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ENFRENTANDO O DESÂNIMO NO MINISTÉRIO


PASTORAL
Pastorear a igreja de Cristo não é uma tarefa fácil, mas também não é
impossível! O apóstolo Paulo afirma que os pastores são dádivas de Deus e
expressão de sua graça sobre a comunidade do povo de Deus, “tendo em vista
o aperfeiçoamento dos santos” (cf. Ef 4.7-12). O problema, porém, parece ser:
será que os pastores olham para a igreja como bênção de Deus para eles?

Essa pergunta é pertinente devido ao crescente número de pastores


desencorajados no exercício do ministério pastoral. Recentemente a mídia
cristã veiculou uma estatística sem grandes detalhes, realizada no contexto
americano, que retratava cerca de 90% dos pastores estão próximos ao ponto
máximo de esgotamento, com bagagem mental e emocional excedente, com
problemas financeiros, sob a esmagadora pressão por terem a “família
perfeita”, sem amigos próximos, insatisfeitos no matrimônio e outras coisas
mais. O interessante é que os dados daquela pesquisa poderiam ser aplicados a
qualquer outra atividade, mas a ênfase recaiu sobre o trabalho árduo e nem
sempre reconhecido que o pastor realiza. Em nenhum de seus itens a
estatística mencionou as alegrias advindas do privilégio de cuidar do rebanho
que foi comprado pelo sangue de Cristo (cf. At 20.28). O problema é que a
divulgação de dados como esses sem a contrapartida das bênçãos ministeriais
agrava o sentimento de vitimização de muitos pastores, bem como não os
ajuda a enfrentar o desânimo corretamente, sem amargura e rancor. Dados
como esses obscurecem dos olhos de muitos ministros a perspectiva de que o
ministério pastoral é uma “santa mordomia”.

Tendo feito a análise acima, não se pode ignorar que, de fato, há inúmeros
motivos para muitos se sentirem desanimados no ministério pastoral. Vivemos
em um mundo caído e diariamente nos relacionamos com pessoas
fragmentadas. Além do mais, em nós mesmos temos a comprovação dos
efeitos da queda, pois nossa inconsistência nos flagela a todo momento. Dessa
forma, é de se esperar que o aspecto relacional do ministério resulte em uma
luta contínua contra o desalento. John Stott certa vez observou que “o
desencorajamento é risco ocupacional do ministro cristão”.[1] Logo, saber lidar
com esse fenômeno é crucial para cada pastor que deseja cumprir cabalmente
o seu ministério.

Dos muitos conselhos sábios que tenho recebido sobre esse assunto, o melhor
tem sido: pregue o evangelho para você mesmo! Pastores pregam o evangelho
toda semana. Eles se colocam no púlpito e proclamam as riquezas da graça em
Cristo, o perdão dos pecados, a consolação do Espírito e inúmeras outras
verdades. Todavia, nem sempre se apropriam dos benefícios resultantes desse
evangelho. Dessa forma, pregar o evangelho para si mesmo é uma excelente
maneira de enfrentar os desânimos comuns no ministério pastoral.
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Nesse sentido, um dos textos bíblicos ao qual devemos sempre recorrer é o


capítulo 8 da epístola aos Romanos. Aliás, Romanos 8 contrasta as bênçãos de
Deus com as tribulações experimentadas em um mundo caído. Ali, Paulo afirma
que “os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será
revelada em nós” (v18). Todavia, ao longo desse capítulo o apóstolo revela três
importantes verdades do evangelho a serem meditadas e apropriadas nos
momentos de abatimento e desencorajamento.

1. Deus, o Pai, ama você

Na parte final de Romanos 8, o apóstolo lembra os cristãos do imenso amor do


Pai, o qual foi demonstrado na entrega do Filho pela redenção de pecadores.
Paulo afirma que “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas, pelo
contrário, o entregou por todos nós ...” (v32). Em outras palavras, o Pai nos
deu quem ele tinha de melhor: seu Filho bendito! Por essa razão, o apóstolo
conclui que nem morte, nem vida, nem coisas do presente, nem do futuro, nem
poderes etc., poderão nos separar do amor de Deus! (cf. v38-39). Assim, o fato
de sermos amados pelo Pai é, certamente, imensa fonte de encorajamento para
aqueles que se sentem desalentados, injustiçados, incompreendidos e até
odiados por pessoas ao redor!

A afirmação de Paulo sobre o amor do Pai foi feita em um contexto em que ele
lembrava seus leitores de que “somos entregues à morte todos os dias; fomos
considerados como ovelhas para o matadouro” (v36). Dessa maneira,
considerar o amor de Deus por nós é importante para se perceber a luz nas
trevas e a providência daquele que nos dará, com Cristo, todas as coisas (v
32).

Por essa razão, querido pastor, pregue o evangelho do amor do Pai para você
mesmo! Medite no fato de que o amor de Deus não depende do seu
desempenho diário, mas da graça dele para contigo. Esse amor é a garantia de
que o Pai nunca o desamparará.

2. Deus, o Filho, representa você

O capítulo 8 de Romanos se inicia com a afirmação de que não há mais


condenação para os que estão “em Cristo” (v1). Aliás, a expressão recorrente
no Novo Testamento “em Cristo” é fundamental para se considerar as boas
novas do evangelho. O fato é que perdão, aceitação, retidão e vida eterna são
bênçãos para aqueles que se encontram “em Cristo”. A obediência perfeita de
Cristo é o fundamento das graças recebidas pelo povo de Deus. O crente só
pode permanecer de pé diante do Pai Celestial porque ele foi revestido com a
justiça do Filho Primogênito, e Deus se agrada dos seus filhos adotivos tanto
quanto ele se agrada do Filho Eterno.
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Paulo contrasta os sofrimentos do presente com a glória a ser revelada por


causa de Cristo. O fato é que sofrimentos e dificuldades não deveriam
surpreender o crente que vive no mundo de aflições. O problema é que ainda
que nós pastores tenhamos consciência dessas verdades, muitas vezes
acabamos caindo na “armadilha do ministério bem-sucedido” e passamos a
esperar um pastorado sem dificuldades e oposições.

Pastores e obreiros cristãos acabam navegando em águas contaminadas com


as propostas do sucesso fácil. Quando se lê a história do plantador de igrejas, a
ênfase parece ser que a comunidade dele cresceu na virada de cada página do
livro. Ao observar o bom pregador, parece que suas mensagens são mais fruto
de “inspiração” do que “transpiração”. A consideração do bom conselheiro
parece não levar em consideração os seus inúmeros casos de fracasso e
frustração. Essas análises desfavoráveis e irreais geram a ideia de que o
ministério frutífero equivale ao sucesso numérico ou a ausência de problemas e
pressões. No entanto, essa perspectiva não possui qualquer correspondência
com o ministério dos servos de Deus nas Escrituras. O fato é que parece que os
pastores contemporâneos estão se deixando levar por outros modelos que não
o bíblico.

O pastor deve se lembrar sempre que o fato dele ser representado por Cristo, e
não pelo seu sucesso ministerial, é a base segura de sua aceitação. Em outras
palavras, sua identidade em Cristo é mais importante do que sua aceitação
social.

3. Deus, o Espírito, habita em você

Em Romanos 8.15-16, o apóstolo Paulo conecta a obra do Espírito ao novo


status do crente: o Espírito testifica que ele é filho de Deus. Esse é o
testemunho do Espírito sobre a adoção do cristão. Isso é importante porque o
Pai não permite que os seus filhos fiquem na dúvida quanto a sua condição,
mas concede a eles o Espírito de adoção.

Dessa forma, é necessário observar que o ministério do Espírito Santo não


termina com a conversão, mas continua na confirmação de nossa adoção. Além
do mais, ele também não é interrompido nessa confirmação, mas se estende a
ponto de nos socorrer nos nossos momentos de fraqueza (cf. v26-27). Na
verdade, Ele intercede por nós até quando nos encontramos muito fracos para
orar. Por último, a intercessão do Espírito é eficiente, pois ela é sempre
segundo a vontade de Deus.

A habitação do Espírito é mais uma bênção do evangelho que pregamos, mas


nos momentos de aflição facilmente nos esquecemos dela. Todavia, é
importante considerar que o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os
mortos é o que habita em nós e é poderoso para nos vivificar (v11). Nessa
consideração também devemos lembrar que justificação, adoção, perdão,
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habitação, enchimento do Espírito etc., não são apenas conceitos teológicos


para serem aprendidos no seminário, mas benefícios do evangelho por meio
dos quais devemos viver e sermos sustentados em nosso labor diário. A
habitação do Espírito é uma realidade poderosa para todo o cristão, inclusive
aquele que foi vocacionado para o ministério pastoral.

Certamente é importante que se reconheça as dificuldades e complexidades do


ministério pastoral. Haverá momentos em que o pastor fiel sentirá a pressão
ministerial e a sua fragilidade pessoal a ponto de pensar em abdicar da igreja
local, de sua atividade e de sua vocação ministerial. Todavia, esses são
precisamente os momentos nos quais o ministro deve se lembrar, de maneira
especial, de pregar o evangelho para si mesmo. Deus não vocacionou ninguém
para o ministério com o propósito de que aquela pessoa se esquecesse do seu
evangelho ou pensasse que o evangelho deve ser apenas pregado para os
outros. Cada pregador das boas novas deve aplicá-las a si mesmo todos os
dias, várias vezes durante o dia, a ponto de permitir que essas verdades
governem suas emoções, pensamentos e ações.

Após considerar as três verdades básicas do evangelho a serem pregadas para


si mesmo, o pastor ainda pode tomar algumas medidas práticas para combater
o desânimo e frustração. Abaixo são colocadas algumas sugestões dessas ações
na esperança de que sejam proveitosas aos pastores que não querem sucumbir
ao desânimo.

a. Ore. Separe alguns momentos para derramar seu coração diante de Deus,
expondo a Ele suas angústias a dores;
b. Lembre-se de que você está engajado em uma batalha espiritual. Alguns
elementos do desânimo podem ter sua origem nas investidas do inimigo, e ele
certamente tenta se aproveitar de nossos desapontamentos;
c. Interceda por aqueles que têm agido de maneira negativa em relação a você.
Jesus nos ensinou a amar nossos inimigos (Mt 5.42-44), o que, por extensão,
deve nos motivar a interceder por aqueles que são acidamente críticos ao nosso
trabalho, a nossa pessoa ou a nossa família;
d. Compreenda que o processo de mudança é, na maioria das vezes, lento.
Certamente desejamos mudanças de uma noite para o dia, mas não é assim
que o Senhor geralmente age. Pois no processo de transformar outros, ele
também nos amadurece; e essas coisas podem levar tempo;
e. Procure encontrar meios de se alegrar e demonstrar o seu amor pela igreja
local. O rebanho precisa ser assegurado do amor do seu pastor. Procure se
lembrar dos pequenos gestos de afeto pelos quais você deve ser grato e
motivado a demonstrar seu amor pelos membros de sua igreja;
f. Cuide de sua saúde física. Algumas vezes justificamos nosso cansaço, mal-estar
e fadiga pelas pressões a que somos submetidos. Todavia, é importante
observarmos que esses mesmos problemas podem ser causados por obesidade,
falta de sono ou péssima alimentação, que fazem parte do estilo de vida de
alguns pastores.
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Valdeci Santos

Secretário Geral de Apoio Pastoral da IPB

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