
da Inglaterra, a intelectualidade britânica ia toda para o serviço secreto.

No Brasil isso ainda é serviço que você entrega para qualquer um , e o pessoal ainda
tem preconceito contra isso ai. No regime militar, o pessoal que fosse trabalhar no SNI
teria a carreira estragada, hoje ainda estaria.

Então, este crescimento do serviço de inteligência que houve no século XX é


um fenômeno inédito na história. Os serviços de inteligência até o sec XX
eram usados apenas em situações de guerra. De repente se torna o centro
da administração. De modo que você tem países inteiros que são governados
pela policia secreta, não pelo governo nominal. Você veja na URSS você tinha
eleições, o parlamento, etc, mas o parlamento não tinha ideia do orçamento da KGB,
não passava pelo parlamento. Era muito acima do parlamento, muito acima
inclusive do comitê central do próprio partido, estava a KGB.

Esse fenômeno de países governados pela policia secreta era um fenômeno que nao
podia existir antes porque você nao tinha os meios materiais.

Um dos fatores de derrota do governo da Alemanha Nazista foi o fato de que ela tinha
seis serviços secretos descoordenados, um tentando boicotar o outro, ao passo que a
URSS você tinha a KGB e o serviço secreto militar, um grupo que podia haver algum
atrito , mas nada substantivo, e trabalhavam para a mesma coisa. A maior eficiência
do serviço secreto da URSS deve ter pesado formidavelmente no resultado da
guerra.

Mais ainda no sec XX aparecem essas técnicas de controle da mente alheia,


que começam com Pavlov, e vão se aperfeiçoando ate chegar na tal da
programação neurolinguística, sistemas de hipnose instantânea, que é um negócio
fantástico. Tudo isso, todos esses meios, custam dinheiro , muito dinheiro, e não
são acessíveis ao cidadão comum. Aí entra aquela regra – quando as armas são
de acesso fácil e são baratas, você tem uma situação de democracia, porque
todo mundo pode ter as mesmas armas, e isso mais ou menos equaliza o poder.
No máximo a diferença é estabelecida pelo número de combatentes. Mas, quando
as armas se tornam complexas, de difícil acesso, muito caras, ou só podem por

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vezes ser manipuladas por técnicos altamente treinados. Você a imagina a diferença
de nível de conhecimento que precisava um piloto na primeira guerra mundial e o que
precisa hoje o piloto de um jato, que hoje é um engenheiro.
A dificuldade de acesso ao conhecimento dos meios de ação é outro
elemento estratificador.
Portanto, no total, nós observamos que em todas as sociedades humanas
uma diferença muito grande de poder entre os seres humanos, e essa diferença
é irredutível. E acho fantástico que os cientistas políticos desprezem esse
fato. Normalmente as pessoas tratam essa diferença de poder como se fosse
uma anomalia. Bom, se é uma anomalia, então toda a espécie humana foi
sempre anormal.

E em segundo lugar, esse simples fato que estou escrevendo aqui basta
para contrariar a teoria do Benedicto Croche que a historia é a história da liberdade, de
como a liberdade foi crescendo. Liberdade coisíssima nenhuma! Você tem a liberdade
jurídica, assegurada nas leis, mas a liberdade assegurada nas leis não é um meio de
ação. Por que ai entra a minha famosa tese de que a distinção que se faz entre o
direito e a garantia é apenas um cinismo, porque se não há garantia o direito
efetivamente não existe, e a garantia depende do poder real existente. O direito no fim
das contas ele se resume, se é um direito substantivo, que vigora efetivamente na
prática é porque há garantia. E se não tem garantia, não tem direito nenhum , existe
apenas um papel pintado. Podemos eliminar a distinção de direito e garantia,
entendendo que o direito sem garantia é um nada, então comparar o nada com
alguma coisa. Meu aluno Dalla-Rosa explorou essa tese em um livro – “O direito como
garantia”.

Então, se nós perguntarmos de onde surge esse elemento estrutural permanente da


vida humana que é a diferença de poder?

Ora, todo mundo está acostumado com o negócio do Karl Marx que esse diferença
vem da posse dos meios de produção. Então, quer dizer que as várias classes
dominantes se distinguem por diferentes modalidades de posse dos meios de
produção. Bom, isso pode acontecer até certo ponto, porém existe a seguinte
observação que eu também acho fantástico que ninguém fizesse: para que haja
qualquer posse dos meios de produção, para que exista qualquer sistema de
propriedade, a sociedade já tem que estar altamente organizada e diferenciada. Se
existe um tipo de propriedade, e esta propriedade é reconhecida pela sociedade, é
porque antes mesmo de existir essa propriedade já existe uma organização social
capaz de reconhece-la. E ora, então isso quer dizer que o elemento fundamental, o
elemento diferenciador antecede o sistema de propriedade, ele não pode ter sido
criado por ele!

Mais ainda, item 2, este elemento fundamental que criou e fundamentou o sistema de
propriedade ele tem que continuar existindo ao logno de toda a historia do sistema de
propriedade, porque se você eliminar o fator fundante, os outros caem também.
Portanto, a diferença de poder entre os seres humanos não é determinada pela
propriedade dos meios de produção porque a própria
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propriedade dos meios de produção é determinada pela diferença de poder que a
antecede. Deve portanto haver outros fatores.

Pensando nisso, se estes fatores fundantes antecedem o sistema de propriedades, e


tem de continuar existindo ao longo da história da propriedade, então eles são os
fatores decisivos! E na análise de qualquer situação política concreta são esses
fatores que nós devemos levar em conta antes mesmo de levar em conta a diferença
da propriedade dos meios de produção ou qualquer sistema de propriedade.

Então, que fatores são esses?

Em primeiro lugar existe o fator cronológico, este é o mais básico deles. Quem nasceu
antes tem mais poder do que quem nasceu depois. Ninguém nasce mandando. Isso é
uma coisa tão óbvia! Então, os pais mandam nos filhos e não o contrário. Para que
chegue a um situação como nós temos hoje de que os filhos começam a mandar nos
pais, é preciso já uma sociedade muito diferenciada, e muito sofisticada. Mais
evidentemente esta não é a situação básica. Mais ainda, os filhos começam a mandar
nos pais na adolescência, não nascem mandando.

Então, vamos ver em que medida essa diferenciação cronológica em que medida ela
tem uma presença na sociedade afetando não somente a vida dos indivíduos mas dos
grupos. Então isto é outra coisa óbvia: os grupos que duram mais mandam nos que
duram menos. Então a ação de longo prazo é uma condição da ação histórica, isso eu
já mencionei na aula passada. Uma ação adquire uma dimensão histórica quando
seus efeitos ultrapassam a duração de uma vida humana. Então isso quer dizer que
um grupo que for capaz de se perpetuar, de garantir que as novas gerações
prosseguirão a obra dos seus antecessores terá uma imensa vantagem. E é claro que
isto é um fator material que tem que ser levado em conta, mas não encontro isso nem
em Hobbes, Locke, Marx, praticamente em ninguém. O estudo da antiguidade como
uma das fontes de poder, antiguidade e durabilidade. Então isso quer dizer que se
existisse um homem que durasse 300 anos ele teria uma grande vantagem. Os seus
inimigos iriam morrendo, e as novas gerações não o conhecem. Então é claro que
não existe ninguém que dure 300 anos, mas existem organizações que duram
300 anos, ou que duram muito mais! A Igreja Católica tem mais de 2000 anos.
A maçonaria tem sei lá quantos séculos, o Islã tem 1400 anos.

Então o simples estudo da durabilidade dos elementos em ação nos permite as vezes
fazer previsões muito acertadas. Ou seja, aquele que tem o plano de mais longo prazo
e vem prosseguindo numa ação coerente ao longo dos tempos terá uma ação mais
eficiente do que aquele que chegou agora e que do mesmo modo que está limitado
cronologicamente estará limitado “espacialmente”, estará limitado por sua visão no
campo.
Então, onde você tem governos eletivos que duram 4 a 5 anos, esses
governos sempre estarão em desvantagem em relação a organizações mais duráveis.
Dai me lembro da famosa entrevista do general “Jap? , que disse nos
levamos vantagem no Vietnã em relação aos americanos – porque eles lutam no
campo

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militar, ao passo que nós lutamos em todos os campos, cultural, religoso, geográfico,
psicológico, tudo ao mesmo tempo. E porque eles faziam isso? Eles tinham mais de
cem anos de experiência do Partido Comunista! E o Vietnã também é uma sociedade
guerreira que sempre esteve em guerra com a China. Então eles tem uma experiência
militar enorme. De repente chega um presidente que acabou de ser eleito, e que não
está nem entendendo que situação esta se metendo.

Ai, nesse ponto, você vê que em geral as democracias são mais indefesas do que as
ditaduras. As ditaduras duram mais. Dizer que as democracias duram – bom, as
democracias como sistema abstrato duram, mas os governos não duram, nem o
executivo nem o legislativo. Acontece então uma situação que é característica das
democracias que os governantes eleitos ficam nas mãos dos funcionários de carreira.
O sujeito que é funcionário por 20 a 30 anos ele tem um domínio muito mais completo
da situação que o sujeito que acaba de ser eleito. E portanto, aquele que dominar o
funcionalismo publico dominará o governante quem quer que ele seja. A história do
Brasil é um exemplo típico disso dai. Quando o PT começou a angariar adeptos no
funcionalismo publico, ele sabia exatamente o que estava fazendo. Não que eles
tenham feito uma análise tão detalhada, mas como uma espécie de instinto de se
apegar aos meios de ação mais duráveis. Claro que no caso do partido comunista isso
não é por instinto, eles tem uma experiência histórica.

Um segundo elemento diferenciador do poder é evidentemente o conhecimento e o


controle intelectual que você tem da situação. Então, nós veremos que muito antes de
surgir qualquer diferenciação de poder pela propriedade dos meios de produção, surge
uma diferenciação de poder pelo conhecimento. Um pajé para mandar na tribo inteira
ele não precisa de propriedade alguma, ele simplesmente conhece os elementos
fundamentais que estruturam a vida da sociedade, sabem como funciona.

Se vocês lerem o trabalho do Levi Strauss, “O Feiticeiro e sua magia”, vocês


verão que essas feitiçarias destinadas a matar pessoas elas funcionam, mas só
dentro de um meio sócio-cultural homogêneo. É mais ou menos você dizer
que macumbeiro só consegue matar macumbeiro. Porque você precisa do
suporte sócio-cultural para que a pressão da sociedade inteira sobre o mente de
um coitado, de uma vítima, o aterrorize o suficiente para paralisar sua
circulação capilar e matar o desgraçado.
A posse desses meios de conhecimento é portanto um elemento diferenciador muito
anterior a posse dos meios de produção. E pior, depois de diferenciada as várias
propriedades dos meios de produção, este elemento diferenciador baseado no
conhecimento ele continua existindo e continua por baixo da diferenciação dos meios
de produção. Hoje se fala muito o conhecimento hoje é informação, é poder, e eu
pergunto – e quando não foi? Sempre foi a coisa básica. Quando Sun Tsu escreveu
aquela coisa do conhece teu inimigo, 5000 anos atrás, já era verdade naquele tempo.
Portanto esse elemento diferenciador é o que vai determinar meu horizonte de
consciência. Ao analisar as várias situações

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políticas, etc, tem que mapear o horizonte de consciência e ver quem está enxergando
mais e este sem dúvida levará vantagem.

Nos últimos anos, você vê que a partir de 64-65, o pessoal comunista no Brasil virou
quase que um monopolizador do conhecimento. Eles sabiam o que estavam fazendo.
Por exemplo eles começaram a estudar Antonio Gramsci por volta de 64-65, talvez um
pouco antes, mas a coisa se dissemina na esquerda a partir de 65 quando o Enio
Silveira publica 60 -70% das obras do Antonio Gramsci com tradução brasileira, e uma
parte dos comunistas foi para a guerrilha, e uma parte ficou em casa estudanto
Gramsci sabendo que os guerrilheiros iam morrer, mas que eles iam levar a vantagem,
usando portanto os guerrilheiros como boi de piranha.

O pessoal que estava no governo, nominalmente no poder, os militares e


seus associados, não tinham a menor ideia do que estava se passando. Quando
eu publiquei o livro “A Nova Era e a Revolução Cultural”, que foi o primeiro livro não
gramsciano sobre o Gramsci que saiu no Brasil, depois de 30 anos, quanto tempo
depois levou para aparecer um sinal de vida no meio militar? Oito anos – 2001 o gen
José Fabregas deu sinal de que tinha percebido, leu o livro e falou: opa, é isso aí
mesmo.

Ai o governo militar já tinha acabado. Como é que ele acabou? Acabou por causa da
revolução cultural e da ocupação de espaços. Um governo que de repente se viu
cercado, sem que percebesse como, estava todo mundo contra ele, no Brasil e fora.
Então o que foi isso, propriedade dos meios de produção? Não, foi simplesmente um
horizonte de consciência mais amplo que cercou o inimigo dentro de um ponto cego. O
governo estava em Brasília, cercadinho por forças que compreendiam a situação
melhor que ele, e portanto conseguiam manipular.

Na análise de qualquer situação político-militar, o horizonte de consciência é uma


coisa básica. A análise do horizonte de consciência tem o seguinte problema: você só
consegue mapear um horizonte de consciência que seja menor que o seu. Portanto
isso aqui já coloca para o estudioso da ciência política este desafio – você tem que
estar mais consciente do que os personagens que você está estudando, e isto é
básico!

E isto implica não somente um horizonte de informações mais amplo, mas


uma capacidade de integração dos conhecimentos maior. Por que? Ou na guerra
ou no conflito político, todos os elementos de causa atuam ao mesmo tempo.
Você não sabe qual delas vai predominar, portanto você tem que ter uma
visão suficiente dos fatores sociais, políticos, morais, religiosos, etc, conseguir ver
essa sociedade como um todo sem cair num negócio organicista, que eu expliquei
na semana passada. Você tem que entender que esses fatores eles não estão
ligados uns aos outros como os órgãos de um corpo animal. Eles não tem essa
coerência. Esta é apenas uma simultaneidade e uma interação. Justamente porque
não há uma ligação orgânica, a interação entre eles pode ser enormemente variada,
isto quer dizer que o peso relativo destes vários fatores pode mudar. Num
certo momento os fatos de ordem econômica podem predominar e determinar
todos os outros. Em outro momento podem ser fatos de ordem psicológica, e as vezes

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até fatos fortuitos que podem exercer uma influência determinante no curso
dos acontecimentos.

A interação desses fatores, como não é de natureza orgânica no sentido de


uma somatória, de um paralelograma de forças, todos esses fatores e linhas
causais tem que ser levados em consideração sempre e ao mesmo tempo,
e continuamente reavaliados. Então, isso vai fazer da filosofia e da ciência
política uma área absolutamente fascinante, porque é como se fosse um jogo de
xadrez com milhões de peças, e no entanto a atuação desses milhões de peças
também está limitada pelo fato de que o conhecimento disponível a cada momento
é limitado. O conhecimento disponível para toda a sociedade é limitado, e aí
alguns casos é tão limitado que um indivíduo se quiser pode subir acima dele e
enxergar mais que a sociedade inteira, e no Brasil isso aconteceu. Graças a isso
poder ser possível, também é possível que a ciência politica em certos momentos
consiga mapear o campo de forcas com muito mais clareza que os próprios agentes
tem no momento. E justamente nessa linha de analise que trabalhei ao longo de
todo esse tempo. Eu quero saber qual o horizonte de consciência de cada grupo,
até onde eles vão, o que eles não sabem, quais os limites, além desse ponto
neguinho não enxerga.

As vezes você fica sabendo do horizonte de consciência por uma sorte, as vezes
a informação cai na sua mão. Eu lembro quando eu fui assistir uma conferencia
do George Soros, no final eu fui conversar com ele. E perguntei sobre o Foro de
São Paulo. Ele começou a falar do Foro de São Paulo mas mostrando que
não conhecia nada a respeito e estava fingindo que conhecia. Ele tinha ouvido
falar daquilo pela primeira vez na vida. Como é que este homem está agindo
na América Latina, dando dinheiro para um, fortalecendo outro, se ele não
tem nenhum controle de qual é o agente que está mexendo. Então é evidente que
o Soros está cercado de assessores que sabem muito mais que ele, e são eles
que estão tomando as decisões e não ele em particular. Portanto, quando a gente
fala o Soros fez isso ou aquilo, no que diz respeito a bolsa de valores, como
você quebra um banco, a economia de um país, isso aí ele sabe, mas as ações
políticas propriamente ditas, ele não tem o menor controle de como está agindo,
é certamente levado por um grupo de assessores que pegam um velho gagá cheio de
dinheiro e simplesmente o manipulam. Esta informação ela é básica para entender o
que o Soros vai fazer, porque não adianta perguntar o que ele pensa, mas quem são
os seus assessores, consultores, etc, ler os livros deles, e assim que você vai
encontrando o caminho das pedras, que agente está empenhado em fazer o que, o
horizonte de consciência, os meios de ação que ele dispõe, o que ele pode fazer e o
que ele não conseguirá fazer jamais.

Esta é a fórmula gente, é só isso. Não há mais nenhuma ciência política além disso. E
o tempo que o pessoal perdeu especulando leis históricas, constantes históricas, etc,
teria sido muito melhor empregado se fosse estudar caso por caso, porque toda a
ciência começa com a classificação dos seus elementos. A fase classificatória é o
inicio de uma ciência. A biologia – qual a primeira teoria unificadora de toda a biologia?
Evolucionismo de Darwin. O primeiro que inventou uma explicação geral para a vida
animal. Antes disso, o que se fazia? Colecionavam bichos e classificavam, era o que
dava para fazer. Só quando a

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classificação chegou a tal ponto é que alguém pode inventar uma teoria geral, certa ou
errada.

Então todas as teorias gerais em ciência política são prematuras, porque não houve
ainda uma classificação de acordo com estes critérios descritivos que são os únicos
que funcionam.

No Brasil, como nós poderíamos chegar a uma análise correta do que


está acontecendo agora. Nós teríamos que ver das várias forças agentes quais são
as mais antigas. Se pegar a família real ela é bastante antiga, mas ela não tem
uma atuação contínua ao longo dos tempos. Com certeza a família real não é
um agente histórico. Depois que caiu, a família real deixou de ser um agente histórico
– se é que era antes. Quando você vê a vida de Pedro I e Pedro II, com certeza Pedro
II não foi uma criação de Pedro I. Ele deu a si mesmo, uma orientação intelectual que
para seu pai seria grego, seria um enigma. E esta orientação pouco tinha a ver com
política, ele estava interessado em ciências naturais, ele era um cientista, era um
jovem muito sério na sua área. Quando você vê que ao cair do poder ele não lamentou
nenhum pouco, ele estava cansado daquilo, ele não era uma agente político porque
não queria ser. Já no tempo de Pedro II, você vai ver que a iniciativa política não
estava bem nas mãos da casa Real.
Bem, então você dizer, quem foi o agente histórico? O exército? Maçonaria? Muito
bem, nenhum desses pode ter sido porque quando você chega na Proclamação da
Republica os dois lados em disputa eram maçons. O Imperador era maçom, seus
inimigos também eram maçons. Então não adianta você dizer que a maçonaria fez
isso. Só se a maçonaria fez algo para si mesmo – o que é possível. A mesma coisa na
Revolução Francesa – quando se diz, não foi a maçonaria que fez a Revolução
Francesa – eu digo, bom, o rei era maçom, era todo mundo maçom, então não é que a
maçonaria fez, isso é uma coisa que aconteceu primeiro dentro da maçonaria e depois
fora.

Quanto ao exército? Quanto ao exército você vê que também havia elementos


dos dois lados. Você tinha elementos monarquistas – o próprio Deodoro da
Fonseca era monarquista- e você tinha elementos republicanos. Na maçonaria a
mesma coisa, você tinha elementos monárquicos, e você tinha republicanos.

Bom, isso quer dizer que nenhuma dessas entidades foi propriamente o agente que
produziu aquilo. Você só encontra uma unidade de ação na propaganda republicana,
ou seja, no fator intelectual republicano. Ou seja, o único agente histórico cuja voz
predominou ali foram os propagandistas da República. Dos quais eram em grande
parte discípulos do Augusto Comte , ou seja, uma escola filosófica. Que na França já
tinha perdido sua hegemonia, se torna o elemento determinante do curso das coisas
em um país da América Latina. E os únicos agentes que pesam são intelectuais ,
propagandistas da causa republicana.

Então, é assim que a gente descobre aquele famoso adágio de alguém ( em italiano)
– quem está falando, e quem está ecoando: isto é a coisa mais decisiva na análise de
qualquer situação. Agora, você vai pegar aí Reinaldo Azevedo,

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Marco Antônio Villa, e pedir para fazerem isso, isso está muito acima da capacidade e
da imaginação deles, eles não tem a menor ideia de como se faz isso.

Nunca pararam para pensar no assunto um minuto ! É isso que eu fico bravo quando
começam a comparar as minhas opiniões com as dessa gente. Mas esses caras são
apenas comentaristas jornalísticos! A função deles é somente escreve um opinião toda
semana e dizer se são contra ou a favor, é tudo que eles podem fazer. Eu não estou
fazendo isso, eu estou há 30 anos tentando descrever instrumentos conceituais e
descritivos para a gente poder fazer uma descrição científica e portanto uma previsão
científica do caso. Dentro de todos os limites da informação disponível, os limites da
minha cabeça, e o coeficiente de imprevisibilidade que existe em toda situação.

Existe um livro muito interessante de um autor chamado Taleb (?) que se


chama ‘Black Swamn’, O cisne negro. O cisne negro para ele é o símbolo dos
fatos imprevisíveis, porque até descobrir a Austrália, ninguém sabia que existia
cisne negro, todo mundo acreditava que só existia cisne branco. Cisne negro
era apenas um ser mítico. Daí nego foi na Austrália e descobriu – não, eles existem !

Então ele vai ver que em geral todas as previsões do mundo são feitas na base
de uma estatística, de um número. E o número por definição não pode levar
em consideração um fato singular que pode mudar o panorama todo. Então ele faz um
estudo sobre os fatos singulares. Esse estudo dos fatos singulares não é absorvível no
corpo da ciência politica, mas ele é um elemento auxiliar importantíssimo. Você
sempre tem que levar em consideração a possibilidade do fato singular que pode
mudar o quadro inteiro.

E o outro elemento que é a interferência divina. Existe interferência divina no plano


histórico? Existe, assim como existe no plano físico, no plano da fisiologia humana. Ele
pode ser estudado também até certo ponto. Não que você vá poder prever as
decisões divinas, mas tem certas coisas que você sabe que Deus não fará. Então até
isto deve ser levado em conta! E como eu aprendi isso? Com um historiador chamado
“/” que sempre levava em conta todos os fatores, inclusive a intervenção divina. Por
isso o livro dele ainda é o grande livro de sociologia política, embora escrito há muitos
séculos.

Então, entrando já mais propriamente na análise da situação histórica e


política brasileira, a qual será formalmente o assunto das próximas aulas, nós
podemos levantar algumas premissas básicas desse estudo.

A primeira é a seguinte: nós temos que traçar o horizonte de consciência de todos os


agentes que se apresentaram ao longo da historia brasileira – os
agentes considerados individualmente quando forem pessoas de grande gênio,
grande capacidade, como por exemplo Joaquim Nabuco na campanha abolicionista. E
em grupo quando forem agentes mais anônimos, que contam mais pelo número e pela
ação repetida do que por outra coisa. Isto foi feito ? Não nunca foi feito. Mapear o
horizonte de consciência desses agentes nunca foi feito. Então, a pergunta seria esta
– você pega os vários agentes, por exemplo: os fundadores do
Aula 03 Política e Cultura no Brasil.docx

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POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL – HISTÓRIA E PERSPECTIVAS
AULA 03

Encerrada mais ou menos a parte teórica que se prolongou por duas aulas ao invés de
uma, hoje nós devemos entrar diretamente na questão brasileira.

Quando se trata de explicar o estado de coisas numa sociedade, é comum se recorrer


a exemplos de outras épocas, a precedentes históricos, que teoricamente definiriam o
perfil de uma conduta coletiva. Isso no Brasil é muito comum, existem muitos livros
desse tipo, como ‘O retrato do Brasil’, de Paulo Prado; ‘Bandeirantes pioneiros’
do Vianna Moog e assim por diante, e assim como existem também as contestações,
como existe o famoso ‘O caráter nacional brasileiro’ do Dante Moreira Leite, e outras
tentativas de traçar o perfil do caráter nacional brasileiro. Também na literatura
observam-se muitos personagens supostamente típicos, como o Macunaíma, e assim
por diante. Isto tudo forma para nós uma constelação de imagens que pode ser útil
para você reconhecer na realidade que você está observando a recorrência de
algumas condutas tidas como típicas.
Mas, o problema é que tudo isso se encerra na base do impressionismo,
são impressões que você tem. Não efetivamente um procedimento
efetivamente científico, embora não se negue o valor dessas contribuições. Daqui a
pouco nós vamos ver quando (? ) no livro ‘Bandeirantes e Pioneiros’ que é um dos
grandes livros sobre o povo brasileiro , que avalia algumas condutas do povo
brasileiro na época da colônia, algumas dessas condutas aparecem ainda hoje de
maneira nítida, ainda mais entre figuras públicas. Se você pegar o Lula, ele parece um
tipo saído do Brasil colônia, é igualzinho, vocês vão ver.

Mas tudo isso é apenas sugestivo. Então o que eu pensei a anos atrás foi
como aproveitar essa investigação de precedentes, esses personagens típicos, de
uma maneira mais científica. E eu cheguei a seguinte conclusão : como amostras
de condutas típicas, o problema da tipicidade se resolve numa amostragem estatística,
e essa amostragem estatística é praticamente impossível de se observar. O valor
dessas imagens é sobretudo literário, é um valor eurístico, ele sugere algumas
condutas, e quando você as reconhece na vida geral, mas você nunca pode
generalizar, dizer que as coisas são assim ou são assado, mesmo porque a população
brasileira aumentou muito e com o ingresso de imigrantes – alemães, italianos,
poloneses, japoneses, russos, etc, isso não acaba mais, e então você transpor
condutas do Brasil colônia ou império para hoje você estaria atribuindo uma
continuidade histórica quando na verdade você tem um cruzamento de linhas
históricas totalmente independentes.

Mas existe uma maneira muito simples de você aproveitar esse material de maneira
muito simples, muito mais rigoroso, através do conceito do horizonte de consciência.
Ou seja, se as pessoas agiam assim ou assado em uma certa época, isso não quer
dizer que elas continuariam agindo assim de forma que você possa encontrar
explicações para as condutas atuais num precedente histórico. Mas, uma coisa é
certa, aquilo que as pessoas não sabiam em uma certa época, e

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continuaram não sabendo numa época seguinte demarca uma linha de continuidade
muito clara. Então o horizonte de consciência, como expliquei, é demarcado por seu
limite. Quer dizer pela linha da ignorância, no sentido estrito, não é ignorar qualquer
coisa mas aquilo que é central para compreensão da situação em que o cidadão
está.

Então, se nós perguntarmos quais eram os limites do horizonte de consciência


da classe letrada , falante , no século XVIII e XIX, e se investigando as
épocas subsequentes nós observarmos que esses limites não foram transpostos, aí
é mais do que justo você perceber uma continuidade de conduta. Os sujeitos agem da
mesma maneira não por causa de uma herança histórica, mas porque aquilo que se
ignorava no século XVIII continua ignorando. Então, o horizonte de consciência é o
mediador entre os fatos brutos e a interpretação que vamos fazer.
Com isso escapamos do impressionismo em história – não que o impressionismo não
tenha o seu valor, eu tenho muito respeito por esses livros do Paulo Prado, do Vianna
Moog, etc, o próprio Gilberto Freire apela para impressionismo muitas vezes; o
Gilberto Leite de Barros, no livro ‘A cidade e o planalto’, que é um livro maravilhoso,
um dos grandes livros sobre o Brasil também, embora seja só sobre São Paulo – é um
Gilberto Freire paulista.

O que nós podemos observar desde o século XVIII e que continua igual é a seguinte
coisa:
Primeiro, conforme eu aprendi no livro do Vianna Moog, até o fim do século XVII, isto
é, decorridos dois séculos da descoberta do Brasil, a palavra brasileiro simplesmente
não existia. Os filhos de portugueses nascidos no Brasil eram designados por um
pejorativo – mazombo. O que era exatamento o mazombo? Enquanto que na América
do Norte, os imigrantes que vieram para os EUA eles estavam fugindo da Europa, eles
odiavam a Europa, estavam fugindo de lá por perseguição religiosa ou política, e
tinham todos os motivos para deixar a Europa e buscar uma vida nova, construir um
país diferente, e de fato construíram, os princípios em que eles se basearam desde a
colônia eram muito diferentes de tudo aquilo que eles tinham experimentado na
Europa. Essas coisas não surgiram com os Founding Fathers, não surgiram na
constituição. A autonomia das comunidades, durante toda a colônia, os divergentes
simplesmente iam embora e montavam uma outra comunidade do jeito deles. A
proliferação de denominações protestantes uma atrás da outra – era assim, deu um
problema teológico, não conseguiram resolver, nego pega a turminha dele e vai
embora e monta outra comunidade. Segundo a independência das comunidades –
a independência chegava a tal ponto que as pessoas ignoravam a existência de
um governo central. Quando foi na própria época da independência que não
queriam um governo central nenhum. E isso tudo já estava consolidado na
América quando veio a guerra de independência. Ao passo que no Brasil, ninguém foi
lá para criar um país novo. O pessoal foi lá para fazer dinheiro e voltar para Portugal, a
quase totalidade vinha para isso, a não ser aqueles que tinham sido expulsos de
Portugal como degredados, como criminosos. Esses permaneciam no Brasil porque
não tinham como voltar. Outros permaneciam porque deram azar e não conseguiram
dinheiro para voltar. Até o sec XVIII pelo menos, o território

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brasileiro era um lugar em que ninguém estava por vontade própria. Claro que existem
exceções, mas em média, todos eles se consideravam mais ou menos exilados, ou
visitantes temporários, que queriam fazer seu pé de meia e voltar para Portugal.

É claro que daí decorre uma série de condutas: a falta de solidariedade coletiva,
a incapacidade de as pessoas se organizarem, o individualismo. O Vianna
Moog descreve isso muito bem, vou até ler aqui um pedacinho:
“No fundo o mazombo, sem saber, era ainda um Europeu extraviado em
terras brasileiras. Do Brasil e sua história, de suas necessidades e seus problemas,
nada ou pouco sabia, porque vivia no litoral mentalmente de costas voltadas para
o país, e o mal das coisas no Brasil, ah, isso não era com ele. Ademais, o que poderia
fazer se era só contra todos?”

Muito desse estado de espírito nós podemos ver ainda hoje, não podemos negar.

“Na vida pública como na vida privada, nunca seria por sua culpa ou negligência por
que isso acontecia, a culpa seria sempre dos outros, e assim, recusando-
se, racionalizando, contradizendo-se, não participando, reduzindo ao mínimo
seus esforços físicos e espirituais e morais para o saneamento e elevação do meio
em que vivia, pagando para não se incomodar quando se tratava de interesse coletivo,
lisonjeando, transigindo, corrompendo, revolvendo céus e terras quando se tratasse de
seus próprios interesses. Ninguém como ele para contaminar o ambiente de tristeza,
imoralidade, indiferença e derrotismo. Inesgotáveis como eram suas reservas de má
vontade para com tudo que se referisse ao Brasil, vivia a escancar sua simpatia para
tudo quanto fosse Europeu.”

Essa visão idealizada que o indivíduo tinha da Europa que ele tinha deixado pelas
costas se expressa também pelo desprezo não só pelo local, mas também pela
América do Norte. Você veja que no século XIX os EUA já tinham uma civilização que
em muitos aspectos era superior a tudo que existia na Europa. E no Brasil ninguém
admitia isso, achava que os Americanos eram bárbaros. É uma coisa que ainda tem
na mente de muita gente até hoje. Se está na América não pode prestar, porque só o
que está na Europa, em Portugal, ou na França só isso é que presta no mundo.

Então, muitas dessas condutas a gente ainda observa. É claro, o Lula se encaixa ali
na descrição do mazombo. Muitos outros políticos também. Mas ainda assim ainda
estamos no impressionismo. Contudo, se transpomos as informações para a noção do
horizonte de consciência, em primeiro lugar o núcleo das informações que chegavam
a essas pessoas era Europeu. Da América não recebiam nada, e localmente não
estavam produzindo nada. Culturalmente, o horizonte se restringia aquilo que estava
vindo da Europa, e o que vem da Europa não chega facilmente, demorava a chegar
pelos navios. Existe portanto uma aspiração de uma riqueza cultural que está distante,
que é de difícil acesso. Uns poucos privilegiados podiam viajar para a Europa e ver o
que estava acontecendo lá e se informar das últimas novidades. A situação ela se
consolida em um dos traços mais constantes da cultura brasileira, e portanto da
política brasileira – é o

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seguinte, o que é tido como topo da civilização, como valor supremo que deve
ser incorporado é a cultura europeia estrangeira do momento. Isto é o traço
mais constante, isto é cientificamente comprovado. Se você observar e pegar
uma bibliografia e observar quais são os autores estrangeiros que são citados
nas discussões brasileiras são sempre os autores do momento. Nunca os
antigos. Então, por exemplo, quantos brasileiros citaram Leibiniz a propósito de
qualquer coisa? Eu até hoje só vi um fazer isso. E fora esse, só eu.

E material de outras civilizações? Da Ásia, Islâmicos? Fulano de tal é simplesmente o


inventor da ciência social no mundo, e não é citado por ninguém. ( Cadun?).

Então o desinteresse por esse material é imenso. Houve algum interesse por material
estrangeiro vindo da África, pelo impulso de valorizar as tradições africanas, ora mas
essas tradições eram de ordem tribal. Nunca fizeram uma contribuição científica para
a humanidade, nenhuma filosofia altamente desenvolvida, esse material você pegava,
mas e o resto?

Você vai encontrar pessoas no Brasil que estudaram mais culturas tribais da África do
que estudaram Aristóteles e Platão. E isto então cria e cristaliza num hábito
praticamente invencível, que é a escravidão ao seu tempo, a sua época, que eu
chamei de cronocentrismo.

O fato de algumas coisas estarem acontecendo hoje, não significa que elas são mais
importantes ou decisivas do que as que aconteceram antes, não há a menor prova
disso aí. Elas podem nos atrair a atenção porque elas aparecem na televisão, nos
debates públicos, as pessoas falam disso, mas não quer dizer que elas sejam a coisa
decisiva. Se você ver o número de autores importantíssimos, que atraíram a atenção
durante décadas que foram estudados como mestres, como se fossem ensinamentos
definitivos, e depois desapareceram para sempre. Você Augusto Comte domina o
pensamento brasileiro por várias décadas, de repente aquilo desaparece, e as
pessoas tem até vergonha de ter prestado atenção naquilo. Heckel (?), que era um
discípulo meio bastardo de Darwin, e que foi o sujeito que desenhou aqueles
diagramas da evolução das espécies, que hoje a gente sabe que foi tudo inventado,
que aquilo não existe, “Eres Heckel” tem várias edições em português que foram
lidas no Brasil, e era lido e ouvido como se fosse um mestre, e hoje está na lata de lixo
da história. Outros não, lidos na época ainda são bastante respeitados, um
Shopenhauss, por exemplo, embora já não tenha o destaque que chegou a ter no sec
XIX. Mas outros autores que eram imensamente maiores, não receberam essa
atenção , sobretudo aqueles que eram de épocas anteriores.

Se você procurar por exemplo, quando eu publiquei meu livro Aristóteles em nova
perspectiva, que foi em 95, fazia 30 anos que não saia um livro sobre Aristóteles no
Brasil. Até para disfarçar o vexame, o pessoal tirou na época da gaveta uma antiga
tese do Oswaldo ..., e publicaram, para dizer que não é só você que está falando
sobre isso. Publicamente contudo você não vê um interesse efetivo por Aristóteles ou
no stablishment universitário por 30 anos !
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Enquanto isso, você veja que o Gramsci foi o autor mais estudado e citado
nas universidades durante 30 anos. Gramsci pode ser interessante, mas ele não é
um Aristóteles, um Leibiniz, algo desse porte! Gramsci não fundou nenhuma
ciência, não fez nenhuma contribuição a ciência nenhuma, é apenas uma
estratégia revolucionária que em muitos lugares fracassou. Então, ele não é
nenhum Aristóteles, nenhum Santo Tomás de Aquino, Hegel, mas entra no Brasil em
1965 e aprece para toda uma facção política como se fosse a salvação da
lavoura. Então automaticamente as atenções se concentram sobre aquilo.

Parece para as pessoas envolvidas no processo que é uma grande novidade. Mas o
que está acontecendo é a repetição de um padrão de horizonte de consciência que
vem desde o brasil colônia.

Ora, você veja que o característico não é tanto a idealização da Europa, não é tanto o
europeísmo, ou seja nós não podemos pegar uma característica positiva efetiva e
dizer que ela continua ao longo dos tempos, mas o lado negativo, a exclusão das
informações.

Interpretando errado o europeísmo como se fosse ele um sinal de


alienação, começam a surgir a partir do romantismo e intensificando-se no começo do
sec XX com o movimento modernista, a ideia de que era preciso voltar as costas
a Europa e começar a pensar no panorama local. Ora, mas este panorama
local culturalmente ele era pobre, ele não oferecia material para que você tivesse
uma problemática suficientemente rica para criar uma cultura. Então o pessoal se volta
para a paisagem, para o território, e acho interessante você contrastar o poema do ?
Honorato, com o livro a Selva, do Ferreira de Castro, um romancista português, meio
comunista, mas um gênio, que esteve um tempo na amazonia e escreveu um livro
sobre a amazonia que integra a experiência no corpo da civilização inteira, ao passo
que os autores, Raul Gomes (?), etc, se concentra na paisagem física, na flora e na
fauna. Então fala de macacos, tatus-bola, e é claro que isso não é uma reação
eficiente ao europeísmo, porque o problema não era o europeísmo, era o
cronocentrismo.

Ora, europeísmo, o que há de tão errado em você em um país primitivo,


você considerar que a cultura europeia é superior? Claro que é mesmo, não há
nada de errado com isso. Nesse sentido, os americanos que odiavam a Europa
sempre foram buscar na Europa sua fonte de inspiração. Você vê os Founding
Fathers citando Platão, Aristóteles, Cícero, o tempo todo! Ou seja, eles tinham uma
visão da antiguidade, não como uma coisa meramente histórica ou folclórica,
mas como uma fonte atual de inspiração. No Brasil você não vê isso de jeito
nenhum. Você só vê o pessoal buscando inspiração na moda europeia do momento.
O europeísmo é a face externa e falsa do problema. Era por assim dizer natural, mas o
problema era o cronocentrismo. Era a escravidão não a um continente, mas a um
momento do tempo. Na medida em que os românticos ,José de Alencar , etc, e os
modernistas reagem contra o europeísmo, eles estão reagindo contra um falso
problema, e evidentemente não acertam o alvo.

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Ou seja o modo de você se libertar de uma certa escravidão mental ao estrangeiro,
não era voltar as costas a cultura da Europa e começar a prestar atenção em tatu-
bolas e macacos, era fazer o que um único indivíduo fez, que foi o Mário Ferreira dos
Santos. É você se libertar do cronocentrismo, da escravidão ao momento, é você
dizer, olha, eu estou aqui no Brasil, não pertenço a cultura europeia, embora receba
um pouco dela, então estou livre também das limitações dela, e eu posso me abrir
universalmente a todas as épocas e a todos os continentes! Ou seja, tirando proveito
da sua situação, ao invés de amaldiçoa-la como faziam os mazombos, ou invés de
forçar para louvá-la, como se está no meio de macacos e tatus-bolas, fosse um grande
valor civilizacional. Então, ao longo de toda a história do Brasil, só um sujeito pegou o
truque.

Se queremos criar no Brasil uma cultura que tenha um valor universal, só tem um jeito:
tem que se aproveitar da sua posição de marginal, de excluído da Europa, e aproveitar
para se libertar das próprias limitações cronocêntricas da cultura europeia. Ou seja, eu
também percebi isso, nós de fato no Brasil estamos numa posição privilegiada. Na
cultura europeia há certas coisas que você não pode falar que eles não entendem.

Um exemplo que eu dou é o seguinte: quando apareceu a obra do Renne Guenon na


Europa, por volta dos anos 20, falando da metafisica oriental, da espiritualidade
islâmica, etc, aquilo era tão estranho que ninguém prestou atenção. Você veja, o
homem não estava falando em nome próprio, ele estava falando em nome de uma
civilização inteira, que tinha ali bem do lado, e que estava destinada a invadir a Europa
e ocupa-la mentalmente como veio a acontecer depois. No entanto se você procurar
menções ao Renne Guenon você que as repercusões foram muito discretas, e em
geral não foram análises profundas, foram apenas ou aplauso entusiástico daqueles
que se tornaram discípulos dele, e se fecharam num universo Guenonista quase como
se fosse uma religião mesmo, ou então reações de rejeição um pouco caipiras, o
sujeito ficava com raiva mas não sabia o que dizer. Como André Girle (?) por
exemplo. Ele disse assim – bom, se Guenon tem razão, então toda minha obra cai por
terra. Daí perguntaram mas porque você não revê tudo? Ele disse – é muito tarde.
Isso é o que, uma impotência intelectual.

Você vê que na Europa o único país em que houve um processamento crítico de fato
do pensamento de Rene Guenon foi na Romênia. Lá, todo mundo leu Guenon em
profundidade, e raciocina a respeito com profundidade. Qual a importância do Rene
Guenon? Ora, está anunciando desde 30 que o islã vai tomar conta! Naquela época
isso parecia tão remoto, tão absurdo, que neguinho soou apenas como uma criatura
exótica. Isso mostra o despreparo da cultura europeia, em particular a francesa, para
lidar com o que lhe é estranho. Isso não é eurocentrismo, nós somos superiores, e nós
queremos impor os nossos valores em todo lugar. A simples existência da obra de
Rene Guenon mostra que os europeus não impuseram coisíssima alguma, que as
tradições orientais continuavam perfeitamente vivas e sob certo aspecto tinham até
uma certa superioridade intelectual em relação ao ocidente. Isso não era
eurocentrismo, era simplesmente um provincianismo, provincianismo dos ricos. Coisa
que você observa também aqui nos EUA, a dificuldade que o americano tem de
entender

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que outros países, outras sociedades são também centros de inciativa. Eles tem
a impressão que os EUA são o cachorro e nós somos o rabo, que tudo que
acontece no mundo começa aqui. E quando você livro da Diana West, America Betrail,
você vê que a iniciativa soviética foi imensamente poderosa aqui dentro determinando
o rumo da política exterior americana por décadas. A URSS era o cachorro e os EUA
eram o rabo! Mas o patriotismo dos caras não deixam reconhecer isso – tá lá o rabo
dizendo, o cachorro sou eu, o cachorro sou eu!

Essas limitações existem em toda a parte. Mas nós brasileiros nós somos o que na
ordem mundial? Nós somos nada, o Zé Mané quintessencial , e por isso mesmo
estamos livres! Nós não temos que afivelas nas nossas cabeças as mesmas
limitações intelectuais que aleijam tanto as culturas europeias. São culturas
riquíssimas, poderosas, mas que tem uma tremenda dificuldade de entender as
outras. Porque entra sempre o fator nacionalista, e também o fator linguístico.

Hoje falando em globalismo, mas as dificuldades de tradução entre culturas continuam


existindo, igualzinha. Por exemplo eu fiz uma breve tentativa de traduzir o Rene
Guenon, A Metafísica Oriental, que era um livrinho de 30 páginas. Eu pulei ali como
um cabrito, e eu notei que o tradutor no qual o Guenon confiava, que era o Fernando
Guedes Galvão, cometia erros atrás de erros, chegava as vezes a inverter o sentido
de frases. O Guenon não lia português, e eu não sei porque ele confiava no Galvão e
achava que era o seu tradutor mais fiel. O Guenon é dificílimo de traduzir, é coisa de
uma sutileza que se você não tem muitos anos de prática na literatura francesa você
não pega. Você vai traduzir Haidiger para o francês – olha, é uma coisa dificílima! A
cada três linhas tem que colocar uma nota de rodapé dizendo olha, não é bem isso
que ele quis dizer, foi mais ou menos aquilo outro. Então, essas dificuldades ainda
existem, e portanto a tendência de culturas mais desenvolvidas se fecharem no seu
universo nacional aumenta na medida em que essas culturas são desenvolvidas.
Elas criam um debate interno, que as vezes para o estrangeiro é
totalmente incompreensível.

Por exemplo, o debate político americano ele se trava sobretudo através de livros. Em
cada campanha eleitoral saem mil livros, e livros muit bons, de todos os lados. Então o
estrangeiro que chega aqui e quer se orientar lendo o NY Times ou ouvindo a CNN vai
parar longe, não vai entender o que está acontecendo. E por sua vez, o Americano
fechado no seu debate que está tão interessante, tão rico, tão maravilhoso, ele se
esquece que tem coisa acontecendo em outros lugares, e tende a minimizar e
desprezar. O pessoal de mídia, por exemplo, que não é gente que estudou isso
efetivamente, fala , ah, esse tal de Alexandre Duguin é um maluco. Os estudiosos
americanos da Rússia, dizem, não, esse daí é fundamental, é coisa importante, mas a
raia miúda da mídia sempre se considera superior àquilo que ela não entende. Por
isso os americanos são cegos às inciativas estrangeiras, sobretudo russos e chinesas.
O que torna o país totalmente vulnerável a essas forças.

Ora, nós não temos porque participar de nenhuma dessas limitações. Nós estamos
livres justamente porque nossa cultura nacional ainda é incipiente, nós

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não temos que comprar junto com as riquezas das culturas francesa, anglicana, alemã
ou americana, as suas limitações.

Então, essa estreiteza do horizonte de consciência fechado, na atualidade próxima,


num raio de 30 a 40 anos, isso evidentemente reduz o debate nacional cada vez mais
a um ciclo de ideias cada vez mais restrito. Porque as correntes que recebem esse
legado europeu e tentam repassá-lo a comunidade, elas são também correntes
políticas que estão lutando pelo poder, e evidentemente quanto mais elas induzirem
todo mundo a falar na linguagem daquela corrente, mas elas terão a hegemonia.

É curioso você ler hoje as obras que nos anos 30 tiveram influência fascista. Muitas
delas são obras muito boas. Mas se você perguntar onde foi parar tudo aquilo?
Desapareceu. Porque quando cai o movimento integralista, eles tentam o golpe contra
Getúlio Vargas, e Vargas manda todo mundo para a cadeia ou para o exterior,
automaticamente se o movimento político pifou, o interesse cultural por aquilo vai indo
embora, e quando passa o tempo ninguém se lembra mais daqueles autores que na
época eram considerados importantes. Assim, como amanhã ou depois ninguém vai
lembrar de Antônio Gramsci. Todos esses são intelectuais de algum valor, mais
nenhum deles é um pilar civilizacional.

Então, isto aí, se você pensar bem, essa limitação do horizonte de consciência, é
a causa principal de tudo que está acontecendo no Brasil. Então, você vai ver que
a conquista da hegemonia pelos gramscianos a partir de 65, claro que elevou
esse pessoal a um nível de influência na sociedade, e nós sabemos que a
liderança universitária de hoje é a classe política de amanhã. José Serra, FHC, Miguel
REale Jr, Marilena Chaui, etc. Todo esse pessoal era líder estudantil 50 anos atrás e
hoje são as grandes figuras do momento.
A medida que as doutrinas gramscianas penetram no meio universitária elas adquirem
a hegemonia em escala nacional. É claro que essa hegemonia é relativa. A cultura
universitária não chega ao povão. O povão está assistindo Faustão, banheira do
Gugu, ouvindo Amado Batista, música sertaneja, e tá ignorando tudo isso. O povão
ficou alheio a isso, o que sedimentou uma revolta conservadora a partir de 2015, com
a qual a hegemonia não contava, eles achavam que tinham dominado tudo. Não, você
dominou uma fração da elite , uma fração mais falante evidentemente, que inclui a
mídia, as cátedras universitárias, etc, mas o que você fez foi infectar toda essa gente
de um estreitamento do horizonte de consciência pior que antes. Porque você veja se
você observar o movimento esquerdista anterior aos anos 60, você vê que ele evoluía
num diálogo e num confronto com outras possibilidades. Por exemplo, nos anos 30 o
confronto dos integralistas com os comunistas. Frequentemente eram pessoas que se
conheciam e eram até amigas umas das outras, que tinham laços. Porém a ideia da
hegemonia ela traz em si o conceito da exclusão do adversário, prendê-lo na espiral
do silêncio. Você tem que ocupar todos os espaços para que o debate político seja o
debate interno da sua corrente.

O que até os anos 60 era o debate interno da esquerda, se torna o grande


debate nacional. Infectando até pessoas que não tem simpatia nenhuma pelo

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comunismo. Então, o que é isto? O Gramsci, embora ele vivesse e fizesse sua
obra nos anos 30, ele só se divulgou na Itália a partir dos anos 50. Começaram
a escavar aqueles manuscritos e publicar. Uma edição padrão surgiu até depois.
No Brasil também a primeira edição surge em 65, e a partir de 65 o Ênio
Silveira publica 5 livros do Antônio Gramsci. Mais tarde se fez uma edição padrão,
uma edição completa dos dez cadernos do cárcere. O Gramsci era atualidade, antes
de sair os livros do Gramsci, ele aparece citado pela primeira vez no artigo do
Otto Maria Carpeaux, que era um homem de uma cultura europeia monstruosa.
E mostra que aquele cidadão que nenhum comunista tinha prestado atenção
até então. Não sei se o Carpeaux sugeriu ao Ênio Silveira a publicação, os dois
eram muito amigos, mas certamente esse artigo do Carpeaux chamou muita atenção.

Então, o estreitamento do horizonte de consciência que já era uma constante


no horizonte de consciência brasileiro, ele se torna proposital e sistemático a partir da
ascenção do gramscismo, que vem da ideia de ocupação dos espaços,
da monopolização do debate público, e no gerenciamento dos antagonismos.

Decorridos 30 anos, quando Lula faz aquela constatação, ai que maravilha, todos os
candidatos presidenciais são de esquerda, era já a hegemonia gramsciana transposta
para o terreno político eleitoral. Uma vez conversando com o Roberto Campos, nós
fizemos a seguinte pergunta: quanto tempo demora para que uma revolução cultural
se transforme numa revolução política? Calculamos em cera de 30 anos. Ora, quando
que entra o Gramsci no Brasil? Década de 60. Quando o PT alcança pela primeira vez
seu esplendor? Década de 90. Então nossa conta não tá muito errada. E note bem,
tudo isto que estou explicando é baseado não na ideia de uma repetição de padrões
de conduta, não num impressionismo baseado em personagens típicos, mas tão
somente numa noção quantitativa, quantificável, que é o horizonte de consciência.
Que neguinho estava lendo? E em volta quais as ideias importantes sobre o mesmo
assunto que eles não estavam estudando? É muito simples fazer isso aí. Eu nunca
quantifiquei porque isso não é trabalho para uma pessoa só, mas é uma noção
perfeitamente quantificável, é uma noção material. Por exemplo, a partir dos anos 90
eu comecei a divulgar a lista dos livros faltantes no mercado brasileiro. Uma coisa que
me impressionou muito foi o dicionário crítico do pensamento da direita, feito por 104
autores da esquerda, com imenso patrocínio estatal e privado, e você procurava e não
via nenhum dos autores de direita que eu tinha lido. Eu só via tipos insignificantes , ou
então os mais absurdamente notórios que qualquer Zé Mané podia conhecer.

Isso quer dizer que o oceano de pensamento conservador americano é totalmente


ignorado. E o que é isso? Estreitamento do horizonte de consciência. Se você
perguntar porque o PT caiu do muro? Por causa disso. Fazia 30 anos que ele ignorava
o pensamento de direita, reduzindo-o aquela imagem caricatural que ele mesmo tinha
inventado. Isso quer dizer que se os direitistas forem tão idiotas como os petistas os
retratavam em suas cátedras, o pt ficaria eternamente no poder, jamais teria essas
manifestações populares, esse movimento todo, esses 90% de desaprovação, nada
disso teria acontecido.

Então, o estritamento do horizonte de consciência implica duas coisas. Primeiro, que


você não conhece ao seu inimigo. Segundo, você não conhece a você mesmo.

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Você viola as duas regras do Sun Tzu. Até os anos 60 o pessoal da esquerda absorvia
as outras corrente – liberal, cristã, legalista, etc. Você via debates públicos dessas
pessoas. A partir dos anos 60 com a noção da hegemonia, a ideia era ocupar os
espaços e não deixar mais ninguém falar. E fazer com que, nas palavras do Antonio
Gramsci, todo mundo seja socialista sem saber. Até os antissocialistas. Isso de fato
aconteceu. Só que isso agrava o problema do horizonte de consciência até um nível
catastrófico. Porque a ascensão da hegemonia veio junto com a quebra cultural e a
destruição do sistema educacional, da alta cultura, com a desaparição da literatura
brasileira por 30 anos? Por causa disso, a hegemonia estanca o debate cultural
porque reduz a uma conquista de espaços. É claro que nessa altura você vê uma
baixa do horizonte de consciência, e os problemas maiores e mais complexos se
tornam inacessíveis às mentalidades dos dois lados. Quando você vê hoje as
discussões internas do pt tentando diagnosticar o que está acontecendo, e tentando
explicar tudo como um golpe da elite capitalista, você vê que eles estão totalmente
fora do mundo, por que a elite capitalista está maciçamente a favor deles.
Agora, depois de tanta denúncia, eles pegaram um pouquinho de vergonha na cara
e começaram a reagir um pouco contra a corrupção, não contra o comunismo.
O PT tá fora do mundo, mas o pessoal do outro lado também está fora do
mundo. Então, não existe debate quando não existe uma mútua fecundação das
ideias. Não há nenhum problema de você ler a obra de uma autor que você
não concorda e você ser inspirado por coisas que ele sugere. Eu nem posso
dizer quantas ideias interessantes me vieram do livro do Jacó Bueno, o
Escravismo Colonial, que é um autor mais comunista que Karl Marx. Ou mesmo do
livro do Caio Prado Junior, que inaugurou a guerrilha no Brasil, que é a
Revolução Brasileira. Ele escreveu esse livro para convencer as pessoas que
deveriam apelar para a luta armada, a velha estratégia de aliança do partido
comunista com a burguesia nacional não ia funcionar. Mas até isso não deixa de ter
sua verdade. Se você quer tomar o poder, não pode ser por esse lado assim, e
assim, tem que ser pelo outro. Tem lá sua cota de razão. Ou seja, só é possível
debater quando você se deixa impregnar e fecundar pela ideia do adversário,
quando você a trabalha e a transcende. Mas se você se isola dela, se afasta, e só
quer vê-la a distância, sob forma reduzida, pejorativa, e caricatural, aí você está
usando a política do avestruz. O Gramscismo virou no Brasil uma política de avestruz.
Só nós falamos, e ignoramos o que os outros pensam. Ignorando o pensamento
da direita, o PT foi surpreendido por uma massa popular que foi às ruas pediar
a cabeça deles.

Por outro lado, o pessoal da direita também entrou no mesmo negócio


do estreitamento do horizonte de consciência, a medida que descobrindo
algumas correntes da direita que eu mesmo fui o primeiro a mostrar por aí, claro que
isso não quer dizer que fui o primeiro a citá-las, mas fui o primeiro a citá-las no debate
público. Isto é importante. Se você procurar em trabalhos universitários pode ter
alguém que estudou os autores de direita. Por exemplo, o Djacir Meneses, que é um
filósofo conservador tá lá, mas tudo isso fica restrito. Na hora que eu comecei a
divulgar centenas e centenas de livros que estavam ignorados, naturalmente o pessoal
começou a lê-los, e na hora que descobre por exemplo a história austríaca de
economia, deposita naquilo uma esperança monstruosa.

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Quando o pessoa diz menos Marx mais Mises, eu digo, um momento, o Mises é um
grande economista, é o cara que demonstrou a impossibilidade da
economia socialista, e sem dúvidas deu uma contribuição monstruosa, mas Karl Marx
tem uma amplitude imensamente maior. Karl Marx era um filósofo da cultura; tem uma
interpretação da história inteira; foi o fundador da Internacional, ou seja, um líder de
massas. Mises não foi nada disso. Você não pode chegar e nivelar os dois. O Mises é
muito melhor que o Marx em economia, sem sombra de dúvidas. E o resto? Vendo a
superioridade da economia capitalista, que é uma coisa óbvia, é só você pegar a
publicação do Atlas da Economia no mundo, você vê que os países mais ricos são
aqueles que tem mais liberdade de economia, isso é o mais óbvio dos óbvios, nem
precisa discutir, e a questão da economia socialista o Mises matou em 1923 com um
livro, e pronto, acabou, tá enterrado. Os próprios comunistas leram aquilo ali e
concordaram! Tanto concordaram que nunca mais insistiram na história da economia
estatizada, eles querem estatizar a sociedade, mas a economia é a parte menos
controlável da sociedade. Na URSS 50% da economia soviética era economia privada
clandestina, o governo sabia, mas se fechar, vamos todos para o buraco, então deixa
os caras fazerem a economia clandestina deles.

Agora, uma análise em profundidade o Gramsci até hoje não vi. O que vi foi análises
ensaísticas, como a minha Nova Era e Revolução Cultural. Foi o primeiro livro escrito
no Brasil sobre Gramsci que não fosse do ponto de vista gramsciano. Depois
apareceram os do Gen Coutinho, uns dois ou três , estamos ainda na esfera
ensaística. No Brasil até hoje não temos sequer um mapeamento da esquerda
nacional. Quem são os personagens, as organizações, em que esfera atuam, nós não
temos uma visão do inimigo. Temos dois grupos de avestruzes, um lutando contra o
outro, tem tanto horror do outro que quando vê, sabe o que faz, ele cospe.

Eu até anotei até um certo tempo o número de pessoas que reagiam aos meus livros
com sintomas fisiológicos. Dor de cabeça, ânsia de vômito, náuseas, um montão. É o
protótipo da impotência intelectual – o que você consegue fazer é sentir-se mal?
Então, do mesmo modo vejo pessoas que tem náuseas diante da esquerda. Quando
você está tendo náuseas, meu filho, quem está sofrendo é você! E você vai apanhar.
Se você está na briga, você não pode ter náuseas. Como você vai pegar um cara para
a briga se você tem nojo de tocar no corpo dele. Enquanto você está assim, ele está te
enchendo de porrada. É uma coisa simples, se não existe uma certa interpenetração,
uma certa promiscuidade entre você e o seu inimigo, você nada conseguirá contra
ele.

Então, observando desde o tempo do Brasil Colônia, o fenômeno do mazombo explica


o porque da sujeição dele a moda europeia do momento, porque ela representava a
vida brilhante rica, maravilhosa que ele tinha em comparação com a vida pobre e
desértica que ele tinha no meio colonial. Então está perfeitamente explicado que eles
se sentissem assim. Porém, o estreitamento do horizonte de consciência dele se
propaga nas épocas seguintes, onde o pessoal tinha acesso a muito mais informação.
Durante o Brasil Império é a mesma coisa. Lembro por exemplo o Joaquim Nabuco,
qual o autor que mais o influenciou? Walter Beget (?), que era um economista, fazia
análise da bolsa de valores de
Aula 04 Política e Cultura no Brasil.docx

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POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL – HISTÓRIA E PERSPECTIVAS
AULA 04

Hoje eu queria explorar mais a fundo o tema do comunismo e de como que


ele penetrou no Brasil e qual a razão de sua influência avassaladora no curso
das coisas no Brasil.

Porém, quando se fala em comunismo é necessário afastar uma série de


erros grosseiros que se consolidaram na opinião pública – quando estou
falando opinião pública não estou me referindo ao povão, mas os formadores de
opinião, a classe falante como os chamava Pierre Bordieu – onde você pessoas
tipo Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Magnolli, etc, opinando a respeito a partir
de um ponto de vista barbaramente amadorístico. Mas, ainda que as opiniões sejam
amadoras e não profissionais, elas se consolidaram como senso comum, sobretudo no
meio empresarial, entre os liberais, etc.
Em primeiro lugar devo dizer o seguinte: eu não conheço nenhum liberal que tenha
estudado marxismo em profundidade. Nenhum um único! E em geral não estão
qualificados para estudar, não são capazes de acompanhar aquele tipo de raciocínio.
Em primeiro lugar, você não vai entender uma palavra de Karl Marx se você não
passou um tempinho mergulhado no Hegel, e no Hegel o sujeito já quebra as pernas,
Hegel é um mata-burro, o sujeito já quebra as pernas ali mesmo, e prossegue mais.
Este assunto comunismo não é para amadores, palpiteiros e jornalistas, é um negócio
enormemente complicado, difícil, desafiador, que deveria mobilizar os melhores
cérebros de um país. Mas, o mito de que o comunismo acabou na URSS em 1990 se
espalhou de tal modo, que até mesmo a disciplina de Guerra Revolucionária, que
estuda o comunismo nas academias militares, foi suprimida pelo governo Sarney.
Mesmo a classe militar, que estaria incumbida de proteger o país contra o perigo de
guerrilhas comunistas e ataques por parte da Venezuela e etc, está
totalmente desguarnecida e despreparada para estudar o assunto. No máximo
sobraram na cabeça deles algumas informações que pegaram da ABIN dos anos 70,
quando sabem alguma coisa sabem isso.

Então, eu acho que o estudo do comunismo no Brasil ainda está para começar, tudo
tem que ser feito desde o início. Então, em primeiro lugar temos que estar conscientes
que nada se sabe sobre um movimento político qualquer quando a gente se deixa ligar
por sua definição dicionarizada. Então, estou aqui para dizer que alguns de nossos
formadores de opinião, tudo que eles sabem a respeito do comunismo é mera
definição dicionarizada: o comunismo é um movimento que visa criar uma sociedade
sem classes por meio da estatização dos meios de produção – então primeiro a
estatização dos meios de produção, e por fim a sociedade sem classes.

Muito bem, esse é o objetivo proclamado do comunismo. Agora se nós dissermos: o


que é a Igreja Católica? A Igreja Católica é uma entidade que tem por finalidade levar
as pessoas para o Céu. É assim que ela se auto define. Você que a partir dessa
definição você entendeu alguma coisa historicamente da Igreja Católica?

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Então basta esse paralelo para você ver que o conhecimento que as pessoas tem do
comunismo é puramente verbal, não passa daí, e portanto as conclusões que as
pessoas tiram são sempre estapafúrdias. Isso é regra geral, não conheço uma única
exceção. Eu conheço alguns comunistas que têm conhecimento sólido em marxismo,
conheci. Conheci o Jacob Coimbra (?), etc, eram homens que tinham uma
compreensão profunda do marxismo, eles não estavam ali para brincadeira. Nem
mesmo na esquerda eu sei se hoje ainda existe isso.

Na direita, entre os liberais conservadores, não tem nenhum, tirem o cavalo da chuva.
O que quer que esse pessoal diga sobre comunismo ou é apenas uma efusão
emocional, ou é a repetição de argumentos que tiraram do Von Mises, do Heyeck, dos
anos 20 e 30, que eles continuam repetindo como se fosse a última novidade, ou
então não é absolutamente nada. Então, nós temos que começar do zero.
Como começar?

Regra número 1: os objetivos proclamados de um movimento político, de


uma entidade ou de uma instituição, são parte dela evidentemente, eles existem
e algum peso exercem no conjunto. Porém, o processo de consecução dessa ideia, ou
o trajeto a ser percorrido para se chegar nessa ideia, nesse ideal, nesse objetivo, ele
vai consumir 99,999999% dos esforços, porque é evidente que você não pode criar
nenhum tipo de sociedade se você não tiver o poder para fazê-lo.

Então, o problema que se coloca imediatamente é o da conquista de poder e não da


sociedade sem classes. Mesmo que os comunistas tomem o poder, como aconteceu
na URSS, a construção de uma sociedade sem classes é um objetivo de remotíssimo
prazo porque é necessário primeiro remover os remanescentes da classe inimiga, da
burguesia. E isso pode levar décadas ou séculos. Na URSS ou na China, a construção
da sociedade sem classes nem chegou a ser cogitada, o esforço todo foi para destruir
os resíduos da ex-classe dominante. Além disso, nós temos que considerar uma outra
coisa – um movimento político ou uma entidade que atue na sociedade, ela tem que
ser considerada na sua materialidade, ou seja, nos seus meios de ação materiais, e na
substância material efetiva de suas ações. O ideal pode surgir como espécie de
bússola, indica a direção mais ou menos que você está indo. Mas esse negócio é
tão remoto que até mesmo o próprio Lula disse “nós não sabemos o tipo de socialismo
que queremos”, isso depois de estar no poder por 10 anos, já ter criado o Foro de São
Paulo, etc.

Mas como que eles puderam fazer tudo isso sem saber onde chegar? É porque o tipo
de socialismo não é o objetivo primeiro, o segundo, nem o terceiro , eles tem uma
série de etapas a ser percorridas pra chegar lá, e isso qualquer líder comunista sabe.
Nikita Krushov não ia ficar sentado na sua mesa pensando em sua sociedade sem
classes quando tinha problemas muito mais imediatos para resolver. Que problemas
eram esses?

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Em primeiro lugar o fato básico do comunismo e que todos esses iluminados
da universidade e da mídia ignoram: o movimento comunista é um único movimento
político mundial. Há 150 anos é o único movimento político mundial.

Prestem atenção, quando vocês falam de outros partidos, todos os partidos políticos
operam em escala nacional apenas. Por exemplo, o partido Republicano, existe um
candidato Republicano a presidência do Paraguai? Da Serra Leoa? Não, não tem. Se
você pega o partido Democrata Cristão da Itália. Tem um candidato do partido
Democrata Cristão da Itália a presidência da Somália, que já foi uma possessão
italiana? Não, não tem. Então o simples fato de você usar a mesma palavra ‘partido’
para designar o Partido Comunista já leva a um equívoco.

Então metam uma coisa na cabeça, é o único movimento político que opera em escala
mundial. Não há uma cidade no mundo onde você não tenha pelo menos um
representante do partido Comunista – nas suas várias versões, é claro, também tem
as suas divisões internas.

Então este é o fato básico que tem que ser levado em consideração. Isso significa que
mesmo quando você proclama como Stalin a construção do socialismo em um só país,
isso tem que ser entendido de maneira limitada e até irônica, porque nunca houve uma
época em que um partido comunista atuasse tão intensamente no mundo inteiro
quanto na época do socialismo em um só país. A grande expansão do comunismo
para tudo que é lugar foi no tempo do Stalin. O socialismo num só país era um
programa nominal! Mas não era uma orientação efetiva, nós não vamos esquecer o
movimento comunista mundial e cuidar só aqui da URSS. Stalin nunca fez isto.

O caráter mundial do partido comunista é o fato básico, ou seja vamos seguir uma
linha de raciocínio puramente materialista – os ideais são os ideais, e ninguém está
com pressa de realiza-los mesmo porque Karl Marx disse que levaria séculos. Lenin
também disse que levaria séculos.

Ninguém está com pressa de chegar na sociedade sem classes. Enquanto isso
nós vamos ter que fazer alguma coisa para adquirir os meios para um dia instituir
a sociedade sem classes – e esses meios chamam-se poder.

Então, o PC é uma organização mundial incumbida de tomar o poder em


escala mundial. Porém, o que é escala mundial? É uma variedade imensa de
situações locais. Então, por exemplo, veja que quando Mao Tse Tung estava
empreendendo a sua guerra revolucionária ele chegou a conclusão que ele precisava
mobilizar os camponeses. A grande guerra revolucionária operário-camponesa. Do
ponto de vista do marxismo clássico, de Marx e Lenin, isso era um absurdo, porque
os camponeses, no esquema de classes delineado por Marx eram a classe
mais reacionária que existia. Então os camponeses são inimigos naturais
do proletariado urbano. E Mao Tse de fato conseguiu mobilizar os camponeses e fez a
sua guerra revolucionária com sucesso. Isso já seria um absurdo nos termos
do marxismo clássico.

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Mas o marxismo sempre tem essa maleabilidade – ele se adapta a circunstância , e ali
se adaptou muitíssimo bem. Quando por outro lado, Trotski falava em revolução
mundial, você não pode esquecer que a facção trotskista chamada Quarta
Internacional, era um bando de gatos pingados que tinha um pouquinho em cada país
e não podia fazer a revolução nem sequer em um país. Portanto, Stalin quando falava
do socialismo num só país era uma camuflagem, e Trotski quando falava da revolução
mundial, era apenas uma bolha de sabão.

Então, nem socialismo num só país, nem a revolução mundial, trata-se de


alguma coisa completamente diferente. Agora você imagina o seguinte – o que
é administrar um movimento político em escala mundial? Que existe na Zâmbia,
na Serra Leoa, no Paraguai, nos EUA e na França? Como faz isso? Você acha que
é fácil? É pegar uma formuleta ideológica e implantar aquilo para todo
mundo igualzinho? Vocês saiam e preguem isso, assim e assim.

É assim que pensam e imaginam o comunismo um idiota como Marco Antônio Villa ou
Reinaldo Azevedo. São pessoas que não são capazes de partir de um conceito
abstrato para dar substância real a esse conceito. Pensar o objeto das suas
afirmações não apenas como um conceito abstrato ou uma palavra, pensar como uma
coisa real.

O conceito abstrato é o mesmo considerado na abstração e na coisa real. Se


você pega o conceito de vaca ele é o mesmo no dicionário e na vaca. Só que a vaca
real tem algo além de sua definição. Ela tem as condições que possibilitam a
sua existência. Por exemplo da definição da vaca não faz parte a grama, não faz
parte a ração, não faz parte o estábulo, não faz parte o dono da fazenda, não faz
parte um monte de coisas, tudo isso não está na definição, mas sem isso a vaca
não existe.

Uma das grandes dificuldades no ensino da filosofia é tentar fazer com que
as pessoas consigam pensar não somente com os conceitos abstratos somente,
mas preenchendo-os das condições reais que possibilitam a existência daquilo.
Você tem uma essência, mas essências são apenas conceitos. A essência não
basta, você tem que ter a existência. A essência como está na existência, e não
como está num mero conceito abstrato. Isso aqui é coisa absolutamente básica.

Eu estava aqui dando um exemplo de como as pessoas raciocinam com


conceitos abstratos separados da realidade na sua materialização, por assim dizer.

Apareceu aí uma moça defendendo a ideia dos banheiros Unisex. Muito bem,
mas como nós vamos realizar isso aí? Serão só os transexuais que terão acesso
ao banheiro feminino ou todos os homens? Se forem todos os homens, vai
acontecer o seguinte , o transexual quer entrar no banheiro feminino porque se
sente constrangido no banheiro masculino. Aí quando ele entrar no banheiro
feminino está cheio de homens. É isso que você quer? Não, não pode ser. Então
vamos pensar na hipótese oposto. Só os transexuais entram. Muito bem, o que é
um transexual? É uma pessoa que está vestida de mulher? Bom, isso não
pode bastar. É preciso que seja um transexual bona fide, de fato. Qual é a prova de
que ele é um transexual? Estar vestido de mulher não basta. Outra coisa, pode ser

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que o transexual esteja vestido de homem naquele momento. Nem todos se vestem
de mulher o tempo todo. Então vai precisar de uma prova de transexualidade
autêntica. Para quem você mostra a prova? Tem que ter um porteiro com uma
regulamentação, varas especializadas de justiça, ia ser uma burocracia infernal
simplesmente para entrar num banheiro. Isto é necessariamente assim. Quando a
pessoa diz, não, isso pode aumentar o número de estupros. Eu digo, não, isso aí é
uma possibilidade, mas estou raciocinando não as possibilidades, e sim as condições
necessárias da materialização da ideia. Coisas que vão acontecer necessariamente,
não que podem acontecer.

Então, tem várias coisas que você vai precisar definir, na transformação da ideia em
realidade você vai ter que tomar várias decisões legais. O homem tem acesso ao
banheiro feminino só na porta principal ou também nas portas das privadas? No
primeiro caso você está assegurando que a pessoa tenha o direito a privacidade só na
privada. Agora, e os homens? Os homens não fazem pipi na privada, eles fazem pipi
em público. Se as mulheres não forem obrigadas a fazer pipi em público também, eles
estão sendo discriminados. Então isto é um conflito que vai surgir necessariamente,
não é a possibilidade de um estupro. Talvez não aumente o número de estupros, pode
ser que aumente, pode ser que não aumente. Mas essas coisas que eu estou falando
não são possibilidades, são exigências reais que decorrem da transformação do
conceito em coisa.

É como você passar do tridimensional para o plano. Agora, eu outro dia estava aqui
querendo construir uma garagem e fui fazer a planta da garagem. Então eu tinha o
conceito da garagem na minha cabeça. Para você transformar não numa garagem
tridimensional, mas numa simples planta, você tomar um monte de decisões que você
não tinha pensado antes. E da planta para a coisa tridimensional outras tantas
decisões. Então, qualquer projeto humano tem isso. Ele consiste não na sua ideia
geral abstrata, mas na coisa e na situação real que vai ser criada. E, a maior parte das
pessoas não é capaz de fazer essa transição, não tem treinamento para isso. Pega
uma palavra, pega mais um conceito dicionarizado, e tira conclusões lógicas a partir
delas. É assim que as pessoas pensam.

O Marco Antônio Vila não chegou a dizer que o PT não é um partido comunista porque
ele jamais pregou a socialização total dos meios de produção? Disse isso!

O que é isso aí? Uma conclusão tirada de uma definição de dicionário. Ora,
para estudar o movimento comunista nós temos que considera-lo não no seu
discurso ideal e pretextos , mas na totalidade da sua existência material no mundo, da
sua ação efetiva no mundo. E quando você começa a tentar conceber essa
ação efetiva você vê que é uma coisa de uma complexidade monstruosa. Você
imagina o alto funcionário da KGB incumbido de coordenar os trabalhos na
América Latina. Só na América Latina já encontra uma variedade de situações
alucinante. As condições não são as mesmas em todos os países. Em alguns países
você pode ter já uma tradição de movimento comunista de forma que uma
propaganda ostensivamente comunista possa funcionar. Mas em outros países não.

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Então, além disso, tem o problema da etapa, porque a transição do capitalismo para o
socialismo é vista como uma etapa do desenvolvimento histórico. Esta etapa por sua
vez se divide em numerosas sub etapas, conforme o estado de desenvolvimento das
forças produtivas.

Por exemplo, em 1964 surgiu dentro do partido comunista uma discussão de se


o Brasil tinha ou não uma burguesia nacional capaz de se aliar ao Partido Comunista.
O que é uma burguesia nacional? É uma burguesia capitalista mas que tenha
interesses antagônicos ao capital estrangeiro. Uns diziam que sim, outros diziam que
não. Você sabe a resposta? Eu não sei. Naquela época surgiu esse bafafá porque daí
deveriam derivar duas estratégias opostas – a estratégia de uma aliança com a
burguesia nacional; portanto você não vai pregar comunismo, você vai pregar
democracia, eleição direta, etc – para daí você tendo conquistado as liberdades
democráticas o Partido Comunista teria um espaço a mais para agir. Ou por outro
lado, se não existe a tal da burguesia nacional, então não adianta fazer aliança com
ninguém e nós temos é que partir para o pau! As guerrilhas surgiram disso aí. Existe
um livro do Caio Prado Junior, chamado “A Revolução Brasileira” que toma o partido
dessa última alternativa , enquanto o comitê central do partido, Prestes e outros,
advogavam a continuidade da antiga estratégia da luta com a burguesia nacional.

Agora, você imagina como seria a situação onde a maior parte da população é tribal.
Na história da África do Sul, existe uma facção do Partido Comunista constituída
inteiramente de indígenas, população tribal. Que se dedicavam a causa comunista de
corpo e alma, e tiveram uma importância extraordinária, porém se são tribais, não
fazem parte nem do proletariado, nem do campesinato, eles são uma terceira coisa. E
quais são os interesses de classe dessa gente? E como articular esses interesses de
classe, de uma tribo na verdade, com a estratégia global dos comunistas? Mais ainda,
dentro mesmo de países que correspondem a descrição sociológica de Karl Marx,
você tem um problema da convivência entre as várias classes.

Por exemplo, nos anos 30, era mais ou menos oficial que a classe média é
inimiga natural do comunismo e ela tende naturalmente ao fascismo. As diferenças
entre comunismo e fascismo em muitos aspectos são irrelevantes. Mas até certo
ponto isso se verificou. Só que hoje nós sabemos que quem mais contribuiu
em dinheiro para a formação do partido nazista foi o proletariado alemão. E na classe
média estava lá fornecendo mártires anti-nazista a toda hora. E mais ainda, se nós
procuramos a história dos líderes comunistas ao longo do desenvolvimento europeu,
você verá que o número deles pertencente ao proletariado é ínfimo, quase nulo. E
eram quase todos de classe média ou alta.

Então, como é que você administra isso? Por exemplo, quando um desses
líderes falha, você diz, ah, ele ainda tinha um resíduo de classe média. Então, você
tem uma tendência ou fascista, ou anarquista, ou irracionalista, alguma dessas
coisas. Mas o próprio sujeito que está falando isso também tem um resíduo de
classe média.

Você imagina a complexidade da administração dessas coisas.

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Isso quer dizer que você pegar a totalidade da ação dos partidos comunistas
no mundo você não verá nenhuma unidade ideológica nessa coisa. Porque
os discursos que tem que ser levantados nas diferentes situações são distintos,
e portanto você tem várias formas ideológicas.

Por exemplo, no Brasil é clássico o discurso nacionalista como instrumento do partido


comunista. No Brasil, ele sempre fomentou um discurso nacionalista.
Que nacionalismo? É o culto dos heróis nacionais, dos símbolos nacionais? A
história nacional? Não, é o culto ao antiimperialismo ou antiamericanismo, e só.
Aliado um pouco ao senso de propriedade do solo. “O petróleo é nosso”.

Então, pelos fatores que eu analisei na aula anterior, você vê que já existe a tendência
brasileira a um nacionalismo geográfico por assim dizer. Em todo lugar, os
movimentos nacionalistas se baseiam na história, nos grandes feitos em comum da
população, nos heróis, etc. No Brasil não, se baseava eminentemente num fator
material que é a posse do território. São as nossas riquezas minerais, o petróleo é
nosso, etc. Já é um nacionalismo sui generis. O PC viu nisso uma grande
oportunidade, se o nacionalismo é baseado no senso de propriedade da terra, então
isso coloca naturalmente o país em conflito com interesses estrangeiros que visam a
propriedade da mesma terra.

Durante longos anos, você não verá discurso comunista em público, você só
verá discurso nacionalista. Impulsionado por que? Pelo Partido Comunista. E
assim por diante.
A simples necessidade de você adaptar o movimento comunista a variedade
de situações locais já faz com que se torne irreconhecível nele a presença do ideal da
sociedade sem classes, porque ele não tá falando disso em parte alguma. Isso aí
aparece como uma referencia muito longínqua, em nenhum lugar é disso que se trata.
Ah, nós vamos criar aqui no Paraguai a sociedade sem classes. Vamos criar na
Zâmbia a sociedade sem classes. Para criar uma sociedade sem classes você tem
que partir das classes existente, e não são as mesmas – a grade de hierarquia social
não é a mesma em toda parte. Então, isso quer dizer que só podemos entender o
comunismo como um movimento mundial voltado a conquista do poder em toda parte
pelos meios mais variados e imprevisíveis, e portanto com as justificativas ideológicas
mais variáveis e imprevisíveis.

A pergunta é, se ele não tem unidade ideológica, não há unidade de discurso, aonde
está a unidade então? Este é outro item absolutamente fundamental para entender o
comunismo. A unidade no comunismo é de tipo hierárquico. É a obediência ao
comando estratégico que determina as variações locais e as controla e administra,
usando o acelerador e o breque, e vários outros instrumentos.

Então o comunismo tem que ser entendido como uma organização material,
tão material quanto um exército. Ou quanto um estado. Só que é uma
organização transnacional, transestadual, transcontinental. Porque que quando o Fidel
Castro começa a organizar sua guerrilha, ele convoca a conferência tricontinental?

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Porque é um movimento que engloba no mínimo três continentes. Na verdade mais do
que três. E, hoje, o que você vê, qual a versão atual? É o BRICS. O BRICS tem países
de 4 continentes. Europa, América Latina, África e Ásia.

Isso quer dizer que o comando dessa coisa é algo enormemente complicado.

A central de comando está na KGB, onde sempre esteve, não está no


governo soviético. Isso é importantíssimo de entender. O governo soviético se
constituía do comitê central, do partido, dos ministérios, e do parlamento. A
KGB teoricamente é um órgão do governo soviético, mas acontece que ela é
muito maior que o governo soviético. A KGB é a maior organização de qualquer
tipo que já existiu no mundo. Só dentro da URSS tinha mais de 700 mil funcionários,
e está em 300 a 400 mil hoje. E que tem uma rede de colaboradores mundial.
Tudo isto está nos arquivos. Porque os russos sempre tiveram a mania de
registrar tudo. Os arquivos soviéticos contém tudo, tudo, tudo. Então, o acervo da
KGB consistia de 8 milhões de dossiês, na época em que fizeram a mudança de
sede, que foi coordenada por um agente russo que escreveu um livro junto com
o historiador ...., “Sword and the field”, a Espada e o Escudo. Ele era o
cara encarregado de fiscalizar a entrada e saída dos documentos num transporte
de um edifício para outro. Só o transporte dos documentos levou 10 anos.
Você imaginar a abrangência do campo de informações que essa gente tinha
que administrar. Comparado com isso, a CIA é uma escolinha de bairro. A CIA
não tem essa abrangência. Hoje, talvez, está lutando para ter. Só que estão
muito atrasados nisso aí. Você não pode esquecer que os EUA não tiveram um
serviço secreto para atuar no exterior até a segunda guerra mundial. Na segunda
guerra, a KGB já era uma potencia, e os EUA pela primeira vez tentaram criar o
primeiro OSS, organização do serviço secreto, que depois virou a CIA. A OSS foi
criada na segunda guerra, e nesse tempo os EUA eram aliados da URSS. Então, não
havia prevenção contra a presença de agentes comunistas nessa época. Resultado,
a OSS estava repleta de agentes comunistas, e assim nasceu a CIA.

A história da CIA é recheada de contradições e absurdidades por causa dessa origem.


A KGB não tem concorrentes, não teve e não tem. Nada se compara com o tamanho
da KGB, e é ali que se dá o controle dos movimentos comunistas nos vários lugares.
Isso quer dizer que as vezes nem o governo soviético sabe o que está fazendo. O
parlamento soviético e o ministério soviético jamais teve acesso ao orçamento da
KGB. Eles não sabem quanto dinheiro tem na KGB. Isso é a mesma coisa que dizer
que só a KGB tem dinheiro.

Nós só podemos entender o movimento comunista se o tomarmos nessa


sua materialidade, na variedade das estratégias e subestratégias locais, e
na articulação dessas várias estratégias em um único objetivo. Qual é o objetivo?
A sociedade sem classes? Talvez, mas antes da sociedade sem classes
precisamos ter o poder. Isso quer dizer que 100% do esforço é para a conquista do
poder.

Quando tivermos o poder total, aí teremos a sociedade sem classes. Porém, o poder
total é chegar ao governo? Não, o poder total é a extinção total da classe

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antagônica. A qual começa a ser um problema a partir do momento que você toma o
poder.

Como extinguir a classe antagônica? Matando todos? Não dá. Mesmo porque se você
vai liquidar com os burgueses, no período em que você está fazendo isso,
é absolutamente necessário que o capitalismo continue funcionando.

Você imagina, você toma o poder e no dia seguinte todas as empresas vão embora.
Todos os burgueses fogem, o país faliu, você não tem nem o que administrar. É
preciso que o capitalismo continue funcionando durante o período da sua própria
extinção. Isto é fundamental no movimento comunista, fundamental.
Como se faz então para extinguir o poder da burguesia? Não é matando todos, não é
prendendo todos, não é mandando todos para o paredon ou para o Gulag, é usando
duas coisas: inflação e impostos. Quem disse isso? Lenin. Veja, Lenin toma o poder
não numa eleição democrática como Lula, mas toma o poder no bojo de uma
revolução sangrenta. Ou seja, ele tem o poder total sobre o governo desde o primeiro
dia. Mas esse poder total é sobre o governo, não sobre toda a sociedade, ele vai
precisar estender o poder sobre toda a sociedade, e para isso precisa destruir a classe
antagônica e só tem um jeito de destruir a classe antagônica, que é aumentado
impostos e criando inflação.

Então, essa burguesia vem se tornando cada vez mais dependente do governo, até
que se torna um órgão dela, daí você mete um comissário político dentro de cada
empresa, e o comissário político é que manda. O empresário continua sendo o
proprietário nominal por algum tempo, e depois você tira até a posse nominal. Este
processo é enormemente complexo e demorado. Sem contar a variação das situações
locais dentro da própria URSS. Você tinha desde cidades com um parque industrial
imenso, até uma imensa extensão de terras onde vigorava apenas uma economia
agrícola. Em outros lugares não tinha nem isso, se vivia ainda de uma economia
extrativista. Como é que você vai administrar isso aí? Por exemplo, Stalin criou muita
fama dentro do movimento comunista como comissário das nacionalidades. Quer
dizer, a URSS abrangia muitas nações, com línguas diferentes. Então, também a
variedade das situações locais exigia táticas diferentes, e como organizar e unificar
tudo isso? Foi o Stalin que fez esse negócio. Stalin era um linguista, ele compreendia
as linguagens das várias nações, e na verdade ele fez um belo trabalho, conseguiu
manter a unidade da URSS por baixo da diversidade de interesses nacionais sempre
em conflito. É claro que uma parte dos conflitos ele resolveu na base da brutalidade,
mas outros não. Por exemplo, havia lugares onde você podia impor o russo
como língua oficial, em outros não. Teria que aceitar uma duplicidade de
linguagens, ou então você tinha que promover a língua nacional mesmo. E assim por
diante.

Então para administrar a coisa dentro de um só ‘país’, que na verdade eram vários
países, a coisa era de uma complexidade imensa. Isso quer dizer que você não vai
reconhecer o movimento comunista por sua unidade ideológica em parte alguma.

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O movimento comunista pode lançar qualquer bandeira que interesse ao aumento do
seu poder. Isso aí pode ser por exemplo o livre-comércio. Karl Marx sempre defendeu
o livre-comércio, porque se não tem livre-comércio o intercâmbio internacional é
frouxo, e nós não podemos exportar a revolução para parte alguma. Você precisa
naturalmente da livre entrada de revolucionários em todas as nações. Se não há livre-
comércio, como vamos fazer para botar os agitadores lá dentro?
Hoje em dia o pessoal achando que a coisa mais antagônica ao comunismo é o livre-
comércio. Porque vão pelo conceito abstrato. Nem estudaram Karl Marx, nem Lenin,
nem coisa nenhuma. Esse pessoal pensa de uma maneira simplória, que é para um
comunista ver aquilo e dar risada. Pelo menos um comunista profissional mesmo, à
antiga.

Você só vai reconhecer a presença do comunismo pela via organizacional, não é pelo
discurso ideológico, não é pelas bandeiras levantadas. Por exemplo, o comunismo
pode ser internacionalista, ou anti-nacionalista, como foi em certos tempos na primeira
guerra. Em outros lugares ele pode promover o nacionalismo. Por exemplo como fez
na África ou como faz na América Latina, porque descobriu que os interesses
nacionais tem um potencial anti-imperialista ou anti-americano.

Mais ainda, uma coisa é luta de classes, outra coisa é luta de potências. Não
há medida comum entre essas duas coisas. Ora, você diz nós queremos derrubar
a burguesia, mas existe um outro treco que se chama o imperialismo americano. Nós
estamos lutando contra a burguesia americana? Não pode ser, pois precisamos dela
para sustentar o partido comunista – foi uma instrução que Stalin deu aos comissários
do PC nos EUA. Esqueçam o proletariado, cultivem os burgueses e o beatiful
people das artes e espetáculos. Por que esses vão dar dinheiro para sustentar o
poder. Então não é a burguesia americano que estão combatendo, é o estado
americano, e a civilização americana, é isso que precisa combater. Mas sem tocar nas
grandes fortunas.

Você vê como isso pode ser enormemente complicado. Isso quer dizer que o discurso
anti-burguês nos EUA só servia para enganar trouxa, aqueles imigrantezinhos italianos
que tinham chegado na véspera. Esses ainda acreditavam nisso. Mas o pessoal que
estava atuando efetivamente no PC, revolucionários profissionais, nem tocavam na
burguesia. Ao contrário, tinham as melhores relações como tem até hoje. Você vê que
se não fosse a grande burguesia americana a esquerda latino-americana já teria
acabado há muito tempo.

Se não fosse fundação Ford, Rockfeller, MacArthur, George Soros, Zukerberger,


o pessoal da Microsoft, já teria acabado. Num determinado país o
movimento comunista pode estar seguindo o discurso ideológico clássico, sugerindo
a destruição da burguesia, e em outros lugares vai ter que fazer outra coisa totalmente
diferente, e as pessoas olharão, o amador, não reconhece a unidade disso porque
está procurando uma unidade ideológica e de linguagem publicitária, e isso não
existe.

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Estão entendendo a monstruosidade do erro que essas pessoas fazem ao estudar o
comunismo? Não há unidade ideológica, de discurso, sequer de objetivos. Só há uma
unidade: a unidade do comando. E se perguntarem da onde vem o comando do
movimento comunista? Vem da KGB, em estreita associação com o serviço secreto
chinês. É tudo uma obra de serviço secreto.

Veja que serviço secreto no ocidente basicamente consiste de coleta de informações


essenciais para a segurança nacional. Mas serviço secreto numa organização
comunista não é isso. Serviço secreto é tudo. Ele dirige a educação, as publicações,
as normas morais, a literatura e as artes. Tudo isso estava e está sobre a
administração da KGB até hoje. É muito difícil você dizer quem está no comando, você
procurar um grande líder. Você não vai achar grande líder algum, o grande líder não
manda nada comparado a KGB. Gorbachov, Yeltsin, não eram nada. Então, com
todas as transformações que a Rússia passou, quem terminou na chefia? O chefe da
KGB. Como não poderia deixar de ser. E vai continuar sendo sempre assim. Não há a
menor possibilidade de a Rússia se transformar numa democracia, nem a China.
Estão comprometidos com isso, eles só sabem fazer isso.

Qual o objetivo chinês no Brasil? Implantar a sociedade sem classes? Ora, você está
brincando comigo! O chinês está lá para comprar tudo a preço de banana. E promover
o que? O capitalismo chinês! Que é dependente do governo chinês. Quem é o maior
investidor na China? O Exército Chinês. Isto quer dizer que a ocupação econômica
através da indústrias chinesas já é ocupação militar virtual. E, o empresário brasileiro,
sempre tão sábio, aquele que recebeu dinheiro do pai acha que ele é Albert Einstein....
Diz, ah, os chineses não são mais comunistas, eles só querem fazer negócio. É assim
que os caras pensam! Porque não entendem a complexidade, a diversidade de
situações, como dizia Trotski, o desenvolvimento desigual e combinado! Você tem
vários países em diferentes estágios do movimento da transformação revolucionária e
você precisa variar a sua estratégia e tática em cada um conforme a situação local.

Claro que estou falando tudo isso sem contar a possibilidade de erros.
Como cometeram erros no Brasil. Aqueles que apostaram na guerrilha não sabiam
que só iam servir para uma coisa: servir de garotos-propaganda depois de mortos para
outra facção do partido. A Gramsciana, que foi pela aliança com a burguesia nacional,
tomaram o PMDB, o antigo MDB, e através do processo eleitoral, e foram subindo e
acabaram dominado tudo. Os guerrilheiros serviram para isso. O que mostra que a
guerrilha não era uma estratégia, era apenas uma tática errada que servia a estratégia
contrária. As guerrilhas foram um erro, mártires haveria de qualquer jeito. Seria até
melhor se não fossem guerrilheiros, se o governo começasse a matar apenas
operários desarmados, a propaganda funcionaria até melhor, ou estudantes. Como a
morte daquele rapaz, Edson não sei o que, que foi explorada. Se as vítimas fossem
somente pessoas desarmadas, a propaganda seria mais convincente, como sabemos
que pelo menos metade dos que morreram eram guerrilheiros armados, não nos
comovemos muito com sua morte, só eles se comovem.
Aula 05 POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL _ HISTÓRIA E PERSPECTIVAS.docx

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POLÍTICA E CULTURA NO BRASIL – HISTÓRIA E PERSPECTIVAS
AULA 05

Hoje, completando o nosso roteiro, eu queria falar mais sobre essa questão do Foro
de São Paulo e da América Latina.

Mas, a dificuldade aí é de duas ordens. Em primeiro lugar, nós realmente não temos
uma elite intelectual qualificada para enxergar e compreender a situação do Brasil
dentro de um quadro internacional. Não tem mesmo ideia do quadro internacional, o
pessoal pensa a respeito do mundo no Brasil é diretamente condicionado por dois
elementos: a mídia americana, o NY Times, a CNN; e a mídia nacional. E em segundo
lugar, além dessa deficiência que é puramente negativa, existe a atuação do fator
ativo, que é a hegemonia esquerdista da mídia, a qual não vem de hoje, a qual existe
no mínimo há 60 anos, na mais modesta das hipóteses é 60 anos. Eu creio que já
tenha mencionado aqui, uma publicação do sindicato dos jornalistas do estado de São
Paulo, chamado 60 anos de jornalismo, publicado na década de 80, onde está lá todas
as grandes figuras do jornalismo paulistano, e mais de 90% delas eram membros do
partido comunista, ou algum partido parecido, ou alguma variante. Então isso quer
dizer que a história da mídia em São Paulo acompanhava e era a mesma história do
partido comunista, as grandes figuras de um eram as grandes figuras do outro. Este
fator geralmente não é levado em conta, as pessoas, mesmo as que tem essa
informação, não costumam levar em conta, porque ignorando o que é realmente o
movimento comunista, e tendo dele uma concepção paroquiana, caipira, não
consegue relacionar esse predomínio dos comunistas na mídia com o conteúdo
do noticiário. Eles acham que o sujeito comunista ou não é um ‘profissional
de imprensa’ cuja função é divulgar os fatos, e cada um tem lá a sua opinião, mas
ele não vai deixar que a sua opinião modifique os fatos, quando na realidade
a essência mesmo da profissão jornalística é a seleção dos fatos.

Como é que se faz um jornal? De manhã, chega lá um funcionário, chamado pauteiro,


que vai fazer a pauta, a pauta é os assuntos que serão abordados na edição do dia,
independentemente do noticiário internacional que possa ser produzido pelas
agências. Então, neste momento o sujeito já faz uma seleção pelo seu critério de
importância. Esse critério de importância geralmente é baseado no que? Nos outros
jornais. É aquilo que os outros jornais vem considerando importante, será considerado
importante na elaboração da pauta, a não ser na quase impossível coincidência em
que haja um pauteiro original, que tenha lá suas próprias ideias, e queira fazer alguma
coisa diferente, coisa que eu nunca vi em 50 anos de jornalismo. Um colega meu, do
tempo de jornal, que era um homem inteligentíssimo, aliás professor de filosofia na
USP , o (?)Roolf Gunt (?), dizia que os jornais praticavam autofagia, só publicam o que
os outros publicaram, um lê o outro e repete, o outro lê o um e repete. E isto ficou
assim no Brasil, sobretudo, depois dos anos 60, 70, quando a mídia foi sendo
unificada, quer dizer os sindicatos das empresas jornalísticas, adquiriu uma unidade
de principio maior, os vários donos de empresas de mídia passaram a discutir
as coisas mais constantemente, e fizeram uma série de acordos políticos, e
isso uniformizou os jornais no Brasil inteiro, além da uniformização empreendida

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pelas próprias empresas, havia uma uniformização ideológica empreendida
por membros da redação.

No jornalismo existe uma grande circulação de profissionais dentro das redações. O


sujeito fazer uma carreira inteira em um só jornal é uma raridade. Existe, mas creio
que não passa de 5%. Então, o sujeito está hoje na Folha, amanhã no Estadão, depois
na Veja, e assim vai mudando, e isso propicia também uma uniformização. A direção
ideológica do processo, é claro que ela existe, o pessoal do PC dá instruções, para
prestigiar determinados personagens, seja da política, seja das letras, seja das artes, e
negligenciar outros.
Quando o PC baixava uma instrução, de fulano não é para falar, como fizeram com
Antônio Olinto, escritor brasileiro que tem seus livros traduzidos em mais de 30
idiomas, é um sucesso internacional, você chega na Romênia tem lá uma biblioteca
Antônio Olinto, e durante 30 anos o nome do Antônio Olinto desapareceu da mídia
brasileira. Depois, voltou, já velhinho, voltou para o Brasil, e daí foi posto na Academia,
como uma espécie de prêmio de consolação. Mas, a cortina de silêncio vigorou
durante 30 anos. Isso é um fenômeno que tem que ser levado em conta.

O meu próprio nome foi banido por iniciativa do Milton Temer (?), que era um dos
luminares do partidão, ele disse : do Olavo de Carvalho não se fala. De fato, meu
nome desapareceu. Claro que de vez em quando aparecia uma coisinha ali, outra ali,
mas totalmente desproporcional com o tamanho da ação que eu estava tendo e do
efeito social que estava se encaminhado. O sujeito saia na rua, só via cartaz Olavo
tem razão, mas não havia nenhuma menção a isso em jornal nenhum, noticiário
nenhum, isso é normal, isso é o procedimento da espiral do silêncio, que é esse.

As pessoas sabem que isto acontece, porém, continuam lendo os jornais e vendo os
noticiários da televisão como sendo sua principal fonte de informação. Isto está
diminuindo hoje, graças a internet, o pessoal se abriu mais para outras fontes,
sobretudo para fontes diretas, e a credibilidade da mídia no Brasil não passa de 5%,
mas esses 5% é importante porque, porque é a elite, são os políticos, são os
professores universitários, em suma, são as classes falantes.

Em geral, o expectador de um noticiário de TV ou o leitor de um jornal, ele não faz a


conecção entre os fatos que estão chegando para ele , e a orientação ideológica que
existe por trás, não conecta uma coisa na outra, não entende que uma publicação, um
jornal, por exemplo, é um produto inteiramente programado para impor uma certa
visão das coisas. Essa visão não se impõe pela propaganda de opiniões, isso é a
coisa mais fundamental. As páginas de opinião dos jornais são as menos lidas. Você
tem o editorial, que é uma opinião do jornal, e do lado uma série de artigos assinados,
que são, opiniões mais variadas, mas dentro de uma gama previamente escolhida. A
imposição da visão se dá através da seleção do noticiário, e da seleção sobretudo do
critério de importância. Uma notícia pode ser publicada numa notinha de 10 linhas na
página 15, ou pode ser manchete no jornal. Ela pode ter uma sequência, um switch,
como se chama em jornalismo, ou não, você pode noticiar uma coisa uma vez e
desaparecer. Ou

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pode continuar, e aquilo virar uma espécie de tema recorrente, como por exemplo os
famosos crimes da ditadura viraram tema recorrente. E mais recentemente a
corrupção virou um tema recorrente.

Se não quisessem, eles poderiam controlar isso noticiando só de vez em quando, e


sem relacionar uma coisa com a outra. Em suma, o jornalismo não é um translado da
realidade, ele é um produto, planejado de antemão e que obedece a uma
padronização bastante rigorosa. Até o tamanho das matérias é programado.

Antigamente se fazia um jornal da seguinte maneira: cada repórter escrevia a coisa


que queria do tamanho que queria, daí tinha um diagramador incumbido de fazer
aquilo caber nas páginas. Ele tinha que fazer um cálculo, centimetrar e desenhar. Os
diagramadores eram tremendamente inventivos naquele tempo. Depois, a partir dos
anos 70, já foi adotado no Brasil o sistema americano onde a página era pré-
diagramada. E daí, é o redator que tem que se esforçar para fazer a notícia caber no
desenho que o diagramador concebeu. Por incrível que pareça, embora isso facilitasse
o trabalho dos diagramadores, este trabalho se tornou menos inventivo, e não mais
inventivo. Os jornais então começaram a se parecer terrivelmente uns com os outros,
e o estilo americano, que é aquele estilo limpo, tudo geométrico, arrumadinho, acabou
por predominar sobre o estilo europeu, italiano, francês, que era o de páginas
mirabolantes, desenhadas da maneira mais inventiva.

Com isso aí, quer dizer, tudo foi contribuindo para que o jornalismo se uniformizasse.
E, o fato de você copiar modelos americanos, ajudava ainda mais a camuflar a
orientação ideológica subjacente. Isso aconteceu em todos os jornais brasileiros, sem
exceção, jornais e revistas. Se você pega a revista Veja, não há nenhuma diferença
entre a diagramação da Veja e a da Time, ou da US News, etc. Tudo vai ficando
exatamente mais uniforme, e essa uniformidade ela basta para induzir no leitor uma
sensação de normalidade, existe uma rotina, as noticias acontecem durante o dia, no
meio da semana, e saem regularmente em tais ou quais publicações. Então, este fluxo
de notícias que chega diariamente ao cidadão, dá para ele uma sensação de
estabilidade epistemológica, por assim dizer, tremenda. O tamanho que as notícias
ocupam dentro de um jornal, é tido pela população imediatamente como um critério da
sua importância. Se a coisa foi manchete em 3, 4, 5 deles, então isto é
tremendamente importante! E, o pessoal não lembra do seguinte – isso aí não é um
traslado objetivo da importância, isso é a avaliação feita por um jornalista.

O jornalista como mediador entre a realidade e o leitor, ele praticamente desaparece


sob o anonimato das notícias. Quando sai alguma matéria assinada pelo Coutinho ou
Reinaldo Azevedo, você sabe, mas as notícias você não sabe. Só dois tipos de
matérias são assinadas no jornalismo, as reportagens, que não se referem a um fato,
mas a uma coisa mais durável, um fenômeno que é mais durável, e que ocupa muitas
vezes página inteira ou duas páginas, e os artigos editoriais, tipo de opinião, o resto é
tudo anônimo. E esta parte anônima é a que pesa, porque ela é que dá o traslado da
realidade, o resto é opinião.

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O sujeito imagina que se ele leu uma notícia assim ou assado na Folha, imagina que
tá saindo uma notícia mais ou menos igual no Estadão, e hoje isto é verdade mesmo.
As notícias são selecionadas por um critério uniforme, e até mesmo redigidas de uma
maneira mais ou menos uniforme.

A impressão de estabilidade e de realidade que isso dá nas pessoas é uma


coisa monstruosa. Na televisão acontece exatamente a mesma coisa, as coisas
são recortadas para aparecer durante um tempo X, com uma voz y, assim e assim,
e diariamente aquilo retorna. E, o jornalismo como estrutura de interpretação
da realidade nunca é discutido, nunca. Isso não entra na conta de preocupação
da maioria das pessoas, elas partem do material trazido pros jornais, elas acham que
os materiais são os fatos, e com base nesses fatos nós desenvolveremos as nossas
opiniões. Ou seja, na sua cabeça se cria uma divisão igualzinha a que tem o produto,
aqui tem a página de opinião, e ali tem as notícias.

É evidente que na prática é absolutamente impossível você redigir uma notícia sobre o
que quer que seja se você não tiver alguma visão pessoal da coisa, vai selecionar de
acordo com seu critério e de acordo com as normas vigentes do jornal. Em alguns
jornais, existia por algum tempo, pelo menos uma fórmula padrão para a
redação. Tinha abertura assim, de pois um título, depois mais 10 linhas, etc.

Você veja se existe essa uniformização industrial de um produto, e gráfica do produto,


e por outro lado existe também uma uniformidade ideológica na redação, então é claro
a imposição de uma certa visão das coisas é avassaladora, e sem contraste. Não há
concorrência de conteúdo entre os jornais. Eles não concorrem no conteúdo, todos
apresentam o mesmo conteúdo. Eles tem lá os seus públicos tradicionais, e tratam de
mantê-lo ou conquista-lo por outros artifícios publicitários, mas o conteúdo é o mesmo.
Mesmo porque os jornalistas estão sempre mudando de redação em redação, estão
sempre os mesmos que estão fazendo tudo.

Então, isso quer dizer que, o pessoal que vai estudar em universidade, ciência política,
etc, você já traz com você uma visão de mundo factual que já está inteiramente
estabelecida, não há como mudar. Não há um processamento científico nessa coisa
para você poder investigar quais são os fundamentos daquela visão que está sendo
apresentada. Quando se faz isso, é exatamente no sentido de reforçar a mesma visão
mediante uma falsa crítica.

Por exemplo, você mostrar que o noticiário da Folha ou do Globo é condicionado pelos
interesses da empresa. Os interesses da empresa interferem num jornal em 5% no
máximo! Eu trabalhei 50 anos em jornal, eu nunca recebi uma instrução do patrão para
escrever isso ou aquilo, isto é inteiramente decidido pela classe jornalística. Muito
frequentemente o dono do jornal nem aparece lá. Mesmo aqueles que são jornalistas
praticantes. Por exemplo, eu trabalhei no jornal Diário muitos anos, e eu vi fulano uma
única vez, ele não aparecia na redação. O Otávio Frias Oliveira, esse era uma
raridade, uma figura mítica, você via de longe.
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Quando se faz uma análise da imprensa se faz uma análise pelos cânones marxistas
tradicionais – aqui existe uma classe dominante, com seus interesses de classe, que
manda no jornal, que deve refletir os interesses de classe. Então se analisa por esse
lado, o que camufla a coisa mais ainda, porque tá vendendo o jornal com um noticiário
inteiramente recortado por uma mentalidade comunista, e ainda condenando essa
mesma mentalidade por ser capitalista! Eu posso dizer que isso é um massacre
informativo, e é isso que vivemos no Brasil há muito tempo, no Brasil de maneira muito
mais vasta e uniforme do que em qualquer país que eu conheça.

Aqui nos EUA por exemplo, você tem uma certa uniformidade nos jornais mas não é
tanta. E você sempre o fator rádios que é o veículo mais popular, e que em geral se
opõe a mídia impressa. Em outros países, também acontece a mesma coisa, você vê
jornal de direita, conservador, cristão, protestante. Aqui no Brasil não tem essas
coisas.

Graças a isso, a nossa visão da situação nacional, mas sobretudo da


situação internacional, é monstruosamente recortada e caipira. Isso é geral, e nunca
se fez um estudo a esse respeito.

Quando nós vemos o fenômeno da ocultação do Foro de São Paulo por 16 anos, este
fenômeno é mais importante do que tudo que o governo esteja fazendo. Você não
pode esquecer o seguinte, que as decisões de um governo, da presidente, elas tem
que ser discutidas no ministério, depois passam pela Câmara, Senado, criam um
bafafá, tem uma discussão pública, e no fim aquilo vira uma decisão oficial ou não.
Mas aquilo que foi decidido pelos meios de comunicação está decidido, está feito, e
ninguém vai discutir, e não volta mais atrás.

Isso quer dizer que esse pessoal tem nas mãos os meios de divulgar o que quiser e
sobretudo de ocultar o que quiser. Então, isso quer dizer que, com uma
visão padronizada dos fatos, que opiniões você pode desenvolver se não aquela que
é compatível com essa visão dos fatos. Mesmo que você seja contra o aborto ou
a favor do aborto, eu digo, bom você é contra ou a favor nos termos daquilo que
foi noticiado. A partir do material disponível, e sobretudo a partir do
material indisponível. Aquilo que você não sabe não vai ser levado em conta na
sua opinião.

Nós vemos fenômenos no Brasil que vistos um pouco de longe se


tornam assustadores. Por exemplo, vocês viram o número de matéria de imprensa,
de livros, de programas de TV, de filmes, que falam sobre a influência americana
no golpe de 64. É uma imensidão, é um oceano. Qual é a base factual disso?
Existem alguns fatos que realmente aconteceram e sabemos que eles
aconteceram porque podemos confirma-los por outras fontes. Por exemplo, sabemos
que o presidente Johnson mandou uma frota para ficar estacionada,
nunca desembarcou no Brasil, e ela ficou ali por perto. Para que? Bom, isso é
obrigação constitucional do presidente americano, onde há uma ameaça de crise ou
de guerra civil, ele tem que mandar uma frota para recolher os cidadãos americanos

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em caso de perigo, e foi isso que ele fez. Essa frota não interferiu em absolutamente
nada no desenvolvimento do golpe, nada, nada.

Sabemos também do famoso telefonema do embaixador Lincoln Gordon ao presidente


Johnson, dizendo, presidente, os militares aqui colocaram os tanques na rua, que nós
fazemos? Daí o Johnson disse: façam o que for necessário. Isso quando os tanques já
estavam na rua. Nós sabemos que o embaixador Lincoln Gordon acompanhou
algumas discussões com os militares, e sabia que alguma coisa eles iam aprontar.
Mas, ele nem sequer se preparou para isto. Se o indivíduo diante do fato consumado
pede instruções ao presidente, então é óbvio que ele não participou do planejamento
das ações. Embora tivesse alguma informação a respeito, mas não sabia sequer a
data em que as coisas iriam acontecer. Por incrível que pareça esta mesma gravação
desse mesmo telefonema é apresentada até hoje como prova da intervenção
americana no golpe de 64.

Qualquer pessoa que você conversa, sobretudo no meio universitário, se você colocar
qualquer coisa em dúvida ela vai dizer, mas não, isso é óbvio, isso é fato histórico
comprovado. Não há comprovação nenhuma, é zero, literalmente zero! Não há
nenhum sinal de intervenção americana no golpe de 64, zero! Daí as pessoas dizem,
não, os EUA tinham firmas americanas, tinha a Light – não é americana, é canadense;
financiando movimentos de direita no congresso. Eu digo, escuta, mas se eles
estavam alimentando uma oposição no Congresso, o que isso tem a ver com golpe
militar? Se esperavam agir através do congresso, então certamente não era com um
golpe militar que eles contavam!

Eles citam o IBAD ( instituto brasileiro de ação democrática) que tinha


dinheiro americano, dinheiro da Light lá. De fato tinha, mas isso era uma ação dentro
do congresso, era uma ação política normal dentro da concorrência parlamentar,
e sobretudo tem o fator que há 20 anos digo que é, bom, se os EUA interferiram tanto,
tinha que ter pelo menos um agente da CIA lotado no Brasil. Me dê um nome de um
agente da CIA lotado no Brasil. Até hoje, desde 1964, até hoje, meio século, estou
esperando o nome do tal agente, e até hoje ele não apareceu.

Em compensação, a participação da URSS no Brasil naquela época e desde então, é


totalmente ausente na mídia, no mundo das artes e espetáculos, no
ensino universitário, etc. E, para cúmulo de ironia, os documentos relevados pelo
Mauro Abranches, que é esse brasileiro que vive na Polônia, mas fala checo e tem
acesso aos documentos checos da STB, que é o serviço secreto checo,
revelam claramente que havia uma multidão de agentes secretos soviéticos no Brasil,
com CPF, RG, número de telefone e cor da cueca! Sabe-se tudo a respeito desses
caras. Bom, sabe-se quando se vai direto as fontes. Quando se vê a imagem pública,
que é aquela que está presente na mídia, isto está totalmente ausente. E você falar
em ação da KGB você se arrisca a ser chamado de teórico da conspiração, você
é saudosista da guerra fria, você é isso, e mais aquilo. Existe realmente um bloqueio.

E esse bloqueio ele é do tipo da espiral do silêncio mesmo, ele não é uma coisa seja
ostensivamente proibido de falar daquilo. Não, ele é feito não de cima, não

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há um governo que proíba, não há censura. Os agentes da censura são os próprios
jornalistas. Então, o termo autocensura não se aplica. Autocensura existe quando você
tem uma ditadura e o jornalista com medo de dizer certas coisas ele as omite para não
desagradar o governo, isto é autocensura. O que acontece no Brasil não é
autocensura, é uma censura exercida por jornalistas, é completamente diferente.

O jornalista como agente de uma facção ou de um partido, ele corta as notícias e faz
desaparecer o que ele bem entende. Isso é um fenômeno geral e endêmico no Brasil.
E se não começarmos a levar isso em conta, nunca vamos entender nada do que se
passa no Brasil, e pior, não vamos entender qual a posição do Brasil no mundo. Você
hoje ainda, você vê, quando você lê os documentos do PT, as discussões internas do
PT, que são muito interessantes, você veja que ali circula livremente a opinião de que
o impeachment da Dilma é intervenção imperialista do governo americano, o governo
americano está derrubando a Dilma. Escuta, mas o governo americano não é o Barack
Obama? Não é o sujeito que favorece a esquerda em tudo, não só nos EUA, mas no
mundo ? Então , porque ele estaria contra a Dilma?

Então, nesses meios as pessoas acreditam realmente nisto. Acreditam em parte na


base, é claro, da autopersuasão histérica. Porque a revolta popular que eclodiu contra
eles é para eles um fenômeno inexplicável. Eu posso explicar, eu sei porque ela
aconteceu, mas eles não sabem. Para eles isso é um fenômeno estranho, sem motivo,
e tem que ter uma mão maligna do imperialismo americano por trás, ou tem que ter
outra explicação conspiratória qualquer. E eles estão se apegando a isso realmente
como avestruzes, que não querem ver o que está acontecendo e não preferem
inventar um outro cenário que os tranquilize psicologicamente. Embora a situação seja
muito ruim, eles acreditam que se puderem entender a situação, eles podem
manipular. Este então é mais um golpe imperialista, e nós temos que reagir a isso. Ou
seja, eles estão repetindo o script de 1964.

Em 1964 acreditaram na balela da intervenção imperialista, e continua a cultivar até


hoje. Mas é de uma maneira avassaladora. Não é nem um nem dois livrinhos que
saíram a respeito disso, tem uma biblioteca inteira a esse respeito, e filmes. Ano
passado fizeram um filme de novo sobre isso, e o filme ganhou um prêmio. Um
comunista faz um filme sobre isso aqui no Brasil, e lá em Paris um outro comunista dá
um prêmio para ele. Não pensem que isso é uma coincidência, o comunismo é uma
rede, não é uma ideologia, não é um regime, ele é uma organização mundial, vocês
tem que entender isso aí. A ideologia pode mudar, os planos podem mudar, a
estratégia pode mudar, mas a rede não é destruída jamais. Claro, um indivíduo pode
sair, outro entrar, mas a rede continua funcionando. E na verdade o número de
pessoas que saí é ínfimo, se você pensar bem. É muito difícil neguinho se desligar
dessa coisa. Porque?

Se você entra no partido com 17, 18 anos, todo o círculo de amizade


está condicionado pelo partido. As festas que você vai são de gente do partido,
as conversas que você participa são de gente do partido, a namorada é do partido, o

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seu casamento e seus convidados são de gente do partido, eu vi quantos casamentos
eu vi assim!

Eu tinha um contraparente que era o ferramenteiro que concertava as armas para o


Marighela. Ele estava casando a filha. Eu e meu amigo fomos no casamento. Mas a
casa era longe, jardim raio que o parta...Eu e o Oto ficamos circulando, tentando achar
a casa, quando chegamos lá quase meia noite. Na hora que nós entramos, o homem
falou: puxa que pena, acabei de bater a última foto. Na semana seguinte todos que
estavam na foto estavam presos como cúmplices da guerrilha. É claro que somente
10% tinha algo a ver com guerrilha, o resto sabiam da coisa mas não tinham nada a
ver, mas era tudo gente do partido.

Só tinha gente do partido no casamento. Eu vi um monte de casamentos desse tipo!

Então, como é que você vai se desligar disso? Você diz, agora não pertenço mais ao
partido. Tá bom, onde é que você arrumar outros amigos que são contra o partido ,
que estão fora do partido? Tem que refazer sua vida! Geralmente o que o sujeito faz é
quando ele sai, ele é considerado como estando num afastamento temporário. Então,
ele continua a ser tratado como membro do partido. Eu, os caras me chamavam de
companheiro 20 anos depois de eu ter saído do partido. E o meu círculo ainda era de
gente do partido. Quando você tinha amizade com algum sujeito da direita era uma
exceção, considerado um sinal do seu espírito democrático. Por exemplo alguns deles
se davam bem com o Carlinhos Brickman, que era assessor do Maluf, e ninguém
desgostava dele porque era o direitista de estimação, algum direitista tem que ter, oh
raios! Mas em geral os outros direitistas eram odiados, tipo Lenilton Pessoa, Gustavo
Corção, eram odiados, mas algum direitista , se tem amizade com um do partido,
pronto, já é aceito como a exceção que confirma a regra.
Como você está num afastamento temporário, a sua atmosfera ideológica ainda é a
mesma. Você logo trata de se enquadrar em algum tipo de corrente política que não
seja diretamente hostil ao partido. Por exemplo, você vira um social-democrata, uma
coisa assim, ou então você pode entrar no tipo da oposição padronizada. Você vira por
exemplo um liberal. Você pode ser um liberal porque os liberais só tem contra os
comunistas um ponto, que é o tal do livre mercado. Mas quem disse que os
comunistas são contra o livre mercado? Por exemplo, o livre comércio internacional.
Karl Marx escreveu páginas e páginas a favor do livre comércio, e dentro da estratégia
mais ampla do partido comunista, o livre mercado é absolutamente necessário durante
muito tempo. Lenin explica que é para você estrangular os capitalistas moendo entre
as pedras da inflação e dos impostos.

Isso não é compatível com a iniciativa privada, pelo contrário, exige que exista uma
iniciativa privada. Fica aquela discussão mais imposto, menos imposto, a inflação está
alta, precisamos diminuir. No Brasil a discussão sobre o controle da inflação durou 60
anos.

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Isso quer dizer que o centro da discussão ele é rebaixado para assuntos
mais imediatos. E a disputa ideológica maior desaparece, por assim dizer, e
essa desaparição dá a impressão de o comunismo não existir mais. Estão
entendendo como funciona isso?

Se a única oposição que tem é de pessoas que pertenceram ao grupo esquerdista, e


agora estão fora com esse afastamento temporário, ou se enquadraram na oposição
padronizada, que é inteiramente controlável, porque o sujeito pode aderir ao livre
mercado, mas ao mesmo tempo continuar apoiando outras propostas da esquerda,
como casamento gay, abortismo, etc, ele pode aceitar o programa cultural da
esquerda ele não está atrapalhado, porque se ele quer o livre mercado, nós até certo
ponto também queremos. A oposição então não é tão grande assim.

Isto não é problema nenhum, aceitar livre mercado nunca foi problema para
os comunistas. Eu mesmo já expliquei em vários artigos que governos comunistas não
tratam de estatizar a economia, mas de estatizar tudo o mais, porque a economia é a
parte mais volátil da vida social. É só você acompanhar a bolsa de valores, e você vê,
tal ação da companhia tal aqui em cima, no dia seguinte, puft, caiu! O ranking de um
país estava lá em cima, cai da noite para o dia, depois sobe de novo. Como é que
você vai controlar uma coisa dessas? A economia é incontrolável por natureza.

Mas tem coisas que são controláveis. Por exemplo, a educação estatal.
Os regulamentos da educação tem que ser implantados lá em cima e vão até a última
escolinha da vila nhocunhé está seguindo as mesmas coisas, os mesmo critérios.
Saúde pública, também é tudo uniformizado. As leis penais, tudo isso é uniformizado.
É mais fácil você controlar o resto da sociedade e deixar a economia correndo do jeito
que ela está. Isto aí, Lenin já sabia disso.

Mas se você concentra, se o pessoal liberal faz tanta propaganda do livre mercado, e
faz disso o grande cavalo de batalha que os separa da esquerda, que eles juntam
como livre fascismo, é tudo estatizante do mesmo modo. E não deixam de ter razão,
se você observar bem.

Se o livre mercado é o grande cavalo de batalha, então a discussão se


concentra nisso e o resto todo não tem importância. Convencer um liberal de que
esse negócio de casamento gay é um item fundamental da estratégia esquerdista,
leva anos para perceber, porque isso não tem efeito direto sobre o livre comércio, aliás
pelo contrário, ele facilita a liberdade de mercado porque os gays são um setor
importante do mercado. A primeira página gay da imprensa nacional foi lançada sobre
este pretexto – eles são uma fração importante do mercado, e não podemos desprezá-
lo. Tem toda razão, é verdade.

Se fizesse uma página para os cornudos também seria uma imensa facção
do mercado. Só que ainda não existe orgulho dos cornudos, existe orgulho gay,
mas não orgulho dos cornudos. Tem corno contente mas não orgulhoso. É só por
isso que não tem a página dos cornudos.

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Isso quer dizer que o gaysismo em si não oferece ameaça a economia de mercado.
Ele oferece ameaça sob outros aspectos. A principal ameaça dele é, o ímpeto
regulamentador do estado. Para você “resguardar” os direitos da comunidade gay,
você tem que fazer um monte de regulamentos que diminui a liberdade de todo o
resto. E isto é evidentemente uma delícia, porque é uma reinvindicação de um grupo
pequeno que dá ao governo instrumentos para ele controlar todo o resto. Você veja
que nos EUA tem projeto de lei que proíbe a qualquer empresa recusar qualquer tipo
de serviços a comunidade gay, sob alegação religiosa – não, não posso fazer isso
porque viola minhas convicções. Por exemplo, você tem uma empresa que faz
festinha, você não pode dizer que não vai fazer festinha gay porque contraria minha
religião, sou católico, protestante, etc. Você não vai mais poder fazer isso. Você vai
forçar todo mundo a contrariar seus princípios religiosos para servir àquela pequena
comunidade. Que na verdade não passa de 2 a 3 % da população, nunca passou,
mesmo hoje.

Mas se você perguntar para as pessoas aqui nos EUA, a maioria está convencida que
20% é gay. Não sei de onde tiraram 20%. Então, isso quer dizer que esse negócio
gaysista é apoiado pelas facções esquerdistas por essa razão, não porque os
esquerdistas morram de amores pelo gaysismo, nunca foi assim. Ao contrário, onde
quer que tenha um governo comunista os gays são perseguidos. Em Cuba, eles são
jogados em uma sessão que só tem aidético para morrer lá dentro. Não vamos nem
falar dos islâmicos que matam essa gente a 3x2. Com o apoio da esquerda ocidental
inteira.

O gaysismo é útil para esquerda por causa disso, é um instrumento para a geração de
controles estatais invasivos. Mas não vai tocar na economia, o liberal diz, ah , tá tudo
bem, se tem livre mercado. Chega a um ponto onde você só tem a liberdade
econômica. E na China é assim, você só tem a liberdade econômica, mas só tem
essa, mas não tem mais nenhuma.

Então, quem pensa que o comunismo tem algo a ver com controle estatal
da economia, está muito enganado. Controle estatal da economia é um ideal ,
uma cenoura de burro, que você coloca na frente para neguim ir atrás, mas que
nunca vai se realizar, porque é uma coisa autocontraditória, é impossível, como
já demonstrou Mises em 1923. Se não vai acontecer, é o mesmo raciocínio que
eu fazia quando era pequeno: eu não gostava de história de super-herói,
fantasma, lobisomen, não , isso aí não vai acontecer, mas história de guerra, isso aí
pode acontecer, de polícia pode acontecer. Então porque vou me preocupar com
essa bobagem? Com a bolha assassina agora? O Gugu tinha o mesmo instinto
– separar os super-heróis possíveis dos impossíveis, na verdade todos
são impossíveis....

Então, este pendor liberal pelo livre mercado faz com que eles acreditem
numa espécie de condicionamento econômico da política e da cultura. Se
houver liberdade de mercado, haverá todas as outras liberdades. Não, é uma
condição necessária mas não suficiente.

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Sem liberdade de mercado não dá para existir as outras liberdades, mas ela
não produz as outras liberdades, ao contrário, pode servir de instrumento
para liquidação das outras liberdades.

Então, graças a tudo isso a visão que nós temos do cenário até aqui, mesmo
a população mais “culta” do cenário internacional é absolutamente provinciana, é um
recortezinho deste tamanho, onde todos os fatores importantes são desconhecidos.

A aula anterior que eu dei, para dar uma dimensão do movimento comunista que as
pessoas desconhecem no Brasil, já dá um sinal disso aí. No caso, a visão que nós
temos da história brasileira, essa coisa da intervenção americana, ora, procure no
Mauro Abranches – veja, o site dele foi retirado da Wikipedia, o verbete sobre ações
da KGB no Brasil foi retirado. A Wikipedia está totalmente sob controle dessa gente –
porque eles são diretores da wikipedia? Não, porque a wikipedia ela é editada por
gente fora. É só você organizar um grupo de editores, e você está constantemente
fiscalizando e mudando a redação das coisas conforme interesse a esse grupo. Basta
você ter um grupo militante, e o grupo militante controla a wikipedia 100%. E esse
grupo existe mesmo, hoje em dia até oficialmente – para que existe o MAV?

Em fev de 1964 foi montado uma operação de desinformação na KGB, e isso


foi retirado dos documentos da STB, do serviço secreto checo, com o objetivo
de convencer a opinião pública de que com a morte de Kennedy nos EUA, os
EUA tenderiam a adotar uma política externa agressiva na América Latina. E que
tal política resultaria em uma maior intervencionismo político, econômico e militar na
região. Note bem, o que aconteceu foi exatamente o contrário. A partir do governo
militar no Brasil, a intervenção americana no Brasil foi diminuindo, diminuindo, até se
reduzir a zero. Claro, que a intervenção das empresas que querem vender seus
produtos no Brasil continua havendo, sobretudo no próprio mercado de show
business, discos, etc, mas a atuação do governo americano é nula, você não tem
sequer o que se chama diplomacia pública, que é quando você tem alguém falando
mal do país ir lá e rebater – hoje você não tem nem isso. Você pode dizer o que quiser
dos EUA, o embaixador não vai dar uma palavra.

Mesmo porque os embaixadores, já trocados pelo sr Obama, já são todos favoráveis


ao lado de lá.

E que tal política econômica resultaria em maior intervencionismo do


governo americano na região. Essa foi a operação Touro, conhecida também
como operação Thomas Mann, numa alusão ao assistente secretário dos EUA,
Thomas Mann, escolhido pelos agentes de informação para ser acusado de ser o
autor dessa política. A operação Thomas Mann consistiu em implantar
informações falsas na mídia latino americana dando a entender que tais informações
partiam de órgãos oficiais dos EUA. As principais falsificações postas em
circulação foram: 1- um comunicado de imprensa com carimbo oficial da agência
de informações dos EUA no RJ, revelando a política imperialista concebida
por Thomas Eimar; 2- panfletos de um fictício comitê para a luta contra o imperialismo
ianque, e que denunciava a presença de agentes da CIA e do FBI no