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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

PROGRMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL - PROSS


DISCIPLINA: Modernidade, Teoria Social e Método

Prof.ª Dr.ª Tereza Cristina

Aluno: Vinicius Pinheiro de Magalhães

Referência Bibliográfica: MARX, Karl. Prefácio. In:______. Contribuição à critica da


economia política. 2 ed. São Paulo: Expressão popular, 2008, p. 45-50.

Palavras-Chave: Teoria social. Marxismo. Economia política.

Comentário Pessoal: Trata-se do prefácio da obra “Contribuição à crítica da economia


política”, escrito por Karl Marx. Neste breve texto Marx relata seu processo de
desenvolvimento intelectual na compreensão da Economia Política. A curiosidade que
se inicia com a questão da filosofia do direito determina outros rumos que o aproxima
da Economia Política como questão central para apreensão da natureza das relações
jurídicas. O elemento central deste texto é a síntese sobre a compreensão de que as
formas jurídicas, filosóficas, artísticas e religiosas (ideológicas) não se explicam por si
só, antes são frutos de raízes materiais e concretas. A sociedade civil – a base
socioeconômica das sociedades – é composta de forças produtivas em constante
desenvolvimento que fomentam e se relacionam a determinadas relações de produção.
Quando as forças produtivas se desenvolvem a revelia das relações de produção abre-se
espaço para revoluções sociais. Esse processo explica os modos de produção que
antecederam o capitalista. Portanto, a principal conclusão que Marx pretende expor
nesta breve reflexão é a de que as formas ideológicas não se explicam a si mesmas,
antes estão condicionadas às raízes, ou seja, às relações que as forças produtivas
fomentam. As próprias relações de produção (basicamente uma forma jurídica) são
fomentadas pelas forças produtivas.

Referência Bibliográfica: IANNI, Octávio (Org.). Introdução. In: MARX, Karl. Marx
– sociologia. 2 ed. São Paulo: Ática, 1980, p. 7-44.

Palavras-Chave: Marxismo. Sociologia.

Comentário Pessoal: O texto introdutório de Octávio Ianni que abre a obra para
discutir a sociologia do próprio Marx trata dos principais elementos da Teoria social
crítica (Produção da sociedade, classes sociais, existência e consciência, e Estado e
sociedade).
Num primeiro momento do texto Ianni reflete sore a produção da sociedade
capitalista. Partindo da mercadoria, o autor apresenta didaticamente a dialética
materialista e histórica como um elemento capaz de revelar os antagonismos e
determinantes que estão por trás dessa categoria. Nesse sentido chega-se a conclusão
que a mercadoria não tem caráter fantasmagórico como gostariam os defensores da
economia política, mas ela é resultante de relações sociais concretas que, diante de uma
contradição fundamental (capital x trabalho assalariado), determina sua constituição.
Portanto, a produção capitalista é engendrada por relações sociais concretas dadas
historicamente que estão postas de forma antagônica na sociedade; daí a relevância da
dialética materialista e dialética histórica.
Ianni trata ainda da teoria de Marx sobre a luta de classes. Afirma ser essa
categoria de Marx fruto, em primeiro lugar, da crítica da filosofia alemã, do socialismo
utópico francês e da economia política inglesa. Nas reflexões críticas a estes campos do
saber Marx afirmava existir uma luta de classes que, em sua trajetória intelectual, se
adensam na compreensão da anatomia da estrutura econômica da sociedade capitalista.
A relação conflituosa entre forças produtivas e relações de produção refletem
contradições mais concretas entre trabalhadores e capitalistas. É essa a contradição
fundamental que movimenta o desenvolvimento do capitalismo. De um lado as forças
produtivas, o trabalhador assalariado, que luta por melhores condições de trabalho, e de
outro o capitalista, as relações de produção, o assalariamento que objetivam a
manutenção do status quo.
Também trata da compreensão da relação entre existência e consciência em
Marx. Toda a digressão feita por Ianni baseia-se na máxima de que a existência
determina e produz a consciência. A estrutura econômica ou base da sociedade burguesa
determina e produz uma superestrutura onde estão a ideologia, o direito, a ciência, etc.
A partir dessa baliza teórica materialista Ianni digressa sobre o desenvolvimento da
consciência da burguesia e do proletariado, ambos os processos determinados pelas
relações sociais concretas e pela luta de classe. Trata da economia política burguesa
clássica e da economia política burguesa vulgar. Ambas constituem formas de
consciência da burguesia, entretanto a economia clássica da burguesia se comprometia
mais fidedignamente com a compreensão do real, na medida em que era necessário nas
relações sociais concretas afirmar-se como um sistema econômico. A economia vulgar
surge num período seguinte, quando se supera a necessidade de instauração do regime
capitalista, sendo o objetivo ulterior o de legitimação. No contexto da consciência do
operário esse processo também é identificável. O operário num primeiro momento passa
a se articular com teorias do socialismo utópico, para só em seguida aderir a uma teoria
revolucionária. Todos esses processos são determinados por relações sociais concretas e
períodos históricos específicos.
Finalmente Octávio Ianni trata da concepção de Estado na obra de Marx, e sua
relação com a sociedade. Ianni relembra que na concepção marxiana o Estado não é
uma abstração que paira isentamente sobre as classes sociais, como queria Hegel. Antes,
na perspectiva de Marx o Estado é produto da estrutura concreta da sociedade
capitalista. A sociedade civil, composta pela relação entre as forças produtivas e as
relações de produção germina o Estado burguês. O Estado burguês, portanto, se
configura como um comitê administrativo dos assuntos privados da burguesia, na
medida em que é uma produção da estrutura social que assume a finalidade de
legitimação do status quo. Entretanto, existem momentos de crise de hegemonia do
Estado, quando as forças burguesas perdem a direção do mesmo, tendo que disputa-lo
com as demais classes. Nesses momentos históricos tem-se a impressão de que o Estado
realmente assume um papel de neutralidade, o que essencialmente é falso, pois sua
natureza é serviçal aos interesses da elite.

Referência Bibliográfica: ENGELS, Friedrich. Karl Marx, "Para a Crítica da


Economia Política" Tomo I. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas.
Edições Avante, 2006. Disponível em:
https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/08/15.htm Acesso em: 18 OUT. 2018.
Palavras-Chave: Marxismo. Materialismo histórico e dialético. Crítica da Economia
Política.

Comentário Pessoal: Trata-se de um texto de Engels que é dividido em duas partes.


Na primeira parte Engels discorre sobre o processo de instauração tardia das
discussões sobre a Economia Política na Alemanha, o que foi fruto de uma Revolução
Industrial não clássica. Ademais, Engels critica os economistas alemães que, a
semelhança de outros europeus, não conseguiram superar as abstrações ilógicas da
Economia Política burguesa.
No segundo momento do texto Engels, a partir da crítica esboçada aos
economistas alemães, pretende tratar do método inovador de Marx que o possibilitou
fazer a crítica da Economia Política. Para tanto Engels parte da crítica da dialética de
Hegel e de seus discípulos metafísicos que se limitavam a fazer críticas vazias e sem
ressonância concreta. Em seguida, Engels digressa sobre a originalidade de Marx de
inverter a dialética Hegeliana, ao propor esse método numa relação mais concreta e
direta com a história. Foi essa dialética materialista que permitiu Marx de fazer a crítica
da Economia Política, uma crítica baseada na superação da ideia da mercadoria como
um ente abstrato. Marx desvenda as mediações da mercadoria, as relações sociais
concretas que a determinava, rompendo com os misticismos dos economistas, que
tratavam as mercadorias como coisas abstratas. Essa originalidade de Marx, na
perspectiva de Engels, não só possibilitou uma conciliação com a realidade concreta
como facilitou o processo de análise da Economia Política; Engels, inclusive, sugere
comparações das teorias do valor de Marx e de Adam Smith. A abstração metafísica –
incorporada pelos economistas burgueses – é tão mistificadora que dificulta o processo
de apreensão da Economia. A dialética materialista por sua vez tem caráter tão
desvelador que facilita os processos de aproximação do real.

Referência Bibliográfica: NETTO, José Paulo. Introdução ao método na teoria social.


In: CFESS; ABEPSS. Serviço Social: Direitos Sociais e Competências profissionais.
CFESS/ABEPSS, 2009, p. 667-700.

Palavras-Chave: Método. Marxismo. Teoria Social crítica. Pesquisa em Serviço


Social.

Comentário Pessoal: José Paulo Netto introduz seu texto mostrando a natureza dos
debates sobre os dilemas metodológicos das teorias sociais. Passando por Durkheim e
Weber, é em Marx que o autor enfatiza uma teoria social alvo de inúmeras críticas,
balizadas por sua natureza ideopolítica. É sobre o método da teoria social crítica de
Marx de que trata este texto.
Antes de prosseguir com a exposição das dificuldades próprias ao método da
teoria social crítica de Marx, Netto propõe discutir alguns equívocos que cercaram essa
teoria. Chama atenção para alguns teóricos (Plêkhanov e Kautsky) da II internacional
que divulgaram uma teoria geral de Marx, isto é, que se propõe a explicação de tudo.
Essa lógica manualesca do método marxiano rejeitou o árduo trabalho de análise da
realidade para aplicar de forma simplista o método "geral" de Marx a qualquer realidade
histórica. Deriva dessa tendência a ideia de classificar a teoria marxiana como
fatorialista, isto é, teoria que pensa a sociedade como resultado da determinação de um
único fator, o econômico. As críticas da teoria social crítica caminham em dois eixos: 1
- ausência das questões culturais e simbólicas na teoria de Marx; 2 - teoria social
evolucionista, teleológica e determinista. O autor defende a ideia de que essas críticas
não passam de equívocos teóricos que podem ser superados com uma simples ida à
fonte.
Tratando da natureza do método marxiano, Netto afirma ser ele uma longa
elaboração teórica. Marx inicia sua vida acadêmica na década de 1840 e dedica 40 anos
de sua vida à análise da sociedade burguesa. Netto afirma que o método desenvolvido
por Marx é fruto de um longo esforço para compreensão da realidade da sociedade
burguesa, método este que só ficou pronto depois de 15 anos de dedicação heurística.
Foi o acúmulo crítico de Marx que permitiu com que este se instrumentalizasse para
análise da sociedade burguesa. A economia política inglesa - primeiramente apresentada
por seu parceiro Engels - de Ricardo e Smith, a filosofia alemã de Hegel e de Feuerbach
e o socialismo utópico francês de Owen e Fourier que permitiu que, criticamente, Marx
elaborasse seu método.
Netto também discute o conceito de teoria para Marx antes de expor o caráter
teórico-metodológico da teoria social crítica. Para Marx a teoria é a "reprodução ideal
do movimento real do objeto pelo sujeito". Ou seja, o objeto da análise marxiana é
concreto, tem existência objetiva. Entretanto, a existência objetiva do objeto da teoria
social crítica é construída pela atividade dos homens, o que mostra uma relação
intrínseca entre sujeito/objeto. Esse caráter da implicação do sujeito no objeto da Teoria
social de Marx não prejudica a objetividade deste método. A comprovação da validade
deste método está na prática social. Netto dá exemplos de Leis desenvolvidas como
resultado da análise da sociedade burguesa, que até hoje tem ressonância na realidade.
Nesse processo heurístico, Netto afirma ser, para Marx, o sujeito pesquisador um sujeito
absolutamente ativo, pois a realidade não se revela imediatamente. Portanto, o sujeito
pesquisador deve ter um acúmulo crítico, a fim de superar as aparências fenomênicas da
realidade.
Netto ainda propõe uma discussão sobre as formulações teórico-metodológicas
que balizam o método da teoria social crítica. Discute o processo de construção desse
método por Marx e Engels. Trata do caráter original deste método de partir da
concreção histórica da realidade (ponto de partida). Trata ainda da concepção de história
que, de base materialista e dialética, é considerada como processo, sempre em mutação
e em desenvolvimento, na medida em que a atividade dos homens determinam forças
produtivas e relações de produção que movimentam a história da sociedade. O processo
de aproximação dessa realidade em movimento permite que se estabeleçam categorias -
abstrações teóricas, como reprodução ideal do movimento real do objeto - de
compreensão do objeto. Esse movimento de partida determinado pela realidade se
relaciona a outro movimento de abstração (concreto pensado) - momento de
estabelecimento das categorias apreendidas pela realidade. Esse é o movimento que
permite a superação de uma compreensão imediata da realidade.
Referindo-se especificamente ao método de Marx, Netto adverte o leitor para
que não se crie expectativas quanto a definição e descrição de procedimentos
metodológicos para entender o método em Marx. Netto afirma ser o método uma
perspectiva assumida pelo sujeito pesquisador para abstrair o movimento real do objeto.
Portanto, em Marx, não existe dissociação entre método e teoria. Nesse contexto, Netto
apresenta três categorias teórico-metodológicas de Marx: totalidade, contradição e
mediação. Apresenta a totalidade como um complexo de complexas determinações.
Essas determinações só podem ser compreendidas mediatamente, partindo do singular
ao universal. Essa totalidade não é estática, mas dinâmica, daí o seu caráter
contraditório, na medida em que é resultado da contradição entre as demais totalidades.
Essas são as três categorias que determinam uma ortodoxia marxista, no que se refere ao
método.
Por fim, Netto apresenta a relação entre o método de Marx e a pesquisa em
Serviço Social. O autor mostra como a pesquisa surge tardiamente na profissão (décadas
de 1970-80), mas que, com esse recurso é possibilitada uma aproximação com a teoria
social crítica. Num primeiro momento Marx foi interpretado de forma equivocada por
parte da categoria por influência de um marxismo positivista. Posteriormente, com a
maturidade da categoria, essa relação se torna fecunda. Netto mostra a importância dos
profissionais assumirem uma atitude investigativa diante da realidade a qual estão
inseridos. Tendo a teoria social crítica como insumo, Netto propõe três atitudes para os
profissionais desenvolverem a atitude investigativa: Conhecer a realidade sócio-
histórica brasileira; conhecer a relação particular entre expressões da Questão social e
Política Social; e apropriar-se criticamente da produção teórica sobre a realidade em que
o profissional atua.

Referência Bibliográfica: MARX, Karl. A mercadoria. In:______. O Capital: Crítica


da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução Rubens
Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 157-218.

Palavras-Chave: Economia política.

Comentário Pessoal: No primeiro capítulo da obra Marx parte do ponto elementar que
o permitirá compreender a economia política da sociedade burguesa: a mercadoria. A
respeito da natureza da mercadoria afirma existir elementos qualitativos e quantitativos.
Em relação ao elemento qualitativo da mercadoria trata do valor de uso, aquele medido
por sua grandeza de utilidade. Entretanto, além do valor de uso as mercadorias são
trocadas. Essa relação de troca não é feita a partir dos valores de uso das mercadorias,
mas a partir de seu valor quantitativo. Valor para Marx é o tempo de trabalho médio
dispendido para a produção do valor de uso. É este elemento quantitativo que determina
a mercadoria, pois nem todo o valor de uso é mercadoria, mas toda a mercadoria possui
valor de uso e valor (no sentido quantitativo) de troca.
Ainda tratando da complexidade que compõe a mercadoria Marx discorre sobre
as formas de trabalho que estão contidas nessa categoria elementar da sociedade
burguesa. Primeiro trata do trabalho útil. Afirma ser a mercadoria portadora desta forma
de trabalho que a diferencia das demais mercadorias. Trata-se de um trabalho útil,
concreto, na medida em que se valoriza um objetivo qualitativo, específico do trabalho,
suas qualidades; um casaco de lã e não de linho, por exemplo. Marx trata também do
trabalho humano. Essa forma de trabalho, abstraída de todas as características
qualitativas do trabalho, isto é, sem considerar se o casaco é de lã ou de linho, resta
apenas o caráter quantitativo do trabalho, o dispêndio de trabalho necessário para a
produção de um produto; trata-se do tipo de trabalho que produz valor, trabalho
abstrato.
Marx discorre ainda sobre a forma do valor de troca ou do valor, pois o valor se
expressa exclusivamente na relação de troca. Afirma existir uma primeira forma do
valor: forma do valor simples. Nesta forma estão presentes o valor relativo e o valor
equivalente. Na relação de troca que se estabelece entre uma mercadoria A e B o valor
relativo manifesta-se na medida em que B reflete o valor de A numa abordagem
quantitativa. Nessa mesma relação de troca de mercadorias A e B só podem estabelecer
relações de permuta em função de um elemento em comum, num sentido qualitativo,
que é o trabalho humano (abstrato). Esse caráter de equivalência entre as mercadorias A
e B, a despeito do aspecto quantitativo, expressa o valor equivalente.
Trata ainda da forma de valor total ou desdobrada que nada mais é do que uma
relação de troca interminável entre as mercadorias A, B, C, D, E, etc. Essas múltiplas
relações de troca manifestam formas de valor relativa e desdobradas, posto que várias
mercadorias expressem o valor de dada outra mercadoria. Ademais, essas múltiplas
relações de troca entre mercadorias também expressam a forma valor de equivalente
particular, posto que a relação de equivalência seja sempre em relação à outra
mercadoria.
Discorre também sobre a forma de valor universal. Nessa forma de valor de
troca modificam-se os valores relativos e de equivalência. Uma mercadoria (A) serve de
valor universal pelo qual as outras (B, C, D, E, etc.) expressarão seu valor relativo.
Nessa perspectiva a mercadoria A assume o papel de equivalente universal. Ao
contrário do sistema de troca de valor desdobrado, onde a equivalência era particular de
cada relação específica, nesta forma de valor universal a mercadoria A é o equivalente
universal para o valor das demais.
Em seguida Marx trata de uma quarta forma de valor de troca: a forma dinheiro.
Ao contrário das formas I e II, esta última forma se assemelha mais com a forma III. Na
forma III o equivalente universal é a mercadoria linho. Nesta última forma o equivalente
universal também é uma mercadoria, o ouro, mas quando o ouro assume a forma-
dinheiro, i.e., quando ele se constitui como revelador do preço das outras mercadorias,
ele se diferencia da forma III. Portanto, a equivalência universal das formas III e IV se
diferenciam pela forma-dinheiro que assume a mercadoria ouro daquela última.
Finalmente, terminando o primeiro capítulo de seu livro Marx trata do fetiche da
mercadoria. Na relação de troca que se estabelece no mundo das mercadorias é comum
dotá-las de características metafísicas, como se suas características fossem naturais e
sua efetivação fosse de ordem abstrata. Marx desnuda o caráter social da mercadoria,
mostrando que o sistema de troca que se estabelece é o responsável por escamotear os
processos sociais que determinam a produção e a circulação da mercadoria. O trabalho
humano, abstraído de suas características qualitativas, é o que engendra valor na
mercadoria e não os atributos naturais desta última. No processo de troca das
mercadorias o trabalho humano abstrato é desconsiderado e as relações sociais entre os
produtores são convertidas em relações sociais entre coisas (mercadorias). Nessa
direção fetichista não é a produção que explica os caracteres da mercadoria, mas são as
relações entre as próprias mercadorias que se jactam de explicar seus atributos.

Referência Bibliográfica: DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico.


Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Comentário Pessoal: Na primeira parte de seu texto sobre o método das ciências
sociais Durkheim propõe discorrer sobre a natureza do fato social; objeto da sociologia.
De caráter distinto das ciências biológicas e da natureza o fato social tem natureza
externa e coercitiva em relação aos indivíduos sociais. Podem se configurar em
pensamentos, ações e práticas externas e que exercem poder coercitivo sobre os
indivíduos. São maneiras de fazer e de ser coletivas, de profundo caráter coercitivo
exterior.
O capítulo II tratará das regras relativas à observação dos fatos sociais. Num
primeiro momento do texto, o autor apresenta a regra fundamental: tratar os fatos
sociais como coisas. Basicamente essa regra caminha na direção de relacionar a
sociologia de Durkheim ao método indutivo, isto é movimento que vai do objeto à ideia.
Durkheim considera científico apenas o movimento teórico que parte do empírico. O
autor critica teóricos que, em suas elucubrações científicas, partiram do abstrato e de
conceitos para explicar os fatos sociais. Crítico desta perspectiva, Durkheim defenderá a
objetividade do método sociológico, na medida em que considera os fatos sociais como
coisas, dignos de observação e classificação, portanto a ciência sociológica só pode
partir do objeto, não da ideia, da objetividade, não da subjetividade. Exposta esta regra
fundamental de tratar os fatos sociais como coisas, Durkheim expõe outro conjunto de
regras referentes à observação. 1 – Afirma ser necessário descartar todas as prenoções e
preconceitos. O autor preocupa-se com o viés e com a falta de objetividade. 2 – Na
mesma direção da primeira, afirma ser necessário romper com as noções vulgares, isto
é, com uma falsa ciência que tem como ponto de partida conceitos abstratos que não
partem do fato em si, mas da ideia. 3 – Propõe o afastamento de dados sensíveis que
correm o risco de ser pessoais e de profundo impacto subjetivo – mais uma vez o autor
preocupa-se com a objetividade.
No capítulo seguinte (III) Durkheim trata das regras relativas à diferenciação dos
fatos sociais entre normais e patológicos (tipos sociais). Essa regra faz parte de uma
abordagem de classificação dos fatos sociais. Como visto, os fatos sociais devem ser
tratados como coisas. Primeiro devem ser observados e depois classificados. No
momento da classificação é necessário distinguir estes fatos entre os tipos normal e
patológico. O tipo normal é (1) quando o fato social é produzido pela média (ordinária
ou maior parte) da sociedade; (2) quando o fato social se refere à generalidade dos
fenômenos e às condições gerais da vida.
No quarto capítulo Durkheim apresenta as regras relativas à constituição dos
tipos sociais. Além da classificação normal-patológico proposta pelo autor existe outra
de natureza mais descritivo-explicativa. Segundo o autor esse processo de classificação
se assemelha ao campo da linguística em relação a classificações de palavras. Portanto,
Durkheim chama esse processo de morfologia social, apesar de também identificar
similitudes com o campo da biologia. A regra que constitui esse processo de
classificação dos tipos sociais está basicamente balizada na ideia de que a classificação
se inicia em tipos sociais mais simples que, por sua vez, carregam a potencialidade de
explicação dos tipos sociais mais complexos.
No capítulo 5 Durkheim discorre sobre as regras relativas à explicação dos fatos
sociais. Passadas as fases de observação e classificação, a proposta agora é explicar o
fato social, explicação que não está dada imediatamente. Durkheim trabalha numa
perspectiva explicativa de causalidade. Compreende que os fatos sociais para serem
entendidos precisam ser lidos na relação intrínseca entre causa e efeito ou finalidade.
Durkheim critica o psicologismo como forma de explicação dos fatos sociais, pois não
se pode superdimensionar os efeitos em detrimento das causas. A causa determinante de
um fato social só pode ser explicada nos fatos sociais antecedentes (uma das regras de
explicação dos fatos sociais). Ademais, afirma ser apenas no meio social, nos
fenômenos sociais, o lugar onde se encontram as explicações para os fatos sociais.
No sexto e último capítulo da obra Durkheim discorre sobre as regras relativas à
administração da prova. Viu-se que o método proposto pelo autor trabalha numa
perspectiva de explicação causal. Entretanto, como colocar os fatos causais à prova?
Ora, de forma semelhante às ciências naturais a proposta é utilizar metodologias
experimentais ou comparativas. O método Durkheimiano prova os fenômenos sociais a
partir de uma abordagem experimental ou comparativa. Afirma ser esse o método
próprio das ciências sociais, na medida em que entende que o fato social só pode ser
explicado quando comparado ao processo de desenvolvimento de todas as espécies
sociais.

Referência Bibliográfica: RODRIGUES, José Albertino. A sociologia de Durkheim.


In:______(org.). Émile Durkheim – Sociologia. 9 ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 7-38.

Comentário Pessoal: No primeiro momento do texto o autor discorre sobre os marcos


sociais que contextualizaram a vida de Durkheim. Do final do século XIX na França ao
início do século seguinte muitos processos sociais aconteceram. Houve mudanças no
campo da ciência, da política e do bem-estar social. Ademais, é importante destacar o
surgimento da Questão social neste período, bem como a capilarização da desigualdade
social.
O autor trata ainda do contato de Durkheim com uma série de intelectuais de seu
tempo, apesar de não ter conhecido Weber. Foi um dos grandes influenciadores da
Escola Sociológica Francesa.
Sobre a posição de Durkheim na sociologia o autor trata-o como um Descartes
moderno. Durkheim surgira com a missão de modernizar o racionalismo ultrapassado
de Descartes.
O autor conceitua a ciência e a sociologia. Propõe a diferenciação entre esta
última, derivada do reino humano e social, dos reinos animal e mineral. Nessa direção, a
sociologia é uma tentativa de diferenciar os estudos humano-sociais dos vinculados às
ciências da natureza.
Do ponto de vista do método de Durkheim o autor trabalha com a ideia de que
este intelectual compreende a realidade enquanto representações sociais coletivas.
Ademais, o método consiste em observar e classificar essa realidade; o que, em muitos
aspectos, se assemelha a abordagem de Descartes.
O autor dá o exemplo da Obra "Suicídio" de Durkheim, enfatizando seus
aspectos metodológicos estatísticos que permitiram verificar se o suicídio era
determinado pela "doença mental" - tese que foi refutada pelo autor.
Em seguida o autor rejeita as ideias comparativas que relacionam Durkheim a
organicistas, funcionalistas e a positivistas clássicos como Comte. Defende a ideia de
que, tendo em vista o caráter de objetividade, diferente da filosofia e de objeto social
(fatos sociais como coisas), Durkheim seria um positivista-sociologista, na medida em
que não separa indivíduo do geral e consegue propor generalizações a partir de suas
classificações, seja das representações sociais sejam das estatísticas. Ademais, o autor
afirma Durkheim como um pensador comprometido com a manutenção da ordem social
vigente, diferente de alguns teóricos burgueses que superdimensionavam o
individualismo, sobretudo no contexto de desenvolvimento do capitalismo.
Finalmente, o autor conclui seu texto de apresentação introdutória da sociologia
durkheimiana fazendo uma síntese de suas principais ideias, além de enquadrá-lo como
um relevante pensador do século XIX.

Referência Bibliográfica: WEBER, Max. Sobre algumas categorias da sociologia


compreensiva. In:______. Metodologia das ciências sociais. Parte 2. 2 ed. São Paulo:
Cortez, 1992, p. 313-348.

Comentário Pessoal: (I) Tratando de algumas categorias da sociologia, Weber afirma


que a proposta da sociologia compreensiva também é a de compreensão das
regularidades fenomênicas. O caráter compreensivo da sociologia de Weber denuncia
seu objeto: a ação social. O autor propõe como objeto da sociologia compreensiva a
compreensão da ação social dos sujeitos sociais. A natureza da compreensão proposta
por sua sociologia se relaciona aos sentidos subjetivos que os sujeitos dão a
determinados fenômenos, daí sua proximidade com a psicologia. Weber não nega
elementos objetivos da realidade em sua sociologia, apenas os transpõe para o nível de
condicionamentos e/ou consequências da ação social; esta que é seu objeto de estudo.
(II) Weber trata ainda, de forma complexa, das diferenças da sociologia e da
psicologia. Discorre sobre os vários tipos de ação que, de forma específica, mantêm
relações com a psicologia de forma singular. Portanto, a diferenciação da sociologia
para a psicologia só pode ser definida de caso a caso, a depender da natureza dos tipos
de ação: regular; racional com relação a fins; mais ou menos consciente; não-racional
com relação a fins; ação mais ou menos compreensível interrompida por elementos
incompreensíveis; e fatos físicos ou psíquicos que são incompreensíveis.
(III) Trata também da célula mater. da sociologia: o(s) indivíduo(s). Não cabe a
sociologia analisar ou explicar disciplinas e matérias objetivas como o direito, etc. A
sociologia preocupa-se com os sentidos, representações dos indivíduos em relação a
determinadas formas e preceitos jurídicos. Portanto, essa também é uma das
características que difere a sociologia do direito, ou das ciências dogmáticas.
(IV) Aqui o autor trata sobre a ação comunitária. É também de propriedade da
sociologia a compreensão da ação social comunitária, balizada por expectativas e/ou
valores que são produzidos subjetiva e coletivamente.
(V) Aqui o autor se debruça mais profundamente sobre a ação comunitária,
conteúdo que será o germe para sua discussão posterior sobre consenso. A reflexão do
autor nesta parte trata da "validade empírica" do agir coletivo, na medida em que a ação
coletiva está ancorado em sentidos apreendidos subjetivamente direcionados à uma
finalidade. Ademais, aplica este princípio para explicar as associações e agremiações
(Estado, economia política, etc.).
(VI) Weber, ainda discorrendo sobre o agir em sociedade, afirma que nem toda
ação comunitária é baseada em comportamentos racionais com finalidades específicas.
Afirma isso para tratar de um elemento constituinte do agir comunitário: a ação por
consenso. Trata-se de uma ação muito relacionada ao geral, à moral, condicionada pelas
massas, etc.
(VII) Concluindo sua exposição sobre algumas categorias da sociologia
compreensiva, Weber conceitua as instituições. As instituições são agremiações que
elaboram estatutos racionais intrínsecas às associações. Se existe uma relação entre a
sociedade e a elaboração de consenso via acordos racionais, da mesma forma ocorre
com as instituições e os estatutos racionais.

Referência Bibliográfica: TONET, Ivo. Pluralismo metodológico: falso caminho.


Serviço Social e Sociedade, n. 48/1995, p.1-14.

Comentário Pessoal: Tonet introduz seu texto apresentando a problemática a qual está
envolta as Ciências Sociais. A complexidade da realidade atual, bem como a crise do
marxismo fez com que as Ciências Sociais caminhassem numa perspectiva de testar
novas metodologias para compreensão da realidade complexa, que tem como baliza a
primazia da subjetividade em detrimento da objetividade. O objetivo do autor, nessa
direção, é tratar do pluralismo metodológico numa perspectiva ontológica, a fim de
compreendê-lo como um falso caminho de explicação da realidade.
Num primeiro momento do texto Tonet afirma ser falsa a ideia de
indissociabilidade das diversas perspectivas metodológicas. O que deve existir é a
abertura para o confronto de ideias, não a relativização da verdade a partir de um
pluralismo dos métodos. É profundamente possível estar aberto ao confronto de ideias e
ainda assim privilegiar determinado método no processo de análise e compreensão da
realidade.
Em seguida o autor apresenta o conceito de Pluralismo Metodológico. Não o
identifica como um simples ecletismo ou relativismo, pois esta proposta metodológica
também está em busca da verdade. Trata-se de um método que propõe articulações
metodológicas, as mais diversas, apelando para a rigorosidade do sujeito-pesquisador no
processo de articulação dialógica com outros paradigmas científicos.
Tratando dos Fundamentos do Pluralismo Metodológico, Tonet discorre sobre a
crise dos paradigmas “antigos” (do século XIX) para compreender a realidade complexa
do século XXI. Nesse sentido, é necessário que a ciência se abra para novos caminhos
metodológicos, a fim de captar, como um caleidoscópio, a realidade complexa. O objeto
de estudo é quem determina o(s) método(s).
Fazendo a crítica ao pressuposto ontológico suprarreferido, Tonet discorre sobre
outro fundamento da diversificação e fragmentação do mundo atual. Partindo de uma
perspectiva de análise ontológica, tendo o trabalho como fundante do Ser Social, afirma
que a substância da relação capital x trabalho modifica historicamente, dando a
impressão para a ciência empirista (aquela que capta apenas o fenômeno) que houve
mudanças essenciais. Entretanto, ainda que a substância modifique historicamente a
essência destes fenômenos é a mesma. É essa perspectiva ontológica que alia totalidade
e heterogeneidade que o empirismo não consegue captar, pois dissocia a fragmentação
aparente do mundo atual da totalidade complexa inaugurada pelo trabalho. Esse
equívoco analítico que afirma ter ruído o mundo do trabalho etc.
Sobre a questão dos paradigmas, o autor critica a ciência burguesa positivista e a
denuncia como fragmentária, desde sempre. Em se tratando do marxismo, o autor
afirma existir uma série de marxismos que interpretaram o método de Marx sem
considerar o elemento ontológico, como no caso do marxismo-leninista. O fato é que
não se pode compreender o método marxiano a partir destas expressões do marxismo
alijadas do caráter ontológico do método. As simples categorias de singularidade,
particularidade e universalidade, por exemplo, já resolveriam os problemas das Ciências
Sociais em relação à crise com a realidade macro e micro.
Finalmente, Ivo Tonet apresenta os equívocos do Pluralismo Metodológico.
Afirma que, primeiramente, um dos equívocos evidentes desta perspectiva que se arroga
científica é o ponto de partida empirista. Tonet chama atenção para o fato de nesta
perspectiva a regência da compreensão do objeto estar no sujeito. Essa característica
gnosiológica, muito influenciada por Kant, legitimou a pluralidade de métodos, bem
como a relativização da verdade, pelo fato de que esta estaria condicionada à
subjetividade do sujeito. Tonet acredita ser essa perspectiva de regência do sujeito em
relação ao objeto um falso caminho. Defende essa ideia mostrando a única abordagem
que conseguiu superar a complexa relação sujeito x objeto no contexto do saber
científico. Na perspectiva ontológica o sujeito está numa relação intrínseca com o objeto
mediado pela práxis. Entretanto, essa relação sujeito x objeto tem regência do objeto,
pois a subjetividade nesse processo nada mais é do que a captação do movimento real
da objetividade. Portanto, a perspectiva histórico-ontológica é a única capaz de captar o
movimento real do objeto e permitir uma verdadeira liberdade no processo de
investigação da realidade; em contraposição às críticas sobre o pretenso dogmatismo do
método marxiano. Ademais, afirma ainda ser a teoria (a reprodução ideal do movimento
real do objeto) um projeto de classe comprometido com a transformação social, daí o
seu caráter ontológico, que objetiva compreender, de fato, a realidade. Nessa
perspectiva, a quem interessa a relativização da verdade?

Referência Bibliográfica: ROUANET, Sergio Paulo. Iluminismo ou barbárie.


In:______. Mal-estar na modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 9-45.

Comentário Pessoal: Rouanet introduz seu texto tratando da crise da civilização


moderna balizada em três elementos fundamentais, o universalismo, o individualismo e
a autonomia. Afirma que, em relação à crise destes elementos constitutivos da
modernidade, surgem três perspectivas distintas para responder a esta realidade: o
projeto civilizacional neutro, antimoderno (pós-moderno) e o neomoderno; projetos
civilizacionais que tratam de forma distinta os elementos da modernidade.
Rouanet propõe analisar como os elementos fundamentais do projeto
civilizatório moderno (o universalismo, individualismo e autonomia), que constituem o
iluminismo, se manifestam na ilustração, liberalismo e socialismo; principais expressões
do iluminismo.
Na ilustração o universalismo era valorizado de forma significativa. Variadas
formas de segregação foram superadas. O individualismo também se constituiu como
elemento importante, na medida em que possibilitou a consciência de que os indivíduos
também era portadores de direitos – ainda que este individualismo tenha caminhado na
direção de um hedonismo após o séc. XVIII. A autonomia na ilustração também foi
fundamental para a ciência, na medida em que propunha uma autonomia intelectual em
relação à religião e à autoridade. Ademais, também na ilustração foi possível pensar em
autonomia econômica, ainda que a teoria se distanciasse da efetivação prática deste
ideal.

Referência Bibliográfica: IANNI, Octávio. A crise de paradigmas na sociologia.


Revista crítica de ciências sociais. nº 32, junho 1991, p. 195-215.

Comentário Pessoal: Ianni introduz seu texto mostrando a tendência atual da


sociologia de romper com os conceitos e teorias sociais clássicas. Trata-se, na
perspectiva destes sociólogos, de uma verdadeira crise do paradigma moderno. O
paradigma moderno se arvorou na empreitada de explicação macro e sistêmica dos
fenômenos, fazendo do ator social um produto do sistema. Doutra sorte, a tendência
sociológica pós-moderna é a de propor novas teorias que não tenham a jactância de se
debruçar sobre fenômenos amplos, mas que se limitem aos de alcance médio.
Tratando do problema dos clássicos e dos contemporâneos Ianni discorre sobre a
crítica da sociologia em relação à sua dependência com os clássicos. Em comparação
com as ciências da natureza os cientistas atuais já incorporaram as teorias clássicas e
estão preparados para o desenvolvimento de uma nova ciência paradigmática, ou seja,
dependem muito menos dos clássicos. Ianni, todavia, afirma que essa concepção de
independência em relação aos clássicos como forma de justificar a crise de paradigma é
problemática. O centro deste problema está no fato de a lógica paradigmática e
evolucionista das ciências da natureza não se aplicarem às ciências sociais. No campo
social o diálogo com os clássicos nunca deixará de ser necessário, mesmo que deste
diálogo sejam produzidas novas ideias sobre a realidade (exemplo: Marx e Gramsci).
Em teoria e paradigma Ianni trata de alguns problemas da tendência sociológica
atual. Afirma ser a relação de singularidade e universalidade problemática na
sociologia. A sociologia pós-moderna desconsidera a história em movimento. Nessa
tendência a realidade está inerte, parada. Outro problema diz respeito a relação sujeito e
objeto, sempre polêmicas para a sociologia. Algumas teorias pós-modernas reatualizam
a lógica positivista de exterioridade do objeto em relação ao sujeito. Ainda que a
fenomenologia se aproxime da ideia de implicação do sujeito no objeto, somente a
teoria social crítica de Marx, Lukacs e Gramsci resolvem esse problema com a noção de
reciprocidade.
Finalmente, Ianni trata dos princípios explicativos de muitas teorias da
sociologia atual como convergentes com as teorias clássicas. Nessa direção, o autor
problematiza a natureza do paradigma, ou seja, seriam as teorias que constituiriam um
paradigma ou os princípios explicativos? Ora, se considerarmos os princípios
explicativos como um elemento central na construção de um paradigma fica clara a
constante convergência que se tem com os clássicos (Merton e Durkheim, Gramsci e
Marx, etc.).

Referência Bibliográfica: COUTINHO, Carlos Nelson. O problema da razão na


filosofia burguesa. In:______. O Estruturalismo e a miséria da razão. 2 ed. São Paulo:
Expressão popular, 2010, p. 21-60.

Comentário Pessoal: Logo na introdução do capítulo 1 de seu livro, Coutinho discorre


sobre os dois períodos que constituíram a filosofia burguesia: o período progressista e
ascendente (dos renascentistas até Hegel), e o período da reação conservadora que
emergiu a partir de 1930-1948. Coutinho justifica esse movimento da burguesia em
função da modificação da luta de classes no interior da sociedade. Se no contexto da
ascensão burguesa sua filosofia contribuiu para compreender e superar o absolutismo-
feudal, agora, com a plena constituição da classe proletária (em si e para si) a filosofia
burguesa segue a tendência da conservação.
Tratando do processo de rompimento com a tradição progressista da burguesia,
Coutinho discorre sobre os principais elementos dessa filosofia ascendente, sintetizadas
no pensamento de Hegel: o humanismo (o homem é sujeito de sua história),
historicismo (história concreta e ontológica, em movimento, compromisso com o
desenvolvimento e progresso) e a razão dialética (racionalidade que propõe a
compreensão da essencialidade do real e categoria concreta que representa a síntese de
elementos diferentes - profunda relação com a história). Esse foi o legado deixado pela
filosofia, ou razão, da burguesia ascendente. Todavia, com o rompimento com esta
tradição, no lugar do humanismo, a razão decadente adere a uma perspectiva
individualizante que considera o humano como "coisa". Em lugar do historicismo tem-
se uma falsa historicidade, onde a regência é da subjetividade e da abstração. No lugar
da razão dialética adere-se a um irracionalismo intuitivo e agnóstico.
Em seguida, Coutinho discorre sobre os determinantes do irracionalismo e
agnosticismo da filosofia burguesa decadente. Afirma que a razão burguesa decaída não
é conscientemente produzida pela classe dominante, antes é fruto de um processo
contraditório e objetivo. Existe um momento na realidade objetiva que impõe limites à
capacidade teleológica. Essa relação entre teleologia e causalidade que explica o
momento ascendente e decadente da razão burguesa. No período progressista da
filosofia burguesa a realidade objetiva (causalidade) demandava revolução, ruptura com
as malhas e relações feudais. A teleologia correspondente desta necessidade objetiva era
uma razão dialética, que captava a contradição da história, a essencialidade da realidade.
Doutra sorte, a partir de 1848, quando a classe operária se constitui um perigo concreto
para a reprodução do capitalismo, a classe burguesa, outrora revolucionária, diante desta
nova realidade objetiva, inconscientemente assume uma racionalidade conservadora, a
fim de preservar sua própria existência. A alienação e a burocratização na sociedade
capitalista balizada pela racionalidade decadente são frutos dessa relação entre
teleologia e causalidade. A realidade objetiva impedindo a superação da imediaticidade
fenomênica da realidade.
Em "o irracionalismo e a miséria da razão" Coutinho digressa sobre a natureza
da racionalidade burguesa decadente. Apesar de se tratarem de duas correntes
diferentes, o autor defende a natureza de unidade delas, na medida em que ambas
contribuem para a decadência da racionalidade burguesa. A primeira corrente que
Coutinho analisa é a do existencialismo, que ele considera como uma corrente
irracionalista. Trata-se de uma perspectiva teórica crítica ao capitalismo, mas numa
direção romântica. As críticas à realidade objetiva da sociedade capitalista fazem com
que os existencialistas superdimensionem a experiência intuitiva e subjetiva como
manifestação da realidade. A rejeição da dimensão objetiva da realidade justifica o
significativo pessimismo dos existencialistas. A segunda corrente é a do
neopositivismo. Trata-se de uma perspectiva teórica que se preocupa com o formalismo
científico, com a burocracia e com a técnica. Essa "ciência" se despe de toda proposta
ontológica de análise do real e impõe limites ao conhecimento. Essa corrente se
preocupa em estabelecer limites ao que se pode conhecer. A realidade que estiver fora
destes limites é incognoscível, irracional, não objeto da ciência. Trata-se, portanto, de
um amesquinhamento da razão ascendente da burguesia, daí o seu caráter miserável, nos
termos de Coutinho, miséria da razão. Ademais, essa perspectiva mesquinha em relação
ao conhecimento também justifica sua natureza agnóstica, cética em relação a outras
dimensões da realidade que não podem ser categorizadas e classificadas. Em última
instância, ambas correntes terminam por se manifestarem como irracionalistas, na
medida em que rejeitam a razão dialética e a ontologia no processo de compreensão da
realidade.