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ROSA Vlltl;INIA MAnU~ I SilVA

Coleção Lingua[gem]
I Portuqués ou brasileiro? Um convite à pesquisa, Marcos Bagno
;t. Unguagem & comunicação social- visões da lingu{stica moderna, Manoel Luiz Gonçalves Corrêa
:1. Por uma linguística crítica, Kanavillil Rajagopalan
4. Educação em língua materna - a sociolinqulstica na sala de aula, Stella Maris Bortoni-Ricardo
5 Sistema, mudança e linguagem - um percurso pela história da lingu{stica moderna, Dante Lucchesi
6. '0 português são dois" - novas fronteiras, velhos problemas, Rosa Virgínia Mattos e Silva
7. Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro, Rosa Virgfnia Mattos e Silva
8. A linguística que nos faz falhar - investigação crítica, Kanavillil Rajagopalan, Fábio L. da Silva [orgs.]
9. Do signo ao discurso - introdução à filosofia da linguagem, Inês Lacerda Araújo
10. Ensaios de filosofia da linguística, José Borges Neto
11. Nós cheguemu na escola, e agora? - sociottnqutstica e educação, Stella Maris Bortoni-Ricardo
12. Doa-se lindos filhotes de poodle - variação linguística, mídia e preconceito, M' Marta Pereira Scherre
13. A geopolítica do inglês, Yves Lacoste [org.], Kanavillil Rajagopalan
14. Gêneros - teorias, métodos, debates, J. L. Meurer, Adair Bonini, Désirée Motta-Roth [orgs.]
15. O tempo nos verbos do português - uma introdução a sua interpretação semdntica,
Maria Luiza Monteiro Sales Corôa
16. Considerações sobre a fala e a escrita - fonologia em nova chave, Darcilia Simões
17. Princípios de tinqutstica descritiva, M. A. Perini
18. Por uma Iinguística aplicada indisciplinar, Luiz Paulo da Moita Lopes
19. Fundamentas empíricos para uma teoria da mudança lingu(stica, U. Weinreich, W. Labov, M. I. Herzog
20. Origens do português brasileiro, Anthony Julius Naro, M' Marta Pereira Scherre
21. Introdução à gramaticalização - princípios teóricos & aplicação, Sebastião Carlos Leite Gonçalves,
M' Célia Lima-Hernandes, Vânia Crístina Casseb-Galvão [orgs.]
22. O acento em português - abordagens fonológicas, Gabriel Antunes de Araújo [org.]
ENSAIOS PARA
23. Sociolinguística quantitativa - instrumental de análise, Gregory R. Guy, Ana Maria Stahl ZilIes
~ ~
24. Metáfora, Tony Berber Sardinha
25. Norma culto brasileira - desatando alguns nós, Carlos Alberto Faraco
UMA SOCIO-HISTORIA DO
26. Padrões sociolinguísticos, WilIiam Labov
27.
28.
Gênese dos discursos,
Cenas da enunciação,
Dominique
Dominique
Maingueneau
Maingueneau
PORTUGUÊS BRASILEIRO
29. Estudos de gramática descritiva - as valências verbais, Mário A. Perini
30. Caminhos da Iinguística histórica - "Ouvir o inaudtvet", Rosa Virgfnia Mattos c Silva
31. Limites do discurso - ensaios sobre discurso e sujeito, Sfrio Possenti
32. Questões para analistas do discurso, Sírio Possenti
33. Linguagem & diálogo - as ideias linqulsticas do Círculo de Bakhtin, Carlos Alberto Faraco
34. Nomenclatura Gramatical Brasileira - cinquenta anos depois, Claudio Cezar Henriques
35. Língua na mídia, Sírio Possenti
36. Malcomportadas línguas, Sfrio Possenti
37. Linguagem. Gênero. Sexualidade - clássicos traduzidos, Ana Crislina Ostermann e Beatriz Fontana [orgs.]
38. Em busca de Ferdinand de Saussure, Michel Arrivé
39. A noção de "fórmula" em análise do discurso - quadro teórico e metodolôqico, Alice Krieg-Planque
40. Geolinguística - tradição e modernidade, Suzana Alice Marcelino Cardoso
41. Doze conceitos em análise do discurso, Dominique Maingueneau

~u
42. O discurso pornográfico, Dominique Maingueneau
43. Falando ao pé da letra - a constituição da narrativa e do letramento, Roxane Rojo
44. Nova pragmática - fases e feições de um fazer, Kanavillil Rajagopalan
45. Linguagem - atividade constitutiva - teoria e poesia, Carlos Franchi
46. Lfngua portuguesa - descrição e ensino, Maria Teresa G. Pereira, André C. Valente (orgs.)
I)HO,t'()CmAtl(Ut (A ••A: 11001100'1.1 (oo\lc'llllu
RIVIIAO: 01\1100" I'l'ot'\
ono": M",co. Mdrdonllo
ONlllHO EDITORIAL: And Stahl ZllIes [Unlslnosl
Caríos Alberto Faraco [UFPR]
Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP]
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC,lpol]
Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]
Kanavillil Rajagopalan [Unicamp]
Marcos Bagno [UnB]
Maria Marta Pereira Scherre [UFES]
Rachei Gazolla de Andrade [PUC-SP]
Roxane Rojo (UNICAMP)
Salma Tannus Muchail [PUC-SP]
Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]

A MEUSCOLEGAS do Setor de Língua Portuguesa


do Instituto de Letras da UFBa, desde 1973;
ClP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE AMEUSALUNOSde agora e de outros tempos;
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
principalmente para PEDRO,companheiro, com quem partilho
S583e
Silva, Rosa Virgínia Mattos e questões e questionamentos sobre a língua portuguesa
Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro / Rosa
Virglnia Maltos e Silva.- São Paulo: Parábola Editorial, 2004
e sobre o português brasileiro, há, pelo menos, 40 anos.
- (Lingua[gem]; 7)

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-88456-24-2
in memoriam.·
1. Língua portuguesa - Brasil- História.2.Sociolinguística.I.Título 11.
a SERAFIMDASILVANETO,que, na década de 1950,
Série abriu novos caminhos para a compreensão
04-1725 CDD: 459.798
histórica da "língua portuguesa no Brasil";
CDU:811.134.3·27

a CELSOFERRElRADACUNHA,que planejava,
quando se aposentasse, escrever a história
do "português do Brasil";
Direitos reservados à a FERNANDO TARALLO,que, na década de 1980,
Parábola Editorial
Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga reabriu caminhos para a interpretação
04270-000 São Paulo,SP da sintaxe do "português brasileiro".
pabx: [11] 5061-926215061-80751 fax: [11]2589-9263
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Parábola Editorial Ltda.

ISBN: 978-85-88456-024-2

" edição, 2' reimpressão: setembro de 2011 - conforme o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa

Cldo texto: Rosa Virgínia Maltos e Silva


Clda edição: Parábola Editorial, São Paulo,julho de 2004.
Sumário

NO"A 00 EDITOR..................................................................................................... 9
tJM: PORTUGU~S BRASILEIRO: RAiZES E TRAJETÓRIAS 11
l'ur« a construção de uma história
I. Abertura 11
) 1)0 multilinguismo generalizado ao multilinguismo localizado:
ti emergência de uma língua nacional............................................................. 14
.1 O que não imaginaram os descobridores: a trajetória dizimada indígena 14
.2 O que planejaram os colonizadores: a trajetória dilacerada
arricana 17
.3 A emergência de uma lingua nacional: trajetória convergente 20
O português brasileiro: em busca de seu conhecimento................................ 23

J)OIS: A SÓCIO-HISTÓRIA DO BRASIL E A HETEROGENEIDADE DO PORTUGU~ BRASILEIRO 29


I. O sentido desta reflexão 29
) Sobre a relação entre a sócio-história do Brasil e a heterogeneidade
do português popular brasileiro 31
.1 A contribuição de Serafim da Silva Neto e de Antônio Houaiss 31
.2 Sobre a demografia histórica e a escolarização no Brasil......................... 33
2.2.1 Sobre a complexidade demográfica da história do Brasil e
suas consequências na heterogeneidade do português brasileiro 34
2.2.2 Sobre a pretensa ação homogcneizadora da escolarização.......... 38

TRtS: IDEIAS PARA A HISTÓRIA DO PORTUGU~S BRASILEIRO 43


Fragmentos para uma composição posterior
Preliminares...................................................................................................... 43
I. Sobre o português brasileiro. 45
) Em direção a uma história do português brasileiro....................................... 50
2.1 Reflexões prévias 50
2.2 Algumas ideias para a concretização de uma história do
português brasileiro 54
\. Finalizando 66

QUATRO: DE FONTES SÓCIO-HISTÓRICAS PARA A HISTÓRIA SOCIAL LINGUtSTICA DO


BRASIL: EM BUSCA DE INDíCIOS 69
I. Esclarecimentos preliminares......................................... 69
()h~(·lv;I\.(k •.•~(l11I(, :I dill[\llIinl do 1IIIIItillllglli"'1I10/illullidialctalisll1o
110BI<lsil lolollinl I. . 71
2.1 POIt//f:./U'spopular brasileiro e pOIlIlf:.llrS CII/to brasileiro: do presente
para () passado 71
2.2 O português europeu no Brasil colonial . 73
2.3 Línguas gerais indígenas no Brasil colonial . 76
2.4 O português geral brasileiro no período colonial . 82
3. Situações Iinguageiras favorecedoras da difusão do português geral
brasileiro: uma aproximação à questão linguística dos quilombos . 86
4. Em síntese . 89 Nota do editor
CINCO: A GENERALIZADA DIFUSÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO TERRITÓRIO BRASILEffiO 91
1. Desdobrando epígrafes . 91
2. Algumas questões para a compreensão histórica do português brasileiro 93
3. Africanos e afro-descendentes: os principais difusores do português Os leitores encontrarão nestes Ensaios para uma sócio-história
vernáculo brasileiro . 99
4. Algumas reflexões finais . 106
/0 português brasileiro, de Rosa Virgínia Mattos e Silva, nove.
i nsLigantes estudos sobre a história da formação do português
SEIS: PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUtS BRASILEffiO 109
l. Sobre a "arte de fazer o melhor uso de maus dados" . 109 brasileiro.
2. Alguns comentários sobre três corpora para o Projeto PHPB já públicos . 113 Com a mesma persuasão que já deparamos em "O português
3. Sintetizando, para finalizar . 119
são dois" - novas fronteiras, velhos problemas [São Paulo: Parábola
SETE: FATORES SÓCIO-HISTÓRICOS CONDICIONANTES NA FORMAÇÃO DO PORTUGUtS :;ditorial, 2004], Rosa Virgínia Mattos e Silva conduz o leitor à
BRASILEIRO . 121 consideração dos aspectos sócio-históricos fundamentais para a
I. A questão . 121
2. Fatores sócio-históricos significativos na formação do português brasileiro
compreensão do português brasileiro. Contrapondo-se à vertente
123
A. A demografia histórica do Brasil do século XVI ao XIX . 125 lusitanista dominante em estudos do gênero, ela devolve aos nossos
B. A mobilidade populacional dos africanos e afro-brasileiros no Brasil índios e aos nossos negros seu lugar e sua voz na formação de
colonial e pós-colonial 129 nossa língua. Ao mesmo tempo em que reconhece a importância
C. A escolarização ou sua ausência no Brasil colonial e pós-colonial 130
D. As reconfiguraçôes socioculturais, políticas e linguísticas ao dos estudos feitos pelos autores clássicos, ela aprofunda, como
longo do século XIX . 131 numa viagem ao fundamental da formação do português brasileiro,
3. O propalado conservadorismo da língua portuguesa no Brasil . 133 aspectos inéditos na emergência da língua brasileira.
OITo: O PORTUGUtS BRASILEIRO: SUA FORMAÇÃO NA COMPLEXIDADE MULTILINGUtSTICA O fundamental na formação de nossa língua parece estar
DO BRASIL COLONIAL E PÓS-COLONIAL 139
Para iniciar . 139
historicamente dado no Brasil Colonial, quando ocorre o encon-
1. O português brasileiro e o português europeu contemporâneos: alguns lro/confronto entre o português europeu, as línguas indígenas e
aspectos da diferença . 140 as línguas dos africanos aqui aportados, que virão a ser, com os
1.1 Aspectos [ônicos . 141 afro-descendentes, os principais difusores do português vernáculo
1.2 Aspectos sintáticos 143
1.3 Outros aspectos 146 brasileiro.
2. Condicionamentos sócio-históricos na formação do português brasileiro ... 147 É nesse momento historicamente dado que os ensaios aqui
3. Formulações teóricas para a diferença entre o português brasileiro e o
europeu . 152
publicados detectam as raízes e mapeiam as trajetórias possíveis
4. Para finalizar . 154 para a pesquisa da sócio-história do português brasileiro, tarefa
a que a Autora conclama seus leitores.
NOVE: UMA COMPREENSÃO HISTÓRICA DO PORTUGUts BRASILEffiO: VELHOS PROBLEMAS
REVISITADOS . 155
+++
DEZ: BIBLIOGRAFIA 169
n'-,.--"I'("{\ Il""'l1\""'" "-'''-Il-I-'~n'-'KII\ rnll·rnn,lT'fTT~IUr1\"-n'Tl(n

liusaios para urna sócio-história do , português brasileiro é


resultado de toda uma vida de pesquisa da Autora e fruto, no
essencial, de conferências feitas entre Brasil e Portugal de 1992
a 2001. Ao falar para diferentes públicos, em variadas situações,
Rosa Virgínia Mattos e Silva enfatiza pontos fundamentais para
que a sócio-história do português brasileiro, por ser feita, se faça
UM
de modo consequente com o que a nossa história nos vem levando
a ser. O trabalho de edição procurou respeitar essa ênfase porque,
em função de sua natureza e origem, os textos retomam temas
Português brasileiro: raízes e trajetórias
comuns, mas com nítidas diferenças de abordagem e em graus Para a construção de uma história *
crescentes de aprofundamento. Estes ensaios vão se ampliando em
círculos concêntricos, tornando-se interdisciplinares, incorporando
vozes e, principalmente, deixando clara a complexidade da tarefa
do estabelecimento da sócio-história de nossa língua, que só será
levada a termo se for conjuntamente assumida. Muito já se fez,
I. Abertura
mas, dada a envergadura da tarefa, quase tudo continua por fazer.
O poeta Pessoa nos ensinou que, sem antes sonhar, a obra
O que está em jogo é a diferenciação entre o português bra- 11<\0nasce, Deus (e nós, brasileiros, neste caso) querendo. As re-
sileiro e o português europeu, na complexidade dos contextos de [lcxões que seguem são um convite
interação linguística que lhe deu origem e alimenta seu dinamis- pa ra a construção da história do Lembrando,
mo, na heterogeneidade de suas variantes regionais e sociais e na por-tuguês brasileiro, 'obra que não L. F. Lindley Cintra,
necessidade de reconhecer e compreender, sem nunca negar, o pode deixar de ser coletiva e conjun- Celso F. da Cunha,
encontro histórico entre brancos, índios e negros que constituiu I amente sonhada.
o português que falamos, e mais, o povo que somos. Fernando Tarallo,
Passados quase cinco séculos,
Ada Natal Rodrigues
e-stá ainda por ser reconstruído, com o
(todos contribuíram para
delalhamento possível, o processo do
essa história).
cucontro politicamente assimétrico
entre a língua portuguesa, língua de
dominação, com muitas línguas autóctones e as diversas línguas aqui
chegadas, primeiro as africanas, depois as línguas de imigrantes, que
(ornaram esta área americana, multilíngue de origem, ainda mais
complexa linguisticamente.
É numerosa e bem conhecida a bibliografia que tem tratado
da língua portuguesa no Brasil. Em geral, focaliza o português,

• A primeira versão do texto foi apresentada no Congresso Brasil: raízes e


Irajetórias, na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1992 e publicada sob o
t ulo "Português brasileiro: raízes e trajetórias (para a construção
íí de uma história)"
ln Discursos - Estudos de língua e cultura portuguesa, Lisboa: Universidade Aberta,
lcverciro de 1993, pp. 75-91.
SII~Iuunsplantaçao, difusão e implantação no espaço americano i'. 11;1SI"I sl'glllld<l metade, muitu V()IIIIibuiçào específica tenha
I
tomando apenas como coruraponto as línguas que aqui se usaram sido elaborada sobre aspectos de diversas variantes brasileiras,
(muitas delas ainda se usam) e outras línguas para cá também uuuo nas descrições e interpretações da dialetologia dia tópica e
transplaruadas ao longo dos séculos XVI a XX, denominados os díl sociolinguística diastrática, como mais recentemente também
seus [alantes de aloglotas, isto é, falantes não nativos do português. II:1Sinterpretações gerativistas, ainda está por ser elaborada uma
Nesta perspectiva, apesar de toda a contribuição que dessa rcconstituição que conjugue fatores sócio-históricos, demográficos,
orientação se possa reunir - lembrem-se de Serafim da Silva liugufsticos do passado e do presente que, reunidos, poderão
Neto (1950 e 1960), Sílvio Elia (194011961 e 1979), G. Chaves de vxplicitar e espelhar os processos sócio-históricos e linguísticos
Mclo (1972) -, dilui-se na tentativa de compreender e explicitar que interagiram na constituição do português que falamos. Tal
a diferenciação do português no Brasil em relação ao português intento. talvez utópico, já poderia ser implementado neste início
da Europa a complexidade dos diversos contextos sócio-históricos (Iv século e alguns caminhos foram abertos por Antônio Houaiss
de interação linguística em solo brasileiro que resultou no por- (1985), Alberto Mussa (1991), Fernando Tarallo (1991), além de
l uguês do Brasil, português brasileiro, na heterogeneidade de suas
outros. também pelo Programa para a História da Língua Portu-
variantes regionais e socíaísjambém de suas normas socialmente
~lIesa (PROHPOR) do Departamento de Letras Vernáculas e no
consentidas, além da norma idealizada por filólogos e gramáticos,
Mostrado em Letras da Universidade Federal da Bahia.
coercitivamente veiculada pelas instituições, sobretudo as escolares. /
Aqui procurarei apenas traçar, em pauta sintética, alguns dos
Perseguiu-se o português no Brasil como se fora uma realida-
trajetos de encontros/desencontros linguísticos no Brasil. Terei
de homogeneizável, mesmo reconhecendo-se a variação regional
c orno fio condutor a interação das línguas em contato. Nessa in-
e social, idealizado como dotado de notável, espantosa unidade
«-ração secular, complexa e diversificada, o português, vindo da
que, tirante "algumas insignificantes divergências sintáticas e nu-
meroso vocabulário novo" (Neto, 1960: 25), acrescento eu, algumas Elll"Opa,será um denominador comum, já que lançados ao mar
peculiaridades fonéticas, identificava-se ao português da Europa. os dados (as velas) da história, veio a ser a língua portuguesa, e
Na base de tal ideal, está uma ideologia que busca "enobrecer" e não outra, como poderia ter sido, a língua da sociedade domí-
"desmísticizar" o português brasileiro, o que fica muito explícito nante, que moldou o Brasil mais evidente. Tornou-se majoritária
na formulação de Serafim da Silva Neto: l' oficial neste país multilíngue e multidialetal, mesmo que esse
I1Iultilinguismo/ dialetalismo fique escamoteado na sua legislação
Por causa, precisamente, desta falta de prestígio é que a lingua-
gem adulterada dos negros e índios não se impôs senão transi- máxima - embora a última Constituição demonstre um avanço
toriamente: todos os que puderam adquirir urna cultura escolar político e Iinguístico, já que o português passa a ser rotulado de
e que, por este motivo, possuíam o prestígio da literatura e da I r ngua oficial e não mais nacional; mesmo que fique dissimulado
tradição, reagiram contra ela (Silva Neto, 1960: 21). lias práticas sociais institucionalizadas, sobretudo e ainda as esco-
lares. Torna-se, contudo, esse multilinguismo/dialetalismo evidente
Muitas histórias têm de ser reconstruídas para que se venha
a ter uma história do diversificado português brasileiro, inexo- para quem quiser ver a realidade plurifacetada que recobre os
ravelmente nascido do encontro da "linguagem adulterada de muitos quilômetros de extensão do Brasil e, consequentemente,
negros e índios" e da koine portuguesa, além de outras línguas para quem quiser ouvir as vozes de seus 170 milhões de habitan-
aqui chegadas que, necessariamente, por razões sócio-históricas rcs, sem discriminação.
e linguísticas, entrecruzararn-se e se entrecruzam com o ideal Procurarei, ainda neste texto, de forma sintética também,
redutor e generalizado formulado por Serafim da Silva Neto. a presentar orientações de estudos que vêm retratando a heteroge-
Embora muito se tenha debatido sobre a formação do por- ncidade sincrônica do português brasileiro, fonte essencial porque,
tuguês brasileiro, sobretudo na primeira metade do século XX, vendo-se o presente, se pode presumir entrever o passado.
00 muJtilinguismo generalizado ao multilinguismo entre brancos, negros c índios nao só no litoral brasileiro, mas
localizado: a emergência de uma língua nacional nas entradas pau listas; pelo nordeste leria sido uma língua geral
cariri (Llouaiss, 1985: 49-50) e na Amazônia a língua geral de base
2./ O que não imaginaram os descobridores: a trajetória
tupinambá é o antepassado do nheengatu, que persiste hoje em
dizimada indígena
<Í rca de complexo multilinguismo no rio Negro, língua brasileira,
O escrivão da frota de Cabral, na sua Carta, não poderia supor Iru to vivo da morte de outras línguas.
o que depois se cumpriu no correr do tempo. Explica Pero Vaz
A par desses percursos parcialmente conhecidos e recons-
de Caminha ao rei por que ficariam em terra dois degredados,
truíveis, muitas e diversificadas histórias de contato linguístico
além dos dois grumetes que fugiram da frota que seguiria para
entre línguas indígenas e outras línguas poderão ser recuperadas.
as índias:
Dois exemplos do presente, opostos na sua história, apenas
Mjlhor e mujto milho r enformaçom da terra daram dous homees
para entrever o que terá ocorrido e continua a ocorrer por esses
destes degredados que aaquy leixassem do que eles dariam seos
leuassem por seer jente que njnguem entende nem eles tam cedo brasis, aos poucos, cada vez mais conhecidos:
aprederiam a falar perao sabere tam bem dizer que mujto mjlhor O caso xinguano é exemplar, no bom sentido, talvez único
ho estoutros nom digam quando ca vossa alteza mandar (... ) no Brasil indígena: ali, no Mato Grosso do norte, sobrevivem em
(Pereira, 1964: fi. 6, ls. 24-31).
região de refúgio, o Parque Nacional do Xingu, quinze grupos
Esses quatro primeiros semeadores do português no Brasil indígenas, com suas línguas de origem e, como língua franca, de
aqui ficaram antes para aprenderem "a sua fala" (foI. 11, ls. 26- intercomunicação entre as tribos, afIora o português xinguano, numa
30), a dos índios, e assim convertê-I os e não para ensinar-Ihes das variantes do português brasileiro. Nessa área, configura-se um
português; quanto à terra, não seria ela mais que "pousada pera '~ntinuum linguístico: dos padrões linguísticos nativos (54,8% da
esta navegaçom de Calecut" (foI. 13v, ls. 22-27). população), passa-se à comunicação fatorizada do português de
O seguir da história foi outro e com aqueles quatro que fi- contato (30,5%), à fala pidginizada (8,9%) e chega-se à fala em
caram se inicia a trajetória dizimada dos índios brasileiros e de processo de despidginização (5,7%) (Emmerich, 1991: 70), man-
suas línguas, percurso etnocida e glotocida conhecido, conduzido tendo todos, contudo, e para minha alegria, as suas línguas de
primeiro pelos colonizadores portugueses e prosseguido pelas cha- berço. Essa situação exemplar deveu-se a uma política de contato
madas frentes pioneiras que hoje alcançam os limites últimos da controlado, em que o processo de encontro entre índios e brancos,
Amazônia brasileira. Apesar desses quinhentos anos de destruição iniciado intermitentemente em 1884 e a partir de 1946 em contato
ininterrupta, sobrevivem cerca de 180 línguas indígenas e cerca de permanente, impediu não só a morte dos indivíduos, mas propiciou
220.000 índios - seriam o dobro as línguas do século XVI (Ro- a manutenção de sua cultura e de suas múltiplas línguas.
drigues, 1986: 19) ou, muito mais, cerca de 1.500, como admite
Exemplo de situação oposta é a da área multilíngue do Tocan-
verossímil A. Houaiss (1985: 100) - o que impede de dizer (mas
Uns, sudeste do Pará, onde convivem índios do tronco linguístico
é o que se teima em afirmar!) que o Brasil é unilíngue.
jê (gaviões e xikrin) e seis grupos do tronco linguístico tupi. Pelo
O processo colonizador e evangelizador dos séculos XVI e quadro seguinte (cf. quadro 1), em que estão sequenciados os
XVII teve de utilizar, como instrumento fundamental para a do- grupos indígenas da língua tupi, a partir da maior antiguidade
minação, línguas indígenas brasileiras. Embora homogeneizadora quanto ao contato com a sociedade dominante, pode-se ver a
da atividade catequética - construiu um "tupi jesuítico" -, a perda progressiva das línguas indígenas e o avanço inexorável da
língua geral da costa, de base tupi, chegou a ser um risco para língua portuguesa, a depender do tempo e do tipo de contato. Em
a hegemonia do português no Brasil, juntamente com outras outro trabalho (Mattos e Silva, 2004, pp. 47-62), detalhei mais esse
línguas gerais indígenas que foram veículos de intercomunicação percurso, o que me permite dizer que muito provavelmente cada
~IIIP() iudigcn« em contato lell! (\ SIH\ própria história c vários () qtu: pla ite]« raiu os colou iratlorc«: a / rajetoria
Iarorcs intcragcrn para a perda ou a manutenção de suas línguas, dilacerada afiricCl/w
() que acontece hoje analogamente deve ter ocorrido no passado.
'm 1538, inicia-se o tráfico de africanos para o Brasil. Passadas
QUADRO I- SrrUAçÃO DO CONTATO UNGU[ST1CO DE ALGUNS POVOS TUPJ DO TOCANTlNS cinco décadas, em 1587, Gabriel Soares de Sousa, na sua Notícia do
Brasil ou Tratado descritivo do Brasil, nos deixa um flash do que se-
Povo Início do contato Situação linguístiea
ria a sociedade multiétnica e plurilíngue de Salvador - a época, os
- não se sabe se ainda falam a língua "pretos de Guiné" seriam o dobro dos portugueses e os índios, o tri-
AMANAYÉ século XVIII materna
- falam português plo - ao mostrar como ali se poderiam enfrentar prováveis inimigos:
- apenas os homens mais velhos sabem Assim, pode ser socorrida por mar e por terra, de muita gente
TEMBÉ-TURUWAYA século XVIII a língua materna portuguesa até quantia de dois mil homens, de entre os quais
- falam português
podem sair dez mil escravos de peleja, a saber: quatro mil pre-
- homens de mais de 40 anos ainda tos de Guiné e seis mil índios da terra (...) (Sousa, 1989: 86).
ANAMBÉ meados do ralam a língua materna, de 20 a 30
século XIX ainda a entendem O censo de Anchieta para o Brasil de 1583, contemporâneo,
- falam português portanto, de Gabriel Soares de Sousa, fornece informação seme-
- homens de 30 a 40 anos ainda falam Ihante sobre a pluralidade brasileira de seu tempo. Distinguindo
a língua materna, muitos jovens e Bahia, Pernambuco, São Vicente, Rio de Janeiro, Espírito Santo,
ASSURINI início do crianças s6 falam português
século XX (N.B.: até /962 o grupo Assurini do Porto Seguro, Ilhéus, Itamaracá, indica a existência de 24.750
Pacajá era monolíngue) brancos, 14.100 negros, 18.500 índios (aldeados) (Mussa, 1991:
- todos Calam sua língua
149). Informações históricas desse tipo são preciosas para a re-
- 80% dos homens, 60% das mulheres, constituição histórica do passado linguístico do Brasil - e fontes
SURui década de 1920 todos os adolescentes e crianças
Calam português
'orno essa precisam ser sistematicamente exploradas - já que não
se pode negar que a história das línguas passa necessariamente
- fundamentalmente monolíngues
PARAKANÃ 1971 - jovens do sexo masculino já falam pela história demo gráfica de seus falantes.
português
A. Mussa (1991) recompõe, a partir das fontes disponíveis,
(Dados depreendidos de Ricardo, 1985) a diacronia populacional do Brasil do século XVI ao XIX, como
UITl dos fundamentos para discutir e analisar o papel das línguas
Trazer aqui esses exemplos tem apenas o objetivo de indicar
que, para a história linguística do Brasil e da difusão e implan- africanas na história do português do Brasil (cf. tabela 1). Também
tação da língua portuguesa no Brasil, se faz necessário conhecer reconstitui a distribuição por século do que seria a população de
como se passa o processo de contato sócio-histórico e linguístico falantes das diversas línguas africanas que chegaram ao Brasil (cf.
entre línguas indígenas e língua portuguesa. Há fontes históricas, tabela 2). Os números não dizem tudo, mas acendem algumas lu-
impressas e não impressas, do passado e sincrônicas que permi- zes. É óbvio que aqui não posso explicitar a minuciosa análise do
tem essa reconstrução. Além disso, o estudo das línguas indíge- autor, a quem remeto. Apenas quero notar a crescente presença de
nas vivas e do português falado pelos diversos grupos indígenas negros brasileiros em relação aos africanos, dos mulatos, a partir
permitirá melhor conhecer o português brasileiro próprio a essas do século XVII, também dos brancos brasileiros e o decréscimo
áreas e levantar hipóteses mais consistentes sobre o que poderia de portugueses, africanos e índios.
ter ocorrido no passado. Foi isso que modestamente busquei,
com ajuda de colegas, nos estudos sobre o português kamayurá, Quanto às línguas africanas, retomo as palavras do próprio
um dos grupos do Parque do Xingu (Mattos e Silva et alii, 1988). A. Mussa:
(... ) () pcrccntuul tIL- falantes buuto foi sempre supc r ior; e quase TAlIl-l."
sempre maciçamente, em todo () pcríodb do tráfico. Isso nos pos- - -r- -
XVI XVII XVIII XIX
sibilita entender de forma bastante clara por que são precisamente
os itens lexicais de origem banto os que se registram com mais Oeste atlâruico 20% - 7% 1% 3%
anterioridade, com maior grau de integração morfológica e em mande 20% 7% 1% 3%
maior número de campos semânticos no português do Brasil... kru 14% 5% 1% 3%
a posição relativamente proeminente do grupo benwe-kwa (não gur 1% 3% 8% 9%
banto) nos últimos séculos também implica o grande número bcnue-kwa (não banto) 7% 10% 20% 24%
de itens lexicais emprestados por essas línguas, embora não
banto 35% 65% 64% 50%
integrados e particularmente restritos aos campos semânticos
outros
ligados à atividade ritual (Mussa, 1991: 146). (adamawa-ubanguiano:
dogon: não nigercongo)
Um dos pontos que parece consensual quanto à dívida do
3% 3% 5% 8%
português brasileiro para com as línguas africanas é o que está
explicitado nesta citação. Quanto ao que recobriria esse encontro
Fonte: Mussa, 1991: 145.
de falantes e de seus descendentes, de línguas tão diversas, nenhu-
ma idealização teórica pode alçar-se a querer ser intérprete fiel Situação diversa só parece ter ocorrido já no século XIX,
da realidade passada; sem dúvida, ocorreram "diversas situações quando a importação se massificou "a tal ponto que não houve
sociolinguísticas e variados graus de contacto", como diz Yeda seleção negativa, não só na origem também na destinação nessa
Pessoa de Castro (1980: 13) e o demonstra na sua tese de dou- aitura já consideravelmente urbana - Salvador em particular -
toramento (1976) sobre a integração dos empréstimos africanos. ou das periferias urbanas do país" (ibid.: 78).
Algum consenso existe também quando se afirma que impos- Não é sem razão que desde os inícios deste século os especia-
sível seria ter sido mais praticada uma língua africana no Brasil listas polemizam em torno da questão crucial: as características
do que outra, porque, como bem expressa A. Houaiss: que tipificam a fonética e a sintaxe brasileiras - quanto ao lé-
(...) pelo tipo de escolha a que eram submetidos desde os por- xico que nos legaram essas línguas, não há como negar - serão
tos negros até sua localização como mão de obra no Brasil, os decorrentes de "influências africanas" ou de "evolução natural"?
negros foram selecionados negativamente, a fim de que não se Polêmica que se desencadeou a partir dos trabalhos pioneiros
adensassem em um ponto qualquer, étnica, cultural e linguisti- sobre o tema, de Renato Mendonça e Jacques Raimundo, ambos
camente (Houaiss, 1985: 77-78). de 1933, e que continua a dividir sociolinguistas de nossos dias,
tanto estrangeiros como brasileiros.
TABELA 1 Há ainda muita pesquisa a ser feita não só em documentação
remanescente em arquivos do Brasil, mas sobretudo trabalho de
1538-1600 1601-1700 1701-1800 1801-1850 1851-1890
.ampo em comunidades predominantemente negras por esses in-
africanos 20% 30% 20% 12% 2% teriores brasileiros. Nisso estão empenhados alguns pesquisadores,
negros brasileiros - 20% 21% 19% 13% sobretudo antropólogos, mas também linguistas, brasileiros e es-
mulatos - 10% 19% 34% 42%
. brancos brasileiros - 5% 10%
trangeiros, com pesquisas de campo, pelo menos em Goiás, Mato
17% 24%
europeus 30% 25% 22% 14% 17% rosso, Maranhão, sul e oeste da Bahia, Minas Gerais e São Paulo.
índios integrados 50% 10% 8% 4% 2%
Se é difícil demonstrar que o português brasileiro generica-
Fonte: Mussa, 1991: 163.
mente considerado, ou com base em amostras pouco significati-
vnx parn fim, l'sl" em pt'()l'l'SS() dl' dcscrioulizaçáo, não scra
l'SSl' 111que UIlIa lmgua gera I de base indIgcna ultrapassara de
i 1d'()t'Ilw
impossfvcl cncontrar comunidades rurais isoladas que apresentem muito as reduções jcsuíticas e se estabelecia como língua familiar
v.uiantcs do português que possam ter tido uma história em que tiO Brasil eminentemente rural de então. Pombal define o portu-
us línguas africanas tenham desempenhado papel essenciaL A iuês como língua da colônia, consequentemente obriga o seu uso
ponta do iceberg allorou para os linguistas, na década de 1960, tia documentação oficial e implementa o ensino leigo no Brasil,
no cs ludo da povoação de Helvécia, sul da Bahia (Ferreira, 1984), antes restrito à Companhia de Jesus, que foi expulsa do Brasil.
quando se pesquisavam pontos para O Atlas prévio dos falares
Em rápido olhar à tabela 1, sobre a demografia diacrônica do
baianos (Rossi et alii, 1965).
Brasil, ressalta, a partir do século XVIII, e vale frisar, o descenso
"nquanto os índios ou foram dizimados ou fugiram para dos africanos, incrementa-se o descenso indígena, também o de
as margens geográficas do país, e vêm aflorando, quando menos portugueses, tomando, entretanto, direção inversa o crescimento
se espera, como está ocorrendo em alguns pontos do Nordeste, dos mulatos e dos brancos brasileiros. A miscigenação e a presença
muitos negros, dilacerados à partida e em seguida, acantonados, n50 maciça de portugueses certamente são indicadores favoráveis
quando puderam, em locais de refúgio, ou para sobreviver ou para ~t formação de uma "língua geral brasileira", que não seria africa-
tentar vencer seus opressores: vencidos os quilombos, restaram,
na, pelas razões afloradas anteriormente, mas sim continuadora
certamente. em múltiplos pontos do Brasil grupos que se defen-
do português, já que o terceiro actante nesse drama, os índios,
deram sob a proteção natural (e sobrenatural) e que aos poucos
os que não morreram, ou já estavam integrados ou acoitados nos
se revelam. A grande maioria, contudo, integrou-se, nas cidades
.onfins protegidos. Certamente, então, sobretudo nas concentrações
e nos campos, à sociedade multiétnica brasileira em formação,
urbanas que já existiam, o embate se dava entre duas possibili-
l loje, nas grandes cidades brasileiras, a questão negra está na
dades: um português africanizado ou um português europeizado.
ordem do dia. Não podemos ignorá-Ia. Na minha grande cidade,
Por outro lado, a depender de configurações históricas locais, a
Salvador, a população negra e mulata já beira os 90%: respiramos,
transpiramos, sofremos e nos alegramos na e com a Afro-Bahia. predominância indígena ou negra ou ambas em convívio com
() português resultou em perfis diferenciados, a se considerar o
Há muitas histórias por reconstruir sobre as faces indígena conjunto brasileiro. Pode-se então dizer, como A. Houaiss, que o
e negra do Brasil e, consequentemente, sobre as variantes do "português brasileiro nasce com diversidade" (1985: 91) e, digo
português brasileiro que aí se veicularam e se veiculam. eu, vive e convive com ela, tanto regional como social.
Aos fatores apontados, acresçam-se outros que marcam todo
2.3 A emergência de uma língua nacional: trajetória convergente () século XIX:
A partir da segunda metade do século XVIII, uma série de Uns favoreceram a diversificação regional, como é o caso da
ratores de história externa conduzem à definição do Brasil como .hegada dos imigrantes, vindos de vários pontos e com várias
país majoritariamente de língua nem indígena nem africana. O línguas, localizando-se, sobretudo, do sudeste para o sul, também
multilinguismo menos ou mais generalizado, a depender da con- imigrantes portugueses, não mais colonizadores, que se espalham
juntura histórica local nos séculos anteriores, localiza-se e abre, pelo Brasil ou se localizam em determinadas áreas, como os aço-
ntão, o seu caminho o português brasileiro. rianos que se concentrarão no litoral catarinense.
Em 1757, com o Marquês de Pombal, se define explicitamente Outros fatores favoreceram a implementação de um ideal
para o Brasil uma política linguística e cultural que fez mudar linguístico homogeneízador, tendente para o português europeu.
de rumo a trajetória que poderia ter levado o Brasil a ser uma Em rápida enumeração, não se pode deixar de destacar a presença
nação de língua majoritária indígena, já que os dados históricos da corte portuguesa no Rio (a partir de 1808) e dos muitos por-
tugucscs que COll1 ela abandonaram Portugal e a independência vadas: IlO português hrnxilc iro, a queda do [s I e estigma
subscqucntc que leve a boa intenção de tornar o ensino universal tizada, sobretudo se implica problemas de concordância.
e obrigatório, já na primeira Constituição brasileira, a de 1823,
No conjunto dos dados estudados por Mussa, esse tipo de es-
que, se até hoje não se alcançou, pelo menos então apontou para
'olha não veio a favorecer estritamente nem o português europeu
uma tentativa política de literatar e culturalizar o país. Se se
nem o português africanizado. Não há, portanto, uma "vitória do
comparam os letrados brasileiros do século XVI aos inícios do
português europeu", por sua superioridade cultural, como muitos já
século XIX, que não ultrapassariam 0,5%, cresceram no último
defenderam, nem tampouco há uma "vitória" da influência africana,
século e já alcançavam 20 ou 30% em 1920 (Houaiss, 1985: 137).
como também defenderam outros. Não desconhece, nem descarta
A presença, mesmo rarefeita, da escola e de um, embora fraco
/\. Mussa, como não poderia deixar de ser, que a língua do estrato
e localizável, desenvolvimento cultural letrado fez certamente
dominanle tem um efeito modelador, mas isso, contudo, não foi
entrar em cena um elemento novo, que é a norma linguística
suficiente para dar feição "europeizada" ao português brasileiro.
explicitada e coercitiva, que provavelmente até então só atingia,
se é que atingia, sobrepondo-se às normas sociais consensuais A propósito do "efeito modelado r", cito uma reflexão de meu
dos diversos grupos, uma minoria inexpressiva. O policiamento mestre Nelson Rossi, em artigo de 1980:
gramatical, consequentemente, passou a ser parte das preocupa- É sabido que o normal nas relações de dominação é a coincidên-
ções da chamada elite brasileira, o que persiste, radical, até hoje cia entre a ideologia do dominador e a do dominado, porque o
e entrou como fator sociolinguístico significativo na história do processo de dominação elabora, para legitimar-se, uma ideologia
português brasileiro, sobretudo urbano. sem a qual não teria como sustentar-se e não deixa, enquanto
É certamente no entrecruzar-se de variantes localizadas me- vige, alternativa ao dominado, que, até construir a sua própria,
nos ou mais interferidas por marcas indígenas e/ou africanas, de só dispõe da que lhe é imposta, como (por sinal falacioso) ins-
variantes mais gerais menos ou mais africanizadas ou menos ou trumento da chamada "ascensão social" (Rossi, 1980: 37).
mais aportuguesadas que se definem e emergem os traços carac-
terísticos do português brasileiro, língua nacional.
3. O português brasileiro: em busca
No contexto desse esboço histórico, parece-me correto Alberto
de seu conhecimento
Mussa. A partir da análise de 16 processos fonético-fonológicos
do português brasileiro, confrontados com os mesmos fatos nas Em meados do século XX, Serafim da Silva Neto desfraldou
línguas africanas que aqui chegaram e no português europeu, ele o que ficou conhecido, entre linguistas e filólogos estudiosos do
desenvolve o raciocínio de que há uma consistência no português português, como "cruzada dialetológica" para o conhecimento
brasileiro que, entre as possibilidades de escolha disponíveis na .fetivo da realidade linguística brasileira.
diversidade provável de então, seleciona o menos marcado, linguis- Passadas cinco décadas, não posso deixar de afirmar que essa
ticamente, isto é, o estruturalmente mais simples e o socialmente
cruzada linguística vem ininterruptamente vencendo o "infiel", ou
menos estigmatizado. Por exemplo:
seja, o desconhecimento da língua que usamos na sua diversidade
1. o português europeu do século XVI mantinha ainda a de normas sociais e de normas letradas ou cultas, também na sua
palatal arcaica [ts]: as línguas africanas chegadas ao Bra- estrutura interna ou gramatical, dados esses deste tempo histórico,
sil possuíam [t5] e [5]; o português brasileiro escolhe [5], fundamentais para a compreensão da constituição do português
portanto a articulação mais simples; brasileiro ao longo de sua história.
2. no português europeu, [5] não passa a 121 em sílaba final Serafim da Silva Neto se voltava, explicitamente, para o que
átona; as línguas africanas em causa não têm sílabas tra- .ra a forma de abordar a realidade linguística na linguística de
t. t I~:jl\ll"j I',\K\ li rrnil:fl

cnlao. Planejou O Atlas linguistico do Brasil, que não roi realizado, Com busc IlOS <lSI)L~t:I()S rclctidox nutcriormcntc, pretende se
mas continua no horizonte de alguns, embora poucos, dialetólo- demonstrar que nào há coincidência de áreas, não há uma dis-
gos. No entanto, apesar das dificuldades materiais e também do tinção homogênea dos fenômenos pejas áreas e ainda que, do
percurso dos estudos linguísticos posteriores no exterior e por ponto de vista sincrônico, não existem evidências inequívocas
via de consequência no Brasil, entre o plano de Serafim da Silva que expliquem a ocorrência das variantes (Callou, 1992: 4).
Neto e hoje já se dispõe do APFB (1963), do ALMG (1972), do A síntese dos seus dados está representada na Tabela 3:
ALP (1985) e do ALS (1987) e outros estão em elaboração. Al-
guma coisa já se pode dizer, com precisão, sobre a diversidade TABELA 3
diatópica do português brasileiro. Alguns, embora raros, trabalhos 1 2 3 4
de síntese já estão publicados. Lembro, por exemplo, o artigo de pretônicas abertas -[ fricativa posterior art +NP padrão descendente
Suzana Cardoso, de 1986, em que, a partir dos dados do APFB RE - 97% 18% 5%
e do ALMG, busca confirmar e consegue o traçado da linha iso- SSA 60% 99% 21% 31%
glóssica que delimita a fronteira sudeste, em direção ao centro, do RJ 5% 94% 49% 3%
predomínio das pretônicas médias abertas no português brasileiro. SP - 1% 71% 18%
POA 0% 4% 63% 0%
Em outro trabalho (1992), a mesma dialetóloga, com base nos
dados do APFB, ALMG, ALS e ALP, delimita a área dialetal das
Desses dados, anote-se, primeiro, que para 1 não há análise
chamadas "africadas baianas" (j.otsu], [bis .kotsuj), traço regional
ainda para Recife e São Paulo, mas é marcante a diferença que
localizado, cujos limites, a partir dos dados disponíveis, podem
põe Salvador ao Rio de Janeiro e sobretudo a Porto Alegre. Con-
ser assim traçados:
frontando os outros dados, percebe-se o que afirma a autora na
a africada palatal surda, registrada nos casos do decurso it no citação acima. Pode-se, contudo, observar que, de um modo geral,
padrão geral da língua, tem um percurso definido entre o nor- para 2, 3 e 4, Recife e Salvador se opõem a São Paulo e Porto
te de Minas Gerais, passando pela Bahia e atingindo Sergipe Alegre; por outro lado, o Rio em 2 se reúne a Recife e Salvador,
(Cardoso, 1992: 2). mas em 3 e 4 está mais de acordo com as capitais do sul.
Duas décadas depois de iniciados os estudos de campo da A exploração sistemática do que o Projeto NURCpode fornecer
dialetologia diatópica, linguistas brasileiros iniciaram o projeto em função de uma definição das ditas normas cultas do Brasil
coordenado de estudo das normas urbanas cultas brasileiras será de extrema significação para o conhecimento efetivo de va-
(NURC). Sobre a documentação gravada, muitos trabalhos têm riantes diatópicas dos estratos letrados do Brasil e será também
sido feitos e já em curso, com publicações também, o Projeto certamente um instrumental indispensável para o embasamento
da Gramática do Português Falado, coordenado por Ataliba de do ensino gramatical na escola brasileira, que convive ou com a
Castilho (1990, 1991). irrealidade da idealização gramatical tradicional, ou, sem rumo,
os professores que não têm uma formação adequada - o que
Em comunicação à ABRALIN,Dinah Callou (1992) associou
é o mais geral por razões sociopolíticas conhecidas - não têm
aos dados de caráter sociolinguístico do NURC o método da geolin-
suporte para rever pela base o ensino do português brasileiro,
guística. A partir dos indicadores: pretônicas abertas; -r implosivo
língua materna da grande maioria dos estudantes.
articulado como fricativa posterior; nome próprio precedido de
artigo; padrão entonacional descendente nas construções de tópi- O avanço dos estudos sociolinguísticos no Brasil nesses últi-
co, reuniu dados intercomparáveis e quantificados que permitem mos anos tem sido fundamental para que se comece a entrever
indicar a realização dominante em cada uma das cinco cidades e explicitar com mais exatidão um aspecto da heterogeneidade
documentadas (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto linguística do Brasil, a sua complexa variação diastrática, que é o
Alegre). Diz a autora: resultado de múltiplas formas de interação social e consequente-
mente Iinguíslica do Brasil. Áreas brasileiras são privilegiadas por tul rOI Ill~\ que 1':\1<1 l'1l'S 11.10 11", pOII<lIl\o, processo ele mudança
essa vertente de estudos da língua em liso: a mais antiga é sem em <:l1I'SO (Naro l' Schcrrc, 1991: 9).
dúvida o Rio de Janeiro, graças à presença de um grande grupo
, concluem, para completar a complexidade do problema, pelo
de sociolinguistas iniciados por Anthony Naro. Tais estudos têm
menos, considero, na rede social dos centros urbanos brasileiros:
se multiplicado em outros centros universitários, sobressaindo-se
Campinas, as universidades do extremo-sul, mais recentemente Para algumas pessoas, o mercado de trabalho pode ter efeito [na
Brasília, que tem se concentrado em um aspecto fundamental da aquisição da regra de concordância], enquanto o sistema escolar
interação linguística no Brasil, ou seja, a relação periferia das gran- pode influenciar outros. Finalmente, podemos reafirmar que os
des cidades com o seu centro. No seu conjunto, a sociolinguística fluxos e contrafluxos só parecem emergir em agrupamentos de
brasileira já forneceu muitíssimos elementos para o conhecimento indivíduos de forma não convencional (Naro e Scherre, 1991:15).
do português brasileiro, pelo menos em alguns pontos do Brasil Querem com isso dizer que a metodologia sociolinguística
e em alguns aspectos de sua estrutura. convencional deve abrir-se a outras variáveis para dar conta,
Tomo aqui como exemplo a questão da concordância verbo- adequadamente, dessa questão.
-nominal e nominal, traço que marca o português brasileiro em Mais recentemente, a convergência da sociolinguística e da
relação ao europeu e que envolve problemas de variação sincrônica teoria sintática chomskyana paramétrica tem aberto o português
e de mudança diacrônica. É esse um ponto que tem ocupado estu- brasileiro para novas interpretações. Um conjunto de fatos sintá-
diosos do português desde, pelo menos, o fim do século passado. ticos inter-relacionáveis pode ser compreendido como indicador
Artigo de Anthony Naro e Marta Scherre (1991), dentre os de uma mudança paramétrica do português brasileiro em relação
pesquisadores, os que têm mais trabalhado sobre o assunto, no ao europeu e não apenas de variação sintática. Sem dúvida, esse
quadro da metodologia laboviana, evidencia a complexidade do caminho de análise da sintaxe, também aberto pela sociolinguística
problema em causa, que a simplicidade de sua formulação corrente brasileira, sobretudo pelo grupo de Campinas, graças a F. Tarallo,
frequentemente recobre: informa-se que há variantes populares, permite ver com mais clareza a sintaxe brasileira.
sobretudo rurais, mas também urbanas sem escolarização, que O artigo de F. Tarallo de 1991 - "Turning Different at the
se apresentam sem concordância. Seriam exemplos de áreas pre- Turn of the Century: 19th Century Brazilian Portuguese", retomado
teritamente "crioulizadas" e que a escolarização reintroduziria a em interpretação gerativa por CharIotte Galves (1992) - apresen-
regra de concordância no português brasileiro, "descrioulizando-o". ta e desenvolve a questão: estariam interligadas, no tempo - e
A citação seguinte dos autores referidos, ao concluir o seu demonstra Tarallo com dados quantificados do século XVIII aos
trabalho, baseado em dados do MOBRAL-Rio e do Censo Socio- nossos dias - as mudanças seguintes:
linguístico do Rio de Janeiro, demonstra, em grupo social bem 1. O rearranjo do sistema pronominal, abrindo caminho para
definido, o que os autores denominam de fluxo e contrafluxo da objetos nulos e mais frequentemente sujeitos lexicais;
comunidade de fala carioca: 2. mudança nas estratégias de relativização como consequên-
A comunidade de fala pode estar caminhando em diversas cia da mudança do sistema pronominal;
direções, no sentido de que alguns grupos de falantes podem 3. reorganização dos padrões de ordem básica para a ordem
estar num processo de aquisição da forma [o caso em foco é a SVO e o estreitamento da adjacência na marcação do caso
aquisição da regra de concordância], enquanto outros estão, ao acusativo;
mesmo tempo, perdendo a forma. Alguns grupos podem estar 4. diretamente ligados às anteriores, os padrões sentenciais
ainda estáveis, mostrando padrões típicos de variação estável de em perguntas diretas e indiretas (1993: 70).
Esse conjunto de "mudanças sintáticas maiores" se define
nos lextos analisados, marcadamenle na passagem do século XIX
para o século XX, o que aponta para sua maior antiguidade na
língua falada e, nas palavras de Tarallo, que aqui também traduzi,
para finalizar:

Os casos sintáticos apresentados devem ser considerados como


evidência quantitativa de que o português brasileiro estava se DOIS
tornando diferente na virada do século. Fica claro, a partir do
quadro traçado neste artigo, que um novo sistema gramatical, A SÓCIO-HISTÓRIA DO BRASIL E A
que se chame de gramática brasileira ou dialeto do português
com sua própria configuração, desde que isso é, estritamente
HETEROGENEIDADE DO PORTUGUÊS
falando, uma questão ideológica, emergiu no século XIX, esta- BRASILEIRO*
belecendo novo padrão bastante diferente e oposto ao português
europeu (Tarallo, 1991: 20).
Torna-se muito interessante conjugar os fatos de história
externa discutidos em 2.3 sobre a emergência de uma "língua 1. O sentido desta reflexão
nacional" e os dados intralinguísticos analisados por Tarallo e seus
Amplia-se na linguística brasileira o interesse pela linguística
orientandos, no período compreendido entre a segunda metade do
histórica na sua acepção mais ampla, a de abarcar não só a "his-
século XVII e a atualidade. É, como sabemos, na conjugação de
tória interna" das línguas, mas também a sua "história externa".
fatores sócio-históricos e intralinguísticos que se pode reconstruir o
Retomando essas designações que nos remetem para o século
percurso histórico de uma língua. Essa vertente da sociolinguística
XIX, quero dizer que, para além das mudanças linguísticas no
histórica conjugada à sintaxe paramétrica diacrônica aponta, sem
interior das estruturas ao longo do tempo, voltam a nos inte-
dúvida, para novos conhecimentos sobre o português brasileiro.
ressar os contextos sociais históricos em que essas mudanças se
Associando as observações e explicitações realizadas - e por processaram e processam.
realizar - sobre o português brasileiro contemporâneo ao estu-
Apresenta-se o momento de começar a reunir e unir estudio-
do das informações que fontes históricas de vários tipos possam
sos da linguística histórica que se interessam por reconstruir o
informar sobre os vários aspectos da diversidade linguística bra-
complexo e ainda superficialmente desvendado percurso da cons-
sileira do passado e do presente, poderemos coletivamente sonhar
tituição do português brasileiro no contexto de várias faces da
e construir no futuro (espero que próximo) uma história, externa
sócio-história linguística do Brasil.
e interna, do português brasileiro.
O interesse que começa a aflorar certamente é desencadeado
pelo crescente conhecimento da realidade linguística brasileira
sincrônica. Conhecimento esse que vem sendo acumulado desde
a segunda metade do século XX, iniciado pelos dialetólogos, a
partir de Antenor Nascentes e da conhecida "cruzada dialetológi-
ca" de Serafim da Silva Neto, seguido por Nelson Rossi e outros,
direcionados para as variedades espaciais do português brasileiro.

* Uma primeira versão está publicada no Boletim ABRALlN. Recife: UFPE, 1995.
Posteriormente pelos sociolinguistas, hoje inteiramente submersos (Olll Elllílio P;\gollo, J)OSeminu: io SObll' "Diversidade c ensino do
na heterogeneidade das variantes sociais ou verticais, tanto nas portuguê» J)O Brasil", realizado em Salvador pelo Grupo de Tra-
variedades cultas como populares do português. Nova cruzada, hnlho de Sociolinguística da ANPOLL, em julho de 1993, quando,
desencadeada primeiro pelos dialetólogos ou interessados pela xubcndo do Projeto de Tânia Lobo no PROHPOR C'Fontes para o
dialetologia que, nas origens, compuseram o conhecido Projeto estudo sócio-histórico do português do Brasil"), informou-nos que
NURC, na década de 1970, e depois pelos sociolinguistas pioneiros também estava envolvido em projeto análogo. O terceiro aconteceu
do Rio de Janeiro, liderados por Anthony Naro.
em uma conversa telefônica com Ataliba de Castilho, quando me
Nesse percurso, a teoria laboviana, que relaciona variação disse que estava elaborando uma nova linha de pesquisa na USP
sincrônica e mudança diacrônica, tanto no "tempo aparente" como sobre a temática da lusitanização de São Paulo.
no "tempo real" das línguas, teve o poder desencadeador de levar
Cumpre ainda destacar que da década de 1980 para cá voltou,
os linguistas/sociolinguistas brasileiros a voltarem seu olhar para o
entre os sociolinguistas, a antiga questão que se centra na dis-
passado, motivados pela realidade presente. Nessa linha, sobretudo
cussão em torno da interpretação do chamado português popular
os sociolinguistas de Campinas, liderados por Fernando Tarallo,
iniciaram e continuam a investir na interpretação diacrônica do brasileiro: se suas características se devem a uma origem "criou-
português brasileiro, na busca do desvelamento de uma "gramática la" e subsequente "descrioulização" ou se se devem à "evolução
brasileira" divergente da "gramática do português europeu". Digo natural", ou seja, "deriva interna". Esse debate do passado e do
"gramática", entre aspas, e não língua, para intencionalmente ex- presente está muito bem sumarizado na dissertação de mestrado
cluir a questão ideológica língua brasileira versus língua portuguesa. de Alberto Mussa (1991), e foi retomado em 1993 por Anthony
Naro e Martha Scherre no artigo "Sobre as origens do português
Chegamos assim, a partir da variação espacial e social sincrô-
popular do Brasil".
nica, a novas preocupações com a "história interna" do português
brasileiro, que para ser interpretada na sua totalidade exige que Será agora o momento de conjugar esforços para reconstruir
melhor e mais detalhadamente se conheça a complexa "história ti sócio-história do português brasileiro. Valerá o desafio: com ele
externa" da sociedade multilíngue do espaço que, a partir do sé- lançaremos sementes, almejo, para futuras pesquisas. A recons-
culo XVI, se denominou Brasil. Irução e construção dessa sócio-história será certamente trabalho

Ouais as minhas pistas para afirmar que um novo interesse de muitos e para muito tempo; os que começam carregarão as
pela sócio-história do português brasileiro começa a afiorar? ilórias e as derrotas dos que abrem ou reabrem caminhos.

Para além do próprio percurso de desenvolvimento dos estu-


dos sobre o português brasileiro, nomeio, por ordem cronológica, 2. Sobre a relação entre a sócio-história do Brasil e
três fatos que historiam por que considero que o interesse pelo
a heterogeneidade do português popular brasileiro
tema volta à cena (volta porque, na primeira metade do século
XX, muitos, não só gramáticos e filólogos, a ele se dedicaram, 2.1 A contribuição de Seraftm da Silva Neto e de Antônio
preocupados com o estatuto do português do Brasil em relação Houaiss
ao português da Europa).
Julgo que ninguém poderá negar que foi Serafim da Silva Neto
O primeiro desses fatos foi também uma surpresa: quando quem de fato investiu nas fontes impressas a ele disponíveis para
em 1991-1992 estruturávamos o PROHPOR, Tânia Lobo definiu reconstruir uma história externa do português do Brasil. Contudo,
que seu grande interesse no conhecimento da história da língua é ele próprio que diz, ao findar a introdução a seu livro de 1950,
portuguesa se orientava para tentar melhor entender a formação Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil, depois de
histórica do português brasileiro; o segundo, devo ao encontro arrolar os resultados a que chegou:
Sabemos que () IlOSSO uubalhinho t' passível de ucresccntos e ale IlI •.lis ou menos Sl'gul"ll dm, V:Illsns ti ivcrsidudcs
d<ls horizoutui»
de correções. O material é imenso, c! dele só pudemos recolher l' vcrt icais aqui havidas (pp. 31 12, grifo» nossos).
parte (1986: 17). Voltando ao "explicar" o português do Brasil, tanto nas suas
Embora não concorde com a visão simplificadora "lusitanófila" modalidades orais quanto nas escritas, afirma Houaiss que teremos
de Serafim da Silva Neto, que ele opõe, sem assim designá-Ia, às de penetrar fundo essa problemática:
teses "indianófilas" e "africanófilas", por ele assim designadas,
Por uma conjunção de métodos que supõe quatro vias pelo menos:
referindo-se a vários autores que, antes dele, se detiveram com
1. a do levantamento exaustivo de depoimentos diretos e indi-
paixão sobre a questão do português brasileiro, não posso deixar
retos sobre todos os processos linguageiros havidos a partir
de assinalar, e há um consenso quanto a isso, que foi Serafim
(e mesmo antes para os indígenas e negros) dos inícios da
da Silva Neto o estudioso da língua portuguesa que procurou ir
colonização, levantamentos já em curso assístemático desde
às fontes sócio-históricas do passado para uma reconstrução do
os historiadores dos meados do século XIX para cá;
percurso histórico da "língua portuguesa no Brasil". É verdade
2. o mapeamento confiável da dialetologia brasileira;
que o faz sem sistematicidade e no sentido de defender o que
3. o incremento da dialetologia vertical em tantos quantos
denominou de "vitória" da língua portuguesa, ponto de vista a
que volta várias vezes no seu livro e na síntese sobre o tema, que, possíveis grandes centros e focos rurais antigos, a fim de
em 1960, pouco antes de falecer, apresenta sob o título A língua se ver a influência entre o rural e o urbano na transmissão
portuguesa no Brasil: problemas. adquirida e induzida;
4. a penetração da língua escrita no Brasil, das origens a nossos
Sem dúvida, a autoridade de Serafim da Silva Neto, como dias, não numa leitura estética... mas essencialmente linguís-
o grande especialista da língua portuguesa de então, e as novas
tica (pp. 127-128, grifos meus).
orientações da linguística em direção ao privilégio dos estudos
sincrônicos são fatores que favoreceram o silêncio quase absoluto Se a segunda e terceira vias de Houaiss estão sendo cumpri-
sobre o tema, nos anos que se seguiram. das, a primeira e a quarta ainda precisam de muita investigação.
Sobre elas é que desenvolverei a seguir algumas reflexões.
No rebrilhante e sintético ensaio de 1985, O português no
Brasil, Antônio Houaiss, na sua peculiar erudição, retoma o tema
e o ajusta a uma nova orientação que supera as precedentes orien- 2.2 Sobre a demografia histórica e a escolarização no Brasil
tações "indianófilas", "africanófilas" e "lusitanófilas", enquadrando
o português no Brasil no contexto multilíngue e multidialetal da Esses dois aspectos da sócio-história do Brasil são essenciais, a
sociedade brasileira, desde as suas origens. E-ele que afirma ao 1\m de que se compreenda, explicite e interprete a heterogeneidade
tratar de "como enfrentar" a questão sincrônica e diacrônica do dialetal brasileira, tanto no que se refere à diversidade horizontal
português brasileiro: ~ vertical do chamado português popular brasileiro, quanto ao
Não preenchemos ainda os requisitos da pesquisa e conhecimento designado português brasileiro culto, aparentemente homogê-
com que se possa elaborar uma história da língua portuguesa no neo, mas cuja heterogeneidade vem sendo mostrada nos estudos
Brasil - na dupla face com que se costuma fazer tal história: a .omparados das falas dos informantes das cinco cidades onde se
externa, em que se articulam fatos de ocupação territorial, fatos aplicou o Projeto NURC (Calllou, 1992). Essa heterogeneidade
das sucessivas distribuições demogrâfico-linguisticas dos ocupan-
das variedades popular e culta do português brasileiro tem, sem
tes e fatos das prevalências e desaparecimentos das línguas; e a
interna, em que tomando o fenômeno linguístico do português dúvida, inter-relação com os "fatos das sucessivas distribuições
para cá trazido, se examina a evolução que cada componente demográfico-linguísticas" e com "a penetração da língua escrita
e cada estrutura aqui teve, de modo que haja uma "explicação" no Brasil", para usar as formulações de A. Houaiss.
2.2.1 Sobre a complexidade demo gráfica da história !'AI"'I.i\ I: III'M()(oI{i\IIi\ 111.,IOI{I(i\ uo liRi\SII.
do Brasil e suas consequências na
15.1H 1600 1601 1700 170 I I 800 180 I 1850 1851 18\10
heterogeneidade do português brasileiro
di h dlHt., 20";0 30% 20",;, 12% 2'7n
1II'.'IO"í hn,,,,ik'iro!\
Perpassa todo o ensaio de A. Houaiss uma preocupação 20%} 21%} J9%} 13%}
1IIIIIi,I()~
_ , 10% 60%} J9% 60%} 34% 65%} 42% 57%}
constante com a demografia brasileira ao longo de sua história, IlIdfll"" brasileiros 70% 5% JO% 17% 24%
em relação com as diversificadas situações linguísticas, de região \'tlllJpl'U'" 30% I 25%} 70%22%} 68% 14%} 69% 17%} 59%
f li" i"., in tegrados 50% 10% 30% 8% 32% 4% 31% 2% 41%
para região, e nos diversos momentos da história do português
do Brasil busca ele informar com dados disponíveis, embora não Fonte: A, Mussa, 1991:1 63
(o, pcrccntuais unindo as etnias não brancas e brancas são de minha responsabilidade).
indique suas fontes, a relação entre as configurações demográfico-
-étnicas e consequentes configurações de "situações linguageíras". Um rápido olhar a essa tabela verifica que a taxa de euro-
Esse caminho pioneiro, esboçado com objetividade e clareza nesse peus e brancos brasileiros vai de 30% (séculos XVI à primeira
ensaio geral sobre o português brasileiro no conjunto da luso- metade do século XIX) a 41% (segunda metade do século XIX),
fonia, foi abordado com rigor na dissertação de Alberto Mussa enquanto os tradicionalmente chamados "aloglotas", ou seja, os
(1991), intitulada O papel das línguas africanas na história do outros e seus descendentes, vão de 70% a 69% (até 1850) e só
português do Brasil. na segunda metade do século XIX diminuem para 59%. Isto quer
dizer que em toda a história brasileira a maioria foi não branca,
Embora discorde de A. Mussa, quando ele afirma que "a his- isto é, de língua familiar, na sua origem, não portuguesa (70%
tória das línguas humanas é essencialmente uma história demo- VS. 30%, do século XVI até meados do século XIX e daí, numa
gráfica" (p. 148), considero, contudo, que a história demográfica relação de 59% vs. 41%).
fornece pistas interessantes e significativas para a história das Essa tabela de A. Mussa fornece um perfil demo gráfico geral
línguas, daí julgar o seu trabalho uma contribuição nova para a do Brasil, apontando para a constante não branca em menor
história linguística do Brasil. E reafirmo aqui que não se pode proporção na história brasileira, o que acarreta consequências
compreender a história do português no Brasil sem levar em conta, significativas para melhor compreender a heterogeneidade discutida
do português brasileiro, que só se tornou a língua geral do Brasil
em pé de igualdade linguística e não apenas como contraponto,
a partir da segunda metade do século XVIII, superando por fim a
"os aloglotas", o percurso histórico das populações e suas línguas disputa com a "língua geral da costa do Brasil" de base tupinambá.
que aqui conviveram e convivem com a língua portuguesa.
Para uma visão geral da história demográfico-linguística
Do trabalho de investigação de A. Mussa, quero destacar o do país ao longo de sua história, esses dados são suficientes.
subi tem em que apresenta a sua análise sobre a demografia histó- Contudo, a recuperação da demografia histórica localizada pelos
rica do Brasil (pp.148-165). Com base nas análises de Hasenbalg diversificados espaços geográficos brasileiros ao longo dos cinco
(1979), em Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, e de séculos se faz necessária para dar conta do que Houaiss chamou
de "sucessivas distribuições dernográfico-linguísticas" (1985: 32).
A. Carreira (1981) em Situação das pesquisas acerca do tráfico
em Portugal, no censo de José de Anchieta de 1583, nos censos Como exercício preliminar, trago alguns dados que colhi so-
bre fontes historiográficas primárias, uma do fim do século XVI
de 1850 e de 1890, depois de interpretar os dados disponíveis, A.
e outra do fim do século XVIII, e duas interpretações de histo-
Mussa os esquematiza em um quadro síntese (p. 163), destacando
riadores, fontes históricas secundárias, que indicam, entre muitas
que os seus cálculos são "apenas uma tentativa aproximada de outras informações para a sócio-história linguística do Brasil,
reconstrução", que permite a seguinte configuração demográfica dados populacionais em determinados espaços brasileiros e em
com reflexos evidentes para a sócio-história linguística do Brasil: determinados momentos da nossa história colonial.
Investiguei a Notícia do Brasil ou Tratado descritivo do Brasil si()l\iSlit'<lS, dos hislo: iadorcs
Sl'111() I igol' d<ls (lI11disv,", t iVl\líliu.IS
(1989), de Gabriel Soares de Sousa, concluído em 1587, e as Car- contemporâneos urillzndos, Joaquim Vcríssiruo Serrão para o Rio
tas de Vilhena, escritas entre 1788 e 1789, editadas sob o título !Iv Janeiro no fim do século XVI e João José Reis para a Bahia/
A Bahia no século XVIII (1969). Complementei essa investigação Salvador, no primeiro quarto do século XIX. Contudo, podem
exploratória com os dados de Joaquim Veríssimo Serrão, no livro O '"'Vlvir como indicação do fato de que, explorando-se sistematica-
Rio de Janeiro no século XVI (1965), e no livro de João José Reis, mente as fontes históricas impressas disponíveis e o que escon-
Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1986). dcrn os arquivos brasileiros e estrangeiros, poderemos recompor
tI dcrnografia histórica brasileira, em função da reconstrução dos
Conjugando os dados que permitiam uma avaliação demográ-
cncontros/desencontros de populações portadoras das inúmeras
fica que levasse em conta os grupamentos étnicos conviventes no
11 nguas, cujos falantes conviveram, e convivem ainda em interação,
Brasil dos séculos XVI ao XIX, cheguei ao que a tabela 2 sintetiza:
:10 longo de nossa história.

TABELA 2: DADOS DEMOGRÁFICO-POPULACIONAIS


Essa complexa história de multilinguismo generalizado no
(TOTAIS DE INDIvfDUOS E PERCENTUAIS)
Brasil colonial e, aos poucos, a partir sobretudo da segunda
LOCAL GRUPAMENTOS FIM DO 1798-1799 1835 metade do século XVIII, localizando-se por causa do avanço e
ÉTICOS sÉC. XVI % % (1. REIS 1986: 16)% prestígio da língua hegemônica que se tornou oficial no período
BAHIA brancos 2000 17
(cidade)
18500 28 pornbalino, precisa ser reconstruída em suas múltiplas faces para
índios 6000 --
(GSS 1989: 19) negros 4000 47000
que possamos com rigor interpretar adequadamente a complexi-
} 83 72
BAHIA brancos dade da heterogeneidade espacial e vertical do que se tornou o
(cidade)
(LSV 1969: 55)
índios
negros } 40000
80000
33
67
português brasileiro, tanto na sua variedade popular, como culta
c nas modalidades falada e escrita.
OLINDA brancos 3000 37
(cidade) índios A tabela 2 é apenas um indício para a compreensão da afir-
(GSS 1989: 86) negros } 5000 63 mação, também de A. Houaiss (1985: 91), de que o português
RIO brancos 750 19 brasileiro nasce com diversidade. Se olharmos os dados de fins
(cidade) índios 3000 } 81 do século XVI, de fins do século XVIII e do início do século XIX,
(NS 1965: 180) negros 100
SÃO PAULO
veremos que os chamados "aloglotas" representam uma taxa que
brancos 11093 21
(cidade) índios varia entre 63% e 88% da população, enquanto os de língua ma-
32126} 79
(GSS 1969: 776) negros 8987 terna portuguesa variam entre 12% e 37%.
GOIÁS brancos 8931 12
(cidade) índios Sabe-se que no Brasil se usavam para mais de mil línguas
29622} 88
(LSV 1969: 867) negros 34104 autóctones, de vários grupos linguísticos, no início da colonização.
Cálculo recente leva Aryon Rodrigues (1993: 91) a propor 1.175
Fontes: GSS: Gabriel Soares de Sousa; LSV: Luís dos Santos Vilhena; NS: J. Veríssimo
Serrão; J. Reis: João José dos Reis. línguas, das quais 85% foram dizimadas no período colonial, e
continuam a desaparecer, porque isso aconteceu com seus falan-
Faz-se necessário frisar que esses dados não provêm de fon- tes - dos cinco milhões em 1500, variados cultural e linguisti-
tes análogas: Gabriel Soares de Sousa, considerado o "primeiro camente em mais de 1.500 povos, calculam-se 800.000 indivíduos
historiador do Brasil" (cf. Serrão, 1969: 161), e Luís dos Santos no final da colonização, talvez 300.000 no fim do império, cerca
Vilhena, um português professor de grego na cidade da Bahia no de 262.000 hoje (Gomes, 1993: 63-64), falantes de cerca de 180
último quarto do século XVIII, apresentam informações impres- línguas (Rodrigues 1993: 92).
Sabe-se que, das línguas africanas, aqui chegaram Ialantcs dos Essa posição se IUIl<Ja mel It é.\ lia crença em Iato!' h istórico
grupos linguísticos oeste-atlântico, mande, kru, gru, benue-kwa lingurstico de tipo novo que entra no cenário linguístico brasileiro,
(não banto) e banto, além de outros. Desses grupos, o banto teve sobretudo no século XIX: a norrnativizaçâo linguística explicilada.
ao longo dos quatro séculos de tráfico uma taxa alta constante Livre dessa normativização nos séculos anteriores ao século
(35%, 65%, 64%, 50%), por século, seguidos dos benue-kwa não X IX, a dialetação regional e vertical se definia, concomitantemente
banto (7%, 10%, 20%, 24%); os outros em percentuais por século ao recesso do multilinguismo generalizado e ao correspondente
abaixo de 10%, com exceção dos grupos oeste-atlântico e mande, avanço de um português brasileiro geral e heterogêneo decorrente
20% ambos, no século XVI (dados de A. Mussa, 1991: 144-145). de sua história pregressa.
Sabe-se ainda que, do século XIX em diante, incrementa-se a Esse ideal normativizador foi reforçado pela relusitanização do
emigração, primeiro de portugueses, sobretudo açorianos, depois Rio de Janeiro, com a transferência da capital do reino em 1808,
de europeus da Europa Central e do Leste europeu e de asiáticos, trazendo alguns milhares de portugueses, além dos que, nessa
do oriente médio e do extremo oriente. altura, para o Brasil emigraram. Também pela necessidade social
Para uma compreensão e interpretação efetiva e globalizante de escolarizar o povo brasileiro expressa já em nossa primeira
onstiluição, a de 1824, logo após a Independência, em que se
do português brasileiro, muitas histórias de contato de falantes
cxplicitava a boa intenção de tornar o ensino universal e obriga-
de variadas línguas, tendo como denominador comum a língua
tório no Brasil. Boa intenção que não se fez realidade até hoje.
de base, a portuguesa, porque a língua do poder e do prestígio,
hegemônica a partir da segunda metade do século XVIII, deve- O estudo sistemático e exaustivo sobre a escolarização no
rão ser reconstruídas. Para isso o caminho que se faz evidente Brasil pode ser recuperado das fontes históricas disponíveis: es-
é o de investigar fontes históricas de vária natureza para refazer boçarei apenas um breve quadro.
a história dos "fatos das sucessivas distribuições demográfico- Segundo A. Houaiss (1985: 137), não ultrapassariam 0,5% os
-linguísticas" no espaço e na sociedade e a avaliação da sua sig- letrados no Brasil até o século XVIII, percentual que dá um salto
nificação nos efeitos sobre as variantes do português brasileiro, para o patamar de 20 a 30% em 1920 e que de resto se mantém.
que não poderá ser compreendido e interpretado devidamente sem
Até o estabelecimento da política linguístico-cuItural de Pombal
que se considere o tecido multilíngue do Brasil ao longo de sua
em meados do século XVIII, o agente escolarizador generalizado
história, inclusive a presente, tecido esse que, associado à política
linguística de Pombal e às outras subsequentes, indica por que no Brasil foi a Companhia de Jesus.
a língua portuguesa se tornou essencial como instrumento geral Segundo o depoimento do professor de grego, Luís dos San-
de comunicação linguística no Brasil. Trabalho deste tipo se fa tos Vilhena, na sua Carta VIII sobre a educação na Capitania da
necessário para superar interpretações simplificadoras como a da Bahia, assim se processava o ensino na Companhia de Jesus:
"vitória" da língua portuguesa ou genéricas como a da "descriou- No tempo em que existiam os jesuítas, incumbidos então de
lização" do português popular brasileiro. todas as escolas menores, tanto em Portugal, como por todos
os seus domínios, havia nos gerais do Colégio desta cidade sete
classes em que se instruía a mocidade, não só da capital, como
2.2.2 Sobre a pretensa ação homogeneizadora
de todas as vilas... na primeira das sete mencionadas classes
da escolarização
se ensinava gramática portuguesa, desta passavam os meninos a
Prevalecia nos estudos sobre o "português no Brasil", até aprender na segunda os primeiros rudimentos da língua latina,
meados deste século, o ideal homogeneizador que procurou eno- estudavam sintaxe e sílaba na terceira classe, da qual passavam
brecer e "desmisticizar" o português brasileiro. para a quarta, onde aprendiam a construção da mesma língua,
a retórica, tal qual se ensinava; na sexta filosofia e na sétima () sistcmn educacionnl cresceu, IllllS nuo educa. No \" grau S()
teologia moral (Vilhena, 1969: 273-274). mente 38010 concluem a I"~scric. Menos de 25% chegam ao 2"
grau, apenas 17% o concluem. 10% alcançam as universidades"
E mais adiante: (1\ Tarde, 27 de março de 1990).
No ano de 1709, foi o paternal amor do augustíssimo Sr. Dom Admitindo-se que são letrados todos os que concluem o 1
0

José I servido obviar abusos que nos estudos se haviam inovado uau _ não discutirei aqui a qualidade da escola (cf. Mauos e
por todo o tempo que aqueles religiosos haviam dirigido, extin-
Silva, 2004) - são eles hoje apenas menos de 25% dos que se
guindo também aquele pernicioso método por que se gastava
meia vida de um estudante com o simples estudo da gramática matriculam. porque sabemos do montante dos excluídos que nem
latina (Vilhena, 1969: 275). sequer têm condições de almejar matrícula na escola.

Esse depoimento ilustra o fato de que a língua portuguesa Esses dados históricos esboçados sobre a escolarização no
não era objetivo prioritário no currículo das "escolas menores" Brasil permitem-nos entrever que são as variantes orais dialetais
dos jesuítas. Mais adiante, Vilhena menciona que da reforma espaciais e verticais que dominam o português brasileiro geral. O
decorrente da política de D. José I, portanto, de Pombal, foram ideal normativizador - primeiro lusitanizante, depois em função
criadas "as escolas das primeiras letras". de um padrão culto brasileiro - desencadeado no século XIX não
leve vez de se implantar efetiva e generalizadamente no Brasil,
Em outra Carta, a V, Vilhena dá um flash do iletramento,
restringindo-se apenas a uma minoria economicamente privilegiada
"ignorância crassa" como diz, então generalizado. Falando dos
~a alguns quantos, seres excepcionais, que rompem as limitações
engenhos da Bahia e de seus "mestres de açúcar", diz:
impostas pelo desenvolvimento socioeconômico e cultural perverso
... são uns mulatos ou negros tão estúpidos, que eu não conheci
do Brasil, desde suas origens coloniais.
ainda um que soubesse ler, ou escrever o seu nome, e se algum
branco exercita a arte, nada difere daqueles, quanto à instrução Em decorrência disso, pode-se [alar hoje de uma realidade
(Vilhena, 1969: 189). linguística clivada em que os estudantes dos estratos populares
que chegam hoje à escola têm de tentar aprender a "língua da
Informações desse tipo deverão ser recuperadas nas fontes
escola" como se fosse uma língua segunda, o que configura um
pertinentes, para compor esse aspecto do quadro sócio-histórico
tipo de "diglossia" que separa as ditas variantes cultas, de mino-
brasileiro.
rias, das variantes populares da grande maioria, aspecto esse da
Se até o século XVIII houve apenas 0,5% de letrados, taxa heterogeneidade do português brasileiro que vem sendo estudado
que aumenta para 20% a 30% ao longo do século XIX até 1920, (Kato, 1993: 20, e Corrêa, 1993), analisando-se a [ala e a escrita
os "todos que puderam adquirir uma cultura escolar" e que rea-
de estudantes brasileiros.
giram à "linguagem adulterada dos negros e índios", segundo
Serafim da Silva Neto, foram muito poucos... O português bra- A sócio-história linguística, ou seja, "a história externa" do
sileiro que se constituiu no período colonial e no primeiro século português brasileiro, fundamenta a proposição de que a sua "gra-
de Independência tinha de ser, na sua maciça maioria, adquirido mática" é divergente da "gramática" do português europeu, como
naturalmente, assistematicamente, sem interferência do ensino mostrou F. Tarallo em um de seus últimos trabalhos - "Diagnosti-
escolar, como língua transmitida apenas na oralidade generalizada. cando uma gramática brasileira: o português d'aquérn e d'além-mar
No século XX, o panorama pouco mudou. O percentual rela- ao final do século XIX" (1993: 69-106). Postula Tarallo que estaria
tivo continua semelhante. Veja-se a citação transcrita de Relatório na virada do século XIX para o XX a definição dessa "gramática",
Técnico de 1990, resultante de uma Comissão de alta nomeada como evidenciaram os dados sintéticos da documentação escrita
do Ministério da Educação: sobre que ele e seus orientandos trabalharam. Quero aventar,
.~_ ••.• -_.- --~._-.---.---._._ •.• - •• -..- ••••••• ....- •••.• \óOI-.,- .• u·,., ..•~","I' rT'
A-' ,

para finalizar, que a análise de fontes escritas mais próximas do


português brasileiro falado, que possam' vir a ser utilizadas, tais
como cartas particulares inéditas de brasileiros, caso sejam en-
contradas, anteriores à primeira metade do século XVIII, poderão
fazer recuar a definição dessa "gramática" para antes do momento
proposto, já que sua sócio-história mostra que ele se originou e
se desenvolveu em uma contextualização multilíngue complexa e TR~S
absolutamente livre das peias da normativização, pelo menos até
o início do século XIX, e de efeito precário. Ideias para a história do português
Mas isso já é outra história, "história interna", que já começa
a ser rigorosamente investigada.
brasileiro
Fragmentos para uma composição posterior*

Preliminares
Apus a este texto um subtítulo que não é de modéstia falsa,
"Fragmentos para uma composição posterior", porque o entendo
como um conjunto de proposições tentativas, um limiar, que só
pode ser transformado em construção sólida a partir de uma re-
flexão coletiva coordenada. Por outro lado, reconheço que tenho
orientado, desde que comecei, o meu trabalho sobre a língua por-
tuguesa numa direção de caráter histórico, quer diacrônico, quer
sincrônico. É a orientação que me apaixona, a que me seduziu.
Quanto ao caráter sedutor dos estudos históricos, estou de
pleno acordo com Serafim da Silva Neto, que aqui cito, para
homenageá-l o logo à partida, por ter aberto alguns caminhos para
uma história do português brasileiro na primeira metade do século
XX. Ao finalizar a "Introdução" a seu livro de 1950, Introdução
ao estudo da língua portuguesa no Brasil, diz ele:
Sabemos que nosso trabalhinho é passível de acrescentos e até
de correções. O material é imenso, e dele só pudemos recolher
escassa parte. Temos todavia a ilusão de que, ao tratar do por-
tuguês do Brasil, enveredamos por novos caminhos, procurando
dar outro sentido a esses tão sedutores estudos (l986[ 1950]: 17).

* A primeira versão deste texto está publicada em A. de Castilho (org.), Para


uma história do português brasileiro, vol. 1, Primeiras ldeias, São Paulo: Humanitas,
1998, pp. 21-52.
Considero oportuno o momento de iniciar a pensar e planejar Silvi() Elia, Aryon R()dligllv'-" Nelsoll Rossi; obras til' V,III()S vo.;
conjuntamente a reconstrução e subsequente escrita dos processos pvcialislas na variaçao siucrunir a, quer regional, quer social, do
- linguísticos e socioculturais - que condicionaram a formação português brasileiro, que nào nomearei para não correr o risco de
e elaboração do português brasileiro. Depois do recesso histori- cometer algum lapso. Também, como não poderia deixar de SCI~ em
cista, decorrente da hegemonia do sincrônico contemporâneo na pontos de vista da linguística histórico-diacrônica contemporânea.
linguística brasileira das décadas de 1960 e de 1970, ressurgiu a
Eu me valerei ainda da minha própria reflexão, construída
Fênix nos anos 1980. Tenho usado algumas vezes essa metáfora
durante alguns anos. Sinto, contudo, que devo confessar aos que
de Fernando Tarallo, cuja menção neste momento já é uma ho-
me leem que sempre tive muita cautela para enfrentar a questão
menagem ao instigante filão que abriu para a compreensão do
histórica do português brasileiro, apesar de há muito tempo lidar
português brasileiro na perspectiva da sintaxe diacrônica.
com a história da língua portuguesa, sobretudo no seu primeiro
A volta aos estudos histórico-diacrônicos no Brasil deve-se período documentado, o chamado período arcaico. De fato, en-
não ao reflexo de orientações da linguística estrangeira, no caso, trei na questão do português brasileiro por uma via que não foi
aos desenvolvimentos no Brasil da sociolinguística, sobretudo de .ousequência de projetos de pesquisa, mas sim consequência da
orientação laboviana, e aos desenvolvimentos aqui do gerativismo minha já antiga experiência como professora de língua portugue-
paramétrico; deve-se, sobretudo, a uma motivação interna, nossa, sa e das perplexidades daí decorrentes, diante do que pretende,
que é a questão linguística da língua que usamos, o português ou pretendia esse ensino, e do que os nossos estudantes de fato
brasileiro, língua oficial majoritária de nosso país. dominam. Por essa via, desde inícios dos anos 1980, comecei
Fazem-se, nos tempos que correm no Brasil, estudos histórico- a tentar interpretar essa dita perplexidade numa perspectiva
-diacrônicos com várias orientações: na direção da sócio-história sócio--histórica e a externá-la em artigos, comunicações e obras
ou história social; da crioulística; da sociolinguística no chamado publicadas. Só há poucos anos, a partir da construção do grupo
tempo real; da sintaxe diacrônica gerativista; das fonologias não de pesquisa Programa para a História da Língua Portuguesa -
lineares; do descritivismo interpretativo, necessário como orga- PROHPOR, em 1992, é que comecei a vislumbrar possibilidades de
nizador de dados do passado e essencial para análises teóricas enfrentar a questão histórica do português brasileiro. Os objetivos
subsequentes, e continua a fazer-se crítica textual de documentos gerais deste Programa, coletivamente construído, é reunir novos
do passado, base também necessária como fonte para a recolha dados e velhos dados reinterpretados com a finalidade de fazer
de dados confiáveis para estudos histórico-diacrônicos (cf. Mattos uma história renovada da língua portuguesa e tem como arco de
e Silva, 1996). tempo a ser investigado das origens da língua portuguesa até o
século XVI e daí infletir para o português trazido ou transplantado
Já dispomos de um conjunto de estudiosos, na maioria, jo- para o Brasil e aqui formado, nos contextos próprios deste novo
vens, da nova geração de linguistas brasileiros, trabalhando sobre espaço sócio-histórico que se tornou românico, parte da chamada
a língua portuguesa e nela sobre o português brasileiro em pers- România Nova.
pectivas histórico-diacrônicas.

Organizei este texto em duas partes. Na primeira, buscarei


expressar uma compreensão do português brasileiro. Na segunda, 1. Sobre o português brasileiro
tentarei externar o que suponho sejam algumas vias básicas para A sociolinguística brasileira, implementada com o vigor que
entrever-se o passado desse português brasileiro. Nessa viagem, conhecemos a partir da década de 1970, assumiu a designação
vou valer-me de uma bagagem de leituras acumuladas de obras de português brasileiro - e com ela a assumimos - para a língua
pais fundadores, tais como, entre outros, Serafim da Silva Neto, oficial amplamente majoritária do Brasil. Esse sintagma com o
Antenor Nascentes, Paul Teyssier, Celso Cunha, Antônio Houaiss, qualificador integrado ao núcleo substantivo reflete, certamente, o
Cllld1:.l, SL'lIcompanheiro til' !'l".lI,:lO l' ele interesses l'OI11llIlS, em
conhecimento progressivo que a partir da segunda metade deste
. .,('IIS diversos trabalhos sobre iI qucstao, utilizam, frequentemente.
século vêm reunindo, com base em estudos científicos sistemá-
.\ perífrase "a variedade brasileira da língua portuguesa".
ticos sobre a nossa realidade linguística, tanto os sociolinguistas
quanto os dialetólogos, fundados em vários projetos de pesquisa Paul Teyssier intitula "O português do Brasil" o capítulo rc-
realizados e em realização. Tudo isso favorecido, sem dúvida, pela [crente ao tema na sua História da língua portuguesa, publicada
introdução da linguística como disciplina acadêmica obrigatória, em 1980. Em conferência de 1983, no grande Congresso sobre a
em 1963; pela possibilidade de pesquisa nas universidades através Situação da Língua Portuguesa no Mundo, distingue na língua
do sistema de dedicação exclusiva; mas sobretudo pelo desenvolvi- portuguesa a norma brasileira da norma europeia.
mento do sistema de pós-graduação, expandida no Brasil, de 1970 A sociolinguística brasileira, sobretudo os sintaticistas, depois
para cá, que implicou, necessariamente, a exigência de produção do artigo de 1991 de Fernando Tarallo, "Turning Different at the
de pesquisa contínua no âmbito das universidades no Brasil. Turn of the Century", traduzido em português em 1993 com o título
Quando, depois da segunda vaga nacionalista, representa- "Diagnosticando uma gramática brasileira: o português d'aquém
da pelo movimento modernista da década de 1920 (a primeira e d'além-mar", tem trabalhado com a proposta aí demonstrada
ocorreu no rastro da Independência com o romantismo), migra de uma gramática brasileira, gramática no sentido chomskyano
a chamada questão da língua brasileira do âmbito literário para o paramétrico, que situa na passagem do século XIX para o XX.
dos filólogos-linguistas de então, neutralizaram-se as orientações Língua nacional, modalidade brasileira da língua portuguesa,
nacionalistas ideológicas apaixonadas e várias designações surgi- português no Brasil, variedade brasileira do português, português
ram para evitar a questão fundamentalmente política da chamada do Brasil, gramática brasileira, português brasileiro. Que recobrem
língua brasileira. essas designações em contraponto ao português que não se qua-
Como destaca Tânia Lobo, da nova geração de linguistas lificava e agora se qualifica, português europeu, contrastado com
que está se dedicando ao português brasileiro, em bem colocado o português brasileiro?
artigo de 1994 sobre esse tema, a estratégia primeira de evitação Serafim da Silva Neto, que foi o grande fomentador da neces-
foi designar o português brasileiro de língua nacional - João sidade de desenvolver no Brasil estudos dialetológicos de campo
Ribeiro, Sousa da Silveira, Antenor Nascentes são autores, res- e foi também o primeiro historiador da língua portuguesa e do
pectivamente, dos livros: Língua nacional, A língua nacional e o português brasileiro, defendeu sempre que o português no Brasil,
seu estudo e Idioma nacional (Lobo, 1994: 11). para usar a sua designação, se caracteriza pela unidade e pelo
Em entrevista de 1952, Sousa da Silveira, catedrático de língua conservadorismo.
e filologia portuguesa da então Universidade do Brasil, perguntado A defesa da tese da unidade se funda no contraponto da
se existia língua brasileira, respondeu incisivamente: "Não: o que dialetação regional do português europeu e das diversas áreas
existe é a modalidade brasileira da língua portuguesa" (Tarallo, românicas europeias vincadas por isófonas individualizadoras já
1990: 89). conhecidas na sua época, por oposição à ideia impressionística,
Serafim da Silva Neto, sem dúvida quem até agora entrou mais já que então não se tinham iniciado as pesquisas de campo sobre
a fundo nas questões que dizem respeito à história do português a nossa realidade, que acalentou sobre a rarefeita diversidade
brasileiro, no seu clássico sobre o tema, Introdução ao estudo da dialetal brasileira. Além disso, e talvez fundamental para compre-
língua portuguesa no Brasil, de 1950, e no ensaio publicado em ender essa posição, a obra de Serafim da Silva Neto é marcada
1960, já no fim da sua curta vida, A língua portuguesa no Bra- por orientação ideológica que tem como pressuposto a necessária
sil: problemas, utiliza, como se pode ver nos títulos referidos, a vitória da língua da cultura superior, a portuguesa, em relação às
expressão "a língua portuguesa no Brasil". Ele e também Celso línguas autóctones e africanas com que o português entrou em
contato 110 complexo processo sócio-histór-ico do Brasil. Essa tese pOllllgll('S brasileiro, cupitnlivn li..,lllllCl'ilos teóricos da liugurstica
ainda tem seguidores [crrenhos, embora Já em dcsccnso, l'()llll'll1por5nea de variaçao, nor ma e mudança e os resultados de
A defesa da tese do conservadorismo funda-se basicamente em estudos e debates sobre o português brasileiro, a partir dos anos
fatos de mudanças Iônicas que ocorreram no português europeu, 1980 para cá, para demonstrar que o português brasileiro é não
provavelmente a partir do século XVII, mas certamente no século apenas heterogêneo e variável, mas também plural e polarizado.
XVIII, e que não ocorrem no português brasileiro, mudanças re- Define, dentro do diassistema heterogêneo do português bra-
latadas por Paul Teyssier na sua História da língua portuguesa e sileiro, dois sistemas igualmente heterogêneos, daí a pluralidade e
são, fundamentalmente, aquelas relacionadas ao sistema vocálico a polarização, que designará por norma culta e norma vernácula.
não acentuado. Sustenta ainda essa tese o pressuposto do caráter Os fatos sintáticos usados na argumentação se baseiam na
conservador do mundo rural, próprio ao Brasil até o século XX. variação da concordância, com base nos estudos de Gregory Guy
! Anthony Naro, dos inícios dos anos 1980, e na variação do
Celso Cunha, contemporâneo de Serafim da Silva Neto, mas
que acompanhou o início e o desenvolvimento dos estudos dia- sistema pronominal, tanto sujeito como complemento, com base
letológicos e também sociolinguísticos de campo das décadas de nos pontos de vista de F. Tarallo, desenvolvidos a partir dos anos
1970 e de 1980, em artigo de 1986, "Conservadorismo e inovação 1980. Conclui D. Lucchesi com a seguinte formulação, procedente
e convincente:
do português do Brasil", rebate o ponto de vista do colega e ami-
go quanto à unidade defendida e demonstra que "a característica Apesar de conceber o português do Brasil como um sistema hete-
fundamental dos falares brasileiros reside no seu caráter vacilante, rogêneo e variável, defendo que ele não pode ser analisado como
no seu acentuado polimorfismo" (1986: 200). um sistema unitário, mas um sistema plural, mais precisamente
um diassistema, constituído por pelo menos dois subsistemas,
Quanto à tese do conservadorismo, admite Celso Cunha que, também eles heterogêneos e variáveis, que defini aqui como
no estado do conhecimento do português brasileiro, parece-lhe normas. O resgate do conceito de norma que aqui se faz no
prematura uma decisão quanto a essa questão, mas admite que quadro da teoria sociolinguística, isto é, em termos qualitativos
os dados disponíveis favorecem antes o caráter inovador desse distintos do escopo estruturalista do qual este conceito provém,
português. justifica-se, na medida em que, numa mesma comunidade de fala,
definem-se sistemas de valores e padrões de usos linguísticos
Movimentam-se tanto Serafim da Silva Neto como Celso Cunha
distintos, ou mesmo antagônicos (p. 27).
com dados fônicos e lexicais que são aqueles em que a dialetologia
e a consequente geografia linguística prioritariamente têm atuado. Numa perspectiva de mudança, defende Dante Lucchesi, com
base nos estudos em que se fundamenta, que a norma culta, ou
Reduzir a unidade ou variedade e o conservadorismo ou seja, os padrões de uso dos segmentos escolarizados, dos falan-
inovação a compreensão da heterogeneidade, sobretudo social, tes das classes média e alta, tende a perder características que
mas também espacial, do português brasileiro é extremamente a aproximam do padrão europeu original, e a norma vernácula
simplificador, mas era o de que se dispunha então. São os avanços tende a adquirir características que a aproximam da norma culta,
mais recentes, sobretudo nos estudos da morfossintaxe e sintaxe num processo de convergência, mas com nítidas diferenças quan-
do português brasileiro, que vêm permitindo delinear de forma to aos padrões de uso e aos sistemas de valores que subjazem a
menos redutora a realidade multifacetada do português brasileiro. esses padrões.
Em artigo de 1994, "Variação e norma: elementos para uma Essa polarização com que todos convivemos, sobretudo
caracterização sociolinguística do português do Brasil", Dante Luc- aqueles que em sala de aula têm como objeto de ensino a língua
chesi, dos linguistas da nova geração que estão se dedicando ao portuguesa, tem sido chamada por Mary Kato, mestra gerativis-
ta, de diglossia (1993: 20), cujo estudo ela vem uprolundando c oIhonl:\Il1as mudanças 110lOlltl'\tO das intcraçocx COlllllllicat ivus
orientando outros a pesquisá-la, como se pode ver em seu traba- t: tVIII privilcgiudo as qucstocs referentes às chamadas gramuti
lho, publicado em 1996, Português brasileiro falado: aquisição em I':dinl<;ües; também pela via do gcrativismo paramétrico que, da
contexto de mudança linguistica. dl'cada de 1980 para cá, vem argumentando com a mudança dia-
.rouica em inter-relação com a aquisição linguística para definir,
Uma história do português brasileiro terá como objetivo
I'l'speclivamente, mudança de parâmetro no processo temporal
fundamental interpretar o passado linguístico e sócio-histórico
dilS línguas e marcação de parâmetros no processo de aquisição
do Brasil, em que, na segunda metade do século XVIII, a língua
de colonização se tomou hegemônica e oficial, para dar conta da pela criança.
inter-relação entre sócio-história e história linguística na consti- A construção de uma história do português brasileiro parece-
tuição do português brasileiro heterogêneo, plural e polarizado. I ia, portanto, extemporânea, anacrônica? Não é o que me parece.

A língua portuguesa, das suas origens escritas nos inícios


do século XIII até a nossa contemporaneidade, não dispõe de
2. Em direção a uma história do português brasileiro
um relato histórico circunstanciado e fundamentado teórica e
2.1 Reflexões prévias l'mpiricamente.
Se até aqui falei de saberes de experiência feitos (me permita A grande história elaborada por Serafim da Silva Neto (1950)
o poeta Camões a sua lembrança), daqui por diante desenvolverei ao longo da década de 1950 se concentra nas origens românicas
uma reflexão de natureza ensaística, tentativa, fragmentos para do português e, de maneira fragmentada, no período arcaico,
uma composição posterior. quadro compatível à filologia e à linguística luso-brasileira e ro-
Esboçados no item anterior o que entendo como o objeto de mânica de seu tempo.
estudo e o objetivo fundamental em uma reconstrução histórica A História e estrutura da língua portuguesa, de J. Mattoso
do português brasileiro, buscarei nesta segunda parte esboçar âmara Jr., publicada em português em 1975, na sua abordagem
questões que envolvem a escrita da história de uma língua, mas estruturalista, é original, única e indispensável, mas reduz-se à fo-
sobretudo questões que envolvem a reconstrução e subsequente nologia e à morfologia diacrônicas, nos limites da teoria escolhida
escrita de uma história do português brasileiro. e também nos limites editoriais para os quais foi originalmente
Parece-me que nos estudos histórico-diacrônicos renascidos escrita, uma coleção americana sobre as línguas do mundo.
na segunda metade do nosso século, não é objetivo fundamental A história sintética, porém mais abrangente que a de Serafim
da geralmente designada linguística histórica a reconstrução de da Silva Neto e a de Mattoso Câmara Jr., de Paul Teyssier, publi-
histórias de línguas, objetivo que ocupou gerações de filólogos- cada em 1980, ficou limitada pela coleção (Que sais-je?) para a
-linguistas do século XIX e avançou pelo século XX. A linguísti- qual foi escrita originalmente.
ca histórica nossa contemporânea tem-se centrado na busca de
O livro Tempos linguísticos: itinerário histórico da língua por-
teorizações sobre a mudança linguística em geral, focalizando
tuguesa, de F. Tarallo (1990), como o subtítulo sugere, investe e
aspectos significativos de mudanças linguísticas em línguas es-
propõe novas orientações sociolinguísticas para a interpretação
pecíficas, tanto pelas abordagens da sociolinguística que, no seu
da história do português, mas é um itinerário, embora muito rico
,caminho do presente para o passado tem como texto fundador o
clássico Empirical Foundations for a Theory of Language Change, em sugestões.
de U. Weinreich, W. Labov e W. Herzog; como pelas abordagens O Curso de história da língua portuguesa, de Ivo Castro et alii
funcionalistas que, quando centradas em problemas diacrônicos, (1991), situa-se nos limites temporais semelhantes aos de Serafim
da Silva Neto, apresenta-se atualizado nos tópicos que aborda, mas d\' discussào de natureza l'pi~Il'IIl()I<'>gica,() problema central da
também foi moldado para os objetivos dá coleção a que pertence, 1lllp,lllstica histórica, no seu sentido estrito, ou seja o problema
uma interessante coleção didática para o ensino à distância, sem lI:\s mudanças das línguas no tempo - o nosso problema básico
dúvida um instrumento muito útil para o ensino regular de gra- 11;\ construção de uma história do português brasileiro, isto é, as
duação e mesmo, em certos aspectos, para o de pós-graduação. I í \ zõcs de sua diferença em relação ao português europeu para
\:\ transplantado - tem sido discutido no sentido de ser ou não
A História da língua portuguesa, organizada por Segismundo
trut ável de maneira rigorosamente científica, já que as mudanças
Spina e publicada em uma sequência de volumes da Série Fun-
lingufsticas decorrem sempre de complexos condicionamentos
damentos, a partir de 1989, tem o objetivo delimitado pelo seu
extra e intralinguísticos.
organizador no prefácio ao vol. L Foi preparada em função da
língua literária e ao alcance dos estudantes de letras. Em On Explaining Language Change, Roger Lass (1980) é
pessimista quanto ao caráter científico do estudo da mudança
Quanto à história específica do português brasileiro, nos seus
Iinguística e admite que a linguística histórica é antes uma ars
cinco séculos de constituição, são ainda o trabalho - a que ele
in/erpretandi, como as chamadas ciências históricas em geral. Essa
se refere como trabalhinho (1987 [1950]: 17) - de Serafim da
idcia de arte interpretativa vê-se também refletida na conhecida
Silva Neto de 1950 e seu artigo-síntese de 1960 que constituem definição de W. Labov dos estudos de mudanças ocorridas no
os dois estudos mais aprofundados sobre questões referentes ao tempo real - a arte de fazer o melhor uso de maus dados.
português brasileiro, integrados nas concepções teóricas e ideo-
Em artigo publicado em tradução na Revista D.E.L.TA., "Uma
lógicas próprias a seu tempo. O ensaio já referido de Antônio
ciência da história?", David Líghtfoot, muito conhecido entre os
Houaiss é uma renovada, mas sintética, visão de conjunto sobre
que fazem linguística histórica, retoma argumentos que antes
o português brasileiro, com base no que se acumulou sobre o
desenvolveu em muitos dos seus trabalhos a partir de 1979, com
assunto nas décadas anteriores e na sua erudita formação e infor-
os Principies of Diachronic Syntax. Nesse artigo, identificando-se
mação de intelectual, no melhor sentido da palavra, conhecedor
como historiador da língua, diz: "Permita-me afirmar que nós
da história, da sociologia do Brasil e das questões linguísticas do
temos, de fato, uma abordagem científica e que podemos, em
mundo brasileiro e do mundo lusófono.
algumas áreas limitadas, fazer predições" (1993: 289).
Penso que nos devemos não só uma história do português
David Lightfoot se refere como passíveis de cientificidade o
brasileiro, mas também uma história geral da língua portuguesa.
que chama de mudanças necessárias, que são predizíveis e que
Antes de passar a questões referentes à reconstrução e à escrita podem ser explicadas no quadro teórico que é, essencialmente,
de uma história do português brasileiro, foco desta segunda parte, histórico da teoria gerativista. Serão foco desse tipo de abordagem
pareceu-me procedente fazer um breve excurso sobre a natureza científica as chamadas mudanças paramétricas, as quais têm sido
científica do que envolve a reconstrução histórica de uma língua. estudadas nas mudanças sintáticas divergentes entre o português
europeu e o português brasileiro, desde os estudos conjuntos de
A linguística moderna, de Saussure aos nossos dias, vem
Mary Kato e Fernando Tarallo, de fins da década de 1980, con-
perseguindo a definição da linguística como ciência e, para tan-
solidados em Português brasileiro: uma viagem diacrônica, de L
to, as questões referentes ao objeto autônomo da linguística, sem
ancilaridade a outros saberes, e a questão do caráter explicativo Roberts e M. Kato (1993).
e preditivo, não apenas descritivo das teorias linguísticas, têm O motivo de ter eu mobilizado essa problematização de
sido preocupação constante dos que buscam delimitar a cienti- caráter epistemológico decorre do fato de que a reconstrução
ficidade dos estudos sobre a linguagem humana. Nesse contexto histórica do português brasileiro se movimentará tanto na recu-
pcraçao da história social linguistica do Brasil, e ai teremos de de pOl'lugUl'S brasileiro, l louaixs, afirma lido que
111Il:\ illtl'lpll'I4IÇÚO

estar necessariamente ancilarcs à historiografia sobre o Brasil, li pOltugu0s brasileiro IWSCl' 1\ •.\ segunda metade do século XVIII
palrnilhando, certamente, os caminhos da ars interpretandi; pal- " com diversidade, sugere como enfrentar a questão histórica do
milharemos também os caminhos da sociolinguística histórica portuguõs brasileiro, tanto na sua história externa e interna (usa
ou sócio-história linguística, tentando - o que é difícil e muito I'ssa dicotomia estabelecida pelos linguistas historicistas do século
difícil para o passado - a correlação entre fatores extralinguísti- XIX para o século :XX).
cos e Iinguísticos, e ainda palmilharemos os caminhos previstos As sugestões de Antônio Houaiss de como enfrentar e penetrar
por teorias de mudança intralinguística, quer sejam, segundo os questão histórica do português brasileiro são um delineamento
1ta
modelos teóricos explicativos e considerados científicos da teo- de um extenso programa de trabalho, que não poderia deixar de
ria da gramática de orientação chomskyana, quer sejam outros recuperar aqui.
caminhos interpretativos que outras vertentes da linguística nos
A via três, ou seja, o incremento da dialetação vertical, está
possam fornecer, mesmo que considerados hoje não científicos,
em pleno curso desde a década de 1970 pelos sociolinguistas
porque meramente descritivos.
brasileiros.
Qualquer um desses caminhos tem em si o seu valor, desde
A via dois, a do mapeamento confiável da díaletologia bra-
que rigorosamente conduzido, e esse valor redimensiona-se quando
sileira, que seria bússola fundamental para a reconstrução do
o seu objetivo é a, sem dúvida, ambiciosa reconstrução e subse-
passado do português brasileiro, avançando lentamente por ra-
quente escrita da história de urna língua.
.ões conhecidas desde o Atlas prévio dos falares baianos, de 1963,
coordenado por Nelson Rossi, toma agora novo alento com um
2.2 Algumas ideias para a concretização de uma história programa coletivo de trabalho para um Atlas geral do português
do português brasileiro brasileiro, proposto e já em encaminhamento, a partir do Semi-
nário Nacional 'Caminhos e perspectivas para a geolinguíslica no
Embora o tema proposto tenha sido "Idéias para a história do Brasil', coordenado por Suzana Cardoso, realizado em Salvador
português brasileiro", tenho optado por uma história do português em novembro de 1996. Também pelo projeto de pesquisa Vestígios
brasileiro. De fato, o que me orienta nesse sentido é o fato de que de Descrioulização em Comunidades Afro-brasileiras Isoladas, que
as histórias que se escrevem são sempre uma história, reconstruída vem se desenvolvendo com trabalho de campo em vários pontos
e escrita a partir dos condicionamentos teóricos, metodológicos, do Brasil por Alan Baxter e depois por Dante Lucchesi e A. Baxter,
ernpíricos, ideológicos de seus autores. Não temos como fugir da desde o fim dos anos 1980.
consciência disso.
A via um, a do levantamento exaustivo de depoimentos di-
Sendo assim, ao iniciar a tentativa de nos organizarmos para retos e indiretos sobre todos os processos linguageiros havidos a
uma construção coletiva do passado português brasileiro, sabemos partir dos inícios da colonização, possui alguns indícios, assis-
que nosso trabalho estará condicionado pelos recortes que lhe tematicamente reunidos por Serafim da Silva Neto no seu livro
venhamos a fazer e pela bagagem de que para isso dispusermos de 1950. As fontes históricas que utilizou estão sendo levantadas
- teórica, metodológica, cultural, ideológica - e pelo conhe- pelo projeto Fontes para a Sócio-história do Português brasileiro,
cimento, embora insuficiente, até mesmo precário, já existente de Tânia Lobo, um dos projetos do Programa para a História da
sobre essa temática. Língua Portuguesa - PROHPOR. Outros projetos nessa direção
As formulações de Antônio Houaiss (1985), embora gerais, estão implementados e tenho notícia do de Ataliba de Castilho e
estão muito bem colocadas. Superando orientações precedentes que Marcelo Módolo, Projeto de História do Português de São Paulo, de
defenderam as teses indianófilas, africanófilas ou lusitanófilas para 1995, e os projetos de Gilvan Müller de Oliveira, de 1994, Fontes
i ri 111/",1'1\11.;\" IIII!I 111('-\ 1111 I!f 11(1111.1.1111111(.\'1111 IllU

ll istr'niu do Por tuguês no Brnxil Mcridionul (1680-1822)


1'''1':1 :I Se dixpusésscmos tIL-tllll 1II:IpC.III1l'lIto
gcolinguístico rigoroso
l'A Ultima Fronteira: a Língua Portuguesano Brasil Meridional " detulhado de lodo o espaço brasileiro, teríamos um outro cx-
(1680 1822): Problemas e Perspectivas para uma História Geral 'l'kllte caminho diretor para o nosso trabalho, uma vez que de
do Português Brasileiro. posse de isoglossas bem delimitadas poderíamos entrever, através
A via quatro, importantíssima, para a compreensão do cará- (IL-Ias,aspectos diferenciáveis da nossa história passada.
ler d iglóssico do português brasileiro, pelo que sei, ainda não foi Não dispondo desse instrumento básico para uma história
sistematicamente investigada, mas foi um dos pontos focados na Iinguística, temos de nos contentar com o inferir das pesquisas dos
Iesc de doutoramento de Tânia Lobo. historiadores possíveis delimitações linguísticas que caracterizam
De posse das sugestões de Antônio Houaíss, gostaria de apre- IIOSSOpassado e caracterizam nosso ·presente.
sentar algumas proposições que são ideias preliminares para um Será fundamental a exploração dos estudos sobre a expansão
110SS0 programa de trabalho futuro coletivo. l' subsequente colonização portuguesa, que trouxeram consigo os
Para começar, considero que não se pode abordar como um ~Iotocídios de línguas indígenas e o recuo dessas populações rema-
bloco os cinco séculos de existência da língua portuguesa nesta ncscentes e suas línguas para os interiores brasileiros e também
margem do Atlântico. Embora julgue que uma periodização no :I expansão para os interiores brasileiros, como braço necessário
intcrior desses 500 anos só seja efetivamente possível ao fim do :1Oprocesso colonial, das populações negro-africanas e negro-
trabalho que planejamos construir, vale como orientação da pes- brasileiras com suas línguas de origem e seus instrumentos de
quisa pensar em momentos diferentes no lapso histórico que vai comunicação verbal de intercurso, provavelmente pidgins e, depois
de 1500 até agora. de estabelecidos, em algumas situações particulares, talvez crioulos.

As fases propostas por Serafim da Silva Neto baseiam-se em Dispomos de muitos estudos sobre a expansão portuguesa no
ratos da história do Brasil (ta, de 1532, início da colonização, a período colonial. Aqui apenas refiro o clássico de Jaime Cortesão
1654, expulsão do holandeses; 2a, de 1654 a 1808, chegada da fa- (1969), A colonização do Brasil, que traz um sugestivo mapeamento
mília real; 3a, a partir de 1808). Tânia Lobo, no estudo intitulado (cncarte à p. 326) das frentes de expansão econômica no Brasil
tiA formação sócio-histórica do português brasileiro: o estado da durante o período filipino (1580 a 1640, portanto, quando Portugal
questão", retoma esse problema e, baseada em fatores sociolin- implementa a colonização do Brasil). Também o livro Formação
guísticos, propõe uma periodização em duas fases, tendo como do Brasil colonial, de Arno Wehling e Maria José Wehling (1994),
charneira a segunda metade do século XVIII, quando a língua com sucessivos mapeamentos (ocupação territorial em 1600; ex-
portuguesa se torna hegemôníca, e associa esse fator a três outros: pansão territorial no século XVII; ocupação territorial em 1700;
área mineradora por volta de 1750). Esses mapeamentos sugerem
(i) a passagem de um contexto de país multilíngue a um as rotas de difusão do complexo linguístico do Brasil colonial que
contexto de país majoritariamente unilíngue; envolve a língua do colonizador, nas suas variantes aqui chegadas,
(ii) o crescimento populacional associado à transformação do as línguas indígenas autóctones e as línguas africanas para cá à
país da condição de eminentemente rural para urbano; [orça trazidas e, em si desaparecidas, mas tanto elas como as in-
(iii) o crescimento dos índices de escolarização. dígenas fatores fundamentais na formação do português brasileiro
Julguei importante mobilizar a problemática complexa que que aqui se constituía e se constitui.
envolve qualquer periodização na história das línguas, porque, Ultrapassado o período colonial, nos inícios do século XIX,
de posse de uma orientação que possa servir de caminho diretor, faz-se necessário mapear as frentes de difusão até os nossos dias
pode-se visualizar, desde logo, que não se poderá tratar do mesmo pelos interiores do Brasil do português - português brasileiro -,
modo os cinco séculos da história que nos reúne. já língua hegemônica e ainda as várias línguas dos emigrantes -
"-''---'

.ntrc eles tambcm os portugueses nào mais colonizadores, que línguux que prevccm, niucla svguilld() l louuiss, .1 viu do levanta
aqui chegaram, sobretudo, no processo histórico internacional a uu-uto exaustivo de depoimentos diretos e indiretos sobre todos
partir do século XIX, mesmo já antes, ainda no século XVII e a 11••.• processos linguagciros havidos a partir (e mesmo antes para

seguir, com os açorianos e sua variante portuguesa, que se loca- IIS indízcnas e negros) dos inícios da colonização.

lizaram, como a maioria dos emigrantes na região sul, mas não A outra será a reconstrução da história da escolarização no
só, pois a presença açoriana é significativa também no Maranhão. Brasil, que Houaiss formula como a penetração da língua escri-
Para recuperar uma história do português brasileiro, teremos Ia, [ator fundamental para a compreensão da polarização entre
de reconstruir uma história social linguística do Brasil: uma so- normas vernáculas e normas cultas do português brasileiro. Essa
ciolinguística histórica ou sócio-história linguística e uma história ...•
cgunda vertente prevê a recuperação de políticas linguísticas
linguística, ou seja, a das mudanças linguísticas que fizeram e havidas ao longo da história do Brasil, a primeira delas, sem
fazem o português brasileiro ter as características que tem, o seu dúvida, a dos jesuítas, aqui chegados com o primeiro governador-
perfil próprio, a sua gramática. reral, que priorizou o que veio a ser designado pelo Pe. José de
Anchieta como a língua mais falada na costa; do Brasil, ou seja,
Como hipótese de trabalho entrevejo, pelo menos, quatro () genericamente chamado tupi da costa: e a seguinte, a política
grandes campos de pesquisa, necessariamente interligados, mes- pombalina de meados do século XVIII, que torna o português a
mo que no seu processo de realização, na sua prática, possam língua oficial do Brasil e com isso encerra a possibilidade de o
ser desenvolvidos de forma autônoma. Enunciarei esses campos Brasil vir a ter uma base linguística indígena.
de trabalho numa sequência linear, não' querendo com isso dizer
O processo de literatização no Brasil foi lento e de má quali-
que um seja prioritário ao outro, porque são complementares. Em
dade. Basta lembrar que, ao contrário do que ocorreu na América
seguida, buscarei apresentar o que entrevejo como trabalho de
de colonização espanhola, só nos inícios do século XIX tivemos
pesquisa a ser em cada um deles implementado. São os campos
referidos: imprensa e as primeiras escolas de nível superior.
Dessas duas vertentes, sem dúvida, a mais complexa é a
(a) o campo que se moverá na reconstrução de uma história
social linguística do Brasil; primeira, porque deverá mobilizar fatos das sucessivas distribui-
(b) o campo que se moverá na reconstrução de uma sócio- ções dernográfico-linguísticas, focalizando o aspecto linguístico de
-história linguística ou de uma sociolinguística histórica; origem africana no Brasil. Essa questão da demografia histórica
(c) o campo que se moverá na reconstrução diacrônica no relacionada a questões linguísticas no Brasil precisa ser explorada
interior das estruturas da língua portuguesa em direção a fundo, no tempo e no espaço brasileiros.
ao português brasileiro; O fator demográfico histórico, embora não explique em si
(d) o campo que se moverá no âmbito comparativo entre o problemas linguísticos, é um indicador de peso para interpretar
português europeu e o português brasileiro. os processos linguageiros ocorridos no Brasil.
O campo (a) se moverá fundado na história social do Brasil. Será difícil recuperar os processos linguageiros centrados no
Dos quatro, será aquele em que o historiador da língua estará mais contato das línguas africanas com o português, porque diluído
próximo do historiador tout court. Entrevejo duas vertentes nessa e entremeado no todo da história social do Brasil. Contudo, os
.reconstrução. Aproveitando a formulação de Antônio Houaiss, são estudos afro-brasileiros de caráter histórico e antropológico estão
elas: uma referente à recuperação da articulação entre fatos de avançando significativamente nesses últimos anos. Quero aqui
ocupação territorial, fatos das sucessivas distribuições demográ- apenas referir o excelente conjunto de estudos sobre quilombos
fico-linguísticas e fatos das prevalências e desaparecimento das no Brasil, publicado em 1996 por João Reis e Flávio Gomes, Li-
herdade por 1/111 [io: histtn ia dos quilornhu» /10 IIlmt!, pelos quais, III:IIS:ln'ssfwl que •.\ I'an' ,,110bmsill'il<l l' iIIlIígCIl"I
, porqu«, bis
11.lliu\lI\l'lIlCcout rolado pelo Estado, d íspor-sc-á. provável mcn te,
neutralizadas pelo caráter científico da colctanca <lScompreensí-
veis interpretações marcadarncntc ideológicas, ficamos sabendo, de dmlos jú em parte organizados.
a partir de pesquisas rigorosas, de aspectos da sociedade afro- !\ reconstrução de uma história sociallinguística do português
-brasileira em situações de quilombos em quase todo o Brasil, a III'tI"ileiroenvolve uma história linguística do Brasil. Para tanto,
partir do século XVII, com o célebre e paradigmático Palmares, il" lontes de pesquisa se multiplicam desde 1500 com a Carta de
até o século XIX. Nesses estudos, embora a questão linguística (';\Ininha até os nossos dias, passando pelos primeiros cronistas
não afIore, há dados demográficos precisos e surpreendentes e se do Brasil, historiógrafos, pela bibliografia produzida pelos jesuítas
percebe melhor a articulação entre essas organizações de resis- 1I0Sdois primeiros séculos da colonização, pelos viajantes e seus
tência com a sociedade brasileira em geral, mas sobretudo com 1icos relatos, até as interpretações históricas e sociológicas mais
a face afro-brasileira legal dessa sociedade. n-ccntes e contemporâneas.
Como as obras de história social em geral, também nessa a Isso no que se refere a fontes já impressas, para não falar nas
face linguística não é focalizada. Há que se inferir, como ocorre- i IIl.ponderáveis fontes inéditas que escondem os nossos arquivos
rá com toda a bibliografia que será mobilizada para o trabalho l' que terão de ser mobilizadas.
nesse campo (a). Será trabalho para muitas mãos e cabeças durante muito
Victor Kiernan, no artigo "Línguas e conquistadores", pu- tempo. Alguns já estão a palmilhar esses caminhos: Tânia Lobo,
blicado no livro Linguagem, indivíduo e sociedade: história social lia Bahia; Gilvan Müller, em Santa Catarina; Afrânio Carvalho,

da linguagem, organizado por Peter Burke e Roy Porter, diz: "Os 110Rio de Janeiro; Tânia Ramos, em Minas Gerais e Ataliba de
historiadores, por via de regra, prestam pouquíssima atenção às Castilho com seus orientandos em São Paulo.
maneiras de falar dos povos sobre os quais escrevem" (1993: 259). Recortes terão de ser feitos nesse manancial de fontes his-
Infelizmente para nós, isso de fato é verdade! tóricas, o que será uma das tarefas necessárias no âmbito do
planejamento do que chamei campo (a) do grande programa de
A questão complexa e diversificada do contato com as línguas trabalho coletivo em direção a uma história do português brasileiro.
indígenas, embora envolva um trabalho de dimensões enormes,
será mais fácil de recuperar, não só porque os estudos sobre os Tratarei dos campos (b), (c) e (d) interligadamente e torna-
povos indígenas, suas sociedades e suas línguas já dispõem de rica rei como orientação os conhecidos problems, os problemas para
bibliografia, sobretudo a partir da década de 1970, mas também abordar a mudança linguística, delineados por Weinreich, Labov,
porque é mais facilmente delimitável, tanto histórica quanto geo- Herzog (1968) nos Fundamentos empíricos para uma teoria da
graficamente, do que o entremeado universo afro-brasíleiro. Como mudança linguística, trabalho fundador da renovada linguística
sugestão de pesquisa, lembro a possibilidade de exploração siste- histórica da segunda metade do século XX.
mática do banco de documentação organizado durante anos pelo Escolhi essa orientação, porque, nos limites de meu conheci-
CEDI (Centro Ecumênico de Documentação Indígena), acervo que mento sobre teorias da mudança linguística, a proposta referida
é hoje parte do Instituto Socioambiental, sediado em São Paulo. me parece aquela que melhor abarca o complexo fenômeno da
mudança e os complexos fatores que precisam ser mobilizados
O terceiro aspecto nessa recuperação dos processos lingua-
para a sua compreensão e interpretação. Sobretudo quando foca-
geiros havidos e ainda existentes no Brasil se refere ao também
lizamos o processo histórico de uma língua específica, como é o
, diversificado contato com as línguas da emigração que se esta-
beleceram no Brasil em momentos e locais diferenciados e com nosso caso. Descartarei na discussão dos campos (b), (c) e (d) o
características socioculturais específicas. Talvez seja esse aspecto actuation problem (utilizarei as designações em inglês porque têm
__ ''l-rnl'l't'rl~-'~,T'

sido traduzidas de várias termas) e o coustraint fJ/'IIhf!'" I , porque \'Il.), ja qUL' 11


•.10 podL'llIos L'MI11l'CL'1 que tanto nos interessará ()
se referem a problemas gerais na mudança das línguas e que h.unado pOI tuguês popula r tio Brasil como o português culto
são: "por que tal e não outra mudança ocorre em tal tempo e em d" Brasil, OLl, na conccituação de Lucchesi, teremos de captar as
tal lugar?" (actuation) e "como as línguas mudam sem que haja normas vernáculas e as normas cultas. Relembro aqui que numa
prejuízo intercomunicativo entre os seus usuários" (o constraint). pl'rspectiva histórica os estilos de texto serão o análogo às classes
Mobilizarei o transition problem, na sua dupla face, ou seja, tran- sociais dos estudos sincrônicos, como propôs Suzanne Romaine
II() seu livro Socio-historical Linguistics (1982).
sition na sociedade e transition na estrutura; o embedding problem,
também na sua dupla face, ou seja o embedding na sociedade e na Esse tipo de documentação deverá ser distribuído seriamente
estrutura e o evaluation problem, ou seja a questão da avaliação 110 tempo de português brasileiro (talvez consigamos alguma coisa
social das variantes, o que favorecerá ou o processo de mudança disso, a partir do século XVII, mas certamente, a partir do século
ou a variação estável. XVlII) para que se possa captar o (ii), ou seja, a difusão das mu-
O campo (b), ou seja, aquele que se moverá numa perspectiva danças na sociedade brasileira ao longo do seu tempo histórico.
de estabelecer correlações entre fatos linguísticos e fatores sociais, Assim, em (i) teríamos a visão da variação sincrônica em de-
mobilizará trabalhos com o objetivo de tentar captar a variação n-rmínáveis momentos do passado e em (ii) o processo diacrônico
histórica no âmbito do embedding ou encaixamento na sociedade, .10 longo do tempo.
e o transition problem, ou seja, a difusão de variantes na socie-
Para captar o (iii), ou seja, a avaliação social de variantes,
dade e ainda o evaluation, ou seja, a captação das avaliações que
u-rnos de recorrer a fontes indiretas, como é óbvio, e nelas vejo
favorecerão ou não a mudança.
tomo um recurso de aproximação possível a análise sistemática
Se essa teia complexa de problemas não é fácil de ser analisa- de todos os instrumentos gramático-filológicos que se construíram
da em mudanças no tempo aparente e em mudanças geracionais do século XVI para cá sobre a língua portuguesa e neles buscar
ou no tempo real de curta duração, em que os fatores condicio- () que possa ser considerado como avaliação de formas concor-
nantes podem ser recuperados através de metodologia rigorosa rentes. Além disso, que pode ser organizado sistematicamente,
e o recorte empírico pode ser construído ad hoc, a tentativa de poderemos, eventual e assistematicamente, recuperar avaliações
transpor esse tipo de abordagem para o tempo real de longa dispersas em testemunhos históricos os mais inesperados, como
duração se tornará um trabalho árduo, porém não impossível. seja, na epistolografia dos jesuítas, nas narrativas de cronistas e
Sabendo dessa dificuldade, não sejamos por demais ambiciosos de viajantes etc., ou seja, no corpus documental em que se con-
e estejamos cientes de que as interpretações diacrônicas serão centrará o campo (a) da história social linguística.
sempre aproximações viáveis.
No campo (c), que na tradição da linguística histórica se
Para recuperar o passado do português brasileiro na perspec- designa como história interna, ou seja, o movimento diacrônico
tiva do (i) encaixamento da sociedade, (ii) da difusão na sociedade das estruturas linguísticas, teríamos de nos orientar para descrever
e (iii) da avaliação social, entrevejo as seguintes orientações de , buscar explicitar ou explicar (a depender da teoria de análise
pesquisa: selecionada) o encaixamento no interior das estruturas e a difusão
Para recuperar o (i) teremos de ter um conjunto significativo da variante em mudança pela estrutura. Será, necessariamente,
.de documentação representativa desde os estilos mais informais uma análise intralinguística, que deverá ter como base a docu-
(cartas particulares, narrativas pessoais, documentos em que o mentação reunida para o campo (b), para ser analisada tanto
emissor e sua definição social possam ser entrevistos etc.), até numa perspectiva sincrônica do passado, como numa perspectiva
os mais formais (documentação oficial, documentação literária diacrônica. A base empírica deverá ser o corpus reunido, tanto o
rcprcscutativo das normus vcrnáculas coruu () Il'pn'M'III<1tivodas :1 chegar em levas xuccssiva» dlll'ílllll' lodo o pcrrodo colonial,
normas cultas, pelas razões antes referidas. ....
cndo a época da exploração da mineração do século XVII para o
É nesse campo que entrarão explicações pararnétricas, que XVIII das mais significativas e também o fim do período colonial,
recortarão, necessariamente, aspectos cruciais da estruturação geral quando entre 1808 e 1822 o eixo político de Portugal se desloca
da língua e também interpretações de natureza menos abstrata, para o Rio de Janeiro.
mas que são necessárias, para que se possa ter um conhecimento muito complexa essa problemática, a da relação estrutural
o mais abrangente possível da língua e não apenas da gramrnar entre o português brasileiro e o europeu, e não se reduz à sim-
que informa essa língua, plicidade com que tem sido formulada, desde Serafim da Silva
Nessa direção, já existe a linha de trabalho da sintaxe dia- Neto, como a origem regional dos colonizadores aqui chegados,
crônica iniciada por Tarallo e que prossegue em desenvolvimento, Se temos uma base já consensual quanto às características fôni-
graças a seus continuadores. Essa direção de pesquisa é essencial cas segmentais que tipificam o português brasileiro, relacionando-o
para a interpretação da diferenciação sintática entre o português aos dialetos meridionais portugueses e também identificando-o
brasileiro e o europeu, Visualizo, contudo, que documentação mais .omo conservador de características anteriores às mudanças fônicas
recuada e informal ainda que a utilizada por Tarallo e os que o de sistema vocálico ocorridas em Portugal, em geral localizadas
seguiram, ou seja, a documentação que represente as normas no século XVIII, mas provavelmente em curso já anteriormente,
vernáculas, precisa ser analisada para testar a hipótese de que a há quase tudo a fazer no que se refere a mudanças prosódicas
gramática brasileira não se definiu do século XIX para o século XX, ~ mudanças sintáticas que direcionaram diferentemente, senão
como propôs Tarallo (1993), mas antes, sobretudo entre aqueles, divergentemente, o português europeu e o português brasileiro.
que sempre formam a maioria, que adquiriram o português na
É preciso apontar os trabalhos prosódicos diacrônicos, como
situação natural de oralidade e que, recuando-se no passado do
os estudos de Gladys Massiní-Cagliari sobre o português arcaico
Brasil, tiveram como contexto familiar falantes de outras línguas, ~ a articulação entre prosódia e sintaxe no português com os
indígenas ou africanas, mais recentemente nos contextos sociais estudos de Charlotte Galves e Bernadette Abaurre; e também os
da emigração, Todos eles adquiriram o português em situações estudos sintáticos diacrônicos sobre o português europeu com
sociolinguísticas de bi- ou multilinguismo e estiveram sob o de- as investigações de Ana Maria Martins, em Portugal, e no Brasil
signado second language learning effect, discutido por A. Kroch e com Charlotte Galves, Ilza Ribeiro, Maria Aparecida Morais, Sônia
A. Taylor em estudos de 1994 sobre a história do inglês, Cyrino, por exemplo.
O campo (d) se moverá também no âmbito do embedding pro- Portanto, há muito a fazer nessa orientação de pesquisa, até
blem, ou seja, no encaixamento estrutural, considerando contudo o que possamos demonstrar que o que tipifica o português brasileiro
português europeu, do qual é continuador o português brasileiro, decorre de derivas antigas ou são resultados das peculiaridades
A questão deste campo é verificar se as mudanças ocorridas no sócio-históricas que condicionaram a formação do português
português brasileiro em comparação com o português europeu já brasileiro.
estariam prefiguradas ou encaixadas nele. Para tanto, terá de se
Em trabalho de 1993, "Sobre as origens do português popu-
dispor do conhecimento do português europeu no seu processo
histórico de constituição. lar brasileiro", Naro e Scherre defendem, centrados nas questões
referentes à perda da concordância nominal e verbo-nominal no
Nessa perspectiva, o conhecimento do português quinhentista é português brasileiro, que esse traço marcante da sintaxe brasileira,
essencial, mas não exclusivo, já que, chegando aqui os portugueses sobretudo em suas formas vernáculas, mas não só, deve ser inter-
no século XVI - a colonização começa em 1532 - continuaram pretado como já encaixado no português europeu, embora aqui
desencadeado pelos condicionarucutos io hist()1 !vos em que o
~(ll IVI'l'IllOS de comparar () P()ltllgll('~ hl'(\sikil'O COIll o europeu desde,
português europeu passou a ser aqui adquirido. Dizem os autores: pelo menos, o português de qu inhcutos em direção aos nossos dias
(o que chamei campo LdJ).Para esse último, o trabalho conjunto
O impulso motor do desenvolvimento do português do Brasil
('Om nossos colegas portugueses será fundamental.
veio já embutido na deriva secular da língua de Portugal. Se as
sementes trazidas de lá germinaram mais rápido e cresceram William Labov, no seu livro de 1994, diz que a mudança
mais fortes é porque as condições, aqui, mostraram-se mais linguística e a linguística histórica podem parecer um empreen-
propícias devido a uma confluência de motivos (p, 451). ti imento quixotesco e oferecem um rico leque de desafios para o
Descartam assim os autores, sociolinguistas de renome, a cspecialísta que deseje resolvê-Ios (p. 21).
hipótese da crioulização prévia para a interpretação do português Como quixotes ou como loucos, ou apenas como brasileiros
brasileiro. interessados em compreender um aspecto fundamental da sua
Estou informada de que o professor Naro continua pesquisando história pregressa, aceitemos o convite.
a questão diacrônica da concordância no passado do português
europeu. Seus dados certamente confirmarão ou não esse aspecto
do encaixamento histórico da variação da concordância, tópico
que é pedra de toque, como sabemos, da gramática do português
brasileiro.

3. Finalizando
Procurei conceituar o português brasileiro e desenvolver algu-
mas ideias para sua história, organizando-as nos quatro campos
de pesquisa que visualizo para um programa de trabalho coletivo
abrangente sobre essa temática. Procurei também indicar pesqui-
sas, sobre as quais estou informada, que nos últimos anos já vêm
sendo realizadas nessas orientações.
Não partiremos do ponto zero. Há, como disse no começo,
nos tempos que correm, um conjunto de estudiosos trabalhando
e interessados nessas questões.
Para finalizar, sintetizo o que desenvolvi: para atingir o ob-
jetivo de reconstrução de uma história do português brasileiro,
teremos de enfrentar a reconstrução de uma história social lin-
guística do Brasil, a partir de fontes históricas múltiplas (o que
chamei de campo [a]); teremos de interpretar numa perspectiva
. sócio-histórica linguística ou sociolinguística e linguística (o que
chamei de campos [b] e [c]) o português brasileiro no seu passado
em direção ao presente, com base em corpus documental seriado
que represente tanto as normas vemáculas como as normas cultas;
QUATRO

De fontes sócio-históricas para a


história social linguística do Brasil:
em busca de indícios *

1. Esclarecimentos preliminares
Retomo aqui alguns problemas relacionados à história social
linguística do Brasil, do século XVI para cá. Este texto é uma busca
de indícios para argumentar a favor do papel predominante da
nossa população de origem africana como difusora do que veio a
ser chamado de português popular brasileiro pela sociolinguística
contemporânea, em contraponto ao por ela designado português
culto brasileiro.
O problema da difusão do português brasileiro pela nossa
população de origem africana envolve uma das questões centrais
na compreensão histórica do português brasileiro, que é a da
explicação da complexa situação de ter-se tornado o Brasil um
país majoritariamente unilíngue, quando, no seu período histórico
inicial, de 1500 a meados do século XVIII, apresenta um multi-
linguismo/multidialetalismo generalizado.
Algumas motivações antigas me levaram a este tema e outras
mais novas, decorrentes de leituras recentes de publicações que
tratam da história social brasileira.
Das motivações mais antigas, quero destacar a primeira das
conhecidas vias propostas por A. Houaiss (1985: 127-128) para

* A primeira versão deste artigo está publicada em R. V. Maltas e Silva (org.).


Para a história do português brasileiro, vol. II: Primeiros estudos, tomo 2. São Paulo:
Humanitas, 2001, pp. 275-302.
penetrar na história do português: "/\ do leviu 11" 11\('111 o de depoi- qllV o "conhccimvuto il li l' illdlll'lo,
histó: incliciru io, l'()II.iVlIIII':d",

mentos diretos e indiretos sobre todos os processos linguagciros (1I11l0 argumenta Guinzburg (p. I r..,'7).
havidos a partir dos inícios da colonização". No que segue, considero-me em busca de indícios para lima
Outra motivação é a questão significativa das interpretações (olllprecnsão do português popular brasileiro na perspectiva de
linguísticas possíveis, a partir da dinâmica populacional do Brasil ..•ua constituição e de sua difusão histórica.
colonial, com base nos dados de demografia histórica brasileira,
sistematicamente organizados no trabalho de 1991 de Alberto
Mussa, que tornam visível para os linguistas a importância da Observações sobre a dinâmica do multilinguismol
demografia histórica para a história da nossa língua. multidialetalismo no Brasil colonial
Motivações mais recentes foram as leituras, em busca de in- 2.1 Português popular brasileiro e português culto
dícios para a história linguística do Brasil, de significativas obras brasileiro: do presente para o passado
de história social:
Muitas fotografias do português brasileiro feitas pela pesquisa
Stuart Schwartz, Segredos internos: Engenhos e escravos na sociolinguística nessas últimas décadas permitem afirmar a hetero-
sociedade colonial, 1550-1835 (1988); John Manuel Monteiro, Negros ~cneidade do português brasileiro, e Dante Lucchesi defendeu de
da terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (1994); uma maneira convincente no artigo "Variação e norma: elementos
Darcy Ribeiro, O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil para uma caracterização sociolinguística do português do Brasil"
(1995); e João José Reis e Flávio Gomes (orgs.), Liberdade por um (1994) que o português brasileiro é não apenas heterogêneo e
fio: história dos quilombos no Brasil (1996). variável, mas também plural e polarizado, Aos polos referidos e
Dos dados organizados pelos que fazem história social - ou sua pluralidade designou de normas vernáculas e normas cultas
numa perspectiva antropológica ou numa perspectiva da chamada aquelas que, na bibliografia especializada, são referidas, as primei-
nova história, que não se reporta apenas aos grandes aconteci- ras como português popular brasileiro e as segundas, português
mentos, mas a evidências de vários aspectos do cotidiano dos culto brasileiro. Esse diagnóstico para o português brasileiro na
diversificados agentes da história - pode-se levantar indícios sincronia atual só pode ser compreendido e explicitado na sua
que permitam fundamentar uma aproximação à história social complexidade se conseguirmos mostrar o filme diacrônico -
da linguagem. Pelo que tenho podido observar, os avanços sobre permito-me a redundância - do nosso passado linguístico.
o passado da sociedade brasileira realizados por esses cientistas Não tratarei aqui do passado das normas cultas ou do por-
são essenciais para uma aproximação menos generalizante da tuguês culto brasileiro, certamente uma das vertentes de um pro-
história social linguística do Brasil e, consequentemente, para a jeto geral para a história do português brasileiro; entretanto, há
história do português brasileiro. indícios, depreensíveis do conhecimento histórico já acumulado,
Uso a designação "indícios", não como um termo da nossa de que esse português brasileiro culto só começará a definir-se
linguagem corrente, mas no sentido metalinguístico tal como da segunda metade do século XVIII para cá, uma vez que essa
proposto pelo antropólogo-historiador Carlo Guinzburg, no seu variante culta passa necessariamente por questões relativas à
sugestivo estudo, Sinais: raizes de um paradigma indiciário (1989: escolarização, ao uso escrito e sua normativização. O grande
143-180), em que argumenta e demonstra que a história, e acres- acontecimento histórico ocorrido naquele momento decorre da
cento eu, a história social das línguas, assim como outras áreas política geral e da política linguística pombalinas. que definem
do saber organizado, se inserem num paradigma indiciário que se a língua portuguesa como língua oficial da colônia brasileira c
contrapõe ao paradigma galileano (herdeiro moderno do modelo iniciam o incentivo a seu ensino, antes preterido pelos jesuítas,
de conhecimento elaborado inicialmente por Platão), uma vez em função da catequese e da colonização, em favor da chamada
t ·1_'r-rn'NTr: •. l'rn-l'n ..•..
n~-' '_,.~ ..••.
~_.~. _

língua geral indígena de base tupillulldnt, l' do I:tlilll, lillgua de


cultura letrada do mundo ocidental ainda nessa cpoca. N<I cena lillgllíslicu do Blilsil rolou ia], serão l'SSCS os atorl'S
1'1 iucipais, cada UI1l deles rccol» indo LIma incomensurável divcrsi-
Antes, porém, de encerrar esse breve tópico sobre o passado \lndc que não temos como rigorosamente demonstrar; mas podemos
do português culto brasileiro, queria deixar dados que conside- tentar dela nos aproximar por indícios históricos, por conjeturas
rei significativos, colhidos na História do Brasil (1994) de Boris plnusfvcis. fundados em fatos já interpretados de demografia
Fausto, porque são indícios interessantes para a provavelmente histórica e de fatos históricos documentados e interpretados por
restrita difusão do português culto brasileiro, ao fim do período l'S pccialistas: historiadores, sociólogos, antropólogos, linguistas,
colonial e no período imperial de nossa história, admitindo-se .rlérn de outros.
que a instrução escolar sistemática deva ser o seu veículo mais
eficiente e evidente.
2.2 O português europeu no Brasil colonial
Passado um século da implantação da política pombalina,
já nos finais do Brasil imperial, a situação da instrução regular Começo pelo português europeu, por me parecer mais apre-
no Brasil apresenta o seguinte panorama. São dados do primeiro cnsível, por razões de caráter histórico. Língua documentada pela
recenseamento geral do Brasil de 1872: .scrita desde o século XIII, aqui chega rigorosamente datada de
Os primeiros dados gerais sobre instrução mostram enormes 1500. Parece-me que a ideia expressa por Caminha na sua célebre
carências nessa área. Em 1872, entre os escravos, o índice de "'arta, que aqui parafraseio - seria mais fácil nós (os portugue-
analfabetos atingia 99,9% e entre a população livre aproximada- ses) aprendermos a língua deles (os índios) do que eles a nossa
mente 80%, subindo para mais de 86% quando consideramos as - fundamenta a primeira política linguística implícita, a ser im-
mulheres. Mesmo descontando-se o fato de que os percentuais se plantada na colônia. Será a política dos jesuítas aqui chegados em
referem à população total [estimada nesse recenseamento em 4,6 1549 com o primeiro governador-geral, que foi a de aprender e
milhões], sem excluir crianças nos primeiros anos de vida, eles gramaticalizar a língua mais usada na costa do Brasil, para usar
são bastante elevados. Apurou-se ainda que somente 16,8% da a adequada formulação do Pe. José de Anchieta, sem dúvida o
população entre 6 e 15 anos frequentavam escolas. Havia apenas primeiro linguista avant Ia lettre aportado em terras brasílicas.
12 mil alunos matriculados em colégios secundários. Entretan- Política que tinha a finalidade explícita de transformar os gentios
to, calcula-se que chegavam a 8.000 o número de pessoas com em cristãos para a maior glória de Deus, da Companhia de Jesus
educação superior no país. Um abismo separava, pois, a elite e do rei de Portugal.
letrada da grande massa de analfabetos e gente com educação
rudimentar (Fausto, 1994: 237). Contudo, o Brasil, que na expressão da Carta de Caminha
seria uma pousada para a navegação de Calecut, veio a mostrar-se
A polarização destacada por Lucchesi se enraíza, portanto,
vantajoso como colônia economicamente rentável já em meados
nesse abismo a que se refere o historiador. Se era assim em 1872,
do século XVI, com a progressiva produção açucareira litorânea:
mais profundo terá sido no período dos três séculos coloniais, já
os engenhos seriam em número de 60 em 1570, nas décadas
que ao iniciar-se o século XIX, segundo Houaiss, o percentual de
letrados seria de 0,5% (1985: 137). seguintes cresceram numa taxa de 5% ao ano e às vésperas da
invasão holandesa, em 1624, já havia 350 engenhos funcionando
Feito esse breve excurso sobre o momento tardio do início da no Brasil, dois terços em Pernambuco e na Bahia (Schwartz,
. elaboração do português culto brasileiro, buscarei me concentrar 1994: s. v. engenho).
na questão da dinâmica do multilinguismo/multidialetalismo no
Consequentemente a essa irnplernentação geométrica da
período colonial e fundamentalmente na emergência do antece-
dente histórico do português popular brasileiro. chamada economia açucareira, fez-se necessário não só trazer o
braço escravo, primeiro indígena e logo africano, mas reforçar o
cOlltingellte europeu tanto para a adlllillisll\l\ôlo lolO/llill como para 1'(lIllíli" real em I HOH e depoIs como c-migruntcs. Nesse longo
o trabalho de artcsãos, essenciais para ~lIlllPlil o!'>diversificados tempo histórico, o português europeu continuou seus processos
misteres básicos para a implementação e efetivo funcionamento dI' mudanças lingu ísticas, próprios às línguas históricas em uso
da agricultura, indústria e comércio açucareiros. por uma sociedade, necessariamente condicionados por fatores
Os dados demográficos reunidos por Alberto Mussa demons- linguísticos e sócio-históricos. É bom destacar esse [ato, para
tram que entre 1538 e 1600, primeiro século da colonização, .ivaliarmos com mais fundamento uma postulação tradicional
compunham a população do Brasil 30% de europeus, sem dúvi- qlll' considera o português brasileiro, em relação ao europeu,
da majoritariamente portugueses, taxa que decresce ao longo do couservador; no sentido de manter características do período
período colonial, a par do crescimento dos chamados brancos .ucaico e quinhentista.
brasileiros, descendentes dos europeus.
Nesse perfil sumário sobre o português europeu para cá
Serafim da Silva Neto, nos já clássicos estudos sobre a língua transplantado. para usar a designação de Serafim da Silva Neto,
portuguesa no Brasil (1950 e 1960), procurou definir a proveni- 110início do período colonial e que pode, mutatis mutandis, ser
ência geográfica dos colonizadores portugueses, pesquisa quase vstcndido a todo o período colonial, verifica-se que: elite e povo
impossível, sobretudo para os primeiros séculos coloniais, e con- português aqui aportaram e se instalaram, provavelmente com
clui que aqui se constituiu uma koiné niveladora das diferenças 1Ima massa mais significativa provinda do noroeste porque, desde
dialetais regionais que marcariam o português europeu nos inícios as origens até hoje, é essa a zona mais densamente povoada do
do período moderno. território português, portanto a que tem a probabilidade maior de
" .xportar" gente, antes como colonos e até hoje como emigrantes.
Havia, como estudos de dialetologia histórica portuguesa têm
demonstrado, sobretudo fundado em fatos fônicos, diferenças dia- Os europeus e os brancos brasileiros, que se supõe terem fa-
letais geográficas e também haveria diferenças sociais nas variantes lado o português mais próximo do português europeu, por causa
aqui chegadas, já que os colonizadores da alta administração e os da própria história familiar e consequente forma de aquisição
colonos, mão de obra necessária, não participavam evidentemente do português, constituíram, ao longo do período colonial, uma
de uma comunidade linguística socialmente homogênea. constante nos dados demográficos reunidos por Mussa: à volta de
Sem dúvida uma distinção sociolinguística fundamental hou- 30%, só crescendo para 41% na segunda metade do século XIX.
ve: a que separava os portugueses letrados, de maior ou menor Esses percentuais de Mussa coincidem com os dados de Faus-
nível de cultura letrada, destacando-se, entre esses, o clero, e os to, na sua História do Brasil, quando diz que, ao fim do período
não letrados, os analfabetos, que, provavelmente, constituíram colonial, "do ponto de vista racial, os dados relativos às principais
um significativo montante, se não a grande maioria, já que o províncias sugerem que os brancos [portugueses e descendentes]
letramento em Portugal começa, aos poucos, a difundir-se no representavam menos de 30% da população total" (1994:135).
século XVI, primeiro século da colonização brasileira. Embora
não disponha, no momento, de dados sobre a escolarização em Será assim esse contingente dernográfico, ao longo da história
Portugal nos inícios do período moderno, a grande "multiplicação passada do Brasil, o forte candidato a usar o português europeu
de mestres de ler e escrever" ocorre com a "reforma dos estudos (ou o português mais europeizado), um dos atores que antes des-
de 1772", portanto no período pombalino (Marquilhas, 1991: 16). taquei na cena linguística, multilinguística, brasileira no período
colonial. Seria ele o modelo a perseguir na elaboração do portu-
Além dessa heterogeneidade regional e social, os portugue- guês culto brasileiro, que certamente se distanciava do português
ses e sua língua chegaram ao Brasil em 1500 e continuaram a geral brasileiro que aqui se formou, que estou considerando como
vir por todo o período colonial, com momentos de pico como o o antecedente histórico do português popular brasileiro. Falantes
da "corrida do ouro", dos fins do século XVII, e o da vinda da dessas variedades de português - o europeu e o geral brasileiro
- estiveram, ccrtarncn te, em situaçócs til' l'olll" I o, portun to O" Para alem da arca Iilorâ: 1('iI, Sl' cncont ravum multiplos grupos
interinfluências, ao longo, pejo menos, 00 pCllOOOcolonial.
i
Illdlgenas,genericamente designados pelos tupi e pejos colonizadores
!Iv tupuias, já distinguidos nas suas diferenças culturais e linguísticas
pe-lo jesuíta Fernão Cardim que, na década de oitenta do século
2.3 Línguas gerais indígenas no Brasil colonial
XVI, enumera um conjunto de 76 diferentes "nações" de indígenas
Sobre a multiplicidade das línguas indígenas no Brasil no (" ic não viviam na costa do mar; diz o padre Cardim: "Todas estas
momento da chegada dos europeus, como sabemos, é impossível sl'lenta e seis nações de Tapuias, que têm as mais deles diferentes
um cálculo exato. As avaliações variam. Aryon Rodrigues (1986:19), lmguas, são gente brava, silvestre e indômita, são contrários quase
admitindo para a atualidade cerca de 180 línguas sobreviventes, lodos do gentio que vive na costa brasileira" (1997: 206).
considerou possível o dobro em 1500. Em artigo posterior (1993: Nos estudos de linguística indígena contemporâneos, essas
91), com base em cálculos de distribuição de línguas no passado diversificadas línguas pertenceriam ao tronco linguístico macro-jê,
da humanidade como um todo, faz crescer esse número para que se estenderia pelos interiores do Nordeste até o meio norte;
1.175 línguas. Antônio Houaiss (1985: 100) admite verossímil o pelos cerrados do Brasil Central até o sul oriental; para o Sul do
montante de 1.500 línguas. Brasil ocupariam áreas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Ainda estamos por saber o quanto as línguas desse tronco lin-
Entre esses limites díspares - 360 a 1.500 línguas -, o fato
guístico marcaram o português brasileiro.
é que os colonizadores portugueses se encontraram com a Babel,
imagem recorrente nos escritos de Pe. Antônio Vieira, que aqui Os jesuítas tinham como princípio de catequese usar as lín-
viveu durante o século XVII, referindo-se ele, sobretudo, ao Ma- iuas da terra em que chegavam. Assim sendo, fazia parte do seu
ranhão e Pará, à Amazônia, portanto. programa catequético no Brasil dominar a(s) língua(s) local(is).
Diante da relativa homogeneidade linguística do litoral, a estra-
Devemos aos primeiros historiógrafos e cronistas sobre o régia imediata e coerente foi a de dominar a língua que vieram
Brasil, que se multiplicam a partir da segunda metade do século
'1 designar de brasílica. A gramaticização da língua mais usada
XVI, preciosas informações sobre essa babel brasileira. Sem eles, na costa do Brasil pelo Pe. Anchieta cumpriu esse objetivo. Em
muito de nosso passado seria desconhecido. Suas informações elaboração e em uso prático já em 1560 (no Colégio da Bahia)
não são contraditórias, no geral, e pudemos ficar sabendo de e desde 1555 em Piratininga, só será impressa a gramática em
uma certa homogeneidade cultural e linguística, ao longo de toda Coimbra em 1595 (Rodrigues, 1984: 17). Segundo Aryon Rodri-
a costa e na bacia do Paraná/Paraguai, em que predominaram gues (1986: 99), durante o século XVII essa versão gramaticizada
grupos indígenas do tronco linguístico tupi, sobretudo da família era referida como língua brasílica, não tendo sido consagrada a
tupi-guarani e, em vários pontos litorâneos, os tupinambá e os designação língua geral nos dois primeiros séculos da colonização.
tupiniquim, grupos inimigos, mas de línguas tão semelhantes _
Tudo indica que foi a versão jesuítica da língua brasílica um
ou variantes dialetais de uma mesma língua - que, no dizer de
veículo linguístico fundamental como instrumento na interação
Gabriel Soares de Souza, em 1587, "não há entre eles na língua e linguística entre os portugueses que chegavam para a colonização
nos costumes mais diferença do que têm os moradores de Lisboa e os indígenas predominantemente do tronco linguístico tupi e,
dos da Beira" (1989: 44).
na Capitania da Bahia - foz do rio São Francisco ao sul do rio
Um mapeamento dessa distribuição e sua descrição, com Jaguaripe, núcleo administrativo inicial da colônia desde 1549 -
indicações também dos grupos não tupi, no litoral, está no estu- eram eles os tupinambá.
do Fragmentos de história e cultura tupinambá, de Carlos Fausto Será essa a língua, genericamente e no singular, chamada de
(1992: 381-396).
língua geral na bibliografia que trata da história do português no
,--..·I.:-.--.-,I-,.·,-,...."""f' ••••.•• -'..--......-n __".~ - ,~ .
Brasil, na scquência do que ficou cstabcle, ido 1)(11 Sl:,':di'll da Silva Sem duvida, pura ~I COl\'1"VVI\S,Ü) da diversificação do que
Neto (1950). Essa designação genérica' c singular coutiuua a ser 'i(' c hamu genericamente língua geral, é fundamental o estudo de
repetida por linguistas e por historiadores (cf, p. ex., Rodrigues, \'yon Rodrigucs (1986: 99-109), crn que, com precisão, apresenta
1985, e Elia, 1994).
t nua caracterização diatrópica e diacrônica das línguas gerais, já

O que de diversidade linguística recobre essa designação 1\0 plural, a paulista e a amazônica, fundamentado na documen-
genérica é outra questão fundamental na reconstrução de uma r.rçàc antiga disponível. Demonstra aí diferenças entre as duas
história linguística do Brasil e, consequentemente, da história do lfuguas gerais que teriam sido veiculadas no período colonial,
português brasileiro. como instrumento de intercomunicação necessário ao empreen-
IIimente colonizador, mas, sobretudo, catequético, principalmente
Podemos admitir que os jesuítas e outros colonizadores al-
I) dos padres da Companhia de Jesus.
fabetizados que aqui chegaram aprenderiam esse meio de comu-
nicação pela arte de gramática de Anchieta, também a de Luís Entretanto, entre essas duas línguas gerais de base tupinambá,
Figueira, de 1621, e por elas também aprenderiam os índios dcfiníveis pela documentação remanescente, parca para a paulista,
aldeados pelas missões jesuíticas, aqueles que chegaram a ser 'lias numerosa para a amazônica, podem-se idealizar variadas
alfabetizados. Parece-me isso convincente. Contudo, com a larga siruações com maior ou menor marca das línguas em contato,
difusão documentada do uso do que se chama língua geral, se '10 caso o português e a(s) língua(s) indígena(s).

seguindo, num primeiro momento, a frente de colonização dos Pode-se até conjeturar que o que na documentação colonial
padres catequístas, corporificada nos aldeamentos indígenas e se designa por "usar a língua geral r "falar a língua geral "sa- 11 11 ,

nos Colégios da Companhia de Jesus e depois ultrapassando es- bcr a língua geral" refira-se a um português simplificado, com
ses limites para vir a ser, como se costuma afirmar, a língua da interferência de línguas indígenas e também de línguas africanas.
colonização dos interiores brasileiros pelos bandeirantes partidos
Essa idealização está fundada no que sabemos sobre a inter-
de São Paulo, essa língua geral ter-se-ia transmitido pela orali-
.omunicação linguística em sociedades multilíngues basicamente
dade, sem controle de escolarização sistemática e em situações
ágrafas, como vimos ter sido majoritariamente o Brasil colonial.
de aquisição imperfeita, no sentido de que nesse contexto de
O percurso histórico do conceito "língua geral no Brasil teria de 11

aquisição estariam indivíduos pertencentes a situações bilíngues


ser reconstruído para que se tivesse uma aproximação mais exata
(português/língua geral) ou multilíngues (português/língua geral/
dos valores econômicos recobertos pelo significante "língua geral".
línguas indígenas e/ou africanas).
Quanto à hipótese de, em muitas situações, o referente de
Só podemos idealizar essa língua geral como heterogênea desde
língua geral ser um "português malfalado", encontrei um suporte
o século XVI, heterogeneidade que se tornará mais complexa ao
que me incentivou a colocar aqui essa questão a ser investigada
longo da diacronia da colonização. Estabeleceram os historiadores
e debatida.
que até o século XVIII seria essa a língua familiar da área cultural
que Darcy Ribeiro (1995: 361-404) designará de "Brasil caipira". O historiador John Manuel Monteiro, no seu livro Negros
Isso no que se refere à área de sua difusão meridional e central da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (1995),
no Brasil. Para o norte, a língua geral se difundida, a partir do com base em documentação arquivística abundante, no capítulo
século XVII, acompanhando a colonização do Maranhão à Ama- "Senhores e índios" (pp. 154-187) levanta, com clareza, a questão
zônia e continua viva no nheengatu do Médio Rio Negro, do rio acima formulada. Passo a uma longa citação que me parece signi-
Xié, do baixo Içana, das fronteiras com a Venezuela (Taylor 1985: ficativa, mas que precisa, certamente, de aprofundamento futuro:
5-6), com história, portanto, distinta da língua geral do chamado A questão da língua, embora pouco estudada, oferece outra
Brasil caipira.
pista para apurar os complexos processos sociais de São Paulo
scisccntistn. Muitos historiudoros 1('111 :dlllll.ldo era
qtll' () tupi u.rlmcutc de b.ISl' 11Ipillé.lIllbn, j:1 II() scculo XVII, lia Me.1 centro
falado em São Paulo pelo menos aLt~ Il1cados do scculo XVHI, mcriclional do Brasil, apresentar ia uma base guarani, língua-irrna
quando cedeu lugar ao português e, nas áreas rurais, ao dialeto do tupinarnbá, mas de distribuiçao geográfica distinta: ocupariam
caipira. Cita-se frequentemente o comentário do bispo de Per-
os guarani, grosso modo, uma faixa litorânea que, do litoral do
nambuco em referência a Domingos Jorge Velho: "Este homem
1'•.1 raná e pelo interior, alcança os formadores do rio da Prata.
é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se
avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe, Tentei levantar a questão da complexidade do conceito língua
nem se diferença do mais bárbaro Tapuya mais que em dizer geral no Brasil colonial; referi-me a línguas gerais descenden-
que é cristão". Na verdade, Domingos Jorge não apenas falava Ics do encontro do português europeu e de línguas da família
como também escrevia em português, algo inusitado para um lu pi-guarani: destaquei a dificuldade que deveria ter havido em
Tapuya qualquer. Apesar de alguns tropeços na língua, o rude liistinguir essas línguas gerais do português geral brasileiro das
sertanista redigiu uma interessante carta ao rei, e sua firma mais 'amadas sociais que constituíam a maioria, a base dessa sociedade
que reconhecível aparece com alguma frequência nos registros do
.olonial polarizada.
cartório de Santana de Parnaíba. Acontece que o bispo - como
tantos outros observadores portugueses da época colonial - fa- Outras línguas gerais terá havido, podemos supor, tanto como
cilmente confundia-se com o português colonial, corrompido pela resultado do encontro do português com línguas indígenas mais
presença de barbarismos africanos e indígenas, classificando-o geralmente usadas em determinadas áreas, como uma língua in-
como uma língua à parte. Cabe ressaltar que mesmo em São Pau- dígena mais generalizada, num conjunto e numa área de línguas
lo, o domínio da língua geral ou qualquer outra língua indígena afins, como parece ter sido o caso da língua geral de base cariri,
era considerado uma respeitável especialidade, e a fluência numa difundida pelos interiores do Nordeste do Brasil, a que se refere
dessas línguas limitava-se aos maiores sertanistas. Parece provável A. Houaiss (1985: 49-50), "que deveria ser uma generalização re-
que, na evolução do regime de escravidão indígena ao longo do
cobridora de várias línguas cariris afins". Desaparecidas as línguas
século XVII,tenha se desenvolvido uma forma ancestral do dialeto
da família Kiriri, do tronco macro-jê, restou a documentação mis-
caipira, aliás fortemente marcado pela presença de palavras de
origem guarani. A população escrava, de fato predominantemente sionária do Pe. Luís Vicêncio Mamiani, no Catecismo da doutrina
guarani, porém crescentemente heterogênea, a partir da segunda christã da língua brasileira da nação Kiriri, de 1698 (Rodrigues,
metade do século, era basicamente bílíngue, apesar de muitos 1986: 51, nota 3).
sentirem dificuldades de expressar-se em português. A rigor, a Sobre o passado das línguas gerais indígenas e das línguas
divisão linguística de São Paulo refletia a estrutura bipolar da indígenas brasileiras, provavelmente ainda há muito a ser des-
sociedade colonial: na sua base, os escravos, provavelmente de
vendado, a partir de documentação remanescente em arquivos
diversos grupos étnicos e Iinguísticos, comunicavam-se na versão
brasileiros e estrangeiros.
paulista da língua geral, baseada num padrão guarani; no topo,
a comunidade luso-brasileira diferenciava-se da massa cativa Sabemos, contudo, que o índio brasileiro foi dizimado no
por meio do uso da língua colonial, embora, inevitavelmente, litoral já no século XVI, mas sobrevive ainda hoje nos interiores
entrasse em contato diário com o guarani do lugar (pp. 164- brasileiros, em pequenos grupos populacionais, um conjunto de 150
165, grifos meus).
a 180 línguas, faladas por uma população que começa a crescer,
Esta longa citação fundamenta a dificuldade que haveria entre mas ainda está à volta de 250.000 indivíduos. Sabemos também
. distinguir a língua geral, propriamente dita, e o português geral que a taxa de índios integrados à sociedade colonial decresceu
brasileiro a que se refere o historiador como "corrompido pela drasticamente do século XVI para o XIX.
presença de barbarismos africanos e indígenas", além de trazer à Certamente, em face dessa cruel realidade sócio-histórica,
cena uma outra versão da língua geral paulista, que sendo origi- não foram os índios brasileiros os difusores - no geral do
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Brasil do que estou designando de P()lllIgIIl'~ gl:I',,1 brasileiro, seu procvsso til' aquixição VIII xiuu«•.no de aquisição impci lcita

que contribuíram para formar, no Brasil colonial. l'na ora Iidade - daquela 11nguu que socialrncn te dcscmpcn ha ()
papel hcgcmônico. Usando sua formulação:
impossível dcsconsiderar, como se vem fazendo, a participa-
2.4 O português geral brasileiro no período colonial
ção das populações africanas no conjunto da história linguísti-
Juntamente com o português europeu que chega ao Brasil em ca brasileira. Do ponto de vista de uma dinâmica histórica, o
1500, e nos séculos subsequentes, e que com os luso-descendentes português dos africanos e o português europeu detêm o mesmo
brancos perfazem no período colonial uma base média de 30% valor, não podendo ser tomados isoladamente como ponto de
da população brasileira nos três séculos de colonização, junta- partida exclusivo (p. 244).
mente com as línguas gerais indígenas que aqui se formaram, é Por sua vez, Darcy Ribeiro, conhecedor da história sociocul-
a população africana e os afro-descendentes o outro conjunto de tural brasileira, em O povo brasileiro. A formação e o sentido do
actantes que importa considerar ao se observar a dinâmica do Brasil (1995), grande ensaio de interpretação sócio-histórica do
multilinguismo/multidialetalismo do Brasil colonial. Brasil, demonstra:
Tentarei argumentar em favor de um ponto de vista segundo Concentrando-se em grandes massas nas áreas de atividade
o qual teria sido essa significativa parcela de africanos e afro- mercantil mais intensa, onde o índio escasseava cada vez mais,
-brasileiros da população colonial o agente principal de difusão do o negro exerceria um papel decisivo na formação da sociedade
que estou designando de português geral brasileiro, antecedente local. Seria, por excelência, o agente de europeização que difundi-
histórico do chamado português popular brasileiro. ria a língua do colonizador e que ensinaria aos escravos recém-
-chegados as técnicas de trabalho, as normas e valores próprios
Ao examinar 16 processos fonéticos do português popular da subcultura a que se via incorporado (p. 166, grifas meus).
brasileiro, processos confrontados com o português europeu e
A luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes bra-
com características fônicas das línguas benue-kwa e banto, famí-
sileiros foi, ainda é, a conquista de um lugar e de um papel par-
lias linguísticas majoritárias, mas não exclusivas, aqui chegadas,
ticipante legítimo na sociedade nacional. Nela se viu incorporado
Alberto Mussa (1991: 165-207) conclui que o português popular à força. Ajudou a construí-Ia e, nesse esforço se desfez, mas, ao
brasileiro optou sempre pela realização menos marcada e menos fim, só nela sabia viver, em razão de sua total desafricanização.
estigmatizada, mas não priorizou o português popular brasileiro A primeira tarefa cultural do negro brasileiro foi a de aprender a
nem o que seria o português europeizado nem o que seria o por- falar o português que ouvia aos berras do capataz. Teve de fazê-Ia
tuguês africanizado. A solução brasileira - o que estou chamando para comunicar-se com seus companheiros de desterro, oriundos
de português geral brasileiro - construiu o seu próprio caminho de diferentes povos. Fazendo-o, se reumanizou... conseguindo
dentro das possibilidades existentes no mercado linguístico geral dominar a nova língua, não só a refez, emprestando singularidade
da colônia, destacando A. Mussa, com razão, que as línguas gerais ao português do Brasil, mas também possibilitou sua difusão por
de base indígena estiveram geograficamente localizadas na colônia todo o território (p. 220, grifas meus).
(p. 237), acompanhando, principalmente, a ação missionária. Há um certo consenso entre autores recentes que refletiram
O trabalho de Mussa mostra, sobretudo, que não há que se sobre a história linguística do Brasil e sobre a formação do por-
buscar com prioridade, como ocorre na bibliografia tradicional tuguês brasileiro (por exemplo, Houaiss, 1985; Mussa, 1991; Naro
.sobre o português no/do Brasil, as marcas tópicas ou as influências e Scherre, 1993), no sentido de não ter havido a possibilidade de
das línguas africanas no português brasileiro, mas há que compre- se estabelecerem no Brasil línguas africanas, das múltiplas que
ender e explicitar o papel da maciça presença africana e de seus aqui chegaram, em situações sócio-históricas específicas ainda
descendentes, em nova terra, em contato com novas línguas, no por serem desveladas, por pelo menos duas razões principais:
H". 11~·ji\II"II'.\I<'\ 111\1.\
iHH.IIJ·III~IIII(I,\ IHJ I'IIHIIH,III~ 11""".111 li"; I )I I' tN I I~ lil 11! (1.111~4 t I li! IIJ\ 'J 1'.\ I(i'\ 1\ I I I !II! tll!·'\ t.1 11.1:\1, , I t'Ij li 111;1' 'I 1'\ lU I 'j H,\~i 1I 11'1

a dcsurnanizantc política do tráfico Sl'IXII'<lV<I dv:--dv :I África os iudispcnsúvcix, tanto IlOS Illlrll'()s urbauos em lormuçào COIIlO 110
coétnicos e consequentemente os colíngucs, para impedir que se mundo rural da colônia.
organizassem para reagir contra o bárbaro sistema escravista: além
Onde está o homem, está a sua voz, e essa voz veiculava,
disso, não houve no Brasil a constituição plena de famílias de
certamente, o português geral brasileiro, que se pode conjeturar
escravos, onde se pudesse firmar a célula de núcleos linguísticos
como altamente diversificado e variável. Basta que se tome como
africanos (Mussa, 1991: 229),
parâmetro comparativo, mutatis mutandis, o português popular
Para comunicarem-se, chegando ao Brasil, teriam de adotar brasileiro atual. Apresentaria desde variedades pidginizadas até
dentre os recursos linguísticos disponíveis, ou as línguas indígenas, variedades próximas ao português europeu, não excluindo-se a
ou as línguas gerais indígenas ou o português do colonizador. O possibilidade de existência de línguas crioulas, tudo a depender
desenvolvimento histórico do Brasil indica que foi essa última Ia história social e sociolinguística dos indivíduos, de grupos de
opção a selecionada - reestruturado profundamente o português indivíduos e, no caso de línguas crioulas, a depender da sócio-
do colonizador no seu processo de aquisição - sobretudo por ser -história linguística das comunidades.
essa língua uma constante por toda a colônia e, também, possivel-
mente, por uma parcela dos africanos aqui chegados já dominarem Apesar dessa idealizável diversificação, não há como verificá-Ia
alguma forma de português adquirido na rota africana do tráfico. empiricamente; muito provavelmente havia denominadores comuns
nas variedades desse português geral brasileiro que permitiam a
A massa africana aqui chegada, a partir da primeira metade intercomunicação através desse veículo linguístico, pelo menos
do século XVI, e seus descendentes no período colonial, é extre-
desde fins do século XVII e início do XVIII. E aqui o indício que
mamente significativa na dinâmica da demografia colonial.
encontrei para fundamentar meu ponto de vista está também em
Esse contingente demográfico adquiriu o português, repito, Darcy Ribeiro (1995), quando demonstra o significado do período
em situações de oralidade e sob o second language learning effect da mineração como primeiro momento da integração colonial:
(Kroch e Taylor, 1994), na sua história familiar.
Nas zonas de mineração, a sociedade brasileira adquire feições
Poder-se-ia argumentar que houve áreas de concentração ne- peculiares como um desdobramento do tronco paulista, por in-
gra e negro-mestiça, contudo apresento indícios significativos que fluência de brasileiros vindos de outras áreas e de novos contin-
apontam para a generalização da presença dos africanos e afro- gentes europeus nele incorporados, e da presença de uma grande
-descendentes por todo o Brasil colonial, com menos representati- massa de escravos, tanto africanos quanto nativos, trazidos das
vidade, é certo, no Brasil meridional, de forte presença indígena, antigas zonas açucareiras (p. 373).
sobretudo guarani, mas não só e, depois do século XIX, de forte Esse momento histórico não só articulou a zona mineradora
presença branca pela emigração de europeus; e, evidentemente, o com a açucareira, mas também:
Brasil Amazônico, até hoje marcadamente indígena; mas também
Estimulou a expansão do pastoreio nordestino pelos campos
em ambas as áreas estavam presentes o escravo africano e seus
são franciscanos e do Centro-oeste, assegurando-lhe um novo
descendentes.
mercado consumidor, no momento em que decaía o nordestino.
O primeiro indício referido tem a ver com as funções sociais Possibilitou a ocupação da região sulina, conquistada pelos pau-
desempenhadas pelos negros (escravos e livres) e seus descenden- listas com a destruição das missões jesuíticas para o pastoreio
tes. Costuma-se vê-los nas grandes frentes de exploração mercantil do gado vacuum, para a criação de muares que abasteceriam os
, colonial, a primeira delas a açucareira, no litoral, logo seguida da tropeiros, os quais faziam o transporte terrestre colonial. Desse
exploração mineradora, no Brasil central. Contudo, eles desem- modo, a mineração, ademais de representar uma nova atividade
penharam múltiplos e pequenos, mas essenciais, papéis tanto no de maior rentabilidade econômica que as anteriores, ensejou <I
interior das famílias dos colonizadores, como atividades externas integração na sociedade colonial, assegurando assim, o requisito
~ '1i,1'".tlll-r:Ti"PTrT'T"Tli:f1"TTTTV"1t ,.\ 1t4lljl("~dl M
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fundamental da unidade nacional lml'tilvll.l 'tohn' " vastiduo do <ll' 25 foram idcntilicados 11(1 B;1I1ia entre 1614 e 1825, l'1l<·11Ií.\I1Io
território já devassado (pp. 373-374)'. 1:111 Minas Gerais pelo menos lZó cxist irarn durante o século XVIII.
Muito provavelmente a língua de comunicação generalizada Os avanços recentes nos estudos históricos afro-brasileiros
nesse momento integrador da sociedade colonial seria o portu- \l"\11 revelando que, ao longo do período escravista, a resistência

guês geral brasileiro, não se negando que em situações específicas .\ escravidão foi constante e se agudiza no século XIX, com as
pudessem aí ser ouvidas tanto línguas gerais indígenas, línguas l'O\1 hecidas revoltas e rebeliões negras.

indígenas, línguas africanas mais gerais entre os escravos (fala-se


A história dos quilombos (foram eles primeiro designados por
de uma língua geral das Minas, de base banto) e, certamente, o
ladeira ou mocambo) é a história do que os autores da coletânea
português europeu, sobretudo porque um contingente significativo de
.mtes referida chamam de "espaço ilegítimo da escravidão". Sen-
portugueses se deslocou para a área mineradora em busca do ouro.
do espaço ilegítimo, a documentação que diretamente se refere
;IOS quilombos trata, sobretudo, de como a sociedade colonial se

3. Situações linguageiras favorecedoras da difusão .urnou para a caça aos quilombos, principalmente a partir do
século XVIII.
do português geral brasileiro: uma aproximação
à questão linguística dos quilombos A constituição humana e social dos quilombos apresenta
significativo interesse para a história linguística do Brasil. Eles
A leitura de Liberdade por um fio: história dos quilombos no eram agrupamentos sociais que, isolados para sobreviver, também,
Brasil, de J. J. Reis e F. S. Gomes, organizadores (1996), desvelou-me por causa exatamente de sua sobrevivência, se articulavam com
um aspecto da história afro-brasileira essencial para a compreensão a sociedade legítima, o que traz um indício interessante sobre
da difusão do português popular brasileiro em perspectiva histórica. () papel desempenhado pelos africanos e afro-descendentes na
Tradicionalmente essa questão se encontra, pelo menos na construção e difusão do português geral brasileiro:
bibliografia referente à formação histórica do português brasileiro, Os quilombos brasileiros ocuparam sertões, florestas, cercaram
reduzida à quase secular luta do megaquilombo de Palmares, que e penetraram em cidades, vilas, garimpos, engenhos e fazendas;
conjugava um conjunto de doze ou mais quilombos, reunindo uma foram atacados e usados por grupos escravistas, aos quais também
população à volta de 20 a 30 mil indivíduos, cálculo que parece atacaram e usaram em causa própria; fugiam da escravidão e
exagerado a Stuart Schwartz (1994, s. v. Ouilombos), dado que se comprometiam com a escravidão; combateram e se aliaram
com outros negros, índios e brancos pobres; criaram economias
os engenhos de Pernambuco provavelmente nem tenham tido
próprias e muitas vezes prósperas; formaram grupos pequenos,
esse número de escravos ao mesmo tempo. Situava-se na região
ágeis, móveis e temporários ou grupos maiores, sedentários,
nordestina, abrangendo parte dos hoje estados de Alagoas e de com gerações que se sucederam. Politicamente estruturados,
Pernambuco. envolveram-secom movimentos políticos de outros setores sociais,
Outros grandes quilombos existiram no século XVIII: o do desenvolveram seus próprios movimentos (p. 23).
Ambrósio, em Minas Gerais, e o Quilombo Grande, também mi- Embora os estudos do livro não falem da "língua" dos
neiro, o quilombo do Piolho, no Maranhão. Durante o período quilombos como gostaríamos, poder-se-ia conjeturar, em termos
colonial, segundo o referido autor, houve centenas, senão milhares linguísticos, que, nessas situações sociais, se encontrariam múl-
de quilombos do Rio Grande do Sul ao Amazonas; eram especial- tiplas falas correntes no Brasil: africanas, indígenas, português
mente característicos, ali a concentração de população escrava era africanizado, português indígena, até português europeu, já que
grande e a geografia contribuía para o sucesso da fuga. É difícil acoitavam fugitivos. Seriam laboratórios de formação, muito
detectar, segundo Schwartz, a existência dos quilombos, mas mais possivelmente, de um português geral brasileiro, necessário à
ITM-" n·.-...-'-nMI:\nn-l~n~111~An'rr''',f
"'nrln .•.. __

articulação com a sociedade, sobretudo ~\ do segmento escravo, Jii<.:a <.:1<11'<1 essa estudo sobre os qu i
:'\1t il'ullIC,;:\CI l" Ivl 11<1 110
J

mas não só, externa a esses espaços ilegítimos. Muitos dos estudos lombos da Baixada Flu rniucnxc, 110 Rccôucavo da Guanuburu, de
da coletânea mostram essa articulação social e consequentemente ,,' S. Gomes (pp. 273-290), onde se explícita:
sociolinguística.
Os quilornbos de Iguaçu, como hidra de várias cabeças, torna-
Dos dezoito estudos, quatro tratam de Palmares e, em dois ram-se ameaçadores para os mundos da escravidão. As cabeças
deles, encontram-se as únicas referências explícitas à questão da imortais da hidra de Iguaçu, além dos quilombolas, eram taber-
neiros, pequenos lavradores, escravos remadores etc.
língua: no de Pedro Paulo Funari, "Arqueologia de Palmares: sua
contribuição para o conhecimento da cultura afro-amerícana" (pp. O mesmo ocorria no quilombo do Oitizeiro, de longa história,
26-51) e no de Richard Price, "Palrnares como poderia ter sido" 11<1 Barra do Rio de Contas, hoje Itacaré, ao sul do Recôncavo
(pp. 52-59). Haiano. como fica explícito no estudo "Escravos e coiteiros no

o primeiro, à p. 49, nota 47, diz: quilombo do Oitizeiro", de J. J. Reis (pp. 332-372): "... os qui-
lornbolas circulavam com frequência entre seus quilombos e os
Não sabemos que língua se falava em Palmares. Aparentemente, espaços 'legítimos' da escravidão" (p. 332).
contudo, os palmarinos, como uma população de origem variada,
congregando africanos de diferentes tribos, índios e europeus, Também assim era nos quilombos suburbanos de Salvador,
deveriam usar uma espécie de língua comum, não necessariamenle no Cabula, Matatu ou Itapoan, nas imediações de Salvador: "Os
banto (grifo meu); quilombos estavam cada vez mais integrados à vida da escravi-
dão urbana" (Schwartz, Cantos e quilombos numa conspiração de
e compara essa situação com a do Cafundó, em que palavras do
banto são integradas em estruturas do português. tscravos haussá. Bahia 1814 (pp. 373-406, especialmente p. 377).

No segundo, à p. 58, encontra-se: Assim, esse campo de estudo, que começa a ser explorado
rigorosamente pelos historiadores, traz evidências que levam a
A língua falada pelos palmarinos, de acordo com o que li, era
fortes indícios de que os espaços ilegítimos da escravidão seriam,
um tipo de português misturado com elementos africanos, mas
como os legítimos, fortes candidatos à difusão de um português
diferente o suficiente para que outros brasileiros não a entendes-
geral brasileiro, já que, no que se refere à questão linguística, na
sem. Havia sempre intérpretes acompanhando as entradas com
o objetivo de interrogar os prisioneiros de guerra. sua complexidade, "teríamos base bastante insegura para sugerir
uma língua geral africana nos quilombos como um todo", uma
Ambos os autores assumem que não seria uma língua africana vez que "o contacto estreito que as organizações quilombolas
a do quilombo de Palmares.
eram obrigadas a manter com a sociedade colonial teria forçado
Provavelmente cada quilombo teria tido sua própria configu- a circulação do português no seu interior" (Mussa, pp. 239-240).
ração linguística, a depender dos membros componentes desses
coletivos, mas muito provavelmente haveria sempre aqueles, em
cada quilombo, que se articulariam com os espaços legítimos 4. Em síntese
do seu entorno geográfico e social, já que havia uma articulação Busquei levantar algumas questões que envolvem a recons-
com os grupos sociais envolventes, importantes para a sobrevi- trução de uma história do português brasileiro no interior da
vência, pelo menos econômica, dos quilombos. Essas configura- dinâmica do multilinguismo/multidialetalismo do Brasil colonial.
ções também seriam diferentes, provavelmente, no que se refere Concentrei-me em aspectos referentes à formação e difusão da
aos quilombos da periferia dos centros pré-urbanos da época em face majoritária do português brasileiro, que hoje designamos de
relação aos rurais. português popular brasileiro.
0111 base em inlormuçõcs de csuuk» dl' hisl()I'ia social do
Brasil, persegui alguns indícios que pcrmitirum algumas Iorrnu
lações que devem ser aprofundadas no processo de realização de
um projeto para a história do português brasileiro.
Os atores fundamentais no contexto do multilinguismo/mul-
tidialetalismo do Brasil colonial foram: CINCO
a. o português europeu na sua dialetação diatópica, diastrática
e diacrônica, que teria ao longo do período colonial um A generalizada difusão da língua
contingente médio de 30% da população brasileira; seria portuguesa no território brasileiro*
esse português europeu base histórica do português culto
brasileiro que começaria a elaborar-se a partir da segunda
metade do século XVIII;
b. as línguas gerais indígenas, que, plurais e dialetalizadas,
poderiam até confundir-se com o português geral brasileiro I. Desdobrando epígrafes
nas áreas geográficas delimitáveis em que se difundiram; Escolhi como primeira epígrafe o ponto de vista de quem
c. o português geral brasileiro, anlecedente histórico do primeiro explicitou uma reflexão sobre a língua portuguesa, na
português popular brasileiro que, adquirido na oralidade "lia Gramática da linguagem portuguesa, de 1536, mesmo ponto de
e em situações de aquisição imperfeita, é difundido pelo vista que encontramos
geral do Brasil sobreludo pela maciça presença da popula- defendido por Antoine "Os homens fazem a língua, e
ção africana e dos afro-descendentes que perfizeram uma Meillet, dos grandes
média de mais de 60% da população por todo o período
não a língua os homens"
Iinguistas historicistas (Fernão de Oliveira, 1975 [1536]: 43).
colonial.
do começo deste século,
Para o papel dessa presença maciça e generalizada desse em 1928, no clássico "Uma multidão obscura que
segmento da população colonial na sociedade brasileira de então, squisse d'une histoi-
busquei indícios não só nos dados da história da escravidão no re de Ia langue latine: jamais teve voz própria"
(Kátia Mattoso, 1990 [1978]: 11).
Brasil - a presença do escravo em múltiplos papéis sociais, para /tA história política de
além de sua atividade nas frentes da economia colonial -, mas Roma e a história da
também na história da busca da liberdade pelos escravos, ou seja civilização romana explicam a história da língua latina" (p. 5,
nos quilombos e na sua articulação com os chamados espaços lradução minha).
legítimos da escravidão.
Provavelmente Antoine Meillet nunca terá lido a gramática de
Fernão de Oliveira. Mas a história de uma língua realmente se es-
clarece pela história social e política do povo que usa essa língua.
Esse ponto de vista, que ambos defendem com cinco séculos
de distância, percorre os estudos históricos sobre as línguas e é

=Uma versão prévia desse texto foi publicada na revista Gragoatá, 9 - 2° se-
mestre de 2001, pp. 11-28 e como conferência ele foi pronunciado em Évora, 2000.
uma posição básica de quem faí'. lingruxí icn IlislOl ivn, e-mbora se "'<11111>('11\ dL'VCI\\OS SIII)(.'I"II, pam " comprccnsao do pOllllglll'S
possa aceitar, como o fazem muitos diucronistas, II;\() necessaria- brasileiro em geral, lima ()1'il'1I1,,~',\O antiga e tradicional, mas ain-
mente historicistas, que há mudanças nas línguas a mudança é d:l viva, que é a de buscar "inlluônclas" das línguas africanas no
o centro da linguística histórico-diacrônica - que são predizíveis, português brasileiro, tal como se faz para a busca das influências
sem interferências de fatores externos de natureza sócio-histórica. rlns línguas indígenas. Influência envolve uma perspectiva de na-
II1 reza superficial, tópica, embora significativa e curiosa, mas de
Como é o caso do gerativista diacronista David Lightfoot (1999:
264), que admite que em áreas limitadas ou em certos domínios é caráter aleatório. Buscarei argumentar que, com base em fatores
possível fazerem-se predições, são essas as mudanças necessárias, sócio-históricos ou da história social brasileira, a "voz" africana
encadeadas, em que uma mudança serve de gatilho para outras. t' dos afro-descendentes, adquirindo necessariamente a língua dos
colonizadores, a portuguesa, como língua segunda, na oralidade
Com a escolha dessa primeira epígrafe, já enuncio, à partida, do cotidiano diversificado e multifacetado, sem o controle nor-
minha posição no que se refere à abordagem teórico-metodológica mativizador explícito da escolarização, reestruturou o português
que adoto, na tentativa de compreender e interpretar uma das -uropeu, que no Brasil começa a chegar em 1500 e sucessivamente
questões que envolvem a formação e as características do portu- ao longo do período colonial e, no século XIX, em contingentes
guês brasileiro.
significativos, com a emigração.
A segunda epígrafe escolhida foi motivada pelo foco desta
exposição, que se centrará na busca de uma interpretação para
a difusão generalizada da língua portuguesa, no seu formato bra- 2. Algumas questões para a compreensão histórica
sileiro, em nosso tão extenso e de complexa história linguística do português brasileiro
território nacional. Essa "multidão obscura que jamais teve vo Pode-se afirmar, com certa margem de segurança, que até
própria", na expressão da historiadora especialista no Brasil colonial meados do século XVIII, o multilinguismo generalizado carac-
e na escravidão do Brasil, Kátia Mattoso, no seu livro já clássico terizou o território brasileiro. Multilinguismo que perdura até
Ser escravo no Brasil, cuja primeira edição é francesa e de 1979. hoje, mas localizado, porque, apesar de a língua portuguesa ser
Essa "multidão obscura" não teve "voz" na sociedade brasi- a língua oficial (não mais nacional, desde a Constituição Federal
leira, porque desde a terceira década do século XVI até 1888, fins de 1988) e amplamente majoritária no Brasil, persistem/resistem
do século XIX, teve o papel social de coisa, objeto, mercadoria. entre 150 a 180 línguas autóctones indígenas, também conside-
Só que, como "mercadoria humana", tinha voz - ouvia, falava radas nacionais, usadas por uma população à volta de 260.000
-, aqui, portanto, "voz" não mais no sentido metafórico utilizado indivíduos, mínima parte da população geral do Brasil que será de
pela historiadora, e será essa voz a marcar, reformatar, dar o 190.000.000, segundo contagem de população feita pelo Instituto
tom à gramática do vernáculo brasileiro, vernáculo entendido Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Minorias línguísticas
como língua materna de falantes com história de vida familiar que, necessariamente, vêm adquirindo a língua portuguesa, mas
e pessoal, sem interferência da escolarização, ou, se quisermos, que, cada vez mais, se tornam conscientes da também neccssa
ao chamado português popular brasileiro ou normas vernáculas ria preservação de suas culturas e de suas línguas. Na maior in
que interpenetram o chamado português culto ou normas cultas. estão concentradas naquelas populações que não perderam éI SII:I
Não entrarei no debate já secular da crioulização prévia versus língua, na área amazônica, na parte norte do Brasil Central, 11.'"
deriva natural; apenas direi que a crioulização prévia não pode fronteiras com a Hispano-América, pontilhando em outros p01l1 n"
ser descartada para certos locais nos interiores rurais brasileiros, do Brasil: no Nordeste os Yathé ou Fulniô, em Pernarnbuco. ti
como aliás defendem A. Baxter e D. Lucchesi, mas não se justifica Maxakali em Minas Gerais; o Xókleng, Kaingang e Guaraul l'11I
para o geral do Brasil. pontos da região Sul do Brasil e nas fronteiras com o P:\I:lI.'II.l1
Para além das línguas autóctones, h:í i1!"' IIllguól\ d" l'llI igraçào, qUl', a IXII t ir do Marunhao, c orucçou li avançar IIU colonizuçãu
d" babélica Amazônia, adjetivo recorrente nos escritos do Pc,
em comunidades birnultilfngues, sobretudo dL' S,-\() P"Hllopara o
Sul, que chegaram, a partir do século XIX, em nosso país. Antônio Vicira.
Os destinos dessas duas línguas gerais indígenas são distintos.
Quanto às línguas indígenas, admite-se que, no início da co-
Outras terá havido, como a língua geral cariri, nos interiores ser-
lonização portuguesa, no que viria a ser Brasil, se usavam mais
umejos nordestinos, de base macro-jê, tronco linguístico próprio às
de mil línguas indígenas, de vários troncos e famílias linguísticas.
Cálculo elaborado por um especialista renomado na questão, Iarnílias linguísticas de maior expansão nos interiores brasileiros,
Aryon Rodrigues (1993: 91), propõe que teriam sido, nos inícios os célebres tapuias da documentação colonial.
da colonização, 1.175, das quais 85% desapareceram no período A língua geral amazônica, documentada amplamente, conforme
colonial, depois e continuam a desaparecer, ou porque os seus Aryon Rodrigues, continua ainda em uso, modificada, é claro, no
falantes se integraram na sociedade nacional, ou porque foram chamado nheengatu do médio Rio Negro, do rio Xié, da Bacia do
dizimados intencionalmente ou por epidemias. Dos calculados lçana, das fronteiras com a Venezuela (Taylor, 1988: 5-6).
cinco milhões de indígenas em 1500, diversos cultural e linguís-
A língua geral paulista, precariamente documentada, terá sido,
ticamente em mais de 1.500 povos, admite-se 800.000 ao fim da
na tradição dos estudos históricos sobre o português brasileiro, a
colonização, talvez 300.000 no fim do Império, em 1822, cerca de língua da colonização de São Paulo e suas extensões interioranas,
262.000 hoje (Gomes, 1993: 63-64). áreas de Minas Gerais e Mato Grosso, por exemplo. O historiador
Sabe-se, também, desde o século XVI, graças aos primeiros John Manuel Monteiro, especialista em história indígena no Brasil,
cronistas e historiógrafos sobre o Brasil, alguns deles jesuítas, no seu livro de 1995, Negros da terra: índios e bandeirantes nas
que começaram a chegar ao Brasil com o primeiro governador- origens de São Paulo (pp. 154-187), com base em documentação
-geral, Tomé de Souza, em 1549, que havia uma certa homogenei- arquivística ampla, levanta a interessante hipótese, que precisa ser
dade cultural e linguística, ao longo do litoral, a partir do Rio aprofundada, que é a de que muito do que se designa por língua
Grande do Norte, e também na Bacia do Paraná/Paraguai, em geral, na documentação colonial daquela área do Brasil, poderia
que predominavam povos indígenas do tronco tupi, sobretudo ser confundido com o que nas suas palavras seria "o português
da família linguística tupi-guarani e, em vários pontos litorâ- colonial, corrompido por barbarismos africanos e indígenas" (p.
neos, os tupinambás e os tupiniquins, inimigos históricos, mas 165), não percebido pelos colonizadores que o identificariam com
de línguas da família tupi-guarani muito semelhantes, como já a língua geral e afirma que, no período que estuda, séculos XVI
destaca, em 1587, Gabriel Soares de Souza (1989: 44). Com essa e XVII, "o domínio da língua geral ou qualquer outra língua in-
homogeneidade litorânea, tornou-se possível a gramaticização dígena era considerado uma respeitável especialidade" (p. 165).
da Língua mais falada na costa do Brasil, título muito adequado O que recobre o significante língua geral, na documentação
da gramática do Pe. José de Anchieta, publicada em 1595, e que do passado colonial brasileiro, ainda precisa de minuciosa e pre-
serviu de base para a catequese inicial e, provavelmente, para a
cisa investigação.
sua aprendizagem pelos primeiros colonizadores letrados. Essa
língua mais usada na costa do Brasil estará na base do que, só Enriquecer-se-á esse multilinguismo autóctone, em contato
no século XVIII, veio a se designar de língua geral (Rodrigues, com o português do colonizador, com os africanos, à força trazidos
1986: 99). Esse mesmo especialista distingue duas línguas gerais, para o Brasil, oficialmente a partir de 1549, mas já solicitados
. a paulista, de base tupiniquim e/ou guarani, que terá sido a lín- escravos africanos pelo donatário Duarte Coelho, da Capitania de
gua de intercomunicação entre colonizadores, colonos e índios Pernambuco, em 1539, e pelo donatário da capitania de São Tomé,
nas bandeiras para os interiores do Brasil, a partir de São Paulo, Pero de Gois, em 1545. Após a instalação do primeiro governo-
no século XVII; e a língua geral amazônica, de base tupinambá, -geral, em 1549, estabeleceu-se o tráfico regular e estimulou-se a
importação de africanos para o Brasil. .I~I110 filll do século XVI, nupc, igbó, i.i<'>; (v) 'IL lI"dít (I' (h:'llISs:.el) L' (vi) 'uilo sahuriauá'
segundo o historiador português JorgeCouro, (ka nuri).
nos finais de Quinhentos, a presença africana (42%)já se esten- B. A área banto, limitada à costa oeste africana (atuais Congo,
dia a todas as capitanias, ultrapassando no conjunto, qualquer aire e Angola), s6 mais tarde à costa leste (Moçambique).
um dos outros grupos - portugueses (30%) e índios (28%), Essa área, diferente da anterior, apresenta-se tipologica-
apresentando um crescimento espetacular nas capitanias de mente homogênea, teria sido a da maioria dos escravos,
Pernambuco e Bahia, esta última sextuplicando seus habitantes distinguindo os autores: o Kikongo (HI0), do antigo reino
negros (1992: 278).
do Congo; o Kimbundu (H20), da região central de Angola,
Teria o Brasil, ao findar o primeiro século colonial, 10 1.750 antigo reino Ndongo e o umbundo (RIO), da região de
habitantes, seguindo o referido historiador, friso eu, 42% de Benguela em Angola.
africanos.
A constante banto no tráfico negreiro parece-me consensual
A historiografia sobre a escravidão no Brasil define as áreas entre os especialistas. Alberto Mussa, em tabela sobre os percen-
africanas de onde procederam os africanos escravizados e, em luais das línguas africanas trazidas pelo tráfico, indica para os
síntese, retomo o que informa a historiadora Kátia Mattoso escravos de línguas da família banto 35%, 65%, 64% e 50% para,
(1990: 22-23) sobre os grandes ciclos do tráfico: no século XVI, respectivamente, os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX (1991: 145).
o ciclo da Guiné, da África ao norte do Equador que traz para omenta o autor que isso explica a maior integração morfológica
o Brasil "wolofs, mandingas, sonrais, mossis, houssás e peuls", c em maior número de campos lexicais de palavras de origem
genericamente chamados de sudaneses; o ciclo do Congo-Angola, banto, destacando também "a posição relativamente proeminente
com os bantos da África Equatorial e Central; o terceiro ciclo, no
do grupo não banto, benuê-kwa nos dois últimos séculos (20% e
século XVIII, novamente com predominância sudanesa e que se
24%)" (id. ibid.: 146).
desdobra, a partir do século XVIII, no que designa Kátia Mattoso
de ciclo propriamente baiano, o da baía de Benin, também com Além do consenso da proeminência banto, há um outro, na
predomínio sudanês; e, no século XIX, ultrapassando 1830, já questão das línguas africanas no Brasil, que é a afirmativa de
como tráfico ilegal, os escravos seriam um pouco de toda parte, que seria impossível ter-se praticado uma língua africana no geral
com predominância de Angola e Moçambique, área banto. do Brasil, situação afirmada pela historiadora Kátia Mattoso: "A
Quantas línguas africanas chegaram ao Brasil? metrópole portuguesa adotou sempre a política de misturar as
diferentes etnias africanas, para impedir a concentração de negros
Em seu artigo "Portugais du Brésil et langues africaines" (1988: de uma mesma origem numa só capitania" (1990: 22).
73), Emílio Bonvini e Margarida Petter, especialistas na questão
das línguas africanas e delas no Brasil, dizem que se pode estimar Admite-se, contudo, que poderá ter havido uma língua ge-
que, falantes, à volta de 200/300 línguas africanas, chegaram com ral banto na área da mineração nos fins do século XVII e que
o tráfico e se repartem essas línguas em duas grandes áreas de se falariam línguas africanas, sobretudo o iorubá, na cidade de
proveniência: Salvador, no século XIX.
A. A área oeste-africana, caracterizada pelo maior número de A massa africana escravizada, chegada ao Brasil, e seus des-
línguas, tipologicamente diversificadas: "(i) 'oeste atlântico' cendentes tiveram de aprender uma outra língua, na oralidade,
(fulfuldé, wolof, serei, temre... ); (ii) 'mande' (mandiga, sem normativização escolar, a língua dominante da colonização,
principalmente); (iii) 'kwa' ou 'ghe' (ewe, gen, oj'á, fous, a portuguesa, como afirma a historiadora Kátia Mattoso:
designadas como jeje no Brasil; (iv) benuê-congo, principal- "O aprendizado do português, que se fez o idioma vernáculo
mente falares yorubá, designados no Brasil por nagô-ketu, dos escravos incapazes de se comunicar entre eles nas suas
línguas respectivas, 11[\0 pôde ser tlhsolvido n ru it o depressa (.' (I 7'1% c 75fY,) de analfabetos. Cllvg;\I\\oS assim
à segunda dccada
língua torna-se verdadeira barreira 'enlre os rcccm chegados t' do scculo XX com 75% de uunllnbctos. A situação atual mostra
os outros" (1990: 105).
,!lll' menos de 20% da população brasileira atingem o 2 grau
0

Mattoso, que construiu e constrói sua obra com base no es- IIl- escolaridade e somente 38% concluem ala série do 1 grau.
0

tudo sistemático de fontes arquivísticas, apresenta alguns indícios Admitindo-se como suficientemente letrados - avaliação otimis-
de como teria sido aprendida pelo escravo a língua dos senhores. I" - os que concluem as quatro séries iniciais de escolarização,
Em síntese, afirma (pp. 112-113) que para o escravo crioulo o permanecemos na década de 1990 com menos de 20%.
problema da língua não se apresenta, já que criado desde pequeno
Esta situação da escolarização, vista nessa perspectiva his-
na língua dos seus senhores. O africano raramente encontra, em
Iórica, esclarece que o "abismo" referido por Boris Fausto para
seu local de trabalho, outros de seu grupo linguístico. Cabe ao
1872 persiste, já nos anos 1990, um século depois: apenas 10%
senhor ou, com mais frequêncía, ao feitor a missão de ensinar
da população brasileira atual alcança o nível superior.
ao recém-desembarcado os rudimentos do idioma. O aprendizado
também se faz com os seus companheiros de corveia ou com o Essa questão explica a polarização sociolinguística - feliz
capelão, que não seria presença muito frequente nas fazendas. designação de Dante Lucchesi - que caracteriza o português
Além disso, os senhores não eram exigentes. Um conhecimento brasileiro nos tempos que correm. Os avanços dos estudos socio-
precário da língua, que permitisse a compreensão das ordens, Iinguísticos no Brasil, a partir dos anos 1960, demonstram uma
é considerado suficiente na maioria dos casos. Destaca ainda realidade sincrônica que reflete a história do nosso passado e
Mattoso que no século XIX, as "vendas" ao redor das plantações que permanece, mudados, contudo, os senhores. Essa polarização
de café serão um lugar onde a linguagem dos africanos se pode indica que no português brasileiro convivem normas vernáculas
enriquecer. Considera que só os escravos domésticos se tornam ou o português popular brasileiro e normas cultas ou o portu-
bilíngues e, seus filhos, criados, na primeira infância, com os guês culto brasileiro dos que atingem nível de escolaridade mais
do senhor, aprendem melhor o português e empobrecem o seu alto, para além da norma padrão, lusitanizante, ainda veiculada
conhecimento em relação à língua africana dos pais. Quanto à pelas gramáticas normativas, sendo impossível deixar de afir-
educação escolar do escravo, era totalmente proibida no Brasil mar que a interação social no Brasil, sociedade não segmentada
até para os forros e isso perdura ainda na segundo metade do em estamentos estanques, permite o trânsito entre falantes do
século XIX, em plena desagregação do sistema servil escravista. português popular e do português culto, num entrecruzar-se de
Daí, ressalta a autora um fato lógico e distinto do que ocorreu possibilidades que justifica a afirmativa da heterogeneidade social
nos Estados Unidos: a ausência de relatos de escravos: "O escravo do português brasileiro.
brasileiro é um desconhecido, sem arquivos escritos. Não teve a
oportunidade de falar de si mesmo" (p. 113).
No recenseamento de 1872, para além das taxas de analfabetos, 3. Africanos e afro-descendentes: os principais
apurou-se que, na população entre 6 e 15 anos, apenas 16,8% fre- difusores do português vernáculo brasileiro
quentavam escolas. Havia menos de 12 mil dos 4.600.000 habitantes
Até meados do século XVIII terá predominado um multilin-
em colégios secundários. Contudo chegava a 8.000 o número de
guismo/multidialetalismo generalizado no Brasil. A escolha de
pessoas com educação superior. A tal situação o historiador Boris
meados do século XVIII se funda na política linguístico-cultural
Fausto designa de "abismo que separava a elite letrada da grande
pombalina, que torna o português língua oficial do Brasil, expul-
. massa de analfabetos e gente de educação rudimentar" (id. ibid.).
sa os jesuítas que, nas suas aulas de catequese, davam suporte à
Dados estatísticos oficiais posteriores, entre 1890 e 1920 (cf. língua geral, em detrimento do português, sobretudo, certamente,
Ribeiro, 1999), indicam que em 1890, 1900 e 1920, tínhamos 85%, a amazônica, já que a paulista se diluía no português colonial,
As sobre dl'lIlogl',dia histo: ica mostram que II()
illlolllla<,'Úl's
conforme evidência cxtcrnada pelo histot'i:,dol' .101", Manuel
limd do século XVI os escravos Sl" iam 42%; às vésperas da 11H.le
Monteiro. A massa escrava sucessiva para aqui uuvida, desde a
Ill'ndência, 1818, seriam mais de 50% (cf. tabela 1). Considerando
quarta década do século XVI até avançado o XIX, mesmo com a
,'sses extremos, sem aprofundar a curva do que se passou entre
extinção do tráfico oficial em 1830, com suas 200/300 línguas teve
os fins do século XVI e 1822, a população escrava, africana e
de aprender a língua dos senhores, a partir de situações precárias
.d'ro-descendente, ficou, no período colonial, no patamar de 50%.
de exposição à língua-alvo, a portuguesa.
Retomando uma tabela retirada da pesquisa de Alberto Mus-
No cenário colonial, os "atores" linguísticos principais em
sa, tem-se um painel da formação populacional do Brasil, entre
concorrência seriam: as línguas gerais indígenas, o português
europeu e o que tenho designado de português geral brasileiro 1538 e 1890:
em formação, que teria como falantes principais os indígenas TABELA 2
remanescentes que se integraram à sociedade nacional e os afri- 1801-1850 1851-1890
1538-1600 1601-1700 1701-1800
canos e afro-descendentes que, num crescendo, serão 42% sobre
20% 12% 2%
uma população de 101.750 habitantes ao fim do século XVI, africanos 20% 30%

conforme o historiador Jorge Couto, admitindo-se hoje que, com 21% 19% 13%
negros brasileiros - 20%
o tráfico, aqui chegaram cerca de 3.500.000 (Mattoso, 1990: 13) 19% 34% 42%
mulatos - 10%
escravos, montante que outros autores consideram exíguo, corno
10% 17% 24%
Darcy Ribeiro (1995: 162), que propõe 6.353.000, através do que brancos brasileiros - 5%

14% 17%
chama de demografia comparativa hipotética, chegados ao Brasil europeus 30% 25% 22%
entre 1540 e 1860. 10% 8% 4% 2%
índios integrados 50%
O brasilianista Robert Conrad, no seu livro Os últimos anos
Fonte: Mussa, 1991: 163.
de escravatura no Brasil: 1870-1888 (1978[1972]), afirma:
Nos primeiros tempos, mais da metade dos habitantes do Bra-
Na tabela 2, vê-se a constante africana e de afro-descendentes
sil (excluindo os índios que se encontravam à margem da vida
nacional) eram escravos e apenas uma pequena percentagem do século XVII ao XIX, no patamar de 60%; o decréscimo vio-
de pessoas de cor foi libertada após quase três séculos de es- lento dos índios integrados (de 50% para 2%) e a presença de
cravidão (p. 6). europeus e brancos brasileiros, num patamar de 30%, só elevado
na segunda metade do século XIX, quando da extinção do tráfico,
Apresento uma adaptação resumida da tabela I de seu livro coincidindo com a chegada de emigrantes da Europa e da Ásia.
(p. 344) em que estão dados significativos para o nosso foco:
Tânia Lobo (1996) reorganiza os dados de Alberto (cf. tabe-
TABELA 1 la 3), deixando claro que os usuários mais prováveis do por-
tuguês europeu ou mais europeizado, portugueses e seus
1798 181711818 1864
descendentes, constituíram menos de um terço da população
Total de livres
convivente no Brasil. A maioria teve história linguística fami-
(brancos, de cor, índios) 1.666.000 1.887.900 8.534.000
liar de língua não portuguesa e, como o mostra a tabela 2, o
Total de escravos 1.582.000 1.930.000 1.715.000
decréscimo dos falantes indígenas é drasticamente constante
População total 3.248.000 3.8 t 7.900 10.249.000
e o montante populacional dos africanos e afro-descendentes
Fonte: dados parciais da tabela 1 de R. Conrad (1978[1972]: 344). é constantemente alto:
TABELA
que os escravos SCIll prc Sl' couccul rurum nas cha mudas ura mies

etnias não brancas etnla bruncu


- [rentes de exploração econômica do processo colonial.
Assim se pode esboçar o percurso geral da escravidão bra-
-
1538-1600 70% 30% sileira: das lavouras canavieiras de Pernambuco, Bahia e Rio de
1601-1700 70%
Janeiro, sobretudo nos séculos XVI e XVII, para a mineração de
30%
ouro e de diamantes nas Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, dos
1701-1800 68% 32%
fi ns do século XVII para o XVIII. Diminuindo a corrida de ouro e
1801-1850 69% 31% de diamantes, a mão de obra é atraída para o litoral, onde ocorre
1851-1890 59% 41% novo impulso açucareiro em áreas do Rio de Janeiro, atingindo
Fonte: T. Lobo, 1996: 16. até São Paulo e, no século XIX, se concentra na área cafeeira do
Vale do Paraíba, abrangendo áreas paulistas, do Rio e de Minas.
Os dados de Alberto Mussa são reforçados pela afirmativa do Tendo sido também sempre o escravo adquirido para o cultivo
historiador Boris Fausto, com base no recenseamento de 1872: de algodão, fumo, como no Maranhão; para a colheita de espe-
"Do ponto de vista social, os dados relativos às principais provín- ciarias em áreas amazônicas e para as imensas regiões pastoris
cias sugerem que os brancos [portugueses e seus descendentes] do Brasil, como os interiores nordestinos, desde o século XVI e
representam menos de 30% da população total ao fim do período já no século XIX para as charqueadas do Rio Grande do Sul (cf.
colonial" (p. 135). Mattoso, 1990: 23-24,53-54; 108).
Nas palavras de Robert Conrad: "Os escravos eram obrigados
Diante desses dados demográficos, pode-se admitir que o forte
a migrar e, por vezes, seus donos vendiam tudo o que tinham e
candidato para a difusão do que tenho designado de português
partem com todos os seus trabalhadores para regiões mais pro-
geral brasileiro, antecedente histórico do atualmente designado
missoras" (1978: 64-65).
vernáculo ou português popular, variante sociolinguística mais
generalizada no Brasil, seriam os africanos e afro-descendentes, A depender da sua atividade servil, "escravos dos campos, das
e não os indígenas autóctones, já que o português brasileiro cul- minas, dos sertões terão destinos diversos e viverão de maneiras
muito diferentes suas relações com a sociedade que os obriga ao
to, próprio hoje, em geral, aos de escolarização mais alta, será o
trabalho" (Mattoso, 1990: 109).
descendente do português europeu ou mais europeizado, das elites
e dos segmentos mais altos da sociedade colonial. Mas em regiões em que se considera pouco significativa a
presença negra, isso não ocorre, como é o caso, por exemplo, de
Sabe-se que dados demográficos são um fator significativo para Santa Catarina. O historiador Oswaldo Cabral apresenta um quadro
a compreensão da formação histórica das línguas; só ganham vida, geral do crescimento populacional (1994: 107), onde informa que,
contudo, se deles pudermos depreender a dinâmica das populações em 1810, do total da população da capitania, 30.339 habitantes,
que usam essas línguas. Assim, com base nos dados estatísticos e 7.203 eram escravos e 23.136 livres (sem especificar se brancos,
estáticos antes apresentados, tecerei algumas considerações sobre a mulatos ou negros), Quase um terço era, portanto, escravo. Não
mobilidade geográfica dos escravos no Brasil e sobre a diversidade dispõe o autor de dados para antes de 1810; mas em 1874, os
e multiplicidade de papéis sociais desempenhados pelo escravos, emigrantes já presentes, os escravos seriam apenas 10% (144.818
sempre papéis subalternos, é óbvio, mas constantes e necessários livres e 14.984 escravos, não se sabendo, dentre os livres, os que
. à sociedade que se constituiu em nosso território. seriam afro-descendentes).
É consabido que o tráfico de escravos africanos está estreita-
Segundo Conrad, a migração forçada dos escravos brasileiros,
que se seguiu à supressão do tráfico africano oficial em 1830,
mente vinculado à demanda de mão de obra. Também é consabido
começou nas plantaçocs, fazendas e l'Íd<ldl'~ dn IIOllc, oeste ..
Robcrt Conrad, lia sua pesquisa sobre os ultimes unos <Iv
extremo sul e tem como alvo as plantações de cale do Rio, Minas
e de São Paulo. (''irravid50 no Brasil, mostra que, às vésperas da aboliçao da
('scravidão, em 1884, a população escrava, considerando ele as
O novo tráfico não era sem precedentes. Durante centenas de rlczcnove províncias do Império e o município neutro, se con-
anos, os escravos, no Brasil, haviam sido movidos para regiões I entrava em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, graças
do país onde eram mais necessários e onde alcançavam melhores sobretudo à migração do Nordeste para a área cafeeira. Resumo
preços (1978: 64-65).
.1 seguir dados da figura 5 de seu livro (1978: 81), em que destaco

A par dos escravos "migrantes", a depender do mercado, havia ,\8 províncias que ao findar o século XIX possuíam mais escravos,
os escravos urbanos, apesar da pouca urbanização da colônia. Em não mais o Centro-oeste e o Nordeste, como ao fim do período
1820, apenas 7% da população vive nas cidades (Mattoso, 1990: colonial (cf. tabela 4):
109). Nelas cabe aos escravos o trabalho considerado vil para os
TABELA 5
brancos, embora sejam eles mais independentes diante do seu senhor
Províncias 1884 I população escrava
do que os rurais - são artesãos, carregadores, pintores, marinhei-
ros. Tal como os escravos domésticos, saem com seus tabuleiros Minas Gerais 310.000

de doces e rendas que vendem, propiciando lucros suplementares Rio de Janeiro 260.000
aos senhores (id., ibid.). Os múltiplos e pequenos, mas essenciais São Paulo 160.000
papéis desempenhados pelos escravos nas famílias dos coloniza- Bahia 140.000
dores, tanto nos núcleos urbanos em formação como no mundo Pernambuco 80.000
rural da colônia foram estudados por Mary Karasch, especialista Rio Grande do Sul 60.000
no tema (cf, Nizza da Silva [org.], 1994: s. v. escravidão africana). Maranhão 45.000

Às vésperas da Independência, em 1819, a população escrava Fonte: Seleção da figura 5 de R. Conrad (1978: 81).
por região estava assim distribuída:
As outras províncias estavam entre 30.000 e 10.000, destacan-
TABELA 4
do o Autor que, nessa altura, haveria menos escravos em Mato
Regiões
1819 I população escrava Grosso e no Rio Grande do Norte, com 5.000, em decorrência da
Norte
27,3%
situação econômica dessas áreas.
Nordeste Outro indício significativo para uma configuração da dinâ-
33,0%
Leste mica social dos africanos e afro-descendentes no Brasil colonial
28,1%
Sul
28,9% é a questão dos negros nos chamados espaços ilegítimos da es-
Cen tro-oes te cravidão (cf. J. J. Reis e F. dos Santos, 1996), ou seja, a história
40,7%
Média da resistência, nos quilombos, que apontam desde o século XVI
30,0%
e se multiplicam ao longo do período colonial, implementando-se
Fonte: adaptação de K. Mattoso, 1990: 65.
com maior significação no século XIX. Nesses espaços ilegítimos
em que se agrupavam negros, índios, fugitivos de qualquer etnia,
Esses dados, que não incluem livres de cor, indicam que,
inclusive portugueses e luso-descendentes, circulariam, sem dúvida,
ao fim da colonização, há uma distribuição geográfica equi-
librada da população escrava no Brasil, no contexto de uma configurações linguísticas diversas, a depender da composição de
dinâmica social, por um lado, própria a cada região, por outro, cada um deles e de sua localização no espaço territorial brasileiro.
no geral do Brasil. Contudo, ali também não poderia deixar de estar presente o que
venho designando de português geral brasileiro, já que, para sua
sobrevivência, esses qu ilorn bos se articu 1:IV;!1I1
dl' . tlgi 1111
modo <':0111
Posiçào aiuda rcalu nuula l'lll 1994, por um dos estudiosos
a sociedade "legüima", por razões de sobrcviVl'llci:1.Isso fica claro
do português brasileiro, o linguista Sílvio Elia:
em alguns dos estudos da coletânea de J. J. Reis e F. dos Santos
e também em Kátia Mattoso: "... quase todos [os quilombos) A [língua] de maior prestígio era, sem contraste, a portuguesa.
que têm menos de uma centena de homens, estabelece-se perto As línguas indígenas e africanas, por ágrafas, não tinham a
reat Tradi tio 11. , a que se refere Joshua Fishman. O português
de um centro urbano, onde conta com numerosa cumplicidade 11

(1990: 159). quinhentista... fizera-se uma língua poderosa de uma nação


poderosa. Nos contactos com a loquela inumerável de indígenas
A presença maciça dos africanos e afro-descendentes que a e africanos, a sua hegemonia seria fatal" (1994: vol. IV, 2: 572).
demografia histórica demonstra; a atuação constante dos escravos
Uma interpretação consentânea com a história social brasileira
nas grandes frentes de economia da colonização; a mobilidade
l' com as concepções contemporâneas, quanto ao conceito de língua
geográfica, decorrente das vicissitudes da vida econômica de seus
histórica, recusa tais pontos de vista. A língua portuguesa, na sua
senhores e da economia brasileira; os diversificados e múltiplos
variante brasileira, predominantemente nas variantes populares
papéis por eles desempenhados na sociedade colonial rural e ur-
! vernáculas, mas não apenas nelas, deve as suas características
bana; o significado social e linguístico dos espaços ilegítimos da
inovadoras, em geral simplificadoras, em relação ao português
escravidão permitem embasar o meu ponto de vista interpretativo europeu. tanto no plano sintático como fônico, à forma como
de que é esse segmento numeroso e operante _ os africanos e roi aprendida pela massa populacional predominan te ao longo
afro-descendentes - o agente principal da difusão do português do período colonial: como segunda língua; com modelos defecti-
no território brasileiro, na sua face majoritária, a popular ou vos da língua-alvo, a do colonizador, mas não tão defectivos que
vernácula.
propiciassem a formação de um crioulo estável e generalizado; na
oralidade; sem o controle normativo da escolarização.
4. Algumas reflexões finais A polarização sociolinguística marca o português brasileiro
e, sem dúvida, reflete a nossa história passada e que se projeta
Com a imp]ementação dos estudos de historiadores, soció- no presente. A certa uniformidade constante na heterogeneidade
logos e antropólogos sobre a sociedade que se constituiu e se variável de suas realizações, que a sociolinguística sobre o portu-
constitui no Brasil; com os avanços da linguística moderna e guês vem demonstrando, sendo, certamente, a característica mais
contemporânea que definem qualquer língua histórica como he- investigada a concordância variável de número, verbo-nominal e
terogênea ou diversificada em variantes dialetais correlacionáveis nominal, veja-se, por exemplo, o que afirmam Scherre e Naro:
a configurações sociais, próprias à sociedade em que é usada, "Os processos variáveis de concordância de número no português
não se pode mais aceitar afirmativas tradicionais, como a do vernacular do Brasil evidenciam um sistema perfeito, correlacio-
pioneiro e admirável Serafim da Silva Neto, nos seus estudos nado a variáveis linguísticas e sociais" (1997: 93-94).
da década de 1950, em que, entendendo a "língua" como a sua
Essa uniformidade é herdeira da forma como foi aprendido o
variante padrão, ideologicamente prestigiada, firmava, no seu
último trabalho sobre o tema: português do colonizador, língua politicamente hegemônica, pela
massa de africanos e afro-descendentes que majoritariamente se
Por causa, precisamente, desta falta de prestígio é que a lingua- espraiaram, na dinâmica do movimento migratório geográfico-
gem adulterada dos negros e índios não se impôs senão transi- -social, pelo território brasileiro.
toriamente: todos os que puderam adquirir uma cultura escolar
O esboço aqui apresentado é aplicável ao geral do Brasil. Cer-
e que, por este motivo, possuíam o prestígio da literatura e da
tradição reagiram contra ela (1960: 21). tamente pesquisas sistemáticas, nas diversificadas áreas geográfico-
-sociais de nosso território, tornarão mais precisas distinções que,
---.....--_~-.-_ •.•.• - •..• _ .• I~ ".-"·'TI .. .-ftTn In"'-"..---'II'T1:

esperamos, em futuro não longínquo, sejam k-ilils pelo Projeto


Nacional para a História do Português Brasileiro, coordenado por
Ataliba de Castilho, estruturado em equipes regionais que se vêm
constituindo, a partir de 1996, e assim se torne possível melhor
e mais especificadamente aprofundar o conhecimento do passado
do português brasileiro, considerando às variáveis próprias às
diversas partes de nosso território nacional. SEIS

Para a história do português brasileiro *

1. Sobre a "arte de fazer o melhor uso de maus dados"


Retomo aqui a sugestiva definição de Labov no seu trabalho
Building on Empirical Foundations, de 1982, em que caracteriza
os estudos de mu-
dança no tempo
tiA historicidade das línguas resulta
real, em oposi-
ção aos estudos
necessariamente dos dois universais
de mudança no da criatividade e da alteridade"
tempo aparente e (Brigitte Schlíeben-Lange, 1994: 225)'h~.
que, a partir das
análises sociolin-
guísticas mais recentes de tipo painel C'pannel") e do tipo tendências
Ç'trcnds"). prefiro designar de mudanças no tempo real de longa
duração. No trabalho de 1982, Labov define a mudança no tempo
real como "a arte de fazer o melhor uso de maus dados" e explica
os "maus dados" como decorrentes de que "os fragmentos da docu-
mentação escrita que permanecem são os resultados de acidentes
históricos para além do controle do investigador" (1982: 20).

* Versão prévia apresentada em 2000 ao IV Seminário Para uma História do


Português Brasileiro e publicada in M. E. L. Duarte e D. Callou (orgs.), Para a
história do português brasileiro, voI. IV: Notícias de corpora e outros estudos. Rio de
Janeiro: UFRJ/Faperj, 2002, pp. 17-28.
** A epígrafe é uma homenagem póstuma à colega alemã, que participou co-
nosco do Ill Seminário do PHPB, escolhida também por sua adequação ao nosso
projeto de reconstituição do português brasileiro.
nl" •.. l~n7\"ln", -r,\-IIf1\-Tr,.,,-~,..'''~
ri '''-'..-I'!!I-Inl'fl-"- ..•-.n -I-n~, 1l'n."T!'7 ~-r-FT"_ ••.•__ ------------

Todos sabemos que os dados histo: il ()~ 1IC1


~vlIll(l()lato, xin H:lrcelos; ti prosa religiosa {- qll<l~l' xcm cxccçao traduzidu e, POt
crônicos, com que trabalham os linguisias, sobretudo os sociolín \v:r.es,hú indicação nos muuuxcritos de quem "trasladou do latim
guistas, que pesquisam sobre corpus, permitem, pelo menos, que se .m linguagem"; quanto ao Ciclo do Graal, de tradição francesa,
controlem o quando, o onde, o quem, o para quem, o tipo de texto especula-se sobre quem o traduziu para o português. Quanto ao
dos dados sobre que se aplicam suas análises. Não é de esquecer quando, pode-se situar genericamente, ou por algum indício do
que os corpora sincrônicos já são construídos com o objetivo de próprio texto ou inferir, a partir de características paleográficas
ter essas variáveis, além de outras, controláveis. Basta lembrar, l' linguísticas dessa época. Quanto ao onde, inferências se fazem

como exemplo, o primeiro grande corpus sincrônico realizado no também, já que teriam sido produzidos esses documentos nos
Brasil, o do Projeto NURC, em que a data, o local, o perfil do scriptoria da época, que não seriam muitos, sendo os mais bem
emissor/informante, o do destinatário, diferente se DID, D2 ou localizados os manuscritos do Mosteiro de Alcobaça, os de Santa
EF, tipos de "texto" base do corpus NURC. O mesmo se aplica, ruz de Coimbra, os que teriam origem no âmbito cortesão, como
com ajustes apropriados, a outros corpora subsequentes que se talvez tenha sido o caso do Ciclo do Graal e da Crónica geral de
vêm constituindo sobre o português brasileiro contemporâneo. ?spanha de 1344. O para quem seriam, potencialmente, os apenas
Faço aqui um excurso sobre a documentação "fragmentária" 2% de letrados do Portugal medieval (Souza, 1992, vol. 2: 532-
do passado da língua portuguesa, considerando primeiro o período 533), que poderiam ler esses textos, e os múltiplos ouvintes, que,
arcaico, ou seja, dos inícios do português como língua escrita, como se sabe, foram os principais receptores da documentação
comparando-o com os anos quinhentos, com o objetivo de mostrar medieval, para quem os textos eram lidos.
como se pode tornar "menos maus" os dados do passado da língua Já na segunda fase do período arcaico, Lindley Cintra prefere
portuguesa, para depois (cf. item 2) me centrar na documentação chamar de português médio (Castro, 1999: 367-370) e situa, não no
escrita no Brasil do passado. fim do século XIV, como prefiro, mas em 1420, a figura do autor,
No que se refere ao período arcaico, a documentação não no que se refere à documentação literária lato sensu, emerge na
literária de natureza jurídica, sobretudo a notarial - isso é apli- dinastia de Avis, inaugurada em 1385. Os textos desses nobres e
cável ao longo da história do português - permite responder escritores (D. João r, D. Duarte, D. Pedro, duque de Coimbra) e
com precisão o quando, o onde, já que são documentos datados os de Fernão Lopes, escrivão e também cronista geral do reino
e localizados; são também indicados nesse tipo de texto o quem e nessa época, são autores definidos e seus escritos são situáveis,
o para quem, embora não se possa recuperar, na grande maioria com certa precisão, quanto ao quando e ao onde, que será prio-
das vezes, o perfil biográfico, tanto do emissor como do receptor. ritariamente o âmbito cortesão, ficando o para quem a referir-se
àqueles que, provavelmente e principalmente, no âmbito da corte
No que se refere à documentação lato sensu literária, na pri- e da igreja, seriam os leitores primeiros desses textos.
meira fase do período arcaico, que situo até os fins do século XlV,
com exceção de poetas do cancioneiro profano, cujas biografias, A partir da segunda metade do século XV, a historiografia,
muitas delas, foram e vêm sendo reconstruídas por filólogos, a que vai se multiplicar em Portugal, é autoral, portanto datável
começar com o trabalho de 24 anos de Carolina Michaélis de e localizável, permanecendo imprecisos, contudo, o tempo e o
Vasconcelos, identificando os poetas do Cancioneiro da Ajuda, lugar de muitos textos, na sua maioria de natureza religiosa, já
a figura do autor não é definível. Dilui-se, tanto nos textos his- que continuam pelo século XV e ao longo do século XVI as tra-
toriográficos, como na maciça documentação da prosa religiosa, duções desse tipo de texto. Do final do período arcaico é datável
como na "prosa ficcional", penso aqui no Ciclo do Graal. Pode- e localizável a obra teatral de Gil Vicente, escrita entre 1502 e
-se admitir, por exemplo, que a grande obra historiográfica dessa 1536, também datável e localizável os poemas do Cancioneiro Geral
época, a Crónica Geral de Espanha de 1344, foi uma compilação coletados por Garcia de Rezende, com poemas da segunda metade
coordenada (para usar um adjetivo atual) por D. Pedro, Conde de do século XV e XVI, uma vez que o erudito Garcia de Rezende
mOITeem 1536. Tanl teatro de Gil Vkcntc l'OIlIO n poesia dos Por lodo () pcriodo arcuko l' cul nulos os :\ 1l0S qu i li hcutos. O!->
fins do período arcaico eram produtos literários, emanados do portugueses que escreviam, escreviam pautados na oralidadc e,
âmbito da corte. certamente, também, para alguns que escreviam, pelo latim. Não
se Linha nesse tempo - dos inícios do período arcaico ao século
Pelo que acabei de sintetizar, posso, com certa segurança,
XVI em Portugal - um problema crucial da documentação que,
afirmar que os "maus dados" da documentação fragmentária re-
a partir da colonização - .pelos meados do século XVI em diante
manescente do período arcaico - uma data simbólica, se fosse
_ ocorrerá na documentação escrita no Brasil.
datar com precisão o fim de um período histórico de uma língua
seria a de 1536, para o fim da segunda fase do período arcaico, A pergunta a seguir não se colocaria nesse tempo, acima sin-
como propõe Ivo Castro (1991: 243) - podem ser controláveis tetizado, em Portugal: a documentação escrita no Brasil, a partir
com precisão quanto ao quando e ao onde, mais imprecisamenle da colonização, foi escrita por portugueses ou por indivíduos de
quanto ao quem e ao para quem, no que se refere à documenta- naturalidade brasileira que estudaram em Portugal ou por outros
ção não literária e, com certa margem de acerto e aproximação habitantes do Brasil, aqui literatizados? Quanto aos "letrados (ou
e alguma generalização para a primeira fase do período arcaico, literatados)" do Brasil colonial, vale lembrar, segundo Antônio
quanto à documentação literária, já se reconfigurando tal situação, Houaiss, ao iniciar-se o século XIX, não seriam mais que 0,5%
a partir do século XV e ao longo do XVI. (1985: 137), aí incluídos portugueses, brasileiros descendentes
de portugueses e, possivelmente, índios e africanos e seus des-
Os anos quinhentos em Portugal apresentam reconfigura-
cendentes, mestiços ou não, embora com muita probabilidade,
ções socioculturais e linguísticas (Mattos e Silva, 2001), tanto
excepcionalmente, como nossa sócio-história informa.
no que se refere ao tipo de produção do texto - do tempo dos
manuscritos para o texto impresso -, quanto ao tipo de recep-
ção que se amplia, com o português iniciando-se como "língua
2. Alguns comentários sobre três corpora para o
de ensino" nesse século, como também na ampliação do campo
literário, basta que se leia o primeiro cânon literário, o de Pêro Projeto PHPB já públicos
Magalhães de Gândavo, de 1574, em que a figura do autor já se Uma questão essencial é verificar se a "gramática" do por-
torna essencial e, por fim, quando entra em cena um novo ator tuguês brasileiro se define antes da virada do século XIX para
para os textos escritos, que é o início dos estudos metalinguísticos o XX, como propõe Fernando Tarallo (1993), momento em que
sobre o português, iniciados em 1536 por Fernão de Oliveira e ele e seus orientandos identificam já uma "gramática" brasileira
logo seguido pela "Gramática preceitiva" de João de Barros, com nos corpora que analisaram. Para isso nos propusemos investigar
propostas inaugurais de normativização para a língua portuguesa. documentação de tipo variado, mais próximas da oralidade quan-
Propostas essas que se multiplicarão a partir dos fins do século to possível, dos séculos que precederam o final do XIX. Outra
XVI, sobretudo quanto à grafia/ortografia, paralelamente ao ensino questão significativa seria trabalhar com documentação escrita no
do "vulgar português", já que, por todo o período arcaico, como Brasil em comparação com documentação do mesmo tipo e do
bem diz o historiador Oliveira Marques (1964: 187), "o português mesmo tempo, produzida em Portugal, para verificar se de fato o
era ouvido no berço, falava-se depois naturalmente e escrevia-se que encontrássemos na documentação aqui escrita seria próprio
(os que escreviam) sem nunca ter aprendido... aprendia-se a ler ao português que aqui se constituiu ou se seria próprio ao por-
e escrever em latim". Ao longo do século XVI, como mostra o his- tuguês europeu. Essa face comparativa parece-me essencial para
toriador Ramada Curto, os "mestres de ensino de primeiras letras" a definição de quando as características linguísticas do brasileiro
apontam para um aumento em Lisboa: "De 30 a 34 em 1551-1552 começam a estar refletidas na documentação fragmentária que os
passam a 60 nos inícios do século XVII" (1993, vol. 3: 360). "acidentes da história" nos deixaram, parafraseando Labov.
As equipes do PIIPB cstuo, diriu qlll' (11111 \'11'01 t' paciência, J:~sleVl's da COSUl, entre 17()~ t' 1812 e oriundos de todas as
euhcntando a diffcil tarcfa de constituh ("(lIIJI)/{/ drvvrxilicudos, em colônius portuguesas" (p. J 32) recorta ")45 cartas escritas no
vdiçocs apropriadas aos estudos linguíst icos. Dctcrmc-ci aqui em Brasil, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro, Recife, São
Irês deles, já públicos, para avaliar, principalmente, o "controle" Luís do Maranhão, Belém do Pará e, em menor número, de
possível sobre eles - o quando, o onde, o quem, o para quem, o dcsmembrações, das principais capitanias" (pp. 132-133). Cartas
I ipo de texto, pelo menos, são necessários para tornar melhores que estão no acervo dos Reservados da Biblioteca Nacional de
os "maus dados" a que se refere Labov nos estudos de mudança Lisboa (BNL). Edita Afrânio Barbosa, no segundo volume de sua
Iingufstica no tempo real de longa duração. tese, além dos documentos oficiais da administração pública, 93
São os corpora: .artas de comércio.

a. o de Afrânio Gonçalves Barbosa, na sua tese de doutora- Na apresentação da edição, deixa claro o quando, o onde, o
mento, defendida na UFRJ em fins de 1999, Para a história quem e o para quem dessas 93 cartas, escritas na última década
do português colonial: aspectos linguísticos em cartas de do século XVIII no Brasil:
comércio; Foram escritas por 31 homens e, exceto por duas, enviadas a
b. As Cartas baianas setecentistas, edição elaborada sob a um único destinatário, o senhor Antônio Esteves da Costa, opu-
coordenação de Tânia Lobo, por Permínio Ferreira e os lentíssimo comerciante, cujas atividades se estendiam por outras
bolsistas de Iniciação Científica/CNPq, Uilton Gonçalves e colônias e países da Europa. Pode-se identificar, com base em
Klebson Oliveira, da equipe da Bahia; traços linguísticos e/ou comentários feitos nas missivas, que 29
c. a edição de anúncios do século XIX, já referida, organiza- desses homens eram portugueses radicados no Brasil. A bem da
dos por Marymárcia Guedes e Rosane Berlinck, da equipe verdade, e a julgar pelos representantes de que AECdispunha em
paulista, publicada na série Diachronica da Humanitas em outras colônias, esses dois redatores não identificados têm gran-
2000.
de chance de serem também portugueses (Barbosa, 1999: 294).
a. A tese de doutoramento de Afrânio Gonçalves Barbosa é Última década do século XVIII, escritas no Brasil por portu-
a primeira tese sobre aspectos históricos e linguísticos do Brasil, gueses para o "opulentíssimo comerciante" a quem serviam nesta
realizada por um membro das equipes que compõem o Projeto colônia. Temos no caso desse conjunto de cartas de comércio, um
PHPB, a equipe do Rio de Janeiro. Assim ela é pioneira e traz corpus, muito bem controlado, para estudos linguísticos. Com
contribuições extremamente relevantes para a sócio-história lin- razão afirma o Autor que o corpus formado por essas cartas pode
guística do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro; reflexões ser considerado "como um dos melhores materiais já reunidos
amadurecidas sobre tipologia de documentos coloniais e, conse- para o estudo do português europeu no Brasil durante a gestação
quentemente, para corpus geral de nosso Projeto; concentra-se na colonial do português do Brasil" (p. 134).
análise linguística de um fato específico que distingue o português
Assim esse corpus de cartas de comércio permite que, quer
europeu do brasileiro - a variação estar a + infinitivo e estar +
estudado na sua imanência, quer comparado com outros corpora,
infinitivo gerúndio - com base em dois corpora: um de cartas
se afirme que comerciantes portugueses, radicados no Brasil, es-
de comércio, escritas no Brasil para um poderoso comerciante
crevendo para seu superior, radicado em Lisboa, na última década
português, por seus agentes no Brasil e outro de documentos
do século XVIII, usavam a língua portuguesa escrita da maneira
oficiais da administração pública do Rio de Janeiro, ambos da
em que no corpus está externada.
última década do século XVIII.
b. Quanto às Cartas baianas setecentistas, editadas sob a
Aqui vou me fixar nas cartas de comércio. Das "470 cartas
coordenação de Tânia Lobo por Permínio Ferreira, bolsista DCR!
comerciais enviadas ao negociante radicado em Lisboa, Antônio
CNPq e pelos bolsistas de Iniciação Científica Uilton Gonçalves e
'run'-- .-117'

Klcbson Oliveira, resultam elas das priu n-Irux illVt'~lid:1S da equipe Informam que nem scmpu' isso era cumprido, Essas indicações
da Bahia no Arquivo Público do Estado (APEB), Nao encontradas suo preciosas quanto ao nível de escolaridade e à naturalidade dos
as tão buscadas cartas pessoais nesse arquivo público do Estado, remetentes das cartas - desembargadores-ouvidores, portugueses
(por lei) e letrados e os juízes ordinários, que poderiam não ser
investiu-se em testamentos e no que os autores designaram de
cartas oficiais, também numa devassa, compondo a edição em foco, letrados.
Quanto à naturalidade, se brasileiros, se portugueses, dos
Aqui me concentrarei nas cartas editadas, em número de 126, remetentes, conseguiram, depois de muita busca, o seguinte: "Na
com seus anexos, Na introdução à edição se depreende o quando, famosa genealogia de Frei Jaboatão" encontraram informações
o onde, o para quem e, parcialmente, o quem, cuja dificuldade de sobre dois dos remetentes das cartas - João Lopes Fiúza Filho
definir vem circunstanciadamente explicada nessa introdução que, (1714-1776), nascido no Brasil, senhor de engenho, nascido na
inclusive, acho que poderá indicar pistas para outras investigações freguesia de Socorro, tendo visitado Lisboa aos 39 anos, e Vital
semelhantes que se realizam no âmbito de nosso Projeto, Correa e Souza, nascido no Brasil, em Cairu. De dois outros, na
Memória da Justiça Brasileira, encontraram identificação parcial
As cartas, assim como a devassa, se situam, na segunda me- de mais dois remetentes: "Luís Pereira de Lacerda, vereador em
tade do século XVIII, entre 1763 e 1795. As cartas, oito são da Salvador em 1760" e "D. Fernando José de Portugal, português,
década de 1760; duas, da de 1770; 72, de 1780; e 45, da última chegou a vice-rei do Brasil entre 1801 e 1806". Portanto, dos 27
década do século XVIII. O quando está muito bem situado. remetentes, dois são brasileiros, um é português e outro "vereador
Quanto ao onde, cito os Autores: em Salvador", não mais.
Do principal remetente, autor de 68 das 126 cartas, Francisco
33 são de Região do Recôncavo Baiano (10 de Jaguaribe, 13,
Nunes da Costa, "apenas sabe-se dele que em 1776 era Ouvidor
de Salvador, oito, de Santo Amara, uma de São Francisco do
geral em Alagoas. Assumiu a Ouvidoria da comarca de Ilhéus em
Conde e uma da Vila de Abadia, atual região de Pojuca). 93 três
1780, onde morreu em 1793 ou 1794" (p. XI). Intuem os autores,
foram redigidas na antiga comarca de Ilhéus (uma de Barce-
dado o seu cargo, que "frequentou Coimbra, como era obrigatório
los, 41 de Cairu, 15 de Camamu, 20 de Ilhéus, uma de Maraú,
a todos os desembargadores. Também é natural supor que Fran-
cinco de Morra de São Paulo, oito de Rio de Contas e uma de
cisco Nunes da Costa fosse português" (id., ibid.).
Taperoá e uma sem localização, inferida como de Ilhéus) (p. IX
do digitoscrito). Embora esse corpus de cartas oficiais, de natureza jurídica, da
segunda metade do século XVIII, escritas no Recôncavo Baiano e
Seus destinatários, ou seja, o para quem, estão no âmbito do na comarca de Ilhéus, por funcionários de instâncias diferentes do
poder judiciário da Capitania da Bahia. judiciário colonial, não seja tão "controlável" quanto o das cartas
Quanto ao quem, parcialmente definível - as cartas foram de comércio de Afrânio Gonçalves Barbosa, pode-se, a partir dele,
escritas por 27 remetentes - deu muito trabalho aos pesquisado- ter com precisão o quando, o onde, o para quem e, com algumas
res, que descrevem os caminhos que perseguiram, para chegar às suadas informações - que digam os que investiram nisso - sobre
conclusões seguintes: "São desembargadores ou juízes ordinários" cinco dos 27 remetentes. Pelo menos, as 68 cartas de Francisco
(cf. Introdução, p. IX). Nas suas pesquisas descobriram que os Nunes da Costa formarão um conjunto razoavelmente homogêneo
juízes ordinários de um desembargador letrado, muito provavelmente português,
já vivendo no Brasil, se não mais, na Bahia e em Alagoas, na
não eram obrigatoriamente letrados e eram conhecidos como
segunda metade do século XVIII.
juízes da terra por serem moradores do município... os juízes
das instâncias superiores, corregedores, ouvidores e desernbar- Essas cartas, no seu conjunto, podem ser base de estudos
gadores não podiam ter nascido no Brasil (id., ibid.). linguísticos, tanto na sua imanência, como em comparação com
11"------

outros corpora . Dos dados que l"ornecvl';"'() S;' •.•Cru tus, podemo
l·•.• provavelmente, ao nome do em i•.••.• ()1' c do receptor, Difícil, scnao
os pesquisadores futuros fazer o melhor uso posxrvcl em estudos lificílirno. será traçar um perh] mais detalhado sobre eles. No que
sobre documentação do passado setecenlisla brasileiro. se refere à questão linguística, como saber se serão porlugueses;
c. O terceiro corpus em que me deterei são os anúncios de brasileiros com escolarização em Portugal; brasileiros com es-
jornais brasileiros do século XIX, editados pela série Diachronica .olarização no Brasil, aí incluídos descendentes de portugueses;
da Humanitas, organizados por Marymárcia Guedes e Rosane de africanos e seus descendentes; indígenas e, já na segunda meta-
Andrade Berlinck, resultado da decisão do II Seminário do PHPB, de do século XIX, emigrantes de várias procedências, enfim as
realizado em 1998 em Campos do Jordão. Esse trabalho, coletivo diversas etnias que compunham o Brasil colonial e pós-colonial?
e admirável, traz às pp. 8 e 9 da apresentação os nomes de todos Com isso não quero dizer que este corpus não seja de enor-
os que nele trabalharam, perfazendo um total de 32 pesquisadores. me significação para o conhecimento do português que era acei-
Quanto ao quando, os anúncios são de jornais brasileiros da to pelos jornais, que começaram a ser publicados no Brasil, a
primeira e da segunda metades do século XIX. Quanto ao onde, partir de 1808. Quero apenas ressaltar que o controle do quem,
são jornais dos Estados da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná, possível nas cartas de comércio, editadas por Afrânio Barbosa e,
de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e de São parcialmente, nas cartas oficiais, editadas por Tânia Lobo et aZii,
Paulo, cobrindo um total de 1.643 anúncios. Nos quadros às pp. toma-se extremamente difícil, embora não impossível: para alguns
16 e 17 da apresentação estão o nome do jornal com o código casos talvez seja possível; aqueles de anúncios identificados em
convencionado e a cidade onde era o jornal publicado. Ao fim dos que os emissores sejam figuras da sociedade, recuperáveis pelos
anúncios de cada Estado, estão quadros-síntese que indicam a instrumentos investigativos próprios à reconstituição do quem é
cidade, o arquivo em que estão os jornais pesquisados, o período quem no Brasil do passado.
coletado e a quantidade de anúncios em cada jornal. Quanto ao
Talvez esteja certo B. S. C. Mariani, citado pelas organiza-
para quem, é óbvio que se destinam aos leitores potenciais de cada
doras (p. 8), no seu livro Os primórdios da imprensa no Brasil,
jornal e aí, nesse caso, o tipo de jornal, ou seja, o seu status no
quando diz:
século XIX e a sua circulação se farão essenciais na continuação
da exploração desse corpus. É no interior desse discurso jornalístico que a voz do brasilei-
ro irrompc, obrigando os leitores portugueses a repetir uma
Quanto ao quem, ou seja, os anunciantes-emissores, informam fala que não era a sua. Não há como fugir das diferenças. Os
as organizadoras do livro:
editores, os censores do rei, com suas vozes disciplinadoras e
Esse material permite não só a realização de análises linguísticas homogeneizantes, não conseguiram evitar o outro no discurso.
formais, como também fornece, algumas vezes,informações sobre Estavam no Brasil.
sua procedência: quem são os destinatários, seus emissores e,
ainda, torna possível vislumbrar, pelo tipo de anúncio transcri-
to, aspectos da história social que caracterizavam o século XIX 3. Sintetizando, para finalizar
(p. 9, grifos meus).
O que pretendi com essas reflexões sobre o trabalho com
Se para um corpus controlado para estudos do passado do corpus para o estudo do passado da língua portuguesa e, em
português brasileiro, o quando e o onde não deixam margem a especial, do português brasileiro, foi mostrar que, para melhorar
. questões, o para quem é, poderíamos dizer, genérico, embora algu- os "maus dados" do passado, em comparação com o controle
mas vezes, como dizem as organizadoras, haja informações sobre estrito de dados sincrônicos, verificamos que, quanto mais se
os destinatários e seus emissores. Essas informações que podem recua no tempo da língua portuguesa, o controle dos dados, de
ocorrer nos anúncios sobre o para quem e o quem referem-se, mais generalizante pode se tomar mais estrito: basta relembrar a
-- '_.'--"--.' •• T"O ~ ••. .-_-._..__.. ••• _..-"'".-".p', .• -.-, ,"'-, ~"\TI

imprecisão onde, para qUCIlI, q11V11Id;1 documcntaçào


do quando,
"literária" da primeira fase do período arcaico para certa precisão
da documentação brasileira analisada nos três corpora públicos
aqui focalizados, cada um com suas especificidades.
Muitos outros corpora estão em vários estágios de elaboração
no âmbito do PHPB. De 1997 para cá, já avançamos na descoberta SETE
de mistérios e segredos de alguns arquivos brasileiros, já avança-
mos no conhecimento do que se pode apreender dos inícios do
português aceito pela imprensa brasileira.
Fatores sócio-históricos condicionantes
É verdade que esse tipo de trabalho não é "commodo" - pelo
na formação do português brasileiro*
contrário, é por vezes penoso, sempre curioso, às vezes divertido
- como seriam "commodos" os preços dos produtos anunciados
no século XIX... Sem dúvida é um trabalho necessário, como
base para a reconstrução do passado linguístico do português
que aqui se formou, o português brasileiro, já hoje tão bem defi- 1. A questão
nido na sua diferença em relação ao português europeu, de que
descende, no entrecruzar-se multilinguístico e na quase ausência Concordo com a afirmativa do historiador da língua portu-
de escolarização da sócio-história linguística do Brasil colonial e guesa, Ivo Castro, da Universidade de Lisboa, de que a separação
pós-colonial. estrutural entre o português europeu e o português brasileiro é
um fenômeno len-
to e de águas pro- liA separação estrutural entre a
fundas. Concordo
também com que
língua de Portugal e a do Brasil
o fenômeno não é é um fenômeno lento e de águas
fácil de observar: profundas, que é fácil, e, a mui-
vem sendo uma tos, desejável não observar"
empresa de mui- (Ivo Castro, 2001: 24).
tas décadas e de
muitos estudiosos.
Discordo, contudo, da afirmativa de que "a muitos não é desejável
observar" tal fenômeno. Se não é desejável observar e interpre-
tar pelos defensores da unidade lusófona, por exemplo, é muito
desejável observar e interpretar por outros muitos, não só brasi-
leiros, que vêm investindo na pesquisa sociolinguística sincrônica
e sócio-histórica do português brasileiro, sobretudo das últimas
décadas do século XX.

* Conferência plenária apresentada ao XIII Congresso Internacional de Lin-


guística e Filologia da América Latina (ALFAL).
Para ainda usar outro autor p()lllIglll'~, ~ ilo 11111filósofo l'
A partir de 1997, parte do n-Icrido grupo se integrou 110 PIO
ensaísta com quem concordo, Eduardo Lourenço, que, em seus icto Nacional "Para a História do Português Brasileiro" (1'11PB),
ensaios sobre Imagens e miragens da lusoíonia (2001) afirma: "Da que já realizou quatro seminários nacionais e várias publ icações
América à Ásia, cada povo que fala hoje o português o modelou, relacionadas ao Projeto, pensado e coordenado por Ataliba de
o recriou à sua imagem. Nenhum exemplo é mais relevante do Teixeira de Castilho.
que o do Brasil" (2001: 132). Exporei aqui algumas ideias e reflexões que venho elaborando
É sobre essa "modelagem brasileira" em que, mais urna vez, e reelaborando nesta última década, na companhia de bibliografia
me deterei. Depois de apresentar um panorama geral de fatores antiga e recente, mas sobretudo na companhia de meus colegas
sócio-históricos modeladores na formação de português brasileiro do PROHPOR e do PHPB.
(item 2), me deterei em uma questão muito debatida, ainda não
encerrada para alguns, que é a do conservadorismo ou arcaicidade
do português que usamos no Brasil (item 3). 2. Fatores sócio-históricos significativos na
Esse fenômeno de "águas profundas", para usar a metáfora formação do português brasileiro
de Ivo Castro, vem ocupando filólogos do passado e filólogos e Desde a primeira metade do século XX, a questão da formação
linguistas do presente. Certamente será Adolfo Coelho, estudioso do português brasileiro vem ocupando, não só filólogos e linguistas,
português do século XIX, quem, ao tratar das línguas crioulas mas também cientistas sociais e outros interessados, como alguns
derivadas do português, primeiro se debruça sobre a questão da que trabalham nos chamados meios de comunicação de massa.
formação do português que se constituiu e se constitui no Brasil.
Se, na primeira metade do século XX, a questão não era só
No que me diz respeito, apesar de, sem descontinuidade, linguístico-filológica, mas também política, a partir de meados
desde a década de 1960, ter-me dedicado à história da língua do século XIX, graças a, sobretudo, Serafim da Silva Neto, esse
portuguesa, sobretudo no seu período arcaico (do século XIII ao
problema se centrou mais entre filólogos e linguistas, corno bem
século XVI), só em 1992, pelas comemorações dos 500 anos de
argumentou Tânia Lobo, no seu artigo de 1994, "Variantes nacio-
descoberta da América pelos europeus, fui convidada a participar
nais: sobre a questão da definição do português do Brasil".
em uma mesa-redonda no Congresso Internacional América: raízes
e trajetórias, no Rio de Janeiro, e então escrevi minha primeira Para ilustrar essa questão, sempre inspirada no artigo de Tâ-
reflexão sobre a formação do português brasileiro*. nia Lobo, lanço mão de dois autores representativos que afirmam
Organizando-se, em 1992, na Universidade Federal da Bahia, que a formação do português brasileiro deve ser compreendida no
o grupo de pesquisa Programa para a História da Língua Portu- contexto sócio-histórico do Brasil. Um é Herbert Parentes Fortes,
guesa (PROHPOR), que coordeno, um dos projetos iniciais desse filólogo e político baiano que, durante os debates para a elaboração
grupo de pesquisa foi o designado de Fontes para a História do da Constituição Brasileira de 1945, sobre a questão da designação
Português no Brasil, pensado e elaborado por Tânia Lobo, um a dar à língua nacional - hoje, a partir da Constituição Brasileira
dos membros fundadores do Grupo PROHPOR. Desde então, esse de 1988, o português é língua oficial, reconhecidas que foram as
grupo vem realizando pesquisas e publicando resultados, com o línguas indígenas do Brasil -, publica Parentes Fortes uma série
objetivo de desvendar o passado da língua portuguesa e do por- de artigos, reunidos no livro A questão da língua brasileira e, no
tuguês brasileiro. artigo inicial, que dá o título ao livro, diz: "O fato linguístico da
língua brasileira não nasceu de nenhuma deliberação pessoal, de
nenhum fato político, de nenhum ideal literário. A sua explicação
* Neste livro recolhida como primeiro artigo: "Português brasileiro: raízes e
trajetória [para a construção de uma história]" [no do E.]. é de ordem sociológica" (1945: i, grifo meu).
outro é Scralim da Silva NL'l(), !dnlogo 1IIIgllisI<I,que do inlerpretaçào, em unia rec()nsll\l(;[\() socio-hist6rica, objetivo que
(o hoje de um coletivo de pesquisadores, que se debruçam sobre
minou a cena da filologia e da linguística no Brasil, entre as d(·
cadas de 1940 e 1960, quando, ainda jovem, faleceu. Em artigos () passado do português brasileiro. Será uma abordagem para o
reunidos em 1960 no livro Língua, cultura e civilização, diz, no .ral do Brasil, porque só agora, com o Projeto para a História
trabalho "Problemas do português da América", constituído de do Português Brasileiro, equipes regionais estão buscando recons-
escritos da década de 1940: truções parciais, para, no futuro, compor-se uma história geral do
português brasileiro.
A linguagem falada em nossa terra, em virtude de múltiplos
fatores, tomou cunho próprio... o modo de viver modifica-se c Os fatores que abordarei são: /

transforma-se. E a língua, instrumento social, foi-se adaptando A. a demografia histórica do Brasil do século XVI ao XIX;
à nossa sociedade pois, como sabemos, ela caminha lado a lado B. a mobilidade populacional dos africanos e afro-descenden-
com a história social (pp. 248 e 258, grifos meus). tes no Brasil colonial e pós-colonial;
Sem dúvida, é Serafim da Silva Neto que, no seu livro clás- C. a escolarização ou sua ausência do século XVI ao XIX;
sico de 1950 -, Introdução ao estudo da língua portuguesa no D. as reconfigurações socioculturais, políticas e linguísticas
Brasil, e no seu artigo síntese de 1960 -, "A língua portuguesa ao longo do século XIX.
no Brasil. Problemas", quem primeiro tenta reconstruir o passado
da "língua portuguesa no Brasil" (sempre assim por ele designado
A. A demografia histórica do Brasil do século XVI ao XIX
o português brasileiro). E, desde a década de 1940 defende duas
teses: a da unidade e a do conservadorismo do português brasilei- As demografias históricas são sempre aproximativas e não
ro. Teses também defendidas pelos conhecidos Gladstone Chaves dão quadros exatos, como pretendem os censos da atualidade.
de Melo, desde seu livro A língua do Brasil, cuja primeira edição
No caso do Brasil e, em especial, em função do seu passado
é de 1940, e Sílvio Elia, até no seu último escrito sobre o tema,
linguístico, não posso deixar de referir a tentativa de Serafim da
de 1994. Todos os três defendem a tese designada por Antônio
Silva Neto (1950 e 1960), sobretudo no que se refere à origem
Houaiss de "lusitanófila", eurocêntrica, na sua síntese preciosa O
geográfica dos colonizadores, que, pelos dados rarefeitos que con-
português no Brasil, de 1985.
seguiu reunir, não resultou em grande sucesso. Esse autor também
Também é Serafim da Silva Neto quem primeiro busca de- apresenta a primeira estimativa demo gráfica, o chamado censo do
linear, nas obras citadas, fatores condicionantes na formação do Pe. José de Anchieta (1950[1575]: 21), em que a população con-
português brasileiro, destacando o contato da língua da coloni- vivente no Brasil seria de 57.000 habitantes, nas últimas décadas
ação com a língua dos que ele sempre designa de "aloglotas", do século XVI. Nesse censo, somando-se índios e negros, tem-se
ou seja, as línguas indígenas brasileiras e as línguas africanas 32.000 não europeus, mais da população recenseada, portanto.
trazidas para o Brasil, pelo tráfico negreiro, entre 1549 e 1850, Antônio Houaiss, no seu livro já referido, também aborda,
limites do tráfico oficial. A partir de sua reflexão, concluiu pela generalizadamente, a questão da demografia, ao longo dos capí-
vitória da língua portuguesa no Brasil, como Gladstone Chaves de
tulos quatro a sete (1985: 40-95).
Melo e Sílvio Elia, defensores de um ponto de vista eurocêntrico,
Uma aproximação sistemática, com base em fontes explici-
decorrente do que consideraram inexorável, por causa da "supe-
tadas, está em Alberto Baeta Neves Mussa, na sua dissertação de
rioridade cultural do colonizador", expressão deles, consentânea
com sua posição ideológica. mestrado, de 1991.
Considerando os grupos étnicos e linguísticos, durante o
Buscarei analisar, embora sinteticamente, fatores sócio-
período colonial (1530 a 1822) e até o pós-colonial, predominam
-históricos que considero significativos para uma compreensão/
.tn ias não brancas, numa média upnl\illltld" til' 7()fyo para as A designação muito difundida de língua geral da costa ou
não brancas e de 30% para a ctnia branca. Ressalte-se que al(' tupi, que se encontra na bibliografia tradicional sobre a história
meados do século XIX a etnia branca estava representada, quase passada do português brasileiro, é genérica e imprecisa. Aryon
exclusivamente, pelos portugueses e luso-descendentes. Rodrigues (1986) informa que a designação língua geral é do
É interessante logo ressaltar que os "índios integrados", portan- século XVIII e que não formaria uma unidade. Distinguindo ele
to contáveis, decresceram, tristemente - por doenças transmitidas a língua geral amazônica, de base tupinambá e que serviu à co-
pelos europeus ou por chacinas intencionais durante o processo lonização da Amazônia, cujo remanescente é o nheengatu do Vale
inicial da colonização - de 50% no século XVI para 2%, na do Içana, no Rio Negro, nas fronteiras com a Venezuela. A língua
metade do século XIX. Os índios não integrados esconderam-se, geral do Sul ou paulista, de base tupiniquim e guarani, terá sido
fugidos, nos interiores brasileiros, já que a colonização se iniciou a língua dos bandeirantes, na conquista dos interiores paulistas e
ao longo do litoral atlântico, entre os limites do Rio Grande do do centro-oeste. Essa questão está em debate e exige ainda muita
Norte e, ao Sul, o limite será a bacia do rio do Prata. pesquisa, depois da suspeita levantada pelo historiador-antropólogo
Especialistas na história linguística do Brasil apresentam cál- John Manuel Monteiro (1994) de que a designação língua geral
culos díspares quanto ao número de línguas indígenas em uso ao para a língua das bandeiras do século XVII poderia ser um "por-
iniciar-se a colonização: de 360 a 1.175 até 1.500 línguas (veja-se, tuguês malfalado", um dos antecedentes do que tenho chamado de
respectivamente, Rodrigues [1986J e 1993 e Houaiss [1985]). Em português geral brasileiro, uma das bases do português brasileiro
trabalho recente, Bruna Franchetto (2000: 84) afirma que persis- popular ou vernáculo.
tem 180 línguas, extintas 85%, nos nossos 500 anos de história, Têm sido esquecidas as línguas do tronco macro-jê, cujos
faladas, as remanescentes, por cerca de 250.000 a 500.000 índios falantes - os tapuias, assim designados pelos de língua do tron-
(calculados 5 milhões em 1500), segundo estimativas do censo de
co tupi - ocuparam os interiores brasileiros do Nordeste, pelo
2000, parte mínima da população brasileira que é hoje, arredon-
Centro-oeste até São Paulo e mais para o Sul do Brasil.
dando, de 190 milhões.
Note-se que a bibliografia que trata das chamadas "influên-
Ao chegarem os colonizadores, ao longo do litoral, habitavam,
cias das línguas indígenas" no português tem se centrado nos
com algumas exceções, a orla do Atlântico, de norte a sul, indíge-
empréstimos lexicais tupis, os tupinismos, largamente estudados
nas falantes do que hoje os especialistas designam de línguas do
no Brasil, desde o século XIX. De fato, é no léxico que a marca
tronco linguístico tupi e da família tupi-guarani, sendo as mais
linguística ficou, distinguindo o português europeu do brasileiro,
conhecidas o tupinambá no litoral baiano, o tupiniquim ao sul
da Bahia e no litoral paulista e o tamoio, na área do atual Rio e se generalizam como tupi os chamados "indigenismos" lexicais
de Janeiro. É, portanto, com as línguas tupi-guarani - o guarani do português brasileiro.
na bacia do Prata e em áreas interioranas do Sudeste e Sul do A partir de 1549, com o primeiro governador geral do Bra-
Brasil - que os falantes de português entrarão em contato ime- sil, institucionaliza-se o tráfico de escravos que perdurará até o
diato no processo de colonização. século XIX. São díspares o número de escravos trazidos para o
Terá sido pela Gramática da língua mais usada na costa do Brasil - entre quatro e 14 milhões -, variam as avaliações so-
Brasil, escrita pelo jesuíta Pé. José de Anchieta, que se desenvolverá bre o quantitativo dessa população aportada no Brasil. Quanto
a catequese e, talvez, para os portugueses letrados, provavelmente às línguas africanas chegadas, os especialistas Émile Bonvini e
poucos, que chegaram à colônia. Essa Gramática poderá ter sido Margarida Petter (1998) estimam à volta de 200/300 línguas.
a intermediadora no processo comunicativo entre portugueses e Há alguns consensos quanto às línguas africanas chegadas
indígenas. Certamente ela serviu e serve para o conhecimento do ao território brasileiro. Sem hierarquizá-los, apenas os enumero:
que hoje se designa de tupi antigo. nos portos de origem, na África, os grupos étnicos culturais eram
t~" '" , n I ~1 I "TI rrr..- n~"l'''''1-llIfl ,

separados para evitar reações de revolta illdvSl'lilwis aos COI1)t'I'- propriedades rurais c corno ti abnlhadorcs urbanos, inserindo-se
ciantes de escravos. Decorrente disso', nenhum" lingua africann lias camadas mais baixas da sociedade brasileira. Adquiriram eles
teria se estabelecido em áreas territoriais delimitadas; das 200/300 também, no princípio, o português na oralidade e sem o controle
línguas, a grande maioria era da família sul-equatorial banto, norrnativo da escola.
logo seguida das línguas benuê-kwa, do Oeste africano. Outro
consenso é o da constante banto ao longo do tráfico escravista,
B. A mobilidade populacional dos africanos e
Decorre disso o fato de que os estudos de africanistas brasileiros
afro-brasileiros no Brasil colonial e pós-colonial
e estrangeiros afirmarem que os empréstimos lexicais das línguas
bantos são os mais numerosos e os mais morfologicamente in- Saindo dos dados estáticos da demografia histórica, tecerei
tegrados no português (Pessoa de Castro, 1980, 2001; Megenney, algumas considerações sobre a mobilidade populacional, com
1998,2001; Mussa, 1991). o objetivo de defender o ponto de vista de que o português se
Contrariamente ao que ocorreu com os indígenas, os africa- generalizou na amplidão do território do Brasil pela "voz" dos
africanos e afro-descendentes. Discordo de Serafim da Silva Neto,
nos e afro-descendentes estão no patamar de 60% da população
Gladstone Chaves de Melo e de Sílvio Elia, que defenderam a ine-
do Brasil entre os séculos XVII ao XIX. Tendo de abdicar de
xorável vitória da língua portuguesa por causa da "superioridade
suas línguas de origem, como referido, não tinham eles escolha:
tiveram de aprender, num processo de transmissão linguística cultural do colonizador".
irregular - na designação da crioulística atual - a língua da Para tanto - mapear essa mobilidade populacional - me
colonização. Certamente, junto com o pequeno contingente de baseei sobretudo em dados de Robert Conrad e da historiadora
indígenas integrados ao processo colonizador, são eles que vão Kátia Mattoso, especialmente no seu livro Ser escravo no Brasil
dar forma ao português geral brasileiro, antecedente, como penso (1990 [1979]).
eu, do português popular ou vernáculo brasileiro. Seguindo Kátia Mattoso (pp. 23-24; 53-54; 108), esboço o
Ainda sobre a maioria africana e de afro-descendentes, cabe percurso geográfico dos escravos, seus senhores e familiares no
informar, com base no historiador português Jorge Couto (1997: território brasileiro.
278) que, nos finais do século XVI, a presença africana já se Nos séculos XVI e XVII, se concentravam nas lavouras da
estendia por todas as capitanias e perfazia 42% da população. cana-de-açúcar nas capitanias litorâneas de Pernambuco, Bahia
Segundo Robert Conrad (1978[1972]: 344), seriam, às vésperas da e Rio de Janeiro. Nos séculos XVII e XVIII, transitou grande
Independência, 50% da população, portanto, entre esses limites parte para as áreas de mineração do ouro e de diamantes, nos
temporais, ficou a população escrava no período colonial entre interiores paulistas, no centro e centro-oeste do Brasil. Do século
40/50% da população convivente no Brasil. A etnia branca, até XVIII para XIX, diminuindo a mineração referida, em boa parte
meados do século XIX, não ultrapassou, no geral do Brasil, 30% voltam para o litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde
da população. ocorre novo impulso açucareiro. No século XIX, concentram-se no
Só na segunda metade do século XIX, com a política mi- Vale do rio Paraíba do Sul, em áreas paulistas, do Rio e de Minas
gratória do Império, a população branca cresce. Segundo o his- Gerais, locais em que se explorou o novo ouro, o café. Acompa-
toriador Lúcio Kreutz (2000: 351), a imigração tem o seu ápice nhando seus senhores, seguem para o Maranhão, para a colheita
em 1890, com 1.200.000 imigrantes europeus e asiáticos. Na sua do algodão e fumo, também para a Amazônia, para a exploração
grande maioria, esses novos componentes étnicos e linguísticos da de especiarias. Desde o século XVI, se dispersam os escravos e
sociedade brasileira vão se localizar de São Paulo para o Sul e, também os indígenas pelas imensas regiões pastoris interioranas,
também na sua grande maioria, se integraram, no princípio, em deslocando-se, a partir do século XVII, aos interiores nordestinos.
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Já no século XIX, deslocam-se segmentos <1:\ populnçuo para as década do século XX COIIl 2C)()/o de cscolarizados (Ilza Ribeiro,
charqueadas do Sul do Brasil. j
1999). 1\ situação atual mostra que menos de 20% da população
Tendo sido sempre maioria, como vimos, os africanos l' brasileira atingem o 2° grau de escolaridade. Persiste o "abismo",
afro-descendentes no período colonial e pós-colonial até meados lima vez que, nos anos 1990, apenas cerca de 10% da população
do século XIX, vemos que são eles, a "multidão sem voz", na ex brasileira alcançam o nível de ensino superior.
pressão de Kátia Mattoso (ibid.: 11), que difundirão o que tenho Não se pode aceitar mais hoje a tese da unidade do português
designado de português geral brasileiro. 110 Brasil, uma das teses de Serafim da Silva Neto (1950, 1960)

Dominam os escravos em Minas Gerais Rio de Janeiro. Nas e outros. Fundava-se esse autor na possibilidade de intercomuni-
outras províncias, os escravos estariam entre 30 mil e 300 mil. 'ação em todo o território brasileiro, fato que é verdadeiro, mas
Haveria menos escravos em Mato Grosso e no Rio Grande do que recobre uma polarização de caráter social, entrevista por
Norte, à volta de 5.000, devido à pobreza econômica dessas pro- Paul Teyssier (1982: 79), e que a sociolinguística no Brasil vem
víncias em 1884. demonstrando.

Nesse esboço sobre a dinâmica geográfica da população bra- Quanto a considerar eu as normas vernáculas como o "au-
sileira, entre os séculos assinalados - XVI e primeira metade do têntico" português brasileiro, funda-se no precário efeito da es-
XIX -, nota-se a mobilidade dos escravos, seus senhores e famílias. colarização na história brasileira e, consequenternente, no pouco
Sendo os africanos e afro-descendentes a maioria sempre nesse eficaz ensino da norma-padrão.
período, teria sido certamente esse segmento "sem voz" da popu-
lação brasileira o principal difusor do português geral brasileiro. D. As reconfigurações socioculturais, políticas e
linguísticas ao longo do século XIX
C. A escolarização ou sua ausência no Brasil colonial e As reconfigurações apontam na segunda metade do século
pós-colonial XVIII. A partir das leis pombalinas, a língua portuguesa se torna
A história detalhada da escolarização no Brasil está à espera língua oficial e da escola no Brasil. Com a expulsão dos jesuítas
de um autor. Cruzando-se esse fator com o da demografia histórica em meados do século XVIII, instalou-se a primeira rede leiga ofi-
e o da mobilidade social dos escravos no espaço brasileiro, ver-se-a cial de ensino. Tal fato político-educacional foi catastrófico para a
com clareza por que razão até hoje domina no Brasil o chamado escolarização no Brasil, basta que se leia o testemunho vivido de
português popular, que considero o "autêntico" português brasi- Luis dos Santos Vilhena, primeiro professor de grego na Capitania
leiro. Bosquejarei a seguir o percurso da escolarização no Brasil. da Bahia, nas suas Cartas (especialmente a V e a VIII), enviadas
no final do século XVIII ao rei D. José I (parece que não foram
Ao fim do século XVIII, haveria apenas 0,5% de letrados no lidas) e só impressas no Brasil em 1922 (um século depois da
Brasil (Houaiss 1985).
Independência) .
No primeiro censo oficial do Brasil, de 1872, na população
O século XIX se inicia como transferência da capital do Reino
entre 6 e 15 anos, 16,8% frequentavam escolas. Havia menos de
Unido de Lisboa para o Rio de Janeiro, instalando-se no Rio de
12 mil dos 4.600.000 habitantes no Brasil em colégios de nível
Janeiro o rei, sua corte e cerca de 15 mil portugueses (Teyssier,
secundário. Contudo, chegava a oito mil o número de pessoas
com educação superior. 1982: 77). Daí admitir-se uma relusitanização do Rio de Janeiro,
expandindo-se, como moda, para partes do Brasil. No que se
Entre 1890 e 1920, há um salto relativo na escolarização refere à língua portuguesa, a nova capital do Reino Unido terá
no Brasil. Dados estatísticos informam que chegamos à segunda privilegiado características do português europeu. Fato linguístico
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muito referido é o chamado chiarnento das sibilautcs implosiva-, Diante desses ratos SIIIIIHI'I/:Idos sobre o século XIX, t'ol\si
do Rio de Janeiro, que teria suas raíz~s no recente chiamcnto do clero que uma história do por tuguõs brasileiro, no século XIX, se
português europeu (Teyssier, 1982: 80). Será talvez um estercóti po, faz essencial.
na terminologia laboviana, que o brasileiro do Rio teria integrado Com base nos fatores que antes discuti como condicionanles
no seu português em formação. da formação do português brasileiro, vale questionar outra lese
A imprensa chega ao Brasil com a corte de D. João VI em defendida por Serafim da Silva Neto e outros, que é a do conser-
1808. Proibida no Brasil colonial, terá um avanço espantoso ao vadorismo ou arcaicidade do português que usamos no Brasil.
longo do século XIX, tendo sido fundamental para lutas políticas
no Brasil de então: Independência, Abolição, República. Além disso,
a imprensa permitiu a difusão da documentação não literária e 3. O propalado conservadorismo da língua
literária que se produzia no Brasil, ressaltando-se o papel exercido portuguesa no Brasil
pelos jornais, que proliferaram por todo o Brasil no século XIX
O mestre filólogo e implementador dos estudos de dialetologia
(Guedes e Berlinck [orgs.], 2000).
no Brasil, em seus escritos sobre a língua portuguesa em nosso
Do ponto de vista linguístico, pode-se dizer que havia, ao longo território, sempre defendeu a tese do conservadorismo ou caráter
do Brasil colonial, um multilbilinguismo generalizado, principal- arcaizante do português que se formou no Brasil.
mente entre a população africana e afro-descendente e a lusitana Embora tenha sido ele quem primeiro avança em estudos só-
e luso-descendente, reduzidas, certamente, a certas comunidades as cio-históricos na formação da variante brasileira do português, por
línguas indígenas. No século XIX, se pode dizer que o multi/bilin- causa de outro ponto de vista que o conduziu, o já referido euro-
guismo se toma localizado, caracterizando certas áreas brasileiras, centrismo, defendeu sempre que o contato do português com as
mas já com outra configuração: as línguas dos imigrantes no Su- línguas indígenas e africanas não influenciou o português do Brasil
deste/Sul e as línguas indígenas, principalmente, no Centro-oeste e e, no seu último trabalho, é radical quando afirma que todos - e
na Amazônia, onde se concentraram os indígenas remanescentes. já vimos que todos neste caso são poucos - que "puderam adquirir
Na Bahia, admite-se que, no século XIX, se concentraram línguas uma cultura escolar recusaram a linguagem adulterada dos negros
da família kwá, sobretudo o iorubá (Pessoa de Castro, 2001: 38). e dos índios que não se impôs senão transitoriamente" (p. 21).
Outro aspecto linguístico diz respeito ao avanço da norma Os fatores sócio-históricos que analisamos nos itens anteriores
padrão lusitanizante, não só pelo crescimento da escolarização no levam, exatamente, para o ponto de vista oposto ao de Serafim
século XIX, mas também decorrente de que, depois da abolição da Silva Neto.
da escravatura, africanos e afro-descendentes puderam chegar à
Fundamentado, basicamente, em princípios da dialetologia
escola, antes proibida aos escravos. No censo de 1872, 99,9% dos
românica tradicional, aplicada, desde a segunda metade do século
escravos seriam analfabetos (Fausto, 1994: 137), crescendo assim
XIX, em áreas arcaizantes rurais da România Antiga, Serafim da
a população escolarizável. Além disso, destaque-se o surgimento
Silva Neto transfere o mesmo raciocínio para as áreas isoladas do
dos normativistas brasileiros, que se multiplicaram, a partir dos
Brasil colonial - a urbanização no Brasil começa a se esboçar
meados do século XIX, colocando-se, como variante de prestígio,
no século XIX, mas só se instala avassaladoramente ao longo do
desde então, a norma-padrão.
século XX. Contudo, não levou ele em conta o fato de que, ao
A partir desse último fato, se inicia no Brasil a polêmica longo do período colonial e pós-colonial, a população de ascendên-
político-Iinguística, que durou um século, que envolve a questão cia africana foi, no geral do Brasil, majoritária e que adquiriu o
da designação da língua do Brasil. português na oralidade, numa situação de transmissão linguística
irregular, tendo assim modelado o portugucs Vl'11I:h Ir/O brasileiro, entra ele sua análise. 1'1 illl ipalmcntc, em latos rOllicos l' 110
até hoje majoritário. léxico, no que designa de "antiqualhas Iinguísticas que os atlas c
as monografias dialetais vêm trazendo à lona" (p. 206).
Em consonância com os estudos históricos das línguas e a
dialetologia tradicional, Serafim da Silva Neto se centrou em as- Tecerei aqui algumas considerações, a partir do que foi
pectos fônicos e do léxico do português. analisado, no referido artigo, sobre fatos fônicos e sobre os três
(atos sintáticos, mencionados como possíveis conservadorismos
De fato, no léxico regional rural, se encontram itens lexicais
por Celso Cunha.
antigos, não necessariamente arcaicos (séculos XIII-XVI). O mais
famoso deles é sarolha, "terra umedeci da pela chuva", documen- Analisa ele quinze fatos fônícos (pp. 204 a 206) e conclui:
tado, nas décadas de 1960 e 1970, no Atlas Linguístico da Bahia Nenhuma dessas realizações fonéticas é geral em todo o país;
e de Sergipe (cf. Cardoso e Rollemberg, 1988: 79-87), com o seu estendem-se elas por uma parte maior ou menor do nosso ter-
significado original e também metaforizado, designando "farofa ritório, mas são sempre regionais (p. 206).
úmida", "beiju molhado com leite de coco". No século XV, no
Focalizarei agora um fato fonético-fonológico, entre os abor-
Livro da Montaria de D. João I, ocorre como "terra de barro ou
dados por Celso Cunha, que distingue marcadamente, e com
lama" (Celso Cunha, 1986: 206 e nota 29).
efeitos prosódicos, o português brasileiro em relação ao europeu:
Embora a geolinguística atual tenha modificado os rumos as centralizações e alteamento das vogais.
dos estudos dialetológicos clássicos - não se buscam mais co-
Parece que só a partir do século XVII para o XVIII (cf.
munidades isoladas, nem informantes analfabetos, velhos, cam-
Teyssier, 1981: 56-63 e 82) essas mudanças fônicas começam a
poneses e sedentários -, a tese do conservadorismo ainda não
ocorrer no português europeu. No Brasil, o sistema vocálico não
foi descartada, nem na imaginação de alguns que se interessam
sofreu essas mudanças, pelo que sei. Por isso é considerado, tra-
pelo problema, não especialistas, mas que avaliam como presti-
dicionalmente, conservador, uma conservação que remontaria ao
gioso ser conservador o português brasileiro, suponho, nem entre
português quinhentista. O que fundamenta essa interpretação é a
especialistas que ainda buscam em áreas regionais do Brasil
conhecida afirmação de Fernão de Oliveira, primeiro gramático da
vestígios arcaizantes.
língua portuguesa, que, em 1536, diz que os portugueses falavam
Nesse último caso, me refiro ao bem dimensionado Projeto como homens assentados e com grande repouso e, também, nas
Filologia Bandeirante, coordenado por Heitor Megale, da Uni- palavras de Celso Cunha, "com fundamento no exame perfunctório
versidade de São Paulo, que busca, na rota dos bandeirantes do da métrica do tempo" (p. 204 e nota 2).
século XVII e XVIII, desvencilhar tipicismos antigos. Espero com
interesse e curiosidade os resultados desse Projeto (Megale, 1998; Esse fato fôníco pode ter sua interpretação revista, com base
e Megale [org.], 2000), que contribuirá para o conhecimento do em estudos recentes da fonologia das línguas da família banto e
passado no presente do português brasileiro. kwá. Utilizarei os recentes dados de Yeda Pessoa de Castro que,
no seu livro de 200I, fundamentada em vários especialistas em
A reação mais detalhada que conheço à tese do conservado-
línguas africanas, diz que o sistema vocálico das línguas banto tem
rismo é a de Celso Cunha, no seu artigo de 1986 - "Conservação
cinco ou sete vogais -li e a o ul ou li e 8 a o o ul, dois tons, alto e
e inovação no português do Brasil". baixo, e não têm vogais nasais (p. 33). Quanto às línguas kwá, as
Para começar, diz Celso Cunha: "Se o mito da unidade tem mais significativas para o Brasil - o ewe-fon e o iorubá - têm
sido desmentido, o mito da arcaicidade parece mais resistente" sete vogais li e 8 a o o ul, orais e nasais e o iorubá é tritonal. Não
(1986: 199). sinaliza a Autora as vogais alteadas e centralizadas nessas línguas.
Com base nessas afirmações, pode-se ~\dlllilil que <l(;()IISel' pensar em conscrvadorisu lt I, (I português brasileiro ma nt cvc ()
vação" no Brasil do sistema português pré-sctcccnt ista pode ser uso histórico variável. No pOI'tllgllGSeuropeu, só se gcucralizarn
interpretada não só pelo argumento tradicional do conservadoris- o uso do artigo diante de possessivo, a partir do século XIX,
mo, mas a ele pode ser associado o dos sistemas vocálicos dos como defende Said Ali (1964), mas de quem discorda Harri
africanos que chegaram ao Brasil, tanto banto como kwá. Meier (1973: 6), confrontando a lírica de Alexandre Herculano,
século XIX (29% de artigo + possessivo) com o Livro dos ofícios
Essa é uma questão complexa, mas é um indício a ser pes-
de D. Pedro, duque de Coimbra, século XV (33% de artigo +
quisado, tanto no português que precede o século XVIII, como possessivo). De fato é esse um problema de variação ao longo
nas línguas africanas e também nas indígenas, sobretudo as da dos séculos. Mais pesquisas sobre o tópico poderão indicar os
família tupi-guarani. Provavelmente uma confluência de motivos
fatores condicionadores da variação.
levou o português brasileiro a ter um sistema vocálico e uma
prosódia tão diversa da do português europeu. Quanto à questão de estar + gerúndio e estar a + infinitivo:
na tradição filológica foi estudado esse fato sintático por Bertil
Nesta parte final, considerarei os três fatos sintáticos elencados Maler, em artigo de 1972. Utilizando textos poéticos e teatrais,
por Celso Cunha (p. 206). São eles: a próclise do pronome átono, esse filólogo lusitanista sueco mostra que estar + a + infinitivo já
em enunciados que atualmente exigem a ênclise; o uso do artigo ocorre no século XVI (Gil Vicente, Camões), crescendo o seu uso
diante de possessivo adjetivado e a perífrase formada por estar, no século XVIII, em variação com estar + gerúndio e conclui que
andar, viver etc. + gerúndio no Brasil e, em Portugal, aqueles
não é do século XIX, como se afirma, essa inovação do português
verbos seguidos da preposição a + infinitivo.
europeu (p. 267).
A questão da próclise do pronome átono é muito debatida
Em sua tese de doutoramento de 1999, Afrânio Gonçalves
desde o século XIX, no Brasil e em Portugal, e é hoje um dos
Barbosa faz uma análise dessa variação em cartas de comercian-
temas prediletos da linguística sobre a língua portuguesa na sua
tes portugueses radicados no Brasil e em documentos oficiais
diversidade, tópico rotulado atualmente de "posição dos clíticos",
formais escritos no Brasil, ambos os corpora de fins do século
O argumento do conservadorismo se reporta ao fato de que no
XVIII. Levanta a hipótese de que a variante conservadora seria
século XVI os clíticos se tornaram mais proclíticos na docu-
mais comum nas cartas, menos formais que nos documentos
mentação quinhentista que na arcaica e, no correr da história
oficiais. A análise quantitativa laboviana, utilizando o VARBRUL,
do português europeu, voltará a ênclise a ser privilegiada. Os
não confirmou a sua hipótese. Isso não desconfirma Bertil Maler,
problemas relacionados ao sistema pronominal, no português
que buscou textos mais próximos da língua falada, como as peças
brasileiro e no português europeu, como um todo, mostram que
de teatro, e detectou que a perífrase considerada inovadora varia
o português brasileiro é certamente diferente do português euro-
com a conservadora desde o século XVI e se instala no português
peu e se distanciam muito dos usos arcaicos. Para esse tópico a
europeu literário a partir do século XIX.
bibliografia antiga e recente é vastíssima, remeto, apenas, para
alguns autores mais recentes: Tarallo (org.) (1989), Kato e Ro- Será então esse fato sintático um bom candidato para a tese
berts (orgs.) (1993); Martins (1994) e Lobo (2001). Para alguns de Serafim da Silva Neto? Estará ele também relacionado às di-
autores, a questão da posição dos clíticos não será apenas um ferentes prosódias do português europeu e brasileiro?
fato sintático, mas também prosódico. Ainda há muita pesquisa a ser feita sobre esses tópicos sin-
Quanto ao artigo diante de possessivo, é ele variável no táticos e outros, numa perspectiva histórico-comparatista, para
português brasileiro e parece ser hoje categórico no português fechar a questão da tese do conservadorismo, tão cara a Serafim
europeu. No período arcaico, já há variação desde, pelo menos, da Silva Neto. Daí estar correto Celso Cunha quando afirmou que
os inícios do século XIV (cf. Oliveira, 1982; Costa, 1999). Se se o mito da arcaicidade é mais resistente que o mito da unidade.
Fugindo dos "mitos" e observando os j"ton's l' lutos sócio
-históricos que modelaram o português brasileiro, todos levam [
tese do caráter inovador do português brasileiro.
Diante do apresentado, resta perguntar se não é redutora a
dicotomia conservação/inovação para interpretar as divergências
do português brasileiro em relação ao português europeu, embo-
OITO
ra saiba eu que a posição eurocêntrica, conservadora, seja ainda
forte como antes explicitado.
Na heterogeneidade complexa e mestiça, o português brasileiro
o português brasileiro: sua formação na
é fruto renovado do português europeu, pela sua sócio-história complexidade multilinguística do Brasil
passada e presente, fato que não podemos ignorar, é "desejável colonial e pós-colonial *
observar" e, sem dúvida, é um fenômeno de "águas profundas".

Para iniciar
Lembrei-me, ao iniciar este texto, do final do poema/canção
Língua, de Caetano Veloso, que utilizo como epígrafe e, brevemen-
te, vou dialogar o texto do poeta
com uma procedente afirmativa ((Oque quer, o que
de Brigitte Schlieben-Lange, em pode esta língua?"
seu artigo "Reflexões sobre a
pesquisa em mudança Iinguística" (Caetano Veloso)
(1994), por considerar aplicáveis
tanto as interrogações do poeta, como a afirmativa da linguista,
ao percurso da língua portuguesa no mundo, a partir de quando
começou a sair de seu território de origem em 1415, com a con-
quista de Ceuta.
Afirma a linguista que "a historicidade das línguas resulta
necessariamente dos dois universais da criatividade e da alterida-
de" (1994: 225). Nisso que chamei diálogo entre poeta e linguista,
considero que as perguntas do poeta - "o que quer, o que pode
esta língua?" -, e ele se refere ao português - têm uma resposta
na afirmativa da linguista: a criatividade - o querer - e a alte-
ridade - o poder, ou as possibilidades de mudança, conduzem
à historicidade de qualquer língua. São universais, como diz ela.

* Conferência pronunciada no I Simpósio do Instituto Camões: "O universo da


língua portuguesa; diversidade e inovação", 2001.
J\ língua portuguesa, na sua aventura divvl:-.ifk<ld" pelas "sell- 1:IS, sobretudo a partir de meados do século XIX. Dessa potencial
partidas" do mundo, aí inclufda a terra' achada ou dcscobcnu, Babei lingufstica, foi se definindo, ao longo desses quinhentos
que se lornou batizada de Brasil, ficou e fica condicionada pck I tinos - pouco tempo para a história de uma língua - o formato
entrecruzar-se da criatividade individual, da inovação, que esbarram
brasileiro contemporâneo da língua portuguesa.
na compreensão, ou seja, na aceitação do individual pelos outros,
portanto na alteridade. Além do querer/criatividade e do poder/
alteridade, acrescento eu que a diversificação da língua portuguesa, 1.1 Aspectos [ônicos
a partir dos séculos XV-XVI, estará condicionada pelas possibili
dades da estrutura ou "gramática", no sentido chomskiano, das Ao ouvir um brasileiro e um português, algum estrangeiro,
línguas humanas em geral e, em particular, da língua histórica, ou mesmo um brasileiro ao ouvir um português e vice-versa, a
língua portuguesa. primeira impressão que se instala é a da diferença do sotaque,
vocábulo da linguagem corrente, que caracteriza a pronúncia,
Organizei o meu tema em três seções: também vocábulo da linguagem corrente, diferenciadora do bra-
I . O português brasileiro e o português europeu contempo- sileiro em relação ao português. Esse sotaquelpronúncia recobre
râneos: alguns aspectos da diferença; distinções fônicas, tanto suprassegmentais ou prosódicas, inter-
2. Condicionamentos sócio-históricos na formação do portu- pretadas ainda imprecisamente pelos linguistas, como diferenças
guês brasileiro; fônicas segmentáveis, as realizações fonéticas próprias ao sistema
3. Formulações teóricas para a diferença entre o português vocálico e consonântico do português brasileiro e do europeu.
brasileiro e o europeu. Em linhas gerais, no que se refere às vogais em posição
acentuada, a diferença está na oposição conhecida do lal : tcü,
vogal central recuada e não recuada, respectivamente, que tem
1. O português brasileiro e o português europeu como exemplo muito evidente a oposição que fazem os portu-
contemporâneos: alguns aspectos da diferença gueses entre a primeira pessoa do plural dos verbos da primeira
Começo este item na companhia de Celso Cunha, um dos conjugação: trabalh/o/mos para o presente e trabalhlalmos para
linguistas brasileiros que mais se deteve e escreveu sobre o por- o pretérito perfeito ou, para dar outro exemplo sem repercussão
tuguês no/do Brasil, assim sempre se referia ele ao português na morfologia: sempre p/a/ra, quer seja verbo quer preposição, no
brasileiro. Diz em um conhecido artigo, "Em torno do conceito português brasileiro e p/a/ra, verbo, opondo-se a p/c/ra preposição,
de brasileirismo": no europeu.

Os estudos sobre o português do Brasil revelam, por parte de Quanto ao sistema vocálico não acentuado, aí a diferen-
seus autores, uma permanente, senão exclusiva, preocupação ça se instala vigorosamente: enquanto os brasileiros têm vo-
com os fatos peculiares a nossa forma expressional, inferidos de gais pré- e pós-acentuadas bem perceptíveis li e 8 a o 8 ul, os
um contraste com os vigentes no português europeu (1987: 3). portugueses centralizam elou alteiam as não acentuadas, por
vezes, quase inaudíveis ao ouvido do estrangeiro e também do
Nem poderia ser diferente. O português brasileiro descende do brasileiro: li a u/. Na posição não acentuada final, enquanto,
ô

europeu e, no Brasil, tomou a sua forma na complexa interação em geral, os brasileiros têm li a ul, os portugueses, li u/. São
ô

entre a língua do colonizador e, portanto, do poder e do prestígio; sistemas vocálicos, em termos descritivos estruturais, profunda-
as numerosas línguas indígenas brasileiras; as também numerosas mente diferentes, que trazem efeitos prosódicos diferenciadores
línguas africanas chegadas pelo tráfico negreiro, oficial entre 1549
marcantes. Embora haja no português europeu o lei, o 101 e o
e 1830, não oficial antes e depois desses limites; as línguas dos
181 e 181 pretônicos, os dois primeiros são resultados da redução
que emigraram para o Brasil da Europa e da Ásia, também mui-
dos ditongos Ir;il e 101)1 e os dois últimos das chamadas crases
, __ __ _ .• _ _ .ro.,.....~...- r ~-o-
..•..'..•...
--.rl·.nrwo.· •.,.~ •..••..•.•.••
" I " ''''.' "'!' " ,.

hislóricas - pr/t/gar "fazer uma pregação" que se opoc a pr/<JIgoJ' A simplicidade desse perfil lonológico aqui apresentado recobre
"usar um prego"; c/o/rar que se opõe' a m/u/rar. No Brasil será complexas análises Ionológicas teóricas já realizadas, mas ainda
pr/z/gar, variando regionalmente com pr/e/gar e c/c/ror, m/ts/rar, se esperam interpretações históricas para muitos desses aspectos
variando regionalmente com c/o/rar e m/o/rar, mas nunca a forma descritos. Por que razões é assim lá e aqui não?
centralizada e alteada do português europeu pr/õ/gar; m/u/rar.
O que se pode chamar de reduções vocálicas no português 1.2 Aspectos sintáticos
europeu e ausente no brasileiro dá ao ouvinte estrangeiro a im-
pressão auditiva de o português da Europa ser mais consonântico O ouvinte estrangeiro não perceberia de imediato as profundas
e o brasileiro mais vocálico, sem pretensões, é claro, de utilizar diferenças sintáticas - o português e o brasileiro ao ouvirem-se as
terminologias especializadas. percebem -, diferenças que permitem aos sintaticistas, sobretudo
gerativistas, admitirem que, em termos, pelo menos, do modelo
Essa impressão é reforçada pelo fato de o português brasileiro chomskiano da década de 1980, o de princípios e parâmetros, a
enfraquecer as consoantes em posição final da palavra, posição "gramática" brasileira, em pontos cruciais, diverge da portuguesa.
em que o português europeu apresenta articulação forte. Vocali-
Desde a proposta de Fernando Tarallo, divulgada em "Diagnos-
amos o <-1>final em lul, ou, no vernáculo de não escolarizados,
ticando uma gramática brasileira: o português d'aquém e d'além-
sobretudo de áreas rurais, é eliminado, forma essa estigmatizada
-mar ao final do século XIX", pesquisadores brasileiros gerativis-
socialmente (anima/li no português europeu, anima/ul, no geral tas e sociolinguistas vêm, à exaustão, desvendando e buscando
do Brasil e anim/a/). Aspiramos o <-r> final ou o reduzimos a explicar, no âmbito dos seus quadros teóricos, as especificidades
ero tama/h/, am/a/) , embora seja encontrado em áreas brasilei- da sintaxe brasileira, que, exceto em contextos altamente formais
ras o Irl vibrante, próprio ao português europeu. Sobretudo na de indivíduos bem preparados (direi, raros hoje), segundo a nor-
morfologia do plural dos elementos nominais, marcamos o Isl ma padrão lusitanizante, se diferencia da sintaxe do português
pluralizador em algum lugar do sintagma nominal, nem sem- europeu. Muito recentemente um projeto luso-brasileiro - PBPE
pre o do primeiro elemento nominal, ou marcamos em todo o 2000 - reúne linguistas brasileiros e portugueses com o objeti-
sintagma, variação sociolinguística que caracteriza o português vo de comparar em textos escritos não literários as diferenças e
brasileiro e não o europeu. identidades de nossas sintaxes. Do lado brasileiro, lidera o projeto
Mary Kato, da UNICAMP,e do português, João Andrade Peres, da
Curiosamente, e sem pretensões de teorizar, articulamos cla-
Universidade de Lisboa. Esperam-se desse projeto novos dados,
ramente no Brasil as vogais não acentuadas, mas enfraquecemos
novas interpretações.
as consoantes finais, o inverso ocorrendo no europeu.
Aqui, de uma maneira o mais sintética possível e sem preten-
Outro aspecto diferenciador quanto ao sistema consonântico
sões teóricas, traçarei um perfil descritivo de algumas de nossas
são as palatalizações de dentais seguidas de semivogal ou vogal diferenças sintéticas, tal como o fiz para alguns aspectos fônicos.
anterior, o que não é geral no Brasil, mas não ocorre em Portu-
gal, pelo que mostram os estudos geodialetais: It/ia, /d/ia, den/t/e, Não se pode negar que um ponto central da diferença está no
on/d/e são tipicamente brasileiros. Essas palatalizações que ocorrem sistema pronominal, tanto na posição de sujeito, como de comple-
em outras áreas da România, ainda se ampliam, em certas áreas mento, com reflexos inevitáveis nos possessivos e no paradigma
brasileiras, quando a semivogal anterior palatalizadora precede das flexões número-pessoas do verbo.
a consoante dental: o/ts/o, pe/ts/o para oito e peito, embora essas No Brasil, com a expansão de você e do a gente como prono-
palatalizações sejam socialmente estigmatizadas, o que não ocorre mes pessoais e com a redução do uso do tu e do vós, a 3a pessoa
com as outras. verbal se generaliza: temos hoje em convivência, no Brasil, um
paradigma verbal de quatro posições (('11 10/0; 1'/(', l'U('(i, a /!,e//II' você (Você gosta de ciuctua. 1:'" 11' vejo sempre uo MII/lipl"x). Nos
fala; nós falamos; eles, vocês [alam); outro de trôs posições (eu exemplos dados, o clítico canôn ico - o/a - pode ocorrer, no liSO
falo; ele, você, a gente fala; eles falam); outro de duas posições, cuidado, monilorado, de escolarizados. A questão do não uso do
dos menos escolarizados, ou não escolarizados, sobretudo de clítico de 3a pessoa - o, a, os, as - já ficou demonstrado em
áreas rurais, mas não só, que não aplicam a regra de concordân- trabalho de Vilma Reche Correa (1993) que é adquirido na escola
cia verbo-nominal (eu falo; ele, você, a gente, eles, vocês fala). Em e, curiosamente, primeiro na escrita depois na fala, o que mostra
algumas áreas geodialetais brasileiras, usa-se o tu na fala corrente ser um recurso sintático, efeito de aprendizagem pela escolariza-
com o verbo na Y pessoa (tu fala) e, em reduzidas áreas, talvez ção, e não adquirido naturalmente na infância.
a mais forte seja o litoral catarinense e o sul rio-grandense, ao tu Ainda sobre os clíticos e aí, não só os de 3a pessoa, nós, bra-
ainda se segue a flexão histórica (tu falas). Quanto mais reduzido sileiros, quando os usamos, preferimos a próclise. A ênclise é hoje
o paradigma flexional número-pessoa do verbo, mais necessário mal aprendida na escola, tanto que, cada vez mais, encontramos
se faz o preenchimento do sujeito pronominal, perdendo assim o em textos de estudantes e em outros, como os jornalísticos, a
português brasileiro o chamado parâmetro pro-drop, possível no ênclise nas posições em que, historicamente, sempre se usou a
português europeu, em que essas reduções não ocorrem tal como próclise, como nas orações subordinadas e nas negativas (O vestido
no português brasileiro. que dei-lhe de presente ficou bom; Eu não disse-lhe que viesse!).
O uso extensivo de você em lugar de tu cria no português bra- Há ainda aceitação normal e generalizada dos clíticos na primeira
sileiro uma ambiguidade para o seu, possessivo que pode referir-se posição da sentença, exceto os acusativos o, a, os, as (Lhe disse
ao interlocutor ou não, ambiguidade desfeita no discurso (Comprei que não viesse; Me passe esse livro).
seu livro ontem ou Zélia Gaitai escreveu um novo romance, seu Ainda quanto ao sistema pronominal, no que se refere aos
livro está sendo muito vendido). Ambiguidade também desfeita, relativos, utilizamos frequentemente o pronome lembrete (o pro-
estruturalmente, pelo dele, que passa a adquirir a condição de fessor que eu estudei inglês com ele voltou), em desproveito da
pronome possessivo (Saramago escreveu um novo romance, o livro estrutura canônica (o professor com quem eu estudei inglês voltou).
dele está sendo muito vendido).
O funcionamento do sistema pronominal do português brasi-
Quanto aos pronomes complementos clíticos, sobretudo os leiro, não há como negar, distancia-se daquele do português euro-
de terceira pessoa - o, a, os, as -, estão sendo eliminados no peu e cria problemas de complexo de insegurança linguística que
português brasileiro, preferindo-se, em seu lugar, ou o sintagma atinge aqueles que, no processo de escolarização, são "corrigidos",
nominal pleno ou, embora estigmatizado pelos altamente escolari- quando o são, pelo padrão da gramática normativo-prescritiva de
zados, o pronome sujeito correspondente, o chamado ele acusativo tradição lusitanizante.
ou ainda o apagamento do pronome complemento, estratégia de
Ocorre outra questão, para concluir esse breve perfil sintá-
esquiva muito frequente (Seu filho estava no shopping. Eu vi seu
tico do português brasileiro e que o marca fortemente, que não
filho lá ou ... eu vi ele lá ou ... eu vi lá). O apagamento do ob-
tem a ver com o sistema pronominal: trata-se da variação da
jeto direto pronominal clítico é corrente no português brasileiro,
concordância de número, no interior do sintagma nominal (SN).
movimento inverso ao preenchimento do sujeito.
A flexão redundante, que exige a marcação do plural em todos
Ainda quanto aos pronomes complementos clíticos, ressalta o os elementos do SN (os nossos melhores estudantes). A grande
lhe, originalmente um dativo, correspondente ao objeto indireto, especialista nesse tópico, a sociolinguista Martha Scherre, vem
usado como acusativo, objeto direto, correlacionado ao pronome investigando essa variação e afirma que não é apenas o primeiro
sujeito você (Você gosta muito de cinema. Eu lhe vejo sempre no elemento da sentença o preferencial para a marcação do plural,
Multiplex). O lhe acusativo varia com te, mesmo sendo o tratamento como muitas vezes se afirma e como ocorre, em geral, nos criou-
10s de base portuguesa. A variaçao é mais lOIIIP!vX:l. Dcmonsun Fci [o esse ba Ia11<;0 I'yr:d, "Ç'1I1 prctcnsocs IC()1 icas, va k "VI

isso essa Autora, em vários trabalhos: sobre coi pora diferentes untar se a lese tão cara ao mestre Scrafirn da Silva Neto (1950,
do português brasileiro. Veja-se, por exemplo, seu artigo-síntese, l 960), ou seja, a tese do conscrvadorismo do português brasileiro
elaborado com Anthony Naro, "A concordância de número no em relação ao da Europa, será ainda defensável. Digo que não
português do Brasil: um caso típico de variação inerente" (1997). posso, com todo o respeito que tenho por sua obra pioneira sobre
a língua portuguesa no Brasil, assim sempre por ele designado,
1.3 Outros aspectos concordar com ele.

Se se distingue o português brasileiro do europeu no que se


refere à fonologia e à sintaxe, que dizer do léxico, parte da estrutura 2. Condicionamentos sócio-históricos na formação
mais sensível às condições sócio-históricas e culturais externas? do português brasileiro
O português brasileiro deve, certamente, a sua riqueza lexical Serafim da Silva Neto defendia uma outra tese, que era a da
às línguas indígenas, sobretudo as do tronco tupi, mas não só; unidade da língua portuguesa no Brasil. Se nos colocamos no seu
às línguas africanas, sobretudo as do grupo banto, mas não só; tempo, podemos interpretar esse ponto de vista. Romanista reco-
às línguas dos emigrantes que se fixaram em algumas regiões do nhecido internacionalmente e conhecedor dos estudos geodialetais
Brasil e, sobretudo, diria, a uma tendência criativa, que o torna da România Antiga, ou seja, a România da Europa, mesmo que
aberto e sem preconceito em relação aos estrangeirismos. ainda não se tivessem, à sua época, realizado estudos geodialetais
Contudo, temos um stock lexical, não só nos instrumentos sistemáticos no Brasil, ele entrevia, através de suas leituras, que
gramaticais, mas também um vocabulário básico comum e cons- no Brasil as delimitações dialetais espaciais não eram tão marca-
tante, em relação ao português europeu e que permite, com al- doras, como as isoglossas da România Antiga, decorrendo disso
guns mal-entendidos de permeio, a comunicação entre brasileiros um de seus argumentos para a unidade do português brasileiro,
e portugueses, desde que haja boa vontade de ambos os lados. unidade que compara ao português europeu meridional, resul-
tante da expansão do galego-português setentrional, com isófonas
Nessa abertura para a criatividade lexical, não posso deixar
de ressaltar a espantosa liberdade que ocorre na antroponímia individualizadoras já definidas, no seu tempo, pela dialetologia
em Portugal.
brasileira, em que a imaginação criativa corre à solta na escolha
dos nomes de batismo no Brasil. O outro argumento que está explícito em vários pontos da
Para finalizar este item sobre alguns aspectos da diferença, há obra de Serafim da Silva Neto (1950, 1960) se funda numa equa-
muito ainda a estudar no interior da estrutura, mas há, sobretudo, ção, própria aos estudos linguísticos de então, segundo a qual a
um terreno virgem que são os usos discursivos, conversacionais, "língua" é a "língua padrão", em direção à qual todos os falantes
pragmáticos, transfrásticos enfim, que distinguem a interação se orientariam, e que não reconhecia os usos vernáculos em torno.
linguística no Brasil e em Portugal. Não posso deixar de lembrar Serafim da Silva Neto faleceu em 1960, antes da expansão
a observação de um estudante de pós-graduação, que, ouvindo no Brasil da chamada linguística moderna, para a qual qualquer
a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) pela tevê a cabo, dizia-me variante de uma língua tem a mesma importância, embora não nas
que chegara à conclusão de que a maior dificuldade que tinha avaliações da sociedade, e também antes dos avanços da sociolin-
para entender os programas portugueses estava mais nos usos guística no Brasil, que se iniciam com o Projeto Norma Urbana
discursivos-argumentativos que nas diferenças estruturais no in- Culta (NURC) a partir de 1969. Ignorava também a questão da
terior da sentença. precária escolarização no Brasil.
Do que chamarei de estudos já "classicox" S()hll' () portuguex MA!'A I: I)IS'I'RIIIlII~A() I)AS I iNf:IJAS INDI<;I'.NAS NO BRASil 1>1' 1I<l.II'

brasileiro, está no capítulo "O português do Brasil" da llistái ia


da língua portuguesa de Paul Teyssier, de t 980 a cd ição origi na I
francesa, o reconhecimento de que é na diversidade socioletal que
essa pretensa unidade se desfaz. Diz Paul Teyssier:
A realidade, porém, é que as divisões "dialetais" no Brasil são
menos geográficas que socioculturais. As diferenças na maneira
de falar são maiores, num determinado lugar, entre um homem
culto e o vizinho analfabeto que entre dois brasileiros do mes-
mo nível cultural originários de duas regiões distantes uma da
outra (1982: 79). FamJllas
Papo - e
Yanoâma ...
Com a grande implementação dos estudos sociolinguísticos no
Brasil, pode-se aceitar a formulação do sociolinguista e crioulista
Dante Lucchesi, da nova geração de linguistas brasileiros que, no Famílias
artigo "Variação e norma: elementos para uma caracterização so- Tukíauo -
Namblkuara ...
ciolinguística do português ao Brasil" (1994), também em outros
posteriores, demonstra que o português brasileiro é não apenas Fonte: Melatti, J. C. (1986). lndios do Brasil. sa ed. São Paulo/Brasília: Hucilec/UnB, pp. 35-36.
heterogêneo e variável, mas também plural e polarizado e define, MAPA 2: Os povosDO TRONCO LINGuíSTlCO TUPI NO
no diassistema brasileiro, dois sistemas igualmente heterogêneos, MOMENTO INICIAL DA COLONIZAÇÃO DO BRASIL
daí a pluralidade e a polarização, que designamos como norma
culta e norma vernácula, para outros autores, português brasileiro Distribuição das "nações"
culto e português brasileiro popular. Tupi-Guarani da costa (início séc. XVI)

Essa heterogeneidade plural e polarizada do português brasi-


leiro, evidenciada nos estudos sincrônicos do português brasileiro
contemporâneo, enraíza-se historicamente em condicionamentos
de fatores da nossa sócio-história.
O multilinguismo característico do território brasileiro foi até
certo ponto freado pelas leis pombalinas de política linguística dos
meados do século XVIII. Contudo, persistem cerca de "180 línguas
indígenas, extintas 85% nos 500 anos de nossa história, com a
média de 200 falantes por língua" (Franchetto, 2000: 84), faladas
por "300.000 a 500.000" índios, estimativas de 2000, na grande
publicação do Instituto Socioambiental, Povos indígenas no Brasil
1996/2000 (2000: 15), concentrados, na sua maioria, na Amazônia
brasileira e no Brasil norte-central, mas também povos dispersos
por vários pontos de nosso território (cf. mapa 1), perfazendo 0,2%
da população brasileira, que atinge hoje um total de 169.544.443 TUPlNIQUIM gn.pos tupi.guarani CHARRUA gn.pos tapuia

habitantes segundo os primeiros resultados do Censo 2000 do


Fonte: Fausto, C. Fragmentos de história e cultura tupinambá, in: Cunha, M. C. Histó-
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ria dos índios 110 Brasil. São Paulo: Cia. das Letras/Fapesp/SML, p. 384.
.omplctasc () quadro gl'l.1I do multilinguismo no Ik<lsil COIII él
chegada dos emigrantes europeus e usiáticos, sobretudo, LI partir
do século XIX.
Os dados a seguir têm como fonte o estudo de Lúcio Kreutz,
A educação dos imigrantes no Brasil. Diz o autor:
Os alemães formaram a primeira corrente imigratória, a partir
de 1824, localizando-se, sobretudo, em São Leopoldo, no Rio
Grande do SuL.. Os italianos vieram a partir da década de
1870e formaram o contingente maior: 1.513.151imigrantes. No
mesmo período, vieram 1.462.111portugueses, 598.802espanhóis,
188.622 japoneses (a partir de 1908), 123.724 russos, 94.453
austríacos, 79.509 sírio-libaneses, 50.010poloneses e 349.354de
diversas nacionalidades (Kreutz, 2000: 351).
Segundo Kreutz, a década mais intensa da imigração, entre
VALE DO RIO NEGRO 1850 e 1920, foi a de 1890, com 1.200.000 imigrantes. Na sua
RI Rio Negro R3 Rio Içana grande maioria, esses novos componentes da sociedade multilíngue,
R2 Rio Xié R4 Rio Uaupés
multiétnica, multirracial e pluricultural brasileira se situaram de
Missões SaJesianas
São Paulo para o Sul. Citando ainda Kreutz:
Fonte: Taylor, G. (1985). Apontamentos sobre nheengatu falado no rio Negro, Brasil,
Amerindia, 10, p. 6. Vários autores apontam também motivos de ordem racial na
opção imperial pela imigração. Dava-sepreferência à imigração
MAPA 4: ÁREAS GEOGRÁFICAS DAS LíNGUAS AFRICANAS CHEGADAS AO BRASIL de europeus, que "foram escolhidos a dedo para branquear o
país" (Kreutz, 2000: 349).
A preocupação racista do governo imperial em "branquear o
país" se embasa no que mostra a demografia histórica do Brasil,
Zona KWA dos inícios da colonização, com as capitanias hereditárias na
1. Togo: ewê década de 1730, até o fim do século XIX.
2. Benin: fon, rnahi, nagô (Ketu)
3. Nigéria: iorubá Até a primeira metade do século XIX, a etnia branca que,
Zona BANTO: nesse tempo, no Brasil, ou eram os portugueses ou luso-descen-
4. Congo-Brazzaville dentes, perfez, entre 1538 e 1850, apenas 30% da população. Nos
H 16 quicongo
outros 70% estão, sobretudo, os africanos e afro-descendentes,
5. Congo-Kinshasa
H 16 quicongo já que os indígenas ou morreram por extermínio intencional ou
6. Angola por epidemias. Os que restaram afugentaram-se nos interiores do
H 16 quicongo (norte)
Brasil ou, nos inícios da colonização, se integraram, sobretudo
H 21 quimbundo (Luanda)
R 11 umbundo (Benguela) as mulheres, por casamento com os colonizadores. Esses dados
históricos demonstram que a maioria da população brasileira -
Fonte: Pessoa de Castro, Y. (2000). Colaboração, antropologia e linguíst ica nos estudos
afro-brasileiros, in: Marfins, C. e Lody, R. (orgs.). Faraimará - O caçador traz alegria. Mãe os 70% - adquiriu a língua da colonização, a língua-alvo, numa
Stella 60 anos de iniciação. Rio de Janeiro: Palias, 2000, p. 97. situação chamada pelos especialistas de transmissão irregular ou
de aquisição imperfeita, já que tinham história familiar de língua
Além das línguas indígenas autóctones, das africanas chega- não portuguesa. O modelo da língua-alvo era defectivo, situação que
das com o tráfico negreiro, que oficialmente se encerra em 1830, variava, a depender das circunstâncias específicas aos indivíduos e
.~ •• -" .•.. ,." .."".'" '-on;" ,,,.1"',,
,,- ..•. n'-"'"""''''-'''''''''"r''rr-''l'TqT'-11

às comunidades que se formavam pelo Brasil. Aclqui: iu, portanto, variantes populares hruxllcirns se aproximarem dos crioulos til'
a maioria o português a partir de modelos precários, lima vez que base portuguesa. Essa teoria voltou ao cenário com a proposta d•.\
os luso-falantes, portugueses e seus descendentes não mestiçados, crioulização prévia do sociolinguista americano Gregory Guy em
não teriam ultrapassado, no geral do Brasil, 30% dos habitantes; 1981, logo contestada em 1986 por Fernando Tarallo no artigo liA
na oralidade do cotidiano, de ouvido, pode-se dizer, e na ausência alegada origem crioula do português brasileiro" (1993b), rebatida
de uma normativização que seria veiculada pela escolarização. em 1994 por Dante Lucchesi com outros argumentos, também pelos
Segundo dados históricos da linguista brasileira Ilza Ribei ro, sociolinguistas Anthony Naro e Martha Scherre em 1993, defenso-
em A origem do português culto - a escolariraçãn (1999), utilizando res esses da deriva ou evolução natural, que teria sido apressada,
como fonte o Anuário Estatístico n. 43 de 1936, em 1890 seriam no Brasil, pelas condições sócio-históricas e linguísticas do pas-
85% os analfabetos no Brasil e em 1900 e 1920, 75%. Chegou-se sado. O especialista em crioulos de base portuguesa, Alan Baxter,
à segunda década do século XX com apenas 25% como potenciais e também Dante Lucchesi, trabalhando com Baxter, defendem a
usuários do português brasileiro culto e 75% como potenciais interpretação da crioulização prévia a ser vista de modo fatorizado
portadores do português popular brasileiro, ou seja, o vernáculo e não numa crioulização generalizada no Brasil; levando em conta
ou normas vernáculas, ainda hoje predominantes no Brasil, já a sócio-história e a demografia de determináveis locais de maciça
que, apesar da multiplicação quantitativa das salas de aula e presença africana e/ou indígena nos interiores do Brasil, admitem,
consequentemente da multiplicação dos docentes, ao longo do nesses casos, a possibilidade de uma crioulização leve no passado
século XX, sobretudo a partir da década de 1970, são docentes, (cf. Baxter, 1998; Baxter e Lucchesi, 1997).
na sua grande maioria, de formação precária, pois à política da
A teoria da crioulização prévia generalizada está hoje sem gran-
quantidade não acompanhou a da qualidade e a da qualificação
(Mattos e Silva, 2000). de defesa; a deriva ou evolução natural vem sendo investigada por
Anthony Naro e Martha Scherre, embora centrados, pelo menos por
Conjugando assim os dados de demografia histórica, o tipo enquanto, na questão da variação da concordância, sobretudo, a verbo-
de transmissão linguística irregular, majoritário ao longo dos sé- -nominal. Veja-se,desses autores, "VariableConcord in Portuguese: the
culos XVI ao XIX, e os dados da quase ausência de escolarização Situation in Brazil and Portugal" (2000). E a questão da crioulização
nesses séculos, pode-se interpretar, com certa margem de acerto, fatorizada vem sendo investigada em pesquisas de campo, no Projeto
a polarização socioletal que caracteriza o português brasileiro da Vestígiosde Descrioulizaçãoem Comunidades Afro-brasileirasIsoladas,
atualidade, em que convivem os portadores das normas cultas com iniciado em meados da década de 1980, que já resultou em muitos
os, majoritariamente, portadores das normas vernáculas e ainda artigos e na tese de doutoramento de Dante Lucchesi, A variação da
uma minoria, acredito que em extinção, que busca, no modelo concordância de gênero em uma comunidade de fala afro-brasileira.
da gramática normativo-prescritiva, que inicia seu prestígio so- Novos elementos sobre a formação do português popular do Brasil
ciocultural na segunda metade do século XIX no Brasil, realizar (2000), podendo ser a ponta de um iceberg submerso a comunidade
a norma padrão de tradição lusitanizante. rural de Helvécia no sudeste do estado da Bahia.
Considerando-se os fatores sócio-históricos que atuaram das
3. Formulações teóricas para a diferença entre o origens e por todo o período colonial e pós-colonial, pode-se
português brasileiro e o europeu entrever uma interpretação de como se originou e se formou o
português brasileiro, constituído em contexto social de transmissão,
No cenário teórico atual convivem, para interpretar a for-
majoritariamente, irregular, na oralidade, livre das peias norma-
mação do português brasileiro, três posições: a da crioulização
tivizadoras da escolarização e, consequentemente, da escrita, o
prévia, a da deriva ou evolução natural e a de repensar a questão
da crioulização prévia de modo fatorizado. que resultou numa variante, em muitos aspectos, divergente da
europeia. No seu interior, esse português brasileiro heterogêneo
A interpretação da crioulização prévia foi levantada ainda no apresenta variantes socioletais com configurações profundamente
século XIX por Adolfo Coelho, com base no fato de aspectos de modificadas, que se aproximam dos crioulos de base portuguesa e
variantes que se aproxi ma m do portugucs ~:III()Pl'lI. No pri uu-u»
caso, opino que a leoria de uma crioulizaçào prévia, embora Il'VI,
possa ter ocorrido no passado e, no segundo, a deriva natur.rl,
apressada pela história social do Brasil, não deve ser desconsick-
rada. Enfim, não se pode tratar como um conjunto homogêneo,
unitário, o português brasileiro, nem numa perspectiva sincrônica,
nem numa perspectiva diacrônica. NOVE

4. Para finalizar Uma compreensão histórica do


o fato é que, no aspecto socioletal, é inegável a polarização em português brasileiro: velhos problemas
normas cultas e normas vernáculas no português brasileiro. Tanto
as variantes cultas como as populares vêm sendo exaustivamente revisitados
exploradas por numerosos projetos de pesquisa sociolinguísticos
sincrônicos, espalhados por diversos centros universitários do
Brasil, a partir de 1970.
O objeto central da linguística histórica no seu sentido es-
O conhecimento geral da variação geodialetal, embora tardia-
trito, mais antigo e que perdura, é o estudo das mudanças por
mente por razões várias e conhecidas, já dispõe de um projeto
nacional para um Atlas linguístico do Brasil, a partir de 1996, que passam as línguas ao longo do tempo. Em sentido lato, se
coordenado por Suzana Cardoso, reunindo dialetólogos de vários pode considerar que são
locais do Brasil, o Projeto ALIB. estudos históricos todos Língua certa do povo
Desde 1997, um grande grupo de pesquisadores, coordenado por aqueles que tratam do Porque ele é que fala
Ataliba de Castilho, com equipes, por enquanto, na Bahia, em São funcionamento das línguas
gostoso o português do Brasil
Paulo, no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, no Paraná, em Minas a partir de dados datados
Gerais e em Recife, vem se empenhando no Projeto Nacional para e localizados, como, desde
Ao passo que nós
a História do Português Brasileiro (PHPB), que tem como objetivo 1968, demonstraram Uriel O que fazemos
conhecer o passado do português em geral, mas a partir de diferentes Weinreich, William Labov É macaquear
áreas históricas do Brasil, com as suas especificidades.
e Mervin Herzog, na obra A sintaxe lusíada
Continuam as pesquisas de Baxtcr, Lucchesi e outros em já clássica da linguística (Manuel Bandeira, Libertinagem
busca de vestígios de descrioulização em comunidades rurais contemporânea, Funda- Evocação do Recife)
afro-brasileiras isoladas.
mentos empíricos para
Esse quadro geral de pesquisas em curso no Brasil indica que, uma teoria da mudança
no século XXI, que apenas se inicia, possivelmente novos fatos, linguística e, antes, Eugenio Coseriu, quando, no seu também clás-
novos dados, novas interpretações surgirão para a questão com- sico Sincronia, diacronia e história (1979), define como históricos
plexa da formação do português brasileiro, que se apresenta, na os estudos linguísticos que tratam do funcionamento sincrônico
realidade sincrônica, certamente heterogêneo, plural e polarizado.
e do constituir-se diacrônico das línguas.
Talvez possamos então responder ao poeta o que quer, o que
Quando se faz linguística histórica no seu sentido estrito,
pode esta língua, no entrecruzar-se da criatividade individual, da
alteridade social e das limitações estruturais possíveis próprias a inevitavelmente, está-se sempre a comparar, explícita ou implicita-
qualquer língua. mente, ou estágios sucessivos de línguas históricas geneticamente
relacionadas ou não; ou estágios sucessivos de uma mesma Illlglln zrao questões centrais () que fez o português brasileiro di.
histórica; ou variantes dialetais - geográficas, sociais de regist 10 [crente do europeu, em todos os níveis lingufsticos, para usar a
- de uma língua; ou, ainda, como na teoria da variação e n111' taxionomia estruturalista: na Ionética/Ionologia, na morfologia, na
dança laboviana, sintaxe, no léxico e o que, no interior do português brasileiro, fez
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, comparam-se gc suas variantes se distinguirem também nesses níveis linguísticos,
Já esqueci a língua em que comia, rações conviveu sutil diversidade que não impede a intercomunicação em portu-
tes de usuários guês brasileiro em todo o território nacional, exceto, certamente,
em que pedia para ir lá fora,
de uma língua, entre os povos indígenas - provavelmente poucos - que ainda
em que levava e dava pontapé, utilizando-se () permanecem linguisticamente isolados, monolíngues em suas lín-
a língua, breve língua entre cortada recurso do tem- guas de origem, pelo menos nos recônditos da Amazônia.
do namoro com a prima. po aparente, em
Essas questões implicam, sem dúvida, no problema episte-
O português são dois; o outro, mistério contraposição ao mológico, sempre discutido no âmbito da linguística histórica, de
(Carlos Drummond de Andrade, tempo real, da
se é possível falar em causas do tipo post hoc propter hoc para
Boitempo / Aula de português) tradição da Iin- disciplinas que tratam com objetos históricos. Não me deterei
guística histórica, nesse problema, este não é um texto teórico sobre linguística
desde que se esta- histórica, mas julguei necessário tecer breves considerações sobre
beleceu ela no cenário dos estudos sobre a linguagem e as línguas
ele, para, em seguida, situar o meu modo de tratamento do tema
humanas no século passado.
selecionado.
Trabalharei com a linguística histórica no seu sentido estrito,
No século XIX, quando dominaram as disciplinas históricas, a
ou seja, o da mudança de uma língua no tempo real de longa du-
busca de causas para a mudança linguística se tornou uma questão
ração e, por ele, perpassará a inevitável comparação do português central entre os linguistas historicistas da segunda metade daque-
brasileiro com o português europeu. Aliás, como bem destacou le século. Consoante o
Celso Cunha no seu artigo de 1987 - "Em torno do conceito de quadro científico de seu
brasileirismo" : Flor do Lácio Sambódromo
tempo, buscaram, numa
Lusamérica latim em pó concepção mecanicista-
Os estudos sobre o português no Brasil revelam por parte de (Caetano Veloso, Velô / Língua)
seus autores uma permanente, senão exclusiva, preocupação -newtoniana, as leis que
com os fatos peculiares a nossa forma expressional, inferidos regiam as mudanças lin-
de um contraste com os vigentes no português europeu (p. 3). guísticas e se centravam
nas mudanças fônicas ou sonoras. A busca da explicação das leis
A nossa história brasileira é muito recente e a consciência da
fonéticas ocupou muitos linguistas daquela época, como historiam
transplantação do português europeu para o que veio a ser Brasil
todos os manuais sobre linguística histórica.
está presente por muitos lados, o que justifica essa constante re-
ferida por Celso Cunha nos estudos sobre o português brasileiro Depois do recesso da linguística histórica, com o advento dos
numa perspectiva histórica. modelos da chamada linguística moderna, na esteira de Ferdinand
de Saussure e de Leonard Bloomfield, centrados nas abstrações
Contudo, o que estará no meu horizonte comparativo não sistêmicas, fundadas em dados sincrônicos, a questão das explana-
será apenas o português europeu, mas também as variantes do ções para as mudanças linguísticas no tempo só voltaram à cena
português brasileiro conviventes em nosso território nacional, com o retorno do interesse pelos estudos histórico-diacrônicos,
variantes sobretudo sociais, como mais adiante se justificará. sobretudo a partir do livro de Roger Lass, de 1980, On Explaining
tradição chornskiana c, 110 quadro da teoria da ciência utual, uno
Language Change, em que o autor é radicnl pl''osilllista quanto
i.'
ncwloniana-mecanicista, como no século XIX, admite que em áreas
à possibilidade teórico-epislemológica de explicar, num quadro
I
limitadas (1992: 289) ou em certos domínios (1999: 264) é possível
do tipo nomotético-dedutivo, as mudanças linguísticas e defende fazerem-se predições no que se refere às mudanças; são aquelas
que a linguística histórica e, consequenternente, as mudanças lin que designa de mudanças necessárias, que ocorrem em bloco ou
guísticas se inserem no quadro próprio às disciplinas históricas, em cadeia, destacando, contudo, que a "história da língua é cer-
que trabalham como ars interpretandi, uma arte de interpretação, tamente contingente e sujeita a acidentes de influência ambiental
distinta das explicações preditivas próprias às ciências não huma- e a ídiossincrasias" (1992: 228), sendo essas as mudanças devidas
nas ou naturais. ao acaso, mudando assim as línguas para ele pela interação de
Tal posição continua Roger Lass a defender, mesmo depois de fatores ocasionais e de fatores necessários (1992: 291). Fundamen-
todo o debate crítico à sua posição de 1980, como refere no seu ta-se Lightfoot na aquisição da sintaxe pelas crianças, momento
erudito livro de 1997, Historical Linguistics and Language Change, que considera crucial, na seleção de possibilidades diferentes na
em que, no último capítulo (pp. 325-390), reafirma que o expla- fixação de características linguísticas - os parâmetros da teoria
natory commitment das ciências históricas é de natureza especial chomskiana atual -, inter-relacionando, portanto, os ganhos já
e diferente daquele das ciências naturais e destaca o psicanalista alcançados por teorias que tratam das construções sincrônicas de
P. du Preez, que considera a sua especialidade como um caso do gramáticas no processo aquisicional com mudanças das línguas
paradigma herrnenêutico, tal como a história, e cita P. du Preez: no tempo e define seu ponto de vista com clareza, por exemplo,

A explanação de qualquer evento real é uma longa narrativa na seguinte passagem:


sobre circunstâncias ... não combina com o formato hipotético- Os historiadores da língua são como os historiadores em geral e
-dedutivo. Nesse sentido, é como a história, que também tem os [biólogos] evolucionistas, no que se refere ao fato de tratarem
suas generalizações, é explanatória e tenta descobrir a origem dos com histórias contingentes e tentarem oferecer explanações. Não
acontecimentos em circunstâncias, mas não pode ser preditiva é uma má companhia estarmos com eles; mas quero sugerir, sem
(1997: 333, minha tradução). modéstia, que os historiadores das línguas são líderes e podem
prover um modelo: nesse ponto, os historiadores da língua po-
Para Roger Lass, na interpretação da história das línguas,
dem oferecer explanações mais cerradas do que é possível em
ou seja, da mudança Iinguística, como em qualquer disciplina
outros campos. Podemos fazer predições em certos domínios
histórica, por tratar de realidades humanas, embora as mudan-
(1999: 264, minha tradução).
ças não se deem de forma aleatória e generalizações possam ser
feitas, sua direção é indeterminada, condicionada por fatores de Como neste texto trato de "uma compreensão histórica do
múltipla natureza, tanto intralinguísticos como externos à língua. português brasileiro", a própria formulação do título - "Uma
compreensão" - já indica que outras foram, são e serão possí-
Essa posição, contudo, não é consensual. Basta que se leiam
veis. Estarei, portanto, na linha da ars interpretandi de Roger Lass
dois trabalhos de David Lightfoot, um de 1993, publicado, em
(1980). Contudo, como, inevitavelmente, considerarei a sintaxe
tradução, na Revista D.E.L.TA., "Uma ciência da história?", tema
brasileira como ponto crucial da diferença em relação ao português
que retoma ao finalizar seu livro de 1999, The Development o[
europeu e no interior do português brasileiro, não posso deixar
Language. Acquisition, Change and Evolution, em que admite a
possibilidade de se fazerem predições, pelo menos algumas, na de considerar que, em certos domínios ou em áreas limitadas, nas
. mudança das línguas. Claro que está ele em acordo com o modelo designações de Lightfoot, seja possível admitir mudanças prediti-
teórico que adota. vas, como propõe esse autor, que, como visto, admite também as
contingências ocasionais e o ambiente histórico, a par dos efeitos
David Lightfoot, sem dúvida, é dos gerativistas que mais se
dos processos da teoria da aquisição que adota e que pressupõe
têm dedicado a questões diacrônicas no âmbito da linguística de
S recursos biológicos da mente/cérebro dos sn('s humunos na interpretação de Scrulim d:\ Si/v:\ Neto, precursor teórico uunlx-u:
aquisição de sua língua materna e a isso vincula <I possibilidade da dialetologia brasileira, luudava-sc em uma visão ideológica que
de mudanças sistemáticas nas gramáticas dos indivíduos. buscava "enobrecer" o português brasileiro.
Para completar este item sobre o ponto de partida de meu Serafim da Silva Neto não acompanhou o desenrolar do co-
olhar para o tratamento de uma compreensão histórica do portu- nhecimento e reconhecimento da realidade linguística brasilei ra,
guês brasileiro na sua globalidade, que envolve a norma-padrão, conhecimento assim designado por ele e, na direção do qual lutou
as normas cultas, as normas vernáculas, nas suas variantes sociais na sua tão divulgada e, assim chamada, cruzada dialetológica.
e regionais, deixo claro que a minha base factual ou empírica Sílvio Elia, nosso contemporâneo, acompanhou o desenvolvimento
sincrônica parte de duas vias que se intercomplementam: uma da dialetologia espacial e da sociolinguística que, num crescendo,
via é a de um saber fundado na experiência feita nas salas de vem sendo realizado no Brasil. Ambos, contudo, partiam de uma
aula de língua portuguesa nos cursos de letras, em que milito equação, superada por um dos princípios da chamada linguística
desde 1962, com uma interrupção, entre 1966 e 1970. Meu re- moderna, que podemos formular com simplicidade da seguin te
torno revelou uma nova realidade presente no uso do português forma: a língua é a "língua" padrão. Fundados nisso, desenvolveram
entre meus estudantes. A outra via é a do saber acumulado da e defenderam as suas interpretações sobre o caráter lusitanizante
década de 1960 para cá no processo crescente de conhecimento do português brasileiro.
da chamada realidade linguística brasileira por várias orientações Observando e interpretando a realidade do português brasi-
da linguística no Brasil. leiro por outra ótica, pode-se mostrar que ela não é homogênea,
mas heterogênea, plural e polarizada, se se considerar o todo do
Fundamentarei essa compreensão do português brasileiro
português brasileiro e não apenas a idealizada norma-padrão e
partindo de fatos e dados do presente para entrever o passado
se se interpretar essa realidade numa compreensão histórica que
e interpretando fatores históricos do passado para interpretar o
considere, simetricamente, do ponto de vista linguístico, as lín-
presente.
guas que entraram aqui em contato com a língua portuguesa no
Tradicionalmente a linguística histórica, desde o século XIX, período colonial, através de seus falantes e não como "a língua
parte do passado para o presente, seguindo, naturalmente, a linha adulterada dos negros e índios" ou como "a loquela inumerável
do tempo. Contudo, com as orientações desenvolvidas pela teoria de indígenas e africanos", ótica que também avalie, objetivamente,
da variação e mudança laboviana, o princípio uniformitário, toma- o fator escolarização na história da sociedade no Brasil. Há que
do de empréstimo às ciências geológicas, passou a desempenhar esboçar o português brasileiro no presente, a fim de entrever o
significativo papel para a compreensão do passado, a partir de passado para, em seguida, interpretar o passado para tentar me-
fatos observáveis no presente. Iniciarei então, do presente, para, lhor compreender o presente.
em seguida, deslocar-me para o passado, na tentativa de interpre- Desde 1983, comecei a escrever sobre uma questão que con-
tar o heterogêneo português brasileiro de hoje numa perspectiva sidero basilar no ensino de língua portuguesa no Brasil. No texto
sócio-histórica.
intitulado "Dizem que vai mal o vernáculo no Brasil?", argumento
Serafim da Silva Neto, que reorientou na direção da dialeto- que subjaz a esse ensino uma questão geral de política social e de
logia e linguística de seu tempo os estudos sobre o que sempre política linguística. Naquela altura, tempos de abertura política,
designou de a língua portuguesa no Brasil, sempre configurou o começaram a ser publicamente discutidos problemas vários da
português no Brasil como se fosse uma realidade homogeneizável, sociedade brasileira, e um deles era formulado como a incapaci-
idealizado como dotado de "notável" unidade que, exceto "algu-
mas insignificantes divergências sintáticas e numeroso vocabulário * Texto publicado in Mattos e Silva, O português são dois: novas fronteiras,
novo" (1960: 25), identificava-se ao português da Europa. Essa velhos problemas. São Paulo: Parábola Editorial, 2004, pp. 11-26.
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dadc dos jovens estudantes brasileiros no 1I~() <1:\lillgll<lportuguc revolução de 64 .... que pretendeu fazer passar a idcia de 11111:\
sa. A minha argumentação de então e que prosseguiu em várias educação que se "dernocratizava", porque fazia aumentar as
publicações, concentrada em um livro, Contradiçoes 110 ensino de. chanccs de igualdade de condições. O aumento do número de
português: a língua que se fala x a língua que se ensina (1995), estudantes exigiu, em contrapartida, a maior quantidade de
se fundava e se funda num olhar, que considero realista, sobre professores. Onde buscá-los? (p. 115).
a sociedade brasileira, refletida nas salas de aula de português.
A questão de política social e de política linguística a que
A escola brasileira, desde que começou a expandir-se, no século me referi pode, em síntese, ser assim formulada: à política da
XIX, se pauta, no ensino de português, por uma norma-padrão de quantidade, que ainda perdura, na multiplicação geométrica das
tradição lusitanizante - sobre esse tema há um bem argumentado salas de aula, não correspondeu, na mesma proporção, uma po-
trabalho de Emílio Pagotto, Norma e condescendência: ciência e lítica da qualidade do ensino e da qualificação dos professores.
pureza (1999) -, desconhecendo as mudanças ocorridas no interior No caso específico da língua portuguesa, esse fator sócio-histórico
do português brasileiro ao longo do tempo. Essa norma-padrão, teve como resultado inevitável a impossibilidade de as escolas, em
idealizada, estacionada no passado, compendiada em gramáticas geral, e seus professores, cada vez mais provenientes das chama-
normativo-pedagógicas, deverá ser transmitida pelo ensino escolar. das classes sociais populares e com formação docente precária,
Nesses últimos anos, essa tradição está matizada inexoravelmente. por razões consabidas, não terem como transmitir o padrão
Tenho argumentado que até meados do século XX, talvez até normativo-prescritivo lusitanizante, idealizado para o ensino da
a década de 1960, a escola conseguia cumprir essa meta - apagar matéria, desde a segunda metade do século XIX.
as vozes brasileiras, excluir muitos da escola logo nas primeiras Muito se tem debatido sobre essa questão no âmbito da so-
séries escolares, transmitir outras formas de português. Veja-se, ciolinguística e também na metodologia para o ensino da língua
por exemplo, nas epígrafes escolhidas para este texto, a de Carlos portuguesa no Brasil. O fato histórico-linguístico que quero aqui
Drummond de Andrade - "Professor Carlos Góis, ele é quem assinalar, por essa via de compreensão histórica do português
sabe, /... já esqueci a língua em que comia ... " e a de Manuel brasileiro, é que as características próprias ao português brasi-
Bandeira - "O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada". leiro que se distinguem do padrão normativo, sobrelevando-se
Algo de novo aconteceu na sociedade brasileira dos anos 1960 as sintáticas, já alcançam aqueles de nível de escolaridade mais
para os anos 1970 - vivenciei isso, depois de um interregno entre alta, que, por princípio ideológico, almejaria a sociedade que não
1965 e 1971, na minha prática de professora de português nos alcançassem. Considere-se, por exemplo, o retorno insistente aos
cursos de letras. Outras vozes chegavam à universidade e a esco- "consultórios gramaticais", agora não restritos aos jornais, mais
laridade anterior não conseguira apagá-Ias, ou seja, transmitir o difundidos em programas na grande mídia.
padrão normativo na sua completude. Esse fato histórico-linguístico A questão linguístico-pedagógica que acabei de esboçar é, com
está muito bem formulado pelo linguista Wanderlei Geraldi no propriedade, interpretada por Mary Kato, que, em texto de 1993,
seu livro Portos de passagem (1991): formula o problema da maneira seguinte, partindo de mudanças
Pela democratização do ensino, que é uma necessidade e um sintáticas que tipificam o português brasileiro:
grande bem, tiveram acesso a ele largas camadas da população A consciência dessas mudanças sintáticas... é necessária para
antes marginalizadas. A democratização, ainda que falsa, trouxe entender por que os estudantes escrevem como escrevem e por
em seu bojo outra clientela. De repente, não damos mais aula que a língua dos textos escolares, para as camadas que vêm de
só para aqueles que pertencem ao nosso grupo social... Nos pais iletrados, pode parecer tão estranha .... O Brasil apresenta
anos de 1970 e 1980, o crescimento foi um primeiro resultado assim um caso extremo de "diglossia entre a fala do aluno que
da política educacional implantada no período que sucedeu a entra para a escola e o padrão que ele deve adquirir" (p. 20).
Em trabalho de 1996,Português brasileiro [alatk): aquisição e/H nesses últimos anos, pode -!'te hoje demonstrar que convivem, IlO
j

contexto de mudança linguistica, desenvolve Mary Kato o tema, Brasil, as normas vcrnáculas ou o português popular brasileiro;
focalizando vários aspectos em variação e mudança na sintaxe as normas cultas ou o português culto brasileiro e, no horizonte
brasileira, dentre eles os clíticos acusativos de terceira pessoa c, paira, ou para, a norma-padrão.
com base em pesquisa de dados de Vilma Correa (1991), mostra Essa heterogeneidade social do português brasileiro pode tam-
que os estudantes chegam a recuperar esses clíticos na escrita, bém ser formulada como um continuum dialetal, com os polos
na ordem de 85,7%, enquanto na fala a recuperação é mínima, popular e culto ressaltados, que tem num extremo as variantes
na ordem de 10,7% (p. 228). Considerando esse fato sintático e usadas principalmente por não escolarizados de áreas rurais e, no
outros que analisa, conclui que a "recuperação" de "fósseis" sin- outro, as variantes daqueles de áreas, principalmente urbanas, de
táticos pela escola, quando isso ocorre, no ensino de português alta e boa escolaridade. Às margens desse continuum se pode ainda
no Brasil, revela, numa análise qualitativa situar, para além de um extremo, possíveis locais descrioulizantes
indícios de que o processo difere muito da aquisição natural, em antigas comunidades afro-brasileiras isoladas - como vem
pois esses dados apresentam inúmeros casos de hipercorreção e mostrando o projeto Vestígios de Descrioulização, coordenado por
estratégias de esquiva, evidências de que há um comportamento Alan Baxter e Dante Lucchesi - e, para além do outro, o padrão
consciente de monitoração do produto (p. 233). formal de indivíduos de alta e boa escolaridade, que ainda buscam
Afastando-me agora da sala de aula de português, em que, na aplicar as tradicionais regras gramaticais prescritivas, pelo menos na
interpretação de Mary Kato, se revela uma situação diglóssica, em escrita formal, devedoras do modelo europeu. Pode-se admitir que,
que muitas das regras da norma-padrão são aprendidas, quando o considerando o português falado e o escrito informal e o português
são, como as de uma gramática de língua estrangeira, esboçarei, europeu, houve uma mudança gramatical qualitativa, e, no interior
seguindo a segunda via antes referida, como a sociolinguística brasi- do português brasileiro falado - de um lado ao outro dos extremos
leira interpreta a heterogeneidade atual do português brasileiro. referidos, incluindo-se aí também a escrita informal- há variação
de natureza quantitativa no interior de uma mesma "gramática",
Quando, na década de 1950, Serafim da Silva Neto defende variação que pode ser distingui da por taxas, padrões de uso e por
a notável unidade da língua portuguesa no Brasil, fundava-se ele avaliações sociais diferenciadas (Mattos e Silva, 1999).
na dialetação regional. As pesquisas de campo sobre o português
brasileiro só seriam principiadas na década seguinte, com os Essa proposta de mudanças de natureza paramétrica já vinha
reconhecidos trabalhos de Nelson Rossi e sua equipe. Até então, sendo estudada por pesquisadores sociolinguistas e gerativistas
acalentava Silva Neto a ideia da rarefeita diversidade dialetal ligados a Fernando Tarallo e a Mary Kato. No livro Português
espacial brasileira. brasileiro: uma viagem diacrônica, organizado por Mary Kato e
Ian Roberts em homenagem póstuma a Fernando Tarallo, um
A sociolinguística se inicia no Brasil em 1969, com os começos conjunto de estudos demonstra, no quadro teórico referido, que
do projeto Norma Urbana Culta [NURCJ, que tem por objetivo, seria pelos fins do século XIX que o português brasileiro escrito
a partir de dados gravados, avaliar o uso dos falantes brasileiros deixaria já "escorrer sua própria tinta", para usar uma expressão
de escolaridade completa, ou seja, de nível universitário, definidos do próprio Tarallo.
esses no NURC como falantes cultos. Daí partiu a sociolinguística
No artigo de 1996, retoma Mary Kato as mudanças detectadas
para outros corpora, como, na década de 1970, o corpus MOBRAL-
na sintaxe brasileira, estudadas nos anos anteriores, e tem como
-Rio, de adultos em início de alfabetização. Expandiram-se, a
seguir, para várias áreas brasileiras, projetos sociolinguísticos, um dos seus objetivos, nas suas palavras:
considerando, sempre, como uma das variáveis a serem analisadas, Tratar as mudanças detectadas no português brasileiro em es-
a escolaridade. Com base nesses dados que se vêm multiplicando tudos diacrônico-variacionistas e as interpretações a elas dadas
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estudos gcrativistas.
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J social brasileira que terão tido efeitos na const ituiçao histórica
ver com mudanças no paradigrna pronominal (p, 210). do português brasileiro.
Ao finalizar a sua análise afirma, contudo, que: Nessa orientação da história social direcionada para a história
As mudanças sintáticas sofridas no português brasileiro, embora linguística do Brasil, quem primeiro formulou a questão, conside-
provocadas, inicialmente, no nível lexical, acarretaram mudanças rando os dois fatores que vou argumentar como fundamentais para
profundas em sua gramática. Não é apenas uma mudança no uma compreensão histórica do português brasileiro, foi Antônio
nível paradigmático - o sistema pronominal e flexional. Essa Houaiss em seu livro de 1985, O português no Brasil:
mudança tem efeito de reanálise, em nível sintagmático, afetan-
Na história externa, são essenciais a articulação de fatos de ocu-
do a ordem dos constituintes, a expressão maciça de sujeitos pação territorial, fatos das sucessivas distribuições demográfico-
referenciais, a proliferação de verbos leves, as construções de -linguísticas dos ocupantes e fatos das prevalências e desfavore-
tópico (p. 233). cimentos das línguas (pp. 31-32).
A heterogeneidade complexa dos usos populares e cultos
Fica assim claro que, para uma compreensão e interpretação
do português brasileiro, na sua sincronia atual, que se vem efetiva que considere o todo do português brasileiro, ao longo des-
desvelando pelos estudos Iinguísticos, sobretudo os sintáticos, ses séculos, muitas histórias de contatos linguísticos deverão ser
à qual subjazerá uma "gramática" distinta, segundo as explica-
reconstruídas, levando em conta os falantes de variadas línguas,
ções gerativistas, da do português europeu, perseguida ainda tendo como denominador comum a língua do poder e do pres-
no padrão normativo-prescritivo, poderá ser interpretada numa tígio, a língua portuguesa, que se toma hegemônica e oficial no
perspectiva histórica. É preciso nunca deixar de considerar os Brasil, a partir da segunda metade do século XVIII, na sequência
fatores sócio-históricos, sobrelevando-se, entre eles, a dinâmi- da política pombalina para a colônia brasileira.
ca da demografia histórica do Brasil, refletida na forma como
ocorreram os contatos multilinguísticos dos falantes em conví- Não há como negar a difusão generalizada e implantação
vio, mesmo que socialmente assimétricos, e consequentemente do português no território brasileiro, mas um português distinto
a aquisição do português europeu, língua de prestígio político e do europeu, hoje já bem definido pelos linguistas, que tem, como
social, ao longo do Brasil colonial e pós-colonial, inter-relacio- elo principal comum de intersecção com o português europeu, o
nada essa história dernográfico-linguística ao precário processo padrão escrito formal e, sistemicamente, principalmente caracte-
de escolarização na história da sociedade no espaço que veio a rísticas morfológicas e lexicais comuns que permitem a intercom-
ser definido como brasileiro. preensão, desde que haja boa vontade, tanto do lado de cá como
do lado de lá do Atlântico.
Pode-se tentar reconstruir o passado de uma língua, tanto
numa perspectiva intralinguística, estritamente diacrônica, tradi-
cionalmente chamada essa orientação de história interna, como
inter-relacionando os fatores linguísticos diacrônicos com fatores
sócio-históricos ou da história social em que essa língua está inse-
rida, tradicionalmente chamada essa orientação de história externa.
Quando os gerativistas, como antes exposto, detectam mu-
danças correlacionadas, predizíveis, na "gramática" do português
brasileiro, que o distinguem do português europeu, seguem eles a
via intralinguística, propriamente dita diacrônica. Na compreensão
sócio-histórica que busco, tentarei identificar fatores da história