Você está na página 1de 149

Procura-se um Duque

Desperately Seeking a Duke

Celeste Bradley

1º livro da série As Noivas Herdeiras

Inglaterra, 1815
Desejo de um coração.
A única maneira de Phoebe Millbury herdar a fortuna da família é
cumprir a exigência feita em testamento por seu avô, de se casar com um
duque. Mas isso é só uma parte do problema. Phoebe, que está tentando
recuperar seu bom nome depois de um escândalo romântico, ainda tem que
competir com duas primas, pela herança, e talvez pelo mesmo homem... até
que fica conhecendo o irresistível Rafe Marbrook, marquês de Brookhaven.
Ao receber uma proposta de casamento vinda dos Marbrook, Phoebe
aceita sem vacilar. Só há um porém: o pedido foi feito pelo irmão mais velho de
Rafe, Calder, herdeiro do ducado, por quem ela não se sente atraída. Agora
Phoebe se vê à beira de outro escândalo, enquanto enfrenta uma escolha
desesperada: casar-se com Calder pelo dinheiro e pelo título... ou seguir seu
coração? De um jeito ou de outro, o resultado poderá ser desastroso...

Digitalização e Revisão:
Crysty
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Querida leitora,
O avô de Phoebe determinou que ela se casasse com um duque, mas ela está
mais interessada em Rafe, meio-irmão ilegítimo do duque de Marbrook.
Percebendo o interesse do irmão por Phoebe, o duque arquiteta um plano para
se casar com ela. Achando que é com Rafe que ela vai se casar, Phoebe
concorda, apenas para descobrir que aceitou o pedido de casamento do irmão
errado. As peripécias que Phoebe e Rafe vivenciam para poder ficar juntos e
ser felizes são divertidas, apaixonantes e inesquecíveis!
Leonice Pomponio Editora

Copyright © 2008 by Celeste Bradley


Originalmente publicado em 2008 pela St. Martin's Press.
PUBLICADO SOB ACORDO COM ST. MARTIN'S PRESS NY,NY — USA
Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com
pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

TÍTULO ORIGINAL: DESPERATELY SEEKING A DUKE


EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTES EDITORIAIS
Patrícia Chaves
Paula Rotta
Vânia Canto Buchala
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Raquel Schwartz
Revisão: Giacomo Leone
ARTE Môrtica Maldonado
MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli
PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi
PAGINAÇÃO Gustavo Moura

© 2009 Editora Nova Cultural Ltda.


Rua Paes Leme, 524 — 10° andar — CEP 05424-010 — São Paulo - SP
www.novacultural.com.br
Impressão e acabamento: RR Donnelley

Projeto Revisoras 2
PRÓLOGO

Eu, sir Hamish Pickering, em pleno domínio de minhas faculdades mentais,


mas já com a saúde precária, expresso aqui neste testamento minha última vontade.
Ascendi ao mais alto status que um mísero plebeu pode sonhar, apesar de ter
duas vezes mais cérebro, sabedoria e determinação do que a indolente aristocracia.
Uma mulher, contudo, pode fazer um casamento à altura de sua beleza e até
mesmo conquistar um título de duquesa.
Nisso, minhas filhas me decepcionaram terrivelmente.
Morag e Finella, investi dinheiro para que fizessem um ótimo casamento, mas
vocês não corresponderam. Esperavam que o mundo lhes fosse entregue. Se
qualquer mulher da minha família desejar um tostão que seja de meu dinheiro, é
melhor que se esforce por merecê-lo.
Assim sendo, declaro que toda a minha fortuna seja resguardada de minhas
imprestáveis filhas, e mantida em custódia para minha neta ou bisneta que se casar
com um duque da Inglaterra, ou com alguém que venha a se tornar duque por
herança; ocasião em que a custódia será liberada para ela e somente para ela.
Caso ela tenha irmãs ou primas que porventura não se casem, cada uma
delas poderá ter uma renda vitalícia de quinze libras por ano. Se tiver irmãos ou
primos, cada um receberá cinco libras, pois essa era toda a quantia de meu bolso
quando cheguei a Londres. Qualquer escocês que se preze pode transformar cinco
libras em quinhentas, em poucos anos.
Uma determinada quantia será dada a cada donzela que fizer seu debute na
sociedade, para os vestidos de festa ou o que desejar.
Se por três gerações, as jovens Pickering não forem bem-sucedidas, eu lavo
minhas mãos. O valor total de quinze mil libras será usado para pagar multas e
dificuldades dos que desacataram a fiscalização de impostos para exportar o ex-
celente uísque escocês, que foi meu único consolo nesta família de imbecis.
Ah, se sua pobre e santa mãe pudesse vê-los agora!
Assinado:
Sir Hamish Pickering
Testemunhas: B.R. Stickley AM. Wolfe Advogados da firma Stickley & Wolfe
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

CAPÍTULO I

Inglaterra, 1815
Talvez não houvesse qualquer presságio nisso, mas a primeira coisa pela
qual Phoebe Millbury, que era filha de um vigário, se apaixonou, ao ver o homem de
seus sonhos, foi pelo traseiro dele.
Até aquele momento, Phoebe, em seu primeiro baile na sociedade, transitava,
despercebida como um fantasma, pelo luxuoso salão como em um sonho, embora
não muito bom. O que ela estava fazendo naquele mundo glamouroso da alta-roda?
Vá para Londres e arrume um duque, o vigário lhe dissera. Satisfaça o último desejo
de sua mãe.
Como se fosse fácil.
E não deixe que aquilo aconteça novamente. Bem, não fora bem isso que o
vigário lhe dissera, mas a mensagem havia sido bastante clara. Precisava manter o
decoro, ser recatada, sensata e modesta, como havia sido nos últimos anos, e
nunca cometer aquele infeliz deslize de novo.
Dispunha de muito pouco para atrair a atenção de um duque, porém. Seus
vestidos talvez fossem adequados para uma jovem do campo, quando fosse visitar
os doentes do vilarejo, ou até mesmo para um baile local — não que ela tivesse
ousado dançar sob a vigilante mira do vigário —, mas eram bem diferentes da rica
moda londrina usada pela maioria das damas no salão.
Ela tampouco tinha a beleza esguia de sua prima Deirdre, ou mesmo a da tia,
a viúva Tessa. Nunca havia se importado antes com sua aparência, mas tivera mais
sorte nesse sentido do que algumas outras jovens ali. Ao se sentar em uma cadeira
da fila extraoficialmente reservada para jovens que não dançariam, seu olhar se
voltou para um dos lados do salão onde estava sua outra prima, a pouco atraente
Sophie Blake.
Arrume um duque para você.
Seria a realização de um sonho. O que era irônico, pois o próprio vigário se
incumbira de fazer com que Phoebe não mais acalentasse sonhos como aquele.
E, aos quinze anos, não poderia haver ninguém mais romântica e sonhadora
do que ela.
Depois do professor de dança, porém, ela ficara curada para sempre. Como
não tivesse discernimento para diferenciar sonho de realidade — nem mesmo o
certo do errado —, o mais seguro era seguir rigorosamente as regras.
Phoebe suspirou. Sophie parecia não se importar de ficar sentada, mas ela
preferia dançar. Não precisaria ser com alguém atraente, ou que tivesse título,
bastava que tivesse se banhado recentemente e não pisasse em seus pés.
Foi quando ela avistou rígidas nádegas masculinas que deram um fim a sua

Projeto Revisoras 4
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

melancolia, qual alfinete em bolha de sabão.


O resto dele também não era nada mau. Observando os ombros largos e a
cabeça do homem que dançava de costas para ela, Phoebe umedeceu os lábios.
Ela jamais pecaria de novo.
Oh, por favor, sim.
Não. Nunca mais!
Era, sem dúvida, o mais lindo traseiro que ela já vira, vestido em calças
pretas, com a cauda da casaca caindo impecavelmente sobre a bem desenvolvida...
O cavalheiro rodopiou de um lado para o outro e seu olhar quase cruzou com
o dela.
Delicioso.
Ele voltou a cabeça.
A gravata branca enfatizava seu queixo quadrado, as maçãs do rosto eram
proeminentes e o cabelo encaracolado, um tanto longo e rebelde demais, caía-lhe
sobre a testa e o colarinho, conferindo-lhe um ar meio indomado apesar das roupas
finas.
Finalmente ele ficou de frente para ela. O traje caía-lhe ainda melhor. Além
disso, ele tinha um sorriso luminoso.
Deus meu! Phoebe sentiu uma onda de calor percorrer suas veias. Ela olhou
ao redor, pois não queria que as primas e a tia percebessem seu interesse. Fazia
apenas uma semana que estava em Londres e até então tudo havia corrido bem,
inclusive na exasperante apresentação à Corte.
Não, estava a salvo. Deirdre, a prima elegante e moderna, estava cercada por
seu usual rol de admiradores e parecia não ter atenção para mais nada. Sophie, a
prima lamentavelmente alta e desengonçada, continuava do outro lado do salão,
muito preocupada em se esconder atrás de um vaso de palmeira. A tia Tessa, que
não estava nem um pouco interessada em ciceroneá-las, nem mesmo à própria
enteada Deirdre, entretinha-se, em sua roda de mulheres igualmente elegantes e
entediadas, com as habituais intrigas e mexericos.
Então o homem diante de seus olhos riu. Foi uma gargalhada profunda que
ecoou por seu corpo, causando arrepios naquelas partes que é melhor nem
mencionar e acionando dentro dela um alarme. Ela sabia o significado daquela
sensação! Oh, céus! Nem tão a salvo assim estava.
Estava interessada em um homem — interessada naquele sentido — pela
primeira vez desde que caíra de amores pelo professor de dança havia quase dez
anos.
E aquele caso não terminara nada bem.

***
Até então, durante a noite, lorde Raphael Marbrook, título de cortesia e não
de direito por nascimento, conseguira circular pelo baile sem incidentes. De maneira
habilidosa, ele evitara maridos traídos, três encontros com lordes que jogavam
cartas dispostos a ganhar de volta o que haviam perdido no passado, e até mesmo

Projeto Revisoras 5
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

passara dançando por sua ex-amante — casada — sem que ela notasse sua
proximidade.
Mais uma hora e poderia escapar dali. Mesmo seu meio-irmão Calder não
teria nada a dizer sobre ele estar se evadindo daquela obrigação familiar. Somente a
ameaça de ser obrigado a comparecer à parada de virgens, ainda mais maçante,
nos salões da alta-roda de Almack o convencera de estar ali.
— Se eu tiver que perder tempo caçando uma esposa, você tem de ir comigo
— Calder vaticinara, com um tom de voz que prometia sérias conseqüências. Essa
seria a segunda esposa de Calder, uma vez que a primeira havia falecido após
alguns anos de casados.
Aquilo era particularmente injusto, pois não havia a menor possibilidade de
Rafe encontrar uma primeira esposa entre as respeitáveis e ilustres figuras da
sociedade. Ainda assim, sempre que possível, era melhor evitar a raiva e o humor
negro do marquês de Brookhaven.
Não que Rafe tivesse medo de seu meio-irmão — eles tinham a mesma idade
e estatura, e nenhum dos dois havia se saído claramente vitorioso de qualquer
desavença infantil —, mas ele tinha algo de interesse particular a propor a Calder, e
não valeria a pena provocá-lo desnecessariamente antes disso. Somente Calder
poderia aprovar os melhoramentos que queria fazer na propriedade de Brookhaven,
pois ele não tinha poderes sobre a herança do pai, uma vez que não era filho
legítimo.
Naturalmente, a ironia era que Calder não dava a mínima para a propriedade.
Sim, ele cumpria sua obrigação.
Ninguém passava fome e a produção continuava estável, mas Brookhaven
poderia ser muito mais próspera!
Calder não tinha o mesmo interesse que Rafe. Ele era fascinado pela
maquinaria e eficiência de suas fábricas, enquanto a antiga grandeza da
propriedade não fazia qualquer sentido em sua mente lógica. Até mesmo os
trabalhadores, que eram o coração pulsante de Brookhaven, ele considerava um
bando de camponeses retrógrados.
Ser o filho bastardo de um marquês tinha suas vantagens e desvantagens.
Ter crescido em Brookhaven havia lhe assegurado todos os privilégios e educação
que Calder, o herdeiro de fato, tivera. Por outro lado, crescera sabendo que
enquanto Calder herdaria o título e o poder, ele somente teria uma pensão e um
título de cortesia — lorde — antes do nome, além da reputação escandalosa que se
incumbira de conquistar e da qual agora se arrependia.
Por não ter a tediosa responsabilidade da legitimidade, gastara fortunas com
mulheres, carteado e bebida.
Mas não adiantava lamentar sua irresponsabilidade juvenil, nem tentar
justificar-se com Calder. Somente o tempo e o próprio esforço poderiam provar ao
irmão que estava pronto para arcar com mais responsabilidades.
E a responsabilidade que desejava era Brookhaven.
Naquele momento, ao parar para falar comum conhecido, Rafe sentiu a
necessidade de olhar para trás. Tinha uma estranha sensação de estar sendo
observado.

Projeto Revisoras 6
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Aparentemente a sorte não estava conspirando a favor de Phoebe naquela


noite, pois bastou decidir que desejava passar o resto da vida com aquele
musculoso traseiro masculino e tudo deu perfeitamente errado.
Ele ergueu o rosto, percorrendo o salão com o olhar; então eis que aqueles
olhos castanhos detiveram-se intensos nela.
Phoebe sentiu um choque no coração — e um pouco mais abaixo também —
uma atração arrebatadora superou o mero interesse na anatomia dele. Foi tal o
impacto que o ar lhe faltou.
O mais embaraçoso foi ter sido pega olhando para ele.
Sem pensar, ela se levantou e, tentando escapar daquele olhar, ela se
precipitou contra um criado que carregava uma bandeja cheia de taças de
champanhe. A colisão fez com que o pobre homem caísse e tudo o que transportava
voasse sobre os casais que dançavam. Seguiu-se um tumulto generalizado.
Mulheres gritavam, lordes blasfemavam. E, enquanto os músicos achavam graça,
procurando esconder o riso, os demais, muito zangados, tentavam achar o culpado.
Um verdadeiro pesadelo, Phoebe preparou-se para o pior.
Rafe mal acreditava na cena diante de seus olhos. O pobre criado caído,
taças e champanhe espalhados por todo lado e a garota atônita.
Impulsivamente, ele infiltrou-se no meio daquela confusão, pegou a jovem
pela mão e se pôs a dançar com ela, no ritmo da música, como se os dois
estivessem simplesmente passando por ali.
— O que está fazendo? — ela perguntou, recuperando-se da surpresa.
— Ora, você preferiria ficar parada para ver o que iria acontecer?
Ela olhou por sobre o ombro dele, empalidecendo ao ver o caos instalado, e
desviou os olhos.
— Bem é que... não fomos devidamente apresentados!
— Se você não contar a ninguém, também não conto — ele propôs ao
chegarem a um dos cantos do salão.
Phoebe dirigiu a Rafe um olhar desamparado.
— Minha tia Tessa!
Rafe avistou, um pouco mais adiante, uma elegante senhora, observando o
salão com uma expressão arrogante. Essa não! Não a abominável lady Tessa.
— Você se importa de sair do salão?
Phoebe quase derreteu de gratidão. Ele era um deus, um herói.
— Mesmo que me importasse — ela retrucou, visivelmente aliviada.
Ele a conduziu dançando até a porta do salão, surrupiando, com uma das
mãos, duas taças de champanhe de uma bandeja que passava.
Ponto para um perfeito cavalheiro, Phoebe pensou.
Três degraus abaixo levavam ao terraço. Ele envolveu com maior firmeza a
cintura de Phoebe e a ergueu rodopiando pelos três degraus, sem derramar uma
gota da bebida.

Projeto Revisoras 7
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe riu alto, surpresa com o movimento, e ele sorriu ao colocá-la no chão.
— Assim está bem melhor. Afinal o que toda aquela confusão tem a ver com a
gente? Estávamos apenas dançando...
Ela procurou se afastar ligeiramente, ainda sentindo a solidez do peito dele
contra o seu.
— Tenho a impressão de que você sempre se safa bem dos problemas,
senhor...
Ele fez uma mesura com a cabeça, ainda equilibrando as taças em uma das
mãos.
— Marbrook, a seu dispor, milady.
Phoebe riu novamente.
— Muito obrigada, sir, mas não sou uma lady. Meu nome é Phoebe Millbury,
de Thornton.
Ele endireitou o corpo.
— Posso lhe oferecer champanhe, Phoebe Millbury de Thornton?
Ela ficou em dúvida.
— Donzelas bem-comportadas não bebem champanhe... Mas, pensando
melhor, acho que mereço depois do susto. — Ela tomou um golinho. — Que delícia!
— E sorveu um gole maior.
— Ei, vá devagar! — Ele tirou a taça da mão dela. — Você nunca bebeu
antes, não sabe o efeito que a bebida pode ter.
O champanhe desceu deliciosamente e logo o incidente no salão não mais
pareceu a Phoebe terrível, mas sim divertido. Ela riu.
— Você viu a cara deles?
Ele balançou a cabeça.
— Dois goles e a bebida subiu. — Ele jogou o resto da bebida em um
canteiro.
— Obrigada por sua rápida intervenção, sr. Marbrook. Foi um prazer conhecê-
lo, mas não devo ficar aqui fora sozinha com você.
— Você não pretende voltar ao salão, não é? Lady Tessa estava com uma
expressão assustadora.
Ela hesitou.
— Você conhece minha tia? Ele riu.
— Todos a conhecem. Só me pergunto de que maneira lady Rochester foi
chantageada para convidá-la para este baile.
Phoebe levantou a sobrancelha,
— Devo defender minha tia. Ela teve bastante trabalho para me lançar na
sociedade.
— Lançar? — Ele riu. — Fique mais um momento.

Projeto Revisoras 8
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe obedeceu, mas Rafe pôde perceber um certo nervosismo nela


enquanto a fitava. Ela não era tão fria quanto desejava transparecer. E era bonita...
mas não excepcionalmente bela. Seus cabelos brilhavam sob a luz do luar, em
nuances indefinidas de louro e castanho. No salão, o azul daqueles enormes olhos
havia despertado sua atenção; agora, sob o luar, eles cintilavam como verdadeiros
brilhantes.
Ele colocou um dedo sob o queixo dela, levantando-lhe o rosto para examinar
a delicadeza de cada traço. Os lábios eram doces e formavam uma pequena curva
nos cantos. Não eram cheios e sensuais como ele normalmente gostava, Ela
lembrava uma boneca de porcelana — só que bonecas de porcelana não tinham
seios estonteantes como os dela.
— Bem, passei na inspeção, sir?
Não beije a linda menina. Ela tem amigos na alta esfera e o pai tem uma
arma.
Impossível resistir. Ele iria arriscar. Inclinou a cabeça, aproximando os lábios
da orelha de Phoebe.
— Sabe, dizem que sou bom...
— Oh! — Ela afastou a cabeça, dando-lhe um soco no peito. — Você pensa
que é irresistível!
Ele deu um passo para trás, esfregando a mão na altura do estômago. Ela
tinha mais fibra moral do que imaginara,
— Acho que mereci o comentário.
— De fato, não estrague a visão bastante heróica que tenho de você.
Heróica? Por que razão ele sentia aquele calor no peito. Que valor poderia ter
a opinião de uma debutantezinha qualquer? Mas e aquela luz guerreira nos olhos
dela?
— Desculpe, srta. Millbury. — Fez uma mesura. — Fui mesmo muito atrevido.
Ao perceber que ela baixara a guarda, ele esboçou um sorriso cativante. — Onde
fica essa tal de Thornton que produz donzelas tão guerreiras? Deve ser um lugar de
gente valente.
Ela sorriu, não conseguindo resistir ao charme dele.
— Pelo contrário. Dizem que esse nome foi dado muito tempo atrás quando
um rei, acompanhado por todos os seus cavaleiros, adentrou o vale em um dia de
inverno e o achou tão insignificante que, num gesto de zombaria, naquele mesmo
instante o deu ao cavaleiro menos importante de seu séquito.
— Nossa! Ela sorriu.
— Ah, mas essa não é a história toda. Quando o tal cavaleiro voltou ao vale
na primavera, ele ficou deslumbrado com a beleza e o perfume do lugar, cercado por
milhares de roseiras selvagens, de algum modo cultivadas pelo vento e por
tempestades. Receando que o caprichoso rei lhe tomasse o vale de volta, ele
batizou sua propriedade de Thornhold e o vilarejo que fundou ali de Thornton, ou a
Cidade dos Espinhos. O rei nunca mais voltou ao lugar, por isso nunca ficou
sabendo que havia dado ao menos qualificado de seus cavaleiros um dos lugares
mais lindos da Inglaterra.

Projeto Revisoras 9
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

A expressão dela se transformou ao falar; os olhos se tornaram meigos e o


tom de voz suave. Rafe estava extremamente cativado.
— Linda história — disse ele em voz baixa para não quebrar a magia daquele
momento.
O olhar dela continuou perdido na distância.
— É, sim. Eu costumava imaginar que era a castelã de Thornhold e, sempre
que olhava pela janela para um mar de rosas, jurava para meu amado marido que
manteria o segredo para sempre.
Ele soltou uma gargalhada.
— E se você não voltar mais a Thornhold, será que o mar de rosas de
Thornton vai secar?
Ela riu, e Rafe movido por impulso, pegou-a pela cintura e a colocou sobre
um banco.
Meio cambaleante, ela protestou.
— Sr. Marbrook!
Assim que ela se reequilibrou, ele a soltou e se curvou em uma reverência.
— Oh, Lady das Rosas, sou apenas um humilde cavaleiro, desprezado pelo
rei. Mas tenho um vale de rara beleza que só eu conheço. Abro mão desse vale, que
fica obscurecido diante de sua beleza, se a senhora me honrar com seu amor!
Ela o fitou com olhos arregalados e então um sorriso brincou em seus lábios.
— Quem é o senhor, modesto cavaleiro, que oferece um pedaço de terra
espinhenta por uma esposa?
— Não é uma terra espinhenta, linda lady, mas o próprio jardim do Éden.
Ela ergueu o queixo em desdém.
— E nesse vale de rosas, sua intenção é que eu seja uma lady ou uma
escrava? Poderia pensar pela minha própria cabeça, ou seria castigada por ser eu
mesma? — O olhar dela se tornou distante. — Teria de me manter escondida sob a
máscara feita pelos outros?
As palavras dela ressoaram dentro dele. Escondida sob a máscara feita pelos
outros. Sim, ele sabia muito bem o que aquilo significava.
— Não — ele sussurrou. — Lá, minha lady reinará de fato. — Fingiu tirar
alguma coisa do bolso e continuou:
— Ofereço-lhe apenas uma rosa de meu vale, pois uma centena de qualquer
outra não conseguiria igualar seu eterno esplendor.
Uma expressão sonhadora tomou conta do rosto de Phoebe e ela repetiu
baixinho:
— Eterno esplendor... — Estendeu a mão para "pegar" a flor. Quando seus
dedos se tocaram, Rafe teve a impressão de que alguma coisa de fato brotava entre
eles.
Bobagem. Em um gesto brusco, ele retirou a mão, fazendo com que Phoebe
perdesse o equilíbrio. A sola do sapato dela escorregou no banco molhado de

Projeto Revisoras 10
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

sereno, e ela caiu nos braços dele.


Rafe a segurou com facilidade, fazendo-a perder o fôlego com a presteza de
seus braços musculosos. Por um minuto ela teve a sensação de que acabaria
embaraçosamente estatelada no piso do terraço; no minuto seguinte duas enormes
mãos a agarraram pela cintura e a apertaram contra o peito, mantendo-a somente
com a ponta de um pé no banco. Rafe sorriu diante do espanto dela, Ele a segurara
com a facilidade de quem levanta um travesseiro — embora ela nada tivesse da
leveza de plumas!
Phoebe deu-se conta, então, de que seu corpo estava tomado de calor, de
que seus nervos tiniam... de que se apossava dela um maravilhoso sentimento —
sonhador, perigoso — que havia pensado ter banido de sua mente para sempre.
Quero pecar de novo... de novo... e de novo...
Ela o empurrou um pouco, afastando seus seios do peito dele. Não quero me
deixar levar por instintos animais. Serei...
Os ombros dele eram musculosos e firmes sob suas mãos. Que belo
exemplar de masculinidade ele seria sem a camisa. Pare com isso! Obviamente,
precisaria ser firme.
Ele fez com que ela deslizasse vagarosamente ao longo de seu corpo até
colocá-la no chão. Phoebe percebeu o movimento intencional, inconveniente. Mas
pior era ela, não só por ter permitido, mas por ter gostado.
Marbrook. Ela suspirou, sentindo-se a heroína de um daqueles romances
baratos que não lhe era permitido ler.
Rafe sentiu a boca seca ao dirigir um olhar longo e furtivo para o decote de
Phoebe. Seus olhos então voltaram a contemplar o rosto dela. Ela realmente parecia
uma garota do campo que não recusaria um pedaço de pudim e uma boa
gargalhada.
Por outro lado, estava finamente vestida e, mais que isso, estava em um baile
de Rochester, o que significava que não era nem simplória, nem desprovida de
contatos.
Estava mais do que na hora de devolvê-la a sua acompanhante, mas ele não
conseguia sair do lugar, segurando-a pela cintura e fitando-a, imóvel, talvez um
pouco perto de mais dela.
Phoebe também não tirava os olhos dele, envolvendo-o com um olhar de
águas claras que lavariam qualquer pecado.
— Você é boêmio, não é? — A voz dela soou rouca no silêncio da noite e
ficou ecoando nos ouvidos de Rafe.
Ele esboçou um sorriso, apesar de um súbito aperto no coração. Boêmio. Na
verdade, pior do que isso. Sou um bastardo.
Repentinamente, ele sentiu uma enorme necessidade de corresponder à
imagem heróica que ela fizera dele — um homem honrado, com as melhores
intenções.
Mas ainda não. Não queria que aquele momento com lady Millbury de
Thornton se acabasse. Ele a puxou para mais junto de si, até que seus corpos
ficassem colados.

Projeto Revisoras 11
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

E Phoebe consentiu. Afinal de contas, não estavam muito mais juntos do que
duas pessoas ficariam se estivessem dançando. Não achou ofensivo.
Quando você vai achar ofensivo? Quando ele a possuir no jardim?
Ela afastou esse pensamento, pois estava contaminado pela fala do vigário.
— Acho que provavelmente é o champanhe falando — ela murmurou, —
Começo a entender por que as moças não devem beber. Elas baixam a guarda.
Rafe ergueu a sobrancelha, sem deixar de sorrir.
— Queria participar dessa conversa, mas não tenho idéia do que você e o
champanhe estejam falando.
— Sobre o jardim — Phoebe respondeu, fixando o olhar nele novamente.
Céus, como ela adoraria ter aquele homem esparramado entre as flores para poder
explorá-lo melhor.
Sem tirar os olhos dos dela, ele perguntou:
— E é um jardim bonito ou maltratado?
O olhar dela se deteve nos lábios de Rafe agora próximos aos seus.
— Lindíssimo. Gostaria que fosse meu.
Rafe desceu os olhos até os lábios de Phoebe.
— E você gostaria que fosse seu... para sempre? Ah, sim, por favor.
— Acho que estou enfeitiçada.
— Eu também.
Ela não conseguia desviar os olhos dos de Rafe. Era inacreditável, mas ele a
olhava como se gostasse do que via. A expressão dele era de verdadeira
fascinação. Parecia tão surpreso quanto ela.
Rafe não conseguia tirar os olhos dela, o que não fazia sentido. Ela nada
tinha de especial naquele vestido fino, mas sem graça, com os cabelos presos em
um coque malfeito... Deveriam ser longos, chegando até os quadris, e cobririam os
seios dela quando ele os soltasse e os puxasse para a frente.
Uma premência fez com que ele prendesse a respiração. Não era luxúria —
bem, não apenas luxúria. Ela era a mulher da vida dele.
Bobagem. Isso não existe. Não lhe faltavam mulheres que quisessem se
tornar sua amante, mulheres glamourosas e refinadas.
Ela não tinha nada daquilo, com seus olhos vulneráveis e seu queixinho
resoluto.
Antes que conseguisse dominar o impulso, ele inclinou a cabeça e a beijou.
Não foi um beijo de verdade — foi apenas um leve toque, um doce e casto
roçar de lábios. Não foi realmente um beijo — exceto que transformou o mundo de
Phoebe para sempre.
Rafe levou a mão à cabeça dela e seus lábios não se desprenderam. Eles
permaneceram colados um ao outro, sentindo seus corações pulsar acelerados.
Ele soltou um gemido alto e congelou, surpreso. Afastou-se então dela, com a

Projeto Revisoras 12
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

respiração ofegante.
— Deus!
Phoebe também estava um pouco ofegante. Ela cruzou os braços, sentindo
frio ao afastar-se dele.
— O vigário diria que Deus nada tem a ver com isso... embora eu discorde
um pouco.
Rafe a fitou com estranheza.
— O vigário?
— Sim, meu pai, sr. Millbury, é o vigário de Thornhold, em Devonshire.
— Ah! — Ele passou os braços em volta dela e a puxou para mais perto para
protegê-la do frio, repousando o queixo no topo da cabeça de Phoebe com um
suspiro profundo. — Então seu pai é um vigário. Que... apropriado...
Foi bastante fácil para Phoebe voltar despercebida ao mesmo lugar onde
havia visto Marbrook pela primeira vez, afinal ela era uma das inúmeras jovens que
trajavam vestido de musseline branco e tinham uma expressão ansiosa no rosto.
Esperava não deixar transparecer toda a agitação e euforia que a consumia naquele
momento.
Céus, o que havia acabado de fazer?
Sentiu-se corar e lembrou do silêncio que se estabelecera ao mencionar o
vigário e da maneira respeitosa com que Marbrook a havia conduzido de volta ao
salão, bem diferente do comportamento provocante de até então.
— Ah, você está aí!
Phoebe respirou fundo e, ao se voltar para sua acompanhante, tinha uma
expressão inocente no rosto.
— Sim, tia.
Lady Tessa havia sido uma beldade de sua época — o que não fazia tanto
tempo assim, uma vez que estava com trinta e um anos — mas sua beleza
exuberante, de cabelos escuros e olhos verdes, não era suficiente para compensar a
personalidade famosa pela maldade.
Refinada, perfeita e má. Ela fazia questão de nunca franzir a testa ou
comprimir os lábios para, como dizia, não danificar a pele, mas isso lhe conferia uma
certa dureza. Linda e fria como o alabastro.
Ela acabara não fazendo um ótimo casamento e queimara a pequena fortuna
do marido em tempo recorde. O marido, muito mais velho do que ela, fora casado
com a irmã da mãe de Phoebe, e morrera pouco depois, deixando-a com algumas
bonitas peças de decoração, cofres vazios e sua única filha, Deirdre, para ela criar.
Por vias meio tortas, Tessa se tornou uma espécie de tia para Phoebe e,
como tal, era a acompanhante adequada para apresentá-la à sociedade. Pelo
menos, fora isso que o vigário dissera à filha.
— Menina estúpida!
Sim, era freqüente esse tratamento ofensivo. Phoebe, porém, tratou de piscar
com ar recatado.

Projeto Revisoras 13
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Mas tia, o que eu fiz?


— Eu a vi dançando! Quem era ele?
Phoebe fez um rápido levantamento mental dos homens aos quais tinha sido
devidamente apresentada.
— Sir Alton?
— Não, eu não vi o rosto, mas o cabelo era escuro e ele não tinha aquela
postura de velho do idiota do Alton.
— A senhora me apresentou ao sr. Edgeward. — Phoebe não havia dançado
com ele, que era alto, cabelos castanhos e bastante jovem. Mas não era isso que a
tia indagava, era? O importante era não mentir. Mentir era pecado, e ela já mentira o
suficiente por uma noite... Tessa ficou desarmada.
— Ah, Edgeward. Bem, não perca seu tempo com esse fazendeiro medíocre.
Vocês estão aqui para atrair duques, não pés-rapados.
— Tia, o sr. Edgeward tem mais terras do que muitos lordes e é muito
inteligente. Só é um pouco calado.
Tessa emitiu um som de impaciência.
— Onde está sua prima Sophie? Se aquela menina estiver escondida na
biblioteca de novo...
— Estou aqui, tia.
Tanto Phoebe quanto Tessa voltaram-se surpresas ao ouvir a voz de Sophie
logo atrás delas.
Sophie Blake havia chegado no dia anterior para se juntar às demais
debutantes. Viajara sozinha de Acton com um pequeno baú de roupas e um grande
baú de livros.
Sua altura não seria tão notada se ela tivesse uma postura atraente, ou um
rosto bonito, mas ela havia herdado todos os piores traços dos Pickering. Os olhos
eram de um azul opaco e os cabelos de um loiro desbotado. Por ser muito magra,
tinha o rosto esquálido, ressaltando os ossos das maçãs do rosto e o nariz
proeminente.
Tudo isso combinado a uma total falta de gosto, davam-lhe um ar desajeitado.
Por outro lado, sua mente arguta fazia com que os homens que se aventurassem a
se aproximar dela se sentissem um tanto idiotas. Dessa maneira, ela estava sempre
fadada ao chá de cadeira.
— Estava me procurando?
Sophie era bastante retraída, mas tinha uma maneira de olhar para as
pessoas, que considerava intelectualmente pouco dotadas — as quais, se
comparadas a ela, eram quase todas — que sempre incomodava Tessa. Como
agora.
Phoebe desviou os olhos enquanto a tia deixava clara sua opinião sobre os
modos e a aparência de Sophie. Ela procurou não ouvir os insultos que Tessa
sussurrava, mas ficou firme ali para que a prima não ficasse completamente só.
Afinal de contas, graças a Sophie, a tia havia deixado de lado a questão de

Projeto Revisoras 14
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

seu inexplicável desaparecimento do salão.


Nada, porém, dissuadia Tessa quando ela estava enfurecida.
— E quanto a você, Phoebe Millbury...
Oh, céus! ela era mesmo assustadora.
— Acho que seu pai não aprovaria nada essa sua mania de andar por aí!
Será que preciso escrever a ele contando como você some com estranhos?
Phoebe quase engasgou.
— Mas isso não é... — Cuidado. Não minta. — Eu fui apresentada ao sr.
Edgeward. Só fui até o terraço para tomar um pouco de ar. — Era verdade. Quase
tudo.
Tessa estreitou os olhos e se inclinou para se aproximar mais dela.
— Phoebe, seu pai me pediu para tomar conta de você. Não quer que haja
qualquer incidente, não é?
Phoebe gelou. "Incidente". Era assim que o pai sempre se referia ao caso, se
o assunto viesse à baila, mas ele não contaria nada a Tessa, não permitiria que seu
humilhante segredo fosse objeto de mexericos na sociedade. Phoebe fechou os
olhos, temendo essa possibilidade. Deus, e se toda essa gente souber? Ela abriu os
olhos e observou ao redor em pânico.
Será que estavam falando dela? Ela quase podia ouvir. — Aquela é a menina
Millbury... aquela que fugiu com o professor de dança quando tinha quinze anos...
Imaginem, ele fez mal a ela e a abandonou seminua em um quarto da hospedaria. O
pai só foi encontrá-la na manhã seguinte. Logo todas voltariam os olhos para ela...
Não, ninguém ficara sabendo o que acontecera. Seu pai abafara o caso e
nunca mais se soube de Terrence LaPomme, músico e sedutor de jovens ingênuas.
Desde então ela se tornara um modelo de filha, não dando mais ao pai a mínima
razão para que se preocupasse com seu comportamento — até aquela noite!
Mais do que depressa tentou sufocar a onda de medo que se apossou dela. É
claro que Tessa não sabia de nada, e melhor que nunca viesse a saber.
A expressão de Tessa subitamente deu lugar a um doce sorriso de boas-
vindas ao casal que se aproximava.
— Deirdre, minha linda! Dançar deu um lindo colorido ao seu rosto, não é Sua
Graça?
Voltando-se, Phoebe viu a prima Deirdre, elegantemente caminhando em
direção a elas pelo braço do único duque realmente existente no salão.
Enquanto Sophie herdara as características menos atraentes dos Pickering,
Deirdre ficara com todas as melhores. Ela era alta, elegante e esbelta, mas também
possuía todas as curvas que os homens apreciam nas mulheres. O cabelo era
avermelhado e os olhos de um azul cintilante. Phoebe que sempre gostara do tom
de seus olhos achava que, perto dos da prima, os seus não tinham tanta vida. Até
mesmo o nariz dos Pickering, que Phoebe não havia herdado, e era muito
proeminente em Sophie, em Deirdre, era aquilino e aristocrático.
Era natural que tendo sido criada pela ambiciosa Tessa, Deirdre soubesse
fazer valer sua boa estrela. Cada roupa que usava era mais bonita do que a anterior

Projeto Revisoras 15
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

e todas vestiam seu corpo perfeito de maneira impecável. Deirdre estava no mundo
para vencer.
Até então era dela a pontuação mais alta. Nenhuma delas havia dançado com
um duque solteiro antes.
Sucede, porém, que o duque ao lado de Deirdre tinha mais de setenta anos e
estava quase desmaiando depois da breve passagem pela pista de dança. Só que
ninguém diria isso ao ver o olhar de triunfo nos olhos de Deirdre.
— Vai ser difícil aguentá-la agora — Sophie murmurou. Phoebe tinha de
concordar. Uma semana junto de Deirdre dera para ver como ela era mimada,
egoísta e fútil. Depois dessa noite, ela sem dúvida ficaria insuportável.
Ela tinha vagas lembranças das duas brincando, em algumas ocasiões,
quando crianças. Depois que a mãe de Deirdre faleceu e o pai se casou novamente
com Tessa, cessaram as reuniões de família em Thornton.
Já a família de Sophie nunca os visitava, pois a mãe dela vivia acamada
desde que sofrera um acidente anos antes.
Embora as mães das três fossem irmãs, essas primas quase nada tinham em
comum... exceto o desejo de ser a herdeira dos Pickering.
Essa era a razão de estarem em Londres: compartilhavam uma casa para
dividir a despesa, e fazer seu quinhão de dinheiro render, e concorriam pela atenção
dos poucos duques disponíveis para casamento.
— Fico contente de estar no quarto com você — Phoebe disse a Sophie.
Sophie a olhou surpresa e agradeceu, esboçando um leve sorriso.
Por um minuto, a prima lhe pareceu bonita. Não, Sophie era a mesma de
sempre — lamentavelmente sem graça.
E ela, Phoebe, era lamentavelmente uma pecadora.
Nunca mais. Nada de homens. Nada de joelhos trêmulos. Nada de toques
secretos. Nada, até a noite do casamento, com um marido meio repugnante, que —
esperava — não iria perceber o "insignificante" detalhe de sua virgindade perdida.
O episódio daquela noite fora algo excepcional, uma trégua em um momento
de pânico. Ele a havia salvado de uma cena infeliz e ela retribuíra com educação. Só
isso.
Não seria maravilhoso se Marbrook fosse um duque disfarçado?
Seria, mas não era nada provável.
De volta ao salão de baile, Rafe avistou o irmão, Calder, encostado em uma
coluna, do outro lado do salão.
Era freqüente as pessoas perguntarem a ele se olhar para Calder não era
como se ver no espelho. Isso sempre o fazia lembrar do espantoso momento,
quando tinha oito anos, em que uma imponente figura masculina o tirara de perto do
leito de morte da mãe e o levara para a maior e mais bonita casa que já vira e o
conduzira a um quarto de criança ricamente mobiliado.
— Calder — o homem chamara; Um menino do mesmo tamanho que ele
surgira de trás de uma estante repleta de livros e cumprimentara o pai.

Projeto Revisoras 16
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Olhar para aquele menino... sim, fora o mesmo que se olhar no espelho. O
nariz, os olhos e até o cabelo escuro e cacheado eram exatamente iguais aos seus!
A mesma impressão o irmão deveria ter tido, pois seus olhos se tornaram
sombrios e se concentraram na grande mão do pai pousada amistosamente no
ombro de Rafe.
— Calder, este é seu novo irmão, Raphael. Ele é meu outro filho.
Outro filho.
Um lampejo de ressentimento passara pelo olhar do menino, acabando no
mesmo instante com a esperança de Rafe de ter o irmão com quem ele sempre
sonhara.
— Eu sou seu filho — Calder rebatera com firmeza, raiva e orgulho. — Ele
não passa de um bastardo.
Talvez não fosse certo um adulto guardar na lembrança as palavras de um
menino de oito anos, magoado e ferido, mas Rafe ainda podia ouvi-las; ainda sentia
no coração a dor do menino perdido em uma casa estranha.
Calder foi a primeira pessoa a chamá-lo de bastardo, mas não foi de forma
alguma a última. Ele conhecia muito bem aquele mundo e sua gente. Era quase
igual a eles e até bem recebido — desde que se lembrasse de seu verdadeiro
stattus.
Rafe nunca esqueceria a primeira visão que teve de Brookhaven. Ao subir
pela longa alameda, com a cabeça e os braços pendurados para fora da janela da
carruagem, tivera a impressão de ver os portões do paraíso, com o reflexo dourado
do pôr-do-sol sobre as pedras brancas do casarão.
O marquês sorrira diante de seu súbito entusiasmo e horas depois o levara
até a galeria. De mãos dadas com um estranho agora chamado "pai", ele desfilou na
frente dos retratos de gerações de Marbrook, reconhecendo nos olhos daqueles
homens seus próprios olhos.
Era como se tivesse estado perdido, mesmo tendo tido a felicidade de uma
mãe amorosa. Ela era uma lembrança, um sentimento de calor e alegria que nunca
mais sentiria. Só o que havia para substituí-la era Brookhaven. A própria terra sob
seus pés — e em suas mãos, pois ele nunca se cansava de brincar com ela —
vibrava em harmonia com as batidas de seu coração. O solo, as árvores, os
campos, as muralhas de pedra retorcendo-se pelas colinas como uma antiga e
ilegível escrita... eram como sua pele, seus ossos, sua carne, as dobras das palmas
de suas mãos.
O pai viu aquele amor crescer primeiro com satisfação, depois com orgulho e
finalmente — tarde demais — com preocupação.
As crianças nada entendem das leis que regem uma herança, não pensam
em termos de legitimidade ou ilegitimidade. Quando ficou sabendo que um dia
Brookhaven seria do irmão, ele imaginou que haveria uma partilha, da mesma
maneira que partilhara o quarto, os brinquedos e os livros.
Calder deveria estar a par, mas nunca tecera qualquer comentário a respeito
disso com Rafe. Bondade ou vingança sutil? Não havia como saber. O
relacionamento dos dois evoluíra rapidamente uma vez que não tinha mais ninguém
ali com quem brincar. Aos poucos as brigas se tornaram menos freqüentes, embora

Projeto Revisoras 17
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

nunca tivessem terminado completamente. O entendimento, às vezes não muito


fácil, fortalecera os dois.
Até a chegada daquele dia...
— Perdão, meu filho, mas é assim que as coisas são. Calder é meu herdeiro.
— Mãos enormes e solidárias em seus ombros.
Ele se desvencilhou delas.
— Então faça com que ele divida tudo. Construa um muro no centro de
Brookhaven. Quero o lado com a casa.
Um sorriso triste e orgulhoso ao mesmo tempo. E a triste realidade.
— Mesmo se eu não tivesse Calder, você não receberia nada, Rafe. Meu
título e as terras, tudo deve ser legado a um herdeiro legítimo. Se não tivesse
Calder, tudo iria para um outro braço da família. Tenho um primo distante em
Devonshire. Ele é fazendeiro, proprietário de terras. Imagine a cara que faria quando
lhe fossem bater à porta!
Nem por delicadeza Rafe conseguiu rir da brincadeira. Ele confiava naquele
homem, em seu irmão, em Brookhaven. Esforçava-se para alcançar Calder nos
estudos, tentara ser um bom filho, merecedor daquela nova vida. Sentira-se em
casa... uma casa que nunca seria verdadeiramente dele.
Naquele momento, o verdadeiro herdeiro, o marquês de Brookhaven, parecia
avaliar com interesse a nova safra de donzelas.
Rafe caçoou consigo mesmo. Conhecendo Calder, o irmão planejava
friamente selecionar alguém daquele grupo de virgens, verificar sua estirpe e tê-la a
seus pés até o final do primeiro mês da temporada.
Então a levaria para a cama, algo que Rafe não gostava nem de imaginar.
Calder devia ser tão enfadonho e previsível como o tique-taque de um relógio —
pelo menos fora assim que a primeira esposa dele certa vez desabafara, em um
momento de extrema raiva e decepção.
Na verdade, Rafe desconfiava que excesso de trabalho e nenhum senso de
humor faziam com que Calder deixasse muito a desejar como amante.
Sorrindo, atravessou o salão para se juntar ao irmão. Ele normalmente o
evitava, especialmente em situações sociais, mas naquela noite nem mesmo o ar
taciturno de Calder conseguiria empanar seu bom humor.
Ele havia encontrado a mulher de sua vida.
A busca estava concluída. Sua vida mudaria para sempre.
O futuro havia adquirido um brilho que jamais pensara ser possível.
Phoebe Millbury era a pessoa certa, estava disponível e, o mais importante,
era adorável.
Rafe então sorriu para Calder ao se aproximar dele e até lhe deu um tapinha
no ombro.
— Vejo que você, como sempre, está se divertindo muito. Calder dirigiu a ele
um olhar azedo.
— Não vê como o pilar dança bem?

Projeto Revisoras 18
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Rafe recostou um ombro no pilar e olhou para o salão com um novo apreço.
— Ah, veja quantas jovens bonitas estão hoje aqui. Não é possível que você
não encontre alguém que satisfaça suas exigências.
— Diferentemente de alguns, não estou à procura de um rosto ou de um
corpo. Estou à procura de uma esposa que tenha algo a mais a oferecer.
— Sangue azul, por exemplo, para refinar a linhagem dos Marbrook? — Rafe
disse, rindo.
Calder deu de ombros, evidentemente entediado,
— Não há aqui ninguém que mereça uma segunda olhada. Rafe fitou o irmão,
em dúvida se deveria mencionar a questão de seu possível noivado.
— Descobri uma garota encantadora hoje. Creio que você conhece a família.
O pai, sr. Colin Millbury, é vigário, o bisavô era sir Hamish Pickering. Você deve ter
ouvido histórias sobre ele. O extravagante escocês que comprou um título de
nobreza para si mesmo.
— Ah, sim. — Calder fez um ar de aprovação. — A tia dela — Rafe continuou
— é lady Tessa, viúva de Cantor. Você o conheceu bem, não é?
— Conheci. — Calder se mostrou mais interessado. — Pikering, hein?... Se
não me engano, tinha uma considerável fortuna. O que será que aconteceu com
ela?
— Deve ter sido mal usada como a maioria.
— Hum... acho que disso você entende.
Rafe exalou um vagaroso suspiro.
— Você está melhorando. Desta vez só levou quatro minutos para me jogar
isso na cara.
Calder respondeu por entre os dentes.
— Tenho me esforçado para agradar.
Rafe cruzou os braços e olhou para o chão de mármore.
— Vou insistir mais uma vez, eu não esbanjei o meu dinheiro. Eu o investi e
leva tempo para que os investimentos rendam. Demora para que os navios aportem.
Você, melhor do que ninguém, deveria saber disso.
Calder olhou para o outro lado, desinteressado.
— Não vim aqui para discutir, vim para encontrar uma esposa.
O olhar de Rafe cruzou o salão até onde Phoebe estava com a família. Ela
não sorria, mas mesmo séria era encantadora. Ele sentiu que havia uma conexão
entre os dois, No dia anterior tal pensamento o faria fugir dali. Hoje, porém, parecia
lhe trazer paz.
Notando o ar distraído do irmão, Calder dirigiu o olhar para o outro lado do
salão e perguntou: — Quem é ela?
Rafe conteve um sorriso e indicou Phoebe para o irmão.
— Aquela de cabelos castanhos, ao lado da loira. Calder olhou pensativo e
disse:

Projeto Revisoras 19
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Aquela... com ar maternal?


Rafe procure se conter. Calder sabia ser bem ferino. Mas ele pouco se
importava com a opinião do irmão.
— Isso, ela mesma.
— A loira é mais bonita, mas ela parece ser uma boa escolha. Alegre. Bem
relacionada também. O velho Pickering era comerciante, mas duas gerações depois
ninguém se importa mais com isso desde que a reputação da família seja boa.
Partindo de Calder, tal comentário era um elogio. Rafe relaxou. Seu noivado
com Phoebe não seria objeto de uma guerra familiar, desde que fizesse tudo com
calma e da maneira certa.
E se Calder conseguia ver méritos nela, os outros também veriam. Talvez
devesse se comprometer mais cedo.
Mais cedo soou bem. Quanto antes tivesse Phoebe para ele, em sua casa,
em seus braços, em sua cama...
Sim, definitivamente, quanto antes, melhor.
Quando o baile finalmente terminou — sim, porque Tessa quis aproveitar a
noite até o último minuto, permanecendo no salão até que sobraram apenas os
convidados que iriam pernoitar ali — as quatro mulheres voltaram para casa,
ansiosas para tirar os sapatos dos pés e os vestidos dos corpos suados. A casa
alugada por tia Tessa era pequena, mas finamente decorada — pelo menos nas
salas onde as visitas ficavam. Os dormitórios eram apertados e escuros.
— Só vamos usá-los mesmo para dormir — ela justificara. Sophie apenas
mencionara que esperava que a casa tivesse uma biblioteca, ao que Tessa
secamente respondera: — Para quê?
Phoebe gostou do pequeno quarto que compartilhava com Sophie por ter
uma bonita saleta na frente, porém, mais do que tudo, lhe agradava estar longe de
Thornhold e do olhar vigilante do vigário.
Não que Tessa fosse muito melhor. Bastava dar um passo para fora da casa e
ela surgia não se sabia de onde, perguntando o que pretendia fazer.
Phoebe subiu as escadas devagar. Seus pés latejavam. Ela procurava tirar o
vigário da cabeça.
Estou em Londres, a quilômetros de distância de meu pai, e sou adulta.
Entrou no quarto, fechou a porta e recostou-se nela por um momento,
usufruindo do silêncio. Sophie ficara na sala, entretida com um livro, e Nan, a criada
de Tessa, ajudava a patroa a se preparar para deitar. Naquela noite, havia quebrado
todas as promessas que fizera ao pai quando ele consentira que ela viajasse
sozinha para Londres. Se ele descobrisse, teria uma tremenda decepção.
Contudo, tinha esperança de que ele não descobriria. Até o "desastre do
champanhe" passara despercebido por todos. O pobre criado estava de costas para
ela quando colidiram. Ninguém sabia como havia acontecido.
Ninguém, com exceção do sr. Marbrook.
Ela sorriu e esfregou a cabeça contra a porta de madeira. Ele fora atrevido...
mas deveras charmoso. Fechou os olhos e respirou rondo, tentando relembrar o

Projeto Revisoras 20
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

momento em que seus lábios mal se tocaram. Um calafrio percorreu-lhe a espinha.


Apesar do cansaço, depois de tantos anos, sentia-se viva.
Ao se despir, ainda rememorava cada segundo daquele inesquecível
encontro.
Phoebe acordou com Tessa chacoalhando-a de maneira quase violenta.
— Pelo amor de Deus, Phoebe, acorde! Já são nove horas. Tessa tinha uma
expressão estranha no rosto:
Droga, ela deve ter descoberto meu encontro com Marbook ontem à noite.
Mas quem teria contado?
Phoebe resolveu ficar quieta. Por pior que parecesse, não havia nada para se
envergonhar da hora em que estivera sozinha com ele. Haviam apenas
conversado... praticamente.
Ela amarrou então o penhoar e foi ao encontro de Tessa, de cabeça erguida e
joelhos trêmulos. Seu temor aumentou ainda mais quando viu que a tia havia
também acordado as primas Deirdre e Sophie.
Tessa voltou o olhar para ela. Jesus!, estava prestes a pagar pela noite
anterior.
O vigário ficaria furioso quando ficasse sabendo! Tessa obviamente contaria a
ele, e ela retornaria a Devonshire na primeira carruagem.
— Phoebe, você recebeu uma proposta de casamento.
Casamento?
Seria dele?
Phoebe não agüentou o tremor nos joelhos e se sentou na cadeira de
espaldar alto ao lado de Sophie. Tessa continuou a falar, mas ela mal conseguia
ouvir. Havia somente um nome que ela queria ouvir e, ao ouvi-lo, teve um
sobressalto. Marbrook.
Se pudesse tê-lo, viver com ele, ser sua esposa, sua amante, estaria salva de
todos aqueles anos de sofrimento de muitas maneiras.
— Phoebe? — disse Tessa, com voz irritada. — Qual é resposta?
— Aceito! — Foi fácil. Com apenas uma palavra, seu futuro incerto e cinzento
tornou-se claro e seguro. — Diga a ele que aceito.
— Mas... ele não é um duque — ponderou Sophie baixinho.
—- Não — respondeu Tessa, em tom azedo. — Mas será.
Phoebe piscou, confusa.
— O quê!?
Os olhos de Tessa mostravam rancor, como quem não conseguisse imaginar
o que um homem daqueles havia visem Phoebe.
— É verdade, dentro de semanas, talvez dias. O tio dele, o nono duque de
Brookmoor, está à morte.
Um duque. Que estranho! Ela sempre imaginara os duques como homens
mais empolados e, bem... com jeito de duque. Marbrook não tinha nada disso. Na

Projeto Revisoras 21
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

realidade, ele lhe parecera um tanto... mundano. É logo ele seria um duque. Ela não
conseguia acreditar em mais essa perfeição. Ainda por cima, ela ganharia a fortuna
dos Pickering.
O estranho nó que apertava seu coração se desfez. Ela se tornaria uma
duquesa rica... Nenhuma porta da sociedade acusaria lhe bater na cara, qualquer
que tivesse sido o escândalo de sua mocidade.
Estava a salvo — e com ele,
Phoebe cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo para controlar os
arrepios que percorriam todo o seu corpo.
— Phoebe — disse Sophie, com delicadeza. — Você está preocupada? Não
prefere refletir um pouco mais sobre sua decisão?
Preocupada? Descobrindo o rosto, ela não se conteve mais e explodiu em
uma sonora gargalhada.
— Pelo visto, você não está nada preocupada — Sophie comentou,
timidamente.
Ainda rindo, Phoebe atirou os braços no pescoço da prima que retribuiu o
abraço. Depois, inclinando a cabeça para trás, deu um sorriso destemido para sua
odiosa tia e para Deirdre.
— Não é inacreditável?
— Completamente. — Tessa levantou uma sobrancelha, irritada. — Muito
bem. Seu pai ainda está visitando amigos na periferia de Londres. Ele poderá
receber a notícia em poucas horas.
Deirdre dirigiu a Phoebe um olhar glacial.
— Você ainda não ganhou, Phoebe. O duque de Brookmoor está em seu leito
de morte há bastante tempo. Ele ainda poderá viver vários meses.
Phoebe somente sorriu.
— Não importa que meu noivo nunca se torne um duque, pois eu o teria
escolhido de qualquer modo.
Sophie a olhou, admirada.
— Isso então é amor? Tessa caçoou.
— Amor? Depois de apenas uma noite de baile?
Depois de apenas um momento. Phoebe ignorou o pouco caso da tia.
— Amor à primeira vista.

Rafe havia se revirado na cama a noite toda, pensando em como fazer uma
proposta perfeita para Phoebe. Ele só conseguiu adormecer quando já amanhecia e
dormiu até depois das nove.
Não tinha importância. Como era a manhã após o primeiro grande baile da
temporada, ela também provavelmente estaria tomando seu desjejum naquele
momento.
Ele se pegou cantarolando quando atava a gravata e ao colocar sobre o

Projeto Revisoras 22
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

colete um paletó azul-marinho com botões prateados.


Não tivera nem sequer paciência para esperar que Sparrow, seu criado
pessoal, chegasse até aquele lado das dependências familiares.
Continuava dormindo no mesmo quarto da vida toda — menor e menos
imponente do que o de Calder. As paredes não eram recobertas de seda, nem sua
cama tinha dossel de veludo. Para quem tinha uma reputação de jogador libertino,
suas acomodações eram bem simples. Ninguém o obrigara a permanecer ali. O
quarto do herdeiro lhe fora oferecido quando ele retornara para ficar, cinco anos
antes, depois de dez anos de vida desregrada, mas ele preferira não se iludir.
Ao descer para tomar seu café da manhã, Calder, é claro, já estava acordado.
Estava impecavelmente vestido, tomando café e lendo um jornal. Um criado
uniformizado imediatamente apareceu, trazendo uma bandeja com peixe defumado
e ovos preparados como Rafe gostava.
Quando ele se sentou, Calder levantou os olhos e lhe deu bom-dia, não
proferindo qualquer outra palavra. Então dobrou o jornal com um movimento brusco,
colocou-o debaixo do braço e se levantou.
Rafe começou a comer os ovos, aliviado de não precisar conversar com o
irmão. Apesar de remoer o assunto a noite toda, ainda não sabia como falar sobre o
noivado.
Ao chegar à porta, Calder se virou e clareou a garganta.
Rafe, que levava o garfo à boca, parou.
—- Quero que você seja o primeiro a saber, Rafe. Segui seu conselho e hoje
cedo recebi a notícia de que Phoebe Millbury aceitou meu pedido de casamento. Ela
está sob a guarda da tia neste momento, mas Iady Tessa acredita que o pai não fará
objeção. Agradeço-lhe por ter me poupado da tediosa busca.
Não!
O choque reverberou por todo o seu corpo. Por um momento que lhe pareceu
uma eternidade, Rafe não conseguiu respirar. Finalmente, conseguiu dizer, com voz
entrecortada:
— Mas se passaram apenas algumas horas do baile... Calder apenas riu.
— Esse tipo de coisa não demora muito quando se contrata as pessoas
certas para investigar. Ela é absolutamente adequada, embora o avô tivesse sido
comerciante. Houve uma considerável ascensão social na família, portanto a
diferença não é inapropriada. Ela não traz fortuna para o casamento, mas e daí? Eu
não preciso.
Rafe ainda não conseguia respirar, revoltado como estava. Mais uma vez, o
fruto mais maduro caía facilmente na "merecedora" mão de Calder.
Mas, espere... simplesmente pelo fato de Calder ter feito a proposta não
significava que...
— É claro que ela aceitou — Calder continuou dizendo. — Achei admirável
como ela é decidida. Phoebe deve ser uma mulher muito prática, nada romântica.
Aparentemente, ela nem hesitara. E por que hesitaria? Aquele momento no
jardim, aquela possibilidade que ficara suspensa no ar de haver algo entre eles... só

Projeto Revisoras 23
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

ele sentira.
— Vou sair para vê-la agora. — Calder acenou com o jornal e deixou a sala.
Caim e Abel. Assassinato entre irmãos. Uma vingança bíblica parecia justa
naquele momento.
Rafe quase correu atrás de Calder. Não poderia matar o irmão, mas poderia
muito bem nocauteá-lo, deixando-o estendido no chão de mármore do vestíbulo, e
saborear cada minuto disso.
Cerrou os punhos, quebrando em dois o garfo de cabo de pérola. Ele nem
sentiu a dor quando as pontas do garfo perfuraram sua pele, pois uma dor muito
maior afligia seu coração. Phoebe!

No quarto que compartilhava com Sophie, Phoebe colocou, um depois do


outro, dois vestidos na frente do corpo,
— Qual dos dois fica melhor? Só tenho estes dois. Preciso mandar fazer
outros.
Acabara de ficar noiva e já se dava conta de todo o preparativo que teria de
ser feito antes do casamento. O guarda-roupa da filha de um vigário não era
adequado para uma marquesa. Ela dirigiu um olhar crítico aos vestidos.
— Na verdade, nenhum dos dois é do meu gosto. Foi Tessa quem os
encomendou.
Sophie se deitou de bruços na cama, apoiando o queixo sobre as mãos, e
ficou balançando as pernas no ar.
— Pelo menos, você não está se afogando em babados. Acho que ela queria
que eu parecesse ter mais conteúdo onde não tenho. — Ela examinou os vestidos.
— Não me peça para decidir. Você sabe que não entendo nada de moda.
Phoebe suspirou.
— Eu também não entendo e preciso de ajuda.
Sophie deitou a cabeça na colcha e se levantou em seguida.
— Vou buscar Nan.
— Ela já tem mais serviço do que consegue dar conta, Sophie. Não posso
pedir que também me vista.
— Quer que eu vá chamar Deirdre, então?
— Não é preciso. — Uma voz irônica se fez ouvir à porta. Deirdre estava
parada lá, recostada à porta, como se estivesse ouvindo havia algum tempo.
Sophie engoliu em seco e, constrangida, ficou com o rosto cheio de manchas
vermelhas.
— Nossa! Não ouvi você entrar.
— Discrição é importante quando se vive na mesma casa em que Tessa —
ensinou Deirdre, entrando no quarto.
Ela caminhou até Phoebe com ar crítico, Tocou no tecido dos vestidos e
levantou um pelo ombro para colocá-lo mais próximo de Phoebe. Depois o largou no

Projeto Revisoras 24
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

chão e deu um passo para trás.


— Use o azul, se não tem nada melhor. Tenho um chapeuzinho que vai
completá-lo. Ficará com melhor aparência.
Phoebe tentou não se mostrar abalada.
— Ah... obrigada. — Aquilo era uma oferta ou um insulto?
— Vou buscar. — Ela saiu silenciosamente como entrou. Phoebe voltou os
olhos arregalados para Sophie.
— Essa é Deirdre — apontou Sophie, dando de ombros.
— Aqui está ele. — Deirdre surgiu novamente ao lado de Phoebe.
Ela não poderia ficar mais surpresa. O chapéu, uma delicada confecção em
palha, era enfeitado com fitas de seda em vários tons de azul e tinha um gracioso
arranjo de penas de ganso, tingidas também de azul, do lado.
Até Sophie admirou a beleza da peça.
— Que lindo! — Eis que existia uma jovem normal dentro dela.
— Estou contente que vocês tenham gostado — disse Deirdre, em tom seco.
— Foi decorado por mim.
— Obrigada, Deirdre.
Phoebe pegou o chapeuzinho e o colocou na cabeça, hesitando um pouco
para ajeitá-lo. Depois colocou o vestido azul em frente ao corpo e se olhou no
espelho. Deirdre estava absolutamente certa. O gracioso chapéu dava um realce es-
pecial ao vestido.
Assunto resolvido. Sua aparência seria a da noiva de um lorde!
Impulsivamente, ela pôs o vestido de lado e deu um efusivo abraço na prima.
Surpresa, Deirdre deu um passo para trás e sorriu.
— Eu vim lhe dar os parabéns, Phoebe — disse ela, com uma certa frieza. —
Não devia ter deixado passar a oportunidade antes. Espero que você e o lorde
sejam muito felizes — completou, dirigindo-se à porta.
Quem surpreendeu-se então foi Phoebe.
— Obrigada, Deirdre.
— Quando meu pai era vivo e éramos só nos dois, ele costumava me chamar
de "Dee". Você... e Sophie também podem me chamar assim, se quiserem. Mas só
na intimidade. Não aprovo muita familiaridade em público.
Phoebe comprimiu os lábios.
— Eu não faria isso, Dee. — Com o canto do olho ela percebeu que Sophie
sorria. — Não gostaríamos que estranhos pensassem que somos íntimas demais.
Deirdre levantou a sobrancelha, concordando:
— Exatamente! — E saiu do quarto. Phoebe começava a dizer:
— Dá para acreditar... Sophie levantou a mão.
— Espere. — Ela escorregou da cama e foi pé ante pé até a porta. Abriu-a e
olhou para fora. Depois a fechou e se voltou para Phoebe. — Recuso-me a falar

Projeto Revisoras 25
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

qualquer palavrinha antes de trancar a porta.


Ouviu-se então um som abafado vindo da porta do hall. Phoebe sentiu um
friozinho na barriga.
— Vá ver quem é para mim, Sophie.
Um minuto depois, a prima entrou apressada no quarto. Seu rosto
habitualmente pálido estava corado de euforia.
— Ele já chegou. O marquês de Brookhaven está aqui! Phoebe riu, eufórica.
Já estava perfeitamente arrumada e pronta para a primeira visita de seu noivo.
O coração estava disparado só de pensar em vê-lo novamente. Tudo,
absolutamente tudo, estava mais perfeito do que ela jamais sonhara. O vigário
estava a caminho de Londres, mas ele já enviara uma nota aprovando a união. Na
nota havia uma linha que ela jamais poderia imaginar que receberia dele novamente:
Você trouxe orgulho para o nome de nossa família, minha querida.
Phoebe sorriu. Sabe-se lá como ela conseguira agradar a todos, ser
respeitável e ainda encontrar um homem que fazia seu sangue ferver.
— Acho que finalmente as coisas estão como eu queria — disse ela para
Sophie sentindo-se serena.
— Gostaria que você me ensinasse esse segredo — a prima retrucou em tom
azedo.
Phoebe voltou-se para ela.
—Sophie, não fique enciumada de minha boa sorte. Você também encontrará
um bom marido aqui na cidade, tenho certeza disso.
Sophie abaixou a cabeça e deu de ombros.
— Eu não quero um marido. Só vim a Londres para conhecer os museus e as
galerias.
Phoebe caminhou até a prima e deu-lhe um rápido beijo no rosto.
— Então vá até a Academia Real hoje. Ignore Tessa e simplesmente vá. O
que ela poderá fazer? Mandá-la de volta para Dartmoor? Ela precisa da sua parte do
dinheiro para pagar o aluguel desta casa.
Um pequeno sorriso iluminou o rosto de Sophie.
— É verdade!
— Você sabe, eu não teria encontrado Marbr... o marquês se não a tivesse
desafiado. Talvez seja mesquinho de minha parte pensar assim, mas às vezes me
pergunto se ela não está tentando... — Phoebe deu de ombros, deixando a frase
inacabada.
Aparentemente, era o que Sophie também pensava.
— Às vezes, me pergunto o mesmo. — Ela abaixou os olhos para a própria
roupa. — Acho que não vou deixar mais ela escolher meus vestidos.
Phoebe acenou alegre para ela e se encaminhou para a escadaria.
— Esse é o espírito da coisa. Vou lhe contar tudo quando voltar!
Talvez quase tudo!

Projeto Revisoras 26
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe diminuiu o ritmo de sua precipitada descida escada abaixo. O


cavalheiro parado na entrada do hall, além de alto, era bonito e estranhamente
familiar, embora tivesse certeza de nunca tê-lo visto antes. E também estava blo-
queando seu caminho.
— Com licença — disse ela, ao passar por ele dirigindo-se o vestíbulo.
Podia sentir seus olhos acompanhando-a quando passou por ele.
Marbrook, entretanto, não estava no vestíbulo. Será que um dos criados de
Tessa o havia colocado na sala de visitas? Não, ele não estava lá tampouco.
O homem no hall continuava a observá-la enquanto ela fazia a busca. Que
intrometido! Finalmente, desapontada por não encontrar Marbrook e irritada com o
insistente interesse do estranho, ela se voltou para ele com os punhos nos quadris.
— Há algo errado com meu vestido? Ele piscou.
— Eu... como? Ela deu uma volta, balançando a saia para ele.
— Tem certeza? Nenhum alinhavo ou sujeira?
Ele endireitou o corpo e fez uma cara feia.
— A senhorita por acaso é maluca?
Ela cruzou os braços e também fez cara feia.
— Bem, me parece que há algo errado em mim pelo jeito que o senhor me
olha.
Tessa morreria se a ouvisse falar daquela maneira, mas ela estava pouco se
importando. Estava noiva de Marbrook e ele certamente riria se soubesse.
Acho que estou apaixonada por você, Marbrook.
Aquele homem... havia algo de familiar nele... o que era? Apesar de ser bem-
apessoado, Phoebe não gostava nada dele.
— Srta. Millbury — ele começou a falar.
Ela engoliu em seco. Ele tinha o mesmo tom desaprovador do vigário. Mas
por que se importaria com a desaprovação de um estranho? Levantou o queixo,
agradecendo ao destino por ter lhe dado Marbrook. Era uma pena que tivessem de
esperar para que os proclamas fossem lidos porque ela se casaria com ele ha
mesma hora se fosse possível.
— Sim?
Ele estreitou os olhos diante do tom de Phoebe.
— Srta. Millbury, talvez eu deva informá-la de que não estou acostumado a
insolência de... bem... de ninguém, na verdade.
— Isso explica sua expressão azeda. Mas o que explica sua grosseria na
casa de minha tia?
Ele piscou, abriu a boca para falar e a fechou novamente.
Phoebe procurou controlar sua impaciência e passou por ele. Marbrook não
estava lá. Sophie ia pagar pela brincadeira. Colocaria grilos na cama dela.
Uma enorme mão a pegou pelo braço. Phoebe ficou chocada com

Projeto Revisoras 27
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

comportamento tão ultrajante.


— Tire já sua mão de cima de mim, ou serei forçada a relatar sua conduta a
meu noivo.
Ele a fitou e a expressão de seu rosto se abriu como se tivesse acabado de
entender alguma coisa.
— Ah. — Ele a soltou vagarosamente, deu um passo para trás e esboçou um
sorriso meio maroto. — Srta. Millbury, parece que estamos diante de um mal-
entendido.
Ela levantou a sobrancelha.
— Creio que meu noivo estaria em seu direito se o esbofeteasse.
O sorriso, porém, não se apagou. Ele fez uma reverência.
— Srta. Millbury, sou lorde Calder Marbrook, marquês de Brookhaven, a seu
dispor.
Errado, errado. Muito errado.
— Hã... — Ela pigarreou, tentando tirar o nó da garganta e forçou um tom de
voz normal. Sentia também uma coisa esquisita no estômago. Sabia que seu
comportamento não havia sido dos melhores.
O cavalheiro se curvou, depois levantou os olhos, encontrando o olhar
chocado de Phoebe.
— Minha querida, eu sou o seu noivo.
Ela mal conseguia respirar.
— Creio que houve um terrível... — Engano. Todos os terríveis enganos que
havia cometido na vida giravam em sua cabeça. Ledos enganos perto desse.
Marbrook. Sentiu um aperto no peito. Onde ele estaria? Quem era esse
homem que tinha o maxilar igual o dele, o mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos.
Olhos que, embora iguais, não tinham a mesma expressão carinhosa e o mesmo
brilho de alegria?
O Marquês de Brookhaven, Marbrook devia ser o nome de família...
Irmãos! Ah, não. Bom Deus, isso seria impensável.
Mas tão óbvio. Estava noiva do irmão do homem que amava.
— Se me der licença por um momento...
Ainda com um sorriso insano no rosto, ela deu às costas ao noivo e fugiu
dele. Entrou pela primeira porta que encontrou no caminho e a fechou atrás de si,
encostando-se trôpega nela, sem se importar com a maçaneta que pressionava
suas costas.
O que poderia fazer? Explicar, ao marquês que pensara ter aceitado um
outro homem? Claro que ele iria querer saber quem era; ela não poderia reverter a
situação e se casar com o irmão sem que ele ficasse sabendo!
Não havia solução para aquilo. Ela não poderia deixá-lo esperando no hall por
muito tempo. Teria simplesmente de ir dizer a ele antes que fosse tarde demais.
Respirando fundo, forçou um sorriso educado como cabia à filha do vigário e saiu do

Projeto Revisoras 28
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

compartimento onde estava.


Ele continuava no mesmo lugar, na mesma posição, com a mesma expressão
vagamente impaciente no rosto. Ao se aproximar dele, ela visualizou o poderoso e
rico marquês de Brookhaven e tentou, desesperada, pensar em uma maneira de
explicar seu abominável — embora completamente compreensível — engano.
Ouviu-se então uma batida muito peculiar na porta da frente. Cinco toques.
Som com o qual Phoebe estava muito familiarizada.
Oh, não, Deus. É meu pai!
Era só o que faltava. Seus joelhos ficaram trêmulos e ela voltou a sentir os
antigos medos. Ali estava somente a velha Phoebe para enfrentar o engano que a
nova Phoebe havia cometido.
Ela deve ter falado alto, pois Brookhaven se animou.
— Ah, excelente. Seu pai e eu temos muito a conversar, e esta é uma ótima
oportunidade. — Ele dirigiu a Phoebe um olhar de aprovação. — Foi muito eficiente
de sua parte providenciar isso.
Muito eficiente seria admitir seu engano e se humilhar simultaneamente na
frente de Brookhaven e do pai!
— Bem, tenho algumas habilidades — ela retrucou, sentindo a sensação de
pânico crescer dentro dela.
E Marbrook, o que pensaria dela quando soubesse de tudo?
Apesar de apavorada, passou-lhe pela cabeça que ele entenderia quando ela
explicasse tudo aquilo.
Phoebe tentou agir rapidamente enquanto o mordomo cumprimentava o
vigário.
— Diga-me, milorde, seu irmão, lorde Marbrook... — ela nem sabia ao certo
se eram mesmo irmãos, embora o olhar atento dele parecesse confirmar — quando
pretende informá-lo de nosso... compromisso?
— Oh, Rafe já sabe — disse Brookhaven. — Na realidade, a idéia foi dele.
Ele achou que combinávamos.
Rafe? Então era esse o nome dele.
Não, não podia ser verdade. Idéia dele. Ela sentiu o coração dilacerado,
jamais teria cura.
Marbrook a havia conhecido, conversado com ela, levado ao jardim escuro e
fizera com que se apaixonasse por ele para depois sugerir ao irmão que se casasse
com ela? Como se fosse um... agente? Mais uma vez, ela havia sido uma idiota.
Então lá estava o vigário, envolvendo-a em um abraço desajeitado, mas cheio
de entusiasmo. Ele a beijou na testa e disse as palavras que ela desejara ouvir a
vida toda.
— Você se saiu maravilhosamente bem, minha querida. Estou muito
orgulhoso de você.
Palavras que ela nunca mais ouviria se rompesse o noivado. Tudo ficou muito
claro. Se contasse seu engano, instantaneamente voltaria a ser a filha indisciplinada

Projeto Revisoras 29
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

do vigário, que precisava ser bem vigiada, como nos velhos tempos.
A dor antiga se misturou à nova e Phoebe escondeu o rosto no ombro do
vigário, como não fazia havia muitos anos. Nos braços do pai, ele subitamente lhe
pareceu menor, mais velho, menos vigoroso.
Embora o cabelo tivesse embranquecido, nunca até então havia pensado em
perdê-lo. A dor e a pena pelos anos desperdiçados mexeram com ela.
Phoebe foi tomada pelo peso da responsabilidade de forma concreta. Seriam
poucos os anos que teriam juntos pela frente, teria ela o direito de negar a ambos a
chance de que fossem anos bons? O mais sensato seria... aceitar o que lhe estava
sendo oferecido e se sentir contente.
As lágrimas afloraram-lhe então silenciosamente aos olhos, apesar de todo o
esforço para contê-las.
— Oh, papai...
O vigário se limitou a colocar o braço nas costas dela, dando-lhe uns tapinhas
bastante fortes.
— Vamos, vamos, minha querida. Acho que a noiva tem direito a uma certa
exibição, desde que seja entre os familiares, não é, Brookhaven?
Brookhaven pigarreou.
— Posso supor que não acontecerá com freqüência? O vigário deu risada.
— Não precisa se preocupar. Minha Phoebe é uma jovem bastante sensata.
Minha Phoebe. Minha querida. Palavras que ela ardia por ouvir do pai.
Com uma atitude inadvertida, ela fizera os sonhos do pai se realizar.
E os dela?
Agora estava dividida entre o desespero da perda e o desejo da rara
aprovação do pai.
— Peço-lhe que perdoe os meus excessos, milorde. Papai, já estou bem
agora.
Não, não estava. Não era assim que as coisas deveriam ser.
Sim, estava bem. Noiva de um homem fino, bonito e abastado que a tornaria
uma das mulheres mais ricas de Londres — e ela estava tendo a aprovação irrestrita
do vigário talvez pela primeira vez na vida.
Aquela vozinha interior deu finalmente a última palavra e ela se calou.

O sol da manhã ainda penetrava pelas janelas de Brook House, mas as horas
não passavam. Rafe abriu a garrafa de uísque assim que Calder saiu, mas nem o
perfumado líquido âmbar conseguia aplacar seus pensamentos.
Debruçado na janela da frente, ele contemplava a rua sem ver.
Calder estava noivo de Phoebe Millbury. Da sua Phoebe Millbury.
Por mais que não quisesse admitir, e haviam sido necessárias várias doses
de uísque para fazê-lo, não podia culpar ninguém; a não ser ele mesmo. Conseguia

Projeto Revisoras 30
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

enxergar perfeitamente onde errara.


Ele próprio despertara a atenção de Calder para Phoebe, o que fazia com que
se sentisse ainda pior. E não adiantava tentar se convencer de que ninguém se
apaixona em uma única noite. Mesmo em um jardim, em uma noite enluarada, com
um anjo delicioso e atrevido.
Então ele resolveu culpar Calder por sempre ficar com o que havia de melhor
para ele.
Mas ela aceitara. Como pôde fazer isso?
Como não faria? Uma jovem como aquela, filha de um vigário, como poderia
recusar o partido mais rico de Londres?
"Não, obrigada, milorde, não tenho interesse em ser marquesa"
Na realidade, Calder não era o homem mais rico de Londres, nem o mais
poderoso. Havia uns quatro ou cinco acima dele. Mas ele era um homem bonito.
Então como esperar que uma jovem do campo dissesse "não" ao marquês de
Brookhaven?
Talvez não seja esse o caso. Talvez ela simplesmente goste mais dele. Afinal,
todos gostam.
Seu pai havia lhe dito várias vezes, em sua época de perdulário: "Graças a
Deus, Brookhaven ficará em mãos melhores do que as suas".
Por mais que pensasse, odiar Calder e desprezar Phoebe não solucionaria
seu dilema.
O que estava feito, estava feito. Calder não conseguiria romper o noivado
sem desgraçar a vida da moça e comprometer a própria reputação. Ele não faria
isso.
Phoebe, por outro lado...
Ele esfregou o rosto. Ela lhe parecera tão perfeita. Ao mesmo tempo de uma
meiguice angelical e cheia de calor humano. Não! Ela nunca desistiria do
compromisso. Uma jovem como aquela nunca muda de opinião. Preferia a morte a
pensar em toda aquela lealdade e doçura desperdiçada com um autômato
inexpressivo como Calder.
E, em sã consciência, ele não poderia dizer nada sobre a noite anterior. Fora
uma coisa inocente, pelo menos a maior parte. Ele não poderia comprometer uma
donzela.
Rafe endireitou o corpo, quase se desesperando com a certeza que se
instalava nele. Não diria nada, não faria nada. Iria se comportar como um cavalheiro,
o mais distante possível, apenas observando a mulher desejada casar-se com o
irmão.
Olhou para os punhos cerrados. Queria abri-los e relaxar.
Então Calder agora tinha tudo. A propriedade, o título... e ela.
Maldito Calder!

***

Projeto Revisoras 31
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

A sala de visitas da casa de Tessa era cuidadosamente decorada para não


envergonhar ninguém, mas a composição do delicado floral com listras esmaecidas
perturbavam a visão de Phoebe. Parecia que estava sonhando. Mas não, era tudo
uma terrível realidade. O vigário estava exultante, Tessa, eufórica, Deirdre observava
tudo em silenciosa zombaria e Sophie olhava sonhadora pela janela.
Phoebe estava sentada ao lado do marquês absolutamente imóvel e tentava,
comportadamente, ouvir a conversa a sua volta. Brookhaven usava um impecável
traje preto e branco. Ela, um apropriado vestido de virginal musseline branca, sem
qualquer adorno. Juntos eles pareciam sinalizar para a vida que teriam.
Branco e preto. Certo e errado. Sem expectativas. Sem liberdade. Sem
alegria...
Sem paixão.
Pois Brookhaven, embora jovem e belo como o irmão, mais se parecia com o
vigário. Ambos eram rigorosos consigo mesmos e com os outros. Ambos tinham a
mesma inabalável visão sobre os deveres e obrigações de suas posições. Era tanta
a semelhança que Phoebe tinha a impressão de que não se casaria afinal com um
estranho.
O vigário parecia extenuado devido a visita que fizera a amigos num condado
vizinho. Por essa razão, o passeio pelo Hyde Park fora cancelado em favor do chá
na sala de visitas.
Tudo magicamente decidido sem que as mulheres proferissem uma palavra.
Brookhaven certamente tinha um ar autoritário. Até mesmo os mal-humorados
criados de Tessa se apressavam em atender com presteza a cada desejo dele.
Brookhaven parecia igualmente encantado com o vigário.
— Como é gratificante, saber que Phoebe foi a vida toda influenciada por um
modo de pensar tão sensato. Hoje em dia as jovens parecem só ter roupas e bailes
na cabeça — disse ele, em tom de aprovação.
Phoebe notou que Deirdre mordia o lábio. Pelo menos ela não era a única
que queria rolar de rir da pomposidade de Brookhaven. Tessa então pousou uma
aparentemente afetuosa mão no ombro de Deirdre e o apertou até as juntas dos
dedos se tornarem brancas.
Apesar da dor que deve ter sentido, Deirdre não se mexeu. Apenas manteve
um sorriso insípido enquanto dava um tapinha na mão de Tessa, em um falso gesto
de afeição filial.
Phoebe esqueceu de seu problema por um momento ao observar como a
prima reagira ao doloroso abuso com casual familiaridade. As coisas entre as duas
não eram tão perfeitas como ela imaginava. Talvez fosse melhor ter um pai como o
vigário.
E agora você vai se casar com um homem igualzinho a ele e nunca
conseguirá se tornar uma mulher adulta.
Exceto por um detalhe — ela não era perfeita. Como explicaria isso na noite
do casamento? Não poderia contar com a ajuda do vigário, pois ele acreditava que
ela havia sido abandonada antes de ser deflorada — e não tivera coragem de
corrigir essa impressão.

Projeto Revisoras 32
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe se esforçou para prestar novamente atenção no que o marquês


falava.
— Pensei bem e concluí que não vale a pena continuar a visitá-los aqui.
Será que pretendia sumir até o casamento? Que alívio!
— Em vez disso, quero convidá-los para que se mudem para Brook House
pelos próximos quinze dias. Lady Tessa, a senhora poderá dar uma assistência a
Phoebe com os preparativos? Naturalmente com a ajuda de meu excelente staff...
Era um convite amável, mesmo que claramente originado na própria
conveniência. Phoebe abriu a boca para polidamente recusar.
— Que atenção maravilhosa! — Os olhos de Tessa brilhavam diante dessa
escalada social. — Vamos arrumar as coisas imediatamente.
— Não é preciso — disse Brookhaven, vivaz. — Vou providenciar para que
suas coisas sejam levadas à tarde.
— Oh, que ótimo! — Tessa estava nas nuvens e deu um nauseante show de
gratidão. Então o olhar dela se tornou mais penetrante. — Até o casamento, foi o
que milorde disse?
Essa não! Tessa queria hospedagem para toda a temporada. Phoebe
aguardou a resposta de Brookhaven com a respiração suspensa.
Brookhaven olhou para Tessa. Ela sustentou o olhar dele. Era fascinante
observar o confronto entre duas pessoas habituadas a fazer as coisas a seu modo.
O noivo não se dignara a consultá-la, nem mesmo lhe dirigir um olhar
inquisidor sobre a questão. Era um mau sinal para o futuro.
Então uma campainha de alarme soou dentro dela. Havia um outro aspecto a
ser considerado. Se ela fosse para Brook House, veria Marbrook mais vezes. Isso
tinha um duplo significado: estaria fadada a ficar na companhia dele mais do que
gostaria, ou perigosamente menos do que desejava.
Brookhaven voltou-se para o vigário.
— Sir, posso levá-lo para Brook House já. Meu criado terá prazer em ajudá-lo
no que precisar. — Dirigindo depois um olhar para a ala feminina, ele disse: —
Acredito que as senhoras prefiram sair e fazer uma visita a Lementeur.
Pela reação de Tessa e o brilho no olhar de Deirdre, Phoebe concluiu que o
tal Lementeur seria alguém desejável e exclusivo. Não vira Tessa tão eufórica desde
que Deirdre conseguira dançar a segunda valsa com o duque septuagenário.
— Afinal de contas — Brookhaven prosseguiu —, Phoebe precisa de um
enxoval digno de uma marquesa.
Lampejos de inveja brilharam nos olhos de Tessa e Deirdre.
— Quem é Lementeur? — perguntou Sophie.
Phoebe ficou contente de que Sophie não temesse parecer nada sofisticada,
pois também ardia de curiosidade. Tessa meneou a cabeça e olhou para Sophie com
falsa bondosa piedade.
— Querida, você realmente precisa sair da toca. Lementeur é simplesmente o
mais importante estilista de Londres. É praticamente impossível agendar uma hora

Projeto Revisoras 33
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

com ele quanto mais conseguir que ele faça todo um guarda-roupa.
Phoebe piscou surpresa.
— É muito generoso de sua parte, milorde, mas eu...
Brookhaven reagiu com um tapinha na mão dela.
— Não é nada, minha querida. Afinal, não posso ter uma esposa malvestida,
não é?
Malvestida!? Ele nem se dera conta de que estava sendo grosseiro.
O vigário pigarreou.
— Não quero ofendê-lo, milorde, mas lady Tessa tocou em um assunto
comigo e receio ter de lhe perguntar. E seu... irmão?
Brookhaven ficou paralisado.
— O que tem ele? Phoebe também congelou. Qual o problema com
Marbrook? A impressão que o vigário dava era a de que não queria falar sobre um
assunto inadequado aos ouvidos femininos, o que era ridículo porque Marbrook era
um perfeito...
— Seu irmão permanecerá em Brook House junto com as jovens, milorde?
Brookhaven não mexeu um músculo.
— Permanecerá, assim como o senhor e lady Tessa. Espero que o senhor
não esteja sugerindo que haverá qualquer atitude imprópria.
Tessa abaixou a cabeça e, furiosa, cochichou com Deirdre. Phoebe ficou
indecisa se tentava ouvir ou prestava atenção à crescente tensão gerada entre o
vigário e o marquês. O vigário que estava quase em êxtase por causa do noivado
jamais diria qualquer palavra ofensiva, a menos que houvesse algo realmente errado
com Marbrook.
— Libertino. — Phoebe ouviu claramente o sussurro de Tessa. —
Degenerado. O escândalo segue Marbrook como um fiel cão de caça — foi o
sussurro final sobre o assunto. Escândalo?
Sentada ao lado do noivo, Phoebe tinha a sensação de ter sido atropelada
por uma carruagem de corrida e resgatada de sob suas rodas.
Que sorte tivera! Quase caíra pelo homem errado. Mais uma vez.
Tomada pelo antigo sentimento de vergonha, ela ruminava que devia haver
algo errado consigo para ser tão crédula.
— Asseguro-lhes de que não há nada com que se preocupar — dizia
Brookhaven, sem muita convicção. — As moças estarão completamente seguras em
Brook House. — Ele se levantou. — Minha criadagem logo estará aqui para cuidar
de tudo. — Depois ele se voltou para Phoebe:
— Já avisei Lementeur que você precisará de um vestido imediatamente.
Como quero agilizar as coisas, vamos fazer um jantar em Brook House à noite. —
Os olhos dele detiveram-se então no vigário. — Vamos reunir um seleto grupo de
amigos para que o senhor conheça.
— Hoje à noite? — disse Phoebe, sem pensar. — Quem comparecerá assim
de última hora?

Projeto Revisoras 34
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Brookhaven a fitou de maneira estranha.


— A um convite meu, todos virão. Phoebe se desdisse.
— Ah, claro.

Rafe ficou aguardando por Calder na carruagem dos Brookhaven,


estacionada na frente da casa onde Phoebe Millbury vivia com a tia e as primas.
Estava ali para falar com o irmão, não para ver Phoebe, naturalmente.
Ele havia tomado uma decisão. Viveria o mais longe possível da nova lady
Brookhaven. Talvez na América, ou na África. Ainda não havia reservado a
passagem, mas partiria logo depois do casamento, antes da mudança de milady
para a nova casa.
No momento em que Calder apareceu, ele já havia descartado mil maneiras
de abordar o assunto.
Calder entrou na carruagem, sem demonstrar grande surpresa ao vê-lo ali.
Rafe olhou para o irmão, com o coração se debatendo entre os sentimentos de
amizade e ódio de uma vida toda.
— Você está diferente — disse ele. Calder manteve um leve sorriso nos
lábios.
O fato de que o irmão parecia realmente feliz com o noivado, e não
simplesmente satisfeito por ter concluído um negócio, deixava-o ainda mais
agoniado.
Calder endireitou a gravata.
— Marquei uma hora hoje com Lementeur para que ela prove um vestido. Foi
uma boa idéia, não foi? Agradá-la um pouco ajuda a estabelecer uma ligação, não
acha?
Rafe engasgou.
— E é a mim que você pergunta? Calder estranhou a resposta.
— Qual é o problema? Pensei que você aprovasse Phoebe.
Aprovava. Adorava. Agonizava por ela... Felizmente só a veria de novo no
casamento... embora então fosse tarde demais. Ele tentou controlar a voz:
— Sim, para a visita a Lementeur. Sim, para a aprovação. Calder franziu o
cenho e, mais uma vez, mexeu na gravata.
— Você está num humor hoje, hein?... Espero que melhore. Convidei Phoebe
e a família para nos visitar mais tarde.
Rafe sentiu um baque na boca do estômago à idéia de vê-la de novo. Talvez
conseguisse se controlar por umas poucas horas. Ele aquiesceu com a cabeça.
— Claro, naturalmente virão para jantar.
— Sim... mas também fiz um convite a todos para que se mudem para Brook
House imediatamente.
Era mais um golpe naquele dia.
Só faltava agora Calder lhe dizer que consumaria a união em público e que

Projeto Revisoras 35
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

ele se sentaria na primeira fila.


— Não sou tolo — disse Calder, arrogante. — Sei que foi o fato de não dar
muita atenção a Melinda que a atirou nos braços de outro homem.
Melinda Chatsworth Bonneville era uma digna representante da aristocracia,
criada desde o nascimento para se casar com um nobre. De uma beleza morena,
com grandes olhos verdes e maneiras finas, ela havia se tornado a alma da festa
desde que colocara seus pezinhos no salão Almack.
Logo após receber o título de marquês de Brookhaven do pai, enquanto Rafe
se afundava cada vez mais na depravação, Calder decidira que era hora de se
casar. Decisão que todos julgaram muito compreensiva porque o jovem marquês
precisava de um legítimo herdeiro. Ele começara então a escolher uma esposa com
o cuidado que um criador compara a linhagem de éguas.
Os pais de Melinda eram pessoas sensatas e bem situadas, tendo poucas
terras, mas muito lucrativas. Ela não tinha irmãos ou primos que pudessem consumir
recursos para serem apresentados à sociedade, e tinha a reputação imaculada de
ser inteligente, cumpridora de leis e possuidora de um gosto excelente.
Com sua habitual eficiência e racionalidade, Calder logo garantiu para si essa
aquisição, admirável. Poucas semanas depois do debut dela, a posse de Bonneville
havia sido contratada e paga, e todas as partes se declararam satisfeitas...
Só que, com todo o respeito, Bonneville pediu para que o casamento fosse
adiado até o fim da temporada para que ela pudesse aproveitar plenamente sua
primeira visita a Londres. Calder, que sempre quisera as coisas a seu modo, foi
indulgente dessa vez. Anotou uma data em setembro para o casamento e retomou
suas atividades nas fábricas, certo de que sua ausência em nada estragaria seus
bem elaborados planos.
Os planos de Melinda, porém, eram outros. Aparentemente não estava tão
feliz com o acerto quanto seus pais. Tinha dezoito anos e contara em usufruir de
várias temporadas na sociedade e angariar uma legião de admiradores para
escolher alguém dentre eles.
Começaram a surgir meros rumores que, provavelmente muito ocupado,
Calder não ouviu. Depois boatos, mas ele os ignorou, acreditando que fosse
maledicência da sociedade por ter herdado o título tão jovem. Os boatos se
transformaram em mexericos até explodir o escândalo.
Calder não tivera outra alternativa a não ser se casar com a moça à qual,
inadvertidamente, não dera atenção alguma durante a temporada. Romper o
noivado mancharia seu nome e comprometeria a reputação dela para sempre. Muito
humilhados, os pais de Melinda haviam garantido que, assim que se casassem, ela
saberia desempenhar bem seu papel.
As coisas, contudo, não ocorreram dessa maneira. Furiosa de que suas
atitudes não haviam surtido o efeito desejado e loucamente apaixonada por outro
homem, ela continuou a ser notícia nas colunas de mexericos. Quando, depois de
dois anos de casados, tudo parecia haver melhorado um pouco, aconteceu o ato
final e trágico de rebeldia de Melinda.
Era digno de uma peça de teatro. A fuga da esposa, o marido traído e a
dramática fuga pelo país que culminou com o acidente de carruagem que matou os

Projeto Revisoras 36
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

dois amantes. Um drama clássico, e Calder, que sempre fora feroz na preservação
de sua intimidade, estava no centro dele.
Os jornais foram implacáveis, esmiuçando todos os detalhes da vida de
Melinda. Calder viu-se, então, na incômoda posição de ser objeto de pena e de
gracejo do país inteiro. Situação insuportável para o homem orgulhoso que era.
Rafe fez as malas e retornou, sendo recebido em Brook House de portas
abertas por Calder. Nenhum dos dois disse qualquer palavra sobre a tragédia, mas
Rafe sentiu que o irmão apreciou o gesto de apoio. Foi uma época triste e difícil.
O silêncio determinado e cheio de dignidade de Calder e, sem dúvida, o peso
de sua enorme fortuna, finalmente sobreviveram ao escândalo. Rafe permaneceu
em Brook House e fez o possível para não colocar mais lenha na fogueira dos
mexericos. Um a um ele foi desistindo dos prazeres mundanos, embora nem Calder
nem o resto da sociedade parecessem notar. Talvez essa tivesse sido sua
penitência.
Incomodava-o ver Calder se fechar cada vez mais. Depois de um ano de luto,
o irmão nunca mais deixou de usar preto e sua atitude taciturna em nada contribuía
para deter os românticos comentários de pena.
— Não pretendo cometer o mesmo erro de novo, por isso o casamento será
realizado em poucas semanas. Se não fosse pela leitura dos proclamas, me casaria
amanhã.
Rafe sentiu um certo alívio no coração.
— Você está sendo sincero, pretende ser um marido de verdade para Ph...
lady Mllbury?
— Fui um marido de verdade para Melinda. Ela é que não foi uma verdadeira
esposa. Mas Phoebe não está na cidade a tempo suficiente para estabelecer
contatos, e eu pretendo que ela não tenha a oportunidade de fazê-lo.
— Quer dizer que vai engaiolar a passarinha para que não possa voar...
— Claro, é muito mais eficiente. Ela não vai desejar o que nunca teve.
— As primas dela também virão. Moças muito distintas e recatadas.
"Fique longe delas", em outras palavras. Rafe riu.
— Tenho certeza de que são. Nos veremos em casa então.
Ele abriu a porta e saltou da carruagem, achando melhor caminhar o resto do
trajeto. Ao fechar a porta, não acreditou em seus ouvidos. Calder estava
cantarolando, meio desafinado, mas cantarolando. Rafe poderia afirmar que nunca
vira o irmão assim tão feliz.
Que irônico que isso o fizesse sentir-se tão miserável.

Projeto Revisoras 37
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

CAPÍTULO II

Pouco depois de Brookhaven ter se despedido, um outro senhor chegou à


casa da Primrose Street. Um tal de sr. Stickley, da firma Stickley & Wolfe Advogados,
executores do testamento de Pickering. Homem franzino, Stickley olhava indeciso
para as senhoras, sentadas em semicírculo em frente a ele, na mesma sala em que
haviam recebido Brookhaven.
— Lady Tessa, tem certeza de que o vigário não está? Tessa sorriu, soltando
chispas pelos olhos.
— O vigário foi para Brook House com o marquês. Eu estou a cargo de todos
os assuntos relativos às herdeiras Pickering.
Stickley tamborilou os dedos na pasta, como se aguardasse a chegada de um
representante masculino.
— Sir, precisamos dar prosseguimento. Phoebe tem uma visita agendada
com o próprio Lementeur esta tarde. Todas nós — ela fez um gesto indicando as
demais — temos roupas a provar também.
Objetiva como sempre, Sophie não conteve a pergunta.
— Isso leva muito tempo?
Stickley franziu o cenho, pois claramente dava pouca importância a tais
compromissos.
— Vamos começar então. Embora eu vá deixar registrado que queria
aguardar pela presença do vigário.
— Registre o que quiser, sr. Stickley, desde que comece logo — disse Tessa
visivelmente irritada.
— Como as senhoras, sem dúvida, estão informadas, a fortuna Pickering
agora está em vinte e sete mil libras.
Phoebe tossiu. As demais parecerem menos surpresas, apesar de que
Sophie parecesse meio confusa, como se tivesse dificuldade de avaliar aquele valor.
Stickley voltou-se para Phoebe.
— É essa a jovem que está noiva do marquês?
Phoebe aquiesceu com a cabeça. Sentia a boca seca. Vinte e sete mil libras!
Não era apenas uma fortuna, era uma fortuna até indecorosa.
Stickley continuou a se dirigir a ela.
— Parece que hoje é seu dia. Tive uma informação confiável de que o atual
duque de Brookmoor teve uma nova piora.
O velho homem estava morrendo. Phoebe sentiu um calafrio... não deixava

Projeto Revisoras 38
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

de ser uma boa notícia. A morte dele e seu casamento a libertariam para sempre. Tal
segurança era o que ela desejava mais do que tudo.
Com exceção de Marbrook.
Ela procurou não demonstrar qualquer reação e o testamenteiro prosseguiu:
— Assim que lady Millbury tomar posse da herança, as outras duas passarão
a receber pequenas anuidades. Creio que, segundo o testamento, cada uma
receberá quinze libras por ano... — Ele abaixou o tom de voz, pois era uma quantia
irrisória. Uma governanta ganhava mais do que isso e ainda tinha casa e comida. —
E uma pena que sir Hamish não tivesse previsto as subidas de custos, mas não há
reajustes.
Phoebe não queria nem olhar para as primas. Ela precisava ganhar aquela
fortuna. Era o sonho de seu pai... e o desejo de sua mãe ao morrer...
Deirdre era linda e bem relacionada. Teria um bom futuro. Sophie... Pela
primeira vez passou pela cabeça de Phoebe que Sophie nunca havia esperado
ganhar um centavo daquele dinheiro.
Stickley pigarreou.
— Mas, a senhorita deve entender que Stickley & Wolfe não poderão liberar a
herança enquanto não estiver casada e seu futuro marido oficialmente declarado
duque. Tampouco nenhuma palavra desse acordo pode ser dita fora da família ou
ele será anulado.
Deirdre franziu a testa.
— Essa é a parte que eu nunca entendi. Todas nós poderíamos atrair um
duque se acenássemos para ele com vinte e sete mil libras.
O testamenteiro concordou com ar penalizado.
— Exatamente. Seu bisavô sabia disso. Ele desejava que uma de vocês
ganhasse a herança por méritos próprios.
Phoebe naturalmente entendia a raiva de Deirdre. Se cabelos loiros e olhos
tom de safira não fossem méritos próprios, quais seriam?
— O que acontecerá com o dinheiro então, se alguém abrir a boca?
Todos se voltaram primeiro para Sophie, que até então conseguira se manter
calada, e depois para Stickley, que ficou vermelho e imediatamente levou a mão ao
colarinho para desafogá-lo um pouco.
— No caso improvável de nenhuma das senhoritas se casar com um duque,
ou se o conteúdo do testamento vazar para pessoas que não sejam da família, em
um desses casos...
As quatro damas se inclinaram para a frente. O testamenteiro sentiu-se
coagido com a intensidade do olhar que lhe dirigiam e tossiu.
— Nesse caso, a quantia total... bem, sir Pickering tinha uma visão muito
peculiar sobre impostos de consumo... Ele deixará tudo para os contrabandistas.
— Para os contrabandistas? — perguntaram todas em uníssono.
Sophie abaixou os olhos e sorriu.
— De uísque, imagino?

Projeto Revisoras 39
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Sim, toda a fortuna será destinada ao pagamento de multas e penalidades


dos condenados pela destilação e transporte ilegal de uísque.
Phoebe lembrou do retrato de sir Pickering pendurado em Thornhold. Com
cabelos em desalinho e penetrantes olhos azuis, sim... ela podia ver o rebelde
naqueles olhos.
Ora, veja bem, meu bisavô, eu ganhei!
Os contrabandistas não veriam um tostão. Ela se casaria com lorde
Brookhaven, e bem rápido, pois isso significaria que nunca mais precisaria ter medo
de que descobrissem seu segredo. Vestidos ou jóias eram o que menos a
interessava.
Precisava apenas se lembrar que seria a duquesa de Brookmoor.

Stickley entrou no elegante e austero escritório da Stickley & Wolfe


Advogados, onde não se viam quaisquer papéis sobre as reluzentes escrivaninhas,
nem qualquer burburinho de escriturários ocupados nas tarefas tradicionais de uma
firma movimentada.
A Stickley & Wolfe tinha apenas um cliente. Nos últimos vinte anos, sua única
tarefa era proteger e administrar a herança de Pickering.
Originalmente, tinham tido outros clientes e um negócio lucrativo. O sr.
Stickley, pai, tinha uma mente sagaz e orientada para detalhes; enquanto o sr.
Wolfe, pai, homem bonito e charmoso, fazia os contatos, atraindo novos clientes
para o escritório, principalmente viúvas recentes.
O sr. Stickley, filho, porém, não estava interessado nas contas das viúvas, que
só pensavam em torrar o dinheiro. Já o sr. Wolfe, filho, havia herdado a boa
aparência e o charme paternos, mas não a classe que lhe abrira as portas da mais
alta sociedade. Ele era inclinado ao jogo e à bebida.
Assim, a longa lista herdada dos pais foi perdendo um a um os clientes até
ficar somente com a custódia de Pickering. Por sorte, sir Hamish esteve por muito
tempo doente, se não provavelmente teriam perdido a conta dele também.
Na verdade, a situação era bastante confortável tanto para Stickley como
para Wolfe. O primeiro cuidava e fazia a fortuna de Pickering crescer; o segundo
gastava sua comissão com prazer, pois sempre haveria mais para receber.
Stickley sentou-se na confortável poltrona de couro que ele tanto amava e
bendisse a quietude do escritório. Felizmente para ele, Wolfe raramente permanecia
ali, com exceção de eventuais idas para pegar seu quinhão, que gastava em
noitadas.
Stickley o desprezava, mas não pensava em desfazer a sociedade. Além do
fato de que teria de investir dinheiro para comprar a parte dele, onde encontraria
outro sócio que o deixasse tanto tempo sozinho?
Assim, quando Wolfe apareceu uma hora depois, Stickley olhou para o inútil,
sobre as lentes dos óculos, com uma expressão amigável.
— Olá, Stick. Vim encher o bolso. Stickley levantou-se sem pressa.
— Seu pai não o mandou a Eton para que você assassinasse nossa língua

Projeto Revisoras 40
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

desse jeito.
Ele caminhou até o cofre, mantendo de modo casual as costas para a
poltrona onde Wolfe se sentara. Ele havia mudado a combinação anos atrás, no
firme propósito de informar ao sócio quando este lhe perguntasse, mas ele nunca
perguntara.
Stickley encheu um saquinho com várias cédulas e moedas. Era generoso
com o sócio. Sempre que havia um aumento no dinheiro cuidadosamente investido,
Wolfe recebia a devida parte. Embora fosse fácil, ele nunca cogitara de enganar o
filho do sócio do pai.
Sem se voltar, ele jogou o saquinho por cima do ombro, sabendo que Wolfe o
apanharia no ar. Isso feito, ele fechou o cofre e restabeleceu o segredo.
Quando se voltou, esperava ver Wolfe a caminho da porta, mas o sócio
continuava confortavelmente espalhado na poltrona de couro, observando-o.
— Acho que você precisa de uma esposa, Stick. Alguém que lhe dê um casal
de filhos. Um filho para continuar a firma e uma filha para alegrar sua velhice.
— Estou bastante satisfeito como estou — Stickley retrucou. — Quanto a
você, melhor faria se tivesse apenas uma mulher.
Wolfe riu.
— Pelo menos quando eu morrer, Stick, alguém vai notar.
Ele então cruzou os dedos atrás da cabeça e olhou para o sócio com ar
preocupado.
— Stick, acho que tenho sido negligente com você. Stickley manteve-se
calado.
Por Deus, não diga que quer assumir mais responsabilidades na firma!
Wolfe balançou a cabeça como se tivesse tomado uma decisão.
— Acho que está na hora de eu assumir mais responsabilidades aqui na
firma.
— Não! — Stickley quase pulou para protestar. Então procurou se acalmar,
respirou fundo e forçou um sorriso, pois, pela expressão de Wolfe, ele ficara
alarmado. — Perdoe minha reação, Wolfe. É claro que sua ajuda será bem-vinda.
Inclusive, com toda essa agitação por causa do noivado de lady Millbury...
Wolfe piscou.
— Uma das meninas Pickering foi fisgada? Mas elas estão na cidade há
apenas um dia!
Stickley comprimiu os lábios.
— Elas estão aqui há uma semana, tempo que, aparentemente, foi suficiente
para Phoebe Millbury ganhar a afeição do marquês de Brookhaven quem, você deve
saber, está prestes a herdar...
Wolfe assentiu com a cabeça.
— Sim, conheço Brookhaven, provavelmente melhor do que você. — Ele
esfregou a boca. — Isso significa problema para nós, não é?

Projeto Revisoras 41
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Não necessariamente. — Stickley tirou do bolso do colete uma pequena


caixa de ouro, guardando nela seus óculos. — Administramos bem o dinheiro por
todos esses anos. A jovem certamente não precisará do dinheiro uma vez casada
com Brookhaven. Não vejo por que não podemos convencê-la a deixar o dinheiro na
segurança de nossas mãos indefinidamente.
Wolfe o fitou com uma expressão de pena.
— Stick, você não sabe nada sobre a aristocracia. Estão todos pobres, em
dívida até a raiz dos cabelos, se é que ainda têm cabelos.
Stickley se mexeu na poltrona.
— Que bobagem. Passei hoje na rua por Brookhaven. Ele estava finamente
vestido, em uma bela carruagem.
Wolfe fez um gesto com a mão.
— Ora, eles sabem esconder muito bem. Fazem empréstimos em cima de
empréstimos. Ricos de terras e pobres de bolso, como eu digo. Garanto que assim
que Brookhaven descobrir os consideráveis recursos de lady Millbury, vai usá-los
para melhorar sua propriedade e quitar alguns empréstimos.
Stickley abaixou os olhos para as mãos que seguravam trêmulas o mata-
borrão.
— A propriedade dele está assim tão decadente?
— As de todos estão, bom Stick. Grandes alqueires de terra ocupados por
camponeses que precisam de tetos e arados. As vinte mil libras de lady Millbury
sumirão num sopro.
Stickley nem se preocupou em corrigir o valor. O que Wolfe não sabia não
requeria qualquer explicação. Ele fitou quase em desespero a única pessoa no
mundo com quem podia contar em uma circunstância como aquela.
— Wolfe, o que vamos fazer? Wolfe inclinou-se para a frente, levantando as
sobrancelhas.
— A única coisa que está a nosso alcance. Impedir esse casamento.

Ao retornar a Brook House, Calder pediu a Fortescue, de maneira quase


casual, que arrumasse uma criada pessoal para Phoebe. Depois, sem parar por um
minuto, desapareceu no escritório para mergulhar mais uma vez nos assuntos das
fábricas.
Rafe observou aquela atitude preocupado, embora não surpreso, e
recomendou ao mordomo:
— Fort, lady Millbury... bem, ela não é do tipo que reclama, mesmo se não
gostar de sua escolha, por isso selecione uma pessoa jovem e agradável, por favor.
Alguém com quem ela possa ser ela mesma.
Fortescue o fitou da maneira inexpressiva de sempre.
— Pois não, milorde. Na verdade, se me permite, já escolhi uma moça
bastante agradável de nosso staff. Patrícia deve ter a mesma idade de lady Millbury,
é uma jovem inteligente e atraente que tem um ar de... bondade.

Projeto Revisoras 42
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Rafe sorriu.
— Você é um bom homem, Fort. — Ele então dirigiu o olhar para a porta
fechada, como sempre, do escritório do irmão. — Vou me mudar logo daqui, Fort.
Não há espaço para solteiros bastardos na casa de pombinhos em lua-de-mel.
— Tenho certeza de que milorde preferiria que o senhor ficasse, lorde
Raphael.
— Não é uma boa idéia. — Ele deu um suspiro profundo ao pensar em
conviver sob o mesmo teto com a esposa do irmão. — Realmente, não é.

Sem qualquer identificação na fachada, o ateliê de Lementeur tinha um


elegante portal entre as mais renomadas lojas da Strand Street. Tessa caminhou o
mais empinada possível até a linda porta entalhada em carvalho e bateu a aldrava
em forma de pássaro. Adoraria que algum transeunte a visse entrando ali.
A porta foi aberta por um jovem criado muito bonito que não pareceu nem um
pouco impressionado com as diferentes belezas femininas que aguardavam do lado
de fora.
Após cumprimentá-las, ele as fez entrar no hall e, depois de pegar suas
capas e chapéus, as conduziu ao requintado salão onde ficava o provador separado,
apenas de um lado, por uma cortina. O rapaz fez uma mesura com a cabeça e
disse:
— Acomodem-se, por favor. Lementeur logo estará com as senhoras.
Apesar de tudo, Phoebe começava a sentir uma certa animação. Nunca antes
tivera muitas opções de vestidos quanto mais roupas confeccionadas por alguém tão
renomado.
A porta foi aberta e uma figura bastante estranha entrou. Um homem pequeno
e vivaz, com feições de moleque e olhos vibrantes. Phoebe gostou dele assim que o
viu. Toda sorrisos, Tessa pôs-se imediatamente em pé.
— Sr. Lementeur! Muito obrigada...
— Apenas Lementeur — corrigiu ele. — É mais um título do que um
sobrenome.
— Le Menteur. O Mentiroso — Sophie deixou escapar.
— Claro! — o costureiro confirmou, encantado, sorrindo para Sophie, como
se ela fosse uma grande amiga. — E você imagina por que um homem honesto
como eu teria esse nome?
Sophie obviamente sabia a resposta, mas hesitou. Curiosa, Phoebe a olhou,
inquisidoramente. Tessa se mexeu, contrariada.
— Nós...
— Vamos lá, querida — Lementeur incentivou Sophie.
Sophie comprimiu os lábios e dirigiu um olhar a Tessa, voltando-o depois para
Lementeur.
— Porque o senhor é um ilusionista, faz com que as mulheres pareçam mais
belas do que são.

Projeto Revisoras 43
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Lementeur tomou a mão de Sophie nas suas e, inclinando-se, a beijou.


— Finalmente, alguém entendeu. — Ele então se recompôs e deteve o olhar
em cada uma delas, avaliando uma por uma.
— Millbury. Cantor. Blake. E, naturalmente, a memorável lady Tessa.
— Sr. Lementeur... — Tessa começou a dizer. Lementeur fez uma mesura
para Phoebe e indicou com a mão o provador.
— Millbury, vamos passar para lá.
Phoebe aguardou, pois Tessa insistiu de novo:
— Sr. Lementeur, Sophie usará o tradicional branco, com muitos babados.
Lementeur olhou chocado para ela.
— Não usará! Onde já se viu babados nessa preciosa pele de alabastro. A
senhora está querendo que ela fique feia? — Ele se voltou então para Sophie. —
Você pode ofuscar todas elas, se quiser. Basta que me diga uma palavra e eu farei
de você minha musa, minha obra-prima.
Sophie ignorou o rompante de adoração do estilista, enquanto Tessa
empalidecia de raiva. Finalmente, ela sacudiu a cabeça e disse:
— Sugestão do branco aceita. — Depois, dirigindo um rápido olhar a Tessa,
completou: — Sem babados.
Lementeur tomou-lhe a mão e deu uns tapinhas.
— Está bem, queridinha. Venha me ver, se mudar de idéia. — Ele então
dirigiu-se a Phoebe. — Millbury? — Pegou-a pela mão e a levou até o provador,
ajudando-a a subir na plataforma redonda, atrás da qual ficavam vários espelhos
altos, que refletiam uma nuvem de tecido branco. — Não quero que você se distraia
com a imagem refletida no espelho — disse ao ver Phoebe olhando por sobre o om-
bro. — Agora não se mexa.
Phoebe procurou ficar o mais imóvel possível e Lementeur a circundou.
— Ótimo. Está muito bom no peito, a cintura está divina... os quadris... Que
Deus nos ajude! Não há com o que se preocupar, damos um jeito...
Seus quadris? Phoebe nunca havia pensado neles! Agora precisava resistir
ao desejo de passar as mãos para sentir se haviam misteriosamente alargado.
Ele parou então na frente dela e contemplou-a.
— Que pele maravilhosa! Que cores você tem? Do outro lado da sala, Tessa
comentou:
— Sr. Lementeur, creio que Brookhaven prefere azul. Phoebe percebeu que
todas a olhavam quase fascinadas, inclusive Sophie.
Lementeur dirigiu a Phoebe um olhar, resignado. Sem virar a cabeça,
respondeu alto:
— Todos sabem que Brookhaven prefere azul, milady. Mas que tom é o
melhor? Azul-celeste? Turquesa? Royal? — Ele sorriu para Phoebe, satisfeito com
sua resposta. — Agora, minha querida, me diga... pois devemos nos concentrar em
algo mais do que simplesmente a preferência de cor de milorde. O que, a seu ver,
fez com que ele voltasse sua atenção somente para você?

Projeto Revisoras 44
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Eu... eu não tenho a mínima idéia. — Phoebe desviou os olhos. — Nunca


o havia visto antes do noivado... mas sei que a escolha foi recomendação do irmão
dele.
Lementeur levantou a sobrancelha.
— Verdade? Marbrook? — Ele franziu o cenho, pensativo.
— Na realidade, isso não faz muito... — Bateu palmas duas vezes e sorriu. —
Já sei! Tenho algo interessante para esta noite. Estava destinado a lady Reardon,
mas ela compreenderá quando lhe explicar. Ela acredita em amor verdadeiro, sabe?
— Os olhos dele brilharam.
Amor verdadeiro? Não era o caso. Também, o que importava o que os outros
pensavam?
— Vou mandá-lo assim que a bainha estiver feita, juntamente com algumas
outras coisas. Agora pode ir. Ah, e volte em dois dias para a primeira prova de seu
vestido.
— Dois dias? — Phoebe não tivera muitos vestidos feitos sob medida, mas
sabia que geralmente levavam bem mais do que isso para serem confeccionados.
— Não sou pago por hora como algumas costureirazinhas! — Ele ofereceu
ambas as mãos para que ela descesse da plataforma. — Agora podem ir. Estão
todas dispensadas. Cabot!
O belo jovem apareceu não se sabe de onde para acompanhá-las. Assim que
fechou a porta do salão, ele ousou esboçar um sorriso.
— O mestre tem um olho clínico que não precisa sequer tirar as medidas.
Lady Millbury, seu enxoval estará pronto para a prova em dois dias. Apenas uma
será suficiente. — Assim, ele se despediu das demais de forma mais respeitosa do
que as recebera. — Ladies, a prova das senhoras será feita dentro de uma semana.
Eu mandarei um aviso.
Tessa protestou.
— Mas eu queria combinar a cor e o modelo.
O olhar de Cabot se tornou absolutamente glacial.
— Milady, se quiser um vestido comum, talvez deva ir a outro lugar.
Tessa engoliu em seco.
— Não, não, claro que não. Por favor, agradeça ao sr, Lementeur em nosso
nome.
Ao sair, Phoebe ainda pensava sobre as razões que teriam levado
Brookhaven a escolhê-la.
Elas passaram por uma loja de acessórios masculinos. Na vitrine, um alfinete
de gravata, um topázio amarelo-escuro incrustado em ouro, chamou a atenção de
Phoebe. Brilhava como os olhos castanhos de Marbrook. Ela teve um impulso de
comprá-lo para dar a ele.
Presentes agora só para Brookhaven!
Tal pensamento a fez refletir sobre sua situação. Inexistia agora a
possibilidade de se relacionar com um outro homem, pelo menos enquanto

Projeto Revisoras 45
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Brookhaven vivesse.
Algumas mulheres não se sentiam tolhidas pelos votos. Ela, porém, quando
se casasse, respeitaria os votos feitos ao marido e esqueceria o passado.
Resoluta, procurou com os olhos um alfinete que combinasse com o noivo.
Um momento depois, descobriu um e sorriu. Era a figura em ouro do Minotauro, a
mítica criatura; corpo de homem, cabeça de touro. Não havia razão no mundo para
que aquele objeto a fizesse lembrar dele, mas ela lembrava.
Sem pensar duas vezes, entrou na loja e o comprou. Daria a ele naquela
noite. Se ele sorrisse, saberia que havia feito a escolha acertada.

Rafe sabia que era errado estar perambulando por aquela rua de lojas finas,
na esperança de dar uma espiada em Phoebe quando deixasse o ateliê de
Lementeur. Tinha plena consciência de que estava brincando com fogo, e que
poderia se machucar. E eis que lã estava ela, do outro lado da rua. A tia e as primas
movimentavam-se na frente dela, impedindo-lhe a visão. Elas, porém, se adiantaram
um pouco enquanto Phoebe parou em frente a uma loja.
Era apenas mais uma garota bonita, ele disse a si mesmo. Uma garota
fazendo compras com a família. Não havia razão para que seu pulso disparasse,
para que os pés escapassem da calçada.
Um grito chamou-o de volta à consciência, e ele pulou para a calçada, bem a
tempo de evitar de ser atropelado por uma veloz carruagem. Mas ao sentir os pés no
chão novamente, Phoebe não estava mais lá.
Droga! Ou talvez fosse melhor assim. Ele a veria somente no jantar, cercada
por familiares e criados. Seria uma maneira mais segura de vê-la novamente.
Os aposentos da senhora de Brook House eram enormes e femininamente
decorados em seda creme e um cintilante veludo dourado. Era composto de três
cômodos, incluindo um grande quarto de vestir, rodeado por prateleiras e cabideiros
nos quais caberiam mais vestidos do que Phoebe conseguia imaginar, quanto mais
possuir.
Considerando a saleta contígua, os aposentos eram maiores do que todo o
andar térreo de Thornhold. Duas lareiras em lados opostos estavam acesas,
mantendo o ambiente aquecido contra o friozinho da primavera. Phoebe circulou
pelos aposentos, receosa de esbarrar nas delicadas garrafas de cristal sobre a
penteadeira ou tocar no refinado revestimento de madrepérola da escrivaninha.
Nunca havia visto tamanha grandeza na vida. Aquilo parecia destinado a outra
pessoa, não a ela.
Ela evitou olhar para uma passagem que, discretamente, ligava aos
aposentos do marquês.
— Naturalmente, milady não ficará aqui ainda — disse Fortescue, em tom de
aprovação ao notar a maneira tímida com que ela se comportava nos quartos. —
Mas achei que gostaria de ver os aposentos que ocupará depois de casada.
O lindo dormitório, especialmente aquecido apenas para aquela visita, parecia
sufocá-la. Phoebe fechou os olhos, tomada de medo, e passou a mão pelo pescoço.
Fortescue provavelmente imaginou que sua atitude era fruto dos temores de

Projeto Revisoras 46
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

uma virgem diante do leito nupcial, mas Phoebe pouco se importava com a opinião
dele. Não era a noite de núpcias que temia. Era o próprio casamento.
O vigário, Tessa, Deirdre e Sophie... todos ali estavam, temporariamente.
E ela para sempre.
Aquelas palavras ficaram ecoando em sua mente. O assunto do casamento
era tão... tão permanente. E se ela não gostasse de Brookhaven? E se viesse a
odiá-lo?
Virou as costas para o lindo aposento e abriu os olhos, forçando um sorriso
afável.
— É tudo muito bonito. Poderia agora me mostrar meu quarto?
Fortescue a conduziu pelo hall, passando por inúmeras portas, até chegar a
uma bem distante da do marquês, como se para acalmar seus temores virginais.
Phoebe soltou um suspiro de alívio ao ver o quarto, bonito mas simples. Era
bem espaçoso e a mobília era de bom gosto. A cama era larga e estava coberta por
uma colcha de veludo verde-claro que fazia um bonito contraste com o papel de
parede branco, delicadamente decorado com videiras. Completando o harmonioso
conjunto, o piso era forrado por carpete verde-escuro. Sem dúvida, era um quarto de
hóspedes.
Se o outro aposento era uma gaiola dourada, este parecia uma extensão do
jardim, dando vista para o gramado e as plantas do fundo de Brook House.
Uma aconchegante chama na pequena lareira a recepcionou. Poderia viver lá
para sempre.
Dessa vez, ela se voltou para o mordomo com um sorriso sincero.
— Que lindo! Obrigada, Fortescue.
— Verá que suas coisas já estão guardadas — ele a informou. — Designei
uma moça para ajudá-la. Entendo que milady logo escolherá sua criada pessoal,
mas, enquanto isso não ocorrer, tenho certeza de que achará Patrícia inteligente e
prestativa.
Sua própria criada. De pobre a princesa em questão de horas. Havia sido
mesmo naquela manhã que equivocada-mente aceitara a proposta de Brookhaven?
— Se concordar, milady, gostaria de lhe apresentar todos os criados. Depois
de descansar, é claro.
— Acho que prefiro esperar até ser oficialmente a dona da casa. Até lá, sou
simplesmente uma hóspede como qualquer outra.
— Como desejar, milady. — Fortescue nem piscou, mas cada traço de seu
rosto revelava agora descontentamento. Ele era a cópia perfeita do marquês de
Brookhaven.
Phoebe respirou fundo e foi até a penteadeira para pousar sua bolsa. Lá ela
encontrou uma caixa fina, do tamanho de uma salva de prata, embrulhada em cetim
e enfeitada com um lindo laço de fita.
— O que é isso? Fortescue piscou.
— Lamento não saber, milady — ele respondeu, visivelmente incomodado. —

Projeto Revisoras 47
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Será um presente de milorde?


Mais uma vez Phoebe forçou um sorriso e abriu a caixa.
— Oh!
A caixa era forrada por duas camadas de um finíssimo chocolate. Ela ficou de
queixo caído diante de tanta generosidade.
— Deve ter custado uma fortuna... — Não conseguindo esconder sua
surpresa e alegria, voltou-se para Fortescue encantada. — Como será que ele
soube que eu amo chocolate? Pensei que ninguém no mundo soubesse!
Fortescue continuou olhando para a caixa de forma glacial.
— Bem... milorde é muito astuto.
Phoebe tocou na caixa de cetim. Pensando bem, alguém capaz de ter um
gesto tão gentil merecia uma chance. Ele não era o irmão, mas e daí? Marbrook era
atraente, mas o tipo de homem que gostava de brincar com os sentimentos de uma
dúzia de mulheres em uma só noite. Quanto mais diferente do irmão Brookhaven
fosse, melhor!
Fortescue pigarreou.
— O costureiro mandou avisar que seu vestido logo será entregue. Patrícia
está lá embaixo aguardando que chegue. Gostaria que eu a chamasse para ajudá-la
a se refrescar um pouco?
O vestido e todo o enxoval eram mais uma evidência da generosidade de
Brookhaven. E tudo o que ela tinha para dar a ele era um insignificante alfinete de
gravata.
— Não é preciso, Fortescue — disse, distraída. — Poderia me mostrar agora
onde minha prima Sophie está?
— Ela pediu um quarto do outro lado do hall, oposto ao de lady Tessa.
O quarto realmente ficava no outro extremo do casarão.
— Nossa, Sophie! — exclamou Phoebe, sorrindo para a prima. — Foi tão
horrível assim compartilhar o quarto comigo?
Acomodada no chão, Sophie, que separava papéis de uma pilha, levantou os
olhos.
— Olá, Phoebe. Sabia que Brook House tem uma biblioteca espantosa? Seu
pai está perdido por lá. Acho que não o veremos por dias.
Phoebe não queria ser desleal, mas a idéia era tentadora.
— E não é para se querer desaparecer? A prima a olhou preocupada.
— Você está bem, Phoebe? Pensei que quisesse esse casamento.
— Sim, claro que quero. — Ou pelo menos esperava vir a querer. — É que
tudo está acontecendo muito rápido...
Sophie assentiu com a cabeça.
— Brookhaven é muito competente, não? Acho que nunca vi alguém
conseguir fazer tanto em tão pouco tempo.

Projeto Revisoras 48
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Pois é... — Phoebe se jogou de bruços na cama de Sophie. — Vestidos.


Chocolates. — Ela abriu a caixa e ofereceu à prima. — Um lindo quarto... — Rolou
na cama e contemplou o teto; — Às vezes acho que deveria dizer a ele que não
precisa exagerar. Estou me sentindo um pouco... sufocada.
— Pare de se queixar — reprimiu uma voz seca vinda da porta. Deirdre
entrou no quarto e olhou com cobiça para os chocolates, mas não aceitou. — Soube
pelo mordomo que você pediu um quarto longe do de Tessa, Sophie. Pena que não
tive essa idéia.
— Pois fico contente que você não teve — retrucou Sophie, examinando os
papéis em seu colo. — Tessa trataria logo de se mudar para perto também.
Melindrada, Deirdre respondeu tensa.
— Tessa não implicaria com tanta freqüência se você não desse esse prazer
a ela! Sinceramente, Sophie às vezes você usa de umas franquezas que até eu
sinto vontade de lhe dar uns tapas.
Sem parar o que estava fazendo, Sophie respondeu:
— Por que eu deveria deixá-la pensar que concordo com as maldades dela?
Deirdre a encarou.
— Por uma questão de sobrevivência, querida. Sophie franziu a testa.
— É isso que acontece com você, Deirdre? Você apenas sobrevive?
Deirdre ficou quieta por um momento e depois forçou um sorriso no estilo de
Tessa.
— De onde surgiu essa idéia? — Jogando a cabeça para trás, ela se virou e
saiu do quarto.
Sophie a observou sair, depois se voltou para Phoebe, que se mantivera
quieta, acompanhando com o dedo o desenho da colcha.
— Você acha que Deirdre é muito infeliz?
Nesse momento, Phoebe sentiu a necessidade de chacoalhar Sophie um
pouquinho. Pulando da cama, ela se pôs em pé.
— Sim, eu, e todos os que passam mais de quinze minutos com ela,
achamos. E quem não seria depois de passar a infância à mercê de Tessa? A
questão, Sophie, é por que você se deu conta disso só hoje?
Antes de ser vítima de mais uma resposta atravessada da prima, Phoebe saiu
do quarto. Uma vez no hall, ela respirou fundo e fechou os olhos, orando por
tolerância e paciência, coisas que uma boa filha de vigário deveria ter de sobra.
Duas semanas naquela casa com Marbrook, Brookhaven, Tessa e as primas
guerreando.
Talvez o dia do temido casamento custasse a chegar.

Rafe estava em sua suíte, praticamente escondido — sem mencionar que


abrira a garrafa de uísque muito cedo. Tentava não escutar o barulho vindo dos
quartos de hóspedes, no andar de baixo.

Projeto Revisoras 49
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Teria ela gostado dos chocolates? Será que ela pensava nele?
Não seja estúpido! Pare já com isso!
Não dá para evitar.
Então beba.
Ele engoliu o que restava no copo, depois se esparramou na poltrona perto
do fogo, com os pés estendidos em direção às chamas embora não sentisse frio.
Como poderia sentir frio quando ela estava sob o mesmo teto? Deus, Phoebe
estava em toda parte; à mesa de jantar, no hall à noite, banhando-se no quarto à luz
do fogo...
Ele grunhiu e encheu mais um copo. Ficaria escondido no quarto nas
próximas duas semanas. Com sorte, e se a adega de Brook House tivesse estoque
suficiente, permaneceria bêbado até que o feliz casal partisse em lua-de-mel.
Por ele, deixaria aquela casa imediatamente, mas Calder nunca o perdoaria
se faltasse à cerimônia, e, em hipótese alguma, contaria ao irmão a verdade.
Pensando nisso, eis que Calder materializou-se, projetando-se sobre ele, com
uma expressão reprovadora ao ver a garrafa vazia.
O irmão procurou alertá-lo.
— Minha noiva acaba de chegar. Agradeço se você causar boa impressão à
família dela. — Ele cruzou os braços. — Ou seja, não se meta com as primas de
Phoebe.
Rafe levantou a mão direita e colocou a esquerda no peito, debochando.
— Prometo solenemente não me meter com as primas de sua noiva.
— E não beba mais antes do jantar.
Rafe olhou para a garrafa quando o irmão saiu do quarto.
— Droga, odeio quando ele tem razão.

Deirdre perambulou pela casa, parando para passar a mão pelo bocal de um
grande vaso chinês que decorava a mesa do hall. Brook House exalava riqueza,
conforto e limpeza.
Ela suspirou com uma certa inveja. Sua casa em Woolton sofrera muito por
causa do relacionamento de Tessa com a criadagem... embora seus próprios
aposentos fossem impecáveis e bem aquecidos. Apesar da satisfaçãozinha de ver a
impotência de Tessa diante do desprezo generalizado dos criados, ela sentia falta do
tempo em que o pai vivia, quando havia fogo generoso nas lareiras e jantares
deliciosos.
O mesmo devia ocorrer naquela casa. A senhora de Brook House viveria uma
vida de luxo incomparável, servida por criados atenciosos, mimada pelo marido, livre
para fazer o que quisesse devido a seu status e riqueza.
E Phoebe era a lady de Brook House, ou seria em semanas. Deirdre lutou
contra uma onda de ressentimento. Ela ficaria com tudo, com a casa, a herança... e
o próprio Brookhaven. O pior é que ela nem parecia satisfeita! Phoebe estava
realizando todos os sonhos que ela, Deirdre, acalentara na imaginação e, apesar

Projeto Revisoras 50
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

disso, estava pálida e relutante como um prisioneiro a caminho da forca.


Seria o suficiente para que ela odiasse Phoebe... se não tivesse tanta pena
dela. Deus, que pai ela tem! Tessa podia ser uma cadela vil e desapiedada, mas a
guarda dela era temporária, e quanto mais temporária fosse, melhor,
Mas o vigário, como Phoebe o chamava, era frio e distante na mesma medida
em que Tessa era intrometida. Ele parecia nem notar que Phoebe estava
obviamente infeliz com o compromisso, que estava a cada minuto mais calada e
abatida.
Naturalmente, Brookhaven, um grosseirão, era igualmente desatento. Ele
pegara Phoebe pelo braço e falara com ela, sem realmente vê-la.
Nunca permitiria que um homem assim me ignorasse. Eu o faria me enxergar,
Eu o faria sofrer por mim.
Deirdre percorreu o hall abrindo uma porta atrás da outra. Cada cômodo lhe
parecia mais requintado do que o anterior. Finalmente, ela abriu uma porta que dava
para uma saleta privativa que a deixou de respiração suspensa.
As paredes eram revestidas por lambris que mostravam lindas paisagens. Um
cortinado de veludo pálido emoldurava grandes janelas que davam para o jardim.
Móveis em fino ébano pareciam flutuar sobre o luxuoso carpete azul tal qual barcos
singrando o mar. Ela teve ímpeto de entrar e se sentar diante da delicada
escrivaninha que, obviamente, seria da dona da casa. O lugar em que ela planejaria
o cardápio e administraria os assuntos da casa.
Phoebe provavelmente passaria suas tardes ali.
Deirdre fechou a porta com um tranco. Maldita Phoebe!

Em Brook House, os convidados começavam a chegar para o jantar, Phoebe


procurava não se deixar dominar pelo nervosismo enquanto aguardava para ser
apresentada a todos. Tinha consciência de que nunca estivera tão bonita na vida.
O vestido de Lementeur era uma preciosidade. Confeccionado em seda, de
um azul profundo, tinha como único enfeite uma faixa de veludo sob o busto.
Embora de linhas simples, era extremamente elegante. Sua cintura nunca parecera
tão fina e seus seios tão altos. Ela não queria nem olhar para baixo, embora Sophie
tivesse lhe assegurado que o decote não era maior do que os usados por muitas
mulheres respeitáveis da sociedade,
— É que você ficou com uma silhueta incomum — dissera Sophie, com
admiração e sem o menor sinal de inveja. — Vai deixar Brookhaven sem fala.
Brookhaven estava mesmo mudo, mas não por admiração. Ele enrugou
ligeiramente o cenho ao vê-la, como se ela não fosse absolutamente quem ele tinha
em mente. Também foi igualmente inexpressivo diante do presente dela, apesar de
agradecer devidamente e colocá-lo na gravata.
Enfim havia chegado a hora.
Lá estava Marbrook, do outro lado da sala, quando Phoebe entrou de braço
dado com o noivo. Seu olhar, magnetizado, se dirigiu diretamente para ele. Rafe a
fitou e depois imediatamente desviou os olhos. Ela endireitou o corpo e levantou o
queixo. Ele não lhe devia nada, nem mesmo uma explicação. Uma noite apenas não

Projeto Revisoras 51
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

significava nada.
Phoebe voltou sua atenção para os outros convidados, determinada a fazer
com que o marquês e o vigário se orgulhassem da futura marquesa de Brookhaven.
Ela sorriu, cumprimentou os convidados, falou baixo, evitou dar opiniões, tudo como
Tessa a havia instruído. Perfeita em todos os sentidos.
Mas não estava agüentando consigo mesma.
Se eu fosse apresentada a mim mesma, não iria querer me encontrar de
novo.
Se ao menos afastasse lorde Rafe Marbrook da mente... Até então ele não
lhe dirigira mais o olhar.
Pelo contrário, permanecia de braços cruzados e de cara amarrada. Os
convidados o evitavam, bem como Brookhaven que de vez em quando lançava um
olhar intrigado para o irmão.
Calder, por outro lado, estava mais expansivo aquela noite. Não que sorrisse,
mas tinha uma expressão suave no rosto e falou uma ou duas vezes.
Phoebe observava os dois irmãos: um, a quem tinha prometido casamento; e
o outro, que havia perdido e com quem só lhe restava sonhar. Eram ambos
belíssimos e bem-nascidos; ela se perguntava o que cada um deles teria visto nela.
Era uma sorte Brookhaven ter posto os olhos nela. Muita... muita sorte. Era a
garota mais sortuda de Londres.
Por que então sentia o coração partido?
Rafe quase não reconheceu Phoebe ao vê-la entrar acompanhada de Calder.
Estava lindíssima naquele vestido azul, coincidência ou não, a cor favorita do irmão.
Os cabelos estavam presos e não havia uma mecha sequer fora do lugar. E nos
lábios ostentava um discreto sorriso, na medida certa.
Ela poderia ser descrita como uma irmã mais contida de Phoebe, embora o
vestido fosse uma verdadeira celebração ao pecado. Mas onde estava aquele brilho
desafiador nos olhos? Onde estava aquele cabelo rebelde que pedia para ser
desmanchado? Onde estava a jovem que provara seu primeiro champanhe e
acabara em seus braços?
Phoebe olhou na direção dele e ele rapidamente desviou os olhos. Podia,
entretanto, ver a imagem dela refletida no enorme espelho que ficava do lado oposto
do salão. Era perfeito. Ela jamais desconfiaria que estava sendo observada.
Ele pôde então acompanhar cada passo que ela deu pelo salão ao lado de
Calder. A cada sorriso, a cada cumprimento, ela se comportava de maneira
impecável, embora parecesse tão... distante. Agia como se estivesse em um sonho.
Eu poderia acordá-la, se quisesse. Poderia arrastá-la para o terraço escuro e
fazê-la voltar à vida.
Não devia alimentar esses pensamentos traiçoeiros. Ela agora era de Calder,
inacessível como a lua.
E então ela surgiu à sua frente, ainda de braço com Calder. Era simplesmente
impossível fugir da presença dela, como gostaria.
— Você parece que está plantado aí esta noite — disse Calder, em tom

Projeto Revisoras 52
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

cordial. — Ainda está preocupado com aquele lavrador?


O tal lavrador era o pai de sete filhos e tinha uma esposa doente. Ele havia
sido um colono produtivo e próspero até que as últimas tinham devastado suas
plantações. Para Calder, o pobre homem não passava de uma máquina que não
funcionava bem e precisava ser reposta. Para Rafe, no entanto, ele era um membro
da família Brookhaven, e Calder se recusava a ajudar o homem a se recuperar.
Calder, porém, não lhe dera ouvidos e nada havia que pudesse fazer. Uma
raiva surda se apossou dele, ainda mais alimentada pela visão da mão de Phoebe
no braço do irmão.
— Fazendo a ronda pelo salão, Calder? Contou os passos para fazê-la de
maneira mais eficiente da próxima vez?
Calder levantou a sobrancelha.
— Não foi necessário. Meus criados se incumbiram de acompanhar os
convidados a lugares dispostos por ordem de importância para que eu não
desperdice tempo cruzando o salão de um lado para o outro.
Rafe notou que Phoebe olhou surpresa para o rosto de Calder. Era valiosa a
expressão do rosto dela e parecia dizer: Ele está falando a sério?
Rafe não conteve o riso.
— Ele está falando absolutamente a sério, Phoebe.
Os olhares dos dois se encontraram. Rafe sentiu um arrepio de antecipação
percorrer seu corpo. Ele endireitou o corpo e fez uma mesura.
— Sua aparência esta noite é a da futura marquesa, em cada detalhe,
Phoebe. Foi meu irmão quem escolheu seu vestido?
Ela pareceu hesitar, mas depois retribuiu o cumprimento, curvando-se, e deu
a resposta adequada:
— Fico lisonjeada que pense assim, milorde, mas o vestido foi, de fato, uma
sugestão de meu costureiro. Por que pergunta?
Ao erguer o corpo, ela levantou os olhos para ele.
Rafe teve a sensação de que uma descarga elétrica lhe percorria a espinha
diante das promessas contidas naquele olhar.
Oh, Deus! Ela é minha.
Sua mulher, nos braços de seu irmão, na casa de seu irmão, na cama de seu
irmão...
Então ela desviou os olhos e a magia foi interrompida.
Rafe procurou se ater a qualquer detalhe para tirá-la do pensamento. Ele
abaixou os olhos e o alfinete de ouro na gravata do irmão captou sua atenção.
— O Minotauro? — Ele retesou o corpo, levantando a sobrancelha.
Calder tocou na gravata.
— Presente de minha noiva.
Rafe soltou uma sonora gargalhada, cobrindo a boca com a mão ao olhar
para Phoebe. Ela evitou o olhar dele, procurando não rir também.

Projeto Revisoras 53
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

E claro que Calder não havia entendido o motivo.


— O que foi? — perguntou ele com ar de inocência.
— Seu irmão deve ter achado o presente pertinente — Phoebe aparteou. —
Embora eu possa estar enganada.
O casal se afastou e Phoebe não ousou lançar mais nenhum outro olhar para
Rafe.
Ele sentia-se extremamente confuso. Parecia que duas pessoas completa-
mente diferentes conviviam dentro dela. Era muito louco. Só podia estar imaginando
aqueles lampejos de desejo no olhar dela. Phoebe não passava de uma jovem
bonita, como centenas de outras. Já que Calder a queria, que ficasse com ela.
Mas por que esse pensamento não o satisfazia? Talvez porque lhe ficasse
martelando na cabeça e não parecesse verdadeiro.
Rafe era de fato alto, bonito e atraente. Mas era o homem errado. Phoebe
deu as costas a ele determinada a dar a Brookhaven a chance secretamente
prometida.
— Você dá um grande valor à eficiência, não é, milorde?
— De fato. Quando eu tinha treze anos, meu pai me contou que um dia eu
teria responsabilidade sobre duas grandes propriedades. Lembro que ele disse:
"Você precisará estar em dois lugares ao mesmo tempo, filho".
— Que perspectiva intimidante! — E que fardo pesado para se colocar nos
ombros de um menino de treze anos, Phoebe pensou.
— Foi mesmo, Para me preparar para esse dia, comecei a fazer pesquisa
sobre eficiência. Fiquei fascinado pelas novas práticas empregadas nas fábricas
modernas. Comprei minha primeira fábrica aos vinte e um anos. Desde então
acumulei várias, e todas são hoje muito mais produtivas do que quando as comprei.
Phoebe receou que seus olhos a traíssem.
— Um passatempo dos mais divertidos — comentou, procurando disfarçar
que só ouvira uma ou outra palavra do que o noivo dissera.
O breve silêncio que se seguiu a fez compreender que fizera algo errado. Ao
levantar os olhos, viu um ar de reprovação no rosto de Calder. Só podia ser por ter
chamado a paixão dele de passatempo. Procurando se corrigir, ela concluiu:
— ...E tão produtivo!
Calder resmungou alguma coisa, mas pareceu relaxar. Era realmente difícil
ler as poucas nuances de um rosto quase sem expressão.
Phoebe procurou então tecer um comentário que demonstrasse seu interesse
no que o noivo lhe dizia.
— Seu irmão não poderia assumir um pouco dessa sua sobrecarga? Duas
propriedades, dois filhos... não seria mais eficiente?
O longo e pesado silêncio de Brookhaven, e de todos ao seu redor, fez com
que ela percebesse que cometera outra gafe, e ainda pior. O que teria dito de errado
dessa vez?
Uma voz grave lhe disse ao ouvido:

Projeto Revisoras 54
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Meio-irmão, Phoebe.
Ela virou a cabeça e se deparou com Marbrook a seu lado, com um sorriso
irônico nos lábios.
— Milorde?
Ele se inclinou mais um pouco e ela quase pôde sentir a respiração dele em
sua orelha.
— E do lado errado da cama.
Oh, céus, Marbrook era um bastardo, fato que obviamente era do
conhecimento comum. Ele tinha o nome de família e o título de lorde, ou seja, um
daqueles raros bastardos aceitos.
Sem herança, sem um título maior, sem propriedade. Tão pouco enquanto
seu meio-irmão tinha tanto!
— Ah! — Ela olhou sem-graça para Rafe. O que poderia dizer? — Perdoe-me
pela indiscrição. Ele esboçou um sorriso.
— Não precisa se desculpar, não é culpa sua. Foi tudo coisa do velho
marquês. — Ele olhou para o irmão e seu sorriso se transformou em um ricto
amargo, cujo significado Phoebe não conseguiu captar, exceto que Marbrook não se
sentia muito feliz. — Não é mesmo, Calder?
— É. — O tom de voz de Brookhaven não podia ser mais seco. Ele olhou
para o irmão impassível. — Foi um belo presente. Um irmão novinho, do meu
tamanho exato, para dividir meus brinquedos.
Rafe gargalhou, sem o menor humor.
— E todas as garotas.
— Nem todas. — Brookhaven apertou a mão de Phoebe e a colocou em seu
braço. — Vamos, minha querida, você ainda não conheceu nossos vizinhos.
Phoebe acompanhou o noivo, mas lançou por sobre o ombro um olhar para
Marbrook. Ele permaneceu no centro da sala de visitas, sozinho, com os olhos
escuros cravados nos dela.
Não se afaste de mim, aquele olhar dizia.
Ela, porém, não tinha escolha a não ser se afastar.
Poucos minutos depois de Brookhaven ter se afastado com Phoebe,
Marbrook saiu da sala. Dando uma desculpa ao noivo, ela também saiu e conseguiu
alcançá-lo no hall.
— Marbrook, espere! Rafe parou relutante.
— O que foi? Com o rosto corado e uma certa vulnerabilidade nos olhos
azuis, ela soltou as saias que arrebanhara para correr atrás dele e, respirando
fundo, disse:
— Por favor, me desculpe. Eu não sabia nada sobre... as circunstâncias de
seu nascimento.
Rafe assim ficou sabendo que não fora por causa de sua origem que a havia
perdido. Ela estava atrás de um título. Ele levantou as sobrancelhas com uma
expressão indagadora.

Projeto Revisoras 55
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Entendo. Mais alguma coisa?


Phoebe corou novamente e fixou os olhos nas mãos, conservando-os baixos.
— Não, simplesmente desejava... agradecer por não ter mencionado nada a
seu irmão sobre ontem à noite.
— Nada havia a dizer. Dançamos e conversamos, e esta manhã você aceitou
a proposta de casamento dele.
— Eu não... eu... Foi idéia sua de que ele me pedisse em casamento? —
perguntou de supetão. Ela o encarou então, decidida a ter uma resposta.
— Que diferença faz? Eu a mostrei ao meu irmão. É evidente que ele gostou
do que viu e, se você aceitou, é porque deve ter gostado dele também.
Phoebe sentiu que algo precioso começava a morrer dentro dela.
— Entendo perfeitamente. Como se você verificasse os dentes de um cavalo
para que ele o comprasse, não é?
— Se é assim que você quer interpretar...
Subitamente Phoebe desejou não ter nada a ver com nenhum dos dois.
Calder era frio e carrancudo e Rafe era obviamente volúvel ao extremo.
Apesar de tudo, como abrir mão de uma união vantajosa? Com riqueza e um
título teria muito mais chances na vida do que como a maculada filha de um vigário.
Ainda que estraçalhada por dentro, ela sorriu educadamente, fez uma
reverência, endireitou o corpo e estendeu a mão para ele.
— Bem, se você não está aborrecido com isso, por que eu deveria estar?
Vamos entrar para jantar?
No mesmo instante, Rafe lamentou a distância que havia imposto. Já sentia
falta dela. Deu alguns passos para a frente até ficar tão junto dela que pôde sentir
seu hálito suave e o sutil perfume floral de sua pele.
Aquela proximidade era mais excitante do que um toque, Phoebe pensou.
Estava tão perto dele que podia sentir seu discreto perfume masculino. Só queria
que seus pulmões se enchessem daquele aroma, sem remorso. Não estava fazendo
nada errado. Mantivera-se onde estava, com as mãos dos lados e o olhar baixo.
Quando ela levantou os olhos, Rafe nada viu no azul profundo deles. Não
mostravam qualquer reação. Nenhum brilho, nenhum calor.
O cheiro dela é divino.
Mas toda mulher usava perfume. Depois do banho, todas tinham um cheiro
agradável.
Ela seria carinhosa e macia em meus braços, em minha cama. Ela geraria
filhos lindos e risonhos e conversaríamos durante as refeições, durante todos os
anos de nossa vida.
Novamente, nada de singular nisso. Muitas mulheres preencheriam esse
perfil.
Ela me faria esquecer qualquer outra mulher.
Ou talvez já o tenha feito.

Projeto Revisoras 56
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Esse pensamento era perigoso e o fez dar um rápido passo para trás.
— Estarei lá em um momento. — A voz dele soou enrouquecida. Deus,
permita que a emoção em minha voz não tenha me traído. — Vá... vá ter com
Calder. Ele deve estar esperando por você, e de todo jeito você estará melhor com
ele. — Esboçou um sorriso amargo. — Agora você provavelmente já sabe tudo a
meu respeito.
Ela levantou o queixo e deu um sorriso perfeito, distante, que não revelava
absolutamente nada.
— Eu o vejo no jantar, então. Como Rafe detestou aquele sorriso.
Phoebe se voltou e caminhou de forma serena. Ele a observou, sentindo algo
precioso morrer dentro dele.
Tessa se afastou da porta, da onde tinha uma fascinante visão do hall, e uma
vez mais se infiltrou entre os convidados reunidos na sala de visitas.
Aquela dissimulada filha do vigário tinha um segredo... e agora ela também
tinha um.
Pois Tessa sabia que Phoebe era uma criatura volátil. Como a pólvora, ela
estava perfeitamente segura até que alguém acendesse um fósforo por perto.
O atraente e difamado lorde Raphael Marbrook poderia bem ser o homem
que faria isso.
Tudo indicava que, afinal, o jogo ainda não estava ganho.
Quando Phoebe retornou à sala, Tessa conversava com Deirdre em um
canto. Quando Marbrook se juntou novamente aos demais, Tessa ria junto a lorde
Brookhaven, embora ele não tivesse contado anedota alguma.
A noite prometia ser instigante.
O jantar estava delicioso, a julgar pelo apetite dos convidados. Phoebe se
serviu, procurando não demonstrar sua agitação interior.
Nunca antes se sentira como uma impostora. Certamente não era nada do
que as pessoas viam nela e menos ainda a virtuosa filha do vigário como
Brookhaven a via!
Marbrook fora a única pessoa que tivera uma percepção de quem ela
realmente era — e ela estragara tudo.
Mas você realmente se ligaria a um bastardo malfalado?
A dúvida se apossou de sua mente. Ela ponderou que o enxergava melhor do
que todo mundo, mas e se estivesse errada? Como poderia ter certeza? O próprio
Marbrook não parecia desmentir a própria história.
Não, ela estava onde deveria estar. Se não era a mulher que todos
pensavam, se esforçaria por ser. Iria se tornar uma marquesa e, algum dia, uma
duquesa.
Assim pensando, pousou os talheres no prato. Em volta dela o jantar
prosseguia como se não estivesse presente. Alguém lhe dirigiu a palavra, e ela
sorriu e respondeu, sendo incapaz de, um minuto depois, lembrar o que havia dito.
Uma convidada perguntou a Brookhaven sobre os planos de casamento. Ele

Projeto Revisoras 57
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

a olhou com um surpreso.


— Os proclamas já estão correndo e já foi reservada a data na igreja. Não
preciso de mais planejamento além desses.
Todas as damas à mesa reagiram com espanto. Phoebe manteve o olhar no
prato. Não era preciso grandes comemorações quando o assunto não passava de
uma transação comercial, como qualquer outra.
Nada de flores, nada de uma multidão sorridente para desejar felicidade ao
casal?
Nada, ela respondeu à sua voz interior. Era uma tolice e um desperdício...
Phoebe ainda tinia diante da presença de Marbrook um pouco mais adiante,
do outro lado da mesa. Ela não ousava dirigir o olhar para ele, pois sabia que ele
perceberia sua confusão. As pessoas sentadas próximas a ele o mantinham
envolvido em uma conversação, e ela se entretinha ouvindo fragmentos da voz dele,
que aquecia seu coração.
Rafe lutava para se manter impassível ao observá-la. Sua Phoebe estava
exuberante naquele vestido azul que lhe ressaltava as curvas e fazia sua
imaginação perambular por um território proibido. Era insuportável vê-la tão próxima,
mas ele não conseguia tirar os olhos dela. Por mais que pensasse que uma única
noite não tinha importância alguma, havia algo nela que não conseguia tirar da
cabeça.
Ele sabia que ela fora feita para ele, que ela era a mulher de sua vida, que
poderia fazê-la feliz...
Então ele surpreendeu ao olhar para ela por um momento apenas. Havia algo
trágico e vulnerável naquele olhar que mexeu profundamente com ele. A prima,
porém, falou com ela e Phoebe se voltou para responder, quebrando a magia
existente entre eles.
A atenção de Phoebe repentinamente ficou dividida, pois as senhoras
presentes davam conselhos a Brookhaven sobre a cerimônia do casamento, e ele
parecia acuado.
Tessa acenou com a mão.
— Ora, não se preocupe, milorde, tenho muita experiência no assunto...
Ninguém prestou atenção nas palavras dela. Ela tentou novamente, mas
ninguém pareceu ouvi-la. Notoriamente felina, ela parecia não entender que não
teria vez ali. Não se conformando, dirigiu um sorriso luminoso à mesa em geral.
— Ah, eu tenho uma história muito interessante, É sobre nossa querida
Sophie.
Essa não! Phoebe observou Sophie se encolher na cadeira. Feito, aliás,
quase impossível para alguém da estatura dela.
A mesa toda se voltou, polidamente, para Tessa. Phoebe teve ímpetos de
gritar para que não dessem ouvidos a ela.
Tessa se empertigou toda.
— Em primeiro lugar, devo esclarecer que, embora tenha convidado Sophie
para esta viajem a Londres, não tive qualquer resposta da mãe dela, nem uma

Projeto Revisoras 58
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

notinha sequer. Então, quando já estávamos instaladas em nossa pequena casa há


uma semana, ela chegou sem aviso, com apenas uma sacola de roupa e uma mala
de livros. Quando a vi numa capa de chuva, tive a impressão de ter aberto a porta
para um esqueleto! — Ela riu e olhou ao redor para ver se compartilhavam da piada.
Sophie estava lívida e mantinha os olhos no prato. Phoebe sentiu pena dela.
Era evidente que o grupo de amigos de Brookhaven tinha muito mais classe do que
Tessa, pois fez-se silêncio e ninguém esboçou qualquer reação a seus comentários.
Aparentemente imune a esse tipo de desaprovação sutil, Tessa soou ainda
mais estridente na tentativa de ser divertida.
— Ah, eu mencionei que Sophie fez todo o trajeto de Acton até aqui sozinha?
Não que alguém fosse se meter com uma jovem com a aparência dela, mas...
Phoebe queria jogar algo em Tessa que a machucasse e a fizesse calar a
boca para sempre, mas simplesmente não conseguiu abrir a boca na frente de todos
aqueles convidados e, principalmente, do vigário.
Ela olhou em desespero para Brookhaven, mas ele brincava com as ervilhas
no canto do prato, parecendo sentir o mesmo desconforto que ela.
O socorro veio de quem menos se esperava. Apesar de que ela talvez
devesse esperar. Marbook inclinou-se na cadeira e dirigiu um largo sorriso a Sophie.
— Não sei, não, lady Tessa. Sempre gostei do tipo de mulher independente. E
todos admiramos alguém que goste muito de ler, não é?
Aquelas palavras foram um bálsamo para os presentes e motivaram uma
discussão sobre os romances mais recentes. Completamente excluída do assunto,
Tessa finalmente tomou consciência da desaprovação geral.
Phoebe observou que aos poucos Sophie se recuperava da humilhação,
conseguindo inclusive opinar uma ou duas vezes na conversação quando,
gentilmente, questionada por um dos convidados.
No final, por mais que tentasse, Phoebe não conseguia evitar que seu olhar
percorresse a mesa e se detivesse em Marbrook que a olhava de maneira
penetrante.
Aquele olhar dizia: Está vendo, não sou tão mau assim.
Os olhos dela pareciam sorrir ao encontrar os dele, desculpando-se: Eu sei.
— Phoebe?
Ela teve um sobressalto e corou ao perceber que mantivera o olhar fixo em
Marbrook por vários minutos.
— Oh... por favor, me perdoe, milorde, o que foi que disse?
Brookhaven pareceu não ter notado nada de extraordinário. O que era um
alívio, mas também desconcertante. Que homem era aquele que não percebia a
troca de olhares entre sua noiva e um outro homem por vários minutos?
— Perguntei se você gostou de seu quarto.
— Ah, sim. — Pelo menos essa pergunta ela podia responder com
sinceridade. — É o quarto mais bonito que já vi.
— O mais bonito? Pensei que Fortescue tivesse também lhe mostrado o

Projeto Revisoras 59
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

quarto da marquesa.
— Realmente ele mostrou — Phoebe se apressou em dizer. — Ele é...
esplêndido. — Ela tomou um gole de vinho para ganhar tempo e poder pensar. — É
que eu sou meio parcial com tudo o que é verde.
Brookhaven deu de ombros.
— Então, antes do casamento, vou mandar pintar o outro quarto de verde.
— Não, por mim não! — ela disse alto e várias cabeças, inclusive a do
vigário, se voltaram em sua direção.
O próprio Brookhaven a olhou com o cenho franzido:
— Phoebe?...
Mais uma vez, a voz grave do outro lado da mesa soou em seu socorro.
— Acredito que o que Phoebe quis dizer — Marbrook interveio — é que ela
gostaria de dedicar seu tempo na redecoração de Brook House. As decisões devem
mesmo ser bem pensadas, ou corre-se o risco de ter de se refazer. — Ele sorriu e
completou: — Nem um pouco eficiente, não é?
Brookhaven ponderou um pouco, sem tirar os olhos da noiva.
— É... acho que você tem razão. — Ele então se voltou para o convidado ao
lado e mudou de assunto, perguntando como havia sido a temporada de caça na
propriedade dele.
Phoebe endireitou o guardanapo no colo e, depois de se certificar de que
ninguém estava prestando atenção a ela, lançou um olhar de agradecimento a
Marbrook.
Ele a fitava descaradamente, como não havia feito desde que o jantar
começara. Estava de volta o olhar meigo e provocante.
Céus, estou em apuros!

CAPÍTULO III

Já na manhã seguinte, começaram a chover os convites. Sentada à mesa


para o café da manhã, em companhia de Deirdre e Sophie, Phoebe examinava os
nomes.
— Nem conheço a maior parte dessas pessoas.
— A marquesa de Brookhaven ficará conhecendo — disse Deirdre, sem
esconder uma pontinha de inveja. — Você tinha a ilusão de que nada iria mudar?
— Não que isso me importe — interferiu Sophie —, mas acho que Tessa não

Projeto Revisoras 60
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

gostaria que você aceitasse os convites em que não estejamos também incluídas.
Deirdre fungou na xícara de chá.
— Acho que ela daria à luz, mas não se deixe influenciar por isso. — Ela
pousou a xícara no pires e se inclinou para a frente. — E também não precisa
aceitar nenhum, se não quiser. Brookhaven não se importará. Ele despreza eventos
sociais.
Phoebe piscou.
— Como você sabe? Deirdre a encarou.
— Como você não sabe? É óbvio. Ele prefere fazer contas a dar um passo de
dança.
Que alívio, se fosse verdade. Mas por que não agir como se fosse, até prova
em contrário? Phoebe sorriu para as primas.
— Obrigada, vou seguir o conselho de vocês. Assim, Tessa não vai se sentir
rejeitada.
Deirdre voltou a recostar-se na cadeira e esboçou um sorriso seco.
— Nunca subestime a tendência de Tessa de se ofender. Ela é uma
especialista.
Aparentando nervosismo Sophie fitou primeiro Deirdre e depois Phoebe.
— Tem mais uma coisa.
— O que é? — Phoebe logo se interessou. Deirdre deu um suspiro.
— Se fosse comigo, eu gostaria, mas acho que você não vai gostar muito —
disse, criando um certo suspense.
Phoebe olhou de uma para outra.
— Do que se trata? Por favor, me digam.
Sophie pegou um jornal que estava dobrado às suas costas e, meio hesitante,
o passou para a prima, do outro lado da mesa. Ao estender a mão para pegá-lo,
Phoebe comentou curiosa.
— Céus, o que pode ser?
Lá estava ela, na primeira página do jornal. Era uma desenho mal-acabado,
visivelmente feito às pressas, mas, sem dúvida, era ela. A seu lado havia outro, de
Brookhaven, bem melhor, fazendo com que o dela parecesse precário e infantil.
Brookhaven e ela na primeira página do mais popular jornal londrino. Seu
rosto espalhado por toda a cidade. Horrorizada, ela não conseguia desgrudar os
olhos do jornal.
Brookhaven Escolhe uma Noiva!
A filha de um vigário agarra o solteiro mais cobiçado de Londres mal a
temporada começa!
Se a manchete era ruim, o texto era ainda pior.
A Voz da Sociedade descobriu que Phoebe Millbury está na cidade há
apenas uma semana, mas conseguiu a proeza que as mais encantadoras donzelas

Projeto Revisoras 61
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

de Londres não conseguiram nas três últimas temporadas. Ela fisgou um dos mais
cobiçados homens da Inglaterra, o elegante lorde Brookhaven! E não foi só isso,
Acreditem, ela o conquistou usando um modelo de musseline com mangas bufantes
do ano passado!
Phoebe sentiu um aperto no peito. Colocou o jornal sobre a mesa e respirou
várias vezes, mas foi empalidecendo. Sophie pulou da cadeira, assustada.
— Dee, ela vai desmaiar!
Sophie e Deirdre levantaram-se e correram até a prima. Apoiaram suas mãos
nas costas dela e a fizeram curvar-se para a frente até pender a cabeça sobre os
joelhos.
— Respire fundo — Deirdre recomendou. — Você terá de se acostumar com
isso. Como duquesa de Brookmoor, bastará dar um espirro para ser notícia nos
jornais.
Cada movimento seu seria observado. Ter de ser um exemplo no vilarejo já
havia sido estressante. Agora estaria sob a mira da sociedade para o resto da vida.
E daí? Deixe que observem. Você será uma duquesa.
Uma duquesa rica por mérito próprio. E imune a qualquer comentário. Não
deveria esquecer dessa palavra.
Imune.
A respiração de Phoebe se normalizou, e ela sorriu para as primas.
— Obrigada. Já me sinto melhor.
Deirdre deu um risinho debochado e voltou para seu lugar.
— Desmaiar por causa de um mexeriquinho desses... Phoebe ficou
pensativa.
— Você tem razão. Afinal, quem lê esse tipo de notícia? As duas primas a
fitaram espantadas.
— Todos! — respondeu Sophie, e Deirdre concordou com a cabeça,
mastigando um pedaço de torrada.
— Oh... — Pouco importava. Ela não se deixaria intimidar por essas
bobagens.
Sophie suspirou aliviada ao ver que não havia ninguém na saleta de estar. A
biblioteca não era tão aconchegante quanto essa sala ensolarada, especialmente à
tarde. E sempre havia a possibilidade de topar com o vigário lá.
Nesse sentido, era muito melhor estar em Brook House do que na casa
alugada. Para onde quer que se voltasse, ali sempre havia uma prima ou uma
criada. No velho solar que habitava, ela circulava livremente, evitando com facilidade
a presença tios raros criados. Apenas o toque do sino à cabeceira da mãe a tirava
de vez em quando de seus estudos.
Em Londres, porém, o ritmo da vida era mais agitado. Ela sentia prazer em
observar todo aquele burburinho, mas não de participar dele.
E por que deveria? Pouco lhe importava competir pela fortuna de Pickering,
pois não teria qualquer chance de ganhar da elegante Deirdre ou da viçosa Phoebe.

Projeto Revisoras 62
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Só estava em Londres para fugir de Acton e de seu servilismo lá.


Sentando-se à mesa de carteado, ela esparramou suas anotações sobre uma
coleção de folclore que estava traduzindo do alemão. Histórias muito fascinantes...
Phoebe escondia-se de Tessa, que estava com um humor beligerante por
causa da arrasadora derrota da noite anterior para Marbrook, embora ela jamais
admitisse uma coisa dessa. Por isso, o mais prudente seria uma retirada tática.
A saleta de estar estava vazia, embora na mesa de carteado, estivessem
espalhadas as anotações de Sophie. Phoebe aproximou-se para dar uma espiada,
sem contudo tocar nelas.
Deirdre apareceu à porta um tanto relutante em entrar, mas, depois de lançar
um olhar para o corredor, acabou entrando e fechou a porta.
Na realidade, Phoebe estava se escondendo de todos, mas principalmente de
Deirdre. Ela procurou conter um suspiro de desânimo.
— De quem você está se escondendo, Dee? Deirdre deu de ombros e riu.
— Ora, de ninguém. Que pergunta boba! — dizendo isso, ela se escarrapa-
chou no sofá de maneira bem pouco adequada para uma dama, cobrindo os olhos
com o braço e soltou um suspiro.
Phoebe olhou para a porta, indecisa, e achou melhor não correr o risco de
sair e cruzar com Tessa pelo caminho. Não queria cutucar a tigresa com vara curta.
Acomodou-se em uma poltrona junto à mesa de carteado, alisou as saias e fechou
os olhos.
A porta foi aberta de súbito e Sophie entrou como se estivesse sendo
perseguida, fechando-a em seguida. Voltando-se, deu com a presença das primas
que a olhavam, surpresas.
— Oh! — Sophie parecia estar vendo fantasmas. — Saí só por um minuto
para ir buscar tinta e...
Phoebe não pôde deixar de rir.
— Por que não fingimos que as outras não estão aqui? Deirdre sorriu e voltou
a cobrir o rosto com o braço.
Sophie olhou de uma para a outra, e depois se sentou ao lado de Phoebe.
Phoebe fechou os olhos novamente, ainda sorrindo. Ela sempre ficava se
perguntando se teria algo em comum com as primas. Sabia agora que todas temiam
a ira de Tessa.
Alguém pigarreou. Ela abriu os olhos e viu Sophie examinando os papéis,
com um brilho nos olhos. Ela propôs então timidamente:
— Vocês gostariam que eu lesse minhas traduções? No trajeto para Londres,
dei com um verdadeiro achado em uma livraria. É uma coleção de contos populares
da Alemanha.
Phoebe pensou que preferiria bater a cabeça no chão a ter de ouvir um texto
árido, mas quando a alternativa era um possível encontro com Tessa...
Ela se inclinou na cadeira para olhar o papel mais próximo.
— É muito longo?

Projeto Revisoras 63
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Sophie era toda entusiasmo.


— Garanto que vocês vão adorar! — Ela pegou o papel que Phoebe acabara
de olhar. — Este, por enquanto, é um dos meus favoritos. Muito romântico... —
Hesitou, esperando que Deirdre fosse caçoar, mas Dee ouvia até com boa vontade.
Aparentemente, qualquer tipo de distração era válido para não ter de enfrentar
Tessa.
Sophie limpou a garganta novamente e começou a ler. Era a história de uma
princesa que, devido a uma maldição, acabou presa em um castelo cercado de
espinhos. Linda como era, tinha vários pretendentes que, na tentativa de salvá-la,
acabavam morrendo perfurados pelos espinhos.
A narrativa era cheia de lances dramáticos, e as primas acabaram se
comovendo com o drama da infeliz princesa.
Deirdre dobrou o lenço para encontrar uma ponta seca para assoar o nariz.
Phoebe fungou:
— Que destino triste da pobre princesa... viver trancada, castigada para
sempre...
Sophie tentava secar as próprias lágrimas que caíam nas anotações.
— Não consigo traduzir mais nada. Estou exausta e meus olhos estão
ardendo. — Ela tirou os óculos e olhou para as primas.
— Não devia usá-los — Deirdre comentou. — óculos são verdadeiros
repelentes de homens. Estranho, não? Afinal, a maioria não está nem um pouco
interessada nos olhos, não é? Sophie se voltou para ela, curiosa.
— Como assim?
— Só estão interessados em peitos e traseiros — retrucou Deirdre,
irreverente.
Sophie corou, e Phoebe caiu na gargalhada.
— Ela tem razão.
Sophie recolocou os óculos e olhou para as duas.
— Ainda bem que não estou à caça de marido porque essas são justamente
as armas que me faltam.
— Você pode conquistar um modesto banqueiro ou, talvez, um estudioso de
letras — Deirdre a consolou.
Sophie piscou, cobrindo o rosto com as mãos.
— Mas eu sou tão desajeitada, uma bobona quando... — ela levantou o rosto
e fitou as primas desconsolada — ...tenho que falar com um homem, vocês nem
imaginam, as palavras não saem!
Deirdre inclinou-se para a frente, entre perplexa e fascinada ao mesmo
tempo.
— Nunca?
Sophie confirmou com a cabeça.
— Isso é ridículo. Você deve falar com os criados de Acton — contrapôs

Projeto Revisoras 64
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe.
Sophie mais uma vez negou com a cabeça.
— Não temos criados. Minha mãe diz que a cabeça dela dói ao ouvir voz
grossa, por isso não temos contato com homem algum.
— Um mundo sem homens — Deirdre ponderou. — Não sei se fico
horrorizada ou sinto inveja.
A expressão de Phoebe tornou-se grave. Como teria sido sua vida sem a
implacável desaprovação do pai nublando seus dias. Ainda bem que eram dias
passados. Agora era mais uma vez a queridinha dele. Motivada por esse pensa-
mento, ela esfregou as mãos, sugerindo:
— Deirdre, levante-se. Sophie, pegue aquele livro na mesa. — E fez com que
Deirdre desfilasse pela saleta, demonstrando como caminhar com graça.
— Que coisa ridícula! — Aquele tipo de preocupação estava além da
compreensão de Sophie.
Phoebe colocou as mãos nos quadris.
— Bem, essa foi a única coisa que aprendi em minha breve e amarga
experiência com uma governanta. Se você conseguir equilibrar o livro, nunca mais
vai temer parecer desajeitada na frente de um homem. Pelo menos, tente.
Andando de um lado para outro, Deirdre era a imagem da elegância. Ela se
sentou, levantou, fez uma reverência e até mesmo dançou com o livro na cabeça,
como se fosse uma coroa. Phoebe não se conteve e aplaudiu. Deirdre se curvou,
segurando o livro com uma das mãos, e fez um cumprimento teatral.
— Tessa, deve-se reconhecer, é uma professora persistente.
A indecisão de Sophie era evidente.
— Nunca conseguiria andar com aquele livro na cabeça. Só de pensar em
falar... conversar... quanto mais dançar... — Ela estendeu o braço e... mandou um
lindo vaso de cristal ao chão.
Phoebe a olhou contrariada e Deirdre, recolocando o livro na mesa, disse:
— Francamente, Sophie, como você espera se casar um dia se não
consegue nem pensar sem quebrar alguma coisa?
Sophie corou. Os cacos do vaso ficaram cultuando no tapete. Nesse instante,
a porta se abriu e surgiu Tessa, segurando as saias com uma das mãos.
— Céus, o que aconteceu com o vaso? — O tom de voz era igual ao de
Deirdre. Phoebe teve a impressão de que era a prima falando.
Deirdre deu um passo para a frente.
— Sinto muito, lady Tessa. Estava mostrando para Sophie como a senhora
me ensinou a equilibrar alguma coisa na cabeça.
Tessa revirou os olhos.
— E com um vaso? Da próxima vez, trate de usar algo menos valioso, como
um livro! Não que vá ajudar muito a Sophie. Quando não se aprende na ocasião em
que se deixa a escola, nunca mais vai parecer natural.

Projeto Revisoras 65
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ela apontou para os cacos.


— Procure alguém para limpar isso, Deirdre. Sophie cochichou para Deirdre
quando passou por ela.
— Por que você mentiu? Deirdre sorriu de leve.
— Eu nunca minto! Sophie olhou para Phoebe, que apenas riu e sussurrou:
— De fato, ela estava demonstrando como se anda. Em vez do mau humor
anterior, Tessa agora tinha um ar de satisfação no rosto.
— Graças ao status de Brookhaven — ela anunciou —, a lista de convidados
para o casamento inclui a nata da sociedade. O brilho desse evento se refletirá
diretamente em mim, por isso tudo terá de brilhar. Claro que os detalhes maçantes
deixei para os criados. Phoebe, você vai me ajudar. Deirdre, você se incumbe de
sua roupa porque nunca mais terá outra chance de encontrar os melhores partidos
de Londres. Sophie... dê um jeito em seu cabelo e trate de não cair de cara no chão
durante a cerimônia.
A atenção de Sophie estava voltada para suas anotações.
— Está certo, tia.
— Phoebe, venha comigo. Temos muito o que fazer.
Os planos de casamento tiveram de aguardar. Brook House foi o palco de um
verdadeiro desfile de visitantes. A notícia do noivado teve uma enorme repercussão,
e todos queriam conhecer Phoebe.
Segundo Sophie, aquilo era sua versão pessoal do inferno, pois a maioria dos
visitantes eram homens. Phoebe estava lidando muito bem com a situação até notar
que quase todas as mulheres usavam um coque de lado, como o dela.
Ao comentar com Deirdre, a prima revirou os olhos.
— Você deveria se sentir lisonjeada.
Phoebe fez o possível então de se mostrar polida e interessada em todos que
se aproximavam dela.
Deirdre, aparentemente, conseguia passar horas sendo cortejada, embora
não houvesse ninguém à altura de suas expectativas.
Sophie permaneceu sentada no canto mais discreto da sala, evidentemente
absorvida em um livro.
— Lorde Raphael Marbrook!
Rafe. Phoebe teve um sobressalto, sentindo um repentino vigor.
Ele estava parado à entrada da sala de estar e transpirava masculinidade.
Usava roupa escura e tinha uma expressão impassível no rosto, como se preferisse
estar em qualquer outro lugar do mundo.
Como ela sabia disso? Como sabia que ele estava dividido entre querer sair o
mais breve possível e, apesar disso, não conseguir se afastar dali?
Porque era exatamente assim que ela se sentia. A única razão para estar ali,
e não escondida no quarto de hóspedes, era a esperança de vê-lo naquela tarde.
Pela expressão sonhadora das outras jovens na sala, com exceção de

Projeto Revisoras 66
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Sophie, Marbrook afetava todas as mulheres com seu jeito, inclusive as mais velhas.
Ele trocou comentários lacônicos com alguns visitantes bem-nascidos, dirigiu
palavras amáveis às senhoras, cumprimentou Deirdre, Sophie e Phoebe e, depois
de quinze minutos, se voltou para sair.
Phoebe o acompanhou com o olhar dirigir-se à porta. Extraordinário. Somente
o que sentia quando seus olhos se encontravam era melhor do que a visão daquele
traseiro musculoso.
Amigos, ela afirmou a si mesma. Ela e Marbrook não poderiam ser mais do
que amigos.
Assim que os visitantes saíram, os criados puseram-se a arrumar a sala onde
haviam sido recebidos. Rafe observou o movimento deles e, ao passar pela sala
íntima, parou à porta ao ver o topo de uma cabeça castanho-aloirada e a ponta de
um narizinho arrogante. Aquela sala nunca lhe parecera tão convidativa.
Phoebe aparentemente desistira de coordenar as listas do casamento na
mesa de carteado e, para ter mais espaço, as espalhara sobre o tapete. Sentada no
sofá, com o corpo inclinado para a frente e mordiscando a ponta de um l ápis, ela
examinava atentamente cada uma delas.
Não resistindo, Rafe entrou e Phoebe só notou sua presença quando as
botas dele entraram em seu campo de visão.
— Oh!... — Ela levantou a cabeça e seus olhos se iluminaram ao vê-lo.
Ele retribuiu o olhar com um sorriso caloroso. Era impossível permanecer frio
diante daquela recepção.
— O que você está tentando organizar? — Ele se ajoelhou ao lado das fileiras
de papel e deu uma olhada. — É a lista de convidados?
Phoebe assentiu com a cabeça e respirou fundo, fazendo esvoaçar uma
mecha de cabelos que voltou a pousar em sua face rosada.
— Estou repassando as listas há horas, mas simplesmente não consigo
organizar as mesas.
— Pensei que sua tia fosse ajudá-la. Ela comprimiu os lábios.
— Tessa ficou ressentida com um comentário que fiz; disse que eu ia pagar
pela minha boca e saiu ventando de raiva.
Rafe riu e abaixou a cabeça para ler as listas com os arranjos das pessoas às
mesas.
— Não, não. Você não pode sentar o conde de Eastwick perto do prefeito de
Londres. Eles estão no meio de uma briga por causa de uma jovem e encantadora
mulher com quem o conde se envolveu e era amante do prefeito.
Phoebe se surpreendeu.
— Nossa, o que eu ia fazer! — Ela apagou o nome do prefeito, anotou em
outra lista e a entregou para Rafe. — E agora?
Rafe esfregou a mão nos lábios para disfarçar um sorriso.
— Acho que também não. Ocorre que esse cavalheiro é o pai da dita linda
moça.

Projeto Revisoras 67
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Talvez fosse divertido para Rafe, mas Phoebe pareceu desmontar.


— Acho que não vou conseguir fazer isso nunca — ela sussurrou. — Não
conheço as pessoas... não sei nada sobre...
Oh, Deus, lágrimas não!
— Eu conheço todas elas e a maioria de seus segredos. Vou ajudá-la — ele
mais que depressa se prontificou,
Ela se animou por um momento, depois balançou a cabeça.
— Acho que não é uma boa idéia. Não deveríamos... — O olhar que Phoebe
dirigiu a ele foi mais eloqüente do que as palavras.
Rafe esboçou um sorriso.
— Não podemos passar a vida evitando um ao outro, Phoebe. Você está se
casando com meu irmão.
Ela abaixou os olhos para as listas e mordeu o lábio.
— Creio que você tem razão. Afinal, não é como se tivéssemos... — ela
interrompeu o que ia dizer e levantou o queixo para fitá-lo cheia de determinação. —
Muito bem, milorde, só posso agradecer sua ajuda.
Ele sorriu e se levantou, pisando nas listas para sentar-se ao lado dela no
sofá. No mesmo instante, arrependeu-se de seu impulso de ajudá-la. Ela ainda tinha
aquele cheirinho inebriante, ela ainda se encaixava nele como uma peça de quebra-
cabeça, e tudo o que queria era tê-la nos braços para sempre.
Certamente pagava agora por todos os seus erros, pois não poderia haver
maior castigo do que estar em constante confronto com alguém que não poderia ter.
Engolindo em seco, ele forçou um sorriso.
— Então, por onde começamos?
Ela se abaixou para pegar uma lista e se voltou para ele com um sorriso. Os
lábios rosados estavam a apenas um suspiro de distância, e ele tinha total visão do
corpo dela.
Não tinha como evitar. Era um homem liquidado.
Quando finalmente o mapa com a organização das mesas ficou pronto, com
todas as pessoas dispostas de acordo com posição, riqueza, segredos e pecados,
Phoebe recostou-se nas almofadas e fechou os olhos.
— Ufa! Graças a Deus!
Uma gargalhada sonora soou perto do ouvido dela.
— Não tem de quê,
Phoebe voltou a cabeça, sorrindo ainda com os olhos fechados.
— Está bem. Graças a Deus e a Marbrook!
Ele não respondeu. O silêncio se prolongou um pouco de mais. Phoebe abriu
os olhos e deu com o rosto de Marbrook a alguns centímetros do seu. Ele estava
com a cabeça encostada no punho e o cotovelo apoiado no encosto do sofá.
Ela foi assaltada pela lembrança daquela primeira noite no baile. Pela
expressão atormentada nos olhos dele devia ser o que ele se lembrava também.

Projeto Revisoras 68
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ele estendeu a mão e recolocou no lugar uma mecha caída do cabelo dela,
acariciando-lhe então o rosto. Como um toque tão inocente provocava tanta dor
dentro dela?
Não estava enganada. Marbrook sentia o mesmo que ela.
Ela não se mexeu, não disse uma palavra, pois se o fizesse, a realidade se
abateria sobre eles, e ela queria que aquele momento se prolongasse. Só um
momento para estar com Rafe, para ser dele, como poderia ter sido, se não fosse
uma idiota e uma covarde.
Rafe passou a mão pela nuca de Phoebe e encostou a testa na dela. Ela não
opôs resistência. Como recear que qualquer coisa pudesse sair errada quando tudo
parecia tão certo quando estavam juntos?
Ele não a beijou, somente voltou a cabeça para que seus rostos ficassem
colados. Ela estremeceu, fechando os olhos e sentindo o coração disparar.
Rafe deslizou os lábios pelo pescoço dela, beijando-a levemente até o colo.
— Phoebe... por Deus, como vou suportar vê-la se casando com meu irmão?
Com essas palavras o encanto foi quebrado, dando lugar à fria realidade.
Phoebe o empurrou e, suspirando, afastou-se dele.
Rafe endireitou o corpo; estava ofegante como se tivesse corrido.
Corrido para casa. Corrido para seu verdadeiro lugar.
Ela tinha o rosto corado e um olhar desafiador ao encontrar o de Rafe. A
roupa estava desalinhada e o cabelo caído em cachos. Estava soberba sua querida
menina do campo... exceto por um pormenor. Ela não era sua.
Mas havia uma coisa que ele precisava saber.
— Por que você aceitou a proposta do meu irmão?
Ela desviou os olhos.
— Você não havia me dito seu nome todo. Quando recebi a proposta, pensei
que fosse...
Tudo não passara de um terrível engano.
Deus, o "sim" foi para mim!
Por um instante, Rafe foi tomado por um sentimento de alegria e triunfo, até
se lembrar que o engano não fora corrigido.
— Apesar disso, você se calou — disse ele, objetivo — porque acidental-
mente descobriu que havia fisgado um peixe maior.
Ela abaixou os olhos e apertou as mãos.
— Não é nada disso... O vigário...
A indignação de Rafe evaporou-se no mesmo instante.
— Ora, você está sendo obrigada a manter o compromisso contra sua
vontade.
Phoebe sentiu-se nauseada e cobriu o rosto com as mãos antes que ele lesse
em seus olhos que era mentira.

Projeto Revisoras 69
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Queria... — Queria nunca tê-lo conhecido. Queria que você não tivesse um
passado comprometedor. Queria não ser covarde.
Ele novamente se aproximou e a tomou nos braços.
— A culpa não é sua. Não está ao seu alcance evitar. Ela respirou fundo e o
empurrou com delicadeza. Ele sofreria menos se a julgasse vítima do destino.
— Desculpe por não ter sido franca com você antes... Você confirmou que
havia me apontado para Calder no baile.
Rafe desviou os olhos, passando a mão pela nuca.
— Temo que sim, mas minha única intenção era ter a aprovação dele.
— Ah!... — Tanta coisa não dita por ambos. Tarde demais para mudar.
— Mas nem tudo está perdido ainda. — Ele a pegou pelos ombros e mais
uma vez tocou a testa na dela. — Posso explicar para meu irmão, para seu pai. —
Era quase de súplica o tom de voz. — Minha situação é diferente da do meu irmão,
mas também tenho algum dinheiro.
Phoebe fechou os olhos e respirou fundo. O vigário não a perdoaria se
deixasse escapar sua herança. Delicadamente ela tirou as mãos de Rafe de seus
ombros.
— Não há volta, milorde. O que está feito, está feito.
— Você não quer nem ao menos tentar — ele reagiu, ríspido. — Talvez eu
tenha me enganado quanto aos seus sentimentos. Acho que o problema não é seu
pai.
Phoebe balançou a cabeça e escondeu o rosto, ainda de olhos fechados. Seu
silêncio era a melhor atitude, pois se tentasse falar acabaria implorando a Rafe que
fizesse o que fosse necessário para dar um fim ao noivado.
— Você não consegue nem olhar para mim, Phoebe — disse ele baixinho,
com voz tensa, — Como vamos viver nossas vidas desse jeito?
Phoebe sentiu um aperto no coração, mas sofrera muito para reconquistar o
respeito e o afeto do vigário. Tentar agradar o pai tornara-se um hábito. Era
impossível pensar em si mesma agora. Por isso, ela permaneceu paralisada em seu
autocontrole até que Rafe se levantou do sofá, e ela ouviu a porta da sala bater.
Sentia-se exaurida, mas movida apenas por uma certeza: em quinze dias se
casaria com o marquês.
Pouco depois que Marbrook deixou a sala, quando Phoebe ainda pensava em
quem não deveria pensar, Fortescue anunciou um outro visitante para ela.
Phoebe mal teve tempo de ajeitar os cabelos.
— Sr. Stickley, que surpresa! — Ela se levantou assim que Fortescue entrou
na sala com o advogado.
Não era difícil demonstrar prazer em vê-lo. Gostava de Stickley. Ele era uma
pessoa calma, de modos amáveis. Um bom contraponto depois de estar com Calder
e Rafe.
Stickley, porém, não parecia igualmente contente em vê-la.
— Milady, por favor me perdoe a intromissão, mas surgiu uma questão... bem,

Projeto Revisoras 70
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

pensei bastante a respeito no caminho. — Ele fez uma pausa e respirou fundo. —
Milady não pode se casar com lorde Brookhaven.
Phoebe mal conseguiu disfarçar o entusiasmo, mas se conteve.
— Verdade? Meu Deus! Sr. Stickley, por favor se explique.
Ela o convidou a se sentar, mas ele ficou andando de um lado para outro.
— Não sei como lhe dizer. É muito constrangedor...
— Sr. Stickley, sente-se. — Phoebe manteve o tom amável, mas firme.
Ele se sentou imediatamente e continuou esfregando as mãos.
Tomada de esperança, Phoebe começava a se exasperar com a hesitação de
Stickley.
— Sr. Stickley, diga logo!
— Milady não pode se casar com lorde Brookhaven porque... porque ele é um
assassino!
— Brookhaven? Céus, sr. Stickley, essa é uma acusação muito grave, Quem
ele matou? — ela indagou, em tom duvidoso.
Ele fungou.
— Sinto muito, milady, mas esta manhã fui informado de que lorde
Brookhaven é suspeito de envolvimento na morte de sua primeira esposa...
Phoebe não conteve a estranheza.
— Brookhaven teve uma esposa? Stickley pigarreou.
Phoebe sacudiu a cabeça.
— Oh, me desculpe. Por favor, continue. Estou pisando em ovos.
Stickley puxou um calhamaço do bolso.
— Nunca acreditei em boatos, por isso tomei a liberdade de parar no London
Sun para examinar os jornais da época e aqui estão os artigos de cinco anos atrás.
Ele espalhou as páginas. Cada cabeçalho era pior do que o outro.
Lady Brookhaven morre em acidente de carruagem. Dois mortos. Não
cessam os comentários. Quem era o homem?
Prato cheio para mexericos. Como ela nunca ouvira falar a respeito? Ah, é
verdade. Cinco anos antes ela trabalhava noite e dia ajudando o vigário a conter a
epidemia de cólera em Thornton. Durante meses ela não conseguiu ler um jornal.
— Naturalmente, ninguém ousou acusá-lo — prosseguiu Stickley. — Não
havia evidência suficiente. Ninguém viu o acidente. Brookhaven explicou que o
homem era um hóspede deles, embora se pudesse questionar por que um marquês
hospedaria um ator de teatro.
Phoebe examinou os artigos, procurando algo mais substancial do que
simples boatos ou mexericos.
— Não há nada de conclusivo aqui — ela afirmou. — Brookhaven pode não
ser perfeito, mas não acredito nessa possibilidade.

Projeto Revisoras 71
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Stickley piscou várias vezes.


— Mas... milady, se ele matou uma esposa, não terá escrúpulos em matá-la
também.
Phoebe estreitou os olhos.
— Sr. Stickley, já lhe disse que não acredito em mexericos.
Stickley levantou-se, sentindo-se afrontado.
— Não posso acreditar que a senhorita menospreze tamanha evidência.
— Evidência? — Phoebe pôs-se em pé também. — Só acreditaria numa
confissão assinada e selada por Brookhaven. — Ela cruzou os braços e fungou. — E
ainda assim, primeiro confirmaria se a escrita era dele mesmo.
— Bem, se a senhorita não tem o bom senso de se proteger, então não há
mais nada que eu possa fazer!
Dizendo isso, ele se despediu rapidamente. Assim que ele saiu, Phoebe
fechou os olhos e procurou se recompor. Como isso era possível? Ela acabara de
jogar fora a última chance de sair daquela confusão, pois até mesmo o vigário não
iria querer vê-la unida a um homem com um passado criminoso. Não podia, porém,
vender a alma.
Nem mesmo por Marbrook.
Escurecia quando Phoebe deixou a sala, depois de ficar dando voltas em
torno da lista de convidados. Como os criados não houvessem ainda acendido as
velas, o hall estava na penumbra.
A sombra de uma figura entrava pela porta naquele instante.
— Olá!
Phoebe sentiu um frio na barriga ao ouvir aquela voz grave.
— Brookhaven, graças a Deus!
Ela se precipitou em direção a ele e pegou-lhe a mão.
— Que bom que tenho a oportunidade de falar com você de novo — ela
sussurrou.
Ele enlaçou os dedos nos dela.
— Se você está contente, então também estou — ele retrucou.
Phoebe recostou a cabeça no peito dele e, com a outra mão, afagou-lhe os
cabelos.
— Você não acha que deveria estar se vestindo para o concerto desta noite,
Phoebe?
— Claro, preciso me vestir. — Ela esboçou um sorriso, mas estava tomada de
irritação. Ele programara um concerto para aquela noite e, detalhe, se esquecera de
avisá-la. Ela fez uma reverência e se afastou. — Logo estarei pronta, milorde.
Ele retribuiu o cumprimento com a cabeça.
— Até já, querida.
Antes de subir no primeiro degrau da escada, porém, ela se voltou.

Projeto Revisoras 72
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Milorde?
— Sim, querida?
— Hoje fiquei sabendo... não sabia que você já tinha sido casado.
Calder empertigou o corpo e sua voz denotou uma certa tensão.
— Não sabia? Sua tia me garantiu que havia lhe contado tudo.
— Oh, talvez tenha contado. — Ela fez um gesto com a mão. — Para ser
sincera, não presto muita atenção às conversas de Tessa.
— Entendo. — Ele ficou calado por um momento. — E o que você achou do
que lhe contaram?
— Que você deve ter sofrido muito. Primeiro perdeu seus pais, quando era
pouco mais que uma criança, depois sua esposa. Só queria lhe dizer que sinto
muito.
— Obrigado, querida. — O semblante de Calder permaneceu rígido, mas
havia um tom mais suave e caloroso na voz dele. — É muita bondade sua. Até a
noite,
Phoebe subiu correndo até seu quarto. Queria poder se livrar de sentimentos
tão confusos. Infelizmente, eles a seguiam onde quer que estivesse.

***
O Royal Concert Hall era um exemplo brilhante da opulência e esplendor
georgianos. Afrescos coroavam as abóbadas do teto, e as superfícies folheadas em
ouro conferiam grandeza ao lugar. Completando esse belo cenário, maravilhosos
candelabros pendiam acima de tudo.
O lugar era destinado a expor o que havia de mais fino à mais fina sociedade,
a deixar nos visitantes a impressão de estar no país mais civilizado do mundo.
Tal era o esplendor da Londres moderna, da incrível iluminação a gás na Pall
Mall Street a essa suntuosa sala de concertos.
Era inacreditável que ela, Phoebe Millbury, estivesse no meio de tudo aquilo.
Participava de bailes, concertos e óperas, vestida na mais fina seda, sentada ao
lado de um atraente lorde, vivendo a vida que toda jovem sonhava. Se ao menos
tivesse certeza de que era a vida que realmente queria...
O maravilhoso concerto falava à alma da platéia. Brookhaven inclinou-se e
teceu um elogio. Phoebe assentiu com a cabeça automaticamente. Toda a sua
existência parecia um lindo sonho.
Por que então aquele desejo desesperado de acordar?
Rafe ocupou um lugar no fundo da sala. Sentia-se tenso, movido por
autocomiseração. Não podia negar o que era óbvio. Debatia-se atrás de um nobre
apenas para ter uma pequena visão de Phoebe. Não ouvia uma nota sequer do
concerto. Sua atenção estava voltada a uma estreita visão de Phoebe sentada ao
lado de Calder. Quando o irmão se inclinou na direção dela, notou que ela não
procurou se aproximar dele. Ela parecia discreta em público.
Calder, que não gostava de desperdiçar toda uma noite daquela maneira,

Projeto Revisoras 73
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

parecia relaxado, fruindo de forma serena a música.


Com dor no coração, Rafe viu então Phoebe sorrir diante de um comentário
qualquer feito por Calder.
Ela gosta dele.
De que adiantava se torturar? Não havia necessidade de reiterar a si mesmo
que o irmão havia ganho.
Ao término da primeira parte do concerto, o público aplaudia com entusiasmo.
Rafe aproveitou a oportunidade para dar uma escapada. Mal deixou a sala, ele deu
de encontro com alguém que estava chegando.
— Marbrook? Oh, Deus! Lilah.
À medida que o concerto transcorria, Phoebe deu-se conta de que a noite não
estava tão insuportável. O marquês estava mais natural nos últimos dois dias, e ela
quase captou um certo humor nele. Quase...
Mas eis que ela notou uma figura espadaúda, trajando uma casaca azul,
saindo por uma das portas.
Marbrook!
Ela não pensou duas vezes.
— Com sua licença, milorde. Preciso ir ao toalete.
Ela saiu do camarote, passando apressada por um nobre que reclamava do
número de pessoas que esbarravam nele.
Não está certo. Não é nele que você deveria estar pensando. Claro que não.
Ela pouco se importava.
— Marbrook, por onde você tem andado ultimamente?
Uma mulher alta e esguia, envolta em um finíssimo manto de pele, estava
diante dele. Ela deixou o manto escorregar até os braços, revelando uma fenda
profunda em seu colante vestido prateado. O cabelo negro-azulado caía-lhe solto
pelas costas, desafiando a moda em vigor.
Lilah.
Rafe pensou em dar meia-volta e fugir, mas era tarde demais. Ela o havia
visto. O sorriso que lhe dirigiu deu ao lindo rosto um toque vulgar, sexual. O que no
passado fora parte da atração agora o deixava frio.
— Olá, querido. — Ela chegou bem perto, percorrendo com o olhar, de
maneira possessiva, o corpo de Rafe. Alguns meses antes aquela atitude bastaria
como convite.
Alguns momentos atrás, a mera presença de Phoebe Millbury sentada do
outro lado da sala o deixara em brasas.
Lilah Christie era de uma beleza fascinante e um deleite carnal. Para
completar, tinha um marido que fazia vista grossa. Muitos homens da sociedade
dariam uma fortuna para ter uma única noite com ela. O próprio Rafe só conseguira
tê-la depois de muita insistência.
Muito imaginativa e sagaz, Lilah conseguira manter o interesse dele por mais

Projeto Revisoras 74
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

tempo do que qualquer outra amante. Na realidade, ela se cansara dele primeiro.
Lamentavelmente, agora, tudo o que ele queria era distância dela, e que ela
parasse de fitá-lo como quem escolhe um prato para o jantar.
Ela se aproximou um pouco mais e sussurrou:
— Por um momento pensei que você tivesse me esquecido.
Rafe deixou-se levar pelo hábito. Acariciou-lhe delicadamente o braço e
quando se deu conta, sua mão estava na nuca dela. Ela era linda e apetitosa. Ele
era homem, e aquilo era tudo o que um homem precisava, certo?
Quem sabe daquele momento até tê-la nua na cama, ele não recuperaria seu
livre-arbítrio.
— Lilah quer — ela sussurrou no ouvido dele.
E o que quer que Lilah desejasse, Lilah obtinha. Rafe fechou os olhos e se
concentrou. Lilah nua. Lilah ajoelhada. Lilah em cima dele...
Será que Phoebe gostaria de ficar por cima?
— Esse é o homem — Lilah cochichou no ouvido de Rafe, pressionando os
quadris contra a ereção dele.
Ele desceu a mão até as nádegas firmes, apertando-as contra sua virilha. Na
cabeça, porém, mantinha a imagem de Phoebe.
Phoebe em seus braços, Phoebe em sua cama, Phoebe...
Uma exclamação de espanto fez com que ele se afastasse num sobressalto e
abrisse os olhos.
Phoebe no hall, vendo-o apalpar a mais cobiçada prostituta de Mayfair. Ele
soltou as mãos como se Lilah fosse um inseto asqueroso.
O olhar de Phoebe expressava repulsa. E dor.
O que era ridículo. Ela estava noiva e ia se casar com outro homem! Melhor
para ambos que ela não o olhasse daquele jeito novamente.
Ele passou o braço pela cintura de Lilah e forçou um olhar irritado para ela
diante da interrupção.
— Com licença?
Recuperada da surpresa, Phoebe manteve o olhar fixo no dele.
— Já haviam me assegurado de que sua reputação era merecida, milorde.
Não era preciso prová-la para mim. — E ela se voltou, caminhando de cabeça
erguida. Lilah olhou por sobre o ombro e riu.
— Quem é a puritana?
Phoebe ouviu, mas não olhou para trás. Rafe não conseguiu tirar os olheis
daquela figura furiosa até ela desaparecer de vista.
— É a santa noiva do meu santo irmão. Lilah riu em deboche.
— Então se merecem. — Depois, acariciando o pescoço dele, perguntou: —
E nós, onde paramos?
Rafe se afastou.

Projeto Revisoras 75
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Já acabamos. Acho que desta vez, Lilah, não terá o que deseja.
Soltando faíscas pelos olhos, ela advertiu:
— Cuidado, milorde. Nunca me ofereço duas vezes.
Rafe curvou-se ligeiramente.
— Então espero que nunca lhe faltem homens, milady — dizendo isso, ele se
virou, sem olhar para trás. Tornava-se assim um caso sem esperança.

Mais tarde no quarto de Sophie, Deirdre jogou o jornal no tapete e se deitou


na cama. Seu olhar era de pura frustração.
— Nem uma palavra sobre mim, apenas que a "bela" Phoebe se mudou para
Brook House, acompanhada da tia e de duas primas.
— Pelo menos fomos mencionadas — disse Sophie, distraída. — Ela havia
acabado de receber uma caixa de Lementeur e ia provar o vestido de musseline
branca que ele enviara. — Não sei por que ele se dá o trabalho. Sou magra e
desajeitada demais para fazer justiça a um vestido dele.
Após colocar o vestido, ela se voltou para Deirdre.
— Impossível abotoar o vestido sem a ajuda de Nan. Acho que Lementeur
pensou que eu tivesse uma criada pessoal.
Deirdre abotoou a roupa automaticamente.
— Mas por que noticiar uma coisa trivial como essa? A quem interessa saber
que Phoebe — ela se abaixou para ler — "estava muito original num vestido de
musseline azul..." "Muito original" quer dizer fora de moda — completou, rindo.
Sophie endireitou as mangas.
— O noivado com Brookhaven é a notícia do momento. Você tem que
entender... Oh, nossa!
Deirdre levantou os olhos e viu Sophie se olhando no longo espelho
emoldurado. Ela susteve a própria respiração.
— Sophie... o vestido está lindo em você!
Sophie se voltou para a porta ao ouvir a exclamação. Phoebe estava parada,
contemplando-a. Um largo sorriso iluminava-lhe o rosto.
— Sophie, foi para ter essa aparência que Deus a fez, alta e elegante, e não
magra e desajeitada!
Sophie corou e se olhou no espelho encantada.
— Verdade?
Phoebe aproximou-se da prima e sorriu para o reflexo dela no espelho.
— Verdade. Espere até que Tessa a veja!
Sophie retribuiu o sorriso.
— Vai ser interessante. — Depois voltou-se para examinar Phoebe mais de
perto. — É bom vê-la sorrir, Há dias que não via, pelo menos não um sorriso de
verdade.

Projeto Revisoras 76
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe desviou o olhar para Deirdre. Não estava habituada a compartilhar


seus sentimentos com ninguém, menos ainda com alguém que possivelmente
gostaria de vê-la fracassar.
Deirdre percebeu o olhar hesitante e se encaminhou para a porta.
— Tenho coisas a fazer.
Phoebe e Sophie observaram a prima sair do quarto.
— Será que feri os sentimentos dela? — Phoebe perguntou. Sophie franziu o
cenho.
— Será que ela tem algum sentimento?
Phoebe se voltou para Sophie. Tinha tanto a dizer, mas precisava se
expressar com cuidado.
— Estou apaixonada por Rafael Marbrook!
Ah, não! Phoebe cobriu a boca com a mão e aguardou a reação de Sophie. A
prima se limitou a erguer as sobrancelhas.
— Ora, que belo problema, hein? — Ela encarou Phoebe. — E ele retribui seu
amor?
Phoebe sentiu o rosto arder de rubor. Sentou-se abruptamente na cama e
envergou um pouco o corpo, cruzando os braços à altura do estômago.
— Acho que ele me deseja, mas nunca falou de amor.
O vigário a havia advertido inúmeras vezes que tais impulsos não eram
sentimentos reais.
Sophie sentou-se do lado oposto ao dela e a fitou por um longo momento.
— Prima, você tem certeza? Seu compromisso com o irmão dele é
privilegiado. Você estará abrindo mão de muita coisa, se romper o noivado e ficar
com Marbrook. Só o escândalo seria...
Phoebe abaixou a cabeça.
— Deus, nem posso pensar nisso. — Ela dirigiu um olhar indefeso para
Sophie.
Sophie que parecia entender o que é sofrimento, levantou-se e caminhou até
uma cômoda, de onde tirou uma garrafa de uísque.
— Encontrei esta garrafa na biblioteca. Eu a trouxe para cá para escondê-la
do vigário. Acho que não é bem na leitura que ele tem se concentrado. — Ela
colocou uma pequena dose em um copo e o estendeu para uma trêmula Phoebe.
Phoebe bebeu de um gole e fez uma cara feia, sentindo a bebida queimar ao
descer pela garganta. Depois de uns poucos minutos, porém, a tensão nos ombros
diminuiu.
— Nossa, isso tem um gosto horrível!
— Ótimo — retrucou Sophie, pegando o copo. — Melhor que você não goste
muito mesmo.
— Vi Marbrook com uma mulher muito bonita, Lilah Christie, perguntei depois
o nome dela. Não sei se foi ou é amante dele.

Projeto Revisoras 77
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Que noite você teve!


Phoebe sacudiu a cabeça, com uma expressão orgulhosa.
— Não fiquei com ciúmes. Percebi que Marbrook estava tentando me
provocar. — A bebida fazia efeito e ela estava um pouco tonta. — Mas no momento
em que vi outra mulher nos braços dele, entendi que nunca seria eu.
— Porque você vai se casar com Brookhaven — Sophie a lembrou com
delicadeza.
Phoebe começou a chorar e repetiu:
— Nunca serei eu!
— Pobrezinha. — Sophie a fitou penalizada. — Tenha cuidado, Phoebe. Você
deu a palavra ao marquês. Se quiser mesmo evitar um escândalo é melhor ficar
longe de Marbrook até o casamento... e mesmo depois.
Phoebe sentou-se na cama.
— É exatamente o que eu vou fazer.
Não adiantaria muito. Não conseguia tirar aquele homem de seu pensamento!

Rafe chegou tarde em Brook House. Ficara fora até mais tarde para evitar um
encontro com Phoebe depois daquele desconcertante incidente. Com exceção do
bocejante lacaio que lhe tomou as rédeas do cavalo, não havia mais ninguém
acordado, nem mesmo seu criado, por ter imaginado que ele passaria a noite fora.
Uma vez em seu quarto, ele tirou a gravata e as botas e sentou-se em uma
poltrona, recostando a cabeça no espaldar. Fechou então os olhos, rememorando a
cena na sala de concertos, ciente de que não podia lutar contra a realidade. Não
havia esperança. Phoebe estava definitivamente perdida.
Ele se deixou ficar ali por algum tempo até sentir o estômago protestar. Evitar
sentar-se à mesa com a família por um amor platônico não acabava com a
necessidade de comer.
Já para a cozinha para satisfazer pelo menos um apetite! Descalço, ele
circulou silenciosamente pela casa. Havia passado a maior parte de sua vida ali, por
isso não precisava sequer de uma vela para se orientar. O escuro era seu bom
companheiro.
As instalações da cozinha ficavam no porão, como na maioria dos casarões
na cidade. Lá ficavam a copa e o guarda-louças; o compartimento onde as carnes
eram tratadas, cheio de instrumentos cortantes; a cozinha propriamente dita com os
fogões e fundas pias de pedra; e o local favorito de Rafe, a despensa.
A última era um compartimento estreito e comprido, que continha prateleiras
de mármore, para armazenar as coisas que precisassem ser mantidas frias, e piso
de pedra que, de tão frio, fazia seus pés doerem.
Ele foi direto às prateleiras mais baixas onde ficavam o presunto e os
assados.
— Ah! — Ao se curvar, estendeu a mão para pegar alguma coisa e
imediatamente a retirou, batendo a cabeça com força na prateleira de cima. — Ai! —

Projeto Revisoras 78
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ele cambaleou para trás, com a mão na cabeça.


— Oh!
Alguma coisa se moveu na prateleira, houve um frufru de tecido e um ruído
metálico, e então uma luz fez seus olhos arderem.
— Que diabo! — Ele tapou os olhos com a outra mão. — Você está querendo
me matar?
— Eu não... eu...
— Phoebe? — Ele descobriu os olhos e piscou. As imagens ainda eram
difusas, mas ele conseguiu ver que ela estava de camisola e um penhoar, pegando
a vela que caíra em uma lata de farinha.
Ela o olhou com cara feia, tentando desfazer o nó do cinto que prendia
o.penhoar para amarrá-lo melhor.
— Por Deus! Você quase me matou de susto!
— Eu? Acho que acabo de envelhecer uns dez anos neste minuto. Pensar
que pretendia fazer bom uso deles...
Ela ficou visivelmente furiosa.
— Como? Praticando boas ações como a desta noite?
— Sem dúvida. Faço regularmente caridade para amantes carentes.
— Aposto que sim. Homens como você não sabem quando parar de se doar.
Phoebe não ia lhe dar uma trégua tão fácil.
— O que sabe você de homens como eu?
— O suficiente.
Ela tentou parecer durona, mas com o cabelo revolto e o penhoar
descomposto, não poderia estar mais adorável na visão dele.
— Saiba que libertinos e canalhas não são exclusividade de Londres — ela
completou.
Rafe riu, absurdamente feliz pelo simples fato de estar com ela.
— Ora, vocês têm produção local desses tipos?
Ela desistiu de apertar o nó e cruzou os braços para cobrir o corpo.
— Creio que eles sejam principalmente importados, milorde — ela respondeu
ríspida.
O sorriso dele desapareceu.
— Você não está apenas me provocando, não é? O que aconteceu com você
em Thornton? Como conheceu esse tipo de gente?
Pela expressão do rosto dela, Rafe teve a impressão de que ela ia falar
alguma coisa, mas o instante passou e ela apenas o fitou calma.
— Você veio aqui à procura de alguma coisa para comer?
— Presunto, ou talvez uma carne assada...

Projeto Revisoras 79
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Era evidente que estavam deixando de lado o incidente com Lilah, mas
também não tocaram na razão de ela ser encontrada encolhida na prateleira,
escondendo-se de um intruso, com a camisola enrolada nos joelhos.
A evasão era compreensível, mas Rafe achou que deveria preveni-la.
— Você não deveria andar pela casa sozinha. Não a conhece bem.
Phoebe ergueu o queixo desafiadora.
— A casa é minha, ou será em quinze dias. Acho que tenho o direito de
assaltar a despensa, se quiser.
— É verdade, agradeço por me lembrar. Logo haverá um alegre bando de
Calderzinhos para nos manter acordados à noite.
Ela levou uma bandeja com fatias de assado à mesa que ficava no centro da
despensa.
— Queijo?
Rafe pegou um queijo redondo de uma prateleira mais alta.
— Você ouviu o que eu disse?
Ela havia acabado de colocar um pão sobre a mesa.
— Ouvi. Nesse bando poderá haver algumas Phoebezinhas, sabia?
Pequenas Phoebes. Por um momento, ele ficou encantado com a imagem
que se formou em sua mente, mas então se lembrou que não seria ele o pai
daquelas figurinhas de olhos azuis.
Ela continuou a preparar as coisas com movimentos precisos. Não parecia
nem um pouco perturbada pelo incidente na sala de concertos.
Era exatamente o que ele merecia.
Se tivesse sabido o que todos aqueles prazeres rebeldes lhe custariam um
dia, será que teria agido de maneira diferente?
Por que você não pode agir mais como seu irmão?
Olhou para Phoebe, que cuidadosamente evitava olhar para ele. Sim, ela
tinha fantasias com ele, mas nunca o escolheria. Era inteligente demais para isso.
— Não quero magoá-lo, Rafe. — A voz dela soou baixinho, denotando
sofrimento.
— E eu não quero ser magoado — disse ele, forçando um sorriso. — E veja,
podemos estar juntos, sem problema. Somos os únicos acordados em toda a casa,
apenas nós dois, sozinhos onde ninguém sabe...
Do outro lado da mesa, ela visivelmente tremia.
— Este chão está gelado.
— Saia dele então. — Ele deu a volta na mesa em um rápido movimento.
— O que...
Passando as mãos pela cintura dela, Rafe a ergueu e a sentou sobre a mesa
antes que ela pudesse esboçar qualquer protesto. Sentiu no rosto a respiração dela.
Teve ímpetos de apertá-la contra o corpo e fazê-la se esquecer de tudo o mais. Mas

Projeto Revisoras 80
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

deu um passo para trás e se curvou em reverência.


— A refeição de minha rainha está pronta. Vossa Majestade, acomode-se
devidamente.
Ela riu.
— Você é maluco.
Ele endireitou o corpo.
— Recoste-se. O chão é frio demais.
Phoebe riu novamente e levantou os pés gelados, colocando-os de lado e
depois se apoiou em uma das mãos.
— Pronto, estou recostada. Pode me passar a bandeja? Não a alcanço daqui.
Ele pegou a bandeja, mas a manteve longe de Phoebe.
— As mãos reais de Vossa Majestade não podem segurar bandejas!
Ela voltou a rir e assumiu uma postura real.
— Muito bem, então. Sirva-me o pão,
Ele arrancou um pedaço do pão e o colocou na boca de Phoebe, não
deixando que ela o pegasse. Os olhos dela brilhavam enquanto comia.
— Quer dizer que tampouco pode haver toque real na comida, hein?
— Claro que não. — Ele cortou um pedaço do assado frio e deu a ela.
Ela fechou os olhos.
— Por que será que comida roubada é mais gostosa?
— Mantenha os olhos fechados — ele sugeriu, alimentando-a com pedaços
de pão, carne e queijo por mais algum tempo. Colocou a bandeja na mesa e pegou
a vela. — Volto já.
A prateleira estava próxima e, antes que ela pudesse protestar de estar no
escuro, ele já estava de volta.
— Desculpe a escapada. Agora feche os olhos de novo.
Ah, a maneira confiante com que ela fechou os olhos, jogou a cabeça para
trás e entreabriu os lábios... Não, um homem decente não deveria ter aqueles
pensamentos sobre a noiva do irmão.
Rafe fora buscar um rico creme de chocolate, provavelmente a sobremesa
para o dia seguinte. Ele tirou uma colherada e a deixou cair na língua de Phoebe.
Ela a saboreou vagarosamente.
O prazer que ela demonstrou, passando a língua pelos lábios, fez com que
ele sentisse a virilha pulsar. Deu a ela uma outra colherada, deixando cair um
pouquinho no queixo. Sem que pudesse se conter, abaixou a cabeça e lambeu
aquela gota.
Phoebe arfou e enrijeceu o corpo, mas continuou de olhos fechados e n ão se
mexeu para afastá-lo.
Na realidade, aquela brincadeira toda tinha por finalidade disfarçar a
crescente excitação que se apoderava de ambos.

Projeto Revisoras 81
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Phoebe ficou imóvel por algum tempo, incapaz até de respirar. Sentia um
friozinho no estômago.
— Abra os olhos, Phoebe. Abra os olhos e olhe para mim.
Ela ergueu as pálpebras e o olhar ardente que dirigiu a Rafe fez com que ele
mandasse para o inferno todos os pensamentos virtuosos. Ele enfiou os dedos na
longa cabeleira e colou sua boca na dela. Phoebe enlaçou-o pelo pescoço,
ajoelhando-se para se aproximar dele. Ele, porém, queria senti-la ainda mais perto,
e o cinto do penhoar era um impedimento. Sem hesitar, pegou a faca do pão e
cortou o nó, fazendo com que o penhoar caísse no chão atrás deles.
Um impensado movimento, contudo, derrubou a vela que rolou pela mesa e
caiu no chão com um barulho seco que ressoou na estreita despensa.
Num sobressalto, os dois se afastaram na inesperada escuridão. Rafe deu
uns passos para trás até bater as costas nas prateleiras. Ouviu então a pancada de
uma porta sendo fechada.
— Phoebe?
Ela tinha ido embora.
Rafe cobriu o rosto com as mãos.
— Oh, Deus. — Pressionado pelo silêncio e pela escuridão, ele caiu de
joelhos.
Não adiantava rezar ou praguejar, Deus não lhe dava ouvidos.

CAPÍTULO IV

Rafe estava deitado em uma cama coberta por pétalas de rosa e tinha as
pernas entrelaçadas nas de Phoebe. Ele deslizava a mão pela maciez da coxa dela
desejoso de explorar lugares mais úmidos e delicados, e ela suspirava e gemia à
medida que seus dedos habilidosamente invadiam suas partes mais secretas.
Ela lhe pertencia. Era dele para tocar, dele para amar, dele para sempre.
Seus lábios se encontraram e queriam se devorar. Não havia nada no mundo
que se igualasse àquele beijo.
— Eu te amo — ela sussurrou quando os lábios dele escorregaram
suavemente até seu seio, abocanhando-o.
Ele a acariciava, provocando-a e fazendo-a delirar de prazer. Phoebe
ondulava sob ele, de maneira ávida e erótica. A doce e calorosa Phoebe seria
finalmente sua, para sempre.
— Milorde! Acorde, milorde!

Projeto Revisoras 82
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Rafe abriu os olhos e deu com Sparrow parado ao lado da cama.


— O senhor me pediu que o acordasse cedo hoje, milorde, porque tinha
planos para esta manhã — ele se desculpou.
O plano de Rafe era sair de casa o mais cedo possível para evitar ver Phoebe
ou Calder. Depois da noite anterior, esse plano tornara-se ainda mais urgente.
Não faltava muito. Mais doze longos e insuportáveis dias e ele poderia deixar
Brook House por anos, se quisesse, sem precisar dar satisfação a Calder.
Depois do café da manhã, porém, mais uma vez ele se encontrou entre as
pessoas que queria evitar.
Vou dar uma desculpa e me safar logo daqui.
Fortescue parecia aborrecido ao entrar na sala. Ele pousou o bule de chá
sobre a mesa e saiu, sem servir ninguém. Rafe lançou um olhar para Calder.
— Algo errado?
Sem levantar os olhos do jornal, Calder respondeu:
— A cozinheira está brava porque alguém entrou na despensa a noite
passada e fez uma grande bagunça.
Prudentemente, Rafe evitou olhar para Phoebe. Tessa deu uma risadinha,
olhou para ele e depois pôs a mão na testa.
— Lorde Marbrook, poderia lhe pedir um grande favor? Phoebe e Sophie
precisam fazer provas com Lementeur hoje. Será que poderia acompanhá-las?
Estou com muita dor de cabeça.
Tessa não parecia nada indisposta. Na realidade, ela estava com um ótimo
aspecto, mas como acusá-la de estar fingindo a dor de cabeça?
Phoebe imediatamente objetou:
— Não se preocupe, Tessa. Poderemos ir muito bem com Nan e um criado,
se lorde Brookhaven puder nos ceder alguém.
Calder levantou o rosto.
— Como? Ah, sim, claro. Eu mesmo as acompanharia se não tivesse uma
pilha de relatórios para examinar hoje. Por favor, me desculpem.
Tessa sorriu e olhou na direção de Phoebe.
— Mas vou precisar de Nan o dia todo hoje, pois não sei se conseguirei sair
da cama sozinha. E não fica bem mandar duas donzelas apenas com um criado.
Essa deixa era para Rafe. Resignado, ele balançou a cabeça.
— Terei prazer em acompanhá-las. Vou providenciar a carruagem imediata-
mente.
Ele se levantou e saiu. Passar uma outra tarde com Phoebe era a última
coisa que desejava. Não conseguia vê-la sem querer tocá-la. Aquilo seria um
suplício.
Phoebe observou Rafe deixar a sala. Um desconfortável silêncio reinou no
ambiente.

Projeto Revisoras 83
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Brookhaven cravou o olhar na janela, tamborilando os dedos na mesa com


impaciência. Tessa começou a dramatizar a crescente dor de cabeça. Sophie
continuou com o nariz enfiado em um livro e Deirdre ficou observando os dedos de
Brookhaven, com a expressão de quem queria fazê-los parar com uma martelada.
Phoebe levantou-se de repente, não agüentando a situação.
— Bem, acho que preciso me aprontar para a prova. Vamos, Sophie, lorde
Marbrook já foi buscar a carruagem.
Sophie a fitou por um momento com um olhar penetrante.
— Oh, Phoebe, me perdoe, mas não vou. Eu também estou com muita dor de
cabeça.
Phoebe fuzilou a prima com os olhos.
Traidora!
Ela se voltou então para Deirdre, que levantou as mãos,
— Tenho visitas chegando a qualquer momento. Garanti que estaria em casa.
Você não quer que eu falte com minha palavra, não é?
Que conspiração!
Phoebe ainda ficou na expectativa de que Brookhaven se prontificasse a levá-
la, em vez de deixar o irmão acompanhá-la, situação pouco usual.
Brookhaven deu uma olhada no relógio e se levantou.
— Tenha um bom dia, minha querida. No jantar você me conta tudo. —
Cumprimentando com a cabeça Tessa e as primas, ele saiu.
Não havia o que fazer. Ela precisava provar o vestido a fim de que ficasse
pronto a tempo para o casamento. Que amolação!
Amolação? Então por que seu coração está disparado?
Ela colocou a mão no rosto afogueado. Para justificar o rubor, resolveu subir
as escadas correndo para pegar um agasalho, em vez de pedir a um criado. Não
queria que Rafe pensasse que estava eufórica por sair sozinha com ele!
A carruagem já estava à espera quando ela desceu, e Marbrook a aguardava
no hall. Se imaginar não fosse perigoso, ela diria que pareciam casados,
preparando-se para um delicioso passeio em um lindo dia de primavera.
— Você não deveria correr desse jeito — ele a advertiu ao ajudá-la a colocar
o casaquinho. — Está com o rosto até corado.
As mãos dos dois se encontraram quando ela tentou abotoar o casaquinho e
deu um passo para trás, mostrando-se concentrada no que estava fazendo.
— Então... podemos ir?
Na carruagem a situação só piorou. Depois de se acomodarem e a
carruagem começar a andar, Rafe ficou ainda mais consciente do fato de estarem
sozinhos. A caminho da Bond Street, o burburinho dos populares era grande, mas s ó
fazia crescer a tensão entre eles que se sentiam absolutamente sós.
Rafe tentou quebrar o silêncio.
— Você está bem acomodada em Brook House?

Projeto Revisoras 84
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ela o fitou, com expressão de gratidão por quebrar o silêncio.


— Oh, sim! Minha cama é muito confortável.
Rafe cruzou as pernas, colocou o chapéu no colo e olhou para a rua. Sem
dúvida, iria para o inferno castigado pela eterna ereção.
Phoebe mordeu o lábio.
Pelo amor de Deus, por que falei da cama!
Por sorte, Rafe parecia não ter notado. Olhava distraído pela janela. Ela é que
deveria se envergonhar dos próprios pensamentos.
Sou comprometida. Sou uma mulher respeitável, honesta. Sou
comprometida...
Não adiantava ficar repetindo, tentando se convencer. Não com Marbrook tão
perto que ela podia sentir o perfume de seu creme de barbear. Não com ele sentado
a sua frente, tendo uma excelente visão do rosto, do peito, das mãos dele...
Ah, o beijo de ontem à noite. Ele arfando de desejo...
A carruagem parou.
— Aqui estamos! — disse Rafe, procurando se mostrar animado.
Ele desceu da carruagem, estendeu a mão para que Phoebe descesse e
gentilmente ofereceu o braço a ela, Cabot já os aguardava à porta.
Uma vez lá dentro, Cabot fez com que Rafe se sentasse em uma confortável
poltrona e ofereceu a ele charutos e bebida.
— Aceito uísque.
Um copo com líquido âmbar imediatamente lhe foi servido, sem que Cabot
demonstrasse a menor estranheza de ainda ser cedo para beber. Mal sabia ele que
a própria Phoebe adoraria tomar um gole para relaxar um pouco. Mas a bebida não
foi oferecida a ela.
Em vez disso, ela foi levada ao provador. Duas bonitas assistentes
aguardavam por ela com uma inacreditável coleção de vestidos.
Diante de sua expressão de espanto, uma das moças esclareceu:
— O marquês recomendou que fossem todos novos. Uma vez que se comece
a usar um Lementeur, ninguém mais quer usar as roupas antigas.
Phoebe disse a si mesma que não imaginava que Brookhaven fosse tão rico.
O primeiro vestido que provou era de seda azul-esverdeada, com o corpo
estruturado, ressaltando-lhe o busto. A cintura, porém, estava um pouco apertada.
Uma das moças gritou:
— O espartilho! — Imediatamente apareceu um espartilho sedoso, no mesmo
tom do vestido, e, antes que pudesse comentar que bastava um espartilho que
combinasse com todos os vestidos, Phoebe se viu sendo amarrada.
O espartilho era bastante confortável. Como por milagre, afinou sua cintura e
arredondou os quadris que tanto haviam preocupado Lementeur dois dias antes. O
vestido então entrou feito uma luva.

Projeto Revisoras 85
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Espelho!
Phoebe foi quase atirada para o outro lado das cortinas para a plataforma,
cercada dos três lados por espelhos.
— O sr. Lementeur estará aqui em um minuto — avisou-a a assistente,
ajudando-a a se recompor, e saiu.
Ela se olhou no espelho e ficou imóvel. Estava... estilosa e elegante.
Emanava riqueza e refinamento. Foi então que viu, refletida no espelho, a expressão
embasbacada de Marbrook. Um olhar maravilhado a media de cima a baixo.
Phoebe não resistiu à tentação de provocá-lo. Ela se curvou para mexer na
bainha do vestido para que o decote se refletisse no espelho.
Ao endireitar o corpo, Rafe parecia perplexo e, mais uma vez, estava de
pernas cruzadas e o chapéu no colo. Ela procurou não rir de satisfação com a
própria travessura.
— Você é uma deusa — ele sussurrou:
Vaidosa, ela se voltou para o espelho, examinando a própria imagem.
Marbrook se ajoelhou diante dela, com um olhar sensual que a fez
estremecer por dentro.
— Se minha deusa permitir...
Ela exalou um longo suspiro. Ter aquele homem a seus pés, chamando-a de
deusa com aquele olhar faminto era mais do que seus joelhos conseguiam agüentar.
Para disfarçar seu tremor, ela se curvou fazendo uma reverência e, ao erguer o
corpo, deu um passo em falso para a frente, no exato momento em que Rafe
estendia a mão para tocar na bainha de seu vestido.
A barra do vestido cobriu a mão de Rafe e seus dedos escorregaram até o
tornozelo de Phoebe. Ambos congelaram.
Ela abaixou a cabeça para fitá-lo, contendo um riso nervoso, mas o olhar dele
estava travado na mão que não podia ver. Ela sentiu então uma delicada carícia em
sua perna e continuou imóvel em vez de procurar se afastar, como deveria. Os
dedos dele eram quentes e seu toque era leve. O mundo havia parado, somente se
ouvia o barulhinho da seda à medida que a mão dele subia vagarosamente por sua
perna, avançando por suas coxas, fazendo-a sentir um frio na barriga.
Ela precisava se mexer, se afastar, demonstrar sua indignação. Mas só
pensava no momento seguinte, em sentir o calor dele sobre ela... talvez até mesmo
dentro dela.
Seus olhares se encontraram.
— Se minha deusa permitir... — ele começava a dizer, com voz enrouquecida
de desejo.
Ela deu um passo para a frente, fechando os olhos.
Me abrace...
De repente, o som das roldanas sobre o trilho de metal da cortina fez com
que ela tivesse um sobressalto e se voltasse de maneira tão abrupta que ficou
cambaleante. Lementeur apressou-se a estender a mão para ela, ajudando-a a se

Projeto Revisoras 86
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

equilibrar.
— Minha querida, você está divina! — O olhar dele mostrava aprovação. —
Não acha, milorde?
A tosse nervosa de Marbrook fez Phoebe virar a cabeça. Para seu alívio, ele
estava confortavelmente instalado na poltrona, a três metros de distância, como se
nunca tivesse saído dali. E novamente de pernas cruzadas e com o chapéu no colo.
Lementeur tirou Phoebe uma vez mais dali, deixando Rafe sozinho à mercê
de seus pensamentos e de sua excitação. Faltavam apenas alguns dias para o
casamento e logo toda aquela sua loucura seria passado. Talvez ele encontrasse
uma bonita esposa nos Estados Unidos e tivesse dois ou três pimpolhos com ela.
Tudo que tinha a fazer era sobreviver às próximas semanas e manter as mãos longe
de Phoebe.
Pouco depois, a cortina voltou a ser aberta e o deixou extasiado.
Tinha diante de si não mais a menina do campo, mas uma noiva. Trajando um
rico vestido de cetim em tom pérola, ela mais parecia um anjo.
Dá azar ver a noiva antes do casamento.
Que pensamento era aquele? Será que ele ainda acalentava a fantasia de
que Phoebe pudesse mudar de idéia? Pelo amor de Deus, ela estava ali provando o
vestido com o qual se casaria com outro homem!
Seus olhares se encontraram. Era evidente que ela esperava ouvir a opinião
dele.
Ele se levantou.
— Você está maravilhosa.
Phoebe corou.
— Obrigada.
— Não há mulher mais bela em toda a Inglaterra — ele reiterou com
sinceridade. Era preciso dizer aquilo, pois Deus sabe que Calder nunca diria. —
Nunca se esqueça disso. — Ele se curvou para pegar o chapéu. — Se me der licen-
ça, agora preciso ir. A carruagem a levará de volta a Brook House quando terminar a
prova.
Embora lhe doesse muito, dizendo isso, ele deu as costas à noiva de seu
coração e saiu.
Assim que chegou em Brook House, Phoebe foi procurar por Sophie. A
reação de Rafe ao vê-la de noiva merecia uma interpretação feminina.
Passou pela sala de estar, mas Sophie não estava ali. Um criado saiu de um
cômodo do outro lado do corredor, mas aparentemente estava tão atarefado,
endireitando um paletó no braço, que não notou sua presença.
O paletó de Rafe. Ela reconheceu pela cor azul-marinho e os botões
prateados. Aquele devia ser o criado dele. E se era o criado de Rafe, então aquele
era o quarto dele.
O quarto de Rafe e sem ninguém.
Que idéia terrível! Cheia de riscos... mas, levada por um impulso, seus pés

Projeto Revisoras 87
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

continuaram a seguir pelo centro da passadeira já meio gasta até a porta dos
aposentos dele. Muito estranho. Ela observou a própria mão pousar na maçaneta e
calmamente girá-la. A porta abriu sem qualquer ruído. Muito conveniente.
O quarto estava bem iluminado pelas altas janelas que davam para um
pequeno pátio. As cortinas de veludo azul estavam puxadas para os lados, bem
como a colcha, deixando ver uma grande e convidativa cama.
Ela desviou os olhos e sua atenção foi despertada pelo quarto de vestir
anexo, cuja porta estava entreaberta. Era um cômodo pequeno. Nos guarda-roupas,
as prateleiras continham camisas impecavelmente dobradas e gravatas, e os paletós
estavam pendurados. Na parte de baixo, havia gavetas. O que conteriam as
gavetas? Ela pegou no puxador de ferro. Lá estavam as peças íntimas que ficavam
em contato com a fabulosa anatomia de Rafe. Ela não resistiu à tentação de tocar o
material sedoso... Fechando os olhos, imaginou-o usando uma daquelas peças.
— Não tenho certeza, mas acho que deve haver uma lei contra assédio a
"coisas inomináveis" de um cavalheiro.
Phoebe prendeu a respiração e deu um pulo para trás, puxando a gaveta com
seu brusco movimento e esparramando a seus pés as ditas "coisas inomináveis".
— Ah, meu Deus!
Rafe estava de braços cruzados, com um ombro encostado no batente da
porta, impedindo completamente a passagem.
— E como você acha que seria o julgamento? Não dá para se montar um
caso se não é possível nominar o inominável, não é?
Phoebe fechou os olhos mortificada, incapaz de conter o rubor que lhe cobria
as faces.
Aparentemente, Rafe estava se divertindo muito.
— Para ser sincero, nunca ouvi falar de alguma dama que tenha... como
dizer... roubado um par de ceroulas masculinas.
Phoebe arregalou os olhos.
— Mas eu não fiz isso!
Rafe esboçou um sorriso irônico.
— Então você pretende devolvê-las depois de usar? — Ele fez um gesto com
a mão, indicando as ceroulas que ela ainda segurava.
Ela soltou a peça com uma exclamação. Rafe olhou para o teto e cocou o
queixo pensativo.
— Não sei se vou querer de volta. Duvido que poderia usar essas ceroulas
sem lembrar que foram violadas...
Phoebe não conteve o riso.
— Eu não deveria incentivar sua loucura.
— Nem eu sua travessura... — Ele deu alguns passos. — A filha do vigário. A
pura criaturazinha do campo... você não é quem eles pensam.
Ela levantou o queixo.

Projeto Revisoras 88
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Você não sabe nada a meu respeito.


Rafe postou-se atrás dela. Tão próximo que ela podia sentir o calor do hálito
dele em sua nuca.
— Eu a conheço. — Ele brincou com uma mecha do cabelo dela e a puxou de
encontro ao seu corpo. — O que vou fazer com você, minha linda Phoebe? Tento
manter a distância, mas eis você aqui.
Ela sabia que deveria fugir dali, afastar-se dele e, apesar de seu choque
inicial, era ali mesmo que ela queria estar. Ele aproximou a cabeça do ouvido dela e
sussurrou:
— Você alguma vez já teve um sonho tão real com alguém que teve a
impressão de que essa pessoa estava tendo o mesmo sonho?
A vontade de Phoebe era gritar: Sim, por Deus, sim! Ela fechou os olhos,
ardendo por dentro; queria responder, queria fugir dali, mas ficou absolutamente
imobilizada, permitindo que Rafe lhe acariciasse o rosto, o pescoço, os ombros... e
que as mãos dele cobrissem seus seios e brincassem com seus mamilos.
Deveria fazê-lo parar... mas o desejo vencia a razão.
— Deixe-me apagar esse fogo — ele sussurrou. — Deixe-me liberar a mulher
que existe em você.
Com movimentos rápidos, Rafe desabotoou os botões das costas do vestido
e abaixou as mangas, fazendo-o deslizar pelos braços de Phoebe.
Por que ela não se importava que aquele homem visse que ela não estava
usando espartilho?
Porque ele era Marbrook.
Ele a virou de frente para ele e acariciou-lhe os ombros.
— Abra os olhos, Phoebe — pediu, com voz rouca. — Olhe para mim!
Ela abriu os olhos. O olhar de Rafe era grave e resoluto. Ela levantou a mão,
e dedos frios acariciaram o queixo dele, deslizando depois pelo rosto, pelas
têmporas até os cabelos.
— Não podemos mesmo nos esconder um do outro. Um brilho travesso
passou pelos olhos de Rafe.
— Eu sei. — Ele tirou uma das mãos do ombro e acabou de abaixar o vestido
até a cintura, desnudando os seios.
Phoebe arfou e instintivamente tentou cobri-los com as mãos. Ele, porém,
segurou suas mãos.
— Não se envergonhe de sua beleza — murmurou e cobriu a boca de
Phoebe com um beijo ardente.
Recriminando-se por ceder, ela se entregou ao beijo.
Rafe então soltou as mãos dela para poder acariciar seus braços, e em
seguida os seios, apalpando-os e brincando com os mamilos. Ela estremeceu,
sendo possuída pelo sentimento de plenitude por finalmente estar nos braços dele,
O beijo então se tornou mais exigente; ele a encostou contra a parede,
pressionando o corpo contra o dela e colocando um dos joelhos entre a junção de

Projeto Revisoras 89
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

suas coxas. Phoebe entreabriu os lábios e as pernas, consciente de seu pobre


exemplo de castidade, mas estava pouco se importando.
Ele parecia querer devorá-la, mordiscando e sugando seus lábios e apertando
seus seios. Ela correspondeu aos beijos com igual desejo, pressionando também
seu corpo contra o dele. Rafe deu alguns passos para trás, deixando-se cair em um
sofá e derrubando-a sobre ele.
Phoebe colocou as mãos no peito dele, levantando o corpo. Ele a puxou.
— Não...
Embora Rafe continuasse a beijá-la, ela se afastou o suficiente para que ele
pudesse desatar o nó da gravata.
Em instantes ele se livrou da peça, depois foi a vez do paletó. Phoebe puxou-
lhe então a camisa para fora das calças.
Rafe começou a tirar os grampos para soltar os cabelos dela enquanto ela
escorregava os dedos, procurando os mamilos escondidos sob os pelos do peito.
Brincou com eles, como ele fizera com os dela.
— Phoebe, por Deus, pare... Ela congelou.
— O que eu fiz de errado?
Rafe tocou a testa na dela, e Phoebe se deu conta de que estava sentada
sobre ele, com as pernas abertas e o vestido levantado, praticamente cavalgando
sobre a monumental ereção, ainda presa sob as calças, pulsando em suas coxas.
Ele estremeceu... ou estava tremendo? Ambos estavam ofegantes como se
tivessem corrido quilômetros.
— Rafe? — O nome soava tão natural era seus lábios... mas de repente ela
percebeu onde estavam.
Em Brook House!
Propriedade de seu noivo, o marquês de Brookhaven.
Irmão de Rafe.
— Deus amado, me perdoe — ela murmurou. Estava trêmula de vergonha.
Imediatamente saiu de cima do irmão de seu noivo e se viu tomada de remorso no
tapete.
Rafe não a impediu e cobriu o rosto com as mãos por um longo momento.
— Talvez Deus perdoe, mas Calder não. Pelo menos não a minha
participação nisso,
Phoebe voltou a se sentar no sofá, dando as costas para Rafe ao mesmo
tempo em que tentava arrumar o vestido. Não alcançava, porém, as costas para
abotoá-lo.
— Deixe-me ajudá-la — ele disse.
Sem alternativa, ela permitiu que ele o fizesse. E ele o fez com mãos firmes,
sem o menor toque de sensualidade... o que somente a fez querê-lo ainda mais.
Assim que se arrumou, Phoebe correu para a porta, mas parou com a mão na
maçaneta.

Projeto Revisoras 90
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— O que aconteceu não muda nada — afirmou, saindo sem olhar para ele,
mas consciente de que não havia mudado nada nos últimos dez anos. Só não tinha
tido a oportunidade de transgredir.
E que oportunidade ele era!
Sua travessura, ele dissera. Ah, se ele soubesse...

Phoebe conseguiu ficar todo o dia seguinte sem ver Rafe. Tomou o café da
manhã em seu quarto e, até o jantar, procurou se refugiar nas dependências menos
freqüentadas da casa, alegando dor de cabeça para não receber visitas.
Muito gentil, Brookhaven enviou-lhe o recado de que o avisasse caso
precisasse de um médico. Ela mandou agradecer a ele, respondendo que era
apenas cansaço pelo excesso de atividade dos últimos dias.
Atividade muito mais extenuante do que ele poderia sonhar!
Recebeu mais tarde um outro recado dele, lembrando-a de que tinham
reservas para a ópera na noite seguinte. Phoebe compreendeu que não daria mais
para continuar se escondendo.
Vagando pelos corredores, ela pressentiu ouvir os passos de Rafe no hall.
Não adiantava querer evitá-lo. Ele parecia estar em todo lugar. A primeira idéia que
teve foi fugir para o jardim, mas a voz grave de Brookhaven soou à entrada da casa.
Indecisa, ela se assustou ao ver uma porta se abrir e suspirou de alívio ao ver
uma criada sair apressada, sem sequer notar sua presença. Phoebe se encaminhou
para lá como um raio e fechou cuidadosamente a porta. Será que tinha sido vista?
Podia nitidamente ouvir passos se aproximando de um lado e, em seguida,
passos chegando da direção contrária. Eis que os passos pararam bem na frente da
rouparia, onde ela estava.
— Ah, Rafe, que bom que o encontrei. Estava querendo falar com você sobre
minha noiva.
Oh, Deus! Phoebe colou o ouvido à porta.
— O que tem ela, Calder? Calder limpou a garganta.
— Bem, não sei como lhe dizer isso... imagino, é claro, que você nunca faria
qualquer coisa para...
Um arrepio percorreu a espinha de Phoebe e ela se encolheu, cruzando os
braços.
— O que você quer dizer com "faria qualquer coisa", Calder? — O tom de
Rafe soou irritado.
— Não precisa se ofender, Rafe, afinal você mesmo construiu sua reputação.
Você não espera que eu ignore isso agora.
— Por que não? Você ignora tudo o mais que me diz respeito!
— Você se refere a Brookhaven?
— Claro que me refiro a Brookhaven! — disse Rafe, com voz alterada. —
Sempre ignorou todas as sugestões que fiz.

Projeto Revisoras 91
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Calder impacientou-se.
— Pare com isso, Rafe. Você não tem condições de saber o que é melhor
para uma propriedade do tamanho e complexidade de Brookhaven.
— Você está insinuando que tenho alguma deficiência mental?
— Não seja ridículo, rapaz!
— Ah, então você acha que não tenho bom senso... digamos, como exemplo,
propor casamento a uma mulher que nem conhecia?
Calder bufou.
— O fato de ter pedido Phoebe em casamento de maneira tão rápida não
vem ao caso.
— Acho que vem muito ao caso. Acredito que se fosse bastante honesto ao
responder a essa pergunta, você e eu teríamos de conversar lã fora... ou escolher as
armas.
Phoebe engoliu em seco, sentia-se mais gelada ainda. Quanto desentendi-
mento havia trazido para aquela casa! Ou seria uma batalha antiga e ela
simplesmente acirrara ainda mais a desavença?
— Você andou bebendo novamente — retrucou Calder, em tom
condescendente.
Rafe soltou um suspiro profundo.
— Na realidade, não coloquei uma gota de álcool na boca desde que as
senhoritas Pickering chegaram aqui.
Rafe aparentemente começou a se afastar, mas Phoebe ainda pôde ouvi-lo
dizer em tom alto:
— Apesar de que essa sua preocupação fraterna me dá vontade de beber
barris de uísque.
Fez-se então silêncio. Será que Calder ainda estaria ali? Valeria a pena abrir
um pouquinho a porta para dar uma espiada? Phoebe ouviu os passos firmes de
Calder caminhando na direção oposta.
Embora estivesse na escuridão da rouparia, de repente as coisas começaram
a se tornar bem claras. Seu coração teve um sobressalto e ela vagarosamente
deslizou para o chão, abraçando os joelhos. Dois cães, circundando o mesmo osso.
E ela era o osso... ou simbolizava o osso de Brookhaven. Sua cabeça doía.
Somente três dias haviam se passado. Não sabia como poderia suportar mais
onze!
Rafe não agüentava mais. Passara a maior parte do dia anterior andando de
um lado para outro no quarto, exceto por uma rápida escapada quando se aventurou
pela casa na expectativa de ter uma rápida visão de Phoebe. Ela, porém,
aparentemente o estava evitando. Tanto melhor.
Mentira! Um dia inteiro sem vê-la o fazia sofrer tanto que o deixava alarmado.
E também o convencia do vazio que sentia quando ela não estava por perto. A vida
parecia não fazer sentido.
Não dava mais para fingir. Teria de partir imediatamente. Calder iria querer

Projeto Revisoras 92
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

saber a razão, por isso teria de pensar em algo convincente para a súbita
necessidade de se afastar.
Mais tarde naquela mesma manhã, ele deparou-se com Calder muito bem
vestido junto à escrivaninha, colocando alguns papéis em uma pasta de couro.
— Vai viajar?
Calder não levantou os olhos.
— Vou, sim. Houve um problema na fábrica de porcelanas. Um dos fornos
causou um incêndio. Vou até lá para ver o estrago e avaliar o prejuízo.
— Não há ninguém que possa cuidar desse tipo de coisa por você?
Calder fechou a pasta e levantou os olhos.
— E ficar dias à espera de uma informação que certamente será
insatisfatória? É mais eficiente ir pessoalmente e resolver o que precisa ser feito.
— Mas você não tinha um compromisso com sua noiva para esta noite?
Calder, que já estava preparado para sair, parou hesitante.
— Oh, é verdade! Os assentos para a ópera. — Ele prendeu a pasta debaixo
do braço e inclinou-se sobre a mesa para pegar uma caneta e uma folha de papel.
Molhando a pena da caneta no tinteiro, rabiscou um rápido recado, dobrou o papel e
o estendeu a Rafe, saindo apressado. — Por favor, entregue a ela. A carruagem está
me esperando. Rafe contemplou o bilhete na mão e o desdobrou.
Minha cara Phoebe,
Lamento não poder cumprir a promessa que fiz a você sobre hoje à noite.
Brookhaven
Um bom irmão entregaria o recado. Contudo, ele amassou o papel e o
colocou no bolso. Não era um bom irmão.
Agora não poderia mais partir e abandonar Phoebe, sabendo como ela seria
negligenciada e poderia ter o mesmo fim de Melinda: Não tinha dúvida do futuro
sombrio que se descortinava para ela. Precisava mais uma vez tentar persuadi-la a
não ir adiante com aquele casamento.
Tessa mais uma vez estava na escuta. Se alguém passasse, para todos os
efeitos, estava se encaminhando para o hall. Ela raramente era pega no ato, por ém.
Tivera um pai bruto e violento, nem um pouco suscetível a seu charme. Ela precisara
ser hábil com ele e aprender a manipular, tramar e... vencer.
Sem falar como era importante movimentar-se silenciosamente pela casa,
sempre atenta aos detalhes, como o cheiro de charuto, o som do toque da garrafa
de uísque no copo, o passo pesado. Essa habilidade sempre lhe fora útil, pensou
sorrindo. Brookhaven não estava... Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.
Bem... longe dela se interpor no caminho de jovens apaixonados.
Especialmente quando colaborar com eles poderia torná-la... quer dizer... tornar
Deirdre, é claro, uma mulher muito rica.

No escritório dos advogados Stickley & Wolfe um novo plano de ação estava
sendo elaborado.

Projeto Revisoras 93
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— O marquês tem camarote reservado para a ópera hoje à noite. Confirmei


com o entregador de Brook House. Isso significa que em algum momento ele vai sair
para alongar as pernas ou ir ao banheiro — Wolfe comentou.
— E daí? — Stickley perguntou, não entendendo onde Wolfe queria chegar.
— Daí que vamos nos vestir e aguardar do lado de fora do camarote. Quando
ele sair, vamos agarrá-lo e subjugá-lo entre nós dois e...
Era evidente que o desconforto de Stickley crescia.
— Não sei, não... Wolfe insistiu.
— Tudo o que precisamos fazer é arrastá-lo até a porta de trás do teatro onde
a carruagem estará à nossa espera.
Stickley assentiu com a cabeça, nervosamente.
— Está bem. Já que você acha que precisamos chegar a tal extremo...
Wolfe riu.
— Stick, meu velho, entenda que ela não poderá se casar com o marquês se
ele tiver sumido!

Em seus aposentes, Phoebe contemplava, sobre a cama, os três vestidos


novos que Lementeur lhe enviara, sem saber qual usar para ir à ópera com o noivo.
Deirdre certamente saberia e poderia ajudá-la, mas havia ido ao Hyde Park
com um dos admiradores.
— Algum problema, querida? — perguntou uma voz doce. Phoebe
sobressaltou-se e se voltou para a porta do quarto. Era Tessa que entrava, com um
gentil sorriso estampado no rosto. Muito estranho.
Phoebe deu um cauteloso passo para trás.
— Tia Tessa.
Tessa aproximou-se de Phoebe e examinou os vestidos sobre a cama.
— Belas escolhas, querida, mas não para uma ocasião especial como a
ópera.
Phoebe a encarou com ar de desamparo.
— Mas qual então? — Podia não confiar em Tessa, mas era inegável que ela
tinha bom gosto.
— Bem, como esta é sua primeira noite na ópera como noiva do marquês,
você quer causar uma ótima impressão, não é?
Phoebe sentiu o estômago revirar. Todos os olhos estariam sobre ela.
Não peça nada a ela.
— Oh, por favor, me ajude! Por que pediu?
O rosto de Tessa se iluminou.
— Claro, minha querida!
Ela se encaminhou para a lateral do quarto onde ficava o extenso guarda-

Projeto Revisoras 94
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

roupa da senhora de Brook House, o que fez Phoebe perceber que a quantidade de
vestidos que recebera de Lementeur era apenas uma amostra do que viria a ter.
Phoebe seguiu Tessa como um cachorrinho assustado.
— Todas as damas usam seus vestidos mais requintados e insinuantes. Ah,
esse é perfeito!
Tessa pegou o vestido que Phoebe especificamente evitava. O extravagante
azul-esverdeado que fazia com que ela parecesse ser só peitos. E a lembrou do
olhar que Rafe dirigiu a ela quando o provou para ele...
— Ah, esse não, faz com que eu fique muito... — Colocou as duas mãos
sobre os seios, corando.
Tessa soltou uma gargalhada.
— Ora, fará com que todos entendam por que Brookhaven a escolheu entre
todas as outras! — Ela não parecia nem um pouco amolada de incluir a si mesma e
Deirdre nesse grupo.
— Pensei que tivesse ficado aborrecida com o noivado — disse Phoebe,
hesitante. — Com a possibilidade de eu ganhar.
Tessa deu de ombros.
— Não nego que fiquei um pouquinho no início. Mas por que deveria
realmente me importar? Qualquer que fosse o resultado, eu não receberia nada
além da satisfação de ver Deirdre bem encaminhada, mas tenho dúvidas de que ela
é inteiramente capaz de assegurar um bom futuro para si mesma. O relacionamento
de Brookhaven facilitará tudo ainda mais para ela agora.
De um modo geral, Tessa causava um certo desconforto em Phoebe, mas as
palavras dela faziam sentido. Deirdre, sem dúvida, era uma das beldades da
temporada. Tinha realmente todas as condições de arrumar um casamento que
valesse muito mais do que as vinte e sete mil libras.
Ela sorriu timidamente.
— Muito bem, então. Vou usar o vestido. — Era mesmo uma belíssima
criação.
— Ficará lindo! — disse Tessa, após colocar o vestido na frente dela e fazê-la
voltar-se para o espelho. — Veja. Brookhaven não conseguirá resistir a você.
De fato, quem sabe se ela conseguisse despertar nele o mesmo desejo que
via nos olhos de Rafe, isso a motivaria a desejá-lo também. Quem sabe assim as
coisas ficariam como deveriam ser. Quem sabe...
Duas horas mais tarde, já vestida, tinha consciência de que nunca parecera
tão atraente em sua vida. Tessa fora generosa ao mandar Nan ajudar Patrícia e até
a orientara na escolha do penteado, optando por um estilo mais simples e elegante
para não desviar a atenção do vestido e de seus olhos.
Phoebe, no entanto, sabia perfeitamente que todos os olhos se concentrariam
em seu decote. Era desconcertante pensar em estar tão exposta em público. Mas já
tinha visto a própria Tessa e outras ladies da cidade usando decotes ainda maiores.
Aparentemente, o que não era adequado para a filha do vigário era plenamente
adequado para a nova marquesa de Brookhaven.

Projeto Revisoras 95
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ao sair do quarto, o vigário a aguardava à porta e arregalou os olhos ao vê-la.


Assim que se deparou com o pai, ela corou, sentindo-se constrangida de que ele
visse tanto de seus... atributos.
— Minha querida — disse ele, pigarreando. — Quero lhe falar por um
momento.
Tessa e Nan já haviam discretamente se afastado.
— Sim, papai?
— Acho que já está mais do que na hora de eu cumprimentá-la pela maneira
com que você superou... sua própria natureza.
A hipocrisia daquelas palavras era mais do que ela podia suportar depois de
todos aqueles anos de comportamento exemplar, enquanto atirar-se meio despida
ao noivo era motivo de elogio.
— Papai... — Ela não tinha mais ninguém com quem pudesse conversar. —
Papai, o que vou fazer na minha noite de núpcias quando Brookhaven descobrir que
não...
— Está preparada? — o vigário a interrompeu mais que depressa.
Phoebe piscou, atrapalhada.
— O senhor sabe.
Ele desviou os olhos, pigarreando novamente.
— Não há nada a saber, nada.
Phoebe estava perplexa. O vigário, um virtuoso homem de Deus, era
mentiroso. E queria que ela mentisse também!
Como ele ousou me julgar de maneira tão severa? Eu pelo menos pequei por
amor!
Tudo o que ela conseguiu responder, porém, foi:
— Sim, papai.
Rafe sabia que era imperdoável o que estava prestes a fazer. Antes de sair,
conferiu todos os detalhes, não deixando escapar nenhum, para que nunca mais
precisasse voltar ali.
Naquele jogo pelo coração de Phoebe era certo que acabaria perdedor.
Contudo, estava sofrendo muito para se importar. Pretendia arriscar essa última
cartada.
Se ela aceitasse ficar com ele, perderia o irmão para sempre.
Se ela o rejeitasse, de qualquer jeito perderia Calder também, pois não
haveria mais faturo ali; não poderia viver na casa do irmão, sob o mesmo teto dos
dois.
Havia uma última providência a tomar. Ele parou junto à cômoda e colocou
sobre ela o anel com o sinete dos Marbrook. Usava-o fazia vinte anos. Era como se
fizesse parte de seu próprio dedo.
Não havia a menor possibilidade de voltar àquela casa depois da traição ao
irmão... Jamais. Tampouco havia outra coisa a fazer. Não importava qual fosse o

Projeto Revisoras 96
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

resultado. Aquela tortura precisava ter um fim.


O lacaio estava vestido com o habitual traje azul e preto; a carruagem parada
na rua em frente a Brook House era a mesma que já tinham usado; não havia nada
de estranho na mão enluvada que foi estendida de dentro da carruagem para ajudá-
la. Nada que pudesse fazer Phoebe desconfiar.
Entretanto, no instante em que essa mão se fechou sobre a dela, ela soube.
Tentou se desvencilhar, mas Rafe reteve a mão e a puxou para dentro.
Lá estava ela dentro da carruagem com o homem que devia evitar. Somente
quando a porta foi fechada e a carruagem começou a se movimentar, ele soltou sua
mão.
Phoebe sentia-se trêmula e tensa. Por um longo momento permaneceram em
silêncio, mas não agüentando mais, ela perguntou:
— Onde ele está? Rafe respirou fundo.
— Em Hertfordshire. Houve um problema lá.
Phoebe esperava que ele falasse mais a respeito, mas novamente reinou o
silêncio e ela não conseguiu formular mais nenhuma pergunta. Podia sentir que ele
a observava e sentia-se desconfortável. Em vez daquele vestido que tinha por
objetivo despertar o desejo de Calder, ela gostaria de estar usando um hábito de
freira.
— Você parece um carneiro que vai ser abatido — finalmente Rafe quebrou o
silêncio.
— A única pessoa que deveria ser abatida é você — ela retrucou no mesmo
instante. — O que passa por sua cabeça para me enganar desse jeito?
À medida que a carruagem seguia pelas ruas de Londres, Phoebe
considerava suas alternativas. Poderia gritar... se jogar da carruagem... ou pedir
socorro ao lacaio. Mas não fez nada disso. Na verdade, Rafe não havia feito nada
que ela também não tivesse querido e consentido. O fato é que precisavam
conversar. Precisava fazê-lo entender que sua decisão de manter o compromisso
com Calder era séria. E, no camarote, teria uma boa oportunidade de conversar.
Além do mais, estariam em um lugar público, sem o risco de vestidos desabotoados
e gravatas arrancadas, apesar de ser estranho estar acompanhada de Rafe e não
de seu noivo.
Ela decidiu aguardar até que chegassem ao teatro, em Covent Garden, e
voltou o rosto para a janela.
De repente, porém, notou que começaram a rarear os pontos de luz que
divisava pela janela. O escuro ficava mais denso e ela foi ficando alarmada.
— Onde estamos? — Levantou-se e tentou colocar a mão na maçaneta da
porta.
— Phoebe, não...
Ela abriu a porta que se escancarou para fora e bateu em um galho de árvore
que a empurrou de volta, fazendo com que novamente se fechasse com uma
pancada.
— Oooh! — Ela fez o possível para se manter em pé, mas desequilibrou-se e

Projeto Revisoras 97
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

acabou sendo amparada pelos fortes braços de Rafe.


— Calma, Phoebe.
O calor da respiração dele em seu ouvido provocou um alarmante arrepio por
todo o seu corpo. Ela procurou se livrar do abraço e sentou-se no banco em frente a
ele, percebendo que a carruagem parava.
— Está tudo bem?
— Sim, claro. Está tudo bem — disse ele, com naturalidade.
— A propósito, quanto mais quer que eu siga nesta estrada? Há mais de
cinco minutos passamos pela última hospedaria.
Phoebe viu o olhar desconcertado de Rafe como se tivesse sido flagrado. Sua
própria preocupação transformou-se em medo.
A intenção dele era levá-la para uma hospedaria longe da cidade e de
qualquer interrupção ou... ajuda.
Ela estava simplesmente sendo raptada.
Rafe deixou o seu assento e ajoelhou-se diante dela de maneira impetuosa.
— Phoebe, por favor, me perdoe! Eu precisava fazer isso. Não consigo parar
de pensar em você, na maneira como me olha. Quando estamos juntos, me sinto
como eu era antes da amargura e o ressentimento terem tomado conta de mim.
— Você não pode estar sugerindo que eu fuja com você, não é? Não com
uma roupa que seu irmão me comprou, em uma carruagem que pertence a ele,
dirigida por criados dele...
— Você não entende que ele nunca a fará feliz? Ele é frio como uma pedra,
nunca a entenderá como eu a entendo. Você me garante que ficará satisfeita com
uma vida sem sonhos, sem alegrias, ano após ano, sem riso e sem amor? Não vai
se desesperar com isso, não vai prejudicar a si mesma? Eu já vi isso acontecer
antes!
Phoebe olhou para as mãos que seguravam as dela.
— Eu sei, foi com Melinda.
— Ela não era diferente de você. Também achou que dinheiro e status eram
suficientes, mas sofreu muito até decidir que simplesmente não poderia viver nem
mais um dia daquele jeito.
Rafe procurou respostas no rosto dela, mas ela estava petrificada.
— Você não entende, Phoebe, que pode mudar o rumo dos acontecimentos,
já? Basta optar por mim. Juro que posso lhe proporcionar uma vida feliz.
Que dias e que noites poderiam ter juntos! Mas bastaria saírem juntos para
começarem os olhares atravessados, a maledicência. Uma vida de notoriedade. O
pouco que conhecera da vida em sociedade lhe dizia que seu pai tinha razão. A
maledicência não acabava nunca, até não se saber mais o que era ou não verdade.
Tomada de pânico, ela se afastou.
— Não consigo respirar... não consigo pensar... Não, nunca mais quero sentir
o que já senti. Tenho muito medo! Não conseguiria suportar...

Projeto Revisoras 98
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Suportar o quê, Phoebe? Por favor, me diga,


— Já sou observada e falada só por ter ficado noiva. O que dirá o mundo se
eu desprezar um marquês por um bastardo libertino? — Ela viu um brilho de dor nos
olhos de Rafe e sacudiu a cabeça. — Me perdoe. Você sabe que pouco me
importam sua origem ou passado, mas vão me atirar na cara. Serei difamada,
conhecida como a noiva do bastardo ou a duquesa fugitiva, ou algo ainda pior.
— Não passarão de falatórios. O que importam? Ela deu um sorriso amargo.
— Se fosse só isso... Como você acha que meu pai reagiria? E minhas
primas? E os vizinhos, que não deixariam seus filhos brincar com os nossos, e os
que deixariam uma festa quando chegássemos, além, é claro, de seu irmão.
Rafe franziu o cenho.
— Você não conhece meu irmão.
— Conheço o bastante para saber que Calder o ama. Você o testou durante
todos esses anos e ele ainda assim está a seu lado.
— Não está, não. — Rafe se afastou e sentou-se no banco oposto,
visivelmente cansado. — De qualquer forma, não estará mais depois desta noite. —
Ele esboçou um sorriso triste e levantou o braço para bater na portinhola no alto da
carruagem.
Imediatamente apareceu o lacaio.
— Sim, milorde?
Oh, Deus! Phoebe fechou os olhos.
— Você e Stevens poderiam nos deixar por um momento a sós agora?
— Pois não, milorde. Vamos caminhar um pouco estrada à frente.
Phoebe permaneceu de olhos fechados até os dois saltarem da carruagem e
ouvir o som de seus passos silenciar na escuridão.

Deirdre perambulava pela sala de música onde Sophie trabalhava, sem


perder a concentração, em outra parte de sua tradução.
— Tessa está tramando alguma coisa — disse ela, atirando-se no sofá.
Sophie suspirou, contrariada com a interrupção. Colocando o lápis para
marcar o lugar onde havia parado, ela voltou sua atenção para a prima.
— O que a faz pensar assim? Deirdre fungou.
— Anos de experiência, minha cara. Não foi por bondade que ela ajudou
Phoebe a se arrumar e ficar linda para a ópera esta noite. Ela nunca dá ponto sem
nó.
Sophie deu de ombros.
— Não estou entendendo, pois Phoebe não vai a ópera hoje.
— Como não? — Deirdre piscou os olhos.
— Ouvi Fortescue comentar com um dos criados que Brookhaven teve de sair
às pressas da cidade devido a uma emergência.

Projeto Revisoras 99
Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Deirdre estalou os dedos.


— Sophie, por favor concentre-se! Tem certeza do que está dizendo?
— Claro que tenho. Eu o vi sair logo cedo. Estou certa de que Phoebe agora
também já sabe.
Deirdre sacudiu a cabeça devagar.
— Phoebe saiu faz uma hora com um homem que então não era o marquês.
Sophie mordeu o lábio. Não sabia se ficava contente ou triste por Phoebe.
— E você acha que Tessa tinha conhecimento da ausência dele?
Deirdre estreitou os olhos.
— Tessa sabe de tudo o que é de seu interesse.
Sophie fixou o olhar em Deirdre por um momento, completamente esquecida
de sua tradução.
— Você está sabendo sobre Phoebe e Marbrook?
Deirdre se inclinou na poltrona.
— Não tanto quanto você. Por que não me conta?

Os criados se afastaram levando uma das lanternas da carruagem. A luz foi


se tornando indistinta no meio da névoa que tornava a escuridão ainda mais densa.
Phoebe manteve o olhar para fora da janela, não conseguindo encarar Rafe.
— Você finge que não entende quando sei que entende muito bem. Se me
casar com você serei a personificação do escândalo. Uma história como essa é
objeto de maledicência por gerações.
— Eu mesmo fui objeto de falatório a vida toda. Asseguro que não mata.
— Ah, mata, sim! — ela retrucou. — Sou a própria covarde que você vê.
Ele hesitou diante dessa afirmação e respirou fundo.
— Será mesmo? Será que a sociedade tem mais poder do que seus
sentimentos por mim?
— Não é tão simples assim!
— É, sim. Como respirar ou o pulsar do coração. Sou seu. Você é minha.
Nada pode reverter isso.
Phoebe não teceu comentário algum, deixando o silêncio responder por ela.
O momento se estendeu, o silêncio cresceu como um impenetrável muro
entre os dois. Rafe sentiu um calafrio irradiado pela fria decisão dela. Seu peito doía.
— Não vou importuná-la mais então. Peço desculpas pelo sofrimento que lhe
causei devido a minha ignorância.
Ele fazia um gesto em direção à maçaneta da porta, preparando-se para sair
da carruagem e ir procurar os criados, quando a mão de Phoebe tocou em seu
braço. Seu olhar se deteve naquela mãozinha, nos dedos trêmulos que mal tocavam
o tecido de sua manga.

Projeto Revisoras 100


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Phoebe...
— Rafe... — sussurrou ela, em agonia. — Sinto muito.
— Não — disse ele baixinho, sem levantar os olhos da pequena mão
enluvada. — Sou eu que sinto muito. Sinto ter tido uma vida desregrada. Sinto não
ser respeitável. Sinto não ter pedido sua mão em casamento na noite em que nos
conhecemos. Sinto ter chegado até você tarde demais, com tão pouco a oferecer.
A mão de Phoebe deslizou até a de Rafe, e ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Se ao menos eu pudesse lhe contar...
— O que significa isso, Phoebe? Por que você me rejeita, depois me provoca
com seu toque.
Ela riu, nervosa.
— Não sou eu que... logo você saberá algo sobre mim. Vou me casar com
Calder e, quando ele se tornar um duque, você entenderá que eu não tive escolha.
Você se lembrará de que obedeci meu pai e fui covarde, mas deve também lembrar
de que o amei muito e bem. A razão de minha recusa não é por você ser o homem
que é. Essa, pelo contrário, é a razão de ser tão difícil recusá-lo.
Ele se aproximou e a abraçou apertado.
— Tudo ficará bem, Phoebe. Você terá uma linda vida, e eu a visitarei um dia
e serei um bom tio ovelha negra para seus filhos: darei a eles doces que causarão
dor de barriga e brinquedos que farão muito barulho.
Ela riu com o rosto enfiado no paletó dele, mas seu riso logo se transformou
em soluços. Rafe a apertou nos braços enquanto ela chorava. Aquelas lágrimas se
transformariam em cicatrizes em seu peito.
Vê-la partir seria a morte para ele.
A carruagem estacionava em um dos lados da estrada quando Stickley e
Wolfe a alcançou. Eles permaneceram do lado oposto, escondidos nas sombras das
árvores. A chuva recente deixara tudo molhado.
— O que eles estão fazendo? — Stickley sussurrou. — Pensei que fossem à
ópera.
Wolfe passou a mão pela roupa suja e rota.
— É melhor que não tenham ido. Nunca conseguiria entrar lá desse jeito.
Stickley o olhou preocupado.
— Acho melhor desistirmos da idéia. Está tudo dando errado. E não gosto
deste lugar silencioso e sombrio. Pode haver bandidos por aqui.
Wolfe riu e seus dentes brilharam no escuro.
— Stick, você é um gênio. Me dê aqui sua pistola.
— Não! Preciso dela quando faço depósitos no banco. Sou muito cuidadoso
com o dinheiro dos outros, você sabe.
— Sei disso. E é o dinheiro de lady Millbury que estou tentando salvar de um
lorde assassino que tem uma propriedade caindo aos pedaços.
Stickley o olhou horrorizado.

Projeto Revisoras 101


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Você vai matá-lo? Wolfe exasperou-se.


— Não vou matar Brookhaven, Stick. Vou apenas capturá-lo, como
planejamos. E é muito melhor agarrá-lo aqui do que na ópera, pois aqui não há
quase ninguém a não ser o cocheiro e um lacaio.
— E lady Millbury? Você não vai assustá-la muito, vai?
Wolfe levantou as duas mãos.
— Estou aqui para salvar Millbury, lembra? Somos os heróis nesta ópera.
Stickley esboçou um sorriso hesitante.
— Claro... — Ele passou a pistola para Wolfe. — Seja firme, mas não
violento. E não revele sua identidade!
Wolfe cobriu metade do rosto com um lenço de seda azul-escuro.
— Pronto. Não corro risco algum porque nem Brookhaven nem lady Millbury
nunca me viram. Você fique aqui.
E Wolfe se foi, uma sombra entre as sombras, movimentando-se em direção
à carruagem estacionada.
Phoebe levantou a cabeça do peito de Rafe e enxugou as lágrimas do rosto.
— Que barulho foi esse? Rafe olhou para fora.
— Será que os criados voltaram? Phoebe estremeceu.
— Posso jurar que ouvi alguém dizer: "mande a mercadoria".
Rafe começou a repetir:
— Mande a... — E pôs-se em pé de um pulo. Colocou então as mãos nos
ombros dela e recomendou: — Não saia daqui!
Com um movimento rápido, ele abriu a porta pelo lado que dava para o
bosque e, abaixando-se, saiu furtivamente da carruagem.
Phoebe permaneceu ali, tomada de medo, mas assim que Rafe desapareceu,
ficou de quatro no chão da carruagem e espiou pela janela, pelo lado da estrada.
— Levante-se e entregue-se, desgraçado! — A voz era grave e grosseira.
Um homem todo vestido de preto, e com uma máscara que só deixava ver os
olhos, apareceu, apontando uma pistola na direção dela!
Ela se abaixou, embora soubesse que a estrutura da carruagem dificilmente
conteria uma bala. Por um momento, ficou indecisa se deveria sair pela outra porta,
como Rafe. Finalmente, foi engatinhando para trás, maldizendo a quantidade de
saias de seu vestido,
Como a porta por onde Rafe saíra não havia sido fechada, foi fácil empurrá-
la, escorregar para o chão lamacento e buscar proteção e abrigo sob a carruagem.
Ninguém haveria de procurar uma lady entre as quatro rodas do veículo!
A lama tornava tudo mais difícil, mas, deitada de rosto para o chão, ela
silenciosamente arrastou-se para o outro lado. Apoiada nos cotovelos, tirou uns fios
de cabelo dos olhos e tentou localizar o bandido.
Lá estava ele, sozinho no meio da estrada, balançando a arma.

Projeto Revisoras 102


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Sei que você está aí, Brookhaven! Renda-se e eu não farei mal algum à
lady.
Como se fosse possível acreditar na palavra de um bandido, Phoebe pensou.
De repente, uma mão fria e pegajosa segurou seu tornozelo. Ela teve um
violento sobressalto, mas não emitiu qualquer som.
— Pensei que havia lhe dito para não sair da carruagem — Rafe sussurrou às
costas dela. — Deu uma espiada no assaltante, que parecia estar perdendo a
paciência, e comentou de maneira quase inaudível: — Ele parece que não tem muita
experiência.
Phoebe se limitou a concordar com a cabeça. Ao ver o homem começar a se
aproximar da carruagem, Rafe encostou a boca no ouvido de Phoebe e disse:
— Quando eu der o sinal, saia daqui e se esconda entre as árvores. Eu virei
procurá-la.
Phoebe assentiu, sentindo o pavor crescer dentro dela. Aquilo era real, o
bandido era real, e a pistola que carregava era muito, muito real.
— Tenha muito cuidado — pediu, assustadíssima.
— Não se preocupe, estarei presente em seu casamento. Agora vá.
Phoebe manteve-se ainda sob a carruagem enquanto Rafe sorrateiramente
saltou na escuridão sobre o homem armado. Vagarosamente ela saiu de baixo do
veículo, arrastando o pesado vestido, agora completamente sujo de lama. Levantou-
se então, segurando as saias com ambas as mãos, e voltou-se para correr, atenta o
tempo todo aos ruídos da briga. Deu alguns passos dentro do bosque e, sem ter a
luz da lua iluminando, foi se esgueirando com uma das mãos à frente, sentido que
pisava em um ou outro galho caído. Foi quando ouviu um grito de dor.
— Rafe!
Para o inferno com a obediência. Abaixou a cabeça e procurou no chão um
galho pesado que conseguisse agüentar. Com algum esforço ela conseguiu erguê-lo
alto e, respirando fiando, deu a volta na carruagem, gritando feito uma guerreira.
Os assaltantes eram dois agora e puxavam Rafe desfalecido pela estrada.
Seu grito fez com que eles levantassem as cabeças e fossem surpreendidos pela
pancada do galho em seus rostos.
Cambalearam para trás, praguejando. Podia vê-los claramente, com exceção
de seus rostos ocultos pelas máscaras. A máscara do mais franzino parecia ter sido
feita da manga de uma camisa e ficava dançando na cabeça dele a cada
movimento. Principiantes idiotas!
Ela colocou um pé de cada lado da figura imóvel de Rafe e, sacudindo o
galho, gritou para os bandidos.
— Fora daqui, seus desgraçados!
— Que linguajar!
O homem mais alto empurrou o companheiro pelo peito.
— Cale a boca, Sti... Stone!
O homem mais baixo escorregou na lama e procurou se reequilibrar.

Projeto Revisoras 103


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Está bem... Fox.


Voltando-se para Phoebe, o mais alto disse:
— Não precisa ficar preocupada. Temos um acerto com este cavalheiro, mas
não pretendemos fazer nenhum mal à senhora.
—- Que pena, pois eu pretendo fazer muito mal a vocês.
Ela balançou o galho com força de um lado para outro, fazendo com que
"assobiasse" em contato com o ar. Os dois homens pularam para trás, patinando na
lama.
O homem mais alto levantou ambas as mãos. Um sorriso branco apareceu
sob a máscara.
— Não há necessidade disso — disse ele, em tom bajulador. — A senhorita é
bonita demais para ser tão violenta.
— Sou mesmo?...
Ele riu e deu um passo em direção a ela.
Esse passo era tudo o que Phoebe precisava. Ela balançou mais uma vez o
galho com força, arremessando-o contra o maxilar dele. O homenzarrão soltou um
berro de dor e deslizou na lama antes de cair de costas na estrada.
— Fox... — O homem mais franzino correu em direção ao companheiro e
ajoelhou-se ao lado dele. — Fox, você está me ouvindo?
Sem responder, o homem alto empurrou o outro para o lado e se levantou,
passando a mão pelo queixo com todo o cuidado.
Na outra mão, ele empunhava a pistola, apontando-a diretamente para o
coração de Phoebe.
Que droga, ela havia se esquecido da arma dele!
O homem franzino argumentou:
— O que você está fazendo? Você não pode atirar em uma lady!
— Ah, posso sim. Ela me atacou! Stone deu um passo para trás.
— Você não vai fazer nada disso. — A voz dele soou diferente, autoritária e
rígida. — Por favor, lembre-se de quem você é.
O homem de nome “Tox” pareceu se lembrar. Phoebe estava com a
respiração suspensa, com as mãos tremendo e sucumbindo ao medo. Eis que o
homem alto abaixou a arma.
— Fica para outro dia, então — disse ele em tom ameaçador. Levantando
novamente a arma, atirou em direção à carruagem de Brookhaven, assustando os
cavalos que saíram em disparada.
E com eles lá se foi qualquer esperança que Phoebe pudesse ter de obter
socorro rápido. Fox deu um sorriso maldoso.
— Boa caminhada, mocinha. Espero que milorde não seja muito pesado.
Reclamando e praguejando, os dois desapareceram na escuridão.
Somente depois de não mais ouvir o som das vozes deles, Phoebe se desfez

Projeto Revisoras 104


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

do galho e se ajoelhou ao lado de Rafe. Ela o desvirou e limpou a lama que cobria
boa parte de seu rosto.
— Rafe, Rafe... Rafe, meu querido, por favor abra os olhos. Precisamos sair
daqui...
Depois de um quarto de hora de escorregões e tropeços carregando um
trôpego Rafe, Phoebe avistou os corpos dos dois criados estendidos no lado da
estrada. Ela procurou acomodar Rafe ajoelhado e correu até eles. Ambos os ho-
mens estavam inconscientes, mas com a respiração e o batimento cardíaco
normais. Ela observou, mas não encontrou ferimentos na cabeça deles, a não ser
pequenos inchaços.
Por um momento, considerou deixar Rafe com os criados, mas ele estava
muito desorientado. Poderia cismar de entrar no bosque e nunca mais ser
encontrado.
Passando novamente o braço de Rafe sobre seus ombros e, dessa vez
fazendo mais esforço para erguê-lo, ela decidiu resoluta prosseguir até a
hospedaria.
— Só mais uns três quilômetros... Fácil...
Ela praticamente arrastava Rafe que parecia um sonâmbulo, muito
cambaleante. Começava a sentir um certo desespero pelo estado de inconsciência
dele. Já era hora de estar mais desperto!
Por uma vez ela o ouviu dizer de forma bastante clara:
— Phoebe, minha cabeça dói. — E voltou a seu estado de confusão mental,
murmurando coisas sobre Brookhaven, Calder e suas malditas fábricas.
Quando ele ficava muito quieto, ela o provocava com alguma pergunta sobre
Calder para obter uma resposta. Em seu delírio, algumas vezes ele se referia a ela:
— Ela é a mulher da minha vida. Não consigo fazê-la me amar.
As forças começavam a lhe faltar. Aquilo era muito, mesmo para uma mulher
do campo. Quando viu o brilho de lampiões à frente, foi tal o alívio que seus joelhos
enfraqueceram e ela quase caiu com Rafe.
Endireitou o braço dele em seus ombros o melhor que pôde e conseguiu
finalmente chegar à hospedaria. Tentava com dificuldade subir o primeiro degrau
quando alguém que saía os viu.
— Scott, venha cá! Por favor, deixe-me ajudá-la!
Agradecida, Phoebe passou a maior parte do peso de Rafe para o estranho.
Sentia a visão turva e os joelhos trêmulos. Ela se apoiou no batente da porta para se
equilibrar enquanto o estranho levava Rafe para dentro da hospedaria. Mas sua
missão ainda não estava terminada.
— Senhor, nosso cocheiro e o lacaio estão feridos. Por favor, mande alguém
até mais adiante na estrada para socorrê-los.
Ao entrar, na hospedaria, os sons e as luzes suscitaram em Phoebe uma
reconfortante sensação. Eles foram recebidos com exclamações de espanto e pena,
diante de seu estado, e todos imediatamente se levantaram para acolhê-los e ajudá-
los. Alguém muito gentilmente pegou-a pelo cotovelo e a fez sentar-se junto à

Projeto Revisoras 105


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

lareira.
É preciso agora pensar em uma versão que salve minha...
— Lorde Marbrook! O que lhe aconteceu?
Ai meu Deus! Phoebe levantou a cabeça assustada e viu um homem jovem
inclinado sobre Rafe. Rafe também tentou levantar a cabeça, piscando várias vezes.
Começava a ganhar consciência, mas Phoebe ficou apreensiva sobre o que ele
poderia dizer.
Ela pôs-se em pé no mesmo instante e postou-se entre os dois.
— Senhor, peço-lhe que não converse com ele agora. Tivemos uma noite
terrível.
O cidadão a olhou, desconfiado.
-— Rafe é meu amigo, mas a senhorita eu não conheço.
Ah, se já tivesse planejado uma boa versão!
— Eu? Sou... irmã dele.
— Conheço Rafe da época de escola. Ele nunca mencionou que tinha uma
irmã. — Espantou-se ele.
— É que eu... eu pouco saía de Brookhaven. O homem levantou a
sobrancelha,
— Entendo. — Finalmente ele deu de ombros e perguntou: — Então como
posso ajudá-la? Precisa de dois quartos para esta noite?
Phoebe procurou disfarçar o alívio.
— Sim... obrigada.
O homem fez uma mesura.
— Oh, por favor me perdoe, sou Somers Boothe-Jamison.
Beirando a exaustão e o pânico porque Rafe não havia ainda recuperado a
consciência, ela limitou-se a dizer:
— Por favor, onde ficam os quartos?
Quando ele saiu, ela sentou-se ao lado de Rafe e examinou o ferimento na
cabeça dele, sob a luz do pequeno candelabro no centro da mesa. Além do inchaço,
havia um corte, felizmente não muito grande ou profundo, que sangrara bastante.
Ele estava menos pálido agora e seu pulso parecia forte. Ela pôs as mãos em seu
rosto.
— Rafe querido... acorde. Acorde, por favor.
Ele se mexeu e suas pálpebras se movimentaram, mas não acordou. De tão
preocupada que estava, Phoebe nem notou quando Boothe-Jamison voltou com
ajuda para levar Rafe para o quarto.
— Deixei o quarto no sótão para os criados feridos, pois achei que gostaria de
ficar perto de seu irmão...
— Está bem, obrigada — Phoebe respondeu meio seca, pois não via a hora
que todos saíssem antes que alguém decifrasse o murmúrio que Rafe repetia:

Projeto Revisoras 106


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Phoebe, onde está você?


Ela prometeu a Boothe-Jamison que o avisaria assim que Rafe recuperasse a
consciência para que pudesse vê-lo, e ele, por sua vez, ficou de imediatamente
providenciar um médico para Rafe e os criados.
Quando a porta se fechou, Phoebe estava exaurida. Ela deu um suspiro
profundo e correu para o lado de Rafe para certificar-se de que respirava. Passou a
mão pela testa e pelos cabelos dele e, desatando em um choro convulsivo, deixou-
se cair sentada no chão.
Quando, finalmente, as lágrimas secaram e ela se acalmou um pouco, olhou
desgostosa para o vestido imundo e rasgado.
Levantou-se rapidamente e começou a tirá-lo sem se importar de arrebentar
os botões. Queria queimá-lo, mas onde encontraria outro para vestir? Ela o atirou
em um canto. Dirigiu-se então até o outro lado do quarto, onde havia uma bacia e
um jarro, para se lavar.
Primeiro lavou os olhos que estavam ardendo do choro e fez o possível para
limpar um pouco a sujeira de lama da própria pele. Depois, pegou a toalha para
limpar os ferimentos e tirar o sangue e a sujeira do rosto de Rafe.
Ele havia sido muito espancado, pobre querido. Sabia que ele teria lutado
com a mesma valentia para proteger qualquer mulher, mas o fato de haver lutado
tanto por ela, e estar tão machucado, teve uma conseqüência irreparável em seu
coração.
Amor. Transbordava pleno e permanente dentro dela. Não havia como negar,
não havia como ignorar, não adiantava pensar que um dia acabaria ou esmoreceria.
Era amor verdadeiro.
Foi assim que ela compreendeu que não era a reprovação da sociedade que
temia. Não fora o medo de um escândalo que a tornara covarde.
Fora essa ânsia incontida... essa vulnerabilidade... Esse amor.
Que tola havia sido. O amor não era uma bebida que se provava e depois
rejeitava. O amor não era algo que pudesse ser evitado ou acertado.
Nada havia nela a não ser amor por Rafe. Nem uma outra decisão a tomar,
nenhuma estratégia a fazer. Ela era dele.
Tirou um cacho de cabelos da testa de Rafe e o beijou nos lábios.
— Você é o meu amor — ela sussurrou.
Para sempre.

CAPÍTULO V

Projeto Revisoras 107


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

O quarto estava silencioso. O médico havia passado, recomendando que


Marbrook precisava de repouso e cuidados. Dirigindo um olhar significativo para
Phoebe, ele enfatizou a palavra "repouso". Pelo visto, ele tinha uma grande
experiência na vida e não acreditara em seu disfarce de irmã, uma fachada
provavelmente muito usada.
Como era estranho esse seu sentimento. O que sentira por Terrence não era
nada se comparado ao amor que sentia por Rafe. Ele não era perfeito, levara uma
vida tumultuada. Será que ele conseguiria apostar todas as suas fichas nela dali
para a frente?
Bastaria uma simples palavra: "sim". Por que não dizê-la? Por que não dar o
"sim" ao amor e à felicidade? Já havia dito "sim" uma vez, em uma noite cheia de
luar e rosas imaginárias...
— Com licença, meu querido — disse ela para Rafe, levantando-se da cama,
ao lado dele. — Está na hora de eu comunicar oficialmente a seu irmão.
Calder ficaria decepcionado e provavelmente muito zangado, mas tinha
certeza de que não ficaria ferido. Algum dia encontraria uma outra mulher, mas a
felizarda não seria ela. Engraçado, agora que se decidira a abandoná-lo, conseguia
vê-lo pela primeira vez como um homem e não como um obstáculo. Pessoa
respeitável que era, Calder merecia dela mais do que uma simples deserção.
Merecia uma explicação.
Finalmente, seu coração estava calmo, seu futuro claro. Ela tocou a
campainha do quarto para que alguém viesse atendê-la e aguardou à porta para que
ninguém precisasse bater e incomodar Rafe. Pediu então papel e tinta. Quando
trouxeram, sentou-se junto a uma mesinha para explicar a Calder o porquê de não
poder desposá-lo.
Caro lorde Brookhaven,
Deveria ter-lhe dito imediatamente, antes que assumíssemos esse
compromisso, mas cometi um erro terrível...
Quando a carta ficou pronta ela a lacrou com um pouquinho de cera da vela.
Colocou então seu manto ainda úmido sobre a camisola que lhe fora emprestada e,
com passos rápidos, dirigiu-se ao quarto do cocheiro e do lacaio, no sótão.
O lacaio abriu a porta, arregalando os olhos ao vê-la.
— Sim, milady?
— Como está o cocheiro?
— Está bem... só um pouco dolorido.
— Preciso que lorde Brookhaven receba esta carta imediatamente. Você sabe
onde ele está?
— Sei, sim. Já fui com ele à fábrica de cerâmica... Phoebe deu-lhe algumas
moedas que tirara do bolso de Rafe.
— Providencie com o dono da hospedaria um bom cavalo e vá bem rápido
levar esta carta para lorde Brookhaven. Quero que ele a veja imediatamente.
— A senhorita quer que eu aguarde por uma resposta?
— Não é necessário.

Projeto Revisoras 108


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ela ficou então aguardando à janela de seu quarto na hospedaria até ver o
criado partir a cavalo. Logo haveria um homem decepcionado. Quanto a seu pai,
falaria pessoalmente. Apesar de todas as falhas dele, devia-lhe isso.
Voltou-se para Rafe, Seus ferimentos ainda impressionavam, mas ele agora
estava calmo e natural.
Seu homem... para sempre.
Sentindo-se como se tivesse tirado uma grande carga dos ombros, Phoebe
sorriu e tirou a camisola. Despida, caminhou até o outro lado da larga cama e se
enfiou debaixo das colchas.
Ainda atordoado, Rafe teve consciência de que sua cabeça doía muito.
Procurou se sentar, mas isso só fez com que doesse mais, fazendo-o retroceder até
sentir que se deitava em alguma coisa macia.
— Hum...
O sobressalto que teve ao ouvir o resmungo fez com que despertasse de vez.
Conhecia bem a maciez da pele feminina. Havia uma mulher em sua cama.
— Olá. — Seria bom se fosse Phoebe. Mas se fosse ela, estaria em maus
lençóis!
— Rafe?
No mesmo instante, ele foi tomado de igual sensação de alegria e
sofrimento... bem, talvez não exatamente igual. Às favas com os escrúpulos, às
favas com Calder. Tinha Phoebe em sua cama! Puxou-a para seus braços, e ela,
carinhosamente, se aninhou neles.
— Como está sua cabeça, meu amor? — ela sussurrou.
— Dói, mas... — "Meu amor"? Rafe fechou os olhos, tentando se lembrar.
Eles estavam sozinhos na carruagem e ele a liberara, desistira dela, sacrificara os
próprios sentimentos pela felicidade dela.
E o que sucedera? Havia algo no ar, algo importante...
— "Mande a mercadoria"?
Ela riu, encostando a cabeça no peito dele, de maneira tão natural como se
dormisse nua com ele há anos.
— Você está caçoando de mim agora.
— Havia um assaltante!
— Dois, na realidade. Acho que foi o segundo que o agrediu pelas costas,
caso contrário você teria acabado com eles.
Ele tentou uma vez mais se sentar.
— Então como conseguimos escapar com vida? Ela fez com que se deitasse
de novo.
— Quietinho, cuidado com sua cabeça. Eu dei um jeito neles para você, bem
pelo menos em um deles.
Rafe sentia a cabeça latejar e ainda estava zonzo.
— Phoebe, por favor comece do começo.

Projeto Revisoras 109


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Será preciso? O meio é muito mais interessante.


— Phoebe. Ela suspirou.
— Está bem. Nós estávamos na carruagem conversando, depois que você
pediu que os criados se afastassem. Lembra disso?
— Sim, lembro-me de tudo até o momento em que lhe pedi para fugir.
— Mas eu não podia deixar você à mercê deles. Eles estavam tentando levá-
lo!
— Por que fariam isso? Os assaltantes roubam e algumas vezes matam, mas
nunca soube que raptassem.
— Bem, pelo menos foi o que me pareceu. Ainda havia neblina. Talvez eles
estivem somente remexendo em seus bolsos para roubar alguma coisa. — Ela fez
um muxoxo: — Seu resgate assim fica menos excitante. Será que encarei uma arma
só para salvar seu relógio de bolso?
Ele a apertou nos braços.
— Nunca mais faça uma coisa dessas por mim! Phoebe enlaçou o pescoço
dele.
— Prometo. Da próxima vez farei por mim mesma.
— Da próxima vez, você fugirá, como lhe pedi!
— Sim, milorde... meu amor. — Beijou-o no peito.
"Meu amor" mais uma vez!
— E como foi que você os abateu?
— Com um galho de árvore. Mas eu só derrubei um deles. O mais forte. O
outro era diferente. Parecia não querer ferir ninguém. Fez o mais forte nos deixar,
então assustaram os cavalos e nos abandonaram na estrada. Eu consegui colocar
você em pé, e nós levamos um bom tempo para chegarmos nesta hospedaria, por
onde já havíamos passado.
Ele não conseguia acreditar que tivesse andado.
— E onde estão Afton e Vincent.
— Também estão aqui, sob cuidados. Não se preocupe. Acho que por
enquanto ninguém encontrou a carruagem, mas logo encontrarão. Eu pedi que o
colocassem na cama e depois eu...
Ele a apertou.
— Depois você o quê?
Phoebe se aninhou no peito dele de novo.
— Eu escrevi para Calder — ela sussurrou. — Contei a ele que não vou me
casar com ele porque amo outra pessoa.
Ele! Phoebe o havia escolhido. Aquele não era um simples arroubo com a
noiva de seu irmão. Ela o amava.
Sabia que Phoebe estava à espera de um comentário. Mas não sabia como
expressar o que sentia. Era um homem refeito.

Projeto Revisoras 110


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Obrigado — disse, formal.


Ela se apoiou nas mãos para poder fitá-lo.
— O quê?
— Eu disse obri...
— Pare. Espere. Um momento. — Ela passou por cima dele para descer da
cama e cruzar o quarto.
Rafe ouviu um tinido e um estalo.
Phoebe voltou para a cama trazendo um pequeno candelabro aceso e, para o
pesar de Rafe, vestindo a camisa dele que lhe cobria o corpo até os joelhos. Depois
de colocar o candelabro na mesa-de-cabeceira, ela o ajudou a erguer um pouco o
corpo para ajeitar os travesseiros às suas costas.
— Agora pode se deitar. — Ela se sentou então na beira da cama e o fitou. —
Muito bem. Pode falar agora.
Ele esboçou um sorriso.
— Obrigado... obrigado por não desistir de mim.
— Por nada — ela sussurrou, olhando-o enternecida por um longo momento.
Depois, abriu um largo sorriso e, inclinando-se, o beijou no peito. Ao levantar a
cabeça, tinha um sorriso malicioso nos lábios. — Você já está se sentindo
suficientemente bem?
Ele a acariciou no rosto e passou o polegar pelos lábios dela.
— Suficientemente bem para o quê?
-— Para fazermos amor de verdade. — Ele brincou com uma mecha de
cabelos dela. — Pelo que percebo logo reunirei forças...
Phoebe se sentou e tirou a camisa dele pela cabeça, mostrando-se pela
primeira vez inteiramente nua para ele.
Rafe tossiu surpreso.
— Acho que já estou pronto.
Ela se atirou sobre ele, beijando-o no peito, passando as mãos pelo corpo
másculo de uma maneira mais ousada do que se imaginaria para uma inocente
donzela. Não que Rafe se importasse. Ele não era nenhum anjo para se importar
com um detalhe daqueles.
No entanto, ela estava apressada demais. Desta vez tinham toda a noite por
conta deles. Ele tomou-lhe as mãos e as afastou do próprio corpo.
— Querida, por favor... Ela ficou imóvel,
— Ah, não! Já? Ele riu.
— Não, não que você não seja tentadora, mas consigo me controlar um
pouco mais do que você pensa.
Ela piscou os olhos.
— Os homens podem controlar isso?
— Claro que podemos. Pelo menos, a grande maioria.

Projeto Revisoras 111


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

De repente, Phoebe pareceu bastante consternada.


— Você... você conheceu alguém que... não conseguiu? — ele perguntou,
curioso.
Phoebe hesitou por um longo momento. Nunca havia contado a ninguém,
mas não poderia ter segredos para o homem que amava. Só que estava difícil
encontrar as palavras...
— Rafe, eu não... — Ela se calou, incapaz de continuar. Com aquele olhar
cheio de doçura que a fazia derreter por dentro, Rafe lhe disse:
— Phoebe, o que você tem a me dizer não me surpreende. Não imagina
quantas lindas donzelas da cidade... bem, também não são mais virtuosas. O mito
ainda é preservado por causa da exigência de alguns cavalheiros, mas quem sou eu
para me incluir entre eles depois de toda a inconsequência de minha juventude?
Ela continuou a fitá-lo, amando-o mais a cada minuto, mas incapaz de proferir
uma palavra.
Apoiando a cabeça com uma das mãos, Rafe se abaixou e pegou a camisa
do chão, entregando-a a Phoebe.
— Vista por um momento. Você ficará mais confortável para conversar, se
não estiver nua.
Rapidamente ela enfiou a camisa pela cabeça, agradecida por ver tanta
compreensão nos olhos dele.
Rafe tomou uma das mãos dela entre as suas e a colocou sobre o próprio
peito.
— Você não é mais virgem — disse ele. — Houve um outro homem antes.
— Terrence — ela desabafou.
— E quem era esse Terrence? Phoebe respirou fundo.
— Ele era meu professor de dança... Rafe, você não sabe muita coisa a meu
respeito.
Ele tirou uma mecha de cabelos do rosto dela.
— Então agora é um bom momento para ficar sabendo.
Phoebe respirou fundo e soltou o ar devagarinho.
— Não há nada de muito emocionante para contar. Morei no vicariato de
Thornhold a vida toda antes de vir a Londres. Não me lembro muito bem de minha
mãe. A única coisa que lembro é que ela estava sempre entrando e saindo. Minha
mãe tinha todas as responsabilidades da esposa de um vigário: visitava os doentes,
mediava brigas entre as esposas do vilarejo, cuidava de mim e de meu pai, além
disso dispensou vários criados para economizar dinheiro. Ela faleceu quando eu
tinha cinco anos. Provavelmente de exaustão.
Ela esboçou um sorriso triste.
— Embora eu fosse muito pequena, o vigário disse que não havia dinheiro
para uma babá ou governanta, e eu cresci sozinha. Durante muitos anos, eu não me
importei com essa negligência. Tive uma vida solta, subia em árvores e corria por
todo lado com as crianças menos vigiadas da vizinhança. Na minha ignorância,

Projeto Revisoras 112


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

achava que era amada e bem cuidada.


Rafe a puxou para mais junto dele.
— Pobrezinha. Ela suspirou.
— Talvez tenha sido bom para mim, mas foi longe demais. Ninguém percebeu
que eu não era mais uma menininha. Eu não fazia por mal, mas não sabia
diferenciar o certo do errado. O vigário diz que eu deveria ter ouvido melhor os
sermões dele, mas me pareciam sempre iguais, por isso tinha outros assuntos para
ocupar minha cabeça enquanto estava na igreja.
Rafe riu.
— Então um dia, quando estava perto de completar quinze anos, lady Tessa
chegou com Deirdre. Ela fez meu pai ver que eu estava crescida e minhas roupas
eram inadequadas. Surpreso, ele reagiu de forma exagerada. Me trancou em meu
quarto enquanto procurava de cima a baixo pessoas que soubessem como ensinar a
uma adolescente tudo que deveria saber. Só sei que, de uma hora para a outra,
perdi a liberdade sem entender o que havia feito de errado.
Ela fez uma pausa, pensativa.
— Continue — Rafe pediu.
— Bem, finalmente o vigário contratou uma governanta, uma camareira para
mim, que sabia muito menos do que eu, e um professor da dança, Terrence
LaPomme, um jovem cavalheiro empobrecido. A governanta ficou menos de uma
semana, lavou as mãos e disse que eu era um caso sem esperança. Por sorte,
Thornhold tinha uma biblioteca bem decente, onde aprendi muita coisa por conta
própria. A única pessoa que demonstrava empenho em que eu aprendesse a me
comportar como uma lady era Terrence. E eu queria aprender tudo o que ele me
ensinava, pois estava impressionada com ele. Ele me parecia tão fino, elegante e
atraente, e com um ar de que o mundo fora cruel com ele. Olhando agora, é óbvio
que era apenas dissimulado, mas naquele momento eu só via com romantismo a
autoindulgência dele.
Rafe estava muito calado. Phoebe acariciou-lhe o peito. Era bom poder
compartilhar com ele o que vivera.
— Terrence me ensinou a dançar muito bem, preciso reconhecer. Mas, além
disso, ele me convenceu de que me amava e que estávamos destinados um ao
outro. Conclusão, acabei concordando em fugir com ele. Tola como era, uma noite
embrulhei tudo o que me pertencia em um xale e fugi com ele, um leviano,
explorador de virgens.
Ela soltou um suspiro profundo. Aquele segredo ficara guardado por tanto
tempo... e o mundo não se acabara por tê-lo finalmente revelado.
— O que aconteceu com Terrence? — Rafe quis saber, beijando-a na cabeça.
— Depois de passar a noite comigo, ele desapareceu na manhã seguinte. O
vigário me encontrou alguns horas depois, é claro. Havia somente uma estrada de
Thornton para a Escócia, e eu havia deixado um bilhete contando que estava indo
para Gretna Green, embora Terrence tivesse me alertado que não o fizesse. Mas era
tarde demais. Passei a noite na cama com Terrence e estraguei minha vida.
Rafe passou a mão na cabeça dela.

Projeto Revisoras 113


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Não para mim.


Phoebe foi tomada de uma sensação de leveza. Sentia-se protegida nos
braços dele como nunca se sentira antes.
— Bem, quanto a Terrence, na manhã seguinte acordei sozinha. Nunca mais
o vi. Depois o vigário chegou e me levou para casa.
— Ele ficou muito furioso com você?
— Frio. — Phoebe estremeceu à lembrança. — Daquele dia em diante
sempre foi frio. Ele inventou uma mentira para minha ausência e me trancou no
quarto, por três intermináveis meses, para eu pensar no que havia feito. Quando me
soltou, eu me sentia tão só e desejosa de uma mínima liberdade que aceitei todas
as regras dele.
— Regras?
— Sim, inúmeras regras. Eu só podia usar roupas recatadas, cabelos presos,
não podia correr, rir alto ou falar com estranhos, nem com qualquer homem, ainda
que o tivesse conhecido a vida toda. Também não podia ir a lugar algum sem a
minha nova camareira, uma senhora de meia-idade.
— E deu certo? Você não me parece tão dócil assim. Ela balançou a cabeça.
— Mas fui. Resolvi me tornar uma nova Phoebe Millbury, uma filha exemplar e
uma lady, Não foi difícil. Só precisei matar a velha Phoebe. — Passou os dedos pelo
peito dele. — Pelo menos achei que havia matado, mas talvez, ela estivesse apenas
dormindo... até a noite em que você a acordou.
Rafe pegou e apertou delicadamente a pequena mão.
— Você não foi a única que acordou naquela noite.
Phoebe estava visivelmente feliz. Ajeitou-se melhor na cama e disse:
— Agora é sua vez de me contar sua história. Rafe ficou olhando para o teto.
— Minha história... Bem, também perdi minha mãe bem pequeno. Tinha oito
anos quando Brookhaven foi me buscar. Sabia que meu pai era um homem
importante, mas nunca o havia visto antes. Gosto de pensar que ele nutria algum,
sentimento por minha mãe, que não rui concebido num mero momento de luxúria,
mas nunca saberei. Lady Brookhaven, a mãe de Calder, vivia em outro lugar.
Raramente a víamos. De toda forma, ela parecia pouco se importar com a minha
presença. Ela morreu alguns anos depois, mas parece não ter feito falta alguma a
Calder. Ele era inteiramente filho de meu pai.
Phoebe completou:
— O herdeiro,
— Claro. Durante toda a nossa vida, Calder sempre veio em primeiro lugar, o
primeiro a se sentar à mesa para o jantar, o primeiro a receber um cavalo puro-
sangue, o primeiro a saber das propriedades e da herança dos Marbrook.
— E seu pai? Você acredita que ele preferia Calder? Rafe deu de ombros.
— Tudo que sei é que Rafe era o inimigo e nosso pai o campo de batalha
sobre o qual lutávamos. Como meu irmão era o primeiro em tudo, eu me
encarreguei de todas as outras primeiras coisas. — Ele soltou um suspiro. — Essa é

Projeto Revisoras 114


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

a parte difícil de contar. Fui o primeiro a levar para a cama uma camareira, o
primeiro a me envolver em briga com estranhos, o primeiro a me embriagar com
vinho roubado de nossa adega, o primeiro a ser expulso de boas escolas, o primeiro
a ter uma amante casada, e o primeiro a ser notícia no jornal por causa de um
escândalo.
— E seu pai, ele se dava conta de tudo isso? Rafe sorriu.
— Sem dúvida. Ficava muito constrangido. Eu manchei o nome da família e
estava a caminho de arruinar Brookhaven por causa de minhas dívidas de jogo.
— Eles não o conheciam direito.
— Ah, conheciam, sim. E não ficaram sabendo nem a metade do que eu fiz.
— Do que você fez... mas não quem você era.
Ele a beijou na testa.
— Por outro lado, também fui o último o último a perceber que aquilo que eu
realmente amava era Brookhaven e sua gente. Brookhaven que sempre pertencera
Calder e seus herdeiros.
Phoebe o acariciou no rosto.
— E você mudou por causa de Brookhaven. Ele esboçou um sorriso triste.
— Tarde demais. Calder não enxerga que paguei minhas dívidas e que fiz
bons investimentos desde então. Não tenho nada para mostrar a ele neste
momento, mas acredito no que fiz, sei que no final valerá a pena. Meu irmão, porém,
nunca permitirá que eu o ajude a administrar Brookhaven. E agora...
— Não vai mais confiar em você por minha causa.
— Phoebe, tanto faz. Não há a menor possibilidade de que Calder se
esqueça do meu passado. Ele desistiu de mim anos atrás.
Ela franziu a testa.
— Não entendo direito esse relacionamento. Ele não é seu pai, é somente
uns meses mais velho do que você. Como se tornou a pessoa que você deve
agradar?
— Ele é um Brookhaven, meu lar, minha única família. Até agora. — Pela
primeira vez Rafe teve a percepção do que estava destruindo por causa de Phoebe.
Ela se apoiou nos cotovelos e o fitou longamente.
— Talvez o vigário nunca me perdoe e Calder nunca o perdoe. Você não
sente por isso?
Com os olhos cheios de preocupação e uma expressão triste no rosto, ela
estava linda. Dentro de Rafe se debatiam sentimentos de alegria e perda, mas
simplesmente respondeu:
— Phoebe, acho que agora me sinto suficientemente bem.
Um brilho iluminou os olhos dela e seus lábios vagarosamente se abriram
num sorriso.
— Ora, milorde, o que quer dizer com isso?

Projeto Revisoras 115


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

***
O primeiro beijo foi como o primeiro beijo na despensa deveria ter sido, não
tivesse sido fruto de tanto desejo reprimido.
Rafe a virou de costas na cama e colocou um joelho entre os dela, mantendo-
se apoiado nos cotovelos. Tirou-lhe então uma mecha de cabelos que caía no rosto.
— Amo seus olhos. Queria mergulhar neles. Phoebe franziu as sobrancelhas.
— Tal pensamento é bonito ou estranho? Ele riu.
— Não tenho certeza. Só sei que me agrada pensar em mergulhar dentro de
você e nunca mais sair, nem para respirar.
— Então mergulhe... a água está deliciosa.
Ele abaixou a cabeça até encostar o nariz no dela.
— Você é uma pessoa incrível, Millbury.
— Só com você — disse ela, enfiando os dedos nos cabelos dele.
Seus lábios então se tocaram, macios, cuidadosos, com a promessa de que
havia muito mais por vir e muito tempo para isso. Ela passou os braços nos ombros
de Rafe, mantendo as mãos nos cabelos macios e puxando-o para si até que seus
corpos se encontraram.
Talvez aquele fosse mesmo o primeiro verdadeiro beijo deles uma vez que se
sentiam liberados. Antes era o proibido, amantes em luta contra a própria natureza e
seus compromissos. Tudo tinha a mácula da culpa ou da compulsão. Phoebe sentia
os lábios de Rafe pressionar os seus, quentes e firmes. Com delicadeza ele prendeu
seu lábio inferior entre os dele e ela se deixou beijar, capitulando de prazer. Ao sentir
a ponta da língua quente e úmida, infiltrando-se em sua boca, ela permitiu a invasão.
Assim, coberta pelo corpo de Rafe, com a cabeça entre as mãos dele, ela foi
beijada por amor pela primeira vez na vida.
Ele interrompeu o beijo para fitá-la nos olhos.
— Eu te amo muito, Phoebe. Ela o beijou no queixo.
— Eu sei.
— Sabe? Mas não fui bom para você. Ela negou com a cabeça.
— Você me resgatou.
— E depois você me resgatou — Rafe disse, sorrindo.
— Rafe?
— Sim, Phoebe?
— Não quero mais conversar.
Ele riu, baixinho, maliciosamente. Então deslizou os lábios pelo pescoço, pelo
colo até abocanhar o mamilo rosado.
Uma sensação mágica percorreu o corpo de Phoebe, fazendo-a soltar um
gemido e pressionar o seio ainda mais dentro da boca faminta de Rafe.
O gemido apaixonado foi um sinal verde para ele. Sugou com mais força o
seio e, com mãos exigentes, a encaixou melhor sob seu corpo. Então, começou a

Projeto Revisoras 116


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

deslizar por ela, beijando-a corpo abaixo.


— Onde você está indo?
— Vou fazer com que você se esqueça completamente de Terrence
LaPomme. — Enfiou a cabeça entre as coxas de Phoebe e passou a acariciar com a
língua sua intimidade.
Ela não ousou protestar, permitindo-se usufruir das novas sensações que a
língua de Rafe lhe proporcionava.
Com os dedos entre os cabelos dele, ela gritava e contorcia os quadris, numa
entrega total ao prazer que a deixava extasiada.
Em total abandono, abriu-se para ele, mandando suas inibições para o
mesmo lugar que havia mandado as regras do pai.
Isso, sim, era ser livre.
Beijando-a por todo o corpo, Rafe fez o caminho de volta até esfregar seu
nariz no dela e ficou contemplando-a.
— Então o que meu senhor deseja agora?
Ele acariciou com o polegar o lábio inferior dela, depois o beijou.
— Dar-lhe prazer, é claro. — Ofegando, se colocou entre as pernas dela. —
Agora vamos fazer amor...
Phoebe passou o braço pelas costas largas e abriu mais as pernas,
permitindo que ele se acomodasse melhor.
Rafe segurou-a pelos ombros e a penetrou com firmeza.
A dor foi aguda e cortante. Um gemido escapou dos lábios de Phoebe.
Ele parou no mesmo instante.
— O quê?...
Ela o empurrou, arfando.
— Não, quietinha... — ele murmurou, abraçando-a. — Se eu sair de você
agora, vai doer mais. — Acariciou os cabelos dela e a beijou no rosto. — Relaxe,
minha querida. Respire.
Rafe era amoroso e forte. Apesar de seu súbito pânico, Phoebe sabia que ele
não tivera intenção de machucá-la. Aninhou o rosto no pescoço dele e tentou se
acalmar. Depois de alguns minutos, a dor havia diminuído, sentindo apenas um
latejamento.
Ele tornou a acariciá-la.
— Melhorou um pouco? Ela aquiesceu com a cabeça.
— Que dor foi aquela?
— Foi sua virgindade, meu tesouro. Aparentemente Terrence foi um fracasso.
— Mas passei a noite toda com ele. Fizemos... coisas...
— Aconteceu isso? Ela mordeu o lábio.
— Não vamos mais falar a respeito.

Projeto Revisoras 117


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Acho que Terrence acabou antes da hora... Ela riu.


— Sou apenas uma virgenzinha do campo.
— Não mais — ele rebateu, sorrindo. Phoebe colocou a mão nos lábios dele.
— Shhh! Pensei que não fosse mais virgem desde os quinze anos. Mereço
uns minutos de pudor. Ele riu surpreso.
— Ah, isso não! — E fez um ligeiro movimento dentro dela.
Uma onda de calor prazeroso a fez arfar.
— Estou machucando você?
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro do travesseiro.
Rafe murmurou palavras de amor, abraçando-a apertado enquanto ela
estremecia de prazer.
Phoebe de repente deu-se conta de que havia gemido e gritado. Escondeu o
rosto no peito de Rafe, ainda com a respiração ofegante.
— Gemi muito alto?
— Não se preocupe minha linda. Começou a chover de novo, acho que
ninguém ouviu.
— É melhor você parar, de qualquer jeito. Quando cheguei, disse a todos que
era sua irmã. Rafe fitou-a, fingindo-se escandalizado.
— Nesse caso, todos dirão que sou um depravado! Você uivou como o vento
do Norte.
Phoebe riu e deu-lhe um leve tapa no ombro.
— Não uivei, não! Fiz muito barulho mesmo? Ele deu um sorriso sedutor.
— Hum... não estou me lembrando bem. — Fez uma maior pressão dentro
dela. — Deixe-me tentar outra vez para ter certeza.
Ela estremeceu de prazer. Estava mais sensível agora. Podia sentir melhor
cada estocada dele. Ergueu as pernas e as cruzou nas costas de Rafe para que ele
se encaixasse melhor.
Dessa vez, ele não foi apenas mais rápido, foi também mais vigoroso.
Phoebe procurou segurar um pouco o momento do êxtase para observar a paixão
com que ele fazia amor com ela.
Suando e vibrando a cada carícia de Phoebe, Rafe continuou a invadi-la até
ela gemer em êxtase.
Então, ela o sentiu enrijecer e pulsar dentro de si, fazendo com que seu corpo
também fosse imediatamente possuído pelo gozo.
Rafe permaneceu imóvel, com a respiração arfante e o rosto enterrado no
pescoço suado de Phoebe, sentindo ainda o corpo trêmulo de prazer.
Phoebe passou os braços nas Costas dele e o puxou mais pára perto.
— Viu? Somos feitos um para o outro como... pão com manteiga.
Ele tirou alguns fios de cabelo que lhe cobriam o rosto,

Projeto Revisoras 118


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Como torrada com geleia.


— Acho que prefiro "como príncipe e princesa" — ela disse, rindo.
Rafe a beijou na testa, endireitou as cobertas e a apertou contra seu corpo.
— Então procure dormir agora, princesa. Você teve um dia exaustivo hoje.
Ela se aninhou junto dele, como se nunca tivesse dormido de outro jeito na
vida.
Amanheceu e Rafe postou-se junto à janela, contemplando sem ver o pátio
da hospedaria. Ele não notou que o sol lutava entre as nuvens tentando se infiltrar
para projetar um tímido raio sobre o telhado do estábulo. Também não viu que já
começava a movimentação de pessoas na rua.
Pousou a cabeça sobre o braço que estava apoiado no alto do batente da
janela. Usava apenas as calças e uma toalha em volta do pescoço. Phoebe ainda
dormia, exausta devido à noite de paixão e ao estresse de toda a última semana.
Sem conseguir dormir, ele se levantara havia horas. Não conseguia tirar da
cabeça os pensamentos de culpa, de remorso e até mesmo os de alegria que o
assaltavam. Uma ferida em seu peito estava curada, mas se abrira outra, também
muito dolorida.
Agora, com a febre da paixão aplacada, era tarde demais para encarar a fria
verdade que suas ações acarretariam.
Afastou-se da janela. Observar finalmente o alegre cenário abaixo se tornou
insuportável. Caminhou até o rústico lavatório e jogou a toalha ao lado da jarra.
Havia pensado que tudo estaria acabado quando a possuísse, mas se
enganara.
Estava apenas começando.
Fechou os olhos, desprezando a si mesmo. Tinha ultrapassado o limite, coisa
que, mesmo em seus piores dias, acreditara que não faria. Algo em seu íntimo
mantinha a esperança de ser ou, pelo menos, de algum dia vir a ser um homem
respeitável.
Olhou-se no pequeno espelho, bastante manchado pelo tempo, e viu apenas
o homem que havia traído seu único irmão.
Começou a se vestir distraidamente, procurando não olhar para a mulher...
sua mulher... na cama, com medo de que, se ela notasse seus sentimentos de perda
e desespero, iria culpar a si mesma...
A única chance que tinha para recuperar um pouco de honra seria procurar o
irmão e enfrentá-lo cara a cara. Não era o que queria. Preferia ter sumido com
Phoebe no meio da noite e passar o restante de seus dias sem dar a mínima
satisfação a quem nunca se importara com sua vida.
Muito provavelmente Calder jamais o perdoaria.
— Não — falou alto. — Mas sabíamos disso.
— Com quem você está falando? — Phoebe perguntou da cama, com voz
sonolenta.
Ele se voltou e viu que ela o observava. Tinha olheiras e as faces

Projeto Revisoras 119


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

ruborizadas, conseqüência muito reveladora da noite maldormida. Ainda assim,


estava linda e exalava sensualidade.
Sentiu o coração acelerado e sorriu para ela através do espelho enquanto
ajeitava a gravata.
— Vou falar com Calder.
Phoebe sorriu, com ar de cansaço, e ajoelhou-se na cama, mantendo o lençol
preso debaixo dos braços.
— Venha cá, deixe-me ajudá-lo com o nó da gravata.
O prazer de tê-la tão perto provocou-lhe um arrepio, uma sensação de mau
pressentimento. Ele segurou a cabeça dela entre as mãos e puxou-a contra o peito.
— Vamos ficar neste quarto para sempre — disse, como que implorando. —
Que vá tudo para o inferno! Pegaremos as bandejas de comida à porta e nunca mais
sairemos da cama.
Phoebe inclinou a cabeça para poder fitá-lo.
— Não podemos fugir do que fizemos, meu amor. Iria com você, mas creio
que isso só tornaria a situação mais delicada. — Deu-lhe um beijo de despedida e o
afastou com gentileza. — Se você tem de ir, é melhor que vá logo antes que essa
gravata acabe sobre o candelabro de novo.
Ela ainda sorria quando ele se aproximou da porta.
— Rafe... Você virá direto para cá?
Ele caminhou de volta até a cama, onde ela já havia se acomodado
devidamente, tomou-lhe o rosto nas mãos e a beijou com ternura. Como sempre
acontecia, Phoebe sentiu-se derreter. Quando voltasse, Rafe pensou, estaria com a
honra lavada e traria seu anel para dar a ela, como ela merecia.
Forçou-se a deixá-la.
— Se é para ir, que seja agora. Phoebe esboçou um sorriso.
— Claro, vá. Pobre Calder. Eu sobreviverei até sua volta esta tarde.
Ela permaneceu imóvel depois que Rafe saiu. O quarto parecia ainda mais
acanhado à luz do dia, lembrando-a da última vez que passara a noite em uma
hospedaria.
Bem acordada agora, pulou da cama e se cobriu com uma colcha para
espantar o frio. Foi até a janela. O dia estava novamente cinzento e garoento, mas
deveria esquentar.
Rafe já estava na estrada.
Ele a deixava, exatamente como Terrence havia feito.
Endireitou o corpo e se afastou da janela. Rafe voltaria. Um homem como ele
jamais abandonaria uma lady em uma hospedaria!
Você não é uma lady. Uma lady jamais dormiria com o irmão do noivo.
Calder hão era mais seu noivo. Ela havia rompido o compromisso antes de
permitir que Rafe...
Deixando o lençol escorregar dos ombros, ela caminhou até o móvel em que

Projeto Revisoras 120


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

havia deixado sua roupa.


— Ah, Rafe... — ela murmurou para si mesma.
Colocou o vestido ainda amassado e sujo e com a manga rasgada. Depois,
sentou-se na única cadeira existente no quarto e ajeitou os cabelos o melhor que
pôde com os poucos grampos que encontrara no tapete.
Seu amado voltaria. Não havia dúvida disso.

Quando Calder caminhava pela fábrica de porcelana, ele topou com um


jovem que usava o familiar uniforme de Brookhaven.
— Milorde!
— Olá...
— Stevens, milorde.
— O que há, Stevens? Está tudo bem em Brook House?
O rapaz parecia nervoso. Ele tirou do casaco uma folha de papel dobrada.
— Lady Millbury pediu que eu entregasse isto diretamente ao senhor.
Calder resmungou. Tinha tantos assuntos importantes a tratar!
— Ela está aqui?
— Não, milorde. Ela está...
Alguma coisa na voz do lacaio fez Calder encará-lo, preocupado.
— Onde ela está? Stevens empalideceu.
— Na hospedaria Blue Goose, na estrada para Bath, milorde.
O rapaz deu um passo para trás ao ver Calder desdobrar a folha para
começar a ler.
Caro lorde Brookhaven,
Deveria ter-lhe dito imediatamente, antes que assumíssemos esse
compromisso, mas cometi um erro terrível...
Calder leu o bilhete com atenção e depois o amassou com força.
Acontecia de novo.
— Stevens! — Ele olhou ao seu redor, mas o lacaio já havia ido.
Fugirem dele estava se tornando um hábito.

Depois de se lavar e se vestir, Phoebe foi ver Afton, o cocheiro. Ele estava na
cama, com a cabeça enfaixada e um ferimento no rosto, e ainda muito assustado.
— Para dizer a verdade, lady Millbury, eu só fiquei sabendo que não era lorde
Brookhaven quando lorde Marbrook pediu que nos afastássemos. Não nos
afastamos muito, mas fomos atacados e ficamos sem a lanterna da carruagem. Fico
com vergonha de dizer que caí feito uma árvore cortada, não pude nem reagir.
Phoebe deu um tapinha na mão de Afton.

Projeto Revisoras 121


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Não poderia saber que era lorde Marbrook, e felizmente estamos bem.
Você foi o mais atingido.
— Não se preocupe, milady. Logo poderei levá-los de volta, ou talvez deixe
Stevens guiar a carruagem — disse baixinho. Era visível que a cabeça ainda doía.
Phoebe ficou à cabeceira de Afton até que ele adormecesse. As horas não
passavam. Ela procurou tirar um pouco mais da lama que grudara no vestido e nas
roupas de baixo. Depois resolveu pedir um banho completo. A água quente seria
relaxante e ajudaria a diminuir a tensão da espera.
Um quarto de hora depois, ela já havia terminado o banho. Secou o cabelo
junto à lareira e o trançou, fazendo um coque na nuca. E as horas não passavam.
Não havia nada com que se preocupar. Rafe levaria horas para ir e voltar.
E, de todo modo, Calder não faria qualquer mal ao irmão. Poderiam discutir
por algum tempo. Poderiam até brigar, mas não passaria disso.
O tempo custava a passar e ela foi ficando impaciente, incapaz de fazer outra
coisa a não ser andar da cama para a janela e vice-versa. Rafe havia dito que se
apressaria.
Sorriu ao lembrar da calorosa despedida e do olhar ardente que ele lhe
dirigira ao sair,
A manhã finalmente passou e a tarde se estendeu interminável até o
anoitecer. O ânimo de Phoebe decaía cada vez que ouvia o barulho de botas no hall,
sem que fosse Rafe.
A camareira da hospedaria entrou com carvão para reabastecer a lareira, mas
nem o calor do fogo conseguiu diminuir o frio que ela sentia internamente.
Onde Rafe poderia estar? O trajeto de ida e volta até Londres não levaria
mais do que três horas. Todas as conversações que havia observado entre os
irmãos não passavam de alguns poucos minutos. Não poderiam estar bebendo, pois
Calder não bebia uma gota sequer, nem mesmo de cerveja.
À noite ela já estava aflita. Um atraso talvez fosse indesculpável, mas não
aparecer podia significar que alguma coisa ruim tivesse acontecido com Rafe.
Preocupada que ele pudesse ter caído do cavalo, e talvez estivesse em
algum ponto entre a hospedaria e Brook House, fez com que considerasse recorrer
ao pessoal da hospedaria para fazer uma busca.
Foi quando ouviu o som de passos familiares, firmes, caminhando pelo piso
de madeira do hall.
Ela correu em direção à porta e, antes de abri-la reconheceu de quem eram
aqueles passos.
Não era Rafe, porém, quem estava ali, fitando-a enfurecido de sua alta
estatura. Era Calder que não parecia absolutamente ter chegado a qualquer bom
termo com o irmão durante o dia.
— Onde está ele? — vociferou. — Onde está o bastardo que trama em
silêncio o roubo de uma noiva?
Phoebe recuou, sem nada entender, para dar passagem a Calder que forçou
a entrada no quarto.

Projeto Revisoras 122


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Ele se voltou, examinando com o olhar todos os cantos.


— Vou acabar com ele!
— Por favor, Calder... não pode culpar somente ele... — Phoebe parou e
engoliu em seco, ao lembrar das histórias que Stickley havia contado a ela. Será que
Calder havia mesmo matado a esposa e seu amante num acesso de ciúme e raiva?
— Espere... — disse, sentindo-se congelada por dentro.
— Rafe não o encontrou? Calder a olhou ainda cheio de raiva.
— Eu não estava perdido. Ela balançou a Cabeça.
— Por favor, me ouça. Rafe saiu muito cedo esta manhã para falar com você.
Disse que era a coisa certa a fazer.
— Pois fui muito facilmente encontrado pelo portador de seu bilhete. Como
você bem sabe, meu irmão não se preocupa muito com a coisa certa a fazer. A vida
toda tentou tomar o que de direito é meu.
— Ora, pare com isso! — Phoebe impacientou-se. — Calder, esqueça disso e
me ouça!
Ele a fitou surpreso. Não estava habituado a ser enfrentado, mas calou-se
diante do tom incisivo de Phoebe.
— Por favor, escute. Alguma coisa horrível deve ter acontecido com Rafe.
— Ótimo!
Ela dirigiu ao ex-noivo um olhar de censura.
— Ora você não sabe o que está dizendo.
— Eu... — Ele passou a mão pelos cabelos num gesto idêntico ao de Rafe. —
Realmente nunca sei quando se trata de Rafe. Meu irmão é a única pessoa que
consegue me tirar do sério.
Phoebe soltou um suspiro.
— Acredite em mim, isso é mútuo. Ele negou com a cabeça.
— Não. Rafe sempre sabe muito bem o que está fazendo, principalmente
quando se trata de me constranger.
Phoebe meneou a cabeça, desanimada.
— Ele não desapareceria e me largaria aqui sozinha só para constrangê-lo...
Parece mais como se alguém... — Ela empalideceu. — Meu Deus, os assaltantes!
Calder franziu o cenho com ar indagativo.
—- Não estou entendendo nada.
Phoebe começou a andar de um lado para outro do quarto e, num só fôlego,
narrou a ele os acontecimentos da noite anterior. Surpreendendo-se, Calder
levantou a mão para interromper aquela torrente de palavras, em tom irônico.
— Está me dizendo que você afugentou dois homens armados, com apenas
um galho de árvore?
Ela aquiesceu com a cabeça, sem se dar ao trabalho de responder, e
caminhou até a janela, muito embora não desse para ver outra coisa que não fosse

Projeto Revisoras 123


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

a escuridão da noite.
— Ele saiu daqui logo que o dia amanheceu. Se refizermos seus passos e
investigarmos quem poderia tê-lo visto, talvez conseguíssemos encontrá-lo.
— Nós, não. Muito menos você. — Ele cruzou os braços. — Vou contratar
investigadores para procurá-lo, se é que ele quer ser achado. Você e eu voltaremos
a Londres.
— Não, não! Quero ir procurá-lo.
— Phoebe...
Talvez tenha sido a inesperada delicadeza no tom de voz de Calder, mas ela
se voltou surpresa e notou que ele a fitava com compaixão.
No mesmo instante, a onda de medo e preocupação se dissipou.
— Rafe não me abandonou, Calder. Nunca me abandonaria.
— Então ele saberá procurá-la em Brook House, não é? Deixaremos um
recado aqui, caso ele volte à hospedaria. — Abaixou-se para pegar o manto dela. —
Vamos, vista. Você não pode ficar aqui, Phoebe, e não pode sair por aí à procura
dele.
— Não tenho dúvidas de que Rafe voltará, Calder.
— Então venha comigo para Londres, e espere por ele lá. — Ofereceu-lhe o
braço. — Você sabe que a notícia chegará mais rápido lá.
Phoebe pressionou os dedos na boca, indecisa. Não queria deixar aquele
quarto onde haviam se amado. Entretanto, Calder tinha razão. Em Brook House,
logo ficaria sabendo de qualquer notícia que chegasse por parte dos investigadores
e também teria Sophie e roupas limpas.
Pegou o manto das mãos de Calder e, de cabeça erguida, deixou a
hospedaria.

Rafe acordou, sentindo a cabeça latejar.


De novo, não!
Desta vez sabia que não teria nos braços, como consolo, o corpo nu de sua
amada. Imediatamente se lembrou de como havia chegado onde estava.
Os assaltantes esperavam por ele na estrada, a poucos quilômetros da
hospedaria, em um local de mata alta e num horário em que não havia quaisquer
viajantes para Londres.
Ele cavalgava distraído, com o pensamento voltado para Phoebe, quando à
sua frente surgiu, saindo do bosque, um homem franzino, com parte do rosto
coberto por um lenço. Não era o mesmo assaltante da noite anterior.
Ele chegou a ver que havia um outro sujeito, mas foi golpeado na têmpora e
tudo se apagou.
Lá estava ele agora, amarrado e amordaçado na traseira de uma carroça que
cheirava a vegetais podres e coberto por uma estopa que deixava a luz penetrar,
fazendo com que seus olhos ardessem.

Projeto Revisoras 124


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Desistiu de lutar contra as amarras muito apertadas e fechou os olhos. Era


melhor poupar as forças para tentar surpreender seus seqüestradores mais tarde.
Tinha curiosidade de saber quem poderia ser. Afinal, não devia mais nada a
ninguém. Poderia estar quebrado, mas não endividado.
Tranquilizava-o saber que Phoebe estava segura na hospedaria, cercada de
criados. Ela ficaria aguardando por ele lá, por isso precisava pensar em uma
maneira de escapar daquela situação.
A realidade, porém, é que estava muito bem atado. Era óbvio que ficaria
preso ali a menos que alguém o soltasse.
Que diabo!

Em Brook House, os dias se arrastavam lentos. Sophie tentava distrair a


prima lendo o final da tradução,
— "Então ele se inclinou e a beijou. Quando os lábios dele tocaram nos de
Brier Rose, ela acordou e o fitou com doçura. Depois disso, os dois desceram juntos
e viram o rei, a rainha e toda a corte também acordar. Espantados, todos ficaram se
olhando."
Deirdre ouviu o fim do conto com ar de visível deboche.
— Então é isso? Todos aqueles homens morrem e o que chega é o
verdadeiro amor dela?
Phoebe levantou os olhos das brasas da lareira e comentou: — Às vezes
acho que o amor é simplesmente uma questão do momento certo.
Quisera ela que Rafe tivesse tido noção disso e tivesse feito a proposta antes,
por exemplo.
Durante o dia, quando todos colocavam em dúvida o caráter de Rafe, era fácil
acreditar nele e ter confiança em seus sentimentos.
À noite, porém, quando a casa silenciava, ela era assaltada por dúvidas.
Tem certeza de que ele não repetirá o que Terrence fez?
Tem certeza de que ele voltará para você?
Sim, tinha certeza. Absoluta certeza!
Tessa, que estava mais do que satisfeita com o rumo dos acontecimentos,
começou a conspirar para que Phoebe fosse embora para sempre. Mas um efeito
colateral nada bom de toda aquela confusão era que haviam sido despertados
instintos protetores em Brookhaven. Ele estava realmente preocupado com a
chorosa existência de Phoebe!
Aquele não era o momento para Brookhaven se afeiçoar a ela, não quando as
chances de Deirdre haviam aumentado tanto.
Phoebe estava à espera de Calder no escritório quando ele apareceu depois
do café da manhã. Havia algo a ser dito ao homem que sempre estava precisamente
onde se supunha que estivesse.
Ela se levantou quando ele entrou.

Projeto Revisoras 125


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Calder, somente esta manhã me dei conta de que você ainda não cancelou
formalmente nosso casamento:
Brookhaven dirigiu um rápido olhar para ela e se aproximou da escrivaninha
para examinar uma pilha de documentos.
— Não vejo motivo para apressar as coisas.
Estranha atitude do homem que havia proposto casamento a ela menos de
sete horas depois de tê-la visto no baile.
— É importante que o faça! Não quero que todos pensem que vou me casar
com um irmão quando pretendo me casar com o outro.
Ainda sem olhar para ela, ele retrucou:
— Acho que não é da conta de ninguém que seja um ou outro.
— Você não está pensando... não vai querer se casar comigo depois de tudo
que eu fiz?
— Dificilmente eu conseguiria terminar nosso noivado sem tornar sua...
indiscrição do conhecimento público. Claro que eu não revelaria nada, mas é o tipo
de situação que causa muita especulação e curiosidade. Acredite em mim. Alguém
acabaria somando dois mais dois e você cairia na boca do povo.
Ela cruzou os braços e balançou a cabeça.
— Tudo muito nobre de sua parte! Exceto que um homem como você não
perdoa tão facilmente assim. Eu passei a noite em uma hospedaria com seu irmão...
— Meio-irmão.
Ela sacudiu a cabeça e prosseguiu:
— Com seu irmão, a quem eu amo muito.
— Que a abandonou.
— Ele não me abandonou. Você o subestima, como sempre o fez.
— Então onde Rafe está? Já se passaram dias!
Phoebe fechou os olhos e respirou fundo.
— Não sei. Mas estou preocupada... — Abriu os olhos e o encarou. — Onde
quer que esteja, ele precisa de nossa ajuda, não de nossa censura. Se eu me
casasse com você, me sentiria culpada desse mesmo abandono que você o acusa.
— Você é leal — Calder disse —, e eu a admiro por isso. Permanece, porém,
o fato de que ele não está aqui. Agora você está perdida, não tem comprometimento
algum da parte dele de que se casarão.
Ela descartou a hipótese.
— Já lhe disse, é compreensível.
Calder bufou, ironizando.
— Phoebe, se eu fizer uma lista de todas as mulheres que tinham algum tipo
de "entendimento" com meu irmão... — Ele parou ao vê-la sorrir. — O que foi?
— Você o chamou de irmão. Ele suspirou.

Projeto Revisoras 126


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Você não dá ouvidos a nada contra ele, não é? Como pode ser tão cega?
Phoebe sorriu novamente, dessa vez um sorriso amargo.
— Não sou cega. Sei tão bem quanto você quem ele foi. Talvez até mais do
que você, pois ele não me escondeu nada. Sei o quanto ele quer se sentir incluído,
que o que mais quer da vida é cuidar de Brookhaven que ele tanto ama. Sei o
quanto está angustiado pelo que fizemos a você.
— Duvido disso.
— Pois não deve duvidar — ela retorquiu. — Você sabe que fui eu que o
seduzi. Ele sempre fez o possível para resistir à tentação. Admito que sem muito
sucesso, afinal sempre teve à disposição todas as mulheres casadas e viúvas que
desejou.
Calder franziu a testa.
— Rafe lhe contou tudo isso? Estou surpreso. Nunca usou a tática da
confissão para persuadir.
— E o que estou tentando lhe dizer, Calder. Ele não usa disfarces comigo. É
simplesmente Rafe, o filho bastardo, o irmão desprezado, o jogador, o amante
volúvel... o homem sem um verdadeiro lar neste mundo.
Calder enrijeceu o corpo.
— Eu nunca o desprezei. A porta da minha casa nunca foi fechada para ele.
— Não, e ele sabe disso. Mas nunca será a porta da casa dele, entende?
Consegue imaginar o que isso significa? Crescer com você, sabendo que sua casa,
seu mundo, a herança nunca seriam verdadeiramente dele? Um irmão legítimo,
apesar de mais novo, poderia ter esperança de herdar alguma coisa, ou pelo menos
fazer parte do testamento. Não um bastardo, apesar de todo o amor à terra, que
qualquer pai desejaria, e criado e ensinado para assumir a mesma responsabilidade
que você tem, mas que ele nunca terá.
— Rafe teve todas as oportunidades — disse Calder em tom severo. — Ele
recebeu seu quinhão da herança de meu pai e o gastou em jogatina e mulheres.
— Mas ele tinha apenas dezoito anos! E, além disso, sentia-se zangado e
perdido. Ele amava seu pai, apesar do marquês ter favorecido somente você. Ele
cometeu erros, muitos até. Entretanto, você não percebeu que desde sua... sua
crise... ele mudou de comportamento. Voltou para apoiá-lo para que não estivesse
só quando o mundo todo estava contra você.
Calder levantou-se de maneira abrupta, caminhando até a janela, com
passadas largas. Depois de um longo momento, passou a mão pelo rosto.
— Pensei que ele tivesse simplesmente ficado sem dinheiro, que me visse
apenas como um porto-seguro.
— Ele mudou, pagou todas as dívidas, não freqüenta mais as mesas de jogo,
há anos não fica bêbado.
— Como não? Ele ficou completamente embriagado no dia em que disse a
ele que você havia aceitado meu pedido de casamento.
— Ah! — Ela soltou um suspiro, — Não sei se você sabe que aquilo foi um
equívoco. Pensei que a proposta fosse dele. Não sabia naquela ocasião todo o

Projeto Revisoras 127


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

nome dele.
Calder voltou-se para ela.
— Eu acabei por entender isso.
— Como? Então por quê?... Ele desviou o olhar.
— Gostei de você. É... um tipo diferente de mulher. Achei que se viesse a me
conhecer, você poderia... — Deu de ombros. — De todo modo, não é como se eu
pudesse romper o noivado sem causar um escândalo enorme.
Calder estava certo. Naquele momento o escândalo seria menor do que
poderia ser agora, ela concluiu pensativa. Ele a fitou mais uma vez.
— Então não faça isso. Pelo menos deixe o assunto morrer por enquanto.
Quando Rafe voltar, haverá tempo suficiente para consertar tudo.
Adiar a loucura até Rafe estar novamente a seu lado? Era tentador. Deus,
como sentia a falta dele. Oh, Rafe, por onde você anda? Calder aguardava a
resposta. Ela respirou fundo.
— Mas o mundo está nos observando. Não acharão estranho os preparativos
do casamento repentinamente pararem? Precisamos falar com o bispo...
— Falaremos... na hora certa. No momento, acho melhor prosseguirmos
como se nada tivesse acontecido. Vamos dar a Rafe tempo para que faça o que
quer que ele tenha ido fazer. Vamos dar chance de que o mundo fale de outra coisa.
Talvez nesse meio tempo aconteça um escândalo ainda maior, e nós acabaremos
sendo apenas uma sentença no rodapé do jornal.
Phoebe achou graça.
— Seria ótimo. Tudo o que desejo é ser apenas uma sentença.
Um esboço de sorriso aflorou aos lábios de Calder.
— Eu também.
O acordo não era o que ela queria, mas concordou.
-— Esperaremos então... por enquanto.
Esse acordo prevaleceria somente até Rafe chegar. De mãos dadas com ele,
enfrentariam então a censura do mundo. Ele não gostaria de que ela o fizesse
sozinha.
Calder tinha razão e seu raciocínio também. Então por que sentia como se
estivesse cometendo uma traição?

No singular vilarejo de Burnhill, Wolfe saiu da taberna assobiando. Munira-se


de moedas suficientes, já tendo em mente um encontro com a linda filha do
taberneiro.
Depois de uma hora com a moça, ele a deixou com o rosto afogueado e os
olhos arregalados e úmidos, mas com o ouro bem apertado na mão. Ela não abriria
a boca, mas também não importava se abrisse, pois Stickley e ele estariam por
pouco tempo ali, apenas o suficiente para impedir o casamento.
E depois que Brookhaven perdesse a data do casamento? O pensamento fez

Projeto Revisoras 128


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

com que ele parasse no meio na rua.


Uma vez liberado, continuaria noivo de lady Millbury. Afinal, o rapto não era
razão para não ser perdoado!
Wolfe permaneceu parado, sem notar como o sol do final do dia dava às
pedras um brilho dourado e que obrigava as pessoas a se desviar dele. Considerou
então, sem qualquer pudor, cometer um frio assassinato.
No mínimo, o assassinato brutal dos sonhos de lady Millbury.
O assassinato de fato teria de acontecer quando Stickley não estivesse por
perto.

No café da manhã, após quatro dias de ausência de Rafe, Tessa começou a


falar de mandar Phoebe de volta para Thornton.
— Sei que o casamento não foi oficialmente cancelado, mas já há boatos —
ela avisou Phoebe, maldosamente.
Não teriam começado por Tessa? Phoebe enfrentou o olhar dela.
— Permanecerei aqui, muito obrigada.
— Mas sou sua... Phoebe levantou a cabeça.
— Sabemos muito bem que a senhora não é minha tia. Tessa piscou.
— O que quer dizer com isso?
— A senhora não é a irmã de minha mãe. — Ela se voltou para Deirdre. —
Dee, você nunca considerou expulsar essa mulher de sua casa em Woolton? Tenho
quase certeza de que seu pai a deixou inteiramente para você. Vou conversar com
um advogado...
Tessa riu e disse com uma expressão hipócrita:
— Ora, Phoebe, que reação ridícula! Eu só disse isso porque com todos os
boatos e o fato de que os planos para a cerimônia não foram completados... pensei
que você não quisesse que sua situação... se refletisse mal para Deirdre ou...ah...
Devemos preservar o decoro.
Phoebe se pôs em pé de supetão
— Por quê e para quem devemos preservar o decoro? Não me importo
absolutamente com o que a sociedade pensa de mim. Nem com a opinião de meu
pai ou a sua. Rafe se foi, Tessa. Se foi!
Não havia qualquer compreensão nos olhos de Tessa.
— Você está emocional demais, Phoebe. Aliás, sempre foi. Não precisa se
exaltar tanto.
— Exaltar? Por causa de um amor que me faz feliz só pelo fato de vê-lo? Por
causa de um homem que conseguiu enxergar como eu realmente sou, que se
preocupa comigo... — O nó na garganta impediu que ela continuasse falando e seus
joelhos ficaram trêmulos. Tornou a se sentar. — Acho... acho que devo me exaltar de
forma apaixonada por um homem como ele... — Ela se voltou para a lareira. —
Deixe-me sozinha, Tessa. Deixe-me sozinha.

Projeto Revisoras 129


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Rafe levantou os olhos daquilo que estava fazendo e prestou atenção. Vozes
novamente. Dessa vez discutiam bastante alto e ele podia ouvir. Rastejou até a
porta, colou o ouvido a ela, sem se importar com o mau cheiro e a dor que sentia por
causa dos pregos na madeira. Procurou se concentrar apenas no que falavam.
Atrás dele, projetava-se uma sombra no imundo porão. No alto da parede,
havia um pequeno buraco, cavado com as próprias mãos e muito desespero, que
logo haveria de ser uma janela. Se a parede não tivesse sido construída com dois
tijolos, com certeza já teria visto a luz do dia.
Prestando bastante atenção, dava para ouvir uma voz falando alto e outra em
tom mais baixo. Discutiam sobre uma... carta?
Wolfe jogou a carta que encontrou no bolso do paletó de Brookhaven sobre a
frágil mesa.
— Você sabe que eu não consigo imitar a escrita de ninguém! Entretanto,
você assina meu nome há anos.
Stickley piscou várias vezes.
— Eu... que coisa para se dizer!
— Stick, não me importo nem um pouco. Temos uma parceria que funciona.
Você cuida do negócio; eu garanto que nada interfira no negócio.
— E você tem em mente precisamente o quê? Wolfe estreitou os olhos.
— Garantir que a custódia de Pickering não passe para o bolso de
Brookhaven. Para isso, lady Millbury precisa receber uma carta do noivo dizendo
que ele está desistindo de se casar com ela e que vai tirar férias por estar muito
esgotado.
Stickley franziu o cenho, cético.
— Mas logo ele se tornará o duque de Brookmoor. Ele não iria tirar férias logo
agora.
— Claro que tiraria. Afinal, Brookmoor está para morrer há anos.
Stickley pegou a carta.
— Bem, creio que posso imitar a letra, e como esse bilhete é para lady
Millbury, a mesma saudação será adequada...
Stickley reclamou quando o irmão foi se sentar perto dele depois de se servir
de mais um copo de vinho.
— Só temos essa garrafa agora. Seria melhor que não precisássemos voltar
ao vilarejo. Quanto menos gente nos vir, melhor.
Wolfe lamentou pela filha do taberneiro. Gostaria de estar com ela mais uma
vez.
— Concordo — disse, colocando a rolha na garrafa.
Stickley continuou a estudar o bilhete.
— Consigo imitar bem a letra de Brookhaven, mas a assinatura dele é muito
complicada. Talvez leve dias para conseguir.

Projeto Revisoras 130


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Wolfe se levantou, derrubando a cadeira.


— Dias, Stick? Não agüento mais ficar neste lugar bolorento. Pense em
alguma coisa rápido!
Stickley deu de ombros.
— Só se eu simplesmente ignorasse a assinatura. Afinal, quantos noivos ela
tem para rejeitá-la?
Wolfe sorriu e deu um tapa no ombro do irmão.
— Assim é que se fala!
Satisfeito, ele se levantou e caminhou até uma pilha de coisas perto da
lareira.
— Precisamos dar um jeito em nossa aparência. Ainda bem que não
queimamos isso. — Pegou a fina casaca azul de Rafe e a vestiu. — Está um pouco
apertada, mas não estou parecendo o próprio marquês?

Ao entrar no escritório de Calder, no sexto dia do desaparecimento de Rafe,


Phoebe viu pelo olhar do ex-noivo que ele tinha tido alguma informação.
— Ele deu alguma notícia?
Calder negou com a cabeça e ofereceu uma cadeira a ela.
— Não, mas tive uma pista pelos cavalos. Descobri que um homem, que
corresponde à descrição dele, vendeu um dos meus cavalos para um taberneiro, em
Burnhill, em troca de uma montaria inferior e algumas moedas.
— Tem certeza de que era Rafe? Calder esfregou a mão no queixo.
— Bem, pelo menos o taberneiro descreveu a roupa em detalhes,
mencionando até os botões prateados da casaca azul dele.
Phoebe andou de um lado para o outro no escritório, imaginando o motivo de
Rafe ter feito aquilo.
Ela não tinha dúvida de que os homens que Calder contratara estavam
fazendo o possível para localizá-lo, mas ela o conhecia melhor e sabia o lugar exato
de onde ele havia partido. Poderia começar por ali e seguir seus instintos até
encontrá-lo. Rafe poderia estar precisando de ajuda.
Ela ficou com essa idéia fixa na cabeça. Sim, podia sentir que Rafe precisava
dela, e a espera a estava deixando maluca. Sabia que não teria a aprovação nem de
Calder e nem do vigário, mas já desistira da aprovação deles.
O alívio que sentiu foi imediato ao pensar em tomar as rédeas da situação. Só
voltaria para casa com Rafe.
— Absolutamente, não! Eu a proíbo — reagiu Calder. Phoebe balançou a
cabeça.
— Com todo o respeito, mas você não tem direito a qualquer opinião.
— Mas seu pai certamente vai proibi-la! Ela deu uma breve risada.
— Há dias meu pai não dá um passo para fora de sua biblioteca. Ele não faz
idéia do que houve entre nós, nem sabe da ausência de Rafe. Vai ser um choque

Projeto Revisoras 131


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

para ele perder seu criado e seu uísque. — Ela inclinou a cabeça e o fitou com uma
expressão triste. — Sinto muito agir contra a sua vontade, depois de toda a sua
generosidade comigo e com meu pai, mas...
— Mas isso não a deteve antes e não a deterá agora — disse Calder, tenso.
— Não. — Phoebe respirou fundo e se voltou para sair do escritório. — Vou
pegar alguns pertences e usar meu próprio dinheiro na viagem. Se souber de
qualquer coisa, o informarei imediatamente.
Calder não tentou mais impedi-la e pouco depois ela já estava no hall, com
uma sacola na mão, pronta para viajar. Havia escrito um bilhete evasivo para o pai e
um mais detalhado para Sophie.
Enquanto calçava uma luva, fez-se ouvir uma batida à porta e o lacaio se
apressou para atendê-la. Era o correio.
— Para a senhora, milady. Uma carta postada em Burnhill!
Ela deixou a outra luva cair no chão e rasgou o envelope.
Minha querida Phoebe,
Lamento mas não posso cumprir a promessa que fiz a você...
A carta era mais um bilhete. Phoebe ficou paralisada no meio do hall de
entrada de Brook House, com a sacola junto aos pés. Como tão poucas palavras
podiam causar um estrago tão grande!
A dor em seu peito era tão aguda que lhe faltava o ar...
Decidi não me casar com você...
Como se ele tivesse resolvido não comprar um terno novo ou uma garrafa de
uísque.
Apenas um único soluço escapou-lhe dos lábios. Depois... nada. Nenhuma
emoção a não ser um calafrio de boas-vindas a seu autocontrole. Bem melhor do
que a irritante agonia da espera.
Cuidadosamente ela dobrou a carta. Investigaria o único fio de esperança que
lhe restava. Desta vez não aceitaria nada como verdade, sem investigar.
Calder ainda estava no escritório. Ele a olhou com censura quando ela
entrou.
— Pensei que estivesse se preparando para a viagem.
— Eu... — Ela engoliu em seco.
Ele pareceu notar o ar chocado dela, pois deu a volta na mesa e a pegou pelo
braço.
— Sente-se, Phoebe. O que aconteceu? Por que está tão pálida?
Ela estendeu a carta para Calder.
— Não está assinada. A letra é dele?
Calder a leu devagar e, ao levantar a cabeça, tinha a sinceridade estampada
nos olhos.
— Rafe e eu tivemos o mesmo tutor. Nossas letras são quase idênticas. Isto...

Projeto Revisoras 132


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— ele dobrou a carta e a colocou sobre a escrivaninha — poderia ter sido escrito por
mim.
O tempo parou. A luz escureceu. Automaticamente, Phoebe caminhou até a
janela, encostou a testa na fria superfície e ficou observando as gotas de chuva da
primavera.
Calder olhou para o tapete.
— Rafe deixou Brook House levando a maior parte de suas coisas... mas
deixou o anel com sinete sobre a cômoda. Como ele raramente o tirava do dedo,
acredito que isso seja um sinal de que ele não tenha intenção de retornar à família
ou a esta casa.
Phoebe respirou fundo e endireitou o corpo.
— Vou arrumar minhas coisas. Creio que está na hora de voltar com meu pai
para Thornhold.
Hora de voltar para a prisão. Hora de voltar a ser vigiada. Calder também se
levantou.
— Phoebe... não posso evitar de me sentir parcialmente responsável por tudo
isso.
— Você foi tão somente uma respeitável vítima nesse assunto.
Calder sentiu-se corar.
— Nem tão respeitável. Eu sabia... — Ele pigarreou e foi se juntar a ela à
janela. Tomou-lhe uma das mãos entre as suas. — Quando mandei a proposta à sua
tia, eu sabia que Rafe a queria. Acho que sabia até de sua preferência por ele.
Phoebe o encarou.
— Mas por que eu? Não sou nenhuma beldade e você nem havia falado
comigo...
Ele deu de ombros. Era estranho ver um homem sempre tão seguro de si
hesitante.
— Acho que saber que Rafe a desejava foi o bastante para me fazer desejá-
la também... em princípio. Creio que Rafe sempre suscitou em mim esse instinto
maligno. Agora...
Ela levantou a outra mão.
— Chega de se autorrecriminar. Ambos nos comportamos mal.
Phoebe começou a retirar a mão das dele, mas Calder a reteve.
— Você não precisa voltar para Thornhold.
— Preciso, sim. Logo começarão os falatórios no jornal. Não quero enfrentar
isso aqui em Londres.
— Tenho uma solução. — Calder entrelaçou os dedos nos dela e esboçou um
leve sorriso. — Observando-a nos últimos dias, vi que você é uma mulher admirável,
cheia de força e dignidade. Peço que seja minha marquesa e minha duquesa,
quando o dia chegar.
Ele conseguira finalmente surpreendê-la.

Projeto Revisoras 133


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

—Eu seria uma duquesa horrível. Não percebeu que sou um tanto indiscreta?
Calder apertou-lhe sensualmente a mão.
— Phoebe — disse ele, com voz suave e meio embargada, aproximando-se
um pouco mais dela —, você realmente preferiria enfrentar um futuro de escândalo a
ser minha esposa? Será que viver comigo seria tão ruim assim?
Phoebe não se afastou, pois se perguntava o mesmo. A idéia de pertencer a
qualquer outro homem e voltar a viver naquele estado entre desespero e alegria,
voar de coração aberto ao ápice da paixão e cair no limbo escuro da rejeição... Não,
jamais desejaria viver aquilo de novo.
Quando os lábios de Calder tocaram nos seus, ela não resistiu e fechou os
olhos. Os lábios dele eram firmes e provocantes. Ele a segurou pela nuca, e
delicadamente aprofundou o beijo.
Phoebe não podia dizer que o contato fosse desagradável. Pelo contrário.
Seu corpo logo reagiu, mas seu coração ficou totalmente indiferente. Estava a salvo
de Calder, a salvo daquela jornada perigosa.
Calder afastou os lábios dos dela e deu um passo atrás, levantando o rosto
de Phoebe para poder fitá-la nos olhos.
— Não foi tão horrível assim, foi?
Sim, ela poderia se casar com Calder e se abrigar sob o poder e status dele.
Herdaria a fortuna dos Pickering.
Ficaria imune. Não teria a vida que imaginara com Rafe, mas certamente
seria uma vida melhor do que teria em Thornhold.
— Acho que você poderia fazer um casamento melhor, Calder — disse ela
com delicadeza, já cedendo um pouco. — Não sou quem você precisa.
Calder passou o dedo pelo lábio inferior dela.
— Eu gosto de você, Phoebe. Sinto-me confortável ao seu lado. Eu a respeito
e não posso negar que a desejo. O que mais posso querer?
Conforto, respeito e desejo. Verdade, não era preciso mais do que isso.
Querer mais significava glória e agonia. Suas escolhas eram claras. Ser sozinha e
aprisionada. Ser duquesa e poupada.
Talvez fosse o melhor. Talvez estivesse na hora de ser prática. Sensata.
Talvez, afinal de contas, amar não fosse o suficiente.
Ela afastou o rosto da mão de Calder e seu olhar caiu sobre a carta. Não
estava assinada, como se Rafe não conseguisse nem apor sua assinatura nela, da
mesma maneira que deixara o anel para trás.
Sua decisão já estava tomada.

Bem, bem, minhas lindas... parece que o casamento da temporada vai


mesmo acontecer! O elegante Brookhaven e sua felizarda noiva estão novamente
às voltas com os preparativos nupciais. Dizem que só de flores para a cerimônia já
gastaram uma fortuna! Caso não tenha recebido convite para esse esplêndido
evento simplesmente significa que você não é importante, pelo menos não na Mãe

Projeto Revisoras 134


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Inglaterra!
Após conseguir tirar mais um tijolo, Rafe limpou o reboco esfarelado em volta
do pequeno buraco e o recolocou outra vez. Naquela noite precisava parar e dormir
por algumas horas. Estava exausto, com as mãos doendo e sangrando e os ombros
parecendo em chamas.
Deixou-se cair sentado no chão. A única coisa que seus raptores lhe davam
para comer era pão e um caldo ralo. Talvez esse tratamento cruel visasse
enfraquecê-lo para que não tentasse fugir. Mais uma semana com essa alimentação,
ele certamente acabaria morrendo.
Provavelmente queriam regaste. Mal sabiam que não teriam um centavo de
Calder depois do que havia feito...
Parece que, de um jeito ou de outro, vou pagar pelo que fiz, Mas por você
valeu a pena, Phoebe.
Com um esforço sobre-humano, ele pôs-se de pé novamente e voltou para o
maldito buraco, naquela maldita parede. Só mais um tijolo e depois descansaria.

Phoebe tentou se esconder do mundo na saleta íntima, mas o mundo insistiu


em segui-la, a começar por Tessa.
— O que quer, Tessa? — Não havia mais motivos para amabilidades agora.
Tessa estreitou os olhos.
— Não vou mais protegê-la. Quero que você rompa com Brookhaven e volte
para seu bolorento vicariatozinho, imediatamente!
Phoebe nem piscou.
— Isso não é novidade alguma, Tessa. É óbvio que você quer convencer
Brookhaven a ficar com Deirdre. Talvez até esteja certa, mas pouco me importa o
que pensa.
Tessa fungou.
— Sua arrogantezinha estúpida...
Phoebe a interrompeu com uma gargalhada seca.
— Creio que não está em posição de chamar ninguém de estúpida, Tessa.
Mas me recuso a agüentar você por mais um minuto que seja. Por que não vai
amolar Deirdre?
Tessa empalideceu de raiva.
— É melhor voltar logo para Thornhold ou terá de enfrentar as
conseqüências! Se não romper com Brookhaven imediatamente, farei com que
todos em Londres saibam sobre Marbrook! Phoebe a encarou.
— Em poucos dias estarei respeitavelmente casada com Brookhaven e o
importante é que ele já sabe. Londres não acreditará.
Tessa surpreendeu-se.
— Ele sabe? E ainda assim...
Phoebe revirou os olhos.

Projeto Revisoras 135


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Por Deus, Tessa! Guarde essa sua chantagenzinha barata para uma outra
ocasião.
Ela se voltou para sair, mas Tessa a segurou pelo braço e a puxou.
— Aposto que nada disse a Brookhaven sobre aquele outro incidente de
quando era menina, disse?
Phoebe ficou petrificada.
— Do que você está falando?
— Estou falando daquele professorzinho de dança. Estou falando da
diferença de um erro e de um hábito imoral da vida toda. Acha que ele ainda vai
querê-la depois de saber como você já foi bem usada?
Phoebe olhou fixamente e por um longo momento para Tessa.
— Como ficou sabendo disso? Só três pessoas no mundo sabiam. Eu, meu
pai e o cretino professor de dança. Por mais, que eu às vezes deteste meu pai, ele
jamais lhe contaria...
Ela estreitou os olhos e se aproximou mais de Tessa.
— Foi você quem mandou Terrence a Thornhold! Havia me esquecido desse
detalhe. Como pôde fazer essa maldade com uma menina de quinze anos!
A verdade é que não deveria haver surpresa nisso. Tessa nunca perdia uma
oportunidade.
— Que culpa eu tenho? Foi seu pai que me pediu ajuda para selecionar
algumas pessoas qualificadas. O que mais ele podia fazer para conter sua
selvageria?
— Qualificadas? Como a criada que me deixava sozinha para dormir com o
amante? Como a governanta que bebeu tudo o que encontrou pela frente e
desapareceu depois de uma semana? — Phoebe riu, nervosa. — E como eu caí na
armadilha... — Uma idéia ultrajante lhe ocorreu. — Você contou a Terrence sobre o
dinheiro em custódia... mas deve ter ocultado alguns dados, senão ele saberia que
eu não receberia nada se me casasse com ele.
Tessa deu vários passos para trás.
— Não fiz isso, e você não tem como provar!
Agora ela parecia bastante alarmada. E era para ficar, pois se a informação
tivesse vazado, todas elas seriam imediatamente desqualificadas como herdeiras,
inclusive Deirdre.
— Não — disse Phoebe, baixinho. — Você não contaria... mas deve ter
insinuado algo semelhante para que ele se esforçasse tanto para me conquistar.
— Fiz o que pude para ajudar seu pai num período difícil, e esse é o
agradecimento que ganho. Sua ingrata! Mas já devia saber que você não daria boa
coisa quando aquele idiota me contou que você cedeu depois de ser cortejada por
apenas um mês... — Foi breve, mas notória, a expressão de sobressalto que Tessa
teve ao se dar conta de haver dito mais do que devia.
A raiva que Phoebe sentiu foi glacial e inexorável. Estava na hora de acabar
com aquele show de marionetes.

Projeto Revisoras 136


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— E se eu acabar com os segredos, Tessa? Tessa piscou, confusa.


— Como assim?
Phoebe caminhou vagarosamente em direção à janela. O mundo lá fora era
grande... tanta gente, tantos segredos. Os dela certamente não eram nada
interessantes... e, se fossem, por que ela se importaria?
— Vou deixar que todos saibam sobre Terrence e Marbrook.
Tessa ficou com a respiração alterada.
— Você... você não pode fazer uma coisa dessas! Pense na família, pense
em seu pai!
— Ora, ele sobreviverá. Ele nunca gostou muito mesmo de ser vigário... Com
a fortuna de Pickering, eu comprarei uma linda casa, onde ele poderá ler o dia todo,
se quiser.
— Mas... pense em Deirdre, em Sophie... em mim. Phoebe deixou a janela,
com o coração endurecido feito uma rocha.
— Deirdre é uma lindeza e tem muitos admiradores. Tenho certeza de que
terá um belo futuro.
— Peço-lhe, prima, que não se aflija por minha causa.
Phoebe e Tessa se voltaram, para a porta onde Deirdre e Sophie estavam
paradas, observando-as.
— Tenho certeza de que minha queridíssima madrasta permanecerá a meu
lado. — A voz de Deirdre revelava ainda mais rancor do que a de Phoebe.
— E quanto a mim... — aparteou Sophie — não tenho nada a perder, pois
vocês sabem muito bem que eu não tenho planos de me casar.
Phoebe assentiu com a cabeça. Talvez Sophie fosse a mais sensata de todas.
— Então vê, Tessa, ninguém vai sofrer muito, a não ser você. Não haverá
mais visitas, nem mais convites.
Tessa estava lívida, mas não deu o braço a torcer.
— Eu tenho amigos, amigos poderosos. Eles não irão me abandonar.
— Não se iluda, Tessa. Acha que seus amigos vão querer você perto de suas
preciosas filhas quando souberem de sua participação na história de Terrence?
Afinal, proteger, como acompanhante, a virtude das jovens não é a mais sagrada
missão que uma lady pode ter na velha Inglaterra?
Tessa agora estava trêmula de raiva.
— Sua vagabundazinha estúpida. Acha que nada a afeta, não é? Só porque
vai se casar com Brookhaven, pensa que ninguém se importará com seu passado.
Não seja idiota, menina! Você arruinará todo o seu futuro.
Phoebe ponderou por um momento, com expressão serena.
— Sim, talvez. Mas o farei por conta própria. Meu futuro é decisão minha. —
Esboçou um leve sorriso. — Arruiná-la também com isso seria como a cobertura do
bolo de minha ruína.
Neste instante, uma voz grave fez-se ouvir da entrada da porta.

Projeto Revisoras 137


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Lady Tessa, a senhora acha que eu cancelaria o casamento simplesmente


porque uma mulher ciumenta e invejosa submeteu minha noiva a uma trágica
experiência?
Tessa se virou rapidamente e pareceu acuada diante da expressão sombria
de Calder. Até mesmo Phoebe temeu que ele fosse capaz de um ato violento.
Calder fez uma mesura para ela.
— Lady Millbury. Phoebe inclinou a cabeça.
— Lorde Brookhaven.
Ele se voltou e saiu, acabando, com qualquer autoridade que Tessa ainda
pudesse ter.
Era realmente um homem notável. Pena que não o amasse.
O corre-corre dos preparativos para o casamento fez com que prosseguisse a
vida de todos em Brook House, embora Phoebe não estivesse envolvida em nada.
Tudo estava a cargo dos criados que, sob a supervisão de Fortescue, sabiam muito
bem o que fazer.
Só o vigário continuava recluso na biblioteca, absolutamente alheio ao que se
passava e aos sentimentos da filha.
A entrega do vestido de noiva foi feita pessoalmente por Lementeur. A criação
em tom marfim era ainda mais linda do que Phoebe se recordava.
Recordar significava pensar em Rafe. Ao provar o vestido para o estilista, ela
não conseguiu conter as lágrimas.
— Oh, querida, não deixe que as lágrimas molhem a seda! — Ele lhe
estendeu um lenço perfumado e deu carinhosos tapinhas em suas costas enquanto
ela chorava. — Você é linda demais para sofrer. Não vou suportar uma noiva triste
em uma criação minha. Vamos, me conte o que está errado.
Cansada dos próprios segredos, ela contou a Lementeur sua vida nos
mínimos detalhes. Ao falar sobre o desaparecimento de Rafe, Lementeur arregalou
os olhos surpreso e colocou as mãos nos quadris.
— Por que você não me contou logo uma informação dessas? Francamente,
vocês me fazem passar por cada coisa!
Phoebe não entendeu nada.
— Mas... de qualquer forma, vou me casar amanhã. Ele não tinha tempo a
perder. Pediu a Cabot para recolher as coisas e chamar o cocheiro.
— Tenho muito a fazer... — Jogando um beijo para ela, voou para a porta. —
Feliz dia de casamento!
Phoebe ficou sozinha no quarto, ainda vestida, querendo entender aquele
comportamento.
Stickley contemplou a coluna de mexericos de um jornal atrasado que Wolfe
atirou para ele, não acreditando no que lia.
— O casamento vai acontecer? — perguntou, levantando os olhos para o
irmão. — Como é possível se raptamos o noivo?
— Raptamos a pessoa errada — gritou Wolfe, andando de um lado para

Projeto Revisoras 138


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

outro, furioso.
— Mas quem, se o homem parece com Brookhaven e estava na carruagem
dele?
Wolfe engoliu a última gota de uísque e arremessou a garrafa vazia contra a
lareira. Os cacos de vidro esparramaram-se pelo chão e nas finas botas que haviam
sido colocadas ali dias antes.
— Raptamos o maldito bastardo e deixamos o marquês confortavelmente
instalado em Londres!
Stickley franziu o cenho, não podendo negar o óbvio. De repente teve um
sobressalto.
— O casamento!
— O quê?
Stickley levantou-se e pegou o chapéu.
— Esse assunto já foi longe demais, Wolfe. Não podemos perder o
casamento. Se não comparecermos, poderemos levantar suspeitas. Vamos!
Wolfe soltou um longo suspiro, admitindo a derrota.
— E o que vamos fazer com o bastardo? Stickley fungou. Detestava
devassos e bastardos.
— Vamos mantê-lo aqui. Assim que estivermos em Londres, enviamos um
bilhete anônimo para o vilarejo mais próximo, e alguém virá soltá-lo.
O jantar na noite anterior ao casamento foi melancólico. Phoebe continuou
sentando-se em uma cadeira reservada a hóspedes. Não tinha pressa em ocupar
um lugar destinado à família. Calder sentou-se à cabeceira, como havia feito desde
que a trouxera de volta. O curioso é que, depois que o traíra, estivera com ele mais
vezes.
Felizmente, ele não havia tentado beijá-la de novo. Não que o beijo dele
tivesse sido desagradável, mas levaria muito tempo para que a lembrança daquela
noite encantada evaporasse de sua memória. Se é que um dia poderia esquecê-la.
Nem nos preparativos do casamento queria se envolver. Tudo lembrava Rafe,
como quando Fortescue a procurou com o mapa das mesas, cheio de anotações
com a caligrafia firme dele. Ela mal conseguiu olhar para o mapa.
Ela precisava adormecer aquela Phoebe... adormecê-la para sempre!
Absorvido que estava em tirar o reboco da parede aos pouquinhos, Rafe n ão
se deu conta de que fazia horas não havia movimento na casa. Eis que um tijolo
escapou-lhe das mãos doloridas e caiu ao chão, fazendo um barulho seco. Ele se
alarmou e ficou à espera da reação de seus raptores.
Nenhum barulho, nem o som de um passo sequer. Talvez tivessem dormido.
Ou saído juntos, coisa que nunca havia acontecido antes.
Para testar, pegou o tijolo do chão e jogou com força na pesada porta
guarnecida de ferro do porão. A pancada ressoou forte e espalhou poeira por todo o
lado, fazendo também um pequeno buraco, do tamanho de um punho, na bolorenta
madeira.

Projeto Revisoras 139


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Rafe não conteve uma risada de surpresa. Passou a mão pelo buraco, mas
não conseguiu alcançar o trinco. Ele se abaixou, pegou o tijolo e golpeou a porta
algumas vezes, alargando o buraco o suficiente para passar o braço.
Poucos minutos depois, ele estava na sala do que não passava de uma velha
cabana. Realmente não havia ninguém ali, mas suas botas estavam jogadas perto
da lareira.
Foi de imediato calçá-las.
— Ai! — Ele deu um pulo para trás e ergueu o pé direito que sangrava com
um caco de vidro ainda enterrado nele.
Arrancou o caco, praguejando, e limpou o corte com a barra suja da camisa.
Quando finalmente conseguiu estancar o sangue, calçou as botas com cuidado. Era
melhor se apressar.
Ao mancar em direção à porta, seus olhos bateram numa frase de um jornal
velho abandonado sobre a mesa.
Ele parou, pegou o jornal e leu a notícia.
Essa não! Phoebe!
Como ela estava fazendo aquilo, sabendo o quanto ele a amava?
Rafe ficou com o jornal na mão. Não conseguia nem se ressentir com o
irmão, pois, por um lado, nunca o vira tão contente como quando cortejava Phoebe
e, por outro, sentira-se absolutamente desleal quando acordara com ela naquela
hospedaria.
Mas, embora não conseguisse odiá-lo por se casar com Phoebe, isso não
significava que conseguiria vê-los juntos ano após ano. Não, iria para Joanesburgo,
tentar a vida em uma fazenda...
Foi a vez então da letra em um pedaço de papel sob o pé da mesa captar sua
atenção. Estranho, parecia a sua letra. Ele se abaixou para pegar o papel.
Minha querida Phoebe,
Lamento mas não posso cumprir a promessa que fiz a você.
Rafe se aproximou da janela suja para enxergar melhor. Apesar da
semelhança, a letra não era de Calder, nem ele havia escrito aquilo.
Decidi não me casar com você.
Ele fechou os olhos, tentando se lembrar da discussão que ouvira sobre uma
carta.
Falsificação.
— Meu Deus! — Seus raptores, por alguma estranha razão, fizeram Phoebe
acreditar que ele a abandonara.
Depois de tudo o que ela já havia sofrido, não era para menos que tivesse se
voltado para Calder.
O casamento!
Rafe voltou até a mesa e, desesperando-se, desamassou o jornal.
— Onde está a bendita data desse casamento? Ah, aqui. Doze de maio. Oh,

Projeto Revisoras 140


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Deus, que dia é hoje? Dez? Onze?


Ele enfiou os dois pedaços de papel em seu bolso e saiu da cabana, com o
coração alçando voo para Londres. Pelo amor de Deus, Phoebe, por favor, espere
por mim!

Phoebe viu o dia de seu casamento amanhecer claro e bonito. Tivera uma
longa noite de dúvidas. Estaria fazendo a coisa certa? Não estaria fadada a uma
vida de infelicidade? Como seria viver sem Rafe?
Teria as boas lembranças dele das quais não se arrependia.
Ela levantou o queixo ao contemplar os verdes jardins de Brook House.
Nunca mais seria comprada ou vendida novamente, nem roubada ou
comercializada, nem desejada e depois descartada.
Seria a dona de seu destino daquele dia em diante.
Rafe caminhava de maneira penosa pela estrada que levava a Londres.
Naquele horário em que o sol apenas despontava, não havia ainda movimento
algum de veículos ou de pessoas.
Entretanto, ainda que passasse qualquer carroça, dificilmente alguém pararia
para socorrer um maltrapilho sujo e manco. Ele sabia que estava irreconhecível.
Embora, com sua reputação, ser reconhecido não adiantaria muito!
Ferido e enfraquecido, ele certamente teria pedido ajuda se visse um vilarejo
ou mesmo uma fazenda quando o dia clareou. Somente muita força de vontade e
seu imenso desejo de ver Phoebe o mantinham em pé.
Não se case, meu amor. Espere por mim.
Depois que a criada a ajudou a se vestir e arrumou seu cabelo, Phoebe pediu
a ela que fosse ajudar Sophie. Precisava ficar sozinha. O pai iria vê-la.
Ele surgiu à entrada da porta, com seu habitual traje escuro, como se
estivesse a caminho de um funeral, e não de um casamento.
— Certa ocasião quase matei um homem — ele foi logo dizendo.
Phoebe se voltou para ele surpresa.
— Era um rival... um dos pretendentes de sua mãe. Cheio de ódio, bati tanto
nele que quase o matei. — O vigário olhou pela janela com um distanciamento que
não combinava com o que dizia.
Ele não mentiria. Poderia omitir a verdade, mas jamais mentiria.
— Acho que ele nunca se recuperou direito depois da surra, se é que ainda
vive — prosseguiu o vigário. — Gostaria de poder dizer que foi merecido, que ele
havia cometido um crime horrível ou tido um comportamento imoral, mas ele não fez
nada disso. Meramente ridicularizou minha devoção por Audrey...
Phoebe notou a mão trêmula do pai, traindo sua emoção.
— E ele estava certo. Eu estava apaixonado demais por alguém que mal
conhecia. E isso se deu desde nosso primeiro encontro. Fiquei louco por ela, e não
da maneira que vocês jovens usam essa palavra hoje em dia. Era como se eu não
conseguisse respirar se ela não estivesse por perto.

Projeto Revisoras 141


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Eu sei. Céus, entendo bem disso!


— Ela me mandou embora. Implorei de joelhos que me deixasse ficar. Eu a
assustei com minha paixão, mas ela ficou firme e insistiu que eu partisse e só
voltasse se e quando conseguisse controlar minha loucura.
O vigário se afastou da janela e daquelas lembranças por um momento. Seu
olhar frio deteve-se no rosto da filha.
— Ingressei na Igreja, então. Procurei uma abadia e me coloquei a serviço da
humanidade como penitência pela minha violência. Quando me formei, fui designado
para o vicariato de Thornhold. Enviei uma carta a Audrey, falando sobre minha nova
existência, e ela me mandou um bilhete, com uma única palavra. "Sim".
Phoebe engoliu em seco. Não reconhecia o homem a sua frente. Sempre o
considerara frio, destituído de emoção. Ele também usara uma máscara esse tempo
todo.
— Papai, eu...
Ele a interrompeu com um gesto de mão.
— Não é sem razão que lhe conto tudo isso, mas para adverti-la. Em suas
veias corre o mesmo sangue quente que o meu. Soube disso quando você estava
com quinze anos e temi por você. Me culpei. Agora... — Ele soltou um suspiro
profundo. — Agora vejo que carreguei sem razão o medo e a culpa. Você é mais
forte do que eu fui.
Phoebe sentiu-se confortada por aquela migalha de aprovação, mas procurou
conter a vontade de chorar.
— É claro, talvez simplesmente seja porque, por ser mulher, você é incapaz
de uma emoção tão profunda.
Phoebe deixou escapar uma risada. Ah, o vigário. Continuaria sempre o
mesmo.
Ela se aproximou do pai e o tocou no ombro.
— Obrigada por me contar. Vou ficar atenta às suas palavras.
Ele aquiesceu com a cabeça, e a tensão em seus lábios desapareceu um
pouco.
— Você pode ter uma vida cheia de paz e contentamento — ele acrescentou
em tom casual. — Eu mesmo nunca mais perdi a cabeça. A não ser naquela vez, na
hospedaria em Gretna Green.
Phoebe dirigiu a ele um olhar indagador. O vigário ficara visivelmente furioso
naquele dia e, embora tivesse sido sucinto como sempre, expressara sua raiva
quando agarrara seu braço com força para tirá-la dali.
— Levei mais de uma hora para conseguir me controlar naquele dia — disse
ele. — Uma hora sentado no quarto à espera que Terrence retornasse.
— O senhor se encontrou com Terrence?
— Se o encontrei? Bati naquele patife até ele sair dali. Tive de ameaçá-lo
para que ele se fosse e a deixasse!
Phoebe olhou para o pai em choque. Ele desviou o olhar e se justificou:

Projeto Revisoras 142


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Você foi criada para uma vida melhor! Prometi isso a sua mãe...
Uma raiva surda tomou conta dela.
— O senhor o obrigou a ir embora? Eu o amava!
O vigário ficou agitado.
— Bem, ele a deixou, não deixou? E depois, não mandou mais que uma
dúzia de cartas! Que amor verdadeiro era esse?
Cartas?
Pouco interessava saber agora. Ela teria sido infeliz com Terrence, de
qualquer modo, mesmo se tivesse se casado com ele. Talvez não fosse feliz naquele
momento, mas o destino lhe reservara uma oportunidade muito melhor do que lavar
a roupa suja de um vadio.
Ela se afastou do vigário e voltou a contemplar o jardim.
Parecia que as rosas logo floresceriam.
O tinir de arreios fez com que Rafe levantasse os olhos e visse uma elegante
carruagem. Ela era puxada por um único cavalo, que tinha fitas lilás na crina, as
laterais eram esmaltadas em roxo e a porta era adornada com um emblema dourado
com a letra “L” no centro. Quem a conduzia era um sujeito delgado, com ar
zombeteiro.
— Finalmente o encontro, milorde! Imaginei que viria por essa estrada!
Rafe estava atordoado demais e ficou ali petrificado, boquiaberto. O sujeito
parou a carruagem e saltou dela. Ele usava um paletó roxo, um impecável colete de
seda branco e um pequeno chapéu, que logo tirou da cabeça para fazer uma
mesura.
— Lementeur a seu serviço, milorde! Rafe arregalou os olhos.
— O costureiro?
O sujeito deu de ombros.
— Prefiro ser conhecido como estilista, mas pode me chamar assim — disse
ele, gesticulando com a mão. — Vim para ajudar em sua busca, milorde. — Ele
suspirou feliz. — Minhas palavras não o deixam trêmulo de júbilo?
Rafe ficou fitando o sujeito, incrédulo. Lementeur recolocou o chapéu na
cabeça e sorriu.
— Aposto que o senhor se pergunta como eu sabia onde encontrá-lo!
Rafe balançou a cabeça.
— Creio que não foi preciso uma grande investigação. Foi enviada uma carta
do vilarejo a poucos quilômetros daqui, e esta é a única estrada para Londres.
Lementeur fechou o cenho.
— Ah, sim, é verdade. — Depois, recuperando-se da contestação, voltou a
sorrir. — Desculpe ter demorado tanto, mas tive muito trabalho para encontrar um
branco.
Como a semana de Rafe havia sido o suficientemente estranha, aquela
afirmação não despertou grande curiosidade nele.

Projeto Revisoras 143


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— O que branco? O homenzinho riu.


— Um cavalo branco, é claro! — Com um gesto e uma mesura, ele indicou a
parte de trás da carruagem.
Rafe deu uns passos trôpegos e se deparou com um puro-sangue, selado e
pronto para montar, amarrado à traseira da frívola carruagem.
Todo o seu cansaço e desespero se esvaíram naquele momento diante da
premência de ver Phoebe. Ele se voltou para o estilista e perguntou:
— Que dia é hoje?
O sujeito dirigiu a ele um olhar compreensivo e disse:
— É o dia do casamento, milorde.
Um instante depois, Lementeur contemplava a nuvem de poeira deixada pelo
casco do cavalo montado por Rafe. Ele sorriu e ajeitou o chapéu com um dedo.
— Senhor Chuvisco, nos saímos muito bem hoje — disse ao se sentar
novamente na carruagem e, com um suspiro alegre, deu um puxão nas rédeas do
cavalo. — Muito bem mesmo. Depressa agora, ou perderemos o casamento!
Rafe saltou do cavalo diante da catedral. Com passos fracos, cambaleantes,
ele cruzou os pórticos e se deparou com uma multidão em pé, pois não havia mais
lugares para se sentar.
Levou alguns preciosos minutos, pedindo licença e se desculpando, para abrir
caminho entre as pessoas que lotavam a catedral.
Ele podia ouvir que o arcebispo fazia o sermão. A cerimônia já havia
começado! Desesperado, praticamente se atirou contra as pessoas até cair de
joelhos na parte desimpedida da nave nupcial.
— Phoebe! — gritou, mas sua voz estava muito fraca. — Phoebe!
Com a visão turva de exaustão, ele mal enxergava as duas figuras diante do
púlpito.
— Rafe!
Ele ouviu um burburinho à sua volta. Muitas mãos foram ajudá-lo a se
levantar. Outras o ajudaram a caminhar até o altar. Seriam bons samaritanos ou
expectadores que queriam ver o resto do show? Pouco importava. Finalmente
estava diante dos dois.
Seu irmão e a mulher que amava, parados juntos em frente ao arcebispo.
Doía muito, como doía!
Calder o fitou, abismado.
— Meu Deus, Rafe! Por onde você andou?
— Fui raptado e fiquei preso em um porão por vários dias.
Calder o examinou por alguns minutos.
— Você está com a aparência de quem cavou a terra para sair da sepultura.
— Pois, se preciso fosse, eu até isso faria para reencontrar Phoebe... — Ele
se voltou para ela. — Imagino o que você deve ter pensado...

Projeto Revisoras 144


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Céus, como doía vê-la, como doía ver o sofrimento estampado no rosto dela.
Ela estava pálida e com olheiras. Entretanto, para ele nunca estivera tão linda.
— Eu te amo, Phoebe. Eu te amo mais do que jamais pensei que fosse
possível amar alguém. Sei que você pensou que fosse apenas uma atração.
Phoebe tentou protestar, mas ele fez um gesto para impedi-la.
— Eu devia ter lhe dito que me apaixonei por você naquela primeira noite em
que nos conhecemos. Devia ter lhe proposto casamento assim que a tomei nos
braços para dançar e afastá-la do champanhe derrubado...
— Eu sabia! — Tessa gritou da platéia.
Deirdre e Sophie a fitaram e falaram ao mesmo tempo.
— Cale-se, Tessa!
Phoebe não tirou mais os olhos de Rafe.
— Posso falar agora?
— Ainda não. — Ele deu uns passos para ficar diante dela. — Devo-lhe muito
mais do que poderei lhe dar algum dia. — Ajoelhando-se, quase desmaiado, ele
procurou vencer o torpor e colocou a mão dentro da camisa, puxando uma rosa
desfolhada, uma pobre flor selvagem que ele havia pego de um galho na estrada.
Estendeu-a a Phoebe, com uma mesura.
— Venha comigo, milady — ele murmurou. — Eu tenho um vale de rara
beleza conhecido apenas por mim...
— Ele é o lorde Raphael? — o arcebispo de Canterbury perguntou. —
Milorde, não percebeu que a cerimônia já terminou?
— Não... — Rafe balançou a cabeça. — Sim... Qual foi sua pergunta?
Ele dirigiu um olhar torturado para Phoebe. Ela contemplava a rosa
desfolhada na mão dele, com o rosto lavado em lágrimas.
Ajoelhou-se para pegar a rosa.
— Suas mãos — ela sussurrou. — Veja o que você fez consigo?
— Isto é bastante incomum, milorde. — O arcebispo colocou a mão dentro de
sua enorme vestimenta e tirou um papel dobrado. — Minha impressão era a de que
não contavam com sua presença aqui hoje.
— Mas... — Rafe não conseguia se conformar com aquela situação. — Mas
eu a pedi em casamento primeiro. — A voz dele estava extremamente fraca.
Phoebe concordou e acariciou o rosto com a flor.
— É verdade. Você pediu, sim.
— O senhor deveria ter pensado nisso antes de assinar esta procuração,
milorde — rebateu o bispo, secamente.
— Não sou favorável a esses casamentos precipitados. Eu disse isso a seu
irmão e a sua esposa, mas ambos insistiram...
Rafe procurou se levantar,
— O quê... espere... — Ele rapidamente levantou a mão.

Projeto Revisoras 145


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

— Procuração? Esposa?
— Sim, Rafe. — Calder adiantou-se para pegar o papel das mãos do
arcebispo. Ele o desdobrou e mostrou a Rafe, ao mesmo tempo dirigindo a ele um
olhar significativo de cumplicidade de toda uma vida que Rafe logo reconheceu.
Não estrague tudo!
— Naturalmente você se lembra da procuração de casamento que você
assinou para que eu pudesse representá-lo no altar, caso viesse a ser inevitável a
sua ausência — disse Calder. — Esta não é sua assinatura?
A resposta combinada para aquele tipo de sinal era: "Sim, sem dúvida, pai...
ou mestre ou professor".
Rafe olhou para a procuração. A assinatura era dele, uma falsificação muito
melhor do que a daqueles incompetentes que o mantiveram prisioneiro.
Esposa. Sua Phoebe. Sua mulher.
Que loucura! Que expediente fantástico! A alegria tomou conta de seu ser, e
ele afirmou calmamente:
— Sim. Essa é, sem dúvida, minha assinatura. Calder voltou-se para o
arcebispo.
— Aí está! Meu irmão estava somente um pouco desorientado depois da
terrível provação pela qual passou. Podemos continuar agora?
Phoebe olhou carinhosamente para Rafe.
— Primeiro vamos esclarecer uma coisa. Você não acreditou que eu pudesse
me casar de verdade com Calder, não é?
— Acho que deveria me ofender com essa pergunta — disse Calder,
baixinho, mas os dois o ignoraram.
— Então podemos continuar agora? — foi a vez de Rafe perguntar,
levantando-se trêmulo. — Calder, você me empresta sua casaca?
Ela interrompeu, cochichando para ele alguma coisa. Ele parou.
— O quê?
Phoebe se desfez de seu buquê, atirando-o sobre o ombro para uma ávida
multidão que estava na expectativa e se voltou para o arcebispo com apenas a rosa
desfolhada na mão.
— Agora estou pronta.
O arcebispo olhou para Calder, espantado.
— Mas, milorde, a cerimônia já estava concluída. Devo casá-los de novo?
Calder acenou com a cabeça.
— Eu pagarei em dobro a taxa da catedral. Digamos que é um presente de
casamento. — Ele deixou então o altar e foi se sentar em um dos bancos.
Um bom observador veria Deirdre se voltar de seu lugar e dirigir a Calder um
olhar sedutor.
Diante da platéia atônita, foi novamente realizada a cerimônia de casamento

Projeto Revisoras 146


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

de Phoebe e Rafe.
— Você ainda não disse o "sim" — ele a lembrou, com os olhos brilhando de
amor.
Phoebe levantou a cabeça e o fitou longamente.
— Não está faltando um anel? Ele empalideceu.
— Ah... lembre que estive preso no porão nos últimos dias e....
— Rafe — chamou-o Calder. — Pegue!
Um circulo luminoso voou pelo ar. Rafe o apanhou e sorriu ao sentir na mão
um peso que lhe era familiar. Seu anel de sinete.
Tudo indicava que ele continuava um Marbrook.
— Rafe, agora você pode se casar comigo. Ele sorriu encantado para a noiva.
A mulher de sua vida. Para sempre. O olhar ardente que ela lhe dirigiu era
cheio de juras e dispensava palavras.
— Então sir Pickering declarou que herdaria quem fizesse por merecer —
disse Phoebe, com a cabeça apoiada sobre o peito nu de Rafe. — Eu não podia
contar antes para você sob o risco de estragar tudo para nós três. Não era justo que
fizesse isso com Sophie e Deirdre, mesmo estando decidida a abrir mão da fortuna.
Mas agora é diferente. Você é parte da família, pode partilhar de todos os segredos.
Rafe, que estava com o rosto vermelho e suado pelo exercício erótico das
últimas horas, empalideceu ao tomar conhecimento do fato.
— Vinte e sete mil libras?
— Creio que esteja perto de vinte e oito mil. Stickley e Wolfe fazem um
trabalho milagroso.
Stickley e Wolfe. Por que aqueles nomes subitamente a lembraram de algo
desagradável? Não. Ridículo.
— Mas desistir de todo esse dinheiro por minha causa? Eu não tinha a menor
idéia do que estava lhe pedindo.
— Isso é pouco. Eu ficaria com você ainda que você fosse um caçador de
ratos ou um limpador de chaminés!
Ele riu.
— Que exagerada! Mas agora é minha vez de lhe contar uma coisa. Calder
concordou em me deixar tomar as rédeas de Brookhaven. Como ele logo herdará o
ducado, não terá muito tempo para administrar Brookmoor e Brookhaven, e ele sabe
que levará anos para que um filho seu tenha idade para fazê-lo.
Phoebe se enroscou nele, rindo de pura alegria.
— Que maravilha! E talvez você tenha sorte e ele só tenha filhas!
Rafe a fitou com um ar maroto.
— Fique quietinha, minha Phoebe. Estou outra vez morrendo de vontade de
fazer uma coisa com você... Os olhos dela se iluminaram.
— Verdade, milorde? Do que se tra... Oh!

Projeto Revisoras 147


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

Stickley levantou o copo para Wolfe.


— Conseguimos. Wolfe sorriu.
— Conseguimos.
Entre os dois havia uma folha de papel... um contrato assinado por Deirdre
Cantor, no qual ela declarava não ter intenção de retirar a custódia do escritório
deles e que ela ficaria perfeitamente satisfeita com a generosa pensão vitalícia
gerada pelos juros. O fundo não continuaria crescendo como antes, mas ainda
assim cresceria sob a eficiente administração deles.
Wolfe sorveu o último gole e encheu novamente o copo.
— Aos casamentos! Stickley olhou para o contrato.
— Você entende que esse documento não é definitivo, não é? Depois que ela
se casar com Brookhaven, quando ele se tornar o duque de Brookmoor, ela terá
direito de tirar tudo.
Wolfe deu de ombros.
— Por que ela faria isso? Brookhaven já tem o cofre cheio e, como
Brookmoor, terá mais ainda. Por que cargas d'água uma dama precisaria de vinte e
sete mil libras?
Stickley sorriu orgulhoso.
— Já está perto de vinte e oito mil agora. Wolfe deu um soco no braço do
sócio.
— Stick, seu malandro velho! Você é fantástico.
Stickley sorriu, esfregando o braço. Agora que a crise fazia parte do passado,
não via a hora de que Wolfe voltasse para sua vida desregrada e o deixasse em paz
para administrar as coisas a seu modo. Pois bastava observá-lo agora, com os
saltos das botas arranhando a escrivaninha de novo!
Wolfe olhava para o teto, cantarolando desafinado. Depois de vários minutos,
ele se levantou abruptamente e bateu o copo na mesa, fazendo com que alguns
papéis esvoaçassem.
— Bem, Stick, foi um grande prazer trabalhar com você nas últimas semanas,
mas tenho meus próprios negócios para cuidar. Se você puder fazer o favor de me
dar minha comissão...
Stickley abriu a gaveta da escrivaninha e jogou o saquinho que Wolfe pegou
no ar. Ele deu uma sacudidela, avaliando o peso, e disse;
— Você aumentou novamente a comissão, não é, Stick?
Stickley concordou.
— Claro. Você trabalhou duro nas últimas semanas. É mais do que justo que
receba uma porcentagem maior. Espero que saiba como aproveitar bem a sua parte.
Wolfe colocou a mão na testa, fazendo uma continência.
— Entendido, general Stickley. Bem, então vou indo.
Assim que ele saiu, Stickley recostou-se em sua amada poltrona de couro e

Projeto Revisoras 148


Celeste Bradley - Procura-se um duque (CH 417)

deu um longo suspiro de prazer diante do silêncio quê reinava no escritório. Wolfe
não era de todo mau. Ele simplesmente tivera um surto de maluquice... mas era bom
que tudo tivesse voltado ao normal.
E pensar que eles haviam conseguido todo aquele feito sem roubar uma libra!
Mas, claro, Stickleys não roubavam nunca.

Projeto Revisoras 149