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08/06/2019 Uma crítica pós-keynesiana ao MMT: a negligência do papel da confiança

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03/04/2019 - 14:28

Uma crítica pós-keynesiana ao MMT: a negligência do


papel da confiança
Por Fábio Bittes Terra

Em artigo publicado no dia 8 de março, no Valor, André Lara Resende propõe alternativas ao mainstream macroeconômico.
Com ideias em muito baseadas nas finanças funcionais de Abba Lerner e na roupagem moderna delas e que as oferece uma
teoria monetária, o neochartalismo do MMT, Lara Resende traz interessantes reflexões em nível teórico e também faz
proposições à economia brasileira - tocando em pontos sensíveis, como as operações compromissadas, o desajuste fiscal e a
reforma da previdência.

John Maynard Keynes


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O MMT é parte do paradigma pós-keynesiano, mas não é isento de controvérsias no próprio pós-keynesianismo. As críticas
mais comuns ao MMT (e às finanças funcionais) são: (i) as origens da moeda e a lógica "tax-driven" de aceitação dela, (ii) a
ausência de restrições financeiras à política fiscal, (iii) a política monetária servir, em última instância, para manter estável
https://www.valor.com.br/imprimir/noticia/6195793 1/3
uma taxa de juros propícia ao investimento
08/06/2019 privado
Uma e para estabilidade
crítica pós-keynesiana ao MMT:financeira,
a negligência(iv) a relevância
do papel das conclusões do MMT
da confiança

para os países emergentes que não emitem moeda conversível e ocupam posições desfavoráveis na hierarquia do sistema
monetário e financeiro internacional, e (v) a validade das recomendações de política econômica, sobretudo atinentes à
panaceia do gasto público.

Esse artigo traz outra crítica ao MMT: a negligência do papel da confiança do público na moeda para a convencionar enquanto
moeda. Lara Resende argumenta sobre a confiança na política econômica, mas pouco sobre a necessidade da confiança do
público para que a moeda estatal seja moeda ao longo do tempo - afora questões de expectativas inflacionárias que ele bem
traz, que são muito relevantes, mas aquém do que confiança significa para a moeda, como se argumentará.

Keynes aponta que os juros da moeda são os que importam para as oscilações no emprego porque a moeda, para ser moeda e
continuar a sê-lo no tempo, possui dois atributos especiais, elasticidades de produção e de substituição negligenciáveis.
Elasticidade de produção negligenciável significa a oferta de moeda não mudar pari passu às variações no seu preço; logo, não
se pode empregar trabalho para a produzir quando o juro aumenta. Elasticidade de substituição negligenciável é a moeda não
ser trocada por outro ativo a cada alteração que houver em seu preço. Isto significa que a demanda por moeda é estável no
tempo.

Assim, uma moeda estatal permanece como padrão monetário ao longo do tempo não por sua oferta ser limitada per se, mas
relativamente à constante demanda por ela, o que é mais do que uma demanda por moeda para pagamento de impostos. Isso
faz com que os agentes confiem que o objeto que lhes serve como reserva de riqueza, isto é, como unidade de conta com
liquidez no tempo mais do que unidade de conta de impostos, não terá sua produção vulgarizada, ilimitada. Garantida a
condição de a moeda ser escassa relativamente à sua demanda, a crença social no padrão monetário se constrói,
convencionando alguma moeda, inclusive a unidade de conta dos impostos, como padrão monetário de uso social.

Por sinal, o dólar americano continua a ser convencionado como a moeda de reserva internacional por sua demanda ser global,
porém sua produção é escassa relativamente a tal demanda. Qualquer excesso de dólar extravasa, com aceitação, a fronteira
americana e tem demanda externa. Inclusive, talvez isso explique um certo American based-view dos principais proponentes
do MMT.

Porém, caso a moeda estatal não seja convencionada como padrão monetário de uso generalizado pela desconfiança do público
nela, ela será retida apenas no montante exato do imposto devido. Embora episódios inflacionários causem tal comportamento
de descrença na moeda, a recíproca é verdadeira: a desconfiança na moeda estatal pode desencadear processos inflacionários.
É como aponta Lara Resende: o componente expectacional da inflação implica inflação, e a razão para tanto é a luta pela
preservação da riqueza diante de um Estado cuja moeda enquanto reserva de valor é desacreditada.

Porém, confiança no sentido que aqui se coloca é mais do que ancoragem de expectativas sobre inflação, embora estas sejam de
extrema importância. Elas dizem respeito à convenção dos agentes em a moeda ser unidade de conta e, sobretudo, um ativo
que reserva valor no tempo. Caso os agentes não confiem nela enquanto tal, dela fogem, comprando velozmente bens e/ou
ativos que pareçam reservar valor. Assim podem surgir processos de aceleração inflacionária: pela busca dos agentes por ativos
confiáveis que reservem riqueza, com liquidez, no tempo.

O Brasil da alta inflação é cheio de exemplos da desconfiança social em relação à moeda estatal. Os próprios mecanismos de
preservação da renda nominal - a indexação - mostram a luta pela conservação do valor da renda no tempo, dado que a moeda
estatal não conseguia apresentar tal habilidade. Na zona do euro, o próprio esforço da Alemanha para que os países mais
afetados pela crise do euro permanecessem na União Monetária, como Grécia e Portugal, mostra que a moeda é convenção,
fruto de confiança nela: se um destes países saísse do Euro, a desconfiança generalizada de todos os indivíduos que possuem
riqueza cotada na moeda única poderia ter levado o euro ao fim.

Nas fileiras do MMT, há quem reconheça que confiança na moeda pode ser um problema. Para tanto, o ativismo fiscal seria
responsável por dar confiança à moeda, mesmo em cenários sem inflação, por meio da razão impostos sobre moeda emitida.
Isso seria, na prática, a política tributária manter a relação entre a oferta de moeda e sua destruição via impostos. O problema é

https://www.valor.com.br/imprimir/noticia/6195793 2/3
que os fatores condicionantes da base monetária
08/06/2019 vãopós-keynesiana
Uma crítica além das operações
ao MMT: ado TesourodoNacional.
negligência Para que a oferta de moeda seja
papel da confiança

controlada via política fiscal, seria necessário que a variação dos impostos acompanhasse a taxa de mudança da base
monetária.

Embora, em tese, se possa operacionalizar esta política tributária, impostos não são flexíveis o suficiente e sem impactos de
mais amplo espectro sobre a organização econômica de famílias e empresas para ser o instrumento par excellence para regular
a oferta de moeda vis-à-vis a demanda por ela. A política monetária é mais flexível, tem condições de rapidamente reagir às
mudanças na liquidez dos mercados monetário e financeiro e por isso é ela que cuida da administração das elasticidades da
moeda acima descritas.

Enfim, a confiança em um ativo é condição necessária para convencioná-lo moeda. Porém, a cobrança de imposto não é
condição suficiente para garantir a confiança necessária na moeda e, portanto, se a convencionar para trocas e denominações
de contratos na sociedade como um todo. O neocartalismo do MMT, usado como teoria monetária para as finanças funcionais,
baseia-se em uma das origens históricas da moeda, o poder estatal, mas é desatinado da razão pela qual se explica a moeda
persistir como padrão monetário no tempo.

Logo, há uma restrição financeira imposta pela confiança às ações do governo. Um dos problemas centrais das finanças
funcionais e do MMT é a negligência de que a dinâmica econômica depende crucialmente da confiança dos agentes privados,
algo que não se garante automaticamente via emissão de moeda para financiar demanda pública, pois, se fosse, a economia
cresceria em perpeetuum mobile. Por isso, a frase dita por Keynes a Lerner sobre as finanças funcionais "it's the art of
statesmanship to tell lies but they must be plausible lies" (Colander, 1984, p. 1574).

Referências

Colander, D. "Was Keynes a Keynesian or a Lernerian?" "Journal of Economic Literature", XXII, (1984): 1572-1577.
https://www.jstor.org/stable/2725382.

Fábio Bittes Terra, professor da UFABC e do PPGE-UFU, é pesquisador do CNPq

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