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Carl R.

Rogers
TORNAR-SE PESSOA

Tradução MANUEL JOSÉ DO CARMO FERREIRA


E AL VAMAR LAMPARELLI
Revisão técnica CLAUDIA BERLINER

Martins Fontes
São Paulo 200 I
Índice

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Copynght CO 1995 hy Pctcr D. Krm11a JWUI a intmdu~âo. Pu/Jiii ado
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Coerrighr © Li1Taria /vfartÍ/1.\ Fontes Editora Lula .
Sâo Paulo. 19FI5. J997.Jhlfll a prescnrc cd1~âo.

1~ edição
IWI'<'!IIhrode /9X5
5ª edição
/('1 cn:iro âc /997
3ª tiragem
IW\'CIIIhro de 2001

Introdução......................................................................... IX
Re" isão técnica e da tradução
Claudia Bcrlina
Ao leitor .. ... .. .. ... .... . ... .. ... ... .. .... .. ... . .. .. .. . ... .. . .. .. .. . ... .. .. . ... ... .. . XIX
Re" isão ~ráfica
Ana Maria de 0/ircim .Wc11dcs Barhosa
Sandro Bncil Primeira Parte
Produção gráfica
Geraldo All'cs
Notas pessoais
1. "Este sou eu " .............................................................. . 3
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Rogers, C ar! R .. 1902-
Tornar-se pessoa I Carl R. Rogers ; [tradução Manuel José do
Segunda Parte
Canno Ferreira c A\vamar Lamparelli : revisão técnica Claudia Como poderei ajudar os outros?
Berliner 1- - s~ ed. -- São Paulo : Martins Fontes. 1997.

Título original: On bccoming a pcrson.


Bibliografia. 2. Algumas hipóteses com relação à facilitação do cres-
ISBN 85-336-0590-0
cimento pessoal ........................................................... . 35
1. Aconselhamento 2. Psicoterapia centrada no cliente L Título.
IL Série.
3. As características de uma relação de ajuda ................ . 45
97-0761 CDD-616.8914
4. O que sabemos da psicoterapia- objetiva e subjetiva-
------~-----------------
NLM-WM420 mente ........................................................................... . 69
Índices para catálogo sistemático:
1. Psicoterapia centrada no cliente 616.8914

Todos os direitos desta echçiio para o Brasil resen·ados à Terceira Parte


Livraria Martins Fontes Editora Ltda. O processo de tornar-se pessoa
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Te/. (11) 3241.3677 Fax (li) 31()5.61!67
e-nuúl: ;,~fó@martin.~fóntes.com.hr http://www.martin.~f"ontes.com.hr 5. Algumas direções do processo terapêutico .................. . 85
6. O que significa tornar-se pessoa.................................. 121 Sétima Parte
7. A psicoterapia considerada como um processo............ 141 As ciências do comportamento e a pessoa

20. O poder crescente das ciências comportamentais... ... .. 421


Quarta Parte
21. O lugar do indivíduo no mundo novo das ciências do
Uma filosofia da pessoa
comportamento............................................................. 447
8. "Ser o que realmente se é": os objetivos pessoais vis-
Apêndice. Bibliografia cronológica das publicações de
tos por um terapeuta..................................................... 185
Carl R. Rogers, 1930-1960 (inclusive).............................. 469
9. A visão de um terapeuta sobre a vida boa: a pessoa em
pleno funcionamento .................................................... 209
Referências........................................................................ 479
Notas .................................................................................. 483
Quinta Parte
A observação dos fatos: o papel da investigação
em psicoterapia

1O. Pessoa ou ciência? Um problema filosófico ................ 22 7


11. A modificação da personalidade em psicoterapia........ 257
12. A terapia centrada no cliente no seu contexto de inves-
tigação.......................................................................... 279

Sexta Parte
Quais são as implicações para a vida?

13. Reflexões pessoais sobre ensino e aprendizagem......... 315


14. A aprendizagem significativa: na terapia e na educação. 321
15. O ensino centrado no aluno conforme experienciado
por um participante...................................................... 343
16. As implicações para a vida familiar da terapia centra-
da no cliente.................................................................. 363
17. O tratamento das perturbações na comunicação inter-
pessoal e intergrupos.................................................... 381
18. Uma formulação provisória de uma lei geral das rela-
ções interpessoais......................................................... 391
19. Para uma teoria da criatividade................................... 403
Introdução

A publicação, em 1961, de Tornar-se pessoa trouxe a


Carl Rogers um inesperado reconhecimento nacional. Pesqui-
sador e clínico, Rogers acreditava que estava se dirigindo a psi-
coterapeutas e somente após este fato descobriu que "estava
escrevendo para pessoas - enfermeiras, donas de casa, pessoas
do mundo dos negócios, padres, ministros, professores, juven-
tude". O livro vendeu milhões de cópias quando milhões cons-
tituíam um número raro em publicações. Rogers foi, J1ara a
década que se seguiu, O Psicólogo da América, passível de ser
consultado pela imprensa sobre qualquer questão relativa à
mente, desde a criatividade até o autoconhecimento, ou o cará-
ter nacional.
Certas idéias que Rogers defendia se tornaram tão ampla-
mente aceitas que é dificil lembrarmos quão novas, mesmos
revolucionárias elas eram em seu tempo. A psicanálise freudia-
na, o modelo prevalecente da mente na metade do século, afir-
mava que os impulsos humanos - sexo e agressão - eram ine-
rentemente egoístas, custosa e arduamente refreados pelas for-
ças da cultura. A cura, no modelo freudiano, se dava por meio
de uma relação que frustrava o paciente, fomentando a angústia
necessária para que o paciente aceitasse as dificeis verdades do
analista. Rogers, em oposição, acreditava que as pessoas neces-
X XI
______ Tornar-se pessoa Introdução __

sitam de uma relação na qual são aceitas. As habilidades que o Certamente as idéias de Rogers prevalecem dentro das pro-
terapeuta rogeriano utiliza são a empatia - uma palavra que no fissões de saúde mental. A escola de psicanálise de ponta atual-
tempo de Freud estava em grande parte restrita aos sentimentos mente é chamada de "psicologia do self", um nome que Rogers
que um observador conferia a uma obra de arte - e a "conside- poderia ter cunhado. Como a terapia centrada no cliente, que
ração positiva incondicional". Rogers desenvolveu na década de 40, a psicologia do selfenten-
Rogers pronunciou sua hipótese central em uma sentença: de a relação, mais do que o insight, como sendo central à
"Se posso proporcionar um certo tipo de relação, o outro desco- mudança; e como a psicoterapia centrada no cliente, a psicolo-
brirá dentro de si mesmo a capacidade de utilizar aquela relação gia do self sustém que o nível ótimo de frustração deva ser "o
para crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão." menor possível". A postura terapêutica em psicologia do self
Por crescimento, Rogers entendia movimento na direção da não podia estar mais próxima à consideração positiva incondi-
auto-estima, flexibilidade, respeito por si e pelos outros. Para cional. Porém, a psicologia do self- fundada em Chicago, quan-
Rogers, o homem é "incorrigivelmente socializado em seus do Rogers era lá uma figura proeminente - não lhe conferiu
desejos". Ou, como Rogers coloca o problema repetidamente, nenhuma palavra de crédito.
quando o homem é mais plenamente homem, ele é merecedor A explicação para isto muito tem a ver com a pessoa de
de confiança. Rogers. Mais americano do que europeu, de educação mais
Rogers foi, na classificação de Isaiah Berlin, um porco- rural do que urbana (ele nasceu em Chicago mas se mudou para
espinho: Ele sabia uma coisa, mas o sabia tão bem que poderia o campo aos doze anos de idade e disse que seu respeito pelo
fazer disso um mundo. De Rogers vem nossa ênfase contempo- método experimental proveio de sua leitura, na adolescência,
rânea na auto-estima e seu poder de mobilizar outras forças de de um texto longo intitulado Feeds and Feeding (Alimentos e
uma pessoa. A noção de Rogers de aceitação como a força libe- Alimentação), nativo do meio-oeste americano mais do que do
radora última implica que as pessoas que não estão doentes leste, animado mais do que melancólico, acessível e aberto,
podem se beneficiar da terapia e que não-profissionais podem Rogers não exibia nada da complexidade obscura dos intelec-
agir como terapeutas; o grupo de auto-ajuda moderno provém tuais do pós-guerra. A abertura de Rogers - em um sentido
quase que diretamente do movimento de Rogers do potencial importante Tornar-se pessoa não necessita de introdução, já
humano. A idéia de que o casamento, como a terapia, depende que. Rogers se apresenta em um ensaio exatamente intitulado
da autenticidade e empatia é basicamente Carl Rogers. É Ro- "Este sou Eu"- contrasta com a postura defendida por seus
gers, muito mais do que Benjamin Spock, que advoga uma rela- colegas, que acreditavam que o terapeuta deve se apresentar co-
ção não diretiva de pais e professores com as crianças. mo uma lousa em branco. A opinião predominante era de que
É irônico o fato de que, enquanto as idéias de Rogers estão Rogers poderia ser repudiado pois não era sério.
em ascensão -tanto é assim que agora são atacadas como pode- Esta opinião esconde e revela uma visão estreita do que é
rosas suposições culturais que necessitam ser revistas - seus sério ou intelectual. Rogers era um professor de universidade e
escritos estejam caindo no esquecimento. Isto é uma pena, pois um douto amplamente publicado, tendo a seu crédito dezesseis
uma cultura deveria saber de onde suas crenças se originam e livros e mais de duzentos artigos. O próprio sucesso de Tornar-
por que os escritos de Rogers permanecem lúcidos, fascinantes se pessoa pode ter prejudicado a reputação acadêmica de Ro-
e acessíveis. gers; ele era conhecido pela argumentação direta e simplicidade
XII ___ Tornar-se pessoa Introdução XIII

destes ensaios, e não pela complexidade dos artigos teóricos necessitam de aceitação, e quando esta lhes é dada movem-se
mais técnicos escritos no mesmo período. Porém, mesmo em em direção à "auto-realização". Os corolários desta hipótese
Tornar-se pessoa, Rogers situa suas idéias em um contexto his- eram evidentes para Rogers e seus contemporâneos. A constru-
tórico e social, aludindo à psicologia social contemporânea, à eto- ção complexa da psicanálise é desnecessária - a transferência
logia animal e à teoria das comunicações e dos sistemas gerais. pode bem existir, porém explorá-la se mostra improdutivo. Uma
Ele localiza sua herança cultural na filosofia existencial, refe- postura pedante e distante, aquela assumida por muitos psica-
rindo-se mais freqüentemente a Soren Kierkegaard (do qual nalistas da metade do século, é certamente contraterapêutica. A
empresta a frase "ser o eu que verdadeiramente se é", que cons- autoconsciência e a presença humana do terapeuta é mais impor-
titui a resposta de Rogers à pergunta "Qual é a meta da vida?") tante do que o treinamento técnico do mesmo. E a fronteira
e Martin Buber. E Rogers vivenciou uma carreira movimentada entre a psicoterapia e a vida comum é necessariamente tênue.
como um intelectual público, participando de debates e se cor- Se a aceitação, a empatia e a consideração positiva constituem
respondendo abertamente com figuras como Buber, Paul Til- as condições necessárias e suficientes para o crescimento hu-
lich, Michael Polanyi, Gregory Bateson, Hans Hofman e Rollo mano, então elas devem da mesma forma estar presentes nas
May. relações de ensino, amizade e da vida familiar.
Mais do que a maioria de seus colegas, Rogers era um Essas idéias ofendiam um certo número de comunidades -
cientista empenhado que adotava uma avaliação empírica da psicanalíticas, educacionais, religiosas. Porém, eram bem rece-
psicoterapia. Já na década de 40, e antes que qualquer um na bidas por um amplo segmento do público. Elas estavam presen-
área, Rogers gravava sessões de psicoterapia para fins de pes- tes no diálogo popular da década de 60 - muitas das exigências
quisa. É o primeiro inventor de uma psicoterapia a definir sua dos manifestantes universitários dos anos 60 se fundamenta-
abordagem em termos operacionais, enumerando seis condi- vam implicitamente nas crenças de Rogers sobre a natureza
ções necessárias e suficientes (paciente envolvido, terapeuta humana- e ajudaram a definir nossas instituições para o restan-
empático, etc) para a mudança construtiva da personalidade. te do século.
Desenvolveu medidas confiáveis, promovendo e publicando
apreciações de suas hipóteses. Rogers estava empenhado em Antes de ser rejeitado e esquecido, Rogers foi atacado
desenvolver uma avaliação do processo: O que ajuda as pessoas numa série de campos determinados. Revisões da literatura de
a mudarem? Sua pesquisa, e aquela de seus colaboradores cien- pesquisa mostravam que a necessidade e a suficiência de suas
tíficos, conduziu a resultados constrangedores para a comuni- seis condições eram difíceis de provar, embora a evidência fa-
dade psicanalítica. Por exemplo, um estudo de trechos de ses- vorecendo uma postura presente e empática por parte do tera-
sões de terapia, constatou que em resposta ao esclarecimento e peuta permanecesse forte. A noção de Rogers de que terapeuta
interpretação - as ferramentas da psicanálise - os clientes tipi- e cliente podem se colocar à mesma altura foi desafiada poste-
camente abandonam a auto-exploração; somente o reflexo de riormente por Martin Buber e mais recentemente por um con-
sentimentos pelo terapeuta conduz diretamente a uma maior tencioso crítico da psicoterapia, Jeffrey Masson. (Em um pe-
exploração e a um novo insight. queno e adorável livro intitulado simplesmente Carl Rogers
Rogers, em outras palavras, dirigiu um esforço intelectual [London, Sage Publications, 1992], Brian Thome revisa e, com
substancial a serviço de uma simples crença: Seres humanos certo sucesso, rebate essas críticas.). À medida que nos distan-
XIV _ _ _ _ Tornar-se pessoa Introdução _ _ - - - - ~~-~-- ~-
XV

ciamos de Rogers, as críticas parecem cada vez mais irrelevan- as utilizou de modo travesso, tomando o terapeuta um manipu-
tes. O que Rogers proporciona - o que todos os grandes tera- lador-mestre que lança o paciente em direção a impasses de seu
peutas proporcionam- é uma visão única. desenvolvimento. Carl Whitaker enfatizou o estorvo da teoria na
É claro que a teoria psicanalítica do homem da metade do prática clinica, exigindo do terapeuta tanto uma presença exis-
século era incompleta. Freud e, mais completamente, Melanie tencial quanto uma consciência dos costumes da família local. A
Klein, a fundadora de uma escola de psicanálise que teve uma esta lista poderíamos acrescentar os nomes de imigrantes -
enorme influência sobre as visões modernas das relações huma- Erich Fromm, Victor Frankl, Hellmuth Kaiser, Erik Erikson,
nas intensas, captou o lado obscuro da humanidade, a parte de Heinz Kohut - cujos trabalhos assumiram um feitio decidida-
nossa herança animal que inclui a violência e a sexualidade com- mente americano, livre e experimental e socialmente consciente.
petitiva relacionadas com a luta pela dominância hierárquica. Embora rejeite a premissa puritana do pecado original, Ro-
gers - ao se preocupar em compreender o outro como um indi-
Eles ignoravam uma estratégia reprodutiva que coexiste com a
víduo livre, ao colocar o foco em sua própria autenticidade e
dominância da hierarquia e é também fortemente codificada em
presença ativa, ao confiar no potencial positivo de cada cliente
genes e cultura: reciprocidade e altruísmo. Os teóricos da etolo-
- cria uma visão terapêutica do homem que se conforma a as-
gia animal e da biologia evolutiva hoje concordariam com a tese
pectos importantes do espírito e crenças americanos. A premis-
de Rogers de que quando um ser humano é adequadamente acei-
sa central de Rogers é a de que as pessoas são inerentemente
to, o que tende a predominar são estes últimos traços. plenas de recursos. Para Rogers, o pecado cardeal em terapia,
Buber- não só um filósofo religioso mas um aluno de Eu- ou no ensino e vida familiar, é a imposição da autoridade.
gen Bleuler, o grande psiquiatra descritivo alemão - tinha sem Igualitário radical, Rogers vê os indivíduos como capazes de
dúvida justificativas para seu ceticismo diante da proposição de autodireção sem consideração à sabedoria recebida e fora de
Rogers de que o homem, doente ou são, é merecedor de con- organizações como a igreja ou a academia. Apesar de ter suas
fiança. Mas FreU<l, Klein e Buber estavam totalmente enreda- origens na relação de ajuda, a filosofia de Rogers se fundamen-
dos nas perspectivas do Velho Mundo. O otimismo inexorável ta em Thoreau e Emerson, na primazia da autoconfiança.
de Rogers talvez seja melhor considerado como uma das muitas Ao adotarem Rogers, os americanos se deram conta de
tentativas interessantes de se trazer à psicoterapia o sabor do importantes partes de si mesmos - partes em relação às quais,
Mundo Novo. contudo, a nação permanece ambivalente. O individualismo
Em seu esforço Rogers teve muitos colegas. Harry Stack implicaria uma exploração nova de valores por cada pessoa em
Sullivan acrescentou várias facetas à psicanálise: a atenção à in- cada nova geração, ou o individualismo deve estar ligado à tra-
fluência do amigo no desenvolvimento infantil; a exploração do dições fixas e uma visão do homem como egoísta e competiti-
ambiente social particular do paciente; e o uso ativo do eu do te- vo? Ao retomarem a currículos estabelecidos e valores ortodo-
rapeuta para bloquear as projeções características dos pacientes. xos, os conservadores hoje atacam não somente Rogers mas
Murray Bowen desviou a atenção da família do paciente na in- também uma importante tendência do humanismo americano.
fância (a constelação de Édipo) voltando-a para a família atual, e É talvez devido à essência americana de Rogers que este é
liberou o terapeuta para agir como uma espécie de monitor no muito mais respeitado - compreendido como uma voz distinta,
esforço do paciente em encontrar seu lugar dentro da estrutura ensinado com seriedade - em dezenas de países fora dos Es-
rígida da família. Milton Erickson reviveu técnicas hipnóticas e tados Unidos.
XVI XVII
~---- Tornar-se pessoa Introdução _ _ ---~ -----~------

A voz de Rogers - afetuosa, entusiasta, confiante, preocu- como sendo 'lampejos de sanidade' ... É somente um sentimento
pada - é o que articula os ensaios díspares em Tornar-se pes- ocasional de me achar um tipo de pessoa completa em um tipo
soa. Encontramos um homem tentando pacientemente, porém de mundo terrivelmente caótico." Porém ela não pode revelar
com todos os recursos a seu comando, ouvir os outros e si mes- este eu confiante aos outros. Rogers imediatamente relembra a
mo. Essa escuta atenta está a serviço tanto da questão indivi- sessão anterior: "Um sentimento de que não seria seguro falar
dual quanto da grande questão, o que significa tomar-se pes- sobre a canção que você ... Quase como se não houvesse lugar
soa. Ao descrever clientes, Rogers assume a linguagem e prosó- para que tal pessoa existisse". Esta sensibilidade com relação
dia do existencialismo. A respeito de um homem que luta, ao outro constitui uma arte elevada, embora seja difícil saber se
Rogers escreve: "Naquele momento ele não é nada mais do que Rogers está capturando a melodia interior do cliente ou forne-
sua súplica, por todo o tempo ... Pois naquele momento ele é sua cendo uma de sua própria composição.
dependência, de uma maneira que o assombra." Esta ambigüidade permanece com relação ao trabalho clí-
Qualquer idéia de que Rogers não é sério, consciente da nico de Rogers: Ele meramente, como defendia, aceitava o ou-
fragilidade humana, intelectual deve se dissolver em resposta às tro, ou proporcionava partes de seu próprio eu bem diferencia-
transcrições de seu esmerado trabalho clínico. Rogers faz aqui- do? O que é inequívoco, conforme lemos Rogers hoje, é sua
lo que foi satirizado por gerações de estudantes de psicologia, a contribuição extensiva à cultura contemporânea, ao nosso sen-
saber, repetir as palavras dos clientes. Porém também sintetiza tido de quem somos. É um prazer encontrá-lo novamente, e ter
os sentimentos dos clientes com precisão, beleza de expressão e acesso uma vez mais à sua música.
cautela generosa. E também exibe uma grande habilidade em
Peter D. Kramer, MD.
aceitar os outros.
Em sua quinta sessão de psicoterapia com Rogers, a Sra.
Oak, uma dona de casa perturbada, se vê cantando um "tipo de
canção sem qualquer música". A síntese que Rogers faz de sua
seqüência de sentimentos leva a Sra. Oak a ampliar experiên-
cias interiores e explorar sua metáfora. Ouvimos uma pessoa
tentando se apoderar de uma autenticidade indecifrável, dene-
grindo seus próprios pensamentos: "E então parece existir so-
mente esse fluxo de palavras que de alguma forma não são
voluntárias e então, ocasionalmente, esta dúvida brota. Bem, é
como se ela tomasse a forma de uma, talvez você esteja somen-
te fazendo música." Como todos os seres humanos, no esquema
de Rogers, a Sra. Oak começa como que afastada do eu; com a
aceitação ela removerá fachadas e alcançará a realização. Em
sua nona sessão, a Sra. Oak revela, de uma maneira constrangi-
da, uma forma limitada de autoconfiança:" ... Tenho tido o que
vim a chamar para mim mesma, ou a dizer para mim mesma,
Ao leitor

Embora me desagrade um pouco dizê-lo, fui psicoterapeu-


ta (ou "personal counselor") durante mais de trinta e três
anos. Isso significa que, ao longo de um terço de século, tentei
ajudar uma ampla amostra da nossa população: crianças, ado-
lescentes e adultos; pessoas com problemas pedagógicos, vo-
cacionais, pessoais e conjugais; indivíduos "normais", "neu-
róticos" e "psicóticos" (as aspas indicam que para mim se trata
de rótulos enganosos); procurei ajudar as pessoas que me
vinham pedir auxílio e as que me eram enviadas; aquelas cujos
problemas não tinham importância e aquelas cuja vida se tor-
nara completamente desesperadora e sem futuro. Considero um
grande privilégio ter tido a oportunidade de conhecer de uma
maneira tão pessoal e tão íntima tal quantidade e diversidade
de pessoas.
Além da experiência clínica e da investigação realizada
durante esses anos, escrevi vários livros e muitos artigos. Os
artigos contidos neste volume foram escolhidos entre aqueles
que escrevi durante os últimos dez anos, de 1951 a 1961. Gos-
taria de explicar a razão pela qual os reuni num livro.
Em primeiro lugar, acredito que a maior parte deles tem
alguma relevância para as pessoas que vivem a perplexidade
do mundo moderno. Essa obra não pretende de modo algum ser
XX XXI
_ Tornar-se pessoa Ao leitor

um livro de conselhos ou um manual do gênero "faça você Este volume foi elaborado em intenção dos psicólogos, psi-
mesmo", mas chegou ao meu conhecimento que os leitores des- quiatras, professores, educadores, psicólogos escolares, religio-
ses artigos os achavam muitas vezes estimulantes e enriquece- sos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, chefes de empresa, es-
dores. Em alguma pequena medida eles deram à pessoa mais pecialistas em organização do trabalho, cientistas políticos, em
segurança para fazer e seguir as suas opções pessoais no em- intenção de todos aqueles que encontraram no meu traba~ho
penho para ser o tipo de pessoa que gostaria de ser. Assim, por uma relação direta com os seus problemas profissionais. E a
essa razão, desejo que estes artigos estejam disponíveis para eles que dedico, num sentido verdadeiro, esta minha obra.
qualquer pessoa que possa vir a se interessar- como se diz, para o Existe um outro motivo, mais complexo e pessoal: a busca
"leigo inteligente". Era essa a minha intenção, tanto mais que de um público que ouvisse o que tinha para dizer. Há dez anos
todos os meus livros anteriormente publicados se destinavam que procurava uma solução para esse problema. Sei que falo
apenas para uma minoria de psicólogos. A maior parte deles -
aos psicólogos profissionais e nunca foram acessíveis àqueles
cujos interesses se podem indicar por termos tais como estímu-
que se encontravam fora desse grupo. Espero honestamente
lo-resposta, teoria da aprendizagem, condicionamento operan-
que muitas pessoas sem um interesse particular pelo campo do
te - estão de tal maneira comprometidos em ver o indivíduo
aconselhamento ou psicoterapia encontrem, nas descobertas unicamente como um objeto, que aquilo que tenho para dizer os
feitas neste domínio, elementos que as fortaleçam na sua pró- desorienta, se é que não os irrita. Sei também que falo apenas
pria vida. Espero igualmente que muitas das pessoas que nun- para um pequeno número de psiquiatras. Para muitos deles,
ca procuraram aconselhamento sintam, ao lerem os excertos de talvez para a sua grande maioria, a verdade sobre a psicotera-
entrevistas terapêuticas gravadas com os diversos clientes, que pia já foi proclamada há muito tempo por Freud e não estão
se tornaram sutilmente mais corajosas e confiantes em si mes- interessados em novas possibilidades, além de desinteressados
mas, e que a compreensão das suas próprias dificuldades será ou contrários a investigações neste campo. Sei igualmente que
facilitada se atravessarem, na sua imaginação e em seus pensa- me dirijo a uma parte do grupo divergente dos que se intitulam
mentos, as lutas de outros para a maturação 1• a si mesmos "terapeutas". A maior parte deste grupo interessa"'-
Outra razão que me impeliu a preparar esse livro foi o nú- se sobretudo por testes e medidas de previsão, e por métodos de
mero crescente e a urgência dos pedidos por parte daqueles orientação.
que já conhecem o meu ponto de vista sobre o aconselhamento Por isso, sempre que se colocava a questão de publicar um
psicológico, a psicoterapia e relações interpessoais. Essas pes- dos meus artigos, sentia-me insatisfeito por apresentá-lo numa
revista especializada em qualquer dessas áreas. Publiquei arti-
soas exprimiram o desejo de poder dispor, num volume mais
gos em revistas desses diferentes campos, mas a maior parte
acessível, do resultado dos meus trabalhos e das minhas refle-
dos meus escritos destes últimos anos amontoam-se em pilhas
xões mais recentes. Sentiam-se frustradas ao saber que existem
de manuscritos não-publicados que foram distribuídos particu-
artigos não publicados que não podem adquirir ou ao encontra-
larmente em forma mimeografada. Eles simbolizam a minha
rem artigos meus em revistas não disponíveis. Pedem que esse incerteza sobre a maneira como atingir o público a que eu este-
material seja reunido num só volume. Tal coisa envaidece muito ja me dirigindo.
um autor, mas representa, igualmente, uma obrigação a que tentei Durante esse período, os editores de revistas mais ou me-
corresponder. Espero que lhes agrade a seleção que fiz. nos especializadas, tendo ouvido falar de alguns desses arti-
XXII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa XXIII
Ao leitor _ _ _____

gos, pediram-me autorização para publicá-los. Acedi sempre a zidos conhecimentos que conseguimos neste campo. Espero o
esse pedido, especificando no entanto que me reservava o di- dia em que investiremos o equivalente ao custo de um ou dois
reito de publicá-los mais tarde noutro lugar. Por conseguinte, a mísseis na procura de uma compreensão mais adequada das
maior parte dos artigos que escrevi durante os últimos dez relações humanas. Mas lamento com amargura que os conhe-
anos, ou estão por publicar, ou viram a luz do dia em revistas cimentos que já alcançamos sejam pouco reconhecidos e pouco
pouco divulgadas, especializadas ou obscuras. utilizados. Confio em que este livro deixe bem claro que já pos-
Todavia, tomei agora a decisão de reunir essas reflexões suímos conhecimentos que, uma vez postos em prática, ajuda-
num livro, de forma que atinjam o seu próprio público. Estou riam a diminuir as tensões suscitadas nas relações inter-ra-
certo de que esse público se formará entre uma grande varieda- ciais, industriais e internacionais, que se manifostam no mo-
de de disciplinas, algumas bastante afastadas do meu domínio mento presente. Espero que se torne evidente que esses conhe-
específico, como a filosofia e as ciências políticas. Creio, no cimentos, aplicados preventivamente, poderão ajudar no
entanto, que esse público terá uma certa unidade. Julgo que desenvolvimento de pessoas maduras, não-defensivas e com-
esses artigos se situam numa tendência que tem e que há de ter preensivas que possam enfrentar de uma maneira construtiva
o seu impacto na psicologia, na psiquiatria, na filosofia e em as tensões que se lhes depararem no futuro. Se eu conseguisse
outros campos. Hesito em rotular essa tendência, mas na mi- tornar patentes, para um número significativo de pessoas, os
nha mente ela está associada a adjetivos tais como fonomeno- recursos por utilizar dos conhecimentos já disponíveis no
lógico, existencial, centrado na pessoa; a conceitos tais como domínio das relações interpessoais, considerar-me-ia ampla-
auto-realização, vir-a-ser, maturação; a pessoas, neste país, mente recompensado.
Estas foram as minhas razões para publicar este livro.
tais como Gordon Allport, Abraham Maslow, Rollo May. Desse
Permitam-me concluir com alguns comentários sobre a sua na-
modo, e embora o público para o qual esse livro poderá ter sig-
tureza. Os artigos aqui reunidos representam os meus princi-
nificado provenha de diforentes disciplinas e tenha interesses
pais centros de interesse durante a década passada 2 • Foram
muito diversos, o fio comum pode ser sua preocupação a res- escritos com diferentes objetivos, normalmente para públicos
peito da pessoa e do seu tornar-se num mundo moderno que diferentes ou simplesmente para minha satisfação pessoal.
pareça procurar ignorá-la ou diminuí-la. Escrevi para cada capítulo uma nota introdutória, que procura
Há ainda uma última razão para publicar este livro, um apresentar o seu conteúdo num contexto compreensível. Os ar-
motivo que tem para mim uma grande importância. Trata-se da tigos foram ordenados de forma a desenharem um tema único
grande, da desesperada necessidade do nosso tempo de adqui- que vai se desenvolvendo, partindo dos problemas mais pes-
rir o máximo de conhecimentos básicos e a maior competência soais para o campo de um significado social mais amplo. Eli-
possível para estudar as tensões que ocorrem nas relações minei as repetições, mas, quando diversos artigos tratam do
humanas. O admirável progresso conseguido pelo homem, não mesmo conceito de forma diferente, conservei muitas vezes essas
apenas na imensidão do espaço como também na infinitude das "variações sobre um tema", esperando que elas desempenhem
partículas subatômicas, parece conduzir à destruição total do a mesma função que desempenham na música, ou seja, que
nosso universo, a menos que façamos grandes progressos na enriqueçam o sentido da melodia. Devido a terem sido traba-
compreensão e no tratamento das tensões interpessoais e inter- lhados como artigos independentes, podem ser lidos isolada-
grupais. Sinto uma grande humildade quando penso nos redu- mente uns dos outros se o leitor assim o preferir.
XXIV _ _ _ Tornar-se pessoa

Simplificando, o objetivo deste livro é o de compartilhar


com vocês algo da minha experiência - alguma coisa de mim.
Primeira Parte
Aqui está um pouco daquilo que experimentei na selva da vida
moderna, no território amplamente inexplorado das relações
No tas pessoais
pessoais. Aqui está o que vi. Aqui está aquilo em que vim a acre-
Eu falo enquanto pessoa, num contexto de uma
ditar. Foi essa a forma como tentei verificar e pôr à prova aqui-
experiência e de uma aprendizagem pessoais
lo em que acreditava. Aqui estão algumas das perplexidades,
questões, inquietações e incertezas que tive de enfrentar. Es-
pero que o leitor possa encontrar, neste livro que lhe é dedica-
do, algo que lhe diga respeito.

Departamentos de Psicologia e Psiquiatria


Universidade de Wisconsin
Abril de 1961
Capítulo 1
"Este sou eu"
O desenvolvimento do meu pensamento profissiona l e
da minha filosofia pessoal

Este capítulo sintetiza duas exposições muito pessoais. Há


aproximadamente cinco anos fui convidado a apresentar à
classe mais graduada da Universidade de Brandeis não minhas
idéias sobre a psicoterapia, mas a mim mesmo. Como é que eu
tinha chegado ao que hoje penso? Como me tornei a pessoa
que sou? Achei este convite extraordinariamente estimulante e
procurei corresponder a ele. No ano passado, o Student Union
Forum Committee da Universidade de Wisconsin dirigiu-me um
convite análogo. Pediram-me para fazer uma exposição pessoal
no quadro das suas "Últimas Conftrências "em que se presume,
por razões não especificadas, que o professor está dando sua
última conftrência, e, por isso, fala de si mesmo (que espantoso
comentário ao nosso sistema de educação em que um professor
só se mostra a si mesmo de um modo pessoal em tão duras cir-
cunstâncias!). Nessa conferência de Wisconsin exprimi de uma
maneira mais profunda do que na primeira as experiências pes-
soais e os temas filosóficos que se tornaram para mim mais sig-
nificativos. No presente capítulo harmonizei as duas exposi-
ções, tentando manter o caráter espontâneo que revestia a sua
apresentação original.
A reação a cada uma dessas exposições fez-me compreen-
der como as pessoas desejam ansiosamente conhecer algo da
pessoa que lhes fala ou que as ensina. Foi essa a razão por que
4 5
_ Tornar-se pessoa Notas pessoais ·-· · -

abri o livro com este capítulo, na esperança de que ele comuni- livro sobre mim, tentando perceber a sua experiência e o signi-
cará algo sobre mim, proporcionando, desse modo, um enqua- ficado, a sensação, o sabor que esta tem para ele. É sobre mim,
dramento e uma maior significação aos capítulos que seguem. lamentando a minha falibilidade humana para compreender o
cliente e os ocasionais fracassos em ver a vida tal como ela se
Informaram-me que esperavam que eu falasse a esse grupo mostra diante dele, fracassos que caem como objetos pesados
sobre a seguinte matéria: "Este sou eu". Passei por diferentes sobre a intricada e delicada teia do desenvolvimento que está
reações perante esse convite, mas aquela que gostaria de men- ocorrendo.
cionar aqui como a principal foi a de me ter sentido honrado e É um livro sobre mim, alegre com o privilégio de ser o res-
lisonjeado por um grupo querer saber quem sou eu, num sentido ponsável pelo parto de uma nova personalidade - maravilhado
puramente pessoal. Posso lhes assegurar que se trata de um con- diante do surgimento de um self, uma pessoa, de um process~
vite único e sem precedentes e que vou tentar dar a essa pergunta de nascimento no qual tive um papel importante e facilitador. E
honesta uma resposta tão honesta quanto me for possível. sobre mim e o cliente, que contemplamos com admiração as
Dito isso, quem sou eu? Um psicólogo cujos interesses forças ordenadas e vigorosas que se evidenciam em toda a ex-
principais foram, durante muitos anos, os da psicoterapia. Que periência, forças que parecem profundamente arraigadas no uni-
é que isto significa? Não tenho a intenção de impor uma longa verso como um todo. É um livro, creio eu, sobre a vida, a vida
crônica do meu trabalho, mas gostaria de extrair alguns pará- que se revela no processo terapêutico - com a sua força cega e a
grafos do prefácio do meu livro Client-Centered Therapyl, para sua tremenda capacidade de destruição, mas com um ímpeto
indicar o que, subjetivamente, isso significa para mim. Nesse primordial voltado para o desenvolvimento, se lhe for oferecida
prefácio, eu procurava esclarecer o leitor sobre o conteúdo da a possibilidade de desenvolvimento."
obra e escrevi o seguinte: "De que trata este livro? Permitam-me Talvez isso lhes dê uma imagem daquilo que faço e do modo
que tente dar-lhes uma resposta de algum modo ligada à expe- como me sinto com relação ao que faço. Julgo que pergunta-
riência vivida que esse livro procurou ser." rão como é que cheguei a essa ocupação e quais as decisões e as
"Este é um livro sobre o sofrimento e a esperança, a angús- opções que, consciente ou inconsciente, a isso me conduziram.
tia e a satisfação presentes na sala de todos os terapeutas. É Tentarei apresentar alguns dos aspectos mais importantes da mi-
sobre o caráter único da relação que o terapeuta estabelece com nha autobiografia psicológica, especialmente os que têm uma re-
cada cliente, e, igualmente, sobre os elementos comuns que des- lação particular com a minha vida profissional.
cobrimos em todas essas relações. Este livro é sobre as expe-
riências profundamente pessoais de cada um de nós. É sobre
Os meus primeiros anos
um cliente no meu consultório, sentado perto da escrivaninha,
lutando para ser ele mesmo e, no entanto, com um medo mortal Fui educado numa família extremamente unida onde rei-
de ser ele mesmo - esforçando-se para ver a sua experiência tal nava uma atmosfera religiosa e moral muito estrita e intransi-
como ela é, querendo ser essa experiência, e, no entanto, cheio gente, e que tinha um verdadeiro culto pela virtude do trabalho
de medo diante da perspectiva. É um livro sobre mim, sentado duro. Fui o quarto de seis filhos. Meus pais tinham por nós um
diante do cliente, olhando para ele, participando da luta com grande afeto e nosso bem-estar era para eles uma preocupação
toda a profundidade e sensibilidade de que sou capaz. É um constante. Controlavam também o nosso comportamento, de
6 __ 7
_ _ _ Tornar-se pessoa Notas pessoais___ _ __ _

uma maneira ao mesmo tempo sutil e afetuosa. Eles considera- assim um estudioso da agricultura científica e só recentement e
vam - e eu aceitava essa idéia - que nós éramos diferentes das percebi que foi esse o caminho que me conduziu a uma com-
outras pessoas: nada de álcool, de danças, de jogos de cartas ou preensão fundamental da ciência. Não havia ninguém para me
de espetáculos, uma vida social muito reduzida e muito traba- dizer que a obra de Morison, Feeds and Feeding, não era um li-
lho. Tive uma enorme dificuldade em convencer meus filhos de vro para um adolescente de catorze anos e, por isso, mergulhei
que, para mim, mesmo as bebidas não-alcoólicas tinham um nas suas centenas de páginas, aprendendo como se conduzem
aroma de pecado e lembro-me do meu leve sentimento de culpa as experiências, como se comparam grupos de controle com
quando bebi meu primeiro refrigerante. Passávamos um tempo grupos experimentais, como se tomam constantes as condi-
agradável reunidos em família, mas não convivíamos. Tomei- ções, variando os processos, para que se possa estabelecer a in-
me assim uma criança solitária que lia incessantem ente e não fluência de uma determinada alimentação na produção de carne
tive, ao longo de todos os meus anos de colégio, senão dois ou na produção de leite. Aprendi como é dificil verificar uma
encontros com moças. hipótese. Adquiri desse modo o conhecimento e o respeito pelos
Tinha eu doze anos quando meu pai comprou uma fazenda métodos científicos através de trabalhos práticos.
onde fomos viver. As razões disso foram duas: primeiro, meu
pai, que se tomara um negociante próspero, procurava um hobby; A graduação e a pós-graduaç ão
segundo, e creio que mais importante, foi o fato de os meus pais
pretenderem afastar os seus filhos adolescentes das "tentações" Comecei a faculdade em Wisconsin estudando agricultura.
da vida da cidade. Uma das coisas de que me lembro melhor era a veemência de
Na fazenda interessei-me por duas coisas que tiveram pro- um professor de agronomia quando se referia ao estudo e à apli-
vavelmente uma influência real no meu trabalho futuro. Ficava cação dos fatos. Ele insistia na futilidade de um conhecimen to
fascinado pelas grandes borboletas noturnas (estavam então em enciclopédico em si mesmo e concluía: "Não sejam um vagão
voga os livros de Gene Stratton-Porter) e tomei-me uma autori- de munições; sejam uma espingarda!"
dade na bela Luna, no Polyphemus, na Cecropia e nos outros Durante meus dois primeiros anos de faculdade, alterou-se
lepidópteros que habitavam nossos bosques. Capturava com meu objetivo profissional em conseqüênci a de algumas reu-
muito trabalho as borboletas, cuidava das larvas, conservava os niões estudantis sobre religião muito apaixonadas: desisti da
casulos durante os longos meses de inverno, experimentando agricultura científica a favor do sacerdócio- uma pequena mu-
assim algumas das alegrias e das frustrações do cientista quan- dança! Transferi-me então de agricultura para história, julgan-
do procura observar a natureza. do que esta seria uma melhor preparação.
Meu pai resolvera organizar a sua nova fazenda numa base No meu primeiro ano fui um dos escolhidos de um grupo
científica e, para isso, adquirira um grande número de livros de doze estudantes americanos para uma viagem à China, a fim
sobre agricultura racional. Entusiasmava os filhos a ganharem de participar de um Congresso Internacional da Federação Mun-
independência, encorajando-os a lançarem-se por si sós em em- dial dos Estudantes Cristãos. Isso representou para mim uma
preendimentos lucrativos. Por isso, tanto meus irmãos como eu experiência de extraordinária importância. Estávamos em 1922,
tínhamos muitas galinhas e, vez por outra, tratávamos de car- quatro anos após o término da Primeira Guerra Mundial. Pude
neiros, de porcos ou de vacas desde que nasciam. Tomei-me observar a amargura com que os franceses e os alemães conti-
8 Notas pessoais _ _ __ 9
Tornar-se pessoa

nuavam a se odiar, embora individualmente parecessem simpá- fico verdadeiramente impressionado pela importante experiên-
ticos. Fui forçado a admitir e compreender como é que pessoas cia que tive no Union. Nosso grupo sentia que nos forneciam
sinceras e honestas podiam acreditar em doutrinas religiosas idéias já prontas, quando o que nos interessava principalmente
muito divergentes. Emancipei-me pela primeira vez da atitude era explorar as nossas próprias questões e as nossas próprias
religiosa dos meus pais e vi que já não os podia seguir. Essa dúvidas e descobrir aonde isso nos levava. Pedimos à adminis-
independência de pensamento provocou um grande desgosto e tração que nos deixasse organizar um seminário oficial, sem
grandes tensões nas nossas relações, mas, vistas as coisas à dis- orientador, cujo programa fosse constituído pelas nossas pró-
tância, compreendi que foi nesse momento, mais do que em prias questões. A administração ficou compreensivelmente per-
qualquer outro, que me tomei uma pessoa independente. É cla- plexa perante essa proposta, mas deferiram o nosso pedido! A
ro que havia muita revolta e rebelião na minha atitude durante única restrição feita para preservar os interesses da instituição
todo esse periodo, mas a ruptura essencial ocorreu durante os foi a presença de um jovem orientador no seminário, mas este
seis meses da minha viagem pelo Oriente e, a partir de então, não participava nos trabalhos, a não ser que o convidássemos.
foi elaborada fora da influência familiar. Suponho não ser necessário acrescentar que esse seminário
Embora esse seja um relato dos elementos que influencia- foi extraordinariamente satisfatório e esclarecedor. Tenho certe-
ram meu desenvolvimento profissional mais do que a minha za de que me conduziu para uma filosofia da vida que me era
maturação pessoal, desejaria mencionar aqui, de uma maneira muito pessoal. A maior parte dos membros do referido grupo,
muito breve, um importante fato da minha vida particular. Foi prosseguindo o caminho traçado pelas questões que levantaram,
na época da minha viagem à China que me apaixonei por uma puseram de lado a idéia de uma vocação religiosa. Eu fui um
moça adorável, que já conhecia havia muitos anos, desde a in- deles. Sentia que provavelmente sempre me interessaria por
fância, e com quem me casei, com o consentimento relutante questões tais como o sentido da vida e a possibilidade de uma
dos nossos pais, logo que acabei a faculdade, para que pudésse- melhoria construtiva da vida do indivíduo, mas não poderia tra-
mos prosseguir juntos os estudos de pós-graduação. Não pode- balhar no campo determinado por uma doutrina religiosa espe-
rei ser muito objetivo nesse assunto, mas estou convencido de cífica em que devia acreditar. As minhas crenças já tinham sofri-
que o apoio do seu amor e a afeição da sua companhia ao longo do tremendas alterações e, possivelmente, continuariam a mu-
de todos esses anos foram um fator de enriquecimento extrema- dar. Tomava-se para mim terrível ter de professar um certo nú-
mente importante na minha vida. mero de crenças para poder me manter na profissão. Eu queria
Decidi entrar no Union Theological Seminary, nesse tem- encontrar um campo no qual pudesse estar seguro de que a mi-
po o seminário mais liberal do país (1924), com o objetivo de nha liberdade de pensamento não sofreria restrições.
me preparar para uma missão religiosa. Nunca me arrependi dos
dois anos que aí passei. Estive em contato com alguns grandes Tornando-me psicólogo
mestres e professores, especialmente o Dr. A. C. McGiffert, que
tinham uma profunda crença na liberdade de investigação e na Mas que campo? No Union tinham-me interessado os cur-
busca da verdade, levasse ela onde levasse. sos e as conferências sobre psicologia e psiquiatria que então
Conhecendo como conheço agora as universidades e as começavam a se desenvolver. Professores como Goodwin Wat-
escolas superiores - sabendo a rigidez dos seus regulamentos -, son, Harrison Elliott, Marian Kenworthy contribuíram para esse
10 _ _ _ Tornar-se pessoa 11
Notas pessoais__ __ _ _ __

interesse. Comecei a seguir um maior número de cursos no Nova York. Éramos três psicólogos nesse centro de estudos e o
Teacher's College da Universidade de Colúmbia, situada preci- meu ordenado era de 2.900 dólares por ano.
samente em frente do Union Seminary. Comecei a trabalhar em Lembro-me hoje que aceitei esse cargo com alegria e com
filosofia da educação com William H. Kilpatrick, que conside- espanto. A razão por que me alegrava era a de ter encontrado um
rei um grande professor. Iniciei os meus trabalhos clínicos prá- trabalho que eu gostaria de fazer. Segundo qualquer critério de
ticos com crianças, sob a direção de Leta Hollingworth, uma bom senso era uma profissão sem saída, que me isolava de todo
pessoa sensível e prática. Fui me sentindo atraído por esse tra- contato profissional, o ordenado era insuficiente, mesmo para
balho de orientação infantil e, pouco a pouco, sem quase ne- aquela época, mas tudo isso, se bem me recordo, não me afetava
nhum esforço de adaptação, passei para o campo de trabalho grandemente. Julgo sempre ter pensado que, se me fosse dada
psicopedagógico e comecei a pensar em tomar-me psicólogo uma oportunidade de fazer uma coisa em que estivesse muito in-
clínico. Foi um passo fácil de dar, com relativamente pouca
teressado, tudo o mais se resolveria por si mesmo.
consciência de estar fazendo uma opção, entregando-me ape-
nas às atividades que me interessavam.
Os anos em Raches ter
Quando estava no Teacher's College pedi e consegui uma
bolsa ou um lugar como interno no novo Instituto para Orien- Os doze anos seguintes que passei em Rochester foram
tação da Criança, patrocinado pelo Commonwealth Fund. altamente preciosos. Durante os primeiros oito anos, pelo me-
Senti-me freqüentemente grato por aí ter estado durante o pri- nos, absorvi-me completamente no meu serviço de psicologia
meiro ano da sua fundação. A organização, de início, estava prática, num trabalho de diagnóstico e de planejamento de
num estado caótico, mas isso implicava que cada um podia casos de crianças delinqüentes e sem recursos, crianças que nos
fazer o que queria. O convívio com David Levy e Lawson Lowrey eram enviadas pelos tribunais e pelos serviços sociais, e realizei
mergulhou-me nas perspectivas dinâmicas de Freucl, que me freqüentemente "entrevistas de tratamento". Foi um período de
pareciam em profundo conflito com as perspectivas estatísticas, relativo isolamento profissional, ao longo do qual a minha
rigorosas, científicas e friamente objetivas que prevaleciam no única preocupação foi tentar ser o mais eficaz possível em rela-
Teacher's College. Olhando para o passado, julgo que a necessi- ção aos nossos clientes. Tínhamos de aceitar tanto os nossos
dade de resolver esse conflito em mim mesmo foi uma expe- fracassos como os nossos sucessos e assim éramos obrigados a
riência extremamente valiosa. Na época, tinha a impressão de aprender. O único critério que empregávamos como método de
viver em dois mundos completamente diferentes "e nunca os tratamento em relação a essas crianças e aos seus pais era: "Isto
dois se iriam encontrar"2• funciona? Será eficaz?" Principiava então a ir progressivamen-
Perto do fim do meu internato, tomou-se muito importante te formando as minhas próprias opiniões a partir da experiência
encontrar um trabalho bem remunerado para sustentar meu do meu trabalho cotidiano.
doutorado. Os empregos eram em número escasso e recordo- Ocorrem-me três exemplos significativos e importantes
me do alívio e da alegria que experimentei quando encontrei para mim, se bem que banais. Noto que são, todos três, momen-
um: fui contratado como psicólogo no "Child Study Depart- tos de desilusão, desilusão em relação a uma autoridade, em
ment" da Associação para a Proteção à Infância em Rochester, relação ao material e em relação a mim mesmo.
12 Tornar-se pessoa Notas pessoais 13

Durante os meus anos de formação, tinha sido atraído pelas O terceiro incidente ocorreu vanos anos depois. Tinha
obras do Dr. William Healy, segundo o qual a delinqüência se aprendido a ser mais sutil e paciente na interpretação dada a um
baseava muitas vezes num conflito sexual e que, uma vez desco- cliente do seu comportamento, aguardando uma oportunidade
berto esse conflito, a delinqüência cessava. No primeiro ou se- em que a pudesse aceitar sem perturbação. Falava com uma
gundo ano que passei em Rochester, trabalhei a fundo com um mãe extremamente inteligente, cujo filho era um verdadeiro
jovem piromaníaco que manifestava uma tendência irresistível diabo. O problema era evidentemente a sua rejeição do menino
para provocar incêndios. Ao entrevistá-lo dia após dia na casa de desde cedo, mas, apesar de muitas entrevistas, não conseguia
detenção, fui relacionando, gradualmente, sua tendência com um fazê-la ver isso. Fiz com que ela falasse, procurei delicadamen-
impulso sexual ligado à masturbação. Eureca! O caso estava te salientar os dados evidentes que me tinha fornecido, tentando
resolvido. No entanto, quando colocado em liberdade condicio- ajudá-la a ver a situação. O resultado era nulo. Acabei por de-
nal, o jovem recaiu na mesma dificuldade. sistir. Disse-lhe que havíamos feito o melhor que podíamos,
Lembro-me do choque que senti. Talvez Healy se enganas- mas que tínhamos fracassado e que assim os nossos contatos
se. Talvez eu me tivesse apercebido de algo que Healy não sa- deviam terminar. Ela concordou. Acabamos assim a entrevista,
bia. Seja como for o caso fez-me ver com clareza a possibilida- apertamos as mãos e ela já se dirigia para a porta do meu con-
de de erro por parte da autoridade dos mestres e que havia no- sultório quando se voltou para mim e perguntou: "Também faz
vos conhecimentos a adquirir. aconselhamento de adultos aqui?" Tendo-lhe respondido afir-
A segunda descoberta ingênua que fiz foi muito diferente. mativamente, disse-me: "Pois bem, gostaria que me ajudasse".
Pouco depois de ter chegado a Rochester dirigi um grupo de dis- Voltou para a cadeira de onde se havia levantado e começou a
cussão sobre os métodos da entrevista psicológica. Eu tinha "derramar" seu desespero sobre seu casamento, sobre suas rela-
achado um relato publicado de uma entrevista, praticamente ções perturbadas com o marido, seu sentimento de fracasso e de
palavra a palavra, com uma mãe e em que o profissional era pers- confusão, tudo isso muito diferente da estéril "história de caso"
picaz, penetrante e hábil, capaz de conduzir rapidamente a entre- que antes me tinha fornecido. Iniciou-se então uma real terapia
vista para o centro da dificuldade. Sentia-me feliz por poder utili- que acabou por ser bem-sucedida.
zá-la como um exemplo de uma boa técnica de entrevista. Esse incidente foi um daqueles que me fizeram sentir o
Alguns anos mais tarde vi-me numa situação semelhante e fato - de que só mais tarde me apercebi completamente - de
lembrei-me desse excelente material indo procurá-lo a fim de que é o próprio cliente que sabe aquilo de que sofre, qual a dire-
relê-lo. Fiquei consternado. Aquilo parecia-me agora um nítido ção a tomar, quais problemas são cruciais, que experiências fo-
tipo de interrogatório judicial em que o entrevistador conseguia ram profundamente recalcadas. Comecei a compreender que, para
convencer a mãe das suas motivações inconscientes e levá-la a fazer algo mais do que demonstrar minha própria clarividência
admitir a sua culpabilidade. Já sabia por experiência própria que e sabedoria, o melhor era deixar ao cliente a direção do movi-
esse gênero de entrevista não podia ajudar nem a mãe nem a crian- mento no processo terapêutico.
ça de uma forma duradoura. Isso levou-me a compreender que
estava me afastando de todo método coercivo ou de pressão nas
relações clínicas, não por razões filosóficas, mas porque esses
métodos de aproximação eram apenas superficialmente eficazes.
14 Notas pessoais _ _ _ _ _ __ 15
---------- __ Tornar-se pessoa

Psicólogo ou? aquilo que poderia ter aprendido profissionalmente. Não creio
ter sido muito bom pai durante os seus primeiros anos, mas,
Ao longo desse período, comecei a duvidar se seria um psi- felizmente, minha mulher era muito boa mãe, e, com o passar
cólogo. A Universidade de Rochester fez-me ver que o trabalho do tempo, fui me tomando um pai melhor e mais compreensi-
que eu realizava não era psicologia e que não estava interessada vo. O privilégio, durante esses anos e mais tarde, de estar em
no meu ensino no Departamento de Psicologia. Assisti a reuniões contato permanente com esses dois jovens sensíveis ao longo
da Associação Americana de Psicologia (AAP) repletas de con- das alegrias e desgostos da infância, da afirmação e das dificul-
ferências sobre o processo de aprendizagem dos ratos e sobre dades da sua adolescência, da sua chegada à idade adulta e da
experiências de laboratório que não me pareciam ter relação com constituição dos seus próprios lares, foi certamente algo impa-
o que eu estava fazendo. Os assistentes sociais psiquiátricos, no gável. Minha mulher e eu consideramos uma de nossas realiza-
entanto, pareciam falar a minha linguagem e por isso orientei as ções mais satisfatórias o fato de podermos nos comunicar com
minhas atividades para a assistência social, tanto nas organiza- nossos filhos adultos e seus cônjuges num nível profundo, e
ções locais como em nível nacional. Foi apenas quando foi criada que eles possam fazer o mesmo em relação a nós.
a Associação Americana para a Psicologia Aplicada que retomei
realmente as minhas atividades como psicólogo. Os anos em Ohio
Comecei a dar cursos na Universidade, no Instituto de So-
ciologia, sobre como compreender e como tratar as crianças Em 1940, aceitei um lugar na Universidade Estadual de
difíceis. Pouco depois, o Instituto de Pedagogia quis incluir as Ohio. Tenho certeza de que a única razão de minha admissão
minhas aulas no seu currículo (por último, antes da minha parti- foi ter publicado minha obra Clinicai Treatment of the Problem
da de Rochester, o Instituto de Psicologia da Universidade pe- Child 3 que elaborara a custo durapte períodos de férias ou em
diu autorização para fazer o mesmo, acabando por me aceitar curtos feriados. Para minha surpresa, e contrariamente à minha
como psicólogo). A simples descrição dessas experiências faz- expectativa, ofereceram-me um lugar de professor efetivo. Re-
me ver como eu seguia obstinadamente o meu próprio cami- comendo insistentemente esse ponto de partida para o mundo
nho, relativamente independente do fato de estar ou não fazen- acadêmico. Senti-me muitas vezes agradecido por não ter sofri-
do o mesmo que o grupo dos meus colegas. do o processo competitivo, freqüentemente humilhante, de pro-
O tempo não permite que se fale do trabalho de constituir moção grau a grau nas faculdades, onde as pessoas tantas vezes
em Rochester um centro independente de psicopedagogia, nem se limitam a aprender uma única lição - a de não mostrarem
do conflito que isso implicou com alguns psiquiatras. Tratava- muito o que são.
se, na maior parte das vezes, de lutas administrativas que pouco Ao tentar ensinar o que aprendera sobre tratamento e acon-
tinham a ver com o desenvolvimento das minhas idéias. selhamento aos estudantes da Universidade de Ohio, comecei a
me dar conta pela primeira vez de que tinha talvez elaborado
Meus filhos uma perspectiva muito pessoal a partir da minha própria expe-
riência. Quando procurei formular algumas dessas idéias e as
Foi durante esses anos em Rochester que meu filho e mi-
nha filha atravessaram a infância, ensinando-me muito mais apresentei numa conferência na Universidade de Minnesota,
acerca do indivíduo, da sua evolução e das suas relações do que em dezembro de 1940, deparei com reações extraordinariamen-
16
--------- _ _ _ _ _ _ ____ Tornar-se pessoa Notas pessoais _ _ _ _ _ _ _ _ __ 17

te fortes. Foi a minha primeira experiência do fato de que uma poder corresponder às suas necessidades. É certo que a prática
das minhas idéias, que para mim parecia brilhante e extrema- da terapia é algo que exige um desenvolvimento pessoal perma-
mente fecunda, pudesse representar para outrem uma grande nente por parte do terapeuta, o que às vezes é penoso, mesmo
ameaça. E a situação de me encontrar no centro das críticas, dos se, a longo prazo, provoca uma grande satisfação.
argumentos a favor e contra, desorientou-me e me fez duvidar e Desejaria ainda acentuar a importância cada vez maior que
questionar a mim mesmo. Todavia, pensava que tinha algo a a investigação passou a ter para mim*. A pesquisa é a experiên-
dizer e redigi o manuscrito de Counseling and Psychotherapy, cia na qual posso me distanciar e tentar ver essa rica experiên-
descrevendo o que, de alguma maneira, me parecia ser uma cia subjetiva com objetividade, aplicando todos os elegantes
orientação mais eficaz da terapia. métodos científicos para determinar se não estou iludindo a
Aqui, mais uma vez, acho um pouco divertida a minha des- mim mesmo. Estou cada vez mais convencido de que descobri-
preocupação pouco "realista". Quando propus ao editor o manus- remos leis da personalidade e do comportamento que serão tão
crito, este o considerou interessante e original mas quis saber para importantes para o progresso humano ou para a compreensão
que cursos poderia servir. Respondi-lhe que apenas conhecia dois: do homem como a lei da gravidade ou as da termodinâmica.
o que eu dava e um em outra universidade. O editor julgou que eu No decurso das duas últimas décadas, habituei-me de certa
cometera um erro grave por não ter escrito um texto que pudesse forma a ser atacado, mas as reações às minhas idéias continuam
ser utilizado por cursos já em funcionamento. Tinha muitas dúvi- a surpreender-me. Do meu ponto de vista, julgo que sempre
das de poder vender dois mil exemplares, número necessário para propus minhas idéias como hipóteses de trabalho, para serem
cobrir as despesas. Somente quando lhe disse que procuraria aceitas ou rejeitadas pelo leitor ou pelo estudioso. No entanto,
outro editor é que se decidiu a arriscar. Não sei qual de nós dois por diversas vezes e em diferentes lugares, psicólogos, terapeu-
ficou mais surpreso com o número de vendas: setenta mil exem- tas e pedagogos atacaram meus pontos de vista com críticas
plares até hoje, e a coisa continua. cheias de violência e desprezo. O seu furor atenuou-se um pou-
co durante os últimos anos, mas renovou-se entre os psiquia-
Os últimos anos tras, pois alguns deles viam na minha maneira de trabalhar uma
grande ameaça aos seus princípios mais queridos e mais in-
Creio que a partir desse ponto, e até agora, a minha vida
questionáveis. E talvez as críticas tempestuosas encontrem um
profissional - cinco anos em Ohio, doze anos na Universidade paralelo no dano causado por alguns "discípulos", sem sentido
de Chicago e quatro na Universidade de Wisconsin- está sufi- crítico e sem espírito inquisitivo, pessoas que adquiriram para
cientemente bem documentada naquilo que escrevi. Vou me li- si próprias alguma coisa de um novo ponto de vista e que parti-
mitar a apontar dois ou três aspectos que me parecem mais sig- ram em guerra contra toda a gente, utilizando como arma, cor-
nificativos. reta ou incorretamente, o meu trabalho e certas teorias minhas.
Aprendi a viver numa relação terapêutica cada vez mais Tive sempre dificuldades em saber quem me tinha feito um mal
profunda com um número sempre crescente de clientes. Isto maior, se os meus "amigos", se os meus adversários.
pode ser e tem sido extremamente animador. Pode também ser
extremamente alarmante e, por vezes, o foi, quando alguém
muito perturbado parece exigir de mim mais do que sou para *A terapia é a experiência em que posso me entregar subjetivamente.
18 Notas pessoais_ · - - - - - - - - - ________1_9
_ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

Foi talvez em parte devido a essa situação desagradável de freqüência deixo de aplicá-los, mas acabo sempre por me arre-
pender disso. Acontece-me também freqüentemente, perante
v~r as pessoas disputarem por minha causa que passei a apre-
ciar o extraordinário privilégio que é desaparecer e poder estar uma nova situação, não saber como aplicar o que aprendi.
só. Julgo que os meus períodos de trabalho mais fecundos Estas experiências não estão cristalizadas. Alteram-se per-
manentemente. Algumas parecem ganhar um alcance maior,
foram os momentos em que pude afastar-me completamente do
outras são talvez menos importantes do que o eram noutra
que os outros pensavam, das obrigações profissionais e das exi-
época, mas todas têm para mim um significado.
gências do dia-a-dia, quando ganhava uma perspectiva sobre o
Vou introduzir cada um desses ensinamentos de minha ex-
que estava fazendo. Minha mulher e eu encontramos lugares de
periência com uma frase ou proposição que indica em parte o
refúgio isolados no México e nas ilhas do Caribe, onde nin-
seu significado pessoal. Em seguida, desenvolvê-lo-ei um pou-
guém sabe que sou um psicólogo; aí, minhas principais ativida-
co. O que se segue não está muito bem estruturado, exceto nos
des são pintar, nadar, fazer pesca submarina e fotografia em
primeiros aspectos apontados que se referem às relações com
cores. Foi no entanto nesses locais, onde não efetuo mais de
os outros. Seguem-se alguns aspectos que se integram nas cate-
duas a quatro horas de trabalho profissional, que mais progredi
gorias pessoais dos meus valores e das minhas convicções.
durante os últimos anos. Eu dou valor ao privilégio de estar só.
Iniciarei essas várias proposições de ensinamentos signifi-
cativos com um item negativo. Nas minhas relações com as
Algumas coisas fundamentais que aprendi
pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu
fosse alguma coisa que não sou. Não serve de nada agir calma-
Aí estão, brevemente delineados, alguns traços exteriores
mente e com delicadeza num momento em que estou irritado e
da minha vida profissional. Gostaria, no entanto, de fazer com
disposto a criticar. Não serve de nada agir como se soubesse as
que vocês penetrassem um pouco mais, de lhes falar de algu-
respostas dos problemas quando as ignoro. Não serve de nada
mas ~oisas que aprendi no decurso das milhares de horas que
agir como se sentisse afeição por uma pessoa quando nesse
passei trabalhando intimamente com indivíduos que apresenta-
determinado momento sinto hostilidade para com ela. Não
vam distúrbios pessoais.
serve de nada agir como se estivesse cheio de segurança quando
~ ~os~~a de esclarecer que se trata de ensinamentos que
me sinto receoso e hesitante. Mesmo num nível primário, estas
tem significado para mim. Ignoro se os acharão válidos. Não
observações continuam válidas. Não me serve de nada agir
pretendo apresentá-los como uma receita seja para quem for.
como se estivesse bem quando me sinto doente.
Contudo, sempre que alguém quis falar comigo das suas opções
O que estou dizendo, em outras palavras, é que nunca achei
pessoais, ganhei algo com isso, nem que fosse verificar que as
que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pes-
minhas são diferentes. É nesse espírito que formulo os ensina-
soas tentar manter uma atitude de fachada, agindo de uma certa
mentos que se seguem. Creio que, em cada caso, eles se mani-
maneira na superficie quando estou passando pela experiência
festaram nas minhas atividades e nas minhas convicções ínti-
de algo completamente diferente. Creio que essa atitude não
mas muito antes de ter tomado consciência deles. Trata-se sem
serve de nada nos meus esforços para estabelecer relações
d~vida de uma aprendizagem dispersa e incompleta. Só posso
construtivas com as outras pessoas. Devo, todavia, esclarecer
dizer que ela foi muito importante para mim e que continua
sendo. Aí encontro constantemente novos ensinamentos. Com que, embora eu saiba que isso é verdade, nem sempre aproveitei
20 Tornar-se pessoa Notas pessoais _ _ _ _ _ _ _ __ 21

adequadamente essa lição. Com efeito, parece-me que a maior apaixonante de serem vitais e significativas. Se posso aceitar o
parte dos erros que cometo nas relações pessoais, muitos dos fato de estar irritado ou aborrecido com um cliente ou com um
momentos em que fracasso nos meus esforços para ser útil aos estudante, então também estou muito mais apto para aceitar as
outros, se explicam pelo fato de que, por uma reação de defesa, reações que a minha atitude provoca. Tomo-me assim capaz de
comportei-me, de certa maneira, num nível superficial, ao pas- aceitar a alteração da experiência e dos sentimentos que podem,
so que na realidade os meus sentimentos seguiam numa direção então, ocorrer tanto nele como em mim. As relações reais ten-
contrária. dem mais a se modificar do que a se manterem estáticas.
É por isso que considero eficaz permitir-me ser o que sou
Uma segunda aprendizagem pode ser formulada como se nas minhas atitudes; saber quando me aproximo dos limites da
segue: descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim resistência ou da tolerância e aceitar isso como um fato; saber
mesmo aceitando-me, e posso ser eu mesmo: tenho a impressão quando desejo moldar ou manipular as pessoas e reconhecer isso
de que, com os anos, aprendi a tomar-me mais capaz de ouvir a como um fato em mim. Gostaria de ser capaz de aceitar esses
mim mesmo, de modo que sei melhor do que antigamente o que sentimentos como aceito os sentimentos de entusiasmo, de inte-
estou sentindo num dado momento - que sou capaz de com- resse, de tolerância, de bondade, de compreensão, que também
preender que estou irritado, ou que, de fato, sinto rejeição em são uma parte muito real de mim. É unicamente quando aceito
relação a um indivíduo, ou, pelo contrário, carinho e afeição, ou todas essas atitudes como um fato, como uma parte de mim, que
então, ainda, que me sinto aborrecido e sem interesse pelo que as minhas relações com as outras pessoas se tomam o que são e
está se passando; ou que estou ansioso por compreender um podem crescer e transformar-se com maior facilidade.
indivíduo ou que tenho um sentimento de angústia ou de temor
nas minhas relações com ele. Todas estas diferentes atitudes são Vou agora abordar um aspecto central do que aprendi e que
sentimentos que julgo poder ouvir em mim mesmo. Poder-se-ia se revestiu de grande importância para mim. Pode exprimir-se
dizer, em outras palavras, que tenho a impressão de me ter tor- assim: atribuo um enorme valor ao fato de poder me permitir
nado mais capaz de me deixar ser o que sou. Tomou-se mais compreender uma outra pessoa. A forma como expus esta afir-
fácil para mim aceitar a mim mesmo como um indivíduo irre- mação pode parecer-lhes estranha. Será necessário permitir a si
mediavelmente imperfeito e que, com toda a certeza, nem sem- mesmo compreender outra pessoa? Penso que sim. A nossa pri-
pre atua como eu gostaria de atuar. meira reação à maior parte das afirmações que ouvimos das
Tudo isso pode parecer uma direção muito estranha a seguir. outras pessoas é uma avaliação imediata, é mais um juízo do
Parece-me válida pelo curioso paradoxo que encerra, pois, quan- que uma tentativa de compreensão. Quando alguém exprime
do me aceito como sou, estou me modificando. Julgo que aprendi um sentimento, uma atitude ou uma opinião, nossa tendência é
isso com os meus clientes, bem como através da minha experiên- quase imediatamente sentir: "Está certo", "que besteira", "não
cia pessoal - não podemos mudar, não nos podemos afastar do é normal", "não tem sentido", "não está certo", "não fica bem".
que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Raramente permitimos a nós mesmos compreender precisa-
Então a mudança parece operar-se quase sem ser percebida. mente o que significa para essa pessoa o que ela está dizendo.
Uma outra conseqüência dessa aceitação de mim mesmo é Julgo que esta situação é provocada pelo fato de a compreensão
que as relações se tomam reais. As relações reais têm o caráter implicar um risco. Se me permito realmente compreender uma
22 _Tornar-se pessoa 23
Notas p e s s o a i s · - - - - - - - - - - - - - - - -

outra pessoa, é possível que essa compreensão acarrete uma mim, para que eles possam, se assim o desejarem, revelar-se
alteração em mim. E todos nós temos medo de mudar. Por isso, mais profundamente.
como afirmei, não é fácil permitir a si mesmo compreender Existe na relação terapêutica um determinado número de
outra pessoa, penetrar inteiramente, completa e empaticamente processos para tomar mais fácil ao cliente comunicar-se. Posso,
no seu quadro de referência. É mesmo uma coisa muito rara. com minha própria atitude, criar uma segurança na relação, o
Compreender é duplamente enriquecedor. Quando traba- que toma mais possível a comunicação. Uma sensibilidade na
lho com clientes perturbados, verifico que compreender o mun- compreensão que o vê como ele é para si mesmo e que o aceita
do estranho de uma pessoa psicótica, ou compreender e sentir como tendo tais percepções e sentimentos também auxilia.
as atitudes de um indivíduo que tem a impressão de que a sua Também como professor encontrei o mesmo enriqueci-
vida é demasiado trágica para poder ser suportada, ou com- mento sempre que abri canais por meio dos quais os outros
preender um homem que se sente indigno e inferior- cada uma pudessem se revelar. É por essa razão que tento, muitas vezes
dessas compreensões me enriquece de algum modo. Estas ex- em vão, criar na aula um clima em que se possam exprimir os
periências me modificam, tomam-me diferente e, segundo creio, sentimentos, onde cada um possa ter opiniões diferentes das do
mais sensível. Mas talvez o que mais importa é que a minha professor ou dos colegas. Pedi muitas vezes aos estudantes "fo-
compreensão dessas pessoas permite a elas se modificarem. lhas de reação", nas quais podem se exprimir individual e pes-
Permite-lhes assumir seus próprios temores, os pensamentos soalmente em relação ao curso. Podem indicar se as aulas vão
estranhos, os sentimentos trágicos e os desânimos, tão bem ou não ao encontro das suas necessidades, podem dizer o que
como os seus momentos de coragem, de amor e de sensibilida- sentem em relação ao professor ou apontar as dificuldades pes-
de. E tanto a experiência delas como a minha é que, quando soais que têm com respeito ao curso. Essas folhas de reação não
alguém compreende perfeitamente esses sentimentos, toma-se têm quaisquer efeitos para avaliação. Por vezes, as mesmas au-
possível aceitá-los em si mesmo. Descobre-se, a partir desse las de um curso suscitam experiências diametralmente opostas.
momento, que ocorrem modificações tanto nos sentimentos Um estudante diz: "Sinto uma repulsa indefinível pelo ambien-
quanto na própria pessoa. Quer se trate de compreender uma te da aula." Um outro, estrangeiro, falando sobre a mesma sema-
mulher que crê literalmente que tem na cabeça um gancho com na do mesmo curso, diz: "O método empregado nas aulas parece-
o qual os outros a arrastam, ou de um homem que julga que nin- me o melhor, o mais fecundo e científico. Mas, para pessoas
guém está tão só, tão separado de todos como ele, essa com- como nós que suportamos há muito, muito tempo, o estilo magis-
preensão tem valor para mim. O que, porém, é sobretudo im- tral, o método autoritário, esse novo processo é incompreensível.
portante é que o fato de ser compreendido assume um valor Pessoas como nós estão condicionadas a ouvir o professor, tomar
muito positivo para esses indivíduos. notas passivamente e decorar a bibliografia indicada para o exa-
me. Não é necessário dizer que é preciso muito tempo para nos
Outra aprendizagem tem sido para mim extremamente desembaraçarmos dos nossos hábitos, mesmo se são infecundos
importante: verifiquei ser enriquecedor abrir canais através dos e estéreis." Abrir-me a reações tão claramente opostas foi para
quais os outros possam me comunicar os seus sentimentos, seus mim uma experiência extremamente enriquecedora.
mundos perceptivos particulares. Consciente de que a compreen- Verifiquei que o mesmo acontecia em grupos onde eu era o
são compensa, procuro reduzir as barreiras entre os outros e coordenador ou onde me encaravam como líder. Procurava re-
24 __ Tornar-se pessoa Notas pessoais __ - - - - - - - - - - - - -
25

duzir os motivos de receio ou de defesa para que as pessoas uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramen-
pudessem comunicar livremente o que sentiam. Foi uma expe- te se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma.
riência apaixonante e que me permitiu rever completamente as Descobri que é quando posso aceitar uma outra pessoa, o que
minhas opiniões sobre o que poderia ser a orientação de grupo. significa especificamente aceitar os sentimentos, as atitudes e
Não posso, contudo, alongar-me aqui sobre esta matéria. as crenças que ela tem como elementos reais e vitais que a
constituem, que posso ajudá-la a tomar-se pessoa: e julgo que
Tive ainda uma outra aprendizagem muito importante du- há nisso um grande valor.
rante o meu trabalho em aconselhamento. Posso evocá-la de
uma maneira muito breve: é sempre altamente enriquecedor Poderá ser difícil comunicar a próxima descoberta que fiz.
poder aceitar outra pessoa. Consiste nisto: quanto mais aberto estou às realidades em mim
Verifiquei que aceitar verdadeiramente uma pessoa e seus e nos outros, menos me vejo procurando, a todo custo, remediar
sentimentos não é nada fácil, não mais do que compreendê-la. as coisas. Quanto mais tento ouvir-me e estar atento ao que
Poderei realmente permitir que outra pessoa sinta hostilidade experimento no meu íntimo, quanto mais procuro ampliar essa
em relação a mim? Poderei aceitar sua raiva como uma parte mesma atitude de escuta para os outros, maior respeito sinto
real e legítima de si mesma? Poderei aceitá-la quando ela enca- pelos complexos processos da vida. É esta a razão por que me
ra a vida e seus problemas de uma forma completamente dife- sinto cada vez menos inclinado a remediar as coisas a todo
rente da minha? Poderei aceitá-la quando tem para mim uma custo, a estabelecer objetivos, modelar as pessoas, manipulá-las
atitude positiva, quando me admira e me toma como modelo? e impeli-las no caminho que eu gostaria que seguissem. Sinto-
Tudo isto está englobado na aceitação e não surge facilmente. me muito mais feliz simplesmente por ser eu mesmo e deixar os
Parece-me que é uma atitude cada vez mais freqüente de todos outros serem eles mesmos. Tenho a nítida sensação de que este
nós na nossa cultura acreditar que: "Todas as outras pessoas de- ponto de vista deve parecer muito estranho, quase oriental. Para
viam sentir, pensar e acreditar nas mesmas coisas que eu." que serve a vida se não procurarmos agir sobre os outros? Pa-
Todos nós achamos muito difícil permitir aos nossos filhos, aos ra que serve a vida se não tentarmos moldar os outros aos nossos
nossos pais ou famílias terem uma atitude diferente em relação objetivos? Para que serve a vida se não lhes ensinarmos aquelas
a determinadas questões e problemas. Não queremos permitir coisas que nós pensamos que os outros deviam saber? Para que
que nossos clientes ou nossos alunos tenham uma opinião dife- serve a vida se não os levarmos a agir e a sentir como nós agimos
rente da nossa ou utilizem a sua experiência da maneira pessoal e sentimos? Como se pode conceber um ponto de vista assim tão
que lhes é específica. Numa escala nacional, não queremos per- inativo como o que estou propondo? Tenho certeza que atitudes
mitir que outra nação pense ou reaja de uma forma diferente da como estas serão, em parte, a reação de muitos de vocês.
nossa. Acabei, no entanto, por reconhecer que essas diferenças Contudo, o aspecto paradoxal da minha experiência é que,
que separam os indivíduos, o direito que cada pessoa tem de quanto mais me disponho a ser simplesmente eu mesmo em
utilizar sua experiência da maneira que lhe é própria e de desco- toda a complexidade da vida e quanto mais procuro compreen-
brir o seu próprio significado nela, tudo isto representa as der e aceitar a realidade em mim mesmo e nos outros, tanto
potencialidades mais preciosas da vida. Toda pessoa é uma ilha, mais sobrevêm as transformações. É de fato paradoxal verificar
no sentido muito concreto do termo; a pessoa só pode construir que, na medida em que cada um de nós aceita ser ele mesmo,
28 29
_____ · - - _ Tornar-se pessoa Notas pessoais _ __

esses testemunhos ou de determinar sua significação ou sua uti- encontrado ao longo da minha experiência. Levou-me à elabo-
lidade. ração de teorias para reunir a ordem daquilo que já tinha sido
vivido e para projetar essa ordem em novos campos por explo-
Depois do que acabo de dizer, não ficarão surpreendidos rar onde poderia ser mais uma vez posta à prova.
com uma outra descoberta minha que passo a descrever: a expe- Foi assim que acabei por considerar tanto a investigação
riência é, para mim, a suprema autoridade. A minha própria científica quanto o processo da construção teórica como volta-
experiência é a pedra de toque de toda a validade. Nenhuma dos para a ordem interna das experiências significativas. A
idéia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas pró- investigação é o esforço persistente e disciplinado para enten-
prias idéias, tem a autoridade de que se reveste minha experiên- der e ordenar os fenômenos da experiência subjetiva. Sua justi-
cia. É sempre à experiência que eu regresso, para me aproximar ficativa encontra-se no fato de ser satisfatório percebermos o
cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim. mundo como algo ordenado e por que a compreensão das rela-
Nem a Bíblia, nem os profetas- nem Fremi, nem a investiga- ções ordenadas que se manifestam na natureza conduz a resul-
ção, nem as revelações de Deus ou dos homens - podem ganhar tados enriquecedores.
precedência relativamente à minha própria experiência direta. Pude, pois, reconhecer que a razão pela qual me dedico à
Minha experiência reveste-se da maior autoridade à medi- investigação e à elaboração de teorias é a satisfação de uma
da que se toma mais "primária", para empregar um termo da necessidade de captar ordem e significado, necessidade subjeti-
semântica, pois é no seu nível inferior que a hierarquia da expe- va que existe em mim. Em determinados momentos, dediquei-
riência apresenta o maior caráter de autoridade. Se leio um me à investigação por outros motivos: para satisfazer os outros,
estudo teórico de psicoterapia, se formulo uma teoria de psico- para convencer adversários e pessoas céticas, para avançar na
terapia baseada no meu trabalho com clientes, se tenho uma minha profissão, para conquistar prestígio, e por outras razões
experiência direta de psicoterapia com um cliente, então o grau menos nobres. Esses erros na minha capacidade de julgar e na
de autoridade cresce na mesma ordem em que foram relaciona- minha atividade apenas me serviram para ficar convencido de
das as citadas experiências. que só existe uma razão para prosseguir a atividade científica: a
Vejamos uma outra aprendizagem pessoal: gosto de desco- satisfação da necessidade que em mim existe de encontrar uma
brir ordem na experiência. Parece-me inevitável procurar uma significação.
significação, uma ordem e uma lei em toda acumulação de ex-
periência. Foi esse tipo de curiosidade, à que me entrego com Uma outra aprendizagem que me foi dificil reconhecer
muita satisfação, que me levou a cada uma das formulações que pode resumir-se em quatro palavras: os fatos são amigos.
apresentei. Foi essa curiosidade que me levou a procurar uma Sempre me despertou interesse que a maioria dos psicote-
determinada ordem no enorme amontoado de dados clínicos rapeutas, de modo particular os psicanalistas, se recusassem a
sobre a criança, incitando-me a publicar o meu livro The Clini- efetuar um estudo científico da sua terapia ou a permitir que
cai Treatment of the Problem Child. Levou-me a formular os outros o fizessem. Sou capaz de compreender essa reação por-
princípios gerais que julgo serem operantes em psicoterapia, que eu próprio a experimentei. Especialmente nas nossas pri-
coisa de que dão testemunho inúmeros livros e artigos. Levou- meiras investigações, recordo-me da ansiedade que sentia en-
me à pesquisa para testar os diferentes tipos de leis que creio ter quanto aguardava que surgissem os primeiros resultados. Supo-
30 ____ Tornar-se pessoa 31
Notas pessoais__ _ ____

nhamos que nossas hipóteses fossem refutadas! Suponhamos o mais íntimo, o mais pessoal e, por conseguinte, o menos com-
que nos havíamos enganado nos nossos pontos de vista! Supo- preensível para os outros, acabava por mostrar ser uma expres-
nhamos que nossas opiniões não se justificassem! Naqueles são que encontrava eco em muitas outras pessoas. Acabei por
momentos, olhando para trás, era como se eu considerasse os chegar à conclusão de que aquilo que há de único e de mais pes-
fatos inimigos potenciais, possíveis mensageiros de desgraça. soal em cada um de nós é o mesmo sentimento que, se fosse
Levei sem dúvida muito tempo até me convencer de que os partilhado ou expresso, falaria mais profundamente aos outros.
fatos são sempre amigos. O mínimo esclarecimento que consi- Isso permitiu-me compreender os artistas e os poetas como pes-
gamos obter, seja em que domínio for, aproxima-nos muito mais soas que ousam exprimir o que há de único neles.
do que é a verdade. Ora, aproximar-se da verdade nunca é pre- Resta-me indicar uma lição que aprendi e que está, talvez,
judicial, nem perigoso, nem incômodo. É essa a razão por que, na base de tudo quanto venho dizendo. Ela se impôs a mim ao
embora ainda deteste ter de rever minhas opiniões, abandonar longo desses vinte e cinco anos em que tentei ser de algum
minha maneira de compreender ou de conceituar, acabei no en- préstimo para indivíduos com perturbações pessoais. A lição é
tanto por reconhecer, numa grande medida e num nível mais simplesmente esta: a experiência mostrou-me que as pessoas
profundo, que essa penosa reorganização é o que se chama apren- têm fundamentalmente uma orientação positiva. Nos meus
der e que, por mais desagradável que seja, conduz sempre a uma contatos mais profundos com indivíduos em psicoterapia, mes-
apreensão mais satisfatória, porque muito mais adequada da mo com aqueles cujos distúrbios eram mais perturbadores, cujos
vida. Assim, atualmente, um dos objetos de reflexão e de espe- sentimentos pareciam muito anormais, a afirmação continua
culação que está a me tentar cada vez mais é um terreno no qual sendo verdadeira. Quando consigo afetivamente compreender
as minhas idéias preferidas não me parecem provadas pelos os sentimentos que exprimem, quando sou capaz de aceitá-los
fatos. Sinto que, se conseguir abrir um caminho através do pro- como pessoas separadas em todo seu direito, nessa altura vejo
blema, me aproximarei muito mais plenamente da verdade. que tendem a orientar-se em determinadas direções. E quais são
Tenho a certeza de que os fatos serão meus amigos. essas direções que os seus movimentos subentendem? As pala-
vras que julgo descreverem com maior veracidade essa direção
Importa agora citar uma das minhas descobertas mais enri- são: positiva, construtiva, tendente à auto-realização, progre-
quecedoras, e isto porque ela me faz sentir mais próximo dos dindo para a maturidade e para a socialização. Acabei por me
outros. Poder-se-ia exprimir assim: aquilo que é mais pessoal é convencer de que quanto mais um indíviduo é compreendido e
o que há de mais geral. Aconteceu-me diversas vezes que, ao aceito, maior sua tendência para abandonar as falsas defesas
falar com colegas ou com estudantes, ou ao escrever, me expri- que empregou para enfrentar a vida, maior sua tendência para
mia de uma maneira tão pessoal que tinha a impressão de estar se mover para a frente.
exprimindo uma atitude que, provavelmente, ninguém com- Não gostaria de ser mal compreendido. Não tenho uma
preenderia, porque era unicamente minha. Dois escritos meus visão ingenuamente otimista da natureza humana. Tenho per-
podem servir como exemplo desse fato: o prefácio de Client- feita consciência do fato de que, pela necessidade de se defen-
Centered Therapy (considerado inconveniente pelos editores) e der dos seus terrores íntimos, o indivíduo pode vir a se compor-
um artigo intitulado "Persons or Science". Em casos semelhan- tar e se comporta de uma maneira incrivelmente feroz, horroro-
tes, descobri quase sempre que o sentimento que me parecia ser samente destrutiva, imatura, regressiva, anti-social, prejudicial!
32 _ Tornar-se pessoa

Mas um dos aspectos mais animadores e revigorantes da minha Segunda Parte


experiência é o trabalho que levo a cabo com indivíduos desse
gênero, e a descoberta das tendências orientadas muito positi- Como poderei ajudar os outros?
vamente existentes neles todos, e em todos nós, nos níveis mais
profundos.
Descobri uma maneira de trabalhar com as pes-
soas que parece fecunda em potencialidades
Permitam-me concluir essa longa lista com uma última des- constitutivas.
coberta, que pode exprimir-se de maneira breve como segue: a
vida, no que tem de melhor, é um processo que flui, que se altera
e onde nada está fixo. É nos meus clientes e em mim mesmo que
descubro que a vida é mais rica e mais fecunda quando aparece
como fluxo e como processo. Essa descoberta provoca uma fas-
cinação e, ao mesmo tempo, um certo temor. Quando me deixo
levar pelo fluir da minha experiência que me arrasta para a fren-
te, para um fim de que estou vagamente consciente, é então que
me sinto melhor. Nesse flutuar ao sabor da corrente complexa
das minhas experiências, tentando compreender a sua complexi-
dade em permanente alteração, toma-se evidente que não exis-
tem pontos fixos. Quando consigo abandonar-me completamen-
te a esse processo, é claro que não pode haver para mim nenhum
sistema fechado de crenças, nenhum campo imutável de princí-
pios a que me agarrar. A vida é orientada por uma compreensão
e por uma interpretação variáveis da minha experiência. A vida
é sempre um processo de devir.
Penso que é possível agora ver claramente por que razão
não existe filosofia, crença ou princípios que eu possa encora-
jar ou persuadir os outros a terem ou a alcançarem. Não posso
fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria inter-
pretação da presente significação da minha experiência, e ten-
tar dar aos outros a permissão e a liberdade de desenvolverem a
sua própria liberdade interior para que possam atingir uma in-
terpretação significativa da sua própria experiência.
Se existe uma verdade, este livre processo individual deve-
rá, assim o creio, convergir para ela. E, dentro de certos limites,
parece-me ter sido isto o que vivi.
Capítulo2
Algumas hipóteses com relação à facilitação
do crescimento pessoal

Os três capítulos que constituem a Segunda Parte abarcam


um período de seis anos, de 1954 a 1960. Curiosamente, eles
transpõem um grande segmento do país dado o local onde
foram apresentados- Oberlin, Ohio; St. Louis, Missouri; e Pa-
sadena, Califórnia. Também cobrem um período em que muita
pesquisa vinha se acumulando, de maneira que as afirmações
proferidas de forma experimental no primeiro trabalho são fir-
memente confirmadas ao tempo do terceiro trabalho.
Na seguinte palestra apresentada em Oberlin College em
1954, tentava condensar no tempo mais breve possível os prin-
cípios fundamentais de psicoterapia que foram expostos de
forma mais delongada em meus livros Counseling and Psyco-
therapy (1942) e Client Centered Therapy (1951). Interessa-me
apresentar a relação de facilitação, e os resultados, sem refe-
rir-me à descrição do processo por meio do qual a mudança
ocorre, ou mesmo a comentários sobre o mesmo.

Estar frente a frente com uma pessoa perturbada e em con-


flito, que está procurando e esperando ajuda, sempre constituiu
para mim um grande desafio. Será que eu disponho do conhe-
cimento, dos recursos, da força psicológica, da habilidade- ou
do que quer que seja necessário para ajudar este indivíduo?
36 __ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? 37

Por mais de vinte e cinco anos venho tentando responder a Talvez devesse começar por um aprendizado negativo. Fui
esse tipo de desafio. Isso fez com que recorresse a todos os ele- me dando conta de maneira gradual de que não posso oferecer
mentos de minha formação profissional: os rigorosos métodos ajuda a esta pessoa perturbada por meio de qualquer procedi-
de medição de personalidade que aprendi pela primeira vez no mento intelectual ou de treinamento. Nenhuma abordagem que
Teacher's College, Colúmbia; os insights e métodos psicanalí- se baseie no conhecimento, no treinamento, na aceitação de
ticos freudianos do Instituto para Orientação da Criança, onde algo que é ensinado, se mostra útil. Estas abordagens parecem
trabalhei como interno; os desenvolvimentos contínuos na área tão tentadoras e diretas que, no passado, fiz uso de muitas
de psicologia clínica, com a qual estou estreitamente associa- delas. É possível explicar uma pessoa a si mesma, prescrever
do; a exposição mais breve ao trabalho de Otto Rank, aos mé- passos que devem conduzi-la para frente, treiná-la em conheci-
todos de trabalho social psiquiátrico, e outros recursos dema- mentos sobre um modo de vida mais satisfatório. Porém tais
siado numerosos para serem mencionados. Porém, mais do que métodos se mostram, em minha experiência, fúteis e inconse-
tudo, isto significou um aprendizado contínuo a partir de mi- qüentes. O máximo que podem alcançar é alguma mudança tem-
nhas próprias experiências e daquela de meus colegas do Cen- porária, que logo desaparece, deixando o indivíduo mais do
tro de Aconselhamento, à medida que tentamos descobrir por que nunca convencido de sua inadequação.
nós mesmos meios eficazes de trabalhar com pessoas pertur- O fracasso de quaisquer destas abordagens através do in-
badas. Gradualmente, desenvolvi uma maneira de trabalhar que telecto me forçou a reconhecer que a mudança parece surgir
se origina dessa experiência, e que pode ser testada, refinada e por meio da experiência em uma relação. Dessa forma, estou
remodelada por experiências e pesquisas adicionais. tentando afirmar de forma muito breve e informal, algumas das
hipóteses essenciais relativas a uma relação de ajuda que pare-
Uma hipótese geral ceu angariar confirmação crescente tanto a partir de experiên-
cia quanto de pesquisa.
Uma maneira breve de descrever a mudança que se efe-
Posso enunciar a hipótese geral em uma sentença, como se
tuou em mim seria dizer que nos primeiros anos de minha car-
segue. Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra
reira profissional eu me fazia a pergunta: Como posso tratar ou
pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação
curar, ou mudar essa pessoa? Agora eu enunciaria a questão
para crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão.
desta maneira: Como posso proporcionar uma relação que essa
pessoa possa utilizar para seu próprio crescimento pessoal?
A relação
Foi quando cheguei a colocar a questão desta segunda ma-
neira que percebi que o que quer que tenha aprendido é aplicá- Mas o que estes termos significam? Deixe-me tomar sepa-
vel a todos às minhas relações humanas, não só ao trabalho radamente as três frases principais nesta sentença e indicar
com clientes com problemas. É por esta razão que sinto ser algo do significado que elas encerram para mim. Qual é esse
possível que os aprendizados que tiveram significado para mim certo tipo de relação que gostaria de proporcionar?
em minha experiência podem ter algum significado para você Descobri que quanto mais conseguir ser genuíno na rela-
em sua experiência, já que todos nós estamos envolvidos em ção, mais útil esta será. Isso significa que devo estar consciente
relações humanas. de meus próprios sentimentos, o mais que puder, ao invés de
38 Como poderei ajudar os outros? _ __ 39
_Tornar-se pessoa

apresentar uma fachada externa de uma atitude, ao mesmo que parecem tão terríveis para você, ou tão fracos, ou tão senti-
tempo em que mantenho uma outra atitude em um nível mais mentais, ou tão bizarros - é somente quando eu os vejo como
profundo ou inconsciente. Ser genuíno também envolve a dis- você os vê, e os aceito como a você, que você se sente realmen-
posição para ser e expressar, em minhas palavras e em meu te livre para explorar todos os cantos recônditos e fendas assus-
comportamento, os vários sentimentos e atitudes que existem tadoras de sua experiência interior e freqüentemente enterrada.
em mim. É somente dessa maneira que o relacionamento pode Essa liberdade constitui uma condição importante da relação.
ter realidade, e realidade parece ser profundamente importante Aqui está implicada uma liberdade para explorar a si próprio
como uma primeira condição. É somente ao apresentar a reali- tanto em níveis conscientes quanto inconscientes, o mais rápi-
dade genuína que está em mim, que a outra pessoa pode procu- do que se puder embarcar nessa busca perigosa. Há também
rar pela realidade em si com êxito. Descobri que isto é verdade uma liberdade completa de qualquer tipo de avaliação moral
mesmo quando as atitudes que sinto não são atitudes com as ou diagnóstica, já que todas estas avaliações são, a meu ver,
quais estou satisfeito, ou atitudes que parecem conducentes a sempre ameaçadoras.
uma boa relação. Parece extremamente importante ser real. Dessa forma, a relação que considerei útil é caracterizada
Como uma segunda condição, acho que quanto mais acei- por um tipo de transparência de minha parte, onde meus senti-
tação e apreço sinto com relação a esse indivíduo, mais estarei mentos reais se mostram evidentes; por uma aceitação desta
criando uma relação que ele poderá utilizar. Por aceitação, outra pessoa como uma pessoa separada com valor por seu
quero dizer uma consideração afetuosa por ele enquanto uma próprio mérito; e por uma compreensão empática profunda
pessoa de autovalia incondicional - de valor, independente de que me possibilita ver seu mundo particular através de seus
sua condição, de seu comportamento ou de seus sentimentos. olhos. Quando essas condições são alcançadas, tomo-me uma
Significa um respeito e apreço por ele como uma pessoa sepa- companhia para o meu cliente, acompanhando-o nessa busca
rada, um desejo de que ele possua seus própios sentimentos à assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para in-
sua própria maneira. Significa uma aceitação de suas atitudes gressar.
no momento ou consideração pelas mesmas, independente de Nem sempre sou capaz de alcançar esse tipo de relaciona-
quão negativas ou positivas elas sejam, ou de quanto elas pos- mento com o outro, e algumas vezes, mesmo quando sinto tê-
sam contradizer outras atitudes que ele sustinha no passado. lo alcançado em mim mesmo, a outra pessoa pode estar dema-
Essa aceitação de cada aspecto flutuante desta outra pessoa siado assustada para perceber o que lhe está sendo oferecido.
constitui para ela uma relação de afeição e segurança, e a segu- Mas eu diria que quando sustenho em mim o tipo de atitude
rança de ser querido e prezado como uma pessoa parece ser um que descrevi, e quando a outra pessoa pode até certo grau
elemento sumamente importante em uma relação de ajuda. vivenciar estas atitudes, então eu acredito que a mudança e o
Também acho que a relação é significativa na medida em desenvolvimento pessoal construtivo ocorrerão invariavelmen-
que sinto um desejo contínuo de compreender - uma empatia te e eu incluo a palavra "invariavelmente" apenas após longa e
sensível com cada um dos sentimentos e comunicações do cuidadosa consideração.
cliente como estes lhe parecem no momento. Aceitação não
significa muito até que esta envolva a compreensão. É somen-
te à medida que compreendo os sentimentos e pensamentos
40 ~----~ - - - Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? _ 41

A motivação para a mudança Os resultados


Aqui encerramos a parte que concerne a relação. A segun- Tentei descrever a relação que é básica para a mudança
da frase em minha hipótese geral era que o indivíduo descobri- construtiva da personalidade. Procurei traduzir em palavras o
rá dentro de si a capacidade de utilizar essa relação para cres- tipo de capacidade que o indivíduo traz para esta relação. A ter-
cer. Tentarei apontar algo do significado que esta frase encerra ceira frase de minha afirmação geral era que a mudança e o
para mim. Gradualmente, minha experiência me fez concluir desenvolvimento pessoal ocorreriam. Minha hipótese é que
que o indivíduo traz dentro de si a capacidade e a tendência, nessa relação o indivíduo se organizará tanto no nível conscien-
latente se não evidente, para caminhar rumo à maturidade. Em te quanto naqueles mais profundos de sua personalidade de
um clima psicológico adequado, essa tendência é liberada, tor- maneira a enfrentar sua vida de uma forma mais construtiva,
nando-se real ao invés de potencial. Isto se mostra evidente na mais inteligente, assim como mais socializada e satisfatória.
capacidade do indivíduo para compreender aqueles aspectos Aqui posso deixar a especulação e incluir o corpo cada
da vida e de si mesmo que lhe estão causando dor e insatisfa- vez maior de dados consistentes de pesquisa que se vêm acu-
ção, uma compreensão que investiga, por detrás do conheci- mulando. Sabemos agora que os indivíduos que experienciam
mento consciente de si mesmo, aquelas experiências que es- essa relação mesmo por um número relativamente limitado de
condeu de si devido à sua natureza ameaçadora. Isso se revela horas apresentam profundas e significativas mudanças em per-
na tendência para reorganizar sua personalidade e sua relação sonalidade, atitudes e comportamento, mudanças que não ocor-
com a vida em maneiras que são tidas como mais maduras. rem em grupos de controle combinados. Nesse relacionamen-
Seja chamando a isto uma tendência ao crescimento, uma pro- to, o indivíduo se torna mais integrado, mais efetivo. Exibe
pensão rumo à auto-realização ou uma tendência direcionada menos daquelas características que são normalmente intitula-
para frente, esta constitui a mola principal da vida, e é, em últi- das neuróticas ou psicóticas, e mais daquelas características da
ma análise, a tendência de que toda a psicoterapia depende. É a pessoa sadia e em bom funcionamento. Ele muda a percepção
necessidade que se faz evidente em toda a vida orgânica e hu- que tem de si mesmo, tornando-se mais realista em suas visões
mana- de expandir, estender, tornar-se autônoma, desenvol- do eu. Torna-se mais semelhante à pessoa que deseja ser. Ele se
ver, amadurecer - a tendência de expressar e ativar todas as valoriza mais. Mostra-se mais autoconfiante e autodirigido.
capacidades do organisno, ao ponto em que tal ativação apri- Apresenta uma melhor compreensão de si mesmo, tornando-se
more o organismo ou a pessoa. Essa tendência pode se tornar mais aberto à sua experiência, negando ou reprimindo menos a
profundamente oculta sob camadas de defesas psicológicas mesma. Torna-se mais aceitador em suas atitudes com relação
incrustadas que se sobrepõem; pode estar escondida atrás de aos outros, vendo-os como mais semelhantes a si mesmo.
fachadas elaboradas que negam sua existência; porém suste- Em seu comportamento exibe mudanças similares. Mos-
nho que ela existe em cada indivíduo, e aguarda somente pelas tra-se menos frustrado pelo estresse, recuperando-se do mesmo
condições apropriadas para ser liberada e expressa. mais rapidamente. Torna-se mais maduro em seu comporta-
mento cotidiano, sendo isto observado pelos amigos. É menos
defensivo, mais adaptativo, mais apto a enfrentar situações de
forma criativa.
42 ___ Tornar-se pessoa 43
Como poderei ajudar os outros?

Essas são algumas das mudanças que, como já sabemos Conclusão


agora, emergem em indivíduos que completaram uma série de
entrevistas de aconselhamento nas quais a atmosfera psicológica Deixe-me concluir retornando a uma afirmação pessoal.
se aproxima à relação que descrevi. Cada uma das afirmações Tenho procurado compartilhar com o leitor algo daquilo que
feitas se baseia em evidências objetivas. É necessário muito aprendi ao tentar ajudar os indivíduos perturbados, infelizes e
mais pesquisa, mas não há mais qualquer dúvida quanto à eficá- mal-ajustados. Formulei uma hipótese que gradualmente co-
cia dessa relação na produção da mudança de personalidade. meçou a ganhar sentido para mim - não só em minhas relações
com clientes perturbados, mas em todas as minhas relações hu-
manas. Tenho apontado para o fato de que os dados de pesqui-
Uma hipótese ampla das relações humanas
sa de que dispomos apóiam minha hipótese, mas ainda muita
Para mim, o interessante nesses achados de pesquisa não é investigação se faz necessária. Gostaria agora de condensar em
simplesmente o fato de que conferem evidência quanto à eficá- uma afirmação as condições dessa hipótese geral, e os efeitos
cia de uma forma de psicoterapia, embora isto não deixe de especificados.
forma alguma de ser relevante. O interesse provém do fato des-
ses achados justificarem uma hipótese até mais abrangente Se eu posso criar uma relação caracterizada da minha parte:
com respeito a todas as relações humanas. Há todas as razões por uma autenticidade e transparência, em que eu sou meus
para se supor que a relação terapêutica constitui apenas um sentimentos reais;
por uma aceitação afetuosa e apreço pela outra pessoa como
exemplo de relações humanas, e que a mesma legitimidade
um indivíduo separado;
rege todas estas relações. Dessa forma, parece razoável levan-
por uma capacidade sensível de ver seu mundo e a ele como
tar a hipótese de que se os pais criarem com seu filho um clima ele os vê;
psicológico do tipo que descrevemos, então a criança se torna- Então o outro indivíduo na relação:
rá mais autodirigida, socializada e madura. À medida que o experienciará e compreenderá aspectos de si mesmo que ha-
professor criar essa relacão com a classe, o estudante se torna- via anteriormente reprimido;
rá um aluno com mais auto-iniciativa, mais original, mais auto- dar-se-á conta de que está se tomando mais integrado, mais
disciplinado, menos ansioso e direcionado pelos outros. Se o apto a funcionar efetivamente;
administrador, ou líder militar ou industrial, criar esse clima tomar-se-á mais semelhante à pessoa que gostaria de ser;
dentro de sua organização, então sua equipe se tornará mais será mais autodiretivo e autoconfiante;
realizar-se-á mais enquanto pessoa, sendo mais único e auto-
auto-responsável, mais criativa, mais apta a adaptar-se a novos
expressivo;
problemas, e basicamente mais colaboradora. Parece-me pos-
será mais compreensivo, mais aceitador com relação aos ou-
sível que estejamos testemunhando a emergência de uma nova
tros;
área das relações humanas, na qual podemos especificar que estará mais apto a enfrentar os problemas da vida adequada-
dada a existência de certas condições de atitude, então a ocor- mente e de forma mais tranqüila.
rência de determinadas mudanças definíveis se dará.
Acredito que essa afirmação seja válida, quer tratando-se
de minha relação com um cliente, com um grupo de estudantes
44 _Tornar-se pessoa

ou empresários, com minha famíla ou filhos. Parece-me que Capítulo 3


temos aqui uma hipótese geral que oferece possibilidades em-
polgantes para o desenvolvimento de pessoas criativas, adapta-
As características de uma relação de ajuda
tivas e autônomas.

Tenho há muito tempo a profunda convicção - que alguns


diriam ser obsessão em mim - de que a relação terapêutica é
apenas uma forma da relação interpessoal em geral, e que as
mesmas leis regem todas as relações desse tipo. Foi esse o tema
que escolhi tratar quando me convidaram a fazer uma comuni-
cação no congresso da American Personnel and Guidance As-
sociation, de St. Louis, em 1958.
Este artigo torna patente a dicotomia existente entre o
objetivo e o subjetivo, conceito que teve um papel extremamen-
te importante ao longo dos meus últimos anos de experiências.
Encontrei muitas dificuldades em elaborar uma exposição com-
pletamente objetiva ou completamente subjetiva. Agrada-me jus-
tapor estes dois universos, mesmo que não consiga reconciliá-
los plenamente.

Meu interesse pela psicoterapia gerou meu interesse por


toda espécie de relação de ajuda. Entendo por esta expressão
uma relação na qual pelo menos uma das partes procura promo-
ver na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade,
um melhor funcionamento e uma maior capacidade de enfren-
tar a vida. O outro, nesse sentido, pode ser quer um indivíduo,
quer um grupo. Em outras palavras, a relação de ajuda pode ser
46 47
_____ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? _ _ _ __

definida como uma situação na qual um dos participantes pro- A questão


cura promover numa ou noutra parte, ou em ambas, uma maior
Mas quais são as características dessas relações que de fato
apreciação, uma maior expressão e uma utilização mais funcio-
ajudam, que de fato facilitam o crescimento? No outro extremo
nal dos recursos internos latentes do indivíduo.
É, no entanto, claro que uma definição desse gênero abrange da escala, será possível definir as características que fazem
toda uma série de relações cujo objetivo geral é facilitar o cresci- com que certas relações não ajudem, mesmo se nelas está pre-
mento. Ela inclui, sem sombra de dúvida, as relações da mãe ou sente um sincero desejo de promover o crescimento e o desen-
do pai com seu filho, ou a relação do médico com o doente. A volvimento? É para responder a essas questões, principalmente
relação entre o professor e os alunos cai muitas vezes no âmbito à primeira, que gostaria que me acompanhassem nos caminhos
dessa definição, embora certos professores não tenham como que explorei e indicar-lhes o ponto em que me encontro nas
objetivo facilitar o crescimento. A definição aplica-se à quase minhas reflexões sobre esses problemas.
totalidade das relações terapeuta-cliente, quer se trate da orienta-
ção educacional, da orientação vocacional ou do aconselhamento
pessoal. Nesta última extensão do termo, a relação de ajuda com- As respostas dadas pela investigação
preenderia toda a gama das relações entre o psicoterapeuta e o
psicótico hospitalizado, o terapeuta e o indivíduo perturbado ou É natural que se comece por perguntar se existe uma inves-
neurótico, e as relações entre o terapeuta e o número crescente dos tigação experimental que possa nos oferecer uma resposta obje-
chamados indivíduos "normais" que se submetem ao tratamento tiva a essas questões. Poucos estudos foram feitos neste do-
terapêutico com o objetivo de melhorar seu próprio funciona- mínio, até o presente, mas os que se fizeram são animadores e
mento ou de acelerar sua maturação pessoal.
sugestivos. Não me é possível tratar de todos, mas gostaria de
Todas essas são principalmente relações entre duas pes-
enumerar uma amostragem suficientemente ampla dos traba-
soas. Não devemos, no entanto, esquecer o elevado número de
lhos efetuados e expor, de uma maneira breve, alguns dos resul-
interações indivíduo--grupo que procuram ser relações de ajuda.
Existem administradores que procuram estabelecer com o seu tados obtidos. Ao proceder assim, é necessário simplificar, e
pessoal relações que promovam o crescimento, enquanto outros estou perfeitamente consciente de não fazer a devida justiça às
não se interessam por esse objetivo. É aqui que se insere a inte- investigações que vou mencionar, mas talvez isso seja suficien-
ração entre o coordenador da terapia em grupo e o seu grupo. O te para que percebam os reais progressos e para excitar a sua
mesmo acontece nas relação entre aquele que aconselha uma curiosidade o bastante para levá-los a examinar esses mesmos
comunidade e essa mesma comunidade. A interação entre o con- estudos, se por acaso ainda não o fizeram.
sultor industrial e um grupo de diretores assume progressiva-
mente a forma de relação de ajuda. Talvez essa enumeração sir- Estudos de atitudes
va para provar que uma grande parte das relações nas quais nós
e os outros estamos envolvidos entram nessa categoria de inte- A maior parte dos estudos realizados são esclarecedores
rações em que existe o propósito de promover o desenvolvimen- das atitudes da pessoa que ajuda, atitudes que nessa relação fa-
to e um funcionamento mais maduro e mais adequado. vorecem ou, pelo contrário, inibem o crescimento. Vejamos al-
guns deles.
48 Como poderei ajudar os outros? 49
- - - · Tornar-se pessoa

Um estudo cuidadoso das relações pais-filhos foi há al- sete cujos pacientes tinham manifestado menor progresso. Ca-
guns anos realizado no Fels Institute por Baldwin e outros ( 1), da um dos dois grupos havia tratado cerca de cinqüenta pacien-
estudo que encerra interessantes informações. Entre os diferen- tes. Os investigadores examinaram todas as causas suscetíveis
tes agrupamentos de atitudes dos pais para com os filhos, são as de explicar em que é que o grupo A (o grupo bem-sucedido) era
atitudes de "aceitação democrática" as que parecem melhor fa- diferente do grupo B. E encontraram diversas diferenças signi-
vorecer o crescimento. As crianças, quando são tratadas pelos ficativas. Os médicos do grupo A tendiam a ver o esquizofrêni-
pais com afeto e de igual para igual, revelam um desenvolvi- co em termos da significação pessoal que determinados com-
mento intelectual acelerado (QI mais elevado), maior originali- portamentostinham para o doente, de preferência a vê-lo como
dade, maior segurança e controle emocional, menor excitabilida- um caso clínico ou um diagnóstico descritivo. Além disso, seu
de, do que as crianças que provêm de outros tipos de família. trabalho estava orientado para a personalidade do paciente,
Embora o seu desenvolvimento social fosse de início mais len- mais do que para a atenuação dos sintomas ou para a cura da
to, tornavam-se freqüentemente, quando atingiam a idade esco- doença. Ficou assim estabelecido que, na sua interação cotidia-
lar, líderes populares, amigáveis e não agressivos. na, os médicos do grupo A tinham recorrido sobretudo a uma
Quando as atitudes dos pais são classificadas como sendo participação pessoal ativa - uma relação de pessoa a pessoa.
de "rejeição ativa", as crianças manifestam um leve retarda- Tinham feito menos uso de processos que se poderiam classifi-
mento no seu desenvolvimento intelectual, uma utilização rela- car como "passivos e permissivos". Fizeram ainda menos uso
tivamente pobre das suas capacidades e uma certa falta de origi- de· processos tais como a interpretação, a instrução ou os conse-
nalidade. Essas crianças são emocionalmente instáveis rebel- lhos ou ainda outros, orientados para os cuidados materiais em
des, agressivas e agitadas. Os filhos de pais que apr~sentam relação ao doente. Por último, ter-se-iam mostrado muito mais
outras síndromes de atitude tendem a situar-se entre estes dois aptos do que os médicos do grupo B em conseguir estabelecer
extremos. com o doente uma relação que permitisse a este confiar no seu
Estou certo de que essas conclusões não surpreendem no médico.
que se refere ao desenvolvimento infantil. Gostaria no entanto Os autores, no entanto, sublinham prudentemente que es-
de lhes sugerir que elas provavelmente também se aplicam a sas conclusões só se aplicam ao tratamento dos esquizofrêni-
outras relações, e que o psicoterapeuta, o médico ou o adminis- cos, afirmação da qual estou inclinado a discordar. Desconfio
trador que se mostra caloroso e expressivo, respeitador da pró- que semelhantes observações poderão ser feitas num estudo de
pria individualidade e da do outro, que se interessa sem ser pos- investigação sobre a maioria dos tipos de relações de ajuda.
sessivo, provavelmente facilita a auto-realização através dessas Um outro estudo interessante focaliza a maneira como a
atitudes, tal como os pais. pessoa que recebe a ajuda apreende a relação. Heine (11) estu-
Voltemos agora nossa atenção para um outro estudo pro- dou indivíduos que haviam recebido ajuda psicoterapêutica de
fundo realizado num campo muito diferente. Whitehom e Betz psicanalistas, de terapeutas centrados no cliente e de adleria-
(2, 18) estudaram o sucesso alcançado por jovens médicos in- nos. Fosse qual fosse a forma da terapia, esses clientes verifica-
ternos no seu trabalho com pacientes esquizofrênicos numa ram em si mesmos análogas transformações. Mas o que aqui
enfermaria psiquiátrica. Escolheram para essa investigação os nos interessa de modo particular é a sua captação da relação
sete internos que tinham sido claramente de maior ajuda e os com os terapeutas. Quando se lhes perguntava a que eram devi-
50 ___ __ Tomar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? 51

das essas transformações, davam diferentes explicações que de- vas do cliente é essencialmente uma atitude de desejo de com-
pendiam da orientação do terapeuta, mas o mais significativo preender. Quinn ofereceu aos seus peritos apenas gravações de
era que todos estavam de acordo sobre os principais fatores que frases pronunciadas por terapeutas durante entrevistas. Os ava-
tinham achado benéficos. Indicavam que os seguintes elementos liadores não tinham qualquer conhecimento daquilo a que o
atitudinais na relação com o terapeuta eram responsáveis pelas terapeuta respondia, nem da reação do cliente às suas respostas.
modificações neles verificadas: a confiança que tinham sentido Mesmo assim, viu-se que era possível julgar o grau de com-
preensão por meio dessas gravações com tanta segurança como
no seu terapeuta; o fato de terem sido compreendidos por ele; o
se estivessem ouvindo a resposta no seu contexto. Esse fato
sentimento de independência que tiveram ao fazer opções e
mostra conclusivamente que é a atitude de querer compreender
tomar decisões. O procedimento do terapeuta que consideravam
que é comunicada.
de maior ajuda era o de este clarificar e exprimir abertamente o
Quanto à qualidade afetiva da relação, Seeman ( 16) con-
que o paciente abordara vagamente e com hesitação.
clui que o bom resultado em psicoterapia está intimamente liga-
Por outro lado, esses pacientes estavam amplamente de
do à simpatia e ao respeito crescente que se estabelecem entre
acordo, fosse qual fosse a orientação do seu terapeuta, sobre os cliente e terapeuta.
elementos desfavoráveis na relação. A falta de interesse, uma ati- Um interessante estudo de Dittes (4) indica como é delica-
tude distante e que afastava, ou ainda uma simpatia excessiva, da essa relação. Utilizando um método fisiológico, o reflexo
eram fatores tidos como desfavoráveis. Quanto aos procedimen- psicogalvânico, para medir as reações de ansiedade, de temor
tos, consideravam desfavoráveis aqueles em que o terapeuta dava ou de alerta no seu cliente, Dittes estabeleceu as correlações
conselhos diretos e precisos ou em que concedia uma grande entre os desvios segundo essas medidas e as apreciações dos
importância ao passado em vez de enfrentar os problemas atuais. avaliadores sobre o grau de aceitação calorosa e de permissivi-
Os conselhos dados como simples sugestões eram captados co- dade por parte do terapeuta. Verificou que sempre que a atitude
mo pertencentes a uma zona intermediária: não eram nem com- do terapeuta tende, mesmo ligeiramente, para um menor grau
pletamente de ajuda, nem eram de todo inúteis. aceitação, o número de desvios bruscos da resposta psicogalvâ-
Fiedler, num estudo freqüentemente citado (7), observa nica sofre um aumento significativo. É claro que, quando a
que os terapeutas experientes, de diferentes orientações, susten- aceitação é sentida como mais fraca, o organismo organiza sua
tavam relações similares com seus clientes. São bem menos defesa contra a ameaça, mesmo no nível fisiológico.
conhecidos os fatores que caracterizam essas relações e que as Sem pretender integrar completamente as descobertas des-
diferenciam das que estabelecem terapeutas menos experientes. ses diversos estudos, pelo menos é possível notar que alguns
Esse fatores são: uma capacidade para compreender o que o pontos sobressaem. Um deles é o fato de que as atitudes e os
cliente pretende significar e os seus sentimentos; uma recepti- sentimentos do terapeuta são mais importantes que sua orienta-
vidade sensível do cliente; um interesse caloroso, sem uma ção teórica. Seus procedimentos e suas técnicas são menos
excessiva implicação emocional. importantes do que suas atitudes. Deve-se também sublinhar
Um estudo de Quinn (14) focaliza claramente o que se deve que é a maneira como suas atitudes e seus procedimento são
entender por compreensão das significações e dos sentimentos percebidos que é importante para o cliente, e que o crucial é a
do paciente. O que há de surpreendente no seu trabalho é que percepção.
ele nos mostra que a "compreensão" das intenções significati-
52 _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? _ _ __ 53

Relações "fabricadas " dirigido a um outro paciente, colocado numa sala vizinha. O
único limite para os tipos de comportamento que poderiam ser
Examinemos agora algumas investigações de um tipo mui- recompensados reside no grau de engenhosidade mecânica do
to diferente, algumas das quais podem lhes parecer detestáveis, experimentador.
mas que têm no entanto uma certa implicação na natureza de Lindsley nos diz que alguns pacientes sofreram um pro-
uma relação facilitadora. Estes estudos referem-se àquilo a que gresso clínico importante. Pessoalmente, não pude deixar de
poderíamos chamar relações "fabricadas". me sentir impressionado pela descrição de um paciente que
Verplanck (17), Greenspoon (8) e outros mostraram que é ficou suficientemente curado de um estado de deterioração crô-
possível o condicionamento operante do comportamento verbal nica a ponto de obter o privilégio de circular livremente nos jar-
numa relação. Muito resumidamente, se o experimentador diz dins do hospital e cujo progresso se associava claramente à sua
"Hum" ou "Bem", ou ainda se faz um sinal aprovador com a interação com a máquina em questão. Nesse momento, o expe-
cabeça ao ouvir palavras ou frases, estas tenderão a ser empre- rimentador decidiu estudar a extinção experimental, o que, em
gadas com maior freqüência porque foram reforçadas. Demons- termos mais pessoais, significava que o paciente podia pressio-
trou-se que, por meio desse processo, era possível provocar um nar o botão milhares de vezes sem que houvesse qualquer
aumento de certas categorias verbais, tais como plurais, pala- recompensa. O paciente regrediu gradualmente, passou a des-
vras hostis, expressões de opiniões. A pessoa não tem a menor cuidar da higiene, tomou-se não-comunicativo, e a liberdade de
consciência de estar sendo influenciada de alguma maneira por circular que lhe fora concedida teve de ser revogada. Este inci-
esse reforço. Isto implica que, por meio de reforços seletivos, se dente, que me parece particularmente dramático, parece indicar
poderia levar qualquer pessoa na relação a empregar toda espé- que, mesmo quando se trata de uma relação com uma máquina,
cie de palavras e a fazer todo gênero de declaração que tivésse- só pode ajudar uma relação em que a confiança tenha um lugar
mos decidido reforçar. importante.
Lindsley (12), levando mais adiante os princípios de condi- Outra investigação interessante sobre a relação fabricada
cionamento operante desenvolvido por Skinner e por seu foi realizada por Harlow e seus colaboradores (1 0), dessa vez
grupo, demonstrou que um esquizofrênico crônico pode ser co- com macacos. Numa fase da experiência, foram apresentados a
locado numa "relação de ajuda" com uma máquina. Esta má- macacos novos, separados da mãe imediatamente após o seu
quina, um pouco como a máquina de vender certos objetos, nascimento, dois objetos. O primeiro poderia classificar-se como
pode ajustar-se de modo a recompensar diferentes tipos de com- a "mãe dura": era uma espécie de cilindro de arame, munido de
portamento. No princípio, ela simplesmente recompensa com uma teta onde o bebê macaco poderia se alimentar. O segundo é
um chocolate, um cigarro ou a apresentação de uma imagem - uma "mãe mole", um cilindro semelhante, mas feito de borra-
o comportamento de apertar um botão. Mas foi possível ajustá- cha e de um tecido esponjoso. Mesmo no caso em que o maca-
la de tal maneira que o pressionar várias vezes no botão dava a co recebe todo o seu alimento da "mãe dura", mostra uma pre-
um gatinho esfomeado - visível num compartimento separado ferência crescente pela "mãe mole". A câmara mostra clara-
- um pouco de leite. Nesse último caso, a satisfação sentida mente que se estabelece uma "relação" com esse último objeto,
pelo paciente é de natureza altruísta. Estudam-se planos para o macaquinho brinca com ele, gosta dele, sentindo-se seguro
recompensar um comportamento social ou altruísta similar quando a ele se agarra ao aproximarem-se objetos estranhos e
54 ~ _______ ~- Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? __ -~ 55

encontrando nessa segurança um ponto de apoio de onde partir da terapia fundada na teoria da aprendizagem (13). Esta terapia
para enfrentar um mundo cheio de perigos. Entre as muito inte- consiste essencialmente: a) em anotar e classificar os compor-
ressantes e variadas implicações dessa investigação, há uma tamentos que se mostram como não satisfatórios, b) em explo-
que parece impor-se com evidência: não se pode substituir por rar objetivamente com o cliente as razões desses comportamen-
nenhuma recompensa sob forma de alimento certas qualidades tos e c) em estabelecer, através da reeducação, hábitos mais
perceptivas que o macaco parece necessitar e desejar. adequados para resolver os problemas. Mas, em toda essa inte-
ração, o objetivo do terapeuta, tal como o formulavam os auto-
Dois estudos recentes res citados devia consistir em permanecer impessoal. O tera-
peuta "procura fazer com que a sua personalidade se manifeste
Para completar essa ampla apresentação das investigações,
o mínimo que for humanamente possível". O terapeuta "nas
que talvez possam causar uma certa perplexidade, citemos duas
suas atividades, acentua o anonimato da sua personalidade; ou
pesquisas muito recentes. A primeira é uma experiência dirigi-
seja, deve evitar cuidadosamente influenciar o paciente com as
da por Ends e por Page (5). Trabalhando com casos crônicos de
qualidades individuais da sua própria personalidade". Na
alcoólatras hospitalizados, enviados por um tribunal para o hos-
minha opinião, é esta a explicação mais provável do fracasso
pital do Estado por sessenta dias, tentaram três métodos dife-
desse método, quando procuro interpretar os fatos à luz de
rentes de psicoterapia de grupo. O método que eles considera-
outras investigações. As atitudes que consistem em recusar-se
vam mais eficaz era uma terapia baseada numa teoria da apren- como pessoa e em tratar o outro como um objeto não têm gran-
dizagem com dois fatores; a terapia centrada no cliente viria em des probabilidades de servir para alguma coisa.
seguida; e a orientação psicanalítica parecia-lhes que deveria O último estudo que desejaria mencionar é o que acaba
ser o menos eficaz. Os resultados demonstraram que a terapia justamente de publicar Halkides (9). Ela parte da minha formu-
baseada na teoria da aprendizagem não só não ajudava como lação teórica sobre as condições necessárias e suficientes para
era até prejudicial. As conseqüências eram piores do que se uma mudança terapêutica (15). Formula a hipótese de que deve
manifestavam no grupo de controle que não estava submetido a haver uma relação significativa entre a quantidade da alteração
nenhum tratamento. A terapia de orientação psicanalítica teve construtiva da personalidade no cliente e quatro variáveis no
certos resultados positivos, mas foi a terapia centrada no cliente terapeuta: a) o grau de compreensão empática do cliente mani-
que provocou uma considerável alteração positiva. Exames festado pelo terapeuta; b) o grau de afetividade positiva da ati-
complementares efetuados ao longo de um ano e meio confir- tude (consideração positiva incondicional) manifestada pelo
maram os resultados obtidos durante a hospitalização: a abor- terapeuta em relação ao seu cliente; c) o grau de autenticidade
dagem centrada no cliente produziu a melhoria mais estável, do terapeuta, do acordo entre as suas palavras e os seus senti-
seguida da terapia psicanalítica e do grupo de controle, ao mentos internos; d) o quanto a resposta do terapeuta concorda
passo que os estado dos doentes tratados pelo método fundado com a expressão do cliente na intensidade da expressão afetiva.
na teoria da aprendizagem era o que acusava menos progressos. Para pesquisar essas hipóteses, Halkides selecionou em
Ao refletir sobre este estudo incomum, já que o tratamento primeiro lugar, através de múltiplos critérios objetivos, um gru-
preconizado pelos seus autores era o que se revelava menos efi- po de dez casos que se poderiam classificar como "os mais bem-
caz, descobri a chave do mistério, segundo creio, na descrição sucedidos" e um grupo dos dez "que menos resultaram". De-
56 Como poderei ajudar os outros? _ _________ 57
__ Tornar-se pessoa

pois disso, escolheu as gravações de entrevistas efetuadas em tados provavam que um grau elevado de compreensão empática
cada um desses casos, no princípio e no fim do tratamento. estava significativamente associado no nível de 0,001 aos casos
Tomou ao acaso nove unidades de interação entre o cliente e o mais bem-sucedidos. Um grau elevado de consideração positiva
terapeuta - uma afirmação daquele e uma resposta desse - em incondicional estava identicamente associado aos casos bem-
cada uma dessas entrevistas. Obteve deste modo nove intera- sucedidos, no nível de 0,001. Mesmo a nota da autenticidade ou
ções do início e nove do fim do tratamento para cada caso. Isto da congruência do terapeuta - o quanto suas palavras traduziam
forneceu-lhe várias centenas de unidades, que distribuiu ao seus sentimentos - estava associada ao bom resultado do caso e,
acaso. Os exemplos escolhidos de uma entrevista do início do mais uma vez, no nível de significância de 0,001. Os únicos
tratamento de um caso malsucedido podiam ser seguidos de resultados equívocos na investigação referiam-se ao grau de
exemplos de uma entrevista do fim do tratamento de um caso acordo na intensidade da expressão afetiva.
É igualmente interessante verificar que os escores eleva-
bem-sucedido, etc.
dos atribuídos a essas variáveis não se encontravam numa cor-
Pediu-se depois a três especialistas, que não conheciam
relação mais significativa nos extratos de entrevistas do fim do
nem os casos, nem o grau de êxito do tratamento, nem a origem
tratamento do que nos de entrevistas iniciais. Este fato significa
de cada um dos extratos citados, que ouvissem a gravação qua-
que as atitudes do terapeuta se mantiveram praticamente cons-
tro vezes. Anotavam cada interação numa escala de sete pontos:
tantes ao longo de todo o tratamento. Se ele era capaz de um
I?) quanto ao grau de empatia; 2?) quanto à atitude positiva do elevado grau de empatia, mantinha-o até o fim. Se lhe faltava
terapeuta para com o seu cliente; 3?) quanto à congruência ou autenticidade, esta falta manifestava-se tanto nas primeiras como
autenticidade do terapeuta; 4?) quanto ao grau de conformidade nas últimas entrevistas.
existente entre a reação do terapeuta e a intensidade emocional Como toda investigação, este estudo tem seus limites. Re-
da expressão do cliente. fere-se a um determinado tipo de relação de ajuda, a psicotera-
Creio que todos aqueles que dentre nós conheciam essa pia. Pesquisou apenas quatro variáveis consideradas significati-
investigação consideravam-na uma grande aventura. Perguntá- vas. Talvez existam muitas outras. No entanto, representa pelo
vamo-nos se os peritos poderiam, pelo fato de ouvirem apenas menos um progresso importante no estudo das relações de
unidades isoladas de interação, pronunciar um juízo válido so- ajuda. Permitam-me que trace as conclusões da forma mais sim-
bre aspectos tão delicados como os que mencionei. Por outro ples possível. Elas parecem indicar que a qualidade da intera-
lado, mesmo que fosse obtida uma fidedignidade satisfatória, ção do terapeuta com seu cliente pode ser adequadamente ava-
poder-se-ia esperar que dezoito intercâmbios terapeuta-cliente liada com base numa pequena amostragem do seu comporta-
extraídos dos diferentes casos - uma amostragem mínima em mento. Significam igualmente que, se o terapeuta é congruente
relação aos milhares de intercâmbios que ocorreram em cada ou transparente, de modo que suas palavras estão de acordo
um dos casos - tivessem qualquer relação com o seu resultado com seus sentimentos, em vez de divergirem; se tem uma sim-
terapêutico? Era muito pouco provável. patia incondicional pelo cliente, se compreende os sentimentos
Os resultados foram surpreendentes. Verificou-se ser possí- essenciais do cliente como eles surgem ao próprio cliente -
vel atingir um elevado grau de fidedignidade entre os peritos, então há uma forte probabilidade de que essa relação de ajuda
sendo a maior parte das correlações entre as apreciações de 0,80 seja eficaz.
a 0,90, exceto no que diz respeito à última variável. Estes resul-
_ 59
58 Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? _

Alguns comentários 1. Poderei conseguir ser de uma maneira que possa ser
apreendida pela outra pessoa como merecedora de confiança,
São estes alguns dos estudos que lançam pelo menos um como segura ou consistente no sentido mais profundo do
pouco de luz sobre a natureza das relações de ajuda. Investigaram termo? Tanto a investigação como a experiência nos indicam
diferentes aspectos do problema e abordaram-no em contextos que isso é muito importante e, com o decorrer do tempo, encon-
teóricos muito diversos. Empregaram diferentes métodos. Não trei respostas que julgo serem melhores e mais profundas para
podem ser comparados diretamente. Mesmo assim, parecem des- essa questão. Parecia-me que se eu preenchesse todas as condi-
tacar-se algumas conclusões que podem ser aceitas com alguma ções exteriores que inspirassem confiança - a pontualidade nas
segurança. Parece evidente que as relações de ajuda eficazes têm entrevistas, o respeito pela natureza confidencial das entrevis-
características diversas das que não o são. Estas características tas, etc. -e se eu agisse da mesma maneira durante as entrevis-
diferenciais dizem essencialmente respeito às atitudes da pessoa tas, essas condições estariam cumpridas. A experiência, porém,
q~e ajuda, por um lado, e à percepção da relação por aquele que é ensinou-me que, por exemplo, o fato de me comportar com
aJudado, por outro. Parece igualmente evidente que os estudos uma atitude permanente de aceitação, se na realidade me sentir
feitos até agora não nos dão as respostas finais sobre o que é uma irritado, cético ou com qualquer outro sentimento de não-aceita-
relação de ajuda, nem sobre o modo como formá-la. ção, acabaria por fazer com que fosse considerado inconsisten-
te ou não merecedor de confiança. Comecei a reconhecer que
Como poderei criar uma relação de ajuda? ser digno de confiança não implica ser coerente de uma forma
Creio que todos aqueles dentre nós que trabalham no do- rígida, mas sim que se possa confiar em mim como realmente
mínio das relações humanas enfrentam um problema semelhan- sou. Empreguei o termo "congruente" para descrever o modo
como gostaria de ser. Com este termo pretendo dizer que qual-
te quando se trata de saber como aplicar os conhecimentos que
a investigação nos trouxe. Não podemos seguir de uma maneira quer atitude ou sentimento que estivesse vivenciando' viria
acompanhado da consciência dessa atitude. Quando isso é ver-
2
cega e mecânica essas conclusões ou então destruímos as quali-
dades pessoais que esses estudos põem precisamente em rele- dade, sou, naquele momento, uma pessoa unificada e inteirada
vo. Julgo que devemos nos servir desses estudos, submetendo- e é então que posso ser o que sou no mais íntimo de mim
os à prova da nossa própria experiência para formar novas hipó- mesmo. Esta é uma realidade que, por experiência, proporciona
teses pessoais que, por sua vez, utilizaremos nas nossas pró- aos outros confiança.
prias relações pessoais futuras. 2. A segunda questão relaciona-se de muito perto com a
Por isso, mais do que tentar dizer a vocês como utilizar os primeira: poderei ser suficientemente expressivo enquanto pes-
resultados que lhes apresentei, prefiro indicar-lhes o tipo de soa para que o que sou possa ser comunicado sem ambigüida-
questão que me suscitam esses estudos e a minha própria expe- des? Julgo que a maioria dos meus fracassos em realizar um
riência clínica. Procurarei dar-lhes algumas hipóteses variáveis relação de ajuda se deveu a uma resposta não-satisfatória a
que orientam o meu comportamento quando mergulho numa essas duas questões. Quando estou vivenciando uma atitude de
relação que eu desejaria que fosse de ajuda, quer se trate de es- irritação para com outra pessoa e não tomo consciência dela, a
tudantes, de colegas, da família ou de clientes. Passo a enume- minha comunicação passa a encerrar mensagens contraditórias.
rar algumas dessas questões ou reflexões. Minhas palavras comunicam uma determinada mensagem, mas
60 ~- ~- _ 61
_ _ _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros?_ ----~

estou também comunicando de uma forma sutil a irritação que deixarmos ficar abertos à experiência desses sentimentos posi-
sinto e isso confunde o outro e tira-lhe a confiança, embora tivos para com o outro, poderemos ser enredados por eles. Os
também ele possa não ter consciência do que esteja causando a outros podem tornar-se exigentes ou podemos nos decepcionar
dificuldade entre nós. Quando no papel de pai, terapeuta, pro- na nossa confiança, e tememos essas conseqüências. Assim,
fessor ou administrador deixo de ouvir o que se passa em mim, por reação, tendemos a estabelecer uma distância entre nós e os
devido à minha própria atitude de defesa que me impede de dis- outros- uma reserva, uma atitude "profissional", uma relação
cernir os meus próprios sentimentos, é nessa altura que parece impessoal.
dar-se esses tipo de fracasso. Estou firmemente convencido de que uma das principais
Por isso considero que a lição mais fundamental para quem razões da profissionalização em todos os campos é a de que ela
deseja estabelecer uma relação de ajuda de qualquer espécie é a ajuda a manter essa distância. No domínio clínico, desenvol-
de se mostrar sempre tal como é, transparente. Se numa dada vem-se complexas formulações de diagnóstico em que a pessoa
relação sou suficientemente congruente, se nenhum sentimento é tratada como um objeto. No ensino e na administração, cons-
referente a esta relação é escondido quer de mim mesmo quer truímos todo tipo de métodos de avaliação e daí que, mais uma
do outro, posso estar então quase seguro de que se tratará de vez, a pessoa seja encarada como um objeto. Desse modo,
uma relação de ajuda. tenho a impressão de que evitamos vivenciar o interesse que
Uma maneira de exprimir isto que pode parecer estranha é existiria se reconhecêssemos que se trata de uma relação entre
que, se posso estabelecer uma relação de ajuda comigo mesmo- duas pessoas. É uma verdadeira meta que se atinge quando
se puder estar sensivelmente consciente dos meus próprios sen- compreendemos que em certas relações, ou em determinados
timentos e aceitá-los -, é grande a probabilidade de poder vir a momentos dessas relações, podemos nos permitir, com segu-
estabelecer uma relação de ajuda com a outra pessoa. rança, mostrar interesse pelo outro e aceitar estar ligado a ele
Ora, aceitar ser o que sou, nesse sentido, e tornar possível como a uma pessoa por quem temos sentimentos positivos.
que outra pessoa o veja, é a tarefa mais dificil que conheço e 4. Há uma outra questão cuja importância pude perceber
que nunca está completamente terminada. Mas o simples fato ao longo da minha experiência: poderei ser suficientemente
de compreender que essa é a minha tarefa é extremamente enri- forte como pessoa para ser independente do outro? Serei capaz
quecedor, porque me ajuda a reconhecer o que estava errado de respeitar corajosamente meus próprios sentimentos, minhas
nas relações interpessoais que se obstruíram e a dar-lhes nova- próprias necessidades, assim como as da outra pessoa? Poderei
mente uma direção construtiva. Isto significa que, se desejo fa- possuir e, se for necessário, exprimir os meus próprios senti-
cilitar o desenvolvimento pessoal dos outros em relação comi- mentos como alguma coisa que propriamente me pertence e
go, então devo desenvolver-me igualmente e, embora isso seja que é independente dos sentimentos do outro? Serei bastante
muitas vezes penoso, é também fecundo. forte na minha independência para não ficar deprimido com
3. A terceira questão é: serei capaz de vivenciar atitudes sua depressão, assustado com seu medo ou envolvido por sua
positivas para com o outro - atitudes de calor, de atenção, de dependência? O meu eu interior será suficientemente forte para
afeição, de interesse, de respeito? Isto não é fácil. Reconheço sentir que eu não sou nem destruído por sua cólera, nem absor-
em mim mesmo e descubro nos outros muitas vezes um certo vido por sua necessidade de dependência, nem escravizado p~r
receio em relação a esses sentimentos. Tememos que, se nos seu amor, mas que existo independentemente dele com senti-
62 _ _ _ _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros?. _ 63

mentos e com direitos que me são próprios? Quando puder sen- uma parte de mim mesmo, chego sempre a um ponto em que sei
tir livremente esta força de ser uma pessoa independente, então que deixou de me compreender... O que eu procuro tão desespe-
descobrirei que posso me dedicar completamente à compreen- radamente é alguém que me compreenda."
são e à aceitação do outro porque não tenho o receio de perder a No que me diz respeito, é mais fácil para mim sentir este
m1mmesmo. tipo de compreensão e comunicá-lo a um cliente individual-
5. A questão seguinte está estreitamente ligada à anterior. mente do que a estudantes numa aula ou a colegas num grupo
Estarei suficientemente seguro no interior de mim mesmo para de que participe. Sinto uma forte tentação de corrigir o raciocí-
permitir ao outro ser independente? Serei capaz de lhe permitir nio dos estudantes ou de indicar a um colega os erros da sua
ser o que é - sincero ou hipócrita, infantil ou adulto, desesperado maneira de pensar. No entanto, quando consigo abrir-me à com-
ou presunçoso? Poderei dar-lhe a liberdade de ser? Ou sinto que preensão dessas situações, enriquecemo-nos reciprocamente. E
ele deveria seguir meus conselhos, ou permanecer um pouco de- com os clientes em terapia, impressiono-me muitas vezes com
pendente de mim, ou ainda tomar-me como modelo? Ligado a o fato de que mesmo um mínimo de compreensão empática,
esse aspecto, estou pensando no curto mas interessante estudo de uma tentativa hesitante e desajeitada para captar o que o pacien-
Farson (6), que descobriu que os terapeutas menos bem adapta- te pretende significar na sua complexidade confusa, é uma
dos e menos competentes têm tendência a induzir conformidade ajuda, embora essa ajuda seja indubitavelmente muito maior
a si mesmos, isto é, para terem pacientes que os tomem como quando sou capaz de captar e de formular com clareza o sentido
modelo. Por outro lado, o terapeuta mais bem adaptado e mais daquilo que ele vivenciou e que para ele continuaria a ser vago
competente pode estar em interação com o cliente ao longo de e difuso.
inúmeras entrevistas, sem interferir com a sua liberdade de desen- 7. Uma outra questão é saber se posso aceitar todas as face-
volver uma personalidade completamente diferente da do tera- tas que a outra pessoa me apresenta. Poderei aceitá-la como ela
peuta. Eu preferiria estar nesta última categoria, quer como pai, é? Poderei comunicar-lhe essa atitude? Ou poderei apenas
como supervisor ou como terapeuta. colhê-la condicionalmente, aceitando alguns aspectos da sua
6. Há ainda outra questão que coloco a mim mesmo: pode- maneira de sentir e desaprovando outros, silenciosa ou aberta-
rei permitir-me entrar completamente no mundo dos sentimen- mente? Segundo a minha experiência, quando minha atitude é
tos do outro e das suas concepções pessoais e vê-los como ele condicional, o cliente não pode mudar nem desenvolver-se nes-
os vê? Poderei entrar no seu universo interior tão plenamente ses aspectos que não sou capaz de aceitar completamente. E
que perca todo desejo de avaliá-lo ou julgá-lo? Poderei entrar quando - mais tarde e, algumas vezes, demasiado tarde - pro-
com suficiente delicadeza para me movimentar livremente, sem curo descobrir por que fui incapaz de aceitá-lo em todos os as-
esmagar significações que lhe são preciosas? Poderei com- pectos, verifico normalmente que foi porque tive medo ou por-
preender esse universo tão precisamente que apreenda, não ape- que me senti ameaçado por qualquer aspecto dos seus senti-
nas as significações da sua experiência que são evidentes para mentos. Para poder prestar uma maior ajuda é necessário que
ele, mas também as que são só implícitas e que ele não vê senão me desenvolva e aceite esses sentimentos em mim mesmo.
obscura e confusamente? Poderei ampliar ilimitadamente essa 8. Um aspecto bastante prático surge da questão preceden-
compreensão? Estou pensando num cliente que me dizia: "Sem- te: serei capaz de agir com suficiente sensibilidade na relação
pre que encontro alguém que, num dado momento, compreende para que meu comportamento não seja percebido como uma
64 _ _ _ _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? 65

ameaça? O trabalho que começamos a realizar ao estudar os lugar do julgamento, o centro da responsabilidade, reside den-
aspectos fisiológicos que acompanham a psicoterapia confirma tro de si mesma. O sentido e o valor da sua experiência é algo
as investigações de Dittes, mostrando como é fácil os indiví- que depende em última análise dela e nenhum juízo exterior os
duos sentirem-se ameaçados num nível fisiológico. O reflexo pode alterar. Gostaria por isso de me esforçar por chegar a uma
psicogalvânico - a medida da condutibilidade da pele - salta relação em que não julgasse o outro, mesmo interiormente.
bruscamente quando o terapeuta reage com uma palavra que é Acredito que isto o pode libertar e fazer dele uma pessoa res-
um pouco mais forte do que os sentimentos do cliente. E a uma
ponsável por si.
frase como "Meu Deus, como está perturbado!" a agulha quase 1O. Uma última questão: serei capaz de ver esse outro indi-
salta do papel. O meu desejo de evitar mesmo ameaças tão ínfi- víduo como uma pessoa em processo tornar-se ela mesma, ou
mas não é devido a uma hipersensibilidade em relação ao meu estarei prisioneiro do meu passado e do seu passado? Se, no
cliente, é simplesmente devido à convicção baseada na expe- meu encontro com ele, o trato como uma criança imatura, como
riência, de que, se eu conseguir libertá-lo tão completamente um aluno ignorante, como uma personalidade neurótica ou um
quanto possível das ameaças exteriores, então ele pode come- psicopata, cada um desses conceitos limita o que ele poderia ser
çar a vivenciar e a enfrentar os sentimentos e os conflitos inter- na nossa relação. Martin Buber, o filósofo existencialista da
nos que lhe parecem ameaçadores. Universidade de Jerusalém, emprega a expressão "confirmar o
9. Há um aspecto específico da questão anterior que tam- outro", expressão que teve para mim um grande significado.
bém tem importância: poderei libertá-lo do receio de ser julga- Disse ele: "Confirmar significa( ... ) aceitar todas as potenciali-
do pelos outros? Na maior parte das fases da nossa vida- em dades do outro ( ... ) Eu posso reconhecer nele, conhecer nele a
casa, na escola, no trabalho - achamo-nos dependentes das re- pessoa que ele foi( ... ) criado para se tomar( ... ) Confirmo-o em
compensas e dos castigos que são os juízos dos outros. "Está mim mesmo e nele em seguida, em relação a essas potenciali-
bem", "isso é mau", "isso vale dez", "isso vale zero", "trata-se dades ( ... ) que agora podem se desenvolver e evoluir" (3). Se
de uma boa psicoterapia", "trata-se de má psicoterapia". Tais aceito a outra pessoa como alguma coisa definida, já diagnosti-
juízos fazem parte da nossa vida, desde a infância até a velhice. cada e classificada, já cristalizada pelo seu passado, estou as-
Creio que têm uma certa utilidade social em instituições e em sim contribuindo para confirmar essa hipótese limitada. Se a
organizações tais como as escolas e as profissões. Como todo aceito num processo de tomar-se quem é, nesse caso estou fa-
mundo, muitas vezes me percebo fazendo tais apreciações. Mas, zendo o que posso para confirmar ou tomar real as suas poten-
segundo minha experiência, não favorecem o desenvolvimento
cialidades.
da personalidade e, por conseguinte, não creio que façam parte É nesse ponto que Verplanck, Lindsley e Skinner, quando
de uma relação de ajuda. É curioso, mas uma apreciação positi- trabalham no condicionamento operante, se encontram com
va é, no fundo, tão ameaçadora como um juízo negativo, uma Buber, o filósofo ou o místico. Pelo menos convergem em prin-
vez que dizer a alguém que fez bem implica que também se tem cípio, de uma forma bastante curiosa. Se eu considerar uma
o direito de lhe dizer que procedeu mal. Desse modo, cheguei à relação apenas como uma oportunidade para reforçar certos
conclusão de que quanto mais conseguir manter uma relação tipos de palavras ou de opiniões no outro, tendo a confirmá-lo
livre de qualquer juízo de valor, mais isso permitirá à outra pes- como um objeto - um objeto fundamentalmente mecânico e
soa atingir um ponto em que ela própria reconhecerá que o manipulável. E se vejo nisso a sua potencialidade, ele tende a
66 ~- _ _ _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? ____ _ 67

agir de modo a confirmar esta hipótese. Mas se, pelo contrário, for, lamento-o. Mas sinto-me parcialmente reconfortado pelo
considero uma relação pessoal como uma oportunidade para fato de que todos os que trabalham no campo das relações pes-
"reforçar" tudo o que ele é, a pessoa que ele é com todas as suas soais e que tentam compreender a ordem fundamental nesse
possibilidades existentes, ele tende então a agir de modo a con- domínio estão comprometidos no mais crucial empreendimen-
firmar esta segunda hipótese. Nesse caso eu o confirmei- para to do nosso mundo atual. Se estivermos tentando refletir para
empregar a expressão da Buber - como uma pessoa viva, capaz compreender o nosso trabalho como administradores, professo-
de um desenvolvimento interior e criador. Pessoalmente, prefi- res, orientadores educacionais e orientadores profissionais, psi-
ro esse segundo tipo de hipótese. coterapeutas, então estaremos trabalhando no problema que
será determinante para o futuro desse planeta. Porque não é das
Conclusão ciências físicas que o futuro depende. É de nós que ele depende,
de nós que tentamos compreender e lidar com as interações
Na primeira parte desse capítulo, passei em revista algumas entre os homens - que procuramos criar relações pessoais de
das contribuições dadas pela investigação ao nosso conhecimen- ajuda. Por isso, espero que as questões que levantei a mim
to sobre as relações pessoais. Tentando conservar em mente estes mesmo lhes sejam de algum préstimo para compreender e para
conhecimentos novos, passei a examinar as diversas questões que alcançar algumas perspectivas sobre o que farão para facilitar o
se apresentam de um ponto de vista interior e subjetivo quando crescimento nas suas relações.
entro numa relação como pessoa. Se eu próprio pudesse respon-
der afirmativamente a todas as questões que levantei, julgo que,
nesse caso, qualquer relação em que participasse seria uma rela- Referências bibliográficas
ção de ajuda e implicaria uma maturação. Mas não posso dar
uma resposta positiva à maior parte dessas questões. Apenas 1. Baldwin, A. L., J. Kalhom, e F. H. Breese- "Pattems ofpa-
posso trabalhar em direção a uma resposta positiva. rentbehavior", Psychol. Monogr., 1945,58, n. 268, pp. 1-75.
Isto me leva a suspeitar fortemente que a relação de ajuda 2. Betz, B. J., e J. C. Whitehom- "The relationship ofthe thera-
ótima é aquela criada por uma pessoa psicologicamente madu- pist to the outcome oftherapy in schizophrenia", Psychiat. Research
Reports 5. Research techniques in schizophrenia. Washington, D. C.,
ra. Em outras palavras, minha capacidade de criar relações que
American Psychiatric Association, 1956, pp. 89-177.
facilitem o crescimento do outro como uma pessoa independen-
3. Buber, M., e C. Rogers- Transcrição de um diálogo mantido
te é uma medida do desenvolvimento que eu próprio atingi. Sob em 18 de abril de 1957, em Ann Arbor, Michigan. Manuscrito inédito.
certos aspectos, é uma idéia perturbadora, mas é igualmente 4. Dittes, J. E. - "Galvanic skin response as a measure of pa-
fecunda e estimuladora. Isso mostra que, se estou interessado tient's reaction to therapist's permissiveness", J. Abnorm. and Soe.
em criar relações de ajuda, tenho perante mim, para toda a Psychol., 1957,55, pp. 295-303.
minha vida, uma tarefa apaixonante que ampliará e desenvolve- 5. Ends, E. J., e C. W. Page- "A study ofthree types of group
rá as minhas potencialidades em direção à plena maturidade. psychotherapy with hospitalized male inebriates", Quar. J. Stud. Al-
Sinto-me um pouco embaraçado ao pensar que o que estive cohol, 1957, 18, pp. 263-277.
elaborando para mim mesmo neste artigo talvez tenha pouca 6. Farson, R. E.- "Introjection in the psychotherapeutic relation-
relação com os interesses e com o trabalho de vocês. Se assim ship", tese de doutoramento inédita, Universidade de Chicago, 1955.
68 __ _ Tornar-se pessoa

7. Fiedler, F. E.- "Quantitative studies on the role oftherapists Capítulo 4


feelings toward their patients". In Mowrer, O. H. (ed. ), Psychoterapy:
theory and research. Nova York, Ronald Press, 1953, cap. 12. O que sabemos da psicoterapia
8. Greenspoon, J.- "The reinforcing effect oftwo spoken sounds -objetiva e subjetivamente
on the frequency oftwo responses", Amer. J. Psychol., 1955, 68, pp.
409-416.
9. Halkides, G. - "An experimental study of four conditions
necessary for therapeutic change", tese de doutoramento inédito,
Universidade de Chicago, 1958.
10. Harlow, H. F.- "The nature oflove", Amer. Psychol., 1958,
13, pp. 673-685.
11. Heine, R. W. -"A comparison of patients' reports on psy-
choterapeutic experience with psychoanalytic, nondirective, and
Adlerian therapists", tese de doutoramento inédita, Universidade de
Chicago, 1950. Na primavera de 1960 fui convidado pelo Instituto de Tec-
12. Lindsley, O. R.- "Operant conditioning methods applied to nologia da Califórnia para o seu programa "Leaders of Ame-
research in chronic schizophrenia", Psychiat. Research Reports 5. rica", patrocinado pelo Cal Tech YMCA, que promove a maio-
Research techniques in schizophrenia, Washington, D. C., American ria dos programas culturais para o Instituto. Pediram-me que
Psychiatric Association, 1956, pp. 188-153. falasse, durante um dos quatro dias da minha visita, numa reu-
13. Page, C. W., e E. J. Ends- "A review and synthesis ofthe lite- nião da faculdade. Era difícil falar de psicoterapia de uma for-
rature suggesting a psychotherapeutic technique based on two-factor ma que tivesse sentido para os cientistas fisicos e pareceu-me
learning theory", manuscrito inédito, emprestado ao autor. que um sumário dos resultados de pesquisa em psicoterapia
14. Quinn, R. D.- "Psychoterapists' expressions as an index to cumpriria essa função. Por outro lado, desejava tornar bem pa-
the quality of early therapeutic relationship", tese de doutoramento tente que a relação subjetiva pessoal é também uma parte fun-
inédita, Universidade de Chicago, 1950. damental da mudança terapêutica. Por isso, procurei focalizar
15. Rogers, C. R.- "The necessary and sufficient conditions of esses dois aspectos. Introduzi algumas alterações no artigo,
psychotherapeutic personality change", J. Consult. Psychol., 1957,
mas no essencial mantém-se tal como o apresentei na conferên-
21,pp. 95-103.
cia do Cal Tech.
16. Seeman, J. - "Counselor judgrnents of therapeutic process and
Fiquei muito feliz pelo fato de a apresentação ter sido bem
outcome". In Rogers, C. R., e R. F. Dymond (eds.), Psychotherapy and
recebida, mas agradou-me muito mais que, posteriormente,
personality change, University ofChicago Press, 1954, cap. 7.
17. Verplanck, W. S.- "The contro1 ofthe content of conversa- algumas pessoas que tinham passado por experiências de tera-
tion: reinforcement of statements of opinion", J. Abnorm. and Soe. pia e que leram o manuscrito ficassem altamente entusiasma-
Psychol., 1955,51, pp. 668-676. das com a descrição (na segunda parte do artigo) da experiên-
18. Whitehorn, J. C., e B. J. Betz- "A study of psychoterapeutic cia interior do processo terapêutico por parte do cliente. Isso
relationships between physicians and schizophrenic patients", Amer. foi gratificante, pois tenho uma particular preocupação em cap-
J. Psychiat., 1954, 111, pp. 321-331. tar o modo como o cliente sente e encara o tratamento.
Como poderei ajudar os outros? __ 71
70 Tornar-se pessoa

provocam uma alteração que facilita a evolução da personalida-


No campo da psicoterapia, realizaram-se progressos consi-
de e do comportamento no sentido de um desenvolvimento da
deráveis na última década na mensuração dos resultados da tera-
pessoa. Naturalmente, é necessário acrescentar que esse conhe-
pia no que se refere à personalidade e ao comportamento do
cimento, como todo conhecimento científico, não pode deixar
cliente. Nos últimos dois ou três anos, assistiu-se a progressos
de ser hesitante e certamente incompleto e que, sem dúvida
suplementares na identificação das condições que estão na base
alguma, terá de ser modificado, em parte contrariado e comple-
das relações terapêuticas que criam a terapia e facilitam o desen-
tado por um laborioso trabalho futuro. No entanto, não há qual-
volvimento da pessoa no sentido de uma maturidade psicológi-
quer razão para lamentar esse conhecimento limitado, mas du-
ca. Em outras palavras, progredimos na determinação dos ingre-
ramente conquistado e que nós hoje possuímos.
dientes de uma relação que promovem o crescimento pessoal.
Gostaria de apresentar este conhecimento de uma forma
A psicoterapia não substitui a motivação para esse desen-
muito concisa e na linguagem cotidiana.
volvimento ou crescimento pessoal. Este parece ser inerente ao
Descobriu-se que a transformação pessoal é facilitada quan-
organismo, tal como encontramos uma tendência semelhante
do o psicoterapeuta é aquilo que é, quando as suas relações com
no animal humano para se desenvolver e atingir a maturidade
o cliente são autênticas e sem máscara nem fachada, exprimin-
física, dadas certas condições mínimas favoráveis. A terapia,
do abertamente os sentimentos e as atitudes que nesse momen-
no entanto, desempenha um papel extremamente importante na
to fluem nele. Utilizamos o termo "congruência" para tentar
libertação e no processo de facilitação da tendência do organis-
descrever essa condição. Com este termo, procura-se significar
mo para um desenvolvimento psicológico ou para a sua maturi-
que os sentimentos que o terapeuta estiver vivenciando estão
dade, quando essa tendência se viu bloqueada.
disponíveis para ele, disponíveis para sua consciência e ele
pode viver esses sentimentos, assumi-los e pode comunicá-los,
se for o caso. Ninguém realiza plenamente esta condição e, por-
Conhecimento objetivo
tanto, quanto mais o terapeuta souber ouvir e aceitar o que se
passa em si mesmo, quanto mais ele for capaz de assumir a com-
Vou procurar resumir, na primeira parte deste capítulo, o
plexidade dos seus sentimentos, sem receio, maior será o seu
que sabemos das condições que facilitam o crescimento psico-
grau de congruência.
lógico, definir o que sabemos sobre o processo e as característi-
Para dar um exemplo comum, cada um de nós consegue
cas do crescimento psicológico. Vou tentar explicar o que quero
captar essa qualidade nos outros, de modos muito variados. Uma
dizer quando falo de resumir o que nós "sabemos". Pretendo di-
das coisas que nos choca nas propagandas de rádio e de televi-
zer que me limitarei às afirmações sustentadas em provas expe-
são é que muitas vezes se toma perfeitamente evidente, pelo
rimentais objetivas. Falarei, por exemplo, das condições do cres-
tom da voz, que o locutor "finge", recita um papel, diz alguma
cimento psicológico. Para cada afirmação feita, poderia citar
coisa que não sente. É um exemplo de incongruência. Por outro
um ou vários estudos mostrando que se verificaram alterações
lado, todos nós conhecemos pessoas em quem confiamos por-
no indivíduo em presença dessas condições, alterações que não
que sentimos que são realmente o que são, que é a própria pes-
se produziram quando essas condições estavam ausentes, ou
soa que temos à nossa frente e não uma máscara polida ou pro-
presentes em menor grau. Segundo a expressão de um pesqui-
fissional. Foi essa qualidade de congruência, que nós sabemos
sador, progredimos na identificação dos agentes primários que
72 _____ __ ___ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? ___ _ _ _ _ _ _ _ _ __ 73

captar, que as pesquisas verificaram estar associada ao bom re- tipos de compreensão que estamos habituados a dar e a receber,
sultado terapêutico. Quanto mais autêntico e congruente o tera- uma compreensão que julga do exterior. Mas quando alguém
peuta for na relação, maior possibilidades haverá de que ocor- compreende como sinto e como sou, sem querer me analisar ou
ram modificações na personalidade do cliente. julgar, então, nesse clima, posso desabrochar e crescer. E a in-
Vejamos agora a segunda condição. Quando o terapeuta vestigação confirma esta observação comum. Quando o tera-
está vivenciando uma atitude calorosa, positiva e de aceitação peuta é capaz de apreender a vivência, momento a momento,
para com aquilo que está no seu cliente, isso facilita a mudança. que ocorre no mundo interior do cliente como este a sente e a
Isto implica que o terapeuta esteja realmente pronto a aceitar o vê, sem que a sua própria identidade se dissolva nesse processo
cliente, seja o que for que este esteja sentindo no momento - de empatia, então a mudança pode ocorrer.
medo, confusão, desgosto, orgulho, cólera, ódio, amor, cora- Estudos realizados com diversos clientes mostraram que
gem, admiração. Significa que o terapeuta se preocupa com seu quando essas três condições estão presentes no terapeuta e o
cliente de uma forma não-possessiva, que o aprecia mais na sua cliente as percebe pelo menos parcialmente, o movimento tera-
totalidade do que de uma forma condicional, que não se conten- pêutico continua, o cliente nota que aprende e se desenvolve,
ta com aceitar simplesmente o seu cliente quando este segue dolorosa e definitivamente, e ambos consideram que o resulta-
determinados caminhos e com desaprová-lo quando segue ou- do é positivo. Pode-se concluir dos nossos estudos que são ati-
tros. Trata-se de um sentimento positivo que se exterioriza sem tudes como as que descrevemos, mais do que o conhecimento e
reservas e sem avaliações. A expressão a que se recorreu para a capacidade técnica do terapeuta, as principais responsáveis
designar a situação foi "consideração positiva incondicional". pela modificação terapêutica.
Mais uma vez a investigação demonstra que, quanto mais o te-
rapeuta vivencia essa atitude, mais a terapia tem probabilidades A dinâmica da mudança
de ser bem-sucedida.
Podemos designar a terceira condição como a compreen- Vocês poderão perguntar agora: "Mas por que é que al-
são empática. Quando o terapeuta é sensível aos sentimentos e guém que procura ajuda se modifica para melhor quando esta-
às significações pessoais que o cliente vivencia a cada momen- belece durante algum tempo relações com um terapeuta que
to, quando pode apreendê-los "de dentro" tal como o paciente reúne essas três condições? Como é que isso acontece?" Vou
os vê, e quando consegue comunicar com êxito alguma coisa procurar responder de uma maneira muito breve a essa questão.
dessa compreensão ao paciente, então está cumprida essa ter- As reações do cliente que faz durante algum tempo a expe-
ceira condição.
" relação terapêutica como que descrevi são uma
riência de uma
Julgo que cada um de nós já descobriu que esse tipo de recíproca das atitudes do terapeuta. Em primeiro lugar, como
compreensão é extremamente raro. Nem nós a oferecemos nem encontra alguém que ouve e aceita os seus sentimentos, ele co-
somos objeto dessa compreensão com muita freqüência. Recor- meça, pouco a pouco, a tomar-se capaz de ouvir a si mesmo.
remos a um outro tipo de compreensão que é muito diferente. Começa a receber mensagens que vêm do seu próprio interior-
"Eu compreendo o seu problema." "Eu compreendo o que o a perceber que está com raiva, a reconhecer quando tem medo,
levou a agir dessa maneira"; ou então: "Eu também passei por e mesmo a tomar consciência de quando se sente com coragem.
esse problema e reagi de modo muito diferente"; estes são os À medida que começa a se abrir mais para o que se passa nele,
74 Tornar-se pessoa 75
Como poderei ajudar os outros?

torna-se capaz de perceber sentimentos que sempre negou e re- Move-se para um fluxo no qual os sentimentos em permanente
primiu. Pode ouvir sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, mudança são experimentados no momento, com conhecimen-
tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que tos e com aceitação, e que podem exprimir-se com rigor.
nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele. O processo envolve uma alteração no seu modo de viven-
Enquanto vai aprendendo a ouvir a si mesmo, começa igual- ciar. No início, o cliente está longe da sua vivência. Pode ser
mente a aceitar-se mais. Como exprime um número cada vez exemplo disso uma pessoa com tendência para intelectualiza-
maior de aspectos ocultos e terríveis de si mesmo, percebe que ção que fala sempre em termos abstratos de si e de seus senti-
o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos mentos, deixando-nos curiosos sobre o que realmente se passa
uma atitude congruente e uma consideração positiva incondi- no seu íntimo. Partindo dessa distância dirige-se para um ime-
cional. Vai lentamente tomando uma atitude idêntica em rela- diatismo da vivência, onde vive abertamente na sua vivência e
ção a si mesmo, aceitando-se como é, e acha-se portanto cami- sabe que pode se voltar para esta a fim de descobrir as signifi-
nhando no processo de tornar-se o que é. cações correntes.
Finalmente, ao ouvir com maior atenção os sentimentos Esse processo implica uma certa maleabilidade na capaci-
interiores, com menos espírito de avaliação e mais de aceitação dade de apreensão dos mapas cognitivos da experiência. Partin-
de si, encaminha-se também para uma maior congruência. Des- do de um ponto em que a experiência é construída em quadros
cobre que é possível abandonar a fachada atrás da qual se escon- rígidos, captados como fatos exteriores, o cliente caminha para
dia, que é possível pôr de lado os comportamentos de defesa e ser uma mudança no desenvolvimento em que as significações da
de uma maneira mais aberta o que realmente é. À medida que experiência são construídas de forma maleável, construções es-
essas transformações vão se operando, torna-se mais consciente tas modificáveis a cada nova experiência.
de si, aceita-se melhor, adota uma atitude menos defensiva e mais De um modo geral, verifica-se que o processo se afasta da
aberta, descobre que afinal é livre para se modificar e para cres- fixidez, do caráter remoto dos sentimentos e da experiência, de
cer nas direções naturais do organismo humano. uma concepção rígida de si, de um afastamento das pessoas e da
impessoalidade do funcionamento. Ele evolui para a fluidez, para
O processo a possibilidade de mudanças, para o imediatismo dos sentimen-
tos e da experiência, para a aceitação desses sentimentos e dessa
Passo agora a uma pequena exposição desse processo par- experiência, para tentativas de construção, para a descoberta de
tindo de afirmações concretas, cada uma delas proveniente da um eu que se transforma numa experiência mutável, para a reali-
investigação experimental. Sabemos que o cliente está em mo- dade e proximidade das relações, para uma unidade e integração
vimento em cada uma de um determinado número de séries do funcionamento.
contínuas. Em cada uma das séries que vou mencionar, e seja Estamos continuamente aprendendo coisas novas sobre es-
qual for o seu ponto de partida, dirige-se para a extremidade mais se processo de transformação e não estou certo de que esse bre-
elevada. ve sumário represente inteiramente a riqueza das nossas desco-
No que se refere aos sentimentos e às significações pes- bertas.
soais, afasta-se de um estado em que nem os sentimentos nem
as significações são reconhecidos, possuídos ou expressos.
76
--~··------
_ _ _ Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros? 77

Os resultados da terapia do tratamento, que indicam igualmente uma persistência dessas


alterações.
Mas debrucemo-nos agora sobre os resultados da terapia, Os fatos que expus esclarecerão talvez por que razão sou
sobre as modificações relativamente duradouras que ocorrem. levado a crer que nos aproximamos do momento em que pode-
Como para as outras coisas que disse, limitar-me-ei a afirma- remos estabelecer uma equação no delicado domínio das rela-
ções sustentadas pela investigação. O cliente modifica-se e reor- ções interpessoais. Recorrendo a todos os elementos que a in-
ganiza a concepção que faz de si mesmo. Desvia-se de uma idéia vestigação proporcionou, concluamos com a tentativa de uma
que o toma inaceitável aos seus próprios olhos, indigno de con- formulação desta equação, que julgo corresponder aos fatos:
sideração, obrigado a viver segundo as normas dos outros. Con- - Quanto mais o cliente percebe o terapeuta como uma pes-
quista progressivamente uma concepção de si mesmo como soa verdadeira ou autêntica, capaz de empatia, tendo para com
uma pessoa de valor, autônoma, capaz de fundamentar os pró- ele uma consideração incondicional, mais ele se afastará de um
prios valores e normas na sua própria experiência. Desenvolve modo de funcionamento estático, fixo, insensível e impessoal, e
uma atitude muito mais positiva em relação a si mesmo. Há um se encaminhará no sentido de um funcionamento marcado por
estudo que mostra que no início da terapia as atitudes habituais uma experiência fluida, em mudança e plenamente receptiva dos
para consigo mesmo são negativas na proporção de quatro para sentimentos pessoais diferenciados. A conseqüência desse movi-
uma, mas que, no decurso da quinta fase do tratamento, estas mento é uma alteração na personalidade e no comportamento no
mesmas atitudes são positivas muitas vezes na proporção de sentido da saúde e da maturidade psíquicas e de relações mais
duas para uma. O cliente toma-se menos defensivo, e, por isso, realistas para com o eu, os outros e o mundo circundante.
mais aberto à sua própria experiência e à dos outros. Suas per-
cepções tomam-se mais realistas e mais diferenciadas. Sua
adaptação psicológica melhora, como se pode ver pela aplicação A imagem subjetiva
do Teste de Rorschach, do Teste de Apercepção Temática (TAT),
pela apreciação do terapeuta ou por qualquer outro índice. Seus Falei até do processo de aconselhamento e de terapia de
objetivos e ideais mudam de forma a se tomarem mais acessí- uma forma objetiva, sublinhando o que sabemos e transcreven-
veis. A distância inicial entre o eu que ele é e o eu que ele deseja- do-o como uma equação um pouco simplista, onde podemos,
ria ser diminui consideravelmente. Dá-se uma redução da tensão pelo menos, tentar situar os termos específicos. Mas agora vou
em todas as suas formas- tensão fisiológica, mal-estar psicoló- procurar abordar a questão por dentro e, sem desprezar os co-
gico, ansiedade. Percebe os outros indivíduos de uma forma mais nhecimentos objetivos, apresentar essa equação tal como ela se
realista e os aceita mais. Descreve seu próprio comportamento apresenta subjetivamente tanto ao terapeuta como ao cliente, e
como mais amadurecido e, o que é importante, é visto por aque- isso porque a terapia é, no seu processo, uma experiência pro-
les que o conhecem bem, agindo de modo mais maduro. fundamente pessoal e subjetiva. Essa experiência revela quali-
Não são apenas os diversos estudos que mostram o apare- dades completamente diferentes das características objetivas que
cimento dessas alterações durante o período terapêutico, mas se lhe apontam do exterior.
minuciosos trabalhos de acompanhamento levados a efeito du-
rante um período de seis a dezoito meses, depois da conclusão
78 Como poderei ajudar os outros? _ _ _ _ _ _ __ 79
_ Tornar-se pessoa

A experiência do terapeuta A experiência do cliente

Para o terapeuta, é uma nova aventura que começa. Ele O cliente, por seu lado, atravessa uma série de estados de
sente: "Aqui está esta outra pessoa, meu cliente. Sinto um pou- consciência muito mais complexos, que apenas podemos suge-
co de receio dele, medo de penetrar nos seus pensamentos, tal rir. Esquematicamente, talvez os seus sentimentos assumam
como tenho medo de mergulhar nos meus. No entanto, ao ouvi- uma das seguintes formas: "Tenho medo dele. Preciso de ajuda,
lo, começo a sentir um certo respeito por ele, a sentir que somos mas não sei se posso confiar nele. Talvez ele veja em mim coisas
próximos. Pressinto quão terrível lhe aparece o seu universo, de que não tenho consciência- elementos terríveis e maus. Ele
com que tensão procura controlá-lo. Gostaria de apreender os não parece estar me julgando, mas tenho a certeza de que o faz.
seus sentimentos e que ele soubesse que eu os compreendo. Não posso dizer-lhe o que realmente me preocupa, mas posso
Gostaria que ele soubesse que estou perto dele no seu pequeno falar-lhe de algumas experiências passadas em relação com
mundo compacto e apertado, capaz de olhar para esse mundo essas minhas preocupações. Ele parece que compreende essas
sem excessivo temor. Talvez eu possa tomá-lo menos temível. experiências, logo, posso abrir-me um pouco mais com ele.
Gostaria que os meus sentimentos nessa relação fossem para "Mas agora que partilhei com ele um pouco desse meu
ele tão evidentes e claros quanto possível, a fim de que ele os lado mau, despreza-me. Tenho certeza disso, mas é estranho
captasse como uma realidade discemível a que pode regressar que tal coisa não seja evidente. Será que por acaso o que lhe
sempre. Gostaria de acompanhá-lo nessa temerosa viagem ao contei não é assim tão mau? Será possível que eu não precise
interior de si mesmo, ao medo nele escondido, ao ódio, ao amor me envergonhar de uma parte de mim mesmo? Já não tenho a
que ele nunca foi capaz de deixar aflorar em si. Reconheço que impressão de que ele me despreze. Isto me dá vontade de ir mais
é uma viagem muito humana e imprevisível tanto para mim longe, na exploração de mim, de falar um pouco mais sobre
como para ele e que eu me arrisco, sem mesmo saber que tenho mim. Encontro nele uma espécie de companheiro- parece real-
medo, a retrair-me em mim mesmo perante certos sentimentos mente compreender-me.
que ele revela. Sei que isso impõe limites na minha capacidade
"Estou novamente cheio de medo, mas agora mais profun-
de ajudar. Tomo-me consciente de que os meus próprios temo-
do. Não percebia que, ao explorar os recantos incógnitos de mim
res podem levá-lo a encarar-me como um intruso, como alguém
mesmo, iria sentir impressões que nunca havia experienciado
indiferente e que o rejeita, como alguém que não compreende.
antes. Isso é muito estranho porque, num certo sentido, não são
Procuro aceitar plenamente esses seus sentimentos, embora
sentimentos novos. Pressinto que sempre estiveram ali. Mas
esperando também que os meus próprios se revelem de maneira
parecem tão maus e inquietantes que eu nunca os havia deixado
tão clara na sua realidade que, com o tempo, ele não possa dei-
fluir em mim. E agora, quando vivo esses sentimentos durante o
xar de percebê-los. Mas, sobretudo, pretendo que veja em mim
uma pessoa real. Não tenho necessidade de perguntar a mim tempo que passo junto dele, sinto vertigens, como se o meu uni-
mesmo com embaraço se os meus sentimentos são 'terapêuti- verso se desmoronasse em tomo de mim. Antes, ele estava segu-
cos'. O que eu sou e aquilo que sinto pode perfeitamente servir ro e firme. Agora está abalado, permeável e vulnerável. Não é
de base para a terapia, se eu pudesse ser transparentemente o agradável sentir coisas de que até agora sempre se teve medo. A
que sou e o que sinto nas minhas relações com ele. Então talvez culpa é dele. É, no entanto, curioso que tenha desejo de voltar a
ele possa ser aquilo que é, abertamente e sem receio". vê-lo e que me sinta em maior segurança com ele.
80 ___ Tornar-se pessoa 81_
Comopodereiajudarosoutros? _ _ _ _ _ _ _ _______

"Já não sei quem sou, mas, por vezes, quando sinto real- temente, isso só é possível porque me sinto em segurança nas
mente determinadas coisas, tenho a impressão, durante um minhas relações com o terapeuta. Ou talvez seja capaz de ser eu
momento, da minha solidez e da minha realidade. Sinto-me mesmo também fora dessas relações? Talvez! Talvez possa."
perturbado pelas contradições que descubro em mim - atuo de O que acabei de relatar não acontece com muita rapidez.
uma maneira e sinto de outra. É realmente desconcertante. Mas, Pode levar anos. Também pode, por razões que não compreen-
outras vezes, é uma aventura exultante tentar descobrir quem demos muito bem, não acontecer nunca. Mas pelo menos suge-
sou. Às vezes me surpreendo pensando que talvez eu seja uma re-nos uma perspectiva interior da imagem objetiva que procu-
boa pessoa; se é que isso significa alguma coisa. rei apresentar do processo psicoterapêutico, tal como se desen-
"Começo a sentir muita satisfação, embora isso me seja rola tanto no terapeuta como no cliente.
muitas vezes penoso, em partilhar precisamente o que sinto em
determinado momento. Sabem, ajuda realmente tentar ouvir-se a
si mesmo, ouvir o que se passa no seu íntimo. Já não tenho medo
do que está se passando em mim. Sinto-me mais confiante. Du-
rante as poucas horas que passo com ele, mergulho em mim mes-
mo para saber o que estou sentindo. É um trabalho árduo, mas
quero saber. Durante a maior parte do tempo, tenho confiança
nele e isso me ajuda. Sinto-me vulnerável e inexperiente, mas sei
que ele não me quer mal e creio mesmo que se interessa por mim.
Ocorre-me que, ao tentar mergulhar cada vez mais profundamen-
te em mim mesmo, se eu pudesse captar o que se passa em mim e
compreender o que isso significa, talvez soubesse quem sou e
soubesse igualmente o que fazer. Pelo menos isso me acontece
algumas vezes quando estou com ele.
"Posso até dizer-lhe exatamente o que sinto em relação a
ele num dado momento e, em vez de isso matar a relação, como
eu antigamente receava, isso parece reforçá-la. Poder-se-á supor
que serei capaz de viver igualmente os meus sentimentos com
os outros? Talvez isso também não seja muito perigoso.
"Sinto-me flutuando na corrente da vida, muito perigosa-
mente, sendo eu. Às vezes sou derrotado, outras vezes sou feri-
do, mas vou aprendendo que essas experiências não são fatais.
Não sei exatamente quem sou, mas penso sentir minhas reações
em cada momento determinado e elas parecem constituir uma
base para meu comportamento, de momento a momento, muito
aceitável. Talvez seja isso o que quer dizer ser eu. Mas, eviden-
Terceira Parte
O process o de tornar- se pessoa
Dediquei-me a observar o processo pelo qual
um indivíduo cresce e se modifica numa relação
terapêutica.
Capítulo 5
Algumas direções do processo terapêutico1

Na segunda parte, embora haja breves descrições do pro-


cesso de mudança no cliente, a ênfase principal estava na rela-
ção que torna essa mudança possível. Neste capítulo e no se-
guinte trataremos muito mais especificamente da natureza da
experiência que o cliente tem da mudança nele mesmo.
Sinto uma afeição particular por este capítulo. Foi escrito em
1951-1952, numa época em que realizava um grande esforço
para sentir, e depois exprimir, os fenômenos que pareciam ser
centrais na terapia. Acabava de publicar o meu livro Client-Cen-
tered Therapy, mas já me sentia insatisfeito com o capítulo sobre
o processo terapêutico, que tinha sido escrito, como é natural,
dois anos antes. Eu pretendia encontrar um meio mais dinâmico
de comunicar o que acontece à pessoa.
Peguei então o caso de uma cliente cuja terapia se revestira
para mim de grande importância e que eu estudara igualmente
do ponto de vista da investigação, e, a partir dessa base, procu-
rei exprimir as percepções que ensaiava do processo terapêuti-
co tais como me afloravam. Sentia-me cheio de coragem e, ao
mesmo tempo, muito inseguro de mim mesmo, ao afirmar que,
num tratamento com bom resultado, os clientes parecem adqui-
rir uma real afeição por si próprios. Sentia-me no entanto ain-
da mais inseguro ao propor a hipótese de que o fundo da natu-
86 ___ Tornar-se pessoa 87
O processo de tornar-se pessoa

reza humana é essencialmente positivo. Não podia prever que atitudes estiverem impregnadas de suficiente calor para se
as duas afirmações iriam ter uma confirmação cada vez maior transformarem numa simpatia ou numa afeição profundas pela
na minha experiência. pessoa; se se atingir um nível de comunicação onde o cliente
pode começar a perceber que o terapeuta compreende os senti-
O processo da psicoterapia, tal como o fomos aprendendo mentos que está experienciando e que os aceita a um profundo
a partir da orientação centrada no cliente, é uma experiência nível de compreensão, nesse momento podemos estar certos de
única e dinâmica, diferente de indivíduo para indivíduo, mas que iniciou o processo terapêutico. Então, em vez de procurar-
patenteando uma lei e uma ordem espantosas na sua generali- mos insistir em que esse processo serve para objetivos que te-
dade. Embora me sinta cada vez mais impressionado pelo cará- mos em mente (por mais louváveis que possam ser esses objeti-
ter inevitável de muitos aspectos desse processo, exaspera-me vos), coloquemos a única questão que pode fazer realmente
de uma forma crescente o gênero de perguntas que se fazem a progredir a ciência. E a questão é esta: "Qual é a natureza deste
esse respeito: "Curará uma neurose obsessiva?", "Não pretende processo? Quais parecem ser suas características intrínsecas, que
certamente que isso apague um estado psicótico de base?", "É direção ou direções adota, e quais são, se é que existem, os pon-
adequado para resolver problemas conjugais?", "Pode aplicar- tos de chegada deste processo?". Quando Benjamin Franklin
se aos gagos ou aos homossexuais?", "As curas são permanen- observava a faísca que saltava da chave presa na corda do seu
tes?". Essas questões e outras do mesmo gênero são tão com- papagaio, não se preocupou, felizmente, com a aplicação ime-
preensíveis e tão razoáveis como procurar saber se os raios ga- diata e prática da sua descoberta. Pelo contrário, começou a per-
ma podem curar as frieiras. São, porém, as erradas, segundo creio, guntar que processo básico tornavam possível um tal fenôme-
quando se procura aprofundar os conhecimentos sobre a natu- no. Embora muitas das respostas que surgiram estivessem cheias
reza da psicoterapia ou o seu campo de aplicação. Nesse capítu- de erros específicos, a busca era fecunda porque se fizera a per-
lo, vou levantar uma questão que parece muito mais vital sobre gunta adequada. Pela mesma razão, peço insistentemente que
esse processo apaixonante e legítimo que designamos terapia, es- se proceda da mesma maneira em relação à psicoterapia, e se
perando poder dar uma resposta parcial. procure com a mente aberta descrever, estudar e compreender o
Permitam-me que apresente a questão do seguinte modo: processo básico em que se fundamenta a terapia, ao invés de
quer seja devido à sorte, a uma compreensão penetrante, ao co- falseá-lo para que se adapte às nossas necessidades clínicas, aos
nhecimento científico, a uma arte exímia nas relações humanas nossos dogmas preconcebidos ou aos elementos evidentes em
ou à combinação de todos esses elementos, aprendemos a ini- qualquer outro domínio. Examinemo-lo pacientemente para
ciar um processo possível de ser descrito e que revela uma série saber o que ele é em si mesmo.
de fases que se sucedem segundo uma determinada ordem, Tentei recentemente elaborar uma descrição da terapia cen-
mais ou menos idêntica de um cliente para outro. Conhecemos trada no cliente (3). Não vou repetir aqui essa descrição, senão
pelo menos algumas atitudes necessárias para desencadear o para dizer que dos dados provenientes da prática e da investiga-
processo. Sabemos que, se o terapeuta adotar interiormente em ção parecem emergir certas características persistentes no pro-
relação ao seu cliente uma atitude de profundo respeito, de cesso: aumento do discernimento quanto ao mundo interno da
aceitação total do cliente tal como ele é e de confiança nas suas maturidade dos comportamentos relatados, de atitudes mais
potencialidades para resolver seus próprios problemas; se essas positivas, à medida que a psicoterapia progride; alterações da
88 _ Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _ 89

percepção e da aceitação de si; incorporação de experiências exatamente da mesma maneira que os sente, tal como os apreen-
previamente negadas na estrutura do eu; mudança de orienta- de através do seu sistema sensorial e visceral, sem os distorcer
ção da fonte de avaliação, passando do exterior para o interior; para adaptá-los ao conceito existente de eu. Muitos desses as-
transformações na relação terapêutica; alterações característi- pectos revelam-se em extrema contradição com o conceito de
cas na estrutura da personalidade, no comportamento e nas con- eu e não poderiam normalmente ser experimentados plenamen-
dições fisiológicas. te, mas, nessa relação de confiança, o cliente pode permitir que
Seja qual for a imperfeição de algumas dessas descrições, se manifestem na consciência sem sofrerem uma deformação.
elas representam uma tentativa de compreensão do processo da Seguem então muitas vezes o seguinte esquema: "Eu sou isso e
terapia centrada no cliente tal como ele é em si mesmo, como se aquilo, mas experimento esse sentimento que não tem qualquer
revela na experiência clínica, na gravação integral das entrevis- relação com aquilo que sou"; "Gosto dos meus pais, mas sinto
tas e em mais de quarenta estudos que se fizeram nesse campo. um surpreendente rancor em relação a eles, de tempos em tem-
Meu objetivo nesse capítulo é ir mais além desse material e pos", "Realmente não valho nada, mas às vezes tenho a impres-
formular algumas tendências da terapia que pouco se enfatizou. são de ser melhor do que qualquer um". Assim, de início, a
Gostaria de descrever algumas das direções e dos pontos de che- expressão é: "Sou um eu que é diferente de uma parte da minha
gada que parecem ser inerentes ao processo terapêutico e que só experiência." Mais tarde, isso se transforma num esquema pro-
recentemente começamos a distinguir com suficiente clareza; que visório: "Talvez eu seja alguns eus muito diferentes, ou talvez o
parecem representar ensinamentos muito significativos, mas so- meu eu encerre mais contradições do que aquelas que eu imagi-
bre os quais ainda não existem trabalhos de investigação. Procuran- nava." Mais tarde ainda, o esquema é: "Tinha certeza de que eu
do representar da maneira mais adequada estes elementos, vou não podia ser a minha experiência - era demasiado contraditó-
buscar exemplos nas entrevistas gravadas com uma cliente. Li- ria - mas agora começo a acreditar que posso ser o todo da
mitarei igualmente minha discussão ao processo terapêutico cen- minha experiência."
trado no cliente, pois cheguei à conclusão, embora relutante, de Talvez possa fazer compreender algo da natureza desse
que é possível que o processo, as direções e os pontos de chegada aspecto da psicoterapia, utilizando excertos das entrevistas com
da terapia variem conforme as orientações terapêuticas. a Sra. Oak. A Sra. Oak, dona de casa, casada, perto dos quaren-
ta anos, tinha dificuldades conjugais e com a família quando
A vivência do eu potencial veio se tratar. Ao contrário de muitos clientes, interessava-se
Um dos aspectos do processo terapêutico que se toma evi- viva e espontaneamente pelos processos que sentia desenrola-
dente em todos os casos pode designar-se como a consciência rem-se dentro de si, e as entrevistas gravadas contêm muito
da experiência ou mesmo como "a vivência da experiência". material, conforme seu próprio quadro de referência, sobre sua
Empreguei nesse ponto a expressão "vivência do eu", embora percepção do que estava acontecendo. Tinha assim tendência
essa expressão não seja completamente exata. Na segurança da para exprimir o que parece estar implícito em muitos clientes,
relação com um terapeuta centrado no cliente, na ausência de mas que estes não formulam verbalmente. É essa a razão pela
qualquer ameaça presente ou possível contra o eu, o cliente po- qual a maior parte dos excertos nesse capítulo foram tirados
de permitir-se examinar diversos aspectos da sua experiência desse caso.
90 O processo de tornar-se pessoa 91
_ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

No início da quinta sessão, ela descreve a sua tomada de C: Está certo. Está certo. Suponho que o que eu realmente
queria dizer era que não estou procurando reunir o quebra-cabe-
consciência do que vínhamos discutindo.
ça, como, como alguma coisa de que eu tivesse que ver no dese-
nho. Talvez, pode ser que eu, de fato, esteja gostando desse pro-
Cliente: Tudo isso é muito vago. Mas quer saber a idéia que
cesso de sentir. De qualquer modo, com certeza estou aprenden-
me ocorre constantemente: para mim todo esse processo é exata-
do alguma coisa.
mente como se estivesse examinando peças de um quebra-cabe-
T: Pelo menos, há uma impressão de que aquilo que conta
ça. Agora parece-me que estou examinando os fragmentos que no imediato é ter essa sensação, e não que esteja fazendo isto
não querem dizer realmente grande coisa. Provavelmente tenho- para ver um desenho, no quebra-cabeça. O que conta é a satisfa-
os simplesmente na mão, mas sem conseguir sequer ver o dese- ção de ficar realmente conhecendo cada peça. É isso ...
nho. É isto o que me ocorre constantemente. E acho isso interes- C: É isso. É isso. E ele ainda se toma esta espécie de sen-
sante, porque a verdade é que detesto quebra-cabeça. Sempre me sualidade, este tocar. É muito interessante. Às vezes não é total-
irritaram. Mas é isso o que sinto. Quer dizer que pego nos peda- mente agradável, é claro, mas ...
cinhos (ela gesticula durante a conversa para ilustrar suas afir- T: Uma experiência de tipo muito diferente,
mações) que não têm absolutamente nenhum sentido, exceto o C: Sim. Totalmente.
fato de sentir que os tenho simplesmente na mão sem ver onde os
colocar, mas só por pegá-los penso que eles devem se encaixar Este excerto mostra com toda clareza como é que os ele-
em algum lugar por aqui.
mentos se tomam conscientes, sem que o paciente faça um esfor-
Terapeuta: Pois bem, de momento é esse o processo, está
ço para os considerar como uma parte de si ou para os relacionar
precisamente sentindo a textura, a forma e a configuração dos
com outros elementos da consciência. É, para ser tão rigoroso
diferentes elementos, com uma vaga idéia de fundo de que, de
fato, isso se deve arrumar de alguma maneira, mas a maior parte
quanto possível, a tomada de consciência de um vasto campo de
da atenção está concentrada sobre: "Qual é a sensação que isso experiência, sem pensar, de momento, na sua relação com o eu.
me provoca? Qual é a sua textura?" Mais tarde, poderá reconhecer-se que o que foi experimentado
C: É isso. É como uma coisa fisica. Um, um ... poderia se integrar no eu. Foi por isso que intitulei esta seção ''A
T: Não é capaz de descrevê-lo sem usar as mãos. Um senti- vivência do eu potencial".
mento real, quase sensorial... O fato de que se trata de uma forma de experiência nova e
C: É isso mesmo. De novo é, é um sentimento de ser muito não habitual é expresso de uma maneira verbalmente confusa,
objetiva e, contudo, nunca estive tão próxima de mim mesma. mas emocionalmente muito clara, durante a sexta entrevista.
T: Assim como se estivesse fora de você olhando-se e, ao
mesmo tempo, de alguma forma estando mais próxima de si do C: Bem ... pus-me a pensar que durante estas sessões, bem ...
que ... eu estava como que a cantar uma canção. Agora isso soa vago
C: Hum ... Sim ... e, no entanto, pela primeira vez em muitos e ... bem ... não estou cantando, é antes uma espécie de canção
meses não estou pensando nos meus problemas. De fato não sem nenhuma música. Talvez uma espécie de poema. E eu gosto
estou, não estou trabalhando neles. da idéia, quero dizer, isto parece vir a mim, sem nada de cons-
T: Tenho a impressão de que não está de nenhum modo tra- truído, de nada. E, seguindo isto, veio-me, veio-me outro tipo de
balhando na resolução dos "meus problemas". Não é esse o sen- sentimento. Bem, dei por mim a perguntar se seria esta a forma
timento, de modo algum. que os casos tomam. É possível que eu esteja justamente a verba-
_9_2_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _____________ __ 93

lizar e por uns instantes intoxicada com as minhas próprias pala- Aqui está a mudança de perspectiva que ocorre quase inva-
vras? E depois disso, bem ... veio-me, bem, estou lhe fazendo per- riavelmente em qualquer terapia um pouco profunda. É possí-
der tempo? E depois, uma dúvida, uma dúvida. Nesse momento
vel representá-la esquematicamente do seguinte modo: "Vim
ocorreu-me uma coisa ... bem ... não sei de onde me veio. Não há
qualquer ligação lógica. A idéia que me veio foi essa: estamos para resolver problemas e agora descubro que estou pura e sim-
fazendo pedacinhos, hum, não estamos indefesos ou hesitantes, plesmente experienciando a mim mesmo?". E, tal como com a pa-
nem preocupados ou muito interessados quando, quando os ciente que acabamos de mencionar, essa mudança de perspecti-
cegos aprendem a ler com os dedos, Braille. Não sei, talvez seja va é geralmente acompanhada de uma formulação intelectual
uma coisa assim, está tudo misturado. É talvez isso o que estou de que isso está errado e de apreciação emotiva do fato de que
sentindo agora. "isso faz bem".
T: Vamos ver se consigo acompanhar essa seqüência de senti-
Podemos, portanto, concluir esta seção dizendo que uma
mentos. Em primeiro lugar, é como se ... e parece-me que está tendo
das direções fundamentais que o processo terapêutico toma é o
uma sensação muito positiva, é como se estivesse prestes a criar
uma espécie de poema aqui- uma canção sem música alguma, mas vivenciar livremente as reações sensoriais e viscerais reais do
alguma coisa de muito criativo e, ao mesmo tempo o, o sentimento organismo, sem demasiado esforço para relacionar essas expe-
de um grande ceticismo com relação a isso. "Estou, talvez, dizendo riências com o eu. Isto é geralmente acompanhado da convic-
apenas palavras, sendo levada, precisamente, por palavras que eu, ção de que esses dados não pertencem ao eu nem podem ser
que eu falo e que, talvez tudo isso seja, realmente, uma porção de integrados nele. O ponto final do processo é o momento em que
bobagens." E em seguida vem o sentimento de que talvez você o cliente descobre que pode ser a sua experiência, com toda a
esteja próxima de aprender um novo modo de experienciar que
sua variedade e contradição superficial; que ele pode se definir
pode ser tão radicalmente novo quanto para um cego a tentativa de
descobrir o sentido daquilo que ele sente com os dedos.
a partir da sua própria experiência, em vez de tentar impor uma
C: Hum. Hum (pausa) ... E às vezes penso comigo mesma, definição do seu eu à sua experiência negando-se a tomar cons-
bem, talvez pudéssemos falar disto ou daquilo. E depois, quando ciência dos elementos que não entram nessa definição.
chego aqui, isso não quer dizer nada, parece falso. Há esta onda
de palavras que apesar de tudo não parecem forçadas e, depois, de A vivência integral de uma relação afetiva
tempos em tempos, a dúvida volta. Bem, parece tomar forma de,
talvez você esteja apenas fazendo música... Talvez seja por isso Um dos elementos da terapia de que mais recentemente
que eu hoje tenho dúvidas de, de tudo isso, porque é qualquer tomamos consciência é o quanto a terapia é para o cliente, a
coisa que não é forçado. E realmente sinto que o que eu devia aprendizagem de uma aceitação plena e livre, sem receio, dos
fazer era sistematizar tudo isso. Devia fazer um esforço e... sentimentos positivos de outra pessoa. Não é um fenômeno
T: Uma espécie de questionamento profundo sobre o que eu que ocorra com muita clareza em todos os casos de longa dura-
estou fazendo com um eu (se/f) que não se, não se esforça para
ção, mas, mesmo nesses, não se produziu uniformemente. No
fazer, resolver as coisas? (Pausa)
C: E, no entanto, o fato é que eu, eu gosto realmente dessa
entanto, é uma experiência tão profunda que fomos levados a
outra espécie de coisa, não sei, talvez um sentimento pungente, perguntar se não se trataria de uma direção muito importante
quer dizer, é um sentimento que eu nunca tinha tido antes. Pois, no processo terapêutico, que, em todos os casos bem-sucedi-
gosto disso. Talvez seja assim que se deve fazer. Simplesmente dos, talvez se verifique em certa medida, a um nível não-ver-
hoje não sei. balizado. Antes de discutir esse fenômeno, vamos dar-lhe uma
94 ____ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa 95

certa consistência citando a experiência da Sra. Oak. A expe- se unicamente num sentido e serem inadequados às realidades
riência impressionou-a subitamente, entre a vigésima nona e a da situação.
trigésima sessão, tendo gasto quase toda a sessão seguinte a Sem dúvida que uma das razões por que este fenômeno se
discuti-la. Foi deste modo que ela abriu a trigésima sessão. verifica com maior freqüência na nossa experiência é que,
como terapeutas, passamos a temer menos os nossos sentimen-
C: Bem, fiz uma notável descoberta. Sei que ... (ri) descobri tos positivos (ou negativos) em relação ao cliente. Durante a
que você está realmente interessado no que se passa. (Riem terapia, o sentimento de aceitação e de respeito do terapeuta em
ambos.) Tive a sensação ... isto é... uma coisa assim como um relação ao cliente tende a transformar-se em alguma coisa que
"talvez eu a deixe entrar no jogo". E ... você vê, num exame se aproxima da admiração, à medida que vamos assistindo à
escrito teria sabido responder muito bem, ou seja... de repente, luta profunda e corajosa que a pessoa trava para ser ela própria.
veio-me uma idéia ... nessa coisa entre o terapeuta e o cliente ... Penso que há no terapeuta uma experiência profunda da comu-
isto o interessa realmente. Foi uma revelação, uma ... nada. Não nidade subjacente- dever-se-ia dizer da fraternidade?- dos ho-
sou capaz de descrever. Foi uma ... bem, o mais exato seria dizer
mens. Por conseguinte, ele sente em relação ao cliente uma rea-
uma espécie de relaxamento, não, uma ... quebra de tensão, mas
ção afetiva, calorosa e positiva. Isso coloca um problema ao
uma ... (pausa) um endireitar-se sem tensão, se é que isto tem
algum significado. Eu não sei. cliente que, muitas vezes, como nesse caso, acha difícil aceitar
T: Dir-se-ia que isso não é uma idéia nova, mas uma nova o sentimento positivo de outra pessoa. Mas, uma vez que o acei-
experiência de um sentimento real de que eu me interessava pelo tou, a reação inevitável por parte do cliente é a de se descontrair,
assunto e, se bem compreendi, um desejo seu de que eu me inte- de permitir que o calor e a afeição do outro reduzam a tensão e
ressasse. o medo que o rodeiam para olhar a vida de frente.
C: Sim. Mas estamos indo muito depressa. Examinemos alguns
dos outros aspectos dessa experiência, tal como foi vivida pela
Essa aceitação do terapeuta e do seu interesse caloroso foi cliente. Nas primeiras sessões, ela falara do fato de não gostar
sem dúvida um dos traços mais profundos da terapia nesse caso da humanidade e, de uma maneira vaga e obstinada, sentir que
particular. Numa entrevista que se seguiu à conclusão da tera- tinha razão, mesmo que os outros pensassem que ela estava
pia, ela menciona espontaneamente essa experiência como a errada. Volta a mencionar o fato, discutindo como essa expe-
mais importante. Que é que isso quer dizer? riência esclareceu a sua atitude em relação aos outros.
Certamente não se trata de um fenômeno de transferência
e contratransferência. Alguns psicólogos experientes que tinham C: A coisa que me ocorreu a seguir, e em que pensei duran-
sido psicanalisados tiveram oportunidade de observar o desen- te muito tempo, é mais ou menos ... e não sei bem por que ... a
mesma espécie de interesse que sinto quando digo "Não gosto da
rolar da relação em um caso que não o citado. Foram os primei-
humanidade". O que foi sempre, quer dizer, que eu sempre esti-
ros a levantar objeções contra o emprego dos termos transferên- ve convencida disso. Isso significa portanto, não é... eu sabia que
cia e contratransferência para descrever esse fenômeno. O es- era uma boa coisa, sabe. E eu penso que isso me esclareceu ... o
sencial das suas afirmações consistia em que se tratava de algo que isto tem a ver com a presente situação, não sei. Mas descobri
de recíproco e apropriado, ao passo que a transferência e a con- isso, não, eu não gosto, mas me interesso muitíssimo.
tratransferência são fenômenos cuja característica é realizarem- T: Hum. Hum. Entendo ...
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_ _ _ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa ___ --·· --· ______

C: Eu podia exprimir isto melhor dizendo que me toca mui- estes ou aqueles sentimentos, mas, quer dizer, eu não teria tido a
to de perto tudo o que acontece. Mas o interesse, a preocupação é experiência dinâmica.
um ... toma a forma de ... a sua estrutura é a de tentar compreender
e não querer deixar-se tomar, ou contribuir para essas coisas que Nessa parte da entrevista, apesar da dificuldade que expe-
eu sinto que são falsas e ... parece-me que no ... no amor há uma rimenta em traduzir seus sentimentos, parece que o que ela está
espéci~ de fator definitivo. Se o faz, re-Jo, por assim dizer, bas-
dizendo seria igualmente característico da atitude do terapeuta
tante. E um ...
em relação ao cliente. Sua atitude, no pior dos casos, está des-
T: É isso, por assim dizer.
C: Sim. Parece-me que essa outra coisa, esse interesse, não
provida desse aspecto de quid pro quo da maior parte das expe-
é uma boa palavra ... quer dizer, seria provavelmente necessária riências a que chamamos amor. É muito simplesmente o senti-
outra coisa para descrever este sentimento. Dizer que é alguma mento que impele um ser humano para o outro, sentimento que
coisa de impessoal não significa nada, pois não é uma coisa me parece ainda mais fundamental do que o instinto sexual ou
impessoal. Quer dizer, eu sinto que é muito mais parte de um todo. os sentimentos familiares. É um interesse pelo outro suficiente-
Mas é alguma coisa que não pára ... Parece-me que se podia ter mente grande para que não se deseje interferir no seu desenvol-
este sentimento de que se gosta da humanidade, de que se gosta vimento ou servir-se dele para fins egoístas. A satisfação vem
das pessoas e, ao mesmo tempo, contribuir para os fatores que
do fato de tê-lo deixado livre para crescer à sua maneira.
tomam as pessoas neuróticas, que as tomam doentes ... quando o
que eu sinto é uma resistência a essas coisas.
A nossa cliente explica em seguida como tinha sido difícil
T: Interessa-se o suficiente para querer compreender e para para ela no passado aceitar qualquer ajuda ou os sentimentos
querer evitar contribuir de alguma maneira que seja para aumen- positivos dos outros e como a sua atitude está mudando.
tar as neuroses ou estes aspectos na vida humana.
C: Sim. E isso é ... (pausa). Sim, é qualquer coisa desse C: Eu sinto ... que se deve fazer as coisas mais ou menos
gênero ... Bem, tenho de voltar a falar do que sinto a propósito sozinha, mas que também se deve ser capaz de fazê-lo com
dessa outra coisa. É ... não fui realmente chamada a dar-me a outras pessoas. (Ela menciona que houve "inúmeras" circuns-
mim mesma como ... como num leilão. Não há nada de definiti- tâncias em que poderia ter aceitado a simpatia e a gentileza dos
vo ... É uma coisa que me perturbava algumas vezes quando era outros.) Sinto que devia ter medo de que isso me destruísse. (Ela
forçada a dizer a mim mesma "não gosto da humanidade" e, volta a falar das suas relações com o terapeuta e dos seus senti-
mesmo assim, sempre soube que havia alguma coisa de positi- mentos para com ele.) Quer dizer que eu devia abrir o caminho
vo. Que eu tinha provavelmente razão. E ... talvez eu esteja por mim mesma. Quase até ... parece-me ... que procurei dizer por
agora completamente enganada, mas parece-me que isto está palavras em determinada ocasião ... uma espécie de ... às vezes eu
ligado de uma certa maneira com o ... com o sentimento que eu
não queria mesmo que você reformulasse, não queria que refle-
agora tenho, que o valor terapêutico pode ser permanente. Não,
tisse, a coisa era minha. É claro que posso dizer que era uma
agora não posso estabelecer a ligação, não posso explicar-me
resistência. Mas isso não significa que agora me preocupe, quer
melhor. .. bem, quer dizer que o processo de aprendizagem, o
dizer. .. porventura em certos momentos, na relação ... essa coisa
prosseguimento da minha realização ... sim, você se interessa
pela situação criada. É tão simples como isso. Nunca tinha particular. .. tinha o sentimento muito forte de que era minha, de
tomado consciência antes. Eu teria podido fechar a porta e ir-me que é minha. Era preciso que eu me desembaraçasse sozinha.
embora e ao falar sobre terapia dizer, sim, o terapeuta deve ter Compreende?
98 99
~~~- ___ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ __

T: É uma experiência extremamente difícil de exprimir com A Sra. Oak descreve alguns aspectos da novidade e do
precisão por palavras e no entanto parece-me que há aqui uma nível não-verbal dessa experiência no fim da trigésima sessão.
diferença nas relações que, partindo do sentimento de que "isto é
meu", "eu preciso que seja eu a fazê-lo", "vou fazê-lo", etc., che- C: Estou tendo uma experiência de um novo tipo, um ... pro-
gou a um sentimento um pouco diferente "eu posso deixá-lo vavelmente a única lição que vale a pena, um ... eu sei que tenho ...
ocupar-se também disso". eu sempre disse que o que sei não me ajuda aqui. O que eu quero
C: Sim. Pois ... bem ... é isso, será o que se poderia chamar o dizer é que os conhecimentos que adquiri não me servem de
segundo volume. Enfim, pois ... eu ainda estou sozinha na coisa, ajuda. Contudo, parece-me que o processo de aprendizagem aqui
mas eu não sou ... entende ... eu sou ... foi de tal modo dinâmico, de tal maneira uma parte de ... uma
T: Hum. Sim, essa espécie de paradoxo resume a situação, parte de tudo, ou seja, de mim, se eu não tirar senão isso, é alguma
não é? coisa que ... enfim, espanto-me se algum dia for capaz de expor
C: É isso. em forma de conhecimento o que aqui experimentei.
T: Em todo caso, há um sentimento, existe ainda... qualquer T: Em outras palavras, o que aqui aprendeu foi de um tipo
aspecto da minha experiência que é meu e isto é inevitável e completamente diferente e um nível muito mais profundo, muito
necessário. E no entanto, isto não é o quadro todo. Apesar de tudo vital, muito real. E foi muito importante para si, mas a questão
pode-se participar ou mostrar interesse pelo outro e, de alguma que coloca é esta: será que poderei formar uma imagem intelec-
maneira, isso é novo. tual clara do que se passou nesse nível de aprendizagem mais
C: Sim, é isso. É como se fosse, como se as coisas deves- profundo?
sem ser assim. Quer dizer... como isso tinha de ser. Há ... há o C: Hum ... qualquer coisa assim.
sentimento de que "isto é bom". Pois, isso exprime bem o que
quero dizer, toma-o mais claro. Tenho o sentimento, a propósito Aqueles que pretendesse m aplicar à terapia as chamadas
desse ... desse interesse que você mostra pelo assunto, que você
leis da aprendizage m, extraídas da memorizaçã o de sílabas sem
está lá atrás, não muito perto, e eu quero abrir um caminho para
sentido, fariam bem em estudar este excerto cuidadosam ente. A
essa coisa, é como ir cortando mato e você também faz o mesmo,
não se sente embaraçado por seguir esse caminho. Eu não sei. aprendizage m tal como ocorre na terapia é algo total, organís-
Isto não faz sentido. Quer dizer... mico, freqüentemente não-verbal, que pode seguir ou não os prin-
T: Exceto que tem um sentido muito real da justeza deste cípios que regem a aprendizage m intelectual de dados sem im-
sentimento que experimenta, não é? portância e sem qualquer relação com o eu. Isto, porém, é uma
C: Hum, hum. digressão.
Concluamos esta seção reformuland o os seus aspectos es-
Não se poderá dizer que esses trechos retratam o cerne do senciais. Parece ser possível que uma das característic as da te-
processo de socialização ? Descobrir que não se é destruído por rapia profunda ou significativa é que o cliente descobre que não
se aceitar os sentimentos positivos que vêm dos outros, que isso é destrutivo admitir plenamente na sua própria experiência o
não faz necessariam ente mal, que na realidade "uma pessoa sen- sentimento positivo que uma outra pessoa, o terapeuta, mantém
te-se bem" quando tem alguém consigo nas lutas para enfrentar em relação a ele. Talvez uma das razões que tornam essa expe-
a vida- este é talvez um dos mais profundos aprendizado s que riência tão difícil é que ela implica fundamental mente a aceit<l;-
o indivíduo poderá encontrar, estando ou não em terapia. ção desse sentimento: "Eu sou digno de que gostem de mim." E
100 ________ _____ Tornar-se pessoa 101
O processo de tornar-se pessoa

este o ponto que vamos estudar na seção seguinte. De momen- C: Uma coisa que me incomoda ... eu vou ser breve porque
to, pode se sublinhar que esse aspecto da terapia é uma vivência posso em qualquer momento voltar a isso ... um sentimento que
livre e total de uma relação afetiva que se pode formular em ter- eu nem sempre posso repelir. O sentimento de estar completa-
mos gerais da seguinte maneira: "Posso permitir que alguém se mente satisfeita comigo mesma. Outra vez a técnica Q2 • Saí
daqui uma vez e impulsivamente tirei o meu primeiro cartão, "eu
preocupe comigo e posso aceitar plenamente sem qualquer
sou uma personalidade atraente"; olhei para o cartão com ~ma
reserva esse interesse. Isto me permite reconhecer que eu tam- certa consternação, mas deixei-o lá, isto é, honestamente era Isso
bém me preocupo e me interesso profundamente pelos outros." exatamente o que eu pensava, enfim, isto aborreceu-me e agora
compreendi o que se passa. De tempos em tempos, tenh_o como
A afeição em relação a si mesmo que um sentimento agradável, pada_ sup~~ior, m~s precisamen-
Nos vários artigos e pesquisas publicados sobre a terapia te ... não sei ... mas agrada-me. E mmto mtido. E Isso aborreceu-
centrada no cliente, insistiu-se na aceitação de si como sendo me. No entanto, admiro-me ... raramente me lembro das coisas
que aqui disse, mas perguntei a mim mesma por que é q~e estava
uma das direções e um dos resultados da terapia. Estabelece-
convencida e ao mesmo tempo refletia sobre o que senti, quando
mos o fato de que, numa psicoterapia bem-sucedida, as atitudes magoada ... é o que sinto quando ouço alguém dizer a uma crian~
negativas em relação ao eu diminuem e as atitudes positivas ça "não chores". Sempre pensei: não está cert?, se ela chora e
aumentam. Medimos o aumento progressivo da aceitação de si porque tem um desgosto, deixem-na chorar. Po_Is bem, esse sen-
e estudamos o crescimento correlativo da aceitação do outro. timento de satisfação que eu tenho ... comecei recentemente a
Mas, ao examinar essas fórmulas e ao compará-las com o nos- sentir que é ... algo de muito parecido. É... nós não nos OJ?omos a
sos casos mais recentes, ficamos com a impressão de que não que as crianças se sintam satisf~itas consig~ mes~as. E ... quer
são inteiramente verídicas. O cliente não apenas se aceita- ex- dizer, não é realmente vaidade. E ... talvez seJa assim que as pes-
pressão que pode arrastar consigo a conotação de uma aceita- soas devam sentir.
T: Você quase se censurou por experimentar esse sentimen-
ção relutante e sem agrado do inevitável - mas chega a gostar
to e, apesar de tudo, vai mais longe e consegue ver os dois aspec~
de si verdadeiramente. Não se trata de uma presunção ou de tos da realidade: se uma criança tem vontade de chorar, por que e
uma maneira de se afirmar: é mais uma satisfação tranqüila de que não há de chorar? E se quer sentir-s~ sati_sfei_ta cons~go
ser quem se é. mesma não terá o pleno direito de se sentir satisfeita consigo
A Sra. Oak ilustra perfeitamente esse aspecto na trigésima mesma? E isso parece estar relacionado com o que está di~endo,
terceira entrevista. É significativo que essa entrevista se passe que me parece ser uma apreciação de si mesma que expenmenta
dez dias depois daquela em que foi capaz de admitir, pela pri- de tempos em tempos.
meira vez, que o terapeuta se interessava realmente pelo seu C: Sim, sim.
T: "Sou realmente uma pessoa bastante rica e interessante."
caso? Sejam quais forem as nossas teorias sobre esse ponto,
C: Algo de semelhante a isso. E então digo a mim mesma:
esse fragmento traduz muito bem a alegria tranqüila de ser quem
"A nossa sociedade nos obriga a dar voltas e o perdemos". E
se é, ao mesmo tempo que a atitude de desculpa que, na nossa volto às minhas idéias sobre as crianças. Talvez elas sejam mais
cultura, as pessoas pensam que se deve ter em face de uma ex- ricas do que nós. Talvez nós ... foi alguma coisa que nós perde-
periência desse gênero. Nos últimos minutos da entrevista, mos quando crescemos.
sabendo que o seu tempo está prestes a terminar, ela diz: T: Talvez elas tenham uma sabedoria que nós perdemos ...
C: Deve ser isso. Acabou o meu tempo.
102 103
_ _ _ Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _ · -

C: Onde vive essa pessoa?


Ela atinge nesse ponto, como muitos outros clientes a rea-
T: É quase como se não houvesse um lugar para essa pessoa
lização, hesitante e constrangida, de que passou a gosta; de si,
existir.
apreciar-se, estar contente consigo mesma. Temos a impressão
C: É claro, você sabe, isso toma-me ... espere um momen-
de uma alegria espontânea, livre, de umajoie de vivre' primiti- to ... isso explica provavelmente por que é que eu me ocupo aqui
va, qualquer coisa de análogo às cambalhotas de um cabrito no sobretudo de sentimentos. É isso sem dúvida.
prado ou dos saltos graciosos de um golfinho nas ondas. A Sra. T: Porque a sua pessoa total existe com todos os seus senti-
Oak tem a impressão de que se trata de uma coisa natural ao mentos. Tem mais consciência dos seus sentimentos, não será isto?
organismo, à criança recém-nascida, algo que perdemos ao lon- C: Está certo. Não é, ela não rejeita os sentimentos e ... é
go do processo do nosso crescimento. isso.
Esse caso apresentou já um sinal precursor de tal senti- T: Essa pessoa total que você é vive os sentimentos em vez
mento, num incidente que talvez torne mais clara a sua natureza de pô-los de lado.
fundamental. Na nona entrevista, a Sra. Oak revela com certo C: É isso (pausa). Suponho que de um ponto de vista práti-
embaraço algo que sempre guardou para si. O fato de ela ter co se poderia dizer que o que devia fazer era tentar resolver al-
guns problemas, problemas do dia-a-dia. E, contudo, eu ... o que
tido dificuldade em exprimi-lo manifestou-se por ela ter feito
eu tento fazer é resolver, resolver algo de diferente, algo que é
preceder a confissão de uma pausa muito longa, que durou
grande, que é muito, mas muito mais importante do que os pe-
alguns minutos. Depois falou:
quenos problemas do dia-a-dia. Talvez isto resuma tudo.
T: Pergunto a mim mesmo se deformarei o seu pensamento
C: Sabe, é completamente idiota, mas eu nunca disse isso a
ninguém (ri nervosam ente) e isto me fará bem. Durante anos, dizendo que de um ponto de vista utilitário você devia passar o
talvez desde a minha juventude , tinha eu provavelmente dezes- tempo pensando em problemas específicos. Mas se pergunta se
sete anos, sentia o que designava para mim mesma como "raios não estará talvez à procura do seu eu total e se não será isso talvez
de sanidade". Nunca disse isto a ninguém (outro riso embaraça - mais importante do que a solução dos problemas do dia-a-dia.
C: Penso que é isso. Penso que sim, que é isso. Deve ser
do) e, no entanto, nesses momentos, sentia-me perfeitamente sã.
E muito consciente da vida. E sempre com uma terrível preocu- sem dúvida o que eu queria dizer.
pação, e uma grande tristeza, por ver até que ponto nos enganá-
vamos no caminho. É precisamente a sensação que tenho de Se nos for legitimamente possível reunir essas duas expe-
tempos em tempos de me sentir uma pessoa inteiramente normal riências, e se tivermos razão em considerá-las típicas, podere-
num mundo terrivelmente caótico. mos então dizer que, tanto no decurso da terapia como em bre-
T: Isso tem sido passageiro e pouco freqüente, mas há mo- ves experiências durante a vida, ela se viu a si própria de uma
mentos em que lhe parece que todo o seu eu funciona e sente no forma saudável e satisfatória, como uma pessoa total e que fun-
mundo, um mundo verdadeiramente caótico, diga-se de passa- cionava bem; e que essa experiência ocorre quando ela não re-
gem ...
jeita os seus sentimentos, mas os vive.
C: É isso. Quer dizer, conhecer realmente até que ponto nos
Nesse ponto me parece residir uma verdade importante e
enganamos, como estamos longe de sermos pessoas completa-
muitas vezes desprezada sobre o processo terapêutico. Este ope-
mente sadias. E, evidentemente, não se fala nesses termos.
T: Sente que seria perigoso falar da pessoa que canta em
ra de modo a permitir à pessoa uma experiência integral, e ple-
você ... 4 namente consciente, de todas as suas reações, incluindo os seus
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sentimentos e as suas emoções. Quando isso ocorre, o indiví- rança e da posse, que são em si mesmos desejáveis. Montagu (2)
duo sente uma afeição positiva por si mesmo, uma apreciação sustenta a tese de que a cooperação, mais do que a luta, é a lei
autêntica de si mesmo como uma unidade total de funciona- fundamental da vida humana. Essas vozes solitárias, porém,
mento, o que representa um dos mais importantes pontos de são pouco escutadas. No conjunto, a opinião dos profissionais
chegada da terapia. como dos não-profissionais é de que o homem, tal como é na
sua natureza básica, deve ser guardado sob controle, dissimula-
A descoberta de que o centro da personalidade é positivo do, ou ambas as coisas.
Quando me debruço sobre os anos que passei na experiên-
Um dos conceitos mais revolucionários que se destacaram
cia clínica e na investigação, penso que demorei muito tempo
da nossa experiência clínica foi o reconhecimento progressivo
para reconhecer a falsidade desse conceito popular e profissio-
de que o centro mais íntimo da natureza humana, as camadas
nal. Creio que a razão disso residia no fato de que, na terapia, se
mais profundas da sua personalidade, a base da sua "natureza revelam constantemente sentimentos hostis e anti-sociais, de
animal", tudo isso é naturalmente positivo- fundamentalmente
modo que é fácil chegar à suposição de que esses sentimentos
socializado, dirigido para diante, racional e realista.
indicam a natureza profunda e, por conseguinte, a natureza fun-
Esse ponto de vista é tão estranho à nossa cultura atual que
damental do homem. Somente pouco a pouco foi se tomando
não tenho esperanças que venha a ser aceito, e é tão revolucio- evidente que esses sentimentos ferozes e associais não são nem
nário nas suas implicações que não deveria ser aceito sem uma
os mais profundos nem os mais fortes e que o núcleo da perso-
investigação profunda. Mas, mesmo se resistir à prova, será
nalidade do homem é o próprio organismo, que é essencialmen-
dificil de admitir. A religião, de modo particular a tradição cris-
te autopreservador e social.
tã protestante, impregnou a nossa cultura da idéia de que o
Para dar um significado mais específico a essa discussão,
homem era fundamentalmente pecador e que só por milagre voltemos ao caso da Sra. Oak. Uma vez que se trata de um as-
pode ser anulada a sua natureza pecadora. Em psicologia, Freud
pecto importante, citarei algumas longas passagens da gravação
e os seus sucessores demonstraram com argumentos convin- do caso, para ilustrar esse tipo de experiência em que fui basear
centes que o id, a natureza fundamental e inconsciente do ho- as minhas afirmações precedentes. Talvez esses excertos pos-
mem, é constituído em primeiro lugar pelos instintos que, se sam ilustrar a progressiva abertura da personalidade até atingir
pudessem se exprimir, levariam ao incesto, ao assassinato e a as suas camadas mais profundas.
outros crimes. Todo o problema da terapia, tal como este grupo Foi na oitava entrevista que a Sra. Oak levantou a primeira
o vê, é saber como dominar essas forças selvagens, de uma camada defensiva e pôs a descoberto uma amargura e um dese-
forma saudável e construtiva, em vez de ser através das formas
jo de vingança.
penosas da neurose. Mas aceita-se sem discussão o fato de o
homem ser no fundo irracional, associai, destruidor dos outros C: O senhor sabe que neste domínio de, de perturbações se-
e de si próprio. Há protestos ocasionais. Maslow (1) defende xuais, tive a impressão de que começo a descobrir que é real-
vigorosamente a natureza animal do homem, fazendo notar que mente muito amargo. Eu ... eu não entro em mim mesma ... eu
as emoções anti-sociais- a hostilidade, a inveja, etc.- resultam penso que provavelmente tenho a impressão de um certo ele-
da frustração dos impulsos mais profundos do amor, da segu- mento de ... "ter sido enganada" (a sua voz é muito tensa e a gar-
106 ___ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ 107

ganta está contraída). Eu encobri tudo isso muito bem, até dei- mesmos e quem é que tem mais razões para se compadecer de
xar de me preocupar conscientemente. Mas eu, eu fiquei espan- si mesmo do que a criança? É como se ... quer dizer... eu pensava
tada por verificar que na prática de, como dizer? ... de uma espé- que eles deviam deixar a criança chorar. E ... também talvez te-
cie de sublimação, que precisamente por abaixo... outra vez rem pena dela. De uma maneira mais objetiva. Pois ... isto é, é
palavras ... há uma espécie de força passiva que é, é pas ... muito uma coisa desse gênero que eu experimentei. Quer dizer, agora ...
passiva, ao mesmo tempo, assassina. precisamente agora. E na... na...
T: Há portanto o sentimento "fui realmente enganada. Re- T: Descreve um pouco melhor o sabor desse sentimento: é
calquei e fingi que não me preocupava e que não dava importân- quase como se chorasse realmente por si própria.
cia mas, lá no fundo, há como que uma amargura latente, mas C: Sim, é isso. E como vê, volta a haver um conflito. A
presente e muito, muito forte". nossa cultura é de tal maneira que ... quer dizer, não nos devemos
C: É muito forte. Eu ... eu sei disso. É terrivelmente potente. compadecer de nós mesmos. Mas talvez isto ... parece-me que
T: Quase como uma força dominadora. isso não tem totalmente esse sentido. Pode ser que sim.
C: De que raramente tenho consciência. Quase nunca ... T: Parece pensar que existe uma objeção cultural que a im-
Bem, a única coisa que sou capaz de descrever é uma espécie de pede de sentir piedade de si mesma. E, no entanto, sente que o
coisa criminosa, mas sem violência ... É mais como que um senti- sentimento que experimenta não é de modo nenhum aquele que
mento de querer me vingar... E, evidentemente, não vou me vin-
a cultura proíbe.
gar, mas gostaria. Realmente gostaria de me vingar.
C: E, está claro, acabei por... ver e sentir que tudo isto, sa-
be ... encobri tudo isso (chora). Mas o encobri com muita amar-
Até aqui a explicação habitual parece aplicar-se perfeita- gura e depois, por sua vez, tive de dissimular essa amargura.
mente. A Sra. Oak conseguiu ver por debaixo da superficie so- (Chorando) Era disso que me queria desembaraçar. Quase não
cialmente controlada do seu comportamento, e descobriu então me preocupa se isso me fizer sofrer.
um sentimento assassino de ódio e um desejo de vingança. Foi T: (Delicadamente e com ternura em face da dor que a sua
apenas muito mais tarde que ela aprofundou a exploração desse cliente está vivenciando) Você sente que aqui, na base da sua
sentimento particular. Retoma o tema na trigésima primeira experiência, existe um sentimento de chorar realmente por si
entrevista da terapia. Teve muita dificuldade em começar, sen- mesma. Mas isso você não pode mostrar, não deve mostrar, e por
tia-se emocionalmente bloqueada e não conseguia captar o sen- isso cobriu-o com uma capa de amargura de que não gosta e de
timento que nela se ia acumulando. que se queria desembaraçar. Tem a impressão de que preferira
absorver o sofrimento, a ... a sentir amargura (pausa). Parece-me
C: Tenho a impressão de que não é culpa (pausa; chora). É dizer com muita força: cu sofro e tentei encobri-lo.
claro, quer dizer, não sou ainda capaz de exprimi-lo por palavras. C: Eu não sabia disso.
(Depois, num arranque de emoção) Isso me fez um mal terrível! T: Hum. É realmente como que uma nova descoberta.
T: Hum. Não há culpa exceto neste sentido de que você so- C: (Falando ao mesmo tempo) Realmente nunca soube
freu de certa maneira um rude golpe. isso. Mas ... sabe, é quase uma coisa fisica. É... é como se olhasse
C: (Chorando) É que ... sabe ... culpei-me muitas vezes, mas para dentro de mim mesma e visse toda a espécie de ... termina-
mais tarde, quando ouvi alguns pais dizerem aos filhos "parem ções nervosas e pedaços de coisas como que esmagados (chora).
de chorar", isso me impressionou, fez-me mal, bem, por que é T: Como se alguns dos aspectos mais delicados da sua pes-
que eles lhes dizem para deixar de chorar? Compadecem-se de si soa fisica tivessem sido esmagados ou feridos.
108 ________ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa __ 109

C: Sim. Sabe, tenho a sensação de que sou coitadinha aquilo que eu sinto. Não me importo de ter sido ferida. Quer
(pausa). dizer, ocorre-me justamente a idéia de que isso não me preocupa
T: Precisamente por não poder deixar de sentir uma grande muito. É um ... o que mais me preocupa ... esse sentimento de amar-
pena pela pessoa que é. gura que é, eu sei, a causa desta frustração, quer dizer. .. isso é
C: Não penso que tenha desgosto pela pessoa toda; é um mais importante para mim.
determinado aspecto da coisa. T: Será que é isso? Que embora não goste da ferida, sente
T: Desgostoso por ver essa ferida. no entanto que pode aceitar esse fato. É suportável. Mas são as
C: Sim. coisas que disfarçaram essa ferida, como a amargura, por exem-
T:Hum.Hum. plo, que precisamente nesse momento não pode suportar.
C: Sim. É justamente isso. Bem, é como se, parece-me,
C: E é claro que existe essa maldita amargura de que me
como se fosse, pois bem, algo com que eu posso lidar. Mas o
quero livrar. Ela ... ela me provoca perturbações. Porque é uma
sentimento de, bem, mesmo assim posso ainda aproveitar da
coisa estranha, faz-me fazer coisas estranhas (pausa).
vida. Mas essa outra coisa, quer dizer, essa frustração ... isto é, che-
T: Dir-se-ia que essa amargura é alguma coisa de que se
ga por caminhos tão diferentes, estou começando a compreen-
queria desembaraçar porque sente que não lhe faz bem.
der, não é? Quer dizer, justamente esse tipo de coisa.
C: (Chora. Um longo silêncio) Não sei. Parece-me que te-
T: E uma ferida você pode aceitar. Faz parte da vida, exata-
nho razão em pensar: ganharia alguma coisa em chamar a isto
mente da mesma maneira que tantas outras coisas. Pode aprovei-
culpabilidade? Escorraçar coisas que fariam de mim um caso clí- tar inúmeras coisas. Mas ter toda a sua vida embebida na frustra-
nico interessante, digamos. Que bem isso me faria? Tenho a im- ção e na amargura, isso você não quer e tem agora maior cons-
pressão de que ... que a chave, a realidade, está no sentimento que ciência disso.
experimento. C: Sim. E agora não dá para disfarçar. Você entende, sinto-
T: Podia procurar uma etiqueta e fazer de tudo para encon- me muito mais consciente (pausa). Não sei. Precisamente neste
trá-la, mas sente que o essencial da situação é o tipo de experiên- momento, não sei qual será a próxima etapa. Realmente não sei
cia que está justamente tendo aqui. (pausa). Felizmente, isso é uma espécie de desenvolvimento, e
C: É isso mesmo. Quer dizer, se ... não sei o que vai aconte- por isso ... não tem uma grande influência sobre mim ... quer di-
cer a esse sentimento. Talvez não aconteça nada. Não sei, mas pa- zer. .. o que estou querendo dizer é que, segundo creio, ainda fun-
rece-me que o que eu poderia compreender faz parte desse senti- ciono. Posso ainda divertir-me e ...
mento de ter sido ferida de ... não tem importância o nome que se T: Quer precisamente que eu fique sabendo que em muitas
lhe der (pausa). Então eu ... não se pode andar... por aí com uma coisas continua a viver como sempre viveu.
ferida de tal maneira exposta. Quer dizer que me parece que a C: Exatamente (pausa). Oh, tenho de parar e ir embora.
próxima etapa do processo devia ser uma espécie de cura.
T: Parece que não pode se expor enquanto uma parte de si Nessa longa passagem, vimos claramente que, sob a amar-
mesma estiver assim tão ferida e então pede para que primeiro se gura, o ódio, o desejo de ser vingar de um mundo que a feriu, há
cure a ferida (pausa). um sentimento muito menos anti-social, a experiência profunda
C: E, contudo, sabe ... é uma coisa engraçada (pausa). Isto
de ter sido magoada. E fica igualmente bem patente que, nesse
SC)a como a afirmação de uma completa confusão ou a velha la-
ditinha de que o neurótico não quer renunciar aos seus sintomas.
nível profundo, não tem qualquer desejo de pôr em prática os
Mas isto não é verdade. Quer dizer, não é verdade no caso pre- seus sentimentos criminosos. Ela os detesta e gostaria de se
sente, mas é ... espero unicamente que isto o leve a compreender desembaraçar deles.
110 -~--- Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ __ 111

O próximo excerto foi tirado da trigésima quarta entrevis- mau. E por quê? Penso que sei. E isso ... também me explica mui-
ta. Trata-se de um material muito incoerente, como o são com tas coisas. É... é algo que está totalmente desprovido de ódio. Eu
muita freqüência as traduções verbais, quando um indivíduo quero precisamente dizer totalmente. Não com amor, mas total-
mente sem ódio. Mas é uma coisa excitante, também ... penso que
procura exprimir algo de profundamente emotivo. Ela tenta
talvez eu seja o tipo de pessoa que ... quer dizer, talvez goste de
aqui entrar no mais fundo de si mesma. Afirma que vai ser difi-
se atormentar ou que procura compreender as coisas até ao fun-
cil exprimir-se.
do, que tenta ver o conjunto. E eu disse a mim mesma, agora veja,
é um tipo de sentimento muito forte que você tem. Não é cons-
C: Não sei se serei capaz de falar sobre isso ou não. Vou
tante. Entretanto você o sente algumas vezes e quando você se
tentar. Qualquer coisa ... quer dizer, é um sentimento ... que ... permite senti-lo, você o sente. Sabe, há termos para esse gênero
uma espécie de necessidade de colocar para fora. Eu sei que não de coisa em psicopatologia. Talvez isto pudesse ser o sentimento
é nada que venha a fazer sentido. Penso que talvez se consiga que se atribui às coisas sobre as quais a gente lê. Quer dizer, há
colocar um pouco para fora, bem, digamos, tomar isso um pouco elementos ... quer dizer, esta pulsação, esta excitação, este conhe-
mais objetivo, isso será uma coisa mais útil para mim. E eu não cimento. E eu disse ... eu compreendi uma coisa, quer dizer, eu
sei como ... quer dizer, parece-me que o que quero dizer, que o
fui muito, muito forte, como direi ... uma sublimação do instinto
que quero é falar sobre meu eu. Evidentemente que foi o que fiz
sexual. Então pensei, bem é isso. Tinha realmente resolvido o
durante todo esse tempo. Mas, não, isto ... é o meu eu. Tomei re-
problema. Não era nada senão isso. E durante um certo tempo
centemente consciência de que rejeitava certas afirmações por- fiquei muito satisfeita comigo mesma. Era isso. E depois tive de
que elas me pareciam ... não é exatamente o que eu quero dizer,
admitir que não, que não era isso. Porque havia qualquer coisa
me pareciam um pouco idealizadas demais. Isto é, posso lem-
que eu tinha muito tempo antes de ter sido de tal maneira frustra-
brar-me sempre de dizer que isto é mais egoísta do que aquilo.
da sexualmente. Quer dizer, não era ... mas nisto ... comecei a ver
Enfim ... vem-me a idéia à cabeça começo a ver, sim, eu queria
um pouco, no próprio centro da questão, uma aceitação das rela-
dizer exatamente isso, mas o egoísmo de que falo tem um senti-
ções sexuais, única espécie que eu julgava que seria possível.
do completamente diferente. Vinha usando um termo: "egoís-
Estava nessa coisa. Nada disso tinha sido ... quer dizer, não tinha
mo". Tive depois a sensação de ... eu nunca falei disto antes, de
havido sublimação ou substituição do instinto sexual. Não. No
egoísmo ... o que não significa nada. Vou continuar falando. Uma
que eu sei disso... é um outro tipo de sentimento sexual, tenho
espécie de pulsação. E era qualquer coisa consciente, permanen-
certeza. Quer dizer, despojado de tudo o que se associa com a
te. E ainda o é. E eu gostaria de ser capaz de utilizá-la, também ...
vida sexual, se entende o que digo. Não havia busca, nem perse-
como uma espécie de descida para essa coisa. Entende, é como
guição, nem luta, nem ... bem, nenhuma espécie de ódio, como
se ... não sei ... ora bolas! Ganhei de certa maneira alguma coisa e
me parece acontecer habitualmente nessas coisas. E, no entanto,
uma espécie de familiaridade nova com essa estrutura. Como se
esse sentimento era, sem dúvida, um pouco perturbador.
a conhecesse de cor. É uma tomada de consciência. Quer dizer. ..
T: Gostaria de ver se consegui captar algo do que isso signi-
um sentimento de não ter sido enganada, não ter sido metida lá
fica para você. É como se tivesse feito a experiência de si mesma
dentro, de não ser arrastada para a coisa, e um sentido crítico de
em profundidade, num conhecimento objetivo e, nesse sentido,
conhecimento. Mas, de certa maneira, porque é uma coisa escon-
se tivesse tomado mais ego-ísta*, e a noção de realidade ... na
dida, não pode fazer parte da vida de todos os dias. E, por outro
lado, em determinados momentos, tenho um sentimento muito
desagradável, mas, em outros momentos, não o acho assim tão *Self-ish.
112 __ Tornar-se pessoa 11_3_
Oprocesso de tornar-se pessoa ______________

descoberta do que é o centro de si, como uma coisa separada de T: ... que é verdadeiramente mais surpreendente do que ...
todos os outros aspectos, você chega à percepção, que é muito C: Sim. Quer dizer, algo que não se pode derrubar. É isso ...
profunda e emocionante, de que o centro desse eu não é apenas não sei ... parece-me ser assim depois de você ter explicado tudo.
ausência de ódio, mas é realmente algo mais parecido com um Isto dura ...
santo, alguma coisa realmente muito pura, é esse o termo que eu
queria empregar. E que você podia tentar depreciar. Pode dizer Tudo isso foi apresentado de uma forma confusa, mas talvez
que talvez seja uma sublimação, talvez uma manifestação pato- valha a pena destacar os diferentes temas que foram expressos:
lógica, uma piração, e assim por diante. Mas dentro de você, Eu vou falar de mim mesma como ego-ísta, mas com uma
sabe que não é isso. Essa experiência encerra sentimentos que outra conotação da palavra.
poderiam conduzir a uma rica expressão sexual, mas é mais vas- Ganhei uma familiaridade com a minha própria estrutura,
to do que isso e realmente mais profundo. E, no entanto, é intei-
conheço-me profundamente.
ramente suscetível de incluir tudo o que fizesse parte da expres-
Ao descer dentro de mim mesma, descubro algo de muito
são sexual.
C: É provavelmente qualquer coisa como isso ... É uma es-
interessante, um centro totalmente desprovido de ódio.
pécie de ... quer dizer, uma espécie de descida. Desce-se quando Isto não pode fazer parte da vida de todos os dias ... talvez
se poderia julgar que se devia subir, mas não ... tenho certeza, é seja mesmo anormal.
uma espécie de descida. Julguei a princípio que era simplesmente uma sublimação
T: É quase uma descida e um mergulho em si mesma. do instinto sexual.
C: Sim. E eu ... não posso simplesmente jogá-lo fora. Parece- Mas não, é mais vasto, mais profundo do que o sexo.
me que é isso, oh, é justamente isso. Parece-me uma coisa extre- Podia-se pensar que era o tipo de coisas que se descobre ao
mamente importante que eu simplesmente tinha de dizer. subir ao frágil reino dos ideais.
T: Vou retomar uma das suas idéias para ver se compreen- Mas, agora, descobri realmente que é uma descida em pro-
di. Parece que você está exprimindo a idéia de que deve capturar
fundidade no interior de mim mesma.
alguma coisa que ainda não é completamente. Embora o senti-
Parece-me ser algo de essencial, que permanece.
mento exista, é uma descida para capturar alguma coisa mais
profunda.
Será uma experiência mística que ela está descrevendo?
C: É isso. Realmente ... há qualquer coisa nisso ... quer di- Podia-se pensar que é essa a impressão do terapeuta, pelo tom
zer... tenho um caminho, e é claro que às vezes vamos ter de das suas respostas. Podemos atribuir qualquer significado a es-
entrar nisso, rejeitando quase violentamente tudo o que é virtuo- se tipo de expressão à maneira de Gertrud Stein? O autor queria
so, rejeitar o ideal, o... como ... e isso o exprime; quer dizer, é uma simplesmente fazer notar que muitos clientes acabaram por che-
coisa assim que eu quero dizer. Uma pessoa sobe para, não sei. gar a uma conclusão semelhante sobre si próprios, embora nem
Quer dizer, tenho precisamente um sentimento, não sou capaz de sempre tivessem se exprimido com tanta emoção. Mesmo a
seguir. Quer dizer, isto não é muito forte se começamos a derru- Sra. Oak, na entrevista seguinte, a trigésima quinta, dá uma ver-
bá-lo. Mas, pergunto por que tenho verdadeiramente a impressão são mais clara e mais concisa das suas impressões, sob uma
de descer.
forma mais realista. Explica igualmente por que é que foi uma
T: Não se trata de subir para um ideal frágil. Trata-se de
experiência difícil de enfrentar.
penetrar em algo que é espantosamente real, sólido, que ...
C: Sim.
114 ~--- Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa __ ---~
115

C: Penso que estou tremendamente contente por me achar E agora, sem qualquer espécie de desculpa ou tentativa de dissi-
ou por ter sido levada ou por ter vontade de falar sobre mim. mulação, afirmo simplesmente que não sou capaz de encontrar o
Quer dizer, é uma coisa muito pessoal, muito particular, sobre a que agora parece ser mau.
qual não se fala. Posso compreender agora a minha sensação de T: Surpreende-se com isso? À medida que for descendo
oh, uma ligeira apreensão. É... bem, é como se eu rejeitasse pre- cada vez mais profundamente em si mesma e for pensando no
cisamente tudo o que representa a civilização ocidental, com- que aprendeu e descobriu, toma-se cada vez mais forte a convic-
preende? A perguntar a mim mesma se tinha razão, quer dizer, se ção de que, por mais longe que vá, não encontrará coisas más e
estava no caminho certo, e sentia ao mesmo tempo que tinha, terríveis. Elas têm um caráter muito diferente.
apesar de tudo, razão. Era forçoso que houvesse um conflito. E C: Sim, é qualquer coisa desse tipo.
agora isso, quer dizer, agora tenho esta impressão, bem, que é
evidentemente como eu me sinto. Quer dizer que isso é uma Nesse ponto, embora reconhecendo que a sua impressão vai
coisa ... a que eu chamo uma ausência de ódio, que é muito real. contra o que ensina a sua cultura, sente-se obrigada a dizer que o
Isto faz-se sentir naquilo que faço, eu creio em ... eu penso que futuro de si mesma não é mau, nem terrivelmente defeituoso,
isso está certo. É como se eu estivesse dizendo para mim mesma: mas é algo de positivo. Sob a camada de um comportamento su-
bem, tentaram encher-me a cabeça, desde sempre, com supersti- perficial controlado, sob a amargura e sob o sofrimento reside
ções, tabus, doutrinas e leis mal compreendidas, e a sua ciência,
um eu que é positivo e que não sente ódio. Creio que é essa a
os seus frigoríficos, as suas bombas atômicas. Mas eu não vou
lição que os nossos clientes nos ensinam desde há muito tempo e
nisso; entende, eu ... a coisa não deu resultado. Eu penso que o
que estou dizendo é isso, pois bem, eu não me conformo, e é ... que nós só tardiamente aprendemos.
bem, é justamente assim. Se a ausência de ódio parece mais um conceito neutro ou
T: Sente neste momento que teve uma grande consciência negativo, vamos talvez deixar a Sra. Oak explicar-nos o seu sig-
de todas as pressões culturais ... nem sempre muito consciente, nificado. Na sua trigésima nona entrevista, como sente que está
mas "existiram tantas na minha vida - e agora desço mais pro- próximo o fim da terapia, volta a referir-se a esse aspecto.
fundamente em mim mesma para saber o que verdadeiramente
sinto" e parece-me que presentemente está muito longe da sua C: Pergunto a mim mesma se devo esclarecer... isso é claro
civilização e isso causa um certo receio, mas é ao mesmo tempo para mim, e talvez seja isso o que realmente interessa, aqui, a
fundamentalmente bom. É isso ... minha forte impressão sobre uma atitude sem ódio. Agora que
C: Sim. Bem, nesse momento sinto que está tudo certo, nos situamos num campo racional, eu sei ... isto parece negativo.
realmente ... Há ainda mais qualquer coisa... um sentimento que E contudo, na minha maneira de pensar, na minha ... não real-
começa a crescer; bem, que está quase formado. Uma espécie de mente de pensar, mas na minha maneira de sentir, e também de
conclusão, que eu vou deixar de procurar algo de terrivelmente pensar, sim de pensar também, é uma coisa muito mais positiva
errado. Já não sei por quê. Mas, quero dizer, justamente ... é esse do que isso ... do que o amor... e a mim parece-me mais fácil de
tipo de coisa. Estou quase dizendo a mim mesma aquilo que sei, realizar, muito menos limitativo. Mas ... compreendo que isto
aquilo que descobri ... estou praticamente segura de que me de- deva assemelhar-se a uma rejeição total de muitas coisas, de
sembaracei do medo e estou certa de que não recearei ter um cho- muitas crenças, é talvez seja verdade. Não sei. Mas isso parece-
que .. ele até seria bem-vindo. Mas, dado os lugares onde estive, me mais positivo.
o que aprendi, é preciso considerar também aquilo que não sei, é T: Você é capaz de ver como isso pode parecer mais negati-
uma descoberta que marcará uma data na minha vida. Entende? vo para alguém de fora mas, para si, não parece tão restrito e tão
116 O processo de tornar-se pessoa 117
Tornar-se pessoa

possessivo, segundo creio, como o amor. É como se isso pudesse palavras e que, se só for apreendido no nível verbal, será, por is-
assumir os mais variados aspectos, ser mais útil do que ... so mesmo, deformado. Talvez, se empregarmos diversas fór-
C: Sim. mulas descritivas, consigamos um eco, por fraco que seja, na
T: ... qualquer destes termos mais restritos. experiência do leitor que o leve a dizer: "Ah, agora percebo,
C: É como julgo que é. É mais fácil. Bem, de qualquer mo- pela minha própria experiência, o que é que ele quer dizer".
do, é mais fácil para mim sentir deste modo. E não sei. Parece-
A terapia parece ser um regresso às percepções sensoriais
me que é como se eu tivesse encontrado um lugar onde não se é
de base e à experiência visceral. Antes da terapia, o indivíduo é
forçado a recompensar e onde se é obrigado a castigar. É... é
muito importante. Parece-me precisamente estar a experimentar levado a perguntar a si mesmo, muitas vezes sem qualquer
uma espécie de liberdade. intenção: "O que é que os outros pensam que eu devia fazer
T: Hum. Hum. Quando se fica livre da necessidade de re- nessa situação?", "O que é que os meus pais ou a minha cultura
compensar ou de castigar, parece que todos se tomam mais livres. pretendem que eu faça?", "O que é que eu penso que é necessá-
C: É isso (pausa). Estou preparada para algumas depres- rio fazer?". O indivíduo age assim constantemente segundo as
sões pelo caminho. formas que seriam impostas ao seu comportamento. Isso não
T: Não está à espera que tudo caminhe por si. significa necessariamente que ele atue sempre de acordo com
C: Não. as opiniões dos outros. Pelo contrário, o indivíduo pode procu-
rar agir de forma a contradizer o que os outros esperam dele. Ele
Esta seção é a história - muito resumida - da descoberta age todavia sempre em função do que os outros esperam (muitas
feita por uma cliente de que, quanto mais cavava em si mesma, vezes reage a expectativas introjetadas dos outros). Durante o
menos tinha a recear; que em vez de descobrir algo de terrivel- processo terapêutico, o indivíduo acaba por perguntar a si
mente errado, descobria gradualmente um centro do seu eu que mesmo, a propósito de áreas cada vez mais vastas da sua expe-
não pretendia nem recompensar nem castigar os outros, um eu
riência: "Como é que eu vivencio isso?", "O que é que isso sig-
sem ódio, um eu profundamente socializado. Ousaremos gene-
nifica para mim?", "Se eu me comporto de determinada manei-
ralizar a partir desse tipo de experiência e afirmar que, se pene-
ra, como é que eu simbolizo a significação que isso terá para
trarmos até a nossa natureza organísmica, chegaremos à con-
mim?". Ele acaba por chegar a uma maneira de agir em função
clusão de que o homem é um animal positivo e social? É esta a
do que se poderia chamar um realismo -um realismo que oscila
sugestão que nos oferece a nossa experiência clínica.
entre as satisfações e as insatisfações que a sua ação lhe trouxer.
Talvez ajude aqueles que, como eu, têm tendência para
Ser o seu próprio organismo, a sua própria experiência
pensar em termos concretos e clínicos, poder esquematizar al-
O fio condutor que percorre quase todo o material apresen- gumas dessas idéias em que se formula o processo vivido pelo
tado nesse capítulo é que a psicoterapia (pelo menos aquela paciente. Para um, isso pode querer dizer: "Pensei que não de-
centrada no cliente) é um processo pelo qual o homem se toma via ter senão amor pelos meus pais, mas descobri que sentia ao
seu próprio organismo- sem deformação, sem se iludir sobre si mesmo tempo amor e um ressentimento amargo. Talvez eu seja
mesmo. O que é que isto significa? uma pessoa capaz de sentir livremente ambas as coisas, amor e
Falamos aqui de alguma coisa que se situa no nível da ex- ressentimento". Para um outro cliente, o aprendizado pode ser:
periência, de um fenômeno que não se traduz facilmente em "Pensei que era apenas mau e sem valor. Agora, tenho por vezes
118 _ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ _ __ 119

a impressão de ter muito valor; noutros momentos penso que organismo humano, um animal humano? Quem o controlará?
não tenho muito valor nem muita utilidade. Talvez eu seja uma Quem o socializará? Ele irá rejeitar todas as suas inibições?
pessoa que tem uma experiência variável do que vale". Para um Terá sido simplesmente libertada a besta, o id, no homem?". A
outro: "Pensei que ninguém poderia realmente gostar de mim resposta mais adequada parece ser esta: "Na terapia o indivíduo
por mim mesmo. Agora sinto a afeição de uma outra pessoa por torna-se verdadeiramente um organismo humano, com todas as
mim. Talvez eu seja uma pessoa que pode ser amada pelos ou- riquezas que isso implica. Ele é realmente capaz de se controlar
tros, talvez eu seja essa pessoa". Para outro ainda: "Educaram- a si próprio e está incorrigivelmente socializado nos seus dese-
me de forma a sentir que não devia apreciar a mim mesmo, mas jos. E isto não é a besta do homem. Apenas existe homem no
eu me aprecio. Posso chorar por mim mesmo, mas posso tam- homem, e foi este que conseguimos libertar".
bém alegrar-me comigo. Talvez eu seja uma personalidade rica, Desse modo, a descoberta fundamental da psicoterapia pa-
que pode sentir ao mesmo tempo alegria e desgosto". Ou para rece-me ser que, se as nossas observações têm alguma validade,
retomar o exemplo da Sra. Oak: "Eu pensava que era fundamen- não devemos recear ser "apenas" Homo sapiens. É a descoberta
talmente má e que os meus aspectos mais profundos eram terrí- de que, se pudermos acrescentar à experiência visceral e senso-
veis. Não vivencio esses aspectos como sendo maus, mas, pelo rial, que caracteriza todo o reino animal, o dom de uma tomada
contrário, como um desejo positivo de viver e de deixar viver.
de consciência livre e não deformante da qual unicamente o ser
Talvez eu possa ser uma pessoa que é, no fundo, positiva".
humano parece ser integralmente capaz, teremos então um or-
O que é que toma possível tudo isto que segue a primeira
ganismo, que é perfeita e construtivamente realista. Teremos
parte dessas formulações? É a acumulação das tomadas de
então um organismo consciente das exigências da cultura como
consciência. Na terapia, a pessoa acrescenta à experiência ordi-
das suas próprias exigências fisiológicas de alimentação ou de
nária a consciência integral e não distorcida da sua experiência
satisfação sexual - igualmente consciente da sua necessidade
- das suas reações sensoriais e viscerais. O indivíduo deixa de
de relações de amizade como do seu desejo de engrandecimen-
deformar, ou pelo menos diminui a consciência distorcida que
tem das suas experiências. Pode tomar consciência daquilo que to pessoal - consciente da sua ternura delicada e sensível em
está realmente vivenciando, não simplesmente daquilo que se relação aos outros, como dos seus sentimentos de hostilidade.
permite experimentar depois de ter passado por um filtro con- Quando essa capacidade única de ser consciente que o homem
ceitual. Nesse sentido, a pessoa toma-se pela primeira vez o possui funciona dessa forma livre e integral, vemos que temos
potencial total do organismo humano, com o elemento enrique- diante de nós, não um animal que devemos temer, não uma bes-
cedor da consciência livremente acrescentada ao aspecto ftm- ta que devemos controlar, mas um organismo capaz de alcan-
damental das reações sensoriais e viscerais. A pessoa torna-se çar, graças à notável capacidade integrativa do seu sistema ner-
o que é, como o cliente diz com tanta freqüência durante a tera- voso central, um comportamento equilibrado, realista, valori-
pia. O que isto parece querer indicar é que o indivíduo se torna zando-se a si mesmo e valorizando o outro, comportamento que
- na sua consciência- aquilo que é- na experiência. O indiví- é a resultante de todos esses elementos da consciência. Para
duo é, em outras palavras, um organismo humano completo e exprimir a mesma coisa em outras palavras, quando o homem é
em pleno funcionamento. menos do que um homem integral, quando ele se recusa a tomar
Pressinto já as reações de alguns dos meus leitores: "Quer consciência dos diversos aspectos da sua experiência, temos
dizer que o resultado da terapia é apenas tomar o homem um nesse caso, de fato, todas as razões para receá-lo e recear o seu
120 _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

comportamento, como o demonstra a atual situação do mundo. Capítulo 6


Mas quando ele é plenamente homem, quando ele é um orga-
nismo integral, quando a consciência da sua experiência, esse O que significa tornar-se pessoa
atributo especificamente humano, funciona plenamente, pode-
se ter então confiança nele, o seu comportamento é então cons-
trutivo. Nem sempre será convencional. Será individualizado.
Mas será igualmente socializado.

Para concluir
Expus a seção precedente tão veementemente quanto me
era possível porque representa uma convicção profunda nascida
de muitos anos de experiência. Estou, no entanto, plenamente
consciente da diferença entre convicção e verdade. Não peço a
Este capítulo foi primeiramente elaborado como uma pa-
ninguém para estar de acordo com a minha experiência, peço
lestra em uma reunião no Oberlin College em 1954. Estava ten-
apenas que se verifique se as formulações aqui feitas estão de
tando aprimorar de forma mais completamente organizada al-
acordo com a experiência de cada um.
gumas das concepções de terapia que vêm se desenvolvendo em
Também não peço desculpas pelo caráter especulativo des-
mim. Procedi a uma ligeira revisão.
se capítulo. Há um tempo para a especulação, como há um tem-
Como de costume, estava tentando manter meu pensamen-
po para a filtragem dos fatos. Deve esperar-se que pouco a pouco
to próximo às bases da experiência real em entrevistas terapêu-
algumas das especulações, das opiniões e das sugestões clínicas
ticas, de forma que recorri em grande parte às entrevistas gra-
desse capítulo possam ser submetidas a uma prova definitiva e
vadas como fonte das generalizações que fiz.
operacional.

Em meu trabalho no Centro de Aconselhamento da Uni-


Referências bibliográficas versidade de Chicago, tive a oportunidade de trabalhar com
pessoas que apresentam uma ampla variedade de problemas pes-
1. Maslow, A. H.- "Our maligned animal nature", Jour. ofPsy- soais. Há o aluno preocupado em repetir o ano; a dona de casa
chol., 1949,28, pp. 273-278. perturbada a respeito de seu casamento; o indivíduo que sente
2. Montagu, A.- On Being Human, Nova York, Henry Schu- que está à beira de um completo colapso emocional ou psicose;
man,Inc., 1950. o profissional responsável que consome a maior parte de seu
3. Rogers, C. R.- Client-Centered Therapy, Houghton Mifflin tempo em fantasias sexuais e funciona de maneira ineficiente
Co., 1951, cap. IV. "The Process ofTherapy".
em seu trabalho; o aluno brilhante, o primeiro da classe, que se
vê paralisado pela convicção de que é irremediavelmente e im-
potentemente inadequado; os pais que se vêm perturbados pelo
comportamento de seu filho; a garota popular que se vê inexpli-
122 O processo de tornar-se pessoa _ _ 123
Tornar-se pessoa

cavelmente tomada por transes agudos de depressão negra; a Quando uma pessoa me procura, perturbada por sua com-
mulher que teme que a vida e o amor passem longe dela, e que binação única de dificuldades, constatei ser muito válido tentar
suas notas de graduação constituam uma fraca recompensa; o criar uma relação com ela na qual esteja segura e livre. É meu
homem que se tomou convicto de que forças sinistras e podero- propósito compreender a maneira como se sente em seu próprio
sas estão armando um complô contra ele. Poderia continuar mundo interior, aceitá-la como ela é, criar uma atmosfera de
enumerando os problemas mais diversos e únicos que as pes- liberdade na qual ela possa se mover, ao pensar, sentir e ser, em
soas nos trazem. Eles cobrem a gama completa de experiências qualquer direção que desejar. Como ela usa esta liberdade?
da vida. Ainda assim, não há satisfação em fornecer esse tipo Em minha experiência, a pessoa a utiliza para se tomar cada
de catálogo, pois como terapeuta, sei que o problema conforme vez mais ela mesma. Começa a derrubar as falsas frentes, ou as
exposto na primeira entrevista não será o problema conforme máscaras, ou os papéis, com os quais encarou a vida. Parece
visto na segunda ou terceira sessão, e por volta da décima entre- estar tentando descobrir algo mais básico, algo mais verdadei-
vista ainda será um problema diferente ou série de problemas. ramente ela mesma. Primeiro, coloca de lado máscaras que até
Todavia, venho a acreditar que apesar dessa multiplicidade certo ponto está consciente de estar usando. Uma jovem estu-
horizontal desconcertante, e camada após camada de complexida- dante descreve em uma entrevista de aconselhamento uma das
de vertical, há talvez somente um problema. À medida que acom- máscaras que vinha usando, e como não tinha certeza se,
panho a experiência de muitos clientes na relação terapêutica que embaixo desta frente pacífica, agradável, haveria algum eu real
nos esforçamos para criar, me parece que cada um está levantando com convicções.
a mesma questão. Abaixo do nível da situação-problema sobre a
qual o indivíduo está se queixando - atrás do problema com os Estava pensando a respeito desse assunto de padrões. De
estudos, ou esposa, ou patrão, ou com seu próprio comportamento alguma forma desenvolvi um tipo de jeito, acho, de - bem - um
hábito - de tentar fazer com que as pessoas se sintam à vontade ao
incontrolável ou bizarro, ou com seus sentimentos assustadores, se
meu redor, ou fazer com que as coisas corram tranqüilamente.
encontra uma busca central. Parece-me que no fundo cada pessoa
Sempre tem que haver algum apaziguador por perto, do tipo panos
está perguntando: "Quem sou eu, realmente? Como posso entrar quentes. Em uma pequena reunião, ou uma festinha, ou algo - eu
em contato com este eu real, subjacente a todo o meu comporta- poderia ajudar para que as coisas decorressem de maneira agradá-
mento superficial? Como posso me tomar eu mesmo?" vel e parecer estar me divertindo. E, algumas vezes, me surpreen-
deria atacando uma idéia em que realmente acreditava quando via
que a pessoa envolvida ficaria bastante insatisfeita se eu não o
O processo de tornar-se fizesse. Em outras palavras, eu simplesmente não era nunca -
quero dizer, eu não me via nunca sendo clara e definida a respeito
Por trás da máscara das coisas. Agora a razão por que o fazia provavelmente era por
estar fazendo tanto isto em casa. Eu simplesmente não defendia as
Deixe-me tentar explicar o que quero dizer quando digo minhas próprias convicções, até mesmo não sei se tenho quaisquer
que parece que a meta que o indivíduo mais pretende alcançar, convicções para defender. Não tenho realmente sido honestamen-
o fim que ele intencionalmente ou inconscientemente almeja, é te eu mesma, ou na verdade não tenho sabido quem é meu eu real,
o de se tomar ele mesmo. e estou simplesmente desempenhando um tipo de falso papel.
124 ________ Tornar-se pessoa 125
Oprocesso de tornar-se pessoa __ _

Pode-se, neste excerto, vê-la examinando a máscara que vi- explorar os sentimentos turbulentos e algumas vezes violentos
nha utilizando, reconhecendo sua insatisfação com a mesma, e dentro de si. Remover uma máscara que se acreditava constituir
procurando saber como chegar ao verdadeiro eu que se encon- parte de seu verdadeiro eu pode ser uma experiência profunda-
tra embaixo, se tal eu existe. mente perturbadora, porém quando há liberdade para pensar,
Nessa tentativa de descobrir seu próprio eu, o cliente tipi- sentir e ser, o indivíduo se volta para tal meta. Algumas declara-
camente utiliza a relação para explorar, examinar os vários as- ções de uma pessoa que havia completado uma série de entrevis-
pectos de sua experiência, para reconhecer e enfrentar as con- tas psicoterapêuticas ilustram isso. Ela faz uso de muitas metá-
tradições profundas que freqüentemente descobre. Aprende quan- foras ao contar como lutou para chegar ao âmago dela mesma.
to do seu comportamento, até mesmo dos sentimentos que vi-
vencia, não é real, não sendo algo que flui das reações genuínas Conforme vejo a situação hoje, estava descascando camada
de seu organismo, mas sim constitui uma fachada, uma frente, após camada de defesas. Eu as construía, as experimentava e
atrás da qual está se escondendo. Descobre o quanto sua vida é então as descartava quando permanecia a mesma. Não sabia o
guiada por aquilo que pensa que ele deveria ser, e não por aqui- que se encontrava no fundo e estava com muito medo de desco-
lo que é. Freqüentemente descobre que ele só existe em respos- brir, mas eu tinha que continuar tentando. Primeiro senti que não
ta às exigências dos outros, que parece não ter nenhum eu pró- havia nada dentro de mim - somente um grande vazio onde eu
necessitava e desejava um núcleo sólido. Então comecei a sentir
prio, e que está somente tentando pensar, e sentir e se compor-
que estava diante de uma parede de tijolos sólida, alta demais para
tar de acordo com a maneira que os outros acreditam que deva subir e espessa demais para atravessar. Um dia a parede se tor-
pensar, e sentir e se comportar. nou translúcida, ao invés de sólida. Depois disso, a parede pare-
Quanto a esse assunto, fico admirado em constatar quão ceu dissipar-se mas, atrás dela, descobri um açude que represava
acuradamente o filósofo dinamarquês, Soren Kierkegaard, ilus- águas violentas e turbulentas. Senti como se estivesse retendo a
trou o dilema do indivíduo há mais de um século, com um força dessas águas e que, se eu abrisse um pequenino buraco, eu
insight psicológico aguçado. Ele destaca que o desespero mais e tudo o que se encontrava ao meu redor seríamos destruídos na
comum é estar desesperado por não escolher, ou não estar dis- torrente que, de sentimentos representados pela água que se se-
posto a ser ele mesmo; porém, a forma mais profunda de deses- guiria. Finalmente não pude mais suportar o esforço e deixei fluir.
pero é escolher "ser outra pessoa que não ele mesmo". Por Tudo o que fiz, na verdade, foi sucumbir à autopiedade, depois
ao ódio e então ao amor completos e absolutos. Após essa expe-
outro lado "desejar ser aquele eu que realmente se é, constitui
riência, senti como se houvesse saltado uma margem e me en-
na verdade o oposto do desespero", e esta escolha constitui a
contrasse a salvo do outro lado, embora ainda cambaleasse um
mais profunda responsabilidade do homem. À medida que leio pouco em sua beira. Não sei o que estava procurando ou para on-
alguns de seus escritos, quase que sinto que ele esteve escutan- de me dirigia, mas senti então como sempre senti toda vez que
do algumas das afirmações feitas por nossos clientes ao busca- realmente vivi, que eu estava me movendo para frente.
rem e explorarem a realidade do eu - freqüentemente uma
busca dolorosa e inquietante. Acredito que isto representa muito bem a sensação de mui-
Essa exploração se torna até mais perturbadora quando se tos indivíduos de que se a frente falsa, a parede, a represa, não
vêem envolvidos em remover as falsas faces que não sabiam ser forem mantidas, então tudo será arrastado na violência dos sen-
falsas faces. Começam a ingressar na tarefa assustadora de timentos que ele descobre estarem enclausurados em seu
126 _ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa - - - - - - -
127

mundo particular. Todavia, isso também ilustra a necessidade Cliente: Eu estava como que dando um tempo para assimi-
premente que o indivíduo sente de buscar a si mesmo e de tor- lar isso. Mas também liguei esse fato a você e à minha relação
nar-se ele próprio. Isso também começa a indicar a maneira com você. E uma coisa que sinto a respeito disso é um tipo de
pela qual o indivíduo determina a realidade em si mesmo- quan- medo de que vá embora; ou isso é uma outra coisa - é tão dificil
de compreender - é como se houvesse dois sentimentos contrá-
do ele vivencia plenamente os sentimentos que ele é num nível
rios. Ou dois "eus" de certa forma. Um é o eu apavorado que
orgânico, da mesma forma que esta cliente sentiu autopiedade,
deseja se apegar às coisas, e este creio poder sentir bem clara-
ódio e amor, então ele tem certeza de que está sendo uma parte
mente neste exato momento. Você sabe, eu como que preciso de
de seu eu real. coisas para me apegar- e me sinto meio amedrontado.
Terapeuta: M-hm. Isto é algo que pode sentir nesse exato
A experiência de sentir minuto, e vem sentindo e talvez esteja sentindo com respeito à
Gostaria de dizer algo mais a respeito dessa vivência de nossa relação também.
sentir. É realmente a descoberta dos elementos desconhecidos C: Será que você não me deixaria ter isso, pois, você sabe,
eu como que preciso disso. Fico tão solitário e amedrontado sem
do eu. O fenômeno que estou tentando descrever é algo que
isso.
acho bastante dificil de ser transmitido de alguma maneira que
T: M-hm, m-hm. Deixe eu me apoiar nisso pois ficaria terri-
faça sentido. Em nossas vidas cotidianas, há mil e uma razões
velmente amedrontado se não o fizesse. Deixe eu me apegar a
para que não nos deixemos experienciar nossas atitudes plena- isso. (Pausa.)
mente, razões oriundas de nosso passado e do presente, razões C: É quase que a mesma coisa- Será que você não me dei-
que residem na situação social. Experienciá-los livre e plena- xaria ter a minha tese ou PhD para que ... Pois eu como que preci-
mente parece perigoso, potencialmente prejudicial. Porém, na so desse pequeno mundo. Quero dizer..
segurança e liberdade da relação terapêutica, eles podem ser T: Em ambos os exemplos é uma coisa meio suplicante
vivenciados plenamente, claro que até o limite daquilo que são. também, não é? Deixe eu ter isso pois preciso muito disso. Ficaria
Eles podem ser e são experienciados de uma maneira que eu terrivelmente assustado sem isso. (Longa pausa)
gosto de imaginar como uma "cultura pura", de modo que na- C: Sinto que ... Não posso de certa forma ir além ... É esse
quele momento a pessoa é seu medo, ou é sua raiva, ou é sua tipo de garotinho suplicante, de alguma forma, mesmo ... O que é
ternura, ou o que quer que seja. esse gesto de imploração? (Unindo suas mãos como se estivesse
Talvez possa novamente esclarecer isso fornecendo um orando.) Não é engraçado? Pois isso.
exemplo de um cliente que indicará e transmitirá aquilo que T: Você une suas mãos em um tipo de súplica.
quero dizer. Um jovem, um pós-graduando que se encontra pro- C: Sim, é isso! Será que você faria isso para mim, como que ...
fundamente envolvido na terapia, vem tentando decifrar um Oh, isso é terrível! Quem, eu, implorar?
sentimento vago que percebe em si mesmo. Ele gradualmente o
identifica como um sentimento assustador de algum tipo, um Talvez este excerto transmita um pouco daquilo de que
medo de fracassar, um medo de não obter o seu PhD. Então vem venho falando, a vivência de um sentimento até o seu limite.
uma longa pausa. Deste ponto em diante deixaremos que a Aqui está ele, por um momento, experienciando-se como nada
entrevista gravada fale por si só. além de garotinho suplicante, rogante, implorador, dependente.
Nesse momento ele não é nada além de sua súplica, até o fim.
128 ~- Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ _ _ ___________129

Para se certificar ele quase que imediatamente se afasta dessa tantos pedaços, e é tão dificil ver onde se encaixam. Algumas
vivência ao dizer "Quem, eu, implorar?", mas o fato já deixou vezes, você os coloca no lugar errado, e quanto mais pedaços
sua marca. Como diz instantes depois: "É uma coisa tão assom- mal encaixados, mais esforço se dispende para mantê-los no lu-
brosa que todas essas coisas novas surjam em mim. Isso me sur- gar, até que finalmente você se vê tão cansada que mesmo aquela
preende tanto a cada vez, e então novamente há este mesmo confusão horrível é melhor do que continuar por mais tempo.
sentimento, como se me sentisse amedrontado que tenha tanto Então você descobre que entregues a eles mesmos os pedaços
embaralhados caem bem naturalmente em seus próprios lugares,
disso que estou guardando ou algo assim." Ele se dá conta de
e um padrão vivo emerge sem qualquer esforço de nossa parte.
que isso transbordou, e que por um momento ele é sua depen-
Sua tarefa é somente descobrir isso, e ao fazê-lo, você encontra a
dência, de uma forma que o deixa perplexo.
si mesmo e o seu próprio lugar. Você deve até deixar que a sua
Não é somente a dependência que é experienciada sem própria experiência lhe revele seu próprio sentido; no momento
reservas. Pode ser mágoa, ou pesar, ou inveja, ou raiva destruti- em que você revela o que ela significa, você entra em guerra con-
va, ou desejo profundo, ou confiança e orgulho, ou ternura sen- sigomesmo.
sível, ou amor extrovertido. Pode ser qualquer das emoções de
que o homem é capaz. Deixe-me ver se posso tomar sua expressão poética e tra-
O que aprendi gradualmente, a partir de experiências como duzi-la no sentido que ela encerra para mim. Acredito que o
essa, é que o indivíduo num momento como esse, está chegan- que ela está dizendo é que ser ela mesma significa encontrar o
do a ser o que ele é. Quando uma pessoa experienciou dessa for- padrão, a ordem subjacente que existe no fluxo incessantemen-
ma, durante toda a terapia, todas as emoções que organismica- te mutável de sua experiência. Ao invés de tentar sustentar a sua
mente afloram nela, tendo-as vivenciado dessa maneira cons- experiência na forma de uma máscara, ou fazer com que seja
ciente e aberta, então ela vivenciou ela mesma, em toda a rique- uma forma ou estrutura que não é, ser ela mesma significa des-
za que existe dentro de si. Ela se tomou aquilo que ela é. cobrir a unidade e harmonia que existe em seus próprios senti-
mentos e reações reais. Significa que o eu verdadeiro é algo que
A descoberta do eu na experiência se descobre tranqüilamente por meio da própria experiência, e
Prossigamos ainda mais nesta questão do que significa tor- não algo imposto sobre esta.
nar-se o seu próprio eu. É uma questão demasiado desconcer- Ao fornecer excertos das declarações desses clientes, ve-
tante e novamente tentarei obter uma sugestão de resposta a nho tentando sugerir o que acontece no clima de afeto e com-
partir da declaração de uma cliente, escrita entre entrevistas. preensão de uma relação facilitadora com o terapeuta. Parece
Ela nos conta como as várias fachadas por meio das quais esta- que gradualmente, dolorosamente, o indivíduo explora o que
va vivendo, de algum modo se amarfanharam e desmoronaram, está por detrás das máscaras que apresenta ao mundo, e mesmo
trazendo um sentimento de confusão, mas também um senti- atrás das máscaras com as quais vem se enganando. De forma
mento de alívio. Ela prossegue: profunda e freqüentemente vívida, ele experiencia os vários
elementos de si mesmo que se encontravam escondidos dentro
Você sabe, é como se toda a energia que se aplicava à ma- dele. Dessa forma, cada vez mais ele se toma ele mesmo -não
nutenção do padrão arbitrário fosse desnecessária- um desper- uma fachada de conformidade aos outros, não uma negação
dício. Você acha que tem de fazer o padrão por si mesma; mas há cínica de todos os sentimentos, nem uma frente de racionalida-
130 O processo de tornar-se pessoa 131
_ _ _ _ Tornar-se pessoa

de intelectual, mas um processo vivo, que respira, sente e oscila categorias preconcebidas. Ele vê que nem todas as árvores são
-em suma, ele se toma uma pessoa. verdes, nem todos os homens são pais rígidos, nem todas as
mulheres são rejeitadoras, nem todas as experiências de fracas-
so provam que ele não é bom, e assim por diante. Está apto a
A pessoa que ajlora assimilar a evidência em uma nova situação, como ela é, ao
invés de distorcê-la para se ajustar ao padrão que ele já sustém.
Imagino que alguns de vocês estejam perguntando: "Mas Como seria de esperar, essa capacidade crescente de ser aberto
que tipo de pessoa ele se toma? Não é suficiente dizer que ele à experiência o toma muito mais realista ao lidar com nossas
deixa cair as fachadas. Que tipo de pessoa se encontra por pessoas novas, novas situações, novos problemas. Significa que
baixo?". Como um dos fatos mais evidentes é que cada indiví- suas crenças não são rígidas, que ele pode tolerar a ambigüida-
duo tende a se tomar uma pessoa separada, distinta e única, a de. Ele pode obter as evidências mais conflitantes sem que isto
resposta não é fácil. Todavia, gostaria de ressaltar algumas das o force a se fechar diante da situação. Essa abertura de consciên-
tendências características que ten.~o observado. Nenhuma pes- cia àquilo que existe neste momento em si mesmo e na situação
soa exemplificaria plenamente essas características, ninguém constitui, acredito, um elemento importante na descrição da
se conforma completamente à descrição que darei, mas vejo pessoa que emerge da terapia.
que certas generalizações podem ser feitas, baseadas na vivên- Talvez possa conferir a esse conceito um significado mais
cia de uma relação terapêutica com muitos clientes. vívido se o ilustrar a partir de uma entrevista gravada. Um jo-
vem profissional relata na quadragésima oitava entrevista a
Abertura à experiência maneira como se tomou mais aberto a algumas de suas sensa-
ções corporais, assim como outros sentimentos.
Primeiro gostaria de dizer que nesse processo o indivíduo
se toma mais aberto à sua experiência. Esta é uma frase que C: Não me parece ser possível a ninguém relatar todas as
veio a se tomar fecunda em significado para mim. É o oposto mudanças que sente. Mas eu certamente tenho sentido nos últi-
da defesa. A pesquisa psicológica tem mostrado que se a evi- mos tempos que tenho mais respeito pela minha constituição
dência de nossos sentidos está em oposição à nossa imagem do fisica, mais objetividade com relação a esta. Quero dizer que não
espero demais de mim mesmo. É assim que funciona: parece-me
eu, então a evidência é distorcida. Em outras palavras, não
que no passado costumava lutar contra um certo cansaço que
podemos ver tudo o que nossos sentidos relatam, mas somente
sentia após as refeições. Bem, agora tenho plena certeza de que
as coisas que se ajustam à imagem que temos. realmente estou cansado - de que não estou me fazendo de can-
Já em uma relação segura do tipo que descrevi, essa defesa sado - que estou simplesmente fisiologicamente mais fraco.
ou rigidez tende a ser substituída por uma abertura cada vez Parece que eu estava constantemente criticando meu cansaço.
maior à experiência. O indivíduo se toma mais abertamente T: Então você se deixa estar cansado, ao invés de sentir,
consciente de seu próprios sentimentos e atitudes conforme es- além disso uma espécie de crítica.
tes existam nele em um nível orgânico, da maneira como tentei C: Sim, de que eu não deveria estar cansado ou algo assim.
descrever. Também se toma mais consciente da realidade con- E me parece de um certo modo ser bem profundo o fato de que
forme esta existe fora de si mesmo, ao invés de percebê-la em simplesmente não posso lutar contra esse cansaço, e isto é acom-
132 _ _ _ _ Tornar-se pessoa 133
Oprocesso de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ __

panhado também por um sentimento real de que tenho que ir T: Parece-me que está dizendo que pode ouvir mais acura-
mais devagar, de modo que estar cansado não é uma coisa tão damente a si mesmo. Se o seu corpo diz que está cansado, você o
horrível. Acho que também posso como que estabelecer uma ouve e acredita nele, ao invés de criticá-lo; se está com dor, você
ligação aqui de por que eu deva ser assim, da maneira como meu pode ouvir isto; se o sentimento é realmente amor por sua esposa
pai é, e da maneira como encara algumas dessas coisas. Por ou filhos, você pode sentir isto, e isto parece se revelar também
exemplo, digamos que eu estivesse doente, e eu lhe contasse, e nas diferenças provocadas neles.
pareceria que abertamente ele gostaria de fazer algo a respeito,
mas também faria transparecer: "Oh meu Deus, mais proble- Aqui, em um excerto relativamente menor porém simboli-
mas". Você sabe, algo assim.
camente importante, pode-se ver muito daquilo que venho ten-
T: Como se houvesse algo bem importuno com o fato de se
tando dizer sobre abertura à experiência. Anteriormente ele não
estar fisicamente doente.
C: Sim, tenho certeza de que meu pai tem o mesmo desres-
poderia sentir livremente dor ou doença, pois estar doente sig-
peito pela sua própria fisiologia que eu tive. No verão passado, nificava ser inaceitável. Nem poderia sentir ternura e amor por
eu torci minhas costas, eu a distendi, a ouvi estalar e tudo o mais. seus filhos pois esses sentimentos significavam ser fraco, e ele
Primeiro houve uma dor real ali todo o tempo, realmente aguda. tinha de manter sua fachada de forte. Mas agora ele pode ser
Fui ao médico para que me examinasse e ele disse que não era genuinamente aberto às experiências de seu organismo - pode
sério, que curaria por si só contanto que não me curvasse muito. estar cansado quando estiver cansado, pode sentir dor quando
Bem, isso aconteceu há alguns meses - e tenho percebido ulti- seu organismo estiver com dor, pode experienciar livremente o
mamente que -puxa vida, é uma dor real e ainda persiste -e não amor que sente por sua filha e pode também sentir e expressar
é minha culpa. aborrecimento com relação a ela, conforme continua a dizer na
T: Isto não prova algo ruim a seu respeito. proxima porção da entrevista. Ele pode viver plenamente as
C: Não. E uma das razões por que pareço ficar mais cansa-
experiências de seu organismo total, ao invés de recusar-se a
do do que deveria talvez seja essa tensão constante, e então- já
permitir que sejam percebidas.
marquei uma consulta com um dos médicos no hospital para que
me examinasse e tirasse uma radiografia ou algo assim. De uma
certa forma acho que poderia dizer que estou simplesmente mais Confiança no próprio organismo
acuradamente sensível- ou objetivamente sensível a esse tipo de Uma segunda característica das pessoas que emergem da
coisa ... E isto constitui uma mudança realmente profunda como
terapia é difícil de ser descrita. Parece que a pessoa descobre
disse, e evidentemente minha relação com minha esposa e meus
cada vez mais que seu próprio organismo é digno de confiança,
dois filhos está - bem, você não a reconheceria se pudesse me
ver por dentro -como aliás, fez você - quero dizer- parece sim- que constitui um instrumento adequado para descobrir o com-
plesmente não haver nada mais maravilhoso do que verdadeira e portamento mais satisfatório em cada situação imediata.
genuinamente - realmente sentir amor por seus próprios filhos e Se isto parece estranho, deixe-me tentar expressá-lo mais
ao mesmo tempo recebê-lo. Não sei como colocar isso. Temos completamente. Talvez lhe ajude a compreender minha descri-
tido um respeito cada vez maior- ambos -por Judy e temos no- ção se pensar no indivíduo que depara com alguma escolha
tado que - à medida que participamos disso - observamos uma existencial: "Devo ir para casa de minha família durante as fé-
enorme mudança nela- isso parece ser um tipo de coisa bem pro- rias, ou devo me virar sozinho?"; "Devo beber este terceiro
funda. coquetel que está sendo oferecido?"; "É esta a pessoa que gos-
134 O processo de tornar-se pessoa ___ ____ _ __ 135
______ Tornar-se pessoa

taria de ter como meu parceiro no amor e na vida?". Pensando jovem pode ver somente as boas qualidades de seu futuro com-
nessas situações, o que parece verdadeiro a respeito da pessoa panheiro, quando uma abertura à experiência indicaria que ele
que emerge do proceso terapêutico? Na medida em que esta também apresenta falhas.
pessoa está aberta a toda a sua experiência, ela tem acesso a Em geral, então, parece ser verdade que quando um cliente
todos os dados disponíveis na situação, sobre os quais basear está aberto à sua experiência, ele vem a confiar mais em seu orga-
seu comportamento. Ela tem conhecimento de seus próprios nismo. Ele sente menos medo das reações emocionais que tem.
sentimentos e impulsos, que são freqüentemente complexos e Há um crescimento gradual de confiança, e mesmo afeição pela
contraditórios. Ela está livremente apta para perceber as exi- amostragem complexa, rica e variada de sentimentos e tendências
gências sociais, desde as "leis" sociais relativamente rígidas até que existem nele em nível orgânico. A consciência, ao invés de ser
os desejos de amigos e familiares. Ela tem acesso às suas me- a sentinela dos inúmeros impulsos perigosos e imprevisíveis, den-
mórias de situações semelhantes e às conseqüências de diferen- tre os quais, poucos são autorizados a ver a luz do sol, toma-se o
tes comportamentos naquelas situações. Ela tem uma percep- habitante tranqüilo de uma sociedade de impulsos e sentimentos e
ção relativamente acurada de sua situação externa em toda a sua pensamentos, que se constata serem muito satisfatoriamente auto-
complexidade. Ela está mais apta a permitir que seu organismo governantes quando não são vigiados com receio.
total, seu pensamento consciente participativo, considere, pon-
dere e equilibre cada estímulo, necessidade e exigência, e seu Um foco interno de avaliação
peso e intensidade relativos. A partir dessa ponderação e equilí-
Uma outra tendência que se faz evidente neste processo de
brio complexos, ela está apta a descobrir o curso de ação que
tomar-se pessoa se relaciona à fonte ou foco de escolhas e deci-
parece mais se aproximar à satisfação de todas as suas necessi-
sões, ou julgamentos apreciativos. O indivíduo passa a perceber
dades na situação, tanto as necessidades de longo alcance como
aquelas imediatas. cada vez mais que esse foco de avaliação se encontra dentro de
Nessa ponderação e equilíbrio de todos os componentes de si mesmo. Cada vez menos olha para os outros em busca de
uma determinada escolha de vida, seu organismo não seria de aprovação ou desaprovação; de padrões a seguir; de decisões e
forma alguma infalível. Escolhas errôneas podem ser feitas. escolhas. Ele reconhece que cabe a ele mesmo escolher; que a
Mas devido ao fato de tender a estar aberto às suas experiên- única questão que importa é : "Estarei vivendo de uma maneira
cias, há uma consciência maior e mais imediata de conseqüências que é profundamente satisfatória para mim, e que me expressa
insatisfatórias, uma correção mais rápida de escolhas que estão verdadeiramente?" Esta talvez seja a pergunta mais importante
erradas. para o indivíduo criativo.
Pode nos ajudar se nos dermos conta de que na maioria de Talvez ajudaria se eu fornecesse uma ilustração. Gostaria
nós o que interfere nessa ponderação e equilíbrio é o fato de in- de apresentar um trecho breve de uma entrevista gravada com
cluirmos coisas que não fazem parte de nossa experiência, e uma jovem, aluna de pós-graduação, que me procurou para
excluirmos elementos que fazem. Dessa forma, um indivíduo aconselhamento. Ela se mostrou inicialmente muito perturbada
pode persistir no conceito de que "Eu posso me controlar com com relação a muitos problemas, e estava considerando a possi-
bebidas alcoólicas", quando uma abertura às suas experiências bilidade de suicídio. Durante a entrevista, um dos sentimentos
passadas indicariam que isso dificilmente é a verdade. Ou uma que descobriu foi um grande desejo de ser dependente, simples-
136 O processo de tornar-se pessoa ~
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Tornar-se pessoa ----~----~-------

mente de deixar que outra pessoa assumisse a direção de sua C: (Ri) Eu, uh - Não tenho certeza se realmente sei. Quero
dizer- bem, realmente é como se eu estivesse solta (pausa) e pare-
vida. Criticava muito aqueles que não haviam lhe dado orienta-
ce que me encontro - não sei - em uma posição vulnerável, mas
ção suficiente. Mencionou vários de seus professores, sentindo
eu, uh, eu levantei essa questão e esse, uh, de alguma forma quase
amargamente que nenhum deles lhe havia ensinado algo com que saiu sem que eu houvesse dito. Parece que é algo que escapou.
significado profundo. Gradualmente, começou a se dar conta T: Como se não fosse uma parte de você.
de que parte da dificuldade residia no fato de que ela não havia C: Bem, fiquei surpresa.
tomado nenhuma iniciativa em participar nessas aulas. Então T: Como se "Ora, pelo amor de Deus, eu disse isso"? (Am-
vem o trecho que gostaria de citar. bos riem furtivamente.)
Acredito que vocês constatarão que este excerto dá uma C: Realmente, não acredito que tenha tido esse sentimento
certa idéia do que significa, em experiência, aceitar o foco de antes. Eu- uh, bem, isto é como se estivesse dizendo algo que,
avaliação como estando dentro de si. Aqui então está a citação uh, é uma parte de mim realmente. (Pausa) Ou, uh, (bastante
perplexa), parece como se eu tivesse, uh, não sei. Tenho um sen-
extraída de uma das últimas entrevistas com esta jovem, à me-
timento de força, e ainda assim, tenho um sentimento - me dou
dida que começa a se dar conta de que talvez ela seja parcial-
conta de que é tão assustador, de pavor.
mente responsável pelas deficiências em sua própria educação. T: Isto é você quer dizer que o fato de dizer algo desse tipo
ao mesmo tempo lhe dá um sentimento de força ao dizê-lo, e
C: Bem, agora me pergunto se eu tenho levado a vida fa- mesmo assim, ao mesmo tempo lhe dá um sentimento assustador
zendo isso, obtendo somente as noções básicas das coisas, e não daquilo que acabou de dizer, é isso?
compreendendo, e não realmente me aprofundando nelas. C: M-hm. Estou sentindo isto. Por exemplo, estou sentindo
T: Talvez você venha somente se alimentando de colhera- isso internamente agora- uma espécie de onda repentina, ou força
das aqui e ali, ao invés de realmente cavar em algum lugar mais ou escape. Como se isso fosse algo realmente grande e forte. E
profundamente. porém, uh, bem primeiro era quase que um sentimento fisico de
C: M-hm. É por isso que digo- (lentamente e muito compene- estar simplesmente lá fora sozinha, e como que desligada de um-
tradamente), ora, com esse tipo de bases, bem, isso realmente cabe um apoio que vinha levando comigo.
a mim. Quero dizer, parece-me de fato evidente que não posso T: Você sente que é algo profundo e forte, e que se avolu-
depender de outra pessoa para me dar uma educação. (Muito sua- ma, e ao mesmo tempo, você sente como se tivesse se desligado
vemente.) Eu realmente terei de obtê-la por minha conta. de qualquer apoio quando diz isso.
T: Começa realmente a lhe ocorrer - há somente uma pes- C: M-hm. Talvez isso seja- não sei- uma perturbação de
soa que pode educá-la- que talvez ninguém mais possa lhe dar um tipo de padrão que vinha levando comigo, acho.
uma educação. T: Isso como que abala um padrão bem significativo, saco-
C: M-hm. (Longa pausa - enquanto está sentada pensan- de-o até que se solte.
do.) Tenho todos os sintomas de pavor. (Ri brandamente.) C: M -hm. (Pausa, então cautelosamente, porém com convic-
T: Pavor? Pois isso é algo assustador, é isso que quer dizer? ção.) Eu, acho que -não sei, mas tenho a impressão de que então
C: M-hm (Pausa muito longa- obviamente lutando contra começarei a fazer mais coisas que sei que deveria fazer... Há tantas
os sentimentos dentro de si). coisas que preciso fazer. Parece que em tantas áreas da minha vida
T: Você gostaria de dizer algo mais sobre o que quer dizer tenho que elaborar novas formas de comportamento, mas- talvez
com isso? Que isso realmente lhe faz sentir os sintomas de pavor? -posso me ver melhorando um pouco em algumas coisas.
138 ~-- Tornar-se pessoa 139
O processo de tornar-se pessoa _ _ _ __

Espero que esta ilustração dê uma noção da força que é Aqui está uma outra declaração desse mesmo elemento de
vivenciada quando se é uma pessoa única, responsável por si, e fluidez ou viver existencial: "Toda essa sucessão de vivências, e
também o desconforto que acompanha essa assunção de respon- os significados que até agora descobri nesta, parece ter desen-
sabilidade. Reconhecer que "sou aquele que escolhe" e "sou cadeado em mim um processo que é tanto fascinante quanto em
aquele que determina o valor de uma experiência para mim" alguns momentos um pouco assustador. Parece querer dizer que
constitui tanto uma realização animadora quanto assustadora. devo deixar que minhas experiências me façam prosseguir, em
uma direção que parece ser para frente, rumo às metas que
Desejo de ser um processo posso definir vagamente, à medida que procuro compreender
Gostaria de ressaltar uma característica final desses indiví- ao menos o significado atual daquela experiência. A sensação é
duos à medida que lutam para descobrirem a si mesmos e toma- a de viajar em uma corrente complexa de experiência, com a
rem-se eles mesmos. É a de que o indivíduo parece se mostrar possibilidade fascinante de tentar compreender a sua complexi-
mais satisfeito em ser um processo ao invés de um produto. dade constantemente mutável."
Quando ingressa na relação terapêutica, o cliente provavelmente
deseja alcançar algum estado fixo; ele deseja chegar ao ponto em
que seus problemas serão resolvidos, ou onde será eficiente em Conclusão
seu trabalho, ou onde seu casamento será satisfatório. Ele tende,
na liberdade da relação terapêutica, a abandonar essas metas Procurei lhes contar o que pareceu ocorrer nas vidas das
fixas, e aceitar uma compreensão mais satisfatória de que não pessoas com as quais tive o privilégio de compartilhar uma re-
constitui uma entidade fixa, mas um processo de tomar-se. lação à medida que lutavam para se tomarem elas mesmas. Ten-
Um cliente, na conclusão da terapia, diz de uma maneira tei descrever, o mais acuradamente possível, os significados que
bastante perplexa: "Eu não encerrei a tarefa de integrar-me e parecem estar envolvidos nesse processo de tomar-se pessoa.
reorganizar-me, mas isso é somente confuso, não desencoraja~ Tenho certeza de que esse processo não ocorre somente em
dor, agora que percebo que este é um processo contínuo ... E terapia. Estou certo de que não o vejo claramente ou completa-
excitante, algumas vezes preocupante, mas profundamente en- mente, já que continuo mudando minha compreensão e enten-
corajador sentir-se em ação, aparentemente sabendo para onde dimento do mesmo. Espero que o leitor aceite este como um
você se dirige mesmo que não saiba sempre conscientemente quadro atual e experimental, não como algo final.
onde é isto." Pode-se ver aqui tanto a expressão de confiança no Uma razão para ressaltar a natureza experimental daquilo
organismo, que já mencionei, como também a percepção do eu que disse é que desejo deixar claro que não estou dizendo: "Isto é
como um processo. Aqui está uma descrição pessoal da sensa- o que você deve se tomar; aqui está uma meta para você." Ao
ção de aceitar-se como um curso do tomar-se, e não como um invés disso, estou dizendo que estes são alguns dos significados
produto acabado. Significa que uma pessoa é um processo fluí- que observo nas experiências que meus clientes e eu compartilha-
do, não uma entidade fixa e estática; um rio corrente de mudan- mos. Talvez este quadro de experiência dos outros possa iluminar
ças, não um bloco de material sólido; uma constelação de ou dar mais sentido a algumas de suas próprias experiências.
potencialidades continuamente mutáveis, não uma quantidade Tenho ressaltado que cada indivíduo parece estar fazendo
fixa de traços. uma pergunta dupla: "Quem sou eu? "e "Como posso tomar-
140 ______ Tornar-se pessoa

me eu mesmo?". Tenho afirmado que num clima psicológico Capítulo 7


favorável um processo de tomar-se ocorre; que o indivíduo dei-
xa cair as máscaras defensivas com as quais vinha encarando a
A psicoterapia considerada como um processo
vida, uma após a outra; que ele vivencia plenamente os aspec-
tos ocultos de si mesmo; que descobre nessas experiências o
estranho que vinha vivendo por detrás destas máscaras, o estra-
nho que é ele mesmo. Tentei exibir o meu quadro dos atributos
característicos da pessoa que aflora; uma pessoa que está mais
aberta a todos os elementos de sua experiência orgânica; uma
pessoa que está desenvolvendo uma confiança em seu próprio
organismo como um instrumento de vida sensível; uma pessoa
que aceita o foco de avaliação como residindo dentro de si mes-
mo; uma pessoa que está aprendendo a viver em sua vida como
um participante em uma processo fluído, contínuo, em que está No outono de 1956 tive a grande honra de receber da As-
constantemente descobrindo novos aspectos de si mesmo no sociação Americana de Psicologia um dos três primeiros prê-
fluxo de sua experiência. Estes são alguns dos elementos que mios por contribuição científica. Havia no entanto uma obriga-
me parecem estar envolvidos em tomar-se pessoa. ção ligada ao prêmio, obrigação que previa para um ano mais
tarde que cada um dos premiados apresentasse um artigo para
a Associação. Resolvi que, em vez de dedicar um ano a uma
nova tarefa, o melhor seria estudar o processo pelo qual a per-
sonalidade se modifica. Assim fiz, mas, quando o outono se
aproximava, compreendi que as idéias que elaborara eram ain-
da pouco claras, provisórias, dificeis de apresentar. Procurei,
no entanto, transcrever as confusas impressões que foram im-
portantes para mim, das quais emergia um conceito de proces-
so diferente de tudo aquilo que antes vira com clareza. Quando
terminei, verifiquei que escrevera um artigo demasiado longo
para poder ser entregue e, por isso, procedi a uma redução que
lhe desse uma forma mais breve, que apresentei no dia 2 de se-
tembro de 1957na ConvençãoAmericanadePsicologia, emNova
York. Este capítulo não é tão longo quanto a forma primitiva,
nem tão abreviado quanto a segunda.
Se nos capítulos precedentes o processo terapêutico é en-
carado de um ponto de vista quase exclusivamente fenomenoló-
gico, a partir do quadro de referência do cliente, este procura
142 O processo de tornar-se pessoa _ _ __ 143
~--------
~ __ Tornar-se pessoa

captar aquelas qualidades de expressão que podem ser obser- Minha razão pessoal para entrar numa tal exploração é
vadas por outra pessoa e situa-se, portanto, num quadro de re- muito simples. Da mesma maneira que muitos psicólogos se
ferência externa. interessaram pelos aspectos constantes da personalidade - os
A partir das observações contidas neste capítulo, elaborou- aspectos invariáveis da inteligência, do temperamento, da es-
se uma "Escala do processo terapêutico " que pode ser experi- trutura da personalidade-, também eu me interessei, desde há
mentalmente aplicada a excertos de entrevistas gravadas. O muito tempo, pelas constantes que intervêm na modificação da
método está ainda na fase de revisão e aperfeiçoamento. Mes- personalidade. A personalidade e o comportamento se modifi-
mo sob sua forma atual oferece, na opinião da maior parte dos cam? Que existe de comum nessas alterações? Quais são os
especialistas, uma fidedignidade aceitável e fornece resultados pontos comuns entre as condições que precedem a modifica-
significativos. Casos que, por outros critérios, foram conside- ção? Mas, e é o que sobretudo importa, qual é o processo pelo
rados bem-sucedidos apresentam nessa "Escala do processo " qual essas modificações ocorrem?
um movimento mais amplo do que os casos menos bem-sucedi- Até pouco tempo atrás, tentamos sobretudo saber alguma
dos. Do mesmo modo, e para nossa grande surpresa, verificou- coisa sobre esse processo pelo estudo dos resultados. Temos à
se que os casos bem-sucedidos começam num nível mais eleva- mão muitos fatos referentes, por exemplo, às alterações que
do da Escala do que os casos em que a terapêutica não teve um ocorrem na autopercepção e na percepção do outro. Não nos
resultado tão bom. Evidentemente, não sabemos ainda com um limitamos a medir essas alterações considerando o processo
grau suficiente de segurança como ajudar terapeuticamente os global da terapia, mas fizemo-lo durante o tratamento com uma
indivíduos cujo comportamento, quando se apresentam perante determinada regularidade. Mas mesmo esta última técnica for-
nós, é típico dos estágios 1 e 2 adiante descritos. Por isso, as idéias neceu-nos poucas indicações quanto ao processo em si mesmo.
expressas neste capítulo, embora me tivessem parecido naquela Estudos sobre resultados segmentados são ainda medidas de
altura pobremente elaboradas e ma/formuladas, representam já resultados e, por conseguinte, fornecem poucas indicações so-
uma abertura para novos e interessantes domínios do pensamen- bre a maneira como se opera a transformação.
to e da investigação. Ao debruçar-me sobre esse problema, pude compreender
como é restrito na investigação objetiva o estudo do processo,
seja em que campo for. A investigação objetiva, para nos forne-
O enigma do processo terapêutico cer uma representação exata das inter-relações que ocorrem
num determinado momento, oferece-nos, em partes, momentos
Gostaria que me acompanhassem numa viagem de explo- cristalizados do tratamento. Mas nossa compreensão de um
ração. O objetivo da viagem, a meta da investigação, é procurar movimento permanente - quer se trate do processo de fermen-
obter informações sobre o processo da psicoterapia, ou seja, o tação, da circulação do sangue ou da fissão atômica - é de um
processo através do qual a personalidade se altera. Devo apon- modo geral fornecida por uma formulação teórica, muitas ve-
tar desde já que o objetivo ainda não foi atingido e que tudo se zes acompanhada, quando isso é possível, de uma observação
passa como se a expedição tivesse avançado apenas alguns qui- clínica do processo. Percebi então que talvez eu estivesse ali-
lômetros no interior da selva. No entanto, se me quiserem acom- mentando uma excessiva esperança de ver os procedimentos de
panhar, talvez sejam tentados a descobrir novas vias de acesso investigação iluminarem diretamente os processos em que a
que nos permitam avançar nas nossas investigações. personalidade se modifica. Talvez só a teoria o possa fazer.
144 ___________ "~----- Tornar-sepessoa 145
Oprocesso de tornar-se pessoa

Um método rejeitado te preconceitos, uma visão pessoal da psicoterapia, e tentei


Quando resolvi, há mais de um ano, fazer nova tentativa desenvolver considerações teóricas sobre a terapia. Esses pontos
para compreender o modo como se dão essas modificações, co- de vista e essas teorias tenderiam a tomar-me menos receptivo
mecei por considerar as diversas maneiras de descrever a expe- para os próprios acontecimentos. Seria capaz de me abrir aos fe-
riência terapêutica em termos de um outro quadro de referência nômenos da terapia de uma forma nova, ingênua? Poderia fazer da
qualquer. Há muito me sentia atraído pela teoria da comunica- minha experiência global um instrumento tão eficaz quanto pos-
ção, com os seus conceitos de feedback, com os sinais "de en- sível, ou impedir-me-iam os meus preconceitos de ver o que real-
trada e de saída", e assim por diante. Havia igualmente a possi- mente se passava? Só me restava ir em frente e fazer a tentativa.
bilidade de descrever o processo terapêutico em termos da teo- Assim, durante este último ano, passei muitas horas a ou-
ria da aprendizagem ou em termos da teoria geral dos sistemas. vir gravações de entrevistas terapêuticas- tentando ouvi-las tão
Quando estudei essas diferentes vias de compreensão, ganhei a ingenuamente quanto possível. Procurei absorver todos os indí-
convicção de que seria possível transpor o processo psicotera- cios que fosse capaz de apreender referentes ao processo e aos
pêutico para qualquer desses quadros de referência teórica. Jul- elementos significativos nas alterações verificadas. Procurei
go que haveria algumas vantagens em proceder desse modo. em seguida abstrair dessas impressões as idéias mais simples
Mas fui me convencendo de que, num campo de investigação que pudessem descrevê-las. Sob esse aspecto, fui muito estimu-
tão novo, não era essa a maior necessidade. lado e auxiliado pelos trabalhos de alguns dos meus colegas,
Cheguei à conclusão, que outros antes de mim já tinham mas gostaria de citar de modo particular, com o meu maior
atingido, de que um novo domínio talvez exija em primeiro lu- reconhecimento, Eugene Gendlin, William Kirtner e Fred Zim-
gar que nos fixemos nos acontecimentos, que nos aproximemos ring, cuja capacidade manifesta para abrir novos caminhos nes-
dos fenômenos com o mínimo de preconceitos possível, que sas matérias me foi particularmente útil, a eles recorrendo cons-
assumamos a atitude observadora e descritiva do naturalista, ex- tantemente.
traindo inferências elementares que parecem ser mais próprias A fase seguinte consistiu em reunir essas observações e abs-
ao material estudado. trações elementares e formulá-las de modo a poder destacar ime-
diatamente hipóteses verificáveis. Foi este o ponto até onde che-
O modo de abordagem guei. Não tenho que me desculpar por não apresentar as investi-
gações experimentais que estão na base dessas formulações. Se a
Por isso, desde o ano passado, empreguei o método que experiência passada for de algum modo um guia, posso ter certe-
muitos de nós utilizamos para levantar hipóteses, um método za de que as hipóteses que apresentar, se forem de alguma manei-
que os psicólogos do nosso país parecem relutantes em expor ra conformes à experiência subjetiva de outros terapeutas, contri-
ou comentar. Usei-me como instrumento. buirão para estimular a investigação em grande escala e, dentro
Como instrumento, tenho qualidade e defeitos. Durante de alguns anos, será possível determinar com clareza o grau de
muitos anos vivenciei a terapia como terapeuta. Fiz a experiên- verdade e de falsidade das afirmações que se seguem.
cia do outro lado da mesa, como cliente. Refleti sobre a tera-
pia, fiz investigações nesse campo, familiarizei-me com os tra-
balhos de investigação dos meus colegas. Mas adquiri igualmen-
146 O processo de tornar-se pessoa _____ _ ____ _ 147
____ Tornar-se pessoa

As dificuldades e o caráter instigante da investigação porque, se se tratasse de comunicar com o outro, ele teria à sua
disposição várias palavras de significado equivalente.
Pode parecer-lhes estranho que vá descrever tão pormeno- Acabei, desse modo, por reconhecer o valor dos chamados
rizadamente o caminho pessoal que percorri à procura de algu- "momentos dinâmicos", isto é, aqueles em que parece que uma
mas fórmulas simples e sem dúvida inadequadas. Procedi deste mudança realmente ocorre. Esses momentos, com as suas con-
modo porque estou convencido de que nove décimos da investi- comitantes fisiológicas mais evidentes, serão mais tarde objeto
gação nos escapam completamente e que o estudo da fração de uma tentativa de descrição.
que podemos ver conduz-nos a falsas conclusões. Apenas oca- Queria igualmente mencionar o profundo sentimento de
sionalmente alguém como Mooney (6, 7) descreve todo o méto- desespero que por vezes sinto, ingenuamente perdido na inacre-
do de investigação tal como existe no indivíduo. Eu também ditável complexidade da relação terapêutica. Não admira de
gostaria de revelar um pouco o conjunto desse estudo, tal como forma alguma que preferíssemos, ao iniciar o tratamento, dis-
se foi formando em mim, e não somente a parte impessoal. por de rígidos preconceitos. Sentimos que é necessário conferir
Gostaria de fazê-los participar intensamente das alegrias e uma ordem a tudo isso. Não ousamos esperar que se possa des-
desânimos do esforço para compreender o processo terapêuti- cobrir uma ordem nessa relação.
co. Gostaria de lhes contar uma descoberta que fiz recentemen- Aqui estão algumas das descobertas pessoais, dos embara-
te sobre a maneira como os sentimentos "tocam" os clientes - ços e dos desânimos que fui encontrando ao trabalhar sobre
um termo que eles empregam freqüentemente. O cliente está fa- esses problemas. Foi a partir daqui que se formaram as idéias
lando sobre um tema importante quando, subitamente, é "tocado" mais teóricas que gostaria agora de apresentar.
por um sentimento -nada que tenha um nome ou uma classifi-
cação, mas a experiência de algo desconhecido que deve ser Uma condição básica
cuidadosamente explorado, mesmo antes que se lhe possa apon-
tar uma designação. Como dizia um cliente: "É um sentimento Se estudássemos o mecanismo do crescimento das plantas,
que me arrasta. Nem mesmo sei a que é que ele se liga." A fre- teríamos de aceitar algumas condições constantes de tempera-
qüência desse fenômeno me impressionava. tura, de umidade e de iluminação, ao elaborar a nossa teoria
Um outro assunto de interesse foi a variedade dos caminhos sobre o processo a que assistimos. Do mesmo modo, ao teori-
seguidos pelos clientes para entrarem em contato com seus pró- zar sobre o processo da modificação da personalidade em psi-
prios sentimentos. Esses sentimentos vêm à superfície como coterapia, tenho de aceitar um conjunto ótimo de condições
"bolhas de ar", eles "brotam". O cliente "mergulha" nas suas emo- constantes que facilitem essa modificação. Tentei recentemente
ções, muitas vezes com cautela e com receio: "Eu queria mergu- estabelecer com algum pormenor essas condições (8). Para o
lhar neste sentimento, mas você sabe como isso é difícil". nosso objetivo de momento, creio poder resumir essas condi-
Outra dessas observações naturalistas liga-se à importân- ções numa palavra. Ao longo de toda a exposição que se segue,
cia que o cliente atribui à exatidão da simbolização. Ele quer parto do princípio de que o cliente se sente plenamente aceito.
exatamente a palavra precisa com a qual possa exprimir o senti- Com isso pretendo significar que, sejam quais forem os seus
mento por que passou. Uma aproximação não lhe basta. E isto sentimentos - temor, desespero, insegurança, angústia -, seja
para conseguir uma melhor comunicação consigo próprio, até qual for o seu modo de expressão - silêncio, gestos, lágrimas
148 _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ _ ------~149

ou palavras -, seja qual for a impressão sobre a sua situação aglomeram em torno de uma seção relativamente curta do con-
nesse momento, ele sente que está sendo psicologicamente tínuo. Ou seja, é pouco provável que numa esfera da sua exis-
aceito tal qual é, pelo terapeuta. Isto implica, portanto, o con- tência o cliente manifeste uma fixidez total e numa outra esfera
ceito de uma compreensão por empatia e o conceito de aceita- uma mobilidade absoluta. Ele tenderia, globalmente, a situar-se
ção. Convém igualmente sublinhar que é a vivência que o clien- nessa ou naquela etapa do processo. Contudo, o processo que
te tem dessa condição que a otimiza e não apenas o fato de tal pretendo descrever relaciona-se mais propriamente com deter-
condição existir no terapeuta. minados domínios das significações pessoais - onde levanto a
Logo, em tudo o que vou dizer sobre o processo de modifi- hipótese de que o cliente se acha neste domínio num estágio
cação da personalidade, admitirei como uma constante uma con- completamente definido e não apresenta nenhuma característi-
dição ótima e máxima de ser aceito. ca dos outros estágios.

O contínuo emergente
Os sete estágios do processo
Ao procurar captar e conceituar o processo de mudança,
comecei por buscar os elementos suscetíveis de caracterizarem Vou tentar delinear a forma como vejo os estágios sucessi-
a própria mudança. Pensava na mudança como uma entidade e vos do processo através do qual o indivíduo muda da fixidez
procurava seus atributos específicos. Pouco a pouco, fui com- para a fluidez, de um ponto situado perto do pólo estático do
preendendo, à medida que me expunha à matéria bruta da contínuo para um ponto situado perto do seu pólo "em movi-
mudança, que se tratava de um "contínuo" de uma espécie dife- mento". Se a minha observação é correta, é possível que, exa-
rente daquele que eu antes imaginara. minando e delimitando as qualidades da experiência e da ex-
Comecei a entender que os indivíduos não se movem a par- pressão num indivíduo determinado, num clima que ele próprio
tir de um ponto fixo ou uma homeostase para um novo ponto sente de completa aceitação, sejamos capazes de determinar o
fixo, embora um processo desse gênero seja possível. Mas o ponto em que ele se encontra nesse contínuo da mudança da per-
contínuo mais significativo é o que vai da fixidez para a mobili- sonalidade.
dade, da estrutura rígida para o fluxo, da estase para o processo.
Emiti a hipótese provisória de que talvez as qualidades da ex- Primeiro estágio
pressão do cliente pudessem, em qualquer momento, indicar a
sua posição nesse contínuo, indicar onde se encontra no proces- O indivíduo que se encontra neste estágio de fixidez e de
so de mudança. distanciamento da sua experiência não virá seguramente de boa
Desenvolvi progressivamente esse conceito de processo, vontade à terapia. No entanto, posso ilustrar, em certa medida,
distinguindo nele sete fases, mas insisto em que se trata de um as características desse estágio.
contínuo e que todos os pontos intermediários persistem, quer se
distingam três ou cinqüenta fases. Recusa de comunicação pessoal. Comunicação apenas sobre
Acabei por descobrir que determinado cliente, tomado co- assuntos exteriores.
mo um todo, revela habitualmente comportamentos que se Exemplo: "Pois bem, dir-lhe-ei que sempre me pareceu um
150 _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa 151
O processo de tornar-se pessoa _ _ __

pouco idiota falar de si mesmo, a não ser em caso de extrema Segundo estágio do processo
necessidade." 1
Quando a pessoa no primeiro estágio pode vivenciar a si
Os sentimentos e os significados pessoais não são apreendidos
mesma como é totalmente aceita, segue-se então o segundo
nem reconhecidos como tais.
estágio. Parecemos saber muito pouco sobre como proporcio-
Os construtos pessoais (segundo a expressão empregada por
nar a experiência de ser aceito para a pessoa no primeiro está-
Kelly (3) são extremamente rígidos.
gio, mas por vezes isso se consegue pela terapia lúdica ou em
As relações íntimas e comunicativas são encaradas como peri-
grupo. Nessas circunstâncias, a pessoa se beneficia de um
gosas.
clima de aceitação, sem ser obrigada a tomar qualquer iniciati-
Nesse estágio, nenhum problema pessoal é reconhecido ou cap-
va pessoal, durante um tempo suficientemente longo para se
tado.
sentir aceito. Em cada situação em que vivencia isso, nota-se
Não existe desejo de mudança.
que a expressão simbólica se torna um pouco mais maleável e
Exemplo: "Acho que estou perfeitamente bem."
fluida, o que se caracteriza por:
Existem muitos bloqueios na comunicação interna.
A expressão em relação aos tópicos referentes ao não-eu come-
Talvez essas curtas frases e exemplos possam ilustrar em ça a ser mais.fluente.
parte a rigidez psicológica inerente a essa extremidade do con- Exemplo: "Suspeito que meu pai sempre tenha se sentido
tínuo. O indivíduo tem pouco ou mesmo nenhum reconheci- pouco seguro nas suas relações de negócios."
mento do fluxo e do refluxo da sua vida afetiva. Os caminhos
que segue para construir a sua experiência foram determinados Os problemas são captados como exteriores ao eu.
pelo seu passado e não são, de maneira rígida, afetados pelo Exemplo: "A desorganização continua a aparecer inespera-
presente. No seu modo de vivenciar, ele está (para empregar damente na minha vida."
uma expressão de Gendlin e Zimring) determinado pelas estru-
turas da sua forma de experienciar (structure-bound). Ou seja, Não existe o sentimento de responsabilidade pessoal em rela-
reage "à situação presente assimilando-a a uma experiência ção aos problemas.
passada e reage depois a esse passado, sentindo-o" (2). A dife- Exemplo: Isto é ilustrado pela citação precedente.
renciação das significações pessoais da experiência é sumária
ou global, sendo esta vista em termos de preto-e-branco. O indi- Os sentimentos são descritos como não próprios ou, às vezes,
víduo não se comunica e não comunica senão aspectos exterio- como objetos passados.
res. Ele tende a se ver como não tendo problemas, ou os proble- Exemplo: O terapeuta: "Se quiser me dizer o que a traz
mas que reconhece são apreendidos como completamente exte- aqui ..." A cliente: "O sintoma era ... era ... estar muito deprimi-
riores a si mesmo. A comunicação interna entre o eu e a expe- da." Aqui está um exemplo excelente da maneira como os pro-
riência imediata está seriamente bloqueada. O indivíduo, nesse blemas interiores podem ser apreendidos e comunicados como
estágio, está representado por termos como estase, fixidez, em se fossem completamente exteriores. A clientes não diz: "Eu
oposição a fluxo ou mudança. estou deprimida", nem mesmo: "Eu estava deprimida." Ela
152 _ ----~---- Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _1_53_

trata o seu sentimento como um objeto remoto, que não possui, mente os terapeutas em geral) conseguimos obter um grau
que lhe é inteiramente exterior. muito modesto de resultados favoráveis ao trabalhar com eles.
Parece ser essa pelo menos a conclusão do estudo de Kirtner
Os sentimentos podem ser exteriorizados, mas não são reco- (5), conclusão aceitável embora o seu quadro de referência con-
nhecidos como tais, nem pertencentes ao próprio indivíduo. ceitual seja um pouco diferente no nosso. Sabemos muito
A experiência está determinada pela estrutura do passado. pouco sobre a forma como uma pessoa nesse estágio acaba por
Exemplo: "Suponho que a compensação que sempre pro- experimentar-se a si mesma como "aceita".
curei foi, mais do que tentar me comunicar com as pessoas ou
ter boas relações com elas, compensar, bem, como direi, ficar Terceiro estágio
num nível intelectual." Aqui a cliente começa a reconhecer a
maneira como a sua experiência presente está determinada pelo Se a leve maleabilidade e o início do fluxo no segundo es-
passado. Suas afirmações ilustram igualmente o distanciamen- tágio não forem bloqueados e o cliente se sentir sob esses as-
to da vivência a este nível. É como se ela mantivesse sua expe- pectos totalmente aceito tal qual é, dá-se uma maior maleabili-
riência à distância. dade e fluência da expressão simbólica. Eis algumas das carac-
terísticas que parecem acompanhar aproximadamente esse
Os construtos pessoais são rígidos, não reconhecidos como ponto do contínuo:
construtos, mas concebidos como fatos.
Exemplo: "Nunca posso fazer nada direito ... não posso Há um fluir mais livre da expressão do eu como um objeto.
acabar nada." Exemplo: "Esforço-me muito para ser perfeito com ela-
entusiasta, amigável, inteligente, falador - porque quero que
A diferenciação das significações pessoais e dos sentimentos é ela goste de mim."
muito limitada e global.
Exemplo: A citação precedente é uma boa ilustração - Há também uma expressão das experiências pessoais como se
"Nunca posso" é um aspecto de diferenciação em branco-e- tratassem de objetos.
preto, como o é igualmente o emprego de "direito" num sentido Exemplo: "E depois, ainda tem esse negócio de saber o
tão absoluto. quanto você se sente preparada para o casamento, e se a sua
vocação profissional é importante, e isso é o que você realmen-
As contradições podem ser expressas, mas com um pequeno te é nesse ponto, isso limita os contatos que possa ter." Nesse
reconhecimento delas enquanto contradições. caso, o eu da cliente é um objeto tão longínquo que essa reação
Exemplo: "Eu quero aprender, mas fico olhando para a devia antes situar-se entre o segundo e o terceiro estágio.
mesma página durante uma hora."
Há igualmente expressão sobre o eu como um objeto refletido,
Como comentário a esse segundo estágio do processo que existe primariamente nos outros.
pode-se dizer que um determinado número de clientes que vêm Exemplo: "Sou capaz de me sentir sorrindo com suavidade
voluntariamente à terapia estão nessa fase, mas nós (e provavel- como a minha mãe ou sendo teimoso e seguro de mim como
154 O processo de tornar-se pessoa __ _ 155
Tornar-se pessoa

meu pai às vezes é- deslizo para a personalidade seja de quem A diferenciação dos sentimentos e dos significados é um pouco
for, mas que não é a minha." mais nítida, menos global do que nas fases precedentes.
Exemplo: "Já o disse várias vezes, mas agora realmente
O cliente exprime e descreve sentimentos e significados pes- sinto isso. Será de admirar o fato de ter me sentido tão infeliz nes-
soais que não estão presentes. sas condições, vistas as sujeiras que me fizeram? E, por outro
Habitualmente, como se evidencia, são comunicações lado, também não fui um anjo, bem sei."
sobre sentimentos passados.
Exemplo: "Havia tantas coisas que eu não podia dizer às Há um reconhecimento das contradições da experiência.
pessoas, tantas coisas más que eu fiz. Sentia-me tão vil e tão Exemplo: O cliente explica que, por um lado, espera fazer
mau!" alguma coisa de grande e, por outro, sente que pode facilmente
Outro exemplo: "E o que agora sinto é precisamente o que fracassar.
me lembro de ter sentido quando era criança."
As opções pessoais são muitas vezes vistas como ineficazes.
Há uma aceitação muito reduzida dos sentimentos. A maior O cliente "decide" fazer uma coisa, mas descobre que o
parte dos sentimentos é revelada como algo vergonhoso, mau, seu comportamento não está de acordo com essa decisão.
anormal, ou inaceitável de outras maneiras. Julgo evidente que muitas das pessoas que vêm à procura
Manifestam-se sentimentos e, nesse caso, algumas vezes são de ajuda psicológica se situam aproximadamente nesse terceiro
reconhecidos como tais. estágio. Podem permanecer aí durante muito tempo, descreven-
A experiência é descrita como passada, ou como algo afastado do sentimentos que não sentem no momento e explorando seu
doeu. eu como um objeto, antes de estarem preparadas para passar à
próxima fase.
Os exemplos precedentes ilustram estas asserções.
Quarto estágio
Os construtos pessoais são rígidos, mas podem ser reconheci-
dos como construtos e não como fatos exteriores. Quando o cliente se sente compreendido, bem-vindo, acei-
Exemplo: "Sentia-me de tal maneira culpado durante a mi- to tal como é nos vários aspectos da sua experiência, no nível
nha juventude que julgava merecer ser sempre castigado fosse do terceiro estágio, dá-se então uma maleabilidade gradual de
pelo que fosse. Se julgava que não merecia ser castigado por seus construtos e uma fluência mais livre dos sentimentos,
uma coisa, sentia que o merecia por outra." Obviamente, o clien- características de movimento no contínuo. Podemos tentar cap-
te vê a situação como o modo como construiu a experiência, e tar algumas características dessa descontração e designá-las
não como um fato estabelecido. como o quarto estágio do processo.
Outro exemplo: "Sempre sinto medo quando há afeto en-
volvido porque isso implica submissão. Detesto isso, mas acho O cliente descreve sentimentos mais intensos do tipo "não-pre-
que identifico as duas coisas e que se alguém manifesta afeição sentes-agora ".
por mim isso significa que devo aceder a tudo o que essa pessoa Exemplo: "Pois bem, eu era realmente -tocou-me profun-
quiser." damente."
156 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _________ 157

Os sentimentos são descritos como objetos no presente. Exemplo: "Isso é engraçado. Por quê? Ora, porque· é um
Exemplo: "Fico desanimado por me sentir dependente, pouco estúpido da minha parte ... sinto-me um pouco inquieto,
porque isso quer dizer que não acredito em mim." um pouco embaraçado com isso ... e um pouco impotente (a sua
voz adoça-se e ele fica triste). O humor foi minha defesa toda a
Os sentimentos são por vezes expressos no presente, outras vida; talvez não seja muito apropriado para realmente ver a
vezes surgem como que contra os desejos do cliente. mim mesmo. Uma cortina que se corre ... Sinto-me um pouco
Exemplo: Um cliente, depois de relatar um sonho onde apa- perdido agora. Onde é que eu estava? O que estava dizendo?
recia um espectador perigoso, porque observava os seus "cri- Perdi o domínio sobre alguma coisa que servia para me agar-
mes", diz ao terapeuta: "Bem, não tenho confiança em você". rar." Este exemplo ilustra o choque e a alteração que resultam
de pôr em questão um construto básico, nesse caso, o humor em-
Há uma tendência para experimentar sentimentos no presente pregado como defesa.
imediato, mas que é acompanhada de desconfiança e de medo
perante essa possibilidade. Há uma maior diferenciação dos sentimentos, dos construtos,
Exemplo: "Sinto-me preso por alguma coisa. Devo ser eu! das significações pessoais, com certa tendência para procurar
Não encontro outra explicação. Não posso atribuir isso a nin- uma simbolização exata.
guém. Há este nó ... em alguma parte, dentro de mim ... Isso me Exemplo: Esta característica está adequadamente ilustrada
dá vontade de ficar louco- e gritar- e fugir!" em cada um dos exemplos dessa fase.

Há pouca aceitação dos sentimentos, embora já se manifeste Dá-se uma preocupação diante das contradições e incongruên-
alguma aceitação. cias entre a experiência e o eu.
Os dois exemplos precedentes indicam que o cliente mani- Exemplo: "Eu não estou vivendo de acordo com o que sou.
festa uma suficiente aceitação da sua experiência para enfrentar Poderia realmente fazer mais do que faço. Quantas horas não
sentimentos que lhe metem medo. A sua aceitação, porém, é gastei no banheiro nessa posição, enquanto a minha mãe me
pouco consciente. dizia: 'Não saia daí enquanto não tiver feito alguma coisa'. Pro-
duzir! ... Isso aconteceu com um monte de coisas."
A experiência está menos determinada pela estrutura do passa- Este exemplo ilustra ao mesmo tempo a preocupação pe-
do, é menos longínqua e surge mesmo, por vezes, com um ligei- rante as contradições e o questionamento da forma como a ex-
ro atraso. periência foi construída.
Os mesmos dois exemplos anteriores ilustram muito bem
esta maneira menos rigidamente determinada de enfrentar a ex- O indivíduo toma consciência da sua responsabilidade perante
periência. os seus problemas pessoais, mas com alguma hesitação.
Embora uma relação estreita ainda lhe pareça perigosa, o clien-
Surge uma maleabilidade na forma como a experiência é cons- te aceita o risco até um certo grau de afetividade.
truída. Ocorrem algumas descobertas de construtos pessoais; Alguns dos exemplos precedentes ilustram este aspecto,
dá-se um reconhecimento definitivo do seu caráter de constru- principalmente aquele onde o paciente diz: "Bem, não tenho
ções; começa a pôr-se em questão a sua validade. confiança em você."
158 _ Tornar-se pessoa 159
O processo de tornar-se pessoa

Não há dúvida de que essa fase, bem como a seguinte, cons- Exemplo: "Eu esperava ser rejeitado... estou sempre à
titui a maior parte da psicoterapia, tal como a conhecemos. Esses espera disso ... tenho até a impressão de sentir a mesma coisa
comportamentos são muito comuns em qualquer forma de com você ... Custa-me falar disso, porque queria ser o melhor
terapia. que posso com você." Aqui, os sentimentos em relação ao tera-
Seria bom recordar outra vez que uma pessoa nunca está peuta e ao cliente na sua relação com ele, emoções freqüente-
exclusivamente nesse ou naquele estágio do processo. Ouvindo mente muito dificeis de manifestar, são abertamente expressos.
as entrevistas e examinando as transcrições datilografadas, sou
levado a crer que as expressões de um cliente numa dada entre- Os sentimentos estão prestes a ser plenamente experimentados.
vista podem incluir frases e comportamentos que são sobretudo Começam a "vir à tona", "brotar", apesar do receio e da des-
característicos da terceira fase, com momentos freqüentes de confiança que o cliente experimenta em vivê-los de um modo
rigidez da segunda fase ou com maior maleabilidade da quarta pleno e imediato.
fase. Não me parece, porém, provável que se encontrem exem- Exemplo: "Isto apareceu assim e não sou capaz de com-
plos do sexto estágio numa tal entrevista. preender como. (Longa pausa.) Estou procurando compreender
O que foi dito refere-se à variabilidade no estágio geral que terror é este."
do processo em que o cliente se encontra. Se limitarmos nossa Exemplo: A cliente está falando sobre um acontecimento
investigação a uma área determinada dos significados pes- exterior. Subitamente, tem um olhar angustiado, aterrorizado.
soais expressos pelo cliente, proporei a hipótese de uma regu- O terapeuta: "O que é ... que é que se passa?"
laridade muito maior: o terceiro estágio encontrar-se-á rara- A cliente: "Não sei (chora) ... Devo ter me aproximado de
mente antes do segundo, o quarto estágio seguir-se-á raramen- alguma coisa de que não queria falar ... " Aqui, a cliente tomou
te ao segundo sem que o terceiro se interponha. É esse o gêne- consciência de um sentimento quase involuntariamente.
ro de hipóteses provisórias que podem ser estudadas de um Exemplo: "Sinto-me detido precisamente neste momento.
modo experimental. Por que é que a minha mente ficou vazia? Tenho a impressão de
me agarrar a qualquer coisa, mas larguei outras e algo em mim
O quinto estágio está dizendo: 'A que mais será preciso ainda renunciar?'"

À medida que avançamos no contínuo, podemos tentar Principia a despontar uma tendência para perceber que viven-
fixar novo ponto, a que chamaremos quinto estágio. Se o clien- ciar um sentimento envolve uma referência direta.
te se sente aceito nas suas expressões, comportamentos e expe- Os três exemplos acima citados ilustram justamente este
riências no quarto estágio, isso irá favorecer uma maleabilidade aspecto. Em cada um dos casos, o cliente sabe que sentiu algu-
ainda maior e uma renovada liberdade no fluxo organísmico. ma coisa, mas percebe que não pode exprimir claramente aqui-
Creio que podemos novamente delinear aproximadamente as lo que sentiu. Mas começa igualmente a esboçar-se a com-
características desse estágio do processo2 • preensão de que o objeto desses conhecimentos vagos reside
nele, num acontecimento organísmico em relação ao qual pode
Os sentimentos são expressos livremente como se fossem expe- verificar a exatidão das suas simbolizações e das suas formula-
rimentados no presente. ções cognitivas. Isso é muitas vezes revelado por expressões
O processo de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ · - - - - - - 161
160 _ _ _ Tornar-se pessoa

aconteceram. Sinto-me ferido por qualquer coisa e então, auto-


que indicam o caráter próximo ou longínquo que ele sente em
maticamente, é como se esse escudo escondesse o que se passa
relação a esse ponto de referência.
e fico com a impressão de não poder entrar em contato seja com
Exemplo: "Realmente não aprofundei muito, limitei-me a
o que for, de não poder sentir nada ... se fosse capaz de sentir ou
descrever".
pudesse aceitar imediatamente que estou ferido, poderia come-
çar imediatamente a chorar, mas não sou capaz."
Há surpresa e receio, raramente prazer, quando os sentimentos
Vemo-lo aqui considerando seu sentimento como a única
"vêm à tona ".
referência interna para a qual pode se voltar a fim de ver mais
Exemplo: O cliente, falando sobre suas antigas relações fa-
claro. No momento em que está prestes a chorar, dá-se conta de
miliares: "Isso já não tem qualquer importância. Hum. (pausa).
que isso representa o sentimento parcial e retardado de ter sido
Era no entanto muito importante, mas não faço a menor idéia por
ferido. Reconhece então que suas defesas são tais que não é
que razão ... Sim, é isso! Posso esquecer-me disso agora... isso
capaz, nessa fase, de vivenciar realmente o acontecimento que
não tem importância. Ai, que miséria e que estupidez!".
o fere no momento em que este ocorre.
Exemplo: O cliente acabara de exprimir o seu desespero:
"Ainda me sinto espantado com a força disto. Parece-me ser
Os modos segundo os quais se constrói a experiência são muito
isso exatamente que eu sinto."
mais maleáveis. Há muitas descobertas novas dos construtos pes-
soais como construtos e uma análise e discussão crítica destes.
Há cada vez mais uma chamada a si dos próprios sentimentos e
Exemplo: Um homem declara: "Essa idéia da necessidade de
o desejo de vivê-los, de ser o "verdadeiro eu ".
agradar- de ter de fazer isso- é realmente uma espécie de asser-
Exemplo: "A verdade é que eu não sou o indivíduo agradável
ção fundamental da minha vida (chora calmamente). Sabe, é uma
e tolerante que procuro mostrar que sou. Há coisas que me irritam.
espécie de axioma indiscutível isso de que eu tenho de agradar.
Sinto-me ríspido com as pessoas e sinto-me por vezes egoísta; e
Não tenho outra saída. Eu simplesmente tenho de fazer isso."
não sei por que é que havia de fingir que não sou assim".
Aqui fica claro para ele que essa asserção foi construída e
Isso mostra com toda clareza o maior grau de aceitação de
é evidente que o seu estatuto de indiscutível está prestes a ter-
todos os sentimentos.
minar.
A vivência é descontraída, já não distante e ocorre freqüente-
Há uma tendência forte e evidente para a exatidão na diforen-
mente com um ligeiro atraso.
ciação dos sentimentos e das significações.
Há um pequeno intervalo entre o acontecimento organís-
Exemplo:" ... uma tensão que cresce em mim, uma espécie
mico e a sua plena vivência subjetiva. É isso que um cliente nos
de desespero, como que uma incompletude - e a minha vida
descreve com uma admirável precisão.
atual está realmente muito vazia ... Não sei. Parece-me que o
Exemplo: "Sinto ainda alguma dificuldade ao tentar expri-
que mais se aproxima é o sentimento do desespero". Obvia-
mir o que significa essa tristeza e as crises de lágrimas. Apenas
mente, o indivíduo tenta captar o termo exato que simboliza pa-
sei que sinto isso quando chego a um determinado sentimento
ra ele sua experiência.
e... habitualmente, quando choro muito, isso me ajuda a fran-
quear uma barreira que levantei por causa de certas coisas que
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O indivíduo aceita cada vez mais enfrentar suas próprias con- postas à prova pelo confronto com pontos de referência e com
tradições e incongruências na experiência. evidências tanto externas como internas. A experiência é muito
Exemplo: "Minha consciência me diz que sou boa pessoa. mais diferenciada e, portanto, a comunicação interior, já fluen-
Mas, em qualquer parte, dentro de mim, não acredito nisso. te, pode ser muito mais exata.
Penso que sou um covarde, um inútil. Não tenho confiança na
minha capacidade para fazer seja o que for." Exemplos de processos em determinada área

O indivíduo aceita cada vez com maior facilidade a sua pró-


Uma vez que me inclinei a falar do cliente como um todo
pria responsabilidade perante os problemas que tem de enfren- que se situasse num estágio ou em outro, é novamente necessá-
tar, e preocupa-se mais em determinar como contribui para eles. rio insistir, antes de passar à descrição do estágio seguinte, que,
O diálogo interior torna-se mais livre, melhora a comunicação em determinadas áreas da significação pessoal, o processo
interna e reduz-se o seu bloqueio. pode descer abaixo do nível geral do cliente devido a experiên-
Às vezes esses diálogos são verbalizados. cias que estão em profundo desacordo com o conceito de eu.
Exemplo: "Alguma coisa em mim me diz: 'A que mais Talvez possa exemplificar referindo-me a uma determinada
terei eu ainda de renunciar? Você já levou tanta coisa de mim'. área da esfera afetiva de um cliente, algo sobre o modo como o
Isto sou eu a falar comigo- o eu interior que fala ao eu que diri- processo que estou descrevendo opera num segmento estreito
ge o espetáculo. Agora está se lamentando dizendo: 'Você está da experiência.
se aproximando demais. V á embora'!" Num caso relatado minuciosamente por Shlien (5), a quali-
Exemplo: Freqüentemente esses diálogos assumem a for- dade da expressão do eu nas entrevistas se situava aproximada-
ma de se ouvir a si mesmo, para verificar as formulações cogni- mente nos estágios três e quatro do processo contínuo que con-
tivas segundo uma referência direta à experiência. Assim, um sideramos. Depois, quando a cliente aborda os problemas se-
cliente diz: "Não é engraçado? Nunca pensei nisso dessa for- xuais, o processo desce a um nível mais baixo no contínuo.
ma. Só estou tentanto ver se é isso. Sempre me pareceu que a No decurso da sexta entrevista, ela sente que há coisas
tensão era devida em medida muito maior a causas externas ... impossíveis de dizer ao terapeuta e então "depois de uma longa
que não era simplesmente algo que eu utilizava dessa forma. pausa, menciona, de forma quase inaudível, uma sensação de
Mas isto é verdade, é realmente verdade." comichão na zona do reto, para a qual o médico não encontrava
Espero que os exemplos dados deste quinto estágio do pro- explicação". Nesse caso, um problema é encarado como com-
cesso possam esclarecer alguns pontos. Em primeiro lugar, essa pletamente exterior ao eu, e a qualidade da vivência é muito re-
fase está, psicologicamente, a muitos quilômetros do primeiro mota. Isto poderia ser característico do segundo estágio do pro-
estágio descrito. Nesse ponto, muitos aspectos da personalida- cesso tal como aqui o descrevemos.
de do cliente tomaram-se móveis, ao contrário da rigidez do Na décima entrevista, o comichão tinha passado para os
primeiro estágio. Ele está muito mais próximo do seu ser orgâ- dedos. Foi então que, com grande embaraço, descreveu brinca-
nico, que está sempre em movimento. Abandona-se muito mais deiras da sua in:ffincia em que se despia, e outras atividades se-
facilmente à corrente dos seus sentimentos. Suas construções xuais. Temos aqui igualmente o aspecto característico da des-
da experiência são decididamente maleáveis e constantemente crição de atividades estranhas ao eu, sendo os sentimentos con-
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- - · · _ Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _

siderados como objetos do passado. Estamos, no entanto, num fação de ser castigada pelo meu prazer no mesmo momento".
estágio mais adiantado do processo Ela conclui: "É simples- Aqui está uma forma de construir a experiência, forma que é
mente porque eu sou má, suja". Aqui está um juízo sobre o eu e apreendida como tal e não como um fato exterior. Também é
um construto pessoal, rígido e não diferenciado. Tudo isto é evidente que ela a coloca em questão, embora de uma maneira
característico do terceiro estágio do processo, como também o implícita. Há um reconhecimento e uma certa inquietação pe-
é a seguinte declaração sobre si mesma, mostrando uma maior rante os elementos contraditórios do prazer experimentado,
diferenciação nas significações pessoais: "Acho que por dentro embora pensando que devia ser castigada. Esses aspectos são
sou hipersexuada, mas por fora não sou suficientemente se.ry absolutamente característicos do quarto estágio, ou mesmo um
para atrair a resposta que quero ... gostaria de ser a mesma por pouco anteriores.
dentro e por fora". Esta última frase liga-se ao quarto estágio Alguns instantes depois, ela descreve os sentimentos inten-
pela tênue discussão de uma construção pessoal. sos de vergonha que experimentou no prazer sexual. Suas duas
Durante a décima segunda entrevista, ela vai mais longe irmãs, "elegantes e respeitáveis", não eram capazes de chegar
nessa discussão, declarando que não tinha nascido para a pro- ao orgasmo "e assim eu era novamente a que era má". Até aqui
miscuidade. Essa afirmação se reveste claramente do aspecto estas palavras ilustram o quarto estágio. Então, subitamente, ela
característico do quarto estágio, recusando de forma definitiva pergunta: "Ou será que sou feliz?". Nesta expressão no presente
uma maneira profundamente arraigada de construir a experiên- de um sentimento de perplexidade, na qualidade de "irrupção",
cia pessoal. Durante a mesma entrevista, ela ganha coragem na vivência imediata desse espanto, na franca e decisiva discus-
para dizer ao terapeuta: "Você é um homem, um belo homem, e são de seu construto pessoal anterior, encontramos os aspectos
todo o meu problema se refere a homens como você. Seria mais característicos do quinto estágio que acabamos de descrever.
fácil se você fosse um pouco mais velho, mas não seria melhor Ela avançou muito no processo, num clima de aceitação, situan-
a longo prazo". Ela fica perturbada e embaraçada por ter dito do-se a uma distância considerável do segundo estágio.
isto e sente que "é como estar nua, nada lhe podendo esconder". Espero que esse exemplo tenha indicado a forma como um
Vemos exprimir-se aqui um sentimento imediato, com relutân- indivíduo, numa determinada área das significações pessoais,
cia e com receio, sem dúvida, mas expresso, não descrito. A se toma cada vez mais maleável, mais fluente, num processo
vivência é muito menos remota e determinada, e ocorre pouco mais movimentado, na medida em que se sente aceito. Talvez o
distanciada no tempo, mas recusa-se ainda a aceitá-la. A dife- exemplo ilustre igualmente o que acredito, ou seja, que esse
renciação mais nítida das significações está claramente patente processo de uma maior mobilidade não é algo que possa acon-
na frase "seria mais fácil, mas não melhor". Tudo isso é plena- tecer em minutos ou horas, mas em semanas e meses. É um
mente característico do quarto estágio do processo. processo de avanço irregular, por vezes de recuo, por vezes pa-
recendo estático quando abrange uma área maior, mas acaban-
Na décima quinta entrevista, a cliente descreve muitas ex-
do por retomar sempre o seu curso.
periências e emoções passadas em relação a sexo, num estilo
característico do terceiro e quarto estágios tal como os descre-
vemos. Num determinado momento diz: "Eu desejava ferir-me, O sexto estágio
por isso comecei a sair com homens que me pudessem ferir... Se consegui dar uma idéia da extensão e da natureza da
com o seu pênis. Gozava com isso e sofria, e tinha assim a satis- maleabilidade crescente dos sentimentos, das vivências e das
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___ Tornar-se pessoa

construções em cada estágio, podemos então passar ao estágio abordar o mundo como se eu fosse o guardião do bem mais pre-
seguinte, que surge, a quem o observa, como crucial. Vou tentar cioso e mais ambicionado, que este eu estaria entre esse eu precio-
explicar o que me parecem ser suas qualidades características. so de que eu quero cuidar e o mundo todo ... É quase como se eu
Supondo que o cliente continua a ser plenamente aceito na me amasse a mim mesmo - entende? - isso é estranho ... mas é
relação terapêutica, os aspectos característicos do quinto está- verdade."
gio tendem a ser seguidos por um estágio muito distinto e fre- O terapeuta: "Isso parece ser um conceito estranho e difi-
qüentemente dramático. Caracteriza-se do seguinte modo: cil de compreender. Poderia significar: Eu enfrentaria o mundo
como se uma parte essencial da minha responsabilidade fosse
Um sentimento que antes estava "bloqueado", inibido na sua cuidar desse indivíduo precioso que eu sou ... que eu amo."
evolução, é experimentado agora de um modo imediato. O cliente: "Com quem eu me preocupo ... de quem eu me
Um sentimento flui para o seu fim pleno. sinto tão próximo. Ora, aqui está mais uma coisa estranha."
Um sentimento presente é diretamente experimentado com toda O terapeuta: "Isso só parece esquisito."
a sua riqueza num plano imediato da experiência e o sentimen- O cliente: "Sim! E vai mesmo mais longe. A idéia de me
to com toda a sua riqueza num plano imediato. amar a mim próprio e de me preocupar (os seus olhos umede-
Esse caráter imediato da experiência e o sentimento que cons- cem-se). Seria uma coisa muito bonita ... muito bonita."
titui seu conteúdo são aceitos. Isto é algo real e não uma coisa A gravação ajudaria a ver que se trata de um sentimento
para ser negada, temida ou combatida. que ele nunca tinha sido capaz de deixar correr nele e que era
Todas as asserções precedentes procuram descrever as di- sentido nesse momento de forma imediata. É um sentimento
ferentes facetas de um fenômeno que, quando ocorre, é claro e que evolui para o seu fim pleno, sem inibições. É experimen-
bem definido. Seria necessário recorrer a exemplos gravados tando com aceitação, sem qualquer tentativa para desviá-lo ou
para comunicar plenamente essa qualidade, mas tentarei dar para negá-lo.
um exemplo sem recorrer às gravações. Um extrato bastante
longo tirado da octogésima entrevista com um rapaz talvez nos A experiência é vivida subjetivamente e não como objeto de um
possa dar uma idéia da forma como um cliente chega ao sexto sentimento.
estágio. O cliente, nas suas palavras, pode se afastar o suficiente da
Exemplo: "Podia mesmo acontecer que eu tivesse uma es- sensação a ponto de sentir sobre ela, como no exemplo anterior.
pécie de ternura em relação a mim próprio ... No entanto, como No entanto, a gravação mostra bem o caráter periférico dessas
seria eu capaz de ser temo, de me preocupar comigo mesmo, palavras em relação à experiência que está fazendo consigo e na
pois somos uma mesma e única coisa? Contudo, sinto isso cla- qual está vivendo. A melhor expressão desse fato em suas pala-
ramente ... Sabe, é como quem cuida de uma criança. Você quer vras é: "Ora, aqui está mais uma coisa estranha."
lhe dar isso e aquilo ... Posso compreender isso quando se trata
de outra pessoa ... mas nunca o poderia ver para ... mim próprio, O eu como objeto tende a desaparecer.
que eu pudesse agir assim para comigo. Será possível que eu O eu, nesse momento, é esse sentimento. Ele existe no mo-
queira agora tomar realmente conta de mim e que isso seja o mento, com uma consciência de si reduzida, mas principalmen-
principal objetivo da minha vida? Isto quer dizer que eu teria de te com uma consciência reflexiva, como Sartre a designa. O eu
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é, subjetivamente, no momento existencial. Não é alguma coisa Exemplo: O cliente, um rapaz, exprimira o desejo de que
que se percebe. seus pais morressem ou desaparecessem: "É um pouco como se
eu quisesse vê-los desaparecer, como se desejasse que eles
A vivência, nesse estágio, assume a qualidade de um processo nunca tivessem existido ... E tenho de tal maneira vergonha de
real. mim próprio que quando eles me chamam eu vou logo! A sua
Exemplo: Um cliente, um homem que se aproxima desse presença é ainda muito forte. Não sei. É qualquer coisa de vis-
estágio, diz que se sente receoso a propósito da fonte de um cera! - quase que posso sentir isso dentro de mim" (e começa a
grande número de pensamentos secretos. E prossegue: "Os gesticular puxando o umbigo, como se quisesse se arrancar).
pensamentos mais próximos da superficie são borboletas. Por O terapeuta: "Eles realmente prendem-no pelo cordão um-
baixo há uma corrente mais profunda. Sinto-me muito afastado bilical."
dela. A corrente mais profunda é como um grande cardume que O cliente: "É engraçado como é real o que sinto ... É como
se desloca debaixo d'água. Eu vejo os peixes que surgem na uma sensação de queimadura, mais ou menos, e quando eles
superficie e estou sentado com a minha linha de pesca numa dizem alguma coisa que me deixa ansioso, sinto isso exatamen-
mão, com um anzol na ponta- tentando encontrar algo melhor te aqui (apontando). Nunca pensei nisso assim."
do que esse anzol ou, melhor ainda, uma forma de mergulhar O terapeuta: "Tudo se passa como se, quando há uma per-
nessa corrente. É uma coisa que me mete medo. Vem-me à turbação nas relações entre vocês, tivesse precisamente a
cabeça a idéia de que quero ser eu próprio um peixe." impressão de uma tensão no umbigo."
O terapeuta: "Quer mergulhar na corrente e deixar-se O cliente: "Sim, é como se fosse aqui. E é tão dificil definir
levar." o que sinto aqui."
Embora o cliente não esteja vivenciando ainda plenamente Nesse caso, o indivíduo está vivendo subjetivamente no
a evolução no interior de um processo e, portanto, não possa sentimento da dependência em relação aos seus pais. Todavia,
servir completamente de ilustração desse sexto estágio do con- seria bastante inexato afirmar que ele se apercebe desse senti-
tínuo, ele o prevê de uma maneira tão clara que sua descrição mento. Está nele, experimentando-o como uma tensão no seu
revela o sentido profundo desse estágio. cordão umbilical.

Nessa fase, a comunicação interior é livre e relativamente pou-


Uma outra característica desse estágio do processo é a malea-
co bloqueada.
bilidade fisiológica que o acompanha.
Creio que isto é perfeitamente ilustrado com os exemplos
Os olhos úmidos, as lágrimas, os suspiros, o relaxamento
citados. De fato, como cada um desses exemplos mostra, o mo-
muscular são freqüentemente evidentes. Há muitas vezes ou-
mento crucial é um momento de integração, no qual a comuni-
tros sintomas fisiológicos concomitantes. Proporei de bom gra-
cação entre os diferentes focos internos já não é necessária por-
do a hipótese de que nessas ocasiões, tendo meios para o obser-
que se tomou una.
var, descobriríamos uma melhoria da circulação e da condutivi-
dade dos impulsos nervosos. Pode indicar-se um exemplo da A incongruência entre a experiência e a consciência é viva-
natureza "primitiva" de algumas dessas sensações através da mente experimentada no momento mesmo em que desaparece
seguinte passagem. no interior da congruência.
170 Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 171

O construto pessoal correspondente dissolve-se no momento essa descoberta dissolve os seus construtos pessoais e anterio-
dessa experiência e o cliente sente-se separado do seu quadro res e ele sente-se liberto do mundo onde até então vivera - uma
de referência anterior estável. sensação ao mesmo tempo maravilhosa e temível.
Julgo que essas duas características se tomarão claras por
meio do exemplo seguinte. Determinado rapaz tinha sentido difi- O momento da vivência integral torna-se uma referência clara
culdade em precisar um certo sentimento desconhecido: ''Aquilo e definida.
Os exemplos dados parecem indicar que o cliente não tem
que eu sinto é quase exatamente ... a minha vida tal como eu a
uma consciência muito nítida do que lhe aconteceu durante
vivia, tal como eu a via dominada pelo terror de qualquer coisa."
esses momentos. Contudo, isso não parece ser demasiado im-
Conta como suas atividades profissionais lhe deram uma certa portante porque esse acontecimento é uma entidade, uma refe-
segurança e "um pequeno mundo em que eu estaria seguro, rência, a que se pode voltar sempre, se necessário, para explorá-
entende? E pela mesma razão (pausa). É como se eu o deixasse lo mais profundamente. Não se pode provar que os sentimentos
infiltrar-se, mas ligo-o também a você e às minhas relações con- de suplicar, ou de "me amar a mim mesmo", que figuram nes-
sigo e o que eu sinto é o medo de deixá-lo escapar. (O tom muda ses exemplos, sejam exatamente como descritos. São, no entan-
como que para representar mais precisamente o seu sentimento.) to, sólidos pontos de referência a que o cliente pode voltar até
Permita-me que o conserve. Tenho uma verdadeira necessidade ter adquirido um conhecimento satisfatório da sua própria natu-
disso. Eu fico tão só e tão atemorizado sem isso." reza. Talvez eles constituam um acontecimento fisiológico bem
O terapeuta: "Hum, hum. Deixe que me agarre a isso por- definido, um substrato da vida consciente a que o cliente pode
que se não ficaria com um medo terrível!. .. é uma espécie de regressar para novas investigações. Gendlin chamou-me a aten-
súplica, não é?" ção para a qualidade significativa da vivência como ponto de
O cliente: "Sim, é isso: não quer fazer isso por mim?, mais referência. Ele está tentando construir uma extensão da sua teo-
ria psicológica a partir desta base ( 1).
ou menos. Oh, isso é terrível! Quem? Eu? Implorar? ... É uma
emoção que eu nunca senti com grande clareza - alguma coisa
A diferenciação da vivência é clara e fundamental.
que nunca foi ... (pausa) ... sinto-me tão confuso. Primeiro, é
Como cada um desses momentos é um ponto de referên-
uma coisa tão extraordinária ter estas coisas novas surgindo cia, uma entidade específica, não se pode confundir com qual-
diante de mim! Isso me espanta sempre, e há esse mesmo senti- quer outro. O processo de diferenciação nítida constrói-se sobre
mento de receio perante tudo o que se encontra em mim (cho- ele e em referência a ele.
ra) ... Eu não me conheço. Aqui está uma coisa que nunca per-
cebera, de que não tinha a menor suspeita - haver uma coisa Nessa fase, já não há "problemas", exteriores ou interiores. O
que eu queria ou uma maneira de ser que eu desejava." cliente está vivendo subjetivamente uma fase do seu problema.
Temos aqui uma tomada de consciência completa da sua Este não é um objeto.
súplica e um reconhecimento claro da discrepância entre a sua Parece-me evidente que em todos os exemplos dados seria
experiência e o conceito que fazia de si mesmo. Contudo, essa grosseiramente inexato dizer que o cliente se apercebe do seu pro-
vivência da discrepância existe no próprio momento em que blema como interior ou que o está discutindo como um problema
desaparece. Daqui em diante ele é uma pessoa que tem o senti- interior. Carecemos de uma forma de indicar que ele ultrapassou
mento de suplicar, como tem muitos outros. Nesse momento, essa fase e que está, como é evidente, muito longe de perceber seu
172 . Tornar-se pessoa Oprocesso de tornar-se pessoa _ 173

problema como exterior. A melhor descrição parece ser afirmar O cliente procura com absoluta consciência utilizar esses
que ele não percebe o seu problema nem o põe em discussão. Vive pontos de referência para saber de uma forma mais clara e mais
simplesmente uma parcela do problema, conhecendo-o e aceitan- diferenciada quem é, o que deseja e quais são as suas atitudes.
do-o. Demorei-me longamente na definição do sexto estágio do Isto é verdade mesmo que os seus sentimentos sejam desagra-
processo contínuo porque o julgo particularmente importante. dáveis ou provoquem temor.
Observei que esses momentos da vivência imediata, integral,
assumida, são de alguma maneira irreversíveis. Para retomar o Há um sentido crescente e continuado de aceitação pessoal
conteúdo dos meus exemplos, o que observei e o que ponho como desses sentimentos em mudança e uma confiança sólida na sua
hipótese é que, com estes clientes, todas as vezes que ocorrer uma própria evolução.
nova experiência desse gênero, ela será conscientemente reconhe- Essa confiança não assenta primariamente nos processos
cida por aquilo que é: conforme os casos, uma tema solicitude conscientes que ocorrem, mas antes na totalidade do processo
para consigo mesmo, um cordão umbilical que faz dele uma parte organísmico. Um cliente descreve a forma que para ele reveste
dos seus pais, ou a dependência de um rapazinho que implora. a experiência característica de sexto estágio, utilizando termos
Pode-se notar de passagem que, uma vez que a experiência setor- característicos do sétimo:
nou plenamente consciente e aceita, ela pode ser enfrentada com "Em terapia, aqui, o que contava era sentar-me e dizer: 'é
eficácia, como qualquer outra situação real. este o meu problema' e andar à volta disso durante um tempo
até que qualquer coisa venha à superficie através de um cres-
O sétimo estágio cendo emocional, e a coisa está resolvida - parece diferente.
Mesmo nessa altura não sou capaz de dizer precisamente o que
Nas áreas em que se atingiu o sexto estágio, já não é tão se passou. Eu expunha qualquer coisa, agitava-a, dava voltas:
necessário que o cliente se sinta plenamente aceito pelo tera- depois, tudo ia melhor. É um pouco frustrante porque gostaria
peuta, embora isso ainda pareça ser de grande ajuda. No entan- de saber exatamente o que está se passando ... É engraçado, por-
to, devido à tendência do sexto estágio para ser irreversível, o que sinto que, no fundo, não fiz grande coisa para isso. A única
cliente parece alcançar muitas vezes o sétimo e último estágios parte ativa que tomei consistiu em estar alerta e em agarrar uma
sem ter uma grande necessidade da ajuda do terapeuta. Esse idéia quando ela passava ... É uma espécie de sentimento co-
estágio ocorre tanto fora da relação terapêutica como dentro mo ... 'bem, o que é que eu vou fazer agora, uma vez que já vi o
dela, e é muitas vezes relatada mais do que vivenciada no de- que acontece? .. .' Não se tem mão nisso, pode-se falar e deixar
curso da sessão terapêutica. Vou procurar descrever algumas das correr. E, aparentemente, é tudo. No entanto, isso me deixa com
suas caracteristicas como as julgo ter observado. uma sensação de insatisfação, com a sensação de não ter feito
nada. Isso fez-se sem o meu conhecimento e sem o meu acor-
São experimentados novos sentimentos de modo imediato e do ... O fato é que não estou seguro da qualidade do reajusta-
com uma riqueza de detalhes, tanto na relação terapêutica como mento porque não consegui vê-lo ou verificá-lo ... Tudo o que
foraaela. posso fazer é observar os fatos -verificar que olho para as coi-
A experiência de tais sentimentos é utilizada como um claro sas de um modo diferente, que sinto menos ansiedade, que es-
ponto de referência. tou muito mais ativo. Em geral tudo vai melhor. Sinto-me muito
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feliz com o caminho que as coisas tomaram. Mas tenho a experiência depois do tratamento, toma novamente consciência
impressão de ser um espectador." Um pouco mais tarde, conti- de si como objeto, mas é evidente que isso não representa a quali-
nuando a aceitar, embora contrariado, o processo que nele se dade da sua experiência do dia-a-dia. Após ter relatado um gran-
opera, acrescenta: "Parece-me que trabalho melhor quando de número de transformações, diz: "Realmente, não tinha rela-
conscientemente tenho apenas fatos à minha frente e deixo a cionado essas coisas com o tratamento até hoje à tarde ... (sorrin-
sua análise prosseguir por si, sem lhe prestar qualquer atenção." do). Puxa! Talvez algo tenha acontecido. Porque a partir de então
minha vida tem sido diferente. Meu rendimento cresceu. Minha
A vivência imediata perdeu quase completamente os seus as- confiança aumentou. Vi-me metido em situações que antes teria
pectos determinados e torna-se a vivência de um processo - ou evitado e, por outro lado, tomei-me menos audacioso em situa-
seja, a situação é vivenciada e interpretada na sua novidade e ções onde antes me mostrava atrevido". Fica bem claro que só
não como passado. posteriormente ele se deu conta do que fora o seu eu.
O exemplo dado no sexto estágio sugere a qualidade que
tento descrever. Um outro exemplo, tomado numa área bem Os construtos pessoais são provisoriamente reformulados, a
determinada, nos é dado por outro cliente, no decurso de uma fim de serem revalidados pela experiência em curso, mas, mes-
entrevista de acompanhamento em que ele descreve as diferen- mo então, se mantêm maleáveis.
tes qualidades que seu trabalho criativo adotou. Habitualmente Um cliente descreve o modo como um construto se modi-
tentava ser ordenado: "Começa-se pelo princípio e avança-se ficou no intervalo entre entrevistas, perto do fim da terapia.
com regularidade até o fim." Agora tem consciência de que o "Não sei o que é que (se modificou), mas sinto-me absolu-
seu processo interior é diferente: "Quando trabalho uma idéia, tamente diferente no que diz respeito às minhas recordações da
esta se revela totalmente, tal como a imagem latente que apare- infância, e uma parte da hostilidade para com minha mãe e para
ce quando se revela uma fotografia. Não há um ponto de parti- com meu pai se evaporou. Substituí o ressentimento que sentia
da para chegar a um outro ponto, mas espalha-se por toda a em relação a eles pela aceitação do fato de que houve um gran-
superficie. De início, tudo o que se vê é um vago contorno e de número de coisas inconvenientes que me fizeram. Mas,
pergunta-se o que será que vai aparecer; e então, gradualmente, sobretudo, descobri com intensa alegria a idéia - agora que me
uma coisa se encaixa aqui, outra ali e, de repente, tudo se toma apercebi do que não está certo - de que eu posso fazer algo a
claro." "É óbvio que ele não passou simplesmente a acreditar respeito, corrigindo os erros deles." Nesse caso, a maneira co-
no processo, mas que o experimenta como ele é e não em ter- mo o indivíduo constrói sua experiência com os pais foi profun-
mos de coisa passada." damente alterada.
Citarei um outro exemplo, extraído de uma entrevista com
O eu torna-se cada vez mais simplesmente a consciência subjeti- um cliente que sempre sentiu que devia agradar às pessoas: "Eu
va e reflexiva da experiência. O eu surge cada vez menos freqüen- vejo agora ... como seria - que não tem importância nenhuma o
temente como um objeto percebido e muito mais freqüentemente fato de não lhe agradar. Quer lhe agrade quer não, a coisa não tem
como alguma coisa sentida em processo e na qual se confia. para mim qualquer importância. Se eu pudesse dizer essas coisas
Vou buscar um exemplo na entrevista mencionada anterior- às pessoas- entende? ... a idéia de dizer qualquer coisa esponta-
mente. Nesta entrevista, o cliente, porque está relatando a sua neamente ... sem se preocupar se isso agrada ou não.- Oh, meu
176 O processo de tomar-se pessoa 177
____________________ Tornar-se pessoa

Deus!, dizer praticamente tudo: mas isso é verdade, percebe?". E cendo-os com uma confiança fundamental neles e aceitando-
um pouco mais tarde interroga-se a si mesmo com incredulidade: os. Os modos como constrói a sua experiência estão em perma-
"Quer dizer que, se eu pudesse ser realmente aquilo que tenho nente alteração e seus construtos pessoais modificam-se devido
vontade de ser, tudo estaria certo?". Ele está lutando para recons- a cada novo acontecimento vivido. A natureza da sua experiên-
truir alguns dos aspectos fundamentais da sua experiência. cia é a de um processo, sentindo a novidade de cada situação e
interpretando-a de uma maneira nova, recorrendo aos termos
A comunicação interior é clara, com sentimentos e símbolos do passado apenas na medida em que o novo é idêntico ao pas-
bem combinados e com termos novos para sentimentos novos. sado. Vive a experiência de um modo imediato, sabendo ao
Há a experiência de uma efotiva escolha de novas maneiras de ser. mesmo tempo que está vivenciando. Ele aprecia a exatidão na
Uma vez que todos os elementos da experiência estão dis- diferenciação dos sentimentos e das significações pessoais da
poníveis para a consciência, a escolha toma-se real e efetiva. sua experiência. A comunicação interior dos diferentes aspectos
Vejamos o caso de um cliente que acaba de se dar conta disso: de si mesmo é livre e sem bloqueios. Comunica-se livremente
"Estou tentando encontrar uma maneira de falar que seja uma nas relações com os outros, e estas relações não são estereotipa-
forma de escapar ao meu terror de tomar a palavra. Pensar em das, mas de pessoa a pessoa. Tem consciência de si mesmo,
voz alta talvez seja a maneira de consegui-lo. Mas eu tenho tan- mas não como de um objeto. É antes uma consciência reflexiva,
tos pensamentos que apenas poderia fazer isso até um certo uma vida subjetiva da sua pessoa em movimento. Percebe-se
ponto. Mas talvez pudesse deixar que as minhas palavras fos- responsável pelos seus problemas. Sente-se além disso plena-
sem uma expressão dos meus pensamentos reais, em vez de mente responsável em relação à sua vida em todos os seus
tentar aplicar frases já feitas a cada situação." Aqui, o indivíduo aspectos em movimento. Vive plenamente em si mesmo como
começa a sentir a possibilidade de uma escolha efetiva. um processo em permanente mudança.
Um outro cliente começa a contar uma discussão que tive-
ra com a mulher: "Eu não estava assim tão zangado comigo. Alguns problemas referentes a esse processo contínuo
Não me irritei muito comigo. Compreendi que estava reagindo Tentemos antecipar alguns problemas que se poderiam
como uma criança e, de alguma maneira, foi exatamente isso levantar a propósito do processo que procurei descrever.
que decidi fazer." Será este o único processo através do qual a personalidade
Não é fácil encontrar exemplos que ilustrem esse sétimo se modifica, ou será apenas uma entre várias modalidades de
estágio, porque é relativamente pequeno o número de clientes mudanças? Ignoro-o. Talvez existam diferentes tipos de proces-
que atinge plenamente esse ponto. Vou tentar resumir de uma sos de modificação da personalidade. Apenas quis especificar
maneira breve as qualidades desse ponto final do contínuo. que me parece ser este o processo que se desencadeia quando o
Quando o indivíduo atingiu, no seu processo de transfor- indivíduo faz a experiência de ser plenamente aceito.
mação, o sétimo estágio, encontramo-nos a nós mesmos englo- Aplicar-se-á isso a todas as psicoterapias, ou esse processo
bados numa nova dimensão. O cliente integrou nesse momento apenas se verifica numa determinada orientação psicoterapêu-
a noção de movimento, de fluxo, de mudança, em todos os tica? Não podemos responder a essa questão enquanto não
aspectos da sua vida psicológica, e isso toma-se a sua principal tivermos mais gravações de terapias segundo outras orienta-
característica. Ele vive no interior dos seus sentimentos, conhe- ções. No entanto, a minha opinião é a de que talvez as aborda-
178 _________ Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa _ _ _ _ _ _ _ _ __ 179

gens terapêuticas que acentuam bastante os aspectos cognitivos vindo e compreendido tal qual é. Esse processo engloba várias
e menos os aspectos emocionais da experiência passam provo- linhas de força, a princípio separadas, mas que se tomam cada
car um processo de mudança completamente diferente. vez mais uma unidade à medida que o processo se desenrola.
Concordarão todos que se trata de um processo de mudan- Esse processo implica uma maleabilidade crescente de
ça desejável, orientado para direções válidas? Não creio. Julgo sentimentos. No extremo inferior do contínuo eles são descritos
que certas pessoas não dão valor à fluidez. Este é um dos juízos como longínquos, impessoais e não-presentes. Posteriormente
de valor social que os indivíduos e as culturas terão de fazer. O são descritos como objetos presentes e em certa medida reivin-
processo de mudança pode ser facilmente evitado pela redução dicados pelo indivíduo. A seguir são expressos como sentimen-
ou pela eliminação das relações em que o indivíduo seja plena- tos pessoais em termos mais próximos da sua experiência ime-
mente aceito como é. diata. Num grau ainda mais elevado da escala são experimenta-
Será rápida a mudança nesse contínuo? Minha observação dos e expressos como imediatamente presentes, com um receio
leva-me a afirmar exatamente o contrário. Minha interpretação decrescente desse processo. Nesse ponto, mesmo os sentimen-
do estudo de Kirtner (4), que pode ser um tanto diferente da sua, tos que foram anteriormente rejeitados da consciência come-
é que um cliente pode iniciar um tratamento próximo do segun- çam a surgir, são experimentados e cada vez mais reconhecidos
do estágio e terminá-lo por volta do quarto, ficando tanto o pelo indivíduo como seus. No ponto superior do contínuo, no
cliente como o terapeuta absolutamente satisfeitos com os pro- interior do processo da experiência, um incessante fluxo de
gressos substanciais que foram atingidos. Ocorre muito rara- sentimentos caracteriza daí em diante o indivíduo.
mente, se é que ocorre alguma vez, que um cliente característi- O processo implica uma transformação das formas de vi-
co do primeiro estágio chegue a um ponto em que apresente as venciar. O contínuo começa com uma fixidez na qual o indiví-
características do sétimo estágio. Se isso acontecer, serão ne- duo está muito afastado da sua vivência e é incapaz de extrair
cessários alguns anos. ou de simbolizar a sua significação implícita. A vivência é rele-
Estarão os aspectos descritos agrupados adequadamente gada para o passado, antes de poder ser compreendida, e o pre-
em cada estágio? Tenho certeza de ter cometido muitos erros na sente é interpretado em termos das significações passadas. O
maneira como agrupei minhas observações. Também me per- indivíduo passa desse afastamento em relação à sua vivência
gunto quais os elementos importantes que foram omitidos. Não para o reconhecimento desta mesma vivência como de um pro-
se poderiam descrever os diversos elementos desse contínuo de cesso perturbador que se desenrola dentro dele. A experiência
uma forma mais sucinta? A todas essas questões, no entanto, toma-se gradualmente um ponto de referência interior mais
poderá ser dada uma resposta empírica, se a hipótese que pro- aceito, ao qual se pode voltar para obter significações cada vez
ponho tiver algum mérito aos olhos de um certo número de pes- mais adequadas. Por último, o indivíduo toma-se capaz de viver
quisadores. livremente e de se aceitar num processo fluido de experiências,
utilizando-as com segurança como a principal referência para o
Resumo
seu comportamento.
Tentei esboçar em traços largos, e de uma maneira provisó- O processo implica a passagem da incongruência à con-
ria, o desenrolar de um processo de modificação da personali- gruência. O contínuo desenrola-se a partir de um máximo de
dade que ocorre quando um cliente sente que é aceito, bem- incongruência que é absolutamente desconhecido para o indiví-
180 O processo de tornar-se pessoa _ _ _ __ 181
Tornar-se pessoa

duo, passa através de diferentes fases onde se dá um crescente do o seu comportamento na relação a partir da sua experiência
reconhecimento das contradições e das discrepâncias que exis- imediata.
tem nele, para terminar numa experiência da incongruência De um modo geral, o processo parte de um ponto de fixi-
imediatamente presente, de tal maneira que a dissolve. No ex- dez onde todos os elementos e linhas de força acima descritos
tremo superior do contínuo nunca se verifica mais do que uma são facilmente discemíveis e compreensíveis isoladamente, até
incongruência temporária entre a vivência e a consciência, pois o ponto culminante da terapia em que todas essas linhas de
o indivíduo já não tem necessidade de se defender contra os força convergem de modo a formar um todo homogêneo. Nas
aspectos ameaçadores da sua própria experiência. novas vivências imediatas que ocorrem nesses momentos, os
O processo implica uma alteração na maneira como o indi- sentimentos e os conhecimentos interpenetram-se, o eu está sub-
víduo é capaz e como deseja comunicar-se num clima recepti- jetivamente presente na experiência, a vontade é simplesmente a
vo, implicando também uma extensão dessas capacidades. O seqüência de um equilíbrio harmonioso na direção organísmica.
contínuo vai de uma repugnância rica e mutável da experiência Assim, à medida que o processo se aproxima desse ponto, a pes-
interior que se comunica facilmente quando o indivíduo deseja. soa toma-se uma unidade em movimento. O indivíduo modifi-
O processo implica uma maleabilidade crescente dos ma- cou-se, mas o que parece ser mais significativo é o fato de ele ter
pas cognitivos da experiência. O cliente passa de uma experiên- se tomado um processo integrado de transformação.
cia construída em formas rígidas, percebidas como fatos exter-
nos, para um desenvolvimento elaborado a partir de significa-
Referências bibliográficas
ções mais fluidas da experiência, recorrendo a construções que
se modificam a cada nova experiência. 1. Gendlin, E. - Experiencing and the Creation of Meaning,
Há uma alteração no relacionamento do indivíduo com Glencoe, Illinois, Free Press. (Especialmente o cap. 7).
seus problemas. Numa extremidade do contínuo, os problemas 2. Gendlin, E., e F. Zimring- "The qualities or dimensions of
não são reconhecidos e não há desejo de mudança. Vai-se de- experiencing and their change", Counseling Center Discussion Pa-
pois reconhecendo gradualmente que existem problemas. Num pers, I, 3, outubro de 1955, Centro de Consulta da Universidade de
estágio mais adiantado, há o reconhecimento de que o indiví- Chicago.
duo contribuiu para esses problemas, que eles não derivam ape- 3. Kelly, G. A.- The Psychology ofPersonal Constructs, vol. 1,
nas de fontes exteriores. Há um sentido crescente de auto-res- Nova York, Norton, 1955.
4. Kirtner, W. L., e D. S. Cartwright- "Success and failure in
ponsabilidade pelos problemas. Em seguida, há uma vivência
client-centered therapy as a function ofinitial in-therapy behavior". J.
de alguns aspectos dos problemas. A pessoa vive seus proble-
Consult. Psychol., 1958,22, pp. 329-333.
mas subjetivamente, sentindo-se responsável pela contribuição 5. Lewis, M. K., C. R. Rogers e John M. Shlien- "Two cases of
que deu no desenvolvimento deles. time-limited client-centered psychotherapy", in Burton A. (ed.). Case
Dá-se uma mudança na maneira de estabelecer relações. Studies of Counseling and Psychotherapy. Nova York, Prentice-Hall,
No início do contínuo evita as relações íntimas que lhe parecem 1959, pp. 309-352.
ameaçadoras. Na outra ponta do contínuo, ele vive aberta e 6. Mooney, R. L. - "The researcher himself', in Research for
livremente na relação com o terapeuta e com os outros, orientan- Curriculum Improvement, National Educ. Association, 1957, cap. 7.
182 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

7. Mooney, R. L. - "Prob1ems in the deve1opment of research


men", Educ. Research Buli., 30, 1951, pp. 141-150.
Quarta Parte
8. Rogers, C. R.- "The necessary and sufficient conditions ofthe-
rapeutic persona1ity change". Consult. Psychol., 1957, 21, pp. 95-103
Uma filosofia da pessoa
Fui formando algumas opiniões filosóficas so-
bre a vida e o objetivo para que caminha o indi-
víduo quando é livre.
Capítulo 8
"Ser o que realmente se é": os objetivos
pessoais vistos por um terapeuta~

Em nossos dias, muitos psicólogos considerariam um in-


sulto se fossem acusados de pensar num nível filosófico. Não
compartilho dessa reação. Não posso deixar de me interrogar
sobre o significado daquilo que observo. Julgo que o sentido
que descubro no que observo tem implicações apaixonantes
para o nosso mundo moderno.
Em 1957, um amigo, Dr. Russell Becker, que foi meu aluno e
depois meu colega, convidou-me a fazer uma conforência espe-
cial perante toda a faculdade reunida no Wooster College, em
Ohio. Decidi então elaborar melhor o significado das orientações
pessoais que o cliente parece tomar no clima de liberdade da rela-
ção terapêutica. Quando a conforência terminou, fiquei com mui-
tas dúvidas sobre se exprimira algo de novo ou de significativo.
Mas os aplausos prolongados e bastante inesperados da assistên-
cia libertaram-me em parte das minhas apreensões.
O tempo que passou depois disso permitiu-me olhar com
mais objetividade para aquilo que tinha dito e sinto-me satisfoi-
to em relação a dois pontos. Creio ter exprimido bem as obser-
vações que para mim se condensaram à volta de dois importan-
tes temas: a minha confiança no organismo humano quando
funciona livremente e a qualidade existencial de uma vivência
satisfatória, um tema abordado por alguns dos nossos mais
186 ____ Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa ___ _ 187

modernos filósofos, mas que fora maravilhosamente expresso mesmos qual o objetivo da vida, alguns responderam, com as
há mais de vinte e cinco séculos por Lao-Tse, quando disse: "A palavras do catecismo, que "o fim principal do homem é glori-
maneira de agir é ser. " ficar a Deus". Outros pensaram que o fim da sua vida era a pre-
paração de cada um para a imortalidade. Outros assentaram
As questões numa finalidade muito mais terrena- gozar, abandonar-se e
satisfazer todos os desejos sensuais. Outros ainda- e isto apli-
"Qual meu objetivo na vida?", "O que procuro?", "Qual é
ca-se a muitos hoje - consideram que o objetivo da vida é con-
a minha finalidade?". Tais são as questões que qualquer ho-
seguir o máximo de bens materiais, uma posição, conhecimen-
mem põe a si mesmo, uma vez ou outra, às vezes calma e medi-
tos ou poder. Alguns tiveram como objetivo darem-se completa
tativamente, outras vezes na agonia da incerteza e do desespe-
ro. São questões antigas, muito antigas, que foram feitas e res- e devotadamente a uma causa que está para além deles, como
pondidas em todos os séculos da história. São também questões por exemplo o cristianismo ou o comunismo. Um Hitler consi-
que todo indivíduo, a seu modo, deve colocar e responder para derou como finalidade da sua vida tomar-se o chefe de uma
si mesmo. São questões que eu, como terapeuta, ouço exprimir raça superior que dominaria tudo. Exatamente ao contrário,
das mais variadas formas por mulheres e por homens perturba- muitos orientais se esforçaram por eliminar os desejos pessoais
dos que tentam aprender, compreender ou escolher as direções e exercer sobre si o controle mais absoluto. Mencionei essa
que a sua vida deve seguir. variedade de opções para indicar alguns dos fins extremamente
Num certo sentido, nada de novo se pode dizer sobre essas diferentes a que os homens consagraram a sua vida, para suge-
questões. De fato, a frase de introdução que tomei como título rir que existem de fato muitos objetivos possíveis.
dessa conferência é tirada dos escritos de um homem que com Charles Morris, num recente e importante estudo, investi-
elas se debateu há mais de um século. Pareceria presunção ex- gou objetivamente os padrões de vida preferidos por estudantes
primir simplesmente mais uma opinião pessoal sobre esse pro- de seis países diferentes: a Índia, a China, o Japão, os Estados
blema dos objetivos e das intenções. Mas, como trabalhei du- Unidos, o Canadá e a Noruega (5). Como seria de esperar, en-
rante muitos anos com indivíduos perturbados e desajustados, controu nítidas diferenças de objetivos entre esses grupos nacio-
julgo poder discernir um padrão, uma direção, um elemento nais. Procurou igualmente, através de uma análise aprofundada
comum, uma orientação nas respostas provisórias a essas ques- desses dados, determinar as dimensões valorativas subjacentes
tões que eles encontraram para si próprios. Por isso gostaria de que pareciam orientar as milhares de preferências individuais
comunicar minha maneira de ver o que é que o ser humano específicas. Sem entrar nos pormenores da análise, podemos ver
parece procurar quando tem a liberdade de escolher. que emergem cinco dimensões, as quais, combinadas de diver-
sas maneiras, positivas e negativas, surgem como responsáveis
Algumas respostas pelas opções individuais.
Antes de tentar fazê-los entrar no mundo da minha própria A primeira dessas dimensões de valor implica uma preferên-
experiência com meus clientes, gostaria de lembrar-lhes que cia por uma participação na vida responsável, moral, comedida,
essas questões não são pseudoproblemas e que nem os homens apreciando e conservando aquilo que o homem conseguiu.
do passado nem os do presente se puseram de acordo quanto às A segunda acentua o gosto pela ação vigorosa na supera-
respostas. Quando os homens do passado perguntaram a si ção dos obstáculos. Esse valor implica uma abertura confiante
188 _ _ _ Tornar-se pessoa 189
Uma filosofia da pessoa _ _ _ _ __ ------ --------

à mudança, quer para resolver os problemas pessoais e sociais, Creio que a melhor forma de expor essa finalidade da vida,
quer para vencer obstáculos no mundo natural. tal como a vejo à luz das relações com os meus clientes, é utili-
A terceira dimensão enfatiza o valor de uma vida interior zar as palavras de Soeren Kierkegaard- "ser o que realmente se
autônoma com uma consciência de si rica e elevada. O controle é" (3, p. 29). Estou perfeitamente consciente de que essa afirma-
sobre as pessoas e as coisas é rejeitado em favor de uma mais ção pode parecer simples a ponto de ser absurda. Ser o que se é
profunda e simpática percepção de si e dos outros. parece mais a formulação de uma evidência do que um objetivo.
A quarta dimensões subjacente valoriza a receptividade às O que quer dizer isso? O que isso implica? Vou me dedicar à
pessoas e à natureza. A inspiração é vista como brotando de uma análise destes dois pontos. Direi simplesmente, para concluir,
fonte que nasce fora do eu e a pessoa vive e se desenvolve numa que a afirmação parece querer dizer e implicar coisas estranhas.
delicada correspondência a essa fonte. A partir da minha experiência com meus clientes e das minhas
A quinta e última dimensão acentua o prazer dos sentidos, a próprias investigações, acabei por chegar a conclusões que me
procura do próprio prazer. São valorizados os prazeres simples teriam parecido muito estranhas dez ou quinze anos atrás. Por
da vida, um abandono ao momento, uma abertura descontraída à isso, espero que considerem essas conclusões com um ceticismo
vida. crítico e que as aceitem apenas na medida em que correspondam
Este estudo é significativo e é um dos primeiros a medir a uma verdade da sua própria experiência.
objetivamente as respostas dadas em diferentes culturas à ques-
tão sobre qual será o objetivo final da vida. Isso aumentou o
nosso conhecimento das respostas dadas. Ajudou igualmente a Direções tomadas pelos clientes
definir algumas das dimensões fundamentais nos termos das
quais se realizam as opções. Como Morris diz, referindo-se a Procurarei esboçar com clareza algumas das inclinações e
essas dimensões, "é como se as pessoas das diferentes culturas tendências que registrei no trabalho com os clientes. Na relação
tivessem em comum as cinco tonalidades principais da escala com as pessoas, a minha preocupação era criar um clima onde
musical em que compõem as diversas melodias" (5, p. 185). se respirasse muita segurança, calor, compreensão empática, na
medida em que eu o pudesse criar com toda a sinceridade. Não
Outra perspectiva achei que fosse bom ou que auxiliasse intervir na experiência
do cliente com diagnósticos ou explanações interpretativas ou
No entanto, sinto-me vagamente insatisfeito com esse es-
com sugestões e orientações. Por isso, as tendências a cuja for-
tudo. Nenhuma das "maneiras de viver" que Morris coloca pe-
mação assisti partem do próprio cliente, mais do que de mim1 •
rante os estudantes como escolha possível, e nenhum dos fato-
res envolvidos, parece encerrar de modo satisfatório o objetivo
Por detrás das fachadas
de vida que emerge da minha experiência com meus clientes.
Ao ver uma pessoa após outra lutar nas suas sessões terapêuti- Observei em primeiro lugar que, de uma forma caracterís-
cas para encontrar uma forma de vida, parece destacar-se um tica, o cliente mostra tendência para se afastar, com hesitações e
padrão geral que não é totalmente captado por nenhuma das com receio, de um eu que ele não é. Em outras palavras, mesmo
descrições de Morris. que não saiba para onde se encaminha, desvia-se de alguma coi-
190 Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa _ _ _ _ __ 191

sa. E, como é evidente, ao proceder desse modo, começa a defi- que uma vez feita uma coisa, havia outra e outra e outra, e eu
nir, embora negativamente, o que ele é. realmente nunca podia acabar. Era uma espécie de exigência
A princípio, isso pode exprimir-se simplesmente como o sem fim". Ela sente que era como sua mãe, submissa e compla-
temor de mostrar o que é. Vejamos o que diz um rapaz de dezoi- cente, procurando corresponder permanentemente às suas exi-
to anos, numa das primeiras entrevistas: "Eu sei que não sou gências. "E na verdade eu não queria ser esse tipo de pessoa.
assim tão exuberante e tenho receio de que o descubram. É por Não acho que isso seja uma maneira desejável de ser, mas julgo
isso que faço essas coisas ... Qualquer dia descobrem que eu não ter estado convencida de que, de certo modo, era assim que eu
sou assim tão exuberante. Estou precisamente fazendo tudo para tinha de ser para que se preocupassem comigo e gostassem de
que esse dia seja o mais longínquo possível... Se me conhecesse mim. Mas quem haveria de gostar de alguém assim tão sem
como eu me conheço (pausa). Não lhe vou dizer que pessoa eu graça?" O terapeuta respondeu: "Quem é que gostaria realmente
penso realmente que sou. Há apenas uma coisa com que eu não de um capacho?" Ela prossegue: "Pelo menos não queria ser
quero cooperar e que é esta... não melhoraria a sua opinião a amada pelo tipo de pessoa que gostasse de um capacho!"
meu respeito saber o que eu penso de mim mesmo." Pois bem, embora essas palavras não nos digam nada do eu
Está bem patente que, em grande parte, a expressão desse para o qual ela se encaminha, o cansaço e o desdém da sua voz
receio é tomar-se aquilo que ele é. Em vez de ser simplesmente e das afirmações feitas mostram claramente que ela se afasta de
uma fachada, como se fosse apenas isso, toma-se cada vez mais um eu que tem de ser bom, que tem de ser submisso.
ele mesmo, toma-se especificamente uma pessoa com medo, Curiosamente, muitos indivíduos descobrem que se sen-
que se esconde atrás de uma fachada porque olha para si mesma tiam compelidos a se verem como maus e é desta idéia de si que
se afastam. Um jovem descreve perfeitamente esse movimento,
como uma coisa feia demais para ser vista.
ao dizer: "Não sei onde é que fui buscar essa impressão de que
ter vergonha de mim era um maneira apropriada de sentir... Ter
Para além do "devia"
vergonha de mim era precisamente como tinha de ser... Havia
Uma outra tendência do mesmo gênero surge no cliente um mundo onde ter vergonha de mim mesmo era a melhor ma-
que se desvia de uma imagem compulsiva daquilo que ele "de- neira de sentir... Se somos qualquer coisa que muitos desapro-
via ser". Alguns indivíduos absorveram tão completamente dos vam, a única forma de termos qualquer respeito por nós é ter-
pais a idéia de "Eu devo ser bom" ou "Eu tenho de ser bom" mos vergonha dessa parte de nós que é reprovada ...
que só na maior das lutas interiores são capazes de se afastar "Agora, porém, recuso-me terminantemente a pensar co-
desse objetivo. É o caso de uma jovem que, ao descrever as suas mo antigamente ... É como se eu estivesse convencido de al-
relações pouco satisfatórias com o pai, conta como primeira- guém ter dito: 'A maneira como tem de ser é ter vergonha de si
mente desejara o seu amor: "Penso que em tudo o que sentia em - então, seja assim!'. Admiti semelhante coisa durante muito
relação ao meu pai desejei realmente estar em boas relações tempo, dizendo: 'De acordo, eu sou assim!'. Agora faço frente
com ele ... Queria ardentemente que ele se preocupasse comigo a quem quer que seja e digo: 'Não me importo com o que você
sem no entanto conseguir o que realmente desejava". Ela sentia- diz. Eu não vou ter vergonha de mim!' ...". É claro que esse
se sempre obrigada a corresponder aos seus pedidos e a tudo o jovem está abandonando o conceito de si como vergonhoso e
que ele esperava dela, e isso "acabava por ser muita coisa, por- mau.
-=1-=9-=2_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa ---~ 193

Para além do que os outros esperam Assim, um homem de profissão liberal, vendo retrospectiva-
mente o processo que atravessara, escreve perto do fim do trata-
Outros clientes se percebem fugindo daquilo que a cultura
mento: "Senti afinal que tinha simplesmente de começar a fa-
espera que eles sejam. Na nossa civilização industrial atual, por
zer o que queria e não o que eu pensava que devia fazer, sem
exemplo, como Whyte destacou com tanta firmeza no seu
me preocupar com a opinião dos outros. Foi uma completa revi-
recente livro (7), existem enormes pressões para levar as pes-
ravolta de toda minha vida. Sempre sentira que tinha de fazer as
soas a terem as características do "homem da organização".
coisas porque era o que esperavam de mim ou, o que era mais
Assim, uma pessoa deve ser um membro completo do grupo,
importante, para que os outros gostassem de mim. Tudo isso
deve saber subordinar a sua individualidade às necessidades do
acabou! Penso a partir de agora que serei precisamente o que
grupo, deve tomar-se "o homem bem desenvolvido que é capaz
sou~ rico ou pobre, bom ou mau, racional ou irracional, lógico
de se entender com homens bem desenvolvidos".
ou ilógico, famoso ou desconhecido. Portanto, obrigado por ter
Num estudo recentemente levado a cabo sobre os valores
me ajudado a redescobrir o 'Sê verdadeiro para ti mesmo', de
dos estudantes no nosso país, Jacob resume suas conclusões
Shakespeare".
com as seguintes palavras: "O principal resultado do ensino
Pode-se dizer, portanto, que, de uma forma um pouco ne-
superior sobre os valores dos estudantes é provocar uma aceita-
gativa, os clientes definem seus objetivos, suas intenções, por
ção gerando um conjunto de normas e de atitudes características meio da descoberta, na liberdade e na segurança de relações
dos universitários da comunidade americana... O impacto da compreensivas, de algumas direções que não querem seguir. Eles
experiência universitária é ... socializar o indivíduo, refiná-lo, preferem não esconder, nem a si nem aos seus sentimentos, de
poli-lo e 'moldar' seus valores de modo a que se integre confor- si mesmos ou de qualquer outra pessoa que seja para eles im-
tavelmente nas fileiras dos diplomados americanos" (1, p. 6). portante. Não querem ser o que "deviam" ser, quer esse impera-
Em oposição a essas pressões a favor do conformismo, ob- tivo venha dos pais, ou da sociedade, quer ele seja definido de
servei que, quando os clientes são livres para serem como qui- uma forma positiva ou negativa. Não querem moldar-se a si
serem, mostram tendência para se irritar e para discutir essa ten- mesmos ou ao seu comportamento dentro de um modelo que
dência da organização, da universidade ou da cultura, para os seja do agrado dos outros. Não querem, em outras palavras, es-
moldarem segundo um determinado modelo. Um dos meus colher o que quer que seja de artificial, algo que lhes seja im-
clientes afirma com grande animação: "Procurei durante muito posto ou definido do exterior. Compreenderam que esses obje-
tempo conformar-me com o que era significativo para as outras tivos ou finalidades não têm valor, mesmo que por eles tenham
pessoas e que não tinha, efetivamente; qualquer sentido para vivido até agora.
mim! E no entanto, num certo nível, sentia-me muito mais do
que isso." Desse modo, ele, como outros, tendem a se afastar A caminho da autodireção
daquilo que é esperado.
Mas, o que implica de positivo a experiência dos clientes?
Vou tentar descrever um certo número das facetas que observei
Para além de agradar aos outros
nas direções em que se movimentam.
Observei que muitos indivíduos se formaram procurando Em primeiro lugar, o cliente encaminha-se para a autonomia.
agradar aos outros, mas que, quando são livres, se modificam. Isso significa que começa gradualmente a optar por objetivos que
194 Uma filosofia da pessoa __ 195
_ _ _ _ Tornar-se pessoa

ele pretende atingir. Toma-se responsável por si mesmo. Decide por ter dito essas coisas ... Vejo coisas novas de cada vez. É uma
que atividade e comportamentos significam alguma coisa para si aventura, é o que é -no interior do desconhecido ... Estou come-
e os que não significam nada. Julgo que essa tendência para a çando a gostar disto, sinto-me satisfeito, mesmo a propósito des-
autodireção está amplamente ilustrada nos exemplos que dei. sas velhas coisas negativas." Esse indivíduo começa a apreciar-se
Não gostaria de dar a impressão de que meus clientes to- a si mesmo como um processo fluido, a princípio apenas na ses-
mam essa direção com alegria e confiança. Pelo contrário. A são de terapia, mais tarde na sua vida. Não posso deixar de pensar
liberdade para uma pessoa ser ela mesma é uma liberdade cheia na descrição que Kierkegaard faz do indivíduo na sua existência
de responsabilidade, e um indivíduo procura atingi-la compre- real: "Um indivíduo que existe está num processo constante de
caução, com receio e, no início, quase sem confiança nenhuma. tomar-se ... e traduz tudo o que pensa em termos de processo.
Também não queria dar a impressão de que o cliente faz sem- Passa-se (com ele) ... o mesmo que com o escritor e seu estilo; só
pre escolhas criteriosas. Ser responsavelmente autodirigido impli- quem nunca deu nada por acabado, mas 'agita as águas da
ca opções - e aprender das conseqüências. É essa a razão por que linguagem', recomeçando sempre, tem um estilo. E é por isso
os clientes acham que se trata de uma experiência austera, mas que a mais comum das expressões assume nele a frescura de um
apaixonante. Como dizia um deles: "Tenho medo, sinto-me vul- novo nascimento" (2, p. 79). Julgo que esta é uma excelente des-
nerável e sem qualquer apoio, mas sinto igualmente crescer em crição da direção em que o cliente se move, para ser um processo
mim a força ou o poder." Esse modo de reagir é habitual no cliente de possibilidades nascentes, mais do que para ser ou para tomar-
quando ele assume a autodireção da sua própria vida e do seu se qualquer objetivo cristalizado.
comportamento.
A caminho de ser
A caminho de ser um processo
Isto implica igualmente ser uma complexidade do proces-
A segunda observação é difícil de formular porque não dis- so. Talvez um exemplo possa ajudar nesse aspecto. Um dos
pomos de termos adequados. Os clientes parecem encaminhar- nossos terapeutas, para quem a psicoterapia também fora de
se mais abertamente para se tomarem um processo, uma flui- grande ajuda, veio ter comigo recentemente para discutir as
dez, uma mudança. Não ficam perturbados ao descobrir que suas relações com um cliente muito difícil e muito perturbado.
não são os mesmos em cada dia que passa, que não têm sempre Reparei com interesse que ele não vinha discutir o cliente, salvo
os mesmos sentimentos em relação a determinada experiência de passagem. Ele queria sobretudo ter certeza de que estava cla-
ou pessoa, que nem sempre são conseqüentes. Eles estão num ramente consciente da complexidade dos seus próprios senti-
fluxo e parecem contentes por permanecerem nele. O esforço mentos no relacionamento - seus sentimentos calorosos para
para estabelecer conclusões e afirmações definitivas parece di- com o cliente, suas ocasionais frustrações e irritações, sua sim-
mmmr. patia para com o bem-estar do cliente, seu receio de que o clien-
Um cliente declara: ''As coisas certamente estão mudando te se tomasse psicótico, sua preocupação com o que os outros
porque nem mesmo posso prever mais o meu próprio comporta- pensariam se o caso não se resolvesse bem. Percebi que sua ati-
mento. Antes era capaz disso. Nesse momento não sei o que vou tude central era de que, se pudesse ser, de uma forma absoluta-
dizer a seguir. É um sentimento e tanto ... Estou mesmo surpreso mente aberta e transparente, todos os seus sentimentos comple-
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Uma filosofia da pessoa ___ ..

xos na relação, às vezes inconstantes e contraditórios, tudo iria sofrimento ... era terrível falar... Quer dizer, eu queria falar e,
bem. Se, pelo contrário, ele fosse apenas uma parte dos seus então não queria ... Eu sinto - acho que eu sei - é pura e sim-
sentimentos e outra parte fachada ou defesa, estava certo que a plesmente uma tensão - uma tensão terrível - uma pressão, é
relação não seria boa. Notei que esse desejo de ser tudo de si esta a palavra, uma pressão enorme era o que eu sentia. Come-
mesmo em cada momento- toda a riqueza e toda a complexi- ço apenas agora a sentir isso depois de todos este anos ... é terrí-
dade, sem nada esconder para si mesmo e sem nada temer de si vel. Custa-me retomar o fôlego, eu sufoco todo. Sinto-me como
mesmo - era um desejo comum a todos aqueles que pareciam que apertado interiormente (começa a chorar). Nunca com-
mostrar muito dinamismo na terapia. Não é necessário acres- preendi isso, nunca soube o que era" (6). Ele está se abrindo a
centar que é um objetivo dificil, se não impossível em sentido sentimentos interiores que evidentemente não são novos para
absoluto. No entanto, uma das mais evidentes tendências nos ele, mas que até então não tinha experimentado plenamente.
clientes é assumir toda a complexidade do seu eu em mutação Agora que pode permitir-se experimentá-los, eles serão menos
em cada momento significativo. terríveis para ele e será capaz de viver mais ligado à sua própria
vivência.
A caminho de uma abertura para a experiência Os clientes aprendem pouco a pouco que a experiência é
um recurso amigável e não um inimigo a recear. Penso num
"Ser o que realmente se é" implica ainda outros compo-
cliente que, perto do fim da terapia, quando uma questão o
nentes. Um deles, que talvez já tenha sido sugerido, é a tendên-
embaraçava, colocava a cabeça entre as mãos e dizia: "Vejamos
cia do indivíduo para viver numa relação aberta, amigável e
o que é que eu estou sentindo. Quero aproximar-me disso. Que-
estreita com a sua própria experiência. Isso não acontece facil- ro saber o que é". E depois esperava, tranqüila e pacientemente,
mente. Muitas vezes, quando o cliente se apercebe de uma nova até poder discernir a natureza exata dos sentimentos que nele
faceta sua, inicialmente a rejeita. É apenas quando vivencia um ocorriam. Sinto muitas vezes que o cliente tenta ouvir a si mes-
aspecto de si mesmo negado até então, num clima de aceitação, mo, tenta ouvir as mensagens e as significações que lhe são
que pode tentar assumi-lo como uma parte de si mesmo. Eis comunicadas a partir das suas próprias reações fisiológicas. Não
como se exprime um cliente um pouco impressionado depois tem mais tanto medo do que irá descobrir. Não tarda a com-
de ter vivenciado o aspecto dependente e infantil de si próprio: preender que suas reações e experiências internas, as mensa-
"É uma emoção que nunca senti claramente - uma emoção que gens dos seus sentimentos e das suas vísceras, são amigas. Co-
nunca havia sentido!". Ele não é capaz de tolerar a experiência meça a querer estar próximo das suas fontes internas de infor-
dos seus sentimentos infantis. Mas, pouco a pouco, começa a mação mais do que permanecer fechado a elas.
aceitá-los e a assumi-los como uma parte de si mesmo, para Maslow, no seu estudo das pessoas a quem chama auto-
viver ligado a eles e neles quando se manifestam. realizadas , nota essa mesma característica. Falando desses indi-
Um outro rapaz, com um grave problema de gagueira, víduos, diz: "Sua facilidade de penetração na realidade, sua
abre-se perto do fim do tratamento a alguns dos seus sentimen- maior aproximação da uma aceitação parecida com a do animal
tos escondidos. Diz ele: "Era uma luta terrível. Nunca o tinha ou com a da criança, e sua espontaneidade implicam uma cons-
compreendido. Acho que foi muito penoso atingir esse nível. ciência superior dos seus próprios impulsos, dos seus próprios
Quer dizer, estou começando a senti-lo agora. Oh, o terrível desejos, opiniões e reações subjetivas em geral" (4, p. 21 0).
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Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa _

Essa maior abertura ao que se passa no interior está asso- pintam assim". Mas confiava suficiente mente na sua própria
ciada a uma abertura semelhante à experiência da realidade experiênci a de vida e em si mesmo para poder continuar a
exterior. Maslow poderia estar falando de clientes que conheci exprimir as suas percepçõe s pessoais e únicas. Era como se dis-
quando diz: "Os indivíduos auto-realizados têm uma maravi- sesse: "Os bons artistas não pintam assim, mas eu pinto". Num
lhosa capacidade para uma apreciação constante, fresca e ingê- outro campo, Ernest Hemingwa y estava certamente consciente
nua dos bens fundamentais da vida, com fervor, prazer, encanto de que "os bons escritores não escrevem assim". Felizmente,
e mesmo êxtase, por mais gastas que estas experiências possam porém, resolveu ser Hemingway, ser ele próprio, de preferênci a
parecer aos outros" (4, p. 214). a tornar-se qualquer outra concepção de bom escritor. Einstein
parecia nunca pensar no fato de que os bons fisicos não pensa-
A caminho de uma aceitação dos outros vam como ele. Mais do que a renunciar devido à sua inadequa-
da preparação acadêmica em fisica, preferiu simplesmente ser
Intimamen te ligada a essa abertura à experiência, tanto
Einstein, com os seus pensamen tos próprios, ser ele mesmo de
interior como exterior, dá-se de um modo geral uma abertura e
uma maneira tão verdadeira e tão profunda quanto possível.
uma aceitação das outras pessoas. À medida que um indivíduo
Não se trata de um fenômeno que ocorra apenas com o artista
se torna capaz de assumir sua própria experiência, caminha em
ou com o gênio. Repetidas vezes vi alguns dos meus clientes,
direção à aceitação da experiência dos outros. Ele aprecia e
pessoas simples, adquirirem uma importância e uma criativida-
valoriza tanto sua experiência como a dos outros por aquilo que
de na sua esfera própria, à medida que ganhavam maior con-
elas são. Para citarmos novamente Maslow, referindo-se aos
seus indivíduos auto-realizados: "Ninguém se queixa da água fiança no processo que neles se desenvolvia e ousavam ter os
por ser úmida, nem das rochas por serem duras ... Como a crian- seus próprios sentimentos, viver com valores que descobrira m
ça olha para o mundo com uns grandes olhos inocentes e que dentro de si e exprimi-los na sua forma pessoal e única.
não criticam, limitando-se simplesmente a observar e a reparar
no que se passa, sem raciocinar nem perguntar se poderia ser de A direção geral
outra maneira, assim o indivíduo auto-realizado olha para a Vou procurar indicar concisame nte o que é que está impli-
natureza humana tanto em si como nos outros" (4, p. 207). Essa cado nesse padrão de movimento que observei nos meus clien-
atitude de aceitação em relação ao que existe desenvolve-se no tes, cujos elementos venho tentando descrever. Parece indicar
cliente ao longo da terapia. que o indivíduo se move em direção a ser, com conhecime nto
de causa e numa atitude de aceitação, o processo que ele é de
Caminhan do para a corifiança em si mesmo fato em profundidade. Afasta-se do que não é, de ser uma fa-
Outra forma de descrever esse padrão, que encontro em chada. Não procura ser mais do que é, com todos os sentimen-
cada cliente, é dizer que, cada vez mais, ele confia nesse pro- tos de insegurança e os mecanism os de defesa que isso implica.
cesso que é ele mesmo, valorizando-o. A observação dos meus Não tenta ser menos do que é, com os sentimentos implícitos de
clientes fez-me compreen der muito melhor as pessoas criado- culpabilidade ou depreciação de si. Está cada vez mais atento
ras. El Greco, por exemplo, deve ter compreendido, ao olhar ao que se passa nas profundez as do seu ser fisiológico e emo-
para alguns de seus trabalhos iniciais, que "os bons artistas não cional e descobre-se cada vez mais inclinado a ser, com uma
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precisão e uma profundidade maiores, aquilo que é da maneira Isso implica maldade?
mais verdadeira. Um cliente, sentindo a direção que está to-
Uma reação ainda mais habitual em relação a essa trajetó-
mando, pergunta a si mesmo com espanto e incredulidade, du-
rante uma entrevista: "Você quer dizer que se eu realmente fos- ria de vida que se descreveu é que ser o que realmente se é sig-
se como eu sinto que sou, tudo estaria certo?" A sua própria nificaria ser mau, descontrolado, destrutivo. Significaria largar
experiência e a de muitos outros clientes faz tender para uma uma espécie de monstro no mundo. É uma opinião que conheço
resposta positiva. Ser realmente o que é, eis o padrão de vida muito bem, pois a encontro em quase todos os meus clientes:
que lhe parece ser o mais elevado, quando é livre para seguir a "Se eu ousasse deixar correr os sentimentos que represei aqui
direção que quiser. Não se trata simplesmente de uma escolha dentro, se por qualquer hipótese eu vivesse esses sentimentos,
intelectual de valores, mas parece ser a melhor descrição do seria uma catástrofe." É esta a atitude, expressa ou não expres-
comportamento hesitante, provisório e incerto através do qual sa, de quase todos os clientes recém-chegados que experimen-
procede à exploração daquilo que quer ser. tam os aspectos desconhecidos de si mesmos. Mas sua vivência
na terapia contraria esses receios. O indivíduo descobre pouco a
pouco que pode ser a sua irritação, quando essa irritação é sua
Alguns mal-entendidos verdadeira reação, e que, aceita ou transparente, essa irritação
não é destrutiva. Descobre que pode ser o seu receio e que saber
Para muitas pessoas a trajetória de vida que eu me esforcei que tem medo não o dissolve. Descobre que pode ter pena de si
por descrever parecer estar longe de ser satisfatória. Desde que e que isso não é "mau". Ele sente que pode ser e sentir suas rea-
isso corresponda a uma efetiva diferença de valores, eu a res- ções sexuais, ou os seus sentimentos de preguiça ou de hostili-
peito enquanto diferença. Descobri, porém, que às vezes uma dade, sem que lhe caia o céu em cima. A razão parece ser esta:
atitude dessas é devida a certos mal-entendidos. Gostaria de es- quanto mais ele for capaz de permitir que esses sentimentos
clarecê-los na medida do possível. fluam e existam nele, melhor estes encontram o seu lugar ade-
quado numa total harmonia. Descobre que tem outros sentimen-
Isto implica .fixidez? tos que se juntam a estes e que se equilibram. Ele sente que
Para alguns, ser o que se é é permanecer estático. Eles vêem ama, que é terno, respeitoso, cooperador, como também é hos-
um tal objetivo ou valor como sinônimo de estar fixo ou imutá- til, sensual ou colérico. Sente interesse, zelo e curiosidade, como
vel. Nada pode estar mais longe da verdade. Ser o que se é é sente preguiça ou apatia. Sente-se corajoso e ousado como se
mergulhar inteiramente num processo. A mudança encontra-se sente medroso. Seus sentimentos, quando os vive de uma ma-
facilitada, e provavelmente levada ao extremo, quando se assu- neira íntima e os aceita na sua complexidade, realizam uma har-
me ser o que verdadeiramente se é. Na realidade, é a pessoa que monia construtiva e não um mergulho em qualquer forma de
nega os seus sentimentos e as suas reações que procura trata- vida descontrolada.
mento. Essa pessoa tentou durante muitos anos modificar-se , As pessoas exprimem por vezes essa preocupação dizendo
mas encontrou-se fixada em comportamentos que lhe desagra- que, se um indivíduo for o que realmente é, estará libertando a
dam. Foi apenas ao tornar-se mais no que é, que pôde ser mais o besta que traz em si. Isto me faz rir, porque penso que devería-
que em si mesma negaram e encarar assim qualquer mudança. mos observar as bestas mais de perto. O leão é muitas vezes o
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símbolo do "animal feroz". Mas o que é que se passa na realida- nação? A minha opinião é que isso seria possível. Tomemos co-
de? A não ser que tenha sido modificado pelo contato com os mo exemplo o comportamento do nosso país nas suas relações
homens, o leão possui um certo número das qualidades que internacionais. Verificamos geralmente, depois de ouvir as de-
venho descrevendo. Sem dúvida que ele mata quando tem fo- clarações dos nossos dirigentes ao longo dos últimos anos e de
me, mas sem fazer uma carnificina inútil e sem se satisfazer ler os seus discursos, que a nossa diplomacia se baseia sempre
para além das suas necessidades. Ele se porta melhor do que nos mais altos objetivos morais; que vem sempre na linha de
alguns de nós. Quando pequeno, é dependente e indefeso, ma~ políticas anteriormente seguidas; que não implica desejos egoís-
procura a independência. Não se obstina na dependência. E tas; e que nunca errou nos seus juízos e nas suas opções. Julgo
egoísta e autocentrado na infància, mas na idade adulta mani- que talvez estejam de acordo comigo ao dizer que, se ouvíssemos
festa um razoável grau de cooperação e alimenta, protege e um indivíduo falar nesses termos, veríamos imediatamente que
cuida dos mais novos. Satisfaz seus desejos sexuais, mas isso se trata de uma fachada, que semelhantes afirmações não podem
não significa que se entregue a orgias desenfreadas. Suas diver- realmente representar o processo real que nele ocorre.
sas tendências e impulsos harmonizam-se dentro dele. Ele é, no
Imaginemos por um momento como é que nós, como
sentido próprio, um membro construtivo e confiável da espécie
nação, deveríamos nos apresentar na diplomacia internacional,
felis leo. E tento lhes sugerir que ser verdadeira e profundamen-
se fôssemos abertos, conhecendo e aceitando ser o que verda-
te um membro único da espécie humana não é algo que deva
deiramente somos. Não sei com toda a precisão o que somos, mas
suscitar horror. Tal coisa significa, pelo contrário, que se vive
é provável que se tentássemos nos exprimir como somos, então
plena e abertamente o processo complexo de ser uma das cria-
as nossas comunicações com países estrangeiros deviam encer-
turas mais sensíveis, mais dotadas e mas criadoras deste plane-
rar elementos do seguinte tipo:
ta. Ser completamente esse nosso caráter único como ser huma-
no não é, segundo a minha experiência, um processo que se Como nação, estamos progressivamente tomando cons-
deva qualificar de mau. As palavras mais apropriadas seriam as ciência da nossa enorme força e do poder e responsabilidade
de que é um processo positivo, construtivo, realista e digno de que essa força acarreta.
confiança. Dirigimo-nos, ignorantes e um pouco cegos, para a aceita-
ção da posição de dirigentes responsáveis do mundo.
Cometemos muitos erros. Somos muitas vezes inconse-
Implicações sociais qüentes.
Estamos longe de ser perfeitos.
Examinemos durante uns momentos algumas das conse- Estamos profundamente receosos da força do comunismo,
qüências sociais da trajetória de vida que tentei descrever. uma visão de vida diferente da nossa.
Apresentei-a como uma direção que parece ter um grande signi- Temos uma atitude de extrema competição com o comu-
ficado para os indivíduos. Terá, poderá ter, qualquer significação nismo e sentimo-nos irritados e humilhados quando os russos
ou importância para os grupos ou organizações? Será uma dire- nos ultrapassam em qualquer campo.
ção válida para um sindicato, para um grupo religioso, para uma Temos interesses muito egoístas no estrangeiro, como por
corporação industrial, para uma universidade ou para uma exemplo o petróleo no Oriente Médio.
204 __ Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa _ _ __ 205

Por outro lado, não ambicionamos exercer um domínio so- Tenderíamos, através da nossa própria abertura, a provocar
bre os povos. uma maior abertura e um maior realismo por parte dos outros.
Manifestamos sentimentos complexos e contraditórios em Aplicar-nos-íamos na solução dos problemas mundiais par-
relação à liberdade, independência e autodeterminação dos indi- tindo das questões reais, em vez de nos basearmos em termos
víduos e dos países: desejamo-las, sentimo-nos orgulhosos de ter das fachadas exibidas pelos negociadores.
dado o nosso apoio no passado a essas tendências, e no entanto Em resumo, o que estou sugerindo por intermédio desse
temos muitas vezes medo do que elas possam querer dizer. exemplo imaginário é que as nações e as organizações podem
Tendemos a valorizar e respeitar a dignidade e o mérito de descobrir, tal como os indivíduos o fizeram, que ser o que se é em
cada indivíduo, mas quando temos medo afastamo-nos dessa profundidade é uma experiência enriquecedora. Estou sugerindo
direção. que essa perspectiva encerra a semente de uma perspectiva filo-
Suponhamos que nos apresentemos dessa maneira, aberta sófica de uma vida integral, de que essa perspectiva é mais do
e transparente, nas nossas relações exteriores. Tentaremos ser a que uma tendência observada na experiência dos clientes.
nação que realmente somos, em toda a nossa complexidade e
mesmo nas nossas contradições. Qual seria o resultado? Na mi-
nha opinião, o resultado seria semelhante à experiência de um Resumo
cliente quando é mais verdadeiramente o que é. Vejamos algu-
mas dessas conseqüências prováveis. Comecei este capítulo com a pergunta que cada indivíduo
Viveríamos muito mais tranqüilamente porque não tería- faz a si mesmo- qual é o objetivo, qual é a meta da minha vida?
mos nada que esconder. Procurei dizer-lhes o que aprendi dos meus clientes que, na
Poderíamos concentrar-nos sobre o fundo do problema, em relação terapêutica, libertos de toda a ameaça e com possibili-
vez de gastar nossas energias provando que o nosso comporta- dade de escolha, revelam nas suas vidas uma similitude de dire-
mento é moral e conseqüente. ção e de finalidade.
Poderíamos usar a nossa imaginação criadora na resolução Observei que tendem a afastar-se da idéia já feita sobre si,
dos problemas, em vez de a empregarmos na nossa defesa. daquilo que os outros esperavam deles. Afirmei que o movi-
Poderíamos manifestar abertamente nossos interesses egoís- mento característico do cliente é o que lhe permite ser ele mes-
tas e nossas simpatias em relação aos outros e deixar que esses mo livremente, o processo instável e fluido que ele é. Encami-
desejos em conflito se equilibrassem de uma maneira aceitável nha-se igualmente para uma abertura amigável ao que nele se
para nós, como povo. passa- aprendendo a ouvir-se com sensibilidade. Isso significa
Poderíamos livremente evoluir e crescer na nossa posição que ele é cada vez mais uma harmonia de sensações e de rea-
de liderança, porque não nos acharíamos presos por conceitos ções complexas, em vez da clareza e da simplicidade da rigidez,
rígidos daquilo que fomos, daquilo que temos de ser, daquilo ou seja, que caminha para a aceitação da sua "essência"2 , acei-
que devemos ser. tando os outros de um modo mais atento e compreensivo.
Descobriríamos que éramos muito menos temidos porque Confia e valoriza os complexos processos internos de si mes-
os outros estariam menos inclinados a suspeitar do que se es- mo, quando eles emergem para a expressão. Ele é criadoramen-
conderia por detrás da fachada. te realista e realisticamente criador. Descobre que ser este pro-
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cesso em si mesmo é elevar ao máximo a capacidade de trans- 3. Kierkegaard, S. - The Sickness Unto Death, Princeton Uni-
formação e de crescimento. Está permanentemente comprome- versity Press, 1941.
tido na descoberta de que ser plenamente ele mesmo, em toda a 4. Mas1ow, A. H. - Motivation and Personality, Harper and
Bros., 1954.
sua fluidez, não é sinônimo de ser mau ou descontrolado. Pelo
5. Morris, C. W.- Varieties ofHuman Value, University ofChi-
contrário, é sentir, com um crescente orgulho, que é um mem-
cago Press, 1956.
bro sensível, aberto, realista, autônomo, da espécie humana,
6. Seeman, Julius- The Case ofJim, Nashville, Tennessee, Edu-
adaptando-se com coragem e imaginação à complexidade das cationa1 Testing Bureau, 1957.
situações em mudança. Isto quer dizer que caminha continua- 7. Whyte, W. H., Jr. - The Organization Man, Simon and Schuster,
mente para ser, na consciência e na expressão, aquilo que é con- 1956.
forme com o conjunto das reações organísmicas. Para utilizar-
mos as palavras de Kierkegaard, esteticamente mais adequadas,
isto significa "ser o que realmente se é". Alimento a esperança
de ter mostrado que não se trata de uma direção fácil de seguir
ou que alguma vez se possa plenamente realizar. É uma forma
de vida sempre a prosseguir.
Procurando explorar os limites de um tal conceito, sugeri
que essa direção não é uma via necessariamente exclusiva dos
indivíduos submetidos à terapia, nem tampouco aos indivíduos
que buscam um objetivo para a sua vida. Na minha opinião, ela
teria o mesmo sentido para um grupo, uma organização ou uma
nação e implicaria as mesmas conseqüências benéficas.
Admito perfeitamente que esta forma de vida que delinea-
mos seja uma opção de valores que se afasta decididamente dos
objetivos habitualmente escolhidos ou seguidos no comporta-
mento. Mas como se trata de indivíduos que gozam de uma
liberdade maior do que a habitual para escolherem, e porque
essa forma de vida parece traduzir uma tendência generalizada
nesses indivíduos, proponho-a à consideração de vocês.

Referências bibliográficas

1. Jacob, P. E.- Changing Values in College, New Haven, Hazen


Foundation, 1956.
2. Kierkegaard, S. - Concluding Unscientific Postscript, Prin-
ceton University Press, 1941.
Capítulo9
A visão de um terapeuta sobre a vida boa:
a pessoa em pleno funcionamento

Em 1952 ou 1953, durante uma das minhas fugas do inver-


no para climas mais quentes, escrevi um artigo intitulado "O
conceito da pessoa em pleno funcionamento ". Era uma tentati-
va de esboçar o quadro da pessoa que surgiria na hipótese de o
tratamento terapêutico atingir o seu resultado positivo máximo.
Sentia-me um pouco receoso com a pessoa maleável, indivi-
dualista, "relativista ", que parecia ser o resultado lógico do pro-
cesso terapêutico. Surgiram-me duas questões. Seria correta a
minha lógica? Se o fosse, era a esse gênero de pessoa que eu
dava valor? Para dar a mim mesmo a oportunidade de meditar
sobre essas idéias, fiz cópias do artigo e, durante os anos se-
guintes, distribuí centenas delas a pesquisadores interessados.
Como estava cada vez mais seguro do seu conteúdo, submeti-o
a uma das mais importantes revistas de psicologia. O editor
escreveu-me dizendo que o publicaria, mas que era necessário
apresentá-lo num quadro psicológico muito mais convencional.
Sugeriu-me muitas alterações fundamentais. Isso me fez pensar
que o meu artigo não seria provavelmente aceito pelos psicólo-
gos na forma em que o havia escrito e renunciei à idéia de
publicá-lo. A partir de então continuou a ser um centro de inte-
resse para pessoas muito diferentes, e o Dr. Hayakawa escreveu
um artigo sobre este conceito na revista de semântica ETC. Por
210 Tornar-se pessoa Umajilosojiadapessoa __________ _ 211

conseguinte, foi este um dos artigos que me vieram à mente terapeuta teria sido capaz de estabelecer com o cliente uma
quando resolvi escrever este livro. relação intensamente pessoal e subjetiva - não uma relação
No entanto, quando o reli, descobri que, durante os anos como a do cientista com o seu objeto de estudo, nem como a de
que decorreram desde a sua redação, os seus temas e idéias um médico que procura diagnosticar e curar, mas como uma
mais centrais tinham sido absorvidos, e talvez melhor expostos, relação de pessoa a pessoa. Isso significaria que o terapeuta
em outros artigos aqui incluídos. Por isso, coloquei-o mais uma considera seu cliente como uma pessoa incondicionalmente
vez de lado, com alguma relutância, e o substituí por um artigo válida: válida sejam quais forem os seus comportamentos, os
sobre a minha visão da "vida boa ", artigo que tinha por base seus sentimentos ou a sua condição. Isso significaria que o tera-
"A pessoa em pleno funcionamento " e que exprime, segundo peuta é autêntico, que não se esconde atrás de uma fachada
creio, os aspectos essenciais deste artigo de uma forma mais defensiva, mas que vai ao encontro do cliente com os sentimen-
breve e mais legível. A minha única concessão ao passado foi tos que está experimentando organicamente. Significaria igual-
ter dado a este capítulo um subtítulo. mente que o terapeuta é capaz de se abandonar para compreen-
der o seu cliente, que não existem barreiras interiores que o
As minhas idéias sobre a significação da "vida boa" ba- impeçam de sentir como é ser o cliente em cada momento da
seiam-se amplamente na minha experiência de trabalhar com relação, e que pode transmitir algo dessa compreensão empáti-
indivíduos numa relação muito íntima e estreita a que se dá o ca ao cliente. Isso significa, por último, que o terapeuta está à
nome de psicoterapia. Essas idéias têm portanto um fundamen- vontade ao introduzir-se plenamente na relação com o cliente,
to empírico ou vivencial em contraste talvez com um funda- sem conhecer de antemão para onde se encaminham, satisfeito
mento teórico ou filosófico. Aprendi o que a "vida boa" era atra- com o fato de proporcionar um clima que toma possível ao in-
vés da observação e da participação na luta de pessoas pertur- divíduo a maior liberdade para se tomar ele próprio.
badas e inquietas para atingir essa vida. Para o cliente, essa terapia ótima significaria uma explora-
Devo esclarecer desde o princípio que a experiência que ção em si mesmo de sentimentos cada vez mais estranhos, des-
adquiri vem de uma orientação particular dada à psicoterapia, conhecidos e perigosos, exploração que apenas é possível devi-
orientação que foi se elaborando ao longo dos anos. Muito possi- do à progressiva compreensão de que é incondicionalmente
velmente, todas as formas da psicoterapia são fundamentalmente aceito. Começa então o confronto com elementos da sua expe-
semelhantes, mas como tenho agora menos certeza disso do que riência, que no passado tinham sido negados à consciência
antigamente, queria insistir em esclarecer que a minha experiên- como demasiado ameaçadores, demasiado traumatizantes para
cia terapêutica seguiu linhas que me parecem ser as mais efica- a estrutura do eu. Descobre-se vivenciando plenamente esses
zes, isto é, o tipo conhecido como terapia "centrada no cliente". sentimentos na relação, de modo que, em cada momento, ele é
Procurarei dar de forma muito resumida uma descrição de o seu medo, a sua irritação, a sua ternura ou a sua força. E à
como seria essa terapia se ela fosse, em todos os aspectos, a medida que vive esses sentimentos variados, em todos os seus
melhor possível, pois penso que onde mais aprendi sobre a vida graus de intensidade, descobre que vivenciou a si mesmo, que
boa foi nas experiências terapêuticas que se revestiram de um ele é todos esses sentimentos. Depara com o seu comportamen-
profundo dinamismo. Se a terapia atingisse um nível ótimo, to mudando de uma forma construtiva em conformidade com
tanto intensiva como extensivamente, isso significaria que o seu eu, do qual teve recentemente a experiência. Começa a
212 Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa __ _ 213

compreender que já não tem necessidade de ter receio do que a nhum desses termos que conotam estados fixos de existência.
experiência pode lhe propor, mas que pode acolhê-la livremen- Julgo que eles próprios se sentiriam insultados se fossem des-
te como uma parte do seu eu em transformação e em desenvol- critos como "adaptados", e que considerariam uma falsidade
vimento. serem descritos como "felizes", "contentes" ou mesmo "reali-
Eis um rápido esboço de onde chega a terapia centrada no zados". De minha parte, consideraria extremamente inexato
cliente quando alcançou o seu grau ótimo. Apresento este esbo- afirmar que todas as suas tensões impulsivas foram reduzidas
ço aqui simplesmente como uma imagem do contexto em que ou que se encontram em estado homeostático. Sou assim força-
fui formando a minha concepção da "vida boa". do a perguntar a mim mesmo se existe qualquer definição ade-
quada da "vida boa" que respeite os fatos como os observei. Não
Uma observação negativa acho que se trate de coisa fácil e o que se segue não passa de
uma tentativa provisória.
Ao procurar viver e compreender as experiências dos meus
clientes, cheguei pouco a pouco a uma conclusão negativa acer- Uma observação positiva
ca da "vida boa". Parece-me que esta não é um estado fixo. Não
é, na minha opinião, um estado de virtude, de contentamento, Ao procurar captar em poucas palavras o que parece ser
de nirvana ou de felicidade. Não é uma condição em que o indi- para mim a verdade a respeito dessas pessoas, julgo que chega-
víduo esteja adaptado, realizado ou preenchido. Recorrendo a rei mais ou menos a isto:
termos da psicologia, não é um estado de redução de impulsos, A "vida boa" é um processo, não um estado de ser.
de redução de tensão ou de homeostase. É uma direção, não um destino.
Penso que todos estes termos têm sido utilizados de um A direção representada pela "vida boa" é aquela que é
modo que implica que, se um desses estados é atingido, o obje- escolhida pelo organismo total, quando existe liberdade psico-
tivo da vida também o é. Com certeza para muitas pessoas a lógica para se mover em qualquer direção.
felicidade ou a adaptação são consideradas como estados sinô- Esta direção selecionada de modo organísmico parece ter
nimos da "vida boa". Por seu lado, as ciências sociais falam fre- determinadas qualidades gerais distintas que se revelam como
qüentemente de redução de tensão, de obtenção da homeostase sendo as mesmas numa grande variedade de indivíduos singu-
ou do equilíbrio, como se esses estados constituíssem a finali- lares.
dade do processo da vida. Desse modo, posso integrar as afirmações feitas até agora
É, portanto, com uma certa surpresa e uma certa preocupa- numa definição que pode, pelo menos, servir de base de estudo
ção que verifico que a minha experiência não confirma nenhu- e de discussão. A "vida boa", do ponto de vista da minha expe-
ma dessas definições. Se me concentrar sobre a experiência dos riência, é o processo de movimento numa direção que o orga-
indivíduos que parecem ter evidenciado o grau mais elevado de nismo humano seleciona quando é interiormente livre para se
dinamismo durante a relação terapêutica, e sobre aqueles que mover em qualquer direção, e as características gerais dessa
nos anos seguintes a esta relação mostram ter feito e fazem ain- direção escolhida revelam uma certa universalidade.
da progressos reais em direção da "vida boa", então parece-me
que esses indivíduos não são adequadamente descritos por ne-
214 __ Tornar-se pessoa 215
Uma filosofia da pessoa _ _ _ _ __

As características do processo "viveria" essa experiência, tomá-la-ia inteiramente disponível à


consciência.
Especifiquemos agora o que se revela como característico Por isso, um dos aspectos deste processo que designo co-
desse processo de movimento e que surge nas pessoas durante a mo a "vida boa" aparece como um movimento que se afasta do
terapia. pólo de uma atitude defensiva, em direção ao pólo da abertura à
experiência. O indivíduo toma-se progressivamente mais capaz
Uma abertura crescente à experiência de ouvir a si mesmo, de vivenciar o que se passa em si. Está
mais aberto aos seus sentimentos de receio, de desânimo e de
Em primeiro lugar, o processo parece implicar uma abertura
desgosto. Fica igualmente mais aberto aos seus sentimentos
crescente à experiência. Esta proposição tem para mim um signi-
subjetivamente, como existem nele, e é igualmente livre para
ficado cada vez maior. É o pólo oposto à atitude defensiva.
tomar consciência deles. Toma-se mais capaz de viver comple-
Descrevi esta última atitude como sendo a resposta do organismo
tamente a experiência do seu organismo, em vez de mantê-la
a experiências apreendidas ou antecipadas como ameaçadoras,
fora da consciência.
como incongruentes com a imagem que o indivíduo faz de si
mesmo ou de si em relação com o mundo. Essas experiências
Aumento da vivência existencial
ameaçadoras são temporariamente tomadas inofensivas, ao se-
rem deformadas pela consciência ou negadas por ela. Eu, literal- Uma segunda característica do processo que representa pa-
mente, não posso ver com exatidão essas experiências, sentimen- ra mim a "vida boa" é que ela implica uma tendência crescente
tos, reações que em mim diferem sensivelmente da imagem que para viver plenamente cada momento. Esta idéia pode ser facil-
já possuía de mim mesmo. Uma grande parte do processo tera- mente mal-entendida e talvez seja até um pouco vaga no meu
pêutico é a descoberta constante por parte do indivíduo de que próprio espírito. Vejamos se consigo exprimir o que quero dizer.
está experimentando sentimentos e atitudes que antes não tinha Julgo ser evidente que uma pessoa que estivesse plenamen-
sido capaz de tomar conscientes, que não tinha sido capaz de tor- te aberta a cada experiência nova, completamente desprovida de
nar "próprios" como fazendo parte de si mesmo. uma atitude defensiva, viveria cada momento da sua vida como
Se, contudo, uma pessoa pudesse se abrir completamente à novo. A configuração complexa de estímulos internos e exter-
sua experiência, todo estímulo- quer a sua origem seja o orga- nos que existe num determinado momento nunca antes existira
nismo ou o ambiente - seria livremente retransmitido através exatamente da mesma maneira. Por conseguinte, essa pessoa
do sistema nervoso sem ser distorcido por nenhum mecanismo compreenderia que "aquilo que eu vou ser no próximo momento
de defesa. Não haveria necessidade do mecanismo da "subcep- e aquilo que eu vou fazer nasce desse momento e não pode ser
ção"1 por intermédio do qual o organismo se previne contra previsto de antemão nem por mim nem pelos outros". Não é raro
qualquer experiência ameaçadora para o eu. Pelo contrário, encontrar clientes que exprimem precisamente esse tipo de sen-
quer o estímulo fosse o impacto de uma configuração de forma, timento.
de cor ou de som no meio exterior agindo sobre os nervos sensi- Uma forma de exprimir a fluidez que está presente numa
tivos, quer fosse uma recordação vinda do passado ou uma sen- tal vivência existencial é dizer que o eu e a personalidade emer-
sação visceral de medo, de prazer ou de repugnância, a pessoa gem da experiência, em vez de dizer que a experiência foi tra-
216 ____ Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa _________ 217

duzida ou deformada para se ajustar a uma estrutura preconce- no juízo dos outros (desde a esposa e os amigos a Emily Post 2)
bida do eu. Isso quer dizer que uma pessoa se toma um partici- ou na forma como se comportaram numa situação semelhante
pante e um observador do processo em curso da experiência no passado. No entanto, observando os clientes cuja experiên-
organísmica, em vez de controlá-lo. cia de vida tanto me ensinou, descobri que esses indivíduos se
Esse viver no momento significa uma ausência de rigidez, tomavam cada vez mais capazes de confiar nas suas reações or-
de organização estreita, de imposição de uma estrutura à expe- ganísmicas totais diante de uma nova situação por que foram
riência. Significa, pelo contrário, um máximo de adaptabilida- progressivamente descobrindo que, se estivessem abertos à sua
de, uma descoberta da estrutura na experiência, uma organiza- experiência, se fizessem o que sentem que seria bom fazer, es-
ção fluente, mutável, do eu e da personalidade. sas reações revelar-se-iam um guia competente e digno de con-
É essa tendência para uma vivência existencial que a mim fiança do comportamento que realmente satisfaz.
se revela de uma forma bem patente nas pessoas envolvidas no Ao tentar compreender a razão disso, dei por mim seguindo
processo da "vida boa". Poder-se-ia quase dizer que é a sua ca- a seguinte linha de pensamento: a pessoa que estiver completa-
racterística mais importante. Ela implica a descoberta da estru- mente aberta à sua experiência terá acesso a todos os dados pos-
tura da experiência no processo de viver essa experiência. A síveis da situação, sobre os quais fundamentará seu comporta-
maior parte de nós, por outro lado, aplica à experiência uma mento; as exigências sociais, as suas próprias necessidades
estrutura e uma avaliação pré-formada, e nunca as abandona, complexas e possivelmente em conflito, a sua recordação de
comprimindo e deformando a experiência para adaptá-la às situações semelhantes, a sua percepção do caráter único dessa si-
nossas idéias preconcebidas, irritando-se com os aspectos flui- tuação determinada, etc., etc. Os dados seriam de fato muito
dos que a tomam tão dificil de adaptar aos nossos escaninhos complexos. Mas o indivíduo poderia permitir ao seu organismo
cuidadosamente construídos. Abrir o espírito para aquilo que total, com a participação da sua consciência, considerar cada
está acontecendo agora, e descobrir nesse processo presente estímulo, cada necessidade e cada exigência, sua intensidade e
qualquer estrutura que se apresente - tal é, na minha opinião, importância relativas e, a partir dessa ponderação e dessa apre-
uma das qualidades da "vida boa", da vida amadurecida, como a ciação complexas, descobrir a atitude que mais integralmente
que vejo os clientes alcançarem. satisfizesse suas necessidades perante a situação. Uma analogia
a que se poderia recorrer quase como uma descrição seria a de
Uma confiança crescente no seu organismo comparar essa pessoa com um gigantesco computador eletrôni-
co. Uma vez que está aberto à sua experiência, todos os dados das
Outra característica da pessoa que vive o processo da "vida suas impressões sensoriais, da memória, da aprendizagem ante-
boa" revela-se por uma confiança crescente no seu organismo rior, dos estados internos e viscerais, são introduzidos na máqui-
como meio de alcançar um comportamento cada vez mais satis- na. Esta registra todas essas tendências e forças que lhe são for-
fatório em cada situação existencial. Passo a explicar o que pre- necidas e calcula rapidamente a ação que será o vetor mais eco-
tendo dizer com esta afirmação. nômico da satisfação das necessidades nessa situação existencial.
Muitas pessoas, ao escolherem a atitude a tomar numa si- Tal é o comportamento do nosso hipotético indivíduo.
tuação qualquer, apóiam-se em princípios orientadores, num Os defeitos que invalidam a confiança no processo em
código de ação estabelecido por um grupo ou uma instituição, muitos de nós são a inclusão de informações que não perten-
218 Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa _ _ _ _ _ _ _ __ 219

cem à situação presente, ou a exclusão de informações que per- O processo de um funcionamento mais pleno
tencem. É quando as memórias e aprendizagens anteriores se
Gostaria de reunir esses três itens que descrevem o proces-
introduzem nos cálculos, como se fossem esta realidade e não
so da "vida boa" numa imagem mais coerente, mostrando que a
memória e aprendizagem, que aparecem respostas comporta-
pessoa que é psicologicamente livre move-se na direção de se
mentais erradas. Ou, então, quando certas experiências amea-
çadoras ficam inibidas em relação à consciência e, por conse- tomar uma pessoa funcionando de um modo mais pleno. O in-
guinte, são subtraídas aos cálculos ou introduzidas de uma divíduo é mais capaz de viver plenamente em e com cada um
maneira distorcida, também ocorrem erros. O nosso hipotético dos seus sentimentos e reações. Faz um uso cada vez maior do
indivíduo, porém, consideraria seu organismo perfeitamente seu equipamento orgânico para sentir, tão exatamente quanto
seguro, porque todos os dados possíveis seriam utilizados e possível, a situação existencial interior e exterior. Faz uso de
estariam presentes de uma forma exata, sem deformações. Seu todas as informações que o seu sistema nervoso lhe pode forne-
comportamento satisfaria da melhor maneira possível todas as cer, utilizando-as com toda a consciência, embora reconhecen-
suas necessidades - necessidade de ser reconhecido, de estar do que seu organismo total pode ser, e muitas vezes é, mais
associado a outros indivíduos e outras do mesmo gênero. sábio do que a sua consciência. O indivíduo toma-se mais ca-
Nesse cálculo, ponderação ou apreciação, seu organismo paz de permitir que seu organismo total funcione livremente em
não seria de maneira nenhuma infalível. Daria sempre a melhor toda a sua complexidade, escolhendo, entre um grande número
resposta tendo em conta os dados fornecidos, mas estes por vezes de possibilidades, o comportamento que num determinado mo-
seriam insuficientes. No entanto, devido ao elemento de abertura mento o satisfará de um modo mais geral e mais genuíno. O in-
à experiência, qualquer erro, qualquer comportamento que não divíduo é capaz de confiar mais no seu organismo no que se
satisfizesse, seria rapidamente corrigido. Os cálculos estariam refere ao seu funcionamento, não porque seja infalível, mas
sempre de alguma maneira num processo de correção porque se- porque pode estar completamente aberto às conseqüências de
riam continuamente postos à prova no comportamento. cada um dos seus atos e corrigi-los se eles não o satisfizerem.
Talvez não gostem da minha analogia com o computador O indivíduo é mais capaz de experimentar todos os seus
eletrônico. Pois bem, voltemos aos clientes que conheço. À me- sentimentos e tem menos medo deles; ele é seu próprio crivo
dida que se tomam mais abertos à sua experiência integral, des- diante dos fatos e mostra-se mais aberto aos fatos que provêm
cobrem que é cada vez mais possível ter confiança nas suas rea- de outras fontes; mergulha completamente no processo de ser
ções. Se têm vontade de exprimir irritação, exprimem-na e verifi- e de se tornar o que é, descobrindo então que é um ser social de
cam que o resultado é satisfatório, porque estão igualmente cons- modo profundo e realista; vive de um modo mais completo o
cientes dos seus outros desejos de afeto, de associação e de relação. momento, mas aprende que é sempre essa a maneira mais sau-
Ficam surpreendidos com a sua própria capacidade intuitiva de dável de viver. O indivíduo torna-se um organismo que funcio-
encontrar as soluções comportamentais para relações humanas na mais plenamente e, devido à consciência de si mesmo que
complexas e perturbadas. Somente depois compreendem como corre livremente na e através da sua experiência, torna-se uma
suas relações internas eram espantosamente confiáveis para pos- pessoa com um funcionamento mais pleno.
sibilitar-lhes um comportamento satisfatório.
220 Tornar-se pessoa 221
Uma filosofia da pessoa

Algumas implicações da pessoa em pleno funcionamento. Poderíamos dizer que, no


ponto ótimo da terapia, a pessoa experimenta justamente a mais
Qualquer opinião sobre o que constitui a "vida boa" arrasta completa e absoluta liberdade. O indivíduo quer ou escolhe se-
consigo muitas implicações, e a que lhes apresentei não repre- guir a linha de ação que representa o vetor mais econômico em
senta uma exceção. Espero que essas implicações possam ali- relação a todos os estímulos internos e externos, porque é esse o
mentar a reflexão. Gostaria de comentar duas ou três dessas con- comportamento que pode satisfazê-lo de um modo mais pro-
seqüências. fundo. Mas é a mesma linha de ação que, de um outro ponto de
vista, se pode afirmar como determinada por todos os fatores da
Uma nova perspectiva sobre a liberdade versus determinismo situação existencial. Comparemos essa descrição com a ima-
gem de uma pessoa defensivamente organizada. Ela quer ou es-
A primeira dessas implicações talvez não seja imediata-
colhe seguir determinada linha de ação mas descobre que não
mente evidente. Ela se refere ao velho problema do "livre-arbí-
pode comportar-se da forma que escolhera. O indivíduo está
trio". Procurarei mostrar como é que concebo esse problema
determinado por fatores da situação existencial, mas esses fato-
agora sob uma luz diferente.
res incluem sua atitude de defesa, sua negação ou distorção de
Durante algum tempo senti-me perplexo com o paradoxo
alguns aspectos importantes. Seu comportamento, portanto,
vivo que existe em psicoterapia entre liberdade e determinismo.
com certeza não o satisfará plenamente. Seu comportamento está
Na relação terapêutica, algumas das experiências subjetivas
determinado, mas ele não é livre para fazer uma escolha eficaz.
mais intensas são aquelas em que o cliente sente dentro de si
A pessoa que funciona plenamente, pelo contrário, não apenas
mesmo o poder nítido da escolha. Ele é livre- para se tomar no
experimenta mas utiliza a maior liberdade, quando espontânea,
que é ou para se esconder atrás de uma fachada; para progredir
livre, e voluntariamente escolhe e quer o que também está abso-
ou para retroceder; para seguir por caminhos que o destroem ou
que destroem os outros, ou caminhos que o enriquecem; ele é lutamente determinado.
Não sou tão ingênuo para supor que essa posição resolve
literalmente livre para viver ou para morrer, tanto no sentido
completamente o conflito entre o subjetivo e o objetivo, entre a
fisiológico como no sentido psicológico destes termos. E, no
liberdade e a necessidade. Mas, pelo menos, isso significa para
entanto, quando penetramos no domínio da psicoterapia com
mim que quanto mais a pessoa viver uma "vida boa", mais ex-
métodos objetivos de investigação, somos obrigados, como to-
perimentará a liberdade de escolha e mais a sua escolha se tra-
dos os cientistas, a adotar um determinismo estrito. Desse pon-
duzirá eficazmente no seu comportamento.
to de vista, qualquer pensamento, sentimento ou ação do cliente
está determinado por aquilo que lhe é imediatamente anterior.
A criativadade como um elemento da "vida boa "
Não pode haver uma coisa chamada liberdade. O dilema que
estou procurando descrever não é diferente daquele que encon- Julgo ter ficado claro que uma pessoa que se vê envolvida
tramos em outros campos - ele é simplesmente mais central e no processo direcional que designei como a "vida boa" é uma
parece mais insolúvel. pessoa criativa. Com a sua abertura sensível ao mundo, a con-
Esse dilema, contudo, pode ser visto sob uma nova pers- fiança na sua própria capacidade para formar novas relações
pectiva se o considerarmos em termos da definição que demos com o seu ambiente, seria o tipo de pessoa de q,uem provêm as
222 ___ Tornar-se pessoa 223
Uma filosofia da pessoa _ _ __

produções e vivências criativas. Não estaria necessariamente dência para oferecer afeição serão tão fortes como os impulsos
"adaptada" à sua cultura, e certamente não seria um conformis- de violência ou de ataque. O indivíduo será agressivo em situa-
ta. Mas, em qualquer época e em qualquer cultura, viveria de ções onde a agressão seja realmente adequada, mas não sentirá
uma maneira construtiva, em grande harmonia com o seu meio uma necessidade desordenada de agressão. O seu comporta-
cultural para conseguir uma satisfação equilibrada das suas mento total, nestes e noutros campos, como se dirige sempre
necessidades. Em determinadas situações culturais, poderia em para a abertura à experiência, será mais equilibrado e realista,
alguns aspectos ser uma pessoa muito infeliz, mas continuaria a comportamento que é adequado à sobrevivência e ao desenvol-
progredir para se tomar ela própria e para se comportar de tal vimento de um animal altamente social.
forma que satisfizesse de um modo tão completo quanto possí- Sinto pouca simpatia pela idéia bastante generalizada de
vel suas necessidades mais profundas. que o homem é fundamentalmente irracional e que os seus
Uma pessoa assim seria, segundo creio, reconhecida como impulsos, quando não controlados, levam à destruição de si e
o tipo mais capaz de se adaptar e de sobreviver em caso de alte- dos outros. O comportamento humano é extremamente racio-
ração das condições ambientais. Seria capaz de se adaptar devi- nal, evoluindo com uma complexidade sutil e ordenada para os
damente, tanto às novas como às antigas condições. Estaria jus- objetivos que seu organismo se esforça por atingir. A tragédia
tamente na vanguarda da evolução humana. para muitos de nós deriva do fato de que nossas defesas nos
impedem de perceber essa racionalidade, de modo que estamos
A natureza humana é fundamentalmente digna de confiança conscientemente caminhando numa direção quando organismi-
camente seguimos outra. Mas, na pessoa de quem estamos fa-
Toma-se evidente que outra implicação da perspectiva que lando e que vive o processo da "vida boa", haveria um número
estou apresentando é que a natureza profunda do ser humano, decrescente dessas barreiras de defesa e uma participação cada
quando funciona livremente, é construtiva e digna de confian- vez maior da racionalidade do seu organismo. O único controle
ça. Esta é para mim uma conclusão irrecusável de um quarto de dos impulsos que existiria, ou que se mostraria necessário, é o
século de experiências em psicoterapia. Quando conseguimos equilíbrio natural e interno de uma necessidade em relação a
libertar o indivíduo da sua atitude de defesa, de modo a que ele outra e a descoberta de comportamentos que seguem um vetor
se abra ao vasto campo das suas próprias necessidades bem co- mais intimamente ligado à satisfação de todas as necessidades.
mo ao campo igualmente vasto das exigências do meio e da A experiência da satisfação extrema de uma necessidade (agres-
sociedade, podemos confiar que suas reações serão positivas, siva, sexual, etc.) de forma que violentasse a satisfação de
progressivas e construtivas. Não precisamos perguntar quem o outras necessidades (de amizade, de ternura, etc.)- uma expe-
socializará, pois uma das suas próprias necessidades mais pro- riência muito comum na pessoa organizada defensivamente -
fundas é a de se associar e de se comunicar com os outros. À ficaria bastante reduzida. O indivíduo passaria a participar das
medida que o indivíduo se toma mais plenamente ele mesmo, atividades auto-reguladoras complexas do seu organismo - os
toma-se igualmente socializado de maneira mais realista. Não controles termostáticos tanto psicológicos como fisiológicos -
precisamos perguntar quem controlará seus impulsos agressi- de maneira a viver numa harmonia crescente consigo mesmo e
vos; à medida que se for tomando mais aberto a todos os seus com os outros.
impulsos, sua necessidade de ser querido pelos outros e sua ten-
224 _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

A maior riqueza da vida


Quinta Parte
Uma última implicação que gostaria de mencionar é que
esse processo de viver a "vida boa" implica um campo mais
A observação dos fatos: o papel da
vasto, uma riqueza maior do que a vida restrita em que grande investigação em psicoterapia
parte de nós se encontra. Participar nesse processo significa
que se está mergulhado em experiências, muitas vezes temíveis Procurei confrontar minha experiência clínica
e muitas vezes satisfatórias, de uma vida mais sensível, com com a realidade, não sem sentir uma certa per-
uma amplitude maior, maior variedade e maior riqueza. Parece- plexidade filosófica sobre qual seria a "realida-
me que os clientes que fizeram progressos significativos na de" mais válida.
terapia vivem de um modo mais íntimo com os seus sentimen-
tos dolorosos, mas vivem também mais intensamente os seus
sentimentos de felicidade; a raiva é mais claramente sentida,
mas o amor também; o medo é uma experiência feita mais pro-
fundamente, mas também a coragem. E a razão pela qual eles
podem viver de uma maneira tão plena num campo tão vasto é
que têm em si mesmos uma confiança subjacente de serem ins-
trumentos dignos de confiança para enfrentar a vida.
Penso que se torna evidente por que é que, para mim, adje-
tivos tais como feliz, satisfeito, contente, agradável, não pare-
cem adequados para uma descrição geral do processo a que dei
o nome de "vida boa", mesmo que a pessoa envolvida nesse
processo experimente cada um desses sentimentos nos devidos
momentos. Mas os adjetivos que parecem de um modo geral
mais apropriados são: enriquecedor, apaixonante, gratificante,
estimulante, significativo. Estou convencido de que esse pro-
cesso da "vida boa" não é um gênero de vida que convenha aos
que desanimam facilmente. Esse processo implica a expansão e
a maturação de todas as potencialidades de uma pessoa. Im-
plica a coragem de ser. Significa que se mergulha em cheio na
corrente da vida. E, no entanto, o que há de mais profundamen-
te apaixonante em relação aos seres humanos é que, quando o
indivíduo se torna livre interiormente, escolhe essa "vida boa"
como processo de transformação.
Capítulo 10
Pessoa ou ciência? Um problema filosófico

Considero este artigo um dos que mais gostei de escrever e


que continua sendo uma expressão satisfatória dos meus pon-
tos de vista. Julgo que uma das razões para gostar tanto assim
dele é o fato de tê-lo escrito apenas para mim. Não pensava em
publicá-lo ou utilizá-lo para outro objetivo que não fosse o de
me esclarecer sobre um problema e um conflito crescentes den-
tro de mim mesmo.
Uma visão retrospectiva leva-me a reconhecer a origem do
conflito. Tratava-se de uma oposição entre o positivismo lógico
em que eu fora educado e pelo qual tinha um profundo respeito
e um pensamento existencial orientado subjetivamente que cres-
cia em mim porque me parecia adequar-se perfeitamente à mi-
nha experiência terapêutica.
Não estudei filosofia existencial. O primeiro contato que
tive com a obra de Soeren Kierkegaard e de Martin Buber deve-
se à insistência de alguns estudantes de teologia de Chicago
que empreenderam um trabalho comigo. Eles tinham certeza de
que o pensamento desses homens ressoaria com o meu, o que
era bastante correto. Embora houvesse em Kierkegaard, por
exemplo, muitos pontos que para mim não significavam nada,
havia e há, de vez em quando, intuições e convicções profundas
que exprimem perfeitamente perspectivas que eu tinha mas que
228
---~ -~ _ _ _ _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia--~ 229

não conseguira formular. Embora Kierkegaard tenha vivido há que isso é verdade), mais consciência ganhava da minha com-
cerca de cem anos, não posso deixar de considerá-lo um ami- pleta subjetividade quando exercia melhor essa função. Mas, ao
go, sensível e altamente perceptivo. Julgo que esse artigo mos- tomar-me melhor investigador, mais teimoso e mais científico
trará minha dívida para com ele, sobretudo porque a leitura de (como creio ter acontecido), sentia um embaraço crescente
sua obra me abriu perspectivas e me levou a confiar e a expri- perante a distância entre a minha objetividade rigorosa como
mir minha própria experiência. cientista e a minha subjetividade quase mística como terapeuta.
Um outro fator que me ajudou a escrever este artigo foi o Este artigo é o resultado disso.
fato de me encontrar longe dos meus colegas, passando o inver- A primeira coisa que fiz foi funcionar como terapeuta e
no em Taxco, onde escrevi a sua maior parte. Um ano mais tar- descrever da maneira mais breve possível a natureza essencial
de, quando me encontrava na ilha de Granada, no Caribe, ter- da psicoterapia como a vivi com muitos clientes. Gostaria de
minei-o, escrevendo a última seção. enfatizar que se trata de uma formulação muito fluida e pessoal
Como fiz em relação a outros capítulos deste livro, distribuí e que, se tivesse sido feita por uma outra pessoa ou por mim há
cópias deste artigo para meus colegas e para estudantes. Alguns dois anos ou daqui a dois anos, seria diferente sob alguns aspec-
anos depois, por sugestão de outras pessoas, submeti-o a publi-
tos. Depois deixei-me funcionar como cientista- como um es-
pírito teimoso à procura dos fatos no reino da psicologia - e
cação e foi aceito, com alguma surpresa de minha parte, pelo
esforcei-me por imaginar o significado que a ciência poderia
American Psychologist. Incluo-o aqui porque me parece expri-
encontrar para a terapia. Depois disso, prossegui o debate inte-
mir, melhor do que qualquer outro artigo meu, o contexto em
rior, levantando as questões que cada ponto de vista legitima-
que encaro a investigação e porque esclarece a razão da minha
mente propunha ao outro.
"vida dupla" de subjetividade e de objetividade.
No meio dos meus esforços descobri que apenas tinha
agravado o conflito. Os dois pontos de vista pareciam-me mais
do que nunca inconciliáveis. Discuti esse assunto num seminá-
Introdução rio de professores e estudantes e seus comentários foram para
mim de grande ajuda. Durante o ano seguinte continuei a rumi-
Este é um documento muito pessoal, escrito em primeiro nar esse problema, até que comecei a sentir emergir em mim uma
lugar para mim mesmo, com o objetivo de esclarecer uma ques- integração das duas perspectivas. Mais de um ano depois de ter
tão que me intrigava cada vez mais. Terá interesse para as ou- escrito as primeiras seções, procurei expressar em palavras essa
tras pessoas na medida em que a questão também existir para tentativa e, talvez, fazer uma integração temporária.
elas. Vou, portanto, descrever nessa introdução o modo como Por isso, o leitor que acompanha minha luta nesta matéria
esse capítulo foi se formando. verá que inconscientemente ela assumiu uma forma dramática
Com a experiência que adquiri como terapeuta, acompa- - estando todas as dramatis personae dentro de mim mesmo:
nhando a experiência estimulante e enriquecedora da psicotera- Primeiro Protagonista, Segundo Protagonista, o Conflito e, por
pia, e tomando em consideração o meu trabalho como investi- último, a Resolução. Sem mais preâmbulos, vou apresentar o
gador científico para descobrir algumas das verdades sobre a primeiro protagonista, eu próprio como terapeuta, traçando tão
terapia, fui tomando uma consciência maior da separação entre claramente quanto possível o quadro do que a experiência da
essas duas funções. Quanto melhor terapeuta me tomava (e creio terapia parece ser.
230 _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_31

A essência da terapia em termos de sua experiência então esta alcança a qualidade de "fora desse mundo" conforme
as observações de grande número de terapeutas, uma espécie de
Lanço-me na relação com uma hipótese, ou uma convic- sentimento de êxtase na relação da qual o cliente e eu emergi-
ção, de que minha simpatia, minha confiança e minha com- mos no fim da sessão como quem sai de um poço ou de um
preensão do mundo interior da outra pessoa provocarão um sig- túnel. Dá-se nesses momentos uma verdadeira relação "Eu-Tu",
nificativo processo de transformação. Entro na relação, não para empregar uma expressão de Buber, uma vivência atemporal
como um cientista, não como um médico que procura diligente- da experiência que existe entre o cliente e eu. Está-se no pólo
mente o diagnóstico e a cura, mas como uma pessoa que se in- oposto de uma visão do cliente ou de mim mesmo como um
sere numa relação pessoal. Enquanto eu olhar para o cliente co- objeto. É o ponto culminante da subjetividade pessoal.
mo um objeto, ele tenderá a tomar-se apenas um objeto. Tomei muitas vezes consciência do fato de não saber, cog-
Arrisco-me, porque à medida que a relação se aprofunda, nitivamente, onde conduzem as relações imediatas. É como se
se o que se desenvolve é um fracasso, uma regressão, uma rejei- nós dois, o cliente e eu, nos deixássemos deslizar, muitas vezes
ção de mim e da relação pelo cliente, nesse caso sinto que perco com receio, para a corrente do devir, uma corrente ou processo
a mim mesmo, inteiramente ou em parte. Às vezes esse risco é que nos arrasta. É o fato do terapeuta já ter se deixado flutuar
muito real e sentido de forma bastante aguda. nessa corrente da experiência ou da vida anteriormente, ter des-
Abandono-me ao caráter imediato da relação a ponto de coberto que isso é gratificante, que o toma cada vez menos
ser todo o meu organismo, e não simplesmente minha cons- receoso de mergulhar. É minha confiança que toma mais fácil
ciência, que é sensível à relação e se encarrega dela. Não res- ao cliente embarcar também, um pouco mais de cada vez. Pa-
pondo conscientemente de uma forma planejada ou analítica, rece com freqüência que a corrente da experiência se dirige para
mas reajo simplesmente de uma forma não-reflexiva para com o um determinado objetivo. Contudo, é provavelmente mais exa-
indivíduo, baseando-se a minha reação (embora não conscien- to dizer que o seu caráter gratificante permanece interno ao
temente) na minha sensibilidade total organísmica a essa outra próprio processo e que seu maior beneficio é possibilitar a am-
pessoa. Eu vivo a relação nessa base. bos, ao cliente e a mim, mais tarde, independentemente, entre-
A essência de algumas das partes mais profundas da tera- garmo-nos ao processo de tomar-se.
pia parece ser uma unidade de vivência. O cliente é capaz de Quanto ao cliente, à medida que a terapia decorre, desco-
vivenciar livremente os sentimentos em toda a sua intensidade bre que ousa tomar-se ele mesmo, apesar de todas as conse-
' qüências terríveis que supõe ter de suportar se se permitir ser
como uma "pura cultura", sem inibições ou precauções intelec-
tuais, sem ficar preso pelo conhecimento de sentimentos con- ele mesmo. O que significa tomar-se no que se é? Isso parece
traditórios; e eu sou capaz de vivenciar com igual liberdade indicar menos medo das reações organísmicas, reações não
minha compreensão desse sentimento, sem pensar nele cons- refletidas que se tem, uma confiança progressiva acompanhada
cientemente, sem qualquer apreensão ou preocupação de saber mesmo de afeição pelo complexo, variado e rico sortimento de
onde é que isso levará, sem qualquer espécie de diagnóstico ou sentimentos e tendências que existem em si no nível orgânico
análise, sem quaisquer barreiras, emocional ou cognitiva, para ou organísmico. A consciência, em vez de ser a sentinela de um
uma entrada total na compreensão. Quando há essa unidade com- amontoado de impulsos perigosos e imprevisíveis dos quais só
pleta, essa singularidade, essa plenitude da vivência na relação, poucos poderão ver a luz do dia, toma-se o habitante bem insta-
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---------~---- ___________ _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_3_3_

lado de uma tica e variada sociedade de impulsos, sentimento e símbolos. São semelhantes à descoberta da criança que sabe
concepções, que se manifestam autogovemando-se satisfatoria- que "dois e dois são quatro" e que um dia, brincando com dois
mente quando não estão guardados com medo ou de um modo objetos e com mais dois objetos, apercebe-se subitamente na
autoritário. experiência de uma descoberta absolutamente inédita, que "dois
Implicada neste processo de se tomar no que se é está uma e dois são realmente quatro".
profunda experiência da opção pessoal. O cliente compreende que Um outro modo de compreender essas descobertas é con-
pode optar por continuar a esconder-se atrás de uma fachada ou siderá-las uma tentativa retardada para fazer corresponder sím-
que pode assumir os riscos que envolve o fato de ser ele mesmo; bolos e significações no mundo dos sentimentos, um empreen-
que é um agente livre, detentor do poder de destruir o outro, ou de dimento já há muito acabado no domínio do conhecimento.
se destruir a si mesmo, senhor igualmente do poder de elevar o Intelectualmente, fazemos corresponder com todo o cuidado o
outro e de se elevar a si próprio. Confrontado com a realidade nua símbolo que escolhemos com o significado que um experiência
da decisão, escolhe tomar a direção de ser ele mesmo. assume para nós. Assim, digo que qualquer coisa aconteceu
Mas ser o que se é não "resolve os problemas". Abre sim- "gradualmente", depois de ter rapidamente passado em revista
plesmente um novo modo de vida no qual se faz a experiência (e em grande parte inconscientemente) termos como "lenta-
dos seus sentimentos de um modo mais profundo e elevado, mente", "imperceptivelmente", "passo a passo", etc., rejeitan-
num campo mais extenso e mais dilatado. O indivíduo sente-se do-os porque não exprimiam o significado preciso da experiên-
mais único e mais só, mas é muito mais real, de tal maneira que cia. No domínio dos sentimentos, porém, nunca aprendemos a
suas relações com os outros perdem seu caráter artificial, tor- atribuir os símbolos à experiência com a preocupação do signi-
nam-se mais profundas, satisfatórias, e introduzem mais a reali- ficado preciso. Esta coisa que eu sinto subir em mim, na segu-
dade da outra pessoa no seio da relação. rança de uma relação de aceitação- o que é? É tristeza, irrita-
Uma outra forma de ver esse processo, essa relação, é con- ção, arrependimento, pena de mim mesmo, é a irritação pelas
siderá-la como uma aprendizagem pelo cliente (e pelo terapeu- oportunidades perdidas - e ando às voltas, tentando extrair de
ta num grau menor). Mas é um tipo estranho de aprendizagem. um grande sortimento de símbolos um que se "ajuste", que cor-
Quase nunca é uma aprendizagem que se note pela sua comple- responda, que pareça adaptar-se realmente à experiência orga-
xidade e, mesmo quando atingiu o grau mais profundo, nunca nísmica. Ao proceder desse modo, o cliente descobre que tem
parece adaptar-se bem aos símbolos verbais. A aprendizagem de aprender a linguagem do sentimento e da emoção como se
assume muitas vezes formas tão simples como: "Eu sou dife- fosse uma criança aprendendo a falar; pior ainda, ele se vê obri-
rente dos outros"; "Realmente eu o detesto"; "Eu tenho medo gado a desaprender uma falsa linguagem antes de aprender a
de me sentir dependente"; "Sinto pena de mim mesmo"; "Estou verdadeira.
centrado em mim mesmo"; "Tenho sentimentos de ternura e de Procuremos ainda dar uma outra definição desse tipo de
amor"; "Eu poderia ser aquilo que quero ser"; etc. Mas, apesar aprendizagem, descrevendo dessa vez o que ela não é. É um
da sua simplicidade aparente, essas descobertas têm um imenso tipo de aprendizagem que não pode ser ensinada. A sua essência
significado num domínio muito dificil de definir. Podemos é este aspecto de autodescoberta. O "conhecimento", tal como
encará-lo de diversas formas. São descobertas auto-apropriadas estamos habituados a concebê-lo, pode ser ensinado de uma
baseadas, de uma maneira ou de outra, na experiência e não em pessoa para outra desde que ambas tenham motivação e capaci-
234 Tornar-se pessoa 235
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia

dade adequadas. A aprendizagem significativa que ocorre na A essência da terapia em termos de ciência
terapia, porém, ninguém pode ensiná-la seja a quem for. O ensino
destruiria a aprendizagem. Eu poderia ensinar a um cliente que, Vou dar agora a palavra ao segundo protagonista, eu pró-
para ele, é seguro ser ele próprio, que realizar livremente seus prio como cientista, e deixá-lo apresentar sua visão desse mes-
sentimentos não é perigoso, etc. Quanto mais lhe ensinasse isto, mo campo.
menos ele aprenderia de uma forma significativa, experiencial e Abordando os fenômenos complexos da terapia com a ló-
auto-apropriante. Kierkegaard considera esta última forma de gica e os métodos da ciência, a finalidade é trabalhar para uma
aprendizagem como a verdadeira subjetividade, acentuando que compreensão dos fenômenos. Em ciência, isto significa um co-
não pode haver nenhuma comunicação direta disso ou sobre isso. nhecimento objetivo dos acontecimentos e das relações funcio-
O máximo que uma pessoa pode fazer por outra é criar determi- nais entre esses mesmos acontecimentos. A ciência pode pro-
nadas condições que tomam possível essa forma de aprendiza- porcionar igualmente a possibilidade de uma maior previsão e
gem. A pessoa não pode ser obrigada. controle desses acontecimentos, mas isso não é um resultado
Uma última forma de tentar descrever essa aprendizagem é necessário da investigação científica. Se o fim científico fosse
dizer que o paciente aprende progressivamente a simbolizar um atingido nesse domínio, saberíamos provavelmente que em te-
estado total e unificado, no qual o estado do organismo, em ex- rapia determinados elementos se devem associar a certos tipos
periência, sentimento e conhecimento, pode ser completamente de resultados. É como se, conhecendo isto, fossemos capazes
descrito de forma unificada. Para tomar o assunto ainda mais de prever que uma situação particular de uma relação terapêuti-
vago e insatisfatório, parece absolutamente desnecessário que ca teria determinado resultado (dentro de certos limites de pro-
esta simbolização se deva exprimir. Normalmente ela é expres- babilidade) porque envolve certos elementos. Poderíamos então
sa porque o cliente quer comunicar pelo menos uma parte de si controlar muito facilmente os resultados da terapia manipulan-
mesmo ao terapeuta, mas isso, provavelmente, não é essencial. do os elementos contidos na relação terapêutica.
O único aspecto necessário é a compreensão íntima do estado Esclareçamos que, por mais profunda que seja nossa inves-
tigação científica, ela nunca nos permitiria descobrir uma ver-
do organismo total, unificado, imediato, "instantâneo", que sou
dade absoluta, mas apenas descrever relações que teriam uma
eu. Por exemplo, compreender inteiramente que neste momento
probabilidade de ocorrência cada vez maior. Nunca poderíamos
essa unidade em mim é simplesmente o fato de que "eu tenho
descobrir uma realidade subjacente no que diz respeito às pes-
um medo profundo da possibilidade de me tomar diferente" é a
soas, às relações ou ao universo. Poderíamos apenas descrever
essência da terapia. O cliente que reconhece esse fato pode ter a
relações entre acontecimentos observáveis. Se, nesse campo, a
certeza absoluta de que compreenderá esse estado do seu ser e
ciência seguisse o mesmo curso que em outros domínios, os
tomará consciência dele sempre que tome a acontecer de forma modelos operacionais da realidade que emergiriam (durante a
semelhante. Segundo todas as probabilidades, reconhecerá e construção da teoria), afastar-se-iam cada vez mais da realidade
compreenderá mais plenamente alguns dos outros sentimentos captada pelos sentidos. A descrição científica das relações tera-
existenciais que nele ocorrem. Nesse caso, está se dirigindo para pêuticas e da terapia tomar-se-ia cada vez menos semelhante
um estado em que será mais verdadeiramente ele mesmo. Será, aos fenômenos tais como eles são vividos.
de um modo mais unificado, aquilo que organismicamente é, e É evidente desde o princípio que a terapia, por ser um fe-
isto parece ser a essência da terapia. nômeno complexo, é difícil de medir. No entanto, "tudo o que
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existe se pode medir" e, se a terapia é considerada uma relação mente. A alteração da auto-aceitação do cliente durante a tera-
significativa, com implicações que se estendem para além dela, pia poderia ser indicada através de medidas efetuadas prévia e
vale a pena superar as dificuldades para se descobrirem as leis posteriormente. A relação da alteração com o tratamento seria
da personalidade e das relações interpessoais. determinada pela comparação das alterações na terapia com as
Uma vez que já existe na terapia centrada no cliente um alterações durante um período de controle ou num grupo de
rudimento de teoria (embora não se trate de uma teoria no senti- controle. Seríamos finalmente capazes de dizer quando é que
do científico do termo), temos um ponto de partida para a sele- existem relações entre a aceitação do terapeuta e a auto-aceita-
ção das hipóteses. Para o objetivo da presente discussão, consi- ção do cliente, definidas operacionalmente, e qual a correlação
deremos algumas das hipóteses rudimentares que se podem que existe entre ambas.
extrair dessa teoria, e vejamos o que uma abordagem científica A segunda e a terceira hipóteses envolvem uma real difi-
pode fazer com elas. Deixemos de lado, por enquanto, a tradu- culdade de mensuração, mas não há razão que nos leve a supor
ção integral da teoria em termos de uma lógica formal, o que que não possam ser objetivamente estudadas, à medida que au-
seria muito bom, e consideremos apenas algumas das hipóteses. menta o grau de sofisticação das nossas medidas psicológicas.
Citemos, inicialmente, três delas na sua forma rudimentar: Como instrumento de medida da segunda hipótese poderia
1. A aceitação do cliente pelo terapeuta conduz a uma empregar-se algum teste de atitudes ou um tipo de técnica Q,
maior aceitação de si próprio por parte do cliente. medindo a atitude do terapeuta para com o cliente, e deste para
2. Quanto mais o terapeuta apercebe o cliente como uma consigo mesmo. Nesse caso, haveria uma continuidade entre a
pessoa e não como um objeto, tanto mais o cliente se apreende consideração objetiva de um objeto exterior e uma experiência
a si mesmo como uma pessoa e não como um objeto. pessoal e subjetiva. Os instrumentos para a terceira hipótese
3. Ao longo do tratamento terapêutico, dá-se no cliente um poderiam ser fisiológicos, uma vez que parece provável que
tipo de descoberta de si vivencial e eficaz. uma descoberta vivencial tenha repercussões fisiológicas men-
Como procederemos para traduzir cada uma dessas hipóte- suráveis. Uma outra possibilidade seria a de inferir a descoberta
ses1 em termos operacionais e como iremos testá-las? Quais se- vivencial a partir da sua eficácia e, nesse caso, poder-se-ia me-
riam os resultados de semelhante demonstração? dir essa eficácia em diferentes campos. Na presente fase da
Não é este o lugar oportuno para uma resposta pormenori- nossa metodologia, talvez a terceira hipótese nos ultrapasse,
zada a essas questões, mas a investigação já efetuada fornece as mas sem dúvida, num futuro próximo, ela poderá ser definida
respostas de uma forma geral. No caso da primeira hipótese, po- em termos operacionais e posta à prova.
de-se escolher ou inverter determinados dispositivos para medir Os resultados desses estudos seriam da seguinte ordem.
a aceitação. Poder-se-ia usar testes de atitudes, objetivos ou pro- Tomemos como ponto de partida o campo das suposições para
jetivos, a técnica Q ou qualquer coisa do mesmo gênero. Pode- se chegar ao concreto. Suponhamos que descobríssemos que a
se presumir que os mesmos instrumentos, com instruções ou aceitação pelo terapeuta leva o cliente à auto-aceitação e que a
estad,)s de espírito ligeiramente diferentes, poderiam ser utili- correlação entre as duas variáveis se situa em tomo de 0,70. Na
zados para medir a aceitação do cliente pelo terapeuta e a auto- segunda hipótese, poderíamos achar que esta não se justifica,
aceita;ão do cliente. Então, de um modo operacional, o grau mas descobrir que quanto mais o terapeuta considera o cliente
de aceitação do terapeuta poderia ser equacionado matematica- como uma pessoa, tanto mais o cliente se aceita a si próprio.
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia __ 239
238_ _~ ···---~ __ ~----~ ~-~ _ _ _ Tomar-se pessoa

Assim ficaríamos sabendo que centrar-se na pessoa é um fator domínio que consideramos. Tal como as expusemos aqui, e tal
de aceitação, mas que não tem grande coisa a ver com o fato de como elas freqüentemente são na realidade, parece não haver
o cliente se tomar uma pessoa perante si mesmo. Suponhamos nenhuma medida comum entre as duas descrições. Cada uma
igualmente que a terceira hipótese é confirmada pela descober- representa uma forma definida de encarar a terapia. Cada uma pa-
ta vivencial de certos elementos descritíveis que se observam rece constituir uma via de acesso às verdades significativas da
muito mais na terapia do que no grupo de controle. terapia. Quando esses pontos de vista são adotados por indiví-
Sem prestar atenção a todas as qualificações e ramifica- duos ou por grupos diferentes, formam a base de um grave
ções que poderiam surgir nos resultados, e omitindo a referên- desacordo. Quando cada uma dessas maneiras de ver parece ver-
cia às novas indicações que se acumulariam a propósito da di- dadeira a uma única pessoa, como é o meu caso, então há um
nâmica da personalidade (dado que são difíceis de imaginar de conflito interno. Se bem que possam ser superficialmente re-
antemão), o parágrafo precedente fornece-nos, no entanto, uma conciliadas, ou consideradas como complementares entre si,
noção daquilo que a ciência pode oferecer nesse campo. A ciên- manifestam-se como fundamentalmente antagônicas, e de mui-
cia pode dar-nos uma descrição cada vez mais exata dos aconte- tas maneiras. Gostaria de apontar algumas questões que esses
dois pontos de vista me colocam.
cimentos da terapia e das transformações que nela ocorrem. A
ciência pode começar a formular algumas leis provisórias da As questões do cientista
dinâmica das relações humanas. Pode fazer afirmações públi-
cas e reproduzíveis de que, se existirem no terapeuta ou na rela- Vou indicar em primeiro lugar algumas questões que o
ção determinadas condições operacionalmente definíveis, então cientista levanta para o que vivencia (emprego os termos ciên-
podem esperar-se do cliente determinados comportamentos, cia e vivência apenas como designações arbitrárias dos dois
com um grau conhecido de probabilidade. A ciência pode sem pontos de vista). O cientista rigoroso ouve o relatório do que vi-
dúvida fazê-lo no domínio da terapia e das alterações da perso- vencia e levanta as seguintes questões minuciosas:
nalidade, como o faz nos domínios da percepção e da aprendi- 1. Antes de tudo, quer saber "como você pode saber que
zagem. Eventualmente, as formulações teóricas poderiam con- esse relatório, ou qualquer outro relatório anterior ou posterior,
jugar os diferentes campos, enunciando as leis que parecem go- é verdadeiro? Como sabe se ele corresponde à realidade? Se
vernar as alterações do comportamento humano, quer se trate estamos confiando nessa experiência interior e subjetiva, como
de situações que classificamos como percepção ou que classifi- sendo a verdade no que diz respeito às relações humanas ou às
camos como aprendizagem ou nas alterações mais globais e diferentes formas de alterar a personalidade, nesse caso a Ioga,
maciças que ocorrem na terapia e que implicam simultaneamen- a Christian Science e os delírios de um psicótico que se julga
te a percepção e a aprendizagem. Jesus Cristo, tudo é verdadeiro, tão verdadeiro como esse rela-
tório. Cada uma dessas posições representa a verdade tal como
ela é captada interiormente, por um indivíduo ou por um grupo.
Algumas questões Se queremos evitar este amontoado de verdades múltiplas e
contraditórias, temos de voltar ao único método que conhece-
Eis dois métodos muito diferentes de captar os aspectos mos para chegar a uma aproximação cada vez maior da realida-
essenciais da psicoterapia, duas abordagens bem diversas do de, o método científico".
240 __ Tornar-se pessoa 24_1
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia -·· _ _

2. "Em segundo lugar, essa abordagem vivencial impede deva se considerar um autômato, mas, na nossa investigação
que se melhore a habilidade técnica ou que se descubram os dos fatos, não nos veremos embaraçados pela crença de que
elementos menos satisfatórios das relações. A menos que con- algumas portas nos estão fechadas".
sideremos essa descrição como perfeita, o que não parece acon- 4. Por último, o cientista não pode compreender por que é
tecer, ou o nível atual de experiência na relação terapêutica que o terapeuta, o "experiencialista", põe em questão o único
como o mais eficaz possível, o que não é mais provável que instrumento, o único método que é responsável pela maior par-
aconteça, então há defeitos, imperfeições, lacunas no relatório te dos progressos que admiramos. "Na cura das doenças, na pre-
tal como ele se apresenta. Como poderemos descobri-los e cor- venção da mortalidade infantil, no desenvolvimento de maiores
rigi-los? A abordagem vivencial não pode propor nada a não ser colheitas, na conservação dos alimentos, na fabricação de tudo
um processo por tentativa e erro, um processo lento e que não o que torna a vida mais confortável, desde os livros ao náilon,
oferece garantias de alcançar o fim que tem em vista. Mesmo as na compreensão do universo, qual é a pedra angular do edifí-
críticas e as sugestões dos outros são de pouca ajuda, pois não cio? É o método científico, aplicado a cada um desses casos e a
surgem do interior da experiência e não têm, portanto, a autori- muitos outros. É verdade que a ciência faz avançar igualmente
dade vital da própria relação. O método científico, porém, e os os métodos da guerra, servindo aos instintos destruidores do
processos do positivismo lógico contemporâneo, têm muito homem ao mesmo tempo que serve os seus objetivos construti-
para oferecer. Qualquer experiência que possa ser descrita pode vos, mas mesmo aqui a potencialidade de utilização social é
sê-lo em termos operacionais. As hipóteses podem ser formula- imensa. Por isso, qual a razão para duvidar do mesmo método
das e postas à prova e os 'bons' que detêm a verdade podem ser no domínio das ciências sociais? Sem dúvida alguma que aqui
separados dos 'maus' que vivem no erro. Isto parece ser o único se avança lentamente, que ainda não demonstrou nenhuma lei
caminho seguro para o aperfeiçoamento, para a autocorreção, tão fundamental como a lei da gravidade, mas abandonaremos
para o avanço do saber." esse método por causa da nossa impaciência? Qual é a alternati-
3. O cientista tem ainda outra observação a fazer: "Está va que oferece uma esperança semelhante? Se estamos de acor-
implícita na sua descrição da experiência terapêutica a idéia de do sobre o fato de os problemas sociais do mundo atual serem
que existem elementos que não podem ser previstos - que há
prementes, se a psicoterapia abre uma janela para a dinâmica
como que uma espécie de espontaneidade ou (desculpe o ter-
mais decisiva e importante da alteração do comportamento hu-
mo) de livre-arbítrio em ação. Você fala como se uma parte do
mano, é por conseguinte evidente que se deve aplicar à psicote-
comportamento do cliente- e talvez também do terapeuta- não
rapia os cânones mais rigorosos do método científico, e na maior
tivesse causa, não representasse um elo na seqüência de causa e
escala possível, a fim de alcançar o mais rapidamente possível
efeito. Sem pretender entrar na metafísica, talvez eu possa per-
um conhecimento das leis do comportamento individual e da
guntar se não se trata de derrotismo. Uma vez que podemos
modificação das atitudes."
descobrir com certeza o que causa grande parte do comporta-
mento - você mesmo fala em criar as condições nas quais cer-
As questões do "experiencialista"
tos resultados de comportamento apareçam -, então por que
recuar noutro ponto? Por que não procurar descobrir as causas Embora as interrogações do cientista pareçam a alguns
de todo o comportamento? Isto não quer dizer que o indivíduo resolver o problema, seus comentários estão longe de satisfazer
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completamente o terapeuta que viveu a experiência da terapia. ca levantou problemas nas ciências fisicas. Nas ciências bioló-
Esta tem várias observações a fazer em relação à perspectiva gicas provocou algumas dificuldades. Um determinado número
científica. de médicos se pergunta se a tendência crescente para considerar
1. "Em primeiro lugar, faz notar o 'experiencialista', a ciên- o organismo humano como um objeto, apesar da sua eficácia
cia tem sempre de se ocupar com o outro, com o objeto. Di- científica, não será prejudicial para o paciente. Eles preferem
versos lógicos da ciência, incluindo o psicólogo Stevens, mos- que este seja novamente visto como uma pessoa. É todavia nas
traram que o elemento básico da ciência é que ela sempre se ciências sociais que isso se toma numa questão verdadeiramen-
ocupa do objeto observável, o outro observável. Isso é verdade te séria. Quer dizer, as pessoas estudadas pelos cientistas sociais
mesmo que o cientista faça a experiência sobre si mesmo, por- são sempre objetos. Em terapia, tanto o paciente como o tera-
que nesse caso trata a si mesmo como o outro observável. E não peuta se tomam objetos de dissecação, mas não pessoas com
tem nada a ver com o eu da vivência. Pois bem, essa qualidade quem se mantêm relações vivas. À primeira vista, isso pode
da ciência não mostra que ela será sempre irrelevante em uma parecer sem importância. Pode-se dizer que é apenas no seu
experiência como a terapia, que é intensamente pessoal, alta- papel de cientista que o indivíduo considera os outros como
mente subjetiva na sua interioridade e completamente depen- objetos. Ele pode também abandonar o seu papel e tomar-se
dente da relação de dois indivíduos onde cada um deles é um eu uma pessoa. Olhando, porém, mais de perto, veremos que se
da vivência? A ciência pode, como é evidente, estudar os acon- trata de uma resposta superficial. Se nos projetarmos no futuro
tecimentos que ocorrem, mas sempre de uma forma irrelevante e supusermos já ter as respostas para a maior parte das questões
para aquilo que está acontecendo. Poder-se-ia dizer por analo- que a psicologia hoje investiga, o que aconteceria? Iríamos nos
gia que a ciência é capaz de executar uma autópsia dos aconte- ver obrigados a tratar os outros, e a nós mesmos, cada vez mais
cimentos mortos da terapia, mas que por sua natureza nunca como objetos. O conhecimento de todas as relações humanas
poderá penetrar na fisiologia viva da terapia. É essa a razão pela seria tão grande que as conheceríamos em vez de vivê-las
qual os terapeutas reconhecem - habitualmente por intuição - espontaneamente. Sabemos desde já o sabor que isso tem na
que qualquer progresso na terapia, qualquer novo conhecimen- atitude sofisticada dos pais que sabem que a afeição 'é boa para
to nesse campo, quaisquer hipóteses significativas, derivam da a criança'. Este conhecimento impede-os freqüentemente de
experiência dos terapeutas e dos clientes, e nunca podem vir da serem eles próprios, livre e espontaneamente - afetuosos ou
ciência. Recorramos a uma nova analogia. Alguns corpos celes- não. Logo, o desenvolvimento da ciência num domínio como o
tes foram descobertos apenas pela análise das mensurações cientí- da terapia, ou é irrelevante para a experiência, ou pode, de fato,
ficas das trajetórias estelares. Depois, os astrônomos procuraram tomar mais dificil viver a relação como um acontecimento pes-
os corpos hipotéticos e os encontraram. Parece decididamente soal, vivencial."
pouco provável que um dia se verifique algo de semelhante em 3. O "experiencialista" tem uma outra preocupação. "Quan-
terapia, uma vez que a ciência nada tem a dizer sobre a experiên- do a ciência transforma as pessoas em objetos, como acima se
cia pessoal interior que 'eu' tenho na terapia. A ciência unica- referiu, tem um outro efeito: o resultado final da ciência é levar
mente pode falar dos acontecimentos que ocorrem no 'ele'." à manipulação. Isso é menos verdadeiro em campos como o da
2. "O fato de o campo da ciência ser o 'outro' o 'objeto' astronomia, mas nas ciências médicas e sociais o conhecimento
significa que tudo aquilo em que toca se toma obje;o. Isto nun~ dos acontecimentos e das suas relações permite a manipulação
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de alguns elementos da equação. Isto é indubitavelmente certo condição de pessoa. Os perigos entrevistos por Kierkegaard
na psicologia e seria verdadeiro na terapia. Se sabemos tudo o sobre o mesmo assunto há cerca de um século parecem agora
que se passa com a aprendizagem, utilizamos esses conheci- muito mais reais do que poderiam parecer então".
mentos para manipular as pessoas como se fossem objetos. Esta 4. "Por último, declara o 'experiencialista', não indica tudo
verificação não implica qualquer juízo de valor sobre a mani- isto que a ética é uma consideração mais fundamental do que a
pulação, que pode ser feita de um modo altamente ético. Po- ciência? Não estou cego para a ciência como um instrumento e
demos inclusive manipular a nós próprios como objetos, recor- tenho consciência de que ela pode ser um instrumento muito
rendo a esses conhecimentos. Por isso, sabendo que a aprendi- valioso. Mas, a não ser que seja o instrumento de pessoas éti-
zagem se realiza muito mais rapidamente com umas revisões cas, com tudo o que o termo pessoa implica, não se poderia tor-
repetidas do que com uma longa concentração numa lição, pos- nar objeto de devoção cega? Levamos muito tempo reconhe-
so utilizar este conhecimento para manipular minha aprendiza- cendo esse problema, porque em física a questão ética levou sé-
gem do espanhol. Mas saber é poder. Ao aprender as leis da culos para tomar-se crucial, mas acabou por sê-lo. Nas ciências
aprendizagem, utilizo-as para manipular os outros por meio sociais, os problemas mais éticos surgem muito mais rapida-
da publicidade, da propaganda, da previsão das suas respostas mente porque estão em jogo pessoas. Mas, em psicoterapia, os
e do controle delas. Não será exagerado afirmar que o aumento problemas surgem mais rapidamente ainda e num nível mais
do conhecimento das ciências sociais encerra dentro de si uma profundo. Aqui, tudo o que é subjetivo, interior, pessoal é leva-
poderosa tendência para o controle social, para o controle da do ao ponto extremo; aqui a relação é vivida, não analisada, e é
maioria por uma minoria. Pode verificar-se uma tendência igual- uma pessoa que emerge, não um objeto; uma pessoa que sente,
mente forte para o enfraquecimento ou para a destruição da que escolhe, que acredita, que atua, não como um autômato, mas
pessoa existencial. Quando todos são considerados objetos, o como uma pessoa. E o fim supremo da ciência é a exploração
indivíduo subjetivo, o eu interior, a pessoa em processo de trans- objetiva dos aspectos mais subjetivos da vida; a redução a hipó-
formação, a consciência espontânea de ser, todo o lado interior teses e, eventualmente, a teoremas, de tudo o que fora até então
da vida é enfraquecido, desvalorizado ou destruído. Talvez o considerado o mais pessoal, o mais completamente interior, o
melhor exemplo disso sejam dois livros. O Walden Two de Skin- mundo mais particular. E porque esses dois pontos de vista são
ner é uma imagem do paraíso visto por um psicólogo. Skinner aqui focados em cheio, temos de escolher- uma opção pessoal
devia julgá-lo desejável, a não ser que estivesse escrevendo de valores éticos. Podemos fazê-lo por omissão, não levantando
uma tremenda sátira. É o paraíso da manipulação, onde a possi- o problema. Podemos fazer uma escolha que conserve algo dos
bilidade de alguém ser verdadeiramente uma pessoa está extre- dois valores -mas temos de escolher. E peço que pensemos lon-
mamente reduzida, a não ser que seja membro do conselho gamente e com seriedade antes de abandonar os valores relacio-
supremo. O Admirável mundo novo de Huxley é francamente nados com ser uma pessoa, com a experiência imediata, com a
satírico, mas retrata com vivacidade a perda da condição de pes- vivência de uma relação, com o tomar-se, com o eu como pro-
soa associada por ele a um aumento dos conhecimentos psicoló- cesso, com o eu no momento existencial, com o eu interior sub-
gicos e biológicos. Desse modo, para ir direto ao assunto, parece jetivo e vivo."
que o desenvolvimento da ciência social (tal como é concebida e
levada a cabo) conduz à ditadura social e à perda individual da
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O dilema água - com a garantia de 99% de pureza. Quando se via a ciên-


Aqui estão as perspectivas contraditórias que se manifes- cia desse modo exterior e impessoal, não era absurdo atribuir-
tam às vezes explicitamente, mas muito mais freqüentemente lhe um caráter altivo e uma certa despersonalização, uma ten-
de uma maneira implícita, nas concepções psicológicas corren- dência para a manipulação, uma negação da liberdade de esco-
lha fundamental com que eu encontrei vivencialmente na tera-
tes. Aqui está o debate que se dá em mim. Para onde vamos?
pia. Gostaria agora de considerar a abordagem científica de uma
Qual direção seguiremos? Terá sido o problema corretamente
perspectiva diferente e, segundo espero, mais adequada.
descrito ou será um problema ilusório? Quais são os erros da
percepção? Ou, se as coisas se passam como as descrevemos,
A ciência nas pessoas
temos de escolher uma das duas perspectivas? E se for esse o
caso, qual das duas devemos escolher? Ou haverá uma formula- A ciência apenas existe nas pessoas. Qualquer projeto cien-
ção mais ampla que englobe de uma maneira feliz os dois pon- tífico tem o seu impulso criativo, o seu processo, a sua conclu-
tos de vista sem nenhum dano para o outro? são provisória, numa pessoa ou em várias. O conhecimento -
mesmo o científico - é aquele que é subjetivamente aceitável.
O conhecimento científico só pode ser comunicado àqueles que
Uma visão modificada da ciência estão subjetivamente preparados para receber a sua comunica-
ção. A utilização da ciência apenas se dá por meio de pessoas
Durante o ano que se seguiu ao da redação do texto já men- que procuram valores que significam alguma coisa para elas.
cionado, discuti de vez em quando esses problemas com estu- Estas afirmações resumem de uma maneira muito breve algo
dantes, colegas e amigos. A alguns devo, sem dúvida nenhuma, da mudança da ênfase a que eu queria proceder na minha des-
certas idéias que se foram desenvolvendo em mim2• Comecei crição da ciência. Sigamos as diversas fases da ciência partindo
pouco a pouco a acreditar que o erro fundamental na formula- desse ponto de vista.
ção primitiva residia na descrição da ciência. Gostaria de tentar
corrigir nesta seção esse erro e de reconciliar na seção seguinte A frase criativa
as duas perspectivas revistas. A ciência tem o seu impulso inicial numa determinada pes-
Julgo que o maior erro estava no fato de considerar a ciên- soa que procura fins, valores, objetivos, que se revestem para
cia como qualquer coisa de exterior, como um C maiúsculo, um ela de uma significação pessoal e subjetiva. Como parte dessa
"corpo de conhecimentos" que existisse num determinado pon- busca, o cientista, num determinado campo, "quer descobrir".
to do espaço e do tempo. De acordo com muitos psicólogos, eu Logo, se pretende ser um bom pesquisador, mergulha na expe-
pensava na ciência como quem pensa numa coleção sistemática riência em questão, quer se trate do laboratório de fisica, do
e organizada de fatos mais ou menos verificados, e via a meto- mundo da vida vegetal ou animal, do hospital, do laboratório ou
dologia da ciência como o meio socialmente aprovado de acu- clínica de psicologia ou do que quer que seja. A imersão é com-
mular esse corpo de conhecimento e de prosseguir a sua verifi- pleta e subjetiva, semelhante à imersão do terapeuta na terapia,
cação. Esta descrição podia comparar-se à de um reservatório como anteriormente se descreveu. O indivíduo sente o campo em
onde todos pudessem mergulhar o seu balde para conseguir que está interessado, vive-o. Mais do que "pensar" nele, ele deixa
248
- - - - - - - ___ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___ 249

seu organismo apoderar-se dele e reagir, tanto num nível cons- dindo. Posso consultar outras pessoas também preocupadas em
ciente como inconsciente. Acaba por sentir sobre esse campo não se iludirem e aprender a detectar minhas convicções injus-
mais do que poderia verbalizar, e reage organismicamente em tificadas, fundadas numa interpretação errada das observações.
termos de relações que não estão presentes à consciência. Numa palavra, posso começar a utilizar toda a elaborada meto-
Dessa imersão subjetiva completa emerge uma forma cria- dologia que a ciência foi acumulando. Descubro que o fato de
tiva, um sentido de direção, uma vaga formulação de relações expor minha hipótese em termos operacionais evita que me
até então desconhecidas. Esta forma criativa, aguçada, polida, perca por caminhos sem saída e em falsas conclusões. Aprendo
formulada em termos mais claros, toma-se numa hipótese - a que os grupos de controle podem me ajudar a evitar falsas de-
afirmação de uma crença provisória, pessoal e subjetiva. O duções. Aprendo que as correlações, os testes, as avaliações crí-
cientista declara, apoiando-se em toda a sua experiência conhe- ticas e todo o aparelho dos processos estatísticos também po-
cida e desconhecida: "Tenho a intuição de que existe esta ou dem me ajudar a atingir apenas deduções corretas.
aquela relação, e a existência deste fenômeno corresponde a al- A metodologia científica é vista nesse caso como realmen-
go dos meus valores pessoais." te é: um meio de evitar que eu me engane relativamente às
O que estou descrevendo é a fase inicial da ciência, prova- intuições subjetivas formadas de uma maneira criativa, elabora-
velmente a sua fase mais importante, mas que os cientistas ame- das a partir da relação entre o meu material e eu. É nesse con-
ricanos, e de modo particular os psicólogos, tenderam a minimi- texto, e talvez seja apenas nele, que as imensas estruturas do
zar ou ignorar. Não tanto por ter sido negada, mas por ter sido operacionalismo, do positivismo lógico, dos planos de investi-
rapidamente posta de lado. Kenneth Spence afirmou que esse gação, dos testes de significância, etc., têm o seu lugar. Estes
aspecto da ciência "é, simplesmente aceito sem discussão" 3 • existem, não independentemente, mas como auxiliares na ten-
Como muitas outras experiências consideradas evidentes, esta tativa de confrontar o sentimento subjetivo, a intuição ou a hi-
arrisca-se a ficar esquecida. Mas é realmente no seio dessa pótese de uma pessoa com o fato objetivo.
experiência imediata, pessoal e subjetiva, que toda a ciência e E, no entanto, apesar do emprego de métodos tão rigorosos
que toda a investigação científica individual têm sua origem. e impessoais, as opções importantes do cientista são efetuadas
de um forma subjetiva. Quais as hipóteses a que vou dedicar o
Confrontando com a realidade meu tempo? Qual o grupo de controle mais favorável para evi-
tar enganar-me nesse tipo particular de investigação? Até onde
O cientista estabeleceu de um modo criador a sua hipótese, levarei a análise estatística? Até que ponto posso confiar nos
a sua crença provisória. Mas corresponderá essa hipótese à rea- resultados obtidos? Cada um desses juízos é necessariamente
lidade? A experiência mostrou-se a cada um de nós que é muito subjetivo e pessoal, acentuando o fato de a ciência, nas suas
fácil nos enganarmos, acreditarmos em qualquer coisa que uma esplêndidas estruturas, permanecer fundamentalmente subme-
experiência posterior mostra não ser assim. Como poderei afir- tida à sua utilização subjetiva por parte das pessoas. É o melhor
mar que esta convicção tem qualquer relação real com os fatos instrumento que fomos capazes de inventar até agora para com-
observados? Eu posso utilizar não apenas uma linha de evidên- provar nossa intuição organísmica do universo.
cia, mas várias. Posso cercar minha observação dos fatos de
diversas precauções para ter a certeza de que não estou me ilu-
250 ~----- Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_51

As descobertas intersubjetiva e que tem uma função importante na nossa com-


preensão da ciência. Se me acompanharem (numa conversa,
Se, como cientista, aprecio o modo como conduzi minhas num artigo ou de qualquer outro modo) através das etapas que
investigações, se me abri a todas as evidências, se selecionei e segui na minha investigação e se forem de opinião de que não
utilizei inteligentemente todas as precauções contra a auto-ilu- me enganei, de que descobri uma nova relação relevante para
são que fui capaz de assimilar dos outros ou inventar por mim meus valores e que é justificado que eu tenha uma fé provisória
próprio, nesse caso posso ter uma confiança provisória nos nessa relação, então começa a Ciência com C maiúsculo. É
resultados obtidos. Passo a considerá-los como ponto de parti- neste ponto que provavelmente podemos pensar que criamos
da para investigações mais profundas. um corpo de conhecimentos. Até agora esse corpo de conheci-
Creio que o objetivo primário da ciência é fornecer uma mentos não existe. Existem apenas crenças provisórias, existin-
hipótese, uma convicção e uma fé mais seguras e que satisfa- do subjetivamente em determinadas pessoas. Se essas crenças
çam melhor o próprio investigador. Na medida em que o cien- não são provisórias, então trata-se de um dogma, não de ciên-
tista procura provar qualquer coisa a alguém - um erro em que cia. Se, por outro lado, o investigador é o único a acreditar na
incorri mais de uma vez -, creio que ele está se servindo da sua descoberta, então essa descoberta, ou é uma questão pes-
ciência para remediar uma insegurança pessoal, desviando-a do soal, um caso de psicopatologia, ou uma verdade excepcional
seu verdadeiro papel criativo a serviço do indivíduo. descoberta por um gênio em quem ninguém está ainda subjeti-
Em relação às descobertas da ciência, o seu fundamento vamente preparado para acreditar. Isto leva-me a fazer um co-
subjetivo está bem patente no fato de que, eventualmente, o mentário sobre o grupo que pode crer de modo provisório numa
investigador pode se recusar a acreditar nas suas próprias des-
determinada descoberta científica.
cobertas. "O experimento mostrou isto e aquilo, mas creio que
isso é falso" - eis o que qualquer investigador experimentou
Comunicação para quem?
uma vez ou outra. Algumas descobertas muito fecundas são
provenientes da descrença persistente do cientista em relação É evidente que as descobertas científicas só podem ser
às suas próprias descobertas e às dos outros. Em última análise, comunicadas àqueles que aceitarem as mesmas regras de inves-
ele pode ter mais confiança nas suas reações organísmicas to- tigação. O aborígine da Austrália não se impressionará com as
tais do que nos métodos da ciência. Não há dúvida de que daqui descobertas da ciência no que diz respeito à infecção bacteria-
tanto podem resultar erros graves, como descobertas científi- na. Ele sabe que a doença é realmente provocada pelos maus
cas; isto mostra mais uma vez o papel primordial do subjetivo espíritos. É apenas quando ele aceita o método científico como
no uso da ciência. um meio eficaz de se precaver da auto-ilusão que é suscetível
de aceitar as suas conclusões.
A comunicação das descobertas científicas Mas, mesmo entre aqueles que aceitaram as regras funda-
Passeando esta manhã ao longo de um recife de coral no mentais da ciência, a crença provisória nos resultados da investi-
Caribe, vi um grande peixe azul - ou julgo que vi. Se mais al- gação científica apenas se dá quando existe uma preparação sub-
guém o tivesse visto, independentemente, eu confiaria na mi- jetiva para ela. Os exemplos abundam. A maior parte dos psicó-
nha própria observação. É a isto que se chama a verificação logos encontra-se absolutamente preparada para acreditar no fato
252 Tornar-se pessoa 253
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia

evidente de que o sistema de leitura produz um aumento signifi- nalidade é e será uma matéria de decisão subjetiva e pessoal- o
cativo da aprendizagem, mas não está nada preparada para acre- mesmo tipo de opção que a pessoa faz em terapia. Na medida
ditar que se possa descobrir o reverso de uma carta de baralho em que o indivíduo, por defesa, fechou à sua consciência diver-
graças a um dom denominado percepção extra-sensorial. E, no sas zonas de experiência, terá uma tendência maior para reali-
entanto, as provas científicas para o último caso são muito mais zar escolhas que são socialmente destrutivas. Na medida em
consideráveis do que para o primeiro. O mesmo se passa com os que se abre a todas as fases da sua experiência, podemos estar
chamados "estudos de lowa" que, quando surgiram, mostrando certos de que essa pessoa terá muito mais probabilidade de uti-
que a inteligência podia ser consideravelmente alterada devido às lizar os resultados e os métodos da ciência (ou qualquer outro
condições ambientais, não foram aceitos por muitos psicólogos instrumento ou capacidade) de uma forma que será social e pes-
que criticaram os métodos científicos utilizados. As provas cien- soalmente construtiva5 • Não existe, portanto, qualquer entidade
tíficas desta descoberta não são hoje mais convincentes do que ameaçadora, chamada "Ciência", que possa de algum modo
quando os estudos de Iowa apareceram, mas a preparação subje- afetar o nosso destino. Apenas existem as pessoas. Embora
tiva dos psicólogos para acreditarem nessa descoberta modifi- muitas delas sejam efetivamente ameaçadoras e perigosas devi-
cou-se grandemente. Um historiador da ciência notou que os do à sua atitude de defesa, e o conhecimento científico moder-
empiristas, se naquela altura existissem, teriam sido os primeiros no multiplique os perigos e as ameaças sociais, isto não é tudo:
a pôr em dúvida as descobertas de Copérnico. há duas outras facetas significativas.
Ressalta de tudo isto que a possibilidade de eu acreditar 1. Existem muitas pessoas que estão relativamente abertas
nas descobertas científicas dos outros, ou nos meus próprios à própria experiência e, portanto, suscetíveis de serem social-
estudos, depende em parte da minha prontidão para acreditar mente construtivas.
nessas descobertas4• Uma das razões por que não temos plena 2. A experiência subjetiva da psicoterapia e as descobertas
consciência desse fato subjetivo é que, de modo particular nas científicas neste campo revelam que os indivíduos têm motivos
ciências físicas, adotamos progressivamente um vasto campo para evoluir e que podem ser ajudados a modificar-se, em dire-
de experiência no qual estamos preparados para aceitar qual- ção a uma maior abertura à experiência e, por conseguinte, nu-
quer descoberta se se puder provar que ela se assenta nas regras ma linha de conduta que favorece a pessoa e a sociedade, em
do jogo científico, jogado corretamente. vez de destruí-las.
Resumindo, a Ciência nunca pode nos ameaçar. Apenas as
A utilização da ciência
pessoas podem fazê-lo. Que os indivíduos possam ser imensa-
Mas não é apenas a origem, o desenvolvimento e a conclu- mente destrutivos com os instrumentos que o conhecimento cien-
são da ciência que existe unicamente na experiência subjetiva tífico coloca nas suas mãos é apenas um dos aspectos do proble-
das pessoas -é também sua utilização. A "Ciência" nunca des- mas. Já temos um conhecimento subjetivo e objetivo dos princí-
personalizará, manipulará ou controlará os indivíduos. Apenas pios fundamentais que permitem aos indivíduos adotarem o com-
as pessoas o poderão fazer. Esta observação é certamente evi- portamento social mais construtivo, segundo a natureza do seu
dente e trivial, mas para mim foi muito importante uma com- processo organísmico de desenvolvimento.
preensão mais profunda deste fato. Isso quer dizer que a utiliza-
ção que se der às descobertas científicas no domínio da perso-
254 _ _ Tornar-se pessoa 255
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ..

Uma nova integração Aquilo que irei fazer com o conhecimento adquirido por
meio do método científico - quer seja para compreender, ele-
O que essa linha de pensamento me ajudou a atingir foi var, enriquecer ou para controlar, manipular e destruir- é uma
uma nova integração em que o conflito entre o "experiencialis- questão de escolha subjetiva e depende dos valores que têm
ta" e o "cientista" tende desaparecer. Essa integração particular uma significação pessoal para mim. Se, por medo ou por defe-
pode ser inaceitável para os outros, mas tem um significado pa- sa, afasto da minha consciência vastas zonas da experiência -
ra mim. Os seus principais elementos estão em grande parte se apenas sou capaz de observar os fatos que suportam minhas
implícitos na seção precedente, mas vou tentar expô-los agora convicções atuais e me tomo cego para todos os outros - se uni-
sob uma forma que leve em consideração os argumentos dos camente sou capaz de ver os aspectos objetivos da vida e não
pontos de vista opostos. posso aperceber-me dos aspectos subjetivos - se, seja de que
A ciência, como a terapia e todos os outros aspectos da vida, maneira for, impeço minha percepção de utilizar toda a exten-
tem sua raiz e se baseia na experiência imediata, subjetiva, de são da sua sensibilidade real- nesse caso talvez eu seja social-
uma pessoa. Ela brota da vivência interior total organísmica mente destrutivo, quer utilize como instrumento o conhecimen-
que é comunicável apenas em parte e imperfeita~ente. É um~ to e os recursos da ciência, ou o poder e a força emocional das
das fases da vivência subjetiva.
relações subjetivas. E, por outro lado, se estou aberto à minha
É por reconhecer o valor e a satisfação nas relações huma-
experiência e posso permitir que todas as impressões do meu
nas que entro numa relação chamada terapêutica, onde os senti-
complexo organismo estejam disponíveis à minha consciência,
mentos e o conhecimento se fundem numa experiência unitária
então estou apto a utilizar a mim mesmo, minha experiência
que é vivida em vez de ser analisada, cuja consciência é não-
subjetiva e meu conhecimento científico, de modo realistica-
reflexiva e em que eu sou mais um participante do que um
mente construtivo.
observador. Mas porque sinto curiosidade em relação à ordena-
É esse, portanto, o grau de integração que fui capaz de
ção delicada que parece existir no universo e, nessa relação,
a_tingir até agora entre as duas abordagens, primeiramente expe-
posso abstrair da experiência e olhá-la como um observador, fa-
nmentadas como conflitantes. Isto não resolve inteiramente todas
zendo de mim mesmo e/ou dos outros, objetos dessa observa-
as questões levantadas na primeira seção, mas parece indicar
ção. Como observador, utilizo todas as intuições que nascem
uma solução. Recoloca-se o problema ou revê-se a questão, co-
dessa experiência vivida. Como observador, para não me enga-
locando a pessoa subjetiva, existencial, com os valores que ela
nar, para conseguir obter um quadro mais adequado da ordem
tem, como base e raiz da relação terapêutica e da relação cientí-
reinante, utilizo todos os processos da ciência. A ciência não é
algo impessoal, mas simplesmente uma pessoa que vive subje- fica. Também para a ciência, desde o primeiro momento, está
tivamente uma outra fase de si mesma. Uma compreensão mais em causa uma relação "Eu-Tu", com uma pessoa ou com vá-
profunda da terapia (ou de qualquer outro problema) pode sur- rias. E é unicamente como uma pessoa subjetiva que posso pe-
gir do fato de vivê-la ou de observá-la de acordo com as regras netrar em qualquer dessas relações.
da ciência, ou da comunicação interior ao eu entre os dois tipos
de experiência. Quanto à experiência subjetiva da escolha, ela
não é apenas fundamental na terapia, mas é igualmente primor-
dial na utilização do método científico por uma pessoa.
Capítulo 11
A modificação da perso nalid ade em psicoterapia

Este capítulo oferece algumas das características mais


notáveis de uma investigação em larga escala levada a cabo no
Centro de Aconselhamento da Universidade de Chicago, nos
anos que vão de 1950 a 1954, investigação que se tornou possí-
s
vel graças ao generoso apoio da Fundação Rockefeller, atravé
do seu Departamento de Ciênci as Médica s. Fui convid ado a apre-
l
sentar um trabalho no Fifth International Congress on Menta
ver alguns ponto s
Health, em Toronto, em 1954, e resolvi descre
desse programa de investigação. Um mês após a entrega deste
artigo, foi publicado pela University of Chicago Press o nosso
livro que expunha todo o programa. Embora Rosali nd Dymo nd
e eu fôssemos os organizadores e autores de determinadas par-
e
tes, o mérito pertence igualmente aos outros autores, pelo livro
pela quantidade de trabalho cujos aspect os mais impor tantes
este artigo sublinha. Esses outros autores são: John M. Butler,
Desmo nd Cartwright, Thomas Gordon, Donal d L. Grummon,
Gerard V Haigh, Eve S. John, Esselyn C. Rudikoff, Julius See-
man, Rollan d R. Tougas e Manuel J. Vargas.
A razão princi pal para incluir este artigo no presente volu-
me reside no fato de ele apresentar sob uma forma resumida
alguns dos progressos apaixonantes que fizemo s na medição
desse aspecto instável, nebuloso, altamente significativo e de-
terminante da personalidade que é o eu.
258 __ .· - - _ _ _ Tornar-se pessoa . . -
A observação dos fatos: o papelda znvestzgaçao . t . 259
em pszco erapza -----

O objetivo deste artigo é apresentar alguns dos principais da de pesquisas destinadas a esclarecer os resultados dess~ fo~­
aspectos da experiência que os meus colegas e eu fizemos quan- ma de psicoterapia. Desejaria apresentar alguns aspectos signi-
do resolvemos medir, recorrendo a métodos científicos objeti- ficativos desse programa de pesquisas ainda em curso.
vos, os resultados de uma forma de psicoterapia individual. A
fim de tomar compreensíveis esses pontos essenciais, vou des- Três aspectos da nossa investigação
crever de uma maneira breve o contexto em que essa investiga-
ção foi empreendida. Os três aspectos da nossa investigação que teri~m, segundo
creio, maior interesse para quem nos lê, são os segumtes: .
Trabalhei durante muitos anos com meus colegas psicólo-
1. Os critérios de que nos servimos no nosso estudo da psi-
gos no campo da psicoterapia. Procuramos aprender através da
coterapia, critérios que se afastam da maneira de pensar con-
experiência que efetuávamos nesse campo o que é eficaz para
provocar uma mudança construtiva na personalidade e compor- vencional neste campo.
2. o plano da investigação, com cuja elaboração r~so~ve-
tamento de pessoas perturbadas ou mal-adaptadas que procu-
mos determinadas dificuldades que até então tinham preJudica-
ram ajuda. Fomos formulando pouco a pouco uma abordagem
psicoterapêutica baseada nessa experiência, método que foi do a nitidez dos resultados.
3. Os progressos que levamos a cabo na medição objetiva
designado como não-diretivo ou centrado no cliente. Este mé-
todo e os seus fundamentos teóricos já foram descritos em mui- objetiva de fenômenos subjetivos e sutis. . ..
Esses três elementos do nosso programa podenam ser utili-
tos livros (1, 2, 5, 6, 8) e em inúmeros artigos.
zados em qualquer tentativa para medir uma m~dific~ção _da
Um dos nossos objetivos permanentes foi o de submeter a
personalidade. Eles são, portanto aplicáveis ~ mvestlgaçoes
dinâmica e os resultados da terapia a rigorosas investigações
sobre qualquer forma de psicoterapia, ou a pesq~Isas sobre qual-
experimentais. Estamos convencidos de que a psicoterapia é
quer processo que procure modificar a personalidade ou o com-
uma experiência existencial profundamente subjetiva tanto para
o cliente como para o terapeuta, repleta de sutilezas complexas portamento.
Voltemos agora nossa atenção para os três elementos a que
e englobando inúmeros matizes de interação pessoal. Contudo,
nos referimos, examinando-os pela ordem em que foram enun-
estamos igualmente convencidos de que, se nossa experiência
significa alguma coisa, se nela surgem profundos ensinamentos ciados.
que provocam uma modificação da personalidade, nesse caso
essas alterações devem poder ser verificadas pela investigação Os critérios da investigação
experimental. Qual é o critério de investigação em ps~c~t~rapia? Eis uma
Durante os últimos catorze anos, levamos a efeito muitas questão dificil que tivemos de enfrentar no IniCIO do n?s~o pla-
investigações desse gênero, incidindo ao mesmo tempo sobre o nejamento. É largamente a~eita ~ idéia de ~~~e .o ~bJetlvo. da
processo e sobre os resultados dessa forma de terapia (ver 5, de investigação neste domínio e medir o grau de exlt~ em. P~Ico­
modo especial os capítulos 2, 4 e 7 para um resumo desse con- terapia, ou 0 grau de "cura" alcançad~. Embora nao deixasse-
junto de investigações). Ao longo dos últimos cinco anos, no mos de sofrer a influência dessa maneira de pensar, abandona-
Centro de Aconselhamento da Universidade de Chicago, am- mos essa idéia depois de uma cuidadosa consideração, po~ ~ão
pliamos os limites da investigação graças a uma série coordena- ser passível de definição, por implicar essencialmente um JUIZO
260 _ _ __ _ .· - _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia 261

de valor e por não poder, portanto, ser consider ada como cientí- psicotera pia centrada no cliente provoca alterações mensurá-
fica neste campo. Não existe um acordo geral sobre o que se veis nas características a, b, de f, por exemplo, mas não produz
deve entender por "êxito" - o desapare cimento dos sintomas, a alterações nas variáveis c e e. Quando são possíveis conclusõ es
solução dos conflitos, a melhoria do comporta mento social ou desse tipo, o psicólogo profissio nal e o leigo estão em posição
qualquer outro tipo de alteração. O conceito de "cura" é absolu- de emitir um juízo de valor e de decidir se consideram um "êxi-
tamente inadequado, uma vez que, na maior parte dos distúr- to" um processo que provoca semelhantes alterações. No entanto,
bios em questão, temos de lidar com um comporta mento apren- esses juízos de valor não devem alterar em nada os fatos con-
dido e não com uma doença. cretos no nosso lento e progressivo conhecim ento científico da
Em conseqüê ncia da nossa maneira de pensar, não pergun- dinâmica efetiva da alteração da personalidade.
tamos durante a investigação: "Tivemo s êxito? Curamos a Por isso, na nossa investigação, utilizamos, em vez do cri-
doença?". Em vez disso, colocam os uma questão que é, cienti- tério global de "êxito", vários critérios específicos variáveis,
ficamente, muito mais defensável, ou seja: "Quais são as modi- cada um extraído da nossa teoria da terapia e definido operacio-
ficações concomitantes da terapia?".
nalmente.
A fim de ter uma base para responde r a esta pergunta, par- Esta solução do problema dos critérios representou uma
timos da teoria da psicoterapia que estamos desenvolvendo e grande ajuda ao proceder-se a uma escolha inteligente dos instru-
dela extraímos a descrição teórica das alterações que supomos mentos de investigação suscetíveis de serem utilizados na nossa
ocorrer no tratamento. O objetivo da investigação é determin ar bateria de testes. Não levantamos a questão insolúvel de saber
se essas alterações hipotéticas ocorrem ou não num grau que se quais seriam os instrumentos capazes de medir o êxito ,o~ a cura.
possa medir. Foi assim que, a partir da teoria centrada no clien- Em vez disso, interrogamo-nos sobre problemas especificos s~s­
te, estabelecemos hipóteses como estas: durante o tratamento, citados por cada hipótese. Qual é o instrumento capaz de medir o
sentimentos que anteriormente tinham sido negados à cons- conceito que o indivíduo tem do seu eu? Qual é o instrumento
ciência são vivenciados e são assimilados ao conceito de eu· que pode dar uma medida satisfatória da maturidade d~ co~por­
durante a terapia, o conceito do eu torna-se mais congruente com' tamento? Como é que podemos calcular o grau da aceltaçao dos
o conceito do eu-ideal; ao longo e depois da terapia o compor- outros pelo indivíduo? Embora se trate de pergunt~s difíceis,
tamento observad o do cliente torna-se mais socializado e mais pode-se descobrir respostas operacionais. Por consegumte, nossa
amadurecido; durante e depois da terapia, o cliente mostra uma decisão em relação aos critérios serviu-nos bastante para resolver
atitude de maior auto-aceitação, atitude que está em correlação
todo o problema da instrumentação das pesquisas.
com uma maior aceitação dos outros.
Estas são algumas das hipóteses que fomos capazes de
O plano da investigação
investigar. Talvez tenha ficado claro que abandon amos comple-
tamente a idéia de um critério geral para nossos estudos e que o O fato de não haver nenhuma prova objetiva de uma altera-
substituímos por um determinado número de variáveis clara- ção construtiva da personalidade, provocada pela psicoterapia,
mente definidas, cada uma específic a da hipótese que estáva- foi referido por um certo número de escritores sérios. Hebb
mos analisando. Isto significa que confiáva mos poder expor na declara que "não existe nenhum conjunto de fatos par~ mostrar
investigação as nossas conclusões sob uma forma como esta: a que a psicotera pia é válida" (4, p. 271 ). Eysenck, depois de pas-
262 - dosfiatos: o pape lda znves
A observaçao . .
• em pszcoterapz
t"zgaçao 263
.a ___ _
_ _ Tornar-se pessoa

sar em revista alguns dos estudos disponív eis, aponta que "não porque tinham um determin ado tipo de estrutura de personal i-
existem dados para provar que a psicotera pia, quer seja freudia- dade, essa alteração deveria ocorrer durante o período de con-
na ou não, facilite o restabele cimento dos paciente s neurótico s" trole.
(3, p. 322). Um outro grupo de indivíduo s que não estavam em terapia
Essa situação lamentáv el chamou nossa atenção e pareceu- foi seleciona do como um grupo de controle equivalente. Este
nos que nosso estudo devia processa r-se de um modo suficien- grupo era equivalen te ao grupo em terapia na distribuiç ão das
temente rigoroso para que a confirma ção ou refutação de nos- idades e mais ou menos equivalen te nas condiçõe s socioeco nô-
sas hipóteses pudesse demonst rar dois pontos: a) que uma alte-
ração significa tiva ocorreu ou não ocorreu, e b) que essa modi-
Momento dos testes
ficação, tendo sido verificad a, pode ser atribuída à terapia e não
a nenhum outro fator. Num domínio tão complex o como a tera-
pia, não é fácil imaginar um plano de investiga ção que cumpra
acompanhamento
esses objetivos , embora acreditem os que fizemos reais progres- espera prévia antes
sos nessa direção.
Tendo escolhido as hipóteses que desejáva mos pôr à prova I 60 dias variável 6-12 meses l
e os instrume ntos mais adequado s para o seu cálculo operacio -
nal, estávamo s agora preparad os para a próxima etapa. Uma
série seleciona da de instrume ntos de investiga ção objetiva fo-
ram utilizado s para calcular as diversas caracterí sticas de um
grupo de clientes antes do tratamen to, imediata mente após e,
por último, num momento situado entre os seis meses e um ano
depois, como está indicado na figura I. Os clientes eram, gros-
Grupo
em
terapia
{I
\
~:::~~~~~~I~~~::~
e:::::~~:f~~~~~~:::~::1
I
I
so modo, do tipo dos que se apresenta vam no Centro de Acon-
selhamen to da Universi dade de Chicago. O objetivo consistia
em reunir esses dados, incluindo a gravação de todas as entre-
vistas de pelo menos vinte e cinco clientes. A escolha realizada
I I
permitia um estudo intensivo de um grupo restrito, em vez da
análise superfici al de um grupo maior.
Uma parte do grupo em terapia foi destacad a como um gru-
po de controle interno. Este grupo foi submetid o à bateria dos
Grupo
de
controle
{I
'
I
I I I
instrume ntos da pesquisa , pediu-se -lhe que esperasse durante
um período de controle de dois meses e realizou- se pela segun- Figura 1 - Plano de investigação
da vez a bateria antes de iniciar o tratamen to. A justificaç ão des-
te processo era a de que, se ocorress e uma alteração nos indiví-
duos simplesm ente porque estavam motivado s para a terapia ou
264 . . ~ .
_ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o pape lda mvestzgaçao em pszco terapza
.
_ _ 265
__

micas, na proporção de homens e mulheres, de estudantes e transformação é significativamente maior do que aquela que se
não-estudantes. Foi submetido aos mesmos testes que o grupo encontra no grupo de controle ou nos clientes durante o período
em terapia, nos mesmos intervalos de tempo. Uma parte deste de controle interno. É apenas em relação às hipóteses referentes
grupo foi submetida à bateria de testes quatro vezes, de modo a a atitudes democráticas e de aceitação nas relações com os ou-
torná-la rigorosamente comparável ao grupo de controle inter- tros que os resultados revelam uma certa confusão e uma relati-
no em terapia. A justificação deste grupo de controle equiva- va ambigüidade.
lente é que, se se verifica uma alteração nos indivíduos como Na nossa opinião, o programa de investigação que já tinha
resultado da passagem do tempo, da influência de variáveis ran- sido realizado era suficiente para alterar afirmações como as de
dômicas ou ainda de modificações artificiais provocadas pela Hebb e Eysenck. Em relação à psicoterapia centrada no cliente,
repetição dos testes, então essa alteração seria evidente nos pelo menos, há agora uma prova objetiva de modificações posi-
resultados desse grupo de controle equivalente. tivas na personalidade e no comportamento em direções que
A lógica suprema deste plano duplamente controlado resi- são habitualmente consideradas como construtivas, e essas alte-
dia no fato de que, se o grupo em terapia revelasse, durante e rações podem ser atribuídas à terapia. Foi a adoção de múltiplos
depois do período de tratamento, modificações significativa- critérios específicos de investigação e a utilização de um plano
mente maiores do que aquelas que se registram durante o perío- de investigações rigorosamente controlado que tornou possível
do de controle interno ou no grupo de controle equivalente,
chegar a tal conclusão.
então dever-se-ia atribuir com razão essas alterações à influên-
cia da terapia.
A mensuração das alterações no eu
Não posso, nesta curta exposição, entrar nos pormenores
complexos e ramificados dos diferentes projetos que foram rea- Uma vez que só posso apresentar aqui um número muito
lizados no quadro deste plano de investigação. Uma exposição restrito de exemplos dos nossos resultados, vou escolhê-los num
mais completa (7) foi preparada e nela se descrevem treze dos domínio onde temos a impressão de ter conseguido o progresso
projetos executados até agora. Basta dizer que os dados com- metodológico mais significativo e os resultados mais surpreen-
pletos sobre vinte e nove clientes tratados por dezesseis tera- dentes, ou seja, as nossas tentativas para medir as alterações na
peutas foram obtidos ao mesmo tempo que os dados completos percepção que o cliente tem de si mesmo e a relação da autoper-
sobre um grupo de controle correspondente. A avaliação cuida- cepção com um certo número de outras variáveis.
dosa dos resultados da investigação autoriza-nos a tirar algumas A fim de conseguir obter uma indicação objetiva da auto-
conclusões como estas: ocorrem profundas alterações durante e percepção do cliente, empregamos a nova técnica Q elaborada
depois da terapia, no eu que o cliente percebe; há uma modifica- por Stephenson (9). Extraiu-se um amplo "universo" de decla-
ção construtiva nas características e na estrutura da personali- rações autodescritivas de entrevistas gravadas e de outras fon-
dade do cliente, modificação que o aproxima das características tes. Algumas declarações típicas são do seguinte teor: "Sou
da personalidade de um indivíduo que "funcione bem"; há uma uma pessoa submissa", "Não tenho confiança nas minhas emo-
alteração em direções definidas como integração e adaptação ções", "Sinto-me à vontade e nada me incomoda", "Tenho medo
pessoais; verificam-se alterações na maturidade do comporta- das questões sexuais", "De uma maneira geral gosto das pes-
mento do cliente, como os amigos o observam. Em cada caso, a soas", "Tenho uma personalidade atraente", "Tenho receio do
266 _ _ _ . Tornar-se pessoa
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_6_7

que as outras pessoas pensam de mim". O instrumento de traba- A cliente que forneceu os dados de onde tirei as informa-
lho consistiu numa centena destas declarações escolhidas ao ções que se seguem era uma mulher de quarenta anos, muito
acaso e editadas com vistas à sua clareza. Teoricamente, tínha- infeliz no casamento. Sua filha, adolescente, sofrera uma de-
mos agora à nossa disposição uma amostra de todos os modos pressão nervosa de que ela se sentia culpada. Sofria de pertur-
como um indivíduo pode perceber a si mesmo. Cada uma des- bações muito profundas e o diagnóstico revelava-a como seria-
sas cem declarações foi impressa num cartão. Foram depois mente neurótica. Não fazia parte do grupo de controle interno e
dadas ao cliente, pedindo-se-lhe para agrupar os cartões que o por isso iniciou imediatamente a terapia depois de ter efetuado
representassem "tal como ele é agora", repartindo-os em nove a primeira bateria de testes. Apresentou-se a quarenta entrevis-
pilhas, a começar pelos traços mais característicos e terminan- tas que se estenderam por um período de cinco meses e meio, e
do pelos menos característicos. Pediu-se-lhe para colocar um terminou então a terapia. Os testes de acompanhamento foram
certo número dessas características em cada pilha, a fim de administrados sete meses mais tarde e nessa altura resolveu ter
obter uma distribuição aproximadamente normal delas. O clien- mais oito entrevistas. Um segundo estudo de acompanhamento
foi realizado cinco meses depois. O terapeuta considerou que
te efetuava esta divisão e este agrupamento nos momentos prin-
tinha havido uma considerável mudança na terapia.
cipais do processo terapêutico, antes da terapia, no fim da tera-
A figura 2 apresenta alguns dados sobre a modificação da
pia, e num período de acompanhamento, assim como em diver-
autopercepção dessa cliente. Cada círculo representa um agru-
sas ocasiões durante a terapia. De cada vez que reunia os car- pamento para descrever o eu-ideal ou o eu. Os agrupamentos
tões para traçar uma imagem de si, pedia-se-lhe igualmente para foram efetuados antes da terapia, depois da sétima e da vigési-
agrupá-los de modo a representar o que ele gostaria de ser, o ma quinta entrevistas e no fim da terapia, assim como nos dois
seu eu-ideal. momentos posteriores indicados no parágrafo anterior. As cor-
Pormenorizamos e objetivamos desse modo as representa- relações são dadas entre muitos desses agrupamentos.
ções da autopercepção do cliente em diversos momentos e a Examinemos agora esses dados que se referem a uma das
percepção do seu eu-ideal. Os diferentes agrupamentos foram hipóteses submetidas à análise, aquela que afirmava que o eu
depois correlacionados, uma correlação elevada entre dois gru- que o cliente percebe se modificará mais durante a terapia do
pos indicando a similitude ou a ausência de modificação, e uma que durante um período de não-terapia. Nesse caso particular, a
correlação baixa indicando uma dessemelhança ou um acentua- alteração foi maior durante a terapia (r= 0,39) do que durante
do grau de alteração. cada um dos períodos de acompanhamento (r= 0,74; 0,70) ou
A fim de ilustrar a forma como esse instrumento foi utili- do que no período total de doze meses de acompanhamento (r=
zado para testar algumas das nossas hipóteses em relação ao eu, 0,65). Por conseguinte, neste caso = a hipótese se confirma.
Sob esse aspecto, nossa cliente tinha características de todos os
vou apresentar alguns dos resultados do estudo de uma cliente
nossos clientes, residindo o resultado final na descoberta de
(tirado de 7, cap. 15) em relação a várias hipóteses. Creio que
que a alteração no eu que o cliente percebe durante a terapia era
isso definirá a natureza animadora dos resultados de forma
significativamente maior do que durante os períodos de contro-
mais adequada do que se apresentássemos as conclusões gerais
le ou posteriores à terapia, assim como era também significati-
do nosso estudo da autopercepção, embora procure mencionar vamente maior do que a alteração verificada no grupo de con-
de passagem esses resultados gerais. trole.
268 ~ ---~ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ _ 269_

Consideremos agora uma segunda hipótese. Tinha-se pre-


visto que, durante e depois da terapia, o eu que o cliente perce-
.8 be seria avaliado de uma forma mais positiva, ou seja, se toma-
'C
E Q)
E
o(.)ctl ria mais congruente com o eu-ideal ou o eu valorizado.
ctl.s::.
OI C A cliente a que nos referimos manifestava, quando entrou
C\Jctl
0.. em contato com a terapia, uma discrepância notável entre o eu
.8 que ela era e o eu que gostaria de ser (r= 0,21 ). Durante e após a
E' cQ) terapia, essa discrepância diminuiu, registrando-se um incon-
o(.) ctl
E
ctl.s::. testável grau de congruência na altura do estudo de acompa-
OI C
~ctl
0..
nhamento final (r = O, 79), o que confirmava a nossa hipótese.
Isto é típico das nossas conclusões gerais, que mostram um
desenvolvimento significativo na congruência entre eu e ideal,
para o grupo como um todo.
Uma análise atenta da figura 2 mostra que, no fim do
nosso estudo, a cliente se percebe a si mesma como tendo se
tomado muito semelhante à pessoa que desejava ser quando
iniciou a terapia (r IA. EF 2 = 0,70). Pode notar-se igualmente
que o eu-ideal final se toma ligeiramente mais semelhante ao
seu eu inicial (r EA. IF2 = 0,36) do que era o seu ideal inicial.
(J}
Consideremos sucintamente uma outra hipótese, segundo
Q)
(J}
Q)
a qual a alteração do eu percebido não se faria ao acaso, mas
E numa direção que avaliadores competentes classificariam como
adaptação .
.g .!!! Como contribuição para o nosso estudo, os cartões Q fo-
ooc..
Q) ctl
cru
ctl+-'
ram entregues a um grupo de psicólogos clínicos não associa-
ul
Q)
dos à investigação, pedindo-se-lhes que agrupassem os cartões
•O
g"~
da forma como o faria uma pessoa "bem adaptada". Chamou-se
_(J}
~·ca a isto "coeficiente de adaptação", indicando os coeficientes mais
,_
o._E
(.)(.)
elevados um maior grau de "adaptação".
o Q)
::l
lctl -c Q)
o
No caso da referida cliente, consideramos que os coefi-
(J} (J}
(J} o -c cientes de adaptação para os seis agrupamentos sucessivos de
o Q) o
'- (J} •ctl
Q), o cartões definindo o eu indicados na figura 2, começando pelo
E o til ctl
·::l -g Q)
-c
"E o eu tal como era percebido antes da terapia e acabando no segun-
~E o 0..
-~ (.) E do acompanhamento, são os seguintes: 35, 44, 41, 52, 54, 51. A
o E
~o w
::l
w
Q)
a:
Q)
f-
tendência para uma melhor adaptação, tal como se definiu ope-
270 A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia 271
- - - - - - - -
_ Tornar-se pessoa

racionalmente, é evidente. É igualmente verdade para o grupo No entanto, verifica-se uma certa alteração no eu-ideal no
no seu conjunto, ocorrendo um nítido aumento no coeficiente caso da nossa cliente, e a direção dessa ligeira alteração é interes-
de adaptação durante o período de terapia e uma regressão mui- sante. Se calcularmos o "coeficiente de adaptação" anteriormen-
to ligeira no período posterior à terapia. Não se registrou uma te descrito das sucessivas representações do eu-ideal da referida
alteração essencial no grupo de controle. Desse modo, tanto cliente, acharemos que a cotação média para as três primeiras é
para esta nossa cliente como para o grupo todo, confirmava-se 0,57, mas a cotação das três que se seguem à terapia é 0,51. Em
a nossa hipótese. outras palavras, o eu-ideal tomou-se menos perfeitamente "adap-
Quando se procede a uma análise qualitativa dos diferentes tado" ou mais acessível. É, até certo ponto, um objetivo que exige
agrupamentos que definem o eu, os resultados posteriores con- menos esforços penosos. Também sob este aspecto, a nossa
firmam essa hipótese. Quando se compara a imagem inicial do cliente é característica da tendência de todo o grupo.
eu com as descrições posteriores à terapia, verifica-se que, de- Uma outra conclusão diz respeito ao "eu recordado" que
pois do processo terapêutico, a cliente se vê modificada sob mui- nos é apresentado na figura 2. Conseguiu-se este agrupamento
tos aspectos. Ela sente que tem mais confiança em si, que está de cartões pedindo à cliente, no momento do segundo estudo de
mais segura de si, que se compreende melhor, que sente uma acompanhamento, que escolhesse os cartões que melhor repre-
maior tranqüilidade interior e tem relações mais confortáveis sentassem o que ela era quando iniciou a terapia. Este eu recor-
com os outros. Sente-se menos culpada, menos ressentida, me- dado revelou-se muito diferente da descrição que fizera no
nos ameaçada e menos insegura, tendo uma menor necessidade momento de iniciar o processo terapêutico. A correlação com a
de se refugiar em si. Estas alterações qualitativas são semelhan- auto-representação feita naquele tempo foi de apenas 0,44.
tes às que outros clientes manifestaram no decurso da investiga- Além disso, era uma descrição muito menos favorável e com
ção e estão de um modo geral de acordo com a teoria da terapia uma diferença muito maior em relação ao seu ideal (r= -0,21),
centrada no cliente. e com um baixo coeficiente de adaptação - um coeficiente de
Gostaria de indicar alguns resultados adicionais interes- 26 comparado com um de 35 para a descrição inicial do eu. Isto
santes que se podem descobrir na figura 2. leva a pensar que, no agrupamento relativo ao eu recordado,
Vê-se claramente que a representação do eu-ideal é muito temos uma grosseira medida objetiva da redução da atitude de
mais estável do que a representação do eu. As intercorrelações defesa que se operou ao longo dos dezoito meses do período do
estão todas acima de 0,70, e a concepção da pessoa que ela gos- nosso estudo. No contato final, a cliente é capaz de dar uma
taria de ser altera-se relativamente pouco durante todo o perío- imagem muito mais verdadeira da pessoa perturbada e mal
do. Isto é característico de quase todos os nossos clientes. Em- adaptada que ela era quando iniciou a terapia, imagem que é
bora não tivéssemos formulado uma hipótese sobre este aspec- confirmada, como veremos, por um outro testemunho. E, as-
to, esperávamos que nossos clientes conseguissem alcançar sim, o grau de alteração do eu durante o período total de um ano
uma maior congruência entre o eu e o eu-ideal, primeiro pela e meio é talvez melhor representado pela correlação -0,13 entre
alteração dos seus valores, depois pela alteração do eu. Nossa o eu recordado e o eu final, do que pela correlação 0,30 entre o
experiência mostrou claramente que não era assim e que, salvo eu inicial e o final.
exceções ocasionais, se revelou ser o conceito do eu o que ma- Consideremos agora uma nova hipótese. Na terapia centra-
nifesta maior alteração. da no cliente, nossa teoria é que na segurança psicológica da
272 _________ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia __ _!!3_

relação terapêutica o indivíduo é capaz de aceitar na sua cons- tomava possível uma comparação objetiva e direta através da
ciência sentimentos e experiências que normalmente seriam correlação entre os diversos agrupamentos Q.
reprimidos ou negados à consciência. Essas experiências ante- O resultado desse estudo em relação à cliente a que vimos
riormente recusadas são agora incorporadas ao eu. Por exem- nos referindo está patente na figura 3. A parte superior do dia-
plo, um cliente que reprimiu todos os sentimentos de hostilida- grama é simplesmente uma condensação da informação da
de pode vir a vivenciar, durante a terapia, sua hostilidade de uma figura 2. A linha inferior mostra os grupos de cartões feitos pelo
maneira livre. Seu conceito de si mesmo reorganizou-se, por- diagnosticador e as correlações permitem-nos pôr à prova nos-
tanto, de modo a incluir essa compreensão de que tem, de tem- sa hipótese. Pode observar-se que no início da terapia não havia
pos em tempos, sentimentos hostis em relação aos outros. A sua nenhuma relação entre a percepção de si mesma pela cliente e a
auto-imagem toma-se, nesse nível, um mapa ou uma represen- percepção desta pelo diagnosticador (r= 0,00). Mesmo no fim
tação mais adequada da totalidade da sua experiência. do processo terapêutico a situação era a mesma (r = 0,05). Mas
Tentamos traduzir esta parte da nossa teoria numa hipótese na altura do primeiro estudo de acompanhamento (não indica-
operacional, que exprimimos da seguinte maneira: durante e do) e do segundo, a percepção que a cliente tinha de si mesma
após a terapia deve dar-se um aumento da congruência entre o tomou-se substancialmente semelhante àquela que dela tinha o
eu, tal como é captado pelo cliente, e o cliente tal como é visto diagnosticador (primeiro acompanhamento, r = 0,56; segundo
por quem faz o diagnóstico. Supomos que, quando uma pessoa acompanhamento, r= 0,55). Desse modo, a hipótese acha-se
treinada faz um diagnóstico psicológico do cliente, tem uma amplamente comprovada, visto ter aumentado significativa-
maior consciência da totalidade das formas de experiência, mente a congruência entre o eu como é captado pela cliente e a
tanto conscientes como inconscientes, do que o próprio cliente. cliente como é vista pelo diagnosticador.
Por conseguinte, se este assimilar na descrição consciente que Há ainda outras conclusões interessantes a partir deste
faz de si mesmo muitos dos sentimentos e das experiências que aspecto do estudo realizado. Note-se que, na altura em que se
anteriormente reprimira, nesse caso, a imagem de si mesmo iniciava a terapia, a cliente tal como é vista no diagnóstico é
assemelhar-se-á mais à imagem que traça aquele que faz o seu muito diferente do ideal que ela concebia para si mesma (r=
diagnóstico. -0,42). Perto do fim do estudo, o diagnosticador vê a cliente
O método para investigar esta hipótese foi a adoção de um como claramente semelhante ao ideal que ela alimenta para si
teste projetivo (o Teste de Apercepção Temática ou TAT) a que própria nesse momento (r= 0,46) e ainda mais semelhante ao
a cliente foi submetida em cada uma das etapas, sendo o estudo ideal que possuía no momento em que iniciara a terapia (r =
desses quatro testes feito por um clínico. A fim de evitar qual- 0,61). Podemos portanto dizer que o testemunho objetivo indi-
quer juízo tendencioso, não se disse a esse psicólogo qual a ca que a cliente se tomou, na sua autopercepção e na descrição
ordem em que se tinham administrados os testes. Pediu-se-lhe da sua personalidade total, substancialmente a pessoa que dese-
para classificar os cartões Q para cada um dos testes, de modo a java vir a ser quando começou a terapia.
representar a cliente tal como ela era nessa altura. Esse proces- Um outro ponto digno de interesse é que a modificação da
so proporcionou-nos um diagnóstico cujas apreciações estavam percepção da cliente por parte do diagnosticador é considera-
isentas de qualquer juízo tendencioso, expresso nos mesmos velmente mais nítida do que a mudança no eu da cliente como
termos a que a cliente recorrera para retratar a si mesma, o que ela o percebe (r= -0,33, comparado com r= 0,30). Este fato é
274 _ _ _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_75_

interessante, se o aproximarmos da opinião geral dos profissio-


nais de que os clientes exageram a mudança que eles experi-
mentam. Sugere-se igualmente a possibilidade de que um indi-
víduo revele uma alteração tão nítida depois de um período de
o
c dezoito meses que se chegue à conclusão que as diferenças
Q)
E entre a sua personalidade e o que era no início são maiores do
Cll-
..c: Cll que as semelhanças.
r:: r::
ca:.=
c.. Um último comentário sobre a figura 3 refere-se ao "eu re-
E
o
(.)
cordado". Note-se que essa imagem do eu recordado está numa
Cll rn
Q)
rn
correlação positiva com a impressão dignóstica (r = 0,30), o
Q)
E que tende a confirmar a afirmação anteriormente feita de que
C\1
ela representa uma imagem mais adequada e menos defensiva
Cll
do que a cliente fora capaz de dar de si mesma no momento em
"'C Cll
rn "õ.. que iniciou a terapia.
"õ ~
c..Q)
Q)...,
"'C Resumo e conclusão
<D
rn
Q)
rn
Neste capítulo, procurei indicar pelp menos as grandes
Q)
E linhas do vasto plano de investigação da psicoterapia, tal como
LO

foi realizada na Universidade de Chicago. Foram mencionados
alguns pontos importantes.
Cll
"'C _9;! O primeiro é a rejeição de um critério global no estudo da
rn c..
Q)Cil
Cêii terapia e a adoção de critérios de modificação da personalidade
cu-
específicos definidos operacionalmente, baseados em hipóte-
ses pormenorizadas radicadas numa teoria da dinâmica da tera-
pia. O emprego de um grande número de critérios específicos
permitiu-nos realizar alguns progressos científicos na determi-
nação dos tipos de alteração que acompanham ou não a terapia
8 centrada no cliente.
~ Um segundo aspecto importante é a nova maneira de abor-
-o
r::
Cl
Cll
dar o problema, até agora por resolver, do controle nos estudos de

o
(ij
ve psicoterapia. O plano de investigações incluiu dois processos de
c..
Q)
"'C -g controle: (1) um grupo de controle equivalente responde pela
E -~
~ w
:::J
w o
:::J influência do tempo, pelas sessões repetidas de testes e pelas
variáveis randômicas; e (2) um grupo de controle interno no qual
276 _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ _ 2 77

cada cliente em terapia é comparado consigo mesmo durante um de "transferência" e de "contratransferência", a alteração da
período de não-terapia, com o objetivo de responder pelas variá- fonte do sistema de valores do cliente e outros aspectos seme-
veis da personalidade e da motivação. Com este duplo plano de lhantes. Creio que se poderá afirmar que quase todo o edifício
controle foi possível chegar à conclusão de que as alterações que teórico que se pensa estar em relação com a modificação da per-
se registram durante a terapia, e que não se explicam pelas variá- sonalidade ou com o processo da psicoterapia está agora aberto
à investigação científica, segundo novas perspectivas. Conti-
veis controladas, se devem ao próprio tratamento.
nuar nessa nova direção deveria esclarecer muito a dinâmica da
Um outro resultado importante que selecionei para apresen-
personalidade, de modo particular sobre a modificação da per-
tar aqui é uma amostra do progresso que se realizou ao se em-
sonalidade numa relação interpessoal.
preender uma investigação rigorosamente objetiva dos elementos
sutis do mundo subjetivo do cliente. Podemos demonstrar: a alte-
ração do autoconceito do cliente; o grau em que o eu que o clien- Referências bibliográficas
te percebe se torna semelhante ao eu valorizado; o aumento de
segurança e de adaptação do eu percebido; o grau em que a auto- 1. Axiline, V. M. - Play Therapy, Boston, Houghton Mifflin
percepção do cliente se torna mais congruente com o diagnóstico Co., 1947.
feito. Esses resultados tendem a confirmar as formulações teóri- 2. Curran, C. A.- Personality Factors in Counseling, Nova York,
cas que fizemos quanto ao lugar do autoconceito no processo Grune and Stratton, 1945.
dinâmico da psicoterapia. 3. Eysenck, H. J. - "The effects of psychotherapy: an evalua-
Finalizando, há duas conclusões que eu gostaria de mencio- tion",J. Consult. Psychol, 1952, 16, pp. 319-324.
4. Hebb, D. O. - Organization of Behavior, Nova York, Wiley,
nar. A primeira é que o programa de investigação que descrevi
1949.
mostra claramente que uma prova objetiva, pondo em prática os
5. Rogers, C. R.- Client-Centered Therapy, Boston, Houghton
critérios habituais da investigação científica rigorosa, não só Mifflin Co., 1942.
pode ser conseguida no domínio da personalidade e das altera- 6. Rogers, C. R. - Counseling and Psychotherapy, Boston, Hough-
ções do comportamento provocadas pela psicoterapia, como foi ton Mifflin Co., 1942.
obtida para uma determinada orientação psicoterapêutica. Isto 7. Rogers, C. R. e R. Dymond (eds.)- Psychotherapy and Perso-
quer dizer que, no futuro, se poderia obter uma prova objetiva nality Change, University ofChicago Press, 1954.
semelhante nos casos em que se verificar uma alteração da perso- 8. Snyder, W. U. (ed.)- Casebook of Nondirective Counseling,
nalidade como resultado de outras psicoterapias. Boston, Houghton Mifflin Co., 1947.
A segunda conclusão é, na minha opinião, ainda mais sig- 9. Stephenson, W. U. - The Study of Behavior, University of
Chicago Press, 1953.
nificativa. O progresso metodológico operado nos últimos anos
faz com que um grande número de sutilezas do processo tera-
pêutico esteja agora amplamente aberto à investigação. Pro-
curei ilustrar este aspecto, fundamentando-me na investigação
das alterações no autoconceito. Mas são igualmente possíveis
outros métodos semelhantes para estudar objetivamente a mo-
dificação das relações entre o cliente e o terapeuta, as atitudes
Capítulo 12
A terapia centrada no cliente no
seu contexto de investigação*

Como eu poderia eu explicar a um auditório europeu, rela-


tivamente pouco habituado à tradição americana da investiga-
ção empírica em psicologia, os métodos, os resultados e o sig-
nificado da investigação sobre a terapia centrada no cliente? Esta
tarefa me foi imposta pelo fato de que a Dra. G. Marian Kinget
e eu estávamos escrevendo um livro sobre a terapia centrada no
cliente, para ser publicado primeiro em flamengo e depois em
francês. A Dra. Kinget apresentou os princípios clínicos dessa
terapia e eu as teorias centrais da terapia centrada no cliente
(praticamente idêntica à apresentação inglesa, "A Theory of
Therapy, Personality and Interpersonal Relationships ", S. Koch
[organ.}, Psychology: A Study o f a Science, vol. IIL Nova York,
McGraw-Hill, 1959, pp. 184-256). Pretendia introduzi-los ago-
ra na investigação que empreendemos para confirmar ou inva-
lidar as nossas teorias. Este capítulo (ligeiramente modificado)
é o resultado dessa intenção e espero que signifique algo tanto
para os americanos como para os europeus.

* Esta é a tradução da versão inglesa do Capítulo XII do volume Psy-


chotherapie en menselijke verhoudingen: theorie en praktijk van de non-
directieve therapie, de Carl R. Rogers e G. Marian Kinget. Utrecht, Holanda:
Uitgeverij Het Spectrum, 1960.
280 _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ ___!E_

Peço a indulgência do leitor para um pequeno ponto. Três verdade, mas como um estabelecimento de hipóteses, como um
parágrafos que descrevem o desenvolvimento e uso dos cartões instrumento a serviço do progresso do nosso conhecimento. Te-
Q, por meio dos quais é medida a autopercepção, são quase ve-se sempre em mente que uma teoria, ou qualquer parte dela,
idênticos a material similar apresentado no capítulo 2. Deixei- apenas é útil se pode ser posta à prova. Tivemos por isso a preo-
os de forma tal que um capítulo pode ser lido independente- cupação constante de controlar objetivamente cada aspecto im-
mente, sem referência ao outro. portante das nossas hipóteses, porque acreditamos que o único
Este capítulo começa com as nossas mais antigas tentati- modo de isolar o conhecimento científico dos preconceitos indi-
vas de investigação, por volta de 1940, e conclui com uma des- viduais e do voluntarismo é por meio de uma investigação objeti-
crição de uma série de projetos incompletos que absorvem ainda va. Para uma investigação ser objetiva é necessário que seja reali-
o melhor do nosso esforço, em 1961. Procurei, desse modo, apre- zada de tal modo que um outro investigador, recolhendo os dados
sentar pelo menos uma pequena amostra do resultado de anos da mesma maneira e submetendo-os às mesmas operações, en-
de esforço de investigação. contre os mesmos resultados ou resultados semelhantes e chegue
às mesmas conclusões. Numa palavra, partimos do princípio de
Os estímulos para a investigação que a psicoterapia só progrediria pela análise aberta e objetiva de
Uma das características mais importantes da orientação todas as hipóteses expressas por meio de formas comunicáveis e
centrada no cliente em terapia é que, desde o início, não apenas replicáveis publicamente.
estimulou o espírito de investigação, como se desenvolveu num Uma segunda razão para o efeito estimulante da nossa orien-
contexto de pesquisa. O número e a variedade das investigações tação centrada no cliente é a diretriz segundo a qual um estudo
levadas a cabo até hoje são impressionantes. Em 1953, Seeman científico pode começar não importa onde, seja em que nível
e Raskin, numa análise crítica das tendências e direções desse for, elementar ou complexo; ou seja, é uma direção e não um
movimento de investigação, descreviam ou mencionavam perto grau fixo de instrumentação. Desse ponto de vista, uma entre-
de cinqüenta estudos de investigação relacionados à terapia cen- vista gravada representa um pequeno começo de investigação
trada no cliente, com adultos (9). Em 1957, Cartwright publi- científica porque implica uma objetivação maior do que alem-
cou uma bibliografia comentada de cento e vinte e dois traba- brança de uma entrevista; uma conceituação elementar da tera-
lhos de investigação e de síntese teórica sobre a terapia centrada pia e os instrumentos rudimentares criados para medir esses
no cliente (4). Este autor, tal como Seeman e Raskin, omitiu conceitos são mais científicos do que sua ausência. Por conse-
todas as referências aos estudos sobre terapia infantil ou terapia guinte, nossos investigadores pensaram que poderiam começar
em grupo de orientação centrada no cliente. Parece ser, portan- a seguir uma direção científica em áreas que tinham para eles o
to, indiscutível que a teoria e a prática da terapia centrada no maior interesse. A partir dessa atitude, foi-se criando uma série
cliente fizeram surgir um número surpreendente de trabalhos de instrumentos cada vez mais aperfeiçoados para a análise dos
de investigação experimental. É, portanto, justificado que nos protocolos das entrevistas e iniciou-se, de um modo significati-
interroguemos sobre a razão desse fato. vo, a mensuração de construtos aparentemente impossíveis de
Um primeiro fator reside em que a teoria da terapia centra- apreender, como o autoconceito e o clima psicológico de uma
da no cliente foi encarada, não como um dogma ou como uma relação terapêutica.
282 A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia 283
_Tornar-se pessoa

utilizados. Uma vez que a psicoterapia é um microcosmo de re-


Isso me leva ao que julgo ser a terceira das razões mais im-
lações interpessoais significativas, de aprendizagens funda-
portantes para o grau de sucesso que nossa teoria teve no incen-
tivo às investigações. Os construtos da teoria tinham sido na sua mentais e de modificações importantes na personalidade e na
grande maioria, formulados de maneira a prestarem-se' a uma percepção do indivíduo, os construtos elaborados para ordenar
definição operacional. Esta definição em termos operacionais o campo têm um elevado grau de penetração. Construtos como
era uma necessidade premente para psicólogos e outros investi- o autoconceito, ou a necessidade de uma aceitação positiva ou
gadores, que pretendiam fazer avançar os conhecimentos no as condições da alteração da personalidade, podiam aplicar-se a
domínio da personalidade e que se viam impedidos porque seus uma grande variedade de atividades humanas. Podiam ser utili-
const~tos teóricos não se prestavam a uma definição operacio-
zados para o estudo de campos tão diferentes como a liderança
nal. Citemos, por exemplo, os fenômenos designados de uma militar ou industrial, a alteração da personalidade nos indiví-
maneira geral pelos termos eu, ego, pessoa. Se se elabora um duos psicóticos, o ambiente psicológico de uma família ou de
construto - como alguns teóricos fizeram - que engloba tanto uma classe escolar, ou ainda a inter-relação das alterações psi-
acontecimentos interiores não-conscientes como fenômenos in- cológicas e fisiológicas.
teriores conscientes do indivíduo, não é possível, no momento Mencionemos de uma maneira especial, para terminar,
presente, proceder a uma definição operacional de um constru- uma circunstância muito feliz. Ao contrário da psicanálise, por
to desse ?~ne_ro. Mas, limitando o autoconceito ao que se passa exemplo, a terapia centrada no cliente desenvolveu-se sempre
na consciencia toma-se possível a formulação teórica do cons- no contexto das instituições universitárias. Isso implicou um
truto em termos operacionais cada vez mais refinados através processo contínuo de separar o joio do trigo, numa situação de
da técnica Q, da análise dos registros das entrevistas, etc., e isso segurança pessoal fundamental. Isso implicou também estar ex-
abre ao investigador uma vasta área de pesquisas. É possível posto à crítica construtiva dos colegas, exatamente da mesma
que, coi? o tempo e graças ao desenvolvimento da investigação, maneira que as novas perspectivas abertas na química, na biolo-
se consiga dar uma definição operacional de certas estruturas gia e na genética estão submetidas a uma apreciação crítica. A
mesmo inconscientes. atmosfera acadêmica significou sobretudo que a teoria e a téc-
O emprego de conceitos possíveis de serem definidos em nica eram acessíveis à curiosidade entusiasta dos jovens. Os
termos operacionais teve ainda um outro efeito. Tomou com- estudantes universitários interrogam e criticam; sugerem for-
pletamente desnecessário o uso das palavras "êxito" e "fracas- mulações alternativas; empreendem investigações experimen-
so"- dois termos que não são utilizáveis em ciência- como cri- tais para confirmar ou invalidar as diversas hipóteses teóricas.
térios nos estudos de terapia. Em vez de pensar nestes termos Isso ajudou muito a manter a orientação terapêutica centrada no
g~obais e m.aldefinidos, os investigadores puderam fazer previ- cliente como uma perspectiva aberta e autocrítica, em vez de
soe~ ~sP_ecificas em termos de construtos operacionalmente tomá-la um ponto de vista dogmático.
deflmveis e confirmar ou invalidar essas previsões de um modo Foram essas as razões que permitiram à referida orientação
absolutamente independente dos juízos de valor sobre o caráter
terapêutica desenvolver-se através da investigação científica. A
"?em-sucedido" ou "malsucedido" da terapia. Destruía-se as-
partir de um ponto de vista limitado, largamente apoiado na téc-
sim uma das maiores barreiras ao progresso científico.
nica, sem verificação empírica, chegou-se a uma teoria elabora-
Uma o~tra ra~ão que justifica a eficácia do sistema para
da da personalidade e das relações interpessoais bem como da
favorecer a mvestlgação foi a da generalidade dos construtos
284 - - - - · · __ Tornar-se pessoa
- - · - - - -
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_85

terapia, que coordena à sua volta um notável corpo de conheci- mente num número insuficiente de casos, mas sua contribuição
mentos experimentalmente estabelecidos. para a abertura de novos caminhos foi, no entanto, grande.

O período inicial da investigação

As investigações objetivas em psicoterapia não têm uma Alguns estudos ilustrativos


longa história. Houve sem dúvida, antes de 1940, algumas ten-
tativas para gravar entrevistas. terapêuticas, mas o material obti- A fim de dar uma idéia da crescente corrente de investiga-
do não foi utilizado para fins de investigação. Antes disso não ção, descreverei alguns estudos com suficiente detalhe, com o
se registraram tentativas sérias para utilizar os métodos da ciên- objetivo de fazer compreender ao leitor a metodologia e os resul-
cia na mensuração das alterações que se pensava ocorrerem na tados específicos. Os estudos descritos não foram escolhidos por
terapia. Estamos, portanto, falando de um domínio que ainda serem especialmente significativos, mas por representarem as
está, de certa maneira, no seu estado embrionário. No entanto, diferentes tendências da investigação tal como ela se foi desen-
realizaram-se alguns progressos. volvendo. Serão assim apresentados em ordem cronológica1•
Em 1940, nosso grupo da Universidade do Estado de Ohio
conseguiu gravar integralmente uma entrevista terapêutica. Nos- O centro da valoração
sa satisfação foi grande, mas desfez-se rapidamente. Ao ouvir a Em 1949, Raskin (5) levou a cabo um estudo sobre a ori-
gravação, tão pouco estruturada, tão complexa, desanimávamos gem dos valores captada pelo cliente ou o centro do processo de
de alcançar o nosso objetivo que era o de utilizar esse material valoração (locus of evaluation ). Este estudo partia da simples
como dado para investigações objetivas. Parecia quase impossí- formulação de que a função do terapeuta não era a de pensar
vel reduzir esses dados a elementos suscetíveis de um tratamen- pelo ou sobre o cliente, mas com ele. Nos dois primeiros casos,
to objetivo. o centro de valoração situa-se nitidamente no terapeuta, mas no
Contudo, algum progresso se fez. O entusiasmo e o espírito último este tenta pensar e entrar em empatia com o cliente den-
criador dos nossos estudantes remediaram a carência de fundos e tro do quadro de referências deste, respeitando o processo espe-
de equipamentos. Os elementos em bruto da terapia foram trans- cífico de valoração do cliente.
formados, graças ao seu engenho e espírito inventiva, em catego- A questão que Raskin levantava era a de saber se o centro de
rias elementares das técnicas do terapeuta, bem como das respos- valoração captado pelo cliente se modificara durante a terapia.
tas do cliente. Porter analisou o comportamento do terapeuta sob Em termos mais específicos, haverá uma diminuição do grau em
algumas facetas importantes e Snyder analisou as respostas do que os valores e as normas do cliente dependem dos juízos e
cliente em diversos casos, descobrindo algumas das tendências expectativas dos outros e uma maior fundamentação desses
que existiam. Outros investigadores mostraram-se igualmente valores e normas numa confiança na sua própria experiência?
inventivas e, pouco a pouco, a possibilidade da investigação no A fim de realizar esse estudo de uma maneira objetiva, Ras-
domínio da psicoterapia tomou-se uma realidade. kin determinou as seguintes fases de investigação:
Esses estudos iniciais eram muitas vezes rudimentares, de- 1. Pediu-se a três avaliadores, que trabalhavam indepen-
sordenados quanto ao plano da investigação, baseados freqüente- dentemente, para selecionarem em diversas entrevistas grava-
286 ____ Tornar-se pessoa 287
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia

das as afirmações que estivessem relacionadas com a fonte dos eu devia ser, mas agora me pergunto se não deveria ver que sou
valores e normas do cliente. A comparação dos resultados mos- precisamente aquilo que sou" (6, p. 151 ).
trou que havia mais de 80% de concordância na seleção dessas 3. Raskin utilizou em seguida essa escala para avaliar cin-
afirmações, o que indica que o estudo continha um construto dis- qüenta e nove entrevistas integralmente gravadas relativas a dez
cemível. casos terapêuticos breves, e que tinham sido objeto de outras
2. A partir do material assim selecionado, Raskin escolheu investigações. Depois de avaliá-las e antes de analisá-las, quis
vinte e dois desses itens para representar uma ampla variedade determinar a fidedignidade dos seus juízos. Escolheu ao acaso
de origem dos valores e os entregou a vinte avaliadores, pedin- em cada uma das cinqüenta e nove entrevistas um item referen-
do-lhes que agrupassem essas afirmações em quatro pilhas de te ao centro de valoração e confiou a classificação do material
acordo com o contínuo em estudo, separados por intervalos apro- assim obtido a um outro avaliador que nada sabia sobre a ori-
ximadamente iguais. gem desses itens, ou melhor, que não sabia se eles provinham
Raskin construiu uma escala do centro de valoração com de entrevistas que se situavam no princípio ou no fim do caso.
os doze itens que revelavam uma maior consistência, escala que A correlação entre os dois conjuntos de avaliações foi de 0,91,
ia de 1,O a 4,0. O grau 1 representava uma atitude de dependên- o que representa um grau de fidedignidade altamente elevado.
cia incondicional às apreciações feitas pelos outros. O grau 2 4. Raskin, tendo construído uma escala de intervalos aproxi-
incluía aquelas proposições em que se registrava uma preocu- madamente iguais e tendo demonstrado a fidedignidade do seu
pação predominante com o que os outros pensavam, mas mani- instrumento, encontrava-se então preparado para determinar se
festando simultaneamente uma certa insatisfação em relação a se produzia um deslocamento do centro de valoração durante a
esse estado de dependência. O grau 3 representava aquelas ex- terapia. O valor médio obtido para as primeiras entrevistas foi
pressões em que o indivíduo revela uma atitude de respeito, 1,97, para as entrevistas finais foi 2, 73, uma diferença significan-
tanto pelo seu próprio sistema de valores como pelos valores e te no nível de 0,01. Logo, a teoria da terapia centrada no cliente
via-se confirmada nesse ponto. Era possível acrescentar-lhe uma
idéias dos outros, mostrando estar consciente da diferença entre
outra confirmação. Os dez casos referidos haviam sido estudados
o seu próprio processo de valoração e a dependência dos valores
por outros métodos objetivos, de modo que dispúnhamos de cri-
dos outros. O grau 4 ficou reservado para as proposições que
térios objetivos provenientes de outros estudos para determinar o
indicavam claramente que o indivíduo baseava o seu sistema de
grau de êxito terapêutico em cada caso. Considerando-se os
valores na sua própria experiência e nos seus próprios juízos.
cinco casos que, segundo esses critérios objetivos, foram os que
Um exemplo que ilustra o grau 3 pode dar uma descrição
tiveram mais sucesso, verifica-se que o deslocamento do centro
viva da escala. A afirmação seguinte do cliente foi considerada
de valoração era ainda mais nítido, sendo a média para as entre-
como pertencendo a esse grau da escala: vistas iniciais de 2,12 e de 3,34 para as últimas.
"Consegui assim tomar uma decisão que não sei se estará Esse estudo é, sob muitos aspectos, um exemplo típico de
certa. Quando se pertence a uma família onde um dos irmãos um vasto conjunto de investigações que foram levadas a cabo.
foi para a universidade e onde todos são inteligentes, não sei se Partindo de uma determinada hipótese da teoria da terapia cen-
será acertado pensar que eu sou como sou e que não posso fazer trada no cliente, elaborou-se um instrumento suscetível de calcu-
essas coisas. Procurei sempre ser o que os outros pensavam que lar os graus de variação de um determinado construto. O próprio
290 ~- -~ ---~---- _Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_91

tador desejava submetê-lo a um teste desse tipo. As séries de peração" significante no nível de 10% no sentido de uma recupe-
números utilizados iam crescendo até um ponto em que o indiví- ração retardada. Em outras palavras, eram menos capazes de
duo falhava nitidamente. Depois de um intervalo de dois minu- superar a frustração sofrida durante a segunda sessão do que du-
tos, o experimentador apresentava novas séries de números que rante a primeira. Uma outra medida RPG, designada como "per-
provocariam um novo fracasso evidente. Depois de um outro in- centagem de recuperação", mostrou igualmente que o grupo
tervalo, mais outro fracasso frustrante. Como todos os indivíduos em terapia se recuperava mais rapidamente no segundo teste,
eram estudantes, é indubitável que o seu amor-próprio e a frustra- uma alteração significante no nível de 5%, ao passo que o gru-
ção eram evidentemente reais, uma vez que a experiência desa- po-controle não revelava alteração. No que se refere à atividade
fiava suas capacidades intelectuais e as colocava em dúvida. De- cardiovascular, a variação média da tensão arterial dos indiví-
pois de um último intervalo, dispensava-se o indivíduo, mas este duos do grupo em terapia era inferior na segunda sessão, regis-
era informado de que seria chamado mais tarde para uma segun- trando uma alteração significante no nível de 5%. O grupo-
da sessão. Nunca se estabeleceu a menor relação da experiência controle não manifestava qualquer alteração. Outros índices re-
com a terapia dos indivíduos, e a administração dos testes era efe- velaram algumas alterações consistentes como as que mencio-
tuada num outro edificio. namos, mas não tão significativas.
Terminada a terapia, os clientes eram novamente chama- Pode-se dizer portanto que, em geral, os indivíduos que esti-
dos e submetidos ao mesmo processo experimental- três episó- veram submetidos à terapia adquiriram um limiar de frustração
dios de frustração alternando com períodos de recuperação, mais elevado e uma capacidade para recuperar o seu equilíbrio
sendo continuamente medidos diversos aspectos do funciona- homeostático mais rapidamente nas frustrações posteriores, aqui-
mento autonômico. Os indivíduos do grupo-controle foram tam- sição que foi feita durante os contatos terapêuticos. Por outro lado,
bém novamente chamados com intervalos correspondentes e no grupo-controle, registrou-se uma ligeira tendência para a re-
submetidos a processo idêntico. dução do limiar de frustração durante a segunda sessão e uma
Foram calculados diversos índices fisiológicos para os recuperação claramente mais lenta da homeostase.
grupos em terapia e de controle. As únicas diferenças significa- Em termos mais simples, o significado desse estudo pare-
tivas entre os grupos residiam na rapidez da recuperação da ce ser o de que, depois da terapia, o indivíduo é capaz de en-
frustração durante as duas sessões. De um modo geral, o grupo frentar, com uma tolerância maior e uma perturbação menor,
submetido a terapia recuperava-se da sua frustração mais rapi- situações emocionais de depressão e de frustração; que esta al-
damente na segunda sessão do que na primeira, ao passo que no teração verifica-se mesmo que a depressão ou a frustração não
grupo-controle os resultados eram inversos: estes indivíduos se tivessem sido especificamente consideradas na terapia; que o
recuperavam mais lentamente durante a segunda série de frus- enfrentamento mais eficaz da frustração não é um fenômeno
trações. superficial, mas ocorre de uma maneira evidente nas reações
Tentarei explicar-me um pouco melhor. O grupo em tera- autonômicas que o indivíduo não pode controlar consciente-
pia revelou uma alteração no "quociente de recuperação" ba- mente e de que não tem qualquer consciência.
seado no RPG, alteração significante no nível de 0,02 e regis- Esse estudo de Thetford é característico de um determinado
trada na direção de uma recuperação mais rápida da frustração. número de investigações pioneiras e das mais audaciosas que
O grupo-controle revelou uma alteração no "quociente de recu- foram levadas a cabo. Suas hipóteses ultrapassam a teoria da
292 _____ Tornar-se pessoa . . - em pszcoterapza
' . ___ 293
A observação dos fatos: o papelda znvestzgaçao _ ___

terapia centrada no cliente como esta foi formulada, embora este- 2. Uma resposta "estruturante". O terape~ta pode explicar
jam de acordo com a teoria e talvez mesmo implícitas nela. O seu o seu próprio papel ou o modo como se efetua a terapia.
ponto de partida consistiu na afirmação de que se a terapia toma- 3. Um pedido de esclarecimento. O terapeuta pode indicar
va o indivíduo capaz de dominar melhor o seu estresse ao nível que o significado do pedido do cliente não está claro para ele.
psicológico, isso também era evidente ao nível do funcionamen- 4. Uma reflexão sobre o contexto do pedido. O terapeuta
to autonômico. As atuais investigações provam o fundamento da pode responder tentando compreender o contexto do pedido do
afirmação. Não há dúvida de que o efeito de confirmação em cliente, mas sem um reconhecimento específico desse pedido.
relação à teoria é mais importante quando algumas predições 5. Uma reflexão sobre o pedido. O terapeuta pode mostrar
longínquas são postas à prova e se descobre serem corretas. que compreende o pedido do cliente ou que o situa no contexto
de outros sentimentos.
A resposta do cliente a técnicas diferentes Bergman elaborou as seguintes categorias para agrupar as
expressões do cliente subseqüentes às respostas do terapeuta:
Um pequeno estudo realizado por Bergman (2) em 1950 é
1. O cliente repete novamente o pedido de uma apreciação,
exemplo da forma como as entrevistas gravadas se prestam a
quer do mesmo modo, quer com um certo alargamento ou mo-
estudos microscópicos do processo terapêutico. Bergman pro-
dificação, ou apresenta outro pedido.
curou estudar o problema da natureza da relação entre o método
2. O cliente, aceitando ou rejeitando a resposta do terapeu-
ou a técnica do terapeuta e a resposta do cliente.
ta abandona essa tentativa de explorar suas atitudes e problemas
Escolheu para estudo todas as oportunidades, em dez casos
gravados (os mesmos que Raskin e outros estudaram), em que o
(~ormalmente mergulhando num material menos relevante).
3. O cliente continua a explorar suas atitudes e seus proble-
cliente requeria uma apreciação por parte do terapeuta. Reco-
mas.
lheram-se 246 passagens nos dez casos em que isso se verifica-
4. O cliente verbaliza uma compreensão da relação entre
va, em que o cliente pedia uma solução para seus problemas,
os sentimentos, expressa um insight.
uma apreciação sobre sua adaptação ou progresso, uma confir-
Tendo verificado a fidedignidade dessas categorias, tanto
mação do seu próprio ponto de vista ou uma sugestão sobre
em relação ao cliente como em relação ao terapeuta, e conside-
como devia proceder. Cada uma dessas passagens foi incluída
rando-a satisfatória, Bergman procedeu à análise dos elementos
no estudo como uma unidade de resposta. A unidade de respos-
recolhidos. Determinou quais as categorias que ocorrem mais
ta consistia na expressão total do cliente que incluía o pedido, a freqüentemente conjugadas com outras categorias e que não se
resposta imediata do terapeuta e a expressão global do cliente poderiam atribuir ao acaso. Seguem-se algumas das conclusões
que se seguia à afirmação do terapeuta.
encontradas.
Bergman verificou que as respostas do terapeuta podiam Existe fundamentalmente uma relação apenas fortuita en-
ser divididas nas seguintes categorias: tre as categorias do pedido inicial do cliente e da sua resposta
1. Uma resposta baseada numa apreciação. Este tipo de subseqüente. O mesmo ocorre entre o pedido inicial do cliente
resposta podia ser uma interpretação do material do cliente, um e a resposta do terapeuta. Por isso, nem a resposta do terapeuta,
acordo ou desacordo com ele ou o fornecimento de sugestões nem a expressão subseqüente do cliente parecem ser "causa-
ou informações. das" pelo pedido inicial.
294 A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_9_5
~-- Tornar-se pessoa

Um método que foi usado com muita freqüência para con-


Por outro lado, há uma interação significativa entre a res-
seguir esse objetivo consistiu na técnica Q, elaborada por Ste-
posta do terapeuta e a subseqüente expressão do cliente.
phenson (10) e adaptada ao estudo do eu. Visto Butler e Haigh
1. A reflexão sobre o sentimento pelo terapeuta é seguida,
terem utilizado essa técnica como instrumento, pode ser útil
com uma freqüência maior do que seria de atribuir ao acaso, de
descrevê-la rapidamente antes de apresentar os resultados do
uma auto-exploração contínua ou insight. Esta relação é signi-
estudo propriamente dito.
ficante no nível de 1%.
2. As respostas do terapeuta dos tipos 1 e 2 (respostas ba- De um grande número de gravações de casos de terapia
seadas numa apreciação e respostas interpretativas ou "estrutu- foram isoladas todas as expressões de auto-referência que cons-
rantes") são seguidas, com uma freqüência superior à que seria tituíram uma ampla população para a pesquisa. Dessas expres-
de atribuir ao acaso, pelo abandono da auto-exploração. Isto é sões selecionaram-se cem, editadas para efeito de clareza. O
igualmente significante nos níveis de 1%. objetivo era escolher o maior número possível de formas em
3. Uma resposta do terapeuta pedindo um esclarecimento que o indivíduo se percebe. A lista incluía pontos como estes:
tende a ser seguida da repetição do pedido ou de uma diminui- "Sinto muitas vezes ressentimento", "Sou sexualmente atraen-
ção da auto-exploração e insight. Estas conseqüências são sig- te", "Estou realmente perturbado", "Sinto-me pouco à vontade
nificantes nos níveis de 1% e 5%, respectivamente. ao falar com os outros", "Sinto-me descontraído e nada me preo-
Bergman é levado então a concluir que a auto-exploração e cupa realmente".
o insight, aspectos positivos do processo terapêutico, parecem No estudo de Butler e Haigh pedia-se a cada pessoa para
ser favorecidos pelas respostas que são "reflexões sobre os sen- separar os cartões onde estavam impressos os cem pontos refe-
timentos", ao passo que as respostas avaliativas, interpretativas ridos. Primeiro tinha de repartir esses cartões "de modo a des-
e "estruturantes" tendem a suscitar reações negativas no pro- crever-se tal como hoje se vê". Pedia-se-lhe para agrupar os
cesso terapêutico. cartões em nove pilhas, partindo dos que estavam mais longe
Esse estudo ilustra bem a forma como, num determinado daquilo que pensava ser para aqueles que mais perfeitamente
número de investigações, a gravação de entrevistas terapêuticas julgava que o descreviam. Pedia-se-lhe que colocasse um certo
foi examinada com toda a minúcia e rigor, a fim de iluminar número em cada pilha (os números em cada pilha eram 1, 4, 11,
alguns aspectos da teoria da terapia centrada no cliente. Nesses 21, 26, 21, 11, 4, 1, representando, portanto, uma distribuição
estudos, os eventos internos da terapia foram analisados objeti- forçada e aproximadamente normal dos dados). Quando o indi-
vamente pelo esclarecimento que podem trazer ao processo tera- víduo dava essa tarefa por terminada, pedia-se-lhe para agrupar
pêutico. os cartões, mas agora "de modo a descrever a pessoa que mais
gostaria de ser". Assim, obtinha-se para cada item a autoper-
Um estudo sobre o autoconceito cepção do indivíduo bem como o valor atribuído a essa caracte-
rística.
Realizaram-se muitas investigações sobre as alterações no
Toma-se evidente que é possível pôr em correlação os di-
conceito que o cliente tem do eu. Este construto é central na
versos agrupamentos. É possível pôr em correlação o eu pré-
teoria da terapia centrada no cliente e na sua concepção da per-
terapia com o eu pós-terapia, o eu com o eu-ideal, ou o eu-ídeal
sonalidade. Descreverei de uma maneira breve o estudo de Butler
de um cliente com o eu-ideal de um outro cliente. Correlações
e Haigh (3).
296 Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___2_9_7

elevadas indicam uma pequena discrepância ou alteração, e as terapia. Nesses casos, a correlação média antes da terapia era de
baixas correlações o inverso. O estudo dos itens específicos que 0,02 e no período ulterior de 0,44.
mudaram de lugar durante a terapia, por exemplo, fornece uma O grupo de controle interno era formado por quinze mem-
imagem qualitativa da natureza da alteração. Devido ao grande bros do grupo. Foram testados na primeira vez que requereram
número de itens considerados, fica salvaguardada a riqueza clí- tratamento, pedindo-se-lhes então para esperarem sessenta dias
nica ao longo da investigação estatística. De uma maneira geral, antes de iniciar a terapia. Foram novamente testados no fim
esse processo permitiu aos investigadores converter os dados desse período de sessenta dias, assim como no término da tera-
fenomenológicos em elementos objetivos e manipuláveis. pia e no período de acompanhamento, dentro dos limites de seis
Consideremos agora o emprego desse método no estudo de a doze meses. Nesse grupo de controle interno a correlação eu-
Butler e Haigh. As hipóteses eram: ( 1) a terapia centrada no ideal no primeiro teste foi de -0,01 e no fim do período de ses-
cliente reduz a discrepância entre o eu percebido e o eu valori- senta dias era idêntica: -0,01. Por conseguinte, a alteração que
zado; e (2) esta redução da discrepância é mais acentuada se verificou durante a terapia está claramente associada com a
naqueles clientes em que se reconheceu, com base em critérios terapia e não é simplesmente o resultado da passagem do tempo
independentes, um maior movimento na terapia. ou da decisão de iniciar a terapia.
No âmbito de um programa de investigações muito mais O grupo-controle revelou uma imagem muito diferente do
amplo (8), os investigadores dirigiram-se a vinte e cinco clien- grupo de clientes em terapia. A correlação primitiva entre eu e
tes utilizando a técnica Q para o eu e o eu-ideal, por três vezes:
eu-ideal era de 0,58, e pouco se alterou, sendo de 0,59 no perío-
antes do início da terapia, depois da sua conclusão e num perío-
do de acompanhamento. É óbvio que esse grupo não sentia a
do de acompanhamento variando entre seis e doze meses de-
tensão experimentada pelo grupo de clientes, tendia para a va-
pois do seu término. O mesmo programa de provas foi aplicado
lorização de si mesmo e, sob esse aspecto, não se alterou de
a um grupo de controle fora da terapia, semelhante ao primeiro
modo apreciável.
em idade, sexo e condição socioeconômica.
É, portanto, razoável concluir desse estudo que uma das
Os resultados foram interessantes. As correlações do eu-
modificações associadas à terapia centrada no cliente é a da au-
ideal no grupo de clientes antes da terapia escalonavam-se de
topercepção, que se altera numa direção em que o eu é mais va-
-0,47, uma discrepância muito acentuada entre o eu e o eu-
ideal, até 0,59, número que indica que o eu é apreciado como lorizado. Essa alteração não é transitória, mas persiste depois à
ele é. A correlação média antes da terapia era de -0,01. No fim terapia. A redução da tensão interior é altamente significante,
da terapia, a média era 0,34 e no período de acompanhamento mas, mesmo no fim da terapia, o eu ainda é menos valorizado
era de 0,31. Isto representa uma alteração significativa, confir- do que entre os membros do grupo de controle não submetido a
mando a hipótese. O fato de a correlação baixar apenas muito terapia. Em outras palavras, a terapia não estabelece uma "adap-
ligeiramente durante o período que se segue à terapia oferece tação perfeita" ou uma completa ausência de tensão. Fica tam-
um interesse muito especial. A alteração é ainda mais marcada bém patente que a alteração que estávamos discutindo não ocor-
quando a atenção incide sobre os dezessete casos que, na opi- reu simplesmente como resultado da passagem do tempo ou da
nião dos terapeutas e segundo os resultados do Teste de Aper- determinação de recorrer à terapia, mas encontra-se decisiva-
cepção Temática (TAT), revelavam o resultado mais positivo na mente associada à terapia.
298 _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ __299

Esse estudo é um exemplo entre muitos das investigações terapêutico levam o indivíduo, após a terapia, a um comporta-
feitas para esclarecer as relações entre a terapia e a autopercep- mento menos defensivo, mais socializado, mais receptivo à rea-
ção. Segundo esses outros estudos (mencionados por Rogers e lidade em si mesmo e no seu meio social, um comportamento
Dymond, 8), sabemos por exemplo que é essencialmente o au- que atesta um sistema de valores mais socializado. Em outr~s
toconceito que se modifica ao longo da terapia e não o eu-ideal. palavras, o seu comportamento será considerado como mats
Este último revela uma tendência para modificar-se, embora amadurecido, e as formas de comportamento infantil tendem a
ligeiramente, e sua modificação dá-se na direção de uma menor diminuir. A questão dificil que nos colocávamos era saber se se
exigência e de uma maior realização. Sabemos que a auto-ima- poderia dar uma definição operacional de uma tal hipótese com
gem que emerge no fim da terapia é avaliada pelos terapeutas
o objetivo de submetê-la a uma confirmação experim~ntal. .
(de um modo que exclui quaisquer possíveis desvios) como
Existem poucos instrumentos destinados a med1r a quah-
mais adaptada. Sabemos que esse eu emergente tem um maior
dade do comportamento cotidiano de uma pessoa. O melhor
grau de conforto interior, de autocompreensão e de auto-aceita-
teste para o nosso fim era o que Willoughby elaborara alguns
ção, de responsabilidade em relação a si mesmo. Sabemos que
anos atrás, e que era designado como Emotional Maturity
esse eu posterior à terapia encontra uma satisfação e uma tran-
Scale (Escala de Maturidade Emocional). Elaborou muitos
qüilidade maiores nas relações com os outros. Pouco a pouco,
itens que descreviam o comportamento, imprimiu-os em car-
fomos capazes de ir juntando ao nosso conhecimento objetivo
tões e distribuiu-os por cem terapeutas -psicólogos e psiquia-
novos conhecimentos sobre as modificações provocadas pela
tras - para que determinassem o grau de maturidade que eles
terapia na autopercepção do cliente.
representavam. Com base nesses juízos, selecionou sessenta
itens para compor a sua escala. Os graus dessa escala esten-
A psicoterapia provoca mudanças no
dem-se do valor 1 (o mais imaturo) ao 9 (o mais amadurecido).
comportamento cotidiano?
As proposições seguintes, acompanhadas do valor de maturi-
Os estudos descritos até agora neste capítulo, e outros que dade que lhes é atribuído, permitirão ao leitor fazer uma idéia
se poderiam citar, demonstram que a terapia centrada no cliente da escala:
provoca muitas alterações. O indivíduo faz opções e estabelece
valores de um modo diferente; engrena a frustração com uma Valor 1. O Sujeito (S) pede habitualmente ajuda para resolver
tensão fisiológica menos prolongada, modifica a maneira de se seus problemas (Item 9).
ver e de se apreciar. Mas isso não responde ainda à interrogação Valor 3. Quando dirige o seu automóvel, S está calmo nas situa-
do leigo e da sociedade: "Mudará o comportamento cotidiano ções ordinárias, mas fica com raiva quando os outros moto-
do cliente de maneira observável e será positiva a natureza ristas o impedem de avançar (Item 12).
dessa mudança?" Foi para tentar responder a essa questão que, Valor 5. Quando demonstra indiscutivelmente sua inferioridade
com a ajuda de alguns colegas, empreendi uma investigação num determinado aspecto, S fica impressionado, mas conso-
sobre as alterações na maturidade do comportamento do cliente la-se pensando nas atividades em que é superior (Item 45).
relacionadas com a terapia, num estudo publicado em 1954 (6). Valor 7. S organiza e planeja os seus esforços visando um deter-
A teoria da terapia centrada no cliente coloca como hipóte- minado objetivo, considerando evidente que um método sis-
se que as alterações internas que ocorrem durante o processo temático é um meio de realizá-lo (Item 17).
300 _ _ _ Tornar-se pessoa 301
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ _ _

Valor 9. S acolhe favoravelmente as ocasiões legítimas de ex- 6. Entre os seis e os doze meses posteriores à terapia, pe-
pressão sexual; não sente vergonha, receio ou preocupação dia-se novamente ao cliente e aos seus amigos que fornecessem
em relação a esse aspecto (Item 53). as avaliações do comportamento.
7. Os membros do grupo de controle avaliavam seu com-
Tendo escolhido nosso instrumento, podíamos formular portamento na escala E-M nos momentos correspondentes em
nossa hipótese em termos operacionais: uma vez terminada a que a mesma avaliação era obtida dos membros do grupo em
terapia centrada no cliente, o seu comportamento será conside- terapia.
rado por si e por aqueles que o conhecem bem como mais ama- Essas diversas aplicações da escala forneceram um vasto
durecido, situando-se num grau mais elevado da escala de conjunto de dados que permitiam diferentes ângulos de análise.
maturidade emocional (E-M Scale). Limitar-me-ei a enumerar os principais resultados.
O método da investigação foi necessariamente complexo, A escala de maturidade emocional (E-M Scale) revelou
pois são dificeis de obter as medidas rigorosas e constantes do uma fidedignidade satisfatória quando foi usada por qualquer
comportamento cotidiano. A investigação foi realizada como dos avaliadores, o cliente ou um amigo-observador. Contudo, o
parte de um programa mais vasto que envolvia perto de trinta acordo entre as diferentes avaliações não era muito nítido.
clientes e sobre um idêntico grupo de controle (8). As diferen- Os indivíduos do grupo-controle não submetido à terapia
tes fases do estudo foram as seguintes: não revelaram qualquer alteração significativa nas suas apre-
1. O cliente, antes de iniciar a terapia, era convidado a uma ciações do comportamento durante todos os períodos envolvi-
auto-avaliação do seu comportamento segundo a E-M Scale. dos nesse estudo.
2. Perguntava-se depois ao cliente o nome de dois amigos Os clientes que faziam parte do grupo-controle interno não
que o conhecessem bem e que estivessem dispostos a emitir ava- manifestaram uma alteração significativa do comportamento
liações a seu respeito. O contato com esses amigos era feito pelo durante o período de sessenta dias de espera, quer segundo o
correio e suas avaliações segundo a E-M Scale remetidas direta- seu próprio juízo, quer segundo a apreciação dos amigos.
mente para o Centro de Aconselhamento. Não houve alterações significativas nas apreciações do
3. Cada amigo era solicitado a avaliar, ao mesmo tempo em observador sobre o comportamento do cliente durante o perío-
que avaliava o cliente, uma outra pessoa que conhecesse bem. O do terapêutico ou durante o período de acompanhamento. Este
objetivo desse pedido era determinar a fidedignidade das ava- fato era, evidentemente, contrário à nossa hipótese. Pareceu por-
liações feitas pelos amigos. tanto, desejável que se examinasse se esses resultados negati-
4. Metade dos membros do grupo em terapia foi designado vos eram válidos para todos os indivíduos, independentemente
como grupo de controle interno e foi submetido à E-M Scale do progresso que revelassem na terapia. Por conseguinte, os clien-
quando entrou pela primeira vez em contato com o Centro e tes foram divididos pelos terapeutas em três grupos, consoante
sesse1.ta dias mais tarde, antes de iniciar a terapia. As avalia- manifestassem um progresso evidente, moderado ou mínimo
ções do cliente feitas por seus dois amigos eram também efe- em terapia.
tuadas nessas mesmas ocasiões. Descobriu-se que, em relação ao grupo que revelava o
5. Ao término da terapia, o cliente e seus dois amigos eram maior progresso em terapia, as apreciações dos amigos sobre a
novamente convidados para uma avaliação segundo a E-M Scale. maturidade do comportamento do cliente tinham aumentado de
302 A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___30~
_ _ _ Tornar-se pessoa

última descoberta tem um interesse particular, porque é a pri-


modo significante (no nível de 5%). No grupo que patenteava
meira evidência de que conseqüências desintegradoras podem
um progresso moderado havia uma pequena alteração, e no
acompanhar esforços malsucedidos para conseguir ajuda, numa
grupo onde fora mínimo o progresso havia uma alteração nega-
relação com um terapeuta de orientação centrada no cliente.
tiva no sentido de um comportamento mais imaturo.
Registrou-se uma correlação significativa e conclusiva entre Embora essas conseqüências negativas não sejam significati-
as avaliações do terapeuta sobre o progresso operado em terapia e vas, elas devem, no entanto, merecer um estudo aprofundado.
as observações dos amigos do cliente sobre a alteração do seu Esse tipo de pesquisa ilustra as tentativas feitas para inves-
comportamento cotidiano. Esta correlação oferece um interesse tigar os diferentes efeitos que a psicoterapia pode provocar no
particular, pelo fato de a avaliação do terapeuta se basear apenas comportamento. Ao mesmo tempo, sugere algumas das dificul-
nas reações do cliente durante a sessão de tratamento, com pouco dades implícitas ao traçar um plano de investigação suficiente-
ou nenhum conhecimento do comportamento exterior. As avalia- mente rigoroso para se estar certo de que (a) houve efetivamen-
ções dos amigos baseavam-se unicamente na observação exte- te alterações no comportamento e (b) que essas alterações são
rior, sem nenhum conhecimento do que se passava na terapia. uma conseqüência da terapia e não de outro fator qualquer.
De uma maneira geral, esses resultados eram paralelos às Uma vez feito esse estudo global das alterações do com-
avaliações do seu próprio comportamento por parte do cliente, portamento cotidiano, é possível que as investigações sobre
com uma exceção interessante. Os clientes que tinham sido esses aspectos se efetuem melhor no laboratório, onde mudan-
avaliados pelos seus terapeutas como revelando progressos na ças no comportamento de resolução de problemas, de adapta-
terapia avaliavam-se como manifestando um aumento de matu- ção, de resposta a situações de angústia ou de frustração, etc.,
ridade, e suas apreciações vinham a coincidir com as dos obser- podem ser estudadas em condições de controle mais rigoroso.
vadores. Mas os clientes que foram avaliados pelos terapeutas No entanto, o estudo citado foi um estudo de vanguarda, ao es-
como tendo registrado progressos mínimos na terapia, e pelos tabelecer que a terapia bem-sucedida provoca uma alteração
observadores como revelando uma deterioração da maturidade positiva no comportamento e que uma terapia fracassada pode
do comportamento, descreviam-se como tendo registrado um produzir modificações negativas no comportamento.
grande aumento de maturidade, tanto no término da terapia
como no fim do período de acompanhamento. Este fato parece A qualidade da relação terapêutica
evidenciar uma auto-apreciação defensiva quando a terapia não em relação aos progressos em terapia
foi bem-sucedida.
O estudo final que desejaria mencionar foi recentemente
Pode-se, portanto, justificar a conclusão geral segundo a
concluído por Barret-Lennard (1). Esse estudo tomava como
qual, quando a terapia centrada no cliente foi avaliada como re-
ponto de partida uma formulação teórica minha sobre as condi-
veladora de progressos ou movimento, verifica-se uma altera-
ções necessárias para a mudança terapêutica. Ele partiu da
ção significativa observável no comportamento cotidiano do
hipótese de que, se se verificassem cinco condições de atitudes
cliente em direção a uma maior maturidade. Nas situações em
na relação, podia ocorrer no cliente uma mudança terapêutica.
que o terapeuta sente que houve um pequeno progresso, ou
Para pesquisar esse problema, Barret-Lennard elaborou um
mesmo nenhum, na terapia, observa-se então uma deterioração
"Inventário de Relações" com diferentes formas para o cliente e
do comportamento no sentido de uma maior imaturidade. Esta
304 _____ Tornar-se pessoa
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia 305

para o terapeuta, adequado à análise de cinco dimensões da


Para medir o caráter incondicional da aceitação que o tera-
relação. Até agora, ele analisou apenas os elementos fornecidos
peuta manifesta ou o grau de profundidade da estima do terapeu-
pela percepção da relação por parte do cliente e são os resulta-
ta, foram incluídos itens com as seguintes formulações:
dos a que chegou sob este aspecto que vou relatar.
Numa série de casos recentes, nos quais sabia que iria obter
Quer eu esteja manifestando "bons" sentimentos ou "maus"
diversas medidas objetivas do grau de alteração, Barret-Lennard
sentimentos, isso parece não fazer diferença no que ele sente por
deu seu Inventário de Relações a cada cliente depois da quinta
mlm.
entrevista. A fim de sugerir melhor o caráter desse estudo, vou Às vezes reponde-me de um modo mais positivo e mais ami-
citar alguns dos itens referentes a cada uma das variáveis. gável do que em outras.
Barret-Lennard estava, por exemplo, interessado em saber Seu interesse por mim depende daquilo de que estou falando
em que medida o cliente se sentia empaticamente compreendi- com ele.
do. Então incluiu itens tais como os expostos abaixo, em que o
cliente avaliava o terapeuta segundo uma escala de seis graus Com o objetivo de medir a congruência ou a autenticidade
que ia do muito verdadeiro ao extremamente não-verdadeiro. É do terapeuta na relação, recorreu-se a asserções deste tipo:
evidente que os itens a seguir representam diferentes graus da
compreensão empática. Comporta-se precisamente como é, na nossa relação.
Finge que gosta de mim ou que me compreende mais do que
Ele aprecia o que minha experiência quer dizer para mim. realmente o faz.
Ele tenta ver as coisas através dos meus olhos. Às vezes, sua resposta exterior é muito diferente da sua rea-
Às vezes, ele pensa que eu sinto de determinada maneira por-
ção interior em relação a mim.
que ele sente dessa maneira. Está representando um papel comigo.
Ele compreende o que eu digo de um ponto de vista distante,
objetivo.
Ele compreende as minhas palavras, mas não aquilo que sinto. Barret-Lennard quis ao mesmo tempo medir uma outra
variável que julgava importante- a acessibilidade ou a disposi-
Barret-Lennard procurou medir um segundo elemento, o ção do terapeuta a dar-se a conhecer. Para medir este aspecto,
nível de aceitação, o grau da estima do cliente pelo terapeuta. utilizou itens como os seguintes:
Para a análise desse aspecto, estabeleceu asserções como as se-
guintes, classificadas novamente, desde extremamente verda- Ele sempre me conta livremente seus próprios sentimentos e
deira até extremamente não-verdadeira. pensamentos quando quero saber quais são.
Sente-se pouco à vontade quando lhe pergunto alguma coisa
Preocupa-se comigo. sobre si próprio.
Interessa-se por mim. É incapaz de me dizer o que sente a meu respeito.
Tem curiosidade em ver "como é que eu funciono", mas não
está realmente interessado em mim como pessoa. Alguns dos seus resultados são interessantes. O mais expe-
É indiferente em relação a mim.
riente dos seus terapeutas era visto como tendo as primeiras
Desaprova-me.
quatro qualidades num grau mais elevado do que os terapeutas
306 _ _ _ _ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia _ _307

menos experientes. Mas, na "disposição a dar-se a conhecer", o É mais do que curioso que as qualidades da relação que se
inverso é que era verdade. acham associadas ao progresso terapêutico sejam todas referen-
Entre os clientes mais perturbados, as primeiras quatro tes a atitudes. Embora se possa vir a verificar que o grau de
medidas apresentam todas uma correlação significativa com o conhecimentos profissionais, ou a competência e as técnicas,
grau de modificação avaliado pelo terapeuta. A compreensão também se encontra associado à modificação da personalidade,
empática encontra-se significativamente associada com a mo- este estudo mostra a possibilidade animadora de que determi-
dificação, mas a autenticidade, o nível de aceitação, a aceitação nadas qualidades de atitudes e da vivência possam por si mes-
incondicional também se associam com a terapia bem-sucedi- mas, independentemente dos conhecimentos intelectuais ou do
da. A disposição a Jar-se a conhecer não se mostrava associada treino médico ou psicológico, ser suficientes para servir de estí-
de maneira significativa. mulo a um processo terapêutico positivo.
Podemos afirmar, portanto, com alguma segurança, que Essa investigação é ainda pioneira sob um outro aspecto.
uma relação caracterizada por um elevado grau de congruência Foi uma das primeiras explicitamente planejadas para estudar
ou de autenticidade do terapeuta, por uma empatia sensível e os elementos da psicoterapia que causavam ou provocavam as
precisa por parte do terapeuta, por um elevado grau de aceita- alterações. Sob esse aspecto, a teoria fez os suficientes progres-
ção, de respeito, de estima em relação ao cliente, e pela ausên- sos, bem como o aperfeiçoamento metodológico, de modo que
cia de condições limitativas dessa aceitação revela uma elevada podemos esperar um número crescente de estudos sobre a dinâ-
probabilidade de se tomar uma relação terapêutica eficaz. Estas mica das modificações da personalidade. Com o tempo, sere-
qualidades manifestam-se como as influências mais importan- mos capazes de distinguir e de medir as condições que causam
tes que provocam as modificações da personalidade e do com- ou que provocam as alterações positivas na personalidade e no
portamento. A conclusão que se pode tirar legitimamente deste comportamento.
e de outros estudos do mesmo tipo é que essas qualidades po-
dem ser medidas ou observadas em pequenas amostragens da Algumas investigações correntes
interação, relativamente cedo na relação, e que se pode mesmo
As investigações no domínio da psicoterapia conhecem uma
prever o resultado final dessa relação.
notável expansão nos Estados Unidos. Mesmo o grupo psicana-
Esse estudo é um exemplo dos mais recentes trabalhos que
lítico começa a abordar uma série de estudos objetivos sobre o
se propõem como objetivo testar os aspectos mais sutis da teo-
processo da terapia analítica. Seria, portanto, impossível pre-
ria da terapia centrada no cliente. Deve-se notar que esse estudo
tender traçar o quadro completo do que hoje se faz neste cam-
não discute fatos técnicos ou conceituações, mas atém-se antes
po, cuja configuração é tão complexa e tão rapidamente mutá-
a qualidades experienciais e atitudinais intangíveis. Na minha
vel. Vou me limitar a dar um ligeiro esboço de vários projetos
opinião, a investigação em psicoterapia teve de percorrer um
de investigações e de programas de estudo referentes à terapia
longo caminho para se tomar capaz de investigar esses elemen-
centrada no cliente que conheço de perto.
tos intangíveis. A demonstração positiva em relação a quatro
das variáveis e a ausência de prova em relação à quinta é para Está sendo realizado um estudo na Universidade de Chica-
mim uma indicação de que podem ser obtidos resultados discri- go, sob a direção do Dr. John Shlien, que pretende investigar as
minativos e utilizáveis de estudos realizados neste nível. alterações que ocorrem numa terapia de duração limitada e
308 ___ Tornar-se pessoa A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___3_0_9

compara essas alterações com as que ocorrem na terapia habi- parte da investigação comporta o registro do reflexo psicogal-
tual, sem limite de tempo. Na terapia de duração limitada, o vânico (RPG), da temperatura e do pulso do cliente durante a
cliente dispõe de um número preciso de entrevistas (vinte na sessão de terapia. A comparação desses dados com as entrevis-
maior parte dos casos, quarenta em alguns) e o processo tera- tas gravadas talvez nos forneçam uma informação mais rica
pêutico termina no fim desse período. O objetivo desse estudo sobre a natureza fundamentalmente psicofisiológica do proces-
consiste em analisar, por um lado, a maneira como o cliente uti- so de modificação da personalidade.
liza o tempo que lhe é concedido e, por outro, a possibilidade de Um projeto mais restrito, em que trabalham vários indiví-
abreviar o período da terapia. Este programa deverá estar com- duos, envolve o estudo objetivo do processo da psicoterapia.
pleto num futuro não muito distante. Num artigo recente (7), formulei um quadro teórico, baseado na
observação, da seqüência irregular das fases do processo psicote-
Outro estudo estreitamente ligado ao anterior é uma inves-
rapêutico. Estamos atualmente empenhados na tradução desta
tigação sobre a terapia adleriana de duração limitada. Com a
descrição teórica em termos de uma escala operacional que possa
colaboração ativa do Dr. Rudolph Dreikurs e dos seus colegas,
ser utilizada no estudo de entrevistas terapêuticas gravadas. Estão
o Dr. Shlien empreendeu um estudo exatamente paralelo ao an-
em curso estudos relacionados com a validade e a fidedignidade
terior. Se o programa se realizar conforme as previsões, esse es-
dessa escala.
tudo provará que pode haver uma comparação direta de duas Deve-se citar ainda um outro programa da Universidade de
terapias nitidamente divergentes - a de Adler e a centrada no Wisconsin, em que o Dr. Eugene Gendlin e eu somos os princi-
cliente - nas quais são aplicadas as mesmas baterias de testes pais investigadores e que tem como objetivo uma comparação
antes e depois da terapia, ambas têm a mesma duração e todas do processo da psicoterapia em pacientes esquizofrênicos (tanto
as entrevistas são gravadas. Esta investigação constitui um agudos como crônicos) com a psicoterapia em indivíduos nor-
marco e ampliará grandemente nossos conhecimentos dos ele- mais. Cada terapeuta que participa no projeto atenderá três
mentos comuns e dos elementos divergentes nas diferentes for- clientes de cada vez, com a mesma idade, do mesmo sexo e
mas do processo terapêutico. com idêntica situação socioeconômica: um esquizofrênico crô-
Os Drs. Desmond Cartwright, Donald Fiske, William Kirt- nico, um esquizofrênico agudo e um indivíduo "normalmente"
ner e outros estão conduzindo na Universidade de Chicago uma adaptado à comunidade. Graças à variedade dos testes aplica-
outra investigação. Procuram investigar, numa base excepcio- dos antes e depois do tratamento, e às entrevistas gravadas, es-
nalmente ampla, muitos dos fatores que podem ser associados pera-se que esse estudo chegue a resultados muitos interessan-
às alterações terapêuticas. É uma tentativa muito ampla para tes. Esta análise impele a demonstração das hipóteses da terapia
investigar muito desses elementos que até agora não foram con- centrada no cliente para um novo domínio, o do indivíduo psi-
siderados e que, no entanto, podem estar relacionados com o cótico hospitalizado. Uma parte fundamental da hipótese em
progresso ou a ausência de progresso na terapia. que se assenta esse estudo é que, dadas as necessárias condições
Na Universidade de Wisconsin, os Drs. Robert Roessler, da terapia (tais como são descritas no estudo de Barret-Lennard),
Norman Greenfield, Jerome Berlim e eu empreendemos um o processo de alteração revelar-se-á idêntico, tanto no indivíduo
programa diversificado de estudos que, segundo se espera, le- esquizofrênico como no indivíduo normal.
vará, entre outras coisas, ao esclarecimento dos corolários fi- Confio em que essas descrições resumidas sejam suficien-
siológicos e autonômicos da terapia centrada no cliente. Uma tes para indicar o volume das investigações objetivas sugeridas
310 _ _ _ Tornar-se pessoa
A observação dos fatos: o papel da investigação em psicoterapia ___3_1_1_

pela prática e pela teoria da terapia centrada no cliente, sempre Poderia terminar aqui, mas gostaria de acrescentar uma
em processo contínuo de crescimento e de diferenciação. palavra dirigida àqueles que se horrorizam por ver investigar
um domínio pessoal tão delicado e inacessível como o é a psi-
coterapia. Essas pessoas podem julgar que submeter uma rela-
O significado da investigação para o futuro
ção tão íntima a uma observação objetiva é o mesmo quedes-
personalizá-la, despojá-la das suas qualidades essenciais, redu-
Ao concluir este capítulo, gostaria de comentar uma ques-
zi-la a um frio sistema de fatos. Gostaria simplesmente de assi-
tão freqüentemente levantada: "Aonde é que isso leva? Qual é o
fim de todas essas investigações?". nalar que, até agora, não foi esse o resultado da investigação.
Na minha opinião, o significado mais importante das in- Pelo contrário. À medida que a investigação foi se ampliando,
vestigações é que um corpo cada vez maior de conhecimentos tornou-se cada vez mais evidente que as alterações significati-
objetivamente verificados em psicoterapia levará à eliminação vas no cliente se operam ao nível de experiências eminente-
das "escolas" de psicoterapia, incluindo a que nós representa- mente subjetivas e delicadas, tais como opções interiores, uma
mos. À medida que aumentam os conhecimentos sólidos sobre maior unidade da personalidade total, um sentimento diferente
as condições que facilitam a mudança terapêutica, sobre a natu- em relação ao seu próprio eu. Em relação ao terapeuta, ressalta
reza do processo psicoterapêutico, sobre as condições que blo- de vários estudos recentes que, quanto mais ele for caloroso e
queiam ou inibem a terapia, sobre os efeitos característicos da sinceramente humano como terapeuta, interessado apenas na
terapia em termos de modificação da personalidade ou do com- compreensão momento a momento dos sentimentos de uma
portamento, acentuar-se-ão muito menos as formulações pura- pessoa que iniciou uma relação com ele, mais será um profis-
mente teóricas e dogmáticas. As opiniões diferentes, as técnicas sional eficaz. Não há certamente nada que indique que um tera-
psicoterapêuticas divergentes, as apreciações diversas sobre os peuta friamente intelectual, sistemático e analítico seja eficaz.
efeitos, tudo isso estaria submetido a uma prova experimental Parece ser um dos paradoxos da psicoterapia que, para avançar
em vez de estar entregue a debates ou argumentos teóricos. na nossa compreensão neste domínio, se exija do indivíduo o
Na medicina atual, por exemplo, não encontramos uma "es- abandono das suas crenças mais apaixonadas e das suas convic-
cola de tratamento com penicilina" oposta a outras escolas de tra- ções mais firmes em favor dos testes impessoais da investiga-
tamento. Existem diferenças de opinião ou de apreciação, sem ção empírica; mas, para ser eficaz como terapeuta, o indivíduo
dúvida nenhuma; mas acredita-se que isso se resolverá num futu- tem de utilizar esse conhecimento apenas para enriquecer e
ro previsível, graças a uma investigação cuidadosamente planeja- ampliar o seu próprio eu subjetivo e tem de ser esse eu, livre-
da. Precisamente por isso, creio que a psicoterapia se dirigirá
mente e sem receio, nas relações com seu cliente.
progressivamente para os fatos, em vez de dogmas, como juiz de
divergências.
Ao mesmo tempo, caminharemos para o desenvolvimento
Referências bibliográficas
de uma psicoterapia cada vez mais eficaz e num estado perma-
nente de evolução, que não precisará de nenhum rótulo, mas 1. Barrett-Lennard, G. T.- "Dimensions ofthe clientes experien-
que incluirá tudo o que é suscetível de uma verificação fatual ce ofhis therapist associated with personality change", tese de douto-
em qualquer das orientações em psicoterapia. ramento inédita, Universidade de Chicago, 1959.
312
- - - - - -
_Tornar-se pessoa

2. Bergman, D. V.- "Counseling method and client responses",


J. Consult. Psychol., 1951, 15, pp. 216-224.
Sexta Parte
3. Butler, J. M., e G. V. Haigh- "Changes in the relation bet- Quais são as implicações
ween self-concepts and ideal concepts consequent upon client-cente-
red counseling", C. R. Rogers, e Rosalind F. Dymond (eds.), Psy- para a vida?
chotherapy and Personality Change, University of Chicago Press,
1954, pp. 55-75. Descobri na experiência da psicoterapia im-
4. Cartwright, Desmond S.- "Annotated bibliography of research plicações significativas e por ~ezes_ p~ofundas
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5. Raskin, N. J.- "An objective study ofthe locus-of-evaluation tivo.
factor in psychotherapy", W. Wolff, e J. A. Precker (eds.), Success in
Psychotherapy, Nova York, Grune and Stratton, 1952, cap. 6.
6. Rogers, C. R.- "Changes in the maturity ofbehavior as rela-
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7. Rogers, C. R. - "A process conception of psychotherapy",
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8. Rogers C. R., e Dymond, R. F. (eds.)- Psychotherapy and
Personality Change, University ofChicago Press, 1954,447 pp.
9. Seeman, J., e N. J. Raskin- "Research perspectives in client
centered therapy", O. H. Mowrer (ed.), Psychotherapy: theory and
research, Nova York, Ronald, 1953, pp. 205-234.
10. Stephenson, W. - The Study of Behavior, University of
Chicago Press, 1953.
11. Thetford, William N. - "An objective measurement of frus-
tration tolerance in evaluating psychotherapy", W. Wolff, e J. A.
Precker (eds.), Success in Psychotherapy, Nova York, Grune and
Stratton, 1952, cap. 2.
Capítulo 13
Reflexões pessoais sobre ensino
e aprendizagem

Este capítulo é o mais curto deste livro, mas, se minha ex-


periência pode servir de critério, será igualmente o mais explo-
sivo. Ele tem (para mim) uma história divertida.
Eu tinha aceitado, com alguns meses de antecedência,
participar de uma reunião de estudo organizada pela Univer-
sidade de Harvard sobre o seguinte tema: "Perspectivas sobre
a influência das aulas no comportamento humano ". Tinham-
me pedido para fazer uma demonstração do "ensino centrado no
aluno " - ensino fundamentado nos princípios terapêuticos que
eu procurava aplicar à educação. Parecia-me, no entanto, que
gastar duas horas com um grupo já adiantado de alunos para
tentar ajudá-los a formular os seus próprios objetivos e respon-
der ao que eles pensavam, acompanhando-os nesse intento,
seria bastante artificial e pouco satisfatório. Não sabia o que
fazer ou apresentar.
Nessa conjuntura, parti para o México para uma das nossas
viagens de inverno, pintei, escrevi e tirei fotografias, mergulhan-
do ao mesmo tempo nas obras de Soeren Kierkegaard. Tenho
certeza de que o esforço honesto deste autor para chamar as coi-
sas pelo seu nome me influenciou mais do que eu pensava.
Quando estava prestes a regressar, tive de enfrentar a mi-
nha obrigação. Lembrei-me de que conseguira por vezes iniciar
316 __ _ Tornar-se pessoa 317
Quais são as implicações para a vida? _ - - - - - - - -

durante as aulas discussões verdadeiramente significativas, ex- pressa algumas perspectivas pessoais. Não pedia, nem espera-
primindo uma opinião pessoal e tentando depois compreender va, que os outros concordassem comigo. Depois de muito baru-
e aceitar as reações e os sentimentos muitas vezes extremamen- lho, os membros do grupo começaram a exprimir, com uma
te divergentes dos estudos. Pensei que seria esta a forma de le- franqueza crescente, seus próprios sentimentos significativos
var a cabo a minha tarefa em Harvard. com relação ao ensino - sentimentos muito divergentes dos
Pus-me então a escrever, da maneira mais séria que me era meus e divergentes entre si. Foi uma sessão extremamente esti-
possível, as minhas experiências em relação ao ensino, tal como mulante para a reflexão. Pergunto se algum dos participantes
este termo é definido nos dicionários, bem como a minha expe- dessa reunião conseguiu esquecê-la.
riência com a aprendizagem. Estava muito longe dos psicólogos, O comentário mais significativo partiu de um dos partici-
dos pedagogos e de colegas cautelosos. Escrevia simplesmente o pantes da reunião, na manhã seguinte, quando me preparava
que sentia, com a certeza de que, se não o estivesse fazendo cor- para deixar a cidade. Disse-me só o seguinte: "T-ócê ontem tirou
retamente, a discussão me ajudaria a voltar ao caminho certo. o sono de muita gente".
É possível que houvesse ingenuidade da minha parte, mas Não fiz qualquer tentativa para publicar esse curto frag-
não considerava o material assim preparado inflamável. E de- mento. Meus pontos de vista sobre a psicoterapia já tinham foi to
pois, pensava eu, todos os participantes na reunião de estudo de mim uma "figura controversa " entre psicólogos e psiquiatras.
eram cultos, professores habituados à autocrítica, ligados por Não queria acrescentar os educadores a essa lista. O texto foi, no
um interesse comum pelos métodos de discussão nas aulas. entanto, amplamente divulgado entre os participantes da reunião
Quando cheguei à reunião, apresentei minhas idéias tal co- e, alguns anos mais tarde, duas revistas pediram autorização
mo as tinha escrito, gastando nisso apenas alguns momentos, e para publicá-lo.
declarei aberta a discussão. Aguardava uma resposta, mas não Depois destes fundamentos históricos, talvez fiquem desa-
estava à espera do tumulto que se seguiu. A emoção era intensa. pontados com o texto. Pessoalmente, nunca pensei que fosse in-
Parecia que eu lhes estava ameaçando o emprego, que estava, cendiário. Ele continua a traduzir alguns dos meus mais arrai-
evidentemente, dizendo coisas cujo sentido me escapava, etc., gados pontos de vista no campo da educação.
etc. De vez em quando, surgia uma voz calma de apreciação de
um professor que sentia o mesmo, mas que nunca ousara formu- Pretendo apresentar algumas breves observações, na espe-
lá-lo. rança de que, se provocarem reações de sua parte, eu possa cla-
Parecia que nenhum dos membros do grupo se lembrava rificar minhas próprias idéias.
de que a reunião consistia numa demonstração do ensino cen- Acho que pensar é uma coisa embaraçosa, particularmente
trado no estudante. Tenho, no entanto, a esperança de que, ao quando penso nas minhas próprias experiências e procuro extrair
reconsiderarem o que se passou, cada um compreenderá que delas a significação que parece ser genuinamente inerente a elas.
viveu uma experiência do ensino centrado no aluno. Recusei A princípio, estas reflexões são bastantes satisfatórias porque
defender-me com respostas às perguntas e aos ataques que sur- parecem levar à descoberta de um sentido e de uma certa estrutu-
giam de toda a sala. Procurei aceitar e entrar num contato em- ra num todo complexo de elementos isolados. Mas, depois, fre-
pático com a indignação, a frustração, as críticas que os parti- qüentemente isso se torna desanimador porque compreendo co-
cipantes manifestavam. Acentuei que tinha simplesmente ex- mo essas reflexões, que têm para mim tanto valor, parecem ridí-
318 ______ Tornar-se pessoa Quais são as implicações para a vida? __ 319

cuias a muita gente. Tenho a impressão de que, quase sempre, ensinar, e os resultados disso não têm conseqüências. Animou-
quando tento descobrir o significado da minha própria experiên- me recentemente descobrir que Soeren Kierkegaard, o filósofo
cia, me vejo levado a conclusões consideradas absurdas. dinamarquês, chegara a uma conclusão idêntica, partindo da
Procurarei por conseguinte condensar, em três ou quatro sua própria experiência, e a exprimira com toda a clareza há cer-
minutos, aquilo que extraí da experiência das aulas e da expe- ca de um século. Parece portanto menos absurdo.
riência na terapia individual ou de grupo. O resultado não pro- f) Como conseqüência do que se disse no parágrafo ante-
cura ser uma conclusão seja para quem for ou um guia para o rior, compreendi que tinha perdido o interesse em ser professor.
que os outros deveriam ser ou fazer. Trata-se de uma expressão g) Quando tento ensinar, como faço às vezes, fico conster-
muito provisória do significado que, em abril de 1952, minha nado pelos resultados, que me parecem praticamente inconse-
experiência tinha para mim e algumas das questões perturbado- qüentes, porque, por vezes, o ensino parece ser bem-sucedido.
ras levantadas pelo seu caráter absurdo. Vou formular cada uma Quando isso acontece, verifico que os resultados são prejudi-
das idéias a que cheguei num parágrafo separado, não porque se ciais, parecem levar o indivíduo a desconfiar da sua própria ex-
alinhem segundo uma ordem lógica qualquer, mas porque cada periência e isso destrói uma aquisição de conhecimentos que
resultado tem uma importância que lhe é específica. seja significativa. Por isso, sinto que os resultados do ensino ou
a) Posso tomar como ponto de partida a seguinte idéia, não têm importância ou são perniciosos.
dado o objetivo desta reunião. Segundo minha experiência, não h) Quando considero os resultados do meu ensino passado,
posso ensinar a outra pessoa a maneira de ensinar. Trata-se de a conclusão real parece ser a mesma- ou foi prejudicial ou nada
uma tentativa que é, para mim, a longo prazo, vã. de significativo ocorreu. Isto é francamente aflitivo.
b) Creio que aquilo que se pode ensinar a outra pessoa não
i) Por conseguinte, compreendi que estava unicamente in-
tem grandes conseqüências, com pouca ou nenhuma influência
teressado em ser um aluno, de preferência em matérias que te-
significativa sobre o comportamento. Isto parece ato ridículo que
nham qualquer influência significativa sobre o meu próprio
não posso deixar de colocá-lo em dúvida ao mesmo tempo que o
comportamento.
estou formulando. j) Sinto que é extremamente compensador aprender, em
c) Compreendo cada vez melhor que apenas estou interes- grupo, nas relações com outra pessoa, como na terapia, ou por
sado nas aprendizagens que tenham uma influência significati-
mim mesmo.
va sobre o comportamento. É muito possível que se trate unica-
k) Julgo que, para mim, uma das melhores maneiras, mas
mente de uma idiossincrasia pessoal. das mais difíceis, de aprender é abandonar minhas defosas,
d) Sinto que o único aprendizado que influencia significa-
pelo menos temporariamente, e tentar compreender como é que
tivamente o comportamento é o aprendizado autodescoberto,
a outra pessoa encara e sente a sua própria experiência.
auto-apropriado.
1) Para mim, uma outra forma de aprender é confossar mi-
e) Um conhecimento autodescoberto, essa verdade que foi
nhas próprias dúvidas, procurar esclarecer meus enigmas, a fim
pessoalmente apropriada e assimilada na experiência, não pode
de compreender melhor o significado real da minha experiência.
ser comunicada diretamente a outra pessoa. Assim que um
m) Toda essa série de experiências e de conclusões a que
indivíduo tenta comunicar essa experiência diretamente, muitas cheguei lançaram-me num processo que tanto é fascinante co-
vezes com um entusiasmo absolutamente natural, começa a mo, por vezes, aterrorizador. Ou seja, parece indicar que devo
320 _______ Tornar-se pessoa
Capítulo 14
me deixar levar por minha experiência numa direção que me
parece positiva, para objetivos que posso definir obscuramente, A aprendizagem significativa:
quando procuro compreender pelo menos o significado normal na terapia e na educação
dessa experiência. Isto dá a sensação de flutuar numa corrente
complexa de experiência, com a possibilidade fascinante de com-
preender a complexidade das suas constantes alterações.

Receio ter-me afastado do problema em discussão: apren-


der e ensinar. Permitam-me que volte a introduzir uma observa-
ção prática, declarando que essas interpretações da minha pró-
pria experiência, por si mesmas, podem parecer estranhas e
aberrantes mas não particularmente chocantes. E é no momen-
to em que compreendo suas implicações que estremeço um
O Goddard College, em Plainfield, Vérmont, é uma pequena
pouco ao ver o quanto me afastei do mundo do senso comum
escola experimental que, como complemento dos seus esforços
que, como todos sabem, está certo. Posso ilustrá-lo dizendo que,
se a experiência dos outros for semelhante à minha e se eles tive- para formar seus alunos, organiza freqüentemente conferências
rem chegado a idênticas conclusões, decorrerão deste fato inú- e reuniões de trabalho para educadores onde se debatem impor-
meras conseqüências: tantes problemas. Pediram-me para dirigir uma dessa reuniões
a) Uma tal experiência implicaria que se deveria renunciar de trabalho em fevereiro de 1958 sobre "As Implicações da Psi-
ao ensino. As pessoas teriam de reunir-se se quisessem aprender. coterapia na Educação". Professores e administradores escola-
b) Deveríamos renunciar aos exames. Eles medem apenas res do leste do país, e especialmente da zona da Nova Inglaterra,
o tipo de ensino inconseqüente. abriram caminho através de um espesso manto de neve para pas-
c) Pela mesma razão, deveríamos acabar com notas e cré- sarem três dias juntos, concentrados no trabalho.
ditos. Resolvi tentar reformular alguns pontos de vista meus so-
d) Deveríamos abandonar os diplomas como títulos de com-
bre o ensino e a aprendizagem nessa reunião, esperando seguir
petência, em parte pela mesma razão. Outra reside no fato de um
um caminho que provocasse menos distúrbios do que a apre-
diploma marcar o fim ou a conclusão de algo, e aquele que apren-
de está unicamente interessado em continuar a aprender. sentação do capítulo precedente, mas sem alterar as implica-
e) Uma outra implicação seria abolir a exposição de con- ções radicais de uma abordagem terapêutica. Este capítulo é o
clusões, pois compreenderíamos que ninguém aprende nada de resultado dessa resolução. Para aqueles que conhecem a Segun-
significativo a partir de conclusões. da Parte deste livro, as seções sobre "As condições da aprendi-
Julgo que é melhor ficar por aqui. Não quero precipitar-me zagem em psicoterapia" e "O processo de aprendizagem em
no fantástico. O que sobretudo pretendo saber é se algo do meu terapia" serão redundantes e pode ser omitida sua leitura, pois
pensamento interior, tal como tentei descrevê-lo, diz alguma coisa são apenas uma repetição das condições básicas da terapia, co-
à sua experiência docente tal como vocês a viveram e, se assim mo já foram descritas.
for, qual será para vocês o significado dessa sua experiência.
322 _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa 323
Quais são as implicações para a vida? _ _ __

Para mim, este capítulo é a reformulação que mais me Adota objetivos mais realistas.
satisfaz sobre o significado das hipóteses da terapia centrada Comporta-se de uma forma mais amadurecida.
no cliente no domínio da educação. Modifica seus comportamentos desadaptados, mesmo que
se trate de um comportamento há muito estabelecido, como o
O que aqui se apresenta é uma tese, um ponto de vista sobre alcoolismo crônico.
as implicações que a psicoterapia tem para a educação. É uma Aceita mais abertamente os outros.
posição que assumo provisoriamente e com alguma hesitação. Torna-se mais aberta à evidência, tanto no que se passa
Tenho muitas questões por responder sobre essa tese. Mas ela é, fora de si como no seu íntimo.
segundo julgo, clara, e pode portanto oferecer um ponto de par- Modifica suas características básicas de personalidade, de
tida de onde se podem destacar nitidamente as diferenças. uma maneira construtiva 1•
Julgo que isso talvez seja suficiente para indicar que todas
essas são formas de aprendizagem significativas e que levam a
Aprendizagem significativa em psicoterapia mudanças de comportamento.

Começo por dizer que minha longa experiência como tera-


peuta me convenceu de que a aprendizagem significativa é faci- Aprendizagem significativa em educação
litada na psicoterapia e ocorre na relação terapêutica. Por apren-
dizagem significativa entendo aquela que provoca uma modifi- Creio que tenho razão ao afirmar que os educadores estão
cação, quer seja no comportamento do indivíduo, na orientação também interessados em aprendizagens que provoquem altera-
da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua perso- ções. O simples conhecimento dos fatos tem o seu valor. Saber
nalidade. É uma aprendizagem penetrante, que não se limita a quem ganhou a batalha de Poltava ou quando é que foi executa-
um aumento de conhecimentos, mas que penetra profundamen- da pela primeira vez uma determinada obra de Mozart pode
te todas as parcelas da sua existência. render 64 mil dólares ou outra soma qualquer ao possuidor des-
sa informação2 , mas creio que de uma maneira geral os educa-
Mas não se trata apenas de minha impressão subjetiva de
dores se sentiriam um pouco embaraçados perante a idéia de
que uma aprendizagem desse tipo existe. Esta impressão é con-
que a educação se constituiria na aquisição desse tipo de conhe-
firmada pela investigação. Na orientação que me é mais familiar,
cimentos. Isto me faz lembrar a vigorosa expressão de um pro-
a terapia centrada no cliente, onde se fez a maior parte das inves-
fessor de agronomia que tive nos meus primeiros anos de uni-
tigações, sabemos que um contato terapêutico dessa natureza
versidade. Embora os conhecimentos que adquiri nesse curso
conduz a aprendizagens ou a alterações como as que se seguem:
tenham desaparecido completamente, lembro-me no entanto,
A pessoa começa a ver-se de modo diferente.
com a Primeira Guerra Mundial como pano de fundo, que ele
Aceita-se e aceita seus sentimentos de uma maneira mais comparava o conhecimento dos fatos a munições. Esse profes-
total. sor terminava o seu pequeno discurso com a exortação: "Não
Torna-se mais autoconfiante e mais autônoma. sejam um vagão de munições; sejam uma espingarda!". Julgo
Torna-se mais na pessoa que gostaria de ser. que a maior parte dos educadores partilharia da opinião de que
Torna-se mais flexível, menos rígida nas suas percepções. o conhecimento existe principalmente para ser utilizado.
324 Tornar-se pessoa 325
Quais são as implicações para a vida?

Por conseguinte, na medida em que os educadores estão uma aprendizagem significativa (8). Essa teoria vem sendo com-
interessados em aprendizagens que sejam funcionais, que pro- provada em vários dos seus aspectos pela investigação experi-
voquem modificações no comportamento, que penetrem a pes- mental, mas ainda deve ser considerada como uma teoria baseada
soa e suas ações, poderão olhar para o campo da psicoterapia mais na experiência clínica do que em fatos provados. Pro-
em busca de exemplos e de idéias. Uma certa adaptação à edu- curarei descrever resumidamente as condições que parecem es-
cação do processo de aprendizagem que se verifica em psicote- senciais na atitude do terapeuta.
rapia pode oferecer possibilidades favoráveis.
Congruência

As condições da aprendizagem em psicoterapia Para que a terapia tenha êxito, é necessário que o terapeuta
seja, na relação, uma pessoa unificada, integrada ou congruente.
Vejamos, portanto, o que está essencialmente implicado O que quero dizer com isso é que ele deve ser na relação exata-
nas possibilidades da aprendizagem que se registra na terapia. mente aquilo que é- não uma fachada, um papel ou uma ficção.
Gostaria de enumerar, tão claramente quanto possível, as con- Recorri ao termo "congruência" para designar essa combinação
dições que devem estar reunidas para que esse fenômeno possa precisa da vivência com a consciência. Quando o terapeuta está
ocorrer. completa e precisamente consciente do que está vivenciando
num determinado momento da relação, então ele é plenamente
Enfrentando um problema congruente. Quanto menos congruência existir, menos probabi-
lidades existem de ocorrer uma aprendizagem significativa.
O cliente defronta, em primeiro lugar, com uma situação Apesar da real complexidade desse conceito de congruên-
que ele apreende como um problema grave e importante. Pode cia, creio que todos a reconhecemos de um modo intuitivo e
ser que ele descubra que se comporta de uma forma que não natural nos indivíduos com quem tratamos. Reconhecemos
pode controlar, ou que está dominado por confusões e conflitos, num indivíduo que ele não só pretende dizer exatamente aquilo
ou que a sua vida conjugal está se desfazendo, ou que é infeliz que diz, mas que seus sentimentos mais profundos se revelam
no seu trabalho. Resumindo, ele depara com um problema que naquilo que está expressando. Por conseguinte, quando o indi-
tenta resolver e não consegue. Está, portanto, ávido de aprender, víduo está irritado ou é afetuoso, quando está envergonhado ou
embora ao mesmo tempo se sinta receoso com o que possa vir a entusiasmado, sentimos que ele é o mesmo em todos os níveis-
descobrir de perturbador em si mesmo. Desse modo, uma das no que está vivenciando no nível organísmico, no nível da cons-
condições quase sempre presente é um desejo indefinido e am- ciência e nas suas palavras e comunicações. Além disso, reco-
bivalente de aprender ou de se modificar, desejo que provém de nhecemos que aceita seus sentimentos imediatos. Dizemos de
uma dificuldade percebida no encontro com a vida. uma pessoa assim que sabemos "exatamente onde ela está".
Quais são as condições que um indivíduo enfrenta quando Tendemos a nos sentir bem e confiantes numa relação desse
entra em contato com um terapeuta? Tracei recentemente um tipo. Com outra pessoa, reconhecemos que aquilo que ela está
quadro teórico das condições necessárias e suficientes que o dizendo é, quase com certeza, uma defesa ou uma fachada. Per-
terapeuta oferece para que ocorra uma alteração construtiva ou guntamo-nos o que será que ela realmente sente e experimenta
326 Quaissãoasimplicaçõesparaavida? ____ - - · - · - - - - - · 327
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-se pessoa

Uma compreensão empática


por detrás dessa fachada. Também nos perguntamos se ela sabe o
que realmente sente, reconhecendo que pode estar perfeitamen- A quarta condição necessária à terapia é que o terapeuta
te inconsciente do sentimento que está efetivamente vivencian- experimente uma compreensão aguda e empática do mundo do
do. Com uma pessoa desse gênero tendemos a ser cautelosos e cliente, como se fosse visto do interior. Captar o mundo parti-
prudentes. Não é esse o tipo de relação em que se podem elimi- cular do cliente como se fosse o seu próprio mundo, mas sem
nar as defesas ou em que pode ocorrer uma alteração e uma nunca esquecer esse caráter de "como se" - é isso a empatia,
aprendizagem significativas. que surge como essencial no processo terapêutico. Sentir a an-
Logo, a segunda condição da terapia é que o terapeuta se gústia, o receio ou a confusão do cliente como se se tratasse de
caracterize por um considerável grau de congruência na relação. sentimentos seus e, no entanto, sem que a angústia, o receio ou
Ele é livremente, profundamente ele próprio e aceita-se como é, a confusão do terapeuta se misturassem com os do cliente, tal
com a vivência real dos seus sentimentos e das suas reações com- é a condição que estamos tentando descrever. Quando o mundo
binada com uma aguda consciência desses sentimentos e dessas do cliente é claro para o terapeuta, que nele se movimenta à
reações assim que elas ocorrem e se modificam. vontade, nesse caso ele pode comunicar sua compreensão do
que é claramente conhecido pelo cliente e pode igualmente ex-
Consideração positiva incondicional primir significados da experiência do cliente de que este dificil-
mente tem consciência. Que uma empatia penetrante deste tipo
Uma terceira condição é o terapeuta sentir uma calorosa seja importante para a terapia é o que ressalta dos estudos de
preocupação pelo seu cliente- uma preocupação que não é pos- Fiedler onde aspectos como os que abaixo referimos são consi-
sessiva, que não exige qualquer gratificação pessoal. É sim- derados importantes na descrição da relação estabelecida por
plesmente uma atmosfera que demonstra: "Eu me preocupo"; e terapeutas experientes:
não "Eu me preocupo com você se comportar desta ou daquela O terapeuta é capaz de compreender bem os sentimentos
maneira". Standal (11) designou essa atitude como "considera- do paciente.
ção positiva incondicional", pois que não lhe estão agregadas O terapeuta nunca tem dúvidas sobre o que o paciente pre-
condições de apreciação. Empreguei freqüentemente o termo tende dizer.
"aceitação" para descrever esse aspecto do clima terapêutico. As observações do terapeuta ajustam-se exatamente às dis-
Ele implica que se devem aceitar tanto as expressões negativas posições e atitudes do paciente.
do cliente, os sentimentos "maus", de desgosto, de medo ou de O tom de voz do terapeuta mostra a sua perfeita capacida-
anormalidade, como as suas expressões de sentimentos "bons", de para partilhar dos sentimentos do paciente (3).
positivos, maduros, confiantes e sociais. A aceitação implica
que se veja o cliente como uma pessoa independente, permitin- A quinta condição
do-lhe experimentar os seus próprios sentimentos e descobrir o
que a sua experiência significa. É na medida em que o terapeuta Uma quinta condição para que se dê uma aprendizagem
pode garantir esse clima de segurança e de consideração positi- significativa em terapia é a de que o cliente experimente ou
va incondicional que pode surgir no cliente uma aprendizagem apreenda algo da congruência, aceitação e empatia do terapeu-
ta. Não basta que essas condições existam no terapeuta. É
significativa.
328 ______ Tornar-se pessoa Quais são as implicações para a vida? _ __ _ _ _ ---·· __ 329

necessário que, num certo grau, tenham sido comunicadas com estudar as condições que a tornam possível. Por isso vou con-
êxito ao cliente. cluir rapidamente essa descrição da terapia, dizendo que é um
tipo de aprendizagem significativa que ocorre quando cinco con-
dições estão reunidas:
O processo de aprendizagem em terapia O cliente sente-se confrontado com um problema sério e
significativo.
Nossa experiência ensina-nos que, quando essas cinco con- O terapeuta é uma pessoa congruente na relação, capaz de
dições existem, ocorre inevitavelmente um processo de altera- ser a pessoa que é.
ção. As percepções rígidas de si mesmo e dos outros, por parte do O terapeuta sente uma consideração positiva incondicional
cliente, distendem-se e abrem-se à realidade. As formas rígidas em relação ao seu cliente.
com que ele construía a significação da sua experiência são ana- O terapeuta sente uma compreensão empática aguda do
lisadas, e ele se descobre questionando muitos dos "fatos" da sua mundo privado do cliente e comunica-lhe essa compreensão.
vida, descobrindo que são "fatos" unicamente porque ele assim O cliente apreende num grau maior ou menor a congruên-
os considerou. Descobre sentimentos de que não tinha consciên- cia, a aceitação e a empatia do terapeuta.
cia e experimenta-os, muitas vezes de uma maneira viva, durante
a relação terapêutica. Aprende desse modo a estar mais aberto à
sua experiência integral - tanto no que lhe é interior como exte-
Implicações no domínio da educação
rior. Ele aprende a ser mais a sua experiência, a ser os seus senti-
mentos, tanto os sentimentos que considerava temíveis como os
Qual é o significado dessas condições aplicadas à educa-
que qualificava como mais aceitáveis. Torna-se uma pessoa mais
ção? Sem dúvida que um professor daria uma resposta melhor
flexível, mais modificável, mais capaz de aprender.
do que a minha, a partir da sua própria experiência. Sugiro, no
O principal motivo da alteração entanto, algumas dessas implicações.

No processo terapêutico não é necessário que o terapeuta O contato com os problemas


"motive" o cliente ou forneça a energia que provoca a alteração.
Em certo sentido, a motivação tampouco vem do cliente, pelo Em primeiro lugar, pode dizer-se que se verifica mais fa-
menos de uma forma consciente. Digamos antes que a motiva- cilmente uma aprendizagem significativa quando as situações
ção para a aprendizagem e para a mudança deriva da tendência são percebidas como problemáticas. Julgo ter provas para sus-
auto-realizadora da própria vida, da tendência do organismo tentar esta afirmação. Nas minhas diversas tentativas para diri-
para percorrer os diferentes canais de desenvolvimento poten- gir cursos e grupos segundo formas coerentes com a minha
cial, na medida em que estes podem ser experimentados como experiência terapêutica, descobri que tal abordagem era mais
favorecendo o crescimento. eficaz, creio eu, em workshops do que em cursos normais, em
Poderia prolongar-me bastante sobre esse tema, mas meu cursos de extensão do que em cursos magistrais. Os indivíduos
objetivo não é focar o processo da terapia e a aprendizagem que que participam de workshops ou de cursos de extensão são
dele decorre, nem a motivação dessa aprendizagem, mas antes aqueles que estão em contato com problemas que eles reconhe-
330_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tornar-sepessoa
_ 331
Quais são as implicações para a vida? ___ ~- __

cem como problemas. O estudante que segue um curso univer- A autenticidade do professor
sitário normal, de modo particular as aulas obrigatórias, está
preparado para encarar o curso como uma experiência em que A aprendizagem pode ser facilitada, segundo parece, se o
sua expectativa é manter-se passivo ou cheio de ressentimento, professor for congruente. Isso implica que o professor seja a
ou as duas coisas ao mesmo tempo, uma experiência cuja liga- pessoa que é e que tenha uma consciência plena das atitudes
ção com os seus próprios problemas ele muitas vezes não vê. que assume. A congruência significa que ele aceita seus senti-
No entanto, minha experiência mostrou-me igualmente que, mentos reais. Toma-se então uma pessoa real nas relações com
quando uma turma normal da universidade encara o seu curso seus alunos. Pode mostrar-se entusiasmado com assuntos de
como uma experiência que pode utilizar para resolver problemas que gosta e aborrecido com aqueles pelos quais não tem predi-
que os afetam, é espantoso o sentimento de alívio e o progresso leção. Pode irritar-se, mas é igualmente capaz de ser sensível ou
que se consegue. E isto é verdade para cursos tão diferentes como simpático. Porque aceita esses sentimentos como seus, não tem
a Matemática ou a Psicologia da Personalidade. necessidade de impô-los aos seus alunos, nem insiste para que
Julgo que a atual situação da educação na Rússia confirma estes reajam da mesma forma. O professor é uma pessoa, não a
esse ponto de vista. Quando uma nação inteira verifica ter de encarnação abstrata de uma exigência curricular ou um canal
enfrentar o problema urgente do seu atraso -na agricultura, na estéril através do qual o saber passa de geração em geração.
produção industrial, no desenvolvimento científico e no pro- Posso sugerir apenas uma prova que confirma esse ponto de
gresso dos armamentos - dá-se um espantoso incremento da vista. Quando penso nos professores que facilitaram a minha
aprendizagem significativa, de que os Sputniks são um exemplo própria aprendizagem, parece-me que cada um deles possuía
palpável. essa qualidade de ser uma pessoa autêntica. Pergunto se a memó-
Por conseguinte, a primeira implicação no domínio da edu- ria de vocês não dirá o mesmo. Se assim for, talvez importe me-
cação poderia ser a de permitir ao aluno, seja em que nível do nos que o professor cumpra todo o programa estabelecido ou uti-
ensino for, estabelecer um real contato com os problemas im- lize os métodos audiovisuais mais apropriados; o que mais im-
portantes da sua existência, de modo a distinguir os problemas porta é que ele seja congruente, autêntico nas suas relações com
e as questões que pretende resolver. Tenho perfeita consciência os alunos.
de que esta implicação, como outras que irei mencionar, vão no
Aceitação e compreensão
sentido contrário às atuais correntes da nossa cultura, mas co-
mentarei esse aspecto posteriormente. Uma outra conseqüência para o professor é que a aprendi-
Creio que ficou bem claro desta minha descrição da tera- zagem significativa é possível se o professor for capaz de acei-
pia que uma importante implicação para a educação seria que a tar o aluno tal como ele é e de compreender os sentimentos que
tarefa do professor fosse criar um clima nas aulas que facilitas- ele manifesta. Retomando as condições terceira e quarta da
se a ocorrência de uma aprendizagem significativa. Esta impli- terapia que especificamos, o professor que é capaz de uma acei-
cação geral pode desdobrar-se em várias subseções. tação calorosa, que pode ter uma consideração positiva incondi-
cional e entrar numa relação de empatia com as reações de
medo, de expectativa e de desânimo que estão presentes quando
se enfrenta uma nova matéria, terá feito muitíssimo para estabe-
332 ___ Tornar-se pessoa Quais são as implicações para a vida? 333

lecer as condições da aprendizagem. Clark Moustakas, no seu um meio. Se o professor adotasse o ponto de vista que venho
livro The Teacher and the Child (5), oferece um grande número tratando, ele quereria provavelmente pôr-se à disposição da tur-
de exemplos de situações individuais e de grupo, desde o jar- ma, pelo menos das seguintes maneiras:
dim-de-infância até o ensino superior, onde o professor se es- O professor procuraria permitir aos alunos conhecerem a
força por atingir esse tipo de objetivos. Talvez alguns se sintam experiência específica e os conhecimentos que possui num de-
perturbados pelo fato de o professor assumir essas atitudes, terminado domínio, possibilitando-lhes o recurso à sua compe-
procurando aceitar os sentimentos dos estudantes, não apenas tência. Não gostaria, porém, que eles se sentissem obrigados a
nas reações em relação ao trabalho escolar, mas nas atitudes utilizá-lo desse modo.
perante os pais, nos sentimentos de ódio em relação aos irmãos Desejaria que eles soubessem que sua própria forma de
e irmãs, em relação a si próprios - em toda a espécie de atitu- pensar sobre esse campo, de organizá-lo, estaria à sua disposi-
des. Têm esses sentimentos e essas atitudes o direito de existir ção, mesmo através de uma exposição oral, se o desejassem. Gos-
abertamente num estabelecimento escolar? Minha tese é que taria que isso fosse considerado uma oferta, que tanto pode ser
sim. Estão relacionados com a evolução da pessoa, com sua aceita como recusada.
aprendizagem eficaz e seu funcionamento efetivo, e tratar esses Procuraria tomar-se conhecido como um provedor de
sentimentos de uma maneira compreensiva e receptiva tem uma recursos. O professor estaria disposto a considerar as possibili-
forte ligação com a aprendizagem da geografia do Paquistão ou dades de conseguir, como fonte de referência, qualquer infor-
com o processo de fazer uma longa divisão. mação que um indivíduo ou todo o grupo seriamente pretendes-
se para aumentar seus conhecimentos.
Os recursos disponíveis Ele procuraria fazer com que a qualidade da sua relação
com o grupo fosse tal que seus sentimentos estivessem à dispo-
O aspecto anterior leva-me a uma outra implicação da tera- sição de todos, sem os impor e sem se tomarem uma influência
pia no domínio da educação. Na terapia, os recursos para que restritiva. Poderia assim compartilhar o entusiasmo e a excita-
alguém aprenda como é são-lhe interiores. Poucos são os ele- ção da sua própria aprendizagem, sem insistir para que os estu-
mentos que o terapeuta pode fornecer ao cliente e que possam dantes seguissem os seus passos; as atitudes de desinteresse, de
ajudá-lo, pois os dados existem no interior da pessoa. Na edu- satisfação, de espanto ou de agrado que adotasse frente às ativi-
cação, isto não é verdade. Existem muitos recursos do conheci- dades individuais ou de grupo não se tomariam recompensas
mento, de técnicas, de teorias, que constituem matéria-prima a ou punições para os alunos. Ele gostaria de poder dizer, sim-
ser utilizada. Julgo que o que disse sobre a terapia sugere que plesmente, de si para si mesmo: "Não gosto disso", e gostaria
esses materiais, esses recursos, devem ser postos à disposição que o aluno pudesse também dizer com igual liberdade: "Mas
dos estudantes e não impostos. Exige-se aqui uma grande sin- eu gosto."
ceridade e uma grande sensibilidade. Desse modo, sejam quais forem os recursos de ensino que
Não preciso relacionar os meios habitualmente utilizados - forneça - um livro, uma sala de trabalho, um novo aparelho,
livros, mapas, manuais, gravações, salas, aparelhos e outros ma- uma oportunidade para observar um processo industrial, uma
teriais. Meditemos um momento no modo como o professor uti- exposição baseada no seu próprio estudo, um quadro, um gráfi-
liza a si mesmo, aos seus conhecimentos e experiências como co ou um mapa, ou as suas próprias reações emocionais - ele
334 ~-- Tornar-se pessoa Quais são as implicações para a vida? 335
____

sentiria que essas coisas são oferecidas para serem usadas se Não incluí nenhum projeto de avaliação da aprendizagem
forem úteis ao aluno, esperando que sejam encaradas como tal. dos alunos em termos de critérios externos. Não incluí, em outras
Não pretende que elas sejam guias, expectativas, comandos, palavras, os exames. Julgo que testar os resultados de um aluno
imposições ou exigências. Ofereceria ele mesmo todos os ou- para ver se eles vão ao encontro de um critério estabelecido pelo
tros recursos que pudesse descobrir, para serem utilizados. professor é diretamente contrário às implicações da terapia para a
aprendizagem significativa. Em terapia, os exames são coloca-
O motivo fundamental dos pela vida. O cliente enfrenta-os, vencendo-os algumas vezes,
fracassando noutras. Ele descobre que pode utilizar os recursos
Depois disto fica bem patente que o professor confia basi- da relação terapêutica e a sua experiência nela para se organizar a
camente na tendência auto-realizadora de seus alunos. A hipó- si mesmo de modo a poder enfrentar mais satisfatoriamente as
tese de que partiria é de que os estudantes que estão em contato provas da vida, da próxima vez que elas se lhe depararem. Con-
real com os problemas da vida procuram aprender, desejam sidero também esse aspecto como o paradigma da educação.
crescer e descobrir, esperam dominar e querem criar. Sua ftm- Imaginemos o que isso poderia significar.
ção consistiria no desenvolvimento de uma relação pessoal com Numa educação desse gênero, as exigências relativas a
seus alunos e de um clima nas aulas que permitissem a realiza- muitas situações da vida fariam parte dos meios que o professor
ção natural dessas tendências. proporciona. O aluno ficará sabendo que não pode seguir um
curso de engenharia sem um determinado nível matemático;
Algumas omissões que não pode conseguir trabalho numa certa empresa sem um
Vimos algumas das conseqüências de uma perspectiva te- diploma universitário; que não pode vir a ser um psicólogo sem
rapêutica aplicada ao processo educacional. Para defini-las um ter feito uma pesquisa independente para doutoramento; que
pouco melhor, consideremos alguns aspectos que não estão im- não pode ser médico sem conhecimentos de química; que não
plicados nessa perspectiva. pode guiar um veículo sem ter passado num exame de leis de
Não incluí as conferências, palestras e exposições sobre trânsito. Essas exigências são estabelecidas, não pelo professor,
determinados assuntos que são impostos aos estudantes. Todos mas pela vida. O professor está lá para proporcionar os meios
esses processos poderiam ser parte da experiência se fossem que o aluno poderá usar para aprender como tomar-se capaz de
desejados, implícita ou explicitamente, pelos estudantes. Mes- enfrentar essas provas.
mo aqui, porém, um professor que trabalhe segundo uma hipó- Poderia haver, dentro da escola, avaliações análogas. O
tese baseada na terapia sentirá rapidamente a variação desse aluno poderia ter de encarar o fato de não poder entrar para o
desejo. Ele pode ter sido convidado a fazer uma conferência ao clube de matemática sem ter obtido um certo nível nos testes
grupo (e fazer uma conferência convidado é muito diferente da padronizados de matemática; de não poder revelar o seu filme
experiência habitual nas aulas), mas, se detectar no grupo um sem ter dado prova de conhecimentos de química e de técnicas
desinteresse e um aborrecimento crescentes, reagirá a isso ten- de laboratório; de não poder entrar na seção especial de literatu-
tando compreender os sentimentos suscitados, pois sua respos- ra antes de ter provado uma ampla leitura e capacidade para
ta aos seus sentimentos e às suas atitudes tem precedência sobre escrever. O lugar natural da avaliação na vida é como um bilhe-
o seu interesse em expor a matéria. te de entrada, não como uma tacada sobre o recalcitrante. Nossa
336 _ _ _ _ Tornar-se pessoa 337
Quais são as implicações para a vida? _ __

experiência na terapia sugere que o mesmo deveria acontecer convencionais, no que diz respeito à adaptação pessoal, à apren-
na escola. Devia-se deixar o estudante livre para escolher, como dizagem extracurricular auto-iniciada, à capacidade criadora e
pessoa que se respeita e que se motiva a si mesma, se deseja à responsabilidade pessoal.
fazer um esforço para alcançar esses bilhetes de entrada. Evitar- Comecei a compreender, ao debruçar-me sobre esses tra-
se-ia assim obrigá-lo ao conformismo, a sacrificar sua criativi- balhos e ao procurar descobrir qual seria o plano de estudos
dade e a levar a sua vida em termos dos padrões alheios. mais informativo e mais decisivo, que os resultados dessas
Tenho perfeita consciência de que os dois elementos que investigações nunca responderiam às nossas perguntas. Esses
acabei de mencionar- as conferências e as exposições impostas resultados têm de ser avaliados em função dos objetivos que
ao grupo pelo professor e a avaliação do indivíduo por este - atualmente se apontam à educação. Se valorizamos sobretudo a
constituem os principais da educação habitual. Desse modo, aquisição de conhecimentos, podemos afastar como inúteis as
quando afirmo que a experiência em psicoterapia sugere que condições a que me referi, uma vez que não se toma evidente
ambos devem ser eliminados, toma-se ainda mais evidente que que elas promovam um grau mais elevado ou uma extensão
as implicações da psicoterapia no domínio da educação são de maior de conhecimento fatual. Podemos então preferir medidas
fato surpreendentes. do gênero das que, conforme compreendi, são defendidas por
um certo número de membros do Congresso: criar escolas téc-
Resultados prováveis nicas para cientistas segundo o modelo das academias milita-
Se considerássemos as alterações drásticas que delineei, res. Mas se dermos o devido valor à cap