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Ficha: BOURDIEU, P. As estruturas sociais da Economia. Porto: Campo das Letras S.A. 2006.

Introdução

A ciência a que se chama “economia” repousa sobre uma abstração originária, que consiste
em dissociar uma categoria específica de práticas, ou uma dimensão particular de toda a
prática, da ordem social na qual toda a prática humana se encontra submersa (p. 13)

Porque o mundo social se encontra totalmente presente em cada ação “econômica”, torna-se
necessário armarmo-nos de todos os instrumentos do conhecimento que, longe de colocar
entre parênteses a multidimensionalidade e a multifuncionalidade das práticas, permitam
construir modelos históricos capazes de justificar com rigor e parcimônia as ações e as
instituições econômicas tais como elas se apresentam à observação empírica (p. 15)

[sobre a experiência na Argélia] eu podia assim verificar, como situação experimental, que
existem condições econômicas e culturais de conversão da visão do mundo que é exigida
àqueles que, dotados de uma formulação criada pelo universo pré-capitalista, são lançados no
cosmos econômico importado e imposto pela colonização. Só uma forma muito particular de
etnocentrismo que se mascara em universalismo, pode levar a creditar, de forma universal, os
agentes da capacidade de uma conduta econômica racional, fazendo desaparecer, por essa
via, as condições econômicas e culturais do acesso a essa capacidade (desta forma constituída
em norma) e, simultaneamente, a da ação indispensável se se quer universalizar essas
condições. Só rompendo de forma radical com o preconceito antigenético de uma ciência dita
pura, quer dizer profundamente des-historizada e des-historizante, porque assente (como a
teoria saussuriana da língua) sobre a colocação entre parênteses de todo o enraizamento
social das práticas econômicas, se pode fazer jus às instituições econômicas das realidades
sociais cuja teoria econômica ratifica e consagra a aparente evidência (p. 18)

Tudo o que a ciência econômica coloca como um dado, quer dizer o conjunto das disposições
do agente econômico que fundamentam a ilusão da universalidade não histórica das
categorias e dos conceitos utilizados por esta ciência, é com efeito o produto paradoxal de
uma longa história coletiva, reproduzido sem cessar nas histórias individuais, que só a análise
histórica podem resolver de forma completa: é porque inscreveu paralelamente nas estruturas
sociais e nas estruturas cognitivas, esquemas práticos de pensamente de percepção e de ação,
que a história conferiu às instituições cuja economia pretende fazer a teoria não-histórica a
sua aparência de evidência natural e universal; isto, nomeadamente, através da amnésia da
gênese que favorece neste domínio e noutros, o acordo imediato entre o “subjetivo” e o
“objetivo”, entre as disposições e as posições, entre as antecipações (ou as esperanças) e as
oportunidades (p. 18-9)

As disposições econômicas mais fundamentais, necessidades, preferências, propensões, não


são exógenas, quer dizer, dependentes de uma natureza humana universal, mas endógenas e
dependentes de uma história, que é precisamente a do cosmos econômico onde elas são
exigidas e recompensadas. Quer dizer, contra a distinção canônica entre os fins e os meios,
que o campo impõe a todos, mas com graduações diferentes segundo a sua posição e as suas
capacidades econômicas, não só os meios “razoáveis” mas os fins, ou seja, o enriquecimento
individual da ação econômica (p. 23)

O “scholastic bias” [enviesamento escolástico] tal como acabo de o descrever não é, sem
dúvida, o único princípio das distorções que afetam hoje a ciência econômica. Ao contrário da
sociologia, ciência pária, sempre suspeita de compromissos políticos, de que, na melhor das
hipóteses, os poderosos não esperam nada, senão conhecimentos subalternos e sempre um
pouco servis de manipulação ou de legitimação, e que por este fato, se encontra menos
exposta do que outros a pedidos susceptíveis de ameaçar a sua independência, a economia é
sempre mais uma ciência de Estado: constantemente habitada por preocupações normativas
de uma ciência aplicada, encontra-se ligada ao processo de responder politicamente a
solicitações políticas, defendendo-se simultaneamente de todas as implicações políticas,
defendendo-se simultaneamente de todas as implicações políticas pelo nível ostentatório das
suas construções formais, de preferência matemáticas (p. 25)

Entre a teoria econômica na sua forma mais pura, quer dizer, a mais formalizada, que nunca é
tão neutra como quer acreditar e fazer acreditar, e as políticas que são implementadas em seu
nome ou legitimadas por seu intermédio, interpõem-se agentes e instituições que se
encontram impregnadas de todos os pressupostos herdados da imersão num mundo
econômico particular, saído de uma história social singular. A economia neoliberal, cuja lógica
tende, hoje, a impor-se a nível mundial por intermédio de instâncias internacionais como o
Banco Mundial e o FMI e os governos aos quais ditam, direta ou indiretamente, os seus
princípios de “gouvernance”, deve um certo número das suas características, pretensamente
universais, ao fato de se encontrar imersa, embedded, numa sociedade particular, quer dizer,
enraizada num sistema de crenças e de valores, um ethos e uma visão moral do mundo, em
síntese, um sentido comum econômico, ligado, enquanto tal, às estruturas sociais e às
estruturas cognitivas de uma ordem social particular. E é a esta economia particular que a
teoria econômica neoclássica vai buscar os seus pressupostos fundamentais, que ela formaliza
e racionaliza, constituindo-as assim em fundamentos de um mundo universal (p. 25-6)

Este modelo repousa sobre dois postulados (que os seus defensores consideram como
propostas demonstradas): a economia é um domínio separado governado por leis naturais e
universais que os governos não devem contrariar por intervenções intempestivas; o mercado é
um meio ótimo para organizar a produção e as trocas de forma eficaz e equitativa nas
sociedades democráticas. Ele é a universalização de um caso particular, o dos Estados Unidos
da América, caracterizados, fundamentalmente, pela fraqueza do Estado, que, já reduzido ao
mínimo, foi sistematicamente enfraquecido pela revolução conservadora ultraliberal, que teve
como consequência diversas características típicas: uma política orientada para o recuo ou
abstenção do Estado em matéria econômica, a transferência (ou a subcontração) dos “serviços
públicos” para o setor privado e a conversão dos bens públicos como a saúde, a habitação, a
segurança e a cultura – livros, filmes, televisão e rádio – em bens comerciais e os utentes em
clientes; a renúncia, ligada à redução da capacidade de intervenção na economia, do poder de
igualizar as oportunidades e de fazer recuar as desigualdades (que tende a crescer de forma
desmesurada), em nome da velha tradição liberal do self help (herdada da crença calvinista
que Deus ajuda àqueles que se ajudam a si próprios) e da exaltação conservadora da
responsabilidade individual (que leva, por exemplo, a imputar o desemprego e o falhanço
econômico primeiro aos próprios indivíduos, e não à ordem social, e que encoraja a delegação
em níveis inferiores de autoridade, região, cidade etc., as funções de assistência social); o
enfraquecimento da visão hegeliana-durkheimiana do Estado como instância coletiva
encarregue de agir enquanto consciência e vontade coletiva, responsável pelas escolhas
conformes ao interesse geral, e de contribuir para favorecer o reforço da solidariedade (p. 26)

A imersão da economia no social é tal que, por legítimas que sejam as abstrações operadas
para as necessidades da análise, se torna necessário manter na mente que o objeto real de
uma verdadeira economia das práticas não é outra coisa, em última análise, senão a economia
das condições de produção e reprodução dos agentes e das instituições de produção e
reprodução dos agentes e das instituições de produção e reprodução econômica, cultural e
social, quer dizer, o próprio objeto da sociologia na sua definição mais completa e mais geral
(p. 29)

Cap. I – O mercado da casa

É difícil não detectar, sobretudo a propósito de um produto tão carregado de significado como
a casa, que o “sujeito” das ações econômicas não tem nada a ver com pura consciência sem
passado da teoria ortodoxa e que, muito profundamente enraizado no passado individual e
coletivo, através das disposições de que são responsáveis, as estratégias econômicas estão a
maior parte das vezes integradas num sistema complexo de estratégias de reprodução,
portanto, cheias de toda a história que elas visam perpetuar, isto é, a unidade doméstica, ela
própria o resultado de um trabalho de construção coletivo, uma vez mais ainda imputável,
numa parte essencial, ao Estado; e que, correlativamente, a decisão econômica não é a de um
agente econômico isolado, mas a de um coletivo, grupo, família ou empresa, funcionando
como campo (p. 35)

Um conjunto das particularidades de produção de habitações e das relações que se


estabelecem entre as empresas de produção, resultam das características particulares deste
produto no qual a componente simbólica entra numa parte especialmente forte. Enquanto
bem material que se encontra exposto à percepção de todos (como o vestuário), e isto
duravelmente, esta propriedade exprime ou trai, de forma mais decisiva que outros, o ser
social do seu proprietário, os seus “meios”, como se costuma dizer, mas também os seus
gostos, o sistema de classificação que ele envolve nos seus atos de apropriação e que,
objetivando-se em bens visíveis, dá lugar à apropriação simbólica operada pelos outros,
colocados desta forma em condições de o situar no espaço social situando-o no espaço dos
gostos (p.37)

Tratar a casa como um simples bem de capital caracterizado por uma taxa determinada de
amortização e a compra de uma casa como uma estratégia econômica no sentido estreito do
termo, fazendo abstração do sistema de estratégias de reprodução de que é um instrumento,
corresponderia a despojar, sem mesmo o saber, o produto e o ato econômico de todas as
propriedades históricas, eficientes em certas condições históricas, que devem à sua inserção
num contexto histórico e que importa inscrever na ciência porque elas se encontram na
realidade onde mergulha o seu objeto (p. 39)
O que se afirma tacitamente através da criação de uma casa, é a vontade de criar um grupo
permanente, unido por relações sociais estáveis, uma descendência capaz de se perpetuar
duravelmente, no gênero do domicílio, durável e estável, imutável; é um projeto ou uma
aposta coletiva sobre o futuro da unidade doméstica, quer dizer, sobre a sua coesão, a sua
integração, ou, se se preferir, sobre a sua capacidade de resistir à desagregação e à dispersão.
E o próprio empreendimento que consiste em escolher em conjunto uma casa, de a arranjar,
de a decorar, em resumo, de a transformar num “abrigo” com uma forte relação de
“pertença”, entre outras razões porque se gosta dos sacrifícios em tempo e trabalho que
custou e também porque, enquanto atestado visível do sucesso de um projeto comum
realizado em comum, transforma-se na fonte sempre renovada de uma satisfação partilhada, é
um produto da coesão afetiva que redobra e reforça a coesão afetiva (39-40)

A magia e o encanto das palavras participam diretamente na magia e no encanto das coisas
que eles evocam: o prazer que o leitor sente ao habitar as casas de palavras, “velhas abadias”,
“antigos moinhos”, “posto dos correios” ou “solares do século XVIII” não é senão uma
antecipação simbólica do prazer de habitar, de se sentir “em casa” num universo de coisas que
é sempre indissociável do universo das palavras necessárias para as chamar e as dominar,
numa palavra, de as domesticar (p.44)

Ao contrário do que se observava nas gerações mais antigas, onde é quase sempre por
herança ou graças a uma lenta acumulação de poupança que acedia à propriedade, os
proprietários das gerações mais recentes veem no acesso à propriedade um meio de alojarem
constituindo, em simultâneo, um patrimônio imobiliário, enquanto que a poupança diminui
regularmente (passando de 18% em 1970 para 12% em 1987 – sem contrapartida sob a forma
de crescimento dos créditos das famílias, que permaneceram estáveis durante o mesmo
período). Mas, de forma mais aprofundada, a estatística mostra claramente que as
preferências variam segundo diferentes fatores: o capital econômico, o capital cultural, a
estrutura do capital tomada no seu conjunto, a trajetória social, a idade, o estatuto
matrimonial, o número de crianças, a posição no ciclo da vida familiar etc. (p. 46)

Para compreender a lógica do mercado das casas individuais, torna-se necessário colocar dois
princípios metodológicos de construção do objeto que são simultaneamente hipóteses sobre a
própria natureza da realidade estudada. Primeiro, as relações objetivas, que se instauram
entre os diferentes construtores colocados em concorrência na conquista de partes deste
mercado, constituem um campo de forças cuja estrutura, num dado momento se encontra no
princípio das lutas que visam conservá-lo ou transformá-lo. Segundo, as leis gerais do
funcionamento que valem para todos os campos e, muito especialmente, para todos os
campos de produção econômica, que se especificam segundo as propriedades características
do produto (p. 66)

Melhor do que as noções de “setor” ou do “ramo” da indústria que designam comumente


agregados de empresas produzindo o mesmo produto e que se assimila por vezes a um agente
único orientado para uma função comum, sem nos interrogarmos nem sobre a
homogeneidade dos conjuntos considerados nem, omissão mais grave, sobre as relações entre
as suas componentes, a noção de campo permite levar em consideração as diferenças entre as
empresas (cuja amplitude varia, sem dúvida, muito fortemente segundo os “ramos”) e
também as relações objetivas de complementaridade na rivalidade que, ao mesmo tempo, os
unem e os opõem; ou seja, compreender a lógica da concorrência de que o campo é o local e
de determinar as propriedades diferenciais que, funcionando como vantagens específicas,
definidas na sua existência e na sua própria eficácia na relação com o campo, determinam a
posição que cada empresa ocupa no espaço do campo, quer dizer, na estrutura de distribuição
destas vantagens (p. 66)

Devido à dimensão simbólica do produto, a produção de casas situa-se a meio caminho entre
duas formas opostas da atividade produtiva: por um lado, a produção de obras de arte em que
a parte objetivamente consagrada à promoção-criação simbólica da obra (pelos críticos,
galeristas etc.) é muito mais importante; por outro lado, a produção de bens materiais tais
como o petróleo, o carvão ou o aço, em que o aparelho de produção toma um lugar
preponderante enquanto que a parte de investimento simbólico se mantém muito fraca (p.
67)

A relação de forças entre as empresas depende da conjuntura econômica global que, na área
da habitação, se refrata segundo a sua lógica específica. O efeito de campo nunca foi tão
visível como por ocasião da crise que, por volta dos anos [19]80, atingiu o mercado da
habitação: na medida em que têm que contar, nas suas estratégias de produção e
comercialização, com a procura de construções “tradicionais” e “personalizadas” que é
suposto ser satisfeita pelos pequenos produtores artesanais, as grandes empresas industriais,
que só podem baixar os custos aumentando a produção à custa da estandartização do
produto, veem-se obrigadas a multiplicar estratégias de ordem técnica (como a diversificação
dos modelos), organizacionais (como a organização em grande escala de uma produção de
aspecto artesanal), ou simbólicas (como o recurso a uma retórica do tradicional, do original, do
único), para limitar ou mascarar ou efeitos da produção em série. Muitas empresas nacionais
são assim levadas a abandonar a sua política de produção integrada e industrializada para
adotar estratégias de produção próprias das pequenas empresas artesanais ou semi-artesanais
e regressar a processos de fabrico tradicionais apoiando-se na subcontratação (p. 96-7)

Mas para avaliar de forma mais completa e precisa a relação de forças entre as empresas e a
sua evolução ao longo do tempo, ou seja, as estratégias a que recorrem para a alterar ou
manter, nomeadamente face à redistribuição de oportunidades determinada pela crise,
impõe-se uma mudança de escala e passar do campo das empresas tomadas no seu conjunto a
cada empresa em particular que, pelo menos no que respeita às grandes, são unidades
relativamente autônomas funcionando também como campos. Na verdade, é óbvio que a
empresa não é uma unidade homogênea suscetível de ser considerada como um sujeito
racional, o “empreiteiro” ou o “gestor”, orientada para uma função objetiva única e unificada.
Ela é determinada (ou orientada) nas suas “escolhas”, não apenas pela sua posição na
estrutura do campo de produção, mas também pela sua posição interna que, produto de toda
a sua história anterior, continua a orientá-la em relação ao presente (p. 103)

O “sujeito” que por vezes se designa como “política da empresa” mais não é do que o campo
da empresa ou, mais precisamente, a estrutura da relação de forças entre os diferentes
agentes que dela fazem parte ou, pelo menos, de entre estes, os que detêm maior peso na
estrutura e que assumem na decisão uma parte proporcional ao seu peso individual. Os
estudos de caso destinados a estudar a gênese de uma decisão são quase irrelevantes sempre
que não têm em conta as manifestações extraordinárias do exercício do poder, ou seja, o
discurso e as interações, ignorando a estrutura das relações de força entre as instituições e os
agentes (frequentemente organizados em corpo) que lutam pelo poder de decisão, ou seja, as
disposições e os interesses dos diferentes dirigentes e os trunfos de que dispõem para os fazer
triunfar (p.103-4)

Assim, o espaço diferenciado e estruturado da oferta, ou seja das empresas de produção de


casas (ou dos seus agentes, desde os dirigentes aos vendedores) que, para manter ou
melhorar a sua posição na estrutura, devem desenvolver estratégias de produção –e como tal
produtos, casas – e de comercialização – nomeadamente publicidade – elas próprias
dependendo da posição que os seus trunfos lhe asseguram, mantém uma relação de
homologia com o espaço diferenciado e estruturado da procura, ou seja, o espaço dos
compradores de casas. O ajustamento da oferta e da procura não é o resultado de uma
milagrosa agregação de inúmeros milagres obra de entes racionais capazes de concretizar as
escolhas conformes aos seus interesses. Contrariamente às aparências, nada há de natural
nem evidente no fato de os compradores com menos posses recorrerem às sociedades que
oferecem produtos mais medíocres, sobretudo esteticamente, enquanto os outros se dirigem
“espontaneamente” para as empresas que ocupam no espaço dos produtores de casas
posições homólogas à sua posição no espaço social, ou seja, para os produtores e produtos
mais adequados a satisfazer o seu gosto de conforto, de tradição, de originalidade, em
resumo, o seu sentido de distinção. Se este ajustamento se dá é porque a correspondência
entre as características sociais dos compradores e a das empresas, e como tal dos produtos, do
seu pessoal, e em particular dos seus vendedores (as sociedades que oferecem casas
consideradas de baixa gama à clientela menos favorecida – operários, empregados – têm os
vendedores com menor nível de escolaridade, que são frequentemente antigos operários), ou
das suas formas de publicidade (estreitamente ligadas ao nível social da clientela, ela própria
frequentemente ligada à posição da sociedade no campo), está na origem de uma sucessão de
consequências estratégicas no essencial não voluntárias e semi-inconscientes. E somos assim
levados a substituir o mito da “mão invisível”, elemento fulcral da mitologia liberal, pela lógica
da orquestração espontânea das práticas, baseada em toda uma rede de homologias (entre os
produtos, os vendedores, os compradores etc.). Esta espécie de orquestração sem chefe de
orquestra está na base de inúmeras estratégias que poderemos considerar sem sujeito,
porque são mais inconscientes que propriamente desejadas e calculadas, como as que
consiste, para um vendedor, em identificar os seus interesses com os do comprador ou
apresentar-se a si próprio como garante da transação (“tenho uma igual”) – e que não seria
concebível, e menos ainda eficaz em termos simbólicos, a não ser com base numa afinidade,
garantida pela similitude das posições, entre os habitus dos compradores e dos vendedores
(p.107-8).

Cap. II – O Estado e a construção do mercado

Na verdade, poucos mercados serão, tanto como o da habitação, não apenas controlados mas
de fato construídos pelo Estado, muito especialmente através da ajuda concedida aos
particulares, que varia no seu volume e modalidades de atribuição, favorecendo mais ou
menos uma ou outra categoria social e, dessa forma, este ou aquele segmento de construtores
(p. 126)

O mercado da habitação é apoiado e controlado, direta ou indiretamente, pelos poderes


públicos. O Estado fixa as suas regras de funcionamento através de toda uma regulamentação
específica que vem juntar-se à infra-estrutura jurídica (direito de propriedade, direito
comercial, direito do trabalho, direito dos contratos etc.) e à regulamentação geral
(congelamento ou controle dos preços, enquadramento do crédito etc.). Para compreender a
lógica deste mercado, construído e controlado burocraticamente, impõe-se descrever a
gênese das regras e regulamentações que definem o seu funcionamento, ou seja, fazer a
história social desse campo circunscrito em que se defrontam, com armas e objetivos
diferentes, os funcionários públicos superiores com competências na área da habitação,
construção ou finanças e os representantes dos interesses privados no domínio da habitação e
do financiamento. Na verdade, é no quadro desta relação de forças e de luta entre, por um
lado, entre os agentes e as instituições burocráticas investidos de diferentes poderes e
frequentemente concorrentes e com interesses de corpo por vezes antagônicos e, por outro,
as instituições ou agentes (grupos de pressão, lobbies etc.) que intervém no sentido de fazer
triunfar os seus interesses ou o dos seus mandatários, que se definem, na base de
antagonismos ou de alianças de interesses e de afinidades de habitus, as leis que regemo
mundo do imobiliário (p.128)

Para compreender a “política do Estado” nas diversas áreas a seu cargo, será necessário saber
quais as diferentes posições que se apresentam relativamente ao problema em causa e as
relações de força entre os respectivos defensores; será necessário também conhecer quais as
tendências de opinião da fração mobilizada e organizada dos “fazedores de opinião” (políticos,
jornalistas especializados, publicitários etc.) e dos grupos de pressão (organizações
profissionais, patronais, sindicais, associações de consumidores etc.) tendo sempre presente
que o inquérito sociológico mais não faz do que registrar o resultado, num momento
determinado, de um trabalho político, para o qual os próprios técnicos superiores da função
pública contribuíram e cujos efeitos se poderão refletir sobre eles mesmos (p. 129)

Os debates que decorrem no interior do campo burocrático estão naturalmente relacionados


com as discussões e conflitos externos, a que os funcionários superiores fazem referência e em
que se apoiam para basear ou justificar as suas tomadas de posição e os seus projetos (p. 134)

O campo burocrático só pode cumprir a função de legislador defrontando, de acordo com


processos de que detém o controle, os representantes oficiais dos interesses oficialmente
reconhecidos que, mesmo quando se trata de autoridades públicas regionais ou locais, eleitos
locais ou nacionais ou legítimos representantes de organizações profissionais ou de
associações, os coloca no mesmo plano dos interesses particulares, privados, empurrando-os
assim para uma posição subordinada relativamente aos detentores oficiais do monopólio da
definição legítima do interesse geral. Como responsáveis pela composição do grupo de
participantes, onde podem fazer entrar, ao lado dos inevitáveis representantes das
organizações profissionais, individualidades que se prontificam a apoiar as suas iniciativas, e
estando em condições de impor as regras que orientam a discussão e o registro das conclusões
(nomeadamente através da designação dos presidentes e dos relatores), os agentes do Estado
podem transmitir publicamente a imagem de uma debate aberto com o exterior, mantendo
entretanto o monopólio da elaboração das decisões coletivas, da sua concretização e da
avaliação dos resultados (p. 144-5)

Uma análise atenta da lógica complexa do campo burocrático permite assim constatar e
compreender a ambiguidade intrínseca do funcionamento do Estado: se é certo que tenta
impor, a coberto da neutralidade burocrática, uma política conforme aos interesses dos
grandes bancos e dos grandes construtores – que, agindo através do seu capital social de
ligações com a administração superior, lhe impõem uma política de acordo com seus
interesses, ou seja, a criação de um mercado para o crédito bancário aos particulares ou às
empresas -, não é menos verdade que, pelo menos dentro de certos limites, contribui para a
proteção dos interesses dos dominados (p. 155)

A estas duas categorias de agentes correspondem dois modos de pensar, duas visões do
mundo burocrático e da ação da burocracia, e também dois gêneros claramente opostos de
capital burocrático, que de imediato se detecta estarem sociologicamente ligados a
propriedades sociais, de idade, formação escolar e antiguidade na administração: de um lado,
o capital burocrático da experiência, quer se trate do “conhecimento das pessoas” próprio de
um chefe do pessoal ou do conhecimento dos regulamentos próprio de um chefe de escritório
experiente, que só se pode adquirir à la longue, com o tempo, e como tal está ligado à
antiguidade na administração; do outro, formas de capital burocrático com base técnica,
suscetível de ser mais rapidamente adquirido, por métodos mais racionalizados e mais
formalizados, como o inquérito estatístico, tratando-se da avaliação dos custos e dos efeitos
de uma medida, e capazes de ameaçar o capital de informações adquirido pela antiguidade. A
força de um determinado funcionário, ou de um determinado corpo, é sempre em parte
devida à sua capacidade de dominar, ou mesmo monopolizar, este recurso raro que é a
informação (e sabemos como, nas lutas internas, a “retenção de informação” é uma das armas
dos detentores do capital de informação baseado na experiência e na antiguidade) (p. 158)

A “política da habitação” foi um dos primeiros terrenos de confronto entre os partidários de


uma política “social” – que não são identificáveis com o socialismo e, menos ainda, com os
socialistas – e os defensores de um liberalismo mais ou menos radical. De um lado, os que
pretendem alargar ou manter a definição em vigor dos “direitos sociais” – direito ao trabalho,
direito à saúde, direito à habitação, direito à educação etc. –, coletiva e publicamente
reconhecidos e assumidos – através de diferentes formas de segurança, subsídio de
desemprego, ajuda à habitação, abonos de família etc. – e avaliados segundo o princípio “a
cada um segundo as suas necessidades” (de que a expressão paradigmática é a ideia de
“mínimo vital”). Do outro, os que pretendem redefinir e reduzir a intervenção do “Estado-
providência”, nomeadamente através da concretização de medidas inspiradas no princípio “a
cada um segundo seus méritos”, levando à atribuição de ajuda em função dos rendimentos
monetários assim instituídos como medida última do valor social dos agentes (p. 163)

Conclusão – As bases da miséria pequeno-burguesa


Aquilo de que se tem falado, ao longo de todo este trabalho, constitui umas das bases
determinantes da miséria pequeno-burguesa; ou, mais precisamente, de todas as pequenas
misérias, todos os atentados à liberdade, às esperanças, aos desejos, que sobrecarregam a
existência de preocupações, decepções, restrições, falhanços e também, de forma quase
inevitável, de melancolia e ressentimento. Este tipo de miséria não inspira espontaneamente a
simpatia, a compaixão ou a indignação que suscitam os graves problemas da condição
proletária ou subproletária. Sem dúvida, porque as aspirações que estão na base das
insatisfações, das desilusões e sofrimento do pequeno-burguês, vítima por excelência da
violência simbólica, parecem sempre dever algo à cumplicidade de quem as sofre e aos
desejos mistificados, extorquidos, alienados, pelos quais, como uma moderna encarnação do
Héautontimoroumenos, contribui para a sua própria infelicidade. Ao envolver-se em projetos
frequentemente excessivos, porque mais à medida das suas pretensões do que das suas
possibilidades, coloca-se a si próprio em situações impossíveis, sem outro recurso senão o de
fazer face, ao preço de uma enorme tensão, às consequências das suas opções, enquanto se
esforça por se contentar, como se diz, com as limitações impostas pela realidade às suas
expectativas: poderá passar assim toda a vida a esforçar-se por justificar, aos seus próprios
olhos e aos dos seus próximos, as compras falhadas, as iniciativas infelizes, os contratos
leoninos ou, num outro domínio privilegiado dos seus investimentos, o da educação, os
revezes e os semi-êxitos, ou, pior, os sucessos enganadores que levam a reais impasses, que a
Escola frequentemente aos seus eleitos, e de que o mais notável é sem dúvida a própria
carreira do professor, votada a um declínio estrutural (p. 249-50)

Princípios de uma antropologia econômica

O capital financeiro corresponde ao domínio direto ou indireto (através do acesso à banca) de


recursos financeiros que são a principal condição (em simultâneo com o tempo) da
acumulação e da conservação de todas as outras formas de capital. O capital tecnológico é o
conjunto de recursos científicos (potencial de investigação) ou técnicos (procedimentos,
aptidões, rotinas e competências únicos e coerentes, destinados a diminuir os gastos em mão-
de-obra ou em capital e a aumentar o rendimento) suscetíveis de serem concretizados na
concepção e fabrico dos produtos. O capital comercial (capacidade de venda) tem a ver com o
domínio das redes de distribuição (armazenamento e transporte) e de serviços de marketing e
de pós-venda. O capital social é o conjunto de recursos mobilizados (capitais financeiros, mas
também informação etc.) através de uma rede de relações mais ou menos extensa ou mais ou
menos mobilizável que visa uma vantagem competitiva garantindo aos investimentos
rendimentos mais elevados. O capital simbólico assenta no domínio de recursos simbólicos
baseados no conhecimento e no reconhecimento, como a imagem de marca (goodwill
investiment), a fidelidade à marca (brand loyalty) etc.; como um poder que funciona como
uma forma de crédito, pressupõe a confiança e a crença dos que lhe estão sujeitos porque
estão dispostos a conceder esse crédito (é a este poder simbólico que Keynes se refere quando
afirma que uma injeção monetária resulta se os agentes acreditarem que resulta) (p. 265)

A tendência para a reprodução da estrutura é intrínseca à própria estrutura do campo: a


distribuição dos trunfos determina a distribuição de possibilidades de sucesso e de lucros
através de mecanismos diversos, tais como as economias de escalas ou as “barreiras de
entrada” resultante da situação de permanente desvantagem que os recém-chegados devem
defrontar ou o custo de exploração que devem pagar, ou ainda a ação de todo tipo de
“instituições que visam reduzir a incerteza” (uncertainty-reducing instituitions) [...], contratos
salariais, contratos de dívidas, preços administrativos, acordos comerciais ou de “mecanismos
que fornecem informação sobre as ações potenciais dos outros agentes econômicos”. Daí que,
como resultado das normas que regem os jogos recorrentes que aí têm lugar, o campo oferece
um futuro previsível e calculável e os agentes adquirem mestria e regras transmissíveis (por
vezes designadas de “rotinas) que são a base de previsões pelo mesmo aproximadas (p. 267)

Às atravessias de fronteiras somam-se as redefinições de fronteiras entre os campos: alguns


campos podem estar segmentados em setores mais restritos, como é o caso da indústria
aeronáutica, por exemplo, que se divide em produtores de aviões comerciais, aviões de guerra
e aviões de turismo; ou, pelo contrário, as mudanças tecnológicas podem esbater as fronteiras
entre indústrias até então distintas: por exemplo, a informática, as telecomunicações e a
burótica tendem a confundir-se cada vez mais, de forma a que empresas que até agora só
estavam presentes num dos três subcampos tendem de forma crescente a entrar em
concorrência no novo espaço de relações que se constitui (p. 279)

Nos seus esforços para alterar a seu favor as “regras do jogo” em vigor e desta forma fazer
valer algumas das suas propriedades suscetíveis de funcionar como capital na nova situação do
campo, as empresas dominadas podem utilizar o seu capital social para exercer pressões sobre
o Estado e conseguir que altere as regras em seu proveito. Assim, o que chamamos de
mercado é o conjunto das relações de troca entre os agentes em concorrência, interações
diretas que dependem, como diz Simmel, de um “conflito indireto”, ou seja, da estrutura
socialmente construída das relações de força para que contribuem, em graus diversos, os
diferentes agentes presentes no campo, através das modificações que conseguem impor,
utilizando nomeadamente os poderes estatais que estão em condições de controlar e orientar.
De fato, o Estado não é apenas o regulador que tem a seu cargo manter a ordem e a confiança
e o árbitro encarregado de “controlar” as empresas e as suas interações, como em geral se
considera. No caso, verdadeiramente exemplar, do campo da produção de casas individuais,
como em muitos outros, ele contribui, de maneira decisiva, para a construção e para a procura
e oferta, exercendo-se cada forma de intervenção sob a influência direta ou indireta das partes
mais diretamente interessadas (p. 280-1)

Na verdade, muitos são os que têm interesse em que não seja estabelecida a ligação entre as
políticas econômicas e as suas consequências sociais ou, mais precisamente, entre as políticas
ditas econômicas cujo caráter político se afirma no próprio fato de recusar ter em conta o
social e o custo social, e também econômico – que, por pouco que se queira, não será difícil de
quantificar -, e o seus efeitos a curto e longo prazo (estou a pensar, por exemplo, no
crescimento das desigualdades econômicas e sociais resultantes da aplicação das políticas
neoliberais e nos efeitos negativos destas desigualdades, sobre a saúde, sobre a delinquência e
o crime etc.) (p. 289)

O conceito de habitus tem como função primordial romper com a filosofia cartesiana da
consciência e libertar-se, simultaneamente, da ruinosa alternativa entre mecanicismo e
finalismo, ou seja, entre a determinação pelas causas e a determinação pelos objetivos; ou
ainda entre o individualismo dito metodológico e o que por vezes chamamos (entre os
“individualistas”) o holismo, oposição semi-lógica que mais não é do que uma forma
eufemística da alternativa, sem dúvida a mais decisiva no plano político, entre o individualismo
ou o liberalismo, que considera o indivíduo como a unidade elementar autônoma última, e o
coletivismo ou o socialismo, em que é suposto dar a primazia ao coletivo.

O agente social, na medida em que é dotado de um habitus, é um individual coletivo ou um


coletivo individualizado pela incorporação das estruturas objetivas. O individual, o subjetivo, é
o social, coletivo. O habitus é a subjetividade socializada, transcendência histórica cujos
esquemas de percepção e de apreciação (o sistema de preferências, de gostos) são o resultado
da história coletiva e individual (p.289-90)

A conduta econômica socialmente reconhecida como racional é o produto de determinadas


condições econômicas e sociais das diversas possibilidades e, assim, quer a necessidade e
limites sociológicos da razão econômica, quer noções, aparentemente não condicionadas,
como as necessidades, ou cálculo ou as preferências (p. 291)

Post-scriptum: Unificar para melhor dominar

A unificação do campo econômico tende, nomeadamente através da unificação monetária e a


consequente generalização das trocas monetárias, a lançar todos os agentes sociais num jogo
econômico para o qual não estão igualmente preparados e equipados, cultural e
economicamente; tende simultaneamente a submetê-los à norma objetivamente imposta pela
concorrência das forças produtivas e dos modos de produção mais eficientes, como ressalta no
caso dos pequenos agricultores cada vez mais completamente arredados da auto-suficiência.
Em resumo, a unificação favorece os dominadores, de que a diferença em capital se afirma
pelo simples fato de se estabelecer uma relação (p. 311)

A unificação do campo econômico mundial pela imposição do reinado absoluto da livre-troca,


da livre circulação do capital e do crescimento orientado para a exportação, apresenta a
mesma ambiguidade que a integração do campo econômico nacional noutros tempos: sob a
aparência de um universalismo sem limites, uma espécie de ecumenismo que encontra a sua
justificação na difusão universal dos estilos de vida cheap da “civilização” do McDonald’s, dos
jeans e da Coca-Cola, ou na “homogeneização jurídica”, muitas vezes considerada como um
índice de “globalização positivo”, este “projeto de sociedade” serve os poderosos, ou seja, os
grandes investidores que, situando-se embora acima dos Estados, podem contar com os
grandes Estados, e em particular com o mais poderoso de entre eles, política e militarmente,
os Estados Unidos, e com as grandes instituições internacionais, Banco Mundial, Fundo
Monetário Internacional, Organização Mundial do Comércio, que controlam, para assegurar as
condições favoráveis à condução das suas atividades econômicas (p.317)