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23/05/2019 Teoria moderna da moeda na gestão de ativos

Teoria moderna da moeda na gestão


de ativos
Valor Econômico · 23 maio 2019 · Palavra do gestor Paulo Gala

Oartigo de André Lara Resende publicado no Valor no início de março deste ano provocou grande controvérsia e
frutífero debate no Brasil sobre os efeitos da impressão monetária nos preços e na inflação. Correndo o risco de
transformar uma discussão complexa em algo simplista, para efeito prático de gestão de recursos poderíamos

resumir toda essa discussão na seguinte pergunta: em quais circunstâncias a emissão monetária e permanentes défi-
cits públicos geram inflação?
Se a resposta for sempre ou quase sempre, na condição atual do mundo pós-crise de 2008, com déficits públicos e
bases monetárias em constante expansão, a consequência econômica natural seria: alta de taxas de juros curtas e
longas, posições ganhadoras tomadas (ou compradas) em juros. Se junto com a MMT (sigla em inglês para a Teo-
ria Moderna da Moeda) a reposta for emissão monetária e déficits públicos geram inflação apenas em situações
muito específicas com pleno uso dos recursos produtivos de uma economia, o que deveríamos observar no mundo
rico quase estagnado de hoje seria a inflação baixa e as posições ganhadoras de dinheiro dadas (ou vendidas em ju-
ros).
Um dos pilares da Teoria Moderna da Moeda nada mais é do que o poder soberano de denominar impostos na uni-
dade de conta criada pelo próprio governo. Isso não justifica, obviamente, o gasto público irresponsável e ilimitado
a qualquer momento — são duas questões ligadas, porém, distintas. A cobrança obrigatória de impostos (denomi-
nados na unidade de conta criada pelo governo) sobre uma população cria uma demanda pela moeda estatal. Essa
demanda por moeda abre espaço para o governo gastar (monetização de déficit público) emitindo passivos (moe-
da), pois pode injetar um passivo “estéril” que as pessoas demandam para cumprir suas obrigações com o Estado e
realizar transações monetárias.
John Maynard Keynes tratou deste tema, sem concordar totalmente com Abba P. Lerner, considerado o pai da
MMT, quando destacou a importância da moeda e da liquidez para a proteção da riqueza. Por que bancos, empre-
sas e pessoas demandam moeda? Para ficar líquidos, para proteger a riqueza, para saber quanto, de fato, vale o pa-
trimônio; para liquidação imediata de dívidas e contratos (no caso da corrida bancária). Ficar líquido tem muito va-
lor no sistema capitalista.
Então, a impressão de moeda primeiro abastece a demanda por liquidez. Depois, via juros baixos, eventualmente a
moeda chega na inflação se a economia estiver aquecida e o mercado de trabalho apertado; ou se o câmbio se des-
valorizar muito em ataques especulativos. Claro que se o governo imprimir moeda demais e gerar inflação, nin-
guém vai querer o dinheiro puro — neste caso, o governo pode, sim, gerar indexação no sistema e até hiperinfla-
ção. Tudo isso Keynes explicou de maneira detalhada em seus trabalhos dos anos 1920 e 1930: cunhou o termo
preferência pela liquidez para justificar a demanda por moeda.

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23/05/2019 Teoria moderna da moeda na gestão de ativos

Desde 2014, analistas de mercado preveem juros de dez anos nos Estados Unidos acima de 3% por conta da im-
pressão monetária, déficits crônicos, ameaças inflacionárias e ciclo de alta de juros do Federal Reserve. As taxas
teimam em fechar os anos desde então abaixo dos 3%. Os “bond vigilantes” não se cansam de dizer que os déficits
e a dívida pública fora de controle nos EUA provocarão uma explosão das taxas de juros longas. O fundo de Bill
Gross (o “bond king”) apostou neste cenário em 2018, errou e perdeu muito dinheiro, assim como vários outros
hedge funds. Bill Gross se aposentou.
No Brasil, as apostas de alta de juros longos por conta do aumento da dívida pública interna também vêm se pro-
vando erradas nos últimos três anos. Muitos fundos perderam dinheiro com essa aposta em 2016 e 2017. O debate
acadêmico e entre policy makers no Brasil e no mundo continua.
Em gestão de ativos é mais fácil separar o “certo” do “errado” e resolver a controvérsia. Comprou? Vendeu? Ga-
nhou ou perdeu dinheiro com essa ideia? Se vale a MMT, uma posição mais vendida em juros parece hoje mais ga-
nhadora tanto no Brasil quanto no mundo desenvolvido.

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