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Diário Secreto de Ana Bolena

Por Deus! - vociferou Isabel. - Não podereis dar-me um dia de descanso desta enfadonha
questão? Já me haveis causado uma dor de cabeça.
Os conselheiros da rainha mal podiam acompanhar o passo daquela mulher
extraordinariamente alta e esguia que se deslocava com grandes passadas pelo extenso
relvado de Whitehall, em direcção à sua montada.
William Cecil, seu principal conselheiro, homem sério e firme já de meia-idade,
encontrava-se dividido entre o desespero e a admiração que sentia pela sua jovem rainha,
vestida com um fato de montar de veludo cor púrpura, com o cabelo loiro-avermelhado a
esvoaçar ao vento. Aos vinte cinco anos, Isabel Tudor era mais do que decidida e teimosa.
A sua ousadia não conhecia limites e possuía um espírito arguto e uma sinceridade
arrojada, pouco próprios de um monarca inglês. Porém, via-se forçado a admitir que era
senhora de uma inteligência extraordinária. Falava seis línguas com a mesma fluência que a
sua e possuía o magnetismo que o pai, Henrique VIII, irradiara durante toda a sua vida
longa e atribulada. Se ao menos, pensava Cecil, não sentisse um prazer tão perverso em
ofender os grandes senhores, que nomeara seus conselheiros. Cecil atreveu-se a enfrentar a
raiva da rainha.
- Suplico a Vossa Majestade que preste mais atenção ao arquiduque Carlos. Para além de
ser o melhor partido da Cristandade, diz-se que é um homem belo e bem constituído.
- E o que é mais importante - acrescentou Isabel com um ar decididamente lascivo -, tem
belas coxas e belas pernas.
- Disseram-me que os seus ombros curvados não se notam quando monta a cavalo -
acrescentou lorde Clinton na esperança de ganhar algum terreno. Porém, Isabel deteve-se
bruscamente e voltou-se para eles de tal
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modo que os conselheiros chocaram um com o outro, como actores num palco a representar
uma comédia.
- E a mim disseram-me que é um monstro com uma cabeça enorme! Cristo seja louvado,
que terríveis escolhas me ofereceis para marido. Não me tentam a mudar de estado
matrimonial.
- O príncipe Eric é um...
- Um sueco tolo - concluiu Isabel.
- Mas é muito rico, Majestade, e extremamente generoso.
- E essa ridícula delegação que apareceu aqui na corte com vestes carmesins e corações de
veludo bordados e atravessados por uma flecha...? - Isabel revirou os olhos. - Pedis-me que
considere o rei de França que nos roubou Calais, o único porto que nos restava no
continente... e Filipe, esse espanhol moreno, viúvo de minha irmã e um católico tão devoto
e firme? Vamos, meus senhores, decerto poderíeis sugerir melhor.
- Preferis então pretendentes ingleses?
- Pretendentes ingleses?
Os olhos de Isabel pareceram mais doces e um leve sorriso esboçou-se aos cantos da sua
boca escarlate. Voltou-se e a passo mais lento retomou o caminho que a levava ao seu
alazão castanho, ajaezado com um caparazão debruado a ouro e para o jovem bem
constituído e de porte confiante e atlético que a aguardava junto ao animal com as rédeas na
mão. Cecil olhou para Robert Dudley, o mestre-cavaleiro da rainha com silencioso enfado.
Fora decerto Dudley que fizera surgir o sorriso nos lábios da soberana e a cadência quase
langorosa no seu andar, enquanto percorria o caminho que a levava à montada.
- Prefiro realmente os meus pretendentes ingleses - afirmou numa voz aveludada.
Cecil ouviu os conselheiros resmungarem discretamente e em surdina, ao verem Robert
Dudley. A corte impúdica que esse nobre arrogante fazia à rainha e a aceitação ainda mais
escandalosa da parte dela, criavam um clima de imoralidade que punha em perigo as
possibilidades de Isabel casar honradamente ali ou no estrangeiro. Dudley, que muitos
diziam ser amante da rainha, era um homem casado. Cecil afastou do pensamento a ideia de
que o comportamento duvidoso de Isabel era o seu modo de garantir que nunca teria de
casar, mantendo antes uma série de amantes durante todo o seu reinado; pior, a rainha
poderia mostrar certas parecenças com a mãe. O sangue dos Bolena estava manchado de
perversidade. Assim, todos - desde os conselheiros reais de Isabel que lhe ofereciam
inúmeros pretendentes, até a senhora Kat Ashley, sua aia desde a infância que implorava
todos os dias a Isabel que fosse razoável
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- exigiam que, por sua honra e para bem do reino, casasse e entregasse as rédeas do
governo a um esposo fiel.
Isabel aproximou-se de Dudley que, erguendo-se depois de uma profunda reverência, se
manteve de pé com gàlhardia, feições fortes e olhar límpido, obrigando o próprio Cecil a
admitir que o mestre-cavaleiro era uma bela figura de nobre virilidade. Dudley olhou
fixamente a rainha. Sem pensar na expressão reprovadora dos seus conselheiros, Isabel
estendeu os longos dedos pálidos e afagou-lhe lentamente a face e o queixo, terminando
com uma breve carícia no pescoço.
- Como está o meu belo alazão? - perguntou reprimindo um sorriso. Talvez fossem as
escandalizadas exclamações e forte respiração que escutou nas suas costas que a fizeram
dar uma sonora palmada no flanco enorme do cavalo castanho, poupando aos estupefactos
conselheiros a distante mas grata possibilidade de que a observação da rainha não fosse a
vulgaridade que suspeitavam ter ouvido.
Voltou-se para Cecil e lançou aos seus conselheiros um sorriso caloroso e travesso.
- Meus senhores Clinton Arundel e North, aprecio de sobremaneira os vossos amáveis
conselhos e estimo-os de todo o coração - permitiu que Robert Dudley a erguesse sobre o
cavalo e sentou-se olhando-os majestosa. - A minha escolha de marido e rei não será feita
de ânimo leve e requer de mim muita reflexão. Assim, peço que perdoem a hesitação de
uma pobre e fraca mulher em se comprometer. Mas prometo-vos que, quando tomar a
decisão, sereis os primeiros a saber. Bom-dia, meus senhores.
Partiu, tocando rapidamente com o calcanhar o flanco do cavalo. Dudley inclinou a cabeça
aos conselheiros com ar trocista, saltou para o seu próprio cavalo e partiu à desfilada atrás
da rainha que seguia já num rápido galope.
Cecil e os outros conselheiros voltaram-se contrariados e, sem quererem encarar-se,
empreenderam, a passo lento, o caminho do palácio real.
A tarde ia já adiantada quando os primeiros raios de Sol penetraram o céu nublado e
entraram pela janela da cabana numa tira dourada sobre os seios nacarados e nus de Isabel.
Dudley, reclinado junto a ela, apoiado no cotovelo, delineava preguiçosamente as pequenas
rolas com mão áspera mas meiga. Acariciou o mamilo rosado que se moveu sob o seu
toque. Um inesperado suspiro soltou-se dos lábios pintados que de
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tantos beijos, tinham perdido o carmim. Pestanejou por uns instantes e abriu lentamente os
olhos.
Isabel e Dudley tinham cavalgado a galope pelos campos de Abril, acabando por chegar ao
real pavilhão de caça, uma tosca e pequena casa de madeira na orla de Duncton Wood. O
casal tinha entrado a rir, ofegante do esforço dispendido mas, com o sangue a correr-lhes
nas veias, entregara-se a apaixonados abraços, beijos e outras intimidades em que haviam
progredido pouco a pouco, no decorrer dos meses anteriores.
- Tomais algumas liberdades com a vossa rainha, meu amor - murmurou Isabel com uma
certa aspereza.
- E desejo tomar mais, Majestade - afirmou Dudley medindo as palavras e considerando
oportuna a sua ousadia.
A rainha olhava-o com firmeza, certamente com o propósito de o fazer recuar. Porém,
Dudley era um homem excitado e pouco se preocupava. As mangas e o corpete de Isabel
estavam abertos em redor do seu tronco esguio, mas, as saias e saiotes continuavam intactos
sobre as ancas e as pernas, embora enrugadas pelos vapores escaldantes dos abraços
daquela tarde.
A mão de Dudley acariciou a cintura estreita de Isabel e as saliências húmidas da sua
espinha. Meteu os dedos sob a renda para encontrar a fenda macia entre as suas nádegas e,
puxou com força as ancas dela contra as dele. A rainha soltou um súbito gemido de prazer
que o encorajou a soltar-lhe a saia e a tentar encontrar-lhe o monte de pêlos virgens.
- Robin, basta.
Ele respondeu à ordem dela cobrindo-lhe a boca com um beijo feroz. Ela moveu-se debaixo
dele, mas sem ardor, e voltou a cara.
- Não me detenhais agora, Isabel.
- Sim. Detende-vos, já disse!
A voz dela alterara-se, perdendo a suavidade. O seu corpo macio tomara a rigidez da
madeira. As faces de Dudley coraram de raiva impotente. Retirou a mão de dentro das
volumosas saias da rainha.
Isabel observou o belo rosto de Dudley enquanto este tentava dominar-se. O seu forte
desejo pelo corpo da rainha, que amava e temia, transformara-se, com a ordem dela numa
súbita fúria e depois noutra coisa diferente, mais difícil de identificar. Tratava-se da Rainha.
Ele era seu súbdito. Os olhos dele mostravam como aquela embaraçosa situação o
transtornava. Ela sabia ser a única mulher em Inglaterra a poder exercer tal autoridade
sobre um homem. Aquela força exultante era nova, pois a sua coroação tivera lugar havia
apenas três meses e Robert Dudley era
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seu amigo desde a infância. Assim que fora coroada rainha, o afecto dele tinha-se
transformado num fervor veemente que lhe fora irresistível. Obedecendo a um impulso
nomeara-o mestre-cavaleiro e deixara-o cavalgar, atrás de si, no cortejo da coroação para
que todos o vissem. já os julgavam íntimos. Porém, Isabel recusara-lhe, até aí, o último
favor.
- Robin, meu amor... - acariciou-lhe a face quente e transpirada.
- Não me chameis amor - respondeu, com um olhar sombrio.
- Chamar-vos-ei o que me aprouver - respondeu a rainha com azedume. A luz desaparecia e
ambos sabiam que em breve terminaria o precioso tempo em que podiam estar a sós. Isabel
sentou-se, compôs o corpete e tentou abotoá-lo. - Então, ajudai-me com isto - provocou-o
com um sorriso sedutor e apesar do seu aborrecimento ele sentiu-se como de costume,
perfeitamente enfeitiçado por aquela frágil mulher. Os seus dedos pouco hábeis
introduziram os pequenos botões de pérola nas casas de cetim. Por uns momentos, deixou
que a mão lhe escorregasse, roçando-lhe o seio já coberto.
- Os vossos conselheiros estão extremamente preocupados - disse. Pensam que tencionais
casar comigo e fazer-me Rei - sentou-se, fechando a camisa e o gibão, sem a olhar nos
olhos.
- E dizei-me o que faríamos então com a vossa fiel esposa?
- Esposa? Terei eu uma esposa? - perguntou trocista,
Ela ergueu-se diante dele, obrigando-o a encará-la.
- Se eu me casasse convosco, seria assim tão facilmente esquecida? Ele compreendeu que
tinha cometido um erro, ao expor com tanta ligeireza o seu casamento sem amor,
recordando-lhe o sangue-frio com que o pai dispusera das suas esposas, entre elas a mãe de
Isabel. Mas aquela criança, a sua rainha, Isabel, o seu amor, enlouquecia-o sendo tão
imprevisível. Por vezes, abria-se para ele como uma flor ao sol, a rir, a brincar, a fazer
maliciosos planos, tal como quando eram crianças. Nesses tempos pareciam embriagados,
perfeitamente encantados na companhia um do outro. Pensara mesmo em casar com ele.
Por vezes desafiava-o a ser forte com ela, a dominá-la, a ser o seu senhor. Depois, com a
brevidade de uma tempestade de Verão, tornava-se dura e sombria, brincando com a sua
insignificância, tratando-o como uma peça num tabuleiro de xadrez.
- Tenho demasiados pretendentes, Robin... príncipes, reis, imperadores... como posso
pensar em vós para me desposardes - disse-o com impertinência, mas ele notou que estava
mais branda. Viu-lhe os movimentos enquanto vestia a jaqueta, os ombros levemente
curvados, os olhos em alvo, uma quase imperceptível tensão na fronte. Desejoso de a ver

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recuperar a doçura, ergueu-se diante dela. Levantou-lhe o queixo e perguntou num suave
murmúrio.
- Pensais não dispor de súbditos leais capazes de dar um herdeiro ao trono de Inglaterra?
- Um herdeiro? - O olhar dela quase se incendiou. - Um herdeiro, Robin? É então essa a
questão? Não o amor, mas sim a descendência real? O rei Robert, pai de muitos filhos, alto
governante de Inglaterra e, oh, sim, quase o esquecia, esposo de Isabel.
- Interpretais mal as minhas palavras, não se trata disso! - exclamou. Escolhera mal e
voltara a enganar-se. Isabel dirigiu-se à porta da cabana, com o rosto afogueado e escarlate.
A sucessão ao trono fora um caminho que deixara para trás mortes horríveis. Robert
Dudley era seu amante, não o seu senhor. Parecia-lhe pouco adequado falar de herdeiros
naqueles momentos de ternura. Abriu a porta, mas Dudley fechou-a imediatamente.
- Deixai-me sair.
- Não, Isabel.
- Ordeno-vos - vociferou a rainha.
Dudley percebeu o violento latejar das veias sobre a branca pele da fronte de Isabel. Viu
que estava prestes a chorar. Deixou-se cair de joelhos diante dela.
- Majestade... - por momentos não pôde continuar, pois as emoções embargavam-lhe o
raciocínio. Ergueu os braços suplicantes e rodeou-lhe a cintura. Sentiu-a estremecer por
baixo das muitas camadas de roupa e das barbas do corpete. - Perdoai-me, senhora!
Imploro-vos.
- Robin, erguei-vos... Não foi minha intenção...
- Não, não, deixai-me falar - mesmo com a cabeça curvada, exprimiu-se de um modo tão
intenso que cada palavra era nítida e cortante. Conheci-vos ainda criança, Isabel. Nascida
princesa real e logo repudiada como bastarda por um pai que apenas queria filhos varões.
Afastada da corte para viver na obscuridade e na pobreza. Haveis sofrido sem os seus
carinhos. Mas naquela sala de estudo dos aposentos das crianças para onde meu pai me
enviava, encontrei um tesouro. Um espírito brilhante, uma alma resplandecente, um rosto
belo, pálido como uma rosa do Yorkshire. já então vos amava. Éramos irmão e irmã,
amigos, companheiros de estudos. Ríamos, chorávamos e muitas vezes nos ajudámos um
ao outro, não foi assim?
Dudley não ergueu a cabeça para receber a resposta, mas sabia que ela o escutava. Ao ouvir
falar dos tempos idos da infância, Isabel deixara de tremer e a sua respiração era já mais
calma.

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- A frágil-e doce menina sobreviveu ao reinado e à morte do seu amado irmão, ao jugo e
falecimento de uma irmã desapiedada... para se transformar na rainha Isabel. A menina já
não existe e só no meu espírito permanece viva a companheira de folguedos, a irmã, a
amiga. Porém, sinto agora uma ávida paixão pelo corpo da mulher. Estamos unidos Por um
laço profundo. É verdade que aos olhos da lei sou casado com Amy Dudley. Contudo foi a
vós que desposei, de coração, alma e espírito.
- Robin... - Isabel falava agora em voz doce mas, com o olhar apaixonado, Robin ordenou-
se que nada mais dissesse.
- Deixai-me falar: sou vosso, totalmente vosso... súbdito, vassalo, servo obediente. Se me
quiserdes por esposo, continuaria a obedecer às vossas ordens e teria alcançado o céu na
terra. Se por motivo de alianças escolherdes outro consorte, hei-de compreender-vos e
seguir-vos. Se escolherdes outro homem para amar... parte de mim definhará e acabará por
morrer. Mas escutai, Majestade. Qualquer que seja o destino que guardais para mim, amar-
vos-ei do mesmo modo que, quando vos vi pela primeira vez. Lutarei e morrerei, deixarei
que me despedacem vivo, para salvar esta terra e o vosso direito de a governar como bem
vos aprouver.
Imediatamente, Dudley rasgou a camisa e o colete, deixando a descoberto o peito que
cortou com a lâmina faiscante do seu punhal.
- Por Deus, Robin! - Isabel caiu de joelhos, lavada em lágrimas, cobrindo com os dedos a
ferida de onde o sangue brotava vivo. - Nunca vos faria morrer por mim. Quero-vos vivo...
quero que me ameis. Fazei amor comigo, agora.
Robin Dudley obedeceu de bom grado às ordens da sua rainha.
Já tinha anoitecido quando franquearam as portas do Palácio de Whitehall e detiveram os
cavalos suados à luz dos archotes que iluminavam o pátio. Guardas e lacaios acorreram
imediatamente, mas baixaram os olhos quando Dudley ajudou Isabel a descer da montada,
os corpos juntos, antes de os pés dela tocarem o chão. A rainha levava posta a longa capa
de Robin que ele próprio ajustara, num gesto protector, em redor do seu corpo. Sabia que os
homens a observavam discretamente e, logo preocupada com as formalidades, estendeu a
mão ao seu mestre-cavaleiro que, de joelho em terra, lhe tomou os dedos e lhos beijou.
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- Sempre ao serviço de Vossa Majestade.
A rainha tocou-lhe no ombro e voltou-se para atravessar, por entre os guardas, a enorme
entrada do palácio, seguindo com largas passadas pelo pátio e pela galeria que conduzia aos
seus aposentos. Apesar da penumbra do corredor, iluminado apenas por archotes, Isabel
não se sentia só, já que os olhos dos seus antepassados York e Tudor vigiavam a sua
orgulhosa passagem. Sentia sempre o peso da linhagem que, por vezes parecia trespassar-
lhe a pele de alabastro, insuflando-lhe a certeza do seu direito ao trono de Inglaterra.
Antes de subir as escadas que conduziam aos seus aposentos, Isabel retirou com uma mão
um archote da parede para iluminar o caminho e, com a outra, puxou as saias acima dos
tornozelos, pois os degraus de pedra podiam ser traiçoeiros mesmo à luz do dia. A
passagem era estreita e escura e o archote lançava sombras estranhas nas paredes. Com o
cheiro da humidade nas narinas e a recordação do recente contacto do corpo de Robin,
Isabel deu por si transportada a outros tempos, cinco anos antes, em que descia outra escada
húmida e escura já noite alta, levando, não um archote, mas uma simples vela, receando ser
descoberta naquele acto perigoso e clandestino.
Estava prisioneira na torre de Londres, acusada por sua meia-irmã Maria, então rainha, de
conspiração contra a coroa. Aterrorizada e débil devido a uma recente enfermidade, Isabel
passara os longos dias de encarceramento a estudar e a traduzir os seus amados textos
gregos, embora, verdade fosse dita, o trabalho que impusera a si própria, de pouco lhe
servira para lhe distrair o espírito do cruel receio de uma sentença de morte. Aquele local
terrível assistira a muitas execuções. Havia dezassete anos que a sua própria mãe aí morrera
e, em tempos mais recentes, também Catarina Howard, sua prima e quinta mulher de seu
pai. Apenas uns meses antes, outra prima, Jane Grey, de dezasseis anos havia sido
decapitada em Tower Green, tendo-se comentado, conforme Isabel recordava com um
arrepio, que do pescoço brotara mais sangue do que se podia imaginar conter um corpo
tão pequeno.
Isabel desceu cuidadosamente a estreita escada de Beauchamp Tower, cobrindo a vela com
a outra mão para ocultar o mais possível o alcance da luz. Sabia que se a descobrissem tudo
se complicaria para si e que pior sorte teria o bondoso guarda que se apiedara da frágil
menina cuja vigilância tinha a cargo. Ou talvez, pensava cinicamente Isabel, não a
considerasse traidora, mas sim a filha do bom rei Henrique e futura rainha que, quando se
sentasse no trono de Inglaterra, haveria de recordar a bondade do velho carcereiro. Em
qualquer dos casos, o certo é que consentira

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em desviar os olhos e que, em mais de dois meses, Isabel conseguira, pela primeira vez,
iludir a vigilância dos seus guardiães.
A meio da escada ficara paralisada ao ouvir um gemido distante e lastimoso. Por alguns
instantes, pensou tratar-se da sua imaginação - ou melhor, desejou que assim fosse - pois
eram queixumes terríveis de um homem cuja existência seria certamente uma extensa
agonia. Muitos prisioneiros com menos sorte que ela, estavam encerrados em celas sem
janelas, escuras e frias, dormindo sobre palha bolorenta, com as articulações doridas e a
pele coberta de pústulas das picadas de pulgas e piolhos.
- Bom Deus - murmurara repetidamente Isabel, tentando calar aquele som.
Ao chegar ao segundo patamar, uma mão surgida das trevas agarrou-lhe o pulso. Voltou-se,
sobressaltada, e viu o rosto belo e ousado de Robin Dudley iluminar a escuridão das
escadas da torre.
- Isabel, graças a Deus!
Com um enorme suspiro, pois não havia palavras que exprimissem o profundo alívio, e o
amor arrebatado que sentia pelo seu velho amigo, apoiou-se no seu peito, deixando que ele
lhe abraçasse o corpo trémulo. Agitada por soluços, molhou com as suas lágrimas
escaldantes a capa de Robin que a abraçou com força e lhe falou num apressado murmúrio,
sabendo ambos que aquele instante furtivo em breve terminaria.
- Tratam-vos bem? - perguntou.
- Bastante bem - Isabel fungou, retomando por fim a compostura. E a vós? - espreitou-o à
luz vacilante da vela. - Robin, estais tão magro
- tocou-lhe a face encovada.
- A comida que nos trazem é boa, mas tenho estado adoentado nas últimas semanas.
Não o disse, porém Isabel adivinhou que o seu abatimento se devia à execução de seu pai e
irmão mais velhos.
- Lamento o sucedido a vosso pai e a John. Como estão os outros?
- Os meus irmãos estão bem. A prisão não é tão horrível quando se está em companhia da
família, mas a mim mantêm-me isolado numa cela por baixo daquela em que eles se
encontram.
Os Dudley tinham sido encarcerados pela sua participação na frustrada conjura para colocar
no trono lady Jane Grey, com intenção de que Guilford, seu próprio filho e marido desta,
fosse coroado rei.
- Talvez que - reflectiu Isabel em voz alta - o facto de haverdes sido o único dos vossos
irmãos a proclamar Jane rainha, na praça de King’s Lynn, tenha ofendido Maria o
suficiente para vos mandar isolar.

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- Que importa! - exclamou Dudley apartando-se relutante do abraço de Isabel e segurando-a
a alguma distância. - Dizei-me como estais. Se alguma vez alguém esteve preso
injustamente, esse alguém fostes vós.
Era verdade. O seu próprio encarceramento era o resultado da revolta do jovem Thomas
Wyatt, que, no seguimento da sublevação dos Dudleys se tinha oposto ao noivado de Maria
com Filipe de Espanha, um príncipe estrangeiro.
- Mas não será lógico que Maria julgue que eu fui cúmplice, Robin? O objectivo da conjura
era depô-la e colocar-me a mim no trono.
- Sem escutar as razões da própria irmã?
- Escrevi-lhe várias cartas, implorei-lhe audiências e nenhuma delas foi respondida ou
concedida. Aquele maldito espanhol De Quandra, sempre me odiou. Envenena-lhe o
espírito contra mim. Porém, nunca encontrarão prova fiável do meu envolvimento na
intriga do pobre Wyatt.
- E quem necessita de uma prova fiável? - murmurou Robin com desalento. - É mais
provável morrermos pelas palavras falsas do imimigo do que por acusação verdadeira.
O terrível lamento ergueu-se mais uma vez das entranhas da prisão, ecoando na escada
escura, como que para recordar aos dois jovens prisioneiros qual seria o seu destino. E as
corridas das ratazanas junto aos pés, fê-los estremecer de fria repugnância.
- Não deveríamos apagar a vela? Se nos encontram juntos aqui, será o nosso fim.
Dudley lançou-lhe um olhar desesperado e apagou a vela. A escuridão abateu-se sobre eles
como uma cortina de veludo negro que, paradoxalmente, em lugar de amortecer os sons,
antes parecia amplificá-los. Temiam que a própria respiração os pudesse denunciar, de
modo que se abraçaram de novo.
Isabel teve de imediato a consciência da proximidade do corpo de Robin, do calor húmido
do seu hálito junto ao rosto, da mão que lhe segurava a cintura, unindo-os como as flores
do mesmo ramo. Porém, o que mais a sobressaltou foi o formigueiro que sentiu entre as
coxas e que a fez ficar tão afogueada que imaginou poder Robin notá-lo, mesmo na
escuridão. Logo foi possuída por um sentimento de culpa e vergonha.
- Como vão as coisas com Amy? - perguntou então.
Imaginou sentir que o abraço de Robin afrouxara um pouco, como se a pergunta sobre a
esposa deste lhe tivesse suscitado remorsos. Mas a voz dele era firme, quando lhe
respondeu:
- Há quinze dias atrás, permitiram-lhe a ela e as esposas de meus irmãos que nos
visitassem. Teme pela minha vida e... - Fez uma pausa,

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como se não desejasse dar a conhecer o pensamento: - Sente muito a minha falta.
Isabel alegrou-se uma vez mais por estar ao abrigo da escuridão que impedia o amigo de
lhe ver a emoção gravada no rosto. Ciúmes, disse, incrédula, para consigo mesma. Tenho
ciúmes de Amy Dudley!
- Isabel - ouviu Robin sussurrar. - Isabel, sinto-me um traidor ao dizer-vos isto, mas à parte
o alívio que me trouxe ver um rosto amigo e a gratidão que senti pela comida e presentes
que Amy me trouxe, a sua presença pouco me comoveu. Não me atrevi a admitir que
raramente pensava nela ou sentia a sua falta e que já não me agradava... fazer amor com
ela.
Isabel tardou em encontrar resposta para as inesperadas palavras de Robin, pois sentira
enorme alívio e uma estranha alegria com aquela triste confissão. Recordava-se que, apenas
três anos antes, por alturas da Primavera, fora testemunha do casamento de Robin e Amy.
Como pareciam apaixonados e que belo casal formavam. Nessa ocasião, Isabel sentira-se
feliz pelo seu amigo de infância, embora se recordasse de uma breve punhalada de dor ao
ver Robin beijar a sua bela e jovem noiva. Agora, enquanto ainda procurava palavras de
consolo para Robin, interrogava-se se não teria sido de ciúme.
- Talvez que a vossa falta de desejo resulte de um efeito desagradável do encarceramento,
sobre o vosso corpo e o vosso espírito - sugeriu Isabel simulando estar certa dessa
possibilidade.
- Porquê, então - perguntou Robin apertando mais a cintura de Isabel e puxando-a para si,
de modo que os corpos trémulos se estreitaram um no outro -, sonho constantemente
convosco, vejo o vosso rosto na minha imaginação, nada mais desejo que escutar o som da
vossa doce voz para dar repouso à minha alma? E porquê, Isabel, vos desejo deitada,
junto a mim, na escuridão.
Isabel sentiu que continha a respiração, enquanto o escutava, receando que o mínimo
sussurro do seu hálito a impedisse de lhe ouvir as belas palavras. Erguera o rosto para o
dele e, apesar da profunda escuridão não teve dificuldade em descobrir os seus lábios
ansiosos sobre os dele. E ali tinham ficado, esquecidos de dor, medo e culpa, nos braços um
do outro até que o murmúrio aflito do carcereiro chegou lá de cima, com a primeira luz da
manhã.
Agora, já no seu palácio em Whitehall, Isabel entrou no labirinto de câmaras e antecâmaras
privadas, onde os alabardeiros guardavam as portas das salas do conselho, do grande salão
e a câmara real. Chegou num turbilhão à porta do seu quarto de dormir, agitando as aias
num corrupio, como se de folhas secas se tratassem.

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- Ide, ide-vos daqui, todas vós.
Mantinha a capa bem apertada, desejando que aqueles modos bruscos lhe disfarçassem o
coração sobressaltado e o tremor das pernas. Num largo movimento perfumado de saias e
saiotes sussurrantes, as aias saíram uma a uma, depois de fazerem à rainha uma profunda
reverência.
A câmara ficou em silêncio, mas Isabel não ficou só. Katherine Ashley encontrava-se junto
à lareira, de braços cruzados, com uma expressão triste no rosto preocupado.
Apesar de ser rainha, Isabel não se atrevia a ordenar à senhora Ashley que saísse. Preferiu
voltar-se de costas e chegar-se ao lume, tentando disfarçar o nervoso com um sorriso. Sem
pronunciar palavra, a mulher retirou-lhe dos ombros a capa de lã de Dudley e pô-la no
braço.
- Não vos preocupeis Kat, o sangue não é meu - disse Isabel voltando-se para a aia,
Apesar do aviso, os olhos de Kat abriram-se mais ao ver as manchas acastanhadas que
sujavam a jaqueta de montar de Isabel. Em silêncio, cobriu os olhos com a mão enrugada e
tentou acalmar-se. Concretizavam-se os seus piores receios. A jovem princesa, que desde
pequena estivera a seu cargo, transformara-se numa altiva rainha. Nesse momento
fantástico, em que na Abadia de Westminster, sob o resplendor de dez mil velas, a coroa de
Inglaterra fora pousada pela primeira vez sobre a cabeça da sua querida menina, a relação
entre Kat e Isabel alterara-se. Porém, nada mudara, pensou, ao mesmo tempo que baixava a
mão trémula do rosto. Absolutamente nada. Estendeu a mão e começou a desabotoar-lhe a
jaqueta de veludo.
A rígida postura de Isabel descontraiu-se e deixou cair os braços ao contacto familiar das
mãos de Kat. Sabia que a sua aia sentiria o cheiro de Dudley na sua roupa e no seu corpo.
Sabia que Kat se esforçava agora por encontrar palavras para exprimir a sua preocupação,
sem quebrar as regras de etiqueta, necessárias entre elas. Quando Isabel era uma menina,
uma princesa afastada da corte, com poucas possibilidades de subir ao trono, Kat
mantivera uma disciplina rigorosa, mas amável. Os seus instintos protectores eram quase
felinos, imbuídos de ardor e lealdade. Sempre lhe falara com franqueza e severidade,
quando a situação o exigia. Para a menina praticamente abandonada pelos parentes de
sangue, Kat Ashley e William, seu marido, eram os únicos portos de abrigo na terrível
tempestade da sua jovem existência. E, agora Kat, sentia-se atormentada pela angústia.
- Quereis que vos prepare um banho? - perguntou, aparentando calma.

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- Esta noite, não - replicou Isabel.
Desejava manter consigo durante o máximo de tempo possível, os últimos vestígios de
Robin Dudley. Kat dobrava com cuidado as peças de roupa da rainha à medida que esta as
despia com a sua ajuda. Isabel, coberta apenas pela camisa de renda francesa, tremia de frio
e chegou-se ao lume.
- Posso falar-vos? - perguntou num tom glacial.
- Alguma vez vos pude impedir de o fazer, Kat?
A idosa mulher estendeu-lhe um robe de cetim amarelo. Isabel enfiou os braços nas
enormes mangas e aconchegou a si o forro de pele. Sentindo-se fraca, deixou-se cair na
cadeira de costas altas, erguendo os olhos para Kat que baixara os seus, para fitar as
próprias mãos.
- Senhora - começou. - Sois a minha vida e amo-vos como se fôsseis carne da minha carne.
É por isso que vos digo que há que pôr cobro às coisas horríveis que soam por aí. Diz-se
que vós e Robert Dudley vos comportais como se fôsseis casados. E esta noite? - desviou o
rosto incapaz de enfrentar o olhar ardente de Isabel - Sei que é certo. Conheço esse homem
desde menino, quando brincava convosco, e conheci toda a sua família. Foram todos
executados por traição à coroa.
Robin Dudley é um súbdito leal! - exclamou Isabel.
É um homem com a ambição no sangue. Não posso dizer que não vos ame, Isabel, mas
como todos os outros, ama ainda mais o seu sonho de poder. Não confio nele. É um homem
casado!
Isabel desviou o olhar. Nessa tarde, esquecera por algum tempo a terrível verdade, ou
talvez na euforia do seu recente poder acreditasse que o assunto não tinha importância.
Porém, só tinham passado três meses da coroação e, por causa de Robin. havia já rumores
escandalosos a seu respeito. Mesmo assim, dissera para consigo que não precisava
preocupar-se com uma possível gravidez, já que não sangrava com o ciclo lunar, como
todas as outras mulheres. E era a monarca reinante. Poderia fazer o que lhe aprouvesse.
- Não quereis aperceber-vos do que salta à vista? - perguntou Kat. Estais tão cega pela
luxúria que não compreendeis as consequências dos vossos actos? Isabel, estais a perder o
respeito dos vossos conselheiros, da vossa corte, até dos vossos súbditos. Se vos retirarem o
afecto, as alianças cairão por terra. Sabeis tão bem como eu que existem outros aspirantes a
este trono e se a vossa posição ficar debilitada, não duvideis que o sangue correrá. Sangue
de inocentes, que cairá sobre a vossa cabeça. juro que se soubesse que as coisas chegariam
a este ponto, vos teria estrangulado no berço!

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Isabel estremeceu com a veemência de Kat. Porém, esta não tinha ainda terminado.
Ajoelhou-se e tomou nas suas, as mãos da rainha.
- Casai-vos, Isabel. Imploro-vos. Comprometei-vos com um pretendente digno da vossa
estirpe... estrangeiro, inglês, não importa. Casai-vos. Proporcionai herdeiros Tudor, ou
seremos invadidos pelo caos!
Isabel acariciou a mão manchada de Kat Ashley.
- Kat, sei que falais em nome do vosso bom coração e verdadeira fidelidade. Mas escutai:
nesta minha vida só tenho tido penas e atribulações. A felicidade tem sido tão pouca que
mereço aquela que este homem me dá.
Como Kat se dispunha a objectar, Isabel poisou um dedo nos lábios dela, para os selar.
- Não digais mais nada. Sou a rainha e vou fazer conforme me aprouver. Se encontrei
prazer de um modo desonrado, não há ninguém nesta terra, neste vasto mundo, que mo
possam proibir.
Kat pôs-se de pé, reconhecendo a derrota. Olhou para a mulher obstinada que continuava a
surpreendê-la e a desconcertá-la. As suas tentativas de demover Isabel tinham sido em vão.
Aquela jovem de cabelo ruivo a emoldurar-lhe o rosto efemeramente inocente, ainda lhe
haveria de dar muitos desgostos.
- Meus senhores!
A rainha irrompeu pela sala do Conselho com a força de um projéctil lançado por uma
catapulta, trespassando com o olhar todos os seus conselheiros. De entre eles, apenas
William Cecil que já tratara com Isabel nos anos anteriores à sua ascensão ao trono, era
capaz de compreender a verdadeira natureza daquela formidável soberana.
- Majestade, temos boas notícias do continente - afirmou Cecil, dando início à sessão
matinal do Conselho. - Chegámos a um acordo com os franceses em relação a Calais.
- Excelente. Vão então devolver-nos a cidade portuária que a minha ilustre irmã perdeu, e
que nunca deixou de nos Pertencer? - perguntou Isabel.
- Não exactamente, Senhora.
- Então, como se propõem resolver o assunto?
- Manterão o domínio sobre Calais pelo menos por mais oito anos explicou o conselheiro
para os assuntos de defesa, lorde Clinton.

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- Oito anos? - admirou-se a rainha. - É um número muito redondo. Voltado ao contrário é
igual, infiniti. Talvez seja assim que se propõem a ficar com Calais.
- No final desses oito anos, se decidirem ficar com a cidade terão de nos pagar quinhentas
mil coroas.
- Uma bela soma! - exclamou Isabel. - Porém, e agora que precisamos de dinheiro para
reparar o estado lamentável do nosso tesouro.
- Majestade, a possibilidade de nos devolverem Calais no futuro não foi descartada -
acrescentou lorde North.
- Mais importante ainda - interveio lorde Clinton. - já não existe a ameaça de invasão dos
franceses a partir da Escócia. E, de momento, a vossa jovem prima, a rainha Maria, desistiu
das suas pretensões ao trono de Inglaterra. O que é excelente.
- Pois é - disse Isabel com um sorriso forçado. - Um reino ganha mais com um ano de paz
do que com dez de guerra. Pelo menos é o que afirma lorde Cecil.
Os conselheiros, mais tranquilos, trocaram sorrisos.
- Temos, então, a paz - disse a rainha. - Mas entretanto, graças aos vossos conselhos para os
preparativos de guerra, temos o tesouro vazio.
- Não será bem assim Majestade - replicou lorde Howard, tio da rainha e o soldado de
maior prestígio entre os seus conselheiros. - A fortificação dos castelos da fronteira norte e
as munições trazidas da Flandres não foram, porém, gastos inúteis. Estamos preparados
para enfrentar hostilidades imprevistas
- Si vis pacem, para belhim - declarou lorde North.
- Se desejais a paz, preparai-vos para a guerra - traduziu Isabel.
- Precisamente, majestade.
- Todavia - comentou a rainha, voltando-se para lorde Howard parece-me que meu tio não
confia no seu próprio tratado.
- Não creio de modo algum que católicas tão zelosas como Maria da Escócia e a sua sogra
francesa abandonem os projectos de dominar a Inglaterra protestante e de deporem a sua
rainha herege. Mas, por enquanto, o tratado é do meu agrado e espero que seja também do
vosso, Majestade.
Isabel perscrutou os rostos dos seus conselheiros e pareceu-lhe ver neles a necessidade da
sua aprovação. Sabia que era dura - volúvel, imprevisível, exasperante. Regozijava-se no
caos e divertia-se a utilizar as suas manias e fraquezas, para os pôr uns contra os outros, e
lhes estender pequenas armadilhas.
- Com efeito, senhores, o tratado agrada-me - disse, oferecendo-lhes um caloroso sorriso. -
Mesmo que apenas por pouco tempo, sempre nos
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poupa o preço ruinoso de uma guerra e por isso devemos estar gratos
- voltou-se para Cecil, em quem confiava cegamente, pois era honesto enquanto ela recorria
a enganos, sereno enquanto ela se mostrava arrebatada e criava episódios terrivelmente
dramáticos, por desejar apenas animar um pouco a tarde. - Depois me dareis os pormenores
das negociações na nossa reunião particular, William.
- Como for do desejo de Vossa Majestade - declarou Cecil e inclinou a cabeça numa
reverência.
Aquela mulher que se tornara rainha da noite para o dia, não deixava de o espantar. De uma
frágil e pálida menina, transformara-se numa mulher assustadoramente segura de si, e com
plenos poderes sobre os seus homens. Nesses momentos, Cecil sabia inequivocamente que
os antigos rumores - relacionados com o julgamento de sua mãe Ana Bolena por traição e
adultério, e segundo os quais Isabel não era filha de Henrique - não passavam de ridículas
fantasias. Até um louco podia ver que a jovem era o reflexo do pai. Não só no belo cabelo
ruivo, no nariz aquilino, no radiante sorriso, mas também na mesma arrogância inata, na
incontestável autoridade e puro magnetismo animal. Pensou também com ironia que Isabel
possuía como o pai, a rara qualidade de inspirar em homens e mulheres o mesmo amor
apaixonado e devoção inabalável, apesar da sua inexperiência e dos seus por vezes
desagradáveis insultos.
Isabel que caminhara sem cessar, tanto para dar largas a um excesso de energia nervosa,
como para combater o frio que ali fazia, instalou-se na sua cadeira de almofadas vermelhas
e tamborilou com os dedos na madeira trabalhada dos braços em forma de garra.
- Prossigamos!
- Majestade, chegou o momento de apresentar ao Parlamento os Actos de Supremacia e
Uniformidade para que sejam transformados em lei.
- Tal como vosso pai, sereis nomeada Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra - anunciou o
marquês de Windsor, lorde-tesoureiro, um homem já idoso, de rosto doce, cuja cabeça
parecia equilibrar-se precariamente em cima dos folhos da sua gola engomada.
- Prefiro ”Governador”... ”Governador Supremo” - afirmou Isabel. - E o Livro de Orações
do meu falecido irmão Eduardo? Será restabelecido?
- Imediatamente, majestade - replicou Cecil. - E a partir de agora, os serviços religiosos
serão conduzidos em inglês.
- Deus seja louvado! - exclamou a rainha.

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- Propomos também que a assistência à missa católica seja considerada um crime passível
de prisão - continuou Cecil. - Repetido três vezes, será punido com prisão perpétua.
- Não será uma pena excessiva, senhores? E muito parecida com as perseguições católicas?
No continente, foi nomeado um novo inquisidor dominicano e os judeus foram mais uma
vez obrigados a usar quadrados amarelos cosidos nas costas. Não desejo que se diga que a
nossa reforma se inclina para a crueldade.
- Em qualquer caso, é menos duro do que a morte de protestantes na fogueira, imposta por
vossa irmã, durante o seu reinado - respondeu lorde Clinton.
Isabel reparou no estremecimento de lorde Arundel, o único católico que restava no seu
Conselho Privado, diante da referência à perseguição encarniçada que haviam sofrido os
adeptos da nova fé no reinado de Maria. Muitos tinham sido os homens, mulheres e até
mesmo crianças que tinham padecido uma horrível agonia nas chamas, entre eles o
arcebispo Cranmer, grande amigo de sua mãe.
- Fui testemunha do fanatismo protestante de meu irmão, tão repugnante como o
catolicismo de minha irmã. O reino necessita de sarar as feridas, para atingir a unidade e só
o conseguiremos com um meio-termo nos assuntos religiosos. E, embora eu não tenha
paciência para santos, indulgências e milagres, buscaremos uma conformidade exterior,
sem esquecer que as crenças de cada um são um assunto pessoal. Não desejo invadir as
almas dos homens.
- Majestade, há outro assunto que necessitamos discutir - disse Cecil com a cautela de quem
entra num curral cheio de javalis enfurecidos.
- E qual será esse assunto, lorde Cecil? - perguntou Isabel, dissimulando um sorriso, pois
sabia perfeitamente do que se tratava.
- O vosso casamento, Majestade. É da maior importância. Uma aliança estrangeira...
- Não me faleis de uma aliança estrangeira! - Isabel ergueu-se de um salto, provocando um
turbilhão de brocados sussurrantes e uma onda de perfume que entonteceu os conselheiros.
- Quando subi ao trono, fui aclamada rainha genuinamente inglesa, sem mistura de sangue
espanhol ou estrangeiro, totalmente natural deste país. O que quereis de mim é um filho,
não é verdade? Um herdeiro. Ora bem, não credes que os meus súbditos desejem um
príncipe verdadeiramente inglês?
- Mas, majestade...
- Mais me valeria casar-me convosco! - voltou-se rapidamente para o mordomo-mor da
casa real e acrescentou: - Precisamente o conde de

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Arundel quer convencer-me de que é o melhor partido de toda a Inglaterra - deu outra volta
e encarou o idoso marquês de Windsor que já havia estado ao serviço de seu pai e irmão.
Embora curvado e frágil, quando a rainha lhe passou os dedos de marfim pela barba
cinzenta, sorriu como um jovem apaixonado. - Se o meu tesoureiro-mor fosse menos idoso
nem por um instante duvidaria em fazer dele meu esposo!
- Perdoai, senhora mas troçais de um assunto de extrema importância - disse o primeiro
conselheiro.
- Se não vos conhecesse, lorde Cecil, pensaria que estais de acordo com a famosa teoria de
que a beleza é um dom conferido às mulheres pela natureza, para as compensar da sua falta
de inteligência...
- Majestade... - implorou ele.
- Ou como os escritos de John Knox, esse idiota pomposo, que afirma que, uma mulher
governar os homens é tão despropositado, como um cego conduzir os que vêem.
Isabel já não sorria e tinha o rosto habitualmente pálido afogueado de fúria.
- já vos disse, e agora repito. Nesta questão, agirei conforme Deus me ditar. Além do
mais... - disse, recuperando a compostura do mesmo modo que readquiriria o controle de
um cavalo indisciplinado - já sou casada.
Os conselheiros olharam-na paralisados. Mal se ouvia um murmúrio na sala. Teria
acontecido o pior? Teria a rainha desposado Dudley, em segredo? Isabel ergueu a mão
direita, exibindo aos conselheiros o pesado anel de ouro e rubis da coroação.
- O meu esposo é o reino de Inglaterra! Muito bom-dia, meus senhores!
Nunca tinha visto uma pessoa tão velha. Quando Kat Ashley fez entrar no aposento a anciã
curvada e trémula, Isabel observou-a com assombro. Debaixo da touca, o cabelo era fino e
grisalho e o rosto enrugado como uma maçã seca ao sol. O vestido velho e muito largo que
lhe cobria o corpo, estava desbotado e fora de moda. Porém, Isabel teve a certeza de que se
tratava de uma mulher bem nascida. A reverência, profunda e cerimoniosamente correcta
que fez, apesar das doridas articulações, foi prova suficiente da sua nobreza e posição.
- Falai - pediu a rainha com a curiosidade espicaçada mesmo antes da mulher se levantar e
dispensando as formalidades. - Dizei-me o que vos trouxe aqui.

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A mulher erguera-se já, porém a corcunda obrigou-a a levantar a cabeça o mais que pôde,
para se dirigir à rainha e enfrentar o seu olhar.
- Devemos falar a sós, Majestade.
Kat soltou uma exclamação ofendida e implorou com os olhos à rainha que a deixasse
expulsar a mulher. Mas, embora a altivez da anciã não parecesse de acordo com o seu modo
de vestir, Isabel sentiu que a ocasião estava investida de uma estranha importância. Mandou
Kat embora e a aia corada e aborrecida, saiu porta fora.
- Tenho aqui uma coisa que pertenceu a vossa mãe - declarou a velha.
- Dizei-me primeiro o vosso nome e deixemo-nos de segredos. Posso estar interessada no
que me trazeis, mas tenho pouca paciência.
A mulher susteve sem pestanejar o olhar da rainha.
- Saiba Vossa Graça que sou lady Matilda Sommerville, E talvez que a paciência se possa
adquirir com a idade avançada, juntamente com as dores nas articulações.
Enquanto a rainha olhava para a velha, debatendo-se entre a fúria e a vontade rir, esta
meteu as mãos por entre as dobras da saia e retirou de lá um livro de capa gasta. Todavia
pareceu hesitar.
- Deixai-me ver esse livro - ordenou Isabel com sobriedade.
- Não se trata de um livro, Majestade.
- Ora essa, não o estou a ver com os meus próprios olhos? Parecendo conhecer exactamente
os limites da sua insolência, lady Sommerville avançou, com passo vacilante e, com os
dedos invulgarmente curvados, estendeu o livro forrado de pele vermelha-escura.
Aproximou-se um pouco mais da rainha e murmurou:
- É um diário. É o diário de vossa mãe, Ana Bolena. Imediatamente Isabel sentiu a pele
arrepiada e o coração em sobressalto. Sua mãe! Quase não conservava dela qualquer
recordação e, na verdade, havia mais de vinte anos que não pronunciava o seu nome em voz
alta. Fez um esforço para recuperar a calma e aguardou um pouco antes de falar.
- Um diário? E posso perguntar-vos lady Sommerville, como haveis entrado na posse do
diário de uma Rainha?
Os olhos lacrimejantes da mulher perderam a expressão, como se se tivesse afastado
daquele tempo, daquele local.
- Tive a grande honra de servir vossa mãe antes da sua morte - disse com discreto orgulho.
Embora a lógica exigisse que a história da mulher fosse recebida com cepticismo e o
objecto que tinha na mão sujeito a rigoroso escrutínio,

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Isabel estendeu a mão para o livro com uma espontaneidade que lhe era pouco vulgar.
Sentiu, sob os seus dedos, a pele áspera e chegou-lhe às narinas o odor a pergaminho e a
pele de vitela.
A idosa mulher observava a rainha com um olhar calmo e seguro. A jovem monarca
deveria saber que falava verdade. Não seria castigada.
- Sentai-vos - disse Isabel, mais como convite do que como ordem. Falai-me de minha mãe.
Lady Sommerville sentou-se numa cadeira colocando as pernas, sob as volumosas saias, na
posição mais cómoda para as suas doridas articulações.
- Lorde Kingston, meu tio, foi governador da Torre de Londres no tempo de vosso pai. Foi
um grande soldado e combateu com bravura na batalha de Flodden, onde sofreu ferimentos
graves. Muitas vezes se lamentava, dizendo ter preferido morrer aí com glória, pois o ter
ficado aleijado para o resto da vida, transformou-o num homem amargo. O bom rei
Henrique recompensou-o com o posto de governador da fortaleza de Londres e, embora
tivesse sido uma grande honra, o cargo fazia-o infeliz. As muralhas cinzentas causavam-lhe
tristeza, a humidade do rio afectava-lhe os ossos e as armas reais causavam-lhe a saudade
das batalhas em campo aberto, e do entrechocar das armas - a voz de lady Sommerville
ganhava alento e confiança, à medida que desfiava as recordações e revivia o tempo da sua
juventude.
- Kingston estava no seu posto quando vossa mãe já grávida de cinco meses da vossa
real pessoa, foi passar três dias de feliz retiro na Torre, antes da sua coroação como rainha.
Não a serviu de bom grado, tendo sido como tantos ingleses, um partidário leal de Catarina,
primeira mulher de vosso pai, apesar de se tratar de uma estrangeira. Porém, como
apreciava a segurança da sua família e também a do seu magro pescoço, curvou-se diante
da nova rainha e tornou-lhe a estada o mais confortável possível. Ao cabo de três anos,
vossa mãe voltou para a Torre, em desgraça e acusada de traição e bruxaria e meu tio
recordava a sua chegada na barcaça, de rosto triste e sombrio. Tropeçou ao passar o portão
do rio, para entrar no pátio e ele segurou-a pelo braço. Contou-me depois, que ela lhe
sorrira, agradecida por aquela pequena amabilidade, pois havia muito que não recebia
nenhuma já que apenas lhe restavam inimigos.
Isabel percebeu que as mãos lhe tremiam e segurou o diário com força para as aquietar.
Também ela fazia parte daquela história fatídica. Não se tratava apenas da recordação da
Torre, daquele inferno inóspito, onde também ela fora encarcerada durante meses quando
Maria, sua meia-irmã

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suspeitara da sua participação numa conjura para a depor. Não, era mais do que isso.
Aquela anciã arrastava consigo o princípio da vida de Isabel e a morte de sua mãe como
fios entretecidos de uma bela tapeçaria. Até ali, raras vezes se tinha permitido pensar
demoradamente na vida ou na morte de Ana.
A promessa do seu nascimento fora a grande esperança de Ana - um filho varão, o herdeiro
que Catarina não pudera dar a Henrique. Sabia também que o seu sexo tinha contribuído
para a morte de sua mãe. Se tivesse nascido rapaz, talvez Ana estivesse viva e, quem sabe,
fosse ainda rainha.
- Prossegui, lady Sommerville. Haveis dito que servistes minha mãe no final da sua vida.
- Meu tio precisava de mulheres que servissem a rainha na sua terrível reclusão e eram
poucas as que aceitavam fazê-lo. Vossa mãe foi muito injuriada, majestade - a anciã baixou
os olhos, envergonhada de ter de contar a verdade a Isabel.
- Com efeito. ”Nan Bolena, a rameira do Rei”, era assim que lhe chamavam - disse Isabel
com os lábios trémulos e sentindo por ela uma onda de piedade. Tal como a mãe, também
Isabel fora alvo de ódios e invejas, rejeitada e insultada mesmo depois de já ser princesa.
Havia poucos anos, antes de se converter em rainha fora sempre considerada a bastarda de
Henrique. Doía-lhe o peito. Sentia a garganta seca e apertada.
- Adorei vossa mãe desde o primeiro momento em que a vi tão solitária - disse lady
Sommerville, inesperadamente.
Isabel perscrutou o rosto da idosa senhora, em busca de emoção que lhe corroborasse as
palavras. Mas nada mais viu que o movimento dos lábios enrugados ao revelarem um tão
precioso segredo, destinado a ser conhecido por duas mulheres de sangue nobre.
- Era de constituição delicada, de pulsos muito finos e com um longo pescoço de cisne -
prosseguiu lady Sommerville. - E graciosa, tão graciosa que nos esquecíamos que tinha a
pele excessivamente pálida e os olhos demasiado grandes. Tinha uma voz muito agradável,
bem timbrada e alegre, apesar das suas terríveis atribulações. E era muito espirituosa. Vossa
mãe fazia-me rir, podeis estar certa. Ríamos juntas, ela e eu, pois mais ninguém queria
partilhar desse riso. As outras damas olhavam, murmuravam e o meu tio zangou-se comigo.
Porém, eu, valente como um homem, resolvi dizer-lhe: ”Ana será rainha até à morte. É ela
e não vós quem me dá ordens!”
A idosa senhora deteve-se, sorriu para consigo, recordando-se talvez desses momentos de
corajosa resistência. Depois continuou.

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- Todas as noites, durante as semanas em que lá esteve, deixou que eu lhe escovasse o
longo cabelo sedoso e negro, como asas de corvo. Era nesses momentos que vossa mãe
chorava. Lágrimas raivosas e amargas mas também de muita tristeza. Por vezes gemia
baixinho. Uma vez disse-me: ”Henrique gostava muito de escovar o meu cabelo.” Mais
nada ”Henrique gostava muito de escovar o meu cabelo”. À parte isto, a única vez que a vi
chorar foi quando executaram o irmão e assistiu à sua decapitação de um parapeito da
Torre. As mortes dos outros, dos homens que tinham sido acusados de libertinagem com
ela, não a afectaram tanto. Mas adorava o irmão George - lady Sommerville olhou a rainha
nos olhos. - Vosso tio.
- Meu tio, sim - Isabel tentou voltar atrás no tempo. Recordava-se de George Bolena? Belo
nos retratos, com a reputação de ser encantador. Não, não se lembrava dele, nem de seu avô
Thomas, que vendera a filha por ambição e a abandonara por conveniência. Até mesmo sua
mãe, não era mais que uma visão efémera, um leve perfume almiscarado, um riso
melodioso. Porém, o seu rosto estava sempre banhado numa luz tão intensa, que
praticamente lhe apagava as feições.
Uma das suas recordações de infância era um belo lenço de linho com as iniciais de seus
pais, H de Henrique e A de Ana, entrelaçadas como dois amantes abraçados, Mais tarde,
quando Ana morreu e caiu no esquecimento, suplantada por Jane Seymour, todas as roupas,
esculturas, pinturas e objectos adornados com o atrevido símbolo do êxito de Ana foram
destruídos ou postos de parte, substituídos por outros com a inicial J, da nova rainha
entrelaçada no H de Henrique. Durante a sua infância, triste e solitária, Isabel guardara o
lenço, um tesouro ilícito, numa pequena caixa que continha as poucas jóias que lhe tinham
sido oferecidas e outros objectos de pouco valor. À medida que ia crescendo, a caixa ia
sendo empurrada para o fundo de um baú de madeira e a recordação que guardava de sua
mãe esbatia-se tal qual a pintura de um leque.
- Falai-me do diário.
- Só soube da existência do diário no dia em que vossa mãe partiu para o seu fim infeliz.
Estava muito agitada, pois tinha ouvido os carpinteiros debaixo da sua janela da prisão a
serrar e a martelar o estrado sobre o qual seria executada. Os últimos pedidos de clemência
a vosso pai foram em vão e estava desesperada. Por instantes, pareceu ter perdido todo o
encanto e graça, tropeçava na saia, torcia as mãos. Passava os dedos pelo rosto, pelo cabelo
e murmurava: ”Que Deus me perdoe... que Deus me perdoe...”
- Eu sentia-me indisposta e tonta. Vossa mãe era uma mulher digna de pena e perdera o
porte de rainha que certamente queria mostrar a

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todos os que viriam assistir à sua execução. De modo que ganhei coragem e cheguei-me a
ela para lhe perguntar se não queria que lhe escovasse o cabelo. Nesse momento, olhou
para mim e pareceu mais tranquila. ”Sim, lady Sommerville, gostaria muito.)
- Penteei-a lentamente como ela tanto gostava, alisando-lhe o cabelo. Depois pediu-me que
lho subisse para libertar o pescoço. Foi neste momento que comecei a chorar, pois sabia
qual fora o seu pensamento - a anciã tocou inconscientemente na nuca. - Tinham mandado
vir um excelente carrasco francês, mas ela receava a dor e não queria qualquer obstáculo
à lâmina do machado.
Isabel apercebeu-se de que tinha as lágrimas nos olhos, mas não fez qualquer menção de as
esconder daquela mulher, tão amiga de sua mãe na vida e na morte.
- Depois de lhe ter arranjado o cabelo e ajudado a vestir um macio vestido cinzento, veio ter
comigo com este livro na mão. Nesse momento já estava muito calma e o terror
desaparecera-lhe do olhar. ”Tomai isto”; disse. ”É a minha vida. Entregai-o a minha filha
Isabel, quando esta for mais velha, quando for rainha. Vai fazer-lhe falta.”
- Envergonha-me ter de o admitir, Majestade, mas pensei que a filha que Henrique tivera
com uma mulher que tanto desprezara, nunca viria a governar Inglaterra. Todavia eu amava
vossa mãe e ela ia morrer, portanto achei que seria uma honra. E é também uma honra
poder, ao fim de tantos anos, entregar-vos o diário.
Lady Sommerville fez um esforço para se levantar da cadeira. Isabel estendeu a mão para a
ajudar e os olhos de ambas encontraram-se.
- Vossa mãe morreu com dignidade. Morreu como uma rainha, Majestade.
Lady Sommerville
executou uma reverência e tomando a mão coberta de jóias de Isabel, beijou-lhe o anel.
- Muito obrigada, bondosa senhora - murmurou Isabel. - Deveis sentir orgulho por terdes
cumprido a promessa que, há já tanto tempo, fizestes a minha mãe.
A anciã observou com um sorriso o rosto pálido da rainha.
- Haveis herdado os olhos de vosso pai, Isabel, mas é o espírito de vossa mãe que brilha
através deles.
Lady Sommerville voltou-se e saiu com passo lento, sem se incomodar em fechar a porta.
Kat e outras aias mais jovens que aí se encontravam, entraram imediatamente na câmara.
Isabel, como que envolvida num sonho do qual não desejava despertar, ergueu a mão para
lhes ordenar que saíssem.

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Depois, observou o diário que durante toda a história de lady Sommerville segurara nas
mãos. Estava velho, com a capa vermelha-escura descorada e a encadernação já
deteriorada. Pouco restava já da grinalda dourada, mas via-se que tinha sido um livro muito
belo. Isabel abriu a capa como se tocasse em asas de borboleta. Ali na primeira página, em
grandes letras desenhadas numa elegante caligrafia sobre o pergaminho amarelecido lia-se
a inscrição:
Diário de Ana Bolena
Isabel voltou a página.
4 de Janeiro de 1522 Diário,
Que estranho é um livro com as páginas em branco. Nunca na minha vida tinha visto nada
tão raro e maravilhoso como este diário de pergaminho. Como é diferente de um livro que
se possa ler, cujos autores ofereçam o alimento dos seus pensamentos, palavras e obras,
este volume vazio que me desafia e troça de mim, implorando-me que encha as suas
páginas. Mas enchê-las com quê?
Thomas Wyatt, que mo ofereceu, assegura-me que sou capaz de o fazer, justificando-se ao
dizer que adquiri o hábito de escrever em várias línguas, que sou boa conversadora, que
conheço casos espirituosos e interessantes e deliciosas histórias da corte francesa. São
certamente, são cumprimentos de um cavalheiro a uma dama, mas, mesmo assim, há neles
algo de verdade. Wyatt com o presente na mão, encontrou-me na minúscula sala das aias da
rainha Catarina, só e sentada à mesa com a pena na mão, a acabar de escrever uma carta
para minha mãe.
Voltei-me para ele e recebi-o com um sorriso franco, pois Wyatt é um grande homem.
Escritor, o melhor poeta da corte, extremamente belo, muito alto e cheio de vida. Diz-se
que, excepto em sangue real, em nada é inferior a Henrique e é, de facto, o companheiro
constante do rei Tudor. Desde o meu gélido e triste regresso da corte do rei

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francês, este cavalheiro distinguiu-me de entre as outras aias, cumulando-me de favores,
mais até do que à minha bela irmã Maria. Lisonjeia-me ousadamente nos seus poemas que
são causa de muita admiração e alguns ciúmes. Mas, nem isso, me tinha feito esperar tão
invulgar presente.
- Poucos homens e ainda menos mulheres passam a escrito aquilo que pensam - disse-me. -
Mas só conheço uma pessoa que possa encher com graça estas páginas, contando a sua
história com espírito e graciosidade.
Admitiu que a vida da corte era demasiado íntima e gregária para fomentar pensamentos
solitários, mas pediu-me que me recordasse que estamos sempre sós, mesmo no meio de
outros. E, em seguida, acrescentou:
- Se encontrardes maneira de escrever o vosso diário de coração aberto, como a um amigo a
quem se conta a verdade, sem nada omitir, este livro há-de conter, como as obras de
Petrarca, os fragmentos dispersos da vossa alma.
Fiquei assombrada. Thomas Wyatt, um homem inteligente, oferecera-me uma dura noz de
Natal envolvida na carne macia de uma tâmara, um desafio atrevido, escondido no melhor
dos elogios. Sabia que, apesar das poucas oportunidades que a vida de uma aia deixava para
um trabalho assim, tinha de escrever e delinear um plano para poder manter em segredo
esse acto íntimo. A arca de madeira lavrada que trouxe de França tem chave e fechadura e
nela o meu diário íntimo terá um esconderijo seguro.
Um momento! Oiço os risos da rainha e das outras aias que se aproximam pelo corredor,
regressadas de algum divertimento,
Afectuosamente vossa,
Ana
15 de Janeiro de 1522 Diário,
Fingi uma dor de cabeça, para poder ficar enquanto as outras foram ver um combate de
ursos no pátio do castelo. Estou sentada, junto à janela do meu quartinho, de pena na mão e,
ao pensar na minha vida diária, descubro que o passar do tempo não curou a minha
melancolia. Desde o meu regresso de França para a corte enfadonha e provinciana do rei
Henríque, estou ao serviço da sua piedosa

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rainha. Levo e trago as suas roupas de lã, e as do seu leito, por corredores escuros e
estreitos, entre paredes de pedra geladas pelas brumas inglesas que se erguem do Tamisa.
Gelam-me o coração e deixam-me prostrada numa saudosa melancolia.
Se a Inglaterra não tivesse reclamado o regresso de meu pai de França, depois da ruptura
das relações cordiais entre ambas as nações, continuaria a dançar todas as noites, como
agora o faço em sonhos, na corte cintilante de Francisco I. Nela havia encanto, esplendor,
beleza e maliciosos jogos de sedução. O endiabrado rei (embora para dizer a verdade
Henrique se lhe assemelhe em figura, majestade e beleza varonil) tem uma coisa que o
nosso soberano nunca teve nem desejou ter - um amor esplêndido e obsceno pela luxúria
que confere aos mais chegados membros da sua elegante corte.
Foi em França que passei a minha juventude e, aí fui educada, desde pequenina, em
companhia de Renée, a princesinha aleijada. A luz cristalina entrava pelas altas janelas do
palácio real e intensificava as cores. Todas as paredes estavam Cobertas, todos os recantos
enfeitados, todos os soalhos atapetados com tesouros de incalculável valor - tapeçarias,
quadros, estátuas e objectos de metal para agradar os sentidos e os gostos de todos. Ali
acudiam grandes filósofos, escritores e sábios de todos os cantos do mundo. jantávamos na
companhia do grande poeta Marot, olhávamos durante horas para a Mona Lisa de Leonardo
da Vinci trazida por esse refinado cavalheiro italiano para enfeitar o próprio salão do rei.
Ah, como lembro esses tempos e esse lugar. Conservo a recordação de um momento, de um
dia perfeito, numa vida a um mundo de distância. Contar-vos-ei tudo para que vejais,
querido Diário, como foi a vida que até há pouco levava a senhora Ana Bolena.
...Avancei a toda a pressa pelo corredor soalheiro, para me encontrar com Josette que tinha
prometido pôr-me ao corrente de alguns mexericos. Mas então vi aproximar-se, qual
archote que ilumina a noite escura, o rei Francisco, cuja figura suplantava o resplendor das
suas própria jóias. Os homens da corte francesa seguiam na sua esteira de luz, pavoneando-
se com passo seguro e impudicícia aclamando cada palavra do rei, lisonjeando-lhe os
movimentos graciosos, satisfazendo-lhe todos os caprichos.
Aproximaram-se mais. Ousadamente, ergui os olhos para o rei de França, antes de fazer
uma sedutora reverência. Ergui-me, sabendo que todos os cortesãos me admiravam, me
acariciavam e me despiam com o olhar. O rei, os cortesãos e eu trocámos algumas
palavras...

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um cumprimento a sua Majestade pelo saque obtido em Itália, um gracejo às custas de outra
dama, um cumprimento para o meu pai, o embaixador, um convite para jogar às cartas.
Inclinei a cabeça, pestanejei, esbocei um malicioso sorriso. Os anos de educação nas artes
da coqueteria surtiram efeito, pois sabia o que pensavam: ”Esta é Anne de Boullans, irmã
de Marie, a impúdica égua inglesa. É jovem, ainda sem mácula e oferece-nos um sem-
número de possibilidades e um potencial de sedução. Vou apresentar o meu mais atraente
sorriso, adoptar a pose mais chamativa, provocar nela uma gargalhada, com o meu espírito.
Talvez possa ser o seu primeiro amante e conseguirei do meu rei, se e que ainda não se
deitou com ela, a sua admiração mais pura e lasciva. Talvez possa ser eu a contar a sua
Majestade - pois sei como lhe agrada ouvir - os excitantes pormenores dos nossos encontros
amorosos, as palavras trocadas por entre os abraços mais apaixonados.”
Assim, insinuando-me maliciosamente antes de me despedir, fingi entregar-me a
pensamentos lúbricos, incentivando-os a deliciosas fantasias a meu respeito. Mal sabiam
eles, enquanto retomavam com passo lento o seu caminho em direcção a novas futilidades,
que o meu corpo e o meu espírito estavam ainda intactos e que continuava virgem, pois
tinha tido bons exemplos para me instruírem nesta questão.
Ouvira os nomes que chamavam a minha irmã. Mary era uma verdadeira beleza, mas um
pouco curta de inteligência, conduzida apenas pelas rédeas do desejo e da exaltação do
momento. Apenas pensava nas conquistas de uma noite.
Aprendi também com a casta e desairosa rainha Claude, a quem servíamos. Todas as aias
desdenhavam dos seus modos e troçavam dela devido às escapadas do esposo. Para a
maioria, era uma mulher sem importância. Mas não para mim, pois via que era
verdadeiramente uma rainha. Usava a coroa, tivera entre as suas pernas o rei de França e
dera-lhe os príncipes que lhe perpetuavam o nome. As fúteis e espirituosas damas da corte,
com os seus vestidos de seda, cobertas de jóias e objectos de desejo... nada tinham. Nem
amor, nem nome, nem glória duradoura. Eu fazia como elas. Ria e namorava, fingia-me
libertina, bebia de uma taça em cujo interior estavam representadas cenas impúdicas... e
não corava. Mantive a sensatez. Tinha apenas quinze anos.
O soalheiro corredor do palácio francês encheu-se de música alegre e apercebi-me de um
intenso perfume que pairava junto a mim. Toquei no mármore colorido de um deus nu
sobre um pedestal.

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Olhei o seu membro viril, de pedra, e pensei na carne. Toquei-lhe na coxa fria com uma
mão ardente. Respirei fundo ...
Do pátio, chegavam gritos agudos e ganidos de um cão moribundo. O meu doce devaneio
quebrou-se como o gelo fino sobre as vidraças das janelas. Estou em Inglaterra. Mas o meu
coração sofre as tristes saudades daquela vida dourada. Oxalá estivesse ainda em França.
Afectuosamente vossa,
Ana
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ISABEL MANTEVE-SE IMóVEL, aturdida pelas revelações do diário! Que estranha e
singular fortuna lhe teria feito chegar às mãos aquele documento e conhecesse, por fim, os
pensamentos mais íntimos da mãe e um mundo que havia mais de quarenta anos findara.
Isabel sentia ter encontrado a chave de uma câmara secreta, havia muito selada - como um
túmulo - na qual se escondiam terríveis e fascinantes mistérios, tão perigosos como
importantes. Buscou no seu coração, mas não encontrou nele qualquer sentimento de amor
pela personagem que fora a amante de seu pai durante seis anos, sua esposa e rainha
durante três. Desde a infância que Isabel construíra em redor do seu coração altas muralhas
para se proteger da vergonhosa recordação de Ana. Para as erguer utilizara toda a amargura
sentida pela morte da traidora e a mácula que esta deixara na sua própria vida.
Havia muito pouco tempo que a coroa pertencia a Isabel. Todos os dias, tinha de tomar
importantes decisões que, não só afectavam a sua vida como a de toda a Inglaterra e dos
seus súbditos. Se afinal o destino tinha escolhido aquele momento crucial para que
recebesse o diário, seria loucura não lhe prestar a devida atenção.
Uma pancada seca na porta da câmara sobressaltou a rainha.
- Só mais um momento, Kat!
Reflectiu rapidamente. Resistindo a tudo, a mãe mantivera o diário secreto, durante toda a
sua vida. Agora, apenas ela, Isabel, e a lady Sommerville conheciam a sua existência.
Isabel decidiu nesse mesmo instante não o dar a conhecer a mais ninguém. Mentiria a Kat
acerca do propósito da visita de lady Sommerville. E fecharia o diário a sete chaves. Seria o
seu segredo mais íntimo, na sua vida demasiado exposta. Isabel escondeu o livro de capa
vermelha-escura num monte de documentos de Estado antes de dar permissão às suas aias
para entrarem.

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- Com quem é a minha próxima audiência? - perguntou a Kat, em voz conciliadora.
- Com lorde Braxton e seu filho. Depois segue-se a vossa reunião matinal com lorde Cecil.
Depois, Senhora, deveis posar para o vosso retrato.
- Muito bem. Vou um momento aos meus aposentos - disse Isabel, pegando nos papéis e
avançando na direcção de uma porta escondida que comunicava com os seus aposentos.
- Agora? - exclamou Kat. - Lorde Braxton aguarda-vos. E lorde Cecil...
- Que esperem - disse Isabel apertando o diário junto ao peito e desaparecendo pela porta.
Kat Ashley cantava distraidamente e em surdina, enquanto avivava o fogo na câmara da
rainha. Isabel estava irritada pelo seu próprio nervosismo que a obrigava a caminhar de um
lado para outro e lhe deixava as mãos húmidas que agora puxavam constantemente uma
borla que lhe pendia da cintura.
- Que vestido usará Vossa Majestade esta noite? - perguntou a aia. Isabel sabia que a
resposta provocaria uma enfiada de indesejáveis perguntas.
- Não tenciono assistir, Kat - afirmou mesmo assim. - Esta noite desejo ficar só.
- Muito bem. Mandarei que vos tragam a ceia e comeremos aqui junto à lareira.
- Não, Kat. Quero ficar completamente só.
A aia pestanejou, ainda sem compreender as palavras de Isabel. A rainha tinha sempre
alguém por perto. A própria Kat dormia num catre aos pés do seu leito. Pelo menos ela
deveria ficar e...
- Trazei apenas velas. Todas as que conseguirdes encontrar. Acendei-as em volta da minha
cadeira.
- Velas?
- Iluminai o mais possível o quarto.
- Não sei que se passa convosco, Isabel.
- Por favor.
Não valia a pena discutir com a rainha quando esta já tinha tomado uma decisão.

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Isabel sentou-se na sua cadeira alta, com a cabeça rodeada pelo resplendor da luz das velas.
Apenas se ouvia o uivo do vento na chaminé e os estalos da cera. Depois de Kat e as outras
aias terem saído, deixando-a num bendito silêncio, Isabel retirou uma pequena chave do
forro de uma caixa de prata e abriu a ricamente trabalhada arca italiana, que se encontrava
junto à janela. Retirou o diário da mãe de entre os delicados folhos do seu vestido de
baptizado. Demorara quase uma semana a encontrar aquele momento de privacidade,
embora a ideia do livro secreto não a tivesse abandonado a todas as horas do dia, desde que
a idosa lady Sommerville introduzira aquele mistério na sua vida.
O baú, perfumado a alfazema, estava cheio de linhos cuidadosamente dobrados, de alguma
roupa sua e de outra pertencente a seu irmão Eduardo e a seu pai, que decidira guardar
como recordação e que era tudo o que lhe restava da família. Pondo de lado uma túnica
bordada e um par de luvas de falcoaria, Isabel encontrou a pequena caixa que buscava, de
cuja tampa se haviam já apagado as cenas biblicas pintadas e ornamentadas a ouro. A visão
daquele objecto provocou nela uma onda de recordações de infância, imagens desconexas,
alegres e tristes, dos aposentos das crianças em Hartfield Hall, todas elas fazendo parte de
si, tal como o ar que respirava.
Ao retirar a tampa, deixou a descoberto uma mistura de jóias sem valor, uma pedra
vagamente semelhante a um coração que o romântico Robin lhe oferecera, um dedal de
esmalte para um dedo de criança, o crânio de um rato, uma pena de pássaro já descolorida.
E o lenço da mãe.
Isabel separou o quadrado de linho fino do restante conteúdo da caixa e segurou-o nas
mãos. Estava amarelecido pelos anos e a cercadura de renda tinha, aqui e ali, fios soltos,
porém as iniciais bordadas dos pais H e A, entrelaçavam-se amorosamente para toda a
eternidade.
A rainha sentou-se então com o diário no colo e com o lenço a servir de marca e abriu-o, na
terceira página.
Semicerrou os olhos para melhor distinguir a caligrafia. Teria de ler lentamente, pois tinha
a visão enfraquecida e o esforço provocava-lhe incómodas dores de cabeça. E, com tão
poucas oportunidades de privacidade, sabia que demoraria muito tempo naquela tarefa.
Todavia, não se importava. Saboreá-lo-ia lentamente, como se de um vinho se tratasse, pois
sabia que, na história de Ana encontraria as peças do quebra-cabeças que constituía o seu
destino como mulher - e como rainha. Começou a ler.

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4 de Abril de 1522 Diário,
Que domingo tão agitado! Por ordem de meu pai, quando saí da capela, dirigi-me ao seu
gabinete, onde ultimava os preparativos para a visita do cardeal. Acerquei-me da mesa,
coberta de verde, onde estava sentado em conferência com o tesoureiro, um homem
feiíssimo que me observou dos pés à cabeça, pelo canto do olho. Desejava ir-me embora,
pois nesse momento chegava a barcaça do cardeal, mas fui obrigada a ficar calada e
obediente, até chegar o momento oportuno da audiência com meu pai e senhor.
Por fim, dirigiu-me a palavra para me dizer que sir Piers Bufler fora nomeado representante
da Coroa na Irlanda e que eu deveria ir sem demora felicitar o meu prometido, pela
nomeação de seu pai. A menção de James Bufler e da sua família exasperou-me, mas
imediatamente dissimulei esse sentimento com um sorriso. Sinto pavor do pai dele, um
senhor da guerra, conhecido por assassinar membros da própria família, e desprezo o filho,
tolo e mau que gosta de mim tanto como eu gosto dele. Porém, depois de meu pai, o rei e o
cardeal concluírem as negociações, James será meu marido. O meu avô, da parte de meu
pai possui muitas terras na Irlanda, mas seu primo, esse vil Piers Bufler impediu que nós, os
Bolena, as ocupássemos. Espera-se então que o meu casamento com James ponha cobro a
antigas disputas e que tudo fique em paz. Deslocar-me-ei para as desertas terras irlandesas,
onde hei-de reinar como lady Bufler, por entre camponeses descalços. Pelo menos é o que
me dizem.
Quando por fim fui dispensada, corri até à grande janela, onde me detive para ver a barcaça
dourada do cardeal Wolsey deslizar pelo rio lamacento até ao cais do palácio. Senti o
coração acelerado e precisava de me acalmar, mas não sabia se me sentasse na câmara da
rainha ou se atravessasse a correr o relvado para saudar aquele que amo.
Depois, pelo vidro da janela, vi uma centelha de tafetá escarlate e uma figura volumosa e
pesada. Wolsey, de chapéu, luvas e vestes vermelhas, magnífico na sua obesidade,
precedido pelos seus alabardeiros que transportavam os símbolos cardinalícios - cruzes de
prata, báculo, capelo e o Grande Selo de Inglaterra. Das portas do palácio, acudiram com
grande pompa e circunstância os representantes do rei, cobertos com os seus colares de
ouro e marcando o passo com os enormes bastões brancos e ar importante. Sabia que, se
Wolsey ali estava, o seu séquito logo desembarcaria. Logo a seguir, vi um

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jovem vestido com simplicidade e que para mim era o mais belo Henry Percy, magro e
tímido de rosto bondoso e rosado. O coração batia-me célere no peito. Apesar da distância e
de ele não poder ver-me, senti o seu amor e soube que desejava abandonar a comitiva para
vir ao meu encontro.
Encaminhei-me, pois, a toda a pressa, atravessando salas e subindo escadas para os
aposentos da rainha Catarina, onde outras damas acompanhavam sua Majestade. Reparei na
agitação geral - as aias, cozinheiras e criadas sorriam e gracejavam. A rainha tomava a
primeira refeição do dia e embora com o olhar cansado, mostrava-se animada naquele
domingo de manhã. Como de costume, passara a sexta-feira e o sábado anteriores de
joelhos nas duras pedras da capela, jejuando e pedindo perdão a Deus pelos seus pecados
que, aos olhos de todos eram boas acções. Pergunto a mim mesma se o hábito de São
Francisco que usa sob as suas vestes reais lhe mortifica a pele ou lhe dá o consolo que
lhe é tão necessário.
É que o rei Henrique, seu esposo ainda a ama, embora já não tenha prazer em deitar-se com
ela. Para isso procura nem mais nem menos que a minha irmã Mary, aia da rainha! A
rameira do rei francês é agora amante do grande rei Henrique! Pedi à minha irmã que me
confiasse o segredo dos seus feitiços, pois verdade seja dita, embora seja muito bela, a corte
está cheia de belas mulheres. Respondeu-me com um sorriso malicioso: ”É importante o
modo de prender os homens: primeiro agarro-os com força, depois solto-os, para de novo
os prender.”
Porém, não tenho necessidade desses jogos com o meu amor, pois ele pertence-me como eu
lhe pertenço, tão certo como estar a escrever estas páginas. Mas estou a divagar. Voltando a
esse domingo...
As damas calaram-se na Sala de Audiências, quando do corredor chegou um alarido de
vozes masculinas. Em seguida entrou um grupo de aprumados cavalheiros, distribuindo
beijos, reverências e cumprimentos. As damas fizeram Par com eles, para passarem a tarde
com jogos, canções e galanteios. Com os cavalheiros, como uma suave brisa no meio da
tempestade, encontrava-se o meu amado. A princípio nada dissemos. Colocou duas
almofadas sobre um banco junto da janela, logo pegou na minha mão, tocou-a ao de leve
com os lábios e conduziu-me ao nosso pequeno ninho.
Juro que o coração me batia tão célere, que receei não poder ouvir o que me dizia. Era
gentil e generoso e tão diferente dos lascivos cavalheiros da corte francesa, que, quando me
olhou nos olhos

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todos os artifícios que há muito preparara para o seduzir, se desvaneceram. Perdoava-lhe
todos os defeitos. Porém, apercebi-me de que um véu de tristeza lhe ensombrava o terno
semblante, de modo que lhe perguntei qual a razão. Oxalá não o tivesse feito, pois Percy
deu-me a triste notícia de que, poucos dias depois do meu noivado com james Bufler ser
anunciado, se tinha realizado o seu. Fora prometido a lady Mary Talbot, por muitas e
variadas razões, nenhuma delas o amor.
Estas negociações nada têm de estranho, pois no nosso mundo o amor romântico é apenas
outro termo para designar ”insensatez”. E o amor dentro do casamento - o único que é
permitido - não é mais que um dever a cumprir. Por minha parte, repudio estes princípios
do fundo do coração, e foi o que disse ao meu amado, furiosa com a nossa forçada
separação e amaldiçoando aqueles que a pretendiam.
- O cardeal e o rei apoiam meu pai - murmurou Percy. - Que hei-de fazer?
- Desafiai-os e casai-vos comigo! - disse eu, ainda trémula, para logo o ver empalidecer de
espanto e susto.
Perguntei-lhe se não se recordava da própria irmã do rei, a princesa Mary. Eu mesma fizera
parte do séquito de aias, quando embarcou rumo a França para se casar com o velho rei
Luís. Contei-lhe o grande amor de Mary e lorde Brandon, duque de Suffolk e de como,
por motivo de alianças, esse amor não fora levado em conta. Serva obediente do irmão e do
país, a princesa sabia que se deveria sentar no trono de França. Mas antes de zarpar das
praias de Dover, naquele dia frio e desagradável - estava lá e vi-o com os meus próprios
olhos
- Mary solicitou que, se o rei Luís morresse ela pudesse ficar livre para casar com Brandon.
Henry prometeu-lho e fizemo-nos ao mar. Contei a Percy como, ao cabo de três meses de
ser rainha, o velho rei morreu e, sem esperar pelas ordens de Henrique, ela e Brandon
casaram em segredo, antes de regressar a Inglaterra. O rei, enfurecido, insultou-os e
expulsou-os a ambos da corte, em desgraça.
- Mas, meu amor, em breve ele lhes perdoou, deixando-os regressar e é aqui que ainda hoje
vivem.
- Que quereis dizer com isso? - perguntou-me, confuso.
- Que o nosso bom rei tem, dentro do peito, um coração bondoso que sabe o que sentem os
apaixonados e nos perdoará a ousadia, tal como fez com a irmã. E então, se o nosso rei
mostrar clemência, também o cardeal Wolsey e os nossos pais terão de fazer o mesmo.
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Teremos assim
conseguido uma coisa rara e maravilhosa. Um casamento de amor.
Ele riu-se de terror e deleite, tomando-me as mãos.
- Minha doce Ana, nunca conheci uma mulher como vós. As minhas palavras não bastam
para exprimir o que sinto, de modo que deixai que os meus braços, os meus lábios e o meu
corpo vo-lo digam...
- Significa isso que, tal como a princesa e o seu Brandon, devemos desobedecer e casar?
- Sim, sim! - exclamou, atraindo com o seu veemente juramento os olhares de todos ali
presentes, incluindo os da rainha, de modo que voltámos a conversar de modo mais
tranquilo e discreto.
A manhã transcorreu por entre palavras de carinho, promessas e planos. Logo se fez ouvir a
chamada para que todos os que tivessem de voltar no séquito do cardeal se apressassem
para não perderem a maré.
Como não queria separar-me tão depressa do meu amado, acompanhei-o à húmida margem
do rio. Beijámo-nos ocultos nas sombras do entardecer. Senti um fogo enorme nas
entranhas, que me fez tremer as pernas e os braços e se veio desfazer dentro do meu Peito.
Abraçámo-nos e enquanto me acariciava os seios, toquei-lhe no membro duro. Em França
já tivera alguns contactos amorosos mas esta chama, este doce desejo, eram novos para
mim.
Depois, os archotes iluminaram o caminho do cardeal e vimo-nos obrigados a separarmo-
nos, despedindo-nos rapidamente, sob o seu gélido olhar. Porém, não nos importámos, pois
estávamos prometidos pelo coração. Esta promessa é para ser cumprida e ver-se-á com o
decorrer do tempo se não me transformarei em lady Percy.
Afectuosamente vossa,
Ana
22 de Novembro de 1522 Diário,
Como hei-de começar? Tenho o coração partido, A minha vida acabou. Percy, o meu
querido amor, foi banido para Norte, manietado pela ira de seu pai. Também eu fui
mandada sair da corte, em desgraça, e vejo-me desesperada no campo, na casa da minha
família em Hever, no Kent. Perguntais como tudo isto se passou?

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Da última vez que escrevi, o mundo era luminoso. A corte inglesa já parecia ser o meu lar e
França não passava de uma doce recordação. A vida era alegre. O nosso rei Henrique
presidia como um deus e, são e robusto, fazia estremecer a terra debaixo dos pés.
Envergando vestes de cetim bordado a ouro, era quem, nas festas, conduzia as danças
saltando como um veado. Cavalgava com galhardia, participava em torneios, cantava e
tocava, compunha belos versos e transformava a corte num local maravilhoso.
Ao serviço da rainha, passei os dias de Verão em contínuos festejos, falcoarias, danças e
encontros secretos com o meu bem amado. Ai como o nosso amor nos cegava e punha asas
nos pés! O nosso secreto noivado parecia um sonho distante e já esquecido. O nosso
casamento era já um facto, excepto aos olhos da lei e sabíamos que, em breve
completaríamos a nossa união.
E, então, como um relâmpago mortal vindo do céu, apareceu Wolsey, colérico e decidido a
acabar com o nosso amor. Percy foi obrigado a comparecer perante o obeso cardeal, cujos
olhos salientes trespassaram a calma do meu amado e o deixaram a tremer, como um junco
ao vento.
- Desisti - ordenou-lhe. - Deixai a donzela em paz. Eu era de origem plebeia e não estava à
altura dele. Vociferou que o nosso contrato era uma ”terrível infracção, que indignava pais,
Deus e o rei”, a quem convinha uma aliança entre os Talbot e os Northumberland, para
fortalecer as defesas na fronteira norte. Desse modo, Wolsey desejando ganhar os favores
do rei, separou maldosamente duas pessoas que eram uma só, dilacerando os nossos
corações apaixonados.
Percy escreveu-me (numa missiva secreta, pois não nos deixaram despedir-nos) dizendo
que me defendera, assegurando que a minha estirpe era tão elevada como a sua, recusando-
se a renunciar ao nosso juramento. Estremeci só de pensar nele, um simples jovem, a ter de
enfrentar um tão terrível inimigo. Assim, amaldiçoou Wolsey o meu pobre amor, enviando-
o, para junto de um irado pai. Prejudicou e dissolveu o nosso honesto compromisso, como
se ele nunca tivesse existido.
Quanto a mim, meu pai mandou-me chamar aos seus aposentos e vergastou-me duramente.
A dor era doce e suave comparada com a separação do meu amado. Apesar do castigo,
mantive-me firme e não chorei nem desviei os meus dos seus olhos de mármore.
- O grande cardeal Wolsey pensa que venceu a partida, contra mim, uma menina indefesa,
que se acobarda com as suas ameaças.

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Mas permiti que vos diga, que vos jure que, se alguma vez tiver poder para tal, hei-de
causar ao cardeal o mesmo desgosto que me provocou.
Meu pai ficou boquiaberto e imóvel ao ouvir tais palavras da boca de uma jovem que se
atrevia a ameaçar um homem de tão alta posição. Depois, proibiu-me de ficar na corte e
mandou-me para a distante Hever Hall, onde agora escrevo.
A vida é enfadonha em Edenbridge, os dias vazios como um campo alagado de madrugada.
As flores não têm perfume, o canto dos pássaros ofende-me o ouvido, perco-me dentro dos
labirintos de sebes verdes e sinto o desejo de desaparecer. Ontem chegou a notícia de que
Percy e Mary Talbot se tinham casado. Não chorei, pois já não tenho lágrimas. Em vez
disso, senti explodir dentro de mim como pústulas pestilentas um renovado ódio pelo
cardeal Wolsey e amaldiçoei-o.
Podeis assegurar-vos de que a sua alma me pertencerá. Quando? Como? Não sei. Mas Ana
Bolena conseguirá vingar-se.
Afectuosamente vossa,
Ana
25 de Março de 1523 Diário,
Sinto um inimaginável aborrecimento. Dia após dia eu e minha mãe sentamo-nos à lareira,
enquanto o capelão Parker recita com a sua voz monótona, salmos e escrituras, e as duas
damos intermináveis pontos numa interminável tapeçaria. Juro que se tiver de bordar mais
um casco de unicórnio ou a asa de um mítico dragão, começo a gritar como uma louca!
Como poderá minha mãe levar uma vida tão enfadonha? Semanas, meses e anos a levantar-
se cedo, para vigiar o amassar do pão, o fabrico da cerveja e do queijo. A certificar-se de
que todos os criados estão ocupados, a recolher penas para as almofadas, a fazer velas e a
rezar, sempre a rezar.
Por baixo dos seus olhos velados apercebo-me de um fogo mortiço que outrora ardeu vivo e
luminoso, mas que aqui, por entre labregos e carneiros, no meio de intermináveis campos
sulcados por um pálido ribeiro a que chamam rio, os sonhos de minha mãe extinguem-se,
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um a um, como velas numa capela. Se bem que nunca fale do assunto, creio que outrora
existiu afeição entre ela e o meu sempre ausente pai. Não foi um casamento por amor mas,
depois de casados ambos se conformaram. Elizabeth Howard, orgulhosa de um marido que,
embora tivesse nascido plebeu era empreendedor e ambicioso. E, Thomas Bolena satisfeito
com a mulher que lhe aumentara a fortuna, de coração bondoso e rosto bonito, dando-lhe
orgulhosamente um filho por ano, sem morrer, que controlava o trabalho dos campos e as
contas da casa, de temperamento sereno, suportando, em silêncio, anos de solidão.
Minha mãe impressiona-me pelas suas virtudes domésticas que eu deveria imitar para fazer
um bom casamento. Consigo aceitar a castidade e, evidentemente, a modéstia, mas a
humildade e a temperança de carácter na verdade, não se coadunam com a minha pessoa.
Ao ver o meu desgosto disse-me: ”Não te aflijas tanto. Serás de novo chamada à corte. Sai
com o teu cão Urian. Vai caçar, trata do jardim, visita os vizinhos, toca alaúde.” Mas nada
me anima nesta insuportável prisão. Deito-me cedo para poupar a cera das velas, levanto-
me cedo para fazer as tarefas do lar. Os dias arrastam-se numa tristeza mortal.
Dizem que com o meu amor por Percy provoquei a fúria do rei e que a sua raiva é
equivalente à morte. Mas, esta vida de proscrita é bem pior que a morte. Todas as noites
subo o escuro lance de escadas para o meu quarto de pedra, amaldiçoando o seu nome e o
de Wolsey a cada passo. Deitada no colchão duro, nem o luar entra pelas estreitas janelas
para me dar alento.
Escrevi duas vezes a Percy pagando sempre a um mensageiro secreto para que entregasse
a missiva nas mãos dele, em Northumberland. Esperei pela sua resposta infindáveis
semanas, que se transformaram em meses. O meu espírito acalmou-se aos poucos, até que,
numa manhã cinzenta, a esperança morreu finalmente, levando consigo o meu coração, que
murcho e endurecido como um doce fruto, já muito maduro, secou e ficou em pedra.
Na cama, o silêncio é terrível. Por trás destas paredes há apenas escuridão, prados, gado e
árvores. Não há salões alegremente iluminados com damas e cavalheiros a divertirem-se
com a actuação de cómicos, malabaristas e bobos. Nem festas, mascaradas, danças, música,
namorados galantes. Por vezes, penso que vou enlouquecer neste silêncio, penumbra e
escuridão. ó doce Percy que jazes inconsolável no teu leito conjugal! Não foi este um cruel
castigo por amar com

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sinceridade? Juro que não terei o mesmo destino que minha mãe. Juro-o com as estrelas por
testemunha.
Afectuosamente vossa,
Ana
6 de junho de 1524 Diário,
Que grande acontecimento! Meu irmão George veio visitar-nos a Hever Hall e cá ficou
duas semanas e um dia. É um jovem encantador que as mulheres adoram pela sua graça,
beleza e espírito audaz e por isso o adoro também. Com ele em casa, a nossa mãe animou-
se, pois é o seu único filho varão vivo e gosta tanto dele como ele dela. Prepararam-se
manjares especiais e sentámo-nos os três durante horas, conversando, bebendo, tocando
música e divertindo-nos com jogos.
Sempre que podia, escapulia-me com ele e cavalgávamos muitas léguas, com Urian a
correr por entre os cascos dos cavalos. Levávamos os falcões e íamos caçar ou
caminhávamos no atalho verdejante junto ao rio Eden, deixando passar os dias. George
dívertía-me com os mexericos, gracejos e trocadilhos da corte, fazendo-me sentir menos
abandonada.
Um dia em que estávamos deitados à sombra de um frondoso ulmeiro, com o cão a
preguiçar aos nossos pés, pôs-me ao corrente dos feitos de que depende o destino da nossa
família. A nossa irmã Mary continuava a ser amante do rei.
- É o orgulho da família - disse George com um sorriso malicioso nos lábios. - Diz-se que
com Mary Bolena, o rei e a sua braguilha estão sempre ocupados.
ó
- E como está esse acessório viril do nosso rei? - perguntei com expressão grave.
- Grande como um prato, minha irmã, tendo bordadas as plumas dos Tudor, bem como as
suas armas, veados e romãs.
- Romãs? - E rimos tanto que as lágrimas nos saltaram dos olhos.
- É uma mulher muito atrevida, garanto-vos! - exclamou George enquanto me tecia uma
coroa de margaridas silvestres para enfeitar o cabelo. - Mas está de saúde. Cheia de jóias e
ricos vestidos que o rei lhe oferece todos os dias.

46
- E William Carey? Como suporta o nosso cunhado o papel de cornudo?
- Como se fosse uma coisa vulgar a nossa mulher ser a rameira do rei... Seria esperto se se
aproveitasse, conseguindo favores em troca de Mary. Mas não faz nada.
- Mas que pena - comentei, pensando no destino de minha irmã.
- Nem por isso - replicou George. - Por intermédio de Mary já recebi eu alguns favores do
rei. Até já sou dono de um solar, pequeno, mas bonito. Mas é o nosso pai que desfruta dos
maiores benefícios. Fizeram-no par do reino na mesma cerimónia em que o bastardo que
Henrique teve com Bessie Blount foi nomeado duque de Richmond. Foi um dia
imensamente quente, mas o novo palácio real, em BridewelI, estava esplêndido, cheio de
trompetas e toldos dourados. Claro que a cerimónia principal era para a criança, mas foi
também um dia magnífico para o nosso pai. Totalmente magnífico.
Suponho que também recebeu dinheiro - disse eu, em tom áspero.
- Uma pensão de mil coroas. Que se passa Ana? Parece que um gato passou pela tua campa.
Não respondi. Para George, como para todos OS homens, era natural que meu pai
aumentasse a sua fortuna graças à libertinagem de Mary. Também o deveria ser para mim,
mas a ideia repugnava-me. Disse para comigo: ”Uma mulher é um castelo, ou um bocado
de terra, um objecto precioso, muito admirado e valorizado. Depois é vendida ou comprada
por interesses de fortuna, heranças, subornos, recompensas ou pagamento de dívidas.
Esquecem-se do seu corpo, da sua alma, da tristeza do seu coração. Para eles nada disso
existe!”
Ergui-me para me ir embora, porém George implorou-me que ficasse. Disse que o sol
estava quente, e o castelo era aborrecido. Prometeu entrançar-me o cabelo. Esforcei-me por
recuperar a tranquilidade, lamentei-me em segredo e deixei-o consolar-me com a sua
conversa fútil e gentis atenções. Falámos do meu desterro e de um possível regresso à corte.
- O assunto de Percy já foi esquecido e agora, com a nossa família cada vez mais
importante, deverás estar de volta dentro de um ano.
- Deus faça que assim seja.
- No outro dia Thomas Wyatt perguntou-me como estavas. Fez-me um curioso pedido: que
te trouxesse penas e tinta. A quem escreves? A Wyatt? Olha que é um homem casado e não
precisas de mais problemas.

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Devo ter ficado ruborizada, pois logo perguntou:
- Não será a Percy, pois não, Ana?
- De modo nenhum! Escrevo poesia. Wyatt incentivou-me a fazê-lo antes de me vir
embora, de modo que experimento compor versos.
- Uma mulher poetisa, mas que ideia! Não me deixas ver esses versos? É que eu também
escrevo.
- Não! Não! - exclamei, afirmando que eram muito maus, que nem valiam o pergaminho
que usava. Depois, mudei de assunto, dizendo que estava a escurecer e que era longo o
caminho para casa. Ajudou-me a levantar e, segurando-me junto a si abraçou-me com
meiguice, num gesto fraternal.
- Trouxe-te as penas e a tinta - disse.
Poisei a cabeça no seu ombro e pensei que ali estava o único homem deste mundo que me
ama, por aquilo que sou. Que tristeza!
Afectuosamente vossa,
Ana
4 de julho de 1524 Diário,
Ontem à noite, quando me preparava para me deitar, ouvi passos que se aproximavam. Era
meu irmão George com uma vela na mão que, em segredo subia a escada de caracol até ao
meu quarto, para me entregar um presente. Ao desfazer o embrulho, vi a razão de tantos
cuidados. Trouxera-me O Elogio da Loticitra, o tratado herético de Erasmo de Roterdão
que acusava o Papa, a Igreja e o Clero de corrupção, ganância e lascívia.
Agradeci-lhe de todo o coração. Os livros são escassos no campo e um, assim tão ousado,
equivale a um troféu. George lamentou não ter podido pôr as mãos no mais recente tomo
escandaloso, a tradução para inglês do Novo Testamento, feita por William Tyndale.
- Queimam os livros em St. Paul’s Cross - disse-me. - Os autores são perseguidos, até pelo
nosso rei. Disseram-me que os livros que escapam ao fogo são passados de mão em mão. A
igreja, na pessoa do teu querido amigo, o cardeal Wolsey, arranja estes exemplares
revistando casas - falava em voz ainda mais baixa. - Todos os literatos conhecidos são
perseguidos e oferecem-se recompensas aos informadores.

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- Não entendo - disse eu. - Em França, li os Evangelhos traduzidos para francês. Não existe
qualquer proibição. Foi a própria duquesa de Alençon, irmã do rei que me orientou para
que o fizesse.
- Esqueces que em Roma, o nosso rei é a menina dos olhos do Papa. Recebeu o título de
Defensor da Fé contra os hereges protestantes.
Roguei a meu irmão que me arranjasse a obra de Lutero. Explicou-me que era muito
perigoso, pois o próprio Henrique odiava Lutero e escrevera ele próprio contra as obras do
alemão, defendendo os sacramentos católicos. Ofendido, Lutero chamava ao nosso
soberano ”labrego mentecapto, louco possesso, rei das mentiras”.
Ri à gargalhada de tanta ousadia. George encostou-me um dedo aos lábios e murmurou
receoso:
- Ainda somos bons católicos, não é verdade?
- Julgo que sim - respondi. - Vamos à missa, comungamos, confessamo-nos. Mas escuta,
meu irmão - puxei-o para mim. - Não te agradam essas ideias protestantes? Que Deus e os
homens possam falar, sem a interferência dos padres? Digo-te que esta nova religião me
agrada bastante.
- Olha que ainda queimam hereges na fogueira - disse George, com as mãos trémulas, ao
ouvir as minhas palavras.
- Terei toda a cautela, prometo nada dizer em voz alta, que nos possa prejudicar - deixou de
tremer, já mais tranquilo. - Mas, quando puderes, arranja-me essa Bíblia de Tyndale.
- És uma harpia, Ana - disse a rir. - Juro que hás-de ser a minha morte.
Despedi-me dele e escondi o livro num local secreto, por trás de uma pedra solta. Desejava
que chegasse o dia. Um livro para ler! Valia ouro!
Antes de me deitar, pus-me de joelhos, como se estivesse na capela, perdão pela blasfémia,
e implorei a Jesus Cristo meu Senhor que salvasse a minha alma pecadora... e que me
levasse de volta para a corte, o mais depressa possível.
Afectuosamente vossa,
Ana
Ao FECHAR O DIÁRIO DE SUA MÃE, Isabel apercebeu-se que tremia. Regressar à
realidade, depois de ter permanecido no mundo de Ana, era como deslizar dentro de uma
barcaça das sombras da ponte de Londres para a deslumbrante luz do sol.
Mas naquela noite, depois das muitas velas que Isabel acendera em seu redor já se terem
apagado, o aposento estava escuro e lúgubre, fora do pequeno círculo de luz e Isabel tinha
os olhos fatigados.
Kat começara a suspeitar daquelas estranhas sessões. O segredo irritava a aia principal, pois
Isabel nunca tivera segredos para ela, nem quando era pequena. Queixava-se amiúdo do ar
cansado da rainha e das escuras olheiras sob os seus olhos, depois da vigília de uma noite, e
quando Isabel guardava silêncio sobre os seus solitários exercícios atrás das portas
fechadas, resmungava em surdina contra os hábitos maléficos e as obras do Diabo.
Manchas de luz ofuscavam a visão da rainha, ao mesmo tempo que lhe surgia uma enorme
dor de cabeça. Ao erguer-se, assaltou-a uma terrível náusea que a obrigou a agarrar-se à
cadeira para se apoiar. Era certamente o princípio de uma das suas enxaquecas.
- Maldita dor! - sussurrou.
Tinha a fronte coberta de suor e ignorava se seria capaz de chegar à cama. Se era aquele o
efeito que a leitura do diário da mãe tinha sobre ela, pensou, levaria uma eternidade a
terminá-la. Mas a ideia desvaneceu-se, fulminada pela dor que lhe invadia o crânio. Mal
teve forças para solicitar a ajuda das aias antes que se apagassem as luzes que lhe dançavam
dentro da cabeça.
6 de Dezembro de 1525 Diário,
Há muito que não escrevo, pois aquilo que aqui iria contar acerca de Hever apenas
descreveria um enorme aborrecimento.

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Porém receberam-me novamente na corte e voltei ao serviço da rainha. Durmo nos
aposentos contíguos aos de Sua Majestade, com outras aias, sete ao todo. O tempo
transcorre a um ritmo animado, marcado pelo nosso rei e dir-se-ia que nunca dormimos.
Falcoarias, caça... diz-se que Henrique esgota pelo menos oito ou dez cavalos num só dia
em combates e justas. Não há como vê-lo jogar ténis. O seu adversário favorito é Thomas
Wyatt que tem uma perícia semelhante. Todas as noites tocamos flauta e virginal, cantamos
- a minha voz é muito apreciada - e dançamos. A rainha já mostra bem a sua idade junto da
vitalidade de Henrique. Talvez sejam os olhos fugidios, as mãos e o coração do rei que lhe
ensombram o espírito, pois as suas damas parecem brilhar mais do que ela própria.
Meu pai, agora de tão elevada posição, conseguiu autorização do rei para trazer toda a
família e vir viver para a corte. Por isso, minha mãe tem, juntamente com ele, aposentos no
palácio, uma honra rara que julgo que aprecia. São dois belos quartos apainelados, com
armários de madeira trabalhada, cheios de loiças e cortinas de seda na grande cama de
dossel. Acabou-se a monotonia de Hever, os infindáveis dias a coser até os dedos
sangrarem. Ainda muito bela, minha mãe passa agora os dias mais serena. Vejo-a observar
de longe os devaneios galantes das jovens. A mim, vigia-me com atenção, sem nada dizer.
Claro que estou a cargo de meu pai e este tem já planos para mim. Planos esses, que se
recusa divulgar.
O cardeal Wolsey, cada vez mais rico e poderoso à medida que o tempo passa, graças à fé
que Henrique tem nele, nunca me vê, mesmo quando passo diante da sua pessoa. Esqueceu
completamente o castigo que impôs a Percy e a mim e a dor que nos causou. Mas eu
recordo-me, oh, se me recordo! Pobre Percy que continua banido da corte... Tenho de
admitir que o meu coração está muito mais frio desde que o perdi. Tenho muitos
pretendentes, mas nenhum deles me interessa. Não deixo que o meu coração sinta amor. Sei
que o meu papel consiste em participar no jogo, mas não sou obrigada a sentir, o que
também não incomoda ninguém. Sou um bonito ornamento, um bem para comprar ou
vender. Assim, não entrego a ninguém o meu coração.
Ontem à noite, à hora da ceia, encontrava-se entre os comensais de uma mesa baixa, uma
velha que se diz ser bruxa. Depois de terminada a refeição, enquanto os cães devoravam os
restos e os nobres partiam para os divertimentos nocturnos, procurei a mulher e pedi-lhe
que me ouvisse. Olhou-me com os seus olhos enevoados, enquanto

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as mãos agarravam ainda um saco de comida que os cães não tinham descoberto.
- Que desejais, senhora? - sorriu, se é que se pode chamar sorriso àquele esgar de dentes
podres e enegrecidos e hálito fedorento.
- Desejais um feitiço, uma poção, alguma magia que vos mantenha a beleza eterna?
Não, respondi, e pus a minha mão na dela, voltando-a propositadamente para fazer cair a
manga longa e pontiaguda e ela poder ver o pedaço de carne e unha que dizem ser um dedo.
- Seis dedos! - exclamou, agarrando-me a mão. - Decerto sois Ana Bolena. - Sobressaltada
tentei retirar a mão, mas ela agarrava-a com força. - Sois famosa por esse dedito -
acrescentou. - Dizem que é a marca do demónio.
- Tal como este sinal que tenho no pescoço - murmurei, afastando a gargantilha, de modo a
que pudesse ver a marca castanha escondida por ela. - Qual a vossa opinião, idosa mulher?
Serei bruxa como vós?
Continuou a olhar fixamente e em silêncio para a minha mão, sem se preocupar com a
marca do pescoço. O fumo das velas fazia-me arder os olhos. O seu hálito fétido era difícil
de suportar. Continuava em silêncio.
- Que dizeis? - perguntei em voz alta. - Respondei, pois não ficarei aqui por muito tempo.
- Aguardai, senhora. Estou a pensar quanto vos poderia pagar por esse dedo.
- O quê? Quereis comprar-me o dedo?
- Oh, senhora! Cortai-o. Quase não sangraria e ficaria muito bem dentro de um frasco -
disse em voz entrecortada. - juntamente com asas de fetos de morcego, sapos grávidos e
coisas assim.
- Nem pensar! - exclamei, soltando a minha mão.
- Não haveis perguntado?
- Perguntei a vossa opinião sobre o assunto, não pedi que fôsseis um cirurgião macabro.
- Em minha opinião - disse ela, colocando o dedo magro na minha face - lady Ana tem
poderes iguais aos de um longo e amarelecido pergaminho ainda por desenrolar. E, se
quiser, poderá fazer uma carreira tão brilhante quanto infame.
Estendeu-me a enrugada palma da mão, sobre a qual me apressei a colocar uma moeda. A
seguir, voltei-lhe imediatamente as costas, respirei fundo e afastei-me. Brilhante e infame.
As palavras soaram-me

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durante toda a noite dentro da cabeça e, só depois de ter estado a cantar com as outras
damas, consegui esquecê-las e ter alguma paz.
Afectuosamente vossa,
Ana
20 de Abril de 1526 Diário,
Depois de ter sabido que tinham nomeado Thomas Wyatt, mestre-de-cerimónias do Dia de
Maio, decidi cavalgar a égua castanha, minha preferida até Shooters Hill, por trás do
Palácio de Greenwich. Aí do interior do bosque, escutei o ruído de serras e martelos,
desmontei e segui a pé, por entre os atalhos, tendo encontrado um cenário tão estranho, que
quase não acreditava no que os meus olhos viam.
Os mestres carpinteiros construíam a cabana de Robin dos Bosques e do seu bando. Tinham
colocado por entre as árvores uma rústica mesa de banquetes e aberto uma clareira para
servir de campo de justas, com assentos feitos de troncos e ramos. Encontrei Wyatt sentado
à sombra de uma árvore com a pena na mão, escrevendo um diálogo para a farsa da floresta
de Sherwood. Tinha a testa franzida e uma expressão preocupada no rosto bem-parecido.
- Então Thomas, não deveríeis encontrar dificuldades em escrever as palavras de um fora-
da-lei, já que pertenceis a um desses bandos.
- Ana, que surpresa! - Pôs-se de pé de um salto, mas empurrei-o e sentei-me no chão, a seu
lado. - Vim pedir-vos um favor.
- Sabeis que, para mim, os vossos desejos são ordens. Em que poderei servir-vos?
- Gostaria que me désseis o papel de lady Marion na farsa. Sempre gostei dessa personagem
e creio que a representaria bem. Thomas esboçou um sorriso, porém o seu olhar traía
alguma preocupação.
- Que se passa Thomas? Dizei-me. Não me pareceis bem. Estais enfermo?
- Não Ana, não é por mim. Que preocupações poderia eu ter aqui sentado neste bosque,
com uma tão bela dama, escrevendo palavras bonitas para um ritual pagão de fertilidade,
num belo dia

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de Abril? Não. Trata-se do rei, encerrado na sala do Conselho, preocupado por assuntos
graves e cada dia mais triste.
Na verdade, já eu havia notado o desânimo do rei, tão diferente da sua habitual jovialidade,
porém não lhe atribuíra importância.
- O que o preocupa?
- Desejais mesmo saber? - perguntou, olhando-me com ar estranho.
- Claro que sim.
- Estes assuntos geralmente não interessam às damas - troçou.
- Dizei-me Thomas, ou terei de vos puxar as orelhas!
- Pois bem - murmurou, ao mesmo tempo que se encostava à árvore. - Recordais-vos, se é
que já éreis nascida, de quando Henrique subiu ao trono? Parecia resplandecente como um
astro. O jovem rei que, qual leão ávido de guerra, invadiu a França envergando a sua
armadura cintilante e desbaratou os cavaleiros no campo, durante a Batalha de Spurs. Que
feitos gloriosos! Conquistou cidades, tratando os inimigos com tal graça que lhe valeu o
nome de Grande Henrique. Oh, Ana, que maravilha! E pensar que um dia, poderia ter
conquistado toda a França. Chamava-lhe a sua ”Grande Empresa” e esperava poder levá-la
a cabo com a ajuda do sobrinho de Catarina, seu grande amigo e aliado.
- Falais do imperador Carlos de Espanha, não é verdade? A rainha tem-lhe grande afecto.
- E em anos anteriores já ela serviu de embaixadora entre os dois. Mas agora, Carlos conta
com exércitos mais poderosos que os que Henrique alguma vez sonhou e invadiu ele
próprio a França. O rei Francisco é seu prisioneiro.
- já tinha ouvido dizer. Mas em que é que tudo isso afecta Henríque?
- O imperador já não quer participar na Grande Empresa do nosso rei. Tem os seus próprios
planos, para conquistar o mundo sozinho. E logo, depois de Henrique lhe ter dado meio
milhão de coroas, para as suas aventuras.
- Então foi traído.
- Sim, mas há mais. Henrique não quer desistir dos seus sonhos de conquista e portanto
ordenou ao cardeal Wolsey que lançasse um imposto sobre todos os súbditos. Chamam-lhe
”doação voluntária”, mas o povo considera-a uma injustiça e está a revoltar-se. Por todo o
país, os cobradores de impostos, incluindo vosso pai, encontram grande resistência no
campo e por vezes têm de usar a força.

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A populaça atacou os comissários e recusa-se a pagar a guerra. Mas o pior é que verte todo
o seu desprezo sobre o rei e o cardeal Wolsey. Assim, para além da traição de um aliado,
Henrique tem de enfrentar a rebelião do povo que o amava e aclamava.
-já vejo as razões da sua preocupação e também as de Catarina, que se vê agora entre o
sobrinho e o marido a quem tanto ama.
- Mas, Ana, também Catarina é uma fonte de problemas. Nas tabernas e entre os soldados
murmura-se que o casamento do rei está amaldiçoado. Não tem filho varão, a princesa
Maria é a única herdeira e diz-se que a causa é o incesto.
- Incesto?! - Pronunciei a palavra em tal tom que os operários se detiveram para olhar para
nós. - Incesto? Que quereis dizer com isso?
- Catarina... certamente o sabeis... Foi casada anteriormente com Artur, irmão de Henrique.
Mas este, fraco e doente, morreu antes do casamento ser consumado. A Rainha afirmou-o e
todos acreditaram. Como a aliança com Espanha era muito importante e a princesa era na
altura bela e meiga, Henrique casou-se com ela da melhor vontade. Tudo esteve bem
durante muitos anos, mas agora que Catarina já passou da idade de ter filhos e Henrique
não tem herdeiro varão, começaram a murmurar. Pergunta-se se este casamento sem filhos
homens não será o castigo de ter tomado por esposa a viúva do irmão.
- Que ideia tão cruel - disse eu, pensando no grande amor que Catarina tinha ao Rei.
- Como sabeis, Ana, Henrique é versado nas Escrituras e encontrou no Levítico uma
resposta simples para a sua tragédia. Está escrito que é impuro um homem tomar por
esposa a mulher do irmão, pois descobre assim a nudez desse irmão. Portanto, não deverão
ter filhos. Henrique começou a recear que esta união maculada possa ser a sua condenação.
Fiquei sem fôlego. Tudo o que Wyatt acabara de me dizer fazia sentido e encaixava-se
como as peças de um quebra-cabeças. Agradeci-lhe, dizendo-lhe que nunca ninguém me
falara com tanta clareza de questões tão importantes. Beijei-o ao de leve e depois tirei da
cintura um minúsculo caderno enfeitado a pedrarias e suspenso de um cordão e ofereci-lho
de presente. Ele recebeu-o e pendurou-o ao pescoço.
- Vou usá-lo junto ao coração - disse, dando-me um beijo demorado que poderia ter
conduzido a outras coisas mais ternas.

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- Vinde visitar-me - pedi eu, soltando-me dos seus braços. - Depois de me haverdes escrito
um poema. Não será difícil. - beijei-o na orelha e esbocei um sorriso malicioso. - Ou será?
Depois, ergui saias e saiotes para que me admirasse um pouco do pé e do tornozelo e parti a
correr pelo bosque.
Esta noite, à luz da vela encontrei um aposento vazio onde posso reflectir... O que Wyatt
me disse, embora não faça parte dos meus habituais interesses, parece-me muito importante
e, por conseguinte, devo registar, preto no branco e com grande pormenor, todas as palavras
que consigo recordar. O tempo o dirá se assim é, ou se tudo não passa da maledicência de
ociosos.
Afectuosamente vossa,
Ana

2 de Maio de 1526 Diário,


Quando ontem me vesti para a celebração da Festa de Maio, nem por um instante imaginei
que a noite terminaria de modo tão portentoso. O meu vestido - isto é, o de lady Marion -
embora simples era muito elegante. Foi confeccionado com seda grossa, cor de marfim,
panos cremes, mangas bordadas e debruadas a cor-de-rosa. O corpete justo adelgaçava-me
a cintura, fazendo realçar os seios, ombros e costas.
Deixei que a rainha e as outras damas se adiantassem, com o pretexto de ter esquecido o
toucado nos nossos aposentos e fiquei à espera para ver os cavalheiros e damas da corte que
com as suas antigas galas desfilavam pelo atalho do jardim, em direcção a Shooter’s Hill.
Mais atrás, perfilados de ambos os lados do caminho, vi duzentos arqueiros, vestidos de
veludo esverdeado. Logo surgiu lorde Benton que representava o papel de Robin dos
Bosques, de braços abertos, a convidar todos os presentes ”Entrai no nosso bosque
verdejante e vede como vivem os fora-da-lei.”
A corte reunira-se à entrada da mata e, conforme fora ensaiado, os arqueiros puxaram as
cordas dos arcos e lançaram flechas. Porém, soou uma enorme ovação quando surgiu o
próprio Robin dos Bosques e se viu que afinal não se tratava de lorde Benton, mas sim do
próprio rei! Ouviram-se risos e alegres aclamações quando Henrique

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lhes deu as boas-vindas e os conduziu para dentro do bosque. Esperei então que todos
desaparecessem por entre a parede de árvores, até ouvir a música trazida pelo vento. Soube
assim que tivera início a representação.
Enquanto percorria apressadamente o atalho, sabia que as outras damas já teriam começado
a murmurar: ”Onde estará Ana? Talvez não venha. Quem representará o papel de Marion?”
Cheguei no momento exacto. Robin dos Bosques combatera de espada e punhal contra os
homens do xerife e subira à torre onde, em breve, apareceria Marion. Dei a volta, subi a
escada de madeira até onde tinha sido montado um estrado, empurrei a estupefacta dama
que me ia substituir e fiz uma ofegante entrada em cena.
A minha aparição provocou um coro de deleitadas exclamações e, logo a seguir, encontrei-
me frente-a-frente com Sua Majestade. Pareceu-me tão alto, com os seus enormes olhos
azuis risonhos e brilhantes, o ofuscante sorriso, que senti faltar-me o ar. Recitou as falas de
amor a Marion, com graça e ousadia e eu disse as minhas com igual elegância. Depois
arrebatou-me nos seus braços, obrigando-me a levantar os pés do chão. Sei que aquele
íntimo abraço estava previsto na peça, mas juro que senti que alguma coisa se movia sob os
seus calções e que havia um verdadeiro ardor no seu beijo.
A farsa terminou e todos aplaudiram os actores, com alegria. Depois o Rei afastou-se
rodeado de cortesãos, para preparar a justa que teria lugar em seguida. Reuni-me com as
outras damas ao lado da rainha Catarina e senti que os seus olhos escuros me fitavam
furiosos. Certamente me odiara ao ver que a peça exagerara um pouco, ao reparar nos olhos
do esposo, nos braços dele, em redor da minha cintura esguia, ao contrário da sua. Porém,
nada disse e encaminhou-se, na companhia das aias até ao terreiro enfeitado com pendões
que se agitavam, formando um arco-íris.
O coração batia-me com força e tinha os pensamentos confusos. Seria deveras eu o objecto
das atenções do rei? Impossível, pensei. Não havia ainda seis meses que minha irmã Mary
lhe aquecera o leito.
O estrondo de vinte trombetas e de outros tantos tambores interrompeu as minhas fantasias,
e deu início ao torneio. Sons e cores, homens cobertos de aço brilhante e as agitadas
garupas dos cavalos. O rei aproximou-se da rainha, montado no seu corcel e, conforme
ditam as regras e compete ao favorito, recebeu das mãos dela o lenço de seda brilhante,
para lhe dar sorte. Contudo, pude ver que, o olhar

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de Henrique não reflectia nem amor, nem afecto pela esposa e no dela havia uma dor tão
grande que me feriu os olhos.
A justa começou. Participaram todos os cavaleiros e soldados, a cada carga se ouviam
gritos, aclamações e impropérios, o entrechocar das armas, as terríveis quedas e o bater dos
cascos dos cavalos. Thomas Wyatt desafiou o rei e caiu do cavalo. Ileso e mostrando-se
satisfeito por ter sido derrotado pelo seu senhor, saíram ambos de braço dado do terreiro de
justas.
Durante o banquete, que teve lugar num recinto enfeitado, construído com ramos de
amieiro e flores perfumadas, fiquei sentada ao lado de Thomas Wyatt, muito belo e jovial à
luz das velas.
- Dizei-me, quando foi que Henrique roubou o papel de Robin dos Bosques a lorde Benton?
- perguntei.
- Quando descobriu que vós seríeis lady Marion. Quando começou a farsa e ninguém sabia
onde vos encontráveis, ficou aturdido.
- E quando eu apareci?
- Ana, não será necessário que vos diga o que sentiu. Decerto que vos haveis apercebido.
Senti as faces em fogo. Peguei na taça e bebi um pouco de vinho, para disfarçar o meu
embaraço. A seguir conduzi a conversa para assuntos menos comprometedores e Thomas
compreendeu.
Todavia, mais tarde, quando descansava do baile na frescura do bosque, fora do círculo dos
archotes desenrolou-se diante de mim toda a misteriosa aventura da noite. Tinha-me
curvado para arranjar o sapato quando senti um par de mãos masculinas a cobrirem-me os
olhos. O dono era alto e de ombros largos, pelo que pensei tratar-se de Thomas Wyatt.
- já me haveis escrito o poema? - perguntei em tom malicioso, enquanto me voltava. Pela
segunda vez, naquele dia, dei por mim nos braços firmes do rei de Inglaterra.
- Poema? - perguntou a sorrir. - Exigis então poemas que louvem a vossa beleza e
encanto?
Foi estranho. Depois dessas palavras, senti o peito, os membros e a cabeça invadidos por
uma vaga de emoção. Receio, logo a seguir coragem, desejo, depois despeito, ternura,
amargura, recordações do passado e também pensamentos acerca do futuro. No breve
instante entre as suas últimas palavras e a minha resposta senti que sobre mim descia uma
tranquilidade semelhante às asas de um anjo. A ousadia venceu o medo e depois falei:
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- Será que não tenho virtudes que bastem para que me façais um poema?
- Tendes virtudes de sobra - disse o rei trespassando-me com o olhar.
- Começai então - desafiei-o, soltando-me dos seus braços.
- Como assim? - perguntou confuso.
- Começai o poema. Estou à espera, senhor.
Ele soltou uma sonora gargalhada, espantado com a minha audácia e acusou-me de ser uma
jovem exigente. Todavia aceitou o desafio como se se tratasse de uma luva de couro
lançada ao chão.
- ”Como o verde azevinho Não muda de cor / Assim sou constante / Para o meu amor.”
- Muito bem, prossegui.
- ”Como o verde azevinho São os meus amores Ficaram as folhas / Perderam-se as
flores... / Só à minha amada No meio da verdura / juro ser fiel / P’ra sua ventura.”
- Excelente, Majestade! - disse eu, aplaudindo-o
- E agora, mereço um beijo?
- já mo haveis roubado há pouco, no palco.
- Então contento-me com o que vier depois - disse, tomando-me nos seus fortes braços.
- Detende-vos! - exclamei, soltando-me.
- Como ousais dar ordens ao vosso rei? Senti o coração aos saltos no peito.
- Para bem de Vossa Majestade - disse eu. - Para vos Proteger de ligações incestuosas.
Mesmo por entre as sombras, apercebi-me que ficara vermelho de raiva.
- Incestuosas? - Parecia perturbado, confuso. Estaria eu a referir-me ao seu infeliz e
pecaminoso casamento com a viúva do irmão?
- Posso falar-vos francamente, Majestade? Não há muito, ainda minha irmã Mary dividia o
leito convosco. Teve um filho vosso acrescentei num murmúrio. - Para mim, fazer o mesmo
parece-me... incestuoso.
O rei recuperou a calma.
- Sois muito ousada, Ana - disse já mais tranquilo. - Estais a falar com o vosso rei.
- E vós com uma virtuosa donzela que como tal se deseja manter, senhor - logo fiz uma
reverência, olhei-o e sorri com graciosidade. - Porém, apreciei a vossa afectuosa atenção.

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Pegou-me na mão - por sorte aquela que apenas tem cinco dedos - e beijou-a, demorando
neles os seus lábios. Depois, sem que mo pedisse retirou-me o anel de granadas e enfiou-o
no seu dedo mindinho.
- Como não posso ter o vosso coração, fico com isto - disse e logo desapareceu por entre as
sombras da floresta, como o fantasma de um veado.
Nas duas horas que faltavam para terminar as festividades do Dia de Maio perdi-me em
ilusões e devaneios, de tal modo que o tempo voou e me encontrei na cama sem saber
como. Fiquei deitada, no meio da escuridão, ouvindo as outras aias em meu redor a
murmurar os mexericos dessa noite, mas apenas com um pensamento. Um pensamento que
me deixou trémula e insone até ao amanhecer. O rei de Inglaterra procurava os favores de
Ana Bolena.
Afectuosamente vossa,
Ana
17 de Julho, de 1526 Diário,
Neste dia sinto-me em grande confusão, ao mesmo tempo desconsolada e feliz. O meu bom
amigo Thomas Wyatt resolveu exilar-se em Roma, voluntariamente e porque as
circunstâncias assim o exigiam. E estou a ser cortejada pelo rei de Inglaterra. Estes dois
factos interligados rodeiam-me como silvas, atordoada por as coisas terem chegado a estes
extremos.
Ainda há bem pouco tempo que Wyatt me falou de importantes assuntos da corte e eu, lhe
retribui a confiança com uma pequena recordação - um pequeno caderno enfeitado a
pedrarias, suspenso de um cordão. Logo a seguir, no Dia de Maio, Henrique roubou-me o
anel e enfiou-o, no seu dedo mindinho. É difícil acreditar que estes dois homens tenham
chegado quase a vias de facto por causa destes objectos sem importância. Ocorreu o
seguinte:
Henrique e os seus favoritos, entre os quais se achava Wyatt, jogavam uma partida de
boliche. Encontravam-se em equipas opostas, quando Henrique reclamou como seu, um
bom lançamento que tinha sido feito por outro. Wyatt protestou. Depois diz-se que o rei
apontou intencionalmente com o dedo mindinho, o mesmo em que

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usa o meu anel e disse com os olhos fixos em Thomas: ”Wyatt, digo-vos que é minha.
Digo-vos que é minha!” Apesar da veemência das suas palavras, o rei sorria e Wyatt
julgando-o de bom humor, replicou: ”Se Vossa Majestade me der permissão para a medir,
tenho esperança de que possa ser minha.” Depois, com igual intenção retirou do pescoço o
caderninho preso pelo cordão e inclinou-se para medir o lançamento. Henrique vendo a
minha prenda nas mãos de Wyatt interpretou a acção como um desafio que punha em
questão o objecto dos meus afectos. Como uma criança petulante, o rei deu então um
pontapé na bola e disse: ”Pode ser que assim seja, mas agora já não me apetece!” - E
abandonou o jogo de mau humor.
Antes mesmo de ter ouvido a história e ignorando o papel que nela desempenhara, vieram
dizer-me que o rei me queria falar em particular. Se bem que, desde o Dia de Maio tivesse
deixado bem claro o seu interesse na minha pessoa, com olhares de soslaio, escolhendo-me
para dançar e cantar consigo, sempre estivéramos em público. Entrei, pois, pela primeira
vez nos seus aposentos que eram mais sumptuosos e belos que alguma vez imaginara.
Enormes janelas em arco e de pinázios deixavam entrar o sol por três lados, iluminando
arcas e mesas lavradas e douradas, a enorme prateleira da chaminé ornamentada com uma
dúzia de jarros de prata, uma tapeçaria de seda, magnífica em tamanho e cores brilhantes
representando São Jorge a matar o dragão, uma enorme cadeira de dossel e, num canto,
vários instrumentos musicais. O rei vestido de veludo branco, bordado a prata encontrava-
se também iluminado pelo sol e por um fogo interior que lhe brilhava através dos olhos.
Sentia o meu coração acelerado dentro do peito que, tenho de confessar, expusera
propositadamente. Mas nesse dia, a generosa visão de uma pele branca e perfumada, pouco
fizera para acalmar a ira do rei, semelhante a um ardente vento estival.
- Tomais-me por tolo? - perguntou exaltado, com uma veia a latejar-lhe na testa
avermelhada, da qual eu não conseguia afastar os olhos. Não sabia qual fora o meu crime,
mas ele haveria de mo dizer. - Atreveis-vos a jogar com os afectos do vosso rei no mesmo
campo que com Thomas Wyatt? Por acaso não terei erguido vosso pai a tão alta posição...?
Senti as pernas fracas ao ouvi-lo pronunciar o nome de meu pai.
- Não ajudei também a pagar o dote da noiva de vosso irmão, honrando desse modo e mais
uma vez a vossa família? É assim que me retribuis?
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Sentia os braços e as pernas gelados, o coração batia-me como um tambor, mas conservava
a rapidez de raciocínio e a lucidez que me deixavam perceber que o rei me fazia a corte,
não por capricho mas com sinceridade. Que pretenderia? Já tivera a minha irmã e havia
quem dissesse que também minha mãe fora sua. Meu pai e meu irmão eram seus escravos.
Atrever-se-ia a tentar conquistar todos os Bolena? Gostaria de saber quando tinha
começado aquilo e apercebi-me imediatamente que o meu amor por Percy poderia ser uma
espinha na garganta de Henríque. Deveria humilhar-me como todos faziam ou aceitar
aquele jogo? Seria assim tão apetecível como Wyatt me cantara em verso, uma corça
fugidia numa floresta encantada? Sim, decidi, serei esquiva como o vento, para que ele me
procure, mas nunca me retenha.
- Wyatt roubou-me o caderninho - menti. - Tal como vós haveis feito com o anel -
acrescentei com ousadia. - Agem ambos como se também me tivessem roubado o coração.
Mas tal não aconteceu, embora ame Vossa Majestade como os súbditos leais amam o seu
rei.
- Quero-vos, Ana - disse, num grunhido apaixonado.
Percebi que estava a ser sincero, de modo que soltei uma gargalhada, o mais desenvolta
possível.
- Se é assim que o rei trata a mulher que deseja, nem quero ver como trata os inimigos.
- Bom eu, eu... - titubeou, desconcertado com a minha impertinência.
- Com permissão de Vossa Majestade - disse eu, desejosa de pôr fim à conversa. Fiz uma
profunda reverência e saí apressadamente, deixando-o sozinho, com uma expressão de
surpresa no seu belo rosto. Voltei aos aposentos da rainha extremamente agitada.
Que hei-de fazer? Dissera a verdade. Não amo o rei, como uma mulher ama um homem.
Mas se bem o conheço, não se deterá enquanto não apanhar o vento com ambas as mãos.
Pedi conselho a minha mãe, que apenas murmurou com ar triste.
- É o rei. É o rei...
A minha irmã foi menos comedida.
- Aceita-o. Deixa que se divirta contigo. Há-de oferecer-te belos vestidos, muitas jóias, um
bastardo, se tiveres sorte. Serás a amante do rei de Inglaterra, Ana, um título de honra, para
uma jovem magrinha e plebeia.
Fiquei zangada com a resposta desmiolada daquela desmiolada rameira.

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Depois fui ter com meu pai que me mandara chamar. Tinha um aspecto imponente, com o
seu gibão de cetim negro, enfeitado a ouro, e o elegante gorro francês, sobre os cabelos
grisalhos.
- Parece que o rei te distingue com o seu favor - sorriu e passou-me o braço pelos ombros,
coisa que não fazia desde que eu era pequena. Contudo não me deixei enganar, pois sabia
que não havia afecto naquele gesto.
- Deves condescender, Ana - aconselhou num murmúrio tão baixo, que mais parecia ter o
diabo nas costas, a ditar-lhe as palavras. - Ouviste? - ainda não lhe tinha respondido.
- Sim, meu pai, o vosso conselho é muito claro.
- E vais fazê-lo?
Agarrou-me os ombros com força, apertando-mos com os seus dedos ossudos. Meu pai
tinha sido durante muito tempo o meu único senhor e amo, porém na minha imaginação via
o caminho que ambos seguiríamos num futuro incerto. E, enquanto que outrora, sempre
fora ele a indicar-mo parecia agora tropeçar e ficar para trás.
- Vou fazer conforme me aprouver, meu pai - respondi.
Os seus olhos chisparam de fúria, mas ignorei-o com uma nova coragem. Depois, soltei os
ombros do aperto dos seus dedos e saí do aposento, sem olhar para trás.
Afectuosamente vossa,
Ana
24 de Agosto de 1526 Diário,
Sua Majestade persegue-me, mas mesmo assim, resisto-lhe. Diz que é um homem louco de
amor e assim parece. Esfumou-se o mau humor para dar lugar a uma nova força varonil.
Mostra-se de novo agressivo nos seus deveres de rei, tendo recuperado a imagem de
brilhante estadista. Fala-me da família, dos filhos e de como os há-de casar. Pensa mesmo
unir o filho bastardo, que teve com Bessie Blount, com a obediente filha Maria. Tudo, diz
ele, será melhor que ter uma mulher no trono de Inglaterra. As mulheres não têm energia
para manter a paz.
Thomas Wyatt que me instruía nas questões políticas, continua no exílio e todos sabem que
por minha causa. Oxalá pudesse voltar

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a ver esse querido amigo, para lhe pedir conselho acerca dos apetites do rei. Não sei porque
surgiu tão desesperada paixão. Este homem, um monarca, converteu-se em meu escravo.
Suspira de desejo de me ver, geme como um vitelo doente de amor, diz-me que está
encantado e enfeitiçado por mim e implora-me, noite e dia, que seja sua. Traz-me presentes,
flores, fitas douradas, escreve canções em minha honra, que depois canta em voz trémula.
O sentimento não me é desconhecido. Não era assim o meu amor por Henry Percy? Se
assim é, se o rei me ama verdadeiramente, que hei-de eu fazer? Não o amo, não desejo
seguir o caminho de minha irmã. Mas o problema está na minha família. Se recuso as
pretensões do rei, se provoco a sua ira, que será da posição que meu pai, tanto se esforçou
para obter? Meu irmão George foi há pouco nomeado copeiro de Sua Majestade. Terá
minha mãe de elanguescer num novo desterro no campo?
Mas se lhe declarar um amor maior que aquele que um súbdito deve ao seu rei, vou
transformar-me em sua amante, e isso repugna-me. Tenho de achar um meio de o afastar
para que a desgraça não recaia sobre a minha cabeça. Oh, se eu pudesse pensar! Aqui na
corte quase não há tempo para solitárias reflexões, nem sítio para uma tranquila meditação.
Estou rodeada de damas tagarelas e há também as refeições e as minhas obrigações para
com a rainha. E esse gigante louro que arde de amor, perseguindo-me de noite e de dia.
Tenho de arranjar uma maneira.
Afectuosamente vossa,
Ana
13 de Outubro de 1526 Diário,
Estou a salvo, pelo menos por algum tempo. A resposta ao meu dilema surgiu-me durante
um sonho. Sonhei com os tempos antigos e com uma dama, casada, numa torre. Era amada
por um cavaleiro que não o seu marido. O rosto da dama era-me por vezes desconhecido,
outras vezes era o meu. Falava em verso e oxalá pudesse recordar-me das suas palavras,
mas estas desvaneceram-se, quando acordei. Mais importante foi a cena que a dama e o seu
admirador representaram, e a que assistia o marido, sentado, junto deles.
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Tratava-se de um jogo de amor cortês. O jovem, punha-se ao serviço da dama, declarava o
seu amor, cantava-lhe canções, fazia-lhe elogios, oferecia-lhe pequenos presentes, jurava-
lhe obediência absoluta. Ela gracejava, provocava-o, interessava-se pelos seus versos de
amor. E nada mais. Nunca se deitaram juntos. Bastava um beijo na mão, a cabeça dele no
joelho dela, uma carícia terna. Amor Cortês.
Quando acordei, reflecti sobre as possibilidades do sonho. Seria perigoso impor um jogo
assim ao rei, mas sabia que não tinha outras alternativas. Foi o que fiz: respondi
ousadamente aos seus avanços, com danças e risos, permitindo-lhe uma breve carícia,
respondendo, à letra, a insinuações e trocadilhos. Provoquei-o, confundi-o, conduzi-o a um
frenesim exacerbado, depois recuei, simulei modéstia, declarando-lhe que a virtude me
proibia continuar ou amar um homem casado. O rei mais parecia um cavalo louco.
Resfolegava, fumegava e depois ria-se deliciado. Estava a gostar do jogo! Assim, mandei-o
embora e quando regressou, continuámos, mas de modo diferente - novos versos, duelos de
espírito, um beijo que permiti que me roubasse. Porém a minha evasão era o acto final e
quando o pano caía, tinha conseguido mais uma vez manter o rei à distância. Veremos por
quanto tempo.
Afectuosamente vossa,
Ana

12 de Novembro de 1526 Diário,


Estou exausta. Esgotaram-me as aventuras e jogos que me vi obrigada a realizar neste
domingo, para manter o rei à distância. Começou tudo de manhã cedo, quando toda a corte
assistia à Missa. Ajoelhei ao lado da rainha, cujas preces fervorosas, ditas em voz alta, se
ouvem por cima de todas as outras. Tinha os olhos postos no terço. Porém, os de Henrique -
ajoelhado na sua capela, no banco do rei - estavam postos em mim. Aventurei-me a esboçar
um sorriso do outro lado da igreja e ele retribuiu-mo, com o seu riso aberto, comportamento
pouco próprio de um rei, que se concentra nas suas preces ao Senhor. Repreendi-o com um
olhar severo e ele soltou uma sonora gargalhada! Todas as cabeças se voltaram obrigando-o
a simular um ataque de tosse, no qual certamente ninguém acreditou.

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Mais tarde, ao sairmos da capela, conseguiu ficar a meu lado.
- Senhora, tínheis uma expressão muito severa - murmurou.
- Estava só a ensaiar. É aquela que usarei quando tiver de repreender as maldades do meu
filho.
- Um filho? Pensais ter um filho?
- Muitos filhos! Um para cada dia da semana.
Com um sorriso encantador, segui a rainha e as outras aias para irmos tomar o pequeno-
almoço. Henrique seguiu-me com os olhos. Mais tarde, nessa manhã límpida e fria, o rei e o
seu séquito foram praticar um novo jogo chamado Liças. Nesta competição os adversários
usando uma protecção e um elmo especiais simulam uma luta apeada, com duas espadas e
lanças de dois metros. Eu e outras damas - embora a rainha estivesse ausente, por ter
voltado à capela - assistíamos à competição, aplaudindo as proezas e soltando gritos de
terror devido a tanta violência. Como era habitual em tais lides, Henrique destacava-se
sobre todos os outros, mas não porque os seus homens o deixassem vencer por deferência à
sua posição de rei. Era certamente o melhor, o que mais corajosamente combatia e o que
mais inimigos derrotava.
Entre dois assaltos, veio à beira do campo, onde eu me encontrava, trémula, entre as outras
damas. Do seu corpo erguia-se uma nuvem de vapor e respirava com dificuldade, devido ao
esforço. Tinha os olhos brilhantes e pediu-me uma prenda sem pronunciar palavra.
Todas as damas observavam interessadas esta cena, mas nenhuma se atreveu a pronunciar
palavra. Entreguei-lhe um lenço de renda, que levou ao nariz para aspirar o meu perfume
francês. Sorriu satisfeito e voltou para o campo, como meu campeão, para derrotar os
outros homens em minha honra.
Terminado o jogo, as damas afastaram-se e dei por ele atrás de mim, com grande ruído da
sua armadura.
- Minha senhora Ana! Voltei-me a sorrir.
- Haveis combatido bem, Majestade. Podeis ficar com o meu lenço.
- Teria ficado com ele de qualquer maneira.
- Sois muito atrevido! - exclamei.
- Bem mereço um troféu pelos meus esforços. Derrotei-os a todos.
Retirou a protecção do peito e tive de me conter para não ficar a olhar para a sua
impressionante figura.

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- Mas podereis derrotar-me a mim? - perguntei.
- Derrotar-vos! - o rei soltou uma gargalhada tão forte que o seu ventre estremeceu.
- Não me refiro ao jogo das Liças, seu tonto.
- Qual é então o desafio?
- Xadrez - respondi.
- Ah, xadrez. Um jogo de mulheres, mas em que sou tão bom como os outros. Aceito o
vosso desafio. Na sala de jogos uma hora depois do almoço.
- Lá estarei.
E de facto estava. Troquei o vestido por um que sabia que ele gostava, pois elogiara-me
muito pela sua cor - vermelho-ferrugem e pelo modo como fazia sobressair os meus olhos.
Tinha um generoso decote e como sabia ter de me debruçar sobre a mesa para fazer os
lances, esperava assim aproveitar-me para confundir a sua mente de lince, com a visão os
meus seios. Deixei o cabelo caído e solto pelas costas abaixo. Retoquei ao de leve as faces
e os lábios com carmim. E, por fim, prendi cuidadosamente a ponta da manga ao meu
quinto dedo de modo a ocultar o sexto.
O rei não apareceu como de costume com ar imponente e vaidoso, coberto de peles e jóias.
Veio sim, muito calmo, falando-me num murmúrio e lançando-me subtis sorrisos. Trazia
umas calças claras e uma camisa de linho, larga, sob um gibão de pele. Tinha a cabeça
descoberta. Acabara de tomar banho e não havia nele qualquer vestígio dos exercícios
matinais. O cabelo louro brilhava ao sol da tarde. Era uma bela figura de homem.
Sentámo-nos confortavelmente junto ao tabuleiro e, tendo trocado algumas palavras,
começámos a jogar. Saí com ousadia e ele fez o mesmo, surpreendendo-me com a sua
táctica. Prosseguimos em silêncio. Comi-lhe o cavalo. Ele ficou-me com o bispo. Ambos
perdemos vários peões. Depois hesitei. Simulei estar confusa. Disfarcei a confusão com
lances ousados. Resultou. Concentrado, foi movendo as peças para cercar a minha rainha.
Soltei um profundo suspiro, mordi o lábio. Estava tão convencido de que eu hesitava e era
tal a sua confiança, que não se apercebeu dos meus artifícios e ficou imóvel quando
murmurei ”cheque-mate”.
- Cheque-mate! - disse eu, desta vez em voz mais alta. Tentei que me olhasse nos olhos,
mas tinha-os colados ao tabuleiro, tentando perceber a razão da sua derrota.
- Não pode ser - resmungou.

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- Mas
é. Venci Vossa Majestade.
- Não! - gritou e empurrou o banco com tanta força, que este caiu para trás.
- Ora, Henrique, não vos comporteis como uma criança mimada. É apenas um jogo.
- E vós sois apenas uma mulher!
- Uma mulher que vos derrotou - soltei uma gargalhada na esperança de não parecer cruel,
e de lhe aplacar a fúria. - Então, preciso de uma recompensa para a minha vitória!
- Uma recompensa? Deveríeis ser encerrada na Torre de Londres por traição ao rei!
- Majestade!
- Muito bem. Que desejais então? - perguntou com ar petulante.
- Um beijo... - disse eu. - Um beijo do derrotado.
Vi-lhe nos olhos um brilho perigoso, pois estava a exceder os limites da sua paciência.
Porém a raiva desfez-se ao calor do meu inesperado pedido. Aproximou-se para me
abraçar, mas segurei-lhe os braços.
- Não Henrique. Sou eu que vos beijo.
Oh, como ficou inflamado, quando encostei o meu corpo ao seu, procurei os lábios dele
com os meus e usei a língua à maneira francesa para provar a doçura íntima da sua boca.
Durante o beijo tomou-me nos braços e foi difícil soltar-me. Mas quando por fim, tudo
terminou, separámo-nos sem fôlego e ele sorriu.
- A vencedora deste assalto - disse, fazendo uma profunda reverência. - A minha senhora,
Ana Bolena.
Com tantas palavras atrevidas e inteligentes artifícios, juro que não me sinto vencedora,
mas apenas uma pobre menina a perder o pé. Mas continuo.
Afectuosamente vossa,
Ana

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Enorme serpente viva cobria quase uma légua de caminho, formada por um milhar de
ruidosos e trovejantes anéis que levantavam uma espessa nuvem de poeira na escaldante
tarde de julho. Para fugir ao calor e à pestilência de Londres, a comitiva real avançava pelo
condado de Kent, pela primeira vez, desde que Isabel subira ao trono. Partira havia menos
de uma semana, mas já carroças e carros, pesadamente carregados, rebanhos e gado, bem
como várias mulas transportando a equipagem da corte e os mantimentos, alteravam a
tranquilidade das pequenas aldeias que, com grande regozijo, viam passar a comitiva.
James Thomas, Joan a sua nutrida mulher e sete filhos espantados tinham, com a
permissão do seu senhor, abandonado o trabalho durante uma boa parte do dia. Sentavam-
se agora nas mantas, sobre as quais havia também queijo, pão duro e jarros de cerveja para
um almoço campestre e, ao mesmo tempo, viam passar deslumbrados, o desfile que sem
dúvida era um dos maiores espectáculos da sua vida. A equipagem e o gado que desfilavam
pela estrada não eram mais que o início de um notável cortejo, pois após a sua passagem,
deixando para trás poeira e excrementos, vinham escudeiros, cavalariços e porta-
estandartes, transportando coloridos pendões com os escudos de armas que, na
impossibilidade de ondularem ao vento, pendiam no calor sufocante. Guardas e lanceiros a
cavalo vigiavam o caminho. Logo a seguir vinham, também a cavalo, jovens damas de
honor, alegremente engalanadas. Levavam os lenços ao nariz para se protegerem da poeira
sufocante. Seguia-as uma companhia de guardas de libré, erguidos na sela das suas
montadas.
- Olhai - ordenou James Thomas à família, pois já uma vez, durante a sua infância vira um
cortejo assim, no reinado do rei Henrique e não mais esquecera o seu esplendor e ordem.

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Desde as carroças e manadas de gado até às elegantes carruagens das damas e cavalheiros,
os lordes do Conselho e finalmente os regimentos de guardas armados anunciavam que Sua
Majestade se aproximava.
- Deve ser a rainha que aí vem. Levantai-vos todos! - ordenou, obrigando-os a porem-se de
pé. - O rei Henrique veio a cavalo, de modo que o pude ver. Oh, como era bem-parecido,
alto e forte. Mas agora uma mulher... julgo que virá numa carruagem, abrigada do pó e do
mau cheiro.
Mas, para grande alegria sua, James Thomas enganou-se e, logo atrás dos guardas, pôde
ver, tal como toda a família, uma mulher ruiva montada numa formosa égua, sentada no
alto da sela, resplandecente de prata e brocados, como que rodeada do esplendor do sol.
- Lá vem ela! - exclamou Joan. - A rainha! - James ouvia as crianças murmurarem, ”a
Rainha, a Rainha!” enquanto o rapaz mais velho comentava a beleza da montada e os seus
arreios.
- Ora esta! É da altura de Henrique e loira, como ele - exclamou James Thomas, com
assombro.
- Ainda bem - murmurou a mulher, como se temesse que a dama pálida que lhes acenava e
sorria os pudesse escutar. - Com a mãe que teve, é uma bênção que se pareça com o pai.
Isabel, com os olhos irritados do pó e da luz forte, ajustando o corpo ao movimento da
égua, viu a saudação da família de Thomas e, tal como fazia todos os dias, agradeceu em
silêncio aos seus fieis súbditos e a Deus a sua ascensão ao trono.
Interrompeu-lhe os pensamentos a ruidosa chegada de um ofegante Robin Dudley, montado
num enorme corcel, mais parecendo regressado de uma grande batalha.
- Majestade! - ofegou, com a cabeça coberta de suor.
- Meu Deus, Robin! Porque vos haveis adiantado? Queríeis vencer São Jorge e o dragão?
- Fui até Cantuária para inspeccionar o alojamento para esta noite.
- E haveis regressado? Sois muito tolo, porque não nos aguardastes lá?
- Porque estava desejando ver-vos, minha amada - disse acariciando-lhe o rosto com os
olhos brilhantes. Teria de esperar muitas horas. Também gosto muito de vos ver montar... a
rainha na sua viagem de Verão. Tão altiva e magnífica.
- E com o traseiro muito dorido. Por favor, Robin, pedi que se detenham um pouco lá
adiante. Quero desmontar e seguir de carruagem. Ele sorriu com a familiaridade, já
habitual, desde que se tinham tornado amantes.

71
Desejais parar para visitar a cabana dos tecelões em Oxted? - perguntou.
- Estão à minha espera? - suspirou, exausta.
- Estão, sim.
- Então não podemos desapontá-los - protegendo os olhos do sol, espreitou a ondulante
planície pontilhada de rebanhos. Era a primeira vez que Isabel via esta região do seu país.
- Robin, acreditais que, de facto, toda esta gente gosta que a corte em peso desça sobre eles
como uma praga de gafanhotos?
- De certo modo é um grande incómodo, mas trata-se de um antigo costume... a
hospitalidade rural. E, afinal, trazemos connosco vinho e cerveja - acrescentou com um
meio sorriso. Tomou-lhe a mão sem se preocupar com os olhares dos cocheiros atrás deles.
- Adoram-vos, Isabel. O vosso povo quer ver a rainha. E aposto que estão a gostar do que
vêem.
Dudley picou o cavalo e, ao chegar à cabeça da comitiva, ordenou à guarda que se detivesse
e permitisse que o cortejo de mantimentos e o gado seguissem adiante. Isabel deixou que
um dos seus escudeiros a ajudasse a desmontar do cavalo. Tinha as pernas dormentes da
longa cavalgada e dirigiu-se à ornamentada carruagem, feita na Holanda, enquanto sacudia
o pó do pesado brocado da saia de montar. Dentro da carruagem, Kat Ashley dormitava,
encostada às almofadas de seda rosada, com o rosto levemente contraído coberto com uma
fina película de transpiração. Thomas Parry, o idoso e fiel criado de Isabel, estava sentado
diante de Kat e curvado sobre um enorme livro de contas observando com os olhos
semicerrados uma coluna de números. Levantou-se de um salto, para ajudar a rainha a
entrar.
- Senhora, não quereis cavalgar mais hoje? - perguntou.
- Não, Thomas. Nem nunca mais na vida.
Buscando inconscientemente no rosto de Isabel sinais de fadiga ou indisposição, Parry
entregou-lhe um cantil de água fresca, que a Rainha bebeu até ao fim. Parry, tal como Kat
Ashley achava-se ao serviço de Isabel, desde que esta era pequena. Blanche, sua mulher
embalara a princesa no berço real. A rainha deixou-se cair no assento, com ar cansado e
olhou afectuosamente para Kat.
- Estava desejando sair daquela casa malcheirosa, infestada de pulgas, mas julgo que ainda
detesto mais as viagens - murmurou Isabel, na esperança de não acordar a sua aia.
- Pois bem, mas terá de se habituar a elas, não é verdade? De julho a Novembro, todos os
anos, a partir de agora - disse Parry.
- Espero conseguir visitar grande parte do meu reino.

72
- Claro que sim - Thomas Parry sorriu, ao pensar no reino de Isabel e do perto que estivera
de perder tudo, antes que fosse seu.
Também Isabel recordava as perigosas atribulações que ela e Kat, Thomas e Blanche Parry
tinham sofrido e partilhado. Nos últimos dias tinha pensado muito nesses tempos, desde
que estava a ler o diário onde sua mãe descrevia os primeiros meses do namoro de
Henrique.
Que opção terá uma jovem quando um rei ou um nobre lhe impoe os seus afectos, que
opção terá, senão submeter-se, pensou Isabel. Uma mulher não tem outra saída. É como
uma corça perseguida por cães de caça. Um espírito feminino anulado pelos rígidos
ensinamentos de que um homem deve ter sempre aquilo que deseja. Que o que uma mulher
quer nada significa, ou é até menos que nada. A mãe acossada por Henrique. Ela própria,
ainda criança, por Thomas Seymour.
O lorde-almirante do reino. O seu nome e imagem invadiram os pensamentos de Isabel.
Via-o claramente, belo e altivo, de barba ruiva e braços duros como o ferro.
Felizmente, Parry tinha voltado às suas contas, por isso não notou o rubor no rosto de Isabel
à simples recordação de um homem, que morrera havia mais de dez anos.
Fechou os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro dele... Deus, até o seu sabor. Ouvia-o
ainda vociferar a sua exclamação favorita: ”Pela alma de Cristo!” - uma invocação jovial
que lhe atravessava a neblina do sono, um momento antes de se abrirem os pesados
cortinados do seu leito e de a imponente presença de Thomas Seymour encher os seus
luminosos aposentos.
- Levantai-vos, princesa. O dia está bonito demais para se ficar na cama!
Isabel corara, enquanto procurava cobrir os pequenos seios nus com os lençóis de linho,
esgueirando-se para debaixo das cobertas, incapaz de falar, de tão envergonhada.
- Deveríeis ter vergonha, almirante! - exclamara Kat, levantando-se do seu catre aos pés do
leito de Isabel. Seymour de pernas nuas e coberto apenas com a camisa de noite, saltara já
para dentro da cama de Isabel para fazer cócegas à jovem de treze anos, até os seus
gritinhos e risos ecoarem por todo Chelsea Manor. Kat correra a fechar a porta do
aposento, e ficara de mãos nas ancas diante dos corpos emaranhados nos lençóis, tentando
decidir o que havia de fazer, para terminar tão ofensivo espectáculo.
Mas enquanto os observava, o gigante ruivo e a sua querida lady Isabel, sentiu que os lábios
apertados esboçavam um sorriso. Faziam um belo par, muito mais belo do que o que
Seymour fazia com Catarina a

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sua simpática esposa de meia-idade. Kat arrependeu-se imediatamente de tão escandalosos
pensamentos, mas tinha de admitir que Isabel e Catarina não eram as únicas mulheres
daquela casa que Thomas Seymour enfeitiçara.
Seymour voltou-se de costas e sorriu a Kat.
- Pronto mulher! Vesti depressa a vossa protegida porque, esta manhã, vamos caçar.
- Saí já dessa cama! - ordenou finalmente Kat com uma voz que, para mal dos seus
pecados, lhe saíra mais afectuosa que autoritária. - Muito bem, Isabel - acrescentou. -
Tendes de vos levantar.
- Mandai-o sair.
- Fora! - ordenou Kat a Seymour. - A princesa precisa de privacidade.
- Volto-me de costas - ripostou ele voltado para a tapeçaria de veludo. - Vá, prometo não
espreitar.
Kat e Isabel trocaram um olhar de dúvida.
- Não me vou embora, de modo que deveis apressar-vos, senhoras. Com um risinho
envergonhado, Isabel saltou da cama, envolta no fino lençol e ficou à espera que a aia
cobrisse apressadamente o seu corpo magro com uma camisa de algodão.
- Vesti a jaqueta vermelha e a saia preta de brocado - exclamou como se estivesse no mar a
dar ordens aos seus grumetes.
Enquanto Kat lhe atava o espartilho, a princesa perguntava a si própria se a madrasta
saberia do esposo, se saberia que ele a estava a pôr em ridículo. Afastou os pensamentos da
doce Catarina Parr, pois gostava muito dela. Afinal, fora ela a única mãe que Isabel
conhecera. Uma palmada no traseiro, sobre o saiote, arrancou-lhe um grito de surpresa.
Voltou-se e viu Thomas Seymour a sorrir descaradamente. Contudo, antes que Kat o
pudesse evitar beijou o rosto corado de Isabel e deu um enorme beliscão na coxa da aia.
- Maravilhosa - disse, olhando Isabel de alto a abaixo numa rápida inspecção. - Nos
estábulos dentro de três quartos de hora, nem um minuto a mais - e saiu porta fora,
deixando as duas mulheres perplexas diante de tanta audácia.
Agora, que a carruagem real seguia aos solavancos na estrada esburacada, recordava a sua
adorada madrasta, Catarina Parr. Isabel tinha nove anos, quando Henrique, envelhecido e
doente, casara com Catarina, sua sexta esposa. Por fim, já sem ilusões de encontrar o amor
ou de produzir herdeiros varões, contentou-se com uma mulher cujos domínios
fortaleceriam as fronteiras da Escócia e que o pudesse consolar na velhice. E foi

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o que ela fez, sentando-se horas a fio com a perna ferida do rei no colo, discutindo
amigavelmente com ele filosofia e religião. Quando Henrique escolheu Catarina, esta tinha
sido durante muitos anos a figura central de um círculo de mulheres de espírito forte e
pensamentos avançados que, patrocinando grandes sábios e eruditos do continente,
introduziam as doutrinas humanistas e a reforma religiosa na corte. Ostentavam assim o
primeiro poder efectivo, ainda que limitado, das mulheres inglesas, sobre reis e príncipes.
Mesmo assim, pensou Isabel, a sua adoração por Catarina Parr surgiu de algo mais
profundo que o respeito, pois poucos meses depois da sua coroação tinha, não só
conseguido acalmar o espírito furioso e o corpo doente do esposo, como também arrancar a
havia muito afastada bastarda de Ana Bolena de um solitário exílio para o cálido seio da
família real. De novo, Henrique dispensou a sua afeição à filha ruiva e encarregou Catarina
da brilhante educação clássica de Isabel. Numa rápida manobra a rainha devolvera à
enteada o dom mais precioso da sua vida: o recuperar o seu lugar na linha de sucessão ao
trono.
Henrique morreu quatro anos mais tarde, deixando a sua viúva convertida na mulher mais
rica de Inglaterra. Isabel vivia com a Rainha em Chelsea e ela e Eduardo, seu irmão -
coroado Rei, com nove anos - foram consolados pelos seus carinhos. Mas depois,
passados quatro meses da morte de Henrique tudo mudou mais uma vez. A rainha-viúva
apaixonara-se irremediavelmente por Thomas Seymour, tio do jovem rei e lorde-almirante
da Marinha Real.
Nesses dias mágicos o ambiente da casa de Chelsea estava impregnado de sensualidade e
Isabel viu desenvolver-se diante dos seus olhos de menina romântica o alegre e animado
namoro de Thomas Seymour e Catarina Parr. Por todo o lado havia risos, música e alegria,
bem como um bondoso afecto - uma existência perfeitamente embriagadora para a
estudiosa e modesta princesa. Fascinada, Isabel via a até então recatada e séria Catarina
transformar-se numa jovem ébria de amor. E assim, quando Thomas Seymour começou a
perseguir Isabel, esta não estava preparada para distinguir o assédio de um divertimento
inocente.
Thomas. Nos jardins, oferecendo-lhe delicados ramos de flores que ele colhera com as suas
próprias mãos, de dedos grossos.
Thomas. Nos seus aposentos, despertando-a alegremente todas as manhãs.
Thomas. Invadindo-lhe a sala de estudo, como um rapazinho endiabrado, quando ela
tentava concentrar-se nas lições.
Thomas. Gracejando com ela. Perseguindo-a. Tocando-a.

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Por fim, era já incapaz de ouvir o nome daquele homem sem corar furiosamente. Ensinava-
se às mulheres que o interesse romântico por um homem era, só por si, sinal de falta de
castidade e que uma donzela não podia vangloriar-se de nunca nenhum homem ter tocado o
seu corpo quando este já se introduzira no seu espírito. Thomas Seymour já fizera mais que
introduzir-se no espírito de Isabel. Como uma fortaleza com brechas nos muros, a princesa
fora invadida e tomada.
De nada servira falar com a madrasta.
- Como podeis pensar tais coisas de Thomas? - perguntou lady Catarina Seymour, fazendo
girar distraída e continuamente no dedo o anel de pérola. - É apenas uma brincadeira,
Isabel. É um homem divertido, que vos ama como um pai.
- Mas, minha mãe, os criados já falam. Kat diz que a minha reputação...
- Kat não passa de uma tonta!
Isabel estava preocupada com a madrasta. Sabia que alguma coisa não estava bem. Catarina
não estava em si. A majestosa confiança e serenidade que irradiavam do seu ser tinham-se
esfumado e sido substituídas por um desconcerto e nervosismo estranhos. Nada fizera para
pôr fim às visitas matinais de Thomas aos aposentos de Isabel, nem para calar os rumores
que se começavam a espalhar, atrás dos muros da casa de Chelsea.
- Escutai, Isabel - ordenou Catarina. - Deveis aprender a primeira regra de uma casa real.
Sois a princesa. Eles são os criados. As suas intrigas não vos podem atingir.
A sua voz, outrora calma, segura e bem modulada tinha um novo tom estridente. Até uma
criança entenderia que as suas palavras não eram lógicas.
- Sempre me haveis dito que a modéstia de uma donzela...
- Como vos atreveis a contradizer-me com as minhas próprias palavras! - gritou Catarina. -
Ide, deixai-me em paz e que não tenha de ouvir de novo as vossas queixas acerca de meu
esposo. Tive três antes dele e posso dizer-vos que me diverti mais durante um ano, com
Thomas Seymour, do que com os outros três a vida toda!
Sozinha na sala de estudo Isabel aproveitava o resto de luz da tarde e semicerrava os olhos
para conseguir ler o seu volume de textos de Cícero. O seu amado tutor, Asham, tivera de
se recolher ao leito, subitamente apoquentado por uma indisposição. As outras donzelas da
casa de lady

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Catarina que estudavam com Isabel, regozijaram-se com a oportunidade de um dia sem
lições, mas Isabel ia a meio de uma tradução de comentários de estadistas romanos acerca
dos últimos dias da República. Apenas os estudos lhe davam algum alívio dos seus
conturbados pensamentos, pois ultimamente Catarina começara a acompanhar Thomas
Seymour nas suas visitas matinais, saltando-lhe na cama com ele e fazendo-lhe
impiedosamente cócegas. Na semana anterior a rainha-viúva segurara mesmo os braços de
Isabel, enquanto Thomas lhe rasgara a camisa em tiras com uma enorme faca.
Era tudo tão confuso. Porque agiria Catarina de um modo tão estranho? Seria por estar
finalmente grávida do filho de Seymour? A notícia encheu o coração de Isabel de amor e
alegria pela madrasta - ao mesmo tempo que sentia incontrolável ciúme e terrível vergonha
pelas suas tórridas fantasias secretas, acerca do esposo da mulher que mais adorava neste
mundo. Todos os dias rogava a Deus que a guiasse, mas pouca ajuda recebia do céu. Assim,
voltava-se para os livros.
Isabel estava tão absorvida na sua tradução que só deu por Thomas Seymour ter entrado
quando este pronunciou o seu nome, em voz baixa. Voltou-se, esperando ver o habitual
companheiro de folguedos mas, em seu lugar encontrou um cavalheiro sisudo e cortês.
Isabel perscrutou o rosto de Seymour e ficou alarmada ao ver-lhe os olhos rasos de
lágrimas.
- Lady Catarina? Está doente? - perguntou Isabel agarrando com força as mãos de Seymour.
Este abanou a cabeça mas não lhe ofereceu qualquer explicação para a sua tristeza. - Que se
passa então? Dizei-me, dizei-me!
- Não tenho coragem, Isabel - disse, por fim, sem largar as mãos brancas da princesa. - Mas
tenho de vos dizer isto, se não enlouqueço. O imenso amor que sinto por vós faz com que o
meu casamento com lady Catarina seja para mim uma carga onerosa e pesada.
Isabel sentiu que o ar lhe faltava. Não conseguia mexer-se. Com aquela declaração todos os
pensamentos lhe tinham fugido da cabeça, qual bando de andorinhas, do telhado de uma
catedral.
- Casei-me com ela por saber que ficaríeis a seu cargo após a morte de vosso pai - disse em
voz baixa. - E nada mais desejava que estar perto da vossa doce presença. Não sabia de que
outra forma o poderia conseguir.
As lágrimas corriam pelas faces de Thomas Seymour, porém Isabel surpreendeu-se a si
própria ao apenas poder pronunciar palavras iradas. - Posso ser míope, mas não sou cega,
senhor. Não me quereis pela minha pessoa, mas sim pelo meu sangue real e proximidade do
trono!

77
Ao acusá-lo daquela maneira, Isabel ignorava de onde lhe tinham saído aquelas ideias, uma
vez que nunca havia reflectido, em consciência, sobre tal questão.
- Não me amais! Não me amais! - exclamou, rogando com toda a alma que Thomas
Seymour negasse rápida e veementemente a acusação, e lhe provasse que estava
redondamente enganada. Não precisou esperar muito. Ele caiu de joelhos, agarrando-lhe a
fímbria do vestido.
- Tendes-me em tão baixo conceito, para duvidar da minha sinceridade Isabel? - Olhou-a
fixamente nos olhos, não permitindo que ela se afastasse. - E tão mal pensais de vós? Pois
com tais sentimentos desacreditais-vos como mulher digna de ser adorada por um homem
como eu. Não vedes como estais só, como sois desejável? Julgo... - continuou com grande
paixão na voz. - Julgo que, sem vós, morrerei.
Era encantadora. Era desejável. Era uma mulher, não mais uma criança. E aquele homem
tão belo amava-a. Amava-a. Dos lábios de Isabel escapou-se um suspiro de alegria e alívio.
O almirante do reino aproveitou o ensejo para se erguer, arrebatar a princesa nos seus
braços e beijá-la apaixonadamente como faz um homem que ama uma mulher e como uma
jovem só em sonhos espera ser beijada. Isabel afogava-se, levada pela enorme onda de
doçura e paixão. Afogava-se, morria...
- Oh, meu Deus!
Aquelas palavras, ouvidas como que a grande distância, obrigaram Isabel a sair das
profundezas. Abriu os olhos para encontrar lady Seymour, com o seu ventre avultado,
encostada à porta da sala de estudo.
Isabel e Seymour separaram-se imediatamente, trémulos e mortificados. Fez-se silêncio.
Isabel mal conseguia respirar sob o peso da insuportável vergonha que sentia. Finalmente,
dois pássaros a chilrear no parapeito da janela, quebraram o silêncio. Isabel atreveu-se a
olhar para Seymour e viu-lhe os olhos brilhantes, atrevidos. Começara já a imaginar
argumentos, desculpas e mentiras.
Catarina, fazendo uso da pouca dignidade que lhe restara, voltara-lhes as costas e saíra. E
Seymour seguiu-a depois de ter lançado a Isabel um olhar aflito.
A aia de Isabel abriu um olho e apercebeu-se que estava sentada diante de Parry, dentro da
abafada carruagem, que seguia aos solavancos pela estrada poeirenta.
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- Oh, ainda não chegámos?
Parry indicou-lhe com os olhos que não estavam sós.
Kat endireitou-se imediatamente e esboçou um sorriso forçado. Era a companheira mais
íntima de Isabel, porém mantinha sempre o rígido código de etiqueta e a distância devida, a
uma criada da rainha.
- Majestade...
- Haveis dormido bem Kat? - perguntou Isabel.
- Não posso dizer que sim, com tanto solavanco, mas pelo menos ajudou-me a matar o
tempo. Olha Parry, que temos aí no cesto para comer? Tenho sempre fome quando acordo.
- Quando não tendes fome, senhora Ashley? Pareceis-me sempre um poço sem fundo.
Kat bateu em Parry com o leque e recebeu em troca um beliscão no joelho magro. Isabel
observou os gracejos daqueles dois amigos que se sentiam perfeitamente à vontade um com
o outro, tal como com a sua ama, outrora princesa, agora rainha. Tempos houvera em que
as coisas não tinham sido fáceis para eles.
- Continuais com a mesma cantiga? - vociferou lorde Tyrwhitt. Isabel recusou mostrar-se
trémula diante do seu inquisidor, embora lhe doesse saber que Kat Ashley e os Parry,
encerrados na Torre, estariam a ser igualmente interrogados. A conspiração traiçoeira de
Thomas Seymour deixara-os a todos em apuros.
- Com efeito, lorde Tyrwhitt, pois a canção é verdadeira e portanto não lhe posso mudar a
letra.
- Pergunto-vos mais uma vez, princesa. Haveis tido conhecimento da conspiração do
almirante do reino para raptar o rei vosso irmão e fomentar um levantamento?
- Volto a repetir-vos. De nada sabia e os meus criados também ignoravam tal rebelião.
- Mas vós casar-vos-íeis com ele, sendo a sucessora ao trono. Não haveis entendido que
casar, sem o consentimento escrito e selado do Conselho é ilegal e teria posto em causa a
vossa sucessão?
- Não tinha intenções algumas de me casar com Thomas Seymour esforçava-se por manter
a voz calma e firme, apesar de não o serem os seus pensamentos.
Casar com um homem que tinha traído a própria esposa, obrigando Isabel a fazer o mesmo?

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Casar com um homem cuja sinistra influência a havia afastado, depois de ter caído em
desgraça, da casa da madrasta, a quem a vergonha destruíra a saúde, para a por a ela e aos
criados em perigo de morte?
- Mas em várias ocasiões, o vosso servidor, Thomas Parry, falou com Seymour dessa
possibilidade - insistiu Tyrwhitt.
- Apenas falaram de terras, das minhas e das dele, que estão muito próximas. É muito
diferente de combinar um casamento.
Tyrwhitt inclinou-se para Isabel, com o rosto tão próximo do dela que a princesa lhe sentiu
o cheiro a cebola e a cerveja no hálito.
- Diz-se que estais grávida de Seymour. Certamente pensáveis casar-vos com ele.
- Tal seria impossível - respondeu fitando Tyrwhitt com ar de desafio. - O almirante do
reino não se encontra em liberdade. Está preso na Torre de Londres.
Isabel recordou o rosto anguloso de Seymour e tentou imaginar que terrível paixão se teria
apossado dele, para entrar furtivamente no palácio real, matar o cão de guarda favorito do
rei e tentar chegar até ele. De que sofrimentos padeceria agora no seu cativeiro? Estariam a
torturá-lo, como haviam ameaçado fazer com Kat e Thomas Parry, para conseguir
confissões que ligassem a princesa ao traidor?
- Que conhecimento tendes dos movimentos de Seymour para conseguir apoios para a sua
rebelião nos condados ocidentais?
- Não tenho conhecimento de nada! Quantas vezes tereis de me atormentar com as mesmas
perguntas?
- Até saber a verdade da vossa boca - ripostou.
Isabel ficou rígida. Depois disse, num tom frio e cortante:
- Lorde Tyrwhitt, sempre acreditei que fôsseis um homem decidido e inteligente. Não
obstante, tratar como uma pedinte uma pessoa que, um dia poderá vir a ser vossa soberana,
parece-me uma perfeita estupidez.
Isabel viu o ódio brilhar nos olhos azuis de Tyrwhitt... era um ultraje que uma criança de
catorze anos - e ainda por cima do sexo feminino - lhe falasse assim. Contudo, Isabel
apercebeu-se que Catarina Parr tinha-lhe pelo menos legado a sua intuição para a
diplomacia. Quando deveria conter-se; quando deveria manter-se em silêncio, para proteger
amigos fiéis; e quando falar com eloquência e sem receio.
- Advirto-vos, senhor, para que vos acauteleis - prosseguiu. - Sou filha de meu pai e herdei
dele o seu génio e boa memória em relação aos inimigos da coroa.

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O mestre-cavaleiro de Isabel galopou até à carruagem e ajustou o passo da montada para
poder falar pela janela aberta.
- Majestade, já estamos perto de Oxted. Quais são as vossas ordens?
- Desejo ver o maior número possível de súbditos. E desejo que todos me vejam. Que
preparativos se fizeram?
- Os habituais. As ruas foram limpas, as rameiras e os idiotas foram postos fora de
circulação, retiraram-se os patíbulos. As casas, lojas e edifícios públicos foram pintados e
enfeitados. E na praça há uma multidão que aguarda a vossa chegada.
- Mandai avisar que vou entrar na povoação - disse a Dudley. - E que estou muito satisfeita
por poder vê-los.
- Sim, Majestade.
- E, Robin, manda que me tragam a montada. Vou entrar a cavalo na aldeia.
Dudley sorriu de modo tão gentil e afectuoso que o porte altivo da rainha vacilou. Depois
picou o cavalo e desapareceu. Querido Robin. Tão leal. Tão digno de confiança.
Tão diferente de Thomas Seymour...
Seymour morrera decapitado. Isabel ainda se sentia trémula ao lembrar-se como estivera
prestes de ter o mesmo fim. Lady Catarina não tivera tanta sorte. Três meses depois de ter
encontrado Isabel nos braços de Seymour e de a ter expulso de casa, dera à luz uma
menina. Adoeceu depois do parto, mas Thomas demorou três dias para chamar um físico. A
ex-rainha-viúva ficara extremamente inquieta, talvez suspeitando que o marido desejava a
sua morte. À medida que a febre subia, exprimia em voz bem alta as suas suspeitas de
traição, acusando-o a ele e a todos os que a rodeavam de não se importarem com ela e de
troçarem do seu sofrimento. Diz-se que Thomas se deitou a seu lado para a acalmar com
palavras meigas, mas ela empurrara-o, acusando-o de não querer chamar o físico. A febre
piorou e morreu dois dias antes do décimo quarto aniversário de Isabel. Todas as acusações,
que fizera no leito, tinham sido consideradas delírios. Porém, pareceu suspeito o desgosto
de Isabel pela morte da madrasta. Dizia-se que Catarina tinha recuperado temporalmente o
tino antes de morrer e ditara um novo testamento ”na posse do seu juízo, memória e
discrição”. Nele legou a sua enorme fortuna ao marido. A declaração, feita no leito de
morte, foi apressadamente aceite mesmo sem a sua assinatura. Da noite para o dia, Thomas
Seymour convertera-se num homem riquíssimo.
O caso de Seymour foi a primeira lição que Isabel recebeu acerca dos homens traiçoeiros e
ambiciosos. Esquecera Thomas, como quem esquece

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um sonho mau quando chega a manhã e havia Muitos anos que não pensava nele. Todavia
o diário de sua mãe tinha-a obrigado a recuperar imagens e recordações dos cantos mais
recônditos do seu espírito.
Agora, ouvia-se já ao longe o som dos sinos que repicavam para lhe dar as boas-vindas.
Isabel imaginou a sua entrada em Oxted. Seria semelhante à que fizera noutras cidades e
aldeias ao longo do caminho. Haveria discursos de boas-vindas, teatro, cortejos e música,
crianças a cantar e a recitar, tudo em sua honra. Deter-se-ia para falar ao povo,
pronunciando uma espécie de discurso de sua autoria e ouviria atentamente as queixas que
os representantes das povoações teriam oportunidade de fazer. Enquanto os seus criados
compravam provisões aos agricultores e mercadores locais, ela visitaria a oficina de
tecelagem e depois talvez escolhesse uma casa, importante ou humilde e, sem aviso prévio,
solicitaria um prato de comida ou uma bebida fresca aos seus anfitriões profundamente
honrados, mas muito nervosos.
Era fantástico receber aquele banho de afecto e, apesar de se sentir cansada e dorida a
rainha apercebeu-se de que o coração lhe batia acelerado, antecipando a alegre entrada na
aldeia.
Ainda não tenho seis meses de reinado, pensou Isabel, e já me sinto ansiosa pelo amor do
meu povo.
Os sinos continuaram a tocar e Isabel viu no seu caminho os primeiros habitantes da aldeia:
mulheres, com os seus trajes domingueiros, lavradores muito asseados, crianças, aos
ombros dos pais e irmãos, para poderem avistar a filha do Grande Henrique, a sua nova e
adorada Rainha Isabel. Sim, pensou enquanto alisava os anéis rebeldes do cabelo e
endireitava a jaqueta, teriam agora ocasião de a ver. E de a ver em todo os seu esplendor.
Mas, no dia seguinte, quando chegasse a Edenbridge e à casa de sua mãe em Hever, seria
ela quem observaria tudo ansiosamente.
25 de Março de 1527 Diário,
Por vezes penso que a vida, que vivo a pouco e pouco, não passa de um sonho e que as
cenas da noite são a realidade. Hoje tenho essa sensação. Porque Henrique, rei de Inglaterra
pediu-me que fosse sua esposa e a legítima rainha deste país!
Perseguiu-me e resisti, tornei-me uma presa ainda mais desejável. Retirei-me para casa da
minha família em Hever, onde as suas cartas me seguiram, enviadas por um mensageiro
especial. Cartas

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cheias de apaixonados juramentos de amor, a implorar que me tornasse sua amante.
Afirmava que, ”havia mais de um ano fora atingido pelas setas do amor” e pedia desculpa
por me perseguir e enfadar. Respondi, recusando-o, citando palavras de sua própria avó,
Elizabeth Woodville que, enquanto era assediada por seu avô com intenções de se deitar
com ela, respondera: ”Posso não ter suficientes qualidades para ser vossa rainha, senhor,
mas tenho demasiadas para ser apenas vossa amante.”
Usei os ardis que aprendi em França e que o punham louco de desejo, embora francamente
não passassem de um jogo que me era perfeitamente natural. Talvez que, algures nos meus
sonhos mais fantasiosos, me visse rainha... mas não passavam disso mesmo, de fantasias!
Agora é o rei que afirma que a fantasia pode transformar-se em realidade.
Sem enviar mensageiro ou aviso, Henrique cavalgou de manhã cedo até ao fosso de Hever
e atravessou a ponte, entrando no pátio empedrado e despertando todos em casa com o
ruído dos cascos dos cavalos. Exigiu que o recebesse imediatamente e eu, alvoroçada, vesti-
me, lavei o rosto e mastiguei um raminho de hortelã para refrescar o hálito. Depois,
valendo-me de toda a dignidade que era possível àquela hora, fui saudar o rei. Estava
excitado, sujo de lama, com o rosto vermelho e falava aos gritos. Agarrou-me, puxou-me
para si, beijou-me rudemente na boca. Cheirava a suor, a fumo e a cavalos, mas a sua
paixão desenfreada parecia-me de uma estranha doçura, tão parecida com a de outro do
mesmo nome, que me sinto vacilar ao toque das suas mãos. Começou a caminhar de um
lado para o outro e agitava o dedo indicador para reforçar as suas palavras.
- já estou farto do meu maldito casamento! - exclamou. - já basta que a mão irada de Deus
me tenha impedido de engendrar um filho varão.
- Mas Catarina... - tentei dizer.
- Catarina é minha cunhada. A esposa de meu irmão. É da minha família e, segundo o
direito canónico, estou proibido de me casar com ela devido ao grau de afinidade!
- Não compreendo como possais conseguir uma separação da rainha.
- O Papa há-de me ajudar. Sou o Defensor da Fé. Clemente já conferiu outras dispensas e
invalidou casamentos reais nos quais surgiram problemas de sucessão. Só preciso de o
convencer do erro. Há-de ajudar-me!

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- Se alguém for capaz de o fazer entender - disse eu, com cautela. - Esse alguém sois vós,
meu Senhor.
- E o cardeal Wolsey também me ajudará nesta questão.
- E o que dirá Catarina?
- Há-de concordar. Vou fazê-la entender que vivemos em pecado durante muitos anos. E
como é extremamente piedosa desejará professar e passar a ser noiva de Jesus. Oh, Não,
Não, Não! - exclamou, como louco. - Não vedes que estou doente de amor? Não consigo
dormir. Não consigo comer. já não consigo governar o país. Não penso senão em possuir-
vos. Tendes de ser minha! Se não, juro que parto o mundo em dois, com as minhas próprias
mãos! - Depois caiu de joelhos. - Desposai-me, desposai-me. Dai-me filhos, para acabar
com esta maldição que pesa sobre a minha vida!
Fiquei imóvel e silenciosa como uma estátua, enquanto o meu pensamento corria célere:
Cristo bendito, o homem que tenho a meus pés quer depor uma rainha por minha causa e
mandá-la para um convento! Está disposto a discutir com o Papa por intermédio de Wolsey.
Que mau bocado ira passar o cardeal! Assim, por trás do título e do valor que o amor do rei
possa ter, sinto, nisto tudo, o perfume da vingança.
- Dizei que sim, Ana - exclamou Henrique. - Dizei que sim e sede a minha rainha!
Mas ali, em Hever Hall, com um rei ajoelhado a meus pés, debaixo do sol da manhã que
aquecia o ar e as pedras do chão, tive um mau presságio que, como um vento maligno, me
reteve as palavras na garganta. Levei a mão ao pescoço como se quisesse desfazer um nó,
mas foi inútil.
- Vou pensar - respondi. - Vou reflectir sobre a vossa proposta e, em devido tempo, vos
darei conhecimento da minha resposta. O rei ficou sem fala por eu não ter saltado de alegria
com a sua oferta. É verdade seja dita, estava assombrada. Mas uma coisa estranha e fria
paralisava-me. Pedi-lhe que partisse e ele assim fez, soltando impropérios contra as
mulheres. E é neste estado que me encontro, buscando um sinal que me aclare o futuro, seja
ele de perdição ou glória, se eu tomar o caminho que Henrique deseja. É isso que espero.
Afectuosamente vossa,
Ana

84
9 de Abril de 1527
Diário,
Acabei de regressar de Cantuária, na companhia de George. Fui incapaz de pronunciar
palavra durante todo o caminho, incapaz de pronunciar palavra e trémula por ter visto
diante de mim o meu futuro como um festejo de São João em todas as suas glórias. Se os
santos o permitirem serei rainha de Inglaterra e darei a Henrique o seu filho tão desejado.
Sei que isto é verdade e, enquanto antes me afundava num mar de receio e indecisão, sei
que agora estou a salvo, com os pés firmemente plantados sobre o destino de Inglaterra.
Rainha Ana. E soube-o da seguinte maneira.
Henrique pressionava-me continuamente, enchendo-me de promessas e beijos. - ”Quero
casar convosco” afirmava. ”Casar convosco e repudiar Catarina.” No entanto, as palavras
soavam-me a falso, pois Catarina é do mais puro sangue-real de Espanha, estimada por
todos e tão devota que deve comunicar directamente com Deus. Porém, Henrique não
desistia. Esse homem que declara a guerra a imperadores, impõe leis e conta o ouro da sua
infindável fortuna, este homem tentava convencer, de joelhos, uma jovem plebeia a ser sua
esposa.
Sentia-me terrivelmente indecisa. Passava horas a percorrer o labirinto do jardim, a reflectir
sobre o meu destino. Deveria confiar nos fados e pôr a minha vida nas mãos dele? Ou
estaria completamente louca, aceitando participar em tal jogo?
George, a cujos ouvidos tinha chegado a maledicência do palácio, apressou-se a voltar a
casa para estar comigo. Fiquei feliz por ver o rosto firme e o sorriso afectuoso de meu
irmão.
- Vamos fazer uma visita à Santa Donzela do Kent - sugeriu. Dizem que prevê o futuro.
Já tinha ouvido falar daquela jovem camponesa que aconselhava reis e políticos e cujas
visões se convertiam em realidade. Vivia agora aqui perto, retirada num convento de
Cantuária.
Foi uma larga viagem a cavalo, por entre atalhos lamacentos, até ao leste do condado de
Kent. E o que vimos! O que ouvimos! Que odores! No dia seguinte havia mercado e
vimos desfilar um sem-número de camponesas com cestos carregados de couves,
alcachofras, nabos, pêras, groselhas e caranguejos do rio. Soavam os chocalhos das vacas e
dos bois e o ranger das carroças que se atolavam na lama até meio das rodas. Pastores, com
os seus rebanhos, de ovelhas e

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cabras e varas de porcos, um homem grosseiro passou com o cavalo a galope e espalhou a
lama por toda a parte. Jovens camponesas, com os pés sujos de barro, riam e gracejavam;
homens rudes lançavam-me olhares indiscretos. Cheirava a couro molhado e a lã húmida.
Depois avistámos ao longe a cúpula da catedral de Cantuária. Fora das muralhas da cidade
os aldeãos montavam um tosco acampamento, à espera da primeira luz da manhã para
começarem a vender a mercadoria.
Entrámos na cidade e dirigimo-nos ao convento do Santo Sepulcro onde, quando pedimos
para ver a Santa Donzela, nos fizeram percorrer um corredor estreito e húmido. Via as
mulheres... as irmãs, sendo algumas freiras, outras apenas nobres banidas das suas famílias.
Os olhos dessas jovens seguiam-me invejosas dos ricos vestidos que nunca mais
envergariam. Definhavam no ranço de uma vida sem amor, ocultas atrás dos muros de um
convento.
Abriram a porta de uma simples cela. Ali estava ela, a jovem camponesa feita freira, de
joelhos e de costas voltadas para mim. A porta fechou-se. Ficámos sós dentro da pequena
cela de pedra cinzenta, sem adornos, as paredes nuas, sem um tapete sequer para evitar o
frio do chão. A cama era estreita, os lençóis ásperos e a cadeira não era estofada. A cela
estava quase na penumbra e a luz que entrava pela pequena janela dava em cheio sobre um
crucifixo pregado na parede, por cima de um altar, junto ao qual a jovem ajoelhada rezava
fervorosamente. Dispus-me a expor-lhe os meus cuidados. Ficou imóvel e não se tinha
levantado, nem sequer voltado a cabeça, quando a ouvi murmurar.
- Ana! - sabia o meu nome!
- Santa irmã - disse eu - venho em busca de...
Ela voltou-se e fixou os olhos em mim. Que olhos, nunca tinha visto olhos assim! Pareciam
ouro líquido, irrequietos e penetrantes como setas. Terríveis, terríveis e enlouquecidos. Vi-
lhe as formas sob o hábito de noviça e era apenas uma jovem camponesa, com a pele ainda
crestada do sol. Dizia-se que entrava em transe nos campos e pântanos lamacentos, que
ajoelhava e tinha visões - do Céu, do Inferno, do Purgatório, das almas que por lá
vagueavam...
Voltou a pronunciar o meu nome, numa voz infantil pura e doce e tomou-me as mãos nas
suas, ásperas e calosas. Moveu os lábios secos em silêncio. Uma oração? Palavras divinas
inspiradas por Deus? Uma resposta ao diabo que se escondia por trás dos seus magros
ombros? Deve ter notado a minha rigidez, pois disse:

86
- Não vos alarmeis, bondosa senhora, o vosso destino está traçado. Vejo a vossa vida
desenrolar-se diante dos meus olhos. Desejais que vos diga o que vejo?
- Sim! Sim! - exclamei. Desejava ouvir, porém alguma coisa dentro de mim me dizia que
deveria partir antes de a ouvir descrever o meu futuro.
Fechou os olhos perturbados, torceu os lábios exangues e murmurou:
- Ai... - não era uma palavra, mas quase um sopro, um demorado suspiro. - Tenho nas
minhas, as mãos de uma Rainha.
Senti os olhos trémulos, mas resisti e conservei a calma.
- Dizei-me mais.
- Sim, há mais. Um herdeiro Tudor surgirá do vosso ventre, para brilhar como a mais bela
estrela de Inglaterra e só se apagará duas dezenas e quatro anos depois.
- Um varão Tudor! - exclamei. - Um filho para Henrique. Estais certa?
A jovem abriu muito os olhos - de um brilho amarelado - mas estou certa de que não me
via.
- Estou cansada - gemeu.
Ajudei-a a sentar-se na cadeira pouco cómoda. Parecia cega, débil, ainda entre dois
mundos.
- Ide - disse. - Sede Rainha. Sede Rainha.
Parti então e regressei a casa, sem trocar uma palavra com o meu irmão, tal era o receio que
sentia em falar da profecia. Mas agora aqui, no meu quarto de paredes cinzentas, julgo estar
preparada para acreditar que é verdade. A freira do Kent sabia o meu nome e sem fazer
perguntas, disse-me a minha vida. O meu destino está decidido. Amanhã escreverei a
Henrique, direi ao rei as palavras que deseja escutar. Serei sua esposa, a rainha Ana, e ele
terá um filho varão.
Afectuosamente vossa,
Ana
25 de Abril de 1527 Diário,
Dei por escrito o meu consentimento a Henrique. Junto enviei-lhe um alfinete de pedrarias
para selar o meu assentimento. Tem pintada

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uma dama sobre um mar embravecido. Essa dama representa a minha pessoa que conhece
os perigos de um tal compromisso e, mesmo assim, se atreve a enfrentar o mar violento,
nessa pequena embarcação a que se chama Amor.
Amor! Foi isso que jurei na minha carta, um amor tão raro como o seu, embora falso. Sei
que nunca poderia desejar pretendente mais dedicado e apaixonado e que o presente que me
oferece - o ser rainha - é mais do que alguma vez sonhei, porém, no fundo da minha alma,
onde guardo os sentimentos mais sinceros... Não o amo. A minha esperança fervorosa, o
que mais peço a Deus é que chegue o dia em que o meu coração se abra como uma rosa ao
sol da Primavera.
Até lá, e embora tenha prometido ser sua, continuo a recusar qualquer pedido seu para me
deitar com ele, até que o casamento nos una legalmente, pois por mais que o deseje, a
minha virtude proíbe tão íntimos contactos. Nesta questão disse apenas meia verdade.
Deveria desejá-lo. O meu futuro esposo é um homem atraente para qualquer mulher - de
ombros largos, peito forte e pernas bem musculadas. Um queixo firme e faces saudáveis. É
louro, de cabelo arruivado, encaracolado e ainda abundante e olhos azuis muito belos e
expressivos. Mas o melhor de tudo é a boca, de lábios carnudos e suaves, dentes fortes e
brancos, hálito doce. Gosto do seu modo de beijar - forte insistente, doce e brincalhão - e do
seu sorriso. Então parece-me ser o homem mais bonito que já conheci.
Quis informar-me junto de minha irmã Mary a respeito das proezas do rei como amante,
mas ela manteve-se discreta o que é estranho da sua parte; resolvi então insistir com
risinhos e indirectas, mas de nada me serviu. Limitou-se a dizer-me que é prodigiosamente
dotado. Mas isso não era novidade para mim, pois sinto a sua virilidade durante os nossos
castos abraços.
Será que me ama deveras? Creio que sim. Fará de mim sua rainha? Julgo que sim. Oh,
diário, estou tão agradecida por ter este espaço para escrever as minhas confidências, pois
não tenho a quem confiar estes pensamentos e sucessos. Sois o meu grande segredo e
guardar-vos-ei toda a minha vida.
Afectuosamente vossa,
Ana
88
6 de Maio de 1527
Diário,
Depois do meu regresso à Corte, ocupo uma posição elevada, em nada semelhante à que
ocupava antes. A causa de tudo isto é o amor declarado do rei pela minha pessoa e as
atenções com que me cumula. A maioria julga-me sua amante de corpo e espírito.
Ninguém, nem mesmo Wolsey acreditaria na verdade, que me mantenho casta e que
quando Henrique me possuir não serei uma concubina... mas a sua rainha.
Contudo, rainha ou amante, a consideração em que agora me têm os nobres aumentou
substancialmente. Vêm procurar-me em busca de favores, sabendo da minha relação com o
rei Henrique. Chamam-me amiga.
- Minha senhora Ana, por obséquio, uma palavra vossa para que o filho de meu irmão
consiga um lugar na corte.
- Gentil senhora, que bela estais hoje - segue-se um beija-mão.
- Poderei dar-vos uma palavra acerca dos meus bosques que estão infestados de caçadores
furtivos e precisavam de alguma vigilância do rei?
Oh, que prazer me dá este servilismo. Devem julgar-me muito estúpida, para ter esquecido
que, há algum tempo, me consideravam uma pessoa inferior. Eu, a filha de um vulgar
homem ambicioso, e irmã da rameira do rei.
Sim, até mesmo meu pai me presta homenagem, enviando-me todos os dias joalheiros,
mulheres para me pentearem, costureiras. Ele, antes tão avarento, quer assegurar-se da boa
apresentação da favorita do rei. Tenta saber como estão as coisas entre mim e o monarca,
porém nego-me a divulgar-lhe a verdade do que se passa entre nós. Meu pai morre por
saber. Como se eu ainda fosse a jovem ingénua de antigamente, quando me puxava as
orelhas, ou empurrava, atirando-me ao chão para me obrigar a responder imediatamente a
tudo o que me perguntava. Mas já não é assim. No entanto embora me mortifique ainda
me inspira um certo temor e respeito. Que bom será ficar livre do seu jugo.
Para mim, o mais estranho é a consideração que Catarina, cuja aia ainda sou, continua a ter
por mim. Não é nem surda, nem cega e deve saber o lugar que ocupo no coração de
Henrique. Mesmo assim, trata-me com a mesma amabilidade de sempre. Enquanto me
ocupo das suas necessidades diárias e a observo de perto, apercebo-me

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que ali está a mulher que mais ama o homem que está apaixonado por mim. Seguramente,
ignora os planos que Henrique tem para ela, pois mesmo que conhecesse a profundidade do
seu amor por mim, considerar-me-ia apenas uma amante e nada mais. Aos reis, por antigo
costume, permitem-se todos os prazeres. Por vezes sinto pena dela e ponho-me no seu
lugar. Ama o rei como eu amei Harry Percy, talvez ainda mais, pois eu era apenas uma
menina e Henrique é o seu amado já há muitos anos. Vi-me obrigada a ver, embora de
longe, como Percy se casava e se deitava com outra, tal como ela teve de suportar todos os
dias as infidelidades do marido.
Não deveria pensar demasiado nisto, nem na minha deslealdade em relação à rainha, pois
vacilaria na resolução que tomei. Devo apoiar a crença de Henrique em que a maior
necessidade de Inglaterra é um herdeiro, um filho varão e que serei eu a dar-lho e não a
sua estéril esposa.
Ultimamente tudo isto me tem dado cuidado. Parece que o tempo passa e nada se faz em
relação ao divórcio. Sei que o rei está preocupado com outros assuntos. O enviado francês
que veio para estabelecer o tratado entre França e Inglaterra (e declarar guerra ao imperador
Carlos) ocupa-lhe grande parte do tempo. Todos os dias ele e Wolsey passam horas a
conspirar e a fazer planos e depois convocam reuniões com os diplomatas franceses para
discutir e negociar todas estas questões.
Quando à noite, Henrique vem ter comigo, depois de todas estas negociações, vejo-lhe as
rugas da fronte e escuto o tom de cansaço na sua voz. Se ele e Francisco não unirem
esforços contra o imperador, acabarão por permitir que ele governe o mundo. São já suas as
terras alemãs e a Espanha. Carlos tem como reféns os dois filhos de Francisco, e já reteve,
do mesmo modo, o rei de França, que trocou a liberdade pela prisão dos herdeiros.
Que ironia. França e Inglaterra, antigos inimigos, unem agora esforços para evitar uma
derrota. A pequena princesa Maria vai ser um peão nestas negociações. Hão-de casá-la com
um desses filhos prisioneiros, unindo assim, por meio do matrimónio, o poder e a majestade
de dois países.
Muitas vezes pergunto a mim mesma como se alterará esta situação quando for rainha, mãe
do filho de Henrique. Mas agora sei que as negociações deverão prosseguir, como se tudo
estivesse bem entre o rei e a rainha, pois, de contrário, ocorreria a morte de

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alguns dos participantes. Assim, guardo silêncio e confio na palavra de Henrique.
Afectuosamente vossa,
Ana
20 de Maio de 1527 Diário,
A paciência nunca foi a minha maior virtude e senti-me ofendida ao ver o meu destino
tomar um lugar secundário na atenção do rei, em relação às negociações entre franceses e
ingleses. Mas finalmente terminaram as conversações e preparou-se um banquete e uma
festa em honra do embaixador francês, como nunca se tinha visto outro assim, desde a
famosa celebração do Campo do Pano de Ouro. Fiz os meus próprios planos. Levei horas e
horas de pé, a provar um vestido que suplantasse os de todas as das outras. Recorri a meu
pai para comprar vários colares de pedrarias e negociei com um perfumista uma essência
conhecida pelos seus efeitos exóticos.
Nos últimos dias travei amizade com Maurice Mamoule, actual secretário do embaixador
visconde de Tourenne. Recordava-se de mim, em França, na corte de Francisco, quando era
uma menina de doze anos, magrizela e ficou encantado ao ver como a minha influência
tinha aumentado, apesar de julgar, como quase toda a gente que eu era apenas a rameira do
rei. O facto não me rebaixava aos seus olhos, pois vindo de uma corte tão debochada e
liberal como a francesa subi ainda mais na sua consideração. Mantinha-me informada de
tudo o que se passava e nos dias que faltavam para o banquete, disse-me que nos círculos
oficiais soava que Henrique poderia repudiar a esposa. Implorei-lhe que me contasse mais
pormenores. O embaixador francês acreditava (tal como desejava Wolsey, pois era
partidário dos franceses) que a eleita seria Renée, minha companheira de folguedos e
princesa de sangue. O meu coração sobressaltou-se. Comentava-se que Henrique queria
ver-se livre de Catarina e eu sabia que a princesa francesa não interessava ao rei. Era de
estatura invulgarmente baixa e coxeava, devido a uma deformidade. Sabia que Henrique
nunca se contentaria como uma mãe tão imperfeita para os filhos perfeitos que desejava ter.
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Assim, vesti-me com grande satisfação para aquela festa e enverguei um traje reluzente de
cetim negro e púrpura, debruado a arminho, que causou sensação entre as outras damas. O
mesmo aconteceu com as jóias e o perfume, quando nos encaminhámos para a festa,
acompanhando a rainha. Que belos foram esse dia e essa noite! Henrique estava magnífico
com o seu fato de seda amarela e enormes diamantes, dando as boas-vindas a todos os
convidados em voz trovejante e com um sorriso que denunciava o êxito obtido com os
franceses.
O pátio apresentava um fausto que eu nunca tinha visto. Ornamentado com tapetes
multicolores de frutas e flores, de cor púrpura, vitrinas cheias com baixelas de ouro e prata,
como que para anunciarem: ”Olhai, esta é a nossa riqueza, uni-vos a nós.”
Primeiro, teve lugar o torneio, animado e aguerrido, dando-me ideia de sonhos de guerras
futuras. Depois, várias representações, numa das quais a princesa Maria tinha o papel
principal.
Aprisionada nos seus vestidos dourados e nos múltiplos rubis, esmeraldas e pérolas, parecia
frágil e mais jovem do que os seus onze anos. A sua vozinha fina não vacilou e recitou as
suas falas com toda a dignidade, sem consciência de que estava a chegar ao fim a sua
utilidade como peão real.
O rei e a rainha presidiram ao banquete lado a lado. Observei o amor que brotava como um
rio, da nascente que era Catarina, para o mar revolto na pessoa de Henrique. Porém, nem
uma gota contida nesse oceano lhe foi devolvida. Os olhos dele seguiam-me. Fui cautelosa
e desviei a minha atenção do rei. Porém, de cada vez que o fitava, apercebia-me dos seus
olhos sobre os meus. Outros o notaram. Catarina fingiu não perceber o que se passava.
Pouco depois da meia-noite, apareceram todos os lordes de França vestidos à maneira
veneziana, de veludo azul e negro. A música encheu o perfumado jardim ao luar e o baile
começou. Henrique pediu ao visconde de tourenne que, na primeira dança fizesse par com
Maria. Ela curvou-se graciosamente e começaram ambos a dançar. Sua mãe resplandecia de
orgulho espanhol. Vi depois que esperava que Henrique lhe pegasse na mão, mas bastou
um segundo para que o seu sorriso se tornasse amargo. Henrique atravessou o salão e
dirigiu-se a mim e, à vista de todos, estendeu-me a mão. O momento foi terrível para a
minha rainha e maravilhoso para mim. Olhei-o nos olhos, agradeci-lhe em silêncio, com
toda a sinceridade e estendi-lhe também a mão. Enquanto nos deslocávamos para o centro,

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não senti qualquer tremor, apenas uma firme resolução. Aos primeiros acordes, começámos
uma galharda e foi nesse momento perfeito, que tornou público o seu amor por mim.
Afectuosamente vossa,
Ana

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no GRANDE ESPELHO DA SUA SALA DE BANHO, Isabel observava o trabalho das
duas damas que lhe entrançavam o cabelo com fios e raminhos de pequenas pérolas
negras.
- Abri a boca, majestade - ordenou lady Sidney e Isabel obedeceu e sorriu com os lábios
afastados, mostrando as gengivas, qual animal selvagem a rugir, para que a aia pudesse
limpar os seus reais dentes com um palito de ouro esmaltado.
- Desejais empoar-vos esta noite? - inquiriu lady Bolton, segurando na mão um boião de
casca de ovo e alúmen finamente moídos.
- Creio que não - respondeu Isabel, aceitando das mãos de lady Sidney um copo de água
com manjerona. Lavou a boca com ela e cuspiu para uma tigela. - Ainda estou jovem e
fresca para passar bem sem pó, não credes? - perguntou a rainha, sabendo muito bem que as
suas aias saltariam imediatamente para elogiar a sua juventude e beleza num coro ruidoso
que lhe agradaria ouvir.
Isabel ergueu-se, mandou embora as aias que se afadigavam em seu redor e entrou no
quarto de dormir, onde Kat e várias outras serviçais tinham estendido sobre a cama de
madeira pintada o vestuário para aquela noite. Sobre a mesa de tampo de prata, tinham
exposto um fabuloso conjunto de jóias e a sua cadeira favorita estava coberta com grande
variedade de delicados escarpins. Despindo o roupão deixou-se ficar imóvel, à espera que
as aias dispusessem sobre ela a base do seu vestuário tal como um escudeiro pode cobrir
com uma armadura o corpo do seu senhor. Primeiro, a cinta foi apertada em redor do corpo
já esguio de Isabel, cobrindo-lhe o ventre e os peitos, para formar como que uma tábua em
forma de V.
- Não tenho um novo par de meias de seda? - perguntou a rainha e lady Springfield
apresentou-lhe imediatamente duas fitas de um finíssimo tecido de seda.

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- Vossa Majestade gosta desta nova moda italiana? - perguntou-lhe a aia envolvendo-lhe as
pernas brancas como alabastro.
- Adoro coisas bonitas - replicou Isabel, esforçando-se por deixar que Kat lhe enfiasse o
pesado vestido de veludo sobra a cabeça e lhe começasse a abotoar nas costas uma centena
de botões de pérola. - Porém, vestir bem, para mim é mais um acto de estado, que uma
paixão. O embaixador francês veio ratificar o tratado de paz, mas esta será também a
primeira ocasião em que me vão conhecer como rainha, de modo que a minha pessoa
deverá reflectir a magnificência e a glória de Inglaterra.
A rainha pensou, sem que o declarasse em voz alta que, nessa semana, todo aquele fausto
tinha um significado mais profundo. Isto porque, não só sua mãe tinha sido educada na
corte de Francisco I, como também a amizade com os franceses fora sua grande esperança
durante o longo esforço pelo divórcio de seu pai e Catarina de Aragão. Não podiam
esquecer que Isabel era filha de Anne de Boullans, famosa pela sua beleza, alegria, encanto
e elegância. Enquanto os ingleses desprezavam a Grande Prostituta, na opinião dos
franceses, sua mãe era uma figura cujos atributos deveriam ser emulados e até mesmo e, se
possível, ultrapassados.
Enquanto as mangas de veludo púrpura, com pesados bordados as prata e ouro eram
apertadas, Kat ergueu dois relógios incrustados a pedras preciosas, para que a rainha
escolhesse.
- A flor ou o barco, Majestade?
- Nenhum deles. Levarei o pregador de meu pai.
- Como melhor vos aprouver.
Kat precisou de ambas as mãos para erguer a gigantesca safira rodeada de diamantes e rubis
cor-de-rosa. Ao pregá-la no centro do corpete acolchoado do vestido, Kat murmurou:
- Perguntai por vossa prima Maria e pelo esposo que foi recentemente feito rei.
- E que hei-de perguntar? - Isabel parecia ligeiramente divertida com a típica impertinência
de Kat. - Se ela está a gostar da vida de casada com o seu namorado de infância e a sua
autoritária sogra Médicis? Ou se está grávida e vai dar à luz um príncipe francês, que um
dia reclamará o meu trono.
- Fazeis troça da vossa antiga companheira - disse, com ar de desprezo, enquanto colocava
várias fieiras de pérolas em redor do pescoço, dos pulsos e da cintura de Isabel. - Porém,
essa jovem rainha da Escócia é sobrinha de vosso pai e deve ser vigiada de perto. Agora
que também é rainha de França vai causar-vos problemas. Recordai o que vos digo.

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- Tenho sempre em conta as vossas palavras, Kat, mas penso que esta noite não será o
momento indicado para conversar acerca de minha prima. Esta noite vamos celebrar uma
paz conseguida a muito custo. Não concordais?
Kat voltou a cara num gesto mal-humorado, contudo Isabel pegou-lhe no queixo e sorriu,
conseguindo por fim extrair da idosa aia uma expressão mais agradável.
- Tendes um ar radiante, Majestade - disse Kat, com um último e imperceptível toque, para
melhor ajustar o vestido da rainha. - A noite será vossa.
Isabel saiu majestosamente do seu quarto de dormir, entrando na sala do Conselho, onde
ajoelhado e aguardando a chegada da rainha, Robert Dudley, baixou a cabeça em sinal de
obediência.
- Majestade!
A rainha estendeu-Lhe a alva mão, tão coberta de anéis que ele apenas lhe pôde levar aos
lábios as pontas dos dedos.
- Erguei-vos, Robin. Deixai que vos veja - ordenou.
Dudley pôs-se imediatamente de pé, erguendo-se perante ela como uma torre imponente.
Apesar da sua estatura, a rainha teve de erguer os olhos para o seu mestre-cavaleiro.
Ama-me deveras, pensou Isabel. O que lhe leio no olhar é uma emoção difícil de fingir.
De facto, naquela noite, Dudley estava totalmente deslumbrado pela régia presença da sua
amiga de infância. Não sabia dizer se o efeito era causado pela sua beleza pálida e
luminescente, pela profusão de ouro e pedras preciosas que cintilavam ao pôr do Sol ou
pelo perfume hipnótico que espalhava à sua volta com um leque de pequenas plumas de
avestruz.
- Não tenho palavras, Isabel - murmurou ele, junto à frágil concha da orelha da rainha, pois
era-lhe proibido mostrar em público uma tal familiaridade. - Invejo os embaixadores
franceses que vos vão monopolizar toda esta noite.
- Não penseis que não tenho tempo para me ocupar de vós, Robin
- disse ela admirando o bem que lhe assentava o gibão azul de brocado. Espero que sejais o
meu par na primeira galharda da noite.
- O vosso desejo dar-me-ia um imenso prazer - replicou e, pegando-lhe na mão, colocou-a
sobre o seu braço para a escoltar até à câmara, onde se encontravam já reunidos os
embaixadores franceses.
Whitehall tinha-se rapidamente tornado o palácio preferido de Isabel em Londres, com as
suas alas espaçosas, espalhadas sobre mais de oito hectares de terreno à beira-rio. A sua
construção fora levada a cabo através

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de vários séculos, de modo que tinha um desenho arbitrário, já com zonas antiquadas e em
franca decadência. Mesmo assim, Isabel adorava as imponentes salas, esplendidamente
decoradas, e encantava-se naquela enorme casa cheia de cortesãos e cortesãs, sempre muito
elegantes, para os divertimentos nocturnos, que agora se curvavam, em profundas vénias,
enquanto ela avançava pelo braço do seu belo acompanhante. Era excelente ser rainha de
Inglaterra, por direito e merecimento. Neste momento, pensou, não tenho um único cuidado
neste mundo.
- Horroriza-os pensar que, quando se inclinam perante vós, estão também a inclinar-se
perante mim - declarou Dudley, disfarçando um sorriso.
- Tendes razão, Robin. Apostaria que sois o homem mais invejado na corte de Inglaterra.
Ele soltou uma pequena gargalhada.
- Sem dúvida haverão de ter mais razões de queixa depois desta semana.
- E porquê?
- Porque me excedi a mim mesmo nos preparativos. Festejos faustosos e magníficos em
todos os sentidos. Comida, decoração, música, teatro. Vereis que vos será difícil acreditar
que o tesouro está praticamente vazio - disse com um sorriso astuto.
- Robin!
- Concordastes que o espectáculo para os franceses teria de ser muito interessante - disse,
numa tentativa de evitar a fúria súbita da rainha. E custou tudo muito menos do que de
facto parece. Por exemplo, todas as flores vieram do vosso castelo de Richmond e as aves
de caça...
- Pronto, já basta! - detiveram-se diante das enormes portas de madeira trabalhada da
câmara real, guardadas pelo que parecia ser um pequeno regimento de soldados franceses e
ingleses. - Necessito de um momento para me recompor.
- Ficarão deslumbrados convosco, Isabel. Sois como o sol que penetra numa escura tarde
inglesa.
Isabel respirou fundo, como se quisesse recuperar a coragem que lhe faltava.
- Estou pronta - disse por fim, e Dudley fez sinal às sentinelas para que abrissem as
portas, deixando a rainha avançar com passo majestoso. Ao seu encontro foram os
embaixadores franceses e as suas elegantes damas, ataviadas com sedas reluzentes e saias
de balão, e Isabel aceitou fazer-se conduzir pelos dois dignitários, um em cada braço:
monsieur Mont Morency e monsieur de Vielleville. Aí, sob a obra-prima de HoIbein,

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um mural representando toda a família Tudor, Isabel começou a exercer o seu fascínio
sobre todos os presentes. Dudley reparou que se havia colocado junto ao enorme e
estranhamente fiel retrato de seu pai, com quem tanto se parecia, como que para fazer
lembrar a todos que era de inquestionável linhagem real.
Isabel era uma mulher e uma rainha magnífica, pensou Robert Dudley, enquanto se dirigia
a passos largos para os festejos da noite. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para
garantir para si próprio não só o seu amor como também a esquiva coroa de rei consorte.
- Quando era princesa, estive dois meses prisioneira na Torre de Londres, juntamente com
outros nobres acusados de conspirar para a deposição de minha irmã e para que eu ocupasse
posteriormente o trono disse Isabel a Mont Morency e a de Vielleville, enquanto passeavam
pelo jardim à luz dos archotes. - Certamente teria sido condenada à morte, se não tivesse
sido a lealdade dos meus súbditos.
Aproximaram-se do enorme relógio de sol, colocado dentro de uma fonte, por sua vez
rodeada por trinta e quatro colunas encimadas por animais dourados com o brasão dos
Tudor. Decerto que a grandiosidade do jardim empalideceria, em comparação com muitos
jardins de palácios franceses, mas Isabel estava decidida a impressioná-los para os
convencer que era, mesmo com a sua juventude e feminilidade, um monarca tão poderoso
como o havia sido o seu orgulhoso pai.
- Indica as horas de trinta maneiras diferentes - afirmou referindo-se ao relógio.
- Quase tantas como opiniões há acerca do caminho para a paz entre os nossos dois países -
respondeu Vielleville com uma expressão cínica.
- Ah - suspirou Isabel, pensativa. - Quo homines, tot sententiae.
- Tendes razão, Majestade - aquiesceu Mont Morency. - Há tantas opiniões quantos são os
homens... e as mulheres, segundo parece - acrescentou, com um respeitoso aceno de
cabeça.
O som de uma dezena de trombetas veio avisar que o jantar estava servido.
- Vamos então, meus senhores?
- Tout à vous - responderam os embaixadores espontaneamente e em uníssono. Todos riram
alegremente, com um bom humor que todos partilhavam naquele momento perfeito e, como
que de propósito, um arco-íris de água colorida saltou das várias fontes.

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Isabel conduziu os franceses em direcção a uma porta feita de rosas Tudor e folhagem. Ao
abri-la, não pôde evitar uma exclamação de prazer, pois dava para uma vasta praça sob as
enormes janelas da Galeria de Whitehall.
Tinham transformado o espaço num vale encantado. Iluminado por archotes e envolvido na
mais suave das músicas para alaúde e virginal, as paredes estavam revestidas com brocados
de ouro e prata e praticamente invisíveis sob as inúmeras flores recém-cortadas que as
cobriam, bem como o tecto e o solo do pavilhão. Coroas e grinaldas de violetas, goivos,
primaveras, botões-de-ouro, e narcisos em grande variedade e profusão, tudo rodeavam e
enfeitavam, saindo de traves e arcos. Por detrás do toldo havia um enorme mural de
minúsculas rosas, representando a rainha Isabel, montada sobre um alazão branco. Quando
a rainha entrou, os seus escarpins afundaram-se num tapete de folhas de alfazema, hissopo
e rainha dos prados. As múltiplas fragrâncias eram deliciosas e a rainha, que geralmente
não apreciava perfumes fortes, mal conseguia respirar.
Fez uma pausa, ladeada pelos embaixadores franceses e todos juntos assistiram a uma
improvisada farsa. Cada uma das damas francesas ocupava o espaço de três pessoas, devido
à amplitude das suas saias. Assim e de bom grado, as damas inglesas, tinham-se sentado
sobre almofadas e, comodamente instaladas, eram servidas, por entre risos, pelos
cavalheiros ingleses e mostravam-se muito divertidas.
Num extremo do pavilhão, Isabel reparou que Robin Dudley observava de longe a sua
fantástica criação, como se fosse um mestre-de-cerimónias. Era seu, de corpo e alma, o seu
homem, o seu soldado. O seu leal servidor. O seu amo. Este último atributo produziu nela
um calafrio e um rubor cor de morango cobriu-lhe as faces pálidas. De súbito, ele voltou-se
e viu-a. Os seus olhos encontraram-se, como se encontram o falcão e a presa, no momento
anterior ao ataque mortal, pois o amor que voava tão rapidamente de Isabel para Dudley e
vice-versa era ardente e forte, como a morte perpetrada pela ave de rapina.
Imediatamente a rainha se viu rodeada por uma dúzia de cortesãos e damas que surgiram
para a acompanhar até ao lugar de honra, sob um dossel de lilases, quase da cor do seu
vestido, e nesse momento, foi-lhe ocultada a vista do seu bem-fadado. Não importa, pensou
Isabel, sentando-se ladeada pelos embaixadores franceses, a noite é ainda uma criança e
tratarei de a aproveitar.
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A porta dos aposentos privados de Dudley abriu-se de rompante para revelar a lareira
acesa. Isabel encapuçada numa capa de veludo, ficou na soleira a olhar para Robin que,
com o seu gibão húmido de veludo azul, depois de uma noite de grandes danças, a esperava
com um agradável sorriso no belo rosto. Desfaziam-se todas as dúvidas que sentia pelo
ousado acto de vir aos seus aposentos.
- Depressa - murmurou ele, fazendo-a entrar. Retirou-lhe devagar o capuz e viu que Isabel
observava os aposentos com uma expressão surpreendida.
- Será a modéstia dos meus aposentos que tanta surpresa vos causa, ou o facto de vos terdes
atrevido a vir até eles?
- Foi o ter vindo até eles - respondeu sorrindo maliciosamente.
- Julgo que, esta noite, já tenhamos causado um grande escândalo disse, enquanto retirava a
capa. - Era uma ocasião de Estado. Devíeis ter dançado com outros que não apenas comigo.
- E dancei! Dancei com os embaixadores. Uma vez com cada um deles. E também com
lorde Cecil.
- Isabel!
- Ora, que me importa! Sois muito melhor dançarino e eu sou a rainha. Danço com quem
me apraz. Além do mais foram apenas os ingleses que repararam - disse Isabel, entrando no
quarto. - Os franceses não se escandalizam facilmente. Não haveis visto o modo como
madame de Vielleville namorou o jovem lorde North?
Dudley riu-se ao recordá-lo.
- O pobre estava tão atordoado que não conseguia atinar com o passo.
- Ela é muito bela.
- Não é nada comparada convosco - uma expressão de ternura suavizou-lhe o olhar. Isabel
viu-o, erguer a mão, com a palma para fora e notou que o coração lhe batia mais acelerado.
Para outra, aquela palma não mais seria que uma mera saudação. Porém, para Isabel era
um eco do passado, uma demonstração de amor infantil, metade de um semicírculo que
apenas ela poderia completar.
Recordou o tempo em que se encontrava no bosque por trás de Hatfield Hall. Aí estavam
ela e Robin, com apenas nove anos, vestidos para saírem, desgrenhados e cheios de calor
devido ao exercício. Dois cavalos castanhos pastavam sossegadamente erva e musgo do
chão, sob os ramos de um carvalho. Dudley era o mais pequeno dos dois, pois Isabel
sempre fora uma criança alta. Porém o corpo do rapazinho era sólido e forte e
movimentava-se com uma graciosidade pouco comum. Quando saíram de Hatfield, como
muitas vezes faziam depois de terminadas

100
as suas lições, correndo e saltando muros de pedra e sebes, Robin picou a montada com
uma feroz insistência conseguindo que o animal desse saltos altíssimos e atingisse grandes
velocidades. Isabel conseguiu o mesmo desempenho do seu cavalo, por força do amor e da
vontade
Com um sorriso malicioso, as crianças em frente uma da outra, uniam as palmas das mãos -
a esquerda de Robin com a direita de Isabel. Robin foi o primeiro a falar:
- Formamos ambos um campanário.
- Formamos ambos uma amêijoa - disse Isabel, soltando um risinho. A qualidade preferida
do seu companheiro de folguedos era a capacidade que tinha de a fazer rir e inspirar acções
travessas, talvez a única leviandade permitida na rígida vida real da jovem princesa.
Imediatamente, Isabel reparou que a expressão do olhar do seu jovem amigo se tinha
alterado. Deixara de ser maliciosa para se tornar séria. Os olhos vivos estavam agora fixos,
parecendo observá-la com a mesma atenção com que, por vezes, se examina o interior de
uma flor. E quando voltou a falar, também a sua voz parecia alterada.
- juntos - disse Robin, em voz baixa. - Somos uma oração.
A sensação que roçou a alma de Isabel era subtil como o toque de uma borboleta e sentiu
agitar-se o seu coração de menina. Sem palavras para exprimir aquela ternura apertou mais
a sua mão na dele. Ele imitou-a e o momento foi mágico. Isabel teve subitamente a
sensação de pequenas partículas de poeira girando suspensas no ar quente, iluminadas pelo
sol, que cintilava através dos ramos do carvalho. Ouviu o doce trinar dos pássaros tão belo
que se comoveu e julgou que ia chorar Reparou no calor do corpo de Robin Dudley que lhe
chegava através do gibão azul, envolvendo-a como um abraço. Também ele parecia
assombrado por aquele momento estranho e maravilhoso.
Depois, como nenhum deles sabia como o interromper, a natureza tomou essa iniciativa.
Um sopro de vento nos ramos enviou-lhes uma chuva de folhas que lhes picou as cabeças.
Surpreendidos, os dois jovens separaram as mãos por entre risadas.
O feitiço quebrara-se.
- A que vamos brincar?
- Trouxe uns dados.
- Não me apetece jogar aos dados.
- Quereis apanhar um sapo para ver como é? - sugeriu, esperando da parte de Isabel um
dramático suspiro de recusa. - Que vos parece o jogo da Rainha e do Cortesão?
- Robin! - exclamou Isabel.

101
- Que foi? Gostais do jogo e além do mais até o jogais muito bem.
- Pois gosto - admitiu Isabel. - Mas não o deveríamos jogar.
- E porque não?
- Porque pode ser... traiçoeiro.
- Apenas porque sois vós que o jogais - respondeu ele, em voz doce.
- Muito bem. Então...
Robin tomou entre os dedos um caracol que tinha escapado do interior da touca de Isabel e
acariciou-o, para a arreliar.
- Não gostais do jogo porque desejais ser rainha e temeis que tal não aconteça.
- Não quero ser rainha! - protestou Isabel, sentindo-se corar. - O meu irmão é o herdeiro e
adoro Eduardo!
- Perdão, Isabel, não quis ofender-vos. E não faz mal fingir, juro-vos que não.
Imediatamente, colocando um pé adiante do outro, Robin inclinou-se numa profunda
reverência, com os braços abertos como as asas de um falcão. Ao erguer-se, juntou-os,
agitando exageradamente as mãos, num gesto de obediência que arrancou uma gargalhada
inesperada da garganta de Isabel.
- Majestade - proferiu num tom demasiado lúgubre para os seus nove anos.
Isabel colaborou no jogo.
- Sir Dinglebelly - respondeu com excessiva seriedade. Robin ergueu uma sobrancelha.
- Haveis-me, pois armado cavaleiro?
- Oh, sim. Não recordais a festa que dei em vossa honra? Toda a vossa família esteve
presente. Vosso pai estava muito orgulhoso e vossos irmãos, cheios de inveja.
- Mas claro, como pude olvidar uma tão magnífica celebração? E não me haveis oferecido
cinco casas, vinte mil carneiros e um armário com uma baixela de ouro?
- Haveis esquecido os cavalos’
- Nunca, Majestade! Um estábulo cheio. Fostes extremamente generosa comigo.
- Com efeito. E dizei-me, sir Robert o que me haveis trazido vós? Isabel, já plenamente
concentrada no seu papel, voltou-se com imperiosos ademanes, distanciando-se do amigo. -
Sabeis que, além de lisonja, a vossa rainha exige presentes. Tesouros ricos. Fortunas.
Livros raros. jóias. Animais exóticos.
- Como o papagaio verde que vos ofereci a semana passada?

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- Elogia as minhas virtudes com toda a esperteza - replicou Isabel delineando a história
num complicado enredo, caminhando sob os ramos com a altivez de quem percorre as salas
de um palácio. - ”Deus salve a rainha Bess” - grasnou a jovem, na voz do papagaio
imaginário. - ”Sois a mais bela das rosas Tudor e o vosso perfume é mais doce, mais doce,
mais doce, aarrgh, aarrrgh!” - depois retomou a sua própria voz. - Mas isso foi a semana
passada. Onde está a oferta desta semana? - inquiriu petulante.
O rapazinho pegou na mão de Isabel e abriu-lhe os dedos. Colocou-lhe na palma um
pequeno objecto. Era uma pedra, vulgar, negra e macia, mas um milagre de forma. Embora
fosse obviamente natural e não tivesse sido talhada, tratava-se de um perfeito coração
desenhado pela natureza. Abandonando todo o fingimento do jogo, Isabel contemplou a
perfeição do objecto e o significado do presente. Pela segunda vez, naquela tarde,
encontrou-se sem palavras para responder.
Também Robert Dudley abandonara o jogo da Rainha e do Cortesão.
- Gostais? - perguntou emocionado.
- Gosto muito, onde o haveis encontrado?
- É um segredo meu.
- Então! Dizei-me. É espantoso. Tenho de saber, Robin!
- Não vos digo - declarou, erguendo o queixo, num gesto determinado.
- Deveis dizer-mo. A rainha exige que o façais - anunciou Isabel em tom altivo.
Robin. pensou uns momentos antes de retomar o fio da fantasia.
- Às vossas ordens, Majestade. Os vossos desejos são ordens. Mas primeiro dizei-me: não
recebo um beijo, em troca do que vos trouxe?
- Não, não recebeis um beijo! - exclamou Isabel fingindo-se ultrajada.
De súbito, num gesto esplendidamente teatral, Robin prostrou-se no chão, aos pés de Isabel
e começou a beijar-lhe a fímbria de veludo do vestido.
- Oh. Majestade! Majestade! Deixai que vos beije a orla do Vestido, os pés, o saiote, os
tornozelos!
Isabel soltou uma gargalhadinha, quando Robin lhe ergueu a saia até aos joelhos,
continuando a enumerar em tom de jocosa cortesia, as várias partes do vestuário e da
anatomia de Isabel que poderia beijar. Esta ria às gargalhadas, até as lágrimas lhe correrem
pelas faces e ambos tiveram de se agarrar aos respectivos estômagos para recuperar o
fôlego.
- Vamos cavalgar um pouco - sugeriu Robin, quando o conseguiu.

103
- Onde vamos? - perguntou Isabel, aguardando uma resposta que se transformasse num
fecho oportuno para aquele momento intemporal.
O jovem olhou-lhe os olhos cor de âmbar e apercebeu-se do desafio lançado por aquela
pálida jovem. E como a conhecia tão bem e já então amava, replicou com a energia de um
aventureiro, de um pirata de um rei.
- Ao futuro - exclamou. - Vamos cavalgar até ao futuro!
E de facto assim fora, pensou Isabel, sorrindo, enquanto deixava voar o pensamento, como
um grande pássaro invisível, através do tempo, para a fazer de novo poisar nos aposentos
aquecidos de Robin. Ali, diante dela, estava o mesmo belo jovem, de gibão azul, com a
palma da mão erguida.
- juntos somos uma oração - murmurou, ele retribuindo-lhe o sorriso. Lentamente, ela
uniu a sua mão à dele. Sim, pensou Isabel, era ainda o mesmo jovem que conseguia diverti-
la e fazê-la rir às gargalhadas. O mesmo rapaz leal e que, antes de ela ter qualquer
esperança de chegar ao trono, vendera parte das suas propriedades para lhe pagar as
dívidas. O homem corajoso que ousara rebelar-se contra a sua irmã Maria e que fora para
ela uma rocha durante os tempos terríveis em que tinham estado prisioneiros na Torre.
Também, pensou Isabel, tinha sido o único a conseguir percorrer o complicado labirinto
que levava ao seu coração.
Os olhos dela caíram sobre um grupo de miniaturas, dispostas numa mesa. Aproximou-se
para as ver melhor.
- A vossa família - disse em voz baixa. - Todos os Dudleys, excepto Robin e o irmão
Ambrose, tinham já falecido. - Ergueu uma das molduras douradas, onde estava retratado
um homem, de olhar pesado, com cerca de quarenta anos.
- O meu avô Edraunci - disse Dudley espreitando sobre o ombro de Isabel. - Leal servidor e
instrumento do rei Henrique VII.
- Meu avô... - a voz de Isabel calou-se por instantes, recordando histórias que ouvira cerca
do primeiro rei Tudor, que tomara à força o trono de Inglaterra. O primeiro rei inglês que se
apercebera que o dinheiro significava poder. E aquele homem, cujo retrato segurava na
mão, Edimund Dudley fora o instrumento desse rei, para obter a sua enorme fortuna.
- Ouvi dizer - prosseguiu Isabel - que Edimund Dudley usava métodos, digamos que pouco
edificantes, para enriquecer a coroa.
- A extorsão é geralmente um método pouco edificante - concordou Robin, com um sorriso
malicioso. - E mostrava uma certa tendência para enriquecer ao mesmo tempo os seus
cofres particulares.
- Não despertava muitas simpatias? - foi a pergunta, até certo ponto retórica de Isabel.

104
- Falemos antes de desprezo. De facto, muitas vezes foi comparado a um lobo voraz.
- Havei-lo conhecido? - perguntou Isabel.
- Não tive oportunidade - Dudley inclinou-se como que fazendo menção de limpar com o
dedo o pó das miniaturas. Porém Isabel percebeu que o gesto fora um pretexto para ocultar
o profundo desconforto de um homem que habitualmente se sentia à vontade.
- Porque meu pai o mandou executar - sugeriu Isabel.
O leve descer de ombros de Dudley mostrou-lhe que tinha acertado.
- Seria normal que Henrique se sentisse agradecido. Herdou quatro milhões de libras,
depois da morte do pai, e essa quantia foi quase toda obtida... pelo meu avô.
- Foi no princípio do reinado de meu pai. Queria desesperadamente que o povo o amasse -
Isabel engoliu em seco, por estar a defender um comportamento criminoso do seu
progenitor, sentindo, ao mesmo tempo, alguma compreensão pelos dilemas que um novo
monarca tem de enfrentar. - Julgo que decidiu ceder à pressão popular.
- Mas chamar-lhe traição...
- Não foi justo, Robin. Mas também sabeis que meu pai não era exactamente conhecido
pela sua justeza - Isabel, poisou o retrato de Edimund Dudley e pegou noutra miniatura,
esta dentro de uma moldura enfeitada com pequenas pérolas.
- Julgo que vos pareceis muito a vosso pai.
- Outro traidor à coroa - disse Dudley com amargura. Isabel acariciou-lhe a face com as
costas da mão.
- Os Tudor e os Dudley. Estamos intimamente ligados uns com os outros. Intimamente
ligados.
De súbito era a vez de Isabel se sentir pouco à vontade. Afastou o pensamento do espírito, o
pensamento que Kat lá tinha insidiosamente plantado, que Robin Dudley descendia de uma
longa linhagem de traidores, que tinha ”sangue ruim” nas veias. Voltou-se e poisou de novo
na mesa a miniatura de John Dudley.
- Gostais então da minha pequena galeria familiar? - perguntou Dudley passando para o
lado de Isabel onde se manteve, mas sem lhe tocar. Entre eles havia uma longa corrente de
silêncio.
- Gosto - respondeu. - Mas, onde está vossa mãe?
- Minha mãe era demasiado modesta para posar para um retrato declarou, enquanto Isabel
se dirigia à lareira para aquecer as mãos. Dudley ficou imóvel. Havia uma carta aberta
sobre a chaminé e os olhos da rainha poisavam já no seu conteúdo íntimo.

105
- ”Meu muito amado esposo...” - leu em voz alta e voltou-se para ele, dirigindo-lhe um
olhar de desafio. - Pelo que vejo trocais correspondência com Amy, coitada que está tão
afastada da corte.
Dudley pôde ver no rosto de Isabel uma tempestade de emoções em conflito. Desejava
ardentemente responder de um modo que agradasse à rainha.
- Trata dos assuntos de casa, como é próprio das boas esposas e mantêm-me informado de
tudo - replicou por fim.
- Assuntos de casa, é isso? - Isabel pegou na carta e levou-a até junto do lume para melhor a
ler, sabendo que estava a praticar um acto cruel e infantil e sabendo que Robin se sentiria
muito incomodado a cada palavra.
- ...”Tal como me pedistes apressei-me a vender a lã recém-tosquiada, embora com um
lucro um pouco menor, mas não poderia ser de outro modo para poderdes amortizar a
dívida que tanto desejais pagar.”
Isabel pareceu ficar mais aliviada e, com algum arrependimento colocou de novo a carta
sobre a chaminé.
- Precisais de dinheiro? Vou tratar de tudo para que possais dispor daquilo que necessitais.
- Não quero o vosso dinheiro. Quero-vos, Isabel - estendeu a mão porém ela afastou-se
antes que ele lhe pudesse tocar.
- Então, Robin, sois completamente louco. Se vos ofereço títulos, propriedades, ouro,
deveis aceitá-los e prosperar. Sou a rainha. Afinal não posso ver-me rodeada de pobres.
Robin apercebeu-se de que a doçura do momento se esgotava inexoravelmente como a
areia de uma ampulheta.
- Então ela está bem? Estou a referir-me a Amy - a rainha estava muito séria e tocou numa
veia que lhe latejava, cor de púrpura, sob a alvura da sua pele.
- Porque fazeis isto, Isabel?
- Ela está bem?
- Não muito. Tem um tumor num seio.
Parecia que uma mão invisível tinha esbofeteado a rainha. Abandonou toda a arrogância.
Olhou de frente para Robert Dudley e perguntou-se com um olhar de criança culpada:
- Será muito mau? Conheci uma senhora, lady Windham que morreu desse mal. Foi
horrível.
- Não, meu amor - e Dudley passou o braço em redor da cintura de Isabel. - Não está a
morrer - e perguntou a si mesmo se seria razão para se sentirem felizes ou infelizes.

106
- Oh, Robin, porque haveremos de padecer tanto nesta vida?
- Sabeis bem qual a resposta. Porém a razão da nossa tristeza é, ao mesmo tempo, a
resposta para os nossos piores cuidados. É vossa a coroa de Inglaterra. A vossa
responsabilidade é completa e o vosso poder sem limites. Podeis fazer tudo, como vos
aprouver. Podeis enaltecer-me ou rebaixar-me. Podeis fazer de mim rei ou mandar-me
executar em Tower Green. Sou vosso servo, Isabel, e o meu destino está nas vossas mãos.
Dudley soltou a rainha e voltou-se para esconder dela a sua expressão ferida. Apesar dos
seus ares e das intimidades que tinha com a mulher mais poderosa do mundo, sentia-se
profundamente humilhado pela verdade que as suas palavras continham.
- Robin, de repente senti-me cansada. Perdoais-me se eu não ficar?
- Perdoar-vos, Majestade? - Dudley soltou uma pequena gargalhada e, voltando-se para ela
executou uma perfeita vénia de cortesão. Mesmo que me enviásseis para o inferno por toda
a eternidade, perdoar-vos-ia, Isabel. Porém, não permito que partais esta noite sem um
beijo.
Ela correu para ele como uma borboleta em direcção à luz. Enquanto Dudley a estreitava
nos braços, sentiram-se ambos alheados da culpa, do medo e da dor e aquele momento foi
iluminado pelo brilho do mais puro desejo e do amor mais terno. já não era rainha, nem ele
o seu servo.
1 de junho de 1527 Diário,
Hoje sinto-me muito feliz, pois Henrique já tomou medidas que, por fim, permitem que
nos casemos. O cardeal Wolsey concebeu o astuto plano de chamar Henrique a depor como
réu perante um tribunal eclesiástico, de modo a poder provar a ilegalidade do seu
casamento com Catarina. Não parece ser lógico? Deixai que vos explique, tal como ele o
fez, durante a visita desta noite.
Em primeiro lugar, Wolsey sabia que o rei desejava obter a separação legal da rainha, mas
Henrique não foi totalmente sincero com o cardeal, pois este ainda pensa que o rei deseja
casar-se não comigo mas com Renée, a princesa francesa. Assim Wolsey, como legado
papal que é (isto significa que age independentemente, sob as ordens de Roma, para vigiar
as virtudes das almas de Inglaterra) convocou hoje em York um tribunal secreto,
composto por sábios e clérigos respeitados para decidir o destino do rei. Evidentemente que
esses clérigos foram cuidadosamente escolhidos, encontrando-se
107
entre eles William Warham, arcebispo de Cantuária, cuja opinião pôs em causa, há muitos
anos, a legitimidade da dispensa papal que permitiu a Henrique desposar a viúva de Artur.
Henrique diz que, em breve Wolsey ditará a sentença de divórcio e que depois o Papa em
Roma, assinará essa inteligente decisão.
Contudo, ainda mais importante é o segredo dessa convenção. Se Catarina tiver
conhecimento dela, irá seguramente queixar-se ao imperador Carlos e ao próprio Papa. Mas
Henrique disse que tudo estava a decorrer com discrição, que todos os participantes
chegam, de barco ou barcaça, ao molhe da residência de Wolsey e que os prelados se
retiram para um aposento do castelo, sem qualquer pompa ou circunstância.
O Papa tem Henrique por amigo e campeão, desde os primeiros tempos em que o príncipe
inglês travou uma acalorada batalha contra Lutero. (Uma pequena divagação... nunca contei
a Henrique a minha simpatia pelas ideias protestantes e não julgo prudente fazê-lo agora.
Não serve a nossa causa actual. Mas um dia, quando formos marido e mulher, ligados pelo
amor pelos laços de muitos filhos, então direi o que penso...) Henrique sente pelo Papa
grande respeito e é certamente o rei mais fervorosamente católico de toda a cristandade. E
apesar do seu plano estar astuciosamente delineado e dele resultarem benefícios materiais,
Henrique (sempre citando o Levítico) acredita piamente estar sob a protecção divina.
Wolsey goza de grande estima e consideração da parte de Henrique, pela sua participação
neste tribunal eclesiástico, pois em lugar de apresentar o rei como um homem que se quer
ver livre da esposa, leva Henrique a defender-se da acusação, feita pelo tribunal, de que ele
e Catarina infringiram o direito canónico e viviam em pecado. Quando a bula papal que
lhes permitiu coabitarem como marido e mulher fora apresentada para justificar as suas
acções, o cardeal e os seus homens correrão a demonstrar o seu erro inocente, porém
gravoso e de onde resultará uma rápida anulação.
Esta noite Henrique estava muito feliz, embora cansado. Tem confiança que a anulação
chegue rapidamente para que possamos ser finalmente um só. Rezo do fundo do coração
que tal aconteça e que eu possa dar um filho ao rei.
Afectuosamente vossa,
Ana

108
21 de junho de 1527 Diário,
A esperança transformou-se em horror, a alegria em pranto, pois a loucura apoderou-se de
Roma. Os alemães e alguns mercenários espanhóis do exército imperial saquearam a cidade
santa, provocando um massacre sangrento. Mutilaram, assassinaram, roubaram os tesouros
de todas as igrejas. Andaram de porta em porta, torturando e matando padres e cardeais,
violando e decapitando freiras. Cometeram atrocidades inconcebíveis: profanaram relíquias
dos santos, destruíram altares sagrados. O Vaticano transformou-se num estábulo
ensanguentado. O papa Clemente esconde-se agora na outra margem do Tibre, na Fortaleza
de Santo Ângelo.
E é exactamente aí que reside o problema. Embora lamente a humanidade, prevalecem os
meus pensamentos egoístas. O tribunal de Wolsey que deve decidir acerca do casamento do
rei Henrique necessita da confirmação do Santo Padre para ter legalidade. Mas sendo este
prisioneiro do imperador, não se atreve a desafiar a ira do sobrinho de Catarina, com tal
dispensa que transformaria aquele casamento numa farsa, transformando-a a ela numa
rameira real e a princesa numa elegante bastarda.
Assim, recusando-se a admitir o fracasso, Wolsey reuniu o tribunal secreto (que já não era
secreto para ninguém - Catarina teve imediatamente conhecimento dele) e depois partiu
com grande pompa para França, onde espera conseguir um pacto, para entrar em guerra
com Espanha e auxiliar o Papa, libertando-o, se possível. Porém, tanto eu como Henrique
suspeitamos que Wolsey espera que a missão não tenha êxito, para que possa alcançar o
papado para si próprio.
Assisti ao lado de Henrique à passagem da enorme comitiva que acompanhava Wolsey.
Dezenas de homens com trajes de veludo negro, emblemas eclesiásticos e o Grande Selo de
Inglaterra saíram os portões de Westminster.
- O cardeal prometeu-me retomar o processo assim que se restabeleça a paz - disse-me
nessa ocasião. - Julgais que me mentiu, Ana?
- Lembrai-vos que é um homem ambicioso - respondi. - Teremos de enfrentar o mundo
sozinhos, vós e eu. Enquanto Wolsey estiver ausente em França devemos proceder
independentemente.
O rei tomou a minha mão e levou-a ao coração que batia acelerado.

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- Devo enfrentar Catarina. É necessário que rompa com ela e deixemos de viver como
marido e mulher.
- Sim, deveis fazê-lo - disse eu, colocando-lhe a mão sobre o meu seio. Ele corou e beijou-
me apaixonadamente. - Ide amanhã murmurei-lhe ao ouvido.
Assim fará, levando-lhe a notícia do fim do casamento. E eu, terei de me preparar para não
sentir compaixão por ela, de contrário não mais poderei viver comigo própria.
Afectuosamente vossa,
Ana
6 de Agosto de 1527
Diário,
Vim passar os meses de Verão ao Castelo de Hever, enquanto o rei caça com os seus
homens. Quando o meu irmão George se separou deles para me vir visitar, fiquei a saber
que estava equivocada ao pensar que Henrique e eu éramos as únicas pessoas a desejar o
nosso casamento. O caso é que vários membros da minha família - meu pai, meu tio, o
duque de Norfolk, meu irmão - se mantêm ao lado de Sua Majestade, intrigando,
maquinando, apresentando planos em meu nome (e portanto no próprio). De facto, as suas
fortunas têm prosperado, pois são considerados futuros parentes do rei. Henrique deu-lhes
terras, títulos e maior proximidade no contacto pessoal. Como uma família de aranhas,
tecem a sua teia em redor do rei, atraindo-o com os seus fios brilhantes, caçando a presa
para alimentar os seus apetites. Não me agrada esta atitude da minha família mas, por
enquanto, não tenho outro remédio. Embora seja eu a governar o coração de Henrique,
ainda são os homens que governam o mundo.
George trouxe-me notícias de Wolsey que ainda se encontra em França. O porco de chapéu
vermelho, como George lhe chama, concentra os esforços em benefício próprio, tentando
formar um governo papal no exílio, na cidade de Avinhão. Outorgando a si próprio o título
de salvador da Igreja, quer actuar como Papa durante o cativeiro de Clemente. Porém, o
plano necessita do apoio de Henrique; este preferiu enviar uma carta directamente ao Papa,
solicitando-lhe nada mais que uma autorização para cometer bigamia. Wolsey
110
conseguiu interceptá-la. George disse-me que Wolsey sabe já que o objecto dos desejos do
rei sou eu e não a princesa Renée. Ficou furioso, mas está principalmente aterrorizado.
Aterrorizado e impotente.
George viu a carta que o cardeal Wolsey escreveu ao rei. Nela, implorava-lhe que retirasse
o documento e apresentava os seus protestos de que nada mais desejava para além de levar
a bom termo o ”assunto secreto” de Henrique. Assinava ”com a mão rude e trémula do
vosso mais humilde servo e capelão, T. Carlis Ebor”. Com que então, T. Carlis Ebor! Idiota
Gordo. Espero que se afogue nessas suas melífluas palavras.
Mais tarde, George mostrou-me uma bolsa de veludo de onde retirou um documento
enrolado e lacrado, com o selo escarlate de Henrique. Era uma segunda missiva para o
reitor da igreja de Hever, John Barlow, que goza da nossa absoluta confiança, levar ao
Papa, ainda retido em Santo Ângelo. George disse-me que não podia abri-la, mas eu
desejava ver o conteúdo do documento que certamente tratava do meu casamento com
Henrique. Insisti e ameacei George e, na noite anterior à carta chegar às mãos de Barlow, o
meu irmão e eu descemos a escada do castelo, até à cozinha escura, agora deserta, com
excepção dos ratos. Pusemos uma panela de água a ferver e, com todo o cuidado abrimos a
carta com o vapor. Depois, à luz trémula de uma vela lemos o plano concebido pelo Rei e
por aqueles que desejam ver-me rainha.
Não se mencionava o meu nome, porém a intenção era clara: que o Papa concedesse
autorização a Henrique para se casar com uma mulher com quem poderia estar relacionado
por uma afinidade de primeiro grau. George deduziu que se tratava de uma alusão à
intimidade de Henrique com a nossa irmã Mary. Perguntei a George se achava prudente,
pois a relação familiar de Henrique com o irmão Artur fora o pretexto para a anulação do
seu casamento. George não me quis dar a sua opinião, apenas insistiu para que terminasse
rapidamente a leitura do documento.
Seguia-se a questão de Henrique ter ou não o direito de se casar com uma mulher que
pudesse anteriormente ter contraído matrimónio (embora sem que este fosse consumado).
Referia-se evidentemente a mim e a Henry Percy. Julguei prudente aquela cláusula, pois
haveria quem se servisse desse contrato de juventude para se opor ao casamento real.
Dominei-me para não pensar no meu doce Percy e no nosso triste destino. Já faz parte do
passado. E agora, apenas o futuro interessa.

111
Lemos a parte final da missiva. Não sabia se haveria de rir ou chorar e George estava
simplesmente chocado. Permitiria que o rei se casasse com uma pessoa com quem já tinha
mantido intimidades!
- Esta última cláusula é perfeitamente desnecessária - exclamei e comecei selar o
documento. George olhou-me com uma interrogação maliciosa no olhar.
- Escuta-me bem, meu irmão. Não sou amante do rei e nunca serei outra coisa senão a
rainha. Não me deito com ele, sem primeiro ter a coroa na cabeça e nada me fará mudar de
opinião.
- E eu que pensava que o nosso pai era a pessoa mais dura desta família - respondeu ele.
Depois, com a vela na mão, conduziu-me pela escada de caracol até ao quarto. - Espantas-
me, minha doce irmãzinha.
E na verdade, querido Diário, também me sinto desconcertada comigo própria.
Afectuosamente vossa,
Ana

22 de Novembro de 1527 Diário,


Foi hoje o dia da doce vingança! Passaram duas semanas desde que a corte se mudou para o
Palácio de Richmond e eu, o único objecto dos desejos do rei, mudei-me também. Aqui,
Henrique goza da minha presença e mantém-me junto a si como se eu fosse um apêndice
necessário. Fala livremente com os seus conselheiros na minha presença, embora não me
consulte acerca dos assuntos de estado, mas apenas nas questões do divórcio, casamento e
sucessão ao trono.
Chegaram-nos notícias de Wolsey e da sua missão no estrangeiro que evidenciam que os
seus esforços têm sido em vão. Não se conseguiu uma nova sede papal em Avinhão, nem a
paz, nem ajuda para o divórcio.
Wolsey teve conhecimento da nossa missiva ao Papa e, sem dúvida, se sentiu traído. E,
também preocupado pela possibilidade de meu pai sussurrar ao ouvido do rei acusações
maliciosas contra ele, o cardeal apressou-se a regressar de França. Voltou debilitado e de
mãos vazias e depois de cavalgar directamente de Dover até

112
ao palácio de Richmond, enviou um mensageiro a Henrique, perguntando se e quando o rei
o poderia receber.
Encontrava-me com Sua Majestade, quando o homem do cardeal veio pedir instruções,
sabendo perfeitamente que o Rei o receberia em privado, como sempre fazia. Antes que
terminasse de falar, recordei-me de traições passadas e da cruel tomada de posição de
Wolse em relação ao meu caso com Percy. Lembrei-me que me considerara ”uma menina
tola que andava pela corte”. Agora era ele o tolo e, por isso, falei antes do rei poder dizer o
que quer que fosse e respondi à pergunta do mensageiro com ar altivo e imponente: ”Onde
haveria o cardeal de ir, senão aqui, onde está o rei?”
O homem ficou assombrado com a minha audácia e olhou para Henrique em busca de
uma resposta mais oportuna. Porém Henrique deve ter considerado inteligente a minha ou
estava ele próprio enfadado com T. Carlis Ebor e respondeu: ”Fazei conforme disse a
senhora.”
O mensageiro empalideceu ao ouvir estas palavras, apercebendo-se certamente de qual
seria a sua próxima tarefa - fazer chegar o recado a Wolsey. Diz-se que a ira recai sempre
sobre a cabeça do mensageiro, portador de más notícias. Assim, indisposto Só de pensar
que assim seria, deu meia volta e partiu.
Henrique nada me disse e também não me pediu que saísse quando Wolsey se apresentasse.
Quando por fim o cardeal apareceu, ainda coberto do pó da viagem e sem muita dignidade,
ajoelhou-se diante do rei e, como eu estava a seu lado - ajoelhou diante de mim. Tinha as
faces ruborizadas, os olhos Postos no chão e a voz embargada pela raiva e pelo medo.
Ergueu-se por fim e falaram de muitas coisas, mas juro que não consegui ouvir tudo, pois
dentro da minha cabeça, repicavam alegremente os sinos. O homem de vermelho fora
suplantado por uma jovem e castigado pelos seus actos cruéis contra ela.
Afectuosamente vossa,
Ana
16 de Janeiro de 1528 Diário,
Como é estranho continuar a ser aia da rainha Catarina. Entre ela e o rei prevalecem regras
de convencionalismo e civilidade,

113
apesar de um dia eu poder usurpar-lhe o lugar. Quando olho para ela, vejo-lhe os olhos
brilhantes de coragem para continuar a lutar, as narinas frementes, a boca dura e resoluta e
não posso evitar que me percorra um arrepio. Tenho de admitir que me falta a confiança de
Henrique de que Catarina se renda à sua vontade. Diz que a conhece bem, contudo ela não
mostra qualquer sinal de fraqueza.
Por vezes, à noite, convida-me para jogar às cartas, com ela e com outras damas. Chego a
imaginar que estas solicitações sejam o pretexto para me vigiar e afastar de Henrique.
Ontem à noite, Catarina e eu sentámo-nos à mesa. Vi que os seus olhos caíam sobre as
minhas mãos e que observava o meu sexto dedo, impossível de esconder. A princípio
aquilo aborreceu-me, mas logo a seguir resolvi ser mais ousada. Usei a mão com maior
frequência, com gestos graciosos e floreados que punham em evidência a minha
anormalidade, enquanto as outras damas ocultavam sorrisos provocados pela minha
audácia. A rainha manteve-se fria e em silêncio. O jogo continuou e, mais tarde, recebi uma
carta valiosa... o Rei de Copas. A envenenada carta estava entre nós, sobre a mesa, com um
monarca pintado em cores alegres, deitado de costas. Ninguém se mexeu. Ninguém falou.
O ar estava impregnado de ciúmes - os dela, pelo meu futuro, os meus pelo seu passado.
Por fim, a rainha quebrou o silêncio e falou com o seu marcado sotaque espanhol, cheio de
amargura:
- Minha senhora Ana, haveis tido sorte por vos ter calhado um rei. Mas não sois como as
outras. Tereis tudo... ou nada.
Depois, colocou as suas cartas sobre o rei... e saiu. Senti gelar-se-me o coração dentro do
peito. Naquele momento compreendi o que significava ter como inimiga uma grande
rainha, com gerações de sangue real a correr-lhe nas veias. Não importava que me casasse
com um rei, mesmo quando tivesse a coroa sobre a minha cabeça nunca seria dona da sua
majestade, da sua segurança e superioridade.
Que tenho eu, então? O amor de Henrique? A ambição da minha família? A promessa de
uma freira meia louca? Mas, verdade seja dita, o que me conduz para um destino
desconhecido é o meu desejo de conseguir mais do que o que a vida me ofereceu até aqui.
Catarina tem razão. Tive a sorte de que me saísse um rei, mas com esta única carta vou
apostar num jogo grande e perigoso e ganhar tudo... ou ficar sem nada.
Afectuosamente vossa,
Ana

114
29 de Março de
1528 Diário,
Desde o seu regresso que o humilhado cardeal tem envidado os maiores esforços para que
eu me case com o rei. Meu pai, vangloriando-se da sua participação no caso, chamou-me à
parte para me dar conselhos e eu fiz um esforço para me calar e escutei-o. Disse-me que me
seria vantajoso tornar-me amiga do cardeal. ”O teu destino está ainda nas suas mãos”,
afirmou. Dizia-se que o Papa fugira de Roma e procurara asilo na cidade de Orvieto que,
assolada pela peste, era um local fora do alcance dos soldados do imperador. Era de lá que
Wolsey esperava uma resposta complacente com as suas súplicas.
Enquanto o meu pai me falava de intrigas e planos apercebi-me que o fazia como a um
igual e não na sua filha mais nova. juro que, nesse momento, qualquer coisa se agitou
dentro de mim, uma força que crescia à medida que ele falava. Senti a alma enorme, imóvel
e aberta com um campo iluminado pelo sol. Senti-me satisfeita, magnânima. Assim,
agradeci a meu pai os seus bons conselhos e prometi-lhe que, de futuro, mostraria algum
respeito e amizade pelo velho Wolsey e pelo papel que desempenha neste assunto.
Assim fiz. Ele e Henrique trouxeram agora mais dois cavalheiros para o serviço da nossa
causa, o doutor Edward Fox e o doutor Stephen Gardiner que, a caminho de Orvieto com
cartas para o Papa, vieram apresentar-me os seus respeitos e declarar o grande afã dos seus
senhores por uma rápida conclusão do caso. Trouxeram-me um recado de Henrique a dizer
que deveríamos conseguir o nosso objectivo, o que, para além de tudo o mais, traria mais
sossego ao seu coração e paz ao meu espírito.
Mostraram-me depois uma segunda missiva. Tratava-se de uma lista de todas as minhas
virtudes, compilada por Wolsey e pelo rei e que deveria ser lida em voz alta pelos
emissários Fox e Gardiner ao Papa. Sorri perante aquela obra-prima de lisonja e, por fim,
tive mesmo de soltar uma gargalhada, pois diz que sou uma donzela sensata e dócil, pura e
virginal. Sou sábia, bela, tenho sangue nobre, sou educada e capaz de fazer nascer filhos
saudáveis.
Com o fim de fortalecer as suas esperanças em Clemente, Henrique enviou um arauto à
cidade de Burgos, para declarar guerra ao imperador. Era apenas uma ameaça sem sentido,
pois nunca entraria em guerra contra a França e a Flandres, já que perderia

115
desse modo os seus mercados de lã. Todavia, Henrique sabia que os franceses avançavam
rapidamente pela Itália e, em breve, os seus soldados libertariam o país e também o Santo
Padre.
Ficámos então à espera. Lá fora, os dias de Inverno são escuros e gelados. Mas aqui, dentro
dos muros do castelo, sinto-me abrigada pela capa protectora que é o amor de Henrique.
Sinto muita esperança e até felicidade. O rei é quase casto quando me abraça, tão
convencido está do seu êxito, de que em breve se casará comigo e me levará para a cama.
Mas quem mais me surpreende é o cardeal. Todas as segundas-feiras à noite, quando a
corte se encontra em Londres, Wolsey recebe-nos faustosamente. Dá grandes festas e
solenes banquetes nas suas residências de York e Hampton Court. Ceamos numa baixela de
ouro, dançamos, representamos e divertimo-nos, por vezes até ao amanhecer.
Tendo em consideração as suas amabilidades, enviei-lhe recentemente uma carta para lhe
agradecer o que tem feito por mim e prometer-lhe outras recompensas quando for rainha.
Enquanto escrevia essas palavras elogiosas a seu respeito, tive de me deter para reflectir,
pois há muito pouco tempo só lhe desejava mal ou até mesmo a morte. Serei uma pessoa
com duas caras, hipócrita por conveniência? Ou será sincero, aquilo que escrevi? Estou
extremamente confundida com tudo isto. Acredito que as pessoas mudem. Mas quem será
que mudou? O cardeal parece-me sincero. E mesmo que os seus motivos sejam impuros
(respeita o rei e receia a sua ira) as suas acções são um facto. Se, por meio de maquinações,
me fizer rainha, devo dizer que não gosto dele porque sei que não gosta de mim? Julgo que
não. Pelo menos por agora, que esperamos novas de Itália, considero-o meu amigo.
Afectuosamente vossa,
Ana
3 de Maio de 1528 Diário,
Depois de enfrentarem as tempestades no mar e os rios fora do leito, os doutores Fox e
Gardiner chegaram finalmente a Orvieto e ao Papa. As várias cartas entregues por
Clemente deixaram-nos cheios de esperança. O Santo Padre, mesmo encontrando-se em
deploráveis

116
condições, nos seus exíguos aposentos de expatriado, prometeu aceder às nossas
solicitações. Primeiro: o julgamento para determinar a validade do casamento de Catarina e
Henrique deve realizar-se em solo inglês. O Papa deverá enviar o cardeal Campeggio, um
juiz reconhecidamente imparcial, para participar no caso, juntamente com Wolsey.
Segundo: que depois destes prelados terem dado o seu parecer, este não seja passível de
apelo, nem sequer pela Cúria Romana.
As cartas dos emissários expunham a intenção de Clemente se manter do lado de Henrique,
mesmo contra a vontade do imperador, o que nos encheu a todos de alegria. Durante toda a
Primavera esperámos com ansiedade esses documentos. Entretanto o cardeal Wolsey
continuou a conferir favores à nossa família: pôs fim à antiga disputa das terras de Piers
Butler, conferindo a meu pai não só mais propriedades como também o título de conde de
Ormond, distinção que me converte em filha de nobre.
Durante esta espera, algumas pessoas adoeceram em Greenwich, vítimas de varíola, o que
levou Henrique a querer mudar-me para uns aposentos sobranceiros ao pátio, para maior
segurança. Embora nunca tivessem sido usados como quartos de dormir, eram muito
alegres - tinham enormes janelas sobre o pátio e eram muito soalheiros. O mais importante
era a privacidade, pois Henrique podia vir sempre que lhe aprouvesse e passámos algumas
tardes muito divertidas. Escrevia-me canções que cantávamos acompanhadas à flauta a ao
virginal. Falou-me de batalhas, do choque das espadas e das armaduras, dos seus homens e
da coragem que todos eles demonstravam. É estranho, mas quando fala dessas coisas,
parece mais um rapazinho que um rei. Vi nele uma centelha de bondade humana que muito
me agradou e me deu a certeza, que este homem, que combate como um soldado, me fará
feliz quando nos casarmos. E assim, continuámos à espera dos documentos.
Ontem, porém, quando o sol se derramava em luz doirada, vi à entrada dos meus aposentos
um homem que quase não reconheci. Era o doutor Fox, salpicado de lama e cansado, tendo
cavalgado noite e dia depois da travessia de Calais, na sua pressa de nos fazer chegar as
notícias do Papa. Trazia consigo documentos assinados por Clemente que nos davam
autorização para reunir o tribunal em Inglaterra! Mandei que lhe servissem vinho, carne e
pão e sentei-o junto ao lume. Depois Henrique chegou e, enquanto comia, o enviado referiu
toda a argúcia e hábeis manobras do doutor Gardiner junto

117
do Papa, para obter um resultado frutífero. Tinha travado uma terrível batalha contra as
fortes objecções de Clemente, opondo-lhes ameaças e lisonja. Por fim, lacrimejante, o
Sumo Pontífice cedera, depois do aviso de que o seu fiel monarca inglês lhe retiraria o
apoio.
Não assinara o segundo documento, aquele que prometia não poder haver apelo da decisão
do tribunal, porém deu a sua palavra verbal. Era causa suficiente para uma comemoração.
Henrique beijou-me, abraçou-me, levantou-me no ar como se eu fora uma criança e depois
abraçou também o doutor Fox, prosseguindo com as suas demonstrações de alegria.
Nessa noite, já tarde, depois da partida do doutor Fox, Henrique e eu ficámos abraçados.
Beijou-me o rosto, o pescoço, os ombros nus. Com o casamento tão próximo senti que a
minha castidade fraquejava, devido à sensação de calor entre as minhas pernas quando o
seu corpo se chegou ao meu. Abrindo o corpete à sua boca ávida, encontrou os meus seios
com os mamilos duros. ”Vou possuir-vos, Ana, vou possuir-vos meu amor” murmurou em
voz baixa e rouca. O meu baixo-ventre dizia que sim, mas respondi ”não”. Tínhamo-nos
contido durante tanto tempo. Então ele concordou e soltou-me. Com as pernas e o coração
trémulos separámo-nos com doçura, na certeza de que a chegada do cardeal Campeggio
estaria para breve e logo poderíamos ter um leito nupcial e engendrar um filho. A doçura
da noite primaveril entra pelas janelas, enquanto escrevo à luz da vela.
Em breve tudo estará bem.
Afectuosamente vossa,
Ana

15 de junho de 1528 Diário,


Jesus nos acuda, chegou nova epidemia’. Quando a corte em Greenwich fazia planos para
se mudar para Waltham, chegaram
Nota: Sweating sickness: epidemia que grassou em Inglaterra nos séculos XV e XVI,
caracterizada por transpiração abundante e quase sempre pela morte do doente. [N. da T.]

118
de Londres essas notícias que deixaram todos em silêncio. Todos os dias morrem milhares
de pessoas. Famílias inteiras desaparecem em poucas horas.
Fui em busca do rei e encontrei-o nos aposentos do boticário. Tendo sabido da notícia ele e
o velho John Coke deitaram mãos ao trabalho, na esperança de encontrar algum remédio.
Estavam os dois inclinados sobre um cavalete coberto de boiões e cestos com ervas
aromáticas e poções de cores estranhas. Henrique esmagava num almofariz um monte de
flores fedorentas, enquanto o mestre Coke lhe segredava receitas ao ouvido.
- Henrique - disse eu e ele voltou-se imediatamente. Juro que lhe li no rosto uma certa
expressão de felicidade.
- Entrai, Ana e vede o que já fizemos - aproximei-me e ele mostrou-me o que tinha já
moído. Tratava-se de uma pasta verde-acinzentada com cheiro a bolor.
- Vedes este emplastro de ervas? Quando se espalha sobre a pele extrai o veneno da doença.
- Sua Majestade é muito sábia nas coisas da medicina - disse o mestre Coke agitando um
líquido castanho dentro de um copo. Fez aqui uma mistura com meimendro, vinho e
gengibre que uma pessoa que tenha contraído este novo mal deve tomar durante nove
dias a fio, seguida por esta outra - levantou aquilo que parecia ser meia tigela de melaço.
- Henrique... - tentei fazer-me ouvir.
- Escutai, meu amor. Nestes tempos de peste deveis lembrar-vos de comer com frugalidade,
beber ainda menos e tomar as pílulas de Rasis uma vez por semana. Eliminai a peçonha dos
vossos aposentos com vinagre e braseiros acesos de dia e de noite.
- Não é a primeira vez que vejo esta peste - resmungou o velho Coke, voltando-se para a
sua mesa de feiticeiro. - Começa com uma dor na cabeça e no coração, depois a pessoa
começa a suar e tem uma terrível sensação de medo, de apreensão, se assim quiserdes. É
depois atingido como uma pancada desferida com um pau. Não adianta o doente agasalhar-
se. Arde em suores malcheirosos desde a cabeça e as axilas, até ao baixo-ventre.
- Henrique - exclamei. - A minha aia adoeceu - o rei ficou sério e depois empalideceu. -
Significa que não posso ir para Waltham com a corte. Tenho de me despedir de vós. Irei
para Hever. Ficarei lá até que tudo termine.
- Uma separação, logo agora... não posso suportar tal ideia!

119
- Mas tem de ser, meu senhor - atreveu-se John Coke. - É a lei. Se um membro da casa...
- Conheço bem a lei! - exclamou Henrique angustiado com a ideia. - Deixai-nos a sós,
mestre Coke - disse, já com mais delicadeza, e o velho saiu, arrastando os pés. Henrique
manteve-se um pouco afastado, mas não estendeu o braço para me atrair a si. Parecia
totalmente impotente, como nunca antes o vira.
- Que devo fazer? Sois o meu amor e quero-vos a meu lado... mas sou o rei e tenho em
primeiro lugar de salvar a minha vida.
- Eu vou. Não há mais nada a fazer - preparei-me para partir.
- Levai convosco estas poções, por favor!
- Preparai um pacote com as instruções e eu mando alguém cá buscá-las.
já tinha a mão na porta quando senti os seus braços rodearem-me trémulos e cheios de
paixão. Voltei-me e ficámos frente a frente.
- Deus nos ajude, ana. Por favor, não vos quero morta - beijou-me. O medo tornara amarga
a sua boca.
- Nem eu a vós, meu amor - soltou-me, com os olhos húmidos. - Ide com Deus - disse eu, e
logo parti.
Afectuosamente vossa,
Ana
23 de junho de 1528 Diário,
Escrevo com a mão trémula. Este poderá ser o meu fim, pois a morte ronda os muros de
Hever e receio que venha atrás de mim. já tantos desapareceram. Antes da minha apressada
partida do castelo de Greenwich, morreram centenas de pessoas em poucas horas, muitas
pertencentes à casa do rei. Norfolk está doente e o filho mais velho e herdeiro de Suffolk
faleceu. A sinistra ceifeira ronda também as estradas entre Greenwich e Edenbridge, onde,
com olhos sombrios desfilam cocheiros, camponeses, criadas, em carruagens fechadas sem
se saudarem pelo caminho. Os corpos apodrecem no local onde caem e são pasto dos
corvos.
A morte apoderou-se de Hever. William Carey, marido de minha irmã, já foi ter com o
Criador. Meu pai e meu irmão George estão gravemente enfermos. Felizmente minha mãe
encontra-se bem, mas

120
tratando do marido e do filho, quem sabe se não acabará também por cair doente.
Esta manhã, o jovem Zouche, mensageiro especial do rei, que leva e trás as nossas
inúmeras cartas, chegou a Hever logo depois do meio-dia, com um recado da parte de
Henrique Rex. Contudo, antes de sair da minha vista, agarrou-se ao ventre, com o rosto
muito pálido. Implorou-me que o deixasse partir e certamente que o fiz. Porém, quando os
seus olhos se encontraram com os meus vi neles o terror e, depois de me ter despedido, vi-o
cair junto à porta e faleceu nos aposentos dos criados, pouco depois das quatro horas.
Na carta que me mandou, Henrique diz-me que goza de boa saúde, embora permaneça
enclausurado em Waltham. Diz-me que espera que eu não tenha sido afectada pela doença,
recordando-me que ”muito poucas mulheres” contraíram a doença e que nenhuma na corte
e muito poucas fora dela morreram. Não passam de esperanças vãs e ainda por cima
equivocadas. A minha aia morreu. E também a nossa ajudante de cozinha, tal como a irmã
de minha mãe. Rezo pela saúde do rei, mas sinto certa amargura pela sua alegre disposição.
Mantém-se isolado, caminha sozinho em jardins desertos, medita e escreve acerca da
questão do divórcio, esperando o regresso de Campeggio. Não sei como pode pensar nisso
quando uma tal pestilência assola as nossas almas. Por vezes receio que o rei seja cruel,
estranho e frio.
Voltou a anoitecer e os salões ficaram às escuras, sem que os criados tenham deixado luzes
acesas nas suas rondas nocturnas. Afinal, fui eu mesma que as fiz, pois os corredores sem
iluminação são demasiado sinistros e atraem os demónios. Acendi um a um os candeeiros,
porém pouco conforto me deram - apenas sombras mais longas, murmúrios nos cantos
escuros e o ranger das portas. Quando finalmente subi a escada de caracol para o meu
quarto, pensei ouvir o roçagar de vestidos uns passos atrás de mim. Voltei-me para
enfrentar o espectro e apenas encontrei uma imagem furtiva criada pelo medo. Dizem que a
doença começa assim. Aqui não há esconderijo possível. Diário, amigo... rezai por mim.
Estou certa de que a minha vida está nas mãos de Deus.
Afectuosamente vossa,
Ana
Deus me ajude. O mal ataca-me. já não posso escrever.

121
2 de Julho de 1528 Diário,
Encontrei-me com a morte, mas sobrevivi para contar o que aconteceu. Pouco recordo do
mal que se apoderou do meu corpo, excepto sentir uma dor aguda nos olhos e um calor tão
terrível, que mais parecia que o sangue me fervia nas veias. Chamei minha mãe e o seu
rosto foi a última imagem nítida que me ficou na mente, antes de uma noite longa e
estranha descer sobre mim. Dizem que estive na cama, troçando da morte, durante cinco
dias, estrebuchando debaixo das cobertas, gritando no meu delírio, umas vezes alegre,
outras como se travasse um combate mortal com o próprio demónio.
Minha mãe, essa mulher fiel e dedicada, disse-me que a doença tomou um curso assustador,
pois em vez de transpirar a peçonha, esta recolheu, obrigando o meu corpo a feder com os
vapores venenosos. Tão desesperada estava que mandou chamar o capelão Barlow para me
dar a extrema-unção e que acabou por sair do quarto depois de se ter despedido da criança
que levara à pia baptismal, vinte anos antes.
Do meu estado de inconsciência, recordo cores muito brilhantes e sempre em movimento.
Por vezes tomavam a forma de elfos, dançando entrelaçados num estranho círculo.
Também ouvia música ao longe, o doce e alegre repicar dos sinos das fadas. Porém, outras
vezes a escuridão sufocante caía sobre mim. Não havia luz, nem som, apenas um vazio tão
negro e esmagador que percebi que tinha morrido e ido para o Inferno, pois o negrume era
terrível. Tive a certeza de que Deus e Jesus não residiam nesse local. Por isso, quando as
cores e os sons voltaram a explodir naquela negra prisão, devo ter gritado de alegria, pois
apercebi-me de que estava viva ou que ia a caminho do céu.
Então, momentos antes de regressar a este mundo, tive a visão da mãe de minha mãe,
Margaret, falecida há muitos anos. Parecia muito bela, mesmo com o rosto enrugado e o
cabelo branco, muito bem vestida e com o corpo de uma jovem. Parecia irradiar luz do seu
interior. Tinha na cabeça uma coroa enorme e o pescoço, os pulsos e os dedos cobertos de
jóias. Depois vi que não tinha o ventre liso e mais parecia uma doce madona grávida.
Cruzou as mãos sobre o ventre e sorriu. De súbito percebi que o rosto não pertencia à
minha avó e que, afinal, era o meu. Nesse momento abri os olhos e vi a minha mãe que me
olhava a sorrir.

122
Encontrou-me fraca como um recém-nascido depois do meu regresso daquele outro mundo,
mas agradeço a Deus não só a minha vida, mas também a de meu irmão George e a de meu
pai, que também se restabeleceram. Quando soube da minha enfermidade, Henrique
enviou-me o doutor Butts, seu físico particular. O rei ficou enfadado por o seu físico
principal se encontrar ausente e não poder vir ver-me, mas esperava que o homem que me
enviou me conseguisse curar. Afinal chegou tarde demais para tratar a doença, porém trazia
consigo um documento de Henrique que me fez bem ao espírito. Era uma carta do rei de
França, confirmando o seu apoio ao divórcio de Henrique, o que para nós é muito
importante. Sem a estima de Francisco decerto a nossa causa estaria perdida. O doutor
Butts trouxe ainda uma carta particular de Henrique, implorando-me que regressasse à
corte no momento em que me sentisse suficientemente forte.
Por ora, contento-me com o meu repouso em Hever, rezando para que a viagem do
cardeal Campeggio de Itália para França e depois para Inglaterra, se faça em segurança e
também para agradecer a Deus o estar viva.
Afectuosamente vossa,
Ana

5 de Agosto de 1528 Diário,


Pelas chagas de Cristo! O cardeal Campeggio ainda não partiu para França enquanto que
durante todo este tempo, pensávamos, Henrique e eu, que ele vinha a caminho para nos
trazer a salvação. O pobre homem sofre de gota, de modo que tem estado acamado em
Itália, à espera de melhorar. Entretanto, os soldados franceses perdem diariamente terreno
para os soldados imperiais que se aproximam de Orvieto, onde o Papa ainda reside. Que
acontecerá se o imperador Carlos tomar como prisioneiro o velho Clemente? Manterá a sua
recente simpatia pela nossa causa? Se assim não for, tudo será inútil.
Insisto com meu pai e meu irmão e até com meu tio Norfolk, para saber novas da guerra em
Itália. Tento dormir de noite, mas apenas consigo rezar e suplicar a Deus que ajude os
soldados do

123
rei Francisco, para que lutem com bravura e tenham sorte. Que as suas armaduras, espadas
e escudos resistam às investidas dos exércitos do imperador. Henrique deseja que fique com
ele em Ampthill durante duas semanas, porém recusei. Regressarei uma vez mais a
Edenbridge, pois não desejo dar que falar. Henrique está muito feliz por me ver de novo
com saúde e dirige diariamente escandalosas manifestações de amor e luxúria pela minha
pessoa, afagando-me em público. Também me pede que faça planos para o casamento, mas
é uma loucura! Em breve, o cardeal Campeggio estará recuperado e poderá iniciar a viagem
para cá. Quando chegar, não deverá pensar que o rei deseja divorciar-se para casar comigo.
Disse-o a Henrique que se riu e me beijou com atrevimento. Mortifica-me ter de o conter,
por isso volto para Hever House, onde aguardarei que a gota do velho cardeal melhore e
rezarei pela vitória da França. Não posso perder a esperança.
Afectuosamente vossa,
Ana
19 de Outubro de 1528 Diário,
Que desventura a minha! Quando regressei da caça com Urían, passei pela cozinha e
escutei, por acaso uma conversa entre duas criadas. Não passava de maledicência, porém
ofendeu-me profundamente. Comentavam escandalizadas, por entre risos, que a ama
daquela casa era objecto de mexericos trazidos de Londres, juntamente com especiarias e lã
da Flandres. ”Nan Bolena, a rameira de olhos negros do rei”, era como se referiam a mim.
Eu, uma rameira! Eu que sempre mostrei firmeza em querer manter intacta a minha
virgindade. A minha conduta tem sido forte e casta, e tenho conseguido afastar um homem
cheio de desejos. Acaso discutiria um rei com o papa e o imperador para conseguir um
casamento legal com uma rameira?
Mas tudo isto não passa de maledicência e não tem qualquer importância. O pior, é não
haver progressos no caso do divórcio. Campeggio chegou finalmente a Inglaterra,
queixando-se constantemente das pernas gotosas e não convoca o tribunal. Para mim, a
doença é um pretexto, com a intenção de atrasar as coisas. Depende

124
do Papa e diz-me o coração que, apesar dos protestos de amizade de Clemente a Henrique,
o Santo Padre é um homem como os outros, que teme pela sua vida e bem-estar. Juro que
anda a enganar o rei e que este o ignora.
Há uma semana que Henrique veio a Hever. Chegou com notícias que decerto me
levantariam o ânimo - contou-me como, depois de uma semana acamado no Palácio de
Bath, Campeggio se levantou, para lhe solicitar uma audiência e que, enquanto a barcaça do
legado descia o Tamisa até Bridewell, caiu uma chuvada de proporções bíblicas. Como não
podia andar a cavalo ou a pé, o cardeal teve de ser transportado por quatro homens numa
cadeira de veludo vermelho desde a margem do rio até aos degraus do castelo, onde
Henrique o aguardava. O velho Wolsey que acompanhava o cardeal montado numa mula
ficou encharcado e enlameado até aos ossos. Lá dentro a ocasião foi magnífica. Um enorme
festim com belos discursos para celebrar as cartas do Papa. Henrique pôs debaixo do nariz
de Campeggio o bispado de Durham, segundo se diz, há muito almejado por ele. Mas
mesmo assim, nada aconteceu! Alegando dores e indisposição, o cardeal implorou-lhe que
o deixasse regressar e Henrique não teve coragem de recusar.
No dia seguinte, Henrique empreendeu a viagem a Bath para lhe expor a questão teológica
do casamento, mas Campeggio fez-se desentendido e implorou ao rei que considerasse
válido o seu estado matrimonial. Quando Henrique se recusou a fazê-lo, firme mas
delicadamente, o cardeal apresentou uma nova sugestão que agradou ao rei. Que a rainha se
retirasse para um convento, era o seu conselho; mulher piedosa e razoável, certamente
aceitaria a ideia.
De facto, no dia seguinte, Campeggio e Wolsey dirigiram-se em peregrinação até à
residência de Catarina, em BridewelI, e disseram-lhe que o Papa desejava para ela aquele
final feliz. Disse-me Henrique que a rainha adiou a resposta por vários dias e foi ela própria
visitar Campeggio a Bath. Dirigiu-lhe então palavras duras que o deixaram aflito e
assombrado. Disse-lhe firmemente que tencionava viver e morrer dentro do matrimónio a
que Deus a tinha chamado. Nunca tivera relações com Artur, irmão de Henrique, e era
certamente virgem quando chegara ao leito do rei. Preferia ser esquartejada e morrer várias
vezes a ver alterado o seu estado de casada com o rei, seu esposo legítimo.
Como se isto não bastasse para me fazer sentir desgraçada, uma enorme multidão furiosa
com estes preparativos para o divórcio,

125
aproximou-se do palácio de BridewelI, aos gritos, aclamando Catarina. ”Vitória sobre os
nossos inimigos!” gritavam. Quem é esse inimigo, perguntei a mim própria, senão eu a
vossa futura rainha.
Fiquei feita uma fúria. Investi contra Henrique qual cão assolado contra um urso. Gostava
de saber como se atreve esta insignificante espanhola a opor-se a enviados do Papa,
cortesãos e reis. E como pode o rei permitir que o astuto Campeggio finja os ataques de
gota e jogue com ele como se de um baralho de cartas se tratasse? O indelicado legado nem
sequer me veio visitar, apesar de Henrique mo ter prometido,
O rei tentou tomar-me nos seus braços e beijar-me para me acalmar, mas não lho permiti.
Tinha de entender que o estavam a pôr a ridículo. Assim acariciou-me o cabelo, afagou-me
a mão e prometeu-me que, a partir daí, as coisas se passariam de outro modo. Depois partiu
a cavalo cheio de esperanças. Fiquei
a rezar.
Ontem chegou uma carta em que Henrique me dizia ter emitido uma ordem escrita para que
as multidões não mais se pudessem reunir em redor do palácio. Mas o que pensará ele? Que
basta que não possam dizer em público que adoram a rainha, para que deixem de o sentir?
A seguir, informou-me de que convocara para o seu salão de Bridewell, uma reunião com
as autoridades de Londres. Esperava poder garantir a sua lealdade para a causa do divórcio.
Mostrou-se extremamente deferente com Catarina, disse que ainda a amava muito, mas que
ansiava pela separação, por ter problemas de consciência e necessitar de herdeiros varões.
Disse-me também que o presidente e os
edis
lhe tinham parecido submissos, porém que, ao ouvi-los murmurar entre si, acrescentou mais
uma coisa para que percebessem como estava decidido. Que se soubesse de alguém que
falasse em termos pouco apropriados do seu Príncipe ”não haveria cabeça, por mais
importante que fosse” que não pudesse rolar.
O golpe final, escrevia, era que a rainha tinha encontrado, ou talvez forjado uma cópia da
dispensa para o seu casamento com Henrique, e que fora entregue, segundo afirma, a sua
mãe Isabel, antes desta morrer. Este documento, com um texto diferente daquele que
Henrique guarda, lança na maior ansiedade e confusão o cardeal Wolsey e o rei. Agora são
eles mesmos que atrasam o julgamento! Os golpes do rei apenas ferem, não matam. E aqui
em Hever sinto-me impotente, sem outra compensação para as minhas penas que não

126
seja um corpo cansado, mau humor e uma desagradável alcunha. O futuro afigura-se-me
negro.
Afectuosamente vossa,
Ana

2 de Março de 1529 Diário,


Receio que a vossa fiel amiga se esteja a transformar numa megera. Sinto-me ferida e
choro, devido a tantos vexames e frustrações, que acabo por gritar ao rei toda a minha raiva
acumulada. Ele abraça-me ternamente e acalma-me com palavras esperançosas. Quem me
vê nestes novos e luxuosos aposentos, aqui em Greenwich, repletos de presentes do meu
adorado Henrique, rodeada pela minha família e cortesãos que esperam ver-me rainha,
pensa que sou feliz, e me sinto esperançosa e satisfeita. Todavia, os desgostos são muitos.
O cardeal Campeggio já está há sete meses em Inglaterra e ainda não considerou oportuno
convocar o tribunal. Sete meses de vis adiamentos, de uma permanente troca de
correspondência com Roma, que mais parece uma maré circular, cheia de solicitações,
argumentos vãos e mentiras.
Henrique enviou à rainha uma delegação, de que Warham. fazia parte, para lhe comunicar
as duras resoluções que havia tomado em relação a ela. Warham disse-lhe que havia
rumores de conspirações contra o rei e das quais Catarina era causa. Tinham-no
aconselhado a evitar o leito e a companhia da rainha não fosse ser envenenado por ela ou
pelos criados da casa. Dizem que ela tudo escutou, com uma expressão empedernida e lhes
ordenou que se retirassem. O rei colocou então espiões em seu redor, para evitar toda a sua
correspondência com Mendoza, o embaixador de Espanha. Henrique proibiu ainda a rainha
de ver a filha Maria, medida que me parece extremamente cruel. Perguntais se estas
medidas foram suficientes para dissuadir a rainha? De modo algum. A sua teimosia é cada
vez maior e esta feliz mártir é sustentada com o apoio incondicional dos seus leais
súbditos. Há dias em que, num acesso de raiva, tenho vontade de lhe arrancar os olhos
piedosos e de estrangular todos aqueles homens de libré, que não conseguem mais do que
incomodá-la, pois não compreendem o seu pensamento, nem conseguem desviá-la da sua
firmeza.

127
Todavia o pior e mais perigoso para mim é esse maldito Wolsey estar mais uma vez a
tramar a minha perdição. A semana passada o deão da capela de Henrique encontrou, entre
as minhas coisas, o tratado de Tyndale, ”Obediência de um Cristão”, e levou-o à atenção do
cardeal. Wolsey entregou-o ao rei. É verdade que a simples leitura desse livro é considerada
um afastamento da fé católica e uma heresia. Imaginei o sorriso complacente de Wolsey,
enquanto eu caída em desgraça, transportava o habitual feixe a caminho da prisão. Sabia
que era loucura pensar em tais coisas e, na verdade, a raiva era maior que o medo. Jurei a
George e aos outros cortesãos alto e bom som que era o melhor livro que alguma vez o
deão e o cardeal haviam arrebatado a alguém.
Fui ter imediatamente com o rei e ajoelhei para lhe pedir perdão pelo meu acto. Ele disse-
me então, para grande alívio meu, que havia reflectido sobre o assunto e que, embora ainda
fosse um católico leal, desejava ler o livro para poder dar a sua opinião e talvez escrever
também um tratado sobre o assunto. Salvaram-me o espírito e o coração abertos que tanto
aprecio em Henrique.
Todavia, tenho a certeza absoluta de que Wolsey continua a desejar a minha queda. E,
enquanto escrevo, custa-me a crer que o rei compareça alguma vez perante o tribunal ou
que consiga separar-se legalmente de Catarina. Campeggio, que é uma raposa astuta, afirma
que deixou crescer a barba mal tratada em sinal de luto pela igreja de Inglaterra. Sei que
nunca teve intenções de nos alegrar e que o que nos disse foram apenas promessas vãs e
mentiras ditas por Clemente. Dói-me a cabeça devido à raiva que sinto e a este Inverno frio
que parece não ter fim. Há muitas semanas que não vimos o Sol.
Afectuosamente vossa,
Ana
31 de Maio de 1529 Diário,
Que manhã tão bela! Reuniu-se o tribunal do legado pontíficio e o meu casamento está
agora assegurado. Ontem à noite, estava muito frio na residência que meu pai tem em
Durham, junto ao rio, quando a barcaça dourada do rei Henrique o trouxe até aqui, para

128
aguardar a mudança de maré. Estava muito alegre e seguro, pois tendo deitado para trás das
costas todas as desculpas e demoras de Clemente fora ele próprio a convocar o tribunal.
Disse que o fizera para evitar que o Papa o mandasse reunir em Roma, pois tal seria
desastroso para a nossa causa. O assunto está, pois, em marcha e a esta hora Henrique
encontra-se no castelo de Greenwich aguardando a convocatória formal da parte do
priorado de Blackfriars, onde o tribunal terá lugar.
Ontem à noite distraiu-nos - a mim, a meu pai e a meu irmão George - com eruditas
epístolas que escreveu sobre a questão do seu casamento e divórcio à luz do direito
canónico. Henrique tornou-se um especialista e está convencido de que os cardeais
apoiarão a sua causa. Durante as horas que passou connosco mostrou-se muito satisfeito e
à-vontade com a sua nova família, como já nos chama, e comigo, sua ruborizada noiva.
Quando a maré mudou e a barcaça de Henrique partiu, encontrei o meu pai sentado diante
da enorme lareira, contemplando o lume com ar absorto. Aproximei-me dele, aqueci as
mãos, mas deixei-me ficar em silêncio. Os nossos olhos cruzaram-se e li nos dele uma
espécie de consternação, talvez de assombro, antes de o ver desviar o rosto. Retirei-me e
subi as escadas. Lá em cima, encontrei-me com George no corredor onde ficam os nossos
quartos e, à luz das velas, conversámos em surdina. Meu querido George, é agora Escudeiro
do Corpo do Rei e Mestre dos Cães de Caça. Perguntei-lhe se sabia quais as ideias de meu
pai a respeito da minha pessoa e respondeu-me que sim.
- O nosso pai humilha-se diante do rei, tal como eu. Receamos o mínimo deslize,
pronunciar uma palavra áspera ou branda demais, que possa ser mal interpretada. Mas tu,
Ana, tem-no a teus pés. Juro que se lhe ordenasses, lavava a tua roupa! Gritas, soltas
impropérios, amuas. Tens conhecimento de assuntos importantes, como se fosses um
homem. E agora apresenta-se diante de um tribunal pontifício para pedir o divórcio de
Catarina e a tua mão. Este nosso rei não parece o mesmo e disso és tu, provavelmente, a
única causa. O nosso pai já o percebeu e não compreende, nem se sente satisfeito.
- Não se sente satisfeito, porquê? A filha vai ser rainha.
- Ainda não há a certeza, Ana.
- Mas o rei acredita...
- O rei acredita em sonhos.

129
- E eu também! - respondi, com veemência. - Henrique governa este país e nem os Lordes,
nem o imperador, nem o Papa, nem até mesmo Deus, o farão desistir do seu intento. E o seu
intento sou eu. Garanto-te que é um mistério como isto aconteceu. Usei os artifícios que
aprendi em França, o meu espírito, a minha reticência para fazer com que me desejasse
mais mas, para ser honesta, meu irmão, não sei porque razão Sua Majestade se apaixonou
por mim, com tal ardor. Sei que a sua paixão é tão profunda que há-de mover céus e terra
para me ter. Portanto, podes confiar, George. Vou ser rainha. Vais ver.
Ele sorriu com tanta esperança e afecto que o meu coração transbordou de amor. Embora
meu pai duvide do meu destino e não seja completamente leal, tenho sorte em ter um irmão
como George Bolena. Assim, aguardo aqui em Durham e Henrique aguarda em Greenwich.
Aguardamos que todos os bispos ingleses e os cardeais do tribunal de Blackfriars se reúnam
envergando vestes e chapéus escarlates e se sentem em tronos forrados a ouro, para o
chamarem a depor acusando-o, de ter vivido em adultério durante mais de vinte anos.
Ide com graça e honra, Henrique. Agitai o mundo e recebei em vossas mãos os pedaços
caídos para que sejam nossos e apenas nossos!
Afectuosamente vossa,
Ana

21 de Junho de 1529 Diário,


A batalha está a ser travada pelas duas partes. E embora ambas se encontrem feridas,
nenhuma foi ainda derrotada. Contemplei o rio das janelas de Durham e vi a barcaça de
Catarina seguir para o tribunal de Blackfriars levada pela maré da manhã.
Nas margens do rio juntava-se uma multidão, constituída principalmente por mulheres, que
aclamavam a rainha no seu percurso, com gritos de afecto e lealdade. Sei que eram apenas
alguns dos muitos apoiantes da rainha que me detestam. Falaram-me das multidões que se
juntam à entrada de Blackfriars Hall, à espera dela, que a chamam pelo nome, que lhe dão
força para levar a cabo a sua maldita campanha contra o rei.

130
O dia estava diabolicamente quente e não corria qualquer brisa ao longo do rio. Cá dentro,
o ambiente tinha o cheiro do medo. As horas passavam lentamente e nem uma palavra de
meu pai ou de meu tio Norfolk, acerca do que se estava a passar. Porém, quando a longa
tarde se dissolveu num crepúsculo cor de mel, começou o cortejo flutuante de lanchas,
barcas e barcaças, transportando rio acima, os participantes do tribunal de volta para
Londres. O magnífico barco de Henrique separou-se dos outros e atracou no ancoradouro
de Durham.
Sorrindo, com ar de desafio, à vista de todos, atravessou o relvado e eu, contagiada por
aquela ousadia, fui recebê-lo no meu rico vestido cor de safira, com o cabelo solto pelas
costas abaixo. Mas assim que se encontrou dentro de casa, a altivez do rei desvaneceu-se.
O sorriso pareceu murchar e transformar-se numa expressão de raiva e de cansaço.
Obriguei aquele guerreiro exausto a sentar-se e mostrei-me pródiga nos meus carinhos -
limpei-lhe o suor da testa, perfumei-lhe as roupas, trouxe-lhe vinho gelado e beijei-o
docemente.
Então sorriu, parecendo recordar-se das razões que nos tinham levado a travar tão dura
batalha e começou a falar do seu dia no tribunal. Começara com uma sentida declaração,
em que expusera os seus terríveis remorsos pelos actos inocentemente adúlteros, cometidos
por ele com Catarina, esposa legítima de seu irmão.
- Falei bem e durante muito tempo - disse. - Apresentei os meus argumentos para conseguir
alguma vantagem, contudo, quando terminei, Catarina ergueu-se e, com a sua altivez de
princesa espanhola, atravessou a sala silenciando todos, e ajoelhou a meus pés. Então, Ana,
suplicou-me, por todo o amor que houvera entre nós e por amor a Deus, em nome de quem
afirmava falar, que a tratasse conforme era de justiça e direito. Pediu piedade e compaixão,
por ser estrangeira e acrescentou que não contava com assistência jurídica suficiente. É
verdade. os dois advogados imperiais, cuja chegada da Flandres aguardava para
defenderem o seu caso, não apareceram... dizem que o sobrinho Carlos não o permitiu,
temendo pela segurança dos dois homens. Mas deixai que vos diga que Catarina
envergonharia qualquer advogado. Afirmou ter sido sempre uma mulher humilde e
obediente, mostrando afecto pelos meus amigos e ódio pelos meus inimigos. Falou dos
filhos nados-mortos e de que o seu falecimento não fora culpa sua, mas sim a vontade de
Deus.
Nesse momento, Henrique deteve-se e lançou a cabeça para trás, como se se recordasse de
um acontecimento doloroso.

131
- Que foi, meu amor? - perguntei. - Que mais disse ela?
- Que Deus era sua testemunha... quantas vezes invocou o nome de Deus... Que, quando a
tomei pela primeira vez no leito, era uma donzela e nunca nenhum homem lhe tinha alguma
vez tocado. Chegara virgem ao leito de Artur e virgem de lá saíra.
- É o oposto àquilo em que baseais toda a vossa argumentação, não é verdade? - O rei
acenou gravemente com a cabeça. - Mas meu pai - prossegui - recorda-se de ter falado com
Artur na manhã seguinte ao casamento e de este lhe ter dito claramente: ”Trazei-me um
copo de cerveja, pois esta noite estive no meio de Espanha!” Outros afirmam que é
verdade, que ela não era virgem quando chegou ao vosso leito, de modo que o vosso caso
se justifica, por mais que Catarina invoque o nome de Deus.
Henrique escutou os meus argumentos, mas mesmo assim parecia preocupado.
- Não haveis visto a multidão quando abandonou a sala. Estavam todos com ela. Os bispos,
os clérigos, os advogados e os embaixadores ficaram sentados em silêncio e cheios de
assombro, ouvindo as aclamações através das portas abertas. ”Viva Catarina!”, gritava o
povo. ”Que bem se defende!” ”Não tem nada a temer!” Oh, Ana, que fortaleza a dela!
- E vossa também! - exclamei, tomando nas minhas as mãos de Henrique. Apercebi-me do
seu pescoço tenso, do rosto corado, da expressão de infelicidade.
- Catarina falou verdade ao dizer que é uma estrangeira. Este país é vosso e ela só foi rainha
porque vós o haveis querido!
- É verdade, é verdade - concordou o rei, mais animado com as minhas palavras.
- O vosso sangue Tudor lutou para obter a coroa e conseguiu-a. Sois o oitavo Henrique a
governar esta terra, e sois de longe o maior. Não há princesa espanhola que possa matar os
vossos desígnios.
- Nem um maldito cardeal!
Erguemos os olhos e vimos que meu pai entrara, vindo do rio.
- Com vossa permissão, Majestade, devo dizer-vos que Wolsey não é para vós um servidor
leal. A questão escapa-se-nos das mãos, creio que por sua culpa.
- Fazeis um juízo severo, Thomas.
- Nem por isso, Senhor. Sois demasiado benévolo. O duque de Norfolk enviado por vós em
missão diplomática a França, cita o rei Francisco, quando diz que Wolsey gozava de ”um
privilegiado

132
contacto com Roma, tal como o cardeal Campeggio”. Pergunto-vos: onde está a lealdade?
Até mesmo Thomas More, esse erudito, qualifica as suas acções de astutas e diz que tem
agido perfidamente convosco. O povo também o odeia, Majestade, pois tem lançado
impostos exagerados para financiar as guerras no estrangeiro. Digo-vos que o deveis vigiar
de perto e não só a ele como também ao cardeal Campeggio que não passa de um lacaio
papal, vestido de vermelho.
- Obrigado pelos vossos conselhos, lorde Ormond e também pelos vossos, minha querida.
Mas embora possais estar certos acerca dos cardeais, acredito do fundo do meu coração que
nunca se atreverão a manobrar contra mim. Em Roma, o Papa detestaria perder o seu aliado
inglês. Meus amigos, tivemos um dia difícil, mas acabaremos por vencer.
Assim, tendo recuperado o bom humor, o rei jantou connosco em Durham. A refeição foi
agradável e divertida. Toquei alaúde, cantámos e, depois de meu pai se ter retirado,
abraçámo-nos e beijámo-nos. Henrique disse que seria eu que o faria mover céus e terra.
Ama-me verdadeiramente e eu espero do fundo do meu coração poder corresponder-lhe do
mesmo modo. Sei que um dia o meu amor igualará o dele, mas por agora tenho ainda de
fingir. Sou
Afectuosamente vossa,
Ana

25 de Julho de 1529 Diário,


A traição cometida pelo Papa é tão difícil de imaginar, que me custa falar dela. Mas devo
fazê-lo, pois o meu destino e o de Henrique estão entrelaçados. O julgamento foi suspenso
sem qualquer veredicto, nem favorável, nem contrário ao divórcio do rei. Terminou
simplesmente, para que o caso fosse transladado para Roma, o que é pura e simplesmente
uma desgraça. Catarina ganhou esta batalha, pois se o caso for julgado nessa cidade,
certamente será decidido a seu favor.
É muito claro como as coisas chegaram a este ponto e a rainha, embora vitoriosa, não é a
causa. Tal como eu, é um mero peão dos homens e das suas guerras. O que aconteceu é
que, sem que disso tivéssemos conhecimento, os franceses foram derrotados pelas tropas

133
imperiais em Landriano, no campo italiano e uma peste levou os sobreviventes. Assim,
enquanto Henrique suportava um caloroso Verão aqui em Blackfriars, aguardando
pacientemente a resolução da sua causa, o papa Clemente foi a Barcelona e assinou um
tratado, com o recém-coroado imperador.
Depois, o nosso aliado Francisco foi a Cambrai fazer a paz. Tudo isso ignorávamos, apenas
tínhamos conhecimento da suspensão do julgamento e a informação de que quando
reabrisse em Roma teria uma conclusão justa. Só mais tarde, tudo se tornou claro para os
nossos espíritos. O Papa, agora em paz com o imperador Carlos - sobrinho da rainha
Catarina - nunca dará o seu consentimento a este divórcio.
No dia 23 de Junho, último dia do julgamento e, supostamente, o da leitura da sentença,
dirigi-me a Blackfriars, pois enlouqueceria se ficasse à espera em Durham HalI, para saber
o que seria de mim, e escondi-me numa galeria. Os cardeais estavam de pé e vi Wolsey,
mudo e trémulo, enquanto o cardeal Campeggio, com ar afectado, fazia o seu virtuoso
discurso.
Declarou temer o desagrado de Deus e a condenação da sua alma, se concedesse favores a
um príncipe ou homem de estado e que, por enquanto, não poderia pronunciar qualquer
sentença. Henrique, preparado para boas notícias, sentiu-se ofendido e impotente como uma
criança pequena. Abandonou a sala, espumando de cólera, fazendo tremer o chão que
pisava.
O duque de Suffolk falou então em nome do rei, dando largas à sua fúria:
- Pela santa missa, vejo agora que é verdade o que diziam os antigos. Nunca ouve legado ou
cardeal que favorecesse a Inglaterra. Sozinha na galeria, tenho de confessar que chorei por
todo o tempo perdido, por todas as esperanças destroçadas.
E onde estava a grande influência do cardeal Wolsey em toda esta questão? Não sei.
Velho impotente, que nos fez crer em vão, que aquele tribunal nos seria favorável se
reunisse em Inglaterra. Maldito Wolsey, filho de um carniceiro de lpswich, elevado à mais
alta glória. A sua estrela perdeu o brilho. Henrique dá-me agora ouvidos, quando lhe falo
mal de T Carlis Ebor. E o maldito cardeal há-se sofrer com o meu desagrado. juro que o
farei cair, para nunca mais se levantar.
Afectuosamente vossa,
Ana

134
31 de Agosto de 1529 Diário,
O rei e eu, achamo-nos, acompanhados por toda a corte em plena caçada de Verão, tendo-
nos alojado em Waltham, Bamett, Tuttenhanger Holbom, Windsor e também Reading. Há
sempre murmúrios por entre o seu séquito, quando, ao lado do rei, monto o meu alazão,
magnificamente ajaezado e coberto por um caparazão de veludo negro, debruado a ouro.
Porém os murmúrios sobem de tom, quando vou com ele na garupa do cavalo. As gentes
que nos vêem passar estão plenamente convencidas que sou sua amante de alma e coração.
Hoje, cavalgámos por prados e colinas floridas, com o estrépito das trombetas e o latido dos
cães, perseguindo majestosos veados, com o vento a bater-nos nas faces queimadas do sol.
Henrique adora caçar. É maravilhoso vê-lo montar o seu alazão branco, ousado e viril, com
os olhos brilhantes de felicidade. Todos os cuidados desaparecem, sob aqueles cascos
trovejantes e esquece mesmo as preocupações acerca do seu divórcio com Catarina.
Mandei vir o meu cão Urian, que acaba de matar uma vaca, rasgando-lhe a garganta.
Henrique pagou-a ao camponês mas, mesmo assim, murmurou-se que Urian era o nome de
um demónio, o que me transforma, mais uma vez, numa bruxa, capaz de prendeu o rei com
os seus feitiços. É verdade que ele está muito apaixonado e não oculta o que sente por mim.
Não só me cumula de presentes - selas e arneses, vestidos, arco e flechas, luva de caça, e
até roupa interior
- como mostra publicamente o seu afecto: acaricia-me e beija-me à vista de todos.
Esta noite, enquanto ceávamos junto à enorme lareira, acesa nos seus aposentos privados,
disse-lhe que não julgava prudentes aquelas demonstrações. Lá longe, em Roma, os seus
homens continuam a tentar adiar o julgamento do divórcio. A rainha, embora afastada da
vista de Henrique, persiste por sua vez em falar com os embaixadores espanhóis a seu
favor. Até que tudo se resolva teremos de manter uma aparência de castidade.
Depois, quando terminámos, corados pela boa comida e pelo vinho, ele voltou-se de costas
para atiçar o fogo e disse-me em voz baixa e, com alguma astúcia, penso eu, que há uns
meses atrás Clemente lhe havia dito que se se mantivesse casado com Catarina, ele,
o Papa, conferiria uma dispensa legal, para tornar legítimos os meus

135
bastardos, filhos de Henrique. Não podia acreditar nos meus ouvidos! Ergui-me e preparei-
me para abandonar a sua câmara, antes que o rei me visse chorar de raiva. Mas ele agarrou-
me, já na soleira da porta.
- Ana, ficai. Nunca disse que concordava com tal coisa.
- Então, porque me haveis falado no assunto?
- Porque vos digo tudo!
- Acredito que haveis apreciado a oferta. Manter a rainha. Possuir-me. Legalizar os nossos
bastardos. Continuar amigo do Papa. Sim, Henrique, agrada-vos bastante! - Tentei escapar-
me, porém abraçou-me com força e as lágrimas rolaram-me pelas faces. - Meu Deus, como
fui insensata! Fiquei à espera tanto tempo, entretanto poderia ter arranjado um casamento
vantajoso e ter tido filhos! Posso despedir-me da minha juventude desperdiçada!
O rei inclinou a cabeça, com o queixo trémulo e os olhos húmidos.
- Escutai, Ana. Hei-de casar-me convosco com ou sem o consentimento do Papa.
Ali fiquei, como uma surda que, naquele momento, tivesse recuperado a capacidade de
ouvir.
- Fá-lo-eis?
- Se necessário for.
Fiquei em silêncio, sabendo o que tudo aquilo significava para ele. A excomunhão da
Igreja. Uma guerra santa contra toda a Inglaterra.
- Sabeis que li o vosso livro? - perguntou Henrique, em voz baixa. - A Obediência de um
Cristão, de Tyndale.
- E o que haveis encontrado nele?
- As passagens que marcastes com a unha, para que eu reparasse... li-as várias vezes - olhou
para o lume. - É um livro para ser lido por todos os reis. Diz que estes são responsáveis, não
só pelos corpos, como pelas almas dos seus súbditos.
- Prossegui - pedi eu, já sem lágrimas.
- Sou o rei de Inglaterra e, como tal, em virtude de um antigo direito, sou imperador
absoluto... e Papa, no meu próprio reino.
- Claro que o sois, Henrique! - exclamei. - E se estais de acordo com as ideias desse livro,
tenho outro que podeis examinar.
- De que livro se trata? - perguntou, iluminando-se-lhe os olhos com um brilho igual ao que
mostrara durante a caçada.
- Súplica pelos Mendigos de um tal Simon Fish.
- E que diz?

136
- Que a reforma das igrejas deve ser da responsabilidade do rei e não dos clérigos, pois
estes são cruéis e corruptos e que o Purgatório nada mais é do que uma invenção grosseira,
para extorquir dinheiro aos bons cristãos, pois estes acreditam erradamente que os
sacrifícios monetários podem ajudar os entes queridos presos entre o Céu e o Inferno.
- É um título estranho para um livro.
- Fish escreve, com inteligência, acerca das hordas de mendigos ingleses, criados, segundo
diz, porque o clero lhes rouba o dinheiro que poderiam ganhar com trabalho honesto.
Uma sombra passou pelo rosto de Henrique e pareceu nesse momento transformar-se num
novo Atlas, com o peso do mundo sobre os ombros.
- Essas ideias são certas e verdadeiras, garanto-vos, porém não passam de palavras escritas
no papel por autores que apenas têm de cuidar da sua vida. Não me posso arriscar agora a
uma guerra com toda a Europa católica. Não disponho de um exército suficientemente
numeroso, nem de dinheiro para pagar aos soldados. Toda a Inglaterra sofreria se...
- Bem sei.
- E também, ainda não perdemos em Roma!
- Também o sei.
- Meu Deus, Ana, amo-vos! - exclamou, estreitando-me contra o peito. - Ficai e lutai
comigo, pois conseguiremos a vitória. Sei que assim será!
- Ficarei, Henrique, ficarei - nesse momento, beijei-o e abracei-o. A nossa batalha será
longa e brutal, contudo, esta noite, soube que continuava determinado e, mais importante
ainda, soube que ele vira o caminho que leva à nossa meta, iluminado por uma luz diferente
- uma luz cuja fonte estava longe de Roma e se chamava Lutero.
Afectuosamente vossa,
Ana
27 de Outubro de 1529 Diário,
Que maravilhosa ocasião. O grande cardeal Wolsey caiu do seu pedestal e eu, ”a menina
tola da corte” fui o instrumento da sua

137
destruição. Verdadeiramente foi ele que cavou a própria sepultura, fazendo prevalecer a lei
estrangeira - a do Papa - sobre a do Rei, desafiando assim a lei inglesa de Praemzinire.
Deste modo, numa formosa manhã da passada semana, os duques de Norfolk e de Suffolk
dirigiram-se ao palácio de York e exigiram ao chanceler o Grande Selo do Reino,
destituindo-o do seu cargo e de todas as suas terras e bens mundanos. Com a cabeça baixa e
o rabo entre as gordas pernas, saiu do palácio de York, dentro da sua barcaça pintada,
enquanto era vaiado por pelo menos uma centena de cidadãos de Londres que gritavam dos
seus barcos na esperança que fosse enviado como prisioneiro para a Torre. Porém o seu
destino era outro: o desterro para uma casa fria e distante chamada Esher.
A minha participação consistiu em fazer ver a Henrique que Wolsey não era um amigo,
mas sim quem, muito pelo contrário, tinha sido a causa de muitos problemas e desgraças
para o Rei. Enquanto passeávamos nos jardins de Greenwich, com o vento a fazer rodopiar
as folhas junto aos nossos pés, fiz um sermão a Henrique como se fosse um severo
preceptor.
- O grande empréstimo contraído pelo cardeal para pagar a vossa guerra contra os franceses
- disse eu - endividou todos os súbditos ingleses do reino em pelo menos cinco libras. Mas
o pior foi que os seus erros diplomáticos nos privaram dos nossos aliados franceses e
tornaram inútil toda a subserviência para com o rei Francisco. A Inglaterra perdeu a sua
posição entre as potências europeias.
Henrique assentiu COM UM gesto grave, sabendo que aquilo que eu dizia era verdade, o
que me deu coragem para prosseguir.
- Haveis erguido este sacerdote a uma altura tal que a sua riqueza ascende a um terço do
vosso tesouro, e ele não tem um país para governar com o seu rendimento. Sabeis que
chamam ao vosso cardeal o rei da Europa?
Henrique estremeceu como se lhe tivesse desferido um golpe, pois na sua indignação contra
o velho Wolsey, misturavam-se também a lealdade e o amor, e sofria por ter de se separar
dele. Mas não havia outro remédio. O seu destino estava decidido.
Quando Wolsey saiu do palácio de York, Henrique levou-me até lá, para passarmos revista
aos seus bens confiscados. Era difícil imaginar as riquezas e a quantidade de coisas que
vimos sobre enormes cavaletes e encostadas às paredes. Tapeçarias, dezenas de carpetes,
almofadas, reposteiros, dezasseis camas lavradas de dossel,
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mesas, tronos, arcas, quadros enormes, uma baixela e taças de ouro para servir cem
pessoas, cruzes de ouro e pedrarias, cálices e paramentos.
- São agora vossos, por direito, Henrique - disse eu, olhando para toda aquela riqueza
acumulada. Vi o espanto nos olhos do rei, por possuir agora aquele tesouro.
- E vosso também, Ana - disse. Sorri disfarçadamente.
- Um presente de casamento de Wolsey, não é verdade?
O rei ficou num silêncio triste, pensando talvez nos bons conselhos do cardeal.
- Haveis feito bem, Henrique. Era hora de Wolsey partir.
- Sim. Agora preciso de um chanceler que não seja clérigo. Que pensais da minha escolha
de Thomas More?
Demorei a resposta, pois sabia que o advogado e sábio autor da obra Utopia era amigo de
Henrique. Era um homem respeitado pela sua justeza e muito apreciado na corte e entre o
povo. Mas a sua nomeação fez-me pensar.
É um acérrimo católico e opõe-se ao divórcio - disse eu por fim, É verdade. E insisto para
que siga a sua consciência. Mas não deverá preocupar-se com o meu divórcio, apenas com
assuntos e questões legais. More sempre se mostrou um servidor leal e obediente e apenas
me dá opiniões quando insisto para que o faça.
Recordei o momento em que vira Thomas More pela primeira vez. Encontrava-me na sala
de audiências do rei e, em meu redor, ouvia o arrastar dos vestidos de seda e o tilintar de
pesadas correntes de ouro, contra os pregadores de pedras preciosas. O ar estava
impregnado de perfume francês, proveniente das dobras e folhos de todos os gibões e
corpetes de renda. Depois, por entre este jardim de pavões, surgira uma ave de plumagem
diferente - um homem magro envergando vestes simples, negras e grosseiras. Tinha olhos
doces e expressão amável.
Precedia-o a sua reputação. Amigo de Henrique desde a juventude, seu conselheiro de
muitos anos, estimava Catarina e fora o anfitrião de Erasmo, quando este visitara a
Inglaterra. Era muito amigo da família, casado há muitos anos com Alice More, mulher de
língua afiada, e pai extremoso de uma filha natural e de outra que adoptara, sendo-lhe
ambas muito dedicadas. Não consegui desviar os olhos do seu rosto, imaginando as doces
palavras que aqueles lábios pronunciavam aos ouvidos das filhas. Educava-as com afecto e
oferecia-lhes

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uma boa orientação para esta vida difícil. Tudo o que nunca recebi da parte de meu pai.
Lembrei-me do rosto dele - olhos de aço, boca apertada, dando-me rudes conselhos para a
minha ascensão social. O meu valor era apenas medido por essa bitola... regressei ao
presente e respondi à pergunta que Henrique formulara.
- A veneração de More por Vossa Majestade é admirável e certamente sincera, mas tem
uma família a sustentar e precisa progredir na carreira.
- Questionais os seus motivos? - perguntou Henrique.
- Os motivos, não, mas a propensão para mudar de ideias. Não preconiza, na sua Utopia, a
inflexibilidade para quem cometa adultério ou qualquer outro pecado que tenha a ver com o
sexo? A primeira ofensa seria castigada com a escravatura. A segunda, nada menos que
com a morte.
- É verdade. Mas no seu livro, também prevê que o divórcio seja possível. E julgo que,
com todos os meus argumentos racionais e teológicos, conseguirei que mude de parecer e
que se converta num precioso aliado para a nossa causa.
Rezo para que Henrique não se engane, pois afigura-se-me que teremos de enfrentar uma
luta e uma batalha terríveis.
Afectuosamente vossa,
Ana
2 de Dezembro de 1529 Diário,
Neste dia cinzento e ventoso, vi meu irmão partir para França. Despedimo-nos na praia de
Dover, à sombra do castelo. O vento agitava-me o cabelo e a saia com tal força, que mais
pareciam velas de lona, e apenas o braço forte de George no meu, conseguiu manter os
meus pés em solo inglês. Estava frio, mas sentíamos o calor da nossa afeição. Apertou-me
as mãos trémulas dentro do regalo de raposa, enquanto observávamos os pequenos botes
cortar as ondas carregados com cestos, baús e barris em direcção ao Princess Mary, que se
encontrava ancorado ao largo da costa coberta de espuma.
Falámos de muitas coisas, juntando as cabeças. De como o amor de Henríque por mim
tinha feito subir a posição e a fortuna da nossa família - o meu pai era agora conde de
Wiltshire e de

140
Ormond, George era lorde Rochford e eu, lady Ana Rochford. George fora ainda nomeado
embaixador em França, daí a sua partida para esse país.
Recordámos o grande banquete que Henrique oferecera em Whitehall para celebrar essa
ascensão da nossa família. Foi uma festa magnífica, para onde foram convidados
importantes nobres. George disse que tinha visto a irmã do rei, a duquesa de Suffolk ficar
mais verde que a seda do seu vestido, ao ver-me sentada à direita de Henrique, lugar
reservado a rainhas coroadas. Du Belay, o embaixador francês, observou atentamente todos
os pormenores da festa e George teve oportunidade de ver Eustace Chapuys, novo espião
do imperador na corte (e conselheiro de Catarina) tomar notas num pequeno caderninho
que trazia à cintura. Estou certa de que tudo o que aconteceu terá sido descrito numa carta a
seu amo Carlos, para ser utilizado como arma em proveito de sua tia.
Houve muitas e variadas iguarias nesse banquete - ganso assado, lebre, cordeiro, pombo,
codorniz e veado, bolos de manteiga recheados com frutos de Inverno, enormes
quantidades de vinho doce, imensas tartes de pêra e maçã. Os músicos tocaram durante o
festim. Depois vieram os bobos e novamente os músicos após as mesas terem sido
retiradas. Dançámos, rimos e divertimo-nos até de manhã, quando a luz do sol começou a
entrar pelas janelas do palácio. Foi uma noite tão feliz que houve quem murmurasse que a
festa parecia um banquete de casamento.
Enquanto George e eu nos encontrávamos na praia, chegou um cavalheiro com a esposa e o
seu séquito para fazerem a travessia do canal. O homem era bem parecido, a mulher
formosa e seguiam-nos as criadas e várias filhas. Detiveram-se contra o vento,
estremecendo só de pensar que teriam de realizar a travessia num barco de madeira, sobre o
mar revolto.
- Oh, George - exclamei. - Acabo de ter uma visão do meu passado! Tinha nove anos. Era
alta e muito magra, lembras-te?
- Lembro-me de ti assim. Alegre, de temperamento vivo. Olhos negros. A menina de nosso
pai.
- Não estavas connosco aqui em Dover, no dia em que nossa irmã Mary e eu
acompanhámos a princesa na sua viagem nupcial para França?
- Nessa altura, encontrava-me em Londres.
- Estava um dia parecido com o de hoje, cinzento, frio, com o mar bravo. Estávamos todos
na praia, a olhar para os vários navios

141
ancorados ao largo, aguardando o nosso embarque. Foi nesse dia que vi Henrique pela
primeira vez. Pareceu-me belo como um deus, coroado rei havia pouco, ainda feliz com a
sua esposa espanhola. Viera despedir-se da irmã, que enviara para casar em França com o
velho rei Luís. Vi-o na praia, embora ele não tivesse reparado em mim que não passava de
uma menina magrizela. Nesses tempos, só tinha olhos para a rainha, a orgulhosa Catarina,
grávida, de ventre inchado.
- Recordo-me de Henrique nesses tempos - disse George. - Parecia-me desmesuradamente
grande, como se as suas vestes estivessem a ponto de rebentar de tanta vitalidade e avidez
pelo mundo. A sua infância fora uma espécie de prisão; segundo filho, destinado à igreja,
enclausurado nos austeros aposentos do próprio pai. Bem instruído, mas sem poder falar
senão com os seus preceptores, caminhava sozinho pelos jardins vazios do palácio. Um
jovem isolado. Depois o pai morreu logo a seguir a Artur. Oh, Ana o jovem Henrique
parecia uma borboleta acabada de sair de um casulo, completamente formado, para seguir
uma vida alegre e emocionante. Henrique, o Grande... um cognome apropriado para um rei
maravilhoso. George voltou-se e tomou-me as mãos.
- Há-de casar contigo. Sei que arranjará maneira. Tenciono regressar para presenciar a
coroação de minha irmã.
Nesse momento, surgiu um marinheiro que veio avisar George de que deveria embarcar no
pequeno bote, para chegar ao navio que, ao largo, balançava com o embate das ondas.
Beijei-o, encomendei-o a Deus e deixei-o ir. Subiu a bordo e vi um golpe de vento
arrebatar-lhe o gorro, que afinal conseguiu segurar com a mão. Voltou-se e sorriu de novo,
parecendo de novo, com ar traquinas. O caloroso afecto do seu sorriso percorreu a praia e
envolveu-me como uma capa de lã. Assim protegida, fiquei a ver partir o navio, que em
breve desaparecia na linha do horizonte.
Afectuosamente vossa,
Ana

Nota: Segundo os registos históricos, o príncipe Artur morreu em 1502, cinco meses após o
seu casamento com Catarina de Aragão. Henrique VII, seu pai e pai de Henrique VIII,
morreu em 1509. [N. da T.]

142
25 de Dezembro de 1529 Diário,
Ai que desdita a minha! Escondida nos meus aposentos, oiço o ruído das festividades
natalícias no grande salão de Greenwich celebrações grandiosas e públicas presididas pelo
rei e pela rainha, enquanto que eu estou apenas acompanhada por minha mãe e irmã,
Thomas Cranmer e alguns cortesãos que me são fiéis. George continua em França e meu
pai - que julgo ignorar o significado da palavra lealdade - festeja esta noite ao lado do rei.
Reprovei veementemente Henrique por esta triste decisão, porém declarou-se impotente
para alterar uma antiga tradição.
- Enquanto Catarina for rainha - respondeu - deve manter-se como minha consorte oficial,
durante as festas de Natal e Páscoa. Noutras ocasiões, meu amor, sereis certamente vós a
acompanhar-me. já causámos escândalo por exibir em público o nosso amor, todavia nestes
dias sagrados, os meus súbditos não permitiriam a vossa presença a meu lado e revoltar-se-
iam. Perdoai-me, Ana, peço-vos.
Não perdoei ao rei e, com as lágrimas a correrem-me pelas faces, ordenei-lhe que se
afastasse da minha vista. Agora escuto a música que chega do salão lá de baixo, imagino as
mesas festivas, iluminadas por um milhar de velas, os esplêndidos convidados de Henrique,
as suas jóias, as suas vestes elegantes, a dançar e a rir, com os meus inimigos, encantados
com a minha ausência.
Confessei estas tristezas a minha irmã viúva, que escutou as críticas que fiz a quem me
detesta. Em primeiro lugar, a rainha que, com a sua perseverança e exasperante dignidade,
contém as maquinações de Henrique e recusa-se a tratar-me mal. Mary afirma que Catarina
não acredita que nos casemos e, que se se mantiver firme no seu lugar e nada disser de
ofensivo ou insultuoso, chegará o dia em que recuperará a sua posição no coração do rei
bem como a validade do seu casamento. Diz que a rainha não pode odiar-me, pois a sua fé
católica e amor piedoso não lho permitem.
É bem diferente a atitude da princesa Maria. Tal como eu, minha irmã apercebe-se do
veneno do olhar da jovem. Católica ou não, deseja ver-me morta. E embora Henrique
despreze cada vez mais Catarina, adora a sua bonita filha Maria, agora com treze anos,
inteligente e instruída, a sua Pérola do Mundo. Até que do meu ventre nasça um príncipe,
esta frágil menina continua a ser a única herdeira legítima do Rei.

143
Inimigas de menor importância mas, mesmo assim incómodas, são as aias espanholas de
Catarina. já afirmei de viva voz que gostaria de as ver afogadas no fundo do mar. Mary
perguntou-me se era verdade que eu dissera à aia da Rainha, Maria de Moreto, que preferia
ser enforcada a reconhecer Catarina como minha ama. Confessei que sim, que era verdade e
Maria soltou uma gargalhada que eu acompanhei. Foi bom sentir erguer-se a nuvem
cinzenta do meu coração enquanto arremetíamos contra outros adversários, com gracejos e
troças.
Depois perguntou-me qual era o meu mais fervoroso desejo. Levei algum tempo a
responder. Que Henrique afastasse da corte a rainha Catarina e a princesa Maria, respondi,
por fim.
- Deixa-me dizer-te como poderás obter tal favor do rei. - Inclinou-se mais. - Henrique é
um homem lascivo e nem todos os beijos e carícias deste mundo o contentam.
- É como te digo, minha irmã. Nos seus sonhos sou muito melhor do que poderia ser na
realidade.
- Dá-lhe alguma coisa, Ana, mas mantém a tua virgindade. Adopta a técnica francesa para
o satisfazer... com a boca. Juro que para ele será maravilhoso e que nem conseguirás contar
os presentes e favores que te concederá depois de uma noite de tais carícias.
Senti ferver-me o sangue. Deveria aceitar o conselho de uma concubina usada e desprezada
por Henrique?
- Queres ensinar-me estratégias de amor, quando estou a um passo da coroa de Inglaterra?
- Oh, faz como quiseres, minha irmã. Mas essa coroa está ainda firme sobre a cabeça de
Catarina, que não desistirá dela assim com tanta facilidade.
- Henrique ama-me!
- Henrique é caprichoso.
Tive desejos de lhe esbofetear o belo rosto; contive-me, porém. Embora acredite piamente
nas boas intenções do rei, sinto-me abandonada e afastada durante as festividades do Natal.
Meu Deus, rezo para que minha irmã se engane e que, no próximo Natal eu já seja rainha.
Afectuosamente vossa,
Ana

144
9 de Junho de 1530 Diário,
Estou muito satisfeita por nos últimos tempos estar a ser instruída nas artes da intriga e da
política. Os meus professores - Norfolk, Suffolk, Thomas More e lorde Wiltshire, meu pai,
são os maiores artistas deste mundo. Observo-os atentamente, enquanto tecem, com fios
dourados, juntamente com o rei, a bela tapeçaria de feudos, súbditos, guerras e impostos; a
seguir bordam-na com elegante diplomacia e leis e embainham-na com o fio que são os
nobres e os guerreiros fiéis.
Fui mandada chamar por um tal mestre Cromwell, secretário do cardeal Wolsey e essa
audiência deixou-me intrigada. Aquele homenzinho, vestido de negro, como os advogados,
de olhos vivos, nariz pontiagudo, boca pequena numa cara redonda, vinha pedir-me, em
nome do seu ainda banido e desterrado amo, um gesto amável da minha parte e da de
Henrique. Enquanto se referia a Wolsey, muito doente de hidropisia, desesperado e com
extrema necessidade de conforto, tive a sensação de que havia naquele homem uma
segunda intenção. Nada nas suas palavras me faria suspeitar da sua deslealdade. Apenas um
certo brilho nos seus olhos inteligentes, um meio sorriso nos lábios, que falavam de outros
objectivos e esquemas. Talvez que este filho de um fabricante de cerveja, que tanto subira
na vida, sentisse admiração pela jovem que transformara o outrora poderoso cardeal num
pobre suplicante.
Este estranho homem provocou a minha curiosidade, de tão seguro e confiante. Todavia
evitei interrogá-lo e, com fingida generosidade, entreguei-lhe um pequeno presente para
Wolsey - um caderninho dourado que trazia à cintura e onde escrevi algumas palavras de
consolo e louvor. Ele agradeceu humildemente, fez uma profunda reverência e retirou-se.
Pressinto que Thomas Cromwell fará parte do meu futuro. Decerto que o tempo o dirá.
Neste seu apaixonado apego à minha pessoa, o rei delineou uma interessante estratégia para
solicitar o divórcio. O novo capelão da minha família, Thomas Cranmer, homem afável e
bondoso, vindo de Cambridge, sugeriu ousadamente que Henrique não necessitava da
aprovação de Roma, apenas da opinião de vários teólogos europeus que opinassem se o
Papa agira bem ou não ao conferir ao rei uma dispensa para se casar com a viúva do irmão.
Estes poderiam

145
mesmo julgar o caso. Esta ideia tão simples teve o efeito de uma bomba sobre a cabeça do
rei.
Impressionado com a opinião do seu clérigo, Henrique declarou que Cranmer tinha toda a
razão e, sem demora, enviou emissários a todas as universidades da Europa, com os bolsos
cheios de ouro. A finalidade seria guiar o espírito dos eruditos em direito canónico e ajudá-
los a ver a lógica do seu divórcio, para que dessem um parecer favorável sobre esta questão.
Daqui retiro a lição de que, para obter determinados fins, não importam os meios utilizados.
E o nosso futuro casamento é causa bastante para todo o tipo de intrigas maquiavélicas.
Contudo, isto causou grande confusão. O povo nas cidades e campos despreza os
sacerdotes e bispos ingleses, de modo que quando esses mesmos clérigos defendem nos
seus púlpitos o direito de Henrique se divorciar de Catarina e da regra de Roma, insultam-
nos e mostram-se ofendidos. O próprio Henrique vacila nas questões heréticas. Furioso com
o tratado de Tyndale que crucificava Wolsey e condenava o seu divórcio, ofereceu
subitamente a este autor um lugar no Conselho Real, na condição de que se retratasse em
público!
Por vezes, parece-me que o mundo enlouqueceu e eu com ele. Porém, se queremos atingir a
nossa meta, devo continuar firme nos meus propósitos e apoiar Henrique.
Afectuosamente vossa,
Ana

1 de Dezembro de 1530 Diário,


T Carlis Ebor morreu. Não decapitado conforme ordem dada por Henrique, mas de vulgar
disenteria a caminho da Torre de Londres. Receei que a batalha final de Wolsey pela
estima de Henrique obtivesse nova vitória porque, ultimamente, o rei se tem mostrado
insatisfeito com os seus conselheiros Wiltshire, Suffolk e Norfolk, lamentando que o
cardeal fosse um homem muito melhor do que todos eles juntos. Devolvera-lhe as terras,
deixara-o continuar arcebispo de York e fizera-lhe um pequeno presente de três mil libras.
Fiquei muito preocupada. E se Henrique reincorporasse esse prelado

146
no seu Conselho? Wolsey continuava a odiar-me. Nas últimas semanas, vim a saber através
de certos espiões, que, durante a sua ausência da corte, o cardeal se correspondia
traiçoeiramente com o Papa e tinha aprovado um édito para me obrigar a separar do rei.
O duque de Norfolk, sem dúvida com interesses egoístas, que coincidiam com os meus
desejos, arrancou ao doutor Goatini a declaração de que o cardeal pedira ao Papa a
excomunhão de Henrique, a menos que este me expulsasse da corte. Pior ainda, o cardeal
preparava um enorme levantamento, para ele próprio conseguir as rédeas do governo. No
Parlamento o novo chanceler, Thomas More, falou com rancor de Wolsey, o ”eunuco”
caído em desgraça, e da necessidade do rei eliminar do seu rebanho os homens imperfeitos
e corruptos. Os meus ruidosos protestos juntamente com a declaração de More e a
informação de Norfolk não puderam deixar de ser ignorados. Com expressão impenetrável,
silencioso, sem dúvida com o coração partido, Henrique assinou uma ordem para a rápida
prisão do cardeal Wolsey.
Como faltava decidir quem executaria essa ordem e poucos se mostravam com coragem
para tal tarefa, fui eu própria que designei a pessoa. E a minha escolha recaiu, nada mais,
nada menos, do que sobre Henry Percy, lorde Northumberland. Oh, que doce vingança!
Quem me dera ter sido uma mosca poisada, nessa noite, numa parede da casa do cardeal -
justamente na véspera do dia em que ele esperava ser reconduzido no bispado de York.
Afinal, viu Percy entrar-lhe na sala de jantar e dizer estas palavras: ”Meu senhor, venho
prender-vos, pois sois acusado de alta traição.”
Depois, sob pesada escolta armada, e com muito mau tempo, enquanto era conduzido para
sul, para a sua inevitável execução, sentiu-se indisposto e caiu. O cardeal Wolsey morreu
na Abadia de Leicester, muito mais em paz do que eu esperava, privando os meus olhos do
seu humilhante fim.
Afectuosamente vossa,
Ana
7 de Fevereiro de 1531 Diário,
Deus abençoe o mestre Cromwell. Em estreita e clandestina relação com Sua Majestade -
tem um aposento no palácio de Greenwich,

147
a que o rei tem acesso secreto - delineou um plano tão ousado, brilhante e extraordinário
que já se avista o fim da ”grande questão” do rei. Só um espírito brilhante poderia conceber
a consagração de Henrique como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra!
No sínodo de Cantuária, Cromwell falou diante dos clérigos reunidos, fazendo notar que os
sacerdotes ingleses conferem toda a autoridade a uma potência estrangeira - o Papa.
Depois, esgrimindo este facto com uma mão e o terror com a outra, acusou todos os
clérigos da ilha de faltarem à lei de Praemlinire, o mesmo crime de traição que ocasionara
a queda de Wolsey, Finalmente exigiu que pagassem um preço, por assim dizer um resgate,
para obterem o perdão do rei! Cromwell afirma que quando se quebrar a espinha dorsal da
Igreja, o Santo Padre cairá do seu trono e Henrique passará a ser o Vigário de Cristo em
Inglaterra e poderá então ordenar o prelado mais importante do país - o Arcebispo de
Cantuária - que lhe concederá o divórcio. Depois, contrairemos matrimónio. Pois bem, foi
enorme a celeuma daquela comunicação. Horrorizados, mas engolindo a sua raiva, os
bispos tentaram em vão chegar a uma conclusão menos drástica do que declarar Henrique
Protector e Chefe Supremo da Igreja e do Clero em Inglaterra!
O lorde-chanceler More ficou lívido. Porém mostrou-se impotente no seu novo cargo que
dantes o velho Wolsey manobrava como um garrote. Tal como já antes dissera a Henrique,
More não alterou a sua posição acerca do divórcio real, mantendo-se firmemente contra.
Porém, Thomas More não passa de um títere do rei, demasiado bondoso e flexível para ir
contra a sua vontade. Nas suas funções, este homem tão dedicado à família, com princípios
supostamente elevados, tem perseguido impiedosamente os hereges. Afirma que os
descrentes nada mais merecem que a exterminação e mostra-se simplesmente intolerante.
Os seus escritos constantes sobre a questão desagradam ao rei e com toda a razão. Como se
fosse pouco, aos cidadãos encontrados a ler a Prática dos Prelados de Tyndale, atam-lhes
essa obra ao pescoço com uma corda e obrigam-nos a desfilar pelas ruas de Londres, para
depois queimarem os livros em grandes piras. já mandou chicotear e torturar homens e
mulheres, ameaçando lançá-los também à fogueira.
Insensível ao incómodo do seu chanceler, o rei ordenou a More que fizesse um discurso na
Câmara dos Lordes e a seguir na Câmara dos Comuns, defendendo perante elas os motivos
de Henrique para se divorciar de Catarina. Angustiado e humilhado, More argumentou

148
que o seu Rei não agia por amor a uma dama, como alguns diziam, mas puramente por
problemas de consciência e escrúpulos. More deve ter-se sentido sufocado por ter
pronunciado mentiras tão amargas.
Espanta-me esta histórica decisão de Henrique, pois foi só por mim que arrebatou o chapéu
ao Papa e o colocou sobre a sua coroa. Tremo só de pensar... mas também sorrio. Sou
Afectuosamente vossa,
Ana
149
Espero ter descoberto o que Vossa Majestade deseja - disse o mordomo-mor Francis
Knollys, por sobre o ruidoso entrechocar das pesadas chaves na corrente que tinha
pendurada à sua fina cintura.
O primo de Isabel tinha pernas compridas e era uns centímetros mais alto que a rainha, mas
mesmo assim era-lhe difícil acertar o passo pelo dela enquanto atravessavam a longa
galeria do castelo de Greenwich.
- Minha mãe foi uma das aias da vossa mãe até quase ao fim da vida - declarou. - Segundo
me disse, era perigoso mostrar simpatia pela rainha Ana e a maior parte dos seus pertences
foram dispersos ou destruídos logo após a sua morte.
Isabel sentiu uma sensação dolorosa invadir-lhe o corpo ao pensar naquela mulher, outrora
tão amada pelo esposo, cuja memória fora tão rápida e rudemente esquecida. Era-lhe
estranho e até incómodo falar abertamente da mãe, condenada por alta traição, cujo nome
mal pronunciara nos seus vinte e cinco anos. Porém KnoIlys, seu parente por parte dos
Bolena, parecia não ter escrúpulos em falar do assunto.
- O nosso amigo Thomas Wyatt, Deus tenha a sua alma em descanso, sempre disse que o
pai estivera apaixonado por Ana Bolena. Escrevia-lhe versos e o rei tinha ciúmes. Foi-lhe
fiel até ao dia em que ela morreu.
Fora o mesmo Wyatt que, não só oferecera o diário a sua mãe, como lhe instilara confiança
para nele escrever; tinha também defrontado muitas vezes a ira do rei, mas conseguira viver
a sua vida e morrer de morte natural. O filho, do mesmo nome, protestante patriota, morrera
havia alguns anos sob o machado do carrasco depois de conduzir uma revolta contra o
facto da rainha Maria ter escolhido um noivo espanhol.
- Pronto, Majestade - KnoIlys deteve-se ao fundo do corredor, junto a uma porta de madeira
trabalhada enquanto escolhia, entre as muitas

150
chaves que trazia à cinta, aquela que servia na fechadura ferrugenta
- Não há aqui muita coisa, contudo, julgo que tudo isto pertenceu à rainha.
Abriu de par em par a porta de um quarto que pouco maior era que um armário e que
deveria ter servido de aposento privado a alguma aia ou cortesão. Knollys afastou uma
pesada tapeçaria, para revelar uma janela suja. O pó rodopiava pelas fitas de luz, que
conseguiam a muito custo entrar através do vidro.
- Desejais que vos traga um archote?
- Não, não. Abri a janela. Será suficiente.
Com enorme rangido abriu a vidraça e o quarto encheu-se com a luz da manhã.
- Obrigada, Francis, estou-vos muito grata. Podeis retirar-vos.
- Majestade - Knollys inclinou-se com as pernas rígidas e saiu, fechando a porta atrás de si
e sem fazer ruído. Isabel viu-se por fim sozinha, com tudo o que restava de sua mãe e olhou
com avidez para tudo o que a rodeava - aqui uma almofada bordada, ali uma tapeçaria
antiga, descuidadamente dobrada, um par de castiçais de bronze, um crucifixo, uma
campainha de vidro veneziano ja rachada.
Isabel abriu o armário. No seu interior pendia um vestido já desbotado, com enfeites
vermelhos e cor-de-laranja, cuja estreita cintura e corpete davam crédito aos rumores acerca
da figura de Ana Bolena. As mangas estavam amarrotadas no fundo do armário, com as
fitas de seda ainda passadas nas ilhós. Isabel ergueu uma delas e reparou na pequena pala
pontiaguda, para tapar o pequeno dedo, próximo do pulso esquerdo. A mãe inspirara aquela
moda para esconder aquele diminuto apêndice de carne e unha, a sua ”marca de bruxa”.
Isabel encostou a manga ao rosto. Inspirou profundamente, pois os anos haviam disfarçado
os odores. Porém restava um doce perfume, juntamente com o cheiro de um corpo humano,
uma mistura de essências e almíscar. Sua mãe. Sim. Era-lhe tão distante e, ao mesmo
tempo, tão familiar. Fechou os olhos e tentou recordar-lhe o rosto, porém apenas via uma
luz ofuscante, a recordação de um riso alegre e partes de uma canção de embalar, francesa,
cantados numa voz bem modulada.
A rainha fixou a seguir o olhar no catre baixo, agora desprovido de colchão, onde estavam
empilhadas várias caixas e um enorme baú pintado, ao estilo italiano. Abriu-o e descobriu
uma nuvem de traças mortas e uma mistura de objectos que mostrava bem a pressa com que
tinham sido guardados. Havia um cesto com sapatos de salto, um par de cetim verde,
debruado a renda, um de brocado de ouro e outro de veludo negro

151
com borlas prateadas. Em todos eles havia a marca do pé esguio de Ana, marca essa de que
a rainha tinha dificuldade em afastar o olhar.
Porém havia mais. Envolvida num pano fino encontrava-se um regalo de raposa vermelha,
quase comido pelas traças e uma caixa de prata para cosméticos - um pó branco,
fantasmagórico que havia muito, perdera o perfume, um boião de vermelhão, para dar cor
às faces, frascos de loções agora duras e rachadas. Em pequenos sacos, atados com fitas,
poções de ervas e preparados medicinais, já transformados em pó. A miniatura de um belo
homem, emoldurada a pérolas, talvez seu tio George. Encontrou, cuidadosamente dobrada,
a libré de um dos criados de Ana uma jaqueta de veludo púrpura e azul, com as palavras La
Plus Hereuse, ”a mais feliz”, bordadas no peito.
Isabel fechou o baú com uma pancada seca, enviando outra nuvem de pó para a sua dança
rodopiante à luz do sol e abriu uma das caixas de madeira. Livros. Os livros de Ana. Isabel
sabia que eram preciosos, pois tinham formado a substância da inteligência e das crenças de
sua mãe. A rainha pegou num deles e leu o título gravado a ouro sobre a capa de pele: A
Nobre Arte da Montaria e Caça. Lá estavam os muito folheados Contos de Cantuária, de
Chaucer, vários livros de cavalaria, vários livros de poesia francesa. Encontrou um volume
enorme de desenhos de todas as flores e árvores inglesas e outro de plantas medicinais com
as suas utilizações. E ainda outro de capa cor de vinho e com ar de ter tido muito uso:
tratava-se da obra de Tyndale Obediência de um Cristão, que sua mãe oferecera a seu pai
para que o rei pudesse ler e tomar conhecimento dos princípios da nova religião. Isabel
abriu o livro com todo o cuidado, voltando as páginas do mesmo modo que imaginava
terem-no feito seus pais. Deteve-se, atraída por um sulco quase invisível, que sublinhava
uma passagem da página setenta e um. Falava do dever de Henrique cuidar das almas dos
seus súbditos. Era o texto que Ana marcara com a unha para que Henrique o lesse com
atenção.
A nova religião. Quantos não tinham morrido, pensou Isabel, só pelo direito de acreditar
que um homem podia falar directamente com Deus, escolhendo o raciocínio à fé. Se a
Reforma tivesse sido um caminho, este teria começado às portas da cidade Wittenberg, a
cidade de Lutero, estendendo-se por todo o continente, ramificando-se por todas as cidades
e aldeias. Lutero, Calvino, Zwingli, como grandes generais, haviam conduzido exércitos de
convertidos pela estrada cheia de mártires sem vida, até uma revolução que mudara para
sempre a história do mundo.
E, em Inglaterra, pensava Isabel, passando o dedo pela passagem marcada do livro de
Tyndale, uma jovem plebeia, tinha, para espanto dos

152
fiéis, afastado de Roma o seu rei, profundamente católico, que assumira a independência da
religião. Claro que fora um caminho sinuoso e difícil para os ingleses. Henrique, outrora o
soberano mais estimado pelo Papa, estava longe de ser um zeloso reformador. De facto,
manteve-se um católico fiel até à morte, em todos os aspectos, excepto em um - a sua
descrença na supremacia do Papa. Não fora a cega paixão por sua mãe, pensou Isabel, e a
necessidade política de um herdeiro varão que ela lhe prometera e a Inglaterra teria
continuado esmagada pelas garras da autoridade papal.
A insistência de seu pai em que o casamento com a viúva do irmão fora uma blasfémia aos
olhos de Deus, não dava direito aos ingleses de lerem as Escrituras na sua própria língua.
Embora Henrique tivesse ele próprio tido conhecimento das obras de Tyndale, condenava
do fundo do coração a tradução que esse autor fizera da Bíblia. Isabel recordava-se que o
seu preceptor lhe contara que o pai tinha acusado Tyndale de traição simplesmente por ter
tentado imprimir a sua Bíblia em Inglaterra e de como os agentes reais o tinham perseguido
implacavelmente quando fugiu para a Europa em busca de um editor. Por fim, no ano em
que Henrique se apresentou perante o sínodo de Cantuária e se declarou Chefe Supremo da
Igreja de Inglaterra, enfrentando a sua própria excomunhão, ordenou a execução de
Tyndale como herege. O homem que tinha dito a um amigo católico: ”Se Deus mo
permitir, não hão-de passar muitos anos até que consiga que o simples rapazinho que
conduz o arado saiba mais que vós acerca das Escrituras”, foi publicamente afastado e
queimado enquanto gritava: ”Que Deus abra os olhos do rei de Inglaterra!”
Quando Henrique morrera, agarrado à mão de Thomas Cranmer, seu grande amigo, o rei-
menino Eduardo VI, meio-irmão de Isabel, ocupara o trono e conduzira a Inglaterra para o
seu primeiro compromisso com o protestantismo fanático e opressor. Contudo, Isabel tinha
conhecimento de que os sequazes de Eduardo haviam saqueado as igrejas, não tanto para as
despirem dos sagrados símbolos católicos, como para retirarem todo o ouro e prata dos
altares e assim enriquecerem o desprovido tesouro real.
Mais tarde, durante o reinado de sua irmã Maria, a contra-revolução não passara de outro
pesadelo. Os laços com Roma foram restabelecidos, a Reforma apenas sobrevivera na
clandestinidade, milhares de hereges protestantes foram mortos, incluindo Thomas
Cranmer e a vida da própria Isabel correra sérios riscos. Obrigada a assistir à missa para se
fingir crente, rezara todos os dias a Jesus para ter forças para continuar e um dia poder
restaurar o verdadeiro destino da sua nação. Uma vez no trono, Isabel cumprira as suas
intenções, sem derramamento de sangue.

153
Mesmo assim, a religião era uma questão complicada, pensava Isabel enquanto voltava as
páginas da obra Loucura de Tyndale. Mesmo ela, com a sua postura moderada e
indulgente, acreditava que os sacerdotes deviam manter-se celibatários. Como poderiam
atender com dedicação e honestidade à obra de Deus, mantendo ao mesmo tempo uma
mulher na cama e filhos para criar. E tinha de admitir que a sua natureza dramática
apreciava os grandes rituais, a música e os ricos paramentos da antiga fé. Era uma questão,
concluiu Isabel, enquanto fechava o livro e o metia entre as dobras da sua saia, tão profunda
e complicada como a alma das pessoas, uma questão que se manteria sujeita a mudanças
durante todo o seu reinado e pelo futuro de Inglaterra. Porém, sentia grande prazer e agrado
em saber que os importantes acontecimentos na Igreja e no Estado, embora não tivessem
tido origem em Ana e Henrique haviam pelo menos tido os seus mais importantes pontos
de viragem em redor de seus pais.
Isabel fechou a caixa de madeira e a janela e, com um sorriso satisfeito, saiu do quarto
cheio de recordações de sua mãe, tencionando lá voltar num outro dia.
15 de Agosto de 1531 Diário,
Acusam-me de arrogância e astúcia. Mas, dizei-me, qual a mulher que vive e respira que
consegue resistir a ser um pouco arrogante, quando, por sua causa, o próprio rei e Inglaterra
expulsa da corte a sua esposa e rainha? Louvado seja Jesus por ter permitido que tal tenha
finalmente acontecido. Em todos os palácios de Henrique, lady Ana de Rochford ocupa
agora os aposentos que foram de Catarina. Como é agradável não sentir os seus olhares
gelados, não ver a sua expressão austera, nem ter de suportar em todos os dias festivos, a
sua imponente presença pública e ar piedoso. O rei sente-se aliviado por ter derrubado
Catarina do seu trono, sem que se ouvisse falar de qualquer castigo ou excomunhão de
Roma.
A princesa Maria foi também afastada da corte e Henrique obrigou-a a uma separação
da mãe que julgo excessiva e mesmo cruel. Porém, Henrique diz, e com alguma razão que,
juntas, são fortes e podem fomentar uma conspiração e talvez mesmo um levantamento
contra nós.

154
E que mulher carente de astúcia conseguiria presidir com o rei e o embaixador de França na
mesa principal do banquete, acima de seu pai e dos duques de Norfolk e Suffolk, sendo o
centro das negociações para a obtenção da sua própria mão. Suponho que sim, que sou
astuta. Mas não procurei este caminho estranho e perigoso. Era apenas uma simples jovem
que amava um simples rapaz. Mas depois de me haverem arrebatado esse amor e com a
presença de Henrique, tenho de confessar que mudei, endureci, granjeei inimigos e aprendi
uma forma de guerra cortês em que talvez uma alma mais sensível se sentiria ferida e
acabaria por morrer.
Mas eu, não. Não, eu não. Uma vez iniciada, esta árdua batalha pela coroa de Inglaterra não
poderá ter senão um desfecho. Serei rainha. Os que lutam a meu lado serão bem
recompensados. Os que se opõem, vão desejar nunca o ter feito.
Nos últimos dias, o rei parece um enorme touro bravo, que avista no horizonte verdes
pastagens e para lá se encaminha, pisando tudo o que se encontra no caminho, apesar dos
perigosos obstáculos. Infelizmente, não sinto ainda por Henrique um amor profundo.
Porém, acredito que algo muito parecido já se forma no meu peito.
Seria uma mulher fria se não me sentisse comovida pela sua afeição. Julgo que em breve
conseguirei amá-lo.
Afectuosamente vossa,
Ana
29 de Setembro de 1531
Oh, diário!
O facto de vos escrever hoje e em qualquer outra ocasião, devo-o à boa sorte e a lealdade
de uma ajudante de cozinha chamada Margaret. Depois de se ausentar para visitar o irmão
doente no sul de Londres, voltou à casa de Durham que meu pai possui perto do rio e
encontrou nas ruas uma concentração pouco vulgar de pessoas. Dessas casas e cabanas as
mulheres que me odeiam e adoram a rainha lançaram gritos contra a minha pessoa. Eram
centenas, ou melhor, milhares que se haviam reunido, empunhando vassouras, facas e paus
que brandiam no ar como se me quisessem atingir no peito ou na cabeça. ”Não queremos
Nan Bolena. Vamos matar a rameira de olhos esbugalhados”, gritavam.

155
minha serviçal disse que tremera de medo e tivera até de soltar impropérios contra mim,
temendo pela sua vida. Ao dirigir-se para casa, a multidão - pois era no que se tinha
transformado aumentara. Ao grande número de mulheres, tinham-se juntado vários homens
com trajes femininos e empunhando armas assassinas. E, por entre a multidão, correu o
rumor de que eu me encontrava na residência de Durham.
Margaret desejava poder correr até aqui com a notícia, mas receou que as suas acções se
tornassem suspeitas para a multidão em fúria e portanto, viu-se obrigada a procurar um
atalho para conseguir chegar a casa de meu pai antes de toda a multidão assassina.
O dia estava quente e eu encontrava-me com minha mãe no quarto onde as costureiras me
provavam alguns vestidos para a corte. Meu pai encontrava-se em França e Henrique, na
caça, estava também distante quando Margaret, vermelha e a suar, ofegante como um cão,
entrou de rompante para trazer as novidades.
- Peço perdão lady Rochford, mas uma enorme multidão dirige-se para cá, com intenção de
vos fazer mal!
Minha mãe olhou-me nos olhos.
- Ide-vos - disse às costureiras e a Margaret. - Dizei aos outros criados que deixem
imediatamente o trabalho e partam. Todos, excepto mestre Richardson. Dizei-lhe que
iremos ter com ele na porta que dá para o rio.
Envergonho-me de dizer que me senti paralisada de medo e que apenas tive presença de
espírito para agarrar no diário, escondê-lo nas minhas saias, antes que a mão segura de
minha mãe me conduzisse pelas escadas, entregando-nos aos cuidados do criado.
Richardson era um homem forte e calmo e, com uma rapidez de que mal me apercebi,
levou-nos pelo enorme relvado até um pequeno barco que balançava no ancoradouro.
Depois, ouvi o som trazido pelo vento. Um som que me pareceu familiar, mas não consegui
reconhecer. Parei para escutar e, com os pés firmes na relva, tentei lembrar-me.
Minha mãe chamava-me: ”Ana, vem depressa!” Percebi então de que se tratava. Era o ruído
de vozes, de muitas vozes e os seus gritos pareciam terríveis quando chamavam pelo meu
nome, entrechocando armas, batendo com as botas no chão, aproximando-se, cada vez
mais...
Richardson agarrou-me pelo braço e puxou-me para o barco, onde minha mãe me recebeu
com os olhos aterrorizados. Ao afastarmo-nos

156
ouvimos vidros que se partiam, e paus a bater em pedra: avistámos a multidão a invadir a
casa de meu pai, gente horrível que saía pelas portas das traseiras para o relvado que dava
para o rio. Eram mulheres furiosas que corriam para a margem com o rosto afogueado,
brandindo vassouras e paus, soltando impropérios, desejando que o barco se voltasse na
esperança de que eu morresse afogada.
Agora estou alojada em Greenwich e escrevo com mão trémula, à luz da vela. Não sou
perfeita, mas juro que não mereço tanto mal. Peço a Deus que me proteja e veja o meu lado
bom.
Afectuosamente vossa,
Ana

14 de Maio de 1532
Diário,
O rei e Cromwell travam uma terrível batalha contra o clero inglês e Thomas More, que o
apoiou, foi derrotado. Henrique mostrou o seu desagrado pela lealdade da igreja a Roma
que tem redundado em prejuízo da fidelidade a Inglaterra e à coroa. Assim, segundo as
normas tradicionais, o Papa era o verdadeiro rei e Henrique não passava de um peão. Os
bispos Tunstall e Fisher defenderam com toda a veemência essas antigas leis, o que
enfureceu Henrique. Apesar da preocupação que sentia para que os súbditos considerassem
sagradas as leis da Igreja, e temendo que se passasse o mesmo que nos tempos de Thomas
Becket, Henrique e Cromwell apresentaram o caso no Parlamento; os lordes apoiaram a
causa. Na sua Súplica contra os Tribunais Ordinários, o Parlamento recusou os
julgamentos eclesiásticos e o direito canónico que, redigido em latim, impunha severas
medidas aos Ingleses, sem que o pudessem contestar.
Por decreto canónico, no julgamento contra um acusado de heresia, crime punido com a
pena de morte, podem servir de testemunhas pessoas más e desonestas que podiam
desejar-lhe mal, enquanto que nos tribunais comuns as testemunhas têm de provar a sua
honestidade e boas intenções antes de falarem contra o acusado. O próprio More, chanceler
do reino, católico fervoroso como há poucos, apoia estas normas injustas nos seus escritos,
afirmando que a heresia é um crime tão mau que nenhuma lei é dura demais se for eficaz

157
para eliminar os que a cometem, pois as almas são muito mais importantes que o direito
civil.
Com efeito, More parece provocar não só a oposição ao modo de Henrique agir contra a
Igreja, mas também contra o divórcio real. Não se aperceberá que a ira do Rei equivale à
morte?
Cromwell e Henrique assediaram com intimidações e ameaças os pusilânimes e fracos
clérigos, assustados com a perspectiva de ficarem sem as suas terras. Pouco dispostos a
servir de mártires renderam-se mais uma vez à vontade do rei. Os cobardes prelados
passaram para as mãos de Henrique um documento intitulado A Submissão do Clero. O rei
aceitou-o avidamente. Supõe uma enorme mudança dentro da igreja e concede à coroa as
suas antigas prerrogativas e autoridade. A partir de agora não se podem fazer leis sem o
consentimento real e o sínodo não pode reunir-se sem autorização do rei.
Foi um grande dia para o rei, para Cromwell e também para mim, pois pondo fim ao poder
da Igreja de Roma, Henrique está mais próximo de conseguir o divórcio e eu de chegar ao
trono. No dia seguinte à entrega de A Submissão do Clero, no palácio de York, o
chanceler More, completamente derrotado, devolveu a Henrique o Grande Selo do Reino,
resignou das suas funções e retirou-se do cargo. Henrique, agora senhor absoluto do seu
reino e da igreja, aceitou.
Afectuosamente vossa,
Ana
20 de Agosto de 1532 Diário,
Alguma mulher poderá gabar-se de ter mais e mais ferozes inimigos do que eu? Homens do
povo e nobres, mulheres, jovens, velhos, clérigos e até crianças. Um dia da última semana,
enquanto andava a cavalo com Henrique, um rapazinho com menos de dez anos saiu ao
caminho das nossas montadas gritando insultos à ”rameira do rei” para logo desaparecer
por entre os altos arbustos. Henrique fez tenções de o mandar capturar, porém pedi-lhe
clemência. Era demasiado jovem para conhecer o peso das suas palavras ou as
consequências, comentou Henrique, mas há-de detestar-me quando eu for rainha. Porém, a
meu pedido deixou ir a criança.

158
Muito mais me perturba a duquesa de Suffolk, irmã de Henrique que, sem dúvida se
recorda de mim, quando eu não passava de uma menina pequena, irmã da sua aia, quando
há muitos anos partiu para França, para se casar com o velho rei Luís. Agora o irmão quer
desposar-me, erguer-me acima dela, fazer de mim a sua rainha. Despreza-me abertamente e
os seus insultos outra coisa não são que ciúmes. Foi rainha de França durante três curtos
meses e, logo a seguir, casou em segredo e por amor com Charles Brandon, o melhor amigo
de Henrique. Agora a paixão transformou-se em azedume. Ele trata-a com brutalidade e
desprezo e considera-a propriedade sua.
Contudo minha tia a mal-humorada lady Norfolk, tem mostrado ultimamente um ódio ainda
mais desprezível à minha pessoa, mostrando-se muito ofendida com a minha subida de
posição. É verdade que a linhagem que Henrique encomendou para a família Bolena é tudo
menos verdadeira. As raízes da ricamente ornamentada e colorida árvore genealógica não
passam de mentiras. O meu mais antigo antepassado era um tal Geoffrey Bolena, mercador
de lã, chegado a solo inglês há cem anos atrás, e não, conforme afirmam os heráldicos de
Henrique, um lorde normando aportado à ilha quinhentos anos antes. Porém, apesar dos
meus avisos e súplicas, sabendo bem que estas invenções apenas haveriam de contrariar os
nobres verdadeiramente puros, Henrique insistiu na mentira e exibiu orgulhosamente o
documento nos salões da corte. A maioria das damas, ocultando-se por detrás dos seus
leques, murmurou, troçando de mim com crueldade. Mas não a duquesa de Norfolk. Essa
avançou, Majestosa, na minha direcção, olhou para o documento, pegou nele e rasgou-o em
dois!
Não admira que a saúde de Henrique se esteja a ressentir. Acabou de fazer quarenta anos e
mostra bem a idade que tem, no rosto e no corpo, pois engordou substancialmente. As
faces, outrora juvenis, são agora uma máscara de tristeza. Uma enorme úlcera purulenta na
coxa causa-lhe dores insuportáveis. Tem constantemente dores de cabeça. Mal consegue
montar.
Tentei tratar dele. Consultei boticários, e mulheres com fama de bruxas para poder curar
os seus males. Por alguns dias, uma poção de calêndula e olmo melhorou bastante a ferida
da perna, porém, já se mostra de novo ensanguentada e com muito mau cheiro. Quando
geme devido às dores de cabeça, massajo-lhe as frontes e a testa. ”Ah, Nan, que dedos tão
frescos, que mãos tão suaves!” exclama, queixoso. Nestes momentos, em que o tenho preso
a mim, sinto verdadeiro

159
afecto por ele. Para falar verdade, receio-o, demasiado para o poder amar de todo o
coração, tal como amei o meu doce Percy. Quem me ouvir fustigar o rei com palavras
ásperas, não imagina o medo que sinto quando se aproxima. Conheço as suas capacidades,
o fogo interior que se transforma em loucura. Vejo o campo de batalha que é a sua alma, os
aterrorizados demónios na sua cabeça em combate perpétuo contra os anjos da sua
inteligência, da razão e da poesia. Apenas Wolsey conhecia bem o rei... e está morto.
Os outros vêem apenas a imagem que ele deseja apresentar, magnífico no seu gibão aberto,
de ombros largos, coberto de sedas escarlates, peles e ouro, qual Poseidón fazendo
estremecer a terra, provocando tempestades. Quer ser temido por todos e, quando sente que
assim é, despreza-os. Assusta-me este rei louco, porém tenho de disfarçar o medo com
provocantes gargalhadas e palavras semelhantes às suas. Ele não se apercebe da minha
primorosa representação e pensa que, exceptuando a ausência de sangue real, sou sua igual.
Talvez sejamos parecidos, como um veado o é de quem o persegue, o cavalo e o cão, até à
sua morte. Contudo sei que esta igualdade é a causa do amor que sente por mim e, que se
necessário for, removerá as sete colinas de Roma para me fazer sua rainha.
Afectuosamente vossa,
Ana
2 de Setembro de 1532 Diário,
Pensei ter, em cartas passadas, catalogado todos os meus inimigos. Contudo, chegou um de
tão longe (e talvez de tão baixo) que mesmo eu fui apanhada de surpresa. Henrique deixou
bem claro a todos que nos casaremos e aqueles que não o desejam tentam, por todos os
meios impedir-nos o caminho. Uns argumentam que o casamento do rei com a rainha é
legítimo e não pode ser dissolvido. Outros dizem que o divórcio é um erro e contra a
vontade de Deus. Há ainda quem afirme que não sou adequada, pois sou plebeia e não
posso trazer as vantagens de uma princesa estrangeira.
Mas, de súbito, lady Nothumberland irrompeu no cenário da política do reino. Esta mulher
amarga e ressentida é afinal a esposa separada do meu querido Henry Percy e avançou com
uma carta

160
infame, em que lorde Northumberland afirma ter estabelecido um pré-contrato de
casamento com a minha pessoa. Se isto se provar, o meu noivado com Henrique poderá ser
anulado. Bom, a acusação é verdadeira e os factos ficaram há muito escritos nestas páginas,
porém não passou de uma promessa de casamento entre dois namorados, apesar de se
chamar pré-contrato e nos ligar perante a lei. No entanto, não estive disposta a que esta
megera deitasse a perder todos os meus planos, de modo que agi com ousadia.
Em primeiro lugar, fui eu própria levar ao rei a ofensiva carta e declarei-lhe:
- Isto é obviamente mentira. Quem o afirma é uma mulher que deseja apenas o meu mal
porque seu marido nunca a amou... porque me amava a mim. Quando éramos jovens,
sentíamos uma atracção verdadeira e profunda, mas juro que nunca estivemos prometidos,
nem nunca fomos amantes, como é aqui sugerido, antes de o cardeal Wolsey nos ter
separado. Imploro-vos, chamai o acusado e deixai que fale a verdade.
O rei, que evidentemente desejava que a carta fosse mentira, concordou e mandou que os
escrivães redigissem uma intimação a Northumberland.
Entretanto, chamei o meu mensageiro para que levasse rapidamente a Percy uma carta
minha, marcando-lhe um encontro secreto, num local onde havíamos estado juntos muitos
anos antes. Sob a cobertura da noite, velada e disfarçada, passei pelos sonolentos guardas
do palácio e entrei sozinha na carruagem que percorreu as ruas empedradas e vazias, só
frequentadas por mendigos em busca de comida e pelas prostitutas. Havia muitos anos que
não via Percy de perto. Recordo agora o seu rosto, a sua doce expressão, a testa rosada e
lisa e o modo como fazia o meu coração bater descompassadamente e os meus pés voarem,
para ir ter com ele.
A carruagem deixou-me na taberna de Rosewood que também dispunha de quartos. O
escasso período de tempo não me permitira aguardar a resposta de lorde Northumberland,
mas tinha esperança que haveria de comparecer. Lá dentro, perguntei a um desmazelado
criado em que quarto poderia encontrar mestre Longheart (pseudónimo que outrora
usávamos para passar recados amorosos). O homem, fedendo a cerveja, lançou-me um
olhar lascivo, enrugando o rosto coberto de sujidade.
- Que desejais desse homem? - resmungou, em tom impertinente.

161
- Dizei-me onde se encontra - gritei insistente por entre os véus que me cobriam.
Apontou para as escadas com o queixo mal barbeado.
- Número três.
A porta abriu-se antes de eu ter batido. Percy escutara os meus passos no corredor.
Candeeiros fumegantes iluminavam o aposento e o homem curvado que me convidou a
entrar. Ah, Senhor! Nem sei como descrever sem lágrimas nos olhos, o retrato daquele
rosto desfigurado e lastimoso aspecto. Embora não o queira admitir, Percy está doente. Tem
uma cor mortiça, acinzentada, manchas avermelhadas da febre e os olhos encovados. Nada
resta do belo jovem que foi, excepto talvez o seu olhar bondoso que agora me fixava.
- Entrai, Ana! - disse em voz rouca e logo fechou a porta. Não passámos juntos mais de
uma hora arriscando-nos a que se soubesse que nos tínhamos encontrado. Primeiro falámos
dos venturosos tempos passados, do que nos acontecera, do estranho rumo que tomara a
minha vida, do seu casamento forçado e sem amor com a megera que agora desejava a
minha destruição e da sua chamada à presença do rei. Percy sabia que havia apenas uma
resposta a dar e que teria de mentir. O rei não desejava saber a verdade, se esta nos
separasse. Assim, como amigos e sem necessidade de pretextos, combinei com Henry
Percy unirmo-nos uma vez mais e negar que alguma vez os nossos corações se tivessem
comprometido com um futuro casamento.
Fiquei a ver da galeria, enquanto prestava as suas declarações perante o rei e o Parlamento.
Pobre Percy, parecia ainda mais mirrado, cinzento e velho que nos dias anteriores. Em voz
rouca mas firme, negou três vezes o nosso pré-contrato, tal como Judas fez com o Senhor.
Satisfeitos, o Parlamento e Henrique disseram: ”Podeis retirar-vos” e ali terminou tudo.
Afectuosamente vossa,
Ana
6 de Outubro de 1532
Ah, diário!
Vivemos um idílico Outono. Navegando no Tamisa, numa barcaça dourada, passando por
quintas, campos e aldeias, as tardes

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decorrem com doçura e calma. Nada de olhares curiosos, nem vozes desagradáveis a
interromperem-nos estas horas de paz. O rei de Inglaterra e a marquesa de Pembroke (é o
meu novo título que me transforma no mais alto par do reino, exceptuando o rei e os duques
de Norfolk e Suffolk) percorrem esta estrada de água até Dover para logo atravessarmos o
canal para Calais. Aí, conforme foi planeado, reunir-nos-emos com o rei de França que será
testemunha do nosso casamento. Deus seja louvado, vamos por fim casar-nos!
Uma vez que o arcebispo de Cantuária, Warham, falecera de idade avançada, deixando
livre a mais importante sede eclesiástica de Inglaterra, o espírito de Henríque pareceu
abrir-se como uma flor ao sol de Primavera, e dele brotavam, como sementes, as
possibilidades de mudança que enchiam o ar. Nem mesmo os cortesãos que deram
desculpas fingidas para se manterem à margem da nossa viagem nupcial conseguiram
alterar o humor de Henrique. O rei não quis levar em conta as minhas dúvidas por não casar
em solo inglês, onde as rainhas devem contrair matrimónio e ser coroadas, assegurando-me
que o apoio firme de Francisco valia o seu peso em ouro e que a seguir eu seria coroada em
Inglaterra. Nem sequer a peste que grassava nas localidades situadas nas margens do rio,
conseguiu ensombrar a sua felicidade. Entregou-se a um turbilhão de preparativos - enviou
exércitos de ourives, costureiras, rendeiras, peleiros - para me tratarem do enxoval.
Partimos de Greenwich na barcaça real, carregada de armários cheios de roupa, caixotes
com reposteiros, tapeçarias, uma baixela de ouro e até mesmo a enorme cama de Henrique
que foi desmontada para a podermos transportar. Os nossos amigos e favoritos George e
Mary, Henry Norris, Francis Bryan e Thomas Wyatt viajarn por terra com as centenas de
pessoas que fazem parte do nosso séquito e vão encontrar-se connosco em Dover para
fazermos a travessia. O meu coração bate de prazer e ansiedade. Na minha cabeça
fervilham pensamentos, planos e sonhos, prestes a serem concretizados.
Vi uma miragem na superfície da água. Milhares de velas a cintilar na catedral de
Winchester - um baptizado. Junto à pia baptismal estou eu, rainha de Inglaterra, com um
bebezinho coberto de sedas nos braços, o rostinho uma miniatura do de Henrique. Vejo o
pai que nos sorri - à esposa e ao legítimo príncipe Tudor - toda a dor, toda a raiva já
apagadas e esquecidas. Atrás do rei vejo os outrora ressentidos cortesãos, agora elogiosos e
alegres, prestando tributo à mãe do seu futuro rei. E atrás de todas essas figuras
fantasmagóricas

163
encontra-se meu pai. O rosto suavizado, um sorriso nos lábios, os olhos húmidos. Sente-se
orgulhoso de mim, da minha vida, do meu real filho.
A visão apaga-se. Uma nuvem tapou o Sol, extinguindo as milhares de velas que ardiam
com o reflexo do rio. Nas águas agora sombrias assisto a uma nova fantasia. Vejo os meus
piores inimigos: banhado pelo fogo do inferno, está o fantasma do cardeal Wolsey, tendo
recuperado a dignidade nas suas vestes vermelhas e segurando nas mãos a cruz de prata e a
mitra. Sem pronunciar palavra, mexe os lábios para me amaldiçoar em toda a impotência da
sua condenação. Vejo Catarina e Maria e, também, as maldosas duquesas de Norfolk e
Suffolk. Envelheceram e parecem repulsivas, corcundas, com a pele manchada, os dentes
negros e a voz estridente e aguda.
Mais uma vez o sol descobriu, limpando o meu espírito de sonhos purulentos e inundando-
os de esperança. Talvez aprenda a comportar-me como convém a uma rainha - com
magnanimidade e demonstrando generosidade de espírito para com os inimigos - e
descubra o poço de onde brotam todos os actos de benevolência. Ou talvez não.
Devo terminar estas divagações e reunir-me a Henrique para jantarmos na coberta, ao pôr
do Sol. Prometeu-me uma surpresa, de modo que em breve vos escreverei de novo.
Afectuosamente vossa,
Ana
7 de Outubro de 1532 Diário,
Hoje, treme-me a mão ao escrever-vos. Mas não é a humidade da manhã, nem as correntes
de ar e o frio que arrefecem as cabinas deste barco e me fazem estremecer a mão que segura
a pena. Pelo contrário e, para minha completa surpresa, trata-se de uma profunda emoção
que me invade o corpo e a alma. A emoção é o amor doce e sincero pelo meu prometido
que me agita o coração e as entranhas. O milagre que tanto esperei e pelo qual rezei,
tornou-se realidade.
Se alguém soubesse o que se passou ontem à noite, quando Henrique me surpreendeu,
concluiria talvez que o que eu sinto não

164
é verdadeiro amor, mas simplesmente gratidão pela sua generosidade. Ontem à noite,
quando vim cear à coberta, sobre a mesa não havia carneiro, empadões ou lebre assada, mas
sim todas as Jóias de Catarina, os tesouros de família - pulseiras, colares, pregadores,
brincos, anéis, pequenas tiaras de pérolas e esmeraldas, diamantes, rubis e safiras - tudo
isto cintilava à luz alaranjada do pôr do Sol. O rei mostrava-se orgulhoso, com uma
expressão animada no olhar, aguardando, como um rapazito a minha expressão de espanto
e gritos de doce alegria. Porém fiquei sem fala, paralisada.
- Então? - perguntou. - Que dizeis, Nan? Para conseguir isto tive de lutar contra Catarina
como um mastim contra um urso. Sabia que ele esperava abraços, calorosos beijos e
extravagantes agradecimentos por um presente tão maravilhoso. Mas apenas consegui rir!
Um riso descontrolado e muito ruidoso. juro que as minhas gargalhadas nada tinham a ver
com a derrota de Catarina, e mais parecia que tinham arrancado a rolha a um barril de dor
que habita a minha alma. Todos os receios, ódios e maldades daqueles últimos seis anos
tinham sido cuspidos ao som do meu riso. E acabou por ser contagioso, pois assim que se
dispersou a primeira onda de dor, Henrique imitou-me com as suas enormes e sinceras
risadas Foi-nos impossível conter-nos, tivemos de nos dobrar agarrados ao ventre já dorido,
abraçando-nos, com as lágrimas a correrem pelas faces, até que, aos poucos, conseguimos
parar. Olhámo-nos nos olhos. Beijámo-nos. Primeiro ao de leve, nos lábios húmidos e
salgados, depois mais demorada e profundamente. Senti o coração bater-me com força no
peito. Um calor que descia-me ao baixo-ventre e às coxas. Os joelhos trémulos. E,
involuntariamente o meu pensamento repetia este cântico: ”Amo-vos, Henrique, amo-vos
Henrique, amo-vos...”
Dentro de mim, cresceu uma onda de indescritível alegria. Agarrei-me àquele homem,
àquele amigo leal, cujo amor o tinha levado a enfrentar tempestades e mares embravecidos,
de onde tinha saído ileso para se casar comigo. Foi tal a ânsia de me agarrar ao seu corpo
que foi ele que teve de pôr fim ao nosso apaixonado abraço.
- Nan, Nan - murmurou. - Temos de nos conter ou não chegareis virgem à noite de núpcias.
- Soltou-me com ar deslumbrado, pois nunca, antes deste momento, sentira tal fervor nos
meus beijos. - Olhai, experimentai isto - pediu-me, pondo-me um colar ao pescoço. -
Deixai-me ver.
Com as mãos sobre os meus ombros, Henrique fez-me dar meia volta. Nos seus olhos vi
reflectida a água cintilante, a luz do fim da

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tarde, o brilho das pedras preciosas do meu pescoço mas, principalmente... o meu amor. Sei
que foi isso que viu e sorriu-me, cheio de afecto.
- Sou o homem mais feliz de toda a Inglaterra - disse o rei.
- E eu - respondi. - Sou a mais feliz das mulheres.
Afectuosamente vossa,
Ana
18 de Outubro de 1532 Diário,
Que dias e noites de gozo e delírio! Ataviada com belos vestidos e jóias principescas,
rodeada por um séquito deslumbrante, desfruto de um sem-fim de banquetes,
representações e bailes em minha honra. Calais é uma localidade estranha e maravilhosa.
Solo francês, governo inglês, o último reduto inglês no continente, recebeu-me melhor do
que a terra onde nasci. Quando saímos do edifício do tesouro, onde ficámos luxuosamente
alojados, e percorremos a antiga cidade murada, em grande procissão, para ir ouvir missa a
S. Nicolau, a multidão aclamou-me a mim e ao rei. As crianças lançavam-me flores, os
adultos sorriam-me com ar sincero.
Ultimamente acalmei o meu coração enfurecido que ameaçava rebentar quando, ao chegar
à cidade de Dover, antes da travessia do canal, chegou a notícia de que Eleanor, rainha de
França (e minha antiga ama), juntamente com as outras damas da corte, se recusava a
receber-me ou a acompanhar Francisco ao casamento. Compreendo a posição da rainha
Eleanor. É irmã do imperador e portanto, sobrinha de Catarina. Porém, a duquesa
Marguerite de Alençon, irmã de Francisco, não tem qualquer razão para tomar uma posição
tão insultuosa. Sempre a servi com lealdade e grande afeição e, com ela, aprendi não só a
cultivar o meu talento como a exercer ousadamente os artifícios de que os homens tanto
gostam. Além do mais, não seguia à risca o que estava estabelecido e defendia ideias
luteranas no seio da igreja católica. Foi exactamente Marguerite de Alençon quem me
deixou ler os tratados, onde o rei encontrou argumentos para submeter a Igreja. Este desaire
feriu-me como uma amarga traição, embora não fosse tão desagradável como a oferta do rei
francês
- a que mais vale chamar insulto: fazer-se acompanhar da duquesa

166
de Vendome. Esta mulher é famosa pela sua má reputação: não passa de uma cortesã! As
arrogantes damas da corte francesa esquecem que as conheço bem e que sei como todas
elas são licenciosas e lascivas. Gostaria de saber qual delas teria conseguido manter à
distância os apetites do seu rei. Provavelmente nenhuma.
Ao tomar conhecimento destas terríveis notícias nada disse. Mantive a cabeça bem
levantada, sem me deixar dominar pelo mau génio. Pedi a Henrique que comunicasse a seu
primo Francisco que seria melhor deixar a duquesa de Vendôme em casa e vir sozinho, pois
era a sua presença que era para mim da maior importância. Henrique, habituado às minhas
birras, pôde ver desta vez a minha nova dignidade de rainha. Orgulhoso e feliz, disse que
agora, nem nada nem ninguém, o afastarão do seu caminho. O casamento realizar-se-á com
Francisco a nosso lado.
Afectuosamente vossa,
Ana

22 de Outubro de 1532 Diário,


Fazendo entrechocar os baldes, as minhas aias conversam enquanto vão enchendo uma
banheira de cobre, diante da enorme lareira do meu quarto e acendendo também braseiras
para aquecer o gelado aposento, antes do meu banho. Sei que o criado de quarto de
Henrique fez exactamente o mesmo nos aposentos contíguos aos meus.
Imagino o tema dos comentários das minhas aias quando as dispensar das suas tarefas: ”O
rei e a marquesa de Pembroke tomaram banho”, dirão em surdina. ”Jantaram e beberam um
pouco, sentimos no hálito dela o cheiro do vinho. Era ainda cedo quando se recolheu aos
seus aposentos e nos disse que desejava tomar banho. Quando fomos em busca da banheira
de cobre, o mordomo do tesouro disse-nos que os criados do rei tinham feito o mesmo
pedido. Quando regressámos, lady Ana cantava, de muito bom humor. Aquecemos a água,
salpicámo-la com rosas perfumadas, essências e óleos e ajudámo-la a entrar. Lady Ana não
é muito grande, sabeis. Magra, seios pequenos, pescoço longo e esguio. Gostaríamos de
saber o que viu o rei nela. Depois do banho, ordenou-nos que envolvêssemos o seu corpo
perfumado em vários metros de cetim negro debruado a veludo - uma camisa de dormir
magnífica que Henrique

167
lhe ofereceu - e a seguir que lhe soltássemos o cabelo e lho escovássemos até ficar tão
brilhante como o que tinha vestido. Depois mandou-nos embora. Vai deitar-se com o rei”,
murmurarão escandalizadas, tapando a boca com as mãos. ”Manteve-se virgem todos estes
anos. Porque não esperar? Não se compreende.”
Passo a explicar o porquê da minha estranha decisão. já escrevi acerca do meu recém-
descoberto amor por Henrique e das grandes comemorações anteriores ao nosso casamento
realizadas em Calais. É a noite anterior à partida do rei para Bolonha, onde deverá
encontrar-se com Francisco e com ele participar em lides e torneios, antes de regressarem
ambos para o nosso casamento. Henrique e eu decidimos hoje jantar em privado pois, no
seu regresso e com o casamento, haverá muita agitação e será difícil termos privacidade.
Assim, ao princípio da noite, pus-me bonita e atravessei a porta secreta entre as nossas
câmaras. O rei tinha mandado servir, no seu quarto, uma bela ceia diante da lareira acesa.
Depois de ordenar a todos os criados que saíssem, ofereceu-me ele próprio uma cadeira
estofada e serviu o vinho em duas taças cravejadas de pedrarias. Inclinou-se e beijou-me o
pescoço.
- Teremos dois grandes reis no nosso casamento, Ana. Que opinais?
Olhei-o nos olhos.
- Opino que, dois está muito bem... mas um seria suficiente. Ele apreciou o cumprimento e
sorriu, puxou a cadeira para diante da minha e bebeu um grande gole de vinho.
- Quereis dizer que pouco vos importa que Francisco aprove ou não o nosso casamento?
- De modo algum. Porém, haveis descoberto ultimamente o vosso verdadeiro poder sobre o
clero, os cardeais e o Papa. Porquê dividi-lo com outro homem, mesmo sendo, também ele,
rei?
Henrique reflectiu um pouco, depois esboçou um sorriso fino e calmo como uma meia-lua.
- Gosto da vossa maneira de pensar, minha querida - redarguiu. - Gosto mesmo muito.
Bebei! - Tocámos as taças.
- A Henrique, o maior rei, aquele que não teme ninguém. De tal forma inchou de orgulho
que me pareceu ainda maior do que realmente era. O coração parecia querer saltar-me do
peito, ao sentir que estava em presença de alguém tão imponente e de tão fina inteligência.
Nesse momento, Diário, amei muito esse homem, capaz de fazer mover o mundo por mim..

168
- Vamos cear e beber, meu amor - respondi. - Depois, podeis tomar-me de corpo e alma no
vosso grande leito.
Dos seus lábios desapareceu o sorriso de meia-lua.
- Agora? Aqui? Antes da nossa noite de núpcias?
- Exactamente - tomei-lhe a mão do outro lado da mesa. - Henrique, durante seis anos,
quebrámos todas as regras, excepto uma. Sugiro que o façamos agora. Que dizeis?
Pôs-se de pé de um salto, arrebatou-me e cobriu-me de beijos, sem deixar de pronunciar o
meu nome, como uma ladainha: ”Ana, Ana, Ana...”
Assim dirigimo-nos para os nossos respectivos quartos para tomarmos banho. Como um
baptismo diante do fogo, juntar-nos-emos para realizar os nossos sonhos. Sempre sonhei
casar-me por amor. Henrique quer um filho. Que assim seja!
Afectuosamente vossa,
Ana
23 de Outubro de 1532
Oh, diário,
Juro que Deus no Céu troça de mim! Que outra coisa posso pensar ao recordar a noite
passada? A noite que profetizava glória, que me prometia uma bela recompensa por seis
anos de sereno sacrifício e castidade da parte de ambos. Henrique, o grande rei, a própria
imagem da virilidade, quando confrontado com o objecto dos seus desejos mais sinceros e
ardentes, que lhe estendia os braços para o abraçar e os lábios para o beijar... falhou. Falhou
completamente.
Talvez fosse o excesso do vinho francês. Bebera à ceia e continuara a fazê-lo durante o
banho, julgo que para tomar coragem para um tão importante momento. Talvez se deva
culpar a tensão da espera de todos estes anos, da nossa viagem para Calais, da sua falta de
saúde. Talvez - e é o que mais temo - tenha olhado para mim, nua na sua cama e não tenha
visto já a presa fugidia porque tanto ansiava, mas unicamente uma vítima assustada, que,
com olhos de pomba, pede uma morte suave. Viu-o e sentiu-se gelar. Nem a terrível
necessidade de ter filhos conseguiu reacender o fogo no caçador, fogo esse, que se apagara
com a minha rendição.

169
Não houve nada a fazer. Insistências, brincadeiras, abraços à espera do reacender dos
desejos. Desejei que se enraivecesse, que se insurgisse contra aquela monstruosa ocasião,
pois uma paixão forte dá por vezes origem a outra. Mas pareceu-me cansado, rendido, sem
possibilidade de reparação. A sua corpulência pareceu definhar, não conseguia enfrentar os
meus olhos marejados de lágrimas, não pelo meu desapontamento ou surpresa, mas pela
tristeza do meu amado.
Assim, Henrique, o rei e Ana, marquesa de Pembroke, futura rainha, passaram separados a
sua noite de comemoração e rebelde união. Eu, rígida, no imponente leito de dossel, ele
numa cadeira junto à janela, à espera da madrugada.
Por fim, devo ter adormecido, pois quando a luz da manhã me obrigou a abrir os olhos, o
rei tinha saído dos seus aposentos, Não chamei as aias e esforcei-me por vestir os
voluptuosos metros de cetim da minha camisa de dormir. Pus uma expressão falsa no rosto
- lânguida e satisfeita - como se pudesse usar uma máscara para enganar a todos com a
minha falsa identidade. Regressando aos meus aposentos com boa disposição, perguntei às
minhas aias por onde andava o rei. Pelos seus olhares humildes e tímidos, vi que Henrique
tinha colocado a máscara de leão triunfante e que agora todos sabiam que a nossa ligação
era um facto consumado, pelo que o meu futuro como sua rainha estava assegurado.
Disseram-me que, ao amanhecer, o meu noivo partira a cavalo em direcção a Bolonha,
acompanhado por um batalhão de soldados.
Tenho o coração pesado como chumbo. Que Deus vingador retribui tão grandes esforços
com tão pequena recompensa? Devo passar os próximos quatro dias com este segredo.
Ninguém pode saber do declínio de Henrique. Absolutamente ninguém. Julgo que a sua
fraqueza seja temporária. Talvez necessite do doirado vínculo de um casamento legítimo
para endurecer a sua ”resolução”. Penso também que, com esse negro fracasso, nasceu
dentro do rei uma coisa monstruosa que nenhuma união legítima com esta que vos escreve,
poderá apagar. Como uma semente doente plantada no Inverno, ameaça brotar com a chuva
e o sol das estações seguintes, para se transformar numa horrível trepadeira sufocando a
alegria da vida e a vida do amor.
Todavia de nada servem estas negras conjecturas. Continuarei a afivelar no rosto a minha
máscara de felicidade, até que a sua imagem no espelho me engane a mim própria.
Endireito-me com firmeza

170
e olho para o futuro. Para o melhor e para o pior, os anos hão-de revelar o que me espera.
Afectuosamente vossa,
Ana
28 de Outubro de 1532 Diário,
Continuamos em Calais. Chove e o vento sopra forte. É impossível fazermos a travessia
para Inglaterra. Desde que escrevi pela última vez, muitas coisas aconteceram no que diz
respeito a circunstâncias e sentimentos. Durante a ausência de Henrique que fora buscar o
rei francês esperei, tentando não desesperar, recuperar as forças com os meus amigos e
família. George e Mary, felizes por se encontrarem de novo em França, organizaram um
piquenique na praia num dia ventoso. Thomas Wyatt, amigo fiel em todos os momentos,
ainda me presta respeitosa homenagem e escreveu-me uns versos para a ocasião, falando da
sua paixão nunca correspondida e finalmente apagada. Diziam assim:
Por vezes sinto um fogo arder em mim No mar, na água em terra, até no vento Sigo então
o braseiro até aofim
De Dover p’ra Calais, onde perde o alento
Uma fria tarde, sentei-me com Thomas junto à lareira e passámos o dia em calmas
reminiscências. Passaram dez anos desde o meu regresso da corte francesa, quando me
ofereceu o diário. Perguntou-me se costumava escrever nele e respondi-lhe que fazia alguns
versos, anotava várias recordações e pouco mais. Embora Thomas Wyatt seja um amigo
sincero, sinto escrúpulos em falar das minhas confidências a este livro.
Os reis chegaram com toda a pompa e circunstância, no dia anterior ao do meu prometido
casamento porém eu, por razões de dignidade e protocolo, ausentei-me. Henrique veio
cumprimentar-me em privado assim que chegou. Nem ele, nem eu falámos do seu triste
fracasso na véspera da partida, pois trazia graves novidades. Ao quarto dia da viagem, em
Bolonha, o rei retirou o seu apoio ao

171
nosso casamento. Tinham chegado notícias da Áustria, onde as tropas de Carlos haviam
derrotado os inimigos turcos. A estrondosa vitória do sobrinho de Catarina deixara os
homens ansiosos por um novo campo de batalha e Francisco receava que, se desse agora a
sua bênção ao nosso casamento, o imperador - magoado e vexado - lançasse o seu exército
contra a França.
Não soube o que dizer. Pareceu-me um cruel insulto ao nosso casamento, um obstáculo
desagradável e o final de uma longa estrada. Porém, naquele dia sentia-me um poço de
calma e razão. Pela primeira vez vi que aquelas circunstâncias nada tinham de pessoal e
eram simples factos políticos próprios de reis e papas. Sentia-me Rainha, portanto agi como
tal, e em vez de gritos e lágrimas, ofereci a Henrique uma possível solução. Disse-lhe:
- Meu amor, não falámos já, de como seria melhor realizarmos o nosso casamento em solo
inglês? Os súbditos que não me apreciam adorariam poder considerar o nosso casamento
falso e ilegítimo. Juro-vos que aguardarei de bom grado um enlace nas familiares costas da
nossa Inglaterra.
Henrique manteve-se em silêncio e pareceu digerir estas ideias como se se tratassem de
uma opípara refeição. Nesse momento, soou uma pancada na porta. Era o Perfeito de Paris,
em pessoa. Viera a mando de Francisco com um presente para mim - um diamante enorme
e luminoso numa caixa de veludo púrpura. Depois da partida do Perfeito e com a pedra
preciosa (que Henrique calculou valer cerca de quinze mil coroas) cintilando entre nós, o
dia pareceu-me muito mais alegre. Concordámos que, se desejávamos que Francisco
continuasse nosso aliado, precisava de mais atenções e eu seria a pessoa indicada para lhas
dispensar. Depois, Henrique voltou-se para mim, poisou as mãos sobre os meus ombros e
olhou-me nos olhos. Parecia querer falar, abriu os lábios mas as palavras não lhe saíram.
Deixou cair as mãos e afastou-se com o pretexto de ter outros assuntos a tratar. Senti que,
se as tivesse pronunciado, teriam comentado a atitude real que eu ultimamente tomara, para
seu grande orgulho.
Era pois o momento de fazer planos para o meu encontro com Francisco. Sabia que teria de
ser esplêndido, uma ocasião maravilhosa. Seria necessário fornecer-lhe um ambiente
faustoso - a melhor música, o vinho mais doce, os mais deliciosos manjares, a melhor
decoração, as roupas mais elegantes que imaginar se possa. Tudo isto e até mais poderia eu
oferecer-lhe, pois, com a nossa hospitalidade,

172
teríamos de dizer a Francisco que não estávamos zangados, nem lhe guardávamos rancor
por nos ter retirado o apoio e que, para ele, seria interessante que, embora tendo-nos
publicamente voltado as costas, continuasse a ser um amigo bom e fiel.
Na noite em que se teria celebrado o nosso casamento, Henrique e o rei Francisco jantaram
juntos na associação dos comerciantes que eu decorara com enorme zelo. Mesas e armários,
ornamentados com a baixela de ouro pertencente a Henrique. As paredes cobertas com
preciosas tapeçarias e todos os cantos iluminados por velas em candelabros de ouro e
pedrarias. Músicos exímios, vindos de Paris, executavam as mais modernas composições e
quando os dois grandes reis estavam repletos de comida e bebida, todas as portas se abriram
para por elas entrarem, numa onda de luz, oito damas mascaradas dançando ao som de
uma bela melodia. As vestes, exoticamente desenhadas eram de gaze, tecido de prata e
cetim carmesim, debruado a ouro. Todas as damas misteriosas escolheram um convidado
francês para dançar. Um deles foi Francisco, que estava espantoso no seu traje cor de
púrpura, com um colar de diamantes, pérolas e esmeraldas maiores que ovos de pata.
Depois, a um sinal, todas as damas baixaram as máscaras, revelando o rosto. Era eu o par
do rei francês.
Os seus olhos iluminaram-se de alegria e surpresa. Via que admirara a minha audaciosa
entrada e aquela ideia inteligente. Saltámos e rodopiámos e vi que Henrique nos olhava
satisfeito do seu lugar porque o rei de França rendia homenagem à sua amada. Mais tarde,
numa conversa privada com Francisco, falámos de muitas coisas. Recordações dos meus
anos na corte, muita lisonja de ambas as partes e palavras graves que tocaram ao de leve
assuntos de Estado. Ele pediu perdão (imagine-se) por ter discordado publicamente com o
nosso casamento e deu-me explicações, que aceitei com real graciosidade. Em lugar do
apoio público, ofereceu-me deliciosas intrigas para, com o auxílio dos cardeais franceses de
Tournon e Grammont, conseguir que o Papa demorasse o seu julgamento final acerca do
Divórcio que parece favorecer Catarina.
A noite esteve esplêndida e foi um êxito. Henrique não cabia em si de júbilo. Tentei
aproveitar-me do seu bom humor e, quando nos retirámos, já tarde, nessa noite, atirei-me de
livre vontade nos seus braços e fui recebida com grande entusiasmo. Foi maravilhosa
aquela união imprevista, brusca e terna, dolorosa mas doce. O meu corpo e as minhas
entranhas receberam Henrique Rex que me mostrou

173
o seu mais apaixonado afecto. A noite fez-se dia, mas nunca nos afastámos do leito real.
Depois começaram as tempestades, tornando impossível a nossa travessia para Inglaterra.
Ficámos satisfeitos. As refeições eram-nos servidas à porta do quarto. Durante três noites e
três dias não vimos ninguém. Rimos, cantámos, tocámos duetos, comemos, bebemos,
tomámos banho juntos diante da lareira e fizemos planos e amor. Finalmente, há duas
horas, Henrique vestiu-se, dizendo que o melhor seria tratar dos preparativos para a nossa
travessia, pois o temporal estava a amainar. Beijou-me com um sorriso. Nunca o tinha visto
tão satisfeito. Depois, deixou-me aqui sozinha e... é por isso que estou a escrever.
Os meus receios quase desapareceram. O meu casamento parece assegurado e, se há um
Deus no Céu, em breve surgirá um fruto destes dias de sensualidade. Vejo diante de mim
um futuro sem nuvens, pois o amor abençoa esta união e como um farol, iluminará para
sempre o nosso caminho.
Afectuosamente vossa,
Ana
3 de Janeiro de 1533 Diário,
Deus permita que a profecia se torne realidade. Tenho no ventre o filho de Henrique! Desde
o nosso regresso de Calais que tenho rezado todos os dias para que esse milagre
acontecesse, pois com as festas e os assuntos de Estado, o rei e eu temos tido pouco tempo
e menos privacidade para o amor. Toda a corte soube que tínhamos finalmente dormido
juntos. Os meus amigos rezaram também para que aquela reclusão em Calais tivesse um
feliz resultado. Os meus inimigos tremiam só de pensar.
Mal conseguia respirar quando se aproximava o meu período mensal, que afinal não
chegou. Alegrei-me abertamente com todos os estranhos arrancos do meu ventre. Comia
cestas de maçãs verdes, eu que nunca gostara de fruta. Os meus seios incharam, parecendo
querer rebentar os corpetes. O meu rosto arredondou e perdeu os seus ângulos. Nada contei
a Henrique, desejando uma verdadeira prova do meu estado. Mas quando a data do segundo
período passou, sem que sangrasse, fui ter com ele - dois dias a seguir ao Ano

174
Novo - e disse que me tinha esquecido de um presente. Entreguei-lhe uma bonita caixinha
de prata, forrada de tecido. Ele olhou-me, cansado e preocupado com os seus assuntos.
- Nada tenho para vos dar em troca, meu amor.
- Oh, mas Henrique - disse eu - este presente é para vos agradecer outro que já me haveis
dado.
Ele inclinou a cabeça e observou o meu sorriso misterioso para logo depois abrir a caixa.
Lá dentro, envolvida em tule estava uma minúscula touca de baptizado que eu bordara com
fio dourado e púrpura. Ele ficou a olhar, sem que o seu espírito ocupado conseguisse
entender do que se tratava.
- É verdade? - perguntou num murmúrio e quase sem acreditar.
- Estou grávida do vosso filho, Henrique. Do nosso filho. Ele agarrou-me, esmagou-me
contra si, gritando o meu nome. Beijou-me a boca, as faces, os olhos, o pescoço. Senti as
suas lágrimas quentes no meu peito, e o seu real corpo estremecia de soluços enquanto
murmurava:
- Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado. Finalmente endireitou-se, com as faces
molhadas e os olhos muito brilhantes.
- Há muito a fazer - disse-me. - Esse rapaz tem de nascer de uma rainha.
Tomei-lhe a mão nas minhas e beijei-a.
- Senhor, sou eu que humildemente vos agradeço.
Depois deixou-me, partindo com passo forte, decidido a colocar-me na cabeça a coroa de
Inglaterra.
Afectuosamente vossa,
Ana
16 de Janeiro de 1533 Diário,
Para além da corte oficial, formada por lordes e damas, membros do Parlamento,
conselheiros, chanceleres e bispos, há uma corte secreta, um governo clandestino dos
poucos que de facto governam o estado. Actualmente são o rei e o secretário Cromwell
quem decide a hora do nascer do Sol e da mudança das marés. Conspiram

175
ambos constantemente e Henrique dá cada vez mais importância aos conselhos de
Cromwell. É claro que ele é muito inteligente e apoia totalmente o nosso casamento.
Este homem estranho que não possui grande estatura física, nem a pompa do cardeal
Wolsey - belas residências, jóias maravilhosas, festejos faustosos - parece-me ser uma
pessoa muito valiosa. Uma aura de grande e digna autoridade rodeia a sua modesta
presença. Sei que a ambição que lhe incendeia os pequenos olhos negros é tão grande como
a de Wolsey. Não comete erros, pois a queda de seu amo serviu-lhe de lição. Vejo que
Henrique se apoia neste homem como o fez com o cardeal e fico pensativa. Será que
Cromwell que de tão alto favor goza agora, irá cair tão baixo como Wolsey, com o
caprichoso correr do tempo? Não interessa, pois todos os assuntos importantes, menos um
foram, por ora, esquecidos. Este assunto, disse-me Henrique é como uma moeda que tem
escrito numa face o nosso casamento e no reverso o seu divórcio de Catarina.
Cranmer, embaixador na Corte Imperial de Espanha foi apressadamente chamado a
Inglaterra para ser consagrado arcebispo de Cantuária. Entretanto, os agentes de Henrique
em Roma procuram obter do Papa as bulas necessárias para essa consagração. O Santo
Padre não deverá saber que a nomeação de Cranmer tem apenas um objectivo - conceder o
divórcio ao rei - antes de assinar as ditas bulas. De contrário tudo estará perdido. Clemente
ainda acredita, conforme Francisco lhe prometeu, que Henrique acatará a decisão sobre a
questão do seu casamento, que será tomada esta Primavera, por um tribunal constituído em
França.
Assim toda as conversas acerca de casamento, gravidez e coroação foram silenciadas. Este
frio e calmo mês de Janeiro passa muito devagar. Todas as manhãs, acordo e rezo para não
encontrar sangue entre as minhas pernas, sinal de um aborto que poderia desbaratar tão
minuciosos planos de batalha.
Meu pai, que é dos poucos a saber do meu estado, e veio visitar-me aos meus aposentos
onde se exibiam todos os presentes de Henrique: belos tapetes, pratos de ouro, uma nova
mesa de jogo ornamentada com mosaicos azuis, parecia triste, e pouco disse enquanto
estivemos sentados junto à lareira. Por fim, gracejei:
- Pareceis aborrecido, meu pai. Já tendes demasiados netos? Não me respondeu nem me
olhou nos olhos. Contudo decidi não me calar em face do seu silêncio e continuei a insistir.
- Dizei-me,

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porque haveis mudado de ideias em relação a este casamento? Porque vos opondes a ele?
- Nunca o quis.
- Não é verdade! Haveis sido vós quem me colocou ainda menina, sob os olhos ávidos do
rei. Haveis-me vestido, penteado, servido como uma iguaria francesa num tabuleiro de
prata. Queríeis que ele me quisesse!
- Mas não que se casasse contigo!
- Porque não, meu pai? Serei rainha. Rainha de Inglaterra. Fechou a boca como uma
amêijoa. Parecia ter engolido uma poção venenosa. Na lareira, saltou um carvão
incandescente e ao ouvir aquele som, apercebi-me daquilo que meu pai pensava.
- Vou ficar acima de vós, não é verdade? Serei a vossa Rainha. Tereis de dobrar o joelho a
vossa filha mais jovem, e isso mortifica-vos.
- Muito - murmurou, com ar furioso.
- Haveis sido vós a arranjá-lo, meu pai. Agora não estais a gostar do preço.
- Negas a tua própria ambição?
- Certamente que nego! - exclamei. - Quando era apenas uma menina recém-chegada de
França, não tinha mais que uma ambição: casar-me por amor, com um belo jovem. Depois
vós e o cardeal Wolsey amaldiçoaram o doce ribeiro que era a minha vida, interromperam-
no, alterando o seu curso natural e assim, quando o persistente amor de Henrique rompeu o
dique, saiu das margens e transformou-se numa torrente tumultuosa, em busca de um novo
caudal... que lhe é próprio. Um caudal que afogou Wolsey e que agora ameaça, igualmente,
engolir-vos.
Vi-lhe no olhar uma expressão dura e fria.
- Escuta Ana. Esse jogo é mais perigoso que o que pensas. Brincas com reis e bispos, até
mesmo com Roma. Transformas os homens em tolos. E outros morrerão por tua causa.
Vais acabar mal e arrastarás a tua família atrás de ti.
Retirou-se abruptamente, deixando a sua filha mais nova assustada e raivosa contra aquele
insensível pai.
Afectuosamente vossa,
Ana

177
27 de Janeiro de 1533 Diário,
A pena treme enquanto escrevo, pois desposei o rei de Inglaterra. Passaram seis anos desde
que me propôs este casamento. Seis anos! Espantam-me todas as montanhas que foram
movidas para esta rara ocasião, apesar de o casamento não ter sido aquilo que imaginara.
Celebrou-se à pressa e em segredo, às primeiras horas da manhã, enquanto todos dormiam.
O secretário Cromwell, Henrique e eu concebemos juntos o plano. As testemunhas - eram
poucas - meu pai, minha mãe, George, Thomas Wyatt e sua irmã Margaret Lee - foram
acordadas do sono e avisadas pelos nossos mensageiros de que deveriam vestir-se
rapidamente à luz dos archotes. Usando de toda a possível discrição, avançaram como
ladrões junto aos muros do palácio deserto, até à capela, onde Henrique, Cromwell e eu
própria os aguardávamos. Em voz baixa, tremendo de frio, pedimos-lhes paciência e boa
disposição, sem lhe revelarmos o nosso plano. Só quando chegou Thomas Cranmer, com o
seu ar sombrio e oficial se aperceberam do objectivo daquela reunião. Pediu a todos que se
aproximassem para ser testemunhas do solene casamento do rei com Ana Bolena.
Foi uma troca de votos breve e simples. O som das nossas vozes ecoava na capela vazia.
Ouvi minha mãe chorar. Não me atrevi a olhar para os olhos de meu pai. Henrique estava
de mau humor, rígido de medo e creio que zangado porque o nosso casamento estava
desprovido da cerimónia apropriada, sendo apenas aquele ritual pobre e fugidio. Quando
Henrique me colocou o anel no dedo, a porta da capela rangeu ruidosamente. Fora apenas
uma corrente de ar que empurrara a porta, mas os olhos do rei sobressaltaram-se como os
de um animal assustado e praguejou em surdina. Desejei acalmá-lo e coloquei-lhe a mão
sobre o meu ventre.
- Não precisais ter mais preocupações, meu amor. já está feito disse eu.
Cromwell aproximou-se para nos felicitar, depois exigiu ser ele a guardar-nos os anéis
para maior segurança. Até à chegada das bulas de Clemente e da consagração de Cranmer
esta união deverá manter-se secreta. Assim, um a um, saímos da capela, e partimos em
várias direcções. Dirigi-me apressadamente para os meus aposentos. Os corredores estavam
escuros e gelados, mas não dei pelo frio nem pela solidão. Senti, sim, o bebé que dormia no
meu ventre e

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fazia parte de mim. Gostaria de saber se consegue sonhar ou se partilho com ele os meus
sonhos. Será que quando o meu bobo me faz rir, sente o calor e o efeito benéfico das
minhas gargalhadas?
Entrei discretamente nos meus aposentos, passando pelas minhas aias sem as despertar.
Dirigi-me ao meu leito frio e solitário e dormi pela primeira vez como uma mulher casada.
Afectuosamente vossa,
Ana
24 de Maio de 1533 Diário,
Esta noite estou, cheia de felicidade, retirada dentro das muralhas da Torre de Londres,
como sempre o fizeram os reis e rainhas antes da sua coroação. É verdade que foi o amor
de Henrique e a minha persistência que tornaram possível este dia, mas temos também de
dar crédito ao belo plano de Thomas Cromwell. Passo a relatar as suas maquinações, como
um capítulo da História, pois o meu casamento com o rei transformou-se em mais um ramo
da antiga árvore de linhagens de Inglaterra e deve por isso merecer reconhecimento.
O meu casamento manteve-se secreto até chegarem as bulas de Roma e Thomas Cranmer
ver a sua consagração como o bispo mais importante de Inglaterra. Porém, antes de jurar
fidelidade à Igreja e seguindo o inteligente plano delineado pelo rei e por Cromwell, este
homem prestou um juramento insólito, afirmando submeter-se em primeiro lugar ao seu rei
e ao seu país. A seguir o Parlamento aprovou rapidamente uma lei que confere ao arcebispo
de Cantuária autoridade suprema, no que concerne aos assuntos espirituais, proibindo todos
os apelos a Roma. Meu irmão George foi enviado a França para participar o nosso
casamento ao rei desse país. Francisco outorgou a sua generosa bênção e sua irmã
Marguerite, que meses antes, me havia desprezado em Calais, enviou-nos as suas
felicitações. Estava tudo pronto.
Henrique anunciou ao Parlamento o nosso casamento e comunicou-o a Catarina por
intermédio de um enviado especial. Todavia, com a sua teimosia habitual, Catarina não se
deu por vencida. ”Continuo a ser a rainha”, disse aos duques de Norfolk e Suffolk. ”Sê-lo-
ei

179
até à morte.” Disseram-me que, recentemente, mandou fazer para os criados librés novas
com as iniciais H, de Henrique e C, de Catarina entrelaçadas. Nada sinto por ela, Diário,
nem tristeza, nem raiva, nem compaixão. Apenas desejo que, como que por magia de um
Merlim, ela possa, pura e simplesmente, desaparecer. É verdade que a sua presença aqui na
corte se torna cada vez mais vaga e que as vozes dos que lhe são leais, embora insistentes,
poucos mais são agora que débeis sussurros. Mesmo assim, incomoda-me.
Mas estou a divagar. O divórcio de Catarina e Henrique foi apresentado há seis dias diante
do priorato de Dunstable. Nessa altura, o arcebispo Cranmer, com a autoridade que lhe fora
conferida, considerou inválido o casamento e deu a ambas as partes autorização para
casarem de novo. A noite passada, numa galeria de Lambeth Manor, esse mesmo bispo
afirmou que o meu casamento com Henrique era inteiramente legal e que não havia
qualquer impedimento para a minha coroação.
O primeiro dia amanheceu azul e perfeito. Em nada me afectaram todos os supersticiosos
rumores que vêm maus augúrios para esta ocasião - um peixe com quase trinta metros, que
foi encontrado na costa norte, o grande cometa com uma cauda semelhante à barba branca
de um velho.
Acordei no castelo de Greenwich, ao som de disparos de canhão. As minhas aias
obrigaram-me a sair do leito para me envergarem um vestido de ouro com pérola
incrustadas nas mangas, no corpete e no pano que me cobria o ventre inchado. Escovaram-
me lentamente o cabelo e deixaram-no solto, apenas seguro por um círculo de diamantes de
onde partia uma cauda de ouro e tule.
Margaret Mortimer olhava o rio pela janela e exclamou: ”Olhai, um grande dragão
vermelho, que cospe fogo pela boca!” E assim era. Numa barcaça vinha com efeito um
dragão, acompanhado de terríveis monstros e homens que faziam fogo com grande ruído.
Essa esplêndida barcaça conduzia uma pequena armada - centenas de embarcações, com
bandeiras coloridas e sinos vinham buscar-me, deixando no Tamisa uma esteira de música.
E assim, por entre esse espectáculo flutuante, levaram-me rio acima em direcção à Torre de
Londres, cujos canhões disparavam para me receber.
Perto das escadas da fortaleza, juntara-se uma enorme multidão que se apartou, quando
entrei, para me deixar ver ao fundo, como o meu esposo me sorria, de braços abertos,
para me receber. Com o olhar preso no seu, percorri a distância que nos separava. Foram

180
certamente passos felizes, mais felizes ainda quando cheguei junto a ele e colocou ambas as
mãos sobre o filho que carrego no ventre e me beijou com toda a reverência. Sou incapaz
de dizer o quanto me reconfortou aquela exibição pública do seu amor.
Depois, o idoso lorde Kingston, guardião da Torre, atravessou o pátio e, com Henrique,
escoltou-me até aos aposentos da rainha, renovados para a ocasião. Não consegui perceber
se a expressão de amargura que lhe li no rosto, resultava da dor do seu pobre corpo aleijado
ou do seu bem conhecido amor por Catarina e pelo desgosto que lhe causava ver-se
obrigado a ser meu anfitrião. Contudo, até aqui, tem-se mostrado delicado e nada ensombra
este alegre retiro de três dias, de onde ressurgirei rainha.
Afectuosamente vossa,
Ana

30 de Maio de 1533 Diário,


Será verdade? Atrever-me-ei a escrever estas palavras? Fui coroada rainha de Inglaterra.
Rainha Ana. Ana, a Rainha. Anna Rainha. As palavras assim ligadas parecem-me justas. O
meu coração bate agora a ritmo normal, mas nessas horas que duraram o cortejo e as
cerimónias, receei várias vezes poder rebentar de alegria e terror.
No sábado de manhã percorri em cortejo as ruas de Londres, engalanadas a seda e veludo,
com pendões multicolores ondulando na brisa e fontes de onde o vinho brotava. Os nobres
assistiam das suas janelas e os plebeus, guardas, artesãos e autoridades municipais estavam
presentes nas ruas para assistir ao maravilhoso desfile. Havia franceses ataviados de azul e
amarelo, cavalgando esplêndidos corcéis; damas em carruagens escarlates, vestidas da
mesma cor, o lorde Chanceler do Reino, o alcaide de Londres, todos com os seus trajes de
cerimónia. Com o ventre inchado para que todos vissem, sentei-me imponente, no meu belo
vestido branco debruado a arminho, numa liteira aberta sob um dossel de pano dourado,
transportado por quatro cavaleiros que marchavam a meu lado. Logo atrás seguiam as
damas da nobreza e, a seguir, a guarda real fechava o cortejo.
Foi um espectáculo maravilhoso embora, para falar verdade, poucos assistentes gritassem
”Deus Salve a Rainha” ou sequer erguessem

181
os barretes. O meu bobo provocava-os dizendo: ”Tendes tinha na cabeça e não quereis que
se saiba!”, mas apenas alguns lhe fizeram a vontade. Porém nada disto me surpreendeu. Sei
que o povo não me ama. Muito provavelmente queriam ver o meu sexto dedo, quando lhes
acenava ou procuravam-me no pescoço uma marca de feitiçaria.
Só no dia seguinte fui levada para a abadia de Westminster para a minha coroação. Neste
momento solene e triunfante, vi a altiva duquesa de Norfolk pegar-me na cauda e o duque
de Suffolk, que tentara com todas as suas forças evitar aquele dia, segurar na coroa diante
de mim, junto ao altar, onde se encontrava o Arcebispo Cranmer. Aí ajoelhei e me prostrei
nas lajes antes de me erguer para ser ungida. Henrique, bendito seja, manteve-se na sombra,
para que eu brilhasse sozinha e de um local onde apenas podia ser visto por mim, lançava-
me olhares de encorajamento. Pouco ouvi dos antigos rituais da coroação que Cranmer
pronunciou em latim, mas senti o doce peso da Coroa de Santo Eduardo sobre a minha
cabeça, o frio do ceptro de ouro na minha mão direita, e a suavidade da vara de marfim na
esquerda. Já coroada, percorri os poucos passos até ao trono de ouro e veludo e nele me
sentei.
Ao olhar para o mar de rostos daqueles que agora eram meus súbditos e naquele meu
primeiro momento como rainha, senti um medo terrível. Desejei sorrir, mas senti as feições
rígidas, como se me tivesse transformado em estátua de gelo. O ceptro e a vara pareceram-
me demasiado pesados e imaginei que me poderiam escorregar das mãos e cair no chão. Se
tal tivesse ocorrido, todos aqueles rostos fechado soltariam gargalhadas. ”Ana, a rainha
impostora - uma plebeia, uma rameira, que tenta converter o seu bastardo em rei de
Inglaterra.” Porém, e sempre recordarei esse momento, senti que a bendita criança se mexia
no meu ventre como que para dizer: ”Não temais, minha mãe, pois estou aqui convosco.”
Como um ofuscante sol de Verão, aquele sinal interior fez-me sentir um calor tão íntimo
que as minhas feições rígidas se dissolveram e consegui sorrir. Sei que foi um sorriso
deslumbrante e cheio de amor que iluminou a austera abadia e os rostos sombrios e
atravessou os vidros pintados para brilhar sobre Londres, proclamando o meu direito a
sentar-me neste trono.
Afectuosamente vossa,
Rainha Ana

182
era tal o silêncio no castelo que, quando Isabel fechou o diário no colo, conseguiu ouvir o
sangue latejar-lhe nos ouvidos. Esboçou um leve sorriso ao pensar que se tratava da mãe e
da sua coroação. Fora de facto um pequeno pontapé seu, que tinha dado a Ana a coragem
para enfrentar o mundo como rainha. Sim, percebera de repente que a mãe tinha sido
muito corajosa. Tinha resistido com firmeza a todos os embates. Dela, Isabel herdara a sua
coragem e não de seu pai, como sempre julgara. Desde a mais tenra infância que ouvira
dizer que a mãe fora uma traidora e que todos os traidores eram cobardes. A dor de o saber
e de conhecer a reputação de Ana como adúltera e rameira tinha abalado a sua delicada
alma de criança e feito com que, enquanto jovem, a pequena princesa deixasse de pensar na
mãe e nunca mais pronunciasse o seu nome. Porém, Isabel apercebia-se agora de que Ana
fizera uma coisa maravilhosa. Um perfeito milagre. Uma vitória contra o impossível.
Durante seis anos contivera as investidas do rei de Inglaterra para poder usar a coroa e
assegurar a legitimidade dos filhos que tivesse.
Havia vários meses que Isabel lia o diário em momentos esquivos e as palavras e a história
tinham-na comovido, educado e, por vezes, enfurecido. Ali, nas últimas passagens estava
relatado o caminho percorrido pela mãe para se transformar de plebeia em rainha, numa
cerimónia que mais parecia um funeral que uma comemoração com o ódio do povo, dos
súbditos, quando por fim recebeu a coroa. E aquelas palavras fizeram com que Isabel se
recordasse da sua própria coroação.
Mesmo sendo filha de rei, Isabel travara uma dura batalha para subir ao trono. Em pequena,
vivera sempre à sombra de Eduardo, o herdeiro incontestável. O pai, embora bondoso,
pouco tempo tinha para dispensar àquela criança alegre e ruiva que era, sem dúvida, uma
recordação

184
do seu mais apaixonado amor, então perdido. Embora Isabel tivesse passado a infância
afastada da corte - fora da vista e do pensamento do pai - quando Henrique, o Grande,
morreu, foi para ela como se o Sol se tivesse posto e não voltasse a nascer. Num abrir e
fechar de olhos, terminara também o breve e turbulento reinado de Eduardo, seu irmão e
amigo, bem como a cobiça dos homens que o tentaram controlar.
Seguira-se o reinado de Maria, a seguinte, na linha de sucessão, que se agarrara ao trono
com garras de ave de rapina. A sua infância, como única filha de Henrique e Catarina fora
doce e suave. Porém, Ana Bolena entrara nas suas vidas e tudo envenenara. A fria dança de
amargura e ódio de Maria girara em torno da mãe de Isabel e, em menor grau, da pequena
irmã mais nova.
De facto, Maria mostrara notável contenção em relação a Isabel, durante o seu breve
reinado. Diante das numerosas intrigas, destinadas a livrar o país da rainha católica e fazer
subir ao trono a popular princesa, que tanto se parecia com Henrique, em jovem, todos os
conselheiros de Maria eram de opinião que deveria eliminar a ”pequena rameira”, a herege
protestante e possível usurpadora da coroa.
Isabel levantou-se da cadeira e sentiu o cansaço sobre os seus frágeis ombros, cobertos por
uma pesada capa de arminho. Apagou as velas, uma a uma e subiu para a enorme cama de
dossel. Os tijolos quentes, que Kat colocara entre os lençóis, estavam já frios, de modo que
se enrolou para conseguir aquecer. Porém o sono teimava em não vir e as recordações do
tortuoso caminho para a sua própria coroação, flutuavam-lhe diante dos olhos, como uma
peça de sonho em que os actores eram ela e a sua família.
O ano em que Maria ficou grávida do seu amado Filipe foi para Isabel um dos tempos mais
desanimadores da sua vida. Com um herdeiro legítimo prestes a nascer, todas as esperanças
de vir a ser rainha se esmagaram como o corpo de uma gaivota contra um rochedo. Fora
chamada de um longo exílio para acompanhar a rainha durante a sua estada em Greenwich.
Sabia que a sua presença ofereceria a Maria e aos seus conselheiros uma alegria perversa.
Para eles seria maravilhoso verem murchar a pretensão de Isabel ao trono, à medida que o
ventre de Maria florescia.
Poder-se-ia pensar que aqueles dias mais abençoados e fecundos suavizariam o tratamento
cruel dos hereges protestantes ordenado pela rainha Maria, mas não fora esse o caso. Do
seu quarto, onde se resguardava, possuída por um frenesim assassino, Maria ordenava o
aumento das perseguições e mortes na fogueira, como se exigisse a erradicação de todos os
infiéis de Inglaterra, antes de trazer ao mundo o filho que esperava.

185
Durante esse resguardo, Filipe interessara-se pela cunhada de vinte e um anos. Passavam
juntos muitas horas, discutindo as perspectivas de casamento de Isabel, todas elas capazes
aumentar o poder já substancial do rei de Espanha na Europa, porém delicada e firmemente
recusadas por Isabel. Recordava-se de ter achado o rei de Espanha melancólico mas
atraente, um pouco mais baixo do que ela e sempre com problemas de saúde, sofrendo de
um mal persistente no estômago. Porém, Filipe encantara-se naquela robusta jovem cujo
espírito e erudição contrastavam com a piedosa devoção de sua esposa. Isabel supunha que
o interesse de Filipe por ela obedecia pelo menos em parte a razões práticas. Na
possibilidade de Maria morrer de parto e se ele quisesse manter o domínio de Inglaterra,
teria certamente de procurar casar-se com a irmã da mulher. Todavia, ao recordar os dias
em que aguardavam a chegada da criança prometida pelas parteiras, Isabel pensava que o
interesse de Filipe por ela não era apenas prático. Tinha a certeza de que se apaixonara e
que a teria preferido para compartilhar o trono de Inglaterra.
O filho de Maria não chegou a nascer. A data esperada chegou e passou sem que a rainha
sentisse os sinais de parto. Maria permaneceu durante horas sentada no chão, entre
almofadas, vendo, triste e horrorizada, o seu ventre a diminuir de volume. E, enquanto
desinchava, o poder e a importância de Isabel aumentavam na proporção inversa. Era
evidente que Maria sofrera uma falsa gravidez e que, já idosa, poderia afinal ser estéril.
Mortificada pelo seu fracasso, Maria saiu do seu resguardo e anunciou que a corte se
mudaria para o palácio de Oatlands. Isabel foi sumariamente despedida e enviada de novo
para o seu exílio.
Nas suas viagens, Maria e Isabel haviam cavalgado separadas por entre o povo e
descobriram que era escasso o apoio dos súbditos à rainha. Já ninguém com menos de trinta
anos era católico e o tratamento assassino dado aos hereges enfurecia a populaça. A
desilusão da falsa gravidez fora o golpe final que, qual machado do carrasco, arrancara, por
fim, Maria do coração dos ingleses. Segundo Isabel veio a saber, a pomposa comitiva para
Oatlands encontrara na estrada rostos sombrios e os gritos de ”Deus Salve a Rainha”
tinham sido forçados. Por sua vez, a modesta caravana em que Isabel regressava a Hatfield
encontrara os caminhos cheios de camponeses que a saudavam calorosamente, o que
provocou na princesa o espanto de perceber que o povo de Inglaterra a amava
profundamente e via nela uma encarnação feminina do amado rei Henríque VIII e
acreditava que viria a ser a próxima rainha.
No ano seguinte, Maria estava a morrer. No fim, foi a sua condição de mulher que a
atraiçoou e os órgãos femininos apodreceram-lhe no

186
ventre. Filipe, muito interessado, cumprira o seu papel, convencendo Maria, nos últimos
dias de vida, a nomear Isabel sua sucessora. Assim, quando os mensageiros reais entraram
em Hatfield com as muito esperadas notícias, Isabel estava mais que preparada para ser
rainha. Preparada e ansiosa.
Minha pobre mãe, pensou Isabel, quase ninguém descobrira a cabeça de bom grado,
naquela coroação de Primavera. Quando chegara a vez de Isabel, no pino do Inverno,
milhares de barretes tinham sido atirados ao céu gelado e azul. Nesse dia glorioso, as
pessoas tinham-na envolvido no seu amor. O espectáculo ultrapassara mesmo a imaginação
de Isabel. As ruas estavam cheias de gente. Um milhar de cavaleiros em orgulhoso desfile,
a sua liteira de ouro, seguida pelo seu amado Robin, cavalgando o alazão branco, enormes
gritos, preces e felicitações, palavras ternas que a iam reconfortando. Fora um momento da
mais pura alegria.
- Deus salve Vossa Graça! - exclamavam.
- E Deus vos salve a todos! - respondera cheia de emoção. Em cada paragem do cortejo,
havia uma pequena representação, recitava-se um poema, cantava-se. E, em cada uma
delas, Isabel ouvia com atenção e juntava-se aos celebrantes, para que, no momento em que
retomasse o seu caminho, tivesse dado a cada um dos seus súbditos uma pequena parte do
seu coração. A promessa de ser uma boa rainha para o seu povo, feita em Cheapside,
perante a entusiasmada e ruidosa multidão dos habitantes de Londres, fora um desafio,
tanto para ela como para os que a escutavam, pois Isabel sabia que lhes devia o trono. Sabia
que sem o amor do povo, Maria teria tido a coragem de a mandar executar por heresia. Sem
o amor do povo nunca teria sentido o peso da coroa de Inglaterra sobre a sua cabeça.
Por fim, Isabel sentiu, que as pálpebras lhe pesavam de sono. Foi este amor que minha mãe
não teve, pensou antes de adormecer. Ana fora simplesmente incompreendida.
Incompreendida até à morte.
4 de Junho de 1533 Diário,
Este é o Verão mais doce da minha vida. Em Windsor os dias são longos e calmos e o ar
está impregnado do perfume das rosas e da relva cortada.
Henrique decidiu não sair para caçar, para poder ficar mais próximo de mim e assim, sai
por vezes por um dia para se dedicar

187
à caça e à falcoaria, mas regressa ao cair da noite, trazendo-me provas do seu amor - ramos
das minhas violetas preferidas, cestos de sumarentas amoras, uma pena de mocho, um laço
de erva entrançada com folhas de salgueiro e lírios. O rei sente orgulho no meu belo ventre
e, atrevo-me a dizer que, mulher alguma se poderia sentir mais estimada do que eu.
Do enxoval de Catarina, recebi grande quantidade de jóias, taças de prata, bacias, camas e
tamboretes. Através do meu Conselho Privado posso receber os rendimentos das minhas
muitas propriedades. E Henrique honrou-me com a condição de femme sole, o que me
permite administrar os meus assuntos sem a sua interferência.
Felizmente não nos chegaram aos ouvidos protestos de Roma ou do Imperador Carlos.
Devem ter compreendido que quem se opõe a Henrique corre sérios riscos. Francisco
mantém-se nosso amigo e enviou-nos um maravilhoso presente de casamento - quatro
mulas e uma bela liteira ao estilo italiano, ricamente trabalhada e dourada, fechada por
antigas tapeçarias e enfeitada com almofadas acolchoadas de veludo púrpura. A carta que a
acompanhava dizia esperar que o presente fosse digno de tão bela rainha.
Os meus aposentos são noite e dia palco de todo o tipo de divertimentos. Música, danças,
jogos e representações. Tenho um novo bobo - uma mulher, veja-se! Faz-nos rir com as
suas partidas e comentários inteligentes. Entre as minhas aias e cavalheiros surgem muitos
romances, com as suas pequenas intrigas e enredos. Mas, no seu todo, mantenho uma casa
virtuosa e sossegada. Proibi as discussões e que os meus servidores frequentem locais de
má nota ou sejam vistos em companhias pouco recomendáveis. As minhas aias nunca
incentivam ou permitem condutas licenciosas e são mantidas ocupadas a coser para os
pobres, devendo também assistir diariamente ao serviço divino. Por vezes julgo estar a ficar
um pouco séria demais, mas agora, depois da nomeação de Henrique como Chefe Supremo
da Igreja e do Estado, a rainha tem de dar exemplo cristão. E também porque Deus abençoa
os verdadeiros crentes com filhos varões, devo conduzir-me segundo a moral e as suas leis.
Há um jovem cortesão que atrai as minhas atenções. Chama-se Mark Smeaton e é um
óptimo músico e cantor. É bonito, honesto e gracioso, no que me recorda o jovem Percy,
por quem estive apaixonada. Mark presta-me mais do que a devida homenagem a uma
rainha, o que para mim tem semelhanças com o amor cortês. Senta-se a meus pés, toca
alaúde e canta baladas doces com a sua voz de

188
anjo. Não deveria encorajá-lo, mas a sua devoção toca-me e muitas vezes reclamo a sua
presença nas minhas reuniões privadas. Até Henrique gosta do jovem Smeaton e lhe dedica
uma atenção paternal.
Estou de boa saúde e com boas cores no meu rosto geralmente pálido. O rapaz dá voltas e
pontapés com toda a energia e ninguém se atreve a falar de abortos ou nados-mortos. Mas
para falar com franqueza, tenho alguns receios de morrer de parto e, como tal, enviei uma
mensagem à freira de Kent, solicitando mais uma vez a sua colaboração. Já que na profecia
em que falou do meu filho Tudor e do seu longo e próspero reinado não mencionou a
minha pessoa ou a minha vida, quis recorrer a ela para que, com a ajuda das suas terríveis
visões, possa conhecer também o meu destino. Isto porque, se vier a morrer, há disposições
que devo tomar e cartas que tenho de escrever. Porém, segundo a resposta da abadessa, a
santa irmã mantém-se em rigorosa clausura, não vê ninguém e todos os assuntos mundanos
foram relegados em prol da espiritualidade. Assim, o meu destino será revelado com o lento
correr do tempo e terei de viver com a minha impaciência.
Afectuosamente vossa,
Ana
12 de julho de 1533 Diário,
Por fim chegaram notícias de Roma e são muito desagradáveis. Há dois dias, quando
Henrique saiu para a caça, senti uma estranha inquietação. Receei que a sua vida pudesse
estar em perigo e que os meus terrores fossem proféticos. juro que, depois de ter ficado
grávida, desenvolvi outro sentido, Para além da vista e do ouvido, uma espécie de
conhecimento, sem justificação. Mesmo assim, quando Henrique partiu e não regressou ao
cair da noite, não receei que tivesse adoecido ou estivesse ferido. No momento em que me
ia recolher ao leito, o conde de Shrewsbury chegou para me dizer que, tendo cavalgado até
mais longe que o previsto, sua Majestade passaria a noite em Buckdon Lodge, continuaria a
caçar durante o dia seguinte e regressaria depois. Percorreu-me um gélido arrepio e
perguntei ao conde se o rei estava bem e se a caçada fora bem sucedida. O conde respondeu
que o rei se encontrava perfeitamente e quanto ao resto, os veados mostravam-se arredios e
ainda não apanhara

189
nenhuma peça. Adormeci, mas com sono leve e passei todo o dia seguinte numa estranha
disposição.
Nessa noite, o rei regressou com vários homens, de humor alegre e ruidoso. Porém, quando
veio ter comigo aos meus aposentos e, dispensando-me sorrisos e abraços, me perguntou
pela minha saúde e pela do nosso filho, senti nele uma dor surda e um certo desassossego.
Insisti e afirmou estar apenas cansado pela longa distância percorrida. Porém, pedi-lhe que
se sentasse, massajei-lhe as têmporas e a testa e insisti de novo, mas com cautela. Soltou
um longo suspiro que pareceu esvaziar o seu enorme corpo. Fez tenção de falar, mas as
palavras não lhe saíram. Cobriu os olhos com a enorme mão, cheia de anéis e pronunciou o
meu nome, com voz triste.
- Ana... não estive a caçar.
- Onde haveis estado, então?
- Em Guildford, com os homens do meu Conselho Privado. Não desejava preocupar-vos,
meu amor, mas a verdade é que tive notícias de Clemente acerca do meu divórcio.
- Não quer concedê-lo?
- Pior ainda. Anulou o nosso casamento e declarou ilegítima toda a nossa descendência. Se
até Setembro não me tiver separado de vós e retomado Catarina... serei excomungado. E o
mesmo se passará com o arcebispo Cranmer - soltou novo suspiro e pareceu subitamente
abatido.
Ajoelhei para ficar numa posição inferior à sua e, quando falei, as palavras soaram-me na
cabeça, como se esta não passasse de uma concha vazia.
- Não era o que já esperávamos, Henrique?
- Era, claro que sim. Mas o saber que se avizinha uma grande tempestade, não evita os
estragos quando ela finalmente chega. Os campos e as culturas são destruídos, as árvores
arrancadas, as praias inundadas e as pessoas morrem - abanou a cabeça, perturbado. - Não
esperava sentir-me tão... vazio. A Igreja Católica foi para mim uma mãe, durante toda a
minha vida. Tenho sido o seu filho mais fiel e sempre me prestou grande auxílio.
Nada podia argumentar contra aquelas palavras e sabia que seria imprudente falar com
aspereza da mãe a um filho, mesmo que ele tivesse antes utilizado esse tom de voz.
- Agora o filho ingrato corta a cabeça da mãe e substitui-a pela sua - olhou-me com uma
expressão de desespero no olhar. - Não tinha outra alternativa, Ana. Não tinha outra
alternativa!
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Peguei-lhe docemente nas mãos.
- Escutai. Há mães que recusam deixar que os filhos cresçam e assumam os seus direitos. E
Henrique, como rei de Inglaterra, tendes antigos direitos de soberania. Se ela não os
reconhecer, tereis de os tomar à força. Para o bem de Inglaterra!
Acenou com a cabeça, sem pronunciar palavra, concordando, ainda que de má vontade.
- Não se pode fazer nada? - perguntei.
- Os meus conselheiros de direito canónico sugerem que ultrapasse Clemente e apele a um
concílio geral. Mas isso apenas atrasaria a sentença.
- Francisco não poderá ajudar-vos? Está de boas relações com o Papa. E que diz de tudo
isto o secretário Cromwell?
Henrique soltou uma fria gargalhada.
- O mesmo que vós, acerca dos meus direitos de Rei estarem à frente da Igreja. Porém às
vezes faz-me pensar. Parece não sentir temor a Deus.
- Julgo que mestre Cromwell sente temor a Deus, tal como nós, Henrique. Pura e
simplesmente não receia a Igreja. E nisso creio que tem razão.
Henrique esboçou um sorriso estranho e tocou-me ternamente no rosto.
- A minha esposa luterana. Arrebatou-me a minha mãe, seduzindo-me com promessas
maiores do que as do Céu.
O meu corpo estremeceu ao ouvir estas palavras, pois sempre julgara ter sido ele a
arrebatar-me. Mas guardei para mim essas ideias e não o contradisse, pois sabia que tinha
feito uma promessa, cujo cumprimento o compensaria da perda da Santa Madre Igreja. O
nosso filho. O seu pequeno príncipe. E a sucessão ininterrupta dos grandes reis Tudor.
Afectuosamente vossa,
Ana
5 de Agosto de 1533 Diário,
Fui vítima de uma terrível traição e o traidor foi Henrique. Um golpe inesperado, sobretudo
porque meu marido teve a bondade

191
de enviar há pouco tempo para os meus aposentos em Greenwich, a que em breve me
recolherei para o parto, uma esplêndida e luxuosa cama, com dossel de cetim escarlate
debruado a ouro, escolhida por ele na casa do tesouro. E, para meu benefício e grande
irritação de Catarina, mandou pedir-lhe um rico pano de linho de Espanha, o qual enfaixou
todos os bebés reais no dia do baptismo.
Mas na quarta-feira passada, chegou-me aos ouvidos a história das escapadelas de Henrique
com Elizabeth Carew, minha aia, uma jovem de grande beleza, mas pouca inteligência.
Mentiras mal intencionadas, pensei, oportunamente espalhadas por eu estar já no fim do
tempo e porque a minha língua, geralmente afiada se tinha suavizado, devido à gravidez.
Não me parecia possível, pois Henrique possuíra-me de corpo e alma ainda não havia um
ano. Um curto ano, depois de tantos a combater lado a lado como soldados numa grande
cruzada.
Mas quando, na missa de domingo, entre o toque dos sinos e o sussurro dos tafetás, ouvi o
nome dos nobres que apoiavam esse romance, percebi que era verdade. Sabia que nada
significa para a minha alta posição, pois a coroa está segura na minha cabeça. Sabia
também que a conduta de Henrique não era errada, nem sequer extraordinária, segundo os
padrões reais. Mas, mesmo assim, a ideia de que a sua paixão se dirigisse a outra mulher
que não eu, fez estremecer o frágil amor que sentia por ele. Tantos anos de dor e luta
desperdiçados nos braços de uma tonta.
Dirigi-me aos aposentos do rei, o mais depressa que a minha figura de rosto e ventre
grotescamente inchados mo permitiram e atirei-me a ele, com uma incontrolável fúria.
- Porco! - gritei, ao mesmo tempo que o esbofeteava, deixando-lhe a face quente e
vermelha. O meu amante infiel, esposo e rei ficou abismado. Olhou-me com uma calma de
morte, porém os seus olhos diziam que os rumores eram verdadeiros e os meus ardiam-me
de lágrimas amargas. - Onde está o homem doce e terno que me prometeu adoração eterna,
que antes de assinar as suas cartas dizia não buscar mais ninguém - olhei para um lado e
para outro, como se procurasse esse homem. - Onde está ele, pois aqui apenas vejo um
traidor de duas caras!
O olhar de Henrique fitou-me com tal desprezo que me surpreendeu, já que eu esperava um
sinal dos seus remorsos. Porém, pelo contrário, paralisou-me com um olhar firme e
respondeu friamente:

192
- Fechareis os olhos, minha querida, e suportareis o que outras, melhores que vós,
suportaram. Deveis saber que a qualquer momento vos posso fazer descer, tal como vos fiz
subir - tocou na face avermelhada e demorou perigosamente a mão enorme no meu
pescoço. Mal conseguia respirar. - Rainha Ana... - murmurou com ar de desprezo e retirou a
mão. - Ide.
- Vou, Henrique - repliquei, encarando-o e sem retroceder. - Mas sabei que haveis ofendido
vergonhosamente a vossa fiel esposa, mãe de vosso filho.
Voltei-me e abandonei com altivez os aposentos do rei, para voltar aos meus e chorar o
meu desgosto. Porque não há ninguém senão vós, Diário que conheça a profundidade desta
traição. Estou muito sozinha.
Henrique e eu não falamos um com o outro há vários dias. A criança dá pontapés no meu
ventre e na dor que me causa encontro consolo, pois se o amor do rei se dissipou, este
menino continuará ser um cordão dourado entre sua Majestade e eu - cintilante, inquebrável
e para sempre.
Afectuosamente vossa,
Ana
29 de Agosto de 1533 Diário,
Foi um dia glorioso! Entre o som dos tambores e das alegres trombetas, os estandartes
agitam-se. Na suave brisa de Agosto, tomo o meu lugar na barcaça real. Henrique despediu-
se com beijos e mostras de regozijo (esquecidas que foram todas as discussões). Abraçou-
me com força e ternura.
- Amo-vos Nan - murmurou-me ao ouvido. - Somos um só nesse menino - e poisou a mão,
como uma bênção, sobre o meu ventre. Partiu, depois de ouvir inúmeras aclamações.
O momento foi só meu, mais memorável que a minha coroação. As árvores balançavam nas
margens, o rio Tamisa era verde e dourado e a maré-cheia levou-nos pelo sinuoso caminho
para Greenwich, cheio de gente que acenava, mas não sorria. Quem me dera que o tivessem
feito, para mim, para a rainha, para o meu ventre que albergava o herdeiro Tudor. Porém a
maioria continua leal a Catarina

193
e à filha. Vão mudar de opinião quando ele nascer e com certeza que me vão adorar e
desejar longa vida e saúde à rainha Ana. Os muros e ameias do castelo de Greenwich
brilhavam à luz do pôr do Sol quando chegámos. Lordes e damas, muito bem vestidos,
aguardavam-nos na margem e vieram ajudar-me a recolher aos meus aposentos. Foi há
muitos anos que o pai de Henrique, o primeiro rei Tudor criou este cerimonial. Talvez por
ter conseguido a coroa pela força das armas e não por linhagem, quis que fosse assim o
nascimento dos filhos.
O grande rio da história, pensei, corre sob esta barcaça real e Henrique, eu e o nosso filho,
desaguamos nele, como pequenos ribeiros, entrando para sempre nos seus anais. Com
discreta pompa, fui conduzida à capela, onde me aguardava o meu bom amigo Cranmer.
Recebi a comunhão das suas mãos e os nobres presentes rezaram com ele para que Deus me
desse uma boa hora. Ao sairmos, vi a princesa Maria, magra e hirta, com os olhos escuros
a seguirem-me o caminho. Sorri-lhe bondosamente ao passar, disposta a oferecer-lhe o
amor que tinha para dar, mas vi que interpretou o meu gesto como provocação. Não
importa, pensei. Sei que deseja a morte do meu filho e a minha.
Os lordes e as damas escoltaram-me então à minha câmara, serviram-me vinho aromático e
brindaram em minha honra. Meu irmão George estava entre os homens, a rebentar de
orgulho por mim e muito feliz. Peguei-lhe na mão e murmurei:
- Meu fiel irmão, pensas que isto fará com que mudem as coisas entre eles e eu?
- Penso - respondeu. - Quando fores a mãe do futuro Rei será como se lhes arrancassem dos
olhos um véu e, por fim, poderão perceber a mulher delicada que é a minha irmã.
Subiram-me as lágrimas aos olhos, tal foi a onda de amor e gratidão que senti por George.
Porém, antes que começasse a chorar, ele e meu tio lorde Rochiord pegaram-me na mão e
conduziram-me até à entrada dos meus aposentos, desejaram-me boa sorte e aí me
deixaram. Quando todos os cavalheiros se retiraram, as minhas aias seguiram-me e
fecharam a porta atrás de mim. Segundo a lei, não posso abandonar estas paredes senão
depois do parto e apenas poderei ver estas mulheres que comigo se retiraram.
O lugar era escuro e mal arejado, com pesadas tapeçarias a cobrirem todas as paredes,
tectos e janelas excepto uma. Vi a cama estreita, onde teria lugar o parto, as braseiras para
aquecer o quarto, os frascos

194
de perfume para cobrirem o cheiro pegajoso do sangue e estremeci ao reparar nas panelas e
bacias, nos montes de panos rasgados, num enorme conjunto de lancetas e noutros
assustadores instrumentos de parteiras.
A outra câmara era mais alegre. A minha cama era de madeira trabalhada e tinha um rico
dossel. Imaginei-me mãe orgulhosa, naquele leito, recebendo visitas importantes, sentada
entre os lençóis, com uma capa de veludo escarlate, forrada de arminho. E quando me
viessem apresentar os seus respeitos, veriam o pequeno príncipe, adormecido no seu
imponente berço, com quatro remates de ouro e prata e uma colcha tecida a ouro e
debruada a arminho.
Dizem-me que em breve entrarei em trabalho de parto. Rezo do fundo do coração para ter
coragem, para não gritar, para me preparar para a dor. Há quem me odeie tanto que espera
à porta dos meus aposentos para ouvir os meus gritos de agonia. Imploro-vos, meu Deus
que me deis forças nesta hora e para que meu filho nasça saudável e formoso.
Afectuosamente vossa,
Ana
8 de Setembro de 1533 Diário,
Tenho uma filha a quem chamei Isabel. Vivi o seu nascimento, terrível e sangrento, como
um sonho sombrio em que, como bruxas, as parteiras murmuravam feitiços por entre as
minhas pernas. As repetidas orações para pedir um filho foram missas vãs por entre os
meus gritos e impropérios. Nem um sopro de brisa no ar fedorento e húmido fazia ondular
as cortinas escarlates da minha cama de dossel, quando Henrique entrou, cheio de sorrisos,
para ver o seu pequeno príncipe, trazendo no hálito o odor da comernoração. Não reparou
na expressão de terror das minhas aias, que, para que não as visse, voltaram o rosto
acobardadas, murmurando assustadas, não fosse, mais tarde, considerá-las testemunhas do
crime daquela noite. Ouviu apenas os fortes vagidos do herdeiro que tanto desejara.
- Onde está, Ana? Onde está o meu filho? - Os meses, não, os anos de tensão tinham-se
dissipado das suas feições. Tinha o ar jovem e bem-parecido de quando me começara a
cortejar, sete anos atrás.

195
- Mostrai-me o meu filho - olhou em seu redor, de aia para aia, fitou o berço dourado e
sentiu o frio do medo inundar-lhe o coração.
- Tendes uma filha muito formosa - disse eu, com o que me restava de coragem.
- Uma filha... - murmurou. - Uma filha?! - Li-lhe nos olhos um brilho assassino, contra
mim, contra a criança. Receei que arrebatasse o pequeno bebé enrugado e lhe abrisse a
cabeça como se faz a um melão maduro, ou que a esmagasse contra a coluna da cama até a
matar. A sua raiva indescritível era uma terrível onda de silêncio que se abatia contra o meu
corpo exausto.
- Sois uma mentirosa! - exclamou. - Uma mentirosa! Haveis-me prometido um filho. Por
esta mulher queixosa renunciei à minha piedosa rainha, ao amor dos meus súbditos e até a
Roma! Vós senhora, pagareis por tudo isto! - E retirou-se dos meus aposentos, escarlate e
coberto de suor.
Um filho varão! Essa simples promessa que fizera a Henrique, mantivera vivo o nosso
sonho e haveria de ser a minha perdição. Mas, oh! Algumas promessas são difíceis de
cumprir, outras seria melhor não terem sido feitas, outras ainda são mentiras que nunca
tivemos intenções de dizer.
Sinto a cabeça girar como um moinho de papel. E que dizer da freira de Kent e do meu
”filho Tudor” que, prometeu, surgiria do meu ventre? Um filho, dissera, iluminaria as
terras britânicas. Teria percebido mal? Referir-se-iam as suas palavras a algo da órbita
celeste?’ Teria eu ficado ofuscada com o significado da palavra? Quando naquele dia,
sendo ainda uma jovem magra, me encontrei na cela nua, sob o olhar meio enlouquecido
daquele oráculo e escutei a profecia saída dos lábios gretados da freira, terei, na minha
terrível ânsia, captado apenas o que desejava ouvir? Deve ter sido assim, pois essa adivinha
nunca se enganava. Como fui tola!
Depois de terem banhado e enfaixado a recém-nascida em metros de pano, de modo que só
o pequeno rosto sobressaísse, colocaram-na nos meus braços. Olhei para aquela criaturinha
rosada, causadora da minha destruição. Chorava, sem dentes, esforçando-se por se libertar
da sua prisão de musselina. Abriu os olhos e quase fiquei sem fôlego... eram os olhos de
Henrique! Os olhos furiosos de Henrique.
Nota: A palavra ”son”, filho, em inglês e ”sun”, sol, têm quase a mesma sonoridade. Daí a
possível confusão. N. da T.
196
Isabel, oh meu Deus, és bem filha de teu pai. Nasceste do meu ventre, do meu sangue, com
as minhas orações, mas mostras a raiva de teu pai. Permitirá ele que continues viva?
Permitirá que eu continue viva? Minha inocente menina, minha filha, em que mundo
terrível te fiz nascer? Os meus seios choram por ti e, neste momento, nada mais desejo do
que chegar-te ao coração para que te alimentes do amor de tua mãe. Mas eis que chega a
ama, gorda, macia e reconfortante para te arrebatar dos meus braços doridos. É com um
humilde sorriso que pega em ti, mas sabe que será ela a sentir a tua boca a mamar, será ela
que há-de contar os teus dedinhos, que penteará a seda dos teus cabelinhos, que secará as
lágrimas que eu nunca verei. Não, nunca me deixarão ficar perto de ti, minha filha, poisvão
criar-te como princesa. Receberás cortesias e não beijos, abraços sobre ”metros de cetim
engomado, lisonjas dos cortesãos, não ternas palavras de amor.
Oh, Isabel, pequenina, oiço-te chorar no aposento ao lado. Escuto-te, sinto-te, recordo-me
de ti, dentro do meu ventre. Pedirei para te ver e vão trazer-te esta noite, mas amanhã terás
partido, ficarás sequestrada nos aposentos das crianças, afastados dos meus por corredores
escuros e cheios de correntes de ar. Henrique não quer que uma criança impertinente lhe
estrague os seus festejos, as suas reuniões do conselho, os seus namoros. Ver-te-ei cada vez
menos. O leite secará nos meus seios que deixarão de te desejar. Terei de cantar e dançar,
conversar alegremente com as minhas aias, jogar às cartas. Ser rainha e nunca te pegar ao
colo.
Recordo-me de uma patrícia romana, cujo nome esqueci, encerrada numa escura prisão por
carcereiros que pretendiam matá-la à fome. Conseguiu manter-se viva devido à filha que a
vinha visitar todos os dias e a alimentava em segredo. Essa bondosa jovem, que acabara
também ela de ser mãe, com fingidos abraços deixava que, escondida pelas muitas dobras
das suas vestes, a mãe mamasse nos seus seios cheios de leite. A idosa mulher não
enfraqueceu nem morreu e, quando os guardas descobriram o subterfúgio, enterneceram-se,
talvez devido a recordações das suas mães e libertaram-na. Mãe e filha, filha e mãe.
Estimavam-se muito uma à outra. Oh, Isabel...
Henrique odeia-me, diz que o enganei, que o cobri de vergonha. Todos os grandiosos e
fantásticos festejos e torneios para o pequeno príncipe foram anulados e substituídos por
brindes à saúde da princesa e orações para que o meu ventre albergue, enfim, o tão desejado
herdeiro. E tentaremos de novo trazer ao mundo esse varão filho de

197
tua mãe Ana e de teu pai Henrique. Juntaremos com raiva os nossos corpos, implorando
que, a cada investida, da próxima vez que estiver nesta câmara, seja para dar à luz o
almejado varão.
Mas falharemos sempre. Sei-o, com uma terrível certeza. A freira louca vaticinou o meu sol
Tudor e, quando olho nos teus olhos, nos olhos que herdaste de teu pai, sei que o sol és tu,
Isabel. Brilharás sobre o mundo com glória e esplendor, apesar da fúria do rei teu pai. Disso
estou certa.
O futuro chega até mim, como um vento escuro e uivante. Estou perdida, minha filha, mas
tu foste encontrada. E serás rainha.
Afectuosamente vossa,
Ana
12 de Outubro de 1533 Diário,
Fiquei ciente de factos bem desagradáveis. Mente-se às rainhas grávidas, a bem da sua
saúde, ou melhor, a bem da saúde da criança. Mantiveram-me na ignorância de um enorme
escândalo em cujo centro se encontra a Santa Freira de Kent. Tem falado contra mim e
contra Henrique, dizendo que não teremos bom fim, rogando pragas sobre a nossa casa e
afirmando a legitimidade do casamento do rei com Catarina. Sua Majestade está furiosa e
Cromwell mandou prender a freira, acusando-a de traição. O secretário tem uma lista com
os nomes dos seus simpatizantes e todos estremecem só de pensar que podem fazer parte
dela. Fala-se que a freira confessará ser culpada de corrupção, tendo sido aliciada por vários
cortesãos, entre os quais Thomas More.
Sinto-me como um peixe retirado da água. Que hei-de pensar? Terá mentido ou a sua
confissão tem por fim escapar à morte? Será que nunca teve o dom de adivinhar e as
palavras que me disse há anos não passavam de ilusões de uma louca camponesa,
transformada em profetisa pelos bispos sedentos de milagres?
Naquela ocasião acreditei nela, mas tomei as suas palavras como melhor me serviam.
Porém, diz-mo o coração, Isabel há-de reinar, embora seja necessário que eu contribua com
mão firme para o cumprimento de tal promessa. O rei, meu esposo, cansou-se de mim e
tenho de me esforçar para reacender o seu amor. Está satisfeito com a sua filhinha, já me
falou de um Acto de Sucessão que garanta a

198
sua ascensão ao trono adiante de Maria, mas apenas após o filho que pensa que em breve
lhe darei. Assim, mostro-me terna e submissa e incentivo-o a fazer passar a lei. Os que me
detestam, agora mais que nunca, sorriem desdenhosos e murmuram que sigo o rei como se
fosse um cãozinho. Embora me desagrade, devo humilhar-me, pois diz-me o coração que
não terei filhos varões com Henrique e tenho de preservar a coroa para Isabel.
É estranho pensar no dia da coroação de minha filha, que é ainda muito pequenina e frágil.
Rosada, com cabelo alourado, olhos doces, reconhece-me como sua mãe, reconhece o meu
corpo como tendo sido a sua casa e, para além de serem poucos os momentos em que a
posso abraçar, nunca terei autorização de lhe dar o seio. Mas, sabe quem sou, aninha-se
confortavelmente a mim, sorri-me. Amo esta criança sem necessitar de estímulos, como um
dia amei o jovem Percy, só que ainda mais. Sempre que me sento, peço que ma tragam
numa almofada de veludo que é colocada a meus pés. Todas as minhas aias dizem que é
muito bonita, com os seus caracóis e a sua pele acetinada que cheira tão bem.
Implorei a Henríque que dispensássemos as Convenções, que Isabel pudesse ficar
connosco e não fosse enviada para a sua residência, longe da corte. Mas ele troçou.
- Gosto muito da minha filha, mas é uma filha, Ana. Não será melhor que vos esforceis por
me dar filhos varões em vez de passar o tempo a olhar para essa menina?
Disse-o num tom frio, vazio, como uma sebe no Inverno. Sabia que seria inútil implorar,
mas esperava que mudasse de ideias e me permitisse o conforto de ter comigo a minha
filha.
- As crianças reais partem para a sua própria residência quando têm apenas três meses de
idade - expliquei. - Essa regra foi feita por homens que nada entendem da necessidade de
uma mãe ter os filhos junto a si.
Ele voltou-se, grunhindo como um urso.
- Trata-se de um ritual de Reis, senhora, de Reis! Como vos atreveis a criticá-lo?
Caí de joelhos e beijei-lhe a mão para o acalmar, murmurando desculpas. Envergonho-me
de descer tão baixo, mas não quero pôr Isabel em perigo, com a minha arrogância.
Afectuosamente vossa,
Ana

199
Isabel olhava aturdida para os círculos em redor das velas tremeluzentes, com as lágrimas a
correrem-lhe pelas faces frias.
- Minha mãe - disse num murmúrio. Suspirou, exalando todo o ar que tinha nos pulmões,
parecendo-lhe difícil voltar a respirar. Aquela revelação comovera-a profundamente. Sua
mãe amara-a.
Adorara-a. Esforçara-se por mantê-la a seu lado. Não obstante, lendo nas entrelinhas,
Isabel apercebia-se de que aquele amor maternal tinha sido tão surpreendente para Ana,
como o era agora para a própria filha. Ana lutara tanto pela coroa, esforçara-se tanto por
amar Henrique, tivera de se defender dos seus inimigos, com tal afinco que, no seu
pensamento, a criança que ia dar à luz acabara por converter-se no tão almejado príncipe.
Como deveria ter sido grande aquele amor, pensou Isabel, para que a mãe tivesse
ultrapassado o desapontamento de ter tido uma filha em vez do desejado varão. Ou talvez
fosse aquele o significado da maternidade. A criança nasce do corpo de sua mãe, que nada
mais pode fazer do que amá-la quer seja do sexo feminino ou masculino, dócil ou
terrivelmente impertinente, bela ou monstruosamente deformada. Mas Isabel tinha a
sensação de que Ana sentira esse amor mais profundamente, lutara com mais coragem,
humilhara-se com maior resignação e acreditara no destino de Isabel com mais convicção
do que qualquer outra mãe faria por uma filha.
Amara-a. E Henrique, o seu pai infiel? Que deveria pensar dele? Sabia que não seria
correcto vilipendíá-lo. Era o rei e, segundo a antiga lei não escrita de Inglaterra, tinha
direito a ter uma amante, por muito que gostasse da rainha.
Falecera no ano em que Isabel fizera catorze anos e, nessa altura, transformara-se já do belo
monarca glorioso, robusto e animado retratado

200
em quadros, tapeçarias, jóias, mobiliário e moedas, numa obscena montanha de carne, cujos
olhos eram meras fendas num rosto inchado e lascivo e que, pela sua corpulência e devido à
perna doente, tinha de ser transportado de aposento para aposento, numa liteira carregada
por seis homens. Isabel conheceu-o nesse estado e sabia que o pai pouco se preocupara com
ela. Isabel fora sempre um precioso trunfo político para Henrique, uma princesa que
poderia casar com um príncipe estrangeiro e que, durante aqueles anos, raramente se dera
ao trabalho de querer ver.
Sempre que o rei a mandava chamar, o seu coração de criança estremecia com o medo que
as pessoas reservam para o Juízo Final. Não se atrevia a olhá-lo nos olhos, pois sabia que
lhe exigia submissão e obediência cega. Era esse o dever inalterável de um filho para com o
progenitor. E, claro, Henrique era o rei e estava habituado a contar com o preito de todos os
seus súbditos, mesmo dos mais nobres e importantes. Durante essas audiências, Isabel tinha
de cair várias vezes de joelhos e manter-se em silêncio a seus pés, sentindo o cheiro da
carne em decomposição e das pútridas ligaduras da sua perna ferida. Por vezes,
esquecia-se mesmo da presença da filha, passando a outros assuntos e permitindo apenas
que se erguesse da sua prostração quando já tinha os joelhos negros e quase perdera os
sentidos, devido aos desagradáveis vapores.
Porém, pensou Isabel, sempre amara seu pai, admirava o poder e lealdade que inspirava aos
seus súbditos e enchia-se de orgulho, quando os cortesãos lhe garantiam a semelhança do
seu carácter e físico com os do rei quando jovem. Encontrava sempre um pretexto para lhe
perdoar os excessos, o facto de quase ignorar a sua pessoa e os seus acessos de mau humor.
Até mesmo o ter mandado matar sua mãe.
Basta, ordenou Isabel a si própria, voltando a guardar o diário na arca. Não devia pensar
mais naquilo. Fora suficiente por uma noite o ter sabido que a mãe a amara. A jovem rainha
sentiu que alguma coisa se expandia no seu interior, como uma semente que brota da terra
macia para se abrir ao sol e ao calor. Enquanto a luz da manhã entrava pelas janelas dos
seus aposentos, Isabel Tudor, filha de Ana Bolena, descobriu surpreendida que estava a
sorrir.
- Majestade!
Isabel voltou-se e viu o seu secretário real, William Cecil aproximar-se a correr durante o
seu passeio pela galeria do Palácio de Richmond, único exercício possível naquela tarde
fria e chuvosa. Cecil abriu

201
caminho por entre as damas que, qual bando de pássaros coloridos, rodeavam a rainha, e
chegou a seu lado.
- Bom-dia, meu senhor. Espero que estejais de boa saúde. Senti a falta da nossa conversa
matinal.
- O debate com o Conselho Privado foi acalorado e não está ainda concluído, Majestade.
Com um gesto, a rainha ordenou-lhe que começasse a falar, porém Cecil hesitou, lançando
um olhar reprovador às ruidosas aias.
- Tendes toda a minha atenção - garantiu Isabel.
Porém Cecil recusou-se teimosamente a tratar dos assuntos diante de um público tão
ruidoso.
- Muito bem!
A rainha voltou-se para as suas damas e erguendo o queixo ordenou-lhes que se retirassem.
Estas dispersaram e desapareceram como que por magia. Ela e Cecil ficaram, por fim a sós,
na longa galeria, onde ecoava o bater da chuva nas janelas.
- Deixai que adivinhe - comentou Isabel. - A Escócia. Quereis que gaste mais dinheiro com
os rebeldes protestantes.
- É imperioso - implorou Cecil.
- já lhes enviei demasiado. Sou muito pobre, Cecil. Além do mais, duvido que os Franceses
apreciem o facto de eu me opor abertamente aos seus aliados.
- Desejais então que os católicos governem o país? - Isabel suspirou exasperada. - Enviai
então as vossas tropas para lhes opor resistência.
- Não. Não o farei.
- Fazeis mal, senhora. Essa decisão é mal aconselhada.
Isabel voltou-se para o seu conselheiro como se desejasse lançar-se furiosamente contra ele.
Porém, o olhar de Cecil era tão sincero e determinado que se deteve. Tratava-se do mais
avisado dos seus conselheiros, do mais prodigiosamente informado. Seu antigo servidor e
protestante fiel, conseguira tornar-se indispensável a Maria, sua irmã católica durante o
reinado desta, sem renunciar a sua fidelidade a Isabel.
Mostrava-se invariavelmente partidário de uma intervenção armada na Escócia e acreditava
na justiça de tal medida desde que, em 1540, ele próprio participara na batalha de Pinkie.
- Não me sinto inclinada a concordar convosco, lorde Cecil. Falai-me no assunto dentro de
uma ou duas semanas.
- Nesse caso, renunciarei ao meu cargo - disse inesperadamente.
- Como assim?

202
- É esta a minha postura. Será um erro sem paralelo e não mais poderei considerar-me
vosso conselheiro, se insistirdes nesta desastrosa estratégia.
Isabel fitou o secretário, buscando-lhe no rosto o menor sinal de indecisão. Porém, tal não
existia. Não se lia nele a menor partícula de dúvida.
- Muito bem. Tratai dos pormenores e mantende-me ao corrente de tudo.
- Agradeço a Vossa Majestade. Prometo que haveis de vos alegrar com essa decisão.
- Também me prometeis que, quando acabarmos de pagar uma guerra no estrangeiro haverá
dinheiro para a nossa governação?
- Não, senhora. Mas prometo que as vossas fronteiras a norte estarão, de futuro, a salvo de
uma invasão católica.
- Pois bem, já é alguma coisa - replicou Isabel asperamente. - já é alguma coisa.
2 de Dezembro de 1533 Diário,
A raiva corrói-me as entranhas como se de uma ratazana negra se tratasse. Levaram-me
Isabel, levaram-na para Hatfield, onde viverá com gente que lhe é estranha, e que em breve
se transformará na sua família. Sou a rainha e nada posso fazer para impedir esta atitude
contrária à natureza. Estou separada da minha filha, encurralada por uma fria tradição
criada por homens, que não têm em conta os sentimentos femininos.
Sinto também um ódio cada vez maior por lady Maria. Triste sorte a minha que, quando
finalmente terminou a terrível batalha com sua mãe Catarina, não me concede tréguas.
Como um dragão que se ergue das cinzas da sua predecessora, Maria surge ameaçando-me
com as garras de fora, olhos soltando fogo, fixados na coroa que considera sua. Desafia seu
pai. Teimosa e doce como outrora sua mãe, mas mesmo assim, desafia-o. Quando lhe
disseram que lhe tinha sido retirado o título de Princesa de Inglaterra e que passaria a ser
simplesmente lady Maria, replicou que não tinha conhecimento de nenhuma outra Princesa
de Inglaterra e recusou-se a responder por outro nome que não fosse o que, assegura, lhe
corresponde diante de Deus e da lei do seu país.

203
A jovem, com apenas dezassete anos, brinca com a traição, pois sabe que tais palavras e
atitudes rebeldes inflamam a população que continua a detestar-me, considerando-me a
”Grande Prostituta” e a Isabel a ”Pequena Prostituta”. De bom grado veriam no trono essa
cabra espanhola.
Oh, Diário, com quanto fervor rezei para que os meus súbditos me amassem, a mim e à
minha filha. Mas são perversos. Quando faço generosos donativos aos pobres das
localidades por onde passamos quando a corte se translada - dez libras por uma vaca para
lhes alimentar os filhos, quando poucos xelins chegariam para a adquirir - dizem que tento
comprar o amor dos meus súbditos. E embora o povo odeie a ruindade do Papa e de todo o
clero e se indigne contra a corrupção e concessão de indulgências, gostariam de ter uma
rainha papista e sentem saudades dos rituais católicos. Não compreendo!
Aqui na corte, lady Maria tem os seus leais seguidores que, se lhes fosse concedida
oportunidade, ergueriam o seu traiçoeiro estandarte em nome dela, para que todo o povo a
seguisse. Há sempre maledicência que vaticina a minha merecida queda. E esta
maledicência tem sempre Maria no seu centro. Impõe-se dobrar o atrevimento desta jovem,
porém receio que o plano de Henrique para o fazer acabe por ser posto de parte. Ordenou a
Maria que vá viver para Hatfield e sirva de dama de honor de sua meia-irmã Isabel.
Perguntei ao rei o porquê de colocar uma víbora junto da nossa filha, mas ele não deu
importância aos meus cuidados, dizendo que Maria era desobediente, mas não perigosa.
Talvez eu veja inimigos a espreitar em cada canto, mas sinto que o plano de Henrique e a
pouca importância que dá aos meus receios são uma pequena vingança contra mim-
Vingança pela humilhação que o fiz passar ao dar à luz uma filha e não um filho varão.
Embora prossiga no seu intento de passar a lei o Acto de Sucessão, continua distante da
minha pessoa, vindo ao meu leito apenas quando disso tem necessidade. De facto seria
cega, se não visse o modo como devora com o olhar as minhas formosas aias, ou surda se
não ouvisse o tom amargo com que me chama sua rainha.
O amor por Henrique que cultivei até o ver crescer, definha agora, pois não se alimentou de
uma nascente no meu interior, mas sim da sua volúvel paixão. A falta desse amor da parte
do rei, um amor que pensei receber diariamente, deixa-me vazia e desconsolada. George,
meu irmão e amigo, continua no estrangeiro, embaixador

204
em França. E agora arrebatam-me a minha filha dos braços. Aqui me encontro, entre os
lobos da corte que, se tivessem a mínima oportunidade, me arrancariam a carne.
Tenho de ter forças para recomeçar. Os meus inimigos não devem conseguir os seus
intentos. Lutei para conseguir esta posição e este nome, e não hão-de fazer-me vacilar. Sou
a rainha Ana. Eles que tentem derrubar-me do trono. Eles que tentem...
Afectuosamente vossa,
Ana
7 de Abril de 1534 Diário,
Estou de novo grávida. Henrique está encantado com a notícia e cheio de esperanças que
desta vez nasça um varão. Porém, querendo prevenir outra desilusão, mostra-se distante e
até um pouco cruel. A maledicência da corte fez-me chegar aos ouvidos que dorme não só
com damas, mas também com as mais baixas prostitutas que vai visitar à cidade. Estou
preocupada que possa trazer doenças para o nosso leito, de modo que resolvi visitar uma
velha que dizem ter melhores curas que os remédios do boticário.
No primeiro dia de Primavera deste ano, vesti-me modestamente e sem confessar a
ninguém onde ia, mandei vir uma carruagem simples, conduzida pelo meu habitual
cocheiro. Como companheiro de viagem levei Ptirkoy, um cachorro que me foi oferecido
por meu primo Francis Bryan. Instala-se comodamente no meu colo e aceita sempre as
minhas festas e carícias sobre o seu pêlo aveludado. Segue-me constantemente e é um
súbdito doce e engraçado que me ama incondicionalmente.
O Sol brilhava sobre as minhas costas, quando passei o portão do palácio. Várias pessoas
olharam, mas ninguém falou comigo, limitando-se a inclinarem-se à minha passagem.
Quando a carruagem chegou, vi que o meu bom cocheiro tinha sido substituído por um
desconhecido de libré, alto e bem-parecido - Jolin, como disse que se chamava. Quando me
ajudou a subir, lançou-me um sorriso um pouco atrevido, mas mesmo assim tive esperanças
que fosse bom homem e amasse a sua rainha. Porém decidi ter algumas precauções, para
que ele não visse a velha que eu ia visitar, não fosse ele
205
fiel a outras pessoas e me acusasse de conspirar com bruxas. Sei que é assim que começa a
maledicência.
Partimos enfim naquela bela manhã, John, o cocheiro, Ptirkoy e eu. Percorremos primeiro
ruas empedradas e depois caminhos mais estreitos até chegarmos a uma pequena casa a
necessitar de reparações. Com Ptirkoy debaixo do braço, assegurei-me que John não visse a
velha enrugada que me abria a decrépita porta.
- Bem vinda, gentil senhora - disse ela, fazendo-me entrar. Não era o lugar escuro e
mórbido que eu imaginara, e que agourava o exterior do edifício. O sol entrava pela porta
do jardim e as janelas lançavam luz e sombra sobre as mesas, onde se empilhavam flores e
ervas a secar e até insectos vivos fechados em frascos. Das vigas do tecto, pendiam mais
plantas, lançando pela casa o seu perfume e numa concha nacarada fervia um líquido de
onde se erguia um vapor de aroma açucarado. Perto da janela, e sem qualquer gaiola estava
poisado um papagaio cinzento, de cauda escarlate e bico negro e curvo. Com a cabeça de
lado, a ave ladrou como um cão, deixando o pobre Ptirkoy a tremer de medo nos meus
braços.
A velha desconhecia a minha verdadeira identidade, pois embora me parecesse bondosa
não se inclinou nem ajoelhou diante de mim. Senti-me satisfeita por poder manter o
anonimato, pois todas as pessoas mudam de conduta, quando sabem quem sou. Assim,
ocultei as minhas mãos não fosse ela ver o meu famoso dedo e reconhecer-me e apresentei-
me apenas como lady Ana.
- Poisai o cachorro no chão, senhora, para que possa farejar à vontade. Vai encontrar muitos
cheiros agradáveis. Então de que se trata? - perguntou enquanto eu fazia conforme me tinha
dito.
A velha começara a esmagar sementes amarelas dentro de um almofariz de madeira.
- Alguma coisa para a vossa gravidez?
Soltei uma gargalhada, pois não havia maneira dela saber que eu estava de esperanças
- Não é disso que necessito, mas podeis dizer-me se será rapaz ou menina?
- Não. Está para além das minhas capacidades. Posso ter muitos conhecimentos
medicinais, mas não sou vidente, senhora. Imitando Ptirkoy, tomei a liberdade de observar
de perto os frascos que enchiam as prateleiras, sendo-me familiares alguns dos seus
conteúdos. Havia-os exóticos, uns secos, outros em forma de poção. Todos despertavam a
minha curiosidade. Vi flores amarelas

206
de retama, que Henrique toma destiladas em água para o estômago, e bagas de bérberis,
boas para a diarreia e para as febres.
- O meu marido anda com outras mulheres e receio que me infecte.
- Sim, fazeis bem em preocupar-vos. E ele? Apresenta algum sinal de doença, como
erupções avermelhadas no corpo, na palma das mãos ou na planta dos pés, uma ferida no
membro, perda de cabelo no rosto ou na cabeça?
- Não, nada disso.
A velha olhou para mim e observou-me o rosto, mais parecendo sondar-me a alma.
- já não sois jovem, mas sois ainda muito bonita. Porque pensais que procura outras?
Soltei uma gargalhada que soou amarga aos meus ouvidos.
- É uma história longa e triste para ser contada numa fria noite de Inverno - respondi.
Ela sorriu, mostrando dentes surpreendentemente saudáveis, pequenos e brancos.
- Talvez que um dia ma contareis. E eu contar-vos-ei outra. Velha como sou, os homens
ainda me confundem, pela maneira como encontram e perdem o amor. Se ao menos
amassem as esposas como amam as mães...
Abanou a cabeça e pediu que me aproximasse da luz. Olhei pela janela, para o jardim
emaranhado, enquanto ela me observava o cabelo, as unhas, a pele, os olhos e o hálito.
Ergueu os braços rígidos para que eu a imitasse e palpou-me os seios.
- Estais de boa saúde - disse por fim. - Dentro das vossas veias correm humores
saudáveis, mas estais um pouco melancólica. Posso dar-vos uma coisa para isso - dirigiu-se
às prateleiras, observou-as com atenção e, por fim, os seus olhos poisaram sobre o desejado
frasco. Aproximei-me para ver o que continha - um pó verde-escuro.
- Como se chama?
- Matricária. Um simples tónico para beber com água. Não há outra erva para eliminar do
coração os vapores melancólicos, para o fortalecer e tornar-vos alegre e feliz como já
haveis sido.
- Tendes a certeza de que já fui feliz?
- A certeza absoluta, senhora.
- Como assim?
- Porque há ainda uma leve centelha nos vossos olhos tristes.

207
Ptirkoy ficou debaixo do poleiro do papagaio a ladrar-lhe, e o pássaro respondia imitando-
lhe os latidos. Peguei-lhe, enquanto a velha senhora embrulhava um pouco de matricária
num pergaminho que selava com cera cor de laranja. Paguei-lhe o que me pediu.
- Voltai se virdes sinais em vós ou em vosso marido - abriu a porta. - Boa sorte, senhora e
boa viagem.
Era estranho, mas não tinha vontade de partir. A companhia daquela mulher numa morada
tão humilde, animara-me e sentia-me mais à vontade do que nos ricos confortos da corte.
Porém não podia ficar nem falar-lhe dos verdadeiros desejos do meu coração. Recebi o
embrulho com a matricária e depois tomei-lhe as mãos.
- Sois muito boa - disse-lhe, apertando-lhe suavemente os dedos. Ouvi o papagaio dizer
”Bom-dia! Bom-dia!” e fechei a porta. John desceu do seu assento para me ajudar a subir.
A cortesia
proibia-o de me perguntar o que fora ali fazer, porém via a curiosidade a queimar-lhe o
olhar. Voltou para a almofada, contudo, antes de picar os cavalos, a idosa mulher abriu de
novo a porta e saiu sorrindo com os seus belos dentes, quase sem fôlego.
- Senhora! - chamou. Inclinei-me da janela e atirou-me para o colo outro embrulho de
pergaminho. - Um remédio para a vossa gravidez. Uma poção muito boa para os rins e para
o fígado.
Procurei o dinheiro na mínha bolsa, porém segurou-me a mão.
- Não. É um presente meu - e pronto. Desapareceu dentro de casa.
Os cavalos, sentindo o chicote, fizeram avançar a carruagem e as lágrimas assomaram-me
aos olhos. Não eram causadas pela dor, ou pela fúria, simplesmente pela simpatia da idosa
mulher. Puxei Ptirkoy mais para junto de mim, mas ele é um fraco substituto para a
pequenina que eu tanto desejo abraçar.
Afectuosamente vossa,
Ana
4 de Julho de 1534
Acaso todos os homens serão traidores? Não haverá entre o sexo masculino um único que
seja fiel? Por toda a corte correm rumores de que há uma conspiração para envenenar lady
Maria com uma poção mágica, preparada por mim. Sem desejar acrescentar

208
achas à fogueira desta maledicência, mas necessitando saber a sua origem, enviei os meus
espiões. Regressaram da caça trazendo na boca retalhos da mentira que consegui
reconstituir por completo. Lady Maria está, como sempre, no centro da questão, queixando-
se de indisposição, devido a uma poção que, alegadamente, lhe misturaram na comida. E
como os magros rendimentos que aufere não lhe permitem ter um provador ao seu serviço,
não tem mais remédio senão comer o que lhe põem na frente, para não morrer de fome. A
base das suas queixas eram os seus criados fiéis e partidários que correram a levar, o mais
rapidamente possível, as notícias de Hatfield Hall até à corte. Acrescentam-se os olhos do
cocheiro John que viu e contou o meu encontro com a velha que falou de poções e a quem
decerto hão-de chamar bruxa. Mas quem foi a boca que espalhou estes rumores? Foi uma
amarga surpresa até para mim, que estou tão habituada a traições: nem mais nem menos
que Henry Percy, o meu antigo namorado, a cujo serviço esteve John o cocheiro.
Percy. Meu amado e amigo que até há pouco tempo conspirara comigo para que o nosso
passado compromisso não pusesse em perigo o actual. A princípio, não pude acreditar que
tivesse sido ele a levantar falsos testemunhos. Porém, escutei essa versão de várias fontes e,
quando na missa de domingo olhei para ele, desviou imediatamente a cabeça para não ter
de me fitar. Tive pois a certeza de que era verdade. Nunca saberei a razão porque se voltou
contra mim e se tornou meu inimigo. Talvez que a triste enfermidade do seu corpo lhe
tivesse agarrado a alma com dedos gelados. Talvez tivesse encontrado um novo bode
expiatório para a história da sua amarga vida - eu própria. Talvez uma obscura vantagem
política seja a recompensa que espera obter com a minha queda. Não sei, nem me interessa
averiguá-lo. Apenas posso negar essa conspiração assassina e remendar o melhor possível o
tecido danificado que é a minha reputação.
Com esse fim e também para ver Isabel, dirigi-me a Hertfordshire e Hatfield Hall. Apesar
dos amplos pátios e jardins e do seu arborizado parque de caça, a casa é muito pequena. É
de tijolo vermelho, ao estilo antigo, com ameias e torreões, muito fria e feia por dentro.
Penso que se aquela criança tivesse sido um varão, teria uma residência real muito mais
imponente.
Reservando-me o doce prazer de beijar minha filha, recuperei a compostura e benevolência
e mandei as minhas saudações a lady Maria, pedindo-lhe que me visitasse e honrasse como
rainha. Com

209
toda a franqueza, disse-lhe que, se o fizesse, seria bem recebida e recuperaria as boas graças
e os favores de seu pai.
Esperei que a jovem, que tanto deseja o amor do rei, obedecesse para o conseguir. Mas não.
A resposta ao meu convite foi como que uma bofetada no rosto - recebi uma nota seca,
escrita por sua mão a dizer que a única rainha de Inglaterra que conhecia era sua mãe. E
que se ”a amante do rei e marquesa de Pembroke” desejasse falar a seu pai em seu favor,
ficaria muito grata. Senti uma mão fria apertar-me o coração com aquela resposta.
Mandei então chamar a senhora Shelton que supervisiona essa maldita bastarda e dei-lhe
novas instruções para que qualquer insubordinação fosse tratada com força e intolerância.
”Batei-lhe, se preciso for”, disse-lhe eu. ”Deixai que conheça a força do desagrado da
rainha como já conhece o de seu pai.”
Assim me despedi de tudo o que era desagradável e apressei-me a chegar aos aposentos
soalheiros de Isabel, onde esta dormia no seu berço real. Os seus servidores, em número de
oitenta, rodeavam-na de todos os confortos - uma ama seca para lhe tratar da roupa
confeccionada por costureiras e bordadoras, todo o tipo de ajudantes para os mais diversos
trabalhos e três criadas para lhe embalarem o berço.
Minha prima, lady Bryan que é a governanta principal, veio cumprimentar-me, satisfeita
com aquela visita oportuna, Secara-se o leite de Agnes, a ama que alimentara a princesa
desde o seu nascimento e era imperioso encontrar outra. Lady Bryan apresentou-me vários
nomes com variadas recomendações e passámos algum tempo a decidir, já que a saúde e a
conduta das amas são de grande importância. Não precisa de ser bem-nascida, se bem que
deve provir de uma família saudável, livre de qualquer ascendente de criminalidade ou
loucura. Até o que come e bebe, enquanto dá de mamar à criança, tem de ser
cuidadosamente vigiado, pois os humores do seu corpo passam para o do bebé.
Concordámos por fim que Mary Gibbons de Hampstead substituiria Agnes.
Também tive de dar a minha opinião sobre outro assunto - a chegada do enviado francês
que dentro de dez dias viria fazer uma inspecção à princesa, tendo em vista o seu noivado
com o terceiro filho do rei Francisco. Se bem que os banhos não se publiquem senão dentro
de sete anos, estes diplomatas exigem poder informar-se satisfatoriamente sobre a
candidata. Poderão ver Isabel envolta nas ricas vestes que lhe correspondem como princesa
e, mais tarde no

210
seu ambiente natural, para que se assegurem de que não tem qualquer defeito físico, pois os
boatos maliciosos acerca das deformidades de minha filha chegaram a todas as cortes da
Europa. Embora não concorde com estes costumes que rebaixam a minha filha à condição
de bem móvel, não tenho outro remédio se não aceitá-los e fico até satisfeita por saber que
se casará, nada menos que com um príncipe de França.
Por isso, exibiram diante de mim, o belo trabalho das costureiras para que o examinasse -
vestidos e roupa para o berço confeccionados especialmente para aquela ocasião. Era um
trabalho maravilhoso e apreciei enormemente a minúcia e a pequenez dessas peças, bem
como a sua riqueza. Cetim amarelo pálido em que uma rosa Tudor bordada a fio de ouro e
prata, representava Isabel entre outras duas maiores, simbolizando a minha pessoa e a de
Henrique, Os vestidos eram da mais fina seda e tule brancos, em camadas sobre renda
francesa e enfeitados com fitas e laços carmesim. E a touca, como uma pequena coroa
estava bordada toda em volta com pequenos diamantes e pérolas.
Por fim, a minha doce menina acordou e trouxeram-ma de rosto vermelho a chorar com
toda a força. Parecia demasiado quente na capa apertada de musselina, de modo que pedia à
ama que lha desapertasse. Assim que se sentiu à vontade, deixou de chorar e veio bem
disposta aninhar-se nos meus braços. Oh, quanto amor sinto por esta criança, talvez a única
coisa boa desta minha vida infeliz. A tarde foi deliciosa e a minha única tristeza foi a hora
da partida, quando tive de me retirar. Poderia ter ficado mais um pouco, porém Henrique
nunca vê com bons olhos o tempo que passo em Hatfield nem a viagem até lá, pensando
que é difícil e que poderá prejudicar a criança que trago no ventre. Cedo aos seus desejos e
tento não o contrariar, evitando falar em voz muito alta. Porém, não quero afastar-me de
Isabel e faço esta calma peregrinação sempre que possível.
Afectuosamente vossa,
Ana
22 de Setembro de 1534 Diário,
O cisma da Igreja católica paira como uma nuvem negra sobre a já tempestuosa Inglaterra.
Os súbditos de Henrique sentem-se

211
feridos por ter de jurar que apoiam o nosso casamento, sem levarem em conta qualquer
autoridade ou potentados estrangeiros. Também lhes é exigido que rejeitem o casamento do
rei com Catarina e que aceitem que Isabel seja colocada em primeiro lugar na linha de
sucessão ao trono. Nas cidades e aldeias há um clima de irritação contra os padres que
afirmam que o Papa é apenas o bispo de Roma e que, para os ingleses, o nosso arcebispo de
Cantuária é o mais importante representante de Deus. Não apreciam tais mudanças. Todos,
homens e mulheres, nobres e plebeus são obrigados, sob pena de tortura, morte ou
amputação a jurar que amam a ”rameira” que é agora rainha e a negar que o rei seja um
tirano herege.
A Santa Freira de Kent, que por fim se retratou das suas profecias contra mim e contra o
rei, foi enforcada em Tybum, aberta ainda viva e retiradas as entranhas, para depois ser
esquartejada e as partes do corpo espalhadas pelos quatro cantos de Londres. Atormenta-me
a sua morte e, em sonhos, vejo os seus olhos enlouquecidos. As suas profecias alteraram o
curso da minha vida e, embora depois viesse a mudar de opinião, continuo a acreditar que
as primeiras palavras inocentes foram proferidas com honestidade e por inspiração
divina.
Thomas More recusou teimosamente o juramento. jurará o Acto de Sucessão, mas não pode
- porque a sua consciência não lho permite - negar a validade do primeiro casamento do rei.
Homem inteligente, rodeou o juramento desejando longa vida a Henrique, a mim e a nossa
nobre descendência, mas nunca afirmou que o nosso casamento fosse legítimo. Recusou-se
terminantemente a jurar a questão do rei ser o chefe supremo da igreja de Inglaterra,
utilizando como argumento os primeiros escritos de Henrique, a Declaração dos Sete
Sacramentos em que afirma a suprema autoridade do Papa. Afirmou que o Papa colocara a
coroa de Inglaterra sobe a cabeça de Henrique e que se o desejasse poderia depô-lo.
Henrique ficou furioso com tal raciocínio e com a recusa de More que logo mandou
prender. A sua actual residência é a câmara dos traidores na Torre de Londres.
Henrique lamenta a decisão e prisão de More e questiona as suas próprias crenças. Mas eu,
pelo contrário, desafio essa ”consciência” que More considera tão sagrada e que certamente
fará dele um mártir muito amado, se por acaso vier a ser morto por traição. Só pergunto
para que serve a consciência quando conduz uma pessoa ao caminho errado? Um louco
pode seguir a sua que lhe diz que deve assassinar a mulher e os filhos. Deveremos então
perdoar-lhe o
212
crime? A consciência de More que é tida por todos em tão alta estima, diz-lhe que o Papa -
um simples mortal - não é apenas o Príncipe de Roma, mas foi colocado no trono pelo
próprio Deus e deve por isso sentir-se no direito de dar ordens aos reis de terras distantes.
Decerto não tem razão, conforme já o sabem os membros do cada vez mais numeroso
exército de Lutero. Este Papa é um homem, nasceu de uma mulher e não tem mais
comunicação com Deus do que qualquer outro homem ou mulher.
Onde estava a consciência de More quando aceitou o cargo de chanceler, sabendo
perfeitamente que a intenção de Henrique era fazer-me sua rainha? Talvez na bolsa que
necessitava encher para sustentar a família. E onde estava a sua consciência quando, depois
de ter dependido de Thomas Wolsey para subir, lhe voltou as costas no Parlamento, com
declarações vis e impiedosas que fizeram tremer mesmo os seus apoiantes.
Vejo o turbilhão causado pelo amor de Henrique por mim. É irónico, não é verdade? Esse
amor já não existe, as leis de Inglaterra foram alteradas, o rei controla a igreja e a minha
filha poderá herdar o trono. Quando empreendi este caminho, nunca pensei que as coisas se
passassem assim. Mas enganei-me. E a história não tem fim. Veremos como prossegue.
Afectuosamente vossa,
Ana

213
Isabel ergueu os olhos dos documentos que se amontoavam sobre a sua mesa para fitar a
formosa cabeça de Robert Dudley curvada sobre o pergaminho em que escrevia, com
cuidadosos gestos de pena. Tinham passado quase todo o dia sós, encerrados nos aposentos
privados da rainha e esta tinha-se recusado a receber quase todos os conselheiros que lhe
haviam solicitado uma audiência. Aquilo era demasiado bom para poder permitir que os
seus velhos e vaidosos servidores quebrassem o feitiço de sonho que ela e Robin haviam
criado. Quando sacudia de cima de si a rigidez e os procedimentos formais, conseguia,
horas a fio, imaginar que ela e Dudley eram o rei e a rainha, tratando dos assuntos do
Estado com calma e em boa harmonia.
- A quem escreveis, Robin? - perguntou, delicadamente.
- A lorde Sussex, representante da coroa na Irlanda - replicou ele, prosseguindo a sua
escrita. - Solicitei-lhe que vos enviasse alguns cavalos irlandeses - terminou com um
floreado e ergueu o olhar para Isabel. Disse-lhe que vos haveis tornado uma óptima
caçadora e que necessitais de montadas especialmente fortes e capazes de galopar. Que sois
louca pela velocidade e cavalgais os animais obrigando-os a correr quase até à morte.
Robin sorriu-lhe com tanta ternura que Isabel percebeu que corava. Aquelas sessões a dois
tinham-se tornado frequentes, durante a viagem de William Cecil à Escócia, para negociar
o tratado de paz de Edimburgo. Acabavam geralmente com Isabel nos braços de Dudley,
quando o crepúsculo de Verão dava lugar às cálidas noites. Tinha plena consciência de que
todos na corte estavam escandalizados e até mesmo o povo murmurava acerca do
comportamento indecoroso da rainha, porém não conseguia obrigar-se a voltar a proceder
como seria próprio. Mais tarde, teria mais do que tempo para o fazer. Além do mais
tratavam de muitos assuntos durante aquelas sessões.
214
Tinha supervisionado as negociações com a Escócia, revisto os despachos que Cecil
diariamente lhe enviava, fazendo-lhe chegar prontamente as suas impressões e opiniões.
Mantivera-se ao corrente dos movimentos de sua ambiciosa e traiçoeira prima Maria,
rainha dos Escoceses, viúva recente de Francisco, jovem rei de França, que ameaçava
regressar às ilhas britânicas, com a sua ridícula pretensão ao trono de Inglaterra. Havia
também examinado e acrescentado o projecto de lei dos seus conselheiros para a reforma
da moeda.
Por seu lado, Robin, devido à sua recente influência como favorito, atraíra tantos
seguidores como inimigos. Aprendera bastante sobre a máquina governamental e as
propriedades da coroa e oferecia-lhe bons conselhos acerca de várias questões.
Era verdade que, nas últimas semanas, pouco tempo tivera para actividades que não
incluíssem o seu amado. Quando não estavam a trabalhar como agora, cavalgavam,
caçavam ou permaneciam juntos, sem outra companhia. A rainha evitava com toda a
delicadeza, discussões com os seus conselheiros que esperavam vê-la casada com um
príncipe estrangeiro. Nem tinha continuado a ler o diário de sua mãe, pois tornara-se-lhe
extremamente doloroso assistir ao desenrolar da perdição de Ana Bolena. Para dizer a
verdade, as noites de Isabel estavam apaixonadamente ocupadas por Dudley e não
permitiam passatempos tão privados e solitários como a leitura de um diário íntimo.
- Tenho diante de mim um interessante documento, Robin - disse Isabel.
De que se trata, meu amor? - perguntou Robin, com ar distraído. É a nomeação de conde...
para um tal Robert Dudley - respondeu ela, ocultando um sorriso.
Quando a rainha pronunciou tais palavras, os ouvidos de Dudley, ou melhor o rosto e todo
o seu corpo ficaram alerta. Ambos sabiam que o elevar de Dudley a par do reino era um dos
pré-requisitos para o casamento.
- Não sabia que havíeis mandado redigir esse documento - disse ele, erguendo-se da
cadeira. Espreguiçou-se languidamente e tentou manter uma aparente indiferença.
Porém, Isabel sabia que o coração dele batia forte e que desejava ver o documento com os
seus próprios olhos, sentir o pergaminho entre os seus dedos. Embora apaixonada pelo seu
mestre palafreneiro e acreditando ser correspondida com amor ardente, Isabel não tinha
ilusões a respeito de Robert Dudley. Este era o homem mais ambicioso que alguma vez
conhecera e aceitara de bom grado todos os presentes de propriedades ou títulos que lhe
fizera.
Atravessou o aposento com aquele passo tão do seu agrado - ao mesmo tempo gracioso e
viril - e inclinou-se sobre o ombro dela para lhe beijar o pescoço nu, demorando nele os
seus lábios. A rainha teve vontade de saber se os olhos dele a fitavam a si ou à patente do
título de conde que tinha entre mãos
- Quando o assinará Vossa Majestade? - perguntou em voz contida.
- Quando nos aprouver - respondeu, com altivez, usando o plural majestático que ele tanto
desprezava.
Ofendido, mas sem o querer mostrar, Dudley ergueu uma madeixa de cabelo dos ombros
luminosamente alvos de Isabel e beijou-os. Ela voltou-se para ele, que percorreu com os
lábios quentes a superfície dos pequenos seios a erguerem-se-lhe do decote quadrado do
corpete. Isabel deixou escapar num suspiro todo o ar que respirava e, fechando os olhos,
introduziu os dedos nas ondas de cabelo castanho de Robin. Sentiu-se de súbito perdida,
tão perdida que o pergaminho que fazia de Robert Dudley conde de Leicester, caiu
lentamente no chão.
Isabel apressou-se a percorrer os verdejantes jardins do Palácio de Richmond para ir ter
com Robin aos estábulos. Este prometera-lhe uma corrida veloz num novo cavalo cinzento
a que pusera o nome de Speedwell. Tão desejosa estava de ver o seu amor, que mal
reparava nas belas flores ou nos canteiros de ervas perfumadas que enfeitavam os caminhos
de pedra. Foi, por isso, tomada de surpresa ao ver-se diante do seu secretário, William
Cecil, que a aguardara no atalho.
- Meu senhor Cecil! Haveis-me assustado! - Fez-lhe sinal para que se aproximasse e a
cumprimentasse, o que ele fez com a devida cortesia, mas com pouca da sua habitual
amabilidade. Isabel conhecera no ano anterior a teimosia de Cecil, quando hesitara em
enviar o exército inglês para apoiar na Escócia os rebeldes protestantes. Deixara que fosse
dele a decisão que, afinal, não podia ter sido mais acertada.
Nesse dia, para além de parecer cansado depois da viagem de regresso de Edimburgo, a
expressão severa e zangada do seu rosto, dava a entender um grande desassossego, para o
qual a rainha não ignorava o motivo.
Cecil começou a falar, sem pedir autorização, com a voz trémula de raiva e contenção
diplomática.
- Majestade, sinto-me confundido. Não consigo compreender como as coisas se
deterioraram assim durante a minha ausência - disse. Porém, Isabel não estava disposta a
facilitar-lhe o caminho.

216
- Coisas? Que coisas, William?
- Os assuntos de Estado, senhora... e o que resta da vossa reputação.
- Tenho tratado dos assuntos de Estado, lorde Cecil, tal como vós haveis feito na Escócia.
Estou muito satisfeita com o tratado. Assim, não precisaremos de nos preocupar com uma
aliança franco-escocesa ou que exércitos nos invadam, vindos de norte. Também
estabelecemos, de uma vez por todas, o protestantismo nas ilhas britânicas. Quanto à minha
reputação...
- Diz-se que vos tendes fechado e que pouco apareceis, tão envolvida estais com lorde
Robert.
É verdade. Tenho passado momentos muito agradáveis com Robin. Cecil sentia-se a perder
a compostura.
- Não vedes como a vossa boa reputação está a ser destruída? Que perdeis as oportunidades
de fazer um bom casamento no estrangeiro? Maria, a vossa prima escocesa, declara que
estais decidida a casar com o vosso mestre-cavalariço. O pai do arquiduque dá ouvidos aos
rumores do vosso escandaloso comportamento. As calúnias do embaixador Quandra são
ainda mais perigosas. Foi contar ao rei Filipe que sois uma mulher completamente
dominada pela luxúria, sem inteligência ou consciência, possuída por uma centena de
demónios!
- O embaixador espanhol nunca gostou de mim e julga-me uma mulher indigna até que me
case.
O silêncio de Cecil neste último ponto inflamou imediatamente o génio de Isabel.
- Concordais com ele, não é verdade?
A rainha voltou-se de costas para que o conselheiro não pudesse ver as lágrimas de fúria
que lhe assomavam aos olhos.
- Não há qualquer dúvida de que vos deveis casar, senhora - replicou Cecil, mais delicado e
seguindo atrás dela. - Mas sabeis que não é de modo algum verdade que vos ache indigna
se não o fizerdes. A vossa conduta com lorde Robert - escolhia as palavras com todo o
cuidado mesmo que seja só aparentemente errada, é mais séria do que julgais. E também
contribuiu para degradar a minha posição...
- Não é verdade - disse Isabel, com toda a energia.
Mas Cecil estava decidido a que a rainha o escutasse e continuou como se ela nada tivesse
dito.
- ...De tal forma que, se insistirdes em manter esse homem como vosso conselheiro
principal e continuardes a insistir na ideia de o desposar...
- Como pensais que posso casar-me com lorde Robert, secretário Cecil? - interrompeu
Isabel. - Ele tem esposa.

217

- Uma esposa doente, como toda a corte bem sabe.


- Atreveis-vos a sugerir que Robin e eu estejamos à espera da morte de Amy Dudley?
- Podeis negá-lo, senhora? - replicou Cecil, em voz baixa.
Isabel sentia o pescoço arder de fúria, por Cecil ter dado voz ao seu terrível e inconfessável
desejo.
- Como vos dizia, Majestade, se estais determinada a prosseguir por este perigoso caminho,
não poderei continuar ao vosso serviço como secretário.
William!
A rainha voltou-se e viu Cecil com uma expressão de tristeza e impotência no rosto e os
braços caídos. Isabel sentiu embotarem-se-lhe os sentidos, como se lhe tivessem lançado
uma pesada capa sobre a cabeça. As palavras de Cecil chegaram-lhe distantes e apagadas.
- De bom grado vos servirei em qualquer outro cargo, Majestade. Na vossa cozinha, no
vosso jardim... Sei que é uma loucura pedir que escolhais entre mim e lorde Robert e não
insisto na vossa resposta imediata. Mas peço a Vossa Majestade para pensar no assunto
durante as próximas semanas e que depois mande avisar-me da decisão tomada.
Cecil implorou-lhe com os olhos que o deixasse partir. Com um aceno de cabeça, Isabel
acedeu e o conselheiro desapareceu no caminho empedrado.
Isabel ali ficou, imóvel como um pilar do jardim e deu por si a discutir em silêncio com o
secretário ausente.
Não me obrigueis a escolher, Cecil, imploro-vos! Tenho sido tão feliz. Dudley é o homem
em que confio e que adoro. Não vedes que não desejo na minha cama o corpo de um
estranho, de um rude estrangeiro? Desejo casar-me com o meu amigo, o meu compatriota,
o meu amor. Posso fazer como entender. Não sou uma jovem impotente, usada pelo pai
para negociar e vender a quem preferir. Sou a rainha de Inglaterra e, por Deus, hei-de fazer
como bem entender!
De súbito, como que saindo de um denso nevoeiro, Isabel sentiu o Sol do meio-dia na sua
cabeça descoberta, aspirou os vários perfumes vindos do jardim, ouviu as vozes das damas
no peral. E depois invadiu-lhe o crânio uma dor enorme, como se uma dezena de agulhas lá
se tivessem espetado com terrível violência. Cambaleou e quase caiu, sem ter onde se
apoiar.
- Kat, ajudai-me - murmurou, quasenuma prece.
Sabia que os jardins do palácio estavam cheios de cortesãos, alabardeiros, serventes e
jardineiros, mas receou ser vista naquele estado de fraqueza, de modo que apelou para todas
as suas forças para se manter
218
direita, conseguindo a compostura suficiente para acenar com ar altivo a cavalheiros e
damas e se dirigir ao palácio e aos seus aposentos.
A aflição de Isabel fora certamente evidente para todos, pois quando chegou, pálida como
um cadáver, Kat tinha já aberto o seu leito real. A rainha atirou-se nos braços da sua aia e
deixou que ela a ajudasse a deitar. Aos confusos murmúrios de Isabel a aia respondia em
voz baixa: ”Descansai, minha querida, descansai.”
Isabel passou três dias de cama, atormentada por um fogo na cabeça que parecia absorver-
lhe todo o calor dos membros e do ventre. Delirava de dor e chorava, mesmo enquanto
dormia. Chamava alternadamente por Robin Dudley e por Cecil e até, para grande aflição
de Kat, por sua mãe, Ana Bolena. Foram chamados os três físicos reais, que se reuniram
junto ao leito em que Isabel continuava prostrada para sugerirem, num murmúrio, inúteis
remédios. Tomaram-lhe o pulso e julgaram-no forte, Não sofria de defluxo ou varíola, mas
continuou tão doente que, durante esses três dias, Kat não dormiu, receando que a sua
querida menina morresse sem ter a seu lado alguém que a amasse.
Isabel abriu os olhos na terceira noite e encontrou a sua aia a acender velas para iluminar a
sua vigília dentro do abafado aposento. Via que a idosa companheira se movia com
lentidão, com as pálpebras pesadas sobre os olhos cansados.
- Kat!
A primeira palavra pronunciada por Isabel, depois de um tão prolongado silêncio foi
surpreendentemente forte e clara. A aia voltou-se ao ouvir o seu nome e viu que a rainha se
tentava sentar, desperta e com os olhos brilhantes.
- Isabel! - exclamou e caiu sobre a sua ama, abraçando-a por entre copiosas lágrimas. Kat
afastou o cabelo frisado da testa da rainha e procurou ler-lhe nos olhos uma resposta.
- Estou bem, Kat. Sinto-me bem. Um pouco fraca, talvez, mas nada que algum alimento
leve não possa curar.
- Lady Sidney! - chamou Kat e a porta abriu-se instantaneamente, pois a dama aguardava
do outro lado. Mary Sidney entrou, enquanto Kat afofava as almofadas nas costas da
rainha.
- Majestade, como me alegra ver-vos restabelecida - lady Sidney aproximou-se do leito.
Ajoelhou e beijou a mão de Isabel. - Dizei-me o que vos apetece.

219
- Um caldo. Salgado. Peras cortadas. E um pano molhado. Cheiro pior que uma cabra.
- Sim, senhora - disse lady Sidney com um sorriso. A rainha regressava à vida com o
temperamento intacto. Fez uma venia e apressou-se a sair.
- Só mais uma coisa, Mary, quando voltardes fazei com que Kat se deite imediatamente a
dormir
- Como desejardes - disse e saiu do aposento.
- Majestade... - objectou Kat.
Mas agora que o perigo passara, Isabel apercebia-se de que o cansaço vencia a amiga.
- Katherine Champemowne Ashley - disse em tom severo mas, ao mesmo tempo, bem-
disposto. - A vossa rainha tem para convosco uma dívida pelos vossos cuidados e
inigualável devoção, mas deu-vos uma ordem e não tolerará qualquer desobediência a ela.
- Sim, Majestade - submissa, Kat inclinou a cabeça e abdicou dos cuidados que
prodigalizara à rainha, pois via-a melhor.
- Então trazei-me aquele jarro turco da minha mesa - Kat entregou-lhe o pequeno recipiente
de onde a rainha retirou uma chave. - Abri a arca que está aos pés da cama e trazei-me o
livro de capa de pele vermelho-escura. Depois aproximai as velas da minha cabeceira.
Kat moveu-se devagar, já aturdida pelo sono. Quando entregou o diário de Ana Bolena nas
mãos de Isabel estava demasiado cansada para perguntar que livro era aquele que tinha de
ser fechado à chave, aos pés da cama da rainha.
Ao receber o volume, Isabel murmurou suavemente:
- Esta noite sonhei com minha mãe.
- Ah, haveis pronunciado o nome dela, durante o sono.
- Ah, sim? - Isabel sorriu e recordou o seu sonho.
- Que haveis sonhado?
- Que ela se encontrava no alto da torre de um palácio, ou pelo menos julgo que era ela,
embora não lhe visse o rosto, já que estava iluminado por uma intensa luz. Chamava-me
pelo nome: ”Aproxima-te Isabel”, dizia. ”Quero dizer-te uma coisa.”
- E que vos disse?
- Nada - respondeu Isabel, apertando o diário contra o peito. - Não teve tempo, pois o
castelo começou a desmoronar-se. As pedras e o estuque caíam em seu redor, mas vi-a
sentada sobre um tamborete com as muralhas do castelo amontoadas junto dela. - Isabel
tomou as mãos de Kat e acariciou-lhe a pele, seca e manchada. - Ide, deixai que lady
Sidney

220
vos deite. Descansai. Amanhã já estarei de pé e preciso de vós recuperada.
A idosa aia retirou-se da presença da rainha, agradecida mas com certa relutância. Isabel
abriu o diário de Ana na página em que o tinha deixado. Despertara com um receio terrível,
juntamente com um desejo, não menos intenso de saber os pormenores mais íntimos do
final infeliz de sua mãe. De súbito, teve a certeza que naquelas páginas não estava apenas a
sua história, mas também a chave do seu futuro. Devia estudar o diário e aprender com ele,
como se fosse um general a estudar os pormenores de uma grande batalha. Isabel sabia que
se encontrava na primeira de muitas encruzilhadas, e que era o único mapa de que se
poderia servir para lhe guiar os passos.
Começou a ler avidamente, decidida a terminar o diário antes do nascer do dia. Em poucos
momentos, ficou tão absorvida pelas páginas que, quando Mary Sidney regressou com o
caldo e as pêras, a rainha nem deu pela sua presença.
12 de Dezembro, de 1534 Diário,
Sinto-me completamente transtornada por ter visto uma pessoa agir de modo tão vil e
malicioso que me fez doer o coração. Essa pessoa baniu da corte uma pobre viúva,
abandonada pela família, e cujo único crime fora casar por amor e ter ficado grávida após
essa união. A pobre viúva, agora uma noiva feliz era, Mary Bolena Carey e a pessoa cruel
era pura e simplesmente, sua irmã... eu mesma.
Quando reflicto no assunto, apercebo-me que o que me levou a tal acto de maldade talvez
tenha sido o facto de a minha gravidez ter terminado num aborto, no próprio dia em que me
inteirei da questão de minha irmã. Estava ainda recolhida no leito, sem encontrar palavras
para contar ao rei o que me acontecera - dorida, fraca, lamentando-me por esta desgraça
que viera somar-se a tudo o resto quando recebi minha irmã, acabada de chegar de Calais,
radiante e com uma nova vida no ventre. O fel subiu-me à garganta e, mesmo antes de
medir as possíveis consequências, gritei acusando-a de ser uma desgraça para si própria e
de trazer o escândalo para a corte, só para desonrar o meu nome. Mesmo cega de fúria vi
surgir no rosto alegre de Mary uma expressão de assombro e os olhos marejarem-se-lhe de
lágrimas. Voltou-se para se afastar da minha nefasta presença,

221
porém, como um arqueiro soltando setas envenenadas, lancei-lhe estas palavras do meu
leito:
- Quem te deu autorização para te retirares da presença da rainha? - Mary imobilizou-se. -
Volta-te para mim, Mary. Deixa-me ver o rosto da irmã ingrata que se atreveu a entregar a
sua pessoa a um simples soldado, sem autorização do rei, quando se poderia obter alguma
vantagem com uma aliança matrimonial.
- Deves perdoar-me, minha irmã, mas ele é jovem e o amor foi mais forte que a razão.
Estava convencida que a vida me guardava tão pouca coisa e ele tanta, que pensei não
haver melhor caminho que escolhê-lo e levar uma existência honrada a seu lado. Nossos
pais e até nosso irmão George foram cruéis e voltaram-me as costas.
- E o mesmo farei eu! - gritei-lhe. - Sai! Na minha corte só há lugar para um bobo!
Embora ofendida pelas minhas palavras, manteve uma postura orgulhosa, sem dúvida
apoiada no amor de seu esposo e saiu dos meus aposentos. Se já me sentia mal, pior fiquei.
Chorei e gritei de fúria até vomitar, odiando a minha irmã tão feliz e odiando-me também
a mim própria.
Quando falei com o secretário Cromwell no seu gabinete privado, este mostrou-me uma
carta que recebera de minha irmã, implorando-lhe que falasse em seu favor a Henrique,
confiando que este intercederia por ela para me acalmar a raiva. Dizia saber que poderia ter
casado com um homem de melhor nascimento, mas não com quem a amasse tanto e fosse
tão honesto. ”Preferia mendigar o pão com ele do que ser a maior rainha de toda a
Cristandade”, escrevera.
- Se me atrevo a dar-vos um conselho, Majestade - disse o secretário Cromwell -, deveis
perdoar vossa irmã. Afinal, é do vosso sangue... e o mal está feito. O rei... - fez uma pausa
como se se tivesse esquecido do que ia dizer.
- Que se passa com o rei?
- Julgo que Sua Majestade não gostaria de ser incomodado com esta questão.
- Muito bem - disse eu, em voz firme.
Evitei comentar que o rei interpretaria como uma ofensa a menção do nome de uma antiga
amante sua e nem sequer me dignei informá-lo dos remorsos que sofria, devido ao meu
comportamento para com minha irmã.

222
- Enviai a Mary e a seu esposo a minha bênção e a do rei. E quando a criança nascer
mandai-lhe um rico presente, para que saiba que o nosso amor é sincero.
- Muito bem, Majestade. Podeis deixar o assunto nas minhas mãos.
Quando saí dos aposentos de Cromwell espantei-me que um homem tão próximo do rei
vivesse de forma tão modesta. Decerto se poderia dar ao luxo de ter uma almofada mais
macia na cadeira, tapetes mais novos no chão e alguns reposteiros que melhor imPedissem
as correntes de ar. Talvez que na sua integral e indivisa dedicação ao serviço do monarca,
não sinta o frio ou a pobreza dos seus aposentos.
Por essa altura, já Henrique recebera a notícia do meu aborto e, em público, mostrava-se
um pouco mais frio do que antes. Porém no meu leito, onde veio exercer os seus direitos a
altas horas da noite
- nunca mais viera ter comigo por prazer - tratou-me com rudeza e crueldade. Cheirava a
cerveja e senti no seu corpo o perfume de outra mulher.
- Como está a minha rainha? - perguntou naquele desagradável tom de voz em que tão
bem se nota o seu desagrado. - Tentaremos de novo, Ana, embora o vosso ventre pareça
ser um local pouco confortável para os meus filhos varões.
Contive-me, para não pronunciar algumas palavras amargas. Abri as pernas, suportei o seu
hálito e recebi a sua odiosa semente, pois foi esta a cama que eu própria fiz e não tenho
outro remédio senão deitar-me nela.
Afectuosamente vossa,
Ana
24 de Fevereiro de 1535 Diário,
Apesar da minha desdita, passei com as minhas aias uma noite animada, pois o bobo que
tenho ao meu serviço - uma mulher chamada Niniane - diverte-nos a todas. Arranja
maneiras maravilhosas de troçar dos nossos inimigos. Diz disparates e trocadilhos, entoa
canções maliciosas, cujos versos cantamos todas juntas. Faz contorções, quase impossíveis,
com o corpo e com o rosto, malabarismos,

223
conta histórias libertinas que completa com o som de cascos de cavalos, toque de sinos e
ribombar de trovões. A maior parte das vezes e para nosso deleite faz dos homens o alvo
das suas piadas e cómicos relatos. Descreve-os como nobres de pouca inteligência, janotas
presunçosos, tolos desajeitados e bispos concupiscentes. Retratou um homem enganado,
que encontrara a mulher na cama com o amante, como sendo um cão, caído de uma janela.
Soltámos enormes gargalhadas até as lágrimas nos correrem pelo rosto, mas pedimos-lhe
que contasse mais, o que fez, até quase não se poder manter de pé. Paguei-lhe muito bem
em elogios e dinheiro e pedi-lhe que se mantivesse junto a mim, pois com tantos cuidados a
multiplicarem-se de dia para dia, bem preciso de algum alívio, de vez em quando.
Não contente com as rameiras que mantém em bordéis privados, nem sequer com as
donzelas que chama aos seus aposentos para satisfazer os seus venais desejos, Henrique
voltou a tomar Elizabeth Carew como amante. Parece não se tratar de um interesse
passageiro e não escondem da minha vista a ligação amorosa, exibindo mesmo o romance
para que toda a corte veja.
Ultimamente, esta bela aia aparece com o pescoço coberto de ricas jóias que apenas podem
ser de origem real e um sorriso confiante devido à protecção conferida por Henrique.
Durante vários meses, suportei esta humilhação em silêncio e, depois, deixei que a fúria
que sentia vencesse a razão, ordenando à senhora Carew que se retirasse da corte. Henrique
soube e anulou imediatamente a minha ordem, enviando-me uma severa mensagem onde
me dizia que seria melhor contentar-me como que ele fizera por mim, pois não o repetiria,
nem que fosse necessário. Meu Jesus, este homem, meu esposo, humilha-me até a alma.
Depois de ter sofrido como o alvo do seu amor não correspondido, sou tratada como o foi a
pobre rainha Catarina. E não se ficou por aqui.
Henrique começou agora a mostrar afecto por sua filha Maria. Enviou-lhe uma nova liteira
e belos reposteiros para os seus aposentos em Hatfield Hall. Mas o meu maior receio é que
fale dela aos seus cortesãos, com mais amor do que de Isabel. Na última visita que fiz a
nossa filha, fiz-me acompanhar a Hertfordshire de alguns lordes e damas, entre os quais
estavam os duques de Suffolk e Norfolk. A viagem foi muito agradável e esperava poder
passar umas horas felizes nos aposentos de Isabel, com todos os cortesãos a renderem-lhe
as devidas homenagens. Todavia, quando chegámos aos portões de Hatfield e nos levaram
cavalos e carruagens, todos excepto

224
duas das minhas aias, desapareceram, como por encanto (certamente se tratava de um plano
já preparado) e dirigiram-se aos aposentos de Maria para lhe prestarem homenagem! Fiquei
muda de espanto junto às minhas fiéis aias que tentavam conter a minha indignação.
Também elas tinham sido tomadas de surpresa por tão indelicado motim, mas disfarçaram e
aconselharam-me a ir ter directamente com minha filha, pois sabiam que ao vê-la,
melhoraria de disposição.
Isabel ainda não tem dois anos, mas mostra um espírito vivo e move-se como um
redemoinho sobre os seus pequeninos pés. É uma criança feliz e tão bonita que me comove.
Falei com lady Bryan, que diz que minha filha sofre muito com o nascimento dos dentes
molares, pois rompem com grande lentidão. Prometi-lhe enviar óleo de alfazema para lhe
aliviar a dor das gengivas e acalmar o choro nocturno.
A tarde poderia ter decorrido tranquilamente mas acabou por terminar de modo
desagradável quando recebi um insultuoso recado de lady Maria, que se recusou a sair dos
seus aposentos pois não desejava ver-me. E, quando mais tarde dei ordens à senhora
Shelton para que a jovem fosse castigada pela sua indelicadeza, Henrique tratou de me
contrariar.
Confesso que, se um dia estremeci com as suas acusações de a querer envenenar, hoje
penso que a sua execução seria o único fim para uma pessoa tão traiçoeira. Ela e a sua
escabrosa mãe! Continuam ambas a recusar pronunciar o juramento obrigatório que todos
têm de prestar, sob pena de serem executados. Que Deus me oiça! Hei-de ser o fim dessa
jovem ou ela acabará por ser o meu!
Afectuosamente vossa,
Ana

2 de Março de 1535 Diário,


Receio que os franceses me estejam a abandonar como ratazanas que fogem de um navio a
afundar-se! Os meus bons aliados, gente do país em que fui educada, apoiantes do meu
casamento, dão agora poucas mostras de amizade. Tive disso a prova com a chegada da
delegação do rei Francisco, chefiada pelo almirante de França e meu bom amigo Chabot de
Brion, que recebi com todas as honras nas

225
suas várias visitas a Inglaterra, assim como em Calais anteriormente ao meu casamento. Eu
e ele compreendemo-nos perfeitamente, falamos a mesma língua, pensamos do mesmo
modo. Acreditei na sinceridade das suas prodigiosas lisonjas.
Nesta ocasião em que veio discutir um casamento real, Chabot não fez qualquer tentativa
para conseguir uma audiência comigo, como impõe a cortesia. Tão-pouco trouxe qualquer
presente como prova da amizade de Francisco, nem sequer me apresentou os cumprimentos
do seu rei. Quando Henrique perguntou se o almirante desejava ver a rainha este respondeu
que apenas o faria se assim aprouvesse ao Rei! Absteve-se de todos os festejos, justas e
jogos de ténis que eu preparara para ele com tanto cuidado. E, quando por acaso me viu, foi
tão frio e pouco gracioso que me passou pela ideia um estranho pensamento - que aquele
homem não seria Chabot, mas um desconhecido que se fazia passar por ele. Senti-me
confundida com tal comportamento e assim me mantive até se darem início às negociações
para uma aliança franco-britânica e ao pedido da mão de minha filha.
Parece que as lealdades do rei Francisco se dirigem agora para Roma. Embora continue a
afirmar inválido o casamento de Henrique e Catarina, continua a considerar Maria como
herdeira e, por esse motivo, exigiu que se levassem a cabo os antigos esponsais dessa
desagradável jovem com seu filho, o Delfim. Foram feitas ameaças no sentido de casar o
príncipe francês com a filha do Imperador, se não se cumprisse aquele compromisso.
Estas surpresas tão desagradáveis irritaram-me de tal maneira que perdi a compostura no
banquete final dado em honra dos emissários franceses e, tendo bebido um pouco demais,
agi com modos pouco apropriados. Chabot estava sentado a meu lado, com uma expressão
fria no rosto, mantendo comigo uma conversa frívola e eu, por minha parte, falei como uma
jovem inconsciente. Depois olhei para Henrique, no outro lado do salão e vi que fitava com
ardor a sua amante muito querida. O rei estava imóvel e o seu olhar apaixonado,
semelhante ao que outrora me lançava, fez-me soltar uma amarga gargalhada que, por
efeito do vinho se transformou numa interminável torrente. Chabot ofendeu-se e perguntou
se troçava dele, o que me provocou ainda mais o riso. Com o rosto afogueado de cólera,
levantou-se indignado, com intenção de partir. Imediatamente me acalmei e lhe agarrei o
braço, sabendo que aquele momentâneo lapso de sanidade poderia prejudicar
irreparavelmente a causa de

226
minha filha. Consciente de que só a verdade poderia aplacar o francês, confessei-lhe, ainda
que humilhando-me, que tinha visto as atenções de Henrique para com a sua amante. Senti-
me grata por poder comprovar que Chabot acreditara na minha explicação, porém estremeci
de desagrado ao ver o olhar de piedade que me lançava.
Depois da partida da delegação francesa, Henrique expressou o seu desacordo em relação à
proposta e sugeriu como alternativa que a mão de Isabel fosse oferecida ao duque de
Angoulême. A delegação partiu, não sem antes prometer formalmente uma resposta pronta.
Julguei que o comportamento de Henrique para comigo não pudesse ser mais frio, porém
enganava-me. Depois da partida dos franceses, olhou-me duramente e afirmou:
- Senhora, deveis pedir a Deus que a resposta seja favorável a vossa filha pois de que me
servireis vós ambas senão para tais alianças? Decorreram já muitas semanas e esperamos
em vão saber o que foi decidido. Aproxima-se a Páscoa, porém não sinto desejos de
qualquer celebração. Faço aquilo que se espera de uma rainha - encomendo vestidos novos,
organizo as festas e representações e mando dizer missas com intenção especial - mas cada
dia que passa sinto o silêncio que chega do outro lado do Canal e que soa dentro da minha
cabeça como um dobre de sinos no corredor vazio de uma abadia. Rogo a Deus que desta
vez se ponha do meu lado, pois os meus pecados nunca foram tão grandes como a pena que
por eles tenho de cumprir.
Afectuosamente vossa,
Ana
14 de Abril de 1535 Diário,
As minhas preces foram atendidas! Os franceses concordaram, por fim, com o casamento
de Isabel com o duque de Angoulême. O casamento será negociado em Calais, no fim de
Maio. E é com toda a alegria que digo que meu irmão George está de regresso a Inglaterra,
depois do cumprimento da sua longa missão em França. Agrada-me de sobremaneira que
regresse ao meu círculo, pois traz-me mais do que divertimento, canções, modas, livros e
novas ideias. Traz-me o seu amor e lealdade de que tanto senti a falta. Tanta é a

227
atenção que dedica a sua irmã e rainha que a minha vida floresceu com um novo perfume.
Ele, Francis Weston, Henry Norris e Mark Smeaton juntam-se às minhas aias Para festejos
nocturnos, com música, bailes e jogos e também para se divertirem com as graças de
Niniane.
Sei que Deus não foi muito bom para alguns homens. Recentemente foram parar à prisão
vários monges cartuxos que se recusaram a prestar o juramento. Thomas More e John
Fisher continuam presos na Torre por se recusarem a obedecer. São muitas vezes visitados
pelo secretário Cromwell que lhes oferece toda a espécie de saídas para a situação,
imitando outros. Até os membros da família de More fizeram o juramento. Porém ele opõe-
se tão teimosamente que a fúria de Henrique é cada vez maior para com esse seu velho
amigo, transformado agora em inimigo. Quem sabe, talvez que vinda das sombras da cela, a
razão desça sobre More e este se convença a prestar o juramento, para pôr fim a tão
desnecessária prisão.
George acompanha-me muitas vezes a Hatfield, onde comprova o rápido crescimento da
sua formosa sobrinha.
Cromwell, Henrique e eu estamos a tomar providências para o seu desmame. Lady Maria,
ainda confinada em Hatfield, mantém aí a sua corte de apoiantes, não tão secreta como
muitos supõem, e de que fazem parte entre outros o embaixador Chapuys. As cartas que
constantemente envia ao Imperador seguem, sem dúvida, cheias de esquemas e
conspirações (todas em vão) para tentar colocá-la em primeiro lugar na linha da sucessão.
Ter-me-ei esquecido de mencionar a morte do papa Clemente e a sua substituição pelo
novo pontífice Paulo III? Este, de carácter muito mais decidido do que o seu antecessor,
ameaça a paz de Henrique, declarando que o vai depor por ter contraído matrimónio
comigo, prometendo mesmo uma invasão. O rei pouco se preocupa, já que França e
Espanha em breve entrarão em guerra e assim o’ Imperador ver-se-á tão ocupado, que lhe
será impossível invadir Inglaterra. Por outro lado, um tal confronto faria com que Francisco
reclamasse a ajuda inglesa e a sua aliança com Henrique daria ao rei grande satisfação.
O meu ânimo melhorou tanto que comecei mesmo a imaginar estratégias próprias. Mas
essas, deixo-as eu para outro dia.
Afectuosamente vossa,
Ana

228
20 de Maio de 1535 Diário,
Estou grávida e dentro de mim cresce uma nova esperança, com a pujança de uma semente
na Primavera. Perdoa-me Isabel, mas ultimamente as minhas orações são destinadas a
implorar que o bebé seja um varão, o príncipe que Henrique tanto deseja e o nosso
salvador.
Esta esperança, unida a uma grande vontade de resistir, de sobreviver a esta vida que
escolhi, a este destino, fez surgir no meu pensamento um plano que, se chegar a bom termo,
restabelecerá o meu poder e a minha posição no trono. Tenho de fazer com que o rei volte a
apaixonar-se por mim. Tenho de reanimar o corpo gasto e o coração infeliz da jovem
ousada e arrogante, cujos olhos brilhantes atraíram Henrique a um labirinto de desejo e lá o
conseguiram reter durante seis longos anos. Tenho de fingir que me inspira luxúria o corpo
que outrora parecia de ferro e que, agora, não é mais que uma massa disforme coberta de
pústulas. Todavia, mais importante que a paixão física, será convencê-lo de que todos os
sacrifícios e cuidados por que passou para me possuir não foram em vão. Que todos os
ardis e planos, o divórcio e o seu casamento comigo deram bons frutos e não unicamente a
morte de amigos, a sua excomunhão e o ódio dos seus súbditos. Pensarei um pouco mais
sobre este assunto, delinearei os pormenores da intriga, pois não posso falhar.
Niniane, a mulher-bobo, graceja com a minha gravidez. Dir-se-ia que tinha tido filhos seus
para estar tão bem informada de todos os movimentos interiores, estranhos desejos,
dolorosos prazeres que este estado provoca. Uma noite em que eu e ela estávamos
sozinhas nos meus aposentos, saltou para o meu leito e enrolando-se numa bola,
transformou-se no bebé dentro do meu ventre, soltando vagidos, dando pontapés exigindo
mimo que lhe desse maçãs, doces recém feitos e lhe cantasse canções de embalar.
- Sou o pequeno príncipe! - gritava ele (ou ela por ele). - Sou o príncipe e futuro rei de
Inglaterra e estou cansado da escuridão. Trazei-me luz! E doces! E jóias, e ouro, pois sou
filho de meu pai e desejo, acima de tudo, ser rico!
Mestre Holbein desenhou o meu retrato, sem que lho solicitassem. Embora ninguém mo
dissesse, percebi que não me tinha favorecido absolutamente nada, antes pelo contrário: o
rosto inchado pela gravidez, o cabelo dentro de uma touca. Apenas Niniane ao vê-lo
exclamou:

229
- Quem é esta porca parideira, com tantos queixos? Decerto não se trata de Sua Majestade,
que é dona de um pescoço de cisne!
Quando afirmei que, de facto, era eu, agarrou no ofensivo desenho e dançou em volta do
aposento entoando uma estranha melodia em que exigia que Holbein fosse punido por
aquela traição: deveriam pendurá-lo pelos polegares em Tyburn, completamente nu e
enfiarem-lhe o ofensivo retrato pelo traseiro acima. Oh, como me faz rir. Por outro lado, à
sua maneira desequilibrada, procura em mim amizade, pois diz a verdade com o seu humor
atrevido, rara qualidade, que muito poucos querem partilhar comigo.
Todas as perguntas que faço a Niniane acerca da sua vida passada ficam sem resposta, pois
rodeia-as e diz piadas, mantendo intacto o mistério da sua história. Muitas vezes me
interrogo acerca desta estranha e invulgar mulher, que mostra também grande inteligência e
laivos de bondade. Como chegou a esta vida? Quem será a sua família? A sua classe?
Talvez um dia mo diga.
Afectuosamente vossa,
Ana
7 de junho de 1535 Diário,
A minha estrela voltou a reluzir e sou o único amor de Henrique. Propicia-me mais
cuidados que nunca, mantém-me perto de si em todas as circunstâncias. Dir-vos-ei como tal
aconteceu: primeiro a criança que trago no ventre arredondou-me as faces encovadas e deu-
me um ar saudável. Apaguei com várias aplicações de mercúrio as rugas que já me tinham
aparecido em redor dos olhos e da boca, pois embora corrosivo e prejudicial para a pele, fez
maravilhas e deixa-me o rosto liso. Disfarcei a palidez com uma fina camada de pó de
chumbo, depois um toque de alúmen para conseguir um tom rosado nas faces e cochonilha
para os lábios. Todos estes cuidados fizeram-me parecer mais jovem e bela do que antes.
Pus de lado redes e toucados e soltei o cabelo pelas costas, como usava nos tempos do
nosso namoro. Escolhi as suas cores favoritas para os meus vestidos, vermelho vivo, rosa,
negro brilhante, verde-esmeralda. Entre as Jóias escolhi aquelas com um valor sentimental,
por terem sido presentes seus, quando o nosso amor florescia. Paguei uma fortuna por
diversos

230
perfumes franceses, óleos para o banho e cremes e sempre que saía parecia flutuar numa
nuvem de fragrâncias.
Foi assim que me apresentei ante o rei, a princípio durante breves instantes ao passar por
um aposento cheio de gente, onde ele se encontrava. Não falava, mas lançava-lhe um
sorriso sedutor, um olhar de lado, de admiração pela sua pessoa. As celebrações do Dia de
Maio ofereceram-me uma bela oportunidade para brilhar. Fui escolhida para rainha dos
festejos e levava um vestido coberto de flores de seda. Na representação executei uma
dança alegre e uma canção que todos aplaudiram com sinceridade. Satisfez-me ver os olhos
do rei fixos, não na sua amante mas, com uma expressão orgulhosa, na sua esposa. Quando
agradeci, fiz a reverência na sua direcção, olhei-o nos olhos e percebi que me pertencia de
novo. Quando o baile começou, atravessou a sala para me pegar na mão e, enquanto
dançámos a galharda, saltou de novo COMO UM jovem veado. Percebi que se sentia feliz,
de modo que, nessa noite, fiquei a aguardá-lo nos meus aposentos e, conforme supusera, o
rei veio procurar-me.
Enquanto lhe servia vinho aromático diante da lareira acesa, reuni toda a minha coragem e
mostrei-me ousada com ele, tal como fizera antes que o amor e o casamento me tivessem
enfraquecido. Ao mesmo tempo que lhe massajava as têmporas disse-lhe que se pensasse
bem descobriria que estava unido à minha pessoa como nenhum outro homem o estava a
uma mulher. Que o tinha arrancado a um estado de pecado que era o seu casamento com
Catarina e que, sem mim, nunca teria reformado a Igreja. Além do mais, com essa reforma,
tinha recebido todas as riquezas dos mosteiros e era agora o príncipe mais rico que alguma
vez existira em Inglaterra.
Escutou-me com atenção, reflectindo nas minhas palavras e ordenando mesmo que
prosseguisse, o que fiz imediatamente. Entreguei-lhe a minha escova para que fizesse como
quando éramos jovens e ele escovou-me o cabelo até este parecer um pano de seda negra.
Dísse-lhe que a sua virilidade nos concedera uma nova oportunidade de termos o nosso
príncipe. E depois, como mestre Holbein, pintei um quadro em que Henrique e eu
estávamos de um lado, como aliados, enquanto do outro se encontravam todos os nossos
inimigos. O traiçoeiro Imperador, os volúveis franceses, o beligerante Papa, a
traiçoeiramente teimosa Catarina e Maria que, por trás das costas do pai, continuava a
tentar reunir um exército de revoltosos. Disse-lhe que ele e eu tínhamos sido separados por
forças cruéis que nunca

231
compreenderiam a fortaleza da nossa união. A seguir beijei-o, avivando a paixão do rei e do
homem que dentro dele existia. Não precisou de mais incentivo, arrancou-me o vestido e
levou-me para a cama.
Como havia pouco tempo tinha visto o seu corpo, não foi para mim uma surpresa a sua
obesidade, nem as varizes salientes e as chagas purulentas que lhe cobriam as pernas e as
coxas. Até então, nunca fingira sentir desejo por ele e limitara-me a voltar a cara e a deixá-
lo servir-se de mim o mais rapidamente possível. Contudo, nesse momento, recorri a toda a
minha decisão e fiz amor com ele. Foi um teste à minha capacidade de representar pois,
honestamente, já não me resta qualquer afecto por este animal a quem chamo esposo.
Uma vez satisfeito, o rei ficou em êxtase, cheio de esperanças pelo nosso futuro, pelo seu
filho varão e pela glória de Inglaterra. Pronunciou de novo o meu nome com grande ternura
e alegrei-me em silêncio, por ter conseguido, sozinha e mais uma vez, alterar o meu
destino. Com a minha filha nos braços, Deus seja louvado, afastei-me do negro abismo que
nos atraía. Jesus está certamente connosco.
Afectuosamente vossa,
Ana
20 de julho de 1535 Diário,
Como pode um homem tão bom e erudito contribuir para a sua própria execução? Que
sentido faz manter-se fiel a um princípio contra o qual todos se conformam, tendo a morte
como única saída? Maldito Thomas More! Está morto, com a cabeça espetada num pau na
ponte de Londres a fazer companhia às de john Fisher e dos monges cartuxos. Não poderia
ter proferido o juramento para salvar a vida? E Henrique acabou por fazer de More um
mártir católico, em redor do qual se juntarão os seus súbditos, ainda com maior fervor.
Meu pai e meu irmão George assistiram às execuções. Primeiro Fisher que fora nomeado
pelo Papa bispo de Rochester e estava de tal modo fraco que todos se espantaram de ver
tanto sangue jorrar de um corpo tão esquelético. Mas é a execução de More que me
assombra os sonhos e devaneios. A barba longa e emaranhada, as suas exortações ao
carrasco para que não falhasse, pois tinha o pescoço curto.

232
Vendou ele próprio os olhos com um pano de linho e estendeu o seu corpo enfermo sobre o
cadafalso, pois o cepo era baixo e muito pequeno. Chegou mesmo a gracejar. Disse ao
carrasco que não lhe cortasse a barba, pois esta não cometera nenhuma traição. E ali jazia
um grande homem, um perfeito idiota, deitado sobre o tronco, à espera do machado.
Quando chegou a notícia da execução de More, o rei e eu estávamos diante da mesa de
jogo.
- Pelo sangue de Cristo - vociferou com o rosto escarlate. Morreu o homem mais honesto
deste país! - Depois saiu da sala e fechou-se nos seus aposentos durante vários dias.
juro não pensar mais nisto. Vou afastar do meu espírito todos estas terríveis ideias, pois sou
ainda a rainha e tenho de pensar noutros assuntos muito importantes.
Afectuosamente vossa,
Ana
10 de Agosto de 1535 Diário,
Este Verão, Henrique levou consigo nos seus passeios a sua rainha, de ventre cada vez mais
arredondado e a quem trata com a maior deferência. Como noutros tempos, fico a seu lado
durante as caçadas, vemos os veados correrem, disparamos juntos, bebemos cerveja à tarde
e divertimo-nos mais do que em muitos anos.
Nos condados de Winchester e Hampshire recebemos boa e graciosa hospitalidade dos
nossos nobres súbditos em diversas mansões, castelos e pavilhões de caça. E embora fortes
chuvadas nos tenham roubado dias de falcoaria, não tivemos de enfrentar multidões
furiosas a ensombrarem a nossa viagem de prazer. Tenho esperança de que isto seja o
prenúncio da aceitação da minha pessoa e da princesinha, porém diz-me o coração que é o
medo da mão de Henrique que obriga o povo à submissão e o torna mais cordato.
Mesmo assim, esperavam-nos outro tipo de prazeres. Os mosteiros de Rochester e Dunst
abriram perante o rei os seus tesouros de objectos religiosos. Grandes e pesadas cruzes de
ouro, finas tapeçarias, mitras cravejadas de pedras preciosas, báculos, cálices para a
missa; tudo aquilo, obscenamente rico e desnecessário para adorar

233
a Deus, foi levado para Londres pelos homens do rei, como se fossem despojos de guerra.
Talvez aquelas novas riquezas tivessem dado volta à cabeça de Henrique, pois agora fala
abertamente contra essas duas pedras espanholas que, como mós de moinho, tem
penduradas ao pescoço.
- Não mais sofrerei atribulações, receios ou ansiedades por causa da antiga rainha ou de
lady Maria - ouvi-o dizer a Suffolk. - Vereis como o próximo Parlamento me libertará
delas. Não espero mais!
Abstive-me de intervir, pois parece que o rei não precisa de mais nenhum incentivo para as
mandar executar. Ah, como seria bom que essas duas feras desaparecessem deste mundo,
ficando a minha Isabel livre do seu veneno. Rezo para que Henrique não vacile e chegue
até ao final, como quando fez de mim rainha! Se assim for, o nosso futuro estará
assegurado.
Agora, alojados em Wolfe Hall no condado de Wiltshire, perto de Cales, sentimo-nos
perfeitamente em casa na mansão da família Seymour. Thomas e a sua fértil esposa
Margaret inspiram-nos com a sua fecundidade, pois têm dez filhos vivos - cinco meninas,
cinco varões. Edward foi o Mestre do Corpo de Henrique há alguns anos e sua irmã Jane
- vulgar e apagada - dama de honor de Catarina. O irmão falou por ela, demasiado tímida
para nos pedir um lugar na corte. Henrique deixou bem claro que desejava agradar a
Edward, de modo que terei de arranjar a este rato um lugar entre as minhas aias.
Não minto se disser que tenho desfrutado deste Verão, mas que prefiro regressar às
comodidades de casa e da corte já que tenho de levar esta gravidez a bom termo e garantir o
nascimento da criança.
Afectuosamente vossa,
Ana
5 de Dezembro de 1535 Diário,
Não posso crer na última traição de Henrique. Transformou o rato em sua amante. Fui
substituída pela minha tímida e recatada aia Jane Seymour. Ninguém a acha formosa,
apenas uma figura gorducha e apagada, com uma voz que não se consegue ouvir, de tão
baixo que fala. Também não parece ser muito inteligente. Mas não importa, seu irmão
Edward pensa por ela. Henrique está encantado,

234
de um modo como nunca antes o vi, excepto quando estava apaixonado por mim. Mas
como poderá esta mulher pouco interessante despertar tal paixão no rei? Decerto que o
romance é obra de Edward, para conseguir um bom lugar junto do rei. Receio que o meu
inconstante primo Francis Bryan e também Nicholas Carew façam parte da conspiração.
Não haverá um cortesão leal? Julgo que não. Puseram Jane a representar o meu antigo
papel amoroso - tentando Henrique com pequenas provocações, tímidos sorrisos, promessas
de submissão que levam, não ao leito, mas a castos beijos e promessas de muitos filhos
varões.
Tenho de admitir que perdi a paciência com este rei mulherengo e não consigo esconder o
meu desagrado. Não deixo de o vituperar em público e em privado. Quando ele diz ”sim”,
digo ”não”, só pelo prazer de o contradizer. Descobri novos modos de o irritar e de troçar
daquele pomposo monte de carne, rindo-me dos seus horríveis escarpins e dos seus fatos
ofensivamente cobertos de pedrarias, sempre a aumentar de tamanho, que o cobrem como a
uma parede. Ordenou a todos os seus homens que rapassem a cabeça e deixassem crescer a
barba e assim, utilizando a observação de Niniane, anunciei, em voz bem alta, durante um
jantar, que o rei parecia uma bola de bilhar barbuda.
Insulto também Norfolk, há muito meu inimigo, mas que agora me calunia nas costas. Diz-
se que se queixou de eu me ter dirigido a ele com um tom que nem se usa para falar com
os cães. Porém, Niniane, quando ouviu isto, afirmou que meu tio Norfolk se deveria sentir
honrado pois eu tratava os cães melhor que a maior parte das pessoas. Quanto à senhora
Seymour que, outro dia, surpreendi a namorar descaradamente o rei, sentada no seu colo,
dei-lhe uma sonora bofetada e fiz-lhe um enorme arranhão no rosto.
Henrique tolera as minhas atitudes com uma estranha serenidade que preocupa meu irmão
George, pois considera ser esta a calma antes da tempestade. Porém, parece que um
estranho demónio me domina e não consigo conter as minhas ousadias. O Deus cruel que
decidiu o meu destino, será o juiz que dite outros castigos, pois a luva foi lançada e a
batalha começou.
Afectuosamente vossa,
Ana

235
9 de Janeiro de 1536 Diário,
Faleceu Catarina, antiga Rainha de Inglaterra e eu estou arrasada. Tão violento e pouco
natural foi o seu fim, com horríveis vómitos e dores insuportáveis no ventre que há quem
diga que foi envenenada. Mas não é verdade, pois os seus únicos inimigos éramos o rei e
eu, que por certo não somos responsáveis. Henríque não cabe em si de contente. ”Deus seja
louvado! Estamos livre da possibilidade de haver uma guerra!” gritou assim que lhe chegou
a notícia da sua morte.
É verdade que o Imperador Carlos, sobrinho de Catarina, já não tem pretexto para nos
invadir, desde que sua prima Maria esteja em segurança, já que ninguém sabe como será a
sucessão ao trono.
Por isso me recolhi nos meus aposentos, mas nem mesmo no meu leito encontro descanso.
É verdade que chorei de felicidade ao saber a notícia e dei um bom presente a mestre Ellis,
o mensageiro que ma trouxe. Alegrei-me por Henrique ter mandado vir Isabel de Hatfield,
para que assistisse às celebrações, mandando-a vestir de amarelo, a condizer com o seu
gibão e o meu vestido e também que tenha entrado nos meus aposentos para, num
transporte de alegria, dançar uma gavota com as minhas aias. Porém, quando pegou ao colo
na nossa filha e a exibiu de aposento em aposento para que todos lhe prestassem a devida
homenagem, senti uma súbita dor no coração. Mandei sair todas as aias e nem Niniane me
consolou no meu desgosto.
Apercebi-me de que a morte de Catarina poderia ser o meu fim. Enquanto fosse viva,
Henrique nunca se poderia divorciar da minha pessoa, de contrário teria de voltar para ela.
Mas com a sua morte, o rei está livre para se casar com quem quiser. Dizeis-me que o rei
não se divorciará de mim. Mas pensai bem! Vejo os olhares amorosos que lança ao rosto
gordo e sem graça de Jane Seymour. Oiço a maledicência falar de um terceiro casamento,
que o rei nunca contradiz.
Oh, Isabel! O homem que agora exibe perante os seus cortesãos a sua loira filha vestida de
amarelo, pode ser o instrumento da minha e da tua destruição. Reza comigo, minha querida
filha para que a criança que trago no ventre seja um varão. Porque o bom rei Henrique
pouco aprecia a sua família e pouca intenção tem de lhe dedicar amor. Como uma enorme
tempestade vinda do mar a ocidente,

236
receio que a sua fúria seja impossível de conter e nos afogue a todos.
Afectuosamente vossa,
Ana

28 de Janeiro de 1536 Diário,


Passou-se aquilo que eu mais temia. Abortei o meu salvador, pois a carne ensanguentada
que expeli do meu ventre, era certamente um varão.
A grande celebração pela morte de Catarina durara semanas. Henrique não permitiu o luto
na corte, nem em público. Festas, bailes, representações, até missas foram ditas em sinal de
alegria e os que amavam a rainha tiveram de lamentar em segredo a sua morte. Realizou-se
uma justa, porém procurei sossego longe da ruidosa multidão e recolhi aos meus aposentos
com Margaret Lee e Niniane, que nos divertiu cantando versos e canções de Chaucer.
De repente, ouvimos um ruído como se os soldados se tivessem aproximado da minha porta
e, assustadas vimos meu tio Norfolk irromper pela calma da tarde com desagradáveis
notícias. O rei jazia como morto no pátio, caído da montada durante a justa e esmagado
pelo pesado corpo do cavalo! Senti a mão fria do medo apoderar-se dos meus membros,
cabeça, ventre e toda a energia se escoou das minhas veias. Margaret afirma que fiquei com
uma palidez de morte e tentou consolar-me. Porém Norfolk, como uma víbora maligna
picou-me o coração com as suas duras palavras. Se Henrique morresse eu estaria perdida
com toda a certeza, pois não havia ninguem leal a Isabel que apoiasse a sua sucessão ao
trono. Se eu lutasse por ela e me declarasse regente, decerto se seguiriam grandes
discórdias e uma guerra civil. Entretanto, já eu lamentava a súbita perda de Henrique, ao
mesmo tempo que sentia um grande alívio com a morte do animal que tinha por marido.
Logo a seguir Norfolk retirou-se sem se dar ao trabalho de fazer a devida reverência, pois já
não me considerava sua rainha.
Aturdida, mortificada, atormentada por terríveis presságios comecei a tremer
descontroladamente. Margaret e Niniane tentaram animar-me, para deter os tremores,
consolar-me com palavras bondosas,

237
mas tudo o que eu desejava era ter Isabel nos braços, pois o perigo rondava-nos como uma
trupe sombria de macabros saltimbancos. Margaret retirou-se, prometendo que Isabel me
seria entregue e que mandaria também vir alguns homens que me fossem leais.
Contudo, quando chegaram - Wyatt, Norris, Weston - trouxeram-me a notícia de que o rei
estava vivo! De facto tinha estado inconsciente durante duas horas, mas voltara a montar o
cavalo e desejava continuar a justa. Pois bem, recolhi-me ao leito por pura exaustão de
espírito. Embora Niniane tenha conseguido provocar algumas gargalhadas apesar de tão
perversas ocorrências, de novo empalideci e senti que as forças me faltavam. No dia em
que o corpo de Catarina foi sepultado, o sangue correu entre as minhas coxas e o bebé
morreu dentro do meu ventre. A parteira examinou o feto e declarou que parecia ser um
varão. Disseram-no a Henrique que surgiu nos meus aposentos feito uma fúria ainda maior
do que no dia em que Isabel nasceu.
- Vejo claramente que Deus não deseja dar-me filhos varões afirmou num tom
extremamente frio, mas sem erguer a voz. Respondi-lhe que não fora obra de Deus e que o
nascimento prematuro tinha ocorrido depois de eu ter recebido a notícia da sua morte,
brutalmente dada por Norfolk; porém nada o comoveu. Não levou em conta o meu estado
de fraqueza, nem a minha perda, só a sua. Retirou-se do aposento sem se dignar olhar para
trás, dizendo que falaria comigo quando me encontrasse recuperada.
Margaret Lee mantivera-se fielmente junto a mim e rompeu a chorar quando o rei saiu.
Desejei poder acalmá-la dizendo-lhe que haveria de ter outros filhos, mas ela mostrou-se
inconsolável e contou-me os seus receios. Toda a corte murmurava que Henrique afirmava
agora ter sido seduzido por meio de feitiçaria praticada por mim e que o nosso casamento
não tinha validade. Dizia que Deus lhe mostrara a verdade impedindo-o de ter filhos e que
desejava desposar a virtuosa Jane Seymour. Feitiçaria! Como se eu fosse bruxa! A mão
com seis dedos, a marca do Diabo no pescoço, as poções que usei para lhe mitigar as dores,
a magia dos meus dedos que lhe aliviavam as dores de cabeça... Tudo isso acabaria por se
voltar contra mim. Vi que o meu destino não era melhor que o de Catarina e o de Isabel
seria igual ao de Maria. Vi-me repudiada, com uma filha bastarda, enviada para um lugar
triste e distante, onde nem poderia receber o consolo e a visita de outras pessoas.

238
Senti as pernas fracas, o coração pesado. Recolhi ao leito, sem vontade de o abandonar.
Que nos irá acontecer?
Afectuosamente vossa,
Ana
6 de Fevereiro de 1536 Diário,
Que dia tão triste. Morreu o meu querido Ptirkoy. Foi Henrique que me deu a notícia com a
mesma indelicadeza com que meu tio Norfolk me participara a morte do rei. Rezava eu
com o meu capelão Matthew Parker, quando Henrique entrou de rompante nos meus
aposentos para me dizer que ia para Londres festejar a terça-feira de Entrudo e que desejava
que eu ficasse em Greenwich. Implorei que me deixasse acompanhá-lo, pois Isabel estava
alojada em Londres e desejava vê-la. Recusou o meu pedido e também não quis levar uma
lista de medidas para várias toucas de seda que desejava que fossem feitas para a princesa.
Declarou com toda a crueldade que ela não precisava de toucas tão finas e perguntou-me se
eu não tinha mais nada que fazer com o meu tempo do que escrever listas tolas, de coisas
que não tinham qualquer utilidade.
Irritei-me ao ouvir tais comentários acerca de nossa filha e deitei-lhe em cara que o seu
amor inconsistente dava azo a que outros mostrassem abertamente a sua deslealdade. Até
mesmo mestre Cromwell tirava a boina ao ouvir o nome de lady Maria. Henrique não
respondeu a isto, pelo menos de modo satisfatório e fez menção de se ir embora. Porém
peguei-lhe num braço e disse-lhe algumas verdades da sua nova amante, lady Jane.
- Está a brincar convosco, Henrique, tal como eu fiz. Afinal, imita os meus artifícios. Ouvi
dizer que não aceitou a bolsa de soberanos de ouro que lhe haveis oferecido, não foi
Henrique? Não é verdade que afirmou que sentiria a sua honra e virtude manchadas se
aceitasse um tal presente sem ser vossa legítima esposa? Sereis tão cego que não possais
ver que tem dois irmãos inteligentes que, através dela, buscam honrarias para si próprios?
- Contende essa língua viperina, senhora, para não ter de ser eu a remeter-vos ao silêncio.
- E como o faríeis, Henrique? Com o divórcio? Enviando-me para um convento?
239
- Não abuseis da minha paciência, Ana, que já pouca me resta. Mesmo assim arranjei
coragem para o enfrentar e olhei-o fixamente nos olhos.
- Nunca vos amei, Henrique. Nem uma única vez, nestes últimos dez anos. - A boca dele
estremeceu, porém manteve o queixo firme enquanto eu lhe espicaçava o orgulho com um
sorriso malicioso. - Haveis pensado que tinha sentido amor por vós? Claro que sim.
A cor subíu-lhe ao rosto gordo quando pronunciei estas falsas palavras, pois como sabeis,
Diário, amei-o uma vez, antes de me ter entregado a ele. E em Calais, no Inverno a seguir.
Porém, nesse momento não lhe dei a satisfação de falar desse amor.
- Ide ter com a vossa amada de cara de cavalo - gritei. - Possuí-a! Mas podeis retirar dos
vossos pensamentos a ideia de que Ana Bolena alguma vez amou Sua Graciosa Majestade.
Porque nunca tal aconteceu. Nunca!
Ele fixou-me com o seu terrível olhar e, nesse momento, pensei que fosse erguer a mão
para me matar com pancada.
- O vosso cão morreu - preferiu dizer. Depois sorriu. - Que pena, pois era certamente o
vosso súbdito mais leal.
Não cheguei a ver Henrique partir pois imediatamente as lágrimas cegaram-me. Lágrimas
que teve a satisfação de saber ter sido o causador.
Afectuosamente vossa,
Ana
9 de Abril de 1536 Diário,
Por um breve tempo julguei que, mais uma vez, tudo estava bem. O embaixador Chapuys
trouxe uma mensagem do Imperador. Nela mostrava interesse em negociar um tratado
comigo e com Henrique, agora que a morte de Catarina retirara um enorme obstáculo do
nosso caminho para uma possível aliança. Agradou-me que desejasse falar também comigo,
pois mostrava o respeito que Carlos tinha por mim como rainha. Este plano espanhol
agradou de sobremaneira ao secretário Cromwell, que ultimamente considerava os
franceses aliados fracos e de pouca confiança. Ainda para mais,

240
julgo que se preocupava que um dia a Inglaterra pudesse ver-se sozinha contra Espanha e
França. Assim, marcou-se uma ronda de conversações e festejos em honra de Chapuys.
Henrique não tomou qualquer medida para me excluir destes planos, de modo que fiz
grandes preparativos para um jantar privado, após a missa a que assistiriam os grandes
nobres do reino e Chapuys como convidado de honra, na esperança que algumas questões
importantes pudessem ser resolvidas à minha mesa. Correu tudo bem durante a missa em
que o arcebispo Cranmer pronunciou um sermão de marcado conteúdo político e em que o
embaixador correspondeu, complacente, aos meus sorrisos. Porém, quando chegou o
momento de Chapuys se dirigir aos meus aposentos, Henrique requereu a sua presença e a
dos membros do seu Conselho Privado e deixou-me a presidir a uma festa vazia, cujo prato
principal foi a minha humilhação.
Afinal, o rei nunca aceitou os termos de Chapuys, pois este exigia em primeiro lugar que
Henrique se submetesse ao Papa e em segundo que legitimasse a sua bastarda Maria.
Cromwell, furioso por ver destruídos os seus próprios planos, retirou-se indisposto e há
cinco dias que se recolheu ao leito na sua residência. Receio que o seu desconforto seja a
minha única consolação em todo este assunto.
Henrique pouco amor demonstra por Isabel e nem se incomoda em fingir qualquer
consideração por mim. Julgo que os meus dias na corte estejam contados e várias das
minhas aias atreveram-se a falar-me de conventos distantes, onde uma rainha deposta pode
encontrar abrigo.
Ultimamente pouco há que me console. Apenas a doce música de Mark Smeaton e as
graças de Niniane são bálsamo para a minha alma ferida.
Rodeiam-me ainda alguns amigos fiéis: Thomas Wyatt, Henry Norris, Francis Weston.
Bem sei que lisonjas e galanteios não têm ardor romântico - já não sou bela - mas são sim a
expressão de uma corajosa constância e do amor cortês. Esta bondosa atenção fez-me sentir
por eles uma apaixonada e profunda afeição, mais do que a que senti por Percy ou Henrique
e mais rara que a que devoto a Isabel, pois esta está ligada a mim por um vínculo de
sangue. A amizade é a mais bela flor, a dádiva de um coração abnegado a outro. Sempre me
sentirei grata por isso.
Pouco afecto sinto pela maioria das mulheres, pois sempre me detestaram e desconfiaram
de mim, mas Margaret Lee é mais do que

241
minha irmã Mary. Como me amima! É Dama do Corpo da Rainha e é seu dever cuidar de
mim, mas sei que se esmera a escolher as roupas que devo usar por mais me favorecerem -
cor, estilo e corte que melhor me fiquem. Arranja-me os vestidos, aquece-me as mãos e os
pés, massaja-me as têmporas quando me dói a cabeça, tudo com tal ternura que por vezes
me comove.
E o meu doce George. Nenhuma mulher teve alguma vez um irmão melhor. Partilhamos
recordações das nossas vidas desde que éramos crianças. Continua a troçar de mim e
quando rimos juntos, todos os cuidados e desgostos do presente desaparecem como que por
magia. Fecho os olhos e vejo-o, subir a escada de caracol para ir ao meu quarto em Hever
Hall, onde, em surdina, as nossas vozes infantis planeavam grandes guerras e tolas
brincadeiras.
Lembro-me de um Outono que passámos em Edenbridge. Um dia fez uma coroa de flores,
colocou-ma na cabeça e nomeou-se Rainha das Folhas. ”Ajoelhai pois sou a vossa
soberana!” exclamava eu, imponente, enquanto, em meu redor, caíam milhares de folhas
vermelhas, douradas e alaranjadas. ”Poderosa Majestade” exclamava George ”vede como
vossos súbditos se curvam perante vós!” Depois soltávamos enormes gargalhadas até o
ventre nos doer. Já fui Rainha de Inglaterra. Agora sou apenas a Rainha das Folhas.
Afectuosamente vossa,
Ana
Diário, encontro-me prisioneira na Torre de Londres. Chorai por mim, pois estou
certamente perdida, acusada de adultério, que é o mesmo que traição. Em Inglaterra o
adultério praticado por uma rainha é traição e a traição é punida com a morte. Nem sequer
posso esperar um julgamento imparcial, nem que se contentem a enviar-me para um
convento distante, pois Henrique quer-me morta. Mark Smeaton e Henry Norris, pobres
rapazes, acusados de relações carnais com a rainha, estão também na Torre. Diz-se que
confessaram ter-se deitado comigo. Claro que não o fizeram, pois são homens honestos e
essa hedionda acusação é completamente falsa. Uma mentira. Tê-los-ão torturado para lhes
arrancar essas confissões? Serei também torturada? Trata-se por certo de uma intriga de
Cromwell. Ultimamente voltou-me as costas e é perfeitamente capaz de o fazer. Eu mesma
assisti a como guiava o rei até à minha cama,
242
fazendo-o percorrer o labirinto do seu divórcio de Catarina e da desavença com o Papa.
Aqueles olhos brilhantes. Aquela boca cruel. Vi a sua expressão enquanto conduzia aos
meus aposentos a maldita delegação. Em silêncio, deixou que fosse meu tio Norfolk a dar-
me voz de prisão, mas a sua presença lançou uma sombra de desgraça sobre a minha
cabeça. Em plena luz do dia, obrigaram-me a subir o rio numa rude barcaça para que todos
vissem, sem a escolta de amigos ou cortesãos que me fossem fiéis, acompanhada apenas
por horríveis inimigos e harpias. Lady Kingston, minha tia lady Bolena, a senhora CoffinI,
cujo nome tão bem lhe fica. Ficaram atrás de mim, onde não as pudesse ver, cravando-me
os olhos no pescoço e sem pronunciarem uma única palavra que me desse alento. Senti que
a sanidade me abandonava para se reunir com o remoinho da corrente do rio, deixando-me
o cérebro vazio, privada de bom senso e razão. Ajudai-me, meu Deus! Parece-me que, ao
chegar aqui, não me comportei como uma rainha. Ri, chorei e tremi descontroladamente.
Depois da barcaça me deixar nos degraus da Torre, senti-me gelar à vista das húmidas
paredes da prisão e, de tal modo que me faltaram as forças, que caí de joelhos. Lorde
Kingston, o Guardião da Fortaleza veio receber-me, tomou-me o braço e disse-me uma
palavra amável. Julgo que assim foi, pois pouco recordo dessa ocasião, excepto ter
perguntado se seria encarcerada numa masmorra e lorde Kingston ter dito que não, que
seria alojada nos meus antigos aposentos, naqueles em que ficara antes da minha coroação.
Também me lembro que, ao ser conduzida aos aposentos, vi um dos gordos corvos a saltar
sobre a relva e soltei uma gargalhada. Mas, nesse momento, ouvi o canhão da Torre
ribombar pelo Tamisa para anunciar a minha chegada e avistei o cadafalso de madeira,
onde tinham lugar as execuções. Thomas More, pensei, o bom doutor More. Não pude
conter as lágrimas amargas, ao lembrar-me que a sua cabeça rolara sobre a relva verde.
Mestre Kingston conduziu-me até à porta da prisão e despediu-se. Agarrei-me a chorar ao
seu braço. ”Morrerei sem julgamento?” Respondeu-me que até o súbdito mais pobre tem
direito à justiça. Soltei uma louca gargalhada sob o seu olhar compadecido. Pedi um
espelho para ver a imagem de uma rainha caída em desgraça, mas não satisfizeram o meu
desejo. Estou encurralada aqui. Encurralada com estas horríveis mulheres que me torturam
dizendo-me que toda a Londres se alegrou
Nota: Coffin significa caixão em português. N. da T.

243
e comemora nas ruas a minha prisão; que agora lady Maria, ou antes a princesa Maria
tomará o lugar que lhe compete na linha da sucessão. Odeiam-me, mas servem-me com
todas as atenções. Sei que foram avisadas de que deveriam recordar-se de tudo o que eu
disser, para mais tarde poderem incriminar-me. Sei que estão à escuta mas não consigo
conter-me e da minha boca sai como água de um poço, uma corrente contínua de
impropérios e insultos aos meus inimigos, maldições contra Inglaterra, à qual desejo, se
morrer aqui, sete anos de tempestades e pestes. Isabel, minha Isabel, que te fiz eu? Se sou
traidora, tu serás apenas a filha de uma traidora. Perdeste por certo tua mãe, perdeste a tua
futura coroa e talvez a tua vida... Só eu sou a culpada, só eu sou a culpada, só eu sou a
culpada. Perdoa-me, minha querida. E minha mãe. Morrerá de desgosto. Morrerá como eu,
que Jesus me ajude. Estou só e tenho tanto medo.
Ana
13 de Maio de 1536 Diário,
Recuperei a lucidez, mas o mundo que vejo em meu redor é um local tão aterrador que me
sinto tentada a regressar à loucura. Prenderam George, meu irmão, acusando-o de ser meu
amante. Nós, incestuosos! Espanta-me tanto empenho da parte de Henrique, apenas para
possuir essa mulher vulgar. Francis Weston e William Breyerton são também acusados do
mesmo delito e reuniram-se a Mark Smeaton e a Henry Norris na Torre. Até mesmo
Thomas Wyatt e Richard Page foram presos por essa razão. Meu Deus, não posso permitir
que estes bons homens estejam a sofrer pela loucura que foi a minha vida. A toda a hora
suplico às minhas carcereiras que me informem sobre o meu destino, mas estas limitam-se
a contar os mexericos que sabem me vão fazer sofrer. Dizem-me que, todas as noites,
Henrique se desloca de barcaça à residência dos Carews, onde se aloja a senhora Seymour
para aí se divertir e aguardar o meu julgamento e condenação à morte.
Roguei a lorde Kingston que leve as minhas cartas ao rei e ao secretário Cromwell, mas o
alcaide recusa-se, dizendo que apenas poderá transmitir recados orais a partir da Torre. Sei
que é fiel à

244
princesa Maria, como anteriormente o foi a Catarina, de modo que não me conferirá favores
que possam reabilitar-me. Tenho de encontrar um modo de comunicação com os meus
acusadores, para que saibam que não me considerarei culpada desses delitos, nem de
outros, provenientes de mentiras ou de corrupção e dizer-lhes também que nenhum homem
honesto poderá declarar contra mim.
Nunca mais recebi uma palavra de meu pai ou tive notícias dele e não sei se foi igualmente
acusado de crimes de traição e se encontra detido. Nem imagino se será um dos que me
acusam. Com a desgraça que caiu sobre a cabeça da filha e do filho, qualquer homem se
sentiria desanimado e morreria de vergonha. Não obstante, suspeito que meu pai, se não
está implicado, já arranjou maneira de usar a nossa queda em seu proveito.
O pouco consolo que aqui encontro devo-o à sobrinha de lorde Kingston, a senhora
Sommerville que veio integrar o número das minhas carcereiras. Esta senhora já não é
muito jovem, nem é bonita, mas tem uns olhos calmos que parecem sossegar tudo em seu
redor. Para irritação de seu tio e das outras senhoras trata-me com a delicadeza devida à
rainha que ainda sou. Dou por mim a desejar os poucos momentos em que estamos sós,
para falar com ela com sinceridade e sem receios e nessas ocasiões posso escrever-vos.
Embora não me dê falsas esperanças acerca da minha libertação ou que seja ilibada das
acusações que me fazem, oferece-me a esperança da felicidade no paraíso, para o caso de
vir a morrer, pois jura não conhecer mulher melhor do que eu. Consola-me ainda de outras
formas - lê-me as Escrituras, deixa-me falar da minha Isabel e conta-me histórias dos seus
filhos. E, Diário, escova-me o cabelo, com todo o prazer. Esta pequena atenção faz-me por
vezes chorar, pois fá-lo com toda a ternura, como dantes Henrique costumava pentear-me.
Já pensei em pedir à senhora Sommerville que me ajude a enviar as cartas para fora da
Torre, mas não tive coragem. Acredito que não quereria recusar e um tal acto poderia pôr a
sua vida em risco, por minha causa. Até os meus pedidos para me confessar ao arcebispo
Cranmer têm sido cruelmente ignorados. Por vezes receio não voltar a ver um rosto
bondoso e familiar.
Afectuosamente vossa,
Ana
245
15 de Maio de 1536 Diário,
O meu destino transformou-se num pesadelo atroz. Vou morrer acusada de atraiçoar
Henrique, condenada pelos meus pares, devido a uma abominável mentira. Apenas uma
mentira. O meu esposo, meu amigo e amante de dez anos vai assassinar-me publicamente a
sangue-frio... e ninguém porá objecções. Como pode ser? Como chegaram as coisas ao
ponto de todos os lordes ingleses terem abraçado o mal com tanto fervor que executam uma
dama para que o marido se possa casar com outra? É certo que Henrique não é um marido
vulgar. É o rei. O sol. Um Deus na terra. Mas eu conheço-o e a verdade é que Henrique não
passa de um homem colocado no trono por outros, por meio de guerras, matanças e sede de
poder. Esta é a verdade que conhecem e os degrada e o mesmo se passou com seus pais e
com os pais de seus pais. Do mesmo modo que um molho picante não pode ocultar o sabor
da carne podre, também as armadilhas da corte são incapazes de disfarçar os instintos
básicos que governam o coração dos nobres ingleses.
Hoje, todos os que sobreviveram a essas matanças, sentam-se como abutres esfomeados
sobre as carcaças dos caídos. Muitos pares de olhos, negros e brilhantes, observam, rapaces,
o festim. Os haveres dos que foram condenados comigo - rendimentos e rendas, tapeçarias,
roupas, móveis das casas ricas - serão disputados como carniça pelos seus bicos ávidos.
As famílias renegam os condenados, pois é insensato mostrar afecto pelos traidores, ainda
que sejam do mesmo sangue. E sei que meu pai não é um homem insensato. Thomas
Bolena nunca será confundido com um capitão que se recusa abandonar o navio afundado.
Oh, não, nada disso. Dizem-me que no julgamento de Weston, Norris, Breyerton e Smeaton
ajudou a condená-los por adultério com a sua própria filha. E diz-se também que se
ofereceu para servir de testemunha no meu julgamento e no de George, mas que no fim o
pouparam à indignidade. JUlgo que se lá se encontrasse nos teria considerado culpados tal
como o fizeram vinte e seis dos meus pares. Tudo porque meu pai aprecia demasiado o seu
pescoço para poder amar traidores. Também não quero julgar-me melhor do que realmente
sou. Meu pai nunca gostou de mim. Nem sequer me via, eu era apenas uma rapariga para
utilizar, uma rapariga inteligente, com alguma beleza e ousadia e força de vontade próprias
de um

246
homem. Certamente o mortificou que sua filha mais nova se tivesse atrevido a arrebatar-lhe
das mãos as rédeas e ousasse cavalgar o rápido alazão da sua vida, em direcção à glória e à
desgraça. Nunca me amou.
Tenho de descrever o meu julgamento, pois fará parte da história e embora neste momento,
seja perigoso para qualquer ser dar uma versão diferente da imposta por Henrique, um dia
saber-se-á da infâmia deste tribunal e da grosseira injustiça por ele cometida. Os meus
amigos compareceram perante os seus pares no dia 12 de Maio e foram todos considerados
culpados de traição - por terem tido relações carnais com a rainha e por terem conspirado
contra a vida do rei. Vão sofrer uma morte horrenda, castigo guardado apenas para os
traidores e hereges. Três dias depois desta condenação foi a vez da minha.
Conduziram-me desde os meus aposentos em Tower Green para o cinzento e antigo
edifício onde se situa o salão do rei. Quando entrei, vi que se tratava de um vasto aposento,
capaz de albergar as duas mil pessoas que já lá se encontravam para a grande ocasião que
era o julgamento de uma rainha acusada de traição. Na sala a abarrotar de gente,
encontravam-se, lado a lado, o alcaide de Londres e os seus edis, inúmeros cortesãos, vários
embaixadores estrangeiros, com os seus escrivães acocorados ao lado, nobres rurais com as
suas esposas, que certamente lhes teriam implorado vir a Londres para não perderem tal
espectáculo, e uma chusma de populares para verem fazer justiça à Grande Prostituta que
havia tanto tempo odiavam.
Abriram-se alas para me deixar passar. Fingindo um triunfo imaginário, endireitei os
ombros e ergui o queixo, mais do que em qualquer outra ocasião. As minhas aias, excepto a
senhora Seymour, apropriadamente ausente, mais pareciam pássaros de colorida plumagem.
Porém elas, que sempre tinham formado um alegre bando em meu redor, estavam agora
separadas, sob a protecção de suas famílias ou entre grupos de novos amigos.
Margaret Lee agarrava-se ao braço de Thomas Wyatt com uma estranha expressão que não
era mais que um misto de alegria e desgosto pela recente libertação de seu irmão e pela
minha omnipresente desgraça. Wyatt parecia profundamente triste e, em silêncio, agradeci-
lhe ter-me oferecido este Diário, o amigo mais leal que tive em toda a minha vida.
Niniane colocou-se à minha vista, quando passei. E talvez influenciada por aquela ridícula
ocasião, foi precisamente ela, o meu bobo, a única pessoa a quem falei em toda a multidão.

247
- Niniane - disse e detive-me junto a ela que, espantada, esboçou um malicioso sorriso e se
aproximou mais de mim.
- Creio que querem dar-vos outro nome - murmurou.
- E que nome será? - perguntei.
- Rainha Ana Sem Cabeça, Majestade.
- Será um nome muito bem escolhido - disse eu, retribuindo-lhe o sorriso.
- Adoro-vos, senhora - disse. - O meu coração de bobo sentirá eternamente a vossa falta.
Prossegui o meu caminho. Ali, diante de mim, em duas filas junto à barra, envergando as
vestes escarlates, encontravam-se os vinte e seis pares de Inglaterra, de expressão grave no
rosto. Entre eles vi Henry Percy de Northumberland, pálido, encolhido e parecendo muito
mais velho do que realmente era. À frente de todos eles, num estrado mais alto, sob um real
dossel sentava-se, não o rei, pois não tivera estômago para tanto, mas meu tio Norfolk,
inclinado ao peso de muitos colares de ouro, empunhando um enorme bastão e
acompanhado pelo conde de Surrey e pelo lorde-chanceler AudIey.
Meu tio não perdeu tempo e leu com voz clara e imperturbável as acusações que me eram
imputadas: que eu, a rainha, durante mais de três anos desrespeitara o meu casamento,
guardando no coração maus sentimentos em relação ao rei e cedendo, todos os dias, aos
meus caprichos e desejos carnais. Com falsidade e ânimo traiçoeiro, mediante palavras,
beijos, carícias, presentes e vários incentivos inqualificáveis procurava os servidores do rei
para com eles exercer actividades de adultério e concubinato.
Afirmou que meu irmão George se deixara seduzir por profundos beijos com a sua língua
na minha boca e minha na dele e que conhecera carnalmente a própria irmã numa ligação
incestuosa. Afirmou-se também que, com outros, eu teria conspirado para assassinar o rei,
já que nunca o amara do fundo do meu coração, chegando a prometer casamento a um dos
meus companheiros de cama, após a morte de Henrique. Foram fornecidas as datas e os
locais os meus supostos mas terríveis delitos, de índole lasciva. Parece que os meus
incontroláveis desejos me conduziam a frequentes e perigosas indiscrições. Recebia vários
amantes numa só noite e, menos de um mês após o nascimento de Isabel e até mesmo
durante a gravidez. Devo dizer que nem tudo era mentira - de facto, troçara da pessoa do
rei, das suas roupas, ridicularizara as baladas que escrevera. Mas calculei que estivessem
desesperados quando o consideraram prova de traição.

248
Depois de lidas as acusações, ergui-me para proferir a minha defesa, mas fui asperamente
silenciada por meu tio. Não tinham sido permitidas testemunhas a meu favor. Este processo
infame e irregular ofendeu de tal maneira os espectadores que houve uma agitação na sala
seguida de gritos de ”Deixem-na falar!” e ”Deixem-na apresentar as provas!” Penso ter sido
esse o momento mais doce que vivi como rainha e em que senti ter o apoio do povo. Não
posso dizer que me amassem, mas era, sem dúvida, indigno de ver. Se a mulher do rei
podia ser tratada daquele modo dentro de um tribunal, ficava demonstrado que qualquer
pessoa abaixo dela poderia receber pior tratamento pois a justiça morrera certamente em
Inglaterra.
Assim, contendo a voz furiosa com que desejava insultar aqueles vermes, limitei-me a
declarar-me inocente de todas as acusações, pedindo a Deus que fosse minha testemunha. A
seguir, Norfolk solicitou aos membros do tribunal que dessem o seu veredicto; como não
poderia deixar de ser, um a um, declararam-me culpada. Vi como aquela simples palavra
lhes saía dos lábios corrompidos, mas pouco me incomodou a sua repetição... excepto
quando foi pronunciada por uma certa boca.
Henry Percy hesitou antes de pronunciar as sílabas que levariam à morte a única mulher
que amara. Hesitou e, nesse momento desafiei-o olhando-o nos olhos. Porém, foi como
uma luva atirada ao chão que, por medo, ninguém recolhe. Recusou o meu olhar, e
pronunciou a palavra ”culpada” mais alto que todos os outros.
Norfolk bateu três vezes com o bastão branco no chão, fazendo o eco percorrer o salão,
agora tão silencioso que se poderia ouvir o adejar das asas de uma pomba.
- Porque haveis ofendido o nosso rei e soberano, cometendo traição contra a sua pessoa,
haveis merecido a morte e sereis queimada aqui, na Torre de Londres, ou decapitada,
conforme aprouver ao rei.
Ergueu-se então um burburinho por entre a multidão. ”Não há direito!” ”Onde está o rei e a
sua nova amante?” ”Onde está a justiça?” e outros impropérios contra aquele cobarde
tribunal. Se os ânimos não se tivessem exaltado, eu poderia ter sido levada da sala sem
pronunciar palavra, porém aquilo obrigou lorde duque de Norfolk a pesar a conveniência
de me deixar falar ou de me remeter ao silêncio. Por fim concedeu-me a palavra.
Consciente de que, se alguma vez possuí dignidade era esse o momento de apelar para ela,
olhei de frente para os meus acusadores e, sem que a voz me falhasse, declarei:

249
- Senhores! Sei que tendes consciência de me haver condenado por razões que nada têm
com as provas que foram hoje trazidas à vossa presença. O meu único pecado contra o rei
foi o ciúme e falta de humildade. Mas vós tendes de seguir o rei. Estou preparada para
morrer, senhores, e apenas lamento que homens inocentes e leais a Henrique tenham
perdido a vida por minha causa. - Depois voltei-me para a multidão, para os meus súbditos
que se mantinham imóveis e silenciosos, para que me pudessem olhar o rosto que tantas
vezes tinham aviltado, de modo a que vissem a minha inocência e pedi-lhes humildemente
que rezassem por mim. Não deixei que ninguém me tocasse quando, com passo majestoso,
saí do salão, ainda Rainha de Inglaterra.
Mais tarde, nos meus aposentos da prisão, lady Sommerville veio contar-me tristemente a
enorme farsa que fora o julgamento de meu irmão. Disse-me que George se defendera com
tanta graça e engenho que todos acreditavam que seria ilibado. Porém, parece que se deixou
levar pela raiva e, saboreando aquele momento de desafio, fez a acusação pública de aquilo
que o tinham proibido terminantemente de falar - a impotência de Henrique. Dizia-se que
eu tinha declarado a minha cunhada, e ela a George, que o rei não tinha vigor nem força
para o acto viril. Aquilo provocara tais murmúrios que meu tio tivera de repor a ordem.
Mas, disse-me a boa senhora, aquele momento de desrespeito ofendeu de tal forma os
lordes que custou a meu irmão a liberdade e a vida. Como castigo final, seremos mantidos
isolados, sem o consolo um do outro, até à morte.
Por fim, contou-me como, ao terminar a sessão, lorde Norfolk pediu a todos os pares que se
levantassem e todos obedeceram todos excepto um. Henry Percy continuou no seu lugar,
prostrado e mortalmente enfermo. Foi levado do salão por quatro guardas, pois os outros
lordes não tinham tempo a perder com fracos ou feridos.
Portanto agora, terei de enfrentar as chamas, ou se alguma recordaçãominha comover a
generosidade de Henrique, o machado. Estou muito cansada e rezo para poder encontrar
alguma paz num sono reconfortante, porém as esperanças desta desgraçada mulher em
refugiar-se em doces sonhos, são elas próprias, um sonho inpossível.
Afectuosamente vossa,
Ana

250
16 de Maio de 1536 Diário,
O meu amigo arcebispo Cranmer veio visitar-me. Por um instante pensei que viesse trazer-
me o perdão do rei - talvez o meu desterro para um convento distante. Mas o único alívio
trazido por Cranmer é a morte indolor. Não serei queimada, pois o rei assim o dispôs. Pobre
Cranmer... magro como uma espada, o nariz afilado e os olhos apagados pelo sofrimento.
Cheirava a incenso como se tivesse estado a rezar longas horas na capela cheia de fumo.
Porém a sua voz era forte e firme quando me saudou, conseguindo mesmo esboçar um
sorriso. Porém, tinha pouco tempo e passou a informar-me da missão de que o secretário
Cromwell o encarregara.
- O rei e Cromwell estão informados das minhas disposições
- disse. - Escrevi a Sua Majestade após a vossa prisão, dizendo nunca ter tido melhor
opinião de outra mulher e que logo a seguir ao rei éreis a criatura por quem mais estima
sinto.
- Haveis escrito isso ao rei?
- Claro que sim. Trata-se da verdade.
- Haveis sido muito corajoso, Thomas.
- O rei está decidido a contrair novo casamento, Ana - disse, aclarando a garganta. - Não
quer que haja qualquer impedimento. Além do mais exige que Isabel... seja considerada
bastarda.
Estremeci ao ouvir tão terríveis palavras. Tudo o que fizera em prol de minha filha, tinha
sido em vão.
- Não lhe basta a minha morte?
- Uns dias antes do vosso julgamento, tentou obrigar pela força Henry Percy a assinar um
documento afirmando o pré-contrato de matrimónio que ambos havíeis feito. Percy estava
muito fraco e doente, mas recusou. Agora o rei exige que sejais vós a fornecer-lhe prova de
que o casamento com ele é nulo e inválido.
- Quer que eu lhe forneça a prova?
- Sim. Podeis contradizer lorde Northumberland e afirmar que ele fez convosco o pré-
contrato, ou podeis informar o rei do seu próprio caso com vossa irmã, o que o colocará
num grau de afinidade demasiado próximo para vos poder desposar.
- Então o rei deseja ser informado por mim de que fornicou com Mary...
- Não me peçais que vos explique as estranhas ideias de Henrique. Sabeis que é impossível.

251
Porém o meu espírito animara-se já com novas possibilidades.
- Se nunca fomos casados, Cranmer, então nunca fui rainha, não será assim?
- Sim.
- E o adultério, noutra que não a rainha, não poderá ser considerado traição.
- Vejo os caminhos do vosso raciocínio, senhora - disse hesitando na escolha das palavras. -
Mas, infelizmente, não é desejo do rei manter-vos viva. Apenas deseja que Isabel seja
considerada ilegítima.
- Dizei-me. Este plano terá sido delineado por Cromwell?
- Exactamente. Segui-lhe a pista até aos encontros com o embaixador Chapuys, destinados
a conseguir uma aliança imperial. Lembrais-vos de que quando as negociações falharam,
Cromwell recolheu ao leito durante cinco dias, alegando uma indisposição? Julgo que deve
ter ficado deitado a preparar este esquema, e agora emergiu do casulo qual borboleta
malévola abrindo as suas asas sobre a presa. A presa sois vós, senhora. Reuniu os vosso
inimigos, todos eles espiões dentro de vossa casa, para testemunharem contra vós. Mandou
chamar Mark Smeaton à sua residência de Throgsneck Street, com o pretexto de que o
pobre rapaz tocasse para ele. Obteve a sua confissão sob tortura.
- Já imaginava. Mas porquê? Porque o fez Cromwell? Não foi ele que torceu e retorceu a lei
inglesa e o raciocínio humano, para tornar possível o meu casamento com Henrique?
- Haveis esquecido de que é uma borboleta que segue para onde o vento sopra?
- Sim, e há apenas um vento em Inglaterra - disse eu, com amargura. - Chama-se Henrique.
- Recordai que Cromwell chegou a falar com todo o fervor em prol da aliança imperial
mas, quando o rei se mostrou contra, o secretário apercebeu-se que tinha escolhido mal.
Para agradar a Henrique, havia apenas uma coisa que lhe poderia oferecer: um novo
casamento com Jane Seymour. Um casamento sem impedimentos.
- Mas será que Henrique deseja seriamente ver-me morta? Chegou a amar-me muito,
Cranmer. Do fundo do coração. Bem sabeis o que fez para que eu fosse sua.
- E vós senhora, bem sabeis que com um homem como Henrique o pêndulo da paixão
balança de um lado para o outro. Receio...
- fez uma pausa, pois as palavras eram demasiado difíceis para as

252
pronunciar. - Receio que se não lhe deres o que deseja, as coisas não correrão bem para
Isabel.
Senti o sangue gelar-me nas veias e estremeci.
- Também a matará?
O rei Henrique é capaz de grandes crueldades e, se lhe convier, o assassínio da própria filha
não será inconcebível. Ele ou o seu incubo Cromwell arranjarão um pretexto, tal como
fizeram convosco. Sois uma bruxa, de modo que vossa filha também o é. Ou talvez que,
sendo bastarda, as suas perspectivas de casamento sejam poucas e a menina se converta
numa peça desnecessária, até mesmo incómoda. Tudo é possível, pois o rei está louco.
- O que dizeis é traição, arcebispo.
- Se a verdade é traição, então a vossa acusação é justa.
- Eu fui condenada por uma mentira.
- Todos o sabemos, senhora.
Não sendo capaz de me fitar, por vergonha, olhou pela janela para Tower Green. Porém,
quando os seus olhos se fixaram no exterior e o vi apertar os dentes, aproximei-me para
saber para onde olhava tão interessado. Vários pares de trabalhadores traziam tábuas de
madeira para o centro da relva e empilhavam-nas ao lado do cadafalso onde morrera
Thomas More.
- Perguntais se o rei já não sente amor por vós. Julgo que alguma centelha terá restado
nesse archote que ardeu com tanta violência. Mandou vir de Calais o melhor carrasco do
continente, para a vossa execução... para que seja levada a cabo com toda a facilidade.
Ao ouvir tais palavras senti-me inundada por uma onda de medo, porém logo a seguir
acalmei-me e consegui dar mostras de alguma ironia:
- Ah, já tinha ouvido dizer que os carrascos de Calais são muito bons. E o meu pescoço é
fino. Deve ser uma ocasião muito elegante.
- Oh, Majestade! - Cranmer caiu de joelhos diante de mim,
tomou-me as mãos nas suas e beijou-as, chorando amargamente. - Então, meu amigo, não
choreis por mim. Penso que este fim que agora tão injusto e cruel nos parece, faz parte dos
planos divinos que não podemos entender, mas que são certamente perfeitos.
Disse-o para lhe apaziguar o espírito, pois não era exactamente o que sentia no coração.
Algum tempo depois, limpou as lágrimas e ajudei-o a erguer-se.
- Sinto-me envergonhado que sejais vós a consolar-me, quando seria meu dever trazer-vos
conforto.

253
- Não importa. Trazei-me uma pena e pergaminho e escreverei o documento que Henrique
deseja.
Quando Cranmer me entregou estes objectos, sentei-me e escrevi uma confissão, afirmando
que, de facto, houvera um pré-contrato entre mim e Henry Percy e que, entre mim e o rei,
havia um parentesco por afinidade, devido à anterior relação deste com minha irmã.
Também acrescentei que o tinha enfeitiçado e que não o considerava ligado a mim por
esses falsos laços de matrimónio. Garanti-lhe que nossa filha era ilegítima e assinei por fim
”Ana, marquesa de Pembroke. Enquanto secava a tinta, com todo o cuidado, para que não
pudesse haver qualquer dúvida ou erro nas minhas declarações, perguntei a Cranmer o que
seria dele.
- Suponho estar a salvo. Certos membros do Conselho Privado chamaram-me para me
advertir de que o meu dever era admitir aparentemente a vossa culpa. Lorde Sussex tratou
de me recordar da nossa antiga profecia: ”Serão queimados dois ou três bispos e uma
rainha.”
- Como se fosse preciso recordar-vos que podereis cair comigo. Cranmer fechou os olhos e
deitou a cabeça para trás, com os lábios apertados numa expressão de tristeza.
- Abandonei-vos, Majestade. Mas, por favor, crede que não foi por cobardia. Estavas já
perdida e o meu apoio nesse momento de nada valeria. Devo sobreviver para continuar a
obra da Nova Igreja.
- Bem sei, Cranmer, haveis agido bem. Vou rezar até ao meu último suspiro para que a
Igreja de Inglaterra não mais volte a cair sob o jugo de Roma - olhou-me com um ar
indescritivelmente triste. - Alguma vez voltareis a ver vossa esposa holandesa? - perguntei.
- Julgo que não. Esse casamento foi um acto irreflectido.
- Mas Cranmer, haveis casado por amor. É muito raro, mas nunca irreflectido. Talvez
quando Henrique se cansar dos vossos serviços possais viajar de novo até à Holanda para a
voltar a ver. Ele soltou uma pequena gargalhada e a seguir sorriu.
- Sim. Talvez. Obrigado, Majestade, por pensardes em mim num momento tão difícil para
vós. Juro que não conheço ninguém tão bondoso.
A seguir o bom padre escutou-me pela última vez em confissão e deu-me uma suave
penitência pelos meus pecados. Era tempo de se retirar. Enrolou o maldito documento,
meteu-o numa bolsa e disse-me que não me aconselharia a ter coragem, pois já tinha mais

254
do que ele alguma vez pensara possuir. Despediu-se então e disse que rezaria por mim com
toda a sua alma. Beijei-o e deixei-o ir.
Senti envolver-me uma estranha felicidade, como se me tivessem coberto os ombros com
um xaile quente. A presença daquele homem fora um belo presente de Henrique e dera-me
a conhecer que eu tinha feito o melhor possível para proteger a minha doce e inocente filha.
Afectuosamente vossa,
Ana

255
Majestade! A saudação de Mary Sidney atravessou como uma espada o pensamento de
Isabel, separando-a da tragédia em que
estava profundamente imersa. Ana, o arcebispo Cranmer, o seu último encontro na torre,
tudo desapareceu quando um cortejo de aias entrou pelo aposento, transportando bacias de
água fumegante, destinada à sala de banho da rainha.
- Então! Levantai-vos! - exclamou lady Sidney, puxando as cobertas de seda, sem grandes
cerimónias. - Haveis estado deitada tempo suficiente. Os vossos conselheiros clamam por
vós, incluindo meu irmão.
- Como está Robin? - perguntou Isabel, sentindo-se um pouco estranha, por não ter pensado
no seu amado durante algum tempo.
- Preocupado convosco, senhora. Robert tem-se mostrado taciturno depois do regresso de
lorde Cecil e da vossa indisposição. Então, deixai que vos ajude. Apoiai-vos em mim, pois
decerto ainda sentireis as pernas fracas
- Onde está Kat?
- Dorme e ressona na sua câmara. Ontem à noite, quando a deitei por entre os risos e as
exclamações das outras aias, morreu para o mundo em três tempos. Nem sequer se mexeu,
quando o esquilo de estimação de lady Benton lhe subiu para o ombro. Estava
completamente exausta.
Mary Sidney obrigou Isabel a levantar-se. Embora sentisse as pernas como gelatina, logo
prescindiu do auxílio da aia.
- Podeis ir. Vede que ponham uma boa porção de óleo de lilás no meu banho. E quero lavar
o cabelo.
- Será prudente, Majestade? Ainda agora...
- Ide.
- Sim, senhora - disse a aia e logo desapareceu no aposento contíguo.
256
Ainda havia mais algumas páginas para ler, porém Isabel retirou o diário da mãe de entre as
dobras dos lençóis amarrotados e devolveu-o à arca fechada que tinha aos pés da cama.
Com a fina camisa de dormir a flutuar-lhe junto aos tornozelos, sentindo-se leve como uma
pena, entrou na sala de banho.
Aí, lady Sidney ocupava-se dos preparativos para o banho da rainha, ordenando que
despejassem mais água quente na tina, que trouxessem mais panos de linho e uma mão-
cheia de pétalas de rosa e ervas. Isabel via o vapor de água erguer-se da banheira de cobre a
embaciar o espelho a toda a altura da parede. Experimentando de novo a temperatura da
água, Mary Sidney pediu à rainha que entrasse. Outra aia a despiu antes de se sentar na
água quente e perfumada.
Várias mãos começaram a massajar-lhe suavemente a pele pálida e macia. O vapor
suavizara o ar e abafara as vozes das aias que, sentindo a rainha ainda fraca, conversavam
em voz baixa e sossegada. Em redor da sua cabeça pairava um aroma a alfazema e ervas. A
água batia-lhe no pescoço e, com a rapidez de um falcão de caça, o espírito de Isabel voou
para a Torre de Londres.
Entrou no pensamento de sua mãe. Sentiu-lhe a delicadeza do pescoço e imaginou a lâmina
do carrasco a cortar tecidos e ossos. Perguntou a si própria se teria sentido dor, se teria visto
o mundo por uma última vez através dos olhos de uma cabeça sem corpo, a rolar nos
relvados de Green Tower.
A traição dos homens.
O horror da imagem, devolveu Isabel aos seus próprios pensamentos. À coragem de sua
mãe. Ana lutara tanto tempo pela sua dignidade e para poder ser senhora do seu destino.
Lutara como um homem e, como um galante cavaleiro, defrontara e derrotara um após
outro, os seus formidáveis inimigos - Wolsey, Suffolk, Clemente. Fora, porém, abandonada
pelo mais importante dos seus aliados.
Ah, a traição! Lamentou-se Isabel, em silêncio. Henrique lutara ao lado de Ana enquanto
esta se mostrara forte, enquanto recusara dar-lhe o que ele mais desejava - o seu sexo. No
momento em que sucumbiu às suas investidas e ao sagrado estado do matrimónio, o rei
voltou-se contra ela. Cruelmente. De súbito. Com repugnante perversidade. Trespassara a
armadura de ferro, empalando a mulher que tanto amara, no lugar vulnerável entre as suas
coxas.
Até àquele momento, Isabel nunca compreendera ou aceitara a vil traição de seu pai.
Henrique amara Ana com uma paixão tão forte que abalara as fundações de Inglaterra, ou
melhor de toda a cristandade. E quando

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os seus desejos se alteraram, não lhe bastou desterrá-la. Como toda a gente, Isabel sempre
acreditara, que Ana merecera a sua morte, como adúltera e traidora. Os poucos que sabiam
da sua inocência tinham morrido ou, como lady Sommerville, ocultado a verdade para
salvar a vida. Até mesmo Cromwell, que tinha arquitectado os maiores triunfos de
Henrique, fora decapitado à sombra daquela desgraça. Isabel enfrentava agora o espectro do
seu antes amado pai, transformado num rei mulherengo, infiel e bestial.
- Lorde Cecil tem estado muito preocupado, Majestade - disse lady Sidney, interrompendo
o devaneio de Isabel. - Tem vindo indagar do vosso estado de saúde pelo menos duas ou
três vezes por dia. É o mais fiel dos vossos servidores, senhora.
E o mais culpado, disse para consigo a rainha, corrigindo a aia. Cecil deveria ter
consciência de que o seu ultimato havia sido a causa da sua doença e sentia-se
envergonhado. Porém, quando o voltasse a ver mostrar-se-ia bondosa e delicada, pois os
motivos do seu conselheiro eram puros e de modo algum egoístas. Na sua opinião, o
romance com Dudley era injurioso à sua posição de rainha e o casamento com ele seria uma
perfeita desgraça. Porém, naquele momento queria deixar de pensar em tudo isso, e
saborear os dedos que a massajavam e a aromática neblina em redor da sua cabeça,
felizmente livre das dores.
A primeira reunião da rainha com o seu Conselho Privado, após a doença fora um êxito
completo. Isabel elogiara efusivamente os seus homens pelo triunfo de Edimburgo e, para
surpresa de todos, mostrara-se decidida a aplicar um novo imposto. Nesse dia houvera uma
certa camaradagem e descontracção e até algumas gargalhadas, que Isabel considerara
muito agradáveis. Pensava tê-los enfeitiçado e sossegado. Até mesmo lorde Cecil se
mostrava de bom humor, apesar da sua expressão de perpétua reserva ser um sinal de que
não esquecera o seu ultimato. Como não insistira na concessão do título de conde a Cecil...
haveria tempo.
O sol da tarde penetrava em raios oblíquos pelas janelas, enquanto os conselheiros
conversavam animadamente e arrumavam os documentos antes de partirem. Isabel foi a
primeira a reparar no jovem mensageiro que, muito nervoso, caíra de joelhos diante dela
aguardando que dessem pela sua presença. A rainha mandou-o erguer-se e os conselheiros
remeteram-se ao silêncio, como se todos pressentissem a importância daquela missão. O
rapazinho aclarou duas vezes a garganta e só depois começou a falar.

258
- Majestade, venho de Cunmor House, no Devon.
Ao ouvir o nome da residência da família de Robin Dudley, Isabel sentiu um aperto no
estômago. Desejou subitamente que o jovem se esfumasse. Mas este continuou:
- Lady Amy Dudley faleceu. Ao regressarem do mercado, os criados encontraram-na morta
ao fundo das escadas. Tinha o pescoço... - o rapazinho hesitava em pronunciar as palavras. -
Partiu o pescoço, mas a morte parece não ter resultado da queda. O toucado estava intacto.
Dizem que se trata de um crime.
Isabel ouviu os conselheiros explodirem em impropérios e num excitado burburinho, mas
fez um esforço para manter a compostura.
- já informaram lorde Robert Dudley? - perguntou.
- Sim, Majestade. Há uns instantes, nos estábulos.
- Muito bem. - Isabel estava disposta a evitar o olhar dos seus conselheiros e a não permitir
que vissem que tinha o rosto afogueado.
- Que alguém lhe pague - ordenou, sem se voltar para o conselho e encaminhando-se para
as portas duplas.
Eles sabem! Pensou Isabel, despedindo com um gesto um pequeno contingente de aias que
esperavam para a acompanhar dali aos seus aposentos. Nesse momento não conseguiu
suportar os seus olhares desconfiados de falsa deferência. Tinha de percorrer enormes
corredores e subir centenas de degraus, passando por cortesãos, guardas e alabardeiros,
desconfiando que todos eles troçavam dela.
Quando, por fim, entrou na câmara real, Isabel estremeceu ao ver que estava a abarrotar de
damas e cavalheiros, todos estranhamente reservados e sem se atreverem, conforme seria de
esperar dadas as circunstâncias, a cochichar entre si. Descobriu que a razão de tal reserva se
encontrava no extremo do salão com sua irmã Mary Sidney.
Robin. estava pálido e, encolhido de medo, parecia ter perdido a habitual robustez.
- Fora! - exclamou Isabel. - Todos daqui para fora!
A sala esvaziou-se em segundos, tão brusca fora a ordem da rainha. Até mesmo Kat que
acabara de sair do interior da câmara real, não se atreveu a perguntar se a ordem também
lhe era dirigida e seguiu os outros. Apenas Robin ficou, sozinho e imóvel naquele fim de
tarde. Estava escuro, pois na aflição do momento, ninguém se lembrara de acender as velas.
Isabel passou por Dudley e entrou na sua câmara, deixando que ele a seguisse em silêncio,
para logo fechar a porta. Esperava que as profundas inspirações lhe trouxessem calma e
fortaleza, bem como a sanidade necessárias para não explodir.

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- Porquê? - perguntou quebrando por fim o terrível silêncio.
- Isabel...
- Robin, ela estava a morrer. Não podíeis ter esperado?
Dudley dirigiu-se a Isabel com os braços estendidos, mas ela esquivou-se ao seu abraço.
- Isabel, como podeis pensar tal coisa a meu respeito? Não há provas de que tenha sido
assassinada. Apenas estranhas circunstâncias. Isabel examinou Dudley. Observou-lhe os
movimentos dos músculos
do rosto, a textura da voz, o gesto dos ombros. Porém, por mais que o tentasse, não
conseguia discernir se as suas palavras eram verdadeiras ou falsas.
- Amy foi encontrada ao fundo das escadas. Provavelmente partiu o pescoço na queda.
- E agora as suspeitas recaem sobre vós - disse Isabel. - E também sobre mim. Não vedes o
que parece? A rainha de Inglaterra perde a cabeça pelo seu mestre cavalariço. Não querem
que a sua esposa continue a ser um impedimento para o escandaloso romance e portanto foi
encontrada convenientemente morta.
- Juro que não assassinei a minha mulher.
- E também jurais não a ter mandado assassinar? Jurais não ter plantado no espírito dos
vossos fiéis servidores a ideia de que desejáveis sobretudo ver-vos livre dela?
- Vou repetir. Não assassinei Amy. Mas não vos vou mentir. Estou contente por ela ter
morrido.
- Robin!
Após as últimas palavras de Dudley, Isabel sentiu que o aposento começava a girar e, por
um breve instante não viu ali o seu amado, mas sim o rosto de seu pai Henrique. A besta.
Henrique que, alegremente vestido de amarelo, lamentava a execução de sua mãe casando-
se, no dia seguinte, com a senhora Seymour. Também ele se sentira satisfeito com a morte
da mulher. A traição dos homens.
- Falai verdade, Isabel - viu o rosto de Dudley, sobrepondo-se à fantasmagórica aparição de
seu pai. - Também vós desejastes que morresse.
- Confesso que vos quis só para mim, todavia nunca quis nas minhas mãos o sangue de
outra mulher.
- Isabel, amo-vos de todo o coração. Deus ou o destino acharam por bem desimpedir-me o
caminho... estou livre para casar.
- Não! - Isabel tapou os ouvidos com as mãos. - Não digais tal coisa. - Ouvia de novo a voz
do pai. Contente por ela ter morrido... livre para casar... contente por ela ter morrido...

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- Isabel - Dudley estendeu o braço, mas o corpo da rainha tremia de emoção.
- Não, por favor. Não me toqueis - tentou acalmar-se e recuperar a razão. - Ide, Robin.
Julgo que vos deveis retirar da corte por algum tempo. Haverá um inquérito e comprovar-
se-á a vossa inocência olhou-o nos olhos. - Comprovar-se-á que estais inocente não é
verdade? Sim, claro.
Muito bem. Ide então para Kew - o pensamento de Isabel corria célere. - Aí ficareis
calmamente, até que vos mande chamar. Não faleis senão com lorde Cecil, que será quem
vos leva as minhas comunicações.
- Escrever-me-eis? Se tenho de me exilar do vosso corpo, meu amor, não posso manter-me
ao mesmo tempo afastado dos vossos pensamentos.
- Escrever-vos-ei.
Dudley caiu de joelhos diante de Isabel e apoiou a cabeça nas dobras da sua saia. A rainha
segurou-lhe o rosto com as mãos e limpou-lhe as lágrimas que lhe caíam dos olhos. Assim
se deixaram ficar durante algum tempo até ela lhe pedir que se erguesse. Robert Dudley
obedeceu, beijou-lhe os dedos e solicitou autorização para se retirar. Depois, trémulo,
abandonou os aposentos.
Frágil como vidro veneziano, Isabel Tudor deitou-se no seu leito real e começou a chorar.
Chorou pela mãe e pelo pai, por Robin e Amy, pelo amor, pela morte e pelos doces sonhos
que sabia perdidos para sempre.
17 de Maio de 1536 Diário,
O rei foi mais uma vez misericordioso. Dispensou os meus amigos e o meu irmão do
sofrimento de uma lenta agonia. Não obstante, estão todos mortos, com as cabeças
separadas dos corpos, o sangue a inundar as botas do carrasco. Não me era possível ver o
cadafalso da janela da minha prisão, de modo que solicitei a lady Kingston que me levasse
a ver o tão monstruoso acontecimento provocado pela minha loucura.
juntou-se uma enorme multidão para assistir ao evento do dia
- famílias inteiras com o cesto da merenda, funcionários do governo de alta e baixa
condição, dignitários estrangeiros, comerciantes que tinham fechado as suas lojas como se
se tratasse de um dia festivo. O cadafalso fora erguido bem alto para que todos pudessem
testemunhar a brutalidade e, assim, um por um, Norris, Weston, Breyerton

261
e Smeaton tomaram os seus lugares. Do meu parapeito não me foi possível escutar as
últimas palavras pronunciadas por homens tão corajosos, mas soube depois que nenhum
deles me traíra, tendo apenas pedido que a misericórdia divina lhes permitisse morrer sem
sofrimento.
Quando meu irmão George chegou ao cadafalso fez-se um profundo silêncio. As mulheres
puxavam os filhos para que não vissem um condenado por incesto. Um homem gordo
olhou-o com um sorriso malicioso, recordando-se talvez de como sua irmã ou filha se
retorciam debaixo do seu repulsivo peso. Vi um jovem nobre que, na sua inexperiência
sonhava chegar à corte, olhar aquele espectáculo, imóvel como uma pedra. Decerto sentia o
medo correr-lhe nas veias, ao aperceber-se claramente do perigo mortal que representava a
sua ansiada profissão.
Desejei desesperadamente atrair o olhar de meu irmão antes que inclinasse a cabeça, para
lhe poder enviar todo o meu amor e receber o seu, para assim iluminarmos as nossas
escuras viagens. Mas tinha os olhos fixos num ponto distante, os movimentos cheios de
dignidade e escolhia cuidadosamente as suas últimas palavras, para que aquele acto final
fosse recordado como belo e corajoso. Depois de se despedir, fez uma pausa e ergueu a
cabeça para o céu azul, onde passavam grandes nuvens brancas. Recordei-me do dia
ventoso em que fui a Dover despedir-me dele, antes da sua partida para França. De novo vi
o gesto gracioso dos seus dedos a agarrar a boina que o vento queria arrebatar. Ah, como
esse dia fora feliz e que esperanças tínhamos ainda diante de nós.
Olhei também para o céu para não o ver ajoelhar diante do carrasco. Escutei apenas a
pancada surda e ouvi as aclamações daquela rude assistência. Voltei as costas, pois não
desejava ver a fonte de sangue brotar do corpo de meu irmão por sobre o relvado de Tower
Green.
Lady Kingston observava-me da porta da prisão, com os olhos impiedosos, a boca apertada
sob o nariz bolboso e o queixo gordo. Vencida pela crueldade a que assistira e receando que
a minha Isabel possa sofrer o mesmo destino, por minha culpa, falei-lhe em tom
implorante. Humilhei-me e declarei-me arrependida pelo tratamento que dera a lady Maria,
na esperança que este se apiedasse da sua irmãzinha, uma inocente sem outros amigos nesta
vida. A minha carcereira, embora fria como uma pedra, concordou em transmitir os meus
protestos à mulher a quem chamou princesa Maria. Senti

262
que a garra que me oprimia o coração se alargava um pouco e respirei com mais facilidade.
Tenho agora de me preparar para a minha morte que terá lugar amanhã de manhã. Dai-me
forças, meu Jesus.
Afectuosamente vossa,
Ana

18 de Maio de 1536 Diário,


Atrasaram a minha morte um dia mais e, embora julgue que a intenção seja torturarem-
me com estas pequenas crueldades, sinto-me feliz pois o tempo será bem aproveitado. Hoje
tenciono escrever a Isabel, do fundo do meu coração e para que só ela leia as minhas
palavras. Entregarei este livro à guarda de lady Sommerville que me prometeu, em devido
tempo, o entregá-lo nas mãos de minha filha.
Tendes sido para mim, um diário confidente e bondoso. Escrevi toda a minha vida nas
vossas páginas vazias. Durante todos estes anos comecei a ver-vos como uma dama boa e
generosa, já de uma certa idade, dotada de engenho e grande inteligência. Imagino-vos
sentada, junto a uma janela cheia de sol, a ler as minhas confidências com a mesma avidez
com que se lê a carta de uma amiga.
Apesar de nunca me ter chegado uma resposta vossa, recebi um caudal de invisíveis
riquezas. Quando a pena toca no papel, ocorre uma estranha alquimia. O meu diário foi
como a pedra filosofal e recebeu recordações, sonhos, conversas, esperanças, receios e
pensamentos dispersos - os metais base - para logo os transformar em ouro. Julgo que este
ouro tenha sido a expansão do meu espírito, alargamento da minha alma. E por esse dom
vos agradeço de todo coração. Deixai que me despeça de vós, com os meus últimos versos:
Morte, embala-me o sono
Traz-me o repouso final Leva de mim o fantasma Que foi causa do meu mal Que o dobre
do sino triste Anuncie a minha morte Que outro consolo não há...
263
O meu nome foi manchado Com falsidade e rancor
O conforto terminado Despedi-me do amor
Que o dobre do sino triste Anuncie a minha morte Que outro consolo não há...
Afectuosamente vossa,
Ana

Minha querida Isabel,


A última vez que te vi tinhas tu, minha doce filha, apenas três anos. Eras bela como uma
boneca e tinhas o génio mais meigo que já vi numa criança. Recordo esse dia, pois o sol da
Primavera entrava pela janela dos teus aposentos e o teu vestidinho de cetim vermelho
parecia incendiado de tanta luz, quando te aproximaste de mim, de braços estendidos.
Talvez não recordes esses primeiros anos, porém Isabel, não minto quando te digo que
embora o tempo que passámos juntas fosse infelizmente escasso, conhecias-me e amavas-
me. Amavas-me de um modo tão possessivo, que esse sentimento me parecia estranho,
vindo de uma criança tão pequena. O meu colo servia-te de trono e era eu o teu único
súbdito. Quando aí, te encontravas exigias toda a minha atenção e não permitias qualquer
interferência. Eras tu que me ordenavas que canções cantar, que histórias contar, que parte
do teu pescoço, orelhas e pés beijar ou acariciar. Adorava esses raros momentos, essas
horas encantadas e espero que te recordes deles, pois vou morrer sabendo que te deixo órfã
de mãe, num mundo cruel e perigoso.
Tudo indica que nunca será tua a coroa de Inglaterra. Maria pode reinar e a descendência de
Jane Seymour terá por certo precedência mas, mesmo assim, já que vou morrer, tenho de
acreditar que um dia serás Rainha. Não foi a profecia da Freira de Kent que mo disse,
embora acredite que ela tenha visto o futuro, antes de se transformar num peão de homens
poderosos. Vejo como o destino tem um estranho modo de fugir, súbita e violentamente, ao
nosso controle. Vejo-te um dia a governar Inglaterra, pois para além do meu sangue
determinado, possuis também a linhagem real de teu pai.

264
Amanhã morrerei, não por avidez de luxúria, mas porque quis comandar o meu destino.
Não é um acto apropriado para uma mulher, bem o sei, mas muitas vezes pensei que o meu
espírito era mais parecido com o de um homem. Neste mundo, uma mulher nasce com um
dono que é seu pai. Este governa-lhe a vida até a entregar nas mãos de um marido, que lha
governa até à morte. Muitos pregadores afirmam que a mulher não tem alma. Porém uma
qualquer alteração na minha natureza, sempre me impediu de obedecer aos homens. Era
apenas uma menina quando me defrontei com estes dignos opositores - meu pai, o cardeal
Wolsey, Henrique. Mantive-me firme como um cavaleiro num campo de batalha. Reuni
forças, avancei, recuei, participei em muitas escaramuças, servi-me da diplomacia, venci
importantes batalhas. E perdi a guerra.
Assim, e excepto pela dor de te deixar, minha filha, de nada me arrependo. Vivi
verdadeiramente uma vida que está vedada à maioria das mulheres. Conheci o verdadeiro
amor, lutei por uma coroa e consegui-a, tratei, com reis, rainhas e cardeais. Tive uma filha.
Há quem diga que sou bruxa, mas tu leste o meu diário e saberás que o meu poder não
provém de Satanás.
Creio que o meu coração começou a endurecer com a perda do meu primeiro amor,
Henry Percy. Poderia ter-me deixado vencer por essa terrível infelicidade, mas, pelo
contrário, como os ursos feridos e ensanguentados, acorrentados e atacados por mastins
uivantes, senti nascer em mim a fúria necessária para atacar de novo e viver outro dia.
Embora fosse para meu pai uma filha obediente, tivesse amado dois homens e sido traída
pelos três, não te vou dizer que todos eles são traidores. Alguns que conheci - teu tio
George, Thomas Wyatt, Norris, Weston, Breyerton - foram bons e sinceros para mim. E
perdoo a teu pai, Isabel, pois julgo compreender a estranheza do seu carácter. Os homens
amam o que não podem obter e odeiam o que não conseguem controlar. Para Henrique fui
ambas as coisas.
Assim, filha, embora tenha sofrido e em breve vá morrer, devido a esta necessidade egoísta
de governar o meu destino, imploro-te que faças o mesmo. Que nenhum homem te governe.
Entrega-te ao amor, aos prazeres da carne, casa-te, se o desejares, mas guarda dos homens
uma parte do teu espírito. É assim que colocarei a cabeça no cepo do carrasco, sem me
lamentar ou recear a morte. E embora antes de receber os sacramentos, jure pela salvação
da minha alma que estou inocente de todos os crimes de que fui acusada, por ti, dobro-me
humildemente perante o rei e peço o seu perdão.

265
Em breve morrerei, porém sinto a alegria de uma parte de mim continuar a viver em ti.
Como único legado, deixo-te o meu diário, com a história dos teus antepassados. Quero
também que saibas, Isabel, que este coração de mãe está cheio de amor por ti e que quando
estiver no Céu olharei por ti, com ternura, durante toda a tua vida. Adeus, minha querida
filha, adeus.
Afectuosamente,
Ana

267
William Cecil ergueu o olhar para ver entrar a rainha na sala do Conselho. O Sol mal se
tinha erguido e quase toda a corte dormia ainda. Contudo, gostava de se levantar cedo e
agora sentava-se sozinho atrás da porta, perdido em silenciosa contemplação, de modo que
Isabel não deu logo pela sua presença. A postura insólita da rainha - uma espécie de’calma
interior, pensou ele impediu-o de quebrar o silêncio e de se fazer anunciar.
Viu-a dirigir-se directamente à sua mesa, onde se encontrava um monte de documentos de
Estado e de cartas e começar a folheá-los até achar o que precisava.
Foi nesse momento que viu o reflexo do sol sobre a faca que Isabel segurava nos seus
longos dedos. Ergueu-a e, com golpes certeiros, rasgou o pergaminho, uma, duas... talvez
uma dezena de vezes até cair feito em tiras, sobre as enceradas tábuas do soalho. Só quando
se preparava para sair, reparou no seu fiel conselheiro.
Cecil teve a impressão de que, nesse momento, Isabel endireitou ainda mais a sua régia
figura. Não lhe sorriu, nem lhe lançou um olhar gelado. Cumprimentou-o simplesmente,
com uma reservada inclinação de cabeça, enquanto se dirigia à porta.
Passados alguns minutos, Cecil levantou-se e dirigiu-se ao documento que ficara no chão.
Inclinou-se e pegou nas tiras para as colocar sobre a mesa. Levou apenas uns instantes a
reconstruir a página, que fora destruída com tanto desagrado pela rainha. Era a nomeação
de conde para Robert Dudley.
- Fazei-la entrar, Kat e depois deixai-nos a sós.
A aia de Isabel abriu a porta para dar passagem a lady Matilde Sommerville na câmara da
rainha, e logo se retirou. Pondo-lhe a mão

268
no braço, Isabel impediu a idosa senhora de a saudar com uma reverência, que já lhe era
difícil executar.
- Entrai - disse. - Sentai-vos junto a mim, lady Sommerville. Enquanto se dirigiam aos
assentos junto à janela, passaram por uma mesa de tampo de prata onde estavam dispostos
uma dúzia de idênticos distintivos bordados, dos que são cosidos nas librés dos servidores
reais. Deteve-se e semicerrou os olhos para melhor os ver, embora não se atrevesse a pegar-
lhes. Isabel, percebendo-lhe o interesse, entregou-lhe um dos distintivos, que ela aproximou
dos olhos.
O desenho era um falcão branco, com coroa e ceptro, sobre um arbusto de onde brotavam
rosas brancas e vermelhas. A dama sorriu.
É um símbolo orgulhoso, não é verdade, lady Sommerville? Sim. E honrais a memória de
vossa mãe ao usar o seu distintivo favorito, Majestade - fez tenções de o poisar, mas Isabel
impediu-a.
- Não. Fica para vós se o desejardes, como recordação das duas. - Vinde sentar-vos.
A idosa dama e a jovem rainha sentaram-se junto à janela sobranceira ao rio.
- Gostaria que me descrevesses a morte de minha mãe, lady Sommerville.
A idosa mulher ficou em silêncio durante muito tempo, olhando as barcaças do Tamisa. De
tal forma que Isabel julgou que talvez não tivesse escutado o seu pedido ou não conseguisse
responder pela dor que lhe causara. Por fim, lady Sommerville falou. Os seus dedos curvos
tocavam no distintivo bordado e os olhos mortiços viam de novo os acontecimentos de
muitos anos atrás.
- Naquela terrível manhã o sol brilhava. A rainha vossa mãe conseguiu reunir dentro de si
um sopro de força e valentia, necessários para enfrentar o fim que se aproximava. Pediu-
nos que a vestíssemos com um simples traje cinzento de damasco, que lhe deixava o colo a
descoberto e que lhe levantássemos o cabelo e o recolhêssemos numa touca de linho.
Embora o seu rosto não estivesse empoado ou pintado - oh, como estava bela naquela
manhã e como parecia jovem. E sorria, sorria de quase felicidade. Lorde Kingston ficara
perturbado pela sua atitude e dizia que a rainha parecia sentir alegria e prazer na morte.
Porém, eu sabia bem que tal não era verdade, pois não desejava deixar este mundo, nem a
filhinha tão pequena, qual cordeiro entre leões.
”Caminhou orgulhosamente até Tower Green. Não chorou, nem desmaiou ao avistar o
cadafalso e a multidão desgovernada emudeceu à sua chegada. Até o carrasco francês, de
Saint Omer, ficou tão admirado com

269
a sua beleza e calma aceitação do seu destino, que pareceu estremecer e não ter vontade de
levar acabo a macabra tarefa de que fora incumbido.
”Subiu os degraus do estrado que, por ordem do rei, estavam mais baixos, depois da
execução de seu irmão e amigos, para que a sua morte não pudesse ser vista por tanta gente.
Olhou em seu redor, confusa, por não ver o cepo. Porém o carrasco - a quem pagou os seus
serviços explicou-lhe amavelmente que, com a sua perícia não seria necessário. Pediu-lhe
então que pronunciasse as últimas palavras, de modo que vossa mãe voltou-se para a
multidão sem temer os seus olhares sedentos de sangue.
”Despediu-se então e, com voz firme e sonora, pediu que rezassem por ela. Depois fez o
mesmo que fazem todos os que vão Morrer, para proteger aqueles que amam - mentiu ao
elogiar enormemente o rei seu esposo, dizendo nunca ter existido um príncipe tão bom e
clemente.
A seguir ajoelhou, arranjando as saias com todo o cuidado sobre os pés e os tornozelos e
vendou ela própria os seus belos olhos castanhos. O carrasco, desejando minorar-lhe a dor e
os últimos receios, concebeu um artifício inteligente. Pegou na espada que se encontrava
escondida na palha e afastou-se, dirigindo-se aos degraus do cadafalso, ao mesmo tempo
que pedia em voz alta ”Trazei-me a espada!” No mesmo instante em que vossa mãe voltava
os olhos vendados para o sítio de onde partia a voz, o carrasco girou sobre os calcanhares e,
com um golpe certeiro arrancou-lhe a cabeça do pescoço. O ardil dera resultado. Vossa mãe
nunca soube que a espada se aproximava.”
Lady Sommerville deteve-se, segundo pareceu a Isabel, vencida pela mesma tristeza e
horror que sentira no momento da morte de sua mãe.
- Conforme é costume, o carrasco retirou-lhe a venda dos olhos e
ergueu a cabeça ensanguentada para ser vista pela multidão. Saiba Vossa Majestade que as
aclamações foram ruidosas mas, verdade seja dita, feitas com pouco ânimo, pois poucos se
acercaram para molhar um trapo no sangue da rainha, para lhes servir como recordação.
Vossa mãe morrera com tanta coragem que transformara o rei num vulgar assassino de
mulheres. Ao contrário dos rumores postos a circular os lábios de vossa mãe não se
moveram depois da cabeça ter sido separada do corpo. Posso dizer, com toda a franqueza,
que não sentiu dor alguma e que morreu nesse preciso momento.
Isabel colocou os seus longos dedos sobre a mão ossuda da idosa mulher e apertou-a para a
consolar, embora não conseguisse olhá-la nos olhos.

270
- Eu e
as outras aias enrolámos-lhe o corpo e a cabeça num pano. Henrique não julgara apropriado
fornecer-lhe um caixão, de modo que metemos as duas partes numa simples caixa e vários
homens a transportaram para a capela de São Pedro ad Vincula junto a Tower Green. Aí a
enterraram, por baixo do coro, onde permanece até hoje.
As duas mulheres mantiveram-se algum tempo em silêncio, escutando os gritos dos
barqueiros no rio.
- Haveis lido o diário, Lady Sommerville? - perguntou por fim Isabel.
- Sim. Li-o todo, Majestade. Excepto a última parte que foi escrita apenas para ser lida por
vossos olhos.
Isabel sorriu.
- Haveis-me feito um presente de incalculável valor. Desejaria de todo o coração poder
também fazer-vos um. Dizei-me como poderei recompensar a vossa fidelidade.
A idosa mulher pensou apenas um momento, como se calculasse que a rainha lhe faria
aquela oferta.
- Tenho uma neta, Majestade. Uma criança de dezassete anos. Nunca esteve na corte e,
como aprecia a vida do campo, não sente qualquer ambição por vir para cá - fez nova pausa
como se escolhesse as palavras, com todo o cuidado. - Ama um jovem, filho de um artesão
da terra onde vive, que está a aprender o ofício de seu pai. Também lhe quer muito.
Conforme é de costume, meu filho e sua mulher têm planos para a casar com um viúvo,
velho e desdentado e assim poderem enriquecer as suas terras - olhou para a rainha com
uma expressão de súplica no rosto. - Majestade, a menina vai ficar com o coração partido
em mil pedaços.
Os olhos de lady Sommerville ficaram repentinamente rasos de água. Isabel puxou o seu
lenço de dentro da manga e ofereceu-o à anciã que, o recebeu agradecida, para limpar as
lágrimas.
- Perdoai-me - implorou.
- Nada há a perdoar, senhora. Ouvi o vosso pedido e vou concedê-lo. Tratarei de que vosso
filho e nora sejam generosamente recompensados pelo sacrifício de permitirem que a filha
case com quem deseja.
- Oh, Majestade! - murmurou aturdida lady Sommerville.
Os olhos de Isabel poisaram sobre o diário de sua mãe, que estava sobre o leito.
- Considerai-o um presente de... de minha mãe, a rainha Ana.
- Vossa mãe foi uma grande mulher, Majestade. Incompreendida, sim, mas deveis sentir
orgulho de ter sangue Bolena a correr-vos nas veias. Isabel ajudou lady Sommerville a
erguer-se e conduziu-a à porta.

- 271
Haveis-me prestado um grande favor, com esta audiência, Majestade.
Isabel fitou os olhos cansados da idosa mulher.
- Fostes vós quem me fez o favor, senhora. Haveis-me devolvido um tesouro que não tinha
ideia de ter perdido. E um amor que ignorava ter-me sido dedicado.
Quando lady Sommerville se ergueu da reverência, achou-se envolvida num cálido abraço
que o seu velho corpo nunca recebera nem de homem nem de mãe.
- Deus vos abençoe, minha filha. A Inglaterra tem sorte em ter-vos como rainha.
Quando a porta se fechou, Isabel dirigiu-se à cama e pegou no diário. Apertou o livro
vermelho-escuro contra si e tentou com toda as suas forças recordar o rosto de sua mãe.
Porém não conseguiu.
- Kat! - chamou e instantaneamente a aia apareceu para receber ordens. - Mandai preparar
a minha barcaça. Esta tarde vou descer o rio.
- Como vos aprouver, Majestade. Qual o destino que devo indicar?
- O destino? A Torre de Londres.
Sem fanfarras, a barcaça real seguiu silenciosamente rio abaixo, austera e imponente. O
céu da tarde cobrira-se de nuvens de trovoada, atravessadas pelos raios de sol que pareciam
incendiar as águas do rio. Isabel seguia sozinha na coberta, pois prescindira de todas as suas
damas, para grande ofensa de Kat.
- Não é o comportamento apropriado para uma rainha - ralhou. Sair assim, sem a protecção
das suas damas e cortesãos. E ir à Torre. Posso perguntar-vos o que tendes vós a tratar na
Torre, assim de repente?
- Coisas minhas - respondeu Isabel, com bom modo, sem se deixar perturbar pela
autoridade de Kat. - Coisas minhas.
Enquanto via o sol brincar sobre as águas e entre as nuvens, Isabel sentiu uma grande calma
descer sobre si. Sentiu-se melhor, mais forte e íntegra que nunca. Tinha assuntos urgentes a
tratar. Coisas para as quais não poderia recorrer aos seus conselheiros - nem sequer a
William Cecil.
Mãe. A chegada da rainha ao cais da Torre tomou totalmente de surpresa os guardas da
Porta dos Traidores. Puseram-se de pé num salto, endireitaram os capacetes e murmuraram
as saudações formais, enquanto
272
Isabel desembarcava e passava por baixo da grade de Tower Green. já avançava pelo
enorme pátio quando o calvo alcaide veio a correr juntar-se a ela, sacudindo ainda do negro
gibão os restos do jantar.
- Majestade! Que honra! Mas não vos esperávamos... em que posso servir-vos?... Olhai
onde pondes os pés. Estamos a arranjar este caminho, Majestade, não seria bom que
escorregásseis e caísseis. Quereis aceitar meu braço?
- Vejo muito bem onde ponho os pés lorde Harrington e agradeço-vos o braço. Todavia
desejava ficar só. De facto ficar-vos-ia muito grata se ordenásseis aos guardas e aos
trabalhadores que se retirassem do relvado. Desejo ficar completamente só.
- Só, Majestade?
Bastou a severidade da expressão da rainha para confirmar a ordem. O alcaide afastou-se,
sacudindo a cabeça, tão preocupado que meteu o pé entre duas lajes, tropeçou e só no
último momento se conseguiu endireitar, evitando uma queda embaraçosa. Isabel sorriu,
vendo que os pedreiros e carpinteiros se afastavam, e que os guardas dos vários portões e
entradas eram mandados retirar dos seus postos por ordem de Sua Majestade e
desapareciam.
Por fim, ficou só no antigo pátio do castelo, com as enormes muralhas da White Tower a
erguerem-se acima da sua cabeça. Olhou para as ameias entre a Torre dos Sinos e a Torre
Beauchamp, que várias vezes percorrera durante a sua prisão. Recordou a escadaria húmida
e o seu encontro clandestino com Robin. Lembrou-se como o horror das masmorras, com
os seus instrumentos de tortura lhe roubavam o sono à noite, preocupada com a
possibilidade de vir a ser vítima da roda, da prensa, dos artefactos para esmagar os dentes e
partir dedos. A Torre era um local onde um prisioneiro podia morrer de medo, só com a
perspectiva de uma agonia espantosa. E agora era sua, já não receava aquele lugar, nem os
fantasmas de quem lá tinha perdido a vida.
Isabel aproximou-se das portas do salão do rei e abriu-as de par em par. Entrou na
enorme câmara cheia de ecos, sob cujo tecto abobadado se tinha reunido a ruidosa multidão
para assistir ao julgamento de sua mãe. Sentiu o bater do bastão do duque de Norfolk no
chão de madeira, para repor a ordem, as vestes escarlates dos vinte seis pares da rainha e o
cheiro do medo de agirem mal e incorrerem na ira do Rei que certamente cairia sobre as
suas cabeças.
Mãe. Imaginava Ana a reunir o que lhe restava de coragem para comparecer diante do
tribunal, respondendo às falsas e terríveis acusações com

267
uma elegante atitude de desafio. Escutara inimigos e antigos amigos declararem-na culpada
de traição, adultéri’o e incesto. ”Condenada pelos seus pares devido a uma mentira
monumental.”
Mesmo assim, pensou Isabel, sua mãe não fora uma santa. Afinal tinha as mãos manchadas
de sangue. Fora implacável e mais ousada que qualquer mulher inglesa se atrevera a ser até
aí. Desde a juventude que se mostrara voluntariosa, possuíra uma língua afiada e muito mau
génio. Fora uma mulher governada por paixões, pela ambição... mas nunca se submetera à
vontade dos homens.
Como é estranha a herança do sangue, pensou Isabel. Nunca conheci minha mãe, não tinha
maneira de saber nada a seu respeito, porém o meu carácter é, por vezes, o reflexo do seu.
Muitas vezes... mas nem sempre. Ocorria-lhe que Ana fora muitas vezes inspirada pela
raiva e pelo desejo de vingança. Wolsey, Catarina, Maria, Norfolk. Porém todo aquele mal
crescera e medrara acabando por se voltar contra ela. Seria melhor nunca lhe imitar aquele
traço de carácter.
Quando a rainha saiu do salão do rei, o Sol ocultara-se completamente nas negras nuvens e
Tower Green estava na penumbra. Embora não houvesse ali nenhum cadafalso, Isabel
encaminhou-se para o local onde deveria ter sido erguido o de sua mãe e onde o sangue
desta manchara a relva de Maio. Como teria sido possível uma morte tão ignominiosa? Os
dois homens da vida de uma mulher são seu pai e seu esposo, pensou Isabel. Com
espantosa rudeza, o pai de Ana utilizara a filha em proveito próprio e abandonara-a quando
já de nada lhe poderia servir.
O esposo de Ana. Não havia dúvida que Henrique a amara. Mas ela fora encurralada por
esse amor, como uma corça perseguida por cães. Não tivera outro remédio senão participar
na caçada. Henrique quisera-a com desvario, sem pensar em impedimentos. Quando um rei
deseja uma mulher a resposta tem forçosamente de ser ”Sim, meu senhor”. A menos que,
como Ana, se proponha enfrentar um enorme desafio. Fora a presa mais esquiva de
Henrique, conduzindo-o a uma impetuosa corrida em terrenos perigosos e obscuros,
fazendo-lhe ferver o sangue na antecipação da captura. Mesmo assim, escapara-lhe ano
após ano, até ele se sentir meio louco com a perseguição e os seus fracassos. Porém, a
verdade é que Ana era ainda a presa. Restava-lhe fugir ou entregar-se a um amor que,
como sempre soubera, equivaleria à morte.
Isabel reflectiu sobre o esposo de sua mãe. O homem que ela descrevera no seu diário como
a ”Besta” era afinal o rei seu pai.

274
Amava, não, adorava meu pai, pensou a rainha. Era o meu senhor, o meu rei, o meu Deus,
antes de Deus. E agora minha mãe diz-me que foi um monstro. Oh, que duro golpe foi esta
revelação.
Mostrara-se cruel e ofensivamente injusto, mas Isabel sabia que nunca poderia prescindir
daquilo que dele herdara. Aprendera com ele o que seria provavelmente o princípio mais
importante do seu reinado. Que conquanto pudesse ser boa e generosa, buscando a paz para
o seu reino e a harmonia entre o povo teria sempre de ser rainha absoluta, de contrário
perderia o trono que tanto lhe custara a conseguir.
Estremeceu, pois a escuridão aumentava em seu redor. Atravessou o relvado em direcção à
Capela de São Pedro ad Vincula e abriu as portas pesadas e de gonzos enferrujados. Era
pequena e nua, construída no antigo estilo normando, apenas com algumas velas a
iluminarem a nave e, no ar, o cheiro acre do incenso. Era um local escuro e melancólico.
Ajoelhou, por instantes, aos pés do crucifixo do altar, mas não se deteve, pois buscava o
coro. O chão de mármore não indicava o que jazia por baixo dele - os restos mortais de sua
mãe, assassinada às mãos de seu pai. Sem o esperar, Isabel sentiu-se invadida por uma
insuportável dor de perda que a fez vacilar. A mãe, que lhe pegara ao colo, que a amara,
que morrera porque Isabel nascera mulher, encontrava-se agora sob os seus pés e, dela,
nada mais restava que um monte de ossos sem crânio.
No meio do silêncio, Isabel tentou ouvir a voz de Ana vinda da sepultura. Uma mensagem,
uma lição, um aviso. Mas nada lhe chegou, excepto uma desesperada tristeza por Robin
Dudley. O seu amigo mais querido, que mais doces sensações lhe provocara, com quem
compartilhara as mais ousadas fantasias. Perdera a confiança nele. Perdera a confiança nos
homens. Se a voz de sua mãe se conseguisse fazer ouvir, seria certamente para lhe dizer:
Nunca entregues o governo a homem algum. Depois uma estranha ideia começou a tomar
forma na sua cabeça. O único homem que teria uma causa natural para a dominar - seu
pai - estava morto. Porque haveria de se casar agora... ou alguma vez? Para que renunciar
ao fabuloso poder da coroa em favor de um marido? Essa renúncia não seria afinal uma
enorme insensatez?
Imediatamente se deteve. Estou completamente louca, pensou. Que desvario estarei a
planear? Um monarca que deseja manter-se sem filhos, para pôr fim à maior dinastia que já
reinou em Inglaterra?
Recordou-se do dia em que, ainda menina, anunciara orgulhosamente a Robin. que nunca
se casaria. Ele rira, acusando-a de ser tola. Que uma princesa estava destinada a casar.
Tinham passado vinte anos. Era rainha

275
e ali estava a recordar tal promessa. Saberia ja o seu jovem coração, que as mulheres
deviam recear o amor?
- Será que nunca me casarei? - perguntou Isabel em voz alta, as palavras ecoando na capela
de mármore. Nunca me casarei? Nunca terei filhos varões? Nunca darei à luz uma filha?
Sentiu os olhos marejados de lágrimas. Nunca ter uma filha que lhe falasse docemente, que
conservasse os tesouros da sua vida - um anel, um livro, um lenço com a sua inicial. Mas
não, esforçou-se por abandonar o sentimentalismo. Que necessidade tinha de filhos? Tinha
toda uma riqueza de súbditos que a amavam e adoravam e que se recordariam do seu
glorioso reinado.
Depois, como um milagre, a penumbra da capela foi trespassada por um único raio de sol
através da janela do clerestório. Isabel fixou o olhar naquele esplendor e, de repente... Pois
bem, tinha-se transformado na luz que a cegara ao entrar pela janela dos seus aposentos de
criança em Hatfield. Oh! Sentia o rico aroma de essência e almíscar. Oh! Ouvia um riso
alegre, o som de uma canção de embalar francesa. E depois, numa visão fantasmagórica,
brilhante e nítida, surgiu na luz a imagem de um par de olhos - vivos, negros e fascinantes.
Sim, sim, eram os olhos de sua mãe! Olhos maliciosos e sedutores que teriam enlouquecido
de desejo um homem, afogando-lhe a alma nas suas escuras aguas. Olhos luminosos e
arrogantes, onde vivia uma viva inteligência que desafiava o desespero. Olhos sempre
esperançosos que procuravam a paixão onde não era possível encontrá-la.
A visão começou a desaparecer.
- Não! - exclamou Isabel, em voz alta, pois desejava ardentemente conservar por mais uns
momentos a visão de sua mãe.
Os olhos pareciam sorrir e o coração de Isabel exultou ao ver que estavam cheios de uma
alegria muda e que reflectiam o amor por uma pequenita ruiva que se dirigia de braços
estendidos em direcção ao afectuoso abraço de sua mãe.
- Não! Ficai comigo, minha mãe!
Estendeu a mão, mas a imagem dos olhos desaparecia. Esbatia-se... e desapareceu
completamente, deixando atrás de si um raio de luz que atravessava a janela do clerestório,
mas que também desapareceu quando uma grande nuvem cobriu o sol.
Isabel permaneceu imóvel na capela como se fosse uma imagem da Virgem. A visão
desaparecera, porém for a capaz de se recordar. Agora levara consigo parte do espírito de
sua mãe, que nunca a abandonaria
- que seria como uma segunda coluna vertebral para a manter nos anos que se seguiriam,
como um segundo coração a bater-lhe no peito. De certo
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necessitaria de muita coragem para ser a Rainha que a freira de Kent com tanta certeza
vaticinara. O sol Tudor que, surgido do ventre de Ana Bolena, brilharia como a mais
luminosa estrela de Inglaterra.
Isabel voltou-se e abandonou a capela com a força do destino atrás de si, fechando com
estrondo as pesadas portas.
Sim, pensou enquanto caminhava em direcção à tarde soalheira, sou filha de minha mãe. E
tudo farei para que se sinta orgulhosa de mim.

Agradecimentos
Este livro resulta de vinte e cinco anos de apaixonado interesse pela fantástica época Tudor,
em Inglaterra. Este meu empenho teve início após a leitura dos romances de Norah Lofts
que me apresentaram os dois titãs femininos dos princípios do século XVI, Ana Bolena e
Catarina de Aragão.
Em seguida, o simples interesse transformou-se numa investigação séria, através da qual
adquiri conhecimentos e uma visão da vida e da época das minhas personagens, servindo-
me de biografias da autoria de Carolly Erickson, Marie Louise Bruce, Elizabeth Jenkins e
Paul Johnson. A obra World Lit Oide by Fire foi a minha fonte de conhecimentos para
compreender Lutero e a Reforma Protestante.
Do fundo do coração agradeço à minha editora Jeanette Seaver, pela profunda compreensão
que demonstrou por esta obra; a minha revisora, Ann Marlowe por saber mais do que eu
acerca do século XVI: e à minha agente pela sua dedicação ao tentar encontrar o devido
lugar para este livro.
Tenho enormes dívidas de gratidão para com várias pessoas. A minha professora Deena
Metzger, que me ajudou a passar da escrita de guiões para o cinema para a escrita de
romances. Billie Morton, meu querido amigo e sócio de quinze anos, que não só fez a
sugestão original para que eu escrevesse este livro, mas que me assediou constantemente
com críticas bondosas mas rigorosamente honestas e com advertências acerca das
oportunidades perdidas. ”Skippy, coração de leão”, minha mãe que foi a primeira e mais
acérrima defensora da minha actividade literária e que continua a ser a minha maior
inspiração.
Para Max Thomas, meu marido, amigo, professor e aliado, com quem tenho a mais
profunda dívida de amor e apreço. Com firme lealdade e benevolência Têm-me apoiado
física, emocional, espiritual e materialmente em todos estes anos que passámos juntos.