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“UNAÍ, CELEIRO DE MINAS”: LEGITIMAÇÃO DO USO DA ÁGUA NO

NOROESTE DE MINAS GERAIS

Gustavo Meyer
meyer_gustavo@yahoo.com.br
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
Brasil

Cleyton Henrique Gerhardt


cleytonge@gmail.com
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Brasil

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Resumo: A modernização da agricultura avançou expressivamente no noroeste de Minas
Gerais (Brasil) ao longo das últimas quatro décadas, em detrimento de um regime de fazendas
marcado pela coexistência – e assimetrias de poder – entre fazendeiros e agregados de
fazendas. Tal processo alterou, de modo marcante, a estrutura agrária dali; dada a valorização
e a concorrência pelo uso da terra, grupos sociais, cujo acesso à terra estava naturalizado, se
viram defronte a condição de sem terra. Após significativo e violento processo de
“reapropriação” de terras, a disputa está hoje definida em termos de uso da água, uma vez que
a região se tornou um dos principais pólos de irrigação voltados à produção de commodities
agrícolas. A partir do emprego do método etnográfico e de referenciais de uma sócio-
antropologia do desenvolvimento, buscamos apreender nesta pesquisa o processo de
legitimação da agricultura irrigada, a sustentação discursiva e prática em jogo, assim como a
articulação de signos e imagens. Encontramos a construção de uma ideia-força que aciona e
concatena categorias emblemáticas como desenvolvimento, emprego, renda, balança
comercial, produção, produtividade e tecnologia e conformam um “novas” formas
assimétricas de exercício do poder por parte de atores coligados, da esfera privada
(fazendeiros, empresas transnacionais, ONGs) e pública (envolvendo os poderes executivo e
legislativo). Esta espécie de atualização da assimetria e do campo de diferenças e
desigualdades aparece acirrando polarizações, como entre “capital”, “agronegócio” e/ou
“latifúndio” versus “assentados”, “agricultura familiar”, “tradição” e contribuindo para a
(re)construção de processos de resistência ainda pouco visibilizados em um plano mais
amplo.
Palavras-chave: Irrigação, Poder, Discurso.

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Abstract: The modernization of agriculture has advanced significantly in the northwest of
Minas Gerais (Brazil) over the last four decades, to the detriment of a regime of farms marked
by coexistence - and asymmetries of power - between farmers and farm aggregates. This
process has markedly altered the agrarian structure there; given the valorization and
competition for land use, social groups, whose access to land was naturalized, found
themselves faced with the condition of landlessness. After a significant and violent process of
"reappropriation" of land, the dispute is now defined in terms of water use, since the region
has become one of the main irrigation centers turned to the production of agricultural
commodities. Based on the use of the ethnographic method and reference of a socio-
anthropology of development, we seek to understand in this research the process of
legitimizing irrigated agriculture, the discursive and practical support at play, as well as the
articulation of signs and images. We find the construction of a force-idea that activates and
concatenates emblematic categories such as development, employment, income, trade
balance, production, productivity and technology and forms a "new" asymmetrical forms of
power exercising by related actors, (farmers, transnational corporations, NGOs) and public
(involving the executive and legislative branches). This kind of updating of the asymmetry
and the field of differences and inequalities appears to stir up polarization, as between
"capital", "agribusiness" and / or "latifundia" versus "settlers", "family farming", "tradition"
re) construction of resistance processes still not very visible in a broader plane.
Key-words: Irrigation, Power, Discourse

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INTRODUÇÃO

O conflito pelo uso da água entre populações rurais – povos e comunidades tradicionais,
posseiros, arrendatários, pequenos agricultores, ribeirinhos, entre outros grupos – e grandes
empreendimentos agrícolas que ocorreu recentemente em Correntina, na Bahia, é
emblemático para se expor, em analogia, a situação socioambiental em torno da agricultura
irrigada no noroeste de Minas Gerais. O referido conflito, ocorrido em 2017, mobilizou cerca
de 10.000 pessoas na sede municipal de Correntina, alguns dias após terem sido destruídas
infraestruturas destinadas ao abastecimento elétrico de bombas de irrigação em fazendas
próximas, cujo valor está estimado em R$ 25 milhões. A “destruição” ocorreu por parte de
uma população afetada pela irrigação empresarial e acionou a conotação de "ato de
vandalismo", estigma este que prevalece no senso comum e que vem sendo formulado e
fixado conjuntamente à invisibilidade dos efeitos, danos e impactos socioambientais deste
tipo de irrigação e suas tensões decorrentes.

O mesmo que se passou em Correntina, em um passado bastante recente, parece também estar
a ocorrer hoje no noroeste de Minas Gerais, local que tomamos como ponto de partida para o
presente trabalho e cuja realização encontra-se ancorada dentro de um projeto de pesquisa
mais amplo levado a cabo por uma equipe multidisciplinar composta por antropólogos,
sociólogos, geógrafa e biólogos acerca do entendimento dos efeitos sociais da agricultura
irrigada. Em linhas gerais, entre os objetivos do projeto estão a investigação, na região citada
acima, de aspectos relacionados: à sustentação discursiva que ancora, garante legitimidade e
está por trás deste tipo de atividade agrícola; às relações de poder envolvidas nos seus
diferentes níveis; à constituição de coalizões e articulações no campo político em que atuam
representantes da agricultura patronal e do chamado "agronegócio"; às formas de reação e
resistência de grupos sociais afetados pela irrigação em larga escala; e à mobilização de
dinâmicas relacionadas às condições de trabalho e ao exercício da mediação entre atores
diversos.

Contudo, em se tratando de pesquisa relativamente ampla, para a qual não haveria aqui espaço
suficiente para abordá-la por inteiro, buscamos focar este artigo especificamente nas
estratégias de legitimação dessa forma de produção agrícola. Para tanto e visando uma análise
crítica e geração de informações problematizadoras, nos valemos de métodos de pesquisa
diversos – observação participante, conversas informais, entrevistas abertas e semi-

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estruturadas e análise documental – integrados em uma etnografia endereçada aos atores
sociais (LONG, 2007). Tomamos o município de Unaí, no noroeste mineiro, como local de
referência inicial, ao passo que, tendo em vista sua proximidade com outros estados, a
pesquisa desdobra-se também em municípios contíguos pertencentes a Minas Gerais, Goiás e
Distrito Federal.

A pesquisa funda-se na premissa de que não se conhece a fundo e de modo integrado os


efeitos sociais da agricultura irrigada de larga escala, particularmente no noroeste de Minas
Gerais. Estando esta porção territorial integrada ao principal pólo de irrigação no país, seus
efeitos parecem envolver, de modo marcante: a escassez hídrica de populações humanas e não
humanas dispostas abaixo das áreas irrigadas; a concorrência pelo uso da terra e o aumento da
especulação fundiária; a configuração de processos de êxodo rural. Em uma espécie de
“grande projeto de desenvolvimento” (GERHARDT, 2014; RIBEIRO, 2008), atores sociais
interessados e comprometidos com a irrigação de larga escala buscam legitimar este tipo de
produção criando ideologia particular e conferindo assimetrias ao exercício do poder quando
lidam com outros atores e interesses antagônicos. Nessas arenas, agricultores familiares,
assentados, trabalhadores rurais, organizações da sociedade civil, fazendeiros, empresas
transnacionais e atores diversos pertencentes à esfera pública (nas suas três instâncias:
legislativo, executivo e judiciário) buscam legitimar, tanto no plano prático como no
discursivo, suas ações e interesses a partir da mobilização de fluxos variados de recursos
(econômicos, políticos, simbólicos, afetivos). A assimetria fica nítida quando se verifica as
diferenças em termos de influência e capacidade de interferir nos rumos de uma atividade
agrícola na região que não para de expandir e movimentar grandes quantidades de capitais
nacionais e transnacionais.

Na perspectiva de Ioris (2016), essa dinâmica faz referência ao resultado da conversão de


atividades agrícolas às agroindustriais voltadas à produção de commodities, como resposta à
crise de acumulação capitalista da década de 1980 e à exaustão de um modelo de
desenvolvimento agrícola fortemente apoiado no Estado (ver também Delgado, 2005). Para
Ioris, a consequência foi, então, uma sinergia entre entes privado e públicos para ligar
dinâmicas locais a fluxos transnacionais de capital. Nesse sentido, Oliveira e Bühler (2016)
acrescentam que a atuação para a transformação do Cerrado – bioma do noroeste mineiro – só
pode ser efetivada a partir de um modelo intensivo em tecnologias e a partir das lutas sociais e
simbólicas pela atribuição de sentido a esse espaço, em um processo de legitimação da

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“vocação” desse ambiente como espaço propício à produção de commodities, tal qual ocorreu
na Amazônia a partir desde a década de 1970. No noroeste mineiro, entretanto, um novo
elemento é incorporado nesse processo de legitimação: o cerceamento exacerbado da água,
expresso pela expansão da agricultura irrigada de larga escala, ou a water grabbing (Bont et
al., 2015; Birkenholtz, 2016; Franco et al., 2013), instaurando uma espécie de radicalização
do modelo intensivo. Estaria em jogo a hegemonia em relação ao uso dos solos e das águas
por parte de agentes do sistema agroalimentar mundial, caracterizando-os como produtores do
espaço (Oliveira e Bühler, 2016), hegemonia que, contudo, seria ativamente construída em
práticas discursivas que enredam uma ideologia excludente de outros grupos sociais –
particularmente a população originária dos vãos1 – a partir do cerceamento da água.

O processo de legitimação da agricultura irrigada de larga escala está intimamente ligado a


como se constrói a autoridade no que se refere ao uso intensivo da água no âmbito de um
grande projeto de desenvolvimento que se configura localmente. Na execução desses grandes
projetos, as populações locais ficam sujeitas às elites técnicas prescientes, de modo que na
dinâmica de desenvolvimento desencadeada, pessoas são transformadas em objetos dos
imperativos desenvolvimentistas (Ribeiro, 2008). Em perspectiva complementar, a percepção
da terra como atributo de identidade ou patrimônio está sendo socialmente redefinida, a partir
de outras funções que podem ser atribuídas a ela (Oliveira e Bühler, 2016), como a de abrigar
o agronegócio irrigado. Enfim, ao redor da água encerra-se por configurar exercícios de
poder, assimétricos, favoráveis a um empresariado cada vez mais transnacional que busca
privatizar recursos legalmente previstos para serem compartilhados (Brasil, 1997). A
sustentação discursiva da agricultura irrigada de larga escala é bastante poderosa e sedutora,
particularmente quando mobiliza expressões de “geração de trabalho e renda”,
“favorecimento da balança comercial”, “aproveitamento dos recursos naturais” e, finalmente,
“desenvolvimento”, entre tantas outras.

MELINDRES IDEOLÓGICOS

A Figura 1 elucida a expressividade da agricultura irrigada de larga escala no bacia


hidrográfica do Rio Preto que, além do noroeste mineiro, abrange também porções do Estado

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“Vãos” no noroeste mineiro correspondem às terras baixas, situadas à altitude média de 600m. Estes se opõem
às “chapadas”, terras altas à altitude média de 900m. Dada essa divisão socioespacial que isola contextos
bastante distintos, tantas vezes o conflito hídrico fica invisibilizado.

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de Goiás e do Distrito Federal. A referida bacia representa apenas uma parte dessa agricultura,
que se espalha por ainda outras bacias hidrográficas, particularmente envolvendo os demais
municípios da Figura 1, configurando o maior pólo de irrigação do país. Apenas para se ter
como exemplo, Cristalina detém o maior PIB (produto interno bruto) agrícola do Brasil. É
muito dinheiro, disse-nos em voz baixa uma interlocutora de Unaí quando confrontada com os
impactos sociais da agricultura irrigada, como que suscitando “algo difícil de ser mexido a
despeito dos impactos”. Essa fala nos é emblemática para explorar a sutentação discursiva da
agricultura irrigada na região em questão. Como já deve ser perceptível, tal sustentação se faz
necessária: defronte os impactos ambientais apontados por ambientalistas; face a concorrência
pelo uso da água com o setor enegético e com as companhias de abastecimento de água; em
razão da percepção, por parte de grupos urbanos, de um modelo agrícola perigoso e; face as
reações de grupos rurais afetados pela irrigação.

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Figura 1 – Estimativa da ocorrência de pivos centrais de irrigação na bacia hidrográfica do
Rio Preto (estimam-se 550 pivôs e uma área irrigada de 250.000 hectares; concentração de
pivôs à esquerda indica áreas de chapada).

Fonte: hidrografia e pivôs centrais processados pelo primeiro autor juntamente com Laís Araújo de Sousa, a
partir de imagens de satélite congregadas pelo software Google Earth; mapa final gentilmente elaborado por
André Medeiros.

Essa sustentação em questão pode ser entendida a partir da coalizão entre grandes agricultores
e empresas irrigantes, associações de irrigantes, políticos da esfera municipal, estadual e
federal, agentes da mídia, departamentos de universidades e, aparentemente, alguns setores de
órgãos regulatórios, envolvendo, inclusive, a ação em comitês de bacia. No noroeste mineiro,
os debates em torno da irrigação são efervescentes e forjam diversas arenas locais

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“problematizadoras”, ou, de “problemaização persuasiva”, considerando a assimetria na
distribuição de atores com posicionamentos divergentes; em geral a composição de atores
nessas arenas expressa menos a pluralidade de posições e mais a ação e feitura da própria
coalizão para a legitimação da irrigação.

A partir dos “debates”, pode ser produzido estranhamento a partir da imagem de


desumanização do campo que emana, como se neste a presença de grupos sociais residentes
fosse praticamente inexistente. Mesmo quando configuram-se arenas mais “verdadeiras”,
envolvendo, por exemplo, atores ambientalistas com críticas acentuadas aos irrigantes, a
questão dos efeitos colaterais aos grupos a jusante na bacia fica diminuída. Quando
considerados, em geral esses grupos são associados a espécies de “beneficiários”, porque
corresponderiam a residentes do campo em condição de acentuada desmaterialização
financeira, laboral e moral que, finalmente, puderam acessar empregos. Embora essa figura
nem sempre prevaleça em ocasiões com heterogeneidade de atores, os grupos sociais do
campo quase sempre ficam invisibilizados, talvez, em parte, porque raramente têm seus
representantes convidados aos fóruns de debate e, quado o são, participam de modo
minoritário. Não é então sem explicação o fato de os efeitos do mercado concorrencial de
terras gerado pelo agronegócio sobre os modos de vida originários e o êxodos rurais nunca
adquirem centralidade. Esse talvez seria o revéz da polarização discursiva em torno de uma
ética ambiental.

A ideologia do agronegócio, em sua modalidade “irrigada”, aciona oposições construídas nos


planos local e supralocal. Uma oposição emblemática faz referência àquela entre irrigantes e
residentes dos vãos, das partes baixas que se opõem às áreas de chapadas. Esta assemelha-se à
distinção entre “mineiros” e “gaúchos”2 observada por Meyer (2015) no âmbito de sedes
municipais da região que, no caso dos atores envoltos no agronegócio irrigado, expressa-se,
marcadamente, mediada pela técnica e pela natureza. Se Meyer aponta alguma autoria à
oposição entre “mineiros” e “gaúchos” atribuída aos primeiros, no caso da irrigação a
oposição constrói-se pelo outro lado, ou seja, por parte de irrigantes percebidos como
“gaúchos”, “de fora”, em um encaixe complementar e contundente.

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Nesse caso e de um modo geral, “gaúchos” estariam representando pessoas ligadas à posse do agronegócio,
adeptos a uma racionalidade tecnoprodutivista, ao passo que “mineiros” representariam populações mais antigas
ali, com modos de produção tidos como mais tradicionais, ligados ao gado.

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Vejo muito gente falar que tem que preservar as culturas, as culturas dos povos, não sei quê,
não sei quê... Que cultura esse povo quer preservar, de miséria? Quem fica na cidade debaixo
do ar condicionado quer preservar a cultura de miséria lá do povo. Agora você vai ver, todos
os nossos funcionários, são todos da região [dos vãos, à jusante das áreas de irrigação]. Dois
vieram do assentamento de sem terras de Buritis, que é um outro problema [...]. Pergunta pra
ele se ele quer morar na casa boa que ele mora ou se ele quer voltar a morar no ranchinho de
palha com a família dele, morrendo o povo de doença de chagas, morrendo sem recurso. O que
que esse povo quer preservar gente?Não entendo... (Ariana Martins3, presidente de uma
associação de irrigantes, 2018).

Dessa forma, e considerando agora o plano supralocal, outra oposição acionada


recorrentemente é para com a “cidade”, para com uma racionalidade urbana desconhecedora
da “verdadeira” realidade do campo, formuladora de uma ética socioambental “irracional”,
como trataremos mais adiante. Mas a fala acima auxilia igualmente a revelar que, quando o
componente “social” aparece no enredo de atores comprometidos com a irrigação, este fica
circusncrito à esfera da oferta de empregos, da “irracionalidade” e da pobreza. De outro
modo, mesmo quando aparece, o “social” fica bastante sombreado, porque, discursivamente,
componentes técnicos em geral prevalecem e são amarrados para sustentar uma racionalidade
produtiva “verdadeiramente” racional.

E depois que o ZAP [zoneamento ambiental e produtivo] ficou pronto, que essa turma viu que o
problema da bacia, a degradação da bacia, estava na área deles e não na nossa... Porque aqui
[nas chapadas com as grandes lavouras; apontando para a imagem de informação técnica
publicada em uma revista de irrigantes] você tem as APPs, reserva legal, vegetação natural,
tudo bem preservado, aí eles [residentes dos vãos] deram uma calada de boca né, tanto que a
gente já definiu, aqui tem uma bacia aqui mais prioritária para recuperação [apontando para
uma parte no vão] [...]. Aquele solo que não tem um nada em cima né, um capinzinho nada, só
umas arvrinhas tortas e um solo totalmente duro (Ariana Martins, presidente de uma associação
de irrigantes, 2018).

Face uma racionalidade tradicional “irracional”, do vão, atores portadores de um discurso que
visa legitimar a agricultura irrigada de larga escala recorrem a todo momento a ideais de
regularização, de registro, de conformidade a normas e leis vigentes. “Regularidade” – de
estar regular perante os preceitos técnicos e a lei – que é permeada pela “racionalidade”, em

3
Todos os nomes são fictícios.

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sentido tal que a palavra “racional” constitui adjetivo fundante do discurso. O uso racional da
água aparece como grande preocupação narrativa, no sentido de se poder reduzir seu uso em
épocas de seca, de se pensar a destinação dos pivôs centrais que ultrapassam a vida útil, de se
fazer uma gestão integrada da irrigação, de torná-la mais eficiente, de se melhorar a qualidade
da decisão sobre o uso dos recursos hidricos. É dessa entre outras formas que um ar de
cientificidade impregna as falas de representantes irrigantes pautados em conhecimentos
volumosos, tidos como científicos, pintados com cores de inquestionabilidade de dados
minuciosamente encadeados. Trabalho social – em prol da sociedade –, desenvolvimento,
regularidade e racionalidade se misturam em uma espécie de amálgama discursivo de modo a
construir um efeito de naturalização sobre o uso “livre” dos recursos naturais.

A imagem da agricultura irrigada de larga escala é lenta e continuadamente tecida enquanto


sinônimo de regularidade ambiental capaz de conservar os solos e a água. Enquanto
construtores de curvas de nível e bacias de contenção e promotores do plantio direto, da coleta
adequada de resíduos sólidos, da manutenção de matas ciliares, nascentes e veredas e da
prevenção de incêncios, atores coligados em torno dessa agricultura constróem uma ética
ambiental produtivista assentada na crença na ciência e em mecanismos de persuasão e
dissimulação. Nesse sentido, a ciência, grande provedora de saídas e soluções discursivas à
irrigação, é geradora de contradições na matriz ideológica do agronegócio, não pela falsidade
das informações científicas em si – sem negar, entretanto, que a falsificação possa estar em
jogo – mas pelo acionamento da crença no seio de uma ciência “neutra” e positivista. Ao
final, o agronegócio e a irrigação seriam promotores do meio ambiente tecnicizado em
consequência da transformação da relação homem-natureza.

Os solos do agronegócio irrigado teriam maiores quantidades de carbono incorporado que


aqueles cobertos com a vegetação original do Cerrado, fato que estaria associado à elevada
capacidade de sequestro de carbono por parte da agricultura tecnicficada, constituindo uma
ligação com uma das grandes preocupações de sociedades contemporâneas: o aquecimento
global. Nessa lógica, a substituição do cerrado pela soja irrigada, por exemplo, contribui para
o aumento da matéria orgânica e, por consequência, para a retenção de água no solo e, assim,
para a recarga de aquíferos e dos rios. Um “tautologia hídrica” que alude às ideias de geração
espontânea e de pirâmides de dinheiro. Isso demonstra habilidade e persuasão na montagem e
organização das informações científicas e a própria ênfase na ciência tecnicista para
explicação da realidade. Dessa forma, a ética ambiental em tessitura é atravessada por uma

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natureza tecnicizada a partir da qual a ciência hegemônica é legitimadora de verdades acerca
do modo de produzir sustentável. A própria ideia de solo coberto é transformada: solo
coberto, então, é aquele que tem agricultura, e não a vegetação original, sendo a irrigação
catalizadora desse processo.

Ainda outras explicações derivam desse encadeamento. Se uma das críticas ao agronegócio é
a de que este é exportador sobretudo de água, e menos de alimento propriamente dito, os
atores coligados pela irrigação sustentam algo um tanto distinto. No Brasil a água “escorre” e
irriga um aceano que não deveria ser irrigado. Defender a irrigação deste oceano, em última
instância, consitui atitude “irracional” em um país onde sobra água que poderia ser explorada
ainda muito mais. A despeito das acusações de grupos ambientalistas e de outros, afetados
pela falta d’água, o aumento de sua exploração não só é possível como desejado, ideia que
emana de distintos atores coligados à irrigação em arenas diversas, constituindo um assunto
praticamente religioso, pela recorrência com que emerge. Identifica-se, nesse âmbito, uma
atitude de “desvio”, quando argumenta-se, ao modo de cânones musicais, que a agricultura
não desmata, mas se vale de áreas já abertas. O “desvio”, nesse caso, põe à margem
referências sócio-histórico e agrárias, faz esquivar da análise dos processos de ocupação de
terras no país, inclusive da história agrária subjacente à própria área do pólo de irrigação que
constitui o noroeste mineiro. Algo análogo pode ser percebido em relação ao desmatamento: o
agronegócio não desmata, ele aproveita áreas abertas (Hebert Sousa, presidente de um
associação de irrigantes, 2017). Nessa ótica, problemas de falta d’água em geral são
problemas de gestão (idem), havendo espaço para muitos mais agricultores. Na perspectiva de
Winner (2002, p. 194) apontada por Oliveira e Bühler (2016, p. 270), nós deixamos o estado
de natureza para garantir o livre acesso à natureza como imenso reservatório de matérias
primas úteis. A partir desse gesto, a natureza é designada, uma vez por todas, como uma
reserva de bens econômicos.

Considerando ainda o “desvio”, mas agora tendo como fundo um plano mais abrangente de
legitimação da agricultura agronegocial, a naturalização da ideia de “terras abundantes” –
como aquela em relação à água – é incorporada na narrativa de modo marcante. É nesse
sentido que Blairo Maggi, político “protagonista” do agronegócio, recorre à Embrapa para
expor que o Brasil só utiliza 7,8% do seu território para a agricultura (Mezzadri et al. 2018:
49). Sob as vestes da sustentabilidade, sua propaganda esquiva de incorporar em suas
explicações questões colocadas de modo recorrente por grupos diversos – de luta pela terra,

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ambientalistas, etc. –, por exemplo: à agricultura, deve-se acrescentar a pecuária, também
destinada à alimentação; o ciclo do desmatamento compreende a ligadura especulação-gado-
agronegócio ou, ainda, especulação-gado-agronegócio-expropriação; quando as terras são
assaz interessantes à agricultura, desmata-se, incondicionamente; entre outras. Em outros
termos, a categoria “desvio” em jogo revela a construção de uma narrativa opositória – ao
ambientalismo, por exemplo – que é seletiva dos objetos a serem incorporados. É o
agronegócio brasileiro rompendo as fronteiras, tendo o céu como limite (idem).

Em paralelo a esse posicionamento narrativo, é nítido o esforço de atores coligados em torno


da agricultura irrigada de larga escala para construir sua jurisprudência e instituir prioridade
legal para o uso da água diante possíveis usuários concorrentes. Por trás disso, “alimento” é
posto como símbolo que remete ao sagrado, que está acima de quaisquer coisas,
inquestionável. Daí que a agricultura irrigada com frequência adquire o status de caridade e
benevolência para com o mundo. A produção de “alimentos”, via agricultura irrigada, emerge
de uma postura sacra, uma espécie de campanha da fraternidade de longa duração, essencial a
uma humanidade degradada, sem empregos e sem renda. Agricultura, assim, é constituída
enquanto significante, ao passo que sustentabilidade, desenvolvimento e benevolência são
alguns de seus significados.

Como já é possível perceber, na tentativa de se usar a maior quantidade de água possível com
o mínimo custo, recorre-se a símbolos, argumentos e estratégias variadas. O uso deve estar
acima de tudo, e enriquecer a partir da agricultura irrigada é atitude legítima: O banqueiro no
Brasil pode ser rico, o comerciante pode ser rico, mas o produtor rural não pode? Por que
umas pessoas ficam tão ricas e outras não ficam? Daí a sociologia vai explicar, é a aptidão
de cada um para trabalhar (Ariana Martins, presidente de uma associação de irrigantes,
2018). Dessa forma, a exposição de órgãos regulatório compõe o rol de estratégias
legitimadoras, quando estes são forte e publicamente pressionados por irrigantes e seus
representantes. Nesse sentido, a ação desses órgãos, controlando o uso da água, faz evocar a
categoria “irracionalidade”, persuasiva e danosa à agricultura, assim como a ação
ambientalista o faz. O curioso desse aspecto é que os órgãos regulatórios parecem ser
acionados performaticamente: ora são opositores irracionais, ora compõem a coalizão,
particularmente, neste último caso, quando representantes de diversos grupos afetados pela
irrigação apontam essa ligação baseados nos insucesso de suas denúncias aos órgãos
regulatórios, algo a ser mais bem investigado no futuro da presente pesquisa. De qualquer

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modo, a “irracionalidade”, contraposta à “racionalidade” técnica-produtiva-econômica-
ambiental-benevolente, emerge na batalha narrativa como significante de pobreza e
subdesenvolvimento. Em adição, o discurso legitimador do agronegócio não aparece
construído “por si só”, mas, em grande medida, fundado em um anti-ambientalismo, como
que por precaução; há em jogo um potente mecanismo de apropriação – de informações
técnicas protetoras – por antecedência.

A “força associativa” emerge como um valor e, ao mesmo tempo, como mecanismo que opera
dentro da rede, forjando coalizões. Seria essa força aquela capaz de manter a regularidade do
uso gratuito da água frente a irracionalidade ambiental de atores opositores e de cooptar
articulações políticas “benéficas”. Essa mesma força seria aquela usada para se fazer ascender
as barragens destinadas à irrigação ao status de “interesse público e social”. E se os comitês
de bacia são pouco efetivos – porque podem estar comprometidos com uma ética ambiental
“irracional” – seria a força associativa de irrigantes, por exemplo, que conduziria a
instauração, por exemplo, do Comitê Estadual de Irrigação de Goiás, como que substituindo o
primeiro. A força associativa vale-se de componentes ligantes atravessados por aspectos
culturais, de classe, técnicos e de comunicação. A disseminação de revistas técnicas,
propagandeando não apenas a agricultura irrigada como símbolo de prosperidade e fartura,
mas, ainda, os efeitos da união entre agricultores e empresas irrigantes, é exemplo
emblemático dessa ligação. É nessa direção que as associações de irrigantes, postas como
resultado de uma força associativa cultuada, ficam sempre enaltecidas.

Essas associações de irrigantes são apresentadas pelos mesmos sob a forma de ONGs que
buscam mitigar os efeitos do agronegócio e da agricultura irrigada de larga escala. Sobretudo
essas ONGs – e o uso específico do termo “ONG” adquire significado particular – seriam
responsáveis pela promoção do desenvolvimento integrado, pela capacitação de jovens ao
mercado de trabalho, pelo desenvolvimento de planos de manejo ambiental. Então a
agricultura irrigada, além de produzir, plantar e colher (Hebert Sousa, presidente de um
associação de irrigantes, 2017), seria responsável por uma espécie de “promoção” do meio
ambiente, assim como seria benfeitora da vida social no campo. Se as ONGs ambientalistas
usualmente ocupavam assentos em comitês de bacia, agora elas, enquanto sociedade civil, são
gradativamente constituídas como representação de um agronegócio “benéfico à sociedade”,
em um caráter militante. Constrói-se, a partir da figura de “ONGs” que acionam um sentido
semântico de preocução social, o papel das utilidades públicas, dentre as quais destaca-se a

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responsabilidade ambiental. “Desenvolvimento”, “ação social”, “pesquisas”, “facilitação da
ação da fiscalização”, “promoção da segurança no campo” constituiriam parte dos benefícios
promovidos por essas ONGs à sociedade.

A ética socioambiental do agronegócio irrigado, pelo exposto, forja uma ideia-força assentada
na essencialidade inquestionável do agronegócio: se o Brasil está em crise, estaria mais ainda
não fossem os efeitos positivos do agronegócio sobre a balança comercial brasileira; geram-se
inúmeros empregos em contextos rurais de trabalho escasso e sobrevivência material difícil; o
agronegócio, sobretuto o irrigado, é forjado enquanto símbolo de um Brasil tecnológico aliado
a um Cerrado cuja água pode ser explorada ainda mais; a competitividade, a contribuição ao
meio ambiente, a contribuição ao PIB e, consequentemente, a retomada da economia nacional
são postos como indispensáveis e de modo encadeado, em uma narrativa salvacionista. Nas
palavras de Ioris (2016), essa narrativa aciona uma perspectiva mais ampla, quando os
discursos empresariais e de inovação se apropriam da linguagem do desenvolvimento
nacional e da segurança alimentar para justificar um tratamento preferencial e a prioridade
de investimentos por parte dos governos e suas agências (p. 142, tradução nossa). De
qualquer modo, parece mesmo não haver espaço para um questionamento contundente da
agricultura irrigada de larga escala garantidora dos alimentos mundiais. Trataria-se, nessa
ótica, de um desafio mundial para o qual estamos sim preparados. Daí que o tom pejorativo da
palavra “celeiro”, estampada em ônibus rodoviários da região, é revertido em símbolo de
desenvolvimento e prosperidade, sobretudo de um desenvolvimento “inevitável”.

À GUISA DE CONCLUIR

No plano local do noroeste mineiro, a coalizão ao redor da irrigação – e esta não pode ser tão
bem compreendida isolada do agronegócio como um todo – potencializa um tipo de
elaboração e propagação discursiva que parece auxiliar na territorialização da agricultura
irrigada em larga escala. É importante notar que, se a coalizão constrói a ideologia, esta
também parece construir a primeira, em um processo virtuoso de retroalimentação que recorre
ao compartilhamento de crenças e signos forjando identidades. Ou seja, a coalização é
também produto da própria ideologia. Assim que análises promissoras devem considerar
categorias como “reverberação” e “sincronia” mediadas por uma espécie de cultura do
desenvolvimento, ao menos inicialmente. Nesse sentido, os entrelaçamentos entre poder,
ideologia e cultura, a exemplo daqueles propostos por Wolf (1999), poderão iluminar análises

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desse tipo. A produção do discurso, ou da ideologia da irrigação, parece recorrer a categorias
culturais de repertórios distintos, como a oposição entre “chapada” e “vão”, por um lado, e a
visão tecnicizada da natureza subjacente a uma cultura produtivista “modernizada”. Nesse
caso, a ideologia deve ser constantemente estranhada no ímpeto de se poder reconhecer em
que medida ela se torna cultura, e vice versa, ao passo que esta “cultura” apresenta-se sob a
égide de “encontros culturais em curso”.

Essas observações auxiliam também no entendimento do encadeamento local-regional-


nacional-global que a narrativa faz acionar, que parece ser chave para se apreender a
sustentação discursiva do agronegócio irrigado. Particularmente no plano local, chama a
atenção “como”, “onde” e “por que” uma racionalidade técnico-econômica se expande, cria
desejos e forja identidades, explicações e visões de mundo, para além das perspectivas de
“interesse” e “escolha racional” – sem entretanto dispensar estas últimas. É assim que,
“desvio” “coalizão”, “persuasão” ou derivados aparecem como categorias importantes nas
estratégias de atores que constróem e engendram valores e visões sobre “irracionalidade”,
“benevolência”, “união”, “tecnologia”, “natureza” e “regularidade”. Mais ainda, em realidade
identifica-se uma espécie de bricolagem de desenvolvimento, onde aspectos como
“capacitação”, “emprego”, “renda”, “produção”, “conservação”, “tecnologia”, entre outras
possibilidades, não podem, ao que parece, ser entendidos separadamente.

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