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ESFERA PUBLICA POLITICA E COMUNICAGAO. EM MUDANCA ESTRUTURAL DA ESFERA PUBLICA DE JURGEN HABERMAS: Wisco Gomes PARTE I 1. AIDEIA DE ESFERA PUBLICA ESFERA PUBLICA POLITICA Epressbes formactes sata © modelos ideogicos donga esrtural de efera ptblica & uma densa pes sobre o significado e a refe-tncia das expresses ‘blico(a” (fentich),“pubctdede” ou “esfera pabli a’, ou sinds “este do piblico” (Offendichtet), nas deroocracias curopéis. © livio trata da formacio ¢ da instituciondlizagio do tmprego de tas exprssdzs, bem como da formasio de sua refer. Giae de seu conteddo nos séculos ao redor dis grandes revolugbe: burguesss, sob inspirago normariva do uso, denominasio ¢ pritica des gregos na idade do ouro da democracia ateniense, A investigagéo conduz a0 diagnbstico da ernsformagio de estrucers to modelo da esfers pabliea eontempocinea, na era da comunica- so de massa A obsa, una rex de habiltagio & docéncia universistia apre sentada per Habermas no infcio dos anos 60, trttade “pitblico” € de “esfeca pablica® por meio de eres eixos analiticos No primero, ‘xamtins 0 emprego de adjetivo “pblica(a)"e da expresso “sfera WSCAO nos ambientes culturais europeus histo: importantes para a teoria democritica (Crécia, me Mais Fangs © Alemantal no esgundo, caina ss dhe, sera a que as expresbes se referem; no terceit, renin xe formilaramos model ideldiorqueconsiturm one No que se refere zo primelto aspecto, o auior rage ene. 0 ds mais absolurapolisemls no uso desas expences ome bem da verifeagio de que apenas no séclo XVIMI, pe se sees ae forma o substantive Offentlichkeir (Coder pte 0 “publicidade”, em portugués), como corresponds do aatigo adjetivo afenttics "piblico”) (dene ae 15)! Mesmo assim, o subsantvo & formado po: analoga a as expresses mais anti ii cit A : ‘pt “ igas, francesa ¢ inglesa, publicits ¢ publi, snbas referidas ao ambito, dominioou eifera daquila ques pbc, Octiso eemAntico do qual pahvra e dsiva nda imperagingce 6 & orgem grege, mediad por una verso roma, No ccna ambiente semdntico grego, o emprego de tas exprestes dae quidro de uma contraposigio ereee a exfera de pili ea esr da dikes, 0 dominio daguilo que é comum a vodes (tin?) contapos 40 imbito daquilo que € proprio de cada um (iia) "A vida pbc, bits pelts, desenol-se na prags centel, na dgor, mses nko € rs. trit espacialmente: a publiidade se conscaui canto na conversrio (xi), que também pode assumir a forma de um conselho ou dé um tribunal, quanto ma realizegzo coletiva (priv), rate-seds goer £9 01 dos jogos que a imitam® (Habermas, 1990, p. 56)? A teferéncia deuma expressio, saberos todos, 6a classe de fend ‘menos a que essa expresto se aplica. No caso em tea, as expres Ses si0 convenientemente aplcadas a fendmenos du experénia “ramsreackeerammnaeemnucrpmmnana sire cee tector 1 aN a versio de devidacrente aporiados no (es, vadual da ode Sinkeande or Oech sermon 1290) aime es MOSS eric EsjERA POBUCA PUTICA E COMUMICAGAO EM MUCANCA ESTRUTLAAL A EFERA PUBLICA oo 3B mais eatamente a dererminedas formagbes todas (gelichafiche Formation), que Habermas reseaha com cuidado, da conversagio ¢ ‘anidedescoletivasgreyas aos pibliess modernos € contemporaneos Cas dscsies quc cles conduzem. A formagéo social ea quesiéo da fa denominacio néo estio, obviamente, separadss. Para Haber nas, 2, 20 menos na Alemanha, somente no século XVIII uma dererminada formagéo social forca a sua designasio como “esfera riblica’ € porque, de fato, apenas entéo € que ela se constitui (Habermas, 1984, p. 15). 'A formagdo social que produ a referencia da expressio grega equinlente a “eifera publica’, na democracia ateniense, cons- titubic, nataralmente, em relagio estreita com 2 comuridade politica, A esfera da polftica, ou daquilo que afera e concerne a todos, ¢ a esfera piblica, parte da vida humana que se destaca sobre um fundo consticuldo pela esfera privada, que é a esfera da posse pessoal de bens ¢ pessoas, da unidade familtar em cuja cabest esava o senhor da casa. Susentados na sua zutonomia privada, os vardes podian emergir paraa esfera do: negécios cl cionades 8 comunidade politica, dominio da visibilidade, ambit das decisées sebre o que é comum, esfera da conversagao. Nessa dimensio publica, sempre se parte de uma siuagao de paridade, pois af os cidadios devem necessatiamente circular como iguais, para, em seguids, em fungio des habilidades demonstradis nas Aispuras argumentatives, estabelecerem-se as clivagens social mente reconhecidas. “Agenas & lur da eslere poblica” ~ descreve Habermas 9 vids pablia grege ~ "e que o real se mostre, que tudo se tore ‘iste. As colsas se verbaizam e genham forma na converse dos cdados entre st nas spotas dos pares entre sié que Os imethores se destacam, akangando squilo que sto ~ a imorta- dade da tama". (Habermas, 1990, p. 57) Mokgomita omnis 30 seep Se a i eiidos noc ifiado de uma expresio é a classe de contetidos nocio. 0 ey crcumsereve. Na maior pire dos e230, os signifcad ais que ela ese agen er eens ‘Nouiros cazos, os significids sio, tecnicamente, conceitoy, recortes, unidades nociorais que n0s permite so is ey ie arn pen airfutesranis orentado por um prop6sio analftico. Os concetas formados, por exemplo canto pars darcoma de Fars dk ne a outias eign perincia quanto para responder a princtpos « @ outs exigtclas i nlexio. O modelo idealigica (ideologiche Master) de “pile ‘ede ‘afer piblica” nao & simpleerente um estrao concelnual que fcompana o emprego das expresses na tentativa de recortar uma panba o erpr ‘aperlncia concret, Bem mals, tata-e de um segmenco de nocbes {ie raponde a decrminados princiios, interprecapBes de exper ici ¢ valores. Como a sua vinculacdo aos didos da experiéncis, & profundamente mediadh por valores, principio: « interpreragbes reuiatvas, ficilmense 0s modelos ideoldgices se destacam das ‘experitaias concreas e cas suas circunstincias. Assim sio crados, os descompasios au hists entre as Formagdes sociais © os mdelos eoldgicos, embora ambos se possam denominar com as mesmas expresses. A tese de Habermas a esse respeito € que, no caso di pasagem do modelo de esfers piblica helénica para 0 modelo de ‘ofea piblica burguesa, a formagio social que constitu a referench 4 sxpressio sofre uma consderdvel transformagSo, enquanto 0 modelo ideolégico racionade 4 expressio mantevea aus continu: dade Habermas, 1984, p. 16) Durante © longo periedo cue nos separa des condigées de vidt ‘assocledades modernas contemportness, nfo hé ume continu sade semincica imegral, mas uma parte do material seméntico $¢ rscrva¢ propaga, prineipalmente no Direito Romano, mormente ‘8 contrapasiego entre “publica” e ‘privado”, que werd empreg® eol6gico imporance ni montagem ca denominagio modeina. No que tangs so modelo ldeol6gico,sabemos que essas “formas ‘pncelcuals néo precisam de continuidade real, bastando-the uma comtinuidade no nivel des valores dos principios no mundo das {FEA POUCA FOUTICA E COMUIaCACAO EN MUDANCA ESTUTURA OA EVRA BUCA Ea ids. O monitmento intelectual de “roa aos cldsicoi (¢ a pss pia nogio de clasicistnoh que data do infclo do Retasciment, relzou cera recomposio com 0 miicopassado greg, idelog camente forte o sufciente para garantir a continuidade de valores ¢ prinefpior que jusificam uma ocupagto das catcgeras gregss pa “traduui’ perspectives modernas relacionadas 20 funcionamento a politica ¢ do Estado, Por fim, no que se refere& formacia tecal que subjz, como referencia, As ids de publicidade e de deminio piblio, ests forsm, evidensemence, descontinuadas, 0 longo perlodo que separa o quinco século a, C. do décimo oltavo séeulo 4.C.Apenas no século XVIII, € que, de fto,sio constituidas nove formagbersocas, em pequena parteandloges, em grande pane dt. tin, daquclesclsscas € que se considera merecer propriamente suma designaséo equivalence 0 modelo da esfera piiblica burguese 2) O padkbo idealégico Tensada em conformidade com 0 sev patio ileoligico, uma «fer pblica,ndo importa se segundo 0 modelo helénico o1 bur- sués, deve ser compreendida como aquele Ambito ds vida socal em que imereses, vontades e pretensbes que comportam conseqiién- chs conctenente: & comunidade politica se apresentam na forma de agumencagio ou discuisi. Essa discussdes devem ser abertas 2 partcpncto de todos os cidadese condunidas por melo de uma tree pibliea de ranbes © primeiro requisito da esfera patlica a palevra, a comuni- ‘asdo:imceresses, vontades e pretensbes dos cldadios podem ser leradot em considersgto apenas quando ganham expressto em cnurciados, Estes, por sua ver, destinam-sea convencer osinterlo- cutores, ervindo-se de procedimentos demonstrativos chamados ddeaugumencos ou raxbes. Argumentos abs quais se adere ou com ‘otqualese contrasta em discussbes, debates, argumentagbes racio- sini pablicos, Nesse sentido, chama-se esfera publica 0 ambito 4a vida social que se materializa ~ em vévias arenas, por véticsins- emigci0