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MICROECONOMIA 1

Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia


Notas de Aula 2 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Introdução à Teoria do Consumidor


Na primeira parte do curso estudaremos o comportamento dos consumidores. O problema de um
consumidor tı́pico é definido como a maximização de seu bem-estar, dadas as restrições que a escassez
impõe sobre suas escolhas. Temos portanto dois objetos importantes: as preferências do consumidor,
que servem para definir sua utilidade ou bem-estar, e a restrição imposta pela escassez.
As restrições impostas pela escassez são facilmente observáveis, e se alguma mudança no com-
portamento do consumidor foi causada por uma mudança na sua restrição de escassez, obtemos uma
explicação objetiva e clara para essa mudança de comportamento. Nessas notas analisaremos as re-
strições que o consumidor enfrenta quando maximiza seu bem-estar e que implicações sobre o seu
comportamento podemos derivar usando apenas essas restrições.

2 A Restrição Orçamentária
A restrição orçamentária representa a escassez no problema do consumidor. Cada consumidor
possui uma quantidade de dinheiro para gastar em um determinado perı́odo de tempo, digamos um
mês. O consumidor escolhe bens para consumir de acordo com os seus gostos, mas o valor total dos
bens não pode ultrapassar a quantidade de dinheiro que ele possui.
Vamos representar os preços dos n bens x1 , . . . , xn disponı́veis por p1 , . . . , pn . Ao longo dessas
notas de aula vamos denotar vetores em negrito. Logo x = (x1 , . . . , xn ) representa uma cesta de bens
e p = (p1 , . . . , pn ) representa o vetor de preços com que o consumidor se defronta. Os preços são fixos,
o consumidor não pode alterá-los (existem modelos que relaxam essa hipótese). Dizemos então que
o consumidor é tomador de preços, pois toma os preços dos bens como fixos, sem possibilidade de
negociação.
A renda do consumidor é representada por m, e é exógena às ações do consumidor (ou seja, o
consumidor não consegue alterar a renda que possui. Essa hipótese não é adequada quando queremos
estudar a oferta de trabalho das pessoas, por exemplo. Nesse caso, a renda é endógena: ela depende
da decisão do indivı́duo de quanto e onde trabalhar. Mais à frente no curso estudaremos o caso de
renda endógena). A restrição orçamentária pode então ser escrita como

p 1 x1 + · · · + p n xn ≤ m

Ou seja, o que o consumidor gasta não pode ultrapassar a quantidade de dinheiro de que dispõe.

1
A reta orçamentária é o conjunto de cestas de bens que custam exatamente m:

p 1 x1 + · · · + p n xn = m

Essa é uma restrição linear, que pode não ser adequada em algumas situações (por exemplo, o
consumo de àgua tem um preço não linear, por faixas de consumo). Porém ela é de fácil compreensão,
especialmente no caso de dois bens, o que permite uma visualização gráfica da restrição orçamentária.
A hipótese de dois bens não é tão restritiva quanto parece. Se estamos interessados em estudar a
demanda de um bem qualquer, podemos agregar todos os outros bens em um bem composto.
Vamos ilustrar a restrição e a reta orçamentárias em um gráfico onde os eixos representam a
quantidade dos bens consumidos. Se o consumidor gastar todo o seu dinheiro no bem 1, ele pode
comprar no máximo m/p1 unidades desse bem. Similarmente, se ele gastar todo o seu dinheiro no bem
2, ele pode comprar no máximo m/p2 unidades desse bem. Esses dois pontos são os interceptos da
reta orçamentária, que possui inclinação −p1 /p2 . A inclinação da reta orçamentária informa o valor
de troca de mercado entre os dois bens: para se obter uma unidade do bem 1, temos que abrir mão de
−p1 /p2 unidades do bem 2. A inclinação da reta orçamentária é, portanto, o custo de oportunidade
do bem 2, em termos do bem 1.
Por exemplo, suponha que Carlos está consumindo x1 do bem 1 e x2 do bem 2, quantidades que
estão sobre a reta orçamentária (ou seja, exaurem toda a renda do consumidor). Carlos decide consumir
∆x1 a mais do bem 1. Para isso, ele vai ter que abrir mão de uma quantidade do bem 2, representada
por ∆x2 , de modo que a reta orçamentária continue válida, ou seja, p1 (x1 + ∆x1 ) + p2 (x2 + ∆x2 ) = m.
Subtraindo da expressão acima a reta orçamentária original, dada por p1 x1 + p2 x2 = m, temos que:
∆x2 p1
p1 ∆x1 + p2 ∆x2 = 0 ⇒ =−
∆x1 p2
O sinal negativo aparece porque para Carlos obter um pouco mais do bem 1, ele tem que abrir
mão de um tanto do bem 2. A reta orçamentária é representada no gráfico abaixo.

x2
6

m
p2
@
@
@
@ Reta Orçamentária
@  (Inclinação: −p1 /p2 )
@
@
@
Restrição @
@
Orçamentária @
@
@
@
@
@ -
m x1
p1

2
A restrição orçamentária relevante é a percebida pelo consumidor. Vamos supor que ele observa
os preços claramente, e que não ocorre interação entre a sua restrição com a restrição de nenhum
outro consumidor (esse tipo de interação é analisado usando a teoria dos jogos, que será vista em
microeconomia 2). Note que implicitamente supomos que os bens são perfeitamente divisı́veis, ou seja,
que o consumidor pode adquirir qualquer quantidade que desejar de todos. Essa hipótese é inócua em
muitos casos e facilita o tratamento analı́tico do problema. Porém, para determinados bens ela não
é adequada, como, por exemplo, a decisão de compra de uma casa. Nesse caso, precisamos analisar
isoladamente essa decisão e, se necessário, usar um intrumental diferente do que será visto nesse curso
(preços hedônicos, etc).

2.1 Efeitos de variações na renda e nos preços sobre a reta orçamentária


Um aumento da renda desloca a reta orçamentária para fora, aumentando o conjunto de cestas de
bens que o consumidor pode comprar. Uma diminuição da renda desloca a reta orçamentária para
dentro, diminuindo o conjunto de cestas de bens que o consumidor pode comprar. A figura abaixo
ilustra o caso de um aumento da renda.

x2 x2
Mudança na RO causada Mudança na RO causada
m̄ 6 m 6
p2
@ por um aumento na renda m p2
@ por uma queda na renda m
@ (renda aumenta de m para m̄) @ (renda diminui de m para m̃)
@ @
@ @
m @ m̃ @
p2 p2
@  @ @ @
@ @ @ @
@  @ @ @
@ @ @ @
@ @ @ @
@ @ @ @
@ @ @ @
@ @ @ @
@ @ @ @
@@ @@ - @
@ @@ -
m m̄ x1 m̃ m x1
p1 p1 p1 p1

No caso de o preço de um dos bens aumentar, a inclinação da reta orçamentária se modifica. Por
exemplo, se o preço do bem 1 aumentar, a reta se desloca como ilustrado na figura abaixo. Esse
deslocamento mostra que o intercepto vertical não muda, já que o preço do bem 2 não mudou (se o
consumidor comprar apenas o bem 2, ele adquire a mesma quantidade que antes, m/p2 ). Porém, o
intercepto horizontal muda para um ponto de menor valor (se o consumidor comprar apenas o bem 1,
ele agora adquire uma quantidade menor do que antes, já que o preço desse bem aumentou). A figura
abaixo ilustra o caso de um aumento no preço do bem 1.

3
x2
6
Mudanca na RO causada
m
p2 Q
S por um aumento no preço p1
Q
S Q (aumenta de p1 para p̄1 )
S QQ
S Q
S Q
Q
S Q
S Q
Q
S Q
S Q
Q
S Q
S  Q
 Q
S +
 Q
S Q
Q
S Q
S Q
S Q -
m m x1
p̄1 p1

2.2 Preços Absolutos e Preços Relativos


Lembre-se que a restrição orçamentária é dada por

p 1 x1 + p 2 x2 + · · · + p n xn ≤ m

O que ocorre se todos os preços, incluindo a renda (que pode, de modo amplo, ser vista como um
preço também) aumentam? Por exemplo, suponha que todos os preços dobram de um perı́odo para o
outro. Nesse caso a restrição orçamentária se torna

(2p1 )x1 + (2p2 )x2 + · · · + (2pn )xn ≤ (2m),

igual à restrição orçamentária original,

p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn ≤ m.

Intuitivamente, se todos os preços da economia aumentam (ou diminuem), incluindo salários, na


mesma proporção, então nada muda. A restrição orçamentária continua a mesma, apenas expressa
em valores diferentes. O problema de escolha do consumidor não muda e ele escolherá a mesma
cesta de bens que escolhia antes do aumento geral de preços, todo o resto constante (condição de
ceteris paribus). No jargão econômico, diz-se que mudanças nos preços absolutos não têm efeito real
na economia (ou que os agentes econômicos não sofrem de ilusão monetária), apenas mudanças nos
preços relativos têm efeito (isto é, uma mudança do tipo em que o preço de um bem se modifica em
relação ao preço de outro bem).
Podemos então transformar um dos bens em numerário, o que significa torná-lo a medida de valor
da economia. Fazemos isso dividindo todos os preços da economia pelo preço do bem que queremos
utilizar como numerário. Por exemplo, se usarmos o preço do bem 1 como o preço-numerário da

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economia, temos que ajustar todos os outros preços de acordo com o numerário, o que modifica a
restrição orçamentária para:

x1 + (p2 /p1 )x2 + · · · + (pn /p1 )xn ≤ (m/p1 )

Logo, todos os outros preços da economia (inclusive a renda) estão denotados agora em termos do
bem 1. Por exemplo, p̂2 = p2/p1 é o preço do bem 2, relativo ao preço do bem 1 - esse preço informa
quanto o bem 2 custa em quantidades do bem 1. Se p̂2 = 2, então o bem 2 custa duas unidades do
bem 1. Se m̂ = m/p1 = 300, então o consumidor tem uma renda equivalente a 300 unidades do bem 1.

2.3 Exemplos de Restrições Orçamentárias não-lineares


Em muitos casos a restrição orçamentária não é linear. Situações importantes onde a restrição
orçamentária dificilmente é linear são a escolha de trabalho do indivı́duo e a escolha de consumo ao
longo do tempo do indivı́duo. Nesses casos, podem existir quebras, causadas por diversos motivos,
como racionamento, impostos, preços não lineares, diferenças de preços para compra e para venda de
um produto, etc. Vejamos alguns exemplos.

2.3.1 Racionamento

Suponha uma economia com dois bens onde o governo decide racionar o consumo de um dos bens,
o bem x1 . Cada consumidor pode comprar no máximo x̄1 do bem 1, ainda pagando o preço de p1 para
qualquer quantidade x1 ≤ x̄1 . Acima de x̄1 , o consumidor não pode comprar mais do bem 1. Podem
ocorrer dois casos:

1. Se x̄1 ≥ m/p1 : não há alteração na reta orçamentária. Esse caso é sem interesse: o governo fixa
um preço muito alto para o bem racionado, que na prática não afeta a restrição orçamentária
(imagine o governo restringindo a compra de BMWs para no máximo dez BMWs por consumidor,
qual o efeito disso para a maioria das pessoas?).

2. Se x̄1 < m/p1 : O consumidor pode consumir o bem 1 normalmente, até o nı́vel x̄1 . A partir
desse nı́vel, não é possı́vel consumir mais do bem 1. Nesse caso ocorre então uma quebra da reta
orçamentária no nı́vel x̄1 de consumo do bem 1. A figura abaixo ilustra esse caso.
x2
6
m
p2 HH
HH
H
HH
H
HHH
R.O. no caso
de racionamento
do bem 1
-
x̄1 x1

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2.3.2 Preços diferentes para diferentes nı́veis de consumo

Existem certos bens que possuem preços que variam com a quantidade consumida. Por exemplo,
energia elétrica e água. Para um consumo pequeno de água, o governo cobra um preço menor por
litro consumido do que o preço cobrado para consumos maiores. Existem diversas razões para isso:
evitar desperdı́cios, beneficiar a parcela da população mais pobre que costuma consumir menos água
na média, etc.
Suponha então que o preço do bem 1 é dado da seguinte maneira: Se o consumo de 1 é de 0 até
0 0
x̄1 , cobra-se um preço igual a p1 . Se o consumo é acima de x̄1 , cobra-se um preço p1 , onde p1 > p1 . A
reta orçamentária passa a ter uma quebra em x̄1 , refletindo a mudança de preço a partir desse nı́vel
de consumo. A figura abaixo ilustra essa situação.

x2
6
inclinação −p1/p2
m 
p2 HH
HH
H
HH
H
HH
H
HH
A
R.O. no caso de A inclinação −p01/p2
preços diferentes A 
A
para o bem 1 A
A
A
A
A -
x̄1 x1

2.3.3 Restrição Orçamentária Intertemporal

Até agora analisamos o caso de restrições orçamentárias estáticas, para um perı́odo apenas. Suponha
agora que existam dois perı́odos e apenas um bem (imagine um bem composto), que pode ser consum-
ido no primeiro perı́odo e no segundo perı́odo. O preço desse bem nos dois perı́odos é normalizado em
1 (p1 = p2 = 1). O consumidor pode poupar um valor s (ou tomar emprestado, se s for negativo) da
renda do primeiro perı́odo para consumir no segundo perı́odo. No perı́odo 1 ele tem uma renda de m1
e no perı́odo 2, m2 . A taxa de juros da economia é r. As retas orçamentárias para cada perı́odo são:

Perı́odo 1: c1 + s = m1
Perı́odo 2: c2 = m2 + (1 + r)s

Se s é negativo, significa que o consumidor está tomando emprestado para consumir hoje e pagar
amanhã. Se s é positivo, ele está poupando hoje para consumir mais amanhã.
Podemos juntar as duas restrições acima em uma única restrição, por meio da poupança s, que
permite ao indivı́duo transferir recursos entre perı́odos diferentes. Observe que a função de qualquer

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tipo de investimento (ou até mesmo de guardar dinheiro no colchão!) na situação analisada é permitir
que o indivı́duo tenha capacidade de consumir, em um perı́odo qualquer, um valor diferente da renda
que receberá naquele perı́odo. Se isolarmos s na equação para o perı́odo 2 e substituirmos esse valor
na equação do perı́odo 1, obtemos:
c2 m2
c1 + = m1 +
1+r 1+r
Essa equação é chamada reta orçamentária intertemporal. O lado esquerdo da igualdade
contém o gasto total do consumidor nos dois perı́odos e o lado direito da igualdade contém a renda
total do consumidor nos dois perı́odos. Logo, esta restrição diz que o consumo total (a soma do
consumo em todos os perı́odos) deve ser igual à renda total (a soma da renda em todos os perı́odos)
do consumidor. A possibilidade de poupar ou tomar emprestado é fundamental para obtermos essa
restrição, pois é essa possibilidade que permite ao consumidor tranferir recursos entre perı́odos.
A restrição orçamentária acima está expressa em termos de valor presente, já que ela iguala a 1
o preço do consumo hoje. O preço do consumo amanhã, em termos do consumo hoje, é 1/1+r: para
consumir mais uma unidade amanhã, o consumidor precisa abrir mão de 1/1+r unidades de consumo
hoje. Similarmente, o preço do consumo hoje, em termos do consumo amanhã, é (1 + r): para
consumir mais uma unidade hoje, o consumidor precisa abrir mão de (1 + r) unidades de consumo
amanhã (esse preço também é chamado de custo de oportunidade intertemporal ). Note que apesar de
o preço do consumo hoje ser 1 e o preço de o consumo amanhã ser 1, a taxa de juros determina o preço
do consumo de hoje em relação ao consumo de amanhã (e vice-versa).
A equação acima, escrita em valores presentes, é a forma mais comum de representação da reta
orçamentária intertemporal. Porém, podemos escrevê-la em termos de valores futuros:

(1 + r)c1 + c2 = (1 + r)m1 + m2

A representação gráfica da restrição intertemporal pode ser derivada de modo similar ao feito acima
para o caso de uma reta orçamentária estática com dois bens. Se o indivı́duo decidir consumir toda a
sua renda no primeiro perı́odo, ele gastará m1 + m2 /(1 + r). Similarmente, se ele consumir toda a sua
renda no segundo perı́odo, ele gastará m1 (1 + r) + m2 . Essas duas possibilidades são os interceptos da
reta orçamentária intertemporal, que possui inclinação −(1 + r). Novamente, essa inclinação informa
o preço do consumo hoje em termos do consumo amanhã: para consumir mais uma unidade hoje, o
consumidor precisa abrir mão de (1 + r) unidades de consumo amanhã. Note que se o indivı́duo não
poupar nem pegar emprestado, ele consome m1 hoje e m2 amanhã. Portanto, o ponto (m1 , m2 ) tem
que estar sobre a reta orçamentária intertemporal. Graficamente, obtemos a figura abaixo.

7
c2
6

(1 + r)m1 + m2 Reta Orçamentária Intertemporal


@  (inclinação: −(1 + r))
@
@
@
m2 @r
@
@
@
Restrição @
Orçamentária @
@
Intertemporal @
@
@
@
@ -
m1 m1 + 1 c1
1+r m2

2.4 Restrições causadas pela Escassez


Vamos analisar as restrições impostas ao comportamento do consumidor, mais precisamente, às
demandas dos bens, pela restrição orçamentária.
A demanda de um bem depende dos preços de todos os bens e da renda do consumidor (além de
outros fatores, tais como clima, cultura, etc. Mas vamos representar a demanda como função apenas
dos preços e da renda, para simplificar a notação). Denote então a demanda de um bem i por:

xi = xi (p, m), onde p = (p1 , p2 , . . . , pn )

Essa é a demanda Marshalliana do bem i. Mais à frente vamos derivá-la do problema do


consumidor de maximização de utilidade sujeita à restrição orçamentária.
A primeira restrição que a escassez no problema do consumidor obriga as demandas Marshallianas
a satisfazer é a própria restrição orçamentária, que no caso das demandas Marshallianas é chamada
Lei de Walras ou restrição de “adding-up”:

p1 x1 (p, m) + p2 x2 (p, m) + · · · + pn xn (p, m) = m

Logo, as demandas do indivı́duo pelos bens e serviços disponı́veis para consumo exaurem toda a sua
renda. Essa hipótese não é tão restritiva quanto parece. Lembre-se que estamos analisando um modelo
de um único perı́odo. Se quisermos permitir que o consumidor possa poupar ou tomar emprestado,
devemos usar o modelo intertemporal, cuja versão mais simples vimos acima. A lei de Walras apenas
garante que o indivı́duo gasta toda a sua renda em bens e serviços disponı́veis para consumo, ou seja,
a grosso modo, o consumidor não joga dinheiro fora.
Uma outra restrição que as demandas Marshallianas devem satisfazer é a homogeneidade. Vimos
acima que uma mudança na mesma proporção em todos os preços (incluindo a renda) não afeta a

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restrição orçamentária e, portanto, não afeta as demandas. Ou seja, a demanda Marshalliana de cada
bem é homogênea de grau zero:

xi (tp, tm) = xi (p, m), para todo bem i, para todo t > 0

A propriedade de homogeneidade é simplesmente a representação matemática da suposição de que


os consumidores não sofrem de ilusão monetária, ou seja, se todos os preços (inclusive a renda) são
multiplicados por um mesmo fator, então a restrição orçamentária do consumidor não se altera e,
portanto, não há razão para que a sua demanda pelos bens se altere.
Por exemplo, diversos planos de estabilização de preços no Brasil e no mundo mudavam o nome
da moeda, criando um novo padrão monetário. O plano Cruzado, de 1986, mudou o nome da moeda
de Cruzeiro para Cruzado e cortou três zeros de todos os preços da economia, inclusive salários. Esse
corte foi apenas uma mudança de denominação da moeda e é razoável supor que essa medida, por si
só, não teve efeito real sobre a economia.
As duas propriedades acima retringem as demandas dos bens e são obtidas usando apenas a restrição
orçamentária, ou seja, que o gasto do consumidor não pode exceder a sua renda. Nada foi dito sobre as
preferências de consumo dos indivı́duos. Mais ainda, as propriedades de “adding-up” e homogeneidade
(e quaisquer outras restrições obtidas a partir dessas duas propriedades, tais como a agregação de
Cournot e a agregação de Engel, que serão vistas mais à frente) são todas as restrições que podemos
obter sobre o comportamento do consumidor usando apenas a restrição orçamentária.
Para inferirmos outras propriedades das demandas dos bens de uma economia, precisamos car-
acterizar as preferências dos consumidores e analisar o problema de maximização do bem-estar do
consumidor sujeito à restrição orçamentária.

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 2 - “Restrição orçamentária”.

• Pindick e Rubenfeld, cap. 3 “Comportamento do Consumidor”, seção 2 - “Restrições Orçamentárias”.

• Hall e Lieberman, cap 5 - “A escolha do Consumidor”, seção 1, - “A Restrição de Orçamento”.

• Deaton e Muellbauer, cap. 1 “The limits to Choice”.

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MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 3 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Preferências
Anteriormente, modelamos o problema da escassez que um consumidor enfrenta. Agora vamos
modelar o bem-estar do consumidor. A maximização desse bem-estar, sujeita à restrição orçamentária,
é conhecida como o problema (primal) do consumidor.
Denote por X (contido em Rn+ ) o conjunto que representa as cestas de bens disponı́veis para o
consumidor. Um elemento do conjunto X é denotado pelo vetor x = (x1 , x2 , . . . , xn ), onde xi é a
quantidade do bem i na cesta x. O conjunto de escolha do consumidor pode ser bem geral, e incluir
quantidades de bens impossı́veis de serem fabricados. Esse conjunto enumera apenas possibilidades
que o consumidor gostaria de consumir, e não o que é realmente possı́vel de ser consumido (esse é o
papel da restrição orçamentária).
Vamos supor que cada consumidor é capaz de ordenar as várias cestas de consumo disponı́veis em
ordem de preferência: para quaisquer duas cestas x e y diferentes, o consumidor é capaz de comparar
essas cestas: ou x é melhor que y ou y é melhor que x. Chamamos essa relação de preferência, e a
representamos por . Escrever x  y significa “a cesta x é preferı́vel à cesta y”. Podemos definir
duas outras relações a partir da relação de preferência :

1) Preferência estrita: x  y significa x  y e que não vale y  x; e

2) Indiferença: x ∼ y significa x  y e y  x.

Portanto, x  y significa que a cesta x é tão boa quanto a cesta y. Já x  y significa que a cesta
x é estritamente melhor do que a cesta y. E x ∼ y significa que as cestas x e y são indiferentes.
Observe que as relações de preferência estrita, , e de indiferença, ∼, são definidas a partir da
relação de preferência . Logo, definida uma relação de preferência  qualquer, deriva-se de  as
relações de preferência estrita e de indiferença, por meio de 1) e 2) acima.
Vamos supor que as preferências satisfaçam certas propriedades, denominadas “axiomas”. Os três
primeiros axiomas que vamos analisar são:

A.1) “Completeza”: Para quaisquer cestas x e y em X, ou x  y ou y  x (ou ambos).

A.2) Reflexividade: Para qualquer cesta x em X, x  x.

A.3) Transitividade: Para quaisquer cestas x, y e z em X, se x  y e y  z então x  z.

1
O axioma da “completeza” diz que o consumidor conhece todas as cestas de bens disponı́veis e
é sempre capaz de compará-las. Portanto, se oferecermos duas cestas quaisquer de bens para um
consumidor, ele é sempre capaz de dizer qual cesta prefere. O axioma de reflexividade é trivial e é
condição matemática necessária para derivar uma função utilidade a partir das preferências (embora
existam violações dessa propriedade: alguns experimentos mostram que uma cesta de bens pode não
ser preferı́vel a essa mesma cesta “empacotada” ou descrita de modo diferente).
O axioma de transitividade, apesar de intuitivo, é crucial para a teoria do consumidor: sem ele,
em geral, não é possivel dizer qual a cesta preferida pelo consumidor. O melhor argumento em defesa
da transitivadade das preferências é de ordem normativa. Preferências não-transitivas resultam na
possibilidade de um “dutch book ”: uma sequência de trocas que levam o consumidor a perder todo o
seu dinheiro.
Por exemplo, suponhamos que um consumidor tenha uma cesta x de bens e que ordene as cestas
x, y, e z da seguinte maneira não-transitiva: x  y, y  z e z  x, ou seja, x  y  z  x. Se
oferecermos a ele a cesta z em troca da cesta x e mais uma pequena quantia de dinheiro (pequena
o suficiente para que ele aceite a troca), ele aceita a troca (já que z  x) e passa a possuir a cesta
z. Similarmente, se oferecermos a ele a cesta y em troca da cesta z e mais uma pequena quantia de
dinheiro (novamente, pequena o suficiente para que ele aceite a troca), ele aceita a troca (já que y  z)
e passa a possuir a cesta y. Finalmente, se oferecermos a ele a cesta x em troca da cesta y e mais
uma pequena quantia de dinheiro, ele aceita a troca (já que x  y) e passa a possuir a cesta x. O
resultado lı́quido é que ele termina com a cesta que possuı́a originalmente, tendo perdido dinheiro nas
transações acima. Continuando com essas trocas circulares, o consumidor terminaria com a mesma
cesta inicial e sem dinheiro algum. Esse resultado é consequência direta de as preferências não serem
transitivas.
Outros dois axiomas usados são:

A.4) Axioma de Não-Saciação Global. Para todo x ∈ X, existe uma cesta y ∈ X tal que y  x.

A.5) Axioma de Não-Saciação Local. Para todo x ∈ X, existe uma cesta y ∈ X suficientemente
próxima de x tal que y  x.

A.6) Monotonicidade: Se x ≥ y (isto é, cada coordenada do vetor x, que representa a quantidade
de um bem, é maior ou igual do que a respectiva coordenada do vetor y), então x  y, enquanto
se x > y (isto é, cada coordenada do vetor x, que representa a quantidade de um bem, é maior
ou igual do que a respectiva coordenada do vetor y, com pelo menos uma coordenada maior),
então x  y.

O axioma de não-saciação global diz que, para qualquer cesta considerada, sempre existe uma
outra cesta que provê maior satisfação. O axioma de não-saciação local vai além: diz que para toda
cesta, existe uma outra cesta bem próxima a ela que provê maior satisfação ao consumidor. O axioma

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da monotonicidade diz que mais é melhor : se acrescentamos mais bens à cesta do consumidor, sua
satisfação aumenta.
Dois outros axiomas importantes são:

A.7) Convexidade: Se x e y são duas cestas de bens tais que x ∼ y, então λx + (1 − λ)y  x, para
todo λ ∈ [0, 1].

A.8) Convexidade estrita: Se x e y são duas cestas de bens tais que x ∼ y, então λx+(1−λ)y  x,
para todo λ ∈ (0, 1).

O axioma de convexidade diz que médias são melhores do que extremos: uma combinação de duas
cestas indiferentes entre si é sempre tão boa quanto qualquer uma das cestas que forma a combinação.
Uma versão mais forte desse axioma é o da convexidade estrita, que diz que a cesta média é estritamente
melhor do que as cestas que a formam.
Existem outros axiomas que podem ser impostos sobre preferências. Cada axioma tem um signifi-
cado e supõe algo sobre o comportamento do consumidor. Por exemplo, o axioma de monotonicidade
diz que o consumidor prefere mais do que menos. Axiomas sobre preferências são portanto hipóteses
sobre o comportamento dos consumidores. Essas hipóteses podem ser testadas natural ou experimen-
talmente. Observe que os axiomas são hipóteses em relação ao consumidor sem levar em conta a
realidade do que ele deseja. O consumidor pode preferir um carro importado a um carro nacional, mas
por não ter dinheiro suficiente, tem que optar pelo carro nacional.
Um axioma de caráter mais técnico, necessário para o resultado principal da próxima seção, é o
axioma da continuidade:

A.9) Continuidade: Os conjuntos {x ∈ X; x  y} e {x ∈ X; y  x} são fechados para todo y ∈ X.

O axioma da continuidade impõe uma condição de regularidade sobre as preferências. Se as pre-


ferências satisfazem os axiomas A.1)-A.3), A.6), A.8) e A.9), dizemos que essas preferências são bem-
comportadas.

2 Utilidades
Preferências constituem uma forma bastante geral de caracterizar o consumidor. Porém, do ponto
de vista prático, preferências nem sempre são fáceis de se manusear e de se obter inferências econômicas.
Funções de utilidades são um conceito mais maleável e que permite tirar conclusões que não seriam
tão facilmente obtidas a partir do conceito de preferências diretamente.

Definição: Uma função de utilidade assinala para cada cesta x em X um valor u(x) ∈ R.

Uma função utilidade nada mais é do que uma representação numérica das cestas disponı́veis para
o consumidor. Se para as cestas x e y temos que u(x) > u(y), então dizemos que a cesta x provê mais
utilidade (ou satisfação, ou bem-estar) para o consumidor.

3
Exemplo: Função de Utilidade Cobb-Douglas. Essa função é uma das mais usadas em economia.
Para o caso de dois bens essa utilidade é representada por u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , onde α > 0, β > 0.

Utilidade originalmente era um conceito cardinal : se u(x) = 2u(y), então se dizia que a cesta x era
duas vezes mais útil do que a cesta y. A grandeza do valor da utilidade tinha um significado preciso, e
acreditava-se que era possı́vel medir a utilidade de cada pessoa em unidades, que poderı́amos chamar
de “utis”. Essas utilidades eram então passı́veis de comparação entre bens e pessoas.
Porém, o conceito de utilidade cardinal sofre muitas crı́ticas. O que significa dizer que uma cesta
possui o dobro de utilidade da outra? Seria o caso de que o consumidor está disposto a pagar o dobro
do preço por ela? Ou que ele estaria disposto a trabalhar o dobro do tempo para obtê-la, por meio de
um segundo emprego que não paga o mesmo que o emprego original? E qual o sentido em comparar
utilidades de pessoas diferentes?
Felizmente, a hipótese de cardinalidade não é necessária na teoria de escolha sem incerteza. A
derivação dessa teoria utiliza a hipótese mais fraca de ordinalidade, de que o consumidor consegue
ordenar as cestas de bens em termos de preferência (e portanto não precisa saber o quanto a mais
ele gosta de uma cesta em relação a outra). Se o consumidor possui preferências que satisfazem
os axiomas de completeza, de reflexividade, de transitividade, e de continuidade, podemos derivar
uma função de utilidade para representar essas preferências, no sentido da definição abaixo. Então
o conteúdo econômico de uma utilidade não está no valor que se atribui a uma cesta isoladamente,
mas sim na comparação dos valores atribuı́dos a cestas diferentes. Essa ideia é capturada na definição
abaixo.

Definição: A função de utilidade u representa o sistema de preferências  se para todo x, y tais que:

xy então u(x) ≥ u(y).

Nem todo sistema de preferências pode ser representado por uma função de utilidade. Um exemplo
clássico é o seguinte:

Exemplo: Preferências lexicográficas. A preferência lexicográfica para o caso de dois bens é


definida como:
(x1 , x2 )  (y1 , y2 ) ⇔ {x1 > y1 } ou {x1 = y1 e x2 ≥ y2 }

A lógica dessas preferências assemelha-se à lógica de procurar uma palavra no dicionário. O consumidor
com preferências lexicográficas preocupa-se primeiro apenas com o bem 1: se a cesta x tem uma
quantidade maior do bem 1 do que a cesta y, então ele prefere a cesta x. Caso as duas cestas tenham
a mesma quantidade do primeiro bem, então ele compara o segundo bem: a cesta que tiver mais do
segundo bem é a preferida. Note que a preferência lexicográfica é completa, reflexiva e transitiva.
Porém, não pode ser representada por nenhuma função de utilidade, pois não é contı́nua. Logo, as
preferências lexicográficas não satisfazem as condições do teorema abaixo.

4
Teorema de Representação: Se o sistema de preferências  satisfaz os axiomas de completeza,
reflexividade, transitividade e continuidade, então existe uma função de utilidade u que representa esse
sistema. Mais ainda, qualquer transformação monotônica positiva dessa função de utilidade também
representa o mesmo sistema de preferências.

O teorema de representação deixa claro que não exigimos que o consumidor compute um número
para cada cesta de bens que oferecemos a ele, mas apenas que ele ordene as várias cestas de bens de
modo que satisfaça os axiomas necessários para que o teorema seja válido. Se o consumidor é capaz
de fazer essa ordenação (e essa ordenação satisfaz os axiomas enunciados no teorema), podemos então
encontrar uma função utilidade que representa o seu sistema de preferências, no sentido da definição
acima. Portanto, o importante em uma função utilidade é o modo em que ela ordena as cestas de
bens, e não o valor da utilidade associado a cada cesta, visto de modo isolado.
Como o que importa é a ordenação dos bens, se uma utilidade representa essas preferências,
qualquer transformação monotônica positiva dessa utilidade também representará essas preferências.
Suponha que u representa , ou seja,

xy ⇔ u(x) ≥ u(y)

Se f é uma função crescente em todo o seu domı́nio (ou seja, uma transformação monotônica
positiva), então para todo a > b, temos que f (a) > f (b). Logo:

xy ⇔ u(x) ≥ u(y) ⇔ f (u(x)) ≥ f (u(y))

Portanto, a função de utilidade v, definida por v(x) = f (u(x)), também representa o mesmo
sistema de preferências que u representa, no sentido de que preserva a ordenação das cestas de bens
determinada por . Mais ainda, pode se provar que se u e v são duas utilidades que representam a
mesma relação de preferência , então existe uma função f : R → R crescente tal que u = f ◦ v. Logo,
podemos dizer que a função utilidade de um indivı́duo é única a menos de transformações crescentes.

3 Curvas de Indiferença
Uma curva de indiferença representa um conjunto de cestas indiferentes entre si. Então, uma curva
de indiferença contém todas as cestas que dão um mesmo nı́vel de satisfação ao consumidor. Em
termos de preferências, podemos representar a curva de indiferença definida pela cesta x qualquer
como o conjunto de cestas y tais que:

I(x) = {y ∈ X : y ∼ x}

Se usarmos o conceito de função de utilidade, curvas de indiferença são definidas pelos conjuntos:

I(x) = {y ∈ X : u(y) = ū, onde u(x) = ū}

5
Observe que, se as preferências são transitivas, então duas curvas de indiferença distintas não podem
se cruzar, pois curvas de indiferença distintas representam nı́veis de satisfação diferentes. Logo, se elas
se cruzarem, todas as cestas nessas duas curvas seriam indiferentes entre si. Nesse caso, elas não seriam
duas curvas de indiferença distintas.

Exemplo: preferências “bem-comportadas”. No caso de dois bens, uma curva de indiferença


muito usada (isto é, gerada por funções de utilidade muito usadas, tais como a Cobb-Douglas) é
ilustrada na figura abaixo.

x2
6

Utilidade aumenta nessa direção




ū3 > ū2

ū2 > ū1

ū1

-
x1

Curvas de Indiferença “Bem-Comportadas”

Que propriedades ou axiomas as preferências que geram as curvas de indiferença acima satisfazem?
Elas são completas, reflexivas e transitivas. Além disso, são monótonas (“mais é melhor”) e estrita-
mente convexas (qualquer combinação convexa entre duas cestas indiferentes é estritamente melhor
do que essas duas cestas). O axioma de monotonicidade faz com que a curva de indiferença tenha
inclinação negativa. O axioma de convexidade estrita faz com que a curva de indiferença seja convexa
em relação à origem.
No caso de preferências bem comportadas, a reta orçamentária é tangente em um único ponto
de uma única curva de indiferença. Ambos os bens são adquiridos e então dizemos que a solução
do problema do consumidor é interior, pois todos os bens são consumidos em quantidades positivas.
Mais ainda, a função de demanda é bem definida, contı́nua nos preços e na renda, e possui derivadas
diferentes de zero nos preços. O método de Lagrange pode ser usado para resolver o problema do
consumidor e encontrar as demandas por cada bem.

Exemplo: Preferências lexicográficas. A curva de indiferença para a cesta x gerada por uma
preferência lexicográfica é formada apenas pela cesta x. Graficamente, cada curva de indiferença é um
ponto no espaço de bens. A satisfação do consumidor aumenta quando caminhamos para direita no

6
eixo horizontal (isto é, aumentando a quantidade do primeiro bem). Se estamos em uma linha vertical
(ou seja, mesma quantidade do bem 1), então a satisfação aumenta quando caminhamos para cima
dessa linha vertical (isto é, aumentando a quantidade do bem 2). Portanto, uma cesta de bens só é
indiferente a ela mesmo e a mais nenhuma outra cesta. Essa é a razão porque não podemos representar
preferências lexicográficas por uma função utilidade: existem “muitas” cestas que não são indiferentes
entre si (isso ocorre porque as preferências lexicográficas não satisfazem o axioma da continuidade).

Uma preferência bem-comportada será representada por uma utilidade bem comportada. Os ax-
iomas de uma preferência se refletem na utilidade que a representa. Se a preferência é monótona, a
utilidade que a representa é crescente. Observe que o significado de utilidade crescente é o mesmo de
preferência monótona - o consumidor prefere mais a menos.
Se a preferência for convexa, a utilidade que a representa será quasecôncava, ou seja, para duas
cestas x e y quaisquer, então a cesta definida como uma combinação linear dessas duas cestas, zt =
tx + (1 − t)y, para todo t tal que 0 ≤ t ≤ 1, é fracamente preferı́vel à cesta menos preferida entre x e
y. Formalmente,
u(zt ) = u(tx + (1 − t)y) ≥ min{u(x), u(y)},

para todo t ∈ [0, 1]1 . A intuição dessa propriedade para a utilidade é a mesma intuição da propriedade
de convexidade da preferência, já que as duas representam a mesma ideia para o comportamento do
consumidor, de que ele prefere médias a extremos. Nesse caso, a curva de indiferença terá um formato
convexo com relação a origem.
Finalmente, se a preferência for estritamente convexa, a utilidade que a representa será estritamente
quasecôncava, ou seja, para duas cestas x e y distintas (x 6= y) quaisquer, então a cesta definida como
uma combinação estrita dessas duas cestas, zt = tx + (1 − t)y, para todo t tal que 0 < t < 1 (se
t = 0, obtemos que zt = y, se t = 1, obtemos que zt = x), é estritamente melhor do que a cesta menos
preferida entre x e y. Formalmente, temos que:

u(zt ) = u(tx + (1 − t)y) > min{u(x), u(y)},

para todo t ∈ (0, 1). A intuição dessa propriedade para a utilidade é a mesma intuição da propriedade
de convexidade estrita da preferência, já que as duas representam a mesma ideia para o comportamento
do consumidor, de que ele prefere estritamente médias a extremos.

1
um modo equivalente de definir quaseconcavidade é dizer que todo o conjunto de contorno superior da função,
C(ū) = {x ∈ X; u(x) ≥ ū}, é um conjunto convexo: se x e y pertencem a C(ū), então tx + (1 − t)y pertence a C(ū),
para todo t ∈ [0, 1].

7
4 Taxa Marginal de Substituição
A taxa marginal de substituição (TMS) é a inclinação da curva de indiferença2 . Ela mede
a taxa pela qual o consumidor está disposto a trocar um bem por outro. Então, a TMS do bem
1 pelo bem 2 é o valor que o consumidor atribui ao bem 1 em termos do bem 2. O postulado da
substituição diz que o consumidor está sempre disposto a trocar um tanto de um bem por um tanto de
outro bem, de modo a manter o mesmo nı́vel de satisfação (portanto esse postulado exclui preferências
lexicográficas).
Se as preferências são monótonas, as curvas de indiferença são negativamente inclinadas. Nesse
caso, a TMS é um número negativo: se o consumidor abre mão de um pouco de um bem, ele precisa
receber um pouco do outro bem para manter-se na mesma curva de indiferença (lembre-se que o axioma
da monotonicidade diz que mais é melhor: o consumidor ao abrir mão de um tanto de um bem, só
continuará com o mesmo nı́vel de satisfação que ele tinha antes se receber um tanto do outro bem, de
modo a compensar essa perda).
Vamos usar a utilidade marginal para achar a taxa de substituição marginal (TMS). A utilidade
marginal do bem xi mede o acréscimo na utilidade devido a um aumento no consumo do bem i e é
dada pela derivada da função utilidade com relação a xi :
∂u(x)
U M gxi (x) =
∂xi
O valor da utilidade marginal não possui nenhum conteúdo econômico, pois apenas a ordenação
das cestas importa. Se usarmos uma outra utilidade para representarmos as preferências, a utilidade
marginal mudará. Como essa outra utilidade continua representando o mesmo consumidor, não pode-
mos dizer nada sobre o seu comportamento usando a utilidade marginal. A única informação relevante
que podemos obter da utilidade marginal é do seu sinal: se a utilidade marginal de um bem é positiva,
então quantidades maiores desse bem aumentam o nı́vel de bem-estar do consumidor (observe que essa
propriedade será válida também para qualquer outra utilidade representando essa preferência).
Suponha que o consumidor possui a cesta x = (x1 , x2 ). Vamos modificar essa cesta por dx =
(dx1 , dx2 ), de modo a manter o mesmo nı́vel de satisfação (ou seja, de modo que o consumidor per-
maneça na mesma curva de indiferença). Então
∂u(x1 , x2 ) ∂u(x1 , x2 )
T M S1,2 (x1 , x2 ) = dx1 + dx2 = du
∂x1 ∂x2
O primeiro termo mede a mudança na utilidade dada pela mudança em x1 e o segundo termo mede
a mudança na utilidade dada pela mudança em x2 . Como essas mudanças são feitas de modo a manter
o nı́vel de satisfação constante, então du = 0. Portanto,

∂u(x1 ,x2 )
dx2 ∂x1
= − ∂u(x 1 ,x2 )
dx1 du=0
∂x2

2
alguns autores definem a TMS como o valor absoluto da inclinação da curva de indiferença.

8
Note que a a TMS não depende da função de utilidade que usamos para representar as preferências.
Sabemos que qualquer outra função de utilidade v que representa essa preferência deve ser tal que
v(x) = f (u(x)), onde f é uma função crescente. A regra da cadeia para derivação diz que a utilidade
marginal de v será:
∂v(x) ∂f (u(x)) ∂u(x)
U M gxvi (x) = = ,
∂xi ∂u(x) ∂xi
onde a última igualdade resulta da regra da cadeia. Portanto a TMS nesse caso será:
∂f ∂u(x1 ,x2 ) ∂u(x1 ,x2 )
v ∂u ∂x1 ∂x1
T M S1,2 (x1 , x2 ) =− ∂f ∂u(x1 ,x2 )
= − ∂u(x 1 ,x2 )
,
∂u ∂x2 ∂x2

ou seja, igual a TMS derivada usando a utilidade u. A TMS então não se modifica, qualquer que seja
a função de utilidade usada para representar a preferência do consumidor.
A TMS pode ser medida na prática, se as preferências forem bem comportadas. Se o consumidor
possui a cesta x = (x1 , x2 ), podemos oferecer a ele diversas razões de troca entre os dois bens: uma
unidade do primeiro bem por duas unidades do segundo bem, etc. Se para alguma dessas razões de
troca, ele preferir continuar com a cesta original, então essa razão é a TMS.
Isso ocorre porque se a taxa de troca cruza a curva de indiferença que passa pela cesta x, então
o consumidor vai preferir trocar um pouco de um bem por um tanto do outro bem. A única razão
pela qual ele não vai querer fazer nenhuma troca é a que passa pela cesta x tangenciando a curva de
indiferença dessa cesta, ou seja, para a razão de troca que é igual a TMS. Para qualquer outra razão
de troca que não seja igual a TMS, o consumidor vai aceitar trocar um bem pelo outro.

Exemplo: Suponha que ∂u/∂x1 = 10 e ∂u/∂x2 = 5. Então na margem (pequenas mudanças ou trocas
entre os bens), uma unidade do bem 1 vale duas vezes mais para o consumidor do que uma unidade do
bem 2. Ou seja, se aumentarmos o consumo do bem 1 por uma pequena quantidade ε e diminuimos o
consumo do bem 2 por 2ε, então o consumidor continua com o mesmo nı́vel de satisfação (na mesma
curva de indiferença).

Se as preferências são convexas, o valor absoluto da TMS do bem 1 com relação ao bem 2 diminui
quanto maior a quantidade do bem 1 que o consumidor possui (supondo que ele continua na mesma
curva de indiferença). Intuitivamente, essa é uma hipótese razoável: quanto mais o consumidor possui
de um bem, menor o valor dele em termos do outro bem.

Portanto, temos que:

1. A TMS não depende da função de utilidade que usamos para representar as preferências.

2. A TMS pode ser medida na prática, se certas condições forem satisfeitas (preferências bem
comportadas, por exemplo).

3. Se as preferências são estritamente convexas, o valor absoluto da TMS diminui quando percor-
remos uma curva de indiferença (na direção de se afastar do eixo do bem 2).

9
Abaixo derivamos a TMS de algumas funções de utilidade.

1. Utilidade Cobb-Douglas: u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , α > 0, β > 0. Nesse caso,

U M gx1 (x1 , x2 ) α x2
T M S1,2 (x1 , x2 ) = − =−
U M gx2 (x1 , x2 ) β x1

2. Utilidade Linear: u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 . Nesse caso, a TMS entre os dois bens é igual a −a/b,
qualquer que seja a cesta de bens considerada.

3. Utilidade com um Bem Neutro: u(x1 , x2 ) = x1 . Nesse caso, a TMS entre os bens é infinita.

4. Utilidade de Leontieff: u(x1 , x2 ) = min{ax1 , bx2 }. Nesse caso, a TMS é zero, infinita, ou não
está definida, dependendo da cesta considerada. Mais especificamente, temos que:

• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 < bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) = +∞;


• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 > bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) = 0;
• Se (x1 , x2 ) é tal que ax1 = bx2 , T M S1,2 (x1 , x2 ) não é definida.
1
5. Utilidade CES ou ESC (elasticidade constante de escala): u(x1 , x2 ) = (axρ1 + bxρ2 ) ρ ,
a > 0, b > 0, ρ < −1, ρ 6= 0. Nesse caso,
 1−ρ
U M gx1 (x1 , x2 ) a x2
T M S1,2 (x1 , x2 ) = − =−
U M gx2 (x1 , x2 ) b x1

5 Preferências Homotéticas
Uma propriedade sobre as preferências bastante utilizada é a homotetia. Dizemos que a preferência
é homotética caso satisfaça a propriedade abaixo. Todas as utilidades elencadas acima representam
preferências homotéticas.

Definição. Preferências homotéticas. As preferências  são homotéticas se todas as curvas de


indiferença são relacionadas por expansões proporcionais ao longo de raios:

Se x ∼ y, então αx ∼ αy, ∀α ≥ 0,

onde x e y são cestas de bens.

Em termos de utilidade, dizemos que uma utilidade é homotética (ou também, é uma utilidade que
representa preferências homotéticas) se satisfaz:

Se u(x) = u(y), então u(αx) = u(αy), ∀α ≥ 0.

10
Portanto, para qualquer linha reta saindo da origem em direção ao quadrante positivo, todos os
pontos de curvas de indiferença distintas que essa linha cruza possuem a mesma TMS, como a figura
abaixo ilustra.

x2
6

 Preferências Homotéticas
B s

Pontos A e B (e C e D)

 têm a mesma inclinação

(a TMS é igual)
A s


 

 D
 s

C
s


  u1
 

 
  u0
 
 
 -
x1
Se conhecemos uma única curva de indiferença gerada por uma preferência homotética, somos
capazes de descrever todas as curvas de indiferença geradas por esta preferência, pois todas as curvas
de indiferença são versões aumentadas ou diminuı́das umas das outras. Portanto, podemos descrever
completamente o sistema de preferências que gerou essa curva. Esse fato tem implicações importantes,
principalmente na análise empı́rica da teoria do consumidor.
A taxa marginal de substituição de utilidades homotéticas depende apenas da razão entre os bens.
Ou seja, temos que T M S12 (x1 , x2 ) = T M S12 (αx1 , αx2 ), para todo α > 0. Podemos então escrever
T M S12 (x1 , x2 ) como função de uma única variável, a razão de consumo entre os bens 1 e 2, x1 /x2 :
T M S12 (x1 /x2 ). Observe que tanto a utilidade Cobb-Douglas quanto a utilidade CES, que são ho-
motéticas, possuem TMS que dependem apenas da razão entre os bens. Isso também é válido para as
outras TMS calculadas acima, já que todas as utilidades elencadas na página anterior são homotéticas.
Pode-se mostrar que toda função utilidade que representa uma preferência homotética pode ser
escrita como:
u(x) = f (g(x)),

onde f é uma função estritamente crescente e g é uma função homogênea de grau 1 (ou seja, g(tx) =
tg(x), ∀t ≥ 0). É fácil verificar que a função Cobb-Douglas é homotética, já que ela é homogênea de
grau 1 (f é a identidade nesse caso).
Mais ainda, como uma transformação crescente da utilidade u continua representando a mesma pre-
ferência e a inversa de uma função crescente é crescente, temos que v(x) = f −1 (u(x)) = f −1 (f (g(x))) =
g(x) continua representando a preferência homotética . Logo, se  é uma preferência homotética,
então existe então uma utilidade homogênea de grau um que a representa.

11
Utilidades homotéticas, isto é, utilidades que representam preferências homotéticas, possuem várias
caracterı́sticas importantes, que simplificam a análise do problema do consumidor. Mais à frente
analisaremos as demandas geradas por esse tipo de utilidade.

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 3 - “Preferências” - e 4 - “Utilidade”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 3 - “Comportamento do Consumidor”, seção 1, “Preferências do


Consumidor”.

• Hall e Lieberman, cap. 5 - “A Escolha do Consumidor”, seção 2 - “Preferências”.

• Nicholson e Snyder, cap. 3 - “Preferences and Utility”.

• Deaton e Muelbauer, cap. 2 “Preferences and Demand”, seção 1 - “Axioms and Utility”.

12
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 4 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 O problema do consumidor
As preferências  e a reta orçamentária contêm informações distintas sobre o consumidor:

• As preferências ou as utilidades refletem o gosto do consumidor, sem considerar o que de fato


pode ser adquirido.

• A reta orçamentária reflete as possibilidades de compra do consumidor, sem considerar suas


preferências.

O problema primal do consumidor combina esses dois conceitos, ao modelar o problema do con-
sumidor como a maximização da utilidade sujeita à restrição orçamentária.
Considere um consumidor que deseja escolher entre n bens, x1 , x2 , . . . , xn , que podem ser comprados
pelos preços de mercado p1 , p2 , . . . , pn , respectivamente. Vamos denotar uma cesta de bens por x =
(x1 , x2 , . . . , xn ) e um vetor de preços por p = (p1 , p2 , . . . , pn ). Vamos supor que o consumidor possa
comprar tantos bens quanto for possı́vel, sem afetar os preços desses bens (o consumidor é “pequeno”
com relação ao tamanho do mercado). Observe que medimos tanto a renda quanto o consumo dos
bens como fluxos em um determinado perı́odo de tempo (por exemplo, um mês).
O problema do consumidor pode ser escrito como encontrar a cesta x∗ que seja factı́vel (isto é, que
satisfaça a restrição orçamentária, p1 x∗1 + p2 x∗2 + · · · + pn x∗n ≤ m) e tal que x∗  x, para toda cesta
x factı́vel, isto é, que também esteja dentro das possibilidades de consumo do indivı́duo (satisfaça a
restrição orçamentária, p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn ≤ m).
Vimos que, sob determinadas condições, uma preferência pode ser representada por uma função de
utilidade. Isso significa que se x  y, então u(x) ≥ u(y). Logo, o problema acima pode ser reescrito
em termos de funções de utilidade: encontrar a cesta x∗ que seja factı́vel para o consumidor e tal que
u(x∗ ) ≥ u(x), para toda cesta x factı́vel. Equivalentemente, temos que:

max u(x1 , x2 , . . . , xn ) tal que p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn ≤ m (1)


x∈Rn
+

Então o consumidor escolhe os bens que maximizam a sua utilidade e que estão dentro da sua
possibilidade de consumo (satisfazem a sua restrição orçamentária).
Se as preferências forem bem-comportadas ( é completa, transitiva, contı́nua, monótona e estri-
tamente convexa), então a utilidade que a representa será crescente e estritamente quasecôncava.

1
Para resolver esse problema1 , montamos o Langrageano:

L = u(x1 , x2 , . . . , xn ) + λ (m − p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn ) ,

onde λ é o multiplicador de Lagrange.


As n + 1 condições de primeira ordem (CPO) desse problema são:

∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n )


 λ∗ p1 = ∂x1
 .. ..


. .
∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n )
(2)



 λ p n = ∂xn

 m = p x∗ + p x ∗ + · · · + p x∗

1 1 2 2 n n

As CPO são necessárias mas não suficientes para garantir a otimalidade da solução. Para confirmar
que as cestas encontradas usando as CPO são de fato ótimas, precisamos verificar as condições de
segunda ordem (CSO) do problema. Por enquanto, vamos assumir que as CSO para o problema do
consumidor são satisfeitas (o que ocorre no caso em que as preferências são bem-comportadas). Se
dividirmos duas das primeiras n equações acima, obtemos:

∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n ) ∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n )


∂xi pi ∂xi pi
∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n )
= ⇒ − ∂u(x∗1 ,x∗2 ,...,x∗n )
=− (3)
pj pj
∂xj ∂xj

O lado esquerdo da equação (3) é a TMS, que representa o valor marginal do bem i em termos do
bem j (a inclinação da curva de indiferença). O lado direito dessa equação é o custo de mercado do
bem i em termos do bem j (a inclinação da reta orçamentária).
A equação (3) diz que para a escolha ótima do consumidor, para quaisquer dois bens, o valor
relativo deles em termos das preferências do consumidor deve ser igual ao valor de mercado desses
bens. O valor marginal do bem i em termos do bem j deve portanto ser igual ao custo marginal do
bem i em termos do bem j.
Para o caso de dois bens (ou se restringirmos a atenção do problema geral para apenas dois bens),
a equação 3 tem a seguinte interpretação gráfica: no ponto ótimo de consumo, a inclinação da curva de
indiferença nesse ponto (a TMS) é igual à inclinação da reta orçamentária (a taxa de troca de mercado
dos dois bens). A figura abaixo ilustra essa situação, onde o ponto de equilı́brio (ponto ótimo) de
consumo é representado por E, o ponto de tangência da curva de indiferença com a reta orçamentária
(o ponto onde essas duas curvas têm a mesma inclinação).

1
Mais rigorosamente, devemos impor restrições para que as demandas sejam sempre maiores ou iguais a zero. Pre-
ferências bem-comportadas garantem que as demandas dos bens serão positivas.

2
x2
6
Solução do
Q
Q
Q  Problema do Consumidor
Q
Qs
Q
A QQ
Q
Q
Q
Q
Q E
Qs
Q
Q
Q
Q
Q
Q ū2 > ū1
Q
Qs
Q
Q ū1
B Q
Q
Q
Q -
x1

No ponto A da figura acima, o valor marginal do bem x1 (medido em termos do outro bem - a TMS
nesse ponto) excede o custo de x1 (novamente, medido em termos do outro bem - a razão de preços) e
portanto o consumidor valoriza x1 mais que o mercado. Ele troca no mercado x2 por x1 até que essas
duas razões se igualem (raciocı́nio similar vale para o ponto B, onde o bem x2 é mais valorizado pelo
consumidor do que o custo de mercado desse bem, relativo ao bem 1).
Resumidamente, o consumidor tenta alcançar a curva de indiferença mais alta possı́vel, isto é, que
possua alguma cesta de bens factı́vel (que o consumidor possa comprar). Essa curva é a que tangencia
a reta orçamentária. Qualquer curva de indiferença que dê um nı́vel de satisfação mais alto já não
inclui nenhuma cesta de bens que possa ser comprada.
Logo, se as preferências são bem-comportadas, a escolha ótima do consumidor satisfaz a condição
de tangência em que o valor absoluto da taxa marginal de substituição é igual à razão de preços.

2 Funções de Demanda
As CPO representam n+1 equações em n+1 variáveis, x1 , x2 , . . . , xn e λ. A solução dessas equações
do problema do consumidor são as demandas dos bens (e o multiplicador de Lagrange) como funções
dos preços e do nı́vel de renda:



 xM M
1 = x1 (p1 , p2 , . . . , pn , m)

 xM = xM (p1 , p2 , . . . , pn , m)

2 2
. . (4)

 .. ..


 xM = xM (p , p , . . . , p , m)

n n 1 2 n

3
M
As funções de demanda acima são chamadas demandas marshallianas (por isso o superescrito ,
para diferenciar da demanda hicksiana, que veremos mais à frente). Essas funções dizem qual a escolha
ótima de consumo quando os preços são p1 , p2 , . . . , pn e a renda m.
Um procedimento para encontrar as funções de demanda é o seguinte: invertemos as primeiras
n CPO para achar x1 , x2 , . . . , xn como funções dos preços e do multiplicador de Lagrange λ. Daı́
substituimos esses valores para x1 , x2 , . . . , xn na última CPO (a reta orçamentária) para achar λ como
função dos preços e da renda. Substituindo esse valor de λ nas equações originais para x1 , x2 , . . . , xn ,
encontramos as funções de demanda.

Nota: A dependência de xi em p1 , p2 , . . . , pn e m e não diretamente nas quantidades dos outros bens


não implica que a escolha de consumo do bem 1 não dependa da escolha de consumo dos outros
bens, mas apenas que as escolhas de x2 , . . . , xn estão implicitamente incorporadas na solução e foram
substituı́das pelos seus preços e pela renda. Por exemplo, a ligação entre a escolha das quantidades
ótimas de café e de açucar não é capturada expressando a demanda de açucar como função da demanda
de café, mas por meio do efeito que o preço do café tem na demanda por café e indiretamente na
demanda por açucar. Portanto, ao medir o efeito de uma mudança de preço do café na demanda por
café implicitamente se incorpora o ajustamento que ocorre com a demanda de açucar (por exemplo,
um aumento no preço do café pode causar uma diminuição no consumo de açucar).

Exemplo: Função Cobb-Douglas. O problema do consumidor para essa função de utilidade no


caso de dois bens é:

max xα1 xβ2 s.a p 1 x1 + p 2 x2 = m (α > 0, β > 0)


x1 ,x2

Para resolver esse problema, montamos o Langrageano

L = xα1 xβ2 + λ (m − p1 x1 − p2 x2 ) ,

As condições de primeira ordem (CPO) desse problema são:



∗ α−1 β
 λ p1 = αx1 x2


λ∗ p2 = βxα1 xβ−1
2


 m=p x +p x
1 1 2 2

Dividindo a primeira CPO pela segunda CPO, obtemos:


 
αx2 p1 β p 1 x1
= ⇒ x2 =
βx1 p2 α p2
Observe que na primeira equação acima, temos que o valor absoluto da TMS entre os bens 1 e 2 é
igual à relação de preços entre esses bens (condição de tangência entre curva de indiferença e reta
orçamentária). Substituimos a expressão para x2 acima na reta orçamentária (terceira CPO):
    
β p 1 x1 α m
m = p 1 x1 + p 2 ⇒ x1 =
α p2 α + β p1

4
Substituindo o valor encontrado acima para x1 de volta na expressão para x2 , temos que as funções
de demanda para os dois bens são:
   
α m β m
x1 (p1 , p2 , m) = e x2 (p1 , p2 , m) =
α+β p1 α+β p2
Note que o preço do outro bem não afeta a demanda de nenhum dos bens. Observe também que:
x∗1 p1 α x∗2 p2 β
s∗1 = = e s∗2 = =
m α+β m α+β
Ou seja, a porcentagem ou fração da renda consumida em cada um dos bens, s∗i , é constante. O
consumidor sempre gasta a mesma fração fixa da sua renda com cada bem, e essa fração é determinada
pelos coeficientes α e β da função utilidade.
Um truque que facilita encontrar as demandas geradas pela utilidade Cobb-Douglas (onde os bens
entram multiplicativamente na utilidade) é linearizar a utilidade usando a função logaritmo. Lembre-se
que qualquer transformação crescente de uma função utilidade ainda representa as mesmas preferências.
Portanto, a seguinte transformação da função Cobb-Douglas representa as mesmas preferências:

v = log(u) = α log(x1 ) + β log(x2 )

Se resolvermos o Lagrangeano para essa função, vamos encontrar as mesmas funções de demanda
1
que antes. Outra transformação que podemos utilizar é f (t) = t α+β . Como α + β > 0, então essa
função é crescente. A função de utilidade w = f ◦ u, definida por
α β

w(x1 , x2 ) = f (xα1 xβ2 ) = x1α+β x2α+β = xγ1 x21−γ ,

α β
onde γ = α+β
e 1−γ = α+β
(como α > 0 e β > 0, temos que 0 < γ < 1). Logo, os dois modos
de representar uma função de utilidade Cobb-Douglas são equivalentes: u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 , com α > 0,
β > 0, ou u(x1 , x2 ) = xγ1 x1−γ
2 , com 0 < γ < 1 (onde γ =
α
α+β
). Ambas as utilidades representam a
mesma preferência e geram as mesmas demandas para os bens 1 e 2.

3 Observações sobre o problema do consumidor


O método do Lagrangeano assume que a função de utilidade é diferenciável e que a solução é interior
(ou seja, que as quantidades demandadas são maiores que zero). Os casos de bens substitutos e de bens
complementares são exemplos onde não é possı́vel usar o método de Lagrange. No primeiro caso, a
solução é quase sempre de canto (apenas um bem é consumido). No segundo caso, a função de utilidade
não é diferenciável. Nos dois casos, as utilidades não representam preferências bem-comportadas (mais
especificamente, essas preferências são apenas convexas, mas não estritamente convexas).
Como encontrar as demandas quando não podemos usar o Lagrangeano? A análise deve ser feita
caso a caso. Para os dois exemplos abaixo (e na maioria dos casos de apenas dois bens), a solução
gráfica pode ajudar a encontrar as demandas. Vamos analisar esses exemplos agora.

5
Exemplo 1: Bens Substitutos Perfeitos. Dois bens são substitutos perfeitos se o consumidor
aceita substituir um pelo outro a uma taxa constante. Por exemplo, gasolina e álcool são substitutos
perfeitos para quem possui carro flex. Manteiga e margarina são substitutos perfeitos para algumas
pessoas. Se x1 e x2 são bens substitutos perfeitos, a função de utilidade que representa essa relação é
definida por:
u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , a > 0, b > 0

Os números a e b não têm significado isolado, porém determinam a taxa de substituição entre os
bens, T M S1,2 = −a/b. No exemplo de gasolina e álcool, se a = b, então podemos fazê-los iguais
a 1. No caso de manteiga e margarina, se para substituirmos manteiga (representado por x1 ) por
margarina (representado por x2 ), precisamos usar duas vezes mais margarina, então a = 2b. A curva
de indiferença de bens substitutos, com a = b, é ilustrada na figura abaixo.

x2
6
Curvas de Indiferença
@ u(x1 , x2 ) = x1 + x2
@
@
@  @
@ @
@ @
@
@  @ @
@ @
@ @
@ @
@
@  @ @ @
@ @ @
@
@ @  @  @
@ @ @
@ @ @
@ @ -
x1

O gráfico das curvas de indiferença dessa utilidade e da reta orçamentária, para o caso em que
p2 = 2p1 , é ilustrado na figura abaixo, que ilustra também a cesta ótima do consumidor, denotada no
gráfico abaixo pelo ponto E.

x2
6
Curvas de Indiferença
@
u(x1 , x2 ) = x1 + x2
@ Suponha que p2 = 2p1
@ Solução: ponto E
 @
@ @
@ @
m @ @
p2 
HH @
@ @
H
@ H@ @
@ H@ @
@  @ H@ HH
@ @
@ @H @
@  @  @H H @
HE
H
s
@ H@
@ @@ @ @ -
m x1
p1

6
A reta orçamentária é representada pela curva mais grossa. O problema do consumidor é atingir
o nı́vel mais alto de satisfação, dada a restrição orçamentária. Ele tenta então se situar na curva de
indiferença que representa o maior nı́vel de satisfação. Para o caso ilustrado no gráfico, esse nı́vel mais
alto é dado pela curva de indiferença que toca a reta orçamentária no eixo horizontal. A cesta de bens
ótima é então consumir nada do bem 2 (x∗2 = 0) e comprar somente o bem 1 (x∗1 = m/p1 ).
Por que isso ocorre? Exatamente porque os bens são perfeitamente substitutos: o consumidor
comprará apenas o bem que for relativamente mais barato. Se a = b = 1, então u(x1 , x2 ) = x1 + x2 ,
e o consumidor compra o bem que tiver o menor preço (se os dois bens tiverem o mesmo preço, ele
comprará qualquer combinação dos dois bens). Se a 6= b, então o consumidor compra o bem que for
relativamente mais barato: o bem que tiver menor preço dividido pelo coeficiente da utilidade. Então
as funções de demanda são:
(
m/p1 , se p1 /a < p2 /b
xM
1 (p1 , p2 , m) =
0, se p1 /a > p2 /b

Similarmente, (
0, se p1 /a < p2 /b
xM
2 (p1 , p2 , m) =
m/p2 , se p1 /a > p2 /b
No caso em que p1 /a = p2 /b, o consumidor é indiferente entre qual dos bens comprar, pois a TMS
é sempre igual à relação de preços dos bens. Nesse caso, o consumidor comprará qualquer quantidade
x∗1 e x∗2 tal que satisfaça a sua reta orçamentária, p1 x∗1 + p2 x∗2 = m.
Portanto, para esta função de utilidade, não vale, em geral, que a T M S dos bens seja igual à
relação de preços. Mais ainda, não podemos falar de funções de demanda, pois para o caso em que
p1 /a = p2 /b, existem várias cestas de bens que maximizam o bem-estar do consumidor (nesse caso,
podemos determinar correspondências de demanda).

Exemplo 2: Bens Complementares perfeitos. Dois bens são complementares perfeitos se são
consumidos conjuntamente, em proporções fixas. O exemplo clássico de bens complementares perfeitos
é sapato do pé esquerdo e sapato do pé direito (eles são tão perfeitamente complementares que sapatos
são sempre vendidos aos pares...). Outros possı́veis exemplos são carro e gasolina, café e açucar, etc.
Se x1 e x2 são bens complementares perfeitos, a função de utilidade que representa essa relação é:

u(x1 , x2 ) = min {ax1 , bx2 } , a > 0, b > 0

Os números a e b definem o grau de complementaridade dos bens. No caso de sapatos, a = b = 1.


No caso de café e açucar, se você usa três colheres de açucar (bem x1 ) para uma xı́cara de café (bem
x2 ), então a = 3b.
O gráfico das curvas de indiferença dessa utilidade e da restrição orçamentária é ilustrado na figura
abaixo.

7
x2
6 Curvas de Indiferença
u(x1 , x2 ) = min{x1 , x2 }
Suponha que p2 = 2p1
 Solução: Ponto E
m 
p2 HH semi-reta x2 = x1
H
HH
H s
HH
E HH 
HH
H
 HH
H
HH
H
HH -
m x1
p1

Como já vimos anteriormente, o consumidor escolhe a cesta de bens na curva de indiferença que
representa o maior nı́vel de satisfação possı́vel. No gráfico acima, essa curva toca a reta orçamentária
no ponto E. A cesta de bens ótima significa consumir quantidades iguais do bem (quando a = b = 1).
Por que essa é a solução? Exatamente porque os bens são complementares perfeitos: não há como
substituı́-los: se a = b = 1, então u(x1 , x2 ) = min {x1 , x2 }, e o consumidor compra os dois bens em

quantidades iguais, independente da relação de preços. Portanto xM M
1 = x2 = x e, substituindo na
reta orçamentária, encontramos:
m
xM M
1 (p1 , p2 , m) = x2 (p1 , p2 , m) =
p1 + p2
Se a 6= b, o consumidor iguala os argumentos da função de mı́nimo: ax1 = bx2 e, portanto,
x2 = (a/b)x1 . O consumidor compra mais do bem que tiver o coeficiente a ou b menor: para esse bem,
ele precisa de uma quantidade maior para cada unidade do outro bem. Então as funções de demanda
são:
m a m
xM
1 (p1 , p2 , m) = a
 e xM
2 (p1 , p2 , m) = a

p1 + b
p2 b p1 + b
p2

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 5 - “Escolha”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 3 - “Comportamento do Consumidor”, seção 3, “A Escolha por Parte


do Consumidor”.

• Hall e Lieberman, cap. 5 - “A Escolha do Consumidor”, seção 3 - “Tomada de Decisão do


Consumidor” e apêndice - “Teoria do Consumidor com Curvas de Indiferença”.

• Nicholson e Snyder, cap. 4 - “Utility Maximization and Choice”.

• Deaton e Muelbauer, cap. 2 “Preferences and Demand”, seção 2 - “Utility and Demand”.

8
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 5 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Condições de Segunda Ordem


Se as preferências são estritamente convexas, vimos que a função de utilidade é estritamente
quasecôncava. A propriedade de preferências estritamente convexas garante que as condições de
segunda ordem (CSO) sejam satisfeitas. Se as preferências são bem-comportadas, é fácil ver grafi-
camente, para o caso de dois bens, que a solução do problema do consumidor encontrada resolvendo-se
as CPO será única e de fato um máximo.

x2
6
Solução do
Q
Q
Q Problema do Consumidor
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q sE
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q -
x1

Algebricamente, as CSO são obtidas do Hessiano orlado (ou Hessiano com borda) da função de
Lagrange, formado pelas derivadas de segunda-ordem do Lagrangeano. O Lagrangeano do problema
de maximização de utilidade sujeita à restrição orçamentária, para o caso de dois bens, é:

L = u(x1 , x2 ) + λ (m − p1 x1 − p2 x2 )

O Hessiano orlado é:


   
∂2L ∂2L ∂2L
∂λ2 ∂λ∂x1 ∂λ∂x2 0 −p1 −p2
∂2L ∂2L ∂2L
   
HO = 
 ∂x1 ∂λ ∂x21 ∂x1 ∂x2
 =  −p1 −u11
  ,
u12 
∂2L ∂2L ∂2L
∂x2 ∂λ ∂x2 ∂x1 ∂x22
−p2 −u21 u22

onde usamos a seguinte notação:


∂ 2u ∂ 2u ∂ 2u
= u11 , = u12 , = u22
∂x21 ∂x1 ∂x2 ∂x22

1
Para o caso de dois bens, as CSO são satisfeitas se o determinante do Hessiano orlado, calculado na
cesta candidata a ótimo, for positivo (no caso de mais de dois bens, veja a observação abaixo). Nesse
caso, pode-se garantir que as demandas encontradas usando as CPO são de fato um máximo para o
problema do consumidor1 .
Vamos calcular o determinante do Hessiano orlado acima. Primeiro observe que as CPO podem ser
escritas como p1 = u1 /λ e p2 = u2 /λ, onde ui = ∂u/∂xi , i = 1, 2. Substituindo todas essas expressões
no Hessiano orlado, obtemos:
 
0 −u1 /λ −u2 /λ
 = 1 2u1 u2 u21 − u22 u11 − u21 u22 ,
  
det 
 −u1 /λ u11 u12  λ2
−u2 /λ u21 u22
onde as funções acima são calculadas na cesta candidata a ótimo, (x∗1 , x∗2 ). A CSO é satisfeita se o
determinante do Hessiano orlado for maior do que zero. Como λ2 é sempre maior do que zero, podemos
simplificar essa condição para:
2u1 u2 u21 − u22 u11 − u21 u22 > 0 (1)
Essa última desigualdade garante que as CSO do problema são satisfeitas e, consequentemente, que
as demandas encontradas resolvendo as CPO dão o máximo de utilidade ao consumidor em questão.

Exemplo: Utilidade Cobb-Douglas: u(x1 , x2 ) = xα1 xβ2 . É fácil verificar que, no caso da utilidade
Cobb-Douglas, o termo 2u1 u2 u21 − u22 u11 − u21 u22 é igual a:

2α2 β 2 x3α−2
1 x3β−2
2 − β 2 α(α − 1)x3α−2
1 x23β−2 − α2 β(β − 1)x3α−2
1 x23β−2 ,

onde x1 e x2 são as demandas ótimas dos bens. Como x3α−2


1 x3β−2
2 > 0, podemos dividir a expressão
acima por x3α−2
1 x3β−2
2 , que o seu sinal não irá se modificar. Nesse caso, obtemos:

2α2 β 2 − β 2 α(α − 1) − α2 β(β − 1), (2)

uma expressão que depende apenas dos parâmetros α e β da utilidade Cobb-Douglas. Se α e β são
positivos, então temos que a expressão (2) acima será positiva. Portanto, se α > 0 e β > 0, as CSO
para a maximização da função de utilidade Cobb-Douglas são satisfeitas e as demandas encontradas
usando as CPO são de fato a solução do problema do consumidor (maximizam a sua utilidade sujeita
à restrição orçamentária).

Observação: No caso geral de n bens, os determinantes dos menores principais do Hessiano orlado
devem alternar sinais. Por exemplo, no caso de quatro bens devemos ter que:
 
0 −p1 −p2
∂2L ∂2L
 
 −p1
det  >0
∂x21 ∂x1 ∂x2 
∂2L ∂2L
−p2 ∂x2 ∂x1 ∂x22

1
na verdade, garante-se apenas que é um máximo local. Se a função de utilidade é quasecôncava, pode-se mostrar
que (x∗1 , x∗2 ) será um máximo global.

2
 
0 −p1 −p2 −p3
∂2L ∂2L ∂2L
 
 −p1 
∂x21 ∂x1 ∂x2 ∂x1 ∂x3 
det  <0

 −p2 ∂x∂ 2∂x L ∂2L
2
∂2L
∂x ∂x

 2 1 ∂x 2 2 3 
2 L 2
∂ L 2
∂ L
−p3 ∂x∂3 ∂x 1 ∂x3 ∂x2 ∂x23
 
0 −p1 −p2 −p3 −p4
 
 −p1 ∂2L ∂2L ∂2L ∂2L 
 ∂x21 ∂x1 ∂x2 ∂x1 ∂x3 ∂x1 ∂x4 
∂2L ∂2L ∂2L ∂2L
 
 −p2 ∂x2 ∂x1
det  ∂x2 ∂x4  > 0

∂x22 ∂x2 ∂x3
2 L 2
∂ L 2
∂ L 2
∂ L
 −p3 ∂x∂ ∂x
 
∂x ∂x ∂x 2 ∂x ∂x

 3 1 3 2 3 3 4 
2 L 2
∂ L 2
∂ L 2
∂ L
−p4 ∂x∂4 ∂x 1 ∂x4 ∂x2 ∂x4 ∂x3 ∂x2
4

O caso de n bens segue o mesmo padrão de alternância do sinal dos determinantes dos menores
principais do Hessiano orlado.

2 Função de Utilidade Indireta


Se a solução do problema do consumidor é única para cada conjunto de preços e renda, então
podemos definir a função de utilidade indireta como:

v(p, m) = u xM M M

1 (p, m), x2 (p, m), . . . , xn (p, m)

A função de utilidade indireta é função dos preços e da renda do consumidor. Como v(p, m)
incorpora na função de utilidade original as quantidades ótimas demandadas dos bens, v(p, m) diz
qual o máximo de utilidade alcançável aos preços p e renda m.
A utilidade indireta, vista de modo isolado, não tem conteúdo econômico para a teoria do consum-
idor, pois a função de utilidade utilizada para representar as preferências de um indivı́duo não é única.
Porém, a função de utilidade indireta pode ser usada para inferir o que ocorreu com o bem-estar do
indivı́duo após uma mudança no ambiente econômico (mudança nos preços e ou na renda).
Por exemplo, suponha que os preços dos bens mudaram de p0 para p1 , sendo que a renda per-
maneceu inalterada. Se v(p0 , m) > v(p1 , m), então o indivı́duo estava melhor quando os preços eram
p0 . Mais à frente, usaremos a função de utilidade indireta para derivarmos duas medidas importantes
do bem-estar do consumidor, a variação compensadora e a variação equivalente.
Vamos agora ver as propriedades que a função de utilidade indireta satisfaz. Por exemplo, para
determinadas mudanças do ambiente econômico, é possı́vel dizer, sem ambiguidades, se o bem-estar
do indivı́duo aumentou ou diminuiu.

3
2.1 Propriedades
Vamos agora juntar as propriedades sobre a demanda dos bens obtidas na aula de restrição
orçamentária com outras propriedades derivadas usando o problema do consumidor e com as pro-
priedades da função de utilidade indireta.

1) As funções de demanda e a função de utilidade indireta são homogêneas de grau 0 nos preços e na
renda:

xi (tp, tm) = xi (p, m), ∀t > 0, ∀i = 1, . . . , n


v(tp, tm) = v(p, m), ∀t > 0

Lembre-se que se aumentarmos todos os preços e a renda pelo mesmo fator, nada muda na restrição
orçamentária. Portanto, o problema do consumidor permanece inalterado e as funções de demanda e
o bem-estar do consumidor permanecem inalterados.

2) A função de utilidade indireta é decrescente nos preços e estritamente crescente na renda:

Se p0 ≥ p, então v(p0 , m) ≤ v(p, m)


Se m0 > m, então v(p, m) < v(p, m0 )

Essa propriedade é natural: se os preços aumentam, o bem-estar do consumidor vai cair ou permanecer
o mesmo. Se a renda aumenta, o bem-estar do consumidor necessariamente aumenta (supondo que as
preferências são monótonas: mais é sempre melhor).

3) O multiplicador de Lagrange mede a utilidade marginal da renda:

∂v(p, m)
λ(p, m) = >0
∂m
Portanto, λ mede o aumento na utilidade máxima alcançável causado pelo aumento de 1 Real na
renda (o nı́vel da restrição orçamentária). Vamos provar essa afirmação para o caso de dois bens (o
caso geral é uma generalização simples desse caso). Primeiro derivamos a função de utilidade indireta
com relação à renda:
∂v ∂u ∂xM
1 ∂u ∂xM
2
= +
∂m ∂xM
1 ∂m ∂x M
2 ∂m
∂u ∂u
Vimos que as CPO podem ser escritas como ∂xM
= λp1 , ∂xM
= λp2 e, portanto,
1 2

∂xM ∂xM
 
∂v 1 2
= λ p1 + p2
∂m ∂m ∂m

A agregação de Engel, obtida ao derivarmos a reta orçamentária, calculada na cesta ótima, com
relação à renda, diz que:
∂xM
1 ∂xM
p1 + p2 2 = 1
∂m ∂m

4
Juntando essas duas últimas equações, obtemos o resultado desejado:
∂v
λ= .
∂m

4) Identidade de Roy. A identidade de Roy conecta a demanda Marshalliana com a função de utilidade
indireta:
∂v(p, m)/∂pi
xi (p, m) = −
∂v(p, m)/∂m
vamos também demonstrar a validade da identidade de Roy. Primeiro derivamos a função de
utilidade indireta com respeito ao preço pi :
n n
∂v X ∂u ∂xj X ∂xj
= =λ pj , (3)
∂pi j=1
∂xj ∂pi j=1
∂pi

onde a última igualdade resulta das CPO. A agregação de Cournot, obtida ao derivarmos a reta
orçamentária, calculada na cesta ótima, com relação ao preço de um dos bens, nesse caso, pi , diz que:
n n
X ∂xj (p, m) X ∂xj (p, m)
xi (p, m) + pj =0 ⇒ xi (p, m) = − pj (4)
j=1
∂pi j=1
∂pi

Substituindo a expressão achada para xi em (4) na equação (3), obtemos:


∂v(p, m) ∂v(p, m)/∂pi ∂v(p, m)/∂pi
= −λxi (p, m) ⇒ xi (p, m) = − =− ,
∂pi λ ∂v(p, m)/∂m
onde usamos a propriedade 3) acima (λ = ∂v/∂m) para obtermos a igualdade de Roy.

3 Curva de Demanda
A figura abaixo mostra a curva de demanda para um bem qualquer. As curvas de demanda são
(quase sempre) negativamente inclinadas: se o preço do bem aumenta, compramos menos desse bem.
Essa propriedade é chamada lei da demanda.

Lei da Demanda: Para qualquer bem ou serviço, a lei da demanda afirma que se consome mais
quando o preço diminui (ou que se consome menos quando o preço aumenta), mantendo todo o resto
constante (condição de ceteris paribus).

Um bem que satisfaz a lei da demanda é chamado bem comum, pois essa relação inversa entre
preço e demanda do bem é o usual de ocorrer na prática. Um bem para o qual o consumo aumenta
(ou diminui) quando o preço aumenta (ou diminui) é chamado bem de Giffen. Apesar desse tipo de
bem ser uma possibilidade teórica, os raros exemplos encontrados de bens de Giffen são controversos.
A condição “mantendo todo o resto constante” é fundamental. Muitos exemplos de supostos bens
de Giffen na verdade são exemplos onde alguma outra variável além do preço também mudou. Para

5
ilustrar, suponha que o preço do vinho Ivre é R$ 120. A vinı́cola que produz esse vinho comprou
mais terras ano passado e teve uma excelente safra de uvas. Ela resolve então baixar o preço do vinho
para R$ 40. Porém, a vinı́cola descobre que a quantidade vendida de vinho caiu após o preço baixar.
Isso é uma violação da lei da demanda? Pode ser que não. Se grande parte dos consumidores do
vinho Ivre o compram por que acham que o vinho é de boa qualidade devido ao seu preço elevado,
esses consumidores deixarão de comprar o vinho se o preço cair muito, inferindo que a qualidade do
vinho caiu. Nem todo o “resto” então permaneceu constante: a qualidade do vinho percebida pelos
compradores mudou. Outras pessoas podiam também comprar o vinho apenas pelo status de ter ou
poder dar de presente um vinho caro. Se o preço cai muito, esse status também se modifica (outra
variável diferente do preço que também mudou). Portanto, esse caso não constituiria uma violação da
lei da demanda.
Existem duas formas de se interpretar a curva de demanda:
1. Você me diz o preço, eu digo a quantidade que quero. Essa é a forma comum de ver a função
demanda. Para cada preço, sabemos qual será a quantidade demandada pelo consumidor.

2. Você me diz a quantidade, eu digo o valor marginal de mais uma unidade. Para qualquer
quantidade do bem medida ao longo do eixo vertical, a distância desse eixo até a curva diz o
valor marginal do último bem consumido. O fato de a demanda ser negativamente inclinada
é interpretado como o valor marginal (a propensão marginal a pagar, a vontade de pagar -
“willingness to pay”) de um bem ser decrescente com a quantidade consumida. Portanto, dizer
que a demanda é negativamente inclinada ou que o valor marginal de um bem é decrescente é a
mesma coisa.
A função de demanda inversa p(q) mede essa relação do valor marginal com a quantidade
consumida: quanto o consumidor está disposto a pagar pela última unidade q consumida. Sempre que
a função de demanda for negativamente inclinada, podemos determinar a função de demanda inversa
desse consumidor. A função de demanda inversa é muito usada em economia. Por exemplo, quando
estudamos o problema de decisão de produção de um monopolista, consideramos que o monopolista
sabe que pode afetar os preços escolhendo o seu nı́vel de produção. Ou seja, ele sabe que o preço
depende da quantidade produzida, e que essa relação é descrita pela função de demanda inversa.

q p
6 6
@ Curva de Demanda @ Curva de Demanda Inversa
@ @
@ @
@ @
@ @
@ @
@ @
@ @
@@ @@

- -
p q

6
Quando estudamos o que ocorre com a quantidade demandada quando o preço do bem varia, todo
o resto constante, estamos estudando uma mudança ao longo da curva de demanda, como ilustra o
gráfico à esquerda na figura abaixo.
Porém, a quantidade de um bem a ser demandada não é só função do seu preço, mas também
de uma série de outros fatores, como os preços de outros bens e a renda, expressos explicitamente
na função de demanda e de fatores implı́citos, como o tamanho da população, a renda per capita, os
gostos, a expectativa sobre preços futuros, o clima, etc. Enquanto todos esses outros determinantes
da demanda não se alterarem, uma mudança no preço do produto irá acarretar uma mudança na
quantidade demandada. Ou seja, um movimento ao longo da curva, como mostra o gráfico à esquerda
na figura abaixo.
Entretanto, se algum dos outros determinantes da demanda mudar, o resultado será um desloca-
mento de toda a curva de demanda, que pode gerar tanto um aumento como uma queda da quantidade
demandada para cada nı́vel de preço, dependendo da direção do deslocamento. A figura abaixo ilustra
essa situação.

p p
6 6
@ Mudança de outra variável
@ @
I @ @ (diferente do preço)
@ @ @ @
@ @ @
@ @ Mudança de preço
@
@ @
@ @ @ 
@
@ @ @ @
@ @ @ @
@@
R @ @
@ @ @
@ @

- -
q q

Por exemplo, a demanda de sorvete depende do clima. Quando faz muito calor, a curva de demanda
se desloca para fora: mais sorvetes são consumidos a cada nı́vel de preço. Se faz muito frio, a demanda
se desloca para dentro: menos sorvetes são consumidos a cada nı́vel de preço. Se a demanda por
sorvetes de um consumidor aumenta quando ele tem mais renda, então um aumento da renda desloca
a sua curva de demanda para fora.
A curva de preço-consumo apresenta, de modo diferente, a mesma informação sobre o bem anal-
isado do que uma curva de demanda. Porém, a curva de preço-consumo apresenta também informação
sobre a variação do outro bem com relação a mudanças no preço do bem analisado.
O gráfico de uma curva de preço-consumo tem como eixos as quantidades dos bens consumidos.
A curva de preço-consumo de um bem é obtida deixando-se o preço desse bem variar, mantendo os
outros preços e a renda fixos. A figura abaixo ilustra uma possı́vel curva de preço-consumo para o
bem 1.

7
x2
6
H
A H
@
A@HHH
A @ HH
A @ H
A @ HH
s
Curva de preço-consumo do bem 1
A s @s H
HH
A @ H
A @ HH
A @ H
HH
A @ HH
A @ H
A @
A @
A @
A @ -
x1

4 Função de Utilidade Quaselinear


Uma classe de utilidades muito usadas em economia são as utilidades quaselineares. Essa utilidade,
para o caso de dois bens, tem a seguinte forma:

u(x1 , x2 ) = g(x1 ) + xn ,

ou seja, a utilidade é linear em um dos bens apenas. Essa utilidade gera demandas com caracterı́sticas
importantes, como veremos a seguir. O problema do consumidor nesse caso é dado por:

max g(x1 ) + x2 s.a p1 x1 + p2 x2 = m


x1 ,x2

Vamos resolver esse problema usando um truque. Reescrevendo a reta orçamentária em função
do bem 2, obtemos que x2 = m/p2 − (p1 /p2 )x1 . Substituindo esse valor de x2 na função utilidade,
obtemos:
max g(x1 ) + m/p2 − (p1 /p2 )x1 ,
x1

um problema sem restrição explı́cita. Vamos assumir que a renda é grande o suficiente para que o
consumo de x2 seja positivo. Nesse caso a solução é interior2 e a CPO é dada por:
p1
g 0 (x∗1 ) =
p2
Note que a CPO diz que a demanda do bem 1 depende apenas da relação de preços. A CSO é
satisfeita se a função g é estritamente côncava (g 00 (x∗1 ) < 0). Nesse caso, podemos inverter a função g 0 .
Denote por (g 0 )−1 a função inversa de g 0 . Então:
 
p1
x∗1 = (g )0 −1
p2
2
ou seja, os dois bens são consumidos em quantidades positivas.

8
A demanda do outro bem é obtida substituindo a demanda do bem 1 na restrição orçamentária:
 
M m p1 0 −1 p1
x2 = − (g ) .
p2 p2 p2

Portanto, a demanda Marshalliana do bem 1 não depende da renda - depende apenas dos preços.
Essa é uma propriedade geral das funções quaselineares. Porém, temos que ser cuidadosos nesse ponto:
na verdade, a demanda do bem 1 não será independente da renda para todos os valores da renda: se
a renda for muito baixa, o consumidor não conseguirá comprar nada do bem 1.
Imagine, por exemplo, que a renda é zero (m = 0). Se aumentarmos a renda um pouco, a utilidade
marginal lı́quida (descontando a utilidade marginal do bem 2) de consumir o bem 1 é igual à du =
[g 0 (x1 ) − (p1 /p2 )] dx1 . O consumidor vai comprar o bem 1 até que g 0 (x1 ) − (p1 /p2 ) = 0. Como g 0 é
decrescente (g 00 < 0), a partir desse momento, se a renda aumentar, o consumidor gastará essa renda
adicional apenas com o bem 2.
Portanto, a demanda gerada para o bem que entra de modo quaselinear na utilidade tem essa
propriedade de não depender mais da renda, a partir de um determinado nı́vel de renda. Nesse caso, o
efeito de uma alteração da renda sobre a demanda do bem 1 é nulo: uma variação na renda não altera
a quantidade consumida desse bem. Logo, qualquer alteração na renda afeta apenas a demanda do
outro bem. Por exemplo, se a renda do consumidor aumentar, todo esse aumento será gasto apenas
com o bem 2.
Graficamente, as curvas de indiferença de uma função de utilidade quaselinear são “verticalmente
paralelas”: para qualquer quantidade do bem, as inclinações de duas curvas de indiferença diferentes
serão iguais. Isto é consequência do o efeito renda ser nulo, pois o valor marginal da quantidade
consumida do bem não depende da renda.

x2
6
Curvas de Indiferença geradas
por utilidade quaselinear

 

-
x1

9
Exemplo: Seja u(x1 , x2 ) = ln x1 + x2 . Suponha que a renda seja grande o suficiente para que as
soluções sejam interiores. O problema do consumidor é:

max ln x1 + m/p2 − (p1 /p2 )x1


x1

A CPO é:
1 p1 p2

= ⇒ xM
1 (p1 , p2 , m) =
x1 p2 p1
A demanda do outro bem é encontrada substituindo a demanda do bem 1 na reta orçamentária:

x2 = m/p2 − (p1 /p2 )x∗1 = m/p2 − 1 ⇒ xM


2 (p1 , p2 , m) = m/p2 − 1

Mais rigorosamente, note que se m < p2 , o consumidor não consegue comprar a quantidade p2 /p1
do bem 1 (pois p1 x∗1 = p2 > m). Nesse caso, o consumidor compra apenas o bem 1 e, portanto, x∗2 = 0,
pois o acréscimo de utilidade ao adquirir o bem 1 é maior do que o acréscimo de utilidade em adquirir
p1
o bem 2 (g 0 (x1 ) > p2
⇒ g 0 (x1 ) − (p1 /p2 ) > 0, se x1 < p2 /p1 , onde g(x1 ) = ln(x1 )). Se a renda
for igual ou maior do que p2 , o consumidor consegue adquirir a quantidade ótima x∗1 = p2 /p1 , pois
p1 x∗1 = p1 (p2 /p1 ) = p2 . Logo, as demandas dos bens 1 e 2 são completamente definidas por:
(
p2
se p2 ≤ m,
xM
1 (p 1 , p2 , m) = p1
m
p1
se p2 > m.
(
m
− 1 se p2 ≤ m,
xM
2 (p 1 , p2 , m) = p2
0 se p2 > m.

As funções de utilidade quaselineares, devido ao fato de gerarem demandas com uma estrutura
relativamente simples, são muito usadas em economia, especialmente na análise de bem-estar.

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 5 - “Escolha”.

• Nicholson e Snyder, cap. 4 - “Utility Maximization and Choice”.

10
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 6 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Elasticidade-preço da demanda
A curva de demanda, tudo mais constante, mostra como a quantidade demandada varia com o
preço. Porém medir variações absolutas na quantidade, causadas por variações absolutas no preço,
pode levar a inferências vazias de sentido. Suponha que um aumento de R$ 1 no preço de um bem leva
a uma queda de dez quilos na quantidade consumida. Isto é uma resposta grande ou pequena? Não há
como saber a não ser que saibamos o preço e a quantidade iniciais. Se o preço inicial era R$ 1, então
o aumento de R$ 1 representa um aumento de 100% no preço. Se o preço inicial era R$ 100, então o
aumento de R$ 1 representa um aumento de 1% no preço. Raciocı́nio similar vale para a quantidade.
A elasticidade é um conceito que reconhece e leva em conta mudanças relativas de quantidade e
preço, ao medir como a quantidade demandada, em termos percentuais, responde a uma mudança no
preço do bem, em termos percentuais. A elasticidade-preço do bem i, denotada por εM
i , é calculada
como a mudança percentual na quantidade, ∆xi /xi , dividida pela mudança percentual no preço,
∆pi /pi :
∆xi /xi pi ∆xi
εM
i = =
∆pi /pi xi ∆pi
Usando derivadas, temos que a elasticidade-preço é:

∂ log(xMi (p, m)) pi ∂xM


i (p, m)
εM M
i = εi (p, m) = = M
∂ log(pi ) xi (p, m) ∂pi

Apesar de a elasticidade-preço da demanda ser um número negativo (a demanda responde negati-


vamente a mudanças no preço do bem), vamos sempre nos referir a ela como um número positivo, já
que o que importa é a sua magnitude e não o seu sinal.
Quando a elasticidade é menor que 1, diz-se que a demanda é inelástica; quando é maior que
1, diz-se que a demanda é elástica; e quando é igual a 1, diz-se que a demanda tem elasticidade
unitária. Dizer que um bem tem demanda elástica significa dizer que se o preço desse bem aumentar
(ou diminuir) em 10%, a demanda do bem diminui (aumenta) mais de 10%. Um exemplo de um bem
inelástico é o sal (elasticidade ≈ 0,10) e de um bem elástico são tomates frescos (elasticidade ≈ 4,6).
A demanda pode ser elástica para certas faixas de preço e inelástica para outras faixas de preço.
A figura abaixo ilustra uma curva de demanda linear e os valores da elasticidade-preço da demanda
dessa curva.

1
preço
6
EPD pode ser diferente em
@ εi > 1 cada ponto da curva de demanda
@
@
@
εi = 1
@ 
@
@
@ εi < 1
@
@
@
@

-
quantidade

A elasticidade-preço da demanda do bem i depende da possibilidade de o consumidor abdicar do


bem i. Portanto, ela será maior:

i) Quanto mais fácil for substituir o consumo do bem i pelo consumo de outros bens. Coca-cola é
fácil de ser subsitituı́da. Sal já não é um bem tão fácil de ser substituı́do como coca-cola.

ii) No longo prazo. Quanto mais tempo o consumidor tem para ajustar a sua demanda a uma
mudança do preço, maior será a elasticidade. Se você tem um carro que consome muita gasolina
e o preço da gasolina aumenta bastante, você provavelmente não trocará de carro hoje, mas você
pode decidir trocar o carro por um mais econômico nos próximos meses.

iii) Quanto menos “necessário” o bem é. O conceito de bem “necessário” usado aqui é subjetivo.
Um bem pode ser necessário para uma pessoa e não necessário para outra. Bens necessários para
a maioria das pessoas possuem elasticidade menor do que bens de luxo (à frente veremos uma
definição mais precisa desses conceitos de bens).

Ou seja, o fator fundamental para determinar a elasticidade-preço da demanda de um bem é a


possibilidade de substituir o seu consumo.

2 Elasticidade-preço cruzada da demanda


A elasticidade-preço cruzada da demanda do bem i mede a sensibilidade da demanda do bem i
com relação ao preço de algum outro bem:

∂ log(xMi (p, m)) ∂xM


i (p, m) pj
εM M
ij = εij (p, m) = = M
∂ log(pj ) ∂pj xi (p, m)

A elasticidade-preço cruzada da demanda do bem i com respeito ao preço do bem j pode ser usada
para definir relações de complementaridade e de substitubilidade entre os bens. Observe que podemos
também, de modo equivalente, definir essas relações em termos da derivada da demanda do bem com
respeito ao efeito do preço do outro bem.

2
Um bem complementar é um bem que deve ser consumido em conjunto com outro bem; sua
elasticidade-preço cruzada deve ser então negativa (existem alguns problemas com essa definição, e
existem outras formas de se classificar bens em complementares ou substitutos). Portanto, se os bens
A e B são complementares, comprar mais do bem A resulta em comprar mais do bem B também.
Já bens substitutos têm elasticidade-preço cruzada positiva: se o preço do bem aumenta, o consumo
do bem substituto vai aumentar.
Vimos anteriormente que um bem complementar perfeito tem que ser consumido com outro bem,
em proporções fixas. Sapato do pé esquerdo é perfeitamente complementar para sapato do pé direito, e
vice-versa. Porém, o grau de complementaridade, medido pela elasticidade-preço cruzada, não tem que
ser recı́proco. No caso de televisões e aparelhos de dvd, o aparelho de dvd (bem complementar) tem que
ser utilizado com uma televisão (bem base), mas o contrário não vale: a televisão não necessariamente
tem que ser utilizada com um aparelho de dvd.
Levando em consideração todos esse aspectos, temos que:
∂xi
• Se εM
ij > 0 (de modo equivalente, ∂pj
> 0): dizemos que o bem i é substituto bruto do bem j.
∂xi
• Se εM
ij < 0 (de modo equivalente, ∂pj
< 0): dizemos que o bem i é complementar bruto do bem
j.

A qualificação bruto é usada para diferenciar uma outra classificação possı́vel, bens substitutos e
complementares lı́quidos, definida usando a demanda hicksiana, que será vista mais à frente.

∂x1 ∂x2
Exemplo: podemos ter dois bens cujas demandas sejam tais que ∂p2
>0e ∂p1
= 0. Nesse caso, o
bem 1 é substituto bruto do bem 2, mas o bem 2 não é substituto (nem complementar) bruto do bem
1 (esse é o caso das demandas geradas por uma utilidade quaselinear, para soluções interiores).

Em marketing, bens complementares dão um poder adicional à firma, permitindo que a firma
“prenda” o consumidor quando os custos para mudar de produto são altos. Algumas estratégias de
valoração usadas por firmas quando produzem ambos, o bem base e o bem complementar, são:

1. Cobrar barato o bem base em relação ao bem complementar. Essa estratégia incentiva o con-
sumidor a comprar o bem base e a se manter cliente da firma (exemplo: aparelho de barbear e
gilete, playstation e jogos).

2. Cobrar caro o bem base em relação ao bem complementar. Essa estratégia cria uma barreira à
entrada do consumidor no consumo dos bens da firma (exemplo: clubes, como clubes de golfe e
taxas para jogar golfe).

3
3 Elasticidade-renda
Outra elasticidade importante na teoria do consumidor é a elasticidade-renda de um bem. A
intuição é similar à da elasticidade-preço, agora levando em conta que estamos medindo a sensibilidade
da demanda do bem iem relação a mudanças na renda:
∂ log(xMi (p, m)) ∂xM
i (p, m) m
ηi = ηiM (p, m) = = M
∂ log(m) ∂m xi (p, m)
Elasticidades-renda permitem classificar os bens em inferiores, necessários (ou básicos), normais ou
de luxo. Essas elasticidades também são úteis na análise dos efeitos da mudança na renda no consumo
de todos bens.
Quando a elasticidade-renda da demanda é menor que zero, o bem é chamado inferior: um
aumento na renda do consumidor leva a uma redução na quantidade consumida. Quando a elasticidade-
renda da demanda é positiva, o bem é chamado normal: um aumento na renda do consumidor leva
a um aumento na quantidade consumida. Dentre os bens normais, existem os bens necessários ou
básicos (como, por exemplo, serviços de saneamento), onde a demanda aumenta com a renda, mas
aumenta numa proporção menor que a da renda e existem os bens de luxo (jantar em restaurantes
chiques, automóveis importados), onde a demanda aumenta numa proporção maior que a do aumento
da renda. A figura abaixo ilustra esses casos.

preço
6
@ Bem Normal
@ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @
@ @ @@
@
Bem Inferior
@ @
@@
-
quantidade

Um bem pode ter uma classificação para uma certa faixa de renda e depois mudar essa classificação
para outra faixa de renda. Por exemplo, passagem de ônibus é bem normal para quem usa esse tipo
de transporte regularmente, levando em conta aumentos pequenos da renda. Porém, se houver um
aumento muito grande na renda de uma pessoa que usa ônibus, ela pode comprar um carro e então
passagem de ônibus se torna um bem inferior. Portanto, a elasticidade-renda pode e provavelmente
vai mudar com o nı́vel de renda e com o nı́vel geral de preços.
A curva de Engel relaciona a quantidade demandada de um bem com o nı́vel de renda, todo
o resto constante. Portanto, usamos a função de demanda para achar a forma da curva de Engel,
considerando apenas a renda e a quantidade como as variáveis no gráfico.

4
Exemplo: Vimos que para a utilidade Cobb-Douglas u(x1 , x2 ) = xα1 x21−α a demanda do bem 1 é
x1 = α pm1 e do bem 2 é x2 = (1 − α) pm2 (logo, para α entre (0, 1), ambos os bens são normais). A figura
a seguir ilustra a curva de Engel para o bem 1.

m
6 Curva de Engel para x1 = α pm1
(inclinação: pα1 )

-
x1

As curvas de Engel geradas por utilidades lineares (bens substitutos perfeitos) e por utilidades de
Leontieff (bens complementares perfeitos) também são lineares. Então toda curva de Engel é linear?
Não necessariamente. Essa propriedade é caracterı́stica de funções de utilidade homotéticas, e todas as
funções de utilidade vistas até agora, com exceção da utilidade quaselinear, são homotéticas. Podemos
provar rigorosamente essa propriedade das utilidades homotéticas, mas ela é intuitivamente clara. Se
aumentarmos a renda do consumidor pouco a pouco, a cesta ótima se desloca sobre um raio que parte
da origem e passa pela cesta ótima original, pois a TMS continua a mesma ao longo desse raio e o
sistema de preços não se alterou. Portanto, se aumentarmos a renda em 10 vezes, o consumo de cada
bem aumenta em 10 vezes. Finalmente, isso implica que as elasticidades-renda de todos os bens são
unitárias: um aumento na renda aumenta o gasto em cada bem na mesma proporção (um aumento de
10% na renda aumenta o gasto com cada bem em 10%).
Vimos que as demandas geradas por uma utilidade quaselinear ln x1 + x2 são:
( (
p2 m
se m ≥ p 2 − 1 se m ≥ p2
xM
1 (p ,
1 2p , m) = p1
m
e x M
2 (p 1 , p2 , m) = p2

p1
se m < p2 0 se m < p2
A representação gráfica das curvas de Engel desses dois bens é ilustrada abaixo.

m m
6 6
Curva de Engel
para o Bem 1
Curva de Engel
para o Bem 2

m = p2 r r

- -
x∗1 = p2 x1 x2
p1

5
O caminho de expansão da renda mostra as cestas de bem consumidas para vários nı́veis de
renda. Essa curva também é chamada de curva de renda-consumo. O gráfico do caminho de
expansão da renda tem como eixo as quantidades dos dois bens (note que os eixos de um gráfico da
curva de Engel são a quantidade de um bem e a renda). Se ambos os bens são normais, a curva de
renda-consumo tem inclinação positiva. A figura abaixo ilustra esse caso.
x2
6

Q
Q
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Caminho de Expansão da Renda
Q
Q Q Q s
Q Q
s
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
s
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q-
Q
Q Q
x1

4 Relações entre Elasticidades


Vamos diferenciar a propriedade de que a cesta ótima deve satisfazer restrição orçamentária,
primeiro com relação a m e depois com relação a cada preço pi , para o caso geral de n bens:
n
X ∂xj (p, m)
pj =1 (Agregação de Engel) (1)
j=1
∂m
n
X ∂xj (p, m)
pj = −xi (p, m) (Agregação de Cournot) (2)
j=1
∂pi

Todo sistema de demandas Marshallianas deve satisfazer essas duas equações. Além disso, a pro-
priedade de homogeneidade das funções de demanda (xi (tp1 , tp2 , tm) = xi (p1 , p2 , m), para todo t > 0,
para todo bem i), também restringe as variações que podem ocorrer com as demandas Marshallianas.
Esta propriedade tem como consequência a seguinte relação:
n
X ∂xi (p, m) ∂xi (p, m)
pj + m = 0, para i = 1, 2, . . . , n (3)
j=1
∂pj ∂m
∂xi (p, m) ∂xi (p, m) ∂xi (p, m)
p1 + p2 + m = 0, para i = 1, 2 (4)
∂p1 ∂p2 ∂m
A primeira equação vale para o caso geral de n bens, a segunda, para o caso de dois bens. Essas
equações dizem que uma mudança proporcional nos preços e na renda deixa a demanda dos bens inal-
terada. Vamos reescrever esta restrição e as agregações de Cournot e Engel em termos de elasticidades.

6
1) Todas as elasticidades-renda somam um, quando ponderadas pela fração da renda gasta em cada
bem.

Para obter esse resultado, reescrevemos a agregação de Engel (1) acima como:
     
p1 x1 m ∂x1 p2 x2 m ∂x2 pn xn m ∂xn
+ + ··· + =1
m x1 ∂m m x2 ∂m m xn ∂m
Ou seja, a agregação de Engel reescrita em termos de elasticidades é:

s1 η1 + s2 η2 + · · · + sn ηn = 1,

onde si = pi xi /m é a fração da renda gasta com o bem i e ηi é a elasticidade-renda do bem i.


No caso de dois bens, temos que:
s1 η1 + s2 η2 = 1

Podemos concluir que:

1. Todas as elasticidades-renda podem ser iguais a um. Nesse caso, um aumento da renda leva a
um aumento na mesma proporção no consumo de todos os bens (se a renda aumentou em 10%,
o consumo de cada bem aumenta em 10%).

2. Se η1 > 1 então η2 < 1: se a fração da renda consumida do bem 1 aumentou mais proporcional-
mente à renda, o consumo do bem 2 terá que aumentar menos proporcionalmente à renda (no
caso de n bens, se ηi > 1 então existe pelo menos um bem j tal que ηj < 1).

3. Se η1 < 0 então η2 > 0: se um bem é inferior, então o outro bem será necessariamente normal
(no caso de n bens, no máximo n − 1 bens podem ser inferiores).

Observe que os três resultados acima são derivados usando apenas a reta orçamentária do consum-
idor (a propriedade de “adding-up” da aula 2, ou mais especificamente, a agregação de Engel). Eles
(e também o resultado abaixo) são válidos para qualquer tipo de consumidor, por mais estranhas que
sejam suas preferências. Esses resultados dependem apenas do fato de que as demandas ótimas do
consumidor estejam sobre a reta orçamentária.

2) Se um bem é elástico (inelástico), os outros bens são, na média ponderada pela fração da renda
gasta no bem, substitutos (complementares) desse bem.

Podemos reescrever a agregação de Cournot para o bem i (equação (2) acima) como:
n
xi pi X pj xj pi ∂xj
+ =0
m j=1
m xj ∂pi

Ou seja, a agregação de Cournot reescrita em termos de elasticidades é:


n
X n
X
0 = si + s j εM
ji ⇒ si (1 + εM
ii ) =− s j εM
ji (5)
j=1 j=1, j6=i

7
Se o bem i é elástico (inelástico), então εM
ii < −1, e o lado esquerdo de (5) é negativo (positivo). O
lado direito de (5) deve ser negativo (positivo) também, ou seja, a soma ponderada das elasticidades-
preço cruzadas dos outros bens com relação ao bem i deve ser na média positiva (negativa).
Portanto, se a demanda do bem i é elástica (inelástica), então os outros bens devem ser, na média
ponderada pela fração gasta em cada bem, substitutos (complementares) brutos do bem i, independente
de como esses bens afetem a função de utilidade.
Em geral, existem dois efeitos ocorrendo com dois bens quaisquer. Primeiro, todos os bens dão
utilidade para o consumidor e portanto todos são substitutos de certo modo. Segundo, bens vão ser
substitutos ou complementares devido ao efeito de uma mudança nos gastos de um bem qualquer
de acordo com a relação (5) acima, derivada da reta orçamentária. Se o bem é inelástico, então um
aumento no seu preço aumenta a fração da renda gasta com esse bem e, portanto, o gasto com todos
os outros bens deve diminuir, o que, outros preços fixos, significa quantidades consumidas menores
dos outros bens. Portanto, se a demanda do bem for inelástica, os demais bens se comportarão como
complementares brutos desse bem, enquanto que se a demanda do bem for elástica, os outro bens se
comportarão como substitutos brutos desse bem.
Para o caso de dois bens, temos que a equação (5) se torna:

s1 (1 + εM M
11 ) = −s2 ε21 (bem 1) (6)
s2 (1 + εM M
22 ) = −s1 ε12 (bem 2) (7)

Analisando a primeira equação, se o bem 1 é elástico (inelástico), então εM


11 < −1, e o lado esquerdo
de (6) é negativo (positivo). O lado direito de (6) deve ser negativo (positivo) também, ou seja, a
elasticidade-preço cruzada do bem 1 com relação ao bem 2 deve ser positiva (negativa). Portanto, se
a demanda do bem 1 é elástica (inelástica), então o bem 2 será substituto (complementar) bruto do
bem 1.

3. A propriedade de homogeneidade implica que a soma de todas as elasticidades com respeito à


demanda de um bem deve ser zero.

Podemos reescrever a equação (3) (e a equação (4), para os bens 1 e 2) acima como:
n
X pj ∂xi (p, m) m ∂xi (p, m)
+ = 0, para i = 1, 2, . . . , n
j=1
xi (p, m) ∂pj xi (p, m) ∂m

p1 ∂x1 (p, m) p2 ∂x1 (p, m) m ∂x1 (p, m)


+ + = 0, (bem 1, caso de 2 bens)
x1 (p, m) ∂p1 x1 (p, m) ∂p2 x1 (p, m) ∂m
p1 ∂x2 (p, m) p2 ∂x2 (p, m) m ∂x2 (p, m)
+ + = 0, (bem 2, caso de 2 bens)
x2 (p, m) ∂p1 x2 (p, m) ∂p2 x2 (p, m) ∂m

8
Ou seja, em termos de elasticidades obtemos:
n
X
εij + ηi = 0 para todo i (caso de n bens)
j=1

ε11 + ε12 + η1 = 0 (bem 1, caso de 2 bens)


ε21 + ε22 + η2 = 0 (bem 2, caso de 2 bens)

Esse resultado é consequência da propriedade de homogeneidade de grau zero das demandas mar-
shallianas: se todos os preços e a renda variam na mesma proporção, as demandas de todos os bens
não se alteram.

4. Se o preço de um bem aumenta, o gasto com um bem aumenta (diminui) caso o bem seja elástico
(inelástico).

O gasto ou dispêndio total, representado por D, com o bem i é:

Di = pi xi (p, m)

Se derivarmos o dispêndio com relação ao preço pi , obtemos:


 
∂Di ∂xi pi ∂xi
= xi + p i = xi 1 + = xi (1 − |εi |) ,
∂pi ∂pi xi ∂pi
onde εi é a elasticidade-preço da demanda do bem i. Portanto, se o preço do bem i se altera, a
mudança no dispêndio total do consumidor com esse bem é:
∂Di
= xi (1 − |εi |)
∂pi
Portanto, temos que:

1. Se |εi | < 1 (demanda inelástica): preço e dispêndio se movem na mesma direção;

2. Se |εi | = 1 (demanda com elasticidade unitária): dispêndio não se altera com uma mudança no
preço;

3. Se |εi | > 1 (demanda elástica): preço e dispêndio se movem em direções opostas.

Observe que as relações acima são intuitivas. Se o bem é inelástico, então a sua demanda varia em
proporção menor do que a variação no preço: um aumento no preço em 10%, por exemplo, reduzirá o
consumo do bem em menos de 10%. Logo, o gasto do consumidor com esse bem, p×q(p), irá aumentar.
Se o bem é elástico, então a sua demanda varia em proporção maior do que a variação no preço: um
aumento no preço em 10%, por exemplo, reduzirá o consumo do bem em mais de 10%. Logo, o gasto
do consumidor com esse bem, p × q(p), irá reduzir.
Se a demanda de um bem for linear, vimos que a elasticidade-preço desse bem varia ao longo da
curva de demanda. Nesse caso, obtemos a relação ilustrada abaixo para dispêndio total e preço do
bem.

9
preço
6

@
@ |εp | > 1
@
@ |εp | = 1
@ 
@
@
@t
@
@
@ |εp | < 1
@
@
@
@
@t
@
-
quantidade

gasto
6

-
quantidade

Leitura Recomendada

• Varian, caps. 15 - “Demanda de mercado” - e 6 - “Demanda”.

• Pindick e Rubinfeld, cap. 2 - “Os Fundamentos da Oferta e da Demanda”, seções 4 - “ Elasti-


cidades da Oferta e da Demanda” - e 5 - “Elasticidades de Curto-Prazo versus Elasticidades de
Longo-Prazo”.

• Hall e Lieberman, cap. 4 - “Como Trabalhar com a Oferta e a Demanda”, seções 2 - “Elasticidade-
Preço da Demanda” - e 3 - “Outras Elasticidades da Demanda”.

• Nicholson e Snyder, cap. 5 - “Income and Subsitution Effects”, seção 7 - “Demand Elasticities”.

10
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 7 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Função Dispêndio e Dualidade


Nas aulas anteriores examinamos as demandas Marshallianas, soluções do seguinte problema:
quais são as quantidades de cada bem escolhidas que maximizam a utilidade do indivı́duo, dados
os preços de mercado e a a renda dele.
Vamos agora examinar um outro problema, em que o indivı́duo minimiza os seus gastos, dado
um certo nı́vel de utilidade que deseja alcançar. Esse problema é chamado dual do problema
de maximização de utilidade. Mais à frente estudaremos a questão de dualidade entre os dois
problemas do consumidor.
O dispêndio (ou gasto) do consumidor com a cesta de bens x = (x1 , x2 , . . . , xn ) é igual à:

e = p 1 x1 + p 2 x 2 + · · · + p n xn

O consumidor minimiza os seus gastos para um certo nı́vel de utilidade u0 que deseja alcançar:

min p 1 x1 + p 2 x2 + · · · + p n xn s.a u(x1 , x2 , . . . , xn ) = u0 (1)


x1 ,x2 ,...,xn

Vamos lidar primeiro com os casos que podem ser resolvidos usando o método do Lagrange.
O Langrageano desse problema é:

L = p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn + µ(u0 − u(x1 , x2 , . . . , xn ))

As n + 1 CPO do problema são:





 p1 = µ∗ ∂x
∂u
1
(x∗1 , x∗2 , . . . , x∗n )

∗ ∂u ∗ ∗ ∗

 p2 = µ ∂x2 (x1 , x2 , . . . , xn )



.. ..
. .


 pn = µ∗ ∂x
∂u
(x∗1 , x∗2 , . . . , x∗n )



 n

 u = u(x , x , . . . , x )
0 1 2 n

As n primeiras CPO são idênticas às CPO do problema de maximização da utilidade. A


condição de que a TMS entre dois bens seja igual à relação de preços continua válida. Portanto,
a solução do problema dual do consumidor satisfaz a condição de tangência entre a curva de

1
indiferença dada por u0 e a reta de dispêndio. Apenas a última CPO é diferente, e serve para
garantir que a cesta ótima encontrada alcance o nı́vel de utilidade u0 .
As demandas desse problema são funções dos preços e do nı́vel de utilidade:



 xh1 = xh1 (p1 , p2 , . . . , pn , u0 )

 xh = xh (p , p , . . . , p , u )

2 2 1 2 n 0
 .
.. .
..




 h
xn = xhn (p1 , p2 , . . . , pn , u0 )

Essas funções de demanda são chamadas demandas Hicksianas ou demandas compensadas. As


funções de demanda Hicksianas são diferentes das funções de demanda Marshallianas (obtidas
da maximização da função de utilidade, dada a restrição orçamentária). As demandas Hicksianas
constituem a solução do problema de minizar o gasto de se alcançar determinado nı́vel de utilidade.
Portanto, são funções dos preços e do nı́vel de utilidade. Já as demandas Marshallianas são funções
dos preços e do nı́vel de renda. Mais adiante vamos discutir melhor a relação entre essas duas
demandas.
O problema dual do consumidor tem a seguinte interpretação gráfica: o consumidor fixa o
nı́vel de utilidade que deseja alcançar. Ele então procura o gasto mı́nimo que alcança esse nı́vel
de satisfação.
Resumidamente, o consumidor tenta alcançar o nı́vel de utilidade desejado ao menor custo
possı́vel. A solução do problema dual é dada pela curva (reta) de isocusto que tangencia a curva
de indiferença almejada (TMS entre os dois bens igual à relação de preços, a mesma condição que
vale na solução do problema primal).

x2 Q
Q
6 Q
Q
Q
Q E: Solução do Problema
Q Q
Q
Q Q Dual do Consumidor
Q Q
Q Q
Q Q
Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q
Q sE
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q QQ
Q Q
Q Q
Q
Q
Q
-
x1

2
Por que a demanda Hicksiana também é chamada demanda compensada? Porque ela “com-
pensa” o consumidor de modo a mantê-lo sempre na mesma curva de indiferença u0 . Por exemplo,
se o preço do bem 1 aumenta, as demandas ótimas mudam de modo que o nı́vel de utilidade
continue o mesmo (evidentemente, o dispêndio mı́nimo para alcançar o mesmo nı́vel de utilidade
aumentará, já que o preço de um dos bens consumidos aumentou). O gráfico abaixo ilustra essa
situação. Portanto, essa demanda compensa o consumidor de modo a mantê-lo sempre com o
mesmo nı́vel de utilidade, seja qual for a alteração de preços ocorrida.

x2
6 Equilı́brio original: E
Preço do bem 1 aumentou
T
T Solução muda de E para Ê
T
T
T
Q
Q T Ê
Q Ts
Q T @
Q I@
QT
TQQ E
T Qs
T QQ
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
Q
-
x1

A demanda Hicksiana não é diretamente observável, pois depende do nı́vel de utilidade u0 que
o consumidor alcança, que não é observável. Apenas a demanda Marshalliana é observável: ela
depende dos preços e do nı́vel de renda, variáveis que podem ser observadas.
Substituindo as demandas Hicksianas no gasto do consumidor, encontramos a função dispêndio
desse consumidor:

e(p1 , p2 , . . . , pn , u0 ) = p1 xh1 (p1 , p2 , . . . , pn , u0 ) + · · · + pn xhn (p1 , p2 , . . . , pn , u0 )

A função dispêndio mostra o gasto mı́nimo necessário para se alcançar o nı́vel de utilidade u0 ,
aos preços p = (p1 , p2 , . . . , pn ) de mercado.
Qual a interpretação econômica do multiplicador de Lagrange µ do problema dual do consumi-
dor? Ele representa o custo marginal para se obter uma unidade adicional de utilidade. Existe uma
relação entre esse multiplicador de Lagrange µ com o multiplicador de Lagrange λ do problema
primal do consumidor:
pi ui 1
µ= e λ= ⇒ µ=
ui pi λ

3
Portanto, o multiplicador de Lagrange do problema de minimização é o inverso do multiplicador
de Lagrange do problema de maximização. Vamos agora resolver o problema de minimização de
dispêndio para o caso da utilidade Cobb-Douglas.

Exemplo 1: Função de Utilidade Cobb-Douglas. O Lagrangeano do problema de mini-


mização de dispêndio para o caso da utilidade Cobb-Douglas com dois bens é:

L = p1 x1 + p2 x2 + µ(u0 − xα1 x21−α )

As CPO são: 
∗ α−1 1−α
 p1 = µ αx1 x2


p2 = µ∗ (1 − α)xα1 x−α
2

u0 = xα1 x21−α

Dividindo as duas primeiras CPO, encontramos uma expressão para x2 em função de x1 .


Substituindo essa expressão na terceira CPO, determinamos a demanda compensada para o bem
1. Substituindo a demanda do bem 1 para a expressão de x2 em função de x1 , determinamos a
demanda compensada do bem 2. Essas demandas são:
 1−α  −α
α α
h
x1 (p1 , p2 , u0 ) = α−1 1−α
p1 p2 u0 e h
x2 (p1 , p2 , u0 ) = pα1 p−α
2 u0
1−α 1−α

A função de dispêndio é encontrada substituindo as demandas compensadas no gasto do con-


sumidor: e(p1 , p2 , u0 ) = p1 xh1 + p2 xh2 . Simplificando essa expressão, obtemos que:

e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)α−1 pα1 p1−α


2 u0

O método do Lagrangeano supõe uma série de condições que nem sempre são satisfeitas. Vamos
analisar novamente os dois casos em que o método de Lagrange não se aplica: 1) bens substitutos
perfeitos (utilidade linear) e 2) bens complementares perfeitos (utilidade de Leontieff). A análise
é feita caso a caso, com ajuda gráfica para encontrar as demandas.

Exemplo 2: Bens Substitutos Perfeitos. Vimos que dois bens são substitutos perfeitos se
o consumidor aceita substituir um pelo outro a uma taxa constante. A função de utilidade que
representa essa relação é u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , com a > 0, b > 0. O problema dual é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a. u0 = ax1 + bx2


x1 ,x2

A figura abaixo ilustra graficamente o problema nesse caso.

4
x2
6
A Dispêndio Curva de Indiferença
A  u = x1 + x2
A
A Suponha que p1 = 2p2
A Solução: cesta E
sE
A
A
A@ A
A@ A
A @ A
A @ A
A @ A
A @A
A @
A
A A@
A u0
A@
A A @ 
A AA @@
A -
x1

A cesta de bens ótima do consumidor que deseja escolher entre bens substitutos perfeitos é
consumir nada do bem mais caro e comprar somente o bem mais barato. Portanto, as demandas
Hicksianas são: 
 u /a, se p /a < p /b
0 1 2
xh1 (p1 , p2 , u0 ) =
 0, se p1 /a > p2 /b

 0, se p1 /a < p2 /b
xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
 u0 /b, se p1 /a > p2 /b

No caso em que p1 /a = p2 /b, o consumidor comprará qualquer quantidade x∗1 e x∗2 tal que
satisfaça a restrição, ax∗1 + bx∗2 = u0 .
A função dispêndio é:

 p (u /a), se p /a ≤ p /b
1 0 1 2
e(p1 , p2 , u0 ) =
 p2 (u0 /b), se p1 /a > p2 /b

Podemos escrever a função dispêndio de modo mais simples como:


np p o
1 2
e(p1 , p2 , u0 ) = min , u0
a b

Exemplo3 : Bens Complementares Perfeitos. Vimos que dois bens são complementares per-
feitos se são consumidos conjuntamente, em proporções fixas. A função de utilidade que representa
essa relação é u(x1 , x2 ) = min {ax1 , bx2 }, com a > 0, b > 0. O problema dual é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a. u0 = min{ax1 , bx2 }


x1 ,x2

5
A figura abaixo ilustra graficamente o problema nesse caso.

x2
6

Utilidade u(x1 , x2 ) = min{x1 , x2 }


Suponha que 2p1 = p2
Solução do problema dual: cesta E
H
HH
H
HH
H
H HH
HH H
H
s
E HH
HH
H
H
HH u0
HH H
HH
H
HH H Gasto
H HH
HH H 
H
H HH -
x1

A cesta de bens ótima continua sendo consumir quantidades dos bens tais que ax1 = bx2 .
Portanto axh1 = bxh2 e usando a restrição do problema, encontramos:
u0 u0
xh1 (p1 , p2 , u0 ) = e xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
a b
A função dispêndio é:
p p2 
1
e(p1 , p2 , u0 ) = + u0
a b

2 Propriedades da Função Dispêndio


Se u(x1 , x2 ) é contı́nua e estritamente crescente, então a função dispêndio e(p, u0 ) é:

1. Contı́nua;

2. Homogênea de grau 1 nos preços;

3. Estritamente crescente em u e crescente nos preços;

4. Côncava nos preços;

5. Lema de Shepard: A derivada de e(p, u0 ) com relação ao preço do bem i, i = 1, 2, . . . , n, é


a demanda desse bem:
∂e(p, u0 )
= xhi (p, u0 )
∂pi

6
A propriedade de continuidade é consequência do teorema do máximo, um resultado matemático
que garante a continuidade de funções objetivos otimizadas, sob condições bastante fracas. Vamos
analisar detalhadamente cada uma das outras propriedades elencadas acima. Como usaremos o
Lema de Shepard para mostrar a terceira propriedade, começamos por ele.

1) Lema de Shepard.

As derivadas da função dispêndio com respeito aos preços são as funções de demanda Hick-
sianas:
∂e(p, u0 )
= xhi (p, u0 )
∂pi
Portanto, usando o lema de Shepard, podemos obter as funções de demanda a partir de qualquer
função dispêndio.
O lema de Shepard é consequência do teorema do envelope, que diz que quando a derivada de
uma função otimizada com respeito a um parâmetro é calculada no ótimo, a única mudança que
importa é a mudança de primeira ordem.
Vamos provar o lema de Shepard para o bem 1 (supondo apenas dois bens, o caso geral é
similar). Se derivarmos a função dispêndio com relação a p1 , obtemos:

∂e(p1 , p2 , u0 ) h ∂xh1 (p1 , p2 , u0 ) ∂xh2 (p1 , p2 , u0 )


= x1 (p1 , p2 , u0 ) + p1 + p2
∂p1 ∂p1 ∂p1
Vamos omitir o argumento das funções para simplificar a notação. No ótimo, as CPOs do
∂u
problema dual garantem que pi = µui , com ui = ∂xi
, para todo bem i. Substituindo as CPOs na
equação acima, obtemos:
∂xh1 ∂xh2
 
∂e h
= x1 + µ u 1 + u2
∂p1 ∂p1 ∂p1
Se derivarmos a CPO para µ, u0 = u(xh1 , xh2 ), com relação ao preço p1 , obtemos:

∂xh1 ∂xh
u1 + u2 2 = 0
∂p1 ∂p1
Substituindo essa última equação na equação anterior a ela, obtemos o lema de Shepard:
∂e
= xh1
∂p1

2) Homogênea de grau um nos preços.

A função dispêndio é homogênea de grau um nos preços:

e(tp, u0 ) = te(p, u0 ), para todo t ≥ 0

7
Essa propriedade é consequência direta da definição da função dispêndio: se todos os preços
dobram, então a renda deve dobrar para o consumidor permanecer na mesma curva de indiferença.

3) Não decrescente em preços e crescente em pelo menos um dos preços; crescente


na utilidade.

Pelo lema de Shepard,


∂e(p, u0 )
= xhi (p, u0 ) ≥ 0
∂pi
Um aumento do preço do bem i obriga o consumidor a gastar mais (ou o mesmo, no caso em
que o bem não é consumido, xhi = 0) para manter o nı́vel de utilidade u0 inalterado. Deve existir
pelo menos um bem tal que a derivada acima é estritamente maior do que zero.
No caso de um aumento do nı́vel de utilidade desejado, temos que:
∂e(p, u0 )
= µ(p, u0 ) > 0
∂u0
Ou seja, no caso de um aumento do nı́vel de utilidade almejado, se os preços estão fixos, então
o consumidor tem necessariamente que gastar mais para alcançar esse nı́vel de utilidade maior.

3) Côncava nos preços.

Essa propriedade da função dispêndio é crucial na teoria do consumidor, pois gera propriedades
importantes das funções de demandas Hicksianas. Vamos provar essa propriedade formalmente.
Primeiro vamos definir o que significa a função dispêndio ser côncava.

Definição: A função de dispêndio e(p, u0 ) é côncava nos preços se para os preços p, p0 e pt =


tp + (1 − t)p0 , com t ∈ [0, 1], vale que:

e(pt , u0 ) ≥ te(p, u0 ) + (1 − t)e(p0 , u0 )

Prova da propriedade 3): Fixe um nı́vel de utilidade u0 qualquer. Considere vetores de preços
p, p0 arbitrários. Denote por x e x0 as soluções dos problemas de minimização do dispêndio para
os preços p e p0 , respectivamente, considerando o nı́vel de utilidade u0 . Então:

e(p, u0 ) = px
e(p0 , u0 ) = p0 x0

Seja pt = tp + (1 − t)p0 para t ∈ [0, 1]. Denote por xt a solução do problema de minimização
do dispêndio para o vetor de preços pt , considerando o nı́vel de utilidade u0 . Observe que:

e(pt , u0 ) = pt xt = (tp + (1 − t)p0 )xt = tpxt + (1 − t)p0 xt


≥ tpx + (1 − t)p0 x0 = te(p, u0 ) + (1 − t)e(p0 , u0 )

8
A desigualdade acima é válida porque px e p0 x0 são os dispêndios mı́nimos para alcançar a
utilidade u0 aos preços p e p0 , respectivamente. Ou seja,

e(p, u0 ) = px ≤ pxt
e(p0 , u0 ) = p0 x0 ≤ pxt

Isso conclui a prova da concavidade da função dispêndio.

Vamos analisar a intuição econômica desse resultado, o resultado mais importante desta seção.
Observe a figura abaixo. A linha reta representa uma resposta passiva do consumidor a uma
mudança no preço do bem 1, ou seja, o consumidor não altera a cesta x∗ de bens consumidos. Nesse
caso, o consumidor não está escolhendo as quantidades de bens otimamente e reage passivamente
à mudança do preço p1 . Portanto, a inclinação da reta ep de dispêndio passivo é x∗1 , a quantidade
comprada do bem 1. Porém, o consumidor ajusta a cesta que consume quando o preço p1 muda, e
portanto a curva de dispêndio se posiciona abaixo da reta ep . Quando essas duas linhas se tocarão?
Quando o preço é tal que o consumo ótimo é x∗1 , ambas as linhas ep , dispêndio passivo, e e, o
dispêndio ótimo, vão ter o mesmo valor e serão tangentes. Para outros valores do preço do bem
1, a função de dispêndio está abaixo da reta ep . Portanto, a função dispêndio é côncava.

Gasto
6
Dispêndio Passivo
eP = p1 x∗1 + p2 x∗2




 Função Dispêndio

 e(p1 , p2 , u0 )
s

e(p1 , p2 , u0 ) 










-
p1 p1

As propriedades derivadas para função dispêndio refletem em duas propriedades sobre as de-
mandas hicksianas, a lei da demanda e a simetria.

9
Lei da Demanda.

Se combinarmos as propriedade de concavidade nos preços e o lema de Shepard, obtemos:


∂ 2 e(p, u0 ) ∂xhi (p, u0 )
= ≤ 0,
∂p2i ∂pi
ou seja, a demanda Hicksiana satisfaz a lei da demanda sem exceções mesmo do ponto de vista
teórico: um aumento nos preços leva a uma queda na quantidade consumida, se mantivermos
constante o nı́vel de utilidade do consumidor.
O ponto principal a guardar é que uma restrição orçamentária linear nos preços é transformada
em uma função dispêndio côncava nos preços, devido à minimização dos gastos pelo consumidor.
Se o consumidor procura minimizar os seus gastos quando tenta atingir um determinado nı́vel
de utilidade, o custo incorrido aumenta proporcionalmente menos do que a mudança nos preços.
Não é necessário levantar qualquer hipótese sobre a utilidade para se atingir esse resultado: se
o consumidor minimiza os gastos para obter um dado nı́vel de utilidade, esses gastos crescem
proporcionalmente menos do que uma mudança nos preços, qualquer que seja a função de utilidade
do consumidor.

Simetria.

A mudança na quantidade demandada do bem i quando o preço do bem k muda é igual à


mudança na quantidade demandada do bem k quando o preço do bem i muda, mantendo o nı́vel
de utilidade constante. Esse resultado é uma consequência da simetria da matriz de derivadas
segundas da função dispêndio e do lema de Shepard:
∂xhk ∂ 2e ∂ 2e ∂xhi ∂xhk (p, u0 ) ∂xhi (p, u0 )
= = = ⇒ =
∂pi ∂pk ∂pi ∂pi ∂pk ∂pk ∂pi ∂pk
As duas propriedades acima são usualmente condensadas em uma matriz, chamada de matriz
de substituição, definida a seguir.

Definição. Matriz de Substituição. A matriz de Substituição S é dada por:


 h 
∂x1 ∂xh ∂xh
∂p1
1
∂p2
. . . 1
∂pn
 h2 ∂xh2 . . . ∂xh2 
 ∂x 
S =  ∂p1 ∂p2 ∂pn 


 ... ... ... ... 
 
∂xh ∂xh ∂xh
n
∂p1
n
∂p2
. . . ∂pn
n

As duas propriedades acima podem ser redefinidas em termos da matriz de substituição, ao


dizermos que essa matriz é simétrica e negativa semi-definida (essa última propriedade é mais

10
restritiva do que a lei da demanda vista acima, mas também é válida, pois é consequência da
concavidade da função dispêndio). A matriz de substituição é utilizada para se testar a teoria
do consumidor: o sistema de demandas Hicksianas deve satisfazer as propriedades de simetria e
de semi-definida negativa. Porém, como a demanda Hicksiana não é observável, vamos encontrar
uma relação entre as derivadas das demandas Hicksianas contidas nessa matriz e as derivadas das
demandas Marshallianas, que são observáveis. Esse será o tópico da próxima aula.

3 Condições de Segunda Ordem


Quais são as condições de segunda ordem do problema dual do consumidor no caso de dois
bens? Essas condições são obtidas calculando o Hessiano orlado do Lagrangeano. As CSO são
satisfeitas se o determinante do Hessiano orlado for negativo, já que queremos achar um mı́nimo
para o problema.
O Hessiano orlado para o problema dual do consumidor com apenas dois bens é:
   
∂2L ∂2L ∂2L
∂µ2 ∂µ∂x1 ∂µ∂x2 0 −u1 −u2
∂2L ∂2L ∂2L
   
H=
 ∂x1 ∂µ ∂x21 ∂x1 ∂x2
 =  −u1 −µu11 −µu12 
  
∂2L ∂2L ∂2L
∂x2 ∂µ ∂x2 ∂x1 ∂x22
−u2 −µu12 −µu22

onde ui = ∂u/∂xi , i = 1, 2. O determinante é:

det(H) = −2µu1 u2 u12 + µu22 u11 + µu21 u22

Como µ > 0, as demandas Hicksianas vão ser de fato um mı́nimo do problema dual do con-
sumidor se:

−2u1 u2 u12 + u22 u11 + u21 u22 < 0 ⇒ 2u1 u2 u12 − u22 u11 − u21 u22 > 0

Observe que a CSO para o problema de minimização da função dispêndio é igual à CSO do
problema de maximização da utilidade. As CPOs serão suficientes para determinar a solução dos
dois problemas caso as curvas de indiferença sejam convexas em relação à origem. Para ambos
os problemas de maximização da utilidade e minimização do dispêndio, uma função de utilidade
estritamente quasecôncava garante que o determinante do Hessiano orlado tenha o sinal requerido.

11
MICROECONOMIA 1
Departamento de Economia, Universidade de Brası́lia
Notas de Aula 8 - Graduação
Prof. José Guilherme de Lara Resende

1 Dualidade
Considere os dois problemas do consumidor:

max u(x1 , x2 , . . . , xn ) s.a p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn = m (1)


x1 ,x2 ,...,xn

min p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn s.a u(x1 , x2 , . . . , xn ) = u0 (2)


x1 ,x2 ,...,xn

Se a função utilidade é estritamente crescente, contı́nua e soluções para ambos os problemas


existem (isso é garantido se a função de utilidade é bem-comportada), então valem as seguintes
relações entre os dois tipos de problemas:

1) Maximização da utilidade implica minimização do dispêndio. Suponha que (x∗1 , . . . , x∗n )


seja solução de (1) e considere o nı́vel de utilidade ū definido como ū = u(x∗1 , . . . , x∗n ). Então
(x∗1 , . . . , x∗n ) é solução do problema (2), com o nı́vel de utilidade u0 = ū.

2) Minimização do dispêndio implica maximização da utilidade. Suponha que (x∗1 , x∗2 )


seja solução de (2) e considere o nı́vel de renda m̄ definido por m̄ = p1 x∗1 + p2 x∗2 , m > 0. Então
(x∗1 , x∗2 ) é solução do problema (1), com o nı́vel de renda m = m̄.

A relação 1) acima tem como consequência que xM h


i (p, m) = xi (p, v(p, m)), para todo bem

i, i = 1, 2, . . . , n, e que e(p, v(p, m)) = m. A relação 2) acima tem como consequência que
xhi (p, u0 ) = xM
i (p, e(p, u0 )), para todo bem i, i = 1, 2, . . . , n, e que v(p, e(p, u0 )) = u0 .

Resumindo, para todo p > 0, m > 0, e u > 0, temos que:

e(p, v(p, m)) = m e v(p, e(p, u0 )) = u0

A primeira equação acima diz que o dispêndio mı́nimo necessário para se alcançar o nı́vel de
utilidade v(p, m) é igual a m. A segunda equação acima diz que a utilidade máxima alcançável
com um nı́vel de renda e(p, u0 ) é u0 .

1
Para as funções de demanda, valem as seguintes relações:

xM h
i (p, m) = xi (p, v(p, m)) e xhi (p, u0 ) = xM
i (p, e(p, u0 )) (3)

As relações descritas por 1) e 2) acima podem ser melhor compreendidas com o auxı́lio de
gráficos. As figuras abaixo ilustram as relações entre os dois problemas do consumidor.

x2 x2
6 6
Problema Primal Q
Q Problema Dual
Q
Q Q QQ
Q  Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q
xM Q rE
h
Q rE QQ
Q
1
Q
x1 Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q
Q  Q QQ
Q - Q Q-
x1 x1
xM
2 xh2

(xM M M M
1 , x2 ) é solução de min p1 x1 + p2 x2 s.a u(x1 , x2 ) = ū, com ū = u(x1 , x2 )

(Relação 1)

x2 x2
6 6

Q
Q Problema Dual Problema Primal
Q
Q QQ Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q
h xM
Q rE QQ Q rE
Q
x1 Q
1
Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q Q
Q Q
Q QQ Q 
Q Q- Q -
x1 x1
xh2 xM
2

(xh1 , xh2 ) é solução de max u(x1 , x2 ) s.a p1 x1 + p2 x2 = m̄, com m̄ = p1 xh1 + p2 xh2
(Relação 2)

2
No primeiro painel (relação 1)), o gráfico à esquerda ilustra o problema de maximização da
utilidade. O gráfico à direita ilustra o problema de minimização do dispêndio. Se no problema
de maximização da utilidade a solução é representada pela cesta E = (xM M
1 , x2 ) (ver gráfico à

esquerda) então essa cesta E é solução do problema de minimização do dispêndio, quando a


utilidade u0 desse problema é dada por u0 = ū = v(p, m) = u(xM M
1 , x2 ).

Similarmente, no painel abaixo (relação 2)), o gráfico à esquerda ilustra o problema de min-
imização de dispêndio. O gráfico à direita ilustra o problema de maximização da utilidade. Se
no problema de minimização do dispêndio a solução é representada pela cesta E = (xh1 , xh2 ) (ver
grafico à esquerda), então essa cesta E é solução do problema de maximização da utilidade, quando
a renda m desse problema é dada por m = m̄ = e(p, u0 ) = p1 xh1 + p2 xh2 .
Observe também que as CSO dos dois problemas devem coincidir, como foi discutido anterior-
mente. Se as preferências forem bem-comportadas, então os dois problemas estão bem definidos
e valem as relações de dualidade. Podemos provar que elas valem sob condições mais fracas, mas
não entraremos nesse nı́vel de detalhamento.
Finalmente, observe que apesar de a identidade (3) ser válida, as análises de estática compara-
tiva dos dois problemas do consumidor são inteiramente diferentes. Por exemplo, os ajustamentos
nas duas demandas devido a uma mudança de preços são distintos, já que variáveis diferentes
são mantidas constantes em cada problema. Vamos analisar o que ocorre em cada caso, supondo
apenas dois bens, o que permite a visualização gráfica do efeito das mudanças nas variáveis.

x2
6
m Preço do bem 1 aumentou
p2 Q
eQ
eQ Solução muda de E para Ê
e QQ
e Q
e Q
Q
e Q
e Ê QQ
es Q
Q E
e Qs
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e QQ
e -
m  m x1
p̂1 p1

3
A demanda Marshalliana xM (p, m), obtida do problema de maximização da utilidade, mantém
o nı́vel de renda constante. Se o preço do bem 1 aumenta, por exemplo (de p1 para p̂1 ), a reta
orçamentária se torna mais inclinada (ver figura acima). O consumidor, com o mesmo nı́vel de
renda, alcança um nı́vel de utilidade mais baixo (a cesta ótima se desloca de E para Ê).

A demanda Hicksiana xh (p, u0 ), obtida do problema de minimização do dispêndio, mantém


o nı́vel de utilidade constante. Se o preço do bem 1 aumenta, por exemplo, a inclinação da reta
de dispêndio aumenta. O consumidor irá gastar mais para obter uma cesta que lhe dá a mesma
utilidade u0 (a cesta ótima se desloca de E para Ê).

x2
6 Equilı́brio: E
Preço do bem 1 aumentou
T
T Solução muda de E para Ê
T
T
T
Q T
Q T s Ê
Q
Q T I
QT @
Q @
T
Q
TQQsE
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
Q
-
x1

Como esses ajustamentos são diferentes, mas vale a relação de dualidade (3) entre os dois
tipos de demanda, a pergunta óbvia é se existe alguma conexão entre esses dois ajustamentos. A
resposta é sim. Essa conexão é descrita pela equação de Slutsky, que analisaremos agora.

Exemplo: Utilidade Cobb-Douglas. Vimos que para a utilidade Cobb-Douglas u(x1 , x2 ) =


xα1 x1−α
2 , α ∈ (0, 1), as demandas Marshallianas e a função de utilidade indireta são:
m m −(1−α)
xM
1 = α , xM
2 = (1 − α) e v(p1 , p2 , m) = αα (1 − α)1−α p−α
1 p2 m
p1 p2
A relação v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 permite encontrar e(p1 , p2 , u0 ):

−(1−α)
v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 ) = αα (1 − α)1−α p−α
1 p2 e(p1 , p2 , u0 ) = u0
⇒ e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p1−α
2 u0

4
Vimos que as demandas Hicksianas geradas pela utilidade Cobb-Douglas são:
 1−α  −α
α α
h
x1 = α−1 1−α
p1 p2 u0 e h
x2 = pα1 p−α
2 u0
1−α 1−α

Logo, a função dispêndio, derivada usando a sua definição, e(p1 , p2 , u0 ) = p1 xh1 + p2 xh2 , é:

e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p1−α


2 u0 ,

exatamente a expressão que derivamos usando a identidade v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 , como


esperado.
Finalmente, a relação xM h h
1 (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = x1 (p1 , p2 , u0 ) permite encontrar x1 (p1 , p2 , u0 ),

usando as demandas Marshallinas e a função dispêndio:

α (1 − α)−(1−α) pα1 p1−α


 −α 
M 2 u0
xi (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = α
p1
−(1−α) 1−α
⇒ xhi (p1 , p2 , u0 ) = α1−α (1 − α)−(1−α) p1 p2 u0 ,

exatamente o que derivamos no problema dual, como esperado.

2 Equação de Slutsky
Vimos que as demandas Marshallianas e Hicksianas são iguais quando a demanda Marshalliana
é calculada com a renda igual ao dispêndio mı́nimo necessário para alcançar a utilidade u:

xhi (p, u) = xM
i (p, e(p, u))

Se u é o nı́vel de utilidade máximo que o consumidor obtém aos preços p = (p1 , p2 ) e renda m,
ao derivarmos a identidade acima com relação a pj obtemos a equação de Slutsky:

∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u∗ ) ∂xM (p, m) M
= − i xj (p, m), (4)
∂pj ∂pj ∂m

onde usamos o Lema de Shepard e o fato de que xhj (p, u) = xM


j (p, m) para chegarmos à expressão

acima.
A equação de Slutsky mostra que o efeito de uma mudança no preço do bem j sobre a demanda
do bem i pode ser decomposta em dois efeitos:
∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM
i (p, m)
= −xM
j (p, m) ,
∂pj ∂pj | {z ∂m }
| {z } | {z }
efeito total efeito substituição efeito renda

5
onde u é o nı́vel máximo de utilidade que o consumidor alcança aos preços p e renda m.
A equação de Slutsky relaciona a demanda Marshalliana, observável, com a demanda Hicksiana,
não observável, usando o efeito renda. O efeito total de uma mudança do preço pj no consumo do
bem i é igual à mudança na quantidade demandada do bem i, mantendo a utilidade constante,
menos a mudança na renda real, medida pela quantidade consumida do bem no qual o preço
muda multiplicado pelo impacto da mudança da renda no consumo do bem i. O primeiro efeito é
chamado efeito substituição. O segundo efeito é chamado efeito renda.
Vamos analisar os dois efeitos quando consideramos o efeito da mudança de preço do bem no
consumo desse mesmo bem. Nesse caso a equação de Slutsky é:

∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM
i (p, m)
= −xM
i (p, m)
∂pi ∂p {z ∂m }
| {z } | {zi } |
efeito total efeito substituição Efeito Renda

Os dois efeitos possuem a seguinte intuição econômica:

1) Efeito substituição (Hicksiano): se o preço do bem aumentou, o consumidor substitui o


consumo desse bem pelo consumo de outros bens, dada a nova relação de preços dos bens e
mantendo-se o bem-estar do consumidor constante. O efeito substituição é sempre negativo
(mais exatamente, sempre não positivo).

2) Efeito Renda (Hicksiano): com o aumento do preço, há uma diminuição da renda
disponı́vel a ser gasta. Esse efeito pode ser negativo ou positivo, dependendo se o bem
é normal ou inferior, respectivamente.

O efeito de uma mudança de preços na demanda observável é portanto dividido em duas


partes. Note que o consumidor, quando o preço muda, não calcula o seu efeito subsituição e o seu
efeito renda. Ele apenas escolhe uma nova cesta de bens. Essa divisão é apenas uma decomposição
teórica que auxilia na compreensão do efeito de uma mudança de preços na quantidade demandada
do bem. Na primeira parte da divisão, os preços relativos mudam, mas a utilidade é mantida
constante. Na segunda parte, com a nova relação de preços valendo, a renda real (que se altera
quando ocorre uma mudança de preço) do consumidor varia. A soma dessas duas partes é o efeito
total da mudança do preço na demanda do bem.
Por exemplo, suponha que o preço do bem 1 diminuiu. A decomposição gráfica do efeito total
na demanda Marshalliana da diminuição do preço p1 nos dois efeitos acima é representada no
gráfico abaixo.

6
O efeito total na demanda devido a uma diminuição do preço do bem 1 é x∗∗ ∗
1 − x1 . O efeito

substituição é x∗∗∗ ∗ ∗∗ ∗∗∗


1 − x1 . O efeito renda é x1 − x1 . O efeito total é a soma desses dois efeitos:

x∗∗ − x∗ = (x∗∗∗ − x∗ ) + (x∗∗ − x∗∗∗ )


| 1 {z }1 | 1 {z 1} | 1 {z 1 }
Efeito Total Efeito Substituição Efeito Renda

x2
6 Equilı́brio inicial: E, consumo de x∗1 unidades do bem 1
m
Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
e Q Efeito Substituição: x∗1 → x∗∗ 1
eQ
e QQ Efeito Renda: x∗∗ 1 → x ∗∗∗
1
e Q
Efeito Total: x ∗ → x∗∗∗
e Q 1 1
Q
Q e Q ∗∗∗ ∗ ∗∗ ∗ ∗∗∗ ∗∗
x1 − x1 = (x1 − x1 ) + (x1 − x1 )
Q e E QQ
Q es
| {z } | {z } | {z }
Efeito Total Efeito Substituição Efeito Renda
Q Q
Q Ê ˆ
Qe
Qe Qs
Q Q
eQ s Ê Q
Q
eQQ Q
e Q Q
Q Q
e Q Q
e Q Q
Q Q
e Q Q
e Q
Q Q
Q
s s se
e QQ
-
∗ ∗∗ ∗∗∗ x1
x -
1 x -
1x 1

Vimos que a demanda Marshalliana quase sempre responde negativamente a uma mudança
de preço, todo o resto mantido constante. Porém existe a possibilidade teórica de a quantidade
consumida de um bem aumentar (diminuir) com um aumento (queda) do seu preço (bem de
Giffen). Por que isso pode ocorrer na teoria?
Vamos usar a equação de Slutsky para estudar essa questão. O efeito substituição é sempre
não-positivo. O efeito renda será positivo se o bem for normal ou negativo se o bem for inferior.
Para que o bem seja um bem de Giffen, o efeito renda tem que ser não somente negativo, mas
negativo o suficiente para suplantar o efeito substituição. Portanto todo bem de Giffen é um bem
bastante inferior (a elasticidade-renda dele tem que ser muito negativa).
Para qualificar melhor essa última afirmação, a representação da equação de Slutsky em termos
de elasticidades, dada por:
εM h
ij = εij − sj ηi ,

7
onde εM h
ij é a elasticidade Marshalliana cruzada do bem i com respeito ao preço pj , εij é a elasticidade

Hicksiana (ou compensada) cruzada do bem i com respeito ao preço pj , sj é a fração da renda
gasta no bem j, e ηi é a elasticidade-renda do bem i. Para o caso de i = j, temos que:

εM h
ii = εii − si ηi

Portanto, um bem de Giffen tem elasticidade-renda negativa e fração da renda gasta no con-
sumo desse alta o suficiente para suplantar o termo εhii , sempre não positivo. Por que é improvável
a existência de um bem de Giffen na prática? Primeiro, para achar bens inferiores, temos que olhar
para categorias estreitas de bens. Categorias amplas de bens têm usualmente elasticidade-renda
positiva. Por exemplo, transporte quase sempre é um bem normal para qualquer faixa de renda,
mas passagem de ônibus pode ser um bem inferior para certas faixas de renda. Consequentemente,
bens inferiores são bens nos quais a fração da renda gasta com eles é pequena. Segundo, um bem
é inferior porque consumidores substituem o consumo dele por outros bens. Portanto εhij será alto
para vários bens j e, consequentemente, esse bem terá uma elasticidade εhii alta (recorde-se da
relação 2 entre elasticidades que estudamos anteriormente).

Exemplo: Equação de Slutsky para utilidade Cobb-Douglas. As demandas Marshalliana


e Hicksiana do bem 1 e a função de dispêndio para um consumidor com utilidade Cobb-Douglas
com dois bens são:
m
xM
1 (p, m) = α
p1
 1−α
h α
x1 (p, u0 ) = pα−1
1 p21−α u0
1−α
v(p, m) = (1 − α)1−α αα p−α α−1
1 p2 m

As derivadas das demandas Marshalliana e Hicksiana, relevantes nesse caso, são:


∂xM
1 (p, m) m
= −α 2
∂p1 p1
h
 1−α
∂x1 (p, uo ) α
= − (1 − α)pα−2
1 p1−α
2 u0
∂p1 1−α
∂xM
i (p, m) 1
= α
∂m p1
Juntando tudo, obtemos:
∂xhi (p, v(p, m)) ∂xM
i (p, m) 1 m
− xM
i (p, m) = −α(1 − α)p−2
1 m−α α
∂pi ∂m p1 p1
αm ∂xM
1 (p, m)
= − 2 = ,
p1 ∂p1

8
ou seja, a equação de Slutsky é válida, como esperado.

Se as preferências forem bem-comportadas, então será possı́vel substituir o consumo de um bem


pelo outro de modo a manter a utilidade constante. Isso implica que o efeito substituição será
negativo. Um efeito substituição nulo está associado à impossibilidade de substituir o consumo
de um bem pelo consumo do outro. Essa situação ocorre no caso de uma utilidade de Leontief,
em que o efeito total de uma mudança no preço do bem é gerado apenas pelo efeito renda, já que
o efeito substituição é nulo. Observe que nesse caso a função dispêndio é uma reta, indicando
também a impossibilidade de substituir o consumo de um bem pelo consumo do outro.

3 Efeito Substituição de Slutsky


A equação de Slutsky pode ser obtida de uma maneira diferente. Suponha que o preço de
um bem qualquer se alterou. A relação entre os preços dos bens se alterou, e a taxa de troca de
mercado entre bens é diferente. Com essa mudança no preço, o valor da renda que o consumidor
possui mudou. Se o preço do bem subiu, a sua renda real diminuiu: ele não vai alcançar o mesmo
nı́vel de utilidade que antes. Se o preço do bem diminuiu, a sua renda real aumentou: ele vai
alcançar um nı́vel de utilidade mais alto.
Suponha agora que compensamos a renda do consumidor de modo a manter o seu poder de
compra original (isto é, de modo que ele possa comprar a cesta escolhida originalmente). Esse
efeito é um efeito substituição, pois o consumidor mantém o seu poder aquisitivo, mas como os
preços relativos mudaram, ele provavelmente escolherá uma outra cesta para consumir. O gráfico
abaixo ilustra essa situação. Note que a reta paralela à nova relação de preços passa pelo ponto
E, o ponto de equilı́brio antes de o preço do bem 1 diminuir. Ou seja, o consumidor é compensado
de modo que a cesta original continue possı́vel de ser adquirida. Como a relação de preços mudou,
ele muda sua escolha ótima, de E para Ê. Essa mudança de E para Ê é o efeito substituição de
Slutsky.
A diferença entre esse efeito substituição, chamado de efeito substituição de Slutsky, e o efeito
substituição Hicksiano é que, no primeiro, a renda do consumidor é compensada de modo que a
cesta ótima original ainda é “comprável” e, no segundo, a utilidade do consumidor obtida com o
consumo da cesta original é mantida constante, e apenas os preços relativos mudam.

9
x2
6 Equilı́brio: E, consumo de x∗1 unidades do bem 1
m
Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
e Q Efeito Substituição de Slutsky: x∗1 → x∗∗
1
eQ ∗∗ → x∗∗∗
e Q
Q Efeito Renda: x 1 1
e Q ∗
Efeito Total: x1 → x1 ∗∗∗
Q
Q e Q
Q e Q
Qe
Q E
Q
es
Q
ˆ
Q Q
Q Q Ê
e Q Qs
e Q Q
e QQsÊ Q
Q
e Q Q
e Q Q
Q Q
e Q Q
e Q Q
Q Q
e Q
Q Q
e Q
Q
s s se
e QQ
-
x1
x∗ 1
- x∗∗ - x∗∗∗
1 1

Vamos derivar a versão da equação de Slutsky com esse novo efeito substituição, para o caso
de dois bens. Represente por (x1 , x2 ) a escolha ótima do consumidor quando os preços são (p1 , p2 )
e a renda m. A demanda de Slutsky aos preços (p1 , p2 ) é a quantidade dos bens que o consumidor
escolherá se a sua renda fosse modificada de modo que a cesta ótima (x1 , x2 ) continuasse dentro
da sua possibilidade de compra. Portanto, essa demanda é função dos preços e da cesta de bens
ótima que fixamos. A demanda de Slutsky é obtida da demanda Marshalliana, do seguinte modo:

xSi (p1 , p2 ; x1 , x2 ) = xM
i (p1 , p2 , p1 x1 + p2 x2 ), i = 1, 2.

Se diferenciarmos a demanda de Slutsky do primeiro bem com relação ao preço desse bem,
obtemos
∂xS1 (p1 , p2 ; x1 , x2 ) ∂xM
1 (p1 , p2 , m) ∂xM (p1 , p2 , m)
= + 1 x1
∂p1 ∂p1 ∂m
Ou seja,
∂xM
1 (p1 , p2 , m) ∂xS1 (p1 , p2 ; x1 , x2 ) ∂xM (p1 , p2 , m)
= − 1 x1
∂p1 ∂p1 ∂m

Essa última expressão é a equação de Slutsky quando o efeito substituição considerado é o


de Slutsky. A intuição é similar à da equação de Slutsky vista na seção anterior. O efeito total
de uma variação no preço do bem pode ser decomposto em dois efeitos. O primeiro, o efeito
substituição (de Slutsky), mede a mudança na escolha da cesta ótima que ocorre quando os preços
relativos mudam, mas a renda do consumidor é compensada de modo que ele possa comprar a
cesta ótima original (note que se houver uma diminuição no preço, essa compensação é negativa).

10
O segundo, o efeito renda, mede a mudança na escolha que ocorre quando a renda do consumidor
varia, mantida a nova relação de preços.
Podemos então novamente dividir o efeito de uma mudança de preços na demanda observável
em duas partes. Na primeira parte, os preços relativos mudam, mas o poder aquisitivo do consum-
idor é mantido constante, de modo que ele continua podendo adquirir a cesta original aos novos
preços (a utilidade não é mantida constante, como no caso do efeito substituição Hicksiano). Na
segunda parte, já com a nova relação de preços, a renda real (que se altera quando ocorre uma
mudança de preço) do consumidor varia. Mais uma vez, a soma das duas partes é o efeito total
da mudança do preço na demanda do bem.
Os dois efeitos substituição de Slustky e de Hicks podem ser iguais? Sim, se considerarmos
variações muito pequenas no preço (mais precisamente, variações infinitesimais no preço). Nesse
caso, os dois efeitos são idênticos. Porém, para variações discretas, os dois efeitos não necessaria-
mente são iguais, como as figuras abaixo ilustram.

x2 Efeito Substituição de Hicks x2 Efeito Substituição de Slutsky


6 6
m m
p2 Q p2 Q
eQ eQ
eQ eQ
e QQ e QQ
Qe
Qe E Q
Qe E Q
Q
Q e r QQ Qr
Qe Q rÊ ˆ Q
e
Q
Q rÊ ˆ
Q Q Q
e Q Ê QQ
eQrQ e Qr
Q Ê
e Q
Q Q
e Q Q
Q e QQ Q
Q
e Q Q e Q Q
Q Q Q Q
e Q Q e Q Q
Q
r r re r r re
e Q e Q
Q- Q-

x - x -x ∗∗ ∗∗∗ x1 ∗
x - x- x ∗∗ ∗∗∗ x1
1 1 1 1 1 1

Leitura Recomendada

• Varian, cap. 8 - “A equação de Slutsky”.

• Nicholson e Snyder, cap. 5 “Income and Substitution Effects”.

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