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Topologias Inteiras e a Infinitude dos Primos

Marcos Antônio Sobral Filho∗ Gabriel Araújo Guedes (orientador)†

As topologias inteiras surgiram em 1955, quando Furstenberg definiu uma topologia em Z a fim de obter
uma demonstração topológica para a infinitude dos números primos. Alguns anos depois, Golomb encontrou
uma topologia inteira conexa mais fraca que a de Furstenberg. Finalmente, Kirch percebeu em 1969 que a de
Golomb não era localmente conexa e encontrou uma topologia inteira ainda mais fraca que o fosse.
Neste trabalho demonstraremos a infinitude dos números primos usando as topologias de Furstenberg,
Golomb e Kirch e estudaremos separabilidade, conexidade e compacidade em cada uma delas, a fim de obter
topologias inteiras mais fracas e equivalências de alguns resultados clássicos em Teoria dos Números.
Sejam X um conjunto e β uma coleção de subconjuntos de X, tal que
[
1. B=X
B∈β
[
2. ∀B, B 0 ∈ β, ∃{Bλ }λ∈L ⊂ β; B ∩ B 0 = Bλ
λ∈L

Se γ é uma coleção de subconjuntos de X, dizemos que β gera γ se ∀C ∈ γ, ∃{Bλ }λ∈L ⊂ β tal que
S
C = λ∈L Bλ .

Definição 1. Seja (X, τ ) um espaço topológico e β uma coleção de subconjuntos de X que satisfaz 1 e 2.
Dizemos que β é uma base para a topologia τ se β gera τ .

A topologia de Furstenberg (a qual denotaremos por τF ) é definida em Z, tendo como base as progressões
aritméticas Na,b = {an + b | n ∈ Z}, com a, b ∈ Z e a > 0. Note que se r é o resto da divisão de b por a, então
a−1
S
Na,b = Na,r e como Z\Na,r = Na,i é aberto, segue que Na,b = Na,r é fechado (e aberto). Usando esse
i=0,i6=r
fato, é possı́vel mostrar que τF é Hausdorff e totalmente desconexa.
Além disso, obtemos uma demonstração muito elegante da infinitude dos números primos.

Teorema 1. Seja P o conjunto dos números primos positivos. Então P é infinito.


S
Demonstração. Seja X = Np,0 . Pelo Teorema Fundamental da Aritmética, temos Z\X = {−1, 0, 1} que
p∈P
não é aberto. Logo X não é fechado e como cada Np,0 é fechado, segue que P é infinito, já que união finita de
fechados é fechado.

Em 1959, Golomb definiu uma topologia nos inteiros positivos (a qual denotaremos por τG ) tomando como
base as progressões aritméticas Na,b = {an + b | n ∈ N ∪ {0}}, onde a, b ∈ Z+ e mdc(a, b) = 1.
Note que {Np,p−1 }p∈P é uma cobertura aberta para Z+ que não possui subcobertura finita (já que se tirarmos
Np,p−1 , deixamos de cobrir o inteiro p − 1), donde τG não é compacta. De forma análoga à demonstração do
Teorema 1, é possı́vel mostrar que P é infinito usando τG . Além disso, dados s, t ∈ Z+ , tomando p primo maior
∗ Discente, UFRPE, PE, Brasil e − mail : sobralmarquinhos@gmail.com
† Professor,UFRPE, PE, Brasil e − mail : gabriel.guedes@uf rpe.br

1
que o max{s, t}, as progressões Np,s e Np,t separam s e t e assim τG é Hausdorff.
No entanto, a propriedade mais interessante da topologia de Golomb é a sua conexidade.

Proposição 1. τG é conexa.

Demonstração. Suponha, por absurdo, que existam abertos U e V não-vazios que formam uma cisão não trivial
S
de Z+ . Logo existem famı́lias de elementos básicos {Naλ ,bλ }λ∈L e {Naµ ,bµ }µ∈S , tais que U = Naλ ,bλ e
S λ∈L
V = Naµ ,bµ . Sejam NA,B ∈ {Naλ ,bλ }λ∈L , NC,D ∈ {Naµ ,bµ }µ∈S e α um múltiplo de A.
µ∈S
Afirmamos que α ∈
/ V.
De fato, se fosse α ∈ V , existiria NE,F ∈ {Naµ ,bµ }µ∈S que contém α, i.e., α = En + F para algum inteiro não-
negativo n. Desde que mdc(E, F ) = 1, segue que mdc(α, E) = mdc(E, F ) = 1 e assim terı́amos mdc(A, E) = 1.
Logo NA,B ∩ NE,F 6= ∅ ⇒ U ∩ V 6= ∅, absurdo. Portanto, α ∈
/ V.
Consequentemente, nenhum múltiplo de A pertence a V , i.e., NA,0 ⊂ U . Analogamente, NC,0 ⊂ V . Mas,
NA,0 ∩ NC,0 ⊂ U ∩ V , absurdo.
Portanto, τG não admite cisão não trivial e assim é conexa.

Em [2], o autor ainda mostra que o Teorema de Dirichlet para Primos em Progressões Aritméticas é
equivalente a P ser denso em τG . Isso significa que em cada vizinhança de um ponto, existe um número primo.
Estudando a topologia de Golomb, Kirch mostrou em 1969 que τG não é localmente conexa. Sendo assim,
definiu uma topologia nos inteiros positivos (a qual denotaremos por τK ) cuja base é formada pelas progressões
aritméticas Na,b = {an + b | n ∈ N ∪ {0}}, onde mdc(a, b) = 1, a > b e a é livre de quadrados.
Note que τK é conexa, já que toda progressão dessa forma é um conjunto básico da topologia τG . De modo
análogo ao de Golomb, vemos que τK também é Hausdorff. Contudo τK não é regular, pois τG não é regular.

Proposição 2. τK não é regular.

Demonstração. Com efeito, N2,0 é fechado, desde que Z+ \N2,0 = N2,1 . Se A e B são abertos disjuntos tais
que 1 ∈ A e N2,0 ⊂ B, então A contém uma progressão Na,1 onde a é par. Consequentemente B contém uma
progressão Nc,d que contém a. Desde que a = cn + d para algum inteiro não-negativo n, e mdc(c, d) = 1, temos
mdc(a, c) = 1. Logo Na,1 ∩ Nc,d 6= ∅ ⇒ A ∩ B 6= ∅, absurdo. Assim, τG não é regular, e portanto τK não é
regular.

Consequentemente τK não é localmente compacta (donde não é compacta), já que toda topologia Hausdorff
localmente compacta é regular.
Neste caso, a infinitude dos primos é obtida observando que cada Np,0 é fechado, visto que Z+ \Np,0 =
p−1
S S T S
Np,i , e que Z+ \ Np,0 = (Z+ \Np,0 ) = {1}, que não é aberto. Assim, Np,0 não é fechado, implicando
i=1 p∈P p∈P p∈P
que P é infinito.
Finalmente, Kirch conseguiu definir uma topologia em Z+ que é mais rica que a de Golomb no seguinte
sentido.

Proposição 3. τK é localmente conexa.

Como essa demonstração é demasiadamente longa, deixaremos para o pôster.


Podemos notar o ganho de propriedades topológicas quando transitamos da base de Furstenberg à base
de Golomb e dessa última à base de Kirch, sendo τG mais fraca que τF , e τK mais fraca que τG . Além disso, se
associarmos cada progressão básica Na,b ao ponto (a, b) no reticulado Z+ × Z+ obtemos uma maneira de “medir”
o quão mais fraca τG e τK são em relação a τF , como segue.

2
Considere r um número real positivo e X = {(x, y) ∈ R2 | 0 ≤ x ≤ r, 0 ≤ y ≤ r}. Sejam ξ(r) o número
de pontos em X da forma (a, b) onde a, b ∈ Z+ e mdc(a, b) = 1 (chamaremos de pontos de Golomb), e φ(r) o
número de pontos em X da forma (a, b) onde a, b ∈ Z+ . Logo

φ(r) = [r]2 + 2[r] + 1 = ([r] + 1)2 = (r + O(1) + 1)2 = r2 + O(r)

onde [r] é a parte inteira de r e O(r) é uma função f (r) tal que |f (r)| < M r, ∀r >> 0, para algum real positivo
M.

Figura 1: Como calcular ξ(r)

Analogamente,  
 X X  X
ξ(r) = 2 
 1
+2=2 ϕ(n) + 2
1≤n<r 1≤m≤n, 1≤n<r
mdc(m,n)=1

onde ϕ(n) é o número de inteiros entre 1 e n que são coprimos com n. Logo, a densidade dos pontos de Golomb
ξ(r) 6
é lim = 2 . Isso pode ser interpretado como: τG é aproximadamente 40% mais fraca que τF . Do mesmo
r→∞ φ(r) π
modo, é possı́vel mostrar que τK é aproximadamente 60% mais fraca que τF .
Considerando agora a topologia em Z+ (que denotaremos por τS ) cuja base é formadas pelas progressões Np,q =
{pn + q | n ∈ N ∪ {0}} onde p > q, p ∈ P e q ∈ P ∪ {1}, mostramos que τS é Hausdorff, conexa e localmente
conexa, que é possı́vel mostrar a infinitude dos primos usando essas progressões e que vale a seguinte equivalência
para a Conjectura dos Primos Gêmeos.
T
Teorema 2. Seja Pt = {p ∈ P | p − 2 ∈ P }. Então Pt é finito se, e somente se, Np,p−2 é um aberto
p∈Pt
não-vazio em τS .

Referências
[1] FURSTENBERG, H. - On the Infinitude of Primes, The American Mathematical Monthly, Vol.62, No.5,
MAA:May, 1955, p.353;
[2] GOLOMB, S. W. - A Connected Topology for the Integers, The American Mathematical Monthly, Vol.66,
No.8, MAA:Oct., 1959, pp.663-665;
[3] KIRCH, A. M. - A Countable, Connected, Locally Connected Hausdorff Space, The American Mathematical
Monthly, Vol.76, No.2, MAA:Feb., 1969, pp.169-171;
[4] APOSTOL, T. M. - Introduction to Analytic Number Theory, Undergraduate Texts in Mathematics,
Springer-Verlag, 1976;
[5] MUNKRES, J. - Topology, Pearson New International Edition, Second Edition, PEARSON, 2014.