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Universidade Federal Rural do Semi-Árido

DIREITO NA PRIMEIRA
REPÚBLICA

Mossoró, 2018.
DIREITO NA PRIMEIRA
REPÚBLICA

Trabalho apresentado a Professora


Rafael Giesta Lamera Cabral regente da
disciplina Historia do Direito do curso de
Direito da Universidade Federal Rural do
Semi-Árido, como parte dos requisitos
para avaliação da matéria do curso.
Recife, 2008.

O DIREITO NA PRIMEIRA REPÚBLICA

A Primeira Republica, também conhecida como Republica Velha, é um


período que começa após a Proclamação da Republica, em 15 de novembro de
1889 e vai até a revolução de 1930. É um período de grandes transformações no
Brasil e está dividido em dois momentos; o primeiro denominado de Republica da
Espada (1988/1894) marcado pela forte presença dos militares no poder e o
segundo denominado de Republica das Oligarquias (1894/1930) marcado pela
presença de civis no poder.
No período da Republica da Espada, que teve inicio logo após a Proclamação
da Republica, foi estabelecido um governo provisório chefiado pelo Marechal
Deodoro da Fonseca, eleito para presidência sob forte pressão militar.
Ao assumir o poder, Deodoro invalidou os efeitos legais da Constituição de
1824, passando a governar através de decretos e tal como um ditador acumulava as
funções legislativas e executivas da República. Fez várias mudanças, dentre elas a
expulsão da família real portuguesa do Brasil, a extinção da vitaliciedade do Senado,
a dissolução das assembléias provinciais e das câmaras municipais. Nomeou
governadores para a administração os Estados (antigas províncias) e intendentes
para a administração dos municípios. Procedeu-se à “grande naturalização” que
possibilitava a naturalização dos estrangeiros residentes no Brasil. Separarou Igreja
do Estado, estabeleceu a liberdade de culto religioso, regulamentou o casamento e o
registro civil e secularizou os cemitérios. Procedeu a reforma do Código Criminal, a
organização judiciária do país, a reforma do ensino e do sistema bancário. Ainda no
seu governo, adotou-se a nova bandeira nacional (mantendo-se o retângulo verde e
o losango amarelo imperiais, acrescentando-se na parte central, uma esfera azul
com estrelas que representam os estados e uma faixa com a inscrição “Ordem e
Progresso”, de inspiração positivista. A música de Francisco Manuel da Silva, tocada
desde o período do império, foi oficializada como Hino Nacional brasileiro. Enfim, a
administração do governo provisório procurou conciliar os diversos interesses dos
grupos sociais predominantes.
Entretanto, a república herdou da monarquia um grande déficit na balança de
pagamentos.Com o advento internacional da industrialização o Brasil passou a ser
alvo de interesse econômicos principalmente dos Estados Unidos e da Inglaterra.
Foram feitos vários acordos comerciais que prejudicaram as tentativas nacionais de
industrialização. A abolição da escravatura e a corrente migratória criaram um
número maior de trabalhadores assalariados e como não foi possível buscar
recursos financeiros fora do país, a solução foi a emissão de papel moeda que teve
como conseqüência a inflação e uma violenta especulação com as ações das
empresas novas que surgiam. Essa especulação ficou conhecida como “O
Encilhamento”.
As mudanças promovidas pelo governo provisório provocaram reações
adversas em todas as camadas sociais. As elites agrárias não aceitavam o
autoritarismo de Deodoro da Fonseca e almejavam a descentralização do poder. O
Congresso Constituinte tornava-se assim um crescente foco de oposição ao governo
provisório e clamava por uma nova constituição.
Assim, uma junta militar reuniu-se em Assembléia Constituinte para discutir
acerca de uma nova Constituição que marcaria de fato o início da República e em 24
de fevereiro de 1891 foi promulgada a primeira Constituição da República do Brasil.
Esta constituição foi inspirada no modelo liberal da Constituição dos Estados Unidos
que se fundamenta na descentralização do poder dividido entre os Estados. A
elaboração do texto constitucional gerou discussões acaloradas dada a polêmica
acerca da definição das competências que deveriam pertencer à União e aos
Estados. Em virtude disso surgiram duas correntes antagônicas no plenário,
correntes estas que dividiu os Constituintes em unionistas e federalistas. Os
primeiros, inclinados a dar mais poderes à União e os segundos em transferir para
os estados o centro das competências, dando-lhes, por conseguinte, o máximo
possível de autonomia e de recursos tributários.
Por fim a Constituição de 1891 estabeleceu que a República Federativa dos
Estados Unidos do Brasil seria constituída de 20 estados autônomos econômica e
administrativamente. O Presidente, o Vice-presidente, os Senadores e os Deputados
seriam eleitos diretamente pelo sufrágio universal masculino. O presidente seria
eleito para um mandato de quatro anos, não sendo permitida a reeleição no período
seguinte. Seria da competência da Presidência a nomeação e exoneração dos seus
Ministros, sancionar leis e deliberações do Senado e da Câmara. O Poder
Legislativo seria da competência do Congresso Nacional. Os senadores e os
deputados seriam eleitos para o mandato de nove e três anos, respectivamente. O
Rio de Janeiro passou a ser a sede do Governo Federal. O Poder Judiciário teria
como órgão superior o Supremo Tribunal Federal, e seria composto por juizes
federais. Cada Estado elegeria seu governador e sua assembléia legislativa e seria
autônomo para se organizar administrativamente. Os municípios também ganharam
autonomia político-administrativa.
O voto seria universal, masculino e aberto. Poderiam votar todos os brasileiros
que tinham o direito a liberdade individual. Foi instituído o instituto do “Hábeas-
Corpus”, declaradas as inviolabilidades do domicilio e da correspondência,
estabelecidas às liberdades de pensamento, de locomoção, de imprensa, de culto
religioso, de associações e reuniões para fins pacíficos.
As mudanças constitucionais não abalaram os alicerces que sustentavam a
dominação dos senhores de terras, muito pelo contrário, fortaleceram a tendência de
enfraquecimento do poder central (cujas raízes remontam ao tempo do Segundo
Império) e o fortalecimento das antigas Províncias, agora transformadas em Estados
Federados, cujo controle havia caído nas mãos das oligarquias.
Deodoro da Fonseca insatisfeito com a crescente autonomia das oligarquias
e com temor de perder o poder resolve fechar o Congresso o que acarretou uma
revolta armada e conseqüentemente sua renuncia em 23 de novembro de 1891.
Floriano Peixoto, o então vice-presidente assume a Presidência do Brasil.
Igualmente tirano e discordando das deliberações da Assembléia Constituinte,
Floriano Peixoto impediu que uma nova eleição fosse feita, o que provocou grande
revolta e oposição por parte das classes dominantes, que o consideravam como um
“ditador”, que pretendia governar de forma centralizadora. Floriano demitiu todos os
que apoiaram Deodoro da Fonseca o que acarretou a segunda revolta armada no
ano de 1893 teve como conseqüência a sua saída da presidência..
A Republica da Espada então, é um período dominado por uma acirrada luta
pelo poder entre centralistas e federalistas. Os centralistas, em geral militares, que
têm a liderança do marechal Deodoro da Fonseca são Identificados com as idéias
positivistas de um Estado forte, são apoiados pelas antigas elites agrárias. Enquanto
que os federalistas reúnem uma maioria de civis que representam as forças políticas
e econômicas dominantes nos Estados, principalmente São Paulo e Minas, os mais
ricos do país. Eles defendem a descentralização do poder sob a forma de República
Federativa e o controle do governo pelo Congresso, onde as oligarquias regionais
estariam representadas.
Com a saída de Floriano Peixoto, a aristocracia cafeeira que já tinha o
controle da economia passa a dominar também a política. A República Oligárquica
consolida-se com a chegada de Prudente de Morais, o primeiro presidente civil. Seu
governo é voltado para os interesses das elites cafeicultoras e a ascensão dos civis
no ao poder nacional. Os Estados de São Paulo e Minas Gerais, os maiores
produtores de café e de leite do país, passam a dominar o governo central na
chamada política do café-com-leite. A Presidência da República é ocupada
alternadamente por representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do
Partido Republicano Mineiro (PRM).
No governo Campos Sales, oligarquias da política “café com leite” fazem um
acordo com o objetivo de se alternarem na presidencial e dão origem ao período
conhecido como ”política dos governadores”.
Os presidentes que saiam do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido
Republicano Mineiro (PRM), controlavam as eleições e contavam com o apoio das
elites agrárias do país para implementar políticas que beneficiavam exclusivamente
aos seus interesses, gerando conseqüentemente uma série de revoltas na
população menos privilegiada as quais passaram a fazer uma feroz oposição ao
governo oligárquico.
Ocorre que dentro do poder, estes partidos cada vez mais voltados para a
satisfação de seus próprios interesses se divide e gradativamente se enfraquece.
Tendo em vista a ocorrência de várias fraudes eleitorais e insatisfeitos com as
imposições dos cafeicultores paulistas que praticamente dominavam o cenário
político do Brasil, as oligarquias mineiras juntamente com as oligarquias do Rio
Grande do Sul, Paraíba e com alguns dissidentes do Partido Republicano Paulista,
fundaram a Aliança Nacional, movimento cujo objetivo principal consistia em
promover radicais modificações no cenário político-jurídico, tais como a
regulamentação dos direitos do trabalho, a instituição do voto secreto e do voto
feminino, etc.
Assim, liderados por Getúlio Vargas, os políticos da Aliança Liberal com o
apoio dos militares descontentes, provocam a Revolução de 1930.
É o fim da República Velha e início da Era Vargas.
A Revolução de 1930 foi então, um momento da história do Brasil onde houve
transformações institucionais que abriram caminho para a modernização econômica
e atualização da política social do país.
Vimos então, no decorrer do nosso trabalho, que a República Velha alterou
várias instituições na esfera social. A tradição das unidades de fontes legislativas foi
rompida com a federalização, introduzindo a legitimação de uma política estadual. A
separação do Estado da Igreja dá origem a um sistema político-jurídico laico. A
Constituição de 1891 promoveu mudanças institucionais, entretanto, o que realmente
se verificava era a preocupação da manutenção privilégios das classes dominantes.
A Constituição de 1891 foi totalmente omissa em relação aos direitos sociais.
O sucesso do liberalismo na República repercutiu dentro da cultura jurídica,
assim as instituições políticas brasileiras passaram a receber influências dos
modelos norte-americanos e argentinos. Acreditava-se que tais diretrizes seriam
capazes de atender as necessidades da sociedade brasileira. .O liberalismo jurídico
e econômico conviveu o tempo todo com as revoluções, tendo que encarar uma
sociedade dividida e antidemocrática. Isso resultou em efeitos contrários aos
pretendidos. Na tentativa de buscar modernização a República rompeu com as
antigas tradições, mas a sociedade não aceitou estas mudanças. A solução seria,
então, criar uma reforma do sistema de direito público, que acabaria por gerar um
Estado Regulador. As intervenções do Estado, embora se reconheça às vezes que
são necessárias para garantir uma ordem social, foram associadas ao autoritarismo.
O corporativismo do Estado na Primeira República teve como fundamento o
controle da sociedade através de “democracias burguesas”, onde se verificou que o
princípio da liberdade superou o da igualdade. O Direito era um campo de
manifestação e atuação de uma elite sempre preocupada em satisfazer seus
próprios interesses, suprimindo as necessidades das camadas menos favorecidas,
ampliando as distâncias entre justiça e realidade. A aplicação do Direito era realizada
de forma errônea, afastada do contexto social, pois estava sempre atrelada ao
conteúdo literal da lei e em favorecimento das classes dominantes.
Referências bibliográficas

BONAVIDES, P. História constitucional do Brasil. Brasília: Paz e Terra, 1990.

DOMINGUES, Joelza Éster. História: O Brasil em foco.Ed. Atualizada. São Paulo:


FTD, 2000.

LOPES, José Reinaldo de Lima. As instituições e a cultura jurídica: Brasil: Séc. XIX.
IN: O Direito na História: Lições Introdutórias. São Paulo: Max Limonad, 2000, p. 311
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WOLKMER, Antônio Carlos. Estados, elites e construção do Direito nacional. IN:


Historia do Direito no Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rep%C3%BAblica_Velha