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PROCESSOS COGNITIVOS

DA APRENDIZAGEM

Professora: Doutoranda Taís Schmitz


E-mail: taisschmitz@gmail.com
EMENTA: O desenvolvimento cognitivo da aprendizagem e a construção do
conhecimento na visão de diferentes teorias. O normal e o patológico. Aprendizagem:
conceitos, fatores intervenientes e as principais dificuldades.

TEXTO 1: TEORIAS DE APRENDIZAGEM

A Educação pode ser considerada numa perspectiva ampla como uma somatória
de influências e inter-relações sociais que convergem para a formação de traços de um
sujeito, no que se refere a sua personalidade, valores e conhecimento.
De certa forma estamos sempre aprendendo, quer estejamos numa instituição
social especialmente dedicada a este fim – como a escola – ou não. Pode-se considerar
que o aprendizado é uma capacidade que ocorre desde o nascimento e no decorrer da
vida de cada pessoa.

Há vários elementos em jogo neste aprendizado amplo e contínuo. O


entendimento desse complexo processo é difícil. Em particular a Educação é objeto de
estudo de uma área do conhecimento humano que é chamada de Pedagogia.
Entretanto o estudo deste objeto de trabalho compreende a colaboração de
pesquisadores de diversas áreas de conhecimento, tais como, por exemplo, Psicologia,
História, Filosofia, Sociologia, Fisiologia, Biologia etc.

Você é educado?

Quando se diz isso – que alguém é educado – normalmente se tem ideia que a
pessoa é polida no trato com outras. Neste caso o contrário seria alguém que é “mal”

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educado, ou seja, alguém que é grosseiro no trato, fala palavrão, não respeita os
outros ... Entretanto ainda assim ele foi educado (pois domina uma língua, alguns de
seu símbolos e significados). Em um sentido amplo somos todos educados pela
sociedade na qual nos inserimos.
Quem não seria educado, então?
Somente alguém que nascesse e nunca encontrasse com outro alguém ...
A Educação escolar responde por uma parcela desse processo complexo. Em
geral nos referimos a ela como educação formal e regular, pressupondo uma outra
instância informal decorrente de todas as influências que uma pessoa está sujeita em
sua vida.
Considerando o leque de possibilidades que se abre a partir da ideia de educação
formal e informal, podemos considerar ações deliberadas (educação intencional) e o
acaso (compreendendo ocorrências que não são deliberadas e intencionalmente
voltadas para o ensino).
A escola é uma das instituições sociais que tem como foco de sua ação a
instrução e o ensino de forma deliberada e planificada. A educação formal – ou seja,
aquela que se propõe como ação deliberada das instituições escolares – é considerada
como educação intencional. Isso não elimina o fato de que na escola – como em
qualquer outro lugar da sociedade - também existe a aprendizagem decorrente do
acaso ... Mas, a escola é uma instituição que procura oferecer ao sujeito um
conhecimento organizado, que foi acumulado socialmente durante muitos séculos.
É importante neste ponto salientar que a educação intencional não é
exclusividade da instituição escolar.
Um pai e uma mãe quando
ensinam seu filho têm uma intenção e normalmente essa ação não é formal, como
aquela que ocorre na escola. A educação intencional é de alguma forma uma ação
sistematizada, organizada para um determinado fim.
Ao lado dessa ação social intencional existem outros fatos e acontecimentos que
se dão de forma aleatória e muitas
vezes incontrolável, fruto da
vivência de cada um e de sua
imersão na sociedade. A
primeira vez que queimamos o
dedo em geral não é uma ação
deliberada de uma pessoa,
aliás, ao contrário. Muitas vezes
– em nossa pouca experiência
de vida – não temos condições
de avaliar seriamente o
conselho de alguém que nos
fala: - “Não coloque o dedo aí
senão você vai se queimar !!!”.
Entretanto graças a nossa capacidade de aprendizagem (e após queimar o dedo
algumas vezes) teremos condições de memorizar essa situação e, talvez, depois de
muitos erros e tentativas, associá-la a um conceito (no caso queimar o dedo). A partir
daí a frase não coloque o dedo aí senão você vai se queimar fará muito mais sentido.
Este “cruel” episódio da vida de todos os seres humanos – aqui narrado em
“câmara lenta” – mostra também como ensino e aprendizagem podem ser diferentes. O
adulto tenta ensinar a criança a não queimar o dedo, falando ou alertando. A criança
pequena entretanto – pela falta do domínio de linguagem e pela pouca experiência
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vivencial – não tem condições de apreender aquela informação. Neste exemplo
ilustrativo a tentativa de ensinar é uma ação do adulto e o aprendizado se dá fora do
controle do adulto, na esfera de ação da criança (aprendiz). Isto é, o ensino não
necessariamente resulta em aprendizado e nem mesmo a informação se torna
conhecimento apenas pelo uso da linguagem por parte do adulto (ou do professor).
Por isso nos referimos ao processo educacional como ensino-aprendizagem,
procurando associar a tentativa de instrução (a intencionalidade de ensinar, que é uma
responsabilidade, por exemplo, do professor) com a apreensão de determinado
conhecimento, a aprendizagem (que pressupõe o entendimento e o domínio de um
dado conceitual pelo aprendiz).
Para que uma pessoa atinja um determinado grau de conhecimento (instrução) é
possível lançar mão de ações intencionais (ensino), segundo um processo social mais
amplo (Educação). O esquema a seguir mostra esses diferentes níveis em que se
concebe, neste texto, a instrução, o ensino e a educação.

TEXTO 2: O PROCESSO ESCOLAR DE ENSINO-APRENDIZAGEM

Uma situação de ensino escolar pode ser entendida esquematicamente como


uma interação entre um professor P e um aluno A, como discute Ferreira3. O estágio
inicial de conhecimento do aluno é Ei e a meta do professor é que o aluno atinja o
estágio Ef, diferente do estágio inicial de conhecimento. Cabe ao professor definir o
estágio final por meio de objetivos educacionais, além de organizar estratégias para
atingir tais objetivos.

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A tarefa de um professor (P) pode ser concebida como levar um aluno (A) de um
estágio inicial de conhecimento (Ei) para outro estágio de maior conhecimento (Ef). Às
vezes a diferença entre o estágio inicial (Ei) e o final (Ef) é muito pequena, quando
envolve o conhecimento de uma simples informação. É o caso, por exemplo, do aluno
saber que a capital da França é Paris.
Em outras vezes os estágios inicial e final são mais distantes. É o caso, por
exemplo, quando se deseja que o aluno conheça certos modelos científicos e os aplique
a sua vida cotidiana. Em casos como este o trabalho educacional é maior - tanto em
tempo como em complexidade - para que a mudança seja estabelecida, passando por
vários estágios intermediários de aprendizagem.
De maneira geral, podemos considerar que toda interação entre professor e
aluno faz com que o estudante passe de uma situação inicial Ei para outra. O estágio
final não corresponde apenas ao aumento de sua bagagem intelectual, podendo ser a
aquisição de uma habilidade motora ou algo ligado às suas emoções.
Note que se o professor sempre se comportar da mesma forma,
independentemente do aluno, ele permanecerá em sua posição inicial, que
chamaremos, por exemplo, Pi. Entretanto também podemos considerar que o professor
não está alheio às reações do aluno. Neste caso, a interação professor aluno promove
alterações em sua forma de trabalho. Assim o professor também se desloca de um
estágio inicial Pi para um estágio final Pf. A existência desse estágio final Pf mostra que,
diferentemente de uma máquina de ensinar, o professor aprende com seu próprio
trabalho, seja no que se refere ao conhecimento ou até mesmo às perspectivas
pedagógicas da ação docente.
Vale a pena assinalar que a grande diferença
entre o professor e uma máquina de ensinar está
justamente na sua capacidade de aprender com o
processo pedagógico. A existência dos estágios finais
diferentes, tanto para professores e alunos, bem como
a dificuldade em se mensurar objetivamente tais
estágios, mostra-nos que o processo
ensino-aprendizagem é bem complexo.
Algumas vezes o estágio final que o aluno
atinge pode estar longe dos objetivos educacionais
do professor. Esse estágio final pode inclusive se
constituir na ojeriza do aluno pelo assunto
estudado. Situações como essas podem ocorrer
quando professor e aluno parecem não estabelecer
uma linguagem em comum.

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Há situações onde o aluno interpreta as informações do professor de maneira
muito particular e diferente daquelas que o professor tem intenção de expressar. Há
situações em que o professor não consegue compreender com clareza suficiente as
dúvidas e as incertezas do aluno (barreiras para sua compreensão dos conteúdos
tratados).

Você dá aula do que?

Muitas vezes o trabalho do professor é definido como "dar aula". A ideia de "dar"
aula é de certa forma absurda se pensarmos
que ao darmos algo a outro alguém
ficaremos sem esse algo. Durante
o processo de ensino o que observamos
é justamente o contrário pois quando,
por exemplo, um determinado
professor dá uma aula de física ele
não perde seu conhecimento sobre
o assunto e, ao contrário, pode até
mesmo acrescer novo conhecimento
ao procurar compreender alguma
pergunta de seus alunos ou ao tentar organizar um material de ensino.

Quando dizemos que o conhecimento é algo dado pelo professor ao aluno,


utilizamos uma concepção de ensino na
qual o aluno seria como um pote vazio de
conhecimento no qual o professor derrama
uma parte de seu conhecimento. Após esse
processo o aluno passaria a possuir um
conteúdo que não tinha inicialmente. O
conhecimento foi dado ao aluno que nada
mais fez do que recebê-lo.
O educador brasileiro Paulo Freire
discutiu como essa ideia pode ser equivocada.
Para isso fez uma analogia dessa visão de
educação com um procedimento
bancário. Nesta educação bancária, a cada
aula o professor faria um depósito correspondente ao conteúdo e, passado algum
tempo (um conjunto de aulas), faria a verificação do saldo, por meio de uma prova,
onde o mestre tiraria uma espécie de extrato do conhecimento que restou na "conta"
(cabeça do aluno).
Este tipo de mentalidade pedagógica ignora a capacidade intelectual do aluno de
interpretar e interferir no conhecimento que está aprendendo. Outro problema
importante é tentar reduzir a aprendizagem a uma mera memorização de fatos e
palavras, sendo que uma importante característica da aprendizagem é justamente levar
o aprendiz para além da simples memorização, atingindo patamares mais expressivos
como a generalização e a extrapolação.
A visão de que o aluno é "um pote vazio" também cria uma outra distorção
educacional: considerar que todos os alunos são iguais e que reagirão de forma
semelhante em presença da
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mesma ação do professor. Assim o trabalho do
professor seria praticamente igual
a uma linha de “montagem”, independentemente
da origem, dos interesses e da personalidade do aluno.
A história educacional e a experiência individual
dos professores mostram que isso não é verdadeiro.
Além disso, reduzir a atividade didática a uma linha de
montagem implica em sérios riscos para os alunos e
para a sociedade, como, por exemplo, a falta de
espírito- crítico, o embotamento da capacidade
criativa dos alunos, a evasão escolar e o autoritarismo.
Outras visões de ensino que se colocam
como alternativa educacional implicam na redefinição
de características como o objetivo do ensino, o papel educacional do professor, a
avaliação etc.

TEXTO 3: CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DA APRENDIZAGEM

O formador é um facilitador de aprendizagem por isso tem como tarefa principal


levar os formandos a aprender. Isto quer dizer que deve ser capaz de criar situações
que favoreçam a aprendizagem. A aprendizagem é a capacidade de que
quotidianamente necessitamos para responder adequadamente às diferentes
solicitações e desafios que se nos colocam na nossa interação com o meio.

Será que existe um único tipo de aprendizagem, ou seja,


aprende-se sempre da mesma maneira, independentemente do objetivo da
aprendizagem?

Por exemplo, durante um curso de formação quando se solicita aos formandos:

 que reproduzam um determinado conceito teórico;


 que a partir dos conceitos teóricos transmitidos resolvam um problema;
 que façam uma demonstração prática.

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Será que nas três situações apresentadas está presente o
mesmo tipo de aprendizagem e serão os mesmos os processos cognitivos
(mentais) em jogo?

Para se conseguir realizar as diferentes tarefas constatamos que, provavelmente,


existem vários tipos de aprendizagem e diferentes processos cognitivos.
Para que o formador consiga cumprir a sua tarefa de facilitador de aprendizagem é
necessário que compreenda o que se passa na cabeça do “sujeito que aprende”.

Como saber se o indivíduo aprendeu?

Esta análise pode ajudá-lo a planificar a formação de modo a rentabilizar os


processos internos intervenientes na aprendizagem. Com o intuito de auxiliar os
utilizadores/futuros formadores a atingirem estes objetivos, o presente módulo vai
abordar um conjunto de conceitos e reflexões sobre:

 conceitos e características da aprendizagem;


 teorias, modos/modelos/mecanismos de aprendizagem;
 processos, etapas e fatores psicológicos da aprendizagem;
 fontes e métodos de motivação.

O Conceito de aprendizagem

Para entender os pontos centrais da natureza da aprendizagem é necessário


reporta-se ao seu
desenvolvimento histórico, filosófico e psicológico. Várias correntes de pensamento se
desenvolveram e se definiram para os modelos educacionais: "a corrente empirista, o
inatismo ou nativismo, as associacionistas, os teóricos de campos e os teóricos do
processamento da informação ou psicologia cognitivista, o construtivismo e sócio-
construtivismo". (SILVA, 1998, p.25)

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A aprendizagem no seu todo encarada como ação educativa, tem como
finalidade ajudar a desenvolver nos indivíduos as capacidades que os tornem capazes
de estabelecer uma relação pessoal com o meio em que vivem (físico e humano),
servindo-se para este efeito, das suas estruturas sensório-motoras, cognitivas, afetivas
e linguísticas.
Dessa forma, a mesma está inevitavelmente ligada à História do Homem, à sua
construção enquanto ser social com capacidade de adaptação a novas situações. Desde
sempre se ensinou e aprendeu, de forma mais ou menos elaborada e organizada, já
antes do início deste século existiam explicações para a aprendizagem, mas o seu
estudo está intimamente ligado ao desenvolvimento da Psicologia enquanto ciência.
Contudo, este estudo não se processou de forma uniforme e concordante.
O estudo da aprendizagem centrou-se em aspectos diferentes, de acordo com as
diversas correntes da Psicologia, e com as diferentes perspectivas que cada uma
defendia. Destas teorias as que adquiriram maior relevo foram:

 as comportamentalistas (behavioristas) - a aprendizagem é vista como a


aquisição de comportamentos expressos, através de relações mais ou menos
mecânicas entre um estímulo e uma resposta, sendo o sujeito relativamente
passivo neste processo;

 as cognitivistas – a aprendizagem é entendida como um processo dinâmico de


codificação, processamento e recodificação da informação. O estudo da
aprendizagem centra-se nos processos cognitivos que permitem estas operações
e nas condições contextuais que as facilitam. O indivíduo é visto como um ser
que interage com o meio e é graças a essa interação que aprende e

 as humanistas - a aprendizagem baseia-se essencialmente no caráter único e


pessoal do sujeito que aprende, em função das suas experiências únicas e
pessoais. O sujeito que aprende tem um papel ativo neste processo, mas a
aprendizagem é vista muitas vezes como algo espontâneo.

Estas diferentes perspectivas sobre a aprendizagem conduziram a diferentes


abordagens e conceitos. No entanto, estas diferenças não devem ser encaradas como
um problema, mas antes como uma vantagem, já que possibilita uma visão mais
abrangente, não reduzindo a explicação da diversidade deste processo a uma única
teoria.
Atualmente a aprendizagem é vista como um processo dinâmico e ativo, em que
os indivíduos não são simples receptores passivos, mas sim processadores ativos da
informação. Todos os indivíduos à sua maneira e tendo em conta as suas características
pessoais são capazes de “aprender a aprender”, isto é, capazes de encontrar respostas
para situações ou problemas, quer mobilizando conhecimentos de experiências
anteriores em situações idênticas, quer projetando no futuro uma “ideia” ou “solução”
que temos no presente, interagimos com os estímulos (situações e problemas) de uma
forma pessoal.
É importante destacar que ainda não foi descoberto um método definitivo de
ensino-aprendizagem, que se sobreponha aos outros, ou que possa ser considerado
completo. A escolha por um deles acaba considerando aspectos da visão de mundo
docente e da cultura em que se insere. Talvez a perspectiva mais sensata seja
identificar em cada uma das linhas características que sejam interessantes e construir
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atividades de ensino a partir delas, compatibilizando-as com os princípios da construção
de conhecimento que se julga mais adequado.

TEXTO 4: ABORDAGENS TEÓRICAS DA APRENDIZAGEM

A Psicologia da Aprendizagem se vale de teorias que procuram


explicar, através de diferentes enfoques, como os indivíduos aprendem, como se
expressa o desenvolvimento mental de uma pessoa e como se estruturam os modelos
institucionais.
É importante que o professor detenha o conhecimento sobre essas abordagens
teóricas para a melhoria da qualidade de ensino, bem como sobre utilização de
métodos, técnicas e recursos de instrução. Cada uma dessas abordagens apresenta
uma visão do processo ensino-aprendizagem.
Segundo Mizukami (1986), a corrente empirista fundamenta-se no princípio de
que o homem é considerado desde o seu nascimento como sendo uma “tábula rasa”,
uma folha de papel em branco, e sobre esta folha vão sendo impressas suas
experiências sensório-motoras. O conhecimento é uma cópia de algo dado no mundo
externo, ou seja, é uma “descoberta” e é nova para o sujeito que a faz. Portanto, o que
foi descoberto já se encontrava presente na realidade exterior.
O inatismo ou nativismo refere-se a hereditariedade do sujeito. Suas
características são determinadas desde o seu nascimento. A hereditariedade permite
argumentar que o sujeito é basicamente bom/mau/racional, ativo ou passivo em sua
relação com o meio. Presume-se nesta teoria que as propriedades básicas do sujeito
como a inteligência, personalidade, motivos, percepções, emoções, existam pré-
formadas desde o nascimento.

Teorias de Aprendizagem:

*Associacionista / Behaviorista - comportamentalista

Essas teorias se baseiam na similaridade das tarefas. A aprendizagem consiste


em gravar respostas corretas e eliminar as incorretas. A transferência da aprendizagem
ocorre à medida em que existem elementos idênticos em duas situações.
Segundo Barros (1998) os associacionistas têm como principal pressuposto
explicar que o comportamento complexo é a combinação de uma série de condutas
simples. Os precursores dessa corrente foram Edward L. Thorndike e B. F. Skinner e
suas respectivas teorias do comportamento reflexo ou estímulo e resposta.
Associacionismo x Aprendizagem - A aprendizagem estabelece novas relações que
tem como fundamento a lei da contiguidade (proximidade). De acordo com essa lei, as
associações se formam entre as experiências ou as tarefas realizadas pelo sujeito, entre
os elementos estímulo percebido ou resposta fornecida pelo próprio sujeito. Isso ocorre
quando esses elementos se encontram próximos uns dos outros quer no espaço ou no
tempo.

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Segundo Bill e Forisha (1978), o conceito de aprendizagem de Thorndike,
consiste na formação de laços associativos ou conexões que são os processos de
ligação de acontecimentos físicos, estímulos e mentais, percebidos ou sentidos. A
aprendizagem é o processo de selecionar e associar as unidades físicas e as unidades
mentais que são percebidas ou sentidas. Este processo é passivo e mecânico. O termo
“selecionar e associar”, é conhecido popularmente pelos educadores e psicólogos como
“ensaio e erro”.
A aprendizagem corresponde à atividade de gravar respostas corretas e eliminar
as incorretas ou desagradáveis, isto é, dentro de um processo de recompensas ou
opiniões. Este processo denomina-se “Lei de Efeito”.

Behaviorismo/Aprendizagem - O comportamento segundo a psicologia é


compreendido para poder prevê-lo e se possível modificá-lo.
Segundo Barros (1998), a relação estímulo-reposta é demonstrada através do
esquema de comportamento E-R, onde E significa estímulo ou conjunto de estímulos e
R significa reação ou resposta. Sobre este esquema pode-se dizer que um estímulo
provoca uma reação (ou resposta) ou uma “reação (ou resposta) é provocada por um
estímulo”.
Um aspecto central do comportamento como corrente associacionista é seu
anticonstrutivismo. Sua teoria é do tipo E-R (estímulo e resposta). Todo o
comportamento, por mais complexo que seja, é redutível a uma série de associações
entre elementos simples, ou seja, entre estímulos e respostas.
O comportamento tem sido definido como “o conjunto das reações ou respostas
que um organismo apresenta às estimulações do ambiente”. (Barros, 1998, p.19). O
comportamento é classificado em inato ou natural (invariável), adquirido ou aprendido
(variável) e em respondente ou operante.
No comportamento inato ou natural (invariável), os seres da mesma espécie
apresentam reações quando recebem determinado estímulo. Ao contrário no
comportamento adquirido ou aprendido (variável), as reações necessitam de
aprendizagem para se processarem quando o organismo recebe o estímulo.
A aprendizagem é definida como sendo a modificação do comportamento ou
aquisição de novas respostas ou reações. Toda a aprendizagem consiste em condicionar
respostas. A aprendizagem oral, da linguagem escrita por exemplo, são reações
apresentadas a vários estímulos devido a certas condições de experiência anterior
(Barros 1998).
Segundo Gates citado por (Barros 1998, p.25), exemplifica com muita clareza
como se dá a aprendizagem pelo processo de condicionamento: quando se mostra a
uma criança uma folha, esta reage fazendo a representação mental do objeto. Se, ao
mesmo tempo em que o objeto é mostrado, se disser a palavra “folha”e se repetir esta
certo número de vezes, a criança chegará a pensar no objeto apenas por ouvir a
palavra. Neste caso aprende a significação da linguagem falada. Mais tarde, podemos
mostrar o objeto enquanto a criança olha a palavra impressa.
Tempos depois, o objeto, um retrato do objeto, a palavra falada, escrita ou
impressa podem se ligar às palavras francesas “la feuille”, e reagindo aos estímulos
simultâneos, a criança chegará a pensar no objeto ao ver a palavra francesa.
Na concepção behaviorista, educar seria estabelecer “condicionamentos” na
infância. Skinner, em seus experimentos, observou que uma reação é repetida quando
é seguida de um efeito agradável. Edward Lee Torndike formulou a Lei do Efeito que
considera que o organismo tende a repetir a reação do efeito agradável. Este efeito que
ocorre após o sujeito apresentar uma reação é chamado de reforço positivo. E, de
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acordo com Barros (1998), é um requisito necessário para que ocorra a aprendizagem.
É neste sentido que o sujeito do behaviorismo é passivo, e a aprendizagem não é uma
qualidade intrínseca do organismo, mas necessita ser impulsionada a partir do
ambiente.
Skinner (apud Barros 1998), conceitua os reforços como eventos que tornam
uma reação mais frequente, e aumentam a probabilidade de sua ocorrência. Os
reforços se classificam em positivos e negativos. Os reforços positivos consistem na
apresentação de estímulos, no acréscimo de um evento à situação. Os reforços
negativos por sua vez, consistem na remoção de um evento. Nestes dois tipos de
reforços, o efeito será o mesmo e a probabilidade da resposta será aumentada.
Os reforços positivos se constitui na apresentação de estímulos, no acréscimo de
alguma coisa a situação e os reforços negativos é a remoção de alguma coisa da
situação. Classificam-se também em primários e secundários. Nos reforços primários a
apresentação de estímulos é de importância biológica, e o reforço secundário é a
apresentação de um estímulo, que antes era neutro, passa a associar-se a estímulos de
importância biológica e sua propriedade reforçada foi adquirida como, por exemplo, o
elogio, o sorriso, o dinheiro, etc.
O organismo humano seria então, controlado pelas contingências primárias
(naturais), e nisso consiste o processo de educação ou treinamento social, isto é,
aumentar as contingências de reforço e sua frequência utilizando-se de sistemas
organizados, pragmáticos, que lançam mão de reforços secundários associados aos
primários (naturais). A finalidade dessa associação é de obter determinados
comportamentos preestabelecidos, seja com maior ou menor rigor. O objetivo do
reforço é portanto, tornar uma resposta frequente, ou seja, evitar a extinção (remoção)
de uma resposta do comportamento do sujeito.

*Aplicação no Processo Ensino-aprendizagem

Segundo Mizukami (1986), no ensino-aprendizagem os comportamentos dos


alunos são listados e mantidos por condicionamentos e reforçadores arbitrários tais
como elogios, graus, notas, prêmios, reconhecimento do professor e colegas, prestígio,
etc.; os mesmos estão associados com uma classe reforçadora mais generalizadas
como o diploma, vantagens da futura profissão, a aprovação final do curso, status, etc.
O ensino para Skinner, corresponde ao arranjo de contingências para uma
aprendizagem eficaz. Este arranjo depende de elementos observáveis na presença dos
quais o comportamento ocorre, seja uma resposta, um evento antecedente um evento
consequente (reforço) e fatores contextuais. Para este mesmo autor, de acordo com a
teoria do reforço, é possível programar o ensino para qualquer comportamento, como o
pensamento crítico e criatividade, desde que seja possível definir previamente o plano
final desejado.
A proposta de aprendizagem será estruturada de maneira a dirigir os alunos
pelos caminhos adequados que conduzirão ao comportamento final desejado. Ainda
segundo Skinner, o comportamento humano é modelado e reforçado, o que implica em
recompensa e reforço. Para
proceder a análise comportamental do ensino, é necessário considerar os elementos do
ensino, bem como as respostas do aluno, pois o ensino é composto por padrões de
comportamento, seguindo objetivos prefixados (Mizukami, 1986).
No comportamentalismo, o homem é considerado como uma consequência das
influências do meio ambiente, é considerado como produto do meio (Mizukami, 1986) e
este pode ser manipulado. Para que a formulação das relações entre o organismo e seu
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meio ambiente sejam adequadas, é necessário considerar três aspectos: a ocasião na
qual a resposta ocorreu, a própria resposta e as consequências reforçadas. A relação
entre esses elementos constituem as contingências de reforço.
Skinner (1986), considera que qualquer ambiente físico ou social, deve ser
avaliado de acordo com seus efeitos sobre a natureza humana. Para este autor, o
conhecimento tem como base a experiência planejada, sendo resultado direto da
experiência. Sua preocupação, portanto, não é com a aprendizagem, e sim com o
comportamento observável.
A educação está intimamente ligada à transmissão cultural, pois deverá
transmitir os conhecimentos assim como os comportamentos éticos, práticos e sociais.
São habilidades consideradas básicas para a manipulação e controle do
mundo/ambiente (cultural, etc). A educação tem como objetivo básico promover
mudanças desejáveis no sujeito. Essas mudanças implicariam na aquisição de novos
comportamentos e também na modificação dos comportamentos já existentes
(Mizukami, 1986).
A escola direciona os comportamentos dos alunos segundo determinadas
finalidades sociais. O conteúdo pessoal será socialmente aceito. Os conteúdos
programáticos serão estabelecidos e ordenados numa sequência lógica e psicológica. É
matéria de ensino apenas o que é redutível ao conhecimento observável e mensurável.

*Papel do professor e do aluno

 Papel do Professor - Em uma abordagem behaviorista (comportamentalista), o


professor é considerado transmissor de conhecimento ao aluno e administra as
condições da transmissão do conteúdo. Nesta teoria o professor é considerado
um planejador e um analista de contingências. O professor deverá decidir os
passos de ensino, os objetivos intermediários e finais com base em critérios que
fixam os comportamentos de entrada e os comportamentos que o aluno deverá
exibir durante o processo de ensino.
O professor tem uma função de arranjar as contingências de reforço de maneira
a possibilitar o aumento da probabilidade de ocorrência de uma resposta a ser
aprendida. Ela deverá dispor e planejar melhor as contingências desses reforços
em relação às respostas. O professor acaba por ser um elo de ligação entre a
verdade científica e o aluno. O professor tem também a função de garantir a
eficácia da transmissão do conhecimento, não importando as relações afetivas e
pessoais dos sujeitos envolvidos no processo ensino aprendizagem.
Sua tarefa é modelar respostas apropriadas aos objetivos instrucionais, sendo
que a principal é conseguir um comportamento adequado.
Ao mestre cabe questionar cada conteúdo a ser apresentado. O aluno é incapaz
de assimilar algo novo. Uma vez que o sujeito é considerado totalmente
determinado pelo mundo do objeto ou meio físico e social. Em uma sala de aula,
o mundo é representado pelo professor que acredita que somente ele pode
produzir e transferir novos conhecimentos para o aluno. Este processo, portanto,
não considera o que o estudante sabe. A nível de abstração ou formalização,
tudo pode ser transferido ou transmitido para o aluno (Becker, 1989).

 Papel do aluno - Em uma abordagem behaviorista o aluno não possui qualquer


conhecimento. A capacidade de conhecimento do aluno vem do meio
físico/social. O aluno recebe, escuta, escreve e repete as informações tantas
vezes quanto forem necessárias, até acumular em sua mente o conteúdo que o
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professor repassou. O aluno aprende se executar os conteúdos que o professor
determinar. Ele é responsivo, aprende se o professor ensinar (Becker, 1989).
Com base nesta informação pode-se dizer que o professor transmite e ensina
todo o conteúdo em questão ao aluno. O aluno não cria nem inventa, reproduz o
que aprende.

*Tarefa prescrita do professor e do aluno no desenvolvimento ensino-


aprendizagem

 Tarefa prescrita do professor


• Transmite o conhecimento;
• Determina o objetivo;
• Determina o ritmo do ensino;
• Fixa os comportamentos finais do aluno;
• Avalia o aluno segundo os objetivos alcançados.

 Tarefa prescrita do aluno


• Escuta o professor;
• Repete as informações transmitidas pelo mestre, tantas vezes quanto
forem necessárias, para aprender o conteúdo transmitido;
• Questiona pouco (ou quase nada);
• Procura repetir o conhecimento do professor (na maioria das vezes
utilizando-se do mesmo vocabulário);
• É pouco criativo.

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

O aluno será avaliado ao atingir os objetivos propostos, isto é, quando o


programa for conduzido até o final de maneira correta. A avaliação será ligada aos
objetivos estabelecidos. Pode-se fazer pré-testagem, com a finalidade de conhecer os
comportamentos prévios e a partir daí, planejar e executar as etapas seguintes do
processo ensino-aprendizagem. Os alunos são modelados à medida que tem
conhecimento dos resultados de seu comportamento. No final do processo ocorre a
avaliação com o objetivo de medir os comportamentos finais.

*Teorias de Aprendizagem: Gestalt

Esta teoria Tem com base a representação global de uma situação. As escolas da
corrente dos teóricos de campo são representadas na Gestalt e suas teorias são
centradas sobre a atividade do indivíduo.
Segundo Barros (1988), a Gestalt é representada pelos alemães Wertheimer,
Koffka e Köhler, e para os representantes da corrente Gestáltica (psicologia da forma) a
atividade e o comportamento do sujeito são determinados de acordo com o modo pelo
qual vê e compreende a estrutura dos elementos da situação problema. Para Koffka a
percepção e pensamento não podem ser reduzidos a um acúmulo de sensações ou
associações individuais mas, são determinadas pela estrutura global.
Para Pozo (1988), o paradigma da aprendizagem consiste na solução de
problemas que tem como princípio o todo (a globalidade) para as partes (o todo não
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pode ser compreendido pela separação das partes) e na organização dos padrões de
percepção. Em Pozo (1998), na Gestalt, as ideias de Köhler (1929) são opostas aos
princípios do associacionismo (ou anticonstrutivista). Esta escola não aceita a
concepção do conhecimento como a soma de partes preexistentes. A unidade mínima
de análise é a estrutura ou a globalidade.
Rejeita a ideia de que o conhecimento tenha natureza cumulativa ou
quantitativa, de tal maneira que qualquer atividade ou procedimento poderia
transformar-se em várias partes aleatoriamente separadas. A insistência na estrutura
global dos fatos e dos conhecimentos concede maior importância à compreensão do
que a simples acumulação de conhecimentos. Isso fez com que Wertheimer em 1945
distinguisse o pensamento reprodutivo do pensamento produtivo. O pensamento
reprodutivo se constitui de conhecimentos previamente adquiridos à situações novas e
o pensamento produtivo por sua vez, implica no descobrimento de uma organização
perceptiva ou conceitual, com relação ao problema a ser tratado, isto é, a compreensão
real do problema, como compreender o problema que é vantajoso em relação a simples
aprendizagem mnemônica ou reprodutiva. Isso porque essa compreensão resulta mais
fácil de ser generalizada a outros problemas estruturalmente semelhante.
Para este autor, obter a solução produtiva de um problema é algo fundamental
para a compreensão do mesmo. Para que ocorra uma solução produtiva de um
problema, é necessário captar aspectos estruturais da situação além de elementos que
a compõem (Pozo, 1998).

Gestalt x Aprendizagem - O psicólogo Wertheimer (1945) utiliza-se da história da


ciência como área de estudo da psicologia do pensamento e da aprendizagem. Este
autor considera que cada um dos mecanismosde aprendizagem associativa corresponde
a um mecanismo alternativo nas concepções gestálticas (Pozo 1998).
Wertheimer considera ainda que a associação é como a compreensão da relação
estrutural entre uma série de elementos que necessitam uns dos outros, auxiliando
dessa forma a captar as relações entre os elementos dentro da estrutura. O “ensaio e
erro” deixaria de ser aleatório (incerto), para se converter em uma comprovação
estrutural de hipóteses significativas. O aluno aprende reinterpretando seus erros e
acertos, compreendendo as razões estruturais que o tornaram possível.
A compreensão de um problema para Wertheimer está vinculada a uma tomada
de consciência de seus aspectos estruturais ou “insight”, que significa “achar
subitamente a solução para uma situação difícil”, “perceber relações entre os elementos
de uma situação”. O “insight” só é possível quando uma situação de aprendizagem é
arranjada de maneira que se possa observar todos os seus aspectos. Se houver a
omissão de qualquer um dos aspectos, não ocorrerá o “insight”, portanto, não haverá
solução.
Se um problema tiver várias estruturas e alguma delas resultar mais imediata ou
mais fácil para que o sujeito perceba a reestruturação dessas estruturas vai se
apresentar mais facilmente, mais imediata. Segundo Barros (1998), na teoria da Gestalt
o sujeito tem várias formas de aprendizagem, que são: gradação, diferenciação,
assimilação e redefinição.

15
A aprendizagem por gradação implica em estabelecer um
relacionamento sucessivo entre as várias partes de algo percebido. Kölher, em seus
experimentos, demonstrou que o aluno quando do início de sua aprendizagem, percebe
a forma total, a Gestalt das coisas. O autor aconselha que o ensino inicial para os
alunos, deve ser composto de frases e palavras completas oportunizando o
estabelecimento deste tipo de ralação. Em uma frase completa, o aluno percebe as
sílabas e as letras.

O processo de diferenciação consiste em destacar, no todo, uma parte do


objeto que se está percebendo. Isso ocorre quando um elemento é apresentado em
diferentes situações, permitindo que a mente o destaque como sendo o mais notado
entre os demais, ou como sendo uma figura, permitindo que as partes restantes
formem o fundo. Este princípio é chamado de princípio da unidade dentro da variedade
de diferentes situações, sendo uma condição de extrema importância para que se
diferencie um elemento entre os demais. Como exemplo, pode-se apresentar no início
da aprendizagem uma mesma palavra em várias frases de modo que a mesma se
destaque. Como por exemplo:

Lili tem uma pata; A pata nada no lago; As penas da pata são brancas.

Ainda no processo de diferenciação, existe um segundo princípio que permite o


destaque de um elemento da situação total denominado princípio da variedade dentro
da unidade. No ensino da leitura, introduz-se aos poucos alguns fatores novos entre os
já conhecidos. Num texto por exemplo aparece, dentro de sentenças já conhecidas e
muito repetidas, algumas formas gráficas novas. Como por exemplo:

Lili tem um boné, Lalau tem uma boneca; olhe a bola, olhe o bolo; olhe o papel,
olhe o papelão.

O processo de redefinição consiste em perceber um mesmo estímulo de modo


inteiramente novo, segundo a situação total ou a forma que ele se apresenta, ou seja,
sua posição em relação aos demais estímulos ou ainda segundo a natureza dos outros
estímulos componentes da situação em que ele nos é apresentado. Grisi esclarece este
processo quando apresenta um exemplo que mostra formas diferentes de perceber um
simples ponto “.” . Para ele, o ponto pode ser definido como ponto final em uma
sentença, como um pingo da letra “i” ou ainda como um sinal de abreviatura
(Barros,1998).

16
O processo de assimilação segue ao de diferenciação, onde uma parte da
situação total é destacada pelo processo de diferenciação, tornando-se figura. Esta
figura pode se reunir às outras, constituindo novas estruturas pelo processo de
assimilação. Em relação a leitura, o aprendizado por assimilação ilustra-se pelo fato de
que o aluno no início de sua aprendizagem por assimilação é capaz de escrever uma
palavra nova, a palavra camelo, por exemplo por ter aprendido anteriormente as
palavras boneca, menino e lobo.

A Gestalt defende o caráter inato das leis da percepção e da organização do


conhecimento e, baseia-se na categorização direta dos objetos, quase de forma
imediata. O pensamento encontrasse mediado por estruturas de conceitos de natureza
e origens muito diferentes. A tomada de consciência ou insight adquire dimensões
diferentes em um e outro caso. A tomada de consciência conceitual requer uma
reflexão a respeito do próprio pensamento que, necessariamente, não está presente no
insight perceptivo. O sujeito somente pode tomar consciência de algo que já está
presente nele, embora se desconheça as etapas precedentes (Pozo,1998).
Essa teoria contribui com alguns conceitos que embora em sua formulação inicial
sejam vagos ou pouco operacionais, lembram conceitos nucleares de uma teoria de
aprendizagem alternativa ao associacionismo. Assim, ela estabelece diferenças entre o
pensamento reprodutivo e produtivo (consiste na compreensão real do problema), e em
consequência entre a aprendizagem mnemônica e compreensiva considerando a
aprendizagem compreensiva um produto do insight, ou reestruturação súbita do
problema. Esta estruturação está vinculada ao conceito de equilíbrio que é desenvolvido
por Piaget.

*Papel do professor e papel do aluno

 Papel do professor - na Gestalt, o ensino é centrado no aluno e o professor


tem como função dar assistência ao aluno de forma a não transmitir o
conhecimento. Ele deve ser um facilitador da aprendizagem, que consiste na
compreensão, aceitação e confiança em relação ao aluno. Deve aceitar o aluno
como ele é. O professor deve possuir um estilo próprio para “facilitar” a
aprendizagem. Sua intervenção deverá ser a mínima possível, devendo criar um
clima favorável de aprendizagem. O conteúdo não deve ser repassado, uma vez
que ele é adquirido da experiência vivida do aluno. Para o professor, qualquer
ação que o aluno decide fazer deve ser considerada como boa e instrutiva. Cabe
ao professor auxiliar a aprendizagem do aluno de maneira a despertar o seu
próprio conhecimento (Becker, 1992).

 Papel do Aluno - o aluno deve ser responsabilizar pelos objetivos referentes a


aprendizagem que lhes são significativos. Ele é compreendido como um ser que
se auto desenvolve e o processo de aprendizagem deve facilitar este
desenvolvimento. O aluno aprende por si mesmo, encontrando o seu próprio
caminho. Cabe aos alunos pesquisar os conteúdos, criticar, aperfeiçoar ou até
mesmo modificá-los (Becker, 1992).

*Tarefa Prescrita do Professor e do Aluno no desenvolvimento Ensino –


Aprendizagem
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 Tarefa prescrita do professor
 organizar o conteúdo do todo para as partes, isto é, do geral para o particular;
 divisão do problema em problemas menores para facilitar a compreensão do
aluno;
 definição clara dos objetivos;
 apresentar o mesmo problema sob diferentes formas e
 intervir o mínimo possível.

 Tarefa prescrita do aluno


 analisar seus erros, encontrando assim a solução e
 avaliar seu processo de aprendizagem (autoavaliação).

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

A avaliação só tem sentido como uma autoavaliação e deve estar de acordo com
os padrões prefixados pelos alunos. Os alunos aprendem o que desejam aprender. Não
existe qualquer padronização. Ele deverá assumir a responsabilidade pelas formas de
controle de sua aprendizagem, definindo e aplicando critérios para avaliar se os
objetivos foram atingidos. Após esta autoavaliação o professor faz a sua avaliação de
maneira a perceber se os objetivos foram atingidos atribuindo ao aluno um conceito.

*Teorias de Aprendizagem: representativas, cognitivas e aprendizagem


social

*Teorias Representativas

As teorias representativas centram-se sobre o estabelecimento de uma


significação. Na obra de Flávell (1975), encontra-se uma coletânea de ideias elaboradas
por Piaget, que permite dizer que a representação tem início no sujeito quando ele
consegue diferenciar entre o “significante” e o “significado”. Entende-se por significante
uma palavra, uma imagem que representa internamente o significado ausente. O
significado é o conceito desta palavra ou imagem. Este é um requisito indispensável
para que exista a representação.
Piaget, define a representação como sendo a “capacidade de evocar uma
imagem simbólica, um objeto ausente ou a ação que não foi realizada” Batro (1978).
Para Richard (1990) as representações são construções que constituem o
conjunto das informações levadas em conta pelo sistema cognitivo na realização da
tarefa. Já segundo Rosa (1998), a representação é uma forma estrutural que organiza
os conhecimentos.

A Representação x Aprendizagem - a aprendizagem acontece quando se


estabelece uma relação significativa entre os elementos que constituem uma situação.
A transferência da aprendizagem ocorre quando existe similaridade (semelhança) entre
as situações. A aprendizagem acontece quando o sujeito consegue organizar ou
estruturar uma dada situação.
18
* papel do professor e do aluno

 Papel do professor - O professor tem como função apresentar ao aluno


problemas de modo que este identifique e diferencie o significante do
significado. Estes problemas devem apresentar-se de tal maneira que o aluno a
partir de suas experiências anteriores, possa evocar (lembrar) os elementos
ausentes. Estes elementos contribuem para a estruturação do problema.
O professor deve conhecer as experiências anteriores do aluno para observar
com profundidade suas representações com relação às atividades ligadas à ação
(execução do problema). A partir do momento que o aluno estruturar e
conceituar um problema, estará aprendendo.

 Papel do aluno - o aluno terá como atribuição, a resolução de problemas a


partir da seleção de elementos que são úteis e estão relacionados à ação. A
seleção de elementos necessários à formação estrutural do problema dependerá
da experiência vivida pelo aluno.
A facilidade ou dificuldade na diferenciação do significante e significado e,
consequentemente, a formação do conceito durante a aprendizagem são
próprias do aluno em particular. A resolução de um problema pode seguir
caminhos diferentes.

*Tarefa prescrita do professor e do aluno

 Tarefa prescrita do professor

O professor deve propor um problema que:


• direcione o aluno a buscar elementos, conforme sua necessidade;
• propicie a identificação e diferenciação entre significante e significado;
• desperte no aluno a utilização de suas experiências anteriores para evocar
os elementos ausentes;
• capacite o aluno a estruturá-lo e
• tenha caminhos diferentes que leve à solução.

 Tarefa prescrita do aluno

O aluno deve:
• selecionar os elementos que são úteis à estruturação do problema;
• agrupar os elementos selecionados aos seus esquemas disponíveis;
• diferenciar significante de significado;
• atribuir significado aos elementos e
• atribuir o conceito ao significado da situação e interpretar o conjunto da
mesma.

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

19
A avaliação deve ser feita através da observação e da capacidade do aluno de
diferenciar significante e significado. Deve-se observar a capacidade do aluno de
estruturar uma situação e os caminhos que percorre para buscar o resultado, que é a
aprendizagem.

*Teorias Cognitivas

O processamento da informação ou teoria cognitiva aborda o estudo da mente e


da inteligência em termos de representações mentais e dos “processos centrais” do
sujeito, ambos dificilmente observáveis. Nesta teoria, o conhecimento consiste em
integrar e processar as informações.
Segundo Mizukami (1986), uma abordagem cognitiva envolve vários aspectos
tais como, estudar cientificamente a aprendizagem como sendo um produto do
ambiente das pessoas ou de fatores que são externos a elas. Estuda-se como as
pessoas lidam com os estímulos ambientais, organizam dados, sentem e resolvem
problemas, adquirem conceitos e empregam símbolos, constituindo, assim, a
investigação como um todo.
Os teóricos cognitivistas se opõem à aprendizagem behaviorista que parte do
princípio de que o aluno consegue o mesmo entendimento daquele que transmite o
conhecimento, uma vez que eles buscam pesquisar a mente humana. E para tanto
estudam os mecanismos subjacentes no comportamento humano.
Segundo Wadsworth (1993), Piaget define a inteligência como a adaptação que
tem como característica o equilíbrio entre o organismo e o meio, que resulta na
interação entre o processo de assimilação e acomodação, que é o motor da
aprendizagem. Este autor apresenta o conceito do processo de assimilação e
acomodação. O processo de assimilação consiste em uma mudança quantitativa no
sujeito, mediante a incorporação de elementos que vêm do meio para as suas
estruturas mentais já existentes, o que implica no seu desenvolvimento intelectual. O
processo de acomodação, consiste em uma mudança qualitativa na estrutura intelectual
(esquema) do sujeito pelas quais se adapta ao meio. Ele cria novas estruturas ou altera
às já existentes em função das características de novas situações. A assimilação e a
acomodação juntas, justificam a adaptação.
As estruturas do conhecimento são como os esquemas, vão se tornando mais
complexos sobre o efeito combinado dos mecanismos da assimilação e acomodação.
Comenta ainda que o sujeito ao nascer não possui qualquer estrutura de conhecimento
e sim reflexas como sucção e um modo de emprego destes reflexos para a elaboração
dos esquemas que irão desenvolver.
Segundo Mizukami (1986) a aquisição do conhecimento cognitivo ocorre sempre
que uma nova informação é assimilada à estrutura mental existente (esquema) que ao
fazer esta acomodação, modifica-se permitindo um processo contínuo dos mecanismos
internos. Nos vários trabalhos de Piaget, encontra-se o desenvolvimento da inteligência
definido como um processo contínuo, e que as mudanças no desenvolvimento
intelectual, são gradativas, e os esquemas são construídos ou modificados de forma
gradual. Então define o crescimento cognitivo, e julga necessário dividir o
desenvolvimento intelectual em estágios: da inteligência sensório motora (0-2 anos), do
pensamento pré-operacional (2-7 anos), das operações concretas (7-11 anos) e das
operações formais (7-15anos).
A primeira forma de inteligência é uma estrutura sensório-motora. Durante este
estágio, o comportamento é basicamente motor. Não há lógica. O sujeito não
20
representa e não “pensa” conceitualmente. Esse estágio torna-se estável entre os 18 e
24 meses.
O estágio do pensamento pré-operacional, caracteriza-se pelo desenvolvimento
da linguagem e outras formas de representação, e também pelo rápido
desenvolvimento conceitual. O raciocínio, nesse estágio, é pré-lógico ou semiológico. O
que o sujeito adquire através da ação, irá aprender a fazer em pensamento.
No estágio das operações concretas, o sujeito faz novas modificações,
desenvolve a habilidade de aplicar o pensamento lógico a problemas concretos. Esta
fase precede a anterior e seu equilíbrio acontece ente os 7 e 11 anos.
No estágio das operações formais, as estruturas cognitivas alcançam seu nível
mais elevado de desenvolvimento; os sujeitos tornam-se capazes de aplicar o raciocínio
lógico a todas as classes de problemas, ou seja, aplicam não mais aos objetos
presentes, mas aos objetos ausentes e hipotéticos.
O desenvolvimento das estruturas mentais é um processo coerente de sucessivas
mudanças qualitativas das estruturas cognitivas (esquemas). A estrutura e a mudança
lógica são resultantes da estrutura precedente. Para Wadsworth (1993), o
desenvolvimento da inteligência acontece desde o nascimento até a fase adulta. As
estruturas da inteligência e os esquemas, estão em constante desenvolvimento `a
medida que o sujeito age de forma espontânea sobre o meio e assimila e se acomoda a
arranjos de estímulos do meio ambiente. Este autor considera quatro fatores
relacionados ao desenvolvimento cognitivo:

• maturação, interação social, experiência ativa, e uma sucessão geral de


equilíbrio.
• maturação: são os processos neuropsicológicos que o sujeito passa para
adquirir a aprendizagem.
• interação social: é o relacionamento com a imposição do nível operatório
das regras, valores e signos da sociedade na qual o sujeito se desenvolve,
e com as interações realizadas entre os sujeitos que compõem o grupo
social;
• experiência ativa: segundo Mizukami (1986), este fator pode acontecer
sob três tipos:

a) devido ao exercício, resultando na consolidação e coordenação de reflexos


hereditários, o exercício de operações intelectuais aplicadas ao objeto;
b) b)devido à experiência física, que comporta ações sobre o objeto para
descobrir as propriedades que são abstraídas desses objetos, e resultado da
ação está vinculado ao objeto;
c) a experiência lógico-matemática, implica na ação sobre os objetos, de forma
a descobrir propriedade que são abstraídas destas pelo sujeito. Consistem em
conhecimentos retirados das ações sobre os objetos típicos do estágio
operatório formal, que é o resultado da equilibração, cuja condição para obter
é a interação do sujeito com o meio. Os fatores relacionados ao
desenvolvimento cognitivo como a maturacão, interação social experiência
ativa, não são suficientes para explicar o desenvolvimento cognitivo
necessitando segundo Piaget, de um quarto fator, a equilibração.
d) Equilibração: é o mecanismo auto-regulador necessário para assegurar uma
eficiente interação do sujeito com o meio ambiente. É o processo de

21
passagem do desequilíbrio para o equilíbrio, cujos os instrumentos são a
assimilação e a acomodação.

Para Piaget a teoria epistemológica busca o saber como, quando e por que o
conhecimento se constrói, cuja repercussão incide na área educacional. Sua teoria
segundo Mizukami (1986) é predominantemente interacionista e seus postulados sobre
o desenvolvimento da autonomia, cooperação, criatividade e atividades centradas no
sujeito, influenciaram práticas pedagógicas ativas centradas nas tarefas individuais, na
solução de problemas, na valorização do erro dentre outras orientações pedagógicas.
Na área de Informática, esta teoria contribui para modelagens computacionais na
área de Inteligência Aplicada (IA), no desenvolvimento de linguagens e dentre outras
modalidades, no ensino auxiliado por computador sob a orientação construtivista.

*Ensino Aprendizagem

Segundo Mizukami (1986), que se baseia nas ideias de Piaget, o ensino numa
concepção cognitivista que procura desenvolver a inteligência, deverá em primeiro lugar
priorizar as atividades do sujeito considerando-o inserido em uma situação social. A
concepção piagentiana de aprendizagem tem caráter de abertura e comporta
possibilidades de novas indagações, assim como toda a sua teoria e epistemologia
genética.
A aprendizagem consiste em assimilar o objeto a esquemas mentais. O aluno
aprende dependendo da esquematização presente, do estágio e da forma de
relacionamento atual com o meio. Como consequência, o ensino deve assumir várias
formas durante o seu desenvolvimento. Assim a aprendizagem ocorre com base em
tentativas e erros através da pesquisa feita pelo aluno, eliminando-se as fórmulas,
nomenclaturas, definições, etc. O aluno parte de suas próprias descobertas, ele irá
compreender o objetivo principal do ensino, que são os processos e não os produtos de
aprendizagem. A aprendizagem só ocorre a partir do momento em que o aluno elabora
o seu próprio conhecimento.
O ensino deve levar progressivamente ao desenvolvimento de operações,
evitando a formação de hábitos que constituem a fixação de uma forma de ação, sem
reversibilidade e associatividade. O desenvolvimento seria os mecanismos gerais do ato
de pensar e conhecer, inerente à inteligência. O ensino dos fatos devem ser
substituídos pelo ensino de relações, desenvolvendo a inteligência, uma vez que a
inteligência é um mecanismo de fazer relações. Nessa abordagem o ensino deve estar
baseado em proposições de problemas. É necessário, então, que se considere o
“aprender a aprender” (Mizukami, 1986,p.77).

*Papel do professor e do aluno

 Papel do Professor - o professor tem como função criar situações que


propiciam condições que possam estabelecer reciprocidade intelectual e cooperação
ao mesmo tempo moral e racional. Ele deve evitar a rotina, e a fixação de respostas
e hábitos. Ele deve também propor problemas ao aluno, sem que lhes ensine a
solução. Deve provocar desequilíbrios, desafios, mas para tanto é importante que
conheça o aluno. A orientação, a autonomia e a ampla margem de autocontrole aos
22
alunos deve ser concedida pelo professor. O professor deve assumir o papel de
mediador, investigador, pesquisador, orientador e coordenador. É necessário sua
convivência com os alunos para observar os seus comportamentos, promovendo
diálogos com eles, perguntando e, sendo interrogado; realizar com os alunos suas
próprias experiências para auxiliar na sua aprendizagem e desenvolvimento.

 Papel do aluno - o aluno deve ser ativo e observador. Ele deve experimentar,
comparar, relacionar, analisar, justapor, encaixar, levantar hipótese, argumentar,
etc. Cabe ao aluno encontrar a solução dos problemas que lhes são apresentados.

*Tarefa prescrita do professor e do aluno no desenvolvimento ensino-


aprendizagem

 Tarefa prescrita do professor

• criar condições propícias ao estabelecimento da reciprocidade intelectual;


• propor problemas que não exijam uma resposta única, evitando a fixação,
rotina e hábitos; o problema deve ser construído de maneira que o aluno
tente e consiga resolvê-lo, sem que lhe ensine a solução;
• provocar desequilíbrios;
• observar o comportamento do aluno, através de conversas e perguntas,
possibilitando o aluno fazer perguntas que possam auxiliar na
aprendizagem;
• construir os dispositivos de partida que possibilitem a apresentação de
problemas úteis ao aluno e,
• deve organizar contra-exemplos que levem o aluno a reflexão.

 Tarefa prescrita do aluno

• ser observador;
• ser ativo;
• experimentar;
• comparar e
• relacionar.

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

Na avaliação, deve-se proceder de forma a verificar se o aluno adquiriu noções,


conservações, se realizou operações, relações, etc. O rendimento do aluno pode ser
avaliado de acordo com a sua aproximação a uma norma qualificativa pretendida. Uma
das formas que se pode verificar o rendimento é também através de reproduções livres,
sob diferentes formas e ângulos, através explicações práticas, explicações causais,
expressões próprias, relacionamentos, etc.

23
*Teoria de Aprendizagem Social

A teoria de aprendizagem social, segundo Fromm (1987) versa sobre o estudo da


observação e a imitação feita pelo sujeito. Na década de 60, Albert Bandura realizou
pesquisas com crianças que incidiam sobre a imitação. Ele dedicou-se à pesquisa e à
teorização sobre a aprendizagem social por observação. Nesta abordagem, o
comportamento de um observador se modifica em consequência da exposição do
comportamento de um modelo.
A este tipo de aprendizagem o autor denominou de “modelação”. O modelo
utilizado pode ser da vida real como também um modelo simbólico, observado em um
filme na televisão, no rádio, livros e revistas, etc. Na aprendizagem por observação, os
comportamentos específicos exibidos pelo modelo são chamados de pistas de
modelação. Para o autor os sujeitos aprendem simplesmente olhando o que o modelo
faz, embora não procurem ativa e espontaneamente imitá-lo.
A aprendizagem por observação ocorre em três estágios: exposição, aquisição e
aceitação. Durante a exposição, o observador se vê diante de pistas de modelação. A
aquisição por sua vez, é comprovada pela capacidade do observador de reproduzir ou
evocar os comportamentos do modelo a que foi exposto e, aceitação, que é traduzida
no uso, pelo observador das pistas de modelação adquiridas, quer na imitação direta do
comportamento do modelo, quer na contra imitação direta, que consiste em evitar o
comportamento modelado.
O comportamento específico observado pode generalizar-se a tipos semelhantes
de comportamentos e tratar ainda dos processos de desinibição e inibição. Sendo o
processo de inibição a não aceitação generalizada e o processo de desinibição, a
aceitação generalizada para uma classe geral de comportamentos, a partir de um
comportamento modelado específico. Na aprendizagem social por observação,
destacam-se quatro processos: atenção, retenção, reprodução motora e
motivacional.
No processo de atenção, o sujeito deve prestar atenção ao modelo e aos
aspectos críticos do comportamento deste mesmo modelo. Na retenção, o
comportamento do modelo necessita ser codificado ou simbolicamente representado e
retido na memória do observador.
A reprodução motora é responsável pela cópia fiel dos movimentos do modelo, e
o processo motivacional, atua sob a forma de reforço da resposta aprendida que pode
ser externo (como exemplo, uma recompensa dada ao observador), vicário (um modelo
recompensado ou punido).
Este reforço, pode ser visto em um determinado programa de televisão, que se
transfere ao observador ou do tipo conhecido como auto reforço, que pode-se
exemplificar como no caso da satisfação pessoal em que o observador experimenta
após imitar o comportamento observado. A noção de auto eficácia ultimamente passou
a ocupar a posição central. Na teoria cognitiva de Albert Bandura, a auto eficácia
refere-se à convicção de que o sujeito tem que pode executar algo com êxito e à
confiança em sua capacidade de alcançar objetivos em situações específicas graças
às próprias ações.
A auto eficácia inclui também a percepção generalizada do sujeito capaz de
controlar o ambiente como uma percepção específica de sua capacidade de executar
uma tarefa particular. Qualquer aprendizagem ou modificação de comportamento
segundo o autor só é bem sucedida quando se cria ou fortalece a crença do sujeito em
sua eficácia pessoal. Ele coloca ainda, como indispensável que o sujeito conte com as

24
capacidades necessárias para a execução da tarefa e com motivação ou incentivo para
fazê-la.
As mudanças no comportamento do sujeito são determinadas pelos perceptos de
sua auto eficácia. Nessas mudanças, considera-se as ações que o sujeito procura
executar, o esforço dedicado a essas ações, sua persistência, considerando obstáculos,
pensamentos e sentimentos. A auto eficácia é influenciada de modos diferentes como:
concretização do desempenho, experiências vicárias, indução verbal e ativação
emocional.

• concretização do desempenho, isto é, completa efetivamente a tarefa real, que


constitui a principal fonte de elevação ou redução de nossas expectativas de
autoeficácia;
• experiências vicárias, consiste na observação de desempenhos de outros sujeitos;
• indução verbal, consiste em levar outra pessoa, oralmente ou por escrito à acreditar
de que pode ser bem sucedida e
• ativação emocional, trabalhar as pistas internas, de caráter afetivo ou fisiológico,
que o sujeito usa para julgar seu entusiasmo ou sua vulnerabilidade em relação a
determinados desempenhos.

*Papel do professor e do aluno

 Papel do professor - na teoria de aprendizagem social, o professor tem como


função apresentar um modelo que pode ser real ou simbólico. Ele deve criar ou
propor um modelo que mostre, com evidência, as pistas de modelação (os
comportamentos específicos). Este modelo proposto deve ser codificado ou ser
simbolicamente representado para facilitar a memorização do aluno. O professor
pode premiar, punir, motivar ou incentivar o comportamento do aluno (do
modelo).

 Papel do aluno - na aprendizagem social, o aluno tem como papel principal


aprender mediante a apresentação de um modelo que pode ser real ou
simbólico. Ele desempenha a função de observador, fixando sua atenção nos
aspectos críticos do modelo, ou seja, retendo os comportamentos específicos
desse modelo na sua memória. Este comportamento é aprendido através da
imitação, onde buscará fazer a cópia fiel dos movimentos desse modelo que é
facilitada através da identificação das pistas de modelação. Pode-se dizer então,
que os alunos aprendem por meio da observação,imitando os comportamentos
de outros sujeitos (modelo).

*Tarefa prescrita do professor e do aluno no desenvolvimento no ensino-


aprendizagem

 Tarefa prescrita do professor

• apresentar modelo real ou simbólico;


• criar um modelo em que as pistas de modelação estejam presentes;
25
• propor um modelo codificado ou que esteja simbolicamente representado e
• motivar, premiar, punir, incentivar o comportamento do aluno.

 Tarefa prescrita do aluno

• aprender mediante apresentação de um modelo;


• prestar atenção ao modelo proposto, destacando os aspectos críticos;
• aprender através da imitação;
• reter o comportamento do modelo na memória;
• identificar as pistas de modelação para facilitar sua aprendizagem;
• fazer cópia fiel do movimento do modelo apresentado e
• aprender através da observação de outros sujeitos.

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

Para avaliar o aluno, deve-se verificar sua observação com relação ao modelo
apresentado e suas respectivas pistas e consequentemente, verificar a existência da
cópia fiel desse modelo.

*Teoria Sócio-Construtivista

Segundo Gilly (1995), a abordagem sócio-construtivista do desenvolvimento


cognitivo é centrada na origem social da inteligência e no estudo dos processos sócio-
cognitivos de seu desenvolvimento. Os trabalhos sobre esses processos se
fundamentam na teoria do psicólogo Lev Vygotsky e é relativa aos processos físicos
superiores. Existem duas formas de funcionamento mental chamadas de processos
mentais elementares e os processos superiores. Os processos metais elementar e
correspondem ao estágio da inteligência sensório-motora de Jean Piaget, que é
derivado do capital genético da espécie, e da maturação biológica e da experiência da
criança com seu ambiente físico.
Os processos psicológicos superiores, de acordo com Oliveira (1993), são
construídos ao longo da história social do homem. Essa transformação acontece através
da relação do homem com o mundo que é mediada pelos instrumentos simbólicos e são
desenvolvidos culturalmente, possibilitando uma diferenciação do homem em relação
aos outros animais, na forma de agir e na interação com o mundo.
Gilly (1995) classifica três princípios fundamentais interdependentes que dão
suporte à teoria de desenvolvimento dos processos mentais superiores:

• relação entre a educação, a aprendizagem e ao desenvolvimento;


• função da mediação social nas relações entre o indivíduo e o seu meio (mediação por
ferramenta) e
• atividade psíquica intraindividuais (mediação por signos) e a passagem entre o
interpsíquico para o intrapsíquico nas situações de comunicação social.

Para Vygotsky o desenvolvimento é considerado como uma consequência das


aprendizagem com que o sujeito é confrontado. Seu estudo passa necessariamente,
pela análise de situações sociais que favorecem ao sujeito construir seu meio físico
26
pois, numa abordagem sócio-construtivista o desenvolvimento cognitivo envolve as
interações sujeito-objeto-contexto social.
Em Pozo (1998), o funcionamento cognitivo superior considerado por Vygotsky
está ligado às relações sociais pelas transformações do processo interpessoal para o
intrapessoal. Nessa teoria, o desenvolvimento resulta na zona de desenvolvimento
proximal (ZDP). Moll (1996) explica como o sujeito reorganiza o pensamento que se
manifesta inicialmente, entre as pessoas e grupos de forma tal que os sujeitos, aos
poucos, aumentam seu controle e direcionam o seu próprio pensamento e relações com
o mundo no qual eles sempre se mantém interdependentes.
A ZDP compreende a diferença entre o desenvolvimento efetivo e o
desenvolvimento potencial. No desenvolvimento efetivo, o sujeito consegue resolver
problemas sozinho, sem qualquer auxílio de outra pessoa ou mediadores externos. No
desenvolvimento potencial, o sujeito torna-se capaz de resolver problemas mas com o
auxílio de outras pessoas ou instrumentos mediadores externos tais como um
professor, pais, colegas, etc.
Para Vygotsky a função da mediação social nas relações entre o indivíduo e o
seu meio ocorre através de “ferramenta” (mediação por ferramenta), e na atividade
física intraindivíduo é feita através de sinais (mediação por sinais) (Oliveira, 1993).
A atividade humana deve ser socialmente mediatisada considerando a atividade
exterior que envolve as relações do homem com a natureza, ou de uma atividade
interior que trata da atividade física. Essas atividades são socialmente mediatisadas ou
instrumentadas e transformadas por ferramentas socialmente elaboradas.
Vygotsky afirma que o homem não age direto sobre a natureza. Ele faz uso de
dois tipos de instrumentos em função do tipo de atividade que a torna possível,
considerando o mais simples instrumento a mediação por “ferramenta” que são
elaboradas por gerações anteriores. Elas atuam sobre o estímulo, modificando-o. A
ferramenta transforma a atividade.
O outro tipo de instrumento mediador são os “sinais” ou símbolos, que medeiam
as ações do sujeito. O sistema de sinais mais comum é a linguagem falada. O sinal
modifica o sujeito que dele faz uso como mediador. O sinal atua sobre a interação do
sujeito com o seu meio. A ferramenta serve de condutora da influência humana na
resolução da atividade, provoca mudanças no objeto. O sinal é um meio da atividade
física interna e encontra-se orientado internamente. Ele muda o sujeito e o sujeito
muda o objeto.

*Papel do professor e do aluno

 Papel do professor - a função do professor é a de orientar de forma ativa e


servir de guia para o aluno, de forma a oferecer apoio cognitivo. O professor
deve ser capaz de ajudá-lo a entender um determinado assunto e, ao mesmo
tempo, relacioná-lo ao conteúdo com experiências pessoais e o contexto no qual
o conhecimento será aplicado. Ele deve também interferir na zona de
desenvolvimento proximal de cada aluno, provocando avanços não ocorridos
espontaneamente por este aluno. Várias atividades oferecidas devem ser
flexíveis, permitindo ajustes no plano de aula. A intervenção por parte do
professor é fundamental para o desenvolvimento do aluno. Ele deve intervir,
questionando as respostas do aluno, para observar como a interferência de outro
sujeito atinge no seu desenvolvimento e observar os processos psicológicos em
transformação e não apenas os resultados do desempenho do aluno.
27
 Papel do aluno - o aluno deve construir a compreensão do assunto que lhe for
apresentado. Ele é considerado possuidor de conhecimentos, devendo integrar-
se ao meio, mas guiado pelo professor.

*Tarefa prescrita do professor e do aluno no desenvolvimento ensino-


aprendizagem

 Tarefa prescrita do professor

• manter uma relação amigável com os alunos;


• servir de guia para os alunos;
• propor um plano de atividades que seja flexível às mudanças;
• propor várias atividades, das simples às complexas;
• criar um ambiente que proporcione ao aluno liberdade de expor suas
experiências pessoais, de maneira a associá-las ao conteúdo em estudo;
• deve preocupar-se com cada aluno em si, com o processo e não com os
produtos da aprendizagem padronizada.
• promover diálogo, oportunizando a cooperação, a união e organização até
alcançar a solução dos problemas e
• assumir o papel de educando.

• Tarefa prescrita do aluno

• construir sua própria compreensão dos assuntos em estudo;


• trazer suas experiências para serem discutidas em sala de aula;
• ser amigo do professor e dos outros alunos;
• ser participante das reuniões promovidas em sala de aula;
• participar do processo de aprendizagem juntamente com o professor;
• assumir o papel de educador;
• reelaborar os significados que lhes são transmitidos pelo grupo cultural;
• criar algo de novo a partir da observação feita nos outros e
• interagir com outros alunos.

*Avaliação no Processo Ensino-aprendizagem

A avaliação do processo consiste na auto-avaliação e/ou avaliação mútua. A


avaliação dispensa qualquer processo formal tais como nota, exames, etc. neste
processo, tanto o professor como o aluno saberão suas dificuldades e também seus
processos. O professor pode observar a evolução da representação do aluno, se ele
construiu seu conhecimento com relação ao que se propõe.

28
*ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

As teorias de aprendizagem apresentadas neste texto mostram a sua


coexistência, ou seja, existem simultaneamente. Hoje em dia as escolas são na grande
maioria behavioristas.
Considerando essas teorias de aprendizagem, observa-se também uma diferença
com relação a figura do professor e do aluno. O professor é considerado como
possuidor de conhecimento ou educador e o aluno é considerado ouvinte ou construtor
de seu conhecimento.

TEXTO 5 - PROCESSOS DE APRENDIZAGEM

A função de qualquer teoria de ensino/formação é dar a conhecer que diferentes


tipos de aprendizagem:

 implicam diferentes processos cognitivos;


 pressupõem diferentes capacidades;
 exigem níveis de resposta diferenciados.

Estes constituem aspectos facilitadores ou inibidores das aprendizagens em


jogo.O formador é, antes de mais, um facilitador de aprendizagem funcionando como
mediador entre os saberes que o formando já tem e os que necessita de adquirir. O
conhecimento dos processos cognitivos envolvidos na resolução das diferentes tarefas
de aprendizagem, ajuda quer o formando, quer o formador a otimizarem o seu
trabalho.
Para o formando, conhecer os processos cognitivos, ajuda-o a encontrar as
estratégias e as soluções adequadas às diferentes tarefas de aprendizagem; ao
formador, ajuda-o a escolher os tipos de aprendizagem mais úteis e ajustados aos
objetivos pretendidos e a criar condições de aprendizagem que facilitem a realização
destas mesmas tarefas. Como se constata no quadro seguinte, aprendemos de várias
formas, e as diferentes formas como aprendemos, implicam processos de
aprendizagem diferentes.

Processos de Teorias / Principais


Aprendizagem Representantes
Aprendemos
 Fazendo / Experimentando Condicionamento ou Comportamentalistas / Behavioristas (
 com o erro Aquisição de Watson, Thorndike, Skiner. )
 repetindo automatismos
 memorizando Aprendizagem Social (Modelling),
 imitando Modelagem ou (Albert Bandura)
 reproduzindo o modelo Reprodução de
Modelos

29
 com o grupo Intuição ou Cognitivistas (Wertheimer, Köhler,
 com a situação descoberta (Insight) Koffka, Lewin, Piaget, Bruner,
 com o problema Ausubel, Chomsky …)
 descobrindo
 transferindo Estruturação ou
 associando/dissociando elaboração da
 estruturando informação
 analisando
 contextualizando
 aprendendo a aprender

 Objetivos e domínios da aprendizagem

Como já foi referido, as tarefas de aprendizagem são múltiplas. Apesar desta


multiplicidade podemos dividi-las em três grandes grupos ou domínios de
aprendizagem (divisão proposta B. Bloom).
Contudo, esta divisão não significa que estes domínios se excluam, antes pelo
contrário, o desenvolvimento de cada um pressupõe o desenvolvimento dos outros.
Ela justifica-se por uma questão de sistematização e, ainda, porque é importante para
o formador saber qual é o domínio predominantemente visado pelos objetivos de
aprendizagem, para adotar os procedimentos adequados e criar as condições
necessárias à realização das tarefas propostas:

 domínio psicomotor (saber–fazer) – domínio das atividades motoras ou


manipulativas. Conduzem ao desenvolvimento e aplicação das atividades
motoras;
 domínio cognitivo (saber-saber) – domínio da atividade mental ou intelectual. Diz
respeito à aquisição de informações, ao desenvolvimento de capacidades e
estratégias cognitivas e à sua aplicação a situações novas e
 domínio afetivo (saber-estar/ser/atitudes) - domínio dos fenômenos da
sensibilidade; envolvem interesses, atitudes e valores.

Como se pode ver no quadro resumo seguinte, os processos implicados na


aprendizagem variam consoante os objetivos de aprendizagem visados:

Processos de Domínios da
Objetivos Visados
Aprendizagem Aprendizagem
 Desenvolvimento da memória
Condicionamento ou reprodutora
Aquisição de  Aquisição de automatismo /gesto Psicomotor (saber fazer)
Automatismos /destreza /performance

 Desenvolvimento da intuição /da


Afetivo (saber estar/
criatividade /da capacidade de
atitudes)
resolução de problemas / da tomada
Intuição ou
de decisão /da autonomia /da
Descoberta Cognitivo (saber saber)
capacidade de trabalhar em grupo

30
 Desenvolvimento da memória
organizativa /do pensamento lógico
Estruturação ou /da capacidade de organização
Processamento da /estruturação /da capacidade de Cognitivo (saber saber)
Informação análise e síntese /da capacidade para
a auto-formação

 Desenvolvimento da capacidade de
Afetivo (saber estar
Reprodução do observação /da memória afetiva e
/atitudes)
Modelo ou reprodutora /capacidade de
Modelagem reprodução rápida do “modelo“
Psicomotor (saber fazer)

 Fatores que influenciam a aprendizagem

Uma das preocupações que se deve ter é criar situações que favoreçam a
aprendizagem, tendo em conta três variáveis:

 o que vai ensinar (objetivos/domínios da aprendizagem);


 como ensinar (estratégias) e
 a quem ensinar (público alvo).

Outro tipo de fatores que podem condicionar a aprendizagem são os internos ao


próprio indivíduo, que fazem parte quer das suas características de personalidade, quer
das suas características físicas:

 Fatores cognitivos
o Percepção
o Atenção
o Memória

 Fatores socioculturais
o Família
o Grupos de pertença
o Comunidade
o Sociedade (valores, representações e estereótipos)

 Fatores biológicos
o Neurofisiológicos
o Genéticos

 Fatores emocionais
o "Estados de espírito"

Existem também fatores externos ao próprio indivíduo, que podem facilitar o


processo da aprendizagem (são da responsabilidade do formador):

 definir objetivos e dá-los a conhecer;


 avaliar pré-requisitos;
 explicitar as estratégias;

31
 motivação (situar num contexto);
 manter o grupo ativo e participante (proporcionar trabalhos de grupo e de
investigação);
 utilizar os meios técnicos e práticos disponíveis (vídeo, retroprojetor e outros);
 fazer sínteses parcelares e conclusões;
 exercícios práticos;
 fazer a avaliação da aprendizagem;
 discussão dos resultados.

A aprendizagem é favorecida pelos processos interativos que se estabelecem, em


relação aos quais o formador tem um papel importante, na medida em que depende
dele o “clima”, o “estilo” de relações psicossociais que se estabelecem durante a
formação, assim:

 a aprendizagem deve processar-se num clima de confiança e abertura que


propicie a partilha de experiências e vivências, visando um enriquecimento
mútuo;
 a aprendizagem não deve ser estanque mas negociada, os objetivos devem ser
explícitos e partilhados;
 a aprendizagem deve situar-se relativamente a um quadro de referência, apelo
às experiências e vivências dos formandos, no sentido de os motivar e implicar;
 a aprendizagem deverá ser dirigida para o aqui e agora dos acontecimentos, as
finalidades devem ser explícitas.

TEXTO 6: DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

Ao abordarmos o tema dificuldades de aprendizagem, podemos tecer uma série


de reflexões a partir de diferentes linhas de pesquisa que embasam a teoria e a prática
nessa área de conhecimento. O termo dificuldade de aprendizagem têm se mostrado
um assunto que ainda gera discussões e dificuldades na sua conceituação.
O National Joint Committee on Learning Disabilities (NJCLD), composto por
representantes de oito das mais importantes organizações nacionais dos EUA assim
define dificuldade de aprendizagem:

Dificuldade de Aprendizagem (DA) é um termo geral que se refere a um grupo


heterogêneo de transtornos que se manifestam por dificuldades significativas
na aquisição e uso da escuta, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades
matemáticas. Esses transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se devido
à disfunção do sistema nervoso central, e podem ocorrer ao longo do ciclo vital.
Podem existir, junto com as dificuldades de aprendizagem, problema nas
condutas de auto-regulação, percepção social e interação social, mas não
constituem, por si próprias, uma dificuldade de aprendizagem. Ainda que as
dificuldades de aprendizagem possam ocorrer concomitantemente com outras
condições incapacitantes (por exemplo, deficiência sensorial, retardamento
mental, transtornos emocionais graves) ou com influências extrínsecas (tais

32
como as diferenças culturais, instrução inapropriada ou insuficiente), não são o
resultado dessas condições ou influências”. (NJCLD, 1988, p. 1).

Assim sendo, recolhe-se a essência daquilo que podemos entender por


dificuldade de aprendizagem, a partir de um enfoque fundamentalmente educativo e
para a tomada de decisões de provisão de serviços de educação especial. Essa
definição foi apoiada pela maioria das organizações de profissionais e científicas
implicadas nos temas de educação especial na América do Norte. Enfatizam-se vários
aspectos que irão se desintrincando ao longo da exposição. As dificuldades de
aprendizagem podem ser um fenômeno que afeta toda a vida das pessoas, motivo pelo
qual não se pode falar somente de criança com DA, mas também, de adolescentes e
adultos com dificuldades de aprendizagem, tornando-se necessário considerar para a
provisão de serviços e apoios. Um exemplo disso é a disponibilidade de serviços de
atenção às pessoas com dificuldades de aprendizagem em diversas universidades.
São muitos os aspectos discutíveis no termo dificuldades de aprendizagem,
termo este que foi e é proposto como mais aceitável do que os específicos de dislexia,
disgrafia, discalculia, disfasia, entre outros termos.
Dificuldades de aprendizagem é um estudo abrangente que necessita de
pesquisa, estudo interdisciplinar envolvendo os diferentes especialistas e profissionais
da saúde e da educação, tornando-se um desafio para os estudiosos do referido tema.
O processo de aprender exige uma integração entre cognição, afetividade e a ação e,
nas pessoas que não apresentam dificuldades, esta integração flui, permitindo a
aprendizagem. Já aqueles que por algum motivo apresentam dificuldades, esta
integração aparece obstaculizada, desorganizada, o que provoca muita tensão diante
das situações de aprender. O não conseguir aprender por repetidas vezes faz com que
o aprendiz forme de si uma imagem de fracasso e se iniba ou se afaste de novas
situações de aprendizagem
Uma dificuldade de aprendizagem é um transtorno permanente que afeta a
maneira pela qual, os indivíduos com inteligência normal e acima da média selecionam,
retém e expressam informações. As informações que entram ou que saem podem ficar
desordenadas conforme viajam entre os sentidos e o cérebro. As dificuldades de
aprendizagem devem ser consideradas como uma causa possível se uma criança tem
dificuldade em um ou mais dos seguintes aspectos:

 Pensar claramente;
 Soletrar com exatidão;
 Aprender a ler;
 Aprender a calcular;
 Copiar formas;
 Recordar fatos;
 Seguir instruções;
 Escrever legivelmente e
 Colocar coisas em sequência.

Ou seja, ela frequentemente fica confusa, é impulsiva, hiperativa ou


desorientada, tornando-se frustrada e rebelde, deprimida, retraída ou agressiva. O
professor deve estar preparado para identificar possíveis distúrbios/dificuldades no
processo de aprendizagem, enfocando aspectos orgânicos, afetivos e pedagógicos,
durante todo o processo.

33
Para Belleboni (2004), quando há o aparecimento do fracasso escolar, outros
profissionais, além do fonoaudiólogo, como psicólogos, pedagogos, psicopedagogos,
devem intervir, auxiliando através de indicações adequadas e pertinentes a cada caso.
Considerando-se as diversas causas que podem interferir no processo ensino-
aprendizagem, investigar o ambiente no qual a criança vive e a metodologia abordada
nas escolas é importante antes de se traçar o enfoque terapêutico, uma vez que a
criança pode não apresentar o distúrbio de aprendizagem, mas apenas não se adaptar
ou não conseguir aprender com determinada metodologia utilizada pelo professor,
como também a carência de estímulos dentro de casa. Por outro lado, muitas crianças
podem não apresentar nenhum fator externo a ela e mesmo assim não conseguir
desenvolver plenamente suas habilidades pedagógicas. É o caso das crianças com
distúrbio de aprendizagem, cujas limitações intrínsecas se manifestam através de
déficits linguísticos, alteração no processamento auditivo e outros vários fatores que
podem prejudicar significativamente o aprendizado da leitura e da escrita.

 O que são realmente as dificuldades de aprendizagem?

A literatura sobre as dificuldades de aprendizagem se


caracteriza por um conjunto desestruturado de argumentos contraditórios.
Apesar do conceito de dificuldades de aprendizagem apresentar diversas
definições e ainda ser um pouco ambíguo, é necessário que tentemos determinar à que
fazemos referência com tal expressão ou etiqueta diagnóstica, de modo que se possa
reduzir a confusão com outros termos tais como “necessidades educativas especiais”,
“inadaptações por déficit socioambiental” etc.

 Podemos assinalar como elementos de definição mais relevantes:

 A criança com transtornos de aprendizagem tem uma linha desigual em


seu desenvolvimento.
 Seus problemas de aprendizagem não são causados por pobreza
ambiental.
 Os problemas não são devidos a atraso mental ou transtornos emocionais.

Em síntese, só é procedente falar em dificuldades de aprendizagem quando


fazemos referência a alunos que:

 Tem um quociente intelectual normal, ou muito próximo da


normalidade, ou ainda, superior.
 Seu ambiente sócio familiar é normal.
 Não apresentam deficiências sensoriais nem afecções neurológicas
significativas.
34
 Seu rendimento escolar é manifesto e reiteradamente insatisfatório.

O que podemos observar, de modo geral, em alunos com dificuldades de


aprendizagem incluem problemas mais localizados no campo da conduta, dos seguintes
tipos:

 Atividade motora: hiperatividade ou hipoatividade, dificuldade de


coordenação…..,
 Atenção: baixo nível de concentração, dispersão…,
 Área matemática: problemas em seriações, inversão de números,
reiterados erros de cálculo …,
 Área verbal: problemas na codificação/ decodificação simbólica,
irregularidades na lectoescrita, disgrafías …,
 Emoções: desajustes emocionais leves, baixa auto-estima …,
 Memória: dificuldades de fixação …,
 Percepção: reprodução inadequada de formas geométricas, confusão
entre figura e fundo, inversão de letras … e
 Sociabilidade: inibição participativa, pouca habilidade social, agressividade.

 Bem, e daí? Somos professores e os alunos estão em nossas escolas,


em nossas classes. O que fazer?

Assumamos com todos os nossos conhecimentos, com toda nossa dedicação, os


princípios da normalização e individualização do ensino, optando pela compreensão ao
invés da exclusão. Esta é uma visão que tenta superar a concepção patológica
tradicional dos problemas escolares que se apóia em enfoques clínicos centrados nos
déficits dos alunos e em tratamentos psico-terapêuticos em anexo aos processos
escolares.
Partindo da realidade plenamente constatada que todos os alunos são diferentes,
tanto em suas capacidades, quanto em suas motivações, interesses, ritmos evolutivos,
estilos de aprendizagem, situações ambientais, etc. E entendendo que todas as
dificuldades de aprendizagem são em si mesmas contextuais e relativas, é necessário
colocar o acento no próprio processo de interação ensino/aprendizagem.
Sabemos que este é um processo complexo em que estão incluídas inúmeras
variáveis: aluno, professor, concepção e organização curricular, metodologias,
estratégias, recursos. Mas, a aprendizagem do aluno não depende somente dele, e sim
do grau em que a ajuda do professor esteja ajustada ao nível que o aluno apresenta
em cada tarefa de aprendizagem. Se o ajuste entre professor e aprendizagem do aluno
for apropriado, o aluno aprenderá e apresentará progressos, qualquer que seja o seu
nível.
É óbvio a grande dificuldade que os professores sentem quando se deparam com
alunos que se lhes apresenta como com “dificuldades de aprendizagem”. Nessa altura
do artigo, coloco “dificuldades de aprendizagem” entre aspas, pois, muitas vezes me
pergunto, se estas dificuldades são de ensino ou de aprendizagem. Ambas estão juntas,
é difícil dizer qual das duas tem mais peso.

 O que acontece quando o docente se esquece que a escola é um


universo heterogêneo, tal como a sociedade?

35
Devemos ter em mente que nem todos aprendem da mesma maneira, que cada
um aprende a seu ritmo e em seu nível. Precisamos criar novos contextos que se
adaptem às individualidades dos alunos, partindo do que cada um sabe, de suas
potencialidades e não de suas dificuldades.
É importante considerar que a escola deve valorizar os muitos saberes do aluno,
e que seja oportunizado a ele demonstrar suas reais potencialidades. A escola tem
valorizado apenas o conhecimento verbal e matemático, deixando de fora tantos
conhecimentos importantes para sociedade.
O sentimento de pertença deve ser estimulado, alguém acuado, jamais vai
demonstrar as potencialidades que possui. Tornando o ambiente escolar acolhedor,
aceitando a criança como ela é, oferecendo meios para que se desenvolva, já é uma
garantia de dar certo o trabalho em sala de aula.
O aluno com dificuldade de aprendizagem pode exigir um atendimento variado,
incluindo: aulas particulares, aconselhamento acadêmico especial, desenvolvimento de
habilidades básicas, assistência para organizar e desenvolver habilidades de estudo
adequadas e/ou atendimento psicopedagógico. Alguns alunos com dificuldades de
aprendizagem não exigem o uso extensivo de pessoal técnico, fundos extras ou a ajuda
de professores, mas pode precisar de modificações apropriadas no programa e
subsídios para auxiliá-los. Estes incluem leitores, copiadores, anotadores, uma prática
que lhes garanta mais tempo para realizar trabalhos, projetos ou testes e, livros ou
conferências gravadas.
Para Fonseca (1995), a criança com dificuldade de aprendizagem não deve ser
“classificada” como deficiente. Trata-se de uma criança normal que aprende de uma
forma diferente, a qual apresenta uma discrepância entre o potencial atual e o potencial
esperado. Não pertence a nenhuma categoria de deficiência, não sendo sequer uma
deficiência mental, pois possui um potencial cognitivo que não é realizado em termos
de aproveitamento educacional.
As escolas precisam fornecer às pessoas com dificuldades de aprendizagem uma
educação apropriada, incluindo bons sistemas escolares, bons profissionais que se
dediquem ao diagnóstico cuidadoso e ao atendimento remediador de qualidade.
É necessário que os profissionais da educação adotem uma postura ética em
relação ao aluno, que assim como eles convivem em uma sociedade excludente.
Portanto, diversificar as situações de aprendizagem é adaptá-las às
especificidades dos alunos, é tentar responder ao problema didático da
heterogeneidade das aprendizagens, que muitas vezes é rotulada de dificuldades de
aprendizagens.

TEXTO 7: DISTÚRBIOS E TRANSTORNOS


DE APRENDIZAGEM

A literatura a respeito do diagnóstico e tratamento de distúrbios, transtornos,


dificuldades ou problemas de aprendizagem é vasta e fundamentada em concepções,
muitas vezes, divergentes entre si. Devido o grande número de obras relacionadas ao
assunto, torna-se inviável contemplar todas as possíveis definições e abordagens sobre
36
esses conceitos. Portanto, nesse texto pretendemos analisar os conceitos mais
comumente utilizados na literatura especializada e algumas das muitas perspectivas de
análise sobre as dificuldades de aprendizagem, procurando traçar um panorama (ainda
que provisório) sobre essa temática.
Segundo Moojen (1999), os termos distúrbios, transtornos, dificuldades e
problemas de aprendizagem tem sido utilizados de forma aleatória, tanto na literatura
especializada como na prática clínica e escolar, para designar quadros diagnósticos
diferentes. Na mesma perspectiva, França (1996) coloca que a utilização dos termos
distúrbios, problemas e dificuldades de aprendizagem é um dos aspectos menos
conclusivos para aqueles que iniciam a formação em Psicopedagogia.
Para o autor, aparentemente os defensores da abordagem comportamental
preferem a utilização do termo distúrbio, enquanto os construtivistas parecem ser
adeptos do termo dificuldade. Ainda de acordo com o autor, aparentemente a distinção
feita entre os termos dificuldades e distúrbios de aprendizagem esteja baseada na
concepção de que o termo “dificuldade” está mais relacionado à problemas de ordem
psicopedagógica e/ou sócio - culturais, ou seja, o problema não está centrado apenas
no aluno, sendo que essa visão é mais frequentemente utilizado em uma perspectiva
preventiva; por outro lado, o termo “distúrbio” está mais vinculado ao aluno, na medida
em que sugere a existência de comprometimento neurológicos em funções corticais
específicas, sendo mais utilizado pela perspectiva clínica ou remediativa.

 Distúrbios de aprendizagem

Collares e Moysés (1992) analisaram o conceito de distúrbios de aprendizagem


do ponto de vista etimológico e a partir do conceito proposto pelo National Joint
Comittee for Learning Disabilities (Comitê Nacional de Dificuldades de Aprendizagem),
Estados Unidos da América.
Etimologicamente, a palavra distúrbio compõem-se do radical turbare e do
prefixo dis. O radical turbare significa “alteração violenta na ordem natural” e pode ser
identificado também nas palavras turvo, turbilhão, perturbar e conturbar. O prefixo dis
tem como significado “alteração com sentido anormal, patológico” e possui valor
negativo. O prefixo dis é muito utilizado na terminologia médica (por exemplo:
distensão, distrofia). Em síntese, do ponto do vista etimológico, a palavra distúrbio
pode ser traduzida como “anormalidade patológica por alteração violenta na ordem
natural”
Segundo as autoras, seguindo a mesma perspectiva etimológica, a expressão
distúrbios de aprendizagem teria o significado de “anormalidade patológica por
alteração violenta na ordem natural da aprendizagem”, obviamente localizada em quem
aprende. Portanto, um distúrbio de aprendizagem obrigatoriamente remete a um
problema ou a uma doença que acomete o aluno em nível individual e orgânico.
De acordo com Collares e Moysés (1992), o uso da expressão distúrbio de
aprendizagem tem se expandido de maneira assustadora entre os professores, apesar
da maioria desses profissionais nem sempre conseguir explicar claramente o significado
dessa expressão ou os critérios em que se baseiam para utilizá-la no contexto escolar.
Na opinião das autoras, a utilização desmedida da expressão distúrbio de aprendizagem
no cotidiano escolar seria mais um reflexo do processo de patologização da
aprendizagem ou da biologização das questões sociais. De acordo com a definição
estabelecida em 1981 pelo National Joint Comittee for Learning Disabilities (Comitê
Nacional de Dificuldades de Aprendizagem), nos Estados Unidos da América,

37
Distúrbios de aprendizagem é um termo genérico que se refere a um
grupo heterogêneo de alterações manifestas por dificuldades
significativas na aquisição e uso da audição, fala, leitura, escrita,
raciocínio ou habilidades matemáticas. Estas alterações são intrínsecas ao
indivíduo e presumivelmente devidas à disfunção do sistema nervoso
central. Apesar de um distúrbio de aprendizagem poder ocorrer
concomitantemente com outras condições desfavoráveis (por exemplo,
alteração sensorial, retardo mental, distúrbio social ou emocional) ou
influências ambientais (por exemplo, diferenças culturais, instrução
insuficiente/inadequada, fatores psicogênicos), não é resultado direto
dessas condições ou influências. (COLLARES & MOYSÉS, 1992. p. 32)

O National Joint Comittee for Learning Disabilities é considerado, nos Estados


Unidos da América, como o órgão competente para normatizar os assuntos referentes
aos distúrbios de aprendizagem. A fim de prevenir a ocorrência de erros de
interpretação o Comitê publicou a definição acima apresentada com explicações
específicas ao longo de cada frase.
A frase “estas alterações são intrínsecas ao indivíduo e presumivelmente devidas
à disfunção do sistema nervoso central”, por exemplo, vem acompanhada da explicação
de que a fonte do distúrbio deve ser encontrada internamente à pessoa que é afetada e
que a causa do distúrbio de aprendizagem é uma disfunção conhecida ou presumida no
sistema nervoso central. Acerca da evidência concreta de organicidade relacionada ao
distúrbio de aprendizagem, o Comitê afirma que, apesar de não ser necessário que tal
evidência esteja presente, é necessário que, pelo menos, uma disfunção do sistema
nervoso central seja a causa suspeita para que o distúrbio possa ser diagnosticado.
No entanto, segundo Ross (1979, citado por Miranda, 2000), a utilização do
termo “distúrbio de aprendizagem”, chama a atenção para a existência de crianças que
frequentam escolas e apresentam dificuldades de aprendizagem, embora
aparentemente não possuam defeitos físicos, sensoriais, intelectuais ou emocionais.
Esse rótulo, segundo o autor, ocasionou durante anos que tais crianças fossem
ignoradas, mal diagnosticadas ou maltratadas e as dificuldades que demonstravam
serem designadas de várias maneira como “hiperatividade”, “síndrome hipercinética”,
“síndrome da criança hiperativa”, “lesão cerebral mínima”, disfunção cerebral mínima”,
“dificuldade de aprendizagem” ou “disfunção na aprendizagem.”
Para Collares e Moysés (1992), os distúrbios de aprendizagem seriam frutos do
pensamento médico, surgindo como entidades nosológicas e com o caráter de doenças
neurológicas.

 Transtornos de aprendizagem

Outra terminologia recorrente na literatura especializada é a palavra


“transtorno”. Segundo a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da
Classificação Internacional de Doenças - 10, elaborado pela Organização Mundial de
Saúde:

38
O termo “transtorno” é usado por toda a classificação, de forma a evitar
problemas ainda maiores inerentes ao uso de termos tais como “doença”
ou “enfermidade”. “Transtorno” não é um termo exato, porém é usado
para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou
comportamentos clinicamente reconhecível associado, na maioria dos
casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais (CID - 10,
1992: 5).

A Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Classificação


Internacional de Doenças - 10 (ou, simplesmente CID - 10) situa os problemas
referentes à aprendizagem na classificação Transtornos específicos do desenvolvimento
das habilidades escolares (F81), que, por sua vez, está inserida na categoria mais
ampla de Transtornos do desenvolvimento psicológico (F80 - 89). Segundo o CID - 10,
todos os transtornos incluídos na categoria Transtornos do desenvolvimento psicológico
(F80 - 89), inclusive os Transtornos específicos do desenvolvimento das habilidades
escolares (F81), possuem os seguintes aspectos em comum:

 um início que ocorre invariavelmente no decorrer da infância;


 um comprometimento ou atraso no desenvolvimento de funções que são
fortemente relacionadas à maturação biológica do sistema nervoso central e
 um curso estável que não envolve remissões (desaparecimentos) e recaídas que
tendem a ser características de muitos transtornos mentais.

Segundo o CID - 10:

Na maioria dos casos, as funções afetadas incluem linguagem,


habilidades visuoespaciais e/ou coordenação motora. É característico que
os comprometimentos diminuam progressivamente à medida que a
criança cresce (embora déficits mais leves frequentemente perdurem na
vida adulta). Em geral, a história é de um atraso ou comprometimento
que está presente desde tão cedo quando possa ser confiavelmente
detectado, sem nenhum período anterior de desenvolvimento normal. A
maioria dessas condições é mais comum em meninos que em meninas.
(Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da
Classificação Internacional de Doenças - 10, 1992: 228).

Em relação aos Transtornos do desenvolvimento psicológico (F80 - 89), o


documento coloca que é característicos a esses tipos de transtornos que uma história
familiar de transtornos similares ou relacionados esteja presente e que fatores
genéticos tenham um papel importante na etiologia (conjunto de possíveis causas) de
muitos (mas não de todos) os casos. Os fatores ambientais frequentemente podem
influenciar as funções de desenvolvimento afetadas, porém, na maioria dos casos,
esses fatores não possuem uma influência predominante. E adverte que, embora exista
uma concordância na conceituação global dos transtornos do desenvolvimento
psicológico, a etiologia na maioria dos casos é desconhecida e há incerteza contínua
com respeito a ambos (CID - 10, 1992: 228).

39
Acerca dos Transtornos específicos do desenvolvimento das habilidades escolares
(F81), o documento coloca que

[...] são transtornos nos quais os padrões normais de aquisição de


habilidades são perturbados desde os estágios iniciais do
desenvolvimento. Eles não são simplesmente uma consequência de uma
falta de oportunidade de aprender nem são decorrentes de qualquer
forma de traumatismo ou de doença cerebral adquirida. Ao contrário,
pensa-se que os transtornos originam-se de anormalidades no processo
cognitivo, que derivam em grande parte de algum tipo de disfunção
biológica (CID - 10, 1992: 236).

Quanto ao diagnóstico desses tipos de transtornos, o CID - 10 alerta que existem


cinco tipos de dificuldades para que esse seja estabelecido, dos quais destacam-se:

 a necessidade de diferenciar os transtornos de variações normais nas


realizações escolares;
 a necessidade de levar em consideração o curso do desenvolvimento,
pois, em primeiro lugar, o significado de um atraso de um ano em
leitura, na idade de 7 anos é diferente do atraso de um anos aos 14
anos de idade. Em segundo lugar, é comum que um atraso de
linguagem nos anos pré - escolares desapareça no que diz respeito à
linguagem falada, mas seja seguido por um atraso específico na
leitura, o qual, por sua vez, pode diminuir na adolescência, ou seja, a
condição é a mesma ao longo do tempo, mas o padrão se altera com
o aumento da idade e
 a dificuldade de que as habilidades escolares têm que ser ensinadas e
aprendidas: essas habilidades não são apenas resultados da
maturação biológica e, dessa maneira, o nível de habilidades de uma
criança dependerá das circunstâncias familiares e da escolaridade,
além de suas próprias características individuais.

Fazem parte da categoria Transtornos específicos do desenvolvimento das


habilidades escolares (F81), as seguintes subcategorias:

 F81.0 - Transtorno específico da leitura


 F81.1 - Transtorno específico do soletrar
 F81.2. - Transtorno específico de habilidades aritméticas
 F81.3 - Transtorno misto das habilidades escolares
 F81.8 - Outros transtornos do desenvolvimento das habilidades escolares
 F81.9 - Transtornos do desenvolvimento das habilidades escolares, não
especificado

40
De acordo com o CID - 10, os Transtornos específicos do desenvolvimento das
habilidades escolares são compostos por grupos de transtornos manifestados por
comprometimentos específicos e significativos no aprendizado de habilidades escolares,
comprometimentos esses que não são resultado direto de outros transtornos, como o
retardo mental, os déficits neurológicos grosseiros, os problemas visuais ou auditivos
não corrigidos ou as perturbações emocionais, embora eles possam ocorrer
simultaneamente com essas condições. Os transtornos específicos do desenvolvimento
das habilidades escolares geralmente ocorrem junto com outras síndromes clínicas,
como por exemplo, o transtorno de déficit de atenção ou o transtorno de conduta, ou
outros transtornos do desenvolvimento, tais como o transtorno específico do
desenvolvimento da função motora ou os transtornos específicos do desenvolvimento
da fala e linguagem.
As possíveis causas dos Transtornos específicos do desenvolvimento das
habilidades escolares não são conhecidas, mas supõe-se que exista a predominância de
fatores biológicos, os quais interagem com fatores não biológicos, como oportunidade
para aprender e qualidade do ensino. É um fator diagnóstico importante que os
transtornos se manifestem durante os primeiros anos de escolaridade. Portanto,
segundo o CID - 10, o atraso do desempenho escolar de crianças em um estágio
posterior de suas vidas escolares, devido à falta de interesse, a um ensino deficiente, a
perturbações emocionais ou ao aumento ou mudança no padrão de exigência das
tarefas, não podem ser considerados Transtornos específicos do desenvolvimento das
habilidades escolares.
Ao lado da definição proposta pelo CID - 10, apresentados a análise realizada por
Moojen (1999) sobre o conceito de Transtornos de Aprendizagem, a partir do Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - IV). Segundo essa análise, o
termo Transtorno de Aprendizagem situa-se na categoria dos Transtornos geralmente
diagnosticados pela primeira vez na infância ou adolescência, sendo classificado em
Transtorno de Leitura, Transtorno de Matemática e Transtorno da Expressão Escrita. Os
Transtornos de Aprendizagem são diagnosticados quando o desempenho de indivíduos
submetidos a testes padronizados de leitura, matemática ou expressão escrita está
significativamente abaixo do esperado para a idade, escolarização e nível de
inteligência. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - IV)
estima que a prevalência dos Transtornos de Aprendizagem seja na faixa de 2 a 10%
da população, dependendo da natureza da averiguação e das definições explicadas.

 Em busca de uma síntese (ainda que provisória)

Em uma tentativa de síntese, apresentaremos a proposta de análise de Romero


(1995), o qual afirma que, apesar da proliferação de teorias e modelos explicativos com
a pretensão, nem sempre bem - sucedida, de esclarecer as dificuldades aprendizagem,
em geral essas costumam ser atribuídas a:

1. Variáveis pessoais, como a heterogeneidade ou a lesões cerebrais;


2. Variáveis ambientais, como ambientes familiares e educacionais
inadequados e
3. Combinação interativa de ambos os tipos.

Segundo o autor, é possível situar as diferentes teorias ou modelos de concepção


das dificuldades de aprendizagem em um contínuo pessoa - ambiente, dependendo da
ênfase na responsabilidade da pessoa ou do ambiente na causa da dificuldade.
41
Em um extremo estariam todas as explicações que se centram no aluno e que
compartilham a concepção da pessoa como um ser ativo, considerando o organismo
como a fonte de todos os atos. No outro extremo, estariam situadas as correntes de
cunho ambiental, que estão ligadas, em maior ou menor grau, a uma concepção
mecanicista do desenvolvimento, considerando que a pessoa é controlada pelos
estímulos do ambiente externo.
Para melhor visualização, reproduz-se abaixo o quadro originalmente elaborado
pelo autor:

As teorias sobre a origem das dificuldades de aprendizagem


situadas em um contínuo pessoa - ambiente segundo a ênfase
na importância daquela ou deste na causa das dificuldades

P  Teorias sobre déficits neurológicos

E  Teoria sobre déficits de processos

S psiconeurológicos subjacentes: - Perceptivos

S  Linguísticos

O  Teorias sobre atrasos maturativos: Do Sistema Nervoso Central

A De funções psicológicas

 Teorias sobre deficiências no processamento ativo da informação

M - Baseadas em processos psicológicos subjacentes

B  Teorias integradoras - Baseadas no processamento da informação

E  Teorias centradas no ambiente

N sócio - educacional do aluno: - No ambiente sociológico

T - No ambiente educacional

E  Teorias centradas na tarefa

Fonte: ROMERO, J. F. Os atrasos maturativos e as dificuldades de aprendizagem. In: COLL.


C., PALACIOS, J., MARCHESI, A. Desenvolvimento psicológico e educação: necessidades
educativas especiais e aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, v. 3.

42
Aprender é um processo de aquisição de conhecimentos, habilidades,
valores e essencialmente de desenvolvimento da capacidade de pensar, julgar e
empregar conceitos que conduzam às mudanças de atitudes e de comportamentos...
A educação pode ser definida como a tentativa consciente de promover a aprendizagem
de outras pessoas...

“Somos o que fazemos, mas somos principalmente, o que fazemos pra


mudar o que somos” (Eduardo Galeano).

Material coligido pela professora Taís Schmitz.

ANOTAÇÕES:

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