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O Rio de Janeiro em tempo de mudanças: transformações e disputas na elite


carioca (c.1730 - c.1768).

Lucimeire da Silva Oliveira

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa


de Pós-Graduação em História Social, do Instituto de
História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como parte dos requisitos necessários à obtenção do
título de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Jucá de


Sampaio

Rio de Janeiro
Junho de 2012
2

O Rio de Janeiro em tempo de mudanças: transformações e disputas na elite


carioca (c.1730 - c.1768).

Lucimeire da Silva Oliveira

Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Jucá de Sampaio

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História


Social do Instituto de História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História.

Aprovada por:

_____________________________________________
Prof. Dr. Antônio Carlos Jucá de Sampaio – Orientador
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

_____________________________________________
Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

_____________________________________________
Prof. Roberto Guedes Ferreira
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

Rio de Janeiro
Junho de 2012
3

Ficha Catalográfica

OLIVEIRA, Lucimeire da Silva Oliveira.


O Rio de Janeiro em tempo de mudanças: transformações e disputas na elite
carioca (c.1730 - c.1768) / Lucimeire da Silva Oliveira. Rio de Janeiro: UFRJ,
PPGHIS, 2012.
xii, 185 f.: il.; 31 cm.
Orientador: Antônio Carlos Jucá de Sampaio.
Dissertação (Mestrado) – UFRJ / IH / Programa de Pós-Graduação em História
Social, 2012.
Referências Bibliográficas: f. 167-185.
1 – História do Brasil. 2 – História do Rio de Janeiro. 3 – Senado da Câmara. 4 –
Homens de negócio. I – Sampaio, Antônio Carlos Jucá de. II – Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em História Social. III –
Título.
4

Resumo

A presente pesquisa pretende discutir as aproximações e disputas por poder


estabelecidas pelos homens de negócio e comerciantes de escravos novos ocorridas no
interior da Câmara municipal do Rio de Janeiro em um período marcado por enormes
transformações na capitania fluminense e pela consolidação de uma elite mercantil como
um grupo específico destacado do restante da sociedade. Para realizar tal proposta
analisei os “Autos de homens de negócio e mais comerciantes de escravos novos da
praça” e buscando investigar a natureza das relações estabelecidas, assim como inter-
relações e alianças construídas pelos homens de negócio envolvidos no dito processo,
tendo como foco de análise as estratégias traçadas entre esses indivíduos.
5

Abstract

This study discusses the approximations and disputes over power established by
businessmen and slave‟s trades that occurred within (Câmara municipal) of Rio de
Janeiro in a period marked by huge changes in the captaincy and by the consolidation of a
merchant elite as a specific group highlighted the rest of society. To this proposal
analyzed the "case of business men and most slave traders new of the square” and
seeking to investigate the nature of the relationships and alliances built
by businessmen involved in that process, focusing analysis strategies drawn between
these individuals.
6

Agradecimentos

Em primeiro lugar, agradeço ao meu orientador Antônio Carlos Jucá de


Sampaio. Não somente pela orientação precisa e atenciosa, mas, pela amizade e
confiança desses últimos anos. Pelas palavras de apoio, risadas e alegria contagiante e,
sobretudo, por ter acreditado em mim quando nem eu mesma não acreditava que seria
capaz.
Ao CNPq, pelo financiamento integral da pesquisa com concessão de bolsa
durante os dois anos do curso.
Aos professores Roberto Guedes Guimarães e João Luís Ribeiro Fragoso pela
participação e rica contribuição no exame de qualificação e na banca examinadora.
Devo fazer um agradecimento especial a João Fragoso pela atenção e pelo apoio ao
ceder documentos imprescindíveis para a realização da presente pesquisa.
Aos queridos funcionários dos arquivos do Rio de Janeiro, principalmente da
Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro e do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
pela atenção e alegria com que sempre me receberam. E pelo apoio quando me
deixaram ver aquele documento em péssimo estado me ajudando a decifrar cada
palavrinha, além da paciência pelas minhas longas permanências até o último minuto.
Aos queridos amigos e colegas acumulados ao longo desses anos de UFRJ que
compartilharam os bons e maus momentos de graduação e mestrado. A Angélica
Barros, Geórgia Tavares, Luiza Oliveira, Simone Cristina e Cecília Matos pela amizade
e por estarem ao meu lado em todos os momentos com uma palavra de amor e carinho
que faziam dos meus dias mais leves. À Bruna Milheiro e Ana Paula Tostes pela
parceria e por dividir comigo todas as delícias e angústias dessa vida de mestranda. Aos
meus colegas de Arquivo, Tereza e Eduardo por suas preciosas dicas de fontes e por ter
muitas vezes me ajudado a desvendar aquela palavra, sem a qual todo o texto do
documento não faria sentido. E para todos aqueles que de alguma forma contribuíram
para meu crescimento nesses últimos anos.
Aos meus irmãos Leonardo e Leandro pelo apoio e por entender todas as minhas
ausências nesses últimos anos. Meus sobrinhos Pedro, Gabriele e Leonardo por todo o
carinho e por fazer mais felizes os dias da tia coruja. Ao meu pai Geraldo que mesmo
longe sempre demonstrou seu carinho e preocupação.
A Leonardo Alves, um agradecimento especial por todo amor, companheirismo
e paciência com a namorada ausente e ocupada. Por ter sido a minha fonte de inspiração
7

e força todos esses anos. E por construir comigo e me apoiar em todos os meus sonhos,
desde a adolescente que sonhava em ser historiadora.
E principalmente a ela, minha mãe Marluce por ter me dado à vida, por ser meu
alicerce, pelo apoio incondicional e por todos os sacrifícios feitos para que eu realizasse
esse projeto. Por vibrar com todas as minhas conquistas acadêmicas, mesmo sem saber
ao certo o que significavam. Pela paciência com a filha mestranda estressada, pelo colo
nos momentos mais difíceis e por todas as orações que tenho certeza fizeram toda
diferença. Sem ela nada disso seria possível.
8

Sumário

Lista de Abreviaturas 9

Lista de Quadros, Tabelas e Gráficos 10

Introdução - 11

Capítulo 1 – Da mesa do Senado a praça mercantil 22


1.1 - Mudanças econômicas e crescimento do capital mercantil. 22

1.2 - Pombal: entre transformações e continuidades 41

1.3. - Negociantes versus homens bons 53

Capítulo 2 – “Autos de Homens de negócio” – um estudo de caso 70

Capítulo 3 - Para além da praça mercantil: laços de parentesco e alianças


matrimoniais. 120

3.1 - Estratégias matrimoniais: entre famílias e negócios 120

3.2 - Compadrio e as redes de parentesco ritual. 149

Considerações Finais 159

Anexos 162

Referências Bibliográficas 167


9

Lista de Abreviaturas

ACMRJ Arquivo da Cúria metropolitana


ACSM Arquivo da Casa Setecentista de Mariana
AGCRJ Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
AHU Arquivo Histórico Ultramarino
ANRJ Arquivo Nacional do Rio de Janeiro
10

Lista de Quadros, Tabelas, Mapas e Gráficos.

Tabela 1.1. – Movimento de negreiros e volume de escravos desembarcados no porto do


Rio de Janeiro e províncias da cidade (1664-1750) – pg.25

Tabela 1.2. – Percentual de escravos desembarcados nos portos brasileiros, provenientes


da África Ocidental em períodos de 25 anos (1650-1800) – pg.27

Tabela 1.3. – Percentual de escravos desembarcados no porto do Rio de Janeiro e


províncias distribuídos pelas regiões de embarque na África, (1664-1800). – pg.28

Tabela 1.4. – Número de indivíduos ligados ao capital mercantil por década (1670-
1750) – pg.33

Gráfico 1.1. – Evolução da presença dos homens de negócio na cidade do Rio de


Janeiro (1670-1750) – pg.38

Mapa 1 – Detalhe mostrando a região do Valongo – pg.76

Mapa 2 – Detalhe mostrando a região do Valongo e a Rua Direita – pg.77

Tabela 2.2. – Lista dos Homens de negócio que assinam nova procuração em 1764 –
pg.102

Tabela 2.3. – Lista dos negociantes presentes no abaixo-assinado de 1766 – pg.110

Tabela 2.4. – Principais contratadores do Rio de Janeiro: 1750-1770– pg.113

Tabela 3.1. – Ofício dos Sogros dos negociantes envolvidos no processo de


transferência do comércio de escravos para o Valongo. – pg.136

Tabela 3.2. – Naturalidade dos mercadores e homens de negócio envolvidos no


processo de 1758. – pg.143
11

Introdução

Analisando as formas de acumulação que perpassam a economia escravista entre


1790-1830, João Fragoso identifica “uma hegemonia do capital mercantil no processo
de reprodução da economia colonial”.1 Nesse período, eram os negociantes de grosso
trato que ocupavam o topo da hierarquia econômica da sociedade do Rio de Janeiro.2
Todavia, o quadro nem sempre foi esse, ao longo de todo o seiscentos, e início do
setecentos, o grupo que ocupava o topo de tal hierarquia era uma elite agrária formada
pelos descendentes dos primeiros conquistadores que “gostavam de serem reconhecidos
pela sociedade como “nobreza da terra”. 3

Para chegar ao topo da hierarquia mercantil carioca esses homens de negócio


passaram por um longo processo que envolveu aproximações e disputas com essa
“antiga nobreza da terra” durante todo o século XVIII. Dessa maneira, o objetivo da
presente pesquisa é entender como se deu esse processo de mudança. Tendo como
principal lócus de análise a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, buscamos investigar a
natureza das relações formadas entre os oficiais da Câmara e a comunidade de
comerciantes, assim como inter-relações e alianças construídas por esses indivíduos e
outras esferas sociais, contribuindo assim para um conhecimento mais aprofundado de
tais personagens. Privilegia-se para essa proposta o período entre 1730 a 1768, marcado
pelo surgimento e consolidação de uma elite mercantil como um grupo específico
destacado do restante da sociedade. 4

Recentemente, a produção historiográfica referente ao estudo das elites no


Antigo Regime nos trópicos vem se multiplicando. A revisão de antigos conceitos da
história colonial, principalmente no que tange à relação metrópole-colônia, tem
produzido debates que vêm ampliando a visão sobre o papel da sociedade colonial e

1
FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de Grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça
mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1992. p.319.
2
Idem, p.213.
3
FRAGOSO, João Luís Ribeiro “A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira
elite senhorial (séculos XVI e XVII)” In: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA,
Maria de Fátima (Orgs.). O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-
XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.p.51.
4
É importante ressaltar que apesar de utilizamos tal período como referência, o ultrapassaremos ou
recuaremos conforme a documentação.
12

suas elites senhoriais na construção da história do Brasil.5 Além de Portugal, a América


portuguesa possuía relações com outras regiões do Império, como a África e a Ásia
portuguesas. Não há como negarmos o papel exercido pelo comércio ultramarino na
reprodução dessas sociedades. 6 Nesse sentido, a presente pesquisa se propõe a
compreender a sociedade colonial da América portuguesa como uma sociedade marcada
por regras econômicas, políticas e simbólicas de Antigo Regime. Em outras palavras,
sua hierarquia social seria formada não somente por sua configuração econômica, mas
também por seus aspectos culturais e políticos, “onde os grupos sociais se percebiam e
eram percebidos em suas qualidades” 7 . Nesse sentido, o estudo das elites se mostra
extremamente importante, pois nos permite conhecer melhor essas diversas conexões e
a dinâmica dessa sociedade.

No que tange à inserção dos comerciantes, a historiografia sobre o tema têm


ressaltado o preconceito existente na sociedade portuguesa contra os mesmos.
Analisando a passagem da elite mercantil para a elite agrária entre a segunda metade do
século XVIII e o início do XIX, Sheila de Faria e Castro percebe a existência de um
forte receio contra o comércio em Portugal. Tendo como aporte Charles Boxer, a autora
afirma que o exercício das atividades comerciais é vista como degradante pela
sociedade portuguesa, mesmo com a determinação de Pombal de extinguir os entraves
aos comerciantes em terem acesso a cargos e graças honoríficas. 8 Na América
portuguesa tal preconceito teria como consequência a transposição dos comerciantes
portugueses para o Brasil e a compreensão da mercancia como uma atividade de
passagem para o enobrecimento.

Em suas terras de origem, portugueses sem ou com poucos


recursos também não tinham prestígio. Não havia, portanto, diferença
substancial em transportar-se para o Brasil e receber o mesmo
tratamento. Com o pouco que porventura pudessem trazer, seria
impossível o estabelecimento, aqui, de produções de vulto com as
quais pudessem adquirir o status idealizado. Entretanto o

5
FRAGOSO, João Luís Ribeiro; GOUVÊA, Maria de Fátima & BICALHO, Maria Fernanda Baptista.
“Uma leitura do Brasil colonial: bases da materialidade e da governabilidade no Império”. In: Penélope,
n° 23, 2000, p.67.
6
FRAGOSO, João Luís Ribeiro. “Afogando em nomes: temas e experiências em história econômica.” In:
Topoi: Revista de História. Rio de Janeiro, vol. 5, 2002, p.42.
7
Idem, p.44.
8
BOXER, C. R. O império marítimo português, 1415-1825. Lisboa: Edições 70, 1992. p.303 Apud:
FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1998, p.176.
13

enriquecimento ligado à atividade mercantil, mesmo que pretensiosa a


„outros‟ era a ela que se tendia a ligar. Deixá-la seria, entretanto o
terceiro passo. 9

Contudo, é preciso ressaltar que para a autora o preconceito está mais ligado à
figura do comércio que a do comerciante, e, no que tange a proporções este seria menor
no Brasil do que em Portugal.10

Segundo David Smith, no século XVII, apesar de seu considerável poderio


econômico, a classe mercantil lusitana permanecia heterogênea, politicamente
impotente e socialmente menosprezada, enquanto os comerciantes holandeses e ingleses
consolidavam seu poder político e econômico. Essa contradição entre poder econômico
e status social era controlada pela Coroa que por um lado explorava a divisão entre
cristãos-novos e cristãos-velhos e por outro, permitia o enobrecimento de parte da elite
mercantil. Essa questão teve um grande relevo no destino dos comerciantes, pois a
assimilação dos homens de negócio ao judeu converso estimulou a o abandono do
comércio por esses indivíduos em poucas gerações. 11 Segundo o autor, a associação
entre preconceito social contra negociantes com a possibilidade de enobrecimento
permitia o enfraquecimento do grupo mercantil e sua subordinação ao sistema
existente. 12 Todavia, assim como Sheila de Castro Faria, Smith considera que o
preconceito era menor no Brasil do que em Portugal. Para o autor, na Bahia os
comerciantes, mesmo excluídos dos círculos aristocráticos, exerciam considerável
influência nas decisões políticas da região. 13

Analisando o caso baiano do final do século XVII e início do XVIII, Rae Flory
percebe que “commerce was linked pejoratively to usury, Jewry, social obscurity,

9
FARIA, Sheila S de Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1998, p.177
10
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá. “Comércio, riqueza e nobreza: elites mercantis e hierarquização
social no Antigo Regime português”. In: FRAGOSO, João, ALMEIDA, Carla; SAMPAIO, Antônio C. J.
(org.). Nas rotas do Império. Rio de Janeiro: Edufes, 2006, p.85
11
SMITH, David G. The mercantile class of Portugal and Brazil in the Seventeenth century: a socio-
economic study of merchants of Lisbon and Bahia, 1620-1690. Austin: University of Texas, 1975 (tese
de doutorado). Apud: PEDREIRA, J. M. V. O homens de negócio da praça de Lisboa de Pombal ao
vintismo (1755-1822): diferenciação, reprodução e identificação de grupo social. Universidade de nova
de Lisboa: Lisboa, 1995, p.16-17.
12
SMITH, David G. The mercantile class of Portugal and Brazil in the Seventeenth century: a socio-
economic study of merchants of Lisbon and Bahia, 1620-1690. Austin: University of Texas, 1975 (tese
de doutorado). pp.178-80 Apud: SAMPAIO, Antônio C. J. Comércio e riqueza... Op. cit. p. 76-77.
13
Idem, p. 87.
14

transience, and, in its more humble expressions, commerce connoted manual work of a
type refined people did not perform”.14 Tal preconceito é exemplificado na pessoa de
Gregório de Matos que, segundo Flory, tinha na figura dos comerciantes o alvo favorito
de suas sátiras. Apesar do preconceito, nessa localidade nunca foi o suficiente para
impedir crescimento econômico mercantil – para Flory no recôncavo baiano o comércio
era a principal via de ascensão social. 15

Analisando a Praça de Lisboa no período de 1755 a 1822, Jorge Miguel Viana


Pedreira procura apurar se os homens de negócio de Lisboa formaram ou não um grupo
diferenciado na sociedade portuguesa. As transformações no vocabulário social
referente aos mercadores indicam que ser comerciante no século XVII não tinha o
mesmo significado no século seguinte.

Nos séculos XVI e XVII existia uma baixa consideração pelo comércio e pelos
comerciantes que eram associados negativamente a cristãos-novos e ao defeito
mecânico. Sendo assim, a linguagem é considerada por Pedreira como importante
produto de uma realidade social que pode converter-se num espaço de conflito e que se
manifestam estratégia de distinção e os interesses dos diferentes agentes sociais. Tais
questões tomam uma proporção ainda maior em uma sociedade em que as posições
sociais eram indicadas pelo privilégio.

As designações serviam, portanto, para especificar a hierarquia


geral da sociedade, mas adquirias um significado particular para o
mundo comercial, que era atravessado por uma das divisões em torno
das quais se estruturava a própria ordem social, nomeadamente a
fronteira entre nobres e mecânicos – isto é, aqueles que exerciam
ofícios manuais ou assalariados, que se opunham às artes liberais e
eram, por essência, vis baixos, sórdidos, humildes. 16

Por essa e outras questões a atividade de comerciante tinha um caráter transitório,


na procura por ascensão social. O estatuto do mercador gozava de uma grande
ambiguidade porque se, por uma parte, gozava de alguns privilégios, por outro o

14
FLORY, Rae. Bahian society in the mid-colonial period: the sugar planters, tabaco growers, merchants
and artisans of Salvador and the Recôncavo, 1680-1725. Austin: University of Texas, 1978, pp. 257.
15
Idem, pp.256-258.
16
PEDREIRA, J. M.V. Op.cit. p.81.
15

exercício mercantil confundia-se com os ofícios mecânicos. 17 Muitos procuravam


enobrecer procurando nobilitação através das ordens de Cristo e das corporações
religiosas, comprando atestado de limpeza de sangue e tentando diferenciar-se do
mundo dos ofícios mecânicos.
Já nos últimos anos do século XVII e principalmente ao longo do século seguinte
esse quadro mudou gradualmente, principalmente no período Pombalino em que foram
tomadas medidas que beneficiaram os negociantes como a eliminação da diferenciação
entre cristão-novo e cristão-velho em 1773, o apoio aos acionistas das companhias
monopolistas e um favorecimento à admissão de negociantes na Ordem de Cristo.
Segundo Pedreira, a nobilitação individual correspondia a uma nobilitação coletiva, que
se entendia a função de negociante. Esses fatores introduziram progressivamente o
conceito de que a condição do homem de negócio aconselhava por si mesma a dispensa
de eventuais impedimentos. 18 Sendo assim, Pedreira não percebe um preconceito
generalizado contra os comerciantes de Portugal no século XVIII. Para ele eram raras as
vezes em que apareciam nos textos jurídicos ataques diretos a homens de negócio, as
críticas eram poucas e em geral parciais. Muito mais frequentes e contundentes eram as
recriminações dirigidas ao comportamento econômico e aos privilégios da nobreza.
Analisando as trajetórias pessoais dos homens de negócio da Praça de Lisboa,
Pedreira procura traçar o perfil de carreira de tais negociantes demonstrando o caráter
fluido e estratificado desse segmento da sociedade. Tais comerciantes constituíam um
grupo flutuante composto por recém-chegados de outras áreas de Portugal e do mundo,
que não conseguiam permanecer no mercado durante um longo tempo, sendo
frequentemente substituídos; “em média, somente 40% dos negociantes se mantinham
em exercício durante 10 anos e apenas uma quarta parte durante 15 anos.” 19 Contudo,
ainda que restrito, existia um núcleo fixo, cerca de 15% dos homens de negócio
conservavam seu lugar na praça durante um quarto de século e quase 10% por mais de
30 anos. Segundo Pedreira, tal mobilidade explicava-se tanto pela existência de
dispositivos de recrutamento relativamente flexíveis (como a extensão do recurso ao
crédito) que não significavam grandes obstáculos à entrada numa ocupação aberta a

17
Idem, p. 83.
18
O autor discorda de autores mostram que o objetivo dos negociantes portugueses era ingressar na
aristocracia e abandonar o comércio, pois argumenta que a nobilitação já não impedia a conservação de
uma posição destacada na praça mercantil de Lisboa. Reafirma que a compra de propriedades e a adoção
de hábitos aristocráticos não impediam a manutenção de interesses no comércio. Ibidem, p. 144.
19
Idem, p. 133.
16

novos negociantes, quanto por um conjunto de circunstâncias que determinava a seleção


após o ingresso. 20

Apesar da entrada no comércio grosso ser considerada flexível, alguns


comerciantes tinham mais oportunidades de manter sua atividade que outros, devido a
relações pessoais, familiares ou profissionais. Certas transações, como as operações de
financiamento do Estado, não estavam ao alcance de todos, e sim destinadas a um grupo
mais seleto. A obtenção de grandes contratos de cobrança de direitos e monopólios
públicos, como a cobrança de dízimos, por exemplo, proporciona grandes rendimentos
que eram essenciais para a repartição da hierarquia interna e forjavam a verdadeira elite
mercantil.21 Tais contratos eram obtidos através das redes de relações que os grandes
capitalistas estabeleciam entre si; e essa reprodução baseava-se principalmente em laços
de parentesco. Os privilégios que conquistavam e o domínio que adquiriam sobre as
finanças régias, bem como a sua manutenção em tais domínios, conferiam a um grupo
22
restrito de famílias de mercadores, o caráter de uma oligarquia financeira. Sendo
assim, a família servia de principal suporte da formação das redes que proporcionavam
o início da carreira no comércio e sua manutenção.

Admitindo-se os múltiplos significados que o grupo mercantil possuía nessa


sociedade, Antônio Carlos Jucá de Sampaio busca discutir o estatuto social da elite
mercantil no Rio de Janeiro colonial. Apesar de a sociedade do Antigo Regime ser
considera estamental e estável em sua conformação, sua pretensa organização social era
23
abalada constantemente pelas transformações sociais e econômicas. Segundo
Sampaio, ao ressaltar a historicidade do estatuto social dos negociantes, Pedreira obriga
o pesquisador a pensar a multiplicidade no interior do grupo de comerciantes.24 Para o
autor, esse tipo de análise é muito escasso para o Brasil. Acredita que um erro das
discussões sobre o tema da classificação social dos comerciantes tem sido sua
perspectiva monolítica. 25

A maioria dos estudiosos sobre o assunto não faz distinções claras entre as
diversas épocas e locais, assim como não considera a diversidade existente no interior
20
Ibidem, pp.135-136.
21
Ibidem, p. 151.
22
Ibidem, p.175.
23
SAMPAIO, Antônio C. J. de. “Comércio, riqueza e nobreza... Op.cit. p.73-96.
24
Idem, pp. 84-85.
25
Ibidem.
17

do grupo mercantil, que de maneira alguma era homogêneo. Esses autores tratam essas
relações simplesmente como preconceito e discriminação, o que não é suficiente. Tais
linguagens e caracterizações são construídas a partir de relações sociais dadas de uma
maneira e de um período específico.26 Sampaio percebe que no Rio de Janeiro do século
XVII não encontramos na capitania fluminense preconceitos contra o comércio ou
contra os comerciantes, posto que, apesar do termo “homem de negócio” começar a
aparecer nas documentações na última década do seiscentos, os comerciantes ainda não
estavam consolidados como um grupo, o que somente ocorreria na centúria seguinte. 27
Dessa forma, é importante não entendermos as relações de exclusão como simplesmente
“preconceito”, sem analisarmos toda a configuração em que elas ocorrem. Foi dessa
maneira que buscamos não tomar como “preconceito” as crenças distorcidas entre os
grupos sociais, pois é necessário um arcabouço configuracional como base de
classificações separadas. 28

Voltando-se para a formação da comunidade mercantil carioca na primeira metade


do setecentos, Sampaio evidencia a importância da análise das famílias e suas inter-
relações para um conhecimento mais aprofundado dos homens de negócio. Através da
análise de trajetórias de vários negociantes, demonstra a importância das estratégias
matrimoniais, alianças políticas e do poder econômico, constatando que no seiscentos
não havia uma clara diferenciação entre elite mercantil e elite agrária. A partir dos
enlaces matrimoniais visavam não somente se fortalecer ou consolidar as redes
mercantis, buscando crescimento não só econômico, mas social.

O próprio Sampaio percebe uma mudança substancial ao longo do seiscentos em


que tais negociantes – motivados por mudanças mais profundas ocorridas não somente
no Rio de Janeiro, mas em todo o Império português –, passam a se reconhecer como
grupo separado do resto da sociedade e assim modificam suas estratégias de ação. Como
veremos nas páginas seguintes, a análise do padrão das trajetórias matrimoniais de tais
negociantes apontou para uma tendência clara construída ao longo do século XVIII:
uma independência em relação à nobreza da terra, posto que tal nobreza tenda a se
fechar para casamentos exogâmicos.

26
ELIAS, N. Os estabelecidos e os outsiders Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000, p.32.
27
SAMPAIO, Antônio C. J. de. “Comércio, riqueza e nobreza... Op.cit. p.91. Para uma melhor
compreensão ver: SAMPAIO, Antônio C. J. de. Na encruzilhada...Op.cit., cap. 1.
28
ELIAS, Norbert. Op. Cit. p.181.
18

Buscando entender como se deu tal processo, procuramos seguir na mesma


direção que Sampaio no que diz respeito a análise das relações desses negociantes e
perceber o emaranhados de laços parentais em que esses homens estavam inseridos.
Assim como perceber o quão pacífica ou conflituosa se deu essa separação entre a elite
mercantil e agrária e até que ponto nós podemos considerá-los como grupos distintos e
homogêneos.

Metodologia e Fontes
A principal fonte da presente pesquisa foi o livro de “Autos de homens de negócio
e mais comerciantes de escravos”, presente no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro,
códice 6.1.9. O presente documento é um extenso processo que se refere às posturas
lançadas por ordem da Câmara Municipal que, dentre as diversas recomendações
referentes à saúde pública, continham a proibição da comercialização de escravos novos
na área central da cidade. Em resposta os homens de negócio, Capitães de Navios,
marinheiros e comerciantes de escravos da Praça do Rio de Janeiro entram com um
processo contra a Câmara Municipal da capitania pedindo a suspensão do edital,
inaugurando assim uma disputa que duraria 10 anos (1758-1768). Em seu desenrolar tal
documento produziu uma série de posturas, depoimentos, atestados, petições entre
outros documentos que vão envolver vários indivíduos das mais diversas ordens.

A produção do presente documento é singular para entendermos a dinâmica da


sociedade colonial fluminense em um momento em que os homens de negócio e
comerciantes da praça possuem um papel cada vez mais atuante nessa sociedade. O
documento também se demonstra interessante para analisarmos os conflitos e as
alianças no interior da câmara entre homens de negócio e não somente com os oficiais
camarários, mas também com indivíduos de outras esferas sociais, assim como no
interior do grupo dos homens de negócio.

Assim, tendo em vista nossos objetivos de apreender os laços de reciprocidade o


nome nos serviu de fio condutor na presente pesquisa. Essa abordagem nos permite
destacar ao longo de uma trajetória específica – o destino de uma comunidade, de um
indivíduo ou de uma obra – a complexa rede de relações e “a multiplicidade dos espaços
dos tempos nos quais se inscreve”.29 Dessa forma, tal procedimento metodológico nos

29
REVEL, Jacques. ”A história ao rés-do-chão”, in: LEVI, Giovanni. Op. cit. p.17.
19

possibilitará acompanhar a trajetória de vida de um indivíduo ou grupo de indivíduos, e


nos auxiliará na reconstrução das redes de relações estabelecidas entre as autoridades
camarárias e os membros da elite do grupo de comerciantes.

Sendo assim, para analisar a atividade mercantil no Rio de Janeiro em seu período
colonial, procuraremos estudar um conjunto de fontes primárias que possibilitaram
reconstruir a trajetória do maior número possível de agentes mercantis (homens de
negócio, comerciantes, mercadores etc.) assim como dos oficiais camarários, e outros
indivíduos envolvidos no processo acima exposto. O tratamento de fontes diversas
permite alcançar o conjunto de pontos de vista (e de posições sociais) que as formam, e
compreender a natureza dos laços de interdependência que unem, separam e
hierarquizam indivíduos e grupos sociais. Assim, utilizando como base de investigação
teórico-metodológica a microanálise, buscamos ter contato com os indivíduos em
diversas situações mostrando suas redes de relações através do cruzamento e manuseio
de uma pluralidade documental.

No que tange a documentação necessária para a realização da pesquisa a


documentação paroquial foi essencial. Pelos registros de casamento foi possível
conhecer com quem eles se casaram, reconstruindo assim as alianças ao longo do
período. Pelos banhos matrimoniais também foi possível conhecer algo da biografia
desses indivíduos, que por muitas vezes se encontra prejudicado pela origem reinol
desses negociantes. Os assentos de batismo também permitem a reconstrução das
alianças dos negociantes, completando o quadro oferecido pelos casamentos. O
compadrio era um laço de grande importância para a sociedade colonial que poderia
unir indivíduos de diversas classes sociais. Através desses documentos podemos
perceber de que forma esse grupo relacionou-se com outros setores da sociedade e no
interior do próprio grupo, e compreender a recorrência das alianças e as estratégias de
parentesco. Dessa forma, levantamos nominalmente os registros de matrimônio
envolvendo negociantes e seus familiares especificamente na freguesia da Candelária no
período proposto. Com o fim de complementar tais informações também foi utilizado o
estudo genealógico de Carlos Rheingantz. 30

30
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965. V.1/2 e 3.
20

Também utilizamos outro fundo documental que se mostrou fundamental: a


documentação do Arquivo Histórico Ultramarino. Tal documentação apresenta um
caráter qualitativo e nos auxiliou a levantar as trajetórias dos indivíduos encontrados no
processo de 1758. Dessa maneira, fontes foram levantadas nominalmente para
analisarmos a presença dos homens de negócio na sociedade no período proposto, posto
que apresenta petições e informações e outros dados produzidos pelos próprios
comerciantes ou sobre os mesmos. Sendo assim, tais documentações foram organizadas
de forma a apresentar inúmeros cruzamentos com outras fontes.

Outras fontes que foram de extrema importância para a realização da presente


pesquisa foi o Banco de dados gentilmente cedido por Antônio Carlos Jucá de
Sampaio. 31 Tal banco de dados possui uma série de informações sobre os agentes
mercantis atuantes no Rio de Janeiro no início do século XVIII encontradas em
diferentes fontes como: procurações de ouro para Minas Gerais, Arquivo Histórico
Ultramarino, Arquivo Nacional da Torre do Tombo entre uma série de outras
documentações. Tal aporte foi fundamental para analisarmos o crescimento da presença
desses indivíduos na capitania fluminense, além de tornar possível o cruzamento de
algumas trajetórias de indivíduos por nós analisados.

Assim, no capítulo 1 buscamos analisar o aparecimento desses homens de negócio


inseridos nas mudanças econômicas e políticas ocorridas na cidade do Rio de Janeiro no
início do século XVIII, assim como sua inserção nas modificações ocorridas em todo o
Império português. Para tal, o estudo do período pombalino e sua contribuição para o
fortalecimento do grupo mercantil nos foi fundamental. Também nesse primeiro
capítulo introduzimos a análise dos efeitos do crescimento da presença do grupo de
negociantes estabelecidos na cidade principalmente através das rusgas e conflitos
existentes com os oficiais da Câmara Municipal da cidade.

No capítulo 2 analisamos especificamente o documento intitulado “Autos de


homens de negócio e mais comerciantes de escravos novos da praça” do Rio de Janeiro,
a fim de perceber mais profundamente os conflitos existentes entre o grupo dos homens
de negócio e o da “nobreza da terra” assim como no interior de cada um deles. Além de
entender natureza das redes sociais, até que ponto esses grupos podem ser considerados
homogêneos, e em que medida esses grupos podem ser consideradas divergentes.

3131
Agradeço imensamente a Sampaio por ceder tais informações
21

Por fim, no terceiro capítulo procurarei entender as relações estabelecidas pelos


homens de negócio analisando de quais maneiras os laços de reciprocidade e alianças
eram reafirmadas entre esses indivíduos, e buscando compreender como o sistema de
compadrio e os laços familiares dos matrimônios permitiam aos homens de negócio
ampliarem suas redes, e com isso fortalecer sua posição social.
22

Capítulo I

Da mesa do Senado a praça mercantil

1.1 Mudanças econômicas e crescimento do capital mercantil.

O Rio de Janeiro da virada do século XVII para o XVIII passava por uma série de
transformações, que o converteria em uma das principais cidades do Império ultramarino
português. 32 Transformações estas que refletiriam diretamente na economia da cidade,
influenciando o crescimento da atividade comercial e no aparecimento de uma nova elite
de origem e, sobretudo, de estratégias muito diversas daquelas da antiga elite senhorial:
os homens de negócio. 33 Acreditamos que descortinar esse cenário é essencial para
extrairmos aspectos delineadores desse grupo. Nesse sentido, neste primeiro momento
buscaremos analisar os principais fatores econômicos e políticos que possibilitaram o
desenvolvimento dos negociantes da praça fluminense, assim como suas implicações
políticas para a composição da elite carioca.

Tais transformações foram influenciadas por fenômenos ou fatos ocorridos fora


do âmbito local, e que geraram mudanças na própria geografia do império, como a
criação da Colônia de Sacramento em 1680. 34 De acordo com Fernanda Bicalho, a
fundação de Sacramento respondia a uma solicitação antiga da Câmara do Rio de Janeiro
à Coroa para criação de um entreposto que incrementasse as já tradicionais relações entre
a capitania fluminense e a região platina. 35

Os primeiros registros sobre sua fundação datam de 1678, e mostram o papel


central do Rio de Janeiro na formação desta paragem e as vantagens que dela seus
moradores poderiam possuir. Em tais registros a Coroa recomendava que o governador
do Rio de Janeiro na época, D. Manuel Lobo, deveria reunir na cidade:

32
Para uma melhor compreensão ver: SAMPAIO, Antônio C. J. de Na encruzilhada do
Império:Hierarquias Sociais e Conjunturas Econômicas no Rio de Janeiro (c.1650-c.1751). Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2003. Capítulo 1.
33
SAMPAIO, Antônio C. J. “A produção da liberdade: padrões gerais das manumissões no Rio de
Janeiro colonial”. In: FLORENTINO. M. (org.). Tráfico, cativeiro e liberdade: Rio de Janeiro XVII a
XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p.292.
34
Apesar de sua fundação em 1680, a criação de Sacramento provocou disputas com os espanhóis, só
sendo entregue a Portugal por meio de intervenção das Cortes de Roma, Paris e Londres em 1683.
35
BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A Cidade e o Império: o Rio de Janeiro no século XVIII. Rio de
Janeiro Civilização Brasileira, 2003, p.311.
23

obtendo-os da própria capitania, recursos e elementos necessários


para a empresa de que vinha incumbido. [...] Prestava a Câmara todo
auxilio a D. Manuel Lobo na convicção de que com o estabelecimento
da nova colônia grandes seriam os benefícios resultantes para a
capitania. 36

Dentre os estímulos para a criação de Sacramento estava a insuficiência de metais


preciosos, que afetava não somente a América portuguesa, mas também o reino. Como
até aquele momento não havia sido descoberto ouro nem prata em território português,
Sacramento funcionaria como um acesso mais rápido às minas de Castela, além de
alargar as fronteiras do Império português na América. 37 Em relação à capitania
fluminense, a falta de moeda era frequente, sendo comuns os períodos em que o açúcar
tinha que ser utilizado como moeda de troca. 38 Deste modo, apesar do ônus que
proporcionava à cidade do Rio de Janeiro – pois esta era responsável por sua jurisdição
desde a sua fundação fornecendo soldados, alimentos e recursos monetários –, os
benefícios adquiridos com a fundação da Colônia eram claros. 39

Além de ser favorecida com a circulação de moedas de prata para a cidade e pelo
contato com as mercadorias de origem platina (como o couro, por exemplo), a criação de
Sacramento favoreceu as relações entre a capitania e outras regiões do Império português
principalmente no que tangia ao “fortalecimento do eixo Rio – Buenos Aires – Angola”.40
É importante destacar, que as relações entre a capitania do Rio de Janeiro e as regiões
platinas não nascem com a criação da colônia de Sacramento, mas consolidam-se. Desde
a união das Coroas de Portugal e Castela no final do século XVI, o triângulo negreiro
entre Luanda, Rio de Janeiro e Buenos Aires já estabelecia a inserção do Rio de Janeiro
“não só no Império ultramarino português, como também na região do Rio da Prata.” 41

Ao longo do setecentos tal região foi apresentando desenvolvimento


socioeconômico e cada vez mais vai ser vista pela Coroa como um ponto estratégico no

36
COARACY, Vivaldo. O Rio de Janeiro no século dezessete. Rio de Janeiro: José Olympio Editora,
1965. p.201 Apud: RIBEIRO, Mônica da Silva. Se faz preciso misturar o agro com o doce: a
administração de Gomes Freire de Andrada, Rio de Janeiro e centro-sul da América portuguesa (1748-
1763). Tese de doutorado UFF Niterói 2010, p.135.
37
SAMPAIO, Antônio C. J. Na encruzilhada do Império... Op. cit. p,142.
38
Idem, p.147.
39
BICALHO, Maria Fernanda Baptista. Op.cit.p.312.
40
SAMPAIO, Antônio C. J. Op. cit. p.142-143.
41
PESAVENTO, Fábio. Um pouco antes da corte: a economia do Rio de Janeiro na segunda metade do
setecentos. Niterói: tese de doutoramento, 2009, p.26.
24

Atlântico-Sul. 42 Nesse sentido, o Rio de Janeiro irá cumprir um importante papel ao


concentrar a administração dessa área, refletindo assim a crescente importância da
capitania para o Império.

Todavia, é notório que um dos fatores que mais potencializou e contribuiu para a
redefinição do papel fluminense no interior do Império português foi, o “achamento” de
ouro no interior do Brasil em fins do século XVII. Influenciado pela localização
privilegiada de seu porto – que será frequentado incessante, progressiva e intensamente
pelas frotas de um comércio de proporções cada vez maiores –, o Rio de Janeiro assume a
função de abastecedor mais importante e de porta de entrada das regiões mineradoras, se
transformando, ao longo da primeira metade do século XVIII, na principal cidade da
43
América portuguesa dentro do sistema mercantil imperial.

Sem dúvida, um dos comércios que mais fora incrementado no porto carioca
devido ao ouro mineiro foi o tráfico de escravos africanos. Ao longo do setecentos,
paulatinamente mais escravos foram desembarcando na capitania fluminense
transformando o tráfico em um dos principais eixos de sua economia. Tal atividade teve
um papel fundamental não somente, como já mencionado, na transformação da cidade na
principal capitania do Império português, mas também como um dos principais fatores
que dinamizara essa sociedade e que estará diretamente ligado ao incremento de uma
classe mercantil na capitania. Dessa maneira, analisar o crescimento do tráfico de
escravos africanos e sua redistribuição é essencial para o prosseguimento da presente
pesquisa.

Partindo da relação com a capitania de Minas Gerais, de acordo com Manolo


Florentino, ainda na primeira metade do século XVIII, entre 1715 e 1727 Minas Gerais
absorveu anualmente 2.300 dos 3.300 cativos que vinham para o porto fluminense.44 A

42
Segundo Mônica da Silva Ribeiro a região centro-sul vai estar no centro das preocupações do Império
português refletidas na constante presença de autoridades do Rio de Janeiro em Sacramento (o Vice-rei
Gomes Freire de Andrada vai residir na cidade durante sete anos) e pelas disputas por fronteiras
meridionais com Castela principalmente a partir da segunda metade do XVIII. RIBEIRO, Mônica da
Silva, Op. cit. p, 130.
43
De acordo com Fania Fridman, o porto carioca voltou-se cada vez mais a serviço do ouro. Devido à
intensificação da atividade portuária, neste período surgiram novos portos, – como o de São João da Barra
e o Porto das Caixas, por exemplo –, para despachar ouro e outros artigos como escravos, alimentos e
açúcar, além de ser criado em 1702 o cais da alfândega. FRIDMAN, Fânia, Donos do Rio em Nome do
Rei: uma história fundiária da cidade do Rio de Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor e
Editora Garamond, 1999.
44
FLORENTINO, M. G. Em Costas Negras: Uma história do tráfico Atlântico de escravos entre a África
e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX) Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995, p.45.
25

partir da década seguinte, há um crescimento brusco da importação de escravos africanos


para o Rio de Janeiro chegando ao número de 7.400 anualmente somente nos cinco
primeiros anos da década de 1730, um número 40% maior do que o registrado entre 1710
e 1720.45Além de mostrar o papel abastecedor do Rio de Janeiro, fica claro que “o metal
46
abria todas as portas (ou todas as rotas) na África aos traficantes fluminenses,”
provocando um fluxo de escravos para a América portuguesa nunca antes registrado.
Assim, mais uma vez, não podemos deixar de ressaltar a contribuição decisiva do
crescimento do tráfico negreiro para a redefinição do papel do Rio de Janeiro no interior
do Império português.

No começo do século XVIII existiam todas as características de um tráfico de


escravos consolidado: um grupo de comerciantes com capital para financiar as transações
comerciais, uma bem desenvolvida rede de fornecedores de mercadoria para a África,
uma frota de navios e bergantins equipados, uma equipe de capitães, médicos e
marinheiros preparados para as longas viagens que cruzavam o Atlântico, além de um
grande mercado de compradores.47 O crescimento da importância do porto carioca fica
evidente se analisarmos o aumento do movimento de escravos desembarcados na cidade a
partir da segunda metade do século XVII.

Tabela 1.1- Movimento de negreiros e volume de escravos desembarcados no porto


do Rio de Janeiro e províncias da cidade (1664-1750).

Ano Quantidade de navios Soma de escravos desembarcados


1664-1670 1 331
1681-1690 2 439
1691-1700 13 2.392
1701-1710 10 2.350
1711-1720 27 8.034
1721-1730 116 32.640
1731-1740 62 21.760
1741-1750 133 46.126
Fonte: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces ( Acessado em 29/10/2011 18:30)

45
Idem
46
SAMPAIO, Antônio C. J. “A produção da liberdade...., Op.cit. p. 296.
47
CAVALCANTI, Nireu Oliveira. “O comércio de escravos no Rio setecentista”, in FLORENTINO,
Manolo. (org.) Tráfico, Cativeiro e Liberdade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2005, p.18.
26

A descoberta dos veios auríferos em Minas Gerais aumentou a demanda por mão-
de-obra e estimulou os comerciantes a investir nesse tipo de negócio. Dessa maneira,
como visto no quadro 1.1, verificamos um brusco aumento do número de escravos
desembarcados no porto carioca, chegando ao número de 46.126 na década de 1750; o
transformando no principal porto responsável pelo fornecimento de escravos para as áreas
mineradoras já a partir da década de 1720. 48

Dessa maneira, aos poucos, a “praça carioca vai sobrepujando a de Salvador em


49
importância dentro do sistema mercantil imperial” e a partir de 1754 o número de
escravos que chegavam ao porto carioca suplantou praticamente de forma definitiva
aqueles desembarcados em Salvador, tendo uma média anual em torno de 8.274 negros a
partir de 1759.50 Se a isso acrescentamos que “entre 1739 e 1759, dos cerca de 6.000
escravos enviados anualmente para a capitania de Minas a capitania fluminense foi
responsável por 65% do total, ficando os outros 35% a cargo da capitania baiana”, mais
uma vez, entendemos que já nas primeiras décadas do século XVIII o porto do Rio de
Janeiro se apresenta como o mais importante da colônia. 51

Consequentemente, o porto carioca também suplantou o porto baiano no que


tange à relação com determinados domínios africanos, principalmente no que se refere
aos portos da costa ocidental africana.

48
Sobre a concorrência entre Bahia e Rio de Janeiro para atender o mercado consumidor mineiro de
escravos ver: cf. RIBEIRO, Alexandre V. O tráfico de escravos e a Praça mercantil de Salvador (c.
1680-c. 1830). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS), Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2005 - dissertação (mestrado), cap. 1.
49
Segundo Kelmer Matias, somente na década de 20 do século XIX o Rio supera o Porto baiano de forma
definitiva. MATHIAS, Carlos Leonardo Kelmer. A cor negra do ouro: circuitos mercantis e hierarquias
sociais na formação da sociedade mineira setecentista, c.1711-c.1756. 2009. (Tese de doutorado), p. 59.
50
CAVALCANTI, N. O. Op. cit. p.56.
51
MATHIAS, Carlos Leonardo Kelmer. Op. cit. p.60.
27

Tabela 1.2 – Percentual de escravos desembarcados nos portos brasileiros,


provenientes da África Ocidental em períodos de 25 anos (1650-1800).

Período Amazônia Bahia Pernambuco Sudeste Outros Total


1650 - 100.0% - - - 100.0%
1651-1675 - 75.9% 16.9% 7.1% - 100.0%
1676-1700 - 51.8% 31.0% 17.3% - 100.0%
1701-1725 - 44.7% 8.7% 46.6% - 100.0%
1726-1750 - 42.4% 13.6% 43.5% 0.5% 100.0%
1751-1775 3.0% 35.0% 29.4% 32.4% 0.2% 100.0%
1776-1800 4.7% 32.3% 13.7% 49.4% - 100.0%

Total 2.5% 37.5% 17.8% 42.0% 0.2%


100.0%
Fonte: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces (Acessado em 29/10/2011 23:26)

É sabido que desde finais do seiscentos e até as últimas décadas do setecentos a


região ocidental africana respondeu por quase a metade (49,7%)52 de todos os escravos
vindos para os portos brasileiros. De acordo com Mônica Ribeiro, a localização
geográfica privilegiada da capitania fluminense favorecia a relação com os portos da
costa ocidental da África, principalmente Angola, “estabelecida através de uma
navegação direta, econômica e segura”. 53
Entretanto, como podemos observar, até finais da década de 1720 a região de
destino da maioria dos escravos dos portos da África ocidental não eram o porto carioca e
sim os portos do nordeste. Isso se dava, evidentemente, pelo maior demanda das fazendas
açucareiras e o interesse dos governadores locais.54 O que deixa claro mais uma vez a
importância da ligação do Rio com porto de entrada e distribuidor de escravos para as
Minas Gerais. Dessa maneira, com a ajuda do ouro mineiro, que era bem aceito nos
entrepostos africanos, o porto carioca transforma-se já na primeira metade do setecentos
no maior receptor de escravos vindos de Luanda. Já entre 1723 e 1771 metade dos
203.904 escravos exportados desse porto era direcionada para o Rio de Janeiro. 55 Região

52
http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces (acessado em 29/10/2011 12:08)
53
RIBEIRO, Mônica da Silva, Op.cit. p.167.
54
Doc. cx.7 Doc.1367. Voltaremos a esse documento em um momento seguinte.
55
É importante ressaltar que Luanda concentrava então a maior parte do tráfico regional, e que Angola
não era a única região africana a responder pelo fornecimento de cativos para o porto fluminense. Os
28

esta que será responsável por cerca de 95% dos escravos desembarcados na capitania
durante da segunda metade do século XVII até finais do século XVIII, como evidenciado
na tabela 1.3.

Tabela 1.3 – Percentual de escravos desembarcados no porto do Rio de Janeiro e


províncias distribuídos pelas regiões de embarque na África, (1664-1800).

Costa da Oeste da África Sudeste da África e Demais


Senegâmbia Mina Baía do Biafra Central e Santa ilhas do Oceano regiões Total
Ano Benin Helena Índico africanas
1664-1670 - - - - 100% - - 100%
1681-1690 - - - - 100% - - 100%
1691-1700 - - - - 100% - - 100%
1701-1710 - - - - 100% - - 100%
1711-1720 - - 12% - 83% - 5% 100%
1721-1730 - 6% 9% 1% 84% - - 100%
1731-1740 1% 2% 1% 96% - - 100%
1741-1750 1% - 0% - 99% - - 100%
1751-1760 - - 4% - 95% 1% - 100%
1761-1770 - - 13% - 86% 1% - 100%
1771-1780 - - 2% - 98% - - 100%
1781-1790 - - 0% - 100% - - 100%
1791-1800 - - 0% - 98% 2% - 100%
Totais 0%* 1% 3% 0% 95% 1% 0% 100%
Fonte: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces (Acessado em: 29/10/2011 8:30)
*valores arredondados

É importante ressaltar que o crescimento da importância do porto carioca não está


relacionado somente à utilização do ouro como moeda de troca no tráfico, mas também,
dentre outros fatores, à alta lucratividade do comércio negreiro. De acordo com Sampaio,
a valorização do preço de um escravo adulto chega a 135,25% no Rio de Janeiro entre o
século XVII e o XVIII.56 Apesar da tendência à estabilização e até mesmo da queda nas
décadas seguintes, tal número não deixa de ser expressivo e significar um maior lucro aos
traficantes. 57

encravos vindos da Costa da Mina também não deixaram de desembarcar no Rio em nenhum momento. O
que reconsidera as teses de exclusividade dessa rota por pernambucanos e baianos. SAMPAIO, Antônio
C. J. de. A produção da liberdade ... Op. cit. p. 295.
56
SAMPAIO, A. C. de Op. cit. p.121.
57
Segundo Florentino, no que tange à “lucratividade do comércio das almas,” esta estaria diretamente
relacionada ao baixo custo de produção dos escravos. Apesar da empresa do tráfico exigir um alto
investimento inicial – como com as mercadorias para escambo, alimentação da escravaria e da tripulação,
equipamentos, pagamento aos tripulantes dentre outras despesas –, o valor pago pelo cativo era
29

Altamente lucrativo, o tráfico vai atrair o interesse dos comerciantes fixados no


Rio de Janeiro, vindo a contribuir decisivamente com o crescimento econômico dos
homens de negócio e sua representatividade nessa sociedade. 58 Dessa forma, no século
XVIII os comerciantes residentes nas praças comerciais da América portuguesa vão atuar
cada vez mais como os principais protagonistas no comércio africano. De acordo com
Roquinaldo Ferreira, já na terceira década do setecentos o tráfico angolano tinha como
seu núcleo mercantil o centro-sul do Brasil e não Lisboa.

Entre 1736 e 1770, comparando com Lisboa, as três praças


mercantis brasileiras que negociavam com Luanda - Salvador, Recife e
Rio de Janeiro – usufruíam larga vantagem com o comércio direto com
Angola. Seus navios respondiam 85% de toda a movimentação do porto
da cidade, enquanto apenas 15% vinham de Portugal. 59

Para o autor, o principal fator que estimulava o sucesso dos traficantes atuantes no
Brasil nos portos angolanos era a utilização de produtos da terra que financiavam os seus
investimentos, como as aguardentes provenientes do Rio de Janeiro, que além de possuir
um baixo custo, eram fundamentais na troca por cativos.60 Entre os principais produtos
brasileiros podemos citar ainda: o tabaco, os tecidos, os produtos alimentícios (como a
farinha de mandioca, a carne seca, o arroz, o toucinho), e principalmente, como já
mencionado, o ouro mineiro.

Para Florentino, a participação dos comerciantes atuantes em Portugal no tráfico


para o Brasil também será pequena, na medida em que os traficantes das praças
brasileiras assumem as principais rotas do tráfico já a partir de inícios do século XVIII.
Todavia, ressalta que a dominação do capital traficante brasileiro, e principalmente
carioca, nos circuitos de homens dava-se não somente graças ao acesso aos produtos

relativamente baixo, posto que a produção social do escravo era feita através da violência, ou seja, o valor
gasto pelas sociedades de origem desse cativo para desenvolvê-lo não era compensado ou restituído em
uma troca equivalente e sim através captura, o que compensava os gastos iniciais com a empresa.
FLORENTINO, Manolo Garcia, Op. cit. p.173.
58
CAVALCANTI, N. O. Op. cit. p.21.
59
FERREIRA, Roquinaldo “Dinâmica do comércio intracolonial: Geribitas, panos e guerra no tráfico
angolano de escravos (século XVIII). In: FRAGOSO, João, ALMEIDA, Carla; SAMPAIO, Antônio C. J.
(org.). Conquistadores e negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa,
Séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p.345.
60
Voltaremos a falar sobre o comércio de aguardentes em um momento seguinte.
30

coloniais, mas igualmente devido a outros mecanismos como: a posse dos navios 61 e,
sobretudo, pela criação de um sistema de seguros marítimos, imprescindível para tornar
possível a realização desse tipo de negócio. 62 De acordo com o autor, todas esses fatores
estão presentes na praça mercantil carioca, o que garantiu o seu protagonismo no tráfico
desde a primeira metade do setecentos. Acrescentando a isso o crescente mercado
consumidor estimulado pelas descobertas auríferas, a posição dos negociantes se torna
cada vez mais fortalecida pelo papel por eles desempenhado numa sociedade dependente
de homens.

O aumento do fluxo de pessoas nas áreas mineiras também desencadeou a


formação de novos povoados, vilas e cidades; provocando uma demanda não somente por
cativos, mas também por artigos que abastecessem essa população elevando a circulação
e produção de diversos produtos. Portanto, uma rede comercial abastecedora e a produção
de alimentos era um pressuposto essencial para a montagem e manutenção da atividade
mineradora. Tais prerrogativas também vieram a favorecer a capitania fluminense, que
devido a sua localização e potencializada pela construção do Caminho Novo em 1711,63
logo se transformou na principal abastecedora das cidades mineiras. Desse modo, dentre
os principais produtos exportados do Rio de Janeiro para as regiões do ouro estão
também os gêneros alimentícios.

Segundo Sampaio, além do aumento dos preços dos artigos alimentícios, 64 a


demanda vai estimular o interesse da elite mercantil carioca por esse tipo de
investimento. Analisando as escrituras de compra e venda da primeira metade do século,
o autor observa a existência de um crescimento da presença do capital mercantil nas
65
atividades que envolvem a produção de alimentos. Os negociantes “sozinhos
responderam por mais de um quinto das aquisições, e o valor médio investido por eles é

61
Analisando as escrituras de compra e venda, Fábio Pesavento percebe que essa transação ganha maior
vulto a partir da terceira década do século XVIII, chegando a soma de 100 contos de réis entre 1750-
1790. PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.57.
62
FLORENTINO, Manolo Op.cit. pp.128-129.
63
Mesmo com a construção do caminho Novo, o Caminho Velho não deixou de ser utilizado. Apesar de
o Caminho Novo ser mais seguro e reduzir o tempo da viagem de dois meses para de 12 a 15 dias, as
paragens do Caminho Velho continuam sendo essenciais abastecer os viajantes durante todo o trajeto.
Dessa forma, mesmo Caminho Novo, tendo sido construído em 1705 por Garcia Rodrigues Pais, ainda
em 1711 ambos os caminhos eram utilizados. SAMPAIO, Antônio C. J. Op. cit. p. 83.
64
Para o período, nota-se uma alta de 200% entre 1678/1703 e 1736/1738 para artigos como a mandioca,
que era o principal alimento-base da população colonial. SAMPAIO, Antônio C. J. de. Na encruzilhada
do Império...Op. cit. pp.123.
65
Idem, p. 126.
31

consideravelmente maior que a média geral (46,5%)”. 66 Apesar de não poderem ser
responsabilizados totalmente pelo incremento do setor abastecedor, tais dados mostram
que o capital mercantil torna-se presente nesse tipo de investimento no período.

Todavia, é importante ressaltar que a tendência do século XVIII não foi o


engessamento do capital mercantil nos investimentos rurais, mas sim um aumento dos
investimentos em bens urbanos. Analisando a trajetória do mercado de compra e venda
na cidade do Rio de Janeiro, entre 1650 e 1750, Sampaio verifica ainda no final do século
XVII, um alto índice de investimento no setor agrário. Além disso, percebe que grande
parte das rendas obtidas no comércio destinava-se a investimentos no setor rural. Para o
autor, muitos indivíduos ligados ao comércio se transformavam em membros da elite
agrária ao adquirir engenhos e a formar alianças matrimoniais com membros das famílias
principais da terra. 67 No seiscentos, tal estratégia estava ligada a uma clara busca por
reconhecimento social, posto que nesse período a elite agrária se localizava no topo da
hierarquia social.68

Como já mencionado, esse quadro vai sofrer modificações ao longo do século


XVIII. O valor das transações envolvendo bens agrários (sobretudo os engenhos de
açúcar) passam a perder peso em relação às transações envolvendo imóveis urbanos
(como sobrados, moradas e lojas), tendo este ultrapassado o valor dos negócios agrários
na década de 1740. 69 Não foram somente as transações envolvendo bens urbanos que
aumentaram, mas também outros negócios que não envolviam os bens rurais como
mercado de dívidas ativas, o que acrescentado ao aumento do tráfico, demonstra um
crescimento da diversificação da economia fluminense, além de mostrar a passagem para
um cenário em que o capital mercantil passa a ter maior relevância nessa sociedade.

Tal quadro também foi observado na praça baiana por Alexandre Ribeiro na
segunda metade do século XVIII. Ao analisar as escrituras de compra e venda na Bahia
percebe uma trajetória parecida com a verificada no Rio de Janeiro. Segundo o autor, ao
longo do século XVIII, assim como no Rio de Janeiro no século precedente, também

66
Ibidem, p. 127.
67
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. “Famílias e negócios: a formação da comunidade mercantil carioca
na primeira metade do setecentos.” In:____________; Fragoso, João; Almeida, Carla Maria Carvalho de
(orgs.). Conquistadores e negociantes: histórias de elite no Antigo Regime nos tópicos. América lusa,
Séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 2007, p.257.
68
Retornaremos a esse assunto nas páginas seguintes. SAMPAIO, Antônio C. J. de. Na encruzilhada do
Império...Op. cit. pp.77.
69
Ibidem, p. 127.
32

houve uma maior valorização dos bens agrários. Isso ocorria por que embora houvesse
um crescimento do setor mercantil na Bahia a partir de meados do setecentos não havia
uma distinção clara entre a elite agrária e comercial. Entretanto, nas últimas décadas do
setecentos tal diferenciação começa a se fazer presente nessa sociedade, e gradualmente
os valores envolvendo negócios urbanos passam a ser mais representativos nas escrituras
do que os negócios envolvendo bens rurais. 70 Para Ribeiro, “o crescimento das
negociações desse tipo de bens estava fortemente atrelado ao fortalecimento do capital
mercantil na cidade de Salvador na segunda metade do Setecentos”.71 Dentre os fatores
que motivaram tais mudanças está principalmente a recuperação do tráfico negreiro a
partir da década de 1770. 72

No que tange ao Rio de Janeiro, de acordo com Sampaio, as razões para a queda
da participação dos bens rurais nas transações de compra e venda estaria primeiramente
ligada ao crescimento da população urbana da capitania fluminense. Segundo o autor, a
população teria passado de 12 mil habitantes em 1710 para 29.147 em 1749, “aumento
superior 140% em aproximadamente quatro décadas”.73 Tal crescimento teria provocado
um aumento da demanda por imóveis no interior da cidade e dessa maneira, levou ao
aumento do preço dos mesmos. Outro motivo citado pelo autor foi, naturalmente, o
fortalecimento do capital mercantil na praça carioca, o que se reflete, por exemplo, no
crescimento da venda de embarcações, assim como do valor dos mesmos. 74

Também podemos perceber o crescimento da presença do capital mercantil na


cidade ao citarmos outros dados fornecidos por Sampaio como os contratos da dízima da
Alfândega que passara dos já significativos 14:968$273 em 1700, para 209:600$600 em
1745. Além do número de moedas produzidas pela Casa da Moeda que já em 1702
atingiu a marca de 1.250:080$800 em moedas, o que demonstra mais uma vez a
importância da capitania para o império e o incremento do capital mercantil. 75

70
RIBEIRO, Alexandre Vieira. A cidade de Salvador: estrutura econômica, comércio de escravos, grupo
mercantil (c. 1750 - c. 1800). (Tese de doutorado). Rio de Janeiro: PPGHIS, Universidade Federal do Rio
de Janeiro, 2009, p. 247.
71
Idem, p. 264.
72
Sobre as mudanças no tráfico de escravos para Salvador ver: Ibidem, Cap.1.
73
SAMPAIO, Antônio C. J. de. Na encruzilhada do Império...Op. cit. p. 85.
74
Ibidem.
75
Segundo o autor os cargos de moedeiro foram majoritariamente ocupados por homens de negócio
mesmo antes da instalação definitiva da Casa da Moeda no Rio de Janeiro, como foi o caso de Francisco
de Almeida Jordão Luís da Mota Leite e de Jorge Mainard. Tal cargo os conferia uma série de privilégios
33

Assim, baseado nesse capital, um novo grupo vai gradualmente diferenciando-se


da elite agrária, se fortalece economicamente e passa a ter uma esfera própria de ação
controlando o mercado de bens urbanos, de crédito e principalmente o comércio de
escravos: os homens de negócio. 76

É importante salientar que o aparecimento desses indivíduos na documentação


referente ao Rio de Janeiro é um fenômeno das últimas décadas do século XVII. Segundo
Sampaio, embora o comércio seja um assunto constantemente tratado nas
correspondências do século XVII, “os comerciantes não o são”. 77 Como podemos
verificar na tabela 1.4, tais indivíduos podem ser encontrados nas fontes possivelmente
somente partir da década de 1670, mostrando claramente a importância das mudanças
ocorridas na capitania fluminense para o estabelecimento desse grupo. E, como o
vocabulário social foi se transformando no intuito de não apenas destacar o grupo
mercantil no interior da sociedade, mas também como determinante para estabelecer a
diferenciação entre “homens de negócio” e outros ofícios ligados ao trato mercantil.

Tabela 1.4 - Número de indivíduos ligados ao capital mercantil por década (1670-
1750).

Ofício 1670 1680 1690 1700 1710 1720 1730 1740 1750
Homens de negócio 2 4 16 24 77 112 107 191 173
Mercadores* - 10 7 9 39 73 11 18 9
Que vive de seu negócio - - - - - 15 3 5 7

Caixeiros - - - - - 6 1 1 -
Outros** - - - 3 13 29 12 16 2
Total 2 14 23 36 129 235 134 231 191
Fonte: Banco de dados. A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas
econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003. 78
* mercadores e mercadores de loja.
**Capitão de Galera, comissários, vendeiros, taverneiros, merceeiros entre outros.

como a isenção de determinados impostos, por exemplo. SAMPAIO, Antônio C. J. de. Famílias e
negócios... Op. cit. pp. 230-231.
76
SAMPAIO, Antônio C. J. de. “A produção da liberdade... Op. cit. p. 292.
77
SAMPAIO, Antônio C. J. de. Na encruzilhada do Império... Op. cit. pp.79.
78
Agradeço a Antônio Carlos Jucá de Sampaio por ceder tais informações.
34

Antes de analisarmos a tabela 1.4, é necessário fazermos algumas considerações.


A primeira ressalva a ser feita corresponde a como chegamos aos números sugeridos na
tabela. O método utilizado foi o levantamento dos nomes dos indivíduos que aparecem
pela primeira vez nas fontes com a designação de ofício mercantil ou referido como
pertencente a um determinado grupo. Tal indicação não significa que esses indivíduos
não apareçam em outros momentos, sendo muito deles atuantes nas décadas seguintes. A
segunda questão corresponde ao caráter funcional de tais dados. Não pretendemos sugerir
que tais números correspondem a quantidade exata de indivíduos envolvidos com o
comércio, posto que muitos deles provavelmente não deixaram registros. Todavia, não
podemos deixar de ressaltar o caráter indicativo desses números e a importância da
análise dos mesmos para o estudo aqui proposto.

No quer concerne às fontes utilizadas para a construção de tal tabela, utilizamos


uma base documental bem diversa como ressaltado na introdução da presente pesquisa.79
Em relação ao limite cronológico aqui proposto, analisamos, obviamente, a primeira
metade do setecentos no sentido de perceber a evolução do aparecimento desses
indivíduos, assim como devido ao caráter da documentação levantada até o presente
momento, que se encontra espaça após 1750. Dessa maneira, a partir dos critérios
propostos, conseguimos identificar 995 indivíduos ligados a atividade mercantil na
capitania fluminense. Explicações feitas, podemos prosseguir.

Analisando os dados presentes na tabela 1.4, a primeira questão que nos surge, se
refere ao vocabulário social utilizado para designar os indivíduos ligados ao comércio. É
importante ressaltar que não é objeto desta pesquisa fazer uma discussão pormenorizada
sobre a classificação de todos os indivíduos ligados a atividade comercial atuantes no Rio
de Janeiro no século XVIII, posto que concordamos com Maria Aparecida Menezes
Borrego quando mostra a importância de caracterizar essas atividades comerciais de
forma individualizada.80 Entretanto, apesar de não elencar todos os indivíduos ligados ao
trato mercantil, a recorrência de determinadas categorias nas fontes mostram que as
atividades conferiam diferenciação daqueles que a executavam.81 Dessa forma, dentre as

79
Ver: p.20.
80
Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A Teia mercantil: negócios e poderes em São Paulo
colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda. 2010 Capítulo 2.
81
Escolhemos selecionar as atividades mercantis pelas quais os indivíduos se reconheciam e eram
reconhecidos pelos seus contemporâneos. Entretanto, concordamos com Simona Cerutti ao entender que
esse é somente o começo e se faz necessário fazer uma análise do processo pelo qual esses indivíduos são
diferenciados os situando no tempo e principalmente no espaço. CERUTTI, Simona. “Processo e
35

inúmeras denominações existentes, escolhemos as que estão mais evidentes nas fontes e
nos atemos a quatro denominações: homens de negócio, mercadores, caixeiros e “que
vive de seu negócio”.

A designação “que vive de seu negócio” tornou-se corrente durante o século


XVIII e no começo do XIX, e era muito menos precisa que mercador ou homem de
negócio. De acordo com Jorge Pedreira, em Portugal tal expressão estaria relacionada aos
comerciantes de ofício ou de ocasião. 82 Acreditamos que para a capitania fluminense no
século XVIII o termo “vive de seu negócio” também está relacionado à designação do
oficio pessoal desses indivíduos, e não a representações coletivas como pertencente a um
determinado grupo, como veremos, é o caso dos “homens de negócio”. Dessa maneira, o
uso de tal nomenclatura nos parece ser muito mais amplo, posto que muitos indivíduos
aqui arrolados vão aparecer nas fontes denominados principalmente como homens de
negócio em momento seguintes. Por ora, podemos citar o caso de um dos mais
importantes homens de negócio da Cidade e administrador da alfândega Antônio Pinto de
Miranda, que em 1747 em testemunho nos banhos matrimoniais do também negociante
Antônio Oliveira Durão, alega ser “morador desta cidade na Rua direita que vive do seu
negócio”. 83 Dessa maneira, acreditamos que a recorrência desse termo nas fontes a partir
da década de 1720 está relacionada não somente a comerciantes de oficio ou de ocasião,
mas também ao aumento da presença dos grandes homens de negócio.

Segundo Jorge Pedreira, “o estatuto do caixeiro era ambíguo, confundia-se com o


de aprendiz e representava, nesse caso, a forma de fazer o tirocínio e adquirir experiência
na atividade mercantil”. 84 Em outras palavras, muitos negociantes exerciam essa
atividade no início de sua carreira, principalmente no período de aprendizagem. Segundo
Júnia Furtado, o caixeiro exercia função essencial, pois representava seu empregador em
várias funções como cuidar da contabilidade dos negócios de seu senhor, acompanhar
mercadorias e até mesmo fazer cobranças.85 Ser caixeiro de um importante negociante da
praça era considerado uma ótima porta de entrada para o mundo mercantil, pois adquirir
experiência era a melhor forma de acumular capital e estabelecer contatos que poderiam

experiências: indivíduos, grupos e identidades em Turim no século XVII” In. REVEL, Jaques Jogos de
escala. Rio de Janeiro: Editora FGV. 1998.
82
PEDREIRA, J. M. V. Op. cit. p.77.
83
ACMRJ.Cx1006 Doc.1257.
84
PEDREIRA, J. M. V. Op. cit. p.209.
85
FURTADO, Junia Ferreira Homens de Negócio: a interiorização da metrópole e do comércio nas
Minas setecentistas 2ed. São Paulo: Heucitec. 2006 p.251.
36

favorecer a afirmação posterior desses indivíduos como homens de negócio. Esse foi o
caso de ninguém menos que Brás Carneiro Leão, que no inicio de sua carreira mercantil
trabalhou como caixeiro e veio a se transformar no final do século XVIII no homem de
86
negócio “mais rico” da cidade do Rio de Janeiro. Assim, cremos que o pequeno
número desses indivíduos encontrados na documentação, chegando a estar ausente na
década de 1750, está relacionado não apenas aos poucos registros que geralmente são
deixados por eles, mas também pode estar relacionado ao caráter muitas vezes transitório
dos mesmos.

No que tange à distinção feita aos indivíduos envolvidos na atividade mercantil, a


que aparece mais frequentemente em nossa tabela é a referente a homens de negócio e
mercadores. Para Jorge Miguel Viana Pedreira, a divisão entre homens de negócio e
mercadores só é institucionalizada com a criação da Mesa do Bem do Bem Comum dos
Mercadores na segunda metade do século XVIII. Todavia, acredita que essa divisão se
deu através de um processo de diferenciação de comerciantes ligados ao comércio de
“retalho” ou ao comércio por “grosso”, ocorrido desde meados do século XVI. Nesse
quadro, os mercadores estariam cada vez mais ligados ao comércio de pequeno porte, de
“retalho” ou de “vara e côvado”, como era chamado no período, e os ditos “homens de
negócio” estariam ligados ao comércio de grande porte. 87

Em relação aos mercadores, mais uma vez de acordo com Jorge Pedreira, na
sociedade portuguesa a designação “mercadores” e “mercadores de loja” era uma
ocupação, “unanimemente tida como por mecânica”.88 Esta designação era muitas vezes
relacionada à “avareza” e à “desonestidade” pelos tratadistas da época, como Silvestre
Gomes de Moraes ou Vilas Boas Sampaio, que defendiam que “os mercadores de tenda
aberta, a que vulgarmente chamados de retalhou trapeiros, não gozam de nobreza
alguma”.89 Ao longo do século XVIII esse tratamento foi se diferenciando no que tangia
aos comerciantes de “grosso trato”, cujo oficio era visto como “lícito e digno porque
praticava o amor ao próximo e assistência, satisfazendo através da troca necessidades
mútuas”. 90

86
CAVALCANTI, Nireu. Op.cit. p.76 e 82 Voltaremos a tratar sobre a trajetória de Brás Carneiro Leão
no capítulo 3.
87
PEDREIRA, J. M. V. Op. cit. p.75-75.
88
Idem, p.85.
89
Idem, p.84.
90
Ibidem.
37

Segundo Clara Faria, em Pernambuco a expressão “mercador” foi ao longo do


setecentos utilizada para desqualificar os comerciantes, os julgando pertencentes a uma
esfera inferior, carregado de um sentido negativo. 91 Já em Minas Gerais, para Júnia
Furtado, os mercadores eram associados aos cristãos-novos e à impureza de sangue.92
Sampaio, por sua vez ressalta a necessidade de situar tal designações no tempo e no
espaço, tendo o termo „mercador‟ se deslocado cada vez mais para designar indivíduos
relacionados ao comércio especializado de médio porte e ao defeito mecânico.93 Dessa
maneira, no que se refere o Rio de Janeiro, de início os mercadores envolvem-se nos
mesmos ramos dos homens de negócio, dedicados ao comércio de variadas mercadorias
importadas. Sendo assim, o que diferenciaria os mesmos dos homens de negócio seria a
escala de sua atividade.

De acordo com Sampaio, na América portuguesa, segundo a classificação social


da época, os “homens de negócio” no Rio de Janeiro estariam relacionados, sobretudo ao
comércio ultramarino e a atividades econômicas diferenciadas. 94 Por tal diversificação
“leia-se a atuação em atividades mercantis e creditícias – notadamente enquanto credores
de terceiros –, arrematações de contratos, compras de bens imóveis urbanos rurais etc.” 95
Raphael Bluteau, por negociante compreendia “aquele que trata de negócios próprios, e
96
ou alheios” e o termo “homem de negócio” estaria associado a “banqueiro.” Já no
dicionário de Morais e Silva de 1789, “homem de negócio” será a “figura que conhece,
entende, e sabe procurar o seu interesse, e o bom êxito, de que se incumbe sob tudo em
matéria de interesse”.97 Dessa maneira, compreendemos que já na primeira metade do

91
FARIA, Clara. O trato dos homens de negócio de Pernambuco: metamorfoses nas hierarquias (1730-
1780). Tese de doutorado. Rio de Janeiro: PPGHIS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012.
92
FURTADO, Junia. Op. Cit. p.84.
93
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá. “Comércio, riqueza e nobreza: elites mercantis e hierarquização
social no Antigo Regime português”. In: FRAGOSO, João, ALMEIDA, Carla; SAMPAIO, Antônio C. J.
(org.). Nas rotas do Império. Rio de Janeiro: Edufes, 2006, p.89.
94
É importante ressaltar que para o Rio de Janeiro foi possível diferenciar a atuação dos mercadores e
homens de negócio já na primeira metade do século XVIII, já para áreas mais afastadas essa delimitação
deve ser mais matizada, posto que as transações mercantis realizadas em outras praças como a de São
Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul a maior parte do capital mercantil que vinha do comércio
ultramarino, primeiramente passavam pelos comerciantes da Bahia e do Rio de Janeiro. Dessa maneira,
em outras capitanias os critérios que determinavam a elite mercantil eram outros (como diversificação
fluxo de mercadorias, relações com outras praças entre outros), e não o comércio ultramarino.
BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. Op. Cit. p.126-127 . FURTADO, Júnia Ferreira. Op. Cit.
p.125.
95
MATHIAS, Carlos Leonardo Kelmer. Op. cit. p.84
96
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... Coimbra:
Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712 - 1728. 8 v.
97
Dicionário da língua portuguesa composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e acrescentado por
Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro (Volume 1: A - K). Silva, Antônio de Morais, 1755-
1824.
38

século XVIII tal vocabulário era amplamente utilizado para designar aqueles que
exerciam um nível mais elevado do comércio.

Gráfico 1.1.

Evolução da presença dos homens de negócio na cidade do Rio de Janeiro (1670-


1750).

Homens de negócio
250

200

150

Homens de negócio
100

50

0
1670 1680 1690 1700 1710 1720 1730 1740 1750

Fonte: Banco de dados. SAMPAIO A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e


conjunturas econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
2003.

No gráfico 1.1, podemos visualizar melhor o crescimento da presença dos homens


de negócio na cidade. Foram levantados até 1750, como visto na tabela 1.4, o total de 706
negociantes 98 , nada menos que 71% de todos os indivíduos relacionados a atividades
ligadas ao comércio no período, chegando a 95% se analisarmos apenas a década de
1750. É óbvio que tal número está ligado ao caráter próprio das fontes, de dar mais
destaques às elites do que a outros grupos subalternos que não eram tão valorizados
socialmente. Todavia não podemos deixar de ressaltar a importância de tais dados, pois
demonstram claramente a evolução e consolidação da presença dessa elite mercantil no
interior da sociedade carioca.
98
Para não tornar o texto repetitivo utilizaremos os termos “homem de negócio” e negociante como
sinônimos.
39

Analisando o gráfico 1.1, podemos perceber um crescimento substancial já na


primeira década do século XVIII, quando notamos um salto de 221% no número de
homens de negócio encontrados nas fontes se comparamos com o decênio anterior.
Segundo Sampaio, é nas décadas iniciais do setecentos que os homens de negócio passam
a se reconhecer uma comunidade e agir coletivamente. Como exemplo de ações coletivas
dos comerciantes podemos citar o requerimento de 1710 em “que os homens de negócio
dessa praça fizeram ao governador para que se abrisse o caminho velho da Vila de
Parati”.99 Em tal documento 49 negociantes assinam o requerimento, número expressivo
para época. Segundo Sampaio, esse foi o primeiro documento em que os homens de
negócio do Rio de Janeiro agem coletivamente para defender um interesse comum.

Já na década de 1720, 35 homens de negócio fazem representação ao Conselho


Ultramarino reclamando da “grande morosidade que havia nos despachos da Alfândega,
alegando os graves prejuízos que esta lhe causavam.” 100 Tais representações e ações
coletivas envolvendo negociantes – como as citadas – vão se tornar cada vez mais
frequentes nas décadas seguintes, se multiplicando sobretudo na década de 1740 (o que
explica o grande número de negociantes nesse período no gráfico 1.1); atingindo o seu
pico na década seguinte, e mostrando que tais indivíduos cada vez mais passam a se
identificar como uma comunidade que possuía uma identidade própria.101

Para tal designação a noção de “praça” se tornará fundamental. Mesmo quando


aparecem sozinhos nas fontes, na maioria das vezes é identificado como “homem de
negócio residente nesta praça”, um claro indicativo do pertencimento a uma comunidade
102
mais ampla. Comunidade esta que, como demonstrado no gráfico supracitado,
consolidou sua presença na capitania fluminense ao longo da primeira metade do
setecentos.

Como demonstrado no caso baiano, tal quadro também pode ser observado em
outras capitanias do Império português. De acordo com Clara Faria, a designação

99
AN, PH n.7, p.11 Apud: SAMPAIO, Antônio C. J. Famílias e negócios...Op. cit. p.232.
100
AHU doc.5270.
101
SAMPAIO, Antônio C. J. Famílias e negócios... Op. cit. p.262.
102
É importante lembrar que a utilização da noção de comunidade pretende somente indicar o
pertencimento dos comerciantes a um grupo mais amplo: “Nesse sentido, é sintomática a
autodenominação dos mesmos e, „homem de negócio desta praça‟ ou „homem de negócio da Praça do Rio
de Janeiro‟, tendo o termo praça o claro caráter de comunidade mercantil” SAMPAIO, Antônio C. J.
Famílias e negócios... Op. cit. p.228. Ver também: SAMPAIO, Antônio C. J. de Na encruzilhada do
Império...Op. cit. p.80.
40

“homem de negócio”, assim como no Rio de Janeiro, aparece pela primeira vez nas
fontes no último quartel do seiscentos. Segundo a autora:

Mais que um novo termo, o seu uso recorrente ao longo do século


XVIII denota o processo de formação de uma nova identidade, atribuída
e auto-atribuída a um grupo social distinto de outros que existiam em
Pernambuco, que ocorre simultâneo ao de hierarquização das atividades
mercantis na capitania. 103

Grupo este que se destaca na capitania pernambucana desde finais do século


XVII, que com o incremento do porto de Recife e sua próspera praça comercial
sobrepujou a elite açucareira de Olinda, desde a “Guerra dos Mascates” em 1710 –
conflito resultante, dito de um modo simplista, da oposição dos senhores de engenho de
Olinda à autonomia da futura vila de Recife – e que, segundo Clara Faria, se consolidou
ao longo do século XVIII, realizando atividades que lhes garantissem distinção social
através da participação em cargos nas ordenanças e posteriormente na Companhia Geral
de Comércio de Pernambuco e da Paraíba. 104

Dessa maneira, acreditamos que o crescimento do capital mercantil, assim como


dos seus agentes, foi resultado de uma dinâmica ocorrida, em certa medida, em outras
praças do Império português. 105

Na capitania de Minas Gerais, obviamente, devido à natureza de sua criação,


desde cedo atraiu os comerciantes. O ouro como um equivalente universal de troca fez o
comércio na região florescer rapidamente na região e atrair grandes fluxos populacionais.
De acordo com Júnia Furtado, o comércio foi o grande responsável pela ocupação do
território e urbanização de Minas. Para ela, foi em torno das lojas e vendas que se
“constituíram os pontos iniciais de povoamento mineiro”. 106 Dessa maneira, o capital
mercantil torna-se fundamental nessa localidade. Segundo a autora, “dos 470 moradores

103
FARIA, Clara. O trato dos homens de negócio de Pernambuco: metamorfoses nas hierarquias (1730-
1780). Tese de doutorado. Rio de Janeiro: PPGHIS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012.
104
Idem.
105
Obviamente não pretendemos aqui igualar todos os processos ocorridos nas diferentes capitanias, mas
acreditamos ser importante salientar que as mesmas estão inseridas nas transformações do Império
português. BORREGO. Maria Aparecida de Menezes. A Teia mercantil: negócios e poderes em São
Paulo colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda. 2010, p.42.
106
FURTADO, Júnia Ferreira. Op. Cit. p. 204.
41

arrolados em Vila Rica entre 1712 e 1715, 139 deles estavam ligados ao comércio de
gêneros, constituindo 29,57% da população.” 107

O ouro e o comércio também foram diretamente responsáveis pela dinamização de


outras capitanias, a exemplo disso podemos citar São Paulo. Conforme Maria Aparecida
Borrego, a posição geográfica privilegiada da cidade de São Paulo com suas rotas fluviais
e terrestres, atraiu desde cedo imigrantes ligados ao comércio, principalmente aquele
destinado ao abastecimento das áreas mineradoras.108 A autora busca contrariar as teses
que destacam a decadência e o esvaziamento populacional de São Paulo após as
descobertas auríferas. E ressalta o setor mercantil como um fator decisivo para a
economia paulistana, mostrando a mercantilização do núcleo urbano na primeira metade
do século XVIII e o grande afluxo de comerciantes reinóis que se fixavam na cidade
atraídos pelas inúmeras rotas comerciais. Além de mostrar a consolidação desses sujeitos
ligados ao mundo dos negócios nos espaços de poder na capitania como as Misericórdias
e a Câmara ao longo do setecentos.

O quadro esboçado mostra que o Rio de Janeiro estava inserido nas mudanças do
Império português. Mudanças essas que foram intensificadas na segunda metade do
século XVIII e que fizeram parte da política do governo de D. José e de seu principal
ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo que veio a ser conhecido como Marques de
Pombal. É sobre essas mudanças que iremos tratar agora.

1.2. Pombal: entre transformações e continuidades

Todas as mudanças econômicas, geradas principalmente pelas descobertas


auríferas, deslocaram a atenção do Império português para a América e provocaram
mudanças também no campo político. 109 O crescimento da população nas áreas
mineradoras, devido à busca por enriquecimento, aumentou o investimento da Coroa em
um maior controle do aparelho administrativo e fiscal. Dessa maneira, Portugal passou a
se preocupar em concentrar um controle político mais intenso dessas áreas em suas mãos.

107
Idem, p.222.
108
A autora cita outras áreas mineratórias importantes para a dinamização da cidade de São Paulo como
Cuiabá, por exemplo. BORREGO. Maria Aparecida de Menezes. A Teia mercantil: negócios e poderes
em São Paulo colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda. 2010, p.42.
109
Para melhor compreensão sobreo tema ver: SAMPAIO, Antônio C. J. de Na encruzilhada.... Op.
cit.Capítulo 1.
42

Segundo Mônica da Silva Ribeiro, tal preocupação está relacionada diretamente


ao surgimento de “novas estratégias governativas que visavam alcançar uma maior
racionalidade político-administrativa no Império português.” 110 Dessa maneira, a autora
acredita que nesse período passa a ser exercida pela Coroa portuguesa uma nova “razão
de Estado”, que significaria a articulação de objetivos gerais da Coroa em sua prática de
governo, para desempenhar um controle fiscal e econômico em seus territórios mais
significativo. 111

Mônica Ribeiro também ressalta que a aplicabilidade desse conceito, que apesar
de mais perceptível na segunda metade do setecentos, já é visível a partir principalmente
da década de 1720-1730.112 De acordo com Nuno Gonçalo Monteiro, a centralidade da
corte, e a redefinição de suas hierarquias internas foi uma dimensão fundamental do
reinado de D. João V. 113 Em seu livro D. José:na sombra de Pombal, o autor busca
sugerir que já no período joanino, encontra indícios de uma evolução política e
institucional de Portugal, que para ele significou uma verdadeira “viragem
correspondendo uma nova configuração dos centros de poder”.114 Um indício disso, foi a
não convocação das Cortes em todo século XVIII, assim como uma redução das
convocações do Conselho de Estado. Segundo Monteiro, este declínio do “governo dos
conselhos e tribunais” ocorreu em conjunto com “um indiscutível reforço da
administração periférica da Coroa”. 115 Apesar desses instrumentos ainda não serem
potencializados (o que é ocorre no período josefino), já no reinado de D. João V
encontramos políticas definidas para esferas específicas como: o alinhamento externo
(incluindo a guerra) e a política ultramarina (principalmente no que tange à nomeação de
cargos e resolução de contendas). 116

Nesse sentido, entre as iniciativas da Coroa na política ultramarina referentes ao


reinado de D. João V, podemos citar ainda os novos métodos de arrecadação de tributos
sobre o ouro: o sistema de capitação, que buscava deter o descaminho e a falsificação do

110
RIBEIRO, Mônica da Silva. Op.cit. p.38.
111
Idem, p.40.
112
Todavia, cabe frisar que estas mudanças não acontecem do nada, mas sim é um resultado de um
processo que se deu desde a Restauração. Sobre o tema ver: MONTEIRO, Nuno Gonçalo. D. José: na
sombra de Pombal. Lisboa, Temas e Debates, 2008, Cap.2.
113
MONTEIRO, Nuno Gonçalo Freitas. “A consolidação da dinastia de Bragança do Portugal Barroco:
centros de poder e trajetórias sociais (1688-1750)” In: TENGARRINHA, José (org.) História de
Portugal. São Paulo: UNESP, 2001 p.213. Apud: RIBEIRO, Mônica. Op. cit. p.31.
114
MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Op. cit. D. José: .... p.46.
115
Idem.
116
Ibidem.
43

metal. Também podemos mencionar mudanças significativas na atividade legislativa,


como a criação das três secretarias em 1736: a da Marinha e Domínios Ultramarinos, a
dos Negócios Estrangeiros e de Guerra, e dos Negócios Interiores do Reino. 117 Sendo
assim, há um claro indicativo do surgimento de em nova estratégia governativa, que
buscava alcançar um maior ordenamento político-administrativo no Império português,
exercendo um controle econômico e fiscal mais efetivo. 118

Dessa maneira, não entendemos o período pombalino como responsável por


mudanças bruscas, mas sim como um período de continuidades, que foram elaboradas
mais intensamente na segunda metade do século XVIII. Dito em outras palavras,
percebemos as transformações do período josefino como resultado de um processo
gradual ocorrido ao longo do setecentos e que, certamente, “foram incrementadas com a
ascensão de Pombal.”119

Antes de tratar de tais mudanças é importante esclarecer que não pretendemos


nos referir a tal período denominado “pombalino” como um conceito antes de existir,
posto que evidentemente, este termo não fora usado por nenhum contemporâneo do
período. Dito de outra forma, quando falamos de “pombalismo” ou período pombalino,
não pretendemos afirmar que entre 1750 a 1777 “já existia uma ideia fechada ou
cristalizada acerca do que seria o período pombalino, e de suas repercussões e teorizações
que, obviamente só foram feitas a posteriori”. 120 Dessa maneira, concordamos como
Mônica Ribeiro sobre a utilização de tal conceito como apenas operativo para designar o
período em que Sebastião José de Carvalho e Melo esteve à frente do governo da Coroa
portuguesa. Assim, não almejamos relacionar esse conceito, “a um conjunto de práticas
que pudessem vir a definir uma época tão complexa como a que estamos nos referindo”
121
, mas sim torná-la mais inteligível, nos remetendo ao principal agente da política
portuguesa nesse momento. 122

Também é importante ressaltar que não pretendemos analisar aqui o período


pombalino em bloco, acreditamos a consolidação do poder do ministro não aconteceu de
uma hora para outra, mas sim passou por um processo que teve como marco crucial o

117
RIBEIRO, Mônica da Silva. Op. cit. p.68.
118
Idem, p.39.
119
MONTEIRO, Nuno Gonçalo Op. cit. p. 46.
120
Idem, p.49.
121
Ibidem.
122
Ibidem.
44

terremoto de Lisboa em 1755. Segundo Nuno Monteiro, apesar de Pombal ser a principal
figura política do governo português antes de 1755, estava longe de ter o total controle da
política lusitana. Após o terremoto, há um notório fortalecimento do poder do ministro e
um crescimento de sua intervenção no Estado. Dessa maneira, a partir desse momento
citaremos de medidas pombalinas em momentos diferentes de seu governo não no intuito
de fazer uma análise cronológica da evolução do seu governo, pois este não é objeto da
presente pesquisa, mas sim para ressaltarmos as principais medidas que suscitaram
mudanças na América portuguesa, principalmente no Rio de Janeiro. Esclarecimentos
feitos podemos prosseguir.

De acordo com Maria de Fátima Gouvêa, a segunda metade do setecentos foi


marcada por uma enorme inovação na forma como a Coroa portuguesa vinha
coordenando sua política no ultramar. O momento, informado pelos desdobramentos das
reformas pombalinas, possibilitaria a montagem de um programa político voltado para o
fortalecimento da economia lusitana. Buscou-se, assim, criar um grupo de homens
habilitados para gerir os postos administrativos ultramarinos e para estimular as
potencialidades econômicas existentes no complexo Atlântico. Nesse sentido, de um lado
a Coroa se preocupou em com uma melhor composição das suas secretarias de Estado
convocando homens célebres de confiança como Francisco Xavier de Mendonça Furtado
(irmão de Pombal, governador da capitania do Grão- Pará e Maranhão na década de
1750) e Francisco Inocêncio de Souza Coutinho (pai do futuro ministro D. Rodrigo de
123
Souza Coutinho). Por outro lado, pretendeu-se criar uma elite intelectual que
potencializasse as descobertas em todo o império, atuando em setores como a demarcação
de fronteiras e descobertas de riquezas materiais, por exemplo. Para tal, foi feita uma a
reforma completa da Universidade de Coimbra (1772) e posteriormente a Faculdade de
Filosofia natural e a Academial real de ciências de Lisboa (1779).

Outro acontecimento que não poderíamos deixar de citar é expulsão dos jesuítas
em 1759. Segundo Nuno Gonçalo Monteiro, apesar de não resultar de um projeto
previamente traçado, devido às rusgas com a Companhia de Jesus, Pombal buscou

123
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. “Poder político na formação do complexo atlântico português
(1645-1808).” In. _____________; FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda Batista (orgs.). O
Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro:
Civilização brasileira, 2001, p.310.
45

exatamente o “extermínio” dessa instituição. 124 Em primeiro lugar, podemos citar como
tendo uma relação direta ao ocorrido a questão da catequese indígena na América
portuguesa, posto que nesse período, “os indígenas passaram a ser vistos como
importantes agentes para a povoação desse território, em decorrência do complexo jogo
de demarcação de fronteiras norte, sul e oeste do Estado do Brasil.” 125

Entretanto, a questão indígena não foi o único motivo que culminou a expulsão
dos jesuítas, esta também estaria ligada a outros fatores como a criação da Companhia
Geral do Grão-Pará e Maranhão – que decretava a liberdade dos indígenas e passava para
a Coroa a administração dos territórios das Missões –, o que provocou embates com os
126
religiosos desde 1755. Esses fatores estariam relacionados a uma progressiva
orientação regalista do governo josefino adepto a supremacia do rei sob a igreja, que
provocaria a expulsão dos jesuítas e o posterior confisco dos seus bens, principalmente
depois ao atentado ao Rei em 1758, que teve os jesuítas como maiores suspeitos. 127

No que concerne às colônias, especialmente ao Brasil, no período pombalino


ocorreu uma reforma completa em sua estrutura administrativa: “a criação de companhias
por ações, a criminalização da discriminação contra os ameríndios da América
portuguesa e contra os asiáticos na Índia portuguesa” foram as primeiras delas.128 Outras
medidas importantes também foram tomadas para atender à preocupação de Pombal de
priorizar a política colonial. Em 1761, a criação do Erário Régio buscou a racionalização
e centralização da cobrança de tributos, já que nele deveria ser concentrada e registrada
toda a renda da Coroa.

Pombal investiu no controle dos principais artigos de exportação como o ouro, o


tabaco e o açúcar, através de medidas fiscais que buscavam incentivar a produção desses
produtos. No que se refere ao ouro, no alvará de 3 de dezembro de 1751, Pombal dá fim
ao imposto de capitação, passando a cobrar 20% de todas as casas de fundição nas
Intendências do ouro. Outra medida importante foi a proibição da exportação do ouro,

124
De acordo com Monteiro, o caráter regalista do governo de Pombal estaria ligado a circunstâncias e da
oposição que foi se deparando ao longo de seu governo, pois não encontra nenhum indício que sugeriam
que tais ideias faziam parte da política e nem do pensamento de Pombal. MONTEIRO, Nuno Gonçalo
Op. cit. p.168-170.
125
RIBEIRO, Mônica da Silva. Op. cit. p.69.
126
MONTEIRO, Nuno Gonçalo Op. cit. p.78-79.
127
Idem, p.169.
128
MAXWELL, K. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996,
p.19.
46

que pretendia recuperar o equilíbrio comercial e impedir a saída da moeda,


principalmente através do contrabando. Entretanto tal medida estimulou o contrabando,
prática que se queria evitar.

Já em relação ao açúcar e ao tabaco reduziu a taxação para a exportação em


1751, além de criar as Mesas de Inspeção no mesmo ano para controlar a qualidade dos
produtos e estimular o seu cultivo em outras áreas (como o fumo no Rio de Janeiro e o
açúcar na área que hoje corresponde à bacia do Amazonas). 129

Na capitania fluminense Pombal buscou agir no sentido de aumentar as


exportações e diminuir a dependência de poucos produtos, como o açúcar e a mandioca,
buscando introduzir novas culturas. Seguindo essa orientação, o cultivo de outros artigos
agrícolas foi incentivado, dentre os quais podemos destacar: o linho cânhamo (usado na
produção de cordas), a cochonilha (corante), o algodão, o anil e o arroz. Apesar de alguns
produtos não possuírem sucesso como a cochonilha, a canela e o linho de cânhamo
(devido a uma série de fatores), artigos como o arroz e o anil obtiveram bons resultados,
sendo o arroz um dos produtos de maior cultivo do Rio de Janeiro já na década de 1770,
ficando atrás somente da farinha de mandioca. Analisando as exportações cariocas, Fábio
Pesavento observa um cenário claro de diversificação de culturas na capitania fluminense
durante a segunda metade do Setecentos.130

Em termos de participação percentual, as novas culturas (algodão,


goma, anil, arroz, café, canela, cochonilha e linho cânhamo) somam
expressivos 23%. O destaque fica para o desempenho do anil e do arroz,
que juntas representam aproximadamente 19% da receita de exportação
fluminense. 131

Logo, o autor consegue observar que o conjunto de medidas de estimulo à


diversificação de culturas promovidas por Pombal alterou a agricultura fluminense e
possibilitou uma mudança no desempenho econômico da cidade, com impacto sobre as

129
SILVA, Andrée Mansuy-Diniz “A estrutura política e econômica no final do Brasil colonial, 1750-
1808”. In: BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: a América Latina colonial. São Paulo:
Edusp, 2004, vol.1, pp.496-497.
130
Idem, p.76.
131
Ibidem.
47

exportações e sobre o mercado interno da capitania, tornando-a cada vez mais importante
no cenário brasileiro. 132
A relevância do Rio de Janeiro foi consolidada definitivamente em 1763 quando,
influenciado pelo pós-guerra 133 e buscando melhorar as defesas do Brasil, Pombal
transferiu a capital de Salvador para o Rio de Janeiro. Resultado de um longo processo, a
transferência da capital pode ser vista como consequência lógica, pois “os centros de
gravidade estratégicos, políticos e econômicos” do Brasil teriam se deslocado do nordeste
para o centro-sul, que desde os últimos anos do século XVII vinha se transformando na
principal “encruzilhada do Império.”
Segundo Andrée Mansuy-Diniz Silva, as políticas de Pombal derivavam
principalmente de duas preocupações: “aumentar a renda da Coroa mediante o incentivo
ao comércio, especialmente com o Brasil, e reduzir a qualquer preço o déficit da balança
comercial e, por conseguinte, a dependência econômica de Portugal para com a
Inglaterra.” 134 Destarte, segundo Jorge Miguel Viana Pedreira, o período pombalino foi
de extrema importância para a consolidação da classe mercantil em Lisboa. Para o autor,
somente com a ação reformadora de Pombal,

que reordenou o Estado, renovou o comércio e as finanças e limitou o


poderio dos comerciantes estrangeiros em Portugal, a burguesia portuguesa
ganharia um novo alento, porventura preparando a sua afirmação que
chegaria finalmente com o liberalismo oitocentista.135

Tal perspectiva é reforçada por Maxwell, que considera que os objetivos de


Pombal seriam: nacionalizar a economia subtraindo o tráfico aos estrangeiros, devolver
as rendosas comissões às praças mercantis portuguesas e promover a formação das
grandes casas comerciais mediante a concessão de contratos régios.136 Devido ao apoio

132
PESAVENTO, Fábio; MONTEIRO, Sérgio. Jogos coloniais: mudança institucional e desempenho
econômico, o caso da diversificação agrícola no Rio de Janeiro – 1750-1800. XXXIV Encontro Nacional
de Economia, Salvador, 2006. Apud: Ibidem, p.94.
133
O envolvimento de Portugal na Guerra dos Sete anos (provocada pela invasão das forças espanholas
em 1762) fez com que a coroa portuguesa buscasse a assistência britânica para repelir a invasão. A
subsequente vitória da Grã-Bretanha e a consolidação de sua hegemonia na Europa, provocou no Marques
de Pombal o temor de uma reivindicação de maior acesso à América portuguesa por parte dos ingleses.
Isso fez com que Pombal procurasse tomar ações mais incisivas tendo em vista a proteção da colônia.
MAXWELL, K, Marquês de Pombal. Op. cit. p.122-126.
134
SILVA, Andrée Mansuy-Diniz Op.cit. p.496.
135
PEDREIRA, J. M. V. Op.cit. p.8.
136
MAXWELL, K. Conflicts and Cinspiracies: Brasil and Portugal 1750-1808 Cambridge,1973, pp19-
25. Apud: Idem, p.46.
48

ao crescimento da burguesia, muitos autores atribuem a nova pujança dos negociantes


nesse período ao Marquês. 137

Pombal procurou incentivar o comércio de diversas maneiras. Na tentativa de


acabar com o contrabando e estimular a circulação da mão-de-obra escrava, foram feitas
diversas tentativas de canalizar o tráfico para o Brasil. Em 1751, Portugal proibiu a
exportação de cativos para fora de suas colônias e ainda proscreveu a atuação dos
“comissários volantes” (comerciantes itinerantes que se dedicavam ao comércio de
pequeno porte) os substituindo pelo fortalecimento do “sistema de frotas”. 138

De acordo com Andrée M. Silva, no tocante à proibição da atuação dos


comissários volantes, além de combate ao contrabando, essa ação fazia parte da política
pombalina de priorizar a atuação dos comerciantes de grande porte, em detrimento dos
que possuíam um pequeno cabedal. Assim, em vista de reforçar essa política de
discriminação e estruturar definitivamente o setor comercial do império português, foram
criadas as companhias do comércio como, por exemplo, a Companhia do Grão-Pará e
Maranhão (1755-1778), que além de ser responsável pelo desenvolvimento da
agricultura, detinha o monopólio do tráfico de escravos e do comércio da região. Para
atrair o apoio dos homens que dispusessem de grande capital, os investidores desse tipo
de companhia recebiam privilégios, como o promulgado no alvará de 10 de fevereiro de
1757 em que estabelecia que “todos acionistas com mais de dez ações originárias
gozariam do privilégio de nobres” não pagando qualquer tipo de encargos e podendo
receber eventuais hábitos militares sem precisar de despensas mecânicas. 139

De acordo com Júnia Furtado, outra indicação do crescimento da importância dos


comerciantes no império português foi o fim da distinção entre os chamados cristãos-

137
Alguns autores como Albert Silbert vão atribuir mudanças profundas ao Período Pombalino, como o
aparecimento de uma grande burguesia nacional, que passa a monopolizar o comércio e a dominar os
contratos de manufatura do Estado. SILBERT. A. Portugal perante apolítica francesa (1799-1814) In:
Do Portugal do Antigo Regime ao Portugal Oitocentista, 2Ed. Lisboa, p.45 Apud: Ibidem, p.46.
138
Instaurado no século XVI, o sistema de frotas pré-estabelecia rotas, intervalos e datas que os navios
deviam seguir para evitar aos constantes ataques às embarcações. Pombal acreditava que o fortalecimento
desse mecanismo permitiria um maior controle da Coroa sobre os produtos e principalmente sobre os
agentes envolvidos evitando assim o contrabando. Contudo, o comércio irregular, a desorganização, as
longas esperas dos navios nos portos que causava a deterioração dos produtos perecíveis, dentre outros
motivos, fez com que Pombal abolisse as frotas em 1765, permitindo assim a livre circulação de
embarcações licenciadas para os portos brasileiros. SILVA, M. A. Op.cit. p.497.
139
SILVA, Maria Beatriz Nizza da, Ser nobre na colônia. São Paulo: editora UNESP, 2005. p.177.
49

velhos e cristãos-novos.140 Várias iniciativas do governo pombalino mostram a direção


para uma maior integração dos conversos. Em 1768 foram destruídas por ordem do rei
todas as listas de cristãos-novos que haviam pagado impostos em troca de perdão.
Contudo, o fim da discriminação entre cristãos-novos e cristãos-velhos se deu somente
em 1773 quando o Rei editou o alvará que “proibia a sediciosa e ímpia distinção de
cristãos-velhos e cristãos-novos” e “removendo deles tudo que é opressão e violência.”141
No ano seguinte, Pombal ordenou devassa dos estatutos de todos os livros de
Misericórdia, Irmandades, Corporações e Confrarias do reino para verificar se neles havia
alguma barreira de limpeza de sangue. É importante salientar que tais medidas não
cessaram como preconceito destinado aos cristãos-novos de uma hora para outra,
entretanto há indícios que tal preconceito diminuiu consideravelmente, pois muitos
homens de negócio foram nobilitados.

Dessa maneira, o período pombalino também foi um momento de ruptura no se


refere à nobilitação da comunidade mercantil. Segundo o tratadista oitocentista Luís da
Silva Pereira Oliveira, enquanto as Ordenações do Reino concediam poucos privilégios
aos mercadores, a legislação Josefina, “degradou do comércio toda a idéia de abatimento
e a fez compatível com a mais alta nobreza”. 142 Outro tratadista, Manuel Luís da Veiga
esclarece que tal privilégio não era conferido aos que vendiam o comércio miúdo ao
retalho em lojas, botequins e tendas, mas àqueles negociantes “que tratam nobremente
sem retalhar, nem varejar suas fazendas, como costumam os mercadores de panos e
outros lojistas, que vendem por miúdo as suas mercadorias”. 143 Tal legislação, marca
assim uma ruptura decisiva com a anterior, consagrando “definitivamente a
compatibilidade entre nobreza e comércio por grosso”. 144

Acompanhando essa política de incentivo ao comércio e da obtenção da


contribuição dos maiores comerciantes do império, foi criada por Pombal em 1755 a
Junta do Comércio. Formada a partir da abolição da Mesa do Bem Comum dos

140
É sabido que desde a idade média, o comércio e o empréstimo de dinheiro em várias praças comerciais
da Europa eram comandados por judeus. A associação dos comerciantes ao judaísmo e posteriormente
aos cristãos novos fez com que esses indivíduos fossem rechaçados dos principais cargos e centros de
poder assim como sofressem discriminação.
141
Apud FURTADO, Júnia Op. Cit. p.44.
142
OLIVEIRA, Luís da Silva Pereira, Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal. Lisboa. 1806 cap.
X Apud: SILVA, Maria Beatriz Nizza, Op. cit. p.175.
143
VEIGA, Manuel Luís da. Escola mercantil sobre o comércio assim antigo como moderno entre as
nações comerciantes do velho continente. Lisboa, 1803 p.450. Apud: Idem.
144
MONTEIRO, Nuno Gonçalo, O crepúsculo dos grandes. A casa e o patrimônio da aristocracia em
Portugal (1750-1832). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1998, p.24.
50

Mercadores 145 – que havia lançado uma representação que desagradara à Coroa ao se
posicionar contra a criação dos monopólios da Companhia do Grão Pará e do Maranhão –
, a Junta do Comércio constituiu um dos principais órgãos administrativos criados pelo
Marquês naquele período. Com o “propósito inicial de incentivar e regulamentar o
comércio,” esta passa a ser responsável por tudo que dizia respeito ao trato mercantil e a
navegação, além de ter jurisdição sobre todos os comerciantes do reino. Também fica ao
seu encargo a organização das frotas que iam de Portugal para o Brasil, a prevenção do
contrabando e a concessão de privilégios comerciais.

Segundo Pedreira, ao reservar representação e seus cargos administrativos


somente aos “homens de negócio estabelecidos com cabedal, e crédito nas Praças de
Lisboa ou do Porto”, beneficiando os “bons e verdadeiros negociantes”, a Junta
concretiza definitivamente o estatuto dos comerciantes. 146 Apesar de não inaugurar a
diferenciação entre comerciantes de grosso trato e de retalho, a criação da Junta foi um
marco decisivo para acentuar e institucionalizar essa distinção. Além de consolidar a
política pombalina de incentivo ao capital mercantil, ela se transformou em um
“instrumento da intervenção do poder na classificação dos agentes na esfera comercial,”
principalmente quando torna obrigatória a matrícula dos negociantes na Junta em 1770.147
Consequentemente, a Coroa mantém seu monopólio da classificação social ao
institucionalizar a categoria de “homem de negócio” e estabelecer uma aliança mais
estreita com aquele grupo que possuía cada vez mais relevância naquela sociedade.
Símbolo da formação da aliança entre os grandes comerciantes e a Coroa, a Junta
significou ainda a consolidação de uma identidade, no sentido de um reconhecimento dos
homens de negócio enquanto um grupo destacado do resto da sociedade. 148

Assim como as demais principais praças da colônia, a Mesa do Bem Comum do


Rio de Janeiro também foi substituída pela Junta do Comércio em 1756. Todavia, de
acordo com Sampaio, não podemos deixar de ressaltar a importância da Mesa carioca
“pela representatividade do grupo que a constituiu”.149 Criada no Rio de Janeiro em 1753,

145
A existência dessa corporação desde 1748 demonstra que os homens de negócio de Lisboa já possuíam
uma capacidade organização coletiva e formavam um grupo identificável desde a primeira metade do
setecentos.
146
PEDREIRA, J. M. V. Op.cit. p.71.
147
Idem, p.70.
148
Ibidem, p.46.
149
SAMPAIO, Antônio C. J. de. “Do bem comum dos povos e de sua majestade: a criação da Mesa do
Bem Comum do Comércio do Rio de Janeiro”. In: AZEVEDO C., BICALHO, M. F., KNAUS P.,
51

a Mesa do Bem comum foi a primeira associação por atividade comercial da cidade e
reunia 68,7% dos 201 homens de negócio atuantes na praça carioca naquele ano. 150 Tais
dados mostram que a elite mercantil carioca nesse momento já possuía contornos muito
claros, pois era capaz de articular “dois terços dos seus membros em torno de um projeto
151
comum.” Ao firmar seu “compromisso” em três de Janeiro de 1754, além de
demonstrar consolidação de um grupo interessado em defender objetivos comuns, o texto
assinado pelos negociantes deixa claro consciência da importância do “bem comum do
comércio” para o Império. No texto de abertura do compromisso, seus redatores afirmam
que a criação de tal Mesa,

[...] será útil a Real Fazenda por ser o comércio uma boa parte do que
concorre para ela, e como o qual se argumentam os povos e floresce a
monarquia [...] e [...] atender com particular cuidado seus requerimentos,
isenção e liberdade de seus comerciantes, em cujo aumento tanto interessa
a monarquia, para cujo efeito comum acordo fizemos o presente estatuto.152

Entretanto, assim como na ocasião da criação da Junta do Comércio de Lisboa,


não foi a partir da fundação da Mesa que o termo “homens de negócio” aparece pela
primeira vez a fim de identificar um grupo específico. Como visto anteriormente, desde o
começo do setecentos é possível encontrar na documentação esses indivíduos agindo
coletivamente a fim de defender algum interesse comum, e ao decorrer do século esse
grupo vai progressivamente se destacando e assumindo uma identidade própria. 153 A
Mesa do Bem Comum do Rio de Janeiro institucionalizava esse processo ao criar um
corpo social definido e destacado no interior da sociedade, além de constituir-se num
órgão que possuía uma interlocução direta com a monarquia. 154

QUADRAT S. V. e ROLLEMBERG D. Org. Cultura Política, Memória e historiografia. Rio de Janeiro:


Editora FGV, 2009, p.343.
150
As praças de Salvador e de Recife possuíam a Mesa do Comércio desde 1723. Idem.
151
Ibidem, p. 344.
152
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 79, D. 18331.
153
É importante destacar que o processo de estabelecimento de uma identidade por parte dos homens de
negócio não pode ser entendida como a concretização de um projeto planejado em torno de uma “classe”
ou de uma “ideologia mercantil” e sim de um grupo que possuía interesses e características comuns
diferenciada do resto da sociedade. SAMPAIO, Antônio C. J. de. “Os homens de negócio e a Coroa na
construção das hierarquias sociais: o Rio de Janeiro na primeira metade do século XVIII”. In:
FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima (org.). Na Trama das redes: Política e negócios no
Império Português, séculos XVI a XVIII Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, Nota 13 p. 478.
154
SAMPAIO, Antônio C. J. de. Do bem comum... Op. cit. p.60.
52

Essa aliança entre negociantes cariocas e o reino fica clara quando a Mesa é
substituída pela Junta do Comércio por Pombal em 1756. Na ocasião, dos 12 homens de
negócio que faziam parte da diretoria da Mesa do Bem Comum do Rio de Janeiro, nada
menos que 10 continuam em seus cargos, deixando clara a mudança de natureza desses
negociantes, os consolidando como parte da elite daquela cidade.155 A Criação da Junta
do comércio institucionaliza definitivamente a categoria de “homem de negócio”, os
colocando não somente como protagonistas na esfera econômica, mas também com
participantes do poder político naquele período.

O quadro esboçado acima demonstra a inserção do Rio de Janeiro em meio às


mudanças do Império português no Antigo Regime, e tais mudanças evidenciam
claramente uma valorização não apenas do comércio, mas, sobretudo dos comerciantes.
A valorização e o crescimento da representatividade desses negociantes de grosso trato na
sociedade provocaram mudanças também na composição da elite local que passará por
um processo de acomodação.

A consolidação dos negociantes nessa sociedade fez com que se julgassem


capazes de interferir não apenas na esfera econômica, mas também vida política da
cidade. Dessa maneira, diferente dos séculos precedentes, que foram dominados pela
formação e consolidação de uma elite senhorial baseada no capital agrário e na ocupação
dos principais cargos da governança da capitania, no setecentos cada vez mais os
negociantes vão se reconhecer como uma comunidade e agir coletivamente em defesa de
seus interesses, reclamando um lugar na administração da cidade.156 Em outras palavras,
gradualmente esses indivíduos vão tentar fazer valer seu poder econômico e tentar
pleitear posições políticas no interior dessa sociedade o que provocou uma série de
conflitos. E é sobre esses conflitos que iremos tratar em seguida.

1.3. Negociantes versus homens bons: disputas entre elites na capitania fluminense.

Interesses divergentes converteram-se logo em disputas por poder político entre a


nobreza da terra e os negociantes. Nesse quadro, ao longo de todo século XVIII a Câmara
Municipal será um dos principais palcos dessas querelas.

155
CAVALCANTI Op. cit. p. 205.
156
SAMPAIO, Antônio C. J. Famílias e negócios... Op. cit. p.228.
53

Primeiramente cabe ressaltar a importância das Câmaras municipais no interior do


Império português. É sabido que as câmaras foram o modelo utilizado em quase todo o
Império português para a organização local de suas conquistas. Segundo Charles Boxer,
elas seriam essenciais para a formação e para a manutenção do Império ultramarino e
constituindo-se nas bases da sociedade colonial portuguesa.157 Boxer acreditava que,

a Câmara e a Misericórdia podem ser descritas apenas com um ligeiro


exagero, como os pilares gêmeos da sociedade colonial portuguesa desde o
Maranhão até Macau. Garantiam uma continuidade que governadores,
bispos e magistrados passageiros não podiam assegurar. 158

Dessa maneira, as Câmaras foram um dos principais mecanismos políticos de


expansão usados pela Coroa portuguesa, pois “tinham sua importância atrelada à
capacidade de transplantar e adaptar os modos do reino, assim como de garantir maior
uniformidade na gerência dos interesses régios.”159

Era a mais importante instância local de decisão, responsável pela gerência da


municipalidade. Como afirma Fernanda Bicalho, que

nas colônias foram as Câmaras, pelo menos durante todo o século XVII,
os órgãos fundamentais no gerenciamento de boa parcela, se não do
comércio, ao menos das defesas e das rendas, tributos e donativos impostos
pela metrópole.160

Suas competências eram ampliadas, sobretudo no que se referia às atividades


econômicas e “à gestão da vida cotidiana em suas variadas manifestações”.161 Entre as

157
BOXER, C.R. O Império Colonial Português (1415-1825). Lisboa: Edições 70. p.263 Apud:
BICALHO, M.F.B. “As câmaras ultramarinas e o governo do Império”. In: FRAGOSO, João;
BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). O Antigo Regime nos trópicos: a
dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.191.
158
Idem, p.251.
159
FIORAVANTE, Fernanda. “Às Custas do Sangue, Fazenda e escravo”:formas de enriquecimento e
padrão de ocupação dos ofícios da Câmara de Vila Rica c.1711- c. 1736. Dissertação de mestrado UFRJ
Rio de Janeiro 2008, p.12.
160
BICALHO, M.F Op. cit. 304.
161
SOUZA, Avanete Pereira. “Poder local e autonomia camarária no Antigo Regime: o Senado da
Câmara da Bahia (século XVIII)” In: BICALHO, Maria Fernanda, FERLINI, Vera Lúcia Amaral, Modos
de Governar: Ideias e práticas políticas no Império português (séculos XVI a XIX). São Paulo: Alameda,
2007, p.318.
54

suas principais atribuições estavam legislar sobre o dia-a-dia da cidade, atuando nos casos
de furtos, injúrias e contrariedades aos seus decretos, buscando sempre disciplinar a vida
publica.162 A Câmara era responsável por aforar e distribuir os chãos urbanos, cobrando
foros e laudêmios e por conceder licenças para construções de casas ou qualquer outro
tipo de edificação na cidade além de estabelecer e coletar taxas municipais.163 Também
deveria realizar obras públicas que favorecessem o bem comum e assegurar a sua
manutenção como pontes, calçamentos, estradas, cadeias, chafarizes, abastecimento de
água, de gêneros alimentícios, entre outros, além de cuidar da segurança, saúde e
saneamento. Não podemos esquecer a sua mais nobre prerrogativa que era a organização
e gerência das festividades, como carnaval e entrudo, e principalmente as festividades
religiosas e as procissões como a Festa de Corpus Christi.164

Entretanto, uma das atribuições das Câmaras que a transformava na principal


instituição do poder local era o controle os mecanismos econômicos municipais. Segundo
as ordenações Filipinas, era de responsabilidade das câmaras municipais acompanharem
todas as etapas da produção e da circulação de mercadorias,

“estabelecer regras, como a obrigatoriedade de licenciamento comercial


e de uso de pesos e medidas padronizados; fixar lugares de compra e
venda, tabelar preços, consignados nas taxas de almotaçaria; fiscalizar a
quantidade do gêneros disponíveis, bem como combater ação de
intermediários.” 165

Tal prerrogativa foi exercida de diferentes formas nas Capitanias da América


portuguesa. Segundo Avanete Pereira Souza, na Bahia, a responsabilidade pelo
tabelamento de preço foi monopolizado pela Câmara até as últimas décadas do
setecentos. Somente nos últimos três anos deste século foram encontrados registros de
queixas e demandas da população, que demonstravam certa tensão entre alguns setores
sociais (principalmente que estavam ligados ao setor produtivo e comercial) e a Câmara.

162
FIORAVANTE, Fernanda. Op. Cit. p.17.
163
BICALHO, M. F. B. A Cidade e o Império... Op. cit. p.202.
164
BICALHO, M. F. Mediação, pureza de sangue....” Op. cit. p.313.
165
Cf. Fundação Calouste Gulbenkianm. Ordenações Filipinas. Fac-símiule da edição feita por Cândido
Mendes de Almeida. Rio de Janeiro, 1870; Lisboa. 1985. Apud: SOUZA, Avanete Pereira.
“Manifestações locais da crise do antigo Sistema Colonial, (o exemplo das Câmaras municipais da
capitania da Bahia)” In: BICALHO, Maria Fernanda, FURTADO, Júnia, SOUZA, Laura de Melo. O
governo dos Povos. São Paulo: Alameda, 2009, p.308.
55

A autora destaca dois documentos específicos: o primeiro foi um requerimento


entregue a Câmara de Salvador assinado por agentes “econômicos diversos” (como
vendeiros, taberneiros, marchantes, lancheiros, produtores e criadores de gado) e o
segundo foi uma representação à Rainha D. Maria, dos “habitantes da capitania da
Bahia,” ambas entregues em 1797.166 No requerimento, os agentes econômicos alegavam
que o povo estava “vexado e oprimido das contínuas faltas que experimenta dos gêneros
da sua principal subsistência”, e requeriam no fim do sistema de tabelamento de preços,
considerado “causa principal e não outra” da crise se de abastecimento que atingia a
cidade.167 Segundo a autora, ao dar conhecimento desse requerimento ao governador, os
camaristas pareciam surpresos com a solicitação ao alegarem ser “inteiramente novo e
estranho o fim a que ele [o requerimento] se encaminhava”, o que mostra que o
tabelamento de preços era prerrogativa da Câmara e que até aquele momento não havia
existido conflitos muito aparentes no que tange esta questão. 168 Na representação à
Rainha, os argumentos se repetem, e solicitam a “abolição de todas as antigualhas, das
taxas e monopólios”, tidas pelos reclamantes como decorrentes da intervenção da Câmara
e do Estado. 169

Relativo à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, encontramos indícios que


mostram a iniciativa da Câmara referente sua responsabilidade na manutenção dos preços
desde a segunda metade do seiscentos. O primeiro documento que encontramos data de
20 de Janeiro de 1655. Este se constitui em uma carta dos camaristas ao rei (D. João IV)
referente ao estabelecimento do preço da arrematação dos dízimos para “fazer os
pagamentos e socorrer a infantaria desta praça”. 170

Já em 1679, outro documento mostra a atuação da Câmara como organizadora e


fiscalizadora da vida econômico e social da capitania, tendo como objetivo principal o
bem comum. Em representação ao Conselho Ultramarino, o procurador geral da cidade
do Rio de Janeiro em nome dos oficiais da Câmara, informa sobre “o grande dano”
resultante do comportamento dos governadores do Reino de Angola em relação aos
“navios que lá iam do Rio de Janeiro a buscar escravos para o interesse e negociação que

166
SOUZA, Avanete Pereira. “Manifestações locais .... Op. Cit. p.306.
167
Idem.
168
APEB. Cartas ao Governo – Senado da Câmara, 1783-1799, maços 201-14, doc. 59. Apud: Idem.
169
APEB. Cartas ao Governo – Senado da Câmara, 1783-1799, maços 201-14, doc. 38, 53. 59 e 71.
Apud: Idem, p.307.
170
AHU_ACL_CU_017, Cx. 3, D. 278.
56

nisto faziam, mandando por sua conta só para os venderem pelo que queriam por não
virem outros.” 171

Como visto anteriormente, até as primeiras décadas do setecentos os portos do


nordeste foram os principais destinos dos escravos angolanos. 172 Segundo Roquinaldo
Ferreira, até 1715 – quando foram proibidos de atuar nesse ramo por determinação da
Coroa –, o tráfico de escravos era monopolizado pelos governadores que preferiam
manter relações comerciais com as capitanias da Bahia e Pernambuco. 173 Essa questão
pode ser comprovada se prosseguirmos na análise do mesmo documento. Quando
consultado sobre o assunto, “Francisco de Taveira Governador que foi do Reino de
Angola”, “informou que além de ser tudo falso o que o procurador do Rio de Janeiro
diz”; os navios não poderiam seguir com mais frequência para a capitania fluminense
basicamente por duas razões: “a primeira que os engenhos da Bahia e de Pernambuco são
incomparavelmente mais que os do Rio de Janeiro” e em segundo lugar que “de Angola
para Bahia e Pernambuco” podem partir navios a “todo o tempo” já para o Rio “se espera
pela monção de três meses que são Outubro, Novembro e Dezembro, da qual é
174
arriscadíssima a viagem”. Além, de mostrar as tensões que envolviam o tráfico
naquele período, tal requerimento deixa clara a participação ativa do Senado da Câmara
no que se refere à manutenção do comércio.

Retornando à questão dos preços, podemos identificar nas fontes que tal
prerrogativa passou por momentos distintos gerando uma série de controvérsias e
disputas desde o final do seiscentos, principalmente no que tange a determinação do
preço do açúcar.

Em carta ao conselho ultramarino de 10 de junho de 1698 os oficiais da Câmara


solicitam que o governador do Rio de Janeiro Artur de Sá e Menezes, o ouvidor Manuel
de Sousa Lobo e provedor da Fazenda Real Luís Lopes Pegado, compareçam ao Senado
da Câmara para “assentir com os ofícios dele abertura dos ditos preços dos açucares” e
ajustar juntamente com os homens de negócio e senhores de engenho. Segundo os
camaristas, o requerimento obedece à carta de Sua Majestade de 12 de janeiro do mesmo
ano em que “os priva da regalia com que este Senado há muitos anos celebra os preços

171
AHU Doc. cx.7 Doc.1367.
172
FERREIRA, Roquinaldo, Op. cit. p.342.
173
Idem, p.344.
174
AHU Doc. cx.7 Doc.1367.
57

dos açucares”. 175 A suposta causa de tal determinação seria a reclamação dos donos de
navios “sempre queixosos”, em que acusam tais oficiais de agirem de acordo com sua
“conveniência no alternarem-se os ditos preços”. Os mesmos argumentam que nunca
antes haviam recebido “queixas dos homens de negócio ou destes moradores”, mas que
obedeceriam tal determinação.176

Em 30 de outubro do mesmo ano os oficiais da Câmara fazem uma nova consulta


ao Conselho, pedindo que

Vossa Majestade lhe concedesse que o governador, ouvidor geral e o


provedor da Fazenda fossem ao mesmo Senado assistir com os oficiais dele
a abertura dos ditos preços dos açucares, e nas se ajustando os da lavoura
com os homens de negócio de determinasse pelos mesmos ministros logo
conforme a ordem de V. Majestade. 177

Ao que tudo indica, no ano seguinte a Câmara perde temporariamente o direito de


interferir na determinação do preço do açúcar. Em 11 de junho de 1699, os oficiais da
Câmara do Rio de Janeiro fazem uma representação ao Conselho Ultramarino em que
pedem revogação da lei publicada pelo governador Arthur de Sá e Menezes, que proibia a
venda do açúcar a preço superior ao que estava fixado. Segundo os camaristas tal
determinação causava um “dano irreparável aos moradores e aos senhores de engenho, e
a lavoura de açúcar”.178 No mesmo documento também denunciam os preços exorbitantes
que são vendidas fazendas e os mantimentos na cidade, além dos “escravos de Angola,
que vendem por um preço nunca imaginado.” 179

Essa lei é revogada somente em 29 de Agosto de 1720, quando sua Majestade


“proíbe os governadores de se meterem em tais ajustes.” 180 O que fica determinado a
partir desse momento, é que a Câmara ficava responsabilizada por assistir a uma junta
composta por lavradores, senhores de engenho, os homens de negócio e mestres de
navios, que por comum acordo ajustariam o preço do açúcar. Se por algum motivo não
comparecessem à convocação da Câmara ou esta última faltasse com sua

175
AHU_ACL_CU_017, Cx. 6, D. 649.
176
Idem.
177
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 11, D. 2123.
178
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D. 2220.
179
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D. 2220.
180
AHU_ACL_CU_017, Cx. 21, D. 2300.
58

responsabilidade, os ditos preços poderiam ser determinados pelos “bispos e provedores


da fazenda”, mas estes deveriam possuir “autoridade judicial que pertencia à Câmara”. 181

Como o dito preço deveria ser ajustado em comum acordo de todas as partes
envolvidas, estas suscitaram uma série de disputas e divergências, colocando na maioria
das vezes os produtores e comerciantes de lados opostos. Dessa maneira, em 18 de
novembro de 1722 os oficiais da Câmara do Rio de Janeiro, enviam uma carta ao rei D.
João V sobre a relação conflituosa entre os senhores de engenho, lavradores e os
mercadores, uma vez que estes últimos não queriam negociar os preços. Segundo os
camaristas, todos os negociantes fizeram um pacto de não “abrir preço do açúcar”, como
era chamado tal processo, “porque tem a certeza, que esta indústria lhe aproveita para o
tempo de comprarem nas vésperas da partida da frota.” 182 O senado da Câmara se coloca
ao lado dos lavradores e senhores de engenho, reclamando do prejuízo causado pelo
baixo preço do açúcar, pois estes produtores acabavam vendendo pelo dito preço já que
necessitavam fazer pagamentos aos negociantes pelos “escravos e bois” cujo valor
alegavam ser “excessivo”.183 Dessa forma, os camaristas pedem que a Vossa Majestade
observe a forma que este ajuste tem sido feito, devido aos prejuízos causados.

Conflitos como este que colocavam camaristas e lavradores de açúcar de um lado


e homens de negócio de outro, serão intensificados na década de 1750, quando o preço do
açúcar deixa de ser ajustado com a interferência da Câmara, principalmente devido a
criação da Mesa de Inspeção em 1751. Através de seu regimento, a Mesa de Inspeção fica
responsável por reger o comércio de açúcar e de tabaco, de incentivar a produção desses
gêneros, além de determinar a taxação sobre eles. Os seus cargos eram compostos por
três indivíduos, que no caso do Rio de Janeiro tinha a presidência ocupada pelo
intendente-geral e os outros dois cargos eram preenchidos por comerciantes e produtores
locais. 184

Ainda no mesmo ano da criação da Junta, a Câmara juntamente aos senhores de


engenho e lavradores de açúcar, enviaram uma representação ao rei contra a lei
estabelecida. Neste documento os suplicantes pedem a revogação da nova lei que
determinava a classificação, marcas e preço do açúcar, pois

181
Idem.
182
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.1378.
183
Idem.
184
SALGADO, Graça (coord.). Fiscais e Meirinhos: A Administração no Brasil colonial. 2ª ed., Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985, p. 94.
59

a dita lei só obriga aos senhores das fábricas dos engenhos, e lavradores,
a venderem pelo preço taxado, e não obriga aos compradores a comprarem-
no pelo mesmo preço estipulado na sobredita lei, no que tem os senhores
de engenho e lavradores um notável prejuízo [...] Ainda quando fica no
arbítrio dos homens de negócio comprarem os açucares pelos preços que
quiserem mais diminutos dos 13 tostões, e os senhores de engenho e
lavradores, sem liberdade para pedirem mais, nem direito contra os
compradores para não venderem por menos do preço taxado, porque este o
tira a necessidade do seu produto, e impossibilidade de os poderem mandar
por sua conta para Europa...185

Alegavam que tal legislação beneficiaria somente os homens de negócio em


detrimento dos senhores de engenho, pois aqueles compravam o açúcar a preços muito
baixos, atitude que segundo os vereadores causaria danos não somente aos produtores,
mas também para os mercadores que vendiam fazendas para vestir os escravos. Isso
ocorreria porque os agricultores, devido aos prejuízos com o baixo preço do açúcar, iriam
deixar de comprar escravos e consequentemente as fazendas; causando assim um grande
dano a todos, além de diminuir os rendimentos da fazenda real e da alfândega do Rio de
Janeiro. Dessa forma, pediam que “fosse abolida a referida lei” e que os preços fossem
ajustados como antes se “costumava fazer”.186 Na mesma representação, aproveitam mais
uma vez para reclamar dos preços exorbitantes que os homens de negócio cobravam
pelos escravos vindos dos portos de Guiné e costa da África, estando constantemente
endividados “sem nunca poderem satisfazer e pagar o que devem”.187

Apesar de sucessivas respostas negativas, os vereadores não desistem de embargar


a lei, fazendo novos requerimentos nos anos seguintes, especificamente em 1752 e 1754,
em que mais uma vez reclamam da “conveniência para os homens de negócio e infalível
prejuízo para senhores das fabricas e lavradores”. 188 Nessas petições, os vereadores,
senhores de engenho e a série de indivíduos envolvidos, demonstram mais uma vez que o
prejuízo do baixo preço do açúcar está muito relacionado à carestia de sua produção

185
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17494/15576.
186
Referem-se ao retorno da junta formada pelos negociantes, lavradores e câmara como referida nos
documentos citados anteriormente. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17494.
187
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17493.
188
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 66, D. 15512/ AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17495.
60

atrelada a uma série de fatores como terras cansadas, alto preço do cobre, ferro e
principalmente, com o mencionado, dos escravos. 189

Esse quadro evidencia as tensões existentes entre os oficiais da câmara e os


homens de negócio, que estavam relacionadas não somente ao preço do açúcar, mas ao
alto valor cobrados pelos escravos – cujo tráfico encontrava-se nas mãos dos negociantes
–, essenciais para a manutenção das lavouras e para aquela sociedade. É importante
ressaltar aqui que as tensões entre negociantes e os camaristas estiveram em outras
esferas que não somente a manutenção do preço do açúcar e a carestia dos escravos, e é
sobre isso que iremos tratar agora.

Acreditamos que a insistência dos camaristas em obter participação no


estabelecimento dos preços do açúcar e sua constante interferência estava relacionada não
apenas preocupação com a manutenção do bem comum, mas também ao padrão de
ocupação dos cargos da Câmara no século XVIII. No Rio de Janeiro estes postos
encontravam-se nas mãos de um grupo de nobiliárquico de senhores de engenho,
legitimados através de posses e principalmente em linhagem familiar. Os camaristas
eram conhecidos e reconhecidos como a nobreza da terra e “monopolizavam as
instituições políticas locais, conformando uma elite camarária que, rotativamente,
ocupava o conjunto dos cargos públicos municipais, criando barreiras ao acesso de outros
segmentos sociais ao poder a coisa pública.” 190

Tal nobreza baseava seus argumentos nas ordenações Filipinas, nos alvarás régios
de 12 de novembro de 1611 e de 8 de janeiro de 1670. Os mesmos determinavam que os
eleitores deveriam ser escolhidos dentre “os mais nobres e da governança da terra”, e a
responsabilidade pela organização das eleições recaía sobre os ouvidores e corregedores,
que escolhiam os eleitores dentre as “pessoas mais honradas”. 191 Tais postulados
ofereceram base argumentativa às intenções das oligarquias locais para afastar oficiais
mecânicos, pessoas impuras, comerciantes ou qualquer reinóis dos cargos concelhios,
baseando-se no conceito de “nobreza civil e política” para manterem a exclusividade

189
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 66, D. 15513.
190
Ver SOUZA, Avanete Pereira. Poder local, cidade e atividade econômica (Bahia, século XVIII). São
Paulo, 2003. P.348. Tese (doutorado em história econômica) – USP
191
AHU_ACL_CU_,Cx.77, D.6951
61

nesses cargos, apresentando-se “como descendente dos conquistadores da capitania do


Rio de Janeiro, de conhecida e antiga nobreza”.192

A descendência dos conquistadores era a principal marca dessa “nobreza”,


alegavam serem responsáveis pela povoação e pelo estabelecimento da república, era
graças aos seus antepassados que aquela terra estava na mão do príncipe e por isso eram
os homens mais nobres daquela terra e mereciam receber a mercê de ocupar os cargos
193
mais honrosos daquela cidade. Foi dessa maneira que famílias de descendentes de
conquistadores como os Mariz, Homem da Costa e Azeredo Coutinho, por exemplo,
entre 1565 a 1754 foram responsáveis pela ocupação de 20 a 34% dos cargos da
Câmara.194

Essa argumentação foi utilizada durante todo o século XVII e grande parte do
XVIII, para rechaçar sistematicamente a comunidade de comerciantes reinóis dos “postos
da governança, em geral sob a alegação de não possuírem os requisitos necessários de
status exigidos pelas Ordenações e posterior legislação metropolitanas.” 195 Todavia, esse
cenário começa a mudar no século XVII com a ascensão dos comerciantes de grosso trato
que cada vez mais tentavam se fazer presentes na esfera política dessa sociedade.

Um exemplo disso foi representação dos oficiais do senado da Câmara do Rio de


Janeiro por carta enviada ao rei pelo procurador dos vereadores na Corte, Julião Rangel
de Souza Coutinho em 1732; em que reclamava das intervenções dos ministros e
governadores nas eleições do Senado, que por interesses particulares e ambição
indicavam para o “exercício dos cargos honrosos da república pessoas indignas de
semelhante emprego”, afirmando que disso

192
No seiscentos praticamente não existia nos trópicos uma nobreza estamental de sangue à semelhança
da Europa, mas sim uma nobreza política civil de origem popular, formada por descendentes de
conquistadores que reivindicavam o poder político por ter servido à Coroa ao longo de aproximadamente
duzentos anos. Dessa maneira, não tratava-se de uma nobreza de sangue, hereditária, mas sim de uma
nobreza de serviço “individual e vitalícia quando muito transmitida aos membros da família mais
próxima.”192 SILVA, Maria Beatriz Nizza da, Op. cit. p.10
193
Ver FRAGOSO, João. “Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra no Rio
de Janeiro”. In: João Fragoso; Antônio Carlos Jucá de Sampaio; Carla Almeida. (Org.). Conquistadores e
negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime nos Trópicos. América lusa, séculos XVI a XVIII, Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, v. 1, p. 33-120.
194
FRAGOSO, João. Nobreza principal da terra nas repúblicas de Antigo Regime nos Trópicos de base
escravista e açucareira: Rio de Janeiro, século XVII. Texto inédito.
195
Idem, p 378.
62

“se originou um geral escândalo do povo, e tiveram as pessoas da


principal nobreza dela por injúria ocuparem os lugares em que se estavam
elegendo homens de vara e côvado e outros semelhantes comerciadores”.196

Alegam que segundo a uma série de alvarás, como o supracitado de 1611, o rei
determinava que

nas eleições que se fizessem de oficiais do Senado da Câmara na cidade


do Rio de Janeiro não se elegessem pessoas mecânicas, nem de nação, para
haverem de servir nela os cargos da governança, e que os governadores se
não intrometessem nas ditas eleições, excedendo o seu regimento, que tal
lhes não permite, como melhor se verifica do traslado junto do mesmo
alvará197

Aceitando somente que fossem eleitos para os cargos concílios os ditos “principais
da terra”.

No mesmo documento, o procurador do senado da Câmara cita ainda outras


tentativas dos ministros de elegeram pessoas de “infecta nação e outras de baixa esfera.”
Como foi o caso do ouvidor geral Manoel de Souza Lobo, que em 1697 foi impedido de
eleger comerciantes para ocuparem cargos no senado pelo desembargador Miguel de
Siqueira Castelo Branco, que após uma denuncia feita pelo procurador supracitado Julião
Rangel, anulou a eleição. Tal disputa vai permanecer até 1701 os “homens de negócio”
fazem contra o senado da Câmara uma representação em que alegam serem cidadãos e
terem a capacidade de ocupar aqueles postos. O governador na época, Fernando Marins
Mascarenhas, por sua vez decide que apesar de respeitar a “nobreza dos cidadãos e de
seus predecessores”, que era sem fundamento “desluzir os tais homens de negócio e
plebeus daquela capitania”, posto que como eram “oriundos ou naturais deste Reino, (o
que) não era impedimento para entrarem nos cargos honrosos da república”. 198

Contudo, na mesma representação o procurador Julião Rangel, prossegue


argumentando que

196
AHU, RJ, Caixa 32 Doc: 7550.
197
Idem.
198
Ibidem.
63

"se acha clausula de advertir V.M., que o serem povo oriundos ou


naturais deste reino, não era impedimento para entrarem nos cargos
honrosos da república, se alias tivessem as qualidades, que requer a
ordenação, as provisões e o costume, e no Brasil não há pessoa que se
persuada não tem nobreza em tal forma, que ainda os homens que neste
reino são jornaleiros, caixeiros, trabalhadores, oficiais e outros
semelhantes, em passando à América de tal sorte se esquecem da sua
vileza, que querem ter igualdade às pessoas de maior distinção, e o mesmo
com seus filhos, netos e descendentes, como também com os sujeitos
oriundos no Brasil, aonde seus avós serviram ofícios mecânicos, ou não
lograram a nobreza principal da terra e se servirem os cargos honrosos da
república, e especialmente se chegam a alcançar alguma patente das que os
Governadores passam na América de capitães, sargentos maiores e
coronéis da ordenança, ou se sucede formar se pela Universidade de
Coimbra algum filho dos nomeados, ou seja, natural do Brasil, ou oriundo
deste Reino, porque uns com as tais patentes e outros com as cartas de
formatura, ficam entendendo, que cada hum deles é benemérito para o
cargo, emprego ou lugar da maior posição que haja naquela capitania,
obrigando-os esta suposição fantástica a tentarem por diversos caminhos
aos ministros e pessoas que fazem as eleições, e quando não vencem estas
se valem dos Governadores, e muitas vezes deixaram de haver
desinquietações e distúrbios por esta causa. 199

Apesar de um pouco longa, a análise de tal citação nos é fundamental para


entendermos como se dava as estratégias utilizadas por esses indivíduos para alcançarem
os cargos na governança da cidade. Como já mencionado, os padrões estabelecidos pela
nobreza da terra para o ingresso na Câmara passava por “descender dos conquistadores e
de conhecida e antiga nobreza”, posto que se “prontificaram voluntariamente vidas e
fazendas, para os empregos do real serviço.” Na sociedade do Antigo Regime da América
lusa o “titulo” de “principal da terra” derivava de prática costumeiras, ou seja, dependia
de legitimidade social, conquistada durante duzentos anos diante dos demais grupos
daquela sociedade.200 Dessa forma, acreditavam que possuíam as qualidades necessárias
para ocuparem tais cargos.

Como demonstrado, no mesmo texto os camaristas criticam aqueles que não


possuem tais características e até mesmo os que eram sargentos mores, coronéis das
ordenanças ou mesmo possuíam títulos da Universidade de Coimbra. Mesmo se o
indivíduo fosse fidalgo da casa real ou tivessem um hábito de Cristo isso não o habilitava

199
Ibidem.
200
Em artigo inédito Fragoso demonstra a importância das relações de patronagem estabelecidas essa
nobreza da terra livres, escravos e forros para do reconhecimento social e estabelecimento dessa elite.
Sobre esse ponto, ver FRAGOSO, João. Elite das senzalas e nobreza da terra numa sociedade rural do
Antigo Regime nos trópicos: Campo Grande, 1704-1741(texto inédito).
64

a ocupar os cargos conselhios, pois ainda não possuía o atributo necessário, que seria
pertencer as principais famílias da terra201.

Diferente da nobreza da terra, que adquire poder político através de serviços


prestados à Coroa, os homens de negócio buscarão formar uma hierarquia social baseada
em uma forma bem distinta: o poder econômico. Esses vão adquirir ascensão política e
social via pagamento de comendas, ordens militares, dos cargos de familiar do Santo
Ofício, de comissário, entre outros títulos. 202 Segundo Sampaio, “tais honrarias, para
além de seu caráter simbólico, possuíam também uma série de vantagens para seus donos,
sobretudo no que se refere a isenções fiscais, o que sem dúvida as tornava atraentes para
os comerciantes.” 203

De acordo com Antônio Carlos Jucá, o que estava em jogo eram duas concepções
diferentes de que viria ser a vida na capitania. Para as famílias da terra, “as colônias eram,
antes de mais nada, conquistas e, como tais a concretização da luta de seus antepassados
para garantir posse das mesmas pelo rei de Portugal.”204 Tal característica deu a essas
famílias da nobreza da terra poder de mando na capitania durante quase dois séculos. Já
para os negociantes, as colônias faziam parte do Império português, e dessa forma
“abertas a qualquer membro desse mesmo Império”. 205 Como mencionado, essas
características provocaram embates frequentes entre comerciantes e nobreza da terra
durante todo o século XVIII, não somente no Rio de Janeiro, mas em outras capitanias do
Império português.

Voltando nosso olhar para outras capitanias portuguesas, percebemos que as


disputas entre negociante e nobreza da terra se deram de formas distintas e em períodos
diferentes entre o final do seiscentos e ao longo do setecentos. Talvez o conflito que mais
evidentemente mostra esse quadro foi o caso de Pernambuco. Segundo Evaldo Cabral,

A confrontação entre loja e engenho, assumiu principalmente a forma


de uma contenda municipal, de escopo jurídico institucional, entre o Recife

201
Ver FRAGOSO, João, “Fidalgos parentes de pretos” Op. cit.
202
SAMPAIO, Antônio C. J. de “A família Almeida Jordão na formação da comunidade mercantil
carioca (c.1690-c.1750)” In.ALMEIDA, C. M.C de e OLIVEIRA, M. R. de Org. Nomes e números:
alternativas metodológicas para a história econômica e social. – Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2006, p.69.
203
Idem.
204
Ibidem, p.68.
205
Ibidem.
65

florescente, que aspirava a emancipação, e a Olinda decadente, que


preocupava em mantê-lo em uma fachada irrealista. 206

Apesar de seu crescimento econômico e o aumento da contribuição pecuniária aos


cofres da Coroa, raramente os comerciantes alçavam cargos na Câmara de Olinda,
quando conseguiam ocupavam apenas o cargo de procurador ou de almotacel. Chamados
mascates pelos olindenses, tais comerciantes eram vistos como “emigrantes sem eira nem
beira”, também argumentavam “não haver em Recife homem capaz de ser vereador
porque só podiam saber e dar voto nos negócios de venda e compra”. 207 Não podendo
ignorar o poder econômico dos comerciantes, as pressões por poder na governança da
terra e o crescente ambiente de tensão na capitania, a Coroa decide emancipar Recife,
beneficiando-a com sua própria Câmara Municipal.208 Tal decisão não foi aceita pelos
senhores de engenho de Olinda provocando hostilidades que ficaram conhecidas pela
209
historiografia como a Guerra dos Mascates.

Apesar de algumas décadas anteriores ao Rio de Janeiro e ao caráter violento da


disputa, o conflito entre negociantes e camaristas também em Pernambuco evidencia um
movimento de mudanças na sociedade de Antigo Regime nos trópicos. Apesar da
presença crescente do capital mercantil nesse momento não significar mudanças de
estrutura (ou a emergência de uma sociedade e uma economia pautada no modelo
liberal), é importante ressaltar a importância da consolidação da intervenção dos homens
de negócio na vida política dessa sociedade. 210

Voltando-nos novamente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, segundo


Bicalho, embora frequentemente impedidos de ocupar cargos na governança pela nobreza
da terra – por não possuírem os critérios de fidalguia socialmente exigidos – os
negociantes foram insistentes no envio de representações ao reino a fim de conseguirem
mudar esse quadro, para um que os garantisse o direito de ocupar tais cargos. Exemplo

206
MELLO, Evaldo Cabral de, A fronda dos mazombos: nobres contra mascates, Pernambuco, 1666-
1715. São Paulo: Ed.34, 2003, p.141.
207
SANTOS, Manuel. Narrativas históricas das calamidades de Pernambuco, Recife, 1986.p15 Apud:
MELLO, Evaldo Cabral de. p.148.
208
BICALHO, Maria Fernanda. Op.cit. pp. 378-379.
209
Os conflitos e estenderam até 1711 quando, com a intervenção das autoridades régias, finalmente
Recife é equiparada a Olinda. Tal acontecimento reafirmava o importante papel do capital mercantil
naquele período.
210
Segundo Fragoso essas mudanças também provocaram mais alterações na dinâmica social,
principalmente das áreas rurais. FRAGOSO, João. Elite das senzalas e nobreza da terra numa sociedade
rural do Antigo Regime nos trópicos: Campo Grande, 1704-1741. (Texto inédito).
66

disso foi a representação feita por negociantes portugueses ao rei em 1709, em que
reclamavam do procedimento que os filhos da terra teriam tido contra eles nas eleições do
Senado da Câmara, tentando impedir seu acesso ao mesmo.211

Já em 13 de Agosto de 1746 o Conselho Ultramarino recebe uma nova petição em


que 21 homens de negócio assinam uma representação ao rei D. João V, solicitando que o
ouvidor geral da cidade do Rio de Janeiro Manoel Amaro Pena de Mesquita Pinto,
observasse,

a desusada forma com que a maior parte dos naturais da dita Cidade
procedem nas faturas dos pelouros, fazendo todo o excesso para que não
sirvam na Câmara os filhos deste reino, não obstante acharem-se
aparentados por alianças com os principais da terra, julgando estes com
política particular que só a eles lhes é permitido o indulto de servirem aos
cargos da República.212

Os homens de negócio afirmavam serem dois os requisitos básicos para que uma
pessoa pudesse servir nas Câmaras: “que tenham bens, e que sejam civilizadas no trato
das gentes”. Acreditavam ainda que estas duas circunstâncias “não se acham na maior
parte das pessoas” que eram geralmente eleitos para ocupar os pelouros do Senado, e que,
“além de morarem distantes da cidade, e residirem em outro distrito, são tão pobres, que
chegam a vender, para comprar vestido de corte, o único negrinho que lhes serve de
plantar o sustento de suas famílias” o que os tornam menos capazes para ocupar tais
funções.213 Nesse sentido, além de ressaltarem a pobreza como um fator que inabilitava a
elite agrária a ocupar cargos na governança da terra, os negociantes do Rio acreditavam
serem mais aptos para ocupar tais cargos, posto que possuíam recursos e eram “mais
cientes na economia que se deve administrar os povos”. Ainda argumentavam serem mais
merecedores de tais privilégios, e sendo assim,

deviam ser atendidos com preferência ainda aos da Cidade da Bahia


(aonde Vossa Majestade tem mandado praticar sirvam uns e outros em
igual número, e os mesmos com os eleitores) por assistirem os suplicantes
em uma praça, que além de ser o seu negócio de mais de seis milhões,
superem com os seus cabedais aos presídios da Colônia, e Rio Grande, sem

211
BICALHO, M. F., Op. cit. p.374.
212
AHU_ACL_CU_017, Cx. 39, D. 4048.
213
Idem.
67

que pela demora de seus pagamentos pretendam avanços da fazenda Real e


haverem contribuído com a maior quantia dos seiscentos mil cruzados,
porque foi resgatada aos franceses a Cidade, e suas Fortaleza e finalmente
serem só os filhos deste Reino os que servem Vossa Majestade.214

Tal argumentação sugere uma clara vinculação entre riqueza e serviço. Os


negociantes acreditavam que, devido ao seu grande cabedal, a capitania fluminense fora
resgatada das mãos dos franceses e ainda eram responsáveis não somente por garantir o
“giro do comércio” da praça carioca, mas também pela manutenção das capitanias do sul
215
da América. E dessa forma, “mereciam” ser restituídos através de uma resposta
positiva da Coroa as suas reivindicações, os permitindo ocupar cargos na governança da
cidade.

De acordo com Sampaio, tais homens de negócio pretendiam inserir-se em uma


economia do dom. 216 Segundo Ângela Barreto Xavier e Antônio Manoel Hespanha, a
sociedade de antigo regime portuguesa estava pautava na “economia moral do dom”. Tal
economia baseava-se nas noções de que o ato de “dar” incorporava “uma tríade de
obrigações” qual seja, “dar”, “receber” e “restituir” que não apenas era a principal
responsável por consolidar as relações políticas, mas também se tornava o princípio e
mesmo uma personificação de poder.217 Para os autores,

O caráter “devido” de certas retribuições régias aos serviços prestados à


Coroa parece introduzir uma obrigatoriedade nos atos de benefícios reais,
assim não apenas dependentes da sua vontade ou “ratio”, mas muito
claramente de uma tradição e de ligação muito forte ao costume de
retribuição. O rei aparece, sujeito aos constrangimentos e contingencias
impostos pela economia de favores (...). 218

Deste modo, o dom foi utilizado como um mecanismo de restituição dos serviços
prestados ao rei com o qual este legitimava sua posição e ao mesmo tempo selava
214
Ibidem.
215
SAMPAIO, Antônio C. J. “Os homens de negócio e a Coroa na construção das hierarquias sociais: o
Rio de Janeiro na primeira metade do século XVIII”. In: FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima
(org.). Na Trama das redes: Política e negócios no Império Português, séculos XVI a XVIII. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 474.
216
Idem, p. 473.
217
XAVIER, Â. B. & HESPANHA, A. M. “As redes clientelares”. In: HESPANHA, Antonio Manuel
(Org.). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Estampa, 1998. p. 340.
218
Idem, p. 347.
68

alianças.219 Tratava-se de um capital político para o rei, e para quem recebia, era uma
espécie de reserva de capital que lhes permitiam se tornar apto à prestação de serviços.220
Assim como fazia a nobreza da terra desde o seiscentos, foi baseado nessa estratégia que
os negociantes passaram a apostar as suas peças para possuírem o poder de mando não
somente na capitania fluminense, mas em diversas partes do império português.

Contudo, diferente da nobreza da terra, que “fazia dos ofícios uma via de
prestígio e de riqueza”, os negociantes tinham em seu poder econômico o maior dom que
poderiam oferecer ao monarca, e pressuposto necessário para obter esses ofícios.221 Como
já demonstrado, ao longo do setecentos a monarquia se torna cada vez mais dependente
do capital mercantil, principalmente aquele proveniente de suas conquistas, que
respondiam por 2/3 de sua receita. Por conseguinte, conscientes da importância de seu
capital para o império, os negociantes buscavam ressaltar essa relevância em seus pedidos
de mercês ao rei. “A atividade comercial “por grosso” tornava-se então fonte legítima de
ascensão não só econômica, mas social, uma vez que se tratava de um verdadeiro serviço
prestado ao rei.” 222

Assim, acreditamos que foi baseado nesses pressupostos que foi respondida a
solicitação dos negociantes em dois de agosto de 1746, quando o procurador da Coroa
comunica parecer favorável aos mesmos, certificando que não havia qualquer razão
jurídica, nem política que os impedissem de ocupar cargos da governança da Cidade.

E assim parece se dever ordenar que aquelas pessoas nascidas neste


reino, que se achem estabelecidas na América com opulência,
capacidade, e bom procedimento, possam igualmente ser pautados, com
os naturais da terra, concorrendo neles as mais partes. 223

Episódios como esses foram se tornando cada vez mais frequentes no Rio de
Janeiro ao longo do setecentos. Acreditamos que esse ambiente de disputas entre os
homens de negócio da praça carioca e a nobreza da terra está inscrito em um processo

219
Fernanda Olival preferiu o conjunto de tais relações como “economia de mercê.” OLIVAL, Fernanda.
“Um Rei e um Reino que Viviam da Mercê”. In: As Ordens Militares e o Estado Moderno: Honra, Mercê
e Venalidade em Portugal (1641-1789). Dissertação de Doutoramento, 2000, p.29.
220
Idem, p.20.
221
SAMPAIO, Antônio C. J. “Os homens de negócio e... Op.cit. p.475.
222
Idem.
223
AHU_ACL_CU_017, Cx. 39, D. 4048.
69

muito mais amplo em curso da sociedade fluminense de então: as modificações da


composição da hierarquia no seio dessa sociedade associado a mudanças mais profundas
no que tange a valorização do poder econômico como fator essencial para manutenção do
poder político.224

Entender esses conflitos de uma forma mais refinada se mostra essencial para
compreendermos esse ambiente de profundas mudanças na composição da elite carioca
que ocorria na capitania fluminense ao longo do século XVIII e intensifica-se na segunda
metade. É nesse sentido nos propomos a fazer nas páginas seguintes com a análise do
episódio a seguir; não de forma individual, mas sim buscando inseri-los na complexidade
de uma sociedade de Antigo Regime.

224
Segundo Pedro Cardim, foi justamente a partir da segunda metade do século XVIII que as relações
comerciais tomam um caráter individualista e a atividade econômica começa a reconhecer-se como um
espaço autônomo. Todavia, isso não quer dizer que a concepção baseada nas relações e no bem comum
deixaram de existir de imediato. CARDIM, Pedro Antônio Almeida. Op.cit. p.386.
70

Capítulo 2

“Autos de Homens de negócio” – um estudo de caso

No dia 14 de janeiro de 1758, sob a presidência do Juiz de fora Antônio de Mattos


e Silva reuniram-se em sessão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro os vereadores:
Frutuoso Pereira, Miguel Cabral de Melo, Tomé Correia de Sá Queiroga e José Pacheco
Vasconcelos e ainda o escrivão da Câmara André Martins de Brito, para acordarem sobre
a “suspeita do concurso tão numeroso de negros que vinham de direitura da Costa de
Guiné para este país”.225 Nesse sentido, foram convocados os professores da medicina –
Mateus Saraiva, Antônio Ferreira de Barros, Francisco Correia Leal, Antônio Luís de
França, Antônio Mestre e Luiz Estevão – para deliberarem sobre “o grande prejuízo que
causavam nesta cidade os escravos que estavam à venda pública em suas principais ruas,
causando prejuízo não só aos moradores desta cidade como também aos da sua
circunvizinhança.” 226

Segundo os vereadores, tratava-se de uma questão de saúde pública, pois


acreditava-se que os negros novos vindos da Costa de Guiné provocariam doenças
epidêmicas que atingiriam o Rio de Janeiro, como bexiga, escorbuto, tuberculose, sarna,
erisipela, manchas na pele, entre outras. Segundo Jaime Rodrigues, era comum que
autoridades régias, moradores e médicos atrelassem ao tráfico e aos negros a transmissão
de doenças e reclamassem medidas de saúde.227 Mesmo em São Paulo, – localidade que
não estava envolvida diretamente com o tráfico –, era comum o medo de contágio de
doenças como bexiga (varíola). Utilizado como entreposto pelos comerciantes que
forneciam escravos a Minas Gerais, a cidade frequentemente passava por surtos da
doença.

Devido a esse quadro e ao grande receio de contágio, desde 1718 a câmara do Rio
de Janeiro requereu o privilégio de proceder as “visitas de saúde” em todos os navios
vindos da África, e em 1729 uma Ordem Régia determina que

225
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.14F.
226
AHU_ACL_CU_,Cx.77, D.6951.
227
O autor mostra que tal tema era frequente na literatura médica da época. RODRIGUES, Jaime. De
costa a costa: escravos e tripulantes no tráfico negreiro (Angola- Rio de Janeiro, 1780-1860) Tese de
Doutorado. UNICAMP. 2000.
71

nenhuma pessoa de qualquer qualidade e condição que seja não entre


nesta cidade sem que primeiro faça declaração dos escravos que traz,
deixando-os primeiro no Moinho Velho, para se lhes dar e mandar a visita
da saúde.228

É importante salientar que preocupações sanitaristas relativas à entrada de negros


novos na capitania fluminense também eram antigas. Em carta dos oficiais da Câmara do
Rio de Janeiro ao rei (D. João V) em 29 de Janeiro de 1732, sobre as ordens régias que
permitem ao Senado fazer as visitas aos navios de transporte de escravos, fica claro que a
Câmara era responsável por manter a Cidade livre de doenças e “achaques
contagiosos”.229 Segundo os vereadores,

desde princípio desta terra, e depois, em virtude da provisão real de


19 de Janeiro de 1705, costuma a Câmara como provedora da saúde
visitar as embarcações que vem com negros da Guiné, Costa da Mina e
outros Portos, por razão do contágio, que é mais frequente e perigoso
naquelas terras e no calor dos negros que vem nas embarcações.230

No que tange às visitas de saúde propriamente ditas, poucos foram os registros


deixados pelas mesmas. Referente à documentação sobre o tema produzida pela Câmara
Municipal do Rio de Janeiro, praticamente todos os termos se perderam com o incêndio
que atingiu o seu acervo no final do século XVIII. 231 A única documentação que
sobreviveu foi o códice 50.4.36, presente no arquivo geral da cidade do Rio de Janeiro,
concernente aos anos de 1791 e 1792. Apesar de ser referir a um período que ultrapassa o

228
BRUNO, Hearni Silva, Histórias e tradições da cidade de São Paulo. 4ª. Ed., São Paulo: Hucitec,1991
pp.334 e 338 (Apud) RODRIGUES, Jaime. p.318.
229
A câmara, ao lado do hospital da Santa Casa de Misericórdia, tinha o dever de oferecer gratuitamente
serviços de saúde para a população. Apesar da fiscalização do exercício da medicina passar a ser
controlada mais de perto pela coroa no século XVIII – através dos “delegados” ou comissários do
“cirurgião-mor” e do “físico-mor”, e principalmente a partir de 1782 com a criação da Junta do
Protomedicato –, o Senado da Câmara mantinha um médico ou um cirurgião, chamado “do partido da
câmara”, para acompanhar os vereadores em suas atividades relativas à saúde pública e ao amparo
aqueles que não podiam pagar por médico particular. CAVALCANTI, Nireu Oliveira “O Rio de Janeiro
setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte” Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed. p.192.
230
AHU_ACL_CU_017, Cx. 24, D. 2601.
231
Dentre a documentação referente aos primeiros séculos da cidade, acreditamos que o acervo que mais
sofreu com o tempo foi o da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Além dos efeitos do tempo, seu acervo
passou por duas grandes perdas ainda no século XVIII. A primeira deu-se em 1711, com a invasão
francesa comandada por René Duguay-Trouin (1673-1736) que saqueou e queimou não somente o prédio
onde se situava a Câmara, mas também grande parte do patrimônio imobiliário público e privado,
documental e artístico da cidade. A segunda ocorreu no incêndio que devastou o Senado da Câmara do
Rio de Janeiro em 1790, então situado na atual Praça Quinze de novembro. AGCRJ, Códice: 16.3.29.
72

recorte temporal proposto na presente pesquisa, a análise de tal documento pode ser
muito elucidativa.232 Além de oferecer informações sobre os navios como: nome, escalas,
tipos de artigos embarcados, entre outras; o documento demonstra ainda os números de
escravos embarcados e que faleciam durante a viagem, e de que maneira eram realizadas
as verificações dos navios pelos profissionais de saúde na cidade naquele período.

A verificação deveria ser feita pelo provedor da saúde (normalmente o vereador


mais velho do Senado) acompanhado pelo médico da Câmara. A averiguação se dava
através de um interrogatório ao responsável pelo navio (normalmente o capitão) assistido
por duas testemunhas, em que o mesmo respondia uma série de perguntas, entre elas:

Se trazem todos passaporte de saúde, quantos são os enfermos? e


quantos dias há que adoeceram, que pessoas lhe morreram na viagem?
Com que dias e de que mal? Se os enfermos ou defuntos padeceram
alguns tumores? Em que partes?[...].233

Tal quadro mostra a precariedade como essas verificações eram feitas e corrobora com o
relato de Thomas Ewbank. Este, ainda em 1846, estranhou a exigência de ancorar o navio
na Ilha de Villegaignon para a visita de saúde, já que o médico do porto não entrara no
navio e perguntara somente se havia doentes a bordo e “em seguida despediu-se após
ordenar ao capitão que esperasse até ser visitado pelo barco da alfândega”.234

Como exemplo, podemos citar o caso do navio do Capitão José da Silva Ferreira
que

saiu do porto de Benguela com 657 passageiros escravos, dos quais


faleceram 109 de bexigas e possui 5 com moléstias ao chegar ao Rio de
Janeiro, e não tem noticia de que haja peste. Tendo como testemunha
João Caetano da Rocha, José Antônio Ferreira.235

O presente quadro demonstra que, apesar da coroa estabelecer leis para diminuir a
mortalidade na travessia desde o século XVII, estas não conseguiram diminuir
232
A existência desse documento contraria a afirmação de Jaime Rodrigues que acredita que “não há
sequer rastro dela”. RODRIGUES, Jaime. Op. cit. p.348.
233
AGCRJ, Termos de visita de saúde. Embarcações. (1791-1792) Códice: 50.4.36.
234
EWBANK, Thomas. Vida no Brasil ou diário de uma visita à terra do cacaueiro e da palmeira. Belo
Horizonte: Itatiaia: São Paulo:Edusp.1976. p.48 Apud: RODRIGUES, Jaime. Op. cit. p.350.
235
AGCRJ, Manuscritos - Termos de visita de saúde. Embarcações. (1791-1792) Códice: 50.4.36.
73

significativamente a quantidade de cativos que não sobreviviam durante a travessia,


236
assim como a debilidade dos que chegavam ao Brasil.

Segundo Marcelo Ferreira de Assis, o comércio atlântico de escravos pode ser


observado como agente da migração de doenças e patologias para a América portuguesa.
Sua hipótese principal é de que as flutuações do movimento de desembarque dos cativos
no Rio de Janeiro estavam intimamente relacionadas à incidência da mortalidade escrava.
O autor propõe assim, analisar como ocorreram os padrões de mortalidade em áreas
urbanas e rurais, especialmente verificando o crescimento do tráfico atlântico no período
de 1810 a 1830, apontando que “ambos os ambientes mostram um crescimento relativo
das (doenças) infecto-contagiosas frente aos traumas” (causados pela violência e
condições de trabalho), “provando que em fase de maior migração africana as infecto-
contagiosas tomam vulto assustador”.237

Analisando inventários post-mortem na cidade do Rio de Janeiro, Assis mostra


que as doenças infecto-contagiosas chegavam a 38,7% de todas as patologias
apresentadas por africanos no período de 1790-1807, esse número passa para 39,9% no
período de 1810-1830 e se estabelece como maioria por entre os males que atingiam os
cativos. Mesmo abordando um período posterior ao aqui tratado, esses números lançam
luz sobre a propagação de doenças no seio da população escrava, que como visto, estava
intimamente associado ao movimento migratório de africanos para o Rio de Janeiro.
Sendo assim, segundo Assis, “ao porem os pés, muitos calejados e doentes, para fora de
um negreiro, os africanos desenhavam uma estranha imagem de comércio. Um bizarro
comércio, onde a mercadoria era também transporte de micróbios: o homem.” 238

Foi dessa maneira que, na vereação de 14 de fevereiro de 1758, foi decidido fixar
edital no sentido de deslocar o comércio negreiro da área central da cidade, a região da
Rua Direita (atual Rua Primeiro de março), para sua periferia.

236
Segundo Nireu Cavalcanti, o que ficou conhecida como lei da “arqueação dos navios negreiros” de 18
de março de 1684, constituiu-se em um marco regulador do comércio negreiro, pois além de estabelecer
regras para a fiscalização do processo, e o preço máximo cobrado pelos escravos, a lei fixou a proporção
de negros a serem embarcados por navio e as condições de tratamento que deveriam receber durante a
viagem. CAVALCANTI, Nireu Oliveira. “O comércio .... Op. cit. p.20.
237
ASSIS, Marcelo Ferreira de. Tráfico atlântico, impacto microbiano e mortalidade escrava, Rio de
Janeiro c.1790- c.1830. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado, 2002. p.6.
238
Idem, p.91.
74

Determinou o muitíssimo nobilíssimo Senado, e status por aquele


Acórdão, ou Postura, que nenhuma pessoa de qualquer estado, ou
condição tivesse no continente desta cidade tanto em casa como nas
ruas, rocios e praça da mesma magotes de negros novos vindos dos
portos de Guiné ou de outra qualquer que fosse em direitura a esta
mesma cidade; e isto, os seus donos os houvessem, por negociação, e
por elas os conservassem , ou por comissão, se lhes viessem remetidos
para vender, e ainda que fosse para os transportar para as Minas, ou
outra parte debaixo de pena de dez tostões pagaria seu dono, ou
administrador por cada um para este mesmo Senado e Câmara pela
primeira vez e pela segunda dobrado.239

Além da proibição de circular com magotes de escravos na área central da cidade,


os comerciantes passaram a ser impedidos de levar seus escravos para lavar no chafariz
da Carioca, pois os mesmos, segundo o acórdão, poderiam contaminar a água. O edital
determinava ainda que os comerciantes de escravos novos que pretendiam enviá-los a
Minas Gerais deveriam informar suas intenções previamente ao Senado da Câmara até 24
horas depois da compra, passando a ter o prazo de oito dias para retirá-los da Cidade.
Tais restrições também eram estendidas aos negros minas que vinham dos portos da
Bahia e de Pernambuco e igualmente aos que eram comprados no Rio de Janeiro para
serem vendidos naquelas cidades. 240 Para melhor execução dessas determinações,
estabelecia-se que “poderão empregar-se nestas diligências tanto os oficiais de justiça,
como capitães do mato”, com a restrição de que estes últimos não poderiam prender os
escravos sem ao menos duas testemunhas.241

A área destinada ao comércio desses escravos foi,

da parte do Mosteiro das Freiras, de casa do sargento João


Mascarenhas Castelo Branco para diante a fim de ficar inteiramente
livre do comércio dos ditos escravos esta cidade, desde a casa da Santa
Misericórdia até o Mosteiro de São Bento. 242

Tal localidade correspondia ao que ficou conhecido como Valongo (atual Bairro
da Saúde e Gamboa). Situado na Freguesia de Santa Rita noroeste da urbe carioca, a
239
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.121v.
240
Idem.
241
AHU_ACL_CU_,Cx.77, D.6951.
242
Idem.
75

região era privilegiada por uma extensa faixa litorânea que ia desde a prainha até os
Mangues de São Diogo (como mostra o mapa 1), e sendo assim possuía requisitos para se
transformar na principal região portuária da cidade. O Valongo era uma região de difícil
acesso devido aos morros que existiam ao longo do seu caminho como os de São Bento e
da Conceição. Além disso, as estradas de comunicação com a parte central da cidade
eram escassas; ainda em 1741 o caminho Valongo (atual Rua Camerino), que ia da praia
até a Rua Direita, não estava totalmente aberta, sendo concluída somente em 1758.243
Logo, até a segunda metade do setecentos a paisagem da região do Valongo era
predominantemente rural com um baixo índice de ocupação do território, constituía-se
em um espaço relativamente isolado, perfeito para manter o mercado insalubre de
escravos longe dos olhos dos moradores da cidade.

Mapa 1. Detalhe mostrando a região do Valongo.

Fonte: Mapa da cidade do Rio de Janeiro para o ano de 1791. Cunha, Lygia. Álbum
cartográfico do Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: MEC, 1971. Apud:
SOUZA, Thiago Costa de. Pelos arrebaldes da urbe carioca: a dinâmica urbana da região do
Valongo (1799-1821). Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado, 2008

243
BERGER, Paulo. Dicionário das ruas do Rio de Janeiro – I e II Regiões administrativas. Centro. Rio
de Janeiro, Gráfica Olímpia, 1794, p.31.
76

A transferência do comércio de escravos para o Valongo, além de contribuir para


a dinamização daquela região, constituiu um importante marco no processo de
especialização espacial da cidade, posto que, ao tornar-se a área de concentração do trato
negreiro, retirava da Rua direita um comércio que não condizia às atribuições daquela
que era uma das ruas mais importantes da cidade.244

A região do largo do Paço e Rua direita foi a primeira via aberta na cidade
paralela ao litoral, já no século XVII era a principal artéria da cidade, ligando o Morro de
São Bento à Rua da Misericórdia.245 Abrigava a Mesa do Bem Comum (depois Junta do
Comércio), a Casa de Contos, o Palácio dos Governadores, as repartições públicas, além
das mais conhecidas casas de comércio da cidade (que ficavam no trecho entre a Casa de
contos e a ladeira do Mosteiro de São Bento) e a maioria das moradias dos homens de
negócio de grosso trato e de comerciantes de escravos novos da cidade.246

Assim, a transferência do comércio de cativos para fora da cidade afetaria não


somente os seus negócios, pois ficariam longe dos consumidores de seus produtos, mas
também estariam fora do núcleo político da cidade. O que significava que os homens de
negócio não estariam dispostos a aceitar a transferência do comércio de escravos tão
facilmente.

Desse modo, em 11 de fevereiro de 1758, em resposta ao edital, 44 “homens de


negócio, capitães de Navio, marinheiros e mais comerciantes de escravos que navegam
do Reino de Angola para esta Cidade” assinam procuração contestando as medidas dos
sanitaristas dando início a uma queda de braço entre os homens de negócio e a Câmara
que duraria mais de dez anos. 247

244
HONORATO, Cláudio de Paula. Valongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro. 1758-1831.
Niterói: Dissertação de Mestrado, 2008, p. 34.
245
PASSOS, Alexandre O Rio de Janeiro no Tempo do “Onça” (século XV ao XVIII.) Rio de Janeiro
Livraria São José 1965, p.26.
246
CAVALCANTI, Nireu Oliveira. “O comércio de escravos ....” Op.cit. p.41.
247
Ver: Anexo tabela 1.
77

Mapa 2 – Detalhe mostrando a região do Valongo e a Rua Direita.

Fonte: Cidade do Rio de Janeiro nos princípios do século XVIII – baseado na


planta de João Massé de1713e informações históricas. BARREIROS, Eduardo
Canabrava. Atlas da evolução urbana do Rio de Janeiro. – ensaio – 1565-1965. Prancha
10 p.15.

Ao analisarmos o processo mais atentamente e através do cruzamento com outras


fontes, conseguimos identificar dentre os 44 embargantes248, 21 homens de negócio, 11
capitães de navio e um piloto de navio;249 não sendo possível encontrar o oficio exato dos
demais embargantes. Acreditamos que os mesmos sejam marinheiros e pequenos
mercadores de escravos mencionados nos autos. Como visto anteriormente, esses ofícios
248
Fazendo uma análise mais aprofundada da fonte encontramos 44 negociantes que assinam a petição de
11/02/1758, e não os 40 publicados por Nireu Cavalvanti em 2005. CAVALCANTI, Nireu Oliveira. “O
comércio de escravos ....” Op.cit. pp.67-72.
249
Manuel Pinto Carneiro, lista de tripulação de navio que parte para Lisboa. AHU, doc. 17.093.
78

não eram tão valorizados socialmente quanto o de “homem de negócio”,


consequentemente mais escassos nas fontes. Deste modo, é importante ressaltar que, no
que tange à terminologia empregada para designar os agentes mercantis no presente
trabalho, por motivos de disponibilidade de fonte e pela importância que esses indivíduos
ganham no decorrer do processo, daremos ênfase à análise dos capitães de navio, e
principalmente, dos homens de negócio.

No que se refere ao termo “homens de negócio”, compreendemos que já na


segunda metade do século XVIII tal vocabulário era amplamente utilizado para designar
aqueles que exerciam um nível mais elevado do comércio. Como já mencionado, serão
considerados aqueles indivíduos relacionados principalmente ao comércio ultramarino, a
atividades creditícias entre ela a arrematação de contratos.250 Em relação aos capitães de
navios, evidentemente os consideraremos como um ofício mercantil.

Os capitães de navio presentes no processo estavam diretamente envolvidos com o


tráfico de escravos. Em 1751 desembarca no porto fluminense, o iate Santana Nossa
Senhora da Conceição e Almas trazendo a bordo 277 escravos luandenses para serem
vendidos na praça de comércio da cidade, cujo capitão era Antônio da Silva Penha.251
Nascido em 1726 na Freguesia de Santa Catharina de Monte Sinai da Cidade do
Patriarcado de Lisboa, Antônio da Silva Penha se desloca aos 9 anos de idade para
Benguela em companhia de seus pais Caetano da Silva e Antônia Maria onde reside até
os 14 anos quando se transfere para o Rio de Janeiro.252 Morador da Rua das violas na
área central da cidade, ao que tudo indica Antônio fazia viagens frequentes à Angola.
Entre 1756 e em 1760, foi responsável pelo movimento de 561 escravos no porto
carioca.253

Casos como o de Antônio, que tinha como seu principal destino o porto carioca,
se repetem por várias vezes se analisarmos os capitães de navio envolvidos no processo
como: Domingos Vieira Pinto, Felipe Gonçalves Lisboa, José Antônio Marques,
Clemente Martins Lisboa, Marcos Fernandes e Manuel da Mota que juntos foram

250
Sobre o assunto ver: capítulo 1.
251
SANTOS,1973: Dos Santos, Corcino Medeiros, “Relações de Angola com o Rio de Janeiro (1736-
1808),” Estudos Históricos, 12 (1973): 7-68 In: http://www.slavevoyages.org. (25/04/2011 12:45).
252
Depoimento da testemunha José Antônio Marques ma Habilitação de Casamento de Antônio da Silva
Penha. ACMRJ. Cx.4552 Doc. 1117.
253
http://www.slavevoyages.org. (25/04/2011 11:21).
79

responsáveis pelo desembarque de 4.912 escravos entre 1738 e 1777 na capitania


fluminense. 254

Entretanto, é importante salientar que esses capitães de navio não estavam


envolvidos somente com o tráfico de escravos destinados ao porto do Rio de Janeiro, mas
também a outros portos da América portuguesa. Em 1751 chega ao porto de Pernambuco,
com 284 escravos provenientes de Luanda o navio Nossa Senhora dos Remédios Santo
Antônio e Almas, cujo capitão era Antônio de Carvalho. 255

Nascido na Freguesia de Nossa Senhora da ajuda da Ilha de São Miguel, Antônio


de Carvalho desloca-se para o Rio de Janeiro já adulto em 1734, para residir na Freguesia
de Nossa Senhora do Amparo de Maricá, onde casa-se dois anos depois com Maria
Pereira, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Candelária. 256 Ao que tudo indica
Antônio de Carvalho fixa-se na cidade do Rio de Janeiro, e já em 1754 é nomeado pelo
governador Gomes Freire “para várias diligências e averiguações que havia de fazer na
257
alfândega da mesma cidade.” Anos depois em 1765, recebe como recompensa a
“préstimos” uma sesmaria de “meia légua de terra em quadra no Caminho Novo”. 258
Entre 1750 e 1775, Carvalho fora responsável por mais 5 desembarques de escravos
vindos de Luanda, dos quais 1 com destino ao Rio de Janeiro, 2 aos portos da Bahia e 2 a
portos ainda não identificados nas fontes. Assim, ao todo, as corvetas e sumacas sob
encargo de Antônio Carvalho trouxeram 1660 escravos aos portos brasileiros no período
mencionado.

Outros capitães de navio envolvidos no processo também tiveram uma relação


intensa com outros portos brasileiros, como foi o caso de Domingos Marques, que entre
1736 e 1746 fez seis viagens aos portos de Luanda direcionando cerca de 2.257 escravos
a Pernambuco.259 Já Luís Pereira Tavares destina à Bahia 3.226 escravos ao longo de 8
viagens à costa africana entre 1744 e 1753, tendo em certos anos feito essa viagem por
mais de uma vez, como foi o caso de 1750. Tal quadro mostra que esses capitães

254
Foram calculados aqui somente o número de escravos desembarcados no porto carioca e não os
embarcados em Luanda que no total chegavam a 5.584 tendo 672 falecido no decorrer da viagem entre
Luanda e o Rio de Janeiro. http://www.slavevoyages.org(26/04/2011 14:35).
255
BML,cod.17: Biblioteca Municipal de Luanda (Luanda, Angola) In:
http://www.slavevoyages.org/tast/index.faces (26/04/2011 15:15).
256
ACMRJ. Cx.1214 Doc. 7086.
257
AHU_ACL_CU_017, Cx. 48, D. 4850.
258
AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6693.
259
http://www.slavevoyages.org(26/04/2011 16:24).
80

limitavam suas transações na praça carioca, mas estavam inseridos em redes mercantis
inter-imperiais em toda a América portuguesa. 260

Ser capitão de navio, por muitas vezes era porta de entrada de muitos desses
indivíduos para o comércio por grosso, alguns deles vão se tornar proprietários de navio e
figurar na documentação como homens de negócio. Como um desses casos, podemos
destacar o próprio Luís Pereira Tavares, que deixa de herança sua “loja e contratos”
sendo disputada por sócios e sua família ao falecer em 15 de Agosto de 1765 em um
naufrágio onde é mencionado como “homem de negócio dessas terras.” 261

Outro capitão de navio que figura na documentação anos depois como negociante
é Domingos Vieira Pinto, que somente entre 1738 e 1744 foi responsável pelo
desembarque de 2080 escravos vindos de Luanda no porto do Rio de Janeiro.262 Natural
da Freguesia de São Thiago de Fonte Arcada, Comarca de Pena Fiel do Bispado do Porto,
Domingos Vieira veio com menos de 10 anos para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu
e ainda na década de 1750 como comprador urbano e negociante. 263

Dentre os embargantes do processo de 1758, também podemos ressaltar a


trajetória de Manuel Rodrigues Ferreira. Em 1750 é capitão do navio “Santa Clara, Santo
Antônio e Almas”, que sai do porto de Luanda com 316 cativos e chega ao porto do Rio
de Janeiro com 282 a bordo. Já em 1795, Manuel Rodrigues aparece como proprietário
do navio mercante “Anibal” que desembarca no Maranhão com 172 escravos vindos da
Senegâmbia.

De acordo com a documentação, a trajetória mercantil de Manuel Rodrigues


começa ainda antes de 1724 quando, em vista de alçar o ofício de almoxarife da fazenda
real do Rio de Janeiro, alega ter atuado por “várias ocasiões” como escrivão e apontador
nas “frotas de sua Majestade em diversos navios” como nas fragatas são Sebastião, São
Luiz da Paz, Santana e na fragatinha São José, todavia Manuel Rodrigues não obtém
resposta positiva nesse momento. 264 Isso ocorre somente cinco anos depois, em 4 de
junho de 1729, quando Manuel Rodrigues recebe a mercê do governador para “prover o
260
PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.106.
261
AHU_ACL_CU_017, Cx. 81, D. 7290.
262
KLEIN, Angola dataset:University of Wisconsin Library (Madison, Wisconsin, USA)1723-1771/
SANTOS, 1973:Dos Santos Corcino Medeiros, “Relações de Angola com o Rio de Janeiro (1763-1808)”
Estudos históricos. p.7-1 In: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces(26/01/2012/15:37).
263
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9..
264
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 20, D. 4437.
81

posto de capitão de infantaria da Ordenança do distrito da Freguesia de Nossa Senhora da


Candelária”. 265 Em 1732 finca suas raízes definitivamente na Cidade ao contrair
matrimônio com dona Helena de Sá Rangel descendente de duas das primeiras famílias
cidade.266 Já em 1749 tem sua trajetória como um importante “homem de negócio” da
praça do Rio de Janeiro consolidada quando é nomeado familiar do Santo ofício.267

Dentre os homens de negócio envolvidos no processo em 1758, além de Manuel


Rodrigues Ferreira, eram familiares do Santo Ofício: Agostinho Faria Monteiro, Baltazar
dos Reis, João Hopman, Francisco de Gouvêa Macedo, José da Costa de Andrade,
Marcos Fernandes da Silva e José Caetano Álvares e o já citado Domingos Vieira Pinto,
todos homens de negócio da Praça do Rio de Janeiro entre os mais ricos e poderosos da
cidade.268

Entre esses familiares do santo ofício encontramos José Caetano Álvares, que era
considerado uns dos 36 negociantes de maior “importância” da cidade do Rio de Janeiro
listado pelo então vice-rei Conde de Resende em carta a Dom Rodrigo de Souza
Coutinho em 1799.269 Além de estar envolvido em uma ampla gama de investimentos
como: o comércio de fazendas, frutos, farinhas, couros e escravos dentre outros, José
Caetano Álvares era arrematador de contrato dos quintos dos Couros e Gados,
responsável por abastecer as tropas do Rio Grande de São Pedro. 270 O mesmo também
colecionava patentes e títulos como: o de capitão da sexta Companhia do Terço auxiliar
de infantaria da Freguesia de Santa Rita do Rio de Janeiro, 271 e de Cavaleiro professo na
Ordem de Cristo272, além de como citado, ser familiar do Santo Ofício.

Ao receber o título de familiar do Santo Ofício, o negociante ingressava num feixe


social diferenciado, que além de permitir a ascensão social, facilitava a ampliação das
265
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 27, D. 6326. e D.6327
266
Helena era descendente de dois dos primeiros conquistadores da cidade: Baltazar de Abreu e Manuel
de Leão que se estabelece na cidade na primeira década dos seiscentos. Voltaremos ao assunto no capítulo
3 desta dissertação. RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Brasiliana Editora, 1965, v.I, p.8 e v.II, p.356.
267
Manuel aparece como “homem de negócio” ainda em 1753, quando é testemunha na devassa feita pelo
juiz ouvidor da Alfândega João Martins Brito – a respeito das fazendas apreendidas por falta de selos –,
onde alega ser “homem de negócio morador da Rua direita”. AHU_ACL_CU_017, Cx. 74, D. 17206-
17207.
268
Banco de dados. SAMPAIO A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas
econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
269
AN: Correspondência dos vice-reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo de Souza
Coutinho. Códice 68, volume 15, 1799. p. 324.
270
AHU_ACL_CU_017, Cx. 149, D. 11459.
271
AHU_ACL_CU_017, Cx. 148, D. 11414.
272
BN, Manuscritos, Cód. 5-1-5. Apud: CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro... Op.cit. p .237.
82

possibilidades de investimentos (econômicos ou políticos) desses indivíduos. Segundo


Daniela Calainho,

O certo é que a obtenção da Carta de Familiatura era por si prova de


ascendência limpa e sinônimo de honra e status social. Numa sociedade
em que tais valores imperavam, a busca pelo enquadramento no topo da
pirâmide era intensa. 273

Assim sendo, devido à credibilidade que tal título gerava, tais negociantes foram
muito procurados para serem procuradores, principalmente em redes trans-Imperiais.

No que concerne às procurações, segundo Rafael Bluteau o termo significava “o


poder tratar algum negócio, cometido a alguém por escritura,” valeria “o mesmo que
comissão superintendência e administração de algum negócio” o ato “em virtude da qual
pode alguém tomar juridicamente algum negócio à sua conta, e solicitar os interesses da
pessoa, que lho cometeu”. 274 Já por procurador entendia: “aquele que em virtude da
procuração de alguém trata dos negócios dele em seu nome.” 275 De acordo com Kelmer
Mathias, a procuração mercantil era, sobretudo, “um documento de cessão de poder no
campo econômico” que revestia o procurador de autoridade jurídica, além de possibilitar
representação parental em momentos em que o outorgante estava ausente ou
impossibilitado de responder por si.276

Conforme o mesmo autor, em uma procuração o outorgante concedia ao


procurador plena liberdade para defender seus interesses e representá-lo da melhor
maneira possível. Nesse sentido, o procurador não poderia ser um “qualquer”, o que
tornava a sua nomeação uma escolha muito delicada, sendo o estabelecimento da
confiança um pressuposto fundamental. O comportamento oportunista dos agentes
revestia os processos de transações de incerteza, na medida em que, por exemplo, não há
como saber se o outorgado vai cumprir o acordado. Consequentemente, a formação de
um laço de confiança entre as partes envolvidas se tornava uma estratégia essencial, pois
facilitam as transações ao neutralizar o oportunismo presente nas relações bilaterais, sem

273
CALAINHO, Daniela Buono . Pelo reto ministério do Santo Ofício: falsos agentes inquisitoriais no
Brasil colonial. In: Ronaldo Vainfas; Bruno Feitler; Lana Lage da Gama Lima. (Org.). A Inquisição em
xeque: temas, controvérsias, estudos de caso. Rio de Janeiro: Eduerj, 2006, v. , p.97.
274
BLUTEAU, Raphael. Vocabulário português e latino. Coimbra , 1712, v.6, p.758.
275
Idem.
276
MATHIAS, Carlos Leonardo Kelmer. Op. cit. p.63.
83

ela pouco poderia avançar uma transação. Neste quadro uma série de fatores como:
relações interpessoais, reputação, poder de mando e prestígio social eram levados em
conta na hora de escolher o procurador. É devido a esses fatores que acreditamos que os
homens de negócio possuíam uma enorme representatividade entre os procuradores nas
escrituras.

Esse quadro fica claro no estudo de Kelmer Matias que, analisando escrituras na
capitania de Minas Gerais entre o período de 1711 e 1756, demonstra que 59,59% e
60,53% das escrituras referentes à capitania fluminense possuíam, respectivamente,
dentre seus procuradores, homens de negócio e doutores.277 Tais dados atentam para a
importância do reconhecimento social na escolha desses procuradores. Vale ressaltar que
o outorgante podia nomear mais de um procurador na mesma escritura (o que explica o
número citado anteriormente). Desta maneira, referente caso do Rio de Janeiro, o número
de procuradores por escritura chega a uma média de 5,92.278

Também é comum encontrar numa mesma escritura procuradores de várias


regiões. Para Kelmer Mathias, apesar de não significar necessariamente uma formação
de sociedades, as procurações podiam exprimir relações comerciais estabelecidas entre
indivíduos de diferentes localidades. 279 É evidente que essas procurações ligavam
diferentes agentes e possibilitavam a formação de redes e circuitos mercantis, além do
estabelecimento de relações de confiança com indivíduos que abririam portas nas esferas
comerciais e política.

Dessa forma, iremos encontrar os nomes dos embargantes do processo de 1758


como procuradores em escrituras não somente nas redes inter-imperiais, mas também nas
transações que envolviam outros países fora do Império português. Era frequente
companhias de comércio britânicas e alemães, entre outras atuantes em Lisboa, buscarem
negociantes fluminenses como seus procuradores. Em 1757 Francisco Ferreira Guimarães
é convocado para representar a casa britânica Elias Perochon & Cia em uma cobrança de
dívidas de negociantes atuantes em Madrid, Rio de Janeiro e Buenos Aires.280 Segundo
Pesavento, tal companhia foi uma das que mais se destacava em Lisboa no volume de

277
Do total de 2.116 escrituras encontradas pelo autor para o Rio de Janeiro, 1.365 possuíam como
procuradores negociantes (o que englobaria além dos homens de negócio, mercadores e comerciantes) e
1.281 ditos doutores. Idem.
278
O autor chega a citar outorgantes que nomeiam até 62 procuradores em uma mesma escritura. Ibidem,
p.56.
279
Ibidem, p.73.
280
ANTT, CD, 9º A cart. (antigo) livro 550, cx.92 Apud: PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.113.
84

transações com homens de negócio brasileiros e tinha como principal procurador na


cidade do Rio de Janeiro Francisco Ferreira Guimarães, ao todo suas cobranças chegavam
a mais de 43 contos de réis. Além de ser procurador em outras companhias britânicas
(como a Pedro Lucas & Cia), Francisco aparece em mais de 16 procurações de diversos
homens de negócio de Lisboa entre 1756 e 1769.

Entretanto, as relações de Francisco Ferreira Guimarães também se davam no


interior do império. Dessa maneira, o mesmo vai figurar em mais seis procurações de
Minas Gerais para o Rio de Janeiro entre 1739 e 1755. Guimarães se envolve ao longo da
segunda metade do setecentos em várias relações comerciais e já em 1753, é intitulado
como “homem de negócio da Praça do Rio de Janeiro”, na ocasião em que pede licença
para resgatar e embarcar em Benguela 250 escravos 281 – mesmo ano em que aparece
entre os 138 negociantes que assinam o compromisso da mesa do Bem Comum do
Comércio do Rio de Janeiro, se consolidando em 1761, ocasião da criação de sua casa de
comércio: Francisco Ferreira Guimarães & Cia.

Além de casas de negócios britânicas, os negociantes envolvidos no processo


também eram escolhidos como representantes por outorgantes de outras nacionalidades,
como os hamburgueses, por exemplo. De acordo com Fábio Pesavento, os alemães
somavam mais de 50 casas de comércio ou negociantes atuantes na Praça carioca, dentre
seus procuradores está Agostinho Faria Monteiro, que aparece como um dos principais
procuradores da companhia de comércio Ludero Ilhius & Cia e de Metzner & Poppe
entre 1766 e 1772. 282

Familiar do Santo ofício e recebedor da fazenda real, Faria Monteiro é citado


como homem de negócio pela primeira vez já em 1753, quando junto com mais 126
negociantes assina uma representação sobre a partida dos navios da frota, que estavam
carregados de fazendas no porto carioca e não podiam esperar pelos despachos das
fazendas na Alfândega. 283 Assim como Francisco Fernandes Guimarães, Agostinho
aparece como procurador de Minas para o Rio de Janeiro em nove procurações, e ainda
como outorgante em 1755. 284 Ainda em 1749 é procurador de Antônio José Álvaro

281
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 71, D. 16467-16470.
282
PESAVENTO Fábio. Op. cit. p.113.
283
AHU doc.16.201.
284
ACSM, Livro.61. 8/1748 p. 66F Agradeço a Antônio Carlos Jucá por ceder tais informações.
85

juntamente com Manuel dos Santos Borges e Baltazar dos Reis, todos embargantes do
processo de 1758.

Também eram frequentes os nomes dos procuradores se repetirem várias vezes


nas escrituras. Como realçado, era comum as companhias estrangeiras utilizarem os
mesmos procuradores em suas transações comerciais com o Rio de Janeiro. Nesse
sentido, acreditamos que o que estava em jogo era a confiança que esses companhias e
homens de negócio estrangeiros depositavam nos negociantes fluminenses. A procuração
conferia ao procurador pleno poder para tratar dos negócios do outorgante. Nesse sentido,
estabelecer laços de confiança com os indivíduos que se encarregariam da manutenção do
negócio do outro lado do atlântico é fundamental.

Segundo Pesavento, essas relações entre os homens de negócio estrangeiros


(atuantes em Lisboa) e cariocas não se davam somente através das procurações, mas sim
via concessão de crédito como foi o caso de Francisco Ferreira Guimarães e Agostinho de
Faria Monteiro. Capital este que poderia ser utilizado para dinamizar suas redes e
incrementar seus negócios e servir como um importante abridor de portas para os
negociantes cariocas.

No que tange ao processo aqui analisado, foram contratados como procuradores


os advogados de maior prestígio da capitania fluminense: os doutores Dionísio da Silva
Castro, Guilherme Franco Tagaro e Manuel Antunes Suzano e ainda os solicitadores
Miguel Araújo Freitas e Alexandre da Silva Torres para trabalharem na tentativa de
embargar o dito acórdão. Conforme Kelmer Mathias, Tagaro e Suzano foram dois dos
procuradores mais atuantes no período, o último foi um dos “maiores advogados da praça
fluminense da primeira metade do século XVIII, encarregado em quase 10% das 2.116
285
escrituras nas quais se nomeou procurador para a capitania do Rio de Janeiro.”
Nascido no Rio de Janeiro em 1707, o doutor Manuel Antunes Suzano foi um grande
proprietário de terras no Rio de Janeiro setecentista.286 Sua fortuna chega a 24:300$000
réis, divididos em diversas propriedades e moradias, destacando-se 120 escravos
avaliados em mais de 5 contos de réis.287 Possuía sesmarias de terras em toda a capitania,

285
MATHIAS, Carlos Leonardo Kelmer. Op. cit. p.53.
286
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.II, p.107.
287
AN, cx.3629, n.22 Apud: PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.73.
86

em locais que hoje conhecemos como Leme 288 , em Itacuruçá (hoje município de
Mangaratiba) e no Lameirão. 289 Em suas propriedades eram exercidas diferentes
atividades como a produção de açúcar e mandioca na fazenda de Itacuruçá e do anil na
propriedade do Leme mostrando, como visto anteriormente, a tendência de diversificação
de culturas naquele período.290

Junto com os demais procuradores, Suzano fez uso de vários argumentos para
convencer o juiz de fora a decidir favoravelmente a apelação dos embargantes. Logo em
sua primeira petição, feita em 11 de fevereiro de 1758, seus argumentos demonstram-se
muito contundentes e hostis em relação aos vereadores do Senado da Câmara,

Pois como é possível que o Senado desta cidade que não é daquela
graduação [se referem ao Senado de Lisboa], os camaristas da capitania
não são pessoas de letras; e só o digníssimo presidente é neste predicado
excelente: se queira reputar e supor com maior jurisdição e poder; ao
mesmo tempo que a lei expressa que semelhantes negócios os alega a se
expressamente a Majestade para os resolver; parece que procede (...)
esta fora dos termos a instância e argumentos. Pois assim parece deve
ser, porque o determinar território, (...) a liberdade, o impedir de alguma
sorte e negócio, o alterar um uso costume imemorável, o restringir os
passos pelas ruas que são comuns e publicas do direito real; parece sem
dúvida que somente é próprio e reservado a própria majestade. 291

Assim sendo, tais advogados alegavam que não fazia parte da jurisdição dos
vereadores do Senado da Câmara estabelecer esse tipo de postura e ainda sugeriam que os
mesmos,

podem estabelecer postura, sobre os sapateiros que fabricarem


calçado de peles corruptas, como também nelas compreenderam os que
vendem carnes desta mesma qualidade, [...] Podem estabelecer posturas
para que não andem porcos pela rua, por serem nocivos e imundos [e]
podem também constituí-las para que se não lancem linhos em (sic) ou
em rios, pois estando corruptos pelo fedor que causam podem
corromper os ares com peste degenerar.292

288
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 22, D. 5067.
289
Ver: AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 51, D. 11999-12000 e AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 59, D. 13740.
290
PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.73.
291
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.3F p.30f.
292
Idem.
87

Defendiam assim, que a “verdadeira epidemia que se julga como peste” advinha
não dos negros, mas da “podridão dos humores” dos animais que andam pela cidade.

As farpas não param por aí. Tagaro e Suzano passam a questionar sobre os
moradores que vivem fora dos muros da cidade, pois, de acordo com o argumento da
Câmara, tendo contato com os escravos poderiam adquirir doenças.

Pois quantos e quantas padecerão e terão falecido em sitio que em


postura [...] para residência dos escravos se destina, deste mesmo
contagio que se imagina: pois é possível que lhes meta aqueles
moradores mais peste ameaça, por ventura não são vassalos da mesma
Majestade da mesma sorte que os são os que residem na cidade; ou
importa menos a saúde destes ao Senado, por não lograrem os
predicados de cidadãos como assistentes na cidade; confesso que não
alcanço enigma desta dificuldade.

E ainda,

Pois se causarem os escravos peste e epidemia na cidade, e não a


causarem quatro passos afastados dela, uma epidemia que como peste
se há de supor reputar geral, e reputar-se como tal na cidade, (como)
nos muros dela perder logo esta qualidade, e não se julgar infeccionados
os ares desta peste, existindo na mesma a causa de que esta procede, os
(embargantes) não se podem capacitar de tal: só sendo por milagre.293

Portanto, questionam se na dita postura “segue desta separação aos moradores que
nela vivem,” pois os que residissem no Largo de Santa Rita – que se localizava em área
próxima ao Valongo – teriam contato permanente com os ditos negros, podendo
adoecer.294

Segundo Antônio Manuel Hespanha, o discurso jurídico possuía um lugar muito


importante na cultura ético-política do Antigo Regime. Era a justiça que determinava o
equilíbrio e o lugar de cada coisa no mundo, sendo essencial em um mundo dominado
pela idéia de ordem. 295 Fruto de seu tempo, o discurso político era embebido em

293
Idem.
294
Ibidem, 11f.
295
De acordo com Antônio Manuel Hespanha a idéia de ordem é central na imaginação política jurídica
moderna, era ela que “dominava o sentido da vida, as representações do mundo e da sociedade e as ações
88

dispositivos textuais, institucionais e sociais específicos da sociedade que estava inserido,


ou seja, ele constituía “uma realidade estruturada que incorporava esquemas intelectuais
296
cuja adequação ao ambiente fora comprovada.” Todavia, ao mesmo tempo era um
fator estruturador daquela sociedade. Assim, ao analisarmos esses discursos podemos
entender como era a visão de mundo, quais eram os valores e o código de conduta desses
indivíduos.

Referente ao teor do discurso dos procuradores dos negociantes envolvidos no


processo fica clara a preocupação com a manutenção dos costumes e com o bem comum.
Ao duvidarem da capacidade de transmissão de doenças pelos escravos, os advogados em
todo momento ressaltam a antiguidade daquele comércio que era de “costume
imemorável.” De acordo com Hespanha, o costume era uma das principais soluções
jurídicas do Antigo Regime. Pautado nas práticas do cotidiano, o costume era altamente
considerado, pois respondia à ordem das coisas e como esta era geralmente concebida.297
É deste modo que a manutenção do comércio de escravos vai ser interpretada pelos
advogados dos negociantes, como uma tradição longamente estabelecida, e por estar
enraizada no seio daquela comunidade não deveria ser modificada.

Outro argumento que vai permear os discursos jurídicos desses indivíduos é a


noção de bem comum. É essencial lembrar que no Antigo Regime vigorava outro sistema
de valores, ou seja, outra paisagem mental que informava a ação dos indivíduos,
completamente diferente dos conceitos de conduta e de motivação individualista que
utilizamos atualmente.298 Logo, lidamos com indivíduos que se consideravam, antes de
qualquer coisa, como partes de um todo, ou melhor, de uma comunidade. Segundo
Antônio Manuel Hespanha, uma das convicções mais enraizadas na sociedade de Antigo
regime era a vocação natural para se viver em comunidade. Acreditavam que esse caráter
natural para viver em comunidade estava inscrito na natureza, o que estaria na origem da
obrigação à colaboração, entreajuda e manutenção do bem comum. Consequentemente,

do homem”. Para uma melhor compreensão ver: HESPANHA, Antônio Manuel. Imbecillitas. As bem-
aventuranças da inferioridade nas sociedades de Antigo Regime. São Paulo: Annablume, 2010.Capítulo
2.
296
Idem.
297
Ibidem, p.40.
298
CLAVERO, Bartolomé. Antidora. Antropologia católica de La Economia Moderna, Milão, Giuffrè
Editore, 1991. pp.46-48.
89

estas comunidades estariam pautadas no amor e na amizade pelo próximo, tendo na


noção de cooperação com vista ao bem comum a sua maior finalidade.299

No entanto, a característica da fala desses indivíduos que mais nos salta aos olhos
é o seu caráter desqualificador da ação dos vereadores da Câmara. Como demonstrado,
acreditavam que além de não ter poder de jurisdição sobre o tema, os camaristas
fluminenses não eram “pessoas de letras”, e, portanto não tinham as “qualidades”
necessárias para tomar uma decisão tão importante. O discurso dos advogados dos
negociantes mostra claramente o clima de hostilidade existente entre os negociantes e os
camaristas naquele momento.

É importante salientar que tal posicionamento não era novidade na relação entre
negociantes e nobreza da terra no setecentos. Como visto anteriormente no episódio de
1746, em que os negociantes reclamam fim do veto a sua participação aos cargos da
Câmara, os negociantes adotaram um discurso em que alegavam que os camaristas eram
moradores pobres e desqualificados do recôncavo da cidade. Por estarem “entranhados
pela roça” e por não possuírem meios suficientes, não poderia exercer a função pública de
uma maneira eficiente. 300

Dessa forma, acreditamos que o teor invasivo e irônico do discurso estava inserido
em uma ambiente mais amplo. Não somente em torno da disputa sobre o local destinado
ao mercado de escravos, mas também em um cenário de conflito entre uma nobreza da
terra estabelecida ao longo de 200 anos, detentora do poder de mando na capitania
fluminense, e uma classe de negociantes ascendente, detentora de poder econômico e
ávida por poder político.

Entretanto, mesmo com os argumentos supracitados, em resposta o juiz de fora


José Antônio de Matos e Silva declara ainda “não ser legítima” a tentativa de embargo do
edital por parte dos negociantes e “pela invariabilidade do documento do regimento que
se fez”, decidiu que “não podia o acordo ou postura suspender”. 301 Sem obter uma
resposta positiva, em 15 de março do mesmo ano o procurador dos comerciantes Dr.
Guilherme Franco Tagaro inicia uma nova petição na qual anexa onze atestados de

299
CARDIM, Pedro Antônio Almeida. O poder dos afetos: ordem amorosa e a dinâmica política no
Portugal do Antigo Regime. Lisboa, Tese de doutoramento: 2000, p.316.
300
Ver: p.18.
301
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.
90

médicos e cirurgiões como: o Doutor Mateus Saraiva, Dr. Ignácio Francisco


Mascarenhas, Dr. Bernardo da Costa Ramos, Dr. Antônio Antunes de Menezes, Dr.
Francisco Correia Leal, Francisco Rodrigues Neiva, Caetano José de Nápoles de Soares,
Vicente Carvalho Malta, Luis Correa de Menezes, Bernardo de Vasconcelos Sirne e do
físico-mor Manoel de Moura Brito. Tais atestados alegavam que os escravos eram
examinados pela visita da saúde antes do desembarque, sendo os cativos vendidos pelos
comerciantes perfeitamente saudáveis e incapazes de transmitir doenças.

Francisco Rodrigues, cirurgião-mor do terço dos auxiliares desta


praça. Certifico que há vários anos assisto à casa do Capitão José
Rodrigues Nunes, homem de negócio desta praça, e também por várias
vezes tenho assistido os enfermos desta cidade e (sic) a casa de Joaquim
dos Santos e outros vários capitães (sic) no ministério de curar vários
escravos vindos enfermos. Nunca vi neles epidemia alguma que
causasse dano a esta cidade dos ditos escravos de Guiné o que posso o
referido na verdade e juro ao santos evangelhos. Hoje 15 de março de
1758. 302

Nos outros 10 atestados que se seguem, os argumentos se repetem.

Francisco Correia Leal Médico pela Universidade de Coimbra e


residente desta cidade certifico (...) por não ser fácil em culpar causas
temores, quando a muitos atribuir os efeitos, que experimento, nas
queixas a que assisto, nunca me resolvi a culpar por causas das
moléstias, a que venho assistido em Manoel Rodrigues Ferreira a
muitos anos, a comunicação dos negros que sempre houve na mesma
tanto da costa como de Guiné, nem hoje posso firme imputar a mesma
comunicação dos negros as queixas que tenho medicado na dita casa, e
na dos vizinhos, e outros muitos, em que há outra copia dos mesmos
negros, que nisso faria um juízo temerário assim como se culpasse de
determinadamente alguma outra causa remota [...] Rio de Janeiro 25 de
Março de 1758303

Os médicos, cirurgiões e físicos afirmavam que ao terem contato com os ditos


negros nunca perceberam “epidemia, nem contagio que fosse comunicado dos negros
novos, ou gentio de Guiné” ou mesmo “sintomas que causasse semelhantes qualidades, e

302
Idem, p.48F.
303
Ibidem.
91

entre a vizinhança nunca (houve) queixa de pessoa alguma”.304 Questionamo-nos quais


eram as relações existentes com os negociantes de escravos para que esses médicos
lançassem tais atestados. A primeira que fica evidente é que a maioria desses
profissionais da saúde trabalhava para os comerciantes, alguns por mais de dez anos,
como o cirurgião anatômico Caetano José de Nápoles de Soares. Também poderiam
possuir relações mercantis, como é o caso do cirurgião Francisco Rodrigues Neiva, que
em 17 de Abril de 1755 foi outorgante de uma procuração em que teve como um dos seus
procuradores o homem de negócio Francisco Pinheiro Guimarães, um dos embargantes
de 1758. 305 Entretanto, sugeríamos que o apoio dos “profissionais da saúde” aos
negociantes também poderia possuir outras motivações.
Curiosamente, entre os médicos e cirurgiões supracitados, que apresentam
atestados em apoio aos negociantes, se encontram o Dr. Mateus Saraiva e o Dr. Francisco
Correia Leal, que estiveram presentes na audiência de 14 de Janeiro de 1758 apoiando e
corroborando a decisão da Câmara de proibir a venda de escravos novos no interior da
cidade. Conforme Alexandre Passos, tais indivíduos eram alguns dos médicos de maior
nomeada que atuaram na Cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do século
XVIII.306 Mateus Saraiva chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1713, após formar-se na
faculdade de medicina de Coimbra como cirurgião-mor, foi nomeado “médico de
presídio” e “médico da saúde”, ou seja, o médico oficial da Câmara da Cidade.307 Na
ocasião do lançamento da provisão em que é nomeado “médico de saúde” da cidade do
Rio de Janeiro, Matheus Saraiva já exercia a função de médico da cidade desde o
falecimento de seu predecessor o Dr. Francisco da Costa Ramos como demonstra a sua de
nomeação em 30 de Abril de 1757:

Eu El Rei faço saber aos que esta minha provisão virem que tenho
respeito ao Doutor Matheus Saraiva médico formado na Universidade
de Coimbra, e assistente na Cidade do Rio de Janeiro me representar
que ele se achava exercitando o cargo de médico de saúde da dita
cidade por provimento do (sic) José da Silva Paes, cujo cargo está o
governo daquela capitania por se achar vago por falecimento do Dr.
Francisco da Costa Ramos, que exercia o dito cargo, cujo provimento

304
Trechos dos atestados assinados pelos doutores Ignácio Francisco Mascarenhas e Bernardo da Costa
Ramos. Ibidem, pp.41f e 44f respectivamente.
305
ACSM, Livro. 65. 27/4/1755.
306
PASSOS, Alexandre Op.cit.p.26.
307
Saraiva pede sua manutenção do cargo várias vezes. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9219 a
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9222.; AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 40, D. 9390.
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10824. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10814 a
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10824.
92

foi feito na pessoa do supp. não só por ter servido com toda a satisfação
por impedimento de seu antecessor desde 8/6/1720 até 25/7/1722 como
constava do provimento que oferecia, mas também por haver curado no
decurso de 18 anos os pobres presos da cadeia da mesma cidade pelo
amor de Deus.308

Saraiva também foi sócio numerário e um dos fundadores da Academia dos Felizes.309

Já Francisco Correia Leal foi grande físico e cirurgião e muito considerado pelos
jesuítas por exercer duas funções que eram muito raras na época. Leal também compôs a
banca examinadora da seleção de professores do primeiro curso de magistério público no
Rio de Janeiro e era famoso por compor junto com seus filhos um grupo de talentosos
cantores e musicistas. Apesar de não formarem um grupo profissional, foram convidados
apresentar-se para o príncipe D. João na ocasião de sua chegada ao Rio de Janeiro em
1808.310 Todas essas informações demonstram um pouco da importância e do prestígio
que Francisco Correia Leal e Matheus Saraiva possuíam na capitania, e
consequentemente, tê-los como aliados tinha enorme relevância.

Em março de 1758, ambos alegavam que ao longo de mais de quarenta anos de


exercício profissional na cidade do Rio de Janeiro nunca presenciaram epidemia
disseminada pela comercialização de escravos novos vindos de Luanda e nem mesmo
nenhum sintoma nas pessoas que se dedicavam a esse comércio nem em seus familiares.
Mateus Saraiva, como médico da Câmara, ainda declara que “os escravos novos vindos
da Costa da África, antes de desembarcarem, para serem registrados na Alfândega, são
vistoriados primeiro pela visita de saúde” somente desembarcando os negros saudáveis,
não conferindo assim nenhum perigo à população. 311

Uma de nossas hipóteses é que a mudança de posição desses doutores nos autos possa
estar ligada a laços mais profundos constituídos entre esses profissionais de saúde e os
comerciantes de escravos da Praça do Rio de Janeiro. Como relações de amizade e
parentesco, assunto que abordaremos mais profundamente no último capítulo da presente
dissertação.

308
AGCRJ, Códice: 46.2.46.
309
Fundada pelo governador Gomes Freire a exemplo da Academia Brasílica dos esquecidos (1724-1725)
e da Academia Brasílica dos Renascidos (1759-1760) na Bahia. PASSOS, Alexandre. Op.cit. p.62 Ver
também: CAVALCANTI, Nireu Oliveira “O Rio de Janeiro setecentista... Op.cit. p.160
310
Idem, p.182.
311
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9..3F.
93

Mesmo alegando “que as atestações dos professores [de medicina] são mais em
número do que os que na Câmara assim o declaram” os comerciantes recebem uma nova
resposta negativa do Juiz de fora em quatro de abril de 1758. Todavia, tal fato não foi
suficiente para fazer os comerciantes desistirem, e em 15 dias de junho, através de um
novo procurador, o Dr. Dionísio da Silva e Castro, entram com uma nova tentativa de
embargo ao dito acórdão.

Ao analisarmos o conteúdo da argumentação feita por Dionísio percebemos que a


mesma pouco se diferencia da feita por Guilherme Franco Tagaro e Manuel Antunes
Suzano. Apesar do discurso mais ameno, Castro também se baseia na tradição e na
preocupação com o bem comum para fundamentar seus argumentos. Nesse sentido, em
defesa da causa dos comerciantes o mesmo alegava que:

Se extinto ou diminuído o comércio dos escravos que [será] bem


grande prejuízo não só os comerciantes, pois se lhe privar deste modo
de negócio, mas também os moradores tanto da Cidade como das suas
circunvizinhanças; que se não podem servir sem escravos, e de
necessidade e os ão de vir comprar mais caros vindo em menos
quantidade312

Na tentativa de se impugnar os embargos, assim como os negociantes, em 30 de


Agosto de 1758 os vereadores da Câmara convocam os procuradores Inácio Rodrigues
Vieira Mascarenhas, José Alberto Monteiro e Silvestre de Carvalho Freyre e os
solicitadores Mauricio Correa Duarte e Geraldo da Fonseca Vidal, para saírem em sua
defesa contra “calúnia e tudo o mais que for a bem da dita causa”. Além da preservação
da saúde pública, as argumentações dos procuradores dos vereadores se basearam
principalmente na manutenção do bem comum dos moradores da cidade que além de
conseguirem um “menor preço pelos aluguéis, haverá quem queira edificar mais
propriedades”. Também acreditam que estando os escravos fora da cidade, ficaria mais
fácil manter “as pragas de fora” dela evitando assim perturbação e deixando as ruas livres
sem causar “nojo aos moradores”. 313

312
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.58F.
313
Idem.
94

Entretanto, o argumento desses procuradores que se torna mais contundente


durante o processo é a acusação de serem os embargantes atravessadores que
costumavam “trazer seus escravos para a Rua direita para melhor serem vistos e ter
melhores vendas”.314 Segundo Nireu Cavalcanti, a transferência dos escravos para fora da
cidade respondia a uma antiga exigência de alguns moradores da capitania. A localização
da praça de comércio de escravos novos na Rua direita era desfavorável para a elite
agrária, composta em sua maioria de “senhores de engenho e lavradores de açúcar”, que
alegavam que por residirem no recôncavo da cidade (devido à distância de suas
propriedades do porto) até serem avisados da chegada de um navio com novo
carregamento de escravos, quase sempre encontravam os negros de melhor qualidade já
vendidos, tendo que comprá-los nas mãos de atravessadores a preços mais altos.315

Analisando a documentação referente ao tema, percebemos que tal questão não


era novidade. Já em nove de dezembro de 1722 os oficiais da Câmara encaminham sua
primeira carta ao rei queixando-se dos “preços exorbitantes” cobrados pelos
atravessadores que provocam “muito grave prejuízo para a terra” e requerem que se faça
cumprir o provimento do desembargador geral José de Siqueira, que em junho de 1704
havia estabelecido que “toda a pessoa que atravessasse os ditos negros pagaria 50
316
cruzados, e teria um mês de prisão.” Entretanto, os vereadores alegam que os
infratores “não deixaram de atravessar os escravos como costumam fazer” e devido à
“gravidade deste dano manda que tenham estes atravessadores perdimento dos escravos
que lhe forem achados, além da pena pecuniária que lhe é imposta porque só assim de
algum modo se evitaria tão notório inconveniente.” 317

Anos depois, em oito de junho de 1748, os vereadores solicitam nova devassa


devido ao “esquecimento que estava” as posturas que proibiam a atuação dos
atravessadores na cidade. Alegavam que os mesmos compram “grandes partidas por
diminutos preços, e depois os revendem por avantajados” causando

[...] dano tão grande do mesmo povo, senhores, por lhes não chegar
o dinheiro que possuem ao seu valor, ficando diminutos por isso os
dízimos reais dos ditos engenhos, perdidos os senhores deles, e ainda o

314
Idem, p.116v.
315
NIREU, Cavalcanti. Op. cit. p. 38.
316
AHU_ACL_CU_017, Cx. 13, D. 1441.
317
Idem.
95

miserável povo, que havendo de servisse com um escravo o não


compram pela exorbitância dos preços resultados dos ditos
atravessadores, e por consequência a diminuição dos quintos reais nas
companhias de Minas Gerais, São Paulo, Goitacazes, e Cuiabá, e seus
318
dízimos delas [...]

Devido a tamanhos prejuízos e como existiam leis, pedem ao Senado que as


mesmas sejam postas em prática.
Segundo Nireu Cavalcanti, o rei nos casos de denúncias, ordenava que diferentes
autoridades dessem o seu parecer para melhor legislar sobre o caso.319 Em vista disso, em
31 de março de 1753 por provisão pede ao governador da Paraíba do Sul – o visconde de
Asseca, Martim Correia de Sá e Benevides Velasco 320 –, e ao governador do Rio de
Janeiro – conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade – parecer sobre uma nova queixa
dos oficiais da Câmara do Rio de Janeiro encaminhado ao rei em 20 de Setembro de
1752. Ambos os governadores, por sua vez, decidem requerer auxilio aos homens de
negócio que “podem ter mais noticias desta matéria.” 321

Assim, foi solicitado aos negociantes Antônio Pinto de Miranda, Manuel dos
Santos Pinto, Manuel Barbosa dos Santos, João Hopman, Manoel Rodrigues Ferreira,
Manuel Ferreira Gomes, Francisco Pinheiro Guimarães, Francisco Ferreira Guimarães
que em 17 de julho de 1762 saem em defesa dos “atravessadores”, alegando que os
mesmos não são homens ricos e poderosos, mas sim trabalhadores “pobres que não tem
outro modo de vida”.

Estes chamados atravessadores não compram todos os escravos que


entram nesta cidade, nem tão pouco os consomem em si antes como
pobres, só compram aqueles que o mais não querem por doentes,
magros, e outros defeito, que por baratos se sujeitam a tratar deles a fim
de os venderem com alguma utilidade ou remuneração do seu trabalho
isto mesmo podem fazer os interessados na conta que o Senado da
Câmara pôs na presença de sua majestade.322

318
AHU_ACL_CU_017, Cx. 41, D. 4203.
319
NIREU, Cavalcanti. Op. cit. p. 38.
320
AHU_ACL_CU_017, Cx. 46, D. 4711.
321
AHU_ACL_CU_017, Cx. 76, D. 6877.
322
Documento também se mostra muito interessante para entender o processo de venda dos escravos
novos naquele período. Idem, p.8.
96

Alegam ainda que “nesta cidade sempre há abundância de escravos e por falta
destes não é que deixam de trabalhar os senhores de engenho, lavradores, roceiros,
moradores e mineiros”, mas sim por não terem “a maior parte deles dinheiro pronto para
os pagar à vista e dificultar-lhes a venda”. 323

Além disto, entrando como entram anualmente de oito até dez mil
escravos é impossível conservando-se o comércio deles sentir-se a falta
ponderada a estrada de escravos com detrimento dos mesmos pondo
sem prática o que por esta conta se pretende. 324

No entanto, a resposta veio somente a partir de nova requisição dos oficiais da


Câmara ao vice-rei e de um abaixo-assinado de 28 moradores da cidade no ano de 1765.
Tais indivíduos se queixavam mais uma vez das desordens cometidas pelos
atravessadores de escravos negros oriundos de Angola e da Costa da Mina, que não
respeitavam as posturas determinadas pelo Senado insistindo em cobrar preços altos pelos
cativos. Segundo os agravantes: “até os tempos passados comprar um escravo por cinco,
e seis (doblas), ao presente se não acha por menos de sete, oito.” 325

Apoiando-se nas declarações que os homens de negócio fizeram ao governador


Gomes Freire em 1752, julgando ser “mais bem entendida e verdadeira informação”, o
vice-rei em sua resposta, demonstra total apoio aos atravessadores e em 23 de junho de
1767, decide finalmente que a Câmara não poderia “impor penas e posturas aos
denominados atravessadores”. Segundo o Conde da Cunha:

o requerimento que os senhores de engenho, e lavradores de cana do


recôncavo desta cidade fizeram ao senado desta Câmara assenta sobre
um principio, e motivo falso, pois que a negam o dano gravíssimo, que
recebiam do exorbitante preço, e carestia a que tinham subido os
escravos que de Benguela, Angola, Costa da Mina, e outros presídios
vinham vender a este porto; e isto se vê que não é verdade, pois que
cada dia com excessivo número de escravatura, que aqui entra, se vai
diminuindo o seu valor; com tal excesso, que muito dos homens, que os
trazem de África os tornam a navegar para os outros portos do Brasil,
por não terem neste saída; e estão sempre tantos por estas ruas pra se
venderem, que não inumeráveis: e se não houvesse os negociantes a

323
Ibidem.
324
Ibidem.
325
Ibidem.
97

que os mesmos suplicantes chamam atravessadores, morreriam todos


os que vem doentes, e magros, pois que estes os não compram os
senhores de engenho, lavradores de cana, e muito menos os mineiros, e
só sim os pobres que deste gênero de negócio vivem, tratando deles, e
curando-os com o maior trabalho: que se proibisse esta útil negociação,
nem haveria quem os fossem resgatar a costa de África, nem se
achariam de venda se não pelos grandes preços, que tiveram nos
tempos em que não havia ainda esta pequena negociação com os que
não tinham valor pelos sobreditos motivos; e perderia a Real Fazenda
de Vossa Majestade a maior parte da utilidade , que tem os Direitos que
os mesmos produzem; pelo que me pareceu, que não havendo prejuízo
nos sobreditos atravessadores, mas sim utilidade comum.326

Tal episódio mostra que, ao especializarem-se na recuperação dos escravos


doentes, os atravessadores passam a ocupar um lugar importante no sistema do lucrativo
tráfico de escravos. De acordo com os homens de negócio, os atravessadores eram muito
convenientes e úteis, posto que ao chegarem ao porto, vendiam rapidamente o dito
“refugo” para esses indivíduos, não tendo que se preocupar com seus custos e com a
mortalidade dos escravos doentes, formando assim “um conjunto necessário e oportuno
327
para a alimentação do ciclo do comércio negreiro.” Dito em outras palavras, os
atravessadores limpavam o terreno comprando os escravos aleijados, velhos e doentes os
reabilitando e viabilizando a sua venda, reduzindo assim os prejuízos do tráfico. Tais
atravessadores se tornaram peritos em recuperar escravos doentes para a revenda a um
valor que compensava os investimentos aplicados nesse tipo de negócio. 328

Além de revelar a frequencia das disputas entre os negociantes e os oficiais da


Câmara em torno da venda de escravos, fica clara na análise desses documentos a
existência de grupos com interesses divergentes. Entre eles encontramos os grandes
negociantes, a Câmara aliada aos senhores, que queriam comprar os escravos por menor
preço, e ainda os atravessadores que vendiam o “refugo”. Atravessadores esses que
incomodavam e que iriam desaparecer com o estabelecimento da venda de escravos no
Valongo, pois com um lugar próprio para a venda de escravos, estes não serão mais
necessários aos traficantes. 329

Dessa maneira, além de revelar a frequencia das disputas entre os negociantes e os


oficiais da Câmara em torno da venda dos escravos, o acontecimento também evidencia
326
Ibidem, p.8
327
CAVALCANTI, Nireu op. cit. p.41 e 141.
328
HONORATO, Claudio de Paula. Op.cit. p.152.
329
Não encontramos nenhuma referência aos atravessadores na cidade do Rio de Janeiro para um período
posterior ao estabelecimento do Valongo no final do século XVIII.
98

mais uma vez a importância do tráfico para o “bem comum” dos moradores da cidade e
para a coroa, devido ao prejuízo que as alterações nas práticas costumeiras daquele
tráfico poderiam causar.

Analisando essa documentação mais de perto, encontramos entre os lavradores de


cana e senhores de engenho que assinaram o abaixo-assinado de 1765 os vereadores:
Frutuoso Pereira, Miguel Cabral de Melo e o procurador da Câmara Dr. Sebastião da
Cunha Coutinho Rangel que em 14 de janeiro 1758 assinam o acórdão do Senado da
Câmara no sentido de deslocar o comércio dos escravos novos para fora da cidade,
principal episódio por nós analisado. Também percebemos que no documento em que os
homens de negócio saem em defesa dos atravessadores em 1752, estão João Hopman,
Manoel Rodrigues Ferreira, Manuel Ferreira Gomes, Francisco Ferreira Guimarães uns
dos 44 comerciantes que contestam o acórdão de 1758; mostrando que as divergências
entre esses indivíduos estavam para além do dito processo.

Sobre o tema dos atravessadores, os procuradores dos negociantes que tentam


embargar o acórdão em dezembro de 1758 alegavam que, mesmo se proibindo o
comércio de escravos na Rua Direita não se extinguiria a existência de tais atravessadores
no interior da cidade e que apesar de não condenarem sua atuação, os embargantes
alegavam que “não eram atravessadores de escravos, mas sim donos e comerciantes dos
mesmos”. 330

Seguindo os rastros deixados por esses indivíduos nas fontes, encontramos esses
vereadores ainda em outros episódios em que mostram sua rivalidade com os homens de
negócio da Praça do Rio de Janeiro. Tais episódios, já mencionados no primeiro capítulo,
envolvem esses indivíduos em torno das discussões sobre o estabelecimento do preço do
açúcar. Em 4 de março de 1752 encontramos Frutuoso Pereira, Felipe Soares do Amaral,
José Pereira da Silva e Domingos Viana de Castro (todos vereadores entre 1758 e 68) na
representação ao Conselho Ultramarino juntamente com 38 senhores de engenho e
lavradores de açúcar em que reclamam contra a lei de fixação do preço do açúcar que,
segundo eles, beneficiaria somente os negociantes. 331

330
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.79v.
331
AHU, doc. 15.512.
99

Os mesmos vereadores aparecem dois anos depois, se apresentando como os


senhores de engenho e lavradores de açúcar que assinam juntamente com a Câmara um
novo requerimento em que repetem as alegações feitas em 1752, mostrando que devido
aos altos custos de manutenção “em poucos anos se seguirá certa e infalível extinção dos
engenhos”.332 Nesse documento encontramos, dentre os 25 reclamantes, Frutuoso Pereira,
333
José Pacheco Vasconcelos, Antônio da Fonseca e Inácio Rodrigues Vieira
Mascarenhas, todos envolvidos na defesa da manutenção do acórdão de 1758.

No que se refere ao perfil desses vereadores, o episódio analisado deixa claro que
os mesmos também eram senhores de engenho ou lavradores de açúcar. Nascido no Rio
de Janeiro e batizado na Freguesia de Irajá, o capitão-mor das Ordenanças da cidade do
Rio de Janeiro Frutuoso Pereira era um dos seis filhos do capitão Antônio Carvalho
Pereira.334 Membro de uma das primeiras famílias da cidade, Antônio Carvalho Pereira
chega ao Rio de Janeiro ainda no seiscentos, e se estabelece na freguesia de Irajá, onde
possuía um engenho de açúcar que deixa de herança a Frutuoso. Tal propriedade já na
segunda metade do setecentos se torna uma importante produtora, sendo citada nas fontes
como uma “grande fábrica” de açúcar.335

Outro vereador que figura na documentação como senhor de engenho é Miguel


Cabral de Melo. Capitão de um dos Terços de Infantaria Auxiliar do Rio de Janeiro, Melo
possuía um engenho de açúcar de mil e duzentas braças de terra no lugar chamado
Engenho da água, em Gericinó, na freguesia de São João de Meriti, no Rio de Janeiro.
Também podemos citar o caso de Sebastião da Cunha Coutinho Rangel, descendente de
um dos primeiros conquistadores – Julião Rangel Macedo que segundo consta, foi
comido pelos índios ainda no século XVI336 –, possuía uma légua de terra em Biriri às
margens do rio Macaé que recebe definitivamente por sesmaria em 1777. 337

Dessa maneira, o perfil desses vereadores do Senado da Câmara se encaixa


naquele da dita “nobreza da terra” descendente dos primeiros conquistadores que
reclamava o poder de mando na cidade. Estes estavam muito interessados na

332
AHU, doc. 17.495.
333
Aparece no dito processo em 1766 como testemunha dos vereadores como veremos a seguir.
334
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.I, p.322.
335
AHU_ACL_CU_017, Cx. 109, D. 9117.
336
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1993, v.III, p.97.
337
AHU_ACL_CU_017, Cx. 102, D. 8746.
100

transferência dos escravos para fora da cidade, pois, como demonstrado, acreditavam que
a transferência reduziria a ação dos atravessadores e consequentemente o preço dos
cativos, e principalmente frearia o crescimento do poder econômico e político dos
homens de negócio na cidade.

Concernente ao prosseguimento do processo de 1758, apesar de todas as tentativas


e argumentações, os procuradores dos negociantes de escravos não conseguem impedir a
conclusão dos autos e sua publicação em 14 de dezembro de 1758. Nesta publicação, fica
confirmada a proibição da comercialização de escravos novos no interior dos muros da
cidade, principalmente na Rua Direita. No entanto, ao que tudo indica, é que apesar de
alguns comerciantes terem se transferido para o Valongo, muitos permaneceram com
suas casas de comércio de escravos no interior da cidade, confiantes em uma resposta
positiva ao seu pedido de recurso ao Tribunal da Relação. 338

Anos depois, em 1766, o Senado volta a publicar o mesmo edital, alegando que
apesar de suas disposições terem permanecido desde 1758 e “os comerciantes daquele
tráfico” não terem alcançado provimento em seu recurso junto ao Tribunal da Relação,
“no decurso dos anos se foram esquecendo sua observância” e naquele momento, ainda
“se encontravam escravos vendidos à porta dos negociantes nas principais ruas da
cidade”, e desta maneira pedem em carta ao rei [D, José] providencias para que tais
determinações sejam obedecidas pelos “comerciantes daquele tráfico”. 339 A única
alteração neste edital (que os vereadores numeram como terceiro) é a inclusão dos
escravos pertencentes a Companhia de Pernambuco e Maranhão.

Não encontrei resposta do rei à solicitação dos oficiais da Câmara do Rio de


Janeiro. Todavia, mesmo com a nova publicação do edital e as sucessivas respostas
negativas, os comerciantes dão prosseguimento ao processo e ainda em 1764 dezesseis
auto-intitulados “homens de negócio da Praça do Rio de Janeiro” – através de novos
procuradores (o advogado Manoel da Silva Soares e o solicitador de causas Manoel da
Silva Cruz) entraram com nova tentativa de embargo ao dito edital.

338
HONORATO, Cláudio de Paula. Op.cit.p.70.
339
AHU_ACL_CU_,Cx.77, D.6951.
101

Tabela 2.2: Lista dos Homens de negócio que assinam nova procuração em 1764

1. Antônio de Oliveira Durão


2. Antônio José Coelho
3. Antônio Lopes da Costa*
4. Domingos Vieira Pinto*
5. Francisco Gouveia de Macedo
6. Francisco Ferreira Gomes
7. Francisco Ferreira Guimarães*
8. Inácio Xavier Salgado
9. João da Costa Pinheiro
10. João Hopman*
11. Joaquim dos Santos*
12. José da Costa de Andrade*
13. José Rodrigues Nunes*
14. Luís Pereira Tavares*
15. Manuel dos Santos Borges*
16. Manuel Rodrigues Ferreira*
Fonte: AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68)
Códice: 6.1.9.
* Negociantes envolvidos com o processo desde 1758.

Nota-se que além do número reduzido de assinaturas – se comparado com a


petição de 1758 –, somente 10 dos 44 homens de negócio permaneceram na tentativa de
embargar o dito acórdão desde o começo do processo. Entretanto, isso não significou que
os mesmos se mostrassem mais enfraquecidos e sem apoio na busca de seu propósito. Em
janeiro 1766, se apresentam em audiência ao juiz inquiridor (o tenente João de Matos
Teixeira) os moradores da cidade do Rio de Janeiro: Manoel Fernandes, João Moreira
Vale, Manuel dos Campos Dias, Francisco Martins de Souza, João Teixeira Guimarães,
Antônio Rodrigues de Carvalho, Antônio de Oliveira Santos, Manuel (...), Manuel
Ferreira Gomes e seu irmão André Ferreira Gomes em defesa dos homens de negócio e
do comércio de escravos.
102

No que se refere ao ofício desses indivíduos, o mesmo se mostra bastante


homogêneo. Com exceção de Manuel Ferreira Gomes que se auto-intitulava “homem de
negócio desta cidade”, todos os outros diziam “viver de seu negócio”. Como já
mencionado, a denominação “que vive de seu negócio” era muito utilizada como
designação de oficio pelos negociantes e mercadores de ofício ou de ocasião. Em relação
aos indivíduos aqui analisados, no decorrer do processo todas essas testemunhas são
chamadas de homens de negócio, não somente pelos procuradores dos negociantes, mas
também pelos escrivães e tabeliães envolvidos, demonstrando a imprecisão de tal
designação e que muitos dos indivíduos que usavam tal alcunha estavam ligados a um
nível mais elevado de comércio. Também encontramos uma diferenciação na designação
desses indivíduos se os acompanhamos em outras fontes.

Manuel Ferreira Gomes e Francisco Martins de Souza eram membros


componentes da Mesa do Bem Comum.340 Como demonstrado, a Mesa do Bem comum
foi uma importante instituição para a consolidação do lugar dos homens de negócio na
cidade. Em seu compromisso estabelecia que: aceitariam entre os seus membros somente
os maiores negociantes da praça da cidade, os ditos de mar em fora.341 Tanto na Mesa do
Bem Comum em 1753 quanto na Junta do Comércio em 1756, Manuel Ferreira Gomes
fez parte da diretoria como secretário. De acordo com Nireu Cavalcanti, os membros da
mesa diretora eram muito considerados pelos seus pares, pois eram vistos como os
“negociantes mais aptos, inteligentes e conhecedores da arte mercantil.” 342 Por isso, não
podemos considerar esses indivíduos apenas como “comerciantes de ocasião.”

Esse quadro se repete se analisamos outras testemunhas. André Ferreira Gomes


era capitão de navio e estava envolvido com o transporte de diversos gêneros como:
aguardente, madeira, anil, escravos entre outros.343 No período entre 1751 e 1776 aparece
na documentação como capitão da Galera Família Sagrada, do navio Nossa Senhora da
Lapa e Correio do Mar, e das charruas São José e Nossa Senhora da Purificação. Já,
Manuel de Campos Dias era “homem de negócio de grosso trato e de cabedais” e
considerado “inteligente, bem procedido e de limpo sangue” pelas testemunhas no

340
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17065.
341
NIREU, Cavalcanti, Rio de Janeiro setecentista... Op.cit. p.203
342
Idem, p.205.
343
ANTT,JT,Mç.104A,Cx98: Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (Lisbon, Portugal) Junta
do Tabaco. In: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces.(12/02/2011 13:40).
103

processo em que foi nomeado Tesoureiro geral da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro
em 1719. 344

Em relação ao local de moradia dessas testemunhas, a maior parte declarou residir


nas ruas Direita, de São Pedro e dos Pescadores. De acordo com o almanaque de Antônio
Duarte Nunes, tais ruas concentravam as casas comerciais da maioria dos negociantes da
cidade, dentre os 127 negociantes de maior nomeada da cidade 94 moravam nessas ruas
ainda em 1794. 345

Analisando seus depoimentos mais de perto, percebemos que as testemunhas


trabalharam ou ainda trabalhavam com o comércio de escravos novos na ocasião em que
prestaram seus testemunhos. Em seus discursos, mostravam serem íntimos conhecedores
de tal comércio ou mesmo declaravam terem se ocupado do dito negócio por muitos anos,
como é o caso de Manoel de Campos Dias e André Ferreira Gomes, mostrando que esses
moradores faziam parte do mesmo grupo dos embargantes e assim como eles, eram
interessados no fim de tal edital.

O teor dos depoimentos era muito parecido, todos respondiam às perguntas com o
mesmo discurso, usando as mesmas argumentações e até as mesmas palavras. Entretanto,
decompor seu conteúdo mais detalhadamente se mostra muito elucidativo para
compreender quais eram as questões que estavam em jogo. Em seu depoimento, Antônio
de Oliveira Santos alegava que,

sabe pelo ver e ter conhecimento desta cidade a 55 anos pouco mais
ou menos que o comércio dos escravos vindo de Angola e de toda a
Costa de Guiné é um dos mais graves de maior ponderação e avultados
comércios e dos mais antigos se que há nesta cidade (e) sempre se
desembarcaram os ditos escravos vendendo-se a porta dos mesmos
comerciantes sem que por esta causa se originasse moléstias ou achaque
algum contagioso.346

344
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 17, D. 3654.
345
NUNES, Antônio Duarte. Almanaque da cidade do rio de Janeiro para o ano de 1794. Revista do
IHGB, vol.266. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1965. Apud: NIREU, Cavalcanti,
Op.cit. p.267.
346
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.114v.
104

Como já mencionado no presente texto, o comércio de escravos africanos torna-se


uma atividade verdadeiramente importante durante o século XVIII. Dessa maneira, as
testemunhas demonstram ter plena noção da importância de tal comércio e o “grande
prejuízo” que a decadência do mesmo causaria para a cidade, devido à contribuição
tarifária que dele advinha. Foi nesse sentido que João Teixeira Guimarães

disse que sabe pelo ver que os ditos escravos tanto nos portos donde
vem como nos portos desta cidade pagam novos direito e demais pagam
dois cruzados de donativo por cada cabeça em lugar do contrato do
tabaco que se acha extinto, com também pagam os mesmos escravos
novos direitos dos que se fazem conduzir para as minas e havendo-se de
se observar o acórdão embargado tudo vira a recair em grande
decadência e mais não disse deste.347

Mais uma vez, nota-se o caráter econômico da argumentação dos negociantes.


Alegavam que tal comércio contribuía para a manutenção do equilíbrio da cidade visto o
prejuízo que o fim de tais negócios poderia significar para os cofres públicos. Assim
como episódio de 1746, analisado no capítulo 1, fica claro o atrelamento entre poder
econômico e a prestação de serviço à coroa, em que a riqueza era utilizada como moeda
de barganha que contribuía para aumentar a capacidade de negociação desses homens de
negócio com a coroa.

Logo, de acordo com os negociantes não apenas os cofres públicos seriam


afetados pelas alterações no comércio de escravos na cidade, mas também o comércio de
outros produtos como as aguardentes e os tecidos asiáticos. Conhecidas como geribitas
em Luanda, as cachaças brasileiras possuíam uma importância equivalente a do fumo que
os baianos utilizavam como mercadoria de troca nos portos da costa da Mina. Muito
apreciadas nas tavernas de Luanda e Benguela e amplamente utilizadas no pagamento das
tropas e milícias, as geribitas foram essenciais para a consolidação dos negociantes
brasileiros no comércio de almas. O baixo custo de transporte e de produção desse
produto favoreceu sua utilização como moeda de troca por escravos nos sertões
angolanos e ainda na década de 1760, transforma o porto do Rio de Janeiro como
responsável por 53% da origem do produto importado por Luanda. 348 Esse produto

347
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.p.106f.
348
Idem, p.346.
105

contribuiu amplamente para que a partir do século XVIII o comércio negreiro passasse
para as mãos dos negociantes brasileiros, em detrimento aos traficantes portugueses, e
transformasse a praça carioca no maior centro de absorção de escravos do país.349 Como
demonstra o depoimento de Antônio Rodrigues de Carvalho em que,

Ao sexto disse que sabe pelo ver que os moradores desta cidade
como os da sua circunvizinhança por se servem com escravos e os
efeitos da terra como são as aguardentes a troco destas vem bastantes
escravos do gentio de Guiné e mais não disse deste. 350

Tais testemunhas mostram que tinham noção da importância do comércio de


escravos para a manutenção dessa produção, e do “grande prejuízo” que poderia causar a
diminuição do tráfico aos “produtos da terra principalmente as aguardentes”. 351

Outro produto fundamental para o tráfico eram os tecidos asiáticos que vinham de
Goa. Tendo como seu principal mercado o Brasil, os chamados “panos de negros” eram
muito utilizados no escambo na Costa africana. De acordo com o testemunho de Manoel
do Campos Dias, muitos dos comerciantes de escravos residentes na Rua Direita tinham
“anexa a si também o negócio de fazendas razão porque não se podem [os] mandar para
fora da cidade”, pois causariam “grandes danos e prejuízos”. 352 Segundo Sampaio, a
demanda por panos transformou o Rio em um entreposto para as naus da Índia, ainda na
primeira metade do século XVIII.353 Tais bens demandavam “um investimento inicial que
354
caracterizava o típico traficante carioca como um grande reexportador.” Por
conseguinte, estamos diante de agentes constantemente ligados ao mercado internacional
não somente ao tráfico de escravos dos portos de Luanda, mas também aos portos
asiáticos.

Por serem todos comerciantes, as testemunhas aprofundam seus argumentos


mostrando conhecer de perto a prática em questão. Deste modo, vão alegar ainda que “os
comerciantes dos escravos estão quase todos situados na rua direita que fica junto à praça

349
Como já demonstrado, importante ressaltar que o protagonismo do traficante carioca no circuito de
homens para o porto do Rio de Janeiro foi favorecido também devido a outros fatores. FLORENTINO,
Manolo Op.cit.p.129.
350
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9 p.111v .
351
Idem, p.110v.
352
Ibidem, p.103f.
353
SAMPAIO, A.C. Jucá de, Op.cit. p.83.
354
FLORENTINO, Manolo Op.cit. p.134.
106

do mar, e por isso com mais comodidade para os despejos, e se lavarem os escravos, e
fazerem as mais operações naturais,” argumentam que essa comodidade “não sucederia
indo para fora da cidade, porque então ficam em maior distância da praia”. 355 Também
reclamavam da dificuldade que tinham para encontrar “caixeiros peritos” que possuíssem
a mesma habilidade dos homens de negócio para atribuir preços, tratar e vender os
escravos “e sendo estes obrigados a conduzirem para fora da Cidade os escravos há de
padecer o dito comercio sendo manifesto o prejuízo não só próprio, mas de todo o povo
de sua Majestade”.356

Em relação à acusação dos vereadores referente à transmissão de doenças pelos


escravos novos, as testemunhas alegavam que por muitos anos tiveram contato com os
ditos cativos, alguns por mais de sessenta anos – como no caso de Manuel dos Campos
Dias – e nunca presenciaram neles “moléstia ou achaque” contagioso e ainda que

chegado que seja ao porto desta cidade alguma embarcação que vem
com escravos do Reino de Angola ou porto de Guiné, antes de
desembarcarem são visitados pela vista da saúde que se faz exato exame
se vêm com achaque algum contagioso e não o trazendo se deixam
desembarcar e por isso não é preciso outra prevenção e mais não disse
deste. 357

A mesma argumentação foi utilizada em mais nove atestados médicos anexados ao


processo pelos embargantes em 25 de Junho de 1766. Entre os médicos, cirurgiões e
físicos que declaravam nunca terem presenciado “moléstias que causassem epidemia ou
mal contagioso” nas casas dos comerciantes de escravos e no resto da cidade, estavam
mais uma vez Francisco Correia Leal e Matheus Saraiva. O último certificava novamente
que

os escravos novos vindos da costa da África e Guiné antes que se


desembarquem para a Alfândega são visitados primeiro pela visita da
saúde, a que eu vou como Médico da saúde por provisão real, para que
no caso, encontre algum mal contagioso se ordene dar-lhes quarentena,

355
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9 p.78v.
356
Idem.
357
Ibidem p.107v.
107

e também mais certifico, que nas casas da minha vizinhança onde há


muitos anos se administram a venderem aos negros escravos, nunca se
observou epidemia nem mal contagioso nos escravos , nem nas famílias
das mesmas casas.358

Os negociantes ainda se valem de uma declaração em que 25 homens de negócio


atuantes na Praça de Salvador que atestavam que naquela localidade, assim como no Rio
de Janeiro, era comum vender escravos novos da Costa da Mina e de Angola nas portas
de suas casas sem que houvesse queixas ou “contradição alguma a este uso geralmente
praticado”. 359

Em contrapartida, para fazer frente à argumentação dos embargantes, no mês de


agosto de 1766 os oficiais da câmara convocam novas testemunhas para sair em defesa da
manutenção do acórdão. Diferente das testemunhas dos negociantes, o perfil dos
indivíduos convocados pelos vereadores se mostra mais heterogêneo, composto por
ourives, alfaiates, cirurgiões, solicitadores de causas e até mesmo negociantes como
Domingos da Cunha Jardim.

Tal heterogeneidade pode indicar a grande gama de relações estabelecidas pela


nobreza da terra naquele período. Segundo João Fragoso, a nobreza da terra sustentava-se
não somente pela descendência dos conquistadores ou pelos cargos na Câmara, mas
também pelas suas redes clientelares. Dessa maneira, era comum que esses vereadores
estabelecessem um emaranhado de redes pessoais “na forma de parentesco, clientela e
amizade” que as legitimavam e a mantinha no poder. 360 Infelizmente não foi possível
encontrar mais registros desses indivíduos que poderiam indicar sua relação direta com
esses vereadores, contudo a ausência da presença de registros desses indivíduos pode
sugerir que eram de esferas subalternas.

Apesar seus depoimentos não se mostrarem tão uniformes quanto das testemunhas dos
embargantes, tratavam praticamente sobre os mesmos temas e utilizavam argumentos
comuns. Nesse quadro, entre as principais declarações desses moradores estavam os
benefícios do dito acórdão para “evitarem várias queixas e moléstias que resulta da
contaminação dos ares” e o “incômodo, perturbação e a inquietação” que causavam a

358
Ibidem p.136.
359
Ibidem. p.134.
360
Sobre o assunto ver: Fragoso Elite das senzalas... Op.cit.
108

presença dos escravos que “andavam ruas públicas desta cidade.” De acordo com o
solicitador de causa Manoel Simplício Correa de Aguiar,

Ao primeiro disse que sabe pelo ver que a postura que pôs o Senado
da Câmara a respeito de não assistirem os negros novos dentro da
mesma cidade, mas sim fora desta nos lugares (sic) é de muito proveito
e utilidade aos moradores da mesma cidade tanto por saberem isentos
de tantos males e moléstias que costuma ocasionar a multidão dos
mesmos negros dentro da mesma cidade como por servem juntos
também dos alaridos e gritaria que faziam os mesmos negros quando
iam juntos pelas ruas públicas desta cidade, e, além disto, os lugares que
se acham destinados pelas mesmas posturas para assistência dos ditos
escravos servem também de utilidade aos mesmos moradores da cidade
aos donos destes tanto se poderem os ditos escravos lavar mais
comodamente nas praias e lagoas remotas da mesma cidade sem
passarem pelas ruas publicas dela causando tédio aos seus moradores
pelo mau cheiro ou bafo que de se lançam como também pelos
compradores estarem certos da paragem onde hão de procurar os ditos
escravos tendo os donos destes mais conveniência a assistência deles
naqueles lugares nas casas mais não disse.361

Assim como na argumentação dos advogados e testemunhas dos negociantes, o bem


comum estava no centro do discurso das testemunhas dos vereadores. Como já
mencionado, tais formas de pensar demonstram a racionalidade que estava em vigor
naquele momento, em que a busca pelo bem comum era um dos conceitos que
informavam o funcionamento do tecido social em que esses indivíduos estavam inseridos.
Dessa forma, realçar o caráter coletivo dos benefícios que a mudança desejada pelos
vereadores poderia causar na comunidade se torna uma estratégia no discurso não só das
testemunhas, mas, sobretudo dos procuradores e advogados dos vereadores.

Em 26 de novembro de 1766 novos agentes entram em cena. Vinte e quatro moradores


assinam abaixo-assinado em que denunciam a permanência da “venda dos referidos
escravos dentro da cidade nas casas dos donos e administradores deles, publicamente em
suas portas como antes costumavam fazer.” 362 Apesar de no processo não se referir ao
ofício desses moradores, perseguindo seus nomes em outras fontes percebemos que, com
exceção de três indivíduos, dos quais não conseguimos identificar o nome completo
devido ao mal estado do documento, todos os restantes puderam ser identificados como
“homens de negócio.”

361
Ibidem, p.162.
362
Idem, p.145f.
109

Tabela 2.3: Lista dos negociantes presentes no abaixo-assinado de 1766

1. João da Rocha dos Santos


2. Antônio de Souza Lage
3. Antônio Pinto de Miranda
4. Bento Esteves de Araújo
5. Bernardo Gomes Costa
6. Brás Carneiro Leão
7. Caetano da Silva Matos
8. Domingos Mendes de Souza
9. Frain(...) (...) da Cruz
10. João Moreira Vale
11. Francisco Lopes de Souza
12.João Antunes de Araújo Lima
13. João Gonçalves Leite
15. João Vás Caldas
16. Joaquim José das Neves
17. José Antônio Ferreira
18. Leandro da Costa L(...)
19. Luís Antônio de Miranda
20. Manuel de Macedo
21. Manuel Vaz Carneiro
22. Miguel de Alvarenga Braga
23. Paulo Santos (...)
24. Pedro Martins Duarte
AGCRJ: Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68)
Códice: 6.1.9

O apoio de tais negociantes passou a ser utilizado como principal argumento para
que os procuradores dos vereadores alegassem que os embargantes não passavam de
“meia dúzia de homens de negócio desta praça” e que o prejuízo com a transferência do
comércio de escravos seria particular, somente desses poucos homens, e não de todo o
povo como o demonstrado por suas testemunhas.

Sobre o tema, o procurador dos embargantes no período, Manuel da Silva Soares


além de alegar que tais argumentos são apenas uma “fabulosa quimera”, as suas
testemunhas eram “em maior número e com mais crédito por que são homens de negócio
110

que entendem destas utilidades ou prejuízos” que tal edital poderia causar para aquela
cidade. 363

O exposto pode sugerir que existiam divergências no interior do grupo de homens de


negócio da Praça do Rio de Janeiro e que o mesmo não era homogêneo. Entretanto,
acreditamos que antes de prosseguimos com qualquer afirmação se faz necessário
analisar mais de perto algumas trajetórias o que nos possibilita entender que esse quadro
é muito mais complexo.

Dentre os homens de negócio que assinam abaixo-assinado em 1766, se encontram os


comerciantes mais atuantes e ricos da segunda metade do século XVIII. Entre eles está o
administrador da Alfândega do Rio de Janeiro, Antônio Pinto de Miranda.

Miranda fora um dos principais negociantes de grosso trato do Rio de Janeiro. Nascera
na freguesia de Cristóvão de Nogueira, Bispado de Lamego e chega ao Rio de Janeiro já
nas primeiras décadas do setecentos. 364 No ano de 1752 consegue um empréstimo da
Santa Casa de Misericórdia no valor de 6 contos de réis, de onde viria a ser provedor
entre 1771-1772. Em 1753 aparece como terceiro deputado da Mesa do Bem Comum e
posteriormente da Junta do comércio em que também participou da diretoria como
segundo deputado. Já em 1760 possuía uma fortuna de 30.000 cruzados quando é
nomeado familiar do Santo ofício e três anos depois capitão dos Moedeiros da praça do
Rio de Janeiro. 365 Em 1765 recebe a confirmação da carta de sesmaria que o dava posse
de uma fazenda na barra do Rio Piraí na freguesia de São João Marcos, atual município
do Rio Claro, em que criava gado, mostrando que Antônio se preocupou em diversificar
seus negócios. 366 No mesmo ano é finalmente designado para ser o administrador da
Alfândega do Rio de Janeiro. Antônio também atuou como procurador de casas
comerciais estrangeiras como as companhias italianas José Biggi & Cia e Felix Recco.
Segundo Carlos Gabriel Guimarães e Fábio Pesavento, Antônio Pinto de Miranda foi um

363
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9 p.166F.
364 ACMRJ. Cx.2513 Doc. 1052.
365 (ANTT,Habilitações do Santo Ofício – maço 136, doc.2257.Inquisição de Lisboa). Apud:
GUIMARÃES, Carlos Gabriel, PESAVENTO, Fábio. Os contratadores e os contratos do Rio de Janeiro
colonial, 1769-1779: estudo de uma sociedade mercantil. Artigo
http://www.usp.br/feaecon/media/fck/File/CGGuimaraes_Contratadores.pdf.
366
AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6669.
111

grande contratador da cidade, se destacando como um dos principais arrematadores, tanto


em quantidade de contratos arrematados quanto nos valores dos mesmos.367

A arrematação de contratos era uma tradicional prática das monarquias européias


no Antigo Regime que fora transferida para a colônia e consistia em contratos firmados
entre a coroa e particulares que ficavam responsáveis por cobrar impostos em nome da
coroa. Era estabelecido previamente um valor para o contrato e o seu excedente
significaria o lucro do arrematante. Todavia, segundo João Fragoso, quando a função de
arrematante era desempenhada por um negociante, “permitia-lhe reforçar sua posição
monopolista no mercado”. Ou seja, poderia utilizar de sua posição legal de erário publico
para beneficiar-se. 368

Jorge Miguel Viana Pedreira, ao estudar os principais negociantes portugueses da


Praça de Lisboa, chama atenção para a importância de tal designação social.
Normalmente o período dos contratos durava 3 anos, em que poderia usar “de todos os
privilégios que lhe são concedidos pelas Ordenações do Reino, e Regimentos da Fazenda,
[...], dando se lhe pelo Governador toda a ajuda e favor que for lícito e justo”, dentre
outras regalias. 369 Dessa maneira, ser contratador consistia numa diferenciação muito
importante, significava para o negociante estar no topo da hierarquia no interior do grupo
mercantil. 370

Analisando a tabela abaixo, dentre os principais contratadores atuantes na cidade


do Rio de Janeiro entre 1750 e 1770, além de Antônio Pinto de Miranda também
encontramos no processo aqui analisado: Francisco Lopes de Souza, João Antunes de
Araújo Lima, Miguel de Alvarenga Braga, José Caetano Álvares, Francisco Pinheiro
Guimarães, Agostinho de Faria Monteiro, Antônio Lopes da Costa e Bernardo Gomes da
Costa.

367
GUIMARÃES, Carlos Gabriel, PESAVENTO, Fábio. Os contratadores e os contratos do Rio de
Janeiro colonial, 1769-1779: estudo de uma sociedade mercantil. Artigo
http://www.usp.br/feaecon/media/fck/File/CGGuimaraes_Contratadores.pdf..
368
Ver: FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de Grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça
mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1992. p.326
369
ANRJ: Vice-Reinado Códice: 495, p.3
370
PEDREIRA, J. M. V. Op. cit. p.65.
112

Tabela 2.4. – Principais contratadores do Rio de Janeiro: 1750-1770.

Negociantes Nº de Nº de Total (contos de réis)


Sócios* contratos
Bernardo Gomes Costa 6 15 952
André Pereira de Meireles 10 10 661
Anacleto Elias da Fonseca 6 12 472
Simão Gomes Silva 6 6 281
Antônio Lopes da Costa 10 6 277
João Antunes de Araújo Lima 5 5 194
Lourenço Ferreira Ribeiro 5 4 108
Miguel de Alvarenga Braga 5 4 108
Francisco Ferreira Rocha 5 4 108
Lourenço Fernandes Viana 11 4 104
José Caetano Álvares 11 5 104
Antônio Pinto de Miranda 11 4 104
Manoel da Costa Cardoso 11 4 104
Francisco Pinheiro Guimarães 11 4 104
Francisco José dos Santos 11 4 104
Francisco Lopes de Sousa 11 5 104
Antônio Leite Pereira 11 4 104
Agostinho de Faria Monteiro 11 4 104
Pedro Correa Lima 11 4 104
Fonte: Adaptação. PESAVENTO, Fábio, Um pouco antes da Corte: a economia do Rio de
Janeiro na segunda metade do Setecentos. p.141. 371 * Média por contrato.

Como algumas trajetórias já foram esboçadas no decorrer do trabalho (como


Agostinho de Faria Monteiro e José Caetano Álvares), optamos por concentrarmos nosso
estudo nos seguintes negociantes e contratadores que nos possibilitará entender melhor

371
Os autor considera como principais contratadores aqueles que possuíam 4 ou mais contratos.
GUIMARÃES, Carlos Gabriel, PESAVENTO, Fábio. Os contratadores e os contratos do Rio de Janeiro
colonial, 1769-1779: estudo de uma sociedade mercantil. Artigo
http://www.usp.br/feaecon/media/fck/File/CGGuimaraes_Contratadores.pdf.
113

essas relações. São eles: Antônio Pinto de Miranda, Bernardo Gomes da Costa e Antônio
Lopes da Costa, presentes na documentação juntos em diversas sociedades.

Bernardo Gomes Costa foi o contratador com o maior número de arrematações


durante a segunda metade do setecentos, figurando como arrematante em nada menos de
15 contratos. Tais contratos eram dos mais diferentes tipos como: contrato de aguardente
do Reino e Ilhas, contrato das passagens dos rios Paraíba e Paraibuna e dos direitos dos
escravos despachados para as Minas, todos arrematados em 1768 em que somvam
94:380$000.372 Bernardo foi cavalheiro da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício e
capitão de navio, não sabemos ao certo quando foi que chegou ao Rio de Janeiro, mas em
1756 já atua na cidade como outorgado em cobranças para negociantes de Lisboa.373E em
1766 recebe uma sesmaria no sertão da freguesia de São João Marcos, em “cercanias do
rio Piraí, no caminho para a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre,
capitania do Rio de Janeiro”. 374 Bernardo também aparece na documentação em 1748
como procurador de Agostinho Faria Monteiro que está presente como embargante em
1758.

Capitão de navio Nossa Senhora do Carmo, São Domingos e São Francisco e


cavalheiro da Ordem de Cristo, Antônio Lopes da Costa é nomeado porteiro e guarda da
Alfândega do Rio de Janeiro em 1747. 375 Assim como Antônio Pinto de Miranda,
participou das declarações com que se estabeleceu a Mesa do Bem Comum do Comércio
da cidade do Rio de Janeiro em 1753 e foi nomeado o oitavo deputado quando a Mesa foi
substituída pela Junta do Comércio três anos depois.376 Antônio Lopes também aparece
como procurador de vários homens de negócio lisboetas, britânicos, franceses e alemães.
Além disso, estava envolvido com outras atividades como o comércio de tecidos com a
Índia e com a plantação e fabricação de arroz na capitania fluminense. 377

Se analisarmos mais atentamente as tabelas onomásticas apresentadas nesta


pesquisa, encontraremos Antônio Lopes como um dos embargantes do edital de
transferência dos escravos novos da Cidade, tanto na abertura do processo em 1758,

372
AHU_ACL_CU_017, Cx. 86, D. 7595, AHU_ACL_CU_017, Cx. 86, D. 7596 e AHU_ACL_CU_017,
Cx. 86, D. 7595. Respectivamente.
373
GUIMARÃES, Carlos Gabriel, PESAVENTO, Fábio. Os contratadores e os contratos do Rio de
Janeiro colonial, 1769-1779: estudo de uma sociedade mercantil. Artigo
http://www.usp.br/feaecon/media/fck/File/CGGuimaraes_Contratadores.pdf.
374
AHU_ACL_CU_017, Cx. 77, D. 6991.
375
AHU_ACL_CU_017, Cx. 40, D. 4107.
376
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17065.
377
GUIMARÃES, Carlos Gabriel, PESAVENTO, Fábio. Op.cit.
114

quanto dando seu prosseguimento em 1764, e dessa forma em lado oposto ao de Antônio
Pinto de Miranda e Bernardo Gomes da Costa. Os nomes de Miranda e Antônio Lopes
também aparecem juntos, em outros processos. Em 1752 assinam uma representação
juntamente com outros comerciantes da cidade reclamando dos problemas existentes na
alfândega, principalmente da precariedade de seu prédio e dos furtos que lá ocorriam
frequentemente.378 Um ano depois, em outubro de 1753 aparecem ao lado de 124 homens
de negócio em representação sobre o carregamento de fazendas de navios que se
encontram retidas na Alfândega sem poder partir, causando prejuízo aos negociantes. 379
Casos como desses dois indivíduos vão se repetir frequentemente nas fontes.

Também, podemos encontrar Antônio Pinto de Miranda em outros tipos de


sociedade com indivíduos envolvidos no processo. De acordo com Guimarães e
Pesavento, em 1769 o negociante forma sociedade em uma fábrica de linho cânhamo com
Domingos Lopes Loureiro, Manoel Luis Vi eira, Antonio de Oliveira Durão e Francisco
Pinheiro Guimarães.380

Antônio de Oliveira Durão aparece em diversas fontes ao lado de Antônio Pinto


de Miranda. Durão foi o tenente da fortaleza de Santa Luzia do Rio de Janeiro381, possuía
uma chácara situada em Indaraí, na freguesia de São Francisco Xavier do Engenho
Velho382, no recôncavo do Rio de Janeiro e, assim como Miranda, foi deputado da Mesa
do Bem Comum e da Junta do Comércio. Em novembro de 1756 aparecem juntos como
procuradores do “Cabildo da real casa da moeda do Rio de Janeiro” em um requerimento
ao rei, solicitando a nomeação de novos moedeiros, posto que “parte dos moedeiros
matriculados naqueles serviços estariam impossibilitados de exercer suas funções, por
motivo de doença ou idade avançada.” 383 Os mesmos também estão juntos em várias
procurações de Minas para o Rio de Janeiro, dentre as 9 escrituras em que Antônio de
Oliveira Durão se apresenta como procurador no período de 1736 a 1749, em 4 delas está
acompanhado de Antônio Pinto de Miranda.384 Ainda em 1755 em procuração da Mesa

378
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 78, D. 18041.
379
AHU doc.16.201.
380
Analisando a documentação que mapeia as fábricas existentes no Império português até 1801, Nireu
Cavalcanti demonstra que dentre as 4 fábricas de tecido que continuaram funcionando no Brasil após do
alvará de proibição das manufaturas e teares na América portuguesa em 1785 a única que permaneceu
funcionando no Rio de Janeiro tinha entre seus proprietários Antônio Pinto de Miranda.
381
AHU_ACL_CU_017, Cx. 88, D. 7741.
382
AHU_ACL_CU_017, Cx. 114, D. 9385.
383
AHU_ACL_CU_017, Cx. 51, D. 5117.
384
ACSM, Livro.61. 3/1749 p. 153F, ACSM, Livro.62. 8/1749 p. 108V. ACSM, Livro.59. 10/1746 p.
104F. ACSM, Livro.59. 1/1748 p. 156F.
115

do bem Comum, juntamente com Manuel Ferreira Gomes, fazem requerimento ao


governador pedindo o atraso na partida da frota de navios para Lisboa, pois não
conseguiriam dar conta dos preparativos até a data de sua partida.385 Ao que tudo indica,
possuíam relações para além das sociedades mercantis. Em 1760, em ocasião do processo
de familiatura de Antônio Pinto de Miranda, Antônio de Oliveira Durão aparece entre as
testemunhas levantadas na cidade do Rio de Janeiro. Em seu depoimento alega que
conhece “pelo ver, tratar, serem vizinhos e amigos há 18 anos.” 386
É importante salientar que relações como essas, em que entre os homens de
negócio do Rio de Janeiro aparecem como procuradores de um mesmo outorgante, em
sociedades ou em defesa de causas comuns se repetem inúmeras vezes nas fontes.
Podemos citar ainda os exemplos de João Francisco Guimarães e Baltazar dos Reis,
ambos homens de negócio embargantes em 1758, aparecem ao lado respectivamente de
Antônio Pinto de Miranda e de Agostinho Faria Monteiro em 1749 em procurações de
outorgantes de Minas para o Rio de Janeiro. 387

Tais dados mostram que esses indivíduos estavam inseridos em redes sociais
claramente estabelecidas por várias transações comerciais. Como já exposto no presente
trabalho, acreditamos que a relações comerciais estavam pautada não somente em
relações econômicas, mas em redes sociais baseadas principalmente na confiança. Este
era um critério essencial para um indivíduo inserir-se em uma rede de negócios. Antes de
qualquer transação o indivíduo, precisava possuir alguns pressupostos que dessem
segurança aos outros (títulos, relações pessoais), ou seja, deveriam possuir algum tipo de
reconhecimento social. Dessa forma, como ressalta Antônio Manuel Hespanha e Ângela
Barreto Xavier, numa sociedade de Antigo Regime, não podemos separar redes sociais e
redes de negócios, posto que “obedeciam a uma lógica clientelar, como a obrigatoriedade
de conceder mercês aos „mais amigos‟, eram situações sociais quotidianas e
corporizavam a natureza mesma das estruturas sociais, sendo, portanto, vistas como a
norma.” 388

Neste quadro, segundo a norma o acesso aos circuitos mercantis era pautado nas
relações sociais e nas amizades. Todavia, acreditamos que o processo analisado referente
à transferência dos negros novos para fora da cidade vem elucidar que apesar de

385
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 80, D. 18464-18466.
386
PESAVENTO, Fábio. Op. cit. 147
387
ACSM, Livro.62. 3/1749 p.54F, ACSM, Livro.62. 5/1749 p. 60V.
388
XAVIER, Â. B. & HESPANHA, A. M. Op. cit. p. 339.
116

constituírem uma mesma comunidade, esses homens de negócio poderiam agir conforme
os seus interesses mais restritos. Logo, apesar de possuírem vínculos e estarem inseridos
em uma mesma rede social esses indivíduos se posicionam em lados opostos no dito
processo. Isso mostra que tais negociantes não formavam um grupo monolítico fechado,
podendo traçar estratégias para melhor atender seus objetivos.

É preciso esclarecer que com tal hipótese não pretendemos insinuar que esses
indivíduos passaram a agir com base em uma “racionalidade individualista”, mas sim que
tal sociedade não era um sistema ordenado ou somente um agregado de relações sociais,
mas sim fruto de um processo dinâmico interpretado e construído constantemente “ele
não é transparente, objetivo ou inconteste.” 389 Sendo assim, como nos ensina Fredrick
Barth, o que chamamos de sociedade constitui-se de “sistemas desordenados,
caracterizados pela ausência de fechamento”.390 Dito de outra forma, a sociedade não é
formada por um conjunto de normas imutáveis e duras que condicionam a vida dos
indivíduos, ela é aberta e desordenada e admite transformações. E para compreender
como este sistema desordenado funcionava, Barth nos mostra a importância de prestar
atenção na estrutura da ação social.

Nesse sentido, o que nos mostra o episódio da oposição entre os negociantes no


conflito em relação à transferência do comércio de escravos, é que as normas em si
mesmas não determinam totalmente o comportamento. 391 Inserido na sociedade ele
conhece seus códigos de conduta, interpreta os valores que “definem o conteúdo daquilo
que, para os agentes, representa ganhos ou perdas” e reconhece certos limites que
permitem elaborar estratégias que lhe proporcionem a maneira mais propícia para atingir
seus objetivos. 392 Dessa forma, as redes em que tais negociantes estavam inseridos
possuíam um caráter próprio, eram fortes e frouxas ao mesmo tempo, fortes para dar
sustentação as suas transações e frouxas para possibilitar a movimentação naquela
sociedade. 393

389
BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra-Capa,
2000, p. 167.
390
Idem, p.173.
391
Ibidem, p.22.
392
ROSENTAL, Paul-André. “Fedrik Barth e a microhistória”. In:REVEL, Jacques (org). Jogos de
escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998. p.159
393
FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. “Nas rotas da governação portuguesa: Rio de Janeiro e
Costa da Mina, séculos XVII e XVIII”. In: FRAGOSO, João, ALMEIDA, Carla; SAMPAIO, Antônio C.
J. (org.). Nas rotas do Império. Rio de Janeiro: Edufes, 2006, p.66.
117

O processo de transferência do comércio de escravos para o Valongo, teve


394
“desfecho” somente em 20 de Abril de 1768 com a decisão do Juiz de Fora e
Presidente do Senado da Câmara Jorge Boto Machado Cardoso dando parecer favorável
aos negociantes. Machado alegava que o comércio de escravos novos era um dos mais
“avultados negócios desta praça” e que os seus responsáveis “sempre os tiveram nas
mesmas casas em que vivem” cuidando dos mesmos “com toda a limpeza e cautela” e
como a transferência do comércio para fora da cidade proporcionaria um gravíssimo e
considerável prejuízo aos negociantes, ao bem comum e à Majestade. 395 E, portanto,
determina que os comerciantes tenham liberdade para manter seus escravos em suas
próprias casas reconhecendo assim os serviços prestados por tais negociantes para a
cidade e para a coroa.

Vale observar, que ao longo dos 10 anos de disputas, em nenhum momento


encontramos a interferência do governador da cidade no processo sobre a transferência do
comércio dos escravos, mesmo analisando a correspondência entre o vice-rei e a Câmara
no período, não encontramos nenhuma citação ao ocorrido. Também não observamos
nenhuma resposta à carta dos camaristas ao Conselho Ultramarino em 1766 sobre o
assunto. Apesar de os procuradores dos negociantes em 1758 apelarem ao Tribunal da
relação argumentando que o acórdão não era legítimo, pois não possuía despacho do
governador, a decisão final coube ao Juiz de fora.396 Tal quadro mostra a autonomia da
Câmara e sua importância na tomada de decisão em assuntos de extrema relevância para
o cotidiano da cidade ainda em meados do setecentos.

A intervenção do governador ocorrerá somente em 22 de Abril de 1774, quando o


vice-rei marquês do Lavradio lança edital transferindo definitivamente o comércio de
escravos novos para a região do Valongo, onde permaneceu até o fim do tráfico negreiro.
Dessa maneira, apesar de ao longo da década de 1760 o próprio grupo dos homens de
negócio não ser homogênio e possuírem divergências em relação ao local mais indicado
para a fixação do mercado de escravos; os negociantes embargantes ao edital de 1758
conseguem adiar a transferência da venda de escravos para o Valongo por quase duas
394
É possível encontrar registros de negociantes reclamando a manutenção da venda de escravos na Rua
direita até as primeiras décadas do século XIX. AGCRJ 6.1.23 p. 97.
395
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9 p.170v.
396
Segundo Graça Salgado o Juiz de fora “funcionários letrados diretamente designados pelo rei para
servir nos municípios, e desde então os oficiais mais importantes das Câmaras”. SALGADO, Graça
(coord.). Fiscais e Meirinhos: A Administração no Brasil colonial. 2ª ed., Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1985, p. 80.
118

décadas, o que mostra que cada vez mais esses homens de negócio passam a interferir nas
decisões políticas da esfera local.

O poder econômico desses negociantes vai fazer com que os mesmos aos poucos
consigam alcançar seus interesses e poder político na cidade, poder esse que é
consolidado anos depois quando alguns desses homens de negócio – como Antônio
Lopes da Costa (1769), José Caetano Álvares (1771), Miguel de Alvarenga Braga (1772),
Brás Carneiro Leão (1773), Antônio José Coelho (1775) e João Antunes de Araújo Lima
(1775) dentre outros envolvidos no processo – vão aparecer na documentação como
vereadores da Câmara do Rio de Janeiro.

Todos esses negociantes estavam entre os mais ricos e poderosos da cidade. José
Caetano Álvares e Brás Carneiro Leão, 397como afirmado, aparecem listados pelo Conde
de Resende em 1799 como homens “mais notáveis da praça do Rio de Janeiro.” Segundo
Nireu Cavalcanti, Carneiro Leão era o “mais rico de todos” os homens de negócio da
cidade.398 Quando faleceu em 1808 sua fortuna líquida era de 1:500:000$000 (um mil e
500 contos de réis), superior ao capital acumulado para a fundação do Banco do Brasil no
ano seguinte que era de 1:200:000$000 (um mil e 200 contos de réis).399

Assim, fica evidente que ao longo das últimas décadas do setecentos, o Rio de
Janeiro passou por um processo em que houve uma consolidação não só da presença
econômica, mas a um crescimento da intervenção política dos negociantes nessa
sociedade. Somente na década de 1770, o número de negociantes que ocupam cargo de
vereador na Câmara sobe para 16, contra somente 4 na deca da anterior.

A disputa travada entre a Câmara e os homens de negócio evidencia uma


consolidação da distinção e oposição de interesses entre elite mercantil e elite agrária,
principalmente no que tange à segunda metade do século XVIII. Entretanto, é essencial
entendermos até que ponto podemos considerar essa posição como padrão estabelecido
nessa sociedade.

Dessa maneira, em uma sociedade de Antigo Regime em que as redes eram


formadas não somente por laços econômicos, mas, sobretudo pelo parentesco e clientela;
se faz necessário uma análise mais aprofundada dos padrões de alianças e das redes

397
Trataremos mais detalhadamente da trajetória de Brás Carneiro Leão no Capítulo 3.
398
CAVALCANTI, Nireu. Op.cit. p.76 e 82.
399
FRAGOSO, João Luis Ribeiro. Homens de Grossa Aventura... pp.354-335.
119

relações estabelecidas por esses indivíduos. Nesse sentido, a partir do próximo capítulo
procuraremos seguir a sugestão de João Luis Ribeiro Fragoso e procurar “saber, de
maneira refinada, quais foram os meandros destes processos”. 400

400
FRAGOSO, J. L. R. FRAGOSO João Luís Ribeiro. “Afogando em nomes: temas e experiências em
história econômica.”In: Topoi: Revista de História. Rio de Janeiro, vol. 5, 2002, p.62.
120

Capítulo 3

Para além da praça mercantil: laços de parentesco e alianças matrimoniais.

A análise do episódio da transferência de escravos para o Valongo no capítulo


anterior, mostra que na segunda metade do setecentos houve uma consolidação das
disputas e distinções de interesses entre os homens de negócio e uma elite senhorial que
estava presente nos principais cargos conselhios da capitania fluminense. Entretanto, é
essencial entendermos até que ponto nós podemos considerar essa posição como um
quadro já consolidado nessa sociedade.

Também constatamos, através de algumas trajetórias esboçadas, que não se


tratavam de grupos fechados e que esses comerciantes estavam inseridos em redes
maleáveis que os permitiam traçar as estratégias que melhor os favoreciam. Como
demonstrado, tais redes eram estabelecidas principalmente através de relações mercantis.
Todavia, é importante ter em mente que estamos diante de uma sociedade de Antigo
Regime, ou seja, em que as relações de mercado eram restritas características de
economias não-capitalistas. 401 A sociedade não era baseada em uma economia auto-
reguladora, mas pelas relações sociais, principalmente estabelecidas através de laços de
parentesco, amizade e clientela. Dessa maneira, é necessário analisar como se davam tais
relações, e é nesse sentido que observar as estratégias familiares traçadas pelos mesmos
nos é fundamental.

3.1. – Estratégias matrimoniais: entre famílias e negócios

Analisando a formação da comunidade mercantil carioca na primeira metade do


setecentos, através do estudo das estratégias matrimoniais e alianças políticas, Sampaio
demonstra que no seiscentos não havia uma clara diferenciação entre elite mercantil e
elite agrária, mostrando que eram frequentes alianças estabelecidas pelos negociantes e
nobreza da terra através do matrimônio.

Entre as trajetórias citadas pelo autor, está a do comerciante Salvador Viana da


Rocha, que se casa com D. Antônia Correia do Amaral, inserindo-se “numa das mais
poderosas famílias do Rio de Janeiro, a Gurgel do Amaral, presente na capitania desde o

401
FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Op. Cit. p.131.
121

século XVI.” 402 Dessa forma, a partir da análise de uma série de casos como esse, o autor
acredita que no período, esses negociantes visavam crescimento não só econômico, mas
social a partir do estabelecimento de enlaces matrimoniais com nobreza da terra.

Entretanto, as mudanças ocorridas na primeira metade do século XVIII na


capitania fluminense tende a alterar esse quadro. Analisando o padrão das trajetórias
matrimoniais dos negociantes atuantes na praça carioca ao longo do século XVIII,
Sampaio aponta para um novo padrão: uma independência em relação à nobreza da terra,
posto que tal nobreza cada vez mais se fechava para casamentos exogâmicos. Assim, a
tendência desses negociantes era o casamento endógeno ou com mulheres de segmentos
mais baixos da sociedade.

Estudando os ofícios dos sogros dos homens de negócio do Rio de Janeiro e a


frequência de casamentos, Sampaio mostra uma clara disposição para a endogamia no
interior desse grupo. Daqueles que casaram entre o final do XVII e meados do XVIII, 1/3
homens de negócio tinham como sogros comerciantes e homens de negócio. Esse padrão
fica mais claro quando são considerados outros três grupos ligados ao comércio: os
contratadores, os mercadores e os trapicheiros; 403 fazendo com que a porcentagem de
casamentos endogâmicos no interior desse grupo suba para mais de 50%. Como na
maioria das fontes o destaque dado à elite é muito maior ao conferido a camadas
inferiores da sociedade, é importante ressaltar que por muitas vezes um comerciante de
pequeno porte (atacadista ou varejista) não tinha seu ofício citado, o que torna esse
número ainda mais significativo. 404

Um exemplo desse quadro é a trajetória de João Lopes. Patrão-mor do Rio de


Janeiro e homem de negócio desta praça, casa-se em 1717 com Brígida de Macedo, filha
de Antônio Lopes de Macedo e Maria da Costa. Apesar de não possuirmos mais registros
sobre o ofício de seu sogro, a análise da sua estratégia familiar se mostra muito
elucidativa.

Segundo Carlos Rheingantz, Brígida e João Lopes tiveram sete filhos (seis
mulheres e um homem), porém somente três de suas filhas possuem casamentos

402
SAMPAIO, Antônio C. J. de Famílias e negócios.. Op. cit. p.237.
403
Em relação a esses ofícios Sampaio ressalta que a nomenclatura é muitas vezes imprecisa, não se deve
entendê-los como grupos mercantis inferiores. Muitos mercadores, eram extremamente ricos. SAMPAIO,
Antônio C. J. Famílias e negócios.. Op. cit. p. 244.
404
Idem, p.248.
122

registrados, todas com homens de negócio.405 A primeira filha do casal, Maria Teresa de
Assunção casa-se com o negociante José Francisco dos Santos, que fora negociante
atuante na cidade, contratador dos direitos de escravos que vão para Minas e familiar do
Santo Ofício.406 Interessante notar que esta incorporação de novos negociantes à família
vai ocorrer ao longo de todo século XVIII e início do XIX, pois encontramos
matrimônios com homens de negócio até a quarta geração. Como exemplo disso,
podemos citar o matrimônio entre Maria Tereza de Jesus (neta de José Francisco dos
Santos e bisneta de João Lopes) e Francisco Xavier Pires, um dos homens de negócio
mais ricos da cidade listado pelo Conde de Resende em 1799.407

Como mencionado, tal padrão se repete com as demais filhas de João Lopes. Dona
Francisca Antônia de Assunção se casa em 1750 com o homem de negócio, sexto
deputado da Mesa do Bem Comum do Comércio e posteriormente da Junta do Comercio
Brás Gonçalves Portugal. Este por sua vez, também casou suas duas filhas com homens
de negócio. No caso, o capitão Antônio Ribeiro de Avelar que se casa em 1774 com
Antônia Maria da Conceição; e o negociante Antônio dos Santos, 408 que contrai
matrimônio com Francisca Maria da Conceição em 1743.409 Já a terceira filha de João
Lopes, Inácia da Assunção, fora a primeira esposa de Agostinho de Faria Monteiro,
negociante que participa ativamente processo de transferência dos escravos para o
Valongo, por várias vezes citado no capítulo anterior. 410

Nascido na Freguesia de São Julião, Acerbispado de Lisboa, e filho do mercador


Manuel de Faria Monteiro, Agostinho se casa por mais duas vezes: em 1752 com
Sebastiana da Fonseca, filha de Justo Fernandes (de quem não temos maiores
informações) e em 1773 com Maria Rosa do Nascimento, filha de Antônio da Silva

405
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.2, p.437.
406
Banco de Dados. A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas econômicas
no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
407
ANRJ: Correspondência dos vice-reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo de Souza
Coutinho. Códice: 68, volume 15, 1799. p. 324.
408
Apesar de não participar diretamente como embargante, Antônio dos Santos é citado por várias vezes
em atestados dos médicos que testemunham a favor dos negociantes como Dr. Bernardo Gomes da Costa
que diz ter “assistido na casa de Antônio dos Santos e não ter encontrado mal contagioso entre os
escravos.” AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68)
Códice: 6.1.9.
409
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.2, p.438.
410
Agostinho se casa com Inácia em 1743. ACMRJ. Cx.1244 Doc. 7992.
123

Borges, homem de negócio da Praça do Rio de Janeiro atuante no primeiro quartel do


setecentos.411

Apesar de não temos referências sobre o ofício de Justo Fernandes, segundo sogro
de Agostinho de Faria Monteiro, é sobre seus descendentes que possuímos mais notícias.
Ao longo do setecentos, Fernandes consegue casar suas duas filhas com homens de
negócio. Além de Sebastiana da Fonseca, casa sua filha mais nova Antônia Teresa de
Jesus com Domingos Vieira Pinto em 1748, mostrando uma clara preferência de Justo
Fernandes e sua esposa Teresa da Fonseca por genros negociantes.

Dessa maneira, Agostinho de Faria Monteiro é cunhado do capitão Domingos


Vieira Pinto, que além de atuar como embargante no edital de transferência de escravos
ao lado de Faria Monteiro – tanto em 1758 quanto 1764 –, Domingos Vieira Pinto
também fora familiar do Santo ofício e grande traficante de escravos, muito interessado
na permanência da venda de escravos na rua direita.

Assim como no caso dos descendentes de João Lopes, podemos observar a


inserção de negociantes na família de Domingos Vieira Pinto até a quanta geração.
Antônia Tereza de Jesus e Domingos Vieira Pinto tiveram 7 filhos (4 homens e 3
mulheres). Dentre suas 3 filhas, duas se casaram com comerciantes. Sua filha mais nova,
Clara Rosa do Sacramento casa-se em 1771 com o tenente José Álvares de Azevedo, e
em 1776 sua filha do meio, Dona Leonarda Maria da Conceição se casa com o negociante
Manuel Velho da Silva, que aparece em 1799 ao lado de Francisco Xavier Pires, na tão
citada lista do Conde de Resende como um dos homens de negócio mais ricos da
cidade.412

Como supracitado, ainda encontramos negociantes incorporados a essa família até


a geração seguinte, não apenas através dos genros, mas também dos filhos. No caso, o
tenente Amaro Velho da Silva, filho primogênito de Manuel Velho da Silva que assim
como pai, torna-se um dos principais negociantes da cidade recebendo do Conde de

411
AHU, doc. 9.918.
412
ANRJ: Correspondência dos vice-reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo de Souza
Coutinho. Códice: 68, volume 15, 1799. p. 324 .
124

Resende o Hábito de Cristo em 1800 e posteriormente torna-se o primeiro Visconde de


Macaé. 413

A inserção de Agostinho de Faria Monteiro nessas duas famílias e o quadro


esboçado através da análise de cada uma delas, demonstra uma clara tendência ao
casamento endogâmico entre os homens de negócio, principalmente através da
incorporação de negociantes como genros. Tal análise também corrobora com o quadro
esboçado por Sampaio que acredita que a dissociação dos comerciantes com a nobreza da
terra não se dá somente com casamentos endogâmicos, mas através de casamentos com
estratos (aparentemente) inferiores. Tal quadro pode ser vistos nos casos supracitados de
Agostinho Faria Monteiro e Domingos Vieira Pinto que se casam com as filhas de Justo
Fernandes, natural do Bispado de Miranda do qual infelizmente não encontramos mais
referências. Como demonstrado, a inserção desses negociantes nessa família não
prejudicou suas trajetórias mercantis. 414

Segundo Sampaio, eram frequentes casamentos entre negociantes e mulheres de


camadas sociais inferiores. Isso se dava muitas vezes pela própria origem modesta dos
negociantes que chegavam ao Brasil em busca de consolidação financeira e social.
Analisando os homens de negócio lisboetas, Jorge Pedreira evidencia que “os negociantes
que encontravam cônjuge fora do seu próprio meio social acabavam por escolher, ou em
todo caso aceitar, noivas de condição mais baixa, filhas de oficiais mecânicos, lavradores
ou capitães de navio.” 415

Dessa maneira, acreditamos que esse padrão matrimonial demonstrado por


Sampaio possa estar relacionado a uma nova forma de legitimação social buscada pelos
negociantes, que não passava mais pela nobreza da terra. Tal quadro contribuiu para
separar ainda mais os dois grupos e, consequentemente, estimular embates e disputas
como as estudadas nas páginas anteriores.

Analisando os componentes da Câmara entre 1758 e 1768 (período de trâmite do


processo), encontramos entre os vereadores os negociantes José Pereira da Silva (1759),
João Carneiro da Silva (1760) e ainda Francisco de Almeida Jordão, filho de Inácio de

413
AHU-Rio de Janeiro, cx. 120, doc. 61, AHU-Rio de Janeiro, cx. 157, docs. 26, 27/ AHU-Rio de
Janeiro, cx. 181, doc. 36/ AHU-Rio de Janeiro, cx. 302, doc. 114/ AHU-Rio de Janeiro, cx. 303, doc. 70 e
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora, 1965,
v.2, p.313.
414
SAMPAIO, Antônio C. J. de Famílias e negócios.. Op. cit. p.249.
415
PEDREIRA, J. M. V. Op. cit. p. 262.
125

Almeida Jordão e neto de seu homônimo Francisco de Almeida Jordão, uns dos maiores
negociantes de grosso trato da primeira metade dos setecentos. Apesar de tais indivíduos
não aparecerem envolvidos diretamente no processo, a análise de seus vínculos parentais
é essencial para entendermos até que ponto esses negociantes estavam comprometidos
com a nobreza da terra.

João Carneiro da Silva, casado em 1723 com Isabel Maria de Nascentes, tinha
como seu sogro o Juiz da Alfândega Manuel Nascentes Pinto. Apesar e não termos
encontrado nenhum registro que estabeleça Nascentes Pinto como comerciante, a
importância do seu cargo no sistema mercantil era enorme. O juiz da Alfândega tinha
poder sobre a movimentação das mercadorias da alfândega, decidindo quais seriam
liberadas ou não. Dessa maneira, casar com a filha de um homem que possuísse tal cargo
se apresenta como uma estratégia mercantil clara.

Conseguimos ainda identificar outros dois negociantes ligados à família de


Nascentes Pinto, estes foram Paulo Ferreira de Andrade e José Correia da Fonseca, que
casaram se com a filha mais nova de Nascentes Pinto, Tereza Nascentes de Jesus, em
1725 e 1746 respectivamente; mostrando a preferência de Nascentes Pinto por
negociantes na escolha de seus genros. Já o vereador José Pereira da Silva, contrai
matrimônio em 1738 com Maria de Souza de Oliveira, filha de Paulo Caeiro, citado ainda
em 1708 como “mercador e homem de negócio” 416

Todavia, o caso mais emblemático dentre esses vereadores é o de Francisco de


Almeida Jordão, que apesar de não ser negociante é descendente de umas das poucas
linhagens de homens de negócio da cidade do Rio de Janeiro. 417 Seu pai, Inácio de
Almeida Jordão, um dos principais negociantes cariocas de sua época, em 1734 é referido
pelo governador Gomes Freire como “primeiro homem daquela praça.” 418 Sua família foi
a única de terceira geração de negociantes de linha direta da capitania, estando presente
na atividade mercantil até meados do setecentos. 419

Tais dados corroboram com o quadro pintado por Sampaio para a primeira metade
do século XVIII, quando a tendência para o crescimento dos casamentos endogâmicos

416
SAMPAIO, Antônio C. J. de A família Almeida ... Op. cit. p.63.
417
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.I, p.39.
418
AHU, doc.8564.
419
SAMPAIO, Antônio C. J. de A família Almeida ... Op. cit. p.63.
126

entre os homens de negócio era evidente. Entretanto, acreditamos que para um


conhecimento mais aprofundado dos homens de negócio, investigar de maneira intensiva
a natureza das inter-relações e os vínculos estabelecidos entre os oficiais da câmara e a
comunidade de comerciantes se mostra essencial. Assim, analisar mais de perto como se
deram as relações matrimoniais desses indivíduos será fundamental, pois além de deixar
claras as relações tecidas pelos mesmos, “torna possível uma leitura mais densa e mais
rica” da sociedade.420 Dessa forma, ver como esses padrões se comportam ao analisarmos
o pequeno grupo de indivíduos presentes no processo de 1758, nos dará também a
oportunidade de entendermos de maneira mais aprofundada como eram estabelecidas as
suas redes de relações.

***

Dentre os 87 negociantes, capitães de navios e mercadores de escravos envolvidos no


processo aqui estudado, apenas 35 deles tiveram a referência de seus matrimônios
localizados.421 Entre tais referências estão 31 Habilitações Matrimoniais e 4 genealogias
encontradas através dos dados fornecidos por Carlos Rheingantz.422

Esse pequeno número pode estar relacionado ao fato de muitos deles não se casarem.
Ao analisar os negociantes da praça mercantil mineira durante o século XVIII, Junia
Furtado, afirma que muitos negociantes optavam pelo celibato. Em sua amostra ela
detectou que 65,9% dos homens de negócio mineiros faleciam solteiros. Furtado ainda
lista razões importantes que justificariam a opção pelo celibato:

Isto ocorria por motivos como a falta de mulheres brancas e livres, o


sentimento de que a estada era transitória e não desejavam estabelecer
laços duradouros e, também, porque o comércio muitas vezes exigia
mobilidade constante, dificultando a formação de laços de família.423

420
LEVI, Giovanni. “Comportamentos, Recursos, processos: antes da “revolução” do consumo” In
REVEL, J. Jogos de escala Rio de Janeiro Editora: Fundação Getúlio Vargas 1998. p.206.
421
Incluindo as trajetórias de Agostinho de Faria Monteiro e Domingos Viera Pinto.
422
Esse número não quer dizer que somente 2 genealogias de homens de negócio aqui analisados
puderam ser verificadas nos escritos de Carlos Rheingantz, mas que a maioria dos deles também puderam
ter sua Habilitação Matrimonial investigadas.
423
FURTADO, Júnia Ferreira. Comerciantes Minhotos nas Minas setecentistas, Mínia, Braga, 1998, n.6,3
série In: BRÜGGER, Silvia, M. J. Minas Patriarcal, família e sociedade. Belo Horizonte: Annablume,
2007, p.277.
127

No caso da Praça mercantil de Lisboa, de acordo com Jorge Pedreira, apesar de


ultrapassar as médias nacionais masculinas a inclinação para o celibato dos homens de
negócio não era tão acentuada, chegando a apenas 21%, o que não prejudicava seriamente
a capacidade de reprodução social destes negociantes.

No que tange ao Rio de Janeiro, até presente momento, não podemos afirmar que este
era um padrão válido para os negociantes, pois não encontramos maiores estudos sobre o
tema que demonstrem a porcentagem de celibatários em relação ao número total de
homens de negócio atuantes na Cidade. Dessa forma, trabalharemos com essa
amostragem desses 35 nomes para entendermos de que forma se davam os casamentos
estabelecidos por esses indivíduos.

Através das dispensas e processos matrimoniais presentes no Arquivo da Cúria


Metropolitana do Rio de Janeiro, tivemos acesso a um rico conteúdo informacional que
nos permitiu caracterizar os agentes mercantis acompanhando suas trajetórias, muitas
vezes desde a partida de seu local de nascimento até a chegada a cidade do Rio de
Janeiro, passando pelos lugares que residiu até o seu enlace matrimonial.

Segundo as normas do Concilio Tridentino, o indivíduo que desejasse contrair


matrimônio deveria dar entrada na Câmara episcopal e se submeter a um longo processo
que por vezes levava anos para ser concluído. O sujeito teria que se submeter a
determinadas condições para ser considerado habilitado para casar como: possuir certidão
de batismo com autenticação de testemunhas da freguesia em que nasceu, ser livre e
desimpedido, sem promessa de casamento com outra pessoa, não possuir voto de
castidade ou qualquer outro voto religioso e, além disso, deveria apresentar os banhos ou
proclamas realizados em todas as freguesias por onde tivesse residido por mais de seis
meses, atestando que não possuía impedimento algum.424 Como mostra a determinação da
Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia:

E sendo os que pretendem casar de forem de diferentes freguesias ou


naturais de uma e residentes em outra por espaço de mais de seis meses,
em todas se farão as denunciações e tratarão certidão nelas na forma
acima dita. E, se contraentes ou algum deles tiver residido em outro
lugar, posto que seja nosso arcebispado, por espaço de mais de seis

424
FARIA, Sheila de Castro, Op.cit., p.58. SILVA Maria Beatriz Nizza Sistema de casamento no Brasil
colonial. São Paulo: T.A. Queiroz: Edusp, 1794, 115-6; Alzira Lobo de Arruda Campos, Casamentos e
família em São Paulo colonial. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p.211-5 Apud. BORREBO, M. A. de M.
Op. Cit. p.60.
128

meses, os párocos assim o declarem nas certidões que passarem. E


havendo no lugar donde os circunstantes forem naturais, ou são ou
foram moradores, mais de uma paróquia e freguesia, em todas serão
denunciados, e os párocos delas, ainda que não o sejam dos
denunciados, serão obrigados a fazê-los, e passar as certidões
necessárias, sob pena de lhes dar em culpa e serem castigados
gravemente ao nosso arbítrio. 425

Se um dos contraentes fosse viúvo deveria apresentar a certidão de óbito do


cônjuge falecido.

E se ambos os contraentes forem viúvos, ou algum deles, se


declararão os nomes da mulher ou mulheres, marido, ou maridos
defuntos, e de seus pais e mães, lugares e freguesias aonde eram
naturais e moradores. E não serão recebidos sem que primeiro
legitimamente conste da morte da última mulher ou marido; e havendo
sido os defuntos da mesma freguesia, constando ao pároco que nela
faleceram, poderá receber os contraentes, não havendo outro
impedimento. E se o defunto falecer em outra freguesia deste nosso
arcebispado, e o pároco delas o certificar, bastará a sua certidão jurada,
sendo conhecida ou reconhecendo-a algum pároco de nosso
arcebispado, ou escrivão do nosso arcebispado, não os receberá sem
licença nossa ou de nosso provedor, na qual se declare que justificaram
a morte do marido ou mulher; o que os párocos assim cumprirão, sob
pena de em fazendo o contrário, serem gravemente castigados.426

Para comprovar tais exigências era necessária, além do depoimento dos


contraentes, a audição de testemunhas. Estas respondiam as seguintes perguntas: Como se
chamava o contraente? De quem era filho? Onde fora batizado? Donde era natural?
Desde quando saíra de sua pátria? Em que terras haviam assistido e por quanto tempo?
Era solteiro, livre e desimpedido? Fizera promessa de castidade ou voto de religião?
Fizera promessa de casamento a alguém que não fosse com quem estava contratado para
casar? Quem eram seus pais? Se teria algum grau de parentesco com a contraenda? Se era
filho legítimo?427

425
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. (1853), feytas, e
ordenadas pelo... Senhor d. Sebastião Monteyro da Vide...propostas, e aceytas em o Synodo Diocesano,
que o dito Senhor celebrou em 12 de junho de 1707. São Paulo: Typographia 2 de Dezembro, Títulos X a
XX. Edusp: p.244.
426
Idem.
427
FARIA, Sheila de Castro, Op.cit., p.58. SILVA Maria Beatriz Nizza Sistema de casamento no Brasil
colonial. São Paulo: T.A. Queiroz: Edusp, 1794, 115-6; Alzira Lobo de Arruda Campos, Casamentos e
129

Tais informações já nos dão um panorama dos justificantes, mostrando uma


verdadeira radiografia de se suas vidas antes da chegada à cidade do Rio de Janeiro. 428
Geralmente as testemunhas deveriam mencionar como conheciam o contraente e de que
maneira poderiam afirmar que seu depoimento era verdadeiro. Assim, tais fontes ainda
nos mostram as relações estabelecidas entre esses indivíduos, posto que por muitas vezes,
o depoimento ainda vinha acompanhado do relato do tempo e de como as testemunhas se
conheceram e quais tipos de relações possuíam, o que tornava esses relatos ainda mais
ricos.

As testemunhas eram no número mínimo de três, todavia podia chegar a número


muito maior, se caso fosse exigido pelo vigário quando não satisfeito com os
depoimentos. 429 É interessante ressaltar que no mesmo documento podemos chegar a
possuir dados mais diversos das testemunhas, pois além de se identificarem, lhes era
solicitado que declarassem seu estado civil, sua atividade profissional, local de moradia,
nascimento e batismo, além da sua idade.

É importante ressaltar que enquanto não chegassem às certidões de banhos das


localidades em que o contraente residiu e, é claro, do local de seu nascimento, o mesmo
era obrigado a pagar caução pela espera dos documentos. Segundo Maria Aparecida
Borrego, na maioria das vezes o contraente se comprometia a trazer a documentação
relativa ao reino no prazo de três anos e a documentação produzida na América
portuguesa no período de seis meses a dois anos, entretanto nos banhos analisados para o
Rio de Janeiro encontramos na maioria das vezes o prazo de 2 anos para ambos os
casos.430

No que tange aos valores do processo, normalmente o contraente se comprometia


a pagar caução pela espera dos documentos cujo valor, era quase sempre fixado em
20$000 para cada proclama. Se os banhos não chegassem a tempo, o dinheiro ficava de
posse da Igreja e era determinado que fosse aberta uma nova caução. Também era
comum que se o noivo não possuísse renda para a caução, este poderia contratar um
fiador que se comprometeria a pagar a dita quantia em nome do contraente.

família em São Paulo colonial. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p.211-5 Apud. BORREGO, M. A. de M.
Op. Cit. p.60.
428
BORREGO, M. A. de M. Op. Cit. p.61.
429
Esse foi o caso Antônio Ferreira de Barros que chegou a ter 11 testemunhas. ACMRJ. Cx.1181 Doc.
6288.
430
BORREGO, M. A. de M. Op. Cit. p.61.
130

Dos 31 processos de negociantes encontrados, somente 1 possuía fiador. Tal foi o


caso de Antônio do Amaral que, contratado para casar com Anastácia do Espírito Santo,
apresenta como seu fiador João Ferreira Leal. Leal diz “viver de seu negócio” e ter
possibilidade de no período de dois anos depositar 20$000 mais 30$000 para serem
resgatadas as certidões de ambos os noivos, posto que tanto o noivo quanto a noiva “eram
naturais do reino”, ele da Freguesia de São Salvador na Ilha do Faial, Bispado de Angra,
e ela da Freguesia de Nossa senhora da Purificação, termo da Vila de Óbidos,
Arcebispado de Lisboa.431

Obviamente, acreditamos que a majoritária ausência de fiadores dos processos


matrimoniais dos negociantes está diretamente ligada ao capital que estes possuíam.
Acreditamos ainda, que a disposição financeira desses negociantes poderia facilitar o
andamento do processo. Um exemplo emblemático disso pode ser vista na análise da
habilitação matrimonial de Antônio Lopes da Costa, um dos homens de negócio mais
atuantes do período.

Em 13 de Maio de 1747 o Capitão Antônio Lopes da Costa dá entrada na Câmara


Eclesiástica aos banhos matrimoniais para casar-se com Dona Francisca Antunes Maciel
da Costa. A análise de seu depoimento se mostra interessantíssimo.

Diz o capitão Antônio Lopes da Costa, filho legítimo de João Lopes


e de Andresa Gonçalves, natural da Freguesia de São Cristóvão de Rio
Mau, termo da Vila de Barcelos, Acerbispado de Braga, que está
contratado para casar com Dona Francisca Antunes Maciel da Costa,
filha legítima do Capitão de Infantaria desta Praça João Antunes, e de
sua mulher Dona Florência Maciel da Costa, natural desta Cidade, cujas
promessas fizeram ocultamente com correspondências particulares; e
porque a dita contraente é filha de um homem poderoso pela ocupação
que exerce nessa cidade, e se descobrir este ajuste poderá embaraçá-lo
com temores na dita filha, extorquindo-lhe o consenso, e poderá contra
o suplicante armar também alguma ruína, quer este receber-se para
desencargo da sua consciência com a suplicada sem admoestações;
porque a publicar-se lhes seguem prejuízos gravíssimos, porque
infalivelmente o pai dela o repugna, e fica esta infamada, porque está e,
termos de mostrar com brevidade, do que poderá também se resultar ao
suplicante incomodo gravíssimo...432 (grifo nosso)

431
ACMRJ. Cx.1011 Doc. 1468.
432
ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261.
131

Como sobredito, segundo Antônio Lopes, seu futuro sogro o capitão da Infantaria
João Antunes Lopes Martins era um homem muito poderoso naquela sociedade e se
descobrisse os planos de Antônio Lopes de casar com sua filha poderia causar-lhe algum
mal. Lopes Martins era casado com Florência da Guarda Maciel da Costa descendente de
uma das mais antigas famílias da nobreza da terra, que tivera como um de seus
fundadores o capitão Manuel da Guarda Muniz e Antônio Maciel da Costa. 433

Ao que tudo indica, Lopes Martins fez carreira militar. A primeira referência que
encontramos de sua trajetória data de 3 de maio de 1722 quando é nomeado ajudante de
um dos terços de guarnição da Praça do Rio de Janeiro. Entretanto, em sua petição revela
ter servido na capitania, como soldado infante, cabo de esquadra, alferes, furiel-mor,
entre outros postos, desde 1711 quando lutou contra os franceses. 434 Nas décadas
seguintes, encontramos João Antunes Lopes Martins concorrendo a diversos postos como
Capitão da Infantaria, sargento-mor e capitão de Granadeiros cargos estes alcançadas
com sucesso por Lopes Martins, que em 1745 alcança a patente de mestre de campo e
posteriormente, em 1756 de tenente coronel, umas das mais altas patentes militares que se
poderia chegar naquele período. 435

Segundo Graça Salgado, no século XVIII as eleições dos oficiais eram realizadas
através de uma escolha prévia feita pelos oficiais da Câmara de três pessoas da localidade
“da melhor nobreza, cristandade e desinteresse”, e entre os quais o governador
selecionaria “o mais digno”.436 Dessa maneira, eram escolhidos os indivíduos entre os
“mais notáveis” do lugar, o que reafirma o prestígio de Lopes Martins e justifica o temor
de Antônio Lopes da Costa.

Não encontramos na documentação indícios que expliquem o motivo exato de sua


rusga com seu futuro sogro. Supomos que por ser integrante de uma antiga família da
nobreza da terra, não lhe agradaria muito a ideia de casar sua filha com um comerciante.

433
FRAGOSO. João Luis Ribeiro, “A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite
senhorial do Rio de Janeiro (séculos XVI e XVII)”. Topoi, Rio de Janeiro, vol. 1, 2000. p.105.
434
AHU_ACL_CU_017, Cx. 12, D. 1321.
435
AHU_ACL_CU_017, Cx. 41, D. 4250. AHU_ACL_CU_017, Cx. 50, D. 4962. AHU_ACL_CU_017-
01, Cx. 31, D. 7148.AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 42, D. 9820. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D.
10893.AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 52, D. 12186. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 52, D. 12188.
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12663-12665. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12718.
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12721-12722. AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 56, D. 13088.
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 60, D. 14132.
436
SALGADO, Graça (coord.). Fiscais e Meirinhos: A Administração no Brasil colonial. 2ª ed., Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985, pp.97-112.
132

A solução encontrada por Antônio Lopes foi pedir ao juiz dos casamentos que “se
digne dispensar como os suplicantes nas admoestações antes do matrimônio”, e para isto
recorre ao argumento financeiro. Desta maneira, Antônio Lopes da Costa se propõe a
pagar seis mil réis como termo de perdição dos banhos na cidade do Rio de Janeiro. E
ainda se compromete a “levantar o deposito ficando, nele sempre 100 mil réis lhe mostrar
os banhos correntes da sua naturalidade” 437, pagando no total a quantia de dois contos e
quatrocentos mil réis, “para casar o mais rápido possível com Dona Francisca Antunes
Maciel da Costa”, quantia considerada muito alta para os padrões da época.438 Sua pressa
era tão grande que em seu termo de caução se compromete a pagar os banhos referentes à
cidade de sua residência em 3 meses não em 2 anos, como era comum, e depositar cem
mil réis referentes aos banhos correntes em Portugal.439

Tais informações demonstram, além da riqueza e influencia de Antônio Lopes da


Costa, a ajuda que o capital poderia proporcionar aos contraentes. Como já mencionado
no capítulo anterior, Antônio Lopes da Costa foi um importante negociante da praça do
carioca nomeado porteiro e guarda da Alfândega do Rio de Janeiro em 1747, mesmo ano
de seu casamento.440 Oitavo deputado da Junta do Comércio em 1753, era proprietário de
vários navios e estava envolvido em diversas atividades comerciais como o comércio de
tecidos com a Índia e com a plantação e fabricação de arroz na capitania fluminense. 441

Além da ajuda e pressão financeira, Antônio Lopes argumenta que a futura noiva
poderia ficar mal infamada, posto que se tornasse “público na cidade” o compromisso
firmado pela contraenda, a mesma não conseguiria novos pretendentes. Tanto empenho
fez com que o pai da noiva não conseguisse impedir o enlace e em menos de um ano os
banhos foram concluídos e o casamento realizado.

A análise do enlace matrimonial de Antônio Lopes da Costa demonstra que as


relações tecidas através dos casamentos nem sempre eram feitas de forma pacífica e que
por vezes não eram frutos de um planejamento dos pais. Além disso, deixa claro que
naquele período ainda existiam negociantes que preferiam se casar com mulheres
pertencentes a uma das famílias da nobreza da terra. Dessa forma, ainda em meados do
setecentos haviam negociantes que buscavam a aliança com essas famílias de melhor

437
Idem.
438
ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261.
439
Idem.
440
AHU_ACL_CU_017, Cx. 40, D. 4107.
441
PESAVENTO, Fábio. Op. cit. p.45.
133

qualidade, como estratégia para alcançar o topo da hierarquia social e estabelecer-se


definitivamente na cidade.

Além de Antônio Lopes da Costa, outros negociantes envolvidos no processo de


1758 também contrairam matrimônio com esposas descendentes nobreza da terra. Entre
eles está Manuel Rodrigues Ferreira que se casa em 1732 com Helena de Sá Rangel, filha
do capitão Antônio Gomes de Miranda e de Dona Maria de Abreu Rangel, ambos
procediam das primeiras famílias cidade.442 No caso de Dona Maria, esta fazia parte de
uma das primeiras linhagens senhoriais do Rio de Janeiro, era descendente de Baltazar de
Abreu que chegara à cidade entre o final do século XVI e os anos iniciais do século XVII.
Apesar de ser uma das poucas linhagens senhoriais que tiveram em sua história mais de
um matrimônio com negociantes,443 a família Abreu Rangel fincaram raízes na cidade
estabelecendo ligações matrimoniais principalmente com outras famílias senhoriais da
capitania, como os Sodré Pereira e os Gomes Sardinha. Dona Maria ainda tinha entre
seus parentes figuras importantes na cidade como seu tio, o juiz ordinário Baltazar de
Abreu Cardoso que por sua vez era neto de Jorge Fernandes da Fonseca, que fora no
seiscentos procurador de Salvador Correa de Sá e Benevides.444

Como já esboçada no capítulo 2, Manuel Rodrigues Ferreira teve uma trajetória


muito interessante. 445 Nascido na Freguesia de São Julião Arcebispado de Lisboa, filho
de Gonçalo Rodrigues e de Antônio Martins, Manuel Rodrigues Ferreira chega à cidade
do Rio de Janeiro 1717 com quinze anos de idade. Manuel começa sua carreira como
apontador nas frotas reais, passando a capitão de navio e sendo posteriormente (em 1729)
nomeado capitão de infantaria da Ordenança do distrito da Freguesia de Nossa Senhora
da Candelária. 446 Anos depois Rodrigues Ferreira consolida-se como grande traficante de
escravos proprietário de navio mercante que traziam escravos da Senegâmbia. 447

Outro indivíduo que atua como embargante no processo de 1758, e que contraiu
casamento com uma descendente das primeiras famílias da cidade foi Francisco Tavares
França. Em 24 de junho de 1755, o mesmo se casou com Isabel Narcisa Sodré, filha de

442
RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Brasiliana Editora,
1965, v.I, p.8 e V.2, p.386.
443
Bárbara de Abreu Rangel, filha do Capitão João de Abreu Rangel e de Maria de Oliveira casa-se com o
capitão Domingos Ferreira em 1697. Idem V.1 p.9
444
Fragoso. João Luis Ribeiro, “A nobreza da República...” Op.cit. 118.
445
Ver p.80.
446
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 27, D. 6326. e D.6327.
447
In: http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces(26/01/2012/18:35).
134

Dona Isabel Sodré Pereira, que acreditamos ser descendente Francisco Sodré Pereira,448 e
do Sargento de milícia Agostinho de Lemos Rangel. 449

Natural da Freguesia de São Roque, Ilha de São Miguel e filho legítimo de João
de Souza Cordeiro e Maria Tavares França, Francisco Tavares aparece como oficial de
cavalaria do Regimento de Minas na ocasião de seu casamento, em 1755. 450 Todavia, não
temos muitas notícias de sua trajetória como negociante, sendo tal referência encontrada
no próprio processo de 1758 quando alega ser “homem de negócio desta praça” e
“capitão de navio que navega para Angola.” 451 Já em 1765, pede provisão de licença para
regressar à Ilha de São Miguel com seus quatro filhos, “alegando viuvez e idade
avançada.” 452

As escolhas matrimoniais de Antônio Lopes da Costa, Francisco Tavares França e


Manuel Rodrigues Ferreira demonstram que parte dos negociantes ainda optavam por
casamentos com mulheres da nobreza da terra. Segundo Sampaio, “os cabedais desses
negociantes interessavam a uma elite açucareira estruturalmente endividada e que via
suas condições de reprodução agravadas no início do século XVIII.” 453 Dessa maneira,
acreditamos que apesar das rusgas existentes entre negociantes e a nobreza da terra, parte
desta estava disposta a aberta a construir laços com esses homens de negócio.454

Entretanto, é importantíssimo ressaltar que esse não foi o caso da maioria dos
homens de negócio envolvidos no processo de 1758. Para demonstrar tal quadro,
podemos citar inúmeros casos como o do capitão Pedro Martins Duarte que em 20 de
novembro de 1759 dá entrada nos banhos matrimoniais para se casar com Tereza de
Jesus, filha de Paula de Muros e do negociante Paulo Pereira atuante no Rio de Janeiro
nas primeiras décadas do setecentos.455

448
Lista : FRAGOSO, João Luis Ribeiro, “ A nobreza da República...” Op. cit. p.108.
449
Este filho do capitão Amador Lemos Ferreira, que se casa no Rio em 1673 com Isabel Rangel de
Macedo, esta, por sua vez descendente dos Fonseca Diniz. Ver: RHEINGANTZ, Carlos G. Op. Cit. V.2
p.395.
450
ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 6; Francisco Tavares França p.37v.
451
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.
452
AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6677.
453
SAMPAIO, A.C. de Op. cit. p.240.
454
Idem, p.256.
455
Paulo Pereira atua principalmente como procurador de ouro para Minas gerais, foram encontrados
registros sobre o mesmo entre 1721 a1747. Banco de Dados. SAMPAIO A.C. de Na encruzilhada do
Império: hierarquias sociais e conjunturas econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
135

Natural Freguesia de São Miguel das Aves, Arcebispado de Braga, Pedro Martins
Duarte, chega a cidade do Rio de Janeiro já adulto antes de 1750 após ter assistido por 4
anos na Freguesia de Santo Antônio, Vila de São José do Rio das Mortes, Bispado de
Mariana.456 Estabelece-se na cidade e já em 1753, temos notícias de sua participação em
algumas representações coletivas junto aos homens de negócio da praça e em
requerimentos, como por exemplo para a criação da Mesa do Bem Comum da cidade do
Rio de Janeiro. 457 Em 1778, aparece na documentação como segundo administrador da
Companhia do Alto Douro da cidade do Rio de Janeiro ao lado de Antônio Pinto de
Miranda, o qual diz ser sócio por mais de 14 anos. 458 Na ocasião ambos são presos e têm
todos os seus bens sequestrados devido a uma acusação de fraude. Segundo o Visconde
de Vilanova, nomeado pelo Marquês de Pombal para cuidar do caso em 1772, havia
muito tempo que

as remessas de dinheiro feitas pelos ditos administradores, não


correspondiam ao considerável valor dos efeitos que lhes haviam dirigidos
mais que pelo contrato se achavam eles responsáveis da exorbitante soma
de mais de 118 contos de réis.459

Todavia, ao que tudo indica seu pedido de perdão em 1780 à rainha é atendido,460
pois na ocasião de seu falecimento em 1798, aparece capitão da fortaleza de Santo
Antônio da Praia de Fora.461

Outro homem de negócio que se insere através do casamento na família de um


importante negociante da cidade é Bento Esteves de Araújo. O mesmo contrai
matrimônio em 1755 com Ana Cruz filha de Catarina da Conceição e do moedeiro
Lourenço da Cruz Pinto, que fora primeiro deputado na ocasião da criação da Mesa do
Bem Comum em 1753, e quinto deputado três anos depois quando esta se transforma na

456
ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261
457
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17065. Pedro Martins Duarte também participa ativamente de
outras representações de homens de negócio principalmente envolvendo os despachos da Alfândega. Ver:
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 70, D. 16201/AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17104-
17106./AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17206-17207.
458
AHU_ACL_CU_017, Cx. 107, D. 8948.
459
Idem.
460
AHU_ACL_CU_017, Cx. 113, D. 9344.
461
AHU_ACL_CU_017, Cx. 165, D. 12322.
136

Junta do Comércio do Rio de Janeiro. 462 Assim como o seu sogro, Bento Esteves de
Araújo assina requerimento para a criação da Mesa do Bem comum em 1753. 463

Já o negociante e familiar do santo ofício Miguel de Alvarenga Braga, se casa em


1736 com Dona Maria Rosa Margarida, filha legítima de João Teixeira da Silva e de sua
esposa Dona Tereza Maria de Barros.464 Teixeira da Silva também fora familiar do santo
ofício que apesar de não ter tido um sogro negociante se inseriu em uma família com
vários homens de negócio. Digo isso porque João Teixeira da Silva era cunhado de
Anacleto Elias da Fonseca e Manuel Araújo Lima, dois negociantes muito atuantes na
cidade na primeira metade do século XVIII. 465

Como observado, existia uma grande tendência dessa elite mercantil procurar
casamentos endogâmicos como maneira mais sólida de se construir alianças para
estabelecer-se na cidade. Dessa forma, apesar de não ser comum o ofício do pai da noiva
ser citado nos processos de banhos matrimoniais, analisando outras fontes foi possível
identificar o ofício de 22 sogros entre os 35 negociantes analisados, dentre os quais a
maioria era constituída de homens de negócio.

Tabela 3.1

Ofício dos Sogros dos negociantes envolvidos no processo de transferência do comércio de


escravos para o Valongo. (para quais temos informações)

Ofícios N1 %

Homem de negócio 13 59%

Contratador 1 4%

Nobreza da terra 3 14%

Outros 5 23,%

OBS: N1 número de sogros por ofício.

Antes da análise da tabela 3,1 cabe observarmos que devido à carência de fontes, e
pela falta de visibilidade de ofícios ligados a grupos subalternos, praticamente não foram

462
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista...Op.cit. p. 205.
463
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17221.
464
RHEINGANTZ, Carlos G. Op. Cit. V.2 p.338-239.
465
Banco de Dados. A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas econômicas
no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
137

possíveis identificar negociantes casando com filhas de artesãos, por exemplo, todavia
sabemos que esse tipo de enlace matrimonial era comum, como já ressaltado. Também
gostaríamos de ressaltar que não pretendemos considerar os números aqui encontrados
como absolutos, pois não foram analisados a totalidade dos homens de negócio atuantes
no Rio de Janeiro na segunda metade do setecentos; e sim uma pequena amostragem.
Dessa forma, os números apresentados a seguir não pretendem sugerir uma
generalização, mas sim uma tendência de como os negociantes constroem seus vínculos
parentais naquele período.

Com a pequena amostragem oferecida pela tabela 3.1, podemos observar 59%, ou
melhor, mais da metade dos negociantes por nós encontrados nas fontes se casavam com
filhas de homens de negócio já estabelecidos na cidade, e apenas em três casos
observados encontramos matrimônios com descendentes das primeiras famílias da terra.
Tal quadro acompanha a tendência observada por Sampaio, indicando uma maior
endogamia do grupo dos homens de negócio residentes no Rio de Janeiro no século
XVIII e reafirmando um quadro em que “os homens de negócio do Rio de Janeiro vão,
portanto, constituindo-se como uma elite verdadeiramente nova, apartada em sua maioria
da antiga nobreza da terra.” 466

Também eram comuns, os que casavam com filhas de oficiais régios ou que
possuíam alguma patente. Esse foi o caso do sargento José da Costa Andrada que contrai
matrimônio, em 1782, com Dona Tereza Felícia de Jesus, filha do alferes da infantaria
Manuel Marques Braga. 467 Outro negociante que também se casou com a filha de um
alferes foi Marcos Fernandes da Silva, que em 1764 se insere na família de Domingos
João da Mota, ao casar-se com Dona Maria da Penha França. 468

Acreditamos que a busca por casamentos com filhas de indivíduos com algum
tipo de titulo reconhecido socialmente, era uma clara estratégia para estabelecer alianças
sociais e políticas. Tais alianças tinham por objetivo manter ou aumentar a posição social,
e, sobretudo, gerir as incertezas que a vida e a sociedade a impunha.469 Dessa maneira,
acreditamos que uma das formas de gerir sobre as incertezas no caso dos negociantes

466
SAMPAIO, A.C. de Op. cit. p.240
467
RHEINGANTZ, Carlos G. Op. Cit. V.1 p.343
468
ACMRJ. Cx.2165 Doc. 40040
469
Segundo Giovani Levi é através da incerteza que os indivíduos apreendem seu tempo e pautam suas
ações. A incerteza estará presente nas estratégias coletivas das famílias que, com suas aquisições e
alianças buscam mais garantias e proteção do que retorno econômico. LEVI, Giovanni. A Herança
Imaterial. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira.2000, p.26-27
138

analisados era estabelecer alianças com pessoas de confiança ou com altos funcionários
da administração régia. Isso porque o poder político das famílias não se encontrava
somente no acesso aos postos, mas na possibilidade de influenciar quem detinha os
mesmos.

Esse quadro fica ainda mais claro se formos adiante e analisarmos enlace
matrimonial de Francisco Pinheiro Guimarães – um dos homens de negócio mais ricos da
cidade. Em 7 de Maio de 1764, Francisco Pinheiro Guimarães dá entrada aos banhos
matrimoniais para se casar com Ana Maria do Sacramento. Natural e batizada na
freguesia da Candelária, Ana Maria era filha legítima de Bárbara Francisca Xavier e João
Rodrigues Cunha, homem de negócio da praça do Rio de Janeiro e familiar do Santo
ofício em 1738.470

Não possuímos muitas informações sobre a trajetória mercantil de João Rodrigues


Cunha, mas as análises da habilitação matrimonial e dos banhos de batismo de sua filha
nos dão importantes indicações de que era um negociante no mínimo considerado na
capitania. João Rodrigues batiza Ana Maria do Sacramento em 10 Fevereiro de 1748,
tendo como padrinho ninguém menos que o capitão e Governador da cidade do Rio de
Janeiro Gomes Freire de Andrade, e como madrinha Maria Antônia de Lancastre, esposa
do procurador do escrivão proprietário da Câmara – que também fora procurador dos
oficiais da Câmara em Lisboa – Julião Rangel de Souza Coutinho, tão citado no primeiro
capítulo da presente dissertação. 471

Assim como sua esposa Bárbara Francisca Xavier, João Rodrigues Cunha era
natural do reino mais especificamente da Freguesia de São João do Rio Frio, Arcebispado
de Braga e filho de João Cunha e Ana Rodrigues, ambos naturais da freguesia citada.
Dessa maneira, não temos notícias que Rodrigues Cunha tenha algum parentesco com
famílias da nobreza da terra. Contudo, estabelece laço de “parentesco espiritual” com
Julião Rangel de Souza Coutinho descendente da nobreza da terra da capitania
fluminense. Tal caso mostra mais uma vez que apesar das rusgas existentes entre
negociantes e nobreza da terra, estas não estavam inteiramente fechadas a possibilidade
do estabelecimento de relações e alianças.

470
ACMRJ. Cx.2265 Doc. 43841.
471
ACMRJ. AP 764 L.6 p.244.
139

Voltando a falar de Francisco Pinheiro Guimarães, o quadro pintado deixa claro


que o nosso embargante ao se casar com Dona Ana Maria do Sacramento estava se
inserindo em uma família que tinha relações importantes com os homens mais poderosos
e considerados da cidade.Dessa maneira, torna-se evidente que a elite mercantil não
estava interessada em atender somente a necessidades econômicas, mas também ela se
preocupava em estabelecer alianças mais consistentes. Ao se unir a famílias mais bem
sucedidas da cidade ela reforçava não somente seu poder mercantil, mas, sobretudo
reforçava seu poder político e social. Nesse sentido, esse também foi o caso do já tão
citado Antônio Pinto de Miranda casado com a Ana Maria de Gusmão, filha do diplomata
e conselheiro do Tribunal da relação Alexandre de Gusmão.472

De acordo com seus banhos matrimoniais, Antônio Pinto de Miranda chega ao


Brasil casado e com filhos. Em seu depoimento alega que havia “sido casado na cidade
do Porto com Antônia da Silva Aranha,” da qual se tornara viúvo devido a um naufrágio
ocorrido quando esta se transferia para o Rio de Janeiro. 473 Assim, em 1717, Pinto de
Miranda contrai segundas núpcias com a filha do dito diplomata, uma clara busca por
alianças com uma família com prestígio social, consolidando assim sua presença na
cidade que desembarcara “para estabelecer seu negócio a perto de 7 anos”.474

Não temos muitas informações sobre os filhos e da linhagem de Antônio Pinto de


Miranda, somente sabemos que deixou filhas em Portugal do seu primeiro casamento.
Todavia, em 1767 aparece nos banhos matrimoniais do capitão e negociante Antônio José
Coelho como pai da noiva Francisca Josefa de Miranda. 475 Antônio José Coelho era
capitão da 1ª Companhia do Terço de Auxiliares de Infantaria da freguesia da
Candelária476 da cidade do Rio de Janeiro, e fora um dos homens de negócio que em 1764
tentaram embargar pela segunda vez o edital de transferência de escravos para o Valongo.

Como demonstrado anteriormente, no caso dos cunhados Domingos Vieira Pinto e


Agostinho de Faria Monteiro, através das habilitações matrimoniais também encontramos
trajetórias que se cruzam através de laços de parentesco entre os negociantes envolvidos

472
ACMRJ. Cx.2513 Doc. 1052.
473
Idem.
474
Ibidem.
475
Devido ao estado do documento somente foi possível identificar o nome “Maria” nas fontes, dessa
forma acreditamos que Francisca Josefa de Miranda fora fruto do segundo casamento de Antônio Pinto de
Miranda com Ana Maria de Gusmão. ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 7; Antônio José Coelho
p.62v.
476
AHU_ACL_CU_017, Cx. 96, D. 8328.
140

no processo de 1758. Através de uma observação atenta e do cruzamento das fontes,


podemos ver que esses casos se multiplicam.

Sublinhamos aqui o casamento de Brás Carneiro Leão, que em agosto de 1772


contrai casamento com a filha mais nova de Antônio Lopes da Costa, Dona Ana
Francisca Rosa Maciel da Costa.477 Observa-se mais uma vez que mesmo de lado opostos
no processo de 1758, isso não impedia que esses negociantes estabelecessem alianças
mais profundas.

Como já sugerido no capítulo 1, Brás Carneiro Leão era um dos principais


negociantes de “grosso trato” da capitania fluminense. Assim como Francisco Pinheiro
Guimarães e José Caetano Álvares, Brás Carneiro Leão estava entre os 36 negociantes
considerados pelo Conde de Resende como sendo os de “maior conceito” da capitania
fluminense. 478 Nascido em três de setembro 1723 na freguesia de São Salvador de
Meixomil, termo do Porto, Carneiro Leão emigrou para a cidade do Rio de Janeiro com
pouco mais de 14 anos onde trabalhou como caixeiro da casa mercantil de Domingos
Rabelo Leite, onde aprendera as artes do comércio. Era capitão do regimento de milícias
e habilitou-se à familiatura do Santo Ofício aos 35 anos, e à Ordem de Cristo ainda
solteiro em 1771 com 45 anos de idade. Mantinha ligações comerciais com o Reino,
Benguela e Angola, e atuou em várias capitanias no Brasil além do Rio de Janeiro como
Salvador, Recife, Vila Rica, Sabará, entre outras localidades; além de possuir um
engenho de açúcar no distrito da Vila de São João da Barra em Paraíba do Sul. Estava
envolvido também com o mercado de embarcações, consta na documentação ao menos a
compra de um quarto de uma galera, por 846$400 réis, em 1770 e uma sumaca no valor
de um conto e cem mil réis dezoito anos depois.479 Em 1774 é procurador de uma grande
companhia de comércio alemã chamada João Guilherme Burmester & Cia, mostrando
que suas relações não se limitavam às redes inter-imperiais.480

Todavia, o exemplo mais lapidar para demonstrar o quadro que tentamos esboçar
até o presente momento é a relação tecida ente os homens de negócio João Hopman e
João Moreira Vale. Natural da Cidade do Porto, João Hopman teve uma trajetória de

477
ACMRJ. Cx.3235 Doc. 79811,
478
AN: Correspondência dos vice-reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo de Souza
Coutinho. Códice 68, volume 15, 1799. P. 324,
479
AN, 4° Ofício de Notas, livro 106, AN, 4° Ofício de Notas, livro 79. Apud: PESAVENTO, Fábio Op.
cit. p.59.
480
ANTT, CD, 8º A cart. (antigo), livro 62, cx. 10 Apud: Idem.
141

sucesso após seu desembarque na capitania se transformando em um dos negociantes


mais considerados da cidade.481 Em 4 de Dezembro de 1748 recebe do governador Gomes
Freire a patente de tenente da Fortaleza de S. Januário da cidade do Rio de Janeiro. 482
Anos depois figura na documentação como proprietário da corveta Nossa Senhora da
Penha,483 e sócio de José do Couto Pereira e João Carneiro da Silva no contrato de pesca
das baleias no Rio de Janeiro, além de possuir lugar vitalício de inspetor e deputado da
Mesa da Inspeção da cidade.484

No mesmo ano em que se tornou tenente, Hopman se casa com Dona Maria
Caetana de Jesus, filha do seu sócio e vereador João Carneiro da Silva, citado início do
presente capítulo.485 João Carneiro da Silva fora um dos homens de negócio mais atuantes
do período. Já em 1726 o encontramos como um dos negociantes que estavam a frente de
uma representação ao rei reclamando da morosidade da alfândega. 486 Um ano depois, 487
é fiador de um navio que tinha como destino a Bahia e Pernambuco, e em 1731 compra
um sobrado na Rua direita.488 Em 1735 envolve-se ao lado de outros homens de negócio
em uma disputa contra a nobreza da terra pela criação de uma companhia para familiares
do Santo ofício e moedeiros.489 Sua atuação comercial se estende até a segunda metade
do século XVIII, mostrando sua clara inserção no grupo mercantil da praça do Rio de
Janeiro.490

No que tange sua estratégia matrimonial João Carneiro da Silva, em 1723 contrai
matrimônio com a filha do juiz da alfândega Manuel Nascentes Pinto, que como
supracitado, tinha preferência por genros negociantes. 491 Ao que tudo indica, João
Carneiro da Silva segue o mesmo caminho de seu sogro, posto que em 14 de setembro de
1766 casa sua segunda filha, Ana Joaquina com o homem de negócio João Moreira Vale.

481
Ver capítulo 2.
482
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 61, D. 14385. AHU_ACL_CU_017, Cx. 113, D. 9328.
483
AHU_ACL_CU_017, Cx. 99, D. 8515.
484
AHU_ACL_CU_017, Cx. 74, D. 6744.
485
ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 8; João Hopman p.187.
486
AHU-CA, doc. 5.270.
487
AN, Cód. 157 – Fianças das embarcações que saem do Porto do Rio de Janeiro (1724-1730). Apud:
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de, “Em nome do pai”: o compadrio na construção das estratégias
sociais dos homens de negócio cariocas (1718-1741)”. Texto inédito
488
AN, CSON, L. 41, f. 108v. Apud: Idem.
489
AHU-CA, doc. 8.608-8.612.
490
Banco de dados. SAMPAIO A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas
econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
491
Ver p.125.
142

Não encontramos muitas informações sobre a trajetória mercantil de João Moreira


Vale, sabemos apenas que alcança o título de familiar do Santo ofício em 1754, e em
1766 é chamado de “homem de negócio” no processo de transferência de escravos para o
Valongo, processo no qual aparece como uma das testemunhas que saem em defesa da
permanência do comércio de cativos na Rua direita e sendo assim, a favor de seu cunhado
João Hopman. Em seu depoimento declara,

que sabe pelo ver que o comércio de escravos é um dos mais grandes e
graves e de maior ponderação nesta Cidade, por ser um dos avultados
comércios que nela se exercita, e muitos dos comerciantes deles tem casa
própria nesta cidade que de nenhuma sorte a podem desamparar, e alguns
deles tem juntamente anexo os negócio de fazendas, assim não podem
mudar para fora da Cidade [...]492

Todavia, ao retornarmos a tabela 2.2, notamos que João Moreira Vale


curiosamente está presente ao lado dos 24 homens de negócio que lançam abaixo-
assinado a favor do edital em 1766; mostrando o quão rápido as estratégias desses
indivíduos poderiam mudar. 493
Logo, a família de João Carneiro da Silva se mostra um exemplo claro da
tendência dos casamentos endogâmicos entre as famílias de negociantes, principalmente
através dos genros.494 Apesar do filho de Carneiro da Silva, seu homônimo João Carneiro
da Silva filho, também ter sido homem de negócio, não era comum nas famílias de
negociantes os filhos seguirem os paços de seus pais. Isso fica claro quando analisamos a
origem desses negociantes.

492
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice: 6.1.9.
493
Ver p.109.
494
Ver organograma Anexo 3.
143

Tabela 3.2.

Naturalidade dos mercadores e homens de negócio envolvidos no processo de 1758

(para quais temos informações)

Naturalidade Quantidade % do Total

Norte de Portugal 17 48,5%


Arcebispado de Braga
Freguesia de Santa Maria dos Anjos da Vila de Monção, Comarca
da Vila do Minho 1
Freguesia de São Cristóvão do Rio Mau, termo da Vila de
Barcelos 1
Freguesia de Nossa Senhora de Vila Nova dos infantes, Termo de
Vila Guimarães 1
Freguesia da Cabração, Termo de Ponte Lima 1
Freguesia de São Miguel das Aves 1
Santo André de Gondizalves 1
Freguesia de Santa Maria de Carreço, Termo de Viana 1
Freguesia de São Pedro de Guimadela, Termo da Vila de
Guimarães 2
Beira
Freguesia de Santa Maria de Alcofa , Bispado de Viseu 1
Freguesia de Cristóvão de Nogueira, Bispado de Lamego 1
Bispado do Porto
Nossa Senhora da Vitória 1
Freguesia de São Nicolau 2
Freguesia de São Salvador de Mexomil 1
Colegiado de São Martinho 1
Freguesia de São João de Pendorada 1
Região Central e Sul de Portugal 7 20%
Patriarcado de Lisboa
Cidade de Lisboa da Freguesia de Santa Maria Madalena 1
Freguesia de São Julião 2
Freguesia de Santa Catharina de Monte Sinai 3
Freguesia de São Thiago de Fonte Arcada Comarca de Pena Fiel 1
Ilhas. 3 8,5%
Ilha de São Miguel 2
Freguesia de São Salvador na Ilha do Faial, Bispado de Angra 1
Colônia 4 11,5%
Vila de Nossa Senhora da Conceição de Jacutinga 1
Freguesia de Nossa senhora de Piedade de Magé 1
Freguesia de Irajá 1
Freguesia da Sé desta Cidade 1
Sem identificação 4 11,5%
Total 35 100%
Fontes: Habilitações Matrimoniais, ACMRJ
144

Analisando a tabela 3.2, podemos afirmar que a maioria dos agentes comerciais
eram naturais do reino. Se considerarmos o valor total desses indivíduos, 77% eram
provenientes da metrópole e das ilhas. Além de indicar que existia um claro afastamento
da atividade mercantil a partir da segunda geração, isso mostra que a reprodução desse
grupo se fazia através do recrutamento externo.

Se atentarmos para o grupo de portugueses, percebemos que a grande maioria


advinha das regiões do norte de Portugal. Tal quadro acompanha a tendência de outras
regiões da América Portuguesa, como observado pela historiografia nas capitanias em
São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais. 495

De acordo com Jorge Pedreira, a explicação para a concentração de imigrantes


vindos do norte de Portugal, não estava relacionado apenas hipótese da repulsão devido a
pressões demográfica, mas, sobretudo ao acolhimento de parentes e conhecidos no além
mar. Nas palavras de Pedreira,

a preferência entre herdeiros, ao afastar da herança vários elementos


em cada geração, conferia um âmbito intergeracional às redes sociais e
famílias que permitiam a colocação em Lisboa ou no Brasil, dos minhotos
que procuravam na viagem um caminho para a prosperidade.” 496

Dessa maneira, devido ao regime sucessório não igualitário português, os filhos


segundos criavam um sistema de recepção de parentes e conhecidos em outras terras, o
que era fundamental para sua integração e estabelecimento no além mar.

Nos depoimentos dos banhos matrimoniais aqui analisados, também foi possível
observamos tal tendência. Esse foi o caso de Antônio Lopes da Costa que na ocasião do
seu casamento, uma de suas testemunhas, o também negociante João Manuel Marinho de
Barros, relatava que:

495
Sobre a predominância numérica dos comerciantes originários do norte de Portugal ver: MELO, E. C
de A Fronda dos mazombos. São Paulo: Companhia das letras 1995, FURTADO, Junia Ferreira , Homens
de negócio: a interiorização da metrópole e do comércio nas Minas setecentistas 2ed. São Paulo:
Heucitec. 2006, BORREGO. Maria Aparecida de Menezes. A Teia mercantil: negócios e poderes em São
Paulo colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda. 2010 p.57. CAVALCANTI, Nireu Oliveira O Rio de
Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004.
496
PEDREIRA, Jorge. “Brasil, fronteira de Portugal. Negócio, emigração e mobilidade social (séculos
XVII e XVIII)”. Do Brasil à Metrópole: efeitos sociais séculos (XVII-XVIII), Universidade de Évora, jul.
2001, p.58 Apud: BORREGO, Maria Aparecida. Op. Cit. p.58.
145

E sendo perguntado pelo conteúdo na petição do justificante disse


que o conhece desta cidade há 14 anos que nesta veio acabar de
aprender a ler que poderia ter nesse tempo 10 anos para 11 pouco mais
ou menos (achara) de seu conhecimento é pelo tio nesta visto que não
sabe quem sejam seus pais, porém que lhe conhece seus irmãos
assistentes na cidade do porto Chamados Manuel Lopes da Costa e João
Lopes da Costa. Que ouviu dizer ser natural da Freguesia de São
Cristóvão do Rio Mau, termo de Barcelos, Acerbispado de Braga e que
sabe de esta ciência que ele justificante ser solteiro livre e desimpedido
na sua pátria e na cidade do Porto, onde ouviu dizer que também
estivera e mais que podem ter vinte e cinco anos pouco mais ou menos
e não mais disse deste.497

Graças ao depoimento de Manuel Marinho de Barros, sabemos que Antônio


Lopes da Costa veio para a cidade do Rio de Janeiro com a idade de 14 para 15 anos com
o objetivo de estudar, e teve aqui o auxilio de seus irmãos Manuel Lopes da Costa e João
Lopes da Costa. Dessa forma, além de mostrar que Antônio Lopes da Costa veio para a
Cidade do Rio de Janeiro depois que membros de sua família já estavam instalados na
capitania, o depoimento da testemunha também emboça um pouco da trajetória desse
negociante desde sua saída de sua freguesia natal, até seu enlace matrimonial e
estabelecimento definitivo na cidade.

Dessa maneira, segundo o testemunho do negociante José Correa da Fonseca,


Antônio Lopes da Costa antes de embarcar na capitania fluminense, residiu na cidade do
Porto pelo período de 11 meses. Tais informações são confirmadas ainda por outra
testemunha o negociante Lourenço Fernandes Viana “homem solteiro natural da Vila de
Viana e morador desta cidade na Rua direita”. 498

Além dos lugares percorridos, tais depoimentos demonstram as características da


mobilidade espacial comum desses agentes mercantis antes de se estabelecer
definitivamente na praça mercantil carioca. Interessante notar como retalhos de vida são
tecidos a partir dos relatos dessas testemunhas que estavam ali apenas para atestar se os
contraentes eram solteiros, livres e desimpedidos.499

497
AHU_ACL_CU_017, Cx. 40, D. 4107.
498
ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261.
499
BORREGO, Maria Aparecida. Op.cit. p.67.
146

Dessa maneira, inseridos em uma sociedade baseada no “ouvir dizer” e o no que


era “público e notório”, as testemunhas inquiridas nos banhos matrimoniais “deixam
transparecer, por meio de suas falas, o conhecimento geral que se tinha sobre as histórias
individuais”.500 Todavia, acreditamos ainda que tais relatos demonstram como trajetórias
desses indivíduos se cruzavam, mostrando as relações estabelecidas pelos mesmos e as
redes em que estavam inseridos.

De acordo com Bertrand, uma rede se sociabilidade no Antigo Regime não se


resumia somente ao parentesco, o indivíduo deve ser considerado fora de seu aporte, o
que se estende a diversos universos relacionais. 501 Em outras palavras, redes não são
estabelecidas somente através de relações familiares, mas de amizade, clientelismo,
compadrinho, e até mesmo amorosas. Assim, acreditamos que além de mostrar com
clareza um pouco da trajetória dos contraentes, os relatos das testemunhas nas
habilitações matrimoniais deixam vestígios das relações traçadas pelo contraente, nos
permitindo perceber a que grupos estavam ligados.

Como vimos, todas as testemunhas citadas até o presente momento eram, assim
como Antônio Lopes, homens de negócio atuantes na Praça do Rio de Janeiro, como o
negociante Antônio Pinto da Távora que

diz que conhece o capitão Antônio Lopes da Costa a muitos anos,


que é filho legitimo de João Lopes e de Andresa Gonçalves, os quais
conheceu pela razão de um irmão do justificante ser casado com uma
outra parenta dele, e que é natural e batizado na freguesia de São
Cristóvão de Rio Mau, termo de Barcelos, Arcebispado de Braga, de
onde foi para o Porto, onde ele esta também conheceu pelo ver e de
nenhuma outra parte veio o justificante para esta cidade solteiro e
desimpedido sem o mais não disse....502

Analisando as 31 habilitações matrimoniais por nós estudadas, em 14 delas foram


encontrados negociantes, mercadores ou capitães de navio entre as testemunhas, nada
menos que em 45% delas. Nos 55% restantes, em 14 dos 17 casos não foi possível
encontrar o ofício das testemunhas, o que torna o número aqui apresentado ainda mais
significativo.
500
Idem.
501
BERTRAND. “Los modos relacionales de las elites hispoamericanas coloniales. Enfoques y posturas.
Anuario IEHS, Tandil, nº.15, 2000. p.74
502
ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261
147

Como demonstrado no caso de Antônio Lopes da Costa, os relatos são muito ricos
e, além de indicarem um pouco da trajetória do noivo, também mostram algumas relações
tecidas entre o contraente e as testemunhas. Em algumas habilitações, podemos encontrar
laços estabelecidos entre os personagens por nós já conhecidos. Dentre os casos que
encontramos, está a sociedade, entre Antônio de Oliveira Durão e Antônio Pinto de
Miranda. Durão contrai casamento em 1747 com Jacinta Tereza Lourença de Jesus, na
época com 13 anos de idade, filha do sargento-mor e homem de negócio Bento de
Oliveira Braga.503 Em seu testemunho, Antônio Pinto de Miranda diz conhecer muito bem
Antônio de Oliveira Durão assim como a sua noiva e ter por esse motivo sabe “pelo ver”
que ambos eram solteiros. Alega,

conhecer o justificante da cidade do Porto de onde é natural e batizado


na freguesia de Nossa Senhora da Vitória, Arcebispado do Porto, e ser filho
legítimo de e Antônio da Fonseca e de Francisca de Oliveira que conheço
de ver e dizer.504

Tal quadro mostra que as relações entre Antônio Pinto de Miranda e Antônio de
Oliveira Durão vão além das sociedades mercantis estabelecidas entre eles, traçadas
principalmente através de uma relação de amizade que começa antes da chegada de
ambos ao Rio de Janeiro. As outras duas testemunhas que depõem no processo
matrimonial de Antônio de Oliveira Durão também se apresentam como indivíduos “que
vivem de seu negócio”. Entre eles está Manuel da Costa Cardoso, familiar do santo ofício
atuante na Praça do Rio de Janeiro principalmente como procurador de ouro para Minas,
que também aparece nas fontes como em transações envolvendo compra e venda de
navios entre 1745 e 1750. 505

Antônio Pinto de Miranda e Antônio de Oliveira Durão também aparecem juntos


como testemunhas de Francisco Pinheiro Guimarães, que, como mencionado, contrai
matrimônio em 1764 com Ana Maria do Sacramento. Segundo Antônio Pinto de
Miranda,

503
Entre as referências encontradas sobre o negociante encontramos principalmente atuando como
procurador de ouro para Minas e como credor de terceiros. AHU-Rio de Janeiro, cx. 66, doc. 59
504
ACMRJ. Cx.1006 Doc.1257.
505
Banco de dados. SAMPAIO A.C. de Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas
econômicas no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
148

disse que conhece desta cidade a 17 para 18 anos e nesta cidade sempre
o tem visto assistir e sempre foi voz publica e é constante ser o dito solteiro
livre e desimpedido, e ele testemunha por tal sem que haja forma em
contrário, e que não sabe quem são seus pais do que morou Arcebispado de
Braga e que não sabe que idade terá, porém pelo que mostra terá 35 anos e
assinou [...]506

Como ressaltado no capítulo 2, Francisco Pinheiro Guimarães e Antônio Pinto de


Miranda eram sócios em fábrica de linho cânhamo, mas estavam de lados opostos no
processo que envolvia a transferência de escravos para o Valongo.

O mesmo quadro ocorre na habilitação matrimonial de Domingos Marques, capitão


de navio que está presente como embargante no edital de1758. Em 1768, mesmo ano de
encerramento do processo de transferência dos escravos para o Valongo, Domingos casa-
se com Mariana Rita, filha legítima do Almoxarife João Álvares da Costa e de sua esposa
Francisca Inácia dos Prazeres, tendo como sua testemunha Bento Esteves de Araújo,
negociante que se coloca a favor da Câmara em 1766.

Entre as testemunhas de Brás Carneiro Leão também encontramos homens de


negócio. Entre eles está Antônio da Rocha dos Santos, um dos negociantes que assinaram
juntamente com Brás Carneiro Leão o abaixo assinado em 1766 buscando denunciar a
permanência da venda de escravos na rua direita. Em seu depoimento, João da Rocha
afirma ser negociante, morador da Rua Direita, ser natural do Arcebispado de Coimbra e
diz conhecer Brás Carneiro Leão “pelo ver nesta cidade a 12 ou 13 anos e que para ela
veio em direitura o justificante da cidade do Porto que nesta está assistindo desde o tempo
até o presente”. 507

O quadro esboçado acima demonstra claramente que, apesar de alguns negociantes


ainda procurarem se estabelecer na cidade através de laços de parentesco com a nobreza
da terra, a tendência dos casamentos dos negociantes analisados nos mostra que cada vez
mais estes buscavam se afirmar sem qualquer laço com tal nobreza. Quadro demonstrado
não somente com o aumento do número dos casamentos endogâmicos, mas também
através dos laços de amizade que podemos conferir através dos relatos das testemunhas.

506
ACMRJ. Cx. 43841 Doc. 2265.
507
ACMRJ. Cx. 79811 Doc. 3235.
149

Todavia, acreditamos que numa sociedade em que a “hierarquia entre seus diversos atores
508
precisava ser constantemente reafirmada,” analisar outras formas de se estabelecer
relações de parentesco (e, portanto, duradouras), como o compadrio é fundamental. Dessa
maneira, nos deteremos no estudo do compadrio para compreendemos de forma mais
profícua como se davam as relações desses indivíduos .

3.2. Compadrio e as redes de parentesco ritual.

O batismo é o primeiro de todos os sacramentos e a porta por onde se


entra na Igreja Católica, e se faz, o que o recebe, capaz dos mais
sacramentos, sem o qual nenhum dos mais fará nele o seu efeito. 509

Como citado, de acordo com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia


o batismo constitui-se no primeiro e principal sacramento da religião católica. Era através
dele o indivíduo alcança a remissão dos seus pecados e, além disso, diferente dos outros
510
sacramentos, possuía um caráter obrigatório para ingressar na comunidade cristã.

Por ser uma das prerrogativas para a salvação da alma, pois, além da remissão dos
pecados livrava a alma das crianças do limbo, a Igreja estabeleceu uma regulamentação
que instituía que “qualquer pessoa, mesmo que seja mulher ou infiel”511 podia administrar
o sacramento em caso de emergência. Dessa maneira, devido à alta mortalidade infantil
do período, recomendava-se que o batismo fosse realizado “até oito dias depois de
nascidas”, e o seu não cumprimento poderia acarretar no pagamento da pena de 10
tostões (valor que poderia ser dobrado nos 8 dias seguintes), perseverando tal negligência
a Igreja poderia providenciar que os pais fossem “mais gravemente castigados”.512

508
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de, “Em nome do pai”: o compadrio na construção das estratégias
sociais dos homens de negócio cariocas (1718-1741). Texto inédito.
509
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. (1853), feytas, e
ordenadas pelo... Senhor d. Sebastião Monteyro da Vide...propostas, e aceytas em o Synodo Diocesano,
que o dito Senhor celebrou em 12 de junho de 1707. São Paulo: Typographia 2 de Dezembro, Títulos X a
XX. Edusp: p.138.
510
Os sete sacramentos são: Batismo, confirmação, eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e
matrimônio. Idem p.136.
511
Ibidem.
512
Ibidem.
150

De acordo com Silvia Brügger, foi a partir do século XI que o batismo passou a
exigir a presença de padrinhos.513 De acordo com as Constituições Primeiras:

Os padrinhos serão nomeados pelo pai ou mãe, ou pessoa a cujo estiver


a criança; e sendo adulto os que ele escolher. [ ...] Mandamos, outrossim,
que o padrinho ou madrinha nomeados toquem a criança, ou a recebam ao
tempo que o sacerdote a tira da pia batismal feito já o batismo, e que o
sacerdote que batiza declare aos ditos padrinhos como ficam sendo fiadores
para com Deus pela perseverança do batizado na fé, e como, por serem
seus pais espirituais, têm a obrigação de lhes ensinar a doutrina cristã e
bons costumes. 514

Dessa forma, as Constituições determinavam o compromisso dos padrinhos que


passavam a estar extremamente comprometidos com o batizando e sua família,
estabelecendo com eles um “parentesco espiritual.” O laço contraído entre as partes na
pia batismal era tão forte que entre eles passava a existir impedimento canônico ao
matrimônio. 515

O compadrio foi, sem sombra de dúvidas, um importante elemento de constituição e


consolidação de laços de solidariedade na sociedade escravista brasileira, pois além de
construir vínculos espirituais entre pais, padrinhos e batizando o apadrinhamento
ampliava os laços para além da consanguinidade. Acreditamos que, como mostra Kátia
Mattoso, os laços de compadrio:

(...) se harmonizam perfeitamente com as regras dessa sociedade


brasileira baseada na família extensa, ampliada, patriarcal. E os laços
não prendem apenas padrinho e afilhado, ligam o padrinho, sua família
e os pais da criança batizada, cujo grupo, em seu conjunto, ganha uma
promoção excepcional. 516

513
BRUGGER, Sílvia M. J. Minas Patriarcal: família e sociedade (São João Del Rei – séculos XVIII e
XIX). São Paulo: Annablume, 2007, p.283.
514
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. (1853)... Op. Cit.
p.153.
515
Idem.
516
MATTOSO, K. M. de Q. Ser Escravo no Brasil. SP: Brasiliense, 1982. p.132.In516 BRUGGER, Sílvia
M. J. Minas Patriarcal: família e sociedade (São João Del Rei – séculos XVIII e XIX). São Paulo:
Annablume, 2007, p.284.
151

Portanto, compreender como o sistema de compadrio permitia aos homens de negócio


ampliar suas redes, e com isso fortalecer sua posição social é essencial.

Nos últimos anos, a historiografia sobre o tema vem se multiplicando, porém as


maiorias desses trabalhos se concentram no estudo das relações entre escravos e de sua
importância para o estabelecimento de alianças e da afirmação de hierarquias na
sociedade de Antigo Regime. 517 Sobre as relações de compadrio estabelecidas pelos
homens de negócio no Rio de Janeiro, conhecemos o texto inédito de Sampaio que ao
analisar os registros de batismo de livres da Candelária entre 1718-1741 constata que
nada menos que “1/5 de todos os batizandos da Candelária tinham por padrinho um
518
homem de negócio”. Mostrando assim que o apadrinhamento pelos negociantes ia
muito além da comunidade mercantil, e como esse grupo estava inserido na vida da
freguesia daquele período. Todavia, também percebe que somente 40% dos 239 filhos de
negociantes batizados possuíam como padrinho outro indivíduo ligado ao trato mercantil.
Tais números reafirmam a inserção do grupo mercantil na sociedade carioca, tanto para
apadrinhar, quanto para ser apadrinhada. Quadro esse oposto ao encontrado para a
tendência dos casamentos demonstrados nas páginas anteriores. Assim, segundo
Sampaio, era através dos batismos que esse grupo procurava “estabelecer alianças fora
dos seus quadros sociais mais estritos.” 519 Essa opção pode ser vista como uma estratégia
desses negociantes (em sua maioria portugueses) estabelecer uma rede de alianças com os
moradores da cidade.

No que concerne o grupo mercantil por nós aqui analisado, foi possível encontrar
nos registros de batismo somente 13 indivíduos, todos na Freguesia da Candelária. Dessa
maneira, assim como no caso dos matrimônios não foi possível encontrar nas fontes um
número de dados suficiente para fazer uma análise quantitativa. Contudo, acreditamos
que para compreender como esses laços eram construídos é essencial analisar como essas
estratégias se davam de perto. Sendo assim, optamos por fazer uma análise qualitativa ao
apreendermos os casos individuais.

517
Sobre o tema ver: FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano
colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998/ BRUGGER, Sílvia M. J. Minas Patriarcal: família e
sociedade (São João Del Rei – séculos XVIII e XIX). São Paulo: Annablume, 2007.
518
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do pai”: o compadrio na construção das estratégias
sociais dos homens de negócio cariocas (1718-1741)”. Texto inédito.
519
Idem.
152

O primeiro caso que podemos citar é o de Manuel Rodrigues Ferreira que aparece
em 6 registros. Já em 1720 é citado na documentação como pai declarado de Ilias, filho
de Inês Maria de Santana mulher solteira moradora da Freguesia da Candelária. Como já
informado, Manuel Rodrigues Ferreira chega à cidade em 1717 com 15 anos de idade,
tendo, portanto 18 anos na ocasião do nascimento de Ilias.520 Ao que tudo indica esse
filho ilegítimo de Manuel não atrapalhou sua trajetória, pois em 1732 se casa com Elena
de Sá Rangel descendente da nobreza da terra da cidade.

Como fruto de seu casamento com Elena, encontramos o registro de batismo de sua
única filha Maria de Abreu Rangel em 1739, que teve como madrinha Maria Ferreira
esposa de Manuel Martins, de quem não possuímos maiores notícias, e como padrinho
ninguém menos que o capitão Paulo Ferreira de Andrada. 521 Como já mencionado no
presente capítulo, Paulo Ferreira de Andrada foi o primeiro esposo de com Teresa
Nascentes de Jesus, filha do Juiz da Alfândega Manuel Nascentes Pinto, que por sua vez
também era sogro do tão citado João Carneiro da Silva.

Assim como Manuel Rodrigues Ferreira, Paulo Ferreira de Andrada chega a cidade
nas primeiras décadas do setecentos e aparece na documentação como homem de negócio
já em 1725, em uma representação dos “comerciantes do Rio de Janeiro pedindo isenção
da dízima da Alfândega os frutos e gêneros procedentes da América”.522 Um ano depois,
assina outra representação ao lado dos homens de negócio da cidade contra a Alfândega,
na qual reclama de sua morosidade, e em 1735 também é um dos moedeiros que envolve-
se na disputa contra a nobreza da terra pela criação de uma companhia de ordenanças
independente.523 Referente às suas atividades mercantis, “aparece em diversas escrituras
como procurador de indivíduos residentes em Minas e como fiador de embarcações entre
1725 e 1729,” 524 já em 1737 é um dos contratadores da dízima da alfândega da cidade.525

Voltando a questão dos batismos, a escolha de Manuel Rodrigues Ferreira de um


também negociante para padrinho de sua filha, mostra a busca de um reforço seus laços
com membros da comunidade mercantil. Tal estratégia é bem diferente da traçada por

520
ACMRJ, AP763/L5, f.22f.
521
ACMRJ, AP763/L5, f.69v
522
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 22, D. 5024-5026.
523
Tabela Sampaio Op.cit.
524
AN, Cód. 157 – Fianças das embarcações que saem do Porto do Rio de Janeiro (1724-1730). Entre
1717 e 1738 ele é nomeado procurador por 11 indivíduos: CSM, CPON, L.7- L.47. Apud: Op. Cit.
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do pai...”.
525
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 43, D. 10196-10201.
153

Ferreira na ocasião de seu casamento, quando se insere na nobreza da terra da cidade.


Esse quadro mostra que tanto o batismo quanto o matrimônio não podem ser vistas como
estratégias exclusivas desses homens de negócio, podendo utilizar de estratégias distintas
para afirmar-se nessa sociedade colonial, como inserir-se em famílias da nobreza da
cidade ou criando laços de clientela com também negociantes.

A busca por padrinhos envolvidos com o trato mercantil também pode ser
observada como estratégia de outros negociantes por nós analisados. Esse foi o caso de
Antônio Pinto de Miranda que em 1724 batiza sua primeira filha Angélica, fruto de seu
casamento com Ana Maria de Gusmão, tendo como padrinho o capitão e negociante
Domingos Francisco de Araújo.526 De acordo com Sampaio, Araújo foi o campeão de
apadrinhamentos na primeira metade do século XVIII com nada menos de 35
afilhados.527

Sem dúvida, Domingos Francisco de Araújo fora um dos principais negociantes


atuantes na primeira metade do setecentos. Não temos noticias de quando chegou à
cidade, mas ao que tudo indica isso ocorre ainda no século XVII, pois ainda em 1698 se
casa na Candelária com Dona Josefa Correia do Lago, natural da cidade do Rio de
Janeiro. 528 Aparece nas fontes em 1703 como capitão de ordenança em um “Mapa dos
529
terços da Guarnição do Rio de Janeiro.” Segundo Sampaio Domingos Francisco
também fora:

Um dos raros homens de negócio da época que consegue a Ordem de


Cristo não através da renúncia de terceiros, mas pelos seus próprios
serviços, tendo sido capitão do forte de Santa Luzia, “tendo no dito posto
assistido a todos os rebates especialmente no de 1710 em que naus
francesas lançaram gente em terra para invadirem aquela cidade, e
encontrando-se com os invasores embaraçá-los com perda de parte
(…)ficando ferido de uma bala (...)” além de ter gasto 1:640$000 da sua
fazenda na reforma do forte. Prestou ainda muitos outros serviços, que lhe
permitiram inclusive receber o perdão pelos impedimentos encontrados em
suas provanças sem pagamento de qualquer donativo, como era usual.530

526
ACMRJ, AP764/L5, f.7
527
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do pai...”. Op. Cit.
528
RHEINGANTZ, Carlos. Primeiras famílias, v. 2, p. 178.
529
AHU-CA, doc. 2768. Apud: SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do pai...”.
530
ANTT, HOC, L. D, M. 13, N. 36. Apud: Idem.
154

Nesse sentido, Antônio Pinto de Miranda buscava claramente a aliança com um


dos indivíduos mais considerados e bem relacionados da cidade, que na ocasião de sua
habilitação a Ordem de Cristo, fora considerados pelos camaristas do Rio de Janeiro
como “sujeito benquisto neste povo, e homem de luzimento nele, motivos porque é muito
respeitado.”531

Outro homem de negócio que optou por ter como padrinho de seus filhos outro
negociante foi Manuel de Macedo, que em 1729 teve como padrinho de seu filho Antônio
o negociante Domingos Pereira Chaves. 532 Domingos aparece estabelecido na cidade
como familiar do Santo ofício já em 1717, e assim como Paulo Ferreira de Andrada fora
procurador de 19 indivíduos residentes em minas. 533 Manuel de Macedo também batiza
outras duas filhas na freguesia da Candelária, tendo como padrinho de ambas, José
534
Ribeiro Salvador do qual infelizmente não possuímos maiores informações.

Já o capitão Antônio dos Santos Lisboa, batiza quatro filhos na Freguesia da


Candelária. Entre os padrinhos está o negociante Antônio da Costa Araújo que em 1723
e 1725 batiza, respectivamente, Thereza535 e Joana,536 as filhas mais novas de Antônio
dos Santos. Antônio da Costa de Araújo, figura na documentação já em 1726 quando
recebe uma sesmaria na Freguesia de nossa Senhora do Pilar, ao longo de toda década
de 1720 aparece diversas vezes como procurador, e em 1742 é nomeado pelo rei D.
João V para o ofício de tabelião do Rio de Janeiro, de que era proprietário Julião Rangel
de Sousa Coutinho.537Anos depois em 1753, recebe a serventia nos ofícios de escrivão
da Câmara, Almotaçaria, tabelião dos Órfãos e do Juízo Ordinário da Vila de Parati.538

Segundo a doutrina católica, o padrinho era considerado o segundo pai, um


compadre, ou seja, passava a ser visto como um parente, uma pessoa que de alguma
forma “se dividia a paternidade”.539 Dessa maneira, os envolvidos passam a fazer parte
de uma mesma família unida por laços de clientela, consolidando relações muitas vezes
já estabelecidas através de sociedade comerciais e interesses econômicos. A busca por
padrinhos também negociantes pode ser vista como uma estratégia para se inserir e na
531
Ibidem.
532
ACMRJ, AP763/L5, f.60f.
533
ACMRJ, AP763/L5, f.76v.
534
ACMRJ, AP763/L5, f.50f.
535
ACMRJ, AP762/L427, f.82v.
536
ACMRJ, AP763/L5, f.19v.
537
AHU_ACL_CU_017, Cx. 34, D. 3588.
538
AHU_ACL_CU_017, Cx. 46, D. 4663.
539
BRUGGER, Sílvia M. J. op. cit., p.343.
155

elite mercantil da cidade, posto que, como podemos observar nos casos citados acima,
procuravam estabelecer laços com homens de negócio já estabelecidos na capitania.

Com tal hipótese entramos na importante questão da historiografia existente até


o presente momento que mostra o compadrio era fundamentalmente uma relação entre
desiguais, pois ao buscar padrinhos para seus filhos, os indivíduos escolhiam
estabelecer laços com esferas superiores da sociedade. Ao analisar os apadrinhamentos
de escravos na região mineira de São João Del Rei entre os séculos XVIII e XIX, Silvia
Brügger demonstra que,

Para as escravas, as escolhas dos padrinhos parecia oscilar,


preferencialmente, entre os dois extremos sociais: padrinhos livres,
visando provavelmente possibilidades de ganhos, para seus filhos ou para
si, ou cativos, para reforçar as teias sociais estabelecidas na própria
comunidade escrava.540

No que tange os negociantes por nós analisados, também não encontramos casos
em que escolhessem como padrinhos, indivíduos de esferas sociais inferiores. E como
observado, ainda nos casos em procuravam padrinhos no interior do grupo mercantil,
estavam mais interessados em negociantes já estabelecidos na cidade ou com algum
prestigio, uma clara busca de “aliança para cima.”

É importante ressaltar, que não podemos afirmar que essa foi uma estratégia de
fechamento em torno da elite mercantil, posto que, além dos números que possuímos
não serem suficiente para realizar tal afirmação, também foram comuns os laços de
compadrio com indivíduos de outros grupos. Como exemplo podemos citar o caso do
próprio Antônio dos Santos Lisboa que em 1721 batiza sua filha Antônia ,cujo padrinho
541
foi o padre João de Souza Araújo.

Todavia, o registro que nos chama mais atenção é o do primogênito de Antônio


dos Santos Lisboa, Paulo que tem por padrinho ninguém menos que o Doutor Mateus
Saraiva. Como observado no capítulo 2, Saraiva fora o médico do Senado da Câmara
que ao lado de Francisco Correa Leal, muda sua posição ao longo do processo de 1758

540
Idem. p. 285.
541
ACMRJ, AP 762/L89, f. 32v.
156

para apoiar os negociantes pela manutenção do comércio de escravos da Rua Direita,


afirmando que “nunca se observou epidemia nem mal contagioso nos escravos”, e
portanto não eram um veículo de transmissão de doença.542

Dessa maneira, acreditamos que a mudança de posição desses doutores no


processo possa estar ligada às relações estabelecidas entre esses médicos e os
comerciantes de escravos da Praça do Rio de Janeiro. Sugerimos que estas relações
estavam para além das oportunidades de trabalho que os homens de negócio podiam
proporcionar para esses doutores. Os laços entre Saraiva e Antônio reaparecem em 1731
no batizado de Francisco, filho de Francisco Gomes da cunha, em que Mateus Saraiva
foi padrinho ao lado da madrinha Dona Joana de Mendonça mulher de Antônio dos
Santos Lisboa.543

Esse quadro se repete se analisarmos a documentação referente aos outros


médicos, físicos e cirurgiões envolvidos no processo. O próprio Antônio dos Santos
Lisboa em 1740 casa uma de suas filhas, Dona Tereza Leonarda de Mendonça com
outro médico envolvido no processo de 1758, o doutor Bernardo da Costa Ramos.544
Curioso notar que após o falecimento de Tereza Leonarda em 1764, Bernardo da Costa
Ramos escolhe para ser sua segunda esposa Mariana da Fonseca Costa e Araújo filha de
Antônio de Araujo Pereira outro homem de negócio atuante na cidade do Rio de
Janeiro.545

Retornando aos registros de batismo, observamos Bernardo da Costa Ramos em


duas ocasiões como padrinho dos filhos de ninguém menos que Brás de Pina.546 Grande
negociante envolvido principalmente nos contratos de Pesca de Baleias entre 1729 e
1743, 547 Brás de Pina também possuía negócios no comércio com a Colônia de
Sacramento e ainda fora um grande comprador rural, cujas terras deram origem a um
bairro com o seu nome. 548

542
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68) Códice:
6.1.9.
543
ACMRJ – AP 0762.
544
ACMRJ. Cx. 3018 Doc. 73093.
545
ACMRJ. Cx. 3030 Doc. 73445.
546
Bernardo da costa Ramos batiza em 1740 e 1747, respectivamente Brás e Joana. Ambos fruto do
casamento Brás de Pina com Luiza Bernarda Rego. ACMRJ, AP 764/L6, f. 71v/ ACMRJ, AP 764/L6, f.
229.
547
PESAVENTO, Fábio. Op. cit, p.47.
548
AHU-Rio de Janeiro, cx. 26, doc. 56; cx. 31, doc. 2 e 8.
157

Dos 18 profissionais de saúde citados no processo de transferência do mercado


de escravos para o Valongo, encontramos somente 6 deles envolvidos em alguma
relação de compadrio, todavia nada menos que 5 desses indivíduos possuía algum laço
com homens ligados a alguma atividade mercantil. Podemos citar o caso do doutor
Antônio Antunes de Meneses que em 1738 tem como padrinho de seu filho Manuel,
Romão Matos Duarte designado no registro como homem de negócio da praça
carioca. 549 E ainda o cirurgião licenciado João Batista Darrigue que escolhe como
padrinho de sua filha Ana, o negociante e familiar do Santo ofício Domingos Francisco
da Silva, em Agosto de 1747.550

Como nossa amostra é pequena não podermos afirmar que esta era uma
tendência geral para todos os profissionais de saúde atuantes no Rio de Janeiro.
Todavia, acreditamos a necessidade diária com o trato da saúde, principalmente dos
escravos, no mínimo aproximava esses dois grupos resultando muitas vezes em laços de
clientela e amizade.

Essa aproximação mostra também que os negociantes estavam interessados em


estabelecer alianças além da comunidade mercantil, o que, como esboçado por Sampaio,
demonstra a inserção desse grupo na sociedade carioca. Tal inserção fica ainda mais
clara se analisarmos mais de perto os apadrinhamentos feitos por esses homens de
negócio. Esse foi o caso de Antônio de Oliveira Durão que no ano de 1747 batiza filhos
de oficiais mecânicos. No caso, Antônio filho do oficial de torneiro Manuel da Cunha e
Genovena, filha de Antônio Francisco que era oficial de carpinteiro.551

Já Felipe Gonçalves Lisboa é padrinho por duas ocasiões dos filhos do pardo
forro Caetano Pacheco da Rosa. Quadro que se repete por muitas vezes, para citarmos
os casos de Antônio dos Santos Lisboa e de Manuel de Macedo que também no final da
década de 1740, batizam filhos de pardos forros.552

O apadrinhamento feito por esses negociantes se reproduzem consideravelmente


nas fontes, na maioria das vezes com indivíduos cujo ofício não conseguimos identificar
mesmo com o cruzamento de fontes, como foi o caso do negociante Manuel de Campos
Dias que é convidado para apadrinhar por 5 vezes. Como já mencionado, Dias fora um

549
ACMRJ, AP764/L6, f.47.
550
ACMRJ, AP764/L6, f.231f.
551
ACMRJ, AP764/L6, f.220 ACMRJ, AP764/L6, f.221v
552
ACMRJ, AP763/L5, f.75v/ ACMRJ, AP763/L5, f.144v
158

importante negociante da praça carioca e Tesoureiro geral da dizima da Alfândega do


Rio de Janeiro em 1719 e visto pelas testemunhas em seu processo de nomeação como
um homem “inteligente, bem procedido e limpo sangue”.

Esse quadro mostra que os negociantes eram vistos como um grupo que oferecia
vantagens ao apadrinhar. Além de possuírem cabedais, ao longo do setecentos esses
homens de negócio acumulam cada vez mais prestigio social, que os tornavam atraentes
para os pais dos batizandos. Estamos falando de uma sociedade de Antigo Regime em
que o prestígio era um capital imaterial para ser oferecido no estabelecimento de
relações entre padrinho e a família do afilhado.

Acreditamos que a estratégia de se obter alianças “para cima” através do


compadrio fazia parte de uma “economia do dom” presente no sistema normativo das
sociedades de Antigo Regime, em que o padrinho oferecia bens proteção e favores para
aquele que a partir do laço construído na pia batismal passava a fazer parte de sua
família.

Sendo assim, através das redes pessoais, na forma de clientela, amizade e


parentesco passavam a fazer parte de uma hierarquia costumeira que era produzida não
somente a partir de relações entre negociantes ou com a nobreza da terra, mas com
outras esferas da sociedade. Dessa maneira concordamos com Fragoso quando aponta
que,

o acesso à riqueza social, ao mando e à mudança de estrato


econômico nessa sociedade não dependia, apenas, da capacidade de um
sujeito fazer operações impessoais mercantis, mas também do estamento
de sua família e, ainda, do prestígio e do mando por ela acumulados553

553
FRAGOSO, João Luis Ribeiro. “A nobreza principal da terra...” Op.cit.
159

Considerações Finais

Ao longo da nossa pesquisa, nos convencemos que para chegar ao no topo da


hierarquia social da capitania fluminense no final do século XVIII e começo do século
XIX, a elite mercantil da praça carioca passou por um longo processo de acomodação
que evolveu mudanças socioeconômicas na cidade e disputas com uma antiga elite
formada por senhores de engenho que possuíam seu poder legitimado por práticas
costumeiras consolidadas ao longo de mais de 200 anos.

O quadro exposto demonstra que a constituição de uma comunidade mercantil se


deu aos poucos, através de um conjunto de fatores que evolviam crescimento do capital
mercantil, estratégias comerciais, alianças matrimoniais e laços de parentesco e amizade
que se desenvolveram e aos poucos foram consolidados ao longo de todo o século
XVIII.

O estudo das relações matrimoniais dos homens de negócio aqui analisados,


aponta para uma tendência a independência desse grupo em relação a nobreza da terra.
Assim como a busca por padrinhos no interior da comunidade mercantil e em outros
segmentos da sociedade, como os médicos, por exemplo, também aponta para uma
busca por e autonomia entre os negociantes e a antiga elite colonial. Mesmo os casos em
que ainda ocorre uma ligação entre nobreza e elite mercantil, como o casamento de
Antônio Lopes da Costa, não modificam consideravelmente o quadro geral encontrado,
pois estas alianças serviam, sobretudo para consolidar o poder político desses
negociantes. Foram justamente estas famílias da nobreza da terra, que incorporaram
negociantes e estabelecem alianças com a nova elite mercantil, que conseguiram
sobreviver as mudanças da sociedade de Antigo Regime ao longo do setecentos.554

Dessa maneira, todos esses movimentos tiveram como resultado, já na metade


do século XVIII, a consolidação de um grupo articulado, com identidade própria e
fortalecido pelas mudanças ocorridas não somente no Rio de Janeiro, mas em todo
império português, capaz de intervir decisivamente na esfera política local; como visto
em inúmeros episódios e principalmente no que se refere ao processo de transferência
de escravos para o Valongo em que esses negociantes saem vitoriosos.

554
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Famílias e negócios...” Op. Cit. p.260
160

Além disso, serão esses negociantes e seus descendentes que vão ocupar cargos
na Câmara principalmente a partir da década de 1770, como observado no capítulo 2.
Como exemplo podemos citar o caso do escrivão do Senado da Câmara André Martins
de Brito que está presente ao longo de todo o processo de transferência do mercado de
escravos para fora da cidade. Doutor pela Universidade de Coimbra e Cavaleiro
Professo da Ordem de Cristo, André se torna proprietário do ofício de Escrivão da
Câmara do Rio de Janeiro graças a seu pai o negociante João Martins de Brito, que no
dia 20 de novembro de 1750 oferece como donativo a “real fazenda dezesseis contos de
réis pelo ofício”. 555

Um dos comerciantes mais ativos da praça carioca do primeiro quartel do século


XVIII, 556 João Martins Brito tem uma trajetória típica da maioria dos homens de
negócio citados nesta pesquisa. Chega à cidade nas primeiras décadas do setecentos
para trabalhar com o seu irmão, Domingos Martins Brito, que também era homem de
negócio e na ocasião de chegada de João já se encontra instalado na Cidade.557 Se casa
no Rio de Janeiro com Escolástica Maria de Oliveira, filha de Antônio João “um
mercador com loja de ferragens e pregos, que vendia com auxílio de seus caixeiros”.558
A inserção na família de Antônio João, assim como o apoio de seu irmão Domingos
foram ótimas portas de entrada no mundo mercantil colonial, posto que já entre 1724 e
1729 figura na documentação como fiador de navios que iam para Portugal e Bahia. 559
Em 1726, assina junto a outros homens de negócio da cidade representação contra a
morosidade da alfândega560 e por fim, em 1743 é nomeado Juiz da Alfândega561.

Curioso notar que antes de André Martins de Brito, o antigo proprietário do


ofício de Escrivão da Câmara fora ninguém menos que Julião Rangel de Souza
Coutinho, o mesmo que em 1732 acusava os negociantes de serem “indignos” de
ocuparem cargos no Senado da Câmara. Tal quadro deixa mais uma vez evidente que ao
longo do setecentos observamos uma mudança clara na hierarquia da colônia, em que a

555
AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 65, D. 15221.
556
AHU, RJ, Ca., doc.12008 ver também ANRJ: Vice-Reinado Códice: 495, p.2 e p.3
557
ANTT, HOC, L. A, M. 3, N. 14. Apud: SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do pai...”. Op.
Cit.
558
Idem.
559
E uma vez como fiador de um navio destinado à Bahia: AN, Cód. 157 – Fianças das embarcações que
saem do Porto do Rio de Janeiro (1724-1730). Apud: SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Em nome do
pai...”. Op. Cit.
560
AHU-CA. Doc. 5.270.
561
AHU-CA, doc. 12.008.
161

antiga nobreza da terra dá lugar aos homens de negócio que “se evidenciam como a
nova elite colonial.” 562

562
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de,“Famílias e negócios”. Op. Cit. p.238.
162

Anexos

Anexo 1

Tabela 1: Lista dos Homens de negócio, marinheiros, capitães de navio e


comerciantes de escravos novos que assinaram procuração em 11 de fevereiro de
1758.

01- Agostinho de Faria Monteiro


02- Alexandre Rodrigues Viana
03- Antônio de Carvalho
04- Antônio da Silva Penha
05- Antônio Martins Cunha
06- Antônio do Amaral
07- Antônio Menezes da Silva
08- Antônio Lopes da Costa
09- Baltazar dos Reis
10- Boaventura Menezes Torres
11- Clemente Martins Lisboa
12- Clemente Martins Rego
13- Domingos Marques
14- Domingos Vieira Pinto
15- Felipe Gonçalves Lisboa
16- Francisco Álvares Rebelo
17- Francisco de Gouvêa Macedo
18- Francisco Ferreira Guimarães
19- Francisco Pinheiro Guimarães
20- Francisco Tavares França
21- Francisco Vieira Monteiro
22- Francisco Xavier
23- Guilherme Pereira
24- João Francisco Guimarães
25- João Hopman
26- Joaquim dos Santos
163

27- José Álvares


28- José Álvares Coelho
29- José Antônio Marques
30- José Caetano Álvares
31- José da Costa de Andrade
32- José Guilherme
33- José Rodrigues Nunes
34- Luís Pereira Cabral
35- Luís Pereira Tavares
36- Manuel Mota (Pedra)
37- Manuel dos Santos Borges
38- Manuel Gonçalves dos Santos
39- Manuel Pinto Carneiro
40- Manuel Rodrigues Ferreira
41- Marcos Fernandes da Silva
42- Miguel Pacheco
43- Pedro Ribeiro da Luz
44- Pedro Vicente.
AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-68)
Códice: 6.1.9
164

Anexo 2

Lista dos negociantes mais notáveis da praça do Rio de Janeiro, listado pelo Vice
Rei Conde de Resende

Tomás Gonçalves
Roque da Costa Franco
Elias Antonio Lopes
Domingos José Ferreira
Pantaleão Pereira de Azevedo
João Fernandes Vianna
José Rodrigues Fragoso
Antonio José Lopes
Luis Monteiro da Silva
José da Mota Pereira
José Pinto Dia
João Figueira da Costa
João Francisco da Silva de Souz
Domingos Alvares Ribeiro Guimarães
Antônio da Cunha
Caetano José de Almeida Silva
Felipe da Cunha Valle
João Alvares da Cunha
Manoel Caetano Pinto
Antônio Luis Fernandes
Brás Carneiro Leão
Luis Antonio Ferreira
Bernardo José Ferreira Rebelo
Francisco Pinheiro Guimarães
Francisco Xavier Pires
José Dias da Cruz
Amaro Velho da Silva
165

João Gomes Barroso


Antonio Gomes Barroso
Manoel de Souza Meirelles
José Pereira Guimarães
José Gonçalves dos Santos
Anacleto Elias da Fonseca
Manoel Velho da Silva
José Caetano Álvares

AN: Correspondência dos vice- reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo de Souza
Coutinho. Códice 68, volume 15, 1799. P. 324
166
167

Referências

Documentação manuscrita:

1. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro


AGCRJ, Manuscritos- Médico de saúde Registro de provisão de Matheus Saraiva
(1739) Códice: 46.2.46.

AGCRJ, Manuscritos- Autos de homens de negócio e comerciantes de escravos (1758-


68) Códice: 6.1.9.

AGCRJ, Manuscritos, Legislativo Municipal – Senado da Câmara Cópia das vereações


de 27/07/1791 e 16/10/1790. (1790) Códice: 16.3.29.

AGCRJ, Manuscritos - Termos de visita de saúde. Embarcações. (1791-1792) Códice:


50.4.36.

2. Arquivo Histórico Ultramarino – Rio de Janeiro

AHU, doc. 5270

AHU, doc. 9.918

AHU, doc. 15.512

AHU, doc. 15.513

AHU, doc.16.201

.AHU, doc. 17.093

AHU-CA. Doc. 5.270.

AHU-CA, doc. 12.008.

AHU, doc. 17.L093

AHU, doc. cx.7 Doc.1367


168

AHU_ACL_CU_017, Cx. 3, D. 278

AHU, Doc. cx.7 Doc.1367

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 27, D. 6326/6327

AHU_ACL_CU_017, Cx. 6, D. 649.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 11, D. 2123.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D. 2220.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 21, D. 2300

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 65, D. 15221.

AHU, RJ, Caixa 32 Doc:7550

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.1378

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.15576

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17494

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17493

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 66, D. 15512

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 12, D.17495.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 66, D. 15513.

AHU_ACL_CU_, Cx.77, D.6951

AHU_ACL_CU_017, Cx. 24, D. 2601.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 39, D. 4048

AHU_ACL_CU_017, Cx. 33, D. 3475

AHU_ACL_CU_017, Cx. 13, D. 1441

AHU_ACL_CU_017, Cx. 41, D. 4203

AHU_ACL_CU_017, Cx. 46, D. 4711


169

AHU_ACL_CU_017, Cx. 48, D. 4850.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 76, D. 6877.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 69, D. 6380.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 59, D. 5677.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 148, D. 11414.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 149, D. 11459.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 22, D. 5067.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 51, D. 11999

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 51, D. 12000

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 59, D. 13740.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 33, D. 3475

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9219

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9220

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9221

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 39, D. 9222

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 40, D. 9390

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10824.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10814 a 10824.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 109, D. 9117.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 102, D. 8746.

AHU_ACL_CU_,Cx.77, D.6951

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17065.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 17, D. 3654.


170

AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6669.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 86, D. 7595

AHU_ACL_CU_017, Cx. 86, D. 7596

AHU_ACL_CU_017, Cx. 77, D. 6991

AHU_ACL_CU_017, Cx. 40, D. 4107

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 74, D. 17065.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 78, D. 18041.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 88, D. 7741.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 114, D. 9385.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 51, D. 5117

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 80, D. 18464

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 80, D. 18465

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 80, D. 18466

AHU_ACL_CU_017, Cx. 48, D. 4850

AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6693.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 79, D. 18331.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 81, D. 7290.

AHU, RJ, Ca., doc.12008

AHU_ACL_CU_017, Cx. 41, D. 4250.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 50, D. 4962.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 31, D. 7148.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 42, D. 9820.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 46, D. 10893.


171

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 52, D. 12186.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 52, D. 12188.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12663-12665.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12663-12665.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12718.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 54, D. 12721-12722.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 56, D. 13088.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 60, D. 14132.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 73, D. 6677.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 107, D. 8948.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 113, D. 9344.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 165, D. 12322.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 87, D. 7694;

AHU_ACL_CU_017, Cx. 94, D. 8179;

AHU_ACL_CU_017, Cx. 96, D. 8328;

AHU_ACL_CU_017, Cx. 133, D. 10582;

AHU_ACL_CU_017, Cx. 191, D. 13752;

AHU_ACL_CU_017, Cx. 232, D. 15862

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 22, D. 5024-5026.

AHU_ACL_CU_017-01, Cx. 43, D. 10196-10201.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 94, D. 8146.

AHU_ACL_CU_017, Cx. 34, D. 3588.

AHU, cx. 120, doc. 61,


172

AHU, cx. 157, docs. 26, 27

AHU, cx. 181, doc. 36

AHU, cx. 302, doc. 114

AHU, cx. 303, doc. 70

AHU, doc.8564

AHU_ACL_CU_017, Cx. 12, D. 1321.

3. Arquivo da Cúria Metropolitana

Habilitação matrimonial:
ACMRJ. Cx.1006 Doc.1257

ACMRJ. Cx.1181 Doc. 6288

ACMRJ. Cx.1011 Doc. 1468

ACMRJ. Cx.1007 Doc. 1261

ACMRJ. Cx.3235 Doc. 79811

ACMRJ. Cx.4552 Doc. 1117

ACMRJ. Cx.1214 Doc. 7086

AHU-CA, doc. 8.608-8.612.

ACMRJ. Cx.2513 Doc. 1052

ACMRJ. Cx.1006 Doc.1257

ACMRJ. Cx. 43841 Doc. 2265

ACMRJ. Cx.3147 Doc. 77131

ACMRJ. Cx. 3018 Doc. 73093

ACMRJ. Cx. 3030 Doc. 73445


173

ACMRJ. Cx.2165 Doc. 40040

ACMRJ. Cx. 43841 Doc. 2265

ACMRJ. Cx. 79811 Doc. 3235

ACMRJ. Cx.1244 Doc. 7992.

Livro de Matrimônios:
ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 2; Manoel de Moura Brito p.21v

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 5; João Hopman p.187

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 6; Francisco Tavares França p.37v

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 6; Antônio de Souza LAge p.93v

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 6; João Antunes de Araújo Lima p.73

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 7; Antônio José Coelho p.62v

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 7; João Moreira Vale p.56

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 7; João Pinto da Silva p.68

ACMRJ. Matrimônio – Candelária Livro 8; João Hopman p.187

ACMRJ. Matrimônio – Campo Grande Livro 3; José Pacheco de Vasconcelos p.28v

ACMRJ. Matrimônio – Sé 5; José Teixeira Guimarães p.41v

Registros de Batismo:

ACMRJ, AP763/L5, f.22f

ACMRJ, AP763/L5, f.69v

ACMRJ, AP764/L6, f.74v

ACMRJ, AP764/L6, f.248v

ACMRJ, AP764/L5, f.7


174

ACMRJ, AP763/L5, f.29v

ACMRJ, AP763/L5, f.50f

ACMRJ. AP 764/L.6 p.244f

ACMRJ, AP763/L5, f.76v

ACMRJ, AP762/L427, f.82v

ACMRJ, AP763/L5, f.19v

ACMRJ, AP 762/L89, f. 32v.

ACMRJ, AP764/L6, f.47

ACMRJ, AP764/L6, f.231f

ACMRJ, AP 764/L6, f. 71v

ACMRJ, AP 764/L6, f. 229.

ACMRJ, AP764/L6, f.220

ACMRJ, AP764/L6, f.221v

ACMRJ, AP763/L5, f.75v

ACMRJ, AP763/L5, f.144v

4. Arquivo Nacional

ANRJ: Códice: 952, vol.17, fl.35

ANRJ: Correspondência dos vice-reis para a corte. Conde de Resende para D. Rodrigo
de Souza Coutinho. Códice: 68, volume 15, 1799. p. 324

ANRJ, cx.3629, n.22

ANRJ, PH Códice: 7, p.11

ANRJ: Vice-Reinado Códice: 495, p.3


175

5. Arquivo da Casa Setecentista de Mariana

ACSM, Livro.61. 3/1749 p. 153F,

ACSM, Livro.62. 8/1749 p. 108V.

ACSM, Livro.59. 10/1746 p. 104F.

ACSM, Livro.59. 1/1747 p. 156F

ACSM, Livro.61. 8/1748 p. 66F

ACSM, Livro.65. 27/4/1755

ACSM, Livro.62. 5/1749

Dicionários
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico,
architectonico ... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712 - 1728. 8 v

BERGER, Paulo. Dicionário das ruas do Rio de Janeiro – I e II Regiões


administrativas. Centro. Rio de Janeiro, Gráfica Olímpia, 1794, p.31

Dicionário da língua portuguesa composto pelo padre D. Rafael Bluteau,


reformado, e acrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro
(Volume 1: A - K). Silva, Antônio de Morais, 1755-1824.

Documentação impressa, memórias, obras de referência

Cf. Fundação Calouste Gulbenkianm. Ordenações Filipinas. Fac-símiule da edição feita


por Cândido Mendes de Almeida. Rio de Janeiro, 1870; Lisboa. 1985.

VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia.


(1853), feytas, e ordenadas pelo... Senhor d. Sebastião Monteyro da Vide...propostas, e
176

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São Paulo: Typographia 2 de Dezembro, Títulos X a XX. Edusp: p.138

Sites
http://www.slavevoyages.org/tast/database/search.faces

Bibliografia:

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Janeiro: PPGHIS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.

BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de

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BERGER, Paulo. Dicionário das ruas do Rio de Janeiro – I e II Regiões

administrativas. Centro. Rio de Janeiro, Gráfica Olímpia, 1794.

BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A Cidade e o Império: o Rio de Janeiro no

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