Você está na página 1de 21

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/332542991

Breve Resumo (Tópico) da Controvérsia sobre MMT nos EUA (para o


público lusófono)

Presentation · April 2019

CITATIONS READS

0 74

1 author:

André Roncaglia de Carvalho


Universidade Federal de São Paulo
27 PUBLICATIONS   11 CITATIONS   

SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

Inflation and Economic Development View project

History of Economic Ideas View project

All content following this page was uploaded by André Roncaglia de Carvalho on 20 April 2019.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


EPPEN-UNIFESP
Campus Osasco – São Paulo
Departamento de Economia

Controvérsia sobre MMT


nos EUA

André Roncaglia de Carvalho


andreroncaglia@gmail.com
Ressalvas
•  Esta apresentação contém apenas um resumo tópico das ideias dos
autores da MMT e de seus críticos e não se propõe a uma revisão
exaustiva de uma teoria ainda em desenvolvimento (autores
destacados em azul atuam em defesa da MMT);
•  A essência do argumento da MMT é apresentada a partir de
referências diretas aos autores originais da teoria engajados no debate
atual (há links para os artigos, destacados em azul e sublinhados);
•  André Lara Resende efetuou o transbordamento deste debate para o
caso brasileiro e, bem no estilo MMT, provocou importante “polêmica
política” sobre o “dogmatismo fiscal” dos recentes governos,
defendendo uma atualização da teoria macroeconômica convencional
que incorpore as transformações institucionais do sistema monetário e
uma compreensão adequada da moeda;
•  O resumo oferecido a seguir tem o propósito de auxiliar o
acompanhamento deste debate aqui no Brasil.
Motivação do Debate Atual
•  A eleição de Alexandria Ocasio-Cortez (doravante AOC),
pelo partido democrata, em novembro de 2018 para a
Câmara dos Deputados nos EUA trouxe para o centro do
debate público nos EUA a Moderna Teoria Monetária
(Modern Monetary Theory, ou MMT);
•  A jovem congressista defende uma mudança radical na
condução da política econômica na direção de um New
Deal verde, com maciços investimentos públicos em
inovação tecnológica sustentável e na construção de um
sistema público de saúde e de educação universais;

•  Financiamento: AOC defende uma alíquota marginal de


imposto de renda de 70% sobre as grandes fortunas;

•  A agenda tributária viria acompanhada, dentre outras


medidas, de uma elevação na dívida pública para
financiar os investimentos necessários à mudança na
estrutura produtiva norte-americana.
Motivação do Debate Atual
•  Para sustentar teoricamente suas
propostas de políticas, AOC vem
contando com o apoio de Stephanie
Kelton, colunista da Bloomberg e L.
Randall Wray, dois importantes
expoentes da MMT.
•  Kelton travou um debate público com
Paul Krugman e viu a teoria que
defende há anos ser objeto de
análise de diversos pesos pesados da
economia, tais como Kenneth Rogoff,
Larry Summers, Olivier Blanchard,
L. Randall Wray
dentre outros. expoente da MMT
Cerne da Controvérsia
Sound Finance Functional Finance
Austeridade VS. Orçamento Funcional
restrição orçamentária restrição orçamentária
rígida (hard) flexível (soft)

Falcões do orçamento (budget hawks) Corujas dos Orçamento (Budget Owls)



Orçamento Estatal equivale ao orçamento O governo deve usar seus poderes fiscais
familiar; logo, o Estado não deve incorrer (gastos, impostos e empréstimos) da
em déficits sistemáticos, sob pena de elevar maneira que melhor lhe permitir manter o
a taxa de juros para estimular o setor pleno emprego e a estabilidade de preços.
privado a lhe emprestar sua poupança em Basicamente, o Congresso, não o Banco
vez de investir na atividade econômica Central, deveria ter o duplo mandato sobre
(efeito crowding out). a estabilidade e emprego da economia.
Princípios da MMT
•  Impostos geram dinheiro - o governo não "precisa" de dinheiro
para gastar;
•  Os impostos servem para regular a demanda agregada, não para
aumentar a receita orçamentária;
•  Vendas de títulos públicos também proporcionam ao setor privado
uma segura e rentável alternativa à moeda;
•  O governo não deve perseguir nenhuma meta específica de
resultado orçamentário;
•  Desemprego é evidência de que o déficit público é, de fato, muito
pequeno;
•  MMT reconhece a relação fundamental entre o poder de uma
nação sobre sua moeda e seu poder sobre a política pública;
•  Abrir mão do poder sobre sua própria moeda implica uma perda
de poder na esfera política; (Kelton 2011)
Fogo Amigo
•  Artigo de Thomas Palley (2018), expoente da escola pós-keynesiana,
tecendo críticas à MMT antes da controvérsia com o mainstream.
•  O MMT é uma mistura de ideias “antigas” e “novas”. As velhas ideias são
bem conhecidas entre os economistas keynesianos e estão corretas, mas as
novas ideias são enganosas ou erradas.

•  A ideia antiga e essencial, que todo mundo sabe, é que o governo tem o
poder de emitir dinheiro e, por isso, tem muito mais espaço fiscal do que os
economistas do mainstream dizem. Mas ter a capacidade não implica
necessariamente usá-la, que é o onde o MMT se desvia.
•  No debate econômico e no jornalismo econômico há uma “demanda por
diferença”. O MMT é necessário como “polêmica política”, um antídoto para
os falcões de austeridade (budget hawks), mas nenhum dos dois contribui para
uma boa teoria econômica.
•  Os economistas do MMT tendem a mudar suas posições (Krugman 2019c
chamou esta prática de Calvinball );
Fogo Amigo
•  Algumas críticas de Thomas Palley (2018) em tópicos:
•  Não é fácil ter pleno emprego sem inflação. A economia é composta de muitas sub-
economias, de modo que algumas chegam ao pleno emprego muito antes das outras. É
por isso que a inflação começa a aparecer antes do pleno emprego;
•  Definir as taxas de juros em zero (eutanásia forçada do rentista) e esquecer dela poderia
promover uma inflação perigosa dos preços dos ativos e gerar instabilidade financeira.
•  MMT afirma que tudo que um país precisa é de uma taxa de câmbio flutuante, e então
pode usar déficits orçamentários financiados pelo BACEN para obter pleno emprego. As
taxas de câmbio são muito importantes para as economias, e os efeitos das taxas de
câmbio e da volatilidade da taxa de câmbio se ramificam amplamente, geralmente com
consequências muito perturbadoras. “Pergunte aos economistas do Brasil e do México”.
•  Os déficits públicos envolvem a emissão de diferentes combinações de passivos
financeiros. A extensão e o perfil da dívida podem ter consequências graves.
•  O governo não apenas aperta um botão para que os impostos subam ou os gastos
diminuam. Há grupos de interesses atuando tanto para impedir elevação de impostos
quanto para impedir corte programas de gastos.
•  Conclusão: se a MMT abordar essas críticas, a abordagem se dilui numa abordagem
keynesiana padrão.
Paul Krugman (2019a)
•  “Neste momento, os déficits não importam - um ponto confirmado por todas
as evidências.”
•  Mas as condições atuais não durarão pra sempre: excesso de capacidade e
armadilha de liquidez na qual a dívida pública de curto prazo paga uma taxa
de juros próxima de zero;
•  Dívida crescente pode levar a uma “greve” de compradores de títulos -
ninguém está disposto a comprar dívida dos EUA, exceto a taxas
exorbitantes;
•  A base monetária deverá subir 12% ao mês, ou cerca de 400% ao ano;
•  “... uma vez que não estivermos mais em uma armadilha de liquidez,
incorrer em grandes déficits sem acesso a mercados de títulos é uma receita
para inflação muito alta, talvez até para hiperinflação. E nenhum debate
sobre fluxos financeiros reais, sobre quem compra o quê, de quem, pode fazer
com que esse ponto desapareça: se você vai financiar déficits criando uma
base monetária, alguém precisa ser convencido a manter esta base adicional.”
Paul Krugman (2019b)
•  O MMT parece ser praticamente a mesma coisa que a doutrina de
“finanças funcionais” de Abba Lerner, de 1943.

•  “OK, Lerner: Seu argumento era que os países que (a) dependem
da moeda fiduciária que controlam e (b) não tomam emprestado na
moeda de outro país não enfrentam restrições de dívida, porque
podem sempre imprimir dinheiro para pagar suas dívidas. O que
eles enfrentam, ao contrário, é uma restrição inflacionária: o
excesso de estímulo fiscal causará uma superaquecimento da
economia. Assim, suas políticas orçamentárias devem ser
inteiramente focadas em acertar o nível da demanda agregada: o
déficit orçamentário deve ser grande o suficiente para produzir
pleno emprego, mas não tão grande a ponto de produzir
superaquecimento inflacionário.”
Paul Krugman (2019b)
•  Lerner negligenciou o tradeoff entre política monetária e fiscal;
•  E ele não abordou totalmente as limitações técnicas e políticas aos aumentos
de impostos e/ou cortes de gastos
•  Lerner diz que a taxa de juros deve ser definida no nível que produz “o nível
mais desejável de investimento”, e que a política fiscal deve então ser
escolhida para alcançar o pleno emprego, dada a taxa de juros”;
•  Mas... o que realmente acontece na maior parte do tempo (não no zero lower
bound) é o oposto: tradeoffs políticos determinam impostos e gastos, e a
política monetária ajusta a taxa de juros para alcançar o pleno emprego sem
inflação.
•  Nessas condições, os déficits orçamentários expulsam (crowd out) os gastos
privados, porque os cortes de impostos ou os aumentos de gastos levarão a
taxas de juros mais altas.
•  E isso significa que não há único um nível correto de déficit; é uma escolha
que depende de como você valora o tradeoff.
Paul Krugman (2019b)
•  E a dívida? Depende de se a taxa de juros (r) é maior ou
menor do que a taxa de crescimento (g) sustentável da
economia.
–  Se r <g, o nível de dívida realmente não é um grande problema.

–  Se r >g, há a possibilidade de uma bola de neve da dívida

•  A dívida não pode crescer infinitamente, pois não pode


exceder a riqueza total e, de fato, à medida que a dívida
aumenta, as pessoas exigem retornos cada vez maiores para
mantê-la.
•  Em algum momento, o governo seria forçado a ter superávits
primários (excluindo-se o pagamento de juros) grandes o
suficiente para limitar o crescimento da dívida.
Stephanie Kelton (2019)
•  Déficits são uma fonte da poupança privada e, ao elevarem a liquidez da
economia, reduzem a taxa de juros da economia;
•  Emissão de dívida não visa financiar déficits, mas drenar reservas
bancárias para se atingir alguma meta de taxa de juros.
•  Sobre o tradeoff entre as políticas monetária e fiscal: “Lerner sugeriu que o
governo pode vender títulos para absorver o excesso de dinheiro (reservas) a
ponto de a taxa de juros de curto prazo aumentar o suficiente para evitar
excesso de investimentos. Caso contrário, as baixas taxas de juros provocadas
pelo aumento dos déficits podem “acumular” mais gastos em investimentos e
superaquecer a economia.
•  Lerner estava preocupado com os possíveis efeitos de crowding-in da política
fiscal, e não com os efeitos de crowding-out que Krugman acredita serem
parte de uma tensão inerente - tradeoff - entre política fiscal e monetária. Os
déficits poderiam baixar as taxas de juros e estimular muito o investimento;
as vendas de títulos servem para manter taxas de juros mais altas.
Kenneth Rogoff (2019)
•  MMT é baseado em concepções errôneas profundas: EUA têm sorte de poder
emitir dívida em dólares, mas se os investidores podem relutar em manter a
dívida e a moeda de um país.
•  O dólar americano tornou-se cada vez mais dominante no comércio e finanças
globais. No momento, o mundo está bastante receptivo a absorver mais dívidas
em dólares a taxas de juros extremamente baixas.
•  Baixas taxas de juros e inflação baixa não durarão para sempre; logo, há riscos:
relação de custo-benefício ficam mais desfavoráveis no uso da política fiscal para
combater uma crise financeira, responder a um desastre natural ou pandemia em
larga escala, ou mobilizar para um conflito físico ou guerra cibernética.
•  Ao contrário da opinião generalizada, o banco central dos EUA não é uma
entidade financeira independente: o governo é o seu proprietário.
•  O próprio Fed é responsável por uma boa parte da confusão em torno do uso de
seu balanço. Após a crise financeira de 2008, o Fed comprou dívida pública de
longo prazo em troca de reservas bancárias e tentou convencer o público
americano de que isso estimularia economia, mas isso não aconteceu conforme o
esperado.
James K. Galbraith (2019)
•  MMT não é principalmente um conjunto de propostas de políticas
econômicas.
•  É essencialmente uma descrição de como uma economia moderna de crédito
realmente funciona - como o dinheiro é criado e destruído, pelos governos e
pelos bancos, e como os mercados financeiros funcionam;
•  Isso significa que "os déficits não importam"? Não. O MMT reconhece que a
política pode ser excessivamente expansionista e desrespeitar restrições de
recursos, causando inflação e depreciação da taxa de câmbio - o que pode ou
não ser desejável.
•  Hiperinflação é o bicho-papão, que alguns críticos do MMT empregam como
uma tática de intimidação.
•  Não se trata de taxa de juros (controlada pelo BACEN) nem do efeito
crowding out do setor privado (que pressupõe que as fontes de financiamento
são estáticas);
James K. Galbraith (2019)
•  MMT é essencialmente uma descrição de como uma economia moderna de
crédito realmente funciona - como o dinheiro é criado e destruído, pelos
governos e pelos bancos, como as operações monetárias realmente
funcionam, como as taxas de juros são definidas e quais poderes econômicos
o governo dos EUA tem
Isso significa que "os déficits não importam"? Não.
•  A MMT reconhece que a política pode ser excessivamente expansionista e
desrespeitar restrições de recursos, causando inflação e depreciação da taxa
de câmbio - o que pode ou não ser desejável. (Hiperinflação é o bicho-papão, que
alguns críticos da MMT empregam como uma tática de intimidação.)
•  Não se trata de taxa de juros (controlada pelo BACEN) nem do efeito
crowding out do setor privado (que pressupõe que as fontes de financiamento
são estáticas);
•  Questão central (“recursos reais”): a garantia de emprego proposta pela
MMT manteria o uso real de recursos exatamente no nível necessário para o
pleno emprego - não menos, mas também não mais.
Larry Summers (2019)
•  MMT parece oferecer o proverbial almoço grátis: a capacidade do governo de
gastar mais sem impor nenhum ônus à economia.
•  George H.W. Bush estava certo durante a campanha presidencial de 1980
para chamar esse pensamento de "economia vodu”.
•  MMT apresenta uma ideia válida, mas distorcida por alegações ridículas de
que gastos maciços em garantias de emprego podem ser financiados por
bancos centrais sem qualquer ônus para a economia.
A moderna teoria monetária é falaciosa em múltiplos níveis.
1.  a perspectiva de que, de alguma forma, imprimindo dinheiro, o governo
pode financiar seus déficits a custo zero.
2.  a experiência de qualquer número de mercados emergentes demonstra,
passado um certo ponto, que essa abordagem leva à hiperinflação;
3.  Bacen financiando déficits do Tesouro provavelmente resultaria em um salto
da taxa de câmbio, causando aumento da inflação, aumento das taxas de
juros de longo prazo, dos prêmios de risco, fuga de capitais do país e salários
reais mais baixos à medida que a taxa de câmbio dispare e o preço das
importações suba.
Links às Referências
•  Randall Wray: https://www.ineteconomics.org/research/experts/lrwray
•  Kelton (2011):
http://smarttaxes.org/wp-content/uploads/2011/05/Stephanie-Kelton-final.ppt
•  Palley (2018): https://thomaspalley.com/?p=1145
•  Paul Krugman (2019a):
https://krugman.blogs.nytimes.com/2011/03/25/deficits-and-the-printing-press-
somewhat-wonkish/
•  Paul Krugman (2019b):
https://www.nytimes.com/2019/02/12/opinion/whats-wrong-with-functional-finance-
wonkish.html

•  Stephanie Kelton (2019):


https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2019-02-21/modern-monetary-theory-is-not-a-
recipe-for-doom
•  Krugman (2019c): https://www.nytimes.com/2019/02/25/opinion/running-on-mmt-wonkish.html

•  Kenneth Rogoff (2019):


https://www.project-syndicate.org/commentary/federal-reserve-modern-monetary-theory-
dangers-by-kenneth-rogoff-2019-03

•  James K. Galbraith (2019):


https://www.project-syndicate.org/commentary/federal-reserve-modern-monetary-theory-
dangers-by-kenneth-rogoff-2019-03

•  Larry Summers (2019):


https://www.washingtonpost.com/opinions/the-lefts-embrace-of-modern-monetary-theory-is-
a-recipe-for-disaster/2019/03/04/6ad88eec-3ea4-11e9-9361-301ffb5bd5e6_story.html?
utm_term=.9518e5fa628e
Outras Referências
•  Artigo sobre o zoomorfismo da questão fiscal (falcões, corujas etc.):
https://citizenvox.org/2012/02/22/hawks-doves-and-
owls-budget-policy-goes-to-the-zoo/

•  Blog Modern Money: https://modernmoney.wordpress.com/

•  Blog Interfuidity - para a coletânea de artigos nos EUA:


https://www.interfluidity.com/v2/7083.html

•  Site New Economic Perspectives com publicações dos expoentes da


MMT nos EUA:
http://neweconomicperspectives.org/mmt-scholarship
Outras Referências
•  Artigo de Pavlina Tcherneva para a Jacobin sobre como a MMT já
está ajudando na reforma da agenda política dos EUA:
https://jacobinmag.com/2019/02/mmt-modern-monetary-
theory-doug-henwood-overton-window
•  Réplica recente de Randall Wray ao artigo de Doug Henwood na
Jacobin:
http://neweconomicperspectives.org/2019/02/response-
to-doug-henwoods-trolling-in-jacobin.html
•  Artigo de Matías Vernengo para o blog Naked Keynesianism:
http://nakedkeynesianism.blogspot.com/2019/03/mmt-
and-its-discontents-again-wonkish.html
•  Link para a Pasta Compartilhada com os artigos da controvérsia nos
EUA e no Brasil:
https://www.dropbox.com/sh/g7jih3m2p6yh4ck/
AAAVR44s_pVverwComouZDuZa?dl=0
View publication stats