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PREEACIO A EDIGAO INGLESA Como-vegrre com freqiiéncia, esta pesquisa também surgiu por acaso) Passei parte do verdo de 1962 em Udine. © Arquivo da Ciiria Episcopal daquela cidade preserva um acervo de documentos inquisitoriais extremamente rico e, Aquela época, ainda inexplorado. Pesquisei os jul- gamentos de uma estranha seita de Friuli, cujos membros os juizes identificaram como bruxas.e-curandeiros. Mais tarde escrevi um livro sobre eles (I benandanti: Stregone- ria e culti agrari tra Cinguecento e Seicento), publicado em 1966 e reimpresso em Turim, em 1979. Ao folhear um dos volumes manuscritos dos julgamentos, deparei-me com uma sentenga extremamente longa. Uma das acusagées fe tas a um réu era a de que cle sustentava que © mundo ti nha sua origem na putrefacio. Essa frase atraiu minha curiosidade no mesmo-instante, mas eu estava A procura de outras coisas: bruxas, curandeiros, benandanti, Anotei © mimero do processo. Nos anos que se seguiram aquela ul anotagio ressaltava periodicamente de meus papéis e se fazia presente em minha meméria, Em 1970 resolvi ten- tar entender 0 que aquela declaracéo poderia ter signifi- cado para a pessoa que a formulara. Durante esse tempo todo a iinica coisa que sabia a-seu-respeito era o nome: Domenico Scandella, dito Menocchio. Este livro narra sua histéria, Gragas a uma farta do- cumentagio, temos condigées de saber quais eram suas leituras © discusses, pensamento e sentimentos: temo- res, esperancas, ironias, raivas, desesperos. De vez em quando as fontes, tio-diretas;-o-trazem-muito perto de nés: é um homem como nés, é um de nés. ‘Mas é também um homenr muito diferente de nés. ‘A reconstrugao analitica dessa diferenga tornou-se neces séria, a fim de podermos reconstruir a fisionomia) parcial ‘mente obscurecida, de sua cultura e contexto social noqual la se moldou. Foi poss{vel rastrear-o-complicado relacio- namento de Menocchio com a mais precisamente, alguns dos yeomo os leu. Emergiu assim um filtro, um crivo que Me- o© nocehio interpos conscientemente entre ele 0s textos, obscuros ou ilustres, que Ihe cafram nas miios. Esse ctivo, pot outro lado, pressupunha uma cultura oral que era pa-|) triménio nao apenas de Menocchio; mas também de um vasto segmento da sociedade do século xvi. Em conse- giiéncia uma investigacdo que, no infcio, girva em torno de nn sobretudo de um individuo aparente- mente fora-do-comum, acabou desembocando numa hij tese geral sobre a cultura popular — e, mais precisaffien- --SObFEW Cultura camponesa — da Europa pré-industrial, numa era marcada pela difusdo da imprensa e a Reforma Protestante, bem como pela represso a esta tiltima nos paises catdlicos. Pode-se ligar essa hipdtese aquilo que jé eee 12 ( foi proposto, em tetmos semelhantes, por Mikhail Balkh= tin, e que é possfvel resumir no termo ‘‘circularidade’ entre a cultura das classes dominantes ¢ a das classe: balternas existiu, na Europa préindustrial, um relacio- namento circular feito de influéncias reciprocas, que se movia de baixo para cima, bem como de cima para baixo (cxatamente 0 oposto, portanto, do “‘conceito de absoluta autonomia e continuidade da cultura camponesa” que me foi atribuido por certo eritico). O Queijo ¢ os Vermes pretende ser uma histéria, scrito histérico. Dirige-se, portanto, ao | ore bem como um escti “tor comum, benrcomo ao especialista. Provavelmente ape- nas 0 tiltimo ler as notas, que coloquei de propésito no fim de livro, sem referéncias numéricas, para nfo atravan! car a narrativa. Espero, porém, que ambos reconhegam nesse episédio um fragmerito despercebido, porém extra- ordi da tealidade, em parte obliterado, e que coloca implicitamente uma série de indagagdes para nossa pré- pria cultura e para nés. eA e@» fe Po soe PREFACIO A EDIGAO ITALIANA 1 No passado, podiam-se acusar os historiadores de querer conhecer somente as “gestas-dos_teis”. Hoje, é claro, nao € mais assim. Cada vez mais se interessam pelo que seus predecessores haviam ocultado, deixado de lado ou simplesmente ignorado. “Quem construin Tebas das serp-portas??” — perguntava.o “leitor operirio” de Brecht. Ad fonte’ nfo nos contam nada daqueles pede ‘mos, mas a pergunta conserva todo seu peso. 15