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2018 - 09 - 19

Manual de redação jurídica e língua portuguesa para a OAB


- Edição 2017
REVISÃO GRAMATICAL

REVISÃO GRAMATICAL
Torna-se fácil imaginar algumas expectativas do avaliador que se depara com centenas
de provas para corrigir. Não se discute a parte jurídica, que é o objeto principal a ser
avaliado, mas elementos redacionais que influem no rendimento da leitura. Necessita-se
produzir no avaliador uma sensação positiva.

Há em qualquer leitor algumas necessidades básicas, bem como lhe agradam certos
atributos textuais. O ideal é saber atender às expectativas dele com amostras de uma
execução competente, principalmente pela situação de prova.

O avaliador desconhece o autor do texto, mas o imagina pelo próprio texto. Muitas
vezes o candidato não faz ideia de como influenciam a legibilidade e a limpeza, o respeito
às margens, o texto com ritmo equilibrado e a pontuação eficiente. É a matéria-prima do
texto, são os primeiros sinais que os olhos captam e, quantas vezes, o candidato não
oferece o mínimo. Ao leitor não cabe decifrar ambiguidades, desfazer trechos truncados,
nem corrigir a gramática. Ler com fluência é uma das expectativas do avaliador.

Os erros gramaticais, principalmente em uma prova, projetam desprestígio e criam


uma representação em que não há conformidade entre o candidato e aquilo que ele
pleiteia por meio do exame. A busca pela correção gramatical possui dois argumentos
inquestionáveis. O primeiro é o valor social, que exige tal padrão e que o espera na
formalidade da escrita. O segundo argumento é o mais utilitário possível, pois envolve a
fluência da leitura, visto que a falha gramatical pode acarretar incompreensão e
ambiguidade ao trecho.

Como examinador de um dos concursos de ingresso ao Ministério Público em São


Paulo, Hugo N. Mazzilli também traz uma visão de como a linguagem influi na avaliação
ao afirmar que, “com mais de um milhar de inscritos, foi um custo separar uma centena
de candidatos com condições mínimas de continuar a disputa. Pululam erros primários –
extraídos de caso real –, como altoridade, certão nordestino, hajiam, ouver, déve, anôma-la,
para que a lei perda a eficácia, poderia-se, negariasse, intrincicamente, progeto, tri-pé,
ambos três, poderão serem, situações individuais de cada um, que cuja a instauração, o
mérito se consiste, hora (em vez de ora), nada haver (em vez de nada a ver), se tratar-mos,
autorizão, natureza humana do homem, princípios sensives, propciar, alicerceis, encejadora,
estege... afora incontáveis erros de concordância verbal e nominal”.

A falta de correção gramatical e de conhecimento da norma culta torna-se não o


elemento textual mais importante, porém conduz a certa frustração, quebra de
expectativa. Em um contexto jurídico – no qual há a predominância de formalidade –, a
correção da linguagem já tem uma finalidade de ser persuasiva, pois há uma analogia
entre o poder e o discurso que o constrói.
Enquanto a gramática trabalha a correção da palavra e da frase, a produção textual
preocupa-se com as correlações e a coerência. É por isso que, apesar de a gramática não
conseguir prejudicar diretamente o sentido geral do texto, consegue atingir os valores
culturais de quem lê. A correção gramatical revela conhecimento e cria prestígio.

Conclua que apresentar o texto legível e correto é pré-requisito para que o avaliador
projete um valor positivo no conteúdo jurídico.

1. ORTOGRAFIA

Cuidado com a grafia das palavras! Como a base de nosso conhecimento profissional é
oriunda de livros, portanto da leitura, o erro de grafia automaticamente conduz a um
preconceito relacionado a pouca leitura, portanto a pouco conhecimento. Quem tomaria
remédios indicados por um médico que escrevesse “resseita”? Quanto mais comum é a
palavra em nosso cotidiano, mais incômodo é seu erro de grafia.

O domínio ortográfico vem essencialmente da leitura, mas também somamos com


regras, etimologia (origem das palavras), muito estudo e pesquisa. Um bom dicionário é
ótima companhia nessas horas. Há vários domínios a serem conquistados: palavras
homônimas (grafia ou som idêntico: senso vs. censo), palavras parônimas (grafia ou som
parecido: ratificar vs. retificar), expressões concorrentes (há tempo vs. a tempo), hífen e
acentuação .

Com o intuito de facilitar a consulta, expõe-se uma lista de palavras e expressões que
geram dúvidas na hora de escrever. Confira:

– abstêmio : aquele que não ingere bebida alcoólica, sóbrio, moderado; vem do latim
abste m ius ; nunca use abstê ni o

– abaixo assinado : designa a pessoa que subscreve

abaixo-assinado : o documento, o requerimento

– acento : sinal gráfico

assento : lugar para sentar-se

– acético: relativo ao vinagre

ascético: místico

asséptico: sem germes

– acerca de : significa sobre, em relação a (A reunião acerca das mudanças fiscais foi
esclarecedora)

cerca de : traz ideia de imprecisão e desdobra-se nas expressões a cerca de e há cerca


de

a cerca de : usa-se a preposição “a” mais a ideia de imprecisão com a expressão cerca
de (Enviamos os pedidos a cerca de 20 pessoas. Estavam a cerca de 20 metros da praia)

há cerca de : tem-se o verbo haver mais a expressão de imprecisão cerca de (Há cerca
de 20 pessoas para atender. Há cerca de 20 dias eles vieram aqui)

– aferir : conferir, comparar


auferir : colher, obter

– aficionado : aquele que é simpatizante, entusiasta; grafa-se e fala-se aficionado ,


portanto não se usa afi c cionado

– afim : indica semelhança, afinidade

a fim de : indica finalidade , objetivo (= para)

– afinal : é advérbio e significa por fim , finalmente , em resumo (Afinal ele acabou seu
discurso)

a final : expressão usada na linguagem jurídica para designar o que vem por último , no
final (As despesas serão pagas a final pelo vencido)

– a folhas : as expressões a folhas , às folhas e à folha são consideradas corretas,


portanto o uso fica a critério subjetivo; também podem ser usadas de forma abreviada: “a
fls.”, “às fls.” ou “à fl.”; deve-se dar atenção à correta aplicação do acento grave

– à medida que : indica proporção e significa à proporção que, ao mesmo tempo que

na medida em que : indica causa e equivale-se a tendo em vista que, uma vez que

– ante : prefixo que significa antes (anteontem), é usado com hífen somente diante de
palavras iniciadas por H ou E (ante-histórico, ante-estreia); se a palavra posterior se inicia
com R ou S, estas serão duplicadas (anterrefeitório, antessentir); observe alguns exemplos:
antebraço, antejulgar, antemão, antenupcial, anteontem, anteprojeto, antessala,
antessocrático

– anti : prefixo que significa contra (anti-horário, antiético), é usado com hífen somente
diante de palavras iniciadas por H ou I (anti-herói, anti-inflamatório); se a palavra
posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (antirreligioso, antissocial); observe
alguns exemplos: antiácido, antidemocrático, antidrogas, antiesportivo, antiestético,
antiético, anti-higiênico, antijuridicidade, anti-imperialista, anti-inflacionário,
antissemitismo, antiterrorismo, antitóxico

– ao encontro de : a favor de, no mesmo sentido

de encontro a : oposição, contra

– apreçar : avaliar, estimar, pôr o preço

apressar : acelerar, precipitar

– a par : ao lado de , junto (Sabia tudo, estava a par dos fatos)

ao par : usado na economia e indica igualdade cambial (Os investimentos estão ao par)

– à parte : isoladamente, separadamente

aparte : interrupção no discurso de alguém

– a princípio : no início, no princípio

em princípio: em tese, hipoteticamente

– arqui : prefixo que significa superior, principal (arquimilionário), é usado com hífen
somente diante de palavras iniciadas por H ou I (arqui-hotel, arqui-inimigo); se a palavra
posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (arquirrival, arquisseguro); observe
alguns exemplos: arquidiocese, arquiepiscopal, arquissede

– ascensão: elevação, subida; uma boa forma de memorização é notar que alguns
verbos terminados em - nder formam substantivos com -nsão: apree nder apree nsão ; asce
nder asce nsão ; compree nder compree nsão ; prete nder prete nsão ; suspe nder suspe nsão

– asterisco: o sinal gráfico * é formado por aster ( estrela ) + isco ( sufixo que indica
diminutivo ), estrelinha ; muitos falam asterís ti co , algo que deve sempre ser evitado

– às vezes: adjunto adverbial e significa algumas vezes, eventualmente (Ele às vezes


viajava)

as vezes: sem acento na expressão “fazer as vezes”; significa substituir (O pai ou quem
faça as vezes assumirá a dívida)

– à toa : a expressão não é mais usada com hífen, independentemente do sentido

– auto : quando prefixo, é usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H
ou O (auto-hipnose, auto-ônibus); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (autorrealização, autossatisfação); observe alguns exemplos: autoacusação,
autoadesivo, autocrata, autoconfiança, autocontrole, autodefesa, autodestruição,
autodidata, autoelogio, autoescola, autoimunizar, autoinfecção, autolesão, automedicação,
autonomear-se, auto-organização, autossuficiência, autotutela, autorretrato,
autorrevogação

– beneficente: quem tem o hábito de fazer o bem escreve beneficente e nunca benefi ci
ente

– boa-fé : expressão usada com hífen; aplica-se para designar ausência de intenção
dolosa

– bugiganga: palavra muito comum na boca do brasileiro e designa coisa de pouco


valor ou de pouca utilidade; é de origem espanhola e designava um pequeno grupo teatral
itinerante pelas vilas e povoados; é comum o brasileiro acrescentar um som nasal na
sílaba gi , o que está errado; portanto, nunca use bugi n ganga

– caçar: perseguir animais

cassar : anular; tornar nulo ou sem efeito

– caderneta: apesar de o brasileiro usar com tranquilidade a palavra primitiva


caderno , a forma diminutiva às vezes aparece com a letra r pulando para sílaba errada; ca
der no gera ca der neta , assim nunca use ca r deneta

– calção : calças curtas

caução : fiança, garantia

– censo : recenseamento, contagem

senso : raciocínio, juízo claro

– cessão : ato de ceder


seção : corte, divisão, departamento

sessão : reunião, espaço de tempo

– cheque : ordem de pagamento

xeque : lance de xadrez (xeque-mate); risco, perigo

– cinquenta: a forma cincoenta é errada no português; só se usa com qu : cin qu enta ;


isso também vale para doze , que só tem essa grafia (não use jamais douze ); já o numeral
cardinal 14 traz duas formas corretas: catorze ou quatorze

– colisão : luta, embate, divergência

coalizão : acordo, aliança, coligação

– comprimento : extensão, tamanho

cumprimento : saudação, execução

– concertar : conferir, confrontar uma cópia com o original para autenticá-la; pactuar

consertar : reparar, recompor

– co (prefixo): muito usado na linguagem jurídica por indicar a ideia de companhia; no


VOLP, lê-se que não se emprega o hífen no prefixo CO, mesmo ao se unir às palavras
iniciadas por H (o H será retirado) ou O; isso se soma às palavras iniciadas por S ou R, que
terão tais letras dobradas. Confira:

co + H retira-se o H: coabilidade (co+habilidade), coabitação (co+habitação), coabitar


(co+habitar), coospitalidade (co+hospitalidade), coerdeiro (co+herdeiro)

co + O une-se sem hífen: coobrigar, coocupar, cooficiar, coopositor

co + R dobra-se o R: corregente, correligionários, corresponsável, corréu (feminino:


corré)

co + S dobra-se o S: cosseguro, cossegurado, cossegurador, cossignatário

Exemplos: coacusado, coacusante, coadaptação, coadministrar, coadquirente,


coadquirir, coaglutinação, coagregar, coaquisição, coarrendado, coarticulação,
coassociação, coassociar, coautor, coavalista, cocontratado, cocredor, codelinquência,
codemandante, codenunciado, codependente, codetentor, codevedor, codireção, codiretor,
codoador, coeleito, coestender, coestaduano, coetâneo [da mesma idade], coexistir,
cofiador, cofundador, cogerente, coindicar, coiniciar, coinquilino, coirmão, colegatário,
coligar, colocação, comandante, comediador, coparticipar, coprocuradoria, coprodutor,
coproprietário, coproteção, cotutelado, cotutor, coutente

– contra : quando prefixo, é usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por
H ou A (contra-harmonia, contra-ação); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas
serão duplicadas (contrarreforma, contrassenha); observe alguns exemplos: contra-ação,
contra-ataque, contra-arrazoado, contra-arrazoar, contracenar, contracheque, contrafé,
contragolpe, contraindicação, contramandado, contramão, contraminuta, contrapartida,
contrapeso, contraprestação, contrapropaganda, contraprova, contrarrazões,
contrarregra, contrassenso, contrassistema
– coser : costurar, unir, aproximar

cozer : cozinhar

– deferência : consideração, acatamento, atenção; respeito, reverência; complacência

diferença : ausência de semelhanças, diversidade, disparidade, distinção

– deferimento : ato de deferir, anuência, aprovação

diferimento : ato de diferir, adiamento

– deferir : atender, conceder, outorgar

diferir : distinguir-se, ser diferente; adiar, retardar

– degredado : desterrado, exilado, banido

degradado : estragado, deteriorado, rebaixado,

– delatar : denunciar, acusar

dilatar : aumentar, alargar

– descrição: descrever

discrição : discreto, reservado, comedido

– descriminar : deixar de ser crime, inocentar

discriminar : distinguir, estabelecer diferença

– despensa : local em que se guardam alimentos

dispensa : licença, concessão, desobrigar, despedir

– despercebido : não notado, ignorado

desapercebido: desprovido

– destratar : ofender, insultar, desacatar

distratar : desfazer um trato ou contrato

– dia a dia : a expressão não é mais usada com hífen, independentemente do sentido

– elidir : eliminar, suprimir

ilidir : refutar, rebater

– emenda : correção; juntar uma parte na outra

ementa : preâmbulo de lei, síntese do assunto contido em lei

– eminência : excelência

iminência : próximo a acontecer


– empecilho : do verbo empecer (dificultar, encontrar obstáculos, prejudicar) nasce o
substantivo empecilho, ou seja, aquilo que estorva, causa dificuldade, sinônimo de óbice

– em vez de : significa no lugar de e não possui restrições

ao invés de : significa ao contrário e só se usa para oposições

– estância : morada, mansão; estabelecimento rural; estação de água mineral

instância : pedido urgente e repetido; jurisdição, foro; ordem ou grau de hierarquia


judiciária

– exacerbar: tornar mais intenso, avivar; deve-se ter cuidado com a letra r , que
compõe sílaba com cer : exa cer bar

– extra : quando prefixo, é usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por
H ou A (extra-hospitalar, extra-atmosférico); se a palavra posterior se inicia com R ou S,
estas serão duplicadas (extrarregimental, extrassensorial); observe alguns exemplos:
extraconjugal, extracontratual, extrajurídico, extralegal, extramatrimonial, extraoficial,
extraordinário, extrapenal, extrauterino, extravasar

– filigrana: designa aplicação de delicados fios (geralmente de ouro ou de prata), como


em um bordado; por extensão, passou a significar detalhe, particularidade; temos a
palavra filigrana , e nunca filigra m a

– forma / fôrma: na nova ortografia, é opcional o acento para distinguir os


substantivos forma / fôrma; trata-se de acento diferencial que cabe ao usuário definir
quando usar, dando-se destaque principalmente aos momentos de ambiguidade (a forma
do bolo; a fôrma do bolo)

– fratricídio: por causa das formas latinas frater e fratris , temos no português frater
nidade e fratri cídio; em razão disso, aquele que mata o irmão é um fratricida , pratica o
fratricídio (e nunca fra ti cídio )

– geminado: em geral, usa-se tal palavra para indicar casas encostadas, construídas
com parede central de meiação; tem relação com a palavra gêmeo , o que é duplicado,
dobrado; já a palavra ge r minado , ela deve ser usada com o sentido de desenvolver-se,
brotar

– gratuito: é uma palavra cuja tônica se concentra na letra u : gratuito ; nunca use
gratu i to

– haja : verbo haver (É útil que haja leis)

aja : verbo agir (É preciso que ele aja)

– há tempo : verbo haver, com o sentido de existe tempo ou faz tempo (Ainda há tempo
para o time vencer. Há tempo ele não nos visita)

a tempo : indica algo pontual, na hora exata, em tempo, dentro do prazo determinado
(Ele chegou aqui a tempo de esclarecer as dúvidas)

– hiper : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou R
(hiper-humano, hiper-realidade); observe alguns exemplos: hiperacidez, hiperagudo,
hiperativo, hiperinflação, hiper-realismo, hipertensão
– hipo : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou O; se a
palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (hiporreflexividade,
hipossuficiente); observe alguns exemplos: hipoacidez, hipocalórico, hipoglicemia,
hipotensão

– incipiente : novato, iniciante

insipiente : ignorante, desconhecedor

– incontinente : sem controle, sem moderação; pessoa imoderada em sensualidade

incontinenti : imediatamente, sem interrupção

– infligir : aplicar a lei, cominar

infringir : violar, transgredir

– infra : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou A; se a
palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (infrarrenal, infrassônico);
observe alguns exemplos: infraconstitucional, infraestrutura, infralegal, infravermelho

– inter : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou R
(inter-humano, inter-regional); observe alguns exemplos: interagente, interamericano,
interescolar, interestadual, inter-humano, intermunicipal, inter-racial, intersindical,
intersocial, intersubjetivo

– ínterim: intervalo de tempo entre dois fatos; é proparoxítona: ín terim ; não a use
como oxítona inte rim

– interseção : corte, cruzamento

intercessão : ator de interceder, intervir

– losango: talvez por analogia com retângulo e triângulo, alguns usam a forma
equivocada losâng ul o ; vem do francês losange

– macro : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou O
(macro-história, macro-organismo); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (macrorregião, macrossocial); observe alguns exemplos: macrocapitalismo,
macroeconomia, macroestrutura, macrossociedade, macrovisão

– má-fé : expressão usada com hífen; aplica-se para designar intenção dolosa

– mal : substantivo, advérbio ou conjunção; em geral, troca-se pelo antônimo bem

mau : adjetivo; em geral, troca-se pelo antônimo bom

– mandado : ordem de autoridade

mandato : período de missão política, procuração; delegação

– meteorologia: para não esquecer a grafia correta, pense antes em met eo ro, met eo
rito, palavras que normalmente não erramos; assim, só se deve usar met eo rologia , e
jamais met ereo logia

– micro : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou O
(micro-habitat, micro-ônibus); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (microrregião, microssocial); observe alguns exemplos: microcélula,
microcomposição, microcomputador, microelemento, microempresa, microfilme, micro-
ondas, micro-organismo, microrradiação, microrregional, microrreprodução,
microssistema, microvia

– mini: prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou I (mini-
hotel, mini-isca); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas
(minirretrato, minissaia); observe alguns exemplos: minimundo, miniorganismo,
minissérie, minissetor

– muçulmano: atente-se à correta posição da letra l, que deve compor sílaba com çul ;
jamais usar mu l çumano

– multi: prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou I; se a
palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (multirracial, multissecular);
observe alguns exemplos: multiforme, multimilionário, multiprocessador,
multirreincidente

– não : com a nova ortografia, não se usa mais hífen na palavra não ; exemplos: não
pagamento, não fumantes, não cooperação, não governamental

– onde : refere-se à ideia de lugar e relaciona-se com palavras que exigem preposição
EM

aonde : refere-se à ideia de lugar e relaciona-se com palavras que exigem preposição A

– opróbrio: grande desonra pública, vergonha, vexame; atenção ao uso da letra r :


sempre opróbrio e nunca oprób i o

– pan: usa-se o hífen caso a palavra seguinte se inicie com m , n , h ou vogal : pan-
africano, pan-americano, pan-arábico, pan-asiático, pan-europeu, pan-helênico, pan-
hispânico, pan-islâmico, pan-mágico, pan-negritude; diante de palavra iniciada por b , o
prefixo passa a ser pam : pambrasileirismo, pambabilônico; outros exemplos:
pancromático, pandemônio, pansexual, pansofia, panteísmo

– pantomima: inicialmente indicava representação teatral realizada apenas com


gestos, agora designa também intriga, mentira ardilosa; atenção à letra “m”: sempre use
pantomima , jamais pantomi n a

– perca : forma do verbo perder (que ele perca)

perda : forma do substantivo (a perda)

– plebiscito: palavra latina formada de plebe (povo) e scitum (decreto); trata-se de


consulta ao povo sobre um tema específico; o correto é plebiscito , e nunca ple s bicito ,
basta lembrar-se de plebe

– pleito : questão em juízo, litígio, eleição

preito : homenagem, veneração

– pluri: prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou I; se a
palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (plurirracial,
plurissubjetivo); observe alguns exemplos: plurianual, pluricelular, pluridimensional,
pluriestadual, pluriforme, plurilateral, plurilíngue, pluriorganismo, pluripartidário,
plurirreligioso, plurissetorial, plurissubsistente
– pode / pôde : na nova ortografia, em relação ao verbo poder , deve-se distinguir o
presente pode do pretérito pôde

– pôr: o verbo pôr e seus derivados (antepor, apor, compor, dispor, compor, repor...)
sempre trazem na conjugação a letra –s, jamais –z; observe: pus, puseram, puser, pusesse;
vale lembrar que o primitivo pôr traz um acento diferencial, mas os derivados não o têm;
tal acento no verbo pôr tem a finalidade de distingui-lo da preposição por

– por ora : até o momento, por enquanto

por hora : a cada uma hora, período de uma hora

– porque: conjunção causal, equivalente a pois, tendo em vista que, uma vez que, pelo
motivo de que (Ele saiu, porque [= pois] tinha outro compromisso. Ele se feriu porque não
sabia manusear a arma. Eles quiseram vir, porque nunca visitaram esta cidade)

porquê: substantivo e equivale-se à palavra motivo (Não havia um porquê [= um


motivo] para ele agir assim. O porquê da briga foi um xingamento. Não nos falaram o
porquê do atraso)

por que: pronome relativo, equivalente a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais
(Essa era a rua por que [= pela qual] ele passou. Compramos o livro por que [= pelo qual]
você tem preferência)

por que: pronome interrogativo, equivalente a por qual razão (Não se sabe por que [=
por qual razão] ele fugiu daqui. Veja por que [= por qual razão] ele tem feito isso)

por quê : é idêntico ao anterior (por que = por qual razão), mas agora, quando estiver
junto a sinal de pontuação (, ; . ... ? !), receberá acento circunflexo (Ele fez isso, mas
ninguém sabe por quê. Ele fugiu por quê? Se houve conflito, fale-nos logo por quê.)

– preeminente : nobre, distinto

proeminente : saliente (aspecto físico)

– pré : prefixo que, quando acentuado, sempre recebe hífen; exemplos: pré-
adolescente, pré-carnaval, pré-datado, pré-fabricado, pré-histórico, pré-moldado, pré-
natal, pré-requisito (mas no VOLP, temos os seguintes registros: prealegar, preanunciar,
preaquecer, precaucionar, precautelar, precogitar, preconceber, preconcepção,
precondição, precondicionar, predefinir, predelinear, predemarcar, predestinar,
predeterminar, predeterminado, predispor, predisposto, predizer, preestabelecer,
preestabelecido, preexistir, preexistido, preexistente, prefazer, prefigurar, prefiltrar,
prefixar, prefixado, prefixação, preformar, prejulgar, prejulgamento, prejulgado,
prematurar, premunir, prenomear, prenotar, prenotado, preopinar, preordenação,
preordenado, prepor, prequestionar, prequestionado, prevaler, previver)

– preferir : dar primazia, escolher, querer antes; gostar mais de, ser preferido, ter
preferência

preterir : deixar de lado, desprezar, rejeitar, prescindir, omitir

– prescrever: marcar, fixar, determinar

proscrever: exilar, desterrar, expulsar

– privilégio: palavra que traz em sua formação latina a ideia de lei privada ( privus
legis ), era uma lei excepcional em favor de um particular; por isso, usa-se pri vilégio, e
nunca pr e vilégio

– querer: o verbo querer sempre traz na conjugação a letra -s, jamais -z; confira: quis,
quiseram, quiser, quisesse

– ratificar: validar, confirmar

retificar: corrigir, emendar

– recém: prefixo sempre usado com hífen; exemplos: recém-casado, recém-criado,


recém-formado, recém-nascido

– reivindicar : do latim, temos res , rei , que significa coisa e gera, por exemplo, re
publica (coisa pública); já vindicar significa reclamar em juízo, exigir a restituição de um
direito; conclui-se que, ao unir rei + vindicar , nasce a ideia de reclamação em juízo de
alguma coisa; note-se que é sempre rei vindicar, rei vindicação, rei vindicável...e nunca
rein vindicar , rein vindicação , rein vindicável ; lembre-se de rei = coisa

– remir : (ligado a remição) liberar, resgatar, tomar do poder de outrem

remitir : (ligado a remissão) perdoar, liberar, renunciar; remeter; afrouxar

– rerratificar: ação de corrigir em parte um documento e confirmar os demais termos


não alterados

– retenção: uma boa forma de memorização é notar que verbos derivados de - ter
formam substantivos com - nção: abs ter absten ção ; con ter conten ção ; de ter deten ção ;
ob ter obten ção ; re ter reten ção

– retrógrado: palavra geralmente usada em sentido depreciativo a fim de indicar


aquele que é contrário aos avanços, aquele que é conservador, reacionário; formado no
latim por retro (movimento para trás) e gradus (grau) e, por isso, retrógrado , jamais
retrógado

– rubrica: significa assinatura abreviada, geralmente reduzida às letras iniciais do


nome da pessoa; é palavra paroxítona: ru bri ca , não a use como proparoxítona ru brica

– sem : quando prefixo, é sempre usado com hífen, observe: sem-cerimônia, sem-fim,
sem-nome, sem-número, sem-pulo, sem-sal, sem-terra, sem-teto, sem-vergonha

– semi : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou I
(semi-histórico, semi-internato); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (semirracional, semissoberania); observe alguns exemplos: semianalfabeto,
semiárido, semiconsciente, semi-internato, semifinalista, semiparalisado, semirreal,
semisselvagem

– se não : conjunção condicional (= caso não )

senão : a não ser, exceto (Não faz outra coisa senão trabalhar), mas também (Tornou-se
popular não só no Brasil, senão também em todo o mundo), caso contrário (Estude muito
senão você não entenderá), defeito, erro (Os senões do presidente)

– sobre : quando prefixo, é usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por
H ou E; se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão duplicadas (sobrerrenal,
sobresselar); alguns exemplos: sobreaviso, sobrecarga, sobre-humano, sobrejornada,
sobreloja, sobrevida, sobressair, sobressaltar, sobressalente

– sobrancelha: alguns podem até imaginar que esses pelos trazem a ideia de sombra
aos olhos , mas o sentido original relaciona-se aos pelos que estão sobre os cílios , por isso
so brancelha e jamais som brancelha

– sub : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por B ou R (sub-
base, sub-região); diante de palavra iniciada com H, há duas formas de construir:
subabitar ou sub-habitar , subarmônico ou sub-harmônico , subepático ou sub-hepático ,
subidratação ou sub-hidratação , subumanidade ou sub-humanidade , subumano ou sub-
humano ; exemplos: subagência, subagente, subalimentação, subalimentado, subalugar,
sub-bonificação, subchefe, subdiretor, subdivisão, subempregar, subemprego, subestação,
subgerência, subgerente, subgrupo, subitem, sublocar, subordem, subprefeitura,
subprefeito, subprincípios, subprocurador, sub-raça, sub-remunerado, sub-rogar,
subsecretariado, subsede, subsíndico, subutilizado

– sumariíssimo : forma correta, embora também seja aceita a forma com apenas um i
(sumaríssima); adjetivos terminados em -io aceitam duas formações de superlativo
absoluto: uma que segue o tradicional e corretamente dobra o i (sumariíssimo, seriíssimo,
feiíssimo, primariíssimo); outra que foge à regra e usa apenas um i (sumaríssimo,
seríssimo, feíssimo, primaríssimo).

– super : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou R
(super-herói, super-realidade); observe alguns exemplos: superabundância,
superalimentação, superaquecimento, superego, superexposição, super-herói, super-
homem, super-humanismo, superpotência, supersafra; esta regra aplica-se também ao
prefixo hiper

– supra : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou A
(supra-humano, supra-audição); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (suprarreal, suprassumo); observe alguns exemplos: supralegal, supranacional,
suprapartidário, supratemporal

– tampouco : significa também não , nem sequer

tão pouco : significa muito pouco

– tráfego : movimento, trânsito de veículos, percurso

tráfico : negócio ilícito; mercado humano; comércio, negociação

– trás : relaciona com ideia de traseira e forma para trás, atrás, detrás, por trás

traz : refere-se ao verbo trazer , sinônimo de levar , transportar

– tachar : pôr prego; notar defeito em, censurar, criticar, acusar

taxar : regular o preço; tributar; avaliar (positiva ou negativamente)

– titularidade : atente-se à correta grafia da palavra, não se deve grafar titular ie dade

– ultra : prefixo usado com hífen somente diante de palavras iniciadas por H ou A
(ultra-humano, ultra-aquecimento); se a palavra posterior se inicia com R ou S, estas serão
duplicadas (ultrarromântico, ultrassônico); alguns exemplos: ultra-atividade,
ultraconservador, ultrademocrático, ultrarromantismo, ultrassecreto, ultrassom,
ultrassonografia, ultravioleta
– viagem : forma do substantivo ( a viagem )

viajem : verbo conjugado ( que eles viajem)

– vice: prefixo sempre usado com hífen; exemplos: vice-campeão, vice-governador,


vice-ministro, vice-prefeito, vice-presidente

– viger : liga-se às palavras vig ê ncia, vig e nte, sinônimo de vigorar; use sempre viger e
jamais vig i r

– vultoso : volumoso, vulto grande

vultuoso : vermelho, inchado, atacado de uma doença chamada vultuosidade.

2. REGRAS DE ACENTUAÇÃO. MUDANÇAS DA NOVA ORTOGRAFIA

Como era Como ficou A regra

agüentar, aguentar, O trema deixa de ser usado, a não ser em


freqüente, frequente, nomes próprios estrangeiros e seus derivados.
argüição, arguição, Apesar da ausência do trema, a pronúncia
eloqüente eloquente mantém-se inalterada.

crêem, dêem, creem, deem, Nos verbos crer, dar, ler, ver e seus derivados,
lêem, vêem leem, veem não se acentua mais a formação EEM.

abençôo, vôo, abençoo, voo, Nas palavras terminadas em OO, o acento foi
perdôo perdoo abolido.

Não se acentuam mais palavras paroxítonas


que trazem os ditongos abertos “ei” e “oi”:
assembleia, boia, colmeia, epopeia, estreia,
heroico, ideia, joia, odisseia, paranoia, pla-teia,
idéia, Coréia, ideia, Coreia, tramoia.
geléia geleia
O acento prossegue, porém, quando os
ditongos “éi”, “éu” e “ói” ocorrem nas palavras
oxítonas: anéis, fiéis, papéis, pastéis, céu, chapéu,
véu, corrói, constrói, herói.

Dos acentos diferenciais, temos apenas três


usos:

côa, pára, péla, • verbo pôr vs. preposição por


coa, para, pela,
pélo, pêlo, pólo,
pelo, polo, pera
pêra • pôde (forma do pretérito) vs. pode (forma do
presente).

• uso facultativo em fôrma/forma

ele argúi, que ele argui, que Deixam de ser acentuadas as formas “que”,
ele averigúe, que ele averigue, que “gue” e “gui” em verbos como averigue, apazigue,
eles apazigúem eles apaziguem argui, arguem, oblique.
Também não se acentuam palavras
paroxítonas que trazem “i” e “u” tônicos
baiúca, baiuca, precedidos de ditongo: baiuca (bodega, taberna),
bocaiúva, feiúra, bocaiuva, feiura, bocaiuva (tipo de palmeira), feiura, Sauipe, cauila
Sauípe Sauipe (sovina), boiuno (relativo a boi, bovino), etc.
Devido ao pequeno número de palavras que
incidem neste caso, tal exclusão do acento influi
muito pouco no uso prático.

3. LISTA DE ALGUMAS PALAVRAS COM HÍFEN QUE SÃO USADAS NO MEIO JURÍDICO

advocacia-geral

advogado-geral

apelação-crime

autarquia-ré

auxílio-acidente

auxílio-doença

auxílio-maternidade

auxílio-reclusão

boa-fé

carta-convite

consultor-geral

consultoria-geral

contador-geral

contadoria-geral

conta-corrente

coordenador-geral

coordenadoria-geral

cota-parte
credor-arrematante

decreto-lei

delito-tipo

desembargador-presidente

desembargador-relator

desembargador-revisor

dia-multa

diretor-empregado

diretor-proprietário

embargante-apelante

entidade-ré

estado-empregador

estado-membro

endosso-caução

endosso-mandato

endosso-penhor

fato-fundamento

força-tarefa

funcionário-fantasma

habite-se (o)

hora-aula

juiz-auditor

juiz-corregedor

juiz-presidente
licença-prêmio

livre-docente

má-fé

maus-tratos

médico-residente

nu-proprietário

ouvidoria-geral

país-sede

palavra-chave

papel-moeda

peça-início

pena-base

prisão-albergue

processo-crime

procurador-geral

procuradoria-geral

queixa-crime

quota-parte

relator-geral

salário-base

salário-educação

salário-família

salário-habitação

salário-hora
salário-maternidade

salário-teto

salário-utilidade

secretário-geral

secretaria-geral

seguro-desemprego

sócio-gerente

subprocurador-geral

vale-transporte

voto-mérito

voto-retificação

voto-vista

4. CONJUGAÇÃO, CONCORDÂNCIA E REGÊNCIA VERBAL

O verbo concentra em si uma série de elementos gramaticais que evidenciam a riqueza


de nosso idioma, bem como a diversidade de combinações. Para quem usa o idioma, isso
tende a passar quase despercebido, mas ao estudioso de nossa língua não há como
dissimular as exigências que o verbo contém.

O brasileiro fala “hoje me entreti muito” e “reavi meus direitos”; relaxadamente,


quando perguntado “quem vai na festa?”, responde: “vai eu, vai vocês, vai nós”; diz
também “assisti o jogo” e “esqueci de você”. A gramática normativa corrige para: “hoje me
entretive muito”, “eu reouve meus direitos”, “quem vai à festa?”, “ vou eu, vão vocês, vamos
nós”, “assisti ao jogo”, “esqueci você” ou “esqueci-me de você”.

A chamada norma culta, que é o conteúdo das gramáticas normativas, possui uma
defasagem em relação ao uso vivo, dinâmico e regionalizado de nosso idioma. Essa lacuna,
muitas vezes, cria a impressão de que o brasileiro não sabe falar o português. O que
geralmente o brasileiro não sabe é a norma culta, mas essa é uma longa e antiga discussão,
que aos poucos, lentamente, vai tomando um rumo mais coerente e próximo de uma
política linguística para os brasileiros, assumindo o que somos e o que queremos construir
como nação. Vão-se os debates, ficam os problemas: por enquanto, temos de nos valer da
norma culta, pois ela é a referência nacional de uso do idioma, principalmente na língua
escrita e em um exame.

Tendo o verbo como referência, expõe-se uma seleção de frases, todas corretas , mas
que geralmente dão margem à dúvida. Os temas gramaticais relacionados são:
concordância, regência, conjugação e colocação.

– assistir

Os turistas assistiram ao espetáculo.

O verbo assistir (com o sentido de ver , ser o espectador de algo ) exige a preposição a .

Ele não pode assistir ao júri.

Ele está assistindo à apresentação.

Observação : O verbo assistir possui outros sentidos e, conforme o sentido, altera-se a


regência:

• assistir com o sentido de ajudar , auxiliar , prestar assistência , é transitivo direto,


portanto não exige preposição: “No local, o policial assistiu o acidentado”, “O advogado
deve assistir o seu cliente” .

• assistir com o sentido de caber, pertencer, ser de direito, gozar de um direito,


transitivo indireto, exigindo a preposição a: “Este direito assiste aos filhos menores” .

• assistir com o sentido de morar (uso arcaico e a ser evitado em nossos dias) exige a
preposição a : “Ele sempre assistiu na mesma região”.

– constar

O comentário consta na página 10 (ou) O comentário consta da página 10.

O verbo constar rege preposição de ou em : constar nos / dos documentos; constar na/da
última folha, constar na/da página 10.

– chegar

Ele não chegou ao resultado esperado.

O verbo chegar exige preposição a : “chegou ao resultado”. Na norma culta, não se deve
usar chegar em algum lugar, mas sim chegar a algum lugar .

Chegando ao recinto, iniciou-se a confusão.

Ele nos mostrou como chegar ao raciocínio correto.

– constituir

Isso constitui crime.

Os verbos terminados em UIR sempre trazem no ele do presente do indicativo a


desinência i: constitui, possui, inclui, exclui, instrui etc.

– dar à luz

Ela deu à luz um menino.

Nessa expressão, o sentido é dar o filho para a luz, lançá-lo à luz, fazê-lo nascer. Por
isso, o ser que nasce é o objeto direto; já a “luz” é o objeto indireto: “ela deu à luz” , “ela
deu à luz uma criança” , “ela deu à luz uma linda menina” .

– de o

O fato ocorreu antes de o acusado chegar ao local.

Para entender a construção acima, deve-se estar atento a uma primeira noção de
sujeito: termo que é composto de um núcleo que não combina com preposição, ou seja, o
núcleo do sujeito não se une a uma preposição . É por esse motivo que encontramos
construções como: “apesar de ele estudar; antes de ele chegar; com o objetivo de eles
falarem; havia a necessidade de o homem sair”.

Em nossos códigos, há alguns exemplos:

Art. 881. “... e a proibição de o réu falar nos autos...” (Código de Processo Civil)

Art. 570. “... desde que o interessado compareça, antes de o ato consumar-se...” (Código
de Processo Penal)

Art. 173. “O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito...” (Código Tributário


Nacional)

Esse tipo de construção nasce de uma redução, de uma economia, ou seja, a


transformação da oração desenvolvida em oração reduzida. Observe o processo:

– oração desenvolvida: Daí o motivo de que a lei seja descritiva.

– oração reduzida: Daí o motivo de a lei ser descritiva.

– oração desenvolvida: É relevante a ideia de que ele virá.

– oração reduzida : É relevante a ideia de ele vir.

– oração desenvolvida: Ele tinha o objetivo de que as pessoas se emocionassem.

– oração reduzida : Ele tinha o objetivo de as pessoas se emocionarem.

Observação : Não se deve, porém, criar uma situação homogênea, pois, se não existir a
função de sujeito , faz-se obrigatoriamente a combinação: “Todos sabem os seus direitos,
apesar dos deveres, apesar deles ”.

– eram três

Conforme a testemunha, eles eram três.

Nessa formação, dispensa-se a preposição em . Isso ocorrerá em qualquer tempo e


pessoa (“somos três, serão três, se fossem três”). Para ajudar a guardar, lembre-se do nome
do livro de Maria José Dupré: Éramos seis .

Segundo testemunhas, naquele dia as vítimas eram apenas duas.

– esquecer/ lembrar

Ele não se esqueceu dos detalhes do ocorrido.

Os verbos esquecer e lembrar podem, sem alteração de sentido, ser usados com
pronome átono ou sem pronome átono e, a partir disso, nascem duas regras:
• com pronome – também se deve usar a preposição “de”:

Ele se lembrou dos compromissos, mas se esqueceu do horário.

Ele não se esqueceu dos detalhes do ocorrido.

Eles só se lembraram das notícias.

• sem pronome – não se deve usar a preposição:

Ele lembrou os compromissos, mas esqueceu o horário.

Ele não esqueceu os detalhes do ocorrido.

Eles só lembraram as notícias.

– fazer (referindo-se a tempo)

Eles trabalhavam na empresa fazia 30 anos.

O verbo fazer , quando se refere ao tempo, é classificado como impessoal , isto é,


formará uma oração sem sujeito . Dessa forma, por causa da ausência de sujeito, o verbo
assume uma forma neutra, permanecendo no singular:

Fez 40 minutos que eles estiveram aqui.

Faz mais de 500 anos que os portugueses chegaram.

Fará 20 anos que eles se casaram.

Conclua que , neste uso, não se concorda com o tempo que vem posterior ao verbo
fazer .

– haver (com sentido de existir)

Mesmo sem o apoio, haverá reformas nas regras.

O verbo haver deve permanecer no singular quando ele tiver o sentido de existir. É
classificado como verbo impessoal , formando a oração sem sujeito .

Conforme se constatou, houve chuvas intensas naquela região.

Se houvesse hoje eleições, muitos políticos não seriam reeleitos.

Para que haja melhorias, necessita-se de mais participação.

Não se deve confundir o verbo haver com seus sinônimos ( existir , acontecer , ocorrer ),
pois nesse contexto é o haver o único que é classificado como impessoal, ou seja, o restante
trará sujeito normalmente:

Houve mudanças (oração sem sujeito, mudanças é apenas o objeto direto)

Ocorreram mudanças ( mudanças é o sujeito)

Existiram mudanças ( mudanças é o sujeito)

Aconteceram mudanças ( mudanças é o sujeito)


Ainda haverá reuniões (oração sem sujeito, reuniões é apenas o objeto direto)

Ainda ocorrerão reuniões ( reuniões é o sujeito)

Ainda existirão reuniões ( reuniões é o sujeito)

Ainda acontecerão reuniões ( reuniões é o sujeito)

Para concluir esse raciocínio, vale acrescentar que locuções verbais em que o verbo
haver (com sentido de existir ) for o verbo principal, a locução ficará no singular . Observe
alguns exemplos:

Deve haver muitas mudanças na economia mundial.

Poderá haver novas propostas até o fim do dia.

Vai haver importantes acordos políticos.

Está havendo muitos aumentos no setor imobiliário.

– haver (referindo-se a tempo passado)

Eles trabalham na empresa há 30 anos.

Merece atenção o uso de haver quando ele faz referência ao tempo passado, pois em
geral produz dúvidas de concordância e ortografia. Em geral permite a troca por fazer, o
que ajuda na análise e classificação. Observe-se que tanto haver quanto fazer nesta
acepção ficam no singular, pois formam oração sem sujeito.

Isso ocorreu há muito tempo/ Isso ocorreu faz muito tempo

O funcionário trabalhava na empresa havia 13 anos/ O funcionário trabalhava na


empresa fazia 13 anos

– implicar

A falta de observância dos incisos implicará a nulidade do ato.

O verbo implicar , com o sentido de acarretar , gerar , produzir , é transitivo direto,


portanto não exige preposição. Observe: “Viver socialmente implica um comportamento
positivo”. “O dolo eventual implica a assunção dos riscos”.

Exemplos dos códigos:

“Art. 610, § 2.º O contrato para elaboração de um projeto não implica a obrigação de
executá-lo, ou de fiscalizar-lhe a execução” (Código Civil)

“Art. 888. A omissão de qualquer requisito legal, que tire ao escrito a sua validade como
título de crédito, não implica a invalidade do negócio jurídico que lhe deu origem” (Código
Civil)

“Art. 627. A absolvição implicará o restabelecimento...” (Código de Processo Penal)

Observação : O verbo implicar ainda possui outros sentidos:

• com o sentido de envolver é transitivo indireto , exige a preposição em (Ele se implicou


em assaltos);
• com o sentido de importunar , aborrecer , mostrar antipatia é também transitivo
indireto , exige a preposição com (O homem sempre implicava com os vizinhos).

– intervir

O policial interveio na briga.

A formação é inter + vir = intervir . Procure lembrar-se de que basta conjugar o verbo
vir e se obterá a resposta. Depois, colocar o prefixo é a parte mais fácil.

Pretérito perfeito do indicativo

vir intervir

eu vim intervim

tu vieste intervieste

ele veio interveio

nós viemos interviemos

vós viestes interviestes

eles vieram intervieram

(primitivo derivado)

– mediar

A responsabilidade é da pessoa que medeia a negociação.

O verbo mediar é irregular e deve ser conjugado igual ao verbo odiar (eu odeio = eu
medeio; ele odeia = ele medeia).

Países do Mercosul medeiam acordo de paz entre países em guerra.

Tal noção também vale para o derivado intermediar:

O jornalista intermedeia esta noite o primeiro debate.

– menor/maior

O indivíduo era menor.

A expressão completa é “menor de idade, menor de 18 anos” ou “maior de idade, maior


de 18 anos”, sinônimos, respectivamente, de menoridade e maioridade . É inadequada,
portanto, a forma de menor ou de maior . Se ficar subentendida a idade da pessoa, use
apenas “Ele era menor. Ele era maior”.

Ele não pôde entrar porque era menor.

Só permanecerá no local quem for maior.

– morar, residir, habitar

A vítima morava na Rua das Américas, 300.


Com os verbos morar , residir , habitar, situar-se (e similares), usa-se a preposição em
na indicação de lugar:

Ele habita na Rua da Independência.

Ele reside na Alameda dos Serafins.

Conclua que na norma culta é inadequado dizer “José é residente e domiciliado à


Avenida da Liberdade” ; troque por “José é residente e domiciliado na Avenida da
Liberdade”.

– obedecer

Todos fielmente obedeceram ao pedido.

O verbo obedecer é transitivo indireto, exige preposição a em seu complemento:

Deve-se obedecer ao número do protocolo.

Deveriam ter obedecido à norma.

Quantos obedeceram àquela ordem?

– onde

Todos conheciam o lugar onde ele havia se escondido.

A palavra onde deve ser usada sempre se relacionando à ideia de lugar . Além disso,
onde relaciona-se com verbos e nomes que exigem preposição em . Observe:

Sabemos a cidade onde ele mora/ ele mora em algum lugar

Visitei o bairro onde ele nasceu/ ele nasceu em algum lugar

Era conhecido o local onde ele se escondeu/ ele se escondeu em algum lugar

Com os verbos e nomes que exigem outro tipo de preposição, haverá a necessidade de
exteriorizá-la: de onde , a onde , para onde , por onde . Acompanhe algumas possibilidades:

Todos viram o esconderijo para onde eles fugiram/ eles fugiram para algum lugar

Era escuro o local de onde ele saiu/ ele veio de algum lugar

Vimos a rua por onde todos passariam/ todos passariam por algum lugar

Esta era a cidade aonde ele queria chegar/ ele queria chegar a algum lugar

Deve-se observar, portanto, que entre onde e aonde há uma diferença de regência:

• onde vincula-se àqueles que exigem preposição em ;

• aonde vincula-se àqueles que exigem preposição a .

Confira algumas frases:

Não se sabe o lugar aonde ele se dirigiu (quem se dirigiu, se dirigiu a algum lugar)

Não se viu onde o veículo caiu (o que caiu, caiu em algum lugar)
– pego/pegado

O acusado tinha pegado os objetos.

O verbo pegar tem dois particípios: o regular pegado e o irregular pego. Nesses casos,
quando há dois particípios, a regra geral é o particípio regular para os verbos ter e haver e
o irregular para os verbos ser e estar . Observe alguns exemplos:

aceitado aceito

entregado entregue

imergido imerso

Ele tinha imprimido Isso foi impresso

Ele havia pegado Isso estava pego

matado morto

prendido preso

soltado solto

– proceder

Procedeu-se a o exame pericial.

O verbo proceder com o sentido de realizar , iniciar , executar é transitivo indireto,


exige a preposição a no seu complemento:

Após os acordos, procedeu-se a o pagamento.

O juiz procederá à leitura.

– prover vs. provir

Eles proveem suas famílias.

Eles provêm do interior.

No presente do indicativo, procure não confundir o verbo prover (= abastecer, munir,


providenciar, nomear para algum cargo) com o verbo provir (= ter como origem,
proceder):

provir prover

ele provém ele provê

eles provêm eles proveem

Esses problemas provêm da falta de manutenção. (= procedem)

Os municípios proveem suas escolas. (= abastecem)

Como se nota, na nova ortografia, as formas verbais EEM não são mais acentuadas.

– sobrestar
O juiz sobresteve o processo.

O verbo sobrestar significa deter, parar , relaciona-se à ideia de suspender o


andamento de um processo, é o sobrestamento do processo. Para conjugar sobrestar,
consulte o primitivo estar:

ele está = ele sobrestá eles estão = eles sobrestão

ele esteve = ele sobresteve eles estiveram = eles sobrestiveram

que ele esteja = que ele sobresteja se ele estivesse = se ele sobrestivesse

quando ele estiver = quando ele sobrestiver

– sujeito indeterminado

Precisa-se de trabalhadores.

Na língua portuguesa, quem tiver a intenção de criar o sujeito indeterminado fará isso
de duas formas:

• verbo na terceira pessoa do plural:

No momento menos exato, citaram aquele antigo autor.

• usando o pronome se (índice de indeterminação do sujeito) com os seguintes verbos


no singular:

verbo transitivo indireto : Trata-se de oportunas ideias.

verbo intransitivo : Aqui se nasce e se morre.

verbo de ligação : Aqui se está feliz.

Assim, tendo em vista a frase inicial Precisa-se de trabalhadores, o termo trabalhadores


é objeto indireto – como nos indica a preposição – e tal estrutura deve trazer o verbo no
singular. Acompanhe outros exemplos:

Não se acredita nas suas palavras.

Discordou-se das mudanças necessárias.

Desobedeceu-se às ordens dos superiores.

– ter

Todos têm acesso a tais bens sociais.

No presente do indicativo, deve-se dar atenção à acentuação do verbo ter e derivados:

ele tem ele entretém ele contém

eles têm eles entretêm eles contêm

– ver

No presente do indicativo, deve-se dar atenção à acentuação do verbo ter e derivados;


destaca-se que, na nova ortografia, as formas verbais EEM não são mais acentuadas
ele vê ele prevê ele antevê

eles veem eles preveem eles anteveem

– viger

A lei permanece vigendo até o dia primeiro.

O verbo é viger , que está relacionado à palavra vigência . Ele segue a conjugação
regular (igual, por exemplo, ao verbo vender ), porém possui um defeito: não poder ser
conjugado no eu do presente do indicativo e, por consequência, em todo o presente do
subjuntivo.

Tempo primitivo Tempo derivado

Presente do indicativo Presente do subjuntivo

eu – eu –

tu viges tu –

ele vige ele –

nós vigemos nós –

vós vigeis vós –

eles vigem eles –

Exceto as lacunas nos dois presentes, o restante é regular, idêntico, por exemplo, ao
verbo viver . Compare: viveu / vigeu; viverá / vigerá; vivendo / vigendo. Dessa forma:

A lei permanece vigendo até o dia primeiro.

A lei vigeu até 1980.

Se tal lei já vigesse, teríamos uma solução imediata.

– vir

Tais valores vêm de época distante.

No presente do indicativo, deve-se dar atenção à acentuação do verbo ter e derivados:

ele vem eles intervém ele convém

eles vêm eles intervêm eles convêm

– visar

Tal ato é útil, pois visa ao desenvolvimento social.

O verbo visar (com o sentido de objetivar , desejar , almejar ) é transitivo indireto, exige
preposição a em seu complemento:

Estudou diariamente, já que visava à aprovação na prova.

Observe um exemplo retirado da Constituição Federal:


“Art. 4.º, parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração
econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de
uma comunidade...” (CF)

Quando vem seguido de verbo, pode-se pôr a preposição ou não, é um uso facultativo:

O trabalho visava expor a situação econômica.

O trabalho visava a expor a situação econômica.

Observação : O verbo visar ainda possui dois sentidos diferentes ( assinar ou mirar ),
porém, neste caso, com complementação direta, sem preposição: “O empregado e o patrão
visaram ( = assinaram ) os documentos”. “Ao atirar, visou ( = mirou ) apenas os pneus do
veículo”.

– voz passiva sintética

Constatam-se falhas no pedido.

Há uma estrutura que espalha dúvidas e discórdias Brasil afora. É a voz passiva
sintética. Erram o corretor de imóveis (Aluga-se casas), o autônomo (Faz-se carretos), o
professor particular (Dá-se aulas), o juiz (Rejeita-se os pedidos), entre outros. Antes de
explicar a teoria, já façamos a correção das frases anteriores: Alugam-se casas, Fazem-se
carretos, Dão-se aulas, Rejeitam-se os pedidos.

A voz passiva forma-se com verbos transitivos diretos e, muito importante, o objeto
direto, na voz passiva, transforma-se em sujeito, fato que produz a necessária
concordância. Vale lembrar que a voz passiva sintética também é conhecida como voz
passiva pronominal, o que demonstra a obrigatoriedade do pronome apassivador se .

Uma ajuda indispensável é a transformação da passiva sintética em passiva analítica,


pois assim se analisa com clareza o sujeito e a concordância:

Não se verificaram os defeitos = Os defeitos não foram verificados.

Fizeram-se as mudanças necessárias = As mudanças necessárias foram feitas.

Não se viram os erros no processo = Os erros no processo não foram vistos.

5. PONTUAÇÃO

Entre os sinais de pontuação, a vírgula merece mais destaque, pois contém um uso
essencialmente sustentado pelas relações sintáticas. Dessa forma, já fica abolida a lenda
de toda pausa ser razão para o uso de vírgula ou de se colocar vírgula “de ouvido”, agindo
perigosamente com o instinto e a sensibilidade, os quais nem sempre convivem em
harmonia.

Vírgula não é uma questão de fôlego: imagine a colocação de vírgulas de quem sofra de
asma e a de um superatleta. As pausas serão muito distintas, mas a colocação de vírgulas,
nem tanto. Assim, toda vírgula indica pausa, mas nem toda pausa permite o uso da
vírgula.

Para o bom uso da vírgula, há dois princípios: não separar o que possui relação lógica e
isolar os elementos acidentais (geralmente termos e orações deslocados). Também se
observe que uma vírgula separa e um par de vírgulas isola. Para facilitar o estudo, a seguir
trabalha-se com frases que trazem falha. Na sequência, faz-se a correção e expõem-se as
razões teóricas.

a) Tal atitude, surpreendeu a todos.

Uma das falhas mais triviais. Sem vírgula, porque sujeito e verbo não podem ser
separados. Sem vírgula é o correto.

b) Todos os problemas foram resolvidos, somente por mim.

Tira-se a vírgula, pois não se separam o verbo e seu complemento.

c) Todos já sabiam que, a mesma pessoa voltaria para lá.

Não se separam o conectivo e a oração que ele introduz. Sem vírgula é o correto.

d) Apurou-se que o último projétil atingiu gravemente, o homem.

Ao adjunto adverbial ou se usam duas vírgulas ou nenhuma, ou seja, a frase acima traz
duas formas corretas de construção:

Sem vírgulas: ... o último projétil atingiu gravemente o homem

Isolando: ... o último projétil atingiu, gravemente, o homem

e) Ele disse que se não houvesse contratempos, estaria presente no debate.

Há uma oração adverbial intercalada; em razão disso, deve-se usar um par de vírgulas,
e não apenas uma:

Ele disse que....................................................estaria presente no debate.

, se não houvesse contratempos,

f) artigo 107, IV do Código Penal.

Observe que na citação de leis há duas ordens:

ordem direta : inciso IV do art. 107 do Código Penal

123

ordem indireta : art. 107 , IV , do Código Penal

213

A relação lógica é sempre entre o artigo e a constituição, o artigo e o código etc. Os


elementos que aparecerem entre eles devem estar cercados, ilhados com duas vírgulas.

ordem indireta : art. 128 , I e II , do Código Penal

ordem indireta : art. 5.º , § 2.º , da Constituição Federal

g) Constatou-se porém, uma melhoria no setor.

As conjunções, quando deslocadas, devem vir isoladas. No caso acima, o correto é:

Constatou-se , porém , uma melhoria no setor.


h) José, reclamante e João, reclamado, estiveram presentes.

Pontuação errada, pois deve-se isolar o aposto:

José, reclamante , e João, reclamado , estiveram presentes.

i) etc.

A abreviatura etc. possui origem latina ( et cetera ) e significa e outras coisas , e as


demais coisas . É por isso que se aconselha usá-la somente nas enumerações de coisas, e
não de pessoas.

O ponto que indica a abreviatura de etc. é obrigatório e, no encontro com ponto final, é
apenas um ponto que cabe usar.

Quanto à vírgula, a presença é mais comum, porém muitas pessoas não a colocam por
entender que antes da conjunção e (etc. = e outras coisas), nas enumerações, não se usa
vírgula. Diante desse impasse, aceitam-se as duas maneiras:

• com vírgula: O cartaz tinha várias cores: amarelo, vermelho, azul, etc.

• sem vírgula: O cartaz tinha várias cores: amarelo, vermelho, azul etc.

Observação : Trata-se de pleonasmo colocar a conjunção e antes do etc. ou reticências.

errado : Furtaram as janelas, portas, grades e etc.

errado : Furtaram as janelas, portas, grades etc...

correto : Furtaram as janelas, portas, grades, etc.

6. CRASE

Essa palavra possui origem grega e significa fusão, junção. O acento grave, em nosso
idioma, faz o papel de indicar aos olhos do leitor a presença da fusão de a + a.

É muito comum o brasileiro sofrer com o acento grave, que é apenas um sinalzinho
com inclinação à esquerda, mas tem seus encantos e deixa muita gente em situação
delicada. Para quem o entende e sabe usá-lo, rapidamente reconhece a importância de tal
acento, esclarecendo sentidos e funções.

Falar do acento agudo e do circunflexo é coisa bastante distinta de falar do acento


grave. Razões muito diferentes justificam a existência deles. Abole-se um acento agudo
aqui, um circunflexo lá, mas no grave ninguém toca nem rela. A crase é eminentemente
sintática, exige noções de regência e bom conhecimento morfológico em relação ao uso do
artigo e da preposição. Acentuar uma proparoxítona (lâmpada) e acentuar um objeto
indireto (referi-me à nova lei) pede esforços cognitivos diferentes.

Quando alguém me pergunta como faz para aprender a “crasear”, digo para começar
pelo avesso: primeiro aprenda a não colocar o acento em lugar proibido. Há certas
construções em que ele não cabe, pois falta metade: um dos “a+a” não comparece. Por
exemplo, o artigo definido feminino “ a ” não pode ser usado em determinadas situações,
o que, por exclusão, nos leva ao raciocínio de que o “a” da construção é apenas a
preposição “a”.

Em todas as situações abaixo, não insista, o acento é proibido, pois o artigo definido
feminino “a” não pode aparecer. Em todas as situações enumeradas a seguir só há a
preposição “a” . Assim, não ocorre crase antes de:

a) substantivo masculino: foi a júri, falei a respeito, ir a bordo, a pé, operação a laser

b) “a” no singular + palavra no plural: a folhas, a duras penas, referiu-se a pessoas

c) artigo indefinido uma : falei a uma pessoa, referi-me a uma lei

d) pronome pessoal: falei a ela, a mim, a ti, a nós

e) pronome indefinido: falei a ninguém, referi-me a todos, a qualquer pessoa, a toda


pessoa, a cada pessoa, não falei a nenhuma pessoa, falei a alguma pessoa, não me referi a
nada

f) pronome demonstrativo esta e essa : falei a esta pessoa, referi-me a essa lei

g) verbo infinitivo: a partir de, a combinar, a começar

h) pronome de tratamento iniciado por Vossa ou Sua : falei a Vossa Senhoria, requer a
Vossa Excelência

i) pronome de tratamento você : falei a você

j) pronome cujo : vi a pessoa a cujo caráter fizemos alusão

l) pronome quem : vi a pessoa a quem você diz obedecer

Também não ocorre crase em expressões em que usamos palavras repetidas: face a
face, cara a cara. A memorização dessa lista é decisiva para que não sejam cometidas as
falhas mais primárias em relação ao acento grave.

Outra construção que merece atenção é a formada pelas palavras contra, ante,
mediante e perante , todas elas classificadas como preposições, situação que
automaticamente rejeita o uso da preposição “a” diante de tais palavras. Assim, podemos
dizer que à frente de contra, ante, mediante e perante , por não haver a preposição “a”,
nunca ocorrerá crase: perante a juíza, ante a dúvida, mediante a multa, contra a ideia.

Outra noção fundamental é a de que, para confirmar se há crase, a troca por um


sinônimo masculino é uma boa forma de verificação. Entenda a razão: se no feminino
temos à (preposição + artigo), no masculino temos como forma correspondente ao
(preposição + artigo). Conclua que ao (masculino) corresponde à (feminino). Compare:

Ele se referiu à falha no documento/ Ele se referiu ao erro no documento.

O atraso foi comunicado à funcionária/ O atraso foi comunicado ao funcionário.

Fui fiel à lei/ Fui fiel ao mandamento.

Se no masculino couber ao , também caberá à no feminino.

Para as palavras que trazem a ideia de lugar, há outra troca bastante interessante.
Acompanhe:

Ir a Ir à

Voltar de Voltar da
Crase para quê? Crase há!

Ir a Cuba. Ir à Argentina.

Sem crase, porque: Com crase, porque:

Voltar de Cuba. Voltar da Argentina.

Ir a Brasília. Ir à Bahia.

Sem crase, porque: Com crase, porque:

Voltar de Brasília. Voltar da Bahia.

A seguir você encontrará uma lista com as falhas mais comuns de crase, seguidas da
correção e da explicação teórica:

a) Há políticos que não merecem voltar à Brasília.

Na frase não cabe o acento grave. O correto é “voltar a Brasília”. O problema está na
questão de alguns lugares aceitarem o artigo e outros não. Para analisar o nome de
cidades, estados, países e continentes, procure usar a seguinte troca, a fim de certificar se
vem com artigo ou não:

Ir a Ir à

Voltar de Voltar da

Crase para quê? Crase há!

Ele foi a Curitiba. Ele foi à França.

Ele voltou de Curitiba. Ele voltou da França.

Deve-se observar que, quando o local vem com uma qualificação ou especificação,
passa a vir com artigo:

Ele foi à bela Curitiba. Ele foi à Roma antiga.

Ele voltou da bela Curitiba. Ele voltou da Roma antiga.

b) Era um carro movido à álcool.

Antes de palavra masculina, por se usar artigo feminino, não ocorre crase. De tal
maneira, é correto: movido a álcool. Observe alguns exemplos: ir a júri, a plenário, a
julgamento, a laser, a respeito de, a critério de, a mando de, a prazo, a troco de.

c) Eles fizeram referência à essa antiga lei.

Nunca ocorre crase antes dos pronomes demonstrativos essa e esta , pois não aceitam a
anteposição do artigo. Se não aceitam o artigo, a crase é impossível:

Eles fizeram referência a essa antiga lei.

Não se fez alusão a esta época política.

d) Haverá transporte gratuito de segunda à sexta.


Antes do problema em si, deve-se ter consciência da funcionalidade das substituições
para analisar a crase com mais rapidez e certeza. Por isso, dentro de uma visão genérica,
caberá acento indicador de crase se, na troca por um sinônimo masculino, aparecer “ao”
(feminino à = masculino ao).

Na construção acima, não houve a junção da preposição mais artigo. Para constatar,
troque a palavra feminina ( sexta ) por uma masculina ( sábado ): de segunda a sábado . Se
no masculino só apareceu um “a” (preposição), é sinal de que no feminino também só
existe um “a” (preposição) e, portanto, não cabe crase.

Se a frase fosse da segunda à sexta , a crase existiria. Para confirmar, faça a troca pelo
sinônimo masculino: da segunda ao sábado . Se no masculino apareceu “ao”, no feminino
caberá “à”.

Esse tipo de construção traz uma correlação muito simples:

• na primeira frase ( de segunda a sexta ) não se usou artigo e se criou uma


generalização (qualquer segunda a sexta);

• na segunda frase ( da segunda à sexta ) se usou o artigo e se particularizou, deu-se


uma exatidão (só desta segunda a esta sexta).

Para tornar a análise ainda mais visual, observe como a primeira parte da expressão já
traz uma pista importante:

• de segunda (sem artigo) a sexta (sem artigo também);

• d a segunda (com artigo) à sexta (com artigo também).

Observe agora algumas expressões bastante costumeiras:

Ano: de 2010 a 2012

Mês: de janeiro a abril

Dia do mês: de 20 de maio a 15 de junho

Dia da semana: de segunda a sexta

Horas: das 8h às 18h

e) Pediu-se à Vossa Excelência novo prazo.

Antes de Vossa Excelência (bem como de todos os pronomes de tratamento iniciados


por Vossa ou Sua e também você ) nunca haverá crase. Se crase é a junção de preposição
mais artigo, tais pronomes de tratamento repelem o uso do artigo, resultando na
impossibilidade da crase.

Pediu-se a Vossa Excelência novo prazo.

Já enviamos a Vossa Senhoria o pagamento.

f) Foi enviado o pedido a Senhora Maria Pereira.

Frase que traz falha devido à falta de acento. Os pronomes de tratamento Senhora e
Senhorita aceitam o artigo, permitindo ocorrer crase quando houver também preposição.
Para confirmar, pense na troca por um sinônimo masculino e estabeleça esta
correspondência: ao = à . Ou seja, se no masculino aparecer ao , no feminino caberá o
acento grave. Outra forma de verificação é a troca por na , da , pela , para a e com a .
Quando é possível substituir por uma dessas combinações, há crase. Observe:

Foi enviado o pedido à Senhora Maria Pereira.

Foi enviado o pedido ao Senhor José Pereira.

Foi enviado o pedido para a Senhora Maria Pereira.

Nos casos em que não ocorrem tais possibilidades de troca, é sinal de que não há crase.
Confirme:

Foi enviado o pedido a cada mulher.

Foi enviado o pedido a cada homem.

Foi enviado o pedido para cada mulher.

g) Não entregarão o atestado à pessoas atrasadas.

No trecho não há necessidade de crase porque o artigo está ausente; só há preposição e,


portanto, não cabe o acento. Para memorizar, pense que nunca ocorrerá crase quando
houver um “a” no singular seguido de palavra no plural. Observe:

Não entregarão o atestado a pessoas atrasadas.

O convite foi feito a empresas da cidade.

O pedido será feito a crianças somente.

Caso fosse usado o artigo, daí haveria a necessidade do acento:

Não informarão o horário às pessoas atrasadas.

O convite foi feito às empresas da cidade.

O pedido será feito às crianças somente.

h) Nunca fizeram referência as nossas ideias.

São comuns em obras didáticas as lições meio apressadas do acento grave facultativo.
Equivocam-se às vezes porque se faz a análise pelo fim, observando a consequência
(acento grave), e não a causa (união da preposição mais artigo). É a partir da causa
(preposição ou artigo facultativo) que se dá o reflexo na acentuação (acento grave pode ser
usado ou não). Observe duas possibilidades distintas:

• antes dos pronomes possessivos , o uso do artigo é facultativo: “Referi-me à/a sua
ideia. Referi-me a/às suas ideias”.

• após a preposição até (indicando direção), o uso da preposição “ a ” é facultativo:


“Fomos até a/à praia. Chegou até as/às praias”.

Retomando a frase inicial, observa-se uma falha, pois o acento grave é obrigatório.
Acompanhe:

• a palavra referência exige preposição (referência a algo);


• o pronome possessivo pode ser usado com artigo ou sem, mas na frase o artigo está
presente (o “s” indica que se usou o artigo).

Nunca fizeram referência às nossas ideias.

(preposição) a + as (artigo)

Outra forma correta seria sem o artigo, só com a preposição:

Nunca fizeram referência a nossas ideias.

(preposição) a + ø (artigo)

i) Suas ofensas dirigiram-se à uma mulher.

Falha de acentuação, pois não ocorreu crase. Para verificar esse tipo de frase, faça as
trocas, as substituições, nas quais se levarão em conta os seguintes pressupostos:

• só caberá o acento se, ao trocar a expressão por um sinônimo masculino, aparecer ao


(daí a correlação à = ao ); caso contrário, sem acento:

Suas ofensas dirigiram-se a uma mulher.

Suas ofensas dirigiram-se a um homem.

• também caberá o acento quando o a puder ser trocado por para a , na , da , pela ou
com a ; caso contrário, sem acento:

Suas ofensas dirigiram-se a uma mulher.

Suas ofensas dirigiram-se para uma mulher.

O acento, conclui-se, não deve ser usado na frase porque antes do artigo indefinido
uma não se usa artigo definido e, por extensão, não ocorre crase.

j) Aquele ato foi contra à vida de todos.

O correto é sem o acento contra a vida de todos , porque contra já é por si só uma
preposição e, portanto, não vem acompanhado da preposição a . Na frase só há um artigo
feminino. No masculino teríamos Aquele ato foi contra o bem de todos . Essa proibição de
acento também ocorre com ante, perante e mediante : ante a vítima, perante a juíza,
mediante a culpa.

k) Não fizeram alusão à ela.

Não cabe o acento grave na frase, pois os pronomes pessoais não aceitam a anteposição
do artigo feminino. Daí se chegar à conclusão de que antes dos pronomes pessoais nunca
ocorrerá crase .

Não fizeram alusão a ela.

Eles se refeririam a mim, a nós.

7. PLEONASMOS

Trata-se de informação repetitiva e desnecessária, de valor bastante pejorativo em


alguns casos, visto que reflete certo exagero ou desconhecimento linguístico ou cultural.
Há pleonasmos que não são considerados errados, mas sempre se deve estar atento a fim
de evitar os que podem projetar um valor negativo. Abaixo uma lista de construções
evitáveis:

1- Ele disse que só virão ambos os dois .

2- Ele tinha uma bela cali grafia.

3- O carrasco tinha ordem para decapitar a cabeça do rei.

4- Ele já havia descido lá embaixo três vezes.

5- Cresce o monopólio exclusivo de certas licitações.

6- A realidade é dura, mas deveriam encará -la de frente .

7- Isso só terá valor se pre visto antes .

8- Aquilo era oco por dentro .

9- O comércio bi lateral entre os dois países é importante.

10- Há cerca de um mês atrás , houve a acusação.

11- Con viviam juntos há vinte anos.

12- O elo de ligação desses países será a cultura ibérica.

13- Novamente não enfrentou de frente os problemas.

14- A exportação para o exterior precisa de regras

15- Houve rapidez para conter a hemorragia de sangue .

16- Na compra do caderno, você ganha grátis dois lápis.

17- A monocultura exclusiva do trigo gerou a supersafra.

18- Quando deu a ré para trás , aconteceu o acidente.

19- Se caso houvesse falha, deveriam devolver o produto.

8. COLOCAÇÃO PRONOMINAL

A colocação dos pronomes átonos ao redor do verbo sempre foi e é um assunto


controvertido e isso ocorre há tempos. Há o clássico poema de Oswald de Andrade que já
nos deu a dica do problema um século atrás.

Dê-me um cigarro

Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso
camarada Me dá um cigarro

O primeiro contato deve ser feito com a matéria-prima, ou seja, os pronomes pessoais
do caso oblíquo átono, ou simplesmente os pronomes átonos: me, te, se, o, os, a, as, lhe,
lhes, nos e vos. Eles sempre estão vinculados a um verbo e de acordo com a posição
recebem a seguinte classificação:

• Próclise – anterior ao verbo: O homem não se ateve ao fato.

É a colocação mais usada pelo brasileiro e na maioria das vezes está também correta,
desde que não inicie o período. Será obrigatória quando houver palavra atrativa.

• Ênclise – posterior ao verbo: Informei- lhes todos os problemas.

Colocação que deve ser usada genericamente, desde que não haja palavra atrativa. É
obrigatória no início dos períodos, mas proibida quando o verbo estiver sendo usado no
futuro do indicativo ou no particípio.

• Mesóclise – no meio do verbo: Dar- lhe -emos os presentes.

Essa colocação é usada com o futuro do presente ou futuro do pretérito (do indicativo)
em duas hipóteses: o verbo que inicia o período está no futuro ou o verbo no futuro não
está acompanhado de palavra atrativa.

O estudo da colocação pronominal, antes de se desgastar em divergências e polêmicas,


deve centrar o foco em quatro regras absolutas, que, combinadas e respeitadas, garantem
uma colocação pronominal coerente e correta:

• não iniciar período com pronome átono;

• não pospor ao particípio;

• respeitar as palavras atrativas;

• não pospor ao futuro do indicativo.

– Não iniciar período com pronome átono

Quando o verbo está abrindo um período, não devem os pronomes átonos ser
antepostos ao verbo. Sendo proibida a próclise, será feito uso da mesóclise ou da ênclise:

Diga-me toda a verdade.

Recomendar-se-ia cautela.

Pede-se silêncio.

– Não pospor pronomes átonos ao particípio.

A ênclise é totalmente proibida aos particípios. O uso correto passa a limitar-se a duas
situações básicas:

a) se o particípio está sozinho (portanto não compõe uma locução verbal), os pronomes
átonos devem ser substituídos pelos tônicos:

Feito a mim o convite, tive de recusá-lo.

Despachado a eles o registro, conseguiram ficar mais tranquilos.

O belo presente, enviado a nós com antecedência, foi recebido com alegria.
b) se o particípio estiver acompanhado de verbo auxiliar, o pronome átono vincula-se
ao auxiliar ou (uso predominante no Brasil) vem antes do particípio:

A mulher tinha-se queixado ou A mulher tinha se queixado.

Não se tem dado uma solução ou Não tem se dado uma solução.

O autor havia-se referido ao fato ou O autor havia se referido ao fato.

Tal uso tem-se tornado comum ou Tal uso tem se tornado comum.

–Não pospor pronomes átonos aos verbos conjugados no futuro do indicativo.

A ênclise é totalmente proibida ao futuro. O uso passa a limitar-se a duas situações


básicas:

– não havendo palavra atrativa, pode-se usar a mesóclise: O Brasil tornar-se-á produtor
de tecnologia.

– havendo palavra atrativa, opta-se pela próclise: Ele não se referirá a todos vocês.

– Respeitar as palavras atrativas

Há um grupo de palavras e expressões que exigem a anteposição do pronome ao verbo.


O uso obrigatório da próclise ocorre graças às palavras atrativas:

a) palavras com sentido negativo: não, nunca, jamais, ninguém, nada, nenhum, nem,
etc.

Nunca se meta em confusões. Você não os viu nem os chamou. Nada nos deterá.

Observação : Quando há palavra com sentido negativo e o verbo está no infinitivo,


passa a ser facultativa a colocação do pronome, pois pode-se antepor ou pospor:

Confirmei o horário para não me atrasar.

Confirmei o horário para não atrasar-me.

Solicitei notícias a todos, pois tive medo de não os rever.

Solicitei notícias a todos, pois tive medo de não revê-los.

b) advérbios (sem vírgula): aqui, ali, só, também, bem, mal, hoje, amanhã, ontem, já,
nunca, jamais, apenas, tão, talvez, etc.

Ontem a vi na aula. Aqui se trabalha muito. Ele sempre se referiu ao Brasil.

Com a vírgula, cessa a atração: Ontem, vi-a na aula. Aqui, trabalha-se muito.

c) pronomes indefinidos: todo, tudo, alguém, ninguém, algum etc.

Tudo se tornou esclarecido para nós. Alguém nos chamou. Ninguém o conhece.

d) pronomes ou advérbios interrogativos (o uso destas palavras no início da oração


interrogativa atrai o pronome para antes do verbo): O que? Quem? Por que? Quando?
Onde? Como? Quanto?
Quem a vestiu assim? Por que se fez tanto escândalo? Onde nos colocaram?

e) pronomes relativos: que, o qual, quem, cujo, onde, quanto, quando, como

Havia duas ideias que se tornaram importantes. Era bela a igreja na qual se casaram
seus pais.

f) conjunções subordinativas: que, uma vez que, já que, embora, ainda que, desde que,
posto que, caso, contanto que, conforme, quando, depois que, sempre que, para que, a fim
de que, à proporção que, à medida que etc.

Ele entenderá melhor o fato caso o reanalise.

Quando se notou o problema, já era tarde.

Ele entregará os documentos conforme se combinou.

g) em + gerúndio

Em se tratando de corrupção, o Brasil tem experiência. Há alterações em se observando


falha.

h) orações optativas (são as que exprimem desejo):

Vá pela sombra! Deus os abençoe! Raios o partam!

9. PALAVRAS E EXPRESSÕES EVITÁVEIS

Há várias construções que trazem consigo o desabono e a condenação de estudiosos,


portanto evitáveis, principalmente em situação de exame.

– a nível de

Evite a expressão “ a nível de ” (quando tiver o sentido de “ em relação a ”, “ em termos


de ”, “ com referência a ”, “ em âmbito de ”, “ quanto a ”), pois ela tem recebido uma grande
rejeição social, já que cria um tom pomposo e vazio. É expressão dispensável. Às vezes, é
tão dispensável que sua falta nem é sentida.

evite : O encontro a nível internacional foi produtivo.

use : O encontro internacional foi produtivo.

evite : A nível jurídico, pode-se propor uma solução.

use : Em âmbito jurídico, pode-se propor uma solução.

use : Juridicamente, pode-se propor uma solução.

– eis que

Na introdução das orações causais, a expressão “ eis que ” é condenada pelos


gramáticos. Substitua por uma vez que, porque, já que, visto que, porquanto, pois .

– isto posto

É muito comum na linguagem jurídica o uso da expressão Isto posto , que, em geral,
aparece na parte final dos documentos, no momento da conclusão. A forma correta,
porém, é Posto isso. A explicação teórica traz duas lições: nas orações reduzidas de
particípio, é o particípio que deve iniciá-las e, nas retomadas de informações, faz-se com
os pronomes esse , essa e isso . Iniciando-se com o particípio e retomando com isso , nasce
a forma correta Posto isso .

Posto isso , requeiro a revisão da decisão.

Caso não queira usar nem um, nem outro, pode-se apelar para expressões com o
mesmo valor: em face de, diante de, ante, em razão de, tendo em vista etc.

– horário

Para indicar o horário, a forma adequada é:

• para as horas sem minutos, apenas o “h”: 8h , 12h , 15h

• para as horas com minutos, usam-se o “h” e o “min”: 8h30min , 11h50min , 15h25min .

Tudo com letra minúscula e sem ponto de abreviação. Apesar de ser pouco econômica ,
é a forma oficial. Usá-la significa não correr o risco de ser corrigido.

– o mesmo

Deve-se evitar o uso de “mesmo” em substituição aos pronomes pessoais “ele, o, lhe” (e
respectivas variações).

evite: O acusado foi interrogado, porém o mesmo não confirmou a autoria.

use : O acusado foi interrogado, porém não confirmou a autoria. (elipse)

use : O acusado foi interrogado, porém ele não confirmou a autoria.

evite : Quando o acusado foi apresentado à vítima, ela não reconheceu o mesmo.

use : Quando o acusado foi apresentado à vítima, ela não o reconheceu.

– posto que

Outra expressão que é usada indevidamente para introduzir causa. O uso adequado de
posto que está relacionado à ideia de concessão e equivale a embora, ainda que, se bem que,
conquanto : O teste, posto que fosse difícil, foi feito por todos.

Para introduzir uma causa ou explicação, mantenha o uso das conjunções e expressões
que não geram protestos: uma vez que, porque, já que, visto que, porquanto, pois.

evite: Ele virá, posto que nos prometeu.

use: Ele virá, visto que nos prometeu.

use: Ele virá, pois nos prometeu.

– de vez que

Apesar do uso constante no meio jurídico, duas locuções são condenadas pelos
gramáticos: de vez que e vez que . Evite-as, substituindo por outro conectivo que também
traga a ideia de causa: uma vez que, porque, já que, visto que, porquanto, pois .
evite: Resolveu protestar, vez que não o deixaram falar.

use: Resolveu protestar, uma vez que não o deixaram falar.

– se caso

Em “ se caso ” existe um excesso, houve acúmulo de conjunções condicionais. Basta


uma delas.

errado : Se caso ele voltar, poderemos ajudar.

correto : Se ele voltar, poderemos ajudar.

correto : Caso ele volte, poderemos ajudar.

São corretas as expressões acaso e por acaso : Se por acaso ele vier ou Se acaso ele vier.

– ciúmes

A palavra possui variação normal: singular ( o ciúme ) e plural ( os ciúmes ). Respeite,


portanto, a concordância: “Sentia muitos ciúmes. Era um ciúme doentio”.

– qualquer

Não é recomendado pelos estudiosos usar “qualquer” no lugar de “nenhum” ou


“algum” em frases negativas. O pronome indefinido “qualquer” aparece nas construções
em que há a existência de algo. Nas construções em que se nega a existência de algo, pode-
se usar como reforçativo de negação “nenhum” ou “algum” (posposto). Compare:

evite: Não há nos autos qualquer prova...

use: Não há nos autos nenhuma prova...

use: Não há nos autos prova alguma ...

10. AMBIGUIDADE

A construção com dupla interpretação, principalmente em textos técnicos, é um vício


temeroso. Exige-se do leitor um esforço cooperativo acima do normal e, muitas vezes,
mesmo com o esforço, pode haver uma interpretação errada. A razão do duplo sentido
ocorre geralmente porque o autor e o leitor não dividem as mesmas informações ou
porque há algum aspecto gramatical com problema, como a ordem das palavras, a
pontuação, os pronomes, a retomada de um termo, entre outros. Observe alguns
exemplos:

– Pronomes pessoais

O pai disse ao filho que, se ele continuasse a guerra, destruiria um reino poderoso (ele
= pai ou filho?).

Se um motorista, dirigindo com prudência o veículo pela via pública, viesse a atingir
um suicida que se atira sob as rodas do veículo, de acordo com esta teoria (a causal), ele
teria praticado um homicídio (ele = motorista ou suicida?).

– Pronomes possessivos
O suspeito de matar a jovem fugiu com o seu carro (de quem é o carro: do suspeito ou
da vítima?).

O guarda deteve o suspeito em sua casa (na casa de quem: do guarda ou do suspeito?).

– Pronomes relativos

Visitei o teatro do vilarejo, que foi fundado em 1840 (o que foi fundado: teatro ou
vilarejo?).

A interpretação doutrinária do princípio da insignificância, a que se fez alusão no


capítulo anterior, traz o esclarecimento do caso analisado (a que se fez alusão: à
interpretação ou ao princípio?).

– Referenciação

As pessoas viam o incêndio do prédio (incêndio no prédio ou o prédio é de onde


viam?).

O envio de mercadorias era realizado por empregado especialmente contratado para


isso, sendo, portanto, normal tal fato na empresa (o que era normal: o envio ou a
contratação?).

O acordo era importante para o Brasil e para a Argentina, permitindo uma retomada
das importações (permitindo ao Brasil ou à Argentina ou a ambos?).

– Inversões prejudiciais

O bom governante o povo ama (quem ama quem?).

11. PRONOME DEMONSTRATIVO

• este(s), esta(s), isto;

• esse(s), essa(s), isso;

• aquele(s), aquela(s), aquilo.

Os demonstrativos têm por função situar os seres e as coisas no tempo, no espaço e no


próprio texto.

– Tempo

• este(s), esta(s), isto – referem-se ao tempo presente:

Neste ano houve eleições.

O mundo já assistiu a cinco guerras neste século.

Faço isso neste instante.

• esse(s), essa(s), isso – referem-se ao passado ou futuro recentes:

Meu irmão deverá vir por esses dias aqui (futuro próximo).

Recebi muita ajuda nesses dias em que fiquei doente (passado próximo).
• aquele(s), aquela(s), aquilo – referem-se ao passado ou futuro distantes:

Naquele tempo, não havia televisão (passado distante).

Aquela época não volta mais (passado distante).

– Espaço

Para entender a articulação dos demonstrativos no espaço, deve-se pensar na


proximidade dos objetos em relação às pessoas do discurso:

• este(s), esta(s), isto – o objeto está perto do enunciador, ou seja, da pessoa que fala ou
escreve:

Eu sinto esta dor há uma semana (a dor está em quem fala).

Estes cabelos estão me dando vergonha (os cabelos estão em quem fala).

Este departamento solicita o envio dos documentos (a pessoa que escreve está no
departamento).

• esse(s), essa(s), isso – o objeto está perto do interlocutor, ou seja, da pessoa que ouve
ou lê:

Pegue essa camisa aí do seu lado (a camisa está perto do interlocutor).

Orgulho-me dessa sua alegria (a alegria é do interlocutor).

Pedimos a essa empresa o cumprimento do prazo (a empresa está perto do


interlocutor).

• aquele(s), aquela(s), aquilo – o objeto está longe do enunciador e do interlocutor:

Não vimos passar aquele avião (o avião está distante de ambos, do enunciador e do
interlocutor).

Ficaremos aqui, pois naquela sala acontecerá alguma coisa (a sala está distante de
ambos, do enunciador e do interlocutor).

Também pode haver correlação entre esses pronomes e os advérbios de lugar:

Pegue este livro aqui . Pegue esse livro aí . Pegue aquele livro ali .

– Texto

Há dois movimentos na organização da informação textual: retomada ou progressão.


Os pronomes demonstrativos podem referir-se às informações em três situações.

• usa-se esse(s), essa(s), isso para retomar uma informação:

A criança chorava muito e todos ficaram chateados com essa situação.

Havia muita gente na reunião e, por isso , ela foi transferida.

Todos experimentaram nosso café e esse produto foi bem aceito.

Várias pessoas estavam atrasadas e isso atrapalhou o início da palestra.


• quando há dois termos e retoma-se cada um dos termos, usa-se este(s), esta(s), isto
para o mais próximo e aquele(s), aquela(s), aquilo para o mais distante:

Havia laranja e uva e logo todos preferiram esta fruta.

Falaram sobre Camões e Dante: este escreveu a Divina Comédia ; aquele, os Lusíadas.

Visitamos vários países: Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina. Neste país, ficamos
encantados com a sua capital.

Observação – Deve-se perceber que os pronomes este(s), esta(s) e isto só retomam algo
já citado no texto para determinar com exatidão, evitando ambiguidades. Não havendo a
necessidade de exatidão, usa-se sempre corretamente o pronome esse(s), essa(s) e isso
para retomar os elementos já citados.

Observação – Quando houver áreas de incerteza e possíveis ambiguidades, use


também referências numéricas: O primeiro; Esse último; A terceira teoria.

• quando se vai referir a uma informação a ser enunciada, usa-se este(s), esta(s), isto:

A solução para o problema foi esta : fizeram um acordo.

Estes são os principais problemas: inflação e reajustes.

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12. Exercícios

Em todos os trechos, há uma falha gramatical. Com o intuito de revisar seu


conhecimento gramatical, reescreva os períodos e faça as correções necessárias.

1) Não houveram mais atos de vandalismos naquele local.

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2) Tal preceito deve ser observado em lei infra-constitucional.

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3) Os valores cobrados valem à partir do dia citado.

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4) Rejeitou-se os pedidos.

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5) Tal conduta só se justifica em casos de perigo eminente.


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6) A relação extra-matrimonial influiu na atitude da esposa.

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7) A mudança da empresa não implicaria em mudança de domicílio do funcionário.

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8) Tal princípio visa o bem-estar social.

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9) À acusação e à defesa são garantidas a produção das mesmas provas admitidas em


Direito.

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10) Ante ao problema, buscou-se a melhor solução.

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11) Procedeu-se a correção.

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12) Tais ações tem a finalidade de preservar a ordem na empresa.

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13) Seria uma contra-prova bastante convincente.

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14) O funcionário desobedecia certos requisitos.

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15) Resta ao reclamante plenos interesses processuais.

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16) O reclamante trabalhou de março à abril.

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17) art. 477, § 8º da CLT

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18) As hipóteses de vedação da liberdade provisória sem fiança encontra-se em leis


específicas.

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19) A legislação trabalhista, nada contempla nesse sentido.

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20) O local situaria-se próximo ao serviço.

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21) Isso ocorreu a muito tempo.

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22) A própria lei processual penal trás as peculiaridades das distinções existentes.

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23) Existe hoje no ordenamento jurídico duas espécies de reincidências.

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24) Ele saiu da empresa à serviço do contratante.

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25) A união estável não refere-se apenas a questões matrimoniais.

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© desta edição [2017]