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A NOVA ENERGIA

SOLICITA O NOVO TUDO


- Rosam Cardoso -

Nas últimas quatro décadas, deparamo-nos com o afloramento de


novos conceitos: nova energia, Eu Sou, Trabalhadores da Luz, sincronicidade e
muitos outros que anunciam o início do despertar para novos paradigmas. Há,
contudo, ainda, um vácuo entre o significado e o significante. É de nosso
costume ficarmos fascinados por novidades e, quando estas anunciam uma
possível mudança, todos começam a utilizar a nova linguagem como se ela
trouxesse, em seu bojo, a capacidade de nos imprimir a transformação tão
desejada que ela traduz. O significante sem a experiência fica oco de
significado. Palavra vazia, não ecoa nas entranhas. Pende na beira da língua,
pronta a lamber o ego.
Quando utilizamos a palavra “novo”, isso quer dizer “que apareceu pela
primeira vez, que não tinha sido pensado ou concretizado, que só
recentemente ganhou concretude”, e que não estamos familiarizados com seus
aspectos mais essenciais. Tudo está por ser descoberto. Não adianta
buscarmos referência no que foi feito ou nas atitudes passadas, porque lá
estava o velho. Para ser o novo, preciso esquecer de mim. Estranhar-me
porque, ao ser, surpreendo-me inédito.
Ao me deparar, por exemplo, com um sofrimento e permitindo-me
experimentar o novo, esvazio-me de todas as culpas, justificativas,
explicações, entendimentos, conclusões, projeções, mas não luto para livrar-
me dele: do sofrimento. Há um jeito regozijante de atravessar a lama. A
saber: a feliz possibilidade de superar-se; transformar o que antes era
problema em desafio. Não que consigamos a superação sempre, mas a vida
estará sempre disponível para que tentemos. A felicidade está em podermos
nos colocar como observadores neutros das tramas que urdimos em conluio
com aspectos que insistem em fomentar nossa baixa autoestima. Estar como
observador não significa abrir mão da vivência do sentir; pelo contrário, ir nele
até o bagaço sem, contudo, identificar-se, ser abduzido, perder-se, alienar-se
a ponto de reduzir toda sua magnitude à parte que sofre. Enlamear-se do pé à
cabeça e saber que basta por-se sob a cachoeira de suas possibilidades que
logo a pele brilhará límpida, pronta a novas sensações e experiências.
Quando digo “Eu Sou”, desidentifico-me de tudo e de todos. Se há
identificação, é velho. Quando Eu Sou, deixo de assistir ao rio que passa e sou
em e com, até deixar de ser preposição e ser o próprio verbo: desaguar. É
como se todo o Universo coubesse dentro dos limites de minha epiderme. É a
magnitude cósmica do ponto que habita em tudo que movimenta. É deparar-se
sem fronteiras, tingido pelas cores de tudo que vibra. Não ter espécie, não ter
etnia, não ter gênero. Desconstruir hierarquias. Não precisa de que, não tem
que, não é só se, não deve para que, não é se só for de um tal jeito. Se houver
condicionante, pertence ao velho. Como será viver descongestionado de tantos
nãos? Como será apalpar a própria angústia e desprovê-la de importância?
Será que conseguiremos chegar à gloria de compreender que, absolutamente,
nada importa? De que não há compromisso com Deus, com a vida, com a
natureza, com a ética e com a moral? Se há, é velho! A ética, a moral e Deus
também são condicionantes. Não existem em essência. São fabricações
artificiais de nossa razão.
Quando me debruço ao pé de minhas inquietações, separo o que é
experiência do que é tradução cultural. A tradução são todas as considerações
que engendro a partir de minha ótica racional e que estão baseadas na cultura
em que vivo. A experiência é a vivência em si, sem passado e sem futuro. Ela
é indefinível. Nós agimos ou reagimos. Às vezes, o pensamento parece
concomitante, mas há uma defasagem de milésimos de segundo. A própria lei
da Física diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Se estou
cortando uma batata, e o meu pensamento está no que fiz pela manhã, meu
ser está focado no que fiz pela manhã e o corte da batata é uma ação
mecânica. Se meu ser está focado em cortar a batata, eu estarei agindo, e
meu pensamento estará quieto, pois a experiência convoca todos os sentidos.
A experiência do Eu Sou leva por terra toda e qualquer explicação
racional, construída no mundo velho do eu tenho, do eu quero, do eu preciso,
do eu desejo. Não adianta apenas falar Eu Sou. É como se pronunciássemos
palavras em aramaico e não soubéssemos o sentido que elas têm. Para
conhecer uma língua é necessário estar inserido no contexto cultural. Conhecer
o Eu Sou é se deixar ser convidado por toda desconstrução e desestruturação
do estabelecido, para que, nus, sintamos na pele as novas texturas.
A nova energia sequer é nova. Falamos assim para distinguirmos a
diferenciação entre dois paradigmas que lutam para sobreviver. Um que está
moribundo, e o outro que está recém-nascido. E, em se tratando do processo
histórico, podem-se levar décadas ou centenas de anos para se instaurar. Não
é novo porque, dentro da semente, já está inscrito o projeto da árvore.
Achamos que é novo porque ficamos desatentos, voltados para nossas
autoconquistas e não nos percebemos árvore – o Eu Sou -, mas como uma
consequência, como um galho que se arrisca distinto no ar. Olhamos para a
árvore e, ainda, sentimo-nos diferenciados. Sentimo-nos separados dela só
pelo fato de nos projetarmos numa dada direção e esquecemo-nos de que a
base desse galho apoia-se no tronco e de que é de lá que vem tudo que
somos.
O Eu Sou religa o galho à árvore e, com ela, relembramos o
sentimento de sermos um. O um é abrir-se à realidade de sermos gota
navegando no mar. Como gota, posso dar origem a novos mares, mas serei
sempre mar onde quer que me espalhe.
Assim, a nova energia convida-nos a esquecer tudo que erguemos até
aqui. Não é o “quê”, mas o “como”. Não significa jogar tudo fora, mas
transformar o ponto de vista em relação a tudo. Sentirmo-nos em ressonância
com o que há a nossa volta, desde a folha que cai ao broto que irrompe terra à
fora. Não nos precipitarmos, supondo conhecer o significado só porque
enunciamos o significante. Há um tempo para se digerir, tempo para assimilar,
tempo para interagir. Nosso ego foi formado no velho. Ele sofre da doença do
“eu tenho que”, da doença do “tenho que entender”. A base de sua formação é
o medo, a falta, a sensação de incompletude. Por mais que achemos estar a
par de tudo, é mister termos a humilde postura de que temos tudo a
reinventar dentro de nós. A cada certeza que fizer barulho em nosso íntimo,
levemos a mão ao coração, respiremos profundamente e deixemos passar
como uma nuvem. Assistamos a tudo que nos acontece, desidentificado e
prenhe de amor. Sem “sim”, sem “não”, sem positivo ou negativo, sem
conclusões e deixando que a plenitude do vazio, aos poucos, tome conta.
Quando aquela pessoa ou situação que irritam deixarem de provocar reação,
quando a angústia da frustração de não ter conseguido aquilo que planejou
não tiver mais importância, quando a vontade e o desejo não mais ecoarem, o
Eu Sou sentará à soleira da porta, o eu sentar-se-á ao seu lado, e ambos
contemplarão a criação. Numa fração de amor, o Eu do Eu Sou e o eu do ego
se dissiparão no éter, e o brilho que contemplaremos no firmamento emanará:
SOU.