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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Caldeia
Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

POR

ZÉNAÏDE A. RAGOZIN

Tradução por Hellen Guareschi

MEMBRO DA "SOCIÉTÉ ETHNOLOGIQUE" DE PARIS; DA "AMERICAN


ORIENTAL SOCIETY"; MEMBRO CORRESPONDENTE DA "ATHÉNÉE
ORIENTAL" DE PARIS; AUTOR DE "ASSYRIA," "MEDIA," ETC.

"Ele (Carlyle) diz que isso é parte de seu credo de que a história é poesia, poderíamos
dizer isso, certo?" — Emerson.

QUARTA EDIÇÃO

London

T. FISHER UNWIN

PATERNOSTER SQUARE

NEW YORK: G. P. PUTNAM'S SONS

MDCCCXCIII

PARA OS MEMBROS DA CLASSE,

EM AMÁVEL MEMÓRIA DOS MUITOS MOMENTOS FELZES, ESTE VOLUME


E OS SEGUINTES SÃO CARINHOSAMENTE REGISTRADOS POR SEU AMIGO.

O autor.

Idlewild Plantation,

San Antonio.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

CONTEÚDO.

INTRODUÇÃO.

I.

Mesopotâmia.— Os Montes. – Os primeiros pesquisadores 13-18

§ 1. A total destruição de Nínive— 2-4. Xenofonte e a “Retirada dos Dez Mil”. Os gregos atravessaram as
ruínas de Calá e Nínive, e não as conheciam.—§ 5. A passagem de Alexandre pela Mesopotâmia.—§ 6. A
invasão árabe e seu governo.—§ 7. O governo turco e sua ingerência.—§ 8. As condições naturais
peculiares da Mesopotâmia. —§ 9. O verdadeiro estado desolado do país.—§ 10. As planícies cravejadas
pelos Montes. Seus aspectos curiosos.—§ 11.Fragmentos de trabalhos de arte entre os destroços.—§ 12.
Indiferença e superstição dos turcos e árabes.—§ 13. A exclusiva absorção dos acadêmicos europeus na
Antiguidade Clássica.—§ 14. Aspectos desagradáveis dos Montes, comparados a outras ruínas.—§ 15.
Rich, o primeiro explorador.—§ 16. O trabalho de Botta e falta de sucesso.—§ 17. A grande descoberta
de Botta.—§ 18. A grande sensação criada por ela.—§ 19. A primeira expedição de Layard.

II.

Layard e seu trabalho 19 - 26

§ 1. A chegada de Layard a Ninrode. Seu entusiamo e sonhos.—§ 2. O começo das dificuldades. O


monstruoso paxá de Mossul.—§ 3. Oposição do paxá. Sua maldade e astúcia.—§ 4. Descoberta da cabeça
gigante. Medo dos árabes, que declararam ser de Ninrode.—§ 5. Estranhas ideias dos árabes em relação
às esculturas.—§ 6. A vida de Layard no deserto.—§ 7. O terrível calor do verão.—§ 8. As tempestades
de areia e os furacões quentes.—§ 9. A habitação miserável de Layard.—§ 10. Mal sucedidas tentativas
de melhoria.—§ 11. No que consiste a tarefa do explorador.—§ 12. Diferentes maneiras de levar o
trabalho da escavação.

III.

As ruínas 27 - 62

§ 1. Toda cultura e arte de um país determinados pelas suas condições geográficas.—§ 2. Absoluta
deficiência da Caldéia em madeira e pedra.—§ 3. Grande abundância de lama serve para fabricação de
tijolos; por isso a arquitetura peculiar da Mesopotâmia. Ruínas antigas ainda usadas como pedreiras de
tijolos para construção. Comércio de tijolos antigos em Hillah.—§ 4. Vários cimentos usados.—§ 5.
Construção de plataformas artificiais.—§ 6. Ruínas dos Zigurates; forma peculiar, e os usos desse tipo de
construção.—§ 7. Figuras mostrando a imensa quantidade de mão de obra usada nestas construções.—§
8. Arquitetura caldéia adotada inalterada pelos assírios.—§ 9. Pedra usada para ornamentar e revestir as
paredes. Transporte de água nos tempos antigos e modernos.—§ 10. Aspecto imponente dos palácios.—§
11. Restauração do palácio de Senaqueribe por Fergusson.—§ 12. Pavimentos dos salões do palácio.—§
13. Portões e lajes esculpidas pelas paredes. Frisos em azulejos pintados.—§ 14. Proporções dos salões do
palácio e tetos.—§ 15. Iluminação dos salões.—§ 16. Causas da paixão dos reis por construção.—§ 17.
Drenagem de palácios e plataformas.—§ 18. Modos de destruição.—§ 19. Os Montes, uma proteção para
as ruínas que eles contêm. Re-enchendo as escavações.—§ 20. Falta de tumbas antigas na Assíria.—§ 21.

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Abundância e vastidão de cemitérios na Caldéia.—§ 22. Warka (Ereque), a grande Necrópole. A


descrição de Loftus.—§ 23. "Caixões-jarro."—§ 24. Caixões com "tampa de prato".—§25. Abóbadas
sepulcrais.—§ 26. Caixões em "forma de chinelo".—§ 27. Drenagem dos montes sepulcrais.—§ 28.
Decoração de paredes em cones de argila pintados.—§ 29. As descobertas de De Sarzec em Tell-Loh.

IV.

O Livro do Passado. – A biblioteca de Nínive. 63 - 74

§ 1. Objetivo de se fazer livros.—§ 2. Livros nem sempre de papel.—§ 3. Desejo universal por um nome
imortal.—§ 4. Insuficiência de registros em vários materiais escritos. Desejo universal de conhecer o
passado remoto.—§ 5. Registros monumentais.—§ 6. Ruínas de palácios e templos, tumbas e cavernas —
o Livro do Passado.—§§ 7-8. Descoberta de Layard da Biblioteca Real de Nínive.—§ 9. O trabalho de
George Smith no Museu Britânico.—§ 10. Suas expedições a Nínive, seu sucesso e morte.—§ 11. Valor
da Biblioteca.—§§ 12-13. Volumes da Biblioteca.—§ 14. As Tábuas.—§ 15. Os cilindros e tábuas do
princípio.

CALDÉIA.

I.

Nômades e colonos. —Os quatro estágios da cultura. 75 - 78

§ 1. Nômades.—§ 2. Primeiras migrações.—§ 3. Vida pastoril — o segundo estágio.—§ 4. Vida agrícola;


começo do Estado.—§ 5. Construção de cidades; realeza.—§ 6. Sucessivas migrações e suas causas. —§
7. Formação de nações.

II.

As grandes raças. – capítulo X do Gênesis. 79 - 84

§ 1. Sinar.—§ 2. Berosus.—§ 3. Quem eram os colonos em Sinar?—§ 4. O dilúvio provavelmente não


universal.—§§ 5-6. O povo abençoado e o amaldiçoado, de acordo com o Gênesis.—§ 7. Forma
genealógica do Cap. X do Gênesis.—§ 8. Epônimos.—§ 9. Omissão de algumas raças brancas do Cap.
X.—§ 10. Omissão da Raça Negra.—§ 11. Omissão da Raça Amarela. Características dos turanianos.—§
12. Os chineses.—§ 13. Quem eram os turanianos? O que aconteceu aos cainitas?—§ 14. Possível
identidade de ambos.—§ 15. Os colonos em Sinar—Turanianos.

III.

Caldéia Turaniana – Suméria e Acádia.— As origens da religião 85 - 102

§ 1. Suméria e Acádia.—§ 2. Linguagem e nome.—§ 3. Migrações e tradições.—§ 4. Coleção de textos


sagrados.—§ 5. "Religiosidade"— uma característica distintamente humana. Seus primeiros impulsos e
manifestações.—§ 6. A Coleção Mágica e a obra de Fr. Lenormant.—§ 7. A teoria do mundo dos
sumério-acádios, e seus espíritos elementares.—§ 8. O encanto dos Sete Maskim.—§ 9. Os espíritos

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malignos.—§ 10. O Arali.—§ 11. Os magos.—§ 12. Invocações e mágicos.—§ 13. Os espíritos
benevolentes, Êa.—§ 14. Meridug.—§ 15. Um encanto contral um feitiço maligno.—§ 16. Doenças
consideradas espíritos malignos.—§ 17. Talismãs. O Querubim.—§ 18. Mais talismãs.—§ 19. O demônio
do Vento Sudoeste.—§ 20. Os primeiros deuses.—§ 21. Ud, o Sol.—§ 22. Nin dar, o Sol noturno.—§ 23.
Gibil, Fogo.—§ 24. O alvorecer da consciência moral.—§ 25. A consciência do homem divinizada.—§§
26-28. Salmos Penitenciais.—§ 29. Caráter geral das religiões turanianas.

Apêndice ao Capítulo III. 100 - 103

A versão poética do Professor L. Dyer do encantamento contra os Sete Maskim.

IV.

Cuxitas e Semitas— História inicial da Caldéia 103 - 120

§ 1. Oannes.—§ 2. Eram os segundo colonizadores cuxitas ou semitas?—§ 3. A hipótese cuxita.


Migrações iniciais.—§ 4. Os etíopes e egípcios.—§ 5. Os cananeus.—§ 6. Possíveis estações cuxitas nas
ilhotas do Golfo Pérsico.—§ 7. Colonização da Caldéia possivelmente pelos cuxitas.—§ 8. Imprecisão da
cronologia antiga.—§ 9. Datas iniciais.—§ 10. Números exorbitantes de Berosus.—§ 11. A Caldéia
inicial — um berçario de nações.—§ 12. Tribos nômades semíticas.—§ 13. A tribo de Arfaxade.—§ 14.
Ur dos caldeus.—§ 15. Acadêmicos divididos entre teorias cuxitas e semitas.—§ 16. A história começa
com a cultura semítica.—§ 17. Governo sacerdotal. Os patesis.—§§ 18-19. Sharrukin I. (Sargon I) de
Acade.—§§ 20-21. O segundo trabalho literário de Sargon.—§§ 22-23. Folclore caldeu, ditados e
canções.—§ 24. Descoberta da data mais velha de Sargon—3800 a.C.—§ 25. Gudêa de Sir-gulla e Ur-êa
de Ur.—§ 26. Predominância da Suméria. Ur-êa e seu filho Dungi, primeiros reis da "Suméria e
Acádia."—§ 27. Suas inscrições e construções. A invasão elamita.—§ 28. Elam.—§§ 29-31. Khudur-
Lagamar e Abraão.—§ 32. Rigidez do governo elamita.—§ 33. Ascensão da Babilônia.—§ 34.
Hamurabi.—§ 35. Invasão de Kasshi.

V.

A religião babilônia 121 - 131

§ 1. Calendário babilônio.—§ 2. Astronomia conducente ao sentimento religioso.—§ 3. Sabeísmo.—§ 4.


Sacerdócio e astrologia.—§ 5. Transformação da velha religião.—§ 6. Vaga aparição da idéia monoteísta.
Emanações divinas.—§ 7. A Tríade Suprema.—§ 8. A Segunda Tríade.—§ 9. A cinco divindades
planetárias.—§§ 10-11. Dualidade da natureza. Princípios masculinos e femininos. As deusas.—§ 12. Os
doze grandes deuses e seus templos.—§ 13. O templo de Shamash em Sippar e a descoberta de Sr.
Rassam.—§ 14. Sobrevivência das antigas superstições turanianas.—§ 15. Adivinhação, um ramo da
“Ciência” caldeia.—§§ 16-17. Coleção de cem tábuas sobre adivinhação. Espécimes.—§ 18. As três
classes de “sábios”. “Caldeus”, tempos depois, um epíteto para “mágico” e “astrólogo”.—§ 19. Nossa
herança dos caldeus: o relógio de sol, a semana, o calendário, o Sábado.

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VI.

Lendas e histórias 132 - 149

§ 1. As cosmogonias de diferentes nações.—§ 2. A antiguidade dos Livros Sagrados da Babilônia.—§ 3.


A lenda de Oannes, contada por Berosus. Descoberta, por George Smith, das Tábuas da Criação e da
Tábua do Dilúvio.—§§ 4-5. Relato caldeu da Criação.—§ 6. O Cilindro com o casal, árvore e serpente.—
§ 7. Relato de Berosus da criação.—§ 8. A Árvore Sagrada. Sacralidade do Símbolo.—§ 9. Significado
do Símbolo da Árvore. A Árvore Cósmica.—§ 10. Ligação da Árvore-Símbolo e dos Zigurates com a
lenda do Paraíso.—§ 11. O Zigurate de Borsippa.—§ 12. É identificado com a Torre de Babel.—§§ 13-
14. Orientação peculiar dos Zigurates.—§ 15. Traços de lendas sobre um bosque ou jardim sagrado.—§
16. Mummu-Tiamat, o inimigo dos deuses. Batalha de Bel e Tiamat.—§ 17. A rebelião dos sete espíritos
malignos, originalmente mensageiros dos deuses.—§ 18. A grande torre e a confusão das línguas.

VII.

Mitos.—Heróis e poemas míticos 150 - 166

§ 1. Definição da palavra Mito.—§ 2. Os heróis.—§ 3. As épocas heroicas e os mitos heroicos. Os


poemas nacionais.—§ 4. A mais antiga epopeia conhecida.—§ 5. Relato de Berosus sobre o Dilúvio.—§
6. A descoberta de George Smith da narrativa caldeia original.—§ 7. A Epopeia dividida em livros ou
tábuas.—§ 8. Izdubar, o herói da Epopeia.—§ 9. A humilhação de Ereque sob a conquista elamita. O
sonho de Izdubar.—§ 10. Êabâni, o Vidente. O convite de Izdubar e promessas para ele.—§ 11.
Mensagem enviada a Êabâni pelas servas de Ishtar. Sua chegada a Ereque.—§ 12. A vitória de Izdubar e
Êabâni sobre o tirano Khumbaba.—§ 13. A mensagem de amor de Ishtar. Sua rejeição e ira. A vitória dos
dois amigos sobre o touro enviado por ela.—§ 14. A vingança de Ishtar. A jornada de Izdubar para a foz
dos rios.—§ 15. Izdubar navega as Águas da Morte e é curadopor seu imortal ancestral Hâsisadra.—§ 16.
O retorno de Izdubar a Ereque e o lamento sobre Êabâni. O vidente é traduzido entre os deuses.—§ 17. A
narrative do Dilúvio na 11ª Tábua da Epopeia de Izdubar.—§§ 18-21. Caráter mítico e solar da Epopeia
analisada.—§ 22. Mito solar do belo jovem, sua morte e ressurreição.—§§ 23-24. Dumuzi-Tammuz, o
marido de Ishtar. O festival de Dumuzi em junho.—§ 25. Descida de Ishtar para a Terra dos Mortos.—§
26. Universalidade dos Mitos Solar e Ctônicos.

VIII.

Religião e Mitologia.—Idolatria e Antropomorfismo.—As lendas caldeias e o Livro do Gênesis.—


Retrospecto 167 - 182

§ 1. Definição de mitologia e religião, como diferentes uma da outra.—§§ 2-3. Exemplos de puro
sentimento religioso na poesia da Suméria e Acádia.—§ 4. Religião frequentemente sufocada pela
mitologia.—§§ 5-6. A concepção da imortalidade da alma sugerida pelo curso do sol.—§ 7. Isso expresso
nos mitos solares e ctônicos.—§ 8. Idolatria.—- § 9. Os hebreus, originalmente politeístas e idólatras,
regenerados pelos seus líderes para o monoteísmo.—§ 10. Suas relações com as tribos de Canaã
contribuiu para recaídas.—§ 11. Casamento entre eles severamente proibido por essa razão.—§ 12.
Incrível similaridade entre o Livro do Gênesis e as antigas lendas caldeias.—§ 13. Paralelo entre os dois
relatos da criação.—§ 14. Antropomorfismo, diferentemente do politeísmo e idolatria, mas contribuinte a
ambos.—§§ 15-17. Continuação do paralelo.—§§ 18-19. Retrospecto.

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PRINCIPAIS TRABALHOS LIDOS OU CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE VOLUME.

Baer, Wilhelm. Der Vorgeschichtliche Mensch. 1 vol., Leipzig: 1874.

Baudissin, W. von. Studien zur Semitischen Religionsgeschichte. 2 vols.

Budge, E. A. Wallis. Babylonian Life and History. (Série "Bypaths of Bible Knowledge", V.) 1884.
London: The Religious Tract Society. 1 vol.

---- History of Esarhaddon. 1 vol.

Bunsen, Chr. Carl Jos. Gott in der Geschichte, oder Der Fortschritt des Glaubens an eine sittliche
Weltordnung. 3 vols. Leipzig: 1857.

Castren, Alexander. Kleinere Schriften. St. Petersburg: 1862. 1 vol.

Cory. Ancient Fragments. London: 1876. 1 vol.

Delitzsch, Dr. Friedrich. Wo lag das Paradies? eine Biblisch-Assyriologische Studie. Leipzig: 1881. 1 vol.

---- Die Sprache der Kossäer. Leipzig: 1885 (or 1884?). 1 vol.

Duncker, Max. Geschichte des Alterthums. Leipzig: 1878. Vol. 1st.

Fergusson, James. Palaces of Nineveh and Persepolis Restored. 1 vol.

Happel, Julius. Die Altchinesische Reichsreligion, vom Standpunkte der Vergleichenden


Religionsgeschichte. 46 pages, Leipzig: 1882.

Haupt, Paul. Der Keilinschriftliche Sintflutbericht, eine Episode des Babylonischen Nimrodepos. 36
pages. Göttingen: 1881.

Hommel, Dr. Fritz. Geschichte Babyloniens und Assyriens (first instalment, 160 pp., 1885; and second
instalment, 160 pp., 1886). (Allgemeine Geschichte in einzelnen Darstellungen, Abtheilung 95 und 117.)

---- Die Vorsemitischen Kulturen in Ægypten und Babylonien. Leipzig: 1882 and 1883.

Layard, Austen H. Discoveries among the ruins of Nineveh and Babylon. (American Edition.) New York:
1853. 1 vol.

---- Nineveh and its Remains. London: 1849. 2 vols.

Lenormant, François. Les Premières Civilisations. Êtudes d'Histoire et d'Archéologie. 1874. Paris:
Maisonneuve et Cie. 2 vols.

---- Les Origines de l'Histoire, d'après la Bible et les Traditions des Peuples Orientaux. Paris:
Maisonneuve et Cie. 3 vol. 1er vol. 1880; 2e vol. 1882; 3e vol. 1884.

---- La Genèse. Traduction d'après l'Hébreu. Paris: 1883. 1 vol.

---- Die Magie und Wahrsagekunst der Chaldäer. Jena, 1878. 1 vol.

---- Il Mito di Adone-Tammuz nei Documenti cuneiformi. 32 pages. Firenze: 1879.

---- Sur le nom de Tammouz. (Extrait des Mémoires du Congrès international des Orientalistes.) 17
pages. Paris: 1873.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

---- A Manual of the Ancient History of the East. Translated by E. Chevallier. American Edition.
Philadelphia: 1871. 2 vols.

Loftus. Chaldea and Susiana. 1 vol. London: 1857.

Lotz, Guilelmus. Quæstiones de Historia Sabbati. Lipsiae: 1883.

Maury, Alfred L. F. La Magie et l'Astrologie dans l'antiquité et en Moyen Age. Paris: 1877. 1 vol.
Quatrième édition.

Maspero, G. Histoire Ancienne des Peuples de l'Orient. 3e édition, 1878. Paris: Hachette & Cie. 1 vol.

Ménant, Joachim. La Bibliothèque du Palais de Ninive. 1 vol. (Bibliothèque Orientale Elzévirienne.)


Paris: 1880.

Meyer, Eduard. Geschichte des Alterthums. Stuttgart: 1884. Vol. 1st.

Müller, Max. Lectures on the Science of Language. 2 vols. American edition. New York: 1875.

Mürdter, F. Kurzgefasste Geschichte Babyloniens und Assyriens, mit besonderer Berücksichtigung des
Alten Testaments. Mit Vorwort und Beigaben von Friedrich Delitzsch. Stuttgart: 1882. 1 vol.

Oppert, Jules. L'Immortalité de l'Ame chez les Chaldéens. 28 pages. (Extrait des Annales de Philosophie
Chrètienne, 1874.) Perrot et Chipiez.

Quatrefages, A. de. L'Espèce Humaine. Sixième edition. 1 vol. Paris: 1880.

Rawlinson, George. The Five Great Monarchies of the Ancient Eastern World. London: 1865. 1st and 2d
vols.

Records of the Past. Published under the sanction of the Society of Biblical Archæology. Volumes I. III.
V. VII. IX. XI.

Sayce, A. H. Fresh Light from Ancient Monuments. ("By-Paths of Bible Knowledge" Series, II.) 3d
edition, 1885. London: 1 vol.

---- The Ancient Empires of the East. 1 vol. London, 1884.

---- Babylonian Literature. 1 vol. London, 1884.

Schrader, Eberhard. Keilinschriften und Geschichtsforschung. Giessen: 1878. 1 vol.

---- Die Keilinschriften und das Alte Testament. Giessen: 1883. 1 vol.

---- Istar's Höllenfahrt. 1 vol. Giessen: 1874.

---- Zur Frage nach dem Ursprung der Altbabylonischen Kultur. Berlin: 1884.

Smith, George. Assyria from the Earliest Times to the Fall of Nineveh. ("Ancient History from the
Monuments" Series.) London: 1 vol.

Tylor, Edward B. Primitive Culture. Second American Edition. 2 vols. New York: 1877.

Zimmern, Heinrich. Babylonische Busspsalmen, umschrieben, übersetzt und erklärt. 17 pages, 4to.
Leipzig: 1885.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Numerosos ensaios de Sir Henry Rawlinson, Friedr. Delitzsch, E. Schrader e outros, na tradução de
Heródoto do Sr. George Rawlinson, em Calwer Bibellexikon, e em vários periódicos, como
"Proceedings" e "Transactions" da “Sociedade de Arqueologia Bíblica”, "Jahrbücher für Protestantische
Theologie," "Zeitschrift für Keilschriftforschung," "Gazette Archéologique," e outros.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

LISTA DE ILUSTRAÇÕES.

SHAMASH, O DEUS SOL. De uma tábua no British Museum. Frontispiece.

1. CARACTERES CUNEIFORMES Ménant. 10

2. TEMPLO DE ÊA EM ERIDHU Hommel. 23

3. VISTA DO EUFRATES PERTO DA BABILÔNIA Babelon. 31

4. MONTE DE BABIL Oppert. 33

5. PRATO DE BRONZE Perrot and Chipiez. 35

6. PRATO DE BRONZE (PADRÃO DE TAPEÇARIA) Perrot and Chipiez. 37

7. SEÇÃO DE UM PRATO DE BRONZE Perrot and Chipiez. 39

8. VISTA DE NEBBI-YUNUS Babelon. 41

9. CONSTRUÇÃO EM TIJOLO COZIDO Perrot and Chipiez. 43

10. MONTE DE NÍNIVE Hommel. 45

11. MONTE DE MUGHEIR (ANTIGO UR) Taylor. 47

12. PAREDE DE TERRAÇO EM KHORSABAD Perrot and Chipiez. 49

13. JANGADA IMPULSIONADA POR PELES INFLADAS (ANTIGA) Kaulen. 51

14. JANGADA IMPULSIONADA POR PELES INFLADAS (MODERNA) Kaulen. 51

15. ESCAVAÇÕES EM MUGHEIR (UR) Hommel. 53

16. GUERREIROS NADANDO EM PELES INFLADAS Babelon. 55

17. VISTA DE KOYUNJIK Hommel. 57

18. LEÃO DE PEDRA NA ENTRADA DE UM TEMPLO Perrot and Chipiez. 59

19. TRIBUNAL DE HARÉM EM KHORSABAD. RESTAURADO Perrot and Chipiez. 61

20. BASE CIRCULAR DE PILAR Perrot and Chipiez. 63

21. VISTA INTERIOR DE CÂMARA DE HARÉM Perrot and Chipiez. 65

22, 23. FRISO COLORIDO EM AZULEJOS ESMALTADOS Perrot and Chipiez. 67

24. LAJE DE PAVIMENTO Perrot and Chipiez. 69

25. SEÇÃO DE ENTRADA ORNAMENTAL, KHORSABAD Perrot and Chipiez. 71

26. LEÃO ALADA COM CABEÇA HUMANA Perrot and Chipiez. 73

27. TOURO ALADO Perrot and Chipiez. 75

28. HOMEM-LEÃO Perrot and Chipiez. 77

29. FRAGMENTO DE TIJOLO ESMALTADO Perrot and Chipiez. 79

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

30. CABEÇA DE RAM EM ALABASTRO British Museum. 81

31. PENTE DE ÉBANO Perrot and Chipiez. 81

32. GARFO E COLHER DE BRONZE Perrot and Chipiez. 81

33. LOUVRE ARMÊNIO Botta. 83

34, 35. DRENOS ABOBADADOS Perrot and Chipiez. 84

36. CAIXÃO-JARRO CALDEU Taylor. 85

37. TUMBA COM “TAMPA DE PRATO” EM MUGHEIR Taylor. 87

38. TUMBA COM “TAMPA DE PRATO” Taylor. 87

39. ABÓBADA SEPULCRAL EM MUGHEIR Taylor. 89

40. JARROS DE PEDRA DE TÚMULOS Hommel. 89

41. DRENO EM MONTE Perrot and Chipiez.90

42. PAREDE COM DESENHOS EM TERRACOTA Loftus.91

43. CONE EM TERRACOTA Loftus.91

44. CABEÇA DE ANTIGO CALDEU Perrot and Chipiez.101

45. CABEÇA DE ANTIGO CALDEU, VISTA DE PERFIL Perrot and Chipiez. 101

46. INSCRIÇÃO CUNEIFORME Perrot and Chipiez.107

47. TÁBUA DE ARGILA INSCRITA Smith's Chald. Gen.109

48. TÁBUA DE ARGILA EM SEU ESTOJO Hommel. 111

49. ANTIGO CONJUNTO DE CILINDRO EM BRONZE Perrot and Chipiez.112

50. CILINDRO CALDEU E IMPRESSÃO Perrot and Chipiez.113

51. CILINDRO ASSÍRIO 113

52. PRISMA DE SENNACHERIB British Museum.115

53. CILINDRO INSCRITO DE BORSIP Ménant.117

54. DEMÔNIOS LUTANDO British Museum.165

55. DEMÔNIO DO VENTO SUDOESTE Perrot and Chipiez.169

56. CABEÇA DE DEMÔNIO British Museum. 170

57. OANNES Smith's Chald. Gen.187

58. CILINDRO DE SARGON, DE AGADÊ Hommel. 207

59. ESTÁTUA DE GUDÊA Hommel. 217

60. BUSTO INSCRITO COM O NOME DE NEBO British Museum. 243

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

61. VERSO DE UMA TÁBUA COM O RELATO DO DILÚVIO Smith's Chald. Gen.262

62. CILINDRO BABILÔNIO Smith's Chald. Gen. 266

63. FIGURAS ALADAS FEMININAS E ÁRVORES SAGRADAS British Museum. 69

64. ESPÍRITOS ALADOS DIANTE DE ÁRVORE SAGRADA Smith's Chald. Gen. 270

65. SARGON DA ASSÍRIA DIANTE DE ÁRVORE SAGRADA Perrot and Chipiez. 71

66. FIGURA COM CABEÇA DE ÁGUIA DIANTE DE ÁRVORE SAGRADA Perrot and Chipiez.
273

67. FIGURA HUMANA COM QUATRO ASAS DIANTE DE ÁRVORE SAGRADA Perrot and
Chipiez. 275

68. TEMPLO E JARDINS SUSPENSOS EM KOYUNJIK British Museum. 277

69. PLANTA DE UM ZIGURATE Perrot and Chipiez. 278

70. "ZIGURATE" RESTAURADO Perrot and Chipiez. 279

71. BIRS-NIMRUD Perrot and Chipiez. 281

72, 73. BEL LUTA COM DRAGÃO Perrot and Chipiez. 289

74. BATALHA ENTRE BEL E DRAGÃO Smith's Chald. Gen.291

75. IZDUBAR E LEÃO Smith's Chald. Gen.306

76. IZDUBAR E LEÃO British Museum.307

77. IZDUBAR E ÊABÂNI Smith's Chald. Gen.309

78. IZDUBAR E LEÃO Perrot and Chipiez. 310

79. HOMEM-ESCORPIÃO Smith's Chald. Gen.311

80. OBJETO DE PEDRA ENCONTRADO EM ABU-HABBA 312

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

OS PAÍSES RELACIONADOS A CALDEIA.

INTRODUÇÃO.
I.

MESOPOTÂMIA.— OS MONTES.— OS PRIMEIROS PESQUISADORES.

1. Por volta do ano de 606 a.C., Nínive, a grande cidade, foi destruída. Por centenas de anos ela ficou de
pé em seu arrogante esplendor, com seus palácios se erguendo sobre rio Tigre e espelhados nas suas
águas; exército após exército avançou seus portões e voltaram carregados com os saques dos países
conquistados; seus monarcas foram aos altares de sacrifício em carruagens puxadas pelos reis
aprisionados. Mas chegou sua hora finalmente. Nações juntaram-se e a cercaram. A tradição nos conta
como o cerco durou mais de dois anos, como o próprio rio subiu e agrediu suas muralhas, até que um dia
uma chama imensa subiu até o céu e como uma última linha poderosa de reis, muito orgulhosos para se
renderem, se salvando mesmo assim, bem como seus tesouros e sua capital da vergonha da escravidão.
Nenhuma cidade cresceu de novo onde esteve Nínive.

2. Duzentos anos se passaram. Houve muitas mudanças na terra. Os reis persas agora governavam a Ásia.
Mas sua grandeza também os levava ao seu declínio e discórdias familiares também minaram seu poder.
Um jovem príncipe se rebelou contra seu irmão mais velho e resolveu tomar sua coroa à força. Para
conseguir isso, ele formou um exército e pediu a ajuda de mercenários gregos. Eles vieram, eram 13 mil,
liderados por bravos e renomados generais, e fizeram seu serviço; mas sua bravura não os salvou da
derrota e da morte. Seu próprio líder caiu em uma emboscada, e eles começaram sua retirada nas mais
desastrosas circunstâncias e com pouca esperança de fuga.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

3. Mesmo assim, eles conseguiram. Cercados por inimigos e falsos amigos, rastreados e perseguidos, por
ruínas arenosas e montanhas, agora secos pelo calor, agora amortecidos pelo frio, eles finalmente
chegaram ao ensolarado e afável Estreito de Dardanelos. Foi uma longa e cansativa marcha da Babilônia
pelo Eufrates, perto da cidade onde havia se dado a grande batalha. Eles poderiam ter falhado se não
tivessem escolhido um grande e bravo comandante, Xenofonte, um nobre ateniense, cuja fama de
estudioso e escritor era igual ao seu renome como soldado e general. Poucos livros são mais interessantes
que o vívido relato que ele deixou de seu trabalho e seus companheiros de trabalho e os sofrimentos
durante esta expedição, conhecida na história como “A retirada dos dez mil” – sendo que o número
original de 13.000 foi reduzido pelas batalhas, privações e doenças. Um homem tão refinado não poderia
falhar, mesmo em meio ao perigo e sob o peso da inquietação, em observar o que quer que fosse notável
naquelas estranhas terras que eles atravessaram. Então ele nos conta como um dia seu pequeno exército,
depois de uma marcha forçada nas primeiras horas da manhã e uma luta com algumas tropas de
perseguidores, tendo repelido o ataque e dessa maneira assegurado um pequeno período de segurança,
viajou até chegarem às margens do rio Tigre. Neste ponto, ele continua, havia uma grande cidade deserta.
Sua muralha tinha 7.6m de largura, 30.5m de altura e aproximadamente 11.26km de circuito. Foi
construída com tijolos de pedra, com um porão de 6m de altura. Perto da cidade havia uma pirâmide de
pedra, com 30.5m de largura e 61m de altura. Xenofonte acrescenta que a cidade se chamava Larissa e
que antigamente era habitada pelos Medes; quando o rei da Pérsia tomou a soberania dos Medes, ele os
cercou, mas não podia de forma alguma tomar posse deles, até que uma nuvem escondeu o sol, os
habitantes abandonaram a cidade, e ela assim foi tomada.

4. Uns 29 km à frente (um dia de caminhada) os gregos chegaram à outra grande cidade deserta, que
Xenofonte chama de Mespila. Tinha uma muralha similar, porem um pouco mais alta. Esta cidade, ele
nos conta, também havida sido habitada pelos Medes e foi tomada pelo rei da Pérsia. Agora estas
estranhas ruínas eram tudo o que havia restado de Calá e Nínive, as duas capitais assírias. No curto
espaço de duzentos anos, os homens certamente ainda não haviam esquecido a existência de Nínive e seu
governo, ainda que tivessem pisado no mesmo lugar onde era a cidade e não saberiam, e chamaram suas
ruínas por um nome grego sem importância, herdando uma tradição absurdamente construída de detalhes
verossímeis e fictícios, misturados em uma confusão inextricável. Enquanto Nínive foi a capital do
Império Assírio, os Medes eram um dos povos que a atacou e destruiu. E apesar de um eclipse do sol (a
nuvem escura não poderia significar outra coisa) ter realmente acontecido, criando uma grande confusão e
produzindo importantes resultados, isso foi mais tarde e em outra ocasião completamente diferente.
Quanto ao “rei da Pérsia”, esse personagem não teve nada a ver com a catástrofe de Nínive, uma vez que
os persas não eram vistos naquela época como um povo poderoso, e seu país era apenas um pequeno e
insignificante principado, que pagava tributos a Media (área habitada pelos Medes). Então efetivamente a
altiva cidade foi varrida da face da terra!

5. Outros cem anos trouxeram outras e maiores mudanças. A monarquia persa seguiu os passos dos
impérios de antes e caiu diante de Alexandre, o jovem herói da Macedônia. Enquanto as frotas de leves
barcos gregos do conquistador desciam o Eufrates em direção à Babilônia, elas eram frequentemente
impedidas por grandes barragens de pedras construídas pelo rio. Os gregos, com grande trabalho,
removeram várias delas, para facilitar a navegação. Eles fizeram o mesmo em vários outros rios – não
sabiam que estavam destruindo o último de uma grande civilização – porque essas barragens haviam sido
usadas para economizar água e distribuí-la entre inúmeros canais, que cobriam o árido país com sua rede
de fertilização. Eles devem ter ouvido o que viajantes ouvem dos árabes em nossos tempos – que estas
barragens foram construídas por Ninrode, o Rei-Caçador. Algumas delas continuam em pé mesmo assim,
mostrando suas enormes pedras quadradas, fortemente ligadas por grampos de ferro, sobre a água antes
do rio subir com as chuvas de inverno.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

6. Mais de 120 séculos se passaram sobre o imenso vale tão bem nomeado Mesopotâmia – “a terra entre
os rios” – e cada um trouxe mais mudanças, mais guerras, mais desastres, com raros intervalos de
descanso e prosperidade. Sua posição entre o Leste e o Oeste, na exata via de exércitos e tribos nômades,
a fez um dos melhores campos de batalha do mundo. Cerca de mil anos depois da rápida invasão de
Alexandre e sua conquista de curta duração, os árabes invadiram o país e fixaram-se ali, trazendo com
eles uma nova civilização e a nova religião dada a eles pelo profeta Mohammed, que eles acreditavam ser
sua missão levá-la, pela força da palavra ou da espada, para os limites da terra. Eles até mesmo
encontraram lá uma das principais sedes de sua soberania, e Bagdá não rendeu muito em magnificência e
poder para a Babilônia de outrora.

7. A ordem, as leis e o aprendizado agora floresceram por algumas centenas de anos, quando novas
hordas de bárbaros vieram do Leste, e uma delas, os turcos, finalmente se estabeleceu por lá. Era deles o
governo agora. O vale do Tigre e Eufrates é uma província do Império Turco-Otomano, cuja capital é
Constantinopla; ela é governada por paxás, oficiais enviados pelo governo turco, ou a “Sublime Porta”,
como era comumente chamada, e o tratamento ignorante, opressivo ao qual foi sujeita por centenas de
anos a reduziu a uma profunda desolação. Sua saúde está exausta, sua indústria destruída, suas prósperas
cidades desapareceram ou a reduziram à insignificância. Até mesmo Mossul, construída pelos árabes na
margem direita do Tigre (do lado oposto onde esteve Nínive), uma das suas melhores cidades, famosa por
fabricar o delicado tecido de algodão ao qual deu o nome (musselina, musseline), teria perdido toda sua
importância, não tivesse a honra de ser a cidade-chefe de um distrito turco e abrigasse um paxá. E Bagdá,
apesar de ainda ser da província, é apenas uma sombra da gloria que já foi; e seus teares não mais suprem
os mercados do mundo com lindos xales e tapetes e seus lenços de ouro e prata com um maravilhoso
design.

8. A Mesopotâmia é uma região que sofreu com a negligência e desgoverno até mais que as outras; pois,
apesar de ricamente dotada de natureza, é de formação peculiar, e requer constante cuidado e gestão
inteligente para produzir todo o ganho que é capaz. Esse cuidado deve consistir principalmente em
distribuir as águas dos dois grandes rios e seus afluentes por toda a terra por meio de um complexo
sistema de canais, regulado por um completo e bem conservado conjunto de barragens e comportas, com
outros simples arranjos para as distantes e menores ramificações. As inundações anuais causadas pelo
Tigre e Eufrates, que transbordavam suas margens na primavera, não são suficientes; apenas um estreito
pedaço de terra em cada lado é aproveitado por eles. Nas planícies em direção ao Golfo Pérsico há outro
inconveniente: sendo a região perfeitamente plana, as águas se acumulavam e estagnavam, e formavam
pântanos pestilentos, onde ricas pastagens e campos de trigo deveriam estar – e estiveram em tempos
antigos. Em resumo, se deixada por si mesma, a Alta Mesopotâmia (antiga Assíria) é improdutiva pela
esterilidade de seu solo, e a Baixa Mesopotâmia (antiga Caldéia e Babilônia) se dirige ao desperdício,
apesar de sua extraordinária fertilidade, por falta de drenagem.

9. Esta é na verdade a condição de um vale uma vez populoso e próspero, devido aos princípios pelos
quais os governantes turcos levaram seu governo. Sua visão de suas remotas províncias como meras
fontes de renda para os estados e seus oficiais. Mas mesmo admitindo isto como seu objetivo declarado e
principal, eles o perseguiram de maneira equivocada e com visão limitada. O povo é simplesmente e
abertamente saqueado, e nada do que é tirado dele é aplicado em alguma utilidade pública, como
rodovias, irrigação, incentivo ao comércio e indústria, dentre outros; o que não era mandado para o Sultão
vai para as bolsas privadas do paxá e seus muitos oficiais subalternos. É como tirar o leite e não alimentar
a vaca. A consequência e que as pessoas perdem o interesse em fazer qualquer tipo de trabalho, deixam

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

de lutar por um aumento de propriedades das quais não lhes é permitido usufruir, e se resignam à miséria
absoluta com uma sólida apatia dolorosa de se testemunhar. A terra foi deixada em tal condição de
empobrecimento que realmente não foi capaz de produzir colheitas suficientes para a população. É
cultivada em fragmentos ao longo dos rios, onde o solo é tão fértil devido às inundações anuais que gera
rendimentos moderados espontâneos, e isso na maioria pelas tribos nômades de árabes ou curdos
provenientes das montanhas do norte, que erguiam suas tendas e deixavam o lugar no momento em que
conseguiam fazer uma pequena colheita – se esta não tivesse sido apropriada primeiro por alguns dos
coletores de impostos do paxá ou por facções errantes de beduínos – tribos assaltantes das adjacências dos
desertos sírio e árabe, que, montados em seus cavalos inigualáveis, são levados pela fronteira aberta com
tanta facilidade como os ventos do deserto de areia tão temidos pelos viajantes. O resto do país é deixado
aos próprios caprichos da natureza e, onde não é cortada por montanhas ou cordilheiras rochosas, oferece
a dupla característica do terreno de estepe: uma exuberante vegetação gramínea durante 1/3 do ano e seco
e árido terreno no resto do tempo, exceto durante as chuvas de inverno e enchentes da primavera.

10. Uma selvagem e desoladora cena! Imponente também em sua triste grandeza, e bem adequada a uma
terra que pode ser chamada de um cemitério de impérios e nações. A monotonia da paisagem seria
quebrada, mas para determinadas elevações e montes de estranhas e variadas formas que surge, por assim
dizer, da planície em todas as direções; algumas são altas e cônicas ou em forma de pirâmide, outras são
bem extensas e planas no cume, outras também longas e baixas, e todas curiosamente desconectadas umas
das outras ou de qualquer cume de montes ou montanhas. Isso é duplamente impressionante na Baixa
Mesopotâmia ou Babilônia, conhecida por sua excessiva planície. As poucas vilas permanentes,
compostas por suas cabanas de barro ou de junco trançado são geralmente construídas nessas eminências,
outras são usadas como cemitérios, e uma mesquita, a casa de oração dos muçulmanos, às vezes é
construída em uma ou outra. Elas são agradáveis objetos na linda estação da primavera, quando campos
de milho acenam em seus cumes, e suas encostas, bem como todas as planícies ao seu redor, estão
cobertas pela mais densa e verde vegetação, alegrada com inúmeras flores de todos os tons, até que, à
distância e do alto, a superfície da terra pareça tão linda quanto o mais rico tapete persa. Mas,
aproximando-se desses montículos ou montes, um viajante despreparado seria impactado por alguns
aspectos peculiares. Sua matéria sendo suave e flexível, e com as chuvas de inverno caindo com
excessiva violência, os montes tinham suas encostas sulcadas em muitos lugares como desfiladeiros,
cavados pelos córregos da água da chuva. Esses córregos, por certo, levavam o material da montanha para
baixo e para longe nas planícies, onde ele fica disperso na superfície, bem distinta do solo. Descobriu-se
que essas “lavadas” não consistiam de terra ou areia, mas de lixo, algo como o material que fica
empilhado quando uma casa está sendo construída ou demolida, e que contém inúmeros fragmentos de
tijolos, cerâmica, pedras evidentemente trabalhadas a mão ou com o formão; muitos desses fragmentos,
aliás, continham inscrições em complicados caracteres compostas de uma curiosa figura no formato de
uma ponte de lança, e usado em todas as posições e combinações, como isso:

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

1. CARACTERES CUNEIFORMES.

11. Nas fendas ou nos próprios desfiladeiros, as águas limparam grandes quantias desse lixo solto,
desnudaram lados inteiros de paredes inteiras de tijolos, algumas vezes até um pedaço de crânio ou
membro humano ou um pedaço de uma placa de pedra esculpida, sempre de um tamanho colossal e com
uma execução ousada e notável. Tudo isso conta sua própria história e a conclusão é evidente: estas
elevações não são montes de terra naturais, mas sim artificiais, montes de terra e material de construção
que em algum momento foram colocados lá pelo homem, então sucumbindo a lixo pelo descaso,
escondendo dentro de suas amplas encostas todos os restos de todas aquelas antigas estruturas e trabalhos
de arte, cobrindo-se em verde, e enganosamente assumindo todas as características externas de montanhas
naturais.

12. Os árabes nunca pensaram em explorar esses curiosos montes. Nações muçulmanas, por regra, não
tinham muito interesse em relíquias da antiguidade; apesar de serem muito supersticiosos, e como sua lei
religiosa os proibia estritamente representar a forma humana fosse em pinturas ou esculturas, para que
esse tipo de reprodução não levasse pessoas ignorantes e equivocadas para as abominações da idolatria,
então eles viam as relíquias da estatuária antiga com uma suspeita quantidade de medo e as relacionavam
com magia e bruxaria. É, portanto, com espanto e horror que eles contam aos viajantes que os montes
contêm passagens subterrâneas que são assombradas não apenas por feras, mas por espíritos malignos –
ou não teriam percebido algumas vezes as estranhas figuras esculpidas nas pedras das fendas?
Estrangeiros mais bem instruídos assumiram há muito tempo que dentro desses montes devem ter sido
sepultadas ruínas de grandes cidades de outrora. Seu número não fazia objeção, pois era sabido o quão
populoso o vale fora nos seus dias de esplendor, e que, além de suas muitas cidades famosas, que poderia
se gabar sempre das menores, frequentemente separadas umas das outras por uma distância de apenas
algumas milhas. Os longos e baixos montes certamente representavam as antigas muralhas, e os mais
altos e vastos eram os lugares onde ficavam os palácios e templos. Os árabes, embora absolutamente
ignorantes sobre qualquer tipo de história, haviam preservado em sua religião algumas tradições da
Bíblia, e assim acontece que alguns nomes bíblicos ainda sobrevivem depois de todas as destruições.
Quase tudo que eles não sabiam a origem, eles atribuíam a Ninrode; e o menor de dois montes opostos a
Mossul, que marcam o ponto onde uma vez esteve Nínive, eles chamam de Monte de Jonas, e acreditam
piamente que a mesquita que o coroa, cercada por uma relativamente próspera vila, guarda a tumba do
próprio Jonas, o profeta que foi enviado para repreender e avisar a perversa cidade. Como os muçulmanos
honram os profetas hebreus, o monte todo é sagrado aos seus olhos.

13. Se os viajantes soubessem desses fatos a respeito dos montes, muitos anos antes de sua curiosidade e
interesse serem despertados, não se dariam ao trabalho e gastariam para cavá-los, a fim de descobrir o que
eles realmente continham. Até mais ou menos os últimos cem anos, não apenas o público em geral, mas
até mesmo homens cultos e distintos estudiosos, sob as palavras “estudo da antiguidade”, entendiam não
mais que o estudo da chamada “Antiguidade Clássica”, por exemplo, a linguagem, história e literatura dos
gregos e romanos, junto com as ruínas, trabalhos artísticos, e relíquias de toda sorte deixadas por essas
duas nações. Seu conhecimento de outros impérios e povos eles tiraram dos historiadores e escritores
gregos e romanos, sem duvidar ou questionar suas declarações, ou, como dizemos agora, sem criticar
nenhuma de suas declarações. Além disso, estudantes europeus, absortos e devotos dos estudos clássicos,
estavam muito inclinados a seguir o exemplo de seus autores favoritos e classificar todo o resto do
mundo, na medida em que era conhecido nos tempos antigos, sob o arrebatador e um pouco desprezível
nome de “Bárbaros”, assim dando a eles importância secundária e pouca atenção.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

14. As coisas começaram a mudar drasticamente perto do fim do último século. Contudo, os montes da
Assíria e Babilônia ainda sofreram para manter seu segredo não revelado. Essa falta de interesse pode ser
em parte explicada por sua natureza peculiar. Eles são muito diferentes das outras ruínas. Uma fileira de
enormes pilares ou imponentes colunas que cortaram o céu azul, com o deserto em volta ou o mar aos
seus pés – um arco quebrado ou uma lápide gasta cobertos com hera e trepadeiras, com as montanhas
roxeadas e azuladas de fundo, são impressionantes objetos que chamam à atenção, primeiro por sua
beleza, e depois nos convidam a uma verificação mais precisa devido à facilidade de acesso que
oferecem. Mas estes enormes, amorfos montes! Quanto trabalho remover mesmo uma pequena parte
deles! E quando forem retirados, quem sabe se seu conteúdo pagará o esforço e gasto?

15. O primeiro europeu cujo amor pelo aprendizado era forte o suficiente para superar todas as dúvidas e
dificuldades, foi Sr. Rich, um inglês. Ele não era particularmente bem-sucedido, nem suas pesquisas eram
muito extensas, sendo levadas pra frente com seu próprio dinheiro; mesmo assim seu nome será sempre
honrosamente lembrado, pois ele foi o primeiro homem a levar picareta e pá ao trabalho, a contratar
homens para escavar, que mediu e descreveu alguns dos principais montes do Eufrates, deixando assim
estabelecido a base para todos mais tarde e as explorações mais frutíferas naquela região. Foi em 1820 e o
Sr. Rich era então residente político ou representante da East India Company (Companhia da Índias
Orientais) em Bagdá. Ele também tentou o maior dos dois montes opostos a Mossul, encorajado pelo
relato que, um pouco antes de ele chegar lá, uma escultura representando homens e animais havia sido
descoberta. Infelizmente, ele não conseguiu obter nenhum fragmento deste tesouro, porque o povo de
Mossul, influenciados pelo seu ulema (doutor da lei), que declarou que essas esculturas eram “imagens
dos infiéis”, atravessou o rio da cidade em conjunto e piedosamente as destruiu por completo. O Sr. Rich
não teve a sorte de se deparar com uma descoberta dessas ele mesmo, e depois de alguns esforços
adicionais, deixou o lugar desmotivado. Ele trouxe para a Inglaterra as poucas relíquias que foi capaz de
obter. Na falta de algumas mais importantes, elas eram muito interessantes, consistindo em fragmentos de
inscrições, de porcelana, de gravações em pedras, tijolos e pedaços de tijolos. Depois de sua morte, esses
artigos foram para o Museu Britânico, onde formaram a base atual da nobre coleção Caldéia-Assíria dessa
grande instituição. Nada mais foi realizado por anos, para que pudesse ser dito literalmente que, até 1842,
“uma caixa de um metro quadrado incluía tudo o que restava, não só da grande cidade de Nínive, mas da
própria Babilônia!” [A]

16. O próximo em campo foi Sr. Botta, nomeado Cônsul Francês em Mossul em 1842. Ele começou a
escavar ao fim deste mesmo ano, e naturalmente se apegou ao maior dos dois montes opostos a Mossul,
chamado Koyunjik, devido à pequena vila em sua base. Este monte é Mespila, de Xenofonte. Ele
começou com muito entusiasmo e trabalhou por mais de três meses, mas decepções repetidas começaram
a desencorajá-lo, até um dia em que um camponês de um distante vilarejo estava olhando um pequeno
grupo de trabalhadores. Ele estava se divertindo observando que todo fragmento – para ele absolutamente
sem valor – de alabastro, tijolo ou cerâmica era cuidadosamente retirado do lixo, carinhosamente
manuseado e colocado de lado, e, rindo, comentou que ele eles poderiam ser mais bem pagos pelo
incômodo, se eles escavassem o monte em que sua vila fora construída, pois muito daquele lixo estava
constantemente aparecendo, quando eles estavam cavando as fundações de suas casas.

17. Nessa época, Sr. Botta já estava desesperançoso; mesmo assim ele não ousou negligenciar o palpite, e
mandou alguns homens ao monte que havia sido indicado a ele, o qual, assim como a vila em seu topo,
tinha o nome de Khorsabad. Seu agente começou as operações do topo. Um poço foi feito no monte, e
rapidamente trouxe os homens ao topo de uma muralha, a qual, nas escavações se descobriu sua base ser
alinhada a lajes esculpidas de algum material macio, como gesso ou calcário. Essa descoberta
rapidamente trouxe o Sr. Botta ao lugar, num rompante de excitação. Ele tomou as rédeas do trabalho,

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

escavou uma trincheira larga e funda de fora direto para dentro do monte, em direção ao lugar já aberto
acima. Tamanha foi seu surpreso ao descobrir que ele havia entrado em um salão todo revestido, exceto
onde as interrupções indicavam o lugar das portas que levavam a outros salões, com lajes esculpidas
similares às que foram descobertas por primeiro, e representando cenas de batalhas, cercos, dentre outros.
Ele andava como se estivesse em um sonho. Um novo e maravilhoso mundo de repente se abriu. Pois
essas esculturas evidentemente registravam as façanhas do construtor, algum poderoso conquistador e rei.
E aquelas longas e próximas linhas gravadas na pedra, ao longo das lajes, no mesmo caractere que as
pequenas inscrições nos tijolos que estavam espalhados na planície – com certeza, eles deveriam conter o
texto dessas ilustrações esculpidas. Mas quem os leria? Eles não são como qualquer outra escrita
conhecida no mundo e podem permanecer como um livro fechado para sempre. Quem, então, foi o
construtor? A que século pertencem essas estruturas? Qual guerra sobre a qual lemos que está sendo
retratada? Nenhuma dessas questões, as quais devem tê-lo agitado estranhamente, o Sr. Botta poderia
responder à época. Mas nada disso o tira a glória de ter sido, dos homens vivos, o primeiro a entrar no
palácio de um rei assírio.

18. O Sr. Botta, doravante, dedicou-se exclusivamente ao monte de Khorsabad. Sua descoberta foi uma
sensação na Europa. A indiferença acadêmica não era prova contra um tão inesperado choque; a
reviravolta foi completa e o espírito de pesquisa e iniciativa estava efetivamente despertado, para não
dormir de novo. O cônsul francês era abastecido por seu governo com amplos meios para continuar as
escavações em larga escala. Se o primeiro sucesso fora considerado meramente um ato de sorte, os passos
seguintes deveram-se certamente à inteligência, trabalho incansável e uma simples bolsa de estudos.
Vemos os resultados na volumosa obra de Botta, “Monumentos de Nínive” [B] e na encantadora coleção
assíria no Louvre, no primeiro salão no qual está localizado o retrato do homem cujos esforços e devoção
são devidos.

19. O grande pesquisador inglês Layard, um então jovem e entusiasmado acadêmico das viagens
orientais, passando por Mossul em 1842, encontrou Sr. Botta comprometido às suas primeiras e pouco
promissoras escavações em Koyunjik, e subsequentemente escreveu a ele de Constantinopla incentivando-
o a persistir e não desistir de suas esperanças de sucesso. Ele foi um dos primeiros a ouvir as incríveis
notícias sobre Khorsabad, e imediatamente ficou determinado a levar adiante um projeto próprio, o de
explorar um grande monte entre os árabes chamado Ninrode, e situado um pouco abaixo do rio Tigre,
perto da junção com um de seus afluentes, o grande Zab. A dificuldade estava na aquisição dos fundos
necessários. Nem os curadores do Museu Britânico ou o governo inglês estavam prontamente dispostos a
incorrer em gastos consideráveis em algo que ainda era visto como pouco provável. Foi Sir Stratford
Canning, então ministro inglês em Constantinopla que generosamente deu um passo à frente e anunciou
que estava disposto a bancar as despesas dentro de certos limites, enquanto as autoridades locais eram
solicitadas e chamadas ao trabalho. Então o Sr. Layard foi autorizado a iniciar as operações no monte que
ele tinha especialmente selecionado no outono de 1845, no ano seguinte ao qual a edificação de
Khorsabad foi finalmente aberta por Botta. Os resultados desta experiência foram tão vastos e
importantes, e as características de seu trabalho nas planícies assírias são tão interessantes e pitorescas,
que fornecerão amplos materiais para um capítulo separado.

NOTAS DE RODAPÉ:

[A] As “Descobertas em Nínive” de Layard, Introdução.

[B] Em cinco grandes volumes de folhas, uma de texto, duas de inscrições e duas de ilustrações. O título
mostra que Botta erroneamente imaginou que as ruínas que ele havia descoberto fossem as de Nínive.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

II.

LAYARD E SEU TRABALHO.

1. No começo de novembro, em 1845, vemos o jovem, entusiasmado e empreendedor acadêmico no


cenário dos seus futuros esforços e triunfos. Sua primeira noite no deserto, em uma vila árabe em ruínas
entre os pequenos montes de Ninrode, é vividamente descrita por ele: “Dormi pouco durante a noite. O
casebre no qual nos abrigamos e seus ocupantes não convidavam ao sono; mas tais cenas e companhias
não eram novas para mim; eles poderiam ter sido esquecidos, fosse meu cérebro menos excitado.
Esperanças, há muito acalentadas, agora virariam realidade, ou iriam terminar em decepção. Visões de
palácios subterrâneos, de monstros gigantes, figuras esculpidas, e infinitas inscrições flutuavam diante de
mim. Depois de montar plano após plano para a remoção da terra, e revelar esses tesouros, eu me
imaginava andando num labirinto de câmaras no qual eu poderia ficar sem saída. Então, de novo, tudo
estava enterrado, e eu estava em pé sobre o monte coberto de grama.”

2. Apesar de não ter sido condenado à decepção no final, essas esperanças ainda estavam por ser
frustradas de muitas maneiras antes das visões daquela noite se tornaram realidade. Pois muitas eram as
dificuldades com as quais Layard tinha que lidar durante os próximos meses assim como durante sua
segunda expedição, em 1848. As dificuldades materiais de acampar perpetuamente em um clima
desagradável, sem quaisquer das simples conveniências da vida, e as febres e as doenças repetidamente
provocadas pela exposição às chuvas de inverno e o calor do verão, talvez devessem ser contadas entre os
menores dos problemas, porque eles tiveram suas compensações. Não apenas pela ignorante e mal-
humorada oposição, direta ou indireta, das autoridades turcas. Isso foi um mal que nenhuma quantidade
de filosofia poderia purificá-lo. Suas experiências nessa área formaram uma incrível coleção. Felizmente,
a primeira foi também a pior. O paxá que ele encontrou empossado em Mossul era, em aparência e
temperamento, mais um ogro que um homem. Ele era o terror do país. Sua crueldade e capacidade de
roubar não conheciam limites. Quando ele enviou seus coletores de impostos para suas temidas rondas,
costumava dispensá-los com essa curta e enérgica instrução: “Vão, destruam, comam!” (exemplo, “caiam
matando”), e para seu próprio lucro havia retomado vários tipos de contribuições que demoraram a cair
em desuso, especialmente a chamada “dinheiro do dente” – “uma compensação em dinheiro, cobrada em
todas as aldeias, pela qual um homem de certa posição é entretido, pelo desgaste de seus dentes ao
mastigar a comida que se digna a receber dos habitantes”.

3. As cartas que foram cedidas a Layard asseguraram a ele agradáveis recepções deste amável
personagem, que lhe permitiu começar as operações no grande monte de Ninrode com um grupo de
trabalhadores árabes que ele contratou. Algum tempo depois, o paxá soube que alguns fragmentos de
folha de ouro foram encontrados no lixo e até mesmo ele obteve uma pequena amostra. Ele
imediatamente concluiu como fez o chefe árabe, que o viajante inglês estava escavando em busca de um
tesouro perdido – um objeto muito mais evidente para eles do que desenterrar e levar para casa pedaços
de pedras. Este incidente despertou a voracidade do grande homem, o fez mandar parar todas as buscas
seguintes; Layard, que sabia bem que um tesouro desse tipo não era abundante nas ruínas, imediatamente
propôs que sua excelência devesse manter um agente no monte, para assumir a responsabilidade de todos
os metais preciosos que pudessem ser descobertos durante as escavações. O paxá não havia mostrado
nenhuma objeção até o momento, mas alguns dias mais tarde, anunciou a Layard que, para sua tristeza,
ele achou que era seu dever proibir a continuação do trabalho, porque ele havia tomado conhecimento que
os escavadores estavam perturbando um cemitério muçulmano. Como as tumbas dos fiéis verdadeiros
eram sagradas e invioláveis por maometanos, isto era um obstáculo, se não fosse por dos oficiais do
próximo paxá ter revelado a Layard que eram tumbas falsas, que ele e seus homens foram lá secretamente

19
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

para fabricá-las, e por duas noites estavam trazendo pedras para este propósito das aldeias vizinhas. “Nós
destruímos mais tumbas dos verdadeiros fiéis”, disse o Aga (oficial), “fazendo tumbas falsas, do que você
poderia ter maculado. Matamos nossos cavalos e nós mesmos carregando essas malditas pedras.”
Felizmente, o paxá, cujos delitos não poderiam ser tolerados nem mesmo por um governo turco, foi
relembrado do Natal, e sucedido por um oficial de um patente totalmente diferente, um homem cuja
reputação era baseada na justiça e moderação e cuja chegada foi recebida com manifestações de alegria
pública. As operações no monte agora prosseguiram rapidamente e de forma bem-sucedida. Mas este
mesmo sucesso trouxe novas dificuldades para nossos exploradores.

4. Um dia, enquanto Layard retornava para uma excursão ao monte, ele foi abordado no caminho por dois
árabes cavalgando em velocidade máxima para alcançá-lo e gritaram para ele em grande excitação:
“Apresse-se, O Bey! Apresse-se para encontrar os escavadores! Pois eles encontraram o próprio Ninrode.
É maravilhoso, mas é verdade! Nós vimos com nossos olhos. Não há Deus senão Deus!” Muito intrigado,
ele se apressou e, descendo a trincheira, viu que os trabalhadores haviam descoberto uma cabeça gigante,
cujo corpo ainda estava enterrado na terra e nos destroços. Esta cabeça, lindamente esculpida no alabastro
fornecido pelas colinas vizinhas, ultrapassava em altura o mais alto homem ali. As bem torneadas linhas,
em seu repouso imponente, pareciam guardar um poderoso segredo e desafiar a curiosidade daqueles que
a contemplavam maravilhados e temerosos. “Um dos trabalhadores, ao primeiro vislumbre do monstro,
derrubou sua cesta e correu em direção a Mossul o mais rápido que suas pernas podiam levá-lo.”

2.—TEMPLO DE ÊA EM ERIDU (ABU-SHAHREIN). ESCADA DE SERVIÇO.

(Hommel.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. Os árabes vieram em multidões dos acampamentos vizinhos; eles dificilmente poderiam ser
persuadidos que a imagem era de pedra, e sustentaram que não era um trabalho vindo das mãos de
homens, mas de gigantes infiéis de tempos antigos. A comoção rapidamente se espalhou por Mossul,
onde o trabalhador aterrorizado, “entrando ofegante nos bazares, anunciou para todos que encontrava que
Ninrode havia aparecido”. As autoridades da cidade ficaram alarmadas, uniram-se e decidiram que tal
comportamento idólatrico era um ultraje à religião. Consequentemente, Layard foi requisitado por seu
amigo, o paxá Ismail, para suspender as operações por um tempo, até que a agitação diminuísse, um
pedido que ele achou mais sábio cumprir sem reclamação, com receio que o povo de Mossul saísse à
força e repartisse seu precioso achada assim como fizeram com a figura esculpida em Koyunjik no tempo
de Rich. O alerta, contudo, não durou muito. Árabes e turcos rapidamente tornaram-se familiares com as
estranhas criações que continuavam a emergir da terra, e discutir sobre elas com grande calma e
seriedade. Os colossais touros e leões com asas e cabeças humanas, dos quais vários pares foram
descobertos, alguns deles perfeitamente preservados, eram especialmente os objetos de observação e
suposições, que geralmente terminavam em a blasfêmia “todos os infiéis e seus trabalhos”, e a conclusão
a que se chegou foi que os “ídolos” deveriam ser enviados à Inglaterra, para figurar nos portões do
palácio da rainha. E alguns desses gigantes, agora no Museu Britânico foram na verdade removidos, com
infinitos esforços e mão de obra, arrastados até o rio Tigre e levados pelo rio em jangadas, não havia fim
para o encantamento dos amigos de Layard. Em uma certa ocasião um sheik árabe, ou chefe, cuja tribo se
comprometeu a ajudar a mover um dos touros alados, abriu seu coração para ele. “Em nome do Mais
Alto”, disse ele, “diga-me, O Bey, o que você vai fazer com estas pedras. Tanto dinheiro gasto nessas
coisas! Será, como você diz, que as pessoas vão aprender algo com elas? Ou como diz a sua reverência, o
Cadi (juiz muçulmano) declara, elas irão para o palácio da rainha, que, com o resto dos incrédulos,
adorarão esses ídolos? Quando à sabedoria, essas figuras não os ensinaram a fazer melhores facas, ou
tesouras, ou chintzes (tecido com estampa floral), e é na fabricação dessas coisas que os ingleses mostram
sabedoria.”

6. A visão do trabalho de Layard pelos turcos e árabes era muito generalista, do paxá até o mais humilde
escavador em sua equipe de trabalhadores, e ele raramente se sentia chamado a desempenhar o papel de
missionário da ciência, sabendo que todos esses esforços seriam nada senão perda de tempo. Essa falta de
simpatia intelectual não impediu o entendimento existente entre ele e esses guardas do deserto. A vida
primitiva que ele levou entre eles por muitos meses, a amável hospitalidade que ele invarialmente
experimentou em suas mãos durante as excursões e as visitas que ele fez a diferentes tribos de beduínos
nos intervalos recreativos aos quais ele se obrigava de tempos em tempos – estas estão entre as mais
prazerosas memórias daqueles maravilhosos anos. Ele as mantém com amor e as recorda por muitas
páginas de seus livros – páginas que, por sua vivacidade pitoresca, devem ser lidas com prazer mesmo por
aqueles com um leve interesse na descoberta de palácios enterrados e touros alados. Qualquer um sonha
naquelas noites ímpares quando, depois de um longo dia de trabalho, ele sentava-se na frente de seu
casebre sob a luz das estrelas, assistindo às danças com aqueles incansáveis árabes, homens e mulheres,
consolando-se noite adentro, enquanto o acampamento era animado com o cantarolar das vozes, e as
fogueiras acesas para preparar uma simples refeição. Qualquer um sonha em ter compartilhado esses
passeios pelas planícies tão densamente cobertas por flores, que pareciam uma colcha de retalhos de
muitas cores, e “os cachorros, quando retornavam das caçadas, vindos da longo capim tingidos de
vermelho, amarelo ou azul, dependendo das flores pelas quais eles tiveram que abrir caminho” – a alegria
da alma árabe, que fez o chefe, amigo de Layard, continuar a exclamar, “tumultuando na exuberante
vegetação e ar perfumado, enquanto sua égua caminhava entre as flores: ‘- Que maravilhas Deus nos deu
iguais a esta? É a única coisa pela qual vale a pena viver. O que os habitantes das cidades sabem sobre a
verdadeira felicidade? Eles nunca viram grama ou flores! Deus tenha piedade deles!’” Que glorioso
observar a superfície do deserto mudando suas cores quase dia a dia, branco sucedendo a cor de palha
clara, vermelho para branco, azul para vermelho, lilás para azul e dourado brilhante, de acordo com as

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

flores com as quais se enfeitou! O lindo tapete se estende além do que se vê, pontilhado com o preto das
tendas dos árabes, avivadas com rebanhos de ovelhas e camelos, e tropas inteiras de cavalos de raças
nobres que são trazidos de Mossul e deixados para pastar em liberdade, nos dias de brisas saudáveis e
pastagens perfumadas.

7. Acabou a primavera. Uma linda e perfeita estação, mas infelizmente tão breve quanto bonita, e muito
breve sucedida pelo terrível e seco calor do verão, que às vezes se instalava tão rápido que dificilmente
dava tempo para os moradores das vilas recolher suas colheitas. Caldéia ou a Baixa Mesopotâmia é, nessa
questão, ainda pior que as mais altas planícies da Assíria. Uma temperatura de quase 50ºC à sombra é
comum em Bagdá; é verdade que pode ser reduzida a 50ºC nos porões das casas ao cuidadosamente
excluir o menor raio de luz, e é lá que os habitantes passam a maioria dos dias no verão. A opressão é tal
que europeus não são equipados ou capacitados para exercer qualquer tipo de atividade. “Os camelos
adoecem, e os pássaros ficam tão aflitos pela alta temperatura, que se sentam embaixo das palmeiras em
Bagdá, com suas bocas abertas, ofegantes por ar fresco.”

8. Mas a característica mais terrível do verão da Mesopotâmia são as frequentes e violentas tempestades
de areia, durante as quais os viajantes, além de todos os perigos oferecidos pelas tempestades de neve –
sendo enterrados vivos e perdendo seu rumo – são expostos ao sufocamento não apenas do calor tipo
forno do vento do deserto, mas da areia impalpável, que é turbilhonada e guiada ante ele, e enche os
olhos, boca e narinas dos cavalos e homens. A viagem de 4.8 km do acampamento de Layard para o
monte de Ninrode deve ter sido apenas um agradável exercício matinal em tal estação, e apesar das
fundas trincheiras e poços proporcionarem um retiro fresco e agradável, ele logo percebeu que aquela
febre era o preço a se pagar pela indulgência, e ficou repetidamente acamado com ela. “O verde da
planície”, ele diz em um lugar, “morreu em quase um dia. Ventos quentes, vindos do deserto, haviam
queimado e levado embora os arbustos; revoadas de gafanhotos, escurecendo o ar, destruíram as poucas
áreas de cultivo e completaram a destruição que começou com o calor do sol... Violentos turbilhões de
vento ocasionalmente varreram a superfície do campo. Eles podiam ser vistos avançando sobre o deserto,
levanto com eles nuvens de pó e areia. A escuridão total quase prevalecia durante sua passagem, que
durava geralmente uma hora, e nada podia resistir a sua fúria. Retornando para casa uma tarde após uma
tempestade dessas, eu não encontrei rastros das minhas habitações; elas haviam sido completamente
levadas. Pesadas armações de madeira haviam sido suportadas pelo aterro e algumas arremessadas por
algumas centenas de jardas de distância; as tendas desapareceram e minha mobília estava espalhada pela
planície.”

9. Felizmente não foi preciso muito trabalho para restaurar as estruturas de madeira em seus lugares
apropriados e reconstruir as paredes de tranças de junco, rebocadas de lama assim como o teto composto
de juncos e galhos de árvore – estas sendo as suntuosas residências que Layard dividia na maior parte
com vários animais domésticos, de cuja companhia ele foi salvo por uma fina divisória, e os outros
casebres sendo dedicados a esposas, crianças e aves de seu anfitrião, para seus próprios serviçais e outros
usos domésticos. Mas chegou o tempo em que nem seu alojamento, por mais pobre que fosse, poderia ser
aproveitada com algum nível de conforto. Quando o calor do verão batia seriamente, as cabanas
tornaram-se inabitáveis, por sua proximidade e quantidade que se proliferavam, enquanto uma barraca de
lona, apesar de ser preferível por sua leveza e limpeza, não fornecia abrigo suficiente.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

10. “Neste dilema”, diz Layard, “eu ordenei que um refluxo fosse aberto na margem do rio onde subiu
perpendicularmente a partir da beira d’água. Blindando a frente com juncos e ramos de árvores, e
cobrindo o buraco com materiais similares, um pequeno aposento foi formado. Eu estava muito
preocupado, contudo, com escorpiões e outros répteis, que saíam da terra formando as paredes de meu
aposento; e depois no verão pelos mosquitos e pernilongos que pairavam em uma calma noite sobre o
rio.” É difícil decidir entre o mérito deste romance sobre um retiro de verão ou uma habitação de inverno,
ambiciosamente construída de tijolos de lama secos ao sol e com teto de sólidas vigas de madeira. Esta
imponente residência, na qual Layard passou os últimos meses de seu primeiro inverno na Assíria, seria
proteção suficiente contra o vento e o clima, depois de ter sido devidamente coberta com lama.
Infelizmente um pé d’água caiu antes de estar quase pronta, assim encharcando os tijolos que não secaram
até a primavera seguinte. “A consequência foi” - ele agradavelmente comenta, “que o único verde com o
qual meus olhos se permitiram regozijar antes de meu retorno à Europa foi providenciado por minha
propriedade – as paredes internas dos cômodos sendo continuamente revestidas com grama.”

3. VISTA DO EUFRATES PERTO DAS RUÍNAS DE BABILÔNIA.

(Babelon.)

11. Essas poucas indicações são suficientes para dar uma ideia razoavelmente clara do que pode ser
chamado de “Prazeres e dificuldades da vida de um explorador no deserto”. Quanto ao trabalho em si, é
bastante simples no dizer, embora deva ter sido extremamente tedioso e trabalhoso no fazer. O modo mais
simples de chegar ao conteúdo do monte seria remover toda a terra e destroços em caçambas – um
trabalho que nossos pesquisadores puderam sem dúvida realizar com grande facilidade, caso eles
tivessem à disposição algumas dezenas de milhares de escravos e prisioneiros, como tinham os antigos
reis que construíram as grandes edificações que agora teriam de ser desenterradas. Com uma centena ou
duas de empregados e recursos bem limitados, o caso era levemente diferente. A tarefa tornou-se essa:
conseguir os maiores resultados possíveis com o mínimo possível de gasto trabalho e tempo, e é assim
que tais escavações são realizadas, com um plano uniformemente seguido em todo o lugar como o mais
prático e direto:

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

12. Trincheiras, mais ou menos largas, são conduzidas por diferentes lados em direção ao centro do
monte. Isto é obviamente o modo mais seguro e mais curto para chegar ao que resta de relíquias que
possam estar embutidas nas paredes. Mas mesmo essa operação preliminar deve ser feita com algum juízo
e discernimento. É sabido que os caldeus e os assírios construíram seus palácios e templos não sobre o
nível, em solo natural, mas sobre uma plataforma artificial de tijolos e terra, com pelo menos 9m de
altura. Essa plataforma era guarnecida em todos os lados por uma forte parede de sólido tijolo queimado,
e muitas vezes revestido com pedra. Uma trincheira cavada direto da planície para dentro da parte mais
baixa do monte seria consequentemente mão de obra desperdiçada, uma vez que não levaria a nada a não
ser uma parede falsa, atrás do qual há apenas a massa sólida da plataforma. A escavação, portanto,
começa na encosta do monte, a uma altura correspondente à suposta altura da plataforma, e segue adiante
através da superfície até alcançar uma parede – uma pertencente a um dos palácios ou templos. Esta
parede então tem que ser seguida, até se achar uma ruptura, indicando uma entrada ou porta.[E] O
processo de escavação torna-se mais e mais complicado e, às vezes, perigoso. Eixos precisam ser
colocados lá embaixo em intervalos frequentes para levar ar e luz ao longo e estreito corredor; os lados e
a abóbada têm que ser apoiados por vigas para prevenir que a massa de terra fofa caísse e soterrasse os
escavadores. Cada pá de terra é removida em cestos que passam de mão em mão até que são esvaziados
para fora da trincheira, ou então vão para baixo vazias e enviadas cheias pra cima, pelos eixos através de
cordas e polias, para serem esvaziadas lá em cima. Quando uma porta é encontrada, ela é limpa por toda a
espessura da parede, que é muito grande; então um túnel similar é conduzido por todo o interior da
parede, tomando grande cuidado para não prejudicar as esculturas que geralmente a forravam, e que estão
meio danificadas e quebradas, suas partes superiores algumas vezes totalmente destruídas pela ação do
fogo. Quando o túnel ficou pronto dos quatro lados, cada porta ou portal cuidadosamente notada e limpa,
ela é vista a partir das medições – especialmente a largura – se o espaço a ser explorado é um pátio
inferior, uma sala ou uma câmara. Se for este último, é às vezes limpo de cima, quando os destroços
frequentemente fornecem valiosos achadas na forma de vários pequenos itens. Uma das câmaras,
descoberta por Layard, em Koyunjik, se mostrou uma perfeita mina de tesouros. As mais curiosas
relíquias foram trazidas à luz de lá: quantidades de botões e pequenas rosetas in madrepérola, mármore e
metal (como as usadas para enfeitar os arreios dos cavalos de guerra), bacias, copos e pratos de bronze[F]
além de caldeirões, escudos e outros itens de armadura, até mesmo tigelas de vidro, por fim, fragmentos
de um trono real – possivelmente o próprio trono no qual o rei Senaqueribe sentou para ouvir ou
pronunciar decisões, pois o palácio em Koyunjik onde esses objetos foram encontrados foi construído por
esse monarca tão familiar a nós pela Bíblia, e as esculturas e inscrições que cobrem as paredes são os
anais de suas conquistas no exterior e seu governo no país.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

4. MONTE BABIL. (RUÍNAS DE BABILÔNIA.)

(Oppert.)

A descrição da remoção dos colossais touros e leões que foram enviados à Inglaterra, e agora estão em
segurança no Museu Britânico, deveria por direito compor o próximo capítulo dedicado a “Layard e seu
trabalho”. Mas a referência deve bastar; a vívida e divertida narrativa deveria ser lido no original, pois as
passagens são muito longas pra transcrevê-las, e deveriam ser marcadas por citações.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. PRATO DE BRONZE.

NOTAS DE RODAPÉ:

[C] "Nínive e suas relíquias," e "Descobertas em Nínive e Babilônia."

[D] "As cinco grandes monarquias do mundo antigo", de Rawlinson, Vol. I., Cap. II.

[E] Veja Figura 15, na p. 53.

[F] Veja Figuras 5, 6, e 7.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

III.

AS RUÍNAS.

“E disseram um ao outro, Eia, façamos tijolos, e deixe-os queimar completamente. E eles usaram tijolos
como pedras e lodo como argamassa.” – Gen. xi. 3.

1. É um princípio, dito há muito tempo e reconhecido universalmente, que todo país faz seu próprio povo.
Ou seja, o modo de vida e a cultura intelectual de um povo são moldados pelas características da terra em
que habita; ou, em outras palavras, homens podem viver somente de uma maneira adequada às
peculiaridades de seu país. Homens que se fixaram ao longo da orla marítima levarão uma vida diferente,
desenvolverão diferentes qualidades de mente e corpo dos que possuem vastos pastos no interior ou os
que têm fortalezas nas montanhas escarpadas. Todos se comportarão de maneira diferente, comerão
alimentos diferentes, terão objetivos diferentes. Suas próprias residências e construções públicas terão
aspectos diferentes, de acordo com o material que terão em mãos em grande abundância, seja pedra,
madeira ou qualquer outra substância que sirva para o propósito. Assim, todo país criará seu próprio e
peculiar estilo de arte, determinado principalmente por suas produções naturais. Dentre eles, a arquitetura,
a arte da construção, será ainda mais dependente que qualquer outra.

6. PRATO DE BRONZE (PADRONAGEM E TAPEÇARIA).

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

2. Parece como se Caldéia ou a Baixa Mesopotâmia, vistas desse ponto de vista, nunca poderiam ter
originado qualquer arquitetura, porque é, à primeira vista, absolutamente deficiente em materiais de
construção de qualquer tipo. O terreno todo é aluvial, ou seja, formado, gradualmente, por milhares de
anos, pela rica lama depositada pelos dois rios, enquanto eles se espalham em vastas e pantanosas
planícies em seu curso. Tal solo, quando endurecido a uma consistência suficiente, é o melhor para o
cultivo e uma fonte de riqueza maior do que as minas mais preciosas; mas não suporta nenhuma árvore e
não contém pedras. O povo que primeiramente foi tentado a se fixar nas planícies em direção ao Golfo
Pérsico pela extraordinária fertilidade daquela região, não achara nada disponível para construir suas
simples habitações – nada além de juncos enormes, que cresciam lá, como crescem agora, em grande
profusão. Esses juncos “cobrem os pântanos no verão, crescendo frequentemente à altura de 14 a 15 pés.
Os árabes da região dos pântanos construíram suas casas deste material, ligando as hastes e formando
arcos com elas, para fazer a estrutura de suas casas; enquanto que, para fazer as paredes eles esticavam
esteiras feitas de folhas."[G]

7. SEÇÃO DE UM PRATO DE BRONZE.

3. Não há dúvida de que tais habitações compreendiam as aldeias e cidades daqueles primeiros colonos.
Eles proviam abrigo suficiente no inverno moderado daquela região, e, quando cobertos com uma camada
de lama que logo secava e endurecia ao sol, poderia parar até mesmo as violentas chuvas daquela estação.
Mas eles não eram de maneira alguma adequados para propósitos mais ambiciosos e dignos. Nem os
palácios dos reis ou os templos dos deuses podiam ser construídos com juncos dobrados. Algo mais
durável precisava ser encontrado, algum material que se prestasse a construções de qualquer tamanho ou
formato. A cobertura de lama dos casebres naturalmente sugeria tal material. Não poderia este barro ou
lama, que era um suprimento inesgotável sempre à mão, ser moldado em torrões de tamanho igual, e
depois de secos ao sol, serem empilhados para formar paredes do tamanho e largura requeridos? Então os
homens começaram a fazer tijolos. Descobriu-se que o barro ganhava muito em consistência quando
misturado com palha picada finamente – outro artigo que o país, abundante em trigo e outros grãos,
acumulava em quantidades ilimitadas. Mas, mesmo com essa melhoria, os tijolos secos ao sol poderiam
não resistir à contínua ação de muitas estações chuvosas ou muitos verões tórridos, pois tinham tendência
a se esfarelar quando secavam muito ou a encharcar e voltarem ao estado de lama, quando muito expostos

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

à chuva. Todos esses defeitos foram eliminados simplesmente assando os tijolos em estufas ou fornos, um
processo que dava a eles a solidez e dureza de uma pedra. Mas como o custo dos tijolos é muito maior
que o material original bruto, este último continuou sendo usado em grandes quantidades; as paredes
eram inteiramente deles e protegidas apenas por um invólucro externo de tijolos assados. Sendo tão mais
caros e calculados para durar para sempre, um grande cuidado era usado na sua preparação; o melhor
barro era selecionado e eles eram estampados com os nomes e títulos do rei cuja ordem o palácio ou
templo foi construído, para o qual foram usados. Isso foi muito útil para identificar as várias ruínas e
atribuir a elas datas, pelos menos, aproximadas. Como é de esperar, há uma notável diferença nas
amostras de diferentes períodos. Enquanto em alguns tijolos carregam o nome de um rei que viveu em
cerca de 3000 a.C., a inscrição é rude e pouco legível, e até mesmo sua forma é rústica e seu material bem
inferior, os do período babilônico (600 a.C.) são bonitos e bem feitos. Quanto à qualidade, todos os
exploradores concordam que é igual à dos melhores tijolos ingleses modernos. A excelência desses tijolos
para construção é um fato tão bem conhecido que por dois mil anos – desde a destruição da Babilônia –
suas muralhas, templos e palácios estão sendo usados como pedreiras para a construção cidades e aldeias.
A pequena cidade de Al-Hillah, situada perto da antiga capital, é construída quase inteira com tijolos de
um único monte, de Kasr – que uma vez foi o maravilhoso e conhecido palácio de Nabucodonosor, cujo
nome e títulos enfeitam as paredes das casas dos árabes e turcos mais humildes. Todos os outros montes
são usados similarmente, e estando a valiosa mina longe de se extinguir, que fornece, até hoje, um
comércio vivo e próspero. Enquanto um grupo de trabalhadores está continuamente empregado cavando à
procura de tijolos disponíveis, outro está ocupado os transportando para Al-Hillah; lá eles são enviados
pelo Eufrates e mandados para qualquer lugar onde há demanda de materiais de construção, e
frequentemente carregados em burros e algum local de desembarque e enviados milhas adentro para o
interior; alguns são levados até Bagdá, onde eles foram usados por anos. A mesma coisa é feita em
qualquer lugar onde há montes e ruínas. Tanto Layard como seus sucessores tiveram que permitir que
seus trabalhadores construíssem suas próprias casas temporárias com tijolos antigos, apenas os
observando cuidadosamente, com medo que quebrassem alguma relíquia valiosa no processo ou usassem
alguns dos espécimes mais belos e preservados.

8. VISTA DO NEBBI YUNUS.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

4. Nenhuma construção de tijolos, sejam eles brutos ou secos na estufa, poderia ser sólida o suficiente
sem a ajuda de algum tipo de cimento, para segurá-los juntos firmemente. Isto também a Caldéia e a
Babilônia produziam em quantidade suficiente e de várias qualidades. Enquanto nas primeiras estruturas
um tipo viscoso de argila ou barro vermelho é usado, em um período posterior é misturado com palha
picada, betume ou piche, e essa substância, quando aplicada quente, adere tão firmemente aos tijolos que
pedaços deles são quebrados quando é feita uma tentativa de adquirir um fragmento do cimento. Este
valioso artigo foi trazido pela água de Is pelo Eufrates (agora chamado Hit), onde abundantes fontes de
betume estão ativas até os dias de hoje. A areia calcária – ou seja, terra fortemente misturada com cal –,
sendo muito abundante ao oeste do baixo Eufrates, em direção à fronteira árabe, fez com que os
babilônios dos últimos tempos aprendessem a fazer uma argamassa branca que, por sua leveza e força,
nunca foi superada.

9. CONSTRUÇÃO EM TIJOLO COZIDO (MODERNA). (Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. Estando todos os materiais essenciais para construções simples, mas duráveis disponíveis no mesmo
lugar ou na vizinhança imediata, o próximo ponto importante era selecionar lugares apropriados para
edificar essas construções quer serviriam para o propósito de defesa, assim como adoração e para a
majestade real. Uma elevação rochosa, inacessível por um ou vários lados; ou no mínimo uma colina, um
monte de terra um pouco elevado na planície circundante, era geralmente escolhida onde quer que
existisse. Mas esse não era o caso em Caldéia. Lá, até onde a vista alcança, nem a mínima ondulação
atrapalha a planificação do terreno. Mesmo assim, lá, mais que em qualquer outro lugar, uma posição
elevada era desejável, mesmo se apenas como uma proteção das insalubres exalações de uma vasta
extensão de pântanos ou dos intoleráveis incômodos dos enxames de agressivos e venenosos insetos, que
infestavam toda a região do rio durante a longa estação do verão. A segurança dos ataques das numerosas
tribos itinerantes que vagavam pelo país em todas as direções antes de se fixarem e se organizarem
definitivamente, também não estava entre as últimas considerações. Então, o que a natureza recusou, a
destreza e trabalho do homem haviam suprido. Colinas artificiais e plataformas foram construídas,
enormes e altas – de 9 a 15, até 18 metros – e nos seus cumes planos as edificações foram levantadas.
Essas plataformas por vezes suportavam apenas um palácio, por vezes, como no caso dos imensos montes
de Koyunjik e Ninrode na Assíria, sua superfície tinha espaço para muitos deles, construídos por
sucessivos reis. Claro que esses grandes pilhas não poderiam ser inteiramente executadas em alvenaria
sólida ou mesmo em tijolos brutos. Eram geralmente misturados com terra e destroços de todo tipo, em
camadas mais ou menos regulares, alternadas, os tijolos sendo colocados na argila. Mas a parte externa
era feita em todos os casos de tijolo cozido. A plataforma do monte principal, que marca o lugar do antigo
Ur (agora chamado Mugheir)[H] é coberta com uma parede com 3 metros de espessura, de tijolos
vermelhos secos em estufa, cimentados com betume. Na Assíria, onde pedras não eram escassas, os lados
da plataforma eram até mesmo mais frequentemente “protegidos por uma maciça alvenaria de pedra,
levada perpendicularmente do chão a uma altura quase maior que a da plataforma e igualmente plana no
topo ou então com acabamento de pedras dentadas em formato de coroa”. [I]

10. MONTE NINRODE.

(Hommel.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

6. Alguns montes são consideravelmente maiores que outros e com um formato peculiar, quase como uma
pirâmide, isto é, terminando em uma ponta com descidas íngremes de todos os lados. Assim é o monte
piramidal Ninrode, que Layard descreve como sendo um objeto tão admirável e pitoresco à medida que
você se aproxima das ruínas de qualquer ponto da planície. [J] Assim também é o ainda mais pitoresco
monte de Borsip (agora Birs Ninrode), perto da Babilônia, o maior desse tipo. [K] Esses montes são
remanescentes de construções peculiares, chamadas Zigurates, compostas por várias plataformas
empilhadas, cada uma em forma quadrada e um pouco menor que a anterior; a plataforma mais alta
sustentava um templo ou santuário, que por esses meios era erguido bem acima das residências dos
homens, uma lembrança constante não menos eloquente que a exortação em alguns de nossos serviços
religiosos: “Levantai vossos corações!” Dessas torres apontando o céu, que também eram usadas como
observatórios pelos caldeus, amantes da observação das estrelas, a de Borsip, composta por sete
plataformas, é a mais elevada; mede mais de 45.7 metros de altura.

11. MONTE DE MUGHEIR (ANTIGO UR).

7. É evidente que essas colinas artificiais só poderiam ter sido erguidas com uma incrível força de
trabalho. As cuidadosas medidas que foram tiradas de muitos dos principais montes tornou possível aos
exploradores fazerem um cálculo preciso do exato montante de trabalhadores empregados em cada um. O
resultado é surpreendente, mesmo que se esteja preparado para algo enorme. O grande monte de Koyunjik
– que representa os próprios palácios de Nínive – cobre uma área de cem acres, e alcança uma altura de
29 metros no ponto mais alto. Juntar essa pilha de tijolos e terra “requereria o esforço de 10 mil homens
por 20 anos ou 20 mil homens por seis anos”. [L] Só assim a construção dos palácios começaria. O monte
de Nebi-Yunus, que ainda não foi escavado, cobre uma área de 40 acres e é mais alto e íngreme que seu
vizinho: “sua construção teria dado emprego a 10 mil homens pelo tempo de cinco anos e meio”.
Claramente, ninguém além dos monarcas conquistadores, que anualmente pegavam milhares de

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

prisioneiros em batalhas e os levaram em cativeiro uma parte da população de todos os países que
subjugavam, poderiam ter empregado tais tropas de trabalhadores em suas edificações – não uma vez,
mas continuamente, pois parece que houve um ponto de honra com os reis assírios dizendo que cada um
deveria construir um palácio para si.

12. PAREDE DO TERRAÇO EM KHORSABAD.

(Perrot e Chipiez.)

8. Quando alguém considera a característica da terra ao longo do curso superior do Tigre, onde os assírios
habitavam, não pode deixar de pensar por que eles prosseguiram construindo montes e usando nada além
de tijolos em suas construções. Não há razão nenhuma para isso na natureza do país. As cidades da
Assíria – Nínive (Koyunjik), Kalah (Ninrode), Arbela, Dur-Sharrukin (Khorsabad) – foram construídas
em meio a uma região acidentada abundante em muitas variedades de pedras, da macia cal ao duro
basalto; algumas delas na verdade ficavam em um terreno pedregoso com seus fossos sendo, em parte,
cortados através da rocha. Se eles quisessem pedras de melhor qualidade, eles tiveram apenas que pegá-
las da cadeia de montanhas Zagros, que contorna toda a Assíria a Leste, separando-a da Media. Mesmo
assim, eles nunca se aproveitaram desses recursos, o que deve ter levado a grandes melhorias em sua
arquitetura, e quase que inteiramente reservado o uso da pedra para propósitos ornamentais. Isso tenderia
a mostrar, em todo caso, que os assírios não se destacavam por serem gênios inventivos. Eles vagaram
para o norte das terras baixas, onde habitaram por séculos como uma parte da nação caldeia. Quando se
separaram e foram à procura de cidades por si mesmos, levaram com eles certas artes e artifícios de
artesanato que aprenderem no antigo país, e nunca pensaram em mudar nada neles. Nem parece ter
ocorrido a eles que ao selecionar uma elevação rochosa natural para suas edificações evitaria a
necessidade de uma plataforma artificial e economizaria muito tempo e trabalho.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

13. JANGADA IMPULSONADAS POR PELES INFLADAS (ANTIGO)

(Kaulen.)

13. JANGADA IMPULSONADAS POR PELES INFLADAS (MODERNO)

(Kaulen.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

9. Que eles submeteram a pedra a um uso prático – o revestimento externo de suas muralhas e
plataformas – nós já vimos. Os blocos devem ter sido cortados nas montanhas Zagro e trazidos pela água
– transportados em uma jangada pelo Zab ou algum dos outros rios que, nascendo daquelas montanhas,
fluíam para o Tigre. O processo é representado com uma clareza perfeita em algumas das esculturas.
Aquela reproduzida na Fig. 13 é de grande interesse, mostrando um modo peculiar de transporte –
jangadas flutuando em peles infladas – que estão até o presente momento em uso constante e geral como
parece ter sido nos mesmos moldes de três mil anos atrás e provavelmente mais. Quando Layard quis
mandar os touros e leões que ele tinha removido de Ninrode e Koyunjik, pelo Tigre, para Bagdá e Busrah
(ou Bassorah), para embarcá-los para a Europa, ele havia recorrido a esse transporte, pois nenhum outro é
conhecido para tal propósito. É assim que ele descreve a primitiva, porém engenhosa invenção: “As peles
de ovelhas e cabras adultas, retiradas com o mínimo de incisões possíveis, são secas e preparadas,
deixando uma abertura, pela qual o ar é soprado. Uma estrutura de vigas de álamo, galhos de árvores e
junco, construídos no tamanho da jangada desejada, as peles infladas são amarradas por galhos de vime.
A jangada é então feita e movida para a água e lançada. O cuidado é tomado para colocar as peles com as
bocas viradas para cima, para que, caso alguma exploda ou precise ser reinfladas, isso possa ser
facilmente conseguido. Em cima da estrutura são colocados fardos de mercadorias e pertences dos
mercadores e viajantes... Os jangadeiros empurravam essas rudes embarcações por longos remos, nas
extremidades dos quais são presos um poucos pedaços de junco. (Veja Fig. 14.) Durante as enchentes na
primavera ou depois de fortes chuvas, pequenas jangadas podem navegar de Mossul à Bagdá em cerca de
84 horas; mas as maiores geralmente levam seis ou sete dias para fazer a viagem. No verão, quando rio
está baixo, elas levam quase um mês para atingir seu destino. Quando são descarregadas, são quebradas, e
suas vigas, madeiras e galhos são vendidos a um lucro considerável. As peles são lavadas e depois
friccionadas com uma preparação, para não deixá-las rachar e apodrecer. Elas são então trazidas de volta,
seja nos ombros dos jangadeiros ou em burros, para Mossul e Tekrit, onde os homens envolvidos na
navegação do Tigre geralmente residem.” Numerosas esculturas nos mostram que peles similares também
eram usadas por nadadores, que andavam sobre eles nas águas, provavelmente quando pretendiam nadar
distância maior do que poderiam ter conseguido sem apoio. (Veja Figura 16.)

15. ESCAVAÇÕES EM MUGHEIR (UR).

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

10. Nossa imaginação anseia por reconstruir aquelas gigantes pilhas que devem ter impressionado o
espectador com sua imensidão imponente, cercadas na planície provavelmente por várias escadas e por no
mínimo uma subida de uma encosta suave o suficiente para oferecer um acesso conveniente a cavalos e
carruagens. Que imponente objeto deve ter sido, por exemplo, o palácio de Senaqueribe, à beira de sua
plataforma ameia (monte de Koyunjik), erguendo-se diretamente acima das águas do Tigre – nomeada na
linguagem antiga “A Flecha” devido a rapidez de sua corrente – dourado e avermelhado pôr-do-sol do
Oriente! Apesar da mesmice e da natureza pesada do material usado ter colocado a beleza arquitetônica
dos elementos fora de questão, o efeito geral deve ter sido de massiva grandiosidade e majestade,
auxiliada pela ornamentação elaborada esbanjada em cada pedaço da edificação. Infelizmente, o trabalho
de reconstrução é deixado quase que totalmente para a imaginação, que implica em um pouco de ajuda
dessas antigas e poderosas salas que o tempo converteu em montes disformes.

16. GUERREIROS NADANDO EM PELES INFLADAS.

(Babelon.)

11. Fergusson, um explorador e acadêmico inglês cujos trabalhos sobre temas ligados à arte,
especialmente a arquitetura, ocupavam um alto posto, tentou restaurar o palácio de Senaqueribe como ele
imaginava ser, seguindo as pistas fornecidas pelas escavações. Ele produziu uma impressionante e muito
eficaz pintura, da qual, contudo, uma metade é simplesmente trabalho de adivinhação. Toda a parte
interior – a muralha da plataforma com ameia e revestimento de pedra, as escadas amplas, a esplanada
generosamente pavimentada com lajes modeladas, e a parte mais baixa do palácio com seu revestimento
de lajes esculpidas e portais guardados por touros alados – é estritamente de acordo com os fatos positivos
fornecidos pelas escavações. Em relação ao resto, não há autoridade. Não sabemos ao certo se houve uma
segunda história para os palácios assírios. Em todo caso, não foram encontrados traços de escadas no
interior, e a parte superior das paredes do piso térreo foram ou demolidas ou destruídas pelo fogo. Quanto
às colunas, é impossível determinar por quanto tempo foram usadas e de qual forma. Tal como foram
usadas, como regra, apenas de madeira – troncos de grandes árvores cortados e amaciados – e
consequentemente todo e qualquer vestígio delas desapareceu, apesar de algumas bases redondas de
colunas em pedra terem sido encontradas. [M] Os mesmos comentários aplicam-se à restauração de uma
corte assíria, também de Fergusson, enquanto aquela de um salão do palácio, de Layard, não está aberta
ao mesmo descrédito e simplesmente dá os resultados das verdadeiras descobertas. Sem, portanto, perder

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

tempo considerando conjecturas mais ou menos não suportadas; vamos tentar reproduzir em nossas
mentes uma clara percepção de como era um salão de audiência de um rei assírio com o que podemos
chamar de conhecimento positivo. Veremos que nossos materiais nos levarão longe criando para nós uma
imagem vívida e autêntica.

17. VISTA DE KOYUNJIK.

(Hommel.)

12. Entrando neste salão, a primeira coisa que nos surpreende provavelmente seria o chão ou as grandes
lajes de alabastro delicadamente esculpidas com padrões graciosos, assim como as portas arcadas levando
aos cômodos adjacentes (ver Figuras 24 e 25) ou então cobertas com linhas de inscrições, com os
caracteres profundamente gravados e preenchidos com uma substância metálica fundida, com latão ou
bronze, o que daria a impressão do piso ser preenchido em caracteres dourados, com as estranhas formas
da escrita cuneiforme fazendo o todo parecer um intrincado e caprichoso desenho.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

18. LEÃO DE PEDRA NA ENTRADA DE UM TEMPLO. NINRODE.

(Perrot e Chipiez.)

13. Nosso olhar seria novamente fascinado pelos colossais touros e leões alados com cabeças humanas
mantendo sua vigia silenciosa em pares em cada um dos portais, e devemos notar com espanto que os
artistas colocaram neles uma perna extra, totalizando cinco delas em vez de quatro. Isso não foi feito
aleatoriamente, mas com uma bem calculada finalidade artística – a de dar aos monstros o número certo
de pernas, estivesse o espectador o contemplando de frente ou de perfil, porque nos dois casos uma das
três pernas frontais é escondida pelas outras. A vista de frente mostra o animal em pé, enquanto de perfil
parece que ele está caminhando. (Veja as Figuras 18 e 27). Os portões mereciam esses guardiões
majestosos. A alvenaria de tijolo cru desapareceu de uma altura de doze a quinze pés do chão sob as lajes
esculpidas de alabastro macio e cinzento que era solidamente aplicado à parede e seguro por fortes
grampos de ferro. Às vezes, um assunto ou uma figura gigante era representada em uma laje;
frequentemente o mesmo assunto ocupava várias lajes e raramente era levado pela parede por uma parede
inteira. Neste caso as linhas que começavam em uma placa e continuavam na próxima com tanta
suavidade, sem quebras, como para justificar a conclusão de que as placas foram esculpidas depois de
colocadas em seus lugares, não antes. Traços de tinta mostram que a cor era em certa medida para alegrar
estas representações, provavelmente não muito abundante e com algum discernimento. Assim a cor é
encontrada em muitos lugares nos olhos, sobrancelhas, cabelo, sandálias, na tapeçaria, na mitra ou
cocares dos reis, nos arreios dos cavalos e partes das carruagens, nas flores carregadas pelos criados, e às
vezes nas árvores. Onde um cerco era retratado, as chamas que saíam das janelas e telhados pareciam
sempre ter sido pintadas em vermelho. Contudo, há razão para acreditar que a cor era moderadamente

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

aplicada nas esculturas, e portanto elas devem apresentar um agradável contraste com a riqueza de
ornamentos que corriam nas paredes logo acima, e que consistiam de duros tijolos cozidos de tamanho
grande, pintados e vidrados no fogo, formando um friso contínuo de três a cinco pés de largura. Algumas
vezes a pintura representava figuras humanas e várias cenas, algumas vezes figuras aladas de divindades
ou animais fantásticos – em qualquer dos casos era comumente restrita acima e abaixo por uma simples,
mas graciosa execução padrão; ou consistiria totalmente de uma continuação do mais ou menos elaborada
do padrão como na Figura 22, 23 ou 25, esta última com composições simbólicas com significado
religioso. (Veja também a Fig. 21, “Vista interior”, etc.) Curiosamente os restos – na maioria fragmentos
insignificantes – que foram descobertas em várias ruínas mostram que esses bonitos tijolos vidrados
exibiam as mesmas cores que atualmente nos favorecem em todos os propósitos decorativos: aquelas
usadas mais frequentemente eram um amarelo escuro e pálido, branco e creme, um delicado verde pálido,
ocasionalmente um laranja e lilás pálido, um pouco de azul e vermelho; verde oliva e marrom são as cores
favoritas para o chão. “De vez em quando um azul intenso e um vermelho brilhante apareciam geralmente
juntos; mas esses tons positivos são raros, e o gosto dos assírios parece tê-los levado a preferir, por suas
paredes modeladas, tons pálidos e enfadonhos... O tom geral de suas cores é tranquilo, para não dizer
sombrio. Não há um esforço para alcançar tons brilhantes. O artista assírio procura agradar pela elegância
de suas formas e harmonia de seus matizes, e não surpreender por uma exibição de cores brilhantes e
cores fortemente contrastantes. [N]”

19. HARÉM EM KHORSABAD. (RESTAURADO.)

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

20. BASE CIRCULAR DE PILASTRA.

14. Foi perguntado: como essas salas eram cobertas e como eram iluminadas? Questões que levantaram
muita discussão e que raramente poderiam ser respondidas de maneira assertiva, uma vez que em nenhum
único caso a parte superior das paredes ou qualquer parte do teto foi preservada. Mesmo assim, a forma
peculiar e as dimensões das principais salas do palácio existem no sentido de estabelecer circunstâncias
evidentes no caso. Elas são invariavelmente longas e estreitas, as proporções em algumas são tão
impressionantes que parecem ter sido feitas mais como corredores que como cômodos – uma
característica, aliás, que deve ter comprometido muito sua beleza arquitetônica: elas eram três ou quatro
vezes mais extensas do que largas, até mais às vezes. O grande salão do palácio de Asshur-nazir-al na
plataforma do monte Ninrode (escavado por Layard, que o chama, por sua posição, de “palácio do
Noroeste”) tem 48.7 metros de comprimento por quase 12m de largura. Dos cinco salões no palácio de
Khorsabad, o maior mede 35.3 metros por 10m, o menor mede 26.5m por 7.6m, enquanto o mais
imponente em tamanho dos já descobertos, o grande salão de Senaqueribe em Koyunnjik, apresenta um
comprimento de 54.8metros com uma largura de 12m. É muito improvável que os antigos construtores,
que em outros pontos mostraram tanto bom gosto artístico, teriam selecionado esta uniforme e
insatisfatória forma para seus aposentos, a não ser que eles tenham sido forçados a se ater a isso por uma
insuperável imperfeição dos meios à sua disposição. Que eles sabiam usar proporções mais agradáveis em
seu efeito geral, vemos nas tribunas internas, as quais existiam muitas em todo palácio, e que em forma e
dimensões são muito parecidas com aquelas em nossos castelos e palácios – quase quadradas (certa de
54.8m por 36.5m de cada lado) ou ligeiramente retangulares: 28.3m por 25.6 metros, 37.7m por
27.4.metros, 45.7m por 38 metros. Apenas duas tribunas foram encontradas com forma mais longa e
estreita, uma com 76.2m por 45.7 metros, e outra com 67m por 30.4 metros. Mas mesmo assim isso é
muito diferente das galerias em forma de passagem. A única coisa que explica essa estranha característica
de todos os salões reais é a dificuldade de providenciar um teto a eles. É impossível fazer um teto plano

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

apenas com tijolos, e apesar de os assírios saberem como construir arcos, eles os usavam apenas para
abóbadas muito estreitas ou sobre portões e portas, e não poderiam ter levado o princípio deles em
qualquer escala muito extensa. O único recurso óbvio consistia em simplesmente preencher a largura do
salão com tábuas ou vigas de madeira. Agora nenhuma árvore, nem mesmo o grande cedro do Líbano ou
o alto cipreste do Leste, dará uma tábua de espessura igual do começo ao fim, de 12 metros de
comprimento, apenas poucos. Não havia como ignorar ou esquecer essa necessidade, então a questão foi
levada aos artistas completamente à parte de seus desejos. Isto também explica o grande valor agregado
por todos os conquistadores assírios ao fino trabalho em madeira. Era frequentemente exigido em tributo,
nada poderia ser mais bem visto como um presente, e expedições eram frequentemente realizadas nas
distantes regiões montanhosas do Líbano com o propósito de cortar algumas árvores. A dificuldade de
cobertura naturalmente desaparecia nos cômodos menores, usados provavelmente para dormir, e
apartamentos de habitação, e consequentemente eles variam de retangulares a quadrados; estes últimos
sendo geralmente de 7.6 metros de cada lado, às vezes menos, mas nunca maiores. Havia um grande
número de tais câmaras em um palácio; 68 foram descobertas no palácio de Senaqueribe, em Koyunjik,
lembrando que uma grande porção da construção ainda não foi explorada. Algumas eram altamente
decoradas como os grandes salões, algumas revestidas com placas planas ou rebocadas e outras não
tinham ornamentos e mostravam o tijolo cru. Essas diferenças provavelmente indicavam a diferença de
posição na família real das pessoas a quem foram atribuídos os cômodos.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

21. VISTA INTERIOR DE UMA DAS CÂMARAS DO HARÉM EM KHORSABAD.


(RESTAURADA.)

(Perrot e Chipiez.)

15. A questão da luz foi discutida por grandes exploradores – Layard, Botta, Fergusson – por muito
tempo e mostrando mais ingenuidade do que na questão dos tetos. Os resultados da erudita discussão
podem ser brevemente resumidos como segue: Podemos dar como certo que os salões eram
suficientemente iluminados, pois os construtores não teriam concedido a eles tal generoso trabalho
artístico se não quisessem que seu trabalho fosse visto com todos os seus detalhes e com melhor proveito.
Isso poderia ser executado em uma de três maneiras ou em duas combinadas entre si: por meio de
numerosas pequenas janelas perfuradas em intervalos regulares em cima do friso dos tijolos esmaltados,

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

entre eles e o teto; ou através de uma grande abertura no teto de madeira, como proposto por Layard em
sua própria restauração ou por pequenas aberturas feitas em intervalos mais frequentes. Esta última ideia
é de uso geral agora em casas armênias, e Botta, que a chama de louvre, fez um desenho dela. [O] É
muito engenhosa, e teria a vantagem de não permitir uma grande massa de luz do sol e calor, e de ser
facilmente coberta com tapetes e grossos tapetes de para impedir a chuva. O segundo método, apesar de
mais grandioso no efeito, não apresentava nenhuma dessas vantagens e seria indesejável principalmente
por causa da chuva, que, caindo em grandes quantidades – como faz, por semanas, naqueles países – deve
logo prejudicar o chão onde há tijolo e eventualmente transformá-los em lama, sem falar da
inconveniência de deixar esses cômodos inviáveis para uso por período indefinido. As pequenas janelas
laterais logo abaixo do teto mal proviam luz suficiente para eles. Quem sabe o que eles devem ter
combinado com o sistema de claraboia, e terem assim obtido finalmente algo satisfatório.

22. FRISO COLORIDO EM TIJOLOS ESMALTADOS.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

23. FRISO COLORIDO EM TIJOLOS ESMALTADOS.

16. Os reis da Caldéia, Babilônia e Assíria parecem ter sido possuídos por uma mania de construção.
Raramente um deles deixava inscrições contando como levantou este ou aquele palácio, este ou aquele
templo em tal cidade, muitas vezes em muitas cidades. Poucos pretendiam reparar as edificações deixadas
por seus predecessores. Isto é fácil de ser apurado, pois eles sempre mencionavam tudo o que fizeram
naquela linha. Vaidade, que parece ter acontecido, junto com o amor à pilhagem, quase sua paixão
governante, conta muito para isso. Mas também há outras causas, das quais a principal era da natureza
perecível das construções, não obstante toda sua solidez pesada. Feitos de material relativamente macio e
maleável, seu próprio peso poderia fazê-los se acomodar e empurrar os lados para fora em alguns lugares,
produzindo fendas em outros, e claro perturbando o equilíbrio da grossa, mas solta, alvenaria das paredes
construídas em cima deles. Esses acidentes não poderiam ser protegidos pelo invólucro de pedra ou tijolo
queimado, ou até mesmo pelos contrafortes que eram usados no começo para escorar as pesadas pilhas: a
pressão que vinha de dentro era muito grande para ser contida.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

24. LAJE DE PAVIMENTO.

17. Um agente externo, também, estava trabalhando, certamente e firmemente destrutivo: as longas e
terríveis chuças de inverno. O tijolo cru, quando exposto à umidade, facilmente se dissolve e volta ao seu
elemento natural – lama; até o tijolo queimado não é durável em longas exposições a violentas chuvas; e
sabemos que os montes eram metade compostos por destroços soltos. Uma vez completamente
permeados pela umidade, nada poderia impedir essas massas enormes de se dissolverem. Os construtores
tinham conhecimento do perigo e lutaram contra isso com suas melhores habilidades por um sistema de
drenagem habilmente planejado e admiravelmente executado, levado pelos montes em todas as direções e
despejando a água acumulada nas planícies por belos bocais construídos na forma de abóbadas em arco.
[P] Embaixo da pavimentação da maioria dos salões encontraram-se drenos, correndo pelo centro, e então
desviados para um duto em um dos cantos, que levava o conteúdo para um dos principais canais.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

25. SEÇÃO DE UM PORTÃO ORNAMENTAL (TIJOLOS OU AZULEJOS ESMALTADOS).


KHORSABAD.

(Perrot e Chipiez.)

18. Mas todas essas precauções foram, ao longo prazo, de pouco proveito, tanto que frequentemente era
um procedimento mais simples e menos custoso para um rei construir um novo palácio do que reparar e
escorar um velho caindo aos pedaços, no modo de dizer, nas mãos dos trabalhadores. Não é de se espantar
que às vezes, quando eles tinham que abandonar uma velha mansão sem conserto, eles procediam à
demolição para carregar as pedras e usá-las em suas próprias estruturas, provavelmente nem tanto por
uma questão de economia, mas tendo em vista a agilização do trabalho, pois corte de pedras nas pedreiras
e o transporte pelo rio eram uma operação lenta. Isso explica por que, em alguns palácios mais novos,
lajes foram encontradas com sua face esculpida virada para a parede de tijolos crus e a outra suavizada e
preparada para o artista ou com as esculturas metade apagadas ou empilhadas contra a parede, prontas
para serem colocadas no lugar. A natureza dos danos que deixaram as antigas construções ruir e perder
toda sua forma é fielmente descrita em uma inscrição do rei babilônio Nabucodonosor, na qual ele relata
como construiu o Zigurate do Borsip no local de uma antiga construção que ele reparou, na medida em
que pôde. É isso que ele diz: “O templo das Sete Esferas, a Torre de Borsip, que um antigo rei havia
construído... mas não havia terminado a parte de cima, pois seus dias haviam entrado em decadência. Os
canais para escoar a água não haviam sido propriamente providenciados; chuva e tempestades haviam
levado os tijolos, os tijolos do teto estavam quebrados; os tijolos da construção foram levados pela água e
amontoados em pilhas de lixo.” Tudo isso explica o suficiente os aspectos peculiares das ruínas
mesopotâmicas. Seja qual for o processo de destruição pelo qual as construções passaram, fosse natural
ou violento, pelas mãos dos conquistadores, fosse pela exposição ao fogo ou pelas intempéries climáticas,
a parte superior seria a primeira a sofrer, mas não desapareceria, devido à natureza do material, que não é
combustível. Os tijolos crus através da grande espessura das paredes, uma vez completamente soltos,
desalojados, secos ou encharcados, perderiam sua consistência e desabariam nas cortes e salas, entupindo-
as com o lixo macio no qual desmoronaram os excedentes rolando para os lados e formando encostas que,
de uma certa distância, enganosamente imitavam colinas naturais. O tempo, acumulando a areia do

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deserto e partículas de terra fértil, faz o resto, e cobre os montes com um enfeite verde e florido, um
deleite para os olhos árabes.

26. LEÃO ALADO COM CABEÇA HUMANA.

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

19. É a este modo de destruição que os reis assírios aludem em seus anais por meio da constantemente
recorrente frase: “Eu destruí suas cidades, eu os oprimi, eu os queimei, eu fiz montes com eles.” Por mais
difícil que seja chegar a esses tesouros embutidos nesses “montes”, não podemos reclamar do trabalho,
uma vez que eles devem a total preservação às macias massas de terra, areia e entulho solto que os
protegeram de todos os lados do contato com o ar, chuva e saqueadores ignorantes, deixando-os tão
seguramente – senão tão transparentes – guardados como uma noz em seu torrão de açúcar cristalizado.
Os exploradores sabem disso tão bem que, quando deixam as ruínas, após terem completado seu trabalho,
ele enchiam todos os espaços escavados com o mesmo entulho que foi tirado delas ao custo de muito
trabalho e tempo. Existe algo impressionante e respeitoso em reenterrar as relíquias daquelas eras e
nações mortas, de quem a obscuridade misteriosa de suas autoconstruídas tumbas se torna melhor que o
brilho da clara e curiosa luz do dia. Quando Layard, antes de sua partida, depois de mais uma caminhada
com alguns amigos por todas as trincheiras, túneis e passagens do monte Ninrode, para contemplar pela
última vez as maravilhas as quais nenhum homem havia visto antes dele, encontrou-se mais uma vez na
plataforma desnuda e ordenou seus trabalhadores a cobri-los de novo, ele foi fortemente movido pelo
contraste: “Nós procuramos em vão”, ele diz, “por quaisquer traços das maravilhosas relíquias que
acabamos de ver, e estamos meio inclinados a acreditar que sonhamos um sonho, ou estivemos ouvindo
um conto de um romance do Oriente. Alguns, que podem depois pisar no lugar quando a grama crescer
novamente em cima dos palácios assírios, podem de fato suspeitar que eu esteja relatando uma visão.”

27. TOURO ALADO.

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

20. Na Assíria, um fato curioso é que as ruínas nos falam apenas dos vivos, e que sobre os mortos não
existem resquícios. Alguns podem até pensar que ninguém nunca morreu por lá. Ainda assim, sabe-se que
todas as nações têm honrado os mortos com cerimônias de enterro e ornamentos em seus lugares de seu
descanso final, assim como na construção de seus caixões—algumas nações até mais, por exemplo, os
egípcios. Para essa adorável história de veneração dos mortos, deve-se metade às suas descobertas; com
certeza não deveríamos ter quase nenhuma informação confiável sobre as raças mais antigas, que viveram
antes da invenção da escrita, se não fosse pelos seus túmulos e objetos encontrados dentro delas. Portanto
é muito estranho que nada desse tipo foi encontrado na Assíria, um país que foi tão rico em cultura. As
sepulturas achadas em grande número em montanhas, enterradas a certa profundidade, pertencem, como a
própria posição em que foram encontradas diz, a raças posteriores, como turcos e árabes. Essa
peculiaridade é tão intrigante que estudiosos quase supõem que os assírios realizavam um ritual de
passagem desconhecido por nós ou que eles levavam os mortos parem serem enterrados em outro lugar. A
última suposição, embora não seja inteiramente desviada de provas, como vamos ver, não é apoiada em
nenhum fato positivo, e por isso nunca foi seriamente discutida. A questão é simplesmente deixada em
aberto, até que algo a mais aconteça para que ela seja discutida novamente.

28. HOMEM-LEÃO.

(Perrot e Chipiez.)

21. Na Babilônia, exatamente o contrário acontece. Ela pode vangloriar-se de algumas ruínas e esculturas
bonitas. As plataformas e paredes principais de vários palácios e templos são conhecidas pelos nomes
estampados nos tijolos e cilindros encontrados em suas fundações, mas eles apresentam apenas massas
sem formatos, dos quais todos os resquícios de trabalho artístico desapareceram. Em compensação, não
há país no mundo onde foram descobertos tantos cemitérios. Pelo que parece, a terra de Caldeia — talvez
porque tenha sido o berço das nações que mais tarde ganharam grandeza, como os assírios e os hebreus—
foi considerada um lugar de santidade peculiar pelos seus próprios habitantes, e provavelmente também
pelos seus países vizinhos, o que iria explicar a mania que parece ter prevalecido por muitos anos, de
enterrar os mortos lá. Estranhamente, alguns dos funerais de hoje em dia ainda são feitos do mesmo modo
sagrado de antigamente. Existem santuários em Kerbela e Nedjif (oeste de Babilônia) onde caravanas de
peregrinos trazem centenas de corpos em caixões cobertos de feltro da Pérsia, para enterro. Eles são

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

trazidos em camelos e cavalos. Em cada lado do animal há um caixão pendurado, golpeados de forma não
cerimonial pelos pés desnudos dos cavaleiros. Esses caixões são como mercadoria, descarregados pela
noite—e às vezes também por dias—nas estalagens ou caravançarais (locais de parada ao lado das
estradas), onde homens e animais descansavam juntos. Com o clima tropical do lugar, é fácil imaginar o
resultado. Grande mortalidade dentro das caravanas se dá pelos costumes repugnantes dos homens. Um
quinto deles deixam seus ossos no deserto em temporadas “saudáveis”. Entretanto, a gigantesca
proporção dos locais de enterro caldeus foi admirada até por viajantes gregos antigos, que chegaram até a
afirmar positivamente que os reis assírios foram enterrados em Caldeia. Se os reis, por que não os mais
nobres e mais ricos dos seus súditos? O transporte pelo rio não apresentava dificuldades. Ainda assim,
como já lembrado, isso tudo é mera suposição.

29. FRAGMENTO DO TIJOLO ESMALTADO.

(Perrot e Chipiez.)

22. Dentre as cidades caldeias, Erech (agora Warka) foi considerada em tempos antigos uma das mais
sagradas. Essa cidade tinha templos extremamente antigos e uma faculdade de sacerdotes, e ao seu redor,
formou-se uma imensa “cidade dos mortos” ou Necrópolis. O explorador inglês, Loftus, em 1854-5,
desviou sua atenção especialmente para isso e seu relato é impressionante. Primeiramente, ele ficou
admirado pelas ruínas majestosas. Warka e alguns outros montes estão localizados em um nível elevado
do deserto, acima do nível das inundações anuais e acessível somente entre novembro e março. No resto
do ano, seus arredores tornam-se um lago ou pântano. “A isolação e solidão de Warka”, diz Loftus, “são
mais impactantes do que a cena da própria Babilônia. Não há vida nos quilômetros ao redor. Nenhum rio
plana em grandeza na base dos seus montes; nenhum bosque verde floresce próximo as suas ruínas. Os
chacais e as hienas aparecem para expulsar o aspecto sem graça de suas sepulturas. O rei dos pássaros
nunca paira sobre o lugar abandonado. Uma folha de grama ou um inseto nunca acham existência lá. O
líquen encolhido sozinho, agarrado ao tijolo quebrado e danificado pelo tempo, parece gloriar-se com sua
dominação naquelas paredes isoladas. De todas as fotografias perdidas que eu já vi, as de Warka superam
todas incomparavelmente.” Certamente nesse caso, não é possível dizer que as aparências enganam; já
que todo aquele espaço, e muito mais, é um cemitério, e que cemitério! “É difícil,” fala Loftus
novamente, “transmitir qualquer coisa como uma ideia correta das pilhas e pilhas de restos humanos que
absolutamente impressionam quem observa o lugar. Exceto o único espaço triangular entre as três ruínas

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

principais, todo o restante da plataforma, todo o espaço entre as paredes e um extenso e desconhecido
deserto além delas, são cheios ossos e sepulturas dos mortos. Provavelmente, não existe nenhum outro
lugar no mundo que se compare com Warka nesse aspecto.” Deve-se adicionar que os caixões não ficam
organizados lado a lado, mas sim empilhados em camadas de até 18 metros de profundidade. Diferentes
épocas mostram diferentes modos de enterro, os quatro seguintes são os mais marcantes.

30.— CABEÇA DE RAM EM ALABASTRO.

(Museu Britânico)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

31.—TÚMULO DE ÉBANO.

(Perrot e Chipiez.)

32.—GARFO E COLHER DE BRONZE. (Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

23. Talvez o formato de caixão mais estranho de todos é aquele composto de dois jarros de terra batida (a
e b), que se encaixam juntos perfeitamente, ou um levemente se encaixa no outro, com a junção feita de
uma camada de betume, onde nem o ar pode passar (d, d). O corpo somente pode ser colocado nesse
caixão com os joelhos levemente dobrados. Em uma das partes do caixão (c), existe um buraco para
passagem de ar, feito para que os gases que se formam no processo de decomposição do corpo possam ser
expelidos e que podem quebrar os jarros caso contrário—uma precaução provavelmente sugerida por
experiências (Fig. 36). Em alguns caixões, existe somente um jarro de tamanho maior, mas de mesmo
formato, com uma tampa parecida também feita de betume, ou com a boca coberta de tijolos.
Essencialmente, esse é um modo nacional de enterro, talvez o mais antigo de todos, e mesmo assim
continuou sendo usado por um longo período. É possível notar que as jarras dos caixões têm o mesmo
formato dos jarros de água carregados nas ruas de Bagdá e familiares para todos os viajantes.

33. LOUVRE ARMÊNIO.

(Botta.)

24. Não menos original é o chamado “caixão coberto com prato”, também muito antigo e nacional. As
ilustrações suficientemente mostram seu formato e arranjo. [Q] Nesse caixão, às vezes é possível
encontrar dois esqueletos, mostrando que quando um viúvo ou viúva morria, o caixão era aberto para que
o recém-morto possa ficar com quem se foi antes. A tampa é feita de um pedaço—uma respeitável
façanha de trabalho artístico do ceramista. Em Mugheir (antiga Ur), um monte foi achado cheio de
caixões desse tipo.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

34. DRENOS ABOBADADOS. (KHORSABAD.)

(Perrot e Chipiez.)

35. DRENOS ABOBADADOS (KHORSABAD.)

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

25. Muito mais elaboradas e, consequentemente, provavelmente reservadas para os mais ricos e nobres,
são as sepulturas com abóbadas em tijolo, com o peso próximo ao de um homem. [R] Nessas sepulturas,
assim como nas antecedentes, o esqueleto sempre é encontrado deitado na mesma posição, evidentemente
ditado por ideias religiosas. A cabeça é deitada em um tijolo grande, comumente coberto com um pedaço
de estofo ou um pano. Nos panos esfarrapados, que às vezes ainda existem bordados caros e decorados
com tecido de ouro já foram reconhecidos mais de uma vez, enquanto alguns esqueletos femininos ainda
mostram cabeças bonitas com os cabelos arrumados em finas redes. O corpo fica sobre um tapete de
palha, com a mão direita esticada para que as pontas dos dedos possam alcançar uma tigela, geralmente
de cobre ou bronze, e às vezes de mão de obra fina, usualmente colocado na palma da mão esquerda. Ao
seu redor são colocados vários objetos — louças, algumas com restos de comida, pedras com informações
sobre o morto — jarras para água, lâmpadas, etc. Alguns esqueletos usam braceletes de ouro e prata ao
redor se réus pulos e tornozelos. Evidentemente, essas cúpulas são sepulturas de família, já que vários
esqueletos geralmente são encontrados nelas; em uma delas não tinha nada menos do que onze (Fig. 39).

36. CAIXÃO CALDEU EM FORMA DE JARRO.

(Taylor.)

26. Todos esses modos de enterro são muito antigos e peculiarmente caldeus. Mas ainda existem um
outro modo, que pertence a tempos mais recentes, até tão tarde quanto os primeiros séculos depois de
Cristo, e foi usado por uma raça diferente e estrangeira, os párticos, um daqueles que vinham em turnos e
conquistavam o país, ficavam por um tempo, e desapareciam. Esses caixões são, por causa de seu formato
curioso, conhecidos pelo nome de “formato de chinelo”. Eles são esmaltados, verdes por fora e azuis por
dentro, mas de mão de obra inferior: argila barata, misturada com palha, e pouco assada, portanto muito
frágil. É pensado que os caixões eram colocados em seu lugar vazios, só então o corpo era colocado, a
tampa fechada e o trabalho de cobri-lo com areia era deixado para o vento. A tampa é lacrada com o
mesmo cimento usado no tijolo de maçonaria ao redor do caixão, onde um recipiente foi feito para isso;
que usualmente ficam desorganizados, separados apenas por finas camadas de areia frouxa. Existem
montes que são, alguém pode dizer, recheados com esses caixões: aonde quer que você comece a cavar
uma trincheira, as pontas estreitas aparecem de ambos os lados. Nesses caixões, vários objetos também
foram enterrados com os mortos, às vezes objetos valiosos. Os árabes sabem disso; eles cavam a areia
com as próprias mãos, abrem os caixões com suas lanças e roubam os mortos. Isso deixa muito difícil de
adquirir um caixão inteiro. Loftus sucedeu, entretanto, em mandar alguns para o Museu Britânico,
primeiramente passando ao seu redor diversas camadas de papel grosso. Sem essa precaução, o transporte
dos caixões não seria possível.

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37. TUMBA COM “TAMPA DE PRATO” EM MUGHEIR.

(Taylor.)

38. TUMBA COM “TAMPA DE PRATO”.

(Taylor.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

27. Ao todo, os três primeiros tipos das antigas sepulturas caldeias são distinguidos por grande cuidado e
arrumação. Eles não são apenas separados por partições de tijolos nos lados, e também em cima e em
baixo por uma fina camada de tijolo de maçonaria, mas o cuidado maior projetá-los contra a umidade. Os
montes onde as sepulturas ficam são cheios de canos de drenagem ou poços, consistindo de uma série de
anéis, juntados solidamente com betume, de aproximadamente 30 centímetros de diâmetro. Esses anéis
são feitos de argila assada. O anel do topo tem o formato de um funil, com sua parte de baixo inserida em
tijolos perfurados com pequenos buracos, para receber qualquer infiltração. Apesar de tudo isso, os
poços, que são afundados em pares, são rodeados de cerâmica quebrada. Como os dois caixões e seus
conteúdos foram encontrados em perfeito estado, é possível ver o quão ingênuo e prático esse sistema foi
na época.

39. DRENO SEPULCRAL EM MUGHEIR.

(Taylor.)

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40. JARROS DE PEDRA DOS TÚMULOS. (LARSAM.)

(Hommel.)

28. De fato, os caldeus, se não conseguissem atingir tamanha perfeição como os assírios em suas lajes
esculpidas, em consideração de não terem pedras em casa ou de fácil alcance, parecem ter derivado uma
grande variedade de ornamentos arquitetônicos de seus materiais inesgotáveis — argila assada ou
terracota. Nós vemos um exemplo disso nos restos — infelizmente, muito pequenos, de algumas paredes
que pertencem à mesma cidade de Erech. Loftus ficou intrigado com um dos montes pela sua grande
quantidade de pequenos cones de terracota, inteiros e em pedaços, jogados no chão. A parte de baixo
deles era grossa e lisa, pintada de vermelho, preto ou branco. Ele ficou admirado quando se deparou com
pedaços de paredes (alguns de mais de dois metros de altura e não mais que dez em comprimento), que o
mostraram o que eles costumavam ser. Eles eram agrupados em uma variedade de padrões para decorar a
parede inteira, sendo presos com suas pontas finas em uma camada de argila macia que era revestida para
esse propósito. Ainda mais original e até mais incompreensível era uma decoração de parede que
consistia de várias fitas, cada uma composta de três fileiras de potes ou copos — de aproximadamente 10
centímetros de diâmetro—presas pela argila macia da mesma maneira, com as bocas viradas para fora, é
claro! Loftus achou essa parede, mas infelizmente não deixou o design dela. (Figuras 43 and 44.)

41. DRENO DE UM MONTE.

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

29. Em relação aos babilônios antigos ou até os caldeus, sobre arte em escultura, a última palavra ainda
não foi dita. Descobertas amontoam-se em todos os anos, constantemente guiando para as mais
inesperadas conclusões. Então, por muito tempo, o fato de que Assíria tinha poucas estátuas e Babilônia
não tinha nenhuma foi aceitável, quando há alguns anos (1881), o explorador francês Sr. E. De Sarzec,
cônsul francês em Barsa, trouxe para casa nove estátuas magníficas, feitas de uma pedra escura, quase
preta, dura como granito e chamada de diorito. [S] Infelizmente, todas as estátuas estavam sem cabeça,
mas para compensar essa “mutilação”, uma das cabeças foi achada separadamente — uma cabeça raspada
e com um turbante, lindamente preservada e de mão de obra notável, com o próprio padrão do turbante
simples o suficiente para ser reproduzido por qualquer tear.[T] Esses grandes prêmios eram
acompanhados por uma quantidade de pequenos trabalhos artísticos que representavam homens e
animais, de alto design artístico e alguns de trabalho de execução final excelentes. Esse achado incrível,
resultado de incansáveis anos de trabalho, que agora decoram as salas assírias do Museu do Louvre, em
Paris, vem de um dos montes babilônios que nunca tinha sido aberto antes, as ruínas de um templo
sagrado em um lugar agora chamado Tell-Loh, e supostamente onde foi Sir-burla ou Sir-gulla, uma das
cidades mais antigas de Caldeia. Essa “coleção do Sarzec”, como foi chamada, não vai apenas contra as
ideias formadas sobre arte caldeia antiga, mas as inscrições que cobrem as costas de cada estátua são de
imensa importância histórica, (sem falar dos cilindros e outros pequenos objetos), já que, em conexão
com os monumentos das outras ruínas, permitiu que estudiosos arrumassem, em um aproximado, a data
em que a cidade floresceu e quem foram seus comandantes, que deixaram extraordinários memoriais de
seus dons artísticos. Alguns datam as estátuas de 4500 a.C, alguns de 4000 a.C. Entretanto, o fato pode
ser surpreendente a primeira vista, mas é baseado em provas reais. As provas coincidem em vários
aspectos que os construtores e escultores de Sir-gulla não poderiam ter vivido muito mais tarde do que
4000 a.C. É impossível indicar em algumas linhas todos os pontos, conclusões e perguntas contrariadas,
nas quais essa descoberta dá luz mais ou menos diretamente, mais ou menos decisivamente; elas vêm
continuamente enquanto o estudo das idades remotas procede, e se passarão anos antes que os materiais
fornecidos pela Coleção de Sarzec” esgotem em resultados.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

42. PAREDE COM DESENHOS EM CONES DE TERRACOTA, EM WARKA. (ERECH). (Loftus.)

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NOTAS DE RODAPÉ:

[G] “Cinco Monarquias”, de Rawlinson, Vol. I., p. 46.

[H] Ur dos caldeus, de onde Abraão saiu.

[I] “Cinco Monarquias”, de Rawlinson, Vol. I., p. 349.

[J] Figura 10.

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[K] Figura 71, p. 281.

[L] “Cinco Monarquias”, de Rawlinson, Vol. I., pp. 317 e 318.

[M] Ver Fig. 20, p. 63. Há apenas uma exceção, no caso de uma recente exploração, durante a qual um
solitário eixo de coluna quebrado foi descoberto.

[N] “Cinco Monarquias”, de G. Rawlinson, Vol. I., pp. 467, 468.

[O] Ver Fig. 33, p. 83.

[P] Figuras 34 and 35, p. 84.

[Q] Figs. 37 and 38, p. 87.

[R] Fig. 39, p. 89.

[S] Ver Fig. 59, p. 217.

[T] Ver Figs. 44 e 45, p. 101.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

IV.

O LIVRO DO PASSADO — A BIBLIOTECA DE NÍNIVE.

1. Quando desejamos conhecer os grandes feitos das épocas passadas dos poderosos homens mortos há
tempos, abrimos um livro e o lemos. Quando queremos deixar para as próximas gerações um registro das
coisas que eram feitas por nós em nosso tempo, pegamos uma pena, tinta e papel, e escrevemos um livro.
O que escrevemos é então impresso, publicado em centenas – ou milhares – de cópias, conforme o caso, e
rapidamente encontra seu caminho para todos os países do mundo habitados por pessoas que são
instruídas desde a infância para aprender e estudar. De modo que temos a satisfação de saber que a
informação que trabalhamos para preservar será alcançada por muitos anos depois de termos deixado de
existir, sem mais problemas do que procurar o livro nas prateleiras de uma livraria, ou uma biblioteca
pública ou privada. É tudo muito simples. E não há uma pequena criança que não conheça perfeitamente
um livro pela sua aparência, e que ainda não tem uma precisa ideia de como um livro é feito ou para que
serve.

2. Mas livros não são sempre da forma e do material tão familiar para nós. Metal, pedra, tijolo, paredes e
pilares, mais que isso, as próprias rochas feitas pela própria natureza podem ser livros, transmitindo
informação tão clara como nossos volumes de folhas de papel cobertas com escritos ou linhas impressas.
É somente preciso saber como lê-los, e o conhecimento e habilidade necessários podem ser adquiridos
por processos tão simples como a ordinária arte de ler e escrever, apesar do custo de um grande montante
de trabalho e esforço.

3. Há dois desejos naturais, que se afirmam fortemente em toda mente não totalmente absorvida pelo
trabalho diário e pela ansiedade em como adquirir aquele trabalho: estes são os desejos, de um lado, de
aprender como as pessoas que viveram antes de nós viviam e, de outro, o que fizeram – transmitir nossos
próprios nomes e a memória de nossos feitos para aqueles que viram depois de nós. Não estamos
contentes com a nossa vida atual; nós queremos esticá-la para frente e para trás – para vivermos tanto no
passado como no futuro. Essa curiosidade e essa ambição são partes do desejo por imortalidade, que
nunca se ausentou da alma humana. Na nossa própria idade elas são satisfeitas principalmente por livros;
de fato elas foram originalmente as principais causas pelas quais os livros começaram a ser feitos. E que
fácil satisfazer esses desejos em nossa época, quando os materiais para a escrita haviam se tornado tão
comuns quanto comida e bem mais baratos, e ler não custa nada ou quase nada! Pois apenas um pouco de
dinheiro irá fornecer o escrito com o tanto de papel que ele possivelmente usará em um ano, enquanto as
bibliotecas públicas, as circulações e as bibliotecas universitárias e salas de estudo fazem do estudo mais
uma questão de amor e perseverança que de dinheiro.

4. Mesmo assim, se a fábrica de papel e a prensa fossem a única ajuda material para nossas pesquisas ao
passado, essas pesquisas parariam muito em breve, tendo em vista que a prensa foi inventada na Europa
quatrocentos anos atrás, e o papel não havia sido manufaturado por mais de seiscentos anos para o
exterior. Sim, outros materiais foram usados para escrever antes do papel: casca de árvores, peles de
animais (pergaminho), fibras de plantas trabalhadas (papiro, “biblos”), até mesmo tábuas de madeira
cobertas com uma fina camada de cera, nas quais caracteres eram gravados com um instrumento
pontiagudo ou “modelo” – e essas invenções preservaram para nós os registros que remontam a centenas
de anos antes da introdução do papel. Mas nossa curiosidade, uma vez despertada, é insaciável, e um
intervalo de vinte, trinta, quarenta séculos parece senão um estreito campo. Olhando tão longe quanto isso
– e nenhum tipo de manuscrito nos leva mais longe – observamos o mundo incrivelmente como é hoje.
Com algumas diferenças em vestimentas, maneiras, e uma muito maior quantidade de conhecimento,
encontramos os homens vivendo muito parecidamente como nós e sob quase os mesmos cenários: povos
vivem em famílias agrupadas em cidade, são governadas por leis, ou governadas por monarcas, exercem
o comércio e guerras, estendem seus limites pela conquista, sobressaem-se em todos os tipos de artes
ornamentais e utilitárias. Só notamos que regiões maiores são desconhecidas, mais vastas porções de

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

terra, com suas populações, são inexploradas, do que em nossos dias. A conclusão é claramente forçada
sobre nós, que uma tão complicada e perfeita organização da vida pública e privada, uma condição da
sociedade implicando tantas descobertas e por muito tempo uma prática de pensamento e trabalho
manual, não poderia ter acontecido em uma fase precoce da existência. Longos panoramas são vagamente
visíveis no passado muito mais vasto que o alcance ainda aberto a nossa visão, e esperamos perfurar a
escuridão tentadora. Lá, naquela escuridão, escondem-se o começo das raças cujos grandes feitos
admiramos, emulamos e muitas vezes ultrapassamos; lá, se pudéssemos enviar um raio de luz na
escuridão das eras, podemos encontrar a solução para inúmeras questões que se sugerem: De onde vêm
aquelas raças? Qual é o começo da história de outras raças com as quais as vemos lutando, festejando,
negociando? Quando eles aprenderam sua arte, suas músicas, suas formas de adoração? Mas aqui nosso
fiel guia, a literatura manuscrita, nos abandona; entramos em um período em que nenhum dos substitutos
do papel tinham sido inventados. Mas então, havia as pedras. Elas não precisavam ser inventadas –
somente lavradas e alisadas para o cinzel.

5. Felizmente, para nós, homens, 25, 40 e 50 séculos atrás, foram impulsionados pelos mesmos
sentimentos, as mesmas aspirações de agora, e dessas aspirações, o apaixonado desejo de perpetuar seus
nomes e a memória de seus feitos sempre foi um dos motivos mais poderosos. Este desejo ao qual
estavam ligados e a que ficaram subservientes às duas coisas que eram grandes e sagradas aos seus olhos:
sua religião e o poder de seus reis. Então construíram palácios e templos, em tijolo e pedra, em um quase
incalculável tamanho de tempo, mão de obra e vidas humanas. Nessas enormes pilhas, esbanjaram
tesouros incalculáveis, assim como todos os recursos de suas invenções e sua habilidade em arte e
ornamentação; eles os contemplavam com orgulho, não só porque pensavam que, por sua grandeza e
suntuosidade, serviam em lugares para adoração pública e habitações dignas de seus reis, mas porque
essas construções, em sua grandeza imponente, sua solidez maciça, ofereceram-se a desafiar o tempo e
durar mais que as nações que as ergueram, e que assim se asseguraram de deixar para trás deles traços de
sua existência, memoriais de sua grandeza. Alguns fragmentos desfigurados, desmantelados, cobertos de
musgo ou areia seriam um dia o único traço, o solitário memorial de um governo e de nações que teriam
então passado, mesmo para o nada e o esquecimento, mal foram premeditados pelos arrogantes
conquistadores que encheram seus salões com sua presença déspota, e entraram por aqueles consagrados
portões na pompa do triunfo para dar graças pelas vitórias sangrentas e façanhas bélicas que elevaram
suas almas em orgulho até sentirem-se eles mesmos meio divinos. Nada duvidando que aquelas paredes,
aqueles pilares, aqueles portões ficariam em pé até os últimos tempos, eles confidenciaram a eles o que
era mais precioso a sua ambição, o registro de seus feitos, os louvores de seus nomes, usando assim
aquelas superfícies pedregosas como muitas folhas em branco, que eles cobriram com linhas após linhas
de maravilhosos caracteres, cuidadosamente gravados ou cinzelados, e até mesmo representações pintadas
ou esculpidas de suas próprias pessoas e de cenas, em guerra ou paz, nas quais foram líderes e atores.

6. Deste modo é que é em todos os pontos do globo onde alguma vez nações grandes e prósperas tenham
mantido posições, e então tenham se rendido à outras nações ou à absoluta devastação – no Egito, na
Índia, na Pérsia, no vale do Tigre e Eufrates, nas arenosas e agora desertas planícies da Síria, nos uma vez
mais populosos lugares da Roma e Grécia –, o viajante encontra aglomerações de grandes ruínas,
sublimemente paradas em total abandono, com uma estranha e austera beleza pairando em volta de seus
poços gigantes e beirais destruídos pelo tempo, cobertos pelo patético silêncio da desolação, e ainda não
emudecidos – pois suas faces pintadas eloquentemente proclamam o conto da alegre vida e ação confiada
a ele muitos milhares de anos atrás. Algumas vezes, é uma pedra natural cortada e alisada à uma altura
suficientes para protegê-la da mão brutalmente destrutiva de invasores, na qual um rei com uma profunda
virada de pensamento, mais atento que outros sobre a lei que condena todas as obras dos homens à
decadência, fez uma relação dos principais eventos de seu reinado para serem gravados naqueles curiosos
caracteres que por séculos foram um quebra-cabeça e um enigma. Muitas tumbas também, além dos
restos mortais de famosos e ricos, para quem elas foram erguidas a um custo tão extravagante e com uma
arte tão elaborada quanto às casas em que moravam, contêm a descrição completa de linhagem de seu
ocupante, sua vida, seus hábitos e ocupações, com orações e invocações às divindades de sua raça e
descrições ou representações retratadas de cerimônias religiosas. Ou, as paredes das cavernas, naturais ou

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

cortadas na pedra com propósitos de abrigo ou esconderijo, rendem ao explorados mais alguns capítulos
da velha, velha história, em que nosso interesse nunca abranda. Esta história o próprio homem está
escrevendo, pacientemente, laboriosamente, em cada superfície em que ele possa traçar palavras e linhas,
desde que se tornou familiar à arte de expressar seus pensamentos em sinais visíveis – e então cada
memorial sobrevivente pode verdadeiramente ser chamado de uma folha solta, parcialmente e
miraculosamente preservada para nós, saída do grande Livro do Passado, o que tem sido a tarefa de
acadêmicos por eras, e especialmente durante os últimos 80 anos, decifrá-lo e ensinar a outros como lê-lo.

44. CABEÇA DE UM ANTIGO CALDEU. DE TELL-LOH (SIR-GULLA). COLEÇÃO COLLECTION.

(Perrot e Chipiez.)

45. IDEM, VISTA DE PERFIL.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

7. Deste venerável livro das paredes dos palácios assírios, com suas infindáveis fileiras de inscrições,
contando ano por ano através dos séculos a história dos reis que os construíram, estão tantas inestimáveis
páginas, enquanto as esculturas que acompanham esses anais são as ilustrações, emprestando vida e
realidade ao que, de outra forma, seria um fio de registros áridos e pouco atraentes. Mas uma maravilha
ainda maior foi trazida à luz dentre os entulhos e poeira de 25 séculos: uma coleção de trabalhos literários
e científicos, de tratados religiosos, de documentos públicos e privados, depositados em cômodos
construídos com o propósito de guardá-los, arranjados em uma admirável ordem – em resumo, uma
Biblioteca. Verdadeiramente e literalmente uma biblioteca, no sentido em que usamos a palavra. Não a
única, nem a primeira pelas muitas centenas de anos, embora os volumes sejam de uma forma singular e
pouco parecidos com os que estamos acostumados.

8. Quando Layard estava a trabalho pela segunda vez entre as ruínas ao longo do Tigre, ele devotou muito
de seu trabalho ao grande monte de Koyunjik, no qual os restos de dois suntuosos palácios foram
nitidamente discernidos, um deles a residência real de Senaqueribe, e o outro de seu neto Assurbanipal,
que viveu uns 650 anos antes de Cristo – dois dos mais poderosos conquistadores e mais magnificentes
soberanos do mundo Oriental. Neste último palácio ele se deparou com duas câmaras relativamente
pequenas, com seu chão cheio de fragmentos – alguns de tamanho considerável, alguns bem pequenos –
de tijolos, ou um pouco de tábuas de argila assada, cobertas dos dois lados com escrita cuneiforme. Era
uma cama com mais de um pé de altura que deve ter sido causada pela queda da parte superior da
edificação. As tábuas, empilhadas em uma boa ordem ao longo das paredes, talvez em um andar superior
– se, como muitos pensar, havia um – devem ter sido colocadas indiscriminadamente dentro do
apartamento e ele foi abalado pela queda. Mesmo assim, por incrível que pareça, muitas foram
encontradas inteiras. Layard encheu muitas caixas com fragmentos e os mandou para o Museu Britânico,
completamente ciente de seu provável valor histórico.

9. Lá eles ficaram por anos, amontoados aleatoriamente, uma mina de tesouros que deu água na boca aos
acadêmicos, mas os assustaram pela quantidade de trabalho, ou melhor, uma labuta real, necessária
somente para peneirá-los e classificá-los, mesmo antes de qualquer estudo sobre seu conteúdo pudesse
começar. Por fim, um jovem e ambicioso arqueólogo, ligado ao Museu Britânico, George Smith,
empreendeu uma tarefa longa e cansativa. Ele não era originalmente um acadêmico, mas um entalhador, e
era empregado para gravar em madeira textos cuneiforme para o magnificente atlas editado pelo Museu
Britânico sob o título de “Inscrições Cuneiformes da Ásia Ocidental”. Sendo dotado de uma mente rápida
e curiosa, Smith não se contentou, como a maioria de seus colegas, com uma reprodução consciente e
artística, mas meramente técnica; ele queria saber o que ele estava fazendo e aprendeu a linguagem das
inscrições. Quando ele tomou para si a classificação dos fragmentos, foi com a esperança de se distinguir
em sua área, e prover um serviço substancial para a ciência que o fascinou. Tampouco se enganou nessa
esperança. Ele foi bem-sucedido em encontrar e juntar uma grande quantidade de fragmentos similares, e
assim restaurando páginas de escrita, com linhas danificadas aqui e ali, uma palavra apagada, um canto
quebrado, às vezes um grande pedaço faltando, mas ainda assim suficiente para formar textos contínuos e
legíveis. Em alguns casos descobriu-se que havia mais de uma cópia deste ou daquele trabalho ou
documento, e por vezes as partes que foram irremediavelmente prejudicadas em uma cópia seriam
encontradas inteiras ou quase inteiras em outros.

10. Os resultados alcançados por este processo mecânico paciente foram algo incrível. E quanto ele,
depois de um tempo, restaurou a sua maneira uma série de doze tábuas contendo um poema inteiro muito
antigo e muito interessante, a ocasião parecia importante o suficiente para justificar que os proprietários
do Daily Telegraph, de Londres, enviasse o jovem estudante para retomar as escavações e tentar
completar algumas lacunas. Pois de algumas dessas tábuas restauradas por ele só pedaços foram achados
entre os fragmentos no Museu Britânico. É claro que ele foi direto para as Câmaras de Arquivos, em
Koyunjik, eles haviam aberto de novo e as desobstruído para encontrar uma grande parcela de conteúdos
valiosos, dentre os quais ele teve a grande sorte de encontrar algumas das peças que faltavam para sua
coleção. Ele retornou alegremente para a Inglaterra duas vezes com seus tesouros, e esperançosamente

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

montou uma terceira expedição do mesmo tipo. Ele tinha motivos para se sentir alegre; ele já havia feito
nome com vários trabalhos que enriqueceram muito a ciência que ele amava, e não teria ele uma vida para
continuar o trabalho que poucos poderiam fazer tão bem? Infelizmente, mal sabia ele que sua carreira
seria interrompida repentinamente por um inimigo brutal e repugnante: ele morreu de peste na Síria, em
1876 – com apenas 36 anos de idade. Ele foi fiel até o fim. Seu diário, no qual ele escreveu algumas
coisas até alguns poucos dias de sua morte, mostra que, no final, quando ele sabia do seu risco e estava
perdendo a esperança rapidamente, sua mente estava dividida igualmente entre pensamentos sobre a sua
família e seu trabalho. As linhas seguintes, quase as últimas inteligíveis que ele escreveu, são
profundamente tocantes em sua seriedade simples e única: – “Não muito bem. Se o doutor se apresentar,
eu devo me recuperar, mas ele não veio, caso muito duvidoso; se um adeus fatal para... Meu trabalho foi
totalmente para a ciência que eu estudo... Há um grande campo de estudo em minha coleção. Eu pretendia
trabalhar nela, mas desejo agora que minhas antiguidades e notas possam ser abertas a todos os
estudantes. Eu cumpri meu dever cuidadosamente. Não temo a mudança, mas desejo viver para minha
família. Talvez todos estejam bem ainda.” – A morte de George Smith foi uma perda muito grande, que
seus irmãos acadêmicos de todos os países não deixaram de lamentar. Mas o trabalho agora prossegue
vigorosamente e habilmente. Os preciosos textos são ordenados, juntados e classificados e uma coleção
deles, cuidadosamente selecionada, é reproduzida com a ajuda de um fotógrafo e um ilustrador, para que,
caso os originais se percam ou sejam destruídos (um evento não tão provável), o museu de fato pode
perder uma de suas raridades mais preciosas, mas a ciência não perderia nada.

11. Um eminente acadêmico e estudioso da Assíria francês, Joachim Ménant, escreveu as seguintes
pitorescas linhas em seu charmoso livro “La Bibliothèque du Palais de Ninive”: “Quando pensamos que
estes registros foram marcados com uma substância que nem fogo ou água poderia destruí-los, podemos
facilmente compreender como aqueles que os escreveram desta maneira há trinta ou quarenta séculos
acreditavam que os monumentos de sua história ficaria a salvo para os tempos futuros – mais seguros que
as folhas frágeis cuja impressão se desmancha facilmente... De todas as nações que nos deixaram como
legado os registros escritos de sua vida passada, podemos afirmar que nenhuma delas deixou monumentos
mais imperecíveis que a Assíria e a Caldéia. Seus número é considerável; e é diariamente aumentado por
novas descobertas. Não é possível prever o que o futuro reserva para nós a este respeito; mas podemos
mesmo agora fazer uma avaliação do material que possuímos... Somente o número de tábuas da
Biblioteca de Nínive passa de dez mil... Se compararmos esses textos com os deixados por outras nações,
podemos facilmente nos convencer que a história da civilização assíria-caldeia será brevemente uma das
mais conhecidas da antiguidade. É uma atração poderosa para nós, pois sabemos que a vida do povo
judeu é misturada com a história de Nínive e Babilônia...”

46. INSCRIÇÃO CUNEIFORME. (CARACTERES ARCAICOS.)

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

12. A partir disso, será visto que nas páginas seguinte nos referiremos continuamente aos conteúdos da
biblioteca real de Assurbanipal. Devemos, portanto prescindir neste lugar quaisquer detalhes em relação
aos livros, mais do que uma pesquisa geral dos assuntos que eles tratam. Destes, religião e ciência são os
principais. Em “ciência” devemos entender principalmente matemática e astronomia, dois ramos em que
os antigos caldeus alcançaram grande perfeição e nos deixaram muitas de suas mais fundamentais noções
e práticas, como veremos depois. Entre os trabalhos científicos também devem ser contados aqueles em
astrologia, ou seja, sobre a influência que os corpos celestes supostamente exerciam no destino dos
homens, de acordo com suas posições e combinações, para a astrologia isso é considerado uma ciência
real, não apenas pelos caldeus, mas por muitas outras nações antigas também; havia também manuais de
geografia, na verdade listas de mares, montanhas e rios, nações e cidades então conhecidas, e finalmente
listas de plantas e animais com uma tentativa bem grosseira e deficiente de alguma classificação. A
história é insuficientemente representada; parece ter sido na sua maior parte confinada às grandes
inscrições nas paredes e em alguns objetos, que veremos mais adiante. Mas – o que poderíamos no
mínimo esperar – gramáticas, dicionários e livros escolares ocupam um espaço proeminente. A razão é
que, quando a biblioteca foi fundada, a linguagem em que os veneráveis livros dos antigos sábios foi
escrita, não apenas não foi falada por muito tempo, mas também foi por séculos esquecida por todos
menos os sacerdotes e aqueles que faziam do conhecimento seu objetivo principal, de modo que a tinha
que ser ensinada do mesmo modo que as chamadas “línguas mortas”, latim e grego, são ensinadas em
nossas faculdades. Isso era mais necessário conforme as orações tinham que ser recitadas em uma língua
antiga chamada acádio, sendo considerada a mais sagrada – assim como, em países católicos, pessoas
comuns são até hoje ensinadas e falam suas orações em latim, apesar de não entenderem nada da língua.
Textos antigos em acádio eram em sua maioria copiados com uma tradução assíria moderna, ou
interlinear ou ajudando-a, o que foi um imenso serviço para aqueles que agora decifram as tábuas.

47. TÁBUA DE ARGILA COM INSCRIÇÕES.

(“Assíria”, de Smith.)

13. Tanto para o que pode ser chamado de o departamento clássico e de referência da biblioteca. Por mais
importante que seja, é pouco mais do que o departamento documentário ou de arquivo adequado, onde
documentos e escrituras de todo tipo, tanto públicos como privado, onde foram depositados para mantê-
los em segurança. Aqui ao lado de tratados, decretos ou despachos reais, listas de impostos, reportes de
generais e governantes, também aqueles enviados diariamente pelos superintendentes dos observatórios
reais – encontramos inúmeros documentos privados: escrituras de venda devidamente assinadas,
testemunhadas e seladas, para terras, casas, escravos – qualquer tipo de propriedade –, de empréstimo de
dinheiro, hipotecas, com a taxa de juros, contratos de todo o tipo. O mais notável dos documentos
privados é um que foi chamado de “desejo do Rei Sennacherib”, pelo qual ele confia alguma valiosa
propriedade pessoal aos sacerdotes do templo de Nebo, para ser mantida para seu filho favorito – se fora
entregue depois de sua (do rei) morte ou em outra ocasião, não está relatado.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

48. TÁBUA DE ARGILA EM SEU INVÓLUCRO.

(Hommel.)

14. É necessário algum esforço para ter em mente a natureza e aparência das coisas que devemos
representar para nós mesmos quando falamos em “livros” assírios. Acima (Fig. 47) está um retrato de um
“volume” em perfeita condição. Mas é raro, de fato, que um desses seja encontrado. Layard, em sua
primeira descrição de sua surpreendente “descoberta”, diz: “Elas (as tábuas) era de diferentes tamanhos;
as maiores eram planas e mediam 9 por 6 e meia polegadas; as menores eram levemente convexas, e
algumas não tinham mais que uma polegada de comprimento, com uma ou duas linhas de escrita. Os
caracteres cuneiformes na maioria delas eram particularmente fortes e bem-definidos, mas tão minúsculos
que ficariam ilegíveis sem uma lente de aumento.” Mais curioso ainda, lentes de vidro foram encontradas
entre as ruínas; que podem ter sido usadas para este propósito. Também foram encontrados espécimes dos
instrumentos que foram empregados para traçar os caracteres cuneiformes, e sua forma represente
suficientemente a forma peculiar desses caracteres que foram imitados pelos gravadores de pedras. É uma
pequena barra de ferro (ou estilo, como os antigos costumavam chamar tais implementos), não afiada,
e ponto no bolo de argila úmida na mão esquerda
nenhuma outra forma de sinal poderia ser obti
determinada com uma virada de punho, colocando o instrumento em diferentes posições. Quando um lado
da tábua estava cheio, o outro podia ser preenchido. Se era pequena, era suficiente para virá-la,
segurando-a continuamente entre o dedão e o dedo médio na mão esquerda. Mas se a tábua era grande e
tinha que ser colocada sobre uma mesa para escrever nela, o lado que já estava pronto seria pressionado
contra uma superfície dura e a argila, sendo macia, apagaria a escrita. Esta era guardada por um artifício
tão engenhoso quanto simples. Lugares vazios foram deixados aqui e ali na escrita, no quais foram
colocados pequenos pregos de madeira, como fósforos. Nestas tábuas serviam de suporte quando viradas,
e também enquanto eram assadas no forno. Em muitas dessas tábuas que foram preservadas são
percebidos pequenos buracos ou amassados, onde os pregos foram colocados. Mesmo assim, deve-se
mencionar que esses buracos não são exclusivos das tábuas grandes e não são encontrados em todas elas.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Quando estava cheia, poderia ser secada, e então geralmente, mas nem sempre, assada. Dentro dos
últimos poucos anos, muitas milhares de tábuas cruas foram encontradas na Babilônia; elas
desintegraram-se em pó nas mãos de quem as achou. Foi proposto então assá-las para que pudessem
suportar o manuseamento. O experimento foi bem-sucedido e muitos documentos valiosos foram assim
preservados e transportados para o grande repositório do Museu Britânico. As tábuas são cobertas em
ambos os lado com escritas e mais precisamente classificadas e numeradas, quando foram uma parte de
uma série, e neste caso são todas do mesmo formato e tamanho. O poema descoberto por George Smith é
escrito em doze tábuas, e cada uma delas é um livro separado ou um capítulo do todo. Há um trabalho de
astronomia em mais de setenta tábuas. A primeira delas começa com as palavras: “Quando os deuses Anu
e...” Estas palavras são tomadas como o título da série. Cada tábua traz o aviso: Primeira, segunda,
terceira tábua de “Quando os deuses Anu e...” Para se prevenir de qualquer chance de confusão, a última
linha de uma tábua é repetida como a primeira linha da seguinte – um hábito que vemos nos livros
antigos, onde a última ou duas últimas palavras no final da página são repetidas no topo da página
seguinte.

49. ANTIGO MONTAGEM DE CILINDRO DE BRONZE.

(Perrot e Chipiez.)

50. CILINDRO CALDEU E IMPRESSÃO.

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

51. CILINDRO ASSÍRIO.

(Perrot e Chipiez.)

15. As tábuas de argilas dos antigos caldeus se diferem das assírias por uma curiosa peculiaridade: elas
são às vezes envoltas num estojo do mesmo material, com exatamente a mesma inscrição e seladas como
sobre a tábua interior, até mesmo mais cuidadosamente executada. [U] É evidentemente um tipo de
documento duplicado, feito prevendo-se que o exterior pudesse ser prejudicado, quando o interior ficaria
intacto. Linhas de figuras pela tábua são impressas com selos chamados de cilindros por sua forma, que
são rolar sobre a argila macia e úmida. Estes cilindros eram geralmente de alguma pedra dura e valiosa –
jaspe, ametista, coralina, ônix, ágata, etc. – e eram usadas como anéis de sinetes antigamente e ainda hoje.
São encontrados em grande número, sendo por sua dureza quase indestrutível. Eram geralmente furadas
ao meio, e pelo furo passava tanto um fio, para poder vesti-los, ou um eixo de metal, para enrolá-lo com
mais facilidade. [V] Há uma grande e muito valiosa coleção de cilindros de vedação no Museu Britânico.
Seus tamanhos variam de um quarto de polegada a duas polegadas ou um pouco mais. Mas cilindros
também eram feitos de argila assada e de tamanho maior, e por isso serviam para um diferente propósito,
de documentos históricos. Estes são encontrados nas fundações de palácios e templos, na maioria das
vezes nos quatro cantos, em pequenos nichos ou câmaras, geralmente feitas omitindo um ou mais tijolos.
Estes pequenos monumentos variam de algumas polegadas e meio pé em altura, raramente mais; eles são
às vezes em forma de prisma com muitas faces (na maioria, seis), algumas vezes como um barril, e
cobertos com aquela compacta e minúscula escrita que geralmente requer uma lente de aumento para
decifrá-la. Devido à sua posição protegida, estes registros singulares são geralmente bem preservados.
Apesar de seu objetivo original ser somente dizer por quem e para qual propósito a edificação foi erguida,
eles frequentemente davam um completo, porém condensado relato dos reinados, de modo que, se a
estrutura superior com seus anais inscritos fosse destruída pelas vicissitudes da guerra ou devido à
deterioração natural, algum memorial de seus feitos estivesse ainda preservado – uma previsão que, em
muitos casos, foi literalmente cumprida. Algumas vezes, a espécie e o material desses registros eram
ainda mais caprichosos. Em Khorsabad, bem na parte interior da construção, foi encontrar uma grande
arca de pedra, que cobria muitas placas inscritas em vários materiais. “... Neste único exemplar
sobrevivente de uma fundação de pedra assíria foi encontrada uma pequena tábua de ouro, uma de prata,
outras de cobre, chumbo e estanho; um sexto texto foi gravado num alabastro, e o sétimo documento foi
escrito na própria arca.” [W] Infelizmente a parte mais pesada desta notável descoberta foi enviada com

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

uma coleção que afundou no rio Tigre e se perder. Apenas as pequenas placas – ouro, prata, cobre e
estanho (antimônio, pensam agora os acadêmicos) – sobreviveram, e as inscrições nelas foram lidas e
traduzidas. Todas elas celebravam, quase nos mesmos termos, a fundação e construção de uma nova
cidade e palácio por um famoso rei e conquistador, geralmente (apesar de incorreto) chamado Sargon, e
três delas terminam com um pedido para os reis e seus sucessores de manter a edificação em bom estado,
com uma prece para seu bem-estar se fizessem essa tarefa e uma pesada maldição se não fizessem:
“Quem alterar os trabalhos de minhas mãos, destruir minhas construções, colocar abaixo os muros que eu
ergui – que Assur, Nineb, Ramá e os grandes deuses que lá habitam arranquem seu nome e descendentes
da terra e os deixem sentados aos pés de seus inimigos.” A maioria das inscrições terminava com
invocações desse tipo, pois, nas palavras de Ménant: “não foi mero capricho que impeliu os reis da
Assíria a construir tão assiduamente. Palácios tinham um objetivo naqueles tempos que não o de hoje. O
palácio não apenas era de fato a residência da realeza, como consta nas inscrições – era também o Livro,
que cada soberano começou em sua ascensão ao trono e no qual foi registrada a história de seu reino.” [X]

E cada livro de tijolo e pedra, podemos chamar perfeitamente de um capítulo – ou um volume – do


grande Livro do Passado, cujas folhas estão espalhadas pela face da terra.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

52. PRISMA DE SENAQUERIBE. TAMBÉM CHAMADO DE “CILINDRO DE TAYLOR”.

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53. CILINDRO COM INSCRIÇÕES, DE BORSIP.

NOTAS DE RODAPÉ:

[U] Ver Fig. 48, p. 111.

[V] Ver acima, Figs. 49 e 50.

[W] Dr. Julius Oppert, "Records of the Past," Vol. XI., p. 31.

[X] "Les Écritures Cunéiformes," de Joachim Ménant: página 198 (2ª edição, 1864).

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

CALDEIA E OS PAÍSES VIZINHOS

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

A HISTÓRIA DA CALDÉIA.
I.

NÔMADES E COLONOS. – OS QUATROS ESTÁGIOS DA CULTURA.

1. Os homens, qualquer que seja sua busca ou negócio, podem viver somente em uma de duas maneiras:
eles podem ficar onde estão ou eles podem ir de um lugar a outro. No estado atual do mundo, nós
geralmente fazemos um pouco de cada. Existe algum lugar — uma cidade, uma vila ou uma fazenda—
onde temos nossa casa e nosso trabalho. Mas, durante certos períodos, vamos para outros lugares, à visita
ou a negócio, ou viajamos por um determinado tempo para grandes distâncias e vários lugares, para
estudos e lazer. Ainda assim, normalmente existe um lugar que consideramos como nosso lar e para o
qual retornamos. Perambular por aqui ou alí não é a nossa condição natural ou permanente. Mas, para
algumas raças isso é normal. Os árabes beduínos são a principal e mais conhecida dessas raças. Quem não
leu com prazer os relatos sobre suas vidas selvagens nos desertos da Arábia e norte da África, tão cheios
de aventura e romance — de seus cavalos incríveis e inestimáveis, tratados como próprios filhos — de
suas nobres qualidades, coragem, hospitalidade, generosidade, estranhamente misturados com seu amor
por pilhagem e paixão em roubar expedições? De fato, eles são uma raça nobre e não é sua escolha, mas
sim do país que os tornou ladrões e viajantes — Nômades, como essas raças andarilhas são chamadas na
história e geografia. Eles não podem construir cidades na areia do deserto, e os pequenos pastos e bosques
de palmeiras, mantidos frescos e verdes por nascentes solitárias e chamados de “oásis” são muito
isolados, muito distantes para regiões permanentemente povoadas fazerem deles uma colônia confortável.
No sul da Arábia, junto à costa do mar, onde a terra é fértil e convidativa, eles vivem tanto o quanto
outras nações, e quando, há milhares de anos, árabes conquistaram países grandes e ricos da Europa e
Ásia, e também da África, eles não se tornaram apenas grandes cultivadores, mas construíram algumas
das melhores cidades do mundo, estritamente impondo leis e tomando iniciativa na literatura e ciência. As
tribos de nômades dispersas, que ainda andam pelos restos da Rússia Oriental, Sibéria e Ásia Central, são
muito diferentes. Elas não são tão talentosas quanto os árabes, mas mesmo assim, provavelmente se
adaptariam rapidamente à agricultura, se não fosse que sua riqueza consiste de rebanhos de ovelhas e
cavalos, o que demanda um abundante pasto verde. Essa riqueza também demanda que eles desloquem-se
de lugar frequentemente, carregando suas tendas e utensílios, vivendo com o leite de suas águas e a carne
de suas ovelhas. As tribos de índios vermelhos do oeste longínquo também apresentam outro aspecto da
vida nômade — o caçador, feroz e completamente indomável, o mais simples e selvagem de todos.

2. Ao todo, entretanto, a vida nômade é a exceção nos dias de hoje. A maioria das nações que não são
selvagens vive em casas, não tem tendas portáveis, em cidades, não em acampamentos, e formam
comunidades sólidas e compactas, não partes avulsas de tribos, às vezes amigáveis, às vezes hostis entre
si. Mas nem sempre foi assim. Existiram tempos em que a vida colonizada era a exceção e a vida nômade
e era a regra. E quanto mais antiga a época, mais numerosas eram as tribos errantes. Isso porque buscar
por lugares melhores deve ter sido uns dos principais impulsos da humanidade inteligente. Até quando os
homens não tinham nenhum abrigo além de cavernas, nenhuma busca além da caça de animais, dos quais
se alimentavam de sua carne e vestiam-se de sua pele, eles frequentemente deviam seguir em frente, em
família ou sozinhos, ou para escapar de uma boa vizinhança infestada com grandes bichos selvagens, que
já povoaram a terra mais espessamente que homens, ou simplesmente porque as cavernas estavam muito
cheias para eles. O último fato deve ter sido uma ocorrência muito comum: famílias ficavam juntas até
não terem espaço suficiente nas cavernas, ou brigavam, quando se separavam. Os que iam embora, nunca
mais viam o lugar ou família que deixaram, mas mesmo assim levavam consigo memórias, artes simples
e costumes que aprenderam com eles. Eles paravam em alguns lugares de abrigo simpáticos, quando,
entre tempos, o mesmo processo se repetia várias vezes.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

3. Como o primeiro cavalo foi conquistado, o primeiro cachorro selvagem domado e conciliado? Como o
gado foi primeiramente atraído para dar seu leite aos homens, depender de seus cuidados e seguir seus
movimentos? Quem pode dizer? De qualquer forma que isso tenha acontecido, é certo que a transição da
existência de um caçador selvagem, irregular e quase necessariamente sem leis para uma vida pastoral e
de buscas mais amenas se dá por uma grande mudança em modos e caráter. O sentimento de posse, um
dos principais pilares do senso de uma sociedade bem regulada, também deve ter se desenvolvido
rapidamente com a possessão de forma acelerada de ovelhas e cavalos — as principais posses das raças
nômades. Mas não era um tipo de posse que os encorajava a ficar no mesmo lugar ou viver em
comunidades fechadas, e sim o contrário. Grandes rebanhos precisam de pastos amplos. Além do mais, é
conveniente deixá-los separados para evitar brigas e confusões por fontes e nascentes de água, os tesouros
raros dos Estepes, que estão sujeitos à exaustão ou seca, e, então, os donos dos rebanhos provavelmente
não queiram compartilhar entre si, mesmo que seja com alguém de sua própria raça e família. O livro de
Gênesis, que nos dá uma visão fiel e viva de como era a vida nômade e pastoral de nações antigas, no
relato das divagações de Abraão e outros patriarcas hebreus, narra um incidente como esses: a briga entre
os pastores de Abraão e seu sobrinho Ló, o que os levou a sua separação. Abraão então disse a Ló: “Não
está toda a terra diante de ti? Eia, pois, aparta-te de mim; e se escolheres a esquerda, irei para a direita; e
se a direita escolheres, eu irei para a esquerda.” [Y] Também é dito que Esaú “foi para outra terra
apartando-se de Jacó, seu irmão: porque os bens deles eram muitos para habitarem juntos; e a terra de
suas peregrinações não os podia sustentar por causa do seu gado.” [Z] Isso era uma facilidade dada pelas
imensas planícies, não reclamadas por nenhum povo em particular, e que muitas vezes devem ter evitado
brigas e matanças, mas que parou no momento em que alguma tribo, cansada de vagar ou tentada por um
lugar para estabelecer-se, fixou-se nela, marcando o terreno e a terra em torno dele para si, tão longe
quanto seu poder alcançava. Hoje, existe até um lugar no leste muito parecido com esse modo de
ocupação. No Império Turco, que é, em muitos lugares, pouco povoado, existem grandes regiões de terra
desperdiçada, às vezes muito férteis, consideradas propriedades sem donos, e pertencem, legalmente e
para sempre, para o primeiro homem que tomar posse e a cultivar. O governo não cobra pela terra em si,
mas demanda impostos do dono assim que a terra dá frutos.

4. A vida nômade pastoral é, assim como a do caçador, singularmente livre — livre de resistências e
trabalhos duros. Cuidar e guiar rebanhos não é um trabalho árduo, e nenhuma autoridade pode ser dada a
pessoas que estão em um lugar hoje e em outro no dia seguinte. Então, é somente com o terceiro estágio
da existência humana, o agrícola, que a civilização, não podendo existir sem lares permanentes e
autoridade, realmente começa. A propriedade do fazendeiro é o começo do Estado, assim como a lareira
foi o começo da família. Os diferentes trabalhos dos campos, da casa e da leitaria requerem um grande
número de mãos e uma distribuição de trabalho bem regulada, e por isso, mantém várias gerações de
famílias de colonos juntos na mesma fazenda. A vida em comunidade necessariamente demanda um
conjunto de simples regras para o comando da casa, evitar brigas, manter a ordem e a harmonia, e
resolver questões e direitos mútuos e tarefas. Quem deve tomar iniciativa e cobrar essas leis além do
chefe da família, o fundador da raça — o patriarca? E quando a família torna-se muito numerosa para a
propriedade acomodar a todos, e parte dela deve partir e achar um novo lar para si. Essa parte da família
não vai muito longe, como nos tempos nômades antigos, mas se estabelece próximo à propriedade da
família, ou toma posse de uma terra mais afastada, mas ainda assim de alcance fácil. No primeiro caso, a
terra que era propriedade comum é dividida em lotes, que apesar de pertencerem aos membros da família
que se separaram dos outros, não são retirados da autoridade do patriarca. Hoje existem várias
propriedades que formaram uma vila ou, depois, várias vilas; mas os laços de parentesco, de tradição e
costumes são religiosamente preservados, assim como a subordinação para o chefe da raça, cujo poder
cresce junto com o número de membros na comunidade e extensão das terras, conforme as grandes
complicações de relações, propriedade e herança demandam mais leis e um governo mais rigoroso – até
que ele se torne não apenas um patriarca, mas um rei. Então, naturalmente, vêm as colisões com vizinhos
similares, amigáveis ou hostis, que resultam em alianças ou brigas, transações ou guerra, e aqui temos o
Estado completo, com a organização interna e política externa.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. Esse estágio de cultura, em seu desenvolvimento mais avançado, combina com o quarto e último das
raças — a construtora e moradora das cidades, quando homens da mesma raça e conscientes de uma
mesma origem, mas praticamente estranhos uns aos outros, formam colônias em uma grande escala, que,
fechadas por paredes, tornam-se lugares de refúgio e defensa, centros de comércio, indústria e governo.
Quando uma comunidade torna-se muito numerosa, com desejos multiplicados por melhorias contínuas e
cultura crescente, cada família não consegue mais produzir as coisas de que necessita, e uma parte da
população se dedica a manufaturados e artes, ocupações mais comuns em cidades, enquanto outros
continuavam a cultivar a terra e criar gado. Esses são os dois principais produtos — aqueles da natureza e
aqueles feitos pelas mãos e cérebros dos homens — sendo trocados um pelo outro ou trocados por
moedas, quando ela foi inventada. Desse mesmo modo, a tarefa do governo tornou-se muito grande e
complicada para apenas um homem, o antigo patriarca e agora rei, que é obrigado a ter assistentes — ou
os mais velhos da raça ou pessoas de sua preferencia — e mandar outros para lugares diferentes, para
governar em seu nome e sobre sua autoridade. A cidade na qual o rei e seus ministros imediatos e oficiais
residem naturalmente torna-se a capital do Estado.

6. De qualquer modo, não é uma tendência que um povo, uma vez estabelecido, nunca se mexa de seu
país adotado. O instinto migratório ou nômade nunca morre — nosso amor por viajar suficientemente
prova isso — e foi uma ocorrência frequente em várias grandes tribos de tempos antigos, até partes de
nações, começar do zero na busca por novas casas e para achar novas cidades. Elas eram obrigadas a ir
para novos lugares ou pela lotação gradual de suas antigas cidades, ou por atritos internos, ou pela
invasão de novas tribos nômades de uma raça diferente que os expulsavam de suas terras, os
massacravam caso houvesse resistência e reduziam os que permaneciam em súditos. Essas invasões, é
claro, também poderiam ser feitas, com o mesmo resultado, por exércitos, guiados por reis e generais de
alguma outra civilização ou país. A alternativa entre escravidão e emigração deve ter sido frequentemente
oferecida, e a escolha pela última se dá pelo espírito de aventura inato do homem, tentado por muitas
regiões inexploradas como as de idades mais remotas.

7. Esses foram os começos de todas as nações. Não pode haver outro. E existe ainda mais uma observação
que vai dificilmente provar ao contrário. É que, de qualquer forma que vemos o passado, as pessoas que
encontramos habitando alguma região, no começo da era das tradições, sempre são mostradas oriundas de
algum outro lugar, e não foram as primeiras a chegar ao local onde estão. Todo grupo de nômades ou
aventureiros que passavam por algum lugar ou estabeleciam-se por lá, sempre encontravam a região já
ocupada. Agora a população mais antiga foi dificilmente inteiramente destruída ou desalojada pelos
recém-chegados. Pelo menos uma parte permaneceu, como uma raça inferior ou súdita, mas veio a hora
deles se misturarem com os outros, a maioria por casamentos internos. Então, se os novatos fossem
pacíficos e tivesse espaço o suficiente — como geralmente tinha em tempos mais antigos—eles teriam
que formar colônias separadas, e residir no terreno. Assim, eles iam permanecer ou como subordinados
ou, se fossem de uma raça mais talentosa, tomariam uma posição melhor, ensinando os colonos mais
antigos de suas próprias artes e ideias, seus modos e suas leis. Se a nova colônia fosse conquistada, o
acordo era pequeno e simples: os conquistadores, apesar de serem em menor número, se auto
estabeleciam como mestres e formavam a nobreza governante, uma aristocracia, enquanto os antigos
donos da terra, os que não precisavam emigrar, tornavam-se o que podemos chamar de “pessoas
comuns”, restringidas a fazerem serviços e pagar tributos ou impostos aos novos mestres. Geralmente,
toda região já teve a experiência, em diferentes tempos, todos esses modos de invasões. Por isso, é
possível dizer que cada nação foi formada gradualmente, em camadas sucessivas e de diferentes
elementos, que se misturaram ou ficaram separados, dependendo das circunstâncias.

A história da Caldéia antiga é um bom exemplo de tudo que foi dito.

NOTAS DE RODAPÉ: [Y] Genesis, xiii. 7-11. [Z] Genesis, xxxvi. 6-7.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

II.

AS GRANDES RAÇAS – CAPÍTULO X DE GÊNESIS

1. A Bíblia diz (Gênesis xi. 2): “E aconteceu que, partindo eles do Oriente, acharam um vale na terra de
Sinar; e habitaram ali.”

Sinar — ou mais corretamente, Sinear — é o que pode ser chamada de propriedade babilônia, aquela
parte da Mesopotâmia onde ficava a Babilônia, no sul, próximo ao Golfo Pérsio. “Eles” são descendentes
de Noé, muito depois da enchente. Eles acharam o vale e habitaram ali, mas eles não acharam toda a
região do deserto, que já estava ocupada muito antes deles. Há quanto tempo? Por serem idades tão
remotas, uma data exata do tempo não deve ser pensada.

2. Quem era aquele povo que os descendentes de Noé acharam na terra em que chegaram do leste?
Parece uma pergunta simples, porém nenhuma resposta foi dada, pelo menos até 15 ou 16 anos atrás.
Quando uma resposta foi sugerida por descobertas inesperadas feitas na Biblioteca Real em Nínive, os
estudiosos ficaram surpresos. O único fato conhecido sobre o assunto, conhecido por um escritor caldeu
de um período mais recente: “Ali era originalmente a Babilônia” (em outras palavras, a região da
Babilônia, e não a cidade somente) “uma multidão de homens de raças estrangeiras que se estabeleceram
em Caldeia.” Isso foi dito por Berosus, um sacerdote sábio da Babilônia, que viveu logo depois de
‘Alexandre, o Grande’ conquistou a nação e quando ela era governada pelos gregos (algo após 300 a.C.)
Ele escreveu essa história nos tempos mais antigos e deu uma ideia das tradições mais antigas a respeito
dos seus inícios. Como ele escreveu em seu livro em grego, é provável que seu objetivo fosse familiarizar
os novos mestres com a história e religião da região e das pessoas que a governaram. Infelizmente o
trabalho se perdeu — como a impressão não existia, as poucas cópias eram feitas manualmente — e nós
sabemos apenas de alguns fragmentos pequenos, citados mais tarde por outros escritores, em tempos que
o trabalho de Berosus ainda era acessível. As frases acima são contidas em apenas um fragmento de sua
obra e naturalmente guiadas por uma questão: quem eram esses homens de raças estrangeiras que vieram
de outro lugar e estabeleceram-se na Caldéia em tempos imemoriais?

3. Uma coisa parece clara: eles não pertencem a nenhuma raça classificada na Bíblia como descendente
de Noé, mas provavelmente a uma raça muito mais velha, que não estava incluída na enchente.

4. Pelo que geralmente começa ser entendido hoje em dia, a enchente pode não ter sido absolutamente
universal, mas se estendeu pelas regiões em que os Hebreus conheciam, que faziam parte de seu mundo, e
não é literalmente que todos os seres vivos, exceto os que estavam na Arca, desapareceram. Por um
hábito negligente de ler os capítulos VI-IX do Livro de Gênesis sem referências aos outros capítulos do
mesmo livro, entendê-los de uma forma literal tem se tornado um hábito geral. Entretanto a evidência não
é de forma alguma positiva. A questão foi considerada aberta por estudiosos mais profundos até mesmo
na antiguidade, e discutida livremente entres os próprios judeus e os Padres da antiga Igreja Cristã. O que
vem a seguir são depoimentos dados no Livro de Gênesis; precisamos apenas tirá-los de seus lugares e
conectá-los.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. Quando Caim matou seu irmão Abel, Deus o baniu da terra que havia recebido o sangue de seu irmão e
jogou uma maldição sobre ele: “fugitivo e vagabundo serás na terra” — usando outra palavra do que a
primeira vez, uma que significa terra em geral (éréç), em oposição por a terra (adâmâh) ou terra fértil ao
leste do Éden, na qual Adão e Eva habitaram após a sua expulsão. Então Caim seguiu em frente, ainda
mais para o leste, e habitou a terra chamada de “a terra de Node”, em outras palavras, “andar sem
destino” ou “exílio”. Ele teve um filho, Enoque, a quem nomeou a cidade que construiu, — a primeira
cidade — e descendentes. Desses, o quinto, Lameque, um homem feroz e fora da lei, teve três filhos. Dois
deles, Jabal e Jubal levavam uma vida pastoral e nômade, mas o terceiro, Tubalcaim inventou o uso de
metais: ele era “o ferreiro de todos os instrumentos de corte de latão e ferro”. Isso é o que o capítulo IV de
Gênesis conta sobre Caim, seu crime, seu exílio e posteridade imediata. Depois disso, não vemos mais
nada. Adão, enquanto isso tem um terceiro filho, nascido após a perda dos dois primeiros e o qual ele
chama de Seth (mais corretamente Sete). Os descendentes desse filho são enumerados no capítulo V e a
lista termina com Noé. Essas são as raças paralelas: as amaldiçoadas e as abençoadas, as abolidas por
Deus e as amadas por Deus, as que “saem na presença do Senhor” e as que “invocam o nome do Senhor”,
e “andam com Deus”. Da última raça, o último nomeado, Noé, é “apenas um homem, perfeito em sua
geração” e “acha indulgência nos olhos do Senhor”.

6. Então vem a narrativa da Enchente, (capítulos VI-VIII), o pacto de Deus com Noé e a repovoamento da
terra por sua posteridade (capítulo IX). Por último, o capítulo X nos dá uma lista das gerações dos três
filhos de Noé, Sem, Cão e Jafé; —“as nações foram dividias a partir desses três após a enchente”.

7. Agora esse décimo capítulo de Gênesis é o mais antigo e mais importante documento que existe sobre a
origem de raças e nações e abrange todos aqueles com quem os judeus, no rumo de sua história antiga,
tiveram algum tipo de negócio, pelo menos todos aqueles pertencentes à grande divisão branca da
humanidade. Mas em própria ordem para entender e apreciar o seu valor e importância, não deve ser
esquecido que CADA NOME NA LISTA É DE UMA RAÇA, UM POVO OU UMA TRIBO, E NÃO
DE UM HOMEM. Era uma moda comum entre os orientais — uma moda adotada também por nações
europeias antigas — expressar dessa maneira as conexões familiares das nações entre eles e suas
diferenças. Por brevidade e transparência, essas genealogias históricas são muito convenientes. Elas têm
sido sugeridas por um processo muito natural em tempos de ignorância, e consiste em uma tribo
explicando seu próprio nome garantindo que era o mesmo nome de seu fundador. Assim, o nome dos
assírios na verdade é Assur. Por quê? Claramente, eles iriam responder, caso perguntados, porque o reino
dele foi fundado por alguém chamado Assur. Outra nação famosa, os arameus, é supostamente chamada
assim porque o nome de seu fundador era Arã; os hebreus são chamados assim por um suposto ancestral
parecido, Héber. Essas três nações — e muitas outras, os árabes, entre outras—falavam idiomas muito
parecidos e podiam facilmente entender uns aos outros, além de disso, geralmente tinham muitas
características em comum entre si em aparências e caractere. Como explicar isso? Fazendo de seus
fundadores, Assur, Arã e Héber, etc., filhos ou descendentes de um grande líder ou progenitor, Sem, filho
de Noé. É um tipo de parábola que é extremamente clara quando se tem a sua chave, quando nada é mais
fácil do que traduzi-la em nossas formas secas e positivas de diálogo. O pouco acima sobre genealogia
diria o seguinte: Uma grande porção da humanidade é distinguida por certas características mais ou
menos específicas, é uma de várias grandes raças, e tem sido chamada por mais de 100 anos de a raça
semítica (Semetica), a raça de Sem. Essa raça é composta de várias tribos e nações diferentes, que
seguiram seus próprios caminhos, cada uma com seu próprio nome e história, com dialetos da mesma
língua original e com muitas ideias em comum preservadas, costumes e trejeitos de personalidade — que
ao todo mostra que a raça já foi unida e que todos ficavam unidos, então, como cresciam em número, se
dividiam em frações, das quais algumas viraram grandes e famosas nações e algumas permaneceram se
comparadas as outras, tribos insignificantes. O mesmo é aplicado para as subdivisões da grande raça

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

branca (a mais branca de todas), às quais a maioria das nações europeias pertence e que é personificada na
Bíblia sobre o nome de Jafé, o terceiro filho de Noé — e para aqueles de uma terceira grande raça,
também originalmente branca, que é dividida em várias frações, ambas grandes nações e tribos
espalhadas, todas exibindo semelhanças entre si. A Bíblia dá os nomes de todos esses cuidadosamente e
resume todos sobre o nome do segundo filho de Noé, Cão, quem eles chamam de seu progênito em
comum.

8. Os cientistas e estudiosos de igrejas já admitiram que as genealogias do capítulo X do Livro de Gênesis


devem ser entendidas nesse sentido. Santo Agostinho, um dos grandes padres da igreja antiga, diz
precisamente que os nomes nesse capítulo representam “nações, não homens”. Ao contrário, também
existe uma verdade literal nisso, nesse medo, que se toda a humanidade é descendente de um casal, toda
fração dela deve necessariamente ter um pai ou ancestral em comum, mas somente em um passado tão
distante que a seu nome ou individualidade não podem ser lembrados, como foi dito acima, naturalmente
seu próprio nome era dado. Desses nomes, muitos mostram pela sua própria natureza que não podem ter
pertencido a indivíduos. Alguns são plurais, como Mizraim, “os egípcios”; alguns têm artigos: os
Amoritas, os hivitas; um até é o nome de uma cidade: Sidom significa “o primeiro filho de Canaã;” agora
Sidom não era mais a maior cidade marítima dos Cananeus, que mantiveram uma supremacia sem
disputas sobre o resto e então “o primeiro nascido.” O nome significa “peixarias” — apropriado para uma
cidade litorânea, que com certeza foi primeiramente lar de muitos pescadores. Na verdade, “Canaã” é o
nome de uma vasta região, habitada por muitas nações e tribos, todas diferentes entre si, mas ainda assim
notoriamente de uma raça, portanto eles são chamados de “os filhos de Canaã”, Canaã sendo
personificado em um ancestral comum, dado como um dos quatro filhos de Cão. Por conveniência, a
ciência moderna tem adotado uma palavra especial para esses personagens imaginários, inventada para
descrever o nome de uma nação, tribo ou cidade, ou, para resumir, sua individualidade: eles são
chamados de EPÔNIMOS. A palavra é grega e significa “um de quem ou para quem alguém ou alguma
coisa é chamada”, um “homônimo”. Não é exagero dizer que, enquanto tradições populares sempre dizem
que o epônimos do ancestral ou fundador da cidade dava seu nome a família, raça ou cidade,
invariavelmente, o contrário é o caso nada verdade. O nome da raça ou da cidade é transferido a ele. Ou
em outras palavras, o epônimo é na verdade o único nome, transformado em uma pessoa tradicional por
uma ousada e vívida figura de linguagem poética, se tomada pelo que é, faz do começo da história
política incrivelmente simples e fácil de captar e classificar.

9. Ainda assim, a lista do capítulo X é completa e correta, dentro dos limites em que o escritor deu para si
mesmo, de modo algum esgotam as nações da terra. Entretanto, a razão das omissões é facilmente
percebida. Dentre a posteridade de Jafé, os gregos com certeza são mencionados (com o nome de Javã,
que é pronunciado como “Iavan” e alguns dos seus filhos). Mas nenhum outro dos povos antigos
europeus — alemães, italianos, celtas, etc. — que também eram daquela raça, assim como nós, somos
seus descendentes, é mencionado. Mas então, na época em que o capítulo X foi escrito, esses países, por
serem muito remotos eram fora do mundo em que os hebreus moveram. Os países ficavam “além do
horizonte” dos hebreus. Eles não os conheciam ao todo ou não tendo nada em comum com eles, não os
levavam em consideração. Em nenhum desses casos eles ganhariam um lugar na grande lista. O mesmo
pode ser dito sobre outros membros dessa mesma raça, que habitaram ao leste e sul dos hebreus — os
Hindus (os conquistadores brancos da Índia) e os persas. Então veio uma época, em que os persas não
apenas tentaram contato com os judeus, mas foram seus mestres: ou isso foi após o capítulo X ser escrito
ou os persas foram identificados pelos escritores com uma nação familiar, seus vizinhos próximos, que
haviam florescido muito antes e reagiram de muitos jeitos sobre os países ao seu oeste eram os chamados
Medes, que pelo nome de Madai, são mencionados como um dos filhos de Jafé, com Javâ, O Grego.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

10. Mais notável e mais significante do que essas omissões parciais é a determinação com que os autores
do capítulo X constantemente ignoram todas as divisões da humanidade que não pertencem a nenhuma
das três grandes raças brancas. Os Negros e os Amarelos não são mencionados no capítulo; eles são
deixados de fora da irmandade das nações dos hebreus. Ainda assim, os judeus, que ficaram por 300 ou
400 anos no Egito, certamente aprenderam por lá a reconhecer um homem negro de verdade, já que os
egípcios lutavam continuamente com as tribos negras de sangue puro do sul e sudoeste. Eles traziam para
casa milhares de prisioneiros negros, que eram obrigados a trabalhar em suas grandes construções e
pedreiras. Mas essas pessoas eram absolutamente bárbaras e desviavam-se de toda cultura ou importância
política para serem consideradas. Além disso, os judeus não podiam estar informados sobre a vasta região
da terra ocupada pela raça negra, já que grande parte da África era um mundo desconhecido, assim como
as ilhas ao sul da Índia, Austrália e suas ilhas — todos os lugares de diferentes partes dessa raça.

11. O mesmo não pode ser falado sobre a Raça Amarela. De verdade, seus principais representantes, as
nações do leste longínquo da Ásia — os chineses, os mongólicos e os manchu — não podiam ser
conhecidos pelos hebreus em nenhum momento da antiguidade, mas existiam representantes suficientes
para serem desconhecidos por eles [AB]. Isso porque era uma raça muito velha e extremamente
numerosa, que rapidamente se espalhou por grande parte da terra e, em determinado momento,
provavelmente se igualou em números com o resto da humanidade. Eles parecem ter sido sempre
divididos em várias grandes tribos e povos, que são convenientemente chamados de Turanianos, de um
nome muito antigo — TUR ou TURA — que foi dado a eles pela população branca da Pérsia e Ásia
Central, e ainda são preservados em uma de suas principais ramificações sobreviventes, os Turcos. Todos
os diferentes membros dessa grande família já tiveram características impactantes em comum — a mais
extraordinária delas sendo a incapacidade de ter uma cultura rica, de progresso indefinido e avanço
contínuo. Uma lei estranha deles os condenou a parar num estágio de cultura não muito alto. Assim, o seu
modo de falar era extremamente imperfeito. Eles falavam e essas nações turanianas que existem hoje
ainda falam idiomas que, apesar de diferentes, todos têm essa peculiaridade. Eles são inteiramente
compostos de monossílabos (a forma mais rudimentar de fala) ou de vários monossílabos que compõe
palavras de um modo muito duro e desajeitado, grudados sem nada para junta-los. Esse tipo de idioma é
chamado de “aglutinativo”. Mais além, os turanianos provavelmente foram os primeiros a inventar a
escrita, mas nunca foram além da arte de ter um símbolo em particular para cada palavra — (assim é com
a escrita chinesa, que tem cerca de 40 mil símbolos, um para cada palavra) — ou no máximo um símbolo
para cada sílaba. Eles tinham lindos princípios de poesia, mas isso também nunca foi além de princípios.
Eles também provavelmente foram os primeiros a construir cidades, mas não tinham as qualidades
necessárias para organizar uma sociedade, instituir um estado em fundações sólidas e duradouras. Em
determinado período, eles cobriram toda a Ásia ocidental, onde habitaram por anos antes de qualquer
outra raça — 1500 anos, de acordo com uma tradição muito confiável — e eram chamados pelos antigos
de “os homens mais antigos” mas eles desapareceram e nunca mais foram falados no momento em que os
invasores brancos chegaram à terra; estes levaram os turanianos até eles ou os levavam a se tornarem
súditos por completo ou misturavam-se com eles, mas, pela força de sua própria natureza superior,
retinham a posição dominante, para que os outros perdessem toda existência separada. Então estava em
todo lugar. De onde quer que as três raças bíblicas tenham vindo, eles provavelmente acharam populações
turanianas que as antecederam. Agora existem um grande número de tribos turanianas, mais ou menos
numerosas — Kirghizes, Bashkirs, Ostiaks, Tunguzes, etc. — espalhadas pelas vastas regiões da Sibéria e
Rússia Oriental, onde eles andavam com seus rebanhos e manadas de cavalos, ocasionalmente se fixando
— fragmentos restantes de uma raça que, até hoje, tem preservado suas peculiaridades e imperfeições
originais, cujos dias já acabaram e que há parou de se aprimorar, a não ser que se assimile com as raças
brancas mais altas e adote sua cultura, quando tudo que falta é suprido pelo elemento mais nobre que se
mistura com isso, como no caso dos húngaros, uma das nações mais vivazes e talentosas da Europa,
originalmente de raça turaniana. O mesmo pode ser dito, em um grau menor dos finlandeses — os
habitantes nativos da parte russa da Finlândia.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

12. Tudo isso não é dito para mostrar que a raça amarela nunca foi desviada de boas faculdades mentais e
gênios originais. Ao contrário, porque se raças brancas de todos os lugares chegassem a algum outro
lugar, elas tiravam o trabalho da civilização de suas mãos e o levavam a uma perfeição da qual eles eram
incapazes de fazer, ainda assim, os turanianos, tinham começado esse trabalho por vários lugares, foram
as suas invenções que os outros pegavam e melhoravam; e nós devemos lembrar que é muito mais fácil
aperfeiçoar do que inventar. Somente existe uma estranha limitação no poder de progresso e aquele
anseio de requinte natural, que são como uma parede ao seu redor. Até os chineses, que, à primeira vista,
são uma brilhante exceção, não são assim com uma inspeção mais próxima. De verdade, eles fundaram e
organizaram um grande império que ainda existe; eles têm uma literatura vasta, eles fizeram importantes
invenções — impressão, manufatura de papel a partir de tecidos, o uso do compasso, pólvora — séculos
antes de nações europeias. Ainda assim, as nações europeias fazem todas essas coisas melhor; elas
aperfeiçoaram essas invenções, que para eles eram novas, mais rápido em 100 anos do que os chineses em
1000. De fato, há alguns bons séculos que os chineses não aperfeiçoam nada. Sua língua e escrita são
infantilmente imperfeitas, ainda que mais antigos em existência. No governo, nas formas de vida social,
em suas ideias, eles seguem regras ditadas há mais de 3000 anos e que se quebradas superficialmente,
seria uma blasfêmia. Como eles sempre resistiram a influências exteriores e tentaram até construir
paredes entre eles e o resto do mundo, seu império é um perfeito exemplo do que a Raça Amarela pode
fazer se deixada inteiramente sozinha, e o que ela não pode fazer, e agora ela tem apresentado um
fenômeno único por séculos — uma grande nação em um impasse.

13. Tudo isso nos levou a uma pergunta muito interessante e sugestiva: o que é essa grande nação que
encontramos em todo lugar em todas as raízes da história, que não são apenas chamadas de “os homens
mais antigos” por tradições antigas, mas também pela ciência moderna? De onde vieram? Como elas não
estão inclusas na grande família de nações, que o capítulo X do Livro de Gênesis nos dá um esquema tão
claro e compreensível? Paralela a essa questão, existe outra: o que se tornou da posteridade de Caim? O
que eram, acima de tudo, os descendentes dos três filhos de Lameque, que os autores de Gênesis
claramente colocam para nós como chefes de nações e acham de suficientemente importante especificar
suas ocupações? (Ver Gênesis iv. 19-22) Por que nunca mais escutamos mais nada sobre essa metade da
humanidade servida no começo pela outra metade — a raça do filho amaldiçoado daquela do filho
favorito e abençoado? E muitas das questões dessa primeira série não podem também ser respondidas
para a primeira série?

14. Em relação à segunda série essa resposta é simples e decisiva. Os descendentes de Caim estavam
necessariamente fora do limite do mundo hebreu. A maldição de Deus, em consequência do que seus
antepassados disseram ir “fora da presença do Senhor” uma vez e para sempre os separou da posteridade
do filho piedoso, daqueles que “andaram com Deus”. Os autores de Gênesis nos contam que eles viveram
na “Terra de Exílio” e multiplicaram-se, e então foram exonerados. Pelo o que podiam os seletos, o povo
de Deus ou até mesmo aquelas outras nações que se desviaram dos seus caminhos, que foram
continuamente castigadas, mas cujos laços familiares com a raça justa nunca foram inteiramente cortados
— o que eles poderiam ter em comum com os banidos, os exilados, os amaldiçoados para sempre? Esses
não contavam, eles não faziam parte da humanidade. Então, o que era mais provável do que isso, sendo
excluídos de todas as outras narrativas, eles não deveriam estar incluídos na narrativa da grande
Enchente? Nesse caso, quem deveria ser além da raça mais antiga, dividida por sua cor e várias
peculiaridades impactantes, que antecederam seus irmãos brancos, mas eram invariavelmente apoiados
por eles e não estavam destinados a supremacia da terra? Essa suposição foi arriscada por homens de
grandes gênios, e se ousada, ainda tinham muito que provar; se confirmada iria resolver muitos enigmas e
iluminar muitos pontos obscuros. A antiguidade da Raça Amarela corresponde admiravelmente com a
narrativa bíblica, já que de dois irmãos bíblicos, Caim era o mais velho. E a sentença jogada sobre a raça,
“fugitivo e vagabundo serás na terra”, não foi revogada durante o tempo. Aonde quer que os turanianos
puros estejam — eles são nômades. E quando, 1500 atrás e depois, incontáveis grupos de bárbaros

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

inundaram a Europa, vindos do leste e varridos por todos eles antes, as hordas turanianas poderiam ficar
conhecidas principalmente por isso: eles destruíam, queimavam, deixavam destroços — e seguiam em
frente, desapareciam. Enquanto os outros, após serem igualmente selvagens, geralmente se fixavam em
um lugar e fundavam estados, dos quais a maioria ainda existe — os franceses, alemães, ingleses, russos,
somos todos descendentes de alguns desses invasores bárbaros. E esse fato ainda iria explicar
completamente como, embora os hebreus e seus antecedentes — vamos dizer os semitas geralmente —
acharam em todo lugar turanianos em seu caminho e habitavam as mesmas terras que eles, os
historiadores sagrados os ignoram por completo, como em Gênesis xi 2.

15. Já que eram Turanianos, chegaram a um estado muito alto de cultura para eles e povoaram a terra de
Sinar, onde “eles”— descendentes de Noé — se aventurando no leste, encontraram aquela planície, onde
habitaram por muitos anos.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

III.

CALDÉIA TURANIANA. SUMÉRIA E ACÁDIA. O COMEÇO DA RELIGIÃO.

1. Não é apenas Berosus que fala das “multidões de homens de raças estrangeiras” que colonizaram a
Caldéia “no início”. Era um fato universal admitido por toda a antiguidade que a população do país foi
sempre misturada, mas um fato vago, sem detalhes. Nesta questão, como em muitas outras, as descobertas
feitas na biblioteca real de Nínive trouxeram uma inesperada bem-vinda luz. O primeiro, por assim dizer
preliminar, o estudo de tábuas mostrou que existiam entre elas documentos em duas linguagens
completamente diferentes, uma das quais era evidentemente de uma antiga população da Caldéia. A outra
e menos antiga língua, geralmente chamada de assíria, porque era falada também pelos assírios, sendo
muito parecida com o hebreu, chegou-se a uma compreensão dela com relativa facilidade. Quanto à
linguagem mais antiga não há pistas. A única conjectura que poderia ser feita com alguma certeza era que
deveria ter sido falada por dois povos, chamados os povos da Suméria e Acádia, porque os últimos reis da
Babilônia, em suas inscrições, sempre se davam o título de “Reis de Suméria e Acádia”, um título que os
soberanos assírios, que por vezes conquistaram a Caldéia, não deixaram de ter também. Mas quem e o
que eram esses povos poderia nunca ser esclarecido, mas para a mais feliz descoberta de dicionários e
gramáticas, que, com os textos fornecidos com traduções assírias, serviram a nossos acadêmicos
modernos, assim como o fizeram com os estudantes assírios há 3 mil anos, para decifrar e aprender a
entender a língua mais antiga da Caldéia. Claro, era uma obra colossal, e se depararam com dificuldade
que exigiram uma determinação quase feroz e paciência sobre-humana de dominar. Mas cada passo dado
era tão amplamente reembolsado com os resultados obtidos que o zelo dos trabalhadores nunca
enfraqueceu, e a efetiva reconstrução, apesar de não estar completa até mesmo agora, já nos permite
evocar uma imagem muito sugestiva e natural daqueles primeiros colonizadores das planícies
mesopotâmia, seus atributos, religião e atividades.

2. A linguagem assim estranhamente trazida à luz foi logo percebida diferentemente daquele tipo peculiar
e primitivo – parcialmente monossílabos, parcialmente palavras rusticamente montadas – que foi descrito
em um capítulo anterior como característica da raça turaniana, e que é conhecida pela ciência pelo nome
genérico de aglutinante, ou seja, “colada ou grudada”, sem mudança nas palavras, seja de declinação ou
conjugação. O povo da Suméria e Acádia, portanto, eram uma única e a mesma nação turaniana, e a
diferença no nome era meramente geográfica. Suméria é a Caldéia do Sul ou Baixa Caldéia, o país em
direção e em torno do Golfo Pérsico – aquela mesma terra de Sinar que é mencionada no Gênesis xi. 2.
De fato, “Sinar” é apenas a maneira que os hebreus pronunciavam e soletravam o antigo nome da Baixa
Caldéia. Acádia é a Caldéia do Norte ou Alta Caldéia. O jeito mais correto, e mais seguro contra erros, é
nomear o povo de sumério-acádios e sua linguagem, a sumério-acadiana; mas, por razões de brevidade, o
primeiro nome cai, e muitos dizem simplesmente “os acádios” e “a linguagem acadiana”. Está claro,
contudo, que o título real deve unir os dois nomes, que juntos representam o país inteiro da Caldéia.
Recentemente descobriu-se que os sumério-acádios falavam dois dialetos levemente diferentes da mesma
língua, a da Suméria sendo provavelmente a mais velha das duas, enquanto a cultura e a conquista
parecem ter sido levadas continuamente em direção ao norte do golfo.

3. Que os próprios acádios vieram de outro lugar está claro por muitas circunstâncias, embora não há o
menor sintoma ou traço de quaisquer pessoas que eles possam ter encontrado no país. Eles trouxeram os
primeiros e mais essenciais rudimentos de civilização, a arte da escrita e de trabalhar metais; foram eles
provavelmente que começaram a cavar aqueles canais sem os quais a terra, não obstante sua maravilhosa

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

fertilidade, devia ter sido um resíduo pantanoso, e que começaram a fazer tijolos e levantar construções
com eles. Há motivos para se concluir que eles vieram das montanhas no fato de o nome “Acádia”
significar “montanhas” ou “terras altas”, um nome que eles não poderiam ter tomado nas planícies mortas
da Baixa Caldéia, mas devem tê-lo retido como uma relíquia de um antigo lar. É bem possível que este lar
tenha sido na vizinhança selvagem e montanhosa terra de Susa (Susiana, nos mapas), cuja primeira
população conhecida era também turaniana. Essas suposições nos levam a um passado onde nenhuma
partícula de fatos positivos pode ser discernida. Mesmo assim, deve ter sido apenas uma parada na
migração desta raça de um centro muito mais ao norte. Sua linguagem escrita, mesmo depois de eles
terem vivido por séculos em um país quase tropical, onde palmeiras cresciam em vastos bosques, quase
florestas e leões eram um passatempo comum, tão abundantes como os tigres nas selvas de Bengala, não
continha sinais para designar um ou outro, enquanto estava bem guarnecidas com sinais de metais – dos
quais não havia vestígio, é claro, em Caldéia – e tudo que pertence ao seu trabalho. Como a Montanhas
Altai, a grande cadeia siberiana, sempre foi famosa por suas ricas minas de todo minério possível, e como
os vales de Altai são conhecidos por serem os ninhos de onde inúmeras tribos turanianas se espalharam ao
norte e ao sul, e nas quais muitos moram até hoje depois de seu próprio hábito nômade, não há
extravagância em supor que lá pode ter sido o ponto de partida original dos acádios. De fato, Altai está
tão indissoluvelmente ligada à origem da maioria das nações turanianas, que muitos cientistas preferem
chamar toda a raça amarela, com todas as suas nuances de cor, de “os altaicos”. Suas próprias tradições
apontam para o mesmo caminho. Muitas delas têm uma lenda de um tipo de paraíso, um vale isolado em
algum lugar de Altai, agradável e regado por muitos riachos, onde seus antepassados ou habitaram em
primeiro lugar ou para onde foram providencialmente conduzidos para serem salvos de um massacre. O
vale era inteiramente cercado por rochas íngremes e sem trilhas, de modo que, quando, depois de muitas
centenas de anos, não conseguiu aguentar o número de seus habitantes, estes começaram a procurar por
uma saída e não acharam nenhuma. Então, um dentre eles, que era um ferreiro, descobriu que as rochas
eram quase inteiras de ferro. Por meio de seu conselho, uma enorme fogueira foi feita e um grande e
poderoso fole foi trazido, por meio do qual um caminho foi derretido através das rochas. Uma tradição, a
propósito, confirma que a invenção da metalurgia pertence à raça amarela em seus mais antigos estágios
de desenvolvimento, está estranhamente de acordo com o nome do bíblico Tubalcaim, “o falsificador de
todo instrumento cortante de ferro e bronze”. Que os acádios estavam de posse desta realização distinta de
sua raça é, aliás, muito provável pelos vários artigos e ornamentos em ouro, bronze e ferro que são
continuamente encontrados nas mais antigas tumbas.

4. Porém, infinitamente, a mais preciosa aquisição assegurada para nós por esta inesperada revelação
desta fase da mais remota antiguidade é uma maravilhosa coleção de orações, invocações e outros textos
sagrados, dos quais podemos reconstruir, com muita probabilidade, a mais primitiva religião no mundo –
pois tal foi certamente a dos acádios. Como uma clara e autêntica compreensão da primeira manifestação
do instinto religioso no homem era só o que faltava até agora, de maneira a nos permitir acompanhar seu
desenvolvimento do começo, tentativas mais cruas de expressão às mais altas aspirações e nobres formas
de adoração, o valor dessa descoberta não pode nunca ser menosprezado. Além disso, nos apresenta este
estranho e fantástico mundo que nem a ficção mais imaginativa pode ultrapassar.

5. O instinto da religião – “religiosidade”, como tem sido chamada – é inato ao homem; como a
capacidade da fala, pertence ao home, e somente ao homem, entre todos os seres vivos. Tanto é assim que
a ciência moderna está reconhecendo essas duas faculdades como as características distintivas que
marcam o homem como um ser a parte e acima do resto da criação. Enquanto a divisão de tudo que existe
sobre a terra tem sido entre três grandes classes ou reinos – o “reino mineral”, o “reino vegetal” e o “reino
animal”, no qual o homem está incluído – agora é proposto que se eleve a raça humana com todas as suas
variedades em um “reino” separado, por esta razão: que o homem tem tudo que os animais têm, e duas
coisas a mais que eles não têm – fala e religiosidade, que presume a faculdade do pensamento abstrato,
observação e obtenção de conclusões gerais, únicas e exclusivamente humanas. Agora as primeiras

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

observações do homem no mais primitivo estágio de sua existência devem necessariamente ter despertado
nele uma dupla consciência – a do poder e a do desamparo. Ele poderia fazer muitas coisas. Pequeno em
tamanho, fraco em força, destituído de roupas naturais e armas, extremamente sensível à dor e mudanças
atmosféricas como são todos os seres são, ele poderia matar e domar os grandes e poderosos animais que
tinham vantagem sobre ele nesses quesitos, cujo número e ferocidade o ameaçou a cada passo com
destruição, dos quais sua única escapatória seria o acovardamento e esconder-se. Ele poderia obrigar a
terra a dar-lhe mais escolhas de alimento que para outros seres que viviam de suas dádivas. Ele poderia
comandar o fogo, o terrível visitante do céu. Caminhando vitoriosamente de uma conquista para outra, até
mesmo expandido sua esfera de ação, de invenção, o homem não poderia deixar de ser tomado de um
legítimo orgulho. Mas, por outro lado, ele se via rodeado de coisas que ele não poderia contar com ou
subjugar, que tiveram grande influência em seu bem-estar, tanto favoráveis ou hostis, mas que estavam
absolutamente além de seu controle ou compreensão. O mesmo sol que amadurecia suas colheitas às
vezes as chamuscava; a chuva que refrescava e fertilizada o campo, às vezes o alagava; os ventos quentes
ressecavam tanto ele como seu gado; e nos pântanos se escondiam a doença e a morte. Todas estas e
muitas, muitas mais, eram evidentes Forças, e poderiam lhe fazer um bem enorme assim como prejudicá-
lo, enquanto ele não era capaz de fazer nada disso. Estas coisas existiam, ele sentiu sua ação todos os dias
de sua vida, consequentemente elas eram para ele seres vivos, vivos do mesmo modo que ele, possuídos
de vontade, para o bem ou para o mal. Em resumo, para o homem primitivo tudo na natureza era vivo
com uma vida individual, como é para a criança bem nova, que não irá bater na cadeira na qual se bateu e
então beijá-la como fazer amigos, ele não pensa que ela é um ser vivo e com sentimentos como ele. O
sentimento de subordinação e absoluto desamparo assim criado deve ter mais que equilibrado aquele de
orgulho e autoconfiança. O homem se sentiu colocado em um mundo onde ele sofreria para viver e teria
sua parcela de coisas boas que poderia conseguir, mas as quais não eram controladas por ele – em um
mundo espiritual. Espíritos em volta dele, acima dele, abaixo dele – o que ele poderia fazer a não ser
humilha-se, confessar sua subordinação e rezar para ser poupado? Certamente, se estes espíritos
existissem e tivessem interesse suficiente nele para fazer lhe o bem ou o mal, eles o ouvirão e poderiam
ser movidos por súplicas. Para estabelecer uma distinção entre tais espíritos, entre os que só faziam o mal
eram maus por natureza e aqueles cujas ações eram geralmente benéficas e somente em raras ocasiões
destrutivas, era o passo natural, que levou tão naturalmente a uma percepção de desprazer divino quanto a
causa de tais manifestações terríveis e uma busca por meios de evitá-las ou propiciá-las. Enquanto medo e
ódio eram parte dos espíritos antigos, os essencialmente maus, amor e gratidão eram os sentimentos
predominantes inspirados pelos mais recentes – sentimentos que, juntos com a sempre presente
consciência de subordinação, são a essência da religião, assim como oração e adoração são tentativas de
expressá-la de uma forma tangível.

6. Esta é a fase mais primitiva, material e inquestionável no crescimento do sentimento religioso, que uma
grande porção dos documentos sumério-acádios da Biblioteca Real de Nínive nos traz com uma força e
plenitude que, por mais que haja incerteza nos detalhes, no geral equivale a mais que uma conjectura.
Sem dúvida, muito será descoberto ainda, muito será feito, mas servirá somente para preencher um
esboço, do qual os contornos já são razoavelmente fixos e autênticos. Os materiais para esta
importantíssima reconstrução estão quase inteiramente contidas em uma vasta coleção de duzentas tábuas,
formando um trabalho consecutivo em três livros, e mais de 50 delas foram recolhidas do monte no
Museu Britânico e decifradas primeiramente por Sir Henry Rawlinson, um dos maiores, pois foi o
primeiro descobridor neste campo, e George Smith, cujas conquistas e morte prematura foram
mencionadas em um capítulo anterior. Dentro destes três livros em que a coleção é dividida, uma trata de
“espíritos malignos”, outra de doenças, e a terceira contém hinos e orações – esta última coleção
mostrando sinais de um tardio e alto desenvolvimento. Destes materiais, o recém-falecido acadêmico
francês, Sr. François Lenormant, cujo nome esteve por mais ou menos durante os 15 últimos anos de vida
à frente deste ramo oriental de pesquisa, foi o primeiro a reconstruir uma figura inteira em um livro não
muito volumoso de fato, mas que deve permanecer para sempre uma pedra angular na história da cultura
da humanidade. Este livro deve ser nosso guia no estranho mundo em entramos agora. [AC]

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

7. Para o povo da Suméria e da Acádia, naquele tempo, o universo era povoado por Espíritos, que eles
distribuíram de acordo com diferentes esferas e regiões. Pois eles tinham formado uma ideia bem elabora
e inteligente, senão peculiar, do que eles supunham do mundo. De acordo com a engenhosa expressão de
um escritor grego do primeiro século d.C., eles o imaginavam com a forma de um barco ou tigela
invertida, e a espessura representaria a mistura de terra e água (kî-a), que chamamos de crosta terrestre,
enquanto o oco sob a crosta inabitável foi imaginado como um poço sem fundo ou abismo (ge), no qual
habitam muitas forças. Acima da face convexa da terra (kî-a) se estende o céu (ana), dividido em duas
regiões: - o mais alto céu ou firmamento, que, com as estrelas fixas imóveis ligadas a ele, girava, como
em torno de um eixo ou pivô, em volta uma imensamente alta montanha, que o ligava à terra como um
pilar, e estava situado em algum lugar ao longe do Nordeste – alguns dizem Norte; - e o baixo céu, onde
os planetas – uma espécie de animais resplandecentes, sete deles, de natureza beneficente – vagam para
sempre em seu caminho designado. A estes eram opostos sete demônios perversos, algumas vezes
chamados de “os Sete Fantasmas Impetuosos”. Mas acima de tudo isso, mais alto na importância e maior
na força, está o espírito (Zi) do céu (ana), Zi-ana, ou, frequentemente, simplesmente Ana – “Céu”. Entre
o baixo céu e a superfície da terra está a região atmosférica, o reino do Im ou Mermer, o Vento, onde ele
guia as nuvens, desperta as tempestades, e de onde ele derrama a chuva, que é armazenada no grande
reservatório de Ana, no oceano celestial. Quanto ao oceano terreno, é imaginado com um largo rio ou
uma orla de água, fluindo em torno da borda da tigela invertida imaginária, e nas suas águas mora Êa
(cujo nome significa “a Casa das Águas”), o grande Espírito da Terra e das Águas (Zi-kî-a), quer sob a
forma de peixe, de onde ele é frequentemente chamado “Êa, o peixe”, ou “o Peixe Elevado”, ou em uma
embarcação magnificente, com a qual ele viaja ao redor da terra, guardando-a e protegendo-a. Os
menores espíritos da terra (Anunnaki) não são muito mencionados, exceto em um grupo, como uma
espécie de tropa ou legião. Todos os mais terríveis são os sete espíritos do abismo, os Maskim, de quem
se fala que, embora seu lugar seja nas profundezas da terra, ainda assim sua voz ecoa nas alturas também:
eles residem à vontade na imensidão do espaço, “não desfrutando de um bom nome no tanto no céu
quanto na terra”. Seu grande prazer é subverter o curso natural da natureza, causar terremotos,
inundações, tempestades devastadoras. Embora o Abismo seja seu lugar de nascença e lugar próprio, eles
não são submissos ao seu senhor e governante Mul-ge (“Senhor do Abismo”). Nisso eles são parecidos
com seus irmãos do baixo céu que não reconhecem a supremacia de Ana, e na verdade são chamados de
“espíritos da rebelião”, porque, sendo originalmente os mensageiros de Ana, uma vez “secretamente eles
tramaram um ato perverso”, juntaram-se contra as forças celestiais, obscureceram a Lua e as tiraram de
seu lugar. Mas os Maskim são muito mais temidos e odiados, como aparece na seguinte descrição, que se
tornou celebrada por sua real força poética:

8. “Eles são sete! Eles são sete! – Sete eles são nas profundezas do Oceano – sete eles são, perturbadores
do Céu. – Eles vêm das profundezas do Oceano, de lugares obscuros. – Eles se espalham como
armadilhas. – Machos eles não são, fêmeas eles não são. – Esposas eles não são, crianças não nascem
deles. – Eles não conhecem ordens, nem beneficência; – orações e súplicas eles não ouvem. – Vermes
crescidos nas entranhas das montanhas – inimigos de Êa – eles são os portadores dos tronos dos deuses –
eles sentam-se nas estradas e as tornam inseguras. – Os demônios! Os demônios! – Eles são sete, eles são
sete, sete eles são!

Espírito do Céu (Zi-ana, Ana), sejam eles invocados!

Espírito da Terra (Zi-kî-a, Êa), sejam eles invocados!”

9. Além estes grupos regulares de sete de espíritos malignos – sete sendo um misterioso e consagrado
número – há as tropas incontáveis de demônios que atacam o homem de qualquer forma possível, sempre

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

procurando fazer mal a ele, não apenas fisicamente, mas moralmente no sentido de tumultos civis e
discórdias familiares; confusão é seu trabalho; são eles que “roubam a criança do colo do pai”, que “tiram
o filho da casa de seu pai”, que retiram da mulher a benção de seus filhos; eles roubaram dias do céu, com
os quais fizeram dias horríveis, que trazem senão má sorte e infortúnio – e nada pode afastá-los: “Eles
caem como chuva do céu, eles saltam da terra, eles assaltam de casa em casa, portas não os detêm,
fechaduras não os fecham para fora, eles arrastam-se pelas portas como serpentes, eles sopram os telhados
como se fossem vento.” Vários são seus covis: os topos das montanhas, os pântanos pestilentos perto do
mar, mas especialmente o deserto. Doenças estavam dentre as coisas mais temidas daquelas terríveis
bandas e, em primeiro lugar destas, Namtar ou Dibbara, o demônio da Peste, Idpa (Febre) e uma certa
doença misteriosa da cabeça, que deve ser insanidade, da qual se diz que atormenta a cabeça e a pressiona
forte como uma tiara (um pesado cocar) ou “como uma escura prisão”, e a deixa confusa, que “é como
uma violenta tempestade, ninguém sabe de onde vem, nem qual seu objetivo”.

10. Todos esses seres malignos são propriamente classificados sob o nome geral de “criações do
Abismo”, nascidos do mundo baixo, o mundo dos mortos. Pois o mundo não visto abaixo da terra
habitável era naturalmente concebido como o local de morada dos espíritos que partiam após a morte. É
muito notável como característica do baixo nível de concepção moral que os sumério-acádios haviam
atingido neste estágio de seu desenvolvimento, que, embora nunca tenham admitido que aqueles que
morreram tenham deixado de existir, há muito pouco que mostra que imaginavam qualquer estado feliz
para eles após a morte, nem mesmo como uma recompensa por uma vida correta, nem, por outro lado,
vislumbraram um estado futuro para punição dos erros cometidos neste mundo, mas promiscuamente
consignavam seus mortos a Arali, uma região muito sombria que é chamada “suporte do caos” ou em
uma frase não menos vaga e cheia de um misterioso terror, “a Grande Terra” (Kî-gal), “a Grande Cidade”
(Urugal), “a habitação espaçosa”, “onde eles vagam no escuro” – uma região governada por uma
divindade feminina chamada por diferentes nomes, mas mais frequentemente “Senhora da Grande Terra”
(Nin-kî-gal) ou “Senhora do Abismo” (Nin-ge), que pode ser entendida como a personificação da Morte e
Namtar (Peste) é sua ministra-chefe. Os sumério-acádios parecem ter imaginado vagamente que a
associação com tantos seres malignos cuja casa era o Arali, devem converter até os espíritos humanos em
seres quase tão nocivos, pois em uma ou duas passagens parecem implicar que eles tinham medo de
fantasmas, e no mínimo, em uma ocasião foi ameaçado mandarem os mortos de volta ao mundo de cima,
como a mais temida calamidade que pode ser infligida.

11. Como se não bastassem todos esses terrores para tornar a vida um fardo, os sumério-acádios
acreditavam em feiticeiros, homens maus que sabiam como compelir as forças do mal a fazer suas
vontades, podendo infligir em morte, doença ou desastres ao seu bel prazer. Isso poderia ser feito de
muitas maneiras – com um olhar, proferindo certas palavras, com bebidas feitas de ervas preparadas sob
certas condições e cerimônias. Mais que isso, o poder de fazer o mal algumas vezes fatalmente
pertenciam a algumas pessoas inocentes, que o infligia sem intenção por seu olhar – pois o efeito do “mau
olhado” nem sempre dependia da vontade de uma pessoa.

12. A existência sob tais condições deve ter sido tão insuportável como aquela das pobres crianças que
foram aterrorizadas por tolas babás com a crença em monstros e medo de quartos escuros, se não
houvesse existido defesas reais ou imaginárias contra este conjunto de horríveis seres sempre prontos a
jogar a infeliz humanidade em toda a sorte de caminhos inexplicáveis por nenhuma outra razão senão seu
próprio detestável desejo de fazer o mal. Estas defesas não poderiam ser medidas racionalmente pelo
conhecimento das leis da natureza física, já que não tinham nenhuma noção de tais leis; nem em orações e
oferendas, já que uma das qualidades mais execráveis dos demônios, como vimos, eram eles “não
saberem nenhuma beneficência” e “não ouvir preces e súplicas”. Então, se não podem ser persuadidos,

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

eles devem ser forçados. Isso parece uma suposição presunçosa, mas está estritamente em acordo com o
instinto humano. Foi verdadeiramente dito [AD] que “o homem foi tão consciente de ser chamado a se
impor sobre as forças da natureza que, no momento que ele entrou começou a se relacionar com elas, foi
para tentar e subjugá-las a sua vontade. É que, em vez de estudar o fenômeno, para compreender suas leis
e aplicá-las às suas necessidades, ele imaginou que poderia, por meio de práticas peculiares e formas
consagradas, obrigar os agentes físicos da natureza a servir seus desejos e propósitos... Essa pretensão tem
sua raiz na noção que a antiguidade havia formado do fenômeno natural. Não viu neles a consequência de
leis imutáveis e necessárias, sempre ativas e com as quais poderia sempre contar, mas as imaginou
dependendo da vontade arbitrária e variável dos espíritos e divindades colocadas nos lugar de agentes
físicos.” Segue-se que em uma religião que povoa o universo com espíritos dos quais a maioria são
malignos, a magia – ou seja, invocações com palavras e ritos, encantos, feitiços – deve tomar o lugar da
adoração e os guias espirituais de tal religião não são padres, mas invocadores e encantadores. Este é
exatamente o estado das coisas revelado pela grande coleção de textos descoberta por Sir H. Rawlinson e
G. Smith. Eles contêm formas de invocar todos os diferentes tipos de demônios, mesmo para sonhos
malignos e pesadelos, o objetivo da maioria de tais invocações é levá-los para longe das habitações dos
homens e de volta para onde eles realmente pertenciam – a profundeza do deserto, os topos de montanhas
inacessíveis, e todos os remotos, devastados e inabitados lugares, geralmente, onde eles podem vagar à
vontade, sem causar mal a ninguém.

13. Contudo, também existem orações para proteção e ajuda dirigida aos seres concebidos como
essencialmente bons e beneficentes – um passo marcando um grande avanço no sentimento moral e
consciência religiosa do povo. Tais seres – deuses, de fato – eram, sobretudo, Ana e Êa, que vimos sendo
invocados no feitiço dos Sete Maskim como o “Espírito do Céu” e “Espírito da Terra”. Este último
especialmente é chamado como um infalível refúgio para mortais maltratados e aterrorizados. Ele é
imaginado como possuidor de todo o conhecimento e sabedoria, que ele usa somente para ajudar e
proteger. Sua morada usual são as profundezas – daí seu nome, Ê-a, “a Casa das Águas” – mas às vezes
viaja pela terra em um navio magnífico. Seu próprio nome é um terror para os espíritos malignos. Ele
sabe as palavras, os feitiços que destruirão sua força e obrigarão sua obediência. Para ele, portanto, o
povo via sua necessidade com infinita confiança. Incapaz de lidar com perigos e armadilhas misteriosos
que, como imaginavam, os assolavam por todos os lados, sem saber os meios de derrotar os seres
malignos que, pensavam eles, os perseguiam com uma abominável maldade e ódio gratuito, eles se
voltavam a Êa. Ele saberia. A ele deve ser perguntado, e ele diria.

14. Porém, como se lembraram de que Êa era um ser muito poderoso e exaltado para ser levemente
dirigida e frequentemente perturbada, os sumério-acádios imaginaram um espírito beneficente, Meridug
(mais corretamente Mirri-Dugga), chamado filho de Êa e Damkina (um nome da Terra). A única
ocupação de Meridug é agir como mediador entre seu pai e a humanidade sofredora. É ele que leva a Êa o
pedido do suplicante, expõe sua necessidade algumas vezes com palavras muito tocantes e os pedidos
para saber o remédio – se doença for o problema – ou o contrafeitiço, se a vítima foi envolvida nos laços
da feitiçaria. Êa conta a seu filho, que então deveria revelar o segredo para o instrumento escolhido de
assistência – naturalmente o clérigo invocador, ou melhor, o adivinho. Como muitos encantos são
concebidos neste princípio, eles são muito monótonos em forma, apesar de frequentemente avivados
pelos supostos diálogos entre o pai e o filho. Aqui está um dos exemplos mais interessantes. Ele ocupa
uma tábua inteira, mas infelizmente muitas linhas foram irremediavelmente prejudicadas e tiveram que
ser omitidas. O texto começa:

“A Doença da Cabeça foi emitida do Abismo, pela morada do Senhor do


Abismo.”

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Então seguem-se os sintomas e a descrição da inabilidade do sofredor se ajudar. Então “Meridug olhou
seu sofrimento”. Ele entrou na morada de seu pai Êa, e falou a ele:

“Meu pai, a Doença da Cabeça veio do Abismo.’

“E falou uma segunda vez a ele:

“O que ele deve fazer contra ela, o homem não sabe. Como acharemos a cura?”

“Êa respondeu a seu filho, Meridug:

“Meu filho, como não sabeis? O que devo ensiná-lo? O que eu sei, tu também
sabes. Mas venha mais perto, meu filho Meridug. Pegue um balde, encha-o com
água da foz dos rios; conceda a essa água teu exaltado poder mágico; borrife-a
sobre o homem, filho de seu deus... enfaixe sua cabeça... e derrame-a pela
estrada. Que a insanidade seja dissipada! Que a doença de sua cabeça
desapareça como um fantasma da noite. Que a palavra de Êa a expulse! Que
Damkina o cure.’”

15. Outro diálogo do mesmo tipo, no qual Êa é consultado para desfazer o poder dos Maskim, termina
revelando que

“O cedro branco que acaba com o poder nocivo dos Maskim.”

Na verdade o cedro branco era considerado uma defesa infalível contra todos os feitiços e forças
malignas. Qualquer ação ou cerimônia descrita na invocação deve certamente ser desempenhada enquanto
as palavras são ditas. Há uma longa, talvez a mais preservada de todas, a ser recitada pelo sofredor, que
deve estar sob os efeitos de um feitiço do mal, e dela é evidente que as palavras servem para acompanhar
as ações desempenhadas pelo invocador. É dividida em versos paralelos, dos quais o primeiro segue
assim:

“Como desta cebola estão sendo tiradas suas peles, assim deve ser com o feitiço.
O fogo ardente deve consumi-lo; não deve ser mais plantado em uma linha,... o
chão não deve aceitar sua raiz, sua cabeça não conterá nenhuma semente e o sol
não cuidará dela; – não deve ser oferecida em banquetes de um deus ou um rei.
– O homem que fez o feitiço maligno, seu filho mais velho, sua mulher – o
feitiço, as lamentações, as transgressões, os feitiços escritos, as blasfêmias, os
pecados – o mal que está em meu corpo, em minha carne, em minhas feridas –
que todos sejam destruídos como esta cebola, e que o fogo ardente os consuma
hoje! Que o feitiço maligno vá para longe, e que eu possa ver a luz de novo!”

Então a destruição de uma tâmara é similarmente descrita:

“Não retornará ao galho de onde foi arrancada.”

O desate de um nó:

“Suas fibras não voltarão à haste que os produziu.”

O rasgar de um pouco de lã:

“Não voltará ao lombo de sua ovelha.”

O rasgar de alguma coisa e, depois de cada ato, o segundo verso:

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

“O homem que jogou o feitiço,” etc.

é repetido.

16. É devotamente esperado, para o bem do paciente, que tratamentos como estes fizessem efeito na
doença, pois não havia outro. Doenças sendo concebidas como demônios pessoais que entraram no corpo
de um homem por vontade própria ou sob a coação de feiticeiros poderosos, e as enfermidades sendo
consideradas como um tipo de possessão, naturalmente a única coisa a fazer era expulsar o demônio ou
quebrar o feitiço com a ajuda do beneficente Êa e seu filho. Se esta intervenção não fosse de bom
proveito, nada restaria ao paciente a não ser ficar bem como pudesse ou morrer. É por isso que nunca
houve uma ciência da medicina propriamente dita na Caldéia, mesmo três ou quatro séculos a.C. e os
viajantes gregos que então visitaram a Babilônia não devem ter ficado muito chocados com o costume
que encontraram lá de trazer desesperadamente pessoas doentes para fora de casa em suas camas e expô-
las nas ruas, quando qualquer passante poderia se aproximar deles, perguntar sobre a doença e sugerir
algum remédio – que certamente seria provado como uma última tentativa. Este extraordinário
experimento certamente não foi utilizado até todas as formas conhecidas de invocação fossem feitas e
provaram-se ineficientes.

17. A crença que certas palavras e maldições poderiam destruir a força dos demônios ou feiticeiros deve
ter naturalmente levado à noção de que usar essas imprecações, escritas em alguma substância ou artigo,
sempre sobre uma pessoa deve ser uma contínua defesa contra eles; enquanto, por outro lado, palavras de
invocação para os espíritos benéficos e imagens os representando, usadas da mesma maneira, deve atrair
nos usuários aquela proteção e benção dos espíritos. Por isso, a paixão por talismãs. Eles eram de vários
tipos: tiras ou estofados, com as palavras mágicas escritas neles, para serem amarrados ao corpo ou às
roupas ou artigos de mobiliário doméstico, foram muito utilizados; mas pequenos artigos de argila ou
pedra eram muito valiosos por sua durabilidade. Como as casas poderiam ser possuídas por espíritos
malignos assim como indivíduos, talismãs eras colocados em diferentes partes delas para proteção, e essa
crença era tão permanente que pequenas figuras de deuses de argila foram encontradas nos palácios
assírios sob as soleiras – como no palácio de Khorsabad, encontrado por Botta – colocadas lá “para
protegê-los dos demônios e inimigos”. Descobriu-se que neste método muitas das esculturas que
adornavam os palácios e templos assírios eram de natureza talismã. Assim, os touros alados colocados
nos portões era nada menos que representações de uma classe de espíritos guardiões acádios – o Kirûbu, o
Querubim hebreu, do qual fizemos o Cherub, querubim – que deveriam guardar as entradas, mesmo
aquela de Arali, enquanto algumas esculturas nas quais demônios, na forma de medonhos monstros, são
vistas lutando umas contra as outras, são, no modo de dizer, maldições em pedra, que, se traduzidas para
palavras, significariam: “Que os demônios malignos fiquem para fora, que eles lutem e ataquem uns aos
outros” – como, naquele caso, eles claramente não teriam tempo livre para atacar os habitantes da
moradia. Que estas esculturas realmente eram consideradas talismãs e esperava-se que guardassem os
habitantes do mal, é abundantemente mostrado pela maneira em que são mencionadas em várias
inscrições, até um período mais tardio. Assim, Esarhaddon, um dos últimos reis da Assíria (por volta de
700 a.C.) diz, depois de descrever um suntuoso palácio que ele havia construído: – “Coloquei nestes
portões touros e colossos, que, de acordo com sua vigilância fixa, se tornam contra o mal; eles protegem
os degraus, fazendo com que paz esteja sobre o caminho do rei, seu criador”.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

54. DEMÔNIOS LUTANDO.

(Do Museu Britânico.)

18. Os selos dos cilindros, com suas inscrições e figuras gravadas eram em sua maioria também talismãs
dessa natureza; o que deve ser a razão pela qual muitos são encontrados em túmulos, amarrados ao pulso
do cadáver com uma fita – evidentemente uma proteção contra os demônios que o espírito iria encontrar.
A força mágica era naturalmente conferida a todos os talismãs pelas palavras que o invocador proferia a
eles com as devidas cerimônias. Um longo encantamento está inteiramente preservado. É projetado para
dar ao talismã o poder de afastar os demônios de todas as partes da morada, que são individualmente
numeradas, com as consequências aos demônios que ousassem violá-los: aqueles que roubam nas calhas,
removem parafusos ou dobradiças, serão quebrados como um jarro de barro, esmagados como argila;
aqueles que ultrapassarem a estrutura de madeira da casa terão suas asas cortadas; aqueles que esticarem
seu pescoço janela adentro terão sua garganta cortada quando a janela se fechar. A mais original desta
classe de superstições era aquela que, de acordo com Lenormant, consistia na noção de que todos estes
demônios eram tão absolutamente feios na sua forma e semblante, que eles deveriam voar para longe
aterrorizados se apenas vissem sua própria imagem. Como uma ilustração deste princípio, ele dá um

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

encantamento contra “o malvado Namtar”. Começa com uma gráfica descrição do terrível demônio, que
dizem “capturar o homem como um inimigo”, “o queima como uma chama”, “dobra-o como um feixe”,
“ataca o homem, embora não possua mão ou pé, como uma armadilha”. Então se segue o usual diálogo
entre Êa e Meridug (nas idênticas palavras proferidas acima), e Êa revela em detalhes a prescrição:
“Venha cá, meu filho Meridug. Pegue lama do Oceano e a amasse com uma forma parecida com a dele (o
Namtar). Deite o homem, depois de tê-lo purificado; deite a imagem em seu abdômen desnudo, conceda a
ela minhas mágicas palavras e vire seu rosto para o Oeste, que o malvado Namtar, que habita em seu
corpo, encontre outra morada. Amém.” A ideia é que Namtar, vendo sua própria forma, fugirá dela de
medo!

55. DEMÔNIO DO VENTO SUDOESTE. (Perrot and Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

19. A este mesmo grupo pertence uma pequena estatueta de bronze, que pode ser vista no Louvre. Sr.
Lenormant assim a descreve: “É a imagem de um demônio horrível, em pé, com o corpo de um cachorro,
as garras de uma águia, braços que terminam em pata de leão, o rabo de um escorpião, a cabeça de um
esqueleto, mas com olhos, e chifres de um bode, e com quatro grandes asas nas costas, abertas. Uma
argola colocada atrás da cabeça servia para pendurar a figura. Ao longo das costas está uma inscrição na
língua acádia, nos informando que esta bonita figura é o Demônio do Vento Sudoeste, e é para ser
colocada na porta ou na janela. Pois na Caldéia, o Vento Sudoeste vem dos desertos da Arábia, seu ar
ardente destrói tudo e produz a mesma devastação que o Simoon na África. Assim, este talismã específico
é mais frequentemente encontrado. Nossos museus contêm muitas outras figuras de demônios, usadas
como talismãs para assustar os espíritos malignos que eles representavam. Um tem a cabeça de um bode
sobre um desproporcionalmente longo pescoço; outro mostra uma cabeça de hiena, com uma enorme
boca aberta, no corpo de um urso com patas de leão.” Partindo do princípio que a possessão é mais bem
precavida com a presença de espíritos benfeitores, os exorcismos – ou seja, formas de invocar espíritos,
projetadas para espantar os demônios malignos de um homem ou moradia – são comumente
acompanhados com um pedido para os bons espíritos a entrar em um ou outro, no lugar dos malignos que
são expulsos. O supremo poder que quebra isto de todos os encantos, talismãs, ritos de mágica quaisquer,
ao que parece, supostamente reside em um grande, divino nome – possivelmente o nome de Êa
propriamente. Em todo o caso, é o segredo de Êa. Pois mesmo em seus diálogos com Meridug, quando
suplicou para esta suprema ajuda em momentos desesperados, ele apenas deveria dá-lo ao seu filho para
usar contra os demônios obstinados, assim acabando com seu poder, mas não foi dado, de modo que os
demônios sentiam-se apenas ameaçados com ele, mas não era realmente pronunciado durante os encantos.

56. CABEÇA DE DEMÔNIO.

20. Não absolutamente sem assistência, Êa perseguir sua gigante tarefa de proteger e curar. Com ele,
invocações são frequentemente dirigidas a outros vários espíritos concebidos como essencialmente
divinos seres bons, cuja influência benfeitora é sentida de muitas maneiras. Como era Im, o Vento
Tempestuoso, com suas vivificantes chuvas, como são as purificantes e saudáveis Águas, os Rios e
Fontes que alimentam a terra, acima de todos, como o Sol e Fogo, também a Lua, objetos de dupla
reverência e gratidão porque dissipam a escuridão da noite, que os sumério-acádios odiavam e temiam

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

excessivamente, pois é a hora em que os demônios malignos são mais fortes e o poder de homens maus
para tecer feitiços mortais é maior. O terceiro livro da Coleção de Textos Mágicos é composto quase
inteiramente de hinos a essas divindades – assim como a Êa e Meridug – que revelam alguma coisa de
uma fase posterior no desenvolvimento religioso da nação, pela beleza poética de alguns dos fragmentos,
e especialmente por um sentimento mais puro de adoração e uma percepção mais elevada de uma
bondade moral, que faltava nos encantamentos mais antigos.

21. Ao meio-dia, quando o sol atingiu seu ponto mais alto em seu caminho no céu, a terra se estende sem
uma sombra; todas as coisas, boas ou más, são manifestadas; seus raios, depois de dissipar a escuridão
hostil, perfuram cada canto e cada fenda, trazendo à luz todas as coisas feias que se escondem e
espreitam; o malfeitor se acovarda e evita todo seu esplendor revelador e, para executar suas obras
malditas, espera o retorno de seu cúmplice escuro, à noite. Não se admira então que, para os sumério-
acádios, Ud, o sol em sua glória do meio-dia, era um herói protetor, a fonte da verdade e da justiça, o
“supremo juiz no Céu e na terra”, que “separa a mentira da verdade”, que conhece a verdade que existe na
alma do homem. Os hinos para Ud que foram decifrados são cheios de lindas imagens. Veja, por
exemplo, o seguinte:

“O Sol, [AE] eu o chamei nos céus brilhantes. Na sombra do cedro tu és;” (ou
seja, és tu que fazeres o cedro para lançar sua sombra, sagrada e auspiciosa
como a própria árvore.) “Teus pés estão nos cumes. Os países já desejou para ti,
eles esperaram por sua vinda, O Senhor! Sua luz radiante ilumina todos os
países... Tu fizestes as mentiras desaparecerem, destruístes a nociva influência de
portentos, presságios, feitiços, sonhos e aparições malignas; transformaste um
enredo perverso em um desenlace feliz...”

Isto é tanto verdade como finamente expresso. Pois qual o mais inveterado crente em fantasmas e
aparições teria medo deles à luz do dia? E a última comunicação mostra muito senso moral e observação
dos mistérios de uma força benéfica que frequentemente não apenas derrota o mau, mas até mesmo o
transforma em bem. Há uma esplêndida poesia no fragmento seguinte descrevendo a glória do nascer do
sol:

“Ó Sol! Tu saíste de trás dos céus, tu tirastes as dobradiças do brilhante céu –


sim, a porta do céu. Ó Sol! Acima da terra erguestes tua cabeça! Ó Sol! Tu
cobriste o imensurável espaço do céu e países!”

Outro hino descreve como, na aparição do Sol nos brilhantes portais dos céus e durante seu progresso ao
seu ponto mais alto, todos os grandes deuses se viram para sua luz, todos os bons espíritos do céus e da
terra olham para sua face, o cercam com alegria e reverência, e o acompanham em uma solene procissão.
É necessário apenas colocar esses fragmentos em finos versos para fazer deles um poema que ficará
muito bonito mesmo nos dias de hoje, quando na nossa infância aprendemos a diferença entre poesia boa
e ruim, quando crescemos, como fazemos, no melhor de todas as épocas e países.

22. Quando o sol desapareceu no Oeste, pondo-se rapidamente e mergulhando, como estava, no meio da
escuridão, os sumério-acádios não o imaginavam dormindo ou inativo, mas, ao contrário, ainda ocupado

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

com seu trabalho eterno. Sob o nome de Nin-dar, ele viaja pelas sombrias regiões governadas por Mul-ge
e, sua essência sendo a luz, combate às forças da escuridão em sua própria casa, até Ele sair de lá, um
herói triunfante, pela manhã. Nin-dar também é o guardião dos tesouros escondidos da terra – seus metais
e pedras preciosas, porque, de acordo com a engenhosa observação do Sr. Lenormant, “eles apenas
esperam, como ele, o momento de emergir da terra, para emitir uma brilhosa luz”. Esse brilho das pedras
preciosas, que é como uma concentração de luz na sua mais pura forma foi provavelmente a razão pela
qual elas eram geralmente usadas como talismãs, assim como sua dureza e durabilidade.

23. Mas enquanto o Sol completa sua jornada noturna pelo subterrâneo, os homens seriam deixados como
presa para os terrores mortais do mundo de cima, privados de luz, sua principal defesa contra a ninhada
maligna das trevas, não fosse pelo seu substituto, o Fogo, que por sua natureza também é um ser de luz, e,
sendo assim, amigo dos homens, de cujos caminhos e moradas ele espanta com violência não apenas
bestas selvagens e inimigos armados, mas as tropas mais perigosas de inimigos invisíveis, tanto demônios
e feitiços feitos por magos malignos. É nessa qualidade de protetor que o deus Gibil (Fogo) é
principalmente invocado. Em um bastante completo hino, ele é citado assim: –

“Tu que levaste embora o maligno Maskim, que promovestes o bem-estar da vida,
que atingiu o seio do mal com o terror – Fogo, o destruidor de inimigos, terrível
arma que expulsou a Peste.”

Este último atributo mostraria que os sumério-acádios haviam percebido as propriedades higiênicas do
fogo, que realmente ajuda a dissipar pestilências devido a uma grande ventilação causada pelas chamas.
Assim, em uma época relativamente tardia, cerca de 400 anos a.C., uma terrível praga apareceu em
Atenas, a cidade grega, e Hipócrates, um médico de grande talento e renome, que foi chamado “o Pai da
Medicina”, tentou diminuir o contágio mantendo grandes fogueiras constantemente em chamas em
diferentes pontos da cidade. É a mesma ideia correta que fez com que os homens invocassem Gibil como
aquele que purificava as atividades do homem. Ele também é frequentemente chamado “o protetor da
casa, da família” e louvado por “criar a luz na casa da escuridão” e por trazer paz a toda à criação. Para
além dessas reivindicações de gratidão, Gibil tinha uma importância especial na vida de um povo que
trabalhava com metalurgia, na qual o fogo é o agente principal: “És tu”, diz um hino, “que misturas
estanho e cobre, é tu que purificas a prata e o outro”. A mistura de estanho e cobre produz o bronze, o
primeiro metal que foi usado para fazer armas e ferramentas, em muitos casos muito antes do ferro, que é
muito mais difícil de trabalhar, e como a qualidade do metal depende da mistura apropriada de dois
ingredientes, é natural que a ajuda do deus Fogo tenha sido especialmente invocada para a operação. Mas
o Fogo não é apenas uma grande força na terra, é também, na forma de Raio, uma das mais terríveis e
misteriosas forças dos céus, e dessa forma é chamado às vezes de filho de Ana (Céu) ou com mais rodeios
de linguagem, “o Herói, filho do Oceano” – no sentido do Oceano celestial, o grande reservatório de
chuvas, de onde o raio parece nascer, enquanto cintila através das pesadas chuvas de uma tempestade do
sul. Seja qual a forma que ele aparece, e quais sejam suas funções, Gibil é aclamado como um ser
invariavelmente benéfico e amigável.

24. Quando o sentimento de desamparo forçado sobre o homem pela sua posição em meio à natureza
toma a forma de uma reverência e dependência de seres que ele concebe como essencialmente bons, uma
muito mais nobre religião e um espírito muito mais moral são a imediata consequência. Esta concepção
de bem absoluto nasceu da observação de certos seres ou espíritos – como o Sol, Fogo, a Tempestade –
que apesar de possuírem o poder de fazer tanto o bem quanto o mal, usavam-no quase que
exclusivamente em benefício dos homens. Esta posição uma vez firmemente estabelecida, seguiu-se

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

naturalmente a conclusão, que se estes bons seres de vez em quando mandassem uma catástrofe ou
calamidade – se o Sol chamuscasse os campos ou a Tempestade os alagasse, se o for Vento do Norte
varresse as cabanas e derrubasse as árvores – deve ser por raiva, como um sinal de desprazer – em
punição. Através do que o homem podia provocar o desprazer de amáveis e benevolentes seres?
Claramente não sendo como eles, não fazendo o bem, mas o mal. E o que é mau? Aquilo que é contrário à
natureza dos bons espíritos: fazer o errado e prejudicar os homens; cometer pecados e ações maldosas.
Evitar, portanto, provocar a ira destes bons, mas poderosos espíritos, tão terríveis nas suas manifestações,
é necessário tentar agradá-los, e isso pode ser feito apenas sendo como eles – bom, ou, no mínimo,
empenhando-se para tal, e quando a tentação, ignorância, paixão ou fraqueza de força de vontade tenham
desnorteado o homem para a transgressão, devem confessar, expressar arrependimento pela ofensa e uma
intenção de não desagradar novamente, de modo a obter perdão e serem poupados. Em uma vida correta,
então, oração e arrependimento são os meios adequados de assegurar auxílio divino e misericórdia. É
evidente que uma religião da qual tais lições naturalmente nascem é uma grande melhoria na crença em
seres que fazer o bem ou o mal indiscriminadamente, entretanto preferir fazer o mal, uma crença que não
pode ensinar a distinção entre a moral certa e errada, ou uma distribuição racional de deveres e
responsabilidades, sem a qual a bondade como uma questão de princípio é impossível e um estado
confiável de sociedade, inatingível.

25. Este mais alto e, portanto mais recente estágio do desenvolvimento moral é muito perceptível no
terceiro livro da Coleção Mágico. Com a valorização da bondade absoluta, a consciência é despertada, e
fala com tanta insistência e autoridade que os sumérios-acádios, na simplicidade de sua mente, seriamente
a imaginaram como sendo a voz de uma divindade individual e separada, um espírito guardião
pertencente a cada homem, morando dentro dele e vivendo sua vida. É um deus – às vezes até mesmo um
casal divino, tanto “deus e deusa, espíritos puros” – que os protegem desde o nascimento, ainda que não
seja prova contra os feitiços de magos e ataques de demônios, e até podem ser obrigados a trabalhar o mal
na pessoa comprometida com seu cuidado, e frequentemente chamado, portanto “o filho de seu deus”,
como vimos acima, no encantamento contra a Doença da Cabeça. A conjuração ou exorcismo que expulsa
o demônio, naturalmente restabelece o espírito guardião para sua própria natureza benéfica, e o paciente
não apenas restaura seu bem-estar físico, mas também a paz de espírito. Isso é o que é desejado, quando
uma oração pela cura de uma pessoa doente ou possuída termina com as palavras: “Que ele seja colocado
novamente nas benevolentes mãos de seu deus!” Quando, portanto, um homem é representado como
falando com “seu deus” e confessando a ele seu pecado e aflição, é apenas uma maneira de expressar a
silenciosa auto comunhão da alma, na qual revê suas próprias deficiências, formula boas resoluções e reza
para ser liberada do intolerável fardo do pecado. Há algumas lindas orações deste tipo na coleção. Elas
são chamadas de “os Salmos Penitentes”, por sua impressionante semelhança com alguns dos salmos nos
quais o Rei Davi confessa suas iniquidades e se humilha diante do Senhor. A semelhança se estende tanto
no espírito e forma, quase às palavras. Se o antigo poeta, em seu tato espiritual, fala “seu deus e deusa”, o
ser mais alto e melhor que ele sente dentro de si e sente ser divino – sua Consciência, ao contrário de Um
Deus e Senhor, seu sentimento não é menos sério, seu apelo não menos puro e confiante. Ele confessa sua
transgressão, mas alega ignorância e pede misericórdia. Aqui estão alguns dos principais versos, dos quais
cada um é repetido duas vezes, uma vez falado ao “meu deus”, e na segunda vez para “minha deusa”. O
título do salmo é: “As queixas do coração arrependido. Sessenta e cinco versos ao todo”.

26. “Meu Senhor, que a raiva de seu coração seja dissipada! Que os tolos
alcancem o entendimento! O deus que conhece o desconhecido, que ele seja
cativado! A deusa que conhece o desconhecido, que ela seja cativada! – Eu como
a comida da ira e bebo as águas da angústia... Ó meu deus, minhas transgressões
são muito grandes, muito grandes são meus pecado... Eu transgredi, e não soube.
Eu pequei, e não soube. – O Senhor, na ira de seu coração, me sobrecarregou com
confusão... Eu deito no chão, e ninguém me estende a mão. Estou em silêncio e em
lágrimas, e ninguém me leva pela mão. Eu choro, e não há ninguém para me

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

ouvir. Estou exausto, oprimido, e ninguém me liberta... Meu deus, que conheces o
desconhecido, seja piedoso!... Minha deusa, que conheces o desconhecido, seja
piedosa!... Quanto tempo, Ó meu deus?... Quanto tempo, Ó minha deusa?...
Senhor não repelirá teu servo. No meio de águas tempestuosas, vinde em meu
auxílio, leve-me pela mão! Eu cometo pecados – transforme-os em bem-
aventuranças! Eu cometi transgressões – deixe o vento levá-las para longe!
Minhas blasfêmias são muitas – rasgue-as como uma roupa!... Deus que conheces
o desconhecido[AF] meus pecados são sete vezes sete – perdoe meus pecados!...”

27. O sentimento religioso uma vez despertado para esta medida, não é de se admirar que em algumas
invocações a aflição ou doença, que haviam sido tomadas como uma visita gratuita, comecem a ser
consideradas à luz de uma punição divina, mesmo que a pessoa afligida seja o próprio rei. Isso é muito
evidente na conclusão de um hino ao Sol, no qual é o invocador que fala em nome do paciente, enquanto
apresenta uma oferta:

“Ó Sol, não deixe minhas mãos erguidas despercebidas! – Coma esta comida, não
recuse este sacrifício, traga seu deus de volta a ele, para ser um suporte ao seu
lado! – Que seu pecado, ao teu pedido, seja perdoado, seu delito seja esquecido! –
Que seu problema o deixe! Que ele se recupere de sua doença! – Dê ao rei nova
força vital... Escolte o rei, que está aos seus pés! – E a mim também, o invocador,
seu servo respeitoso!”

28. Há outro hino do mesmo tipo, não menos notável por sua construção artística e regular que por sua
beleza de sentimento e dicção. O penitente fala cinco linhas duplas, e o clérigo adiciona duas, como se
endossando a oração e apoiando-a com o peso de seu próprio caráter sagrado. Isto resulta em estrofes
muito regulares, das quais, infelizmente, apenas duas foram bem preservadas:

Penitente. –“Eu, teu servo, suspirando, eu chamo a ti. Quem quer que esteja
assolado pelo pecado, sua súplica ardente aceitai. Se tu olhastes a um homem com
piedade, que o homem viva. Governadora de tudo, senhora da humanidade!
Misericordiosa , a quem é bom se voltar, que recebe suspiros!” Clérigo. –
“Enquanto seu deus e sua deusa estão indignados com ele, ele chama a ti. Teu
semblante volta-se a ele, segure sua mão.”

Penitente. – “Além de ti não há outra divindade para levar à retidão.


Amavelmente olhe para mim, aceite meus suspiros. Fale: quanto tempo? E deixe
teu coração ser apaziguado. Quando, Ó Senhora, seu semblante se voltará a mim?
Mesmo como as pombas eu lamento, me alimento de suspiros.” Clérigo – “Seu
coração está cheio de angústia e preocupações, e cheio de suspiros. Lágrimas ele
derruba e saem em lamentação.” [AG]

29. Isto é uma completa descrição dessa estranha e primitiva religião, a religião de um povo cuja
existência não se suspeitava há 25 anos, ainda que alegue, com os egípcios e os chineses, a diferença de
ser uma das mais antigas da terra, e em todas as probabilidades era mais antiga que as duas. Esta
descoberta é uma das mais importantes conquistas da ciência moderna, não apenas por ser altamente
interessante ela mesma, mas pela luz que joga em inumeráveis até agora obscuros pontos na história do
mundo antigo, mais que isso, em muitos fatos curiosos que chegam até nosso próprio tempo. As sim, as
numerosas tribos turanianas que existiam em uma condição totalmente ou seminômades nas imensas
planícies do Leste e Sudeste da Rússia, nas florestas e desertos da Sibéria, nas estepes e terras altas da

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Ásia Central, não tem outra que esta dos sumério-acádios, em sua forma mais antiga e material. Tudo
para eles é um espírito ou tem um próprio espírito; eles não têm culto, nenhum ensinamento moral, mas
apenas invocadores, magos, não padres. Estes homens são chamados de Xamãs e têm muita influência
entre as tribos. Os turarianos mais avançados e cultivadores, assim como os mongóis e os manchus,
concordam sobre um grande espírito de supremacia acima de todos os outros e o chamam do que
consideram sendo absolutamente bom, piedoso e justo, “Céu”, assim como os sumério-acádios
invocavam “Ana”. Isso foi e ainda é a mais antiga religião nacional dos chineses. Eles dizem “Céu”
quando querem dizer “Deus”, e com a mesma ideia da amorosa adoração e temor reverente, o que não os
impede de invocar o espírito de cada colina, rio, vento ou floresta, e enumerar dentre este grupo também
as almas dos mortos. Isso claramente corresponde ao segundo e mais elevado estágio da religião acádia, e
marca o limite máximo de vida espiritual atingido pela raça amarela. Em verdade, a maioria dos chineses
agora tem outra religião; eles são budistas; enquanto os turcos e a maioria dos tártaros, mongóis e
manchus, sem contar uma outras menos importante divisões, são muçulmanos. Mas ambos o budismo e o
maometismo são religiões estrangeiras, as quais eles emprestaram, adotaram, e não inventaram eles
mesmos. Aqui também encontramos a fatal lei da limitação, que através dos tempos parece ter dito aos
homens de pele amarela e maçãs do rosto altas, “Vais até aqui, e não mais”. Assim era na Caldéia. O
trabalho da civilização e desenvolvimento espiritual iniciado pelo povo da Suméria e Acádia foi logo
tomado de suas mãos e levado pelos recém-chegados do leste, aqueles descendentes de Noé, que
“encontrou uma planície na terra de Sinar e habitou lá”.

APÊNDICE AO CAPÍTULO III.

O professor Louis Dyer, da Universidade de Harvard, tentou passar para o inglês o famoso encantamento
dos Sete Maskim. O resultado do experimento é uma tradução quase fiel em espírito e principais
características, se não sempre literal; e que, com sua gentil permissão, oferecemos aos nossos leitores.

UM ENCANTO.

I.

Sete eles são, eles são sete;

Nas cavernas do oceano eles habitam,

Eles são cobertos pelos relâmpagos do céu,

De seu crescimento, as profundas águas podem dizer;

Sete eles são, eles são sete.

II.

Largo é seu caminho e seu curso é amplo,

Onde as sementes da destruição eles espalham,

Sobre os topos das colinas onde eles galgam,

Para devastar as lisas estradas abaixo,

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Largo é seu caminho e seu curso é amplo.

III.

Homem eles não são, nem mulheres,

Pois em fúria eles varrem a terra,

E não têm nenhuma esposa a não ser o vento,

E nenhuma criança gerara a não ser a dor,

Homem eles não são, nem mulheres.

IV.

O medo não está neles, nem o temor;

Súplicas não atendiam, nem orações,

Pois não conheciam compaixão ou lei,

E são surdos aos gritos de desespero

O medo não está neles, nem o temor.

V.

Malditos eles são, eles são amaldiçoados,

Eles são inimigos do sábio grande nome de Êa;

Por um turbilhão todas as coisas são dispersas

Nos caminhos dos relâmpagos de suas chamas,

Malditos eles são, eles são amaldiçoados.

VI.

Espírito do Céu, oh, ajudai! Ajudai, ó, Espírito da Terra!

Eles são sete, três vezes dito que são sete;

Para os deuses eles são Portadores de Tronos,

Mas para os homens eles são Criadores de Escassez

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E os autores de tristezas e lamentos.

Eles são sete, três vezes dito que são sete.

Espírito do Céu, oh, ajudai! Ajudai, ó, Espírito da Terra!

NOTAS DE RODAPÉ:

[AC] "La Magie et la Divination chez les Chaldéens," 1874-5. Tradução alemã, 1878.

[AD] Alfred Maury, "La Magie et l'Astrologie dans l'Antiquité et au Moyen-âge." Introdução, p. 1.

[AE] "Ud" não sendo um nome apropriado, mas o nome do sol na linguagem dos sumérios e acádios,
pode ser trocado na tradução por “Sol”, com maiúscula.

[AF] Outro e mais recente tradutor mudou esta linha: “Deus, que saibas que eu não sabia”. Se a mudança
está correta, o pensamento é bonito e profundo.

[AG] O hino é dado por H. Zimmern, como o texto de uma dissertação sobre linguagem e gramática.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

IV.

CUXITAS E SEMITAS. A HISTÓRIA INICIAL DA CALDÉIA.

1. Acabamos de ver que os hinos e orações que compõem a terceira parte da grande Coleção Mágica
realmente marcam um mais recente e elevado estágio nas concepções religiosas dos habitantes turanianos
da Caldéia, o povo da Suméria e Acádia. Esta melhora não foi inteiramente devida a um processo natural
de desenvolvimento, mas em grande parte à influência daquela outra e mais nobre raça, que veio do
Leste. Quando o historiador sacerdotal da Babilônia, Berosus, chama a mais antiga população de “homens
de raça estrangeira”, é porque ele mesmo pertencia a aquela segunda raça, que permaneceu na terra,
introduziu sua própria cultura superior e afirmou sua supremacia até o fim da Babilônia. As lendas
nacionais preservaram a memória deste importante evento, que eles representam como uma direta
revelação divina. Êa, o todo-poderoso, acreditava-se, havida aparecido para os homens e os ensinado as
coisas mundanas e divinas. Berosus fielmente reporta a lenda, mas parece ter dado o nome do Deus de
“Êa-Han” (“Êa, o Peixe”) sob a forma corrompida do grego da palavra Oannes. Esta é a narrativa, da
qual já sabemos a primeira linha:

“Havia originalmente na Babilônia uma multidão de homens da raça estrangeira que haviam colonizado a
Caldéia, e eles viviam sem ordem, como animais. Mas no primeiro ano” (sendo o primeiro ano da nova
ordem das coisas, a nova repartição) “lá apareceram, de dentro Mar Eritreu (o antigo nome grego para o
Golfo Pérsico) onde faz fronteira com a Babilônia, um animal dotado de razão, que foi chamado Oannes.
O corpo todo do animal era como um peixe, mas embaixo da cabeça do peixe ele tinha outra cabeça, e
também pé embaixo, crescendo da cauda do peixe, similares aos dos homens, e também fala humana, sua
imagem está conservada até hoje. Este ser costumava passar o dia todo entre os homens, sem pegar
qualquer comida, e deu a eles conhecimento das letras e ciências e todo tipo de arte; ele os ensinou como
erguer cidades, construir templos, a introduzir leis e a medir terras; ele mostrou a eles como semear e
colher; em resumo, ele os instruiu em tudo que refina as maneiras e forma civilização, de modo que
naquele tempo ninguém inventou nada novo. Então, quando o sol se punha, este monstruoso Oannes
costumava mergulhar de volta ao mar e passar a noite entre as ondas, pois era um anfíbio.”

2. A questão, Quem eram os portadores dessa civilização avançada? Tem causado muita divisão entres os
acadêmicos mais eminentes. Duas soluções foram apresentadas. Ambas baseadas em muitos e sérios
fundamentos e apoiadas por nomes ilustres, e estando este ponto longe de estar resolvido ainda, nada mais
justo que afirmar ambos. Os dois maiores estudiosos alemães da Assíria, os professores Eberhard
Schrader e Friederich Delitzsch, e a escola germânica que os reconhece como líderes, sustentam que os
portadores da nova e mais perfeita civilização eram os semitas – descendentes de Seem, ou seja, povo da
mesma raça que os hebreus – enquanto que o falecido François Lenormant e seus seguidores argumentam
que eles eram cuxitas em primeira instancia – ou seja, pertenciam àquela importante família de nações
que encontramos agrupadas, no Capítulo X do Gênesis, sob o nome de Cuxe, ele mesmo um filho de Cão
– e que a imigração semita veio depois. Como a última hipótese apresenta, dentre outros argumentos, a
autoridade dos historiadores bíblicos, além disso, envolve os destinos de numerosos e importantes ramos
da antiga humanidade, daremos a ela o direito de precedência.

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57. OANNES. (“A Gênese Caldéia”, de Smith.)

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3. O nome “Cão” significa “marrom, escuro” (não “preto”). Portanto, falar de certas nações como “filhos
de Cão” é dizer que eles pertenciam à “Raça Escura”. Ainda, originalmente, esta grande seção da
posteridade de Noé era tão branca de cor como as outras duas. Parece ter primeiramente existido como
uma raça separada em uma região não muito distante do alto planalto da Ásia Central, o provável
primeiro berço da humanidade. Aquela divisão desta grande seção que de novo separou-se e se tornou a
raça de Cuxe, parece ter sido puxada para o sul por razões que são, claro, impossíveis de determinar. É
mais fácil adivinhar a rota que eles devem ter pegado ao longo do Hindu-Cuxe, (AH) uma cadeia de
montanhas que deve ter sido para ele uma barreira no Oeste, e que se junta ao extremo oeste do Himalaia,
a mais poderosa cadeia de montanhas do mundo. A ruptura entre o Hindu-Cuxe e o Himalaia forma uma
passagem de montanha, quase no lugar onde o rio Indo (mais provavelmente o Pisom de Gen., Cap. II)
vira abruptamente para o sul, para regar as ricas planícies da Índia. Através dessa passagem, e seguindo o
curso do rio, outras separações cuxitas devem ter penetrado naquela vasta e atrativa península, até mesmo
ao sul dela, onde eles encontraram uma população em sua maioria pertencente ao ramo Preto da
humanidade, tão persistentemente ignorado pelo autor no Cap. X. Centenas de anos passados sob um
clima tropical e casamentos entre nativos negros alterou não somente e a cor da sua pele, mas também
suas feições. De modo que quando as tribos cuxitas, com seu espírito migratório incansável tão
característico das épocas mais primitivas, começaram a voltar novamente para o Norte, então para o
Oeste, ao longo das praias do Oceano Índico e Golfo Pérsico, eles eram tanto de pele escura e lábios
grossos, com uma tendência ao tipo Negro, menor ou maior de acordo com o grau de mistura com a raça
inferior. Que este tipo era estrangeiro para eles é provado pela facilidade com que suas feições resumiam
a casta mais nobre de raças brancas onde quer que tenham estado tempo suficiente entre estes, como foi o
caso na Caldéia, Arábia, nos países de Canaã, para onde muitas dessas tribos vagaram várias vezes.

4. Alguns destacamentos cuxitas, que alcançaram o estreito de Bab-el-Mandeb, atravessaram para a


África, e fixaram-se lá entre as bárbaras tribos negras nativas, formaram uma nação que se tornou
conhecida por seus vizinhos do norte, os egípcios, pelos hebreus e pelo antigo Leste sob seu nome
apropriado de Cuxe, e cujas características externas ficaram, com o passar do tempo, muito perto do tipo
negro puro, e quase irreconhecível a partir dele. Este é o mesmo povo que, para nós, modernos, é melhor
conhecida sob o nome de cuxitas, nome dado pelos gregos, bem como para a divisão leste da mesma raça.
Os próprios egípcios eram outro ramo da mesma grande seção da humanidade, representados na
genealogia do Cap. X pelo nome de Mizraim, segundo filho de Cão. Estes devem ter vindo do leste ao
longo do Golfo Pérsico, e então pela Arábia do Norte e o Estreito de Suez. Na cor e nas feições dos
egípcios a mistura com raças negras é também perceptível, mas não o suficiente para destruir a beleza e
expressividade do tipo original, em todo o caso muito menos que seus vizinhos do sul, os cuxitas, quem,
além disso, eles foram completamente, no pior dos termos, quem eles detestavam e invariavelmente
designaram sob o nome de “vil Cuxe”.

5. Um terceiro e muito importante ramo da família hamita, os cananeus, após terem chegado ao Golfo
Pérsico, e provavelmente peregrinado há algum tempo, espalharam-se, não para o sul, mas para o oeste,
pelas planícies da Síria, pela cadeia de montanhas do Líbano e pela borda do Mar Mediterrâneo,
ocupando toda a terra que depois se tornou a Palestina, também ao noroeste, até a cadeia de montanhas do
Taurus. Este grupo era muito numeroso, e divido em um grane número de povos, como podemos afirmar
vendo a lista de nações dada no Cap. X. (v. 15-18) como “filhos de Canaã”. Em suas migrações por esta
região relativamente ao norte, Canaã encontrou e afastou não nativos escuros, mas tribos nômades
turanianas, que vagavam geralmente sobre os gramados selvagens e desertos arenosos e são
possivelmente considerados representantes daquela parte da raça que os historiadores bíblicos incorporam
nos nomes pastorais de Jabal e Jubal (Gen. iv, 20-22) – “O pai dos que habitam em tendas e possuem
gado”, e “o pai de todos que tocam harpa e gaita”. Neste caso, os habitantes turanianos construtores de
cidades responderiam a Tubalcain, o ferreiro e artesão. Os cananeus, portanto, estão entre os hamitas que,
em cor e feições, foram os que menos divergiram de seus parentes das raças brancas, apesar de ainda

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suficientemente bronzeados para serem intitulados de “filhos de Cão”, ou seja, “pertencentes da raça de
pele escura”.

6. Raças migratórias não atravessam continentes com a mesma rapidez que exércitos marchando. O
progresso é lento, as paradas são muitas. Cada parada se torna uma colônia, às vezes começando uma
nova nação – tantos marcos ao longo do caminho. E a distância entre o ponto de partida e o ponto mais
longe alcançado pelo povo é medida não apenas pelas milhares de milhas, mas também pelas centenas e
centenas de anos; só o espaço pode ser realmente medido; enquanto o tempo pode ser computado apenas
com suposições. A rota do sul da Índia, pela costa de Malabar, o Golfo Pérsico, pelos desertos árabes, e
então descendo pelo Mar Vermelho e pelos estreitos África adentro, é de tamanho comprimento que os
acampamentos que o povo cuxita espalhou ao longo dela foram mais que usualmente numerosos. De
acordo com os defensores de uma colônia cuxita da Caldéia, um importante destacamento parece ter
tomado posse de pequenas ilhas ao longo da costa leste do Golfo Pérsico e ficado lá por muitos séculos,
provavelmente escolhendo estas ilhas como casa devido a seu isolamento e segurança contra invasão. Lá,
sem serem molestados e tranquilos, eles poderiam desenvolver certo espírito de especulação abstrata ao
qual se inclinava sua tendência natural. Eles eram grandes astrônomos e calculadores – dois gostos que
combinam muito bem, pois a Astronomia não pode existir sem a Matemática. Mas a observação das
estrelas é também favorável ao sonho, e os cuxitas das ilhas tinham tempo para sonhar. Pensamentos de
coisas celestiais os ocupavam bastante; eles organizaram uma religião linda de muitas maneiras e cheia de
significados profundos; seus pastores moravam em comunidades ou agremiações, provavelmente um em
cada ilha, e passavam o tempo não apenas com o estudo científico e contemplação religiosa, mas também
com a uma mais prática arte de governança, pois parecia não haver ainda reis entre eles.

7. Mas veio um tempo quando as pequenas ilhas estavam superlotadas com a população crescente, e os
destacamentos começaram a cruzar a água e a terra no ponto mais extremo do Golfo, na terra dos grandes
rios. Aqui eles encontraram um povo com prática em várias artes primitivas, e possuíam algumas
importantes invenções fundamentais – a escrita, a irrigação por meio de canais – mas deploravelmente
deficientes no desenvolvimento espiritual e categoricamente bárbaros na presença de uma cultura
altamente superior. Os cuxitas rapidamente se espalharam pela terra da Suméria e Acádia, e ensinaram o
povo com quem depois, como sempre, casaram-se, até ambos formarem uma nação – com a diferença que
no norte da Caldéia o elemento cuxita tornou-se predominante, enquanto que no sul os números ficaram
ao lado dos turanianos. Se este resultado foi obtido completamente em paz ou se foi precedido de um
período de resistência e luta, não há como se determinar. Se houve tal período, não pode ter durado muito,
pois o intelecto estava ao lado dos recém-chegados, e este é um poder que logo ganha o dia. De todo
modo, a fusão final deve ter sido completa e amigável, pois a velha lenda nacional relatada por Berosus
habilmente combina os dois elementos, ao atribuir a parte de professor e revelador a Êa, o próprio ser
divino favorito dos sumério-acádios, enquanto não é impossível que aluda à vinda dos cuxitas em fazer o
anfíbio Oannes emergir do Golfo Pérsico, “onde faz fronteira com a Caldéia”. A lenda continua, dizendo
que Oannes colocou suas revelações em livros que ele deixou aos cuidados dos homens, e que muitos
outros animais divinos do mesmo tipo continuaram a aparecer em longos intervalos. Quem sabe o último
estranho detalhe que pode ter sido destinado a aludir fantasticamente à chegada das sucessivas colônias
cuxitas? Com o longo passar do tempo, claro que tal significado seria esquecido e a lenda permanece
como um miraculoso e inexplicável incidente.

8. Seria inútil tentar fixar qualquer data para eventos que aconteceram em tão remota antiguidade, na
ausência de qualquer evidência ou documento que pudesse ser conseguido. Ainda assim, com um
cuidadoso estudo dos fatos, com trabalhosas e engenhosas comparações de textos mais recentes, de cada
pedaço de evidência fornecida pelos monumentos, de informações contidas nos fragmentos de Berosus e

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

outros escritores, na maioria gregos, foi possível, com o devido cuidado, chegar a algumas datas
aproximadas, que, afinal, são tudo o que é necessário para classificar coisas em uma ordem inteligível e
correta principalmente. Mesmo que descobertas e pesquisas mais tardias chegassem a resultados mais
precisos, o ganho será relativamente pequeno. De tal distância, diferenças de um par de séculos não
importam muito. Quando olhamos para uma longa fila de casas ou árvores, os mais distantes parecem
estar juntos, e não vemos sempre onde termina – ainda que possamos obter sua direção. O mesmo com as
chamadas estrelas duplas na astronomia: são estrelas que, embora separadas por milhares de quilômetros,
aparecem como uma só devido à imensa distância entre elas e nossos olhos, e somente o mais potente
telescópio as mostra como corpos separados, ainda que juntas. Porém isso é suficiente para atribuir-lhes
seu lugar tão corretamente no mapa dos céus, que elas não perturbam os cálculos no quais são incluídas.
O mesmo tipo de perspectiva se aplica à história da remota antiguidade. Enquanto a escuridão que a
cobriu por tanto tempo lentamente desaparece diante da luz da pesquisa científica, começamos a discernir
contornos e pontos de referência, no começo, tão fracos e oscilantes que parecem mais enganar que
instruir; mas logo o olho do pesquisador, afiado pela prática, os fixa para conectá-los com as mais
recentes e totalmente iluminadas porções da eternamente desenrolada figura. O acaso, ao qual se devem
muitas descobertas, frequentemente fornece tais referências, e de vez em quando tão sólidas que se
tornam dignas de confiança para um grupo todo.

9. Os anais do rei assírio Asshurbanipal (fundador da grande Biblioteca em Nínive) estabeleceram sem
sombra de dúvida a primeira data que foi assegurada para a História da Caldéia. Aquele rei esteve por um
longo tempo em guerra como reino vizinho de Elam, e acabou por conquistar e destruir sua capital,
Shushan (Susa), depois de levar todas as riquezas do palácio real e todas as estátuas do grande templo.
Isto aconteceu no ano 645 a.C. Nas inscrições em que ele relata este evento, o rei nos informa que
naquele templo em que ele encontrou a estátua da deusa caldéia Nana, que foi levada de seu próprio
templo na cidade de Urukh (Ereque, agora Warka) por um rei de Elam de nome Khudur-Nankhundi, que
invadiu a terra da Acádia 1635 anos antes, e que ele, Asshurbanipal, pelo expresso comando da deusa, a
tirou de onde ela morava em Elam, “um lugar não elegido por ela”, e a reinstalou em seu próprio
santuário “que ela havia encantado”. 1635 somado a 645 são 2280, uma data para não ser debatida.
Agora, se uma bem-sucedida invasão elamita em 2280 encontrou na Caldéia famosos santuários para
profanar, a religião a qual esses santuários pertenciam, aquela dos cuxitas ou colonos semitas, deve ter
sido estabelecida no país por vários, senão muitos, séculos. De fato, recentes descobertas mostram que foi
assim por mais de mil anos, de modo que não podemos aceitar uma data posterior a 4000 a.C. para a
imigração estrangeira. A cultura sumério-acádiana estava firmemente enraizada e completamente
organizada – até onde foi – para permitir menos que cerca de mil anos para seu estabelecimento. Isso nos
leva para 5000 a.C. – uma respeitável figura, especialmente quando pensamos no panorama do tempo que
se abre atrás dela, e para a qual os cálculos nos falham. Pois se os colonizadores turanianos trouxeram os
embriões daquela cultura das terras altas de Elam, por quanto eles peregrinaram por lá antes de descer
para as planícies? E quanto tempo levou para alcançarem aquele posto em seu caminho da montanha do
povo no longínquo noroeste, nos vales Altai?

10. Como quer que tenha sido, 5000 a.C. é uma data razoável e provável. Mas as antigas nações não se
contentavam com isso, quando tentaram localizar e classificar seus próprios pertences. Estes sendo
necessariamente obscuros e apenas vagamente encobertos por tradições, que ganharam em capricho e
perderam em probabilidade com cada nova geração que os recebeu e os passou para a próxima, eles
adoravam ampliá-los cercando-os pelos mistérios das incontáveis eras. Quanto mais apavorantes as
figuras, maior a glória. Assim, concluímos de alguns fragmentos de Berosus que, de acordo com a
tradição nacional caldéia, houve um intervalo de mais de 259.000 anos entre a primeira aparição de
Oannes e o primeiro rei. Então vieram dez reis sucessivos, cada um dos quais reinando por um não menos
extravagante número de anos (um 30.000, outro 43.000, até mesmo 64.000; 10.800 sendo o mais modesto
número), até que a reunião de todos estes diferentes períodos resulta na soma total de 691.200 anos, que

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

supostamente devem ter se passado desde a primeira aparição de Oannes ao Dilúvio. É tão impossível
imaginar tão prodigioso número de anos com absolutamente nada de real, que nós podemos até substituir
por tal um número simples como “muito, muito tempo atrás” ou, até melhor, o início confirmado de um
conto de fadas, “Era uma vez,...” Ele transmite quase que definitivamente uma noção e, seria, neste caso,
mais apropriado, que todas as mais maravilhosas tradições de uma nação, as mais fabulosas lendas, são
naturalmente colocadas naquelas estupendas e remotas eras que nenhum relato pode alcançar, sem
controle de experiência. Embora essas tradições e lendas geralmente tivessem certo que de verdade e
vagamente lembravam-se do fato em si, que pode ainda ser evidente para poucos letrados e cultos, as
massas ignorantes do povo as engoliam inteiramente com uma história real, e achavam que as coisas
certificadas eram impossivelmente fáceis de acreditar, pela simples razão de que “haviam acontecido
muito tempo atrás!” Um caldeu da época de Alexandre certamente não esperava encontrar um Homem-
Peixe divino em suas caminhadas pela praia, mas – não existe conhecimento sobre o que poderia ou não
ter acontecido setecentos mil anos atrás! Na lenda das seis aparições sucessivas sob os dez primeiros
longevos reis, ele não teria descrito o sentido simples tão lucidamente mostrado pelo Sr. Maspero, um dos
mais distintos orientalistas franceses: - “O tempo que precedeu o Dilúvio representou um período
experimental, durante o qual a humanidade, sendo ainda bárbara, precisou de assistência divina para
superar as dificuldades pelas quais era cercada. Aqueles tempos foram preenchidos com seis
manifestações da divindade, indubitavelmente respondendo ao número de livros sagrados nos quais os
pastores viram a mais completa expressão da lei revelada”. [AI] Isto apresenta outra e mais provável
explicação da lenda que a sugerida acima (final do parágrafo 7); mas não existe nenhuma prova mais
efetiva que outra para ser a correta.

11. Se a Caldéia foi, tempos depois, um campo de batalha de nações, foi no começo uma incubadora e
uma colmeia de povos. As várias raças em suas migrações devem necessariamente ter sido atraídas e
apreendidas pela excessiva fertilidade de seu solo, que, dizem, em tempos de alta prosperidade e sob
condições apropriadas de irrigação, centuplicou o retorno de grãos que recebeu. Colonização após
colonização deve ter se seguido rapidamente. Mas o elemento nômade foi por muito tempo ainda muito
prevalecente, e lado a lado com os construtores de cidades e lavradores de campos, tribos de pastores
vagavam pacificamente sobre a face da terra, tolerados e sem serem molestados pela população
permanente, com quem eles se misturaram cautelosamente, ocasionalmente se fixando temporariamente,
e mudando seus assentamentos conforme a segurança e a vantagem requeriam – ou vagando de modo
geral de um lugar em comum, para o norte, oeste e sudoeste. Isso deixa claro porque a Caldéia é tida
como a terra onde as línguas tornaram-se confusas e onde ocorreu a segunda separação das raças.

12. A maioria das tribos não pertenciam, principalmente nômades, assim como os Cuxitas ou Canaã, aos
descendentes de Cão, “o Negro”. Elas pertenciam aos descendentes de Sem, cujo nome, que significa
“Glória, Renome”, faz dele o ancestral sinônimo da raça, que sempre acreditou firmemente ser a
escolhida por Deus. Eles eram semitas. Quando eles chegaram às planícies da Caldeia, eles estavam
inferiores em civilização em relação ao povo com quem vieram a morar. Eles não sabiam nada sobre as
artes da cidade e tinham tudo a aprender. Eles aprenderam, já que cultura superior sempre afirma seu
poder — até para a língua dos colonos cuxitas, que mais tarde foi rapidamente substituída por idiomas
turanianos pobres e rudimentares, da Suméria e Acádia. Essa língua, ou seus vários dialetos, eram comuns
entre a maioria das tribos hamitas e semitas, das quais os hebreus levaram a grande perfeição. Os outros
viravam diferentes dialetos parecidos — o Assírio, o Aramaico ou Sírio, o Árabe — de acordo com as
suas várias peculiaridades. Os Fenícios do litoral e todas as nações cananéias, também falavam línguas
pertencentes à mesma família e, então eram classificadas dentre as chamadas línguas Semíticas. Assim
veio que a filologia — ou, a Ciência das Linguagens — adotou um nome errado para todo aquele grupo,
chamando as línguas pertencentes a ele de “Semítica”, quando na verdade, elas são originalmente
“hamitas”. A razão disso é que a origem hamita dessas importantes línguas, que têm sido chamadas de

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Semíticas por anos, não foi descoberta até muito recentemente, e mudar seus nomes agora iria causar uma
confusão considerável.

13. A maioria das tribos Semíticas que habitaram a Caldéia não adotaram somente a língua cuxita, mas
também a sua cultura e religião. Asshur levou todas s três tribos em direção ao norte, onde o reino assírio
surgiu a partir de algumas colônias babilônias, e Aarão em direção ao oeste para a terra que mais tarde foi
chamada de Síria do Sul, e onde, há muito tempo, floresceu a grande cidade de Damasco, que ainda
existe. Mas existia uma tribo de dádivas espirituais maiores que as outras. Não era numerosa, já que por
muitas gerações ela consistia apenas de uma grande família governada pelo seu próprio chefe ou patriarca
mais velho. É verdade que essa família, com os filhos do patriarca e seus netos, suas riquezas em cavalos,
camelos, rebanhos de ovelhas, seus serventes e escravos, homens e mulheres, representavam uma força
muito respeitável: Abraão podia reunir 300 serventes jovens armados e treinados que haviam nascido em
sua própria casa. Essas tribos em particular, pareciam ter vagado por algum tempo nos arredores da
Caldéia e na própria região, como indicado pelo nome dado ao seu sino no capítulo X: Arpachade,
derivado de Areph-Kasdîm, que significa, “nos limites dos caldeus” ou talvez “fronteiras”— no sentido de
terra — dos caldeus. Gerações atrás de gerações foram mais ainda ao oeste, cruzaram a terra de Sinar,
atravessaram o rio Eufrates e chegaram à cidade de Ur, onde ou próximo dali habitaram por muitos anos.

14. Ur era então a maior cidade do sul da Caldeia. Os primeiros reis conhecidos da Suméria residiram ali,
e além disso, era o principal ponto comercial do país. Já que, por mais estranho que possa parecer quando
olhamos em um mapa moderno, Ur, as ruínas que agora são a 150 milhas do oceano, era então uma
cidade marítima, com portos e marinas. As águas do Golfo cobriam muito mais terra do que hoje. Existia
uma distância de muitas milhas entre a foz do rio Tigre e a do rio Eufrates, e Ur ficava muito próxima à
foz do último. Como todas as cidades comerciais e marítimas, não era refúgio apenas de pessoas que
habitavam na região, mas também de comerciantes estrangeiros. A vida intelectual ativa de uma capital,
que era ao mesmo tempo um grande centro religioso e lugar de um poderoso sacerdócio, também devia
necessariamente favorecer o intercâmbio de ideias, e exercer influência nas tribos semíticas das quais a
bíblia nos diz que “foram em diante da Ur dos caldeus, para irem à terra de Canaã”, guiados pelo
patriarca Terá e seu filho Abraão (Gênesis xi.). O historiador do Gênesis aqui, assim como por toda a
narrativa, não menciona nenhuma data dos eventos que relata; nem sugere a causa dessa remoção. No
primeiro desses pontos, o estudo de monumentos cuneiformes caldeus nos dá uma boa direção, enquanto
eles não admitem mais do que adivinhações — das quais algumas estão a seguir.

15. Isso é um esboço amplo e superficial da teoria que diz que as imigrações cuxitas antecederam a
chegada dos Semitas na terra de Suméria e Acadia. Os estudiosos que sustentam essa teoria dão vários
motivos para suas opiniões, como porque a Bíblia menciona várias vezes uma Cuxe localizada no leste e
que é evidentemente diferente da Cuxe identificada na Etiópia; que, no capítulo X do Gênesis (8-12),
Ninrode, o lendário herói, cujo império foi primeiramente na “terra de Sinar”, e quem dizem ter “desta
mesma terra saído à Assíria”, é chamado um filho de Cuxe; aquele que a maioria dos antigos poetas
gregos conheciam como “etíopes” no leste longínquo em oposição aos do sul — e muitos outros. Esses
estudiosos que se opõe a essa teoria a destroem por completo. Eles não vão admitir a existência de um
elemento cuxita ou migração no leste, e colocam as expressões da Bíblia como simples erros, feitos pelos
autores ou copiadores. De acordo com eles, existiu apenas uma imigração na terra da Suméria e Acádia, a
dos Semitas, alcançada através de muitos anos e inúmeros episódios. A língua que substituiu o antigo
idioma sumério-acádio é para eles semítica, no mais direto e exclusivo sentido; a cultura corrupta na
população antiga é chamada por eles de puramente “Semítica”; enquanto seus oponentes frequentemente
usam o nome composto de “cuxe-semítica”, para indicar dois elementos distintos, que para eles, aparecem
compostos. Deve ser dito que a opinião anticuxita está ganhando forma. Ainda assim, a teoria cuxita não
pode ser considerada como descartada, apenas “não provada” ou não suficientemente e então suspendida

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

e caído em desfavor. Com essa condição, nós devemos adotar a palavra “Semítica” como a mais simples e
mais usada.

16. É somente com a ascensão da cultura semítica no sul da Mesopotâmia que entramos em um período
que, entretanto remoto e cheio de lacunas, ainda pode ser chamado, em uma medida, de “histórico”,
porque existe certo número de fatos dos quais monumentos contemporâneos nos dão evidências positivas.
De fato, a conexão entre aqueles fatos não é muito aparente; suas causas e efeito não devem ser
frequentemente feitas, salvo por mais ou menos por ousadas conjecturas; ainda assim existem vários
pontos de referência desse fato, e é com eles que a história real começa. Não importa se amplos espaços
devem ser deixados em aberto ou temporariamente preenchidos por adivinhações. Novas descobertas
acontecem quase diariamente, da onde surgem inscrições e textos que inesperadamente fornecem um
elemento faltante, ali para confirmar ou demolir uma conjetura, estabelecer ou corrigir datas que têm sido
enigmas por muito tempo ou sugeridas em provas insuficientes. Em resumo, detalhes podem ser dados
mesmo que quebrados e frugais, mas o esboço geral da condição da Caldeia pode ter sido feita tão
antigamente como há 40 séculos antes de Cristo.

17. De alguma coisa é possível não ter dúvidas: que o nosso primeiro relance da condição política da
Caldeia nos mostra que o país se dividiu em vários pequenos estados, cada um guiado por uma grande
cidade, famosa e poderosa pelo santuário ou templo de alguma divindade em particular, e governada por
um patesi, um título que agora é usado para falar “sacerdote rei”, sacerdote e rei em um só. Não há
dúvidas de que o começo da cidade era um templo, com a sua faculdade de sacerdotes, e que seus
habitantes foram gradualmente formados por peregrinos e religiosos. Aquela realeza, desenvolvida a
partir dos sacerdotes, também é mais do que provável, e consequentemente deve ter sido, em seus
primeiros anos, uma forma de governo sacerdotal, e, em uma grande escala, subordinada a influências
sacerdotais. Em algum tempo, o título de patesi foi simplesmente substituído por “rei” — uma mudança
que possivelmente indicava a suposição dos reis de ter uma atitude mais independente em relação à classe
da qual o seu poder originalmente cresceu. É notável que a distinção entre os semíticos novatos e os
sumério-acádios indígenas continua extensa para ser localizada nos nomes dos construtores dos templos
reais, até mesmo depois no novo idioma semítico, que nós chamamos de assírio, que tinha completamente
substituído a língua antiga — um processo que teve ter levado um tempo considerável, porque parece, e
com razão, que os novatos, para garantir o desejado para influenciar e propagar a sua própria cultura, a
princípio não apenas aprendida para entender mas na verdade usaram eles mesmos as linguagem do povo
para o qual vieram, pelo menos em documentos públicos. É isso que explica o fato de que muitas
inscrições e tábuas, enquanto escritas no dialeto da Suméria ou Acádia, são semíticas em espírito e no
grau de cultura que delatam. Além disso, até observações superficiais mostram que a linguagem antiga, e
os nomes antigos, sobrevivem por mais tempo na Suméria — ao Sul. Desse fato, é possível deduzir, com
uma pequena margem de erro, que ao Norte — a terra da Acádia — antigamente era “semitizada”, que os
imigrantes semíticos estabeleceram a sua primeira sede naquela parte do país, que seu poder e influência
daí espalharam-se pelo sul.

18. Totalmente de acordo com essas indicações, a primeira grande figura histórica que nos encontra no
limite da história caldeia, obscura com o nevoeiro de anos e tradições fabulosas, ainda que de certo real, é
o Sharrukin Semita, rei da Acádia — ou Acade, como a cidade no norte veio ser chamada — geralmente
mais conhecido na história por uma versão corrupta moderna de Sargon, e chamada de Sargon I. “a
Primeira”, para distingui-lo de outro monarca de mesmo nome que foi descoberto ter governado muitos
séculos depois. Já sobre a cidade de Acade, não é nenhuma outra da cidade da Acádia mencionada em
Gênesis X., 10. Era situada próxima ao Eufrates em um largo canal ao lado oposto de Sippar, então em
tempo as duas cidades foram consideradas como uma cidade dupla, e os hebreus sempre a chamavam de
“as duas Sippars” — Sepharvaim, que é frequentemente falada na Bíblia. Foi lá onde Sharrukin
estabeleceu seu domínio, e onde uma estátua foi em sua homenagem mais tarde, com uma inscrição que

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

diz, como de costume, em primeira pessoa, uma declaração muito orgulhosa: “Sharrukin, o rei poderoso,
o rei de Acade, eu sou”. Ainda assim, apesar de suas reformar e conquistas serem de importância
duradoura, e ele próprio permaneceu como um dos heróis favoritos da tradição caldeia, ele parece ter sido
um aventureiro e usurpador. Talvez ele foi, por essa razão, o mais prezado pela população, a qual, na falta
de fatos positivos a respeito de seu nascimento e origem, teciam uma áurea de romance ao seu redor, e
contaram histórias sobre ele que deve ser tão antiga quanto a própria humanidade, que foi contada muitas
vezes, em diferentes países e por anos, sobre muitos reis e heróis famosos. Essa história de Sharrukin é a
versão mais antiga conhecida, e a inscrição em sua estátua a coloca em sua própria boca. Faz ele falar que
não conhecia de seu pais, e que sua mãe, uma princesa, deu a luz em um “esconderijo” (ou “um lugar
inacessível”), próximo ao Eufrates, mas que sua família era governante da terra. “Ela me colocou em um
cesto de junca”, o rei volta a falar; “com betume ela fechou a porta de minha arca. Ele me jogou no rio,
que não me afogou. O rio me levou com ele; e a Akki, o carregador de água, me levou. Akki, o carregador
de água, com o carinho de seu coração me pegou. Akki, o carregador de água, me criou. Akki, o
carregador de água, me fez seu jardineiro. E em minha própria jardinagem, a deusa Ishtar me amou...”

19. Qualquer que seja a sua origem e como ele chegou ao poder real, Sargon foi um grande monarca. É
dito que ele encarregou-se de expedições bem sucedidas na Síria, e uma campanha em Elão; que com os
prisioneiros das raças conquistadas ele parcialmente povoava a sua nova capital, Acade, onde construiu
um palácio e um magnífico templo; e que em determinada ocasião ele esteve ausente por três anos,
quando, durante esse tempo, avançou ao litoral do mediterrâneo, que ele chamava de “o mar do pôr do
sol”, e onde ele deixou registros memoriais de suas ações, e retornou ao seu lar em triunfo, levando
consigo seus imensos despojos. A escritura contém apenas as seguintes menções moderadas sobre sua
carreira militar: “Por 45 anos o reino que governei. E a raça de cabeça negra (acadiana) que governei. Em
muitas carruagens de bronze eu andei sobre terras irregulares. Eu governei as regiões no norte. Três vezes
sobre a costa do mar persa eu avancei...”[AJ]

58. CILINDRO DE SARGON, DE AGADÊ.

(Hommel, "Gesch. Babyloniens u. Assyriens.")

20. Esse Sharrukin não deve ser confundido com outro rei de mesmo nome, que também governou em
Acade, mais ou menos 1800 anos mais tarde (cerca de 2000 a.C.), que no seu tempo foi completo e trouxe
uma vasta reforma religiosa que havia lentamente se formado desde que elementos Semíticos e Acadianos
começaram a se misturar em termos de especulação espiritual e veneração. O que foi o resultado dessa
fusão será o assunto do próximo capítulo. Basta dizer que a religião da Caldeia, na forma como é
assumida sob o segundo Sharrukin permaneceu para sempre fixa, e quando é falado de religião

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

babilônica, é o que é entendido por aquele nome. O grande trabalho teológico também exige uma
literatura grandiosa. O encantamento e as mágicas formas do primeiro período, puramente turaniano,
tinha que ser coletado e colocado em ordem, assim como os hinos e rezas do segundo período, compostos
sob a influência de um sentimento religioso maior e mais espiritual. Mas toda essa literatura estava na
linguagem da população mais velha, enquanto governando a classe — as casas reais e sacerdócios —
estavam se tornando quase que exclusivamente semítica. Então se fosse necessário, que eles deveriam
estudar e aprender a língua antiga tão exaustivamente como não apenas para entender e ler, mas também
para usá-la, em diálogos e escrita. Para esse propósito, Sargon ordenou que os antigos textos, quando
coletados e classificados, mas também copiados em tábuas de argila com a tradução — ou entre as linhas
ou em colunas opostas — para a língua moderna semítica que é geralmente usada hoje, que nós podemos
começar a chamar por seu nome comum, Assírio, mas dava direções para as compilações de gramática e
vocabulário — o mesmo trabalho que proporcionou aos estudiosos de tempos presentes a chegar ao
descobrimento daquela progênita língua antiga, que, sem esse trabalho de tradução, deveria ter
permanecida como um livro para sempre.

21. Essa é a origem da grande coleção de três livros e duzentas tábuas, dos quais os conteúdos são o
assunto do próximo capitulo. Isso deve ser adicionado a outro grande trabalho, de setenta tábuas, em
assírio, sobre astrologia, ou seja, a suposta influência dos corpos sagrados, de acordo com suas posições e
conjunturas, no destino de nações e indivíduos e na fluência das coisas em geral na terra — uma
influência que foi firmemente acreditada e provavelmente ainda um terceiro trabalho, sobre profecias,
prodígios e divindades. Para armazenar esses extensivos trabalhos literários, para preservar os resultados
seguramente e valorizá-los, Sargon II fundou ou ampliou a biblioteca que da faculdade de sacerdotes em
Urukh (Ereque), o que deu ao lugar o nome de “a Cidade de Livros”. Esse depósito tornou-se o mais
importante na Caldeia, e quando, quatorze séculos depois, os Assírios Asshurbanipal mandaram seus
escrivãos ao local, para coletar cópias dos textos científicos antigos e sagrados para a sua própria
biblioteca real em Nínive, foi em Ereque que eles obtiveram o maior número de livros, especialmente
porque eram favoritos dos sacerdotes, que estavam em excelentes termos com o rei depois que ele trouxe
a estatua de sua deusa Nana de volta de Susa e a restaurou. Acade então se tornou a sede, como era da
influência e reforma semítica, que se espalhou no sul, formando uma contracorrente à cultura da Suméria,
que havia firmemente avançado do Golfo ao norte.

22. É possível que a coleção de Sargon possa também ter abrangido literatura de natureza mais leve que
aqueles pesados trabalhos em magia e astrologia. Finalmente, um trabalho sobre agricultura foi
encontrado, que se pensa ter sido compilado para a mesma biblioteca do rei, [AK] e que contém pedaços
de poesia popular (ditados, enigmas, canções camponesas) que hoje são chamadas de “folclore”. Da
correta suposição de que há, até agora, nenhuma prova absoluta, mas como alguns destes fragmentos, dos
quais infelizmente poucos puderam ser recuperados, são muito interessantes e belos de certa forma, este é
talvez o melhor lugar para inseri-los. Os quatro seguintes podem ser chamados de “Máximas”, e o
primeiro é singularmente vigoroso e poderosamente expresso.

1. Como um forno que é velho / Contra teus inimigos seja duro e forte

2. Que ele sofra vingança / Que volte para ele / Que faz a provocação.

3. Se maldoso tu és / Para o mar eterno / Tu certamente irás.

4. Tu fostes, tu estragaste / A terra do inimigo / Então o inimigo veio e estragou tua terra, a tua mesmo.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

23. Será notado que o número 3 sozinho expressa um sentimento moral de alto padrão, e é distintamente
semítico em espírito, o mesmo que expressa uma veia mais nobre e puramente religiosa, e uma mais
poética forma em um dos “Salmos Penitenciais”, onde diz:

1. Aquele que não teme seu deus – será cortado com um junco.

2. Aquele que não honra sua deusa – sua força física se esgotará;

3. Como uma estrela no céu, sua luz diminuirá; como as águas da noite ele desaparecerá.

Alguns fragmentos podem ser imaginados como sendo cantados pelo camponês em seu trabalho para sua
equipe de aragem, em cuja pessoa às vezes ele fala:

5. Uma novilha sou eu, à vaca estou ligada; A alça do arado é forte – ergam-na! Ergam-na!

6. Meus joelhos estão marchando – meus pés não estão descansando; Sem riqueza própria – o grão faz
para mim. [AL]

24. Um grande interesse no velho Sargon de Acade foi recentemente animado por uma extraordinária
descoberta ligada a ele, que ocasionou uma surpreendente revolução na até então aceita cronologia da
Caldéia. Essa questão de datas é sempre confusa e complicada quando se lida com antigos povos
orientais, porque eles não lidam com datas a partir de um evento em particular, como nós fazemos, e
como faziam os maometanos, os gregos e os romanos. Nas inscrições coisas são ditas que aconteceram no
ano tal de tal governo de um rei. Onde localizar aquele rei é a próxima questão – irrespondível, a não ser
que, como felizmente é a maioria dos casos, alguma pista é fornecida, para usar um termo legal, por uma
evidência circunstancial. Assim, se um eclipse é mencionado, o tempo pode ser facilmente determinado
com a ajuda da astronomia, que pode calcular para trás e para frente. Ou ainda, um evento ou uma pessoa
pertencente a outro país é mencionada, e se eles são conhecidos por nós por outras fontes, isso é uma
grande ajuda. Tal coincidência (que é chamada de Sincronismo) é muito valiosa, e datas estabelecidas por
sincronismos são geralmente confiáveis. Então, felizmente para nós, reis assírios e babilônios de um
período tardio, cujas datas são fixadas e provadas indubitavelmente, tinham muito o hábito de mencionar,
em suas inscrições históricas, eventos que aconteceram antes de seu tempo e especificando o número de
anos que se passaram, e frequentemente também o rei em cujo reinado o evento, qual quer que fosse,
tinha ocorrido. Esta é a pista mais preciosa de todas, pois é infalível, e, além de verificar um ponto, dá um
firme ponto de apoio, com o qual se pode chegar a muitos outros. O famoso memorando de
Asshurbanipal, já frequentemente citado, sobre a deportação da deusa Nana (ou seja, sua estátua) do seu
templo em Ereque é uma evidência desse tipo. Quaisquer datas sugeridas sem alguma dessas pistas como
base não são confiáveis, e nenhum acadêmico sério sonha em oferecer alguma dessas datas, exceto como
uma sugestão temporária, aguardando confirmação ou abolição de subsequentes pesquisas. Assim foi com
Sargon I, de Acade. Não havia nenhuma indicação positiva do tempo em que ele viveu, exceto que ele
não poderia ter vivo depois de 2000 a.C. Acadêmicos, portanto, concordam em atribuir esta idade para
ele, aproximadamente – um pouco mais ou menos – pensando que eles não poderiam estar muito errados
em fazê-lo. Grande, entretanto, foi a comoção gerada pela descoberta de um Cilindro de Nabonido, o
último rei da Babilônia (cuja data é de 55 a.C.), em que ele fala de reparos que fez no grande Templo do
Sol, em Sippar, e declara que cavou profundamente suas fundações para os cilindros do fundador, assim
descrevendo seu sucesso: “Shamash (o deus do Sol), o grande senhor... escolheu a mim para contemplar o
cilindro-base de Naram-Sin, o filho de Sharrukim, que por três vezes mil e duas vezes cem ano nenhum

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

dos reis que viveram antes de mim tinham visto”. A simples soma de 3200 + 550 dá 3750 a.C. como a
data de Naram-Sin, e 3800 como a de seu pai Sargon, permitindo um longo reinado a este último! Uma
mudança de cenário de 1800 de uma vez parecia algo tão surpreendente que houve muita hesitação em
aceitar esta evidência, irrespondível como parecia, e a possibilidade de um erro do gravador foi
seriamente considerado. Alguns outros documentos, contudo, foram encontrados independente de cada
um e em diferentes lugares, corroborando a afirmação no Cilindro de Nabonido, e a extraordinariamente
antiga data de 3800 a.C. agora geralmente aceita o velho Sargon de Acade – talvez a mais remota data
autêntica a que se chegou na história.

25. Quando pesquisamos e tentamos compreender e classificar os materiais que temos da “História da
Caldéia” inicial, parece quase presunçoso agraciar tão imperfeita tentativa com tão ambicioso nome. Os
pontos de referência são tão poucos e tão longe entre ele e, tão desconectados também; há tanta incerteza
sobre eles, especialmente sobre seu lugar. A experiência com Sargon de Acade não foi encorajadora para
a cronologia conjetural; ainda, com isso, devemos em muitos casos nos contentarmos até que achados
mais sortudos apareçam para nos dar certeza. Qual, por exemplo, é o lugar apropriado de Gudea, o patesi
de Sir-burla (também lindo Sir-gulla ou Sirtilla e, recentemente, Zirlaba), cujas magníficas estátuas o Sr.
De Sarzec encontrou no salão principal do templo de que os tijolos estampam sua marca? (Ver fig. 59) O
título de patesi (não “rei”) aponta para grande antiguidade, e entende-se geralmente que ele tenha vivido
entre 4000 e 3000 a.C. Se ele não era um semita, mas um príncipe acádio, está para ser concluído não
apenas pela linguagem em suas inscrições e a escrita, que é de caráter muito arcaico – ou seja, antiga e
fora de moda – mas pelo fato que a cabeça que foi encontrada com as estátuas é impressionantemente
turaniana nas formas e características, raspada, também e, com um turbante com um tecido ainda usado
na Ásia Central. De modo geral, pode ser facilmente tomado por um mongol moderno ou tártaro. [AM] A
descoberta desse construtor e patrono das artes ocultou muito a glória de um governador um pouco mais
tarde, Ur-êa, Rei de Ur, [AN] que aproveitou por muito tempo a reputação de ser o mais antigo construtor
de templos que se conhece. Ele permanece de todo modo o primeiro monarca poderoso sobre quem lemos
na Caldéia do Sul, de que Ur parece ter sido em alguma medida a capital, pelo menos na medida em que
tinha certa supremacia sobre as outras grandes cidades da Suméria.

26. Destes, a Suméria teve muitos, ainda mais veneráveis por sua idade e santidade que aqueles da
Acádia. Pois o sul era o lar da antiga raça e mais antiga cultura e, por consequência ambos avançaram
para o norte. Por isso que o antigo ramo era mais duro e durava mais em sua linguagem, religião e
nacionalidade; era mais devagar em ceder à contracorrente semita de raça e cultura, que, como uma
consequência natural, obteve uma influência mais cedo e mais forte no norte, e de lá se irradiou para toda
a Mesopotâmia. Havia Eridhu, perto do mar “na foz dos Rios”, o antiquíssimo santuário de Êa; havia
Larsam, famoso com as glórias de sua “Casa do Sol” (Ê-Babbara na língua antiga), o rival de Ur, a
cidade do Deus-Lua, cujos reis Ur-êa e seu filho Dungi eram, parece, os primeiros a tomar o ambicioso
título de “Reis da Suméria e Acádia” e “Reis das Quatro Regiões”. Quanto à Babilônia, orgulhosa
Babilônia, que por muito tempo nos acostumamos a pensá-la como o próprio começo da vida do Estado e
governo político da Caldéia, não estava talvez absolutamente construída ou somente modestamente
iniciada sua existência sob seu nome acádio de Tin-tir-ki (“o Lugar da Vida”) ou algum tempo mais tarde,
Ka-Dimirra (“Portão de Deus”), quando as cidades citadas acima, e muitas outras, tinham cada uma seu
famoso templo com faculdades ministeriais de pastores e, provavelmente, bibliotecas, e cada uma seu rei.
Mas o poder político foi por muito tempo concentrado em Ur. Os primeiros reis de Ur autenticamente
conhecidos por nós são Ur-êa e seu filho Dungi, que deixaram abundantes traços de sua existência nos
inúmeros templos que eles construíram, não só em Ur, mas em muitas outras cidades também. Seus
tijolos foram identificados foram identificados em Larsam (Senkereh) e, parece, em Sir-burla (Tel-Loh),
em Nipur (Niffer) e em Urukh (Ereque, Warka), e como as duas últimas cidades pertenciam à Acádia, eles
parecem ter governado pelo menos parte daquele país e assim justificaram assumir seu título altissonante.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

59. ESTÁTUA DE GUDÊA, COM INSCRIÇÃO; DE TELL-LOH, (SIR-BURLA OU SIR-GULLA).


COLEÇÃO SARZEC.

(Hommel).

27. Foi notado que os tijolos contendo o nome de Ur-êa “são encontrados em uma posição mais baixa que
quaisquer outros, na fundação das construções” que “eles são de uma feitura rude e grosseira, de muitos
tamanhos e mal encaixados”; esses tijolos cozidos são raros entre eles; que eles são mantidos juntos pelos
mais antigos substitutos da argamassa – lama e betume – e que a escrita sobre eles é curiosamente rude e
imperfeita. [AO] Mas o que fosse que faltava em perfeição nos esforços arquitetônicos do Rei Ur-êa, eles
certamente compensavam em tamanho e número. Aqueles que ele não completou, seu filho Dungi
continuou depois dele. É notável que estes grandes construtores pareçam ter devotado suas energias

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

exclusivamente para propósitos religiosos; também que, enquanto seus nomes são sumério-acádios e suas
inscrições são geralmente nesta língua, os templos que eles construíram são dedicados a várias divindades
da nova ou recém-formada religião. Quando vemos os príncipes do sul, de acordo com uma engenhosa
observação do Sr. Lenormant, assim começando uma espécie de pregação prática da religião
“semitizada”, podemos tomar isso como um sinal dos tempos, como um inequívoca prova da influência
do norte, tanto política como religiosa. Uma relíquia muito curiosa do Rei Ur-êa foi encontrada – seu
próprio selo de cilindro – que foi perdida por um acidente, então apareceu de novo e agora está no Museu
Britânico. Representa o Deus-Lua sentado em um trono – como se encontra para o rei da cidade especial
do Deus-Lua – com os sacerdotes apresentando adoradores. Nenhuma data definida, claro, pode ser
atribuída a Ur-êa e a importante época da história que ele representa. Mas pode-se alcançar uma data
aproximada, graças a uma pista fornecida pelo mesmo Nabonido, último Rei da Babilônia, que resolveu a
questão de Sargon para nós de maneira tão inesperada. Aquele monarca era tão zeloso em reparar templos
como seus predecessores o eram em construi-los. Ele tinha motivos próprios para buscar popularidade, e
não pôde pensar em nada melhor que restaurar os santuários da terra consagrados pelo tempo. Dentre
outros, ele reparou o Templo do Sol (Ê-Babbara) em Larsam, do qual fomos informados por um cilindro
especial. Nele, ele conta para a posteridade que ele encontrou um cilindro do Rei Hamurabi intacto em
sua câmara sob a pedra angular, que o cilindro afirmar que o templo foi fundado 700 anos antes do tempo
de Hamurabi; como Ur-êa foi o fundador, ele apenas permanece para determinar a data do último rei para
saber a do anterior. (AP) Aqui infelizmente os acadêmicos discordam, não tendo ainda qualquer
autoridade decisiva para afirmar nada. Alguns colocam Hamurabi antes de 2000 a.C., outros mais tarde. É
talvez mais seguro, portanto, supor que Ur-êa dificilmente pode ter vivido muito antes de 2800 a.C. ou
muito depois de 2500 a.C. De todo modo, ele deve necessariamente ter vivido um pouco antes de 2300
a.C., pois por volta deste último ano aconteceu a invasão dos Elamitas registrada por Asshurbanipal, uma
invasão que, como o rei menciona expressamente, assolou a terra da Acádia e profanou seus templos –
evidentemente os mesmos que Ur-êa e Dungi tão piedosamente construíram. Nem isso foi um uma
incursão de passagem ou ataque de montanhistas a procura de recompensa. Foi uma verdadeira conquista.
Khudur-Nankhundi e seus sucessores permaneceram na Caldéia do Sul; nomeavam-se os reis do país e
eles reinavam, muitos deles em sucessão, que esta série de governadores estrangeiros ficou conhecida na
história como “a dinastia elamita”. Não houve espaço então para uma dinastia nacional poderosa e
construtora de templos como aquela dos reis de Ur.

28. Esta é a primeira vez que encontramos registros autênticos e monumentais de um país que foi
destinado por dezesseis séculos a estar em contato contínuo, na maioria hostil, com a Babilônia e seu rival
norte, a Assíria, até sua aniquilação final por estes últimos. Sua capital era Shushan (depois pronunciada
pelos estrangeiros como “Susa”), e seu nome original era Shushinak. Seu povo era do ramo turaniano, sua
linguagem era parecida com aquela da Suméria e Acádia. Mas uma vez ou outra os semitas vieram e
fixaram-se em Shushinak. Apesar de poucos em número para mudar a língua ou os costumes do país, a
superioridade de sua raça afirmou-se. Eles tornaram-se a nobreza da terra, a aristocracia governante de
onde foram tirados os reis, os generais e os altos funcionários. Que a massa turaniana da população foi
mantida subordinada e desprezada e a nobreza semítica evitava o casamento com eles é muito provável; e
seria difícil, de outra forma, explicar a diferença de tipo entre as duas classes, como mostrado nas
representações de prisioneiros e guerreiros pertencentes a ambos nas esculturas assírias. O grupo comum
de prisioneiros empregados no trabalho público e guiados por capatazes brandindo varas têm um evidente
tipo de características turanianas – maçãs do rosto altas, rostos largos e achatados etc., enquanto os
generais, ministros e nobres todos têm a dignidade e beleza do mais belo tipo judeu. “Elam”, o nome sob
o qual o país é mais bem conhecido tanto na Bíblia e nos mais recentes monumentos, é uma palavra
turaniana, que significa, como “Acádia”, “Terras Altas”. É o único nome que o historiador do Cap. X do
Gênesis admite dentro da sua lista de nações e, consistentemente seguindo seu sistema de ignorar todos os
membros da grande raça amarela, ele leva em consideração apenas a aristocracia semítica, e faz de Elam
um filho de Sem, um irmão de Assur e Arfaxade (Gen. X. 22).

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

29. Um dos próximos sucessores de Khudur-Nankhundi, não estava contente com a adição da Caldéia a
seu reino Elam. Ele tinha a ambição de um general nato e a habilidade militar de um. O Cap. XIV do
Gênesis – que o chama Quedorlaomer – é o único documento que temos um descritivo da carreira militar
deste rei, e dá uma impressionante imagem da mesma, suficiente para nos mostrar o que temos em
comum com tão notável personagem. Apoiado por três reis aliado e provavelmente tributários, o da
Suméria (Shineâr), de Larsam (Ellassar) e de Goïm (na tradução não revisada da Bíblia, “rei das nações”),
ou seja, as tribos nômades que vagavam pela periferia e pelas incertas e mais distantes porções da
Caldéia, Khudur-Lagamar marchou com exército por 1200 milhas pelo deserto para os vales férteis, ricos
e populosos da Jordânia e do lago ou Vale de Sidim, depois chamado de Mar Morto, onde cinco grandes
cidades – Sodoma, Gomorra e três outras – eram governadas por muitos outros reis. Ele não apenas
subjugou esses reis e impôs suas regras sobre eles, mas se esforçou, mesmo depois de retornar ao Golfo
Pérsico, para mantê-los sob mão forte, que por doze anos eles “serviram” a ele, ou seja, pagaram tributos
a ele regularmente, e somente no décimo-terceiro anos, encorajados pela sua prolongada ausência,
aventuraram-se a se rebelar. Mas eles subestimaram a vigilância e atividade de Khudur-Lagamar. No
outro ano ele já estava entre eles de novo, junto com seus três fiéis aliados, os encontrou no vale de Sidim
e os derrotou, de modo que todos fugiram. Esta foi à batalha dos “quatro reis com cinco”. Quanto ao
tratamento a que o vencedor submetia o país conquistador, é breve, mas claramente descrito: “E eles
pegaram todos os bens de Sodoma e Gomorra, e todos seus mantimentos, e seguiram caminho.”

30. Agora lá morava em Sodoma um homem de uma raça estrangeira e de grande riqueza; Ló, o sobrinho
de Abraão. Pois Abraão e sua tribo não moravam mais em Ur da Caldéia. A mudança de chefes, e muito
provavelmente um governo mais duro, senão opressor, na sequência da conquista elamita, os tirou dali.
Foi então que eles rumaram para a terra de Canaã, liderados por Terá e seu filho Abraão, e quanto Terá
morreu, Abraão tornou-se o patriarca e chefe da tribo, que neste tempo começam a ser chamados na
Bíblia de Hebreus, de seu epônimo ancestral, Heber ou Éber, cujo nome faz alusão à passagem do
Eufrates, ou, talvez, em um sentido mais abrangente, à passagem da tribo pela terra da Caldéia. [AQ] Por
anos a tribo viajou sem se dividir, de pasto a pasto, pelo o vasto território onde habitavam os cananeus,
bem vistos e até favorecidos deles, entrando e saindo do Egito, até que a briga ocorreu entre os pastores
de Abraão e Ló (ver Gênesis, Cap. XIII), e a separação, quanto Ló escolheu a planície da Jordânia e
armou suas tendas até Sodoma, enquanto Abraão habitou na terra de Canaã como dantes, com sua família,
servos e gado, na planície de Mamre. Foi enquanto morava lá, com amizade e alianças com os príncipes
da terra, aquele que escapou da batalha no vale de Sidim, veio a Abraão e contou para ele que entre os
prisioneiros que Khudur-Lagamar havia trazido de Sodoma, estava Ló, o filho de seu irmão, com todos os
seus bens. Então Abraão armou seus servos treinados, nascidos em sua própria casa, trezentos e dezoito,
levou consigo seus amigos, Mamre e seus irmãos, com seus jovens homens, e com uma perseguição do
exército vitorioso, que agora estava descuidadamente marchando para casa pelo deserto com seu longo
comboio de prisioneiros e saques, o surpreendeu perto de Damasco à noite, quando seu pequeno número
de homens não podia ser detectado, e produziu tal pânico com um ataque súbito e vigoroso que os
colocou em fuga, e não apenas resgatou seu sobrinho Ló com seus bens e mulheres, mas trouxe de volta
todos os bens e pessoas capturados. E o Rei de Sodoma foi ao seu encontro em seu retorno, e quis que ele
mantivesse todos os bens consigo, apenas restabelecendo as pessoas. Abraão concordou que uma parte
adequada dos bens resgatados devia ser dada aos seus amigos e seus jovens homens, mas recusou todos
os presentes oferecidos a ele, com as altivas palavras: “Eu levantei minha mão ao Senhor, o mais alto
Deus, o possuidor do céu e da terra, que não vou pegar uma linha, nem mesmo um cadarço, nem vou
levar nada do que é teu, para que não digas que eu fiz Abraão rico”.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

31. Khudur-Lagamar, de quem a narrativa bíblica nos dá um esboço tão natural, viveu, de acordo com os
mais prováveis cálculos, em cerca de 2200 a.C. Dentre as poucas vagas formas cujos contornos pairam
pela aurora daquelas épocas obscuras e duvidosas, ele é o segundo com uma realidade de carne e osso,
provavelmente o primeiro conquistador de quem o mundo tem qualquer registro autêntico. Pois o Egito, o
único país que rivaliza na antiguidade os estados primitivos da Mesopotâmia, embora neste tempo já
tivesse atingido o apogeu de sua cultura e prosperidade, foi ainda confinado por seus governadores
estritamente para o vale do Nilo, e não havia ingressado na carreira de guerras estrangeiras e conquistas
que, alguns milhares depois, fez dele um terror do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico.

32. A invasão Elamita não foi um ataque passageiro. Foi uma conquista real, e estabeleceu um pesado
governo estrangeiro em uma altamente próspera e florescente terra – um governo que durou, ao que
parece, cerca de trezentos anos. Que o povo se irritou com ela, e estavam deprimidos ou raivosamente
rebeldes enquanto durou, há muita evidência em sua literatura mais recente. É até pensado, e com grande
probabilidade moral, que o ramo especial da poesia religiosa que foi chamada de “Salmos Penitenciais”
surgiu a partir dos sofrimentos deste longo período de cativeiro e humilhação nacional, e se, como parece
ser provado por alguns interessantes fragmentos de texto descobertos recentemente, esses salmos eram
cantados séculos mais tarde nos templos assírios em tristes ou muito solenes ocasiões públicas, eles
devem ter perpetuado a memória da grande calamidade nacional que se abateu sobre a terra-mãe tão
indelevelmente como os salmos em hebraico, dos quais eles eram os modelos, que têm perpetuado as
andanças do Rei David e as tribulações de Israel.

33. Mas parece haver uma casa real semita que preservou certa independência e calmamente juntou forças
diante de melhores dias. Para fazer isso, eles devem ter dissimulado e feito muitas homenagens aos
bárbaros vitoriosos como para garantir sua segurança e para servir como uma cortina enquanto eles
reforçavam seu governo em casa. Esta dinastia, destinada à gloriosa tarefa de restaurar a independência
do país e encontrar uma nova monarquia nacional, foi a de Tin-tir-ki ou Ka-dimirra – um nome agora
traduzido para o Bab-ilu semítico (“o Portão de Deus”); eles reinaram sobre o grande e importante distrito
de Kardunyash, importante por sua posição central, e pelo fato que não parece ter pertencido nem à
Acádia ou à Suméria, mas ter sido politicamente independente, uma vez que é sempre mencionado.
Mesmo assim, para os hebreus, a Babilônia fica na terra de Sinar e é fortemente suposto que “Amraphel,
o Rei de Sinar”, que marchou com Khudur-Lagamar, como seu aliado, contra os cinco reis da Jordânia e
do Mar Morto, não era senão um rei da Babilônia, um de cujos nomes foram lidos por Amarpal, enquanto
“Ariokh de Ellassar” era um elemita, Eri-aku, irmão ou primo de Khudur-Lagamar, e Rei de Larsam,
onde os conquistadores estabeleceram uma poderosa dinastia, intimamente ligada por laços de sangue
com a principal, que ver do venerável Ur seu quartel general. Este Amarpal, mais frequentemente
mencionado com seu outro nome, de Sin-Muballit, pensa-se ser o pai de Hamurabi, o libertador da
Caldéia e fundador do novo império.

34. As inscrições que Hamurabi deixou são muitas, e nos proporciona amplos meios de julgar sua
grandeza como guerreiro, estadista e administrador. Em seu longo reinado de 55 anos ele teve, de fato,
tempo para conseguir muita coisa, mas o que ele conquistou foi muito mesmo por muito tempo um reino.
De que maneira ele expulsou os estrangeiros não nos é dito, mas é muito claro que a vitória decisiva foi
quando ele ganhou sobre o rei elemita de Larsam. Foi provavelmente expulsando a raça odiada por turnos
de cada distrito que eles os ocuparam, que Hamurabi reuniu a terra sob suas próprias mãos e foi capaz de
mantê-la unida e consolidada em um único império, incluindo Acádia e Suméria, com todas as suas
cidades e santuários honrados pelo tempo, fazendo sua própria cidade ancestral, Babilônia, a chefe e

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

capital de todas. Este rei era em todos os aspectos um grande e sábio governante, pois, depois de libertar e
unir o país, ele foi muito cuidadoso com seu uso e zeloso com seus interesses agrícolas. Como todos os
outros reis, ele restaurou muitos templos e construiu muitos outros. Mas também devotou muita energia
para obras públicas de um tipo geralmente mais útil. Durante a primeira parte de seu reinado, inundações
parecem ter sido frequentes e desastrosas, possivelmente em consequência de os canais e sistemas
hidráulicos terem sido negligenciados pelo opressivo governo estrangeiro. As inscrições falam de uma
cidade ter sido destruída “por uma grande enchente” e mencionam “uma grande parede ao longo do
Tigre” – provavelmente um aterro, como tendo sido construído por Hammurabi para proteção contra o
rio. Mas provavelmente achando o remédio inadequado, ele empreendeu e completou uma das maiores
obras públicas que já foram feitas em qualquer país: a escavação de um canal gigante, que ele chamou
pelo seu próprio nome, mas que depois foi famoso com o nome de “Canal Real da Babilônia”. Deste
canal inúmeros ramos levavam as águas fertilizadas pelo país. Foi e permanece a maior obra desse tipo, e
foi, 15 séculos mais tarde, a maravilha dos estrangeiros que visitavam a Babilônia. Seu construtor não
superestimou o benefício que ele tinha conferido quando escreveu em uma inscrição que dificilmente
pode ser chamada de arrogante: “Eu causei a escavação de Nahr-Hammurabi, uma benção para o povo da
Suméria e Acádia. Eu dirigi as águas de seus ramos para as planícies do deserto; eu as fiz correr nos secos
canais e assim dei águas infalíveis para o povo... Eu transformei as planícies desertas em terras bem-
irrigadas. Eu as dei fertilidade e abundância, e fiz para eles a morada da felicidade”.

35. Há inscrições do filho de Hammurabi. Mas depois dele uma nova catástrofe parece ter abalado a
Caldéia. Ele é sucedido por uma linha de reis estrangeiros, que devem ter se apossado do país por
conquista. Eles eram príncipes de uma raça feroz e guerreira das montanhas, os Kasshi, que viveram nas
terras altas que ocupavam toda a parte nordeste de Elam, onde eles provavelmente começaram limitados
em espaço. Este mesmo povo foi chamado cossæan ou cissians, e são mais bem conhecidos por esses
nomes. Sua linguagem, da qual poucos espécimes sobreviveram, ainda não é entendida; mas muita coisa é
simples, que é bem diferente tanto da linguagem semítica da Babilônia quanto daquela da Suméria e
Acádia, tanto que os nomes dos príncipes de Kasshi são facilmente distinguíveis de todos os outros.
Nenhum desmembramento do império se seguiu a esta conquista, no entanto, se conquista houve. Os reis
da nova dinastia parecem ter se sucedido pacificamente o suficiente na Babilônia. Mas os dias de
conquista da Caldéia acabaram. Não lemos mais sobre expedições para as planícies da Síria e para o “Mar
do Sol Poente”. Pois uma força estava nascendo no nordeste, que rapidamente cresceu e transformou-se
num formidável rival: por muitos séculos a Assíria manteve governantes do reino do sul muito ocupados
guardando suas fronteiras e repelindo ataques, o que lhes permitiu pensar em conquistas estrangeiras.

NOTAS DE RODAPÉ:

[AH] Nomes são frequentemente ilusórios. Que o Hindu-Cuche agora é considerado “Matadores de
Hindus”, provavelmente uma alusão às tribos ladras das montanhas, e não tinham nada a ver com a raça
cuchita.

[AI] "Histoire Ancienne des Peuples de l'Orient," 1878, p. 160.

[AJ] Tradução do professor A. H. Sayce.

[AK] A. H. Sayce.

[AL] Traduzido por A. H. Sayce, em seu artigo "Babylonian Folk-lore" no "Folk-lore Journal," Vol. I.,
Jan., 1883.

[AM] Ver Figs. 44 e 45, p. 101.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

[AN] Este nome foi primeiramente interpretado como Urukh, então Likbadi, então Likbagash, então
Urbagash, então Urba’u, e agora o professor Frieder. Delitzsch anuncia que a interpretação final e correta
é com toda a probabilidade Ur-ea ou Arad-ea.

[AO] Geo. Rawlinson, "Cinco Grande Monarquias do Antigo Mundo Oriental " (1862), Vol. I., pp. 198 e
páginas seguintes.

[AP] Geo. Smith, in "Records of the Past," Vol. V., p. 75. Fritz Hommel, "Die Semiten," p. 210 and note
101.

[AQ] Deve ser mencionado, contudo, que os acadêmicos recentemente foram inclinados a ver neste nome
uma alusão à passagem do Jordão na época da conquista de Canaã por Israel, depois da escravidão
egípcia.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

V.

A RELIGIÃO BABILÔNICA.

1. Ao relatar a lenda do Divino Homem-Peixe, que emergiu do Golfo e foi seguido, em intervalos, por
vários outros seres similares, Berosus nos assegura que ele “ensinou ao povo todas as coisas que formam
uma civilização”, para que “nada de novo fosse inventado depois”. Mas se, como é sugerido, “este
monstruoso Oannes” é realmente uma personificação de estranhos que vieram a terra e, possuindo uma
cultura superior, começaram a ensinar a população turaniana, a primeira parte desta afirmação é tão
manifestamente um exagero quanto a segunda. Um povo que inventou a escrita, que sabia construir, fazer
canais, trabalhar com metais e que havia passado da primeira e grosseira fase das concepções religiosas,
pode ter muito a aprender, mas certamente não tudo. O que os imigrantes – cuxitas ou semitas – não os
ensinaram foi uma maneira mais ordenada de organizar a sociedade e governá-la por meio de leis e um
governo estabelecido e, sobretudo, astronomia e matemática – ciências em que os sumério-acádios eram
pouco proficientes, enquanto que a mais recente e misturada nação, os caldeus, atingiram a perfeição
nelas, de modo que muitas de suas descobertas e os primeiros princípios estabelecidos por eles chegaram
a nós como fatos definitivamente aceitos, confirmados pela ciência mais tarde. Assim, a divisão do ano
em doze meses correspondendo a tal número de constelações, conhecidos como “os doze signos do
Zodíaco”, era familiar a eles. Eles também haviam descoberto a divisão do ano em doze meses, só que
seus meses tinham trinta dias. Então eles foram obrigados a adicionar um mês extra – um mês intercalado,
como é o termo científico – a cada seis anos, para começar pareado com o sol novamente, pois sabiam
onde estava o erro na sua contagem leiga. Estas coisas os estrangeiros provavelmente ensinaram aos
sumério-acádios, mas ao mesmo tempo emprestaram deles sua maneira de contar. As raças turanianas até
este dia têm esta peculiaridade, que eles não se importam como sistema decimal na aritmética, mas
contam por dezenas e sessentas, preferindo número que podem ser divididos por doze e sessenta. Os
chineses mesmo agora não medem o tempo por séculos ou períodos de cem anos, mas por um ciclo ou
período de sessenta anos. Esta foi provavelmente a origem da divisão, adotada na Babilônia, do curso do
sol em 360 partes ou graus iguais, e do dia em doze “kasbus” ou horas duplas, uma vez que um kasbu
corresponde a duas de nossas horas e era dividido em sessenta partes, que podemos chamar assim de
“minutos duplos”, enquanto estes novamente eram compostos de sessenta “duplos segundos”. A divisão
natural do ano em doze meses fez este chamado sistema de cálculo “duodecimal” e “sexagesimal”
particularmente conveniente e foi aplicado a tudo – medidas de peso, distância, capacidade e tamanho,
assim como tempo.

2. Astronomia é uma ciência estranhamente fascinante, com dois aspectos amplamente diferentes e
aparentemente contraditórios, igualmente aptos a desenvolver hábitos de árduo pensamento e especulação
sonhadora. Pois, se por um lado o estudo da matemática, sem a qual a astronomia não pode subsistir,
disciplina a mente e a treina para operações exatas e complicadas, por outro lado, a observação das
estrelas, na solidão e silêncio da noite do sul, irresistivelmente o atrai para um mundo superior, onde
aspirações poéticas, suposições e sonhos tomam o lugar de números com suas demonstrações e provas. É
provavelmente por essas contemplações que os últimos caldeus possuíam um tom mais alto de
pensamento religioso que os distinguia de seus predecessores turanianos. Eles procuravam por divindades
no céu, não na terra. Eles não se acovardavam ou tremiam diante de uma tropa de duendes maléficos, a
criação de uma aterradora fantasia. Os espíritos que eles adoravam habitavam e governavam aqueles
lindos e brilhantes mundos, cujos movimentos harmônicos e orquestrados eles olhavam admirados,
reverenciando e podiam calculá-los corretamente, mas sem entendê-los. Em geral, as estrelas se tornaram

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

para ele visíveis manifestações e agentes da força divina, especialmente os sete mais notáveis corpos
celestes: a Lua, que eles particularmente homenageavam, como governante da noite e medidora do
tempo; o sol e os cinco planetas então conhecidos, aqueles que chamamos de Saturno, Júpiter, Marte,
Vênus e Mercúrio. Era apenas justo aos sumério-acádios dizerem que a percepção do divino na beleza das
estrelas não era estranha a ele. Isto é amplamente provado pelo fato que em sua mais antiga escrita o
símbolo de uma estrela é usado para expressar a ideia não de um deus ou deusa particular, mas do
princípio divino, a divindade em geral. O nome de cada divindade é precedido pela estrela, significando
“o deus assim-e-asado”. Quando usado desta maneira, o símbolo era lido na antiga linguagem como
“Dingir” – “deus, divindade”. A linguagem semítica da Babilônia que chamamos de “assíria”, enquanto
adaptando a antiga escrita para sua própria necessidade, reteve este uso do símbolo “estrela”, e o liam îlu,
“deus”. Esta palavra – Ilu ou El – nós encontramos em todas as linguagens semíticas, sejam antigas ou
modernas, nos nomes que eles dão a Deus, no árabe, Alá, assim como no hebreu, Elohim.

3. Esta religião, baseada e centrada na adoração de corpos celestes, foi chamada de Sabeísmo, e foi
comum à maioria das raças semíticas, cuja vida nômade primitiva no deserto e em amplas, planas
pastagens, com as vigias noturnas exigidas para cuidar dos imensos rebanhos, os inclinou à contemplação
e observação das estrelas. É para ser notado que os semitas colocavam o Sol em primeiro lugar, não a Lua
como os sumério-acádios, possivelmente devido a um sentimento semelhante ao terror, pois já haviam
experimentado seu poder destrutivo, em frequentes secas e o esgotante calor do deserto. [AR]

4. Uma proeminente característica da nova ordem das coisas foi a grande força e importância do
sacerdócio. Uma busca bem-sucedida da ciência requer duas coisas: superioridade intelectual e tempo
para o estudo, ou seja, libertação do cuidado diário, como adquirir as necessidades da vida. Em tempos
bem antigos, as pessoas em geral estavam propensas a reconhecer a superioridade daqueles homens que
sabiam mais que elas, que poderiam ensiná-las e ajudá-las com sábios conselhos; eles também estavam
propensos a apoiar esses homens por meio de contribuições voluntárias, de forma a proporcionar a eles o
ócio necessário. Que um povo, com que ciência e religião, era uma coisa só deveria honrar os homens
assim separados e eruditos nas coisas divinas e proporcionar a eles grande influência em assuntos
privados e públicos, acreditando que eles, como o povo acreditava, estavam em comunicação direta com
as forças divinas, era natural; e daí, para deixá-los tomar para si todo o governo do país como os
governantes consagrados do mesmo, foi um passo. Havia outra circunstância que ajudou a chegar neste
resultado. Os caldeus eram devotos fiéis da astrologia, uma forma de superstição em que uma religião
astronômica como o Sabeísmo é muito apta a degenerar. Pois, uma vez que é considerado que as estrelas
são seres divinos, que possuem inteligência, vontade e força, não é natural imaginar que eles podem
governar e moldar o destino dos homens com uma misteriosa influência? Esta influência supostamente
dependia de seus movimentos, sua posição no céu, suas combinações e relações uns com o outros; sob
essa suposição, cada movimento de uma estrela – nascente, poente ou cruzando o caminho do outro –
cada mínima mudança no aspecto dos céus, cada fenômeno incomum – um eclipse, por exemplo – deve
ser dotado de um importante senso, bom ou mau presságio para os homens, cujo destino deve
constantemente estar escrito tão claro no céu como num livro. Se apenas alguém pudesse aprender a
linguagem, ler os caracteres! Tal conhecimento foi pensado estar ao alcance dos homens, mas só pode ser
adquirido pelos excepcionalmente dotados e alguns eruditos, e aqueles que eles pensavam ser
merecedores de terem sido comunicados. Que estes poucos devem ser sacerdotes era evidente. Eles
mesmos eram fiéis fervorosos em astrologia, que consideravam uma ciência tão real quanto à astronomia,
e para a qual eles eram devotos tão assiduamente quanto. Eles tornaram-se assim os intérpretes
reconhecidos da vontade divina, participantes, por assim dizer, do conselho secreto do céu. Claro que tal
posição aumentou seu poder e eles não poderiam nunca abusar dela para reforçar sua influência sobre a
opinião pública e favorecer suas próprias visões ambiciosas não era da natureza humana. Além disso,
sendo os inteligentes e cultos da nação, eles realmente eram, no momento, os mais aptos a governá-lo – e
foi isso que fizeram. Quando a cultura semítica se espalhou pela Suméria, para onde gradualmente se

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

estendeu do norte, ou seja, da terra da Acádia, surgiu em cada cidade – Ur, Eridhu, Larsam, Ereque – um
poderoso templo, com seus sacerdotes, sua biblioteca, seu Zigurate ou observatório. As cidades e os tratos
do país pertencente a eles eram governados por seus respectivos colegiados. E com o progresso do tempo,
o poder tornou-se centralizado nas mãos de homens solteiros, eles ainda eram reis-sacerdotes, patesis,
cuja realeza deve ter sido muito dificultada e limitada pela autoridade dos seus colegas sacerdotais. Tal
forma de governo é conhecida com o nome de teocracia, compostas por duas palavras gregas que
significam “governo divino”.

5. Essa reforma religiosa representa uma completa, embora provavelmente pacífica, revolução na
condição da “terra entre os rios”. A nova e superior cultura afirmou-se completamente como
predominante em ambas as províncias e em nada, como na religião nacional que, entrando em contato
com as concepções dos semitas, foi afetada por uma certa estirpe espiritual mais nobre, um sentimento
moral mais puro, que parece ter sido mais peculiarmente semítico, embora destinada a ser levada à sua
mais alta perfeição somente no ramo hebreu da raça. O tom moral é uma influência sutil e, traçará seu
caminho para os corações e mentes dos homens mais certamente e irresistivelmente que qualquer quantia
de oração ou ordem, pois os homens são naturalmente atraídos ao que é bom e belo quando se apresentam
diante deles. Assim, os antigos habitantes da terra, os sumério-acádios, para quem seu vulgar e triste
credo em duendes não poderia ser de muito conforto, não demoraram em sentir essa influência
enobrecedora e beneficente; é seguramente a isso que devemos as belas orações e hinos que marcam o
estágio mais alto de sua religião. A consciência do pecado, o sentimento de contrição, de dependência de
uma ofendida, porém piedosa força divina, tão notavelmente conspícua nos chamados “Salmos
Penitenciais” (Ver pág. 98), a fina poesia em alguns dos hinos, como naquela sobre o Sol (Ver pág. 95),
são características tão distintamente semíticas, que nos assustam por sua semelhança com algumas partes
da Bíblia. Por outro lado, uma nação nunca esquece ou desiste de seu próprio credo e práticas religiosas
nativas. Os sábios governantes sacerdotes da Suméria e Acádia não tentaram obrigar o povo a fazê-lo,
mas mesmo quando introduzindo e propagando a nova religião, os fez sofrer ao continuar acreditando em
suas tropas de espíritos malignos e os poucos benévolos, em suas invocações, adivinhações, jogar e
quebrar magias e encantos. Ou melhor, mais. Conforme o tempo passou e os sacerdotes eruditos
estudaram mais atentamente os velhos credos e ideias, eles ficaram impressionados com a beleza de
algumas de suas concepções – especialmente a do sempre benevolente, sempre atento Espírito da Terra,
Êa, e seu filho Meridug, o mediador, o amigo dos homens. Estas concepções, estas e algumas outras
favoritas divindades nacionais, eles achavam que eram válidas de serem adotadas por eles e trabalhadas
em seu próprio sistema religioso, que estava ficando mais complicado, mais elaborado a cada dia,
enquanto o grande volume de espíritos e demônios também tiveram um lugar, no ranking inferior de
“Espíritos do Céu” e “Espíritos da Terra”, que foram ligeiramente classificados juntos e contados em
centenas. Já havia se passado mil anos, a fusão tinha sido tão completa que realmente havia uma nova
religião e uma nova nação, resultado e um longo trabalho de amalgamação. Os sumério-acádios de raça
pura, porém reduzida, não mais preservavam uma existência separada, nem os semitas; eles tonaram-se
fundidos em uma nação de raças misturadas, que em um tempo mais tarde ficou conhecida sob o nome de
caldeus, cuja religião, vista com temor pela sua antiguidade prodigiosa, ainda era relativamente recente,
sendo o resultado da combinação de dois credos infinitamente mais velhos, como acabamos de ver.
Quando Hamurabi estabeleceu residência em Babel, uma cidade que recentemente tinha aumentado sua
importância, ele a transformou na capital do império completamente unido sob seu governo (Ver pág.
118), daí o nome da Babilônia ser dado por antigos escritores para a antiga terra da Suméria e Acádia, até
com mais frequência do que a Caldéia, e a religião do estado é chamada indiferentemente de babilônica
ou caldeia, e não raramente chamada caldeu-babilônica.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

6. Esta religião, como foi definitivamente estabelecida e transmitida sem alterações por uma sucessão de
mais de vinte séculos, possuía um caráter duplo, que deve ser bem compreendido, a fim de entender seu
objetivo geral e seu sentido. Por um lado, como admitia a existência de muitas forças divinas, que dividiu
entre eles o governo do mundo, era decididamente politeísta – “uma religião de muitos deuses”. Por
outro, uma percepção fraca já havia sido alcançada, talvez através da observação dos movimentos
regulares das estrelas, da presença de Um governante supremo e uma Força guia. Pois uma classe de
homens dados ao estudo da astronomia não poderia deixar de perceber que todos esses Seres brilhantes
que eles achavam tão divinos e poderosos não eram absolutamente independentes; que seus movimentos e
combinações eram muito regulares, estritamente cronometrados, muito idênticos em sua sempre
recorrente repetição, para serem inteiramente voluntários; que, consequentemente, eles obedeciam –
obedeciam a uma Lei, uma Força acima e além deles, além do próprio céu, invisível, incomensurável,
inatingível pelos olhos ou pensamento humanos. Claro que tal percepção era um passo na direção certa,
em direção ao monoteísmo, ou seja, a crença em apenas um Deus. Mas a percepção era muito vaga e
remota para ser totalmente entendida e levada adiante de forma consistente. Os sacerdotes que, a partir de
um longo treinamento em pensamento abstrato e contemplação, provavelmente poderiam olhar mais
profundamente e chegar mais perto da verdade que outras pessoas, esforçaram-se para expressar seu
significado em linguagem e imagens que, no final, obscureceram a ideia original e quase a tiraram de
vista, ao invés de torná-la mais clara. Além disso, eles não imaginavam o mundo como criado por Deus,
feito por um ato de sua vontade, mas como sendo uma forma dele, uma manifestação, parte dele, de sua
própria substância. Portanto, no grande todo do universo e em cada uma de suas partes, nas misteriosas
forças que trabalham nele – luz e calor e vida e crescimento – eles admiraram e adoraram não o poder de
Deus, mas a sua própria presença; uma das inumeráveis e infinitamente variadas formas em que ele se
torna conhecido e visível aos homens, se manifesta para eles – em resumo, uma emanação de Deus. A
palavra “emanação” foi adotada como a única que até certo ponto transmite essa ideia sutil e complicada.
Uma emanação não é bem uma coisa, mas uma parte, que sai dela e se separa, porém não pode existir
sem. Então a fragrância de uma flor não é a flor, nem é um crescimento ou desenvolvimento dela, mesmo
assim a flor a libera e ela não pode existir por si só sem a flor – é uma emanação da flor. O mesmo pode
ser dito da névoa que visivelmente se levanta da terra aquecida em lugares baixos e úmidos em noites de
verão – é uma emanação da terra.

7. Os sacerdotes caldeu-babilônios sabiam de muitas emanações divinas, que, dando-lhes nomes e


atribuindo a elas funções definidas, fizeram muitas pessoas divinas. Destes alguns foram classificados
para mais ou para menos, uma relação que era às vezes expressa pelos humanos de “pai e filho”. Eles
eram dispostos em grupos, arranjados cientificamente. Acima do resto eram colocadas duas Tríades ou
“grupos de três”. A primeira tríade era composta por Anu, Êa e Bel, os supremos deuses de tudo – todos
os três retidos da antiga lista de divindades sumério-acádia. Anu é Ana, “Céu”, e os apelidos ou epítetos,
que são dados a ele em diferentes textos, suficientemente mostram qual a concepção formada sobre ele:
ele é chamado “o Senhor dos céus estrelados”, “o Senhor da Escuridão”, “o primogênito, o mais velho, o
Pai dos Deuses”. Êa, retendo suas antigas atribuições como “Senhor das Profundezas”, o eminentemente
sábio e benevolente espírito, representa a Inteligência Divina, o fundador e mantenedor da ordem e da
harmonia, enquanto a verdadeira tarefa de separar os elementos do caos e moldá-los da forma como
formam o mundo como o conhecemos, assim como ordenar os corpos celestes, mostrando-lhes seus
caminhos e os guiando, era delegado a terceira pessoa da tríade, Bel, o filho de Êa. Bel é um nome semita,
que significa “o senhor”.

8. Por sua natureza e atribuições, está claro que a esta tríade deve ter unido certa imprecisão e
afastamento. Não é assim para a segunda tríade, na qual a Divindade se manifesta como estando em uma
relação mais próxima e mais direta com o homem imediatamente o influenciando em seu cotidiano. As
pessoas desta tríade eram a Lua, o Sol e o Poder da Atmosfera – Sin, Shamash e Ramân, os nomes
semitas para os sumério-acádios Uru-Ki ou Nannar, Ud ou Babbar, e Im ou Mermer. Muito

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

caracteristicamente, Sin é frequentemente chamado de “o deus Trinta”, em alusão a suas funções de


mensurador do tempo presidindo o mês. Aos sentimentos que dizem respeito ao Sol e às beneficentes e
esplêndidas qualidades atribuídas a ele, sabemos o suficiente dos bonitos hinos citados no Cap. III (ver
pág. 96). Quando ao deus Ramân, frequentemente representado em tábuas e cilindros por seu símbolo
característico, o raio bi ou trifurcado – sua importância como distribuidor de chuvas, o senhor dos
furacões e tempestades, o fez muito popular, um objeto tanto de temor quanto de gratidão; e enquanto as
colheitas dependiam do fornecimento de água dos canais, e estes não poderiam estar cheios sem
abundantes chuvas, não é de se espantar que ele tivesse sido particularmente intitulado “protetor ou
senhor dos canais”, doador de abundância e “senhor da fecundidade”. Em sua mais terrível capacidade,
ele é assim descrito: “Seus títulos-padrão são de ministro do céu e da terra”, “o senhor do ar”, “ele que faz
a tempestade de fúria”. Ele é considerado do destruidor de plantações, o arrancador de árvores, o
dispersor da colheita. Fome, escassez, e mesmo sua consequência, a peste, são devidos a ele. É dito que
ele tem em sua mão uma “espada flamejante” com a qual ele efetua suas obras de destruição, e esta
“espada flamejante, que provavelmente representa o raio, tornou-se o seu emblema nas tábuas e
cilindros”. [AS]

9. As tendências astronômicas da nova religião afirmam-se totalmente no terceiro grupo de divindades.


Eles são simplesmente os cinco planetas então conhecidos e identificados com várias divindades do velho
credo, para quem eles são, no modo de dizer, atribuídos como suas próprias províncias particulares.
Assim, Nin-dar (também chamado de Ninip ou Ninêb), originalmente outro nome ou forma do Sol (ver
pág. 96), torna-se o governador do planeta mais distante, o qual agora chamamos Saturno; o antigo
favorito, Meridug, sob o nome “semitizado” de Marduk, governa o planeta Júpiter. É ele que os recentes
escritores hebreus chamavam de Merodaque, o nome que encontramos na Bíblia. O planeta Marte
pertence a Nergal, o deus-guerreiro, e Mercúrio a Nebo, mais propriamente Nabu, o “mensageiro dos
deuses” e patrono especial da astronomia, enquanto o planeta Vênus está sob a influência de uma
divindade feminina, a deusa Ishtar, uma das mais importantes e populares da lista. Mas falaremos mais
dela em breve. Ela nos leva à consideração de um aspecto muito característico e essencial da religião
caldeu-babilônica, comum, aliás, a todas as religiões pagãs orientais, especialmente as semitas.

10. Há uma distinção – a distinção de sexo – que atravessa toda a natureza animada dividindo todas as
coisas que têm vida em duas metades separadas – masculino e feminino – metades muito diferentes em
suas qualidades, frequentemente opostas, quase inimigas, porém eternamente dependentes uma da outra,
tampouco sendo completas ou perfeitas ou de fato capazes de existir uma sem a outra. Separados pelo
contraste, mas unidos por uma irresistível simpatia que resulta na mais íntima união, a de amor e afeição,
os dois sexos ainda passam pela vida juntos, juntos fazem o trabalho do mundo. O que um não tem, ou
tem em grau insuficiente, encontra em sua contraparte e, é somente sua união que faz do mundo um coisa
inteira, completa, arredondada, harmoniosa. A natureza masculina, ativa, forte e de alguma forma séria,
mesmo quando piedosa e generosa, inclinada à rudeza e violência e muitas vezes à crueldade, é bem
realçada, ou melhor, completa e moderada, pela natureza feminina, não menos ativa, mas mais calma,
distribuindo influências suaves, aberta a estados de espírito mais leves, mais uniformemente suave nos
sentimentos e nas maneiras.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

60. UM BUSTO INSCRITO COM O NOME DE NEBO.

(Museu Britânico)

11. Em nenhuma relação da vida, a diferença da ação masculina e feminina é tão clara como entre marido
e mulher, pai e mãe. Não requerer muito esforço de imaginação para levar essa distinção além dos limites
da natureza animada, no mundo em geral. Para os homens, para quem toda porção ou força do universo
era dotada com uma partícula de natureza e força divina, muitas eram as coisas que pareciam estar
pareadas em uma contrastante, porém conjunta ação, similar àquela dos sexos. Se o grande e distante Céu
aparecia para eles como o governador e senhor universal, a fonte de todas as coisas – o Pai dos Deuses,
como eles falavam – certamente a linda Terra, amável enfermeira, mantenedora e preservadora de todas
as coisas que têm vida pode ser chamada de Mãe Universal. Se o feroz Verão e o sol do meio-dia
poderiam ser vistos como conquistadores irresistíveis, o temível Rei do mundo, tendo a morte e doença
em sua mão, não era a calma e amável lua, de luz suave e relaxante, trazendo o frescor e orvalho de cura,
sua gentil Rainha? Em resumo, não há uma força ou fenômeno da natureza que não apresente para uma

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

imaginação poética um aspecto duplo, respondendo às qualidades e peculiaridades-padrão masculinas e


femininas. Os pensadores antigos – sacerdotes – que moldaram as vagas suposições da mente sonhadora
em métodos e sistemas de significado profundo, expressaram este sentido de natureza dupla das coisas
por meio da adoração um ser ou princípio divino duplo, masculino e feminino. Assim, todo deus possuía
uma esposa, por toda a sucessão de emanações e manifestações. E como todos os deuses eram na
realidade apenas diferentes nomes e formas do Supremo e Incomensurável Um, todas as deusas
representam apenas Belit, o grande princípio feminino da natureza – produtividade, maternidade, ternura
– também continha, como tudo, naquele Um, e emanava dele em uma sucessão infinita. Daí, temos que
as deusas da religião caldeu-babilônica, apesar de diferentes no nome e aparentemente nas atribuições,
tornam-se maravilhosamente parecidas quando olhadas de perto. Elas são todas mais ou menos repetições
de Belit, a esposa de Bel. Seu nome – que é apenas a forma feminina do nome do deus, significando “a
Senhora”, pois Bel significa “o Senhor” – mostra suficientemente que os dois são realmente um. De todas
as outras deusas, as mais notáveis são Ana ou Nana (Terra), a esposa de Anu (Céu), Anunit (a Lua),
esposa de Shamash (o Sol) e, finalmente, Ishtar, a governante do planeta Vênus em seu próprio direito, e
de longe a mais atraente e interessante da lista. Ela era a favorita, adorada como a Rainha do Amor e da
Beleza, e também como a Rainha-Guerreira, que desperta os homens para atos de bravura, encoraja-os e
os protege nas batalhas – talvez porque homens frequentemente lutaram e fizeram guerras pelo amor de
mulheres, e também porque, provavelmente, o planeta Vênus, sua própria estrela, aparece não apenas à
noite, perto do pôr-do-sol, mas também imediatamente antes do amanhecer e, então parece convidar a
raça humana a renovar esforços e atividades. Ishtar não poderia ser uma exceção ao princípio geral e
permanece solteira. Mas seu marido, Dumuz (um nome para o Sol), fica com ela em uma posição
completamente subordinada e, de fato, seria pouco conhecido não fosse uma linda história que foi contada
sobre eles em um poema muito antigo e que encontrará seu lugar entre muitos outros nos próximos
capítulos.

12. Seria tedioso e desnecessário enumerar aqui mais nomes de deuses e deusas, apesar de serem em um
grande número e muitos mais aparecem o tempo todo conforme novas tábuas são descobertas e lidas. A
maioria deles são na realidade apenas nomes diferentes para os mesmos conceitos e, o panteão caldeu-
babilônico – ou assembleia de pessoas divinas – é suficientemente representada pelos chamados “doze
grandes deuses” que eram universalmente reconhecidos por ser sua cabeça e de quem vamos aqui repetir
os nomes: Anu, Êa e Bel, Sin, Shamash e Ramân, Nin-dar, Maruduk, Nergal, Nebo, Belit e Ishtar. Cada
um possuía inúmeros templos pelo país. Mas cada grande cidade tinha seu favorito, cujo templo era o
mais antigo, o maior e o mais suntuoso, para cuja adoração foi dedicada desde antiquíssimos tempos. Êa,
o mais amado deus da antiga Suméria, tinha seu principal santuário, que ele dividia com seu filho
Meridug, em Eridu (agora Abu-Shahrein), a cidade da Suméria mais ao sul e quase a mais antiga, situada
perto da foz do Eufrates, uma vez que o Golfo Pérsico alcançou bem o interior no ano 4000 a.C. e, esta
era seguramente uma apropriada estação para o grande “deus das profundezas”, o Deus-Peixe Oannes,
que emergiu das águas para instruir a humanidade. Ur, como vimos, era o histórico lugar do Deus-Lua.
Em Erech, Anu e Anat ou Nana – Céu e Terra – eram especialmente homenageados desde a mais remota
antiguidade, sendo adorados em conjunto no templo chamado “Casa do Céu”. Essa pode ter sido a razão
da particular sacralidade atribuída ao terreno em volta de Ereque, como testemunhado pela persistência
excedente com a qual o povo lutou por anos para enterra seus mortos nele, como se sob a proteção
imediata da deusa da Terra[AT] (ver Cap. III da Introdução). Larsam fez uma homenagem especial para
Shamash e ficou famoso por sua antiga “Casa do Sol”. O Sol e a Lua – Shamash e Anunit – tinham seus
rivais santuários em Sippar, no “Canal Real”, que corria quase paralelo ao Eufrates e Acade, a cidade de
Sargon, situada em oposição à outra margem do canal. O nome Acade foi perdido no tempo e ambas as
cidades tornaram-se uma, com as duas partes sendo distinguidas apenas pela adição “Sippar do Sol” e
“Sippar da Anunit”. Os hebreus chamaram a cidade unificada de “Os dois Sippar” – Sefarvaim, o nome
encontrado na Bíblia.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

13. O lugar desta importante cidade era muito duvidoso; mas em 1881, um dos mais habilidosos e
incansáveis pesquisadores, Sr. Hormuzd Rassam, um homem que começou sua carreira como assistente
de Layard, fez uma descoberta que define a questão. Ele estava cavando em um monte conhecido pelos
árabes pelo nome de Abu-Habba, e chegou aos cômodos de vasta estrutura que ele sabia ser um templo.
De quarto em quanto ele passou até chegar a uma pequena câmara, pavimentada com asfalto, que ele
imediatamente supôs ser a sala de arquivos do templo. “Até agora”, diz Sr. Rassam em seu relatório,
“todas as estruturas assírias e babilônicas foram encontradas pavimentadas com pedra ou tijolo,
consequentemente, esta nova descoberta me levou a quebrar o asfalto e examiná-lo. Ao fazer isso,
descobrimos enterrada em um canto da câmara, cerca de três pés abaixo da superfície, uma urna de barro
com inscrições, dentro da qual estava depositada uma tábua de pedra...” Rassam havia de fato tropeçado
no arquivo do famoso Templo do Sol e, foi provado não apenas pela tábua, mas também pelos inúmeros
documentos que a acompanhavam e que deu os nomes dos construtores e restauradores do templo.
Quanto à tábua, é o mais fino e mais bem preservado trabalho de arte do tipo que já foi descoberto. Foi
depositado por volta de 880 a.C. na ocasião de uma restauração e representa o deus propriamente dito,
sentando em um trono, recebendo uma homenagem dos adoradores, enquanto acima dele o disco do sol é
suspenso no céu por duas fortes cordas, como uma lâmpada gigante, por dois seres espirituais, que devem
muito provavelmente pertencer aos anfitriãos de Igigi ou espíritos do céu. A inscrição, em caracteres
perfeitamente preservados e bem claros, nos informa que isto é “A imagem de Shamash, o grande senhor,
que habita a ‘Casa do Sol’ (Ê-babbara), que está dentro da cidade de Sippar”. [AU] (Ver Fachada.) Isso
foi um achado verdadeiramente magnífico e, quem sabe algo tão inesperado e tão conclusivo pode surgir
para estabelecer para nós o exato lugar do templo de Anunit, e consequentemente a venerável cidade de
Acade. Quanto à Babilônia, foi originalmente colocada sob divina proteção em geral, como mostrado por
seu próprio nome semítico, Bab-ilu, que significa como já vimos “o Portão de Deus” e, corresponde
exatamente ao nome sumério-acádio da cidade (Ka-Dingirra, ou Ka-Dimirra); mas mais tarde elegeu um
protetor especial na pessoa de Maruduk, o velho favorito, Meridug. Quando a Babilônia tornou-se a
capital da monarquia unificada da Suméria e Acádia, sua divindade patrona, sob o nome de Bel-Maruduk
(“o Senhor Maruduk”) subiu para um ponto mais alto do que antes ocupava; seu templo ofuscou todos os
outros e tornou-se uma maravilha do mundo por sua riqueza e esplendor. Ele possuía outro, dificilmente
menos esplêndido e fundado pelo próprio Hamurabi em Borsip. Deste modo, a religião estava
intimamente ligada à política. Pois nos dias anteriores à reunião das grandes cidades sob o governo de
Hamurabi, qualquer que fosse a mais poderosa naquele tempo, seus sacerdotes naturalmente
reivindicaram a preeminência de sua divindade local, mesmo para além de suas próprias fronteiras. De
modo que o fato de os antigos Reis de Ur, Ur-êa e seus descendentes, não se limitando à adoração de seu
nacional Deus-Lua, mas construindo templos em muitos lugares e para muitos deuses, fosse talvez um
sinal de uma política geral conciliadora tanto quanto um sentimento religioso liberal.

14. Pode-se pensar que um sistema de religião tão perfeito, baseado também em uma ordem de ideias tão
superiores e nobres, deveria ter substituído o rude materialismo e práticas de ilusionismo da crença em
duendes dos primitivos habitantes turanianos. Este, contudo, não é o caso, nem de longe. Vimos que a
nova religião abriu espaço, com um pouco de desprezo talvez, para os espíritos do velho credo,
descuidadamente juntando-os indiscriminadamente em uma espécie de regimento, compostos de trezentos
Igigi ou espíritos do céu, e os seiscentos Anunnaki ou espíritos da terra. Os invocadores e magos do
passado, até mesmo admitidos no sacerdócio em uma capacidade inferior, como uma espécie de ordem
mais baixa, provavelmente mais tolerada do que encorajada – tolerada por necessidade, porque o povo
agarrou-se a suas antigas crenças e práticas. Mas se sua posição oficial como uma classe sacerdotal era de
subordinação, seu poder real não era o menos importante, pois a proteção pública e a credulidade estavam
ao seu lado, e eles eram seguramente mais populares que os cultos e solenes sacerdotes, os conselheiros e
quase iguais aos reis, cujos pensamentos moram entre as estrelas, que reverentemente procuraram os céus
por revelações da divina vontade e sabedoria, e quem, buscando precisa observação e cálculo matemático
juntos com os mais selvagens dos sonhos, fizeram da astronomia e da astrologia uma inextricável
emaranhada de verdade científica e especulação fantástica que vemos na grande obra preparada (em

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

setenta tábuas) para a biblioteca de Sargon II, em Acade. Que o antigo sistema de invocações e
encantamentos permaneceu com força total e uso geral é suficientemente provado pelos conteúdos das
primeiras duas partes da grande coleção em duzentas tábuas compiladas no reino do mesmo rei e, com
muito cuidado a obra foi copiada e recopiada, comentada e traduzida em épocas depois, como vemos na
cópia feita para a Biblioteca Real de Nínive, a que nos foi fornecida.

15. Havia ainda um terceiro ramo da chamada “ciência”, que ocupava uma boa parte das mentes dos
caldeu-babilônicos do começo dos tempos até os últimos dias de sua existência: era a arte da
Adivinhação, ou seja, adivinhar e prever futuros eventos a partir de sinais e presságios, uma superstição
nascida da antiga crença de cada objeto de natureza inanimada possuir ou ser habitado por um espírito, e à
recente crença de um poder maior governando o mundo e as questões humanas nos mínimos detalhes, que
constantemente manifestar-se através de todas as coisas por meio de agentes secundários, de modo que
nada pudesse acontecer sem uma profunda significância, que pode ser descoberta e exposta por
indivíduos especialmente treinados e favorecidos. No caso de profecias atmosféricas com relação ao
tempo e plantações, como ligadas à aparência das nuvens, céu e lua, a força e direção dos ventos etc.;
pode ter havido uma observação real para entendê-los. Mas é muito claro que tal concepção, se levada
consistentemente a extremos e aplicada indiscriminadamente a tudo, deve resultar em uma loucura
notória. Este era certamente o caso dos caldeu-babilônios, que não apenas cuidadosamente anotaram e
explicaram sonhos, sortearam em caso de dúvida por meio de setas inscritas, interpretaram o sussurro das
árvores, o borrifar das fontes e o murmurar dos riachos, a direção e a forma dos raios, não apenas
imaginaram que pudessem ver coisas em tigelas de água e nas formas assumidas pelas chamas que
consumiam os sacrifícios, e a fumaça que subia dali, e que eles poderiam trazer e questionar os espíritos
dos mortos, mas fazendo presságios e agouros, para o bem ou para o mal, do voo dos pássaros, a
aparência do fígado, pulmões, coração e entranhas dos animais oferecidos em sacrifício e abertos para
inspeção, dos defeitos naturais ou monstruosidades de bebês ou jovens de animais – em resumo, de
qualquer e tudo que eles poderiam submeter à observação.

16. O mais negligente de todos os tipos de especulação foi reduzido a um sistema mais minucioso e
aparentemente científico tão antigo quanto à astrologia e à magia e forma o objeto de uma terceira
coleção, em cerca de cem tábuas, provavelmente compiladas pelos mesmos incansáveis sacerdotes de
Acade, de Sargon, que era evidentemente de uma mente mais metódica e determinada a ter todas as
tradições e os resultados de séculos de observação e experiências práticas ligadas a qualquer ramo de
ciência religiosa, fixados para sempre na forma de regras bem classificadas, para guiar os sacerdotes por
todas as épocas por vir. Essa coleção chegou a nós em uma condição ainda mais incompleta e mutilada
que as outras; mas o suficiente foi preservado para nos mostrar que um caldeu-babilônico pensador e
religioso deve ter passado sua vida tomando notas das mais absurdas insignificâncias e questionando os
adivinhos e sacerdotes sobre elas, de modo a não entrar em enrascadas por interpretar erroneamente os
sinais e tomando como um presságio favorável que predisse uma terrível calamidade – ou ao contrário, e
assim fazendo coisas ou as deixando sem fazer no momento errado e do jeito errado. O que incita, talvez,
uma admiração maior é o total absurdo de alguns dos incidentes gravemente definidos como afetando o
bem-estar, não apenas de indivíduos, mas do país inteiro. O que devemos dizer, por exemplo, da
importância ligada aos procedimentos de cães de rua? Aqui estão alguns dos itens dados pelo Sr. Fr.
Lenormant em seu livro mais valioso e interessante sobre Adivinhação Caldéia:

“Se um cachorro cinza adentra o palácio, este vai ser consumido pelas chamas. – Se um cachorro
amarelo entra no palácio, este será destruído em uma violenta catástrofe. – Se um cachorro marrom entra
no palácio, a paz será concluída com os inimigos. – Se um cachorro entra no palácio e não é morto, a paz
do palácio será perturbada. – Se um cachorro entra no templo, os deuses não terão piedade da terra. – Se
um cachorro branco, suas fundações subsistirão. – Se um cachorro preto entra no templo, suas fundações
serão abaladas. – Se um cachorro cinza entrar no templo, este perderá suas posses... Se os cachorros

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

unem-se em grupos e entram no templo, ninguém permanecerá em posição de autoridade... Se um


cachorro vomita em uma casa, o dono da casa morrerá.”

17. O capítulo sobre nascimentos monstruosos é extenso. Não apenas é toda possível anomalia registrada,
de um dedo da mão ou do pé a mais a uma orelha menor que a outra, com seu presságio correspondente
de bem ou mal para o país, o rei, o exército, mas as monstruosidades mais impossíveis são seriamente
enumeradas, com as condições políticas que se supõem ser os sinais. Por exemplo: – “Se uma mulher dá à
luz uma criança com orelhas de leão, um poderoso rei governará a terra... com um bico de pássaro, haverá
paz na terra... Se uma rainha dá à luz a uma criança com cara de leão, o rei não terá rivais... se a uma
cobra, o rei será poderoso... Se uma égua dá à luz um potro com juba de leão, o dono da terra será
aniquilado por seus inimigos... com patas de cachorro, a terra será reduzida... com patas de leão, a terra
aumentará... Se uma ovelha der à luz um leão, haverá guerra, o rei não terá rivais... Se uma égua der à luz
um cachorro, haverá desastre e fome.”

18. Os três grandes ramos da ciência religiosa – astrologia, magia e adivinhação – eram representados por
três classes correspondentes de “homens sábios”, todos pertencentes, em diferentes graus, ao sacerdócio:
os observadores de estrelas ou astrólogos, os mágicos ou feiticeiros, e os adivinhadores ou cartomantes.
Estes últimos, novamente, eram divididos em muitas classes menores de acordo com o tipo de
adivinhação particular que praticavam. Alguns especialmente devotavam-se à interpretação de sonhos,
outros à do voo dos pássaros ou dos sinais na atmosfera ou de sinais casuais e presságios em geral. Todos
estavam em demanda contínua, consultados igualmente por reis e pessoas privadas e, todos procediam de
acordo com as regras e princípios estabelecidos nas três grandes obras do tempo do Rei Sargon. Quando o
império babilônio terminou e os caldeus não eram mais uma nação, estas artes secretas continuaram a ser
praticadas por eles, assim o nome “caldeu” tornou-se um provérbio, um sinônimo para “um homem sábio
do oeste” – astrólogo, mágico ou adivinho. Eles se dispersaram pelo mundo, carregando sua ciência
ilusória com eles, praticando-a e ensinando-a, bem-vindos em todo lugar pelos crédulos e supersticiosos,
frequentemente homenageados e sempre bem pagos. Assim, é dos caldeus e seus predecessores, os
sumério-acádios, que a crença em astrologia, magia e todo tipo de adivinhação foi passada às nações da
Europa, junto com as práticas que lhe pertencem, muitas das quais encontramos nos dias de hoje entre as
classes menos instruídas. As próprias palavras “magia” e “mágico” são provavelmente uma herança dessa
remota antiguidade. Uma das palavras para “sacerdote” na antiga língua turaniana da Suméria era imga,
que, na antiga linguagem semítica, tornou-se mag. O Rab-mag – “grande sacerdote” ou talvez “invocador
chefe”, era um alto funcionário na corte dos reis assírios. Por isso, “mago”, “magia”, “mágico” em todas
as línguas europeias descendem do latim.

19. Não pode haver dúvida que temos poucas razões para agradecer por tal herança dessa massa de
superstições, que geraram tanto mal no mundo e ainda ocasionalmente fazem mal o suficiente. Mas não
podemos nos esquecer de atribuir a elas muitas coisas boas, importantes descobertas na área da
astronomia e matemática que chegaram a nós da mesma fonte distante. Para os antigos caldeu-
babilônicos, nós os devemos não apenas nossa divisão do tempo, mas a invenção do relógio solar e
semana de sete dias, dedicados em sucessão ao Sol, à Lua e aos cinco planetas – um arranjo que é ainda
mantido, os nomes dos nossos dias são meras traduções dos caldeus. E mais que isso havia dias que eram
separados e mantidos como sagrados, como dias de descanso, já no tempo de Sargon de Acade; foi dos
semitas da Babilônia – talvez os caldeus de Ur – que tanto o nome como a observância foram passados
para o ramo hebreu da raça, a tribo de Abraão. George Smith encontrou um calendário assírio no qual o
dia chamado Sabattu ou Sabattuv é explicado como sendo “realização do trabalho, um dia de descanso
para a alma”. Neste dia, parece que não era lícito cozinhar, trocar de roupa, oferecer um sacrifício; o rei
era proibido de falar em público, de andar em carruagem, de desempenhar qualquer dever militar ou civil,

130
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

e até mesmo tomar medicamento. [AV] Isto, certamente, era para manter o Sábado tão rigoroso, da forma
como o judeu mais ortodoxo poderia desejar. Existem, contudo, diferenças essenciais entre os dois. Em
primeiro lugar, os babilônicos mantinham cinco Sábados todo mês, quer era mais de um por semana; em
segundo lugar, eles apareciam em determinadas datas de cada mês, independentemente do dia da semana:
no 7º, 14º, 19º, 21º e 28º. O costume parece ter sido passado para os assírios e, há indícios que encorajam
a hipótese que foi compartilhada por outras nações ligadas aos judeus, babilônios e assírios, por exemplo,
pelos fenícios.

NOTAS DE RODAPÉ:

[AR] Ver A. H. Sayce, "The Ancient Empires of the East" (1883), p. 389.

[AS] "Five Monarchies", de Rawlinson, Vol. I., p. 164.

[AT] Era a própria estátua da deusa Nana que foi levada pelo conquistador elamita, Khudur-Nankhundi
em 2280 a.C. e colocada de volta em seu lugar por Assurbanipal em 645 a.C.

[AU] Os três círculos acima do deus representam o Deus-Lua, o Deus-Sol e Ishtar. Assim fomos
informados pelas duas linhas de escrita que correm acima do teto.

[AV] Friedrich Delitzsch, "Beigaben" na tradução germânica de “Chaldean Genesis”, de Smith (1876), p.
300. A. H. Sayce, "The Ancient Empires of the East" (1883), p. 402. W. Lotz, "Quæstiones de Historia
Sabbati".

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

VI.

LENDAS E HISTÓRIAS.

1. Na vida de toda a criança, existe um momento quando ela deixa de percebe o mundo e tudo ao seu
redor como natural, que é quando ela começa a pensar e a ter dúvidas. A primeira grande questão é
naturalmente – “Quem fez tudo isso? O sol, as estrelas, o oceano, os rios, as flores e as árvores – de onde
eles vieram? Quem os fez?”. E para essa questão, estamos muito pronto com a nossa resposta: - “Deus fez
tudo isso. O único, o Deus Tudo Poderoso criou o mundo e tudo que está nele, por sua própria vontade
soberana”. Quando a criança pergunta além: “Como ele fez isso?” nós lemos a história da criação que está
no começo da Bíblia, nosso livro sagrado, sem nenhum comentário em cima dela ou com o aviso de que,
para um entendimento completo e próprio da história, são necessários anos de conhecimento em diversas
áreas. Agora, essas mesmas questões foram perguntadas, por crianças e homens, em todos os tempos.
Desde quando o homem existe na terra, desde que ele começou nos intervalos de seus descansos, no
trabalho árduo e dificuldades para vida e integridade física, para comida e calor, para erguer a cabeça e
olhar pra frente, e tomar as maravilhas ao seu redor, ele tem então refletido e se questionado. E para esse
questionamento, cada nação, após suas próprias luzes, formulou mais ou menos a mesma resposta; a
mesma em substância e espírito (porque é a única possível), reconhecendo a ação de um poder divino em
preencher o mundo com vida e estabelecendo as leis da natureza – mas frequentemente muito diferente
em forma, já que, quase todo credo não possui uma concepção religiosa maior, aquela de Uma Divindade,
indivisível e toda poderosa e o grande ato foi atribuído a muitos deuses – “os deuses” – não para Deus. É
claro que isso abriu caminho a inumeráveis, mais ou menos engenhosos, caprichos e luxos para o papel
delas nessa divindade particular. Assim todas as raças, nações e até tribos trabalharam sua própria
cosmogonia, suas próprias ideias sobre as origens do mundo. A maior parte deles, não tendo alcançado
um estágio muito alto de cultura ou atingido habilidades literárias, preservaram os ensinamentos dos
sacerdotes em suas memórias e os transmitiram oralmente de pai a filho; esse é o caso agora com muito
mais gente do que imaginamos – com todas as tribos nativas da África, das ilhas da Austrália e do
Pacífico, e muitas outras. Mas as nações que avançaram intelectualmente para frente da humanidade e
influenciaram a longa série de raças seguintes por seus pensamentos e ensinamentos, gravaram em livros
as conclusões em que chegaram sobre os grandes questionamentos que sempre estiveram no coração e
mente do homem. Os livros foram cuidadosamente preservados e recopiados de tempo em tempo, para a
instrução de cada nova geração. Assim, muitas grandes nações de tempos antigos possuíam Livros
Sagrados, que, sendo escritos na antiguidade remota por seus melhores e mais sábios homens, eram
reverenciados como algo não apenas sagrado, mas, além dos poderes sem auxílios do intelecto humano,
algo comunicado, diretamente revelado pela própria divindade, e então para ser aceita, inegavelmente,
como verdade absoluta. É claro que não estava no interesse dos padres, os guardas e os professores de
todo o conhecimento religioso, para encorajar e manter na maioria das pessoas essa crença
inquestionável.

2. De todos os livros que ficaram conhecidos para nós, não existe nenhum de maior interesse e
importância do que os livros sagrados da antiga Babilônia. Não meramente porque eles são os mais
antigos conhecidos, tendo sido prezados nas bibliotecas sacerdotais de Acade, Sippar, Cuta, etc., em uma
data incrivelmente antiga, mas principalmente porque os ancestrais dos hebreus, durante sua longa estadia
na terra de Sinar, aprenderam as lendas e histórias que eles continham, e as trabalhando sob seus próprios
aspectos religiosos superiores, as remodelaram para a narrativa que foi escrita muitos séculos depois
como parte do Livro de Gênesis.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

3. Os livros sagrados originais foram atribuídos ao próprio deus Êa, a personificação da Inteligência
Divina e o professor da humanidade na forma do primeiro Homen-peixe, Oannes – (sendo o nome apenas
uma variação do acádio Êa-han, “Êa, o peixe”). [AW] Então Berosus nos informa. Após descrever
Oannes e seus processos (ver pág. 103), ele adiciona que “ele escreveu um livro sobre a origem das coisas
e o início da civilização, e o deu aos homens”. A “origen das coisas” é a história da criação do mundo,
cosmogonia. De acordo com ele, é isso que Berosus continua a expor, citando diretamente do livro, de
onde ele começa: - “Houve um tempo, diz ele, (Oannes) quando tudo era escuridão e água”. Então segue
um fragmento muito precioso, mas infelizmente somente um fragmento, um dos poucos preservados por
mais recentes escritores gregos que citavam o antigo sacerdote da Babilônia para seus próprios
propósitos, enquanto o trabalho era, de algum modo, destruído e perdido. De verdade, esses fragmentos
contêm pequenos esboços de várias das maiores importantes lendas; ainda assim, preciosas como são,
eles trazem apenas informações de segunda mão, compiladas, de fato, de fontes originais por um escritor
sábio e consciencioso, mas para o uso de uma raça estrangeira, extremamente comprimida e, além disso,
com todos os nomes alterados para agradar a linguagem daquela raça. Então enquanto as “fontes
originais” estiverem faltando, existe um espaço no estudo de ambas a Bíblia e a religião da Babilônia, que
nenhuma perspicácia podia preencher. Grande, então, era o encanto e satisfação, ambas dos especialistas
em Assíriologia e dos estudiosos da Bíblia, quando George Smith, que na ocasião organizava os milhares
de fragmentos de tábuas que por anos estavam nos chãos de remotas câmaras do Museu Britânico,
deparou-se acidentalmente com algumas que eram partes evidentes das lendas sagradas originais
parcialmente fornecidas por Berosus. Procurar todos os fragmentos dos preciosos documentos e colocá-
los juntos tornou-se a tarefa da vida de Smith. E quase tudo que ele encontrou pertencia a copias da
Biblioteca Real de Nínive, tudo estava estritamente em ordem para aumentar a coleção que ele coordenou
durante sua primeira expedição aos montes assírios, da qual ele teve a sorte de trazer muitos fragmentos
restantes, também pertencentes a diferentes cópias, então que uma frequentemente completa a outra.
Assim as lendas caldeias mais antigas foram em grande quantidade restauradas para nós, ainda que
infelizmente muitas poucas tábuas estejam em uma condição suficientemente bem preservadas para
permitir fazer-se uma narrativa inteiramente inteligível e ininterrupta. Não são apenas grandes partes que
estão faltando ao todo, mas das que foram achadas, encaixadas e coletadas, não existe uma de qual uma
ou mais colunas não estejam danificadas de uma maneira em que o começo ou o final de todas as linhas
se foram ou linhas inteiras despedaçadas ou apagas, com apenas algumas palavras deixadas. O quão sem
esperança deve ter parecido às tarefas às vezes aos trabalhadores pacientes pode ser julgado pela amestra
antecedente colocada junta a partir de 16 pedaços, a qual George Smith dá em seu livro. Essa é uma das
chamadas “tábuas do Dilúvio”, que contém a versão caldeia da história do Dilúvio. Por sorte, mais cópias
foram achadas dessa história do que de qualquer outra, ou nós deveríamos ter ficado contentes ainda
assim com os pequenos esboços dela feitos por Berosus.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

61. VERSO DE UMA TÁBUA COM RELATO DE UMA ENCHENTE.

(“A Gênese Caldéia”, de Smith.)

4. Se, portanto, as antigas lendas babilônias sobre o começo do mundo serão dadas aqui em uma forma
conectada, pela conveniência e simplicidade, deve ser claramente entendido que elas não foram
preservadas para nós dessa forma, mas são o resultado de um longo e paciente trabalho de pesquisa e
restauração, um trabalho que ainda continua; e todo ano, quase todo mês, traz luz a alguns materiais
novos, alguma coisa a mais, ou alguma correção aos materiais antigos. Ainda assim, até como o trabalho
está hoje, ele nos justifica quando afirma que o nosso conhecimento sobre essa maravilhosa antiguidade é
mais completa e mais autentica do que a que temos sobre um período e um povo não tão remoto de nós
em um ponto de lugar e distância.

5. A narrativa cosmogônica que forma a primeira parte do que George Smith tem muito competentemente
chamado de “o Gênesis caldeu” é contida em múltiplas tábuas. Como ela começa com as palavras
“Quando acima”, elas são todas numeradas com N°. 1 ou 3 ou 5 da série When above. The property of
Asshurbanipal, king of nations, king of Assyria. As primeiras linhas estão intactas – “Quando o céu acima
e a terra abaixo eram ainda não nomeadas” - (portanto, de acordo com ideias semíticas, não existiram) –
Apsu (os “abismos”) e Mummu-Tiamat (o “oceano ondulante”) eram o começo de todas as coisas; suas
águas se misturavam e fluíam juntas; esse era o Caos Primordial; ele continha os germes da vida mas “a
escuridão não era erguida” das águas, e portanto nada brotava ou crescia – (porque nenhum crescimento
ou vida é possível sem luz). Os deuses também não eram nomeados; “eles eram ainda não eram
nomeados e não governavam os destinos”. Então os grandes deuses vieram a existir, e os anfitriões
divinos do céu e da terra (os Espíritos do Céu e da Terra). “E os dias se esticaram, e o deus Anu (Céu)...”
Aqui o texto acaba abruptamente ou é possível, no entanto, que foi dito como, após um longo lapso de

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

tempo, os deuses Anu, Êa e Bel, a primeira e suprema trindade, vieram a existir. O próximo fragmento,
que está suficientemente bem preservado para permitir uma tradução conectada, conta sobre a instituição
dos corpos celestes: “Ele” (Anu, cujo domínio particular era nos céus mais altos, daí frequentemente
chamado de “o céu de Anu”) “ele construiu as mansões dos grandes deuses” (signos do Zodíaco),
estabeleceu as estrelas, ordenou os meses e o ano, e limitou o começo e fim disso; instituiu os planetas,
para que nenhum desviasse de seu caminho designado; “ele construiu as mansões de Bel e Êa com o seu
pessoal; ele também abriu os grandes portões do céu, apertando seus parafusos firmemente para a direita e
para a esquerda” (leste e oeste); ele fez Nannar (a Lua) brilhar e designou a noite a ele, determinando o
tempo de seus quartos que medem os dias, e dizendo a ele “nasça e ponha-se, e seja súdito a essa lei”.
Outra tábua, da qual somente o começo é inteligível, conta como os deuses (no plural dessa vez) criaram
os seres vivos que povoaram a terra, o gado do campo e a cidade, as feras selvagens do campo, e as coisas
que se deslocam no campo e na cidade, em resumo, todas as criaturas vivas.

62. CILINDRO BABILÔNIO, SUPOSTAMENTE PARA REPRESENTAR TENTAÇÃO E QUEDA.

6. Existem algumas tábuas que supostamente tratam sobre a criação do homem e talvez sobre uma
história de sua desobediência e queda, em resposta aquilo tratado em Gênesis; mas infelizmente elas estão
em uma condição muito mutilada para admitir certeza e, nenhuma outra cópia foi ainda encontrada.
Entretanto, a probabilidade de que isso era realmente o caso é muito grande, e é muito ampliada por um
cilindro de mão de obra babilônia antiga, agora no Museu Britânico, é muito importante para não ser
falado aqui. A árvore no meio, o casal humano esticando suas mãos para o fruto, a serpente parada atrás
da mulher em – alguém pode quase dizer – uma posição de sussurro, tudo isso conta seu próprio conto. E
a autoridade dessa apresentação artística, que estranhamente encaixa-se para preencher os espaços em
branco na narrativa escrita, é duplicada pelo fato de que as escrituras no cilindro são invariavelmente
tiradas de assuntos conectados a religião ou pelo menos crenças religiosas e tradições. Já para a criação
do homem, nós podemos parcialmente deduzir os detalhes faltantes dos fragmentos que Berosus já citou.
Ele lá nos fala – e um escritor tão bem informado deve ter falado sobre boa autoridade – que Bel deu seu
próprio sangue para ser amassado com a argila da qual os homens foram formados, e que por isso eles são
dotados com razão e têm uma parte da natureza divina neles – certamente um modo mais ingênuo de
expressar a mistura dos elementos da terra e divinos, que fizeram da natureza humana tão profunda e
confusa, um problema para os pensadores mais profundos de todas as épocas.

7. Para o resto da criação, a narração de Berosus (citado do livro que é dito ter sido dado aos homens pelo
fabuloso Oannes), concorda com o que nós encontramos nos textos originais, até mesmo imperfeitos,
como nós os temos. Ele diz que no meio do caos – na época onde tudo era escuridão e água – o princípio
da vida que isso continha, inquietamente trabalhando, mas sem ordem, tomou forma em inúmeras
formações monstruosas: existiam seres como homens, alguns com asas, com duas cabeças, alguns com as

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

pernas e chifres de bode, outros com a parte corça de cavalos; também toros com cabeças humanas,
cachorros com quatro corpos e uma cauda de peixe, cavalos com cabeças de cachorros, em resumo, toda
combinação asquerosa e fantástica de formas animais, antes da Vontade Divina os ter separado, e os
colocado em harmonia e ordem. Todos esses seres monstruosos destruíram-se no momento em que Bel
separou os céus da terra, criando luz - porque eles eram nascidos da escuridão e da ilegalidade e não
podiam suportar o novo reino de luz e leis e razão divina. Em memória dessa destruição do antigo mundo
caótico e produção de um novo mundo harmonioso e bonito, as paredes do famoso templo de Bel-
Mardouk da Babilônia foram cobertos com pinturas representando a infinita variedade de formas
monstruosas e misturadas que povoaram o caos primordial com exuberante luxúria; Berosus foi um
sacerdote desse tempo e ele fala dessas pinturas como ainda existentes. Embora nada disso tenha
permanecido nas ruínas do templo, nós temos representações do mesmo tipo em muitos cilindros que,
usados como selos, serviam tanto como distintivos pessoais – (pode-se até ficar tentado a dizer “brasões”)
– quanto como talismãs, como foi provado pelo fato de esses cilindros serem frequentemente encontrados
nos pulsos dos mortos nas sepulturas.

63. FIGURAS FEMININAS ALADAS DIANTE DA ÁRVORE SAGRADA.

(De uma fotografia do Museu Britânico.)

8. O notável cilindro com o casal humano e a serpente nos guia para a consideração de um objeto mais
importante da antiga religião Babilônica e Caldeia – a Árvore Sagrada, a Árvore da Vida. De que isso era
símbolo muito sagrado é claro porque ela foi continuamente reproduzida em cilindros e em sepulturas.
Nesse cilindro em particular, seu design rudimentar carrega uma semelhança inequívoca com a árvore
real – de alguma espécie conífera, cipreste ou pinheiro. Mas a arte brevemente tomou conta disto e
começou a carregá-los com adornamentos simétricos, até produzir uma árvore inteiramente a partir de
design convencional, como mostrada pelas próximas amostras, das quais a primeira inclina-se mais ao
palmo, enquanto a segunda parece mais do tipo conífera. (Ver figuras 63 e 65). É provável que essas
árvores artificiais, feitas de ramos – talvez de palmeira e cipreste – amarravam-se juntas e entrelaçavam-
se com fitas (algo como nosso antigo “Mastro de Fita”), eram postas nos templos como lembretes do

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

símbolo sagrado, e assim davam ascensão ao tipo fixo que permanecia invariável ambos nos trabalhos
artísticos babilônios que possuímos como nas sepulturas assírias, onde a árvore ou uma parte dela,
aparece não apenas nos ornamentos das paredes mas também no selo dos cilindros e até nos embriões dos
roupões de reis. No último caso de fato é quase certo, na crença em talismãs que os assírios haviam
herdado, junto com toda a sua religião do país mãe Caldéia, que esse ornamento era selecionado não
apenas como apropriado a santidade da pessoa real, mas como uma consagração e proteção. A santidade
do símbolo é mais evidenciada pela postura ajoelhada dos animais que às vezes o acompanham (ver
figura 22) e a postura de adoração das figuras humanas ou espíritos com asas neles, pela prevalência do
número sagrado sete em suas partes e, pelo fato de que ele é reproduzido em diversos daqueles caixões
esmaltados de cerâmica que são abundantes em Warka (antiga Ereque). Esse último fato mostra
claramente que o símbolo árvore não significava apenas vida em geral, vida na terra, mas uma esperança
de vida eterna, além do túmulo ou por que deveria ser dado aos mortos? Esses caixões em Warka
pertencem, é verdade, a um período mais adiante, alguns até há uns 200 anos depois de Cristo, mas as
tradições antigas e seus significados haviam, se dúvida, sido preservados. Outro detalhe significante é que
o cone é frequentemente visto nas mãos dos homens ou espíritos, e sempre de uma maneira conectada
com adoração ou proteção auspiciosa; às vezes é segurado para a narina do rei pelos seus espíritos
protetores assistentes, (conhecidos por suas asas); um gesto de significância inequívoca, já que em
linguagens antigas “a respiração das narinas” é sinônimo de “a respiração da vida”.

64. ESPÍRITOS ALADOS DIANTE DA ÁRVORE SAGRADA.

(“Caldéia”, de Smith.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

65. SARGON DA ASSÍRIA DIANTE DA ÁRVORE SAGRADA.

(Perrot e Chipiez.)

9. Não pode existir associação de ideias mais natural que a de vegetação, como representada por uma
árvore, com a vida. Por seu crescimento e desenvolvimento perpétuo, seus ricos galhos e folhagens, seu
florescimento e frutificação, sua nobre e espetacular ilustração do mundo no seu senso mais extenso – o
universo, o cosmos, enquanto a seiva que percorre pelo tronco e pelas veias da menor folha, tirado por um
processo incompreensível por raízes invisíveis da terra nutritiva, sugere ainda mais fortemente aquele
princípio misterioso, a Vida, que nós pensamos que entendemos porque enxergamos seus efeitos e a
sentimos, mas da qual as fontes nunca serão alcançadas, assim como seu problema nunca será resolvido,
ou pelo intrometimento da ciência experimental ou pela divagação da especulação contemplativa; vida
eterna também - porque os trabalhos da natureza são eternos - e a árvore que é preta e sem vida hoje, nós
sabemos por experiência que não está morta, mas irá reviver ao seu máximo em tempo e florescer, crescer
e dar frutos novamente. Todas essas coisas nós sabemos que são os efeitos de leis; mas os antigos os
atribuíam a poderes vivos - os poderes ctônico (da palavra grega Chthon, “terra, solo”), que foram
chamadas, por pensadores mais adiante e mais sonhadores, estranhamente, mas não incompetentemente,
de “as Mães”, misteriosamente em trabalho nas profundezas do silêncio e escuridão, despercebidas,
desconhecidas e incansavelmente produtivas. Novamente sobre esses poderes, que símbolo mais perfeito

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

ou representativo do que a Árvore, como vegetação parada, um por todos, uma parte pelo todo? Em
tempos mais além, o símbolo foi ampliado, para que abrangesse todo o universo, na concepção majestosa
da Árvore Cósmica que tem as suas raízes na terra e o céu como sua coroa, enquanto seus frutos são as
maças douradas – as estrelas, e Fogo, - o relâmpago vermelho.

66. FIGURA COM CABEÇA DE ÁGUIA DIANTE DA ÁRVORE SAGRADA.

(“Caldéia”, de Smith.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

67. FIGURA HUMANA COM QUATRO ASAS DIANTE DA ÁRVORE SAGRADA.

(Perrot e Chipiez.)

10. Todos esses luxos sugestivos e poéticos iriam bastar para fazer da árvore-símbolo, o favorito dentre
um povo tão considerável e profundo como os antigos caldeus. Mas existe algo a mais. Ele é intimamente
conectado com outra tradição, comum, de alguma forma ou de outra, para todas as nações que tenham
obtido um nível suficientemente alto de cultura para fazer a sua marca no mundo – de uma moradia
original ancestral, linda, feliz e remota, um paraíso. Ele é frequentemente imaginado como uma grande
montanha, abastecida de água por nascentes que se tornam grandes rios, portando uma ou mais árvores de
incríveis propriedades e caráter sagrado e é considerada como a principal residência dos deuses. Cada
nação a localiza de acordo com o seu próprio conhecimento de geografia e memórias vagas e quase
apagadas. Muitos textos, na língua antiga acadiana e assíria, abundantemente provam que a religião
caldeia preservou uma concepção distinta e reverente dessa montanha e, a colocou no norte ou nordeste
longínquo, chamando-a de “Pai das Regiões”, simplesmente uma alusão à moradia original do homem – a
“Montanha das Regiões”, (ou seja, “Montanha Chefe do Mundo”) e também de Arallu, porque lá, onde os
deuses habitavam, eles também imaginavam que a entrada para Arali era a Terra dos Mortos. Lá,
também, habitaram os heróis e grandes homens, para sempre, após a sua morte. Existe a terra com um céu
de prata, um solo que produz grãos sem ser cultivada, onde bênçãos são para comida e júbilo, que é

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

esperado que o rei obtivesse como uma recompensa por sua piedade após ter aproveitado todos os bens da
terra durante sua vida.[AX] Em um antigo hino acadiano, o monte sagrado, que é idêntico ao imaginado
como o pilar juntando o céu e a terra, o pilar ao redor do qual as esferas celestes orbitam, (ver pág. 87 e
88) – é chamada “a montanha de Bel, no leste, cuja cabeça dupla alcança o céu; que é como um búfalo
poderoso em descanso, cujos chifres alcançam o céu como um raio de sol, como uma estrela”. Tão vívida
era a concepção na mente popular e, tão grande a reverência entretida para isso, que foi tentada a
reproduzir o tipo de montanha sagrada nos palácios dos seus reis e templos dos seus deuses. Essa é uma
das razões porque eles construíram ambos em montes artificiais. No Museu Britânico encontra-se uma
escultura de Koyunjik, representando esses templos ou talvez palácios, no topo de um monte, convertida
em um jardim e abastecido de água por uma corrente que sai dos “jardins suspensos” na direita, o último
deitado em uma plataforma de maçonaria erguida nos em arcos; a água foi trazida por maquinaria. É um
perfeito exemplo de um “paraíso”, como esses parques artificiais eram chamados pelos gregos, que pegar
a palavra (sendo “parque” ou “jardim”) dos persas, que, por sua vez, tinham emprestado a coisa dos
assírios e dos babilônios, quando eles conquistaram o império dos últimos. O Ziggurat, ou construções
piramidais em etapas, com o templo ou santuário no topo, também deviam seu formato peculiar para a
mesma concepção original: como os deuses habitaram no topo da Montanha do Mundo, então seus
santuários deveriam ocupar a posição parecida com a de sua residência, como os meios fracos de um
homem permitissem. O fato de que isso não é nenhuma luxúria sem valor é provado pelo próprio nome de
“zigurate”, que significa “topo da montanha” e, também pelos nomes de alguns desses templos: um dos
mais velhos e mais famosos de fato, na cidade de Assur, foi chamado de “a Casa da Montanha das
Regiões”. Uma representação excelente de um zigurate, como deve ter parecido com seus arredores de
bosques de palmos e um rio, é dado para nós em um escombro esculpido, também de Koyunjik. O original
é evidentemente pequeno, com seus dois caminhos simétricos em ascensão. Alguns, como o grande
templo em Ur, tinham apenas três etapas, outras sete – sempre um dos três números sagrados: três,
correspondendo à divina Trindade; cinco, aos cinco planetas; sete, aos planetas, sol e lua. O famoso
Templo das Sete Esferas em Borsippa (a Birs-Nimrud), frequentemente já mencionada e reconstruída por
Nabucodonosor por volta de 600 a.C. por uma estrutura bem mais velha, como ele explica em sua
inscrição (ver pág. 42), foi provavelmente o mais deslumbrante, e também o maior; além disso, é o único
do qual nós temos descrições e medidas detalhadas e confiáveis, que nesse momento podem ser melhor
dadas quase inteiramente das palavras de George Rawlinson:[AY]

68. TEMPLO E JARDINS SUSPENSOS EM KOYUNJIK. (Museu Britânico.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

69. PLANTA DE UM ZIGURATE.

(Perrot e Chipiez.)

11. O templo fica em uma plataforma excepcionalmente baixa – somente alguns pés acima do nível do
chão; a altura ao todo, incluindo a plataforma, era de 47.5metros em uma linha perpendicular. As etapas –
das quais as quatro superiores eram menores do que as três primeiras inferiores – recuavam igualmente
em três lados, mas dobravam o mesmo tanto no quarto, provavelmente em ordem para apresentar uma
frente mais imponente do plano e uma subida mais fácil. “Os ornamentos no edifício não eram de cores.
As sete etapas representavam os sete planetas. Para cada planeta imaginário, parcialmente baseado em um
fato era atribuído uma tonalidade ou matiz. O sol (Shamash) era dourado; a Lua (Sin ou Nannar),
prateada; o distante Saturno (Adar); quase além da região da luz, era preto; Júpiter (Marduk) era laranja; o
fogoso Marte (Nergal) era vermelho; Vênus (Ishtar) era um amarelo pálido; Mercúrio (Nebo ou Nabu,
cujo santuário ficava no topo da terceira etapa) era um azul intenso. As sete etapas da torre davam uma
visível personificação a essas luxúrias. A etapa do porão, designada a Saturno, era preta devido a uma
camada de betumem espalhada na maçonaria; a segunda etapa; designada a Júpiter; obteve sua apropriada
cor laranja a partir de tijolos queimados desse tom; a terceira etapa, a de Marte, foi feita vermelho-sangue
pelo uso de tijolos meio queimados formados de uma argila vermelho-vivo; a quarta etapa, designada ao
Sol, parece ter sido coberta com finas placas de ouro; a quinta, a etapa de Vênus, recebeu a cor amarelo
pálido pelo uso de tijolos desse tom; o sexto, a esfera de Mercúrio, foi dada um azul-celeste por um
processo de vitrificação, toda a etapa sendo sujeita a um intenso calor depois de erguida, através do qual
os tijolos dela foram convertidos em uma massa azul de escombros; a sétima etapa, a da lua, foi
provavelmente, como a quarta, coberta de placas de metal reais. Assim o prédio ergueu em listras de
variadas cores, arrumado quase como a natureza astúcia arruma os tons do arco-íris, tons de vermelho

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

vindo primeiro, sucedidos por uma larga listra de amarelo, e seguido de azul. Acima disso, o topo
prateado brilhante derretia junto com o brilhante do céu... A Torre é para ser considerada como de frente
ao nordeste, o lado mais fresco e, o menos exposto aos raios de sol durante o tempo em que eles se
tornam opressivos na Babilônia. Nesse lado estava a subida, que consistia provavelmente de uma larga
escada estendida por toda a frente do prédio. As plataformas laterais, na altura da primeira ou segunda
etapa, provavelmente todas, eram ocupadas por uma série de câmaras... “Essas, sem dúvidas, abrigavam
os sacerdotes e outros atendentes a serviço do templo...”

70. "ZIGURATE" RESTAURADO. DE ACORDO COM PROBABILIDADES.

(Perrot e Chipiez.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

12. O interesse dado a esse templo, maravilhoso como ele é, é grandemente ampliado pela circunstância
de que as suas ruínas foram por muitos séculos, consideradas como idênticas às ruínas da Torre de Babel
da Bíblia. Homens judeus da literatura, que viajaram pela região durante a idade média, começaram com
essa ideia, que rapidamente se espalhou para o oeste. É especulado que isso foi sugerido por fragmentos
vitrificados por uma camada externa da sexta etapa azul (a de Mercúrio ou Nebo), a condição dado ao
prédio quando atingido por relâmpagos.

71. BIRS-NIMRUD. (ANTIGA BORSIP.)

(Perrot e Chipiez.)

13. O fato de que os zigurates da Caldéia deveria ter sido usado não apenas como pedestais para segurar
os santuários, mas também como observatórios pelos astrônomos e astrólogos sacerdotais, estava muito
de acordo com uma mistura forte de adoração de estrelas trazidas de uma religião mais antiga e com os
poderes destinados aos corpos celestes sobre os atos e destinos dos homens. Essas construções, então
eram cabíveis para usos astronômicos por serem muito cuidadosamente colocadas nos cantos que
apontavam exatamente aos quatro pontos cardinais – Norte, Sul, Leste e Oeste. Somente duas exceções
foram encontradas a essa regra, uma na Babilônia, e o zigurate assírio em Kalah (Ninrode), explorado por
Layard, cujos lados, não as pontas, apontavam aos pontos cardinais. Para os assírios, que carregaram a
sua cultura e religião inteiras ao norte de suas casas antigas, também tinham essa forma consagrada de
arquitetura, com a diferença de que para eles, os zigurates não eram templos e observatórios em um só,
mas somente observatórios juntos aos templos, que eram construídos em princípios mais independentes e
em maior escala, frequentemente ocupando um grande espaço, como um palácio.

14. A orientação particular dos zigurates caldeus (subsequentemente retidos pelos assírios), - a maneira
como eles estão colocados, virados para os pontos cardinais com seus ângulos, e não suas faces, como são
as pirâmides do Egito, com apenas uma exceção - foi por muito tempo um enigma que nenhuma
consideração astronômica era suficiente para resolver. Mas recentemente, em 1883, Sr. Pinches, o
sucessor de George Smith no Museu Britânico, achou uma tábua pequena, dando listas de sinais, eclipses,
etc., afetando as várias regiões e contendo a seguinte observação geográfica curta, uma ilustração da

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

posição dada aos pontos cardinais: “O Sul é Elam, o Norte é Acádia, o Leste é Suedine e Gutium, o Oeste
é Fenícia. Na direita é Acádia, na esquerda é Elam, na frente é Fenícia, atrás são Suedine e Gutium.” Para
apreciar a importância desse matéria topográfico em questão, nós precisamos examinar um mapa antigo,
quando nós devemos perceber que a direção dada pela tábua ao Sul (Elam) corresponde ao nosso
Sudoeste; e que o Norte (Acádia) corresponde ao nosso Noroeste; enquanto Oeste (Fenícia, a terra
litorânea do Mediterrâneo, quase no Egito), corresponde ao nosso Sudoeste, e Leste (Gutium, as terras
altas onde os as montanhas armênias encontram os Zagros, agora Montanhas Kurdas) ao nosso Noroeste.
Se virarmos o mapa para que o Golfo Persa fique em uma linha perpendicular abaixo da Babilônia, nós
deveremos produzir o efeito desejado, e então iremos perceber que os zigurates apontavam aos pontos
cardinais, de acordo com caldeia geografia, com os seus lados, e que a descoberta dessa pequena tábua,
como foi advertida na produção dela, “responde a difícil questão de diferença na orientação entre os
monumentos assírios e egípcios”. Ainda foi sugerido que “os dois sistemas de pontos cardinais
originaram nenhuma dúvida das duas raças diferentes e, sua determinação foi dada provavelmente por
causa da posição geográfica do lar primitivo de cada raça.” Agora, o Sudoeste é chamado de “à frente”, “e
as migrações de pessoas então devem ter sido do Nordeste para o Sudoeste.”[AZ] Isso corresponde
belamente com a hipótese ou conjuntura, a respeito da direção da qual os sumério-acádios descenderam
para as terras baixas do Golfo (ver pág. 85 e 86) e, além disso, nos leva a questionar se o fato de que o
grande zigurate das Sete Esferas em Borsippa, com a sua frente voltada ao noroeste, pode não ter conexão
alguma com a santidade designada à região como o lar original da raça e local da montanha sagrada,
frequentemente mencionada como “a Grande Montanha das Regiões” (ver pág. 143 e 142), duplamente
sagrada, como o local de encontro dos deuses e o local de entrada para “Arallu” ou o sub-mundo.[BA]

15. Deve ser notado que a concepção do bosque ou jardim divino com a sua sagrada árvore da vida foi
algumas vezes separada daquela da montanha primordial sagrada e transferida por tradição para uma
vizinhança mais imediata e acessível. O fato de que a cidade e distrito de Babilônia que pode ter sido o
centro dessa tradição é possivelmente mostrado pelo nome acadiano mais velho do antigo – Tin-tir-ki,
significando “o Lugar da Vida”, enquanto o último foi chamado de Gan-Dunyash ou Kar-Dunyash – “o
jardim do deus Dunyash”, (provavelmente um dos nomes do deus Êa) – uma apelação que esse distrito,
embora situado na terra da Acádia ou Caldéia Superior tenha preservou até os últimos tempos
distintivamente como sua própria. Outro bosque sagrado é falado como situado em Eridhu. Essa cidade,
ao todo a mais antiga de que temos qualquer palavra sobre, era situada logo após a foz do rio Eufrates, na
mais profunda e plana das terras baixas, algo como uma fronteira entre terra e mar e, então muito
apropriadamente consagrou os grandes espíritos de ambos, o deus Êa, o ambicioso Oannes. Era muito
identificado com ele, que nos hinos e invocações sumérias, seu filho Meridug é frequentemente invocado
apenas como “Filho de Eridhu”. Deve ter sido o lugar mais velho daquele sacerdócio adorador de
espíritos e feiticeiro que achamos cristalizado nos primeiros livros sagrados sumério-acádios. Essas
antiguidades pródigas nos levam a algo como 5000 anos a.C., o que explica o fato de que as ruínas do
lugar, próximas a moderna vila árabe de Abu-Shahrein, são agora muito longes do oceano, uma distância
considerável até mesmo da junção dos dois rios que formam o Shat-el-arab. O bosque sagrado de Eridhu
é frequentemente citado e que ele era conectado a tradição da árvore da vida nós podemos ver a partir de
um fragmento de um hino muito antigo, que nos conta sobre “um pinheiro negro, crescendo em Eridhu,
floresceu em um lugar puro, com raízes de cristais lustrosos que se estendem ao chão, bem
profundamente, marcando o centro na terra, na floresta negra onde os homens não penetraram”. Pode isso
não ser a razão porque a madeira do pinheiro era muito usada em cantos e invocação, como o protetor
mais certo contra influências malignas e sua própria sombra era considerada sadia e sagrada? Mas nós
retornamos às lendas da criação e do mundo primordial.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

72. BEL LUTA COM O DRAGÃO – TIAMAT (CILINDRO ASSÍRIO.)

(Perrot e Chipiez.)

16. Mummu-Tiamat, a personificação do caos, o poder da escuridão e do ilegal, não desaparece da cena
quando Bel coloca um fim ao seu reino, destrói, pela força absoluta da luz e da ordem, sua horrível
descendência de monstros e liberta de sua desordem os germes e formas rudimentares de vida, que, sob o
novo e divino regime, expandem-se e misturam-se ao variado, lindo e harmonioso mundo em que
vivemos. Tiamat torna-se inimiga jurada dos deuses e suas criações, o grande princípio de oposição e
destruição. Quando os textos faltantes vierem à luz - se isso acontecer – provavelmente será descoberto
que a serpente que provocou a mulher no famoso cilindro, não é ninguém mais do que uma forma da
rebelde e vingativa Tiamat, que agora é chamada de um “Dragão”, agora “a Grande Serpente”. Por
último, a hostilidade não pode ser ignorada e, as coisas vieram a uma questão mortal. É determinado na
assembleia dos deuses que nenhum deles deve lutar o dragão malvado; uma armadura completa é feita e
exibida pelo próprio Anu, da qual a espada em forma de foice e o arco lindamente curvado são os
principais atributos. É Bel quem se arrisca e vai à uma carruagem de guerra incomparável, armada com a
espada, e o arco, e sua grande arma, o raio, mandando os relâmpagos na sua frente e espalhando flechas
ao seu redor. Tiamat, o Dragão do Mar, veio ao seu encontro, alongando seu imenso corpo junto,
provocando mortes e destruição e, junto de seus seguidores. O deus foi de encontro ao monstro com tanta
violência que ele a jogou no chão e já estava colocando algemas em seus pulsos, quando ela deu um
grande grito e começou a atacar o líder honrado dos deuses, enquanto bandeiras foram levantadas em
ambos os lados como em uma batalha campal. Meridug usou sua espada e a machucou; ao mesmo tempo,
um violento vento bateu contra seu rosto. Ela abriu seu queixo para engolir Meridug, mas antes que ela
pudesse fechá-los, ele ordenou o vento a entrar no corpo dela. O vento entrou e a encheu com sua
violência, balançou seu coração e entupiu suas entranhas e controlou sua coragem. Então o deus a
amarrou e colocou um fim aos seus trabalhos, enquanto seus seguidores ficaram parados maravilhados,
então ele quebrou suas correntes e eles escaparam, vendo que Tiamat, sua líder, havia sido conquistada.
Lá ela deitou, com suas armas quebradas, ela como uma espada jogada no chão, no escuro e amarrada,
consciente de sua escravidão e em grande luto, seu poder bruscamente quebrado pelo medo.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

73. BEL LUTA COM O DRAGÃO—TIAMAT (CILINDRO BABILÔNIO).

17. A batalha de Bel-Marduk e o Dragão era um incidente favorito no ciclo da tradição caldeia, se
julgarmos pelo número de representação que temos nos cilindros babilônios e, até mesmo, das paredes-
esculturas assírias. Os textos que relatam isso, entretanto, em um estado terrível de mutilação e somente
no último fragmento, descrevem o combate final, pode ser lido e traduzido a algo completo. Com isso
termina a série sobre a Cosmogonia ou Começos do Mundo. Mas isso pode ser completo por algumas
lendas a mais de mesmo caráter primitivo e preservado em tábuas avulsas, em texto duplo, como de
costume – acadiano e assírio. Nessas tábuas existe um poema narrando à rebelião, já falada sobre (ver pg.
100) sobre sete espíritos malignos, originalmente os mensageiros e portadores de tronos dos deuses e sua
guerra conta a lua, tudo isso sendo evidentemente uma interpretação fantástica de um eclipse. “Aqueles
deuses malvados, os espíritos rebeldes”, dos quais um é parecido com um leopardo, e outro com uma
serpente, e o resto a outros animais – sugerindo formas imaginárias de nuvens de tempestades – enquanto
se diz que um é o vento raivoso do sul e começou o ataque “com tempestade maligna, vento funesto”, e
“das fundações dos céus como o relâmpago eles lançaram”. A região mais baixa do céu foi reduzida ao
seu caos primordial e os deuses sentaram ansiosos em assembleia. O deus-lua (Sin), o deus-sol
(Shamash), e a deusa Ishtar haviam sido apontados para harmonizar o baixo céu e comandar os anfitriões
do céu; mas quando o deus-lua foi atacado pelos sete espíritos malignos, seus companheiros basicamente
o abandonaram, o deus-sol retornando ao seu lugar e Ishtar usando o céu mais alto (o céu de Anu) como
refúgio. Nebo é despachado a Êa, que manda seu filho Meridug para sua instrução: - “Vá, meu filho
Meridug! A luz do céu, meu filho, até mesmo o deus-lua, é dolorosamente escurecido no céu, e em
eclipse do céu está desaparecendo. Aqueles sete deuses malvados, as serpentes da morte não temem, estão
conduzindo uma guerra desigual com a lua trabalhosa”. Meridug obedece ao pedido de seu pai e derrota
os sete poderes da escuridão. [BB]

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

74. BATALHA ENTRE BEL E O DRAGÃO (TIAMAT).

(“Caldéia”, de Smith.)

18. Existe ainda mais uma lenda avulsa conhecida pelos fragmentos sobreviventes de Berosus, também
supostamente derivada de antigos textos acadianos: é aquela sobre a grande torre e a confusão de línguas.
Esse texto foi com certeza encontrado pelo incansável George Smith, mas existe o necessário restante
dele para ser muito tentador e muito insatisfatório. A narrativa nas quantidades de Berosus para isso: que
os homens tendo crescido além da medida seu orgulho e sua arrogância, que para redimirem-se
superiormente até para os deuses, comprometeram-se a construir uma imensa torre, no alcance do céu;
que os deuses, ofendidos com essa pretensão, mandaram violentos ventos para destruir a construção
quando ela havia atingido uma grande altura e, ao mesmo tempo, causou os homens a falarem diferentes
linguagens - provavelmente para semear a discórdia entre eles e prevê-los de juntarem-se novamente em
um empreendimento comum tão desafiador e incrédulo. O lugar foi identificado como a própria
Babilônia, tão grande era a crença nessa lenda que os judeus mais tarde a adotaram sem mudanças e,
séculos depois, como vimos acima, fixaram nas ruínas do maior dos zigurates, aquele de Borsippa, como
aquele da grande Torre da Confusão das Línguas. É certo que a tradição, sob todo seu fantástico traje,
contém uma veia muito evidente de fatos históricos, já que foi com certeza das planícies da Caldéia que
muitas das principais nações do antigo Leste, diversas em raça e fala, dispersaram para o norte, o oeste, e
o sul, após terem habitado lá por séculos como em um berço comum, lado a lado, e de fato, em grande
medida, como um só povo.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

NOTAS DE RODAPÉ:

[AW] Ver Fr. Lenormant, "Die Magie und Wahrsagekunst der Chaldäer," p. 377.

[AX] François Lenormant, "Origines de l'Histoire," Vol. II., p. 130.

[AY] "Five Monarchies," Vol. III., pp. 380-387.

[AZ] Ver "Proceedings of the Society of Biblical Archæology," Fev., 1883, pp. 74-76, e "Journal of the
Royal Asiatic Society," Vol. XVI., 1884, p. 302.

[BA] A única exceção para a regra de orientação acima entre os zigurates da Caldéia é aquela do templo
de Bel, na Babilônia (E-Saggila na linguagem antiga), que é orientada da maneira comum – seus lados em
direção ao real Norte, Sul, Leste e Oeste.

[BB] Ver A. H. Sayce, "Babylonian Literature," p. 35.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

VII.

MITOS.—HERÓIS E POEMAS MÍTICOS.

1. As histórias pelas quais uma nação tenta explicar os mistérios da criação, explicar a Origem do Mundo,
são chamadas, na linguagem científica, Mitos Cosmogônicos. A palavra Mito é constantemente usada em
conversações, mas de maneira muito livre e incorreta, que é mais importante de uma vez por todas definir
seu significado apropriado. Significa simplesmente um fenômeno da natureza apresentado não como
resultado de uma lei, mas como um ato de pessoas divinas ou pelo menos super-humanos, com poderes
bons ou maus (por exemplo, o eclipse da Lua descrito como a guerra contra os deuses dos sete espíritos
rebeldes). A leitura e prática mostrarão que existem muitos tipos de mitos, de várias origens; mas não
existe nenhum que se, devidamente tomado em pedaços, cuidadosamente traçado e visto, não seja
abrangido por essa definição. Um mito também foi definido como uma lenda ligada mais ou menos a
alguma crença religiosa e, em seus elementos principais, passada desde as épocas pré-históricas. Existem
apenas duas coisas que podem prevenir a contemplação da natureza e especulação sobre seus mistérios de
incorrer sobre mitologia: o conhecimento das leis físicas da natureza, como fornecido pela ciência
experimental moderna e uma rígida e inabalável crença na unidade de Deus, absoluta e indivisa, como
afirmado e definido pelos hebreus em muitas passagens de seus livros sagrados: “O Senhor, ele é Deus,
não há mais ninguém ao lado dele.” “O Senhor, ele é Deus, em cima nos Céus e embaixo na terra não há
mais ninguém.” “Eu sou o Senhor e, não há ninguém, não há ninguém ao meu lado.” “Eu sou Deus e não
há mais ninguém.” Mas a ciência experimental é uma coisa muito moderna de fato, com algumas
centenas de anos, e o Monoteísmo, até a propagação do Cristianismo, foi professado por apenas uma
pequena nação, os judeus, embora os pensadores escolhidos de outras nações tenham chegado à mesma
concepção em muitos países e em muitas épocas. A grande massa da humanidade sempre acreditou na
individualidade pessoal de todas as forças da natureza, ou seja, em muitos deuses; tudo o que aconteceu
no mundo foi para eles a manifestação de sentimentos, da vontade, dos atos desses deuses – daí os mitos.
Mais antigos os tempos, mais inquestionável era a crença e, como uma consequência necessária, mais
exuberante a criação de mitos.

2. Mas deuses e espíritos não são os únicos protagonistas em mitos. Lado a lado com suas tradições
sagradas sobre a Origem das coisas, cada nação conserva carinhosamente memórias de suas próprias
origens – vagas, tanto por sua distância e por não terem sido escritas, e serem assim passíveis de
alterações e amplificações que uma história, invariavelmente sofre quando contada muitas vezes e por
diferentes povos, ou seja, quando é transmitida de geração a geração pela tradição falada. Estas memórias
geralmente centram-se em volta de alguns grandes nomes, os nomes dos antigos heróis nacionais, dos
primeiros governantes, legisladores e conquistadores da nação, os homens que por seu talento fizeram
uma nação a partir de uma vaga coleção de tribos ou amplas famílias, que deram a ela ordem social e
artes úteis e segurança a seus vizinhos ou, talvez a libertou de estrangeiros opressores. E sua grata
admiração por esses heróis, cujos feitos naturalmente tornaram-se mais e mais maravilhosos a cada
geração que os relatava, o homens não podiam acreditar que eles tivessem sido meros mortais imperfeitos
como eles, mas insistiam em considerá-los como diretamente inspirados pela divindade em alguma das
milhares de formas que tomavam ou como meio divinos em sua própria natureza. A consciência da
imperfeição inerente à humanidade ordinária e os poderes limitados dados a ela, sempre levou essa
explicação das conquistas desses extraordinariamente dotados indivíduos, em qualquer que fosse a linha
de ação que seus dons excepcionais os mostravam. Além disso, se existe algo repugnante para a vaidade
humana em ter que se submeter às ordens de uma razão superior e ao governo de um poder superior
incorporado em meros homens de carne e osso, há por outro lado algo muito lisonjeiro e tranquilizante
em relação a esta mesma vaidade na ideia de ter sido escolhido como objeto de proteção e cuidado das

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

forças divinas; esta ideia em todo o caso leva o ferrão irritante do constrangimento da obediência. Por isso
cada nação insistiu e acreditou piamente na origem divina de seus governantes e na divina instituição de
suas leis e costumes. Uma vez que foi implicitamente admitido que o mundo fervilhava com espíritos e
deuses, que, não contentes em atender a suas esferas e departamentos particulares, iam e vinham ao seu
bel prazer, caminhavam pela terra e interferiam diretamente nos assuntos humanos, não houve razão para
desacreditar qualquer ocorrência, por mais maravilhosa que fosse, desde que tivesse acontecido há muito,
muito tempo. (Ver pág. 108)

3. Assim, nas tradições de cada nação antiga, existe um vasto e nebuloso período de tempo expresso, se
possível, em figuras de magnitude espantosa – centenas de milhares, ou melhor, milhões de anos – entre a
imperfurável melancolia de um passado eterno e a ampla luz do dia da história lembrada, registrada. Lá,
tudo é sombrio, gigante, super-humano. Lá, deuses movem-se obscuros, porém visíveis, envoltos em uma
nuvem dourada de mistério e temor; lá, ao seu lado, assomam-se outras formas, também obscuras, no
entanto mais familiares, humanas porém mais que humanas – os Heróis, Pais das raças, fundadores de
nações, os companheiros, os amados dos deuses e deusas, melhor, seus próprios filhos, eles próprios
mortais, mas com feitos de ousadia e poder como apenas os imortais poderiam inspirar e favorecer, o link
entres estes e humanidade comum – como que o crepúsculo, incerto, inconstante, mas não completamente
irreal veio do tempo é a fronteira ente Céu e Terra, a própria cama quente do mito, ficção e romance.
Pois, dos seus heróis favoritos, as pessoas começaram a contar as mesmas histórias como as de seus
deuses, em formas modificadas, transferidas para seus próprios ambientes e cenários familiares. Para
mostrar uma das mais comuns transformações: se o Deus-Sol travou guerra contra os demônios da
escuridão e os destruiu no céu (ver pág. 96), o herói caçou as feras e bestas na terra, claramente sempre
com vitória. Este tema poderia variar com os poetas nacionais em milhares de maneiras e o tecia em mil
diferentes histórias, que vêm com plena prerrogativa sob a categoria de “mitos”. Assim surgiram muitos
chamados “Mitos Heroicos”, que, por força de serem repetidos, foram colocados em uma certa forma
tradicional, como os bem conhecidos contos de fada de nossos berçários, que são os mesmos em todo
lugar e contados em cada país com poucas mudanças. Assim que a arte da escrita veio a uso geral, estas
histórias favoritas e celebradas pelo tempo, que a massa de pessoas provavelmente ainda recebia como a
verdade literal foram retiradas e, como o trabalho naturalmente era delegado a sacerdotes e clérigos, ou
seja, homens com educação e uma certa habilidade literária, muitas vezes poetas, elas foram finalizadas
no processo, conectadas e remodeladas num todo contínuo. Os mitos separados ou aventuras de um ou
mais heróis em particular, anteriormente citados solidariamente, um pouco à maneira das antigas canções
e baladas, frequentemente tornaram-se tantos capítulos ou livros em um poema longo e bem ordenado, no
qual eles eram apresentados e distribuídos, frequentemente com uma arte perfeita, e contados com grande
beleza poética. Tais poemas, dos quais muitos chegaram a nós, são chamados Poemas Épicos ou
simplesmente Epopeias. Toda a massa de materiais fragmentados de que eles são compostos no curso do
tempo, misturando quase inextricavelmente realidade histórica com ficção mítica, é o Poema Nacional de
uma raça, seu grande tesouro intelectual, a partir do qual toda sua poesia recente e muito de seu
sentimento político e religioso tira seu sustento para sempre. Um povo que não tem um poema nacional é
um desprovido de grandes memórias, incapaz de uma cultura superior e desenvolvimento político e,
nenhuma assim teve lugar entre os povos líderes do mundo. Todas aquelas que ocuparam tal lugar em
qualquer período da história do mundo tiveram suas Épocas Míticas e Heroicas, repletas de maravilhas e
criações fantasiosas.

4. Destes comentários ficará claro que os dois ou três capítulos anteriores estavam tratando o que pode ser
propriamente chamado de Mitos Religiosos ou Cosmogônicos dos Sumério-Acádios e dos Babilônios. O
presente capítulo será dedicado aos seus Mitos Heroicos ou Poemas Míticos, consagrados em uma
Epopeia que foi em grande parte preservada, e que é mais antiga conhecida no mundo, datando
certamente de 2000 anos a.C., provavelmente mais.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

5. Deste poema, os poucos fragmentos que temos de Berosus não contêm indicação. Eles apenas contam
de um grande dilúvio que aconteceu sob a última linha de dez fabulosos reis que dizem ter começado
259.000 anos depois da aparição do divino Homem-Peixe, Oannes, e que reinaram no todo por um
período de 432.000 anos. A descrição sempre incitou grande interesse por sua semelhança àquela dada
pela Bíblia. Berosus conta como Xisuthros, o último dos dez fabulosos reis, teve um sonho no qual a
divindade anunciava para ele que em certo dia todos os homens morreriam em um dilúvio de águas e, o
ordenou a pegar todas as escritas sagradas e enterrá-las em Sippar, a Cidade do Sol e, então construir uma
embarcação, abastecê-la com amplos estoques de comida e bebida e colocar nela sua família e seus mais
queridos amigos e também animais, tanto pássaros como quadrúpedes de todo o tipo. Xisuthros fez como
lhe tinha sido ordenado. Quando a enchente começou a diminuir, no terceiro dia depois que a chuva havia
parado, ele enviou alguns pássaros para ver se eles achariam alguma terra, mas os pássaros, não havendo
encontrado nem comida ou lugar para descansar, retornaram à embarcação. Dias depois, Xisuthros
mandou os pássaros mais uma vez; mas eles voltaram para ele, desta vez com os pés cheios de lama.
Enviados pela terceira vez, eles não voltaram. Xisuthros então soube que a terra foi descoberta; fez uma
abertura no teto da embarcação e viu que estava encalhado no topo de uma montanha. Ele saiu da
embarcação com sua esposa, filha e piloto, construiu um altar e ofereceu um sacrifício aos deuses, para
depois desaparecer junto com esses. Quando seus companheiros saíram para procurá-lo, não o viram, mas
uma voz do céu os informou que ele havia sido levado para entre os deuses para viver para sempre, como
uma recompensa por sua piedade e retidão. A voz continuou e comandou que os sobreviventes voltassem
à Babilônia, desenterrassem as escrituras sagradas e as tornassem conhecidas entre os homens. Eles
obedeceram e, além disso, construíram muitas cidades e restauraram a Babilônia.

6. Por mais interessante que fosse esse relato, foi recebido em segunda mão e, portanto sentiu-se a
necessidade de confirmação e desenvolvimento mais amplo. Além do que, tal como estava, faltava-lhe
todas as indicações que poderiam clarear a importante questão sobre qual das duas tradições – a de
Berosus ou a bíblica – era considerada a mais antiga. Aqui de novo estava George Smith, que teve a sorte
de descobrir a narrativa original (em 1872), enquanto estava engajado em peneirar e classificar os
fragmentos de tábuas no Museu Britânico. Assim aconteceu: [BC] – “Smith encontrou uma metade de
uma tábua de argila amarelo-esbranquiçada, que, ao que parecia, havia sido dividida em três colunas em
cada lado. Na terceira coluna do anverso, ou lado da frente, ele lê as palavras: ‘No monte Nizir, o navio
ficou parado. Então peguei uma pomba e a deixei voar. A pomba voou aqui e acolá, mas, não achando
lugar para descansar, voltou ao navio’. Smith imediatamente soube que havia descoberto um fragmento
da narrativa cuneiforme do Dilúvio. Com incansável perseverança ele foi ao trabalho para pesquisar os
milhares de fragmentos de tábuas assírias amontoadas no Museu Britânico, para mais pedaços. Seus
esforços foram coroados com sucesso. De fato, ele não encontrou um pedaço que completava a meta de
tábua que ele primeiro descobriu, mas encontrou fragmentos de mais duas cópias da narrativa, que
completavam o texto da maneira mais oportuna e forneciam muitas variações importantes dela. Uma
destas duplicatas, que foram remendadas de dezesseis pequenos pedaços (ver ilustração na p. 134), trazia
a inscrição usual na parte inferior: “Propriedade de Asshurbanipal, Rei das tropas, Rei da terra de Assur”,
e continha a informação de que a narrativa do Dilúvio era a décima-primeira tábua de uma série, muitos
fragmentos dela, com a qual Smith já havia se deparado. Com dores infinitas, ele juntou todos esses
fragmentos e descobriu que a história do Dilúvio era apenas um incidente em uma grande Epopeia
Heroica, um poema escrito em doze livros, totalizando cerca de três mil linhas, que celebravam os feitos
do antigo rei de Ereque”.

7. Cada livro ou capítulo naturalmente ocupava uma tábua separada. Todos são de alguma maneira
preservados. Algumas partes, de fato, estão faltando, enquanto muitos estão tão mutilados que causam
sérias lacunas e quebras na narrativa, além disso, a primeira tábua ainda não foi encontrada. Ainda assim,
com todos esses inconvenientes é bem possível construir uma linha inteligível da história toda, enquanto a

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

décima-primeira tábua, devido a várias adições afortunadas que apareceram de tempos em tempos, foi
restaurada quase completamente.

8. A epopeia nos leva de volta ao tempo em que Ereque era a capital da Suméria e, quando a terra estava
sob o domínio dos conquistadores elamitas, não passivamente ou a contento, mas lutando corajosamente
por libertação. Podemos imaginar que a luta tenha sido compartilhada e liderada pelos reis nativos, cuja
memória seria gratamente guardada pelas próximas gerações e, cujas façanhas se tornariam naturalmente
o tema da tradição familiar e das declamações dos poetas. Eis o histórico desnudo campo de trabalho do
poema. É fácil ser distinguido do rico enredo da ficção e da maravilhosa aventura tecidos nele a partir da
ampla base de mitos e lendas nacionais, que se juntaram em torno do nome de um rei-herói, Gisdhubar ou
Izdubar, [BD] de quem se diz ser um nativo da antiga cidade de Marad e descendente direto do último rei
antediluviano, Hâsisadra, o mesmo que Berosus chama de Xisuthros.

9. É lamentável que a primeira tábua e a parte de cima da segunda estejam faltando, pois assim perdemos
a abertura do poema, que provavelmente nos daria valiosas indicações históricas. O que existe da segunda
tábua mostra a cidade de Ereque lamentando sob a tirania dos conquistadores elamitas. Ereque foi
governada pelo divino Dumuzi, o marido da deusa Ishtar. Ele teve uma precoce e trágica morte e foi
sucedido por Ishtar, que não foi capaz, entretanto, de tomar uma posição contra os invasores estrangeiros,
ou, como o texto pitorescamente expressa, “manter a cabeça erguida contra o inimigo”. Izdubar, até agora
conhecido apenas como um poderoso e incansável caçador, morava então em Ereque, onde ele teve um
sonho peculiar. Pareceu a ele que as estrelas do céu caíram e o atingiram nas costas na sua queda,
enquanto sobre ele parou um terrível ser, com um semblante feroz e ameaçador, com garras como de um
leão, esta visão o paralisou de medo.

10. Profundamente impressionado com este sonho, que pareceu a ele predizer estranhas coisas, Izdubar o
enviou para todos os mais famosos videntes e homens sábios, prometendo as mais esplêndidas
recompensas para quem o interpretasse para ele: ele e sua família se tornariam nobres; ele sentaria no
mais alto lugar de honra nas festas reais; ele seria vestido de joias e ouro; ele teria sete lindas esposas e
gozaria de todo tipo de condecoração. Mas não houve nenhum achado de sabedoria igual à tarefa de ler a
visão. Finalmente, ele ouviu sobre um maravilhoso sábio, chamado Êabâni, célebre por “sua sabedoria
em todas as coisas e seu conhecimento de tudo que é visível ou oculto”, mas que morava longe da
humanidade, em um lugar selvagem, em uma caverna, entre as bestas da floresta.

“Com as gazelas ele comia seu alimento à noite, com as bestas do campo ele se
juntava de dia, com os seres vivos das águas seu coração se alegrava.”

Este estranho ser é sempre representado nos cilindros babilônios como o Homem-Touro, com chifres na
cabeça e pé e cauda de um touro. Ele não era muito acessível, nem persuadido a vir a Ereque, apesar de o
Deus-Sol, Shamash, “abriu sua boca e falou a ele do céu”, fazendo a ele grandes promessas em nome de
Izdubar:

“Eles o cobrirão em vestes reais, te farão grande; Izdubar se tornará teu amigo
e o colocará em um luxuoso lugar sentado à sua esquerda; os reis da terra
beijarão teus pés; o fará rico e fará os homens de Ereque manter silêncio diante
de ti.”

O eremita era à prova de ambição e recusou-se a deixar seu lugar selvagem. Então um seguidor de
Izdubar, Zaidu, o caçado, foi enviado para trazê-lo; mas ele retornou sozinho e relatou que, quando ele se

153
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

aproximou da caverna do vidente, ele foi apreendido pelo medo e não entrou, mas arrastou-se de volta,
subindo o íngreme barranco com suas mãos e pés.

75. IZDUBAR E O LEÃO (BAIXO-RELEVO DE KHORSABAD).

(“Caldéia”, de Smith.)

154
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

11. Finalmente, Izdubar pensou em enviar as servas de Ishtar, Shamhatu (“Graça”) e Harimtu
(“Persuasão”) e elas partiram para o lugar selvagem sob a escolta de Zaidu. Shamhatu foi a primeira a se
aproximar do eremita, mas ele não atendeu muito a ela; ele virou-se para sua companheira, e sentou-se
aos seus pés; e quando Harimtu (“Persuasão”) falou, inclinando seu rosto em direção a ele, ele ouviu e foi
atencioso. E ela disse a ele:

“Tu és famoso, Êabâni, como um deus; por que então juntar-se com as coisas
selvagens do deserto? Teu lugar é em meio a Erech, a grande cidade, no templo,
o lugar de Anu e Ishtar, no palácio de Izdubar, o homem de poder, que se eleva
entre os líderes como um touro.” “Ela falou a ele e, diante de suas palavras, a
sabedoria de seu coração fugiu e desapareceu.”

Ele respondeu:

“Eu irei a Ereque, ao templo, o lugar de Anu e Ishtar, ao palácio de Izdubar, o


homem de poder, que se eleva entre os líderes como um touro. Eu o encontrarei
e verei seu poder. Mas levarei a Ereque um leão – deixe Izdubar derrotá-lo se
ele puder. Ele é criado no deserto e tem grande força.”

76. IZDUBAR E O LEÃO. (Museu Britânico.)

155
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Então Zaidu e as duas mulheres voltaram a Ereque, e Êabâni foi com eles, levando seu leão. Os chefes da
cidade os receberam com grandes honras e deram um esplêndido espetáculo em sinal de regozijo.

12. É evidente nesta ocasião que Izdubar conquistou a estima do vidente ao lutar e matar o leão, e depois
disso o herois e o sábio selaram um convênio solene de amizade. Mas a terceira tábua, que contém essa
parte da história, está tão mutilada que deixa muito do conteúdo para suposições, enquanto todos os
detalhes e a interpretação do sonho que é provavelmente dada, estão perdidos. O mesmo é infelizmente o
caso com a quarta e quinta tábuas, das quais podemos apenas inferir que Izdubar e Êabâni, que tornaram-
se inseparáveis, começaram uma expedição contra o tirano elemita Khumbaba, que mantém sua corte em
uma floresta sombria de cedros e ciprestes, entram em seu palácio, caem em cima dele de surpresa e o
matam, deixando seu corpo para ser dilacerado e devorado pelas aves de rápida, depois da façanha
Izdubar, como seu amigo havia previsto para ele, é proclamado rei em Ereque. A sexta tábua está mais
bem preservada e nos dá os mais interessantes incidentes quase completos.

13. Depois da vitória de Izdubar, sua glória e poder eram grandes, e a deusa Ishtar olhou para ele com
benevolência e desejou seu amor.

“Izdubar”, ela diz, “seja meu marido e eu serei tua esposa: comprometa tua
verdade a mim. Tu irás dirigir uma carruagem de ouro e pedras preciosas, teus
dias serão marcados com conquistas; reis, príncipes e senhores ficarão sujeitos
a ti e beijarão teus pés; eles trarão a ti tributo da montanha e do vale, teus
rebanhos e manadas dobrarão de tamanho, tuas mulas serão tropas, e teus bois
fortes sob a junta. Tu não terás rival.”

Mas Izdubar, em seu orgulho, rejeitou o amor da deusa; ele a ofendeu e a insultou por ela ter amado
Dumuzi e outros antes dele. Enorme foi a ira de Ishtar; ela ascendeu ao céu e foi ao seu pai, Anu:

“Meu pai, Izdubar me insultou. Izdubar desdenha minha beleza e despreza meu
amor.”

77. IZDUBAR E ÊABÂNI LUTAM COM O TOURO DE ISHTAR.—IZDUBAR LUTA COM O LEÃO
DE ÊABÂNI (CILINDRO BABILÔNIO).

(“Caldéia”, de Smith.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Ela exigia satisfação, e Anu, a seu pedido, criou um monstruoso touro, que ele mandou contra a cidade de
Ereque. Mas Izdubar e seu amigo foram lutar com o touro, e o mataram. Êabâni pegou seu rabo e seus
chifres e Izdubar deu seu golpe mortal. Eles tiraram o coração de seu corpo e o ofereceram a Shamash.
Então Ishtar subiu o muro da cidade e de lá amaldiçoou Izdubar. Ela juntou suas servas em torno dela e
elas proferiram altas lamentações sobre a morte do touro divino. Mas Izdubar reuniu seu povo e ordenou-
lhes que erguessem o corpo e o levassem para o altar de Shamash e o deitassem diante do deus. Então eles
lavaram suas mãos no Eufrates e retornaram à cidade, onde fizeram uma festa de alegria que entrou pela
noite, enquanto nas ruas uma proclamação ao povo de Ereque foi feita, que começava com as triunfantes
palavras:

“Quem é hábil entre os líderes? Quem é grande entre os homens? Izdubar é


hábil entre os líderes; Izdubar é grande entre os homens.”

78. IZDUBAR E ÊABÂNI (CILINDRO BABILÔNIO).

(Perrot e Chipiez.)

14. Mas a vingança da deusa ofendida não seria facilmente derrotada. Agora recaiu sobre o herói de
maneira mais direta e pessoal. A mãe de Ishtar, a deusa Anatu, feriu Êabâni com uma morte repentina e
Izdubar com uma terrível doença, uma espécie de lepra, parece. Pesaroso por seu amigo, privado de força
e torturado com dores intoleráveis, ele teve visões e sonhos que o oprimiu e o apavorou e, agora não havia
nenhuma voz sábia e familiar para acalmá-lo e aconselhá-lo. Finalmente, ele decidiu consultar seu
antepassado, Hâsisadra, que morava longe, “na foz dos rios”, e era imortal, e perguntar a ele como ele
poderia encontrar cura e força. Ele começou em seu caminho sozinho e veio a um país estranho, onde ele
encontrou seres gigantescos e monstruosos, metade homens, metade escorpiões: seus pés estavam abaixo
da terra, enquanto suas cabeças tocavam os portões do céu; eles eram os guardiões do sol e mantinham
sua guarda ao nascer e ao pôr do sol. Eles diziam um ao outro: “Quem é esse que vem a nós com a marca
da ira divina em seu corpo?” Izdubar fez sua pessoa e recado serem conhecidos por eles; então eles deram
a ele direções para alcançar a terra dos abençoados na foz dos rios, mas o advertiram que o caminho era
longo e cheio de dificuldades. Ele se levantou e de novo e cruzou uma vasta extensão do país, onde não
havia nada além de areia, nenhum campo cultivado; e ele andou e andou, nunca olhando para trás, até
chegar a um lindo bosque perto do mar, onde as árvores continham frutos de esmeralda e outras pedras
preciosas; este bosque era guardado por duas lindas servas, Siduri e Sabitu, mas elas olhavam com
desconfiança para o estranho com a marca dos deuses em seu corpo e fecharam sua habitação para ele.

157
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

79. HOMEM-ESCORPIÃO.

(“Caldéia”, de Smith.)

15. E agora Izdubar estava à beira da praia das Águas da Morte, que são amplas e fundas, e separam a
terra dos vivos daquela dos mortos abençoados e imortais. Aqui ele encontrou o barqueiro Urubêl; para
ele abriu seu coração e falou do amigo que ele amou e perdeu, e Urubêl o aceitou em seu navio. Por um
mês e quinze dias eles navegaram nas Águas da Morte, até alcançarem aquela distante terra na foz dos
rios, onde Izdubar finalmente encontrou seu renomado antepassado cara a cara, e, mesmo enquanto ele
rezava por conselhos e assistência, um muito natural sentimento de curiosidade levou-o a perguntar
“como ele levado vivo para a assembleia dos deuses”. Hâsisadra, com grande complacência, respondeu à
questão de seu descendente e deu a ele um completo relato do Dilúvio e sua participação naquele evento,
e depois contou a ele de que maneira ele poderia se libertar da maldição jogada nele pelos deuses. Então,
virando-se ao barqueiro:

“Urubêl, o homem que tu aqui trouxestes, eis que a doença já cobriu seu corpo e, enfermidade destruiu a
força de seus membros. Leve-o contigo, Urubêl, e o purifique nas águas, que essa doença seja
transformada em beleza, que ele possa jogar fora sua doença e que as águas a levem embora, que a saúde
cubra sua pele, e que o cabelo de sua cabeça seja restaurado e desça flutuando pela sua roupa, que ele
possa seguir seu caminho e retornar a seu país.”

80. OBJETO DE PEDRA ENCONTRADO EM ABU-HABBA (SIPPAR) POR SR. H. RASSAM,


MOSTRANDO, DENTRE OUTROS DESENHOS MÍTICOS, SHAMASH E SEU SENTINELA, O
HOMEM-ESCORPIÃO.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

16. Quando tudo tinha sido feito de acordo com as instruções de Hâsisadra, Izdubar com sua saúde e
vigor restaurados, despediu-se de seu antepassado, e entrando no navio foi mais uma vez levado à praia
dos vivos pelo amigável Urubêl, que o acompanhou por todo o caminho a Ereque. Mas enquanto eles se
aproximavam da cidade, lágrimas rolaram pelo rosto do herói e seu coração pesou pela perda de seu
amigo, e ele mais uma vez levantou sua voz em lamentação por ele:

“Não tomastes nenhuma parte na festa nobre; para a assembleia eles não o chamaram; não levantastes o
arco do chão; o que é atingido pelo arco não é para ti; tua mão não alcança a clava e não bate na presa,
nem estende teus inimigos mortos pela terra. A esposa que amastes não beijastes; a criança que não
odeias não atinges. O poder da terra o engoliu. Ó Escuridão, Escuridão, Mãe Escuridão! Tu o envolveste
como um manto; como um abismo tu o cercaste!”

Assim Izdubar lamentou por seu amigo e foi ao templo de Bel, não parou de lamentar e chorar aos deuses,
até que Êa piedosamente curvou-se a sua oração e enviou seu filho Meridug para trazer o espírito de
Êabâni do escuro mundo das sombras para a terra dos abençoados, para lá viver para sempre entre os
heróis de antigamente, reclinando sobre sofás de luxo e bebendo a pura água das fontes eternas. O poema
termina com uma vívida descrição do funeral de um guerreiro:

“Eu vejo que foi morto em batalha. Seu pai e sua mãe seguram sua cabeça; sua
esposa chora sobre ele; seus amigos estão em volta; sua presa está ao chão
descoberta e despercebida. Os prisioneiros vencidos seguem; a comida
fornecida nas tendas é consumida.”

17. O incidente do Dilúvio, que foi meramente mencionado acima, para não interromper a narrativa por
seu tamanho desproporcional (a décima-primeira tábua sendo a mais bem preservada de todas, é muito
importante para não ser descrita por completo. [BE]

“Eu contarei a ti, Izdubar, como eu fui salvo da enchente”, começa Hâsisadra,
em resposta à questão de seu descendente, “e também vou dar-te o decreto dos
grandes deuses. Tu conheces Surippak, a cidade às margens do Eufrates. Esta
cidade já era muito antiga quando os deuses foram movidos em seus corações a
ordenar o grande dilúvio, todos eles, seu pai Anu, seu conselheiro, o guerreiro
Bel, o portador do trono Ninîb, seu líder Ennugi. O senhor da sabedoria
inescrutável, o deus Êa, estava com eles e transmitiu a mim sua decisão. ‘Ouça’,
ele disse, ‘e cumpra! Homem de Surippak, filho de Ubaratutu, [BF] saia de tua
casa e construa um navio. Eles querem destruir a semente da vida; mas tu a
preserve e traga ao navio sementes de toda forma de vida. O navio que hás de
construir, que seja... em comprimento e... em largura e altura, [B] e cubra-o
também com um convés.’ Quando ouvi isso, falei a Êa, meu senhor: ‘Se eu
construir o navio como tu me mandaste, Ó senhor, o povo e seus anciãos vão rir
de mim.’ Mas Êa abriu sua boca mais uma vez e falou ao seu servo: ‘Homens se
rebelaram contra mim, e eu farei juízo deles, alto e baixo. Mas feche a porta do
navio quando chegar a hora e eu direi sobre isso a você. Então entre no navio e
traga para ele teu estoque de grãos, toda tua propriedade, tua família, teus
servos e servas, também teu parente mais próximo. O gado dos campos, as feras
dos campos, eu enviarei a ti, que eles estarão seguros atrás de tua porta.’ –
Então eu construí o navio e o provi com estoques de comida e bebida; eu dividi
o interior em ... compartimentos. [BG] Eu vi as fendas e as tapei; eu verti
betume sobre seu lado de fora e seu lado de dentro. Tudo que eu possuo eu
trouxe e guardei no navio; tudo o que eu tinha de ouro, de prata, de sementes da
vida de todo tipo; todos os meus servos e servas, o gado dos campos, as feras
dos campos, e também meus amigos mais próximos. Então, quando Shamash
trouxe o tempo designado, uma voz falou comigo: –‘Esta noite os céus choverão

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

destruição, portanto vá ao navio e feche a porta. O tempo designado chegou’,


disse a voz, ‘estava noite os céus choverão destruição’. E temi muito o pôr do sol
daquele dia, o dia em que eu começaria minha viagem. Eu temi muito. Mesmo
assim, eu entrei no navio e fechei a porta atrás de mim, para fechar o navio. E
confiei o grande navio ao piloto, com toda a sua carga. – Então uma grande
nuvem negra veio das profundezas dos céus, e Ramân trovejou em meio a ela,
enquanto Nebo e Nergal encontraram-se, e os portadores de trono andaram
pelas montanhas e vales. O poderoso deus da Pestilência solta os turbilhões;
Ninîb faz os canais transbordarem incessantemente; o Anunnaki traz enchentes
das profundezas da terra, que treme com sua violência. A massa de água de
Ramân sobe até o céu; a luz muda para escuridão. Confusão e devastação
ocupam a terra. Irmão não cuida de irmão, homens não pensam uns nos outros.
Nos céus, os próprios deuses estão com medo; eles procuram refúgio no céu
mais alto de Anu; como um cachorro em sua toca, os deuses rastejam-se pelos
corrimãos do céu. Ishtar chora alto com tristeza: “Vejam, tudo se transformou
em lama, como eu previ aos deuses! Eu profetizei este desastre e o extermínio de
minhas criaturas – os homens. Eu não lhes dei à luz para que eles encham o mar
como uma ninhada de peixes.’ Então os deuses chorar com ela e sentaram-se,
lamentando em um local. Por seis dias e sete noites, vento, enchente e
tempestade reinaram supremos; mas ao amanhecer do sétimo dia a tempestade
diminuiu, as águas, que tinham lutado como um poderoso exército, diminuíram
sua violência; o mar se afastou, e a tempestade e a enchente ambas cessaram.
Eu me dirigi ao mar, lamentado que os lares dos homens foram transformados
em lama. Os cadáveres estavam à deriva como galhos. Abriu um vão, e quando
a luz do dia veio sobre minha face eu estremeci, me sentei e chorei. Fui pelos
países que agora eram um mar terrível. Então um pedaço de terra emergiu das
águas. O navio dirigiu-se para a terra Nizir. A montanha da terra Nizir segurou
firme o navio e não o largou. Assim foi no primeiro e no segundo dias, no
terceiro e no quarto, e também no quinto e sexto dias. Ao amanhecer do sétimo
dia, peguei uma pomba e a soltei para voar. A pomba foi de lá pra cá, mas não
encontrou nenhum lugar para descansar e retornou. Então eu peguei uma
andorinha e a soltei para voar. A andorinha foi de lá pra cá, mas não encontrou
nenhum lugar para descansar e retornou. Então eu peguei um corvo e o soltei
para voar. O corvo foi, e quando viu que as águas haviam diminuído, chegou
perto de novo, cautelosamente vasculhando a água, mas não retornou. Então eu
liberei todos os animais, aos quatro ventos do céu, e ofereci um sacrifício. Ergui
um altar no cume mais alto da montanha, coloquei os vasos sagrados nele, de
sete em sete, e espalhei junco, cedro e erva-doce sob eles. Os deuses sentiram
um cheiro; os deuses sentiram um doce cheiro; como moscas, enxameavam em
volta do sacrifício. E quando a deus Ishtar veio, ela espalhou os cumprimentos
de seu pai Anu: – ‘Pelo colar em meu pescoço’, ela disse, ‘eu devo ficar atenta
nestes dias, nunca devo me esquecer deles! Que todos os deuses venham ao
altar; Bel só não virá, porque ele não controla sua fúria, e trouxe o dilúvio, e
deixou meus homens para a destruição.’Quando depois disso Bel veio e viu o
navio, ele ficou perplexo, e seu coração ficou cheio de ódio contra os deuses e
contra os espíritos do Céu: – “Nenhuma alma escapará’, ele gritou; ‘nenhum
homem sairá vivo da destruição!’ Então o deus Ninîb abriu sua boca e falou,
dirigindo-se ao guerreiro Bel: – ‘Quem senão Êa poderia ter feito isso? Êa
sabia, e o informou de tudo.’ Então Êa abriu sua boca e falou, dirigindo-se ao
guerreiro Bel: – ‘Tu és os poderoso líder dos deuses: mas por que tu agistes
assim imprudentemente e trouxe este dilúvio? Deixe o pecador sofrer pelo seu
pecado e o malfeitor pelos seus erros; mas para que esse homem seja gracioso,
que ele não seja destruído; e incline-se a ele favoravelmente, para que ele seja

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

preservado. E em vez de trazer outro dilúvio, deixe leões e hienas virem e


levarem o número de homens; envie a fome para despovoar a terra; deixe o deus
da Pestilência calar os homens. Eu não transmiti a Hâsisadra a decisão dos
grandes deuses: eu só enviei a ele um sonho, e ele entendeu o aviso.’ – Então
Bel se arrependeu. Ele entrou no navio, pegou na minha mão e me levantou; ele
também levantou minha esposa e colocou a mão dela sobre a minha. Então ele
virou-se para nós, parou entre nós e nos falou sua benção: – ‘Até agora
Hâsisadra era apenas humano: mas agora ele será elevado em igualdade aos
deuses, junto com sua esposa. Ele habitará a terra distante, na foz dos rios.’
Então eles me pegaram e me levaram para a terra distante na foz dos rios.”

18. Assim é a grande Epopeia Caldéia, a descoberta que produziu tão profunda sensação, para não dizer
excitação, não apenas entre os principais acadêmicos, mas no mundo da literatura em geral, enquanto a
importância dela na história da cultura humana não pode ainda ser entendida neste estágio recente de
nossos estudos históricos, mas aparecerá mais e mais claramente enquanto seu curso nos leva a mais
recentes nações e outras terras. Vamos aqui gastar um tempo no poema apenas o suficiente para justificar
e explicar o nome dado a ele no título do capítulo, de “Poema Mítico”.

19. Foi o herói Izdubar puramente um humano, seria uma questão de muito admirar como o pequeno
núcleo de fatos históricos contidos na história de suas aventuras teria se tornado entrelaçado e repleto de
uma quantidade desproporcional da mais extravagante ficção, muitas vezes absolutamente monstruosa em
sua fantasia. Mas a história é bem mais antiga que aquela de qualquer herói humano e diz respeito a uma
muito mais poderosa: é a história do Sol em seu progresso através do ano, refazendo seu caminho de
esplendor crescente enquanto a primavera avança para o verão, a altura do seu poder quando ele alcança o
mês representado no Zodíaco pelo signo de Leão, e então a decadência de sua força enquanto ele
empalidece e enfraquece no outono e, finalmente sua renovação para a juventude e vigor depois de passar
as Águas da Morte – Inverno – a morte do ano, a estação de torpor mortal da natureza, de que o sol não
tem força suficiente para despertá-la, até a primavera voltar e o ciclo começar novamente. Um exame do
calendário acádio, aprovado pelos semitas mais inclinados cientificamente, mostra que os nomes dos
meses e signos pelos quais eles são representados nos mapas das constelações correspondentes do
Zodíaco correspondem diretamente a vários incidentes do poema, seguindo também na mesma ordem que
aquela das respectivas estações do ano – que, nota-se, começa com a primavera, no meio do nosso mês de
março. Se compararmos os meses do calendário com as tábuas do poema descobriremos que eles, quase
sempre, são correspondentes. Como a primeira tábua infelizmente ainda está faltando, não podemos
julgar o quanto pode responder ao nome do primeiro mês – “o Altar de Bel”. Mas o segundo mês, o
chamado “o Touro Propício” ou “Touro Amigável”, corresponde muito bem à segunda tábua que termina
com Izdubar indo ao encontro do vidente Êabâni, metade touro, metade homem, enquanto o nome e signo
do terceiro, “os Gêmeos”, claramente faz alusão ao laço de amizade selado entre os dois heróis, que se
tornaram inseparáveis. Sua vitória sobre o tirano Khumbaba na quinta tábua é simbolizada pelo signo
representando a vitória do Leão sobre o Touro, frequentemente abreviado em um de um Leão sozinho,
um suficientemente interpretado de maneira clara pelo nome de “Mês do Fogo”, tão apropriado para a
estação mais quente e seca, mesmo em climas moderados – Julho-Agosto. O que faz essa interpretação
absolutamente conclusiva é o fato de que no imaginário simbólico de toda a poesia do Leste, o Leão
representa o princípio do calor, do fogo. A sétima tábua, contendo o cortejar do herói pela deusa Ishtar, é
muito claramente reproduzido no nome do mês correspondente, “o Mês da Mensagem de Ishtar”, para
precisar de explicação. O signo, também, é o de uma mulher com um arco, o modo usual de representar a
deusa. O signo do oitavo mês, “o Escorpião”, comemora os gigantes Guardiões do Sol, metade homem,
metade escorpião, que Izdubar encontra quando começa sua jornada para a terra dos mortos. O nono mês
é chamado “o Nebuloso”, certamente um nome para atender Novembro-Dezembro, e de maneira alguma
inconsistente com os conteúdos da nona tábua, que mostra Izdubar navegando as “Águas da Morte”. No

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

décimo mês (Dezembro-Janeiro), o sol atinge seu ponto mais baixo, aquele do solstício de inverno com
seus dias mais curtos, daí o nome “Mês da Caverna do Sol Poente”. A décima tábua conta como Izdubar
alcançou o objetivo de sua jornada, a terra dos ilustres mortos, para onde foi seu grande antepassado. O
décimo-primeiro, “o Mês do Curso da Chuva”, com o signo do Homem-Água – (Janeiro-Fevereiro, nas
terras baixas dos dois grandes rios, eram a época das mais violentas e contínuas chuvas) – corresponde à
décima-primeira tábua, com o relato do Dilúvio. Os “Peixes de Êa” acompanharam o sol no décimo-
segundo mês, o último da estação escura, enquanto ele emerge purificado e revigorado, para recomeçar
seu triunfante caminho com o começo de um novo ano. A partir do contexto e sequência do mito, parece
que o nome do primeiro mês, “o Altar de Bel”, deve ter a ver com a reconciliação do deus após o Dilúvio,
do qual se pode dizer que a humanidade teve um novo começo, que faria do nome um mais propício para
o ano novo, enquanto o signo – um carneiro – pode fazer alusão ao animal sacrificado no altar. Sendo
cada mês colocado sob proteção de alguma divindade específica, é válido de notar que Anu e Bel são os
patronos do primeiro mês, Êa do segundo (em conexão com a sabedoria de Êabâni, que é chamado de “a
criatura de Êa”) enquanto Ishtar preside o sexto (“Mensagem de Ishtar”), e Ramân, o deus da atmosfera,
da chuva e da tempestade e do trovão (“a Maldição da Chuva”).

20. A natureza solar do curso aventureiro atribuído ao herói nacional favorito da Caldéia, agora
universalmente admitido, foi primeiramente apontada pelo Sir Henry Rawlinson: mas foi François
Lenormant que a seguiu e a estabeleceu em detalhes. Suas conclusões sobre o assunto são dadas em uma
linguagem tão clara e convincente, que é um prazer reproduzi-las: [BH] – 1ª. Os caldeus e babilônios
possuíam, em relação aos doze meses do ano, mitos para a maioria pertencentes à uma séries de tradições
anteriores à separação das grandes raças da humanidade que descenderam das terras altas de Pamir, já que
achamos mitos análogos entre os semitas puros e outras nações. O quão primitiva fosse a época em que
eles habitaram as planícies do Tigre e Eufrates, eles conectaram esses mitos com diferentes épocas do
ano, não com vistas às ocupações agrícolas, mas com ligação com os grandes fenômenos periódicos da
atmosfera e das diferentes estações no curso anual do sol, enquanto eles ocorriam naquela região em
particular; daí os signos caracterizando as dozes mansões solares no Zodíaco e os nomes simbólicos
dados aos meses pelos acádios. – 2ª. Foram estes mitos, juntos em sua ordem sucessiva, que serviram
como base para a épica história de Izdubar, o herói ardente e solar e, no poema que foi copiado em
Ereque por ordem de Asshurpanipal, cada um deles foi objeto de uma das doze tábuas, compondo o
número de doze livros ou capítulos separados correspondentes aos doze meses do ano.” – Mesmo que a
evidência esteja aparentemente tão completa para não precisar de confirmação adicional, é curioso notar
que os signos que compõem o nome de Izdubar transmite o significado de “massa de fogo”, enquanto que
o nome acádio de Hâsisadra significa “o sol da vida”, “o sol da manhã”, e o nome de seu pai, Ubaratutu,
é traduzido como “o brilho do pôr-do-sol”.

21. George Smith repudiou indignadamente esta interpretação mítica das façanhas do herói e reivindicou
para eles um rígido caráter histórico. Mas vimos que os dois são de maneira alguma incompatíveis, já que
a história, quando passada através dos séculos pela mera tradição oral, é passível de muitas vicissitudes
no contar e recontar e, as pessoas asseguram-se de organizar suas histórias favoritas e mais familiares, o
significado mítico das quais já se esqueceu há tempos, em torno de um número central de heróis que eles
amam mais, em torno dos mais importantes, porém vagamente lembrados, eventos em sua vida pública.
Por isso foram passadas as mesmas idênticas histórias, com leves variações locais, sobre heróis em
diferentes nações e países; pois o estoque dos mitos originais, ou, como podemos dizer primários, é
comparativamente pequeno e o mesmo para todos, datando de uma época quando a humanidade ainda
não estava dividida. No curso das eras e migrações foi alterado, como um rico manto hereditário, para
caber e adornar muitas e diferentes pessoas.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

22. Um dos mitos solares mais bonitos, antigos e universalmente favoritos é o que representa o Sol como
um ser divino, jovial e de beleza insuperável, amado ou casado com uma deusa igualmente poderosa, mas
prematuramente morto por acidente e descendo para a obscura terra das sombras, da qual, contudo, depois
de um tempo, ele retornou tão glorioso e bonito como antes. Nesta fantasia poética, a terra das sombras
simboliza o período dormente e sem vida do inverno tão apropriadamente quando as Águas da Morte na
Epopeia de Izdubar, ao passo que a aparente morte do jovem deus corresponde ao adoecer do herói na
estação decadente do ano quando os raios do sol perdem seu vigor e são cobertos pelas forças da
escuridão e do frio. A deusa que ama o jovem deus e chora por ele com um sofrimento apaixonado, até
que seus gemidos e orações o tiram de seu transe parecido com a morte, é a própria Natureza, amável,
caridosa, sempre produtiva, mas pálida, desprotegida, e sem forças em sua viuvez, enquanto o deus-sol, a
primavera da vida de onde ela extrai sua própria essência, deita aprisionado nas amarras de seu inimigo
comum, o cruel Inverno, que é uma forma da Morte. Sua reunião na ressurreição do deus na primavera é
o grande banquete de casamento, a festa e o feriado do mundo.

23. Este simples e perfeitamente transparente mito foi trabalhado mais ou menos em todos os países do
Leste e, encontrou seu caminho de uma forma ou outra em todas as nações das três grandes raças brancas
– Jafé, Sem e Cão – ainda assim aqui a precedência no tempo parece ser devida à mais velha e mais
primitiva raça – a Amarela ou Turaniana; pois a mais antiga e provavelmente original forma dele é a
herdada pelos habitantes semitas da Caldéia pelos seus predecessores sumério-acádios, como mostrado
pelo nome acádio do jovem deus solar, Dumuzi, “o afortunado marido da deusa Ishtar”, como ele era
chamado na sexta tábua da epopeia de Izdubar. O nome foi traduzido para “Filho Divino”, mas tempos
depois perdeu seu significado, sendo corrompido para Tammuz. Em alguns hinos acádios ele é invocado
como “o Pastor, o senhor Dumuzi, o amantes de Ishtar”. Bem pôde um povo nômade e pastoral ter
comparado o sol a um pastor, cujos rebanhos eram as macias nuvens enquanto elas corriam pelas vastas
planícies do céu ou as brilhantes, inúmeras estrelas. Essa comparação, tão bonita como quanto natural, foi
mantida em todas as épocas na imaginação popular, que provocou sobre ela uma infinita variedade de
engenhosas mudanças, mas é somente a ciência cuneiforme que provou que pode ser rastreada até a raça
mais antiga, cuja cultura deixou sua marca no mundo.

24. Da trágica morte de Dumuzi nenhum texto decifrado até agora infelizmente dá os detalhes. Apenas o
notável fragmento sobre pinheiro negro de Eridhu, “marcando o centro da terra, na floresta negra, no
coração da qual o homem não penetrou”, (ver pág. 158) termina com estas sugestivas palavras: “Dentro
dele Dumuzi...” Acadêmicos encontraram razão para supor que este fragmento era o começo de uma
narrativa mítica recontando a morte de Dumuzi, que deve ter sido representada como tendo acontecido na
escura e sagrada floresta de Eridhu – provavelmente pela ação de uma besta selvagem enviada contra ele
por uma força invejosa e hostil, assim como o touro criado por Anu foi mandado contra Izdubar.[BI] Uma
coisa, contudo, é certa, que tanto no calendário da antiga Caldéia (Turaniano) como da recente Caldéia
(Semita) havia um mês separado em honra e para a festa de Dumuzi. Era o mês de Junho-Julho, começo
do solstício de verão, quando os dias começam a encurtar e o sol a declinar em direção ao seu ponto mais
baixo do inverno – um movimento retrógrado, engenhosamente indicado pelo signo zodiacal daquele
mês, o Câncer ou Caranguejo. O festival de Dumuzi durou pelos seis primeiros dias do mês, com
procissões e cerimônias suportando dois diferentes personagens. Os adoradores primeiramente juntaram-
se em forma de enlutados, com lamentações e prantos altos, rasgando roupas e cabelo, como celebrando o
funeral do jovem deus, ao passo que no sexto dia sua ressurreição e reunião com Ishtar foi comemorada
com as mais barulhentas e extravagantes demonstrações de alegria. Esse costume faz alusão à resposta
desdenhosa de Izdubar à mensagem de amor de Ishtar, quando ele diz a ela: “Tu amaste Dumuzi, por
quem eles choram ano após ano” e foi testemunhado pelos judeus quando eles levaram prisioneiros para a
Babilônia tão recentemente quanto 600 a.C., como mencionado expressamente por Ezequiel, o profeta do
Cativeiro: - “Então ele me trouxe à porta da casa do Senhor que era em direção ao norte; e, vejam, lá
sentava a mulher chorando por Tammuz.” (Ezequiel, iii. 14.)

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

25. Uma versão favorita da ressurreição de Dumuzi era aquela que contava como a própria Ishtar o seguiu
pelo Mundo Baixo, para falar a ele de seu inimigo comum e, assim rendeu-se por um tempo ao poder de
seu rival, a terrível Rainha dos Mortos, que a aprisionou e não a libertaria a sem a direta interferência dos
grandes deuses. Esta era uma rica mina de material épico, da qual canções e histórias devem ter fluído
abundantemente. Temos sorte bastante por possuir uma epopeia curta sobre o assunto em uma tábua, uma
das principais joias das incansáveis descobertas de George Smith – um poema de grande beleza literária e
quase completo dentro de algumas linhas do final, que estão bem prejudicadas e bem ilegíveis. É
conhecida sob o nome de “A Queda de Ishtar”, pois relata este único incidente do mito. As linhas iniciais
são inigualáveis por sua esplêndida poesia e grandeza sombria em qualquer literatura, mesmo na mais
avançada.

26. “Rumo à terra de onde não há retorno, rumo à casa da corrupção, Ishtar, a
filha do Pecado, mudou de ideia... rumo à morada que possui uma entrada, mas
não uma saída, rumo à estrada que pode ser viajada, mas não retraçada, em
direção ao salão do qual a luz do dia é apagada, onde a fome se alimenta de pó
e lama, onde a luz nunca é vista, onde as sombras da morte habitam na
escuridão, vestidas com asas, como pássaros. Na verga do portão e na
fechadura há pó acumulado. – Ishtar, quando chegou à terra de onde não há
retorno, para o guarda do portão significava seu comando: ‘Guarda, abra teu
portão para que eu passe. Se não abrires e eu não entrar, eu vou bater no portão
e quebrar a fechadura, eu demolirei a soleira e entrarei à força; então libertarei
os mortos para voltarem para a terra, para que possam viver e comer de novo;
eu farei os mortos ressuscitados mais numerosos que os vivos.’ O guarda do
portão abriu sua boca e falou: –‘Acalme-se, ó Senhora, e deixe-me comunicar
seu nome a Allat, a Rainha.’”

Aqui seguem-se algumas linhas prejudicadas e o sentido delas não podia ser restaurado na sua totalidade.
O conteúdo é que o guarda anuncia a Allat que sua irmã Ishtar veio pela Água da Vida, que é mantida
escondida em um canto de seus domínios e Allat está muito perturbada com as notícias. Mas Ishtar
anuncia que ela vem pela tristeza, não pela inimizade:

“Eu desejo chorar pelos heróis que deixaram suas esposas. Eu desejo chorar
pelas esposas que foram tiradas dos braços de seus maridos. Eu desejo chorar
pelo Filho Únco – (um nome para Dumuzi) – que foi levado antes de sua hora.”

Então Allat ordena ao guarda que abra os portões e leve Ishtar pela clausura sétupla, lidando com ela
igual lida com todos que vêm àqueles portões, ou seja, despindo-a de suas roupas de acordo com o antigo
costume.

“O guarda abriu o portão: ‘Entre, ó Senhora, e que os salões da terra de onde


não há retorno sejam alegrados com tua presença.’ No primeiro portão ele a
mandou entrar e colocou sua mão sobre ela; ele pegou o cocar do alto de sua
cabeça: “Por que, ó guarda, pegaste o alto cocar da minha cabeça?’ – ‘Entre, ó
Senhora; é uma ordem Allat.’”

A mesma cena é repetida em cada um dos sete portões; o guarda, em cada um, tira algum artigo do
vestuário de Ishtar – seus brincos, seu colar, seu cinto de joias, os braceletes em seus braços e as
tornozeleiras e, finalmente, seu longo vestido esvoaçante. Em cada ocasião as mesmas palavras eram
repetidas pelos dois. Quando Ishtar entrou na presença de Allat, a rainha olhou para ela e a insultou cara a
cara: então Ishtar não pôde controlar sua raiva e a amaldiçoou. Allat se dirigiu ao seu ministro-chefe
Namtar, o deus da Pestilência – servo da rainha dos mortos! – que é também o deus do Destino, e
ordenou a ele que levasse Ishtar embora e a afligisse com sessenta doenças terríveis – para atacar sua

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

cabeça e seu coração e seus olhos, suas mãos e seus pés e todos os seus membros. Então a deusa foi
levada embora e mantida em cativeiro e em sofrimento. Enquanto isso, sua ausência foi sentida com as
mais desastrosas consequências para o mundo superior. Com ela, a vida e o amor haviam saído dele; não
existiam mais casamentos, nascimentos, tanto entre homens como entre os animais; a natureza estava
paralisada. Grande foi a comoção entre os deuses. Eles mandaram um mensageiro a Êa para expor o
estado das coisas para ele, e, como de costume, invocar seus conselhos e assistência. Êa, em sua
sabedoria impenetrável, montou um esquema. Ele criou um fantasma, Uddusunamir.

“‘Vá’, ele disse; ‘em direção à terra de onde não há retorno dirija sua face; os
sete portões de Arallu abrirão diante de ti. Allat te verá e se alegrará com sua
ida, seu coração se acalmará e sua ira desaparecerá. Invoque-a com os nomes
dos grandes deuses, endureça seu pescoço e mantenha sua mente na Fonte da
Vida. Deixe que a Senhora (Ishtar) acesse a Fonte da Vida e beba de suas
águas.’ – Allat, quando ouviu essas coisas, bateu no peito e mordeu seus dedos
com raiva. Consentindo, ferida contra sua vontade, ela falou: - ‘Vá,
Uddusunamir! Que o grande carcereiro o deixe em sofrimento. Que a sujeira
das valas da vida sejam tua comida, as águas dos esgotos da cidade, tua
comida! Um calabouço escuro seja tua morada, um mastro afiado seja seu
assento!’”

Então ela ordenou a Namtar a deixar Ishtar beber da Fonte da Vida e se nutrisse de sua vista. Namtar
cumpriu seu comando e levou a deusa pelos sete recintos, em cada um devolvendo a ela o artigo de seu
vestuário que foi tomado na entrada. No último portão ele disse a ela:

“Tu não pagaste nenhum resgate a Allat por tua libertação; então agora retorne
a Dumuzi, o amante de tua juventude; borrife sobre ele as águas sagradas, vista-
o com trajes esplêndidos, adorne-o com joias.”

26. As últimas linhas estão tão prejudicadas que nenhum esforço foi aproveitado para fazer sentido senão
obscuramente e, assim deve permanecer, a não ser que novas cópias venham apareçam. Ainda assim é,
em todo o caso, evidente que eles traziam a reunião de Ishtar e seu jovem amante. O poema é assim
completo em si mesmo; mas alguns podem pensar que foi introduzido na epopeia de Izdubar como um
episódio independente, depois da feitura da narrativa do Dilúvio, e, se sim, supõe-se ter sido parte da
sétima tábua. Se isso era realmente o caso ou não, pouco importa em comparação com a grande
importância que esses dois poemas possuem sendo as mais antigas apresentações, em um modelo literário
finalizado, de dois dos mais significantes e universais mitos da natureza – o Solar e o Ctônico (ver pág.
136 e 137), as fantasias poéticas com que a humanidade primitiva cobriu as maravilhas dos céus e o
mistério da terra, contente em admirar e imaginar o que não poderiam compreender e explicar. Seremos
levados continuamente a estes, na realidade, mitos primários, pois eles não apenas serviram como base
para a muitas das mais belas poesias do mundo, mas sugeriram algumas de suas mais sublimes e mais
queridas concepções religiosas.

[* Para uma versão métrica do Prof. Dyer da história da “Queda de Ishtar”, ver Apêndice, p. 367.]

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

NOTAS DE RODAPÉ:

[BC] Paul Haupt, "Der Keilinschriftliche Sündfluthbericht," 1881.

[BD] Existem dificuldades na maneira de ler este nome, e acadêmicos não têm certeza que esta é a
pronúncia correta dele; mas eles o mantêm, até que alguma nova descoberta ajude a resolver a questão.

[BE] Traduzido da versão germânica de Paul Haupt, "Der Keilinschriftliche Sündfluthbericht."

[BF] O nono rei na fabulosa lista de dez.

[BG] Os números infelizmente apagados.

[BH] "Les Premières Civilisations," Vol. II., pp. 78 ff.

[BI] A. H. Sayce, "Babylonian Literature," p. 39; Fr. Lenormant, "Il Mito di Adone-Tammuz," pp. 12-13.

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

VIII.

RELIGIÃO E MITOLOGIA. – IDOLATRIA E ANTROPOMORFISMO. – AS LENDAS CALDÉIAS E


O LIVRO DO GÊNESIS. – RETROPECTO.

1. Falando sobre nações antigas, as palavras “Religião” e “Mitologia” são geralmente usadas de forma
indiscriminada e outro significado. Ainda assim, a concepção que elas expressão são essencialmente e
radicalmente diferentes. A maior diferença, e da qual as outras fluem, é que uma – Religião – é um coisa
dos sentimentos, enquanto a outra – Mitologia – é uma coisa da imaginação. Em outras palavras, Religião
vem de dentro – da consciência do poder limitado, da necessidade inata de ajuda e direção superior,
indulgência e perdão, do desejo por santidade e perfeição absoluta, que faz o distinto atributo humano da
“religiosidade”, aquela atributo que, junto com a faculdade mental do discurso articulado, coloca os
homens acima do resto das criações animadas (ver pág. 86). Mitologia, na contramão, vem totalmente de
fora. Ela incorpora impressões recebidas pelos sentidos do mundo exterior e transformadas pela faculdade
mental poética em imagens e histórias. (Ver a definição de “Mito” na pág. 150). O Professor Max Müller
de Oxford havia sido o primeiro, no seu trabalho padrão “A Ciência da Linguagem”, a definir claramente
essa diferença radical entre as duas concepções, que, desde então, ele nunca cessou de soar como um
tema central durante a longa série de seus trabalhos dedicados ao estudo das religiões e mitologias de
várias nações. Algumas ilustrações de uma nação com a qual nós havíamos ainda nos tornado familiares
irá nos ajudar de uma vez por todas a estabelecer um entendimento completo nesse ponto, muito essencial
que elas são para a compreensão dos trabalhos da mente e alma humana ao longo da grande lista de lutas,
erros e triunfos, conquistas e falhas que nós chamamos de história da humanidade.

2. Não existe nenhuma necessidade de repetir aqui os exemplos dos mitos sumério-acádios e caldeus; os
três ou quatro últimos capítulos estão cheios deles. Mas os exemplos de sentimento religioso, apesar de
espalhado no mesmo campo, não foram cuidadosamente compilados e exibidos, porque eles pertencem à
mesma contracorrente da alma que persegue seu caminho sem obstruções e é frequentemente
aparentemente perdido entre as brilhantes obras de luxúrias poéticas. Mas esta lá apesar disso e, de vez
em quando se força para a superfície brilhando adiante com uma pureza e beleza surpreendente. Quando o
poeta acadiano invoca o Senhor “que conhece a mentira da verdade”, “que sabe que a verdade está na
alma do homem”, quem “fez as mentiras para desaparecer”, quem “tornou assuntos malvados em
questões felizes” – isso é religião, não mitologia, porque isso não é uma história, é a expressão de um
sentimento. O fato de que “o Senhor”, cuja onisciência divina e bondade são assim glorificadas, é
realmente o Sol, não faz diferença; isso é um erro de juízo, uma necessidade de conhecimento, mas o
sentimento religioso é esplendidamente manifestado na invocação. Mas quando, no mesmo hino, o sol é
descrito como “dando um passo a frente do fundo dos céus, empurrando para trás os raios e abrindo o
portão do brilhante céu, e levantando sua cabeça sobre a terra”, etc. (ver pág. 96), isso é apenas uma
descrição muito bonita e imaginativa de um fenômeno natural glorioso – o nascer do sol; isso é poesia
magnífica, religiosa como o sol é considerado um Ser, uma Pessoa Divina, o objeto se um sentimento
intensamente devoto e agradecido; ainda assim isso não é religião, é mitologia, porque apresenta uma
imagem material da mente, e uma que pode ser facilmente transformada em narrativa, uma história, - da
qual, de fato, sugere um herói, um rei, e uma história. Tome de novo os chamados “Salmos Penitenciais”.
Para o exemplo dado na pg. 98, podemos adicionar, para maior compreensão, os três fragmentos notáveis
a seguir:

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

I. “Deus, meu criador, segure os meus braços! Controle a respiração da minha


boca, minhas mãos controle, Ó senhor da luz.”

II. “Senhor, não deixe o teu servente afundar! Entre às águas tumultuosas,
segure a sua mão!”

III. “Aquele que não teme o seu Deus, será cortado mesmo como uma haste.
Aquele que não honra a sua deusa, sua força mortal irá ser desperdiçada; como
para uma estrela do céu, seu esplendor irá empalidecer; ele irá desaparecer
como para as águas da noite”.

3. Tudo isso é religião, do mais puro e eminente tipo; fértil, também, de bondade, o único teste real da
religião verdadeira. A profunda humildade, o apelo confiável, o sentimento de dependência, a consciência
de fraqueza, de pecado, e o desejo de salvação por eles – tudo isso é muito diferente das pomposas frases
de louvor vazio e admiração estéril; elas são coisas que fluem do coração, não da fantasia, que diminuem
seu peso de tristeza e auto-censura, a abrilhantam com esperança e boas resoluções, em resumo, o fazem
mais feliz e melhor – o que nenhuma mera poesia imaginativa, o quão boa seja, pode fazer.

4. A distinção radical, então, entre sentimento religioso e faculdade mental poética da criação mítica, é
fácil de ser estabelecer e entendida. Ao contrário, os dois são constantemente misturados, então quase
inextricavelmente entretecem na sagrada poesia dos antigos, nas suas visões de vida e do mundo, e em
sua adoração, que não é nenhum espanto de que eles deveriam ser geralmente confusos. A maneira mais
correta de colocar o caso seria, talvez, dizer que as antigas Religiões – sendo todo o corpo das sagradas
poesias e lendas assim como as formas nacionais de adoração – foram originalmente feitas em partes
iguais de sentimento religioso e de mitologia. Em muitos casos, a exuberância da imaginação ganhava a
mão superior, e existia um crescimento tumultuado de imagens e histórias míticas que o sentimento
religioso foi quase sufocado sob ele. Em outros, então, os próprios mitos sugeriam ideias religiosas de
significado profundo e sublimidade eminente. Isso era particularmente o caso com os mitos solar e
Ctônico – as apresentações poéticas da carreira do Sol e da Terra – como conectados com a doutrina da
imortalidade da alma.

5. Uma observação curiosa e significante foi feita na escavação do túmulo mais antigo do mundo, os
pertencentes aos chamados construtores de montes. Esse nome não pertence a nenhuma raça ou nação em
particular, mas é dado indiscriminadamente a todas aquelas pessoas que viveram, em qualquer parte do
globo, muito antes dos primeiros começos dos tempos mais remotos, e que viraram históricos por
monumentos e inscrições preservadas de qualquer tipo. Tudo o que sabemos sobre essas pessoas é que
eles costumavam a enterrar seus mortos – pelo menos as de renome especial ou de alto posto – em
câmeras muito profundas e espaçosas feitas de pedra cavadas no chão, com uma galeria parecida levando
a elas, e coberta por uma pilha de terra, às vezes de dimensões gigantescas – uma montanha. Portanto o
nome. Sobre sua vida, seu grau de civilização, o que eles pensavam e acreditavam, nós não temos a
menor ideia exceto sobre o que os conteúdos de seus túmulos, que nos dão algumas indicações. Isso
porque, assim como as raças históricas que vieram depois, das quais achamos os túmulos na Caldéia e em
todas as outras regiões do mundo antigo, eles costumavam a enterrar com os mortos um monte de coisas:
vasos, com comidas e bebidas; armas, ornamentos, utensílios domésticos. Quanto maior o poder ou o
renome do falecido, mais completa e mais luxuosa era a sua roupa funerária. Com certeza não é raro
encontrar o esqueleto de um grande chefe rodeado do esqueleto de várias mulheres, e, a uma distância
respeitável, mais esqueletos – evidentemente de escravos – cujos crânios fraturados sugerem o
horripilante costume de matar as esposas e os serventes para honrar o morto ilustre e mantê-lo na
companhia em sua estreita mansão subterrânea. Nada além da crença na continuação da existência após a

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

morte poderia ter incentivado essas práticas. Qual seria o sentido em dá-los esposas e escravos, e artigos
domésticos de todos os tipos, comida e armas, a não ser prestassem a seu serviço e uso em sua jornada na
terra desconhecida onde ele entraria em um novo estágio de sua existência, nas suas condições e
necessidades mais simples, da que ele estava deixando? Não existe nenhuma raça de homens, embora
primitiva, embora não educada, na qual a crença de imortalidade não é achada profundamente enraizada,
inquestionável. A crença é implantada pelo homem pelo desejo; ele responde um dos mais um dos desejos
mais imperativos e não silenciáveis da natureza humana. Isso porque, em proporção como a vida é
agradável e preciosa, a morte é horrível e repelente. A ideia de destruição total, de cessar de existir, é
intolerável para a mente; com certeza, os sentidos se revoltam contra isso, a mente se recusa a captar e
admitir essa ideia. Ainda assim, a morte é muito real e inevitável; e todos os seres humanos que nascem
nesse mundo aprendem essa ideia, e a realidade dela também, em outros antes que eles aceitem para si
mesmos. Mas e se a morte não for destruição? Contudo, e se a morte for uma passagem desse mundo para
outro - um mundo distante, desconhecido e necessariamente misterioso, mas certamente, apesar disso, um
mundo na borda de onde o corpo terrestre é derrubado como uma vestimenta desnecessária? Então a
morte estava nua de metade de seus terrores. Com certeza, a única coisa desagradável sobre isso seria,
para aquele que se vai, a aflição momentânea e a incerteza sobre o que a morte irá fazer; e, para aqueles
que permanecem, a separação e os detalhes repulsivos – a desfiguração, a corrupção. Mas esses são logo
superados, enquanto a separação é apenas por um tempo; porque tudo deve ir do mesmo jeito, e os
últimos a chegar encontrarão, irão se juntar aos que se foram antes. Certamente deve ser isso! Era muito
horrível se não fosse isso; deve ser – é isso! O processo de sentimento que chegou a essa conclusão e a
amadureceu em fé absoluta é muito simples, e nós podemos facilmente, cada um de nós, reproduzi-lo em
nossas próprias almas, independente dos ensinamentos que recebemos na infância. Mas a mente é
naturalmente indagável, e involuntariamente a questão se apresenta: essa solução, tão bonita, tão
aceitável, tão universal - mas tão abstrata – o que ela sugeria? Que analogia levou primeiramente a isso,
do mundo material dos sentidos? Para essa questão, achamos nenhuma resposta em muitas palavras,
porque é uma delas que vão às raízes da nossa própria existência, e normalmente permanecem não
respondidas. Mas os túmulos cavados pelos antigos construtores de montes apresentam uma característica
muito peculiar, que quase parece apontar à resposta. O inquilino da câmara funerária é mais
frequentemente achado em uma posição agachada, com suas costas apoiadas sobre a parede de pedra, e
com o seu rosto virado ao Oeste, na direção do sol poente... Aqui, então, é a sugestão, a analogia! A
jornada do sol é muito parecida a do homem. Sua ascensão no Leste é como o nascimento do homem.
Durante as horas de seu poder, que chamamos de “o Dia”, ele faz o seu designado trabalho, de dar luz e
calor ao mundo, às vezes seguindo radiante e triunfante no céu azul, às vezes obscuro por nuvens,
debatendo-se contra a neblina ou sufocado por tempestades. As quão parecidas são as vicissitudes que
completam os grandes números de horas – ou dias – cuja soma faz uma vida humana! Então quando seu
tempo designado expira, ele afoga-se – fundo, fundo – e desaparece na escuridão - morre. Também faz o
homem. O que é essa noite, morte? É destruição ou somente um descanso ou uma abstinência? Isso não é,
em todos os casos, destruição. Já que, com a certeza que vemos o sol desaparecer no oeste à noite, fraco e
sem raios, tão certamente devemos contemplá-lo na manhã seguinte ao nascer novamente no leste,
glorioso, vigoroso e jovem. O que acontece com ele no nesse intervalo? Quem sabe? Talvez ele durma,
talvez ele viaje através pelas regiões que desconhecemos e faz outro trabalho lá; mas uma coisa é certe:
ele não está morto, porque ele estará de pé novamente amanhã. Por que não deveria o homem, cuja
jornada assemelha-se muito a do sol em outros aspectos, assemelhar-se dele nessa questão? Deixe os
mortos, então, serem colocados com seus rostos virados ao oeste, em símbolo de que eles são como o sol
poente, a ser seguido por outro nascente, uma existência renovada, apesar de em outro e desconhecido
mundo.

6. Tudo isso é absoluta poesia e mitologia. Mas o quão grande é a sua beleza, o quão óbvias são suas
esperançosas sugestões, se pudesse ser atrativo às mentes apalpáveis daqueles homens primitivos, os
antigos construtores de montes e lá, plantar a semente da fé que tem cada vez mais apegada, enquanto a
humanidade evoluía em cultura espiritual! Isso porque todas as mais nobres raças gostavam e

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

trabalhavam o mito do sol poente em diversos modos, como um símbolo da imortalidade da alma. Os
poetas da antiga Índia, há cerca de 3000 anos, fizeram do Sol o líder e rei dos mortos, que, como eles
disseram, o seguiam por onde ele ia, “mostrando o caminho a muitos”. Os egípcios, talvez a mais sábia e
mais espiritual de todas as nações antigas, vieram a fazer deste mito a chave de toda a sua religião e
colocaram todos os seus cemitérios no oeste, no meio e além das cordilheiras de montes libaneses, atrás
das quais o sol desaparecia dos olhos daqueles que habitavam o vale do Nilo. Os gregos imaginavam uma
residência feliz para os seus mais corajosos e mais sábios, a qual eles chamavam de “as Ilhas dos
Abençoados” e, os colocavam no oeste mais longínquo, em meio às águas do oceano nas quais o sol
descende para o seu descanso noturno.

7. Mas o trajeto do sol é duplicado. Se for completo – começo e fim – dentro do determinado número de
horas que compõe o dia, é repetido em uma larga escala pelo ciclo de meses que compõe o ano. As
alternações de juventude e idade, triunfo e declínio, poder e fraqueza, são lá representadas e são
regularmente trazidas por diferentes razões. Mas a moral, a simbologia, ainda é a mesma a respeito da
imortalidade final. Já que se o verão corresponde ao auge do meio-dia; o outono ao brilhar ameno e a
extinção do final da tarde; e, o inverno a tristeza sombria da noite, como a manhã, sempre traz de volta o
deus, o herói, no perfeito esplendor de um ressurreição gloriosa. Foi o mito do “ano solar”, com o seu
acompanhamento magnífico de pompa astronômica, que tomou a maior parte na luxúria dos caldeus
cientificamente inclinados, e que achamos incorporado com uma integridade admirável e épica. Nós
iremos ver, mais tarde, raças mais exclusivamente imaginativas e poéticas mostrando uma preferência
marcada pela carreia do sol como o herói do dia e, fazendo dos vários incidentes do mito do “ano solar” o
principal assunto de uma variedade infinita de histórias, brilhantes ou patéticas, meigas ou heroicas. Mas
existe na natureza outra ordem de fenômenos, intimamente conectados e dependentes das fases do sol,
isso é a estação, ainda assim muito diferentes em seus caráteres individuais, embora apontando para a
mesma direção a respeito da sugestão da ressurreição e imortalidade – os fenômenos da Terra e da
Semente. Isso pode ser descrido, de uma maneira mais geral, como o poder produtivo da natureza
paralisado durante a transe dormente do inverno, que é como o sono da morte, quando a semente deita no
chão escondida da visão e do frio, até como uma coisa morta, mas acordando para um nova vida na boa
hora da primavera, quando a semente, na qual a vida nunca esteve extinta, mas apenas dormente, estoura
seus laços e vira uma colheita verdejante amável e abundante. Essa é a essência e o significado do mito
ctônico ou mito da terra, tão universal quanto o mito do sol, com características diferentes que também
foram unicamente desenvolvidas por diferentes raças, de acordo com as suas tendências individuais. Na
versão caldeia, os “descendentes de Ishtar”, o incidente peculiar da semente é realmente deficiente, a não
ser pelo nome do mês de Dumuzi, “A Dádiva da Semente” (“Le Bienfait de la Semence, Lenormant), que
pode ser considerado como alusivo a ele. É a sua noiva, jovem e justa, a bela Deusa-sol, da qual a viúva
deusa natureza lamenta e descende para procurar entre os mortos. Esse aspecto do mito é quase que
exclusivamente desenvolvido pelas religiões das nações cananeias e semíticas do leste, em sua maioria, as
quais devemos frequentemente encontrar por lá. E aqui pode ser observado, sem muita divagação ou
antecipação, que por todo o mundo antigo, os ciclos de mitos solares e ctônicos foram o mais universal e
importante, o próprio foco e base de muitas das antigas religiões míticas e, usou como veículos para mais
ou menos conceitos religiosos sublimes, de acordo com o maior ou menos nível espiritual nas nações
adoradoras.

8. Deve ser confessado que, ente as nações da Ásia ocidental, esse nível era, ao todo, não muito elevado.
Ambas as raças camitas e semíticas eram, de regra, de uma disposição naturalmente sensual; o padrão
sendo, mais ou menos, distinguido por uma virada de mente decididamente material. Os cuxitas, dos
quais uma seção talvez tenha formado uma importante porção da população mista da Baixa Mesopotâmia,
e especialmente os cananeus, que se espalharam por toda a região entre os grandes rios e o mar ocidental
– o mediterrâneo - não eram exceção a essa regra. Se os padres – seus pensadores professados, os homens
treinados por gerações para buscas intelectuais – tinham feito seu caminho a percepção do Único Poder

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Divino governando o mundo, eles mantinham para si próprios ou, pelo menos, fora de vista, atrás de um
complicado conjunto de mitos cosmogônicos, mitos da natureza, símbolos e parábolas, resultando na
Caldeia no sistema altamente artificial que foi esboçado acima – (ver capítulos V. e VI) – um sistema
singularmente bonito e profundamente significante, mas do qual a massa de pessoas não se importou em
revelar as sutis complicações, sendo muito contentes em aceitar o seu todo, no espírito mais literal, deuses
da natureza elementares, abstrações astronômicas, fábulas cosmogônicas e tudo – questionando nada, em
paz com suas mentes e conscientes se eles sacrificassem os vários santuários honrados e conformados
com as formas e cerimônias prescritas. Eles particularmente adicionavam a isso aquelas inúmeras praticas
de magia e ritos de feitiçaria, os bens de família dos antigos senhores da terra, que vemos as faculdades de
sacerdotes forçadas, como estranhos e comparativos recém-chegados, para tolerar e até sancionar por
dando a eles um lugar, apesar de inferior, no seu próprio sistema nobre (ver pág. 126). Apesar disso, se
um lampejo de Verdade debilmente iluminasse o santuário e seus ministros imediatos, grande parte da
população habitou a escuridão desesperada do politeísmo e, ainda pior, da idolatria. Isso porque,
reverenciando-se sob os altares dos seus tempos e imagens em madeira, pedra ou metal, na qual a arte
batalhou para expressar o que as escritas sagradas ensinavam, os adoradores desinformados não paravam
para considerar que essas eram peças de mão de obra humana, derivando sua santidade unicamente dos
temas que eles tratavam e do lugar que eles decoravam e, também não se esforçavam para manter a
intenção dos seus pensamentos nos seres invisíveis representados pelas imagens. Era muito mais simples,
fácil e confortável endereçar sua adoração ao que era visível e próximo, às formas que eram de próximo
alcance dos seus sentidos, que pareciam tão diretamente receber suas oferendas e rezas, que se tornaram
tão queridas e familiares de grandes associações. A maioria da nação caldeia permaneceu por muito
tempo turaniana, e a materialidade bruta da religião original Sumero-Acadiana fortemente adotou suas
tendências idólatras. A antiga crença em virtudes de amuletos de todas as imagens (ver pág. 162)
continuou a se afirmar, e foi facilmente transferida para aquelas que representavam as divindades de
adoração mais recentes e mais elaboradas. Alguma parte da substância divina ou espírito foi suposta, de
algum modo, a passar para a representação material e residir nelas. Isso é muito claro pela maneira como
as inscrições falam das estátuas de deuses: como se elas fossem pessoas. O famoso cilindro do
conquistador assírio Assurbanipal nos conta como ele trouxe de volta “a deusa Nana” (ou seja, sua
estátua), que na época da grande invasão Elamita, “havia ido e habitado em Elam, um lugar não
designado a ela” e, agora falando a ele, o rei, dizendo: “Do meio de Elam, traga-me para fora e
provoquem0me a entre em Bitanna” – seu próprio santuário antigo em Ereque, “onde que ela havia ficado
encantada”. Então de novo os conquistadores assírios tomaram orgulho especial em carregar com eles as
estátuas dos deuses das nações que rendiam e nunca falhavam em gravar esses fatos em palavra: “Eu levei
embora seus deuses”, sem dúvida alguma com a ideia de que, em fazer isso, eles acabavam com o poder
dos seus inimigos em procurar ajuda aos protetores divinos.

9. Na população da Caldeia, o elemento semítico era fortemente representado. É provável que as tribos
semíticas estivessem na região em intervalos, em bandos sucessivos e, por um longo tempo divagaram
desembaraçados com seus rebanhos e, então gradualmente misturaram-se com os colonos que
encontravam nos locais, cuja cultura foi adotada por eles ou sozinhos formavam colônias separadas, nem
assim, entretanto, perdiam seus hábitos pastorais. Assim a tribo hebraica, quando ela deixou Ur sob Terah
e Abraão (ver pág. 76) parece ter resumido a sua vida nômade com grande disposição e facilidade, após
habitarem por muito tempo em ou próximos a uma cidade populosa, a principal capital da Suméria, ao Sul
dominante então. Se essa tribo foi tirada de Ur, como algumas foram ou deixaram por vontade própria
[BJ], talvez não seja uma adivinhação tão ousada que as causas da sua partida sejam parcialmente
conectadas a motivos religiosos. Isso porque, somente dentre os caldeus e as nações ao redor, esses
semitas trabalhosos haviam revelado a concepção de monoteísmo da obscura riqueza da mitologia caldeia
e prenderam-se fortemente a ela. Pelo menos seus líderes e idosos, os patriarcas, haviam chegado à
convicção de que o único Deus vivo era Ele chamado de “o Senhor” e, eles esforçaram-se para inspirar
seu povo com a mesma fé e, para desligá-los das crenças míticas, das práticas idólatra que eles haviam
adotado daqueles com quem viviam e das quais eles apegaram-se com a tenacidade de espiritualidade

171
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

chega e extenso hábito. Os hebreus posteriores mantiveram-se uma clara lembrança dos seus ancestrais
tendo sido politeístas selvagens, seus próprios historiadores escrevendo mais de mil anos após a época de
Abraão, claramente declaram o fato. Em uma longa exortação das tribos montadas de Israel, que eles
colocam na boca de Joshua, o sucessor de Moisés, eles o fazem dizer: - “Seus pais habitaram no outro
lado na enchente” (ou seja, o Eufrates ou talvez o Jordão) “em tempos antigos, até Terah, o pai de Abraão
e de Naor e, eles serviram outros deuses”. E além “... Guarde os deuses que seus pais serviram no outro
lado da enchente e no Egito, e sirva o Senhor... Escolha você nesse dia que você irá servir, se os deuses
que seus pais serviram no outro lado na enchente, ou os deuses dos Amoritas, em cuja terra eles
habitaram; em relação a mim e a minha casa, nós serviremos o Senhor.” (Josué, xxiv. 2, 14, 15). O mais
provável é que os patriarcas, Terah e Abraão, guiaram seu povo para fora do meio dos caldeus, fora da
sua grande capital Ur, que abrigava alguns dos mais antigos e renomados santuários caldeus, e para a vida
selvagem, parcialmente com o propósito de removê-los de associações corruptas. Em todos os eventos
que parte da tribo hebraica que permanecia na Mesopotâmia com Naor, o irmão de Abraão (ver Gen.
xxiv. xxix. e ff) continuou selvagem e idólatra, como vemos na detalhada narrativa em Gênesis xxxi., de
como Raquel “havia roubado as imagens que eram de seu pai” (xxxi. 19), quando Jacó escapou da casa
de Labão com sua família, seu gado e todos os seus deuses. Não há dúvidas quanto ao valor e significado
dessas “imagens” que são deixadas quando vemos Labão, após ter retido fugitivos, reprova Jacó com
essas palavras: - “E agora, tu precisastes ir embora, porque sentistes triste saudade da casa de teu pai,
porém por que roubastes meu deuses?” (xxxi. 30), para qual Jacó, que não sabe nada do roubo de Raquel,
responde, - “Com quem tu achares teus deuses, não o deixe viver” (xxxi. 32). Mas “Raquel havia pego as
imagens e as colocado na mobília do camelo, e sentado nele. E Laban procurou por toda a tenda, mas
não os achou” (xxxi. 34). Agora o que poderia ter induzido Raquel a cometer uma ação tão desonesta e
perigosa, mas a ideia de que, em levando essas imagens embora, os “deuses” domésticos de sua família,
ela iria garantir uma benção e prosperidade para ela mesma e sua casa? Fazendo isso, ela iria, de acordo
com as noções selvagens, roubar seu pai e antiga casa do que ela desejaria ter se protegido (ver pág. 170 e
171), parece não ter a incomodado. É claro disso que, até mesmo após ela casar-se com Jacó, o
monoteísta, ela permaneceu selvagem e idólatra, apesar esconder esse fato dele.

10. Por outro lado, a emigração indiscriminada não foi suficiente para remover o mal. Se fosse um
deserto, instável em toda a sua extensão, pelo qual os patriarcas conduziram seu povo, eles poderiam ter
conseguido tirá-los completamente das velhas influências. Mas, espalhadas sobre ele e já em posse,
estavam numerosas tribos cananeias, ricas e poderosas sob seus chefes – amorreus, heveus e hititas, e
muitos mais. Na enérgica e pitoresca linguagem bíblica, “os cananeus estavam na terra” (Gênesis, xii. 6),
e os hebreus constantemente entraram em contato com eles, na verdade eram dependentes de sua
tolerância e grande hospitalidade pela liberdade de que gozaram para aproveitar os pastos da “terra em
que eles eram estrangeiros”, como a vasta região sobre a qual eles vagaram é frequentemente e
enfaticamente chamada. Sendo um punhado de homens, eles tiveram que tomar cuidado em sua conduta e
para manter em bons termos com o povo para o qual foram trazidos. “Eu sou um estranho e um
estrangeiro com você”, admite Abraão, “curvando-se diante do povo da terra” (uma tribo de hititas perto
de Hebron, a oeste do Mar Morto), quando ele se oferece para comprar deles um terreno, para lá instituir
um cemitério para si e sua família; pois ele não tinha nenhum direito legal a nada de terra, não tanto como
para fornecer um sepulcro para seus mortos, embora as “crianças de Heth” o tratassem com alta honra e,
falando com ele, dizem “Meu senhor” e “tu és um poderoso príncipe entre nós” (Gênesis, xxiii.). Essa
transação, conduzida por ambos os lados em um espírito de grande cortesia e generosidade, não é o único
exemplo de simpatia com que os cananeus proprietários da terra tratavam os estrangeiros, tanto durante a
vida de Abraão quanto muito depois de sua morte. Seu neto, o patriarca Jacó, e seus filhos encontraram a
mesma tolerância entre os heveus de Salém, que assim conversam entre si a respeito deles: – “Estes
homens são pacíficos conosco; dessa forma, deixe-os habitar na terra e fazer comércio nela’ pois a terra,
veja, é grande o bastante para ele; deixem-nos fazer de suas filhas nossas esposas, e deixe-nos dar nossas
filhas.” E o príncipe heveu fala neste sentido para o chefe hebreu: – “A alma de meu filho suspira por sua
filha: eu rezo para você a conceda como esposa para ele. E faça-vos casamentos conosco, e dai vossas

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

filhas para nós e levai nossas filhas convosco. E habitará conosco, e a terra estará diante de você; more e
comercialize neste lugar e obtenha suas posses nela.”

11. Mas esta questão de casamento foi sempre a mais penosa; a questão de todos os outros em que os
líderes hebreus estritamente delinearam a linha de relações e sociabilidade; o mais obstinadamente que
seu povo estava naturalmente inclinado a tais uniões, já que eles foram e vieram livremente entre suas
tropas, e suas filhas foram, sem impedimentos, “ver as filhas da terra”. Agora toda a raça de Canaã seguia
religiões muito similares àquela da Caldéia, apenas mais grosseira em seus detalhes e formas de adoração.
Portanto, para que os velhos hábitos idólatras não retornassem fortemente a eles sob a influência de uma
família pagã, os patriarcas proibiam o casamento com mulheres dos países pelos quais eles passaram e
repassaram com suas tendas e rebanhos, e eles mesmos se abstinham. Assim, vemos Abraão mandando
seu criado para a Mesopotâmia para procurar uma mulher para seu filho Isaac entre seus parentes que
haviam ficado lá com seu irmão Naor, e faz o velho servo solenemente jurar “pelo Senhor, Deus dos céus
e Deus da terra”: “Tu não escolherás uma esposa para meu filho dos cananeus, dentre os quais eu habito.”
E quando Esaú, filho de Isaac, escolheu duas esposas dentre as mulheres hititas, é expressamente dito que
eles eram “uma amargura de espírito para Isaque e Rebeca”; e a cobrança mais solene de Isaque sobre seu
outro filho, Jacó, enquanto ele se despede com sua benção, é: “Tu não escolherás uma esposa das filhas
de Canaã.” Por onde quer que os hebreus fossem no curso de suas longas peregrinações, que duraram
muitos séculos, a mesma dupla proibição era aplicada sobre eles: de casar com mulheres nativas – “pois
certamente”, dizem a eles, “eles desviarão seu coração de seus deuses”, e de seguir religiões idólatras,
uma proibição aplicada com as mais severas punições, até mesmo a morte. Mas nada poderia impedi-los
de quebrar a lei em ambos os aspectos. A própria frequência e ênfase com que a ordem é repetida, a
violência das denúncias contra os transgressores, as ameaças de terríveis punições, frequentemente
infligidas, mostram suficientemente o quão imperfeitamente e com má vontade foi obedecida. De fato, o
Velho Testamento é uma contínua ilustração do firme zelo com que os sábios iluminados de Israel – seus
legisladores, líderes, sacerdotes e profetas – perseguiam sua árdua e muitas vezes quase impossível tarefa
de manter seu povo puro de adoradores e práticas que, para eles, que haviam percebido a falácia de
acreditar em muitos deuses, eram as abominações mais malignas. Neste espírito e para este fim, eles
pregaram, lutaram, prometeram, ameaçaram, puniram e, neste espírito, tempos depois, eles escreveram.

12. Não é até uma nação estar bem estabelecida e gozara de certa quantidade de prosperidade, segurança e
lazer que os acompanha que começa a reunir suas próprias tradições e memórias e colocá-las em ordem,
em uma narrativa contínua. Assim foi com os hebreus. A pequena tribo tornou-se uma nação, que
encerrou suas peregrinações e conquistou para si um lugar permanente na face da terra. Mas conseguir
isto levou algumas centenas de anos, anos de memoráveis aventuras e vicissitudes, de modo que os
materiais que se acumularam para futuros historiadores, em histórias, tradições, canções, eram muitos e
variados. Muito também deve ter sido escrito em um período mais antigo. O quão o antigo permanece
incerto, já que, infelizmente, não há nada que mostre em qual período os hebreus aprenderam a arte da
escrita e seus caracteres pensava-se, como outros alfabetos, terem sido emprestados daquele dos fenícios.
Seja como for, uma coisa é certa: que os diferentes livros que compõem as Escrituras Sagradas Hebraicas,
que chamamos de “o Velho Testamento” eram coletadas de muitas e diferentes fontes e colocadas na
forma em que vieram a nós num período bem mais recente, algumas quase tão recentes quanto o
nascimento de Cristo. O primeiro livro de todos, Gênesis, descreve o começo do povo judeu (“Gênesis” é
uma palavra grega, que significa “Origem”), pertence em todo o caso, a um tempo mais prematuro. É
reunido em duas principais narrativas, distintas e frequentemente diferente em espírito e até mesmo em
fato. O mais recente compilador que tinha as duas fontes diante dele para deixá-las em uma forma
finalizada olhou para ambas com muito respeito para alterá-las, e geralmente contentou-se em transmiti-
las lado a lado (como na história de Hagar, que é contada duas vezes e diferentemente, no Cap. XVI e
Cap. XXI) ou, combinando-as, de modo que é necessária muita atenção e esforço para separá-las (como
na história do Dilúvio, Cap. VI – VIII). Esta última história é quase idêntica à lenda caldeia do Dilúvio

173
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

inclusa na grande epopeia de Izdubar, da qual é formada a décima-primeira tábua. (Ver Cap. VII) De fato,
qualquer criança percebe, comparando as lendas caldeias cosmogônicas e míticas com os primeiros
capítulos do Livro do Gênesis, aqueles que dizem respeito às origens não apenas do povo hebreu, mas de
toda a raça humana e do mundo em geral, que ambas devem ter afluído de uma única mesma fonte de
tradição e conhecimento sacerdotal. As semelhanças são berrantes, familiares, contínuas, sem excluir
todas as suposições racionais a respeito das coincidências casuais. As diferenças são tais que a maioria
ilustra surpreendentemente a transformação que o mesmo material pode sofrer quando tratado por duas
raças de diferentes padrões morais e tendências espirituais. Vamos brevemente examinar ambas, lado a
lado.

13. Começamos com a Criação. A descrição do caos primário – uma vastidão de águas, da qual a
“escuridão não foi levantada”, (ver pág. 133) – corresponde muito bem àquela do Gênesis, i. 2: “E a terra
estava sem forma e vazia; e a escuridão estava sobre a face das profundezas.” O estabelecimento de
corpos celestes e a criação de animais também corresponde notavelmente em ambos os relatos, e até
mesmo vêm na mesma ordem (ver pág. 134 e Gênesis, i. 14-22). O famoso cilindro do Museu Britânico
(ver fig. 62, pág. 135) é uma forte presunção em favor da similaridade da versão caldeia da desobediência
do primeiro casal com a bíblica. Vimos a importante posição ocupada na religião caldeia pelo símbolo da
Árvore Sagrada, que certamente corresponde à Árvore da Vida no Éden (ver fig. 63 pág. 136) e
provavelmente também àquela do Conhecimento, e as diferentes passagens e nomes engenhosamente
coletados e confrontados pelos acadêmicos não deixam dúvidas sobre os caldeus terem uma lenda de um
Éden, um jardim de Deus (ver p. 139). Uma mais bem preservada cópia das tábuas da Criação com as
agora passagens faltantes pode ser recuperada a qualquer momento, e não há motivo para duvidar que elas
serão encontradas com um estreito paralelo à narrativa bíblica, assim como aquelas que foram
recuperadas até agora. Mas mesmo as tenhamos atualmente, é muito evidente que o alicerce, o material, é
o mesmo em ambas. É a maneira, o espírito, que difere. No relato caldeu, o politeísmo corre livre. Cada
elemento, cada força da natureza – Céu, Terra, o Abismo, Atmosfera, etc. – foi personificado em um ser
individual divino engajado ativamente e seriamente em um grande trabalho. A narrativa hebraica é
severamente monoteísta. Nela, Deus faz tudo que “os deuses” entre eles fazem na outra. Cada poética ou
alegórica mudança de linha é cuidadosamente evitada, para que não leve a erros sobre a nação-irmã. Os
mitos simbólicos – tal como o de Bel misturando seu sangue com a argila da qual é feito o homem. (ver
pág. 135) – são severamente descartados, pela mesma razão. Apenas um é mantido: a tentação pela
Serpente. Mas a Serpente sendo manifestadamente a personificação do Princípio Maligno que é para
sempre ativo na alma do homem, não havia perigo em ser deificado e adorado; e como, além disso, o
conto relatado desta maneira muito pitoresca e surpreendente aponta uma grande lição moral, o amor
oriental de parábola e alegoria poderia neste caso ser permitido em âmbito livre. Além disso, os escritores
hebreus dos livros sagrados não estavam além ou acima das superstições de seu país ou época; de fato,
eles mantiveram tudo que não pareceu incompatível com o monoteísmo. Assim, por todos os Livros do
Velho Testamento, a crença caldeia em feitiçaria, adivinhação a partir de sonhos e outros sinais, é
mantida e professada abertamente e, a astrologia em si não é condenada, já que dentre os destinos das
estrelas é mencionado o de servir os homens “por sinais”: “E Deus disse, que haja luzes no firmamento
para separar o dia da noite; e sejam elas para sinais e para estações, e para dias e anos” (Gênesis, i. 14).
Muito mais explícita é a passagem na triunfal canção de Deborah, a Profetiza, na qual celebra a vitória de
Israel sobre Sísera, ela diz: “Eles lutaram pelo céu: as estrelas em seus cursos lutaram contra Sísera”
(Juízes, v. 20). Mas uma crença em astrologia de modo algum implica na admissão de vários deuses. Em
uma ou duas passagens, de fato, encontramos uma expressão que parece ter escapado de surpresa, como
uma reminiscência involuntária de um politeísmo original; é onde Deus, comungando com si próprio
sobre a transgressão de Adão, diz: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o
mal” (Gen. iii. 22). Um traço ainda mais claro nos confronta em um dos dois nomes que são dados a
Deus. Estes nomes são “Jeová” (mais corretamente “Yahveh” e “Elohim”. O último nome é o plural de El,
“deus” e, então realmente significa “os deuses”. Se os escritores sagrados o mantiveram, não foi
certamente por descuido ou inadvertência. À medida que o usam, torna-se em si quase uma profissão de

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

fé. Parece proclamar o Deus de sua religião como “o Único Deus que é todos os deuses”, em quem todas
as forças estão e se fundem.

14. Há uma característica na narrativa bíblica, que, à primeira vista, parece de natureza mítica: é a
maneira familiar pela qual Deus é representado como indo e vindo, falando e agindo, de maneira igual aos
homens, especialmente em passagens como estas: “E eles ouviram a voz do Senhor Deus andando pelo
jardim no frescor do dia” (Gen. iii. 8) ou “Para Adão também e para sua esposa o Senhor Deus fez
casacos com pele e os vestiu” (Gen. iii. 21). Mas tal julgamento seria um erro muito sério. Não há nada de
mítico nisso; apenas a tendência, comum a toda a humanidade, de dotar a Divindade de atributos
humanos de forma, fala e ação, sempre que a tentativa era feita para trazê-lo bem para perto, ao alcance
da sua imaginação. Essa tendência é tão universal que foi classificada, com um nome especial, entre as
distintas características da mente humana. Foi chamada de Antropomorfismo (de duas palavras gregas:
Anthropos, “homem”, e morphê, “forma”) e nunca pode ser desfeita, porque é parte integrante de nossa
própria natureza. Os anseios espirituais do homem são infinitos. Seu espírito tem asas de fogo que o
levantariam e o carregariam mesmo além da vastidão do espaço em pura abstração; seus sentidos têm
solas de chumbo que sempre o puxam para baixo, de volta à terra, de onde ele é e com a qual ele necessita
se apegar, para existir absolutamente. Ele pode conceber, com um grande esforço, uma ideia abstrata,
escapando ao alcance dos sentidos, despida da matéria; mas ele pode fazer uma ideia, imaginar, apenas
usando tais ferramentas fornecidas pelos sentidos. Portanto, quanto mais ardentemente ele alcança essa
ideia, mais rigorosamente ele a assimila, mais se torna materializada em sua compreensão e, quando ele
tenta reproduzir para si mesmo – vejam! assume a aparência de si mesmo ou algo que ele viu, ouviu,
tocou – a espiritualidade tornou-se pesada com carne, do mesmo modo que ele. É como se fosse uma
reprodução, no mundo intelectual, da contenda eterna, em natureza física, entre duas forças opostas de
atração e repulsão, o centrífugo e o centrípeto, da qual o resultado final é manter cada corpo em seu lugar,
com uma bem definida e delimitada gama de movimento permitido para ele. Assim, não importa o quão
pura e espiritual a concepção de uma Divindade seja, o homem, tornando-a real para si, trazendo-a para
seu alcance e conhecimento, dentro do santuário de seu coração, irá e deve necessariamente fazer dela um
Ser, humano não apenas na forma, mas também em pensamento e sentimento. Como, de outra maneira,
ele poderia alcançá-la como um todo? E os acessórios com os quais ele a cercará serão necessariamente
sugeridos por sua própria experiência, copiados daqueles dentre os quais ele se move habitualmente.
“Andando no jardim no frescor do dia” é uma recriação essencialmente oriental e do sul, e veio bem
naturalmente à mente de um autor vivendo em uma terra mergulhada na luz do sol e mormaço. Se o
escritor fosse do norte, um habitante das planícies cobertas de neve e rios cobertos de gelo, o Senhor
poderia provavelmente ter sido representado como vindo em um trenó veloz e forrado com pele. O
antropomorfismo, então, é em essência nem mitologia ou idolatria; mas é muito claro que pode deslizar
facilmente para um ou ambos, com apenas uma pequena ajuda da poesia e, especialmente, da arte, em seu
inocente esforço para corrigir de forma tangível as imaginações vagas e viciosas, das quais as palavras
são frequentemente uma tradução fugaz e frágil. Daí o banimento de todos os símbolos materiais, a
absoluta proibição de qualquer imagem como um acessório de adoração religiosa, que, ao lado do
reconhecimento de um só Deus, é a chave para a lei hebraica: –“Tu não terás outros deuses diante de
mim. Tu não farás para ti nenhuma imagem de escultura, ou nada parecido com o que está no céu, ou na
terra, ou na água abaixo da terra. – Tu não te curvarás para elas, nem as servirá” (Êxodo, xx. 3-5).

Mas, continuando nosso paralelo.

15. Os dez reis antediluvianos de Berosus, que sucederam a aparição do divino Homem-Peixe, Êa-
Oannes (ver pág. 107) tiveram sua exata contrapartida nos dez patriarcas antediluvianos do Gênesis, v.
Como os reis caldeus, os patriarcas vivem um não natural número de anos. Apenas os extravagantes
números da tradição caldeia são consideravelmente reduzidos na versão hebraica. Enquanto as antigas
alocações para seus reis reina dezenas de milhares de anos (ver pág. 107); o mais recente os reduz a

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Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

centenas, e o mais elevado consente que qualquer um de seus patriarcas tem novecentos e sessenta e nove
anos de vida (Matusalém).

16. As semelhanças entre as duas narrativas do Dilúvio são tão óbvias e contínuas, que não são estas, mas
as diferenças que precisam ser apontadas. Aqui, novamente o sóbrio, severamente monoteísta da narrativa
hebraica contrasta mais surpreendentemente com o exuberante politeísmo da caldeia, na qual Céu, Sol,
Tempestade, Mar, e até a Chuva são personificados, deificado e, consistentemente representam seus
papéis mais dramáticos e apropriados no grande cataclismo, enquanto a Natureza, como a Grande Mãe
dos seres e criadora da vida, é representada na pessoa de Ishtar, lamentando a matança dos homens (ver
pág. 164). Além desta diferença fundamental em espírito, a identidade em todos esses essenciais
elementos é incrível, e variações ocorrem apenas em menores detalhes. O mais característico é o que,
enquanto a versão caldeia descreve a construção e o mobiliário de um navio, com toda a precisão de
muito conhecimento de navegação, e não esquece mesmo do nome do piloto, o escritor hebreu, com a
falta de jeito e ignorância dos assuntos náuticos naturais para um povo do interior não familiarizado como
o mar ou o aparecimento de navios, fala somente de uma arca ou cofre. A maior discrepância está na
duração da enchente, que é muito mais curta no texto caldeu que no hebreu. No sétimo dia, Hâsisadra
envia a pomba (ver pág. 160). Mas então na narrativa bíblica, feita, como observamos acima, de dois
textos paralelos unidos, este mesmo ponto é dado de maneira diferente em diferentes lugares. De acordo
com o Gênesis, vii. 12, “a chuva estava sobre a terra por 40 dias e 40 noites”, enquanto o verso 24 do
mesmo capítulo nos diz que “as águas prevaleceram sobre a terra por cento e cinquenta dias”. De novo, o
número de salvos é bem maior no relato caldeu: Hâsisadra leva para o navio com ele todos os seus
servos, suas servas, e até seus “amigos mais próximos”, enquanto Noé é autorizado a salvar apenas sua
família direta, “seus filhos, sua esposa, as esposas de seus filhos” (Gênesis, vi. 18). Em seguida, o
incidente dos pássaros é contado de maneira diferente: Hâsisadra envia três pássaros, a pomba, a
andorinha e o corvo; Noé, apenas dois – primeiro o corvo e depois a pomba por três vezes
sucessivamente. É surpreendente encontrar as duas narrativas mais de uma vez usando as mesmas
palavras. Assim o escritor hebreu conta como Noé “enviou um corvo, que foi pra lá e pra cá” e, como “a
pomba não encontrou repouso para a sola de seu pé e retornou”. Hâsisadra relata: “Eu peguei uma pomba
e a enviei. A pomba foi, pra lá e pra cá, mas não encontrou nenhum lugar para repousar e retornou”. E
depois, quando Hâsisadra descreve o sacrifício que ofereceu no topo do Monte Nizir, depois que ele saiu
do navio, ele diz: “O deuses sentiram o cheiro; os deuses sentiram um doce cheiro”. “E o Senhor sentiu
um doce cheiro”, diz Gênesis – viii. 21 – sobre a oferenda ardente de Noé. Estas poucas dicas deve ser
suficientes para mostrar o quão instrutivo e interessante é um estudo paralelo das duas narrativas; pode
ser feito melhor por meio de uma leitura alternada entre ambas, e as comparando, parágrafo por
parágrafo.

17. A lenda da Torre das Línguas (ver pág. 148 e Gênesis, xi. 3-9) é a última na série de tradições
paralelas caldeias e hebraicas. Na Bíblia é imediatamente seguida pela genealogia detalhada dos hebreus
de Sem a Abraão. Com isso evidentemente termina a conexão entre os dois povos, que são separados por
todo o tempo desde o momento que Abraão sai com sua tribo de Ur dos caldeus, provavelmente no reino
de Amarpal (pai de Hammurabi), que a Bíblia chama de Anrafel, rei de Sinar. O reino de Hammburabi
era, como já vimos (ver pág. 115 e 116) próspero e brilhante. Ele ela originalmente rei de Tintir (o nome
mais antigo da Babilônia) e, quando ele uniu todas as cidades e governantes locais da Caldéia sob sua
supremacia, ele classificou a preeminência entre elas para sua própria cidade, que ele começou a chamar
pelo novo nome, Ka-dimirra (acádio para “Portão de Deus”, que foi traduzida para o semítico Bab-Il).
Este rei em todos os aspectos abre um novo capítulo na história da Caldéia. Além disso, um grande
movimento estava acontecendo em toda a região entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico; nações estavam
se formando e crescendo, e o mais formidável rival e futuro conquistador da Caldéia, a Assíria, estava
gradualmente juntando forças no norte, um jovem e feroz filhote de leão. Nossa atenção será voltada
principalmente a este recém-chegado entre as nações. Vamos, portanto, pausa no alto ponto que

176
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

chegamos agora e, dando uma olhada para trás, vamos fazer uma rápida avaliação do terreno que já
cobrimos.

18. Olhando com olhos fatigados para um passado obscuro e cinzento com a névoa pesada das inúmeras
épocas, vemos nosso ponto de partida, as terras baixas do Golfo, Suméria, tomando forma e cor sob o
governo dos habitantes turanianos, a nação mais antiga conhecida no mundo. Eles drenam e lavram a
terra, fazem tijolos e constroem cidades, e prosperam materialmente. Mas o espírito neles é escuro e vive
em covarde terror dos autocriados demônios e coisas más, que eles ainda acreditam que podem controlar
e compelir. Então sua religião é uma, não de adoração ou agradecimento, mas de terrível invocação e
encantação, inconcebível superstição e feitiçaria, uma melancolia indescritível pelo mal iluminado
vislumbre de uma fé mais nobre, na concepção do sábio e beneficente, Êa e seu sempre benevolente filho,
Meridudg. Mas gradualmente aparece uma mudança. A Suméria leva seu olhar para cima e, enquanto
absorve mais da beleza e da bondade do mundo – no Sol, Lua e nas Estrelas, nas saudáveis Águas e o útil
Fogo purificador, as Forças boas e divinas – os Deuses multiplicaram-se e as tropas de espíritos
elementares, na maioria malignos, tornaram-se secundários. Esta mudança foi enormemente auxiliada
pela chegada dos meditativos, contempladores de estrelas estrangeiros, que tomaram posse do culto à
natureza e dos mitos naturais que encontraram dentre os povos aos quais foram – uma raça superior e
mais avançada – e os teceram, com seu próprio conhecimento em culto às estrelas e astrologia, em uma
nova fé, um sistema religioso muito engenhosamente combinado, elaboradamente harmonizado e cheio
de significados profundos. A nova religião é pregada não apenas em palavras, mas em tijolo e pedra:
templos erguem-se por toda a terra, eretos pelos patesis – os reis-sacerdotes de diferentes cidades – e
bibliotecas em que os colégios sacerdotais reverentemente guardam tanto suas obras quanto o
conhecimento religioso mais antigo do país. Os antigos nomes turaniano dos deuses são gradualmente
traduzidos para a nova linguagem cuxita-semita; porém as orações e hinos, assim como as encantações,
são ainda preservadas na língua original, pois o povo da Suméria turaniana é o mais numeroso, e devem
ser governados e conciliados, não alienados. A região mais ao norte, a Acádia, é, de fato, menos povoada;
lá, as tribos de semitas, que agora chegam em frequentes prestações, espalham-se rapidamente e
desimpedidos. As cidades da Acádia com seus templos logo rivalizaram com as da Suméria e se
esforçaram para ofuscá-las, e seus patesis trabalharam para predominar politicamente sobre aquelas do
sul. E é com o norte que a vitória permanece a princípio; sua preeminência é afirmada no tempo de
Sharrukin de Acade, cerca de 3800 a.C., mas é retomada pelo sul alguns milhares de anos depois, quando
uma poderosa dinastia (daquela à qual pertence Ur-êa e seu filho Dungi) se estabelece em Ur, enquanto
de Tintir, o futuro chefe e centro da terra unificada da Caldéia, a grande Babilônia, se existente, ainda não
se ouvir falar. São estes reis de Ur que primeiro usam o significante título de “reis da Suméria e Acádia”.
Enquando isso, novas e superiores influências estão sendo trabalhadas; a imigração semítica acelerou a
religião meio mítica, meio astronômica com um elemento mais espiritual – de adoração fervorosa, de
confiança devota, de contrição apaixonada e auto humilhação na amarga consciência do pecado, até então
estranho a ela, e produziu uma nova e bonita literatura religiosa, que marca seu terceiro e último estágio.
A este estágio pertencem os frequentemente mencionados “Salmos Penitenciais”, semíticos, ou melhor,
bastante hebreus em espírito, embora ainda escritos na antiga linguagem turaniana (mas no dialeto do
norte da Acádia, um fato que em si é testemunho a seu atraso comparativo e da localidade em que
surgiram) e, surpreendentemente, idênticos às canções da época de ouro da poesia hebraica em conteúdo e
forma, não terem sido os modelos dos quais o último, por uma espécie de hereditariedade inconsciente,
tiravam suas inspirações. Então, vem a grande invasão elamita, com suas pilhagens a cidades, profanação
de templos e santuários, seguida provavelmente por muitas outras por um período de no mínimo trezentos
anos. O último, o de Khudur Lagamar, uma vez que traz a destaque o fundador da nação hebraica, merece
ser particularmente mencionado pelos historiadores daquela nação, e, na medida em que coincide com o
reinado de Amarpal, rei de Tintir e pai de Hammurabi, serve para estabelecer um importante marco
divisório na história tanto dos hebreus quanto da Caldéia. Quando chegamos a esta data relativamente
recente, as névoas em grande parte se dissiparam, e à medida que nos afastamos das épocas que acabamos
de estudar em direção àquelas que estão diante de nós, a história nos guia com um passo mais ousado e
nos mostra a paisagem de um crepúsculo que, embora ainda fraco e às vezes enganoso, ainda é aquele do
dia nascente, não do anoitecer.

177
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

19. Quando tentamos compreender a prodigiosa vastidão e afastamento do horizonte assim aberto diante
de nós, um sentimento semelhante ao temor nos domina. Até dentro de poucos anos, o Egito vibrava com
o orgulho incontestável de ser o país mais antigo do mundo, ou seja, de alcançar, por seus anais e
monumentos, uma data mais antiga que qualquer outra. Mas as descobertas que estão continuamente
sendo feitas no vale dos dois grandes rios tem silenciado para sempre esta ostentação. A Caldéia aponta
para uma monumental data de registro de cerca de 4000 a.C. Isto é mais do que o Egito pode fazer. Seus
mais antigos monumentos autênticos – suas grandes Pirâmides são consideravelmente mais recentes. O
Sr. F. Hommel, um dos líderes da Assiriologia, forçosamente expressa este sentimento de admiração em
uma recente publicação:[BK] “Se”, ele diz, “os semitas estavam já fixados na Babilônia do Norte
(Acádia) no começo de 4000 a.C., possuindo a cultura sumério-acádia completamente desenvolvida
adotada por eles – uma cultura, além disso, que parece ter germinado na Acádia como um recorte da
Suméria – então o último deve naturalmente ser muito, muito mais velho ainda e ter existido em sua
forma completa em 5000 a.C. – uma época em que agora eu atribuo sem hesitação aos encantamentos sul-
babilônios”. Isso daria à nossa visão mental uma varredura completa de seis mil anos, um número bem
respeitável! Mas quando lembramos que estes primeiros habitantes da Suméria vieram de outro lugar, e
que eles trouxeram consigo mais que rudimentos de civilização, somos imediatamente levados para, no
mínimo, dois mil anos atrás. Pois deve ter levado tudo isso e mais para os homens passarem de uma vida
passada nas cavernas e caçando feras selvagens para um estágio de cultura compreendendo a invenção de
um completo sistema de escrita, o conhecimento e o trabalho com metais, até mesmo a mistura de cobre e
estanho para bronze e, uma expertise em agricultura igual não apenas no arado, mas na drenagem da terra.
Se seguirmos a humanidade – perdendo toda a contagem de tempo em anos ou mesmo em séculos – em
direção a sua separação original, a sua primeira aparição na terra – se formos mais longe ainda e
tentarmos pensar nas épocas depois de épocas durante as quais o homem não existia, mas a terra sim, a
vista era linda (se tivesse alguém para ver algo) e boa para as criaturas que a tinha inteira para si mesmas
– uma tontura toma nossos sentidos, antes da infinidade do tempo, e nós nos afastamos com medo, fracos
e reverente, como fazemos quando a astronomia nos lança, em uma fina linha de números, para o infinito
do espaço. As seis épocas de mil anos cada, que são tudo que nossa mente pode firmemente compreender,
nos parece então uma muito pobre e insignificante fração da eternidade, para qual somos tentados a
aplicar quase com desprezo as palavras ditas pelo poeta de tantos anos: “Seis eras! Seis pequenas eras!
Seis gotas de tempo!”

NOTAS DE RODAPÉ:

[BJ] Maspero, "Histoire Ancienne," p. 173.

[BK] Ztschr. für Keilschriftforschung, "Zur altbabylonischen Chronologie," Heft I.

[BL] Matthew Arnold, em "Mycerinus":

“Seis eras! Seis pequenas eras! Seis gotas de tempo!”

178
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

APÊNDICE AO CAPÍTULO VII.

O Professor Louis Dyer devotou algum tempo para preparar uma tradução com métrica livre da “Queda
de Ishtar”. Infelizmente, devido a suas muitas ocupações, apenas a primeira parte do poema está
finalizado. Esta, ele gentilmente colocou a nossa disposição, nos autorizou a apresentar para nossos
leitores.

ISHTAR EM URUGAL.

Pela sombria avenida da morte

Para buscar o terrível abismo de Urugal,

Na Escuridão eterna de onde ninguém retorna,

Ishtar, a filha do Deus-Lua, tomou uma decisão,

E, dessa forma, doente de tristeza, virou seu rosto.

Uma estrada leva para baixo, mas nenhuma tem volta

Do reino da Escuridão. Lá está a rainha Irkalla,

Também chamada de Ninkigal, mãe das dores.

Seus portais fecham-se para sempre para seus convidados

E não há saída de lá, mas todos que entram lá,

Para estranhos da luz do dia, e para a alegria desconhecidos,

Dentro de seus portões sem sol presos devem ficar.

E lá o único alimento guardado é o pó,

Pois no lodo eles vivem, quem na terra morreu.

Os raios dourados do dia não felicitam ninguém e a escuridão reina

Onde homens emplumados em forma de morcego

Ou pássaros moldados como homens voam aprisionados.

Fechadas e empoeiradas, as portas do calabouço

São seguradas por parafusos com aglomeração de mofo.

179
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Pelo amor distraída, embora a rainha do amor,

A pálida Ishtar para baixo se moveu em direção ao domínio da morte,

E rapidamente se aproximou destes portões de Urugal,

Então parou impaciente em seus sombrios portais;

Pois o amor, cuja força nenhuma barreira terrestre detém,

Não dá a chave para abrir as Portas da Escuridão.

A serviço de todos os homens os fez orgulhosos,

Ishtar não admitiu resistência dos mortos.

Ela chamou o carcereiro, então para raiva mudou

O amor que a apressava em seu caminho sem fôlego,

E de seus lábios incontinentes

Varreu um discurso que fez o inflexível guarda recuar.

“Rápido, guardião da cova! Abra estas portas,

e deixe-as bem abertas. Não demore!

Pois eu irei passar, e até mesmo irei entrar.

Não se atreva a negar, tu, não barre meu caminho,

Senão vou explodir estes parafusos e despedaçar teus portões,

Esta verga vou quebrar e destruirei estas portas.

Os mortos reprimidos eu soltarei, e levarei

De volta os que partiram para as terras que deixaram,

Ou ordenarei aos famintos habitantes no poço

Que levantem-se para a vida e comam seus suprimentos mais uma vez.

Miríades mortas então sobrecarregarão de lamentos a terra,

Dolorosamente encarregados sem ele por suas multidões vivas.”

Senhora do amor, dominada por um forte ódio,

O carcereiro ouviu, primeiro perguntou, depois temeu

A raivosa deus Ishtar e o que ela falou

Então, respondendo, disse ao irado poder de Ishtar:

180
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

“Ó princesa, pare sua mão; não destrua a porta,

Mas permaneça aqui, enquanto a Ninkigal

Eu vou, e digo teu glorioso nome a ela.”

O LAMENTO DE ISHTAR

“Todo o amor da vida terrena comigo partiu,

Comigo para permanecer nos portões da morte;

No sol do céu nenhum calor é mais sentido,

E com frio os tristes homens devem agora respirar lentamente.

“Eu deixei em tristeza a vida que eu dei,

Eu mudei da alegria e andava com mágoa,

Rumo aos mortos-vivos guiada pela dor prematura,

Procurei por Thammuz que o duro destino prostrou

“O caminho sombrio sobre as águas agitadas

Dos sete mares que cercam o domínio da Morte

Eu trilhei, e segui as tristes filhas da terra

Arrancadas de seus entes queridos que nunca mais viram.

“Aqui devo entrar, aqui faço minha morada

Com Thammuz na mansão dos mortos,

Levada para a casa da Fome por obrigação de amor

E fome pela visão daquela querida pessoa.

“Por maridos irei chorar, que a morte levou

Que o destino na força da humanidade da vida foi varrido,

Vivendo na terra suas esposas vivas abandonadas,

Por eles com lamentações lágrimas amargas serão derrubadas.

181
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

“E eu chorarei por suas esposas, cujo curto dia terminou

Antes de sua prole feliz alegrar os olhos de seus maridos;

Arrebatadas de seus braços amáveis elas deixaram seus senhores descuidados, -

Por eles lamentações lacrimosas surgem.

“E eu chorarei por bebês que não deixaram irmãos,

Jovens vidas para os males da idade contrários à esperança,

Os filhos de tristes pais e chorosas mães,

Um momento de vida encerrado pela morte eterna.”

A ORDEM DE NINKIGAL PARA O CARCEREIRO.

"Deixes tu esta presença, escravo, abra o portão;

Já que o poder é dela para forçar a entrada aqui,

Deixe-a entrar como vêm da vida os mortos,

Submissa às leis do domínio da Morte.

Faça a ela o que a todos fazes.”

Falta de espaço nos obriga a nos limitar a estes poucos fragmento – certamente suficientes para fazer
nossos leitores desejarem que o Professor Dyer possa reservar um tempo para completar sua tarefa.

182
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

ÍNDICE.

A.

Abel, morto por Cain, 129.

Abraham, rico e poderos chefe, 200;

sai de Ur, 201;

sua vitória sobre Khudur-Lagamar, 222-224.

Abu-Habba, ver Sippar.

Abu-Shahrein, ver Eridhu.

Acádia, Caldéia do Norte ou Cima, 145;

significado da palavra, ib.;

quartel general do semitismo, 204-205.

Acádios, ver Sumério-acádios.

Linguagem acádia, ver Sumério-acádio.

Agadê, capital da Acádia, 205.

Línguas aglutinantes, significado da palavra, 136-137;

característica das nações turaninanas, ib.;

faladas pelo povo da Suméria e Acádia, 144.

Vida agrícola, terceiro estágio da cultura, primeiro começo da verdadeira civilização, 122.

Akki, o carregador de água, ver Sharrukin of Agadê.

Alexandre da Macedônia conquista a Babilônia, 4;

seus soldados destroem as represas do Eufrates, 5.

Allah, árabe para “Deus”, ver Ilu.

Allat, rainha dos Mortos, 327-329.

Altaï, a grande cadeia de montanhas siberiana, 146;

provável berço da raça turaniana, 147.

Altaïc, outro nome para a raça turaniana ou amarela, 147.

Amarpal, também Sin-Muballit, rei da Babilônia, talvez Amraphel, Rei de Sinar, 226.

Amoritas, os, uma tribo de Canaã, 133.

Amraphel, ver Amarpal.

Ana, ou Zi-ana—“Céu”, ou “Espírito do Céu”, p. 154.

183
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Anatu, deusa, mãe de Ishtar, atinge Êabâni com a morte e Izdubar com a lepra, 310.

Antropomorfismo, significado da palavra, 355;

definição e causas de, 355-357.

Anu, primeiro deus da Tríade Babilônia, mesmo que Ana, 240;

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Anunnaki, espíritos secundários da terra, 154, 250.

Anunit (a Lua), esposa de Shamash, 245.

Apsu (o Abismo), 264.

Arali, ou Arallu, a Terra dos Mortos, 157;

sua ligação com a Montanha Sagrada, 276.

Arallu, ver Arali.

Aram, um filho de Shem,

a son of Shem, ancestral epônimo dos arameus no Gen. x., 131.

Árabes, sua conquista e governo próspero na Mesopotâmia, 5;

Bagdá, sua capital, 5;

nômades na Mesopotâmia, 8;

sua aversão supersticiosa às ruínas e esculturas, 11;

eles pegam a cabeça gigante de Ninrode, 22-24;

suas estranhas ideias sobre os colossais touros e leões alados e seu destino, 24-25;

seu hábito de saquear as antigas tumbas em Warka, 86;

suas conquistas e cultura superior na Ásia e África, 118.

Arbela, cidade da Assíria, construída em região montanhosa, 50.

Arquitetura, caldéia, criada pelas condições locais, 37-39;

assíria, emprestada da Caldéia, 50.

Areph-Kasdîm, ver Arphaxad, significado da palavra, 200.

Arphaxad, filho mais velho de Shem, 200.

Arphakshad, ver Arphaxad.

Asshur, um filho de Shem, ancestral epônimo dos assírios no Gênesis X., 131.

Asshurbanipal, Rei da Assíria, sua biblioteca, 100-112;

conquista Elam, destrói Shushan, e devolve a estátua da deusa Nana a Erech, 194-195.

184
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Asshur-nazir-pal, Rei da Assíria, tamanho do salão em seu palácio em Calah (Nimrud), 63.

Assíria, o mesmo que Alta Mesopotâmia, 7;

ascensão da, 228.

Astrologia, significado da palavra, 106;

uma análise da astronomia, 234;

o estudo especial dos sacerdotes, ib.

Astronomia, a proficiência dos caldeus, 230;

fascinação por, 231;

útil para especulação religiosa, 232;

degenera-se para astrologia, 234;

o Deus Nebo, o patrono de, 242.

B.

Babbar, ver Ud.

Babel, mesmo que Babilônia, 237.

Bab-el-Mandeb, Estreitos de, 189.

Bab-ilu, nome semítico da Babilônia; significado do nome, 225, 249.

Babilônia, uma parte da Baixa Mesopotâmia, 7;

excessive achatamento da, 9;

nome recente para “Suméria e Acádia” e para “Caldéia”, 237.

Bagdá, capital do império árabe na Mesopotâmia, 5;

sua decadência, 6.

Bassorah, ver Busrah.

Beduínos, tribos assaltantes de, 8;

distintamente um povo nômade, 116-118.

Bel, terceiro deus da primeira Tríade Babilônia, 239;

significado do nome, 240;

um dos “doze grandes deuses”, 246;

sua batalha com Tiamat, 288-290.

Belit, a esposa de Bel, o princípio feminino da natureza, 244-245;

185
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Bel-Maruduk, ver Marduk.

Berosus, sacerdote babilônio; sua História da Caldéia, 128;

sua versão da lenda de Oannes, 184-185;

seu relado da Cosmogonia Caldéia, 260-261, 267;

seu relato da grande torre e da confusão das línguas, 292-293;

seu relato do Dilúvio, 299-301.

Birs-Nimrud ou Birs-i-Nimrud, ver Borsippa.

Livros, nem sempre de papel, 93;

pedras e tijolos usados como livros, 97;

paredes e rochas, ib., 97-99.

Borsippa (Monte de Birs-Nimrud), sua forma peculiar, 47;

inscrição de Nabucodonosor encontrada em, 72;

identificado com a Torre de Babel, 293.

Botta começa escavações em Koyunjik, 14;

sua decepção, 15;

sua grande descoberta em Khorsabad, 15-16.

Tijolos, como os homens os fizeram, 39;

secos ao sol ou crus, e secos em estufa ou assados, 40;

tijolos antigos das ruínas usados em construções modernas; intercâmbio com tijolos antigos em Hillah,
42.

British Museum, coleção de Rich apresentada para o, 14.

Busrah, ou Bassorah, touros e leões enviados para, pelo Tigre, 52.

Byblos, antigo material para escrita, 94.

C.

Ca-Dimirra (ou Ka-Dimirra), segundo nome da Babilônia; significado do nome, 216, 249.

Cain, seu crime, banimento e posteridade, 129.

Calah, ou Kalah, uma das capitais assírias, a Larissa de Xenofonte, 3.

Calendário Caldeu, 230, 318-321, 325.

Canaã, filho de Ham, ancestral epônimo de muitas nações, 134.

186
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Cananeus, migrações dos, 190.

Cimento, vários tipos de, 44.

Caldéia, o mesmo que a Baixa Mesopotâmia, 7;

formação alluvial da, 37-38;

sua extraordinária abundância de cemitérios, 78;

um berçário de nações, 198;

mais frequentemente chamada pelos antigos de “Babilônia”, 237.

Caldeus, no sentido de “sábios homens do Leste”, astrólogo, mágico, adivinhos – uma classe separada do
sacerdócio, 254-255.

Amuleto contra feitiços malignos, 162.

Querubim, querubins, ver Kirûbu.

China, possivelmente mencionada em Isaiah, 136, nota.

Chinese falam uma linguagem monossilábica, 137;

seus talentos e limitações, 138, 139;

mais antiga religião nacional da, 180, 181;

seu sistema “duodecimal” e “sexagenal” de contagem, 230-231.

Cronologia, imprecisão da antiguidade, 193-194;

extravagantes números da, 196-197;

dificuldade de estabelecer, 211-212.

Chthon, significado da palavra, 272.

Poderes Ctônicos, 272, 273.

Mitos Ctônicos, ver Mitos.

Cissians, ver Kasshi.

Cidades, construção de, quarto estágio da cultura, 123, 124.

Antiguidade Clássica, significado do termo; estudo muito exclusivo de, 12.

Caixões antigos caldeus, encontrados em Warka: “caixões-jarros”, 82;

caixões com “tampa de prato”, 84;

caixão em forma de “chinelo” (relativamente moderno), 84-86.

Invocação, contra demônios e feiticeiros, 158-159;

admitida na religião recentemente reformada, 236.

Invocadores, admitidos no sacerdócio babilônio, 250.

187
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Cossæans, ver Kasshi.

Mitos Cosmogônicos, ver Mitos.

Cosmogonia, significado da palavra, 259;

caldéia, transmitida por Berosus, 260-261;

tábuas originais descobertas por Geo. Smith, 261-263;

seu conteúdo, 264 e ff.;

Berosus novamente, 267.

Cosmos, significado da palavra, 272.

Escrita cuneiforme, forma e espécime de, 10;

introduzida na Caldéia pelos sumério-acádios, 145.

Cuche, ou Kush, filho mais velho de Ham, 186;

prováveis migrações primárias de, 188;

antigo nome da Etiópia, 189.

Cushitas, colonização da Caldéia turaniana por, 192.

Cilindros: cilindros de vedação em pedras duras, 113-114;

cilindros de fundação, 114;

cilindros de vedação usados como talismãs, 166;

cilindro babilônio, supostamente representando a Tentação e Queda, 266.

D.

Damkina, deusa, esposa de Êa, mãe de Meridug, 160.

Decoração: de palácios, 58-62;

de paredes em Warka, 87-88.

Delitzsch, Friedrich, eminente assiorologista, favorece a teoria semítica, 186.

Dilúvio, relato de Berosus, 299-301;

relato cuneiforme, na 11ª tábua da Epopéia de Izdubar, 314-317.

Demônio do Vento Sudoeste, 168.

Doenças concebidas como demônios, 163.

Adivinhação, um ramo da “ciência” caldéia, em que consiste, 251-252;

coleção de textos sobre, em cem tábuas, 252-253;

188
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

espécimes de, 253-254.

Drenagem dos montes do palácio, 70;

dos montes sepulcrais em Warka, 86-87.

Dumuzi, o marido da deusa Ishtar, 303;

o herói de um mito solar, 323-326.

Dur-Sharrukin, (ver Khorsabad),

construída em região montanhosa, 50.

E.

Êa, às vezes Zi-kî-a, o Espírito da Terra e das Águas, 154;

protetor contra espíritos e homens malignos, 160;

seu santuário principal em Eridhu, 215;

segundo dues da primeira Tríade Babilônia, 239;

suas atribuições, 240;

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Êabâni, o vidente, 304;

convidado por Izdubar, 304-305;

torna-se amigo de Izdubar, 307;

vence com ele o tirano elamita Khumbaba, 308;

ferido por Ishtar e Anatu, 310;

trazido de volta para a vida pelos deuses, 314.

Ê-Babbara, "Casa do Sol", 215, 248.

Eber, ver Heber.

El, ver Ilu.

Elam, reino de, conquistado por Asshurbanipal, 194;

significado do nome, 220.

Conquista elamita da Caldéia, 219-221, 224-225.

Elohim, um dos nomes hebreus para Deus, um plural de El, 354.

ver Ilu.

Emanações, teoria do divino, 238-239;

189
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

significado da palavra, 239.

Enoch, filho de Cain, 129.

Enoch, a primeira cidade, construída por Cain, 129.

Poemas Épicos, ou Epopéias, 298-299.

Epopéia-Caldéia, mais antiga conhecida no mundo, 299;

sua divisão em tábuas, 302.

Epônimo, significado da palavra, 133.

Genealogias epônimas no Gênesis X., 132-134.

Poema nacional, significado da palavra, 299.

Erech (agora Monte de Warka), nome mais antigo de Urukh, imensos cemitérios em volta, 80-82;

saqueados por Khudur-Nankhundi, rei de Elam, 195;

biblioteca de, 209.

Eri-Aku (Ariokh de Ellassar), rei elamita de Larsam, 226.

Eridhu (moderna Abu-Shahrein), a mais antiga cidade da Suméria, 215;

especialmente sagrada para, 215, 246, 287.

Etíopes, ver Cushe.

Escavações, como foram levadas, 30-34.

F.

Fergusson, Jas., explorador e escritor inglês sobre arte, 56.

Finlandeses, uma nação do ramo turaniano, 138.

Enchente, ou Dilúvio, possivelmente não universal, 128-129.

G.

Gan-Dunyash, ou Kar-Dunyash, mais antigo nome da própria babilônia, 225, 286.

Gênesis, primeiro livro do Pentateuco, 127-129;

Capítulo X. do, 130-142;

significado da palavra, 353.

Gibil, Fogo, 173;

hino a, 16;

190
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

sua simpatia, 174;

invocado para a adequada fabricação de bronze, 16.

Gisdhubar, ver Izdubar.

Gudêa, patesi de Sir-burla, 214.

H.

Ham, segundo filho de Noé, 130;

significado do nome, 186.

Hammurabi, rei da Babilônia e toda a Caldéia, 226;

seu longo e glorioso reino, ib.;

suas obras públicas e o “Canal Real”, 227.

Harimtu ("Persuasão"), uma das servas de Ishtar, 305.

Hâsisadra, mesmo que Xisuthros, 303;

dá a Izdubar um relato da grande Enchente, 314-317.

Heber, um descendente de Shem, ancestral epônimo dos hebreus no Gênesis X., 131, 222.

Heróis, 296-298.

Épocas heróicas, 299.

Mitos heróicos, ver Mitos.

Hillah, construída com tijolos do palácio de Nabucodonosor, continua o intercâmbio com tijolos antigos,
42.

Montanhas do Himalaia, 188.

Montanhas Hindu-Cushe (ou Kush), 188.

Hit, antiga Is, no Euphrates, molas de betume em, 44.

Hivitas, os, uma tribo de Canaã, 133.

Húngaros, uma nação do ramo turaniano, 138.

I.

Idpa, o Demônio da Febre, 156.

Igigi, trezentos, espíritos do céu, 250.

Ilu, ou El, nome semítico para “deus”, 232.

Im, ou Mermer, "Vento", 154.

191
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Índia, 188.

Indu, o grande rio da Índia, 188.

Meses intercalados, introduzidos pelos caldeus para corrigir o cômputo de seu ano, 230.

Is, ver Hit.

Ishtar, a deusa do planeta Vênus, 242;

a Rainha Guerreira e Rainha do Amor, 245;

uma dos “doze grandes deuses”, 246;

oferece seu amor para Izdubar, 308;

é rejeitada e envia um monstruoso touro contra ele, 309;

causa a morte de Êabâni e a doença de Izdubar, 310;

descida de, para a terra das sombras, 326-330.

Izdubar, o herói da grande Epopéia Caldéia, 303;

seu sonhos em Erech, 304;

convida Êabâni, 304-305;

vence, com sua ajuda, Khumbaba, o tirano elamita de Erech, 308;

ofende Ishtar, 308;

vence o Touro divino, com a ajuda de Êabâni, 309;

é atingido pela lepra, 310;

viaja para “a foz dos graneds rios” para consultar seu ancestral immortal Hâsisadra, 310-313;

é purificado e curado, 313;

retorna a Erech; se lament sobre a morte de Êabâni, 313-314;

caráter solar da Epopéia, 318-322.

J.

Jabal and Jubal, sons of Lamech, descendants of Cain, 129.

Japhet, third son of Noah, 130.

Javan, a son of Japhet, eponymous ancestor of the Ionian Greeks, 134.

"Jonah's Mound," see Nebbi-Yunus.

Jubal, see Jabal and Jubal.

K.

192
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Ka-Dingirra, ver Ca-Dimirra.

Kar-Dunyash, ver Gan-Dunyash.

Kasbu, a hora dupla caldéia, 230.

Kasr, Monte de, ruínas do palácio de Nabucodonosor, 42.

Kasshi (Cossæans ou Cissians) conquistam a Caldéia, 228.

Kerbela e Nedjif, objetivo das caravanas peregrinas da Pérsia, 78.

Kerubim, ver Kirûbu.

Khorsabad, Monte de, escavações de Botta e a brilhante descoberta em, 15-16.

Khudur-Lagamar (Chedorlaomer), rei de Elam e da Caldéia, suas conquistas, 221;

pilha Sodoma e Gomorra com seus aliados, 222;

é alcançado por Abraão e encaminhado, 223;

sua provável data, 224.

Khudur-Nankhundi, rei de Elam, invade a Caldéia e leva a estátua da deusa Nana de Erech, 195.

Khumbaba, o tirano elamita de Erech vencido por Izdubar e Êabâni, 308.

Kirûbu, nome dos Touros Alados, 164.

Koyunjik, Monte de Mespila de Xenofonte, 14;

exploração sem sucesso de Botta, 15;

achado valioso de pequenos artigos em uma câmara em, no palácio de Sennacherib, 34.

Curdos, tribos nomads de, 8.

L.

Lamech, quinto descendente de Caim, 129.

Larissa, ruínas da antiga Calah, vistas por Xenofonte, 3.

Larsam (agora Senkereh), cidade da Suméria, 215.

Layard encontra Botta em Mossul em 1842, 17;

empreende a exploração de Nimrud, 17-18;

seu trabalho e vida no Leste, 19-32;

descobre a Biblioteca Real em Nínive (Koyunjik), 100.

Montanhas do Líbano, 190.

Lenormant, François, eminente orientalista francês; seu trabalho sobre a religião dos sumério-acádios,
152-153;

193
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

favorece a teoria cuchita, 186.

Biblioteca de Asshurbanipal em seu palácio em Nínive (Koyunjik); descoberta por Layard, 100;

reaberta por George Smith, 103;

conteúdos e sua importância para a academia moderna, 106-109;

de Erech, 209.

Loftus, explorador inglês; sua visita a Warka em 1854-5, 80-82;

obtém caixões em format de ‘chinelo’ para o British Museum, 36.

Louvre, Coleão Assíria, 17;

"coleção Sarzec" adicionada, 89.

Louvre, artifícios armênios para iluminação de casas, 68.

M.

Madai, um filho de Japhet, ancestral epônimo dos Medas, 135.

Mágico, derivação da palavra, 255.

Marad, antiga cidade da Chaldea, 303.

Marduk, ou Maruduk (em hebreu, Merodach), deus do planeta Júpiter, 241;

um dos “doze grandes deuses”, 246;

patrono especial da Babilônia, 249.

Maskim, os sete, espíritos malignos, 154;

feitiços contra, 155;

o mesmo, versão poética, 182.

Maspero, G., eminente orientalista francês, 197.

Medas, o errôneo relato de Xenofonte dos, 3-4;

mencionado sob o nome de Madai no Gênesis X., 135.

Media, dividida desde a Assíria pela cadeia dos Zagros, 50.

Ménant, Joachim, assiriologista francês; seu pequeno livro sobre a Biblioteca Real em Nínive, 105.

Meridug, filho de Êa, o Mediador, 160;

seus diálogos com Êa, 161-162.

Mermer, ver Im.

Merodach, ver Marduk.

194
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Mesopotâmia, significado do nome, 5;

formação peculiar, 6;

divisão da, entre Alta e Baixa, 7.

Mespila, ruínas de Nineveh; vistas por Xenofonte, 3;

agora Montes de Koyunjik, 14.

Migrações de tribos, naçõe, raças;

prováveis primeiras causas das migrações pré-históricas, 119;

causadas por invasões e conquistas, 125;

das raças turanianas, 146-147;

dos cuchitas, 188;

dos cananeus, 190.

Mizraim ("os egípcios"), um filho de Ham, ancestral epônimo dos egípcios, 133;

oposto a Cuche, 189.

Línguas monossilábicas - chinês, 136-137.

Monoteísmo, significado da palavra, 238;

como concebido pelos hebreus, 344-345.

Mosul, a residência de um paxá turco; origem do nome, 6;

o perverso paxá de, 20-23.

Construtores de montes, suas tumbas, 335-338.

Montes, sua aparência, 9-10;

seu conteúdo, 11;

formação de, 72;

sua utilidade em proteger as as ruínas e trabalhos de arte, 74;

montes sepulcrais em Warka, 79-87.

Mugheir, ver Ur.

Mul-ge, "Senhor do Abismo", 154.

Mummu-Tiamat (o "Mar Revolto"), 264;

sua hostilidade aos deuses, 288;

sua luta com Bel, 288-290.

Mitologia, definição de, 331;

195
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

distinção de religião, 331-334.

Mitos, significado da palavra, 294;

Cosmogônicos, 294;

Heróicos, 297-298;

Solares, 322, 339-340;

Ctônicos, 330, 340-341.

N.

Nabonidus, último rei da Babilônia, descobre o cilindro de Naram-sin, 213;

descobre o cilindro de Hammurabi em Larsam, 218-219.

Namtar, o Demônio da Peste, 156, 157;

feitiço contra, 167;

Ministro de Allat, Rainha dos Mortos, 328, 329.

Nana, deusa caldéia, sua estátua restaurada por Asshurbanipal, 195, 343-344;

esposa de Anu, 245.

Nannar, ver Uru-Ki.

Naram-Sin, filho de Sargon I. de Agadê;

seu cilindro descoberto por Nabonidus, 213.

Nações, formação gradual de, 125-126.

Nebbi-Yunus, Monte de, sua sacralidade, 11;

seu tamanho, 49.

Nebo, ou Nabu, o deus do planeta Mercúrio, 242;

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Nabucodonosor, rei da Babilônia;

seu palácio, agora Monte de Kasr, 42;

sua inscrição de Borsippa, 72.

Nedjif, ver Kerbela.

Nergal, o deus do planeta Marte e da Guerra, 242;

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Niffer, ver Nippur.

196
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Nimrode, represas do Eufrates atribuídas a, pelos árabes, 5;

seu nome preservado, e muitas ruínas chamadas de, 11;

cabeça gigante declarada pelos árabes de ser a cabeça de, 22-24.

Nimrud, Monte de, Layard empreende a exploração de, 17.

Nin-dar, o sol noturno, 175.

Nínive, grandeza e absoluta destruição de, 1;

ruínas de, vistas por Xenofonte, chamados por ele de Mespila, 3;

lugar de, oposto a Mossul, 11.

Nin-ge, ver Nin-kî-gal.

Ninîb, ou Ninêb, o deus do planeta Saturno, 241;

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Nin-kî-gal, ou Nin-ge, "a Senhora do Abismo", 157.

Nippur (agora Niffer), cidade da Acádia, 216.

Nizir, Monte, a montanha na qual o navio de Hâsisadra parou, 301;

Terra e Monte, 316

Noé e seus três filhos, 130.

Nod, terra de ("Terra do Exílio" ou "das Peregrinações"), 129.

Nômades, significado da palavra, e causas da vida nômade em tempos modernos, 118.

O.

Oannes, lenda de, contada por Berosus, 185.

Oásis, significado da palavra, 118.

P.

Palácios, seu aspecto imponente, 54;

palácio de Sennacherib restaurado por Fergusson, 56;

ornamentação dos palácios, 58;

touros e leões alados nos portais do, 58;

lajes esculpidas ao longo das paredes, 58-60;

azulejos pintados usados para os frisos do, 60-62;

197
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

proporções dos salões, 63;

cobertura do, 62-66;

iluminação do, 66-68.

Papiro, antigo material de escrita, 94.

Paraíso, lenda caldéia do, ver Árvore Sagrada e Zigurate.

significado da palavra, 277.

Paralelo entre o Livro do Gênesis e as lendas caldéias, 350-360.

Vida pastoral, segundo estágio da cultura, 120;

necessariamente nômade, 121.

Patesi, significado da palavra, 203;

primeira forma de realeza nas cidades caldéias, ib., 235.

Autoridade patriarcarl, primeira forma de governo, 123;

a tribo, ou família aumentada, primeira forma do estado, 123.

Salmos Penitenciais caldeus, 177-179.

Golfo Pérsico, planicidade e aspecto pantanoso da região em volta, 7;

foram mais além para o interior que agora, 201.

Persas, governo na Ásia, 2;

a guerra entre os dois irmãos da realeza, 2;

monarquia persa conquistada por Alexandre, 4;

não mencionado no Gênesis X., 134.

Plataformas artificiais, 46-49.

Politeísmo, significado da palavra, 237;

tendência a, dos hebreus, combatido por seus líderes, 345-350.

Sacerdócio caldeu, causas de seu poder e influência, 233-234.

R.

Raças, nações e tribos representados na antiguidade sob o nome de um homem, um ancestral, 130-134;

raça negra e raça amarela omitidas da lista no Gênesis X., 134-142;

prováveis razões da omissão, 135, 140.

Ramân, terceiro deus da segunda Tríade Babilônia, suas atribuições, 240-241;

198
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

um dos “doze grandes deuses”, 246.

Rassam, Hormuzd, explorador, 247, 248.

Rawlinson, Sir Henry, seu trabalho no British Museum, 152.

Religião dos sumério-acádios, a mais primitiva do mundo, 148;

características das religiões turanianas, 180, 181;

definição de, como distinguir da Mitologia, 331-334.

Religiosidade, característica distintivamente humana, 148;

seu despertar e desenvolvimento, 149-152.

Rich, o primeiro explorador, 13;

sua decepção em Mossul, 14.

S.

Sabattuv, o “Sábado” babilônio e assírio, 256.

Sabeísmo, a adoração de corpos celestiais,

uma forma de religião semítica, 232;

fomentado por uma vida pastoral e nômade, ib.

Sabitu, uma das servas no bosque mágico, 311.

Árvore Sagrada, sacralidade do símbolo, 268;

sua aparência convencional em esculturas e cilindros, 268-270;

sua significação, 272-274;

sua ligação com a lenda do Paraíso, 274-276.

Sargon de Agadê, ver Sharrukin.

Sarzec, E. de, explorador francês;

seu grande achado em, 88-90;

estátuas encontradas por ele, 214.

Homem-escorpião, os Guardiões do Sol, 311.

Schrader, Eberhard, eminente assiriologista, favorece a teoria semítica, 186.

Semitas (mais corretamente Shemites),

uma das três grandes raças faladas no Gênesis X.;

nomeada por seu ancestral epônimo, Shem, 131.

199
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Linguagem semítica, 199;

cultura, o começo de tempos históricos na Caldéia, 202, 203.

Sennacherib, rei da Assíria, seu palácio em Koyunjik, 34;

restauração de Fergusson de seu palácio, 56;

seu “Testamento” na biblioteca de Nínive, 109.

Senkereh, ver Larsam.

Sepharvaim, ver Sippar.

Seth (mais corretamente Sheth), terceiro filho de Adão, 131.

Shamash, o Deus-Sol, segundo deus da Segunda Tríade Babilônia, 240;

um dos “doze grandes deuses”, 246;

seu templo em Sippar descoberto por H. Rassam, 247, 248.

Shamhatu ("Graça"), uma das servas de Ishtar, 305.

Sharrukin I. de Agadê (Sargon I.), 205;

lenda sobre seu nascimento, 206;

seu glorioso reino, 206;

Sharrukin II. de Agadê (Sargon II.), 205;

sua reforma religiosa e trabalhos literários, 207, 208;

provável fundador da biblioteca em Erech, 209;

data de, descoberta mais tarde, 213.

Shem, filho mais velho de Noé, 130;

significado do nome, 198.

Sinar, ou Shineâr, posição geográfica de, 127.

Suméria, Caldéia do Sul ou Baixa Caldéia, 145.

Suméria e Acádia, nome mais antigo para Caldéia, 143, 144.

Sumério-acádia, mais antiga linguagem da Caldéia, 108;

aglutinante, 145.

Sumério-acádios, a população mais antiga da Caldéia, da raça turaniana, 144;

sua linguagem aglutinante, 145;

introduzem a escrita cuneiforme na Caldéia, a metalurgia e a irrigação, ib.;

sua provável migração, 146;

200
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

sua teoria do mundo, 153.

Shushan (Susa), capital de Elam, destruída por Asshurbanipal, 194.

Siddim, batalha no véu de, 221, 222.

Sidon, uma cidade fenícia, significado do nome, 133;

o primogenitor de Canaã, ancestral epônimo da cidade no Gênesis X., ib.

Siduri, uma das servas no bosque mágico, 311.

Sin, o Deus-Lua, primeiro deus da Segunda Tríade Babilônia, 240;

um dos “doze grandes deuses”, 246;

atacado pelos sete espíritos rebeldes, 291.

Sin-Muballit, ver Amarpal.

Sippar, cidade-irmã de Agadê, 205;

Templo de Shamash em, escavado por H. Rassam, 247, 248.

Sir-burla (também Sir-gulla, ou Sir-tella, ou Zirbab), antiga cidade da Caldéia, agora Monte de Tell-Loh;
descobertas em, por Sarzec, 88-90.

Sir-gulla, ver Sir-burla.

Smith, George, explorador inglês; seu trabalho no British Museum, 102;

suas expedições a Nínive, 103;

seu sucesso, e sua morte, 104;

sua descoberta das Tábuas his discovery of the Deluge Tablets, 301.

Feiticeiros acreditavam em, 157.

Espíritos, crença no bem e no mal, o primeiro começo da religião, 150;

elementar, na religião primitiva sumério-acádia, 153-155;

mal, 155-157;

permitiu um lugar inferior na religião mais tarde reformada, 236, 250;

rebelião dos sete malignos, seu ataque contra o Deus-Lua, 290, 291.

Estátuas encontradas em Tell-Loh, 88, 214.

Estilo, instrumento de escrita antigo, 94, 109.

Sincronismo, significado da palavra, 212.

T.

Tábuas, em tijolo cozido ou não cozido, usadas como livros, 109;

201
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

seus tamanhos e formas, 109;

mode de escrever nelas, 109-110;

cozimento de, 110;

grandes números de, depositadas no British Museum, 110-112;

tábuas caldéias em estojos de argila, 112;

tábuas encontradas sob a pedra de fundação em Khorsabad, 113, 114;

"Tábua de Shamash," 248.

Talismãs, vestidos na pessoa ou colocados em construções, 164.

Tammuz, ver Dumuzi.

Montanhas Taurus, 190.

Tell-Loh (também Tello), ver Sir-burla.

Templos de Êa e Meridug em Eridhu, 246;

do Deus-Lua em Ur, ib.;

de Anu e Nana em Erech, ib.;

de Shamash e Anunit em Sippar e Agadê, 247;

de Bel Maruduk na Babilônia e Borsippa, 249.

Teocracia, significado da palavra, 235.

Tiamat, ver Mummu-Tiamat.

Tin-tir-ki, nome mais antigo da Babilônia, significado do nome, 216.

Tríades na religião babilônia, e significado da palavra, 239-240.

Tubalcain, filho de Lamech, descendente de Caim, o inventor da metalurgia, 129.

Turanianos, nome coletivo para toda a Raça Amarela, 136;

origem do nome, ib.;

as limitações de seu talentos, 136-139;

suas formas imperfeitas de fala, monossilábica e aglutinante, 136, 137;

"to homem mais velho", 137;

em todos os lugares precedem as raças brancas, 138;

omitidos no Gênesis X., 135, 139;

possivelmente representam os cainitas descartados ou a posteridade de Caim, 140-142;

sua tradição de um Paraíso no Altaï, 147;

202
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

características das religiões turanianas, 180-181.

Turcos, seu desgoverno na Mesopotâmia, 5-6;

cobiça e opressão de seus oficiais, 7-8;

um dos principais representantes modernos da raça Turaniana, 136.

U.

Ubaratutu, pai de Hâsisadra, 322.

Ud, ou Babbar, o sol do meio-dia, 171;

hinos para, 171, 172;

templo de, em Sippar, 247-248.

Uddusunamir, fantasma criado por Êa, e enviado a Allat, para resgatar Ishtar, 328, 329.

Ur (Monte de Mugheir), construção de sua plataforma, 46;

mais antiga capital conhecida da Suméria, maritime e comercial, 200;

Terah e Abraham saem de, 201.

Ur-êa, rei de Ur, 215;

suas construções, 216-218;

seu cilindro sinete, 218.

Urubêl, o barqueiro nas Águas da Morte, 311;

purifica Izdubar e retorna com ele a Erech, 313.

Urukh, ver Erech.

Uru-ki, ou Nannar, o Deus-Lua sumério-acádio, 240.

V.

Abóbadas, de drenos, 70;

sepulcral, em Warka, 83, 85.

W.

Warka, ver Erech.

203
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

X.

Xenofonte lidera a Retirada dos Dez Mil, 2;

passa pelas ruínas de Calah e Nínive, que ele chama de Larissa and Mespila, 3.

Xisuthros, o rei de, a narrativa do Dilúvio de Berosus, 300.

ver Hâsisadra.

Y.

Yahveh, a forma correta de "Jehovah," um dos nomes hebreus para Deus, 354.

Z.

Zab, rio, afluente do Tigre, 17.

Zagros, serra de, divide a Assíria da Media, 50;

pedra extraída de, e transportada pelo Zab, 50, 51.

Zaidu, o caçador, enviado para Êabâni, 305.

Zi-ana, ver Ana.

Zigurates, sua forma peculiar e usos, 48;

usados como observatórios anexos aos templos, 234;

significado da palavra, 278;

sua ligação com a lenda do Paraíso, 278-280;

sua orientação singular e suas causas, 284-286;

Zigurate de Birs-Nimrud (Borsippa), 280-283;

identificado com a Torre de Babel, 293.

Zi-kî-a, ver Êa.

Zirlab, see Sir-burla.

Zodíaco, doze signos do, familiar aos caldeus, 230;

signos do, estabeelcidos por Anu, 265;

representados nos doze livros da Epopéia de Izdubar, 318-321.

NOTAS DOS TRANSCRITORES

204
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Página vii Introdução Capítulo 4: Corrigido para começar na página 94

Páginas ix, 92, 93, 214, 215, Ilustrações 44, 59: Sirgulla padronizado para Sir-gulla

Página xi: Conteúdo Capítulo VIII: Adicionada marca § para seção 12

Página xiii: Ponto final adicionado depois de sittliche Weltordnung

Páginas xiii-xv Principais trabalho: works: Caixas-baixas normalizadas em nomes de autores

Página xiv: Menant padronizado para Ménant

Página 36: Throughly corrigido para thoroughly

Ilustração 9: Chippiez padronizado para Chipiez

Página 60: head-dress padronizado para headdress

Página 64: gate-ways padronizado para gateways

Página 68: Sufficent corrigido para sufficient

Ilustração 33: Ponto final adicionado em legenda do Louvre

Página 104: life-time padronizado para lifetime

Página 105: Bibliothéque padronizado para Bibliothèque

Página 116: Aspas duplas adicionadas antes ... In this

Página 126: new-comers padronizado para newcomers

Páginas 131, 375: Japheth padronizado para Japhet

Páginas 147, 196, 371: Altai padronizado para Altaï

Páginas 154, 397, 404: Zi-ki-a padronizado para Zi-kî-a

Página 154: Anunna-ki padronizado para Anunnaki

Página 157: Uru-gal padronizado para Urugal

Página 157: 'who may the rather' transmitido como 'who may then rather'

Página 160: Meri-dug padronizado para Meridug

Página 163: Apóstrofo adicionado a patients

Página 172: Mulge padronizado para Mul-ge

Página 210: Hífen adicionado em countercurrent

Páginas 214, 215, 375 Ilustração 59: Sirburla padronizado para Sir-burla

Página 218: Dovoted corrigido para devoted

Páginas 221, 360, 379: Shinear padronizado para Shineâr

Página 225: Kadimirra padronizado para Ka-dimirra

205
Caldeia - Do começo dos tempos à ascensão da Assíria

Página 228: Cossaeans padronizado para Cossæans

Nota de Rodapé AN: Ur-ea como no original (não padronizado para Ur-êa)

Página 234: Ponto final removido depois de "do Norte"

Página 234: Itálico removido de i.e. para ficar de acordo com outros usos

Páginas 241, 246: Nindar padronizado para Nin-dar

Página 249: Babilu padronizado para Bab-ilu

Página 254: Aspas duplas adicionadas depois de Por exemplo:--

Nota de Rodapé AT: Asshurbanipal padronizado para Assurbanipal

Illustration 70: Número da ilustração adicionado à ilustração

Página 297: border-land padronizado para borderland

Página 302: Aspas duplas adicionadas no fim do parágrafo 6

Ilustração 77: EABANI'S substituído por ÊABÂNI'S

Página 323: death-like padronizado para deathlike

Nota de Rodapé BE: Sündflutbericht padronizado para Sündfluthbericht. Note que a forma correta
moderna é Der keilinschriftliche Sintfluthbericht

Página 372: Asshurnazirpal padronizado para Asshur-nazir-pal

Página 372: Bab-el-Mander padronizado para Bab-el-Mandeb

Página 374: Arioch padronizado para Ariokh

Página 374: Abu-Shahreiin padronizado para Abu-Shahrein

Página 375: Himalaya padronizado para Himâlaya

Página 376: Página número 42 adicionada no índice na entrada Kasr

Página 379: Página número 131 adicionada no índice na entrada Seth

Geral: Ortografia inconsistente de Mosul/Mossul mantida

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