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CATEGORIAS

ARISTÓTELES

Porto Editora

Categorias

Traduçäo, introduçäo e comentários de Ricardo santos


PoRTo editora
Título: categorias, de Aristóteles
Autor: Ricardo Santos
Design Gráfico: Quatro Cores Design
Editor: Porto Editora

para a língua portuguesa:


PoRTo editora, LDA.--1995
Rua da Restauraçäo, 365

4099 porto CoDEX--PoRTUGAL

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Esta publicaÇÄo näo pode ser reproduzida, nem transmitida, no
todo ou em parte, por qualquer
ProceSsO eLectrónico, mecanico, fotocópia, gravaçäo ou outros,
sem prévia autorizaçäo

A vida de Aristóteles
A obra de Aristóteles
o organon
As Categorias
A estrutura da obra
A primazia das substâncias individuais

A pergunta «o
Sinonímia, que é..e?»
homonímia paronímia
A caracterizaçäo das diversas categorias
o método dialéctico
Método de citaçäo
o texto

Capítulo I
Capítulo 2
Capítulo
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10

35

39
Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15
Comentário Glossário

Bibliografia

69

71

17 1

183

As Categorias ocupam, na ordenaçäo tradicional dos tratados


aristotélicos, o primeiro lugar. A este facto está associada a
convicçäo de que é por esta obra que deve começar o estudo da
filosofia de Aristóteles. Responsável pela enorme influência que
as Categorias exerceram ao longo de toda a história da
filosofia, esta convicçäo é ainda hoje partilhada por alguns. A
presente ediçäo pretende, por isso, ser acessível ao leitor näo
especializado e näo pressupõe qualquer contacto prévio com as
doutrinas aristotélicas. Também nos pareceu preferível
apresentar ao leitor uma interpretaçäo da obra, sem o
sobrecarregar com as numerosas controvérsias entre
interpretaçöes divergentes a que qualquer texto com valor

filosófico
assumida pordánós,
origem.
tendo Asido
interpretaçäo é, assim,
subtraídas todas inteiramente
as referências aos
comentadores de que discordamos ou àqueles com que concordamos e
em que nos apoiámos. o leitor interessado em aprofundar o
assunto e conhecer outras perspectivas encontrará no final do
volume indicaçöes bibliográficas que poderäo orientar a sua
pesquisa. E, no entanto, indispensável registar o valioso apoio
que encontrámos na Traduçäo e notas de J. L. Ackrill (Aristotl es
Categorias ad De Interpretatione, oxford, 1963). o livro de
Ackrill constitui desde há muito um verdadeiro «clássico» dos
estudos aristotélicos e foi responsável pelo interesse renovado
de que as Categorias têm sido objecto nos últimos anos. A
compreensäo das Categorias como uma obra de metafísica - que
predomina actualmente e que aqui também perfilhamos - foi por
ele decisivamente reforçada.

Ricardo SantoS

Sintra 13 de Maio de 1995

A vida de Aristóteles

Embora tenha passado a maior parte da sua vida em Atenas,


Aristóteles era natural de Estagiar, pequena cidade do Norte da
Grécia, onde nasceu em 384 a. C. o seu pai, Nicómaco, era médico
pessoal do rei Amistas da Macedónia. Aos 17 anos, viajou para
Atenas, a fim de ingressar na Academia de Platäo. Nos vinte anos
em que foi membro da Academia, distinguiu-se pelo seu talento,
primeiro como estudante e, depois, também como professor e
autor. Sabe-se que aí ensinou dialéctica e retórica, e que
escreveu e publicou uma série de obras, na sua maioria sob a
forma de diálogos, que o tornaram reconheci do pela excelência do
seu estilo. Infelizmen te, a maior parte destas obras perderam-se
e restam-nos apenas alguns fragmentos. Destinadas a um público
alargado, o objectivo
pela filosofia e captardenovos
muitas delas erapara
estudantes despertar o interesse
a Academia.
Em 347, quando Platäo morreu e Espeusipo, seu sobrinho, Lhe
tomou o lugar na direcçäo da Academia, Aristóteles deixou
Atenas. Viajou, primeiro, para as colónias gregas da åsia Menor
(Assis e Lesbos) e, depois, a convite de Filipe, viveu alguns
anos na corte em Pela (capital da Macedónia), como preceptor do
futuro imperador Alexandre. Só voltaria a Atenas doze anos
depois, em 335, desta vez näo para regressar à Academia, mas
para fundar uma nova escola, o Liceu. As obras de Aristóteles
que conhecemos säo o produto da investigaçäo e do ensino que
desenvolveu, com o auxílio de diversos colaboradores, näo só na
época do Liceu, mas já durante a sua estadia na åsia Menor e em

Pela e, talvez, também durante os últimos anos em que esteve na


Academia.
o pensamento que nelas se expressa, cobrindo as mais diversas
áreas do conhecimento, deferência-se claramente da filosofa
platónica, rejeitando mesmo algumas das suas principais ideias
(como a teoria das Formas e a teoria da reminiscência).
Pretendendo, no entanto, ser fiel à inspiraçäo básica do
platonismo (que considerava ser, afinal, a de toda a filosofia),
Aristóteles desenvolveu um pensamento autónomo, que procura
responder melhor aos problemas - muitas vezes os mesmos com que
se debateu Platäo - que dificultam a nossa compreensäo do mundo
e de nós mesmos.
Dirigiu o Liceu até 323, ano em que morreu Alexandr e. o ambiente
em Atenas era, nessa altura, fortemente hostil à Macedónia, e
Aristóteles, considerado um «amigo da Macedónia», näo era uma
presença desejada. Foi acusado por um conjunto de atenienses,
num processo idêntico ao que, em 399, condenara Sócrates à
morte, e decidiu fugir de Atenas, para evitar, segundo se conta,
que os atenienses cometessem um segundo crime contra a
filosofia. Morreu um ano depois, em Cálcio, cidade natal da sua
mäe.

A obra de Aristóteles

As obras escritas por Aristóteles dividem-se em dois grupos:


1. as obras que foram compostas para ser publicadas e que o
foram de facto em vida de Aristóteles (na sua maioria säo
diálogos, destinados a um público vasto);
2. as obras compostas para uso interno da escola, constituídas
na maior parte por manuscritos a partir dos quais Aristóteles
dava as suas Liçöes e evidentemente destinadas a uma audiência
especializada de filósofos e estudantes de filosofia.
Ao contrário do que seria o mais natural, as obras publicadas
perderam-se e delas conhecem-se apenas alguns fragmentos,
enquanto
escritos as que chegaram
escolares. até nós srcinalmente
näo estando pertencem ao segundo grupo,
destinados dos
a ser
publicados, a história da transmissäo destes manuscritos foi
atribulada e a primeira ediçäo completa de que temos notícia foi
realizada, em Roma, em meados do século I a. C. As sucessivas
Ediçöes e cópias a que desde entäo foram sujeitos se
representam, por um lado, a condiçäo de possibilidad e de hoje os
lermos, por outro lado, representam também outras tantas
interferência, que dificultam por vezes o nosso conhecimento do
texto srcinal. Apenas como exemplo, refira-se que os títulos
das obras näo säo, na generalidade, da autoria de

I ()

Aristóteles, mas devem-se a editores posteriores. Cada obra, ou


tratado, é muitas vezes composta por diversos livros (cuja
extensäo deverá corresponder aproximadamente à dos originais
rolos de papiro). É provável que muitos destes livros existis sem
separadamente e teräo sido aqueles editores a decidir quais os
livros que deveriam ser reunidos sob um mesmo título.
Para dar uma ideia das matérias abordadas na obra conhecida de
Aristóteles, podemos dividir os tratados em cinco grandes
grupos: no primeiro, temos os tratados que, editados
conjuntamente sob o nome de organon (a que nos referiremos
adiante com mais pormenor), constituem o que é habitualmente
conhecido como a lógica aristotélica; num segundo grupo, temos
um vasto conjunto de obras que versam sobre a filosofia da
natureza, onde se incluem tratados de física, cosmologia,
psicologia e biologia; em terceiro lugar, vem o que o próprio
Aristóteles designa por filosofia primeira, e que é também por
ele definida como a ciência que estuda o ser em geral (a qual
constitui o objecto do conjunto de livros editados sob o título
de Metafísica); no quarto grupo, incluem-se as obras que tratam
da ética e da política (sobretudo a Ética Nicomaqueia e a
Política);
tratados de e, por fim,
retórica o último grupo é constituído pelos
e de poética.
Durante muito tempo, a obra de Aristóteles foi encarada e
estudada como constituindo uma totalidade completamente coerente
e sistemática. os diversos tratados distinguir-se-iam pela
diferença de tema e de objectivo, mas näo haveria entre eles
diferenças significativas de doutrina. No nosso século, pelo
contrário, tem predominado uma abordagem que considera haver, ao
longo da obra, sinais de mudança de doutrina e reformulaçäo de
perspectivas, os quais parecem testemunhar uma evoluçäo no
pensamento do autor. De acordo com isto, tornou-se necessário
procurar determinar, pelo menos de modo aproximado, a ordem
cronológica por que teräo sido compostos os diversos tratados.
Deste estudo,
importantes, embora
näo foi ainda tenham
possívelresultado alguns global,
obter uma soluçäo avanços
solidamente fundamentada e consensual. Para o que aqui
principalmente nos interessa, refira-se, no entanto, que a
generalidade dos intérpretes concordam que as Categorias
constituem uma das primeiras obras de Aristóteles.

ARISTÓTELES: o organon

Como veremos mais adiante, existem fortes razöes para considerar


que a colocaçäo das Categorias como primeiro tratado do organon
esta
baseada num equívoco. Todavia, uma vez que é esse o seu lugar

tradicional e que este


posterior, começaremos por facto determinou sumária
uma apresentaçäo toda ado filosofia
conteúdo
e da estrutura do organon.

Sob o título de organon encontram-se editadas (mas näo, como


vimos, por Aristóteles) um conjunto de obras, nas quais é
habitual considerar-se que se encontra exposta a lógica
aristotélica. Na verdade, a palavra «lógica», com o sentido que
tem hoje, näo era conhecida de Aristóteles. Quando pretendia
designar aquilo que, para nós, säo os estudos lógicos,
Aristóteles referia-se a «os analíticos»; e, provavelmente, com
esta expressäo, o que visava eram os dois tratados que
constituem a parte central e, sem dúvida, a mais importante do
organon - os Analíticos Anteriores e os Analíticos Posteri ores.
De qualquer modo, a questäo de saber se os tratados que compöem
o organon säo ou näo tratados de lógica, apesar de inevitáve l, é
um pouco anacrónica, pois foi o organon que determinou aquilo
que durante muito tempo se entendeu como sendo a lógica.
o organon é uma ColECÇÄO de cinco tratados que, apesar de terem
evidentes relaçöes entre si e de, por vezes, se referirem uns
aos outros, näo obedecem a um plano ordenado de conjunto. Aliás,
é muito em
escritos provável que os tratados
datas bastante que
diferentes o compoem
e que a ordem tenham sido
pela qual
foram escritos näo corresponda àquela com que foram editados.
näo se sabe ao certo quem terá sido o responsável pela reuniäo
destes tratados numa única ColECÇÄO, mas o sentido com que foi
realizada parece ser-nos indicado pela palavra «organon», cujo
significado é «instrumento». Além disso, um comentador antigo
das obras de Aristóteles explica que «a lógica ocupa na
filosofia o lugar de um instrumento (organon)» (Alexandre, i
Tap., 74.29). Isto significa que os tratados do organon
constituem um estudo cujo estatuto é diferente do dos outros
estudos filosóficos. os conhecimentos facultados pela lógica säo
utilizados por todas as outras disciplinas filosóficas e, por
isso,
afirmasäo
na por elas pressupostos.
Metafísica De acordo
que «é necessário com isto,
conhecer Aristóteles
os analíticos
antes de abordar qualquer ciência» (1105b4-5). o conhecimento da
lógica seria, portant o, uma condiçäo ou um requisito prévio para
iniciar o estudo de qualquer disciplina filosófica.
os tratados que compoem o organon säo cinco, e a sua ordem é a
seguinte: 1. Categorias, 2. De Interpretatione, 3. Analíticos
Anteriores, 4. Analític.os Posteriores, 5. Tópicos.

Prólogo

É nos Analíticos Anteriores que se encontra exposta aquela que é


a principal contribuiçäo de Aristóteles para a investigaçäo

lógica- a teorianodoqual,
«é um discurso silogismo. «Um silogismo»,
sendo assumidas certas diz Aristóteles,
coisas, alguma
coisa diferente delas resulta necessariamente do facto de elas
serem tais» (24bl9-20). Esta definiçäo é muito geral e, por
isso, pode dizer-se que abrange toda e qualquer inferência
válida, isto é, qualquer argumento no qual, a partir de certas
premissas (qualquer que seja a sua forma e número), se segue uma
conclusäo que é uma sua consequência necessária. Uma conclusäo é
uma consequência necessária das premissas quando, se as
premissas säo verdadeiras, a conclusäo tem de ser também
verdadeira. o objectivo de Aristóteles é entäo, nos Analíticos
Anteriores, estabelecer «por que meios, quando e como é que säo
efectuados todos os silogismos» (25b26-27). o projecto é
ambicioso, pois implicaria desenvolver um sistema no qual todas
as inferências válidas, sem excepçäo, pudessem ser expressas.
Uma das principais descobertas de Aristóteles foi a de que isso
só pode ser realizado através de um sistema formal, isto é, de
um sistema no qual se faz completa abstracçäo do significa do dos
termos que ocorrem nas diversas inferências e que, portanto, näo
pressupõe qualquer conhecimento acerca do conteúdo dessas
inferências. É aliás este seu carácter formal que toma o sistema
lógico utilizável
que seja por todas
o seu objecto as disciplinas filosóficas, qualquer
de estudo.
outro aspecto importante na silogística aristotélica é a
distinçäo entre inferências pel feitas e imperfeitas. Uma
inferência é perfeita quando a sua validade é imediatamente
evidente, isto é, quando näo é preciso mais nenhuma premissa
além das que säo expressas para tornar evidente que a conclusäo
é uma sua consequência necessária. Aristóteles considera
perfeitas as seguintes inferências:

TodooAéB TodooAéB
Todo o B é C Nenhum B é C

Logo Todo o A é C Nenhum A é C


Algum A é B Algum A é B
TodooBéC NenhumBéC

Logo Algum A é C Algum A näo é C


As inferências imperfeitas säo aquelas cuja validade näo é
imediatamente evidente, sendo preciso acrescentar uma ou mais
premissas (que, na realidade, säo consequências necessárias das
premissas expressas) para tornar evidente que a conclusäo
resulta necessariamente das premissas. Esta definiçäo mostra que
Aristóteles considera que todas as inferências imperfeitas podem
ser tornadas perfeitas, ou seja, que todas elas säo

perfectíveis.
perfeitas säo ora,
as uma vez que,
quatro que para Aristóteles,
mencionámos, as inferências
e que todas as
inferências válidas säo ou perfeitas ou imperfeitas, isso
significa que todas as inferências válidas ou säo formalmente
idênticas àquelas quatro ou podem ser reduzidas a uma que o
seja. Por isso é que Aristóteles considera que o sistema lógico
que apresenta é suficiente para testar a validade de toda e
qualquer inferência, sem excepçäo.
Na realidade, ao fazer este juízo, Aristóteles sobrestima o
resultado que atingiu. Existem muitas inferências válidas que
näo podem ser expressas pelo seu sistema silogístico e que, de
acordo com ele, teriam de ser declaradas inválidas. Todavia, a
sua tentativa foi de uma enorme importância histórica.
Sobretudo, se tivermos em consideraçäo que, por um lado, como
ele próprio diz, se tratou de uma investigaçäo para a qual näo
pôde apoiar-se em nenhuns resultados anteriores (cf. Refutaçöes
Sofístic.as, 183bl5-184b8) e que, por outro lado, a silogística
aristotélica é uma das teorias com maior longevidade na história
da ciência, pois, apesar de ter sido objecto de sucessivas
correcçöes e melhoramentos, o seu lugar de paradigma dos estudos
lógicos só foi seriamente posto em dúvida a partir do final do
século XIX.
o que levou Aristóteles a ocupar-se do silogismo foi o seu
interesse pela ciência. os Analíticos Posteriores seriam hoje
classificados como um tratado de epistemologia. Possuem, em
comum com os Analíticos Anteriores, um mesmo carácter formal:
abstraindo do objecto de estudo das diversas ciências,
procura-se analisar a forma comum a todas elas, isto é, a forma
do conhecimento científico. Essa forma é a demonstraçäo. o que
define o conhecimento científico é ser um conhecimento
demonstrativo e, por isso, o objectivo dos Analític.os
Posteriores é apresentar uma teoria da demonstraçä o. ora, toda a
demonstraçäo é um silogismo, embora nem todo o silogismo seja
uma demonstraçäo.
estudar Por isso
a demonstraçäo, é que se
realizar um tornava necessário,
estudo mais antes ode
geral sobre
silogismo.
Nem toda a inferência válida produz conhecimento científico.
Aristóteles considera que o conhecimento científico de uma coisa
obedece

14

IntroduCét

a duas condiçöes principais: por um lado, temos de conhecer a


razäo de ser dessa coisa e, por outro, temos de reconhecer que

essa
coisa coisa näo pode
conhecida ser razäo
e a sua diferente do corresponde
de ser que é. A relaçäo entre numa
à relaçäo, a
inferência, entre a conclusäo e as premissas. Mas, para poder
constituir um conhecimento científico, esta relaçäo tem de ser
mais forte do que a da simples validade. Por isso, o silogismo
demonstrativo é uma inferência que, além de ser válida, obedece
a condiçöes suplementares, que dizem sobretudo respeito à
natureza das premissas.
As premissas de uma demonstraçäo têm de ser verdadeiras. Esta
condiçäo ilustra bem a diferença que há entre demonstraçäo e
inferência válida. Uma inferência pode ser válida tendo
premissas falsas; e, além disso, é possível, partindo de
premissas falsas, inferir validamente uma conclusäo verdadeira.
Mas uma inferência que conclui uma verdade a partir de premissas
falsas näo pode ser considerada uma demonstraçäo, pois a razäo
ou explicaçäo que apresenta para essa verdade é falsa. Contudo,
é necessário que as premissas sejam näo só verdadeiras, mas
também verdadeiramente explanatórias da conclusäo. Se
pretendemos demonstrar que todos os objectos de uma certa classe
A possuem uma propriedade B, temos de apoiar-nos em premissas
que digam, acerca de A e B, näo apenas coisas verdadei ras, mas a
verdadeira
Relacionadarazäo
com (C) por encontra-se
esta que todos os uma
A possuem
outra a proprieda
condiçäo: de as
B.
premissas de uma demonstraçäo têm de ser melhor conhecidas do
que a conclusäo. Pois se, por hipótese, é por serem C que todos
os A säo também B, só teremos conhecimento demonstrativo desse
facto quando a ordem do nosso conhecimento for idêntica à ordem
da própria realidade. ou seja, uma vez que a relaçäo A-C é a
causa da relaçäo A-B, o nosso conhecimento só será demonstrativo
e científico quando o conhecimento que temos da relaçäo A-C for
também a causa de conhecermos a relaçäo A-B. Aquilo que é
anterior na realidade tem de tomar-se também anterior no nosso
conhecimento. As verdades anteriores säo, segundo Aristóteles,
as mais universais. ora, näo é por elas que, geneticamente,
começa
deveräo o tornar-se
nosso conhecimento. Todavia,
primeiras no uma vez conhecidas,
nosso conhecimento, isto é,elas
ao
conhecê-las devemos compreender que é delas que dependem os
conhecimentos que já possuíamos e näo o inverso.
Esta diferença entre a ordem pela qual os conhecimentos säo
descobertos e a ordem pela qual säo demonstrados mostra que as
ciências só
podem atingir uma forma demonstrativa num estádio avançado do seu
desenvolvimento, quando se encontra já adquirido um corpo
relativamente completo de conhecimentos.
Se todos os nossos conhecimentos dependem das verdades
primeiras, de que é que, por sua vez, dependem estas? o nosso
conhecimento acerca da natureza, para tornar-se científico, tem

de ser demonstrado
princípios a partir
básicos. das verdadesdestes
o conhecimento primeiras, isto é, édoso
princípios
problema com que terminam os Analíticos Posteriores. Estes
princípios, uma vez que säo básicos, näo podem ser demonstrados
(pois näo há princípios anteriores a eles que Lhes possam servir
de premissas). Por isso, a derradeira condiçäo de uma
demonstraçäo é que as suas premissas sejam ou indemonstráveis ou
demonstradas a partir de premissas indemonstráveis. A
indemonstrabilidade dos princípios de todo o conhecimento
científico deverá resultar, por um lado, de serem imediatamente
inteligíveis e, por outro, de expressarem realidades
absolutamente primeiras, que, sendo causas de todas as outras
coisas, näo säo elas próprias causadas por nada.
Nem todo o silogismo, como vimos, é uma demonstraçäo. Nos
Tópicos é analisado o silogismo dialéctico, que se define por
ser um tipo de inferência cujas premissas säo opiniöes aceites
ou por toda a gente ou pela maioria ou pelos homens reconhec idos
como mais sabedores. o objectivo do tratado é ensinar a
raciocinar e argumentar, a partir deste tipo de opiniöes, acerca
de qualquer assunto que se nos apresente. o argumento dialéctico
é adequado
quais näo sobretudo
parece serpara aquele nem
possível tipo sequer
de assuntos acerca
razoável dos
exigir
demonstraçöes, como é o caso, por exemplo, no domínio da ética e
da política. Aristótel es menciona três actividades para as quais
o conhecimento do modo dialéctico de argumentar pode ser
especialmente útil: o treino intelectual, as conversas ou
discussöes casuais e as ciências filosóficas. No que respeita a
estas últimas, é sublinhada a necessidade de os princípios de
cada ciência (uma vez que näo podem, como vimos, ser
demonstrados) serem discutidos dialecticamente. A discussäo
dialéctica é sempre determinada pelo carácter particular do
interlocutor que se tem pela frente. os Tópicos propoem
preceitos para guiar a prática corrente de discussöes públicas,
efectuadas
ilustraçäo segundo o esquema
se encontra de pergunta
porventura e resposta,
nos diálogos cuja melhor
socráticos.
o título do tratado é derivado de uma palavra cuja traduçäo
literal é «lugares», mas cujo significado corrente é o de
«lugares-comuns», ou

1 ()

seja, padröes de argumentaçäo que podem ser usados na discussäo


de qualquer assunto. Efectivamente, a maior parte do tratado é
preenchida com uma extensa enumeraçäo dessas formas
argumentativas. o tratado termina com um apêndice Sobre as
Refutaçöes Sofísticas, que constitui um estudo dos principais

tipos de paralogismos
inválidos, (ouuma
possuem contudo falácias)
enganosa -aparência
argumentos que, sendo
de validade.

Apesar de terem sido escritos em períodos provavelmente


distintos e segundo uma ordem que näo é exactamente conhecida,
os principais tratados do organon possuem contudo uma certa
unidade sistemática, pois ao estudo geral do silogismo (nos
Analíticos Anteriores) segue-se o estudo específico dos seus
principais tipos: o silogismo demonstrativo (nos Analíticos
Posteriores) e o silogismo dialéctico (nos Tópicos). Precedendo
estes três tratados surgem , no organon, dois outros que, com uma
dimensäo bastante mais reduzida, constituiriam uma espécie de
preparaçäo para o estudo do silogismo: as Categorias e o De
Interpretatione. A intençäo que terá presidido à colocaçäo
destes dois tratados antes da abordagem do silogismo parece ser
clara: sendo os silogismos formados a partir de proposiçöes
(tais como «Todo o homem é mortal», «Algum homem näo é grego»,
etc.) e as proposiçöes constituídas por um relaçäo entre termos
(tais como «homem», «mortal», «grego», etc.), deve ter parecido
necessário inserir antes dos Analíticos um estudo das
proposiçöes (o De Interpretatione) e, antes deste, um estudo dos
termos (as Categorias).
De facto, a análise das proposiçöes efectuada no De
Interpretatione é um dos elementos que torna possível a
formalizaçäo do sistema silogístico dos Analíticos Anteriores.
Começando por definir proposiçäo como uma frase que pode ser
verdadeira ou falsa, Aristóteles examina em seguida as diversas
propriedades possíveis das proposiçöes (afirmativas, negativas,
universais, particulare s, etc.), obtendo assim uma classificaçäo
dos seus diferentes tipos. Esta classificaçäo permite entäo
analisar as relaçöes existentes entre as diversas espécies de
proposiçöes. Aristóteles interessa-se especialmente pelas
relaçöes de oposiçäo, distinguindo dois tipos principais de
oposiçäo - a contradiçäo e a contrariedade. Duas proposiçöes säo
contraditórias quandoasuma
(como, por exemplo, tem de ser«Todo
proposiçöes verdadeira
o homeme éa branco»
outra falsa
e
«Algum homem näo é branco»), enquanto as proposiçöes contrárias
säo aquelas que, näo podendo ser ambas verdadeiras, podem
contudo ser ambas falsas
Categorias

(como, por exemplo, as proposiçöes «Todo o homem é branco» e


«Nenhum homem é branco»). os exemplos com que Aristóteles
ilustra a sua análise säo geralmente proposiçöes assertóricas
acerca de factos presentes. Todavia, o De Interpretatione
ocupa-se também das proposiçöes acerca do passado e do futuro e,
além disso, das proposiçöes acerca do possível e do necessário

(conhecidas como proposiçöes modais).


As proposiçöes simples afirmam ou negam alguma coisa de alguma
coisa. Aquilo que é afirmado ou negado constitui o predicado,
enquanto aquilo de que o predicado é afirmado ou negado
constitui o sujeito da proposiçäo. o sujeito e o predicado säo
entäo os termos que compoem a proposiçäo simples. Pensou-se
frequentemente que as Categorias seriam um estudo dos termos a
partir de cuja combinaçäo as proposiçöes säo formadas. Esta
ideia era confirmada, em primeiro lugar, pelo facto de a obra
anteceder o De Interpretatione (que analisa as proposiçöes e
que, por sua vez, antecede a análise dos silogismos), mas
também, em grande medida, pelo seu próprio título. De facto,
«categoria» é a transliteraçäo de uma palavra grega que
significa predicado, de modo que, a fazer fé no seu título, as
Categorias seriam uma obra acerca dos predicados. obviamente,
isto levantava a questäo de saber por que é que, aparentemente,
seriam excluídos de consideraçäo os sujeitos. Mas esta questäo
podia ser facilmente respondida, mostrando que aquilo a que em
sentido mais estrito se chama «as categorias» (a lista de dez
categorias apresentada no cap. 4 da obra) säo, näo predicados
quaisquer,
(sujeitos e mas os predicados
predicados) últimos
possíveis. de todos
Simplesmente, os inclusäo
nem a termos
das Categorias no organon nem a escolha do seu título säo da
responsabilidade de Aristóteles. Pelo contrário, a conjunçäo
destas duas opçöes indicia uma interpretaç äo (de quem tenha sido
o seu editor) que näo é suportada pelo conteúdo da obra.
Efectivamente, aquilo de que Aristóteles primariamente se ocupa
nas Categorias näo säo as palavras ou expressöes que constituem
os termos das proposiçöes, mas antes as coisas existentes. o
objecto de que trata a obra é, em primeiro lugar, o que existe.
Aristóteles näo pretende fazer uma enumeraçäo completa de tudo o
que existe, pois isso seria, evidentemente, uma tarefa
interminável e pouco proveitosa. o seu objectivo é antes o de
elaborar
tipos de uma classificaçäo,
coisas täo completa
que existem, quanto
agrupando-as em possível,
espécies dos
e
integrando estas espécies em géneros, até chegar à determinaçäo
dos géneros supremos. Estes géneros supremos seräo näo só
diferentes uns dos outros ma.

também irredutíveis, isto é, tais que näo haja nenhum género


superior de cuja divisäo eles resultem. A lista de dez
«categorias» apresentada por Aristóteles pretende ser
precisamente o resultado desta classificaçäo: säo determinados
dez géneros supremos, de tal modo que cada coisa que existe

deverá pertencer
classificaçäo a um
reside em deles. o principal
permitir, uma vez interesse desta
determinados os
géneros supremos, analisar as proprieda des de cada um deles e as
suas possíveis relaçöes.
Na antiguidade, além do título Categorias, eram atribuídos à
mesma obra outros títulos alternativos. Entre estes,
encontrava-se o título Sobre os Géneros de Ser, o qual seria
talvez mais adequado ao conteúdo da obra do que aquele que
acabou por ser adoptado.
As Categorias näo constituem, portanto, um estudo linguístico,
nem sequer um estudo lógico, devend o antes ser consideradas como
pertencendo ao domínio da metafísica. Aliás, é precisamente a
Metafísica a outra obra de Aristóteles com a qual as Categorias
possuem maior afinidade (embora aquela apresente um nível de
elaboraçäo muito superior). Isto näo significa que a teoria aí
exposta näo possua consequências para outro tipo de estudos, nem
impede que haja nela frequente recurso a consideraçöes de
carácter linguístico. Mas, para compreender o papel que a
linguagem e as consideraçöes linguísticas desempenham nas
Categorias, é necessário obter, primeiro, uma visäo de conjunto
da obra, identificando os seus principais temas e o tipo de
metodologia por ela adoptado, o que faremos na secçäo seguinte.
ARISTÓTELES: As Categorias

ARISTÓTELES: CATEGORIAS: A estrutura da obra

Tal como chegaram até nós, as Categorias säo uma obra num único
livro, dividido em 15 capítulos. No entanto, parece muito
provável que a obra tenha resultado da junçäo de dois textos
originalmente independentes: por um lado, os caps. 1-9, que
constituem o tratado srcinal sobre os mais elevados géneros de
ser ou «categorias», o qual se encontra incompleto; e, por
outro, os caps. lO-15, que compoem um texto a que falta unidade,
onde
säo analisadas uma série de noçöes (oposiçäo, anterioridade,
simultaneidade, etc.), mas sem que esta análise siga um fio
condutor ou qualquer ordem lógica. A passagem 1 lblO-16, que
procura fazer a transiçäo entre os dois textos, deverá ter sido
inserida pelo editor responsável pela sua junçäo.

1 ()
os tratados aristotélicos costumam começar com uma introduçäo,
onde se explica o tema e o objectivo da investigaçäo, se
apresenta o plano e também o método a seguir. Nada disto se
encontra nas Categorias, que começam de imediato com a exposiçäo
de certos conceitos, sem o devido enquadramento. Por outro lado,

é também
seja habitual
antecedido poremuma
Aristóteles que o tratamento
revisäo crítica de que
das posiçöes um foram
tema
defendidas por pensadores anteriores. ora, näo só isto näo
ocorre nas Categorias, como näo há, em todo o texto, nenhuma
mençäo a perspectivas - diferentes ou concordantes - de outros
filósofos.
Embora incompleto, o texto dos caps. 1-9 possui uma unidade
evidente. o seu núcleo estruturador encontra-se no cap. 4, onde
é apresentada a lista das dez categorias: substância,
quantidade, qualidade, relaçäo, lugar, tempo, posiçäo, posse,
acçäo e paixäo (estas säo as designaçöes tradicionais, mas näo
as que Aristóteles efectivamente utiliza). A esta enumeraçäo das
categorias segue-se, nos capítulos seguintes, a análise
detalhada de cada uma delas. o cap. 5 trata da substância, o
cap. 6 da quantidade, o cap. 7 da relaçäo (mais exactame nte: dos
relativos) e o cap. 8 da qualidade. o texto deveria continuar
com o tratamento das restantes seis categorias, mas, em vez
disso, o cap. 9 dá início a uma exposiçäo sobre as duas últimas
da lista (acçäo e paixäo) e é subitamente interrompido, ao fim
de poucas linhas, em l l b8. os três capítulos iniciais, de
reduzida extensäo, contêm uma apresentaçäo preliminar de certas
noçöes
cap. I cuja
expöeimportância só homonímia,
as noçöes de posteriormente se torna
sinonímia evidente. o
e paronímia. o
cap. 2 distingue expressöes simples de expressöes complexas e
introduz as noçöes de predicaçäo e inerência, através das quais
se obtém uma classificaçäo das coisas existentes em quatro
grupos. E o cap. 3 estabelece a transitividade da relaçäo de
predicaçäo e introduz a noçäo de diferença.
os caps. 10-15 funcionam como uma espécie de apêndice das
Categorias. Devido a isso, os opostos (caps. 10-11), o anterior
(cap. 12), o simultâneo (cap. 13), a mudança (cap. 14) e o ter
(cap. 15) foram denominados pela tradiçäo «pós-predicamentos».
Aristóteles distingue e caracteriza quatro géneros de oposiçäo:
entre relativos, entre contrários, entre privaçäo e posse, e
entre afirmaçäo
anterioridade e negaçäo. aquele
e simultaneidade, Dos que
diversos sentidos
Aristóteles de
considera
ser o mais próprio é o sentido temporal. Além deste, há contudo
outros que possuem especial importância: dadas duas coisas A e
B, se A pode existir sem B, mas B näo pode existir sem A, A é
anterior a B; se nenhuma delas pode existir sem a outra, mas A é
causa da existência de B, entäo A é

introduçäo

ainda anterior a B; pelo contrário, se nenhuma delas pode

existir
outra, sem
entäoa outra
A e e B nenhuma delas é causaQuanto
säo simultâneas. da existência da
à mudança,
Aristóteles distingue seis espécies geraçäo, destruiçäo,
aumento, diminuiçäo, alteraçäo e mudança de lugar procura
determinar o contrário de cada uma delas. No último capítulo,
säo distinguidos os diversos sentidos do verbo «ter».

ARISTÓTELES: A primazia das substâncias individuais

Das dez categorias, é à substância que cabe o primeiro lugar.


«Substância» é a traduçäo tradicional de uma palavra que,
literalmente, significa «realidade» ou «entidade». As coisas a
que Aristóteles chama «substâncias» näo säo as únicas coisas
reais, mas säo as mais importantes, e é por isso que esta
designaçäo Lhes é atribuída. A distinçäo entre a substância e as
restantes nove categorias, que é uma distinçäo entre o principal
género de ser e os géneros secundários, constitui um dos pontos
capitais da teoria aristotélica. Ela é efectuada através da
noçäo de inerência («existir num sujeito»), introduzida no cap.
2: todas as coisas que näo säo substâncias (v.g. cores,
conhecimentos, tamanhos, etc.) existem em algum sujeito,
enquanto
vivos) näoas existem
substâncias (v.g. homens,
em nenhum sujeito.árvores e outros
Aristóteles seres
procurará
provar no cap. 5 que as substâncias, näo existindo em nenhum
sujeito, säo elas próprias os sujeitos em que as näo-substâncias
existem. E isto implica que a existência destas se encontra
dependente daquelas: é porque existem homens que existem
conhecimentos, é porque existem corpos que existem cores, etc.
ora, é neste sentido que as restantes nove categorias constituem
géneros secundários de ser.
Paralelamente à noçäo de inerência, é também introduzida no cap.
2 a noçäo de predicaçäo («ser dito de um sujeito» ou «ser
predicado de um sujeito»). Esta noçäo é utilizada sobretudo para
distinguir dois tipos de substâncias: as substâncias individuais
e um
as substâncias univers(v.g.
cavalo individual ais. Relâmpago)
Um homem individual
säo ambos (v.g. Sócrates)
substâncias e,
por isso, sujeitos em que existem cores, conhecimentos,
tamanhos, etc. Porém, além disso, estas duas substâncias
pertencem a espécies diferentes de um mesmo género, pois o
primeiro é um homem e o segundo é um cavalo e homens e cavalos
säo ambos animais. As substâncias universais säo, entäo, as
espécies e os géneros a que as substâncias individuais
pertencem. os géneros predicam-se das
espécies e dos indivíduos que Lhes pertencem, as espécies
predicam-se somente dos indivíduos, enquanto estes näo se
predicam de nenhum sujeito. As substâncias individuais säo,
entäo, os sujeitos de que todas as substâncias universais se

predicam.
dependênciaE, como a predicaçäo
ontológica, é uma relaçäo
Aristóteles chamaque aos
envolve também
indivíduos
«substâncias primeiras» e às suas espécies e géneros
«substâncias segundas», pois estas só existem porque existem
aquelas.
As noçöes de inerência e predicaçäo, e as correspondentes
distinçöes entre substâncias e näo-substâncias e entre
substâncias primeiras e segundas, as quais envolvem relaçöes de
dependência ontológica, permitem entäo a Aristóteles formular
aquela que é a principal tese das Categorias: as substâncias
primeiras säo sujeitos de todas as outras coisas e, por isso, se
näo existissem substâncias primeiras, nenhuma outra coisa
poderia existir.
Embora, como referimos, näo haja nas Categorias nenhum outro
filósofo com quem Aristóteles estabeleça um diálogo explícito, é
muito provável que Platäo seja o principal visado por esta tese.
De facto, Platäo considerava que o principal tipo de realidade
(a «substância primeira») seriam as Formas inteligíveis, tais
como o Homem, a Virtude, o Bem, etc., e näo os seres individu ais
e sensíveis de que elas se predicam. o ser das coisas sensíveis
ser-lhes-ia conferido pela sua participaçäo nas Formas. Em
oposiçäo
universais acomoesta
Homemperspectiva, Aristóteles coisas
e Animal näo constituem argumenta que
singulares
(nenhum deles é um «isto»), mas apenas qualificaçöes. A sua
existência consiste em serem ditos de muitas coisas e, por isso,
näo podem subsistir separadamente destas, pois säo estas que
Lhes servem de suporte ontológico, isto é, de sujeito.

ARISTÓTELES: A pergunta «o que é...?»

Se as substâncias individuais säo o suporte de todas as outras


coisas, há no entanto dois modos irredutivelmente distintos de
estas serem suportadas por aquelas: as outras coisas ou existem
nas substâncias primeiras ou säo ditas delas. Mas qual é o
critério
que é que,que
porpermite distinguir
exemplo, a dito
o homem é predicaçäo da inerência?
de Cálias, Por
mas näo existe
em Cálias, enquanto o conhecimento existe em Cálias, mas näo é
dito de Cálias?
É conhecida a importância que a pergunta «o que é...?»
desempenha nos diálogos socráticos. Neles, Sócrates interroga
diversos interlocutores

Introduçäo

acerca da virtude e refuta-os, demonstrando a sua incapacidade

para responder
temperança, à pergunta
etc.)?» «o que com
De acordo é... isto,
(a coragem, a justiça,
Aristóteles diz ana
Metafísica que Sócrates foi o primeiro a ocupar-se das
definiçöes (cf. 987bl-4, 1078bl7-30), sendo que a definiçäo é
precisamente o que a pergunta «o que é...?» pede como resposta.
ora, esta pergunta, que foi crucial para o desenvolvimento da
filosofia, desempenha também uma importante funçäo nas
Categorias e é numa sua interpretaçäo que assenta a distinçäo
entre predicaçäo e inerência.
A definiçäo, enquanto resposta à pergunta «o que é...?», deverá
ser expressa atravé s de uma frase predicati va, isto é, uma frase
da forma «S é P» (ou simplesmente «S P», nos casos em que «P» é
um verbo). Todavia, Aristóteles considera que nem todas as
frases predicativas que têm «S» como sujeito säo susceptíveis de
constituir uma definiçäo de S. No cap. 5, é dado um exemplo
significativo. Imagine-se que a pergunta «o que é...?» é feita
acerca de um homem - Cálias, por exemplo. Aristóteles diz entäo
que, a esta pergunta, pode responder-se «Cáli as é (um) homem» ou
«Cálias é (um) animal» (o grego näo possui artigo indefinido),
enquanto respostas como «Cálias é branco» ou «Cálias corre» já
näo säo aceitáveis (cf. 2b3 1-36). Pois, ao dizer que Cálias é
branco, estamos
a brancura - queapenas a indicar
ele possu i, masuma qualidade
Cálias näo é - uma
a cor
corbranca ou
nem uma
qualidade. E, do mesmo modo, ao dizer que Cálias corre, estamos
a indicar uma acçäo - a acçäo de correr - que ele realiza, mas
Cálias näo é uma acçäo. Por isso, a brancura e o correr, apesar
de serem propriedades ou atributos de Cálias, näo dizem o que
ele é. Säo coisas que existem em Cálias, mas que näo säo ditas
dele. Pelo contrári o, o homem e o animal säo, respect ivamente, a
espécie e o género a que o indivíduo Cálias pertence e a
definiçäo de uma coisa é feita pela indicaçäo da sua espécie ou
do seu género.
No entanto, a brancura pode também ser indicada numa resposta à
pergunta «o que é...?», se esta pergunta for feita, näo acerca
de um homem,
presente mas acerca passagem
numa importante de uma dos
cor.Tópicos
Esta possibilidade está
(cap. I 9), onde
Aristóteles introduz as categorias, relacionando-as directamente
com a pergunta «o que é...?». Diz ele que «a pessoa que
significa o que uma coisa é significa por vezes uma substância,
por vezes uma qualidade e por vezes um dos outros predicados.
Pois quando se está a discutir sobre um homem e uma pessoa diz
que o que está sob discussäo é um homem ou que é um animal, está
a dizer o que é e a significar uma substância; mas quando se
está a discutir

2.
uma cor branca e uma pessoa diz que o que está sob discussäo é

um
uma branco ou que
qualidade. E, éde
uma cor,
modo está a dizer
semelhante, o que
se se é a
está e discutir
a significar
uma
grandeza de um côvado e uma pessoa diz que o que está sob
discussäo é uma grandeza de um côvado, estará a dizer o que é e
a significar uma quantida de. E o mesmo se verifica com os outros
predicados». Conclui-se daqui que a pergunta «o que é...?» pode
ser feita acerca de diversos tipos de coisas, mas quando é feita
acerca de uma substância a resposta deverá indicar também uma
substância, quando é feita acerca de uma qualidade a resposta
deverá indicar uma qualidade, e assim por diante. A predicaçäo
é, portanto, uma relaçäo intracategorial: substâncias
predicam-se de substâncias, qualidades de qualidades, etc.
Aristóteles sublinha este ponto quando diz que «cada uma destas
coisas, se é dita acerca de si mesma ou se o seu género é dito
acerca dela, significa o que é». Mas, de seguida, Aristóteles
reconhece outra possibilidade, que corresponde antes à relaçäo
intercategorial de inerência: «mas quando ela é dita acerca de
uma outra coisa, näo significa o que é, mas sim uma quantidade
ou uma qualidade ou algum dos outros predicados». ou seja, se os
predicados «branco» e «de um côvado» t`orem afirmados, näo
acerca de uma cor e de uma grandeza, mas acerca de um homem,
neste
e uma caso já näodesse
quantidade significaräo
homem - o que é,
coisas mas
que antes nele,
existem uma qualidade
mas näo
se predicam dele.

ARISTÓTELES: Sinonímia, homonímia e paronímia

A distinçäo entre sinonímia e homonímia compreende-se facilmen te


em ligaçäo com a pergunta «o que é...?». Efectivamente, sempre
que a pergunta «o que é...?» é feita acerca de um género G, a
definiçäo que daí resulta deverá ser predicável de tudo aquilo
de que o nome «G» se predica. ora, isto implica que todas as
coisas que pertencem a esse género seräo sinónimas, pois possuem
em comum um mesmo nome e a mesma definiçäo. É o que se passa,
por exemplo,
«animal» com tudo odeque
e a definiçäo pertence
animal ao por
(seja, género animal:
exemplo, o nome
«ser vivo
dotado de percepçäo») predicam-se de todas as espécies e
indivíduos que pertencem ao género animal, sejam eles homens,
cavalos ou cäes.
Todavia, existem casos em que isto näo se verifica. Se, por
exemplo, à pergunta «o que é o lilás?» for dada como resposta
«uma flor», esta definiçäo näo será predicáve l de tudo aquilo de
que o nome «lilás» se predica, pois «lilás» é também o nome de
uma cor. Este é um caso de homonímia, em que flores e cores
possuem o mesmo nome, mas näo admitem a mesma definiçäo. A
homonímia é uma situaçäo excepcional, mas a sua identificaçäo é
importante, pois revela a necessidade de, antes de perguntar «o

que é G?», Éexaminar


diferentes. se o nome desta
no prolongamento «G» tem
ideiaou que
näo Aristóteles
sentidos
afirma na Metafísica que «procurar os elementos dos seres, sem
distinguir os diversos sentidos segundo os quais eles säo
chamados seres, näo pode resultar em nenhuma descoberta»
(992bl8-19). Por isso, a investigaçäo acerca do ser tem de ser
precedida por uma análise dos seus diferentes sentidos, pois
animais, cores, grandezas, conhecimentos, acçöes, etc., säo
todos eles seres, mas näo no mesmo sentido - uns säo
substâncias, outros qualidades, outros quantidades, etc.
As diversas coisas que pertencem a um mesmo género ou a uma
mesma espécie säo, portanto, sinónimas. Mas a sinonímia
verifica-se também entre cada coisa e a espécie ou o género a
que pertence, pois estes säo ditos dela e Aristóteles afirma, em
2al9-21, que «o nome e a definiçäo das coisas que säo ditas de
um sujeito predicam-se necessariamente do sujeito». Assim, se
uma coisa P se predica de um sujeito S, o nome e a definiçäo de
P, que se predicam de P, predicam-se também de S e, portanto, S
e P seräo coisas sinónimas. Por exemplo: animal predica-se de
homem e o nome e a definiçäo de animal predicam-se tanto de
animal como de homem, pelo que estes säo sinónimos. Isto mostra
que a sinonímia é uma propriedade necessária da relaçäo
predicativa.
Mas se a predicaçäo é sempre sinonímica, a inerência, pelo
contrário, nunca o é. Quando uma coisa P existe num sujeito S,
näo é nunca o caso de o nome e a definiçäo de P se predicarem de
S (cf. 2a27-3 1). Por exemplo, a coragem existe em Cálias, mas
nem o nome «coragem» nem a definiçäo «uma virtude» se podem
predicar de Cálias. A sinonímia fornece, entäo, um teste para
distinguir a predicaçäo da inerência. Quando a relaçäo entre S e
P é de predicaçäo, S será tudo o que P é (v.g. se o homem é um
animal e o animal é um ser vivo, entäo o homem é também um ser
vivo); mas quando a relaçäo entre S e P é de inerência, S näo
será nunca o que P é (v.g. a coragem existe no homem e a coragem
é
A uma virtude,
inerência mas o homem näo
é acompanhada, é uma virtude).
na maior parte dos casos, por uma
relaçäo paronímica. Vimos que, quando a coragem existe em
Cálias, nem o nome nem a definiçäo de cora em se predicam de
Cálias. Nesse caso, o que se
predica de Cálias é o nome «corajoso» e diz-se, entäo, que
Cálias e a coragem säo parónimos. Pois, em virtude de a coragem
existir nele, Cálias recebe dela o nome «corajoso», o qual
difere do nome «coragem» apenas na terminaçäo. Aristóteles dirá
que Cálias é paronimicamente chamado a partir da coragem (cf.
10b9-lO e comparar 3a33-34). Deve porém observar-se que,
enquanto a conexäo predicaçäo-sinonímia é necessária, a conexäo
inerência-paronímia é apenas a mais frequente, pois admite

excepçöes: por exemplo,


Cálias é chamado «bom»a virtude existe em(10b7-9;
ou «excelente» Cálias e,cf.
por também
isso,
2a29-34, 10a29-b2).
As noçöes de sinonímia e paronímia mostram a correspondência que
existe entre as duas modalidades de dependência de todas as
outras coisas relativamente às substâncias primeiras e certas
propriedades da linguagem.

ARISTÓTELES: A caracterizaçäo das diversas categorias

Nos caps. 5-8, Aristóteles examina detalhadamente as categorias


da substância, da quantidade, dos relativos e da qualidade; o
cap. 9 dá início a um exame idêntico do «fazer e ser afectado».
Poderia esperar-se ver aí apresentadas as definiçöes de cada um
destes géneros de ser. Porém, se a definiçäo de qualquer género
deve mencionar o género superior a que ele pertence, segue-se
daqui que as categorias näo säo susceptíveis de definiçäo, pois
elas säo os géneros supremos. Em vez disso, o que Aristóteles
apresenta na maior parte dos casos é antes uma espécie de
descriçäo da natureza de cada categoria, identifi cando critérios
que permitem diferenciá-la das restantes. Assim, a afirmaçäo de
que «substância
sujeito [primeira]
nem existe em algumé sujeito»
aquilo que nem é dito
(2all-13) näo de algum
possui o
estatuto de uma definiçäo em sentido estrit o, e o mesmo se passa
com a afirmaçäo de que as substâncias segundas säo as espécies e
os géneros a que as substâncias primeiras pertencem (cf.
2al4-16). Trata-se, em todo o caso, de descriçöes que, aliadas
aos frequentes exemplos que as acompanham, säo suficientes para
a determinaçäo do seu conceito. o mesmo procedimento é adoptado
para os relativos («relativos säo aquelas coisas para as quais
ser é o mesmo que estar de algum modo em relaçäo com alguma
coisa», 8a31-32) e também para a qualidade («chamo qualidade
àquilo em virtude do qual as coisas säo ditas ser qualificadas
de certo modo», 8b25).
Além disso,
género um outro
supremo objectivo dos
é a enumeraçäo de Aristóteles na análise
principais géneros de cada
em que ele
se divide. Assim, em 2b29-3a6, Aristóteles argumenta que, além
das substâncias primeiras e segundas, näo há mais nada a que
caiba o nome de «substância»; no cap. 6, divide as quantidades
em discretas e contínuas e, depois de identificar as diversas
espécies de cada um destes géneros, afirma (em 5a38-b10) a
exaustividade da classificaçäo apresentada; e, no cap. 8,
distingue quatro géneros de qualidade (disposiçöes, capacidades
naturais, qualidades afectivas e figuras), mas admite a
incompletude da classificaçäo (cf. I Oa25-26).
Na restante análise, o que Aristóteles procura é discutir as
principais características de cada uma das categorias. Nesta

discussäo é evidente
característica, examinara sepreocupaçäo
ela ocorre de, ao considerar
em todas cada
as coisas que
pertencem à categoria sob análise, ou só a algumas, ou a
nenhuma; e, no caso de pertencer a todas, Aristóteles procura
ainda ver se se trata de uma característica exclusiva daquela
categoria ou se, pelo contrário, é comum a outras categorias.
Há, assim, algumas características que säo discutidas em todas
as categorias: a questäo de saber se têm contrário e se admitem
mais e menos é colocada em todas elas. Aristóteles mostra um
interesse especial pela determinaçäo da característica própria
de cada categoria.
De seguida, apresentamos uma sinopse das características
discutidas em cada categoria.
Substância (cap. 5):
1. Nenhuma substância existe num sujeito (3a7-32);
2. A predicaçäo das substâncias envolve sempre sinonímia
(3a33-b9);
3. As substâncias primeiras säo seres singulares, mas as
substâncias segundas näo (3b10-23);
4. Nenhuma substância tem contrário (3b24-32);
5.
6. Nenhuma substância
A substância admite
é capaz mais enumericamente
de, sendo menos (3b33-4a9);
uma e a mesma,
receber contrários (característica própria) (4a10-b18).

Quantidade (cap. 6):

1. Nenhuma quantidade tem contrário (5b1 1-6al8);


2. Nenhuma quantidade admite mais e menos (6a19-25);
3. A quantidade é dita igual e näo-igual (característica
própria) (6a26-35).
Categorias

Relativos (cap. 7):

1. Alguns relativos têm contrário, mas nem todos (6b15-19);


2. Alguns relativos admitem mais e menos, mas nem todos
(6b19-27);
3. Todos os relativos säo ditos em relaçäo a correlativos que
reciprocam (6b28-7bl4);
4. A maior parte dos relativos säo simultÅneos, mas existem
excepçöes (7b1 5-8al 2).

Qualidade (cap. 8):

1. Na maior parte dos casos, a predicaçäo das qualidades envolv e


paronímia, mas existem excepçöes (10a27-bl 1);

2.
3. Algumas
Algumas qualidades têm contrário,
qualificaçöes mas enem
admitem mais todas mas
menos, (10b12-25);
nem todas
(10b26-1 1a14);
4. É em virtude da qualidade que as coisas säo ditas semelhantes
ou dissemelhantes (característica própria) (11 a I S - 19) .

Fazer e ser afectado (cap. 9):

1. Fazer e ser afectado têm contrário (I 1b1-4);


2. Fazer e ser afectado admitem mais e menos (11 b4-8).

ARISTÓTELES: o método dialéctico

o método característico das obras filosóficas de Aristóteles é


dialéctico e as Categorias confirm am também esta regra. o método
dialéctico (descrito, nos seus traços gerais, nos Tópicos, I 1-4
e lO-12) é um método de investigaçäo que toma como ponto de
partida as opiniöes ou crenças comuns, ou seja, aquilo que
parece a toda a gente ou à maioria das pessoas ou ainda aos
homens reconhecidos como sabedores. Aristóteles atribui grande
importância a estas crenças comuns, uma vez que elas constituem
a base a partir
aumentado. Pois da quala o aquisiçäo
toda nosso próprio conhecimento
de novos pode serse
conhecimentos
efectua a partir de um conhecimento preexistente (cf. Analíticos
Posteriores, 71a1-2) e as crenças comuns säo precisamente aquilo
que pensamos já saber. Elas constituem aquilo que é mais claro
para nós, ou que nos é mais

familiar, e é por aí que qualquer investigaçäo deve começar (cf.


v.g. Física, 184a 16-21) .
Mas, além disso, estas crenças comuns däo frequentemente srcem
a dificuldades ou «aporias», cuja resoluçäo é também uma das
tarefas essênciais do método dialéctico. Tais dificuldades
resultam do conflito entre argumentos que, embora pareçam ser
igualmente
sustentam, convincentes
no entanto, e conclusöes
igualmente baseados
que säoem contrárias
crenças comuns,
(cf.
Tópicos, 145b16-20). Embora haja outras obras de Aristóteles
onde o método de resoluçäo de aporias (também chamado «método
diaporemático») está presente de uma forma bastante mais
explícita do que nas Categorias, também aqui existem numerosos
exemplos da sua utilizaçäo. É o caso da passagem final do cap.
S, onde, depois de afirmar que a capacidade de receber
contrários é própria das substâncias, Aristóteles enfrenta a
objecçäo de que também as opiniöes e as declaraçöes säo capazes
de receber valores de verdade contrários (cf. 4a21-b18). É
também o caso, no cap. 6, da passagem onde se discute se é ou
näo verdade que nenhuma quantidade tem contrário; pois grande e

pequeno,
contráriosmuito
(cf. eSblpouco,
1-6a1 parecem ser 6a1
1 e também quantidades
1-15). Noe cap.
também
7
encontram-se três exemplos maiores, em três importantes
discussöes: sobre a reciprocidade (cf. 6b36-7bl4) e a
simultaneidade (cf. 7b15-8a12) dos correlativos, e sobre a
impossibilidade de quaisquer substâncias serem relativos (cf.
8a13-b21). Significativamente, o capítulo termina com uma
observaçäo sobre a utilidade de analisar cada uma destas
dificuldades (cf. 8b21-24). No final do cap. 8 é analisada a
aporia resultante da inclusäo dos estados e das disposiçöes na
categoria dos relativos e também na da qualidade (cf. 11a20-38).
Poderiam acrescentar-se outros exemplos (cf. 3a29-32, 3b10-23,
10b30-1 1a5, 13b12-16, 15a17-33), mas estes säo sem dúvida os
mais significativos e fornecem uma ilustraçäo suficiente de um
dos aspectos do método dialéctico utilizado por Aristóteles nas
Categorias.
Mas, mais ainda do que a resoluçäo de aporias, o recurso à
induçäo é o que sobretudo caracteriza as Categorias. A induçäo é
uma forma de argumento dialéctico que Aristótele s define como «a
passagem das coisas particulares para as universais» (cf.
Tópicos, I 12). Precisamente porque as coisas particulares säo
as que se
induçäo é encontram
uma formamais próximas da bastante
argumentativa nossa experiência,
acessível ea
convincente, que procura fixar a nossa atençäo sobre aquilo que,
nessa mesma experiência, nos pode conduzir a conhecimentos
universais. Seria fastidioso fazer uma enumeraçäo dos diversos
argumentos indutivos que
29
ocorrem nas Categorias, täo elevado é o seu número. Qualquer
leitor da obra se apercebe de imediato que a maioria dos
princípios nela afirmados como universais säo apoiados pela
inspecçäo de um número limitado de casos particulares,
apresentados como exemplos. Aliás, por vezes, Aristóteles
utiliza mesmo fórmulas do tipo «isto é evidente pelos casos
particulares
manifesto porqueinduçäo
se nos a apresentam»
partir dos (2a35-36) ou «isto é
casos particulares»
(13b36-37). A título ilustrativo, sublinhe-se o carácter
claramente indutivo daquele que é talvez o principal argumento
das Categorias: para estabelecer que as substâncias primeiras
säo sujeitos de todas as outras coisas, Aristóteles considera
dois exe mplos - o animal e a cor - e mostra com o eles só se
predicam de, ou existem em, outros sujeitos, porque se predicam
de, ou existem em, substâncias primeiras (cf. 2a34-b5);
espera-se entäo destes exemplos que tornem evidente que o mesmo
acontece em todos os outros casos.
o uso que as Categorias fazem da induçäo possui, contudo, uma
particularidade: as «coisas particulares» que Lhe servem de

ponto de partida
linguístico säo, na expressöes.
de determinadas sua maior parte,
o métodoexemplos do uso
das Categorias
näo é um método de investigaçäo empírica, mas sim dialéctica.
Por isso, o seu ponto de partida näo säo as observaçöes
empíricas ou os dados da percepçäo (como acontece, por exemplo,
nas obras que tratam de biologia ou de astronomia), mas sim as
«crenças comuns». Simplesmente, neste caso, as «crenças comuns»
em que Aristóteles se baseia näo säo tanto opiniöes expressas
pelas pessoas acerca de diversos assuntos, mas sobretudo a sua
prática linguística e a estrutura conceptual que nela se
encontra implícita (aquilo a que se poderia chamar o saber de
que a própria língua é depositária). Daí o constante recurso, ao
longo de toda a obra, àquilo que é dito. Vejamos alguns dos
exemplos mais significativos.
Para provar que grande e pequeno säo relativos, Aristóteles
apoia-se no uso que fazemos dos predicado s «grande» e «pequeno»:
«se uma coisa fosse dita pequena ou grande por si mesma, nunca a
montanha seria dita pequena, enquanto o gräo de milho é dito
grande» (5b20-22). Do mesmo modo, «dizemos também haver muitos
homens numa aldeia e poucos em Atenas, embora estes sejam muito
mais numerosos» (Sb22-24), o que prova que muito e pouco säo
igualmente
linguístico relativos. É, aliás,
que Aristóteles recorrendo
descreve também a
os relativos um «aquelas
como critério
coisas que säo ditas ser o que säo de outras coisas» (6a36-37).
Pois aquilo em que esta descriçäo se apoia é o facto de a
predicaçäo de termos como «o dobro», «escravo», «conhecimento»,
etc., ter de ser

3()

complementada por um genitivo: A é o dobro de B, A é escravo de


B, A tem conhecimento de B, etc. Inversamente, por exemplo, a
gramática e a música näo säo relativos, pois «a gramática näo é
dita gramática de alguma coisa, nem a música, música de alguma
coisa»
Também (I 1a27-28). entre estado e disposiçäo é suportada pelo
a distinçäo
uso linguístico: «É evidente que as pessoas pretendem chamar
estados àquelas coisas que säo mais duráveis e mais difíceis de
mudar. Pois, daqueles que näo dominam completamente um
conhecimento e säo fáceis de mudar, näo se diz que têm um
estado, embora estejam certamente em alguma disposiçäo - pior ou
melhor - em relaçäo ao conhecimento» (9a4-8). E o mesmo se
verifica com a distinçäo entre qualidade e afecçäo: «Pois nem a
pessoa que fica vermelha por se envergonhar é dita avermelhada,
nem a pessoa que empalidece por se atemorizar é dita pálida, mas
diz-se antes que foram afectadas de algum modo. Por conseguinte,
chama-se a isto afecçöes, mas näo qualidades» (9b30-33).

Todos estesbase
como uma exemplos revelam
segura que Aristóteles
a partir da qual setoma a linguagem
podem concluir
determinadas propriedades e características da própria
realidade. Quando observa, por exemplo, que «se tivermos de
dizer quäo longa é uma acçäo, determinam o-lo pelo tempo, dizendo
que é de um ano ou qualquer coisa deste tipo» (5b4-6),
Aristóteles näo pretende apenas registar um facto linguístico.
Ele examina este tipo de factos linguísticos porque considera
que eles revelam importantes propriedades da realidade
extralinguística; neste caso, trata-se de um uso linguístico que
revela o facto de as acçöes näo serem por si mesmas quantida des.
De modo idêntico, o facto de à pergunta «o que é Cálias?» se
poder responder «Cálias é um homem», mas näo «Cálias é branco»
(cf. 2b31-36), mostra que o homem e o branco säo coisas de tipos
diferentes.
Porém, este procedimento metodológico foi muitas vezes tomado
como prova de que as Categorias constituiriam uma investigaçäo
essêncialmente linguística. o principal vício desta
interpretaçäo reside em confundir o método com o objecto. o
objecto de que tratam as Categorias é expressamente nomeado em
1a20: «as coisas que existem». A funçäo das consideraçöes
linguísticas a que
enquadrada numa a obra frequentemente
compreensäo recorre adoptado
do método dialéctico tem de ser
por
Aristóteles. Ao mesmo tempo, ela pressupõe uma determinada
posiçäo filosófica acerca das relaçöes entre a linguagem e a
realidade, entre as
palavras e as coisas. Aristóteles considera que, em geral,
aquilo que dizemos express a correctamente o que as coisas säo. É
esta confiança geral na
correcçäo da linguagem que Lhe permite usá-la como forma de
acesso à realidade, apoiando-se frequentemente em factos
linguísticos e usando-os para testar as conclusöes a que chega.
No entanto, o intuito srcinal da investigaçä o é alargar o nosso
conhecimento acerca das coisas e näo das palavras com que as
significamos
a outra). (embora uma coisa deva muito provavelmente implicar
A referida correcçäo da linguagem admite, no entanto, excepçöes.
E, por isso, a confiança nessa mesma correcçäo näo exclui a
necessidade de vigilância. Aristóteles näo se considera obrigado
a aceitar tudo o que a linguagem institui e, por diversas vezes,
vemo-lo a argumentar para lá da linguagem, corrigindo-a e
apontando as suas deficiências. A sua preocupaçäo com a
homonímia (cf. 1a1-6) é um claro exemplo disso: trata-se de
evitar ser enganado pela frequente equivocidade das palavras.
Também quando argumenta contra o erro de tratar os universais
como seres auto-subsistentes (como constituindo um «isto»),
Aristóteles reconhece que esse erro é de certo modo induzido

pela própria
nomeados) linguagem Além
(cf. 3b13-18). (pela forma
disso, säo substantiva como säo
diversas as passagens
das Categorias onde Aristóteles se refere a coisas para as quais
näo existem nomes (cf. 7a13, 10a32-b2, 12a21-25). E, em 7aS e
segs., chega mesmo a propor que, em certos casos, se inventem
nomes. Perante tais factos, dificilmente se pode continuar a
sustentar o carácter essêncialmente linguístico da investigaçäo
levada a cabo nas Categorias.

ARISTÓTELES: Método de citaçäo

A referência a qualquer passagem das obras de Aristóteles


faz-se, por regra, indicando a página, a coluna e a linha da
ediçäo do texto grego realizada por Immanuel Bekker (Berlim,
1831). Assim, por exemplo, com a indicaçäo «3b10» referimo-no s à
linha 10 da coluna b da página 3 dessa ediçäo. Säo estes os
números que aparecem à margem da traduçäo. Assinale-se, porém,
que numa traduçäo a correspondência do número da linha näo é
exacta, mas apenas aproximada (pois cinco linhas no texto grego
podem resultar em seis ou sete linhas na traduçäo portuguesa).
Além disso, as obras de Aristóteles säo habitualmente divididas
em livros (embora
capítulos. näo seja
A numeraçäo o caso
romana das para
é usada Categorias) come diversos
os livros a árabe
para os capítulos. Assim, por exemplo, «Tópicos, IV 3» indica o
capítulo 3 do livro IV dos Tópicos.

ARISTÓTELES: CATEGORIAS: o texto

o texto que serviu de base à presente traduçäo é o estabelecido


por L. Minio-Paluello em 1949, com as correcçöes introduzidas em
1956 (publicado na colecçäo oxford Classical Texts, da oxford
University Press).
Adoptamos, contudo, as seguintes alteraçöes propostas por J. L.
Ackrill (1963):
. em 1b16,pelos
suportada ler «heterôn genôn» em vez de «heterogenôn» (variante
manuscritos);
. omissäo das linhas 2b6-6c (que säo uma simples repetiçäo de
2b3-6);
. em 8b18-19, ler «ouk anankaion estin eidenai hôrismenôs» em
vez de «ouk estin eidenai hôrismenôs» (conjectura de Ackrill).
Categorias

Traduçäo de RiCardo Santos


ARISTÓTELES: Categorias

Capítulo 1

Chamam-se
enquanto a homónimas
definiçäo as
do coisas
ser queque só têm o nome
corresponde em écomum,
ao nome la
diferente.
Assim, por exemplo, um homem e um desenho säo ambos animais l).
Mas eles só têm o nome em comum, enquant o a definiçäo do ser que
corresponde ao nome é diferente; pois se tivermos de dizer o que
é para cada um deles ser um animal, daremos uma definiçäo
diferente para cada um.
Chamam-se sinónimas as coisas que têm o nome em comum e em que a
definiçäo do ser que corresponde ao nome é a mesma. Assim, por
exemplo, um homem e um boi säo ambos animais. Cada um deles é
chamado pelo nome comum «animal», e a definiçäo do ser é a
mesma; pois se tivermos de dizer qual é a definiçäo de cada um -
o que é para cada um deles ser um animal -, daremos a mesma
definiçäo.
Chamam-se parónimas as coisas que recebem o seu nome de alguma
outra coisa, com uma diferença de terminaçäo. Assim, por
exemplo, o gramático recebe o seu nome da gramática e o corajoso
recebe o
nome da coragem.

(1) o exemplo dado por Aristóteles näo funciona em português,


porque a (a)
significa palavra grega
animal como que traduzimos
(b) figura por artística;
ou imagem animal tanto
por
isso, ela tanto pode ser aplicada a um homem (no primeiro
sentido) como a um desenho (no segundo sentido).
Categorias

1r

Capítulo 2

Das expressöes que dizemos, umas säo ditas por combinaçäo


e outras
säo-no sem combinaçäo . As que säo ditas por combinaçäo säo,
por exemplo, «o homem corre», «o homem vence»; as que o säo sem
combinaçäo
säo, por exemplo, «homem», «boi», «corre», «vence».
20 Das coisas que existem, [1] umas säo ditas de algum
sujeito, mas näo
existem em nenhum sujeito. Por exemplo, homem é dito de um
sujeito, a
saber, de um certo homem, mas näo existe em nenhum sujeito.
[2] outras
existem num sujeito, mas näo säo ditas de nenhum sujeito
(com «num
sujeito» quero dizer aquilo que existe em alguma coisa, näo
como uma sua

25 parte,
existe). Por e q ue näo pode existir separadamente daquilo em q ue
exemplo, um certo conhecimento gramatical existe num
sujeito, a saber, na
alma, mas näo é dito de nenhum sujeito; e um certo branco
existe num
sujeito, a saber, no corpo (pois toda a cor existe num
corpo), mas näo é dito
1b de nenhum sujeito. [3] outras säo di tas d e um sujeito e
existem num sujeito.
Por exemplo, o conhecimento existe num sujeito, a saber, na
alma, e é dito de
um sujeito, a saber, da gramática. [4] outras ainda nem
existem num sujeito
nem säo ditas de um sujeito. Por exemplo, um certo homem ou
um certo
5 cavalo; pois nenhum destes existe num sujeito nem é dito de
um sujeito. Em
geral, as coisas individuais e numericamente umas näo säo
nunca ditas de um
sujeito, mas nada impede que algumas existam num sujeito;
pois conhecimento
um certo gramatical é algo que existe num sujeito.

Capítulo 3

10 Sempre que uma coisa se predica de uma outra como de um


sujeito,
todas as coisas que säo ditas daquilo que é predicado seräo
também ditas
do sujeito. Por exemplo, homem predica-se de um certo homem
e animal
predica-se de homem e, por isso, animal predicar-se-á
também de um
s certo homem; po is um c erto homem é um ho mem e também um
animal.
As diferenças de géneros distintos(2) e näo subordinados
uns aos outros
säo elas também de tipos distintos. Por exemplo, animal e
conhecimento:
pedestre, voador, aquático e bípede säo diferenças de
animal, mas nenhuma
delas é uma diferença de conhecimento; pois um conhecimento
näo difere
de outro conhecimento por ser bípede. No entanto, nada
impede que as dife-

(2) Adoptamos
heterogenon (1 b16). a leitura heterôn genon, em vez de

38

1b

renças de géneros subordinados uns aos outros sejam as mesmas;


pois os mais elevados predicam-se dos géneros abaixo deles, de
modo que todas as diferenças do género predicado seräo também
diferenças do sujeito.

Capítulo 4
Das expressöes que säo ditas sem qualquer combinaçäo, cada uma
significa ou uma substância, ou uma quantidade, ou uma
qualificaçäo, ou um relativo, ou onde, ou quando, ou estar numa
posiçäo, ou ter, ou fazer, ou ser afectado. Para dar apenas uma
ideia, uma substância é, por exemplo: «homem», «cavalo»; uma
quantidade: «de dois côvados», «de três côvados»; uma
qualificaçäo: «branco», «gramatical»; um relativo: «o dobro»,
«metade»,
«ontem», «o«maior»; onde: estar
ano passado»; «no numa
Liceu», «na «está
posiçäo: praça»; quando:
deitado»,
«está sentado»; ter: «está calçado», «está armado»; fazer:
«cortar», «queimar»; ser afectado: «ser cortado», «ser queimado».
Nenhuma destas expressöes dita por si mesma é uma afirmaçäo, mas
é antes pela combinaçäo de umas com as outras que se produz uma
afirmaçäo. Pois toda a afirmaçäo parece ser ou verdadeira ou
falsa; mas nenhuma das expressöes que säo ditas sem qualquer
combinaçäo (como, por exemplo, «homem», «branco», «corre»,
«vence») é verdadeira ou falsa.

Capítulo 5

Substância - aquilo
próprio, primeiro a que chamamos
e principal substância
- é aquilo que nem é de modo
dito mais
de algum
sujeito nem existe em algum sujeito, como, por exemplo, um certo
homem ou um certo cavalo. Chamam-se substâncias segundas as
espécies a que as coisas primeiramente chamadas substâncias
pertencem e também os géneros dessas espécies. Por exemplo, um
certo homem pertence à espécie homem, e animal é o género da
espécie; por conseguinte, homem e animal säo chamados
substâncias segundas.
É evidente, pelo que foi dito antes, que o nome e a definiçäo
das coisas que säo ditas de um sujeito se predicam
necessariamente do sujeito. Por exemplo, homem é dito de um
sujeito, a saber, de um certo homem, e é claro que o nome se

predica
definiçäo(pois predicarás
de homem «homem»
predicar-se-á de certo
de um um certo homem);
homem (pois e a
um certo

10

o
s homem é também um homem). De modo que tanto o nome como a
definiçäo predicar-se-ao do sujeito. Mas quanto às coisas que
existem num sujeito, na maioria dos casos, nem o nome nem a
definiçäo se predica do sujeito. Em alguns casos, nada impede
que o nome se predique do sujeito, mas, quanto à
30 definiçäo, isso é impossível. Por exemplo, o branco,
existindo num sujeito, a saber, no corpo, predica-se do sujeito
(pois um corpo é dito branco); mas a definiçäo de branco jamais
se predicará do corpo.
Todas as outras coisas ou säo ditas das substâncias primeiras
como de
35 sujeitos ou existem nelas como em sujeitos. Isto é evidente
pelos casos particulares que se nos apresentam. Por exemplo,
animal predica-se do homem e, portanto, também de um certo
homem; pois se näo se predicasse de nenhum
2b
Do dos homens
mesmo modo,individuais,
a cor existenäo
noseria
corpodee,todo predicado
portanto, do num
também homem.
certo corpo; pois se näo existisse em nenhum dos corpos
individuais, näo poderia de todo existir no corpo. Assim, todas
as outras coisas ou säo ditas das substâncias primeiras s como
de sujeitos ou existem nelas como em sujeitos. Por conseguinte,
se as substâncias primeiras näo existissem, nenhuma outra coisa
poderia existir.(3'
Das substâncias segundas, a espécie é mais substância do que o
género, pois está mais próximo da substância primeira. Pois se
tivermos de dizer de uma substância primeira o que ela é, será
mais informativo e
10 mais adequado indicar a espécie do que indicar o género. Por
exemplo,
homem do de
queumdizer
certoque
homem será
é um mais (pois
animal informativo dizeré que
o primeiro é um
mais
próprio de um certo homem, enquanto o segundo é mais comum); e,
para dizer o que é um certa árvore, será mais informativo dizer
que é uma árvore do que dizer s que é uma planta. Além disso, é
porque as substâncias primeiras säo sujeitos de todas as outras
coisas, e todas as outras coisas ou se predicam delas ou existem
nelas, que elas säo principalmente chamadas substânci as. Mas tal
como as substâncias primeiras estäo para as outras coisas, assim
está também a espécie para o género (pois a espécie é sujeito do
20 género, uma vez que os géneros se predicam das espécies, mas
as espécies näo se predicam reciprocamente dos géneros). De modo
que, também por isto, a espécie é mais substância do que o

género.
Mas das próprias espécies - daquelas que näo säo géneros -,
nenhuma é mais substância do que outra; pois näo é mais adequado
dizer de um
25 certo homem que é um homem do que dizer de um certo cavalo
que é um cavalo. E. do mesmo modo, também nenhuma substância
primeira é mais

(3) omitimos as linhas 2b6-6c, que säo uma repetic,ao.

()
' h

substância do que outra; pois um certo homem näo é mais


substância do que um certo boi.
E entäo com razäo que, além das substâncias primeiras, as
espécies e os géneros säo as únicas outras coisas que säo
chamadas substâncias segund as. Pois elas säo as únicas, entre as
coisas que se predicam, que revelam a substância primeira. Pois
se tivermos de dizer de um certo homem o que ele é, será
adequado responder indicando a espécie ou o género (e mais
informativo fazê-lo
indicar qualquer com «homem»
das outras do que
coisas será com «animal»);
deslocado mas
- por exemplo,
dizer «branco» ou «corre» ou qualquer destas coisas. Deste modo,
é com razäo que estas säo as únicas outras coisas que säo
chamadas substâncias. Além disso, é porque as substâncias
primeiras säo sujeitos de todas as outras coisas que elas säo
mais propriamente chamadas substâncias. Mas tal como as
substâncias primeiras estäo para todas as outras coisas, assim
as espécies e os géneros das substâncias primeiras estäo para
tudo o resto; pois tudo o resto se predica deles. Pois se chamas
a um certo homem «gramátic o», entäo também chamas «gramático» ao
homem e ao animal; e do mesmo modo para as outras coisas.
É comum a todas as substâncias näo existir num sujeito. Pois a
substância
sujeito. Da primeira nem é também
mesma maneira, dita de um sujeito
é evidente que nem existe num
as substâncias
segundas näo existem num sujeito. Pois homem é dito de um
sujeito, a saber, de um certo homem, mas näo existe num sujeito
(pois o homem näo existe num certo homem). E, do mesmo modo,
também animal é dito de um sujeito, a saber, de um certo homem,
mas o animal näo existe num certo homem. Além disso, enquanto
nada impede que o nome das coisas que existem num sujeito seja
por vezes predicado do sujeito, é impossível que a definiçäo o
seja. Mas tanto o nome como a definiçäo das substâncias segundas
se predicam do sujeito; pois predicarás a definiçäo de homem de
um certo homem, e também a definiçäo de animal. Portanto,
nenhuma substância existe num sujeito.

Todavia,
diferença isto
näo näo é próprio
existe da substância,
num sujeito. uma vez equebípede
Pois pedestre tambémsäo
a
ditos de um sujeito, a saber, do homem, mas näo existem num
sujeito (nem o bípede nem o pedestre existem no homem). E a
definiçäo da diferença predica-se daquilo de que a diferença é
dita. Por exemplo, se pedestre é dito do homem, também a
definiçäo de pedestre se predicará do homem; pois o homem é
pedestre.
o facto de as partes das substâncias existirem nos respectivos
todos
como em sujeitos näo deve perturbar-nos, nem devemos recear ser
forçados a admitir que elas näo säo substâncias. Pois näo foi
como coisas que existem em algo como suas partes que definimos
as coisas em um sujeito.
10

la

1 n

1n

30
3a

É uma característica das substâncias e das diferenças que


tudo o que é
chamado a partir delas o seja sinonimicamente. Pois todos
os predicados
35 formados a partir de las predicam-se ou do s ind ivíduos ou
das espécies: a
partir da substância primeira näo se forma nenhum predicado
(uma que
vez näo é dita de nenhum sujeito); das substâncias
segundas, a espécie
predica-se do indivíduo e o género predica-se da espécie e
do indivíduo;
3b e, do mesmo modo, também as diferenças se predicam das
espécies e dos
indivíduos. E as substâncias primeiras admitem a definiçäo
das espécies e
a dos géneros, e a espécie admite a do género (pois tudo o
que é dito
s daquilo que é predicado também será dito do sujeito); do
mesmo modo,

também as espécies e os indivíduos admitem a definiçäo das


diferenças.
Mas sinónimas eram precisamente aquelas coisas com o nome
em comum
e a mesma definiçäo. Portanto, tudo o que é chamado a
partir das substancias e das diferenças é-o sinonimicamente.
ü Todas as substâncias parecem significar um certo isto. No
que respeita às substâncias primeiras, é incontestavelmente
verdade que elas
significam um certo isto; pois a coisa revelada é
individual e numérica-
mente uma. Mas, quanto às substâncias segundas, embora
pareça, pela
forma como säo nomeadas - quando dizemos «homem» ou
«animal» -,
s que significam igualmente um certo isto, isso näo é de
facto verdade. o
que elas significam é antes uma certa qualificaçäo, pois o
sujeito näo é
um como a substância primeira, mas homem e animal säo ditos
de muitas
coisas. No entanto, näo significam simplesmente uma certa
qualificaçäo,
como «branco» o faz. Pois branco näo significa nenhuma
outra coisa
20 senäo a qualificaçäo, enquanto a espécie e o género
determinam a qualificaçäo da substância - significam uma
substância de um certo tipo. Com
o género, a determinaçäo que é feita é mais vasta do que
com a espécie,
pois ao falar de animal abrangemos mais coisas do que ao
falar de
homem.
Uma outra característica das substâncias é näo terem
qualquer
25 rio. contrá-
Pois qual seria o contrário de uma substância
primeira? Um certo
homem, por exemplo, näo tem qualquer contrário; assim como
homem
ou animal também näo têm qualquer contrário. Contudo, isto
näo é próprio da substância, mas verifica-se também a respeito
de muitas outras
coisas, como, por exemplo, da quantidade. Pois dois côvados
näo tem
O qualquer co ntrário, ne m dez, ne m nenhuma destas co isas, a
näo ser que
se diga que muito é o contrário de pouco ou que grande é o

contrário de Mas, ainda assim, nenhuma quantidade definida tem


pequeno.
qualquer
contrário.

42

3b

A substância, ao que parece, näo admite mais e menos. Näo quero


dizer com isto que uma substância näo seja mais substância do
que outra (pois foi dito que assim é), mas que cada substância
näo é dita mais ou menos aquilo que ela é. Por exemplo, se esta
substância é um homem, ele näo será mais ou menos homem do que
ele mesmo ou do que outro homem. Pois um homem näo é mais homem
do que outro, como uma coisa branca é mais branca do que outra e
uma coisa bela é mais bela do que outra. E uma coisa é dita mais
ou menos do que ela mesma, como por exemplo o corpo que, sendo
branco, é dito mais branco agora do que antes e, sendo quente, é
dito mais ou menos quente. Mas da substância nada disto se diz.
Pois um homem näo é dito mais homem agora do que antes, nem
nenhuma outra
näo admite maiscoisa que seja substância. Portanto, a substância
e menos.
o que principalmente parece ser próprio da substância é, sendo
numericamente uma e a mesma, ser capaz de receber contrários.
näo há nenhuma outra coisa que se possa apresentar e que, sendo
numericamente uma, seja capaz de receber contrários. Por
exemplo, uma cor que é numericamente uma e a mesma näo poderá
ser branca e negra; nem uma mesma acçäo, numericamente uma,
poderá ser má e boa; e do mesmo modo para as outras coisas que
näo sejam substâncias. No entanto, a substância, sendo
numericamente uma e a mesma, é capaz de receber contrários. Por
exemplo, um certo homem, que é um e o mesmo, toma-se ora branco
ora moreno, ora quente ora frio, ora mau ora bom. Em nenhuma
outra coisaque
afirmando se as
verifica o mesmo,
declaraçöes e aasnäo ser que säo
opiniöes alguém objecte,
também assim.
Pois a mesma declaraçäo parece ser verdadeira e falsa. Por
exemplo, se é verdadeira a declaraçäo de que uma certa pessoa
está sentada, depois de a pessoa se
levantar, esta mesma declaraçäo será falsa. E o mesmo se passa
também com as opiniöes. Pois se alguém tem a opiniäo verdadeira
de que uma certa pessoa está sentada, depois de a pessoa se
levantar, tendo a mesma opiniäo acerca dela, esta opiniäo será
falsa. Todavia, ainda que admitíssemos esta objecçäo, há uma
diferença no modo como os contrários säo recebidos. Pois, no
caso das substâncias, é mudando elas mesmas que as substâncias
säo capazes de receber os contrários. Pois aquilo que se tornou

frio em vez
de mau, de (uma
mudou quente,
vez ou
quemoreno em vez deDo branco,
se alterou). ou bomtambém
mesmo modo, em vez
nos outros casos é sofrendo ela mesma uma mudança que cada coisa
é capaz de receber contrários. Enquanto as declaraçöes e as
opiniöes se mantêm elas mesmas completamente sem mudança de
qualquer tipo: é Dor a

10

15

20

3n
Categorias

4a

própria coisa mudar que o contrário Lhes advém. Pois a


declaraçäo de que uma certa pessoa está sentada mantém-se a
mesma; é pela mudança na
b própria
mesmo coisa
se passa que ela
também com se
as torna ora verdadeira
opiniöes. ora falsa.
Portanto, pelo o
menos o
modo como é capaz de receber os contrários - através de uma
mudança em si mesma- seria próprio da substância, ainda que
admitíssemos que as opiniöes e as declaraçöes säo capazes de
receber contrários. No entanto, isto näo é verdade. Pois näo é
por receberem elas mesmas alguma coisa que se diz que as
opiniöes e as declaraçöes säo capazes de receber contrários, mas
sim pelo que acontece a alguma outra coisa. Pois é por a própria
coisa ser ou näo ser que a declaraçäo é dita ser verdadeira ou
falsa, e näo por ela mesma
10 ser capaz de receber os contrários. Na realidade, as
declaraçöes e as opiniöes näo säo mudadas em nada por nenhuma
coisa,
uma vezdeque
modo queacontece
nada elas näoemsäo
si capazes
mesmas. de
Masreceber contrários,
a substância, por
receber ela mesma os contrários, é dita capaz de receber
contrários. Pois ela recebe doença e saúde, brancura e negrura,
e porque ela mesma recebe cada uma destas coisas, ela é dita ser
capaz de receber contrários. Portanto, é próprio da substância,
sendo numericamente uma e a mesma, ser capaz de receber
contrários. Sobre a substância, entäo, dissemos o suficiente.

Capítulo 6

20 Das quantidades, umas säo discretas e outras contínuas; e


umas säo

compostas por partes que têm posiçäo umas em relaçäo às


outras,
enquanto outras näo säo compostas por partes que têm
posiçäo.
Säo quantidades discretas, por exemplo, o número e a
linguagem; säo
quantidades contínuas a linha, a superfície, o corpo e,
além destas, o
25 tempo e o lugar. Pois as pa rtes do nú mero näo tê m ne nhum
limite
comum onde se unam. Se, por exemplo, cinco é uma parte de
dez, os
dois cincos näo se unem em qualquer limite comum, mas estäo
separa-
dos; nem o três e o sete se unem em qualquer limite comum.
Nem, em
o geral, será possível encontrar, no caso do número, um
limite comum das
suas partes, mas elas estäo sempre separadas. Por isso, o
número é uma
quantidade discreta. Do mesmo modo, também a linguagem é
uma quantidade
é evidente: poisdiscreta (que a linguagem é uma quantidade, isso
ela é medida por sílabas longas e breves; refiro-me aqui à
linguagem
35 falada). Pois as suas partes näo se unem em qualquer limite
comum. Pois

Ih

näo há nenhum limite comum onde as sílabas se unam, mas cada uma
está separada em si mesma. A linha, por seu lado, é uma
quantidade contínua. Pois é possível encontrar um limite comum,
a saber, um ponto, onde as suas partes se unem. E, para as
partes
unem-se da
num superfície,
certo limiteuma linha;
comum. pois modo,
Do mesmo as partes
tambémdenoum plano
caso do
corpo é possível encontrar um limite comum, a saber, uma linha
ou uma superfície, onde as partes do corpo se unem. E o tempo e
o lugar säo também deste tipo. Pois o tempo presente une-se ao
tempo passado e ao tempo futuro. E o lugar é também uma
quantidade contínua. Pois as partes de um corpo ocupam um certo
lugar e unem-se num certo limite comum. Por conseguinte, também
as partes do lugar, que säo ocupadas por cada uma das partes do
corpo, se unem no mesmo limite em que se unem as partes do
corpo. Portanto, o lugar é também uma quantidade contínua, pois
as suas partes unem-se num limite comum.
Além disso, umas quantidades säo compostas por partes que têm

posiçäo
compostasumas em relaçäo
por partes às posiçäo.
que têm outras, Por
enquanto outras
exemplo, näo säo
as partes de
uma linha têm posiçäo umas em relaçäo às outras; pois cada uma
delas está situada algures, e é possível distingui-las e dizer
onde, no plano, cada uma está situada e a qual das restantes
partes ela se une. Do mesmo modo, também as partes de um plano
têm uma certa posiçäo; pois é igualmente possível dizer onde
cada uma delas está situada, e quais se unem entre si. E
verifica-se o mesmo com as partes de um sólido, e também com as
de um lugar. Mas já no caso de um número näo é possível ver se
as partes têm alguma posiçäo umas em relaçäo às outras, ou onde
estäo situadas, ou quais das partes se unem entre si. Nem isso é
possível com as partes de um tempo. Pois nenhuma parte do tempo
perdura; ora, como
poderia o que näo perdura ter alguma posiçäo? Mas melhor seria
dizer que elas têm uma certa ordem, pelo facto de uma parte do
tempo ser anterior e outra posterior. E no caso do número
verifica-se o mesmo, uma vez que se conta um antes de dois e
dois antes de três; deste modo, eles podem ter uma certa ordem,
mas näo é de todo possível encontr ar-Lhes uma posiçäo. E o mesmo
se verifica na linguagem. Pois nenhuma das suas partes perdura,
mas, uma as
modo que vezsuas
pronunciadas,
partes näo já näo ter
podem é possível
posiçäo, apreendê-las; de
visto que nenhuma
perdura. Portanto, umas quantidades säo compostas por partes que
têm posiçäo, enquanto outras näo säo compostas por partes que
têm posiçäo.

10

15

7n
Só estas que referimos é que säo propriamente chamadas
quantidades; todas as outras o säo acidentalmente. Pois é para
estas que chamamos
5b quando olhamos quantidad es às outras. Por exemplo, um branco
é dito de grande extensäo pelo facto de a superfície ser de
grande extensäo; e uma acçäo é dita longa, ou um movimento
longo, pelo facto de o tempo ser longo. Pois näo é por si mesma
que cada uma destas coisas é chamada uma quantidade. Se, por
exemplo, tivermos de dizer quäo longa é uma
s acçäo, determinamo-lo pelo tempo, dizendo que é de um ano ou
qualquer coisa deste tipo. E dizemos quäo grande é um branco
determinando-o pela superfície; pois quäo grande for a
superfície, é quanto diremos ser o branco. Portanto, só as que
referimos é que säo propriamente e por si mesmas chamadas
quantidades; das outras, nenhuma é tal por si mesma,

10 mas,
Além se oaé,
disso, é-o acidentalmente.
quantidade näo tem qualquer contrário (no caso das
quantidades definidas é evidente que elas näo têm qualquer
contrário; pois näo há nada que seja o contrário de, por
exemplo, dois côvados ou três côvados ou uma superfície ou
qualquer coisa deste tipo), a näo ser
s que alguém diga que muito é o contrário de pouco ou grande de
pequeno. Todavia, isto näo säo quantidades, mas relativos. Pois
näo há nada que seja dito grande ou pequeno por si mesmo, mas
apenas por referênc ia a outra coisa. Por exemplo, uma montanha é
dita pequena, enqu anto um gräo de milho é dito grande, devido ao
facto de este ser maior do que outras coisas do mesmo género, e
por aquela ser menor do que outras coisas do mesmo género. Por
conseguinte, a referência é a alguma outra coisa , uma vez que se
uma coisa fosse dita pequena ou grande por si mesma, nunca a
montanha seria dita pequena, enquanto o gräo de milho é dito
grande. Dizemos também haver muitos homens numa aldeia e poucos
em Atenas, embora estes sejam muito mais numerosos; e dizemos
haver
25 muitos numa casa e poucos num teatro, embora estes sejam
muito mais numerosos. Além disso, dois côvados, três côvados e
outras coisas
grande ou deste
pequeno näo tipo significam
significam uma quantidade,
uma quantidade, enquanto
mas antes um
relativo. Pois o grande e o pequeno säo vistos em relaçäo a
outra coisa. É evidente, portanto, que eles säo relativos.
3() Além dis so, quer os considerem com o quantidades, que r os
näo considerem, eles näo têm nenhum contrário. Pois como é que
aquilo que näo
pode ser apreendido por si mesmo, mas somente por referência a
outra
coisa, poderia ter um contrário'? Além disso, se grande e
pequeno fossem
contrários, daí resultaria ser possível a mesma coisa admitir
ambos os

46

contrários ao mesmo tempo e as coisas serem o contrário de si


mesmas. Pois acontece a mesma coisa ser ao mesmo tempo grande e
pequena pois é pequena em relaçäo a uma coisa, mas, em relaçäo a
uma outra, esta mesma coisa é grande; acontece entäo a mesma
coisa ser grande e pequena ao mesmo tempo e, por conseguinte,
admitir ambos os contrários ao mesmo tempo. Mas, ao que parece,
näo há nada que admita ambos os contrários ao mesmo tempo. No
caso de uma substância, por exemplo, embora pareça ser capaz de
receber contrários, näo é certamente ao mesmo tempo que ela se
encontra doente e saudável, nem branca e morena ao mesmo tempo,

nem
mesmohátempo.
qualquer outra resultaria
E também coisa que admita ambos
as coisas os contrários
serem o contrárioao
de
si mesmas. Pois se grande é o contrário de pequeno e a mesma
coisa é ao mesmo tempo grande e pequena, uma coisa seria o
contrário de si mesma. Mas é impossível uma coisa ser o
contrário de si mesma. Portanto, grande näo é o contrário de
pequeno, nem muito de pouco. De modo que, mesmo que alguém diga
que estas coisas näo säo relativos mas sim quantidades, elas näo
teräo qualquer contrário.
Mas é principalmente a respeito do lugar que a contrariedade
entre quantidades parece ocorrer. Pois as pessoas consideram em
cima o contrário de em baixo, chamando «em baixo» à regiäo
próxima do centro, devido ao facto de o centro se encontrar à
maior distância dos limites do mundo. E parecem derivar a
definiçäo dos outros contrários a partir destes; pois definem os
contrários como sendo aquelas coisas que, no mesmo género, estäo
mais distantes umas das outras.
A quantidade näo parece admitir mais e menos. Por exemplo, dois
côvados: uma coisa näo é mais de dois côvados do que outra. Nem
isso acontece no caso do número: nenhum três, por exemplo, é
dito mais três do que um cinco, nem nenhum três é dito mais três
do que Nem,
outro. outroemtrês. Nemqualquer
geral, um tempodas
é dito mais um que
quantidades tempo do que é
referimos
dita mais e menos. Portanto, a quantidade näo admite mais e
menos.
Mas o que principalmente é próprio da quantidade é ser dita
igual e
näo-igual. Pois cada uma das quantidades que referimos é dita
igual e näo-igual. Um corpo, por exemplo, é dito igual e
näo-igual; um número é dito igual e näo-igual; um tempo é dito
igual e näo-igual. E verifica-se o mesmo no caso das outras
quantidades que referimos: cada uma delas é dita igual e
näo-igual. Mas nenhu ma das resta ntes coisas - das que näo säo
quantidades - é de modo algum, ao que parece, dita igual e
näo-igual.
n

3()
categorias

6a
Uma disposiçäo, por exemplo, näo é de modo algum dita igual e
näo-igual, mas antes semelhante ; e um branco näo é de modo algum
igual e näo-igual, mas semelhante. Portanto, o que
principalmente é próprio da
35 quantidade é ser dita igual e näo-igual.

Capítulo 7

Chamam-se relativos todas aquela s coisas que säo ditas ser o que
säo de, ou do que, outras coisas, ou de alguma outra maneira em
relaçäo a outra coisa. Por exemplo, o maior é dito o que ele é
do que outra coisa (pois é dito maior do que alguma coisa); e o
dobro é dito o que ele é de
6b outra coisa (pois é dito o dobro de alguma coisa); e do mesmo
modo com todas as outras coisas deste tipo. Säo também
relativos, por exemplo, as seguintes coisas: estado, disposiçäo,
percepçäo, conhecimento, posiçäo. Pois todas elas säo ditas o
que säo (e näo outra coisa) de outras coisas;
5 pois um estado é dito estado de alguma coisa, um conhecim ento,
conhecimento de alguma coisa e uma posiçäo, posiçäo de alguma
coisa; e os outros do mesmo modo. Säo entäo relativos todas
aquelas coisas que säo ditas o que elas säo de, ou do que,
outras coisas, ou de alguma outra maneira em relaçäo a outra
coisa. Por exemplo, uma montanha é dita grande em relaçäo a
outra coisa (pois a montanha é dita grande em relaçäo a alguma
coisa); e o semelhante é dito semelhante a alguma coisa; e
10 as outras
relaçäo coisas
a alguma deste tipo säo, do mesmo modo, ditas em
coisa.
Deitado, levantado e sentado säo certas posiçöes, e a posiçäo é
um relativo. Mas estar deitado, estar levantado ou estar sentado
näo säo eles mesmos posiçöes, mas säo paronimicamente chamados a
partir das referidas posiçöes.
15 Nos relativos há também contrariedade. Por exemplo, a
virtude é o
contrário do vício, sendo cada um deles um relativo; e o
conhecimento é o
contrário da ignorância. Mas nem todos os relativos têm
contrário. Pois o
dobro näo tem contrário, nem o triplo, nem qualquer destas
coisas.
2() Parece que os rel ativos tam bém admitem mais e menos. Poi s
semelhante é dito mais e menos, e näo-igual é dito mais e menos,
sendo cada
um deles um relativo (pois o semelhante é dito semelhante a
alguma coisa
25 e o näo-igual näo-igual a alguma coisa). Mas nem todos
admitem mais e menos. Pois o dobro näo é dito mais ou menos
dobro, nem qualquer destas coisas.

Todos os relativos säo ditos em relaçäo a correlativos que

reciprocam. Por exemplo,


o senhor é dito senhor deo um
escravo é dito
escravo; e o escravo
dobro é de um dobro
dito senhordee
uma metade e a metade é dita metade de um dobro; e o maior é
dito maior do que um menor e o menor é dito menor do que um
maior; e o mesmo se verifica nos outros casos. Por vezes, no
entanto, haverá uma diferença na forma de expressäo. Por
exemplo, o conhecimento é dito conhecimento do conhecível e o
conhecível, conhecível pelo conhecimento; e a percepçäo,
percepçäo do perceptível e o perceptível, perceptível pela
percepçäo.
Contudo, por vezes, eles näo pareceräo reciprocar - se, em
virtude de um erro, aquilo em relaçäo ao qual o relativo é dito
näo for adequadamen te expresso. Por exemplo, se a asa é expressa
como sendo de uma ave, a ave de uma asa näo reciproca; pois o
que à partida foi expresso - a asa de uma ave - näo o foi
adequadamente. Pois näo é enquanto ave que a asa é dita ser
dela, mas enquanto alada; pois há muitas outras coisas que têm
asas e que näo säo aves. Portanto, quando é adequadamente
expresso, o correlativo reciproca. Por exemplo, a asa é asa de
um alado e o alado é alado com uma asa.
Por vezes pode até ser necessário criar nomes - quando näo
existe um nome
adequadamente em relaçäo
expresso. ao qual
Por exemplo, se oo leme
relativo possa como
é expresso ser
de um barco, a expressäo näo é adequada (pois näo é enquanto
barco que o leme é dito ser dele, uma vez que há barcos que näo
têm leme) e por isso näo reciproca; pois o barco näo é dito
barco de um leme. Mas a expressäo seria talvez mais adequada se
ele fosse expresso deste modo: o leme é leme de um «lemado», ou
de qualquer outra maneira (pois näo existe um nome). E assim já
reciproca, por ter sido adequadamente expresso; pois o lemado é
lemado com um leme. E o mesmo se verifica nos outros casos. Por
exemplo, a cabeça
seria mais adequadamente expressa como de um «cabeçado» do que
se fosse expressa como de um animal. Pois näo é enquanto animal
que ele Esta
cabeça. tem cabeça,
é talvezuma vez que mais
a maneira há muitos
fácil animais que näo
de apreender têm
coisas
para as quais näo existe nome - se nomes derivados dos primeiros
relativos forem dados aos seus correlativos recíprocos, tal como
nos casos acima referidos «alado» foi derivado de «asa» e
«lemado» de «leme».
Todos os relativos, entäo, desde que adequadamente expressos,
säo ditos em relaçäo a correlativos que reciprocam. Por
conseguinte, se um relativo é expresso em relaçäo a uma qualquer
coisa casual e näo em relaçäo àquilo mesmo de que ele é dito,
näo há com certeza reciprocidade.

CA 4 ()

7a

10
25 Quero com isto dizer que, até com os relativos que säo
reconhecidamente ditos em relaçäo a correlativos que reciprocam
e para os quais existem nomes , nenhum reciproca, se for expresso
em relaçäo a alguma coisa acidental e näo em relaçäo àquilo
mesmo de que ele é dito. Se, por exemplo, o escravo é expresso,
näo como de um senhor, mas como de um homem,
3() ou de um bípede, ou de qualquer outra coisa deste tipo, näo
há reciprocidade; pois a expressäo näo é adequada. Além disso,
se aquilo em relaçäo ao qual o relativo é dito for adequadam ente
expresso, entäo, se forem retiradas todas as outras coisas que
säo acidentais, deixando apenas aquela em relaçäo à qual o
relativo foi adequadamente expresso, ele será sempre
35 dito em relaçäo a isso. Por exemplo, se o escravo é dito em
relaçäo a um senhor, entäo, se forem retiradas todas as coisas
que säo acidentais ao senhor - como o ser bípede, o ser capaz de
conhecimento, o ser homem -, deixando apenas o seu ser senhor,
sempre o escravo será dito em relaçäo a ele; pois o escravo é
dito
7b emescravo
relaçäodeaoumqual
senhor. Por outro
o relativo lado,näo
é dito se for
aquilo
adequadamente
expresso, entäo, se as outras coisas forem retiradas, deixando
apenas aquela em relaçäo à qual foi expresso, ele näo será com
certeza dito em relaçäo a isso. Pois expressemos o escravo como
sendo de um homem e a asa como
5 sendo de uma ave, e retiremos do homem o seu ser senhor: o
escravo já näo será dito em relaçäo ao homem, pois näo havendo
senhor também näo há escravo. Do mesmo modo, retiremos da ave o
ser alada: a asa já näo será um relativo, pois näo havendo um
alado também já näo haverá uma asa de alguma coisa.
10 Portanto, devemos expressar como correlativo aquilo em
relaçäo ao
qual
fácil o relativo for adequadamente dito. Quando existe um nome é
produzir a expressäo, mas quando näo existe pode ser necessário
criar
nomes. E quando forem expressos deste modo, é evidente que todos
os
relativos seräo ditos em relaçäo a correlativos que reciprocam.
15 os relativos parecem ser simultâneos por natureza. Na
maioria dos
casos, isso é verdade. Pois o dobro e a metade existem ao mesmo
tempo,
e quando existe uma metade existe um dobro; e quando existe um
escravo

existe um senhor; e os outros de modo semelhante a estes. E a


destruiçäo
de um arrasta também consigo a do outro. Pois se näo existir um
dobro
20 näo existe uma metade, e se näo existir uma metade näo existe
um dobro; e o mesmo se verifica nos outros casos deste tipo.
Todavia, o serem simultâneos por natureza näo parece ser verdade
de todos os relativos. Pois o conhecível parece ser anterior ao
conhecimento. Pois na maior
25 parte dos casos é de coisas pré-existentes que adquirimos
conhecimento;

h
só em poucos casos, ou mesmo em nenhum, poderia alguém encontrar
o conhecimento surgindo ao mesmo tempo que o conhecível. Além
disso, a destruiçäo do conhecível arrasta consigo a destruiçäo
do conhecimento, mas a do conhecimento näo implica a destruiçäo
do conhecível; pois se näo existir o conhecível näo existe
conhecimento - uma vez que já näo haveria nada para conhecer -,
mas se näo existir conhecimento nada impede o conhecível de
existir. Suponhamos,
conhecível: o seu por exemplo, que
conhecimento a quadratura
ainda do círculo
näo existe, mas oé
conhecível ele mesmo existe. Além disso, se o animal fosse
destruído, näo existiria conhecimento, mas poderiam existir
muitas coisas conhecíveis. E os casos que dizem respeito à
percepçäo säo semelhantes a estes, pois o perceptível também
parece ser anterior à percepçäo: a destruiçäo do perceptível
arrasta consigo a destruiçäo da percepçäo, mas a da percepçäo
näo implica a destruiçäo do perceptível. Pois as percepçöes
incidem sobre o corpo e existem no corpo, e se o perceptível for
destruído, o corpo será também destruído (pois o corpo é também
um perceptível), e se näo existir corpo, a percepçäo será também
destruída. Portanto, o perceptível destrói consigo a percepçäo.
Mas a percepçäo
animal näo destrói
for destruído, consigo
a percepçäo o perceptível.
será Pois
destruída, mas se o
continuará
a existir perc eptível - tal como corpo, quente , doce, amargo e
todas as outras coisas que säo perceptíveis. Além disso, a
percepçäo surge ao mesmo tempo que aquilo que é capaz de
percepcionar (pois o animal e a percepçäo surgem
simultaneamente), mas o perceptível existe ainda antes de
existir a percepçäo; pois o fogo, a água e as coisas deste tipo,
a partir das quais o animal é composto, exist em ainda antes de o
animal, ou a percepçäo, existirem de todo. Portanto, o
perceptível parece ser anterior à percepçäo.
Há dificuldade em saber se nenhuma substância é chamada um
relativo, como parece, ou se tal é possível a respeito de certas

substâncias
verdade, umasegundas. No caso
vez que nem das substâncias
os todos primeiras,
nem as partes isso é
säo chamados
relativos. Pois um certo homem näo é dito um certo homem de
alguém, nem um certo boi é dito um certo
boi de alguém. E o mesmo se verifica com as partes: pois uma
certa mäo näo é dita uma certa mäo de alguém (mas a mäo de
alguém), e uma certa cabeça näo é dita uma certa cabeça de
alguém (mas a cabeça de alguém). E o mesmo se verifica no caso
das substância segundas, pelo menos na maior parte. o homem, por
exemplo, näo é dito homem de alguém, nem o boi, boi de alguém,
nem a madeira, madeira de alguém (mas é dita propriedade de
alguém). No caso destas coisas é, entäo, evidente que näo

30
I n

20
8a

25 säo relativos, mas no caso de algumas substância s segundas há


discordância.
mäo é dita mäoPor
de exemplo,
alguém, ea assim
cabeçapara
é dita
cadacabeça de alguém,
uma destas a
coisas;
pelo que elas parecem ser relativos.
Se, entäo, a definiçäo que foi dada dos relativos é suficiente, o
30 solucionar o problema de saber se nenhuma substância é
chamada um relativo é ou extremamente difícil ou impossível. Mas
se ela näo é suficiente e os relativos säo aquelas coisas para
as quais ser é o mesmo que estar de algum modo em relaçäo com
alguma coisa, entäo talvez se possa adiantar alguma coisa a este
respeito. A anterior definiçäo aplica-se a todos os relativos,
mas näo é isso - o serem ditos aquilo que säo de, ou do
15 que, alguma outra coisa - que faz deles relativos.
Torna-se claro com isto que, se alguém conhecer de modo definido
um certo
aquilo relativo,
em relaçäo ao entäo também
qual ele conhecerá
é dito. de modo por
Isto é evidente definido
si
mesmo. Pois se alguém souber que um certo isto é um relativo, e
para os relativos ser for o
b mesmo que estar de algum modo em relaçäo com alguma coisa,
entäo também saberá com que é que ele está de algum modo em
relaçäo. Pois se näo souber de todo com que é que ele está de
algum modo em relaçäo, também näo saberá se ele está de algum
modo em relaçäo com alguma coisa. Isto é claro também nos casos
particulares. Por exemplo, se alguém sabe de modo definido que
um certo isto é o dobro, entäo também sabe, de imediato e de
modo definido, de que é que ele é o dobro; pois se näo conhecer
nenhuma coisa definida de que ele seja o dobro, também näo

saberá
sabe quedeumtodo se isto
certo ele éé omais
dobro. E, entäo
belo, do mesmo modo,
também se por
terá, alguém
isso,
de saber de modo definido do que é que ele é mais belo. (Näo
poderá saber de modo indefi
10 nido que ele é mais belo do que uma coisa inferior, pois isso
seria uma suposiçäo e näo um conhecimento. Pois, em termos
exactos, já näo saber ia que ele é mais belo do que uma coisa
inferior, uma vez que poderia acontecer que nada Lhe fosse
inferior.) É evidente, portanto, que alguém que conheça de modo
definido um certo relativo terá necessariamente de
15 também conhecer de modo definido aquilo em relaçäo ao qual
ele é dito.
Mas a respeito da cabeça, da mäo e de cada uma destas
substâncias, é possível saber de modo definido o que elas säo,
sem ser necessário conhece r aquilo em relaçäo ao qual säo ditas.
Pois näo é necessário(4) saber de modo definido de quem é a
cabeça ou de quem é a mäo. Portanto, estas

(4) Seguimos a emenda propoSta por Ackrill: inserçäo de


anankaion em 8b19.

8b
näo seräo relativos; e se näo säo relativos, entäo será verdade
dizer que nenhuma substância é um relativo.
É talvez difícil fazer afirmaçöe s veementes sobre estes assuntos
sem os ter examinado muitas vezes. Mas näo é certamente inútil
ter analisado as dificuldades a respeito de cada um deles.

Capítulo 8

Chamo qualidade àquilo em virtude do qual as coisas säo ditas


ser qualificadas de certo modo. Mas a qualidade diz-se de
diversas maneiras.
Chamemos, a umadeespécie
estado difere de qualidade,
uma disposiçäo por estado e disposiçäo.
ser mais Um
estável e mais
durável. Säo assim os conhecimentos e as virtudes. Pois o
conhecimento parece ser uma coisa permanente e difícil de mudar
(mesmo que alguém o adquira moderadamente), a näo ser que ocorra
uma grande alteraçä o, por doença ou por alguma outra coisa deste
tipo. E o mesmo se verifica com a virtude: a justiça, a
temperança e as outras qualidades deste tipo näo parecem ser
fáceis de mudar nem fáceis de alterar. Mas aquelas que säo
fáceis de mudar e rapidamente se alteram säo chamadas
disposiçöes, como por exemplo o calor, o frio, a doença, a saúde
e todas as outras deste tipo. Pois em virtude delas o homem está
disposto de certo modo, mas rapidament e muda de quente para frio

e
a de
näosaudável
ser quepara doente.
alguma E o possa
delas mesmo ainda,
se verifica coma asumoutras,
devido longo
período de tempo, tornar-se parte da natureza da pessoa e ser
irremediável ou extremamente difícil de mudar, podendo entäo,
talvez, chamar-se-lhe igualmente um estado. É evidente que as
pessoas pretendem chamar estados àquelas coisas que säo mais
duráveis e mais difíceis de mudar. Pois, daqueles que näo
dominam completamente um conhecimento e säo fáceis de mudar, näo
se diz que têm um estado, embora estejam certamente em alguma
disposiçäo - pior ou melhor - em relaçäo ao conhecimento. Por
conseguinte, um estado difere de uma disposiçäo
por esta ser fácil de mudar, enquanto aquele é mais durável e
mais difícil de mudar.
os estados säo também disposiçöes, mas as disposiçöes näo säo
necessariamente estados. Pois aqueles que possuem estados também
estäo em alguma disposiçäo relativa mente a eles, mas aqueles que
estäo numa disposiçäo nem sempre têm também um estado.

3()

10
9a
outro género de qualidade é aquele em virtude do qual chamamos
15 às pessoas pugilistas, ou corredores, ou saudáveis, ou
doentias, e em geral o que quer que se Lhes chame em virtude de
uma capacidade ou incapacidade natural. Pois näo é por alguém
estar disposto de certo modo que ele é chamado cada uma destas
coisas, mas por ter uma capacidade natural de fazer alguma coisa
facilmente, ou de näo ser afectado. Por exemplo, as pessoas säo
chamadas pugilistas ou corredores, näo por
20 estarem disposta s de certo modo, mas por terem uma capacidade
natural de fazer alguma coisa facilmente; e säo chamadas
saudáveis por terem uma capacidade natural de näo ser facilmente
afectadas pelode que
incapacidade näoLhes
ser acontece;
afectadas.e E
doentias por terem
verifica-se algo uma
de
semelhante com o duro e o mole: pois uma coisa é
7: chamada dura por ter uma capacidade de näo se r facilmente
dividida, enquanto outra é chamada mole por ter uma incapacidade
de isto mesmo.
Um terceiro género de qualidade säo as qualidades afectivas e as
afecçöes. Säo exemplos disso a doçura, a amargura, a acidez e
todos os seus
30 afins; e ainda o calor, o frio, a brancura e a negrura. Que
estas säo qualidades, isso é evidente: pois as coisas que as
possuem säo, em virtude delas, ditas qualificadas. Por exemplo,
o mel, por possuir doçura, é dito doce, e o corpo é dito branco

por
3 possuir brancura.
verifica-se E nosNäo
o mesmo. outros casos
é por as coisas qu e possuem as
qualidades terem sido elas mesmas afectadas de algum modo que as
qualidades säo
9b chamadas afectivas. Pois o mel näo é dito doce por ter sido
afectado de algum modo, nem nenhuma das outras coisas deste
tipo; e, de modo semelhante, näo é por as coisas que os recebem
terem sido afectadas de algum modo que o calor e o frio säo
chamados qualidades afectivas. É
5 antes por cada uma das qualidades mencionadas ser produtora de
uma afecçäo dos sentidos que elas säo chamadas qualidades
afectivas. Pois a doçura produz uma certa afecçäo do paladar, o
calor produz uma certa afecçäo do tacto, e as outras de modo
semelhante.
Porém, a brancura, a negrura e as outras cores näo säo chamadas
qualidades afectivas do mesmo modo que as que acabámos de
mencionar, mas por elas mesmas terem sido geradas por uma
afecçäo. Que muitas alteraçöes de cor säo geradas por uma
afecçäo, isso é manifesto: pois quando alguém se envergonha fica
vermelho, quando se atemoriza fica pálido, e assim por diante.
De maneira que, se alguém sofre
15
corpor natureza de alguma
correspondente. Pois adestas
mesma afecçöes,
disposiçäoé corporal
natural que
que tenha
agoraa
se gerou ao

9b

envergonhar-se, podia também gerar-se em virtude da constituiçäo


natural de uma pesso a - pelo que a cor corre spondente se gera
também por natureza.
Quando tais circunstâncias têm origem em certas afecçöes
permanentes e difíceis de mudar, elas säo chamadas qualidades.
Pois se a palidez ou a cor escura pertencem à constituiçäo
natural da pessoa, elas säo chamadas qualid ades (uma vez que, em
virtude delas,
cor escura somos
resulta ram ditos qualificados);
de doença prolongada eouse
do a calor
palidez
do ou
sol,a e
näo desaparecem facilmente ou até ficam para toda a vida, elas
säo também chamadas qualidades (pois, de modo semelhante, somos,
em virtude delas, ditos qualificados). Mas aquelas que se geram
a partir de algo que facilmente se dissipa e que rapidamente
desaparece säo chamadas afecçöes. Pois as pessoas näo säo, em
virtude delas, ditas ser qualificadas de certo modo. Pois nem a
pessoa que fica vermelha por se envergonhar é dita avermelhada,
nem a pessoa que empalidece por se atemorizar é dita pálida, mas
diz-se antes que foram afectadas de algum modo. Por conseguinte,
chama-se a isto afecçöes, mas näo qualidades.
Qualidades afectivas e afecçöes säo também, de modo semelhante,

ditas
partir a de
respeito
certas daafecçöes
alma. Pois
logoaquelas que foram
à nascença säo geradas
chamadasa
qualidades, como por exemplo a loucura, a irascibilidade e
outras que tais. Pois as pessoas säo, em virtude delas, ditas
qualificadas - irascíveis e loucas. E, de modo semelhante,
quando as perturbaçöes näo säo naturais, mas resultam de certas
outras circunstâncias e é difícil libertar-se delas, ou elas säo
até completamente imutáveis, tais coisas säo também qualidades
(pois as pessoas säo, em virtude delas, ditas qualificadas ). Mas
aquelas que resultam de coisas que cessam rapidamente säo
chamadas afecçöes, como por exemplo se uma pessoa atormentada
fica mais irascíve l; pois näo é dito irascível aquele que em tal
afecçäo fica mais irascível, mas diz-se antes que foi afectado
de algum modo. Por conseguinte, tais coisas säo chamadas
afecçöes, mas näo qualidades.
Um quarto género de qualidade é a figura e a forma exterior de
cada coisa; e, para além destas, a rectitude, a curvatura e tudo
o que se Lhes assemelha. Pois, em virtude de cada uma delas, uma
coisa é dita ser qualificada de certo modo. Pois, por ser um
triangulo ou um quadrado, e por
ser recta ou curva, uma coisa é dita ser qualificada de certo
modo. E, emde virtude
qualificada da sua forma, cada coisa é dita ser
certo modo.
Poderia julgar-se que o raro e o denso, e o áspero e o liso,
significam qualificaçöes; porém, eles parecem ser alheios à
classificaçäo das

n,.

10
10a

qualificaçöes. Pois o que cada um deles manifesta parece


ser antes uma
20
suas certa
partes posiçäo
estarem das partes. Pois uma co isa é densa por as
muito próximo umas das outras, e rara por estarem separadas
umas das
outras; e uma coisa é lisa por as suas partes se
encontrarem de certo modo
em linha recta, e áspera por umas estarem elevadas e outras
rebaixadas.
25 Talvez se possa descobrir algum outro tipo de qualidade,
mas os mais
falados säo aproximadamente estes.
As coisas que mencionámos säo entäo qualidades, mas as
coisas que,

em virtude delas, säo paronimicamente chamadas, ou que säo


de alguma
outra maneira chamadas a partir delas, säo qualificadas. Na
maior parte
dos casos (de facto, quase em todos), as coisas säo
chamadas paronimica-
3() mente, co mo po r exemplo o branco a partir da bra ncura, o
gramático a
partir da gramática, o justo a partir da justiça, e assim
por diante. Mas, em
alguns casos, porque näo existem nomes para as qualidades,
näo é possível as coisas serem chamadas paroni micamente a partir
delas. Por exemplo, o corredor ou o pugilista, assim chamados em
virtude de uma
s capacidade natural, näo säo chamados paronimicamente a
partir de
10b nenhuma qualidade; pois näo existem nomes para as
capacidades em virtude das quais eles säo ditos ser
qualificados, embora existam para os
conhecimentos em virtude dos quais os homens säo, a
respeito da sua disposiçäo, chamados pugilistas ou lutadores
(poischamados
o pugilato e a luta säoe é paronimicamente a partir deles
conhecimentos
que os que
5 estäo em ta l di sposiçäo sä o di tos se r qu alificados). Ma s,
por vezes,
mesmo quando existe nome para a qualidade, aquilo que é
dito ser qualificado em virtude dela näo é chamado
paronimicamente, como por exemplo, a partir da virtude, o homem
bom; pois por possuir virtude o homem
é dito bom, mas näo o é paronimicamente a partir da
virtude. Mas este
caso näo se verifica muitas vezes. Por conseguinte, as
coisas que säo cha- 10 madas paronimicamente a partir das
qualidades
o säo que mencionámos,
de alguma ou que a partir delas, säo ditas ser
outra maneira
qualificadas.
A respeito da qualificaçäo há também contrariedade. Por
exemplo, a
justiça é o contrário da injustiça, a brancura o contrário
da negrura, e
assim por diante. E com as coisas que säo ditas ser
qualificadas em vir-
15 tude delas passa-se o mesmo: o injusto é o co ntrário do
justo e o branco é
o contrário do negro. Mas näo é assim em todos os casos.
Pois o verme-

lho, o amarelo
qualificaçöes, näo e outras cores deste tipo, embora sejam
têm qualquer contrário.
Além disso, se um dos contrários for uma qualificaçäo, o
outro será
também uma qualificaçäo . Isto é manifesto se examinarmos os
outros
10h

predicados. Por exemplo, se a justiça é o contrário da injustiça


e a justiça é uma qualificaçäo, entäo também a injustiça é uma
qualificaçäo; pois nenhum dos outros predicados se ajusta à
injustiça - nem quanti dade nem relati vo nem onde, nem em geral
nenhum destes predicados, a näo ser qualificaçäo. E o mesmo se
verifica com os outros contrários que envolvem qualificaçäo.
As qualificaçöes admitem mais e menos. Pois uma coisa é dita
mais ou menos branca do que outra, e uma mais justa do que
outra. Aliás, uma coisa é ela mesma susceptível de aumento -
pois uma coisa que é branca pode tornar-se ainda mais branca.
Isto, porém, näo se verifica em todos os casos, mas apenas na
maior parte. Pois pode questionar-se se uma justiça é dita mais
justiça do que
disposiçöes. Pois outra,
algumase pessoas
de modo semelhante
discutem acercapara as casos
destes outrase
negam completamente que uma justiça seja dita mais ou menos
justiça do que outra, ou uma saúde mais ou menos saúde, embora
digam que uma pessoa tem menos saúde do que outra, e uma menos
justiça do que outra, e do mesmo modo com a gramática e as
outras disposiçöes. Mas é incontestável que, pelo menos as
coisas que säo ditas em virtude delas, admitem mais e menos;
pois uma pessoa é dita mais gramatica l do que outra, mais justa,
mais saudável e assim por diante. Porém, o triangulo e o
quadrado näo parecem admitir mais - nem eles nem nenhuma das
outras figuras. Pois as coisas que admitem a definiçäo de
triangulo e a de círculo säo todas igualmente triângulos ou
círculos,
enquanto das que näo a admitem nenhuma será dita mais do que
outra. Pois nenhum quadrado é mais um círculo do que o é um
rectângulo, uma vez que nenhum deles admite a definiçäo de
círculo. E, em geral, se ambos näo admitem a definiçäo daquilo
que é proposto, um näo será dito mais isso do que o outro. Por
conseguinte, nem todas as qualificaçöes admitem mais e menos.
Nada do que até agora foi mencionado é próprio da qualidade. No
entanto, é somente em virtude das qualidades que as coisas säo
ditas semelhantes e dissemelhantes. Pois uma coisa näo é
semelhante a outra em virtude de nenhuma outra coisa que näo
seja aquilo em virtude do qual ela é qualificada. Portanto,
seria próprio da qualidade ser em virtude dela que uma coisa é

dita semelhante
näo devemos ou dissemelhante.
perturb ar-nos com receio de que alguém nos diga que,
tendo-nos proposto fazer uma exposiçäo acerca da qualidade,
juntamos à nossa enumeraçäo muitos relativos (uma vez que os
estados e as disposiçöes säo relativos). Pois, em quase todos
estes casos, os géneros säo ditos

35

10

15
lla
em relaçäo a alguma coisa, mas nenhum dos particulares o é. o
conheci25 mento, sendo um género, é dito aquilo que ele é de
outra coisa (pois é dito conhecimento de alguma coisa); mas
nenhum dos particulares é dito aquilo que ele é de outra coisa.
A gramática, por exemplo, näo é dita gramática de alguma coisa,
nem a música música de alguma coisa. Mas, se também eles säo
ditos em relaçäo a alguma coisa, é em virtude do género
30 que coisa,
alguma o säo. mas
Por näo
exemplo, a gramática
gramática é dita
de alguma conhecimento
coisa; e a música de
é
dita conhecimento de alguma coisa, mas näo música de alguma
coisa. Portanto, os particulares näo säo relativos. Mas é pelos
particulares que somos ditos qualificados. pois säo eles que nós
possuímos (é, com efeito, por termos algum conhecimento
particular, que somos ditos conhecedores). Portanto, os particula
35 res - em virtude dos quais somos por vezes ditos qualif icados
- seräo qualidades, e näo relativos.
Além disso, se acontece a mesma coisa ser uma qualificaçäo e ser
relativo, incluí-la em ambos os géneros näo tem nada de anormal.

Capítulo 9
11b Fazer
menos. e aquecer
Pois ser afectado admitem contrariedade
é o contrário de arrefecer,e etambém mais e
ser aquecido
de ser arrefecido, e ser agradado de ser desagradado; portanto,
admitem contrariedade. E tam
5 bém mais e menos. Pois é possível aquecer mais e menos, e ser
mais e menos aquecido, e ser mais e menos desagradado; por
conseguinte, fazer e ser afectado admitem mais e menos.

u) [Isto é, entäo, o que há a dizer sobre estas coisas. E


sobre estar numa
posiçäo foi mencionado, na exposiçäo dos relativos, que tais
coisas säo
paronimicamente chamadas a partir das posiçöes. Sobre as

restantes -
quando, onde e ter -, devido a serem óbvias, nada mais há a
dizer além
daquilo que foi mencionado no início: que «estar calçado» e
«estar
armado» significam ter, e que «no Liceu» (por exemplo) signifi ca
onde, e
as outras coisas que sobre eles foram mencionadas.1

11b

Capítulo lO

[Por conseguinte, sobre os géneros inicialmente propost os, o que


se disse é suficiente; mas devemos agora dizer alguma coisa
acerca dos opostos e dos diversos modos segundo os quais é
costume as coisas serem opostas.]
Uma coisa é dita ser oposta a outra de quatro modos: como
relativos, como contrários, como privaçäo e posse, ou como
afirmaçäo e negaçäo. Exemplos de coisas opostas de cada um
destes modos säo, para dar apenas uma ideia, os seguintes: como
relativos, o dobro
como privaçäo e a metade;
e posse, comoe contrários,
a cegueira o mau
a visäo; como e o bom;
afirmaçäo e
negaçäo, «ele está sentado» e «ele näo está sentado».
As coisas que se opoem como relativos säo ditas o que säo, dos
seus opostos, ou de alguma outra maneira em relaçäo a eles. o
dobro, por exemplo, é dito o que é (dobro) da metade. o
conhecimento e o conhecível também se opoem como relativos: o
conhecimento é dito o que é, do conhecível; e o conhecível é
dito o que é, em relaçäo ao seu oposto - o conhecimento; pois o
conhecível é dito conhecível por alguma coisa, a saber, pelo
conhecimento.
Por conseguinte, as coisas que se opoem como relativos säo ditas
o que säo, dos seus opostos, ou de alguma outra maneira umas em
7-elaçäo
säo nuncaàsditas
outras. Enquanto
o que as que
säo, umas se opoemàs
em relaçäo como contrários
outras, näo
mas säo
seguramente ditas o contrário umas das outras. Pois o bom näo é
dito bom do mau, mas o seu contrário, assim como o branco näo é
dito branco do negro, mas o seu contrário. Portanto, estas
oposiçöes diferem uma da outra.
Quando os contrários säo tais que é necessário que um dos dois
pertença àquilo em que eles naturalmente ocorrem ou de que säo
predicados, näo há entre eles nenhuma coisa intermédia. A doença
e a saúde, por exemplo, ocorrem naturalmente nos corpos dos
animais, e é com certeza necessário que uma delas - ou a doença
ou a saúde - pertença ao corpo de um animal. E o ímpar e o par
predicam-se dos números, e é com certeza necessár io que um deles

- ou näo
que o ímpar ou o par
há entre eles- nenhuma
pertença coisa
a um número. E também
intermédia - nemé entre
certo a
doença e a saúde, nem entre o ímpar e o par. Mas quando näo é
necessário que um deles pertença, entäo há entre eles alguma
coisa intermédia. o negro e o branco, por exemplo, ocorrem
naturalmente nos corpos, e näo é necessário que um deles
pertença a um corpo (pois os corpos näo säo todos ou brancos ou
negros). Mau e bom predicam-se de homens

59

30

1 )
12a

15 e de muitas outras coisas, mas também näo é necessário que


um deles per-
tença àquelas coisas de que se predicam (pois elas näo säo
todas ou más
ou boas). E entre estes há com certeza alguma coisa
intermédia, como, entre o branco e o negro, o cinzento, o
por exemplo,
amarelo e todas as
outras cores, e entre o mau e o bom, o nem mau nem bom. Em
alguns
20 casos existem nomes para as coisas intermédias, como, entre
o branco e o
negro, o cinzento e o amarelo; há porém casos em que näo é
fácil dar um
nome ao intermédio, mas é pela negaçäo de ambos os extremos
que o
intermédio é determinado, como o nem bom nem mau, e o nem
justo nem
25 injusto.
Privaçäo e posse säo ditas a respeito de uma mesma coisa,
como por
exemplo a visäo e a cegueira a respeito do olho; e, como
regra geral, é a
respeito daquilo em que a posse naturalmente ocorre que
cada uma delas é
dita. Dizemos que cada uma das coisas capazes de receber
uma posse está
30 privada dela, quando ela está inteiramente ausente (I)
daquilo a que naturalmente pertence e (11) no tempo em que é
natural tê-la. Pois näo é a
quem näo tem dentes que chamamos desden tado, nem a quem näo

tem visäo que chamamos cego, mas somente a quem näo tem no
tempo em
que é natural ter. Pois alguns seres näo têm, quando
nascem, visäo nem
dentes, mas näo säo ditos desdentados nem cegos.
35 Estar privado e ter posse näo säo privaçäo e posse. Pois
a visäo é
uma posse e a cegueira uma privaçäo, mas o ter visäo näo é
a visäo
nem o ser cego é a cegueira. Pois a cegueira é uma certa
privaçäo,
enquanto o ser cego é estar privado, näo é uma privaçäo.
Além disso, se
40 a cegueira fosse o mesmo que o ser cego, poderiam
predicar-se ambos
da mesma coisa; mas o homem é dito cego, enquanto de modo
nenhum
12b o homem é dito cegueira. Todavia, também o estar privado e
o ter posse
parecem ser opostos como o säo a privaçäo e a posse. Pois o
modo oposiçäo
de é o mesmo. Pois, tal como a cegueira se opöe à
visäo, o ser
5 cego opöe-se ao ter visäo. (o que subjaz a uma afirmaçäo ou
negaçäo
também näo é uma afirmaçäo ou negaçäo. Pois a afirmaçäo é
uma
declaraçäo afirmativa e a negaçäo uma declaraçäo negativa,
enquanto
nenhuma das coisas que subjazem a uma afirmaçäo ou negaçäo
é uma
declaraçäo. Todavia, também estas säo ditas ser opostas
umas às outras
como o säo a afirmaçäo e a negaçäo. Pois o modo de oposiçäo
é também
nestes casos o mesmo. Pois, tal como a afirmaçäo se opöe à
negaçäo -
por exemplo, «ele está sentado» e «ele näo está sentado» -,
assim se
15 opoem também as coisas que subjazem a cada uma - o ele
estar sentado
e o ele näo estar sentado.)

()()

1' h

É evidente que a privaçäo e a posse näo se opoem como relativos.


Pois nenhuma delas é dita o que é, do seu oposto. Pois a visäo
näo é visäo da cegueira, nem é de qualquer outro modo dita em
relaçäo a ela. Do mesmo modo, também näo pode dizer-se que a
cegueira é cegueira da visäo (a cegueira é dita privaçäo da
visäo, mas näo é dita cegueira da visäo). Além disso, todos os
relativos säo ditos em relaçäo a correlativos que reciprocam e,
portanto, se a cegueira fosse um relativo, aquilo em relaçäo ao
qual ela seria dita reciprocaria. Mas, de facto, näo reciproca.
Pois a visäo näo é dita visäo da cegueira.
Que os casos de privaçäo e posse também näo se opoem como
contrários, isso é manifesto pelo seguinte. Pois, por um lado,
no caso dos contrários que näo têm entre si nenhuma coisa
intermédia, é sempre necessário que um dos dois pertença àquilo
em que eles naturalmente ocorrem ou de que se predicam. Pois os
que näo tinham nenhuma coisa intermédia eram precisamente
aqueles em que, dada uma coisa capaz de os receber, era
necessário que um deles Lhe pertencesse (como nos exemplos da
doença e da saúde, do ímpar e do par). Por outro lado, no caso
dos contrários que têm entre si alguma coisa intermédia, näo é
nunca
Pois necessário
as coisas que um dos de
capazes dois os
pertença a todas
receber näo as
säocoisas.
todas
necessariamente ou brancas ou negras, ou quentes ou frias; pois
nada impede que alguma coisa intermédia entre estas Lhes
pertença. Além disso, os contrários que tinham entre si alguma
coisa intermédia eram precisamente aqueles em que, dada uma
coisa capaz de os receber, näo era necessário que um dos dois
Lhe pertencesse - exceptuando as coisas a que
um pertence por naturez a, como o ser quente pertenc e ao fogo e o
ser branco pertence à neve; e nestes casos é necessário que
definidamente um deles Lhe pertença, e näo um qualquer deles os
dois, pois näo é possível o fogo ser frio nem a neve negra.
Portanto, näo é necessário que um dos dois contrários perte nça a
tudo o quepor
pertence é natureza;
capaz de os
e,receber,
nestas, mas somente às coisas
é definidamente um quea tem
que de
um
pertencer e näo um qualquer deles os dois.
Mas nenhuma destas descriçöes é verdade da privaçäo e da posse.
Pois, por um lado, näo é sempre necessário que, dada uma coisa
capaz de as receber, uma das duas Lhe pertença, uma vez que um
ser para quem näo é ainda natural ter visäo nem é dito cego, nem
é dito ter visäo; de modo que a privaçäo e a posse näo podem ser
daquele tipo de contrários que näo têm entre si nenhuma coisa
intermédia. Mas, por outro lado, também näo säo daqueles que têm
entre si alguma coisa intermédia. Pois é necessário que, com o
tempo, uma das duas pertença a tudo o que é capaz de as

()
f 1
13a

10 receber. Pois quando , para um ser, já é natural que ele tenha


visäo, entä o dir-se-á ou que é cego ou que tem visä o - e näo
definidamente uma das duas coisas, mas uma qualquer delas; pois
näo é necessário que ele seja cego ou que tenha visäo, mas uma
qualquer das duas coisas. Enquanto, no caso dos contrários que
têm entre si alguma coisa intermédia, näo era nunca necessário
que um dos dois pertencesse a todas as coisas, mas ape
15 nas a algumas, e a estas era definidamente um que tinha de
pertencer.Portanto, é manifesto que as coisas que se opoem como
privaçäo e posse näo säo opostas de nenhum dos modos segundo os
quais os contrários o säo.
Além disso, no caso dos contrários, enquanto aquilo que é capaz
de os receber existir, é possível ocorrer mudança de um para o
outro, a menos
20 que um pertença por natureza a alguma coisa, como o ser
quente ao fogo. Pois é possível que o que é saudável adoeça, que
o que é branco se tome negro , e o que é frio, quente; e é também
possível
mau. (Poisque alguém que
a pessoa se tome
é má,mau
se em
forvez de bom ea bom
conduzida em vez
melhores de
formas
de viver e de falar, poderá progredir
5 alguma coisa, por pouco que seja, em direcçäo a ser melhor. E
se, por uma vez, fizer um pequeno progresso, é evidente que
poderá ou mudar completamente ou fazer um progresso muito
grande. Pois, por mais pequeno que tenha sido o progresso feito
no início, a pessoa toma-se cada vez mais fácil de mudar em
direcçäo à virtude, de modo que é natural que faça um progresso
ainda maior; e se isto continuar a acontecer, ela aca
30 bará fixando-se por completo no estado contrário, desde que o
tempo o näo impeça.) Mas, no caso da privaçäo e da posse, é
impossível ocorrer mudança de uma para a outra. Pois a mudança
ocorre da posse
impossível. Pois para a privaçäo,
alguém que se tormas da privaçäo para a posse é
35 nou cego näo recupera a visäo, nem um homem que é calvo
recupera o cabelo, nem a um que é desdentado Lhe crescem novos
dentes.
É evidente que as coisas que se opoem como afirmaçäo e negaçäo
näo
13b se opoem de nenhuma das maneiras acabadas de mencionar ; pois
somente nestas é necessário que sempre uma delas seja verdadeira
e a outra falsa. Pois no caso dos contrários näo é necessário
que sempre um deles seja verdadeiro e um deles falso, nem no
caso dos relativos, nem nos casos de
5 posse e privaçäo. A saúde e a doença, por exemplo, säo

contrários,
modo, o dobroe enenhuma
a metadedelas é verdadeira
opoem-se ou falsa;
como relativos do deles
e nenhum mesmo
é verdadeiro ou falso; e o mesmo se verifica nos casos de
privaçäo e posse, tais como a visäo e a cegueira. E, em geral,
nenhuma das coisas que säo ditas sem qualquer

13b

combinaçäo é verdadeira ou falsa; ora, todas as coisas


mencionadas säo ditas sem combinaçäo.
No entanto, poderia muito bem parecer que isto se verifica no
caso dos contrários que säo ditos por combinaçäo - pois
«Sócrates está com saúde» é o contrário de «Sócrates está
doente» -, mas em nenhum destes casos é necessário que sempre um
deles seja verdadeiro e um deles falso. Pois, se Sócrates
existir, um será verdadeiro e o outro falso, mas se näo existir,
seräo ambos falsos; pois nem «Sócrates está doente» nem
«Sócrates está com saúde» seräo verdadeiros se Sócrates näo
existir de facto. Nos casos de privaçäo e posse, se ele näo
existir de facto, nenhuma será verdadeira, e se ele existir, nem
sempre uma delas será verdadeira. Pois «Sócrates tem visäo» e
«Sócrates
existir deé facto,
cego» opoem-se
näo serácomo privaçäo que
necessário e posse, e se seja
uma delas ele
verdadeira ou falsa (pois enquanto näo for ainda natural para
ele ter visäo, ambas seräo falsas), mas se Sócrates de facto näo
existir, seräo também ambas - «Sócrates tem visäo» e «Sócrates é
cego» - falsas. Porém , nos casos de afirmaçäo e negaçäo, quer
ele exista quer näo, sempre uma será falsa e a outra verdadeira.
Pois, em «Sócrates está doente» e «Sócrates näo está doente», se
ele existir, é evidente que uma delas será verdadeira ou falsa,
e se ele näo existir, verifica-se o mesmo; pois, se ele näo
existir, «Sócrates está doente» será falsa, mas «Sócrates näo
está doente» será verdadeira. Portanto, será somente das coisas
que se opoem como afirmaçäo e negaçäo que é própria a
característica de sempre uma delas ser verdadeira ou falsa.
Capítulo 1 1

o contrário do bom é necessariamente mau (isto é manifesto por


induçäo a partir dos casos particulares: o contrário da saúde é
a doença, o contrário da justiça é a injustiça, o contrário da
coragem é a cobardia, e de
modo semelhante nos outros), enquanto o contrário do mau umas
vezes é bom, mas outras vezes é mau. Pois a deficiência é má e o
seu contrário é o excesso, que é também mau; mas o meio-termo é
o contrário de ambos e é bom. No entanto, säo poucos os casos em
que isto acontece; na maior parte, o contrário do mau é sempre

bom.
Além disso, quando um dos contrários existe, näo é necessário
que o outro exista também. Pois, se todos estivessem com saúde,
a saúde existiria, mas a doença näo. E, de modo semelhante, se
tudo fosse branco, a

14a
1 4t,

brancura existiria, mas a negrura näo. Além disso, se Sócrates


estar com saúde é o contrário de Sócrates estar doente, e näo é
possível pertencerem ambos simultaneamente à mesma pessoa, näo
será possível, quando existe um dos contrários, existir também o
outro; pois, se Sócrates estar com saúde existe, Sócrates estar
doente näo existirá.
15 Também é ma nifesto que, por natureza, os contrários ocorrem
na
mesma coisa (a mesma em espécie ou em género). Pois a doença e a
saúde ocorrem no corpo dos animais, a brancura e a negrura
ocorrem sim-
plesmente no corpo, e a justiça e a injustiça ocorrem na alma.
Todos
génerososcontrários
contráriosoutêm
serdeeles
ou pertencer ao mesmo
mesmos géneros. género
Pois ou ae o
o branco
negro pertencem ao mesmo género (uma vez que a cor é o género de
ambos), mas a justiça e a injustiça pertencem a géneros
contrários (uma vez que o género de uma é a virtude e o da outra
é o vício), enquanto o bom e o mau näo pertencem a um género,
mas eles mesmos säo efectivamente géneros de
s certas coisas.

Capítulo 12

Uma coisa é dita anterior a outra de quatro modos. Primeiro, e


mais propriamente, a respeito do tempo. É a respeito do tempo
que umao coisa
é por tempo éser
dita mais
mais velha
longo quee ela
maisé antiga do que
dita mais outra
velha (pois
e mais
antiga). Segundo, o que
3() näo reciproca quanto à implicaçäo da existência. Por
exemplo, um é anterior a dois. Pois, se existem dois, segue-se
de imediato que existe um; enquanto, se existe um, näo existem
necessariamente dois. Portanto, a implicaçäo da existência do
restante näo reciproca a partir de um; e aquilo a partir do qual
a implicaçäo da existência näo reci
5 proca parece ser anterior. Terceiro, uma coisa é dita
anterior a respeito de alguma ordem, como no caso dos
conhecimento e dos discursos. Pois nos conhecimentos
demonstrativos há, por ordem, um anterior e um posterior (pois

os
14belementos
mas, e nasäo, por ordem,
gramática anteriores
as letras aos diagraàs sílabas), e
säo anteriores
de modo semelhante no caso dos discursos (pois a introduçäo é,
por ordem, anterior à exposiçäo). Depois, além dos modos já
mencionados, o que é
5 melhor e mais estimado parece ser anterior por natureza. De
facto, as pessoas costumam dizer, acerca daqueles que elas mais
estimam e amam, que säo anteriores. Este é talvez, dos diversos
modos. o mais

Capítulo 13
14h

impróprio. Säo estes, por conseguinte, os modos de dizer que uma


coisa é anterior
Mas parece que, além dos já mencionados, poderá haver outro modo
de ser dito anterior. Pois, das coisas que reciprocam quanto à
implicaçäo da existência, aquela que é de alguma maneira causa
da existência
natureza. E é damanifesto
outra poderia com razäo
que existem ser dita
alguns casosanterior por
deste tipo.
Pois o facto de existir um homem reciproca quanto à implicaçäo
da existência com a declaraçäo verdadeira a seu respeito. Pois,
se existe um homem, a declaraçäo através da qual dizemos que
existe um homem é verdadeira; e reciprocamente: pois se a
declaraçäo através da qual dizemos que existe um homem é
verdadeira, entäo existe um homem. Mas a declaraçäo verdadeira
näo é de modo nenhum causa da existência da própria coisa, mas
seguramente a própria coisa parece de alguma maneira causa de a
declaraçäo ser verdadeira. Pois é por a própria coisa existir ou
näo que a declaraçäo é dita verdadeira ou falsa. Portanto, uma
coisa poderá ser dita anterior a outra de cinco modos.

Capítulo 13

Säo ditas simplesmente simultâneas, e mais propriamente, aquelas


coisas cuja geraçäo se dá ao mesmo tempo. Pois nenhuma delas é
anterior ou posterior. É entäo a respeito do tempo que elas säo
ditas simultâneas. Mas simultâneas por natureza säo aquelas que
reciprocam quanto à implicaçäo da existência, desde que nenhuma
delas seja de alguma maneira causa da existência da outra. Por
exemplo, o dobro e a metade. Pois estes recipr ocam (uma vez que,
se existe um dobro, existe uma metade, e se existe uma metade,
existe um dobro) e nenhum deles é causa da existência do outro.
Também as espécies coordenadas do mesmo género säo ditas

simultâneas por natureza.


resultam da mesma Säo por
divisäo, como ditas coordenadas
exemplo o voador,aquelas que
o pedestre
e o aquático. Pois estes pertencem ao mesmo género e säo
coordenados, uma vez que o animal se divide em voador, pedestre
e aquático. E nenhum deles é anterior ou posterior, mas as
coisas deste tipo parecem antes ser simultâneas por natureza.
Cada um deles - o pedestre, o voador e o aquático - poderá ser
ainda dividido em espécies. Por conseguinte, também aí, aquelas
que resultam da mesma divisäo do mesmo género seräo simultâneas
por natureza. Mas os géneros säo sempre anteriores às espécies,
pois näo reciprocam quanto à implicaçäo da existência. Por
exemplo, se existe o aquático,

10
()

n
15a

existe o animal, mas se existe o animal, näo existe


necessariamente o aquático.
simultâneas por natureza Por
as coisas conseguinte,
que reciprocamsäoquanto
ditasà
implicaçäo da existência (desde que uma näo
110 seja de maneira alguma causa da existência da outra) e as
espécies coordenadas do mesmo género. Mas simplesmente
simultâneas säo aquelas cuja geraçäo se dá ao mesmo tempo.

Capítulo 14

Existem seis espécies de mudança: geraçäo, destruiçäo, aumento,


diminuiçäo, alteraçäo e mudança de lugar. Quanto às restantes
mudanças,
15 é evidente que elas säo diferentes umas das outras (pois a
geraçäo näo é destruiçäo
säo diminuiçäo, e o mesmoe se
nemverifica
o aumento
comnem
as aoutras),
mudança mas
de lugar
no
caso da alteraçäo coloca-se a questäo de saber se näo será
necessário que, quando uma coisa se altera,
o seja em virtude de alguma das outras mudanças que ela é
alterada. Porém, isto näo é verdade. Pois quase todas as
afecçöes, ou pelo menos a maior parte, produzem em nós uma
alteraçäo sem que nenhuma das outras mudanças ocorra
conjuntamente. Pois o que é mudado em virtude de uma afecçäo näo
é necessariamente aumentado ou diminuído, nem sofre
necessariamente qualquer das outras mudanças, pelo que a
alteraçäo deverá ser
25 diferente delas. Pois, se fosse a mesma, uma coisa que se

altera deveria
ou alguma das imediatamente ser se
outras mudanças também aumentada
deveria seguir.ou Mas
diminuída
näo é
necessário que assim seja. Do mesmo modo, também aquilo que
aumenta ou que sofre alguma outra mudança deveria ser alterado.
Mas existem coisas que aumentam sem se
3() alterar. Um quadrado, por exemplo, é aumentado pela adiçäo
de um gnómon, sem que daí resulte qualquer alteraçäo. E o mesmo
se verifica nos outros casos deste tipo. Portanto, as mudanças
deveräo ser diferentes umas das outras.
15h A mudança em geral é o contrário de permanecer o mesmo.
Quanto às espécies particulares, a destruiçäo é o contrário da
geraçäo e a diminuiçäo é o contrário do aumento; enquanto à
mudança de lugar parece opor-se principalmente a permanência no
mesmo lugar, e talvez também a
5 mudança para o lugar contrário, tal como o movimento
ascendente se opöe ao descendente e o descendente ao ascendente.
Quanto à outra mudança da nossa lista, näo é fácil dizer qual é
o seu contrário. Ela parece näo ter contrário, a näo ser que
também neste caso se opusesse a

()()
15b
permanência na mesma qualificaçäo ou a mudança para a
qualificaçäo contrária, tal como no caso da mudança de lugar
opusemos a permanência no mesmo lugar ou a mudança para o lugar
contrário (pois a alteraçäo é uma mudança de qualificaçäo).
Portanto, à mudança de qualificaçäo opõe-se a permanência na
mesma qualificaçäo ou a mudança para a qualificaçäo contrária
(como o tornar-se branco se opõe ao tomar-se negro). Pois uma
coisa altera-se pela ocorrência de uma mudança para
qualificaçöes contrárias.

Capítulo 15

o ter é dito de diversos modos: como estado e disposiçäo ou


alguma outra qualidade (pois diz-se que temos conhecimento e
virtude); ou como quantidade, por exemplo a altura que alguém
tem (pois diz-se que tem uma altura de três côvados ou de quatro
côvados); ou como as coisas no corpo, por exemplo um manto ou
uma túnica; ou como numa parte, por exemplo um anel na mäo; ou
como uma parte, por exemplo uma mäo ou um pé; ou como num
recipiente, por exemplo a medida de trigo ou o jarro de vinho
(pois o jarro é dito ter vinho e a medida trigo, pelo que eles
säo ditos ter como num recipiente); ou como uma propriedade
(pois diz-se que temos uma casa e um campo). Também se diz que
temos uma mulher e que a mulher tem um homem; mas esta maneira

de
uma dizer
mulherque
näose queremos
tem parece seroutra
dizer a mais imprópria;
coisa pois
senäo que elecom ter
está
casado com ela. Talvez se possam ainda descob rir outros modos de
ter, mas os que se costumam dizer foram quase todos enumerados.

10

15
tn
Anexos

Comentário
Glossário
Bibliografia
ARISTÓTELES: CATEGORIAS: comentário

Capítulo I

[Coisas homónimas, sinónimas e parónimas

1a1-12( .Chamam-se
definiçäo. ) homónimas as coisas que... daremos a mesma

Esta passagem pode naturalmente confundir o leitor moderno, uma


vez que os termos < homónimo , «sinónimo e < parónimo possuem
actualmente um significado diferente daquele com que ocorrem no
texto de Aristóteles. Para nós, aqueles termos designam
categorias gramaticais e säo utilizados para classificar grupos
de palavras de acordo com as relaçöes que entre si se verificam.
Mas Aristóteles utiliza-os para classificar coisas, e näo
palavras .
Quando se dá um mesmo nome a diversas coisas é natural supor que
essas coisas possuam alguma natureza idêntica (cf. Platäo,
República,
dos casos, 596a).
embora Enäoefectivamente,
em todos pois isso acontece
em alguns na omaior
casos nome,parte
apesar de ser o mesmo, é usado com sentidos diferentes. A
distinçäo entre coisas sinónimas e homónimas pretende captar
precisamente estas duas possibilidades. Säo sinónimas as coisas
que têm o mesmo nome e a mesma definiçäo, enquanto as coisas
homónimas säo aquelas em que à comunidade de nome näo cor
responde identidade de definiçäo.
A definiçäo de uma coisa x é dada pela resposta à pergunta o
que é x?" e constitui, portanto, a expressäo da sua essência.
Mas assim como uma coisa pode ter diversos nomes, també m, para a
mesma coisa, podem ser dadas diversas definiçöes. Considere-se
um determinado homem: além do seu nome próprio (por exemplo,

<Sócrates
adjectivos ),
quesäo também
dele seus nomes
se predicam, todos
tais comoos substantivos
homem e
animal
branco ateniense , etc. Por outro lado, se o quisermos definir,
podemos defini-lo como homem (dizendo, por exemplo, que ele é um
animal terrestre bípede), mas também como animal (dizendo, por
exemplo, que ele é um ser vivo dotado de percepçäo). Por isso é
que Aristóteles, nesta passagem, menciona sempre a definiçäo do
ser que corresponde ao nome" (compare se, porém, com 3b7-8).
Dadas duas coisas com o mesmo nome, para se determinar se elas
säo sinónimas ou simplesmente homónimas, é necessário comparar
as respectivas definiçöes, mas, além disso, as definiçöes que
têm de ser comparadas säo aquelas que correspondem ao nome em
causa. Se o no me for F , a perg unta que tem de ser feita a
respeito de cada uma delas é, entäo, a seguinte: o que é, para
x, ser um F? . Determinar-se-á assim se o nome se aplica nos
dois casos com o mesmo sentido ou com sentidos diferentes.
Daqui se vê que, apesar de a distinçäo de Aristóteles se referir
primeiramente às coisas e näo às palavras, dela pode ser
derivada uma distinçäo correspondente entre nomes unívocos e
nomes equívocos. o exemplo que Aristóteles apresenta de um nome
equívoco näo pode ser traduzido para português, mas facilmente
se encontram
(nome na nossa
de uma peça língua exemplos
de vestuário e também correspondentes: capa
de uma letra), folha
(de uma árvore ou de um livro), etc.
A importância das noçöes de sinonímia e homonímia para a teoria
das categorias tornar-se-á manifesta sobretudo nas passagens
2a19-34 e 3a33-b9. A sinonímia é uma propriedade da relaçäo de
predicaçäo (introduzida nos caps. 2-3): se P se predica de um
sujeito S, entäo tanto o nome como a definiçäo de P se predicam
também de S; por conseguinte, P e S seräo coisas sinónimas. A
homonímia ocorre em certos casos excepcionais de inerência (em
que uma coisa Q existe num sujeito S), de que é apresentado em
2a29 34 o exemplo do branco.

1a12-15 ( <Chamam-se parónimas as coisas que... recebe o seu


nome da coragem.")

As coisas parónimas säo aquelas cujo nome deriva de alguma outra


coisa, através de uma alteraçäo na terminaçäo do nome desta
outra coisa. Assim, o corajoso deriva o seu nome da coragem, com
uma diferença na terminaçäo do nome desta. Diz se, entäo, que o
corajoso é paronimicamente chamado a partir da coragem. Esta
relaçäo de derivaçäo é uma relaçäo de certo modo causal: o
corajoso deriva o seu nome da coragem, porque é por causa da
coragem (que possui) que ele é chamado corajoso (e näo o
inverso). Do mesmo modo, o branco e o justo säo assim chamados
por causa da brancura e da justiça (que possuem ou que neles

existe) (cf. 10a30-32).


Mas é importante observar que nem toda a relaçäo de derivaçäo é
paronímica. Aristóteles dá o exemplo do homem bom, que é assim
chamado por possuir a virtude, mas que näo é um parónimo (uma
vez que näo há qualquer semelhança entre os nomes bom e
virtude ) (10b5-9). E é ainda referido o caso de uma coisa ser
chamada a partir de outra que näo tem nome (cf. 10a32-b2);
também aqui há derivaçäo, mas näo paronímia.
o interesse de Aristóteles pela paronímia prende-se directamente
com a teoria das categorias. A atribuiçäo de qualidades,
quantidades, etc., às substâncias envolve frequentemente o uso
da paronímia. Um homem, por exemplo, é uma substância, e a
justiça é uma qualidade; mas, se queremos atribuir esta
qualidade àquele homem, näo dizemos que o homem é justiça, mas
que ele é justo.
Capítulo 2: [Expressöes simples e complexas; classificaçäo das
coisas existentes em quatro grupos (segundo os critérios «ser
dito de um sujeito» e «existir num sujeito»)]

1a16-19 (. Das expressöes que dizemos... 'corre', 'vence'.")

Esta distinçäo
expressöes entre(com
complexas expressöes simples
combinaçäo) (sem uma
constitui combinaçäo) e
preparaçäo
para o cap. 4, onde Aristóteles introduzirá a lista das dez
categorias afirmando que cada expressäo simples significa uma
coisa pertencente a uma das categorias (1b25-27). A noçäo de
combinaçäo a que recorre encontra-se exposta no Sofista de
Platäo, onde se diz que uma frase resulta da combinaçäo de um
nome com um verbo (cf. 262a-d), com o que os exemplos dados por
Aristóteles concordam. Expressöes sem combinaçäo deveräo ser,
portanto, os nomes e os verbos quando ditos isoladamente. Aliás,
Aristóteles considera que um verbo, quando é dito isoladamente,
é também um nome (cf. De Interpretatione, 16b19-20). É óbvio que
os próprios nomes envolvem combinaçäo de sílabas e estas
combinaçäo de sons elementares,
vista a combinaçäo mas que
de elementos Aristóteles
têm portem
si somente
mesmos emum
significado (ainda que convencional). Deve, todavia, observar-se
que nem toda a combinaçäo de expressöes simples produz frases
declarativas do tipo das que Aristóteles menciona ( o homem
corre", o homem vence ), isto é, a firmaçöes (ou negaçöes) que
säo verdadeiras ou falsas (cf. 2a4-10). Pois há também
expressöes como homem branco ou Fecha a porta! que envolvem
combinaçäo e, no entanto, näo säo verdadeiras nem falsas.

1a20-b9 ( Das coisas que existem... é algo que exíste num


sujeito.")

É apresentada
existentes nestagrupos.
em quatro passagem uma classificaçäo
A classificaçäo das através
é efectuada coisas

da combinaçäo de do is critérios: ser dito de um suj eito" e


existir num sujeito". Antes de mais, é necessário esclarecer a
natureza dos próprios critérios utilizados.
SER dito DE UM SUJEITO. os exemplos apresent ados de coisas ditas
de um sujeito säo apenas dois: o homem (que é dito de um certo
homem e pertence ao primeiro grupo) e o conhecimento (que é dito
da gramática e pertence ao terceiro grupo). Em vez de «ser dito
de um sujeito, , Aristóteles utiliza muitas vezes a expressäo
«ser predicado de um sujeito , mas as duas säo equivalentes. É
importante notar que, de acordo com esta passagem, aquilo que é
dito (ou predicado) de um sujeito é, näo um nome ou qualquer
outra entidade linguís tica, mas uma coisa existente. Portanto, a
expressäo ser dito de", no seu sen tido primeiro, designa uma
relaçäo ontológica - entre coisas, e näo linguística. Há, no
entanto, também um sentido derivado em que ela se utiliza para
designar a atribuiçäo de um nome a uma coisa. Estes dois
sentidos estäo bem manifestos quando, no cap. 5, Aristóteles
afirma que se uma coisa é dita de um sujeito, entäo o nome dessa
coisa é também
portanto, necessariamente
se homem se diz de um predicado do sujeito (2a19-21);
certo homem
por exemplo, de Sócrates -, entäo o nome homem predica-se
também necessariamente de Sócrates. Terá sido talvez devido a
este facto que Ar istóteles adoptou a expressäo ser dito de
para designar uma relaçäo que, sendo primariamente ontológica,
implica no entanto também uma relaçäo linguística. Porém, a
implicaçäo näo é recíproca, pois nem todos os nomes que se
predicam (linguisticamente) de um sujeito significam coisas que
se predicam (ontologic amente) desse sujeito. Por exemplo, o nome
branco predica-se de Sóc rates, ma s o branco (i. e., a cor
branca) näo se predica dele, pois Sócrates näo é uma cor; de
modo semelhante, o nome justo predica-se de Sócrates, mas a
justiça (que énäo
pois Sócrates significada pelo As
é uma virtude. nome justo
coisas que) säo
näoditas
se prou
edica,
que
se predicam (ontologi camente) de um sujeito säo todas aquelas, e
somente aquelas, que constituem a sua essência. ou seja, säo
ditas de um sujeito S as coisas que podem ser mencionadas numa
definiçäo de S (i. e., na resposta à pergunta «o que é S?").
Mas nem todos os nomes que se predicam de um sujeito o definem,
pois alguns apenas o qualificam, outros quantificam-no, outros
ainda indicam uma relaçäo que ele tem com alguma outra coisa,
etc. A diferênciaçäo entre a predicaçäo ontológica e a
predicaçäo linguística será feita, tanto no comentário como na
traduçäo, através do uso de aspas, ausentes do texto srcinal,
para indicar a mençäo a um nome.

De acordo
ditas comsujeito
de um a última
näofrase da passagem,
säo nunca as coisas
individuais que säo
e numericamente
umas . Homem e conhecimento näo säo coisas individuais porque,
além de serem ditos, respectivamente, de um certo homem (por
exemplo, de Sócrates) e da gramática, säo também ditos de muitas
outras coisas, a saber, de outros homens e de outros
conhecimentos. As coisas ditas de um sujeito säo, portanto,
universais (cf. De Interpretatione, 1 7a38-b1). A língua grega,
por näo possuir artigo indefinido, dificulta muitas vezes a
diferênciaçäo entre o universal e o individual - entre, por
exemplo, o cavalo e um cavalo. Para superar esta dificuldade,
Aristóteles recorre normalmente à expressäo um certo (ou
<algum ) para designar um indivíduo ou coisa individual de uma
determinada espécie. ora, a distinçäo entre o universal e o
individual é precisamente a distinçäo que a relaçäo ser dito de
permite fazer. Como vimos, as coisas que säo ditas de um sujeito
säo universais. E, quanto ao sujeito de que elas säo ditas, ele
pode ser universal ou individual: será universal quando ele
mesmo puder ser dito de um outro sujeito; e será individual
quando näo houver nenhum outro sujeito do qual ele possa ser
dito. Assim, as coisas incluídas no primeiro e no terceiro grupo
säo universais,
incluídas enquanto
as coisas no segundo
individuais. e no quarto
os universais grupos
säo as estäoe
espécies
os géneros a que os indivíduos pertencem.
EXISTIR NUM SUJEITO. os exemplos apresentados de coisas que
existem num sujeito säo os seguintes: um certo conhecimento
gramatical (que existe na alma) e um certo branco (que existe no
corpo) (ambos no segundo grupo), e o conhecimento (que existe na
alma e pertence ao terceiro grupo). Relativamente à relaçäo
existir num sujeito ,, além dos exemplos, é dada também uma
explicaçäo: as coisas que existem num sujeito (a) näo säo as
partes desse sujeito e (b) näo podem existir separad amente desse
sujeito. A primeira condiçäo compreende-se facilmente através
dos exemplos mencionados: um certo branco existe no corpo, mas
näo é uma parte
inerência de um do corpo,
certo comonum
branco umacorpo
mäo ou um pé (cf.
é distinta do 15b23).
tipo deA
inerência que se verifica entre uma parte e o todo de que ela é
parte (cf. 3a29-32). A condiçäo da inseparabilidade implica que
a relaçäo de inerência envolve uma dependência ontológica das
coisas que existem num sujeito relativamente ao sujeito em que
existem: se näo houvesse nenhuma alma näo poderia existir
conhecimento, porque o conhecimento näo pode nem existir por si
mesmo nem existir em qualquer outra coisa que näo seja a alma;
do mesmo modo, se näo houvesse nenhum corpo, nenhum branco
poderia existir, porque toda a cor existe num corpo (1a28).
Enquanto as coisas que säo ditas de um sujeito constituem a sua
essência, as que existem num sujeito säo coisas que ele tem em

si (ou que Lhe


conhecimento, por pertencem, ou que
exemplo, existe Lhe acontecem,
na alma, etc.).
mas näo é dito da o
alma, pois a alma tem conhecimento, mas näo é um conhecimento.
Este é, portanto, um caso de inerência e näo de predicaçäo
ontológica. Mas a relaçäo de inerência srcina, na maior parte
das vezes, uma predicaçäo linguística por paronímia: a alma, por
exemplo, em virtude de ter conhecimento, é dita conhecedora .
o sujeito de que uma coisa é dita pode também, como vimos, ser
ele próprio dito de alguma outra coisa (o género é dito da
espécie e esta é dita do indivíduo). Mas na relaçäo «existir em
o mesmo já näo se verifica: o sujeito no qual uma coisa existe
näo pode, por sua vez, existir nalguma outra coisa. Näo podendo
existir em nenhuma outra coisa, resta-lhe existir por si mesmo.
o que a relaçäo existir em permite entäo distinguir é as
coisas que existem noutras das coisas que existem por si mesmas,
ou, na terminologia que será adiante introduzida, as
näo-substâncias (quantidades, qualidades, relativos, etc.) das
substâncias. A característica comum a todas as substâncias é
precisamente näo existirem em nenhum sujeito (cf. 3a7-8). Em
todos os exemplos de coisas que existem num sujeito, este
sujeito é uma substância

11
(a alma, apesar de ser uma parte dos seres vivos, näo existe
neles, porque Aristóteles distinguiu este tipo de inerência da
inerência da parte no todo).
SUJEITO. Aristóteles näo oferece qualquer explicaçäo da noçäo de
sujeito. A palavra grega que traduzimos por sujeito significa
literalmente o que subjaz" (o que está debaixo ou que serve de
base) e no texto é também utilizado o verbo correspondente (em
2b15, 2b19 e 2b38). E provavelment e este significado literal que
Aristóteles tem em vista. o sujeito é aquilo que serve de base a
outras coisas, no sentido em que estas ou existem nele ou säo
ditas dele. Embora seja óbvia a proximidade entre as noçöes de
sujeito
vez que eAristóteles
de substância, seria
explica estaincorrecto identificá-las,
por aquela e afirma que uma
as
substâncias (no seu sentido primeiro) säo os sujeitos de todas
as outras coisas (cf. 2b15-16, 2b37-38). Portanto, enquanto
«substância deve ser considerado um termo técnico da teoria
aristotélica, a palavra sujeito deve possuir um sentido vulgar
compreensível por quem ainda näo conhece o termo substância .
Além disso, Aristóteles näo reserva a funçäo de sujeito somente
para as substâncias: em 1b3, a gramática é referida como um
sujeito (do qual o conhecimento é dito).
os QUATRo GRUPoS. As quatro combinaçöes possíveis dos critérios
ser dito de um sujeito e existir num sujeito , nas suas formas
afirmativa e negativa, definem quatro grupos distintos de coisas

existentes.
dito de algumNasujeito
explicaçäo doscoisas
säo as critérios, vimos ;já
universais o que: o que
que näo é
é dito
de nenhum sujeito säo as coisas individuais; o que existe num
sujeito säo as näo-substâncias; e o que näo existe em nenhum
sujeito säo as substâncias. A combinaçäo dos critérios
permite-nos entäo construir o seguinte diagrama (geralmente
conhecido por < quadrado ontológico

näo existem em
coisas que nenhum sujeito existem num sujeito

säo ditas de t i,,ias universais [ l ]: näo substâncias


universais [3]:
algum sujeito o Homem o conhecimento
näo säo ditas de substâncias individuais [4]: näo-substâncias
individuais [2]: h um certo homem, um certo
conhecimento gramatical
nenhum sujeito um certo cavalo um certo branco

Tradicionalmente, as näo-substâncias säo designadas por


«acidentes (universais
nunca Lhes seja atribuídae noindividuais), embora esta
texto das Categorias (que designaçäo
se Lhes
refere sempre como «as coisas que existem num sujeito ). os
acidentes säo definidos nos Tópicos, 102b6-7 como «aquilo que
pode pertencer e näo pertencer a qualquer uma e mesma coisa (v o
branco e o estar sentado), ou seja, como propriedades
näo-necessárias de um sujeito. Mas näo é claro que todas as
coisas que existem num sujeito sejam propriedades
näo-necessárias desse sujeito. Em 12b37-41, Aristóteles menciona
os casos do quente e do branco, que existem, respectivamente, no
fogo e na neve e, no entanto, säo propriedades que Lhes
pertencem necessariamente. Mantemos, por isso, a designaçäo de
«näo-substâncias .
o quadrado
realidade em ontológico
quatro tipos apresenta
de ser, masumanäo
classificaçäo
esclarece as de toda a
relaçöes
que entre eles se verificam. As coisas universais säo ditas de
um sujeito e as näo-substâncias existem num sujeito, mas resta
saber a que grupo pertencem os sujeitos de que aquelas säo ditas
e em que estas existem.
A relaçäo ser dito de" é uma relaçäo intracategorial: as
substâncias säo ditas de outras substâncias e as näo-substâncias
säo ditas de outras näo-substâncias (e, dentro das
näo-substâncias, as quantidades säo ditas de quantidades, as
qualidades de qualidades, etc.). Isto é assim porque a relaçäo
«ser di to de é uma relaçäo definitória. or a, aq uilo qu e
pertence a uma categoria só pode ser definido pelas espécies e

géneros dessa
substâncias mesma categoria
universais às quais
ou säo ditas umas pertence. Portanto,
das outras as
(i. e., cada
género dito das suas espécies) ou säo ditas das substâncias
individuais; e o mesmo acontece com as näo-substâncias.
A relaçäo existir em é, quanto a este aspecto, mais difícil de
interpretar. É certo que se trata sempre de uma relaçäo de
inerência de näo-substâncias em substâncias, mas näo é claro
quais säo as relaçöes possíveis. Parece haver neste caso um
conflito entre aquilo que Aristóteles declara e os exemplos que
dá. De acordo com a condiçäo da inseparabilidade estabelecida em
1a24-25, nenhum universal poderia existir numa substância
individual. o conhecimento, por exemplo, näo pode existir num
certo homem, uma vez que pode haver conhecimento sem esse homem
individual. o que existe num certo homem é, entäo, um certo
conhecimento, ou seja, um conhecimento individual único e
irrepetível, de tal modo que se um outro homem adquiri sse também
um conhecimento semelhante acerca da mesma coisa, este näo seria
nunca o mesmo conhecimento. Todavia, em 2b1-2, Aristóteles
afirma que «a cor existe no corpo e, portanto, também num certo
corpo , quando o que deveria existir num certo corpo seria uma
cor individual, cuja existência fosse inseparável desse corpo
individual.
consistir a Por outro lado,
inerência de umatambém näo se individual
propriedade vê bem em que
numapoderá
espécie
ou num género de substância. No entanto, em 3a1-6, Aristóteles
afirma que tudo o que existe num indivíduo existe também na
espécie e no género a que ele pertence. Por conseguint e, sabemos
que as näo-substâncias existem em (e somente em) substâncias,
mas a questäo de saber quais é que existem em quais é de difícil
resoluçäo. Relacionado com isto poderá estar o facto de a
distinçäo entre näo-substân cias universais e individuais, apesar
de expressamente estabelecida no cap. 2, tender a ser esquecida
na sequência do texto.
DEPENDÊncia ontológica. As relaçöes < ser dito de e «existir em
, que constituem as duas relaçöes ontológicas básicas e
irredutíveis que estruturam
(como será argumentado toda 5)a dependência
no cap. realidade, implicam ambas
ontológica. o
conceito de dependência ontológica é sem dúvida um dos conceitos
centrais da teoria das categorias, e tem como seu correlato o
conceito de sujeito. Säo considerados dois tipos de dependência:
a dependência dos universais relativamente aos indivíduos e a
dependência das näo-substâncias relativamente às substâncias.
Estes dois tipos de dependência converg iräo entäo na dependência
de todas as coisas relativamente às substâncias individuais,
cuja primazia- precisamente enquanto sujeitos constitui a
principal tese que Aristóteles defende nas Categorias.

Capítulo 3 [Transitividade da relaçäo «ser dito de»; diferenças

de géneros subordinados e näo-subordinados


1b10-15 (< Sempre que uma coisa se predica... e também um
animal. ")

Esta passagem estabelece a transitividade da relaçäo <ser dito


de um sujeito . Se A é dito de B, e B é dito de C, entäo A é
dito de C. Tudo o que é dito da espécie é também dito dos
indivíduos que pertencem a essa espécie, tal como tudo o que é
dito do género é também dito das espécies que pertencem a esse
género e dos indivíduos que pertencem a essas espécies, e assim
sucessivamente até aos géneros supremos.
Aristóteles usa indiferentemente as expressöes «ser dito de e
«ser predicado de"
1b16-24 ( As diferenças de géneros distintos... seräo também
diferenças do sujeito. )

A relaçäo que existe, em cada categoria, entre os indivíduos e


as espécies, e entre as espécies e os géneros, verifica-se
também entre os géneros inferiores e os géneros superiores. Um
género é subordinado
(ou subgéneros) a outro
em que estequando é um dosA géneros
se divide. inferiores
referência, nesta
passagem, ao conhecimento como um género indica que o esquema
classificatório indivíduos-espécies-géneros se aplica também às
outras categorias que näo a da substância.
Aristóteles usa aqui, pela primeira vez nas Categorias, o
conceito de diferença. A diferença é aquilo que divide o género,
definindo uma espécie (ou um subgénero) desse género; racional,
por exemplo, poderá ser a diferença que divide o género animal,
definindo a espécie homem (o homem diferência-se das outras
espécies animais por ser racional). o estatuto categorial das
diferenças é uma das questöes a que as Categorias näo däo
resposta suficiente (cf. 3a21-28).
A mesmaé coisa
deles näo pode ser
um subgénero diferença
do outro. de dois géneros
Aristóteles se nenhum
limita-se aqui a
afirmar este princípio, mas nos Tópicos (144b12-20) apresenta a
seguinte justificaçäo: se dois géneros, nenhum dos quais é
subordinado ao outro, tivessem a mesma diferença, entäo a mesma
espécie pertenceria também a ambos (pois a diferença predica-se
de uma espécie e os géneros predicam-se daquilo de que a
diferença se predica). Numa passagem anterior dos Tópicos
(107b19-26), é referido um exemplo que aparentemente viola este
princípio: agudo é uma diferença de voz e também de sólido (e
também, podemos acrescentar/ de angulo). Trata-se porém de um
caso de simples homonímia, pois a diferença tem em ambos os
géneros o mesmo nome, mas a sua definiçäo näo é a mesma.

Mas quando um
diferenças de género é subordinado
um sejam a outro jádoé outro.
também diferenças possívelA que as
última
frase da passagem, tal como se encontra formulada e no contexto
em que se insere, sugere a seguinte leitura: se A é um subgénero
de B, entäo B predica-se de A; ora, de acordo com a
transitividade da relaçäo de predicaçäo, tudo o que se predica
de B predicar-se-á também de A; portanto, as diferenças de B
seräo também diferenças de A. Este argumento supöe que as
diferenças de um género G se predicam de G. Porém, isto näo
acontece com os exemplos anteriormente apresentados: pedestre é
uma diferença de animal e predica-se de um subgénero de animal,
mas näo de animal.
A palavra <diferença é susceptível de uma ambiguidade no seu
uso. A diferença de um género pode ser aquilo que o divide em
subgéneros ou espécies subordinadas, ou pode também ser aquilo
que o define (no primeiro sentido, racional é uma diferença de
animal, mas, no segundo sentido, racional é a diferença de
homem); só no segundo sentido é que as diferenças de um género
se predicam desse mesmo género. Portanto, o argumento da última
frase da passagem só é válido se tomarmos «diferença no sentido
de diferença definitória. Mas os exemplos apresentados nas
linhas anteriores
que teremos, neste säo exemplos
caso, de diferenças
de concluir divisórias,
que Aristóteles pelo
transita
inadvertidamente de um para o outro sentido de diferença.

outra soluçäo possível consiste em considerar que o argumento


(ao contrário do que o contexto sugere) näo se apoia no
princípio da transitividade e que as expressöes «do género
predicado e «do sujeito se encontram, na última frase,
trocadas. Neste caso, näo haveria ambiguidade no uso da noçäo de
diferença (Aristóteles teria unicamente em vista o sentido
divisório de diferença), mas seriam as diferenças do subgénero
que säo também diferenças do género a que ele se subordina, e
näo o inverso. Por exemplo, pedestre é uma diferença do género
animal e define
divide-se um seu subgénero;
em géneros este subgénero,
ainda inferiores, por sua
de acordo vez,
com as
diferenças bípede, quadrúpede , etc. ora, bípede e quadrúpede säo
diferenças do subgénero animal pedestre, mas também do género
animal
Capítulo 4 [As dez categorias]

1b25-2a4 («Das expressöes que säo ditas... 'ser cortado', 'ser


queimado '. )

Sendo a teoria das categorias um elemento essêncial da filosofia


aristotélica, säo muitas as obras e as passagens onde
Aristóteles a apresenta. Do estudo dessas passagens conclui-se

que as da
análise categorias säo os géneros
presente passagem supremos
permite chegar da realidade.
à mesma conclusäo. A
A distinçäo entre expressöes simples e complexas foi apresentada
em 1a16-19. Expressöes como «homem , «boi , «corre", < vence"
säo simples na medida em que nenhum dos elementos que as
constituem (por exemplo, as sílabas) possui por si só
significado. (Deve observar-se que, diferentemente do que se
verifica na traduçäo, as expressöes com que Aristóteles
exemplifica as diversas categorias säo todas formadas por uma
única palavra, ap enas co m as ex cepçöes de «no Liceu e «na
praça".) As expressöes simples säo, portanto, as mínimas
unidades significantes de que é composta a linguagem. Pöe-se
agora a questäo de saber o que cada uma delas significa. A
resposta mais óbvia consistiria seguramente em dizer que, como
regra geral, expressöes simples diferentes significam coisas
também diferentes. o nome «homem ,, por exemplo, significa
aquela espécie de animais bípedes a que tanto o autor como o
leitor destas linhas pertencem; o verbo «c orre significa uma
espécie de movimento que é característico dos animais pedestres;
e assim por diante. Qual é, entäo, o interesse que há em nos
interrogarmos sobre o significado das expressöes linguísticas
simples
com ela no seu conjunto?
conseguirmos Esta
reunir interrogaçäo
grupos só se que
de expressöes justifica se
significam
algo de comum. Por exemplo, o nome «homem , precisamente por
significar um animal bípede, significa também um animal; e este
último significado, ela tem-no em comum com uma série de outras
expressöes, tais como «boi , «cavalo , «andorinha , etc. Cada
uma destas expressöes significa um animal e, além disso, porque
todos os animais säo

seres vivos, também é verdade que cada uma delas significa um


ser vivo. Este último significado, porque é mais abrangente,
permite juntar
mencionámos, num uma
também mesmo
sériegrupo, além por
de outras- dasexemplo,
expressöes
todas que
as
expressöes que signifiquem plantas. Estes exemplos
aproximam-nos, entäo, do objectivo de Aristóteles na presente
passagem: trata-se de determinar as mais gerais «coisas comuns
significadas pelas expressöes linguísticas simples. Estas
«coisas comuns säo precisamente as cat egorias (substância,
quantidade, etc.), a que Aristóteles chama, em 11a38, «géneros
(cf. também 11b15). Tal classificaçäo dos géneros deverá ser
completa, de modo a näo deixar de fora nenhuma expressäo
simples, o que significa que näo deverá haver nenhuma expressäo
simples cujo significado näo se integre em pelo menos um dos
géneros.

As categorias
géneros säo entäo as
a que pertencem apresentadas, nesta passagem,
coisas significadas como os
pelas expressöes
linguísticas simples. Desta classificaçäo dos géneros pode
evidentemente derivar-se uma classificaçäo correspondente das
próprias expressöes: expressöes que significam uma substância,
expressöes que significam uma quantidade, etc. Mas näo é este o
objectivo principal de Aristóteles. o que ele pretende
classificar säo as coisas significadas, e näo as expressöes que
as significam. o que equivale a, tomando a linguagem como guia,
efectuar uma classificaçäo dos géneros mais elevados de toda a
realidade.
É da natureza dos géneros dividirem-se em espécies, que por sua
vez se dividem em outras espécies inferiores, e assim por diante
até às últimas espécies, que se dividem em indivíduos.
(Repare-se que a palavra grega que traduzimos por «indivíduos"
ou «coisas individuai s", por exemplo em 1b6 e 3a34-b7, significa
literalmente «indivisíveis .) Deste modo, qualquer expressäo que
signifique um indivíduo, significa também as espécies e géneros
a que esse indivíduo pertence. o nome «Sócrates , por exemplo,
significa o indivíduo Sócrates, e porque este é um homem, um
animal, um ser vivo e uma substância, todas estas coisas säo
também significadas
os exemplos pelo nome «Sócrates
de expressöes simples . Todavia,
que em todos
apresenta, o que
Aristóteles procura determinar é o género mais elevado que por
elas é significado. As categorias säo, näo apenas géneros, mas
géneros supremos, isto é, géneros tais que näo existe nenhum
outro superior a eles, ao qual eles pertençam ou estejam
subordinados .
A teoria das categorias é, por isso, indissociável de uma das
mais importantes teses da filosofia aristotélica, que é a da
homonímia do ser (e correspondente equivocidade do nome «ser
Esta tese näo se encontra expressa nas Categorias, mas näo há
qualquer motivo para näo considerarmos que ela se encontra
pressuposta. Muitos dos leitores das Categorias, quando
confrontados
elevados a quecom a questäo
pertencem todasdeas saber
coisasquais os significadas
que säo géneros mais
por expressöes simples, responderiam que esses géneros se
reduzem todos a um único, que é o do ser. Efectivamente, todas
as expressöes simples significam um ser, de modo que o ser é o
que há de mais comum. A razäo por que Aristóteles näo aceita
reduzir as categorias ao género supremo do ser é a de que, para
ele, o ser näo é um género. os géneros predicam-se
sinonimicamente de todas as coisas que Lhe estäo subordinadas,
mas isso näo acontece com o ser. Um animal e uma cor, por
exemplo, säo ambos seres, mas näo no mesmo sentido. o nome «ser
aplica-se a ambos, mas com significados diferentes, pois no
primeiro caso falamos de uma substância, enquanto no segundo

falamos de uma qualidade.


näo sinonímica. A relaçäo
Pelo contrário, é, dizemos
quando portanto,
de homonímica
um homem e e
de
um cavalo que säo ambos animais, ou que säo ambos substância s, o
significado é em ambos os casos o mesmo. Por conseguinte, as
categorias, embora sejam todas elas seres, näo estäo
subordinadas ao ser como as espécies estäo a um género. Elas
constituem antes os diversos significados do ser, e säo elas os
géneros supremos a que todos os seres pertencem.
Por que é que os géneros supremos säo chamados «categorias ? De
facto, embora também se Lhes refira com outras designaçöes, o
nome «c ategorias é sem dúvida, no co njunto da s obras de
Aristóteles, o mais usado para designar a substância, a
quantidade, etc. Aliás, na presente obra, elas säo também assim
designadas em 10b 19-23. A palavra «categorias é a simples
transliteraçäo de um substantivo formado a partir de um verbo
que, no vocabulário aristotélico, tem o sentido bem determinado
de predicar; «categorias significa, portanto, predicados
(aliás, a palavra ocorre com este sentido em 3a34-37). Que
sentido faz, entäo, chamar «predicados aos géneros supremos de
todas as coisas? A resposta é simples: uma vez que os géneros se
predicam de todas as espécies e indivíduos que Lhe estäo
subordinados, entäo as
que todas as coisas categorias,
pertencem, sendo ostambém
predicam-se géneros
de supremos a
todas elas.
Cada coisa existente é ou uma substância ou uma quantidade ou
uma qualidade, etc. Portanto, as categorias constituem os
predicados últimos de todas as coisas. o facto de Aristóteles
considerar que as substâncias säo, no sentido primeiro e
principal do termo, as coisas que näo säo ditas de um sujeito
nem existem num sujeito (cf. 2a11-14) näo contradiz em nada esta
interpretaçäo das categorias como predicados. Pois a substância,
enquanto categoria, é o género supremo a que todas as
substâncias primeiras (i. e., individuais) pertencem e, por
isso, como género que é, a substância predica-se delas.
De que modo poderá Aristóteles ter chegado à determinaçäo dos
géneros supremos?
importantes para umao resposta
texto das Categorias
a esta pergunta.fornece indicaçöes
Em primeiro lugar, no cap. 5, Aristóteles procura provar que as
substâncias primeiras säo sujeitos de todas as outras coisas, no
sentido em que todas as outras ou säo ditas delas ou existem
nelas (cf. 2a34-b5). ora, isto significa que as substâncias
primeiras constituem a chave para uma classificaçäo completa de
todas as coisas. As coisas que säo ditas das substâncias
primeiras säo também elas substâncias (embora em menor grau).
Portanto, tanto as substâncias primeiras como as coisas que säo
ditas delas pertencem a um mesmo género, o das substâncias.
Encontrado o primeiro e principal género supremo, resta entäo
classificar as coisas que existem nas substâncias primeiras,

procurando determinar
necessário proceder os análise
a uma seus géneros. Para o
dos diferentes fazer,
modos será
possíveis
de
existir numa substância primeira (como sua quantidade, como sua
qualidade, etc.).
Em segundo lugar, este mesmo tipo de procedimento é confirmado
pela forma gramatical dos exemplos com que Aristóteles ilustra
(em 1b27-2a4) cada uma das categorias. Aliás, referi mos já que o
modo como as categorias säo introduzidas neste cap. 4 sugere
fortemente que, para o seu estabelecimento, Aristóteles se tenha
guiado pela linguagem. ora, verifica-se que somente os exemplos
de substâncias säo dados por meio de substantivos, enquanto as
restantes categorias säo exemplificadas com adjectivos,
advérbios e verbos, ou seja, tipos de expressöes que säo
normalmente, numa frase declarativa simples, ditas ou predicadas
de substantivos. Em vez de «branco e «gramatical , Aristóteles
poderia ter men cionado a «brancura e a «gramática, : esta s
expressöes significam qualidades, enquanto aquelas säo os nomes
(paronimicamente derivados) que, predicando-se de uma
substância, servem para significar a inerência destas qualidades
nessa substância. Portanto, neste caso, a escolha de adjectivos
em vez de nasubstantivos
categorias sua relaçäomostra
com asque substâncias,
Aristóteles procurando
pensa as
inventariar os diversos géneros de expressöes que podem ser
predicadas de uma substância primeira.
Por último, é também reveladora a forma gramatical das
expressöes utilizadas para designar cada umas das categorias.
Tradicionalmente, as categorias säo designadas através de uma
série de substantivos abstractos: substância, quantidade,
qualidade, relaçäo, lugar, tempo, posiçäo, posse, acçäo e
paixäo. Mas näo säo estas as expressöes efectiva mente utilizadas
por Aristóteles. o que se verifica é que a maior parte das
categorias säo designadas por meio de nomes que,
gramaticalmente, funcionam na linguagem corrente como pronomes
interrogativos:
«quando , (nem «quanto
sempre, , na
«qual , «em relaçäo
traduçäo, pudemosa reproduzir
quê , «onde esta
,
forma gramatical, embora tenhamos procurado aproximar-nos dela).
A própria categoria da substância é, em diversas passagens de
outras obras (v.g. Tópicos, I 9), também ela designada por uma
expressäo que tem um óbvio sentido interrogativo: «o que é . As
diversas categorias parecem,
88

entäo, corresponder aos diversos tipos de expressöes que podem


ser indicadas como resposta a diferentes perguntas feitas acerca
de uma substância (que, nos exemplos de Aristóteles, parece
tratar-se de um homem). Cada pergunta parece determinar um leque

de respostas
outras, possíveis
no sentido em que que se diferência
as respostas que säoclaramente
apropriadasdo para
das
uma pergunta näo o säo para nenhuma das outras. Por exemplo, em
2b31-36, Aristóteles observa que, quando a pergunta «o que é? é
feita acerca de um homem, a indicaçäo da sua espécie e género
constituem as únicas respostas adequadas.
Em suma, a análise dos diferentes tipos de expressöes que säo
ditas das substâncias primeiras e a sua classificaçäo de acordo
com os diferentes tipos de perguntas a que elas respondem poderá
ter conduzido Aristóteles à determinaçäo das diversas
categorias. No entanto, isto näo deve fazer esquecer que o
objectivo de Aristóteles é classificar coisas e näo palavras.
Aliás, este procedimento possui um claro fundamento ontológico
no princípio de que as substâncias primeiras säo sujeitos de
todas as outras coisas.
Uma questäo que frequentemen te se coloca a propósito desta lista
das categorias é a de saber se Aristóteles a considera completa
ou exaustiva. A enumeraçäo feita em 1 b25-27 näo dá qualquer
indicaçäo de que, às dez categorias mencionadas, possam vir a
acrescentar-se outras. Numa passagem dos Analíticos Posteriores,
Aristóteles afirma que o número de categorias é limitado (cf.
83b16). E, no cap.conclui
dez categorias, I 9 dosdizendo
Tópicos,que
depois de enumerar
«tais e tantas assäo
mesmas
[as
categorias] . É certo que esta é, para além do cap. 4 das
Categorias, a única outra passagem onde a lista de dez é
apresentada, enquanto todas as outras obras mencionam um número
inferior. Contudo, nestes casos, Aristóteles dá expressamente
indicaçäo de que a enumeraçäo näo pretende ser completa, pois
normalmente acrescenta «e as outras - o que precisamente aqui
näo acontece. Porém, em nenhuma obra é apresentado qualquer
argumento que justifique esta pretendida completude.
Quando afirma que cada expressäo simples significa ou uma
substância ou uma quantidade ou..., Aristóteles näo dá qualquer
indicaçäo de que esta disjunçäo deva ser entendida em sentido
exclusivo, de tal modo
simples significar mais que
do fosse impossível
que uma uma Aliás,
categoria. expressäo
a
existência de expressöes equívocas parece testemunhar o
contrário. Pois expressöes como, por exemplo, «bom , que têm
diferentes sentidos, podem significar coisas pertencentes a
diferentes categorias (cf. Tópicos, 107a5-13, Ética Nicomaqueia ,
1096a23-29). Na maior parte dos casos, porém, é verdade que uma
expressäo simples significa (uma coisa pertencente a) uma e só
uma categoria. No entanto, também näo há nada que obrigue a
considerar que isto só acontece com as expressöes simples. Pois
uma definiçäo como, por exemplo, «a nimal bípede, é uma
expressäo que envolve combinaçäo e, contudo, significa apenas
uma substância (enquanto «homem branco significa uma substância

e uma qualidade).
Diferente desta é a questäo de saber se uma mesma coisa pode
pertencer a mais do que uma categoria. Em diversas passagens dos
Tópicos, Aristóteles argument a que sempre que uma coisa pertence
a dois géneros diferentes, um destes tem de estar subordinado ao
outro ou, entäo, têm de estar ambos subordinados a um terceiro
(cf. 107a27-30, 121 b29-122a2, 122b 1 -4, 144b14-16). Mas as
categorias säo géneros supremos e irredutíveis, pelo que a mesma
coisa näo poderá pertencer a duas categorias diferentes. No
entanto, isto é negado por Aristóteles em 11 a37-38.

2a4-10 ( Nenhuma destas expressöes dita por si mesma... é


verdadeira ou falsa. )
É evidente que nenhuma expressäo simples constitui, por si só,
uma afirmaçäo (ou uma negaçäo), e também que nenhuma delas é
verdadeira ou falsa. As expressöes simples (nomes e verbos) säo
antes os elementos de cuja combinaçäo resultam as afirmaçöes. No
entanto, nem toda a combinaçäo de expressöes simples produz uma
afirmaçäo.

5n
Capítulo 5 [A substância]

2a11-19 («Substância - aquilo a que chamamos substância...


homem e animal säo chamados substâncias segundas.")

Nesta passagem Aristóteles identifica as coisas pertencentes ao


quarto e último grupo da classificaçäo do cap. 2 (as coisas que
näo säo ditas de um sujeito nem existem num sujeito) com as
substâncias; ou, mais exactamente, com aquilo que é em primeiro
lugar chamado substân cia - as «substâncias primeiras . A palavra
grega que tradicionalmente se traduz por «substância significa
literalmente «ser ,a traduçäo
aconselhável manter «entidadetradicional,
ou «re alidade . E contudo
entre outras razöes,
porque as substâncias näo säo o único tipo de realidade. Mas
esta designaçäo que Lhes é atribuída constitui uma espécie de
título de distinçäo, que indica o lugar privilegiado que Lhes
cabe na ontologia aristotélica. Por que é que as coisas que näo
têm qualquer sujeito do qual sejam ditas, ou no qual existam,
constituem o tipo mais básico e principal de realidade?
Aristóteles procurará responder a esta pergunta adiante, na
passagem 2a34 e segs.
os exemplos que Aristóteles apresenta de substâncias primeiras
säo, tal como no cap. 2 (1b4-5), «um certo homem , e «um certo
cavalo . De facto, verifica-se que os seus exemplos preferidos

de substâncias
naturais. säo sempre
observe-se, seres vivos,
no entanto, pertencentes
que as a espécies
partes destes mesmos
seres vivos (tais como uma mäo, uma cabeça, o corpo, a alma,
etc.) säo também consideradas substâncias (cf. 3a29-32).
Mas os seres vivos individuais, que näo säo ditos de qualquer
sujeito nem existem em qualquer sujeito, näo säo as únicas
substâncias. Aristóteles considera também um segundo tipo,
derivado, de substâncias - as «substâncias segundas -, onde
inclui as espécies e os géneros das substâncias primeiras. o
cavalo individual é uma substância primeira; cavalo e animal
säo, respectivamente, a espécie e o género a que o cavalo
individual pertence e, por isso, säo chamados substâncias
segundas. Este carácter
secundário das espécies e dos géneros relativamente aos
indivíduos explica-se pelo facto de a sua existência depend er da
existência dos indivíduos - as espécies cavalo e homem só
existem porque existem (e enquanto existirem), de facto, cavalos
e homens individuais. A razäo por que as espécies e os géneros
das substâncias individuais merecem também, embora
secundariamente, a designaçäo de substâncias será explicada mais
adiante (cf. 2b29-3a6).
As espéciesmas
pertencem, e os géneros
näo existempredicam-se dos indivíduos
nesses mesmos indivíduos que
(cf. a 3a9-20)
eles
nem em nenhuma outra coisa. Portanto, as substâncias segundas
incluem-se no primeiro grupo da classificaçäo do cap. 2 - das
coisas que säo ditas de algum sujeito, mas näo existem em nenhum
sujeito. Contudo, é curioso observar que, enquanto identifica as
substâncias primeiras com o quarto grupo daquela classificaçäo,
Aristóteles näo faz o mesmo, pelo menos expressamente, com as
substâncias segundas e o primeiro grupo (embora näo haja dúvida
que é neste que elas se incluem). Pode haver para isto duas
razöes. Primeiro, näo é por serem ditas de um sujeito, mas näo
existirem em nenhum sujeito, que elas säo chamadas substâncias
(ainda que segundas); pelo contrário, o facto de serem ditas de
um sujeitode inclinar-nos-ia
estatuto substâncias - mais para que
näo fosse Lhes fosse
o carácter negado doo
especial
sujeito de que elas säo ditas. A segunda razäo é que também as
diferenças, que näo säo substâncias, säo ditas de algum sujeito
mas näo existem em nenhum sujeito (cf. 3a21-28).

2a19-34 ( E evidente, pelo que foi dito antes... a definiçäo de


branco jamais se predicará do corpo.")

Com «o que foi dito antes" Aristóteles deverá referir-se à


passagem 1b10-15, onde foi estabelecida a transitividade da
relaçäo de predicaçäo: se A se predica de B e B se predica de C,
entäo A predica-se também de C. Este princípio é aqui (tal como

em 3b2-8) que
Suponhamos aplicado ao casodeespecial
P se predica do nome óbvio
QuÉ um princípio e da odefiniçäo.
de que o
nome de uma coisa se predica dessa mesma coisa; portant o, o nome
«P" predica-se de P. E, pela transitividade, se «P se predica de
P e P se predica de Q, entäo «P" predica-se também de Q. No
exemplo de Aristóteles, P é a espécie homem e Q é um homem
individual. Conclui-se que o nome da espécie - o nome «homem -
se predica do homem individual.
Esta é a passagem que demonstra de modo inequívoco que a relaçäo
de predicaçäo «ser dito (ou predicado) de um sujeito
introduzida no cap. 2, é em primeiro lugar uma relaçäo entre
coisas, e näo uma relaçäo entre um nome ou palavra e uma coisa.
o que se passa é que a predicaçäo de uma coisa implica também a
predicaçäo do seu nome, relativamente ao mesmo sujeito.
o mesmo argumento pode igualmente estender-se näo só ao nome,
mas também à definiçäo daquilo que é predicado. Suponhamos que P
se predica de Q e que f é a definiçäo de P. É também um
princípio evidente o de que a definiçäo de uma coisa se predica
dessa mesma coisa; no exemplo de Aristóteles, a definiçäo de
homem - suponhamos que é «animal racional predica-se de homem,
pois dizemos que «o homem é (um) animal racional . ora, se f se
predica de P
predica-se e P se
também de predica de Q, oentäo,
Q. ou seja, homem pela transitividade,
individual, sendo um f
homem, é também um animal racional.
Nesta passagem, Aristóteles näo relaciona ainda, como fará em
3a33-b9, esta propriedade com a noçäo de sinonímia. Mas a
relaçäo é evidente: se P e Q têm um mesmo nome, «P", e a
definiçäo que corresponde a esse nome, f, é também a mesma,
entäo P e Q säo coisas sinónimas (cf. 1 a6 12).
Na segunda parte da passagem (2a27-34), Aristóteles analisa a
relaçäo de inerência. Ao contrário da predicaçäo, a relaçäo de
inerência näo é transitiva, pois näo é nunca o caso de uma coisa
A existir numa coisa B que, por sua vez, existe numa coisa C; o
sujeito de inerência é sempre uma substância e nenhuma
substância existeque
este o problema numAristóteles
sujeito (cf. 3a7-8).
aqui Todavia,
considera, mas näo
antesé o
sequer
de
saber se, quando uma coisa R existe num sujeito S, é ou näo
possível que o nome e a definiçäo de R (que se predicam de R) se
prediquem (também) de S. E conclui que, na maior parte dos casos,

().> I (,:3
nem o nome nem a definiçäo se podem predicar, embora em alguns
casos seja possível a predicaçäo do nome (mas nunca a da
definiçäo).
Como exemplo de um daqueles casos em que o nome de uma coisa que
existe num sujeito é predicável do próprio sujeito, Aristóteles
refere o <branco (enquanto nome de uma cor). Há um evidente

descuido
existe nona formulaçäo
corpo do exemplo:
e predica-se Aristóteles
do corpo, diz que
mas correcto o branco
seria dizer
que o branco existe no corpo e o seu nome predica-se do corpo.
A distinçäo entre predicaçäo e inerência näo reproduz
exactamente uma distinçäo correspondente ao nível da linguagem.
Pelo contrário, ela permite diferênciar coisas que a linguagem,
na sua forma gramatical de superfície, muitas vezes näo
distingue nomeadamente dois tipos de estrutura lógica que a
frase predicativa (da forma <S é P ) pode possuir. Comparem-se
as frases «o homem é (um) animal e «o corpo é branco . Embora a
sua forma gramatical seja idêntica, a estrutura lógica é
distinta: no primeiro caso, trata-se de uma relaçäo de
predicaçäo (animal é dito de homem), enquanto no segundo se
trata de uma relaçäo de inerência (o branco existe no corpo). A
predicabilidade da definiçäo fornece um teste para distinguir os
dois casos: no primeiro caso, a definiçäo do predicado pode
predicar-se também do sujeito (como vimos, <animal racional,
predica-se de homem e também do homem individual); no segundo
caso, a definiçäo do predicado näo se pode predicar do sujeito
(pois o corpo é branco, e o branco é uma cor clara, mas o corpo
näo é uma cor clara).
Mas, com oà regra,
excepçäo Aristóteles
pois naindica, casos dos
maior parte como «broanco
casos säo uma
nome daquilo
que existe num sujeito näo pode predicar-se do sujeito. Por
exemplo, a justiça ou a coragem: existem num sujeito, mas o seu
nome näo se predica do sujeito. Mas embora o nome da justiça näo
possa predicar-se do sujeito, pode predicar-se um nome derivado:
se a justiça existe em Sócrates, Sócrates näo é chamado
«justiça, , mas sim «justo". A derivaçäo näo é necessariamente
paronimica, como vimos (embora o seja na maior parte dos

94

casos): se a virtude existe em Sócrates, Sócrates é chamado


«bom".
coisas «Justiça e «justo",
diferentes; säo «virtude
nomes e «bom (diferentes
diferentes näo representam
na
terminaçäo ou totalmente diferentes) que representam a mesma
coisa de maneiras diferentes: no primeiro caso, nomeando-a; no
segundo, atribuindo-a a um sujeito.
Embora Aristóteles näo o indique expressamente, podemos ver no
exemplo do «branco um caso de homonímia. o branco existe no
corpo e o nome «b ranco predica-se do branco e do corpo; mas a
definiçäo de branco predica-se do branco, mas näo do corpo. Isto
faz do branco e do corpo coisas homónimas, que possuem um mesmo
nome, mas näo a mesma definiçäo. Esta observaçäo permite ver na
presente passagem 2a19-34 uma aplicaçäo da distinçäo entre
coisas sinónimas (o homem e um certo homem), homóni mas (o branco

e o corpo)
cap. 1. e parónimas (a justiça e o justo), estabelecida no

2a34-b6 (< Todas as outras coisas... nenhuma outra coisa poderia


existir. )

Esta é uma das mais importantes passagens das Categorias, onde


Aristóteles procura justificar e caracterizar a primazia das
coisas a que é atribuído o título de «substâncias primeiras .
Vimos já que o nome < su bstância é em si me smo um sinal de
distinçäo ou privilégio (que o ordinal «primeira , vem ainda
reforçar) e que os seres a que esta distinçäo é conferid a säo os
seres individuais (que näo säo ditos de nenhum sujeito) e
auto-subsistentes (que näo existem em nenhum sujeito) tais como
um certo homem ou um certo cavalo. Importa, entäo, perguntar:
que característica possuem estes seres que os distingue de todas
as outras coisas e Lhes confere prioridade? A razäo desta
prioridade, afirma Aristóteles, reside no facto de todas as
outras coisas ou serem ditas deles ou existirem neles. Por
conseguinte, como será dito adiante (cf. 2b15-17, 2b37-3a1), é
porque säo sujeitos de todas as outras coisas que eles säo
chamados substâncias primeira s. Ser sujeito é, entäo, o critério
da substancialidade.
Mas a afirmaçäo de que os seres a que é atribuído o título de
substâncias primeiras säo sujeitos de todas as outras coisas
precisa de ser demonstrada. Aristóteles näo fornece essa
demonstraçäo, mas argumenta com exemplos que considera serem
suficientes para tornar visível a verdade da sua tese. A escolha
dos exemplos parece ser determinada por dois tipos de
consideraçöes. Primeiro, as coisas que näo säo substâncias
primeiras säo ou substâncias segunda s ou näo-substâncias; e, por
isso, Aristóteles apresenta dois exemplos- um de uma substância
segunda (o animal) e outro de uma näo-substância (a cor) que
considera serem generalizáveis. Além disso, os exemplos que
Aristóteles
dificuldades escolhe säo a aqueles
trazem para tese queque, aparentemente,
pretende estabelecer.maiores
Nem
todos os sujeitos säo substâncias primeiras; por isso, quando
algo é dito de um sujeito ou existe num sujeito, este sujeito
pode ser ou näo ser uma substância primeira. os casos em que o
sujeito é uma substância primeira säo os mais favoráveis para a
tese de Aristóteles e, por isso, os exemplos escolhidos
pertencem aos casos menos favoráveis: animal é dito de homem e a
cor existe no corpo, e homem e corpo näo säo substâncias
primeiras. Näo contradizem estes exemplos a tese que foi
afirmada?
Aristóteles argumenta que os exemplos näo invalidam a tese,
porque em todos os casos de predicaçäo ou de inerência em que o

sujeito näoprimeira
substância é uma que
substância
suporta primeira, há no ou
essa predicaçäo entanto uma
inerência.
Veja-se o caso das substâncias segundas. Animal predica-se de
homem, que é também uma substância segunda; mas o que suporta
essa predicaçäo é a existência de uma substância primeira (um
certo homem) que é simultaneamente sujeito de homem e de animal.
Pois o homem só é um animal porque os indivíduos que säo homens
säo também animais. (observe-se que, onde Aristóteles escreve
«se [animal] näo se predicasse de nenhum dos homens individuai s,
näo seria de todo predicado de homem", em vez de «de nenhum dos
poderia e deveria talvez estar antes «de todos os .) o caso das
näo-substâncias é idêntico. A cor existe no corpo, que é uma
substância segunda; mas o
()(

que suporta essa inerência é a existência de uma substância


primeira (um certo corpo) que é simultaneamente sujeito do corpo
e da cor. Pois a cor só existe no corpo porque ela existe em
substâncias individuais que säo corpos.
o que Aristóteles apresenta é, portanto, um argumento segundo o
qual toda a primeira
substância predicaçäoé ou inerênciadeixando
derivada, que näo tem como sujeito
analisar-se uma
em (ou
podendo ser reduzida a) uma série de predicaçöes e/ou inerências
básicas, cujos sujeitos säo substâncias primeiras e que säo elas
mesmas inanalisáveis. A esta distinçäo entre dois tipos de
predicaçäo e de inerência- uma básica e outra derivada -
corresponde uma distinçäo idêntica entre dois tipos de sujeitos
(na qual, aliás, Aristóteles fundamentará o contraste entre
substâncias primeiras e segundas [cf. 2b37-3a6]). As substâncias
primeiras säo os sujeitos básicos de que todos os outros
sujeitos dependem. Apoiando-se nesta reduçäo da predicaçäo e da
inerência derivadas à predicaçäo e à inerência básicas,
Aristóteles pode entäo concluir que, para qualquer coisa que näo
seja substância
primeira que é seuprimeira, existe
sujeito; ou seja, pelo menos asuma
que «todas substancia
outras coisas
ou säo ditas das substâncias primeiras como de sujeitos ou
existem nelas como em sujeitos .
Ao formular esta conclusäo universal, Aristóteles supöe que os
dois exemplos que apresenta (e os argumentos que eles
pressupoem) säo generalizáveis para todas as coisas que näo säo
substâncias primeiras e para todos os casos de predicaçäo e de
inerência derivadas. ora, de facto Aristóteles näo considera
exemplos de predicaçäo entre näo-substâncias, tais como (a) «o
conhecimento predica-se da gramática, e (b) «o branco
predica-se de um certo branco , nem exemplos de inerência de
näo-substâncias individuais, tais como (c) «um certo branco

existe no corpo . Mas,


sua universalidade, é para que a conclusäo
necessário formulada
que a análise mante
deste nhadea
tipo
exemplos siga a mesma linha dos anteriores: (a) o conhecimento
só se predica da gramática porque ele existe nas substâncias
primeiras em que a gramática existe; (b) o branco só se predica
de um certo branco porque ele existe na substância primeira em
que
esse branco individual existe; e (c) um certo branco só existe
no corpo porque a substância primeira na qual ele existe é um
corpo.
Ignorámos até aqui um difícil problema que o segundo exemplo
apresentado no texto coloca e que devemos agora examinar.
Segundo Aristóteles afirma, a cor só existe no corpo porque ela
existe em corpos individuais. Todavia, em 1a24-25, foi
estipulado como condiçäo para que uma coisa possa existir num
sujeito que essa coisa näo possa existir separadamente desse
sujeito; e esta condiçäo impede qualquer universal de existir
numa substância individual. Se a cor existisse num corpo
individual, sendo tal inerência regida pela condiçäo de
inseparabilidade, quando esse corpo individual deixasse de
existir, a cor deixar ia necessariamente também de existir - o
que é absurdo.
soluçöes: ou a Para este problema,
condiçäo parecem ser näo
de inseparabilidade possíveis duas a
se aplica
todos os tipos de inerência ou o exemplo de Aristóteles
constitui um descuido. Ambas as soluçöes apresentam
inconvenientes. Se é verdade, por um lado, que quando
Aristóteles formula, no cap. 2, a condiçäo de inseparabilidade,
näo a limita a nenhum tipo particular de inerência, verifica-se
também, por outro, que a correcçäo do argumento da cor (em
2b1-3) invalidaria a conclusäo geral que Aristóteles pretende
estabelecer. Admitindo que a cor näo pode ela própria existir
nos corpos individuais, entäo o que neles existe seriam
instâncias individuais de cor; e a cor existiria no corpo,
porque as instâncias individuais de cor existem em corpos
individuais. Mas,de se
seriam sujeitos assim
todas as é, as substâncias
outras coisas, umaprimeiras
vez que já näo
a cor
(por exemplo) näo é dita de nenhuma substância primeira nem
existiria em nenhuma substância primeira. Neste, como noutros
casos, caberá ao leitor decidir qual destas soluçöes é a melhor
ou procurar alguma outra que solucione o problema sem os
inconvenientes que estas apresentam.
Do facto de as substâncias primeiras serem sujeitos de todas as
outras coisas, Aristóteles conclui ainda que, se aquelas näo
existissem, nenhuma destas poderia existir. Esta última
afirmaçäo da passagem realça, melhor do que qualquer outra, a
primazia que cabe àquilo que é sujeito - a sua substancialidade.
Ao considerar que a dependência ontológica de toda a restante

realidade
consequênciarelativamente às substâncias
do que ficou estabelecido antes, primeiras
Aristótelesé supõe
uma
o seguinte argumento: todas as coisas que näo säo substâncias
primeiras definem-se por ou serem ditas de algum sujeito ou
existirem nalgum sujeito, pelo que se näo existissem sujeitos
nenhuma dessas coisas poderia existir; ora, uma vez que ficou
provado que só existem sujeitos se existirem substâncias
primeiras, pode entäo concluir-se que se näo existissem
substâncias primeiras nenhuma outra coisa poderia existir.
Mas näo é igualmente verdade que se näo existissem as outras
coisas, as substâncias primeiras também näo poderiam existir?
Poderia Sócrates, por exemplo, existir näo tendo nenhuma cor,
nenhum peso, nenhuma altura, nenhum lugar onde existir, nenhuma
espécie a que pertencer, nenhum tempo, etc.? Mas, se assim é, a
implicaçäo existencial torna-se recíproca e parece näo restar às
substâncias primeiras qualquer primazia sobre as outras coisas.
No cap. 12, em que discute os diversos sentidos de
anterioridade, Aristóteles considera um exemplo semelhante a
este. Se analisarmos a relaçäo que há entre um facto e a
afirmaçäo desse facto, verificam os que a existência do facto e a
verdade da afirmaçäo se implicam reciprocamente; todavia, aquela
é anterior éa verdadeira,
afirmaçäo esta, uma vez
e que
näo éo porque o facto
inverso existe1-22).
(cf. 14b1 que a Do
mesmo modo, é porque há substâncias primeiras que as outras
coisas existem e näo o inverso (embora nenhuma delas possa
existir sem a outra). É neste sentido que as substâncias
primeiras säo anteriores a toda a restante realidade.

2b7-22 (..Das substâncias segundas... a espécie é mais


substância do que o género. )

A substancialidade, tal como foi caracterizada na passagem


anterior, pertence em primeiro lugar e em sentido mais próprio
aos seres individuais e auto-subsistentes que, por isso, recebem
a designaçäo de «substâncias primeiras . Mas o título de
()()
«substâncias" pode também aplicar-se, embora em sentido
derivado, às espécies e aos géneros a que as substâncias
primeiras pertencem (pelas razöes que seräo expostas em
2b29-3a6). Todavia, esta diferença no grau de substancialidade
que há entre as substâncias primeiras, por um lado, e as suas
espécies e géneros, por outro, verifica-se também entre estas
últimas - pois as espécies säo mais substâncias do que os
géneros. Säo dois os argumentos que justificam esta maior
substancialidade das espécies relativamente aos géneros.
Quando acerca de uma substância primeira é feita a pergunta «o

que é? , ou seja,
apresentadas quando
de forma é pedida
válida uma sua
diversas definiçäo,
respostas, podem teräo
as quais ser
no entanto valores diferentes. As respostas que indicam o
género, apesar de igualmente válidas, seräo sempre menos
informativas e menos adequadas do que as que indicam a espécie,
pois o género é mais comum e menos próprio do que a espécie. A
espécie é também comum- a todos os indivíduos que Lhe pertencem
e dos quais ela se pred ica - e, por isso, uma resposta que a
indique näo será nunca completamente informativa, pois näo
permitirá distinguir o indivíduo em causa de todos os outros da
mesma espécie (näo indicará aquilo que Lhe é absolutamente
próprio); mas o género, além de se predicar igualmente de todos
os indivíduos dessa mesma espécie, predica-se além disso de
muitos outros que já näo pertencem a essa espécie, mas a outras
diferentes, sendo por isso maior o grau de indistinçäo. É
verdade que todas as substâncias primeiras que säo homens säo
também animais, mas nem todas as que säo animais säo também
homens. Este facto testemunha a maior proximidade da espécie,
quando comparada com o género, relativamente às substâncias
primeiras; e, estando mais próxima das substâncias primeiras, a
espécie é por isso mais substância do que o género. Também se
poderia
o génerodizer que a
e que, espécie
por isso, é se
predicada
aproximade mais
menosda
sujeitos do que
natureza das
substâncias primeiras, que näo se predicam de nenhum sujeito.
Mas näo será mais informativo dizer, por exemplo, de um certo
homem que ele é um filósofo do que dizer que ele é um homem?
Aristóteles exclui esta possibilidade, na medida em que
considera

I ()()

que o nome «filósofo se pr edica de um cer to ho mem somente


porque a filosofia (ou um certo conhecimento filosófico?) existe
nele, mas a filosofia näo é predicável dele (um homem poderá ter
conhecimento, mas näo será
esta razäo, a filosofia ele ela,
(e, com próprio
todasumas conhecimento); por
näo substâncias)
näo pode ser indicada numa resposta válida à pergunta «o que
é? , quando esta é feita acerca de uma substância primeira (cf.
2b29-37).
o segundo argumento que justifica a maior substancialidade da
espécie relativamente ao género baseia-se na caracterizaçäo da
substancialidade feita em 2a34 b6. A relaçäo que há entre a
espécie e o género, afirma Aristóteles, é a mesma que se
verificou existir entre as substâncias primeiras e todas as
outras coisas e que constitui a substancialidade daquelas -
pois, tal como as substâncias primeiras säo sujeitos de todas as
outras coisas, também a espécie é sujeito do género. o género

predica se de
primeiras da que
espécie (porque
a espécie se se predica mas
predica), de todas as substâncias
a espécie näo se
predica do género (pois ela näo se predica de todas as
substâncias primeiras de que o género se predica). Por exemplo,
todos os homens säo animais, mas nem todos os animais säo
homens; e, por isso, animal predica-se de homem, mas näo
reciprocamente. o que, afinal, coincide com a afirmaçäo do
argumento anterior, segundo a qual o género é mais comum do que
a espécie.

2b22-28 (< Mas das próprias espécies. .. näo é mais substância do


que um certo boi. )

A primeira frase desta passagem, ao referir-se às espécies que


näo säo géneros, testemunha inequivocamente que as noçöes de
espécie e género säo relativ as, de tal modo que aquilo que é uma
espécie em relaçäo a um género superior pode também ser
considerado um género em relaçäo a espécies inferiores. As
espécies que näo säo géneros säo as ínfimas espécies , abaixo das
quais näo existem quaisquer outras em que elas possam dividir
se. A ínfima espécie é predicável somente das substância i n

1 () I
o que Aristóteles diz é entäo que, entre as ínfimas espécies, o
grau de substancia lidade é o mesmo para todas. E argumenta com o
facto de serem todas, relativamente aos indivíduos de que se
predicam, igualmente informativas quando säo indicadas como
resposta à pergunta (<o qu e é? feita acerca das substâncias
primeiras. Em seguida, Aristóteles estende esta mesma igualdade
às substâncias primeiras, uma vez que estas säo todas igualmente
sujeitos de tudo o que delas se predica (espécies e géneros) e
que nelas existe (näo-substâncias), näo havendo nada que seja
seu sujeito. Todavia, o mesmo já näo poderá ser afirmado acerca
dos géneros, pois os géneros inferiores possuem, de acordo com
os critérios
géneros estabelec
superiores queidos,
delesuma
se maior substancialidade
predicam. Ainda assim, do que os
contudo,
se pudessem ser estabelecidos os diferentes níveis de
generalidade (nível O: as substâncias primeiras; nível 1: as
ínfimas espécies; nível 2: os géneros imediatos a que as ínfimas
espécies pertencem; nível 3: os géneros dos géneros imediatos; e
assim sucessivamente, até ao género supremo, que é a própria
categoria da substância), poderia afirmar-se, por um lado, que
quanto maior é o nível menor é o grau de substancia lidade e, por
outro, que, em cada nível, o grau de substancialidade é o mesmo
para todos os seus elementos.

2b29-3a6 ( É entäo com razäo que... e do mesmo modo para as

outras coisas. )
Baseando-se em dois argumentos semelhantes aos que utilizou para
provar que a espécie é mais substância do que o género,
Aristóteles procura agora provar que, de todas as coisas que näo
säo substâncias primeiras, as espécies e os géneros säo as
únicas a que cabe também, embora derivadamente, o título de
«substâncias". As espécies foram consideradas mais substâncias
do que os géneros por duas razöes: (a) por possuírem maior
capacidade de definir as substância s primeiras (isto é, de serem
indicadas como resposta à pergunta «o que é? ) e (b) por
participarem em maior grau da natureza de sujeito que é a das

1 ()
substâncias primeiras. Aristóteles procura agora mostrar que só
as espécies e os géneros possuem essa capacidade e que também só
eles participam (em maior ou menor grau) dessa natureza.
Ao colocar a questäo de saber quais as coisas que «revelam , as
substâncias primeiras (isto é, que definem o que elas säo),
Aristóteles limita a possível resposta ao domínio das coisas que
se
e a predicam. Isto
pergunta «o quemostra a ligaçäo
é? : as existente
coisas que entre de
se predicam a predicaçäo
um sujeito
säo aquelas que definem esse sujeito. E as únicas coisas que se
predicam das substâncias primeiras, definindo-as, säo as suas
espécies e géneros. Todas as outras coisas (qualidades,
quantidades, acçöes, etc.), mesmo quando säo predicáveis, näo o
säo das substâncias primeiras, mas apenas do que se encontra
abaixo delas no interior da mesma categoria. A predicaçäo é
sempre intracategorial e a relaçäo das qualidades, quantidades,
etc., com as substâncias primeiras é somente de inerência. Mas
todo este esquema categorial, estruturado pelas noçöes de
predicaçäo e inerência, assenta numa interpretaçäo da pergunta
«o que é? , segundo a qual, quando esta pergunta é feita acerca
de alguma
válida substância
nenhuma primeira
resposta (v.g. um certo
que signifique homem), quantidade,
qualidade, näo será
acçäo ou qualquer outra das nove categorias näo-substânciais
(v.g. «é branco , «corre", etc.). A justificaçäo para esta
exclusäo pode encontrar-se no princípio formulado em 2a19-21,
que estabelece como condiçäo para que algo seja predicado de um
sujeito que tanto o seu nome como a sua definiçäo se prediquem
igualmente desse sujeito. ora, como Aristóteles fez notar (em
2a27-34), na maior parte dos casos, o nome das qualidades,
quantidades, etc. (v.g. «coragem , «gramática , etc.), näo é
predicável das substâncias primeiras, mas somente um nome
derivado desse (v.g. «corajoso , «gramático , etc.); e mesmo nos
casos em que o nome é predicável delas (v.g. «branco ), a

definiçäo
homem que näo
eleé nunca
é umapredicável
cor, nem (v.g.
que näo pode virtude
é uma dizer-se ou
de um
conhecimento); mas estas duas condiçöes säo sempre cumpridas no
caso das espécies e dos géneros que, por isso, säo (e só elas o
säo) predicáveis das substâncias primeiras, definindo-as.
A segunda razäo apresentada para o facto de as espécies e os
géneros serem as únicas coisas, para além das substâncias
primeiras, a que cabe também o título de «substâncias , reside
na sua natureza de sujeitos. A relaçäo que se verifica entre as
substâncias primeiras e todas as outras coisas (cf. 2a34 b6) e
que constitui a razäo da sua substancialidade, verifica-se
também entre as suas espécies e géneros e tudo o resto, pois
eles säo igualmente sujeitos de tudo o resto. A expressäo «tudo
o resto significa aqui todas as näo-substâncias e, por isso, há
uma imprecisäo no texto de Aristóteles, pois as näo substâncias
näo se predicam nunca das substâncias - em vez de «tudo o resto
se predica deles (3a3-4), deveria estar «tudo o resto existe
neles . Mas o exemplo que de seguida é apresentado explica de
certo modo o lapso, pois mostra que Aristóteles tem em vista a
predicaçäo linguística (i. e., a predicaçäo do nome das
näo-substâncias, predicaçäo essa que, quando relativa às
substâncias, é sempre(i.
predicaçäo ontológica ou e.,
paronímica ou homonímica)
a predicaçäo das próprias ecoisas,
näo a
a qual implica uma predicaçäo linguística sinonímica). Traduzido
em termos de inerência, o exemplo pode ser reformulado do
seguinte modo: se a gramática existe num certo homem, entäo ela
existe também no homem e no animal. o que sugere que se uma
näo-substância existe numa dada substância primeira, entäo ela
existe também na espécie e no género a que essa substância
primeira pertence (repare-se que a implicaçäo inversa desta foi
já afirmada em 2b1-2). Uma vez que já estabeleceu que todas as
näo-substâncias existem nas substâncias primeiras, Aristóteles
conclui entäo que todas as näo-substâncias existem nas espécies
e nos géneros das substâncias primeiras.
Mas será que
se diga suficiente a gramática
ela existe no homemexistir num certo
e no animal? Por homem paracom
analogia que
este caso, seríamos conduzidos a afirmar que se o branco existe
num certo homem, entäo ele existe também no homem e no animal -
o que é falso, pois existem coisas brancas que näo säo homens
nem animais e, portanto, o branco näo é inseparável do homem nem
do animal (cf. 1a24-25). Há, entäo, também aqui, uma imprecisäo
de Aristóteles, pois a razäo por que a gramática

104

existe no homem e no animal reside no facto de todos os


indivíduos em que ela existe serem homens e animais; e, em

geral, as as
que todas näo-substâncias existem nas
substâncias primeiras espécies
em que e nos géneros
elas existem a
pertencem.
o facto de as espécies e os géneros das substâncias primeiras
serem sujeitos de todas as näo-substâncias testemunha, segundo
Aristóteles, a sua substancialidade. No entanto, a
substancialidade das espécies e dos géneros é näo só
necessariamente menor do que a das substâncias individuais, como
Lhes é conferida por estas: ela é menor, porque as espécies e os
géneros predicam-se e dependem ontologicamente das substâncias
individuais, enquanto estas näo se predicam de (nem existem em)
nenhum sujeito e säo ontologicamente anteriores a toda a
restante realidade; e ela é-lhes conferida, uma vez que as
espécies e os géneros só säo sujeitos (das näo-substâncias)
porque as substâncias individuais o säo- pois o homem só é
sujeito da gramática porque ele se predica de todos os
indivíduos em que a gramática existe. Por estas razöes, as
espécies e os géneros säo chamados substâncias, mas segundas.
Além de provar a substanciali dade (em segundo grau) das espécies
e dos géneros, Aristóteles pretende também provar, ao mesmo
tempo, a completude da sua classificaçäo das substâncias. Para
justificar esta completude, Aristóteles näo pode argumentar que
as substâncias
esgotam individuais
o domínio e as respectivas
dos sujeitos, espécies e géneros
pois as näo-substâncias também
säo sujeitos (v.g. o conhecimento predica-se da gramática). Mas
se analisarmos o papel que as näo-substâncias possuem como
sujeitos, veremos que ele é bastante limitado, pois elas só
podem ser sujeitos de predicaçäo e a predicaçäo é uma relaçäo
exclusivamente intracategorial: uma qualidade será sujeito das
qualidades acima dela (i. e., mais gerais), mas nunca poderá ser
sujeito de qualquer quantidade ou de qualquer relativo, etc. Em
contraposiçäo, verifica-se que as substâncias säo (e só elas o
säo) sujeitos de inerência, nos quais tudo o resto existe.
Tínhamos visto que o ser-sujeito constitui o critério da
substancialidade; podemos agora acrescentar que, na definiçäo
deste critério, a inerência possui um privilégio relativamente à
predicaçäo;
pois o que é realmente próprio das substâncias é ser sujeito de
inerência. Este privilégio da inerência manifesta-se também no
seguinte: o facto de as espécies e os géneros se predicarem de
algum outro sujeito näo Lhes retira a substanciali dade (embora a
diminua); mas, como Aristóteles sublinhará na passagem seguinte,
nenhuma substância é inerente a um outro sujeito. Portanto , se o
ser sujeito de inerência e o näo ser inerente a nenhuma outra
coisa säo condiçöes necessárias da substância, a classificaçäo
das substâncias encontra-se completa.

3a7-21 («E comum a todas as substâncias... nenhuma substância

existe num sujeito. )


A impossibilidade de as substâncias existirem num sujeito é um
elemento essêncial e que está de acordo com todo o esquema
categorial até aqui desenvolvido (distribuindo as substâncias
pelos primeiro e quarto grupos da classificaçäo do cap. 2).
Aristóteles tem agora a difícil tarefa de justificar esta
impossibilidade. Para as substâncias primeiras a justificaçäo é
simples, pois o princípio de que se partiu foi precisamente o de
que as substâncias primeiras seriam aquelas coisas que näo säo
ditas de nenhum sujeito nem existem em nenhum sujeito (cf.
2a11-14). A dificuldade coloca-se em relaçäo às substâncias
segundas. Aristóteles apresenta dois tipos de justificaçäo, mas
que säo ambos insatisfatórios. Na verdade, o que Aristóteles
prova é apenas que as substâncias segundas näo existem nos
sujeitos de que se predicam. Mas isto é válido, näo só para as
substâncias segundas, mas para tudo o que é predicável, e deixa
por provar a impossibilidade de as substâncias segundas serem
inerentes a qualquer tipo de sujeito.
Primeiro, Aristóteles argument a com os seguintes exemplos: homem
e animal säo ambos substâncias segundas e predicam -se de um
certo homem, que
no entanto, mas onenhum
mesmo deles existe
se pode num de,
afirmar certo homem.
por Repare-se,
exemplo, duas
qualidades universais: a cor e o branco predicam-se ambos de um
certo branco, mas nenhum deles

I () )

existe num certo branco; todavia, a cor e o branco existem num


sujeito, a saber, no corpo. Além disso, o facto de o homem näo
existir num certo homem é apresentado como uma evidência, sem
qualquer explicaçäo adicional. De qualquer modo, a explicaçäo
deverá ser a mesma que justifica a impossibilidade de o branco
existir num certo branco e será, provavelmen te, a de que existem
outros
branco homens
e, por eisso,
outros brancos para
a existência do além daquele
homem homem enäodaquele
e do branco é
inseparável (cf. 1a24-25) daquele homem particular e daquele
branco particular, respectivamente. No entanto, Aristóteles
parece já ter violado antes a regra da inseparabilidade, quando
afirmou que a cor existe num certo corpo (2b1-2) e que a
gramática existe num certo homem (3a4-5).
o segundo argumento tem uma aparência de maior solidez, mas é
igualmente insatisfatório. Aristóteles recorda o princípio
estabelecido em 2a27-34, segundo o qual é impossível a definiçäo
das coisas que existem num sujeito ser predicada desse mesmo
sujeito, e pretende utilizá-lo para provar que as substâncias
segundas näo existem num sujeito, argumentando que nelas tal

impossibilidade näo segunda


que uma substância se verifica. Afirma
se predica de Aristóteles
um sujeito que,
(v.g. sempre
homem
predica se de um certo homem), o seu nome e a sua definiçäo
predicam se também desse mesmo sujeito (v.g. o nome «homem , e a
definiçäo de homem predicam se de um certo homem). No entanto, o
mesmo se pode afirmar, por exemplo, das qualidades: sempre que
uma qualidade (v.g. o branco) se predica de um sujeito (v.g. um
certo branco), o nome e a definiçäo dessa qualidade predicam-se
também desse mesmo sujeito (v.g. o nome «branco e a definiçäo
de branco predicam-se de um certo branco); e, todavia, as
qualidades existem num sujeito (v.g. o branco existe no corpo).
Pois a sinonímia (comunida de de nome e de definiçäo) é implicada
em toda e qualquer predicaçäo (cf. 2a19-21), e näo apenas na
predicaçäo entre substâncias. o facto
de a predicaçäo entre substâncias implicar uma relaçäo de
sinonímia näo pode, por isso, provar que as substâncias näo
existem em nenhum sujeito.
Conclui-se, portanto, que nenhum dos argumentos apresenta dos
consegue justificar a impossibilidade de as substâncias segundas
existirem num sujeito, a qual constitui, no entanto, um elemento
essêncial da teoria aristotélica. Esta limitaçäo poderá ter
srcem na insuficiente
inerência. caracterizaçäo
Efectivamente, que écondiçöes
existem algumas feita da que
noçäo de o
regem
uso aristotélico desta noçäo e que näo se encontram
explicitadas. A inspecçäo dos exemplos de inerência que ocorrem
no texto das Categorias revela que Aristóteles considera que (a)
só as substâncias podem ser sujeitos de inerência (ou seja, que
x existe em y somente se y é uma substância) e também que (b) a
inerência é sempre uma relaçäo intercategorial (ou seja, que x
existe em y somente se x e y pertencem a categorias difere ntes).
Nenhuma destas condiçöes se encontra explicitada e, no entanto,
elas seriam suficientes para demonstrar que nenhuma substância
existe num sujeito.

3a21-28
pedestre.(«Todavia,
) isto näo é próprio da substância.. homem é

pois o

Para provar que também as diferenças (cf. 1b16-24 e respectivo


comentário) näo existem em nenhum sujeito, Aristóteles utiliza o
mesmo tipo de argumentos que antes empregou para as substâncias
segundas: primeiro, um exemplo - pedestre e bípede säo
diferenças do género animal e predicam-se de homem, mas nenhuma
delas existe no homem; depois, o facto de a predicaçäo das
diferenças implicar sempre uma relaçäo de sinonímia- pois
pedestre predica-se do homem e tanto o nome «pedestre como a

definiçäo
argumentos deaplicam-se
pedestre seaspredicam
mesmas igualmente
observaçöesdoque
homem. A estes
foram feitas
relativamente à passagem anterior.
A noçäo de diferença constitui, para o esquema das categorias
até aqui desenvolvido, uma espécie de anomalia. De acordo com a
caracterizaçäo que dela aqui é feita, as diferenças säo ditas de
algum sujeito, mas näo existem em nenhum sujeito, e portanto
incluem-se, juntamente com as substâncias segundas,

I ()(J

no primeiro grupo da classificaçäo do cap. 2, que no entanto


parecia näo as contemplar. A anomalia resulta sobretudo de
Aristóteles näo aceitar a inclusäo das diferenças na classe das
substâncias. Pois, se as diferenças näo säo substâncias, por
outro lado, elas também näo säo nem qualidades, nem quantidades ,
nem relativos, etc. (pois näo existem num sujeito), o que tem a
estranha consequência de as diferenças näo pertencerem a nenhuma
das dez categorias. Além disso, ao considerar que as diferenças
se predicam das substâncias primeiras, mas näo säo substâncias,
Aristóteles contraria o que afirmou em 2b29-37: foi aí usada
como critério que
a capacidade paraas distinguir
primeiras as substâncias
possuem das indicadas
para serem näo-substâncias
como
resposta à pergunta «o que é? quando esta é feita acerca das
substâncias primeiras, e argumentava-se que só as suas espécies
e os seus géneros têm esta capacidade; mas, afinal, as
diferenças também säo definitórias das substâncias primeiras
(confrontar com Tópicos, 122b17-18, 128a23-28, 139a29-31) e, no
entanto, näo säo consideradas substâncias.
Face a estas dificuldades, que razöes poderäo restar a
Aristóteles para rejeitar a inclusäo das diferenças na classe
das substâncias? Podemos encontrar uma razäo para isso na
passagem 1b16-24, onde a referência às diferenças do género
conhecimento implica que näo säo só os géneros substânciais que
possuem diferenças.
categorias constituiora,
umaa razäo
existência de diferenças
suficiente em todas
para negar que as
as
diferenças sejam substâncias. A soluçäo que estaria mais de
acordo com esta diversidade categor ial das diferenças seria a de
considerar que a noçäo de diferença e, com ela, as noçöes de
espécie e género, se aplicam em todas as categorias, näo sendo
exclusivas da substância. Esta soluçäo permitiria incluir como
substâncias as diferenças dos géneros de substância, tal como
seriam qualidades as diferenças dos géneros de qualidade, etc.,
anulando as dificuldades que acima assinalámos. Finalmente, a
afirmaçäo de que as diferenças näo existem num sujeito teria de
ser limitada às diferenças substânciais, que säo afinal as
únicas que a presente passagem tem em vista. Aristóteles näo

adopta esta
referidas soluçäo, nem nenhuma outra capaz de resolver as
dificuldades.

I () 3
3a29 32 («o facto de as partes das substâncias... as coisas em
um sujeito. )

A afirmaçäo de que nenhuma substância existe num sujeito


(3a7-21) poderia parecer implicar que as partes das substâncias
näo säo substâncias, pois as partes existem no sujeito de que
säo partes. Mas Aristóteles pretende considerá las substâncias
e, por exemplo em 8a18-21, cita uma certa mäo e uma certa cabeça
como exemplos de substâncias primeiras; ora, uma certa mäo
existe num certo corpo. Terá sido exactamente para evitar este
problema que na passagem 1a24-25, para a qual agora apela,
Aristóteles estabeleceu como condiçäo necessária da relaçäo de
inerência que aquilo que é inerente a um sujeito näo seja uma
parte desse sujeito. A necessidade de distinguir a relaçäo de
inerência da relaçäo parte-todo revela que Aristóteles pretende
conferir à expressäo «existir num suj eito um sig nificado
técnico diferente e mais restrito do que aquele que ela possui
na
mäo linguagem corrente.
que ela existe No discurso
no corpo vulgar mas
de um homem, diz-se de uma certa
no vocabulário
técnico da teoria das categorias näo pode dizer-se que ela
existe num sujeito; por isso, nada impede que ela seja
considerada uma substância.

3a33-b9 ( É uma característica das substâncias e das


diferenças... é-o sinonimicamente. )

o corolário que aqui Aristóteles explicita decorre naturalmente


da inclusäo das substâncias e das diferenças nos primeiro e
quarto grupos da classificaçäo do cap. 2 (cf. 2a11-13 e 3a7-28)
e do princípio estabelecido em 2a19-21 para a relaçäo de
predicaçäo.
nome e a suaSempre que uma
definiçäo coisa se igualmente
predicam-se predica de desse
um sujeito,
sujeitoo -seu
o
que significa que a relaçäo ontológica de predicaçäo implica
sempre uma predicaçäo linguística sinonímica; pelo contrário, a
predicaçäo linguística implicada pela relaçäo de inerência näo é
nunca sinonímica (mas sim paronímica ou, em alguns casos,
homonímica).

I I ()

ora, as substância s e as diferenças ou näo se predicam de nenhum


sujeito (caso das substâncias primeiras) ou predicam-se de algum
sujeito (caso das substâncias segundas e das diferenças), mas

nenhuma delasque
linguística existe
as num sujeito. ePorasisso,
substâncias toda a predicaçäo
diferenças originam é
sinonímica.
Em 3a3 5 e 3a37, «predicados" e «predicado (que tra duzem a
palavra grega katêgoria) designam entidades linguísticas - os
nomes (3b7) que se predicam. As substâncias primeiras, uma vez
que näo säo ditas de nenhum sujeito, näo originam nenhum
predicado linguístico. Será provavelmente por esta razäo que
Aristóteles opta por referir se às substâncias primeiras com
expressöes como «um certo homem , näo usando nunca nomes
próprios, os quais poderäo por vezes ser predicados, em exemplos
tais co mo «o hom em qu e ali vem é Sócrates (cf. An alíticos
Anteriores, 43a35-36).
3b10-23 ( Todas as substâncias parecem significar... do que ao
falar de homem.")

Embora todas as substâncias pareçam significar um isto, na


verdade, só as substâncias primeiras o fazem, pois só estas säo
individuais e numericamente umas. As substâncias segundas säo
ditas de uma multiplicidade de sujeitos, ou seja, säo
universais, e por isso o näo
utiliza frequentemente pronsignificam um isto.«isto
ome demonstrativo Aristóteles
para
introduzir o conceito de singularidade: um isto é um ser
singular e determinado, distinto de qualquer outro. Qualquer
universal, ao ser predicado de vários sujeitos, é algo de comum
e, portanto, näo pode constituir um isto (cf. Tópicos,
178b36-39). Aristóteles näo nega a existência aos universais (os
quais têm um lugar na sua classificaçäo dos seres; cf. 1a20 e
segs.), mas procura manter uma distinçäo nítida entre o modo de
existência dos universais e o das coisas singulares - a
existência dos universais é-lhes conferida pelas coisas
singulares de que eles se predicam e, por isso, eles näo podem
existir separadamente destas, enquanto estas existem por si
mesmas.
1 1 1
Noutras obras (v.g. Metafísica, 1039a1 2), Aristóteles marca
este contraste afirmando que os universais significam, näo um
isto, mas um ta/: eles säo aquilo que determina um isto (v.g.
Sócrates) como sendo ta/ ou ta/ (v.g. homem ou animal). Mas o
erro de tratar os universais como significa ndo um isto é um erro
frequente, que tem origem na própria linguagem (cf. Tópicos,
168a26, 169a30-36) - é a forma substantiva como säo nomeados
(v.g. «o homem , < o animal , etc.) que Lhes confere uma
aparência de singularidade que eles, no entanto, näo possuem.
Aristóteles considera ser este o erro que está na base da

concepçäo
Ao negar platónica das Formas como
que as substâncias seres auto-subsistentes.
segundas signifiquem um isto,
Aristóteles é conduzido a afirmar que o que elas significam é
antes uma qualificaçäo; mas imediatamente se apercebe de que
esta afirmaçäo implica ria a inclusäo das substâncias segundas na
categoria da qualidade. Para evitar esta inaceitável
consequência, estabelece entäo uma distinçäo entre, por um lado,
aquilo que - como o branco - significa simplesmente uma
qualificaçäo (e nada mais do que isso) e, por outro, aquilo que -
como o homem e o animal significa uma qualific açäo a respeito da
substância. De facto, o homem e o animal näo podem ser colocados
ao mesmo nível que o branco, uma vez que, como foi afirmado em
2b29-37, aqueles dizem o que uma certa substância primeira é,
enquanto este näo. Dada uma substânci a primeira x, a espécie e o
género respondem à pergunta «o que é x?" (x é um homem, etc.),
enquanto a qualificaçäo responde à pergunta «De que tipo é x?
(x é branco, etc.); neste sentido, homem e animal significam a
essência de x, enquanto branco significa a qualificaçäo de x
(cf. Tópicos, 103b22). Mas há um outro sentido em que se pode
dizer que a espécie e o género significam também uma
qualificaçäo: se à pergunta «o que é x? foi respondido que «é
uma
que substância (que pode
pode ser dada), é a entäo
resposta mais geral
voltar-se e menos «Que
a perguntar informativa
tipo
de su bstância? , para o que «um ho mem ou «u m animal ser äo
respostas adequadas. Portanto, a espécie e o género significam,
näo a simples qualificaçäo de x, mas a qualificaçäo da
substância que x é.

1 1 2

É também este sentido relativo de qualificaçäo que está presente


na afirmaçäo, feita nos Tópicos (cf. 122b17-18), de que as
diferenças significam uma qualificaçäo. Neste caso, o que as
diferenças qualificam é o género a que a substância primeira
pertence:
x é. Além se x é um
disso, animal,
parece bípede
poder dizerindicará
se que, oemtipo de todos
geral, animalos
que
universais significam uma qualificaçäo da categoria a que
pertencem: a coragem significa uma qualidade de um certo tipo
(uma qualificaçäo da qualidade), de dois côvados significa uma
quantidade de um certo tipo (uma qualificaçäo da quantidade),
cortar significa uma acçäo de um certo tipo (uma qualificaçäo da
acçäo), etc. Do mesmo modo, também o significar um isto, embora
se aplique especialmente às substâncias primeiras, näo é uma
característica exclusiva destas. Pois se (como as linhas 3b10-13
sugerem) a individualidade e a unidade numérica bastam para
definir um isto, entäo também algumas näo-su bstâncias - como,
por exemplo, um certo branco ou um certo conhecimento gramatical

(cf. 1 b6-9)um isto (e, de facto, em 8a38 e segs., Aristóteles


constituem
contempla também a existência de «istos" na categoria dos
relativos). Pode entäo concluir-se que a distinçäo entre um isto
e uma qualificaçäo (um qual) equivale à distinçäo entre singular
e universal, a qual atravessa todas as categorias.

3b24-32 ( Uma outra característica das substâncias... qualquer


contrário. )

As substâncias näo têm contrário. Isto é válido tanto para as


substâncias primeiras (qual seria o contrário de Sócrates?) como
para as substâncias segundas (qual seria o contrário de homem?).
Esta característica é evidente por si mesma e, por isso, a sua
afirmaçäo näo carece de qualquer argumento.
A questäo de ter ou näo contrário é colocada relativamente a
todas as categorias. Sempre que analisa as características de
uma categoria, Aristóteles procura ver, por um lado, se essa
característica pertence a todos os elementos da categoria ou
somente a alguns e por outro, se se trata de uma característica
própria dessa categoria ou se é comum também a outras. Neste
caso, a ausência édecomum
as substâncias, contrariedade, apesar dedapertencer
também à categoria a todas
quantidade (cf.
5b11). Quanto à objecçäo segundo a qual o muito e o pouco, e o
grande e o pequeno, seriam quantidades contrárias, ela será
respondida em 5b14-6a11. A contrariedade é um dos géneros de
oposiçäo discutidos nos caps. 10-11.

3b33-4a9 ( A substância, ao que parece... näo admite mais e


menos. )

A questäo da possibilidade de mais e menos é também colocada a


respeito de todas as categorias . A afirmaçäo de que a substância
näo admite mais e menos é ambígua, podendo parecer entrar em
contradiçäo com osubstâncias
distinçäo entre que foi dito em 2b7-8
primeiras e com a- própria
e segundas pois as
primeiras säo mais substâncias do que as segundas e, entre as
segundas, os géneros säo menos substâncias do que as espécies.
Aristóteles clarifica entäo a sua formulaçäo: o que se pretende
dizer é que se x e y säo ambos substâncias e x é (um) y, x näo
será nunca mais ou menos y do que ele mesmo ou do que qualquer
outra substância z. Por exemplo, Sócrates é um homem e ele näo é
mais ou menos homem agora do que era antes, nem é mais ou menos
homem do que Cálias. Portanto, sempre que uma substância se
predica de diversos sujeitos, ela predicar-se-á igualmente de
todos eles, e nunca mais de uns do que de outros, nem mais num
momento do que noutro.

Aristóteles contrasta
näo-substância esta
se predica situaçäo mas
(linguística com näo
aquela em que uma
ontologicamente)
de uma substância: por exemplo, um corpo que é branco, ou belo,
ou quente, pode sê-lo mais ou menos do que um outro e pode
também sê lo mais ou menos do que ele mesmo. Esta última
possibilidade ocorre quando se verifica uma mudança no tempo: um
mesmo corpo é mais quente no instante t1 do que no instante t2,
porque entre t1 e t2 sofreu uma mudança, a saber, um
arrefecimento. ora, as substâncias podem mudar nas suas

1 1

qualidades, nas suas quantidades, nas suas relaçöes com outras,


etc., mas nunca na sua essência (com,oarar com 10b30-11 a2).
4a10-b19 ( o que principalmente parece ser próprio... dissemos o
suficiente. )

As substâncias säo capazes - e só elas o säo - de receber


contrários. Isto em nada contradiz o facto de as substâncias näo
terem contrário, pois Sócrates näo tem ele mesmo nenhum
contrário,
da saúde, mas pode receber
a doença. em si a saúde
É evidente que ose também o contrário
contrários que a
substância recebe säo necessariamente näo-substâncias
(precisamente porque as substâncias näo têm contrário). Em
5b39-6a4, Aristóteles afirma que a substância näo pode receber
ambos os contrários ao mesmo tempo. Embora mereça algumas
reservas, esta afirmaçäo mostra que a capacidade de receber
contrários implica, na maior parte dos casos, uma referência ao
tempo e também, como se torna manifesto a partir de 4a28, à
mudança. Só as substâncias säo capazes de receber contrários,
porque só elas säo sujeitos de mudança. Quando vulgarmente
dizemos, por exemplo, que o verde se tornou castanho, na
verdade, o sujeito que sofreu a mudança foi a substância em que
o verde existia
tornaram - v.g.
castanhas; näoasfoi
folhas de uma
o verde que árvore, que de
mudou, pois eleverdes se
(aquele
verde em particular) deixou simplesmente de existir. Para que
haja um processo de mudança é necessário um sujeito que persista
um e o mesmo
do início ao fim do processo. ora' quando Sócrates adoece, o
Sócrates saudável e o Sócrates doente näo säo dois seres
diferentes, mas apenas um e o mesmo. Mas para que o sujeito
mantenha a sua identidade ao mesmo tempo que sofre uma mudança,
a mudança näo pode nunca afectar a sua essência (pois näo é
possível, v.g., Sócrates deixar de ser homem e continuar a
existir), mas somente as suas qualidades, quantidades, relaçöes,
etc.; e como só as substâncias possuem qualidades, quantidades,

etc., só elas
Todavia, esta podem ser sujeitos
característica, quede Aristóteles
mudança e receh r nnntr
apresenta rina
como
mais própria das substâncias, só se aplica, na verdade, às
substâncias primeiras, pois só estas säo numericamente umas. Näo
säo as substâncias segundas que recebem os contrários, mas sim
aquilo de que elas se predicam. Pois o homem näo adoece quando
Sócrates adoece. E o branco e o preto existem ambos no corpo,
näo porque o corpo (enquanto substância segunda) seja ele mesmo
capaz de receber contrários, mas porque os sujeitos de que ele
se predica säo, em cada instante, alguns brancos e alguns
pretos. Também quando Aristótele s dá como exemplos uma cor e uma
acçäo, negando que elas sejam capazes de receber contrários
(branca e preta, boa e má), ele está a referir se, näo a um tipo
de cor e a um tipo de acçäo (universais), mas a uma cor e uma
acçäo singulares. Pois um determinado tipo de acçäo pode
evidentemente ser, quando realizada num contexto, boa e, em
outro contexto, má.
Em 4a21-28 é apresentada uma objecçäo à tese formulada, através
de um alegado contra-exemplo: uma mesma declaraçäo pode ser
verdadeira num momento e falsa no momento seguint e; e o mesmo se
passa com as opiniöes; pelo que parece que nem só as substâncias
säo capazes
resposta de receber
a esta contrários,
objecçäo, mantendo
Aristóteles encaraa primeiro
sua identidade. Na
(4a28-b5)
a hipótese de aceitar o contra-exemplo. Nesta hipótese,
verifica-se no entanto uma diferença no modo como a recepçäo dos
contrários se dá nas substâncias, por um lado, e nas declaraçöes
e opiniöes, por outro. É que, no caso das substâncias, a
recepçäo dos contrários resulta de uma mudança que ocorre na
própria substância, enquanto a declaraçäo, que antes era
verdadeira e depois se tornou falsa, ela mesma näo mudou - o que
mudou foi o facto por ela declarado. Pois a verdade ou falsidade
de uma frase declarativa é um resultado da existência ou näo
daquilo que ela declara (cf. 14b18-22 ). É certo que se a própria
declaraçäo fosse alterada, entäo, mantendo-se o facto, o valor
de
já verdade poderia
näo seria também
a mesma. mudar; amas,
Portanto, nesse
única caso, em
situaçäo a declaraçäo
que uma
declaraçäo pode, mantendo-se uma e a mesma, mudar de valor
verdade é através de uma mudança exterior a ela, verificada no
objecto. Entäo, conclui Aristóteles, ainda que aceitemos o
contra-exemplo, podemos

I 1(

continuar a sustentar a tese inicial, introduzindo-lhe apenas a


seguinte reformulaçäo: é próprio da substância ser capaz de
receber contrários através de uma mudança em si mesma.
Esta soluçäo, porém, näo satisfaz Aristóteles, que,

reconsiderando, resolve
(4b5-18). Näo falamos de umrejeitar o alegado
modo rigoroso quando, contra-exemplo
na situaçäo
descrita, dizemos que a mesma declaraçäo, ou opiniäo, recebe
(valores de verdade) contrários; pois, se é apenas pelo que
acontece fora dela que a declaraçäo é dita ser ora verdadeira
ora falsa, näo se verificando em si mesma qualquer mudança, näo
deverá dizer-se que é a própria declaraçäo que recebe os
contrários. A ideia de Aristóteles parece ser a de negar que a
verdade e a falsidade pertençam à própria declaraçäo; será antes
algo que Lhe advém, sem contudo existir nela, näo resultando
portanto de uma sua capacidade intrínseca. Rejeitando o
contra-exemplo, Aristóteles pode entäo reafirmar a tese na sua
forma inicial: é próprio da substância, sendo numericamente uma
e a mesma, ser capaz de receber contrários.
Aristóteles aceita, neste argumento, algo que o seu próprio
esquema categorial parece dar razöes para negar, a saber, a
identidade e unidade numérica de duas frases que, apesar de
constituídas pelas mesmas palavras, säo pronunciadas em momentos
distintos e perante diferentes situaçöes (compare-se com o que
acima dissemos a respeito da acçäo). Tal como um certo branco,
que existe numa certa substância (v.g. o branco que há em
Sócrates),
substância é distinto
(v.g. de um
o branco outro
que branco
há em que existe
Cálias), embora numa
sejam outra
ambos
instâncias de uma mesma cor, e t al como o s inal A é
(numericamente) distinto do sinal A , embora sej am amb os
instâncias de uma mesma letra (cf. Metafísica, 1087a19 21, De
Anima, 417a29), também se poderia afirmar que a frase Sócrates
está sentado pronunciada quando Sócrates está sentado e a mesma
frase pronunciada depois de Sócrates se levantar säo duas
instâncias (numericamente) distintas de uma mesma declaraçäo.
ora, se a frase falsa é já outra, numericamente distinta da
frase verdadeira, a questäo de receber contrários näo se coloca,
confirmando-se aliás que a capacidade de receber contrários
implica a permanência de um sujeito que muda.
Capítulo 6
[A quantidade]

4b20-5a14 («Das quantídades, umas säo discretas e outras... as


suas partes unem-se num limite comum. )

Parecendo iniciar o capítulo com uma classificaçäo dos diversos


tipos de quantidades, na realidade, o que Aristóteles classifica
säo as diferentes entidades quantificáveis, isto é, aquelas
entidades que, por possuírem propriedades quantitativas
(comprimento, largura, profundidade, pluralidade, etc.), säo
sujeitos de predicados quantitativos («de dois côvados <longo

<estreito
considerada, uma
cinco , etc.).
entidade A linguagem
quantificável (o falada, por exemplo,
que Aristóteles é
diz é,
literalmente: a linguagem é um quanto ) por ser medida por
sílabas longas e breves (4b33-34), ou seja, devido ao facto de
ser mensurável, tornando-se assim sujeito de predicados
quantitativos. Para além das elocuçöes, o mesmo se passa,
evidentemente, com as linhas as superfícies, os sólidos
( <corpos ), os lugares e os períodos de tempo - todos eles säo
entidades quantificáveis. Quanto ao número, Aristóteles deverá
estar, na mesma ordem de ideias, a referir-se a tudo aquilo que
se pode contar, ou seja, aos agregados ou conjuntos numeráveis
de coisas. Em consonância com o texto da traduçäo, falarem os das
«quantidades , mas tendo sempre em vista que nos referimos às
entidades quantihcáveis.
Aristóteles divide as quantidades em discretas e contínuas. A
noçäo de continuidade é explicada pela existência de um limite
comum onde as suas partes se unem . Esta explicaçäo parece
pressupor já o conceito de quantidade apresentado na Metafísica:
é uma quantidade aquilo que é divisível em duas ou mais partes
constituintes (cf. 1020a7-8 e todo o cap. V 13 dedicado à
quantidade). E a referência a um limite comum remete também
para a distinçäo
as partes, que é entre
feita anacontinuidade
Física V 3: epara
o simples contacto entre
haver contacto entre
duas partes A e B basta que as respectivas extremidades estejam
juntas; mas para haver continuidade é ainda necessário que as
extremidades através das quais se dá o

contacto sejam, näo duas (uma de A e outra de B), mas uma só e a


mesma (um limite comum", que ta nto pertence a A como a B).
Quando o contacto entre as partes se dá num limite comum (e näo
entre limites que se mantêm distintos), elas formam uma unidade-
um todo que, apesar de divisível, é um. Um corolário desta
definiçäo de continuidade é o de que as partes de qualquer
quantidade contínua säo elas mesmas divisíveis (cf. Física, VI
1-2), ou seja,
infinitamente que todas as quantidades contínuas säo
divisíveis.
Uma linha é composta, näo por pontos (pois estes näo säo
divisíveis), mas por segmentos de linha. ora, a divisäo de uma
linha em dois segmentos é feita através de um ponto, o qual
pertence a ambos os segmentos; o limite onde termina o segmento
A e aquele onde começa o segmento B näo säo dois pontos
distintos, mas um só e o mesmo. o mesmo se verifica com a
divisäo de uma superfície através de uma linha que é comum a
ambas as partes, e com a divisäo de um sólido através de uma
superfície que é também comum.
Relativamente ao tempo, a explicaçäo que é dada da sua
continuidade, embora demasiado concisa, coloca o seguinte

problema:
agora ) seAristóteles afirma
une ao passado que
e ao o presente
futuro, e näo (literalmente:
que o passado e< oo
futuro se unem no presente; ao fazê-lo, considera o presente
como uma parte do tempo e, portanto, como tendo duraçäo,
pondo-se entäo a questäo de saber qual é o limite onde o
presente se une com o passado, por um lado, e com o futuro, por
outro. A perspectiv a exposta na Física (cujos caps. IV 10-14 säo
dedicados à análise do tempo) é a de que o presente, enquanto
instante, näo é uma parte do tempo (tal como o ponto näo é uma
parte da linha), mas sim o limite onde o passado e o futuro se
unem e que os torna contínuos.
Quanto ao lugar, o modo como Aristóteles justifica a sua
continuidade - através da contin uidade do corpo que o ocupa -
leva-nos a perguntar se ele näo será só acidentalmente uma
quantidade (cf. adiante 5a38-b10). Será a mediçäo de um lugar
feita medindo aquilo que o ocupa ou medindo-o a ele mesmo? Se o
luar for mensurável por si mesmo, entäo näo será necessário

1 1 ')
recorrer ao corpo para justificar a sua continuidade. A análise
do lugar levada a cabo nos caps. IV 1-5 da Física explora também
a
A sua relaçäo
respeito da com o corpo.coloca-se um problema semelhante. Pois
linguagem,
parece näo haver outro modo de medir a extensäo de um discurso
que näo seja medindo o tempo que a sua elocuçäo demora. o que
implica que a linguagem näo possa ser considerada uma quantidad e
propriamente dita. Mas, se assim é, confrontamo-nos com uma
dificuldade adicional: se a linguagem só é mensurável por via do
tempo, entäo ela deverá ser, tal como este, contínua, e näo
discreta como pretende Aristóteles. A sua justificaçäo é a de
que as sílabas que compoem o discurso säo unidades discretas,
näo possuindo qualquer limite comum de uniäo. o problema é
certamente complexo, mas podemos dizer que o discurso na sua
face puramente material, isto é, na sua substância fónica e tal
como
sonoroé contínuo,
recebido sem
pelo aparelho
divisöes auditivo,
naturais constitui disso
(apercebemo-nos um fluxo
ao
ouvir falar uma língua que ignoramos por completo); é somente o
conhecimento do seu significado que nos permite distinguir as
suas unidades - palavras e sílabas. Mas Aristóteles está
certamente longe deste tipo de análise do fenómeno linguístico.
Problema também difícil coloca-se a propósito do número. Há uma
ambiguidade na afirmaçäo de que, por exemplo, o três e o sete
(enquanto partes de dez) näo se unem em qualquer limite comum.
Na Física, Aristóteles distingue dois sentidos de número : o
número como aquilo que é objecto de uma contagem (a pluralidade
ou o aspecto numerável de algo) e o número como aquilo com que
se realiza a contagem (o número abstracto da aritmética) (cf.

219b5-7). Um grupo
sentido, enquanto de dez10cavalos
o número é um nonúmero
é um número no sentido.
segundo primeiro
ora, no presente contexto das Categorias, em que o que está a
ser analisado säo as entidades quantificáveis, Aristóteles só
pode estar a referir-se aos números enquanto grupos numeráveis
de coisas, sejam elas de que tipo forem. Mas, neste caso, näo
dependerá a continuidade ou näo-continuidade precisamente do
tipo de coisas que estiverem em causa? No exemplo dos dez
cavalos, é óbvio que se trata de uma quantidade discreta. Mas se
tomarmos como exemplo a divisäo de um quadrado em quatro
quadrados, ou em dois rectângulos, ou a divisäo de um dia em
vinte e quatro horas, já estaremos perante quantidades que,
apesar de numeráveis, säo contínuas . Portanto, tudo indica que o
número (no sentido daquilo que é numerável) é uma quantidade que
tanto pode ser discreta como contínua. Aristóteles, ao afirmar a
impossibilidade de uma pluralidade contínua, poderá ter sido
erroneamente influênciado pela ideia de que, quando duas linhas
se unem num ponto comum, elas formam uma única linha, deixando
entäo de haver pluralidade; pelo que pareceria que, para haver
pluralidade, näo pode haver continuidade. os exemplos acima
indicados mostram que näo é assim.

5a15-37( Além disso, umas quantidades säo... outras näo säo


compostas por partes que têm posiçäo. )

As linhas, as superfícies, os sólidos e os lugares säo


quantidades cujas partes constituintes têm posiçäo umas em
relaçäo às outras. Todas estas quantidades possuem uma
existência espacialmente determinada e, além disso, verifica-se
que em todas elas há homogeneidade entre as partes e o todo (no
sentido em que as partes de uma linha säo linhas, as de uma
superfície, superfícies, etc.), pelo que também as suas partes
possuem uma localizaçäo espacial: as partes de uma linha estäo,
tal como a própria linha, situadas numa superfície; a superfície
e
asassuas
suaspartes,
partes situado
estäo situad as num quanto
num lugar; sólido,a e este
o sólido está,
último, com
cada
lugar está situado num lugar mais amplo que o contém (tal como o
teatro está situad o na cidade) e o mesmo se verifica com as suas
partes. Além disso, a situaçäo espacial das diversas partes de
um todo contínuo implica a possibilidade de determinar quais se
unem entre si , ou seja, determinar a sua posiçäo relativa.
Quanto ao tempo e à linguagem falada, uma vez que a sua
existência näo é espacialmente determinada, isso seria
suficiente para provar que as suas partes näo têm posiçäo
relativa. Mas a

1 .) í

justificaçäo apresentada
«nenhuma das suas por Aristóteles
partes perdura é em
, no sentido antes
que anenhuma
de que
delas se mantém presente. ora, exige-se um mínimo de permanênci a
para que al go ten ha pos içäo. Todavia, se perdurar" é uma
característica temporal (pois a duraçäo de algo é medida pelo
tempo), há uma evidente impropriedade em caracterizar com ela o
próprio tempo. o mesmo parece poder afirmar-se dos predicados
anterior e posterior : que sentido haverá na afirmaçäo de que
o passado é anterior ao presente e ao futuro e estes posteriores
àquele? o que aconteceu ontem é anterior ao que acontece agora,
pois aconteceu antes, mas näo parece ser correcto dizer do
próprio passado que aconteceu antes do presente. Ao invés de ter
uma certa ordem, o tempo é a ordem anterior-posterior, a qual
deverá ser atribuída àquilo que o tempo mede (o movimento, a
linguagem, etc.) e näo ao próprio tempo.
No que diz respeito ao número, a presente passagem prolonga a
ambiguidade já detectada em 4b25-31. Aristóteles deverá
referir-se aos grupos numeráveis de coisas (objectos possíveis
de uma contagem) e, tal como a continuidade ou näo-continuidade
dependem do tipo particular de coisas que estiverem em causa, o
mesmo se verifica neste caso. Uma linha dividida em quatro
segmentos é uma
posiçäo umas em quantidade
relaçäo às numerá
outras.vel
Mascomposta por de
a elocuçäo partes
uma que têm
palavra
composta por cinco sílabas é uma quantidade numerável cujas
partes näo têm posiçäo, mas sim uma ordem. o facto de se contar
«um antes de dois e dois antes de três revela uma ordem que é
inerente ao próprio processo de contagem e näo à pluralidade que
Lhe serve de objecto.

5a38-b10 ( Só estas que referimos é que säo propriamen te... se o


é, é-o acidentalmente. )

As entidades que foram consideradas nas passagens anteriores


(linha, superfície, sólido, lugar, tempo, número e linguagem)
näo säo as únicas
as únicas, coisas que säo
diz Aristóteles, que chamadas quantidades, emaspor
o säo propriamente säosi
mesmas. Aristóteles dá três exemplos de outras coisas que, para
além destas, säo também chamadas quantidades um branco, uma
acçäo e um movimento -, e argumenta entäo que os predicados
quantitativos que Lhes säo atribuídos ( de grande extensäo
longa", etc.) só o säo devido à sua concomitância com alguma das
quantidades propriamente ditas: é porque a superfície é de
grande extensäo que o branco que nela existe é também dito tal;
e é porque o tempo que demoram é longo que uma certa acçäo e um
certo movimento säo ditos também longos. Além disso, a
determinaçäo da quantidade de qualquer destas coisas é feita
medindo as quantidades propriamente ditas com que elas säo

concomitantes.
uma vez que säoPor isso, estas
sujeitos coisas säo
de predicados chamadas quantidades,
quantitativos, mas só o
säo de modo derivado, isto é, acidentalmente. Foi com base nesta
distinçäo que questionámos se a linguagem näo será também só
acidentalmente uma quantidade, devido à sua concomitância com o
tempo; pois näo depende a quantidad e de uma sílaba - o ser longa
ou breve - apenas do tempo que a sua elocuçäo demora?
Na presente passagem, Aristó teles considera que o movimento só é
uma quantidade por causa do tempo. Na Física (IV 11) e na
Metafísica (V 13), a relaçäo inverte-se: é só porque o movimento
é uma quantidade que o tempo também o é. Esta inversäo resulta
da ideia aí desenvolvida de que sem movimento näo haveria tempo
e de que o tempo näo é mais do que uma propriedade do moviment o.
No entanto, o movimento continua nessas obras a ser considerado
uma quantidade derivada, só que relativa ao espaço.
Aristóteles torna bastante visível a pertinência da distinçäo
entre quantidades propriamente ditas e quantidades derivadas,
mas o que as oscilaçöes que referimos testemunham é a ausência
de um princípio capaz de suportar a sua pretensäo a uma
classificaçäo exaustiva. Há outros tipos de quantidade, como por
exemplo o peso, que näo säo contemplados e a propósito dos quais
haveria que uma
Além disso, analisar
outra em que classe
questäo se éincluem.
que näo esclarecida é a de saber
qual o estatuto categorial das linhas, superfícies,
sólidos, etc. Eles säo sujeitos de predicados quantitativos,
tais como <longo", «de dois côvados , etc., mas Aristóteles näo
dá qualquer indicaçäo de que devam ser considerados substân

5b11-29 («Além disso, a quantidade näo tem qualquer contrário ...


eles säo relativos.")

Já quando, em 3b27-32, indicou a quantidade como sendo algo que,


tal como a substância, näo tem contrário, Aristóteles referiu a
objecçäo de que muito e pouco, e grande e pequeno, seriam
contrários.
afirmaçäo às E,quantidades
nessa altura, optou tais
definidas, por como
restringir a sua
dois côvados.
Também agora, ao voltar ao mesmo assunto, Aristóteles começa por
dizer que, para as quantidades definidas, é evidente o facto de
näo terem contrário. (Há um óbvio engano ao indicar «uma
superfície como exemplo de uma quantidade definida, ao lado de
«dois côvados e «três côvados ; Aristóteles deverá querer dizer
«uma certa área , v.g. 2 x 3.) Quanto à objecçäo de que multo e
pouco, e grande e pequeno, seriam quantidades contrárias,
Aristóteles divide a sua resposta em duas partes: primeiro
(5b15-29), argumenta que näo säo quantidades; depois
(5b30-6a11), argumenta que näo säo contrários. Manter-se-ia
assim válida a afirmaçäo geral de que nenhuma quantidade tem

contrário.
Deve observar-se que, enquanto nas passagens anteriores
Aristóteles se referiu, sob a designaçäo de «quantidades às
entidades que säo sujeitos de predicados quantitativos, agora
volta a sua atençäo para os próprios predicados quantitativos e
para aquilo que eles significam.
Nenhuma coisa é em si mesma grande ou pequena. A atribuiçäo dos
predicados <grande e pequeno a uma coisa é sempre feita por
referência a outra coisa, que serve de termo de comparaçäo. o
que significa que dizer de uma coisa que é grande näo é mais do
que dizer que ela é maior do que alguma outra coisa, que tomamos
como padräo do juízo. Portanto. trata-se de um

predicado que implica sempre uma relaçäo. Aristóteles acentua


este facto ao contrastar uma montanha pequena com um gräo de
milho grande, e a populaçäo de uma aldeia, onde vivem muitas
pessoas, com a de Atenas, onde vivem poucas (ou ainda as muitas
pessoas que vivem numa casa com as poucas que estäo num teatro).
o aparente absurdo destes exemplos desvanece-se quando nos
apercebemos de que estäo a ser utilizados padröes diferentes em
cada uma das adjectivaçöes: näo é em comparaçäo com o gräo de
milho
coisa que
que a montanha
esta é pequena,
é pequena nem
enquanto é em écomparaçäo
aquele grande; a com a mesma
montanha é
pequena em comparaçäo com a média das montanhas, tal como a
aldeia tem uma populaçäo muito numerosa em comparaçäo com a
média das aldeias. Isto testemunha bem que grande, pequeno,
muito e pouco, quando säo ditos de uma coisa, säo-no sempre por
referência a alguma outra coisa, com a qual aquela é comparada.
(E também testemunha o facto de näo usarmos um padräo único em
todas as atribuiçöe s de cada um destes predicados. ) o que parece
dar razäo a Aristóteles para concluir que, em todos estes casos,
estamos perante relativos (cf. caracterizaçäo dos relativos em
6a36-37).
Mas terá Aristóteles também razäo ao afirmar que grande, muito,
etc., näo säo
significado quantidades?
comparativo (e, Embora tenha relativo)
portanto, sido evidênciado
que está o
implícito neste tipo de adjectivos, parece difícil recusar-lhes
um significado também quantitativo. Pois quando dizemos que uma
coisa é grande comparamo-la com outras, mas esta comparaçäo é
feita a respeito da sua quantidade. Talvez devêssemos entäo
considerar este tipo de adjectivos como expressäo de quantidades
relativas. Além disso, que dizer de adjectivos qualitat ivos como
bom" e <mau"? Näo envolve a sua predicaçäo também uma
comparaçäo com alguma outra coisa consider ada como padräo? E näo
seräo eles entäo expressäo de qualidades relativas? Aristóteles
näo contempla esta possibilidade, e parece considerar que, por
serem relativos, grande, pequeno, muito e pouco näo podem ser

quantidades (confrontar
5b30 6a1 1 («Além disso,com 11 a37-38).
quer os considerem... elas näo teräo
qualquer contrário. )

Se grande, pequeno, muito e pouco säo relativos e näo


quantidades, entäo, ainda que sejam contrários, eles näo
invalidam a tese de que nenhuma quantidade tem contrário. Mas
Aristóteles pretende agora provar que eles näo säo contrários.
De modo que, mesmo que sejam considerados quantidades, ainda
assim a tese se mantém válida.
o destinatário desta passagem deverá ser alguém que aceita que o
grande, o muito, etc., só podem ser apreendidos por referência a
outra coisa (5b31-33), mas näo aceita que sejam relativos
(6a9-10). Além disso, no cap. 7, Aristóteles afirma que os
relativos podem ter contrários, embora nem todos o tenham (cf.
6b15-19). Por isso, se a impossibilidade de ser apreendido por
si mesmo exclui a contrariedade, entäo ela näo pode ser comum a
todos os relativos. Relacionado com isto, está a discussäo da
natureza dos relativos no final do cap. 7 (cf. 8a28 e segs.).
A partir de 5b33, säo apresentados dois argumentos por reduçäo
ao absurdo para provar que grande e pequeno näo säo contrários o
primeiro
contrários,argumento
entäo, umadiz
vez que,
que a se grande
mesma coisa epode
pequeno fossem
ser ao mesmo
tempo grande (em comparaçäo com x) e pequena (em comparaçäo com
y, diferente de x), a mesma coisa admitiria ambos os contrários
ao mesmo tempo. Mas isto näo é possível, nem sequer no caso das
substâncias. A referência às substâncias justifica-se porque, em
4a10-b18, a capacidade de receber contrários foi apresentada
como sendo própria das substâncias. Retomando os exemplos que
entäo utilizara, Aristóteles aponta o facto de a substância
poder receber ambos os contrários (doente e saudável, branca e
morena), mas näo ao mesmo tempo. Todavi a, a escolha dos exemplos
é enganadora. Pois o conhecimento e a ignorância também säo
contrários (cf. 6b16-17), e a mesma pessoa pode, ao mesmo tempo,
ter conhecimento
o princípio (de x) e ser ignorante
da näo-contradiçäo, (de y, diferente
que é apresentado no cap. de
IV x).
3
da Metafísica e discutido e defendido nos capítulos seguintes,
estabelece que atributos

contrários näo podem pertencer, ao mesmo tempo, ao mesmo sujeito


e a respeito da mesma coisa. Esta última restriçäo impede que o
princípio seja utilizado para provar que grande e pequeno näo
säo contrários.
o segundo argumento, que também parece näo ser válido, poderia
ser reconstruído do seguinte modo: suponhamos dois atributos x e
y que säo contrários e suponhamos também dois sujei tos R e S aos
quais, no mesmo instante t, pertencem respectivamente aqueles

dois atributos
contrário de R;(em t, R é x agora
suponhamos e S é que
y); Rseguir-se-ia daí que
e S säo afinal S é o
o mesmo
sujeito; chegar-se-ia entäo à conclusäo absurda de que R é o
contrário de R. o erro deste argumento está na conclusäo
intermédia de que S seria o contrário de R. Pois, se supusermos
que grande e pequeno säo contrários, daí näo se segue que uma
coisa que é grande seja o contrário de uma coisa que é pequena -
elas possuem propriedades contrárias, mas näo säo elas mesmas
contrárias. Portanto, também do facto de uma mesma coisa possuir
simultaneamente propriedades contrári as näo se pode concluir que
ela seja o contrário de si m cm

6a11-18 (< Mas é principalmente a respeito do lugar... mais


distantes umas das outras. )
Aristóteles menciona uma última objecçäo à sua tese de que as
quantidades näo têm contrário: tal como grande e pequeno, e
muito e pouco, qualificam respectivamente a magnitude e a
pluralidade, em cima e em baixo qualificam o lugar (e o lugar
inclui-se também entre as quantidades); por isso, se em cima e
em baixo säo contrários, haverá entäo quantidades contrárias.
Mas por queNuma
contrários? é concepçäo
que em cima
em quee oemmundo
baixo säo considerados
é finito, esférico e
geocêntrico, e em que a sua descriçäo é feita do ponto de vista
do observador humano, «em baixo designa a regiäo central, onde
se situa a Terra, enquanto «em cima designa a extremidade da
esfera, onde se situam as estrelas. Uma vez que o cimo
é o lugar que está a maior distância do centro («em baixo ),
eles säo considerados contrários. E, acrescenta Aristóteles, as
pessoas que assim pensam derivam daqui a definiçäo geral dos
contrários («as coisas que, no mesmo género, estäo mais
distantes umas das outras"), a qual se torna assim uma definiçäo
originariamente espacial. (Sobre a eventual posiçäo de
Aristóteles a respeito desta definiçäo dos contrários,
cf.14a19-25.)
Mas se o significado primário das ex pressöes «em cim a e «em
baixo é o de uma de terminada localizaçäo - a saber: a regiäo
central e a regiäo limítrofe do mundo-, entäo elas näo se
incluem na categoria da quantidade. Säo expressöes que (tal como
«no Liceu e «na pr aça ) sign ificam um on de e näo um qu anto.
Portanto, mesmo que seja admitida a sua contrariedade, esta näo
pertence à quantidade.

6a 19-25 ( A quantidade näo parece admitir... mais e menos. )

Com certeza que uma linha pode ser mais comprida do que outra.
Mas se duas linhas medem ambas dois côvados, o predicado «de

dois
modo, côvados
também näo se aplica mais
um determinado a uma
grupo de docoisas
que a outra. Do mesmo
pode ser mais
numeroso do que outro; por exemplo, o primeiro é um grupo de
cinco coisas, enquanto o segundo tem apenas três coisas. Mas o
numeral «três näo se aplica mais ao segundo do que ao primeiro.
Relativamente ao tempo, a ideia de Aristóteles deverá ser
semelhante: uma hora näo é mais uma hora do que outra. Portant o,
os atributos quantitativos ou se predicam ou näo se predicam de
um certo sujeito, mas eles näo admitem diferentes graus de
predicaçäo.
E evidente que, ao afirmar esta característica de todas as
quantidades, Aristóteles pressupõe que grande, pequeno, etc.,
näo säo quantidades. Pois o ser grande e o ser pequeno, ou o ser
muito e pouco, admitem diferentes graus.
1 2

6a26-35 ( Mas o que principalmente é próprio da quantidade... é


ser dita igual e näo-igual.")

Tal como fez para a substância, Aristóteles procura determinar,


entre asquer
própria, características da ela
dizer, aquela que quantidade, aquela que Lhe é
e só ela possui.
Quando duas coisas possuem a mesma quantidade säo ditas iguais.
Por exemplo: duas linhas com o mesmo comprimento, dois corpos
com o mesmo volume, dois grupos com o mesmo numero de coisas,
dois períodos de tempo com a mesma duraçäo. Se a quantidade näo
é a mesma, elas säo ditas näo iguais. Repare se que, segundo
Aristóteles, o que é dito igual ou näo-igual é o sujeito da
quantificaçäo.
Mas, além disso, Aristóteles considera que somente o que é
quantificável pode ser dito igual ou näo-igual. o que equivale a
afirmar que a igualdade significa exclusivamente a posse da
mesma quantidade. Por isso, segundo Aristóteles, uma doença
(espécie de E,
semelhante. disposiçäo)
do mesmo nunca
modo, é igual
dois a outra;
brancos näo o que
säo pode émas
iguais, ser
semelhantes. Este último exemplo pode suscitar dúvidas, uma vez
que o branco foi mencionado em 5b6-8 como algo que é
derivadamente quantificável (através da superfície em que
existe). Poder-se-á entäo falar de dois brancos iguais, no
sentido em que possuem a mesma área. Contudo, näo será enquanto
brancos que eles säo iguais (a igualdade refere-se à área das
respectivas superfícies, e näo à brancura).
Capítulo 7

I os relativos

6a36
ditas b11 ( Chamama se
em relaçäo relativos
alguma coisa.todas
) aquelas coisas que säo...

o dobro e o maior (e os seus correlativos: a metade e o menor)


säo os exemplos preferidos por Aristóteles para ilustrar a
categoria dos relativos (cf. 2a1). De facto, quando se diz de
alguma coisa que é o dobro, ou que é maior, daqui resulta uma
afirmaçäo que tem de ser completada com a referência a alguma
outra coisa. Comparem-se, por exemplo, as afirmaçöes Sócrates é
branco e «Sócrates é maior": a primeira é uma afirmaçäo
definida, que constitui uma unidade completa de sentido, o que
näo acontece com a segunda, a qual precisa obviamente de ser
completada («... do que Cálias ). Aquilo que é maior é sempre
dito ser maior do que outra coisa, tal como aquilo que é o dobro
é sempre dito ser o dobro de outra coisa. (o que significa que
tanto um como outro säo, em grego, expressos por termos a que se
segue sempre um genitivo.) o maior e o dobro säo, entäo,
relativos («säo ditos ser o que säo de, ou do que, outras coisas
Mas a descriçäo que Aristóteles faz dos relativos abrange também
outros casos, tais como o semelhante e o grande. Aquilo que é
semelhante é sempre dito ser semelhante (näo de, nem do que, mas
sim) a outra
dativo). coisa
E, como (neste caso,
foi argumentad o em trata-se, em grego,
5b15-22, aquilo que é de um
grande
é sempre dito ser grande (näo de, nem do que, nem a, mas sim) em
relaçäo a outra coisa (em grego, faz-se aqui uso de uma
preposiçäo).
Portanto, em geral, todos os relativos säo ditos ser o que säo
em relaçäo a outra coisa, podendo esta relaçäo ser expressa de
diversas maneiras (de que a mais frequente é, segundo
Aristóteles, o genitivo: «de ou «do que ). Esta caracterizaçäo
dos relativos será, na parte final do capítulo (8a28 e segs.),
substituída por uma outra, que a integra, mas que é mais
exigente.
Estado, disposiçäo, percepçäo, conhecimento e posiçäo säo
também, segundo Aristóteles, exemplos de relativos (expressos
130

por termos a que se segue um genitivo). No que diz respeito ao


conhecimento e à percepçäo, os seus correlativos ( aquilo em
relaçäo ao qual eles säo ditos ) säo, respectivamente, o
conhecível e o perceptível (cf. 6b34-35); pois todo o
conhecimento tem um objecto do qual é dito ser conhecimento, e o
mesmo é válido para a percepçäo. Mas, quanto aos outros três,
Aristóteles näo dá qualquer indicaçäo de quais sejam os seus
correlativos. o significado da clá usula e näo outra coisa
(6b4) que Aristóteles insere na afirmaçäo de que o conhecimento,

a
de percepçäo, etc., säo
outras coisas, ditos
pode ser o compreender-se
talvez que säo (e näo outra coisa)da
a partir
consideraçäo feita em 11a23-32. Ela teria assim como funçäo
excluir da categoria dos relativos coisas como a gramática e a
música; pois a gramática é dita conhecimento de alguma coisa,
mas näo gramática de alguma coisa.

6b1 1-14 ( Deitado, levantado e sentado... a partir das


referidas posiçöes. )

E difícil de compreender a relevância desta observaçäo para a


análise dos relativos. Aristóteles já afirmara que a posiçäo é
um relativo, e agora acrescenta que deitado, levantado e sentado
säo posiçöes, mas näo esclarece se säo também, ou näo,
relativos. Provavelmente, näo o säo pelas mesmas razöes que o
conhecimento é um relativo mas a gramática e a música näo o säo
(cf. 11a23-24 e segs.). Quanto à segunda frase, ela será
retomada em 11b10-11: estar deitado, estar levantado e estar
sentado pertencem à categoria intitulada estar numa posiçäo
(cf. 2a2-3); e os seus nomes säo paronimicamente derivados das
posiçöes correspondentes. o que deverá significar que é porque a
posiçäo sentado
dito estar existe
sentado ; tal em Sócrates
como quea ele
é porque é (paronimicamente)
cegueira existe em Paulo
que ele é dito ser cego (cf.12a35-b1).

1 . 1
6b15-19 («Nos relativos há também contrariedade... nem o triplo,
nem qualquer destas coisas. )

Alguns relativos têm contrário, enquanto outros näo têm.


Aristóteles dá como exemplos dos primeiros a virtude e o
conhecimento - cujos contrários säo, respectivamente, o vício e
a ignorância. Quanto à virtude, Aristóteles também näo dá
qualquer indicaçäo de qual seja o seu correlativo (a virtude é
dita virtude
relativo de quê?).
é ele tambémVerifica-se aindaPelo
um relativo. que omenos
contrário de umda
no caso
ignorância, isso é evidente; pois, tal como o conhecimento,
também a ignorância é dita ignorância de alguma coisa.
Relativos que näo têm contrário säo, por exemplo, o dobro e o
triplo. É significativo que Aristóteles näo mencione o maior.
Será o menor o contrário do maior, ou apenas o seu correlativo?
Esta questäo tem grande semelhança com a que foi discutida em
5b30-6a11 a respeito do grande e do pequeno (e do muito e do
pouco), pois também aqui a mesma coisa pode ser ao mesmo tempo
maior e menor. Nessa passagem, Aristóteles afirmava que aquilo
que näo pode ser apreendido por si mesmo, mas somente por
referência a outra coisa, näo pode ter contrário (5b31-33).

Podem os relativos
independentemente ser correlativos?
dos seus apreendidos por
Esta si mesmos,
questäo será
discutida em 8a35-b21, na sequência da reformulaçäo do critério
para que uma coisa seja um relativo.

6b19-27( Parece que os relativos também admitem mais e menos...


nem qualquer destas coisas. )

Também aqui, alguns relati vos admitem mais e menos, mas isso näo
acontece com todos eles. Aristóteles dá como exemplos, para os
primeiros, o semelhante e o näo igual, e, para os segundos, o
dobro. Havendo uma coisa A à qual B e C säo semelhantes, pode
dar-se o caso de a semelhança entre A e B ser superior à que
existe entre A e C; mas se B e C säo ambas o dobro de A, nunca
uma delas Poderá ser mais o dobro do que a outra.

A referência ao näo-igual como sendo um relativo que admite mais


e menos levanta alguns problemas. Em princípio, o que é dito do
näo-igual deverá ser também válido para o igual. A inclusäo do
igual e do näo-igual na categoria dos relativos é, sem dúvida,
acertada; pois, tal como o semelhante, também o igual é sempre
dito
Já a igual a outra
afirmaçäo coisa,
de que e igual
o näo o näo-igual näo-igua l a outra
- e, provavelmente, coisa.
também o
igual - admite mais e menos é bastante duvidosa. Segundo
Aristóteles, o igual e o näo-igual dizem-se apenas daqui lo que é
quantificável - linhas, superfícies, corpos, agrega dos,
períodos de tempo, etc. (cf. 6a26 35). Portanto, igual é o que
tem (e näo-igual é o que näo tem) a mesma quantidade, ou o mesmo
predicado quantitativo. ora, neste sentido quantitativo, näo
parece haver diferentes graus de igualdade e de näo-igualdade.
Pois o que seria uma linha mais igual, ou menos näo-igual, do
que outra, a uma terceira?
A inclusäo do igual e do näo-igual na categoria dos relativos,
juntamente com a afirmaçäo de que o ser dito igual e näo-igual
é aquilo que
problema paraé apróprio
teoria da quantidade (cf.
aristotélica, 6a26-35),
na medida srcinam
em que um
parecem
implicar a possibilidade de relativos serem ditos de
quantidades. Na mesma passagem, Aristóteles mencionou duas
qualidades uma dispo siçäo e um branco - e argumentou que elas
näo säo ditas iguais, mas sim semelhantes (6a32-34). ora, uma
vez que o semelhante é um relativo, também aqui parece haver um
relativo que é dito de qualidades. Estes casos näo violam o
princípio de que a predicaçäo (ontológica) é exclusivamente
intracategorial, porque, a rigor, eles devem ser considerados
casos de simples predicaçäo linguística, por paronímia: tal como
Sócrates é paronimicamente dito corajoso porque nele existe a
coragem, também um número e um branco deveräo ser

paronimicamente ditosa igualdade


porque neles existe igual e esemelhante (respectivamente)
a semelhança. A distinçäo
entre relativos (igual, semelhant e, etc.) e relaçöes (igualdade,
semelhança, etc.), que Aristóteles näo faz (embora faça a
distinçäo, que é paralela a esta, entre qualificaçöes e
qualidades cf. 8b25 e 10a27-29), mostra-se assim essêncial para
salvaguardar a coerência da teoria. Contudo, ainda
assim pareceria termos de admitir como possível a inerência
entre relaçöes e quantidades (no caso da igualdade) e entre
relaçöes e qualidades (no caso da semelhança), o que contradiria
o princípio anteriormente aceite de que só as substâncias säo
sujeitos de inerência. Como solucionar este problema? No caso da
semelhança, a soluçäo parece ser simples, pois segundo 11a15-19
näo säo as qualidades que säo ditas semelhantes, mas sim os
sujeitos a que elas säo inerentes. Portanto, a semelhança é uma
relaçäo que é inerente às substâncias quando estas possuem a
mesma qualidade. o caso da igualdade é mais difícil. Em 6a26-35,
os sujeitos de que o igual e o näo-igual säo ditos näo säo as
quantidades, mas sim as entidades quantificáveis (corpos,
períodos de tempo, agregados de coisas, etc.). Porém,
Aristóteles näo considera que estas entidades sejam substâncias,
pelo que que
relaçäo näo époderemos
inerentedizer, neste caso,quando
às substâncias que a estas
igualdade é umaa
possuem
mesma quantidade. (Compare-se com Metafísica 1021 a 11 - 12. )

6b28-36 ( Todos os relativos säo ditos em relaçäo a...


perceptível pela percepçäo. )

Da descriçäo que foi feita dos relativos decorre que,


necessariamente, todos os relativos têm um correlativo (que é
aquilo em relaçäo ao qual säo ditos). o que nesta passagem
Aristóteles afirma é mais do que isso - é que a relaçäo entre
eles (relativo e correlativo) é sempre recíproca. Três exemplos
confirmam esta tese: escravo-senhor, dobro-metade e maior-menor.
A existência
escravo, de existe
entäo um correlativo
um B dediz apenas
quem A é o escravo.
seguinte:A se A é da
tese
reciprocidade diz, além disso, que se A é escravo de B, entäo B
é senhor de A, e se B é senhor de A, entäo A é escravo de B
A diferença na forma de expressäo (literalmente: uma
diferença de terminaçäo ) a que Aristóteles se refere em 6b33 é
a que, em português, se traduz na substituiçäo da preposiçä o «de
pela preposiçäo «por . Há casos em que a reciprocidade entre x e
y se expressa deste modo: A é x de B, e B é y por A (em areäo.

este efeito obtém-se pela diferen ça entre o genitivo e o dativo;

daí a diferença
conhecimento-conhecível é«de terminaçäo
um destes casos. .) A relaçäo

6b36-7b14 ( Contudo, por vezes, eles näo pareceräo reciprocar...


correlativos que reciprocam.")

A passagem 6b36-7b14, apesar da sua grande extensäo, desenvolve


um argumento relativamente simples. Tendo afirmado que a
reciprocidade entre relativos se verifica sempre, Aristóteles
apresenta agora alguns exemplos em que aparentemente isso näo
acontece: a asa é dita ser asa de uma ave, mas a ave näo é dita
ser ave de uma asa; e, do mesmo modo, o leme é dito leme de um
barco, e a cabeça é dita cabeça de um animal, mas em nenhum
deles há reciprocidade. o diagnóstico que Aristóteles faz para
estas situaçöes anómalas é o de que, em todas elas, o
correlativo näo foi adequadamente expresso. A ave, o barco e o
animal, que foram inicialmente apresentados como sendo os
correlativos da asa, do leme e da cabeça, na realidade näo o
säo; a prová-lo está, para o primeiro exemplo, o facto de haver
«muitas outras coisas que têm asas e que näo säo aves (7a2-3),
e para os outros dois o facto de haver < barcos que näo têm leme
(7a9
estes 10) e longe
casos, animais
de que näocontra-exemplos
serem têm cabeça , (7a17-18).
capazes de Portanto,
refutar a
afirmaçäo do carácter universal da reciprocidade entre
relativos, o que fazem é revelar a necessidade de uma expressäo
adequada dos correlativos. E Aristóteles sustenta que, sempre
que os correlativos sejam adequadamente expressos,
confirmar-se-á a existência de reciprocidade. Na maior parte dos
casos, será fácil encontrar e apresentar o correlativo exacto
(cf. «a asa de um alado ), mas nalguns casos isso poderá
revelar-se difícil, se näo houver nenhum nome para o designar.
Aristóteles propõe que, nestes casos, se criem esses nomes,
derivando-os do nome do relativo inicial - o que ele próprio faz
com o <lemado" e o «cabeçado .
De acordo
todas com o que
as coisas critério inicialmente
säo ditas ser o queapresen
säo emtado, säo arelativos
relaçäo
outras coisas. ora, a asa, o leme e a cabeça cumprem esta
exigência e, por isso, deveräo ser relativos. Todavia, o que
Aristóteles aqui descobre é que nem tudo aquilo em relaçäo ao
qual um relativo é dito constitui realmente o seu correlativo.
Existem coisas em relaçäo às quais um relativo é dito que säo
acidentais , quer dizer, coisas que, apesar de o relativo ser
dito em relaçäo a elas, näo é por causa delas que isto acontece,
mas sim por causa de algo que Lhes é concomitante. Parece
tornar-se entäo necessário um cuidado especial para evitar que
seja apresentada como correlativo alguma destas coisas
acidentais . Daí o imperativo que no final é formulado por

Aristóteles:
relaçäo ao qual devemos expressar
o relativo como co rrelativo
for adequadamente aquilo em
dito (7b10).
Contudo, este argumento perderá a sua validade depois da
discussäo com que encerra o presente capítulo (8a13-b21). A luz
dessa discussäo verifica-se que o erro que está na srcem das
situaçöes anómalas que servem de base ao argumento näo reside na
expressäo inadequada dos correlativos, mas antes em ter
considerado que a asa, o leme e a cabeça säo relativos. Pois a
asa, o leme e a cabeça säo partes de substâncias e, como tal,
säo eles mesmos substâncias; e, segundo conclui Aristóteles,
nenhuma substância pertence à categoria dos relativos (8b21).
De facto, as conexöes asa-ave, leme-barco e cabeça-animal säo
conexöes, näo do tipo relativo-correlativo, mas do tipo
parte-todo. Elas säo conexöes do tipo daquelas que se verificam,
numa substância, entre uma parte e o respectivo todo. E essa é a
razäo por que näo há nelas reciprocidade pois a parte é parte do
todo, mas o todo näo é todo da parte. Simplesmente, a destrinça
destes dois tipos de conexäo obrigará à reformulaçäo do critério
para ser um relativo, de modo a que seja restringido o seu
domínio. De acordo com o critério inicial, as partes das
substâncias teriam de ser consideradas relativos, uma vez que
elas säo que
critério ditas
seráser o que em
proposto säo8a31-32
dos respectivos todos.
já näo permite, Mas o
segundo
Aristóteles, a sua inclusäo na categoria dos relativos.

7b15-8a12 ( os relativos parecem ser simultâneos... o


perceptível parece ser anterior à percepçäo. , )

A maior parte dos relativos säo simultâneos por natureza (com os


seus correlativos). Mas sê-lo-ao todos? A posiçäo de Aristóteles
nesta passagem é a de que, embora, por um lado, quando a questäo
é colocada na sua generalidade, os relativos pareçam ser todos
simultâneos por natureza, por outro lado, quando se passa à
consideraçäo dos casos particulares, o conhecível e o
perceptível
Deve ler-se parecem ser anteriores
esta passagem ao com
em ligaçäo conhecimento e àe percepçäo.
os caps. 12 13, onde
säo abordadas as noçöes de anterioridade e simultaneidade. Dessa
comparaçäo resultam algumas diferenças, ainda que näo muito
significativas: a simultaneidade quanto ao tempo näo é ainda
claramente distinguida da simultaneidade por natureza; e, dos
dois tipos em que esta se divide, é considerado o primeiro, mas
a sua noçäo näo se encontra ainda completa. De facto, o
principal critério que Aristóteles aqui utiliza para contar duas
coisas como sendo simultâneas por natureza é o da implicaçäo
existencial recíproca: o dobro e o escravo existem se e somente
se existem, respectivamente, a metade e o senhor; por isso, se
um deles é destruído, o outro também o é. o cap.13, além da

implicaçäo
influência daexistencial recíproca,
passagem 14b10-22) acrescentará
a seguinte condiçäo:ainda (sob
para que x
e y sejam simultâneos por natureza é necessário que nenhum deles
seja causa da existência do outro (cf. 14b27-32). Todavia, a
ausência desta condiçäo limitativa näo afecta a presente
discussäo, se, como parece, nenhum relativo é causa do seu
correlativo.
A anterioridade de que parecem gozar o conhecível e o
perceptível é de dois tipos, ambos descritos no cap. 12:
anterioridade quanto ao tempo (cf. 14a26-29) e quanto à
implicaçäo da existência (cf. 14a29 35). Em 7b24-27 e 8a6-11,
Aristóteles tem em vista o aspecto temporal, mas é o segundo
aspecto o que Lhe merece maior atençäo: a implicaçäo existenc ial
verifica-se somente num sentido, do conhecimento e da percepçäo
para o conhecível e o perceptível, mas näo em sentido inverso.
Se näo existisse o conhecível, o conhecimento näo poderia
existir, por falta de objecto. E se näo existisse nada que fosse
perceptível, a percepçäo näo poderia existir, igualmente por
falta de objecto, mas também por falta de sujeito. Porque a
percepçäo envolve sempre dois corpos (que podem eventualmente
ser o mesmo) - o corpo percepcionado e o corpo percepcionante;
mas, se corpo.
nenhum näo existisse nada aqueexistência
Portanto, fosse perceptível, näo existiria
do conhecimento e da
percepçäo implica a existência do conhecível e do perceptível.
Mas a implicaçäo näo é recíproca. A possibilidade, ainda näo
realizada, de conhecer a quadratura do círculo, e a hipótese da
destruiçäo de todo o reino animal (sabendo que a capacidade de
conhecer só se encontra em certos animais, nomeadamente nos
homens) mostram que o conhecível pode existir sem haver
conhecimento dele (i. e., sem ser conhecido). Além disso, uma
vez que a capacidade de percepcionar também só se encontra no
reino animal, a mesma hipótese da destruiçäo deste reino prova a
independência existencial do perceptível. Pois os corpos simples
- fogo, água, etc. (e as respectivas qualidades: quente, doce,
amargo, etc.) de
existem antes - este
de que
ser égerado,
composto o corpo
também animal, atal
continuariam como
existir
depois de este ser destruído; e eles säo perceptíveis. Portanto,
o conhecível e o perceptível parecem ser anteriores ao
conhecimento e à percepçäo.
A afirmaçäo de que < é de coisas pré-existentes que adquirimos
conhecimento (7b24-25) está bem de acordo com a perspectiva de
Aristóteles, tal como se encontra expressa em outras obras.
Efectivamente, segundo Aristóteles, o conhecimento em sentido
estrito é sempre de objectos necessários e, por isso, eternos
(cf. Analíticos Posteriores 71 b9- 13, 73a21 -22; Ética
Nicomaqueia 1139b22-24). Aliás, o exemplo da quadratura do
círculo está em consonância com esta perspectiva. (o problema da

quadratura
matemáticos do
da círculo é um que
Antiguidade, dos consiste
mais famosos problemas
em encontrar um
quadrado cuja área seja igual à de um círculo dado.) Mas, se o
objecto é eterno, o conhecimento, por seu lado, tem uma génese,
que Aristóteles descreve nos muito citados capítulos iniciai s da
Metafísica.

Haverá entäo alguma razäo para que Aristóteles näo afirme nunca
categoricamente a anterioridade do conhecível e do perceptível,
mas mantenha sem pre um pr udente parece ser ? Estará es ta
prudência de algum modo relacionada com as razöes näo
explicitadas que faziam com que, em geral, a simultaneidade
parecesse (segundo 7b15) fazer parte da natureza dos relativos?
Há, efectivamente, algo de estranho na ideia de que um relativo
possa existir sem o seu correlativo; e, na verdade, näo seria
necessário abrir excepçäo à regra da simultaneidade, se se
considerasse que os correlativos do conhecimento e da percepçäo
säo, respectivamente, o conhecido e o percepcionado, e näo o
conhecível e o percepcionável. Pois o conhecimento é
conhecimento daquilo que é conhecido, e aquilo que é conhecido é
conhecido pelo conhecimento; e, além disso, se näo existir nada
que seja nenhum
existir conhecido näo existe também
conhecimento nenhum näo
conhecimento, mas que
existe nada se näo
seja
conhecido. E o mesmo se verifica com o par
percepçäo-percepcionado. Pelo que haveria razäo para preferir
estes como sendo os verdadeiros correlativos.
Aristóteles aproximar-se-á desta perspectiva no De Anima (cf.
425b25-426a27), ao detectar a ambiguidade que existe no
adjectivo verbal que aqui traduzimos por perceptível , o qual
pode ter um sentido potêncial (que coincide com o nosso
«perceptível ,) ou um sentido actual (que coincide com o nosso
«percepcionado ). o perceptível pode certamente existir sem a
percepçäo, mas o percepcionado näo o pode. Aliás, o termo
«percepçäo" padece da mesma ambiguidade entre um sentido
potêncial
enquanto capacidade de percepcionar - e um sentido actual
enquanto acto de percepcionar. ora, há uma total coincidência,
dirá Aristóteles, entre o acto de ser percepcionado e o acto de
percepcionar, os quais se realizam ambos no ser que tem a
capacidade de percepcionar e säo necessariamente simultâneos
(pois um näo pode existir sem o outro). Além disso, à luz destas
consideraçöes, mostra-se também possível que uma percepçäo
exista sem o per ceptível que Lh e corresponde: Pois o órgä o
sensorial é, em cada caso, capaz de receber o perceptível sem a
sua matéria. E é por isso que, mesmo depois de as coisas

138 1 139

perceptíveis terem nos


continuam a existir desaparecido, as percepçöes
órgäos sensoriais e imagens
(425b23-25). Sobre
isto, cf. também Metafísica 1010b30-1011 a2.

8a13 b24 («Há dificuldade em saber se nenhuma substância. . a


respeito de cada um deles.»)

A razäo mais evidente para que nenhuma substância possa ser


incluída na categoria dos relativos reside no facto de os
relativos, ou as relaçöes que eles expressam, existirem em
substâncias, enquanto as substâncias näo existem em nenhum
sujeito. Além disso, o carácter de sujeito, e a primazia que daí
deriva para as substâncias, parece ser incompatível com a
dependência em que cada relativo se encontra face ao seu
correlativo. Todavia, o critério que foi inicialmente
apresentado para os relativos (6a36 37) obriga, como se viu a
propósito da passagem 6b36 7b14, a considerar certas substâncias
- tais como a asa, o leme, a cabeça, a mäo, etc., as quais,
enquanto partes, säo ditas ser o que säo dos respectivo s todos -
como pertencentes aos relativos. Este é o problema com que
Aristóteles se vê confrontado e cuja resoluçäo implicará
reformular
Aristóteleso refere-se
critério inicial.
à definiçäo dos relativos (8a29, 8a33),
mas os relativos, tal como as outras categorias, näo deveräo ser
susceptíveis de definiçäo, pelo menos em sentido estrito. É uma
bem conhecida doutrina de Aristóteles a de que a definiçäo de
uma coisa se faz pela indicaçäo do seu género e diferença (cf.
v.g. Tópicos, 139a2 9-31). ora, as categorias, uma vez que säo os
géneros supremos, näo possuem nenhum género acima delas e, por
isso, näo podem ser definidas. No entanto, pode ser feita uma
caracterizaçäo ou descriçäo da sua natureza, fornecendo
critérios que permitam identificar as coisas que pertencem a
cada uma delas. E isso, aliás, o que Aristóteles procura, quando
analisa cada uma das categorias, e é também essa caracterizaçäo
que aqui se
Voltando discute,
entäo a propósito
ao problema, dos relativos.
verifica-se que as substâncias a
respeito das quais ele se coloca säo todas elas partes de

l n

substâncias segundas- sendo, portanto, elas mesmas substâncias


segundas. Näo é com a mäo e a cabeça individuais ( uma certa
mäo" e uma certa cabeça ) que o problema se põe, mas sim com as
substâncias universais que delas se pr edicam ( <a mäo " e a
cabeça ). Pois, de uma certa mäo, dizemos que é (uma) mäo" e
que é (a) mäo de alguém ; e o mesmo é dito de uma certa cabeça.
Com os todos, sejam eles substâncias primeiras ou segundas, o

problema
(o) boi näo existe. ele
de alguém, Pois,näo
embora
o é um certo boi possa(Aristóteles
necessariamente ser dito
compara com o caso da propriedade, a qual é necessariamente dita
propriedade de alguém).
A nova definiçäo , dos relativos, com que Aristóteles pretende
resolver o problema, está expressa em 8a31-32 (repetida em
8a39-b1): säo relativos as coisas cujo ser consiste em estar, de
algum modo, em relaçäo com outra coisa. (Refira-se que os
Tópicos apresentam este mesmo critério como algo de estabelecido
[cf. 142a29, 146b3-5].) A diferença entre os dois critérios é a
seguinte: enquanto o primeiro se refere ao modo linguístico como
os relativos se predicam de sujeitos (estabelecendo que essa
predicaçäo tem sempre de ser completada com uma cláusula do tipo
em relaçäo a... ,), o segundo refere-se ao que significa, para
qualquer desses sujeitos, ser relativo (estabelecendo que ser
relativo é o mesmo que estar relacionado com alguma outra
coisa). Em 8a33-35, Aristóteles observa que tudo aquilo que
satisfaz este segundo critério satisfaz também o anterior. Mas
pretender se-á mostrar que algumas coisas que satisfazem o
critério anterior - nomeadamente as substâncias segundas tais
como a cabeça e a mäo - näo satisfazem o novo.
o argumento é,
consequência nos seus do
necessária traços
novo gerais,
critérioo (mas
seguinte:
näo do(1) é uma
anterior)
que o conhecimento definido de um relativo implica o
conhecimento definido do seu correlativo; ora, (2) é possível
ter conhecimento definido de substâncias como a cabeça e a mäo
sem ter conhecimento definido daquilo em relaçäo ao qual elas
säo ditas ser o que säo; portanto, (3) as substâncias como a
cabeça e a mäo (apesar de serem ditas ser o que säo de alguma
outra coisa) näo säo relativo s. E uma vez que estas eram o único
tipo

1 1
de substâncias a respeito das quais se colocava tal dúvida, pode
entäo concluir se que nenhum substância pertenc e à categoria dos
relativos.
A premissa (1) é aquela em que Aristóteles mais longamente se
detém (8a35-b15). A expressäo conhecer (ou sa ber) de mod o
definido , que nela ocorre, exige alguns esclarecimentos. o
conhecimento que se tem de um qualquer relativo, por exemplo do
dobro, pode ser indefinido ou definido: é indefinido quando
sabemos que algumas coisas säo o dobro (de outras), mas näo
somos capazes de determinar quais; é definido quando sabemos que
uma coisa determinada ( um certo isto") é o dobro (de outra). o
que Aristóteles afirma é que é impossível saber que uma coisa
determinada é o dobro de outra sem saber exactamente de que
outra coisa determinada é ela o dobro. Do mesmo modo, näo é

possível
outras) e saber que qual
näo saber uma coisa determinada
ou quais é que säo émenos
maisbelas
bela dodoque
que
ela. Isso, diz Aristóteles, seria uma simples suposiçäo. o
contraste entre suposiçäo e conhecimento (8b10-11) revela que
Aristóteles tem em vista um sentido estrito de <conhecimento ,
segundo o qual o conhecimento possui um carácter de exactidäo e
de necessidade, que exclui qualquer possibilidade de erro
(enquanto a suposiçäo tanto pode ser verdadeira como falsa)
(cf., v.g. Ética Nicomaqueia, 1139b15-23). ora, se näo soubermos
exactamente qual é o B relativamente ao qual um certo A é mais
belo, näo poderemos ter a certeza de que existe um tal B; e, sem
a certeza de que existe um tal B, näo podemos saber se A é
efectivamente mais belo do que alguma outra coisa. Isto
constitui, segundo Aristóteles , um corolário do próprio critério
(revisto) para ser um relativo. Pois se, para qualquer relativo
x, ser-x significa estar relacionado com algum y, entäo o saber
que uma determinada coisa é x implica saber que existe um y com
o qual essa coisa está relacionada; e, argumenta Aristóteles,
para saber que existe um tal y, é necessário saber qual é ele.
A premissa (2) do argumento afirma que, no caso da cabeça, da
mäo e das outras substâncias deste tipo, näo se verifica tal
necessidade. Aristóteles
sempre a cabeça näo 7a16-18:
de alguém (cf. nega quea cabeça
qualquer cabeçadita
é sempre seja
cabeça de um cabeçado ; sobre membros amputados, cf.
Metafísica, 1035b23-25, Política, 1253a20-25, De Anima,
412b20-22). o que ele considera haver é uma certa independência
das partes em relaçäo ao todo, que permite conhecer de modo
definido a parte, näo conhecendo de modo definido (mas apenas
indefinido) o todo a que ela pertence. Considera possível,
portanto, saber que uma certa coisa é uma cabeça sem saber
exactamente de quem é que ela o é (sem saber de que cabeçado é
que ela é a cabeça). Do mesmo modo, seria possível saber que
isto é uma mäo, sem saber que é a mäo de Cálias. ora, se tal é
possível para a cabeça, a mäo, etc., mas näo é possível para os
relativos, entäoda(3)
Apercebendo-se a cabeça, adomäo,
complexidade etc., Aristóteles
assunto, näo säo relativos.
termina a
passagem, e com ela o capítulo sobre os relativos, com uma
oportuna nota de antidogmatismo.
Capítulo 8
[A qualidade]

8b25-26 («Chamo qualidade àquilo... a qualidade diz-se de


diversas maneiras. )

A distinçäo entre qualidades e qualificaçöes está presente ao


longo de todo o cap. 8. Em 1 b29, ao introduzir a categoria da
qualificaçäo, Aristóteles ilustrou-a com os predicados branco

e gramaticalsäo .atribuídos
qualificaçöes, ora, estes predicados,
a certos que virtude
sujeitos em significam
das
qualidades correspondentes - a brancura e a gramática - por eles
possuídas. Do mesmo modo, um homem é dito corajoso em virtude da
coragem e doente em virtude da doença. As qualidades säo,
portanto, aquilo em virtude do qual as qualificaçöes
correspondentes säo atribuídas a um sujeito. A expressäo em
virtude de tem um sen
tido causal: é porque ele tem coragem que o homem é dito
corajoso. Na maior parte dos casos (sobre as excepçöes, cf.
adiante 10a29-b9), a relaçäo entre as qualidades e as coisas
qualificadas é uma relaçäo paronímica, em que o sujeito (v.g. o
homem) recebe o seu nome (v.g. corajoso ) de alguma outra coisa
(v.g. da coragem), com uma diferença de terminaçäo (cf.
1a12-15). Gramaticalmente, as qualificaçöes säo expressas por
adjectivos, enquanto as qualidades o säo por substantivos
abstractos. No entanto, embora se apoie neste facto gramatical,
a distinçäo de Aristóteles visa a relaçäo entre as próprias
coisas expressas, e näo entre os nomes que as expressam. Aliás,
etimologicamente, é o substantivo abstracto ( <coragem brancura
, etc.) que deriva do adjectivo («corajoso , «branco , etc.), e
näo o inverso.
Ao afirmar que a qualidade se diz de diversas maneiras,
Aristóteles deverá querer dizer näo que < qualidade é um termo
ambíguo ou equívoco, mas apenas que existem diversos géneros de
qualidade. De 8b26 a 10a24, säo distinguidos quatro géneros; e
se pertencem à mesma categoria, entäo a qualidade deverá ser
sinonimicamente predicável de todos eles. É de notar que
Aristóteles näo tem a pretensäo de apresentar uma classificaçäo
exaustiva (cf .10a25-26).

8b26-9a13 («Chamemos a uma espécie de qualidade... nem sempre


têm também um género
o primeiro estado.»)
( espécie, e <género säo usados
indiferênciadamente em 8b27, 9a14, 9a28 e 10a11) de qualidade
que Aristóteles distingue é constituído pelos estados e pelas
disposiçöes. Exemplos de estados säo os conhecimentos
(geometria, música, gramática, etc.) e as virtudes (justiça,
coragem, temperança, etc.). Como exemplos de disposiçöes, säo
mencionados o calor e o frio, a doença e a saúde. os estados
distinguem-se das disposiçöes pela sua maior estabilidade e
durabilidade. Alguém que tem conhecimento de música ou de
geometria näo o perde facilmente, nem rapidamente (pois o
conhecimento é algo que, uma vez adquirido, se mantém durante um
período longo de tempo); e o mesmo acontece com as qualidades da

coragem,
qualidades da
que,justiça, etc. Virtudes
uma vez adquiridas, e conhecimentos
se tornam säo
parte da natureza
da pessoa e que, por isso, dificilmente se perdem ou mudam ( a
näo ser que ocorra uma grande alteraçäo"). Pelo contrário, é
relativamente fácil e rápido uma pessoa mudar de disposiçäo
(quente-frio, saudável-doente, etc.).
Esta distinçäo é, no entanto, uma distinçäo relativa. os estados
näo säo impossíveis de mudar, nem necessariamente duradouros; e
as disposiçöes também näo säo necessariamente passageiras ou
efémeras. os estados säo apenas, regra geral, mais duradouros e
mais difíceis de mudar do que as disposiçöes. Aristóteles
sublinha esta relatividade ao considerar as possíveis excepçöes:
é o caso da doença, que pode anular por completo a posse de um
conhecimento, e é também o caso da disposiçäo que, devido a uma
longa permanência, se torna parte da natureza da pessoa.
Todavia, estas excepçöes mostram também o carácter pouco
elaborado da distinçäo, a qual se baseia na sugestäo fornecida
por um número reduzido de exemplos. Esta insuficiência
manifesta-se na parte final da passagem, onde se vê que, afinal,
uma disposiçäo pode näo se alterar rapidamente e tornar-se mesmo
irremediável, e que o conhecimento, que é um es tado, ode, em
certas pessoas, ser
Será porventura a fácil de mudar.
consideraçäo destes casos difíceis que
conduz Aristóteles, em 9a10-13, a reformular os termos da sua
distinçäo inicial, definindo os estados como uma espécie
particular de disposiçöes. É evidente a incompatibilidade desta
nova classificaçäo com o que inicialmente foi dito. Pois se os
estados säo também disposiçöes (9a10), näo pode já afirmar-se
que as disposiçöes säo fáceis de mudar e rapidamente se alteram
(8b35-36). As disposiçöes fáceis de mudar e pouco duráveis säo,
afinal, apenas uma espécie particular de disposiçöes, distinta
das disposiçöes estáveis e duráveis que säo os estados. o
principal problema desta reformulaçäo é que ela deixa por
esclarecer o novo conceito de disposiçäo que subsume estas duas
espécies.
9a14-27 («outro género de qualidade é aquele .. por ter uma
incapacidade de isto mesmo. ,)

Pugilista, corredor, saudável, doentio, duro e mole näo säo


qualidades, mas sim qualificaçöes. Porém, como todas as
qualificaçöes, também estas säo atribuídas a sujeitos pelo facto
de eles possuírem certas qualidades corresponden tes. Aristóteles
argumenta que as qualidades em virtude das quais estas
qualificaçöes säo atribuídas näo pertencem ao género das
disposiçöes (examinado na passagem anterior), constituindo antes
um género distinto - o das capacidades ou incapacidades

naturais.
haver uma Asligaçäo
explicaçöes
entre dadas
estaspara cada um dos
capacidades exemplos
e as mostram
duas últimas
categorias da lista do cap. 4 («fazer e <ser afectado
trata-se, em todas elas, de uma aptidäo natural para fazer
alguma coisa com facilidade, ou para näo ser afectado facilmente.
Contudo, é também visível uma ligaçäo com o primeiro género de
qualidades (das disposiçöes, ou das disposiçöes-e-estados), na
medida em que, por um lado, a saúde e a doença säo disposiçöes
(8b36-37) e, por outro, há também pugilistas e corredores que
säo assim chamados, näo em virtude de uma capacidade natural,
mas sim em virtude de um conhecimento, o qual é também uma
disposiçäo (uma disposiçäo estável e durável, ou seja,

1 46
um estado) (cf. 10b2-5). Isto poderá indicar que as capacidades
naturais visadas por Aristóteles (ou pelo menos algumas delas)
constituem aptidöes para adquirir e conservar certas disposiçöes
e estados.

9a28- 10a 1 O ( Um terceiro género de qu alidade. . . säo


chamadas afecçöes, mas näo qualidades. )
o terceiro género é o das qualidades afectivas, tais como
doçura, amargura, acidez, calor, frio, brancura e negrura. Ela
säo qualidades porque os sujeitos em que elas existem säo, pelo
facto de as possuírem, ditos qualificados (doce, amargo, etc.).
E estas qualidades säo chamadas afectivas porque todas elas
produzem uma afecçäo dos sentidos (9b5-6). A propósito da cor
branca (9a34-35: o corpo é dito branco por possuir brancura
é de notar a seguinte alteraçäo: nos capítulos iniciais, o
adjectivo < branco foi utilizado, nä o só co mo no me de uma
qualificaçäo, mas também como nome da própria cor (qualidade)
que origina essa qua lificaçäo (dir-se-ia ent äo: o corpo é
branco
agora, porque nele existe
Aristóteles o branco
diferência a ,) (cf. sobretudo
qualificaçäo da 2a31-32);
qualidade,
reservando para esta o substantivo abstracto brancura (cuja
primeira ocorrência foi em 4bl5). Refira-se ainda que o calor e
o frio tinham já sido incluídos no género das disposiçöes (cf.
8b36). Aristóteles poderá, no entanto, ter em vista sentidos
diferentes, que corresponderiam à diferença entre, por exemplo,
o calor do fogo (qualidade afectiva) e o estado febril de alguém
(disposiçäo).
A partir de 9b9, é operada uma extensäo da noçäo de qualidade
afectiva, de modo a incluir também as qualidades resultantes de
uma afecçäo permanente. o primeiro caso analisado é o das cores
ou coloraçöes. A ideia de Aristóteles é algo surpreendente: se

uma pessoauma
constitui que simples
momentaneamente se passageira),
disposiçäo atemoriza fica pálida (o
é natural queque
uma
pessoa constitutivamente medrosa tenha uma palidez permanente (o
que já seria uma qualidade afectiva, porque resultante de uma
afecçäo congénita); do mesmo modo, uma
pessoa constitutivamente envergonhada terá uma permanente
coloraçäo vermelha. A passagem 9b19-33 estabelece que, para que
o efeito de uma afecçäo tenha o estatuto de uma qualidade
(afectiva), é necessário que essa afecçäo seja permanente e
difícil de mudar"; o que se verifica, näo só com as afecçöes que
säo congénitas, mas também com aquelas que, embora näo o sendo,
se prolongam de tal forma que se tornam permanent es e, por isso,
produzem efeitos que säo já dificilmente alteráveis. A passagem
9b33-10a10 estende esta noçäo de qualidade afectiva (enquanto
efeito de uma afecçäo permanente) às qualidades anímicas, tais
como a loucura e a irascibilidade, as quais podem também ser
congénitas ou adquiridas.
os dois conceitos de qualidade afectiva que säo expostos parecem
ser dificilmente conciliáveis, de modo a constituírem um mesmo
género. Pois a relaçäo à afecçäo, que é o seu traço comum,
assume modalidades muito diferentes em cada um dos casos. Além
disso,
causal, o que
segundo conceito
parecem ser introduz
estranhasconsideraçöes
à intençäo demeramente
natureza
classificadora das Categorias. A cor avermelhada e a palidez säo
qualidades visíveis (i. e., que produzem uma afecçäo da visäo),
sendo irrelevante para o caso qual seja a sua causa (vergonha,
medo, doença, etc.). A heterogeneidade dos dois conceitos é tal
que conduz à inclusäo num mesmo género de qualidades täo
díspares como, por exemplo, a doçura e a irascibilidade.
A distinçäo que em 9b19-10a10 se pretende fazer entre qualidades
afectivas e afecçöes revela-se, por outro lado, dificilmente
distinguível da distinçäo entre estados e disposiçöes feita em
8b27-9a10. Sinal claro disso é o facto de a palidez e a
coloraçäo vermelha serem consideradas disposiçöes, em 9b17, e
afecçöes,
razäo para em
que9b30-33. Do e
a loucura mesmo modo, também congénitas
a irascibilidade näo se vê qualquer
näo sejam
consideradas estados, nem para negar que a irascibilidade
momentânea da pessoa atormentada constitua uma disposiçäo.
Aristóteles começa o capítulo dizendo que as afecçöes säo
qualidades (9a28-29), mas em 9b28-33 e 10a6-10 nega-o. Esta
última opçäo parece ser, de facto, mais correcta, na medida em

que as afecçöes constituem uma categoria à parte (a última da


lista do cap. 4). Mas o argumento com que ela é justificada,
além de confundir as afecçöes com as disposiçöes que delas
resultam, se fosse aceite, implicaria ter de excluir todas as
disposiçöes passageiras (aquelas que, segundo 8b3 5-36, säo

fáceis de mudar e rapidamente se alteram") da categoria da


qualidade.

10a11-26 («Um quarto género de qualidade... os mais falados säo


aproximadamente estes. )

o quarto e último género de qualidade distinguido por


Aristóteles inclui as diversas formas ou configuraçöes das
coisas. Triangulo e quadrado säo exemplos de figuras, e as
coisas cuja forma é uma destas figuras säo ditas ou qualificadas
como triangulares, quadrangulares, etc. Rectitude e curvatura
säo propriedades de linhas, e tudo aquilo que tem a forma destas
linhas é qualificado como rectilíneo ou curvilíneo. Além disso,
também a forma dos objectos físicos, por exemplo dos animais,
apesar da sua irregularidade, origina um certo tipo de
qualificaçäo - de que Aristóteles näo dá exemplos, provavelm ente
por näo haver nomes para tal.
Se raro e denso, áspero e liso näo säo qualificaçöes, entäo em
que categoria se incluem? Aristóteles näo o esclarece. Além
disso, näo pode a qualidade de uma coisa resultar da posiçäo das
suas partes? Por exemplo, as coisas säo lisas ou ásperas porque
as suas epartes
lisura se encontram
a aspereza posicionadas
deveriam de certo
(de acordo com modo; masser
9b5-9) a
consideradas qualidades afectivas, uma vez que cada um delas
produz uma certa afecçäo do tacto.
É com razäo que Aristóteles näo pretende ter apresentado uma
classificaçäo exaustiva. Na verdade, a divisäo em quatro géneros
näo foi deduzida de nenhum princípio e a própria noçäo de
qualidade foi insuficientemente caracterizada. Aristóteles
afirma ser uma qualidade tudo aquilo em virtude do qual as
coisas säo ditas qualificadas (e utiliza isto como critério em
9a31-33, 9b23-24, 9b27, 9b29-30, 10a1-2 e 10a5), mas näo dá
qualquer critério para decidir se algo é ou näo uma qualificaçäo
(que é

1 49
precisamente o que falta para avaliar casos como o raro e o
denso, o liso e o áspero).

10a27-b11 («As coísas que mencionámos säo entäo qualidades...


säo ditas ser qualificadas. ,)

Aristóteles retoma, nesta passagem, a distinçäo entre qualidades


e coisas qualificadas (ou qualificaçöes), afirmando que estas
säo chamadas a partir de aquelas. Dizer que uma coisa A é
chamada A, a partir de uma outra coisa B significa que é
porque possui B que A é chama da A". Assim, uma coisa branca é

chamada
«corredor <branca
porque porque
possui possui brancura;
uma certa um corredor
capacidade é chamado
natural, para a
qual näo existe nome; e um sujeito bom é chamado bom porque
possui virtude. Destes três tipos de casos, o primeiro é o mais
frequente: é aquele em que as coisas qualificadas säo parónimas
das qualidades que possuem, ou seja, em que o nome dado à
qualificaçäo deriva, com uma diferença de terminaçäo, do nome da
própria qualidade (cf. 1a12-15). Quando näo se verifica esta
relaçäo paronímica, normalmente é porque a qualidade näo tem
nome. os casos mais raros säo aqueles em que, apesar de haver um
nome para a qualidade, o nome dado à qualificaçäo que dela
deriva näo tem com ele qualquer semelhança.
Em 10a34 b5, säo comparados dois modos distintos de alguém ser
chamado corredor, pugilista ou lutador - em virtude de uma
capacidade natural ( de fazer alguma coisa facilmente [9a21]) e
em virtude de um conhecimento; as capacidades näo têm nome, mas
os conhecimentos têm. De acordo com 9a10-13 Aristóteles
considera aqui o conhecimento como sendo uma disposiçäo.

10bl2-25 (..A respeito da qualificaçäo há também. . com os


outros contrários que envolvem qualificaçäo. )

Algumas qualidades têm contrári o, mas nem todas o têm. E o mesmo


acontece com as coisas qualificadas. o texto sugere que, quando
uma qualidade tem contrário, a qualificaçäo que dela deriva
também o tem.
o contrário de uma qualificaçäo é também uma qualificaçäo esta
propriedade näo é exclusiva da contrariedade entre qualidades,
pois verifica-se também entre relativos (cf. 6b15-17), e entre
acçöes e afecçöes (cf. 11 b1 -4). Compare-se com o que é dito em
14a19-25.
os «outros predicados (10b19, 10b21-22) säo os da lista das
categorias apresentada no ca . 4.

10b26-1 1a14 ( As qualificaçöes


Algumas qualificaçöes - mas näo admitem...
todas, diz mais e menos.")
Aristótele s - admitem
mais e menos. Uma coisa pode ser mais branca (justa, saudável,
etc.) do que outra, e também ser mais branca (justa, saudável,
etc.) agora do que era antes.
Em 10b30-11a2, refere-se que < algumas pessoas consideram que
as disposiçöes näo admitem mais e menos, embora os sujeitos que
as possuem possam possuí-las mais ou menos. Este facto, que
Aristóteles näo analisa, poderá radicar na diferença entre
predicaçäo ontológica ( ser dito de ) e inerência ( existir
em"). A aproximaçäo desta passagem com a passagem 3b33-4a9
sugere fortemente que a propriedade de näo admitir mais e menos
pertence às substâncias e às disposiçöes somente porque pertence

à predicaçäo ontológica.
intracategorial A predicaçäo
que, ao indicar ontológica
o género a que umé dado
uma relaçäo
sujeito
pertence, expressa a sua essência (o que ele é), ou seja,
define-o. ora, como Aristóteles observa a propósito das figuras
(11a7-9), quando duas coisas admitem a mesma definiçäo R, elas
säo ambas igualmente R. Por isso é que, tal como um homem näo é
mais homem do que ou tro (3b39), também uma justiça näo é mai s
justiça do que outra, nem um triangulo é mais triangulo do que
outro. Na relaçäo de inerência é que pode haver mais e menos:
uma qualidade pode existir mais numa substância do que noutra,
dando assim srcem a diferentes graus de qualificaçäo (mais ou
menos justo, mais ou menos saudável, etc.).
Aristóteles conclui que «nem todas as qualificaçöes admitem mais
e menos", mas na verdade näo foi dado nenhum exemplo que
confirmasse isso. Pois, tal como as disposiçöes, as figuras
(triangulo, quadrado, círculo, rectângulo, etc.) säo qualidades
e näo qualificaçöes (cf. 10a11 -16) .

11a15-19(..Nada do que até agora foi mencionado... dita


semelhante ou dissemelhante. ")

A semelhança afirma
Aristóteles fora já que
referida a qualidades
sempre que duas emcoisas
6a32-34.
säoAgora,
ditas
semelhantes é porque têm em comum uma ou mais qualidades.
Portanto, é em virtude das qualidades, e somente delas, que as
coisas säo ditas semelhant es ou dissemelhantes. É de notar que o
semelhante é um relativo que admite mais e menos (cf. 6b9-10 e
6b20-24). o facto de as coisas poderem ser ditas mais ou menos
semelhantes está directamente relacionado com a possibilidade de
as qualidades existirem mais numas substâncias do que noutras
(cf. 10b35-11a2).

11a20-38 ( .Näo devemos perturbar-nos com receio de... näo tem


nada de anormal. )

Tendo incluído os estados e as disposiçöes, primeiro, na


categoria dos relativos (6b2-6), e, depois, na da qualidade
(8b26-9a13), Aristóteles vê-se confrontado com um problema
difícil. A leitura da passagem provoca, de imediato, a seguinte
perplexidade: Qual a razäo por que näo devemos recear a
objecçäo? Porque os géneros säo relativos, mas as suas espécies
(que säo aquilo que efectivamente nos qualifica) näo o säo? ou
porque näo há nenhuma anormalidade em a mesma coisa pertencer a
duas categorias? Poderia dizer-se que é pelas duas razöes.
Simplesmente, o objectivo do primeiro argumento (aliás,
extremamente frágil) parece ser precisamente o de evitar aquilo
que no fim é declarado näo-anormal. E, de facto, parece haver

boas razöes para


Nos Tópicos, procurar considera
Aristóteles evitá-lo. que um relativo o pode ser <
por si mesmo" ou em virtude do seu género (cf. 146a37-38 e
segs.); no primeiro caso, teríamos o exemplo do conhecimento e,
no segundo, o da gramática. Nesta passagem das Categorias, a
posiçäo defendida é a de que a gramática é, em virtude do seu
género, dita em relaçäo a alguma coisa (pois é dita conhecimento
de alguma coisa), mas näo é um relativo. Todav ia, a ideia de que
um género que é relativo (v.g. o conhecimento) se divide em
espécies que näo säo relativos, mas somente qualidades (v.g.
gramática, música, etc.), é incompatível com o princípio de que
a predicaçäo ontológica é uma relaçäo intracategorial. Pois,
nesse caso, teríamos um relativo a predicar-se de qualidades
(uma vez que o género se predica necessariamente das suas
espécies). Além disso, mesmo que esta soluçäo fosse aceite para
as espécies de conheciment o, o problema da pertença de uma mesma
coisa a duas categorias mantém-se a propósito do próprio género
conhecimento. Pois, embora Aristóteles diga que é pelos
particulares que somos ditos qualificados (11a32-33), parece
inegável que o conhecimento enquanto género também nos
qualifica. Ser dito conhecedor é uma qualificaçäo que nos é
atribuída
pretende - em
em virtude
virtude do
da conhecimento,
gramática, ou eda näo - como
música, Aristóteles
etc.; pois em
virtude destas nós somos ditos gramaticais, musicais, etc.
Portanto, o conhecimento é incontestavelmente uma qualidade,
embora seja verdade que só possuímos o conhecimento porque
possuímos algum conhecimento particular. Mas se o conhecimento é
uma qualidade, ele é também um relativo e, por isso, Aristótele s
vê-se forçado a reconhecer que a mesma coisa pode pertencer a
duas categorias.
Nos Tópicos(cf. 107a27-30, 121b29-122a2, 122b1-4, 144b14-16),
Aristóteles afirma que uma coisa só pode pertencer a dois
géneros se um destes for subordinado ao outro ou se forem os
dois subordinados a um terceiro. ora, nenhuma destas condiçöes
se verifica
disso, com ostexto
no próprio géneros
das da qualidadefoi
Categorias, e dos
ditorelativos.
em 1b16-20Além
que
géneros diferentes e näo subordinados um ao outro näo podem
possuir uma mesma diferença. Uma vez que a diferença de um
género é aquilo que define um seu subgénero ou espécie, segue-se
daqui que géneros diferentes e näo subordinados também näo podem
possuir um mesmo subgénero ou espécie. Assim, de acordo com este
princípio, deveria ser impossível o conhecimento pertencer a
duas categorias.

15

Capítulo 9 [As restantes categorias]

11b1-8 (..Fazer e ser afectado admitem contrariedade... admitem


mais e menos.")

Depois de ter analisado, nos caps. 5-8, as categorias da


substância, da quantidade, dos relativos e da qualidade,
faltaria ainda considerar as restantes seis da lista inicial -
onde, quando, estar numa posiçäo , ter, fazer e ser afectado. Mas
as Categorias säo uma obra incompleta, abruptamente interrompida
após esta breve observaçäo sobre o fazer e o ser afectado.

11b10-15 ( Isto é, entäo, o que há a dizer... e as outras coisas


que sobre eles foram mencionadas. )
Esta passagem näo é certamente da autoria de Aristóteles. Ela
deverá ter sido inserida (juntamente com as primeiras linhas do
cap. 10) por um editor, como forma de fazer a transiçäo entre o
texto incompleto sobre as categorias e o texto que se segue.
A observaçäo sobre o estar numa posiçäo, a que é feita
referência, encontra-se em 6b11-14; e os exemplos säo retirados
de 2a1 -3.
Capítulo 10 [os quatro géneros de opostos
11b15-16 (. Por conseguinte, sobre os géneros... as coisas serem
opostas. )

Com esta passagem dá-se início ao estudo daquilo que a tradiçäo


veio a designar por pós-predicamentos: os opostos, o anterior, o
posterior, a mudança e o ter. Apesar de se verificarem algumas
relaçöes importantes entre estes e as categorias, parece
evidente que a sua abordagem näo deveria fazer parte do projecto
inicial do tratado. Todavia, isso näo constitui razäo para
duvidar da sua autenticidade. É mais provável que os caps. 10-15
constituíssem um tratado autónomo e que a sua junçäo ao texto
srcinal das Categorias tenha sido posteriormente decidida por
um editor.

11b17-23 ( Uma coisa é dita ser oposta a outra... 'ele está


sentado' e 'ele näo está sentado'. )

Säo aqui distinguidos e exemplificados quatro tipos de oposiçäo:


entre relativos, entre contrários, entre privaçäo e posse, e
entre afirmaçäo e negaçäo. Esta mesma classificaçäo encontra-se
nos Tópicos (118, V 6) e na Metafísica (1054a23, 1055a38,
1057a33).

11b24-31 («As coisas que se opoem como relativos... a saber pelo

conhecimento. )
A caracterizaçäo dos relativos aqui apresentada encontra-se
expressa em 6a36-b11. Sobre o conhecimento e o conhecível cf.
6b28-35; encontra-se subentendida a propriedade de os relativos
serem ditos em relaçäo a correlativos que reciprocam, a qual
será expressamente referida em 12b21-22. Todavia, a reformulaçäo
do critério para ser um relativo feita em 8a28-35 n o ti

em conta em todo este capítulo (embora isso näo invalide o que


nele é dito, uma vez que tudo o que satisfaz o novo critério
também satisfaz o anterior).

11b32-38 («Por conseguinte, as coisas que se opoem... estas


oposiçöes diferem uma da outra.»)

Comparando as oposiçöes entre contrários e entre relativos e


afirmando que elas säo diferentes, Aristóteles pretende também
dizer que elas se excluem mutuamente, isto é, que nenhum par de
contrários é também um par de relativos. Isto näo contradiz a
afirmaçäo feita em 6b15-19, segundo a qual alguns relativos têm
contrário,
mencionados,desde que, como
o contrário de um se verifica
relativo näo nos
seja exemplos entäo
nunca o seu
correlativo (v.g. o contrário do conhecimento é a ignorância,
mas o seu correlativo é o conhecível). Porém, existem outros
exemplos, que Aristóteles näo considera, e que colocam sérias
dificuldades à pretensäo aqui manifestada. É o caso dos pares
grande-pequeno, muito-pouco e maior-menor: todos eles säo,
segundo Aristóteles, relativos (cf. 5b15-29, 6b31-32); mas näo
seräo também contrários? Para os dois primeiros pares,
Aristóteles argumentou em 5b30-6a1 1 que eles näo säo
contrários; e, provavelmente, utilizaria os mesmos argumentos
para o par maior-menor. Simplesmente, vimos que esses argumentos
näo säo válidos.

11b38-12a25(«Quando os contrários säo tais que... como o nem bom


nem mau, e o nem justo nem injusto. ")

Nesta passagem, Aristóteles divide os contrários em dois tipos -


os que têm e os que näo têm entre si alguma coisa intermédia.
Näo há nada que esteja entre o par e o ímpar, mas entre o branco
e o negro há o cinzento, o amarelo, etc; pois um número tem
forçosamente de ser ou par ou ímpar, enquanto um corpo näo tem
de ser ou branco ou negro. Portanto, os contrários que näo têm
intermédio säo aq ueles em que <é necessário que um dos doi s
pertença", näo a uma qualquer coisa escolhida ao acaso (pois um
cavalo näo tem de ser ou par ou ímpar, só os números é que o

têm), maspredicados
que säo àquelas coisas «em que
. Enquanto eles naturalmente
os contrários que têmocorrem ou de
intermédio
säo aqueles em que tal necessidade näo se verifica (cf.
12b27-13a3).
As expressöes «ocorrer naturalmente em e «ser pre dicado de
parecem retomar a distinçäo introduzida no cap. 2 entre «existir
em e «ser dito de . Uma vez que nenhuma substância tem
contrário (cf. 3b24-27), os contrários säo sempre
näo-substâncias; ora, estas ou existem em substâncias ou säo
ditas de näo-substâncias (dentro da mesma categoria). Assim, a
saúde e a doença existem nos corpos dos animais (substâ ncias), e
o par e o ímpar säo ditos dos números (quantidades). Em «mau e
bom predicam-se de homens (12a13-14), a predicaçäo é apenas
linguística, pois a relaçäo ontológica é de inerência - a
virtude e o vício existem no homem (cf.10b5-9).
Se é necessário que ao corpo de um animal pertença ou a saúde ou
a doença, entäo nenhum animal pode existir sem possuir uma
destas qualidades. Isto poderá demonstrar que a primazia das
substâncias primeiras (caracte rizada em 2b5-6) näo significa que
elas possam existir sem as outras coisas (neste caso, sem certas
qualidades). A saúde e a doença só existem porque existem
animais; mas,
possuir ou umaouvez
saúde que existam animais, cada um deles tem de
doença.
Apesar de ambos näo terem intermédio, há uma importante
diferença entre os contrários saúde-doença e par-ímpar: os
primeiros podem pertencer à mesma coisa (embora näo ao mesmo
tempo), enquanto os segundos näo podem (pois um certo número,
que agora é par, näo pode vir mais tarde a ser ímpar).

12a26-34 ( Privaçäo e posse säo ditas... näo säo ditos


desdentados nem cegos. )

Só aquilo que pode possuir uma determinada coisa é que pode


também estar privado dela. De uma árvore, por exemplo, embora
näo tenha
posse säo visäo,
ditas anäo se diz do
respeito quemesmo
é cega. Por de
género isso, a privaçäo
coisas aquelas eema
que a posse naturalmente ocorre. Além desta, há ainda uma
segunda condiçäo que diz respeito ao tempo: só quando é natural
possuir alguma coisa é que se pode também estar privado dela.
Aristóteles deverá ter aqui em vista as diversas espécies de
animais que só adquirem visäo ou dentes (ou cabelo: cf. 13a35)
ao fim de um certo tempo de desenvolvim ento antes do qual näo se
diz de nenhum deles que é cego ou desdentado (ou calvo).

12a35-b16 ( Estar privado e ter posse näo säo... e o ele näo


estar sentado.»)

Esta distinçäo
posiçäo (v.g. édeitado)
semelhante
e àestar
que foi feita
numa em 6b11-14
posiçäo (v.g.entre
estar
deitado). É entäo provável que também aqui o ser cego seja
paronimicamente dito a partir da cegueira. E, como normalmente
acontece com os parónimos, diz-se que um homem é cego, mas näo
se diz que ele é cegueira.
Com «o que subjaz a uma afirmaçäo , Aristóteles deverá
referir-se ao facto que é afirmado: o ele estar sentado subja z à
afirmaçäo «ele está sentado . A afirmaçäo de que o modo de
oposiçäo é o mesmo (entre afirmaçäo e negaçäo e entre aquilo que
Lhes subjaz) implicaria, à luz da caracterizaçäo feita em 13a37
b35, que os próprios factos pudessem ser ditos verdadeiros ou
falsos.
12b16-25 («É evidente que a privaçäo e a posse... näo é dita
visäo da cegueira. )

Como já foi observado a propósito da comparaçäo entre relativos


e contrários (11 b32-38), o objectivo de Aristóteles näo
consiste apenas em distinguir as oposiçöes umas das outras. Ele
pretende, além disso, provar que elas se excluem. A ideia
subjacente é a de que, se duas coisas säo opostas, entäo elas
pertencem a oum,
mencionados. quee aqui
só éa confirmado
um, dos quatro géneros
pelo facto de opostos
de nenhuma das
coisas que se opoem como privaçäo e posse se oporem também como
relativos

12b26-13a17( Que os casos de privaçäo e posse... segundo os


quais os contrários o säo. )

Para provar que nenhum caso de oposiçäo entre posse e privaçäo é


ao mesmo tempo um caso de contrariedade, Aristóteles apoia-se na
divisäo dos contrários exposta em 11b38-12a20. A linha do
argumento é a seguinte: se só existem dois tipos de contrários
(tipo 1: contrários que näo têm intermédio; tipo 2: contrários
que
como têm intermédio)
posse e privaçäoe näo
se se provar que
pertencem as coisas
a nenhum que
deles, se á
poder opoem
entäo
concluir-se que elas näo säo de todo contrários.
É fácil mostrar a incompatibilidade entre os opostos
posse-privaçäo e os contrários de tipo 2. Pois entre o branco e
o negro existem muitas outras cores, mas entre a visäo e a
cegueira näo há nenhum coisa intermédia. Estas estäo, portanto,
muito mais próximas dos contrários de tipo 1. De facto, um ser
em que a visäo naturalmente ocorre tem de ou ter visäo ou ser
cego. Simplesmente, esta necessidade näo se verifica sempre (i.
e., ao longo de toda a existência desse ser), mas é limitada ao
tempo em que, para esse ser, é natural ter visäo (cf. 12a29 34).
Este aspecto é suficiente, na opiniäo de Aristóteles, para

provar que de
contrários os tipo
opostos
1. posse-privaçäo também näo pertencem aos

Ao caracterizar os contrários de tipo 2, Aristóteles introduz


uma variante que näo fora contemplada em 12a9-20, a qual Lhe é
sugerida pelos exemplos do fogo (que é necessariamente quente) e
da neve (que é necessariamente branca). os contrários
branco-negro e quente-frio pertencem ao tipo 2 e fora dito que,
para estes contrários, näo é nunca necessário que, dada uma
coisa capaz de os receber, ou um ou outro Lhe pertença. Porém,
os casos do fogo e da neve vêm mostrar que, por vezes,
contrários de tipo 2 pertencem necessariamente a certas coisas.
Há, todavia, duas diferenças (as quais os distinguem, segundo
Aristóteles, tanto dos contrários de tipo 1 como dos opostos
posse-privaçäo): por um lado, é apenas a algumas das coisas
capazes de os receber, e näo a todas, que alguns contrários de
tipo 2 pertencem necessariamente e, por outro lado, näo é ou um
ou outro dos contrários que Lhes pertence necessariamente, mas
somente um deles («definidamente ). Mas Aristóteles parece näo
se aperceber de que uma variante idêntica a esta se pode
encontrar também nos contrários de tipo 1; pois, assim como o
fogo é necessariame
necessariamente nte quente, também o número 7, por exemplo, é
ímpar.
É o argumento apresentado suficiente para eliminar a forte
sugestäo intuitiva segundo a qual a cegueira seria o contrário
da visäo (além de ser a privaçäo desta)? Efectivamente, existem
diversos casos que nos inclinaríamos a classificar como sendo de
contrariedade e também de posse e privaçäo. E podemos encontrar
alguns exemplos disso se confrontarmos as Categorias com os
Tópicos. Veja-se, por exemplo, o conhecimento e a ignorância:
nas Categorias, eles säo considerados contrários (cf. 6b16-17);
mas, nos Tópicos, a ignorância é também descrita como privaçäo
do conhecimento (cf. 147b30-31). Do mesmo modo, o frio é o
contrário do calor (cf. 4a20, 8b36, 9a30-31), mas é também a
privaçäo desteé (cf.
desigualdade Tópicos,
considerada 141a10-14);
privaçäo e, ainda (cf.
da igualdade nos Tópicos,
147b6-7).a
Além disso, nessa obra, Aristóteles reconhece explicitamente
que, «por vezes, um dos contrários é chamado pela privaçäo do
outro , (147b4-5; cf. também 147b26-28). Talvez fosse entäo
preferível definir os opostos posse-privaçäo como uma espécie
particular de contrários, cuja diferença residiria no facto de
só serem ditos a respeito de faculdades ou propriedades que säo
naturais (cf. 12a29-31 e Tópicos, 141a11-12: «toda a privaçäo o
é de um atributo natural

13a17-36(..Além disso, no caso dos contrários... Lhe crescem


novos dentes. )

Argumento adicional para provar que os opostos posse-privaçäo


näo säo contrários: nestes, a mudança de um para o outro pode
sempre ocorrer nos dois sentidos, enquanto no caso da posse e
privaçäo a mudança só pode dar-se num sentido, da posse para a
privaçäo. Aristóteles justifica-o com exemplos em que a perda de
uma faculdade ou atributo natural é irrecuperável. Estes
exemplos testemunham que as noçöes de posse e privaçäo têm a sua
aplicaçäo privilegiada no domínio biológico. Mas näo parece que
sejam suficientes para provar a irreversibilidade de todas as
privaçöes: pense-se, mais uma vez, nos exemplos já referidos da
ignorância e do frio (descritos nos Tópicos como sendo
privaçöes).
13a37-b35 («É evidente que as coisas que se opoem... sempre uma
delas ser verdadeira ou falsa. )

Ultimo dos quatro géneros de oposiçäo: afirmaçäo vs. negaçäo. o


que é próprio desta oposiçäo é o facto de, dado um par
afirmaçäo-negaçäo, uma delas ter de ser verdadeira e a outra
falsa. Já no cap. 4 se observara que toda a afirmaçäo é ou
verdadeira
afirmaçäo é ou falsa (2a7-8);
verdadeira, acrescenta-se
a sua negaçäo agora
é falsa, e, seque, se uma
aquela é
falsa, esta é verdadeira. E uma vez que nada do que é dito sem
combinaçäo é verdadeiro ou falso (2a8-10, repetido em 13b10-11)
e que todos os outros opostos säo ditos sem combinaçäo, esta
característica näo pode pertencer a nenhum dos restantes opostos.

A partir de 13b12, Aristóteles considera os «contrários ditos


por combinaçäo" e compara-os com a oposiçäo entre afirmaçäo e
negaçäo. Esta comparaçäo difere em aspectos importantes da
distinçäo feita no De Interpretatione entre proposiçöes
contrárias e proposiçöes contraditórias (cf. 17b16-25):
primeiro, Aristóteles discute aqui somente proposiçöes acerca de
particulares
um indivíduo,(i.
v.g.e., proposiçöes
«Sócrat singularo es,
es ); depois, que cujo sujeito denota
ele considera como
contrariedade é a relaçäo entre duas proposiçöes que afirmam
predicados contrários de um mesmo sujeito. Enquanto, no De
Interpretatione, a contrariedade é a oposiçäo existente entre
afirmaçäo e negaçäo, quando ambas säo universais, v.g. «todo o
homem é justo e «nenhum homem é justo (näo podem ser ambas
verdadeiras, mas podem ser ambas falsas). (Cf., no entanto, a
discussäo da contrariedade no cap. 14 do De Interpretatione.)
Há, além destas, uma outra diferença importante entre as duas
obras: de acordo com o De Interpretatione, a regra segundo a
qual de duas proposiçöes contraditórias uma tem de ser
verdadeira e a outra falsa possui excepçöes (cf.17b29-37).

Para fazer a exemplos


deliberadamente referida de comparaçäo, Aristóteles
contrários sem intermédio selecciona
(saúde e
doença), pois com os que têm intermédio é evidente que a sua
afirmaçäo de um mesmo sujeito pode ser em ambos os casos falsa
(pois um corpo pode näo ser branco nem negro, um homem näo ser
justo nem injusto, etc.); mas, com os contrários que näo têm
intermédio, foi dito que ou um ou outro tem de pertencer àquilo
que é capaz de os receber (um animal tem de ou estar doente ou
estar com saúde), pelo que pareceria, quando ambos säo afirmados
de um mesmo sujeito, ter de resultar daí uma proposiçäo
verdadeira e uma falsa. Todavia, tal só acontece, diz
Aristóteles, quando o sujeito de que eles säo afirmados existe;
porque, quando o sujeito näo existe, as afirmaçöes säo ambas
falsas. Quanto à posse e privaçäo, quando ambas säo afirmadas do
mesmo sujeito, as proposiçöes daí resultantes, se o sujeito näo
existe, säo também ambas falsas, e se o sujeito existe, elas
podem sê-lo de igual modo (13b20-27). Enquanto, no caso da
afirmaçäo e negaçäo opostas, verifica-se sempre, quer o sujeito
exista quer näo exista, que uma delas é verdadeira e a outra
falsa .
Este argumento baseia-se no pressuposto de que, pelo menos no
caso de afirmaçäo
qualquer proposiçöes singulares,
é falsa acerca
e qualquer do é que
negaçäo näo existe,
verdadeira. Pelo
contrário, no De Interpretatione 21a25-28, Aristóteles defende
que para que a afirmaçäo «Homero é um poeta seja verdadeira näo
e necessário que Homero exista (pois o «é näo é empregue com
sentido existencial, mas simplesmente copulativo).

Capítulo 11
[observaçöes adicionais sobre os contrários]

13b36-14a6(«o contrário do bom é necessariamente mau sempre bom


)

o contrário
uma coisa máde uma
nem coisa éboa
sempre umaé coisa
uma coisa
boa, má, maso oseja
embora contrário de
na maior
parte dos casos. A excepçäo a que Aristóteles se refere
constitui um dos elementos essênciais da sua definiçäo de
virtude, segundo a qual esta é «um meio-termo entre dois vícios
(Etica Nicomaqueia, 1107a2; cf. cap. II 8).

14a6-14 (< Além disso, quando um dos contrários existe


Sócrates estar doente näo existirá )

A existência de um contrário näo implica a existência do


contrário oposto, havendo até casos em que a exclui (quando os
contrários se predicam de um indivíduo). Em 5b39-6a1, afirmou-se

näo existir nada que admita ambos os contrários ao mesmo tempo.


14a15-25( Também é manifesto que géneros de certas coisas )

Dado um qualquer par de contrários, os sujeitos em que cada um


deles existe pertencem necessariamente à mesma espécie ou ao
mesmo género. Isto näo impede haver sujeitos que só podem
receber um dos contrários e nunca o outro. Por exemplo, o fogo é
sempre quente e nunca frio. Simplesmente, o fogo é um corpo
(simples ou elementar) e os sujeitos em que o frio existe säo
também corpos.
Questäo diferente é a de saber a que género pertencem os
próprios contrários. A resposta de Aristóteles («têm de ou
pertencer ao mesmo género ou a géneros contrários ou ser eles
mesmos
géneros") levanta algumas dificuldades. Em princípio,
julgaríamos que todos os contrários pertencem necessariamente à
mesma categoria, pelo que, se as categorias säo os géneros
supremos, eles pertenceriam sempre ao mesmo género. ora, a
resposta de Aristóteles pode ser compatibilizada com isto, se a
interpretarmos como referindo-se apenas ao género imediato (i
e., o mais próximo).
contrários, mas que De
se facto, a virtude
subordinam a um e mesmo
o vício säo géneros
género superior
(uma vez que säo ambos estados); portanto, a justiça e a
injustiça também pertencem, mediatamente, ao mesmo género (cf.
10b19-21). No caso do bom e do mau, que Aristóteles diz serem
eles mesmos géneros, poderíamos seguir o mesmo argumento, pois
se eles näo säo categorias, devem subordinar-se a algum outro
género. Simplesmente, näo sabemos a que categoria é que, na
opiniäo de Aristóteles quando escreveu as Categorias, o bom e o
mau pertencem. Na Ética Nicomaqueia, ele defende que o bom näo
pertence a nenhuma categoria, porque é dito (homonimicamente) em
todas elas (cf. 1096a23-29 e também Tópicos, 107a3-13).

Capítulo 12
I Anterioridade
14a26-b23 («Uma coisa é dita anterior a outra... de cinco modos
)

Aristóteles começa por distinguir quatro modos de uma coisa ser


dita anterior (14a26-b10). Poderíamos designá-los por
anterioridade temporal, existencial, ordinal e valorativa. o
primeiro é o sentido mais próprio de anterioridade e o último o
mais impróprio. Depois (14b10-23), acrescenta um quinto modo, o
da anterioridade causal.
Se a existência de A implica a existência de B, mas a de B näo
implica a de A, entäo B é anterior a A. Pois B pode existir sem

A, enquanto
oposiçäo, que Aquando
näo pode existir existencial
a implicaçäo sem B. Parece entäo, (i.
é recíproca por
e., quando nenhum deles pode existir sem o outro) nenhum deles
será anterior ao outro. Mas isto só é verdade neste sentido de
anterioridade. Porque há um outro sentido em que, mesmo quando
duas coisas A e B näo podem existir uma sem a outra, se A for
causa da existência de B, entäo A é anterior a B. (Deverá ser
este o sentido em que as substâncias primeiras säo anteriores a
todas as outras coisas: cf. 2b5-6.) Evidentemente, se A for
causa da existência de B e puder existir sem B, A será anterior
a B nos dois sentidos.
o exemplo apresentado por Aristóteles näo se conforma
exactamente com estes princípios, pois tanto a implicaçäo
recíproca como a causalidade verificam-se entre a existência do
homem e a verdade da declaraçäo, e näo entre duas existências.
Esta concepçäo acerca da verdade e da falsidade foi já referida
em 4b8-10 e é expressa na Metafísica do seguinte modo: «Näo é
porque o nosso pensamento de que tu és branco é verdadeiro que
tu és branco, mas é antes porque tu és branco que nós, ao
dizermos isto, estamos a falar verdade (1051 b6-9) .
Capítulo 13

[Simultaneidade]

14b24-15a12(«Säo ditas simplesmente simultâneas ao mesmo tempo )

Tal como para a anterioridade, o sentido mais próprio de


simultaneidade é também o temporal. Depois, há ainda a
simultaneidade natural, a qual é dita de dois modos: ela diz-se
das coisas entre cuja existência há implicaçäo recíproca (com a
condiçäo de nenhuma ser causa da outra) e também das espécies
que resultam da mesma divisäo do mesmo género. o primeiro destes
dois modos foi afirmado em 7b15-8a12 a respeito dos relativos,
mas ainda sem aquela condiçäo, cuja introduçäo é requerida pela
observaçäo feita
duas espécies em 14b10-22.
pertençam No segundo
ao mesmo modo,que
género para näosejam
bastaditas
que
simultâneas; é necessário que elas resultem da mesma divisäo.
Homem e peixe, por exemplo, säo ambos espécies do género animal,
mas näo säo espécies simultâneas. Pois os animais dividem-se em
terrestres, aquáticos (i. e., peixes) e voadores (i. e., aves),
e o homem é já uma subdivisäo dos animais terrestres.
A afirmaçäo de que «os géneros säo sempre anteriores às espécies
(15a4-5) envolve algum risco, pois poderia parecer que com ela
se viola o princípio de que «a espécie é mais substância do que
o género" (2b7-8). Na realidade, a relaçäo que permite dizer que
o género é anterior à espécie é exactamente a mesma que
justifica a maior substancialidade desta relativamen te àquele: o

género predica-se da os
(v.g. todos espécie,
peixes mas
säoa animais,
espécie näo
massenem
predica
todos doos
animais säo peixes). Além disso, quando caracteriza a
substancialidade das substâncias primeiras, Aristóteles diz que
se as substâncias primeiras no seu conjunto näo existissem,
nenhuma outra coisa poderia existir (cf. 2a34-b6). ora, o mesmo
se verifica entre o género e as suas diversas espécies: se as
espécies no seu conjunto näo existissem, o género näo poderia
existir. Mas, nesta passagem, Aristóteles analisa apenas a
relaçäo entre o género e cada uma das suas espécies isoladamente.

Capítulo 14
[As espécies de mudança]

15a13-33 («Existem seis espécies de mudança diferentes umas das


outras )

Sobre a mudança, veja-se a definiçäo dada na Física, III 1. A


classificaçäo das «existem
categorias, pois espécies tantas
de mudança tem como
espécies base a quantas
de mudança teoria das
as
que existem de ser (Física, 201a8-9). Isto em princípio, porque
efectivamente só existe mudança nas categorias da substância
(geraçäo e destruiçäo), da quantidade (aumento e diminuiçäo), da
qualidade (alteraçäo) e do lugar (mudança de lugar). A
impossibilidade de mudança nas restantes categorias é explicada
na Física, V 1-2.
Estas espécies de mudança säo obviamente diferentes umas das
outras. No caso mais duvidoso da alteraçäo, isso prova-se
mostrando que uma coisa pode ser alterada sem que Lhe aconteça
nenhuma das outras mudanças

15b1-16 ( A contrárias.
qualificaçöes mudança em) geral é o contrário de... para

Identificaçäo do contrário de cada uma das espécies de mudança:


a geraçäo e a destruiçäo säo o contrário uma da outra, e o mesmo
se passa com o aumento e a diminuiçäo; enquanto a mudança de
lugar e a alteraçäo têm cada uma dois contrários, a permanência
no mesmo lugar e na mesma qualificaçäo, respectivamente, e
também a mudança para o lugar e para a qualificaçäo contrários.
Deveria entäo perguntar-se se, por exemplo, manter a mesma
quantidade näo será também o contrário de aumentar e de
diminuir. Encontra-se uma análise mais detalhada da
contrariedade das espécies de mudança na Física, V 5-6.

Capítulo 15 [Sentidos de «ter»]


15b17-32 («o ter é dito de diversos modos. foram quase todos
enumerados ")

Recorde-se que o ter é uma das categorias da lista apresentada


no cap. 4. No entanto, o que aqui se analisa näo é essa
categoria, mas sim os diversos sentidos do verbo «ter .
Repare-se como a inerência das qualidades, quantidades, etc.,
nas substâncias se expressa linguisticamente pelo verbo «ter : a
frase «a alma tem conhecimento significa que o conhecimento
existe na alma como num sujeito. Mas nem todas as ocorrências do
verbo «ter" significam inerência num sujeito.
ARISTÓTELES: CATEGORIAS: Glossário

AFiRMAçäo, KATAPHASIS - Uma afirmaçäo é uma declaraçäo (logos:


12b7) que afirma alguma coisa de alguma coisa, o seu oposto é
uma negaçäo: declar açäo que nega alguma coisa de alguma coisa, V
Combinar o Toda a afirmaçäo é ou ve rdadeira ou fal sa (cf ,
2a7-8) e, dado um par afirmaçäo-negaçäo, «é necessário que
sempre uma delas seja verdadeira e a outra falsa» ( I 3b2-3),
ALTERAçä o, ALLolôSIS I METABoLE--V, Mudança.

ANTERIOR, PRoTERoN - No cap, 12, säo distinguidos cinco modos de


uma coisa ser dita anterior a outra; o mais próprio é a respeito
do tempo (cf, 5a28-30), mas o segundo e o quinto têm especial
relevância para a caracterizaçäo das substâncias primeiras, Em
7b22-8a12, é discutida a aparente anterioridade do conhecível e
do perceptível relativamente ao conhecimento e à percepçäo,
Segundo I 5a4-5, os géneros säo anteriores às espécies; no
entanto, estas säo mais substâncias do que aqueles (cf, 2b7-22),

AUMENTo, AUXESIS--V Mudanesa


CoISA, PRAGMA - AS ocorrências do termo pragma säo as seguintes:
4a36-b8, 7b25, 12b15 e 14b19-21, Em todas elas, o termo é usado
para significar o correlato objectivo de uma declaraçäo (logos),
de uma opiniäo (doxa) ou de um conhecimento (epistêmê), com
especial relevância para a explicaçäo do conceito de verdade. V,
Verdadeiro, coNbinaçäo syLoKE - Toda a afirmaçäo ou negaçäo
resulta da combinaçäo de (pelo menos) um nome com um verbo (cf
2a4-7 e Platäo, Sofista, 262a-d) os nomes e os verbos, por seu
lado, säo expressöes sem combinaçäo, pois nenhuma das suas
partes é por si mesma significante (cf. 1a16-18). As afirmaçöes
e negaçöes säo verdadeiras ou falsas, mas as expressöes sem

combinaçäo
I). Cada nem säo verdadeiras
expressäo nem falsas significa
sem combinaçäo (cf. 2a7-lO,
uma13b10-I
coisa
pertencente a pelo menos uma das categorias (cf. 1b25-2a4).
contRARio / CoNTRARiEDADE, ENANTloN I ENANTloTES--A definiçäo
dos contrários como «aquelas coisas que, no mesmo género, estäo
mais distantes umas das outras» (6a17-18) näo parece ser
subscrita por Aristóteles (confrontar 14a18-25). Na discussäo
dos contrários dos caps. 10-II, Aristóteles distingue os
contrários que têm intermédio (v.g. branco-negro, mau-bom [cf.
13b36-14a6], justo-injusto) e os que näo têm (v.g. saúde-doença,
par-ímpar) e argumenta que näo há contrariedade em nenhum par
relativo-correlativo, posse-privaçäo ou afirmaçäo-negaçäo; em
13bl2-19, discute os «contrários que säo ditos por combinaçäo»,
i. e., a oposiçäo entre declaraçöes que afirmam coisas
contrárias de um mesmo sujeito. Aristóteles afirma que os
contrários ocorrem sempre no mesmo género de coisa (cf.
14a15-18), mas näo podem ocorrer, simultaneamente, na mesma
coisa individual (cf. 5b33-6a8 e 14a10-14). A capacidade que as
substâncias, e só elas, têm de receber contrários (cf. 4a10-b1
8) está intimamente relacionada com o facto de as substâncias
serem os únicos sujeitos de mudança (sobre mudança e
contrariedade, cf. tambémé 13a17-31
saber se têm contrário colocada ea 15b1-16).
respeito Ade questäo de
todas as
categorias analisadas (cf. 3b24, 5b1 1, 6b15, 10b12, 11b1).

DEFINIÇäo, LoGoS I HoRI.5'MoS--«Uma definiçäo é uma frase que


indica a essência de alguma coisa» (Tópico s, 101b37-38). o termo
10 José um dos mais polissémicos do vocabulário filosófico
grego. Nas Categorias, ele é frequentemente usado com o sentido
técnico de «definiçäo»: cf. 1a2-12, 2a20-33, 3a17-19, 3a25-27,
3b2-8, 11a8-13. (No entanto, logos é também traduzido por
«declaraçäo» em 4a22-b11, 12b7-lO e 14b15-21; por «linguagem»,
em 4b23, 4b32-35 e 5a33; e por «discurso» em 14a36-b2.) A
ligaçäo entre a definiçäo e a pergunta «o que é...?», de que ela
é resposta,
6al6, é particularmente
8a29 e 8a33, evidente em 1a4-6 e 1a9-12. Em
«definiçäo» traduz

hf m )

DESTRUIÇäo, PHTHoRA--V Mudança.

DIFERENÇA, DlAPHoRA--Aristóteles chama diferenças de um género


às qualidades que distinguem as diversas espécies desse género
(por exemplo, bípede é a diferença do género animal que
distingue a espécie homem das outras espécies desse mesmo
género). Em lbl6-24, argumenta que dois géneros podem ter uma
mesma diferença somente se um deles for um subgénero do outro A

que categoria
permitem incluirpertencem as diferenças?
as diferenças em nenhumaAs categoria,
Categorias pois
näo
Aristóteles afirma que, tal como as substâncias, as diferenças
näo existem em nenhum sujeito (cf 3a21-28) e, no entanto, näo
considera que elas sejam substâncias (cf. 2b29-30) Aristóteles
também näo adopta a soluçäo de considerar que a noçäo de
diferença é, tal como as noçöes de espécie e género,
transcategorial Parece também haver inconsistência entre o que é
afirmado em 2b30-31 e em 3b6-7

DiMINUIÇäo, MEIôsls--V Mudança.

DisPosiçäo, DIATHESIS - Calor, frio, doença e saúde säo


disposiçöes, e a disposiçäo é uma espécie de qualidade (cf
8b27). Em 8b27-9a10, Aristóteles afirma que as disposiçöes
diferem dos estados por serem mais fáceis de mudar e menos
duráveis do que estes; mas, em 9a10-13, define os estados como
uma espécie particular de disposiçöes Além de qualidades, as
disposiçöes säo também relativos (cf. 6b2-3), o que dá srcem à
dificuldade discutida em 11 a20-38.

ESPÉCIE, EIDos--V Género,


ESTADo, HEXIS - os conhecimentos e as virtudes säo estados, e os
estados säo disposiçöes duráveis e difíceis de mudar (cf
8b27-9al3) V, Disposiçäo, Tal como as disposiçöes, os estados
säo qualidades e tambem relativos (cf. 6b2-5. 8b26-27, l
1a20-38) No cap 10, o termo
hexis é usado para designar o oposto da privaçäo e, nesse
contexto, é traduzido por «posse». V Posse.

ESTAR NUMA posiçäo KEISTHAI - Esta r numa posiçäo é uma da s


categorias da lista do cap 4, cujos exemplos säo «está deitado»
e «está sentado» (2a2-3) os nomes que significam estar numa
posiçäo säo paronimicamente
sendo a posiçäo derivados
(thesis) um relativo (cf das
6b 11diversas
- 14, 11 posiçöes,
b 1 O-
11)

EXISTIR NUM SUJEITo, EN HYPoKEIMENôl EINAI -- Através da


expressäo «existir num sujeito», Aristóteles introdu z a noçäo de
inerência, que permite distinguir as substâncias de tudo aquilo
que pertence às restantes categorias: as substâncias näo existem
em nenhum sujeito, mas säo elas mesmas os sujeitos em que tudo o
resto existe A noçäo é explicada em 1a24-25

EXPRESSöes, LECoMENA--V Comhinaçäo.

FALSo, PSEUDoS--V Verdadeiro.


FAZER, PolElN--«Fazer» é uma das categorias da lista do cap. 4,
acerca da qual Aristóteles apenas diz que admite contrariedade e
também mais e menos (cf 1b1-8).

GÉNERo, GENoS--«Género é aquilo que se predica essêncialmente de


uma multiplicidade de coisas que diferem em espécie» (Tópicos,
102a32). o género a que uma coisa pertence revela o que essa
coisa é (cf 2b29-33) e, por isso, a definiçäo de uma coisa é
feita pela indicaçäo do seu género Género e espécie säo noçöes
relativas: as espécies em que um género se divide podem, por sua
vez, ser géneros de outras espécies inferiores, e assim
sucessivamente, até às «espécies que näo säo géneros» (2b22-23),
isto é, aquelas que abaixo de si já só têm os indivíduos As
espécies e os géneros das substâncias säo chamados «substâncias
segundas» (cf 2a14-19); as espécies säo mais substâncias do que
os géneros, pois aquelas estäo mais próximo das substancias
primeiras, enquanto estes säo mais comuns (cf 2b7-22) Embora
Aristóteles näo distinga entre qualidades (e relativos,
quantidades etc ) primeiras e segundas, as noçöes de espécie e
género aplicam-se
11b15, as também
categorias às restantes
säo elas categorias
mesmas chamadas Em IIÉ muito
«géneros» a38 e
duvidosa a ideia defendida em 11a23-36 de que há géneros de uma
categoria que se dividem em espécies que näo pertencem a essa
categoria

GERAÇäo, GENESIS--V Mudança.

HoMóNiMos / coisas HoMóNIMAs, HoMôNYMA--Duas coisas säo


homónimas quando têm um mesmo nome, mas a definiçäo que
corresponde a esse nome é diferente para cada uma delas (cf. 1 a
I -6)

IGUAL, lsoN - É
(cf. 6a26-35) próprio
o igual e odanäo-igual
quantidade
säoser dita igual
relativos (cf e6b22-23)
näo-igual

INDIVIDUAL / INDIVíDUO, AToMoN--Aristóteles associa


individualidade a unidade numérica (cf 1b6-7, 3bl2) As coisas
individuais e numericamente umas säo as que pertencem aos
segundo e quarto grupos da classificaçäo do cap 2, ou seja, as
que näo säo ditas de nenhum sujeito (e que Aristóteles designa
pela expressäo «um certo x») Em 3a34-39, as coisas individuais
säo opostas às espécies e aos géneros: o género predica-se das
espécies e dos indivíduos, a espécie predica-se dos indivíduos e
estes näo se predicam de nenhuma outra coisa As substâncias
primeiras säo, entäo, individuais (cada uma delas significa um

certo «isto»;
restantes cf 3b10-13);
categorias (cf. cap mas também
2, 1b8, existem
4a14-17, indivíduos
8a35-b1 nas
5) Em 2b3,
«individuais» traduz kath' hekasta, que é uma expressäo de
significado próximo
Atomon significa literalmente «indivi sível» e a noçäo de divisäo
(diairesis) que Aristóteles tem em vista encontra-se presente em
14b34-15a4: trata-se da divisäo de um género em espécies e
destas em subespéci es, até à ínfima espécie (cf 2b22-23), que já
só se divide em indivíduos, isto é, em «indivisíveis»

INDU Ao, EPAGôGE--«A induçäo é a passagem das coisas


particulares para as universais» (Tópicos, 105a13-14) Embora
seja mencionada apenas uma vez (13b37), a induçäo é dos aspectos
mais característicos da metodologia utilizada nas Categorias,
onde a grande maioria dos argumentos pretende extrair princíp ios
universais da inspecçäo de um número limitado de casos
particulares, apresentados como exemplos
IsTo, ToDE - Toda a substância primeira é «um certo isto» (tode
ti), pois é individual e numericamente uma (cf 3b10-13) Mas se a
individualidade e a unidade numérica säo condiçöes suficientes
para que algo seja um «isto», entäo esta propriedade näo é
exclusiva
näo é ditodadesubstância
um sujeitoprimeira, masE,estende-se
(cf 1b6-9) de facto, aAristóteles
tudo o que
também considera a existência de «istos» na categoria dos
relativos (cf 8a38-b8) o erro de tratar os universais como sendo
«istos» (erro cometido pelos platónicos) tem origem na forma
substantiva como säo nomeados (cf 3b 13- 18)

MAIS E MENoS, MALLoN KAI HETToN -- A questäo de saber se admitem


mais e menos é colocada a respeito de todas as categorias
analisadas (cf. 3b33-4a9, 6a 19-25, 6b 19-27, 10b26- 11 a 14, 11
b 1 -8) o facto de as substâncias näo admitirem mais e menos näo
impede que algumas substâncias sejam mais substâncias do que
outras (cf 2b7-28, 3b33-36).

MUDANÇA, KINESIS I METABoLE -- No cap. 14, säo enumeradas as


seis espécies de mudança existentes: geraçäo (genesis),
destruiçäo (phthora), aumento (au -êsis), diminuiçäo (meiôsis),
alteraçäo (alloiôsis) e mudança de lugar (kata topon metabolê),
A destruiçäo é o contrário da geraçäo e säo ambas mudanças a
respeito da substância; a diminuiçäo é o contrário do aumento e
säo ambas mudanças a respeito da quantidade; a alteraçäo é «uma
mudança de qualificaçäo» (15b122) e tem, tal como a mudança de
lugar, dois contrários: a permanência na mesma qualificaçäo e a
mudança para a qualificaçäo contrária Por que é que näo existem
mudanças a respeito das outras categorias? Esta questäo é
respondida na Física, que é aliás a obra de Aristóteles onde o

conceito
5b3, a de mudançaé é considerada
mudança analisado de uma
formaquantidade
mais desenvolvida
derivada EmA
capacidade de receber contrários, que caracteriza as
substâncias, relaciona-se com a sua capacidade de mudar (cf
4a29-34). A mudança de contrário para contrário é reversível,
mas a mudança da posse para a privaçäo näo o é (cf. 13a17-36)

NEGAÇäo, APoPHASlS--V Afil.n X

NoME, oNoMA - «Um nome é um som significante por convençäo, sem


tempo, de que nenhuma parte é significante quando separada»

(De Interpretation 16a19-21) oS nomes säo, portanto, expressöes


sem combinaçäo (cf 1a16-19, 1b25)
NUMERICAMENTE UM, HEN ARITHMôl--Aristóteles associa unidade
numérica a individualidade, como propriedades daquilo que näo é
dito de nenhum sujeito (cf 1b7, 3b12; v Individual), Nas
substâncias, a unidade numérica é compatível com a mudança, o
que näo acontece com as näo-substâncias (cf 4alO-21)

oNDE, Pou
cap. 4, - «onde» é com
exemplificada o nome de uma das «no
as expressöes categ oriase da
Liceu» «nalista do
praça»
(2a1-2). Tradicionalmente, ela é conhecida por categoria do
<lugar», mas «lugar» traduz antes topos (por exemplo em 5a8-14),
o qual é identificado por Aristóteles como uma quantidade

oposiçäo, ANriTHEsis - Aristóteles considera quatro modos de


oposiçäo e discute-os nos caps lO-l 1: oposiçäo entre relativos,
entre contrários, entre posse e privaçäo, e entre afirmaçäo e
negaçäo Aristóteles afirma que estas oposiçöes diferem umas das
outras, mas procura provar mais do que isso, a saber, que elas
se excluem umas às outras (no sentido de ser impossível que uma
coisa se oponha a outra de mais do que um dos modos considerados)

PaRóNIMoS / CoiSAS PARóNiMAS, PARôNYMA - Säo parónimas as coisas


que recebem o seu nome de alguma outra coisa, com uma diferença
de terminaçäo (cf. 1a12-115). A relaçäo de inerência envolve
frequentemente paronímia: quando uma näo-substância F existe
numa substância S, na maior parte dos casos, S recebe um nome
«F'» que é semelhante a «F» excepto na terminaçäo (ISg. se a
coragem existe em Sócrates, Sócrates é chamado «corajoso» -
diz-se, entäo, que Sócrates é paronimicamente chamado a partir
da coragem). Cf 10a27-b1 1, 6b13, 11b1 1.

PARTICULAR, KATH' HEKASToN - A distinçäo entre particular e


universal é

estabelecida no De
próprias coisas, umasInterpretatione
säo universais doe seguinte modo: «Das
outras particulares;
chamo universal àquilo que é por natureza predicado de uma
multiplicidade de coisas e particular àquilo que o näo é (homem,
por exemplo, é um universal, enquanto Cálias é um particular)»
(17a38-b1). A isto corresponde, nas
Categorias, a distinçäo entre as coisas que säo ditas de algum
sujeito e as coisas que näo säo ditas de nenhum sujeito (cf
1a20-b9), sendo estas últimas preferêncialmente caracterizadas
como «individuais» (atoma). o termo «particulares» só lhes é
aplicado em 2b3 Nas restantes ocorrências, o termo é usado para
designar ou os exemplos a partir dos quais é feita a induçäo
(2a36, 8b3, 13b37) ou as diversas espécies de um mesmo género (1
1a23-36, 15b2)
possE HEXIS - Posse e privaçäo é um do s modos de op osiçäo
discutidos no cap. 10, de que o exemplo preferido de Aristóteles
é o da visäo e da cegueira (cf 12a26-34) Em 12b26-13a36,
Aristóteles argumenta que a posse e a privaçäo näo säo contrários

posterior HYSTERoN--V Anterior.


PREDICADo / equivalentes
utiliza como PREDICAR, KATECoRIA I KATEGoREIN
as expressöes «ser dito -- Aristóteles
de um sujeito»
e «ser predicado de um sujeito» (cf v.g. IblO-lS). A predicaçäo
é, em primeiro lugar, uma relaçäo entre duas coisas, a qual
todavia implica também uma relaçäo entre um nome ou expressäo e
uma coisa (cf 2a19-34) As substâncias primeiras, porque näo säo
ditas de nenhum sujeito, näo originam qualquer predicado
linguístico (cf 3a36-37). A substância, a quantidade, a
qualidade, etc, säo chamadas «predicados» em 1nh1q

PRIVAÇäo, STERESIS--V P1)55 '.

PRóPRio, IDloN - «Próprio é aquilo que näo revela a essência de


uma coisa, masdela
reciprocamente quePorsóexemplo,
a ela é pertence e homem
próprio do que se
ser predica
capaz de
aprender gramática: pois se um ser é um homem, ele é capaz de
aprender gramática; e se é capaz de aprender gramática, é um
homem» (Tópicos, 102a18-22) Aristóteles procura determina r o que
é próprio da substância (cf 3a21, 3b27, 4a10-b18) , da quantidade
(cf 6a26-35), da qualidade (cf 11a15-19) e, também, da oposiçäo
entre afirmaçäo e negaçäo (cf 13b33-35)

QUALIDADE / QUALIFICAÇäo PoloTEs I PoloN--A distinçäo entre


(qualidade e qualificaçäo é feita no início do cap 8 (Xb25)
todo ele

dedicado à análise desta


coisas qualificadas säo categoria Na maior
paronimicamente parte dos
chamadas casos, das
a partir as
qualidades que nelas existem (cf 1a12-15, 10a27-b11) As espécies
e os géneros das substâncias säo qualificaçöes da substância,
mas näo qualificaçöes em sentido estrito (cf 3b13-21)

QUANDo PoTE - «Quando» é o nome de uma das categorias da lista


do cap 4, exemplificada com as expressöes «ontem» e «o ano
passado» (2a2) Tradicionalmente, ela é conhecida por categoria
do «tempo», mas «tempo» traduz antes chronos (por exemplo em
5a6-8 e 5a26-30), o qual é identificado por Aristótel es como uma
quantidade

QUANTIDADE, posoN - A categoria da quantidade é analisada no cap


6, que começa com a distinçäo entre quantidades discretas e
contínuas (4b22-5a14)

RELATIVo, pRos Tl - os relativos säo discutidos no cap 7 e


também no cap 10 A descriçäo dos relativos apresentada em
6a36-b1 1 é revista e substituída por outra em 8a28-3S, de modo
a que nenhuma substância possa ser chamada um relativo Sobre os
relativos e a contrariedade, cf 5b1 1-6a1 1, 6b15-19 e 11b32-38
SEMELHA TE, Ho oloN--É somente em virtude de alguma qualidade
que uma coisa é dita semelhante (ou dissemelhan te) a outra (cf 1
1a15-19, 6a32-34) o semelhante é um relativo (cf 6b9-lO, 6b23-24)

SER AFECTADo / AFECÇäo, PASCHEIN I PATHoS--Ser afectado é uma


das categorias da lista do cap 4, acerca da qual Aristóteles
apenas diz que admite contrariedade e também mais e menos (cf.
11b1-8) Em 9a28 e segs, é discutido aquele género de qualidades
que, ou por produzirem
uma afecçäo dos sentidos (v.g doçura, acidez, calor, etc ) ou
por resultarem elas mesmas de uma afecçäo (v.g. as cores), säo
chamadas
Aristóteles «qualidades afectivas»
começa por incluir (pathetikai
no mesmo poiotêtes);
género as afecçöes
(pathê), mas depois argumenta que as afecçöes näo säo qualidades
(cf. 9b28-33, 10a6-lO) Segundo
15a20-22, as afecçöes produzem em nós uma alteraçäo, i e, uma
mudança de qualidade
SER DYro DE 1 . .SUJEITo, KATH' HYPoKEIMENoU LEGESTHAI--Através
d. expressäo «ser dito de um sujeito», Aristóteles introduz a
noçäo de predicaçäo, que permite distinguir as coisas universais
das coisas individuais (cf 1a20 b9 e v Particular). Esta
distinçäo tem aplicaçäo em todas as categorias, mas é
especialmente desenvolvida na categoria d, substância,
srcinando a distinçäo entre substâncias primeiras e segundas As

únicas
géneroscoisas que säo ditas
(e respectivas de um indivíduo
diferenças) säopertence,
a que ele as espécies
poisc a os
relaçäo predicativa é definitória (cf 2b30-37). Além disso, ela
envolve dependência ontológ ica, pois as espécies e os géneros só
existem porque existem indivíduos (cf 2a36-b6) Se uma coisa A é
dita de um sujeito B, A e B säo coisas sinónimas (cf 1a6-12,
2a19-27)

SiMULTâNEo, HAMA--o cap 13 é dedicado à análise da


simultaneidade: Aristóteles distingue as coisas simplesmente
simultâneas (haplô. hama) i e., a respeito do tempo, e as coisas
simultâneas por natureza (physei hama) No cap 7, há uma
importante discussäo sobre a simultaneidade dos relativos (cf
7b15-8al2). Em Sb39-6a4, Aristóteles sustenta que é impossível
uma coisa receber simultaneamente ambos os contrários (cf.
também 14a 1 O- 14)

SINóNiMos / Coisas siNóNIMAs, SYNôNYMA - Duas coisas säo


sinónimas quando têm um mesmo nome e a definiçäo que correspond e
a esse nome é também a mesma para ambas (cf 1a6-12, 3b7-8) A
sinonímia é uma propriedade necessária da relaçäo de predicaçäo:
se A se predica
predicam-se também de B, (cf
de B entäo o nome
2a19-27) e a definiçäo
e, portanto, A e B de
säo A
coisas sinónimas. Uma vez que as substâncias segundas e as
diferenças säo ditas de algum sujeito, mas näo existem em nenhum
sujeito, tudo o que é chamado a partir delas é-o sinonimica mente
(cf 3a33-b9).

SUBStÂncia ousiA - ouSia é um substantivo formado a partir do


verbo «ser», que significa literalmente «entidade» ou
«realidade» Um dos objectivos de Aristóteles nas Categorias é
determinar a que tipo de coisas é que, «de modo mais próprio,
primeiro e principal», cabe a designaçäo de ousia. A sua
resposta é a de que a «realidade primeira» é formada pelas
coisas que
sujeito, nem como
tais säo homens,
ditas decavalos
algum sujeito nem individuais
e árvores existem em (cf
algum
2a1
1-14). E a justificaçäo para esta resposta é a seguinte: é

I l'()

porque subjazem a todas as outras coisas que estas säo chamadas


«realidades primeiras» (cf 2b15-17, 2b37-3a1) Contudo,
Aristóteles atribui ao termo ousia um significado filosófico
técnico, segundo o qual nem todos os seres (onta) podem ser
chamados ousiai (aqui a traduçäo por «realidades» näo seria
adequada, pelo que preferimos o tradicional «substâncias») Mas
Aristóteles reconhece ainda um sentido derivado, ou segundo, no

qual a designaçäo
géneros de ousia
daquelas coisas pode
a que serprimeiramente
ela aplicada às espécies e assim
cabe surge aos
a diferença entre a «substância primeira» (prôtê ousia) e a
«substância segunda» (deutera ousia) sendo evidente que aquela é
mais substância do que esta (Também evidente é o antiplatonismo
desta posiçäo ) o cap S é todo ele dedicado à análise da
substância, sendo por isso considerado o mais importante Em
2b29-3a6 Aristóteles defende a completude da sua classificaçäo
das substâncias o leitor interessado em aprofundar o estudo da
teoria aristotélica da substância deverá ler a Metafísica
(sobretudo os livros VII-IX).

SUJEITo, HYPoKElMENoN - Hypokeimenon significa literalmente «o


que subjaz» (o verbo correspondente é usado em 2b15, 2bl9 e
2b38) Uma coisa é sujeito de outra se esta é dita dela ou existe
nela De acordo com as Categorias ser sujeito constitui o
principal critério da substancialidade: «é porque as substâncias
primeiras säo sujeitos de todas as outras coisas [. ] que elas
säo principalmente chamadas substâncias» (2b15-17, repetido em
2b37-3a1) A noçäo de sujeito tem como correlato a noçäo de
dependência ontológica (cf 2b3-6) Embora nem só as substâncias
primeiras sejam sujeitos
todos os outros sujeitos,dependem
elas säo(cf
os 2a36-b3)
sujeitos básicos de que

TER, ECHEIN - Ter é uma das categorias da lista do cap 4,


exemplificada com as expressöes «está calçado» e «está armado»
(2a3). Näo é esta categoria o que o cap. 15 procura analisar,
mas sim os diversos sentidos do verbo «ter».

VeRDADEIRo, ALETHES - Para haver verdade e falsidade tem de


haver combinaçäo de expressöes (nomes e verbos), de modo a
formar uma afirmaçäo ou negaçäo (cf. 2a8-9, 13b10-11) Toda a
afirmaçäo é ou verdadeira ou falsa (cf 2a7-8) e, dado um par
afirmaçäo-negaçäo, «é necessário que sempre uma delas seja
verdadeira
se o facto e
quea ela
outra falsa» (13b2-3) Uma declaraçäo é verdadeira
declara
existe na realidade e falsa se ele näo existe; por isso,
Aristóteles diz que säo as próprias coisas (i e, a sua
existência ou näo-existência e o modo como elas säo ou näo säo)
que constituem a causa da verdade ou falsidade das declaraçöes
que säo feitas a seu respeito (cf 4b8-lO, 14b18-22) E o mesmo
acontece com as opiniöes Assim, a mudança na própria coisa
srcina a alteraçäo do valor de verdade da declaraçäo ou opiniäo
(cf. 4a24-b2) Em 13b12-35, Aristóteles considera que acerca de
indivíduos näo-existentes, qualquer afirmaçäo é falsa e qualquer
negaçäo é verdadeira

Bibliografia
. É muito escassa e frequentemente mal traduzida, a
bibliografia de e sobre Aristóteles existente em português

. A traduçäo inglesa de todas as obras de Aristóteles (conhecida


por «oxford Translation»), coordenada por David Ross, e cujo
décimo segundo e último volume foi publicado em 1954,
encontra-se agora disponível numa cómoda ediçäo revista em
apenas dois volumes:

Jonathan Barnes (ed.) - The Complete Works of Aristotle (The Rel


ised o,.;fal cl Translation) . Princeton: 1984.
. o leitor interessado em obter um conhecimento geral da
filosofia de Aristóteles poderá consultar os seguintes livros:

David Ross - Aristotle. Lond on: I d ed 1923, S.a ed (revis ta)


1953

D J Allan - The Philc sophy c f Aristotle, oxford: I d ed 1952,


2 a ed (revista) 1970
G E R Lloyd - Aristotle: the Gl.ou th and Strlletu7e oJ' his
Tllo ht. Cambridge: 1968.
J. L. Ackrill - Aristotle the Philosopher. oxford: 1981.

Jonathan Barnes - Aristotle. oxford: 1982.

Jonathan Lear - A7-istotle: the Desi7 e to Undel stand Cambridge


19

Aos quais se pode acrescentar a recolha, em quatro volumes, dos


mais importantes artigos produzidos sobre as diversas áreas
temáticas da filosofia aristotélica:
Jonathan Barnes, Malcolm Schofield e Richard Sorabji (eds.)
A7.ticles on Aristotle, vol. 1: Scienc.e, vol. 2: Ethics and
Politic.s vol 3
Metaphysic.s, vol 4: Psychology and Äesthetics. London: 1975-19i9

E ainda o seguinte volume colectivo de introduçäo ao estudo de


Aristóteles

Jonathan Barnes (ed.) - The Camhridge Companion to Aristotle


Cambridge 1995 Inclui uma bibliografia actualizada e muito
completa

. o leitor interessado em aprofundar o estudo das Categorias.


poderá consultar:

J L Ackrill - Aristotle's Categories and De lnte7pretatio/le


oxfoRD 1963 Traduçào acompanhada de excelentes notas de
comentário

Pierre Aubenque (dir.) - Concepts et catégories dans la pensée


antique Parls: 1980 Trata-se de um conjunto de ensaios
resultantes de um seminário orientado por Aubenque, onde se
inclui uma útil bibliografia anotada dos principais estudos
sobre as Categorias de Aristóteles publicados entre 1794 e 1975
(pp. I -22).
G E L owen - Logic, Scien ce and Dialectic. London: 1986 Nesta
recolha póstuma de todos os artigos de owen sobre a filosofia
antiga encontra-se o artigo «Inherence» (pp 252-258),
originalmente publicado em 1965, no qual a interpretaçäo
tradicional da relaçäo de inerência é
desafiada e se defende que as näo-substâncias individuais podem
existir em mais
controvérsia entre do que um sujeito
os estudiosos o artigo gerou grande

os três livros que a seguir se indicam constítuem investigaçöes


recentes sobre a metafísica aristotélica, com especial destaque
para a teoria da substância (todos eles começam por um estudo da
doutrina exposta nas Categorias, comparando-a, depois, com a
forma bastante mais elaborada como os mesmos assuntos säo
tratados na Metafísica):

Daniel W Graham - Aristotle's Tu.o S!stems. oxford: 1987 (v


Chapter 2, «Atomic Substantialism», pp. 20-56)

Montgomery
Metaphysics.Furth - Substance,
Cambridge: 1988Form
(v.andPart
Psyche:
I, an«Cross-
Aristotelean
and
intra-categorial predication in the Categories», pp. 9-47).

Frank A Lewis - Suhstance and Predication in Aristotle


Cambridge: 1991 (v Part I, «Aristotle's earlier metaphysical
theory», pp. 1-82)

Terence Irwin - Aristotle's First Principles oxford: 1988 Neste


livro, Irwin analisa a doutrina das Categorias (v. Chapters 3-4,
«Constructive dialectic» e «Puzzles about substance», pp 51-93)
no contexto de uma discussäo do valor filosófico do método
dialéctico

Émile Benveniste - «Catégories de pensée et catégories de


langue» (1958), in id., Problèmes de linguistique générale, vol.
I. Paris: 1966, pp 63-74 Interessante incursäo de um linguista
no domínio da filosofia, em que se defende que, porque pensar e
falar säo actividades indissociáveis, terá sido através de uma
análise näo consciêncializada das diferentes formas gramaticais
da língua grega que Aristóteles chegou à sua lista das
categorias Trata-se da reediçäo de uma tese defendida, mais de
um século antes, por F A. Trendelenburg (em Geschichte der
Kategorienlehre. Berlin: 1846)

William Kneale e Martha Kneale - The Development of Logic


oxford: 1962 (o Desenvolvimento da Lógic.a. Traduçäo de M. S.
Lourenço Lisboa: 1980) o Capítulo II (pp. 25-114) deste livro
contém
uma brilhante apresentaçäo do or anon de Aristóteles, com
discussäo do
valor lógico das suas principais doutrinas A autora defende que
as Categorias devem ser consideradas uma obra de metafísica,
embora assinale a influência que a sua inclusäo no organon teve
para o desenvolvimento da lógica.
Fernando Gil - Mimésis e Negaçäo Lisboa: 1984 o Capítulo II
deste livro («Categorizar», pp 89-240) analisa o significado
filosófico e o desenvolvimento do pensamento categorial, desde
Aristóteles até à actualidade.

As Categorias tal como os demais tratados aristótelicos, têm


sido objecto de comentário desde a Antiguidade até aos nossos
dias Porfírio (sécs. III-IV), Dexipo (séc. IV) e Amónio (sécs
V-VI) säo autores de três dos mais antigos comentári os, os quais
foram recentemente traduzidos:

Porphyry - on 1992.
Strange London: Aristotle Categories.
Porfírio Translated
é considerado by Steven
o responsável peloK
estabelecimento das Categorias como o texto fundamental de
introduçäo à filosofia Para auxiliar um seu aluno no estudo das
Categorias escreveu um livro que passou a estar (e assim se
manteve ao longo de toda a Idade Média) associado à obra de
Aristóteles: Isagoge (existe traduçäo portuguesa de P Gomes,
Lisboa, 1994)

Dexippus - on Aristotle Categorie.i. Translated by John Dillon


London: 199()

Ammonius - on Aristotle Categories. Translated by S. Marc Cohen

and Gareth B. Matthews London: 1991


Franz Brentano - Von der mannigfacllen Bedeut ung des Seienden
nach Aristoteles Freiburg im Breisgau: 1862 (on the Several
Senses of Being in Aristotle. Translated by Rolf George Berkeley
- Los Angeles: 1975; De la diversité des acc.eption s de l être d
après Aristote Traduction de Pascal David Paris: 1992)
Importante investigaçäo, realizada por um dos mais eminentes
estudiosos de Aristóteles do séc XIX, e hoje de certo modo
recuperada, este livro apresenta uma sólida e bem documentada
interpretaçäo do significado metafísico da teoria das categorias
em toda a obra de Aristóteles, defendendo-a dos ataques que,
desde Kant, numerosos filósofos alemäes Lhe dirigiram
Colecçäo

POrto Editora

1 ?
ColecÇäo

POrto Editora
__
Introduçäo às Liçöes sobre História da Filosofia

Traduçäo introduçäo e notas de JosÉ Barata-Moura

Teoria da Interpretaçäo
Introduçäo e comentários de Isabel Gomes
Traduçäo de Artur Moräo

Princípios
Introduçäo da Filosofia de Isabel Marcelino
e comentários
Traduçäo de Isabel Marcelino e Teresa Marcelino

Fédon
Introduçäo e comentários de Maria Arminda Alves de SoUSa
TRaduçäo e notas de P. Eusébio Dias Palmeira

Sobre a Essência da Verdade


Traduçäo de Carlos Morujäo

6
Categorias
Traduçäo. introduçäo . Comentários de Ricardo Santos

Fundamentaçäo da Metafísica dos Costumes


Introduçäo e enquadramento crítico de Viriato Soromenho Marques
Traduçäo de Paulo Quintela

o Mestre Introduçäo e comentários de Maria Leonor Traduçäo de


António Soares Pinheiro
Execuçäo gráfica de BLoCo GRáFiCo, LDA. R. da Restauraçäo, 387 -
4050 PORTO - PORTUGAL
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