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Analise do Filme “Fragmentado”

Israela Melo Alves

Fragmentado conta a história de Kevin, um zelador de zoológico que em


decorrência da violência - física e psicológica - sofrida durante a infância desenvolveu
TDI (Transtorno Dissociativo de Personalidade). Kevin possui 24 personalidades
distintas que assumem o controle momentaneamente (como denomina-se no filme:
“entram para a luz”) da sua mente, dentre elas existem homens, mulheres, uma criança e
“a besta”; um ser que possui capacidades sobre-humanas, destoando um pouco de como
a doença se manifesta na realidade.
De acordo com os pressupostos da HC a personalidade não é algo pronto ou
estático, que nasce e se perpetua imutavelmente. Assim como os pressupostos gerais da
desta teoria que partem do principio da dialética e do movimento interacionista, a
personalidade também se constitui e se transforma conforme as interações sociais em que
o sujeito é exposto e a forma como este internaliza os estímulos externos.

A personalidade é uma individualidade de forma superior, onde sua origem e


desenvolvimento são baseados nas relações histórico-sociais. É a soma de atividades
adquiridas socialmente. Como Leontiev descreve, o individuo constrói sua personalidade
a medida em que ele começa a se socializar, a adquirir hábitos, atitudes e formas de
utilização de instrumentos. Pode-se dizer que a personalidade é o produto das relações
objetivas e subjetivas do sujeito que a partir da mediação com a sociedade torna-se
singular. A origem da personalidade remete a relações dialéticas entre fatores internos
(condições subjetivas que se desenvolve por meio da atividade social) e externos
(condições sociais/materiais).

Há uma grande importância no que diz respeito à atividade na compreensão da


personalidade no sentido de que o homem precisa desenvolver atividades para que possa
cristalizar conhecimentos e habilidades que irão compor a singularidade de cada um. A
atividade implica na necessidade de algo que foi produzido. É preciso encontrar o objeto
(material ou ideal) que satisfaça determinada necessidade, pois para compreender a
atividade é preciso conhecer essa necessidade. Tal conhecimento remete ao processo de
descoberta do objeto que tem como função de estimular e orientar a atividade.
Retomando ao filme é possível considerar que os abusos sofridos por Kevin fizeram
que suas maiores necessidades fossem a proteção e fuga de uma realidade permeada pela
dor. A partir de tal necessidade a atividade produzida por Kevin foi a criação de diferentes
tipos de personalidade que pudessem satisfazer essas necessidades. Considerando que a
o sujeito é movido pela sua atividade principal (responsável pelas mudanças mais
significativas na composição da personalidade e dos processos psíquicos), Kevin
desenvolve o que ele chama de “habilidade” de transitar entre as diferentes personalidades
que o constituem. Em suma, a sua necessidades/desejos citados anteriormente
constituíram uma atividade, neste caso, uma patologia.
É possível trazer a discussão o conceito de subjetividade e de que forma ela é
demonstrada no filme. Por subjetividade compreende-se como algo interno do indivíduo
que se constitui na relação dialética que ele possui com o meio externo. Essa relação
externa/social só é possível devido à atividade exercida pelo homem. Sendo assim,
podemos considerar que a subjetividade propõe uma relação indivisível entre o indivíduo
e a sociedade. Para Leontiev a subjetividade é o processo pelo qual algo se torna
característico e pertencente ao indivíduo, de tal forma que essa relação se torna única,
sendo a partir dela que o indivíduo começa a construir suas particularidades. Embora a
subjetividade esteja relacionada à singularidade do sujeito, sua origem não está no interior
do individuo, mas nas relações sociais na forma de que a apropriação dessas relações
ocorra de forma única, através das funções psicológicas superiores. Ou seja, é papel
subjetividade constituir o psiquismo.

Dessa forma pode-se afirmar que a subjetividade de Kevin foi afetada ainda na
infância quando ele se apropriou de eventos traumáticos vivenciados na relação familiar.
Para suprir todas as suas necessidades de relação com o outro, o personagem desenvolveu
dentro de si as diversas personalidades que dialogavam entre si e o protegeriam de outros
tipos de relacionamentos com pessoas alheias a ele. Sendo assim cada personalidade
adquiriu particularidades diferentes sobre como se portar para atender os desejos
inconscientes do personagem principal.