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Docente: Rangel Mendes Francisco - 201611386

Discente: Dr. Leonardo Gomes Penteado Rosa


Disciplina: Liberalismo contemporâneo na Teoria da Justiça
Data: 13/07/2018

Will Kymlicka e a crítica à igualdade utilitarista

Will Kymlicka é um filósofo político canadense. Dentre as suas principais obras,


encontra-se o livro “Filosofia Política Contemporânea: uma introdução”, em que o autor
aborda e critica diferentes correntes de pensamento. Visando a explorar a visão de que o
valor fundamental de todas as teorias políticas modernas plausíveis é pautado na
igualdade, como sugerido por Ronald Dworkin, Kymlicka explica que dizer que uma
doutrina é igualitária não significa que todas elas defendem necessariamente uma igual
distribuição de renda, pois tal preposição seria, logicamente, equivocada. Assim como
Dworkin, o canadense pretende desenvolver a ideia de que há uma noção mais básica e
ampla de igualdade, a qual é compartilhada pelas principais teorias contemporâneas de
justiça, como o libertarianismo, o liberalismo, o marxismo e o feminismo. Tal noção
fundamental é a de que as filosofias políticas que se propõe a elaborar uma teoria da
justiça devem tratar a cada membro da comunidade com igual importância e
consideração. Não cabe às doutrinas dizer se estão fundamentadas ou não no valor da
igualdade, mas interpretá-lo.
Objetivando desenvolver a visão supracitada, Kymlicka entende que sua análise
deve partir do liberalismo igualitário de John Rawls, o qual é comumente visto como o
marco de renascimento da filosofia política normativa. Para isso, o autor deve,
primeiramente, passar por um debate iniciado pelo próprio americano, o qual busca se
contrapor ao utilitarismo. Kymlicka, em acordo com Rawls, afirma que “o utilitarismo
opera como um tipo de pano fundo tácito contra o qual outras teorias têm de se afirmar
e se defender” (KYMLICKA, 2006). A tese do autor é de que o utilitarismo falha em
seu projeto de tratar as pessoas como iguais, pois não obedece diversas instituições que
visam a expressar o real significado de tratar as pessoas com igual consideração.
Portanto, interpreta-se erroneamente o princípio da igualdade, o que faz com que as
pessoas sejam tratadas “menos que iguais, como meio para os fins de outras pessoas”
(KYMLICKA, 2006)”. Kymlicka explica que, para cumprir o seu objetivo, não irá
criticar o utilitarismo como teoria moral abrangente, mas se concentrará em tal doutrina
como sendo uma moralidade especificamente política, a qual não aplica os seus
princípios às condutas pessoais dos indivíduos, mas no que Rawls denomina de
“estrutura básica da sociedade”. O autor, entretanto, terá que apresentar contra-
argumentos consistentes em diversos momentos, uma vez que utilitaristas como Peter
Singer acreditam que não há outro caminho para compreender a moralidade se não
aquele que enxerga a maximização da felicidade humana como valor fundamental de
uma boa teoria da justiça.
Nos traços gerais desta possível defesa do utilitarismo, encontram-se alguns
atrativos que são antecipados por Kymlicka. Primeiramente, pode-se argumentar que a
doutrina utilitarista é vantajosa pelo fato de não depender da existência de Deus ou de
qualquer entidade metafísica. Os autores utilitaristas, ao formular os princípios
fundamentais da sociedade, visam a introduzir valores que se pautam na felicidade,
prosperidade e bem-estar, o que são aspectos valorizados independentemente de
qualquer crença individual. Para além disso, deve-se considerar que o utilitarismo é uma
corrente que possui uma outra característica benéfica à teoria da justiça: o
consequencialismo. Tal aspecto exige que seja verificado se um ato realmente carrega
consigo um bem identificável. O consequencialismo é benéfico, primeiramente, por
impedir que certos atos moralmente arbitrários sejam tomados, como a proibição do
homossexualismo, por exemplo. Tal ato proibicionista não traz em si nenhuma
consequência benéfica à sociedade, sendo apenas uma expressão moralista. Com isso, o
utilitarismo afasta a possibilidade de ser visto como um “conjunto de regras” que devem
ser seguidas independentemente do resultado de determinado ato. Ele apresenta testes
que confirmam se algo é útil ou não. Ainda, o consequencialismo possui a capacidade
de afastar o âmbito moral de outras esferas sujeitas à interpretação ou a gostos pessoais,
como a estética. Se alguém critica alguma música, esta pessoa está fazendo uma crítica
relativa à estética, e não à moralidade. Tais aspectos, o afastamento da necessidade de
um ser superior, e o consequencialismo, se relacionam e contribuíram para o
progressismo, trazendo importantes evoluções na história e ajudando para que as
autoridades não mais oprimissem os indivíduos com base na força e em nome de uma
moralidade autoritária. Não há como contrariar o utilitarismo caso haja a pretensão de ir
contra essas duas instituições. Paralelamente, também é possível demonstrar que essas
duas preposições centrais não são exclusivas do utilitarismo, e que outras doutrinas
podem determiná-las com uma maior competência. Posteriormente, será apresentado a
maneira como Kymlicka faz isso.
O utilitarismo defende, também, a maximização da utilidade. Pode-se citar,
como faz Kymlicka, dois principais argumentos a favor de tal posição, os quais serão
exploradas a seguir. Em primeiro lugar, usa-se do utilitarismo como sendo um padrão
que visa a agregar preferências pessoais. Por óbvio, os indivíduos possuem interesses
que por vezes são conflitantes, e o padrão utilitarista especificaria o que pode ser
considerado moralmente aceitável, e também, o que pode ser tratado como equitativo
visando ao bem-estar. Baseando-se em tal argumento, o utilitarismo suportaria a ideia
de que todo indivíduo é moralmente igual, devendo ser tratado com a mesma
consideração. Visando a especificar o que significa essa igualdade, na visão do
utilitarismo, pode-se afirmar que se dá um igual peso às preferências. Bentham, em
“Uma introdução aos princípios da moral e da legislação”, escrito em 1789, afirmou
que a doutrina utilitarista não conta nenhuma pessoa como sendo mais de uma.
Pautando-se em tal ideal, e colocando-o como um padrão de correção, pode-se entender
que se têm ações moralmente corretas quando a utilidade é maximizada. A decorrência
lógica, explicada por Kymlicka, e usada como embasamento por utilitaristas como Hare
e Singer, é de que (i) as pessoas têm igual relevância, portanto, (ii), o peso dado a cada
interesse deve ser igual e, então, (iii) se age corretamente ao maximizar a utilidade
(KYMILICKA, 2006).
O segundo argumento a favor da maximização da utilidade é baseada em um
utilitarismo teleológico. Defende-se que a maximização de um bem não é derivada, mas
primária, e, portanto, deve-se considerar os indivíduos com igualdade simplesmente
porque é essa a forma de se maximizar o valor. Diferentemente do primeiro argumento,
nesta visão o que importa é o “estado de coisas”, e não as pessoas, em um primeiro
plano. Maximiza-se, antes de tudo, em função do bem e não das pessoas. Assim, a
obrigação utilitarista maximizaria o valor das coisas, independentemente se isso
signifique que as pessoas existentes acabem ficando em uma situação pior que antes.
Tal percepção segue a decorrência lógica utilizada para concluir o primeiro argumento,
mas em seu sentido inverso: primeiro se maximiza e depois se chega à igualdade. As
visões citadas são conflitantes, e ambas apresentam problemas de natureza lógica ou
conceitual. Kymilicka, na quarta e na quinta seção do primeiro capítulo da obra
anteriormente citada explica o porquê disso.
Antecipando a crítica que pode ser usada contra os utilitaristas em relação ao
trato da igualdade, Peter Singer se propôs escrever contrariamente à ideia da posição
original de John Rawls, a qual é pautada em uma perspectiva contratualista. Em “Ética
Prática”, publicado inicialmente em 1993, o autor australiano, professor da
Universidade de Princeton, argumenta que a posição original sugerida por Rawls
poderia afastar características como raça ou sexo, mas que outros aspectos como o
raciocínio lógico mais apurado iriam, inevitavelmente, fazer a diferença no futuro de tal
sociedade, acabando por possibilitar a desigualdade logo após a fundação daquele meio.
Divergindo da visão rawlsiana, Singer propõe um princípio geral da igualdade na
consideração de interesses. As pessoas não seriam iguais de fato, mas haveria um juízo
ético direcionado às pessoas, e assim se abandonaria o âmbito subjetivo para que se
considere o interesse de todos como tendo uma igual importância, independentemente
de gênero ou classe. O princípio da igual consideração de interesses se difere do
princípio da igualdade de oportunidades, vez que, enquanto neste último se concede as
mesmas chances a todos, no primeiro há um exercício de relativização que considera
que as pessoas podem ter demandas diferentes a depender de suas características
individuais.
Traçados os principais argumentos do utilitarismo, pode-se, agora, apresentar as
críticas de Will Kymilicka acerca dessa doutrina como um todo e, principalmente,
acerca da ideia utilitarista de igualdade. Direciona-se os esforços, em um primeiro
momento, às duas vantagens atrativas citadas no início da defesa do utilitarismo. Em
relação ao consequencialismo, pode-se afirmar que não reside no utilitarismo a melhor
interpretação desse ideal. Promover a utilidade das pessoas e satisfazer a todos os
interesses informados é, por certo, impossível, visto que os recursos disponíveis são
limitados e nem todas as preferências podem ser satisfeitas. Portanto, qual seria a saída
em meio a preferências conflitantes? No utilitarismo, não há a especificação do
princípio consequencialista. Kymlicka afirma:

Esse compromisso de examinar as consequências para o bem estar


humano é uma das atrações do utilitarismo, tal como comparado a
teorias que dizem que devemos seguir a tradição ou a lei divina,
independentemente das consequências humanas. Contudo, o tipo
específico de consequencialismo no utilitarismo não é, penso eu,
atraente. Quando é impossível satisfazer todas as preferências, nossas
intuições não nos dizem que quantidades iguais de utilidade devem ter
sempre o mesmo peso. O utilitarismo fornece uma ideia
excessivamente simplificada de nosso compromisso com o
consequencialismo (KYMLICKA, 2006).

Uma noção de consequencialismo que não é bem definida não consegue


responder os questionamentos feitos anteriormente e recaem em problemas que outrora
foram vistos justamente como a outra face das vantagens utilitaristas. Há de se utilizar
de conceitos moralmente abstratos e arbitrários, como entidades metafísicas, para
responder aquilo que foi questionado, visto que, sozinha, a interpretação que os
utilitaristas fazem do consequencialismo não é capaz de apresentar as melhores soluções
para esses questionamentos.
Adiante, há ainda os dois argumentos a favor da maximização da utilidade.
Apesar de Rawls enxergar o utilitarismo como sendo uma doutrina fundamentalmente
teleológica, ou seja, que visa primeiramente a maximizar valor do bem e depois a
pessoa, Kymlicka, na maior parte de sua abordagem, o considera como sendo uma
doutrina que se baseia na igualdade de cada indivíduo. Na primeira interpretação,
entretanto, há uma obscuridade que recai no mesmo problema que a falta de clareza do
consequencialismo utilitarista promove. Isso se deve ao fato de que não se sabe o
porquê de considerar a máxima utilidade do bem como um dever moral. O dever seria
direcionado a quem? Visto que a moralidade se dá em meio a obrigações interpessoais,
e que o estado de coisas não tem direitos morais, esta é outra pergunta que permanece
sem resposta. Poderia ser argumentado que há um dever para com aqueles que se
beneficiariam da maximização da utilidade do bem, mas esse seria um dever de tratar as
pessoas com igual consideração, o que acaba por recair na interpretação de que o
utilitarismo deve, como fim, levar a igualdade das pessoas em primeiro plano. Ainda, se
a maximização do valor da felicidade fosse o próprio objetivo, não haveria um ideal
moral, mas um ideal estético. As pessoas não podem ser o meio para a maximização de
um bem, pois assim não há uma moralidade em questão. A vantagem do utilitarismo
como sendo uma doutrina secular também acaba por perder seu sentido, pois há de se
utilizar de um embasamento metafísico para responder questões obscuras. Portanto, para
se manter como uma teoria da moral, o utilitarismo deve rejeitar uma visão teleológica e
aceitar que é necessário ter a igualdade entre as pessoas como fim e principal objetivo.
Mas, ainda que se pretenda ser uma teoria igualitária, o utilitarismo viola várias
percepções acerca do que é tratar as pessoas verdadeiramente como iguais.
A fim de se refutar a melhor versão do utilitarismo, deve-se enxergar a doutrina
como sendo uma teoria igualitária. Contudo, mesmo que se pretenda tratar as pessoas
como iguais, a corrente utilitarista falha em seu projeto. Kymlicka argumentará que não
se deve colocar o mesmo peso para toda preferência e que algumas questões pessoais
devem ser distinguidas, dentre as quais nem todas possuem peso moral legítimo.
Recorrendo a Dworkin, distingue-se as preferências “pessoais” e “externas”, sendo que
as primeiras são aquelas que se referem a bens e recursos, por exemplo. Já as segundas
são os bens e recursos que as pessoas desejam que estejam disponíveis para os outros, e,
muitas vezes, as preferências externas são preconceituosas. Pode-se imaginar que
algumas pessoas desejem que homossexuais tenham menos bens disponíveis por os
considerar menos dignos, tratando-os como desiguais. Tal preferência teria o mesmo
peso em um cálculo utilitarista? Caso ela seja levada em conta, então não há como
afastar a possibilidade de se segregar aquilo que é devido legitimamente.
Caminhando na crítica direcionada ao utilitarismo como uma teoria igualitária,
há também as chamadas preferências egoístas. Tais preferências dizem respeito ao
desejo de se ter mais do que é justo na parcela de recursos. Kymlicka afirma que elas
são irracionais, mas que por vezes fazem que se gere utilidade líquida genuína. Portanto,
deve-se questionar novamente: tais preferências irracionais devem entrar no padrão de
correção utilitarista? Rawls argumenta que os interesses irracionais que podem violar a
justiça não devem ter peso nenhum, pois assim não haveria a distorção dos direitos
mútuos e legais. Por outro lado, os utilitaristas acreditam que não se deve restringir
nenhum fim pelo qual a satisfação deva ser alcançada com base em direito ou justiça. O
utilitarismo, então, enxerga a igual consideração como algo que deve funcionar em
função de preferências prévias, independentemente se elas violam ou não os direitos e
compromissos de outrem. Na contramão de tal pensamento, as instituições igualitárias
defendidas por Kymlicka entendem que “parte do que significa demonstrar igual
consideração pelos outros é levar em conta o que pertence legitimamente a eles na
decisão dos nossos próprios objetivos na vida” (KYMLICKA, 2006). Assim, exclui-se
preferências preconceituosas ou egoístas como uma forma de pré-condição para a
igualdade, mesmo que o contrário possa trazer uma maior maximização da utilidade.
Nem mesmo o princípio da igual consideração de interesses de Singer pode afastar o
questionamento, pois, ainda sim, concebe o mesmo peso às preferências externas ou
egoístas. O utilitarismo, enquanto corrente que se pretende igualitária, acaba por se
tornar desigual em seus próprios princípios, vez que admite, ao menos em plano
conceitual e nas bases da teoria, as preferências irracionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São


Paulo: Abril Cultural, 1984.

DWORKIN, Ronald. Levando os direitos à sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

KYMLICKA, Will. Filosofia Política Contemporânea. São Paulo: Martins Fontes,


2006.

RAWLS, J. Uma Teoria da Justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2006.