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PROFESSOR OU SOFRESSOR?

- A REALIDADE DO BRASIL

(Por Jorge Lucena. Artigo de opinião, com adaptações.)


UALIDADES
A forma como está sendo tratada a educação pública no Brasil hoje nos leva, infelizmente, fazer esse tipo de trocadilho com
uma das profissões mais importantes para o crescimento e o progresso de um país. Como se não bastasse a forma hipócrita como vem
sendo tratado pela política nacional, o educador ainda enfrenta, todos os dias, grandes dificuldades no seu crucial ofício de levar o
conhecimento a nossa sociedade.
Projetos que objetivam o interesse e uma melhoria real na educação são deixados de lado por aqueles políticos que, para se
elegerem, utilizam-se da educação em suas campanhas eleitorais; no entanto, quando eleitos, a educação passa a ser assunto paliativo
dentro de seus projetos.
Um exemplo de ação criminosa contra a educação pública foi o voto contrário de grande parte do parlamento ao projeto PL
480/2007, do senador Cristovam Buarque (PPS-PE), que, caso fosse aprovado, obrigaria a todos os filhos de políticos estudarem nas
escolas públicas. Dessa forma, com certeza estas alcançariam o topo das prioridades daqueles que se dizem defensores da sociedade.
Como se não bastasse o descaso dos parlamentares, os professores da escola pública vivem uma eterna ameaça. Devido ao
medo e pressões sociais, eles se sentem obrigados a aprovar o maior número de alunos possível. Até aí tudo bem, mas o problema é
que grande parte desses contemplados não têm nenhum interesse pelos conteúdos aplicados pelos professores, têm deficiências de
aprendizagem advindas das séries anteriores, além de demonstrarem péssimo comportamento no decorrer das aulas.
É importante que os pais e responsáveis pelos alunos da escola pública procurem visitar a escola no decorrer do ano letivo, e
que sejam vigilantes quanto às ações de seus dependentes na escola. Afinal, o fato de ser aprovado não significa dizer que o
conhecimento mínimo necessário foi adquirido.
Chega a ser lamentável a lerdeza de grande parte dos alunos da escola pública que, em dia de avaliação, afirmam não saberem
nem sequer quais conteúdos serão cobrados na avaliação que será aplicada. Ou seja, não estudam e não se esforçam, mas querem boas
notas. Querem viver sob a “lei do menor esforço”.
Diante de tantos problemas e entraves, chega a ser quase impossível não perceber o desestímulo dos professores, o que nos
leva ao trocadilho de sofressor e professor. Sofressor, indicando o sofrimento desse importante profissional diante de uma luta
desigual e traiçoeira.

EDUCAÇÃO: “Reprovada”, por Lya Luft (artigo de opinião).

Há quem diga que sou otimista demais. Há quem diga que sou pessimista. Talvez eu tente apenas ser uma pessoa observadora
habitante deste planeta, deste país. Uma colunista com temas repetidos? Ah, sim, os que me impactam mais, os que me preocupam
mais; às vezes, os que me encantam particularmente. Uma das grandes preocupações de qualquer ser pensante por aqui é a educação.
Fala-se muito, grita-se muito, escreve-se, haja teorias e reclamações. Ação? Muito pouca, que eu perceba. Os males foram-se
acumulando de tal jeito que é difícil reorganizar o caos.
Há coisa de trinta anos, eu ainda professora universitária, recebíamos as primeiras levas de alunos saídos de escolas
enfraquecidas pelas providências negativas: tiraram um ano de estudo da meninada, tiraram latim, tiraram francês, foram tirando a
seriedade, o trabalho: era a moda do “aprender brincando”. Nada de esforço, punição nem pensar, portanto recompensas
perderam o sentido. Contaram-me recentemente que em muitas escolas não se deve mais falar em “reprovação, reprovado”, pois isso
pode traumatizar o aluno, marcá-lo desfavoravelmente. Então, por que estudar, por que lutar, por que tentar?
De todos os modos facilitamos a vida dos estudantes, deixando-os cada vez mais despreparados para a vida e o mercado de
trabalho. Empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever,
alunos de universidades têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa
forma, analfabetos. Aliás, o analfabetismo devasta este país. Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar
embaixo de um texto que leu e entendeu. Portanto, a porcentagem de alfabetizados é incrivelmente baixa.
Agora sai na imprensa um relatório alarmante. Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem
escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é
uma medida de comprimento. Quase a metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal; quase 60% têm dificuldades graves com
números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito
menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos.
Naturalmente, a boa ou razoável escolarização é muito maior em escolas particulares: professores menos mal pagos,
instalações melhores, algum livro na biblioteca, crianças mais bem alimentadas e saudáveis – pois o estado não cumpre o seu papel de
garantir a todo cidadão (especialmente à criança) a necessária condição de saúde, moradia e alimentação.
Faxinar a miséria, louvável desejo da ex-presidente Dilma, é essencial para nossa dignidade. Faxinar a ignorância – que é uma
outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentos da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição
privilegiada. Não há dinheiro, dizem. Mas políticos aumentam seus salários de maneira vergonhosa, a coisa pública gasta nem se sabe
direito onde, enquanto preparamos gerações de ignorantes, criados sem limites, nada lhes é exigido, devem aprender brincando.
Não lhes impuseram a mais elementar disciplina, como se não soubéssemos que escola, família, a vida sobretudo, constroem-se em
parte de erro e acerto, e esforço. Mas, se não podemos reprovar os alunos, se não temos mesas e cadeiras confortáveis e teto sólido
sobre nossa cabeça nas salas de aula, como exigir aplicação, esforço, disciplina e limites, para o natural crescimento de cada um?
Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada. Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já
perdeu a graça. Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir à escola, prestar atenção, estudar,
render e crescer) tenham um peso considerável: fora isso, não haverá solução. A educação brasileira continuará, como agora,
escandalosamente reprovada.
Narciso era um jovem que se apaixonou por sua própria imagem refletida no lago. A ninfa Eco, apaixonada pelo jovem, era por
ele ignorada. Esse mito grego deu origem ao conceito de narcisismo.

Epidemia de narcisismo

Uma questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – é a existência de adolescentes e jovens adultos
que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e
professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as
frustrações do mundo real. "Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza",
afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009,
sem tradução para o português. "Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo".
Em português, inglês ou chinês, esses filhos elogiados desde o berço formam a turma do "eu me acho". Porque se acham
mesmo. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais
competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja do frescor de seu talento). Eles se acham merecedores de
constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu
valor). Você conhece alguém assim em seu trabalho ou em sua turma de amigos? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi
bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso. São
bons, é fato. Mas se acham mais do que ótimos.
A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge,
professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos Estados Unidos. No trabalho seguinte, em parceria com
Campbell, ela vasculhou os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades.
Descobriu que os alunos dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores. Em
2006, dois terços deles pontuaram acima da média obtida entre 1979 e 1985. Um aumento de 30%. "O narcisismo pode levar ao
excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos", diz Campbell. Os maiores especialistas no assunto
concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível. E eles sabem
disso. Uma pesquisa da revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram
demais sua prole.
Sally Koslow, uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois que seu filho, que passara 4 anos estudando fora de
casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela. "Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos
cada passo para garantir que ele tivesse sua independência", diz ela. "Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala,
percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho". Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de
atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação?
(Reportagem da revista Época, com adaptações.)

Todo mundo faz cocô; o seu não é diferente.

Antes mesmo de nascermos, nossos pais já fantasiavam o que a gente seria quando crescesse. Sempre quiseram que as coisas
saíssem melhor para nós do que foram para eles. Desejavam que encontrássemos o emprego dos sonhos e prosperássemos. Nunca
seria pegar um emprego qualquer, pois tinham ambições muito maiores para o filho. Eles queriam que a gente encontrasse a cura para
doenças, ou escrevesse o maior best-seller de todos os tempos, ou fosse eleito o presidente do país. As possibilidades pareciam
infinitas. Suas expectativas corriam soltas, sem conhecer limites. Antes mesmo de ter o cordão umbilical cortado pelo médico, já
éramos vencedores, destinados a ultrapassar os sonhos mais lindos, apesar de nossos pais não terem a mais remota ideia do que isso
significava ou de que maneira a gente poderia começar a fazer desses sonhos uma realidade.
Então, o grande dia chegou. Você pode ter entrado no mundo como um bebê pesando três quilos e meio e uma cara de joelho,
que assustaria o cachorrinho da família, mas isso não importa. No momento em que saiu da barriga da mamãe, já era um diamante
lapidado, especial e perfeito, alguém que um dia seria capaz de fazer uma cirurgia cardíaca de olhos vendados enquanto escalava o
Everest, a montanha mais alta do mundo.
Daquele dia em diante, o mundo passou a girar em torno de cada um dos seus movimentos. Dava uma risadinha, e os pais o
achavam brilhante, verdadeiro prodígio. Bastava rolar de lado, isso era incrível. E quando deu os primeiros passos, então? Contaram
para todo mundo o quão incrível você era. No dia em que murmurou algumas repetições incompreensíveis de “mama” e “papa”, que
mais soavam como “mkwfz”, a vida mudou! E os parentes faziam fila para limpar suas fraldas e sentir o perfume de rosas de seu
majestoso cocô.
E essa adoração perdurou por toda sua infância.
Era hora de chamar a NBA quando você quase acertou aquele lance livre durante o jogo de basquete na quarta série. Sua
formatura no ginásio foi quase uma cerimônia de coroação! E na estreia como cantor no coral da escola, seus pais juraram que era o
primeiro passo em sua trajetória para a Broadway.
Durante anos, seus pais, professores e a MTV sopraram para longe a fumaça de qualquer ameaça de fogo que pudesse queimar
seu traseiro. Você foi regado com elogios imerecidos, encorajado a aspirar metas fora da realidade e cumprimentado exageradamente
por realizações modestas, além de ser vítima inconsciente de uma cultura de paparicação fadada a estragar sua percepção da realidade.
Não importa o quão patético tenha sido o prêmio, ou o quão estúpido isso possa soar, mas você caiu como um patinho. Você
estava tão ocupado se achando a última bolacha do pacote, que nem percebeu que era recompensado pela mediocridade – ou, pior
ainda, por piedade. Seus pais o colocaram num pedestal em vez de lhe dar um alicerce sólido e realista para o resto da vida.
Incentivá--lo a ter grandes objetivos é uma coisa, mas evitar que se machuque pelas dores da falha é outra – sem dar espaço para você
se defender sozinho. Seus pais, professores e treinadores acabaram por configurá-lo inconscientemente para ser uma pessoa fraca,
ineficaz, despreparada para a idade adulta.
Gerber, Scott. Nunca procure emprego!: dispense o chefe e crie o seu negócio sem ir à falência (com adaptações).