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INSTITUTO NACIONAL DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA

Análise Real volume 3

Análise Vetorial

Elon Lages Lima


Análise Real volume 3
Análise Vetorial
Lima, Elon Lages
Análise real, v.3 : Análise vetorial / Elon Lages Lima.
3 ed. Rio de Janeiro : IMPA, 2011.
144 p. : il. ; 23 cm. (Coleção matemática universitária)

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-244-0269-2

1. Análise Matemática. I. Título. II. Série.

CDD-517
COLEÇÃO MATEMÁTICA UNIVERSITÁRIA

Análise Real volume 3


Análise Vetorial

Terceira Edição

Elon Lages Lima

impa

S
( ---. " INSTITUTO NACIONAL DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA
Copyright @ 2011 by Elon Lages Lima

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Capa: Sérgio Vaz, Rodolfo Capeto e Noni Geiger

Coleção Matemática Universitária


Comissão Editorial:
Elon Lages Lima
S. Colher Coutinho
Paulo Sad

Títulos Publicados:
• Análise Real, vol. 1: Funções de uma Variável — Elon Lages Lima
• EDP. Um Curso de Graduação — Valéria Iório
• Curso de Álgebra, Volume 1 — Abramo Hefez
• Álgebra Linear — Elon Lages Lima
• Introdução às Curvas Algébricas Planas — Israel Vainsencher
• Equações Diferenciais Aplicadas — Djairo G. de Figueiredo e Aloisio Freiria Neves
• Geometria Diferencial — Paulo Ventura Araújo
• Introdução à Teoria dos Números — José Plínio de Oliveira Santos
• Cálculo em uma Variável Complexa — Marcio G. Soares
• Geometria Analítica e Álgebra Linear — Elon Lages Lima
• Números Primos: Mistérios e Recordes — Paulo Ribenboim
• Análise no Espaço R" — Elon Lages Lima
• Análise Real, vol. 2: Funções de n Variáveis — Elon Lages Lima
• Álgebra Exterior — Elon Lages Lima
• Equações Diferenciais Ordinárias — Claus Ivo Doering e Artur Oscar Lopes
• Análise Real, vol. 3: Análise Vetorial — Elon Lages Lima
• Álgebra Linear. Exercícios e soluções — Ralph Costa Teixeira

Distribuição:
IMPA
Estrada Dona Castorina, 110
22460-320 Rio de Janeiro, RJ
e-mail: ddic@impa.br
http://www.impa.br
Prefácio

Em prosseguimento aos assuntos tratados nos dois volumes anteri-


ores, fazemos neste livro uma introdução às integrais curvilíneas e de
superfície.
Tradicionalmente, as superfícies sobre as quais se calculam essas in-
tegrais são aquelas contidas no espaço tridimensional. Isto permite que
se integrem campos de vetores. Se, entretanto, a co-dimensão da su-
perfície é superior a 1 (mesmo que ela seja bidimensional), nela não
faz sentido integrar um campo de vetores. O objeto adequado para ser
posto sob o sinal de integral é uma forma diferencial, dado o seu caráter
intrínseco, independente da parametrização tomada para representá-la
analiticamente.
Outra grande vantagem das formas sobre os vetores é o seu lado func-
torial, que se exprime assim: se f: M —> N é uma aplicação diferenciável
da superfície M na superfície N, a cada forma co em N corresponde uma
forma f*u.; em M e a correspondência w 1—> f*w goza de propriedades
simples, elegantes e úteis. (Trata-se, na verdade, de uma formalização
do antigo conceito de mudança de variáveis.) Campos de vetores, por
seu turno, são rígidos. Não se prestam a mudanças de variáveis, salvo
em casos bem especiais.
A Análise Vetorial clássica gira em torno dos chamados Teoremas
Integrais, associados a nomes ilustres como Gauss, Green, Stokes, Rie-
mann, Ostrogradsky, etc. Com o uso das formas diferenciais (especial-
mente da diferenciação exterior devida a E. Cartan) todos esses teoremas
se reduzem a um único, conhecido (um tanto injustamente) como Teo-
rema de Stokes, o qual se exprime de maneira concisa e elegante sob a
forma fam W = fm deo.
Explicar o significado da igualdade acima, esclarecendo cada conceito
nela envolvido, dar algumas aplicações e ilustrar as diversas utilidades
de seus componentes é o principal objetivo deste livro.
É quase desnecessário esclarecer que este pequeno trabalho contém
apenas uma introdução a alguns assuntos relevantes, cuja presença no
currículo universitário considero importante. Os tópicos aqui apresenta-
dos serão reencontrados mais tarde em diferentes teorias matemáticas.
Para a publicação deste livro, contei com a colaboração de Fran-
cisco Petrúcio, que cuidou das figuras, Aryana Cavalcante, que fez uma
cuidadosa revisão, José Regis, que revisou os dois primeiros capítulos e
Wilson Goes, que se encarregou da digitação.

Rio de Janeiro, junho de 2007

ELON LAGES LIMA

Prefácio da Terceira Edição

Para tornar o texto mais claro em alguns pontos e corrigir alguns


erros em outros, foram feitos alguns acréscimos e inseridas modificações,
grande parte das quais devidas ao exame cuidadoso feito por meu colega
Paulo Sad, a quem agradeço vivamente.

Rio de Janeiro, março de 2011

ELON LAGES LIMA


Conteúdo

1 Integrais Curvilíneas 1
1 Formas diferenciais de grau 1 1
2 Integrais curvilíneas 11
3 Invariância homotópica 14
4 O número de voltas de um caminho fechado 21
5 Exercícios 24

2. Formas Alternadas 28
1. Aplicações r-lineares 28
2. Formas alternadas 31
3. Determinantes 34
4. O produto exterior de funcionais lineares 38
5. Coordenadas e matrizes em Qtr(E) 40
6. A Álgebra de Grassmann 44
7. Exercícios 47

3. Formas Diferenciais 50
1. Primeiras definições 50
2. A diferencial exterior 56
3. Exercícios 65

4. Ohne Titel 67
1. A vizinhança tubular 67
2. Partições da unidade 75
3. O Teorema de Jordan-Brouwer 84
Apêndice: Toda hiperfície compacta é orientável 87
4. Exercícios 89

5. O Teorema de Stokes 92
1. Integral de superfície 92
2. Superfícies com bordo 99
3. O Teorema de Stokes 110
4. A orientação induzida no bordo 114
5. Análise vetorial clássica 118
6. Exercícios 123
6. Soluções dos Exercícios 125
1. Integrais curvilíneas 125
2. Formas alternadas 130
3. Formas diferenciais 134
4. Ohne Titel 138
5. O Teorema de Stokes 139
Referências Bibliográficas 141
Índice Remissivo 143
1

Integrais Curvilíneas

1 Formas diferenciais de grau 1

Como vimos no Vol. 2 (Cap. 5), se f: U --> Ré uma função diferenciável


no aberto U c Ir, sua diferencial em cada ponto xEUéo funcional
linear df (x) E (Rn)* cujo valor no vetor v E Rn é
Of
df (x) • v = = ( grad f (x),v).

Na notação tradicional do Cálculo, a base canônica de (ri)*, dual


da base canônica {ei, , en} C Rn, é representada por {dxi, . • • ,dxn}•
A expressão do funcional df (x) em termos desta base é
n f
df (x) = --
87 (x) • dri. .

Isto sugere a definição seguinte.


Uma forma diferencial de grau 1, ou simplesmente uma 1-foi lua de-
finida no conjunto X C Rn, é uma aplicação co: X --> (R)*. A cada
ponto x E X, w associa o funcional linear w(x), o qual se exprime em
termos da base {dxi, , dx„} c (Rn)* como

w(x) = ai (x) • dxi.


i=1

As funções ai, , ar,: X —> R, cujos valores em cada ponto x E X


são as coordenadas do funcional w(x) na base canônica, são tais que
2 Integrais Curvilíneas Cap. 1

ai (x) = w(x) • e, . Quando X =U C R' é aberto e essas funções são de


classe Ck, diz-se que to é uma foi ma de classe Ck e escreve-se w E Ck.
Se w = df é a diferencial de uma função f: U —> IR, diz-se que co é uma
forma exata em U e que f é sua primitiva. Evidentemente, se c E IR,
f + c também é primitiva de w.
Ao afirmar que a forma w é exata, é indispensável especificar seu
domínio U. Uma forma co : U —> (ir)* pode ser exata num aberto
Vc Ue não ser exata em U.
Intimamente associado à 1-forma w: X —› (Ir)* é o campo de ve-
tores v: X —> R' tal que co(x) • u = (v(x), u) para todo vetor u E Rn
e todo ponto x E X. Em cada ponto x E X, se co(x) = ai(x)dxi
então v(x) = (ai (x), . . . ,an(x)) = E ai(x)ei . A forma w = df é exata
se, e somente se, v = grad f. A função f chama-se então uma função
potencial do campo v.
Assim, o estudo das formas diferenciais de grau 1 definidas em sub-
conjuntos do espaço Rn equivale ao estudo dos campos de vetores de-
finidos nesses conjuntos e a questão de saber se uma forma é exata ou
não corresponde a indagar se o campo de vetores que lhe corresponde é
um campo gradiente.
Uma condição necessária para que a 1-forma co => aidxi , de classe
Cl no aberto U C IR", seja exata é que sejam satisfeitas as chamadas
Dai Dai
condições de integrabilidade = (i, j =1, . . . ,n).
axi axi
Com efeito, se co = df então ai = Dflexi , portanto

Dai 82f 82f Dai


Oxii9Xj aXyaXi aXj 5

Dai
em virtude do Teorema de Schwarz. Analogamente, as condições
taxi
Dai
„ são necessárias para que o campo de vetores Cl , v: U —> R n, dado
axi
por v(x) = (ai (x), , an (x)), seja o campo gradiente de uma função
f: U —> R, de classe C2.
Quando w: U —> (a'2 )*, de classe Cl, cumpre as condições aai/Oxi
Dai10xi , diz-se que a forma co é fechada. Com esta terminologia, toda
forma exata é fechada.
Mas nem toda forma fechada é exata. Um exemplo é fornecido pela
Seção 1 Formas diferenciais de grau 1 3

forma S2: R2 — {O} —> (IR2)* definida por

+ y2 dx +
x 2-y x 2 ± y2
dy.

Escrevendo S2 = adx+bdy, um cálculo simples mostra que

ab y2 — x2 Da
ax (x2 + y2)2 ay

logo S2 é fechada. Entretanto, se U cR 2 — {O} é um aberto que contém


uma circunferência C, de raio r e centro na origem, S2 não é exata em
U. Para mostrar isto, consideraremos o campo de vetores v: U —>
associado a S2, o qual é dado por

V( X 5 Y)
x2 " :y2 x2 + y2 ) •

Figura 1. Campo de vetores unitários u(x, y) — (


Vx-2 y+112 ' Vx2
X
+y2 ) .

O campo v(x, y) = (Vx2 +y2) ' • u(x, y) é associado à forma S2.


Tem-se fim Iv(x, y), = +CO.
4 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Provaremos que v não é o gradiente de uma função f: U —> R.


Com efeito, uma tal f, com v = grad f, assumiria um valor máximo no
ponto p da circunferência C, a qual é um conjunto compacto. Então
v(p) = grad f(p) seria normal a C, logo múltiplo do vetor Op o que é
absurdo.
Conhecida como o elemento de ângulo no plano, a 1-forma S2 provém
da tentativa de definir, no aberto U c R2 — {O}, uma função-ângulo
: U --> IR, de classe C', cujo valor em cada ponto z = (x, y) E U seja
uma determinação em radianos do ângulo que o semi-eixo positivo das
abcissas faz com a semi-reta Oz. Mais precisamente, O: U --> IR deve ser
C' e, para cada z = (x, y) E U, deve-se ter

cos 0(x, y)
,Vx 2 + y2
e sen 0(x, y) = y x 2 + y2 (*)

Figura 2. A função-ângulo O. Tem-se cos 0(x, y) = x/Vx2 + y2.

A relação entre a 1-forma Q e as funções-ângulo é estabelecida pelo


teorema seguinte.
Teorema 1. Há uma função-ângulo O: U --> R no aberto U cR 2 — {O}
se, e somente se, a forma SI = x2 + y2
dx + X2 + y2
dy é exata em U.

Demonstração: Mostraremos primeiro que se existir uma função-ângulo


O: U —> R então dO = St em U. Com efeito, das igualdades (*) acima
Seção 1 Formas diferenciais de grau 1 5

resulta que

-
a [ COS 9(X, y)]—
a x , ou seja,
ao sen — (xz
y2

ax ax 14/ 2±y2 ax yz)3/2

00 y —y
isto é
$C9X Vx2 + y2 = x 2 +y 2 \4 2 + y2
Segue-se que
ao = —Y
em todos os pontos (x, y) E U com y $ O. De
Dx X2 + y2
modo análogo, derivando em relação a x ambos os membros da segunda
das igualdades (*) e utilizando a primeira delas, obtemos

00 x —Y x 00 —y
logo =
ax V x 2 + y2 X2 + y2 ,Vx 2 + y 2 ax x2 + y2

em todos os pontos (x, y) E U com x O. Como U c R2 — {O},


00 —Y
concluímos que — = em todos os pontos de U. De modo
ax x2 + y2
00
semelhante, se vê que ay x2 +y 2
loo
cr dO = S/ em U.
A demonstração da recíproca é mais longa e resulta da seqüência de
proposições que estabeleceremos abaixo.
Proposição A. Se 0: U —› R é uma função-ângulo então ï U —> R
também é se, e somente se, B = 2k,7r onde kEZ é constante em
cada componente conexa de U.
Demonstração: Basta observar que dois números reais têm o mesmo
seno e o mesmo cosseno se, e somente se, diferem por um múltiplo inteiro
de 27r. E, além disso, uma função contínua com domínio conexo e valores
inteiros é constante. E
Proposição B. Se p = Ob é a semi-reta em R2 que parte da origem e
contém o ponto b E 8 1, então existe uma função-ângulo 0: R2 — p —> R.
Demonstração: A função de Euler E: R —> 5 1, definida por E(t) =
(cos t, sen t), é um difeomorfismo local sobrejetivo entre as "superfícies" de
dimensão 1, IR e 51, pois sua derivada é $ O (logo bijetiva) em todo ponto
t E I . Assim, quando restrita a um aberto U c R no qual é injetiva,
E é um difeomorfismo de U sobre E(U). Em particular, em todo inter-
valo aberto (a, a 27r) de comprimento 27r, E é um difeomorfismo sobre
5 1 — {b}, b = E(a). Dado b E 8 1, escolhemos um ponto a E IR tal que
6 Integrais Curvilíneas Cap. 1

E(a) = b, definimos a função-ângulo O: R2 — p —> R pondo, para todo


z = (x, y) E R2 — p, O(z) = E-1(zlizi).

o R

fr
E(t) = (cos t, sen t)

x
S

Figura 3. A função de Euler E: IR Si.

(Note que, como z p, tem-se z/izi b, logo E-1: 8 1—{b} —> (a, a+27r)
está definida no ponto z/izi.) EI
Corolário 1. Todo ponto z E IV — {O} é centro de um disco aberto onde
está definida uma função-ângulo.
Corolário 2. Se uma função O: U —> IR, contínua no aberto U c
R2 — {O}, é tal que cosKx,y) = x Wx2 + y2 e senKx,y) = y// x2 + y2
para todo ponto (x, y) E U então O E C e, portanto, é uma função-
ângulo.
Com efeito, todo ponto zo = (xo, Yo) E U pertence a um disco aberto
D c U, no qual está definida uma função-ângulo D. Como cosO = cosB
e sen O --= senB em U, segue-se que para todo ponto z = (x, y) E D
existe um inteiro k tal que 0(x, y) = y) 21or. Como O e .6 são
contínuas no conjunto conexo D, o número k é constante em D. Sendo
-6 de classe C", concluímos que O E C" na vizinhança de um ponto
arbitrário zo E U, ou seja, O: U —> R é uma função-ângulo. E
Seção 1 Formas diferenciais de grau 1 7

Corolário 3. A forma elemento de ângulo é localmente exata.

R a a + 27r
0(x,y) = E-1(z/IzI)

Figura 4. Uma função-ângulo O: R2 — p --> R.

Proposição C. Seja U = U DA um aberto conexo em R2, expresso


ÀEL
como reunião de discos abertos. Suponha que a cada À E L corresponde
um número real tÀ tal que tÀ — ti, E Z sempre que 11411 Dl, $ 0. Se,
para algum À0 E L, tem-se tÀo E Z então tÀ E Z para todo À E L.
Demonstração: Dado arbitrariamente Á E L, existem discos DÀ0,DÀ1 ,
DA k = DA tais que DÀ,_ i n DÀ, $0, para i = 1, . . . , k, pois U é

conexo. Então tÀ = (tÀk — tÀk-i) + • • • + (t À2 — tÀ,) (tÀ, — tÀo)-+ tÀ0 é


uma soma de inteiros, logo t), E Z. E
Observação. A reunião dos discos DA À E L, que podem ser ligados
a DA° por uma cadeia da forma acima é certamente um aberto em U.
Também é aberta a reunião dos discos DA À E L, que não podem
ser ligados a DÀo desta forma. Esses dois abertos são disjuntos e o
primeiro não é vazio. Então o segundo é, pois U é conexo. Isto justifica
a afirmação feita na demonstração.
A proposição seguinte completa a demonstração do Teorema 1.
Proposição D. Se a forma elemento de ângulo Q é exata no aberto
U c R2 — {O} então existe uma função-ângulo definida em U.
8 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Demonstração: Suponhamos inicialmente que U seja conexo. Seja


f: U —> R tal que df =S1 em U. Pelo Corolário 1 da Proposição B,
podemos escrever U = U DÀ de modo que em cada disco aberto DA
ÀEL
está definida uma função-ângulo OÀ: DÀ —> IR. Fixemos um Ao E L.
No conjunto conexo DA° as funções f e 8A0 têm a mesma diferencial Q.
Portanto f — OÀ0 = c é constante em DA° . Substituindo f por f — c,
que também é uma primitiva de Q, podemos admitir que f = OÀ„ em
134 . Para todo À E L, a diferença f — BA é constante em DÀ; ponhamos
1
27r (f — OÀ). Se DÀ n Dp 0, como 0), e Op são funções-ângulo no
tÀ = —
conjunto conexo DA n Dg , concluímos que
1 1
tÀ — tp = — [(f — OÀ) — (f — 012)] = — (O - OÀ)
27r 27r
é um inteiro. Além disso, tÀo = O. Segue-se da Proposição C que t), e z
para todo À. Conseqüentemente, f (ou f — c na notação inicial) é uma
função-ângulo. Caso U não seja conexo, o argumento acima prova que
existe uma função-ângulo em cada componente conexa de U, a qual é
um conjunto aberto. Essas funções, consideradas conjuntamente, dão
uma função-ângulo O: U —> R.
Exemplo 1. Uma função u: U —> IR, de classe C2 no aberto U C R2 ,
chama-se harmônica quando satisfaz a equaçá:o de Laplace —±
a2u a2u
ax2 — ay2 =
—Ou u
O. Isto equivale a afirmar que a 1-forma w = dx + —
O dy, definida
Dy Ox
em U, é fechada. Para que a forma w seja exata, deve existir uma função
2 Ov —Ou Ov Ou
v: U —> R, de classe C, tal que —.= e = — Estas so ã as
Dx Dy Dy Ox
equações de Cauchy-Riemann. (cfr. Vol. 2, Cap. 5, Exemplo 7.) Elas
significam que a função f: U —> C, definida por f(z) = u(z) + iv(z),
é holomorfa, isto é, possui derivada no sentido complexo em todos os
pontos de seu domínio U. Portanto a função harmônica u: U —> R é
a parte real de uma função holomorfa f : U —> C se, e somente se, a
—Ou
1-forma fechada w: U —> (1R2)* , w — dx + —dy é exata.
Dy Ox
Exemplo 2. Vejamos dois casos particulares do Exemplo 1. A função
u: R2 —> R, definida por u(x, y) = x2 — y2 , é harmônica. A 1-forma
a ela associada é w = 2ydx + 2xdy, a qual é exata: w = dv, onde
v(x, y) = 2xy. E, de fato, u é a parte real da função holomorfa f: C —> C,
Seção 1 Formas diferenciais de grau 1 9

f (z) = z2. Por outro lado, a função harmônica ti: 1182 — {O} —> R,
1
u(x, y) = — log(x2 + y2) origina a 1-forma S2 = —21 dx + x 2 + y2 dy,
2 X2 + y2
1
que não é exata em R2 — {0}. Logo, u = — log(x2 + y2) não é a parte
2
real de uma função holomorfa em R2 — {0}.

Exemplo 3. Seja f = a + ib uma função holomorfa no aberto U c C.


Em virtude das equações de Cauchy-Riemann, as 1-formas w = adx—bdy
e yo = bdx + ady são fechadas. Elas são exatas em U se, e somente se,
eu Ou
existem funções u, v : U —> R, de classe C2, tais que — -= a, — =
ax Dy
av av
- =be- = a. Então a função complexa g = u + iv : U —> C cumpre
ax Oy
au
as condições de Cauchy-Riemann, logo é holomorfa, e g' = — =
a + ib = f. Portanto, a fim de que a função holomorfa f: U —> C,
dada por f = a + ib, possua uma primitiva g: U —> C (isto é, g' =
f) é necessário e suficiente que as 1-formas fechadas w = adx — bdy e
y = bdx + ady sejam ambas exatas em U.
Exemplo 4. Como caso particular do Exemplo 3, tomemos f: C —
{O} --> C, f (z) = 1/z = x/ (x2 + y2) _ iyAx2 y 2N) . Com a notação,
acima, temos w = (xdx+ ydy)I(x2 + y2) e cio = = elemento de ângulo.
A 1-forma w é exata em C— {0}; de fato CD = du, onde u = log Vx2 + y2.
Mas sabemos que SI não é exata, logo f não admite primitiva em C— {0}.
Para concluir estas considerações gerais sobre 1-formas fechadas e
exatas, ampliaremos a validez do Corolário 3 da Proposição B acima,
provando que todo ponto do domínio de uma forma fechada possui uma
vizinhança, restrita à qual a forma é exata. Este é o significado do

Teorema 2. Toda forma fechada é localmente exata.


Demonstração: Provaremos que, num disco aberto em Rn, toda forma
fechada é exata. Para simplificar a notação, consideraremos a forma
fechada w = adx + bdy + edz, definida no disco aberto U com centro na
Da
origem em R3 . Temos — = —,
ab aa
—=—ac
ab
e — = ac
ay Ox az ax az a—yDefinimos a
função f: U —> IR, pondo, para todo (x, y, z) E U:

1
f (x, y, z) = f [a(tx,ty,tz)x + b(tx, ty, tz)y + e(tx,ty,tz)z] dt.
o
10 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Designemos por À: [0, 1] —> U o caminho retilíneo que liga a origem


ao ponto (x, y, z) E U. Pela Regra de Leibniz (derivação sob o sinal de
integral, cfr. Teorema 3 do Cap. 3, vol. 2) temos
Of 1 aa ab De
(x,y, z) = f [Tc tx + a ty + dt,
ax o ox ax ax
onde as derivadas parciais são calculadas no ponto (tx, ty, tz). Como
Oblax = fia/Dy e Oc/ax = fia/fiz, podemos escrever
af [ aa Da
ax (x,y, z) ' Dy Y F t z) t +
± - dt =
Jo \ax

=1
o
[(a o A)/ • t + a] dt f
o
[(a o • t] dt = a(x, y, z).

af aí
De modo análogo se vê que — = b e — = c, logo df
ay az

Figura 5. Conjuntos estrelados.

Observação. Um conjunto X cri chama-se estrelado quando contém


um ponto p (o vértice) tal que o segmento de reta unindo qualquer
ponto x E X ap está contido em X. Por exemplo, todo conjunto
convexo é estrelado e qualquer um dos seus pontos serve de vértice. O
argumento acima mostra que se o aberto U C R' é estrelado então
toda 1-forma fechada de classe C1 em U é exata. O teorema acima
permite acrescentar aos Exemplos 1 e 3 que toda função harmônica de
duas variáveis é localmente a parte real de uma função holomorfa e que
toda função holomorfa possui localmente uma primitiva holomorfa. E
se o aberto U C Ir é estrelado (em particular, se U = Ir), toda função
harmônica é a parte real de uma função holomorfa em U e todo campo
v: U —'IR'' de classe Cl , que cumpra as condições de integrabilidade
aai
= (onde v(x) = (ai (x), , an(x)) para todo x E U) é o campo
ax; oxi
gradiente de uma função f: U —> R.
Seção 2 Integrais curvilíneas 11

2 Integrais curvilíneas

Sejam w aidxj, uma 1-forma contínua no conjunto X c Rn e


=
7: [a,14 —> X um caminho de classe C1, com 7(0 = (xi(t), • . .,xn (0),
t E [a, b]. A integral de co ao longo de 7 é definida como

b dxi
f w -=' j a wey(t)) • 71(t) dt =
i=
fa ai (7(t)) —d-t- dt.

Analogamente, se v: X —+ Ir é um campo vetorial contínuo, sua integral


ao longo do caminho 7 é definida como

= f a (v(-y(t)), (t)) dt.

Se v é o campo associado à forma w, tem-se (v(7(0), -/(0) = w(-y(t))•


2/(t). Neste caso, portanto, f'7 w = f V.

Exemplo 5. Se w = df é uma forma exata em U, tem-se:

7 l ydf df (7(t)).7' (t) dt = (f 07)1 (t) dt = f (7 (b))— f (-y (a)).


f co =

Portanto a integral de uma forma exata depende apenas das extre-


midades do caminho de integração. Em particular, se 7 é um caminho
fechado (7(a) = 7(b)) e w é exata então f 7 co = O.
Neste contexto, o Teorema 2 é fundamental: se 7 e 77 são caminhos
de classe Cl com as mesmas extremidades, ambos contidos na mesma
bola aberta B então, para toda forma fechada w definida em B, tem-se
17co=f,co.
O teorema seguinte mostra que 17 w é invariante sob uma repara-
metrização do caminho ry, desde que o sentido geral do percurso seja
mantido.

Teorema 3. Seja cp: [c, dl --> [a, b] de classe C'. Se y(c) = a e y(d) = b
então f70 v, co = f7 w. Se, porém, cp(c) = b e y(d) = a então h ow c4.) =
12 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Demonstração: Supondo cp(c) = a e cp(d) = b, o Teorema de Mudança


de Variáveis (Vol. 1, Cap. 11, Teor. 2) e a Regra da Cadeia nos dão
cp(d)
f y w = j o(c) w(7(t)) • 7' (t) dt = w(7 o cp(s)) • 7' (cp(s)) • cio' (s)ds
c
rd
=
e
W(7 ° (P(8)) • ey o (PY (s) ds = f w•
70(P
Se for y(c) = b e y(d) = a, basta ver que = f:((di = — f,;((ed))

Dizemos que 7 o cp é uma reparametrização positiva de 7 quando


cp : [c, d] --> [a, b], 7 : [a, b] --> Rn, y (c) = a, (d) =becpeC l. Se, ao
contrário, tem-se co(c) = b e 9o(d) = a, '7 0 cp chama-se uma reparame-
trização negativa de -y.
Um exemplo típico de reparametrização negativa é dado pelo ca-
minho oposto 7*: [a, b] —> Rn do caminho -y. Tem-se, por definição,
7*(t) = 7(a b — t), logo 7* = 70 cio, onde cp: [a, b] --> [a, b], dada por
cp(t) = a ± b — t, é tal que ç(a) = b e y(b) = a. Então frw = —5 w 7
para toda forma cp.
A função cp: [O, 1] —› [a, b], com y(s) = (1 — s)a sb origina uma
reparametrização positiva 7 = o cio: [O, 1] --> Rn do caminho 7: [a, b] —>
. Tem-se fw = f cp para qualquer 1-forma contínua cP cujo domínio
contenha a imagem de 7 (que é a mesma de 7).

11) 72 ( b) = 72 (c)
c
1/2

71
o

Figura 6. O caminho justaposto 7 = 71 V '72: tem-se 71 : [a, b] —> Rn e


72: [c, ri —> De, com 71(b) = 72(c). Então 7 =7 V72 : [0,1] IRri é dado
por ry(t) = -yi (cp(t)) se O < t 5_ 1/2 e 7(t) = -y2(2P(t)) se 1/2 t < 1, onde
cp(t) = a + 2t(b — a) e ib(t) = 2c— d + 2t(d — c).
Seção 2 Integrais curvilíneas 13

O caminho justaposto 7 = -71 V 'y2: [0, 1] --> 118n, de dois caminhos


71,72: [0,1] —> R", tais que 71(1) = 72 (0), é definido por 7(t) = -yi(2t)
se t E [0,1/2] e 7(t) = -y2 (2t — 1) se t E [1/2, 1]. A observação que
acabamos de fazer permite definir o caminho justaposto -y = 71 V72 para
quaisquer 71: [a, b] —> Ir e 72: [c, d] --> R n desde que -n(b) = 72(c). E
podemos escolher como domínio de -y um intervalo compacto arbitrário.
Diz-se que o caminho 7: [a, b] --> WI é de classe Ck por partes quando
7 é contínuo e, além disso, existe uma partição P = {a = to < t1 < • • • <
tm = h} tal que a restrição de 7 a cada intervalo [ti_1, ti], j = 1, . . . , m,
é de classe Ck. Isto equivale a dizer que 7 = 71 V • • • V -ym é o justaposto
de caminhos de classe C.
Um exemplo de caminho de classe C' por partes é o caminho poli-
gonal, formado pela justaposição de caminhos retilíneos.
Se 7: [a, b] --> X C R n é um caminho de classe Cl por partes, dado
pela justaposição 7 = 71 V • • • V 7,7, de caminhos de classe C1, define-
se a integral 17w de uma 1-forma contínua w: X —> (Ir)* pondo-se

try w = .Ern f-73 w•


3.1
Esta definição independe da partição P do intervalo [a, b], em cujos
intervalos [ti _ i , ti] estão definidos os caminhos -yi de classe C1. Para
mostrar isto, começamos notando que se Q é uma partição que refina
P, o valor de wéo mesmo, quer se use Q ou P, pois cada intervalo I
A
de P é a reunião de intervalos consecutivos de Q e, como -y é de classe
Cl em 1, a aditividade da integral na reta garante o resultado. No caso
geral, toma-se uma partição R que refine P e Q, e as integrais, usando
P ou Q, coincidem com aquela usando R.
O teorema seguinte é a caracterização mais geral de uma 1-forma
exata.

Teorema 4. As seguintes afirmações a respeito de uma forma co, de


classe Ck no aberto U c R', são equivalentes:
1) co é exata em U.
2) f w = O para todo caminho fechado, de classe C1 por partes,
contido em U.
3) f 7 w depende unicamente dos extremos 7(a) e 7(b) do caminho
7: [a,1).] —> U de classe Cl por partes.
Demonstração: Evidentemente, 1) = 2). Além disso, se admitirmos
2) então, dados os caminhos 7,7: [a, b] —> U, de classe Cl por partes,
14 Integrais Curvilíneas Cap. 1

com os mesmos extremos, isto é, -y(a) = 7(a), 7(b) = 57(b), o caminho


7V 7*, obtido justapondo 7 com o oposto 7* de 7, é fechado portanto,
por 2), tem-se

00-ILL)=-»1+
7
f
7*
f
y-V7*
LU=
O,

logo f w = f_i,co, ou seja, 2) = 3). Suponhamos agora que valha 3)


e, temporariamente, admitamos que U seja conexo. Fixamos um ponto
pE U e definimos a função f U --> IR, pondo, para cada x E U, f (x) =
fp co, onde fp significa a integral de w ao longo de qualquer caminho C1
O
em U ligando p az. Se w =- E aidx, , vamos provar que --„ f (x) =
axi
i = 1, , n, em todo ponto x E U, portanto df = w em U. Ora, usando
d
— para indicar sempre a derivada no ponto t = O, temos:
dt
øf = — f (x tei) = [f
X
+ i t w(x + sei) • ei da]
ã7i, (x) dt dt p 0

= i t ai (x sei) ds = ai (x).
dt o
No caso geral, este argumento fornece uma primitiva de co em cada
componente conexa do aberto U e isto define uma função f: U --> R, de
classe Ck+1, tal que df = co. El

3 Invariância homotópica

Provaremos a seguir que a integral de uma 1-forma fechada não varia


quando se submete o caminho de integração a uma deformação contínua
mantendo fixas suas extremidades ou, se o caminho for fechado, preser-
vando este fato. A deformação deve processar-se dentro do domínio da
forma. Ela é chamada uma homotopia. Intuitivamente, uma homotopia
H entre os caminhos 70,71: [a, b] --> X no conjunto X C Ir é uma
família de caminhos Ht : [a, b] —> X, t E [0,1], começando com Ho = 70
terminando com Hl = 71 e ift dependendo continuamente do parâmetro
t. A fim de que esta noção não seja inócua, exige-se que 7o e 71 tenham
as mesmas extremidades, as quais permanecem fixas durante a homoto-
pia, isto é, são as extremidades do caminho Ht para todo t E [O, 1]. Se
70 e 71 forem caminhos fechados, exige-se que cada Ht, t E [O, 1], seja
Seção 3 Invariância homotópica 15

fechado e tem-se o que se chama de homotopia livre (pois nenhum ponto


é obrigado a permanecer fixo). Passemos às definições formais.
Sejam 70, 'y1: [a, b] —> X caminhos no conjunto X C R', com 70(a) =
71(a) e 70(b) = 71(b). Uma homotopia entre -yo e 71 é uma aplicação
contínua H: [a, b] X [0, 1] --> X tal que H(a,t) = -yo(a), H(b, t) =
H(s, 0) = 70(8) e H(s,1) = 71(8) para todo t E [0,11 e todo s E [a, b].
Se 70, 71 : [a, h] —> X são caminhos fechados, uma homotopia livre
entre 70 e 71 é uma aplicação contínua H: [a, b] x [0, 1] —> X tal que
H(a,t) = H(b,t), H(s,0) = 70(8) e H(s,1) = 71(8) para todo te [0,1]
e todo s e [a, b].
Na interpretação intuitiva acima dada, os caminhos Ht definidos pela
homotopia H são Ht : [a, b] --> X, H(s) = H(s,t), s E [a, b], t e [0,11. A
continuidade de H exprime que o caminho Ht depende continuamente
de t.

o
a

o
a

Figura 7. Uma homotopia H entre caminhw com mesmas extremidades e


uma homotopia livre K entre caminhos fechados.

Escreve-se H: 70 para indicar que H é uma homotopia entre os


caminhos 70 e 71 que têm as mesmas extremidades e H: 70 2-2. 71 para
indicar uma homotopia livre entre os caminhos fechados 70 e 71 .
Ao mencionar uma homotopia entre caminhos, é essencial ter em
16 Integrais Curvilíneas Cap. 1

mente o conjunto X no qual a homotopia tem lugar (ou seja, o contra-


domínio da aplicação H: [o, b] x [0,1] ---> X) pois, ampliando X, dois
caminhos que não eram homotópicos podem passar a ser. E vice-versa,
restringindo X, caminhos antes homotópicos podem perder esta propri-
edade.
Exemplo 6. Sejam 70, 'y. : [a, b] —> X caminhos com as mesmas extre-
midades e tais que, para todo s E [a, b], o segmento de reta [-y0(s), -yi(s)]
está contido em X. Então 70 -D=' -yi . Com efeito, a aplicação H: [a, b] x
[0,1] --> X, definida por H(s,t) = (1 — t)70 (s) ten. (s) é, como se vê
facilmente, uma homotopia entre 70 e 71 . H é o que se chama uma
homotopia linear. Resultado análogo vale para homotopia livre entre
caminhos fechados.
Exemplo 7. Se ço : [a, b] —› [a, b] é uma função contínua tal que y(a) = a
e y(b) = b então, para todo caminho -y: [a, b] —) X, tem-se 7° yo
7. Basta considerar a função contínua H:[a,b] x [0,1] --> X, dada por
H(s,t) = -y((l—t)y(s)-1-ts). Analogamente, se y(a) -= b e ço(b)= a, tem-
se -yoçoi_i- -y* (oposto de -y), como mostra a homotopia H: [a, b] x [0,11 -->
X, dada por H(s,t)-= -y((1 — t)c,o(s) t(a b— s)).
A relação de homotopia (com extremos fixos ou livre entre caminhos
fechados) é reflexiva, simétrica e transitiva. Com efeito, H(s, t) = ry(s) é
uma homotopia entre '7 e -y. E se II: [a,b]x [0, 1] —> X é uma homotopia
entre 70 e 71 então K: [a, b] x [0, 1] -4 X, dada por K (s,t) = H (s, 1— t)
é uma homotopia entre 71 e -y0 . Finalmente, se H, K : [a, b] x [0,1] —> X
são homotopias entre 70 e 71 e entre 71 e 72 respectivamente então
L: [a,b] x [0, 1] —> X, definida por L(s,t) = H(s,2t) se t E [O, 1/2] e
L(s,t)-= K(s, 2t — 1) se t E ]1/2, 1], é uma homotopia entre -y0 e 72 .
Teorema 5. Sejam co uma 1-forma fechada no aberto Uc Rne
7,77: [a, b] —> U caminhos de classe Cl por partes, com as mesmas ex-
tremidades. Se -y e 77 são homotópicos em U então w =- f co.
7
Demonstração: Seja H: [a, b] x [0, 1] --> U uma homotopia entre 7 e ri.
Como a imagem H(R) do retângulo R= [a, b] x [0 1] é um subconjunto
compacto de U, pelo Cor. 2 do Cap. 1, Vol. 2, existe E > O tal que
para todo (s, t) E R, a bola de centro H(s, t) e raio E está contida em
U. Pela continuidade uniforme de H, existe 8 > O tal que a imagem
por H de qualquer subconjunto de R com diâmetro < 5 tem diâmetro
<E, logo está contida numa bola B C U, na qual w é exata. Tomemos
partições P = {a = < si < • • • < = b} de [a,b] e Q = {O =
Seção 3 Invariância homotópica 17

to < ti < • • • < tr = 1} de [0,1] tão finas que os retângulos Rii =


[si_ i, si] x [t_1, t] tenham diâmetros < 5, logo H(R) está contido
numa bola Bii c U. Escrevendo z = H(si, ti), vemos que os caminhos
retilíneos aii = zij] e Pii = zii], bem como aid-i e
estão contidos na bola Bii . (1 < i < m, 1 < j < r). (Notemos que pgi
e )3mi são constantes, reduzidos aos pontos 2,(a) e 'y(b) respectivamente,
seja qual for j = 1, , r.)
Consideremos os caminhos poligonais

ai = ali V a2i V • • • V anti j =0,1, . . . ,r.

t2

ti

O
a si S2

O teorema estará provado se mostrarmos que f y w=f ao w f n w=


farwefa j-i w=f wparaj-=- 1, , r. Pondo, -=- [si_i, si], ve-
mos que b i w = L io co para todo i = 1, , 772 pois eyi e aio são caminhos
com as mesmas extremidades, contidos na bola B0, na qual co é exata.
Portanto

Jc =
W 4- • • •
frYm = fa io
+ • • • 4- co =
ao
CO.

Com o mesmo argumento se mostra que 1,7 co = f ar co Por sua vez,

w= G./ + f — + ai + f co
(-4) fiij Pii

pois aii e )37_14 V ai,i_i Vfiii são caminhos com as mesmas extremidades,
contidos na bola Bii , na qual co é uma forma exata.
18 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Figura 9. Os caminhos )3: 3,3 V as,3_1 V pzi e ati estão contidos na bola
e têm as mesmas extremidades. (Lembrar que p* significa o caminho
oposto de ,(3.) Pelo Teorema 2, a integral da forma fechada w é a mesma em
qualquer desses dois caminhos.

Portanto

W = w w + • • • -4- co
fi2j fali fa2j

u.) w w+ w+f w — •••+


ai,j-i Pij a2,j- 1 P2j

C4.1 — CO
Pm-1,j Pm -1,j am,j —1

fal,i-i
w+
fa2,i--1
w+• •+
am,i-i
W =
fai-i
CO

(Lembrando que foo, co = f oni3 co = O pois os caminhos )303 e fin.ii são


constantes.) E

Teorema 6. Sejam co uma 1-forma fechada no aberto U C Ire e


7,71: [a, [3] —› U caminhos fechados, de classe Cl por partes. Se 7 e
ri são livremente homotópicos em U então fco = f (4.
Seção 3 Invariância homotópica 19

Demonstração: Segue as mesmas linhas acima, apenas com uma pe-


quena alteração: para cada j = 1, , r, obtém-se:

(43-
- f C41 - 1 LO - 11 C4.1=1 W

3 ai -1 Poi Pra a3-1

pois os caminhos Pof e Pmf são iguais. O


Resulta do Teorema 5 que se co é uma 1-forma fechada no aberto U C
R n então a integral A co faz sentido, seja qual for o caminho contínuo

-y: [a, b] —> U, mesmo que 7 não seja de classe C1 por partes.
Com efeito, a imagem de 7 é um subconjunto compacto de U, logo
(pelo Corol. 2, Cap. 1, vol. 2) existe E >0 tal que, para todo te [a, b], a
bola de centro 7(t) e raio e está contida em U. Como 7 é uniformemente
contínuo, existe 8>0 tal que s, t E [a, b], Is —ti <8 = I7(s)— ry(t)I <E.
Portanto, se P = {a = to < • • • <t k = h} é uma partição de [a, b] com
norma < 8, o caminho poligonal Ti: [a, b] --> R', cujos vértices são os
pontos 7(4), i = 0, 1, , k, está contido em U e, para todo t E [a, b], o
segmento de reta [7(t), iy(t)] também está contido em U. Portanto existe
uma homotopia linear H: 7 77. Como ri é de classe C1 por partes, a
integral f n co faz sentido. Pomos então, por definição, A w = co. Esta
definição não depende da escolha de 77 (ou seja, da partição P) por
causa da transitividade da relação de homotopia: se, usando o mesmo
processo, tomássemos o caminho À: [a, b —> U em vez de 77, teríamos
ainda 7 A, logo A 77 e, pelo Teorema 5, viria A co = f17 co.
Um conjunto X c Ir chama-se simplesmente conexo quando é co-
nexo por caminhos e todo caminho fechado 7: [a, b] —> X é livremente
homotópico a um caminho constante. Por exemplo, todo conjunto es-
trelado X c IR'1 (em particular, todo conjunto convexo) é simplesmente
conexo. Com efeito, se p E X éo vértice da estrela e -y: [a, b] —> X
é qualquer caminho em X então H: [a, b] x [0, --> X, definida por
H(8, t) =- (1 — t)-y(s) tp, é uma homotopia entre 7 e o caminho cons-
tante, igual a p.
Pelo Teorema 6, se co é uma 1-forma fechada em U e 7: [a, h] --> U
é um caminho fechado livremente homotópico a um caminho constante
então A co = 0. Como conseqüência, podemos concluir que o caminho
fechado -y: [O, 27r] —> R2 — {0}, definido por -y(t) = (cos t, sen t), não é
homotópico a um caminho constante. De fato, é fácil ver que A = 27r,
onde SZ — — Y dx dy é a forma elemento de ângulo.
X2 + y2 x2 + y2
20 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Assim, vemos que R2 - {0} não é simplesmente conexo. Mais ge-


ralmente, o mesmo argumento mostra que se o conjunto X c R2 - {0}
contém uma circunferência de centro O (como, por exemplo, X = S1)
então X não é simplesmente conexo. O exemplo seguinte mostra que a
situação é diferente quando n> 1.

Exemplo 8. Se n> 1, a esfera 8" é simplesmente conexa. Para mostrar


isto, consideraremos inicialmente um caminho 7: [a, b] -> Sn que não
seja sobrejetivo e provaremos que ele é homotópico a um caminho cuja
imagem é um compacto com interior vazio em Sn. Com efeito, existe
pelo menos um ponto p E Sn que não pertence à imagem de -y, logo tem
sentido considerar o caminho e o 7: [a, b] -> R', onde C: 8" - {p} -> Rn
é a projeção estereográfica (Ex. 16, Cap. 1, vol. 2). Em Rn e o
é homotópico (linearmente) a um caminho retilíneo À = [c, d]. Logo
= e-1 o À é homotópico a -y = e-1 o (e o -y). Notemos que, sendo
A retilíneo, 77 = e-1 o À é um arco de circunferência em Sn, interseção
dessa esfera com o plano (bi-dimensional) que contém o segmento [c, d]
e o ponto p, pólo da projeção estereográfica. Logo a imagem de n é um
conjunto compacto com interior vazio em 512. No caso geral, dado o
caminho 7: [a, b] ---> 8", a continuidade uniforme fornece uma partição
{a = < ti < • • • < tk = b} c [a,b] tal que os caminhos ty, = I
[ti_1, ti] não são sobrejetivos, logo cada -yi (i = 1, , k) é homotópico a
: ti] -› Sn, cuja imagem é um compacto com interior vazio em
Sn. Então 7 = 71 V • • • V 7k é homotópico ao caminho A = Al V • • • V Ak ,
cuja imagem é compacta e tem interior vazio em 8". Vemos assim que,
se n > 1, todo caminho 7: [a, b] -> Sn é homotópico a um caminho
A: [a, b] -> Sn, que não é sobrejetivo. Usando novamente a projeção
estereográfica, vemos que À pode ser considerado como um caminho em
R", o qual é linearmente homotópico a um caminho retilíneo e, como
seus extremos permanecem fixos durante a homotopia, se 7 for fechado
(logo A também), esse caminho retilíneo se reduz a um ponto.

Observação. A hipótese n> 1 foi usada ao afirmarmos que um arco


de circunferência tem interior vazio em Sn.
O corolário abaixo resulta dos Teoremas 4 e 6.

Corolário 4. Se o aberto U C Ir é simplesmente conexo então toda


forma fechada (.4): U -> (Rn)* é exata.
Seção 4 O número de voltas de um caminho fechado 21

Em particular, se o aberto Uc Cé simplesmente conexo então toda


função harmônica u: U R é a parte real de uma função holomorfa
f: U —› C e toda função holomorfa f: U —› C possui uma primitiva.
Uma formulação equivalente do Corolário 4 diz que se U C Rn é
simplesmente conexo e o campo vetorial v: U —*R', de classe C1, dado
por v(x) = (ai (x), , ar,(x)), cumpre as condições de integrabilidade
Ba Oci2
= então v é o gradiente de uma função f: U —> R.
axi euxi

4 O número de voltas de um caminho fechado

Diz-se que a função contínua a: [a, 1)] —> IR é uma função-ângulo do


caminho -y: [a,b] —> IR2 — {O}, onde 7(t) = (x(t),y(t)), quando se
tem, para cada t E [a, b], cos a(t) = x(t)/ x(t)2 + y(t)2 e sena(t) =
y(t)/Vx(t)2 + y(t)2. Usando a função de Euler E: IR 8 1, isto equi-
vale a dizer que E(a(t)) = 7(t)/1-y(t)l.

Teorema 7. Dado o caminho -y: [a, b] —> R2 — {O} e escolhido ao E IR


tal que E(a0) = 7(a)/ 17(a) I, existe uma, e somente uma, função-ângulo
a: [a, b] —> IR para o caminho 7 tal que a(a) = a0 .

Demonstração: Suponhamos inicialmente que a imagem de 7 esteja


contida no complementar R2 — p de uma semi-reta p que parte da origem.
Então, pela Proposição B, existe uma função-ângulo 9: R2 — p —> IR, com
0(7(a)) = ao. Neste caso, definimos a: [a, b] --> IR pondo a = O o 7. No
caso geral, a continuidade uniforme de 7/171 : [a, b] --> 8 1, fornece uma
partição de [a, 11 cujos intervalos [ti_1, ti] são tais que 7, restrito a cada
um deles, tem imagem contida no complementar de uma semi-reta p, .
Definimos a sucessivamente nos intervalos [a, t1], [t1, t2], etc. escolhendo
o valor inicial a (ti) em [t1, t] de modo a coincidir com o valor final a (ti)
em [a, t1] e assim por diante. Quanto à unicidade de a, basta lembrar
que duas funções-ângulo do mesmo caminho 7 diferem em cada ponto
t E [a, b] por um múltiplo inteiro de 27r e, sendo [a, b] conexo, esse inteiro
é constante. Se ele é zero no ponto t = a, é zero sempre e as funções
coincidem. O
22 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Figura 10. A função contínua a: [a,b] --> é uma função-ângulo do


caminho -y: [a,b] —> R2 — {O} quando, para cada t E [a,b], a(t) é uma
determinação da medida (em radianos) do ângulo do eixo das abcissas Ox
com a semi-reta 07(t). Isto significa que E(a(t))-=

Teorema 8. Se o caminho -y: [a,b] —> R2 — {O} é de classe Ck (k> O)


então toda função-ângulo a: [a,b] —> R de 7 também é de classe Ck .
Demonstração: A função-ângulo definida na demonstração do Teo-
rema 7 é de classe Ck se 7 E Ck . Qualquer outra função-ângulo para
-y difere daquela por um múltiplo inteiro constante de 27r, logo é de
classe Ck .

Corolário 5. Se -y: [a,b] --> R2 — {O} é um caminho de classe Ck por


partes, toda função-ângulo de -y também é Ck por partes.
O teorema abaixo se refere à forma Q = (—ydx + xdy)I(x2 + y2).

Teorema 9. Seja a: [a, b1 —> IR uma função-ângulo para o caminho


-y: [a, b] —> R2 — {O}, de classe Cl por partes. Então f ey S1 = a(b)— a(a).
Demonstração: Escrevendo 7(t) = (x(t), y(t)) temos, para todo t E
[a,b], x(t) = i-y(t)cosa(t)e y(t) = 17W' sen a(t). Abreviadamente:
Seção 4 O número de voltas de um caminho fechado 23

x = 1-y1 cos a e y = 1-ylsen a. Por definição, tem-se

b xy' — x'y dt
=
ia X2 + y 2

Temos x = 1-y1 cos a e y 171sen a. Logo x' = 171' cos a — 171 sen a • a' e
y' = 1-y1' sen a + 1-y1 cos a • a'. Daí resulta imediatamente que xy' — x'y =
1712 • ai. Como
1712 . x 2 ±y 2 , vemos então que fry = fab cei (t) dt =
a(b)—a(a). No caso geral, em que 7 é C1 por partes, temos uma partição
P = {a = to < ti < • • • < tk = b} onde -yi = 71[ti_i, til é de classe Cl
para cada i = 1, , k e, por definição,

= E f E[a(ti) — a(ti_i)] = a(b)— a(a). O


Jc •i=1 i=1

Corolário 6. Seja 7: [a, b] —> R2 — {O} um caminho fechado, de classe


1
Cl por partes. O número n(7) = — f St é inteiro (positivo, negativo
27r 7
ou nulo).
O número n(7) acima introduzido chama-se o número de voltas do
caminho fechado 'v em torno da origem em Ir. Deve-se observar que se
trata do número líquido de voltas, ou seja, as voltas no sentido positivo
menos as dadas no sentido negativo da orientação natural Ox —> Oy do
plano.

Figura 11. Número de voltas de cada caminho em torno do ponto O:


n('n; O) = 2, n(-y2; O) = —1, n(73; O) = O.

Segue-se imediatamente do Teorema 5 que o número de voltas n(ey)


do caminho fechado 7 é um invariante homotópico: se ey,72: [a, b] —›
R2 — {O} são caminhos fechados, de classe Cl por partes, livremente
homotópicos então n(-y) = n(77).
Tr-

24 Integrais Curvilíneas Cap. 1

Na verdade, todas estas conclusões são válidas para caminhos fecha-


dos 7: [a, b] --> R2 — {O}, de classe C° (isto é, apenas contínuos, como
todo caminho deve ser, por definição).
Com efeito, se 7: [a, b] —3 R2 — {O} é um caminho fechado (de classe
C° apenas), consideramos, como na seção anterior, um caminho poli-
gonal fechado 77: [a, b] ----> R2 — {O} homotópico a -y, logo f y f2 = f ri Q,
1
e daí — f S/ é um inteiro, chamado ainda o número de voltas de 7
27r 7
em torno da origem. Por transitividade da homotopia, este número
1
n(7) = — f Q não depende do caminho poligonal n e é também um
27r "i
invariante homotópico do caminho -y.
Um importante complemento do Corolário 6, que será provado no
Capítulo 5 (Ver Corolário 4), diz que se a imagem de 7 é uma curva de
Jordan C de classe C3 então n(7) = ±1 se a origem está no interior de
C ou n(-y) = O se a origem pertence ao exterior de C.

Exemplo 9. Seja -y: [O, 271 —> R2 — {O} o caminho fechado definido
por 7(t) = (cos kt, sen kt), onde k E Z. Então a: [O, 27r] —> IR, dada por
- -1:#27r[a(27r) — a(0)1 = k,
a(t) = kt, é uma função-ângulo de 7. Como §
vemos que o caminho 7 dá k voltas em termo da origem O, ou seja,
n(7) = k.

5 Exercícios

Seção 1: Formas diferenciais de grau 1

1. Seja to a forma em 1R2 definida por y) = —ydx + xdy. Prove que w não é
fechada mas as formas a = .w = we7= •L) são, na realidade, exatas
no conjunto U = {(x, y) E R2 ; x > O, y > 0}. Ache funções f , g, h: U —> R tais
que df = a, dg = p e dh = ry.
2. Sejam U C Rm , V C R' abertos e : U —> V uma aplicação de classe Cl .
Para toda forma diferencial ca em V, defina o pullback de ca por ço como a
forma ("fui: U —> (Rm)* tal que

(p*w)(x) • v = 0.,(tp(x)) • • v), x E U,v E

Prove as seguintes afirmações:

(i) 92*(a•w+b•cD)=a•cp*o.)+b•cp*C.Jsea,beReco,ca:V —> (r)*;


(P o ço)*(4) = cp*OP*c..,) se cp:U --> V c —> W;
Seção 5 Exercícios 25

(iii) Sejam cpi, , cp. U —> IR as funções-coordenada de cp.


Se w(y) = E aj(y)dyi , y E V, então, para todo x E U, tem-se
j=1
n
(cp*to)(x) m a,i(c,o(x)) • —?fi (x))dxi ;
axi
j=1

(iv) Para toda f: V —> IR de classe Cl , tem-se cio* (df) = d(f o (p);
(v) Se co é fechada então cp*co é fechada;
(vi) Se co é exata em V então (p* to é exata em U.
3. O elemento de ângulo de vértice p = (a, b) é a forma diferencial f2. , definida
em R2 — {p} por
b—y x—a
dx + dy.
(x — a)2 + (y — b)2 (x — a)2 + (y — b)2

Prove as seguintes afirmações:


(i) Qp é fechada mas não é exata em R2 — {p};
(ii) Definindo convenientemente função-ângulo de vértice p, a forma Qp é
exata no aberto U C R2 — {p} se, e somente se, existe uma função-ângulo
de vértice p definida em U;
(iii) Qp é exata no aberto I1V — p, onde p é uma semi-reta de origem p.
4. Seja co U —> (Ir)* uma forma fechada de classe Cd que não se anula em
ponto algum de U. Dada a função f U —> IR de classe Cl , prove que a forma
f • ta é fechada se, e somente se, df é um múltiplo de co.

Seção 2: Integrais curvilíneas


1. Sejam co : U —> (Rn)* uma forma contínua no aberto U c R' e 7: [a, 14 —> U um
caminho de classe Cl . Para cada partição pontilhada P* = (P, e) do intervalo
[a,14 (cfr. Cap. 11 do Vol. 1), ponhamos E(P) => co(7(ei)) • [y(ti)--y(ti-1)1,
onde P = {a = to <ti < • • • <tk = b}. Prove que f y = lim E(P*), sendo
1/1= irr<ii%ck iti —

2. Seja co: U —> (Rn)* contínua em U c R'. Suponha que para um certo M> O,
valha Ico(x) • vi < M • vi quaisquer que sejam x E Uev E Ir. Prove que, dado
7
o caminho -y: [a, b] —> U de classe C1, tem-se 1 co 1 < M • £(7), onde £(7) é o
comprimento de -y.
3. Sejam U c R', V c R' abertos e f: U —> V uma aplicação de classe Cd .
ff*
Prove que, para todo caminho -y: [a, b] —> U de classe Cl , tem-se =
.11f0-r co.
4. Seja 7 = -n V 72 V 73 V 74 o caminho poligonal fechado cuja imagem é o contorno
do quadrado Q = [0,1] x [0,1]. Se co = adx + bdy é uma forma de classe Cl
definida num aberto U D Q, prove que f co = ffQ (—'ax
911 — ay dxdy.
26 Integrais Curvilíneas Cap. 1

5. Uma forma diferencial complexa é, no aberto U C R2 , uma expressão do tipo


0.) =- a + i)3 onde a e são formas reais em U e i = \n".. Se -y é um caminho
de classe Cem U põe-se fw= f a +i•f p. se U c1142 — {0} prove que
d = z• • f 1-2 para qualquer caminho fechado -y em U.

:
6. No contexto do exercício anterior, diz-se que a forma co -= a + it3 é fechada
quando a e fi são fechadas. Se f(z) = u(z) + iv(z) e dz = dx + idy, prove que
a forma complexa f (z)dz é fechada se, e somente se, a função de classe C1,
z 1—> f (z), é holomorfa.
7. Seja ta uma forma de classe C1 no aberto U C R'. Se, para todo caminho
fechado -y, de classe Cl em U, a integral 1 7 w for um número racional, prove
que i.t) é fechada.

Seção 3: Invariância homotópica


1. Seja B = B[0;11 C 142. Prove que o caminho fechado 7: [0,27r] —> X, no
conjunto X C Rit, é livremente homotópico a um caminho constante se, e
somente se, existe uma aplicação contínua F: B —› X tal que F(coss, sen s) =
7(s) para todo s [O, 24
2. Seja U c 2 2 um aberto limitado. Prove as seguintes afirmações:

(i) Existe r > O tal que,:2ara todo p = (a, b) E 2 — U com p > r, a forma
= (b — y)dx + (x — a)dy
P (x — a)2 + (y — b)2

definida em 2 2 — {p}, é exata em U;


(ii) Se 22_ U é conexo por caminhos então para cada p E 22 — U existe uma
função-ângulo de vértice p definida em U.
3. Prove que todo caminho fechado em Rn+1 — {O} é livremente homotópico a
um caminho contido em S". Conclua que Rn+1 — {O} é simplesmente conexo
quando ri > 1.
4. Se E c R' é um subespaço vetorial de dimensão < ri — 3, prove que ili n — Eé
simplesmente conexo.
5. Para cada t [O, 11, seja ft : U —> V de classe C1 do aberto U C Rnt no aberto
V c Ir. Suponha que ft dependa continuamente de t no sentido seguinte: a
aplicação F: U x [0,11 --> V, definida por F(x, t) =- ft (x), é contínua. Se w é
uma forma fechada em V e 7: [a, b] U é um caminho fechado de classe C1
por partes, prove que f y fjw = 5 fi to.

Seção 4: O número de voltas de um caminho fechado


1. Prove que se dois caminhos fechados em 2 2 — {0} dão o mesmo número de
voltas em torno da origem O então eles são livremente homotópicos.
2. Seja 71 : [O, 271-] 1 2 — {O} o caminho definido por 71 (1) = (cost,sent). Se
uma forma fechada u, em 2 2 — {0} é tal que hco = O, prove que ca é exata.
3. Seja o.) uma forma fechada em R2 — {0}. Prove que existem uma função f: R2 —
{O} IR de classe C2 e um número real c tais que ta = df + c • Q.
Seção 5 Exercícios 27

4. Suponha que co é uma forma fechada em R2 — {O}, limitada numa vizinhança


da origem (isto é, existem 8> OeM > O tais que O < Izi < 8 implica
ico(z) • vi < A/ • Ivi para todo v E 11V). Prove que to é exata.
5. Sejam f,g: U —> R funções de classe C2 no aberto U c R2 e B = B[p;r]
um disco fechado contido em U. Indique com o mesmo símbolo C o bordo de
B e o caminho C: [O, 27r] —> U dado por 0(1) = (a -I- r cost, b r sent), onde
p = (a, b). Suponha que f 2 g2 > O em todos os pontos de C. Prove:
f dg — gdf
(1) A forma co = f2 g 2 , definida no aberto A = {z E U; f (z)2 - g(z)2 > O}
é fechada;
(ii) Se f c, o.; 5L O então existe um ponto z = (x, y) E B tal que f (z) = g(z) = O.
6. Prove o Teorema de Cauchy: se a função f: U —> C, de classe 0 1 no aberto
U c C, é holomorfa então, para cada caminho fechado -y, homotópico a uma
constante em U, tem-se f f (z)dz = O.
2

Formas Alternadas

No prosseguimento deste livro a noção de integral curvilínea, introduzida


no capítulo anterior, será ampliada considerando-se situações em que o
campo de integração tem dimensão maior do que 1 (mais precisamente,
é uma superfície em Rn). Correspondentemente, é necessário generalizar
o objeto a ser integrado, o que leva à noção de forma diferencial de grau
superior. Do mesmo modo que uma forma diferencial de grau 1 é um
funcional linear cujas coordenadas variam de ponto a ponto, uma forma
de grau mais elevado (que será chamada uma forma exterior) é uma
forma alternada com coeficientes variáveis.
Este capítulo é um pequeno interlúdio algébrico onde são estudados,
de forma resumida, objetos que há um século eram chamados tenso-
res covariantes anti-simétricos e hoje se denominam formas alternadas.
As noções aqui apresentadas são apenas as suficientes para o uso dos
capítulos seguintes. Uma apresentação mais completa do assunto pode
ser vista em [6].

1 Aplicações r -lineares

Sejam E1, , F espaços vetoriais. A aplicação P.Ei x • • • x E,. ---> F


chama-se r-linear quando é linear separadamente em relação a cada uma
de suas r variáveis. Mais explicitamente, para quaisquer v1 E E1,. . .
Vi, Wi Ei, , vr E Er e ,\ E R, deve-se ter

f , wi, , vr ) = f , , vr ) f , wi, , yr)


Seção 1 Aplicações r-lineares 29

e f(vi, . . . , Avi, , vr ) = A • f (vi,


O conjunto f(Ei, , Er; F) das aplicações r-lineares f: El x • • • x
—> F, munido das operações de adição e multiplicação por um número
real, definidas de modo óbvio, é um espaço vetorial.
Pretendemos, no que se segue, efetuar trocas de posição entre as
variáveis; por isso nos ocuparemos principalmente do caso em que Ei =
• • • = E,.. Escreveremos, então, t r(E; F) para significar o espaço veto-
rial formado pelas aplicações r-lineares f: E x • • • x E --> F. Quando
F = IR, uma aplicação r-linear f: E x • • • x E --> IR é chamada uma
forma r-linear.
Exemplo 1. Para r = 1, tem-se .Ci(E;F) = £(E; F) = espaço das
transformações lineares de E em F. Em particular, El (E; IR) = E* =
espaço dual de E. Assim, os funcionais lineares f: E ---> IR são formas
1-lineares.
Exemplo 2. Aplicações bilineares freqüentemente encontradas são a
avaliação f: .C(E; F) X E —> F, onde f (A, v) = A • v, a composição de
transformações lineares f: C(F; G)x.C(E; F) —> C(E; G), onde f (B,A) =
B • A (com A: E --> F e B: F --> G lineares) e o produto interno
f: Rn X Rn —> R, f (x, y) = (x, y), que é uma forma bilinear.
O produto tensorial dos funcionais lineares fi, f2, , fr E E* é a
forma r-linear f = fi • h • . . . • fr. E 4(E; IR), definida por

f (vi,V2, . . 24) = h (Vi) • h (V2) • . . •

Não somente o produto tensorial fi • f2 • . . . • fr de funcionais lineares


é uma forma r-linear como a própria aplicação P: E* x • • • x E* —>
f,.(E; IR), dada por P(fi, f2, fr) = fi• f2 • • • . • fr também é r-linear.
Teorema 1. Seja G um conjunto de geradores do espaço vetorial E.
Se as aplicações r -lineares f , g E 4(E; F) são tais que f (vi , =
g (vi, ,v,.) para quaisquer v1, , vr E G então f -=. g.
Demonstração: (Indução em r.) Sejam f, g: E --> F transformações
lineares tais que f (v) = g(v) para todo v E G. Dado w E E ar-
bitrário, temos w = E aivi com vi, , vk E G, pois o conjunto G gera
E. Então f(w) = E ai • f(vi) = E ai • g(vi) = g(w) portanto f = g.
Supondo o teorema verdadeiro para aplicações r-lineares, sejam f, g E
tr+1(E; F) tais que f (vi, , vr+i) = g(vi, , vr+i) se vi, , vr+i E
G. Para cada v E E, definamos as aplicações r-lineares fv, g,, E .C,-(E; F)
pondo fv(vi, , vr ) = f (vi, , v) e gy(vi, , vr) = g(vi, , vr, v).
30 Formas Alternadas Cap. 2

Então, para todo v E G, temos ft, = g, . Observando que as cor-


respondências v >—> h e v 1—> gv são transformações lineares de E em
4(E; F), concluímos, pela primeira parte da demonstração, que h = g,
para qualquer v E E. Isto significa que f = g. E
O mesmo argumento prova a seguinte versão mais geral:
Teorema la. Para cada i = 1, . .. ,r, seja Gi um conjunto de
geradores do espaço vetorial E. Se as aplicações r-lineares
f, g: E1 x • • • x E,. --> E são tais que f(vi , . . . ,v,) = g(vi, . . . , vr) para
quaisquer vi E Gi, ,V,. E Gi• então f = g.

Exemplo 3. Diferentemente do caso linear, a imagem de urna aplicação


multilinear f:Ex • • •x E --> F não é necessariamente um subespaço
vetorial de F. Por exemplo, seja P: (R2)* x (R2 )* --> £2(R2 ; R) dada
por P(f, g) = f • g. A forma bilinear y = éi i + e-2 • ë2 , definida a
partir da base {é1, é2} C (R2)*, dual da base canônica {el , e2} c R2 ,
não pertence à imagem de P, embora él • é- 1 e é2 • é2 pertençam. De fato,
supondo, por absurdo, que existissem f, g E (IR2 )* tais que y = f • g,
como cio(el , e2) = 0, seria f (ei) • g(e2) = 0. E, como y(ei, el) = 1, seria
f (ei) • g(el ) = 1. Conclusão: g(e2) = 0. Por outro lado, y(e2, e2) -=- 1
implica f (e2) • g(e2) -= 1, logo g(e2) 0, uma contradição.
O símbolo I n indica o conjunto {1, 2, . . . , n} dos números naturais
de 1 até n.
Teorema 2. Sejam {ei, . . . ,en} c E uma base e {é1, c E* a
base dual. Para cada seqüência (s) = (ii, • • • de números em In
indiquemos com é(s) = éii • e 2 • • • • • ëj r o produto tensorial destes funcio-
nais. As formas r-lineares assim definidas compõem uma base do espaço
vetorial £ r (E; IR).
Demonstração: O valor e(s) (eil , , eir ) é 1 ou O conforme a seqüência
(ji , , jr ) coincida ou não com (s). Portanto, se a combinação linear
f = E a(s) • é(s) é nula então, para toda seqüência (t) = (j1, , jr)
(8)
tem-se

O = f (Gil , , eir ) = a(s) • é(s)(e.ii, • • • eir) = a(t),


(s)
logo todos os coeficientes a(s) são nulos e as formas é- (s) são linearmente
independentes. Em seguida, dada arbitrariamente f E 4(E; IR) po-
nhamos, para cada (s) = (ii, ,i„), 01(6) = f (eii , , eir ). A forma
Seção 2 Formas alternadas 31

r-linear g =-> a(s) • é(s) é tal que


(s)

9(eii, • • • = f(eil, • • •
para toda seqüência (s) = (i1, . , de números em 42. . Como os
vetores ei geram E, o Teorema 1 nos dá f = g. Assim, as r-formas é- (s)
geram f r (E; F) e conseqüentemente constituem urna base.
Corolário 1. Se dimE = n então dimf r(E;R) =
Corolário 2. Seja {ei, . . . ,en} C E uma base. Para cada seqüência
(s) = (i1, ,i,r ) de números em I n , suponhamos dado um número real
a(s) . Existe uma, e somente uma, forma r-linear f E 4.(E; R) tal que
f(eil, • • • , eir) = a(s) Para cada (i1, , ir ) = (s).
Com efeito, basta tomar f = E a(5) • e(5) .
(s)

2 Formas alternadas

Uma aplicação r-linear f E f r (E; F) diz-se alternada quando se tem


f (vi,. . ., vr ) = O sempre que haja repetição na seqüência v1, , yr , isto
é, quando se tenha vi = vi com i j.
O conjunto 2t( E; F) das aplicações r-lineares alternadas de E em F
é um subespaço vetorial de t r (E; F). Quando F = R, escreve-se 21.,(E)
em vez de 2tr (E; R) para designar o espaço vetorial das formas r-lineares
alternadas em E.
Exemplo 4. O produto vetorial (Vo12, Cap.7, Seção 4) é uma aplicação
(n — 1)-linear alternada x: R x • • • x --> IR'.
Exemplo 5. A forma bilinear f: R2 x R2 --> IR, definida por f (u, v) =
xy' — x'y, onde u = (x, y), v = (x', g% é alternada.
Diz-se que a aplicação f E f r (E; F) é anti-simétrica quando seu
valor muda de sinal ao se trocarem as posições de duas de suas variáveis,
isto é, quando, para quaisquer , vr kE E, tem-se

f(• • • ,vj, • • • ,vi, • • •) = — f(• • • ,vi, • • • • • •)•


Tomando vi = vi = v acima, vem

f(• • •v, • « • ,v, • • •)= —f(• • •v, • • • ,v, • • •),


32 Formas Alternadas Cap. 2

logo f(. . .v, . . . ,v, . . .) = O, portanto toda forma anti-simétrica é alter-


nada. Reciprocamente, se f E £ r (E; F) é alternada então, escrevendo
f [vi, vi], por simplicidade, para significar f (. . . , v . . .), temos

O= f[vi+ vi,vi+ vil= f[vi,vil+ f[vi,vil+ f[vi,vil+ f[vi,vi]


= f[vi,vil+ f[vi,vil,

logo f é anti-simétrica.
Admitiremos que 21.1(E) = £i (E; IR) = E*, ou seja, que todo funcio-
nal linear é uma forma alternada. De certa maneira, isto é natural pois
não é possível violar a condição de anti-simetria quando se tem apenas
uma variável. E, por extensão, aceitaremos também que 210(E) = IR.
Uma permutação de r objetos é uma bijeção a: —> Ir do conjunto
= {1, , r} sobre si mesmo. A composição de funções faz do conjunto
6, das permutações a: I r —> 4. um grupo com r! elementos, chamado
grupo simétrico. Uma permutação T E 6 r chama-se uma transposição
quando existem i j em /, tais que r(i) = j, r(j) = i e r(k) = k quando
k {i, j}. Toda permutação a E 6, se escreve na forma a = Ti..T2 • • • rk 5
como produto de transposições. Isto pode ser feito de várias maneiras
mas a paridade do número k é sempre a mesma, isto é, o número Eu =
( - 1) k depende apenas de a. Tem-se Epor = Ep • Eu e E0 --i = Eu . Quando
Eu = 1 diz-se que a é uma permutação par. Se ea- = —1, a permutação
a. diz-se ímpar.
A aplicação r-linear f:E x • • •x E —> F é anti-simétrica (ou alter-
nada) se, e somente se, para toda o- E 6, e quaisquer vi, , vr E E,
tem-se f (v5(1) , , vot)) =- Eu • f (vi, , vr).
Seja {ei, • • • en} C E uma base. Usando o Corolário 2, definimos,
para cada subconjunto / = {i1 < • • • <i,-} C In com r elementos, uma
forma r-linear :Ex• • •x E —› IR, do seguinte modo:
1) él (eii , . . . ,eir ) = O se o conjunto J = j r} for diferente de
/. (Em particular, se a seqüência u h ,j,-) tiver repetições.)
2) Se J = I então existe uma permutação a de r objetos tal que
ii = icf(i), • • • ir = ic(r) e, neste caso, pomos ér(ei i , , eir ) = Eu .
Em particular, é/ (ei,, • • • , eir ) = 1, é/ (. . • , ei, , ei, ) = O e
ë/(• • • , ei, • • • , ei, • • • ) = — é/(• . • ,

Teorema 3. As formas r-lineares gi acima definidas são alternadas e


constituem uma base do espaço vetorial 91,(E).
Seção 2 Formas alternadas 33

Demonstração: Continuamos usando a notação simplificada [vi, vil


(vi , , ,vi, , vr ) sempre que, num raciocínio, as variáveis dife-
rentes de vi e vi permaneçam fixas. Então, como ë/ [ei, ei] = O e él[ei, ei]
concluímos que, para todo v = E aiei , vale

él[v) v] = E ai ai • éi[ei, ej]

= aiai • é"/{e, + iai • é/ [ei, ei] criai • é- i[ei, ei]

icxj • ël [ei, ei] + ai • è7 [ei, ei] = O.

(No último somatório, trocamos os nomes dos índices i e j, e subs-


tituímos aiai por aiai , o que não afeta o resultado.)
Portanto as formas él são alternadas. Para provar que elas são li-
nearmente independentes, suponhamos que se tenha f => apëj = O, a
1
soma sendo estendida a todos os subconjuntos I c /„ com r elementos.
Então, para todo J = < • • • < j r} C / ri , temos

O = f (ei , , eir ) = ai • e7(eii • • • , eir) =

logo todos os coeficientes al são nulos. Finalmente, para mostrar que as


formas é- j- geram 2t, (E), suponhamos dada uma forma f E 2.1., (E). Para
cada I = {i1 < • • • <i,.} C In tomemos ai = f (eil , , eir ) e ponhamos
g = ai • éj . Vamos mostrar que g = f. Para isso, basta verificar, em
1
virtude do Teorema 1, que se tem f (eii , , eir ) = g(eii , , eir ) para
toda seqüência (s) = j r ) der elementos em / 7, . Isto é claro se a
seqüência tem elementos repetidos, pois ambas, f e g, são alternadas logo
se anulam neste caso. Também vale esta igualdade quando ji < • • • <j.
pois isto implica f(eii , . . . , eir ) = aj = g'eii , ,eir ). Finalmente, se a
seqüência de termos distintos (j', . ,jr) é obtida de (i1 < • • • <ir ) por
uma permutação a, temos

, • • • , eir) = EU • g( eii 5 • • • 5 eir) = Eu • f (eii • • • , eir) = f • • • , eir).

Isto completa a demonstração do Teorema 3.


34 Formas Alternadas Cap. 2

Corolário 3. Se dim E = Tb então dim21.,(E) =

Com efeito, Cl é o número de subconjuntos de In com r elementos.


El
Teorema 4. Seja f E x • • • x E ---> F uma aplicação r-linear alter-
nada. Se os vetores v1, , vr E E são linearmente dependentes então
f(vi, . . . , vr ) .= O.
Demonstração: Mudando a ordem dos vetores, se necessário, podemos
admitir que vr = a1v1 + • • • + ar _ivr _i . Então
r-1

f(vi, . . . ,v,) = ai • f , vi, , vr _1, vi = o.

Corolário 4. Se r > dim E então toda aplicação r-linear alternada de


E em F é identicamente nula, ou seja, 21,(E; F) = {0}.
Com efeito, quaisquer r vetores em E são linearmente dependentes.
E

3 Determinantes

Se dim E = n então o espaço vetorial 217,(E) das formas Tc-lineares al-


ternadas em E tem dimensão 1, de acordo com o Corolário 3. Ou seja,
existem formas n-lineares alternadas f: E x • • •x E —› IR não-nulas e,
se f é uma delas, todas as demais são do tipo g = a • f, com a E IR.
Este fato é a base da teoria dos determinantes, da qual faremos um
breve resumo agora. Para maiores detalhes, o leitor pode consultar [5]
ou, sob um ponto de vista mais abrangente, [6].
Seja E = lir. Uma seqüência (vi, , vi,) de n vetores vi = (ai , .
ani) pode ser vista como uma matriz a = [vi, , vi,] = [aii] do tipo
n x n, da qual v3 é a j-ésima coluna. Portanto uma forma ri-linear f
em IR' é o mesmo que uma função f: M(n x n) --> IR, cujos valores
f (a) = f[vi, , vn] dependem linearmente das colunas v3 da matriz
a e M(n x n).
Se {ei, , en} c Ir é a base canônica, vimos que existe uma única
forma Tc-linear alternada é E 2L(IRn) tal que ê(ei, , en) = 1. Todas as
demais f E 2t,„(1[8n) são múltiplos de ê.
Seção 3 Determinantes 35

O determinante da matriz a E M(n x n) cujas colunas são os vetores


vi = , ani), j = 1, , n, é definido como

det a = é(vi, vn).

As colunas da matriz identidade nxn são os vetores ei, , en da base


canônica de Ir. Portanto a função det: M(n x n) —> R que acabamos
de definir é a única função ri-linear alternada das colunas de unia matriz
que assume o valor 1 na matriz identidade. Qualquer outra função ri-
linear alternada das colunas de uma matriz é um múltiplo constante
da função determinante. Segue-se desta observação que não importa o
modo como o determinante foi definido (e há vários modos diferentes).
Tudo o que conta é que det a seja uma função ri-linear alternada das
colunas da matriz a e que a matriz identidade tenha determinante igual
a 1. Se f: M(n x n) —> R é qualquer função tal que f (a) é uma função TI,-
linear alternada das colunas de a então, para cada matriz a E M(n x n),
tem-se f (a) = det a • f(.4), onde I n é a matriz identidade n X ri.
Para deixar explícita a dependência linear do determinante em relação
às colunas vi da matriz a, escreve-se, às vezes, det[vi, , v„,] em vez de
det a.
Um dos empregos mais comuns do determinante é como teste para
verificar se n vetores em Rn são linearmente independentes ou não.
Teorema 5. Os vetores v1, , vn E R' são linearmente independentes
se, e somente se, det[vi, ,v] $0.
Demonstração: Se os vetores dados são L.I. então eles formam uma
base de Rn e, nos termos do Teorema 3, tomando / = {1 < 2 < • • • <n}
obtemos uma forma f E 21-22(Rn), (a qual lá seria chamada de tal que
f . . . , vn) = 1. Como dim 2tn(Rn) = 1, temos f = a • ë, com a 0.
1
Portanto é = — • f e daí
a
1 1
det[vi, , vn] = ë(vi, , vn) = — • f (vi, , vn) = — O.
a
Reciprocamente, se det[vi, , vn] $ O então, como det é uma forma
alternada, segue-se do Teorema 4 que os vetores vi, , vn são L.I. E

Além do determinante de uma matriz quadrada, tem sentido e inte-


resse o determinante de um operador linear A: E —> E. Esta noção pode
ser definida intrinsecamente (isto é, sem apelo a bases e coordenadas) e
36 Formas Alternadas Cap. 2

este modo de abordagem torna mais fácil a prova de várias propriedades.


Vamos apresentá-lo a seguir.
Seja A: E —> F uma transformação linear. Para todo r > O,
a transformação linear A*: f r(F; R) —› t r(E; R), definida pondo-se
(A* •f)(vi, , yr ) = f (A•vi,. . . , A•vr ), chama-se a transformação linear
induzida por A. Quando r = 1, A* reduz-se à adjunta A*: F* --> E* da
transformação linear A.
Tem-se (B • A)* = A* • B* e I* = I se /: E —> E é a transformação
identidade. Segue-se que se A é invertível, o mesmo se dá com A*,
valendo (A*)-1 = (A-1)*.
É claro que A*: f r (F; R) —› 4(E; R) aplica o subespaço vetorial
217.(F) C .Cr (F; R) em 21,-(E) C 4(E; R), ou seja, A* leva formas alter-
nadas em formas alternadas.
Consideremos o caso particular de um operador linear A: E —+ E,
no espaço vetorial E, de dimensão n. Então dim 2in(E) = 1, de modo
que a transformação linear A*: 21n(E) —› 2tn(E), induzida por A, con-
siste na multiplicação por uma constante. Essa constante é chamada o
determinante do operador A. Provisoriamente vamos indicá-la com a
notação DetA, até que o identifiquemos com o determinante da matriz
de A em relação a qualquer base de E.
Assim, por definição, temos A* • f = DetA • f para toda f E 2Ç(E)
ou, mais explicitamente:
f (Avi , , Avri) = DetA • f (vi, , vn)
para quaisquer vi . . . , vn EE e f E 2tn (E).
Dados A, B E £(E), tomemos f O em 2I„(E). Então,
(DetAB)f = (AB)* • f = B* • A* • f = DetB • (A* f) = DetB • DetA • f,
portanto DetAB = DetA • DetB.
Teorema 6. Para todo operador linear A: E —> E, tem-se DetA =
det a, onde a é a matriz de A numa base arbitrária {u1, . . . ,un} c E.
Demonstração: Consideremos inicialmente o case em que E = Rn e a
base dada é a canônica {ei, ,e4 c R. As colunas da matriz a são
os vetores vi = (ais, . . . = A • e5 . Se é E 9in (Rn ) é a forma tal que
, e,i ) = 1, temos
det a = é(vi , , vn) = é(A • ei , , A • en )
= DetA • é(ei, . . . , en) = DetA.
Seção 3 Determinantes 37

No caso geral, tomamos o isomorfismo cp: R' E tal quelz (eti


= un e definimos Ao = W-1 •A ço 1W' Rn, o
ço • Ao • y'. Então, como det a = Det Ao, temos:
det a • é = A'O` • é = yo* • A* • (cp*)-1 • é = ço* • Det A • (w*)-1 • è
= Det A • cp* • (yo*)-1 • é Det A • é
portanto det a = Det A. O
Em virtude do Teorema 6, não há mais necessidade de usar a notação
Det.
Uma matriz a e sua transposta a T têm o mesmo determinante. Equi-
valentemente, um operador A: E -> E e seu adjunto A* têm determinan-
tes iguais. Esta importante propriedade é uma conseqüência imediata
da expressão clássica para o determinante da matriz a =

det a = Ecr • a1 (i) • a2a(2) • • • a nc(n)


Cf

na qual a percorre todas as permutações de n objetos. Esta expressão,


por sua vez, resulta diretamente da multilinearidade alternada do de-
terminante como função das colunas de a. A partir dela, det a pode
também ser caracterizado como função ri-linear alternada das linhas da
matriz a. (Veja [5], pag. 267.)
Como aplicação deste fato, provemos a igualdade
a b
det [ = det a • det c)
O
onde as matrizes a, b, O e c são r x r, r x (n-r), (n-r) xr e (n-r) x (n-r)
respectivamente. Com efeito, escrevendo, para cada b E M (r x (n - r))
fixa,
f (a, c) = det [aO b
'
vemos que f é uma função r-linear alternada das colunas de a e (n -
linear alternada das linhas de c. Portanto
f (a, c) = det a • f (4,c) = det a • det c • f (4,1,2_4 det a • det c
. [Ir b ,
pois ri T e uma matriz triangular cujos termos da diagonal são
u in_r
iguais a 1, logo seu determinante é 1, como resulta da fórmula clássica
vista acima. (Ver também o Exercício 5 desta Seção.)
38 Formas Alternadas Cap. 2

Considerando o caso particular em que a matriz aélxle fa-


zendo uso da multilinearidade alternada do determinante como função
das linhas e das colunas de uma matriz, o resultado acima implica os
desenvolvimentos de Laplace

det a = E(-1) iti • Aii e deta = E(-1) i+i aii • Aij ,


i=1 j=1

o primeiro em relação à j-ésima coluna e o segundo em relação à i-ésima


linha. Em ambas as fórmulas, Aii é o ij-ésimo menor de a, ou seja, é o
determinante da matriz (n — 1) x (n — 1) obtida de a pela omissão da
i-ésima linha e da j-ésima coluna.

4 O produto exterior de funcionais lineares

Sejam E um espaço vetorial de dimensão n e E* o seu dual.


O produto exterior de r funcionais lineares , fr E E* é a forma
r-linear h A • • • A fr E 21,(E) definida por

(h. A • • • A fr)(vi, • • • Ivr) = det[fi(vi)].


Como o determinante de uma matriz rxr é uma função r-linear
alternada de suas linhas e colunas, segue-se que não somente se tem
h A • • • A fr E 21.,(E), como a própria aplicação

A: E* x • • • x E* ---> 21r (E),

definida por A(fi, . • • 5 fr = fl A • • • A fr, é r-linear alternada.

Teorema 7. Sejam {ei, ,eri} C E e {ë].) • • • ,é4 C E* bases duais


uma da outra. Para todo subconjunto I = {i1 < • • • <i,.} c In , a forma
él E 24(E), mencionada no Teorema 3, coincide com o produto exterior
A•••A
Demonstração: Se o conjunto J = {ji, . . . ,jr} C I n for diferente de
I (em particular, se a seqüência (ia, . . . ,jr) tiver repetições) existirá
iE/—Je então a matriz [giA (eim )], A„a = 1, 2, . . . ,r, terá a i-ésima
linha igual a zero, portanto

(ëii A • • • A ëir)(eil, • • • eir) = det[êi, (eim )J = O = è/ (ei, , .


Seção 4 O produto exterior de funcionais lineares 39

conforme a definição de él . Se, entretanto, for / = J, existirá uma per-


mutação a E e, tal que a matriz [ i,(eip )] resulta da matriz identidade
[ëiÀ (ei),)] pela aplicação da permutação a em suas colunas, logo

(éi, A • • • A ëir ) (eji , , eir ) = det[ëix (ei,,)] = = , ,e ).

Pelo Teorema 1, concluímos que ë/ = ë 1 A • • • A éi, .


Corolário 5. Com a notação do Teorema 7, se a = [aii] E M(n x r) é
a matriz das coordenadas dos vetores v1, . . . ,vr E E na base {e1, . . . ,en},
isto é, se vi = ae (j = 1, . . . ,r) então, para todo conjunto
I = {ii < • • • < ir} C I n , tem-se él(vi, ,v,) = det ai , onde ar é
a matriz 7" x r formada pelos tais que i E /.
Com efeito, pelo Teorema 7, tem-se

, yr ) = (éi.1 A • ' • A eir)(vi, • • • ,vr)


= det[ëiÀ(vj)1 = det[aixi] = det ar •

Corolário 6. Os funcionais lineares , fr E E* são linearmente


independentes se, e somente se, fl A • • • A fr O.
Com efeito, se h A • • • A fr O então, em virtude do Teorema 4, os
funcionais lineares h, , fr são L.I. pois a aplicação A: E* x • • • x E* --->
2tr (E) é r-linear alternada. Reciprocamente, se são L.I., esses funcionais
fazem parte de uma base {f1, , f, fr+i, , fn} C E.. Então, pelo
Teorema 7, h A • • • A fr pertence a uma base de 21,(E), logo é O. O
Quando uma forma alternada f = h A• • •A fr E 21, (E) é o produto
exterior de funcionais lineares, diz-se que ela é decomponível.
O Teorema 7 assegura que toda f E 21,(E) é soma de formas de-
componíveis. Portanto, uma transformação linear A: 21,(E) ---> F fica
inteiramente identificada quando se conhecem os valores A(f1 A • • • A fr )
que ela assume nas formas decomponíveis. Mas, como não é única a
maneira de escrever uma forma f E 21.,(E) como soma de formas decom-
poníveis, esses valores não podem ser atribuídos de maneira arbitrária.
A resposta a essa questão é dada pelo Teorema 8 abaixo. Segundo ele,
para definir uma transformação linear cp: Qtr (E) ---> F, basta conhecer
uma aplicação r-linear alternada cp: E* x • • • x E* ---+ F. Tem-se então
Sa(ti A • • • A fr) = , fr), sendo inútil preocupar-se com os muitos
40 Formas Alternadas Cap. 2

modos de escrever f = fi A • • • A h como produto exterior de funcio-


nais lineares ou de exprimir uma forma alternada como soma de formas
decomponíveis.
Teorema 8. Seja cp: E* x • • • x E* —> F uma aplicação r-linear alter-
nada. Existe uma, e somente uma, transformação linear (35: 24(E) --> F
tal que cfr(fi A • • • A f r ) = h) para quaisquer , h E E*.
Demonstração: Fixemos uma base {é1, • • • èn} C E*. Quando I =
{i1 < • • • <i,..} percorre todos os subconjuntos de I n com r elementos, as
formas él = ëj1 A • • • A ëj,. constituem uma base de 21, (E), pelo Teorema
7. Logo existe uma única transformação linear yao: 21,(E) --> F tal que
Y(éi) = , ëir ). Então y, o A : E* x • • • x E* são aplicações r-
lineares alternadas tais que y(-éi, , , = Y(A(êi j , . . • , éi,)) = (,b(gi)
para todo I = {i1 < • • • < ir}. Segue-se que y = Y o A, ou seja,
(P(fi, • • • fr) = (P(f]. A • • • A fr ) para quaisquer fi, • • • fr E E. Qualquer
transformação linear T: 2G(E) —> F que cumpra a condição ToA=y
coincide com Y nas formas decomponíveis, as quais geram 2tr (E), logo
T = cità , o que prova a unicidade. El
Na verdade, como se vê facilmente, a bijeção ço cp = c,é3 o A é um
isomorfismo natural A#: £(21r(E); F) --> 91, (E* ; F).
Em particular, tomando F = R, obtemos o isomorfismo A#: 2r (E)t->
21.,(E*). Para cada e E 21.r (E)* e quaisquer , fr E E*, vale

(A # e)(h) • • • ft-) = e(f1 A • • A fr)•

5 Coordenadas e matrizes em 21,(E)

Sejam {ei, , en} C E uma base e { é- -1, , ên} C E* sua dual. Para
todo v E E, ê(v) é o coeficiente de ei na expressão do vetor v como
combinação linear de ei, , e. .
Dados os funcionais lineares , h. E E*, para cada i = 1, ,r
temos f = E aiiëi . Estas igualdades definem a matriz a = [au] E
j=i
M(r x n) das coordenadas dos funcionais , fr. relativas à base
{é1, , én}. Quando J = {j1 < • • • < j r} percorre os subconjuntos de
I n com r elementos, as formas r-lineares alternadas éj = e 1 A • • • A eir
constituem uma base de 21,(E). Vejamos quais são as coordenadas do
produto exterior fi A • • • A h em relação a esta base.
Seção 5 Coordenadas e matrizes em 9.1,(E) 41

Devemos encontrar os números aj tais que h A • • • A fr => a j •


Começamos lembrando que se K -= {ki < • • • < kr} é qualquer
subconjunto de I n com r elementos, o valor ëx(ei,., , ei,.) é 1 ou O
conforme K = J ou K $ J. Portanto, para todo J = {ji < <
tem-se

aj = alc • gx(eji , • • • ejr ) = (fi A • • • A fr)(en, • • • ,e )

= det[fi(e5)] = det[aiij = det a,/ ,

onde a notação aj indica a matriz r x r formada pelas r colunas da


matriz a que ocupam as posições ji, . • • , ir •
Portanto, de h = E aiiëi (i = 1, , r) resulta que h A • • • A fr
J=1
E det a j ëj
Como aplicação deste fato, temos o
Exemplo 6 (Identidade de Lagrange.) Se a = [aii] é uma matriz r x n
com r < n então det(a • ar) = E(det aj)2, a soma sendo estendida a
todos os subconjuntos ordenados J c I n com r elementos.
Para mostrar isto, sejam vi, , V. E e h, ir
, fr E (R n)* defini-
dos por vi = E aik ek e h = E aikëk onde {el, , eri} c ir é a base
k=1 k=1

canônica e {ë1, , é- n} C (r) * é a sua dual. Então fi(vi) = aikaik


k=1
é o ij-ésimo elemento da matriz a • aT E M(r x r). Portanto

det(a • aT) = det{fi(vi)} = (fi A • • • A fr )(vi, , yr )


= det aj • ëj(vi, . • • , vr) >j(det a j)2 .

Vimos acima que uma transformação linear A: E —> F determina,


para cada r > O, a transformação linear

A*: 21r (F) —> 2tr (E),

onde (A* f)(vi, , vr ) = f (A • vi, , A • vr), se f E 2tr (F) e vi, , vr E


E. A transformação A*, que no caso r = 1 coincide com a adjunta de
A, diz-se induzida por A. A forma A* f também se chama de induzida
por A e f, ou o pullback da forma f mediante a transformação linear A.
42 Formas Alternadas Cap. 2

A seguir, determinaremos a matriz da transformação linear A*:21.„(P)—>


9,17.(E) a partir da matriz de A. Esta questão pressupõe, naturalmente,
escolhas de bases em E e F.
Sejam então {vi,. .. ,vm} C E, {wil• • • ,wn} C F bases e
E*, {grui, , fur,} C F* as bases duais correspondentes.
A matriz de A relativa a essas bases é a = [aii] E M(n x m), definida
pelas igualdades Avi = E aiiwi (j = 1, , m). Segue-se que
i=1

Estas últimas igualdades significam que a matriz de A*: F* —> E* nas


bases dadas é a transposta de a.
Para / = {ii < • • • < ir} C In e = {ii < • • • < i r} C I rn , as formas
r-lineares alternadas 71)/ = fui, A • • • A tDç e iij = új, A • • • A újr compõem
bases de 21,(F) e 21,(E) respectivamente, as quais nos permitem escrever
as igualdades
A*IBI = F i CEI.1 22.1

análogas às que foram destacadas acima no caso r = 1. A fim de iden-


tificar os elementos da matriz [ali», observamos que

= (A*713f )(vi1 , , vir ) = 1.1)/ (Avi1, , Avir )


= det (Avim )] = det [aiAim ] = detau

onde ali é a matriz r x r formada pelos elementos aii da matriz a tais


queiE/ejE J.
Observação. A última das igualdades acima é uma mera definição. A
penúltima resulta do fato de que o valor do funcional linear 1Di no vetor
Avi é o coeficiente de wi na expressão desse vetor como combinação
linear de w1, , wn . No caso, 'W(Av) =
Vejamos agora como variam as coordenadas de uma forma r-linear
alternada f E 24(E) diante de uma mudança de base em E.
Sejam, pois, {vi, ,v}, {wi, ,w} bases de E e {ú1, . • •
{1D1, 'IN} as bases duais correspondentes. Se, para cada j = 1, . . . ,n,
temos vi = E aiiwi então fai = E para todo i = 1, ,
i=1 j=1
Seção 5 Coordenadas e matrizes em 21,.(E) 43

Logo, se 1 = {i1 G • • • <i7} e J = {j1 G • • • G j r} são subconjuntos


arbitrários de .4, , as formas f.),/ = i3j A • • • A Vir e 27.,/ = zD 1 A • • • A tuDir
compõem bases de 2.1,. (E). Uma forma qualquer f E 2t,. (E) admite
expressões f = E cxjVj = E pripi em termos dessas bases. A fim de
exprimir cada aj a partir dos /3j, notemos que, conforme foi observado
no início desta seção, as igualdades tiDi = E aists implicam que ti)/ =
E det ajj fij , a soma sendo estendida a todos os subconjuntos J c In
com r elementos, sendo ajj a matriz r x r formada pelos au tais que
iEIejEJ. Assim,

aj Vj = 1= det at/ 0/ • VJ •
I,J

Comparando os coeficientes, obtemos

aj = det ati • fij .

Em particular, quando r = n = dim E, a dimensão de Qtn (E) é igual


alef = a•131 A • • •AV7, = /3•zii1A• •AtD
. Então a fórmula de mudança
de coordenadas reduz-se a

a = det a • p,
onde a = [ais] e vs = E aij wi (j = 1, . . , n).
Mostraremos agora que a transformação linear A* : 21r(F) --> 2t.r (E)
preserva o produto exterior de funcionais lineares, ou seja, tem-se

A * (h A • • • A fr) = AV]. A • • • A A* fr

para quaisquer , fr E F*.


Com efeito, para quaisquer vi, , vr. E E, tem-se

11.* (h A • • • A fr)(vi, yr ) =(flA • • • A fr)(Avi,. . . ,Avr)


= det[f,(Avs)] = det[A*fi(vs)]
= (A*fi A • • • A A* fr)(vi, • ,vr)•
44 Formas Alternadas Cap. 2

6 A Álgebra de Grassmann

Vamos definir o produto exterior de uma forma f E 91,(E) por uma


forma g E 2is(E), tendo como resultado a forma f Ag E 21r+s (E). Isto
será feito de modo que f Ag dependa bilinearmente de f e g. Além disso,
essa multiplicação deverá ter como caso particular o produto exterior de
funcionais lineares, que temos considerado até agora. Noutras palavras,
devemos definir uma aplicação bilinear

2tr (E) x 21s(E) —> 21T+s(E)

tal que

ço(h. A • • • A fr, gi A • • • A gs) = h A • • • A ft. A gi A • • • A gs (*)

para quaisquer funcionais lineares fr , , gs em E*.


Como os espaços vetoriais 2t, (E) e 21., (E) são gerados por formas de-
componíveis, se existir uma aplicação bilinear y satisfazendo a relação
(*) acima, ela será única. Podemos então fazer uso de escolhas ar-
bitrárias para definir (p. Se a condição (*) for cumprida, as escolhas
terão sido irrelevantes.
Tomemos uma base {é1, • • • ,ê,} C E.. Para cada I = {i1 < • • • <
ir} e cada J = {ji < • • • < j s} contidos em I. , ponhamos
(pcél,éj) = A • • • A ëi,. A ëii A • • • A ëjs .

Pelo Corolário 2, existe uma única aplicação bilinear 2.1.,(E) x


2t8(E) —> 24.4.8(E) para a qual valem estas igualdades. Resta-nos ape-
nas mostrar que y cumpre a condição (*). Para isto, consideremos as
aplicações

A: E* x • • • x E 24+,(E) e a: E* x • • • x E 2tr (E) x 21.8(E),

dadas por

A(fi, • • • fr, 91.) • • • gs) h A • • • A fr A gi A • • • A gs


e
a (h f • " fr, gi, • • • gs) = (fi A • • • A fr, si A • • • A .9s).
Devemos verificar que y o a = A. Pelo Teorema 1, basta mostrar que

(Pegil A • • • A g ir g il A • • • A gis = A • • • A g-ir A A • • • A gis


Seção 6 A Álgebra de Grassmann 45

para qualquer seqüência (éi1, ,ë , éji, , êijs) de r s elementos da


base escolhida.
Esta igualdade é evidente se alguma das seqüências (ii, , ou
'is) tem repetições pois, neste caso, ambos os membros são iguais
a zero. Ela também vale se i1 < • • • < ir e ji < • • • < js pela própria
definição de cp. Finalmente, se ambas as seqüências têm termos to-
dos distintos, podemos levá-las à ordem crescente mediante sucessivas
transposições. Cada transposição troca o sinal de ambos os membros da
igualdade acima, logo ela é válida em todos os casos.
Dadas f E Qtr(E) e g E 24(4 escrevemos fAg E 21,4_8(E) em vez
de ço(f, g). Além de bilinear, o produto exterior é anti-comutativo, do
seguinte modo: Se f E Vir (E) e g E !2t5 (E) então g A f = (-1)r3 f A g .

Isto é claro quando f e g são decomponíveis e vale em geral por


distributividade. Pelo mesmo motivo, a associatividade

(f A g) Ah= fA (g A h),

que é óbvia para formas decomponíveis, também é verdadeira em geral.


Observemos ainda que as transformações lineares A*: 21r (F)---> 94r (E),
A* : 215(F) ---> 215(E), induzidas pela transformação linear A: E --> F,
cumprem
A* ( f A g) = A* f A A*g.
Novamente, isto já foi provado quando f e g são decomponíveis e
vale em geral pela bilinearidade de A.
Se dim E = n então a soma direta

A(E*) = Re E* e 212 (E) e • • • e 9.1„ (E)

é um espaço vetorial de dimensão


(n2, + + nn1 + n 2n.
1 n+

Seus elementos são somas f = fo -I- • • • + fn , onde as parcelas


fr E 2tr (E) são chamadas as componentes homogêneas de f. O produto
exterior que vem de ser definido permite introduzir, de modo óbvio, uma
multiplicação em A(E*), que torna este espaço vetorial uma álgebra,
chamada a Álgebra de Grassmann de E*.
Exemplo 7 (O elemento de volume.) Orientar um espaço vetorial E
é escolher uma base {u1, , uri} c E, chamá-la de positiva e dizer
46 Formas Alternadas Cap. 2

que também são positivas todas as bases {vi, , vr,} C E tais que
= E (j = 1, , n), onde det[aii] >0.

Por exemplo, se M é uma superfície orientada então, para todo


p E M, o espaço vetorial tangente TpM possui uma orientação natu-
{ aço acp
ral, segundo a qual a base (xo), , (x0)} C TpM, associada
axi ax,n
a uma parametrização positiva cp: Vo —> V, com p = w(x0) E V, é de-
clarada uma base positiva. A orientação de TpM assim definida não
depende da parametrização positiva ("9 pois o atlas que a contém é coe-
rente.
Seja E um espaço vetorial orientado, munido de produto interno. O
elemento de volume de E é a forma fl E 21.n(E), n = dim E, definida do
seguinte modo:
Escolhe-se uma base ortonormal positiva {ui, , un} c E e, para
quaisquer vi, , vn E E põe-se

Q(vi, , vn) = det[aii]

onde aij =- vi) = coeficiente de ui na expressão vi = aijui de vi


como combinação linear de ui, , u •.
Esta definição deixa claro que S2 é uma forma ri-linear alternada em
E mas aparentemente ela depende da escolha da base {ui, , un}. Para
mostrar que não é assim, usaremos a matriz de Gram g = g(vi, . =
[(7)1, vi)}. Temos (vi, vi) = E aki • ak3 , logo g = aT • a, onde a =
Portanto

det g = (det a)2 = (S-2(vi , • • • , vn))2.

Como evidentemente detg não depende de escolhas arbitrárias, o mesmo


se dá com 9(v, . . . ,v) = ±Vdet g.
Geometricamente, S2(vi, ,v4 = ± vol. P, onde P é o parale-
lepípedo n-dimensional construído sobre as arestas vi, , v , tomando-
se o sinal + ou — conforme a base {vi, • • • , vn} seja positiva ou nega-
tiva. Naturalmente, se vi, , vn forem linearmente dependentes, valerá
Seção 7 Exercícios 47

7 Exercícios
Seção 1: Aplicações r-lineares
1. (i) Se f:Eix• • •xE r --> F é r-linear e A: F G é linear, prove que
A o f : E1 x • • • x E,. —> G é r-linear.
(ii) Decida se a adição s: ExE —> E, s(u,v) = u+v, e a avaliação &: £2(E; F)x
E x E —> F, a(f,u,v) = f(u, v) são aplicações lineares ou multilineares.
2. Seja H = r(Ei, • • • , Er ;R). Prove que a aplicação r-linear Er x • • • x
--> H, definida por cp(fi, . • • , fr) = fl. • .. •.f r é universal, isto é, para toda
aplicação r-linear f: E; x • • • x Er* —> G existe uma, e somente uma, trans-
formação linear H —> G tal que f = f o cp.
3. Dados os espaços vetoriais E, F, considere a aplicação bilinear cp: E x F —>
12(E*; F) definida pondo cp(u,v) • f = f(u) • v para quaisquer u E E, v EF e
f E E*. Prove as seguintes afirmações:
(i) Se {ui , ,u,,} c E e {vi , ,v,} C F são bases então as transformações
lineares cp(ui , v3 ), com 15i .me15 j n, formam uma base de £(E*; F).
(ii) A aplicação bilinear cp é universal, ou seja, para toda aplicação bilinear
Ex F —> G existe uma, e somente uma, transformação linear 17): .C(E*; F) —>
G tal que 1/./ =- (P o cp.
4. Seja e E M(n x n) = M a matriz cujo ij-ésimo elemento é 1 e os demais são
iguais a zero. Seja f: x Rn —› M a aplicação bilinear tal que f =
onde {ei, • • • , en} C R' é a base canônica. Prove que uma matriz não-nula
pertence à imagem de f se, e somente se, tem posto 1.
5. Uma aplicação bilinear f: E x E F chama-se simétrica quando f(u, v) =
f (v,u) para quaisquer u,v E E e anti-simétrica quando f(u, v) = — f (v, u).
Prove:
(i) Se as aplicações bilineares simétricas f,g:ExE—>Fsão tais que f(u, u) =
g(u, u) para todo u E E então f = g.
(ii) Toda aplicação bilinear cp:ExE—>Fse escreve, de modo único, como
soma cp = f + g onde f é simétrica e g é anti-simétrica.

Seção 2: Formas alternadas


1. A partir da definição (diretamente) prove que se f :R2 x R2 —> R é uma forma
bilinear alternada então existe a E IR tal que, para quaisquer vi = (xi, yi) e
V2 = (x2, y2), tem-se f (vi , v2) = a(x1y2 — x2y1)•
2. Seja f: R3 x R3 —> IR uma forma bilinear alternada. Prove que existe um vetor
w E I1V tal que f(vi, v2) = (vi x v2 , w) para vi, v2 E R3 arbitrários.
3. Se f E Er (E; R) e o- é uma permutação de r objetos, defina a forma cif E
Er (E; R) pondo (o-f)(v , • • • ,v,-) = f (va(i), • • • ,v( )) para quaisquer
Vi, , v,- E E. Prove que se p é outra permutação de r objetos tem-se
(pa) f = p(cr f). Como ficaria esta igualdade se tivéssemos escrito f a em vez
de af?
48 Formas Alternadas Cap.2

4. Defina o operador linear A: .C,.(E; R) —› £(E; R) pondo, para cada f E


rr(E; R), A • f = E Ea • 0"f . Prove:
uca,
(i) A • f é uma forma alternada;
(ii) f e 21.,-(E) se, e somente se, A • f = r!f;
(iii) Considere a forma n-linear f em R', definida por f = é]. • è2. .ë, , onde
{ei, • • • ,e,} C le é a base canônica. Prove que (A • f)(vi , • . • ,v,) =
det[vi, , vn], onde [vi, • • • ,vn] é a matriz n x n cujas colunas são os
vetores aí indicados;
(iv) Se • • • , fr E E* então prove que fi A • • • A -= A • (fi. • • • • • fr) •
5. Prove que os vetores vi, E E são linearmente independentes se, e so-
mente se, existe f E 21,-(E) tal que f •, O.
6. Uma forma n-linear f chama-se simétrica quando 'lu E e tem-se o] = f.
Prove que se f é simétrica tem-se A•f = O. Dê um exemplo mostrando que a
recíproca é falsa.

Seção 3: Determinantes
1. Dois operadores lineares A: E —) E e E: F F chamam-se conjugados
quando existe um isomorfismo cio: E --> F, entre os espaços vetoriais E e F, tal
que tp oA=Bo cp. Prove que se A e B são conjugados então det A = det B.
2. Uma matriz a = [a,1] e M (n x n) chama-se anti-simétrica quando aij = .
Se n é ímpar, prove que toda matriz n x n anti-simétrica tem determinante
nulo.
3. Calcule o determinante de uma matriz a = [ai3 ] E M (n X n) sabendo que
= O quando i +j 5_ n.

4. Sejam ui, . . . ,un,vi, • • • ,vn E R" tais que vi = aijui , j = 1, . . . ,n. Pondo
a = [aii], prove que f (vi., • • • , vn.) = det a • f (ui , • • • , 'lin) para toda f E a n (Rn).
5. Use sucessivamente o fato de que f(. , cv1, . ) =- f (. . .) quando
jSi e f E 9.1n(Rn ) para provar que o determinante de uma matriz triangular
é igual ao produto dos elementos de sua diagonal principal

Seção 4: O produto exterior de funcionais lineares


1. Defina uma transformação linear w: R" —› 21,2_1(1r) pondo, para v, tu', • • • ,
wn-i e W(l)) . (W1, • • • , w,..-i) = clet[V,W1, wn-1], onde [v,w3., . . . , w, -i]
é a matriz n, X n cujas colunas são os vetores aí indicados. Prove as seguintes
afirmações:
(i) ço é um isomorfismo;
(ii) Dado v O em R " , se {v, wi, • • • ,Wn-1} C R " é uma base então w(v) =
a• A • • • A t-un_i, a E R;
(iii) Conclua que toda forma alternada de grau n — 1 em R' é decomponível.
2. Seja {ei, e2,e3, e4} C R4 a base canônica. Prove que não existem f , g E (R4)*
tais que f A g = ëi A e-2 éz A é4 •
Seção 7 Exercícios 49

3. Sejam , f E E* linearmente independentes. Se ,g,- E E* são tais


que fi A gi = O, prove que, para cada j = 1, , r tem-se gi E ,
onde aii =

Seção 5: Coordenadas e matrizes em 91.,.(E)


1. Dadas as matrizes a E M(r x n) e b E M(n x r), com r < ti, prove que
det a •b = E det aK • det bK , onde K percorre todos os subconjuntos de I n com
✓ elementos.
2. Prove que se ui , , un , vi , , vn E Ile +1 então detkui , vi)] = (ui x • • • x
• , vi x • • • x vn).
3. Seja A: E —› F uma transformação linear de posto p. Se r < p, prove que a
transformação linear induzida A*: 21,-(F) —› 21,-(E) tem posto (P).

Seção 6: A Álgebra de Grassmann


1. Dados arbitrariamente a l, , a, E R, com ai S O, defina os funcionais lineares
fi, . . . ,f-.i e (r)* pondo fi = azël aféz e, para 2 < j< n — 1, f, =
(-1)i +1 (ai+ilai)ël onde, como no texto, {ê1, ,ë,} C (Ir)* é a base
dual da base canônica de R". Prove que

fl A•••A fn-1 = ai • él A • • • A ôi—i A è-i4-1 A • • • A én


i=1

e conclua que toda forma alternada de grau TE -1 em Rn (portanto em qualquer


espaço vetorial de dimensão n) é decomponível.
2. Sejam {E, • • • , h} e {g1,•. .. ,g,,} conjuntos linearmente independentes em E*.
A fim de que eles sejam bases do mesmo subespaço S c E*, prove que é
necessário e suficiente que, para algum a E R, se tenha gi A • • • A g = a • ft A
•••A .
3. Sejam fl.,— , fr. E E* linearmente independentes. Prove que o conjunto S
{g A ft A • • • A fr; g e .65} é um subespaço vetorial de dimensão n— r de 21,-±i(E)
se n = dim E.
4. Prove que o elemento w = fo + fi + • • • + fn (fi E 212 (E)) da Álgebra de
Grassmann A(E) é invertível se, e somente se, fo O.
3

Formas Diferenciais

1 Primeiras definições

Uma forma diferencial de grau r num aberto U C R' é uma aplicação


: U —› 21r (r). Para cada x E U, w(x) é urna forma r-linear alternada
em R'.
Denotamos, como é tradicional no Cálculo, por {dxi , , dx,i} c
(Rn)* a base dual da base canônica {ei, , en} C Rn. A base natural
de 91.,(Rn) consiste nas formas dx/ = dxii A • • • A dx.ir , onde I = {i1 <
• • • < ir} percorre todos os subconjuntos com r elementos do conjunto
= {I, 2, . . . , n}. Então, para cada x E U, temos w(x) = > al(x)dx1 ,
1
onde os ai(x) = w(x) • (eil , , eir ) são as coordenadas de co(x) relativas
à base composta pelos dx/ . Quando as funções ai-: U --> R são de classe
Ck, diz-se que co é uma forma de classe Ck.
Lembremos o significado das r-formas dr / . Dados os vetores
wi, • • • , wr E ir, seja a = [ai] a matriz n x r cujas colunas são os
wi dados. Indicando com ai a matriz r x r formada pelos tais que
i E I, temos dx_r(wi, , wr ) = det = ± volume da projeção do para-
lelepípedo que tem os wi como arestas sobre o subespaço r-dimensional
de R' constituído pelos vetores x = (xi, , xn) com xk = O se k I.
Se M c ir é uma superfície m-dimensional, uma forma diferencial
de grau r em M é uma correspondência ()) que associa a cada x E M uma
forma r-linear alternada 0.)(x) E 21,(TxM). Assim, para todo x E M
e toda lista de r vetores wi, , tu, E TM, w(x) • (wi, ,wr ) é um
número real que depende linearmente de cada wi e se anula quando
Seção 1 Primeiras definições 51

wi = wi com i j.
Se f: M —> N é uma aplicação de classe Ck (k > 1) entre as su-
perfícies M, N, a cada forma diferencial w de grau r em N corresponde
uma forma f*cp, de mesmo grau em M, chamada o pullback de w por f,
definida por

(fw)(x) • (uh, , tvr ) = w(f (x)) • (f' (x) • wi, • , f'(x) • wr )

para todo x EM e quaisquer w1, , wr E TM. Aqui, a transformação


linear f' (x): TxM ---> Tf(x) N é a derivada de f no ponto x.
Note-se que w 1—> ft() define uma transformação linear, isto é,
f * (aw bcD) =a•f*w-Fb•f*Cd se a, b E IR. Além disso, f * (co A ) =-
Pu) A ir° e, sef:M—+Neg:N---->Psão aplicações de classe Ck
(k 1) então (g o f)*w= f*(g*to) para toda w em P.
Se M está contida na superfície N e i: M --> N é a aplicação de in-
clusão, i(x) = x então, para toda forma diferencial w em N, seu pullback
é a forma rw, chamada a forma induzida por w em M, ou a restrição
de w a M, às vezes representada por wiM.
Para obter i*w basta, na expressão w(x) • (wi, , wr), limitar-se a
considerar x EM e wi, • • • ,wr E TM.
Seja y: Uo —> U c M uma parametrização local na superfície m-
dimensional M c R'. Em cada ponto x = cio(u) E U, indicaremos com
faço aço
{dui , , dum} c (TM)* a base dual da base (u), • • • , (u)} c
t (fui attn,
TM. Na verdade, a notação mais precisa seria dui(x) mas escrevemos
dui por simplicidade. As formas diferenciais diz/ = duji A • • • A dui,. ,
I = {ii < • • • < ir} C , constituem, em cada ponto x E U, uma
base de 2.1,(TxM) portanto toda forma diferencial w de grau r em M se
exprime, em termos da parametrização cio, como

al(u)dui , x = ço(u).
1
Se : Vo —> V c Mé outra parametrzação, com U n V L 0 então,
para todo x = y(u) = 0(v) E U nV temos os pares de bases duais

Ocp
. (u)} c TxM, {dui, ,dun,} C (TxM)*,
Ou,

. avn,
(v)} TM, {dvi , , dum} C (TxM)*
52 Formas Diferenciais Cap. 3

Do avi 497.4:
--,., dui
e as relaçoes — = E —
(fui i=1 aui avi , dvi = E 407.1j
Nestas igualdades, [Dvi/aui] é a matriz jacobiana do difeomorfismo
e = t;b-l oço: (unv) —› o-1(u nv), calculada no ponto u, a derivada
acp/aui é tomada no ponto u e alP/avi é calculada no ponto v = e(u).
A parametrização determina em 21,(TxM) a base constituída pelas
r-formas dvi = dvil A • • • A dvir . Como vimos no Capítulo 2 (seção 5),
se x = ço(u) = /0(v) U nV então
w(x) => ai(u)dui = E bi(v)dvi = aj(u) = det[avi/Oui]bi(v),

onde [Ovilauj] é a matriz r x r formada pelos elementos avi/Oui da


matriz jacobiana da mudança de parametrização e = V2-1 o ço tais que
iEIejEJ, sendo as derivadas calculadas no ponto u E yo- lw n V).
Merece destaque o caso em que w é uma forma diferencial de grau
rn na superfície M de dimensão m. Então
w(x) = a(u)duiA• • •Adum, = b(v)dviA• • •Adv, = a(u) = det Je(u)•b(v),
onde Je(u) é a matriz jacobiana do difeomorfismo e = ri o ço calculada
no ponto 71 E cp-1(U n V).
Se a superfície M é de classe Ck, tem sentido dizer que a forma
diferencial w, definida em M, é de classe C", onde s < k - 1. Isto
significa que cada ponto de M pertence a um aberto U c M, imagem
de uma parametrização ço: Uo -> U, de classe Ck, relativamente à qual
se tem w = ai • dui , onde as funções ai: U -> liçk são de classe C'. As
fórmulas de mudança de coordenadas a j = E detpui/aujibi mostram
1
que se aj é de classe C', s < k - 1, então o mesmo ocorre com as
coordenadas bi de w relativas a qualquer outra parametrização b de
classe Ck.
Observação. Usaremos, conforme seja mais conveniente, a notação
, ou então Je, para representar a matriz jae,obiana do difeomor-
[ cui
fismo e = 0-1 o cp: ço-1(U nv) 0-1(u n v), segundo o qual e(u) = v
quando ço(u) =
Exemplo 1. Em qualquer superfície N, as formas diferenciais de grau
zero são simplesmente as funções reais g: N -> IR. Se f: M -> N é uma
aplicação de classe Ck então o pullback de g por meio de fé f* (g) = go f .
Seção 1 Primeiras definições 53

Exemplo 2. Em IR, as formas diferenciais de grau 1 são do tipo


w(x) = f (x)dx. Em abertos de R2, as formas de grau 1 são, como
sabemos, w(x, y) = a(x, y)dx + b(x,y)dy, que correspondem aos cam-
pos vetoriais F(x,y) = (a(x,y),b(x,y)), e as formas de grau 2 são
w(x, y) = a(x,y)dx A dy, cada uma delas equivalente à função a(x,y).
Num aberto U C 11V, uma forma diferencial de grau 1 se escreve como
w = a dx + bdy + cdz, onde a, b, c são funções reais definidas em U, e
equivale ao campo vetorial F: U —> R3 , F(p) = (a(p), b(p), c(p)), p E U.
Uma forma de grau 2 em U é do tipo w = a dy A dz +b dz A dx+ c dx A dy
e também pode ser identificada com o campo de vetores F = (a, b, c).
Finalmente, uma forma de grau 3 em U é dada por w = adx A dy A dz
e corresponde a uma função a: U —> R. Estas observações mostram por
que, em dimensões < 3, formas diferenciais podem ser substituídas por
funções e campos vetoriais nos estudos elementares de Cálculo.
Exemplo 3. Sejam (.4.) = ady A dz + bdz A dx + cdx A dy uma forma dife-
rencial de grau 2 definida no aberto A c R3 e M uma superfície (bidi-
mensional) orientada contida em A. Considerando a inclusão i: M —> A,
a restrição i*w se escreve, em termos de uma parametrização positiva
g): U0 —> U c M, y(u,v) = (x(u,v),y(u,v), z(u,v)), como

i*c4., =ãdet 0(z, x) _


( • 5(Y' z) + -b•det det a(x' Y) ) du A dv.
D(u, v) 0(u, v) ± c . a(u, v) .
0(y, z) = [ay/Ou az/au
Aqui, ã = a o cp, etc.
a(u,v) aylav azIal'
Esta fórmula se obtém fazendo a mudança de variáveis (x, y, z) =
ax
(x(u, v), y(u, v), z(u, v)) na expressão de w e observando que dx = — du+
au
ax
—dv, etc. Vê-se que o coeficiente de du A dv em itw é o produto interno
Ov
acp aço
do vetor F = è) pelo vetor N = — x — , o qual é normal à
Ou av
superfície M e tem o sentido dado pela orientaçao da mesma. Podemos
então escrever i*w = (F, N) • du A dv, como no Cálculo.
Exemplo 4 (Elemento de volume.) Seja M uma superfície orientada
de dimensão m. O elemento de volume de M é a forma diferencial
w, de grau m, definida pondo-se, para cada x E Me wi, • • • ?Dm E
TM, w(x)•(wi, • • • wm) = ± volume do paralelepípedo determinado por
, zuni . (cfr. Exemplo 7, Capítulo 2.) Dada uma parametrização
54 Formas Diferenciais Cap. 3

positiva ço: Un —) U c M, definimos as funções gii : Uo R pondo


gii (u) = (u), ou (u) e pomos g = det[gii]. Então, em cada ponto
oui i
Dc,o Ocp
x = cp(u) E U, o volume do paralelepípedo que tem
Oui
(u) . . .
' 'aum (u)
como arestas é igual a iú, ou seja, w(x)
a n (u), . . . , a8Y
u m (u)) . Vlg.
( a(P1
Dy Dym }, isto significa
Corno {dui, . . . , dum} é a base dual de Bui , . . . , au

{
que a) = fg • din. A • • • A dum .
Prosseguindo com a notação do Exemplo 4, temos o
Exemplo 4a (Elemento de volume de urna hiperfície.) No caso
particular em que M c Rm+1 é urna hiperfície orientada de classe Ck, te-
No Ocp
mos .\./ = , x •x Escrevendo, para cada x = o(u), N(x) =
otil Durn
Dcp Dy
, (u) x x (u), vemos que v(x) = N(x)/IN(x)I
Gni Ou,
é um vetor unitário normal a M. O volume m-dimensional do
paralelepípedo [ ,a(P (u), . . . , a`P (u)] é igual ao do paralelepípedo
oui Dum
acp acp
(m+ 1)-dimensional [v(x), --(u) ' . . ' (ti) . Adotaremos em M
Ou' ' Dum
a orientação segundo a qual a parametrização y e positiva se, e somente
se, a matriz [v(x), a`P (u), . . . ,
Oui
acP
Ouni
(u) tem determinante positivo para
cada x = c,o(u). Então

w(x) • (wi, , win) =- det[v(x), wi, • • • wffi]•

Desenvolvendo o determinante segundo os elementos da primeira coluna,


isto nos dá
rn+1
co(x) • (wi , ,w,) = >:(-1)i+1 vi(x) • A 2' 7

2=1

onde v(x) = (vi (x), , vin+ i(x)) e Ai é o determinante (menor) da


matrix m x m que resulta de [w1, , ?Dm] por omissão da i-ésima linha.
Escrevendo (agora e no que se segue) dx1 A • • • A dxi A • • • A drrn-+i
em vez de dxi A • • • A dri_i A dri+1 A • • • A dxrn+i vemos que Ai =
(dxi A • • • A dxi A • • • A dxm+i)(wi l • • • ,wrn)•
Seção 1 Primeiras definições 55

Então concluímos que, para todo x E U,


rn+1
w(x) = (-1) i+1 Vi (X) • dX1 A • • • A dxi A • • • A dtm+1
i=1

é a expressão da forma elemento de volume da hiperfície M em termos


das coordenadas do vetor unitário normal v(x) = (vi(x), . . . ,vni+i(x))
e da base canônica {dxi, , dx,n+i} c (118m+1)*.
Quando M é a esfera unitária Sm então v(x) =- x e obtemos assim o
Exemplo 4b (Elemento de volume da esfera.) Vimos acima que o
elemento de volume da esfera Sm é a forma
m+1
1)i+ xi • dxi A • • • A clxi A • • • A dxm-i-i •

Na realidade, esta expressão define urna forma diferencial de grau m em


IRm+1, cuja restrição a Sm é o elemento de volume. De modo evidente,
se S é a esfera de centro a = , a i) e raio r, seu elemento de
volume é dado por
m+1
CD(X) (-1) i±1 xi — ai dXi A • • • A dr,: A • • • A dr rn +1 •
7,
i=1

O próximo exemplo faz uso da projeção radial f :Rm+1 — {O}


definida por f(x) = xljxj. Vamos calcular a derivada f / (x):Rm+1-
Tf(x)Sm., Todo vetor w E Ile+1 se decompõe na soma w = cx 1D,
onde ib = w — cx é ortogonal ao vetor x no qual estamos considerando
a derivada.
Portanto, para todo x E Rm+1 — {O} e todo w E R rn+1, temos f(x) •
w = f' (x) • cx f' (x) • ib. Mas f' (x) • cx = O pois f é constante, igual a
x/Ixi, ao longo da semi-reta Ox, sobre a qual se situa o vetor cx. Logo
f i(x)•w = f' (x)•W. Sendo ortogonal ar, o vetor tir) é tangente, no ponto
x, à esfera S de centro O e raio ixi, restrita à qual f é simplesmente a
multiplicação pela constante 1/14 logo f 1(x) • w = f' (x) • 'CV = 71) IIXI
(7.V — CX) liXi.
Exemplo 5 (Elemento de ângulo sólido.) Trata-se do análogo multi-
dimensional da forma elemento de ângulo vista no Capítulo 1. O ele-
mento de ângulo sólido é a forma diferencial Q de grau m, definida em
56 Formas Diferenciais Cap. 3

Rm+1 — {O} como SZ = f*co, pullback da forma ui, elemento de volu-


me da esfera unitária Sm pela projeção radial f: R ni+1 — {O} —> S m ,
f(X) -= x/ixl. Assim, para x E Rm+1 — {O} e wi, , wm E
tem-se

n(x) • (wi, • • • ,wm) = w (—x (f'(x) • tv1, • • • (x) • wm).


lxi
Este valor é o volume orientado do paralelepípedo m-dimensional cujas
arestas são os vetores f i(x) • wi , tangentes a Sm no ponto x/Ixl. Como
o vetor unitário x/Ixi é normal a Sm nesse mesmo ponto, este também
é o valor do volume orientado do paralelepípedo (m + 1)-dimensional
cujas arestas são x I (x) • wi, , (x) • W . Como f' (x) • wi =
(wi — cx)11xl, temos
[ X W1 - C1X Wm CmX ]
fl(x) • (wi, ,w,) = det
ixl lxl
1
lxim+1
pois o valor de um determinante não se altera quando se subtrai de
uma de suas colunas um múltiplo de outra. Como no Exemplo 4a,
desenvolvendo o determinante segundo os elementos da primeira coluna,
e observando que (dxi A • • • A dxi A • • • A dxrn+i)(wi, • • • , wrn) = det Ai ,
onde Ai é o determinante da matriz m x m obtida de [wi, , zum] por
omissão da i-ésima linha, obtemos
m+1
1
n(x) = (-1)i+1 xi • dxi A • • • A dxi A • • • A dxm+i
I
como expressão da forma elemento de ângulo sólido.

2 A diferencial exterior
A diferencial exterior dw de uma forma w é definida de tal modo que os
vários teoremas do Cálculo, conhecidos sob os nomes de Green, Gauss,
Ostrogradsky, Stokes, e até mesmo o Teorema Fundamental f ab df =
f (b)— f (a), sejam resumidos numa única fórmula, que se escreve fm di.4) =
I am w e é chamada de Teorema de Stokes. Nosso próximo passo, a cami-
nho dessa fórmula, será a definição e o estabelecimento das propriedades
básicas de &o.
Seção 2 A diferencial exterior 57

Inicialmente, seja w -= E apdx/ uma forma diferencial de grau r e

classe ck (k > 2), definida no aberto U C R rt . A forma diferencial de


grau r 1

act i
dw =Edai A dx/ = dx • A dxr ,
ax • 2

de classe Ck-1 em U, chama-se a diferencial exterior de co.


É claro que se a, E R então d(aw + pci)) = a • cito + 3 • dcp.
Exemplo 6. Se co = f: U R é uma forma de grau zero, ou seja, é sim-
n af
plesmente uma função real, então dw = df = dxi é a diferencial
i=1 uxi
usual de f. Se w = E ai dxi é uma forma de grau 1 então

aai ( asai
axi , COXi OX
i<3

como resulta ao se levar em conta que dxi A dxi = -dxi A dxi . E se


72
considerarmos a forma w = (-1)i+1 a dx]. A • • • A dxi A • • • A dx,,, de
i=1
grau n - 1 no aberto U c ir, veremos que

n
aCti
clw = dxi A • • • A dxn ,
axi

aai
pois se i j então dxj A dxi A • • • A dxi A • • • A dxn = O.
axi

Teorema 1. Sejam U c R, V cgr' abertos, f: U —> V de classe ck


(k > 2) e w, ci.; formas diferenciais em V, também de classe Ck . Então:
1) d(w A c.a) = deo A (I) + (-1)grww A dclo;
2) d(dw) = O;
3) d(f *w) = f*(6)).
58 Formas Diferenciais Cap. 3

Demonstração: Como d e f* são transformações lineares, basta con-


siderar o caso em que w = a dx/ e ci) = bdx j . Então

d(w A cD) = d(abdx1 A dxj) = d(ab) A dxj A dxj


= (b da ± a db) A dx/ A dxj
= b da A dx/ A dxj + a db A dx/ A dxj
= dco A cD (-1)gru a dxj A db A dxj
= dco A&) ( - 1)9rw co A dc7),

pois db A dx = (-1)9' dxi A db. Isto prova 1). Quanto a 2), observemos
inicialmente que ddx/ = d(ledri) = dl Adx1 = O. Além disso, se = ezi
então, como dxi A dx, = —dx, A dz.], tem-se E cii dr, A dri = O.

Portanto, em virtude do Teorema de Schwarz, dada a: V —> IR de classe


C2, vale

a
d(da) =d xi ) dx • A dx2• = O •
eximi
3

Conseqüentemente, se CO = adxi , tem-se

d(dw) =- d(da A dxj) = d(da) A dx/ — da A d(dxj) = O.

Finalmente, para provar 3), comecemos com o caso em que co tem


grau zero, isto é, co = g: V --> IR. Então f*(.4)=gof:U—> R. Pela
Regra da Cadeia, para todo xEUe todo vetor w E e, temos

( f* dw)(x) • w = (f*(dg))(x) • w = dg( f (x)) • f (x) • w = d(g o f)(x) • w


= d(f* w)(x) • w,

logo f*du.) = quando (.4.) tem grau zero. Em particular, conside-


rando cada projeção xi : V —> IR, temos f* dx, = d(f* x,), logo f* dxj =
f * dx,,A• • •Af*dxir = d(f*x,,)A• • •Ad(f*xi,.). Segue-se que d( f * dx1) =
O. Se w = adx1 então f*cv = f*a • f*dx1 e daí

d(f *w) = 4f ta) A f*dri + fta • d(f t dx1)


= f*(da) A Pdx." = f * (da A dxi) = ndco).
Seção 2 A diferencial exterior 59

Definiremos agora a diferencial exterior dco de uma forma w numa


superfície M.
Em termos de uma parametrização cp: Uo —> U c M, a forma c,/
admite a expressão w(x) = E al (u)dui , x = w(u). Então pomos

dw(x) = dai(u) A dic./ , x = w(u) EU.

A fim de ressaltar que esta definição faz uso explícito da parametri-


zação ça, escreveremos dww em vez de dui e nos proporemos a mostrar
que se itp: vo v c m- é outra parametrização então dipw(x) = dww(x)
para todoxE Un V.
Em primeiro lugar, quando f: unv -4 IR é uma função, tem-se
f = clipf = df.. Em seguida, como na demonstração do Teorema 1,
vemos que as transformações lineares co f---> cl,p co e co 1—+ dow gozam das
propriedades 1), 2) e 3) ali enunciadas. Portanto, para todo x E Un V,
tem-se

clv,w(x) = dip dai) = doai A dui

dwai A dui = dcpw(x).

Conseqüentemente, a diferencial exterior da forma co está bem de-


finida como dco = E dai A dui quando w => ai ti é dada em termos
1
de uma parametrização cp: Ur —> UCMe dw é univocamente caracte-
rizada pelo fato de que co dc,) é uma transformação linear de formas
de grau r em formas de grau r 1, a qual coincide com a diferencial
comum de uma função quando w tem grau zero, e goza das propriedades
1), 2) e 3) que constam no enunciado do Teorema 1.
Usaremos a notação Ar(M) para representar o espaço vetorial cujos
elementos são as formas diferenciais C' de grau 7' na superfície m-
dimensional M c R' de classe C'. A diferenciação exterior, que vem
de ser definida, é uma transformação linear

d: (M) —›

Uma forma diferencial co E Ar(M) chama-se fechada quando doi = O.


Por sua vez, w E A (M), chama-se uma forma exata quando existe
60 Formas Diferenciais Cap. 3

a E Ar(M) tal que da = (.4). Portanto as formas fechadas compõem o


núcleo, e as exatas a imagem, de d.
Observação. A exigência de que as formas diferenciais em Ar (M) sejam
de classe C' é feita a fim de que w E Ar(M) = deo E Ar+1(M).
Exemplo 7. Toda forma w E Am(M), m = dim M, é fechada pois
Ar(M) = {0} quando r > m. Como d o d = 0, toda forma exata é
fechada. A recíproca é falsa pois, como vimos no Capítulo 1, S forma
= (—ydx xdy)1(x2 -I- y2), de grau 1, é fechada mas não é exata em
R2 — {0}. Naquele capítulo, vimos também que se o aberto U c R'
é simplesmente conexo então toda forma fechada de grau 1 em U é
exata. A seguir, provaremos o importante Lema de Poincaré, segundo
o qual toda forma fechada (de qualquer grau r) num aberto convexo é
exata. Ele será obtido como conseqüência de um resultado mais geral
que relaciona formas diferenciais com homotopia.
Observação. Uma forma de grau > 1 numa superfície simplesmente
conexa pode ser fechada sem ser exata. Tal é o caso do elemento de
volume de uma superfície compacta orientada, conforme veremos no
Capítulo 5, Corolário 1.
Uma homotopia entre as aplicações contínuas f, g: X —› Y, onde
X c R' e Y C R', é uma aplicação contínua H: X x [0,1] --> Y tal
que H(x, 0) = f(x) e H(x, 1) = g(x) para todo x E X. Diz-se então
que f e g são aplicações homotópicas e escreve-se f o g ou, mais pre-
cisamente, H: f g. A relação f '2_-• g é uma equivalência no conjunto
das aplicações contínuas de X em Y. Com efeito, H: X x [0,1] —> Y,
definida por H(x, t) = f (x), é uma homotopia f f. E se H é uma ho-
motopia entre f e g então K(x, t)= H(x,1—t) é uma homotopia entre
g e f. Finalmente, se H: f •--/ g e K: g e.-/ h então L: X x [0,1], definida
por L(x, t) = H(x, 2t), x E X, O < t < 1/2 e L(x,t) = K(x,2t —1) se
1/2 < t < 1, é uma homotopia entre f e h.
Se Uc Rmé um aberto e f, g: U —> Y c R' são aplicações de classe
Ck, tem sentido falar de uma homotopia H: Ux [0,1] —> Y de classe Ck
(0 < k co) entre f e g. Embora Ux [0,1] c Rm+1 não seja um aberto,
isto significa que existem e são contínuas todas as derivadas parciais de
f nos pontos (x, t) E U x [0,1], até a ordem k, apenas com a ressalva
de que nos pontos (x, 0) e (x, 1) as derivadas em relação a t devem ser
tomadas à direita e à esquerda, respectivamente. Na verdade, U x [0, 1] é
um exemplo de superfície com bordo. Seu bordo tem duas componentes
Seção 2 A diferencial exterior 61

conexas, U x {0} e U x {1}, que são hiperfícies em Er2+1. As superfícies


com bordo serão vistas no Capítulo 5.

A relação de homotopia de classe Ck é ainda uma equivalência. As


propriedades reflexiva (f f) e simétrica (f g =g f) se provam
como antes mas há uma precaução a ser tomada quanto à propriedade
transitiva (f g, g h f h) pois uma função contínua e: [0,11 —>
IR pode não ser de classe Ck embora suas restrições e![0, 1/2] e ei[1/2,1]
o sejam. Para evitar esta inconveniência, mostraremos agora que se as
aplicações f,g:U --> Y C Ir são Ck-homotópicas então existe uma
homotopia K: U x [0, 11 —> Y, de classe Ck, tal que K(x,t) = f (x) se
o < t < 1/3 e K(x,t) = g(x) se 2/3 < t <1, seja qual for x E U. Então
K será chamada uma homotopia adaptada.

Sempre que for conveniente, podemos considerar uma homotopia


adaptada como uma aplicação H:U xR --> N, de classe Ck, simples-
mente pondo H(x, t) = f (x) se t < O e H(x, t) = g(x) quando t> 1.

Para adaptar uma homotopia H: U x [0,1] —> Y entre f e g va-


mos utilizar uma função c: IR —> IR, de classe C', com as seguintes
propriedades: O < C(t) < 1 para todo t E IR, ((t) = O para t < 1/3
e ((t) = 1 quando t > 2/3. Então, se H: U x [0, 11 —> Y é de classe
Ck, com H(x, O) = f (x) e H(x, 1) = g(x) para todo x E U, a aplicação
K: U x [0,1] —> Y definida por K (x, t) = H(x, ((t)) é uma homotopia
adaptada entre f e g.

Se f , g, h: U —> Y são tais que f rigeg h em classe Ck, tomamos


homotopias adaptadas H: f g e K: g h e definimos L: U x [0,1] —>
Y pondo L(x,t) = H(x, 2t) se t E [0,1/2], L(x,t) = K(x,2t — 1) se
t E [1/2,1] e teremos uma homotopia L: f h de classe Ck.

A função (: IR —> IR, que empregamos acima, nos será útil noutras
ocasiões. Ela pode ser definida assim: em primeiro lugar, consideramos a
função a: IR —> IR, definida por a(t) = e_1/t(—t) se O < t < 1 e a(t) = O
se t < O ou t > 1. Esta é uma função clássica, conhecida pelo fato de
que todas as suas derivadas nos pontos O e 1 se anulam. Então a é de
classe C'.
62 Formas Diferenciais Cap. 3

Figura 12. Forma do gráfico da função a. O fato essencial é que a se


anula nos pontos O e 1, juntamente com suas derivadas de todas as ordens.

-1; f ot a(s) ds, onde


Em seguida, definimos P: IR --> IR pondo [3(t) = 1
b= f oi a(t)dt. Então /31 E Cc°, O < p(t) < 1 para todo t E IR, fi(t) =0
se t < O e p(t) = 1 se t > 1. Para obter Ç agora é só mudar de escala e
transladar: pomos então ((t) = )3(3t — 1).

y fi (x)
1

1 1/3 2/3

Figura 13. Gráficos das funções "3 e (.

Podemos agora demonstrar o


Teorema 2(*). Sejam f, g: U N aplicações C'-homotópicas do
aberto U c Ir na superfície N, de classe C'. Para toda forma dife-
rencial fechada c,.) E A.r (N) existe uma forma a E Ar-1(U) tal que g*co —
f*w = da.
(*) Ver o Teorema 3 do Capítulo 4, a seguir.
Seção 2 A diferencial exterior 63

Demonstração: Como foi observado acima, a homotopia entre f e g


nos dá uma aplicação H: U x IR ---> N, de classe C', tal que H(x,0),-_-
f(x) e H(x,1) = g(x) para todo x E U. Usaremos H para definir
uma transformação linear L: Ar(N) —› Ar-1(U) tal que g*co — fui
L dw d Lco para toda w E Ar(N). Então, se w é fechada, pondo a = lio
o teorema estará demonstrado. Começaremos introduzindo, para todo
t E R, a aplicação de inclusão it U --> U x IR, onde it (x) = (x, t). Em
seguida, definiremos a transformação linear

K: Ar(U x IR) -->

do seguinte modo: toda forma w E Ar(U x 118) se escreve, de maneira


única, como w = dt A a + p onde nem a = a(x,t) = E al (x,t)dx1 nem
1
fl = )3(x,t) = frj(x,t)dx,j contém a diferencial dt. Então a forma

Kco E Ar-1 (U) é dada por

(Kw)(x) = a(x,t)dt =V (I a"(x, t) dt) dx •


L3-d
- °

Afirmamos que, para toda forma w E Ar(U x IR) tem-se

Kdw-EdKco=cfri co—i(ti co.

Com efeito, como

0a" 0ai
da= dx• A dxj dt A dx" e
axi
I,j

dfi
ab, dx, A dxj dt A dxj segue-se que
aXk
J,k

dw d(dt A a +s) —dt A da+ di3

Oal
= dt A E dxi A dx/ + dxj +7,
xi

onde 7 =
ab, dxk A dxj é a parcela que não contém dt, logo não é
J,k OXk
64 Formas Diferenciais Cap. 3

considerada por K. Então

Dbj nal
K(dw) (f o dt) dxj ([
1,3 ax, dt) dxi A dx1
Dai
e d(Kw) = (f ( 8x3 dt)) dxj A dx/ , portanto

1 ab j
K(dw)+ d(Kw at dt) dx,
(b,(x,1)— b,(x,o))dx,
.* .* w.
= w
Agora definimos a transformação linear L: Ar (N) Ar-1
(U) pondo
L = K o H* e vemos que, para toda w E Ar (N), vale

L(dco)+ d(Lco) = K (H* dw) + d(KH* to) = K(dH* to) + d(K H* co)
= ii(11* w) - (H* co) = o ii)* eu - (H o io)*co
g * f*

Como w é fechada, temos L(dco) = L(0) = O logo, pondo a = Lw, con-


cluímos que L(dw)+d(Lw) = da, portanto g*w- f*w = da, completando
assim a demonstração.
Corolário 1 (Lema de Poincaré.) Se U C Rm é UM, aberto convexo
então toda forma fechada w E An (U) é exata.
Com efeito, se U é convexo então a aplicação identidade id : U -> U
é linearmente homotópica a uma constante c: U -> U, logo, para toda
forma fechada w e Ar(U), tem-se w = (id)*w = (id)*w - c*w = da para
alguma a E Ar-1(U).
Corolário 2. Uma forma o.) E Ar (M) é fechada se, e somente se, é
localmente exata.
Exemplo 8. O rotacional de um campo de vetores F = (a, b, c), de
classe C' no aberto U CR3, é definido como o campo

rot F =
(ac ab Da ac ab —
—- — —- — —
Da
ay az az ax ax Dy) •
Seção 3 Exercícios 65

A divergência de F é a função div F: U —> R, definida por

Da ab ac
ax Dy az

Um cálculo direto mostra que div(rot F) = O. Esta igualdade pode ser


vista como uma maneira de exprimir que dda = O, onde a = adx+ bdy +
cdz. O Lema de Poincaré permite concluir que, quando U é convexo,
vale a recíproca, ou seja, se o campo G = (f, g, h): U —> R3, de classe
C', é tal que div G = O então existe um campo F: U —> R3 tal que
G = rot F. Com efeito, div G = O significa que a forma co = f dy A
dz + gdz A dx + hdx A dy é fechada, logo é exata no aberto convexo U.
Então existe uma forma a = adx +bdy + cdz em U tal que eu = da. Isto
significa que

j
05 ,
ac az g
Da ac
az — -ã-x- e h =
ab

Da
,
Dx

ou seja, que G = rot F.

3 Exercícios

Seção 1: Primeiras definições


1. Sejam a, U --> (R3)* formas diferenciais de grau 1 no aberto U C R3, com
a(x) A P(x) $ O para todo x E U. Se o): U -> 2t2 (R3) é uma forma diferencial
de grau 2 em U tal que co Aa=wA = O, prove que existe uma função
f : U -› R tal que w = f • (a A (3). Se a, )(3 e w são de classe Ck , prove que
f E Ck .
2. Prove que uma superfície m-dimensional M é orientável se, e somente se, existe
uma forma contínua 0) de grau m em M tal que w(x) O para todo x E M.
(Se M é orientada, a forma co chama-se positiva quando co(x) • (vi, . . . , v,,,) > O
para todo xEMe toda base positiva {vi, ,V } C TM.)
3. Seja f: M -> N um difeomorfismo local. Se N é orientável, prove que M é
orientável.
4. Sejam M, N orientadas, M conexa e f: M -> N um difeomorfismo local.
Prove que o isomorfismo linear f(x): Tx M -> Tf(x) N ou preserva orientação
para todo x E M ou inverte para todo x.
5. Prove que f: Rn-- {O} -> R" - {O}, dada por f (x) = x/Ix12, é um difeomorfismo
que inverte orientação.
6. Seja f: M -> N um difeomorfismo local sobrejetivo de classe Ck , k > 1.
Suponha que M seja orientada e que f tenha a seguinte propriedade: se
f (x1) = f (x2) então o isomorfismo linear f i (x2) -1 o f i (xi): Txi M -> Tx2M
66 Formas Diferenciais Cap.3

preserva orientação. Prove que N é orientável. Quando M é conexa, prove


que vale a recíproca: se N é orientável então, para quaisquer xl , x2 E M tais
que f (xi) = f (x2), o isomorfismo linear r(x 2 )-1 o f(xi): TX1M -> 71. 2 M
preserva orientação.
7. Defina f: Rn+1 - {O} -> /14.((n + 1) x (n + 1)) pondo f (x) = [xi • xi ] para
todo x = (xi, ,x,,.+1) E lir +1 - {0}. Prove que f (x) = f (y) 44- y = ±x e
que o conjunto 7' = f(ST) é uma superfície n-dimensional compacta, a qual
é orientável se, e somente se, n é ímpar. (Pn é chamado o espaço projetivo
(real) n-dimensional.)
Seção 2: A diferencial exterior
1. Assinale (C)erto ou (E)rrado nas seguintes afirmações:
( ) Toda forma diferencial de classe C2 e grau n em IR' é exata.
( ) Sejam a, ,3 formas de classe C2 na superfície M. Se a é fechada então
a A d,(3 é exata.
( ) Numa superfície orientada, a forma elemento de volume é fechada mas
não é exata.
( ) O pullback de uma forma exata é uma forma exata.
2. Seja L.; uma forma de classe C' e grau 1 no aberto U C IR' . Uma função
f: U -> IR - {O}, de classe C', chama-se um fator integrante de (i.; quando a
forma f • o.; é fechada.
(i) Prove que se co possui um fator integrante então co A dw = O.
(ii) Dê um exemplo em que ti.; não possui fator integrante.
3. Prove que toda forma diferencial de classe Ck na esfera Sn é a restrição de
uma forma de classe Ck em Rn+1 - {0}. A partir daí, prove que toda forma
fechada ca de grau 1 na esfera .9", com n > 1, é exata e conclua que existe
x E Sn tal que w(x) = O.
4. Seja 13' o espaço projetivo n-dimensional. (V. Exercício 7, Seção 1.) Consi-
derando o difeomorfismo local f: S-> 13", prove que uma forma diferencial
fechada co e Ar(P) é exata se, e somente se, fw é exata em Sm.
5. Prove que toda forma fechada de grau 1 no espaço projetivo Pn é exata (n> 1).
Ohne Titel

Neste capítulo, estudaremos duas noções ligadas às superfícies no espaço


euclidiano, que têm grande utilidade no desenvolvimento da teoria, a
saber: a vizinhança tubular e as partições da unidade. Como aplicação,
provaremos a versão diferenciável do Teorema de Jordan-Brouwer.

1 A vizinhança tubular

Seja M uma superfície de dimensão m em De+n. A bola normal aberta


de raio E e centro no ponto xEMéo conjunto

BI (x; e) = {x + V; V E T x M i , vi <e}.

Tomando Ivi < e em vez de ivi < e, temos a bola normal fechada
13±[x; Quando M é uma hiperfície, a bola normal é um segmento
de reta perpendicular a x TM, com ponto médio x e comprimento
2E.
Pretendemos mostrar que se M é urna superfície compacta de classe
Ck (k > 2), existe e> O tal que duas bolas normais 131 (x; E) e
com centros x y quaisquer em M, são disjuntas.
Iniciamos mostrando que se M tem classe Ck e co-dimensão n então
todo ponto de M possui uma vizinhança aberta U c M na qual estão
definidos n campos de vetores normais, de classe Ck-1, linearmente in-
dependentes em cada ponto de U.
68 Ohne Titel Cap. 4

Figura 14. A bola normal a M, de raio E, no ponto x.

De fato, pelo Corolário 1, no Capítulo 7 do Volume 2, M é localmente


o gráfico de uma aplicação de classe Ck. Isto significa que, escrevendo
os pontos de R m+n sob a forma (x, y), com x ER" eyE Rn, todo ponto
de M pertence a um aberto U C M tal que (x, y) E U se, e somente
se, y = f(x), onde f: Uo --> R' é uma aplicação de classe Ck no aberto
Uo C R'. Ou seja, U = {(x, f (x)); x E Uo}.
Seja W = Uo x Rn C Rm+n. A aplicação g: W —> , definida por
g (x, y) = y — f (x), é uma submersão de classe Ck pois g' (x, y) • (O, w) = w
para quaisquer (x, y) E W e w E IR?. Se as funções-coordenada de g
são gi, , gn : W --> IR então, em cada ponto (x, y) E W, os vetores
w(x, y) = grad gi (x, y), i = 1, . . . , n, são linearmente independentes
pois são os vetores-linha da matriz jacobiana de g no ponto (x, y). Em
particular, quando p = (x, f (x)) pertence a U = g-1(0) então cada
um dos vetores wi(p) é ortogonal a TpM = TpU pois U está contido
nas superfícies de nível zero de todas as funções gi . Isto nos dá Tb
campos vetoriais w1, , : U —> Rm+n, de classe Ck-1, normais a M
e linearmente independentes em cada ponto.
Usando o processo de Gram-Schmidt, podemos (e iremos) admitir
que, em cada ponto p E U, os vetores wi (p), , w (p) constituem uma
base ortonormal do espaço vetorial TEM-1. Esses campos são usados
para obter a vizinhança tubular V,(M), construída no
Teorema 1. Seja M c Irl+n uma superfície compacta de dimensão
m e classe Ck (k > 2). Existe um número E > O tal que duas quais-
quer bolas no tais Bi- (x; e) e 131 (y; E), com centros em pontos distintos
Seção 1 A vizinhança tubular 69

x y de M, são disjuntas. A reunião VE(M) = U B1-(x;E) dessas


xEm
bolas normais é um aberto em Rtn+11 e a aplicação 7r: 17,(M) —+ M,
que associa a cada z E V( M) o centro x = 7r(z) da única bola normal
Bi (x;e) que contém z, é de classe Ck-1.

B(0; e)

U X R n

Figura 15. V€(U) é uma vizinhança tubular local, de base Uc Me raio E.

Demonstração: Começamos demonstrando o teorema localmente. To-


mamos uma cobertura de M por abertos U C M, em cada um dos quais
estão definidos campos vetoriais w1, , wn, de classe Ck-1, que formam
em cada ponto p E U uma base ortonormal {wi(p), . , wn(p)} c TpM-
Escolhamos, para cada p E M, um desses abertos U que contenha p
e definamos a aplicação & U x ir —> Rm+n, de classe Ck-1, pondo
(1.(q, y) = q yi • w2(q), para todo q EUe todo y = (yi, , yn) E R'.
Para qualquer q E U, .11 transforma isometricamente a variedade afim
q x R' sobre q +71q, M-1 logo leva cada bola q x B(0; E) sobre a bola normal
B (q; E). A derivada .1.1(p, O) : TpM X Rn —> Rin+n é um isomorfismo pois
(p, O) • (u, v) = u + ai • w,(p) com u E TM e v = (ai, , a m).
Pelo Teorema da Aplicação Inversa, podemos restringir o aberto U p
e tomar e > O de modo que seja um difeomorfismo de U x B(0; E)
sobre um aberto de Rm+n, o qual tem necessariamente a forma VE (U) =
.13±(x; e). A aplicação 7r, definida no enunciado, é de classe Ck-1
xEu
pois 7r o U x B(0; E) —> U é a projeção do produto U x B(0; E) sobre
o primeiro fator U. Como €1. : U x B(0; E) —> 14(U) é um difeomorfismo,
concluímos que o Teorema 1 vale localmente, isto é, para cada ponto
70 Ohne Titel Cap. 4 Sc

p E M existem um aberto U, com pE Uc M, e um número e> O tais


que duas bolas normais de raio e e centro em pontos distintos x, y E U
são disjuntas, a reunião V(U) = e) é aberta em R rn+n e a
xeu
projeção 7r: V(U) ---> U, definida pela condição 7r(B-1-(x; e)) = x, é de
classe Ck-1. Provaremos agora que, escolhendo e> O convenientemente,
duas bolas normais quaisquer B-1(x; s) e Bi (y;e) com x y em M são
disjuntas. Suponha, por absurdo, que tal e não exista. Então, para
cada k e N, existem pontos pk qk em M e zk E Rin+n tais que zk E
B± (pk; 1/k) n B-L(qk; 1/k). Passando a uma subseqüência se necessário,
a compacidade de M nos dá um ponto p E M tal que limpk = p e,
conseqüentemente, lim zk = um qk = p. Tomando Uppee>0 como
1
acima, teremos qk,pk E U e zk E V(U) para todo k> — suficientemente
E
grande. Então, para tais valores de k, será zk E Bi (Pk; E) n B± (qk;E),
uma contradição.

Bi(x;e)

71

fE
E.
fE

Figura 16. A vizinhaça tubular de raio E da superfície M.

Exemplo 1. Se a superfície M é apenas de classe Cl, o teorema acima


não se aplica. Por exemplo, o gráfico M da função f(x) = x4/3. Dado
qualquer E > O, existem segmentos normais a M nos pontos p= (O, O) e
q = (x, x413), de comprimento menor do que e, que se intersectam. Basta
observar que a reta normal a M no ponto p = (0,0) é o eixo vertical e
que a reta normal a M pelo ponto q = (x, x4/3) corta o eixo y no ponto
3
A = (0, x4//3 + — x2/3) e o segmento normal OA tem comprimento menor
4
do que E se x for tomado pequeno.
Seção 1 A vizinhança tubular 71

Figura 17. O gráfico da função y = x4/3 é uma curva de classe Ci ,


contendo a origem, em torno da qual não há vinhança tubular local.

Exemplo 2. Uma vizinhança tubular da esfera Sm é o conjunto Vi (89=


{x E Ir 1+1; O < 1x1 < 2}. A projeção ir: 171 (S m ) -› S M é dada por
7r(x) = xilxl. Em cada ponto x E Sm , a bola normal (aberta) de raio
E é o segmento de reta ((1 — e)x, (1 + e)x). A vizinhança tubular 17,(C)
de uma circunferência C c 1183 é o toro sólido que tem C como circun-
ferência central e cujos discos meridianos (suas bolas normais) têm raio
E. Aqui, o número positivo E deve ser menor do que o raio da circun-
ferência C.

14(81)

Figura 18. Vizinhanças tubulares: de Si em R2 e de C em R3.


72 Ohne Titel Cap. 4

Exemplo 3. Da maneira como está enunciado, o Teorema 1 não é válido


para superfícies não-compactas, como se vê com a superfície M c R3,
obtida pela rotação do ramo de hipérbole H = {(0, y, z) E R3; y > O,
z = 1/y} em torno do eixo z. Qualquer que seja E > O fixado, há seg-
mentos normais a M (em pontos (x, y, z) com z grande) não-disjuntos,
de comprimento < 2E, com centros em pontos distintos.

Figura 19. Nenhuma vizinhança tubular de M em R3 pode ter raio e


constante.

Ampliando o conceito de vizinhança tubular, admitiremos que o raio


E > O das bolas normais que ocorrem em 1 2/ (M) =U B- (x; e) seja
xem
variável e dependa continuamente de x. Com esta providência, conse-
guiremos que toda superfície, compacta ou não, possua uma vizinhança
tubular. Esse é o conteúdo do
Teorema 2. Seja M c Rm+n uma superfície de dimensão m e classe
Ck (k > 2). Existe uma função contínua positiva E: M —> R+ tal que,
para quaisquer x y em M, as bolas normais .13±(x;e(x)) e Bi (y; E(y))
são disjuntas. A reunião VE (M) =U .13±(x,s(x)), chamada a vizi-
xEm
nhança tubular de M com raio E, é um aberto em Rm+" e a aplicação
7r: V(M) —> M, definida por 7r(z) = x se z E Bi(x;E(x)), é de classe
Ck-1. (Ver também o Teorema 7, mais adiante, onde mostraremos que
a função E pode ser tomada de classe Ck.)
A demonstração do Teorema 2 será precedida de um lema.
Seção 1 A vizinhança tubular 73

Na prova do Teorema 1, vimos que, para cada p E M, existem um


aberto U C M, com p E U, e um número e > 0 tais que duas bolas
normais de raio E e centros em pontos distintos de U são disjuntas.
Além disso, a reunião V5(U) = 1 4/./ Bi (x;s) é um aberto em Rni+71 e a
xeu
aplicação 7r: Tre (U) --> U, definida por 71-(z) = x se z E B ± (x;e), é de
classe CÁ -1.
O conjunto 14(U) chama-se uma vizinhança tubular local do ponto
p na superfície M.
Lema 1. Todo ponto p E M possui urna vizinhança tubular local V(U)
tal que V(U) nM=U.
Demonstração: Começamos com uma vizinhança tubular qualquer
V(U) do ponto p em M. Sendo U aberto em M, existe A, aberto em
p7n+n, tal que U = An M. Em seguida, tomamos uma vizinhança
tubular Ve, (U') de p em M, com U' c U, Et < E e 176, (U/) C A.
Afirmamos que Vei(U9 n M = U'. Com efeito, em primeiro lugar
Ve,(U9nM c AnM= U. Mas se algum ponto y e U está em
Vei(U1) então y E /31 (x; E') C Bi (x; e) para algum x E U' C U, logo
y E B i (x; E) n B-1- (y; e) com x,y E U portanto y = x, ou seja y E U'.
Assim, 14,(U') n M = U', o que prova o lema. E
Demonstração do Teorema 2: O passo fundamental consiste em
mostrar que todo ponto p E M possui uma vizinhança tubular local
VE,(U') tal que a projeção x = 7r(z) E U de qualquer ponto z E Vet(Ul) é
o único ponto de M situado à distância mínima de z. Noutras palavras,
Iz - xj < jz - yl para qualquer y E M com y x.
Começamos tomando uma vizinhança tubular local Ve (U), com p E
U e V(U) n M = U. Suporemos ainda que U seja compacto, o que
não restringe a generalidade. Com centro em p, tomaremos uma bola
B(p; 3r) c Ve (U). A vizinhança tubular local que buscamos é qualquer
Ve(U1) com p E UI C U, 0< <e e 17(U9 c B(p;r).
Com efeito, dado z E Vet(U/ ), seja x = 7r(z). A fim de provar que,
para todo y E M com y x tem-se lz xl < lz - yl, observamos que
isto é claro quando y 176 (U) pois neste caso tem-se y B(p; 3r), logo
lz - yl > 2r já que z E B(p;r). Por outro lado, como x, z E B(p;r)
vale jz - xj <2r. Portanto, vale lz - ri < lz - yi para todo y E M não
pertencente a VE(U). Resta considerar os pontos y E V(U) n M, isto
é, y E U. Seja yo o ponto do compacto U mais próximo de z. Tem-se
Yo E U pois do contrário seria yo VE (U) e então jz - xj < jz - Y01.
74 Ohne Titel Cap. 4

Assim lz - yoi é a menor distância de z a um ponto de U, portanto


z yo E (Ty,,U)I = (Tvo M)I, ou seja, z E Bl (yo; E). (Cfr. Exemplo 15,
Capítulo 7, Volume 2.) Como as bolas normais de raio e e centros em
pontos distintos de U são disjuntas e já sabemos que z E B I (x; e), segue-
se que yo = x. Portanto x é o único ponto de M situado à distância
mínima de z.
Seja V a reunião de todos os abertos Ve,(U') acima obtidos. A
aplicação 7r: V -) M, definida pondo-se, para cada z E V, 7r(z) =
único ponto de M que minimiza a distância a z, é de classe Ck-1 pois
em cada 14,(U') coincide com a projeção 7r: V' (U') -› . Introduzi-
mos a função contínua positiva e: M —> R+ pondo, para cada x E M,
e(x) = d[x, Rrn+n — V] e, finalmente, pomos

Ve (m)= U -13±(x; E(x))«


xEM

Quando M é compacta, existe E > O tal que E < e(x) para todo
x E M, por isso o raio E da vizinhança tubular V(M) pode ser tomado
constante.
No caso geral podemos, sem perda de generalidade, sempre que for
conveniente, supor que O < E(x) < 1 para todo x E M simplesmente
tomando a função contínua min{E(x), 1} em vez de E(x), x E M.
A projeção ir: 1T6 (M) --) M é um exemplo de retração, isto é, 7r(x) =
x para todo x E M. Assim, considerando a aplicação de inclusão i: M
VE(M), tem-se 7r o i = id: M -› M. Esta observação permite ver que
toda forma diferencial to, na superfície M é a restrição de uma forma
diferencial c7), definida num aberto U do espaço euclidiano em que M
está contida. Basta tomar U = V(M) e pôr cp = 7r*c.,.). Então &-.) é uma
forma em U e sua restrição a M é i*(7.2 = i*ir*u.; = (7r o i)*co = co.
Segue-se desta observação que o Teorema 2 do Capítulo 3, demons-
trado para aplicações definidas num aberto do espaço tuclidiano, é válido,
mais geralmente, quando o domínio das mesmas é uma superfície, con-
forme o

Teorema 3. Sejam f, g: M ---> N aplicações C"-homotópicas. Para


toda forma diferencial fechada w E Ar (N) existe a E Ar-1(M) tal que
g*co - ftw = da.
Seção 2 Partições da unidade 75

Demonstração: Sejam U = V(M) uma vizinhança tubular de M C


lir n+n 5 U -› M a retração correspondente e i: M -> U a aplicação
de inclusão. Se H: M x IR -> N é uma homotopia C" entre f e g então
U x R -› N, dada pr H(x,t) = H(7r(x),t), é uma homotopia
entre as extensões ,f,:g-:U->N,f=fo7r, :g = g o 7r. Pelo Teorema 2
do Capítulo 3, existe uma forma 5 E Ar-1(U) tal que ru) - Pu) = da.
Seja a = i*Éle a restrição de á a M. Então

= (g o i)*(.0 - (f o z)*co = i*( g- *co - f*w) = i* (da)


d(i*ã) = da.

Observação 1. Conforme veremos no Teorema 8, a seguir, se f e g


são de classe C' e homotópicas (pura e simplesmente) então são C"-
homotópicas.

Observação 2. Se M é compacta, E> O é constante e ir: Ife (M) -> M


é a projeção natural, então a prova de que, para todo z E VE(M), o
ponto x = ir(z) é o único em M que minimiza a distância iz - xj se
torna bem mais simples. Com efeito, existe xo E M tal que d(z,M) =
1z - xol. Mostremos que xo = x. De fato, pondo 5 = jz - rol, temos
z E B1 [xo, n Bi (x; e). Notemos que 5 < E. Se fosse xo 4 x, teríamos
= B-'-[x0; n BI (x; E) [x0; n Bi (x; E), um absurdo.

2 Partições da unidade

Uma família de conjuntos (X),)AEL numa superfície M chama-se local-


mente finita quando, para cada x E M, existem um aberto U, com
xEUc M, e um subconjunto finito Lo = {Ai, • • • , Ak} c L tais que
U n X), = 0 se A L0 . Noutras palavras, cada ponto de M tem uma
vizinhança que intersecta XA apenas para um número finito de índices
À E L.
Toda família localmente finita (X4ÁEr é, em particular, pontual-
mente finita, isto é, para todo x EMé finito o conjunto dos índices
)% E L tais que x E XÁ. A recíproca é falsa pois a família dos interva-
los J, = (1/2n, 1/n) é (obviamente) pontualmente finita mas qualquer
aberto da reta contendo O contém J n para infinitos valores de n. Se a
família (XA)AEL é pontualmente finita e XA0 0 então existe apenas
um número finito de índices A E L tais que XÁ = XÁ° .
76 Ohne Titel Cap. 4

Exemplo 4. Uma cobertura aberta (A),)AEL tal que, para todo 4 E L,


tem-se AÁ n AA0 apenas para um conjunto finito de índices À E L
é uma família localmente finita. Muito freqüentemente isto ocorre, mas
nem sempre é assim. Por exemplo, se Ak = R' — B[0; k] então a família
(Ak ) keN é uma cobertura localmente finita de Rri — {O} na qual se tem
Ak n Ar 0 para todo r > k.
O teorema seguinte exibe algumas propriedades das famílias local-
mente finitas. Nele, "fechado" significa fechado em M e o fecho X é
relativo a M, ou seja, X é o conjunto dos pontos de M aderentes a X.
Teorema 4. Seja (X),)AEL uma família localmente finita de conjuntos
XÀ C M. Então:
1) Existe um subconjunto enumerável Lø c L tal que XÀ = 0 quando
À ÇÉ L0 . (Informalmente: toda família localmente finita é enumerável.)
2) Se todos os XÀ, À E L, estão contidos num compacto K c M
então é finito o conjunto dos índices À E L tais que XÁ 0. (Toda
família localmente finita num compacto é finito.)
3) U XÀ=U X.
AeL AeL
4) Se cada XÀ é fechado em M então UXÀé fechado em M.
AeL
Demonstração: Para cada x E M existem um aberto Ux C M con-
tendo x e um subconjunto finito Lx c L tais que Ux nXÀ = 0 se À L .
Pelo Teorema de Lindeldf, a cobertura aberta (Ux)xEm possui uma sub-
cobertura enumerável (Uxk )keN . Escrevendo Uk em vez de U xk Lk em
vez de Lx k e Lo =U Lk , vemos que Lo é enumerável e que À Lo
keN
implica À Lk e, conseqüentemente, XÁ n Uk = 0 para todo k E N,
portanto XÁ = U (X), n uk) = a
keN
2) A demonstração acima se aplica literalmente, com as seguintes
substituições: x E M —> x E K, Lindelõf —› Borel-Lebesgue, enumerável
—> finito.
3) Tem-se U XÁ C U XÁ quer a família seja localmente finita ou
não. Para provar a inclusão inversa, suponhamos que o ponto x não
pertença a U XÁ. Isto significa que, para todo À E L, tem-se x0 XÀ,
logo existe um aberto U), 3 x tal que UÀ n XÁ = 0. Tomemos um
aberto Uo x tal que Uo n XA = 0 se Lo = {Ai, , Ak}. Pondo
A = uo n u A, n • • • n U , vemos que A é um aberto contendo x e que
A n XA = 0 para todo À E L. Logo x U X), . Isto mostra que
U XÀ C U XÁ.
Seção 2 Partições da unidade 77

4) Conseqüência imediata de 3). El


O suporte de uma aplicação f: X —>lie, X c R', é o conjunto

supp.f = {x E X; X = fim Xk ,Xk E X, .f(xk) 0}.

Noutras palavras, supp.f é o fecho (em X) do conjunto dos pontos x E X


tais que f(x)$ 0.
Analogamente se define o suporte de uma forma diferencial.
Uma partição da unidade de classe Ck numa superfície M é uma
família (eA)ÀEL de funções 5, M —> R, de classe Ck, com as seguintes
propriedades:
1) eÀ(x) > O para todo ÀEL e todo x E M;
2) A família (supp.eA)AEL é localmente finita;
3) Para todo x E M, tem-se C(x) = 1.
ÀEL
Quanto a 3), vale observar que, em virtude de 2), a superfície M é
coberta por abertos U, em cada um dos quais > eÀ se reduz a uma
ÀEL
soma finita eÀ, + • • • + (COM os mesmos índices Xi em todos os pontos
de U).
Teorema 5. A toda cobertura aberta C = (C),)AEL de uma superfície
M, de classe C", corresponde uma partição da unidade > eÀ = 1, de
Aet
classe Ck, tal que supp.eA C CA para todo À E L.
A demonstração do Teorema 5 será precedida de três lemas.
Lema 2. Seja A um aberto na superfície M, de classe C". Para cada
ponto p E A existem abertos V, W, com pEWcVcA e uma função
M --> R de classe C", come(x) = 1 se x E W, 0< e(X) < 1 se x E V
e e(x) = O se x M — V.
Demonstração: Seja : Zo --> Z c A uma parametrização de classe
Ck. Mediante uma translação, podemos supor que O E Zo e 1P(0) = P.
Escrevendo B(r) em vez de B(0; r), vemos que existe r > O tal que
B(r) c Z0 . Então cp : B(3) —> M, definida por cp(u) = • u), é
uma parametrização de classe Ck, com y(0) = p. Pondo W = yo(B(1)),
V = cp(B(2)) e U = cp(B(3)), temospEWcVcUc A. Afimde
definir e, utilizaremos a função P: IR --> IR, introduzida na Seção 2 do
Capítulo 3. Como se viu, IR —› IR é de classe Cca, com O < p(t) < 1
para todo t E IR, ,3(t) = 1 se t > 1 e ,8(t) = O se t < O. Então a função
78 Ohne Titel Cap. 4

e* : Rm —> R, definida por C(u) = [3(2 — H), é de classe C' e tem as


seguintes propriedades: O < C(u) < 1 para todo u E Rm, e(u)= 1 se
u E B(1) e C(u) = O se u B(2).

Figura 20. Gráfico da função e*.

Concluímos a demonstração do lema com a definição de C: M —> R.


Pomos e = e* o y' em U e e(x) = O para todo x E M — U. El
Observação 3. Manteremos as notações W = cp(B(1)), V = y(B(2))
e U = y(B(3)). Sempre que houver conveniência, escreveremos ew em
vez de e, e chamaremos ew a função auxiliar associada à parametrização
cp. Sem perda de generalidade, podemos sempre supor que Uc M é
compacto. Note-se que, pela própria construção V = cp(B[0; 2]) já é
compacto.
Lema 3. Toda superfície M se escreve como reunião enumerável M =
U Ki de compactos tais que Ki c int. Ki+1 para todo i E N.
ieN
Demonstração: Cada ponto x E M pertence a um aberto Vx =
(p(B(2)) , como no Lema 2, com Vx compacto. Pelo Teorema de Lindelõf,
a cobertura M = U Vx tem uma subcobertura enumerável M =U V.
xcm
Cada Li = Vi é compacto e ainda se tem M = U L. Definimos os Ki
Seção 2 Partições da unidade 79

por indução. Pomos K1 = Li e, admitindo obtidos K1, . com


Ki C int. Ki+i para j 1, , i — 1 e Ki Li U • • • U Li , cobrimos o
compacto K U Li+i com um número finito de conjuntos Vi e chamamos
de Ki+i a reunião dos Lj correspondentes. O
Observação. Se M é compacta, o Lema 3 é trivial: podemos tomar
= M para todo i. Lembre-se também que int. Ki significa o interior
de Ki relativamente a M.

Figura 21. Refinando adequadamente uma cobertura aberta numa


superfície.

Sejam C CA),\EL e ei= (C'P )µELI coberturas do conjunto X. Diz-


=
(
se que C refina C', ou é um refinamento de C', quando para todo À E L
existe um p E L' tal que C5, c C.. A família (supp. e),)AEL dos suportes
das funções e), numa partição da unidade E 6,= 1 é uma cobertura da
AEL
superfície M. Quando essa cobertura refina uma outra C = (Cfp)peL„
diz-se que a partição da unidade é subordinada à cobertura C. Se L' = L
e, além disso, tem-se supp. e), C CA para todo À E L, diz-se que a
partição da unidade E eÀ = 1 é estritamente subordinada à cober-
AeL
tura C.
O Teorema 5 diz, portanto, que toda cobertura aberta de uma su-
perfície possui uma partição da unidade estritamente subordinada a ela.
80 Ohne Titel Cap. 4

Lema 4. Toda cobertura aberta C de uma superfície M de classe Ck


pode ser refinada por uma cobertura aberta localmente finita, formada
por imagens de parametrizações 8(3) —> U, de classe Ck em M, tais
que os abertos W = ço(B(1)) ainda cobrem M.
Demonstração: Usando o Lema 3, escrevemos M = U K, onde cada
Ki é compacto e Ki c int. Ki+i para todo i E N. Todo ponto x E K2
pertence a algum C e C. Aplicando o Lema 2, com A = C n int 1(3 ,
concluímos que todo x em K2 pertence a um conjunto W2x tal que o
U2x correspondente está contido em int. K3 e em algum aberto de C.
li
Da cobertura K2 C U W2x extraímos uma subcobertura finita. Seja C2 E
a cobertura finita de K2 formada pelos conjuntos U2x correspondentes.
à
Analogamente, cada ponto x da "faixa" compacta K3 —int. K2 pertence a
algum conjunto W3x (na forma do Lema 2) tal que o U3x correspondente
está contido em int. K4 em algum conjunto de C e é disjunto de K1 .
Da cobertura 1(3 — int. K2 C U W3x extraímos uma subcobertura
finita. Seja C3 a cobertura finita de 1C3 — int. K2 formada pelos con-
juntos U3x correspondentes. Prosseguindo analogamente, obtemos, para
cada i > 3, uma cobertura finita Ci da faixa compacta Ki — int. Ki_1
por abertos do tipo U, cada um deles contido em int. Ki+.1 , em algum
conjunto de C e disjunto de Ki_2 de modo que os W correspondentes
ainda cobrem a faixa. A reunião C' -•=.- C2 U • • • UCi u. . . é uma cobertura
aberta de M por conjuntos do tipo U, tal que os W correspondentes
ainda cobrem M. Cada U E C' pertence a algum Ci , logo intersecta, no
máximo, um número finito de outros conjuntos de C, a saber, os per-
tencentes a Ci_1 U • • • U Ci+2 . Portanto C' é um refinamento localmente
finito der?.
Demonstração do Teorema 5. Pelo Lema 4, existe um refinamento
localmente finito C' =- (Ui)ieN da cobertura dada C, com Ui =
Para cada i E N, seja et : M --> R a função auxiliar de classe Ck as-
sociada à parametrização yi . Os suportes Vi = supp. et formam uma
cobertura localmente finita de M, que refina C. Logo e* -= Eer é uma
função de classe Ck, positiva em todos os pontos de M. As funções
77j: M —> IR, definidas por 77i = we, cumprem E77i = 1, supp. = Vi e
constituem uma partição da unidade de classe Ck, subordinada a C. Para
obter uma partição estritamente subordinada a C, comecemos definindo
uma "função escolha" f: N —> L, isto é, para cada i E N escolhamos um C
índice À = f(i) E L tal que supp. 77i = Vi C CÁ . Para cada À E L, e
Seção 2 Partições da unidade 81

ponhamos e), = E 77i . (Bem entendido: e-A a-- O quando f -1(A) = 0.)
COM OS Vi formam uma família localmente finita, temos

supp. ), = U U Vi C CÃ .
f(i)=A .f(i)=A

A família (supp.e4 AEL é localmente finita. Com efeito, cada ponto


p E M tem uma vizinhança Vp que intersecta no máximo Vi1,
logo Vp intersecta supp. e), somente quando À = f (ii), , ou A = f (ii).
Então E eÀ = 1 é uma partição da unidade estritamente subordinada
AC/e
à cobertura C • o
=
(CA)AeL
As partições da unidade servem para definir a integral de uma forma
diferencial numa superfície. Antes disso, vamos utilizá-las a fim de de-
monstrar o teorema de aproximação de aplicações contínuas por aplica-
ções diferenciáveis.
Teorema 6. Seja f: M —› N uma aplicação contínua entre superfícies
M, de classe Ck , e N, de classe Ck+1. Dada qualquer função contínua
positiva E: M —› R+, existe uma aplicação g: M —> N, de classe Ck , tal
que If (x) — g(x)i < e(x) para todo x EM.
Demonstração: Consideremos inicialmente o caso particular em que
N = R'. Para todo p E M existe um aberto Up , com p E Up c M, tal
que I f (x) — f (p)i < e(x) para qualquer x e U,. (Com efeito, a função
contínua 17p : X E(X) - if(X) - f(p)1 é positiva quando x = p, logo é
positiva numa vizinhança Up de p em M.) Seja E E = 1 uma partição
pEM
da unidade de classe Ck, estritamente subordinada à cobertura M
Up . Definimos então a aplicação g: M —+ W, de classe Ck, pondo,
/Jen/
para cada x EM, g(x) = E ep(x)•f(p). Como f(x) = 4,(x)• f (x),
pEM pEM
vemos que

If(x)-11(x)1 ep(x)•if(x)— f(p)j< ep(1) x) = E(x), V X E M.


peM pEM

O sinal < acima se deve ao fato de que, para todo x E M, ou x E Up


e neste caso jf(x) — f(p)! < c(x), ou então ep(x) = O.
82 Ohne Titel Cap. 4

No caso geral, temos N C a s para algum s. Seja T/5 (N) uma vizi-
nhança tubular de N. Definamos a função contínua a: M —> R+ pondo,
para todo x E M, a(x) = d(f(x),Rs — Vs(N)). Para todo z E R",
lz — f(x)I < a(x) implica z E 175 (N) . Sem perda de generalidade,
podemos supor que e(x) < a(x) para todo x E M. Como vimos acima,
existe go : M —> R', de classe Ck, tal que, para todo x E M, vale
lgo(x)— f(x)i < e(x), logo go(x) E Vs(N). Como N é de classe Ck+1,
a projeção natural ir: T/5 (N) —> N é de classe Ck. Assim, a aplicação
g: M —> N, dada por g(x) = 7r(go(x)), x E M, é de classe Ck. Para
todo x e M tem-se
_12 _12L s(x) =_ E(x)•
Ff(x) — g(x)I if (x) — go(x) i + lgo(x) — g(x) I < 8.(x)

De fato, lgo(x) — g (x)i < lgo(x) — f (x) I pois f (x) E Neg (x) é o único
ponto de N que está situado à distância mínima de go(x). O

Observação 4. Quando M é compacta, a função E pode ser tomada


constante e então g é uma aproximação uniforme de f.
Como conseqüência do teorema de aproximação, daremos agora a
forma definitiva do Teorema 2, estabelecendo a vizinhança tubular 14(M)
na qual e: M ---> R+ é de classe Ck quando a superfície M também for.
Teorema 7. Seja M C Rm+n uma superfície de dimensão m e classe
Ck (k > 2). Existe uma função positiva e: M —› R+, de classe Ck, com
as seguintes propriedades:
1) Para quaisquer pontos x y em M, as bolas normais 131- (x; e(x))
e 13-1-(y; e(y)) são disjuntas;
2) A reunião VE(M) = U B±(x;e(x)) é um aberto em Wn+n, cha-
xem
mado a vizinhança tubular de raio E da superfície M;
3) A aplicação ir: V(M) --> M, definida por 7r(z) = x se z E
B(x;e(x)), é de classe Ck-1;
4) Para todo z E Ve(M), 7r(z) é o único ponto de M situado à
distância mínima dez. (Ou seja, se y EM ey 7r(z) então lz-7r(z)¡ <
iz Yi.)
Demonstração: Pelo Teorema 2, existe uma vizinhança tubular V5 (M) ,
com 6: M —> R+ contínua. Pelo Teorema 6, existe e: M —> R de
1 1
classe Ck tal que le(x) — — 5(x)i < — 5(x) para todo x e M, logo
2 2
Seção 2 Partições da unidade 83

O G e(x) < 5(x), o que assegura Bi (x; e(x)) c Bi (x; 5(x)), logo
V(M) = U (x; e(x)) atende as exigências do enunciado acima. E
xEM

Observação 5. Na demonstração do Teorema 8, utilizamos a vizinhan-


ça V da superfície N, introduzida durante a demonstração do Teorema
2. V é a reunião das vizinhanças tubulares locais de N. A vizinhança
tubular V(N) =U B-1-(x; e(x)) é definida a partir da função contínua
xEN
positiva e: N —> R+, dada por e(x) = d(x,IRs — V), onde N C Rs. A
projeção natural 71-: V —> N é bem definida e tem classe Ck se N é de
classe C'+1. V goza de uma propriedade que V(N) não possui, a saber:
se yENezE R' são tais que iz — yj < e(y) então z E V (já que a
distância de um ponto qualquer de IRs —V a y é> e(y)). Segue-se daí
que, cumprida esta desigualdade, o segmento de reta [y, z] está contido
em V, logo pode ser projetado em N por meio de 7Í.
Teorema 8. Sejam f, g: M —> N aplicações de classe Ck entre as
superfícies M, de classe Ck, e N, de classe Ck+1. Se existe uma ho-
motopia H: M x [0,1] —> N (meramente contínua) entre f e g, existe
também uma homotopia de classe Ck entre estas aplicações.
Demonstração: Sem mudar a notação, podemos considerar a aplicação
H como definida em M x R, pondo H(x , t) = f(x) se t<OeH (x, t) =
g(x) se t > 1. Tomamos uma vizinhança tubular V(N) c V onde V
é a reunião das vizinhanças tubulares locais, conforme mencionado na
Observação 5 acima. Pelo Teorema 6, obtemos uma aplicação H: M x
IR —> N, de classe Ck, tal que H(x, t) — H(x,t)1 < e(f(x)) para todo
(x, t) E M x R. Então H fornece uma homotopia de classe Ck entre
as aplicações fp: M —> N, onde f(x) = H(x,0) e g (x) = H(x, 1).
Para todo x E M, vale if(x)— f(x)1 < e( f (x)), logo o segmento de reta
[f(x), f(x)] está contido em V. A aplicação K: M x [O, 1] —> N, definida
por K (x , t) -=- 7r((1 — t)f(x) tf(x)), onde 7r: V—> N é a projeção
natural, é uma homotopia de classe Ck entre f e 1. Analogamente se
mostra que 9 g em classe Ck. Então temos f f,f2-_ge 9- ,- g
com homotopias de classe Ck . Por transitividade, resulta que f é Ck-
homotópica a g. O
A partir deste teorema, quando afirmarmos que as aplicações
f,g:M —>Nsão homotópicas, não haverá necessidade de especificar: se
e
elas são de classe Ck, tanto faz dizer que a homotopia é contínua como
o que é Ck.
84 Ohne Titel Cap. 4

3 O Teorema de Jordan-Brouwer

Uma curva de Jordan é um conjunto C homeomorfo à circunferência


unitária Si . Em 1856, C. Jordan demonstrou que se C c R2 é uma curva
de Jordan então R2 — C tem duas componentes conexas, das quais C é
a fronteira comum. Este resultado foi estendido por L.E.J. Brouwer em
1912, para hiperfícies compactas e conexas de classe C° em Rm+1. Pro-
varemos aqui o Teorema de Jordan-Brouwer para hiperfícies orientáveis
de classe Ck, k > 3. Antes, umas considerações preparatórias.
Se 8: M —> R+ é uma função positiva de classe Ck com 8(x) <s(x)
para todo x E M (por exemplo, 8(x) = e(x)/2) então as bolas normais
fechadas BI [x; 8(x)] e /3±[y; ô(y)], com centros em quaisquer pontos
distintos x, y E M, são disjuntas e podemos considerar, ao lado da vi-
zinhança tubular aberta Ve (M), também a vizinhança tubular fechada

V,5[M] = U 13±[x; (5(x)] c Vg(M).


xeM

Para uso no Teorema 9, a seguir, estabeleceremos o


Lema 5. Se o subconjunto M C R m+n é fechado então V5[M] também é.
Demonstração: Como foi observado antes, podemos admitir que O <
8(x) < 1 para todo x E M. Seja zo = lim z , zk E Vs[M]. Devemos
provar que zo E V4M]. Indicando ainda com 7r : Vis [M] --> M a restrição
da projeção de T/6 (M) sobre M, seja xk = 7r(zk ). Então lzk — xk <
5(xk) < 1 para todo k E N. Para todo k suficientemente grande, vale
também lzk — zç < 1. Logo a seqüência (xk) é limitada, pois

ixk I — zk I + lzk — zoi + Izol <1+ 1+ 141.


Passando a uma subseqüência (x4rEN„ temos lim xr = xo E M. Obvia-
reN'
mente, lim Zr = zo. Ora, para todo r E N', temos d(zr, M) = lzr — xr i <
rEN'
(5(x). Passando ao limite, vem d(zo, M) = Izo — tol < 8(x0). Assim,
xo E M está situado à distâ,ncia mínima de z0 . Logo zo — xo E TxD M-L.
E, como Izo — xo < 8(x0), segue-se que zo E B I [xo, 8(x0)], ou seja,
zo E 14/ [M]. El

Teorema 9 (Jordan-Brouwer diferenciável.) Seja M c Ir+ 1 uma hi-


perfície orientável conexa, de classe Ck (k > 3), que é um subconjunto
Seção 3 O Teorema de Jordan-Brouwer 85

fechado deRm+1. Então Rm+1 - M = AUB é a reunião de dois abertos


conexos disjuntos, dos quais M é a fronteira comum.
Demonstração: A essência da demonstração consiste em definir uma
função f: Rm+1 --> IR, de classe Ck-1, tal que M = f -1(0) e grad f (x)
O para todo x E M. Começamos com uma vizinhança tubular V2E (M),
que contém a vizinhança tubular fechada Ve[M]. Como M é orientável,
existe um campo w: M -› 1Rm+1 de vetores normais não-nulos, de classe
Ck-1. Substituindo w(x) por 2E(x) • w(x)/jw(x)I, podemos admitir que
jw(x)j = 26(x) para todo x E M. A aplicação h: M x (-2,2) -> V2e (M),
definida por h(x,t) = x + t • w(x), é um difeomorfismo de classe Ck-1,
como foi visto na demonstração do Teorema 1. Temos h(M x {0}) = M
e o complementar de M x {0} em M x (-2, 2) tem duas componentes
conexas: M x (-2,0) e M X (0,2). Logo V2(M) - M tem duas compo-
nentes conexas, que são os conjuntos P = {x+t•w(x);x E M, O <t < 2}
e N = {x + t w(x); x E M, -2 < t < 0}.
Agora lançamos mão de uma função À: IR -> IR, de classe Cec), que
nos permite passar suavemente da constante -1 para a constante +1.
Tem-se A(t) = -1 se t < -1, A(t) = 1 quando t > 1 e A/ (t) > O se
-1 <t < 1. (Veja abaixo a definição precisa de A.)
Definimos a função g: V2 (M) -› IR pondo g(x + t • w(x)) = A(t) para
todo xEMe todo t E (-2,2).
Tem-se g = À °p2 o h-1, onde p2 : M x (-2,2) -> Ré a projeção
p2(x,t) = t. Logo g é de classe Ck-1, é positiva em P, negativa em
N, anula-se sobre M e, para todo x E M, grad g(x)= A'(0) • w(x) O.
Vemos ainda que g é constante, igual a 1, nos pontos do conjunto conexo
= {x + t • w(x);x E M,1 < t < 2} e igual a -1 nos pontos de
= {x + t • w(x);x E M, -2 <t < -1}. Portanto o gradiente de g se
anula em todos os pontos de 1726(M) - Ve(M).
A função f:Rm+1 -› R que buscamos vai coincidir com g em 172E (M)
e não se anulará fora de M. Para obtê-la, consideramos o campo de
vetores v: Rm+1 -> Rm+1, definido por v(x) = grad g(x) se x E V2e(M)
e v(x) -= O nos demais pontos x de Rm+1. O campo v é de classe Ck-2 e,
se escrevemos v(x) = (ai (x), , am+i(x)), vemos que são cumpridas as
condições de integrabilidade 0ai/8x3 = saailOxi em todos os pontos de
V26(M) pois aí v = grad g e, nos demais pontos de Rm+1 porque neles
e se anula identicamente. Pelo Corolário 5, Capítulo 1, como Rm+1 é
simplesmente conexo, existe uma função f: Wn+1 -› R, de classe Ck-1,
tal que v = grad f. No conjunto conexo V2 (M), as funções f e g têm o
86 Ohne Titel Cap. 4

mesmo gradiente. Logo, subtraindo de f uma constante, se necessário,


podemos assegurar que f e g coincidem em V2,(M).

—1-

Figura 22. A função À.

Resta mostrar que f: Rni+1- —> IR não se anula fora de M. Seja


z Rm+1 — M. Se z V2,(M) então z E P, e daí f (z) > O, ou
zENe tem-se f (z) < O. Se, entretanto, z 0 V26(M), seja y um ponto
do conjunto fechado Ve[M] situado à distância mínima de z. Todos os
pontos do segmento de reta semi-aberto [z, y) estão mais próximos de
z do que o ponto y, logo não pertencem a VE[M]. Conseqüentemente,
o gradiente de f se anula e f é constante no segmento [z, y]. Como
f (y) = ±1, segue-se que f (z) = +1.
Obtida a função f com as propriedades desejadas, escrevemos Rm+l—
M=AUB, onde A = {z E likm+1; f (z) > O} e B = {z E 1e +1; f (z) <
0}. Os conjuntos A e B são abertos disjuntos. Além disso, toda função
contínua se anula na fronteira do conjunto dos pontos onde é positiva
(respect. negativa), logo fr. A U fr. B c M. Por outro lado, toda vi-
zinhança de um ponto de M contém pontos de A e de B, portanto
M c fr. A n fr. B. Segue-se que fr. A = fr. B = M.
Para concluir, mostremos que A é conexo. (A conexidade de B se
prova do mesmo modo.) Seja, então, z E A, isto é, f(z) > O. Como
vimos acima, se y E V[M] é tal que lz — yl = d(z,VE[M]) então a função
f é constante ao longo do segmento de reta [z, yl, logo f(y) > O e daí
y E P. Assim, todo ponto de A pode ser ligado por um caminho contido
em A a um ponto do conjunto conexo P = h(M x (O, 2)). (Aqui usamos
a conexidade de M.) Portanto A é conexo.
Seção 3 O Teorema de Jordan-Brouwer 87

Definição da função À: R —> IR


Seja a: R —> R a função de classe C' definida por a(t) = O se iti > 1
e a(t) = exp(11(t2 — 1)) se —1 < t < 1. Seja ainda A = f a(t) dt.
Pomos então À(t) = (1/A) • fd a(s) da e obtemos uma função À: IR —> R,
de classe C', tal que À(t) = 1 se t > 1, A(t) = —1 quando t < —1, À é
crescente, com derivada positiva no intervalo (-1,1) e À(0) = O.
Exemplo 5. Se M não é conexa, o complementar R772+1 — M é ainda
desconexo, como a própria demonstração acima prova (pois Rul+1 —
M=AUBé uma cisão) mas A ou B podem ser desconexos, como no
caso em que M é a reunião de duas ou mais circunferências disjuntas
no plano R2. Prova-se em Topologia Algébrica, como conseqüência do
Teorema de Dualidade de Alexander, que se a hiperfície orientável M
tem r componentes conexas, seu complementar Rm+1 — M tem r 1.
Exemplo 6. Seja X c 11V o conjunto formado pela circunferência
unitária S1 reunida com o intervalo [1, 2] do eixo das abcissas. Então
1E82 — X tem duas componentes conexas mas X é a fronteira completa
de apenas uma delas.
Se a hiperfície conexa orientável M C Rm+1 é compacta então na
cisão Rm+1 —M=AU.B uma das componentes conexas é limitada e
a outra é ilimitada. Com efeito, existe uma bola D em Rm+1 contendo
o compacto M. O conjunto conexo Rm+1 — D cif:rd-1 — M deve estar
contido numa das componentes, digamos A. Logo A é ilimitada. Como
todo conjunto ilimitado deve ter pontbs em comum com Rn+1 — D,
portanto• com A, e B é disjunto de A, segue-se que B é limitado (de
fato, B C D).

APÊNDICE: Toda hiperfície compacta é orientável

Na verdade, vale um pouco mais: se a hiperfície M c 1Rm+1 é um sub-


conjunto fechado do espaço euclidiano, então M é orientável. Isto será
demonstrado agora, por desencargo de consciência. Sem embargo, con-
tinuaremos usando a expressão "hiperfície compacta orientável" porque
achamos que se trata de um pleonasmo inofensivo.
Seja X c R'. Diremos que duas funções f, g: X —› IR coincidem
localmente a menos do sinal quando todo x E X tem uma vizinhança V
tal que f IV = +giV. (Escrevemos = ±/P quando as funções reais 0,
it» têm o mesmo domínio D e tem-se 0(y) = zP(y) para todo y E D, ou
88 Ohne The' Cap. 4

então Ø(y) = -0(y) para todo y E 13.)

Lema A. Seja X C Ir conexo. Se f, g: X -> coincidem localmente


a menos do sinal e f -1(0) tem interior vazio então f = 1g.
Demonstração: Sejam E = {x e X; f(x) = g(x)} e U = int. E. Para
cada x E U, seja V uma vizinhança de x tal que f1V = ±g1V . Então
int(V n U) 0, logo existe y E VnU tal que O f(y) = g(y). Isto
mostra que frit = giV donde x E U. Assim, o conjunto aberto U é
também fechado, logo U = X ou U = 0. Isto significa que ou f = g
ou o conjunto E tem interior vazio. Usando -g em vez de g, segue-se
que ou f = -g ou o conjunto F = {x E X; f(x) = -g(x)} tem interior
vazio. Como X = EU F, devemos ter f = ±g.

Observação. As funções f, g não precisam ser contínuas. Quando


o interior de f -1(0) não é vazio, é fácil dar exemplos em que f e g
coincidem localmente a menos do sinal masf$gef$-g.
O lema seguinte contém o processo fundamental de colagem.

Lema B. Seja A uma cobertura aberta de R'. Para cada a E A, seja


dada uma função fa : a -> R, de classe Ck, com int. f; 1(0) = 0. Além
disso, sempre que aina2 0, as funções fai e fa, coincidem localmente
a menos do sinal em ai n a2. Nestas condições, existe uma função
f -> IR, de classe Ck tal que, para cada a E A, fa e fia coincidem
localmente a menos do sinal.
Demonstração: Para cada x E Rn seja U = Bo U Bi U • • • U Bi. uma
cobertura do segmento de reta [O, x] por bolas abertas, onde cada Bi está
contida em algum ai E A e BinBi_i $ 0. Descartando bolas supérfluas,
cada Bi intersectará [O, x] e .8i n B = 0 se i - ji > 1. Ponhamos
f(x) = f(x), onde fr é a última das funções h: B0 u • • • u Bi -> IR
(i = 0,1, , r), de classe Ck, definidas sucessivamente por filBi =
±fai IBi , o sinal sendo escolhido de modo que A coincida com no
conjunto conexo Bi n Bi_1 . Fixemos fo de uma vez por todas. Se
g,: V -> R for construída como fr porém a partir de outra cobertura
V= BoU BçU• • • U P [O, x] então VnUé conexo. Como fo go,
segue-se do Lema A que fr = g, em V n U. Portanto fr (x) =
de modo que a função f: -> R está bem definida. Seja agora 2e =
dist([0, x], R" - U). Se y E B(x; E) e W = Bo U B/11 U • • • U [0,
onde cada 14 tem raio E e centro sobre [O, y], então W C U. Pelo Lema
A, a função hi: W -> IR, definida como acima, coincide com fr IW, logo
Seção 4 Exercícios 89

f(y) = ht (y) = fr (y). Isto significa que f coincide com fr na bola


B(x; e), logo f E Ck.

Teorema. Seja M c ir urna hiperfície de classe Ck (k > 2) que é um


subconjunto fechado do espaço euclidiano. Existe uma função f: R' -->
R, de classe Ck-1, tal que M = f -1(0) e grad f (x) O para todo x E M.

Demonstração: Seja A: IR —> IR uma função C' tal que A(t) = —1


se t < —1, Y(t) > O se —1 < t < 1, 40) = O e A(—t) = --,\(t). Seja
V2(M) uma vizinhança tubular de M. A fim de aplicar o Lema B,
cubramos o espaço Ir com os seguintes conjuntos abertos a. Um deles
é a* = R' — Vd/VI]. Para obter os outros, cubramos M com abertos
U' c M, em cada um dos quais está definido um campo contínuo (logo
Ck-1) de vetores normais unitários w: U, ---> R'. Para cada U' seja
= V2,(U/) = {x tw(x);x E CE, !ti < 2E(x)}. A função fa : a—>
IR, dada por fa(x tw(x)) = A(tIs(x)), é de classe C' -1. Ponhamos
ainda fa. : a* --> IR constante, igual a 1. As hipóteses do Lema B são
facilmente verificadas, o que nos dá uma função f: R' —> R, de classe
com f -1(0) = Me grad f(x) = (°) w(x) para todo x e M, logo
e(x)
grad f (x) O.
Corolário 1. Toda hiperfície M C Ir de classe Ck (k > 2), que é um
subconjunto fechado de Ir, é orientável.
Com efeito, M é a imagem inversa de um valor regular de f. E

4 Exercícios

Seção 1: A vizinhança tubular


1. Em cada um dos casos abaixo, determinar o maior valor da constante e > O
tal que 14(M) seja uma vizinhança tubular de M.
(i) M c lir é uma esfera de raio r;
(ii) M C R' é urna variedade afim m-dimensional;
(iii) M c R2 é a parábola de equação y = x2.
2. Diz-se que os conjuntos X C Ir e Y c R' têm o mesmo tipo de homoto-
pia quando existem aplicações contínuas f: X —› Y e g:Y —› X tais que
gof:X—>X e f o g: Y —* Y são ambas homotópicas à aplicação identidade.
Então f e g se chamam equivalências homotópicas, uma inversa da outra.
-gr
90 Ohne Titel Cap.4

(i) Defina tipo de homotopia Ck (O < k < co);


(ii) Prove que os seguintes pares de superfícies têm o mesmo tipo de homotopia

(a) Um aberto convexo e um ponto;


(b) Sn e Rn+1 — {O};
(c) M x Rn- e M, onde M é uma superfície Ca);
(d) U e C, onde U = {(x,y,z) E R3; X2 + y2 > O} e C = S1 x R é um
cilindro.
3. Seja f: M —› N uma equivalência homotópica C . Prove que uma forma
diferencial fechada w em N é exata se, e somente se, o pullback f*ca é uma
forma exata em M.
4. Prove que toda forma diferencial fechada de grau 2 no aberto U = {(x,y,z) E
IR3; x2 + y2 > O} é exata e que a forma fechada de grau 1 em U, dada por
w(x, y, z) = (—ydx + xdy)/(x2 + y2) não é exata.
5. Prove que a vizinhança tubular V(M) da superfície M c R' é difeomorfa a
uma vizinhança da seção nula /140 = {(p, O) e vM;p E M} do fibrado normal
vM. (Veja Exercício 3, Seção 2, Capítulo 7, Volume 2.) Prove também que
14(M) tem o mesmo tipo de homotopia de M.
Seção 2: Partições da unidade
1. Sejam M=UCV uma superfície C e w uma forma diferencial de classe
C' e grau r, definida na interseção Un V dos abertos U,V C M. Prove que
existem formas de grau r e classe C', a em U e fi em V, tais que a — = w
em Un V. Se w é fechada, prove que da e dP são respectivamente as restrições
aUea V de uma forma 7, de grau r + 1 e classe C' em M.
2. Seja F = U FÀ a reunião de uma família localmente finita de conjuntos
AEL
fechados FÀ contidos na superfície M. Se a aplicação f: F —› R' é tal que
fiFÀ é contínua para cada A E L, prove que f é contínua.
3. Prove que se duas superfícies M,N, de classe Ck (k > 2), têm o mesmo tipo
de homotopia C° então elas têm o mesmo tipo de homotopia Ck .
4. Sejam FCUCM onde F é fechado e U é aberto na superfície M, de classe
Ck . Prove que existe f: M —› IR de classe Ck tal que f(x) = 1 para todo
xEFef(x) = O para todo x E M— U.
5. Seja cp: U —› IR' de classe Ck no subconjunto aberto U da superfície M, de
classe Ck . Dado um subconjunto F C U, fechado em M, prove que existe uma
aplicação 4o: M —> Ir, de classe Ck , tal que 4)(x) = ço(x) para todo x E F.

Seção 3: O Teorema de Jordan-Brouwer


1. Se X é um subconjunto próprio de uma hiperfície compacta e conexa M C IR',
prove que R' — X é conexo.
2. Dê exemplo de duas funções contínuas f, g: IR IR que coincidem localmente
a menos do sinal mas não se tem f = ±g.
Seção 4 Exercícios 91

3. Seja M uma superfície compacta e conexa, de classe Ck (k > 3) e dimensão


— 1, contida na esfera Sn. Prove que 5"." — AI tem duas componentes conexas
que têm M como fronteira comum.
4. Seja M o conjunto das matrizes n X r4 com determinante 1. Quantas compo-
2
nentes conexas tem Rn — M?
5

O Teorema de Stokes

1 Integral de superfície

A fim de definir a integral de uma forma diferencial de grau m sobre uma


superfície m-dimensional orientada, consideraremos primeiro o caso de
uma forma contínua w: U --> 21m(Rni), num aberto U c W. Para todo
x EU, temos w(x) = a(x)•dxiA• • • Adx,, onde a: U—> IR é contínua.
Dado um compacto J -mensurável X c U, pomos, por definição,

fx w=f a(x)dx.

Se h: U —> V é um difeomorfismo entre os abertos U, V c 11Vm vamos,


por conveniência, indicar com y = (yi, , yrn) os pontos de V e por
dyi, , dym as diferenciais de suas coordenadas. Os pontos de U serão
x = (xi, , xm) e dxi, , dxm as diferenciais correspondentes. Dada a
forma diferencial w(y) = a(y) • dyi A • • • A dym em V, sabemos que, para
todo xE U, o pullback h*co tem o valor

(h*w)(x) = a(h(x)) • det Jh(x) • dxi A • • • A dx, ,

onde det Jh(x) é o determinante da matriz jacobiaLa de h no ponto x.


Em face da definição dada, o Teorema de Mudança de Variáveis
significa f x h*co = f h(x) w (V. Capítulo 9 do Volume 2), desde que h
preserve orientação, ou seja, det Jh(x) > O para todo x E U.
Em seguida, consideramos o caso em que co é uma forma de grau
m contínua, com suporte compacto contido num aberto U, imagem de
Seção 1 Integral de superfície 93

uma parametrização positiva cp: Uo --> U, na superfície orientada M, de


dimensão m.
Então ips`w é uma forma de grau m no aberto U0 C kr, com suporte
compacto, igual a cp-1(supp. w).
Seja X um conjunto compacto J -mensurável, tal que supp. cp*co c
X c Uo. (Por exemplo, podemos tomar X como sendo a reunião de um
número finito de bolas fechadas com centros em pontos de supp. yo*cú e
raios iguais à distância de supp. (p*w a R' - U.)
Então definimos a integral de w sobre M pondo

Esta definição não depende do conjunto X tomado pois se Y é outro


conjunto nas mesmas condições, a forma ip*o.) se anula fora de X n Y.
Resta ver que f m w, conforme definida acima, não depende da pa-
rametrização y. De fato, se zP: Vo V for outra parametrização po-
sitiva em M, com supp. w C V, tomamos X na definição anterior tal
que supp. cp*cc., c y-1(U n V) e, considerando o compacto J -mensurável
e(X), onde e = 2P-1 o cp: cp-1(U n v) Y' (U n V), vemos que
f e(x) /P*w = fx y*co, em virtude do que observamos acima, (tomando
agora e no lugar de h) pois e = 1P-1 o y nos dá cp* = e o 0*, portanto
f x y*o.; = fx e*IP*w = rw, levando em conta que, sendo cp e ri»
fe(x)
ambas positivas, o difeomorlismo e tem determinante jacobiano positivo
em todos os pontos de seu domínio yo-1(U n V).
Portanto, é legítima a definição da integral f m w quando w é uma
forma contínua de grau m = dim M, com suporte compacto, contido
numa vizinhança parametrizada na superfície orientada M.
É claro que se a forma contínua w é não-negativa, mas não identi-
camente nula, então f m w > O. Analogamente, se o.; <O, mas w não se
anula em todos os pontos de M, tem-se fm w < O.
Seja M uma superfície orientada de dimensão m. Num ponto x E M,
uma base {vi, , 'um} C TM chama-se positiva quando, para qualquer
parametrização positiva y: Uo U c M , com x = ça(n) E U, tem-se
aço
vi = E aii r,-(u), com det[aii] > O.
i=1 Grui
Se f:M-->Néum difeomorfismo local de M noutra superfície
orientada N, diz-se que f preserva orientação quando, para todo x E M,
a derivada ,r(x): TM --> Tf(x)N transforma bases positivas de TM em
bases positivas de Tf(x)N.
'Ir

94 O Teorema de Stokes Cap. 5

Quando, para cada x E M, a derivada f'(x) transforma bases po-


sitivas em bases negativas, diz-se que o difeomorfismo local f inverte
orientação.
Caso a superfície M seja conexa, um difeomorfismo local de M nou-
tra superfície orientada N preserva ou inverte orientação. (Ou seja, se a
derivada f(x) leva bases positivas em bases positivas num ponto x E M
então faz o mesmo em todos os pontos de M.) Se M é desconexa, f
pode preservar orientação numa componente e inverter noutra.
Teorema 1. Sejam M, N superfícies orientadas, h: M —> N um dife-
omorfismo que preserva orientação e co uma forma contínua em N, de
grau m = dim N, com suporte compacto, contido na imagem de uma
parametrização. Então fm htú) = fN W.
Demonstração: Seja zi): Vo —> V C N uma parametrização positiva
tal que supp. co C V. Tomando U = h-1(V), e cp = h-1 00: Vo —> U,
vemos que h*w é uma forma contínua de grau m = dim M, cujo suporte
h-1- (supp. w) é compacto e contido na imagem da parametrização po-
sitiva cp: Vo --> U em M. Seja Y um conjunto compacto J -mensurável
em Rn, tal que 1P-1(supp. ui) = cp-1(supp. h*c.o) C Y c Vo. Então, como
h o ço = 0, temos:

h*co = f (h o cp)* w = f stp w= f co. o

Se o difeomorfismo h inverte a orientação então tem-se k l h


— !Ar w •
Se as superfícies M e N não são conexas, como o difeomorfismo h
pode preservar a orientação em algumas componentes de M e inverter
noutras, não se pode afirmar em geral qual a relação entre f m h*u.) e
IN w•
Na etapa seguinte, definiremos a integral de uma forma contínua de
grau m = dim M, com suporte compacto numa superficie orientada M,
de classe Ck .
A fim de reduzir este caso ao anterior, tomamos uma cobertura finita
supp.co C U • • • UUr ,onde cada aberto Ui , i = 1, ,r, é a imagem de
uma parametrização positiva (pi : Ui° --> U. Em seguida, consideramos
uma partição da unidade de classe Ck, 6 ± • • • ± = 1, onde cada
: M —> [0,11 tem suporte contido em U, . Para cada i = 1, . ,r, a
forma wi = ei •co tem suporte compacto, (por ser um subconjunto fechado
Seção 1 Integral de superfície 95

do suporte de w), contido na vizinhança parametrizada U, logo faz


sentido a integral i m w. Pomos então, por definição, fm w -= fm .
Resta provar que a integral Tm co, assim definida, não depende da
partição da unidade E = 1.
i=1

Para isto, usaremos o fato de que fm ( E ai) =- E (fm ai) quando


as formas contínuas ai, , a, têm suportes compactos, todos eles con-
tidos na mesma vizinhança parametrizada. (Fácil verificação.)
E ci = 1 outra partição da unidade, estritamente subor-
Seja então
i=1
dinada a uma cobertura VI U • • • U V5 3 supp.w, onde cada Vi tem fecho
compacto e é a imagem de uma parametrização zPi : Vio —> V9, a qual
supomos positiva. Pondo cDj = i•w e c4.)ii = e •() • co, temos EWii = (7)..7
e E wi; = w. Portanto

L L
CO¡ =

O teorema seguinte resume as propriedades básicas da integral de


uma forma contínua com suporte compacto numa superfície orientada.
Teorema 2. 1) fm (o.) + cp) = fm w + fm cp.
2)SecElRentãofM c.w=c.fM w.
3) Se co > O mas não é identicamente nula então I m w > O.
4) Se h: M —› N é um difeomorfismo que preserva orientação então
fm h*c4)=- c°. Se h inverte orientação então fm hsw = — co.
Demonstração: 1) e 2) óbvios quando c.) e ci.) têm suportes compactos
contidos na mesma vizinhança coordenada. O caso geral reduz-se a este
por aditividade.
3) Como w é contínua, se w(x0) > O então co(x) > O para todo x
numa vizinhança de xo . Assim a soma que define h,/ w tem pelo menos
uma parcela positiva e as demais não-negativas.
4) Isto resulta do Teorema 1 mais aditividade. E
96 O Teorema de Stokes Cap. 5

Quando a superfície orientada M é compacta, toda forma diferencial


em M tem suporte compacto, portanto tem sentido considerar f m co
para qualquer forma contínua de grau m = dimM.
O teorema abaixo contém uma primeira relação entre a integral e a
diferencial exterior.
Teorema 3. Seja w uma forma diferencial de classe C1, grau m e
suporte compacto na superfície orientada M, de dimensão m+1. Então
f m du.; = O.

Demonstração: Se to = coi -I- • • • + cot, então f m dw = E f m dwi . Po-


demos supor então que o suporte de co está contido na imagem de uma
parametrização positiva ço: U0 —4 U. O caso geral reduz-se a este medi-
ante uma partição da unidade. Para todo x = y(u) E U, escrevamos
m+1
w(x) = 1)i+l ai(u)dui A • • • A dui A • • • A dum+1 •
i=1

Então
1

m+1
dw(x) = [ (u)
] dui A • • • A dum+1 •

Seja K =ff {a,8] um bloco em Rni+1 contendo cri (supp. co).


sideremos as funções ai, , arn+i definidas (e de classe C1) em K,
pondo-as iguais a zero em K — Uo. Em particular, cada ai se anula
na fronteira de K, isto é, ai (ui, , um+i) = O se algum us = as ou
us = fis . Para cada i = 1, , m 1, seja Ki o produto cartesiano dos
intervalos [as, fis], com exceção do i-ésimo. Temos:
rn+1

fm dw =
i=1
m+1
fK a
ai
"Ui
(u) dui . • dum+1

m+1
Li aai

cri aui
(u)dui dui . . .dui dum+1

[ai (ui > • • • > A , • • • >um+ — ai (ui • • • , ai, • • • , um+i)] = O.


i.1
E
Seção 1 Integrai de superfície 97

Corolário 1. Seja w uma fo7 rua diferencial de grau m e classe C1 numa


superfície compacta orientada de dimensão m. Se to não é identicamente
nula mas co(x) > O para todo x E M então w não é exata, embora seja
fechada.
Com efeito, tem-se fm co > O. E
Analogamente, se w < O mas não é identicamente nula então ' M W <O
logo w não é exata.
Lembremos que toda forma diferencial de classe Cl e grau m numa
superfície de dimensão m é fechada.
Exemplo 1. A forma elemento de volume é um exemplo de forma
positiva de grau m numa superfície compacta orientada de dimensão m,
logo não é exata.
Exemplo 2. Se a superfície orientada M de dimensão m não é com-
pacta, uma forma positiva de grau m em M pode ser exata. Este é
ocaso da forma w = dxi A • • • A dxn, em Rm, pois w = da, onde
1 m
= — A • • • A dxi A • • • A dx,n .

Corolário 2. Sejam M, N superfícies compactas orientadas, de mesma


dimensão m. Se as aplicações f , g : M N, de classe C", são ho-
motópicas então, para toda forma diferencial fechada co, de grau m e
classe C' em N, tem-se i m f*w fm g*co.
Com efeito, pelo Teorema 3 do Capítulo 4, existe a E Am-1(M) tal
que g*co — f *w = da, portanto

— f*co) =- da = O.
g * f
fAi
Um campo de vetores tangentes a uma superfície M c Rn é uma
aplicação v: M —> Ir tal que v(x) E TM para todo x E M. Uma
singularidade do campo v é um ponto x E M tal que v(x) = O.
No caso particular da esfera Sm, um campo de vetores tangentes
é simplesmente uma aplicação v: Sm Ir+ 1 tal que (x, v(x)) = O
para todo x E Sm, pois TxSm é o complemento ortogonal do subespaço
gerado por x.
Teorema 4 (Poincaré-Brouwer). Se m é par, todo campo contínuo de
vetores tangentes a Sm possui ao menos uma singularidade.
98 O Teorema de Stokes Cap. 5

Figura 23. A partir de um campo contínuo de vetores tangentes


v: Sm —> Wn+1, obtém-se uma aplicação contínua f: Sm
homotópica ao mesmo tempo à identidade e à aplicação antípoda.

Demonstração: O esquema da demonstração será o seguinte: prova-


se que a aplicação antípoda a: Sn' —> Sn', definida por n(x) = —x,
inverte orientação quando m é par. Logo, em virtude do Teorema 3
e, mais especificamente, do Corolário 2, quando m é par, a não pode
ser homotópica à aplicação identidade de Sm. Mas se existir em Sn'
um campo contínuo de vetores tangentes sem singularidades então isso
fornecerá uma homotopia entre a e a aplicação identidade. Comecemos
provando esta última afirmação. Dado o campo v: ----> Rn1+1 5 COM
V(X) O e v(x) 1 x para todo x E Sm, definamos a aplicação contínua
f: Sm —> Sm pondo f(x) = (x + v(x))/ix + v(x)I. Então f (x) x e
f (x) —x para todo x E Sm . Isto permite que definamos as homotopias
H, K : Sin x [0,11 —> Sm, onde
\ (1 — t)x t f (x)
H(x t e K(x) 1 ((1 _ tt)ff ( x) — tx
— t)x + t f (x)I I
H é uma homotopia entre a aplicação identidade e f, enquanto K é uma
homotopia entre f e a. Por transitividade, vemos que a existência do
campo v implica que a seja homotópica à identidade.
Resta agora mostrar que a aplicação antípoda a: —> Sm, 42(x) =
—x, inverte orientação quando m é par. Levando em conta que o campo
de vetores v(x) = x em Sn' é normal (e não-nulo), adotamos em Sn' a
orientação segundo a qual uma base {uh, , zuni} c Tx.Sm é positiva
Seção 2 Superfícies com bordo 99

se, e somente se, a matriz (m 1) x (m 1) cujas colunas são os vetores


W1, • • • Wyj , nesta ordem, tem determinante positivo. A aplicação
antípoda a: Sm —› Sm, sendo linear é, em cada ponto x E Sm, igual à
sua derivada. Assim, para cada x em Sm, ai(x) transforma uma base
positiva {wi, , wm} c TxSm na base {—w1, , —wm} c T_x Sin, a
qual é negativa pois det[—x,—wi, . . . ,—wm] = — det[x, w1, , wm] já
que m é par. Pelo mesmo motivo, a preserva orientação quando m é
ímpar.

2 Superfícies com bordo

O Teorema de Stokes diz respeito a superfícies com bordo, as quais apre-


sentaremos agora. Sua definição é praticamente a mesma das superfícies
sem bordo, que vimos considerando até agora, só que as parametrizações
têm como domínios conjuntos abertos em semi-espaços do espaço eucli-
diano.
A cada vetor v O em Rm+1 corresponde um semi-espaço li c Rn2+1
definido como
H2, = {x E Rm+1; (v , x) < 0}.

O bordo do semi-espaço Hv é o hiperplano aH, = {x E Rn1+1; (V, x) = 0}.


Assim, ax, é o complemento ortogonal do (subespaço gerado pelo) ve-
tor v.
Tem-se Hv = Hi„ se, e somente se, w = e • v com c> O.
As vezes, por simplicidade, escreveremos H em vez de H. •
Se T: R ' —> ri -El é um operador ortogonal com Tv = w, tem-se
T(H) = Hw

ariv
Figura 24. Semi-espaços.
100 O Teorema de Stokes Cap. 5

Escreveremos os pontos de 1Rm+1 como x = (xo,x1, . . . ,x7n) e, cor-


respondentemente, a base canônica será {eo, el, , en }. Um semi-
espaço freqüentemente usado é Ho = H, formado pelos pontos x =
(xo, , xr„) tais que xo < O. O bordo de Ho é o conjunto dos pon-
tos (0, xl , , x,n). Faremos a identificação 0110 =Rm, tornando assim
Rm c

Figura 25. Abertos de dois tipos no semi-espaço H.


Um subconjunto aberto A no semi-espaço II tem a forma A = uni",
onde U é aberto em Rm+1. A interseção aA. Anali, que é um aberto
em OH, chama-se o bordo de A. Se 0A = 0, A é simplesmente um
aberto em R n1+1.
Seja A c H um aberto no semi-espaço H. Uma aplicação f: A —> IR'
diz-se de classe Cie (respect. diferenciável) quando f = FIA é a restrição
de uma aplicação F: U —> Rn de classe Ck (respect. diferenciável) num
aberto U de Rm+1, com A c U.
Como se mostra facilmente, a composta de duas aplicações de classe
Ck (respect. diferenciáveis) em abertos de semi-espaças é ainda de classe
Ck (respect. diferenciável).
Se AcHeBcK são abertos nos sani-espaços H e K, uma
aplicação f: A —> B, de classe Ck (respect. diferenciável) chama-se um
difeomorfismo quando possui uma inversa g: B —› A também de classe
ck (respect. diferenciável).
Seção 2 Superfícies com bordo 101

A aplicação f: A -> R', diferenciável no aberto A c H do semi-


espaço H tem sua derivada (x) : wn-fri Rn, no ponto x E A, definida
como F'(x): Rm+1 -> Ri', onde F: U -> R" é qualquer extensão dife-
renciável de f a um aberto U C Rn1+1 que contenha A. Se x DA então
é claro que esta definição não depende da aplicação F pois, neste caso,
x pertence ao interior de A em Rm+1 e então duas escolhas quaisquer
de F coincidem numa vizinhança de x.
Seja agora x E DA= Anal". Devemos mostrar que, para todo vetor
w E Rm+1, o vetor F'(x) • w depende apenas dos valores F(y) de F nos
pontos y E A, ou seja, dos valores f (y). Ora, temos w = c • v u, onde
H = H, e u OH. Logo F'(x) • w = (x) • u + c • F' (x) • v. Como
u pertence ao hiperplano ax, a parcela F'(x) • u depende apenas do
comportamento de F em A n ax = DA, onde F coincide com f. E a
segunda parcela, c • F'(x) • v, é um múltiplo de

F(x + tv) - F(x) F(x + tv) - F(x)


F'(x) • v = lim = lim =
t t-)o- t
f (x + tv) - f (x)
= lim
1.0- t

pois para todo t < O suficientemente pequeno (em valor absoluto), tem-
se x + tv E H. Assim, F'(x) • v depende apenas de f.
Portanto, a definição f i(x) = (x): Rm+1 -› R' não depende da
escolha da aplicação F que estende f a um aberto de Rm+1. Daí resulta
que vale a Regra da Cadeia e que uma bijeção diferenciável é um dife-
omorfismo entre abertos de semi-espaços se, e somente se, sua derivada
em cada ponto é uma transformação linear invertível.
Merece destaque o fato de que o bordo DA de um aberto A num semi-
espaço é invariante por difeomorfismos, conforme o teorema abaixo.

Teorema 5. Sejam Ac HeEcK abertos em semi-espaços. Se


h: A -› .8 é um difeomorfismo de classe Ck (k > 1) então h(8A) = OB.
Demonstração: Seja x E A -DA. Existe um aberto U c 11 m+1 tal que
xEUC A. Como h'(x): am+1 ---> IRm+1 é um isomorfismo, podemos
tomar U 3 x tão pequeno que V = h(U) c B seja um aberto em
naturalmente contendo h(x). Então h(x) OB. Portanto h(A - aA) C
B - OB. Analogamente se mostra que h-1(B - .9E) c A- DA. Logo
h(DA)=D.B.
102 O Teorema de Stokes Cap. 5

Diz-se que o vetor w E Rm+1 aponta para fora do semi-espaço


quando (u, w) > O. Se A C ira é um aberto tal que DA 0,
diz-se
também que w aponta para fora de A.
Teorema 6. Sejam A C Bia e 13 c 11",, abertos em semi-espaços de
1RIL+1. Dado o difeornorfismo h: A -> 13, se w E Rm+1 aponta para fora
de A então, para todo x E DA, hi(x) •
w aponta para fora de B.
Demonstração: Para todo x E DA, devemos mostrar que
(v, (x) • w) > 0, sabendo que (u, w) > O. Pelo Teorema 5, a deri-
vada hi(x) : Rm+1 -> Km+1 transforma o hiperplano 0Hu em UH; , ou
seja, tem-se (v, h'(x) • w) = O/ se, e somente se, (u, w) = 0. Assim sendo,
basta mostrar que (v, (x) • w) > 0. Ora, para todo t < O suficiente-
mente próximo de zero, tem-se x+t•w E A- DA portanto (novamente
pelo Teorema 5) h(x-f-tw) E 13 -813 e daí (v, h(x + tw)) <0. Para esses
valores de t (lembrando que (v, h(x)) = O), temos

Kv, > O.

Passando ao limite quanto t --> 0-, vem (v, (x)•w) > O, como queríamos.

Uma superfície com bordo, de dimensão m + 1 e classe Ck , é um


conjunto M c R' tal que cada ponto x E M pertence a um aberto
U c M que é imagem de uma parametrização cp: Uo -> U, de classe Ck ,
definida num subconjunto U0 , aberto em algum semi-espaço de Rm+1.
Como no caso sem bordo, uma parametrização ço: Uo -> U, cujo
domínio é aberto num semi-espaço, é uma aplicação de classe Ck cuja
derivada cd(u): Rm+i Rn é injetiva em cada ponto u E U0 e, além
disso, c,o deve ser um homeomorfismo de tio sobre o aberto U c M.
Se cio: U0 -> U e 2/): Vo -> V são parametrizações na superfície de
classe Ck, com bordo, e Un V r Ø então a mudança de parametrização
e = /P-1 o cp: cp-1(U n V) -> n V) é um difeomorfismo. Este
fato foi provado no Vol. 2 (v. Corolário 3 no Cap. 7) para superfícies
sem bordo. A demonstração aqui segue as mesmas linhas, salvo por um
detalhe, que é o seguinte. Quando uma aplicação f: U -> Ir é definida
num aberto U c Ir+ 1, tanto faz dizer que f é de classe Ck como dizer
que f é localmente de classe Ck, isto é, que cada ponto x E U possui
uma vizinhança aberta, contida em U, restrita à qual f é de classe Ck.
Na verdade, esta é a própria definição de f E Ck.
Seção 2 Superfícies com bordo 103

No Vol. 2 (loc. cit.), foi provado que a mudança de parametrização


0-1 o cp: cp-1(U n v) --)1p--1(u n V) é localmente de classe Ck. Agora,
quando os domínios das parametrizações ço: Uo —> U e 1b: Vo —> V
são abertos em semi-espaços de Rm+1, aquela demonstração se aplica
perfeitamente, desde que demonstremos o

Teorema 7. Seja f: X —> Ir uma aplicação definida no conjunto


(arbitrário) X C R771+1. Suponha que, para cada x E X, exista uma
aplicação Fx : Ux --> Ir de classe Ck (respect. diferenciável), definida
num aberto Ux contendo x, tal que F(y) = f(y) se y E Ux n X . Então,
pondo U = U Ux existe uma aplicação F: U --> , de classe Ck
xex
(respect. diferenciável) no aberto U 3 X, tal que F(x) = f (x) para todo
x E X.
Noutras palavras (e em particular) sef:A--> R' é localmente de
classe Ck (respect. diferenciável) então f é de classe Ck (respect. dife-
renciável).
Demonstração: Basta tomar uma partição da unidade E ex (y) = 1,
xex
de classe Ck no aberto U, estritamente subordinada à cobertura aberta
U = U Ux , e depois definir F: U —> pondo F(y) =Ee x (y).Fx (y).
xex xex
Se y E X então F(y) = Ee x(y) • f(y) = f (y). Além disso, F é de
xEX
classe Ck (respect. diferenciável) porque as funções ex e as aplicações
Fx ,xEX,o são.
Por definição, numa superfície com bordo M, todo ponto x pertence
à imagem U de uma parametrização cio: Uo --> U, definida num aberto

U0 de um semi-espaço H c 118'N. Há duas possibilidades:
1) x = ço(u), onde u auo , isto é, u pertence ao interior de Uo
em Rm+1.
2) x = ço(u), com u OU° = Uo n ar/.
Como a mudança de parametrização e = 0-1 o cp: cp-1(U n V) -->
IP-1((l n v) é um difeomorfismo, segue-se do Teorema 5 que se o ponto
x E M se enquadra numa das duas categorias acima com respeito a uma
parametrização cio então ocorre o mesmo em relação a qualquer outra
parametrização 0: Vo --> V tal que x E Un V.
Assim, podemos definir o bordo da superfície M como o conjunto
OM dos pontos x E M tais que existe uma parametrização ço: U0 --> U,
com x = cp(u), u E aUo •
104 O Teorema de Stokes Cap. 5

OM

Figura 26. Parametrização de uma vizinhança do ponto x E OM.

Se a parametrização /h Vo —> V, na superfície com bordo M, tem


como domínio o aberto Vo do semi-espaço Hw c 18171+1 e T: Rn1+1 —›
Rm+1 é um operador ortogonal tal que Ti) = w então T(H) = Hw
e, pondo Uo = T-1(1/0), vemos que Uo é um subconjunto aberto do
semi-espaço II e y = 2» o T: Ur ---> V é uma parametrização.
Sabemos que, para todo v O em Ile+1 e todo c > O, tem-se
H, = II,. Logo, não há perda de generalidade em supor que em todo
semi-espaço H, tem-se ivi = 1. Então existe um operador ortogonal
T: 117km+1 --> Ile+1 tal que T • eo = v onde eo = (1, O, , O) E Rm+1.
Desta maneira, dada qualquer parametrização IP : Vo —> V em M, com
Vo c H, , obtemos uma parametrização y = OoT: Uo --> V, com a
mesma imagem V mas agora definida no aberto U0 = 71-1(V0) do semi-
espaço padrão Ho = {(xo, xi, , xn,) E Rm+1; ro < 0}.
As parametrizações que têm como domínio um aberto do semi-espaço
Ho serão chamadas de padronizadas. Acabamos de ver que não há perda
de generalidade em admitir que todas as parametrizações de uma su-
perfície com bordo são padronizadas.
Conforme convencionamos anteriormente, consideraremos 3H0 = Rm
ao identificarmos (0, xl, , xni) com (xi , , xni).
Se M é uma superfície de classe Ck e dimensão m + 1, com bordo,
então seu bordo DM é uma superfície de classe Ck e dimensão m, sem
bordo.
Para ver que isto é verdade, basta considerar em M apenas para-
metrizações padronizadas. Se cp: U0 —> Uc Mé uma parametrização
padronizada então auo é um aberto em e e a restrição de yo a auo é
uma parametrização em am, cuja imagem é au = u n ant.
Seção 2 Superfícies com bordo 105

Assim, no contexto das parametrizações padronizadas, as parametri-


zações de am são as restrições a Rm das parametrizações de M (onde
dim M = m 1).
Seguem-se alguns exemplos de superfícies com bordo.
Exemplo 3. Um semi-espaço Hu c Rm+1 é uma superfície com bordo,
na qual basta considerar a aplicação identidade id : Hu Hu como
única parametrização. Seu bordo é OHu = {x E ri -El; (u,x) = 0}.
Em particular, se u = eo = (1,0, . . . ,0) E Rm+1 então Hu é o semi-
espaço padrão Ho = {(xo, xi, , xm) E Rrn+1; xo 0}, cujo bordo é
aHo =ir = {x E Rrn+1; xo = 0}.

Exemplo 4. O intervalo [a, b] requer pelo menos duas parametrizações


para ser considerado uma "superfície" com bordo. Elas são, por exemplo,
y: (-1,0} —> (a, b] e : (-1,0] --> [a, b), definidas por y(t) = (b — a)t + b
e 'b(t) = (a — b)t + a. O bordo de [a, b] é o conjunto {a, b}, com dois
elementos.
Exemplo 5. Seja B a bola fechada de centro O e raio 1 em
com m > 0. (O caso m = O está contido no exemplo anterior, to-
mando [a, b] = [-1,1].) Mostremos que B é uma superfície de dimensão
m 1, cujo bordo é a esfera unitária Sm. O interior de B pode ser
parametrizado pela aplicação identidade. Se p E = OB, podemos
parametrizar uma vizinhança de p em B tomando uma parametrização
cp: Uo --> U de um aberto U c Sm com p E U, com U0 c Rm e definindo
.1.: (-1,0] x U0 —> B por 01)(4 u) = (1 + t) • cp(u). Quando cp descreve um
atlas em Sm, as imagens das parametrizações 413 cobrem B — {0} e, junta-
mente com a aplicação identidade do interior de B, completam um atlas
que faz da bola fechada B uma superfície com bordo, com OB = Sm. O
mesmo se dá com as bolas fechadas com centros nos pontos c E Rm+1 e
raios r> O arbitrários.
Exemplo 6. O produto cartesiano M x N de uma superfície com bordo
M por uma superfície (sem bordo) N é uma superfície com bordo, sendo
a(m x N) = am- x N. Isto se deve ao fito de que se U0 C H é um
aberto no semi-espaço H c Rm+1 e Vo é um aberto em R' então U0 x Vo
é aberto no semi-espaço H x Ir c Rm+ 1+1 . Como no caso de superfícies
sem bordo, dadas as parametrizações yen U0 --> U em M e Vo —> V
em N, as aplicações do tipo y x : Uo x V0 --> U x V formam um
atlas em M X N. Convém observar que o produto cartesiano de duas
superfícies com bordo não é uma superfície com bordo, pois o produto de
106 O Teorema de Stokes Cap. 5

dois semi-espaços possui vértices angulosos ou arestas, por isso não é um


semi-espaço. Por exemplo, o conjunto X = {(x, y, z) E R3; y < 0, z < 0}
é o produto cartesiano do semi-plano y < O em R2 pela semi-reta z < O
em R.
Exemplo 7. A vizinhança tubular fechada V6[M] de uma superfície M
(sem bordo) é uma superfície com bordo. Com efeito, todo ponto de
V[M] pertence a uma vizinhança tubular local Ve[U], que é um aberto
em Ve[M], imagem do difeomorfismo 4/. : Uo x B[0; 1] -> Ve[u], como na
demonstração do Teorema 1, Capítulo 4. Pelo Exemplo 6, Uo x B[0;11 é
uma superfície com bordo, logo Ve[M] é localmente uma superfície com
bordo. Isto comprova a validez do Exemplo pois a definição de superfície
com bordo é local.
Exemplo 8. Seja f U -> R uma função de classe Ck no aberto U C
Rm+1. Se O é um valor regular de f então o conjunto M = {x E
a m+1 ; f (x) < 0} é uma superfície com bordo, de classe Ck-1 e dimensão
m + 1, cujo bordo é N = f -1(0). Isto é válido quando f E C1, mas
suporemos k > 3 a fim de usar a vizinhança tubular Ve(N). Definimos o
campo de vetores normais w: N -> Rm+1, de classe Ck-1, pondo, para
cada x E N, w(x) = À(a) • grad f (x), onde À(x) > O é tomado de modo
a se ter lw(x)I = s(x). Isto nos dá o difeomorfismo .1): (-1,1) x N ->
Ve (N), .1)(t, x) = x t • w(x). O conjunto A = {x + t • w(x); -1 <t 0}
é aberto em M e <»: (-1,0] x N -> A é um difeomorfismo, logo A é uma
superfície com bordo. Obviamente B = {x E U; f (x) < 0}, aberto em
Rm+1, é uma superfície. Logo M = A 1..1./3 é uma superfície com bordo
e OM = N.
Uma superfície com bordo M diz-se orientável quando admite um
atlas coerente, isto é, um conjunto 91 de parametrizações Uo -> U,
Vo -> V, etc, cujas imagens cobrem M e são tais que, se Unvs 0,
a mudança de parametrização e = 0-1 o cp ço-1(U n v) ip-1(u n v)
tem determinante jacobiano positivo em todos os pontos. O par (M, 21)
chama-se uma superfície orientada e as parametrizações y E 91 dizem-se
positivas.
Mostraremos a seguir que se M é orientável então seu bordo OM
também é orientável e toda orientação em M determina uma em iam,
chamada a orientação induzida por M.
Começamos observando que toda superfície orientável M de dimensão
> 2 possui um atlas coerente cujas parametrizações são todas padroniza-
das. De fato, seja ço: Uo -> U uma parametrização positiva em M, onde
Seção 2 Superfícies com bordo 107

U0 é um aberto no semi-espaço H, C Rrn+1. Sem perda de generalidade


podemos supor Ivi = 1 e então, como m 1 > 2, existe um operador or-
togonal T: Rm+1 -> Rm+1, com determinante positivo, tal que T•eo = v,
logo T(H0) = H, , onde Ho = {(xo, xi, , xm) E Rm+1; xo < 0}.
Então, pondo Vo = T-1(U0), vemos que y o T: Vo --> U é uma para-
metrização padronizada, positiva, com a mesma imagem U de cp.
Observação. Uma "superfície" com bordo, compacta e conexa, de
dimensão 1 é difeomorfa ao intervalo [0, 1], o qual admite o atlas formado
pelas parametrizações (0,11 -> [0,1], cp(t) = t e ço: [0,1) -> [0,11,
cp(t) = t. Este atlas é coerente pois cp-1 o y: (0,1) -> (0,1) é a aplicação
identidade. Logo [0, 1] é orientável. Mas é fácil ver que não existe atlas
coerente em [0, 1.] que seja padronizado. Portanto, ao considerarmos
[0, 1] como uma superfície com bordo orientável, somos obrigados a abrir
mão da exigência de usarmos somente atlas padronizado.
Teorema 8. O bordo de uma superfície orientável é também orientável.
Demonstração: Consideremos uma superfície M, munida de um
atlas coerente 21 O teorema é óbvio quando M tem dimensão 1 pois seu
bordo terá dimensão O e será obviamente orientável. Seja então dimM =
m +1 > 2. Pelo que vimos acima, podemos supor que todas as parame-
trizações ço E 21 são padronizadas. Seja x = (p(u) = 2P(v) um ponto de
sem, onde y: Uo -> U e O: Vo -> V pertencem ao atlas 21 Sabemos que
as restrições de y a 3U0 c Rm e de iP a 0V0 c Rm são parametrizações
em am. Quando y e variam em 21., estas parametrizações formam um
atlas em am. Vamos agora mostrar que este atlas é coerente, isto é, que
a restrição a
(,0-1(unv)nwn do difeomorfismo e = V 1o': (p-1(unv) tp-i (unv)
tem determinante jacobiano positivo em todos os pontos. Com efeito,
como o vetor eo aponta para fora do semi-espaço Ho (formado pelos
pontos (xo, x1, . . ,x, ) com xo < 0), segue-se do Teorema 6 que, para
todo u = (0, ui, ,u ) E R', o vetor e'(u) • eo = (ao, ai, . . . , am) tem
a primeira coordenada ao > 0. Como e'(u): Rm+1 -> Rm+1 deixa Rm
invariante, sua matriz jacobiana tem a forma abaixo,

ai
Je(u) =
A
am
108 O Teorema de Stokes Cap. 5

onde A é a matriz jacobiana da restrição de e a cio-1(U n V) n Rm.


Como det O e ao > 0, segue-se que det A> 0, como queríamos
demonstrar. o

OM

Ho

Figura 27. Se cp: U0 —› U e 2,b: Vo --> V são parametrizações compatíveis


em M, as restrições cpi(3U0) e r0i(OV0) são compatíveis em OM.

Explicitamente: Se 21 é um atlas coerente na superfície com bordo


M, a orientação induzida por 21 no bordo am é dada pelo atlas formado
pelas restriçÕes das parametrizações cp: Uo —> U em M a cada bordo
auo . Se a parametrização cp é padronizada, as parametrizações em OM
são do tipo (til,. . . ,u) 1--> cp(0,uu, ,'um), onde cp E 21
Em cada ponto x de uma superfície com bordo M, o espaço vetorial
tangente TM se define do mesmo modo que no caso em que M não
possui bordo: toma-se uma parametrização cp: Uo —> U C M, com
x= cp(u), e põe-se Ti M = cp' (u) • "2+1, onde m + 1 é a dimensão de M.
Como já vimos que a mudança de parametrização e = etP-1 o cp é um
difeomorfismo, o espaço vetorial TM não depende da parametrização
usada para defini-lo. Sua dimensão é m + 1, a mesma de M, ainda que
o ponto x pertença ao bordo de M.
Quando x = yo(u) E mu, o ponto u pertence a OU° = Uo n Ho, onde
Ho c 118'1+1 é o hiperplano bordo do semi-espaço H no qual Uo é um
Seção 2 Superfícies com bordo 109

aberto. Neste caso, a derivada ço'(u): Rn1+1 —› TM transforma Ho no


subespaço T(3M) c TxM. Assim, em cada ponto x E am, o espaço
vetorial tangente a OM é um hiperplano em TM.

Figura 28. T.OM é um hiperplano em TrAt

Seja x E am um ponto do bordo de uma superfície orientada M, de


dimensão m + 1. Diz-se que o vetor w E TM aponta para fora da su-
perfície M quando, dada qualquer parametrização positiva y: Uo --> U,
definida no aberto Uo do semi-espaço H C Rm+1, com x = y(n), tem-se
w = cd(u) • wo , onde wo E Wn+1 aponta para fora de H. Em virtude do
Teorema 6, se isto ocorre com uma parametrização positiva, ocorre com
todas.
Olhemos agora para o Teorema 8 no caso de uma curva M, isto é,
uma superfície de dimensão 1. Então o li)rdo am tem dimensão zero:
é um conjunto de pontos isolados.
Orientar uma superfície de dimensão zero é atribuir a cada um dos
seus pontos um sinal + ou —. Se a curva M (superfície unidimensional)
é orientada, a orientação induzida no bordo é, por definição, aquela que
atribui ao ponto x E am o sinal + quando para uma (e portanto para
qualquer) parametrização positiva y: Jo ---> J em M, com x = co(u), o
110 O Teorema de Stokes Cap. 5

vetor-velocidade (u) aponta para fora de M. Caso contrário, x recebe


o sinal —.

Figura 29. OM = {—a, +b}.

Por exemplo, o intervalo [a, b] é uma superfície unidimensional, orien-


tada pelo atlas coerente 21 = {y, 0}, onde y: (a, b] —> (a, b] e : [a, b) -->
[a, b) são restrições da função identidade de [a, b]. A orientação dada
por 21 induz no bordo O[a, b] = {a, h} a orientação {—a, +b} pois o vetor
cp'+ (a) = (1) aponta para dentro de [a, b] enquanto o vetor t1'_1(b) = (1)
aponta para fora. (Aqui, (1) = eo é o único vetor da base canônica
de IR'.)
Exemplo 9. A faixa de Moebius (fronteira inclusive) é uma superfície
compacta não-orientável, cujo bordo, difeomorfo a uma circunferência,
é orientável. Isto mostra que não vale a recíproca do Teorema 8.

3 O Teorema de Stokes

No teorema abaixo, Iam co significa a integral, ao longo de am, da forma


diferencial rw, restrição de co a OM, ou seja, pullback de co pela aplicação
de inclusão i: am At Além disso, o bordo am- está munido da
orientação induzida por M.
Teorema 9 (Stokes). Seja c4.) uma forma diferencial de grau m e classe
Cl , com suporte compacto na superfície orientada M, de dimensão m+
1, com bordo am. Então fm dw = faliu w •
Demonstração: Fazendo uso de uma partição ch, unidade podemos,
por aditividade, supor que o suporte de w está contido na imagem de
uma parametrização positiva y: Uo —> U, em termos da qual podemos
escrever, para cada x = yo(u) E U,
771,

1)i ai(u) • duo A • • • A dui A • • • A dum,


i=0
Seção 3 O Teorema de Stokes 111

portanto

li 4
acti
dw(x) (u)) • duo A • • • A dum .
aui

(A compacidade do suporte de w assegura que a partição da unidade é


finita, logo f e d são aditivas.)
Se o suporte de w for disjunto de 3M, podemos ver w como uma
forma com suporte compacto na superfície sem bordo M - 3M. Então,
pelo Teorema 3, tem-se fm dco = O. Ao mesmo tempo, teremos i*w = O
logo f am w = O. Então vale a igualdade f m dw = fam w = O quando
(supp • w) n am =0.
Podemos então admitir que (supp. n som $ 0. Além disso, vamos
supor inicialmente que m+1 > 2, de modo que a parametrização positiva
yo: U0 --> U pode ser tomada padronizada, isto é, Uo é um aberto no
rn
semi-espaço H0 = {(20, ,um) E Rm+1; uo < 0}. Seja K =
um bloco em Rm+1 contendo U0 , com Po = O, logo K C 110. Para cada
i = O, , m, seja Ki = fl [ai, [3i]. Em particular, Ko = fi [cri,fid é um
i=1
bloco em Ho contendo y-1(supp. i*w). Estendamos continuamente as
funções ao, , am a todo o bloco K, pondo-as iguais a zero nos pontos
de K - Uo . Para todo x = y(u) = ço(0, , um) E OU( U n am),
temos (i*w)(x) = ao(0, ui, ,u) • dl/1 A • • • A dum , logo

fam
co =f
3M
i*w -=
Ko
ao (O, ui, • • • , um)dui • . . . • du, .

Agora, vamos calcular a integral de &o, usando a redução de uma


integral múltipla a integrais repetidas. Antes observemos que se para
algum i > O, a i-ésima coordenada do ponto uEKé igual a ce, ou
fli então todas as funções ao, , am se anulam em u, pois yo(u) não
pertence ao suporte de co. O mesmo se dá se a coordenada no de u
é igual a a0 ; mas ao(0, ui, ,u) =-- ao(/30, 'ui, • • • um) pode assumir
112 O Teorema de Stokes Cap. 5

qualquer valor. Então

aaj,
(1)dUO • dUl • . . . • dum
ovui
i=0
fii aai
= •—
n (U)dUi duo • . . . • dui • . . . • dum
rn Ki [f a i "i

[ai (no, , ,um) - ai (uo, , ai, . . . ,


i=0 f Ki
• &ao • . . . • dui • . . . • dum

=1 .K.
ao(0, ui, . . . , um)dui . . . dum = f
am
w.

Vejamos o caso em que m 1 = 1. Então M é uma curva (su-


perfície de dimensão 1) orientada e co, tendo grau zero, reduz-se a uma
função f: M -> R, de classe C1. Resta dizer o que significa Iam!' a
integral de uma função ao longo de um conjunto discreto. Na verdade,
nos termos da demonstração acima, se exigirmos (como é razoável) que
cada vizinhança coordenada seja conexa, Dm
consiste num único ponto
±p. Então poremos f ±p f = ±f(p). Com esta convenção, a demons-
tração acima se aplica: se a parametrização padronizada é positiva,
temos %Fm df = fp f = f (p) e, se é negativa, f m df = f - P f = - f (p). E
Usaremos o Teoema de Stokes para dar uma demonstração do Teo-
rema do Ponto Fixo de Brouwer. Como o nome sugere, um ponto fixo
de uma aplicação f: X -> X é um ponto x E X tal que f(x) = x.
No enunciado abaixo, B é a bola fechada de centro O e raio
1 em Rn.
Teorema 10. (Brouwer). Toda aplicação contínua f: B -> 13 admite
(ao menos) um ponto fixo.
Demonstração: O primeiro passo da demonstração consiste em mos-
trar que não há perda de generalidade em supor que f é de classe C .
Com efeito, se existisse uma aplicação contínua f: 13 -> 13 sem ponto
fixo então a função contínua A: 13 -> R, definida por A(x) = I f (x) - ri,
seria positiva para todo x E B. Como B é compacta, existiria e > O
tal que A(x) > E para todo x E /3. Usando o Teorema de Aproximação,
obteríamos g: B -> 13, de classe C', tal que jg(x) - f(x)1 < sI2 para
todo x E 13. Então, de If (x) - xl < j f (x) - g(x) I + jg(x) - xj resulta
Seção 3 O Teorema de Stokes 113

que ig(x) — xi ?I f (x) — xl — If (x) — g(x) I s — £/2 = E/2. Portanto,


se existir uma aplicação contínua f: B —> B sem ponto fixo, existirá
também g: B —> B, de classe C', sem ponto fixo.
Em seguida, mostraremos que se existir uma aplicação g: B --> B,
de classe C", sem ponto fixo, existirá uma retração y: B —> n-1 de
classe C", sobre 5n-1 = OB.
A aplicação y: B —> 5n-1, tal que y(x) = x para todo x E Sn-1, é
definida pondo, para cada x E B, cp(x) = interseção da semi-reta g(x)x
com a esfera Sn-1. Em termos analíticos, tomando o vetor unitário
ti = (x — g(x))1ix — g(x)I, tem-se y(x) = x + tu, onde t > O é escolhido

de modo que seja lx + tul = 1.

cp(x)

Figura 30. Supondo g: Bn —> Bn sem ponto fixo, obtém-se uma retração
cp: Ert sn- 1

Para concluir que t é uma função C' de x (e portanto y também),


notamos que a condição lx + tuj2 = 1 se escreve como ixi2 + 2(x, u)t +
t2 = 1, ou seja, é uma equação do segundo grau
t2 + 2(x, u)t — (1— xj2) =- 0,
da qual
t = —(x,u)+ V(x,u)2 4- 1 — ixj2
é a raiz não-negativa, logo t = t(x) E C".
O Teorema do Ponto Fixo de Brouwer resulta, por conseguinte, do
Teorema 11. Se M é uma superfície de classe Ck (k > 2), compacta,
orientada, com bordo and, não existe uma retração r: M —> am de
classe Ck .
114 O Teorema de Stokes Ca p. 5

Demonstração: Dando a OM a orientação induzida por M, seja w


a forma elemento de volume, ou qualquer outra forma de grau m =
dim am-, com f am w 0. Supondo a existência da retração r: M —>
am, o Teorema de Stokes nos dá

w=f r*w=f d(r w) = f r*(dw) = r*0 = O.


am am vi

Na primeira das igualdades acima, usamos o fato de que w = r*co em am


pois rjOM = identidade. E a penúltima igualdade resulta de ser dw = O
pois o grau de w é a dimensão da superfície OM onde está definida. El

Observação. A abrangência do Teorema 11 é, sem dúvida, bem maior


do que requer o Teorema do Ponto Fixo de Brouwer. Mas se quisermos
apenas mostrar que a esfera Sm não é um retrato da bola Bm+1, ou
seja, que a aplicação identidade id: —> Sm não possui uma extensão
r: Bm+1 —> Sm, de classe Ck (k > 2), basta usar o Lema de Poincaré
(Corolário 1, Cap. 3), segundo o qual toda forma fechada em Bm+1 é
exata. De fato, se r existisse, como w é fechada e portanto r*w também,
teríamos r*w = da para alguma forma a, de grau m — 1 em Bm+1. Ora,
considerando a inclusão Sm —> Bm+1 tem-se r o i = id: Sm —> Sm e
daí viria

w = (id)*w = (r o i)*w = i*(r w) = i*(da) =

um absurdo. Isto nos dá uma demonstração do Teorema do Ponto Fixo


de Brouwer, sem usar Stokes.

4 A orientação induzida no bordo

Exemplo 10. O anel M = {(x, y) E R2; < X2 +y 2 < 4} é uma


superfície compacta, conexa, bidimensional, com bordo OM = C1 U C2
onde Cl e 62 são as circunferências de raios 1 e 2, com centro na origem.
Seção 4 A orientação induzida no bordo 115

Figura 31. A orientação natural do anel M induz orientações


opostas nas componentes C1 e C2 do bordo OM = C1 L.J C2

A orientação natural de M é aquela em que as parametrizações posi-


tivas ço: Uo --> U c M cumprem a condição det Jcp(x, y) > O para todo
(x, y) E U0 . Em cada ponto z = (x, y) E M tem-se TM = R2 e
uma base {wi, w2} c Ta é positiva se, e somente se, det[wi, w2] > O.
Intuitivamente, isto significa que o sentido de rotação de /ui para w2 é o
mesmo de ei = (1,0) para e2 = (0, 1). Esse sentido positivo de rotação
costuma ser indicado por meio de uma flexa circular, como na figura.
Isto permite visualizar a orientação induzida no bordo aM: o sentido de
percurso em cada uma das circunferências C1 e C2 deve ser compatível
com o sentido de rotação dado pelas flexas circulares próximas.
Então se nota que as orientações induzidas por M nas duas circun-
ferências C1 e C2 são opostas uma da outra.
Vamos analisar este fato sob um ponto de vista mais geral. O ele-
mento essencial é o

Teorema 12. Seja x E OM um ponto do bordo de uma superfície ori-


entada M, de dimensão m +1> 2. Uma base {w1, , zum} c T(3M)
é positiva relativamente à orientação induzida por M se, e somente se,
para algum (e portanto para qualquer) vetor v E TM que aponte para
fora de M, a base {v,wi, . . . ,wm} c TM é positiva.
116 O Teorema de Stokes Cap. 5

Demonstração: Seja ço: U0 —> U C M uma parametrização positiva


padronizada, com x = y(u) E U. Existem vetores vo, v1, , vm E Rm+1
tais que v = ço' (u) • vo , wi = Au) • vi , . . . ,wm = (p/ (u) • v7, . Como v
aponta para fora de M, a primeira coordenada de vo é > O. E, como
, wm E T(OM), os vetores vi, , vm têm todos a primeira coor-
denada igual a zero. A matriz de passagem da base { , (u)}
para a base {v, wi, , wm} tem como colunas os vetores vo, vi, , ,
logo é da forma
-ao 0. . .0
ai
M =
A
am

onde ao > O e A é a matriz de passagem da base positiva {.21aiL0


(u) 5
aço (
ku)} C T(8M) para {wi, ,vi }. Como det m = ao • det A, segue-
se que esta última base é positiva se, e somente se {v, wi, , wm} c
TM é positiva. E

À luz do Teorema 12, revejamos o Exemplo 10. A orientação ali


atribuída ao anel M é aquela do plano R2 . Se olharmos para a circun-
ferência C1 como o bordo do disco D = {(x, y) e R2; x2 ± y2 < 1}, a
orientação induzida por D é como a que foi induzida em C2 por M.
Mas se considerarmos C1 como parte do bordo de M, a orientação aí
induzida por M é a oposta. E o motivo é simples: num ponto de C1 ,
um vetor que aponta para fora de D aponta para dentro de M.
Num contexto mais geral, seja M C Rm+1 uma hiperfície compacta
orientável de classe Ck (k >3). Usando o Teorema de Jordan-Brouwer,
podemos escrever Rm+1 = AUB, onde A e B são superfícies de dimensão
m + 1, com bordo DA=M=DBeAnB=M, sendo A limitada
(portanto compacta) e B ilimitada. Os pontos de A —M serão chamados
de pontos interiores a M e os de B— M exteriores.
Pretendemos calcular a integral f m Q, onde Q é a forma diferencial
elemento de ângulo sólido (V. Exemplo 5, Capítulo 3). O domínio de Q
é Rm+1 — {O}, portanto é necessário supor que 0 M.
Há duas possibilidades.
Primeira: 0 E B, isto é, a origem de Rm+1 está no exterior da
hiperfície M. Então Q está definida em A e, como é uma forma fechada,
Seção 4 A orientação induzida no bordo 117

o Teorema de Stokes nos dá

fm Q=I
OA
Q=fdQ=j0=0.
A A

Segunda: O E A, ou seja, a origem de 1ékm+1 está no interior de


M. Seja D um disco, isto é, uma bola fechada de centro O, contida no
interior do conjunto A. O bordo S = OD é uma esfera.

Figura 32. Se a origem O está no interior de M então


fm = volume de Sm.
Atribuamos a A e aD a orientação natural, em que a base {e0, ei, ,
em} c Ir+ 1 = 724 = TyD para todo xE A e todo yED é positiva.
Atribuamos a M = aA e 8 = ap as orientações induzidas. Então, se
indicarmos com —S esta esfera munida da orientação oposta à induzida
por D, veremos que N = A — int D é uma superfície orientada, cujo
bordo é aN = a(A — int D) = M U (—S). A forma Q está definida em
N e, como c/Q = O, o Teorema de Stokes nos dá

o=f as1=1 Q=1 Q-1 Q,


aN
ou seja, f m Q = fs Q. Agora observamos que se S é qualquer esfera em
Rm+1 com centro na origem, a integral da forma Q sobre S é igual ao
volume da esfera unitária Sm. De fato, S e Sm (se não coincidirem)
formam o bordo de uma superfície na qual a forma fechada í2 está defi-
nida, logo fs Q = fs , Q. Mas, sobre Sm, Q coincide com o elemento de
volume.
118 O Teorema de Stokes Cap. 5

Então fica demonstrado o


Teorema 13. Seja M uma hiperfície compacta orientada de classe Ck
(k > 3) no espaço euclidiano Rm+1, com O M. Se 5.2 é a forma
elemento de ângulo sólido em Rrn+1 — {O} então f m = O se a origem
O E 1R m+1 está no exterior de M. Caso a origem O E R rn+1 esteja
no interior de M, tem-se i m -= cm , onde c, é o volume da esfera
unitária m-dimensional.
Corolário 3 (Lei de Gauss). Se M C R 3 é uma superfície orientada
compacta de classe Ck (k > 3) e CIO M então
xdy A dz ydz A dx zdx A dy
(x2 ± y2 + z 2)3/2 = O ou 47r,

conforme a origem de R3 esteja fora ou dentro de M.


Corolário 4. Seja -y: [a, b] —) R2 — {O} um caminho fechado de classe
C3, com -4(a) = ry'_ (b) e ry(s) = ry(t) somente se s = t ou {s, t} = {a, b}.
O número de voltas n(-y, 0) é ±1 ou zero, conforme a origem O E R2
esteja no interior ou no exterior da imagem de -y.

Figura 33. A origem O está no interior de 71 e no exterior de 72.


Tem-se n(71; O) = —1 e n(-y2; O) = O.

5 Análise vetorial clássica

Nos livros de outrora, ou mesmo nos elementares de hoje, o tratamento


das integrais de superfícies não é feito por meio de formas diferenciais.
Seção 5 Análise vetorial clássica 119

Neles, integram-se apenas funções e campos de vetores. A proposição


de natureza geral, que se costuma atualmente chamar Teorema de Sto-
kes, ocorre nas apresentações tradicionais ou introdutórias de modo fra-
gmentado, sob diferentes títulos e formulações, conforme a dimensão do
domínio de integração.
A seguir, faremos uma breve exposição desses teoremas clássicos,
mostrando como eles estão contidos no Teorema 9, apenas com termi-
nologia e notação diferentes.
Começaremos explicando o que significa a integral de uma função
real contínua f: M ---> IR, definida numa superfície compacta orientada.
Se w é a forma elemento de volume de M então a integral de f ao
longo de M é, por definição, a integral da forma f •ci., onde, naturalmente,
( f •co)(x) = f (x) • w(x) para todo x E M.
Na notação tradicional, o elemento de volume de M escreve-se dM
em vez de w. Assim, fm f • dM = fm f • a; = f , estas igualdades
significando apenas mudanças de notação.
Exemplo 11. No Volume 2 (cfr. Exemplo 20, Capítulo 7), a curvatura
gaussiana K(x) da hiperfície compacta orientada M c R no ponto
x E M foi definida como o determinante da derivada -/(x): TM —›
T,M. da aplicação normal de Gauss -y : M —> Sm. (Lembremos que 7
associa a cada ponto x E Mo vetor unitário u = -y(x), ortogonal a
TM = TuSrn , cujo sentido é determinado pela orientação de M.) A
integral f m K • dM da função-curvatura K: M —> IR chama-se a curva-
tura integral da hiperfície M. O conhecido Teorema de Gauss-Bonnet da
Geometria Diferencial afirma que se a superfície M c R3 é difeomorfa à
esfera 8 2 então f m K • dM = 47r. Bem mais geralmente, foi demonstrado
por H. Hopf que se M c R2172+1 é uma hiperfície compacta orientável de
dimensão par então fm K • dM é um múltiplo inteiro do volume da esfera
unitária 82m. Mais precisamente, tem-se K •dM = x(M)•vol(82m),
onde o inteiro par x(M) é a característica de Euler-Poincaré da hiperfície
M. (Para maiores detalhes, ver [7].)
Em seguida, a Análise Vetorial clássica trata da integral de um
campo vetorial ao longo de uma superfície M em 11V (portanto uma
hiperfície, ou seja, a co-dimensão de M é igual a 1). Por isso é possível
tal integração.
De fato, se M c Rrn+1 é uma hiperfície compacta orientada e X: U —>
Rm+1 é um campo contínuo de vetores num aberto U C R ni+1 contendo
M, a integral do campo X na hiperfície M é, por definição, igual a
120 O Teorema de Stokes Cap. 5

f m (X, v) • dM, onde ti : M --> Rm+1 é o campo unitário de vetores nor-


mais que determina a orientação de M (e é determinado por ela). Assim,
passamos do campo X para a função (X, v): M —> R e recaímos no caso
anterior.
Uma interpretação física da integral fm (X, v) • dM pode ser dada
considerando X como o campo das velocidades das partículas de um
fluido incompressível que se desloca numa região do espaço contendo a
hiperfície M. Admitindo que se trata de um regime estacionário (steady
state), isto é, que o campo X não depende do tempo, então a integral
%Fm (X, v) • dM representa a quantidade de fluido que escoa através de
M na unidade de tempo (o que entra menos o que sai). Este número
chama-se o fluxo do campo X através da superfície M. Como o fluido é
incompressível, se não há fontes nem poços no interior de M então tudo
que entra sai e conseqüentemente f m (X, v) • dM = 0.
Seja X = (ao, ai, , ani) definido no aberto U c lEkm+1 por suas
funções-coordenada ai : U —> IR, de classe Ck.
Ao campo X: U —> 118m+1 associaremos a forma diferencial, de grau
m e classe Ck, ax : U —> 21„,„( m+1) definida por

rn

ax = 1)i ai • dx0 A • • • A dxi A • • • A dX7ri

O desenvolvimento de um determinante em relação a sua primeira


coluna mostra que, para quaisquer xeUe wi, , wm E lkm+1, tem-se

ax (x) • (wi, , wm) = det [X (x), /uh • • • %um],

onde o segundo membro é o determinante da matriz (m 1) x (m 1)


cujas colunas são os vetores X(x), wi, ,Wm .
Se M é uma hiperfície compacta orientada, fm X foi definida acima
como i m (X, v) • w, onde w é o elemento de volume de M e, para cada
x E M, v(x) E Rm+1 tem comprimento 1, é ortogonal a TxM e, se
{wi, , wn,} c TxM é uma base positiva, tem-se det[v(x), • • • zum] >
O. Isto reduz a integral f m X. à integral da forma diferencial X F->
(X(X), V(X)) • W(X) em M.
Mostraremos agora que esta forma coincide com ax
Seção 5 Análise vetorial clássica 121

De fato, dada qualquer base positiva {wi, , wm} C TM, temos

ax(x) • (wi , , wm) = det[X(x), wi, , wm] = (X(x), wi x • • • x wm)


= (X(x), v(x)) • iwi x • • • x wird
= (X(x), v(x)) • w(x) • (to', , wm)

pois o produto vetorial w1 x • • • x wm é um vetor normal a M com


o mesmo sentido da normal positiva v(x). Segue-se então que ax =
(X, v) • w ao longo de M.
Portanto, se X -=- (ao, ,a ) é um campo contínuo de vetores no
aberto U c Rm+1 eMc Ué uma hiperfície compacta orientada então
rn,
X =f (X, v) • dM = (-1)i ai dxo A • • • A crxi A • • • A dxm .
fm" J.o
Há um caso particular importante, em que X é um campo de classe
Cl no aberto U c Rm+1 eKCUéo que se costuma chamar um
domínio com fronteira regular de classe Ck (k > 1).
Isto significa que K é uma superfície compacta, com bordo, de di-
mensão m + 1 e classe Ck, contida em U. Note-se que a orientação de
Rm+1 induz naturalmente uma orientação em K pois, para cada x E K,
tem-se TxK =Rm+1. O interior de K é um subconjunto aberto limitado
em Rm+1 e o bordo OK (que é também a fronteira de int. K em R rn+1)
é uma hiperfície compacta orientada.
A diferencial exterior da forma ax é
( m )
0ai
dax = dx0 A • • • A c/int .
z oa i
A função div X: U —› R, definida por

eao 0a,
(div X)(x) = axo (x) + + axin (x)

chama-se a divergência do campo X. (cfr. Capítulo 3, Exemplo 7.)


O Teorema de Stokes nos permite afirmar que, nesta situação, vale a
igualdade abaixo

ia K (X, /I) = f div X dx,

conhecida como o Teorema da Divergência, de Gauss.


122 O Teorema de Stokes Cap. 5

Seja agora X = (a, b, c) um campo de classe C1 no aberto U c R3,


que contém a superfície compacta orientada M (de dimensão 2), a cujo
bordo C = OM atribuímos a orientação induzida por M.
Ao campo X fazemos corresponder a forma diferencial ,ax = adx +
bdy + cdz, de grau 1 e classe C1 em U. O Teorema de Stokes i m dfix
f3x nos dá

fm[(z 8b ã;
ac ) dz A dx (*)
+ — -ipa)dx A dy] = f adx + bdy + cdz.
c
Em termos do campo de vetores rot X: U —> R3, definido por

ac ab act ac ab act

(cfr. Exemplo 8 do Capítulo 3) e em virtude da tradução acima feita da


linguagem de campos para a de formas (agora usada no sentido inverso),
a integral que ocorre como primeiro membro na igualdade (*) pode ser
escrita como fm ( rot X, v) • dM, onde v é o campo de vetores normais
unitários definidos pela orientação de M e dM é o elemento de área da
superfície M.
Quanto ao segundo membro daquela igualdade, ele é a integral f c, fix•
Se chamarmos de ds a forma elemento de arco ("volume" unidimensio-
nal) em C, temos ds(v) = ±lv I, conforme o vetor v, tangente a C, aponte
para o sentido positivo da curva orientada C ou não. Então, em cada
ponto x E C, temos

v
$x (x) • v = (X(x), v) = (X.(x), — ivi = (X (x), 7-) ds(v),
lv I

onde T E TC é o vetor unitário tangente a C no sentido positivo e v é


qualquer vetor não-nulo em TC. Isto significa que [3x = (X, 7") • ds.
Assim, podemos escrever, na linguagem da Análise Vetorial Clássica

( rot X, v) • dM = f (X, 7-) • ds


c
onde v é a normal unitária positiva em Mer éo vetor tangente unitário
positivo em C.
Seção 6 Exercícios 123

Este é o chamado Teorema de Stokes clássico.


O primeiro membro representa o fluxo do campo rot X através da
superfície M e o segundo membro é a circulação do campo X ao longo
do bordo C = 3M.
O terceiro, e mais simples, dos teoremas integrais da Análise Vetorial
clássica é o Teorema de Green.
Nele, tem-se um domínio compacto M c R2, com fronteira regular
OM de classe C1. O compacto M tem a orientação natural de R2 e seu
bordo OM recebe a orientação induzida: em cada ponto x E OM um
vetor tangente não-nulo w E T(3M) possui o sentido positivo na curva
OM se, e somente se, {v(x), w} é uma base positiva de R2, onde v(x) é
o vetor normal unitário que, no ponto x, aponta para fora de M.
Se f,g:U—> R são funções de classe Cl no aberto U c R2 contendo
M, o Teorema de Green diz que

L(2_yj dxdy =
am
fdx + gdy.

Ele é simplesmente o Teorema 9 (nosso Stokes) aplicado à forma


diferencial p =fdx + gdy definida em U (portanto na superfície com
bordo M). O primeiro membro é uma integral dupla sobre o compacto
J -mensurável M e o segundo membro é uma integral curvilínea.

6 Exercícios

Seção 1. Integral de superfície


1. Como enquadrar as integrais curvilíneas no contexto deste capítulo, já que
um caminho não é uma curva ("superfície"de dimensão 1)? E, por outro lado,
como estender a noção de integral de superfície para "caminhos" de dimensões
superiores?
2. Justifique a afirmação do texto segundo a qual se tem f h*o.; = — f N co quando
h:M—>Néum difeomorfismo que inverte orientação.
3. Seja f: Sn —› Sn uma aplicação contínua. Se 74 é par, prove que pelo menos
uma das equações f(x) = x ou f(x) = --x possui uma raiz x E . Dê um
contra-exemplo para cada n ímpar.
4. Prove que todo campo contínuo de vetores tangentes no espaço projetivo t,
com n par, possui singularidade.
5. Seja a uma (n — 1)-forma contínua na esfera Sn., onde n é par. Prove que
existe x E Sn tal que a(x) = O.
124 O Teorema de Stokes Cap. 5

Seção 2. Superfícies com bordo


1. Sejam H = {(x,y) E R2; y ?. O} e P = {(x,y) E R2; x O, y 0}. Prove que
existe um homeomorfismo cp: R2 —› IlIt2 tal que cp(P) = H mas cp não pode ser
um difeomorfismo CI .
2. Seja M uma superfície compacta orientada (sem bordo). Prove que todo dife-
omorfismo h: M —> M homotópico à identidade preserva orientação.
3. Se M é uma superfície sem bordo, prove que existe uma superfície com bordo
N tal que ON = M
4. Pode a faixa de Moebius ser o bordo de uma superfície M C 11V?

Seção 3. O Teorema de Stokes


1. Seja f: B —) IRn+1 uma aplicação contínua definida na bola unitária B = {x E
RTH-1;
Ix < -‘.
it Se f(Sn) C B, prove que existe x E B tal que f (x) = x.
2. Seja M C R' um "domínio compacto com fronteira regular", isto é, uma
superfície compacta n-dimensional com bordo de classe Ck (k > 2). Prove que

1 n
VOLM = — f am (-1)i+1 xi dxi A • • • A cSi A • • • A dx,, .
n jrj

Em particular, se n = 2, tem-se área de M = f am xdy — ydx.


3. Com a mesma notação do exercício anterior, seja F: M —› Ir uma aplicação de
classe Ck cujas funções-coordenada são , fn : M —› IR. Suponha F(x) O
para todo x E am. Se a forma w = (-1)t±11.#
1 dfi. A.. . df, A • • • A dfn é tal
que f am w O, prove que existe um ponto x E M no qual se tem F(x) = O.
6

Soluções dos Exercícios

Cada uma das seções deste capítulo tem o mesmo título de um dos cinco capítulos
anteriores e contém soluções para exercícios propostos naquele capítulo. Em cada uma
delas, a notação p•q significa o q-ésimo exercício da seção p do capítulo correspondente.

1. Integrais curvilíneas

1.1 Escrevendo ca = adx + bdy, temos a = —y e b = x, logo 2 = 1 .27, =


e —1,
portanto g' ' e w não é fechada. Um cálculo imediato mostra que as formas
= (1/x2) • w, fl = (1/y2 ) • co e 1, = (l/xy) • 0.; são fechadas no conjunto U = {(x, y) E
R2; x > O, y > 0}. Além disso, se considerarmos as funções f,g,h:U --> R definidas
por f (x , y) = y / x, g (x , y) = —x/y e h(x,y) = log(y/x), teremos df = a, dg = 13 e
dh =

1.2 O item (i) é óbvio. Por sua vez, (ii) é meramente a Regra da Cadeia.
Quanto a (iii), comecemos com o pullback (i)*(dyi ). Lembrando que dyi • w = j-ésima
coordenada do vetor were que, para todo xeUe todo vElftm,a j-ésima
coordenada de cp'(x) • v é igual a E (x) • (dxi • v), a definição de cp*co nos dá
i=

(w*dyi)(x) • v = (w(x)) • cp' (x) • v = dy• • 0,o' (x) • v) = É" (x) • (dx, • v).
i=1 a •
Resulta então do item (i) que co(y) = E ai (y) • dyi implica
Ti

= y aço -
ai(y:,(x)) • —1
„ (x)) • dxi
oxi
i=1 3.1

Prova de (iii): começamos lembrando que df = f'. Então, pela Regra da Cadeia,
para todo x E U, temos

W* (df)(x) = (df)(S9(x)) • 491(x) = .149(x)) • 49'(x) = (f o49)'(x) = d(f °w).


126 Soluções dos Exercícios Cap.6

Os itens (iv) e (v) seguem-se de (iii). E (vi) segue-se imediatamente da Regra da


Cadeia.

1.3 (i) Definindo (p: 11V —{p} —> R2 —{O} por cp(z) = z —p, vemos que Qp = cp*Q.
Resulta então do exercício anterior que Qp é uma forma fechada em 2 — {p}. Se fosse
9 2, = df,, com f: 11V — {p} —› IR então, considerando o difeomorfismo = ço-1, para
o qual se tem Q p viria Q = 1P*(df) = d(f o 2.1)) e 5-2 seria exata em 1EV — {O},
uma contradição.
(ii) A definição natural de uma função-ângulo Op : U —> IR de vértice p requer
que seu domínio U esteja contido em I1V — {p}, que Op seja de classe C' e que
para todo ponto (x, y) E U se tenha cos Op(x,y) = (x — a)/ (x — a)2 + (y — b)2,
sen8p(x, y) = (y — b)//(x — a)2 + (y — b)2 onde p = (a, b). Então, considerando
novamente o difeomorfismo cp: 1182 — {p} —> R2 — {O}, (z) = z —p, e pondo V =
vemos que as seguintes afirmações são equivalentes:

I) Qp é exata em U C R2 — {p};
II) f2 é exata em V c R2 — {O};
III) Existe uma função-ângulo 0: V —> R;
IV) Op : U IR, definida por O(z) = O(z — p), é uma função-ângulo de vértice p.

Finalmente, para provar o item (iii) basta observar que se p é uma semi-reta que
contém o ponto p como origem então po = {z —p; z E p} é uma semi-reta de origem O.

1.4 Seja co = adx + bdy, logo f • ci.) = ( f • a)dx + (f • b)dy. Levando em conta que
ôb = , vemos que

OU • b) _ 0(f • a)
<=
b f _
a
f a
Ox Oy >. • Ox • ay •

Como a e b não se anulam simultaneamente em ponto algum de U esta igualdade


significa que, para todo (x, y) E U temos = k•a, = k•b, onde E
k= ( a• iax
a + b • —9
Oy
I (a2 + b2 ).

2.1 Sabemos que f w = lim S(P*) onde P* = (P, e) e


IPHO

S(P * ) = Ci-i(7(ei)) • 7 / (ei) • (ti — tz-1).


i=1

A diferenciabilidade uniforme de 7 (Teorema 4, Capítulo 2, Volume 1) assegura que,


para todo e > O dado, existe 8 > O tal que 1/31 <5 e ti _1 < e < ti implicam

7(ti) — 7(ti-1)
ti — ti-1 frY (ei)
Cap.6 Soluções dos Exercícios 127

para todo intervalo ti] da partição P, sendo M > O tal que w(7(t)) • vl < NI • ivi
quaisquer que sejam t E Ia, b] e v E Ir. Então IP1 <8 nos garante que

lE(P * ) — S (P * )I S E (7(tit). 7
t (41-1) ,y(ei))

E 2 2•-
E
< M (t • — t 1) = e.
M (b — a)

Portanto lim E(P*) = fim S(P*) = CJ.


jP1 P1-0
Se X for um campo de vetores em R' com o mesmo domínio U e escrevermos
w(x) • v = (X (x), v), o resultado acima justifica a interpretação física da integral f 7 X
como o trabalho da força X ao longo do caminho 7.
2.2 Para toda partição pontilhada P* = (P, e) temos

IE(P*)1 lw(7(ei)) • (7(ti) - ry(ti-i))1 < AI • 1-y(ti) - 7@i-1)t M•


=1

2.3/ = f f*w)(ry (t)) • "/ (t)dt = f co(f (7(t))) • Rey(t)) • 7' (t)dt =
L a

=f a
wcu o 7)( t » • u o 7Y( t ) =
fo'Y
Ca *

2.4 Note que 71(0 = (t,0), 72(t) = (1,t), 73(t) = (1- t, 1) e 74(t) = (0,1- t).
Além disso,

ff (--
ab — Dy j ab dx
= 1.1 dy Jof 1 ar 1 1 dx 1 1
j \ax o o ay dy =
1 1
=f (b(1, y) - b(0, y))dy - f
o
(a(x , 1)

Por outro lado, f , =


11
+ 12
0.1 -E ft, + 14
co. Ora, f t co = f a(t, 0)dt,
f 12 = f 01 1)(1, t)dt, = - f ol a(1 - t, 1)dt = - f oi a(t, 1)dt e 174 w = - f oi 6(0,1 -
t)dt = - f: b(0, t)dt. O resultado segue-se.
1
2.5 Como dz = dx + idy e -; = (x - iy)I (x2 + y2), temos

dz x - iy xdx + ydy -ydr, + xdy 1


(dx + idY) = + - - dlog(x2 + y2 ) + i • Q.
z x2 + y2 x2 + y2 x2 y 2 2
dz
Portanto f — f fl para todo caminho fechado 7 de classe Ga por partes, contido
z
em U.
2.6 Seja f u + iv, onde u, v: U -> R. Então

f (z)dz = (u + iv)(dx + idy) = (udx - vdy) + i(vdx + udy).


128 Soluções dos Exercícios Cap.6

Assim, f (z)dz é uma forma fechada se, e somente se, PI; = -Z


e ks pil.
Estas são
as equações de Cauchy-Riemann, que caracterizam f -= u+iv como função holomorfa.
2.7 Se w não fosse fechada, não seria localmente exata. Então existiria uma
bola aberta BcUe um caminho fechado 7, de classe CI , contido em B, tal que
= e 0. Por simplicidade, admitamos que a origem O seja o centro de B. A
3
função f: [0,1] -› R, definida por f (s) = f co, é contínua e lim f(1) = 0. Logo
existe a E (0,1] tal que if(a)1 < lei, portanto f (a) c. Quando $ varia entre a e 1,
os valores f(s) = co incluem todos os números entre f (a) e c, a maioria dos quais
são irracionais Contradição

3.1 Se existe F então definimos uma homotopia livre H: [0,27r] x [0,1] -> X
entre 7 e o caminho constante F(0) pondo H(s, t) = F((1 - t) cos s,(1 - t)sen s) para
todo s E [O, 27r] e todo t e [0, 1]. Reciprocamente, se H: [0, 27r] x [0, 1] -) X é uma
homotopia livre entre 7 e o caminho constante e E X, definimos F: B -> X pondo
F((1 - t) cosa, (1 - t) sen s) = H(s,t). Como H(0, t) = H(27r, t) para todo t E [0,1],
a aplicação F está bem definida. Além disso, se definirmos w: [O, 27r] -> B pondo
cp(s,t) = ((1 - t) cos s, (1 - t) sen s), veremos que F o cp = H. Como w é contínua e
sobrejetiva, concluiremos que F é contínua, em virtude do Teorema 20, Capítulo 2,
Volume 2.
3.2 (i) Seja r tal que H < r para todo z E U. Tomemos p E 11V - U com
l l > r. U está contido no complemento R2 - p da semi-reta p =- {t •p;t > 0}. Por
um exercício anterior, existe uma função-ângulo de vértice p definida em 11V - p, e
portanto definida em U.
(ii) Como no item (i), fixamos q E 11V - U tal que existe uma função-ângulo de
vértice q definida em U, ou seja, a forma Qg é exata em U. Devemos mostrar que,
para todo p E IV - U, a forma Qp é exata em U, isto é, que f y Qp = 0 para qualquer
caminho fechado '7: [c, -> U, de classe Cl por partes. Para isto, tomamos um
caminho À: [0,1] R2 - U com À(0) = p e À(1) = q. Os caminhos -y-p, -y - q : [c, cl] ->
R2 - {0}, definidos por t i-> À(t) - p e t 1-> À(t) - q, são livremente homotópicos por
H: [c, x [0,1] -*1k2 - {0}, H (s,t) = -y(s) - À(t). Então 17 Qp =1 í1= =
f, Sig -= 0, a última igualdade valendo porque Qg é exata em U.
3.3 Dado o caminho fechado 7: [a, b] -> 1R"" -{0}, a aplicação H: [a, b] x [0, 1] ->
Rn+1 - {0}, definida por H(s,t) = (1 - t) • ey(s) + t • (7(s)lly(s)1) é uma homotopia
Rn+1
livre entre os caminhos fechados '7 e 7/171 _ {0}, sendo este último contido
em Sn. Quando n > 1, Sn é simplesmente conexa, logo 7 é livremente homotópico a
um caminho constante.
3.4 Seja dim E = 71 — k, com k > 3. Tomando em R' coordenadas relativas
a uma base cujos últimos n - k elementos formem uma base de E, teremos E =
{(x,y) E R" x Rn-k ; x 0}, portanto R' - E = {(x,y) E Rio x Er -k ;x 0}.
Dado um caminho fechado 7: [a, 6] --> - E, podemos escrever, para cada a e
[a,17], ry(s) = (71(s),72 (8)), onde O 71(8) E Rk e 72 (8) E Rn-k . A apllicação
H: la,b1 x [0,1] -> - E definida por H(s,t) = (-n(s), (1 - t) • 72(8)) é uma
homotopia livre entre 7 e o caminho fechados 1-4 (-yi (s), 0) em k — {0}. COMO k > 3,
Rk - {0} é simplesmente conexo, logo este último caminho fechado é homotópico a
uma constante.
Cap.6 Soluções dos Exercícios 129

3.5 Basta observar que 17 ft = f tt07 w e que F é uma homotopia entre os


caminhos fo 07 e f1 07.

4.1 Podemos supor que os caminhos fechados 71,72: [a, b] —> R2 — {0}, com
n(71) = n(72) = n, são definidos no mesmo intervalo [a,b]. Sejam 01, 02 : [a, b] —> IR
funções-ângulo de 71 e 72 respectivamente. Temos (b)— 01(a) = 02(b)— 02(a) = 2717n.
Definimos então uma homotopia H: [a, x [0,1] —> I112 — {O} entre 71 e 72 pondo,
para cada s E [a, b] e cada t E [0,11,

H(s,t) = ((1 — t) • i7'(8)1+ t • 1-y2(s)I) • E((1 — t) • 01(s) + t • 02(s)),

onde E(x) = (cos x, sen x) é a função de Euler E: IR —> 8 1. Evidentemente, H


é contínua, H(.5,0) = ryi(s), H (s,1) = 72(8) e, usando a hipótese segundo a qual
n(71) = n(72), vê-se facilmente que H(a, t) = H(b,t) para todo t E [0,1], logo H é
uma homotopia livre entre 71 e 72 em I112 — {0}.

4.2 Basta provar que, para todo caminho fechado 7 em R2 — {0}, tem-se f w =
7
0. Ora, se n(7) = k então, pelo exercício anterior, 7 é homotópico livremente ao
caminho n: [O, 271 —> I112 — {O}, dado por n(s) = (cos(ks),sen(ks)). É claro que
f o w-=k•f-ri w=0. Logo f 7 w= 0.

4.3 Seja c = 2yr•fii to, onde -yi : [0,2w] --> I112 — {0} é dado por 71(t) = (cos t, sen t).
Então a forma w — c • Q tem integral nula sobre o caminho 7i. Pelo exercício anterior,
w — c • St é exata, ou seja, existe f: 1112_ {0} -› R tal que df = co—e• 12, isto é,
w = df c • Q.

4.4 Segundo o Exercício 2, devemos provar que Ai co = 0, onde 71 : [0, 271 -->
R2 —{0} é dado por 71 (t) = (cos t, sent t). Ora, parar> O, 71 é livremente homotópico
em I112 — {0} (mediante uma homotopia linear) do caminho 7, : [0, 271 —> I112 — {0},
dado por 7r (s) = (r • cos s, r • sen s). Portanto

co co < r • M•2yr.
ft.

Fazendo r --> 0, concluímos que Ai co = O.

4.5 (i) A forma w é o pullback w = F*S2 da forma elemento de ângulo Q pela


aplicação F: (x, y) 1—> (f(x,y), g(x,y)), definida no aberto A. Como Q é fechada,
segue-se que w também é.
(ii) Como acima, seja F(z) = (f (z), g(z)). Se não existisse z E B tal que
F(z) = O, o disco B estaria contido no domínio A da forma w, a qual seria exa-
ta em B e daí f c w = O.

4.6 Temos f (z)dz = (u + iv)(dx + idy) = (udx — vdy) + i(vdx + udy) logo
A f (z)dz = (udx — vdy)+i •17 vdx + udy = O pois as formas udx — vdy e vdx + udy
são fechadas (já que f é holomorfa) e o caminho 7 é homotópico a uma constante.
130 Soluções dos Exercícios Cap.6

2. Formas alternadas
1.1 (1) Imediato a partir das definições.
(ii) Se w = (u, v), w' = (7.2, vi) EEx E então w + w' = (u + til, v + v'), logo
s(w + ui) = s(u + u', v + v') = u + u' + v + VI = (u + v) (u' + v')
= s(u, v) + s(u', v') = a• V) + a• ui.
Analogamente se vê que s(a • w) = a • (a • w) se a E IR e w E Ex E, portanto s é
linear. Por outro lado, a é trilinear, em virtude da bilinearidade de f e das definições
de f + f' e a • f.
1.2 Sejam {ei, • • • ,e,} C E uma base e {ê1, , én} C E* sua dual. As for-
mas r-lineares é(,), definidas no Teorema 2, constituem uma base de G,•(E; R). De-
finamos a transformação linear f: E G requerendo que, para cada seqüência
(s) = (i1, . ,ir), seja I(ë(3)) = f (éi, , , ê4. Então as aplicações r-lineares f, f o
p : En;' x • • • x —» G são tais que f (ëi„. , = Ré(3) ) = f ((p(éi, ,
portanto f = f o ço pelo Teorema 1.
1.3 (i) Como dim£(.6*; F) = m • n, basta provar que as transformações li-
neares cp(ui, vi ): E* F são linearmente independentes. De fato, se tivermos
E aiiça(ai,v;) = o então, considerando a base dual {111, . . • ,ü,n} C E*, para cada
id •
k = 1, . . . , m será O = vi) • flk = E • fik (ui) • v; = E akivi logo aki = O
3
para todo k e todo j pois os vj são linearmente independentes.
(ii) Para obter uma transformação linear 1,5 : E(E* ; F) —> G tal que IP = •t-P o cio,
tomamos bases {ui, . . . ,u,n} c E, {vi , ,v} c F. Então as imagens ço(ui, vj)
formam uma base de f(E* ; F) e pomos 17/(ço(ui, vj)) = 1P(ui, vj). A unicidade de •CP.
resulta do fato de que qualquer Cp: r(E.; F) —› G linear que cumpra IP = •/-6 o (p deve
coincidir com /-P na base formada pelos w(ui, vi), logo é igual a 1-p.

1.4 Dados u = (x i, . . . , x.), v = (yi, , yn ) em ir, temos u = xiei , v =

yjej ,logo f (u,v) = E xigi • eij , ou seja, f (u, v) é a matriz [xi • yi1. Ora, é bem
7 =1
sabido que as matrizes deste tipo são exatamente as que têm posto 1 ou são nulas.

4 (f (u + v,u +v) — f (u — v,u — v))


1.5 (i) f (u, v) = -1
1
= — (g(u + v,u + v) — g (u — v, u — v)) = g (u, v).
4
1 1
(ii) f (u, v) = — (f (u, v) + f (v,u)) + — ( f (u,v) — f(v, u)),
2 2
logo todo f bilinear é soma de uma simétrica com uma anti-simétrica. Quanto à
unidade, basta observar que uma aplicação bilinear que é, ao mesmo tempo, simétrica
e anti-simétrica, é nula. Assim sendo, se f = a + s = a' + , teremos a— a' = —
portanto a = a' e s =
2.1 Aplicando diretamente a definição, temos:
f(viv2) = f (x ei + yie2,x2ei + y2e2) = x1x2 • f (ei,e1)
+ X1 y2 • f (ai , e2) + y1x2 • f(62, ei) + y1y2 • f (e2, e2)
= (xiy2 — x2y1) • f(ei,e2) = a • (x1y2 — x2y1).
Cap.6 Soluções dos Exercícios 131

2.2 Se um tal vetor w = (a, b, c) de fato existir, devemos ter f(ei , 62) = (e' x
62,w) = (63, w) = c e, analogamente, f(e3,ei) = b, f(e2,e2) = a, ou seja, só pode
ser w = (f (62, e3), f (63, e7), f (61,82)). Guiados por esta observação, consideremos o
vetor w assim determinado e definamos a forma bilinear alternada g: R3 x R3 IR
pondo g(v7, vz) = (v7 x v2, w). Teremos então g(ei, ez) = f(e7, 62), g(62,63) =
f (62 , e3) e 9(61,63) = f(ei,e3), portanto g = f.
2.3 Dados v7, ,v,• E E, ponhamos wi = vpw, i = 1, ,r. Então

[P(01)1(v , • • • , yr) = (erf )(vp(i), • • • , vp(r)) = (ol)(wi , • • • , wr)


= f (Wa(1), • • • ,Wo(r)) = f(vpa (1) • • • Vpo(r))

= [(po- V](vt, . • • vr),

pois wi = Vp(i) Wcr (i) = Vpa(i) •

2.4 (i) Dizer que uma forma r-linear f é alternada significa afirmar que r f = —f
para toda transposição 7 de r objetos. Lembrando que a correspondência a -•-> To- é
uma bijeção do conjunto G r das permutações de r objetos e que erg = —es , vemos
que 7-(A • f) =E e, • r(a f) = — E era • (ra)f = —A • f.
(ii) Como toda permutação é um produto de transposições, se a forma f é al-
ternada, tem-se crf = ea • f, logo Af é uma soma de r! parcelas, todas iguais a
(eu? • f = f, ou seja, A • f = r!f. Reciprocamente, se A • f = r!f então f = ;fr A • f
portanto, se T é uma transposição então Tf = 4 • Tm •
f) = +7. (—A • f) = —f pois,
como vimos acima, r(A • f) = —A • f.
(iii) De fato, para quaisquer vi, ,v,. E E, tem-se (fi• . . . .fr)(v7, • . . ,vr) =
(v1)• • Myr), logo

[A • (h • • • • • fr)(vi , • • • ,v4] = E Eu • fl(Va(1)) • • • • • fr( Vcr(r))

= deet[fi (vi )] = (fi A • • • A , vr),

portanto A • (fl . • • • •fr) = h A • • • A fr .


2.5 Observe que se a lista vi, • • • , vy. possui repetições então esses vetores são
linearmente dependentes, logo f(vi, • • . , yr) = O. Portanto f é alternada, donde anti-
simétrica.
2.6 (i) Comece observando que, fixada uma transposição 7 de r objetos, tem-se
E„ = — Ca para toda a E O,— Como = >e„ = , segue-se que
crEer. o
Co = O. Portanto, se f é simétrica, tem-se Af = E ea • a] = (Eco ) • f =
Ea r. o
O. Quando r = 2, a igualdade (Af)(u, v) = v) — f(v,u) mostra que Af = O
implica f(u,v) = f(v, u) identicamente, logo f é simétrica. Por outro lado a forma
f E £3(R3; IR), caracterizada pela relação f(e7, e2, ea) = ël • éz • ë3 — éz • é-7 • ë2 , não é
simétrica mas cumpre A • f = O.

3.1 Seja ri = dim E = dim F. Considerando os pullbacks A*: 21 (E)—> 21„(E),


B* : 2t (F) —> 9.1,.(F) e yo*: --> 21„(E), de woA=Bo cio resulta que A* o ço* =
(17* o B* . Sabemos que, para todo f E 21 (E) e toda g E 21.(F), tem-se A* f = det A • f
132 Soluções dos Exercícios Cap.6

e B* g = det B • g. Tomando g O, tem-se (p* g O e det A • cp* g = A* (cps g) =


cp* (Bs g) = cp* (det B • g) = det B • cp* g, portanto det A = det B.

3.2 Sabemos que det aT = det a. Como a é anti-simétrica, temos aT = —a. Logo
det a = detaT = det(—a) = (-1)" • det a. Se n ímpar, isto nos dá det a = — det a,
logo det a = O.
3.3 Se a E M (n x ri) é uma matriz do tipo mencionado então os primeiros in —
elementos de sua i-ésima linha são nulos. Podemos transformá-la numa matriz tri-
angular inferior levando a última coluna para o primeiro lugar, mediante n — 1 pulos
(transposições), a penúltima coluna para o segundo lugar com n— 2 transposições etc.
No total, fazendo n = (n-1)+ —2)+ • • • +1 transposições nas colunas de a ob-
temos uma matriz triangular inferior a', cuja diagonal principal é ai,,., a2,n-1, • • • 3 anl •
COMO o determinante de a' é o produto dos elementos da diagonal principal, escre-
vendo s„ = n(n — 1)/2, vemos que det a = (-1)3" •ani . (Observe-se
que s„ é par quando, e somente quando, n dividido por 4 deixa resto O ou 1.)
3.4 Se ui, ,u,,. são L.D. então ,v,,. também são e ambos os membros da
igualdade proposta são iguais a zero. Caso contrário, {ui, , un} é uma base de R'
e definimos o operador A: Rn R" estipulando que Aui = vi , • • • ,Au,, = . Então
f (vi, =f (Aui, ,Au,,.) = Det A • f (ui , • • ,u,,.) = det a • f (ui, ,u„), pois
a é a matriz de A na base {ui, • . • , un}•
3.5 Isto é claro por ri-linearidade quando todos os elementos fora da diagonal são
nulos. O caso geral se reduz a este subtraindo-se inicialmente múltiplos da primeira
coluna de modo a anular sucessivamente todos os elementos da primeira linha a partir
do segundo. Em seguida, subtrai-se de cada coluna, a partir da terceira, um múltiplo
da nova segunda coluna, de modo a anular todos os termos da segunda linha, a partir
do terceiro. Prossegue-se analogamente. (Experimente com uma matrix 3 x 3 ou
4 x 4.)
4.1 (i) Se O v E R", podemos encontrar vetores wi, , E R" tais que
{v, wi, , wn-i} C R' seja uma base. Então det[v, wi, , wn _i] O portanto
w(V) O. Assim, ço é injetiva. Como R' e 21,1(Rn) têm a mesma dimensão ri,
segue-se que cio é um isomorfismo.
(ii) Seja ç(v) • (w-, , • • • ,W-1)
n = ao valor de (n, — 1)-forma w(v) na seqüência
(W1, • • • , Wn-1). Ponha f = a • tbi A • • • A t,, -i, onde Fii,21)1,. . .,ún_i} C (Rn)*
é a base dual de {v, wi, , }. As (n — 1)-formas alternadas cp (v) e f as-
sumem o mesmo valor w(V) • (wi , • • , wn--4) = a e 40(v) • =
f (v, wi , • • • , z1),, • • „wri_i). o (i = 1, , n — 1). Logo cp(v) = f = a • zin A • • • A ff).-1
(iii) Com efeito, toda forma (n — 1)-linear alternada g E 21_1(1Rn) é do tipo
g = w(v) para algum v E R".
4.2 Supondo que existissem f = (ai, a2, as, a4) e g = (bi,b2,b3,b4) tais que
f A g = éi A é2 é3 A é4 , daí resultaria que (f A g)(ei, es) = (f A g)(ei,e4)
(f A g)(e2, 63) = (f A 9)(e2,64) = O, logo aib3 -= a3bi , a1b4 = a4bi , a2b3 = a3b2 e
a2b4 = a4b2 . Considerando os vetores vz = (ai, 14) E R2, i = 1,2,3,4, as igualdades
acima significam que estes 4 vetores são colineares. A colinearidade entre vi e v2 nos
dá ai b2 -= a2bi , logo O = aib2 a2bi = (f A g)(ei e2) = (éi A è2 é3 A é4)(ei, e2) --= 1,
uma contradição.
Cap.6 Soluções dos Exercícios 133

4.3 Considere uma base {h , , fr ,h,±1, ,h,,} C E* cujos primeiros r ele-


mentos são os funcionais dados. Para cada j = 1,. , r, podemos escrever gi =
aiifi + E akihk . Então, fazendo os índices i, j variarem de 1 a r enquanto k
i=1 k=r+1
varia de r 1 a Tb, temos

0=EhAgi= aii•hAfi+ aki•fiAhk


i,j j,k
= — aii) •f A h + >aki •fi Ahk.

Como as formas f p A fq com p < g constituem uma base de 212(E), levando em


conta que se tem j < k sempre, segue-se que aki = O para todo j = 1, ,r e todo
k = r 1, ..., n, portanto os gi são combinações lineares dos fi apenas e, além disso,
nas expressões gj = E ai; h tem-se = a».

72

5.1 Sejam h, • • • fr E (Rn)* e • • • ur E Re definidos por b --= E ai.k • ëk


k=1

e V3 = bk3" Ck . Então f2(v3 ) = E atk • bbcj é o ij-ésimo elemento da matriz ab,


k=1
onde a = [ais] e b = [bu]. Assim, det[ab] = det[b(vi)] = (fl A • • • A h-)(vi, vr).
Escrevendo fi A • • • A fr = E det aK • éK e lembrando que éK • (vi, , v,-) = det
ficamos com det[ab] =E det ax • det bx •

5.2 Seja a E M(n X (n + 1)) a matriz cujas linhas são os vetores ni enquanto
b E M((n +1) x 71) tem como colunas os vetores v1. Então, pelo exercício anterior,
levando em conta que o ij-ésimo elemento da matriz ab é (u,, vi), temos
n-1-1
det[(u, 'ui)] = det ab =
> det ak • det bk
k=1

onde ai, e bk são as matrizes nx n que resultam de a e b por omissão da k-ésima coluna e
da k-ésima linha respectivamente. Lembrando que tilx • • • x E(--i)k ±1 det aa s,,ek

e vi x • • • x tun = E( 1)k+1 det bk • ek , obtemos a igualdade detRui, vi)] --= (ui x • • • X
Un , VI X • • • X Vn ).

5.3 Primeiro observemos o seguinte: se A: E F é sobrejetiva então A*: 21.,-(b)--->


21,-(E) é injetiva. Com efeito, sendo sobrejetiva, A possui uma inversa à direita, que
é uma transformação linear B: F --> E tal que AB: F —> F é a aplicação identidade.
Então B* A* = (AB)* : 2tr(E) —› 21,-(F) também é a aplicação identidade, logo B*
é inversa à esquerda de A* e conseqüentemente A* é injetiva. De modo análogo se
mostra que se A: E —> F é injetiva então A*: 91,•(F) --> 21,-(E) é sobrejetiva. Seja
agora A: E —> F uma transformação linear de posto p = dim Fo , onde Fo c F é a
imagem de A. A aplicação de inclusão i: Fo —> F é injetiva enquanto que Ao: E Fo
(tal que A = i o Ao) é sobrejetiva Assim, no diagrama abaixo, i* é sobrejetiva e A'O'
é injetiva:
At
21,-(F) 21,(F0) 91,(E).
134 Soluções dos Exercícios Cap.6

Segue-se que o posto de A* = k i; i* é igual à dimensão de 21,-(F0), que é Cri.

6.1 Temos, por exemplo


a3 _ _ 124 _
fi = a2 • él + ai • éz = -- • ei + ea f3 = — • ei + e3 , logo
ai ai
fi A f2 = ai • éz A e3 + az • e-1 A é3 a3 • él A ëz e daí
fi A f2 A f = ai • ê2 A é3 A 64 + az • é-i A é3 A 64 + a3 • !I. A é2 A ê4+
+ a4 • ël A é2 A é3

e assim por diante.


Ora, alterando, se necessário, a numeração dos elementos da base de R' podemos
escrever cada f E 2ln _i(Rn ) como f = E ai • ël A • • • A A êi.4.1 A • • • A én com
c/1 O salvo, naturalmente, o caso óbvio em que f = 0. Assim, toda f E 21„_1(r)
é decomponível.
6.2 Se estes conjuntos são bases do subespaço S c E* então dim S = r e
dim 9.4(8) = 1. Como fi A • • • A fr e gi A • • • A gr são elementos não-nulos de 21.,.(8),
existe a 0 tal que gi A • • • A g,. = a • fi A • • • A . Reciprocamente, se vale esta igual-
dade então para todo h E E*, tem-se h A (fi A • • • A fr) 0 •(=> h A (gi A • • • A gr ) $0, ou
seja, {h, 1'1 , , f,.} é L.I. se, e somente se, {h, gi, , gr} é L.I. Portanto os conjuntos
{A, • • • , fr} e {gi, ,gr} geram o mesmo subespaço S c E*.
6.3 Evidentemente, S é um subespaço vetorial de E*. Seja A: E* —> S a trans-
formação linear definida por A•g=gA fi A • • • A f,-. Pela própria definição de S, A
é sobrejetiva. Além disso, g pertence ao núcleo de A se, e somente se, {g, fr.}
é um conjunto linearmente dependente. Portanto, o núcleo de A é o subespaço (r-
dimensional) de E* gerado por , . Pelo Teorema do Núcleo e da Imagem, a
dimensão de S é n — r.
6.4 Se fo = O então wn+1 tem pelo menos grau n + 1, logo é igual a zero
(supondo n = dim E) portanto w, neste caso, não possui inverso. Suponhamos agora
que seja fo = 1. Então, escrevendo 0 1 — w, temos 0;n+1 - . 0, logo 1 = 1 _
(1-0)(1+0+ • • •+C.;"). Como 1-0; = w, vemos que w possui o inverso 1+0., + • • • +cDn.
Mais geralmente, se fo = a 0, temos w = a • w1 onde a componente de grau O de
wi é igual a 1, logo cai possui inverso e w também possui.

3. Formas diferenciais
1.1. Sendo uma forma de grau 2 em R3, w = p A 7/2 é decomponível. Como
w A a = 0, temos, para cada p E U, cp(p) A 11.c(p) A a(p) = 0, logo os funcionais
lineares (p(p), tb(p) e a(p) são coplanares no espaço vetorial 'R3)* e analogamente
são coplanares ço(p), ii;(p) e I3(p). Como a(p) A fl(p) 0, os funcionais a(p) e P(p)
formam a base de um plano II(p) em (R3)*, ao qual pertencem y(p) e ti.)(p). Então
w(p) = cp(p)AV;(p) = f (p)•[a(p)A )3(p)] pois {a(p) A P(p)} é uma base de 212 (II(p)). A
igualdade w = f •aAP implica que se a e são de classe C", f também é. Com efeito,
sejam w = adx Ady+ bdy Adz+ cdx Adz e a AP = alclx Ady+WdyAdz-Fc'dx Adz.
Cada p E U possui uma vizinhança A em todos os pontos da qual se tem, digamos,
a' $0. Então de a = f • a' resulta que! = a/a' em A, logo f E Ck.
Cap.6 Soluções dos Exercícios 135

1.2. Se M é orientável, a forma elemento de volume atende à questão. Recipro-


camente, se w é uma forma contínua de grau máximo, com w(x) O em todos os
pontos x E M, diremos que uma parametrização cp: Uo —> UCMé positiva quando
U for conexo e, para todo x = w(u) E U, tivermos w(x) (u), > O.
O conjunto 21 dessas parametrizações chamadas de positivas é um atlas em M. Para
mostrar que 21 é coerente, sejam cio: Uo —> U e IP: Vo —> V pertencentes a 21, x =
w(u) =- 0(v) E unv, e e = /r i o : w-1(U V) —> /P.- I (Uri V). Sabemos (Volume 2,
Capítulo 7, Seção 4) que a matriz a = [aii] de passagem de base { , (v)}
para a base { -/-4(u), , -1, • (u)} em T.M é a matriz jacobiana de e no ponto u.
Além disso,

w(x)
aw (u), ço
a (u)) = det[ati
, aum w(x)
aip
avi (v),
(9-tP
, avm (v)
Dui
Segue-se que det[ail l > O portanto w e 7.P são compatíveis, o atlas 21 é coerente e M é
orientável.
1.3. Seja w uma forma contínua de grau máximo, diferente de zero em to-
dos os pontos de N. Seu pullback f*ca tem as mesmas propriedades em M pois
f'(x): T.M —> Tf (.)N é um isomorfismo para todo x E M. Logo M é orientável.
1.4. Sejam w em M e & em N formas diferenciais contínuas e positivas, cujas
existências caracterizam as orientabilidades de M e N. Para todo x E M existe um
único número À(x) O tal que (f*c74(x) = )14/ (x) • w(x). Como À: M --> R — {O}
é contínua e M é conexa, ou bem À(x) > O para todo x E M (e então f preserva
orientação) ou À(x) co para todo x e f inverte orientação.
1.5. Que f é um difeomorfismo, é claro, pois f o f = id. Quanto à orientação,
em cada ponto x E R' — {O} o espaço tangente Ir se decompõe na soma direta =
Ex e Fx , onde E. é formado pelos múltiplos do vetor x e Fx pelos vetores ortogonais
a x. A derivada f' (x): R' —> Ir deixa invariante cada um desses subespaços. Em
F. ela é simplesmente a multiplicação pela constante 1/r2, onde r = ixl, pois todo
v E F. é tangente à esfera de centro O e raio r, ao longo da qual f é simplesmente
a multiplicação por 1/r2. Por outro lado, f' (x) transforma todo vetor v E E. num
múltiplo negativo de v pois f, ao longo da semi-reta aberta formada pelos pontos t •u,
u = xlixi, t > O, tem a forma f(t • u) = s • u, s = 1/t2 , logo tem derivada negativa.
1.6. Seja 21 o conjunto das parametrizações do tipo f o : Uo —> W c N onde
w: Uo —> UC M é uma parametrização positiva tal que U é conexo, e f: U —> W é
um difeomorfismo. Evidentemente, 21 é um atlas. Para provar sua coerência, sejam
f o w: Uo —> W, f o 21): Vo —> Z pertencentes a 21, com Wnz$ 0. Então

°'çb)-1 ° (f°W) = 1P-1 ° [(f °(fIU)] ° (f 3 Sor (Wn Z) (f ° 1(Wnz)


é a composição de difeomorfismos que preservam orientação, conforme a hipótese feita
sobre f. Segue-se que 21 é coerente. Pelo Exercício 4, ou ambas as transformações
lineares f i(xi): T.i M —> TyN, f'(x2): Tx2 M TyN (onde y = f(xi) = f (x2))
preservam orientação ou ambas invertem. Em qualquer caso, a composta f i(x2)-1 •
f /(xi): Tx1 M "--) T.2 M preserva orientação.
1.7. A primeira coisa a observar é que f(x) = f(y) •(=> y = ±x. Em seguida,
consideramos cada matriz simétrica [xi • xi] como um ponto de i ("41)(11+2)/ 2, levando
136 Soluções dos Exercícios Cap.6

em conta apenas os elementos x xi com i < j e dispondo as linhas uma após


a outra, em sua ordem natural. (Por exemplo, se x = (xl, x2 , x3) então f(x) =
2
(X?, XiX2, X1X3, X2, X2X3, X). Sem perda de generalidade, dado x = (xi, • . • ,xn+i) E
Rn+1
— {O}, podemos supor xi g
O. A matriz jacobiana J f (x) E M(rn x (n + 1)),
onde m = (n + 1)(n + 2)/2, tem posto n + 1 pois suas primeiras n + 1 linhas formam
a matriz invertível
2X1 O O O
X2 X1 O O
X3 O X1 O
Xn-I-1 O O •••

Portanto, para todo x E Rn+1 - {O}, a derivada f' (x): Rn+1 Rrn (onde m =
(n. + 1)(n + 2)/2) é injetiva. Em particular, chamando ainda de f a restrição à esfera
Sn, a derivada f' (x): -> Ir é injetiva, qualquer que seja x E S. Assim, se
w: U0 -> U C Sn é uma parametrização tal que U não contém pontos antípodas, a
composta f o : Uo -› V = f (U) é uma imersão injetiva. Para mostrar que f ow é uma
parametrização em Pn = f (Sn), e portanto que PP' é uma superfície, resta provar que
a imagem f (A) de todo aberto A C Sn é um conjunto aberto em PT' = f (Sn), ou seja,
que F = P71 - f (A) é fechado em Pn (ou em R', tanto faz pois PI' é compacto). Ora,
como f é sobrejetiva, temos F = f (f (F)) e, escrevendo -A = {-x; x E A} temos
-A aberto em Sn, logo f'(F) = Sn - f f (A) = Sn - (AU (- A)) é fechado em Sn,
portanto compacto e daí F = f (f"(F)) é compacto, portanto fechado. Vemos então
que Pn é uma superfície compacta n-dimensional em m = (ri +1)(n + 2)/2.
Examinemos a orientabilidade de Pn à luz do exercício anterior. Pela Regra
da Cadeia, a igualdade f (-x) = f (x) implica que, para todo x E Sn e todo vetor
v E Ti Sn = T-.Sn , tem-se f'(-x)-1 • f' (x) • v = -v, ou seja, a transformação linear
f'(-x)-1 • I.' (x): T.Sn -> T_ x Sn é simplesmente a multiplicação por -1. Aqui cabe
uma observação crucial. Como espaços vetoriais, 7;Sn e 7t i Sn coincidem. (Por isso
faz sentido dizer que uma transformação linear T I S " 71_.8n é a multiplicação
por -1.) Mas, segundo a orientação de Sn , uma base positiva em é negativa
em T_.,Sn e vice-versa. Portanto a multiplicação por -1 é uma transformação linear
Tx Sn -> rl_.Sn que preserva a orientação quando n é ímpar e inverte quando ri é par.
De acordo com o exercício anterior, o espaço projetivo PI' é orientável se, e somente
se, 71, é ímpar.

2.1. Todas as afirmações são verdadeiras, exceto a terceira. A primeira, porque


toda forma de grau n em R' é fechada, logo é exata pelo Lema de Poincaré. A
segunda, porque a A = d((-1)r a A fi) onde r = grau de a. A terceira é falsa por
causa da primeira ou, mais explicitamente, porque a forma diferencial w = dxi A • • • A
dxn , elemento de volume de IR", cumpre c.) = da, onde a = 1 7 E(-1)i±1 ai • dxi A
• • • A dxi A • • • A dxn . (No Capítulo 5, veremos que a referida afirmação é verdadeira
quando M, além de orientável, é compacta.)
A quarta afirmação é verdadeira porque d( f * w) =

2.2. (i) Temos d([0.2) = df Acc, +[da; = O. Daí resulta que df AcciAw+ f • dwAu.; = O,
ou seja, f • dwAw= O. Como f (x) O para todo x E U, conclui-se que dc.) A w = O.
(ii) A forma o) = xdy+ydz+zdx em 1EV é tal que w Adco = (x+y+z)dxAdyAdz O.
Cap.6 Soluções dos Exercícios 137

(iii) Sendo f um fator integrante de co, temos df A w + f • doi = O. E de a -


(.‘) f • dxn+i resulta que da = df A dx7,44 . Portanto a A da = co A dco — (df
w + f • dw) A dx,±1 = O em virtude de (i).
(iv) Como to e &o não contêm o fator dx„±i , de a A da = O resulta que df A oi
f • &o = O, ou seja, d(f • co) = O, logo f é fator integrante de co.

2.3. Considerando a projeção radial f: R n+1 — {O} S n , dada por f (x) =


e a aplicação de inclusão i: Sn 1W'" {O}, temos f o i = id : Sn —> Sn logo, dada
a forma co em Sn, seu pullback cD = f*o.; é uma forma em Rn-E1 — {O} cuja restrição
a Sn é i*Cr.) = ifco = (f o i) co =
Então, uma forma fechada co de grau 1 em Sm é a restrição da forma fechada
= Tu.) no aberto simplesmente conexo Ilkn+1 — {O}, logo CO = df é exata e daí
co = df, onde f = f IS". A função f: Sn —> IR assume seu valor máximo num ponto
x E Sn, logo co(x) = df (x) = O.

2.4. Evidentemente, se co é exata em Pn então f * co é exata em Sn . Suponhamos,


reciprocamente, que f*o.; = da seja exata. Devemos achar ao em tal que co = dao
Para isso, introduzimos a forma a = (a + A*a), onde A: Sn —> Sn é a aplicação
antípoda, definida por A(x) = —x, e A*a é o pullback da forma a mediante A. Vê-se
facilmente que A*ã = ã e que dá = f*co. A igualdade A*d = ã, implica que existe
uma forma ao em 13' tal que ã = f *ao • Para definir ao, tomemos arbitrariamente
y E Pn e wi, • • • , wr E TyPn (r —1 = grau de ao). Então y = f(x) = f (—x), x E Sn
e wi = (xi) • vc = f'( —x) (—vi), E T.Sn = , i =1, ,r — 1. A definição
de ao é dada por

ao (y) • (w , • • • , vi,.) = ã(x) • (V1 ) • • • Vi) = ã( — x) • ( — V1, • •

a última igualdade valendo porque ã = A* á.


- Ela significa que ao está bem definida
e a primeira igualdade acima quer dizer que f*ao = ã. Então

f* (d ) = d(f* ao) = dá = f*

Como f é um difeomorfismo local, f* é um isomorfismo linear portanto de f*(dao) =


f*o., resulta que co = dao •

2.5. Consideremos o difeomorfismo local f: Sn —> Pn. Se co é uma forma fechada


de grau 1 em P", seu pullback f*(2.1 é ainda uma forma de grau 1 fechada em Sn. Como
a esfera Sn é simplesmente conexa, f *u.; é exata. Pelo exercício anterior, segue-se que
co é exata em En.

Observação. Vê-se deste modo que para toda forma fechada w de grau 1 em
Pn tem-se f co = O para todo caminho fechado 7 em Pn. No entanto, isto não quer
7
dizer que E' seja simplesmente conexo. Por exemplo, se 7: [O, 7r] —> Sn , definido por
7(t) = (cost, sent, O, , O), é a metade de um círculo máximo então ti = f ory: [O, 71-] —>
E' é um caminho fechado em E' que não é livremente homotópico a uma constante.
(Veja [8], pág. 78.)
138 Soluções dos Exercícios Cap.6

4. Ohne Titel

1.1 Os itens (i) e (ii) são imediatos: E=r ee= +oo. A resposta do item(iii)
é e = 1/2. A razão é a seguinte: a normal a M pelo ponto p = (8, 82) corta o eixo
y, que também é normal, no ponto g = (0, s2 -E- 1/2), cuja distância a p é Vs2 + 1/4,
valor tão próximo de 1/2 quanto se queira, desde que IsI seja pequeno. Logo E < 1/2.
Por outro lado, duas retas normais a M só se intersectam após pelo menos uma delas
cortar o eixo y. Logo não pode ser E < 1/2.

1.2. (i) Definição óbvia. Vamos aos sub-itens de (ii):


(a) Se o aberto A C R' é convexo ep E A então a aplicação constante f: A —> {p}
e a inclusão i: {p} —> A são equivalências homotópicas, uma inversa da outra pois
foi = id: {p} —> {p} enquanto que H: A X [0,1] —› A, definida por H(x,t) =
(1—t)x+tp,éuma homotopia entre a aplicação identidade id: A —> A e io f: A —> A.
(b) A inclusão i: 1Rri+1 _ {0} e a projeção radial f: Rn+1 — {0} —› 8",
f (x) = x/ixi são equivalências homotópicas, pois foi = id: Sn —› .9" e H: r +1 —
({o} x [0,1]) Rn+1 {0}, definida por H(x,t) = (1— t)x+tx/ixi é uma homotopia
entre a aplicação identidade id: Ir +1 — {0} --> 11r1+1 — {0} e i o f.
(c) Considere f: 1VI X Rn M, f(x,v)= x e g: M —> Mx R', g(x) = (x,0). São
equivalências homotópicas, uma inversa da outra, pois f og: M —> M é a aplicação
identidade e H: (M x IR") x [0,11 —> M x IR", definida por H(x,v,t) = (x,(1— t)v) é
uma homotopia entre a aplicação identidade de M x IR' e gof : M x —> M >cri .
(d) O argumento aqui é o mesmo dos sub-itens anteriores: tomamos f: U —> C
definida por f(v,z) = (v/Ivi,z), v = (x,y) e g: C —> U, g(v,z) = (v, z). Então
f og: C —> C é a aplicação identidade enquanto que gof :U —> U é homotópica à
identidade de U mediante H: U x [0,1] --> U, definida por H(v, z, t) = ((1 — t) +
tv,z).

1.3. Chamemos de g: N —> M uma inversa homotópica de f. Se w = da E Kr(N)


é exata então f *w = f* (da) = d(f*a) é exata em M. Reciprocamente seja w E (N)
uma forma fechada tal que Pu) = d/@ é exata em N. Como f o g id: N —> N, o
Teorema 3 assegura a existência de a E Ar-1(N) tal que ( f o g)*ca — w = da, ou seja,
w = g* (f*o.)) — da = g* (dfl) — da = d(g* — a), logo w é exata.

1.4. A aplicação f: U —.8', dada por f (x, y, z) = Vx2 X


+y2 y x2 +y2
é uma

equivalência homotópica, da qual g: 8 1 —> U, dada por g(x,y) = (x, y, 0) é uma


inversa. Como dim S1 = 1, toda forma de grau 2 em 54 é nula. Então, para toda
forma co de grau 2 em U, seu pullback g*u: é zero, logo é uma forma exata em 8 1.
Pelo Exercício 1.3, w é exata em U. A recíproca é óbvia.

1.5. O fibrado normal da superfície m-dimensional M c R. é o conjunto vM =


{(x,v) E M x Rn; v E &M}. Se 17,(M) é uma vizinhança tubular de M em IR'
então a aplicação f: vM —› IR", definida por f(x,v) = x+ v, é de classe C41-1 se H é
de classe Ck (k > 2). O conjunto U = {(x, v) E vM; v < e(x)} é a imagem inversa
f -1(14 (M)) , logo é aberto em vM e contém a seção nula Mo = {(x, O) E vM; x e M}.
E, como se viu no Capítulo 4, f é um difeomorfismo local bijetivo, portanto um
difeomorfismo, de U sobre 14(M). A projeção 7r: lie (M) —> M é uma equivalência
homotópica, cuja inversa é a inclusão i: M —> 14(M). A homotopia que faz o trabalho
Cap.6 Soluções dos Exercícios 139

é H: (M) X [0,11 -> Vs(M), definida por H ( f (x, v), t) = f (x, (1 - t)y), onde f é o
difeomorfismo, definido acima, de U C vM sobre VE (M).
2.1. Seja fu + fv = 1 uma partição da unidade de classe G', estritamente
subordinada à cobertura M = U U V, assim as funções fu, fv M —> [0,1] são tais
que supplu C U e supplv C V. Definamos a E Ar(U) e )3 E Ar (V) pondo
a(x) = fv(x) • ca(x) se x E Un V e a(x) =OsexEU-V,f3(x)= - fu(x) • co(x)
se xEUnVe )3(x) =OsexEV- U. Então, para todo x E Un V, a(x)- fi(x) =
fv (x) • w(x) + f u (x) • w(x) = w(x). Se &o = O então da - d/3 = O em U n V portanto
as formas da e dfl coincidem em U n V, e assim definem uma forma -y E
(Note que 7 é exata em U e em V mas não necessariamente em M = U u V.)
2.2. Se X c Ir é fechado então, para cada À E L, (X) é fechado em F.), e
x) _ u fA--1. (x)
portanto em F. A família dos E l (X) é localmente finita, logo f-
é fechado e conseqüentemente f é contínua.
2.3. Este fato, que merece ser mencionado explicitamente, é uma conseqüência
imediata do Teorema 8.
2.4. Seja f + g = 1 uma partição da unidade de classe C" estritamente subordi-
nada à cobertura aberta M = U U (M - F). Temos suppl C U e supp.g c M - F.
Então, para todo x e F, vale g(x) -= 0, logo f(x) = 1. Além disso, f(x) = O para
todo x E M - U.
2.5. Como no exercício anterior, obtenha f: M -> IR tal que f(x) = 1 para todo
x F, suppl C Uef (x) = O se x E M - U. Se = defina, para cada
= 1, . . . ,n, a função (14: M -> IR pondo (I),(x) = f(x) • g,i(x). Então a aplicação
M -> cujas funções-coordenada são i, . • • , (I),‘ coincide com cp em F.

5. O Teorema de Stokes
1.1. Se co: U -> (11r)* é uma forma contínua de grau 1 em U e -y: [a, b] -> U
é um caminho de classe Cl , então a integral curvilínea f ca' conforme definida no
Capítulo 1, exprime-se, em termos dos conceitos e notações do Capítulo 5, como a
integral f [a,b] -y*to do pullback 7*o., ao longo da superfície unidimensional orientada
[a, b]. Um "caminho" em dimensão > 1 seria uma aplicação contínua f: M -> N e,
se f E C1, o papel de integral curvilínea seria desempenhado pondo-se, por definição,
f f = f m To), onde co é uma forma diferencial contínua em M, cujo grau é igual à
dimensão da superfície M, que se supõe orientada e compacta, com bordo.
1.2. O ponto crucial consiste simplesmente em observar que se x < O então Ix =
-x. Então o Teorema de Mudança de Variáveis para integrais múltiplas, no caso em
que det Jh(x) <0 para todo x E X, lê-se f h(x) f (y)dy = -J x f (h(x)) • det Jh(x)dx.
A partir daí, prosseguir como no texto.
1.3. O campo de vetores v: -> r +1, definido por v(x) = f(x) - (x, f (x)) • x
é tangente a Sn. Como Tb é par, devemos ter v(x) = O para algum x E Sn. Isto só
pode ocorrer se f(x) = +x
Se n é ímpar, então ri +1 = 2k é par e os pontos da esfera Sn podem ser escritos
sob a forma z = y1, X2, Y27 • • • Xk Yk)• A aplicação f: Sn -> Sn , definida pondo-
se f(z) = —y2, x2, • • • , x.) cumpre f(z) z e f(z) -z para todo
z E Sn.
140 Soluções dos Exercícios Cap.6

1.4. A projeção natural f: Sn -> P", f (x) = [xi • xj] se x = (xi, xn+1), é
um difeomorfismo local, logo f' (x): T.Sn -› Tf (x)P" é um isomorfismo, para todo
x E S". Dado o campo contínuo 111 de vetores tangentes a P", definimos o campo
v em Sn estipulando que f i(x) • v(x) = w(f (x)) para todo x E S". Como n é par,
existe x E Sn tal que v(x) = O e, conseqüentemente, w(f(x)) = O.
1.5. Em cada ponto x E S", considere o isomorfismo cp. : (S") ->
7
que associa a cada vetor v E 7;(S t) a (n-1)-forma w = cp.(v) tal que w(vi , v,.- =
se , vn_i E T.(Sn), onde o- é o elemento de volume de
Tx (Sn). Seja W.(cp.)-1. O campo de vetores v, dado por v(x) = W.(a(x)) anula-se
em algum ponto xo E Sn (Poincaré-Brouwer). Então a(x0) = O.
2.1. Considere cada z = (x, y) E R2 como o número complexo z = x iy.. Defina
o homeomorfismo o: P -> H pondo simplesmente w(z) = z2 para todo z E P. Se
existisse um difeomorfismo ço:P->H, consideraríamos seu inverso 11):H->Peo
ponto zo E H tal que W(zo) = O. É claro que W transformaria o eixo das abcissas X C
H no ângulo reto Y = {(x, y) E P; xy = O}, logo seria um difeomorfismo de X sobre
Y. Mas, introduzindo À: R --> P, A(t) = 11)(zo tei), teríamos 1p' (zo) •
El = A/ (0) O.
Mas o vetor velocidade do caminho À no ponto t = O é horizontal ou vertical conforme
se considere À'(0) como derivada à direita ou à esqureda (não respectivamente). Então
deveria ser À'(0) = O, uma contradição.
2.2. Podemos, sem perda de generalidade, supor M conexa. Então, se h não
preservasse a orientação de M a inverteria. Sejam w uma forma contínua de grau
máximo e positiva em M. Teríamos f m liso) < O. Mas, como h é homotópico à
identidade, vale f m Mc° = f m ca > O. Contradição.
2.3. Basta tomar N = M X [0,1).

2.4. Não, pois M teria que ter dimensão 3 e, como está contida em R3, seria
orientável. Daí seu bordo seria também orientável logo não poderia ser a faixa de
Moebius. (Daí se vê que o sólido tridimensional (Moebius) x [0,1) não cabe em R3.)
3.1. Note que não se está supondo que f (B) C B, logo o Teorema de Brouwer
não se aplica diretamente a f. Então introduzimos a retração w: Rn+1 -> B, definida
por ço(x) = x se ixi > 1 e w(x) = x se lxi< 1. Agora o Teorema de Brouwer
se aplica a g = cio o f : B -> B. Seja x E B tal que g(x) = 9(f (x)) = x. Se for
if (x)I < 1, teremos ço(f (x)) = f (x) = x e x será um ponto fixo de f, como se deseja.
Se, entretanto, for if(x)i > 1, duas coisas acontecem: primeiro, tem que ser lx1 < 1
pois AS') c B (ou seja, xl = 1 if(x)1 5 1). E, segundo, Icp(f(x))1 = lx/jx1 = 1,
uma contradição. Por conseguinte, todo ponto fixo de g é um ponto fixo de f.
3.2. Esta fórmula, que permite reduzir o cálculo de um volume n-dimensional a
uma integral em n - 1 dimensões, é especialmente interessante no caso n =- 2. Ela
resulta de uma aplicação imediata do Teorema de Stokes, observando-se apenas que
a diferencial exterior do integrando é o elemento de volume da superfície M.
3.3. Basta notar que w = (F1M)*(2, onde Q é a forma elemento de ângulo sólido,
a qual é fechada e definida em IR" - {0}. Se F(x) fosse O para todo x E M, teríamos
de fato uma aplicação F: M -> R' - {O} e co = ((FIM)* St)laM. Então seria

w=f F*Q = f d(F*Q)


fam am
Referências Bibliográficas

[1] E.L. Lima, Análise Real, vol. 1 (94 edição). Coleção Matemática Universitária,
IMPA, 2007.
[2] E.L. Lima, Análise Real, vol. 2 (24 edição). Coleção Matemática Universitária,
IMPA, 2006.
[3] E.L. Lima, Curso de Análise, vol. 1 (124 edição). Projeto Euclides, IMPA,
2007.
[4] E.L. Lima, Curso de Análise, vol. 2 (94 edição). Projeto Euclides, IMPA,
2006.
[5] E.L. Lima, Álgebra Linear (& edição). Coleção Matemática Universitária,
IMPA, 2003.
[6] E.L. Lima, Álgebra Exterior (2 edição). Coleção Matemática Universitária,
IMPA, 2005.
[7] E.L. Lima, Introdução à Topologia Diferencial. Monografias de Matemática,
IMPA, 2001.
[8] E.L. Lima, Grupo Fundamental e Espaços de Recobrimento. (24 edição). Pro-
jeto Euclides, 1998.
[9] S. Lang, Fundamentais of Differential Geometry. Springer, 2001.
[10] Th. Briicker, Analysis III, Wissenschaftsverlag, 1992.
[11] J. Lafontaine, Introduction aux Variétés Différentielles, Presses Universitaires
de Grenoble, 1996.

As oito primeiras referências dizem respeito a trabalhos citados no texto. As três


finais são livros que podem servir de leitura colateral ou continuação dos temas aqui
tratados.
Índice Remissivo

Álgebra de Crassmann, 45 exata, 59


exterior, 57
Aplicação Divergência, 65, 121
alternada, 31 Domínio
• anti-simétrica, 47, 48 com fronteira regular, 121
de classe Ck , 100
simétrica, 47 Elemento
Avaliação, 29 de ângulo, 25
de ângulo sólido, 55
Base
de volume, 46, 53
positiva, 93
Equação
Bola
de Laplace, 8
normal aberta, 67
Equivalência homotópica, 89
normal fechada, 67
Espaço
Bordo, 99
projetivo real n-dimensional, 66
da superfície M, 103
de A,100
Família
Caminho localmente finita, 75
classe Ck por partes, 13 pontualmente finita, 75
justaposto, 13 Fator integrante, 66
oposto, 12 Fluxo, 120
poligonal, 13 Forma, 29
Componentes homogêneas, 45 r-linear, 29
Condições de integrabilidade, 2 anti-simétrica, 31
Conjugados, 48 classe Ck, 2
Conjunto diferencial complexa, 26
estrelado, 10 diferencial de grau, 1, 50
simplesmente conexo, 19 elemento de ângulo, 4
Curva exata, 2
de Jordan, 84 fechada, 2
Curvatura integral, 119 induzida, 51
positiva, 65
Decomponível (forma), 39 Função
Determinante, 35, 36 ângulo, 4
Difeomorfismo, 100 ângulo de vértice p, 25
Difeomorfismo local, 94 ângulo do caminho, 21
Diferencial auxiliar, 78

143
144 Índice Remissivo

harmônica, 8 com bordo, 102


holomorfa, 8 orientável, 106
potencial, 2 Suporte, 77

Grupo simétrico, 32 Teorema


da Divergência, 121
Homotopia, 15, 60 de Brouwer, 112
adaptada, 61 de Green, 123
linear, 16 de Poincaré-Brouwer, 97
livre, 15 de Stokes, 110
Jordan-Brouwer diferenciável, 84
Integral curvilínea, 11 Tipo de homotopia, 89
Transformação linear induzida, 36
Lei de Gauss, 118
Transposição, 32
Matriz de Gram, 46
Universal, 47
Número
Vizinhança
de voltas, 23
tubular, 68
Orientação induzida, 106 tubular fechada, 84
tubular local, 73
Parametrização, 102
Parametrizações
padronizadas, 104
Partição
da unidade, 77
estritamente subordinada, 79
subordinada, 79
Permutação, 32
par, 32
positiva, 45
primitiva de uma forma, 2
Produto
exterior, 38
tensorial, 29
Pullback, 41, 51

Refinamento, 79
Reparametrização
negativa, 12
positiva, 12
Restrição, 51
Retração, 74
Rotacional, 64

Semi-espaço, 99
Singularidade, 97
Superfície
o autor:
Elon Lages Lima é Pesquisador
Emérito do Instituto Nacional de
Matemática Pura e Aplicada (IMPA),
Doutor Honoris Causa pela
Universidade Federal de Alagoas
e pela Universidad Nacional de
Ingenieria do Peru, Professor
Honori.s Causa da Universidade
Federal do Ceará, Universidade
Federal da Bahia, Universidade
Estadual de Campinas e da Pontifícia
Universidade Católica do Peru, além
de membro titular da Academia
Brasileira de Ciências e da TWAS
(Aeodemy of Science.s for th.e
DevelopingWorld).

É autor de vários livros de Topologia,


Análise, Álgebra e Matemática
Elementar, dois dos quais são
ganhadores do Prêmio Jabuti.
ISBN 978-85-244-0269-2
A coleção
A coleção Matemática Universitária
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Este volume completa a trilogia
"Análise Real". Seu subtítulo
mantém a tradicional denominação
de Análise Vetorial mas o assunto é
tratado de forma atualizada,
permitindo assim o estudo das
integrais de superfície em
dimensões superiores. Ele pode ser
estudado com proveito pelos
leitores com conhecimento
equivalente aos conteúdos dos
volumes 1 e 2. Como seus anteces-
sores, ele contém as soluções dos
exercícios propostos.

I(L
impa ) INSTITUTO NACIONAL DE MATEMÁTICA PURA E APLICADA