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N.

13 NOV 2018

são francisco
o ri o q ue r e s i s t e
g
18
cabeço:
um povoado
que sumiu
na foz

i 4
acesso à água e
ao saneamento

6
velho Chico
pede passagem

24
quatro vezes
Chico

g
12
profissões
ribeirinhas
26 O IBGE de José Arnaldo
e
2 retratos a revista do ibge nov 2018
a
EXPEDIDENTE

Presidente
Retratos volta a circular após uma pausa de quatro meses deter- Roberto Olinto Ramos

minada pela Instrução Normativa nº1/2018, da Secretaria Espe- Diretor-Executivo


Fernando José de Araújo Abrantes
cial de Comunicação da Presidência da República (Secom), que Diretoria de Pesquisas
restringiu a publicação de conteúdos noticiosos pelas instituições Cláudio Crespo

ligadas ao Poder Executivo durante o período eleitoral. Diretoria de Geociências


João Bosco de Azevedo

Em clima de reestreia, resolvemos dedicar uma edição inteira ao Diretoria de Informática


José Sant`Anna Bevilaqua
Rio São Francisco. Quem vê a nascente do Velho Chico no alto Centro de Documentação e
do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais, não Disseminação de Informações
David Wu Tai
imagina que aquele pequeno curso d’água ganha cada vez mais Escola Nacional de Ciências Estatísticas
volume ao longo dos 2.700 quilômetros que percorre até desa- Maysa Sacramento de Magalhães

guar no Oceano Atlântico, na divisa entre Sergipe e Alagoas. UNIDADE RESPONSÁVEL


Coordenação de Comunicação Social
Diana Paula de Souza
Em toda sua extensão, ele banha um total de 507 municípios e
Editor
atravessa a vida de quase 14 milhões de pessoas, de acordo com Marcelo Benedicto
dados do Censo 2010. Algumas dessas pessoas receberam de bra- Editora assistente
Marília Loschi
ços abertos a equipe de reportagem da Retratos, mais precisamente
Editora de arte
os moradores de Propriá, Brejo Grande e Santana do São Francisco Simone Mello

- municípios localizados na foz do São Francisco, em Sergipe. Editora de fotografia


Licia Rubinstein

Nas conversas com pescadores, artesãos, agricultores e outros Projeto gráfico


Helga Szpiz e Simone Mello
profissionais foi possível ver que os sinais de degradação do rio
Reportagem
editorial

e de seu entorno são fontes de preocupação. Muito já se perdeu, Helena Tallman, Irene Gomes,
Marcelo Benedicto, Marília Loschi
mas o rio sobrevive e sua gente luta por ele. Tradições, belas e Mônica Marli
paisagens e o balanço do barco na travessia, embalado pelas Editoração eletrônica

histórias de amor ao rio contadas pelo barqueiro, foram fontes Licia Rubinstein, Pedro Vidal
e Simone Mello
de inspiração para as reportagens das jornalistas Mônica Marli e Foto da capa
Irene Gomes, e para a fotógrafa Licia Rubinstein. Licia Rubinstein
Fotografia
Vale ainda lembrar que a Retratos nº 13 é a edição comemorativa Licia Rubinstein
Ilustração
do primeiro ano da revista. Fizemos alguns ajustes no projeto Licia Rubinstein e Pedro Vidal
gráfico, como o novo sumário e o desenho desta página que Tratamento de imagens

você está lendo. Também trazemos uma proposta de interseção Licia Rubinstein

de editorias, como na matéria “Quatro vezes Chico”, que integra Logística de distribuição
Helena Pontes
geografia e estatística em uma só pauta. Colaboradores
Unidade Estadual do IBGE/Sergipe
Obrigado pelo apoio e boa leitura! Agência IBGE/Propriá
Revisão de textos
Equipe da redação Marília Loschi
Anúncio
Coordenação de Marketing
Retratos a Revista do IBGE é uma publicação mensal do Instituto para distribuição interna e externa. A publicação não é comercializada.
Todos os direitos são reservados. Caso queira reproduzir as matérias e as imagens desta edição, entre em contato através do nosso e-mail. Impressão
A publicação das informações individuais na Retratos foi autorizada pelos entrevistados. Críticas e sugestões: revistaretratos@ibge.gov.br Alter Gráfika e Editora Eireli-me
Tiragem
30.000 exemplares
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ISSN
Avenida Franklin Roosevelt, 166 sala 900 A - Centro - Rio de Janeiro - RJ 20021-120 2595-0800

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Acesso à água e ao saneamento
A oferta de água e de saneamento básico é essencial à vida das pessoas
e do meio ambiente. Mas a oferta, pura e simples, não é suficiente para
garantir desenvolvimento sustentável. O pesquisador do IBGE Bruno Perez
comenta a necessidade de se combinarem acesso e gestão da água para
garantir a sustentabilidade no uso desse precioso recurso.

texto Revista Retratos  Em meio a agua retirada em relação à água é crescente e tem provocado
Marília Loschi tantos objetivos importantes, que está disponível no ambien- impactos cada vez maiores e
arte e design o que podemos destacar desse te – e a saúde dos ecossistemas isso é uma questão crítica para
  Licia Rubinstein
objetivo? aquáticos. Esses aspectos são o desenvolvimento.
Bruno Perez  O objetivo abor- bastante importantes do ponto
da a questão tanto do acesso de vista da saúde, porque a Retratos  Em termos de indi-
individual à água para consumo gente sabe que a água, quando cadores, o que a gente conside-
humano e ao saneamento no não é gerida de forma segura raria um desafio?
domicílio, como também o para a população, é um vetor de Bruno  Dos onze indicadores,
impacto das atividades huma- doenças, com forte impacto na talvez os mais relevantes sejam o
nas no meio ambiente. Abor- mortalidade infantil. Do ponto de acesso à água pela população
da aspectos como o estresse de vista do meio ambiente, a e o de estresse hídrico. No caso
hídrico – que é a quantidade de pressão da atividade humana brasileiro, talvez o maior desafio

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Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6:
Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável
da água e saneamento para todas e todos

esteja hoje na parte de esgota- que reduzir a defecação a céu tivo 11, sobre cidades, quando
mento sanitário, mais do que na aberto, por exemplo. Acho que se fala de ter uma moradia ade-
oferta da água. O Brasil já tem no Brasil, devido à desigualdade quada na cidade, inclui acesso
uma cobertura do acesso à água regional muito grande, às vezes à água e ao saneamento básico.
bastante elevada, mas isso não essas realidades também se Há uma série de intercessões
significa que nosso problema expressam de forma diferente. com outros objetivos, como o

Marina Cardoso
de acesso está resolvido. Mas Então, quando a gente olha, por de saúde, que é muito impor-
temos mais dificuldade com o exemplo, a questão da defeca- tante, e mesmo o de educação.
esgotamento sanitário. Temos ção a céu aberto, nacionalmente Dentro do ODS de educação
outro desafio: em uma realidade ela não é relevante, fica em tem um indicador de acesso Bruno Perez
é graduado em
como a brasileira, com áreas torno de 3% ou 2%. Não é um a saneamento, nos banheiros
jornalismo pela USP. No
rurais mais isoladas ou menos número muito alto, na popu- das escolas, acesso à agua. São IBGE, é coordenador do
adensadas, não há proposta de lação mundial há países com vários pontos de ligação. ODS 6.
rede de esgoto, ou até mesmo de mais de 50%. Mas, regional-
água. As pessoas terão formas mente, a proporção é elevada. Retratos  Tem alguma coisa
de acesso individual, que podem No Maranhão e no Piauí, cerca que você destacaria nesse ob-
ser inadequadas. Nas pesquisas de 10% da população está nessa jetivo que se relaciona com a
domiciliares do IBGE, a gente situação. Em alguns municípios situação do rio São Francisco?
tenta identificar algumas formas, do interior desses estados, essa Bruno  Na verdade, a relação
mas a quantidade de informa- situação chega a mais da meta- do rio e da transposição se
ções é limitada. E as definições de da população, semelhante ao relaciona com vários indica-
nos indicadores da ONU não que se verifica na Índia. Mas eu dores. Por um lado, o acesso à
batem com as categorias das não apontaria, nesse aspecto, água de algumas populações,
pesquisas domiciliares do IBGE, a cultura. Acredito estar mais que também está ligado à
e isso é um problema. ligado à questão do próprio eficiência do uso da água e ao
desenvolvimento econômico, estresse hídrico. O problema é
Retratos  Vários ODS se ex- da oferta de serviços públicos, que, em algum sentido, às vezes
pressam de formas diferentes são áreas que coincidem com uma medida que você faz para
porque os países têm culturas pobreza extrema. avançar numa direção vai ser
diferentes. Haveria formas refletir negativamente em outra.

i
culturais de lidar com o sane- Retratos  Da mesma forma, É um pouco evidente, pois se
amento que fossem obstácu- quando falamos de água, tam- você aumenta a oferta da água,
los para termos saneamento bém falamos de outros fatores, isso pode se refletir em estresse
adequado no Brasil? como meio ambiente, saúde. hídrico. Para ser sustentável
Bruno  Se você olhar o ODS Como o ODS 6 se relaciona você precisa olhar para todos os
6.2, na mesma meta tem vários com os outros ODS? indicadores; se você escolher só
pontos. Todos os países têm Bruno  Sim, ele se intercala um, ele pode estar melhorando,
que avançar; alguns países terão com outros objetivos. O obje- mas de forma não sustentável.

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retratos 5
velho Chico
pede passagem texto Helena Tallman e Marcelo Benedicto  
fotos Licia Rubinstein  design  Simone Mello

O São Francisco segue seu curso sem vontade de parar,


nem mesmo quando se depara com um obstáculo natural
ou criado pelo homem. O rio tem pressa e muito a fazer,
pois da força de suas águas depende a sobrevivência de
muita gente que mora em seu entorno e muito além dele.

6 retratos a revista do ibge nov 2018


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retratos a revista do ibge 7
d esde a nascente, no alto do
Parque Nacional da Serra da Ca-
nastra, em Minas Gerais, até en-
contrar o Oceano Atlântico, na
divisa de Alagoas com Sergipe, o
Rio São Francisco percorre 2.700
quilômetros levando a água que
dá vida ao Semiárido. Ao longo
atinga (nordeste baiano) e Mata
Atlântica (no Alto São Francisco,
principalmente nas cabeceiras).
A interação do rio com ambien-
tes tão diferentes proporciona
uma rica biodiversidade, cujos
recursos vêm sendo amplamente
explorados pelo homem.
Secas prejudicam vazão
As adversidades climáticas
também dificultam a sobrevi-
vência do rio. A bacia tem um
dos menores níveis precipitação
do país, fato que se agravou e
a colocou em situação crítica
nos últimos anos. Dados do
do percurso, ele ainda atravessa Das águas do rio, pescadores Instituto Nacional de Meteo-
os estados da Bahia, Pernambu- e barqueiros tiram o sustento há rologia (Inmet) revelam que a
co, Goiás e o Distrito Federal, muitas gerações. Às suas mar- distribuição anual das chuvas
perpassando 507 municípios e gens, a agricultura e a pecuária na Região Nordeste apresen-
fazendo a ligação estratégica en- se desenvolvem a passos largos. tou forte queda entre 1990 e
tre as regiões Sudeste e Nordeste A vegetação e os minérios 2017. Com isso, desde meados
do país. extraídos do subsolo também dos anos 1990 o São Francisco
O pequeno curso d’água lá impulsionam a economia local. apresenta vazões anuais abaixo
no alto da serra mineira, cercado No leito do Velho Chico, estão da média histórica.
de montanhas e protegido instaladas as usinas Três Ma- Os impactos da escassez
pelo verde da paisagem, ganha rias, Sobradinho, Paulo Afonso, são visíveis no reservatório de
volume à medida que avança Itaparica e Xingó, que geram Sobradinho, que armazena 60%
em direção ao litoral nordestino energia elétrica para abastecer do volume útil total da bacia
graças à contribuição de mais todo o Nordeste e parte de Mi- do São Francisco. Entre 2014 e
36 rios. É assim que o “Velho nas Gerais. 2016, ele registrou as menores
Chico” e seus afluentes formam Tantas possibilidades de vazões médias anuais desde
a maior bacia hidrográfica aproveitamento dos inúmeros 1931, sendo necessário reduzir
totalmente brasileira, que drena recursos naturais característi- a liberação de água da barra-
uma área de 640 mil quilôme- cos da Bacia do São Francisco gem para garantir o abasteci-
tros quadrados e ocupa 8% do inegavelmente geram riqueza, mento da população – estra-
território nacional. É tanta água mas na mesma medida esses tégia adotada para todos os
Vídeorreportagem junta que, em certos trechos, a usos acarretam graves proble- reservatórios do Velho Chico
As histórias de vista quase não alcança a outra mas ambientais. Desmatamento, (situação inédita até então).
resistência de quem
vive nas margens
margem e um barco parece um degradação do solo, assoreamen- As progressivas reduções de
do Velho Chico ponto perdido na imensidão de to dos leitos dos rios, poluição, vazão dificultam a geração de
estão no vídeo um oceano. escassez hídrica e prejuízos à energia elétrica, pois Sobradinho
disponível em http://
A Bacia Hidrográfica do São pesca e à navegação são algumas é responsável por 58% da energia
agenciadenoticias.ibge.
gov.br Francisco ocupa porções de três das consequências do uso des- consumida na região. Recente-
biomas: Cerrado (de Minas Ge- controlado e pouco sustentável mente, municípios de Alagoas
rais ao oeste e sul da Bahia), Ca- desses recursos. e Sergipe, inclusive a capital

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Aracaju, se viram forçados a São Francisco (CBHSF), ao A Bacia Hidrográfica do
realizar obras emergenciais para agravarem o assoreamento do São Francisco ocupa porções
aprofundar a captação de água leito do curso d’água, também
no curso do rio. prejudicam a navegação. de três biomas: Cerrado
Assim, apesar de as barra- Em relação aos peixes, (de Minas Gerais ao oeste
gens erguidas no São Francisco informações do Centro Nacio-
serem bases para a geração de nal de Pesquisa e Conservação
e sul da Bahia), Caatinga
energia limpa (sem emissão de da Biodiversidade Aquática (nordeste baiano) e Mata
gases poluentes), essas constru- Continental (Cepta) mos- Atlântica (no Alto São
ções alteram o fluxo natural dos tram que oito espécies do rio
rios e a dinâmica da vida aquá- estão ameaçadas de extinção. Francisco, principalmente
tica. De acordo com Anivaldo Um caso emblemático é o do nas cabeceiras).
Miranda, presidente do Comitê peixe conhecido como pirá, de
da Bacia Hidrográfica do Rio grande valor comercial. Antes

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Com a diminuição da vazão, o rio
não tem tanta força para conter a
entrada da água do mar, o que acarreta
mudanças no ecossistema da foz.

abundante em toda a bacia do São Nesse rio, cada vez


Francisco, agora ele só é encontrado tem mais mar
na região de Três Marias (MG). As consequências da degradação do
rio são sentidas com mais intensidade
Velho Chico vira no Baixo São Francisco, que fica na
depósito de resíduos divisa dos estados de Sergipe e Ala-
No entorno do São Francisco, os pro- goas, onde o Velho Chico encontra as
blemas ambientais também são visíveis. águas salgadas do Oceano Atlântico. E
A retirada das matas ciliares, localiza- é justamente nesse encontro que cada
das nas margens do rio, e de trechos da vez mais o São Francisco vem levando
vegetação da Caatinga, do Cerrado e de desvantagem, pois, com a diminuição
florestas é uma das ações humanas que da vazão, o rio não tem mais tanta
mais prejudicam os cursos d’água. força para conter a entrada da água
De acordo com o Plano de Recur- do mar, o que acarreta mudanças no
sos Hídricos da Bacia Hidrográfica do ecossistema da foz.
Foto São Francisco 2016-2025, desenvol- De acordo com Claudio Stenner,
Foz do Rio São vido pelo CBHSF, entre 2002 e 2010, coordenador de Geografia do IBGE,
Francisco, na divisa cerca de 47% da área total da bacia o normal em época de chuva é o
de Sergipe e Alagoas
sofreu com ações de desmatamento rio encher, transbordar e levar uma
voltadas para a produção de carvão grande carga de sedimentos para ser
Saiba mais
vegetal e a abertura de áreas para a depositada na foz – o que contribui
Os livros abaixo, que
agricultura e a pecuária. para a contenção das águas do mar.
serviram de fonte para Um dos impactos negativos da re- Porém, esse regime mudou após a
a reportagem, trazem tirada da mata é a impermeabilização construção das barragens, que passa-
mais informações
do solo que, ao ter sua capacidade de ram a represar grande volume de água
sobre o Velho
Chico. Eles podem infiltração reduzida, prejudica a recar- e de sedimentos. Ainda segundo ele, o
ser acessados na ga dos aquíferos subterrâneos. Outra problema é reforçado pela diminuição
Biblioteca Virtual consequência é a ampliação do proces- das precipitações, acompanhada do
do IBGE (https://
biblioteca.ibge.gov.br/).
so de erosão do solo, cujos sedimentos, maior uso da água do rio.
•Brasil: Uma visão muitas vezes contaminados por agro- Mas, apesar de tudo isso, o Baixo
geográfica e ambiental tóxicos, passam a ser conduzidos em São Francisco tenta sobreviver e manter,
no início do século XXI
(2016)
larga escala para os rios. O lançamento na medida do possível, suas riquezas
•Vetores Estruturantes de esgoto sem tratamento e o despejo naturais, culturais e humanas, como
da Dimensão de resíduos de garimpos, mineradoras mostram as próximas reportagens,
Socioeconômica da
e indústrias em geral (metais pesados) produzidas pela equipe da Retratos que
Bacia Hidrográfica
do Rio São Francisco também são fontes de poluição que foi conferir de perto a grandiosidade do
(2009) afligem o rio. Velho Chico e de sua gente.

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nov 2018 retratos a revista do ibge 11
profissõesribeirinhas Para quem o São Francisco é “tudo”,
os sinais de degradação do rio provocam
tristeza e angústia, mas não em doses
suficientes para deixarem de persistir
na luta pela sobrevivência do Velho
Chico e de suas tradições. Assim são os
trabalhadores do Baixo São Francisco.
texto Mônica Marli 
fotos Licia Rubinstein 
design  Simone Mello

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nov 2018 retratos a revista do ibge 13
u ma foto do rio e os dizeres
“Propriá – Princesinha do Baixo
São Francisco” estampam a
blusa que o professor de história
e morador da cidade ribeirinha
de Propriá (SE), Telmo Carlos
de Oliveira, fez especialmente
para a entrevista com a equipe
da Retratos. Durante a conver-
co é tudo para nós”, declara.
O professor comenta que
a identidade da população
do Baixo São Francisco está
diretamente ligada ao rio. “A
gente não nasceu dentro das
águas do rio, mas nasceu dentro
de todo esse ambiente que o rio
proporciona”, resume. Entre os
economicamente do rio. São
arrozeiros, barqueiros, ceramis-
tas e pescadores, que, além do
amor pelo Velho Chico, têm em
comum a memória e a saudade
dos tempos de fartura do São
Francisco.

Histórias de pescadores
sa, cheia de falas emocionadas exemplos, ele fala da comida à Celestino Lima Silva, tam-
sobre o Velho Chico, o professor base de arroz e peixe, do costu- bém morador de Propriá, não
define a importância do Rio São me de tomar dois a três banhos demonstrou timidez frente às
Francisco para a população que por dia, das danças, das cantigas câmeras e gravadores que esta-
Trabalhadores
vive no entorno de sua foz. e das lendas. vam a postos para a entrevista.
Acima, o rizicultor
Luiz Gonzaga do “Quando eu estudava histó- O rio influencia a cultura, Pelo contrário! Ao acomodar
Nascimento ao lado ria, lá no ensino fundamental, os hábitos, o folclore e também a equipe em cadeiras na porta
do arrozal, de onde tira aprendi que o Nilo dava vida as profissões. Nos dias em que de sua casa, ele fez tudo parecer
seu sustento
ao Egito. E a gente pode dizer a esteve no Baixo São Francisco, um bate-papo entre amigos,
mesma coisa do Baixo São Fran- a equipe da Retratos conhe- uma cena comum das cidades
Ao lado, o pescador
aposentado Celestino cisco: toda essa região só existe ceu histórias de pessoas que do interior do Brasil. E foi nesse
Lima Silva por causa do rio. O São Francis- dependem, ou já dependeram, clima que Celestino falou sobre

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sua história de vida.
Celestino começou a
trabalhar como pescador aos
18 anos, seguindo os passos
do pai. Hoje, aos 65 anos, ele
está aposentado, mas não
tem dúvidas na hora de res-
ponder se sente falta da pro-
fissão. “Saudade do tempo
da pescaria? Claro que tenho,
oxente”, fala prontamente.
O pescador conta que se
aposentou há mais ou menos
cinco anos e que, na época,
vendeu todos os instrumen-
tos de trabalho: rede, motor
e barco. “Eu tinha quatro
meses de um barco novinho”,
relembra saudoso.
Mas Celestino comenta
que, atualmente, a vida de

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Tesouros do rio pescador é muito mais difícil, terrâneo de Celestino mostrou O pescador se preocupa
O peixe, o arroz e devido aos problemas que o Rio à equipe da Retratos a situa- com o futuro dos filhos e dele
o barro são algumas
das riquezas que São Francisco vem passando. “A ção do Baixo São Francisco e próprio também. Seu maior
dependem do gente está pescando praticamen- contou sobre as dificuldades da medo é que o Rio São Francisco
Velho Chico te dentro de um poço, porque profissão. “Dá para arranjar o seque, os peixes se acabem e ele
o rio se acabou. Depois dessa pão de cada dia, mas não está não tenha mais como ganhar
ruma de barragem que existe aí, fácil, não”, ressalta. dinheiro. “Com 49 anos, como
os peixes foram desaparecendo. Nivaldo trabalha como pes- vou arrumar emprego em uma
O pescador que viver da pesca cador artesanal há 20 anos, tem firma?”, pergunta.
passa mal, não passa bem, não. muito orgulho do que faz, mas
Ou ele come o peixe e não vende espera que seus filhos não sigam Adaptação de espaços
ou ele vende e não come. Eu dei o mesmo caminho. “Quero para e culturas
sorte que me aposentei”, afirma. os meus filhos um futuro me- No município de Telha, que faz
Já para José Nivaldo da Sil- lhor que o meu, porque a situa- parte do perímetro irrigado de
va, de 48 anos, o sustento ainda ção do pescador vem piorando. Propriá, o cultivo de arroz é
vem da pesca. Durante uma Do jeito que está aterrado, o rio uma tradição centenária. E, em
carona em seu barco, o con- não tem futuro”, lamenta. uma primeira olhada, a ativi-

16 retratos a revista do ibge nov 2018


“A gente está pescando praticamente dentro de um poço,
porque o rio se acabou. O pescador que viver da pesca passa
mal, não passa bem, não. Ou ele come o peixe e não vende ou
ele vende e não come. Eu dei sorte que me aposentei”
Celestino Lima

dade ainda parece ser forte no as bombas não captam”, explica. Soares, formada por dez irmãos
local. O cenário, às margens do Por não ter outra fonte de que trabalham juntos com
Velho Chico, é composto por renda, o sergipano continua artesanato em cerâmica.
arrozais, máquinas de colheita trabalhando com a plantação de O irmão mais velho, Júlio,
e muitos trabalhadores que arroz. “Antigamente eu planta- de 55 anos, foi o primeiro a en-
passam o dia nessas tarefas. va cinco lotes, hoje só dois. Eu trar para o ofício, seguindo os
Mas, segundo o arrozeiro tive que ceder áreas para outros passos de um tio. Atualmente,
Luiz Gonzaga do Nascimento, amigos, senão eles ficariam sem no ateliê, ele trabalha de frente
de 74 anos, o número de pessoas nada”, comenta. para o rio: “O São Francisco é
vivendo em torno do arroz Mas, devido às dificulda- minha inspiração. É meu pano
era muito maior antes da seca. des de produção e do próprio de fundo, cartão postal”, diz,
“Toda segunda-feira era um ba- mercado, muitos produtores da orgulhoso.
talhão de pessoas que desciam região estão substituindo o cul- Mas Júlio conta que o Rio
para a vargem para trabalhar. tivo de arroz pela piscicultura. São Francisco mudou muito
Hoje em dia não tem quase nin- “Hoje é basicamente o que está desde quando ele começou a
guém, porque também não tem se produzindo, é a principal cul- trabalhar. O artesão acredita
mais trabalho aqui”, ressalta. tura aqui dentro do perímetro”, que a escassez de água ainda
Luiz Gonzaga conta que, afirma o produtor José Haroldo, não afetou a cerâmica. O irmão
mesmo para quem continuou que vem fazendo essa mudança Isaac Soares parece menos
na profissão, a forma de plantar de cultura na sua propriedade. otimista e acredita que, com
arroz mudou com a escassez De acordo com o produ- o São Francisco secando, a
de cheias. “Antigamente, o rio tor, o cultivo de peixe é uma argila também corre perigo. “A
enchia e cobria isso aqui [as cultura que não depende tanto enchente do rio ajudava muito a
várzeas] tudo. Quando o rio do mercado quanto a de arroz. renovar o barro, mas já vai fazer
baixava, a gente ia plantando, no “A piscicultura ajuda a gente, 14 anos que esse rio não enche
dedo. Aí com essas barragens lá porque você pode deixar o de transbordar. O barro é a
para cima, o rio secou e as vár- peixe no viveiro de 30 a 60 dias, matéria-prima da gente. E pode,
zeas não encheram mais. Então e aguardar uma melhora dos sim, um dia esgotar”, afirma.
fizeram canais e botaram bomba preços no mercado. Já com a Quando não estão traba-
para a gente trabalhar, mas não cultura do arroz, você tem que lhando, os Soares gostam de
é a mesma coisa”, fala. colher e se submeter ao merca- passar o dia no rio, tomando
E é nessa nova realidade que do do jeito que tiver, senão você banho, pescando e contem-
também trabalha o rizicultor perde”, explica. plando a paisagem. “Rio é vida”,
Marcelo Novaes. Segundo ele, destaca Júlio. E Isaac completa:
a tecnologia ajuda bastante, Os dez irmãos ceramistas “É muita coisa! Apesar de ele
mas o volume de águas do rio Em Santana do Baixo São estar assim bem fraquinho,
continua sendo fundamental. Francisco, em Sergipe, a equipe temos que dar graças a Deus de
“Quando baixa a vazão da água, da Retratos conheceu a família ele ainda estar aí”.

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cabeço um povoado que sumiu na foz
texto Irene Gomes  fotos Licia Rubinstein  design  Simone Mello

g
18 retratos a revista do ibge nov 2018
S
olitário no meio do mar, inclinado
pela correnteza, o farol do São
Francisco do Norte lembra a
história de um vilarejo que
desapareceu na foz do Velho Chico.
Instalado em 1873, o farol que orientou
embarcações por mais de 120 anos ficava
em terra firme, atrás da igreja do Bom

S
olitário
Jesus, no no meio do
povoado domar, inclinado pela
Cabeço.
“Acorrenteza,
comunidade o farol
tinhadomais
São ou
Francisco
menos do umas
150 Norte lembra
casas”, a história
conta Chico, de um vilarejo
morador que
de Brejo
desapareceu na foz do Velho
Grande, município do lado Chico. Instalado
sergipano da
em 1873, o farolpadaria,
foz. “Tinha que orientou embarcações
tinha escola... De lápor
maispra de cá,
120o anos ficava emtudo
mar derrubou terrasem
firme, atrás da
parar.
igreja do Bom
Acabou Jesus, noacabou
cemitério, povoado do Cabeço.
tudo”, relembra,
e prossegue em tom de brincadeira: “Até
“A comunidade tinha mais ou menos umas
defunto morreu afogado!”
150 casas”, conta Chico, morador de Brejo
A ilha do Cabeço fica bem na foz do rio São
Grande, município do lado sergipano da foz.
Francisco e faz parte do município de Brejo
“Tinha padaria, tinha escola... De lá pra cá, o
Grande. Ali, na região chamada de Baixo
mar derrubou tudo sem parar. Acabou cemitério,
São Francisco, o rio divide os estados de
acabou tudo”, relembra, e prossegue em tom de
Alagoas e Sergipe, e deságua no Atlântico.
brincadeira: “Até defunto morreu afogado!”
Até os anos 1990, a comunidade vivia
A ilha do Cabeço ficadabem
principalmente pesca,na foz
masdotambém
Rio São
Francisco e fazde
do cultivo parte
arroz doemunicípio
de coco. Foide Brejo
nessa
Grande. Ali, na
década, região
após chamada de
a construção da Baixo São
barragem
Francisco,
da Usina o rioHidrelétrica
divide os estados de que
de Xingó, Alagoas
o mare
Sergipe e deságua
invadiu o povoado.no Atlântico. Até os anos
1990, a comunidade
Chico foi o guia que vivianos
principalmente
levou para da
pesca, mas também
conhecer do cultivo
a paisagem de as
da foz, arroz e dedo
ruínas
coco.vilarejo
Foi nessa
e o década,
farol queapós a construção
testemunha da
a época
barragem
em que daoUsina Hidrelétrica
rio vencia o mar. de
ParaXingó, que o
chegar
mar lá,
invadiu o povoado.
pegamos um barco na comunidade de
Saramém e entramos em um dos braços do
delta, para desembarcar com segurança na
outra ponta ilha.

nov 2018 retratos a revista do ibge 19


c hico foi o guia que nos levou
para conhecer a paisagem da
foz, as ruínas do vilarejo e o
farol que testemunha a época
em que o rio vencia o mar. Para
chegar lá, pegamos um barco
na comunidade de Saramém e
entramos em um dos braços do
Conforme avançamos em
direção à foz, a faixa de areia
fica mais extensa e avistamos
algumas lagoas de água salobra.
Atrás das dunas, o farol do São
Francisco do Norte desponta,
dando a ilusão de que ainda se
encontra em terra.
Fotos delta, para desembarcar com
À direita: paisagem do segurança na outra ponta ilha. O MAR AVANÇA
mangue seco à beira
Por dentro do rio, o mangue Mas é só ilusão. O farol está bem
do mar
é verde. A maré estava cheia e no meio do mar, diz-se que a
Abaixo: ruínas da o mar batia forte na pequena aproximadamente 500 metros
comunidade do Cabeço foz que se formava próxima ao da costa. Foi neste ponto da
local onde desembarcamos. De praia, bem em frente ao farol,
O início do Cabeço lá, caminharíamos pela costa na areia entre uma lagoa e o
Há mais de 100 até chegarmos à foz propria- mar, que encontramos a família
anos, o Cabeço se mente dita. do seu Manuel dos Santos. Na
estabeleceu como uma Uma paisagem exótica e barraca de palha onde estavam,
ilha de pescadores.
A Marinha regulava
selvagem nos aguardava do havia isopor com gelo, fogareiro
o desenvolvimento outro lado do mangue, à beira e um poço cavado por eles mes-
local, cedendo terras do Atlântico. Árvores de galhos mos, com menos de um palmo
da fazenda Arambipe.
Cabia à Marinha
secos e suas raízes suspensas de água doce.
controlar o crescimento formavam um labirinto retor- O pescador de 55 anos hoje gente já vai procurando outro
das casas, impedir a cido sobre a areia. Estrondoso, mora em Piaçabuçu, município meio.... e daí por diante”.
entrada de pessoas
o mar subia pelo mangue seco, do lado alagoano da foz. Mas Frequentemente, ele e a
externas e novas
construções. O e o nosso caminho ficou mais seu Manuel também já morou família voltam para passear e
interesse era defender longo: “na maré baixa, a gente no Cabeço e conta que chegou pescar na região. Como um tro-
a costa. Assim, em cruza pela parte de baixo da lá muito pequeno. “Isso aqui féu, ele exibe o peixe gereba de 7
busca de melhores
condições, muitos
praia”, explicou o guia. mudou muito! Eu me lembro quilos que haviam pescado mais
pescadores da Chico conta que aquele de tudo, porque fui criado nes- cedo. “Esse peixe é do mar e é
região foram viver no local, antes, era um manguezal. sa fazenda. A fazenda Aram- do rio”, esclarece. Mas lamenta
Cabeço. No povoado,
havia escolas, igreja,
“Tinha caranguejo, muito maca- bipe era muito grande, ia lá no que a pescaria não é mais como
cemitério, padaria, co, guaxinim, raposa... Aí o mar meio mar. O farol ainda está no antes: “A pescaria tá devagar,
praça, bar, além de derrubou o mangue... O mar foi meio do mar, o resto, acabou devido ao Rio São Francisco
poços artesanais para
chegando e botou água salgada tudo”. Seu Manuel saiu do estar se acabando, secando... isso
o abastecimento de
água, mas não havia onde era água doce. Matou os Cabeço aos 17 anos: “quando tem maltratado muito a gente
energia elétrica. coqueiros, a vegetação”. começa a não dar certo mais, a que véve (sic) da pesca...”

20 retratos a revista do ibge nov 2018


Muitas espécies de peixes água e diminuição da vazão
estão sumindo do rio: “Pilom- do São Francisco, que matou
beta, piau, xirá... hoje não tem os coqueiros e afetou as áreas
mais os peixes de água doce inundáveis onde se cultivava o
que ficavam nos riachos em arroz. Seu Manuel conta tam-
Brejo Grande, em Brejão... Ca- bém que, antes, em Piaçabuçu,
marão de água doce também eles bebiam e usavam a água
sumiu”, explica Chico. “Só tem doce do rio, mas agora preci-
peixe de cativeiro: tilápia, tam- sam comprar água mineral:
baqui. E camarão de viveiro”, “nem água pra tomar banho
complementa seu Manuel. tem, porque a água é salgada.
Também o cultivo de A gente tem que buscar água
arroz e de coco na região foi pelas horas das marés... E já
afetado pela salinização da tem gente até ficando com a

nov 2018 retratos a revista do ibge 21


Troféu
Seu Manuel e a família
exibem o peixe gereba

22 retratos a revista do ibge nov 2018


pressão alta por causa da água sem a vegetação, quando chove, a
salgada”. água escoa e não tem armazena-
mento, o que também causa um
a DINÂMICA DAS ÁGUAs maior assoreamento do rio”.
Saramém
Tanto Seu Manuel como Chico atri- Outro fator é a disputa pelo uso
O vilarejo de Saramém
buem o avanço do mar à constru- da água: o volume de água do rio é também se localiza na
ção das barragens rio acima: “O Rio limitado, e a água do Velho Chico é margem da foz do São
São Francisco tá sofrendo devido às fundamental para o abastecimento, Francisco e faz parte
do município de Brejo
barragens. Isso atrapalhou as águas para a irrigação, para a produção Grande. Foi para lá que
a descerem, não vem mais aquela de energia. “Esse gerenciamento a população do Cabeço
água de Minas, da Serra da Ca- nem sempre é isento de conflito se mudou após a
invasão do povoado
nastra”, explica Chico. “Não temos porque, se eu aumento a produção pelo mar. Atualmente,
mais água de rio devido a essas de energia elétrica, reduzo a água a comunidade conta
barragens aí, né? E a gente continua para irrigação. Se eu seguro a água com 644 moradores,
que vivem basicamente
sofrendo aqui embaixo. Sofrendo na barragem, reduzo a vazão na foz.
da pesca.
bastante”, relata seu Manuel. Se reduzir a vazão da foz, o mar vai
De fato, a construção de barra- entrar mais”, exemplifica Stenner.
gens provoca alterações significativas Acrescente-se a tudo isso a Brejo Grande
na dinâmica natural de rios, de estu- questão do aquecimento global, O município de Brejo
Grande também já foi
ários, da zona costeira e, consequen- que, apesar de não ser consenso,
uma ilha, chamada de
temente, o recuo das margens. pode estar relacionado ao fenôme- Paraúna e habitada por
O coordenador de geografia no, intensificando os ciclos naturais índios Tupinambás. No
do IBGE, Claudio Stenner, expli- de seca e reduzindo o volume de início do século XIX, o
canal que a separava
ca que, ao longo de milhões de água do Rio São Francisco. do continente,
anos, o rio carrega sedimentos em sua margem
do continente e os deposita junto o cabeço e a foz sul, foi aterrado, e
migrantes alagoanos,
à foz, avançando em relação ao Com todos esses fatores acontecen- pernambucanos
mar. Porém, com a construção de do rio acima, o Velho Chico chega e cearenses se
barragens, boa parte dos sedimen- sem força à sua foz e vai perdendo estabeleceram,
fundando o povoado.
tos não chega mais a esse ponto. espaço para as águas salgadas do
Brejo Grande fazia
Dessa forma, reduz-se a capacida- Atlântico. Quando chegamos ao parte de Vila Nova
de do rio de depositar sedimentos, que restou, em terra, do antigo (atual Neópolis), sendo
o que acarreta a erosão da costa. povoado, encontramos o silêncio emancipado em 1926,
com o nome de São
O controle de cheias e vazões das e as ruínas de lares que abrigaram Francisco. Depois,
hidrelétricas também interfere no sonhos de uma vida melhor. Até passou a se chamar
depósito de sedimentos, pois muda hoje, alguns ex-moradores man- Parapitinga, até que,
em 1954, voltou
a sazonalidade natural dos rios. têm o que sobrou de suas casas, a se chamar Brejo
Além disso, Stenner explica que onde passam temporadas de pesca. Grande. Em 2018, sua
o processo estrutural de ocupação Na foz, enquanto esperávamos o população foi estimada
em 8.264 habitantes.
da bacia do São Francisco, tanto barqueiro nos buscar, aflitas pois a
O município ocupava,
urbana quanto agropecuária, vem maré estava secando e corríamos o segundo o IBGE, em
causando degradação e perda de risco de o barco atolar, uma chuva 2010, a penúltima
vegetação natural em muitas áreas. forte chegou do mar. Passageira, posição em termos de
esgotamento sanitário
“Isso leva a uma redução na capaci- como foi o povoado do Cabeço na adequado no estado
dade de recarga de todo o sistema: foz do Velho Chico. de Sergipe.

nov 2018 retratos a revista do ibge 23


quatro Baixo São Francisco

vezes
área
25.523 km2
altitude
480 a 0 m
nº de municípios*

Chico
86
Vegetação predominante
Floresta estacional semidecidual (“mata seca”),
mangue e vegetação litorânea
Principais barragens
hidrelétricas
texto  Marcelo Benedicto  Não tem
design Simone Mello 
ilustração Pedro Vidal
Submédio São Francisco
área
110.446 km2
Os 2.700 km de extensão
elaborado pelo Centro de Documentação e Disseminação de Informações do IBGE
Imagem ilustrativa baseada no mapa População Ribeirinha 2010 - Rio São Francisco,

altitude
do Rio São Francisco são 800 a 200 m
divididos em quatro regiões: nº de municípios*
• Alto São Francisco, da 83
nascente até Pirapora (MG); Vegetação predominante
Caatinga
• Médio São Francisco, entre
Principais barragens hidrelétricas
Pirapora e Remanso (BA); Paulo Afonso I, II, III e IV; Moxotó, Itaparica e Xingó
• Submédio São Francisco, área
402.531 km2
de Remanso até Cachoeira de
altitude
Paulo Afonso (BA); 1.400 a 500 m
• Baixo Rio São Francisco, nº de municípios*
de Paulo Afonso até a foz no 167
Oceano Atlântico (SE). Vegetação predominante
Cerrado, caatinga e pequenas matas de serra
* Alguns municípios estão computados em Principais barragens hidrelétricas
mais de uma região fisiográfica Sobradinho, Pandeiros, Correntina e Rio das Fêmeas

Médio São Francisco


Fonte:
Caderno da Região Hidrográfica do São

g
Francisco / Ministério do Meio Ambiente,
Secretaria de Recursos Hídricos – Brasília:
MMA, 2006

área
100.076 km2

e
altitude
1.600 a 600 m
nº de municípios*
167
Vegetação predominante
Cerrados e fragmentos de florestas
Principais barragens hidrelétricas
Três Marias, Rio das Pedras, Cajuru, Queimados e Paraúna

Alto São Francisco


24 retratos a revista do ibge nov 2018
população número de habitantes  Censo 2010
Alto Médio Submédio Baixo
6.950.834 3.264.465 2.095.217 1.586.553

domicílios ocupados Censo 2010


Alto Médio Submédio Baixo
2.129.655 886.684 556.473 417.660

rede de esgoto (%)  Censo 2010 adequada inadequada


Alto escoadouro ligado à rede geral
Médio ou a fossa séptica 
Submédio outras formas de escoamento
Baixo

abastecimento de água (%)  Censo 2010 adequada inadequada


Alto água proveniente de rede geral
de abastecimento 
Médio
outras formas de abastecimento
Submédio
Baixo

coleta de lixo (%)  Censo 2010 adequada inadequada


Alto lixo coletado diretamente
por serviço de limpeza
Médio
(caminhão de coleta) ou
Submédio indiretamente (caçamba) 
Baixo outro destino do lixo
Fonte:
Grade Estatística 2010: http://mapasinterativos.ibge.gov.br/grade/default.html

nov 2018 retratos a revista do ibge 25


o
IBGE de
José Arnaldo
Em Sergipe, no caminho entre uma
entrevista e outra, a equipe da Retratos
passou por um senhor que, ao ver o
carro do IBGE, abriu um sorriso largo
e acenou. Era José Arnaldo Resende
Nunes, de 92 anos, que chefiou a
agência de Propriá por mais de duas
décadas. O simpático aposentado ficou
muito feliz em contar, para a revista que
afirmou ler e gostar bastante, como era
o IBGE dele.
“Eu entrei no IBGE durante o Censo.
Só não me pergunta qual era, porque
não me lembro mais. Comecei novo e
só parei com 70 anos. Toda vida gostei
de trabalhar.
De segunda a sexta, durante o dia,
eu chefiava a agência de Propriá e,
à noite, meu trabalho era ensinar
estatísticas nesses colégios todinhos
daqui da cidade. Naquela época, era
uma matéria obrigatória.
Aprendi estatística no próprio IBGE,
nos livros que tinham na agência.
Eu gostava muito de ensinar sobre
estatística e sobre o IBGE.
Sempre tive muito orgulho.”

texto  Mônica Marli 


foto  Licia Rubinstein
design  Pedro Vidal

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