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O objetivo deste trabalho será analisar o crescimento e desenvolvimento

da economia brasileira a partir dos anos 90 até o ano de 2015 por meio da
visão de Michal Kalecki, ressaltando o Princípio da Demanda Efetiva em sua
teoria, assim como a distribuição de salários, grau de mecanização e de
oligopólio. Será analisada a decisão de investimento dentro da teoria de
dinâmica econômica kaleckiana, partindo de suas principais variáveis
(poupança, lucro e estoques). De forma a destacar a contribuição de Kalecki na
análise dos países subdesenvolvidos (carentes de capacidade ociosa, com
uma enorme massa de trabalhadores fora do capitalismo), serão analisados
também dois planos da economia brasileira que modificaram substancialmente
sua essência: o PAEG (Programa de Ação Econômica do Governo, aplicado
entre os anos de 1964 e 1967), o PED (Programa Estratégico de
Desenvolvimento, durante o triênio 1968-1970) e por fim, o PAC (Programa de
Aceleração do Crescimento, lançado em 2007). Embora os dois primeiros
planos não estejam inclusos no período analisado, ambos são passíveis de
análise para demonstrar as diferenças entre planos cujo objetivo principal
(independente dos instrumentos utilizados ou da época histórica)era o
crescimento e desenvolvimento econômico, assim como forma de comprovar a
atemporalidade da obra de Michal Kalecki.
PAEG

O PAEG foi o plano desenvolvido durante o governo do marechal


Humberto Castelo Branco, por duas figuras chaves: Roberto de Oliveira
Campos (ministro do Planejamento) e Octávio Gouveia de Bulhões (ministro da
Fazenda). Segundo o próprio documento do plano, seu objetivo era
“estabilização, desenvolvimento e reforma democrática”, tentando retomar o
desenvolvimento econômico do país (já observado durante o período de 1962-
63). Entre os instrumentos utilizados pelo PAEG, podemos citar: política de
redução do déficit de caixa governamental, disciplinamento do consumo,
aumento da capacidade de poupança (com o objetivo de combater a inflação),
uma política tributária para fortalecer a arrecadação, um maior favorecimento
aos investimentos do setor privado (mediante fortalecimento do sistema
creditício)e por fim, favorecimento para as exportações e restringindo as
importações. Olhando alguns dados do IBG, do Ipeadata e do Bacen :

Vemos que, de fato, as receitas da União aumentaram durante a época


de aplicação do PAEG. Porém, as despesas também aumentaram,
contrariando os objetivos do programa. Ao mesmo tempo, o saldo da balança
comercial aumentou, cumprindo com um dos objetivos do programa (tentativa
de desenvolver um modelo primário exportador)

Analisando os objetivos do programa (exceto o fortalecimento do


sistema creditício e o favorecimento da balança comercial favorável) são
criticáveis do ponto de vista da obra de Kalecki: a redução do déficit do gasto
governamental prova-se como uma medida de retrocesso ao crescimento
econômico, pois o gasto governamental é autônomo, capaz de iniciar o
processo do multiplicador, cujo resultado final é um maior aumento de renda.
Com a redução do gasto governamental, inicia-se um processo de multiplicador
perverso. No entanto, como bem mostrado pela tabela dos gastos da União, os
objetivos desviaram-se da prática: o gasto do governo aumentou. Isso se
comprova, por exemplo, pela criação de empresas públicas como o BNH
(Banco Nacional de Habitação), cujo objetivo era financiar e produzir
empreendimentos imobiliários.

O disciplinamento do consumo e aumento da capacidade de poupança


também tem um efeito negativo sobre a equação de realização (𝑃 = 𝐶𝑘 + 𝑁𝑋 +
𝐼 + (𝐺 − 𝑇 ) − 𝑆). Vemos que o consumo (dos capitalistas) tem uma relação
proporcional ao lucro, enquanto a poupança tem uma relação inversa com o
lucro. Fortalecer o crédito é, de fato, uma das formas de aumentar a renda no
sistema capitalista. Isto, de fato, foi utilizado pelo PAEG. Vemos que os
métodos propostos eram, em parte, contrários aos princípios da economia
kaleckiana. Na prática (como comprovam os dados expostos),eles comprovam
o Princípio da Demanda Efetiva: gastos autônomos são os elementos chave
para o crescimento da renda nacional. De fato, houve o crescimento do PIB:

PIB (valores correntes em 1.000.000)


90,000
80,000
70,000
60,000
50,000
PIB (valores correntes
40,000 em 1.000.000)
30,000
20,000
10,000
0
1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967
No entanto, outro aspecto bem destacado do PAEG é sua política
salarial: houve um arrocho salarial real. Entre 1965-67 houve um arrocho total
de 26,7%.De acordo com os dados obtidos no IPEA:

A tendência do salário mínimo é de queda, comprovando o arrocho


salarial promovido pelas políticas públicas do governo. De acordo com a teoria
de Kalecki, a parcela da renda auferida pelos salários, dado por 𝜔(onde 𝜔 =
𝑊/𝑌). A renda auferida pelos trabalhadores diminui. Isto tende a confirmar a
teoria kaleckiana de que a economia capitalista pode crescer, e tal crescimento
não depende da classe trabalhadora e sim de gastos autônomos como o
investimento e gasto governamental.

Por fim, este arrocho remete a uma característica final da teoria de


Kalecki: o aspecto político dentro das medidas do PAEG. Simultâneo ao
arrocho salarial, vemos a proibição de greves, assim como a criação dos Atos
Institucionais.