Você está na página 1de 13

1

O PODER CURATIVO DO CANTO


GREGORIANO : MEDICINA MEDIEVAL

THE HEALING POWER OF THE GREGORIAN


SONG: MEDIEVAL MEDICINE

(anaumin@hotmail.com)

Resumo:
A palavra latina Ars Medendi ou Medicina significa a ciência e a arte de precaver e curar
enfermidades. No médium aevo houve uma estagnação na evolução da medicina, e a
humanidade mergulhou em intenso misticismo. As doenças, principalmente de natureza
mental, foram interpretadas como decorrentes de influência maléficas. No entanto, após um
período grande abstração, há de se registrar duas importantes contribuições a partir do século
VII, o surgimento da primeira Santa padroeira dos Insanos a partir da fundação do primeiro
centro de assistência humanitária aos psicopatas, na Bélgica, na cidade de Ghell. E, a
segunda grande contribuição objeto deste estudo, o Canto Gregoriano, ao qual as pessoas
sentem-se atraídas de forma irresistível, e para o qual pesquisas recentes comprovam suas
qualidades terapêuticas e seu extraordinário efeito sobre o corpo, a mente e o coração de
ouvintes e apreciadores.
Palavras-chave: Mantra. Canto Gregoriano. Qualidades terapêuticas.

Abstract:

The Latin word Ars Medendi or Medicine means science and the art to prevent and to cure
diseases. In médium aevo had stagnation in the evolution of the medicine, and the humanity
dives in intense mysticism. The illnesses, mainly of mental nature, are interpreted as
decurrently of influence maleficent. However, after a great period of abstraction, has of if
registering two important contributions from century VII, the sprouting of the first patron
Saint of the Insane from the foundation of the first center of humanitarian assistance to the
psychopaths, in Belgium, the city of Ghell. And, the second great contribution object of this
study, Gregorian song, which the people feel themselves attracted of irresistible form, and for
which recent research proves its therapeutically qualities and its extraordinary effect on the
body, the mind and the heart of listeners and appreciator.
Key-words: Mantra. Gregorian song. Therapeutically Qualities.
_______________________________
ANTONIVS A. MINGHETTI -
Prof. de Estética, Crítica da Arte, Tradução Inter-semiótica, Teorias da Arte, Música e Latim - UNISUL –
Universidade do do Sul de Santa Catarina.. Mestre em Teoria, Crítica e História da Tradução da UFSC -
Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação do Prof. Dr. Rafael Camorlinga e Prof. Dr. Walter
Carlos Costa.
2

1 – INTRODUÇÃO

Para inúmeras culturas, o som é a força divina que se manifesta através


das vibrações rítmicas. O homem antigo desconhecia métodos organizados de "terapia dos
sons". Mas, na verdade, nem precisava deles, pois conhecia e vivenciava espontaneamente a
influência dos sons sobre si. O terror provocado pelos trovões, a tranqüilidade gerada pelo
ruído de uma chuva fina, o enlevo produzido pelo canto de um pássaro, o êxtase a que se
pode ser conduzido pelo som de uma cachoeira: todos esses sentimentos são frutos de efeitos
inexplicáveis, mas que sempre atraíram e exerceram forte influência sobre o ser humano.

São inúmeras as referências e escritos relacionados à aplicação da música e dos sons


na medicina. Na região próxima a Kahum, no Egito, foi descoberto em 1889 um papiro de
aproximadamente 4500 anos que revelava a aplicação de um sistema de sons e de músicas,
instrumentais ou vocais, para o tratamento de problemas emocionais e espirituais. Esse
sistema incluía até mesmo indicações para algumas doenças físicas.

A mitologia grega também é rica em informações sobre técnicas terapêuticas de


caráter musical. Asclépio, em grego, ou Esculápio para os romanos, filho de Apolo, deus da
medicina, que acreditavam os gregos descender do próprio Hipócrates, tratava seus doentes
fazendo-os ouvir cânticos considerados mágicos. O poder conquistador da música, também
foi expresso na mitologia grega em Orfeu, cujo canto acompanhado de lira sustava os rios,
amansava feras e movia pedras.

Homero, por sua vez, famoso historiador que precedeu Platão, afirmava
que a música foi uma dádiva divina para o homem, com ela, poder-se-ia alegrar
a alma e assim apaziguar as perturbações da mente e do corpo. Platão revelou especial
admiração pelo estudo dos efeitos da música sobre os seres humanos e, em particular, por
seus efeitos terapêuticos. Afirmava que a música era o remédio da alma e que chegava ao
corpo por intermédio dela. Ainda, segundo o filósofo, a alma pode ser condicionada pela
música assim como o corpo pela ginástica.

Demócrito, outro filósofo grego, afirmava com convicção que o som melodioso da
flauta doce conseguia combater os efeitos da picada de serpentes venenosas. Esse poder da
flauta cuja melodia encanta as próprias serpentes na Índia desde os tempos mais remotos,
ganhou fama na Europa durante a Idade Média; mais, acreditava-se, que o som da flauta doce
era capaz de curar crises de dor ciática, como confirmam registros da época.
3

Os gregos chegaram a desenvolver um sistema bem organizado de musicoterapia,


baseado na influência de certos sons, ritmos e melodias sobre
o psiquismo e o somatismo do ser humano. Esse poder que se atribuía ao som, ou à música,
denominava-se ethos. No século V, Cassiodoro, secretário de Teodorico, o rei analfabeto dos
ostrogodos, distribuiu a ação da música sobre o comportamento humano de acordo com seu
temperamento, dividindo-a em modos musicais (CARVALHAL, 1957, p.113)

1. Etho frígio - que excita, gera coragem e mesmo furor. Desperta ardor
belicoso e desejo de vingança.

2. Etho eólio - que gera sentimentos profundos e amor. Acalma as


tempestades da alma e determina um sono reparador.

3. Etho lídio - que produz sentimentos de contrição, de arrependimento,


de compaixão e de tristeza;

4. Etho dórico - que gera estados mais profundos, de recolhimento e de


concentração. Inspira pudor e castidade.

5. Etho iastio – aguça a inteligência e predispõe a alma às alegrias puras


e elevadas do espírito

Em todas as culturas antigas, sejam elas egípcia, persa, grega, indiana, chinesa,
japonesa ou qualquer outra, existem importantes referências sobre terapia musical ou sobre a
conexão entre música e transformações do estado de espírito. Entre os gregos, a flauta do
semideus Pã ficou famosa não só por encantar as pessoas como também porque eliminava os
maus sentimentos acumulados no organismo. São infinitas as citações em que a música
aparece ligada a sentimentos, emoções, pensamentos, e essa relação é mais intensa e está
mais enraizada nas culturas do que se imagina. Na Índia, o velho hábito de se pendurar sinos
nas vacas, animais sagrados para os indianos, tem por objetivo afugentar os maus espíritos
causadores de doenças; já os japoneses mantêm têm o hábito milenar de pendurar nas portas
e janelas, instrumentos que produzem sons à passagem do vento. Acreditando que nisto há
uma purificação das vibrações dos ambientes, proporcionam uma atmosfera de calma e paz,
propícias à concentração, à interiorização e mesmo ao convívio harmonioso entre os
humanos.

É difícil encontrar uma única fração do corpo que não sofra a influência dos sons
4

musicais. Os doutores Earl Flosdorf e Leslie A. Cambers descobriram em uma série de


experiências, que sons agudos projetados num meio líquido coagulam proteínas. Recente
mania de adolescentes norte-americanos consiste em levar ovos frescos a concertos de rock e
colocá-los à beira do palco. No meio do concerto, os ovos podem ser comidos cozidos pela
ação da música. Infelizmente, estes afeiçoados do rock pesado, conhecem os efeitos que esta
música poderia estar causando em seus corpos.

Na Bíblia, no Antigo Testamento, atribuía-se à música idênticos poderes aos quais na


Grécia foram reconsiderados bem mais tarde. Basta lembrar episódios conhecidos; o primeiro
relato já nos dá a dimensão do efeito terapêutico da Música, quando David amenizava a
loucura do Rei Saul cantando salmos e tocando a Lira; em Jericó, suas muralhas foram
desmoronadas apenas aos gritos e ao som das trombetas do povo de Israel. É evidente que as
referências freqüentes, no Antigo Testamento, demonstram que a música desempenhava um
papel importante na cultura hebréia. Segundo a tradição, Gubal, filho de Lameque, que “foi o
pai de todos os que tocam harpa e flauta”(Gn 4:21), foi o inventor da música. A relação
íntima entre as artes pastoril e musical é demonstrada no fato que Gubal tinha um irmão mais
velho, Gabal, que foi “o pai dos que habitam em tendas e possuem gado”(Gn 4:20), e num
estágio posterior, a música foi consagrada aos serviços no Templo.

A primeira alusão à música, depois do dilúvio, foi feita por Labão quando repreendeu
Jacó por haver-se retirado furtivamente sem lhe permitir a alegria de despedi-lo “com
cânticos, acompanhados de tamboril e harpa”(Gn 31:27). A música era freqüentemente
empregada em ocasiões de regozijo, quando era regularmente associada à dança. Havia
cânticos de triunfo depois vitórias em batalhas (Êx. 15:1 e segs.; Jz 5:1 e segs.). Miriã, irmã
de Moisés e Aarão, e as mulheres celebraram a queda do Faraó e de seus cavaleiros “com
tamborins e com danças”(Êx. 15:20 e segs.), e Josafá retornou vitoriosamente a Jerusalém
“com alaúdes, harpas e trombetas”(2 Cr 20:28). Música, cânticos e danças eram comuns nas
festas (Is 5:12; Am 6:5). Em particular eram características dos festivais que acompanhavam
a cinolima (Is 16:10) e as celebrações de casamentos (1 Macabeus 9:37,39). Os reis possuíam
seus cantores e seus instrumentistas (2 Sm 19:35; Ec 2:8). O menino pastor também tinha sua
lira (1 Sm 16:18). Os jovens, nos portões das cidades, também apreciavam a própria música
(Lm 5:14). Até mesmo as prostitutas aumentavam seus poderes de sedução com cânticos (Is
23:16).

A música era empregada em ocasiões de lamentação, bem como em ocasiões de


alegria. O hino fúnebre (qïnâ) que constitui o Livro de lamentações, e o lamento de David
5

por causa de Saul e Jônatas (2 Sm 1: 18-27). Tornou-se costume alugar “carpideiras”


profissionais para assistirem aos funerais com cânticos em lamentos, incluindo regularmente
o acompanhamento de flautistas. ( Mt 9:23).

2 – DESENVOLVIMENTO

2.1 - Medicina Medieval

No médium aevo houve uma estagnação na evolução da medicina, e a humanidade


mergulha em intenso misticismo. As doenças, principalmente de natureza mental, são
interpretadas como decorrentes de influência maléficas. O doente mental seria uma possessão
do diabo (lembrando primeiro que a natureza deste se dá a partir do período medieval,
nomeado como Satanás, e segundo, a sua substancial diferença com o então velho conhecido
demônio).

A loucura seria algo imposto às pessoas por meio de sortilégios de mulheres bruxas,
feiticeiras que conheciam os segredos da cabala, magia, astrologia e alquimia, que
freqüentavam os sabbats a fim de receber ordens de Satanás, e espalhar o mal na terra.
Infelizes suspeitos de pactuarem com este eram sacrificados nas fogueiras onde expiavam seu
crime no fogo. Se por um lado isso suscita repulsa e indignação pelos procedimentos
bárbaros e implacáveis utilizados em seus primeiros seis séculos de existência, cumpre
também analisar este período como um fenômeno histórico à luz de sua imersão em uma
atmosfera influenciada por fatores culturais, políticos, sociais, econômicos, religiosos à época
existente; não o olhando a partir de fatos isolados, mas dentro das condições de vida que o
explicam, justificam, e que mostram a partir do século VII uma superação de suas mazelas e
uma evolução do ser humano que preparou o caminho para o Humanismo advindo na
Renascença.

Do século VII, tem-se o histórico de uma assistência humanitária aos psicopatas numa
vila da Bélgica, a cidadezinha de Ghell. Segundo reza uma lenda, Dinfna, filha de um rei
irlandês, teria sido convertida ao cristianismo pelo sacerdote Gebúrnus e, na companhia deste
teria se refugiado na cidade de Gheel. O pai enfurecido pelo fato dela não lhe dedicar mais
afeição e não abjurar o cristianismo mandou decapitar a filha e o sacerdote. Muitos doentes
mentais, ao assistirem espetáculo tão comovedor, ao experienciarem tal choque emocional,
subitamente recobraram a razão. Dinfna, enterrada em Gheel, passou a ser considerada uma
santa padroeira dos insanos, e levas de psicopatas começaram a afluir à cidade em busca da
6

cura pela intersecção da santa. Os habitantes da cidade davam hospitalidade aos peregrinos, e
dessa forma adquiriram experiência no trato dos doentes mentais, constituindo-se no primeiro
centro oficial e especializado de assistência familiar a psicopatas. (Carvalhal, 1957, p.111)

Do século VII ao século XV, constituiu-se oitocentos anos de desenvolvimento do


canto gregoriano, que mostra o esplendor do homem que se aproxima dos céus e encontra um
caminho para sua elevação espiritual, transcendendo através desta música e descobrindo que
seu ser não é apenas um amontoado de carne e ossos. Adquire este homem a possibilidade de
confessar os seus anseios a um Deus na busca de seu estado de purificação como um ser
constituído de uma massa mas também de uma essência que o dignifica entre as outras
manifestações de vida em sua ambiência.

No final da Idade Média, considerou-se a música como uma possibilidade não só


capaz de pôr o crente em comunicação com Deus, mas ainda de agir sobre o seu
comportamento. Disto se patenteou a necessidade de a música ser utilizada sob a égide de
critérios éticos, num retorno a velha sabedoria helênica. O elevar as almas viventes a Deus e
possibilitar uma profunda reflexão sobre a conduta humana possibilitaria à música encerrar
em si funções terapêuticas.

O monge Bartholomeus Ânglicus, professor de teologia e autor de uma enciclopédia


encerrando tudo quanto era conhecido na época, traçou as seguintes normas de tratamento
dos melancólicos:

A melhor medicina para eles é atá-los a fim de que não lhes seja possível ferir-se nem
ferir os demais; deve-se acalmar e refrescar estes doentes; afastá-los de qualquer
motivo de preocupação; deve-se distraí-los com instrumentos de músicas e dar-lhes
alguma ocupação durante uma parte do dia. (CARVALHAL, 1957, p.113)

2.2 - Canto Gregoriano

Na Idade Média entendeu–se que musicalizando as palavras das Escrituras, elas


ficariam gravadas mais profundamente na memória dos devotos, e o efeito das palavras seria
conservado por maior tempo, além de considerar a envolvência do som, provocando
transformações na sociedade e no homem. Assim, surgiram os cantos gregorianos, em
uníssono perfeito, com notas claras e límpidas, sem momentos de clímax, sem anseios e sem
a exaustão, sustentados por uma linha musical, que alimenta nossa vida emocional interior;
sem excitar nossos sentimentos superficiais. Talvez a mensagem fosse à de que não
deveríamos reagir de modo algum, mas nos contentar em relaxar na presença serena e
elevada que esta música desperta.
7

A profunda ligação com as sagradas palavras da Escritura e com a prática religiosa faz
o canto gregoriano conduzir mente e coração aos níveis mais profundos de existência; uma
derivação pertinente principalmente do modo de vida dos monges e de sua devoção a Deus.
O canto gregoriano, talvez seja a solução que Cristo nos tenha deixado em seu Improperium,
como forma de aliviarmos nossa culpa por sua execução sumária.

As palavras do Improperium proferidas por Cristo no momento de sua grande paixão


nos tocam profundamente, quando sofremos de solidão e nos sentimos rejeitados;
“Meu coração esperava repreensão e miséria. Procurei quem comigo se contristasse e
me ajudasse, mas não havia, procurei quem me consolasse, não encontrei... ”. (LE
MÉE, 1996, p.10)
Temos apenas que ouvir este canto atentando para o seu suave crescendo e
diminuendo. O som agradável não faz invasões indesejáveis e nos convida a desfrutar não
somente a melodia celestial, mas também da vacuidade de onde ela procede e para onde ela
retorna gradualmente.

A escuta atenciosa requer presença de espírito e uma mente liberta e tranqüila.


Aqueles que se dedicam diariamente à meditação descobrem que esta prática permite atingir
um estágio de serenidade que ajuda na execução de suas atividades ao longo do dia. Aqueles
que tiveram contato com o canto gregoriano também perceberam que ele tem o efeito de
estimular a audição e acalmar a mente.

Há uma forte tendência, na maioria das pessoas, de se deixarem absorver


completamente por certos pensamentos, às vezes a ponto de que determinadas idéias fixas
induzam a um estado patológico. Porisso, a conscientização e renovação até de caráter
psicológica pela audição do canto gregoriano é importante para a nossa saúde e o nosso bem
estar.

2.3 - Dr. Alfred Tomatis

Há uma história contada pelo médico francês e renomado especialista em doenças do


ouvido, DR ALFRED TOMATIS ( LE MÉE, 1996, p. 150). O Dr. Tomatis visitou um
mosteiro beneditino na França, logo antes do Concílio Vaticano II, no começo da década de
60, quando se discutia a questão do uso do latim na missa, e se o canto continuaria ou deveria
ser substituído por outras atividades consideradas mais úteis. O resultado final foi a
eliminação do Canto Ofício Divino. Logo depois, houve uma mudança na comunidade.
Certos monges habituados a viver com três ou quatro horas de sono, tornaram–se
extremamente cansados e sujeitos as doenças. Pensando que a falta de sono fosse a causa das
8

enfermidades o Abade permitiu mais repouso e nada adiantou, mais cansados ficaram.
Tentou–se uma mudança de dieta, mas não se obteve sucesso.

Em fevereiro de 1967 o Dr. Tomatis foi convidado para ajudar a resolver o problema.
Quando chegou encontrou setenta dos noventa monges estendidos em suas celas e após
examiná–los verificou que não só estavam cansados, mas também suas audições não estavam
boas.

Sua solução para este problema foi usar um aparelho, chamado ouvido eletrônico,
para aumentar a sensibilidade auditiva dos monges durante um período de vários meses. O
equipamento desenvolvido pelo Dr. Tomatis é um dispositivo cibernético com dois canais,
ligados a uma abertura que permite ao paciente ouvir, em um dos canais, os sons que ele
normalmente não ouviria e, no outro, os mesmos sons, filtrados para permitir uma audição
melhorada, particularmente os sons de alta freqüência. A mudança de um canal para outro
exercita os músculos do interior do ouvido e possibilita ao paciente recobrar sua acuidade e
sua sensibilidade auditiva. Outro aspecto do tratamento foi reintroduzir imediatamente as
sessões diárias de canto na vida do mosteiro.

Em nove meses os monges experimentaram uma extraordinária melhora, tanto na sua


capacidade auditiva como no seu bem estar geral. A maioria pode voltar às atividades
normais exercidas na comunidade por tantas centenas de anos, os extensos períodos de
oração, poucas horas de sono e o pesado regime de trabalho manual. O Dr. Tomatis explicou
a importância vital do ouvido para estimular a atividade cerebral; em particular ele serve para
carregar de eletricidade o Córtex Cerebral. É claro, portanto, que uma pessoa com deficiência
auditiva é incapaz de receber esta carga. Um ouvido bem afinado é capaz de estimular o
cérebro. Pesquisas modernas identificam dois tipos de sons, conhecidos como sons de
“descarga”, que causam fadiga ao ouvinte, e os de “carga”, que dão energia e saúde e que tem
o poder, como o ouvido eletrônico, de restaurar a audição e recarregar de energia a mente e o
corpo.

Os sons de carga são ricos em altas freqüências, enquanto os sons de descarga


apresentam baixas freqüências. Dr. Tomatis acentua que, colocando–se um osciloscópio nas
ondas sonoras do canto gregoriano verifica–se que ele contém todas as freqüências do
espectro vocal, aproximadamente de 70 a 9.000 hertz, mas com uma curva envolvente
diferente da fala normal. Os monges cantam em tom médio, o de barítono, porém, devido à
unidade e à ressonância, suas vozes produzem ricos semitons de alta freqüência, são os tons
9

agudos, especialmente na freqüência de 2.000 a 4.000 hertz, que dão carga elétrica ao
cérebro.

Estas energias são muito reduzidas em termos mensuráveis. Não é o conteúdo


energético que importa, mas a informação que elas carregam. A maneira pela quais os
monges recebem a energia através do som é que atua parcialmente, como um sinal, o qual,
mediante a complexa organização do corpo humano e seus campos de energia, serve para
distribuí-la pelo corpo. O resultado é um sentimento de ganho ou perda de energia,
dependendo de como estas são redistribuídas, dentro dos centros. Do ponto de vista do
ouvinte, há mais um ponto a ser analisado. Recebemos energia quando ouvimos o canto, e ao
mesmo tempo sente calma e tranqüilidade, porque podemos participar dos mesmos padrões
de respiração profunda e pacífica, quando os monges ou freiras estão cantando as longas
linhas melismáticas do canto gregoriano.

Uma das maneiras mais poderosas pela qual o som tem efeito sobre nós é a
capacidade de nos interiorizar. Certas músicas prendem a nossa atenção, permitindo–nos uma
função completa com elas. Se estivermos bem atentos ao som, somos por ele arrebatados,
livrando-nos da dor, da tristeza, da agitação e da confusão. Aqueles familiarizados com a
prática da meditação reconhecerão o mesmo efeito, quando escutam e seguem o som do
mantra ou palavra sagrada, do qual se originou o canto gregoriano. Pela repetição, a mente
se concentra e se enfoca. O som ocupa um espaço calmo, seguro, do qual não queremos sair,
como se não houvesse qualquer diferença entre o ouvinte e a canção, ambos partilham da
mesma unidade. Quando isto acontece, o tempo se imobiliza e não mais conscientes do
passado e do futuro, sentimos a plenitude do momento presente, e um profundo sentimento
de paz nos envolve.

Do equilíbrio destas funções resulta uma boa distribuição de energia aos centros
apropriados. O uso eficiente de alimento dentro do corpo é obviamente dependente do
oxigênio trazido pelo sistema respiratório. Igualmente importante é o efeito do sentido das
impressões na operação da digestão e da respiração. A linguagem popular reconhece esta
ligação quando se diz que certa impressão tira o nosso fôlego ou estimula o nosso apetite.
Um elemento importante da boa saúde é a manutenção de um equilíbrio adequado entre estas
funções. O canto exige uma fixa coordenação e sincronia entre a respiração e a audição.
Quando ouvimos o canto gregoriano, caímos facilmente no seu ritmo e partilhamos destes
benefícios.
10

2.4 - O Segredo do Mantra

Quanto à natureza da música tocada ou cantada pelos músicos hebreus, não temos o
menor conhecimento. É incerto, se tinham qualquer sistema de anotação. Têm sido feitas
tentativas para interpretar os acentos dos textos hebraicos, como se fossem uma forma de
anotação musical, mas sem sucesso algum. Esses acentos seriam antes, uma orientação para
as recitações salmódicas e não para a música. Mas é certo que destas derivaram o canto
gregoriano.

O mantra é uma antecipação da qual derivou o canto gregoriano, no qual a emissão de


uma freqüência sonora constante durante algum tempo pelas cordas vocais, emitida em
tonalidade básica de conversação na qual o esforço desprendido pela laringe na produção
desse som é o mínimo possível. O mantra provoca ressonância com o próprio aparelho vocal
que está emitindo o som, que é captado pelos ouvidos do emissor, transportado ao cérebro e
recebido pelo tálamo que faz o reconhecimento inicial do som como algo familiar já
registrado na memória que está impregnada desta freqüência advinda da própria voz. Essa
coincidência provoca um uníssono entre o som emitido pela laringe e o som recebido pelo
cérebro. (DR. STRALIOTTO, 2001, p.92)

Dessa forma, há um desenvolvimento de uma ensimesmação que proporciona a


comunicação fácil consigo mesmo, um solilóquio que permite a transcendência. O mantra
facilita a introgeção dos pensamentos e a descarga das emoções contidas através da voz. Ao
internalizarmos Deus mais fácil será compreendermos os benefícios do solilóquio, e nos
harmonizarmos em nível de resolução de conflitos emocionais. Só resolveremos problemas
psicológicos se adentrarmos seu reduto pela ensimesmação. O mantra proporciona esta
viagem servindo de veículo para o transporte do raciocínio lógico e consciente até o interior
do psiquismo onde se localizam os conflitos emocionais, e assim nos possibilita remover
obstáculos psicológicos.

O mantra apresenta ainda um benefício fisiológico, quando o pulmão emitindo ar de


forma lenta e controlada pelo represamento desse ar no nível das cordas vocais, provoca a
troca mais eficiente do oxigênio e gás carbônico pelos alvéolos pulmonares. O sangue recebe
uma quantidade maior de oxigênio sob essa pressão de troca e por sua vez leva até o cérebro
maior quantidade de oxigênio, desencadeando uma pequena alcalose (maior quantidade de
oxigênio no sangue em relação ao gás carbônico). Esta facilita o aparecimento do nível alfa
11

das ondas cerebrais permitindo um melhor desempenho no relaxamento mental e acesso ao


inconsciente, onde está a maioria dos conflitos e dos tesouros mentais do ser humano, que
podem ser utilizados em seu benefício. (DR. STRALIOTTO, 2001, p.94)

3 – CONCLUSÃO
O Canto Gregoriano, como psicoterapia, pode revelar a carga emotiva contida e
armazenada na memória humana. O som se apresenta como um veículo para atingir o
recôndito do insustentável. O cérebro silencioso requer a interação com o som deste canto, e
na sua interação decodifica o que não percebemos no nível do consciente.

Ó imaginação, que tens o poder de te impores às nossas faculdades e à nossa vontade,


extasiando-nos num mundo interior e nos arrebatando ao mundo externo, tanto que
mesmo se mil trombetas estivessem tocando não nos aperceberíamos; de onde
provêm as mensagens visíveis que recebes, quando essas não são formadas por
sensações que se depositaram em nossa memória? (DANTE, no Purgatório, XVII,
25)
Ao ouvir um canto gregoriano, o êxtase é mais que um prazer extremo, e se
transforma no prazer da dissolução de fronteiras do nosso ser, revelando nossos laços com o
mundo externo e mergulhado em sentimentos abissais que nos trazem a angústia de viver no
insólito. Este êxtase não é aquele proporcionado pelo prenúncio de uma aurora ausente, mas
é aquele que proporciona o reconhecimento de nossos eus, que ante a fatibilidade da
destinação ainda encontra forças para sublimar suas dificuldades e continuar a procurar a
utopia de nossos sonhos.

É obvio a impossibilidade de canalizar o canto gregoriano diretamente aos nossos


músculos, portanto há que se ter a ação de colocá-lo em nosso corpo conscientemente. Mas o
hábito produzirá antecipações sinestésicas, as quais já existem em nossa memória e que
raramente notamos.

A música parece ser a mais imediata de todas as artes e a mais extasiante. O poder do
som não pode ser explicado apenas pelo poder da estrutura da música, posto que haja outros
sons não musicais que nos marcam profundamente e que nos movimenta em alguma direção.

No canto gregoriano não são as teorias que determinam a prática, mas é a partir desta
que poderemos estabelecer a pragmática interna ao labirinto existente dentro de cada ser
humano, e que determina seu jeito de ser no mundo.

O grande compositor musical que abriu as portas para a música modernista, Claude
Debussy comentou, certa vez, que há mais a ganhar observando o sol nascer do que ouvindo
12

a Sinfonia Pastoral de Beethoven. Felizmente, para nós, sua convicção não o impediu de
continuar compondo. Talvez Debussy, em alguma ocasião, tenha encontrado sua maior
felicidade num amanhecer, mas sabia ele perfeitamente bem, que os amanheceres são
habitualmente suaves e que os seres humanos na contemporaneidade são inertes a
amanheceres, mesmo que ainda sejam seres extraordinários. (JOURDAIN, 1998, p.414)
13

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JOURDAIN, Robert. Música, Cérebro e Êxtase - Como a música captura nossa


imaginação. Do original Music, The Brain, and Exctasy, tradução de Sonia Coutinho, Ed.
Objetiva, RJ, 1998.

LE MÉE, Katharine. CANTO, traduzido do original norte americano Chant por Carlos
Araújo, Ed. Agir, RJ, 1996.

RIBAS, J. Carvalhal. Música e Medicina. Ed. Edigraf, SP, 1957.

ROEDERER, Juan G. Introdução à física e psicofísica da música, do original Introduction to


the Physics and Psicophysis of Music, tradução de Alberto Luis da Cunha, Ed. Edusp, SP,
1998.

STRALIOTO, Dr. João. Cérebro & Música. Ed. Odorizzi, SC, 2001.