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CURSO mediadores FORMAÇÃO

de leitura
DE Jovens Os E A LEITURA Kelsen Bravos

6 G
ratuito!
Gente Jovem (lendo) Reunida Olá, Mediadores e Mediadoras da
Leitura, Neste módulo trataremos sobre como fa- zer mediação da leitura para jovens. É
importante refletir sobre quem são e qual a importância da leitura literária para esse público, qual o
contexto em que estão in- seridos, onde e como vivem, o que gostam de ler e que desafios devem
ser superados para se fazer uma consequente mediação de leitura para a juventude.
A partir desses questionamentos, per- correremos temas como as dimensões da leitura literária,
práticas e mediações pos- síveis de leitura. Como prática reflexiva, va- mos compartir a leitura da
canção “Como Nossos Pais”, do compositor Belchior (1946- 2017), pois tem tudo a ver com o tema:
Os Jovens e a Leitura.
Se quiser participar dessa aula-canção, se é daqueles jovens para sempre, se acre- dita no poder de
transformação da leitura, por que ainda não está inscrito nesse curso? Ah, claro que você está... Pois
fique atento ao nosso bate-papo e em todas as surpre- sas que nós preparamos para você em nos-
sa sala de aula virtual (AVA). Acesse:

ava.fdr.org.br

82 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE

1. O PRINCIPAL RECURSO DA

MEDIAÇÃO DA LEITURA: O SER HUMANO!


Ela é expressão cultural responsável pela
constituição de acervos, que proporcionou
A palavra é, e continuará sendo, o mais todos os avanços tecnológicos, hoje tão
importante meio de comunicação. presente na vida dos jovens e de todos nós. É
de todas as invenções humanas o chip pessoas com quem interage. Isso vai fazer
original. É também a que melhor traduz o ser com que se perceba um ser único, mas de
humano em suas características sociais e possibilidades múltiplas e, importante, um
históricas. Sociais, porque depende da protagonista da própria história.
relação com outras palavras. Históricas,
porque transcende no tempo: tem passado,
presente e futuro.
CURSO FORMAÇÃO DE
No ato de ler, quanto mais analisarmos esses
aspectos históricos e sociais de um texto, mais mediadores de leitura 83
eficaz será a sua leitura. As pa- lavras são
dotadas de humanidade, e os humanos são
seres dotados de palavras. O ato da leitura é
uma grande viagem hu- manista. Somos seres
complexos: vivemos em um contexto presente

2.
que dialoga com o contexto passado e flerta
com o contexto futuro. Vivemos diversos
papéis sociais. Na leitura, podemos assumir
diversos papéis, a partir de pontos de vista
AS
distintos: o do leitor – e aqui eu proponho
seguir o “eu-lí- rico”; o do autor; o do
personagem. Além disso, posso também
abordar o texto na perspectiva do contexto
DIMENSÕES
histórico, ou seja, o momento da publicação
do texto em com- paração com o do momento
POÉTICA E
da leitura. FICCIONAL DA
Ora, se é a palavra que predomina, e sendo
ela a invenção mais utilizada por todo ser LITERATURA O mediador ou a
humano em todo lugar do mundo, não há
mediadora da leitura deve a os poucos
alternativa senão buscar no próprio ser esclarecer e demonstrar que, ao se ler,
humano o recurso para a mediação da
também se cria uma história, am- plia-se o
leitura, notadamente, do texto literário, pois acervo individual de experiências que
ele é, ao mesmo tempo, seu produ- tor e possibilitam ao leitor cada vez mais entender
usuário. a si mesmo, bem como entender aos demais.
A palavra tem todas as características de seu E que as redes de relações são tramas
criador. Elas são “seres” históricos, ou seja, reais da grande narrativa da própria vida
são do- tadas de presente, passado e futuro, da qual, conforme preconiza Larrosa (1996),
e vivem de relações. O maior desafio é, o leitor precisa ser protago- nista. E quanto
portanto, conscientizar o jovem – que mais vivenciar as experiên- cias literárias,
também é um produtor de pa- lavras – de tanto melhor será, pois [...] o sentido de quem
assumir um papel de leitor de palavras. somos está sendo cons- truído
Ler as palavras que diz e as pala- vras que narrativamente, em sua construção e em sua
ouve, é compreender a si mesmo e aos transformação terão um papel mui- to
outros. Para isso, devemos sensibilizar o importante as histórias que escutamos e
leitor jovem a perceber sua localização no lemos, assim como o funcionamento des- sas
mundo e sua relação com as pessoas, con- histórias no interior de práticas sociais mais
sigo mesmo e com todos para além das ou menos institucionalizadas (LARRO- SA,
1996, p. 142). gonista do ato de leitura. Essa apreensão
O mediador ou a me- diadora deve estimular da dimensão poética e ficcional do texto
as falas (ou escritas) sobre as histórias literário torna o ato de ler tão significativo,
“vividas” ou “inven- tadas” por consequência que logo vira algo prazeroso e presente no
da lei- tura de textos literários. Essa postura cotidiano do leitor. Experimente!
coloca a leitora ou o leitor como prota-

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As dimensões poética e ficcional nos possibilitam experi- mentar “verdades” que no “mundo real” seriam impossíveis
viver a emoção do outro, de forma atemporal e atópica. É o que explica Cosson (2009): “No exercí- cio da literatura,
outros, podemos vi- ver como os outros, podemos romper os limites do tempo e do espaço de nossa experiência e,
nós mesmos. É por isso que interiorizamos com mais intensidade as verdades dadas pela poe- sia e pela ficção.” A
de mediação damos o nome de Círculos de Leitura, que são excelentes práticas a serem desenvolvidas com os jov
A adoção de círculos de leitura estimula a per- cepção da dimensão estética da literatura, ao favorecer uma relaçã
afetividade com o tex- to literário e o ato de ler, de modo a estabelecer a relação pessoa/mundo, despertada pela p
necessidade humanizadora da arte como expressão do ser, e a consequente ampliação desse processo afetivo, sol
interpretati- vo, criativo, pautado pelo respeito, para cada ação humana no contexto da narrativa EU (PALAVRA/TEX
OUTRO (PALA- VRA/ATO/TEXTO) O MUNDO.
Nesse contexto, podemos dizer que cada pessoa é um livro – um acervo individual, um mundo – e o univer- so uma
biblioteca. Cabe ao mediador ou à mediadora da leitura (que também é um livro/um acervo e tanto!) favorecer o enc
acervos individuais para amplia- ção das experiências literárias de todos. Para tanto, sugerimos aplicar a metod
“Abordagem Complexa de Leitura”, que trabalha, durante o ato de ler, a inter-relação dos múltiplos agentes do sistem
sobre a qual trataremos a seguir. Preparados?

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3. METODOLOGIA DE ANÁLISE DA LEITURA A metodolog


abordagem complexa da leitura pressupõe a existência de múlti- plos agentes, por meio dos quais definimos os vá
vista de análise da lei- tura de um texto. Conforme Franco (2018): “A leitura é concebida como uma atividade comple
dinâmica. A complexidade do sistema de leitura é justificada pela existên- cia de múltiplos agentes (leitor, autor, tex-
social, contexto histórico, con- texto linguístico, conhecimento de mundo, frustrações, expectativas, crenças etc.) que
relacionam durante o ato de ler.” (FRANCO, 2018)
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CURSO FORMAÇÃO DE mediadores de leitura 87
As possibilidades de leitura não se esgo- tam jamais e se tornam cada vez mais com- plexas, pois cada agente do
tura, em contato com cada um dos demais, ganha ineditismo e gera uma reação em ca- deia evolutiva ou involutiva
exemplo, confirmem ou não as expectativas ou fortaleçam ou não as crenças durante o ato de leitura.
Essa complexidade, aliada à abertura do sistema, contribuem para a dinami- cidade do sistema de leitura. Tomemos como
agentes – o lei- tor. Ao interagir com outros elementos do sistema, ele se torna um novo leitor. À medida que o leitor se c
posicionamento em relação ao tex- to pode ser inédito. Da mesma forma, os outros elementos podem se complexifi- car ao inter
Durante o ato de ler, suas expectativas, por exem- plo, podem ser alteradas bem como suas crenças podem ser fortalecidas ou
(FRANCO, 2018, p. 41) Essa inesgotável possibilidade da meto- dologia da abordagem complexa da leitura dá d
compartilhamento de pontos de vista nos círculos de leitura e tor- na a experiência cada vez mais ampla, dive

O mediador ou mediadora da leitura pode dinamizar as práticas de leitura com os jovens a partir do Jogo das Troca
que consiste em propor a mudança de ponto de vista na abordagem da leitura. Por exemplo, do ponto de vista do leit
de vista do autor, ou para o ponto de vista do contexto histórico, ou o ponto de vista do narrador e assim por diante.

4.
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NOSSOS PAIS: EM UMA PRÁTICA REFLEXIVA DE CÍRCU


LEITURA Ao levar à percepção de que somos todos “livros em construção e de interpretação inesgotável”,
demonstrado como “superar” a resistência à leitura de textos/ livros em plena era digital. Assim sendo, passemos à p
reflexiva. Para tanto, va- mos compartir a leitura da canção “Como nossos pais” (BELCHIOR, 1976, faixa 3), do com
Belchior, como prática de me- diação da leitura.

PARA DO TEXTO ALÉM Antônio Carlos Belchior é um canto

brasileiro. Nasceu em Sobral, Ceará, em 1946, e foi um dos primeiros cantores de MPB do Nordeste a fazer suces
música “Como nossos pais”, de sua autoria, fez bastante sucesso na voz de Elis Regina. Belchior faleceu no dia 3
2017.
bem acessível na internet. Vamos lá sempre
com foco no jeito de ser jovem, confiram a
letra, ouçam a canção:
Não quero lhe falar, meu grande amor, das
coisas que aprendi nos discos Quero lhe contar
como eu vivi e tudo que aconteceu comigo Viver é
melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma
coisa boa Mas também sei que qualquer canto é
menor do que a vida de qualquer pessoa Por
isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
que somos jovens Para poder abraçar meu
irmão e beijar minha menina na rua É que se fez
o meu lábio, o meu braço e a minha voz
(BELCHIOR, 1976, faixa 3, grifo nosso)

Em primeiro lugar, devemos estar cien- tes de Percebam que o eu-lírico da canção fala a
que assim como toda leitura pres- supõe um uma pessoa jovem e, embora mais vivida, se
“contrato” – implícito – entre autor e leitor, toda identifica também como jovem: “...nós que
mediação de leitura requer um acerto, uma somos jovens”. Como todo jovem, prefere a
combinação entre a pessoa que media e as prática à idealização da realidade: “viver é
que partici- pam da mediação. Daí, antes de melhor que sonhar”. Essa importância à vida
começar a leitura, vamos combinar que experimentada é a mesma “experiência com
estamos a ler e a dialogar em um círculo de as coisas reais” que encontramos em outra
leitura (e, de fato, estamos em um enorme canção de Belchior, Alucinação, que diz:
círcu- lo de leitura virtual, não é?). O “Minha alucinação é suportar o dia a dia, e o
diálogo pressupõe ouvir de forma integral a meu delírio é a experiência com coisas reais.”
fala alheia e da mesma forma ser ouvido
pelas demais pessoas envolvidas. Após essa DICA: A leitura literária é uma experiência
prá- tica, cada um tira as suas conclusões e, real.
se quiser, as expõe, até que, se for o caso, se
chegue a uma decisão coletiva. O eu-lírico tem a consciência de que “o amor
Antes, porém, de começar a leitura, va- mos é uma coisa boa”, por exemplo: amar as
considerar que o eu-lírico do texto – essa “coisas que aprendeu nos discos” é bom, mas
voz que fala/canta em primeira pes- soa – seja ele também está certo de que “qualquer canto”
o alter ego (um tipo de segun- do eu de mim (no caso o substantivo derivado do verbo
mesmo) da tua, da minha, da nossa juventude. cantar: ato de cantar; e também canto,
Ou seja, cada um vai considerar como sua substantivo que designa lugar, quina, esquina)
a voz que fala na canção. Combinado? “é menor do que a vida de qualquer pessoa”.
Então, para começar nosso diálogo, vou Essa importância dada ao outro é uma
colocar meu ponto de vista sobre o que é ser característica do jovem, pois lhe é
jovem, a partir de algumas passagens da fundamental estar em relação com o ou- tro,
canção “Como nossos pais”. E cada um pode precisar da presença do outro. Jovens são,
também fazê-lo, por exemplo, nos co- por excelência, pessoas gregárias. Gostam de
mentários, no Grupo de Facebook, no chat do estar incluídos, unirem-se em turmas ou
nosso curso. Fiquem à vontade. Sugiro, “tribos”.
naturalmente, que escutem a música. Ela é
DICA: Crie clubes de leitura. Ações coletivas manifestação estavam cassados. Um
com jovens são sempre bem-vindas. exemplo da essência ideológica, “romântica”
dos jovens é a contestação social.
As esquinas simbolizam bem uma realidade
da juventude. Escolher uma, entre várias DICA: Aproveite o mote e converse sobre a
possibilidades de caminho, cheias de realidade em que o jo- vem está inserido. Isso
incertezas, “perigos” e oposi- ções. “Por isso em comunidades em situação de vulnerabi-
cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles lidade social tem um retorno excelente.
venceram e o sinal está fechado para nós que
somos jovens”. Você me pergunta pela minha paixão Digo que
estou encantado com uma nova invenção Eu
vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
DICA: Aproveite o mote, num círculo de
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova
leituras, levante os anseios dos jovens.
estação Eu sei de tudo na ferida viva do meu
coração (BELCHIOR, 1976, faixa 3, grifo nosso)

CURSO FORMAÇÃO DE
Estar “encantado com uma nova invenção”, a
mediadores de leitura 89 busca/descoberta do novo é sempre um
anseio da juventude. Na canção, o eu-lírico
talvez se referisse ao encanto com a recém-
chegada televisão co- lorida ao Brasil. Se
fosse nos dias atuais, a internet seria (e é!) a
tal novidade e deve ser considerada.

DICA: Aproveite o mote: converse sobre as


formas de leitura na In- ternet e redes sociais.

Nos versos finais, o eu-lírico (“encantado com


a nova inven- ção”) expressa em sinestesias
(sinto vir vindo no vento o cheiro
de uma nova estação) a esperança – típica do
idealismo juvenil! – da mudança. Mas também
afirma a desilusão de saber de tudo “na ferida
viva no coração”.

Tudo: os ídolos são os mesmos, nenhuma


Uma coisa importante para entender e mudança, a não ser na aparência, porém a
compreender os anseios de jovens é analisar pior dor na parede da memória é a “traição” de
o seu contexto histórico. Na canção, a oposi- quem lhe deu ideia de “uma nova consciência
ção entre “eles” e “jovens” registra o contexto e juventude”, pois naquele aqui e agora da
histórico do autor: à época Belchior tinha 30 canção, o ainda jovem que lhe deu a tal ideia,
anos e o país vivia o estado de exceção. “está em casa guardado por Deus a contar os
Cenário contra o qual, o eu-lírico se insurge seus metais”. Decerto uma atitude contra a
com a atitude solidária de “abraçar” e “beijar”, que se insurgiu, tal qual contra tudo o que
e é contestatória porque sua manifestação é lutou.
pública, é na rua e, à época, os direitos à
Minha dor é perceber que apesar de termos feito ainda vivem como os seus pais.
tudo, tudo que fizemos Ainda somos os mesmos e A essência da juventude é contestatória,
vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos
quer “impor” uma nova consciência e
Ainda somos os mesmos e vivemos / Como
juventude, mas, segundo a canção de
nossos pais.
Belchior, só mudam as aparências. Aqui vale
refletir sobre tal permanência do modo de
Constatamos nesses versos finais, o
viver. Houve, de fato, ruptura? Faltou diálogo?
predomínio da emoção envolta no labirinto
Trazen- do a conversa para a sala da
da memória a misturar certezas e decepções
literatura, cabe perguntar: qual o risco de não
experimentadas em tudo que viveu. E depois
haver diálogo intergeracional mediado pela
desse momento “si- nestésico”, com lucidez
literatura? O ris- co de repetir as coisas, a
constata e declara que a pior dor é per- ceber
ponto de, apesar das tentativas de mudan- ça,
que apesar de tudo que foi feito, sua geração
ainda ser igual à geração do passado? Ou o
só mudou, de fato, nas aparências, mas elas
problema consiste em nunca ter mesmo
não o enganam, pois seus repre- sentantes
havido uma proposta de verdadeira mudança?

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5. O CONTEXTO DOS JOVENS: AS ESCOLAS, AS


“NÁRNIAS” E OS ESPAÇOS PÚBLICOS Depois desse passeio nas líricas de
nos possibilitou pensar um pouco sobre a juventude, vamos nos debruçar sobre o contex- to da “vida real”, para bus
o que favorece e quais as dificuldades a serem supe- radas na mediação da leitura para jovens.
Comecemos por identificar os espaços de convivência dos jovens, a serem ocupados por atividades literárias: esc
(quin- tais, jardins, livrarias), espaços e equipamen- tos públicos (centros culturais, bibliotecas, praças etc.).
Os jovens estão, em sua maioria, na cha- mada idade escolar e, muitos, por questões históricas, vêm de famílias n
seja, não testemunham o ato de ler no seu contexto social mais importante. Daí, para a maioria seja talvez a escola o
social de aces- so a bens culturais com expressão de arte, tais como a Literatura.
Assim, cabe à escola, e mais precisamente aos professores, proporcionar às crianças, aos adolescentes e aos joven
leitura por meio de círculos de leitura. Primeiro, deve ler para alunos e alunas e, paulatinamente, conduzi-los(las) à lei
Esse ato deve ter como objetivo principal a ampliação de repertórios de leitura dos mais diversos textos em suas
formas e mí- dias, para formar, enfim, leitor(a) letrado(a).

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e na escritura do texto literário encontramos o
senso de nós mesmos e da comunidade a que
pertencemos. A literatura nos diz o que somos
e nos incentiva a desejar e a expres- sar o
mundo por nós mesmos. E isso se dá porque
a literatura é uma experiência a ser realizada.
É mais que um conhecimento a ser
reelaborado, ela é a incorporação do ou- tro
em mim sem a renúncia da minha pró- pria
identidade.”(COSSON, 2009, p.17)

PARA ALÉM

DO TEXTO
Os jovens representam 55% da população
em situação de prisão no Brasil, somados os
Mas o que seria esse tal leitor letrado? internos em centros socioeducativos para
Crítico, criativo e pensante, o(a) leitor(a) le- menores infratores (até 17 anos) e os
trado(a) tem competência de interpretar os internos em unidades prisionais (cuja maioria
mais diversos textos, compreende da notícia tem de 18 a 29 anos). São pessoas em idade
ao editorial; sabe orientar-se por meio de escolar e precisam de ações mediadoras de
mapas, entende os textos legais, os rótulos de leitura, tais como círculos de leitura.
produtos industrializados, as bulas de re- Sim, a literatura, pela “experiência real” que
médios, as prescrições médicas, as estatísti- proporciona, constitui um bom cami- nho para
cas; planeja e faz pesquisas em bibliotecas, formação de pessoas e, por isso, não só na
hemerotecas e na internet, e, além desse escola deve-se fomentar práti- cas de leitura
domínio da leitura dos textos pragmáticos, literária, pois é uma ação de humanização que
amplia, aprofunda, dá mais densidade à se constitui como “[...] processo que confirma
própria existência pela apreensão da di- no homem aqueles traços que reputamos
mensão estética de textos literários. essenciais, como o exercício da reflexão, a
O letramento para leitura e escrita, a par- tir de aquisição do saber, a boa disposição para
textos literários, possibilita à pessoa com o próximo, o afinamento das emoções, a
estabelecer, de forma reflexiva, contato con- capacidade de penetrar nos problemas da
sigo mesma e com o mundo em que se inse- vida, o senso da beleza, a percepção da
re, pois, conforme Cosson (2009): “Na leitura complexidade do mundo e dos seres, cultivo
do humor.” (CANDIDO, 20-04, p. 180). Sim, a literatura, pela “experiência real” que
Sim, a literatura, pela “experiência real” que proporciona, constitui um bom cami- nho para
proporciona, constitui um bom cami- nho para formação de pessoas e, por isso, não só na
formação de pessoas e, por isso, não só na escola deve-se fomentar práti- cas de leitura
escola deve-se fomentar práti- cas de leitura literária, pois é uma ação de humanização que
literária, pois é uma ação de humanização que se constitui como “[...] processo que confirma
se constitui como “[...] processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos
no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a
essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para
aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a
com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da
capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da
vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, cultivo
complexidade do mundo e dos seres, cultivo do humor.” (CANDIDO, 20-04, p. 180).
do humor.” (CANDIDO, 20-04, p. 180). Entender a si mesma leva a pessoa a adotar
Sim, a literatura, pela “experiência real” que atitudes necessárias e coerentes de rebeldia
proporciona, constitui um bom cami- nho para positiva a fim de mudar para melhor a si
formação de pessoas e, por isso, não só na mesma e modificar o status quo, pois a arte
escola deve-se fomentar práti- cas de leitura literária favorece o diá- logo da sensibilidade
literária, pois é uma ação de humanização que com as coisas do mundo, ela é o fio condutor
se constitui como “[...] processo que confirma da emanci- pação cidadã necessária.
no homem aqueles traços que reputamos Entender a si mesma leva a pessoa a adotar
essenciais, como o exercício da reflexão, a atitudes necessárias e coerentes de rebeldia
aquisição do saber, a boa disposição para positiva a fim de mudar para melhor a si
com o próximo, o afinamento das emoções, a mesma e modificar o status quo, pois a arte
capacidade de penetrar nos problemas da literária favorece o diá- logo da sensibilidade
vida, o senso da beleza, a percepção da com as coisas do mundo, ela é o fio condutor
complexidade do mundo e dos seres, cultivo da emanci- pação cidadã necessária.
do humor.” (CANDIDO, 20-04, p. 180).

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6. Os espaços de convivência literária fora da escola
uma experiência real Para além da escola, existem várias ambiên- cias mais ou menos associad
livrarias, cinemas, teatros e espaços even- tuais que reúnem cosplays, fãs de mangás e animes, HQs, youtubers, po
casts, geeks, nerds... enfim toda sorte de expressão ligada ao universo jovem, infe- lizmente ainda ao alcance apena
minoria. Mas porque ninguém sobrevive sem arte, outros jovens se agregaram e defi- niram uma topografia poética
praças, em bares, pátios, quadras esporti- vas, quintais, jardins, parques, em bibliote- cas comunitárias, públicas, ca
outros, onde se reúnem e expressam sua arte. Eles também se encontram na “sede” dos espaços particulares a que
“nárnias” (em referência ao livro/filme As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, sucesso absoluto entre os jovens), “on
capturam textos na internet e declamam seus poemas e canções – como pães saídos da fornalha – escritos em folh
telas de celulares ou ditas no calor da hora porque já sabem de cor o correr do texto. Com as cordas da memória e d
(PIÚBA, 2018)

CURSO FORMAÇÃO DE mediadores de leitura 93

As nárnias se estabelecem não só por reserva de um ou de outro grupo, de modo algum, a moçada prefere mesmo s
paço público, bem aberto, dos bairros periféricos e ocupá-los com ações literárias e afins, sobretudo saraus. A
entretanto, os impele aos encontros em espaços fechados, pois vivem, em
sua maioria, em zonas de conflito.
Em todo o Brasil, o território da juventude está em disputa por for- ças que se digladiam. De um lado o aparelh
Estado e do outro as facções do crime orga- nizado – em guerra entre si e contra o Estado –, no meio a juventud
paz, ameaçada por todos os lados. Como prioridade política, no Ceará, por iniciativa das gestões públicas estadua
vem- -se construindo em diálogo com os Coletivos de Juventude, Arte e Cultura alternativas viáveis p
Nas periferias da Grande Forta- leza tem-se desenvolvido ações e disponibilizado espaços (praças, bibliotecas, C
de Cultura, Arte, Ciências e Esporte/Cucas) na intenção de acolher as manifes- tações poéticas dos coletivos de
têm tentado “[...] transformar suas realidades en- tre o medo da morte e a espe- rança da vida, acreditando na força
das artes como se elas fossem coletes à prova de balas. São frágeis e vul- neráveis ao tempo que fortes e vi
paradoxo desconcertante e uma potência encantadora. Jovens que acreditam na arte porque, de alguma forma, e
vidas e maneiras de ver, ser e estar no mundo.”
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Entre as atividades dos encontros, talvez os saraus sejam a mais eloquente expres- são dessa topografia poética
culos fechados como nos espaços públicos. A expressão colorida do grafite compõe a cena na qual a juventude can
slams e declama poemas autorais que espelham a realidade internalizada em seu espírito e que está no entorno de
juvenis.
SLAMS Expressão poética que vem do rap, “slam poetry”, em inglês, são versos feitos para serem declamados e ouvidos pela
próprios autores são quem os lê ou quem interpreta as palavras advindas de própria essência apresentando-as ao público pre
como há no CORDEL os desafios ou pelejas, no SLAM também encontramos as batalhas de rimas.

REFERÊNCIAS BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei Federal no 8069, de 13 de julho de 19


A. C. G. F. F. Como nossos pais. In: BELCHIOR, A. C. G. F. F. Alucinação. Polygram / Philips, 1976. Faixa 3 CANDIDO, An
Literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul / São Paulo: Duas Cidades, 2004.
Círculos de Leitura e Letramento Literário. São Paulo: Contexto, 2014. ________. Letramento literário: teoria e pr
Contexto, 2006. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2000. F
de Paiva. Por uma abordagem com- plexa de leitura. In: TAVARES, K.; BECHER, S.; FRANCO, C. (Orgs.). Ensino de Leitura
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<http://www.claudiofranco.com.br/textos/ franco_ebook_leitura.pdf> Acesso em: 16 nov. 2018. DESA


PAULINO, G.; COSSON, R. Letramento literário: para viver a literatura dentro e fora da escola. PIÚBA, Fabiano dos Santos. Car
fazem Coletivos de Juventude e Arte da Cidade. In Evoé! - Literatura,
Em respeito à índole juvenil, quem quiser propor leitura para jovens tem de ouvi-los bem. Escute o que têm a dize
para
Livro, Leitura, Bibliotecas e Cultura Digital, 2017. Disponível em: https://kelsenbravos.blogspot. com/2017/02/carta-ao
coletivos-de.html acesso em 16 nov. de 2018.
definir o conteúdo do repertório
REBOUÇAS, Carolina. Não é o fim. 2016. Disponível em de textos. Se não houver tempo,
https://www.youtube.com/watch?v=L-GtMApogRM, escolha temas universais,
acesso em 22 dez. de 2018 como: amor, erotismo, liberdade,
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêne- contestação e afirmação social,
ros. 2. ed. 11. Reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. existencialismo, terror, ficção científica. Pesquise: há excelentes p
para jovens.
UNICEF. O direito de ser adolescente: oportunidade para reduzir vulnerabilidades e superar desigualda- des. Fundação da
para a Infância. Brasí- lia/ DF: UNICEF, 2011.

CURSO FORMAÇÃO DE mediadores de leitura 95


Kelsen Bravos (Autor) Kelsen Bravos é escritor, professor, editor, consultor (na área do Livro, Leitura, Literatura
Digital) e pesquisador membro do Grupo de Pesquisa: Literatura, Estudo, Ensino e (Re)Leitura do Mundo (GPLEER)
em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), atuou como consultor para Literatura e Formação de Leitore
Programa Agentes de Leitura da Secult/CE, consultor para Literatura e Formação do Programa Alfabetização na Ida
- Seduc/CE), coordenador da Formação de Mediadores para Clubes de Leitura do Paic, concepção, organização e c
da Coleção Paic – Prosa e Poesia. No Instituto Pão de Açúcar de Desenvolvimento Humano (IPADH), coordenou e t
programa Nossa Língua Digit@l/Comunicação, Expressão e Internet, voltado para crianças e adolescentes de 13 a 1
ganhador do Prêmio Telemar de Inclusão Digital. Como escritor, tem publicados onze títulos, todos direcionados à in
editor do blog literário “Evoé!: Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital e Bibliotecas”.

Rafael Limaverde (ilustrador) É ilustrador, chargista e cartunista (premiado internacionalmente) e xilogravurista.


Artes Visuais pelo Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia do Ceará (IFCE). Escreve e possui livros ilu
principais editoras do Ceará e em editoras paulistas.

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Este fascículo é parte integrante do Programa Fortaleza Criativa, em decorrência do Termo de Fomento celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha e a Secre
Cultura de Fortaleza, sob o no 05/2018.

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EXPEDIENTE: FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR) João
Dummar Neto Presidente André Avelino de Azevedo Diretor
Administrativo-Financeiro Raymundo Netto Gestor de Projetos
Emanuela Fernandes Analista de Projetos Tainá Aquino
Estagiária UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE Viviane
Pereira Gerente Pedagógica Luciola Vitorino Analista
Pedagógica CURSO FORMAÇÃO DE MEDIADORES DE
LEITURA Raymundo Netto Coordenador Geral e Editorial Lidia
Eugenia Cavalcante Coordenadora de Conteúdo Emanuela
Fernandes Assistente Editorial Amaurício Cortez Editor de
Design e Projeto Gráfico Marisa Marques de Melo Diagramadora
Rafael Limaverde Ilustrador
ISBN: 978-85-7529-893-0 (Coleção) ISBN: 978-85-7529-899-2 (Fascículo 6)