Você está na página 1de 3

UNIVERSIDADE DO VALE DO PARAÍBA

COMUNICAÇÃO E LÍNGUA PORTUGUESA


Produção de Texto Dissertativo-Argumentativo

Allan Strottmann Kern

Novembro de 2009
A INCERTA EXISTÊNCIA DO DIVINO

Dentre os assuntos que geram entusiasmadas discussões filosóficas há


séculos, um dos temas que ainda despertam revolta quando abordados é a
manifestação da descrença na existência de Deus, entidade suprema
responsável pela criação e regência do universo. Isso se deve à coexistência
de opiniões opostas em que, para se demonstrar a força de um
posicionamento, faz-se mais necessário refutar o pensamento que a ele se
opõe do que construir um argumento convincente que sustente essa posição.
No entanto, a discussão acerca da existência ou não de Deus põe em
evidência o secular conflito entre ciência e religião, onde a última ainda se
fundamenta em conceitos questionáveis no campo da lógica e da razão.

Os pensadores da Grécia Antiga relutavam em aceitar passivamente as


crenças religiosas do próximo, recorrendo à razão e à filosofia para formar uma
opinião própria sobre o tema. Com a disseminação do cristianismo, surgiram
pensadores com o intuito de provar a existência de um Deus através do uso da
razão pura. Trabalhando a favor da Igreja Católica, instituição que se
sustentava na representação de uma entidade divina para angariar poder
político, pensadores como Santo Agostinho e Tomás de Aquino tornaram,
durante muito tempo, a devoção um ato intelectualmente respeitável. De fato,
há pelo menos um argumento a favor da existência de Deus que ainda
demonstra força entre os filósofos céticos: o da Causa Primordial.

Este argumento sustenta que, se todo acontecimento tem uma causa, então
deve existir uma Causa Primeira a partir da qual tudo se iniciou. Para reforçar
esta noção, alguns tratados de Física defendem que quando se traça os
processos físicos regressivamente no tempo, demonstra-se que as coisas
tiveram um início súbito. Assim, pode-se inferir que isso se deve à criação
divina. Mas apesar da consistência deste conceito em particular, grande parte
do argumento religioso se baseia no apelo ao coração, em oposição ao
intelecto. Quando se analisa o contexto em que foram desenvolvidos os
argumentos a favor da Igreja, logo se percebe que a sustentação desses
conceitos se deu por sua utilidade na manutenção do poder religioso, e não por
sua veracidade.

Como conseqüência, a censura se tornou a resposta para conter os


argumentos contrários ao que impunha a Igreja com seus dogmas.
Paralelamente, o desenvolvimento da ciência a partir de Galileu começou a
oferecer provas concretas de que grande parte dos argumentos religiosos não
passava de falácias. A refutação lógica da noção de uma Terra plana como o
centro do universo é um exemplo. A partir de então os conceitos defendidos
pelo argumento religioso passaram a perder força e, até hoje, a Igreja Católica
se viu obrigada a reavaliar muitos dos posicionamentos que manteve ao longo
dos séculos para preservar parte da influência que já obteve. Mas apesar de ter
perdido grande parte de seu poder, a visão religiosa ainda predomina em
grande parte do mundo.

Em grande parte, isso se deve ao fato de que a escolha pelo religioso ainda é
fortemente influenciada pelo contexto cultural. A maioria das pessoas adota a
postura que prevalece em sua própria comunidade, herdando as crenças de
seus ascendentes sem buscar um aprofundamento maior sobre o assunto para
a formação de opinião. Tendo em vista o medo do desconhecido, a promessa
religiosa da vida após a morte ainda é um dos aspectos mais sedutores de sua
proposta. Em contrapartida, merecem consideração as palavras do filósofo
britânico Bertrand Russell, ao defender que "o cerne da postura científica é a
recusa em considerar nossos próprios desejos, gostos e interesses como
capazes de fornecer a chave para a compreensão do mundo."

Quando à existência ou não de Deus, apesar de ainda não existirem provas


concretas que permitam uma conclusão definitiva sobre o assunto, certos
detalhes pesam contra o argumento religioso. Um exemplo é o fato de a ciência
estar sempre aberta à crítica e à apresentação de evidências que se
proponham a prová-la errada, enquanto a religião impõe seus conceitos
sustentando-se unicamente na crença através da fé, da fidelidade cega a uma
noção ainda incerta, e condena qualquer pessoa que tentar prová-la errada.
Shakespeare ilustrou com simplicidade a falibilidade do argumento baseado na
fé religiosa ao afirmar que “a verdade nunca perde em ser confirmada.”.
Nietzsche também reforçou essa noção ao afirmar que "uma crença forte
demonstra apenas a sua força, não a verdade daquilo em que se acredita.".