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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MEMÓRIA: LINGUAGEM E SOCIEDADE


Tópicos de Projetos Temáticos I
Prof. Dr. José Alves Dias

Cristina Queiroz da Rocha1

RESENHA CRÍTICA
ESTADO E TEORIA POLÍTICA. MARTIN CARNOY

O livro, escrito pelo economista Polonês Martin Carnoy na segunda década de


80, traz um apanhado bastante instigante acerca de diversas concepções que em
conjunto, sugerem uma compreensão acerca do Estado e da Teoria Política. O estudo
empreendido pelo Carnoy,estrutura-se no pensamento de diversos autores, desde os
mais clássicos, até os considerados pensadores da modernidade.
Sua obra é marcada por uma multiplicidade de idéias que dão robustez àquilo
que defende e àquilo que critica, com muita propriedade. Carnoy utiliza-se dos
pensamentos de Locke, Hobbes, Marx, Engels, Lenin, Luxemburgo, Gramsci, Adam
Smith, Norberto Bobbio, dentre inúmeros outros, para explicar questões atinentes à
democracia, luta de classes, comunismo, capitalismo, socialismo, conceitos
fundamentais para uma compreensão sistemática do Estado e da Teoria Política.
Importante destacar, ademais, que é visível uma preocupação do autor em
situar o leitor no tempo e espaço diante da sua obra, para isso, sempre busca
contextualizar o pensamento dos teóricos referenciados em relação ao momento
histórico que viviam. Isto torna a leitura mais fluida e compreensível. Apesar de em
alguns momentos bastante específicos ele se posicionar e se inserir na obra, ao que
parece, o autor prefere se manter distante, numa condição de expositor e organizador
das principais teorias políticas que fundamentam a questão proposta.
Na parte inicial do texto, o autor já deixa claras as suas principais intenções
com a obra, afirmando que busca atrair a atenção para o Estado como objeto de
investigação; demonstrar que há discussões sobre o que é Estado, o que ele faz e como
1
Cristina Queiroz da Rocha, Pós graduanda do Programa de Pós Graduação em Memória: Linguagem e
sociedade. Endereço eletrônico: rocha.cqueiroz@gmail.com
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funciona; mostrar que as divergências inerentes a essas discussões refletem diferentes


pontos de vista sobre a sociedade e o papel do Estado na sociedade e mostrar como
diferentes pontos de vista sobre o Estado implicam em políticas diferentes de mudança
social, tanto em relação aos meios quanto aos seus fins.
Pela riqueza da exposição, fica evidente que o autor consegue alcançar o
objetivo proposto, posto que constrói no decorrer da obra uma articulação expositivo-
teórica bastante congruente e sólida.
Em seu capítulo primeiro, Carnoy traz apontamentos acerca do Estado e o
pensamento político Norte americano. É certo, entretanto, que este capítulo não
constitui objeto de análise neste momento inicial.
A proposta desta resenha restringe-se aos capítulos dois, três e quatro. No
capítulo dois, o autor traz um apanhado concernente a Marx, Engels, Lenin e o Estado.
No capítulo três, ele busca explicar questões referentes ao pensamento de Gramsci e o
Estado e no capítulo quatro busca explicar, a partir das diferentes abordagens teóricas, o
Estruturalismo e o Estado: Althusser e Poulantzas.
O autor inicia o capítulo dois, como já dito alhures, fazendo uma digressão
histórica para então chegar a uma concepção de Estado e seus elementos tangentes em
Marx, Engels e Lenin.
Explica Carnoy, que a segunda metade dos anos 50 marcou o fim do stalinismo
e o início do fim da guerra fria, o que desencadeou em um período no qual os partidos
comunistas ocidentais desabrocharam intelectualmente e puderam mostrar
independência frente à União Soviética, enquanto uma aberta repressão antimarxista se
afrouxava nos Estados Unidos. Segundo ele, a diminuição desses dois controles sobre o
pensamento marxista permitiu o florescimento da teoria marxista ocidental, numa época
de crescente envolvimento do Estado e crescente participação eleitoral por parte dos
partidos políticos de esquerda, que tinha sido suprimida pela ascensão do fascismo e a
Segunda Guerra Mundial.
Diante do que dispõe o autor com o sucesso da Revolução Russa, foi a teoria
leninista do Estado e da revolução que acabou por dominar o pensamento marxista, e as
interpretações leninistas da teoria política de Marx permaneceram amplamente
inquestionadas ou, quando questionadas, reprimidas, até o início dos anos 60. Como
conseqüência, muitas das questões políticas mais sérias, de um ponto de vista
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marxista, não foram discutidas até as décadas de 60 e 70, como: Por que a classe
operária permanece "não revolucionária" em face à crise econômica? Quais são as
características específicas do Estado burguês adiantado? Por que e como o Estado
desenvolve essas características? Que estratégias são adequadas para uma
transformação radical? Por que os Estados comunistas se desenvolveram da forma como
o fizeram? O que isso significa para o papel do Estado na transição para o socialismo?
Em que o Estado capitalista difere na periferia do sistema mundial?
Estes questionamentos foram tomados como ponto de partida para a
compreensão do estado e da Teoria Política para os citados autores, ainda que não
tratassem expressamente sobre essas questões, como o foi Marx. Assim, Carnoy busca
nas entrelinhas do que o autor teorizou e naquilo que os outros autores escreveram sobre
as idéias implícitas destes estudiosos, as concepções pretendidas.
O autor esclarece, por exemplo, que Marx não desenvolveu uma única e
coerente teoria da política e ou do Estado, mas não negligencia a importância do
pensamento de Marx nesse campo, motivo pelo qual expõe que as concepções marxistas
do Estado devem ser deduzidas das críticas de Marx a Hegel, do desenvolvimento da
sua teoria sobre a sociedade (incluindo sua teoria da economia política) e de suas
análises de conjunturas históricas específicas, tais como: a revolução de 1848, na
França, e a ditadura de Luís Napoleão, ou a Comuna de Paris de 1871.
Assim, segundo enuncia o autor, Marx considerava as condições materiais de
uma sociedade como a base de sua estrutura social e da consciência humana. Para Marx,
deste modo, a forma do Estado, emerge das relações de produção, não do
desenvolvimento geral da mente humana ou do conjunto das vontades humanas.

Ocorre que, segundo evidencia o autor, A formulação de Marx de Estado


contradizia diretamente a concepção de Hegel do Estado “racional”. Para Hegel, o
Estado é eterno, não histórico; transcende à sociedade como uma coletividade
idealizada. Marx, ao contrário, colocou o Estado em seu contexto histórico e o submeteu
a uma concepção materialista da história. Não é o Estado que molda a sociedade mas a
sociedade que molda o Estado. A sociedade, por sua vez, se molda pelo modo
dominante de produção e das relações de produção inerentes a esse modo.
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Ainda em contradição ao pensamento Hegeliano, Marx defendia que o Estado,


emergindo das relações de produção, não representa o bem-comum, mas é a expressão
política da estrutura de classe inerente à produção. Hegel tinha uma visão do Estado
como responsável pela representação da "coletividade social", acima dos interesses
particulares e das classes, assegurando que a competição entre os indivíduos e os
grupos.
Explica, que Marx veio a rejeitar essa visão do Estado como o curador da
sociedade como um todo. Uma vez que ele chegou a sua formulação da sociedade
capitalista como uma sociedade de classes, dominada pela burguesia, seguiu-se
necessariamente a sua visão de que o Estado é a expressão política dessa dominação.
Logo adiante o autor traz a concepção extraída do pensamento de Marx de que
o Estado é a expressão política da classe dominante sem ser originário de um
complô de classe. Sugere Carnoy que, para Marx, o Estado capitalista é uma resposta
à necessidade de mediar o conflito de classes e manter a “ordem”, uma ordem que
reproduz o domínio econômico da burguesia

Prossegue o autor explicando que o terceiro ponto fundamental na teoria do


Estado de Marx é que, na sociedade burguesa, o Estado representa o braço repressivo da
burguesia. A ascensão do Estado como força repressiva para manter sob controle os
antagonismos de classe não apenas descreve à natureza de classe do Estado, mas
também sua função repressiva, a qual, no capitalismo, serve à classe dominante, à
burguesia.
Fica claro, portanto, que segundo o que assevera o autor, numa visão marxista
o Estado representa o braço repressivo da burguesia. De acordo com Marx e Engels,
o Estado aparece como parte da divisão de trabalho, isto é, como parte do
aparecimento das diferenças entre os grupos na sociedade e da falta de consenso social.
Assim, enuncia Carnoy, pelas concepções trazidas que a repressão é parte do
Estado – por definição histórica, a separação do poder em relação à comunidade
possibilita a um grupo na sociedade usar o poder do Estado contra outros grupos e
a função primordial do Estado burguês é a legitimação do poder, da repressão,
para reforçar a reprodução da estrutura e das relações de classes. Além disso, aponta que
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o executivo do Estado moderno não é mais do que um comitê para gerenciar os


negócios comuns de toda a burguesia.
Trazidas estas considerações mais conceituais acerca da conformação de
Estado, sobretudo, a partir da Teoria Marxista, o autor percorre outros caminhos em
conseguinte, buscando explicitar outras abordagens igualmente caras ao estudo
aventado. Aqui, explicita sob a ótica do pensamento Marxista, as duas faces da
democracia: concebida para Marx e Engels, como meio para oferecer a ilusão de
participação das massas no Estado e dar às formas democráticas um novo
conteúdo social ou de massa, impelindo-as aos extremos democráticos de controle
popular a partir da base.
Explica o autor, na mesma perspectiva, que as formas democráticas podem
também se tornar o meio pelo qual as massas venham a deter o poder. Assim, o
Estado deveria ser considerado um instrumento da classe dominante porque: os
membros do sistema de Estado tendem a pertencer à mesma classe ou classes
que dominam a sociedade civil; através de seu controle dos meios de produção,
a classe dominante é capaz de influencias as medidas estatais de uma maneira
que nenhum outro grupo, na sociedade capitalista, pode desenvolver, quer
financeira quer politicamente; a natureza do Estado é determinada pela natureza e
pelas exigências do modo de produção.
Segundo dispõe Martin, Marx e Engels não entendiam o Estado como
sendo meramente uma extensão da classe governante. O Estado surge e expressa
uma real necessidade global de organização da sociedade.
Após explicadas essas questões concernentes ao pepel da democracia e das
formas democráticas, o autor passa a discorrer a respeito do pensamento de Lênin.
Segundo Carnoy, para Lenin, assim como para Marx e Engels, o interesse no
Estado centrava -se na estratégia revolucionaria, numa teoria de transformação do
capitalismo para o comunismo. Nesse sentido, a teoria política marxista é
indubitalvemente uma teoria em ação.
Carnoy também faz, neste ponto, uma digressão histórica para explicar que as
teorias de Lenin sobre o Estado, foram desenvolvidas no contexto especifico da
Revolução Russa. O fundamental para Lenin era que o Estado é um órgão de
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dominação de classe e que, embora o Estado tente conciliar o conflito de classes,


esse conflito é irreconciliável. Sem esse conflito não há necessidade de Estado.
Assim, segundo aponta o autor, a destruição do Estado burguês seria
essencial para qualquer transformação revolucionária e essa destruição deveria
acontecer através do confronto armado, já que o Estado é a força armada da
burguesia. Ainda para Lenin, a luta de classes continua na transição do
capitalismo para o comunismo, e requer um Estado que elimine a burguesia: daí,
a ditadura do proletariado. O que Lenin antevia era a reação da burguesia a um
regime revolucionário.
De acordo com os ideais Leninistas, posterior à revolução socialista não há
necessidade de um Estado, porque não há necessidade de reprimir um grupo para os
propósitos de outro.
A democracia burguesa, segundo afirma Lenin, citado por Carnoy, é uma
“democracia para uma minoria insignificante, uma democracia para o s ricos”. O
aparelho do Estado em uma sociedade capitalista é um aparelho especificamente
capitalista, organizado estruturalmente, em sua forma e conteúdo, para servir à
classe capitalista (burguesa).

Embora não tenha concluído seu pensamento, posto que fora assassinada, Rosa
Luxemburgo trouxe diversas críticas às idéias difundidas por Lenin, alegando um
abandono da democracia operária. Além disso, a discordância entre Lenin e
Luxemburgo fundava-se em seus pontos de vista bastante diversos sobre o papel
do partido de vanguarda em relação à classe trabalhadoras.
No capítulo seguinte, que tem por título Gramsci e o Estado, o autor tece
apontamentos acerca das idéias de Gramisci e os principais pontos de convergência e
divergência com as concepções trazidas atinentes ao pensamento de Marx, Engels e
Lenin.
Mais uma vez, Carnoy inicia o capítulo evidenciando o momento histórico
vivido pelo autor comentado. Segundo enuncia, as teorias Gramscianas decorreram do
papel por ele exercido enquanto figura central do partido socialista italiano e
posteriormente do Partido Comunista. Isto porque, pelo que explicita a obra de Martin,
Gramsci presenciou o fracasso de um movimento revolucionário das massas
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trabalhadoras e o inicio de um fascismo reacionário apoiado por grande parte da classe


trabalhadora. A partir disso ele se propõe a repensar a teoria marxista como meio de
buscar respostas acerca do fenômeno que estava sendo observado na sociedade.
Cumpre esclarecer que Carnoy traz uma série de conceitos chave necessários à
compreensão do pensamento de Gramsci, razão pela qual serão aqui também apontados.
O autor explica que a hegemonia, conforme cunhada na teoria gramsciana tem
a ver com o predomínio ideológico dos valores e normas burguesas sobre as classes
subalternas através de um conjunto de instituições, ideologias, práticas e agentes. Cita
ainda, em uma outra concepção que “A hegemonia compreende as tentativas bem
sucedidas da classe dominante em usar sua liderança política, moral e intelectual para
impor sua visão de mundo como inteiramente abrangente e universal, e para moldar os
interesses e as necessidades dos grupos subordinados”.
Gramsci concebe também a ideia de uma sociedade civil como sendo o
conjunto dos organismos vulgarmente chamados “privados”, como os meios de
comunicação, entidades, dentre outros.
Segundo cita o autor, ainda, para Gramsci, Estado pode ser compreendido não
só como o aparelho repressivo da burguesia, mas também como aquele que inclui a
hegemonia da burguesia na superestrutura.
O conceito de superestrutura, por sua vez divide-se em dois níveis: o primeiro é
a sociedade civil e o segundo é a sociedade política ou Estado.
Segundo o autor, Gramsci aparentemente não estabeleceu uma única e
absolutamente satisfatória teoria do Estado, porém ele claramente o viu de maneira
diferente de Marx ou Lenin. Para Gramsci o Estado, como superestrutura, torna-se uma
variável essencial, em vez de secundária, na compreensão da sociedade capitalista. Ele
incorporou também o aparelho de hegemonia no Estado, bem como a sociedade civil, e,
por essa razão, ampliando-o além do conceito marxista-leninista do Estado como um
instrumento coercitivo da burguesia. Portanto, o Estado é, simultaneamente, um
instrumento essencial para a expansão do poder da classe dominante e uma força
repressiva (sociedade política) que mantém os grupos subordinados fracos e
desorganizados.
Para o autor, tudo isto sugere que a visão de Gramsci sobre o Estado era
principalmente ideológica, que este era um aparelho hegemônico que surgiu da
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concepção da classe burguesa como: um grupo em potencial totalmente inclusivo, daí


um sistema de leis e normas que tratavam os indivíduos como se eles estivessem para
ser incorporados à burguesia.
Para Gramsci “A força verdadeira do sistema não reside na violência da classe
dominante ou no poder coercitivo do seu aparelho de Estado, mas na aceitação por
parte dos dominados de uma concepção de mundo que pertence aos seus
dominadores” (p.94). Para Gramsci, conforme cita o autor, quando acontece de um
Estado não mais conseguir controlar as consciências, ele tende a recorrer à força, à
coerção.
A partir disso que a obra trabalha o conceito de revolução passiva, que para
Gramsci, significa uma readaptação do poder estatal em relação ao proletariado como
meio de se preservar sua hegemonia e evitar que as massas exerçam influência sobre as
instituições econômicas e políticas.
O pensamento Gramsciano se desdoborou em alguns outros conceitos, pelos
quais, dar-se-ia o processo de transformação da sociedade.
Gramsci elucida uma crise de hegemonia concebida como resultado“de atos
impopulares das classes dirigentes (através do Estado) ou do intensificado ativismo
político de massas anteriormente passivas” (p.105). O autor, muito oportunamente
destaca que, para Gramsci, essa crise de hegemonia não era resultado imediato de uma
crise econômica, muito embora não se pudesse negligenciar que uma poderia ter
influência na outra, mas para Gramsci, seria o desenvolvimento da consciência das
classes menos favorecidas que resultaria na transformação revolucionária, e não a taxa
decrescente de lucro.
O autor aponta ainda, que as idéias de Gramsci são melhor entendidas a parir
da compreensão da guerra de posição. Seria esta, pelo que se extrai dos apontamentos
de Carnoy, um mecanismo para desenvolvimento da superestrutura ideológica. Esta
guerra de posição está ligada à idéia de uma nova consciência, uma hegemonia da classe
proletária que serviria de alicerce para a construção de uma nova sociedade.
Por fim, destaca o autor da obra, o papel dos intelectuais posto que
,“ele [Gramsci] acreditava nas qualidades intelectuais das massas e em sua capacidade
para criar, elas mesmas, a hegemonia de sua classe, ao invés de verem isso feito em
nome delas por um partido de vanguarda, de elite ou por uma elite burocrática
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responsável pelas teorias e táticas revolucionárias” (p.117). Deste modo, entendia


Gramsci que os intelectuais tinham um importante papel para o processo de
transformação e tomada de poder da classe trabalhadora.
No capítulo seguinte, de número quatro, denominado o estruturalismo e o
estado: Althusser e Poulantzas, o autor traz novamente uma contextualização e
localização do leitor no tempo – espaço. Explica que Althusser e Poulantzas, estavam
vivendo em meados do século XX, um período em que muitos países do mundo
estavam em ditadura, onde o autoritarismo do Estado estava muito difundido.
Segundo explicar o autor, Althusser queria combater o subjetivismo que
colocara "o homem" como sujeito no centro dos sistemas metafísicos. Isto porque,
segundo Carnoy, ele menosprezava a ação do individuo em relação às estruturas,
argumentando que os indivíduos são apenas portadores das relações estruturais em que
se situam.
Pelo que se extrai da obra, o sistema de estrutura de Althusser se baseia
em três níveis diferentemente articulados: o político, o ideológico e o econômico; sendo
que o sistema econômico seria o determinante, a última instância, visto que qualquer
uma das estruturas pode ser a dominante, desde que a estrutura econômica permita.
Segundo Martin, Althusser é completamente antiexistencialista, definindo o
individuo pela sua sujeição a ideologia dominante e tendo sua liberdade definida por
ela.
Analisa o autor que a obra de Althusser que analisa os aparelhos ideológicos
do Estado destaca quatro pontos. Em primeiro lugar, a importância da produção e
reprodução que toda forma social deve ter para se manter, e no caso do capitalismo, se
dá essencialmente pelo salário do trabalhador que garante sua vida e reprodução.
O segundo, diz respeito á forma como a divisão de trabalho e habilidades se
reproduzem no capitalismo: sobretudo, a partir do sistema educacional que já forma
indivíduos prontos para ocuparem uma vaga no mercado de trabalho, ou seja, a
escolaridade tem função na reprodução das relações de produções. O terceiro ponto é
que essa reprodução do sistema é garantida pelas superestruturas jurídica-política que
pode punir e com os Aparelhos Ideológicos do Estado; Em quarto lugar, Althusser
determina que o papel exercido pelo Estado é essencial, é o que está enraizado na base,
por isso permite a reprodução desse sistema.
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Justamente por estar imbricado na base que o Estado não reage a mudanças de
poder dentro do Estado sendo assim, se perpetua no papel de manutenção do papel
subalterno do trabalhador. A única saída apresentada pelo autor diante desse cenário
seria solução seria a partir da teoria marxista-leninista com a tomada do poder pelo
proletariado.
Delineados estes apontamentos do pensamento de Althusser, o autor parte para
a análise das idéias de Poulantzas, seu discípulo que a partir da observância de seus
preceitos, desenvolve a sua própria teoria. A teoria de Poulantzas abandona, de certa
forma, essa abordagem puramente estruturalista para compreender a sociedade em sua
dimensão política e social. Segundo Carnoy, Poulantzas parte de uma concepção de
“autonomia relativa” no qual o Estado capitalista deve ser independente as lutas de
classe para funcionar bem.
A obra de Poulantzas enuncia uma modificação de uma abordagem
estruturalista do Estado para uma dimensão mais histórica, onde os movimentos sociais
assumem um protagonismo.
Segundo o autor, ele também defende que as formas e as funções do Estado
não são determinadas pelas relações econômicas de classe, em alguma subjetividade,
mas pela expressão histórica dessas relações na forma de luta. As classes subordinadas,
portanto, também moldam o Estado, ao mesmo tempo em que é um Estado de classe, e
ao mesmo tempo em que é usado pela fração dominante para estabelecer, e ampliar a
hegemonia capitalista dominante.
O autor também anuncia terminologias utilizados pelas classes dominantes
para evitar o fortalecimento das classes subordinadas, através da “separação” das esferas
político e econômicas.
Dentre eles, é possível mencionar a divisão do trabalho manual e intelectual,
que ao facilitar o acesso do trabalho manual aos trabalhadores das classes mais pobres,
permite a formação de uma elite tecno-cientifica que passa a deter conhecimento e
capital e colabora para o aumento da desigualdade entre classes, a individualização, o
direito, que é a expressão da superestrutura jurídica; e o por último, a noção de nação,
que é imposta pelo Estado, que procura na formação do território o maior proveito
econômico, e se possível, poder.
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Segundo Carnoy, Poulantzas se convenceu de que a democracia é um tema


vital para transição ao socialismo, porque a democracia (mesmo a democracia
"burguesa") é simultaneamente uma vitória da classe operária e uma forma principal de
contestação da classe subordinada no Estado de classe.
Este pensamento é totalmente compreensível em razão da observância do
momento histórico experimentado por Althusser e Poulantzas e essas reflexões são de
extrema importância para que a partir daquela realidade, seja possível analisar a
aplicabilidade das teorias aqui descritas nos dias atuais ou, até mesmo perceber os
desdobramentos na atualidade.

REFERÊNCIAS:

CARNOY, Martin. Estado e Teoria política. (equipe de trad. PUCCAMP) 2ª ed.


Campinas:Papirus, 1988. [pp. 19-62]

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