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Figura 1 - Winsor McCay, Little Nemo in the Slumberland, Gouty Morpheus, NY Herald, 2 de janeiro de 1910.

24 9ª Arte | São Paulo, vol. 3, n. 2, 24-42, 2o. semestre/2014


Grotesco na arte e
nos quadrinhos
Prof. Dr. Fabio Luiz
Carneiro Mourilhe
Silva
UFRJ

RESUMO: Este trabalho faz parte de uma pesquisa sobre


quadrinhos e estética realizada entre 2010 e 2014,
relacionada à tese de doutorado em filosofia intitulada
Estética do grotesco nos quadrinhos. O objetivo aqui
é problematizar certas relações entre arte e
quadrinhos, considerando o grotesco. Para alcançar
tal intento, foi realizado um estudo sobre certas
discussões que tangem o embate entre arte e quadrinhos.
Percebe-se que a partir da inserção do grotesco nos
quadrinhos temos tanto uma possibilidade estética de
fruição do grotesco como o direito de ser grotesco.
PALAVRAS-CHAVE: Quadrinhos; Grotesco; Arte.

ABSTRACT: This paper is part of a research on comics


and aesthetic conducted between 2010 and 2014, related
to the doctoral thesis in philosophy titled Aesthetics
of the grotesque in comics. The goal here is to discuss
certain relations between art and comics, considering
the grotesque. To achieve this purpose, a study of
some discussions that concern the conflict between
art and comics was performed. It was noticed that the
insertion of grotesque in comics have both an aesthetic
possibility of enjoyment of the grotesque as the right
to be grotesque.

KEY-WORDS: Comics; Grotesque; Art.

Introdução
tesco. Para alcançar tal
O objetivo aqui é intento, foi realizado um
problematizar certas rela- estudo sobre certas dis-
ções entre arte e quadri- cussões que tangem o embate
nhos, considerando o gro- entre arte e quadrinhos.

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Em termos gerais, outros autores como
podemos considerar o con- Schlegel (1994, p.55) e
ceito de grotesco como Hugo (1988, p.25), o
aquele que passou por grotesco participa como um
variações ao longo da dos polos em uma harmoniza-
história, mantendo um ção de princípios contras-
caráter híbrido, ambíguo, tantes. Caracteriza-se
humorístico, desmedido, pelo medo, horror e aspecto
experimental, excessivo e terrível.
caricatural. Pode-se Um estudo sobre o
perceber sua presença nos grotesco nos quadrinhos tem
quadrinhos ao longo de um sua importância na medida
eixo que privilegia o em que possibilita o
realismo grotesco – como desenvolvimento de uma
indicado por Bakhtin para articulação que valoriza
as manifestações populares sua beleza como estética
da Idade Média, com um possível, introduzindo os
caráter utópico onde a quadrinhos na esfera do
igualdade, a partir da debate da estética,
queda de tudo o que é normalmente restrito à
sublime, seria possível, chamadas artes eruditas.
tendo a festa como uma Trabalha-se aqui com
segunda vida – e imagem a hipótese de que o caráter
grotesca – que “caracte- ambíguo do grotesco nos
riza um fenômeno em estado quadrinhos auxilia tanto
de transformação, de meta- na sua legitimação enquanto
morfose ainda incompleta, arte como para distancia-
no estágio da morte e do lo de um caráter popular,
nascimento” e de um que é sua natureza
“segundo traço indispensá- primeira.
vel que decorre do
primeiro”, sua ambivalên- Problematização

cia (BAKHTIN, 1987, pp.21-


22) – e outro eixo do Kuryluk (1987, p.3)
grotesco romântico. sustenta que não seria
O grotesco romântico possível abordar o tema do
(que transcende o período grotesco como parte do
romântico entre o final do século XX, pois para ela
século XVIII e século XIX, não haveria mais uma
mas que ali se concentra) cultura dominante
pode ser definido como unificada no século XX
simbologia fantástica contra a qual as formas
(HEGEL, 2000, p.62) ou grotescas emergiriam.
exagero fantástico levado Contudo, é justamente o que
ao extremo (SCHNEEGANS, se percebe no embate dos
1894, p.39), que torna a quadrinhos (como prática
realidade estranha e grotesca) em relação à
incompatível com o homem crítica de arte e sociedade
(BUSCH, 1968, p.215). Em que os condena, de forma

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análoga ao que ocorreu com inflexão grotesca se
as manifestações grotescas realiza na atualidade.
do passado, que por muito O conteúdo político é
tempo estiveram às “mar- trazido para a ficção e
gens da cultura Ocidental a história é transgredi-
e das convenções estéticas da esteticamente. A
que constituíam esta contradição existe,
cultura” (HARPHAM, 1982, mesmo que tudo possa ser
p.xx). Além disso, devemos combinado com tudo,
considerar as marcas do mesmo que não haja mais
grotesco no mundo moderno, limites para as novas
que emergem nos embates fusões. Banaliza-se a
entre ordem e caos, mistura, texto e imagem
violência e formas de agora vêm sempre aco-
opressão, sexualidade e plados nos quadrinhos,
corpo, morte e nascimento, mas o grotesco ainda é
cinismo e loucura, deses- explorado. Banaliza-se a
pero apocalíptico e visão violência e o horror, mas
utópica. quantos novos gêneros
Harpham (1982, híbridos ainda serão
p.xx), contudo, também criados e quantas mídias
mostra o grotesco no século ainda serão exploradas
XX como uma ideia cada vez junto aos quadrinhos?
menos possível pela Quantas rodas ainda
universalidade da prática serão giradas?
da mistura. Para ele, em A própria presença
termos contemporâneos, na- dos quadrinhos no museu
da mais é incompatível com e na arte – e de um
nada, o que ecoa em reflexo de uma arte
Hutcheon (1988, p.227), erudita nos quadrinhos
que mostra, contudo, que – é mais uma prova desta
as contradições (no pós- prática da mistura que
modernismo) seriam inevi- se incorporou. Porém,
táveis devido a sua decor- este livre acesso ao
rência direta das condi- mundo da arte nem sempre
ções sociais e experiên- esteve presente para as
cias culturais. Huyssen artes dos quadrinhos.
(1986, p.221) mostra que Groensteen (2000, p.29)
haveria uma recusa em mostra diversas situa-
eliminar as diferenças, ções onde os quadrinhos
tendo em vista uma “tensão são acusados constante-
produtiva entre política mente de serem infantis,
e estética, entre história vulgares ou insignifi-
e texto”. cantes ao longo do século
Os quadrinhos, assim XX nos países de língua
como a literatura e a francófona.
arquitetura, se articulam Após a intensifi-
nestas misturas, mostrando cação das perseguições
os caminhos pelos quais a aos quadrinhos na década

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de 1950 e com a chegada da garantiriam uma
década de 1960, temos um resposta sofisticada o
panorama onde os suficiente para serem
quadrinhos passaram consideradas como
aparentemente a ser i n t e r p r e t a ç ã o
reconhecidos como (CARROLL, 2001, p.20).
manifestações artísticas e
certos aspectos do
Carroll, em seu
grotesco passaram a ser
questionamento quanto ao
aceitos, mesmo nos
valor dos quadrinhos, pa-
quadrinhos mainstream ,
rece se aproximar das ca-
graças às ressalvas
racterísticas grotescas,
publicadas na revisão do
tendo estas característi-
Comics Code de 1971, onde
cas não necessariamente
os clássicos do terror
como algo positivo. As
foram aceitos como
misturas levantadas, de
conteúdo possível.
qualquer forma apontam
Contudo, deve-se atentar
para a prática da mistura
para alguns
(pretensa harmonia de
p o s i c i o n a m e n t o s
elementos inconciliáveis)
específicos nas áreas
que caracteriza também os
correlatas que apresentam
quadrinhos, com fusão en-
atitudes dúbias quanto a
tre imagem e texto, cultura
uma concepção artística
popular e erudita, mis-
nos quadrinhos e uma
turas entre gêneros etc.
relação problemática com
a arte erudita. Em alguns dos mais
Noël Carroll (2001, relevantes ensaios teóri-
pp.19-20), por exemplo, cos sobre quadrinhos, os
apenas concebe os autores assumem os quadri-
quadrinhos como arte se nhos (de uma forma geral)
eles trouxerem “alegorias como mídia popular descar-
secretas (de ansiedades tável, tendo como exceção
adolescentes) complexas” – aqueles que não se enqua-
que mereçam ser drariam desta categoria –
decifradas. Contudo, não os expoentes da área,
assume e defende de fato incluindo os mais próximos
os quadrinhos, colocando de uma experimentação ar-
que o tística ou postura revolu-
cionária (CARLIN, 2005,
ônus da prova estaria p.27; CARLIN & THOMPSON,
com o cético, que deve 1983, p.42; FEIFFER, 1965,
mostrar que estas p.72).
supostas alegorias O grotesco pode ser
seriam misturas percebido em ambos os ca-
fantásticas ou que sos. Sua presença serviu
[...] seriam algo para corroborar o argumen-
estranho, supondo que to de que os quadrinhos
estas misturas não têm valor estético, mas

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também para a defesa dos tanto no início das tiras
quadrinhos como prática no começo do século XX
que se aproxima da arte (Figura 1), como nos
erudita, por trazerem quadrinhos underground no
aspectos que reverberam na final da década de 1960
atitude das vanguardas – (Figura 2).

Figura 2- S. Clay Wilson,


Capa da revista Bent #1,
Print Mint, 1971.

Carlin (2005, p.27) mitiriam a narração de his-


define por isolamento e ne- tórias que visam o puro
gação o que seriam quadri- entretenimento. Krazy Kat
nhos artísticos: uma mídia (Figura 3) ou Little Nemo,
gráfica criada a partir de por exemplo, para ele, te-
formas gráficas harmonio- riam sido trabalhos “tão
sas, formas estas que per- sofisticados e importantes

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como qualquer arte realizada moderna e nas distorções ali
na mesma época”, ou seja, o veiculadas (Figura 4); Polly
valor artístico estaria con- and her pals nas abstrações
dicionado a uma comparação e enquadramentos inusitados
com obras de arte ou movi- (Figura 5); e Gasoline Alley
mentos artísticos. Assim, o (Figura 6) e Kin-der-kids nas
valor estético de Little Nemo referências a movimentos
estaria em sua arquitetura artísticos.

Figura 3- George Herriman, Krazy Kat,


Disponível em: http://
www.telegraph.co.uk/arts/
main.jhtml?xml=/arts/2007/07/07/
nosplit/bokrazykat107.xml. Acessado
em: 12/12/2012.

Figura 4- Winsor McCay,


Little Nemo in Slumberland,
Moon, NY Herald, 1905.

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Figura 5- Cliff Sterrett,
Polly and her pals, Newspaper
Feature Service, inc., 1926.

Figura 6- Frank King, Gaso-


line Alley, The Boston
Herald, 10 de maio de 1931.

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Embora semelhante, o páginas faziam com que os
posicionamento de Feiffer trabalhos fossem desen-
(1965, p.72) assume na ver- volvidos às pressas.
dade uma postura irônica A caracterização das
ao definir as revistas em revistas em quadrinhos
quadrinhos como “lixo”: como “lixo” pode ser
“existem exceções, mas as percebida em Carlin (2005)
revistas em quadrinhos que como uma conformação
não são ‘lixo’ não duram estética e padronização,
muito tempo”. “Acusá-las resultante do sucesso dos
de al-guma coisa que elas quadrinhos, tanto nas
(assumidamente) já são não tiras como nas revistas em
é acusação alguma. Não quadrinhos. Contudo, com
existe um lixo que não foi o acréscimo de uma
corrompido, lixo moralmen- sofisticação narrativa e
te válido ou lixo educati- eventuais reflexos das
vo”. Ao assumir que gosta experimentações iniciais
deste “lixo”, Feiffer se (que cotejaram o grotes-
aproxima da defesa estéti- co), temos o que Carlin
ca de um corpo grotesco, denomina de expressão
na medida em que os gibis artística nos quadrinhos,
que foram classificados tendo como mote a inovação
como “lixo” por críticos formal e a expressão
e pela sociedade se referem pessoal, como ocorre em
aos gibis de uma forma Crumb e Spiegelman.
geral (e não aos expoentes Em Crumb, temos
da área), principalmente diversos aspectos que o
Figura 7- Robert Crumb, Fritz
the cat, quadro de abertura aqueles da era da ouro do aproximam das inflexões
da tira, 1968. Disponível em: mercado americano, quando grotescas. Primeiro, per-
http://en.wikipedia.org/wiki/
File:Fritz_description.jpg.
os prazos curtos e demandas cebe-se uma distorção do
Acessado em 28/3/2013. por grande quantidade de que seria o estilo dos qua-
drinhos infantis, com seus
personagens antropomórfi-
cos tratando de temas
adultos, o que ocorreu em
Fritz the cat (Figura 7).
Posteriormente, temos
também diversos trabalhos
de Crumb que se aproximam
do grotesco que caracteri-
zou o romântico tardio,
principalmente quando
tratam de quadrinhos
autobiográficos com o
artista como personagem em
crise (Figura 8). O corpo
grotesco também é
enfatizado ao longo de todo
o seu trabalho (Figura 9).
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Spiegelman também contudo, considerar este Figura 8- Robert Crumb, He
yearned for a life of quiet
trabalha com uma distorção viés não como um progresso study, high above this vail
do antropomorfismo dos estético ou artístico e of tribulation and tears...,
quadrinhos infantis em sim como uma tendência que 1989. Disponível em: http://
mydelineatedlife.blogspot.com.br/
Maus (Figura 10), série que se desvela em um momento 2012/09/a-life-of-quiet-
aparece na revista Raw. As- específico e traz uma sin- study.html. Acessado em 21/4/
2013.
sume nesta revista uma pos- gularidade para a arte po- Figura 9- Robert Crumb, Big
tura pouco comum em gibis pular dos quadrinhos, po- healthy girl enjoys deep
mensais, na medida em que pularizando certas tendên- penetration from the rear,
1998 (à direita) . Disponível
foram tratadas meticulosa- cias, como ocorreu de fato em: https://www.flickr.com/
mente questões relaciona- a partir da década de 60 photos/67343351@N06/
6128606618/. Acessado em 24/
das à cor e impressão, e nos quadrinhos mainstream, 9/2013.
também incluídos aspectos com a Op Art no trabalho de 1
Mesmo na época de Outcault
artesanais em cada número, Jim Steranko (Figura 12) ou já
havia tentativas de
como cortes improváveis na no hiper-realismo que se aproximaçã
capa (Figura 11). Deve-se, popularizou1 (Figura 13). o entre as artes popular e
erudita.
A revista Truth, por exemplo,
lançou um número especial
rotulado como o “número
artístico”
em 1895. Foi solicitado que
os artistas enviassem
originais para a edição que
correspondessem aos seus
melhores trabalhos. Tentou-se
frisar aqui a relação com a
galeria de arte através de
uma simulação dedisposições
de quadros e molduras nas
páginas da revista.

Figura 11- Art Spiegelman, Capa da


Figura 10- Art Spiegelman, Maus , Revista Raw #7, Raw Books & Graphics,
Pantheon Books, 1991. 1985.

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Figura 12- Jim Steranko, Capa Apesar deste posi- da arte popular de acordo
de Nick Fury, agent of Shield
#4, Marvel Comics, 1968. cionamento onde aparente- com a história da arte,
Figura 13- Alex Ross, capa mente seriam necessárias temos uma arte popular que
alternativa de X-men #27 (à
uma inovação formal e uma se articula como reflexo
direita), Marvel Comics,
2014. expressão pessoal nos qua- de aspectos sócio-cultu-
2
Como criatividade, estilo, drinhos para que estes rais e políticos da socie-
sentimento, originalidade,
expressividade etc.
fossem considerados como dade. Seja nas práticas de
arte, temos os quadrinhos enfrentamento e criticida-
como manifestação popular, de histórica de Yellow Kid
que por si só já pode ofe- ou nos conflitos familia-
recer valores2, tanto quan- res de Bringing up father
to as obras de arte erudi- (Figura 14), quando,
tas, permitindo uma expe- podemos dizer, temos a va-
riência estética intensa. lorização de uma expressão
Porém, o caráter popular popular em sua “impureza
dos quadrinhos parece, plena” e/ou um viés carica-
conforme a perspectiva de tural assumido de forma
Carlin, dificultar a sua positiva. Este caminho da
inclusão e contribuição caricatura já tinha sido
para uma “história da arte proposto na prática das
americana”. A questão é manifestações anteriores
saber se isso seria às dos quadrinhos, como em
necessário. Hogarth (Figura 15),
Para além de uma ne- Gillray e Angelo Agostini.
cessidade de valorização Na defesa antes exposta por

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Baudelaire (1855), temos intencionalmente repre-
a “beleza indefinível” dos sentar uma feiura moral ou
trabalhos que buscam física.

Deve-se considerar, os quadrinhos, podemos


contudo, que o caráter ino- considerar um aspecto que,
vador, grotesco ou caricatu- apesar de não perpassar to-
ral de certos trabalhos não dos os quadrinhos, os ca-
o desqualifica necessaria- racteriza em grande parte,
mente em termos de sucesso a simplicidade. Tanto do
ante o público (diferente texto como da imagem, bem
do indicado por Adorno como da junção destes dois
(1968)), apesar de que os modos. Para McCloud (1994,
trabalhos experimentais nem p.30), a simplificação
sempre têm uma grande acei- seria útil na ampliação
tação popular, como em Krazy (“ amplification through
Kat. Seu papel em meio aos simplification”), uma for-
outros seria o de mostrar ma de facilitar na identi-
novas possibilidades de ficação com o personagem
construção que são eventual- e também no reconheciemnto
mente incorporadas e trans- do conteúdo, auxiliando na
formadas em regras (“McKay popularização dos quadri-
estabeleceu a norma e as nhos e na sua aceitação.
exceções” (CARLIN, 2005, A simplicidade, contu-
p.68)). Contudo, isto não do, se alterna com o aspecto
implica, conforme Adorno labiríntico das práticas da
(1968, p.334), que tenha- caricatura, onde, mesmo com
mos um progresso artísti- o traço mais simples são pos-
co, aspecto que também pare- síveis desdobramentos atra-
ce perder toda relevância vés da semelhança e da ênfase
neste contexto. no corpo grotesco, em direção
Se for possível a outros conteúdos sugeridos
falar em uma norma para ou subjacentes.

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A piada, apesar de alcançada por uma elite
sugerir um conteúdo espe- privilegiada. Assim,
cífico, também trabalha Adorno define arte de
com a simplicidade e ge- acordo com um progresso
ralmente é popular. histórico e todas as
Segundo Kayser (2009, manifestações populares
p.103), ela seria são consideradas como
resultante de uma exposi- inferiores, kitsch ou
ção incompleta, onde a divertimentos de uma in-
verdade é atenuada dústria cultural. Propõe,
( understatement ) com o assim, uma divisão entre
emprego da comicidade. uma arte “verdadeira” e uma
A caricatura (e arte “falsa”, que substi-
também os cômicos) sempre tui a primeira e é destina-
foi popular graças a sua da a uma massa cega. Trata-
temática sociopolítica e ao se de uma visão exclusivis-
apoio de editores que lhes ta de uma arte erudita que
promoveram, tanto através de manteria o domínio de uma
jornais como em imagens legitimidade estética.
avulsas. O mesmo ocorreu com
as tiras em quadrinhos, Contudo, não são to-
veiculadas inicialmente em dos que condenam os quadri-
suple-mentos semanais dos nhos como prática popular
jornais e depois diariamen- com seus aspectos grotes-
te. Com o surgimento das re- cos. Os quadrinhos são
vistas em quadrinhos, temos considerados e respeitados
um suporte próprio que per- atualmente como invenção
mitiu sua ampla dissemina- digna, com originalidade
ção. Posteriormente, a e grande desenvoltura, o
Internet e o formato do que inclui, em alguns ca-
livro assumiram este papel. sos, sua própria reinven-
Considerando esta ção (com novos gêneros,
relação intrínseca dos novos suportes etc.) e a
quadrinhos com a mídia de presença dos grandes mes-
massa, como arte popular, tres da área, escritores
temos seu afastamento do e desenhistas. Em termos
que é convencionado como do grotesco, na forma
arte por alguns filósofos. exclusiva do terror, temos
Para Adorno (1968, p.59), grandes mestres no Brasil
a arte moderna deve ser (Júlio Shimamoto (Figura
impopular, por estar 16), Mozart Couto etc.) e
ligada às vanguardas da exterior (Jack Davis
arte. A própria tradição (Figura 17), Gene Colan
artística, para ele, etc.), que por vezes
envolve uma renovação trabalharam com o gênero
constante onde a novidade hibrido de terrir, que se
é incorporada à tradição. aproxima do caráter
Como resultado, temos uma híbrido do realismo
arte que só pode ser grotesco.

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O que para sões e nem precisam figurar Figura 16- Júlio Shimamoto (à
esquerda). Disponível em:
Groensteen (2000, p.33) como peças de museu, pois http://
seriam possíveis agravan- pertencem a outro domínio www.nostalgiadoterror.com/
galeria/slides/
tes de um comprometimento e têm outra função distinta julio_shimamoto.html.
dos quadrinhos perante a daquela de ser emoldurada Acessado em 12/11/2013.
sua interpretação como ou figurar em uma vitrine. Figura 17- Jack Davis, Tales
from the crypt #29 (acima),
arte pelas autoridades A própria utilização EC Comics, 1952.
legitimadoras e pelos crí- da denominação de arte para
ticos de arte, na verdade os quadrinhos implica em
são aspectos que podem uma sujeição a julgamentos
atestar uma legitimidade de valor questionáveis por
própria: seu caráter hí- parte dos críticos de arte
brido entre texto e imagem, eruditos, como “arte
sua ambição narrativa, sua barata” ou “arte muito
origem na caricatura e sua popular”.
aparente falta de defini- Shusterman (1998,
ção do público-alvo a que pp.43-44) (via Dewey) traz
se destina. a experiência estética co-
Para Pettibon mo aspecto de maior rele-
(2005), como forma artís- vância do que uma tradição
tica, os quadrinhos não ou evolução da história da
precisam de uma validação arte, pois toda a tradição
de uma cultura erudita com só redundou, conforme
suas condições e permis- Danto (1996), em uma

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redução e exclusão em um “negação da visão comum do
caminho de purificação que real” e como novo olhar
levaram ao fim da arte. sobre as convenções
Assim, segundo Shusterman (SANTOS, 2009, p.34), com
(1998, pp.43-44), podería- distorções, alternativas
mos tentar, após o fim de realidade, o fantástico
desta arte institucional, e o nonsense, como ocorreu
resgatar uma arte legítima no Romantismo. Um poder de
para uma experiência criação que é conferido ao
estética legítima, consi- artista para a criação de
derando “as formas que a um universo autônomo,
história oficial da arte universo que pode passar
e suas instituições eli- pelo grotesco.
tistas privaram durante Algumas das primei-
muito tempo de respeitabi- ras tiras que surgiram no
lidade”. Assim, uma arte começo do século XX parecem
popular pode ser resgatada um reflexo dos movimentos
sem ter de recorrer a uma de vanguarda desta época
estética erudita dominante (Figura 18), antes das
e sim em função da tiras e das artes para os
experiência estética que quadrinhos terem sido
ela nos oferece, que, no reconhecidas como arte
caso dos quadrinhos, para respeitável. Por outro
Groensteen (2000, p.36), lado, os quadrinhos pare-
envolve não apenas um cem estar ainda muito pró-
prazer com a história, mas ximos do grotesco carica-
também prazer com a arte, tural, com sua ênfase na
uma emoção estética distorção, graças à
fundada na apreciação da influência dos cômicos do
expressividade da passado e da prática da
composição. caricatura, e também das
Nos quadrinhos, realidades fantásticas,
contudo, atualmente, não através da influência do
é possível falar em uma pulp fiction e dos contos
cultura essencialmente de terror.
popular que se distanciou
da cultura erudita, em Conclusão
função da incorporação
constante de influências A partir das
mútuas que fazem dos perseguições sofridas
quadrinhos uma afronta pelos quadrinhos –
contra qualquer tentativa principalmente por seu
de distinguir rigidamente caráter grotesco, mas que
artes eruditas e acabaram por condenar os
populares. quadrinhos de uma forma
Antes, porém, com o geral –, temos a emergência
Modernismo e as de questões que auxiliaram
vanguardas, percebe-se que em sua deslegitimação. A
o grotesco se exacerba como classificação dos quadri-

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nhos como uma arte degene-
rada, contudo, indica uma
atitude inconcebível para
o momento atual, onde os
quadrinhos têm espaço
garantido em exposições,
marcam presença em um
grande número de trabalhos
acadêmicos, onde são
tratados como arte, e são
respeitados na sociedade.
Certas críticas
evidenciam o caráter pouco
grotesco (ou pouco
experimental) dos
quadrinhos, o que também
não procede, vide as fusões
entre artes plásticas e
quadrinhos que colocam em
xeque as separações mais
essencialistas. O Figura 18- Cliff Sterrett,
figurativo dos quadrinhos relacionada ao medo da Polly and her pals, Newspaper
Feature Service, inc., 1927.
se presta à experimentação inserção da cultura e da
que caracteriza as artes arte em uma centralidade
plásticas, e, por outro unificada, o que parece não
lado, uma experimentação permitir a emergência de
com caráter grotesco nenhuma diferença. Tudo é
também pode estar presente previsível. Porém, existem
nos quadrinhos. as margens desta cultura
Se considerarmos a centralizada, onde há uma
historia das histórias em recusa em eliminar as
quadrinhos, pode-se diferenças.
perceber certos exemplos Nestes pontos de di-
onde os quadrinhos ferença estão localizadas
sofreram influências das as contradições entre po-
vanguardas. Como propostas los opostos, assumidas co-
elitizadas ou não, estes mo tensões produtivas en-
exemplos parecem apontar tre diversos eixos distin-
não para “ansiedades tos, permitindo uma aten-
adolescentes”, mas para ção à política e à estéti-
“ansiedades estéticas”, ca, ao novo e ao velho,
sem que a relação com a com destruição e criação
arte erudita, história da contínuas. Contrapor para
arte ou classificação como depois emparelhar parece
obra de arte seja um indicar uma homogeneiza-
parâmetro para sua ção, mas em termos de
aceitação ou qualidade. realismo grotesco indica
Esta ansiedade a possibilidade de aceitar
estética, na verdade, está a dupla articulação do

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devir, onde o sublime é tal e revolucionário ou na
destruído. Com sua degene- exigência de uma forma
ração, o grotesco pode ser harmoniosa ou na obrigação
assumido como uma catego- de ser sofisticado ou na
ria estética possível; “vantagem” de poder ser
servirá para manter o nível comparado com a arte erudi-
mais elevado do sublime, ta ou por trazer referên-
ao se alternar com ele; ou cias a movimentos artísti-
o grotesco se tornará um cos) e instâncias sublimes
novo sublime. (arte, história da arte,
Para tentar garantir cultura erudita etc.).
que o antigo sublime não O tráfego entre
retorne, temos o caos e a inflexões grotescas da
destruição, práticas de arte erudita e popular,
degeneração intensas, como contudo, parece retirar
ocorre em certos quadri- qualquer pretensão de
nhos, que em termos práti- superioridade de ambos os
cos acabam por defender a lados, mostrando que a
possibilidade estética de própria troca tende a ser
fruição do grotesco; e o uma prática grotesca que
direito de ser grotesco, leva à emergência de uma
de enfatizar o corpo obra híbrida e impura, di-
grotesco (partes baixas luindo qualquer possibili-
como recurso para degene- dade de se encontrar uma
ração e positivação - essência tanto para o
símbolos utópicos do devir grotesco como para o
- e a abertura do corpo sublime.
para o mundo). O segundo ponto, de
O primeiro ponto a defesa do corpo grotesco,
ser defendido, direito de indica a possibilidade de
se fruir esteticamente o evidência das partes
que é grotesco, envolve uma baixas como recurso
experiência estética legí- transformador (o que
tima com o grotesco baseada inclui a própria violência
no prazer com esta arte, e os corpos híbridos sobre-
emoção estética relaciona- postos). Ganha visibilida-
da à apreciação, onde de em alguns dos primeiros
qualquer um pode usufruir quadrinhos, como Yellow
independente de qualquer Kid e emerge com todo seu
tipo de especialização. esplendor nos quadrinhos
Nas discussões entre underground. Nestes dois
arte popular e erudita, os momentos da história das
críticos e filósofos da histórias em quadrinhos,
arte aparentemente querem o corpo grotesco se presta
impor o que seria estetica- à transformação da
mente aprazível de acordo sociedade, da arte e da
com seus próprios precei- cultura.
tos (como no menosprezo por Além da possibilida-
tudo o que não é experimen- de de transformação, temos

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também a necessidade de comics. ed.: John Carlin,
aceitação do que é grotes- Paul Karasik, Brian
co, de poder ser grotesco. Walker. Los Angeles:
Talvez como uma “ansiedade Hammer Museum and the
complexa” ou como algo que Museum of contemporary
é considerado feio, mas que art, 2005.
é potencializado nas
misturas de gêneros, de CARLIN, John. THOMPSON,
níveis e de reinos. Como Kim. Nothing is sacred:
conteúdo ou forma, um gro- From EC to underground
tesco que, como potência, comix. In: The Comic Art
servirá tanto para Show: cartoons in painting
reforçar o argumento de que and popular culture. New
os quadrinhos não têm valor York: Whitney Museum of
artístico (por aqueles de- American Art, 1983.
fensores de um viés classi-
cista), como para ressal- CARROLL, Noël. Beyond
tar sua sofisticação e com- aesthetics: philosophical
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