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O lugar do jornalismo na comunicação*

Zélia Leal Adghirni

Doutora pela Universidade de Grenoble, França


Professora do Programa de Pós-Graduação da Faculdade
de Comunicação da UnB
E-mail: zelialeal@voila.fr

Resumo: Reflexão sobre a especificidade do jornalismo como


objeto de ensino e pesquisa na área da comunicação. Parte-se Introdução
da tradição americana dos estudos de comunicação de massa,
passando pela influência do pensamento francês na construção
teórica das ciências da informação e da comunicação até o que
A palavra comunicação comporta vários
já se pode considerar como o início da consolidação do campo sentidos. Ela se move em um terreno instável,
acadêmico nos estudos de jornalismo no Brasil. Os dados uti- flou, sem contornos nítidos, nas fronteiras hí-
lizados foram extraídos de trabalhos recentes, realizados por
membros da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jorna- bridas do vasto campo das ciências sociais e
lismo (SBPJor) e apresentados nos últimos congressos da área. humanas. A construção desse campo singular
Palavras-chave: comunicação, informação, jornalismo.
de conhecimento nasceu polêmica e continua
Lugar del periodismo en la comunicación marcada pelo questionamento de sua legiti-
Resumen: Reflexión sobre la especificidad del periodismo midade científica. Ainda hoje os especialistas
como objeto de enseñanza e investigación en el área de la co-
municación. Se parte de la tradición americana de los estudios têm dificuldades para delimitar a área da co-
de comunicación de masa, pasando por la influencia del pen- municação a partir de uma perspectiva teórica
samiento francés en la construcción teórica de las ciencias de la
información y la comunicación hasta lo que ya se puede consi-
ou de um objeto de pesquisa. E, dentro dessa
derar como el inicio de la consolidación del campo académico área, os estudos específicos sobre o jornalismo
en los estudios de periodismo en Brasil. Los datos utilizados se ainda são vistos com uma certa desconfiança
extrajeron de trabajos recientes, realizados por miembros de la
Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) por acadêmicos mais ortodoxos.
y presentados en los últimos congresos del área. Para o pesquisador português Nelson Tra-
Palabras clave: Comunicación, información, periodismo.
quina (2004), o jornalismo é um campo es-
The position of journalism in communication pecífico em relação ao campo midiático, indo
Abstract: Reflection on the specificity of journalism as a sub- além das notícias. Genro (1978) também de-
ject of tuition and research in the communication area. From
the American tradition of mass communication studies, going
fende o jornalismo como forma de conheci-
through the influence of the French thought on the theoretical mento de singularidade específica. Segundo
construction of information and communication sciences, to
what can be considered as the beginning of consolidation of
academic studies of journalism in Brazil. The data used were
collected from recent works elaborated by members of the Bra-
* Trabalho apresentado nos seguintes eventos: VIII Colóquio Bra-
zilian Association of Journalism Research (SBPJor) presented
sil-França de Ciências da Comunicação e da Informação, Inter-
in the last few conference sessions of this area.
com, SFSIC e Gresec.
Key words: communication, information, journalism.

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Traquina1 , o jornalismo apareceu nas univer- jornalismo informativo já era muito difundida
sidades antes da comunicação. Assim, muitas na Europa. A controvérsia acadêmica sobre os
das teorias próprias do jornalismo não têm pais fundadores da teoria do jornalismo (dis-
origem na comunicação, mas vêm das ciên- cute-se mesmo se existe uma teoria do jornalis-
cias políticas, da economia, da sociologia, da mo) está longe de ser conclusiva, porém apon-
história e de muitas áreas diferentes. Apesar ta caminhos para o início da pesquisa sobre o
dessa dispersão disciplinar, o autor situa o jor- tema no espaço que hoje se chama ciências da
nalismo no âmbito das ciências sociais. informação e da comunicação.
A primeira tese sobre jornalismo, de que se Não se poderia deixar de citar, nas origens
tem notícia, foi defendida na Universidade de desses estudos, a contribuição de outro pes-
Leipzig, Alemanha, em 1690, por Tobias Peucer, quisador alemão, Otto Groth, que, no perío-
com o título de “Relatos jornalísticos”, conside- do entre as duas grandes guerras mundiais,
rada por muitos teóricos um texto fundador estabeleceu categorias científicas para o jor-
para o campo acadêmico. A leitura do trabalho, nalismo através de quatro leis: periodicidade,
quatro séculos depois, é surpreendente. Parece universalidade, atualidade e difusão. Essas
escrito no século XXI. Questões como a ética leis ainda servem de parâmetro nos estudos
profissional, os critérios de noticiabilidade, a contemporâneos de jornalismo. Groth (1883-
mercantilização da informação e a exploração 1965), que foi discípulo de Max Weber, exer-
sensacionalista dos fatos já eram abordadas por ceu o jornalismo na Alemanha entre 1906 e
Peucer. Na sua obra, há considerações até sobre 1934, mas teve de abandonar suas atividades
os famosos “seis Ws” e o “lead”, que tem sido quando resistiu ao nazismo em expansão3 .
considerado uma invenção norte-americana. O A abordagem do jornalismo como forma
pesquisador alemão sugeriu que a origem dessa de conhecimento a partir de categorias filo-
técnica de abertura do texto jornalístico pode ser sóficas do singular, particular e universal seria
encontrada na retórica cultivada nos discursos retomada nos anos 1980 por Adelmo Genro
da Antiguidade Clássica. Filho, na obra O segredo da pirâmide: uma te-
Para o professor Jorge Pedro Sousa (2005), oria marxista do jornalismo.
da Universidade Fernando Pessoa, a longa per-
manência da tese de Peucer na obscuridade
atrasou os estudos acadêmicos do jornalismo Influência francesa
em nível mundial. Sousa atribui esse desconhe-
cimento ao fato de que a tese tenha sido escrita A pesquisa em comunicação no Brasil
originalmente em latim e vertida para o alemão recebeu profunda influência do pensamen-
em 1944, isto é, 250 anos depois. E só chegou to francês, principalmente a partir dos anos
traduzida para o português em 1990, isto é, 310 1970, quando começaram a ser criados os
anos depois. Certos teóricos discordam sobre a programas de pós-graduação em comunica-
paternidade da primeira teoria do jornalismo. ção nas principais universidades brasileiras.
O professor Orlando Tambosi (2005), da Uni- Em Paris, nossos primeiros teóricos beberam
versidade Federal de Santa Catarina, considera nas fontes do conhecimento de uma área
que Peucer não foi original em suas hipóteses, emergente, que ainda não tinha nome, mas
chegando a afirmar que tudo que disse o pes- que atraía filósofos, sociólogos, historiadores
quisador alemão já estava na obra do médico e autodidatas curiosos.
francês Théophraste Renaudot, considerado o O professor Eduardo Meditsch (2004) afir-
pai da imprensa na França2 , e que a idéia do ma que os autores franceses estão entre os dez
mais citados na bibliografia da pesquisa em
1
Entrevista exclusiva para a revista da Universidade Federal de
Santa Catarina, Estudos em Jornalismo e Mídia. v. 1 nº 2, 2º se-
mestre 2004, p. 200. 3
Para conhecer melhor a obra do pesquisador alemão, ler O jor-
2
Théophraste Renaudot (1586-1653) criador do primeiro jornal nalismo como disciplina científica: a contribuição de Otto Gro-
francês, em 1631, La Gazette de France. th, de Wilson da Costa Bueno. São Paulo: ECA/USP,1972.

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jornalismo. De fato é muito comum encontrar A pesquisa em


referências francesas em textos apresentados comunicação no
em congressos, publicações científicas e teses
Brasil recebeu pro-
de pós-graduação nas universidades brasilei-
ras. Em rápida consulta às obras dos principais
funda influência do
autores na área de comunicação, realizada de pensamento francês,
maneira empírica, sem o rigor metodológico principalmente a
que esta reflexão exigiria, encontramos em partir dos anos 1970
primeiro lugar os nomes de Michel Foucault,
Edgar Morin e Pierre Bourdieu. Somam-se a
esses nomes outros pesquisadores de referên- munications. O nome mais importante desse
cia, não necessariamente na ordem aqui apre- grupo seria Roland Barthes, que se apropria
sentada: Jean Baudrillard, Roland Barthes, dos conceitos de lingüística, dando continui-
Armand Mattelard, Bernard Miège, Jacques dade a um antigo projeto, a semiologia, uma
Derrida, Michel Maffesoli, Régis Debray, Guy “ciência que estuda o sistema de signos no
Debord, Paul Virilio, Jean François Lyotard, seio da vida social”, proposta por Ferdinand
Louis Queré, Daniel Bougnoux, Jean Caune, de Saussure em seu célebre Cours de Linguisti-
Dominique Wolton, Lucien Sfez, Maurice que Générale, Genebra, 1916.
Mouillaud, Pierre Levy e Patrick Champag- Os três cursos de Saussure em Genebra são
ne, sem incluir a lista de uma nova geração considerados fundadores dos métodos dessa
de autores que despontam num horizonte de teoria. Para o lingüista suíço, a língua é uma
publicações recentes. instituição social, enquanto a fala é um ato
Trata-se de produção intelectual eferves- individual. Para o semiólogo, a sociedade é
cente e inquieta, complexa e abundante, ino- um conjunto de sistemas de signos governa-
vadora e crítica que vem abastecendo nossos dos por leis de combinações, de associações e
universitários, principalmente nas últimas de diferenças. Essa corrente teve fundamental
décadas. Os órgãos institucionais de fomento importância nas pesquisas em comunicação
à pesquisa registram, anualmente, dezenas de no Brasil, sobretudo na década de 1970.
bolsas de estudos concedidas a pesquisadores A idéia dominante era que a análise das
brasileiros que elegem centros universitários mensagens explicaria as transformações cultu-
franceses de referência para aperfeiçoar suas rais operadas na sociedade. A referência a esse
investigações científicas na área de comunica- movimento aparece no “Espírito do tempo”,
ção. Paris, Lyon, Grenoble, Bordeaux, Rennes tendo à frente Morin e Souchon. Essa forma
e Strasbourg estão entre os lugares preferidos de análise era percebida como “infinitamente
por pesquisadores brasileiros para desenvolver mais urgente” (Barthes) que as entrevistas e as
projetos individuais de doutorado e pós-dou- sondagens.
torado ou trabalhos coletivos de cooperação A partir do contato com a lingüística estru-
internacional, como o acordo Capes-Cofecub tural de Saussure desenvolveu-se a antropolo-
para o intercâmbio de trabalhos, professores e gia estrutural, cujo principal representante,
alunos nas diferentes áreas de comunicação. Claude Lévi-Strauss, trouxe fundamental
Nos anos 1960 surgiu na França, dentro de contribuição sobre o Brasil, com a obra Tristes
um grupo de pesquisadores apaixonados pe- trópicos, de 1955. Também influenciado pelas
los estudos de comunicação de massa, lidera- idéias de Lévi-Strauss, Roland Barthes critica
dos pelo sociólogo Georges Friedmann, junto o simplismo da análise de conteúdo e sugere
com Edgar Morin, o Centro de Estudos de que se procure o sentido nas mensagens sub-
Comunicação de Massa (ECMASS), ligado a jacentes, freqüentemente ligadas entre si.
École Pratique de Hautes Études em Sciences Os mass-media, como se dizia na época,
Sociales. Um ano depois, nascia a revista Com- eram o objeto privilegiado de estudo dos inte-

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lectuais franceses nos anos 1960-70 e território de a linguagem e o discurso até a questão da
privilegiado para a semiologia: os jornais, a te- ideologia e do engajamento político. Trata-se
levisão, o cinema, a moda, as histórias em qua- de um debate amplo, duradouro, infindável,
drinhos..., tudo se tornava objeto de estudo, que ultrapassa as ruas de Paris, as fronteiras
nessa espécie de nouvelle vague que inundava da França e ganha o mundo, principalmente
os meios universitários parisienses. A semio- a Grã Bretanha e os Estados Unidos, onde in-
logia beneficiou-se de uma onda considerável, telectuais já haviam se lançado nas discussões
em nome de certo imperialismo metodológi- dos estudos culturais.
co que queria afirmar a primazia da lingüís- Além dos modelos neomarxistas e fun-
tica como modelo de apreensão de todos os cionalistas, outros modelos de sujeito social
fenômenos sociais (Bourdon,1997). Diversos foram sendo introduzidos no debate. É ao
termos derivariam daí, como “estruturalismo” universo dos sociólogos interpretativos que
e “semiologia”, no lugar de “semiótica”, termo fazemos referência: interacionismo simbólico,
usado pelos seguidores de Pierce. Os resulta- fenomenologia social, etnometodologia, cor-
dos poderiam ter sido enriquecedores, contu- rentes que têm por característica interessar-
do o projeto semiológico perdeu-se no cami- se pela vida cotidiana das pessoas, analisan-
nho. Roland Barthes, no entanto, lançou uma do suas atividades menos como uso do que
crítica ideológica da linguagem, da cultura de como interação entre sujeitos que constroem
massa (Mythologies, 1957), e fez a primeira o mundo social e nele conseguem se orientar.
desmontagem semiológica da linguagem, de- Não poderíamos deixar de salientar, nesse
terminante para os estudos que viriam depois. contexto, a influência do sociólogo Armand
Mas é Edgar Morin (L´esprit du temps, Mattelard, que nos ensinou a ler o Pato Do-
1962) quem realiza uma síntese ambiciosa nald em plena ditadura militar. Belga de nas-
das pesquisas existentes então sobre as mídias. cimento, Mattelard desenvolveu a maioria de
Partindo das mensagens, ele busca a especi- suas pesquisas na Universidade de Rennes,
ficidade dos veículos e seu caráter maciço de França. Ficaria conhecido, sobretudo, pela
difusão, que transcenderia as antigas divisões obra realizada, juntamente com a mulher, Mi-
entre classes e nações e criaria uma nova re- chelle, no Chile, durante o governo da Unida-
lação, “errante, desenraizada, móvel no tem- de Popular de Salvador Allende. Benefician-
po e no espaço”. Morin declara também sua do-se do apoio político, Mattelard, Dorfman
simpatia pela cultura de massa, na mesma li- e outros pesquisadores tiveram todas as con-
nha de Mythologies, de Barthes, e propõe um dições para realizar um trabalho profundo de
panorama das temáticas das mídias: os mitos crítica ao imperialismo cultural norte-ameri-
da felicidade e do consumo encarnados pelas cano, formando uma geração de opositores à
estrelas de cinema, a exteriorização multifor- indústria cultural mercantilista. Quando os
me e permanente da violência, o erotismo, o tempos se tornaram difíceis na América La-
valor da beleza etc. tina, dominada por regimes militares durante
Surgem nesse clima dois sociólogos, Bour- cerca de duas décadas, os intelectuais críticos
dieu e Passeron, que vão contestar Morin e retornaram aos seus países de origem, mas
Barthes e lançar um novo debate: até que legaram-nos mestres fundamentais para o
ponto é possível isolar os elementos signifi- desenvolvimento de um pensamento latino-
cativos de um texto midiático para explicar americano autônomo e arrojado, tais como
a sociedade? O debate, de forma e de fundo, Martín-Barbero, Néstor Canclini, Luis Rami-
duraria longo tempo, envolvendo outros pes- ro Beltrán e, sobretudo, no Brasil, o pedagogo
quisadores nessa arena controversa, até que Paulo Freire.
o grande debate público sobre a televisão se Nos anos 1980, o pensamento francês vi-
impôs, a partir do final dos anos 1970, levan- veu um período agitado por novas correntes
tando questionamentos teóricos que vão des- teóricas. Os estudos sobre mídia e recepção

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ocuparam um espaço privilegiado no debate a contribuição intelectual francesa foi decisiva


público (Miège, Verón, Champagne, Bour- para a construção de uma plataforma científi-
don). Uma das tendências mais fortes é a visão ca inovadora e eficiente. “A universidade bra-
apolítica das mídias. Além de Régis Debray, sileira, por exemplo, cujo propósito central
o mais ilustre representante dessa corrente era a disseminação dos princípios iluministas
é Jean Baudrillard, que reduz os conteúdos da racionalidade, foi pensada, organizada e
das mídias a simulacros. Ele vê na difusão de estabelecida, em grande parte, no molde fran-
massa uma vasta operação de poder contra cês. Mais especificamente, na área das ciências
a qual é impossível lutar. Na mesma linha humanas e sociais, a intelectualidade brasi-
crítica, temos Ignácio Ramonet, crítico voraz leira soube se impregnar do caldo filosófico
da globalização e da supervelocidade da in- francês e reinterpretar seus componentes à luz
formação. Pessimista, temos ainda Philippe da realidade local. Quer seja na sociologia, an-
Breton (1999), que alerta para os perigos do tropologia ou outras disciplinas concomitan-
culto à Internet e à ideologia da transparên- tes, a episteme francesa é inerente aos mapas
cia (“tudo o que é super-exposto queima, cognitivos de seus atores e autores”.
como a película no claro, como a borboleta
na luz”). Por outro lado, é preciso salientar
a influência dos teóricos deslumbrados com
as tecnologias da comunicação, como Pierre
Nos anos 1980,
Lévy e Dominique Wolton, que apresentam uma das tendências
uma visão otimista das novas mídias, embo- mais fortes das
ra afirmem que não bastam as técnicas para novas correntes
garantir a democracia da comunicação. Wol- teóricas francesas é a
ton ama a TV aberta e faz o “elogio do gran- visão apocalíptica
de público” da televisão brasileira.
das mídias
Para dar respaldo a esta reflexão sobre a
influência francesa no campo das ciências
da informação e da comunicação no Brasil,
entrevistamos vários pesquisadores e profes- Segundo Elhajji, não poderia ser diferente
sores de universidades brasileiras4 . Algumas na mais nova das ciências sociais. A comuni-
respostas parecem-nos mais significativas na cação, campo de reconfiguração e de atualiza-
interpretação dessa corrente. Para o professor ção dos saberes experimentados na sua grande
da Universidade Federal do Rio de Janeiro área, inscreveu-se, desde seus (relativamente
(UFRJ) Mohammed Elhajji5, “não é preciso recentes) primeiros esboços, num plano inte-
lembrar a influência do pensamento francês lectual eminentemente francês.
no mundo. As idéias oriundas do Hexágono Porém, mais que uma presença quantitati-
são constitutivas da totalidade do saber cien- va, uma tal radiografia revela o impulso fun-
tífico e humano moderno”. Ele afirma que, dador do campo da comunicação no Brasil,
no Brasil, além do ideário positivista que per- já que a maioria dos grandes nomes da área
meia todo o projeto político e social nacional, tiveram sua formação intelectual realizada ou
completada em instituições francesas. Hoje,
4
Ver texto completo da autora no livro Diálogos entre o Brasil como já apontado, ainda existe um trânsito in-
e a França: formação e cooperação acadêmica, com o titulo “O tenso de pensadores franceses da comunicação
pensamento francês no campo da comunicação no Brasil”, obra
organizada por Carlos Benedito Martins para o MEC durante o
nas universidades brasileiras e um fluxo contí-
Ano do Brasil na França, 2005. nuo de estudantes e pesquisadores brasileiros
5
Jornalista marroquino naturalizado e radicado no Brasil, dou- para a França. Isso sugere que essa influência
tor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, onde leciona nos
cursos de graduação e pós-graduação. Especialista em estudos dialógica é uma realidade enraizada, atual e
de mídia e globalização. crescente. Um plano integrante e envolvente

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Não podemos falar terpondo emissores, receptores e mensagens


da influência francesa intermediados por canais, mas, na verdade,
essas perguntas se tornam cada vez mais com-
sem olhar para os
plexas e sem respostas absolutas.
precursores que De caráter funcionalista no início, as pes-
lançaram as bases quisas norte-americanas evoluíram e se des-
teóricas desse campo dobraram em várias correntes, extravasando
interdisciplinar as fronteiras da América, exportando teorias
ou atraindo teóricos para seu território. Os
contextos e os paradigmas, na pesquisa so-
do cenário intelectual que sustenta os estudos bre os meios de comunicação, passariam por
da comunicação no Brasil insere sua produção vários estágios, podendo ser citados, entre
no contexto contemporâneo mundial e apon- os mais importantes, a teoria hipodérmica,
ta a perspectiva de suas contribuições futuras. a abordagem empírico-experimental ou da
“O pensamento francês é um mistério”, diz “persuasão”, a abordagem empírica de campo
o professor da Pontifícia Universidade Cató- ou dos “efeitos limitados”, a teoria funciona-
lica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) Juremir lista das comunicações de massa, o colégio
Machado6. Ele afirma que “nos meios acadê- invisível de Palo Alto (efeito circular da infor-
micos brasileiros que se consideram científi- mação), a teoria crítica (impacto determinan-
cos, se tornou clichê dizer que toda a pesquisa te da Escola de Frankfurt e crítica à indústria
atual é feita nos Estados Unidos. A França seria cultural), a perspectiva dos cultural studies
apenas o reduto de um ensaísmo ultrapassado. (grupo de Birmingham, Inglaterra) e outras
Os grandes investimentos e as grandes investi- correntes de menor impacto.
gações estariam concentradas nas universida- A partir dos anos 1980, os pesquisadores
des norte-americanas”. No entanto, para esse entram numa nova fase teórica e investigam
professor da nova geração de pesquisadores os efeitos a longo prazo da comunicação,
brasileiros, “paradoxalmente, é mais fácil listar dispostos a ultrapassar o impasse do debate
cem ensaístas franceses de renome interna- ideológico e a propor integrações interdisci-
cional e de grande influência por suas idéias, plinares possíveis com outros campos do co-
citados em dissertações e teses, do que seis pes- nhecimento. Estamos falando das correntes
quisadores norte-americanos determinantes que estudam a construção social da realida-
na atualidade para a evolução da compreensão de: hipótese do agenda-setting, da sociologia
dos fenômenos sociais”. dos emisssores, do gatekeeper ao newsmaking,
as rotinas produtivas, as novas tecnologias, o
webjornalismo e a globalização... A lista seria
Origens americanas da pesquisa de longa e interminável, pois, mais que nunca,
comunicação de massa essas questões estão vivas na sociedade mo-
derna, que alguns teóricos definem como “so-
Não podemos falar da influência francesa, ciedade da informação” (Pierre Lévy, 1994).
sem olhar para os precursores que lançaram
as principais bases teóricas desse campo inter-
disciplinar. A partir dos anos 1940 explodiu, Ensino da comunicação no Brasil
nos Estados Unidos, a onda da Mass Commu-
nication Research. As grandes perguntas pare- Segundo José Marques de Melo (2006), a
cem as mesmas há mais de meio século, in- pesquisa sobre o jornalismo no Brasil finca ra-
ízes no final do século XIX, tendo como tema
principal estudos históricos sobre jornais e
6
Jornalista, escritor, doutor em sociologia da cultura, professor
da graduação e da pós-graduação da Faculdade de Meios de
revistas. O caráter historiográfico predomi-
Comunicação Social (Famecos) da PUC/RS. naria até as primeiras décadas do século XX,

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quando surgem os estudos jurídicos e, muitas universidades com modernos equipamentos


vezes, as duas vertentes, histórica e jurídica, para estágios laboratoriais na própria insti-
caminham paralelamente, mas confluem com tuição. A introdução do estágio supervisio-
freqüência. Esse panorama só seria alterado a nado, finalmente aprovado pelo MEC e Fenaj
partir dos anos 1960-70, quando os estudos se (Federação Nacional de Jornalistas), também
voltam para a expansão da indústria cultural e contribuiu para a melhoria do ensino de jor-
para a criação das escolas de comunicação nas nalismo.
universidades. O próprio Marques de Melo é Na academia, perdura, no entanto, o deba-
um dos principais pioneiros dos estudos de te em termos dicotômicos: formar profissio-
jornalismo que serviriam de referência para nais altamente qualificados para o mercado
pesquisas posteriores. Não poderíamos deixar ou formar massa crítica de comunicadores? A
de citar outro pesquisador e incentivador do questão é polêmica. As reformas permitiram
ensino técnico e editorial nos cursos de jorna- que os cursos de jornalismo reformassem seus
lismo, o professor Luiz Beltrão, autor de várias currículos, garantindo a viabilização de am-
obras sobre o tema. bos os perfis. Não há teoria sem prática nem
Na verdade, o ensino brasileiro de comu- prática sem teoria.
nicação começou nos anos 1940, com as ha-
bilitações de jornalismo, publicidade e pro-
paganda, relações públicas e editoração. O Consolidação do campo do jornalismo
primeiro currículo mínimo é de 1962. Desde
então, várias reformas curriculares foram Nas três primeiras décadas de existência
feitas, sob a tutela do Ministério da Educação da Escola de Comunicações e Artes da Uni-
(MEC). A criação de projetos experimentais, versidade de São Paulo (ECA/USP), o campo
ou TCCs, em 1978, de acordo com a Resolu- de estudos de jornalismo concentrava cerca
ção do Conselho Federal de Educação (CFE) de 22% da produção de teses e dissertações,
nº. 003/78, tinha por objetivo garantir a prá- superado apenas pelas áreas de comunicação
tica laboratorial de produtos jornalísticos e de audiovisual (cinema, rádio e TV), ficando
em função dos ciclos básico (dois primei- acima dos estudos de relações públicas, pro-
ros anos) e profissionalizante (dois últimos paganda, turismo e ciências da informação
anos). A crise das universidades públicas (Proença, 2003). Nesse período ocorre a for-
impedia que elas adquirissem o material ne- mação de professores e profissionais brasilei-
cessário para instalar laboratórios, e a negli- ros e latino-americanos que obtiveram os seus
gência do MEC em fiscalizar essa exigência títulos de pós-graduação na USP.
fazia com que muitos cursos permanecessem A consolidação do campo acadêmico
apenas com a formação teórica, ainda que do jornalismo aconteceu em novembro de
de qualidade, sem as práticas recomendadas 2003, com a criação da Sociedade Brasileira
pelo programa. Uma vez que nas escolas par- de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor),
ticulares observava-se a tendência a privile- que reuniu uma centena de pesquisadores
giar as práticas em detrimento das teorias, na Universidade de Brasília. No ano seguin-
revelou-se a necessidade de encontrar um te, em Salvador, o encontro da SBPJor juntou
meio termo entre esses extremos. acima de 300 participantes, com mais de 100
A proibição dos estágios na área de jorna- trabalhos científicos. Esses encontros signifi-
lismo, desde 1979, para evitar a exploração da cavam a concretização de um antigo projeto
mão-de-obra barata dos alunos, fez com que dos estudiosos da área. Na verdade, tudo co-
a formação prática também sofresse deficiên- meçou durante o I Congresso Luso-Brasileiro
cias nas relações entre mercado e universidade. e II Luso-Galego de Estudos Jornalísticos na
Essa situação mudou bastante, pois o próprio Universidade do Porto, no início de 2003. Os
MEC, no início dos anos 2000, contemplou as investigadores brasileiros que participaram

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GRANDE ÁREA: CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS


Existem hoje no Brasil 27 programas de pós-graduação em Comunicação stricto sensu aprovados e
avaliados pela Capes
Programas e cursos de pós- Totais de cursos de
ÁREA (ÁREA DE AVALIAÇÃO) graduação pós-graduação
Total M D F M/D Total M D F
ADMINISTRAÇÃO
77 39 0 20 18 95 57 18 20
(ADMINISTRAÇÃO / TURISMO)

ARQUITETURA E URBANISMO
16 9 0 0 7 23 16 7 0
(ARQUITETURA E URBANISMO)

CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
8 3 0 0 5 13 8 5 0
(CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS I)

COMUNICAÇÃO
27 15 0 0 12 39 24 12 0
(CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS I)

DEMOGRAFIA (PLANEJAMENTO
2 0 0 0 2 4 2 2 0
URBANO E REGIONAL / DEMOGRAFIA)
DESENHO INDUSTRIAL
7 6 0 0 1 8 7 1 0
(ARQUITETURA E URBANISMO)
DIREITO (DIREITO) 58 37 0 0 21 79 58 21 0

ECONOMIA (ECONOMIA) 48 19 0 12 17 65 36 17 12
MUSEOLOGIA
1 1 0 0 0 1 1 0 0
(CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS I)

PLANEJAMENTO URBANO E
REGIONAL (PLANEJAMENTO URBA- 18 10 0 3 5 23 15 5 3
NO E REGIONAL / DEMOGRAFIA)

SERVIÇO SOCIAL (SERVIÇO SOCIAL


24 15 0 0 9 33 24 9 0
/ ECONOMIA DOMÉSTICA)

TURISMO
5 4 0 1 0 5 4 0 1
(ADMINISTRAÇÃO / TURISMO )

Total de CIÊNCIAS SOCIAIS


291 158 0 36 97 388 255 97 36
APLICADAS

Data da última atualização: 19/09/2006


Cursos: M - Mestrado Acadêmico
D - Doutorado
F - Mestrado Profissional
Programas: M/D - Mestrado Acadêmico / Doutorado

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do encontro decidiram que chegara a hora a legitimidade para a imprensa por meio da
de fundar uma sociedade científica que des- formação universitária reconhecida. Dessa
se respaldo e visibilidade às pesquisas tendo o experiência surge a concepção da Mass Com-
jornalismo como objeto. munication, que seria uma nova disciplina,
Em junho do mesmo ano, durante o en- capaz de atrair mais apoio, poder e verbas do
contro da Compós (Associação dos Progra- que o campo do jornalismo havia sido capaz
mas de Pós-Graduação em Comunicação), na universidade americana até então. Essa
em Recife, pesquisadores reunidos no GT Es- posição busca a legitimação acadêmica da
tudos de Jornalismo assinaram um manifesto, área pelo seu alargamento, e gradualmente
que foi divulgado no Congresso da Intercom torna-se hegemônica no seu interior. Wilbur
em Belo Horizonte, em setembro, tendo re- Schramm, embora fosse originário de uma
cebido apoio de várias universidades. Era o escola de jornalismo, chega a dizer nessa épo-
ponto de partida para a fundação da SBPJor ca que, na nova perspectiva, já não interessava
poucos meses depois. estudar os problemas específicos do jornalis-
Um breve inventário de títulos demons- mo (Moreno, 2004).
tra que muitas teses produzidas sobre o tema Propagado pela Unesco no período pós-
jornalismo eram oficialmente registradas jun- guerra, os estudos de comunicação de massa
to aos órgãos de financiamento à pesquisa – depois chamados de “comunicação social” –
(Capes, CNPQ e outros) simplesmente como chegaram ao Brasil na década de 1960, através
pesquisa em comunicação. do Ciespal (Centro Internacional de Estudos
Meditsch e Segala7 (2003, 2004) informam Superiores de Jornalismo para a América La-
que os primeiros textos teóricos sobre jorna- tina), quando foram introduzidos currículos
lismo no Brasil datam da primeira metade do mínimos obrigatórios das universidades. Ao
século XX, mas a entrada dos profissionais de contrário do que aconteceu em outros países,
jornalismo nas universidades começou nos no Brasil, segundo Meditsch, a nova disciplina
anos 1940. Os cursos de pós-graduação só se- não significou uma “perda de objeto de estu-
riam criados vinte anos depois. do”. Pelo contrário, o jornalismo tornou-se
José Marques de Melo foi o primeiro pes- uma sub-área acadêmica localizada no cam-
quisador a defender tese de doutorado em jor- po das ciências da comunicação. Também não
nalismo, em 1972, na USP. Na época já existia perdeu a identidade na nova área, e, apesar de
um problema de legitimação na pesquisa em passar por crises de legitimação e acomoda-
jornalismo, com a introdução da comunica- ção ao novo contexto, preservou a vitalidade
ção social como nova disciplina. como área de produção acadêmica.
O desenvolvimento dessa área acadêmica, Trinta anos depois da defesa da primeira
chamada no início de comunicação de mas- tese de doutorado sobre jornalismo, a pesqui-
sa, ou comunicação social, aconteceu gradu- sa sobre o tema volta a ocupar um espaço de
almente, a partir dos Estados Unidos na dé- relevância na vasta área da pesquisa em comu-
cada de 1940. Segundo Venício Lima (2006), nicação. Temos hoje cerca de 20 publicações
os primeiros cursos de jornalismo nasceram especializadas na área, todas avaliadas pela
nos Estados Unidos como resultado de uma Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal
pressão organizada das associações de im- de Nível Superior (Capes), órgão do MEC.
prensa sobre as universidades. Elas buscavam O interesse pelo jornalismo na área acadê-
mica pode ser comprovado pelo número de
organizações científicas reconhecidas pelos
7
Eduardo Meditsch é professor da Universidade Federal de órgãos de fomento à pesquisa. Além da In-
Santa Catarina , Pesquisador do CNPq e Diretor Científico da tercom, a mais antiga, que abriga um núcleo
Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.
Mariana Segala é acadêmica de jornalismo na UFSC e Bolsista de estudos sobre jornalismo (um dos mais
de Iniciação Científica do CNPq. concorridos para apresentação de trabalhos

Zélia Leal Adghirni - O lugar do jornalismo na comunicação


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no congresso anual), existe ainda o GT de Jor- nacionais da área, entre 2003 e 2004, totali-
nalismo da Compós, o Labjor (Laboratório zando 263 trabalhos. Nem todos os trabalhos
Avançado de Estudos de Mídia, da Unicamp), de investigação sobre jornalismo chegam aos
o Fórum Nacional de Professores de Jorna- congressos e aos grupos específicos de jorna-
lismo e, finalmente, a Sociedade Brasileira de lismo dentro deles. Muitos não passam pela
Pesquisadores em Jornalismo, hoje com mais seleção, mas, com exceção do que pode ocor-
de 200 sócios com nível de pós-graduação. rer na Compós, onde há uma limitação quan-
A iniciativa das sociedades científicas titativa muito rígida (apenas 10 trabalhos por
acompanhou a evolução dos números regis- ano por GT), e 80% das candidaturas ficam
trados pelo diretório dos grupos de pesquisa de fora, nos demais encontros (SBPJor e In-
do CNPq. No primeiro censo, em 1993, ne- tercom), estima-se que a maioria dos traba-
nhum grupo colocava o jornalismo entre suas lhos com qualidade sejam aprovados.
palavras-chave. No levantamento de 2002, já Nos congressos da área maior da comuni-
apareciam 15. Em junho de 2003, o total re- cação, como Intercom e Compós, muitos tra-
gistrado no diretório do CNPq havia passado balhos sobre jornalismo são apresentados em
para 47 grupos. Na base corrente de 2005 che- outros grupos temáticos, como o de comuni-
ga a 68 o número de grupos que registram o cação e política, ou de comunicação audiovi-
jornalismo como objeto de estudo (Meditsch sual, por opção de seus autores, conforme as
e Segala). interfaces que desejam evidenciar. Esses tra-
Apesar desse crescimento, os estudos em balhos, que nem sempre são fáceis de identifi-
jornalismo, em grande parte realizados nos car como relacionados ao jornalismo a partir
programas de pós-graduação já implantados dos títulos, não foram incluídos na amostra, o
no país, ainda representam uma exceção. Entre que, segundo Meditsch, pode provocar algum
programas da área de comunicação em funcio- viés em relação aos campos de investigação. O
namento no Brasil, os que dão ênfase específica mesmo pode ocorrer por não estarem inclu-
a esses estudos são os da USP e UnB. Essas limi- ídos os congressos nacionais com temáticas
tações, contudo, não impedem que a pesquisa específicas, como o Fórum Nacional de Pro-
em jornalismo siga uma trajetória ascendente, fessores de Jornalismo (FNPJ), em que anual-
tanto em quantidade quanto em qualidade, mente são apresentados mais de uma centena
como demonstram os congressos nacionais da de trabalhos sobre o ensino da profissão, e a
área realizados nos dois últimos anos. Rede Alfredo de Carvalho para a História da
Avaliar a produção acadêmica em jorna- Mídia, que conta com um GT sobre história
lismo no Brasil é tarefa quase impossível. Não do jornalismo.
existe um banco de dados que centralize a pes- O primeiro aspecto considerado em rela-
quisa realizada nos diversos programas de pós- ção aos campos de investigação desses traba-
gradução. O sistema Lattes do CNPq registra os lhos foi o da temática. Porém, a classificação
dados de acordo com as informações enviadas temática não é assunto pacífico na área. Tra-
pelos próprios investigadores e não tem sido balhos recentes, que analisam a mesma ques-
utilizado de maneira muito consciente. tão, propõem classificações diferenciadas. Em
A pesquisa realizada por Eduardo Medits- artigo sobre o estado da arte da pesquisa em
ch, da Universidade Federal de Santa Catarina jornalismo, Pereira e Wainberg (1999) defi-
(UFSC), que estamos usando como referência nem 14 categorias: jornalismo organizacional,
neste trabalho, mostra as condições bastante ética do jornalismo, ensino do jornalismo, di-
limitadas para a organização de dados sobre reito da comunicação, história do jornalismo,
os campos de investigação na pesquisa brasi- jornalismo alternativo, jornalismo e ciência,
leira em jornalismo. Ele optou por uma amos- jornalismo e economia, jornalismo e empre-
tra aleatória, com os trabalhos apresentados sa jornalística, jornalismo internacional, jor-
por pesquisadores brasileiros nos congressos nalismo e política, linguagem e tecnologia do

LÍBERO - Ano IX - nº 17 - Jun 2006


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jornalismo, memória do jornalismo e, final- A pesquisa brasileira


mente, teorias do jornalismo. Elias Machado em jornalismo
(2004) propõe oito categorias ou linhas de
cresce e ocupa
pesquisa: história do jornalismo, teorias do
jornalismo, análise do discurso, produção da lugar de destaque
notícia, recepção, jornalismo digital, teorias na área das ciências
da narrativa, jornalismo especializado. da informação e da
Luiz Gonzaga Motta (2004) prefere classi- comunicação
ficar todas as pesquisas em jornalismo dentro
de dois grandes paradigmas: “midiacêntrico”
e “sociocêntrico”. Já Márcia Bennetti Macha-
do (2004) propõe nove categorias: história do de seus currículos e publicações, embora mui-
jornalismo, estudos de linguagem, produção tos possam atuar em mais de uma área.
da notícia e processos jornalísticos, estudos de Quanto à classificação dos tipos de pes-
recepção, jornalismo digital, ética e jornalis- quisas realizadas, Meditsch conclui que ape-
mo, jornalismo e educação, teorias do jorna- nas um trabalho representa pesquisa apli-
lismo, jornalismo especializado. cada propriamente dita. Apesar de a área da
Um segundo aspecto que observamos em comunicação ser classificada pelas agências
relação aos campos de investigação foi o do de fomento no Brasil como de “ciência social
foco dos estudos: recortes de abrangência lo- aplicada”, ele identificou que 56% dos traba-
cal e/ou regional foram os mais recorrentes, lhos são ensaios e teorias, 43,3% são trabalhos
seguidos pelos de abrangência nacional. Os empíricos e apenas 1% é pesquisa aplicada.
estudos sobre temas de abrangência interna- Outra dificuldade é que, no campo do jor-
cional e/ou universal foram mais raros, em- nalismo como em geral nas ciências sociais, a
bora 37,3% dos trabalhos não pudessem ser pesquisa empírica não goza do mesmo prestí-
classificados nesses termos, geralmente por gio que a formulação teórica. Exemplo disso
sua temática abstrata. é o fato de o GT de jornalismo da Compós, o
Outro aspecto observado pelos autores da mais seletivo de todos, ter a teoria do jornalis-
pesquisa revela que o meio de comunicação é mo como o seu tema mais freqüente (Macha-
objeto de investigação na pesquisa em jornalis- do, 2004).
mo. O jornal continua sendo o veículo mais es- Apesar da precariedade dos dados apre-
tudado por nossos pesquisadores. As pesquisas sentados sobre a pesquisa em jornalismo
sobre Internet aparecem em segundo lugar, su- atualmente no Brasil, podemos constatar
perando o interesse tradicional pela televisão. que ela vem crescendo e ocupando lugar de
Os trabalhos acadêmicos desenvolvidos destaque na área das ciências da informação
atualmente no Brasil apresentam várias inter- e da comunicação. A criação de órgãos espe-
faces. Apesar da multidisciplinaridade ineren- cíficos nas universidades e o apoio que vem
te ao campo, os autores que trabalham com recebendo de órgãos oficiais de fomento à
jornalismo são responsáveis por mais de 40% pesquisa comprovam a construção da legi-
das citações, e os autores das demais sub-áreas timidade do campo das mídias na pesquisa
da comunicação, por outros 20%. Nas demais, de alto nível. O desafio que se coloca agora é
prevalecem a sociologia, as ciências da lingua- crescer e consolidar a singularidade do cam-
gem e a filosofia, seguidas pelas demais disci- po do jornalismo como produtor de sentidos
plinas das ciências humanas. Consideramos as e como forma de conhecimento dentro das
áreas de atuação principal dos autores, a partir ciências sociais.

Zélia Leal Adghirni - O lugar do jornalismo na comunicação


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Referências

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lismo (SBPJor), Salvador, 2004 e II Congresso Luso-Brasilei- sem 2005.

LÍBERO - Ano IX - nº 17 - Jun 2006