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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO

CÓDIGO CIVIL

NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO CÓDIGO CIVIL


Revista de Direito Privado | vol. 13/2003 | p. 29 - 50 | Jan - Mar / 2003
DTR\2003\720

Eduardo Messias Gonçalves de Lyra Junior

Área do Direito: Civil


Sumário:

1. Considerações iniciais - 2. A relação obrigatória: sua caracterização - 3. Das relações


externas dos devedores solidários - 4. Observações de cunho conclusivo - Bibliografia

1. Considerações iniciais

O direito versa sobre a conduta, ordenando-a. Concerne, pois, ao comportamento do


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homem.

Toda a ordenação jurídica apresenta como fatores ou pressupostos a pessoa, a


sociedade e o Estado. Entre estes releva, para o direito civil, a pessoa, em si mesma e
em relação às outras pessoas.

Dentro deste contexto, cumpre realçar as categorias da liberdade e do dever.

A liberdade não é algo que esteja fora do direito, constituindo-se, ao contrário, na mais
importante conquista do ordenamento jurídico.

O dever não significa negação da liberdade, mas sua restrição. Sua criação decorre do
uso que os sujeitos fazem de sua liberdade. "El deber significa la necesidade de observar
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(positiva o negativamente) un comportamiento determinado", aponta Hernandez Gil.

No direito das obrigações as categorias de liberdade e dever assumem especial


importância.

Segundo Hernandez Gil:

"La obligación es una categoria integrada en la más amplia del deber. Pero, por otra
parte, la obligación no es extraña a la esfera de la libertad. De un lado, porque la
obligación, que una vez surgida exige un comportamiento determinado, es fruto
generalmente de la libertad; y de otro lado, porque el contenido de ese comportamiento
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se fija libremente, dentro de los limites que imponen las normas".

O direito das obrigações se constitui, sem dúvida, no campo mais vasto dos direitos
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relativos. Ele compreende, de acordo com Orlando Gomes, "as relações jurídicas que
constituem as mais desenvoltas projeções da autonomia privada na esfera patrimonial".
5

À obrigação foi reconhecida, na teoria jurídica, uma importância equivalente àquela que
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a categoria do valor teve na doutrina econômica.

A profusão de tratados e monografias, escritos ao longo dos anos sobre o direito das
obrigações como um todo, ou algum aspecto relevante seu, denota a extrema
preponderância que o tema tem alcançado em meio aos juristas de todo o mundo.

O novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro, ao regular a solidariedade passiva por


meio dos arts. 275, 276, 277, 278, 279, 280, 281, 281, 282, 283, 284 e 285,do
CC/2002 (LGL\2002\400) cuidou em repetir, praticamente, o disciplinamento anterior,
conferido pelos arts. 904, 905, 906, 907, 908, 909, 910, 911, 912, 913, 914 e915, do
CC/1916 (LGL\1916\1).

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Algumas importantes modificações, entretanto, podem ser mencionadas, principalmente


quando confrontado o regramento das obrigações solidárias passivas com importantes
princípios expressamente agasalhados pela novel legislação material civil.

A relevância do estudo da solidariedade passiva obrigacional decorre de sua freqüente


ocorrência negocial.

Nota-se que principalmente nos contratos que envolvam a concessão de crédito, os


credores - normalmente instituições financeiras - buscando acautelar-se contra
insolvência futura do devedor da obrigação, exige a co-participação de terceiro no
ajuste, de cujo patrimônio possa valer-se em eventual ação executiva destinada a
satisfazer a prestação contida no título.

As reflexões que se façam sobre o regramento dado ao instituto no novo Código Civil
(LGL\2002\400) brasileiro revelam-se, portanto, oportunas e relevantes.

2. A relação obrigatória: sua caracterização

O novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro, tal qual o Código Civil de 1916
(LGL\1916\1), não se preocupou em definir o que seja a obrigação ou a relação
obrigatória.

No Livro I de sua Parte Especial encontram-se, de início, as modalidades das obrigações


(Título I), sua transmissão (Título II), adimplemento e extinção (Título III),
inadimplemento (Título IV) - matérias estas afetas à parte geral do direito das
obrigações. A partir do Título V o novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro passa a
disciplinar as fontes das obrigações, regulando-as.

O art. 397 do CC português, a seu turno, define a obrigação como sendo "o vínculo
jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma
prestação".

De acordo com Antunes Varela, "o direito das obrigações é o conjunto das normas
jurídicas reguladoras das relações de crédito, sendo estas as relações jurídicas em que
ao direito subjectivo atribuído a um dos sujeitos corresponde um dever de prestar
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especificamente imposto a determinada pessoa" - este, sem dúvida, um de seus traços
distintivos.
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Giorgio Cian e Alberto Trabucchi, do mesmo modo, conceituam obrigação como vínculo
jurídico entre ao menos dois sujeitos, "in virtù del quale l'uno, creditore, ha il diritto di
pretendere dall'altro, debitore, un comportamento consistente in un dare, o in un fare,
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oppure anche in un non fare, che abbia le caratteristiche di cui all'art. 1.174".

A relação jurídica obrigacional exige, portanto, dois figurantes: o sujeito ativo - em


proveito de quem terá de efetuar-se a prestação, cabendo-lhe exigi-la ou pretender seu
cumprimento -, de um lado; o sujeito passivo - sobre quem recai o dever de realizar a
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prestação - de outro.

Embora em muitos dos casos haja apenas um sujeito em cada um dos pólos da relação
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jurídica obrigacional, sendo este o tipo geral de toda obrigação, não é incomum, ao
contrário, freqüente, a ocorrência, ali, de pluralidade subjetiva.

Daí o conceito apresentado por Karl Larenz: "Relación de obligación es aquella relación
jurídica por la que dos o más personas se obligan a cumplir y adquieren el derecho a
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exigir determinadas prestaciones".

2.1 Pluralidade subjetiva e solidariedade passiva

2.1.1 Pluralidade subjetiva

A doutrina cuidou em delinear a figura da obrigação subjetivamente complexa enquanto


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"un rapporto obbligatorio caratterizzato dalla presenza di una pluralità di debitori o di


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una pluralità di creditori o di entrambe".

Observa Marco Mazzoni, entretanto, que a fenomenologia das obrigações sob o aspecto
subjetivo apresenta-se muito mais ampla do que aquela regulada pelo Código Civil
(LGL\2002\400) italiano: obrigações solidárias e indivisíveis.

Em suas palavras:

"La dottrina ha operato una serie numerosa, per lo più non uniforme, di distinzioni e di
ipotesi applicative dell'amplissima categoria delle obbligazioni soggetivamente
complesse. Il codice ha invece preferito mantenere, pur separate, solamente due delle
molte specie di obbligazioni soggetivamente complesse: quelle di più importante rilievo
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giuridico, le obbligazioni solidali e le indivisibili".

Dá-se o mesmo tanto no Código Civil de 1916 (LGL\1916\1) (Parte Especial, Livro III,
Título I, Capítulos V e VI) quanto no novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro (Parte
Especial, Livro I, Título I, Capítulos V e VI). A pluralidade subjetiva obrigacional
limita-se, ali, aos fenômenos da solidariedade e indivisibilidade.

Não há qualquer referência naqueles textos legais às obrigações mancomunadas, ou em


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mão comum, como a elas se refere Pontes de Miranda. Estas, no entanto, não deixam
de suceder na vida prática.

Na Espanha, a doutrina vê mancomunhão entre os sujeitos passivos da obrigação


"cuando el acreedor sólo puede exigir el cumplimiento de la prestación al conjunto o
grupo de deudores colectivamente considerados y cuando los deudores sólo pueden
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liberarse llevando a cabo la prestación conjuntamente".

Seu regime, destaca a doutrina alemã, afasta-se das normas que regem as obrigações
parciárias e solidárias em determinados aspectos singulares, já que seu conceito
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apresenta-se distinto em face daquelas espécies obrigacionais.

O vazio legislativo, entretanto, não impede que se localizem, na experiência diária,


alguns exemplos de obrigação em mão comum, ou mancomunadas.

Assim, v. g., apresentar-se-ão perante os respectivos credores na qualidade de


mancomunheiros os vendedores de um bem imóvel quanto à prestação de entrega da
coisa vendida.

Outras modalidades de obrigações em que há pluralidade subjetiva e que não foram


reguladas pelo novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro dá-nos Orlando Gomes: a)
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obrigações disjuntivas; b) obrigações conexas; e c) obrigações dependentes.

Sua pouca ocorrência justifica a omissão do legislador pátrio.

2.1.2 Solidariedade passiva

Diz o art. 264, do CC/2002 (LGL\2002\400) - com a mesma concisão e perfeição que
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marcavam o texto do art. 896, par. ún., do CC/1916 (LGL\1916\1) - que há
solidariedade passiva quando na mesma obrigação concorre mais de um devedor, cada
um obrigado à dívida toda. Já o art. 275 complementa o traço distintivo dessa
modalidade de obrigação, ao prescrever que o credor tem direito a exigir e receber de
um ou alguns dos devedores, parcial ou totalmente, a dívida comum; na primeira
hipótese, todos os demais devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto.

A solidariedade classifica-se, essencialmente, em ativa ou passiva, conforme a


pluralidade subjetiva dê-se em relação à parte credora, ou devedora da obrigação.
Diz-se essencialmente, porque autores mais antigos, fortemente influenciados pelo
romanismo, procuravam distinguir a solidariedade perfeita, ou correalidade, da
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solidariedade imperfeita.
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Em nosso direito não cabe esta última distinção, interessando, somente, a classificação
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acima referida.

Quando num mesmo negócio jurídico acharem-se reunidas a solidariedade ativa e a


passiva, ter-se-á a denominada solidariedade mista, da qual não se cogitou nem no
Código Civil de 1916 (LGL\1916\1) nem no novo Código Civil (LGL\2002\400).

Muito mais ocorrente na prática negocial, a solidariedade passiva encontra sua regulação
nos arts. 275, 276, 277, 278, 279, 280, 281, 282, 283, 284 e 285, do CC/2002
(LGL\2002\400).

Duas notas lhe são típicas: a) o dever de prestação integral, que recai sobre qualquer
dos devedores; e b) o efeito extintivo recíproco da satisfação dada por qualquer deles,
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ao direito do credor.

Tais notas, porque essenciais para a individualização do instituto, integram os diversos


ordenamentos legais que procuram conceituar a solidariedade passiva.

O fim comum dos figurantes solidários da relação obrigacional se constitui, segundo


expressiva doutrina, no elemento identificador da solidariedade:

"O que faz a solidariedade passiva não é a unidade de dívida e, pois, de crédito, mas sim
a comunidade do fim. Nem a causa das obrigações, nem a própria fonte precisa ser a
mesma: um dos devedores pode dever em virtude de ato ilícito, outro, por força de lei, e
outro por infração de contrato. O que importa é que se haja constituído a relação jurídica
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única, com a irradiação de pretensão a que correspondem obrigações solidárias".

Na doutrina alemã clássica, de cujos autores Pontes de Miranda sofreu forte influência, a
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opinião coincide com aquela do texto acima transcrito.

Em verdade, tem-se procurado estabelecer como requisito essencial para a configuração


da solidariedade passiva, a par do dever de prestação integral e o efeito extintivo
recíproco ou comum, ora a identidade de prestação; ora a identidade de causa ou fonte
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de obrigação; ora, ainda, a comunhão de fim, tal como referido por Dieter Medicus.

Antunes Varela aponta que para a moderna doutrina alemã não basta a comunhão de
fins para o estabelecimento da solidariedade. Àquela, há de se acrescer o fato de que os
devedores, convencional ou legalmente, estejam obrigados no mesmo grau, de modo
que a prestação de um aproveite a todos os outros em face do credor. Se tal não
sucede, de maneira que um dos devedores é, nas relações com o credor, o fundamental
obrigado, sendo o outro apenas provisoriamente obrigado, inexistindo entre as
obrigações uma igual graduação ou igual valor, não haveria obrigação solidária, apesar
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da identidade de interesse do credor.

Assim, não haverá entre o culpado por um incêndio ocorrido num estabelecimento
comercial e a respectiva empresa seguradora; entre o ladrão que tenha empreendido
determinado furto e o comodatário que tenha negligenciado no dever de guardar a coisa
afinal furtada, uma relação de solidariedade. Se a prestação efetuada pelo culpado do
incêndio, ou do ladrão, poderia ter o efeito liberatório em relação à empresa seguradora
e ao comodatário, nos exemplos citados, o cumprimento efetuado por estes últimos não
desobrigaria os primeiros, porque não há igual graduação entre as obrigações, nem a
prestação realizada por um aproveita aos demais em face do credor.

2.2 A obrigação solidária passiva e a sua inserção em alguns Códigos Civis estrangeiros

Da mesma maneira que o nosso, outros códigos, ao introduzirem o tratamento das


obrigações solidárias passivas, cuidam em defini-las, de maneira mais ou menos similar.

No art. 1.200 do CC francês diz-se que "il y a solidarité de la part des débiteurs,
lorsqu'ils sont obligés à une même chose de manière que chacun puisse être contraint
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pour la totalité, et que le payement fait par un seul libère les autres envers le créancier".

O Código Civil (LGL\2002\400) italiano preconiza, na primeira parte de seu art. 1.292,
que "l'obbligazione è in solido quando più debitori sono obbligati tutti per la medesima
prestazione, in modo che ciascuno può essere costretto all'adempimento per la totalità e
l'adempimento da parte di uno libera gli altri".

Mais enxuta, a definição do Código Civil (LGL\2002\400) português, elaborada no § 1.º


do art. 512, aduz que "a obrigação é solidária, quando cada um dos devedores responde
pela prestação integral e esta a todos libera ...".

Na Alemanha, o Código Civil (LGL\2002\400) (BGB), por meio de seu § 421, prescreve
as normas aplicáveis ao devedor solidário. Diz o citado dispositivo que se vários ajustam
uma prestação de forma que cada um esteja obrigado a efetuar a prestação total, mas
ao credor seja permitido reclamar a prestação somente uma vez, o credor, com base em
sua discrição, pode reclamar de qualquer dos devedores, a prestação na sua totalidade
ou em uma parte. Até a efetuação da prestação permanecem obrigados todos os
devedores, complementa o § 421 do BGB.

2.3 Da instituição da solidariedade passiva

A solidariedade passiva, tal como a ativa, decorre de lei, ou é instituída consensualmente


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pelas partes. Diz-se legal, no primeiro caso; e convencional, no segundo.

Não há necessidade de que a obrigação, para ser solidária, baseie-se numa mesma
causa ou fundamento jurídico. Dá-se igualmente a solidariedade quando em virtude de
um mesmo dano um sujeito. apresente-se responsável perante o lesado por ato ilícito,
outro pelo risco que lhe seja imputável e um terceiro pela infração de um dever
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contratual de diligência. Embora ausente a eadem causa obligandi, a solidariedade, no
caso, existirá.

Em qualquer hipótese, ela jamais é presumida, porque, de acordo com o art. 265, do
CC/2002 (LGL\2002\400), "a solidariedade não se presume; resulta da lei ou da vontade
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das partes". Neste passo, o legislador brasileiro afastou-se do tratamento dado à
questão na Alemanha e Itália, cujos sistemas presumem justamente o contrário.

Na Alemanha, o BGB, em seu § 427 estatui que se vários sujeitos se obrigam


conjuntamente por meio de contrato a uma prestação divisível, na dúvida, respondem
como devedores solidários; Art. 1.294 do CC italiano estabelece que os co-devedores
são tidos como solidários se da lei ou do título não resulta diversamente.

A França presume a solidariedade passiva exclusivamente no campo das obrigações


comerciais. Embora ausente disposição legal expressa, a presunção decorreria da
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incorporação àquele sistema de um uso que remontaria ao antigo direito francês.

Para a instituição da solidariedade pelos figurantes do negócio jurídico, não é necessária


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a utilização de palavras sacramentais. O aparecimento, no texto do negócio jurídico,
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de termos como "solidariedade" ou "solidário", não se faz, portanto, obrigatório.

Basta que as partes utilizem expressões que indiquem claramente a intenção de


estabelecer a solidariedade, tais como "todos por um", "um só por todos", "um pelos
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outros" ou outras semelhantes, ou, ainda, reste evidenciada a vontade dos
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contratantes de obter os resultados econômicos que lhe são ínsitos.

Quanto à possibilidade da instituição da solidariedade passiva pelo testador, Carvalho


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Santos e Carvalho de Mendonça opinam pela negativa. Para o segundo, como a
instituição da solidariedade necessitaria de uma manifestação de vontade bilateral -
quando convencional -, e como a solidariedade passiva implica uma agravação do
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vínculo obrigatório, não poderia o testador, unilateralmente, impô-la ao herdeiro
testamentário.
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Pontes de Miranda e Eduardo Espínola admitem que a solidariedade dos devedores
possa ser estabelecida por testamento, embora não exponham de maneira clara as
razões de seu convencimento. Mesmo assim, suas opiniões encontram respaldo na
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doutrina alienígena, principalmente francesa. Colin e Capitant e Planiol e Ripert, num
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momento mais remoto, e Terré, Simler e Lequette, Jean Carbonnier e François
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Chabas na doutrina francesa mais recente, assentem quanto à possibilidade.

A doutrina relaciona alguns casos de solidariedade legal, ou seja, decorrente da


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incidência de regra jurídica. Carvalho Santos exemplifica, com base no Código Civil de
1916 (LGL\1916\1), diversas situações nas quais a solidariedade decorre de expressa
disposição normativa. Transpostos para o disciplinamento do novo Código Civil
(LGL\2002\400), os exemplos mencionados por aquele prestigiado autor são os
seguintes: a) se duas ou mais pessoas forem simultaneamente comodatárias de uma
coisa, ficarão solidariamente responsáveis perante o comodante (art. 585, do CC/2002
(LGL\2002\400)); b) se o mandato for outorgado por duas ou mais pessoas e para
negócio comum, cada uma ficará solidariamente responsável para com o mandatário por
todos os compromissos e efeitos do mandato, salvo direito regressivo, pelas quantias
que pagar, contra os outros mandantes (art. 680, do CC/2002 (LGL\2002\400)); c) a
fiança conjuntamente prestada a um só débito por mais de uma pessoa importa o
compromisso de solidariedade entre elas, se declaradamente não se reservaram o
benefício da divisão (art. 829, do CC/2002 (LGL\2002\400)); d) se a ofensa ou violação
do direito de outrem tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela
reparação do dano causado (art. 942,, do CC/2002 (LGL\2002\400)); e) havendo
simultaneamente mais de um testamenteiro, que tenha aceitado o cargo, poderá cada
qual exercê-lo, em falta dos outros; mas todos ficam solidariamente obrigados a dar
conta dos bens que lhes forem confiados (art. 1.986, do CC/2002 (LGL\2002\400)); f) a
distribuição de lucros ilícitos ou fictícios acarreta responsabilidade solidária dos
administradores que a realizarem e dos sócios que os receberem, conhecendo ou
devendo conhecer-lhes a ilegitimidade (art. 1.009, do CC/2002 (LGL\2002\400)); g) se
a coação exercida por terceiro for previamente conhecida da parte a quem aproveite, ou
devesse esta ter conhecimento daquela, responderá solidariamente com aquele por
todas as perdas e danos (art. 154, do CC/2002 (LGL\2002\400)); h) se o gestor se fizer
substituir por outrem, responderá pelas faltas do substituto, ainda que seja pessoa
idônea, sem prejuízo da ação que a ele, ou ao dono do negócio, contra ele possa caber.
Havendo mais de um gestor, será solidária a sua responsabilidade (art. 1.337, par. ún.,
do CC/2002 (LGL\2002\400)).

Os casos de solidariedade legal são bastante restritos, não se podendo estende-los por
analogia, porque, como observa Carvalho de Mendonça, "a solidariedade legal é sempre
uma agravação da obrigação, um princípio derrogatório da eqüidade que nos leva a
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suportar conseqüências de atos que muitas vezes não nos são imputáveis".

Não se estabelece, de outro lado, qualquer limitação quanto ao conteúdo das obrigações
solidárias, de modo que elas podem ter como objeto uma quantia em dinheiro - o que,
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na prática, revela-se mais comum -, ou a prestação de um fato.

Pothier sustenta a impossibilidade de estabelecer-se, para os co-devedores solidários,


prestações de natureza diferente. Para ele, é imprescindível que os devedores hajam se
obrigado à prestação de uma mesma coisa, pois, do contrário, não se tratará de
solidariedade, "sino que serán dos obligaciones, si dos personas se obligaban para con
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otra por diferentes cosas".

Pontes de Miranda sustenta haver solidariedade "entre obrigações com objetos


diferentes, se, em virtude de convenção, ou de lei, a execução por um devedor solidário
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extingue a obrigação do outro".

Na doutrina portuguesa verifica-se dissenso quanto ao assunto. À conhecida posição de


Vaz Serra - para quem o conteúdo da prestação para cada um dos devedores solidários
poder-se-ia apresentar totalmente diverso (p. ex., A e B devem objetos distintos,
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extinguindo-se a obrigação de um dos devedores com a prestação do outro) -,
contrapõe-se a de Antunes Varela, que vê na hipótese uma situação típica de obrigação
alternativa, tanto subjetiva quanto objetivamente, advertindo que a aplicação ao caso
51
dos preceitos próprios da solidariedade somente seria cogitável por analogias.

No direito italiano, Marco Mazzoni chega à mesma conclusão de Antunes Varela. Para
aquele autor, a hipótese acima referida pode tratar-se de "una figura di obbligazione
alternativa", se estabelecida contratualmente "la possibilità di estinguerla attraverso
l'adempimento di una sola prestazione"; mas nunca se poderia falar de solidariedade, já
que in casu "manca infatti l'identità della prestazione", elemento tido como necessário à
configuração da obrigação solidária à luz do art. 1.292 do CC italiano ("l'obbligazione è in
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solido quando più debitori sono obbligati tutti per la medesima prestazione...").

É interessante perceber que no direito civil português não há norma legal expressa
condicionando a configuração da solidariedade à existência de uma mesma prestação
para os co-devedores. Isto não impediu, é certo, que parte da doutrina daquele país - de
cujo conjunto sobressai-se, atualmente, Antunes Varela -, divergisse da posição adotada
por Vaz Serra quanto ao problema.

O novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro admite que a obrigação solidária poderá
apresentar-se pura e simples para um dos co-devedores, e condicional, ou a prazo, ou
pagável em lugar diferente, para o outro (art. 266, do CC/2002 (LGL\2002\400)), não
estabelecendo, portanto, quer a identidade, quer a diversidade entre as prestações
atribuíveis aos obrigados solidários.

Antunes Varela, a propósito da legislação portuguesa, sustenta que a existência de


eventuais cláusulas acessórias no negócio jurídico não prejudica a substância da
prestação, que seria idêntica, nas relações externas, para todos os obrigados.

Se numa dada relação obrigacional um dos co-obrigados responde apenas pelo capital,
ao passo que um outro pelo capital e juros, a verdadeira solidariedade alcançaria apenas
a parte comum da responsabilidade (capital). Somente essa parte corresponderia à
prestação integral em face da qual estariam obrigados todos os co-devedores, conclui
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Varela.

As ponderações lançadas pelo professor português podem ser utilizadas, mutatis


mutandis, para delimitar o exato alcance do art. 266, do CC/2002 (LGL\2002\400).

3. Das relações externas dos devedores solidários

A função principal da solidariedade passiva é outorgar ao credor uma maior segurança


quanto ao cumprimento da obrigação, na medida em que poderá dirigir sua pretensão e,
eventualmente, sua ação, contra mais de um sujeito, indistintamente, não se vendo
prejudicado pela insolvência parcial ou total de qualquer dos co-obrigados.

Os riscos da insolvência são transferidos para os devedores, que continuarão obrigados


pelo todo da dívida, apesar de insolvente um ou alguns deles (art. 283, do CC/2002
(LGL\2002\400)).

Entre o credor e cada um dos devedores existe uma relação jurídica; a totalidade destas
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conexões para o credor se pode denominar a relação externa do devedor solidário.

Para Carbonnier, sob o ponto de vista clássico, a essência da solidariedade, no que


pertine à obrigação à dívida, decorreria de duas idéias: o objeto da obrigação é único,
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mas os liames obrigatórios são múltiplos.

Em face dos co-devedores solidários, poderá o credor exigir de qualquer deles o


cumprimento da obrigação, sem que possa, o escolhido, alegar o benefício da divisão, ou
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fazer valer o seu direito em relação a todos.

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Esta possibilidade resulta da distinção dos vínculos estabelecidos entre cada um dos
devedores solidários e o credor, permitindo a este último perseguir o cumprimento da
prestação indistintamente em face de qualquer daqueles.

Assim, diz o novo Código Civil (LGL\2002\400) que "não importará renúncia da
solidariedade a propositura de ação pelo credor contra um ou alguns dos devedores"
(art. 275, par. ún., do CC/2002 (LGL\2002\400)).

A legislação francesa, ao disciplinar o exercício da pretensão pelo credor estabelece que


"les poursuites faites contre 1'un des débiteurs n'empêchent pas le créancier d'en
exercer de pareilles contre les autres" (CC francês, art. 1.204).

A menção expressa à faculdade outorgada ao credor, feita pelo Code Civil decorreria,
segundo Carbonnier, do fato de que no direito romano, pelo efeito extintivo da litis
contestatio, em agindo contra um dos devedores ficava o credor obstado de agir contra
57
os demais.

Na Itália não há qualquer disposição semelhante em seu Código Civil (LGL\2002\400).


Assinala Michele Giorgianni que o Código Civil (LGL\2002\400) de 1942, atualmente em
vigor, diferentemente do Código de 1865, deixou de repetir aquele preceito porque o
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mesmo "discende ormai dalla essenza della obbligazione solidale moderna".

O Código Civil (LGL\2002\400) português, diferentemente dos diplomas legais citados,


impõe limites expressos ao exercício do direito de ação pelo credor contra os
co-obrigados solidários. Se aquele exigir judicialmente a um dos co-devedores a
totalidade ou parte da prestação, fica inibido de proceder judicialmente contra os
demais, pelo que ao primeiro tenha exigido, exceto se houver razão atendível, como a
insolvência, ou risco de insolvência do demandado, ou dificuldade, por outra causa, em
obter dele a prestação (CC português, art. 519, 1).

"Se o credor tiver demandado apenas um dos devedores e tiver obtido contra ele
sentença de condenação, terá em princípio de seguir com a respectiva execução, antes
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de poder dirigir-se aos outros co-devedores", observa Antunes Varela. Evita-se com o
dispositivo, esclarece o autor, que o credor, tendo incomodado um dos devedores com a
propositura de uma ação (condenatória ou executiva), vá depois, sem qualquer razão
60
admissível, proceder contra os outros.

A existência de tantas relações jurídicas quantos sejam os devedores solidários


evidencia-se no tocante às exceções (em sentido amplo) de que cada um dos sujeitos
passivos pode utilizar face o credor.

Quando admoestado, poderá o devedor solidário opor ao credor exceções comuns - as


quais têm seu fundamento na origem ou conteúdo comum da obrigação solidária -, bem
61
como as que lhe sejam pessoais - fundadas em sua relação pessoal com o credor.

Reza o novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro que as exceções pessoais a cada
co-devedor não aproveitará aos demais, os quais não poderão opô-las ao credor, quando
demandados pelo pagamento da dívida (art. 281, do CC/2002 (LGL\2002\400)).

Em face da regra acima enunciada, a incapacidade de um dos co-devedores, o erro, o


dolo ou a coação de que ele tenha sido vítima não poderá ser alegada pelos demais
como meio de defesa oposto à pretensão do credor, por se constituir em exceção de
natureza pessoal.

3.1 Das relações internas dos devedores solidários

Na linguagem usual, solidarizar-se significa fazer-se responsável por um dever que no


todo ou em parte é de outro, e assumir a conseqüência do referido dever. Na
solidariedade passiva cada devedor assume a responsabilidade de seu próprio dever e a
62
responsabilidade do dever dos co-devedores.
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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

No campo das relações internas entre os co-devedores solidários sobressai o efeito


extintivo recíproco no adimplemento da prestação.

O adimplemento - em sentido amplo - realizado por qualquer um dos devedores


solidários ao credor a todos os demais aproveita, total ou parcialmente.

O novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro presume iguais, no débito, à falta de


outra estipulação diferente, as partes de todos os co-devedores solidários. De modo que,
aquele que adimplir a obrigação por inteiro fica autorizado a exigir de cada um dos
demais a sua quota (art. 283, do CC/2002 (LGL\2002\400)).

Circunstâncias existem nas quais essa igualdade nas quotas partes não ocorre. Pode
suceder, inclusive, caso em que a dívida solidária interesse exclusivamente a um dos
co-devedores. Nesta hipótese, este responderá integralmente para com aquele que
adimplir a obrigação (art. 285, do CC/2002 (LGL\2002\400)).

Nos contratos que impliquem a concessão de crédito a um determinado sujeito passivo é


muito comum a cláusula por meio da qual um terceiro obriga-se solidariamente pela
restituição à instituição financeira da importância creditada, embora dela não tenha feito
qualquer uso, pessoal ou profissional.

O devedor solidário que deixa de fazer objeção comum ou de opor exceção comum
poderá vir a ser responsabilizado pelos demais co-devedores, salvo se ignorava a
63
existência de uma ou outra.

Pontes de Miranda discorre sobre o suposto dever, atribuído a um dos co-devedores


solidários, de avisar aos demais sobre o pagamento que efetuara ao credor, para
evitar-se um provável bis in idem, ou de questioná-los acerca de possível adimplemento
da parte destes últimos, quando deseje adimplir. A primeira situação, segundo o
tratadista, supõe que todos os co-devedores se conheçam, o que, às vezes, inocorre. Já
a outra implicaria num injustificável atraso no adimplemento das obrigações de
64
cumprimento urgente.

"Dever de aviso existe se, segundo o tráfico, seria de esperar-se que o devedor solvente
avisasse", explica o jurista, para, logo em seguida, concluir que quanto ao dever de
informar-se, "não há como extraí-lo do sistema jurídico".

Antunes Varela, em sentido contrário, sustenta que o devedor que realizar a prestação,
por força dos princípios decorrentes da boa-fé objetiva, tem o dever de avisar os demais,
65
sob pena de responder pelos danos que vier a causar em face de sua omissão.

O co-devedor solidário que, por desconhecer o cumprimento da prestação efetuado por


outro devedor, deixe de deduzir tal exceção comum frente ao credor, quando
demandado, cumprindo a obrigação por inteiro, não pode ser responsabilizado pelos
66
demais.

Se demandado pelo total ou parte da dívida comum, quando condenatória a ação movida
pelo sujeito ativo da obrigação, poderá o co-devedor acionado chamar ao processo os
demais, na forma do disposto no art. 77, III, do CPC (LGL\1973\5).

Para que o juiz possa declarar na mesma sentença proferida em face do credor qual o
limite e a extensão das responsabilidades de cada co-obrigado, o devedor demandado
inicialmente deverá requerer, no prazo para contestar a ação, a citação do demais
devedores solidários, chamados ao processo (art. 78, do CPC (LGL\1973\5)), o qual
ficará inicialmente suspenso (art. 79, do CPC (LGL\1973\5)).

A sentença nele prolatada, em julgando procedente a ação, condenando os devedores,


valerá como título executivo judicial em favor daquele que satisfizer a dívida, a fim de
que o mesmo possa exigir, por inteiro, do devedor principal, ou de cada co-devedor a
sua cota, na proporção que lhes tocar (art. 80, do CPC (LGL\1973\5)).
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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

Originário do chamamento à demanda, previsto no Código de Processo Civil


67
(LGL\1973\5) português, o chamamento ao processo se constitui numa faculdade
assegurada exclusivamente aos réus, para que estes "chamem à causa como seus
litisconsortes passivos, na demanda comum, ou outro, ou os outros coobrigados, perante
68
o mesmo devedor".

Frente ao co-devedor que tiver cumprido a prestação por inteiro os demais respondem
69
não como devedores solidários, mas cada um pela parte que lhe seja correspondente.

3.2 Limitação ao jus varlandi do credor em relação aos devedores solidários

O princípio da boa-fé objetiva encontra assento nos arts. 113 e 422, do CC/2002
(LGL\2002\400). De acordo com o primeiro, "os negócios jurídicos devem ser
interpretados conforme a boa-fé e os usos e costumes do lugar de sua celebração"; em
conformidade com o segundo, os contratantes "são obrigados a guardar, assim na
conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé".

Ao comentar o art. 1.443, do CC/1916 (LGL\1916\1), Clóvis Beviláqua, no longínquo ano


70
de 1926, já sustentava que "todos os contractos devem ser de boa fé".

Durante muito tempo, contudo, careceu nossa legislação material civil de disposições
como as encontradas nos Códigos Civis francês, italiano, alemão, que exigiam, de há
muito, dos partícipes das relações obrigacionais, condutas pautadas pela cláusula geral
de boa-fé.

A inovação introduzida pelo art. 422, do CC/2002 (LGL\2002\400) permitirá a expressa


e indiscutível inclusão do instituto em nosso sistema jurídico.
71
Para Judith Martins-Costa a boa-fé objetiva desempenha no campo obrigacional três
funções distintas: a) cânone hermenêutico-integrativo do contrato; b) norma de criação
de deveres jurídicos; c) norma de limitação ao exercício de direitos subjetivos.

A inovação legislativa, por um lado, e o influxo sofrido na doutrina contratual pelo


pensamento dos escritores alemães, em especial, de outro, exigiu a adoção da boa-fé
objetiva como parâmetro objetivo, genérico, nas relações obrigatórias.
72
Cláudia Lima Marques ensina que a boa-fé objetiva, enquanto standard, implica:

"(...) uma atuação 'refletida', uma atuação refletindo, pensando no outro, no parceiro
contratual, respeitando-o, respeitando seus interesses legítimos, suas expectativas
razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem abuso, sem obstrução, sem causar
lesão ou desvantagem excessiva, cooperando para atingir o bom fim das obrigações: o
cumprimento do objetivo contratual e a realização dos interesses das partes".

A limitação ao jus variandi atribuído ao credor, nas relações solidárias passivas, a partir
da boa-fé objetiva, não tem sido objeto da atenção de muitos doutrinadores.

Pontes de Miranda não conseguia divisar qualquer dever de cooperação entre os


partícipes de uma relação obrigacional. "Em que é que o autor do ato ilícito, do ato-fato
73
ilícito ou do fato ilícito coopera?", pergunta-se aquele prestigiado autor, numa clara
crítica a Emilio Betti e sua conhecida visão do fenômeno obrigacional.

Couto e Silva, diversamente, observa que "a concepção atual de relação jurídica, em
virtude da incidência da boa-fé, é de uma ordem de cooperação, em que se aluem as
74
posições tradicionais do devedor e credor".

Não se trata de enfraquecer a posição do credor, o qual continuará a ser o titular da


obrigação, podendo exigi-la coativamente do devedor, mas de: a) atribuírem-lhe
determinados deveres de conduta em face do sujeito passivo, os quais deverão estar
presentes antes, durante e após o cumprimento das prestações reciprocamente
acordadas; e b) limitar-lhe o exercício de determinados direitos subjetivos, sempre que
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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

estes direitos, quando exercitados, revelem-se, afinal, abusivos.

Tal como ocorre com o dever de prestar, imposto ao sujeito passivo da obrigação, o
dever de boa-fé se aplica a todos os credores, independentemente da fonte do seu
75
direito de crédito.

Cooperar para que a obrigação chegue a seu termo, sem criar obstáculos ou dificuldades
ao seu adimplemento pelo devedor se constitui, ademais, num dos deveres impostos ao
credor pela cláusula geral de boa-fé, presente em todo e qualquer negócio jurídico (art.
113, do CC/2002 (LGL\2002\400)), inclusive nos contratos (art. 422, do CC/2002
(LGL\2002\400)).

Na doutrina espanhola, Diez-Picazo incursiona no tema da boa-fé, ao discorrer sobre o


jus variandi atribuído ao credor, não sem antes lhe precisar os contornos:

"Para el ejercicio del ius variandi, no es necesaria ninguna forma especial, ni es exigible
haber hecho excusión en los bienes anteriores demandados, ni el carácter infructuoso de
la persecución contra éstos. El acreedor, después de haberse dirigido contra un primer
deudor, puede volverse contra otros u otros, siempre que no haya obtenido todavía un
pago íntegro. El jus variandi no queda impedido por el hecho de que se haya interpuesto
una demanda judicial, sin perjuicio de los problemas procesales que de ello puedan
76
derivar".

Esta faculdade de o credor escolher indistintamente o devedor solidário sobre quem


pudesse valer a sua pretensão, de acordo com Diez-Picazo, despertou a atenção de pelo
menos dois autores hispânicos, Puig-Ferriol e Caffarena, para quem o princípio da boa-fé
- expressamente regulado pelo art. 7.º do CC espanhol - e a interdição do abuso do
direito poderiam supor um sério limite ao jus variandi.

Diez-Picazo, contudo, dissente daqueles doutrinadores, e considera que apenas se


poderia considerar vulnerados os princípios da boa-fé e da proibição do abuso do direito
na penhora excessiva de bens, seja preventivamente - por meio do equivalente espanhol
da nossa ação cautelar de arresto -, seja como medida preventiva da ação de execução,
requeridos pelo credor, nesse caso, como ato de emulação, sem a finalidade precípua de
77
cobrar seu crédito.

A amplitude com que se trata, atualmente, a boa-fé objetiva contratual, os contornos


que a doutrina empresta ao instituto - com expressa previsão normativa (arts. 113 e
422, do CC/2002 (LGL\2002\400)) - não permite pré-excluir uma eventual infração ao
princípio pelo credor, ainda que no exercício da faculdade prevista no art. 275, par. ún.,
do CC/2002 (LGL\2002\400).

De outro lado, o titular de um determinado direito que exceder manifestamente, no seu


exercício, os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos
bons costumes, estará cometendo um ato ilícito, de acordo com o art. 187, do CC/2002
(LGL\2002\400).

Não se afiguraria difícil a ocorrência de caso em que o credor, no pleno exercício do jus
variandi em relação aos devedores solidários, viesse a infringir a boa-fé objetiva
contratual.

Pense-se, por exemplo, num caso em que o credor tenha proposto demanda contra
apenas um dos devedores solidários, embora pudesse fazê-lo, desde logo, contra todos
os demais co-devedores.

Já se observou que o Código Civil (LGL\2002\400) português estabelece restrições


expressas ao exercício do jus variandi por parte do credor. Embora possa este último
cobrar de todos ou cada um a dívida toda - um dos traços distintivos da solidariedade -,
se optar por ajuizar demanda contra apenas um dos sujeitos passivos pela integralidade
do crédito, não poderá voltar-se contra os demais senão no caso em que sua pretensão
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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

não possa ser atendida.

O art. 910, do CC/1916 (LGL\1916\1) prescreve, in verbis, que: "o credor, propondo
ação contra um dos devedores solidários, não fica inibido de acionar os outros".

O dispositivo que se aponta como sucedâneo do art. 910, do CC/1916 (LGL\1916\1) -


art. 275, par. ún., do CC/2002 (LGL\2002\400) - cuida, apenas, em prescrever que "não
importará renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo credor contra um ou
alguns dos devedores".

Não nos parece que ambos os dispositivos possam ensejar interpretações absolutamente
idênticas.

A norma do art. 910, do CC/1916 (LGL\1916\1) trata especificamente do exercício da


tutela jurisdicional pelo credor, estabelecendo a impossibilidade de sua limitação quanto
aos demais devedores, excluídos, num primeiro momento, de demanda anterior
proposta pelo sujeito ativo.

O art. 275, par. ún., do CC/2002 (LGL\2002\400) estatui, apenas, que não implicará
renúncia à solidariedade a propositura de ação pelo credor contra um ou alguns dos
devedores. Reforça, portanto, nesse aspecto, a norma do caput, segundo a qual "o
credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos devedores, parcial ou
totalmente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos os demais
devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto". Se o credor propuser ação
condenatória ou executiva contra qualquer um dos obrigados, não estará renunciando à
solidariedade em face dos demais, que continuarão obrigados pela totalidade da dívida
até sua completa satisfação.

Na nova edição de seu prestigiado manual, o Prof. Silvio Rodrigues sustenta,


inicialmente, que na obrigação solidária "pode o credor que sem êxito exigiu de um
devedor o pagamento voltar-se contra outro para cobrar integralmente a prestação, e
78
assim por diante".

Após transcrever a norma do art. 910, do CC/1916 (LGL\1916\1), Silvio Rodrigues


reconhece que "o Código de 2002 não repetiu o preceito"; acredita, contudo, na
continuidade de sua vigência "em virtude de ser elementar no conceito de
solidariedade". "Todavia", conclui, "a idéia é repetida no par. ún. do art. 275, do
79
CC/2002 (LGL\2002\400)".

Não acreditamos que a idéia do jus variandi ilimitado tenha se repetido no art. 275, par.
ún., do CC/2002 (LGL\2002\400), cuja redação é extremamente diversa daquela do art.
910, do CC/1916 (LGL\1916\1), embora várias publicações que se propõem a cotejar os
dois diplomas vejam naquele o sucedâneo legal deste último.

Conquanto ínsito à idéia da solidariedade, o jus variandi comporta temperamentos.

Se o sujeito ativo da relação obrigacional poderia, de início, acionar todos os devedores


solidários, mas não o faz - sem qualquer motivo plausível -, dirigindo sua pretensão
contra apenas um, ou alguns deles, cujo patrimônio se mostre suficiente para cobrir a
dívida comum com todos os seus acréscimos, para exigir dele a integralidade da
prestação, deve-se impor um certo limite ao seu jus variandi, sob pena de, em se
permitindo que o credor proceda contra os demais co-devedores, sem qualquer razão
admissível, o exercício de tal direito se afigure, na hipótese, abusivo e contrário à boa-fé
objetiva.

Na Espanha, o Código Civil (LGL\2002\400) possui prescrição semelhante a do art. 910,


do CC/1916 (LGL\1916\1). Seu art. 1.144 dispõe, verbis:

"Artículo 1.144.

El acreedor puede dirigirse contra cualquiera de los deudores solidarios o contra todos
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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

ellos simultáneamente.

Las reclamaciones entabladas contra uno no serán obstáculo para las que
posteriormente se dirijan contra los demás, mientras no resulte cobrada la deuda por
completo".

O regramento dado ao jus variandi pelo ordenamento civil espanhol não impediu,
entretanto, que vozes abalizadas, como a de Garcia Goyena, Puig Ferriol e Caffarena
entendessem da conveniência de se impor um certo limite àquele direito subjetivo,
sempre que seu exercício redundasse abusivo ou se mostrasse contrário à boa-fé
objetiva.

Ainda na vigência do Código Civil de 1916 (LGL\1916\1) algumas decisões proferidas


pelo STJ já impunham alguma restrição ao jus variandi do credor.

Para o STJ não se afigura lícito possa o sujeito ativo da relação obrigacional ajuizar
demandas executivas distintas para cobrança da dívida comum: uma contra o devedor
principal com base no contrato de mútuo, p. ex., e outra contra os avalistas com base na
cambial emitida em garantia do adimplemento daquele.

Em voto proferido no julgamento do REsp 167.221-MG, o rel. Min. Aldir Passarinho


Junior, sustentou a impossibilidade do ajuizamento das ações distintas contra os
co-devedores solidários, pois, ainda quando o credor faça a ressalva "quanto à dedução
do valor apurado em uma execução, da dívida exigida na outra, resta evidente que tal
procedimento é mais oneroso para os devedores, acarreta dificuldades extremas quanto
80
à apuração do saldo devedor que sobejaria...".

Embora não tenha constado nos fundamentos da decisão a eventual infração à boa-fé
objetiva contratual ou a configuração do abuso do direito na hipótese, acreditamos que à
luz do novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro o recurso àqueles institutos
mostrar-se-ia plenamente admissível, para impedir o indiscriminado jus variandi.

4. Observações de cunho conclusivo - Bibliografia

Embora se insiram entre os casos em que um ou ambos os pólos da relação obrigacional


apresentam mais de um sujeito, a solidariedade e a indivisibilidade não esgotam os
casos de pluralidade subjetiva obrigacional.

No trato das obrigações solidárias passivas, os diversos ordenamentos jurídicos referidos


neste trabalho possuem normas similares. Contudo, distinções importantes podem ser
evidenciadas, a partir, inclusive, da presunção de solidariedade em determinadas
situações, a qual, como se sabe, inexiste em nosso País.

O estudo da solidariedade passiva mostra-se de grande importância dada a freqüência


com que esta se faz presente na experiência comum.

Os princípios inseridos no novo Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro, principalmente a


boa-fé objetiva e a vedação ao exercício abusivo dos direitos, ensejam uma abordagem
diversa do processo obrigacional, impondo certos limites às pretensões que dele
decorram. A limitação ao exercício do jus variandi pelo credor em face dos co-devedores
solidários, na hipótese dada no texto, pode ser um exemplo desta nova realidade que se
avizinha.

Bibliografia

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(1) Cf. Hernandez Gil, Derecho de obligaciones, Madrid: Ceura, 1983, p. 9.

(2) Idem, ibidem, p. 10.

(3) Hernandez Gil. Op. cit., p. 10.

(4) Cf. Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, Tratado de direito privado, 3. ed., Rio de
Janeiro: Borsói, 1971, t. 22, p. 12. Direitos relativos, no texto, estão contrapostos aos
chamados direitos absolutos, de acordo com tradicional classificação da doutrina (cf.
Francesco Santoro-Passarelli, "Diritti assoluti e relativi", Enciclopedia del Diritto, Milão:
Giuffrè, 1964, vol. XII, p. 748-755).

(5) GOMES, Orlando. Obrigações. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. p. 3.

(6) Cf. Umberto Breccia, "Le obbligazioni", In: Giovanni Iudica; Paolo Zatti (dir.),
Trattato di diretto privato, Milão: Giuffrè, 1991, p. 2.

(7) VARELA, João de Matos Antunes. Das obrigações em geral. 9. ed. Coimbra:
Almedina, 1996. vol. 1, p. 15-16.

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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

(8) CIAN, Giorgio; TRABUCCHI, Alberto. Commentario breve al Codice Civile. 5. ed.
Pádua: Cedam, 1997. p. 1.057.

(9) A referência ao art. 1.174 do CC italiano indica o entendimento da doutrina


peninsular acerca da patrimonialidade que a prestação deve necessariamente apresentar
para restar configurada a relação obrigatória.

(10) Cf. Mário Júlio de Almeida Costa, Direito das obrigações, 6. ed., Coimbra: Almedina,
1994, p. 120.

(11) Cf. Manuel Inácio Carvalho de Mendonça, Doutrina e prática das obrigações, 4. ed.,
Rio de Janeiro: Revista Forense, 1956, t. I, p. 300.

(12) LARENZ, Kari. Derecho de obligaciones. Trad. espanhola de Jaime Santos Briz.
Madrid: Editorial Revista de Derecho Privado, 1958. t. I, p. 18.

(13) MAZZONI, Cosimo Marco. "Le obbligazioni solidali e indivisibili". In: RESCIGNO,
Pietro (dir.). Trattato di diretto privato: obbligazioni e contratti. Turim: Utet, 1992. t. I,
p. 592.

(14) Idem, ibidem.

(15) PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Op. cit., p. 363 et seq.

(16) DIEZ-PICAZO, Luis. Fundamentos del derecho civil patrimonial - Vol. II. Las
relaciones obligatorias. 5. ed. Madrid: Civitas, 1996. p. 199.

(17) Cf. Ludwig Enneccerus; Theodor Kipp; Martin Wolf, Tratado de derecho civil, Trad.
espanhola de Blas Pérez González e José Alguer, Barcelona: Bosch, 1954, t. II, vol. I, p.
436.

(18) GOMES, Orlando. Op. cit., p. 68-69.

(19) Cf. Eduardo Espínola, Garantia e extinção das obrigações: obrigações solidárias e
indivisíveis, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1951, p. 401.

(20) Cf. Manuel Inácio Carvalho de Mendonça, op. cit., p. 300.

(21) Cf. João Manuel de Carvalho Santos, Código Civil (LGL\2002\400) brasileiro
interpretado, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1986, vol. XI, p. 179.

(22) Cf. João de Matos Antunes Varela, op. cit., p. 777.

(23) PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Op. cit., p. 334.

(24) Cf. Ludwig Enneccerus; Theodor Kipp; Martin Wolf, op. cit., p. 443-444.

(25) Tratado de las relaciones obligacionales. Trad. espanhola de Ángel Martínez Sarrión.
Barcelona: Bosch, 1995. vol. I, p. 368.

(26) Cf. João de Matos Antunes Varela, op. cit., p. 790. No mesmo sentido, Karl Larenz,
op. cit., p. 517-518, de cujas ponderações Antunes Varela tirou a conclusão mencionada
no texto.

(27) Pontes de Miranda ensina que a solidariedade pode resultar de incidência de regra
jurídica, ou em virtude de negócio jurídico bilateral (op. cit., p. 320).

(28) Cf. Karl Larenz, op. cit., p. 513.


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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

(29) A presunção de inexistência de solidariedade passiva, esclarece Robert Joseph


Pothier, "está en que la intepretación de las obligaciones se hace, en la duda, en favor
de los deudores" ( Tratado de las obligaciones. Trad. espanhola. Buenos Aires: Heliasta,
1993. p. 147).

(30) Cf. Marc Mignot, Les obligations solidaires et les obligations in solidum en droit
privé français, Paris: Dalloz, 2002, p. 47 et seq. No mesmo sentido, Fran Martins,
Contratos e obrigações comerciais, 14. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1996, p. 17-18.

(31) Cf. João Manuel de Carvalho Martins, op. cit., p. 179; Manuel Inácio Carvalho de
Mendonça, op. cit., p. 304.

(32) Cf. François Terré; Philippe Simler; Yves Lequette, Droit civil: les obligations, 7. ed.,
Paris: Dalloz, 1999, p. 1.042.

(33) Cf. João de Matos Antunes Varela, op. cit., p. 792; Francisco Cavalcanti Pontes de
Miranda, op. cit., p. 335, o qual remete às fórmulas "com solidariedade", "juntos e de
per si", "cada um pelo todo"; e Marc Mignot, op. cit., p. 40, ressaltando que todos os
termos equivalentes são suficientes para estabelecer a solidariedade, desde que
indiquem claramente que os co-devedores devem cada um a totalidade da dívida.

(34) Cf. Luis Diez-Picazo, op. cit., p. 172.

(35) Op. cit., p. 182.

(36) Op. cit., p. 304-305.

(37) No sentido de que a solidariedade passiva implica um agravamento do vínculo


obrigatório, a despeito de sua presunção no sistema italiano, cf. Alberto Trabucchi,
Instituciones de derecho civil, Trad. espanhola de Luis Martínez-Calcerrada, Madrid:
Editorial Revista de Derecho Privado, 1967, vol. II, p. 32.

(38) Op. cit., p. 320.

(39) Op. cit., p. 418.

(40) Curso elemental de derecho civil. Trad. espanhola da Redação da Revista General
de Legislacion y Jurisprudencia. Madrid: Instituto Editorial Réus, 1950. t. II, vol. I, p.
425.

(41) Tratado practico de derecho civil. Trad. espanhola de Mario Diaz Cruz. Havana:
Cultural, 1945. t. VII, p. 377.

(42) Op. e loc. cit.

(43) Droit civil: les obligations. 22. ed. Paris: Puf, 2000. p. 604.

(44) CHABAS, François et al.Leçons de droit civil: obligations - Théorie generale. 9. ed.
Paris: Montchrestien, 1998. p. 1.107.

(45) Op. cit., p. 183-184.

(46) Op. cit., p. 307. Em sentido diverso Miguel Maria de Serpa Lopes, Curso de direito
civil - Vol. II. Obrigações em geral, 5. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1989, p. 122,
para quem o recurso à analogia seria admissível, "quando as circunstâncias forem tais
que a imponham inevitavelmente".

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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

(47) Cf. Fernando Andrade Pires de Lima; João de Matos Antunes Varela. Código Civil
(LGL\2002\400) anotado, 4. ed., Coimbra: Ed. Coimbra, 1987, vol. I, p. 528.

(48) POTHIER, Robert Joseph. Op. cit., p. 145.

(49) Op. cit., p. 343. No mesmo sentido: VON TUHR, Andreas. Tratado de las
obligaciones. Trad. espanhola. Madrid: Editorial Reus, 1934. t. II, p. 255.

(50) Apud COSTA, Mário Júlio de Almeida. Op. cit., p. 562.

(51) Op. cit., p. 785.

(52) MAZZONI, Cosimo Marco. Op. cit., p. 601.

(53) Op. cit., p. 785.

(54) Cf. Dieter Medicus, op. cit., p. 369.

(55) Op. cit., p. 605.

(56) Cf. Clóvis Beviláqua, Direito das obrigações, 4. ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos,
1936, p. 86. No mesmo sentido François Terré, Philippe Simler, Yves Lequette, op. cit.,
p. 1.045.

(57) Op. cit., p. 606. No mesmo sentido, Michele Giorgianni, "Obligazione solidale e
parziaria", Novissimo digesto italiano, Turim: Utet, 1965, vol. XI, p. 682.

(58) Op. et loc. cits.

(59) Op. cit., p. 794.

(60) Idem, ibidem.

(61) Cf. Andreas Von Tuhr, op. cit., p. 261.

(62) Cf. Luis Diez-Picazo, op. cit., p. 207.

(63) Cf. Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, op. cit., p. 340.

(64) Idem, ibidem.

(65) Op. cit., p. 796.

(66) Cf. Andreas Von Tuhr, op. cit., p. 262.

(67) Vide os comentários aos arts. 335 a 338, que regulam o chamamento à demanda
português, em Alberto dos Reis, Código de Processo Civil (LGL\1973\5) anotado, 3. ed.,
Coimbra: Ed. Coimbra, 1982, vol. I, p. 449-463.

(68) SILVA, Ovídio A. Baptista da. Curso de processo civil. 4. ed. São Paulo: RT, 1998.
vol. 1, p. 305.

(69) Cf. Karl Larenz, op. cit., p. 509.

(70) Código Civil (LGL\2002\400) dos Estados Unidos do Brasil commentado. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1926. vol. V, p. 205.

(71) A boa-fé no direito privado. São Paulo: RT, 1999. p. 427-428.


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NOTAS SOBRE A SOLIDARIEDADE PASSIVA NO NOVO
CÓDIGO CIVIL

(72) Os contratos no Código de Defesa do Consumidor. 3. ed. 3. tir. São Paulo: RT,
1999. p. 107.

(73) Op. cit., p. 12.

(74) A obrigação como processo. São Paulo: Bushatsky, 1976. p. 120.

(75) Cf. Fernando Andrade Pires de Lima; João de Matos Antunes Varela, Código Civil
(LGL\2002\400) anotado, 3. ed, Coimbra: Ed. Coimbra, 1986, vol. II, p. 3.

(76) Op. cit., p. 209.

(77) Idem, ibidem.

(78) Direito civil: parte geral das obrigações. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. vol. 2, p.
76.

(79) Op. et loc. cits.

(80) BRASIL. STJ. Comercial e processual civil. Contrato de abertura de crédito em conta
corrente. Nota promissória. Falta de data de emissão. Irregularidade formal. Aval. Dupla
execução contra devedor e avalistas. Impossibilidade. Ausência de titularidade
executiva. Procedimento mais oneroso. I. A ausência da data da emissão na nota
promissória constitui irregularidade formal no título, a impedir a cobrança do valor
respectivo pela via executiva. A nota promissória vinculada a contrato de abertura de
crédito em conta corrente não possui natureza de título de crédito, desautorizada a
execução nela baseada. II. Não constitui procedimento válido o ajuizamento de dupla
execução, uma baseada no contrato de abertura de crédito contra o correntista e outra,
dirigida em desfavor dos avalistas, fundada na nota promissória por eles firmada em
garantia daquele mesmo pacto. III. Precedentes do STJ. IV. Recurso especial não
conhecido. REsp 167.221-MG. Recorrente: Banco do Brasil S.A. Recorridos: Geraldo
Majela de Brito e outros. Rel. Min. Aldir Passarinho Junior. Brasília, 25.10.1999.
Disponível em: [http:\\www.stj.gov.br]. Acesso em 02.05.2002.

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