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Cultura | 08 de Março de 2019

Os saberes das mulheres da Caatinga

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Os saberes das mulheres da Caatinga - Globo Rural | Cultura https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Cultura/noticia/2019/03/os-...

Conheça as histórias das curandeiras do sertão: mulheres que preservam as práticas de orações, cantos, raízes e garrafadas

POR BRUNO BLECHER* - FOTOS: JOSÉ MEDEIROS, DE EXU (PE)


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Da terra de Padre Cícero


à terra de Luiz Gonzaga
leva-se menos de uma
hora de carro por uma
estrada que atravessa a
linda Chapada do
Araripe e divide o
Ceará de Pernambuco.
Berço do Rei do Baião,
Exu também frequentou
por quase 300 anos as
crônicas policiais do
sertão com a guerra
entre as famílias
Alencar e Sampaio. A
rixa começou ainda nos
tempos da Colônia e
durou oito gerações.
Deixou 40 defuntos só
nos últimos 40 anos do
conflito, entre 1940 e
1980, até Luiz Gonzaga
convencer os chefes dos
clãs a fumar o cachimbo
da paz, em 1982. A
pernambucana Exu tem
pouco mais de 30 mil
habitantes e é bem mais
pacata que a cearense
Juazeiro do Norte, do
Padim Ciço, que já
soma mais de 270 mil
Maria Nazaré de Jesus (Foto: José Medeiros) almas.

Da praça da matriz ao
Sítio Baixio do Meio, onde mora a parteira Nazaré, são 17 quilômetros por uma estrada de
chão cheia de pedras. “Ô de casa!” Chamamos por Nazaré, e logo ela aparece, emoldurada
pela janela da casinha de taipa, com um sorriso tímido no rosto, desconfiada com a visita
inesperada.

+ As mulheres vão a campo: elas estão transformando o agro

Sentamos à sombra de um umbuzeiro para conversar. Cabelos grisalhos, miudinha, 63 anos,


Maria Nazaré de Jesus conta que já “pegou” 12 meninos. O primeiro, homem feito, já tem
de 18 a 20 anos.

Como você virou parteira?

Minha mãe era parteira e eu via ela conversando. Ela dizia tudo como era, como se cortava o umbigo, como ajeitava a barriga da muié. Ela fez
muitos partos, ia pra todo canto, o povo vinha buscar de cavalo, de bicicleta, de tudo. Ela fez os partos das minhas filhas, de cinco delas, só não fez
da derradeira porque a mãe morreu antes, quando eu estava com três meses de gravidez. Tinha 83 anos.

O primeiro menino que peguei foi de uma menina de 12 anos. O dotô disse que ela não resistiria. Eu tava em casa, na boquinha da noite, e minha
filha veio me contar: Eita mãe, já levaram a menina pro hospital. Mas ela não chegou a Exu. O marido veio aqui correndo, aperreado. Ei, Nazaré,
pega o lençol e uma tesoura que a menina ganhou a criança no meio da estrada. Acendi um candieiro e risquei pra estrada. Cortei o umbigo, enrolei o
menino no lençol. Levaram ela pra casa, e eu fui atrás com o menino. Foi o meu primeiro.

+ 34 músicas de mulheres sertanejas

Graças a D´us, todos os partos foram normais. Se o menino está atravessado, se está sentado, aí corre logo para um hospital. Eu até posso ir, se me
chamarem, pra fazer um chá enquanto arrumam um carro, mas não mexo, não. Também sou curandeira, mas só de ferida de boca, que outras coisa eu
não aprendi não.

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Bodocó, ele tomou soro, tomou injeção, e não serviu pra nada. Veio pra cá e com três vezes ficou bom. Sem remédio. Quando tá muito forte, eu
mando desmanchar um açucrinho, um mel, uma banha de teiú.”

Nazaré tem dez filhos. Quantos netos? Ela não sabe botar na mente, não. Mas tenho quatro bisnetos. Não sou casada, mas o pai dos meus filhos taí,
ela diz apontando uma casa. Não queira saber a minha vivência, que é longa. Já pedi esmola no Bodocó, no Ouricuri, pra criar meus filhos. Eu vendo
rosário de coco-catulé, umbu, milho, maxixe, o que tiver. Planto, vou buscar no mato e vendo. Faço uns remédios também. Cozinho jatobá e
imburana-de-cheiro, cebola e alho. Acaba com a gripe.

Nazaré diz que não levava desaforo do pai de seus filhos. Se ele ralhasse, eu sumia, ela conta.
As mulheres de hoje não aguentam mais desaforo. Eu mesmo tenho uma. O marido era ruim pra ela que só... Ela teve quatro filhas com ele. Aí ele
inventou de ir pra Minas. Passou um ano e seis meses lá sem mandar um centavo. E ela sofrendo com as meninas. Agora no final do ano, ele veio e
troxe umas coisas pra ela. Mas minha filha arrumou outro, porque ele não se alembrou-se dela. Que se alembre-se ao menos das crianças! Mas não se
alembrou de ninguém.

E você apoiou?
Bom eu não achei. Eu não sou casada, minha filha mais velha tem 40 e pouco anos, mas eu não sei o que é outro homem. As mulheres hoje não
sabem se dominar, não levam desaforo.

Raízes
No Sítio São Raimundo, Maria do Socorro Silva Moreira, devota de São João Batista, tinha acabado de voltar do mato com as mãos vazias. Eiiita, a
seca matou tudo. Com sete anos de seca, não tem raiz que não morra, até a batata-de-teiú.A caminho da casa de Dona Socorro, na zona rural de Exu,
a gente passa pela histórica igreja de São João Batista do Araripe, que completou 150 anos em junho do ano passado. A igreja foi construída pelo
Barão de Exu como pagamento de uma promessa ao santo. Em 1863, uma epidemia de cólera atingiu o Crato, cidade vizinha, e Gualter Martiniano
de Alencar Araripe, o barão, proprietário das fazendas Araripe e Caiçara, fez uma promessa a São João Batista: se a doença poupasse Exu, ele iria à
França buscar uma imagem do santo e construiria uma igreja para abrigá-la. A bisavó do Rei do Baião se abrigou na Fazenda Caiçara durante a peste
de cólera. E foi na igreja de São João Batista que os pais de Gonzagão, Januário e Santana, se casaram.

O teiú é um lagarto que vive no sertão. Quando picado por cobra, ele busca se curar do
veneno mascando uma batata. O tubérculo é usado pelas curandeiras para tratamento de
inflamação.
Socorro é raizeira e prepara as famosas garrafadas, populares em todo o Nordeste. Não se
sabe exatamente a origem das garrafadas, preparadas com raízes e plantas medicinais, mas
alguns pesquisadores acreditam que elas possam ser derivadas de formulações feitas pelos
jesuítas no século XVI, conhecidas como Triaga Brasilica, à base de vinho, mel e
ingredientes secretos. As garrafadas também estão presentes na medicina indígena e nos
ritos afro-brasileiros.

Socorro só busca suas plantas na mata. Não adianta plantar. As plantas que os outros veem
não servem pra nada, diz. Elas têm de ser nativas. Tiú, cipó-de-vaqueiro, manjerioba,
jurema-
branca, jurema-preta.

Curioso, eu penso: a alquimia dos jesuítas também tinha essa dimensão sagrada, secreta.
Quem te ensinou a fazer garrafadas?

Ninguém ensina nada a gente, não. A gente já nasce ensinado. Desde pequena eu já tinha
visão de fazer remédio. Aí um dia eu levei uma queda de um jumento e bati com o joelho no
chão. Eita queda desmantelada! A bolacha do joelho foi para trás. Passei um ano e quatro
meses sem andar, deitada no chão numa esteira.

Numa noite de São João, lembra Socorro, todo mundo foi para a festa no Araripe, pras
novenas, e ela ficou sozinha em casa. Pedi a meu pai que fizesse uma fogueira no quintal e
deixasse a porta aberta para eu podê ver de onde eu estava deitada. Eles foram todos pra
festa e eu fiquei só, mais D’us e um cachorro. Aí eu pedi a São João Batista: você é Rei,
(Foto: José Medeiros) você é tão forte que foi quem batizou Jesus. Por isso estou te pedindo, implorando ajuda
para andar de novo.

Ela foi dormir e, quando deu cinco horas da manhã, Socorro viu um homem bem alto, com roupa branca e um livro debaixo do braço. Ele olhou pra
mim e disse ‘tá pensando que vai morrer, minha filha?’ Eu disse ‘tô’. ‘Mas não vai. Você vai servir tanta gente ainda.’ Eu disse ‘aleijada?!’. ‘Não,
minha filha, que tudo que tem começo tem fim. Daqui a três dias você estará boa.’ Aí ele me passou a receita de uma garrafada, que eu anotei em um
pedaço de papelão. As plantas só tinha na Serra do Araripe e meu pai foi caçar. A garrafada tinha de ficar sete dias enterrada num buraco feito de
frente para onde o sol nasce. Com três dias, eu já estava caminhando.

Há alguns anos, Socorro virou evangélica. Mas eu disse a eles que tinha algumas condições,
que as minhas origens com D’us ninguém empatava. Não quero nem conversa! Porque eu
tenho um trato com João Batista. O pastor concordou.

Minha história não é a que o povo sabe. Minha história é sofredora. Eu nasci embolada de
sarampo. Quando tinha dois anos, o pai se juntou a uma menina de 13 anos e largou a minha

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Mato Grosso. Chegou lá, minha mãe morreu, depois morreu minha avó. Minha irmã ficou
com minha tia. Elas ficaram pra lá, eu fiquei pra cá.

A mulher do meu pai judiava muito de mim, diz Socorro. Minha outra avó veio me buscar.
Morei com ela dois anos, mas ela morreu também. Tudo que me pertencia morria. Voltei
para o sofrimento de novo. Aí eu pensei: quer saber de uma coisa, D’us é grande e o mundo
é largo. Eu não tô amarrada aqui. Casei e fui-me embora. Tive quatro filhos - três homens e
uma mulher.

Como você escolhe as raízes?

É intuição que vem da minha cabeça. Quando chego na mata eu converso com as plantas.
Olho pra elas, aliso e digo olha, eu tenho tanta dó, mas eu vou pedir a vocês uma casca, uma
plantinha só. Eu não estou enricando, não tenho ganância por nada. Eu só quero que uma
pessoa fique boa, tem uma pessoa sofrendo tanto, uma doença comprida. Eu posso tirar uma
(Foto: José Medeiros) casca? Eu sei que você não é minha, não lhe plantei. Eu prometo que não lhe mato.

As rezadeiras
Uma espada branca de madeira é o principal instrumento da rezadeira no congá. Ela coloca a espada de São Jorge e Santa Bárbara na testa da pessoa.
Sempre eu tive visão das coisas, só que eu não entendia o porquê dessa sabedoria que D’us estava me dando. Eu peço ajuda aos guias da mata.Às
terças e quartas-feiras, é dia de reza na casa de Maria Anunciação Barros, a Dona Neta, de 61 anos, na rua Eufrazio de Alencar, no centro de Exu. No
congá (altar) de Neta há imagens de São Jerônimo, do Doutor Tarcio, um médico da cidade que morreu nos anos 70, e da Santa Joana d’Arc, santa
padroeira da França e uma das chefes militares da Guerra dos Cem Anos.

Eu não incorporo, eu rezo e peço iluminação. Os guias encostam em mim e me dão poder. Isso aqui é um sofrimento. Não tenho o direito de fazer o
que a gente deveria fazer da vida. Tenho de ser toda certinha, não posso mentir, não posso arrumar uma paquera. Pra receber os poderes dos guias da
mata, não posso pecar, tenho de ser como uma criança de 10 anos.

No topo da Serra do Arapuá, no município de Carnaubeira da Penha, Pernambuco, a mestre


Joaquina, de 97 anos, canta suas toantes, uma das tradições do povo Pankará. Ela já perdeu
a conta de quantas crianças nasceram em seus braços (dizem que cerca de 800), inclusive
netos e tataranetos.

Eu não sou mestre, eu não sou nada. Sou um viajeiro errante nessa estrada, canta Joaquina,
que é a mais idosa detentora dos saberes ancestrais da tradição Pankará. Parteira, rezadeira,
benzedeira e raizeira, ela atribui seus feitos aos “encantadores da natureza”. Reverenciada
pelos quase 4 mil indígenas que vivem naquela serra, ela é conhecida como a “mãe de
todos”. Joaquina durante muitos anos foi tachada de feiticeira e macumbeira pelos brancos e
obrigada a praticar seus rituais às escondidas. Hoje, muitos vão à serra procurar ajuda da
curandeira indígena.

*Colaborou Alvaro Severo, de Serra Talhada (PE)

A HISTÓRIA DA
SAMARICA

Os médicos nordestinos são os


primeiros a reconhecer a
importância das parteiras para o
(Foto: José Medeiros) Sertão. O obstetra Zé Dantas,
parceiro de Luiz Gonzaga, dedicou
às comadres uma de suas mais
(Foto: Acervo Rio Gráfica Editora)
lindas e longas canções. A versão
completa de “Samarica parteira”,
com dez minutos de duração, foi gravada em 1973 por Luiz Gonzaga, o peão Lula.

Capitão Barbino, apavorado com a dô de menino de sua mulher, Juvita, manda seu peão Lula montar na bestinha melada e riscar ligeiro para buscar a
parteira. Quando ele já ia riscando, Barbino ainda ameaça: olha, Lula, vou cuspi no chão, hein! Tu tem que vortá antes do cuspe secá!

E lá se vai Lula atrás de Samarica, abrindo cancelas, atravessando lagoas, sapecando a pobre égua, na maior carreira, até chegar à casa da parteira.
Samarica, é Lula... Capitão Barbino mandou vê a senhora que Dona Juvita tá com dô de menino.

E risca de volta, com a parteira, à fazenda. Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic nheeeiim... pá! Piriri tic tic piriri tic tic bluu oi oi bluu oi, uu, uu.
Patateco teco teco, patateco teco teco, patateco teco teco.

Samarica chegou, ele grita para o Capitão. Samarica sartou do cavalo véi, cumprimentou o Capitão, entrou prá camarinha, vestiu o vestido verde e

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instante. Capitão Barbino, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote. Mastigue o fumo, D. Juvita. Aguenta nas oração, muié.

Ai, Samarica, chora Juvita. Se eu soubesse que era assim, eu num tinha casado com o diabo desse véi macho.

Pois é assim merm’ minha fi’a, vosmecê casou com o vein’ pensando que ele num era de nada? Agora cumpra seu dever, minha fi’a. Desde que o
mundo é mundo que a muié tem que passar por esse pedacinho.

Nasceu, é menino (choro de criança). E é macho! Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele! E essa voz! Capitão Barbino foi
lá detrás da porta, pegou o bacamarte que tava guardado há mais de oito dia, chegou no terreiro, destambocou no oco do mundo, deu um tiro tão
danado que lascou o cano. Lascou, Capitão? Lascou, Samarica. É, mas em redor de 7 légua não tem fi’ duma égua que num tenha escutado. Prepare
aí a meladinha, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino... é Bastião.

*Matéria publicada originalmente na edição de março de 2019 da Globo Rural

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