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ALGUNS IMPACTOS DA MP DA LIBERDADE ECONÔMICA – MP 881/2019 -

NO DIA-A-DIA EMPRESARIAL: “PEJOTIZAÇÃO” E JUSTIÇA DO


TRABALHO

Como já amplamente divulgado pela imprensa, recentemente o presidente


Jair Bolsonaro assinou a Medida Provisória nº 881, no dia 30 de abril de 2019, a qual
institui a “Declaração de Direitos de Liberdade Econômica”, bem como estabelece
garantias de livre mercado e análise de impacto regulatório.

Referida medida provisória busca estabelecer um novo norte para a


interpretação das relações jurídicas empresariais, com relevante impacto nas áreas do
direito econômico, societário, civil e do trabalho.

Dentre muitas mudanças trazidas por referida medida provisória, que serão
consolidadas caso a medida seja aprovada no Congresso Nacional, há algumas de
destaque. A primeira delas nos parece que implicará grande impacto nas relações
havidas entre as empresas e aqueles profissionais liberais que mantém sua contratação
por meio de pessoas jurídicas, mediante a emissão de notas fiscais, o que comumente é
chamado de “pejotização”.

Referidos profissionais, nessa modalidade de contratação, prestam serviços


por intermédio de pessoas jurídicas em razão das vantagens tributárias conferidas não
somente à empresa tomadora do serviço, mas também ao prestador do serviço.

Hoje, no Direito do Trabalho, a “pejotização” é classificada como um


procedimento fraudulento, que buscaria ocultar uma verdadeira e suposta relação de
trabalho subordinado. Aparentemente, a Justiça do Trabalho parte de uma presunção de
fraude ou coação do empregador ao prestador de serviço na “pejotização”, mesmo
quando este último possui alto nível intelectual, ou mesmo diante de evidentes
vantagens patrimoniais auferidas pelo prestador dos serviços em razão do regime
tributário aplicável à forma de contratação em questão.

Pois bem, tal medida provisória (artigo 3º, VIII) parece trazer à tona uma
cláusula de vedação do comportamento contraditório nestes casos específicos, pois
impede que a parte que firmou contrato com o empresário possa se comportar
contrariamente ao que estipulou no contrato, com objetivo de obter vantagens tributárias
ou benefícios fiscais, ainda que se trate de matéria de ordem pública.

Além disso, a presunção de fraude hoje predominante na Justiça do


Trabalho contraria o princípio da presunção da boa-fé do particular, previsto no inciso II
do artigo 2º da Medida Provisória.

Essa, assim como todos os outros princípios e regras consagrados na medida


provisória apenas reafirmam o princípio da autonomia privada e a proteção jurídica da
confiança entre os contratantes nas relações entre particulares, e representam uma
tentativa de redução da intervenção estatal nas relações empresariais privadas.

Contudo, há que se lembrar que estamos sob a égide da Constituição de


1988, a “Constituição Cidadã”, de modo que a invocação do princípio da intervenção
mínima do Estado nas relações contratuais empresariais privadas parece não ser
suficiente para permitir a prevalência de cláusulas contratuais que afastem questões de
ordem, pública, a exemplo dos deveres decorrentes da boa-fé e da função social do
contrato, especialmente diante de um texto constitucional com perfil nitidamente
intervencionista como o de 1988.

É certo que o excesso de regulamentação pode terminar por sufocar e até


mesmo prejudicar os empresários, no exercício de sua liberdade de contratar – a
autonomia privada. Contudo, diante da tradição dos tribunais brasileiros no sentido de
reconhecer os deveres decorrentes das cláusulas gerais (da boa-fé, da função social do
contrato, da equivalência material etc.) como deveres decorrentes eminentemente da Lei
e dos princípios gerais, bem como em razão da realidade brasileira ainda marcada por
profundas desigualdades sociais, é provável que a MP 881/2019 não atinja o seu
objetivo de permitir o afastamento de tais deveres decorrentes das cláusulas gerais por
livre estipulação dos contratantes, o que só poderá ser observado com o decurso do
tempo.